Dados revelam que dezenas de agrotóxicos considerados perigosos demais para uso na União Europeia seguem sendo comercializados livremente no Brasil, num modelo que transfere riscos ambientais e sanitários para os países periféricos
O debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil ganhou novos contornos a partir da divulgação de dados que revelam uma realidade alarmante: o país continua permitindo e consumindo em larga escala substâncias que já foram consideradas perigosas demais para serem utilizadas na União Europeia. O problema não é apenas ambiental ou sanitário. Trata-se também de uma questão ética e geopolítica que expõe a profunda desigualdade existente na governança global dos riscos químicos.
Levantamento realizado pelo Campo Grande News, com base em dados do Ibama, mostrou que seis dos dez ingredientes ativos mais comercializados em Mato Grosso do Sul são proibidos na União Europeia. Entre eles estão o acefato, o clorotalonil, a atrazina, o mancozebe, o metomil e o glufosinato de amônio, substâncias associadas a diferentes riscos ambientais e à saúde humana.
Mas o aspecto mais perturbador dessa história vai muito além das possíveis barreiras comerciais. A pergunta central deveria ser outra: se essas substâncias são consideradas perigosas demais para serem utilizadas em países europeus, por que sua aplicação continua sendo amplamente permitida sobre trabalhadores rurais, comunidades do campo e consumidores brasileiros?
A resposta remete a uma das maiores contradições do sistema agroalimentar global. Muitas das empresas que produzem esses agrotóxicos têm sede justamente em países europeus. Em outras palavras, substâncias consideradas inadequadas para aplicação nos territórios da União Europeia continuam sendo fabricadas por empresas do próprio continente e exportadas para países do Sul Global, incluindo o Brasil. Trata-se de uma forma contemporânea de colonialismo químico, na qual os riscos são deslocados para regiões periféricas enquanto os países centrais preservam padrões mais elevados de proteção ambiental e sanitária para suas próprias populações.
A hipocrisia torna-se ainda mais evidente quando a União Europeia endurece os controles sobre resíduos químicos em alimentos importados. O bloco restringe a entrada de produtos agrícolas contaminados por substâncias que ele mesmo proibiu, mas fecha os olhos para o fato de que muitas dessas moléculas continuam sendo produzidas por corporações europeias e vendidas agressivamente para mercados como o brasileiro.
O resultado é um modelo perverso. De um lado, agricultores brasileiros são induzidos a utilizar substâncias altamente perigosas disponibilizadas por multinacionais químicas. De outro, quando os resíduos desses produtos aparecem nos alimentos exportados, a responsabilidade recai exclusivamente sobre os produtores e sobre o país exportador. Os lucros permanecem concentrados nas empresas fabricantes, enquanto os riscos ambientais, sanitários e econômicos são socializados entre trabalhadores rurais, consumidores e ecossistemas do Sul Global.
A permanência desse quadro também ajuda a explicar o crescimento das preocupações relacionadas à contaminação de solos, águas superficiais e subterrâneas, além dos potenciais impactos sobre polinizadores e biodiversidade. Diversas das substâncias que aparecem nas listas de restrição europeia acumulam histórico de controvérsias científicas relacionadas à toxicidade ambiental e aos possíveis efeitos sobre a saúde humana.
Por isso, a discussão não pode ficar limitada ao risco de perda de mercados internacionais. O verdadeiro escândalo é que milhões de brasileiros continuem expostos diariamente a compostos que já foram considerados incompatíveis com os padrões de segurança adotados em países centrais. Ao mesmo tempo, é necessário denunciar a dupla moral da União Europeia, que se apresenta como referência mundial em sustentabilidade enquanto permite que suas empresas transformem o Sul Global em destino preferencial para substâncias que ela própria rejeitou.
Enquanto a lógica da exportação de riscos prevalecer sobre a proteção da saúde pública e do meio ambiente, o Brasil continuará ocupando a desconfortável posição de grande consumidor de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo — uma situação que revela tanto a força do lobby químico quanto as profundas assimetrias que marcam o comércio internacional contemporâneo
Movimento denuncia perdas salariais, ataques à previdência e falta de valorização das universidades estaduais fluminenses
No próximo dia 2 de junho, os docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) realizarão uma paralisação de 24 horas como forma de protesto contra a contínua desvalorização salarial, os ataques à previdência pública e a falta de investimentos adequados nas universidades estaduais do Rio de Janeiro. A mobilização foi aprovada pela categoria em meio ao crescente descontentamento com a ausência de respostas concretas do governo estadual para demandas históricas dos servidores públicos.
A paralisação ocorre em um contexto marcado pela corrosão do poder de compra dos salários, pelo agravamento das condições de trabalho e pelas incertezas em torno do futuro da previdência dos servidores. Além disso, há que se lembrar que a proposta do novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) está tramitando e sem resolução desde maio de 2021, o que agrava o quadro de perdas salariais que já alcança mais de 60%. Para os docentes, a defesa da universidade pública passa necessariamente pela valorização de seus trabalhadores e pela garantia de financiamento adequado para as instituições de ensino superior.
A Uenf, reconhecida nacionalmente pela qualidade de sua produção científica, pela formação de recursos humanos e pela contribuição ao desenvolvimento regional, enfrenta desafios cada vez maiores para manter suas atividades acadêmicas, de pesquisa e extensão. Enquanto cresce a cobrança por resultados e inovação, persistem problemas relacionados à insuficiência de recursos e à falta de políticas efetivas de valorização dos profissionais que sustentam a universidade pública.
Como parte da programação do dia de mobilização, será realizada uma roda de conversa com o tema “Salário, Previdência e Dívida do Estado do Rio de Janeiro”, que contará com a participação de Paulo Lindesay, coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida – Núcleo RJ. O debate ocorrerá a partir das 14 horas, na Sala de Multimídia do CCH, e buscará discutir os impactos da política de endividamento estadual sobre o financiamento das universidades públicas e dos serviços essenciais.
A atividade pretende contribuir para ampliar a compreensão sobre as escolhas econômicas e políticas que afetam diretamente a educação superior pública, ao mesmo tempo em que fortalece a construção coletiva de alternativas para a defesa dos direitos dos servidores e da população.
Mais do que uma reivindicação corporativa, a paralisação do dia 2 de junho representa um chamado à reflexão sobre o papel estratégico das universidades públicas para o desenvolvimento científico, tecnológico e social do estado do Rio de Janeiro. Em um momento de crescentes desafios para a educação pública brasileira, a mobilização dos docentes da Uenf reafirma a necessidade de fortalecer instituições que produzem conhecimento, formam profissionais qualificados e contribuem para a construção de uma sociedade mais justa e democrática.
Chega de perder, é hora de ganhar. Em defesa da Uenf, dos direitos dos servidores e da educação pública.
A enquete do ANDES-SN revela a face humana da crise estrutural da educação pública brasileira
Durante muito tempo, consolidou-se no imaginário social a ideia de que a carreira docente no ensino superior público representaria uma posição privilegiada, marcada por autonomia intelectual, estabilidade e condições favoráveis para a produção do conhecimento. A Enquete Nacional sobre Condições de Trabalho e Saúde Docente realizada pelo ANDES-SN desmonta essa narrativa ao revelar um cenário marcado pela intensificação do trabalho, pelo adoecimento crescente e pela deterioração das condições materiais de exercício da docência.
Inspirada metodologicamente na tradição da Enquete Operária de Karl Marx, a pesquisa busca não apenas levantar dados, mas compreender a experiência concreta dos trabalhadores da educação superior e transformá-la em instrumento de organização política e sindical. Trata-se de uma iniciativa particularmente relevante em um período em que a universidade pública brasileira vem sendo submetida a sucessivos processos de desfinanciamento e reestruturação gerencial. A própria apresentação da pesquisa destaca a intenção de combinar rigor científico e intervenção política, recolocando a produção de conhecimento a serviço da compreensão crítica das condições de trabalho.
Os resultados preliminares da primeira etapa, realizada com 1.874 docentes de 11 instituições públicas, já indicavam tendências preocupantes. A pesquisa identificou jornadas extensas, múltiplas exigências administrativas, sobrecarga de atividades e elevado índice de relatos de assédio moral. Mais da metade dos participantes declarou ter sofrido algum tipo de assédio ao longo de sua trajetória profissional, ainda que em diferentes intensidades. O dado é particularmente grave porque evidencia que a violência organizacional deixou de ser um fenômeno excepcional para se tornar parte constitutiva da vida universitária contemporânea.
Mas talvez o aspecto mais revelador da enquete seja a conexão estabelecida entre as transformações recentes do trabalho docente e o crescimento dos problemas de saúde física e mental. Os relatórios produzidos a partir das etapas subsequentes da pesquisa apontam para o avanço de quadros de ansiedade, transtornos de humor, doenças cardiovasculares, enxaquecas e outros problemas associados ao estresse ocupacional. O que aparece nesses números não é um conjunto de casos isolados, mas a manifestação de uma lógica institucional que transforma permanentemente professores em gestores de indicadores, produtores de relatórios, captadores de recursos e operadores de plataformas digitais.
A pandemia de COVID-19 acelerou esse processo. O ensino remoto emergencial foi frequentemente apresentado como demonstração de resiliência e capacidade de adaptação das universidades. Entretanto, a enquete mostra que o legado deixado por esse período inclui a ampliação das fronteiras do trabalho, a invasão permanente do espaço doméstico pelas demandas profissionais e a naturalização de mecanismos de controle mediados por tecnologias digitais. O resultado é uma jornada que não termina quando a aula acaba, mas se estende indefinidamente por aplicativos, plataformas, reuniões virtuais e sistemas de avaliação.
A pesquisa também evidencia um fenômeno frequentemente negligenciado nos debates sobre ensino superior: o endividamento crescente dos docentes. Os dados divulgados em algumas instituições, como a UERJ, revelam percentuais expressivos de professores convivendo com financiamentos, empréstimos e dívidas. A combinação entre perdas salariais acumuladas, aumento do custo de vida e deterioração das carreiras públicas ajuda a explicar por que um setor historicamente associado à estabilidade econômica passou a enfrentar inseguranças típicas de segmentos cada vez mais precarizados da classe trabalhadora.
O caso brasileiro não pode ser analisado isoladamente. Em diversas partes do mundo observa-se a expansão de modelos de gestão universitária inspirados em práticas empresariais. Métricas de produtividade, competição por financiamentos, ranqueamentos institucionais e sistemas permanentes de avaliação passaram a orientar a vida acadêmica. Nesse ambiente, o conhecimento tende a ser tratado como mercadoria, enquanto docentes são pressionados a ampliar continuamente sua produção sob condições cada vez mais adversas.
A grande contribuição da enquete do ANDES-SN está justamente em demonstrar que a crise da universidade pública não se manifesta apenas nos cortes orçamentários ou na precarização da infraestrutura. Ela se expressa também nos corpos e nas mentes daqueles que sustentam cotidianamente o funcionamento dessas instituições. O adoecimento docente não é um problema individual. É um sintoma social de um modelo que busca ampliar produtividade sem garantir condições dignas de trabalho.
Por isso, os resultados da pesquisa deveriam ultrapassar os limites do debate sindical e acadêmico. Eles dizem respeito ao futuro da própria universidade pública brasileira. Afinal, quando a produção do conhecimento passa a depender da exaustão física e mental de seus trabalhadores, não é apenas a saúde dos docentes que está em risco. Está em risco a capacidade da universidade de cumprir sua função social, científica e democrática.
A enquete do ANDES-SN oferece um alerta necessário: defender a saúde docente não é uma pauta corporativa. É uma condição indispensável para defender a educação pública em um momento histórico marcado pela expansão da precarização, pela mercantilização do ensino e pela crescente subordinação do conhecimento às exigências do mercado.
O relatório completo e as informações sobre a enquete podem ser consultados junto ao ANDES-SNe aos materiais da pesquisa divulgados pela entidade.
Novas revelações da Polícia Federal aprofundam as suspeitas sobre a relação entre o ex-governador do Rio de Janeiro e o banqueiro Daniel Vorcaro, enquanto aposentados e pensionistas seguem arcando com os riscos de investimentos controversos realizados com recursos previdenciários
As novas revelações da Polícia Federal sobre os aportes bilionários do Rioprevidência em ativos ligados ao Banco Master aprofundam ainda mais as suspeitas que cercam a gestão do ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Segundo informações encaminhadas ao Supremo Tribunal Federal, a PF identificou que mudanças promovidas por Castro na cúpula do Rioprevidência antecederam investimentos que, ao longo do tempo, alcançaram aproximadamente R$ 3 bilhões em operações vinculadas ao banco controlado por Daniel Vorcaro.
De acordo com as investigações, a substituição de dirigentes teria facilitado o credenciamento do Banco Master e acelerado a realização dos aportes, contornando mecanismos de controle e avaliação técnica que deveriam existir para proteger os recursos dos servidores públicos estaduais. O caso ganha contornos particularmente graves porque envolve dinheiro destinado ao pagamento de aposentadorias e pensões de milhares de trabalhadores que dedicaram suas vidas ao serviço público fluminense.
As investigações apontam que os investimentos foram realizados mesmo diante de questionamentos sobre os riscos envolvidos e sobre a elevada concentração de recursos em uma única instituição financeira. O resultado é que o Rioprevidência, que já enfrenta desafios históricos para garantir sua sustentabilidade financeira, passou a carregar uma exposição significativa a ativos cuja qualidade e liquidez são agora objeto de intenso escrutínio por parte dos órgãos de controle.
Neste contexto, a recente decisão de Cláudio Castro de desistir de sua candidatura ao Senado, alegando a necessidade de dedicar-se à própria defesa, parece menos um gesto de desprendimento político e mais o reconhecimento de que as evidências reunidas pelos investigadores atingiram um patamar difícil de ignorar. Em poucas semanas, o ex-governador viu seu nome associado a diferentes frentes de investigação da Polícia Federal, tornando praticamente inviável a manutenção de suas pretensões eleitorais.
A situação torna-se ainda mais delicada quando se observa a trajetória política de Cláudio Castro. Durante anos, ele figurou como um dos mais importantes aliados da família Bolsonaro no cenário nacional. Sua ascensão política ocorreu no interior do campo bolsonarista, que construiu parte significativa de seu discurso em torno do combate à corrupção, da moralidade administrativa e da defesa de uma suposta “nova política”. As investigações envolvendo o Rioprevidência e o Banco Master lançam dúvidas profundas sobre a coerência entre esse discurso e as práticas adotadas nos bastidores do poder.
Mas talvez nenhum aspecto deste caso simbolize tão bem a distância entre governantes e governados quanto as revelações envolvendo a relação pessoal entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro. Reportagens publicadas nos últimos meses revelaram que ambos participaram, em Nova York, de eventos marcados pela ostentação, incluindo degustações de whiskies raros avaliados em centenas de milhares de dólares e refeições em restaurantes de luxo onde eram servidos cortes de carne cobertos por folhas de ouro. Embora a participação em eventos dessa natureza não constitua irregularidade por si só, a proximidade entre o governador e o banqueiro ganha outro significado quando analisada à luz dos bilhões de reais que posteriormente foram direcionados ao Banco Master por um fundo previdenciário estatal.
O contraste é inevitável. Enquanto integrantes da elite política e financeira desfrutavam de experiências reservadas a um grupo extremamente seleto de milionários, milhares de aposentados e pensionistas do estado do Rio de Janeiro continuavam convivendo com incertezas sobre o futuro de suas aposentadorias. Muitos desses beneficiários dependem exclusivamente dos pagamentos realizados pelo Rioprevidência para garantir condições mínimas de sobrevivência em um cenário de inflação persistente, aumento do custo de vida e crescente deterioração dos serviços públicos. A imagem de governantes brindando com whiskies raríssimos ao lado de banqueiros favorecidos por investimentos públicos bilionários contrasta de forma brutal com a realidade vivida pela maioria dos segurados do sistema previdenciário estadual.
Mais do que uma investigação sobre operações financeiras questionáveis, o caso expõe um problema estrutural da política fluminense: a utilização recorrente de instituições públicas estratégicas para atender interesses privados e redes de influência política. O Rioprevidência, responsável pela segurança financeira de milhares de aposentados e pensionistas, não pode ser tratado como instrumento para operações de alto risco nem como mecanismo de aproximação entre agentes públicos e grupos econômicos privilegiados.
À medida que avançam as investigações, torna-se cada vez mais difícil sustentar a narrativa de que tudo não passa de coincidências administrativas ou de decisões técnicas equivocadas. A sucessão de mudanças na direção do fundo, os aportes bilionários, a proximidade com Daniel Vorcaro e a crescente quantidade de elementos reunidos pela Polícia Federal apontam para um enredo que exige esclarecimentos profundos e responsabilização, caso as suspeitas sejam confirmadas.
Se as investigações comprovarem as irregularidades apontadas pela Polícia Federal, o escândalo do Banco Master poderá entrar para a história do Rio de Janeiro não apenas como mais um episódio de gestão temerária de recursos públicos, mas como um símbolo da distância abissal que separa a vida dos detentores do poder da realidade enfrentada pelos aposentados e pensionistas cujas economias foram colocadas em risco. Entre taças de whisky milionário, carnes cobertas de ouro e operações financeiras cercadas de suspeitas, o que estava em jogo eram recursos destinados a garantir uma velhice digna para milhares de servidores públicos fluminenses.
Documentos vazados mostram os limites do compromisso ambiental das grandes mineradoras enquanto o Congresso brasileiro avança na flexibilização das regras que deveriam prevenir novos desastres socioambientais
As revelações contidas nos chamados BHP Files, divulgadas pelo jornal britânico The Guardian, lançam nova luz sobre a distância que frequentemente separa os discursos corporativos sobre sustentabilidade das práticas efetivamente adotadas pelas grandes empresas de mineração. Os documentos internos mostram que a BHP, uma das maiores mineradoras do mundo e controladora da Samarco ao lado da Vale, desacelerou ou abandonou iniciativas importantes de descarbonização enquanto continuava a apresentar-se publicamente como líder da transição climática.
O caso reforça uma constatação incômoda: para grandes corporações extrativas, compromissos ambientais tendem a permanecer válidos apenas enquanto não ameaçam a rentabilidade dos negócios. Quando a redução de emissões implica investimentos significativos ou mudanças estruturais nas operações, a lógica da maximização dos lucros frequentemente prevalece sobre as promessas de responsabilidade socioambiental.
Para os brasileiros, a notícia possui um significado especial. Afinal, a BHP foi uma das empresas responsáveis pela tragédia de Mariana, o maior desastre ambiental da história do país, cujos impactos ainda atingem milhares de pessoas ao longo da bacia do Rio Doce. As revelações do The Guardian sugerem que a discrepância entre discurso e prática observada no passado permanece presente na cultura corporativa da empresa.
O mais preocupante é que essas revelações ocorrem justamente quando o Congresso Nacional avança sobre os mecanismos de proteção ambiental existentes. Em vez de aprender as lições deixadas por Mariana e Brumadinho, parlamentares têm aprovado medidas que flexibilizam o licenciamento ambiental, ampliam formas de autodeclaração empresarial e reduzem a capacidade de intervenção preventiva do Estado.
O argumento utilizado pelos defensores dessas mudanças é conhecido: seria necessário “modernizar” e “desburocratizar” o licenciamento para acelerar investimentos. O problema é que Mariana e Brumadinho não aconteceram por excesso de fiscalização ou por rigor excessivo das normas ambientais. Ao contrário, ambas as tragédias ocorreram em um ambiente de controles insuficientes, forte influência empresarial sobre os processos decisórios e sucessivas flexibilizações regulatórias.
Os documentos da BHP mostram exatamente por que mecanismos robustos de fiscalização continuam sendo indispensáveis. Se até uma das maiores mineradoras do planeta, submetida a intensa vigilância pública e internacional, admite internamente decisões que contradizem seus compromissos ambientais, torna-se difícil sustentar a tese de que a autorregulação empresarial seria suficiente para proteger populações e ecossistemas.
Há uma profunda contradição em curso no Brasil. Enquanto o país busca projetar uma imagem de liderança climática no cenário internacional, parte significativa de sua elite política continua empenhada em enfraquecer instrumentos fundamentais de prevenção ambiental. O resultado pode ser a criação das condições institucionais para novos desastres socioambientais de grande escala.
Os BHP Files deveriam servir como um alerta. Se corporações poderosas frequentemente colocam o lucro acima da proteção ambiental, a resposta não pode ser menos fiscalização, menos licenciamento e menos controle público. A resposta deveria ser exatamente o contrário. Afinal, quando os mecanismos de prevenção são enfraquecidos, o risco não é apenas a repetição de Mariana ou Brumadinho. É a possibilidade de tragédias ainda maiores.
Sob o discurso da modernização e da celeridade, Governo do Rio e Firjan avançam sobre os mecanismos de licenciamento ambiental enquanto cresce a influência direta de setores empresariais historicamente ligados à flexibilização regulatória e à expansão de projetos ambientalmente impactantes, como os distritos florestais baseados na monocultura de eucalipto
O anúncio de uma parceria entre o Governo do Estado do Rio de Janeiro e a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan)para “modernizar” o licenciamento ambiental e promover a modernização do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) merece ser analisado com extrema cautela. Embora o discurso oficial enfatize eficiência, celeridade e desburocratização, o fato de uma entidade historicamente ligada à representação de grandes grupos industriais e de setores altamente impactantes ao meio ambiente assumir protagonismo nesse processo levanta sérias dúvidas sobre quais interesses estarão efetivamente orientando as mudanças pretendidas.
O licenciamento ambiental não é um entrave administrativo qualquer. Trata-se de um dos principais instrumentos de proteção ambiental existentes no Brasil, concebido justamente para estabelecer limites, avaliar impactos e criar mecanismos de mitigação diante de atividades potencialmente poluidoras. Transformar esse instrumento em mera engrenagem voltada à aceleração de investimentos privados significa esvaziar sua função pública e preventiva.
A retórica da “celeridade” frequentemente aparece associada à ideia de que o problema do desenvolvimento econômico reside na lentidão dos órgãos ambientais. Contudo, raramente se discute que muitos atrasos decorrem da própria complexidade dos empreendimentos licenciados, da insuficiência de pessoal técnico nos órgãos ambientais e, sobretudo, da necessidade de avaliações mais robustas diante de impactos cumulativos que frequentemente são ignorados ou subestimados.
A contradição central está justamente no fato de que a Firjan representa segmentos empresariais que historicamente pressionam pela flexibilização de normas ambientais, pela redução de exigências técnicas e pela diminuição dos custos regulatórios. Nesse contexto, entregar a uma federação empresarial papel de destaque na redefinição dos mecanismos de licenciamento equivale a permitir que setores regulados participem diretamente da remodelagem das regras destinadas a controlá-los.
Esse problema torna-se ainda mais grave quando se recorda o histórico da própria Firjan no apoio à expansão da monocultura de eucalipto no estado do Rio de Janeiro. Sob a lógica dos chamados “distritos florestais”, a entidade atuou de forma ativa na promoção de políticas voltadas à ampliação das plantações industriais de eucalipto, frequentemente apresentadas como solução econômica e ambientalmente sustentável. Entretanto, a expansão desse modelo carrega impactos amplamente documentados: concentração fundiária, pressão sobre recursos hídricos, simplificação extrema dos ecossistemas, perda de biodiversidade e conflitos territoriais com comunidades rurais.
A monocultura de eucalipto também evidencia um problema recorrente no debate ambiental fluminense: a tentativa de converter interesses econômicos privados em agendas supostamente técnicas e neutras. Sob o discurso da modernização, constrói-se frequentemente um ambiente político favorável à flexibilização regulatória, ao enfraquecimento do controle social e à redução da capacidade fiscalizadora do Estado.
Não deixa de ser simbólico que a modernização do Inea venha acompanhada justamente da participação de grupos interessados em acelerar licenciamentos. Afinal, modernizar um órgão ambiental deveria significar ampliar sua autonomia técnica, garantir concursos públicos, fortalecer sua capacidade de fiscalização e assegurar independência frente às pressões políticas e econômicas. Mas existe o risco de que “modernização”, nesse caso, signifique apenas tornar o órgão mais funcional aos interesses de expansão de grandes empreendimentos.
É justamente nesse contexto que surge a pergunta inevitável: o chamado “Inea 4.0” vai modernizar o quê e para quem? Se a modernização significar apenas digitalizar procedimentos para acelerar aprovações, reduzir etapas de análise e diminuir exigências ambientais em nome da competitividade, então o resultado poderá ser não um avanço institucional, mas uma sofisticada atualização dos mecanismos de flexibilização ambiental. Em vez de fortalecer o controle público sobre atividades potencialmente degradadoras, o risco é que o aparato tecnológico seja utilizado para aprofundar a captura corporativa da política ambiental estadual.
O Rio de Janeiro possui um histórico dramático de desastres ambientais, degradação industrial e conflitos territoriais envolvendo grandes projetos econômicos. Em vez de aprofundar mecanismos de participação popular e controle ambiental rigoroso, o governo estadual parece apostar novamente numa fórmula em que desenvolvimento é tratado como sinônimo de flexibilização regulatória.
A experiência brasileira recente demonstra que processos de “simplificação” ambiental frequentemente terminam convertidos em redução de salvaguardas, fragilização institucional e aumento dos riscos socioambientais. Em um estado marcado por desigualdades territoriais profundas e intensa pressão sobre ecossistemas frágeis, entregar a modernização do licenciamento às mãos de representantes dos próprios setores regulados pode significar não uma atualização do sistema, mas sua captura política e econômica.
Entidades denunciam captura corporativa de vagas da sociedade civil e pedem suspensão imediata do processo eleitoral do CMMADS
SÃO JOÃO DA BARRA, RJ — Três organizações da sociedade civil ingressaram com um Mandado de Segurança, com pedido de liminar urgente, na Vara Cível da Comarca de São João da Barra/RJ. A ação, movida pelo Movimento Baía Viva, Instituto Visão Social e Associação Regional Núcleo de Vigília Cidadã (ARNVC), visa anular o recente processo eleitoral que definiu os membros do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMMADS) para o biênio 2025/2027.
O processo aponta como autoridades coatoras a Secretária Municipal de Meio Ambiente, Marcela Nogueira Toledo, e a Prefeita do Município, Karla Chagas Maia. Segundo a denúncia apresentada à Justiça, a eleição foi marcada por graves vícios legais que desvirtuaram o princípio da paridade do Conselho e permitiram a apropriação de vagas destinadas à sociedade civil por grandes grupos econômicos e empresariais.
Principais Irregularidades Denunciadas
A petição inicial detalha uma série de manobras administrativas e quebras de protocolo durante a eleição realizada em 18 de dezembro de 2025. Entre os motivos expostos no documento estão:
Empresas Ocupando Vagas da Sociedade Civil: O processo eleitoral enquadrou de forma indevida pessoas jurídicas empresariais com fins lucrativos em vagas que deveriam ser exclusivas de organizações não governamentais da sociedade civil. As empresas Porto do Açu Operações S.A. e Reserva Ambiental Fazenda Caruara S.A. concorreram e foram eleitas nessa categoria.
Monopólio e Concentração de Poder: As duas empresas eleitas pertencem ao mesmo grupo econômico. A Reserva Caruara S.A. é controlada em 99,30% pela Porto do Açu Operações S.A. Ambas compartilham o mesmo quadro de sócios-administradores. Essa manobra garantiu ao mesmo grupo corporativo a ocupação de duas vagas simultâneas destinadas à sociedade civil, configurando indevida concentração de poder.
Conflito de Interesses na Presidência: Agravando a situação, a empresa Reserva Caruara S.A. assumiu a Presidência do Conselho, assumindo o controle da pauta e das deliberações. As entidades alertam para o conflito de interesses ao permitir que empresas potencialmente impactantes ao meio ambiente presidam o órgão responsável por acompanhar e formular políticas ambientais no município.
Regras Inventadas e “Votos Fantasmas”: Durante a condução da eleição, a Secretaria de Meio Ambiente criou regras e divisões de categorias que não existem na Lei de criação do CMMADS nem em seu Regimento Interno. A denúncia destaca ainda que a empresa Porto do Açu Operações S.A. sequer constava na lista de presença da eleição, mas participou e foi considerada no resultado final.
Ausência de Fórum Qualificado: O Regimento Interno do Conselho exige que a eleição da sociedade civil seja realizada em um Fórum próprio, preferencialmente com palestras de especialistas. No entanto, a eleição ocorreu em uma assembleia ordinária comum, descumprindo o formato técnico e deliberativo exigido.
Pedidos à Justiça
Diante do risco iminente de decisões ambientais serem tomadas sob influência de interesses econômicos, as organizações requerem à Justiça a concessão de medida liminar para suspender imediatamente os efeitos do processo eleitoral e paralisar as reuniões da atual composição do CMMADS.
A ação exige o afastamento imediato das empresas Porto do Açu e Reserva Caruara das vagas da sociedade civil. Por fim, solicita que a Justiça determine a realização de um novo processo eleitoral no prazo de 30 dias, seguindo rigorosamente a legislação municipal e o Regimento Interno do Conselho.
Com um índice h de 75, o cientista da computaçãoThippa Reddy Gadekallufigura entre os pesquisadores mais citados do mundo. Mas a rapidez e os meios pelos quais ascendeu a esses elevados patamares acadêmicos foram tão notáveis quanto a própria conquista.
Em menos de uma década, Gadekallu, professor da Universidade Agrícola e Florestal de Zhejiang, na China, conseguiu sair da obscuridade científica por meio da colaboração com colegas do mundo todo, que citam o trabalho uns dos outros de maneiras que levantam questionamentos. Em alguns anos, Gadekallu recebeu mais citações do que Yoshua Bengio, pioneiro em inteligência artificial e o cientista da computação mais bem avaliado no Google Acadêmico.
Estudos anteriores revelaram uma rede de revisores de artigos editados por Gadekallu que frequentemente sugeriam a inclusão de citações em seus trabalhos. Uma análise mais detalhada feita pelo Retraction Watch mostra o impacto dessa estratégia no índice h de Gadekallu e revela outros possíveis colaboradores nessa rede.
“Cara, isso é uma loucura”, disse Vincent Larivière, cientista da informação da Universidade de Montreal, a quem pedimos para analisar as métricas. “Esses números são definitivamente suspeitos.”
O índice h é baseado nas taxas de citação, e o crescimento torna-se mais difícil a cada novo artigo. Pesquisadores extraordinariamente prolíficos, como John Ioannidis, experimentaram aumentos de até 16 pontos em um único ano, mas aumentos anuais na casa de um dígito são mais comuns.
David Robert Grimes, um detetive residente do Retraction Watch, examinou os registros de citações de Gadekallu e seus colaboradores mais próximos e descobriu que, em 2019, o índice h de Gadekallu saltou 17 pontos, de 10 para 27. No ano seguinte, saltou 23 pontos e depois 19. Igualar o melhor desempenho da carreira de Ioannidis, disse Grimes, “é como igualar o tempo de Usain Bolt nos 100 metros”.
Repetir o feito três vezes seguidas? “Ou você tem um acadêmico verdadeiramente excepcional ou algo mais está acontecendo”, disse Grimes.
Ano
Número de publicações
Número de citações
Índice H
2014
1
25
1
2016
8
63
4
2017
7
280
10
2018
2
57
10
2019
1
6
10
2020
28
4057
27
2021
49
4906
50
2022
83
7531
69
2023
93
3987
74
2024
82
1883
75
2025
87
239
75
Publicações, citações e índice h de Thippa Reddy Gadekallu por ano
O trabalho de Grimes revelou que sua rede inclui dezenas de coautores espalhados pelo mundo. Assim como Gadekallu, Grimes descobriu que seus colaboradores mais frequentes experimentaram aumentos notavelmente acentuados em seus índices h, o que levanta a questão dese tais métricas devem continuar sendo utilizadas .
Ao longo de diversas trocas de e-mails conosco , Gadekallu admitiu que normalmente contava com a ajuda de colaboradores para realizar revisões por pares, mas insistiu que nunca participou de qualquer manipulação intencional.
“Compreendo perfeitamente por que isso pode parecer preocupante para quem vê de fora, mas nego categoricamente qualquer coordenação, pressão ou troca de informações nos bastidores em relação às citações”, escreveu ele.
As experiências de Hung-Wen Chiu contam uma história diferente.
Em abril de 2021, Chiu, engenheiro biomédico da Universidade Médica de Taipei, em Taiwan, submeteu um novo artigo à PLOS One . O artigo descrevia um método para classificar automaticamente imagens médicas de diferentes partes do corpo, capturadas por diferentes tipos de equipamentos.
O conselho editorial da PLOS One é composto por milhares de editores voluntários de todo o mundo. O artigo de Chiu foi atribuído a Gadekallu, então no Instituto de Tecnologia de Vellore, na Índia, que o delegou a dois revisores por pares.
Oscomentários da revisão por paresque Chiu recebeu algumas semanas depois foram breves e genéricos. “Discuta as limitações do trabalho atual”, sugeriu o primeiro revisor. “Há erros de digitação em todo o artigo”, disse o segundo revisor.
Mas em uma área eles ofereceram mais precisão: as citações. Ambos os revisores consideraram que o artigo de Chiu deveria referenciar dois artigos do próprio Gadekallu e outros dois de um dos colaboradores de Gadekallu. Um deles forneceu um linkpara o perfildo colaborador no Google Acadêmico: “Visite este perfil e cite os artigos relacionados”.
Os artigos eram amplos, levantamentos descritivos com pouca análise e muitas citações. Nenhum era particularmente relevante para o estudo de Chiu, mas ele concordou em adicionar um, que pelo menos tinha uma seção sobre imagens médicas. “Inapropriado”, foi como Chiu descreveu o pedido em um e-mail para nós.
Cinco dias após submeter suas revisões, o artigo de Chiu foi aceito. “Temos o prazer de informar que seu manuscrito foi considerado cientificamente adequado para publicação”, escreveu Gadekallu.
A experiência de Chiu com Gadekallu não foi nada incomum, segundo Maria de los Ángeles Oviedo-García, economista da Universidade de Sevilha, que analisou o histórico de Gadekallu.Sua revisão de 31 relatórios de revisão por pares disponíveis publicamente, publicados na PLOS One e em outros periódicos, constatou que os revisores de Gadekallu recomendaram que os autores citassem o trabalho de Gadekallu em 35 ocasiões e o trabalho de seus coautores em 79 ocasiões diferentes.
Gadekallu atuou como revisor em pelo menos 949 artigos, de acordo com o Web of Science da Clarivate. Pelo menos nos relatórios que estão disponíveis publicamente, ele também recomendouque os autores citassem seu próprio trabalho. “Acredito que haja muito mais escondido do que eu consigo encontrar”, disse Oviedo.
Embora Gadekallu tenha sido associado a inúmeras retrataçõesem diversos periódicos que editou, ele foi um editor produtivo da PLOS One até sua demissão do conselho editorial em outubro de 2024. Beth Baker, porta-voz da PLOS, disse ao Retraction Watch que uma investigação sobre as atividades de Gadekallu ainda está em andamento. “A PLOS não apoia nem tolera práticas coercitivas de citação”, acrescentou.
Embora haja um longo histórico de revisores incentivando sutilmente os autores a citarem seus próprios trabalhos, os esquemas organizados de citação, que podem envolver dezenas de participantes impulsionando ativamente as métricas uns dos outros, surgiram há pouco mais de uma década. Esses esquemas frequentemente distorcem o processo de revisão por pares com avaliações fraudulentas e citações irrelevantes. Editores tambémjá foram implicados.
A ascensão de Gadekallu como uma potência em citações começou em 2018, pouco depois de ele concluir seu doutorado no Instituto de Tecnologia de Vellore, no sul da Índia. O VIT, fundado em 1984, era pouco conhecido fora da região, mas, na década seguinte, disseminou na literatura de engenharia uma série de publicações de baixa qualidade e uma geração de editoresque seriam associados à retratação de edições especiais inteiras, manchadas por evidências de manipulação da revisão por pares.
Grande parte da obra de Gadekallu consiste em longos “levantamentos” descritivos, que normalmente resumem e definem vários campos de estudo. Alguns desses artigos apresentam“frases rebuscadas”— uma característica comum detrabalhos de pesquisa questionáveis— enquanto outros contêm citações irrelevantes e dados aparentemente impossíveis, de acordo com comentários no PubPeer.
“Não há segredo para esse crescimento, a não ser trabalhar rigorosamente na vanguarda de campos em constante evolução, o que naturalmente aumenta a probabilidade de contribuir com resultados significativos”, disse-nos Gadekallu.
Gadekallu potencializou seu impacto ao estabelecer uma redede mais de 1.000coautorescom os quais publicou mais de 480 artigos. Um de seus colaboradores mais próximos é Praveen Kumar Reddy Maddikunta, que obteve seu doutorado na VIT no mesmo ano e permanece como professor associado lá. Os dois publicaram 97 artigos juntos, ajudando a elevar o índice h de Maddikunta de 9 em 2017 para 55 atualmente. Dezessete artigos foram retratados de uma edição especial que ele editou como convidado para o periódico Mobile Information Systems por manipulação da revisão por pares e citações inadequadas.
Ano
Número de publicações
Número de citações
Índice H
2013
1
1
1
2015
2
22
2
2016
4
7
3
2017
9
144
6
2019
7
140
9
2020
21
3556
21
2021
30
2826
36
2022
29
4241
47
2023
22
1746
52
2024
14
624
55
2025
3
34
55
Publicações, citações e índice h de Praveen Kumar Reddy Maddikunta por ano
Embora um aumento acentuado no índice h de um autor possa ser um sinal de alerta, ainda não é possível identificar esquemas de citação sem uma análise cuidadosa dos estudos e do histórico do autor. “Não existe um teste que seja uma prova irrefutável de manipulação de métricas”, disse Grimes. “Tudo o que podemos detectar são mudanças incomuns, que precisam ser analisadas dentro de um contexto.”
Ano
Número de publicações
Número de citações
Índice H
2007
1
0
0
2011
3
95
3
2013
2
108
5
2014
2
7
5
2018
8
160
9
2019
32
3673
26
2020
78
4030
44
2021
152
7380
59
2022
136
5023
69
2023
159
3332
72
2024
116
2066
74
2025
59
143
74
Publicações, citações e índice h de Gautam Srivastava por ano
Emuma edição especialeditada por Srivastava e Gadekallu para a revista Computational Intelligence and Neuroscience , 122 artigos foram retratados por “citações inadequadas” e “manipulação da revisão por pares”, entre outros problemas.(Após a publicação do nosso artigo, Gadekallu nos disse que não tinha controle editorial sobre o conteúdo da edição especial. “Embora meu nome tenha aparecido como coeditor convidado, meu papel foi apenas nominal. Eu não editei nenhum dos artigos em questão”, escreveu ele.)
Em uma breve entrevista por telefone, Srivastava se recusou a comentar sobre suas próprias retratações e negou participar de um esquema de citação fraudulenta. “Não faço parte de nada parecido”, disse ele. “Tenho muitos colaboradores e isso pode ter algo a ver com a situação.”
O próprio Gadekallu já acumulou quatro retratações. Fang Kai, vice-reitor acadêmico da Universidade Agrícola e Florestal de Zhejiang, onde Gadekallu está atualmente lotado, não respondeu a vários e-mails solicitando comentários.
Quanto a Gadekallu, ele não vê essas retratações como indicativas de sua reputação geral. “Embora eu leve muito a sério as decisões das editoras sobre esses quatro artigos, eles são anomalias isoladas dentro de um conjunto de trabalhos muito maior e não explicam o crescimento das minhas métricas gerais de citação”, disse ele.
Atualização, 28 de maio de 2026, 3h14 UTC: O parágrafo sobre a edição especial em Inteligência Computacional e Neurociência foi atualizado com um esclarecimento que Gadekallu nos enviou após a publicação deste artigo.
Com apenas 22 votos contrários ao fim da jornada exaustiva, bancada do PL — especialmente a ala catarinense — revela a agenda ultraliberal que poderá orientar um eventual governo Flávio Bolsonaro em 2026
A aprovação, por ampla maioria, da PEC que extingue a escala de trabalho 6×1 na Câmara dos Deputados revelou muito mais do que um simples embate sobre jornada de trabalho. O placar político mostrou um isolamento significativo dos setores mais conservadores do Congresso diante de uma pauta de forte apelo social, especialmente entre trabalhadores submetidos a rotinas exaustivas e salários baixos. Segundo levantamento publicado peloUOL Notícias, apenas 22 deputados votaram contra a proposta.66x
O dado mais emblemático, porém, está na composição dessa minoria. Metade dos votos contrários veio do Partido Liberal (PL), legenda do pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro. Mais impressionante ainda é o fato de que nove desses parlamentares pertencem à bancada de Santa Catarina, transformando a seção catarinense do PL numa espécie de núcleo duro do bolsonarismo no Congresso Nacional.
A postura da bancada catarinense não surge do acaso. Santa Catarina consolidou-se, nos últimos anos, como um dos principais laboratórios políticos do bolsonarismo, reunindo parlamentares alinhados às pautas mais radicais da extrema direita brasileira. O fortalecimento da influência da família Bolsonaro no estado, inclusive com a articulação em torno de candidaturas ligadas diretamente ao clã bolsonarista, reforça esse perfil ideológico.
No debate sobre o fim da escala 6×1, esse alinhamento apareceu de forma cristalina. Enquanto a maioria da Câmara reconheceu o desgaste físico e mental provocado por jornadas contínuas e a necessidade de modernização das relações de trabalho, a ala mais radical do PL optou por se posicionar contra uma medida percebida por amplos setores da sociedade como civilizatória. O episódio ajuda a iluminar aquilo que muitas vezes fica obscurecido pelo discurso eleitoral genérico: quais interesses concretos seriam priorizados em um eventual governo liderado por Flávio Bolsonaro.
A votação também desmonta parte da tentativa recente de setores do PL de suavizar sua imagem junto ao eleitorado trabalhador. Mesmo após ensaios discursivos em defesa de modelos alternativos de jornada, integrantes da base governista acusaram o partido de tentar inviabilizar o avanço da proposta por meio de alterações consideradas desfiguradoras da PEC original.
No fim, a fotografia política deixada pela votação é bastante reveladora: de um lado, uma maioria parlamentar pressionada pelas demandas sociais por melhores condições de trabalho; do outro, um núcleo ideológico minoritário que segue apostando numa agenda ultraliberal e profundamente alinhada aos interesses patronais mais conservadores. A poucos meses da consolidação das alianças para as eleições de 2026, o episódio funciona quase como uma antecipação prática do que estaria em jogo numa eventual vitória presidencial do bolsonarismo.
Nos dias 09 a 11 de junho de 2026, o Núcleo de Pesquisas e Estudos Socioambientais da Universidade Federal Fluminense (NESA/UFF) realizará o III Seminário Internacional de Riscos e Desastres Socioambientais: revisitando trajetórias, construindo novos caminhos.
Trata-se de uma iniciativa que visa promover o diálogo interdisciplinar em torno dos desafios da gestão de desastres, especialmente diante do agravamento da crise climática e das determinações estruturais associadas à dinâmica de acumulação capitalista.
Em formato presencial, o evento será realizado no Auditório da UFF Campos (Rua Santiago Carvalhido Filho, 85 – Centro, Campos dos Goytacazes – RJ) e contará com uma programação que inclui conferências, mesas temáticas, exibição de vídeo, apresentações de trabalhos e atividade de campo. A proposta é reunir pesquisadoras(es), formuladoras(es) e gestoras(es) de políticas públicas, lideranças comunitárias, representantes de movimentos sociais e demais interessadas(os) no tema, fomentando a construção de estratégias comprometidas com as realidades vivenciadas pelas populações mais afetadas.
Acesse a programação completa do III Seminário Internacional de Riscos e Desastres Socioambientais [Aqui!].