O boicote ao Brasil virá, resta agora saber apenas a sua amplitude

boicote

As ações arrogantes e mal educadas de membros do governo federal, a começar pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, em relação às críticas ao atual ciclo de desmatamento e queimadas na Amazônia já causaram um dano diplomático significativo.  A coisa é tão grave que neste final de semana os líderes da 7 maiores economias do mundo (o G-7) estarão debatendo medidas para conter o estrago ambiental que ameaça a sustentação do clima da Terra, sem que o Brasil seja sequer convidado a dar explicações sobre o que está acontecendo ou, tampouco, sobre o que fará (em tese) para conter o fogo que consome áreas derrubadas e não derrubadas em toda a Amazônia brasileira.

Ainda que não existe unanimidade sequer dentro da União Europeia sobre como proceder em relação ao Brasil (fato que deve estar sendo festejado dentro dos gabinetes do governo Bolsonaro), há que se lembrar que para a ratificação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul todos os países que compõe o bloco europeu precisam aprovar  a medida em seus respectivos congressos nacionais. E já se sabe que pelo menos na França, Irlanda e Finlândia, a oposição a essa ratificação será enorme.

Mas indo além dos interesses representados pelos governos nacionais há algo que parece não estar sendo considerado pelos analistas de plantão.  O fato é que há um crescente movimento social em toda a Europa e em outras partes do mundo contra a destruição da Amazônia. Os membros do governo Bolsonaro e seus apoiadores dentro da sociedade brasileira parecem não compreender que vivemos em um tempo que a informação é distribuída com velocidade extrema, mas não apenas para disseminar a visão canhestra de nacionalismo entreguista que eles parecem abraçar, o que despreza ferozmente as consequências políticas e econômicas do abraço mortal entre os interesses das grandes corporações econômicos e  a destruição ambiental. 

Protesto realizado na última 6a. feira (23/08) em frente da Embaixada do Brasil em Zurich na Suiça

O fato inescapável é que as centenas de manifestações que ocorreram pelo mundo afora contra o Brasil e seu governo anti-ambiental estão colocando em marcha um processo político que terá fortes impactos econômicos. É que movimentos de boicote a produtos agrícolas brasileiros, como o que foi iniciado pelo chefe executivo da rede sueca de supermercados Paradiset, Johannes Cullberg, estão começando a tocar corpo e caminham para um processo de unificação.  O centro gravitacional destes movimentos é a rejeição da compra de todo produto brasileiro que possa ser associado ao desmatamento da Amazônia, a começar por soja e carne bovina. 

cullbergJohannes Cullberg, CEO da rede sueca de mercearias orgânicas Paradiset, foi o primeiro a lançar o boicote a produtos brasileiras por causa do uso excessivo de agrotóxicos e do desmatamento na Amazônia.

Alarmados com o espectro de um boicote generalizado, os barões do agronegócio brasileiro estão buscando formas de impedir que isso aconteça. Mas conspira contra eles o fato de que já foi formada a imagem de que o governo brasileiro, sob a batuta de Jair Bolsonaro, representa um risco para a sobrevivência do planeta. E contra esse tipo de imagem poderosa há muito pouco o que possa fazer em termos de campanhas publicitárias. É que para cada peça que defenda o agronegócio logo surgirão centenas de imagens e vídeos mostrando didaticamente a destruição que eles e outros agentes econômicos estão causando legal ou ilegalmente nas florestas da Amazônia.

fogoMosaico de imagens de satélite Landsat criado pela National Space Agency (NASA) mostra os principais pontos de fogo na América do Sul.

Em suma, um boicote aos produtos agrícolas se tornou inevitável. Resta saber o tamanho e a amplitude que ele terá.  E o principal culpado pelo aprofundamento da crise econômica brasileira tem nome e endereço: Jair Messias Bolsonaro, Palácio do Planalto, D.F., Brasil.

Johannes Cullberg leva sua campanha contra o excesso de agrotóxicos na comida brasileira para o Facebook

cullbergJohannes Cullberg, fundador e CEO da rede de supermercados Paradiset, que baniu produtos brasileiros por causa do excesso de agrotóxicos, também lançou grupo no Facebook para aumentar pressão sobre o governo Bolsonaro.

O fundador e CEO da rede de supermercados sueca Paradiset, Johannes Cullberg, não parou apenas na decisão de remover das suas prateleiras alimentos produzidos no Brasil por causa da farra de liberação de agrotóxicos altamente tóxicos que está sendo comandada pela ministra Tereza Cristina (DEM/MS) a serviço da bancada ruralista.

É que para aumentar a divulgação de sua campanha em prol do banimento dos alimentos brasileiros até que se tome alguma medida para diminuir a contaminação por agrotóxicos, muitos deles banidos na União Europeia, Cullberg levou a sua batalha em prol de alimentos saudáveis para a rede social Facebook com a criação do grupo “#BoycottBrazilianFood”  (ver imagem abaixo).

cullberg facebook

A posição e as razões da criação do #BoycottBrazilianFood ficam claras na descrição do grupo onde está dito que “Inscreva-se e compartilhe com seus amigos para reunir o maior número possível de pessoas. O uso de agrotóxicos perigosos na produção de alimentos brasileira precisa parar agora! Só em 2019, 197 pesticidas foram aprovados pelo Sr. Bolsonaro. Isso põe em perigo a saúde da população brasileira, o meio ambiente e nosso planeta como um todo. Este é um convite a todos para se juntarem e mostrarem ao senhor Bolsonaro que já chega! Ele não deveria ter mais permissão para destruir nosso planeta e nossos filhos!

É como eu tenho dito aqui após essa verdadeira orgia de aprovações de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo: o Brasil corre o risco de se tornar um pária ambiental no circuito das Nações, e de sofrer um forte boicote sanitário a seus produtos agrícolas em função da posição irresponsável de apostar em um modelo agrícola viciado em agrotóxicos.

Agora,  para mim é quase certo que a partir do movimento iniciado pelo fundador da rede Paradiset, outros empresários e dirigentes de cadeias de supermercados europeus (especialmente aquelas comprometidas com a comercialização de produtos orgânicos, mas não só elas) venham a adotar posições semelhantes. Se isso acontecer, o governo Bolsonaro e a bancada ruralista que pressiona pela adoção de medidas regressivas contra a conservação ambiental serão os principais responsáveis.

Finalmente, fico curioso sobre o silêncio dos donos e dirigentes das grandes cadeias de supermercados que atuam no Brasil e que, até agora, estão completamente calados em relação à aprovação de tantos agrotóxicos banidos em outras partes do mundo. Precisamos ter uma rede de supermercados sueca para soar um alarme que deveria ter sido soado primeiro no Brasil.  Haja descompromisso com a nossa saúde.