Guerreiros do Facebook, sua ode ao individualismo, e o preocupante silêncio da maioria

FacebookWarriors

Na última 5a. feira (28/9) enquanto esperava para passar por um procedimento cirúrgico passei quase duas horas num peculiar debate com membros de um grupo da rede social Facebook. O mote do debate era a greve dos professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) que ocorre em função do atraso no pagamento de salários e da completa ausência de custeio por parte do (des) governo Pezão.

Nesse debate pude verificar “in loco” como as redes sociais, antes imaginadas como um suposto Nirvana democrático,  dão vazão a manifestações virulentas e, pior, sem nenhum senso de humor por parte de jovens que não aparentam qualquer disposição para embarcar em análises que extrapolem o limiar de suas próprias necessidades individuais. A esse conjunto de qualidades eu associo o rótulo já usado nas próprias redes sociais de “Guerreiros do Facebook”.

Essa propensão a se colocar como o centro do mundo, enquanto se ignora causas e ações coletivas, já está até razoavelmente diagnosticada na literatura científica. Mas não deixa de ser interessante ver a manifestação de pessoas jovens, das quais normalmente se espera um mínimo de senso coletivo, demandar o oferecimento de aulas por parte de um grupo de professores cujos salários sofrem atrasos cada vez mais espaçados desde meados de 2015. Um dos guerreiros virtuais chegou a afirmar que os professores em greve eram tão culpados pela situação em que a Uenf quanto o (des) governador Pezão!

guerreiros

Fragmento de uma longo diálogo que mantive com membros de um grupo no Facebook sobre a greve dos professores da Uenf

Mais curioso ainda foi notar a rejeição às minhas provocações para que se organizassem coletivamente para levar adiante suas próprias demandas, de modo a pressionar o (des) governo Pezão para que resolva os gargalos que ameaçam a sobrevivência da Uenf.  Essa rejeição veio acompanhada pela descrença na inutilidade de se tentar pressionar um governo que não mostra qualquer disposição para resolver a crise que ele mesmo causou.   Mas também fiquei  pouco animado com o completo silêncio que meus interlocutores virtuais demonstraram acerca  da necessidade de fortalecer das organizações estudantis. 

Sem medo de incorrer em generalizações injustas, o que resultou dessa negação ao fortalecimento das causas coletivas foi o aparecimento de várias formas de auto vitimização, onde a maioria dos guerreiros do Facebook se apresentava como vítimas incautas de uma malta de professores insensíveis e irresponsáveis.

O interessante, como sempre ocorre nesses embates virtuais, foi verificar nos últimos dias, a partir de conversas “face a face”, que no meio do fogo cerrado havia um sem número de observadores silenciosos, muitos deles professores da Uenf. A maioria desses “voyers” virtuais com quem conversei se dividiu entre o choque e o escândalo sobre o comportamento dos estudantes. Aliás, eu diria que muitos se surpreenderam com o que perceberam ser uma completa insensibilidade com a grave situação financeira em que se encontram por causa da falta de pagamento de seus salários.

De minha parte, eu tenho dito a quem me procurou para falar sobre esse assunto que os comportamentos que observei não me surpreendem, pois como usuário assíduo das redes já pude participar de outros embates e presenciei os mesmíssimos padrões de comportamento.  Além disso, tomo essas oportunidades como instrumentos únicos de aprendizagem sobre os que me atacam de forma virulenta nos embates virtuais, mas que no cotidiano passam por meio de forma invisível.  E como sou um leitor errático do livro “A Arte da Guerra” de Sun Tzu,  já aprendi que conhecer os meus oponentes é uma das melhores formas de me conhecer melhor.

Agora, para quem pensou que as redes sociais seriam algum tipo de Nirvana para os que almejam construir sociedades mais fraternas e igualitárias, eu digo: pense de novo.   Esperar esse “adorável mundo novo”  num ambiente tão dominado pelas corporações privadas que ganham bilhões de dólares para construir um simulacro comunitário é, no mínimo, ingenuidade. Entretanto, tampouco poderemos deixás-las de lado. É que, mais do que nos preocupar com as manifestações virulentamente individualistas de uma minoria, temos de nos preocupar com o silêncio sepulcral dos voyers virtuais. E o fato inescapável disso tudo é que nessa Matrix, teremos que ocupar e disputar todos os espaços…. ao melhor estilo de Sun Tzu.

 

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