UENF: a resistência do saber no Norte Fluminense

Por Emanuel Alencar para “Diário do Rio”

Tenazes, corpulentos, os indígenas goytacazes impuseram enormes dificuldades aos invasores. Por fim, abatidos — estima-se que cerca de 12 mil indígenas goytacazes foram exterminados até o final do século XVIII pelos invasores portugueses — deixaram enorme legado na culinária e na cultura do Norte Fluminense. Como a história não se apaga, quem olha a cidade de Campos dos Goytacazes do alto pode observar uma arquitetura em forma de cocar, às margens do Rio Paraíba do Sul. É a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, cuja resistência pode ser comparada à dos povos originários que marcaram a região.

Sem atualização do plano de cargos e salários há 20 anos, os docentes da instituição criada por Leonel Brizola e idealizada por Darcy Ribeiro acabam de enviar ao governador em exercício, Ricardo Couto, um ofício pedindo atenção ao tema. O documento destaca que a universidade, aos 33 anos de vida, tornou-se referência nacional em pesquisa e pós-graduação, mas hoje enfrenta uma grave crise salarial e institucional.

“Os salários dos servidores técnicos e administrativos estão defasados em 60%, pelo menos, de 2014 para cá”, critica o geógrafo e professor da UENF Marcos Pedlowski.

O documento lembra que os professores estão em estado de greve desde novembro de 2025 e critica a ausência de diálogo da gestão do ex-governador Cláudio Castro com a comunidade universitária. Diante disso, a associação dos docentes solicita audiência com o governador em exercício para discutir quatro pontos centrais: implantação de um novo plano de cargos, aumento do auxílio-alimentação, retomada dos triênios e pagamento integral da recomposição salarial aprovada pela Alerj.

Mais do que uma disputa administrativa, a crise da UENF revela o abandono de um projeto estratégico para o desenvolvimento do interior do Rio de Janeiro. Em um estado marcado por desigualdades históricas, enfraquecer a universidade pública significa limitar a produção científica, afastar pesquisadores e reduzir oportunidades para milhares de jovens. Assim como os goytacazes resistiram para preservar sua terra e sua existência, a comunidade universitária luta hoje para manter viva uma instituição que nasceu para pensar o futuro do Brasil a partir do Norte Fluminense.


Fonte: Diário do Rio

Professores da UENF vão paralisar suas atividades no dia 02/6

A assembleia da Associação de Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (ADUENF) aprovou paralisação das atividades docentes no dia 02/06 como parte do processo de mobilização da categoria e construção da luta rumo à greve.

A mobilização é fundamental para pressionar o Governo do Estado e avançar nas nossas reivindicações:

✔️ Implantação do novo PCV
✔️ Atualização do auxílio-alimentação
✔️ Cumprimento integral da recomposição salarial
✔️ Revogação da extinção dos triênios

A assembleia também deliberou pela realização de nova assembleia para discussão de indicativo de greve.

📌 Em breve divulgaremos horário, local e programação da atividade sindical.

Nossa força coletiva, chega de perder, é hora de ganhar!

Glifosato no Brasil: saúde pública sob ataque químico

A ofensiva do Ministério Público para banir o herbicida expõe os riscos sanitários do modelo agroexportador brasileiro e o enorme poder político da indústria química e do agronegócio sobre as estruturas regulatórias do Estado

A iniciativa do Ministério Público do Trabalho de buscar a proibição do glifosato no Brasil recoloca no centro do debate um dos maiores problemas sanitários e ambientais do modelo agroexportador brasileiro: a dependência extrema de um herbicida amplamente associado a riscos graves à saúde humana. Segundo a reportagem do Valor International, procuradores sustentam que o produto representa ameaça significativa aos trabalhadores rurais e à população exposta.

O glifosato tornou-se praticamente onipresente na agricultura brasileira, especialmente após a expansão das sementes transgênicas resistentes ao herbicida. O problema é que o acúmulo de evidências científicas ao longo das últimas décadas vem associando sua exposição a uma série de doenças, incluindo distúrbios endócrinos, danos neurológicos, problemas reprodutivos e, sobretudo, o Linfoma Não-Hodgkin. A classificação feita pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, como “provavelmente carcinogênico para humanos” continua sendo um marco incontornável nesse debate.

Além disso, há uma dimensão frequentemente invisibilizada: no Brasil, o uso do glifosato ocorre em um contexto de pulverização massiva e combinação com dezenas de outros agrotóxicos. Ou seja, a população não é exposta a uma substância isolada em condições laboratoriais controladas, mas a verdadeiros coquetéis químicos cujos efeitos sinérgicos permanecem insuficientemente estudados. O resultado é um enorme experimento toxicológico em escala nacional conduzido sobre trabalhadores rurais, comunidades camponesas e consumidores urbanos.

Apesar da gravidade das evidências, as chances de êxito do pleito do Ministério Público são limitadas. Isso ocorre porque o glifosato ocupa posição estrutural no atual modelo agrícola brasileiro. Sua proibição afetaria diretamente o agronegócio exportador baseado em monoculturas altamente dependentes de pacotes químicos. Trata-se de um setor que possui enorme influência política sobre o Congresso Nacional, governos estaduais, Ministério da Agricultura e parte relevante das agências regulatórias.

Há ainda um poderoso aparato discursivo construído pelas corporações do agronegócio e pela indústria química para apresentar o glifosato como “seguro quando usado corretamente”, apesar das crescentes controvérsias científicas e das sucessivas ações judiciais internacionais envolvendo a fabricante Bayer, que herdou os passivos da Monsanto. Nos Estados Unidos, milhares de processos já resultaram em indenizações bilionárias relacionadas ao desenvolvimento de câncer após exposição ao herbicida.

No caso brasileiro, o cenário se torna ainda mais difícil porque o Estado adotou, nos últimos anos, uma trajetória contínua de flexibilização regulatória e expansão acelerada dos registros de agrotóxicos. O país tornou-se um dos maiores mercados mundiais para substâncias que muitas vezes já foram restringidas ou banidas em outras regiões do planeta.

Por fim, é importante reconhecer que dificilmente haverá qualquer avanço substantivo na restrição ou eventual banimento do glifosato sem uma ampla mobilização social capaz de confrontar o enorme poder político e econômico exercido pelo agronegócio e pela indústria química no Brasil. A iniciativa do Ministério Público tende a enfrentar não apenas resistência jurídica, mas também uma intensa pressão de setores empresariais que tratam qualquer tentativa de controle sanitário e ambiental como ameaça direta ao modelo exportador baseado em monoculturas altamente dependentes de insumos químicos.

Nesse sentido, torna-se fundamental ampliar mecanismos de controle social sobre os processos de aprovação, monitoramento e reavaliação toxicológica dos agrotóxicos. Hoje, as grandes corporações químicas operam com ampla margem de influência sobre as estruturas regulatórias do Estado, enquanto populações expostas — trabalhadores rurais, comunidades camponesas, povos indígenas e consumidores urbanos — possuem participação extremamente limitada nas decisões que afetam diretamente sua saúde e seus territórios. O resultado é que o Brasil segue sendo transformado em um dos maiores mercados globais para substâncias altamente tóxicas, muitas vezes já proibidas em outros países, tudo em nome da manutenção de elevados níveis de produção de commodities agrícolas para exportação.

A discussão sobre o glifosato, portanto, ultrapassa o debate técnico sobre um único herbicida. Ela coloca em questão quem define os limites do risco aceitável em uma sociedade profundamente marcada pela desigualdade ambiental e pela captura corporativa das políticas públicas.

Assim, ainda que a ação do Ministério Público tenha enorme relevância política e sanitária, ela enfrenta uma correlação de forças extremamente desfavorável. O debate sobre o glifosato, no fundo, não é apenas técnico ou científico: ele expõe o conflito entre saúde pública e um modelo econômico profundamente dependente da intensificação química da agricultura brasileira.

Brasil, a “lixeira química” do agronegócio global

Em palestra no 1º Congresso de Agroecologia, realizada em 25 de maio em Florianópolis (SC), a professora Sonia Hess expôs como o avanço do agronegócio exportador aprofundou o consumo de agrotóxicos banidos na União Europeia, contaminando águas, alimentos e populações inteiras enquanto amplia a insegurança alimentar e a dependência econômica brasileira

A palestra ministrada pela professora Sonia Corina Hess no 1º Congresso de Agroecologia, realizado ontem, 25 de maio, apresentou um retrato contundente do papel que o Brasil vem desempenhando na expansão global do uso de agrotóxicos, evidenciando não apenas a dimensão quantitativa do problema, mas também suas implicações econômicas, sanitárias e ambientais. A apresentação mostrou que o país comercializou mais de 907 mil toneladas de agrotóxicos em 2024, o equivalente a 4,3 kg por habitante, consolidando sua posição como maior consumidor mundial desses produtos. O dado se torna ainda mais grave quando comparado ao crescimento relativamente modesto da área plantada no mesmo período, indicando uma intensificação da dependência química do modelo agrícola dominante.

Um dos pontos centrais da exposição foi a demonstração de que boa parte dos ingredientes ativos utilizados em larga escala no Brasil já foi banida na União Europeia devido aos seus impactos sobre a saúde humana e os ecossistemas. Substâncias como mancozebe, clorotalonil, atrazina e glufosinato de amônio continuam sendo aplicadas massivamente em lavouras brasileiras, mesmo associadas a câncer, infertilidade, desregulação endócrina, doenças neurodegenerativas e danos reprodutivos. Hess argumenta que o Brasil vem se convertendo em uma verdadeira “lixeira química”, absorvendo compostos rejeitados por países centrais, enquanto multinacionais como Bayer, BASF, Syngenta e Corteva seguem acumulando lucros bilionários com a continuidade desse modelo.

A palestra também desmonta a narrativa de que o uso crescente de agrotóxicos estaria associado à produção de alimentos para a população brasileira. Segundo os dados apresentados, 79% dos agrotóxicos aplicados no país concentram-se em apenas quatro culturas — soja, milho, cana-de-açúcar e algodão — fortemente vinculadas ao agronegócio exportador. Além disso, 93% da soja e 80% do milho produzidos no Brasil são destinados à alimentação animal, dentro e fora do país. Enquanto isso, culturas essenciais para a segurança alimentar, como feijão, arroz e trigo, enfrentam retração de área plantada e aumento da dependência de importações. O contraste revela uma política agrícola orientada prioritariamente para commodities e para os interesses do comércio internacional, especialmente da China, em detrimento da soberania alimentar brasileira.

Outro aspecto particularmente alarmante abordado por Sonia Hess foi a contaminação das águas de abastecimento público. Dados do Programa Qualidade da Água do Ministério Público de Santa Catarina mostraram a presença de resíduos de agrotóxicos em mais da metade dos municípios avaliados. Em muitos casos, a água considerada “potável” pela legislação brasileira ultrapassaria amplamente os limites permitidos na União Europeia. A situação evidencia o abismo regulatório existente entre o Brasil e países que adotam critérios mais protetivos à saúde pública, além de revelar a fragilidade das normas nacionais sobre potabilidade e monitoramento ambiental.

A professora Sonia Hess também relacionou a expansão do uso de agrotóxicos ao agravamento de problemas de saúde pública, destacando o crescimento contínuo dos óbitos por neoplasias e suicídios no Brasil. Embora a relação causal entre exposição química e adoecimento coletivo exija análises epidemiológicas complexas, a literatura científica apresentada na palestra reforça a existência de fortes evidências sobre os efeitos genotóxicos da exposição crônica aos agrotóxicos em trabalhadores rurais e populações residentes em áreas agrícolas.

Ao final, a professora Sonia Hess defendeu um conjunto de medidas estruturais para reverter o atual quadro. Entre elas, destacou a necessidade de rever o Plano Safra, reduzindo os incentivos direcionados ao agronegócio exportador e fortalecendo a agricultura familiar e agroecológica; eliminar benefícios fiscais concedidos a agrotóxicos proibidos na União Europeia; endurecer os parâmetros de qualidade da água e dos alimentos; e excluir da legislação brasileira ingredientes ativos já considerados inseguros em outros países. A agroecologia aparece, assim, não como um nicho alternativo de produção, mas como uma necessidade estratégica para a proteção da saúde coletiva, da biodiversidade e da soberania alimentar do país

Mesmo impactadas, florestas primárias ainda são principal fonte de biodiversidade na Amazônia

Queimadas e corte seletivo afetam profundamente a variedade de espécies, funções ecológicas e linhagens evolutivas; ainda assim, são mais ricas do que as regeneradas após derrubada total

André Julião | Agência FAPESP

Florestas primárias, que nunca foram desmatadas, são as principais guardiãs da biodiversidade amazônica, mesmo que já tenham sido afetadas por queimadas ou corte seletivo de árvores, segundo um estudo conduzido por pesquisadores do Brasil e do Reino Unido. Os cientistas compararam o impacto de atividades humanas sobre a diversidade de plantas de diferentes composições florestais ao longo do tempo na Amazônia e concluíram que as florestas primárias sempre abrigam uma quantidade maior de espécies do que aquelas que se regeneraram depois de terem sido derrubadas no passado.

O estudo reforça a importância de se frear o avanço do desmatamento na Amazônia – ao mesmo tempo em que se incentiva a regeneração de áreas anteriormente desmatadas –, já que as florestas secundárias não chegam a repor por completo a biodiversidade das matas originais que foram perdidas, segundo os pesquisadores. Os resultados foram divulgados na revista Global Change Biology.

Os pesquisadores catalogaram cerca de 55 mil árvores em duas regiões do Pará, situadas nos municípios de Paragominas e Santarém, representando quatro tipos de florestas: 1) primárias que não sofreram distúrbios; 2) primárias que tiveram corte seletivo de árvores (quando são retiradas apenas espécies de maior valor comercial);  3) primárias que sofreram corte seletivo e queimadas; e 4) florestas secundárias, resultantes da regeneração natural de uma área que sofreu corte raso – ou seja, que foi totalmente desmatada anteriormente.

Os cientistas mediram a diversidade das árvores de três formas diferentes: focando nas espécies, nos grupos funcionais – mensurando características como espessura da casca, densidade da madeira e tamanho da folha – e nas linhagens evolutivas. Além disso, avaliaram a diversidade separando as árvores em grandes e pequenas.

Quando comparados os dados entre as áreas, conclui-se que as modificações humanas explicam 55% da variação na diversidade de espécies e 42% da diferença na composição das comunidades de árvores. A forma como se mede a diversidade (espécies, grupos funcionais ou linhagens evolutivas) e o tamanho das árvores explicam apenas cerca de 5% das diferenças entre florestas.

“Por mais que as florestas primárias degradadas sejam menos diversas e tenham um apanhado de espécies diferentes daquelas que não sofreram impactos, elas são muito mais diversas do que as florestas secundárias. Estas vão demorar séculos para ter árvores de grande porte e os serviços ecossistêmicos fornecidos por essas espécies”, explica Cássio Alencar Nunes, pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Universidade Federal de Lavras (UFLA).

A Amazônia abriga até 16 mil espécies de árvores. Um único hectare frequentemente contém mais de 300. Em comparação, toda a Europa tem cerca de 450 espécies nativas de árvores.

Nunes coordenou o trabalho com outra cientista brasileira no Reino Unido, Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Lancaster e de Oxford. Berenguer monitora as áreas analisadas no estudo desde 2010.

“Nossos resultados mostram que, quando se trata de compreender as influências humanas sobre as florestas tropicais, não importa se a abordagem é para medir perda de espécies, de funções ecológicas ou linhagens evolutivas. As influências humanas são tão profundas que todas essas medidas estão mudando”, explica Berenguer em um comunicado da Universidade de Lancaster.

O trabalho teve apoio da FAPESP por meio do projeto “ECOFOR: Biodiversidade e funcionamento de ecossistemas em áreas alteradas pelo homem nas Florestas Amazônica e Atlântica”, no âmbito do Programa BIOTA.

“O estudo demonstra que é preciso continuar investindo em restauração e na proteção das florestas secundárias, uma vez que qualquer área com remanescentes florestais contribui muito mais com os serviços ecossistêmicos do que áreas sem floresta. No entanto, os resultados mostram com bastante clareza que as florestas primárias são imprescindíveis e precisam ser conservadas, mesmo que já tenham sofrido distúrbios”, avalia Carlos Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do projeto e coautor do estudo.

Florestas para sempre

Durante a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP30) ocorrida em Belém, em novembro de 2025, estabeleceu-se o TFFF, um fundo global para o financiamento da conservação das florestas tropicais. Para os autores do estudo, mecanismos do tipo são essenciais para oferecer condições para que as florestas sejam conservadas em vez de derrubadas para a exploração de atividades econômicas que contribuem para o agravamento das crises climática e da biodiversidade.

A comparação entre florestas intocadas e que sofreram distúrbios realizada no estudo aponta que mesmo a exploração seletiva de madeira, tida como uma forma de manejo sustentável, tem impactos profundos na diversidade das árvores.

Assim, mecanismos como o TFFF são importantes para garantir a conservação, independentemente de ganhos econômicos possíveis nessas áreas, ainda que ditos sustentáveis, segundo Berenguer.

“Embora o foco da COP30 tenha sido principalmente o carbono, é essencial vincular as discussões climáticas à biodiversidade se quisermos superar as crises climática e de biodiversidade. Em última instância, é a biodiversidade que garante a provisão de serviços ecossistêmicos, inclusive o sequestro e o armazenamento de carbono”, afirma a pesquisadora.

O artigo Multifaceted assessment of amazonian tree diversity reveals pervasive impacts of human modification pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/gcb.70595.


Fonte: Revista Fapesp

Entre a “austeridade” dos salários e a farra financeira do Rioprevidência: o duplo padrão de Cláudio Castro no Rio de Janeiro

Enquanto servidores estaduais acumulam perdas salariais e incertezas sobre aposentadorias e pensões, o governo Cláudio Castro mergulha em investigações sobre aplicações bilionárias e saques sucessivos no Rioprevidência, aprofundando a percepção de que a corrida ao Senado pode servir mais como escudo político do que como compromisso com o futuro do Rio de Janeiro

Uma nova operação da Polícia Federal envolvendo aportes da Rioprevidência no Banco Master recoloca o governador Cláudio Castro no centro de um escândalo que mistura risco financeiro extremo, gestão temerária de recursos previdenciários e interesses políticos. Segundo reportagem do jornalista Fábio Serapião publicada no UOL Notícias, a PF investiga operações que expuseram quase R$ 1 bilhão do fundo previdenciário dos servidores estaduais a aplicações consideradas incompatíveis com a natureza conservadora que deveria orientar recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões.

Ainda que Cláudio Castro não apareça formalmente como alvo direto das primeiras fases da operação, é impossível dissociar o funcionamento da Rioprevidência das decisões políticas tomadas por seu governo. Afinal, a autarquia é subordinada ao Executivo estadual, e os dirigentes investigados foram nomeados dentro da estrutura política do Palácio Guanabara. O próprio ex-presidente da Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, acabou preso preventivamente pela PF sob suspeitas de ocultação de provas e obstrução das investigações.

O caso é ainda mais grave quando se observa o tratamento dispensado por  Cláudio Castro aos servidores públicos estaduais. Enquanto bilhões eram movimentados em operações financeiras de altíssimo risco, o seu  governo  se recusava a garantir integralmente a recomposição das perdas inflacionárias do funcionalismo, mesmo após aprovação legislativa pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Em outras palavras, o discurso de austeridade aplicado aos salários coexistia com uma política de extrema permissividade na gestão dos recursos previdenciários.

A contradição é brutal. Para professores, enfermeiros, policiais, técnicos administrativos e demais categorias do funcionalismo, prevaleceu a lógica do “não há recursos”. Já para operações financeiras envolvendo o Banco Master, marcado por suspeitas crescentes no mercado, houve espaço para aplicações bilionárias que hoje estão sob investigação criminal.

Há ainda um elemento particularmente explosivo nessa trajetória: o uso sistemático dos recursos da Rioprevidência para amortizar parcelas da dívida do estado do Rio de Janeiro com o governo federal. Sob autorização da Alerj, a gestão Castro promoveu retiradas bilionárias do fundo previdenciário, comprometendo a sustentabilidade futura do sistema. Na prática, utilizou-se dinheiro destinado ao pagamento de aposentadorias e pensões para aliviar pressões fiscais imediatas do governo estadual.

O resultado dessa política pode ser devastador no médio prazo. O Rioprevidência já carrega histórico de fragilidade estrutural, agravado por décadas de antecipação de receitas petrolíferas e sucessivas manobras financeiras. Ao combinar saques bilionários para pagamento da dívida estadual com investimentos arriscados em instituições hoje investigadas, o governo Castro aprofundou a insegurança de centenas de milhares de servidores ativos, aposentados e pensionistas.

O episódio também lança sombras pesadas sobre o futuro político do governador. A expectativa de aliados de que uma candidatura ao Senado funcionasse como rota de blindagem institucional tende agora a encontrar maiores obstáculos. Afinal, a sucessão de investigações envolvendo o Rioprevidência, o Banco Master e operadores ligados ao governo estadual reforça a percepção pública de que a disputa eleitoral pode estar menos relacionada a um projeto para o Rio de Janeiro e mais à busca de proteção política diante do avanço das investigações.

Num estado marcado por sucessivos escândalos envolvendo governadores presos, afastados ou investigados, o aprofundamento das suspeitas contra a gestão de Cláudio Castro amplia o desgaste de uma elite política que parece tratar a máquina pública — e até mesmo os recursos previdenciários dos servidores — como instrumentos de sobrevivência política e financeira. O problema é que, enquanto os responsáveis disputam narrativas e espaços de poder, quem permanece exposto ao risco concreto são justamente aqueles que sustentam o funcionamento cotidiano do estado: os servidores públicos fluminenses e suas famílias.

Luciano Huck, o Bolsa Família e o preconceito de classe travestido de preocupação fiscal

Enquanto criminaliza um programa social que reduz a fome e consome parcela modesta do orçamento público, o apresentador silencia sobre os privilégios do sistema financeiro, os gastos bilionários com a dívida pública e as conexões com o universo bancário de Daniel Vorcaro e do Banco Master

O recente episódio envolvendo o apresentador Luciano Huck e suas declarações sobre o Bolsa Família revela mais do que uma simples opinião mal formulada sobre políticas sociais. Expõe, na verdade, um preconceito estrutural profundamente arraigado entre parcelas das elites econômicas e midiáticas brasileiras: a ideia de que os pobres seriam naturalmente inclinados à acomodação, à dependência e à fraude, enquanto os privilégios dos muito ricos seriam vistos como expressão legítima de mérito e empreendedorismo.

Durante participação em um fórum empresarial promovido pela Esfera Brasil, Huck afirmou que o Bolsa Família criaria “atalhos” para que famílias permanecessem “ad aeternum” no programa, desestimulando a busca por emprego. A reação negativa foi imediata porque os dados oficiais e os estudos acadêmicos disponíveis contradizem frontalmente essa narrativa.

Segundo levantamento citado pelo próprio UOL, estudos do FMI, Banco Mundial, FGV e Ipea mostram que mais da metade dos beneficiários deixou o Bolsa Família na última década. Além disso, análises reiteradas demonstram que a maioria esmagadora dos beneficiários trabalha — geralmente em empregos precários, mal remunerados e informais — utilizando o programa apenas como complemento mínimo de renda para sobreviver em um país marcado por desigualdades brutais.

O preconceito implícito na fala de Luciano Huck não é novo. Ele ecoa uma longa tradição brasileira de criminalização da pobreza. O pobre que recebe algumas centenas de reais do Estado é imediatamente suspeito de parasitismo social. Já os mecanismos permanentes de transferência de riqueza pública para o sistema financeiro raramente provocam indignação semelhante entre celebridades empresariais e apresentadores de televisão.

E aqui reside uma contradição central que deveria ser debatida publicamente: por que Luciano Huck demonstra tanta preocupação com o Bolsa Família — um programa que representa parcela relativamente pequena do orçamento federal e possui efeitos concretos na redução da fome e da extrema pobreza — enquanto permanece silencioso sobre o gigantesco volume de recursos drenados anualmente pelo pagamento de juros e amortizações da dívida pública?

O debate sobre gastos públicos no Brasil costuma ser profundamente seletivo. O problema nunca parece ser o custo do rentismo financeiro, dos privilégios tributários dos super-ricos, das desonerações empresariais ou dos mecanismos de remuneração da especulação financeira. O alvo preferencial é quase sempre o gasto social destinado aos mais pobres. Trata-se de uma pedagogia ideológica extremamente funcional às elites: convencer a população de que o problema fiscal do país está nos miseráveis, e não nos mecanismos estruturais de concentração de renda.

A situação torna-se ainda mais delicada quando se observa a relação de Huck com o universo financeiro que hoje se encontra no centro de outra grande controvérsia nacional: o colapso do Banco Master e as conexões empresariais de seu controlador, Daniel Vorcaro. Diferentes reportagens apontam que Huck foi garoto-propaganda do Will Bank, instituição ligada ao grupo Master, além de ter mantido relações próximas com Vorcaro. Há ainda relatos de que o apresentador participou de negociações envolvendo possível aquisição do banco digital antes do aprofundamento da crise financeira da instituição.

Nesse contexto, a pergunta inevitável é: qual a opinião de Luciano Huck sobre os custos já produzidos ao Tesouro Nacional e ao sistema financeiro pela crise envolvendo o Banco Master? Afinal, enquanto o Bolsa Família transfere renda para milhões de famílias pobres, os episódios recorrentes de socialização de prejuízos bancários historicamente transferem bilhões de reais para salvar instituições privadas e preservar interesses do mercado financeiro.

A seletividade moral é gritante. Quando o dinheiro público vai para pobres comprarem comida, fala-se em “dependência”. Quando vai para estabilizar bancos, remunerar rentistas ou salvar instituições financeiras problemáticas, fala-se em “responsabilidade fiscal” ou “estabilidade do sistema”.

No fundo, a polêmica em torno de Luciano Huck ajuda a revelar uma disputa muito maior sobre o próprio significado do Estado brasileiro. Um Estado que segue sendo extremamente generoso com o capital financeiro, mas cuja elite econômica reage com indignação sempre que parcelas mínimas da riqueza nacional são direcionadas para garantir dignidade aos mais pobres.

Talvez o maior mérito involuntário da fala de Huck tenha sido justamente escancarar esse duplo padrão moral. Porque o verdadeiro debate nunca foi sobre “dependência” dos pobres. O Brasil convive há décadas, isto sim, com a dependência estrutural de suas elites em relação ao fundo público.

O Papa, a Inteligência Artificial e o novo império das máquinas

Ao transformar a inteligência artificial em tema central de seu pontificado, Papa Leão XIV expõe não apenas os riscos éticos da automação, mas também o avanço silencioso das corporações do Big Tech sobre o trabalho, os Estados nacionais e a própria democracia

O artigo publicado pelo jornal britânico The Guardian e assinado pelo jornalista Philip Pullella coloca em evidência um movimento político e moral relevante dentro da Igreja Católica: a tentativa do papa Papa Leão XIV de transformar a inteligência artificial em uma das questões centrais de seu pontificado. A encíclica Magnifica Humanitas, apresentada no Vaticano em 25 de maio de 2026, representa não apenas uma intervenção religiosa sobre tecnologia, mas também uma crítica contundente ao modo como o capitalismo digital vem reorganizando o trabalho, a guerra e as relações humanas no século XXI.

O aspecto mais importante do documento talvez seja o reconhecimento de que a inteligência artificial não é apenas uma inovação técnica, mas uma força capaz de redefinir o próprio significado do humano. Ao relacionar IA, automação e novas formas de escravidão digital, Leão XIV estabelece um paralelo direto entre a atual revolução tecnológica e a Revolução Industrial do século XIX, que motivou a encíclica Rerum Novarum, de Papa Leão XIII.

A crítica papal atinge um ponto frequentemente ocultado pelo discurso triunfalista do Vale do Silício: a inteligência artificial está sendo desenvolvida dentro de estruturas altamente concentradas de poder econômico, militar e informacional. Quando o papa denuncia a “cultura do poder” que impulsiona a corrida tecnológica e pede o “desarmamento” da IA, ele aponta para a crescente fusão entre Big Tech, sistemas de vigilância, indústria bélica e governos.

Hoje, empresas privadas controlam modelos algorítmicos capazes de influenciar eleições, moldar comportamentos, monitorar populações e substituir trabalhadores em larga escala. A promessa de “eficiência” frequentemente funciona como eufemismo para precarização do trabalho, concentração de renda e eliminação de direitos sociais.

Mas talvez seja necessário avançar ainda mais na crítica. A inteligência artificial não vem sendo apropriada apenas para ampliar mercados ou automatizar processos produtivos. As grandes corporações do Big Tech têm utilizado a IA para expandir seu controle sobre instituições de Estado, transformando governos em dependentes de plataformas privadas de armazenamento de dados, computação em nuvem e processamento algorítmico.

Empresas como Alphabet, Microsoft, Amazon, Meta e OpenAI já exercem funções quase paraestatais ao controlar infraestruturas essenciais utilizadas por universidades, sistemas de segurança pública, escolas e aparelhos administrativos nacionais.

Isso cria uma situação profundamente assimétrica: enquanto os Estados se tornam dependentes das plataformas privadas para operar funções básicas, as corporações acumulam volumes inéditos de dados, capacidade computacional e influência política. Surge, assim, uma espécie de soberania tecnológica privada, na qual decisões fundamentais passam a ser mediadas por sistemas opacos desenvolvidos segundo interesses empresariais e financeiros.

Nesse contexto, a IA se converte em instrumento central de ampliação das taxas de lucro dessas corporações. Quanto maior a automação, maior a redução de custos trabalhistas; quanto maior a coleta de dados, maior o poder de prever, induzir e monetizar comportamentos humanos. A consequência é o aprofundamento da concentração global de riqueza e poder em torno de um pequeno grupo de conglomerados sediados principalmente nos Estados Unidos.

Ao abordar a questão do trabalho, Leão XIV toca em uma ferida particularmente sensível. A automação baseada em IA ameaça não apenas empregos industriais repetitivos, mas também profissões intelectuais, administrativas e criativas. O discurso tecnocrático insiste que novas tecnologias sempre criam novos empregos, mas a velocidade da atual transformação sugere algo distinto: uma possível erosão estrutural da centralidade do trabalho humano na economia.

O papa também introduz uma dimensão ética raramente discutida no debate tecnológico contemporâneo: a relação entre inteligência artificial e dignidade humana. Em uma cultura dominada por métricas e algoritmos, seres humanos passam a ser tratados como unidades de desempenho ou simples conjuntos de dados. O risco não é apenas econômico, mas civilizacional. A lógica algorítmica reduz complexidades humanas a padrões calculáveis, enfraquecendo empatia, solidariedade e autonomia moral.

Outro elemento importante da encíclica é o reconhecimento histórico da cumplicidade da própria Igreja com sistemas de escravidão. Ao pedir desculpas pela demora da instituição em condenar a escravidão moderna, Leão XIV estabelece uma ponte entre antigas formas de exploração e novas formas de servidão digital associadas à economia de plataformas e ao trabalho invisível que sustenta os sistemas de IA.

Essa conexão é particularmente relevante porque a inteligência artificial depende de enormes cadeias globais de trabalho frequentemente ocultadas pela retórica da inovação. Por trás dos sistemas “inteligentes” existem mineradores de lítio, operários de semicondutores, moderadores de conteúdo precarizados e milhões de pessoas que alimentam algoritmos com seus dados pessoais sem remuneração adequada.

Nesse sentido, a preocupação expressa por Leão XIV ultrapassa o campo religioso e se insere em um debate central sobre democracia, soberania tecnológica e justiça social. A questão decisiva do século XXI talvez não seja apenas o avanço da inteligência artificial, mas quem controla essa tecnologia, a serviço de quais interesses e sob quais limites éticos e políticos.

Organizações sociais alertam governo Lula para riscos de um “super El Niño” e cobram políticas de adaptação climática

Carta aponta necessidade urgente de proteção às populações vulneráveis diante do aumento de eventos extremos associados às mudanças climáticas

Em meio ao aumento das preocupações internacionais com a possível formação de um episódio muito intenso do fenômeno El Niño entre o final de 2026 e o início de 2027, organizações da sociedade civil brasileira divulgaram uma carta pública alertando o governo federal sobre a necessidade urgente de fortalecer políticas de adaptação climática e prevenção de desastres.

Segundo a reportagem publicada pelo Poder360, o documento foi elaborado pela Rede por Adaptação Antirracista em parceria com o Observatório do Clima, reunindo dezenas de entidades socioambientais e de direitos humanos. Entre os signatários estão Greenpeace Brasil, Oxfam Brasil, WWF-Brasil, SOS Mata Atlântica, Instituto Pólis, Instituto Ethos, Conectas Direitos Humanos, Coalizão Negra por Direitos e Transparência Brasil.

O alerta ocorre após estimativas divulgadas pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que apontam 82% de probabilidade de formação do El Niño ainda em 2026 e cerca de 37% de chance de que o fenômeno atinja intensidade “muito forte”.

Embora o termo “super El Niño” não seja oficialmente utilizado pela NOAA, ele costuma designar episódios excepcionalmente intensos, capazes de provocar impactos severos em diferentes regiões do planeta. No caso brasileiro, especialistas alertam para a possibilidade de secas mais severas no Norte e Nordeste, além de chuvas extremas no Sul do país.

Na carta, as organizações destacam que os impactos climáticos não atingem todos da mesma maneira. Populações negras, indígenas, quilombolas, periféricas e moradores de áreas de risco estariam entre os grupos mais expostos aos efeitos de enchentes, deslizamentos, ondas de calor, secas e incêndios florestais.

O documento também critica a postura recorrente de governos que atuam apenas após as tragédias. As entidades defendem políticas permanentes de prevenção, planejamento urbano, monitoramento climático e preparação comunitária. Entre as medidas propostas estão a instalação de sirenes e sistemas de alerta, criação de centros de monitoramento, elaboração participativa de planos de fuga e atualização do Plano Nacional de Adaptação.

As organizações lembram ainda que os desastres recentes no Brasil já evidenciam os custos humanos da emergência climática. O texto menciona as chuvas catastróficas em Petrópolis e os episódios extremos registrados no litoral norte paulista, reforçando que a combinação entre mudanças climáticas, desigualdade social e ausência de infraestrutura amplia drasticamente os riscos.

O debate também ganhou repercussão nas redes sociais, onde muitos usuários defenderam a importância dos alertas preventivos diante da repetição de tragédias climáticas no país. Em discussões online, diversos comentários criticaram a falta de preparação estrutural do poder público diante de eventos extremos cada vez mais previsíveis.

A íntegra da reportagem original pode ser acessada no Poder360.

Feijão envenenado e Estado lento: o retrato cruel da falência da fiscalização da contaminação alimentar por agrotóxicos no Brasil

Quando um alimento básico da mesa brasileira circula com níveis absurdos de contaminação, o problema deixa de ser um “desvio” e passa a revelar o funcionamento normal de um modelo agrícola e regulatório profundamente adoecido

A reportagem publicada pela Repórter Brasil e assinada pela jornalista Hélen Freitas expõe um caso que deveria provocar indignação nacional imediata: lotes de feijão com resíduos de agrotóxicos até 355 vezes acima do limite permitido permaneceram por mais de um ano sem recolhimento por parte do Estado brasileiro.

O dado é chocante por si só. Mas o mais grave talvez seja aquilo que ele revela sobre a lógica estrutural que rege o sistema de fiscalização de alimentos no Brasil. O problema não é apenas a presença de resíduos tóxicos em um dos principais itens da alimentação popular brasileira. O problema é que a contaminação foi identificada oficialmente pelo próprio Ministério da Agricultura, e ainda assim o mecanismo estatal de resposta operou numa velocidade incompatível com qualquer noção séria de proteção sanitária.

Segundo a reportagem, análises laboratoriais encontraram 17,73 mg/kg de glifosato em amostras de feijão-fradinho da marca Dona Dê, quando o limite permitido pela Anvisa é de apenas 0,05 mg/kg. O produto já estava embalado e pronto para distribuição em supermercados. Quando o recolhimento finalmente foi determinado, o lote já havia perdido a validade. Ou seja: o Estado brasileiro conseguiu transformar um procedimento de proteção sanitária em mera formalidade burocrática posterior ao consumo potencial do alimento contaminado.

A matéria mostra ainda que não se trata de um caso isolado. Autos de infração e laudos do Ministério da Agricultura apontam reincidência entre 2020 e 2025 envolvendo a empresa NJF Indústria e Comércio, responsável pelo empacotamento de marcas amplamente conhecidas no mercado nacional. Foram registradas autuações em vários estados por excesso de resíduos de glifosato, glufosinato, tiametoxam e até presença de substâncias não autorizadas para a cultura do feijão.

Esse episódio desmonta um dos discursos preferidos do agronegócio brasileiro: o de que o país possui um dos sistemas de controle sanitário “mais rigorosos do mundo”. Se o rigor existe, ele claramente não se traduz em proteção efetiva da população. Afinal, de que serve detectar contaminações extremas se os alimentos continuam circulando normalmente até desaparecerem das prateleiras pelo vencimento natural?

Mas existe um aspecto ainda mais grave e frequentemente ocultado no debate público brasileiro: os processos de avaliação toxicológica continuam sendo feitos, em grande medida, de forma isolada para cada princípio ativo. Em outras palavras, os limites de segurança são estabelecidos considerando os impactos individuais de cada agrotóxico, como se a população estivesse exposta separadamente a uma única substância por vez. O problema é que a realidade da alimentação contemporânea é completamente diferente.

Sempre que análises laboratoriais mais abrangentes são realizadas em alimentos no Brasil, o que aparece é a presença simultânea de múltiplos resíduos químicos diferentes. O consumidor brasileiro não está ingerindo apenas glifosato, apenas glufosinato ou apenas tiametoxam. Está sendo exposto diariamente a verdadeiros coquetéis de agrotóxicos, cujas interações sinérgicas permanecem insuficientemente estudadas e praticamente ignoradas pelos marcos regulatórios oficiais.

Isso significa que o sistema brasileiro de controle sanitário opera sobre uma ficção científica regulatória: a de que os compostos químicos agem isoladamente dentro do organismo humano. Entretanto, há crescente preocupação na literatura científica internacional com os chamados “efeitos combinados” ou “efeitos coquetel”, nos quais diferentes substâncias podem potencializar mutuamente seus impactos tóxicos, inclusive em doses consideradas “aceitáveis” individualmente.

O caso do feijão contaminado é particularmente simbólico porque envolve um alimento central na dieta brasileira, consumido diariamente por milhões de famílias pobres e trabalhadoras. Diferentemente de produtos de nicho ou mercadorias de exportação, o feijão atravessa todas as classes sociais e regiões do país. Isso significa que a exposição aos agrotóxicos não é um problema periférico ou restrito ao campo: ela se converteu em componente estrutural da alimentação cotidiana brasileira.

O glifosato, encontrado em níveis exorbitantes nas amostras analisadas, permanece cercado de controvérsias científicas internacionais. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da OMS classificou o composto como “provavelmente cancerígeno para humanos”. Ainda assim, o Brasil continua sendo um dos maiores consumidores globais dessa substância, em um ambiente regulatório marcado por pressão política do agronegócio, fragilidade institucional e sistemática flexibilização das regras de controle.

O drama é ampliado pela conhecida insuficiência estrutural dos órgãos de fiscalização. O país expandiu de forma exponencial o uso de agrotóxicos nas últimas décadas, mas não construiu capacidade proporcional de monitoramento laboratorial, rastreabilidade e vigilância sanitária. O resultado é um modelo em que a fiscalização frequentemente atua apenas depois da circulação comercial dos produtos contaminados — quando atua.

Nesse contexto, a lentidão dos órgãos de controle deixa de parecer mera incompetência administrativa e passa a assumir contornos de cumplicidade estrutural. Afinal, enquanto os procedimentos burocráticos se arrastam, milhões de brasileiros seguem consumindo alimentos contaminados e sendo submetidos diariamente a exposições químicas múltiplas cujos impactos acumulados permanecem largamente desconhecidos.

Existe ainda um componente político que raramente aparece de forma explícita no debate público: o Estado brasileiro trata a contaminação por agrotóxicos como um problema secundário porque sua prioridade real é garantir fluidez ao modelo agroexportador. Nesse contexto, a proteção da saúde coletiva tende a ser subordinada à necessidade de evitar “entraves” à circulação de commodities agrícolas e alimentos industrializados.

O caso revelado pela Repórter Brasil deveria servir como alerta máximo para o fato de que o debate sobre agrotóxicos no Brasil não diz respeito apenas à produção agrícola, mas à própria capacidade do Estado de garantir segurança alimentar mínima à sua população.

A pergunta central passa então a ser inevitável: quantos outros alimentos contaminados continuam circulando normalmente enquanto a burocracia estatal se move em câmera lenta e os órgãos de controle fingem não enxergar o experimento químico involuntário ao qual a população brasileira está sendo submetida diariamente?