Contaminação por plásticos é uma preocupação “negligenciada” em programas de gestão de resíduos alimentares, dizem especialista

Pesquisadores descobriram que os microplásticos podem persistir na compostagem, infiltrando-se nos solos agrícolas

Um caminhão descarrega resíduos orgânicos como parte de um projeto de compostagem na Califórnia. Cerca de um terço dos alimentos produzidos no mundo é desperdiçado a cada ano, segundo dados da ONU. Fotografia: Rich Pedroncelli/AP 

Por Ushika Kidd para “The Guardian”

A contaminação por plástico deve ser uma preocupação central nos esforços para lidar com o desperdício de alimentos, que ativistas consideram um dos problemas mais negligenciados da crise climática, afirmaram pesquisadores.

Isso apesar de, como afirma o chef, escritor e ativista Max La Manna, a gestão do desperdício alimentar ser “um dos poucos problemas climáticos em que todos saem ganhando”.

Segundo dados da ONU, cerca de um terço de todos os alimentos produzidos no mundo é desperdiçado anualmente. Nos EUA, 40% do desperdício alimentar vai para aterros sanitários, onde gera 30 milhões de toneladas métricas de CO₂ equivalente por ano – mais do queas emissões totais anuais de CO₂ de Cuba em 2024, que totalizaram 24,4 milhões de toneladas.

Um novo estudo, publicado na Nature Food , utilizou a modelagem de análise do ciclo de vida para comparar os impactos – em termos de clima, poluição por nutrientes e contaminação por plástico – de diferentes cenários de gestão de resíduos alimentares.

Os autores, da Universidade de Vermont, compararam os impactos climáticos anuais do descarte de resíduos alimentares em aterros sanitários com o impacto climático de métodos alternativos de reciclagem e descobriram que desviar os resíduos alimentares dos aterros sanitários reduziria os impactos climáticos entre 89% e 99%.

Esses cenários que não envolvem aterros sanitários também podem reduzir a poluição por nutrientes em corpos d’água – um processo chamado eutrofização que ocorre quando o excesso de nutrientes resulta na proliferação de algas.

Mas os pesquisadores também afirmaram que os microplásticos podem persistir na compostagem, o que poderia levar à contaminação de 20.000 toneladas de solos agrícolas nos EUA a cada ano. Até o momento, nenhum estudo analisou a “pegada da poluição plástica” de diferentes estratégias de gestão de resíduos alimentares em escala nacional.

Kate Porterfield, a autora principal, disse que o método era comparável a calcular a “pegada de carbono de um produto ou processo”. Essencialmente, os pesquisadores analisaram o processo de gestão do desperdício alimentar e “somaram as emissões de carbono em todas as etapas do ciclo de vida”, explicou ela.

Porterfield afirmou que a grande maioria dos alimentos desperdiçados que ainda estão embalados “estragam antes mesmo de chegar ao consumidor”. Uma das abordagens para a reciclagem de resíduos alimentares é o uso de um “desembalador” mecânico; as embalagens são então descartadas em aterros sanitários, enquanto os resíduos alimentares são destinados a “reutilização benéfica, como compostagem ou digestão anaeróbica”.

No entanto, eles descobriram que, mesmo que as tecnologias de separação de plástico fossem 99% eficientes, o desvio de resíduos alimentares dos aterros sanitários ainda poderia aumentar a poluição por microplásticos no solo em uma ordem de magnitude. “Sempre que você desvia resíduos alimentares, existe o risco de poluição por microplásticos”, porque “as pessoas não são perfeitas, as máquinas não são perfeitas e todos os nossos alimentos hoje em dia são embalados em plástico”.

Segundo o coautor Eric Roy, o estado americano de Vermont possui um dos mandatos estaduais de desvio de resíduos orgânicos mais ambiciosos dos EUA.

A Lei de Reciclagem Universal do estado está em pleno vigor desde 2020 e exige que os resíduos alimentares sejam desviados dos aterros sanitários. Isso se aplica a todas as residências e significa que restos de comida estão proibidos no lixo comum.

Os autores afirmaram que suas descobertas forneceram uma avaliação eficaz da possível ampliação dessas regulamentações em todo o país e apontaram para a necessidade de “mais atenção à questão dos plásticos” desde o início da criação dessas políticas.

Phil Holtam, cofundador e diretor da empresa social de combate ao desperdício alimentar Sussex Surplus, afirmou que existe “um certo equívoco de que [as embalagens de plástico] são desnecessárias” e que se trata de uma “troca necessária”, essencial para prolongar a vida útil dos produtos frescos, especialmente para os pequenos agricultores.

“É aí que reside a tensão, porque, como ambientalistas, queremos reduzir o desperdício alimentar, mas também queremos evitar o uso desnecessário de plásticos.”

La Manna, que trabalhou com agricultores no Reino Unido e também testemunhou o desperdício de alimentos enquanto trabalhava em um restaurante com estrela Michelin em Nova York, disse que as expectativas dos consumidores por alimentos com aparência perfeita estavam moldando quais produtos chegavam às prateleiras dos supermercados e agravando o problema do desperdício. “Alguns podem ser deformados, tortos, ligeiramente imperfeitos esteticamente… [o que é] um desafio para os supermercados, porque eles acreditam que os consumidores querem um pepino perfeito.”

“Estamos permitindo que o ‘perfeito’ se torne esse inimigo do bom.”

Roy sublinhou que em instituições como as escolas, “pode haver algumas regras bem-intencionadas que, na verdade, criam desafios à transição para longe dos alimentos altamente embalados”, porque “a segurança alimentar será sempre uma preocupação primordial”.

Porterfield afirmou que, em última análise, para reduzir a contaminação por plástico, os sistemas de gestão de resíduos alimentares precisam ser “o mais fáceis possível, para que as pessoas separem os materiais de forma eficiente e automática”.

Isso incluía abordar o fenômeno da “reciclagem por desejo”, disse Roy, em que as pessoas colocam itens não recicláveis ​​na reciclagem na esperança de que sejam reciclados.

Ele aconselhou o “ambientalismo à moda antiga” para reduzir o lixo em geral: “compre a granel”, “faça todo o possível para separar” e “na dúvida, coloque no aterro sanitário”.


Fonte: The Guardian

UFF Campos realiza debate sobre história, poder, memória militar e militarização da polícia

Evento promovido pelo LAHISPI reunirá pesquisadores para discutir a construção da memória sobre o golpe de 1964 e o processo de militarização da polícia no Rio de Janeiro durante a ditadura

O Laboratório de História do Poder e das Ideologias (LAHISPI) promoverá, na próxima quinta-feira, 13 de agosto, o evento “História & Poder: Conversa de Historiador”, reunindo pesquisadores para duas palestras que abordarão as relações entre poder, memória, Forças Armadas e militarização da segurança pública no Brasil.

A primeira palestra, intitulada “31 de março de 1964: a defesa de uma memória institucional pelos oficiais da reserva das Forças Armadas”, será ministrada pelo Prof. Dr. Fernando da Silva Rodrigues (UNIVERSO). A apresentação discutirá a construção e a defesa de uma determinada memória institucional sobre os acontecimentos de 1964 por oficiais da reserva das Forças Armadas, tema particularmente relevante para a compreensão das disputas em torno da memória política brasileira.

Na sequência, a Profª. Drª. Vivian Cristina da Silva Zampa (UNIVERSO) apresentará a palestra “Poder, política e monopólio da violência: a militarização da polícia no Rio de Janeiro entre 1964 e 1985”. A exposição abordará um aspecto central da história política e institucional fluminense: as relações entre poder estatal, aparato policial e militarização durante o período da ditadura militar.

A mediação ficará a cargo do Prof. Dr. Luiz Claudio Duarte (CHT/UFF).

Além de sua importância propriamente historiográfica, os dois temas permitem refletir sobre processos cujas consequências ultrapassam o período compreendido entre 1964 e 1985. As disputas pela memória do golpe e da ditadura, assim como a permanência de estruturas e concepções militarizadas de segurança pública, continuam ocupando espaço relevante no debate político e social brasileiro contemporâneo.

O encontro será realizado às 18h30 do dia 13 de agosto de 2026 (quinta-feira), no Auditório do campus XV de Novembro da UFF, localizado na Rua Santiago Carvalhido Filho, 80, Centro, em Campos dos Goytacazes.

A organização é do Laboratório de História do Poder e das Ideologias (LAHISPI). A atividade é aberta aos interessados, que estão convidados a participar desse importante espaço de debate sobre história, memória, poder e violência de Estado.

Dossiê reúne uma década de evidências científicas sobre a relação entre agrotóxicos e câncer

Produzido pela Naturaleza de Derechos, documento sistematiza estudos publicados entre 2015 e 2026 e reforça a urgência de rever a regulação dos agrotóxicos diante da exposição ambiental e alimentar das populações 

A organização argentina Naturaleza de Derechos acaba de apresentar o Dossiê de Evidências Científicas 2015-2026 — Agrotóxicos & Câncer, publicação que reúne e sistematiza as evidências produzidas ao longo da última década sobre a relação entre a exposição a agrotóxicos e diferentes processos carcinogênicos.

O mérito do trabalho está justamente em reunir diferentes linhas de investigação que, consideradas em conjunto, permitem observar a dimensão do problema. O dossiê incorpora estudos epidemiológicos em seres humanos, estudos de coorte e de caso-controle, bioensaios experimentais e pesquisas sobre genotoxicidade, alterações epigenéticas, estresse oxidativo, imunotoxicidade e biomarcadores, além de trabalhos sobre os efeitos da exposição simultânea a diferentes substâncias.

É preciso tratar esse debate sem eufemismos. Quando se fala em câncer, está em questão um dos mais graves problemas de saúde pública. E quando as evidências científicas apontam para substâncias associadas a processos carcinogênicos presentes no ambiente, na água, nos territórios onde as pessoas vivem e nos alimentos que consomem, o problema deixa de ser apenas ambiental ou ocupacional para envolver diretamente a saúde coletiva e a segurança alimentar.

Segundo a sistematização apresentada no dossiê, a literatura científica aponta associações entre a exposição a determinados agrotóxicos e diferentes tipos de câncer, incluindo neoplasias hematológicas, câncer colorretal, câncer de mama, câncer de tireoide e tumores do sistema nervoso central. Ao mesmo tempo, estudos experimentais e mecanísticos vêm identificando processos biológicos relacionados à carcinogênese, ampliando a compreensão sobre as diferentes maneiras pelas quais essas substâncias podem produzir danos celulares.

Outro aspecto importante destacado pela publicação é que a exposição humana não ocorre de maneira isolada. Na vida real, as pessoas entram em contato com diferentes princípios ativos, formulações comerciais, metabólitos e coformulantes, por múltiplas vias e muitas vezes simultaneamente. Por isso, pesquisas mais recentes têm avançado na avaliação das misturas e de cenários de exposição mais próximos daqueles efetivamente experimentados pelas populações.

A questão ganha ainda maior relevância quando se considera a alimentação. O dossiê dedica um capítulo específico à exposição alimentar, relacionando as evidências científicas sobre câncer aos resultados de El Plato Fumigado 2024, também produzido pela Naturaleza de Derechos a partir de dados oficiais de monitoramento de resíduos do Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina (SENASA).

Os resultados de El Plato Fumigado 2024 tornam o problema bastante concreto: substâncias que despertam preocupação científica por seus possíveis efeitos sobre a saúde também aparecem como resíduos em alimentos comercializados e consumidos pela população argentina. Portanto, não estamos diante apenas de uma discussão abstrata sobre toxicologia, mas de uma questão diretamente relacionada ao funcionamento cotidiano do sistema alimentar.

Nesse contexto, o novo dossiê reforça a necessidade de uma reavaliação regulatória abrangente e periódica dos agrotóxicos pelo SENASA, incorporando as evidências científicas mais recentes. Essa revisão deveria considerar não apenas os princípios ativos isoladamente, mas também as formulações comerciais, metabólitos, coformulantes, misturas e as diferentes vias pelas quais ocorre a exposição humana.

A discussão ultrapassa o caso argentino. Para um país como o Brasil, que possui extensas áreas agrícolas submetidas ao uso intensivo de agrotóxicos, as questões levantadas pela Naturaleza de Derechos deveriam receber atenção especial. Afinal, os possíveis impactos não se restringem aos trabalhadores que aplicam essas substâncias, alcançando também populações rurais, comunidades próximas às áreas agrícolas, recursos hídricos potencialmente contaminados e consumidores expostos por meio dos alimentos.

O Dossiê de Evidências Científicas 2015-2026 — Agrotóxicos & Câncer oferece, assim, uma contribuição importante para um debate que não pode continuar sendo tratado como secundário. Quando diferentes linhas de investigação acumulam evidências sobre possíveis relações entre determinadas exposições e processos carcinogênicos, a prevenção precisa ocupar posição central nas políticas de saúde pública e nos sistemas regulatórios.

A verdade é que esperar que todas as dúvidas científicas desapareçam antes de adotar medidas preventivas, significa de forma objetiva, transferir para a população os riscos decorrentes da incerteza. Quando a exposição ocorre pelo ambiente, pela água, pelo trabalho e pelos alimentos, cabe aos órgãos reguladores acompanhar o avanço do conhecimento científico e adotar medidas capazes de proteger efetivamente a saúde humana.

A mensagem que emerge do trabalho produzido pela Naturaleza de Derechos é clara: diante do acúmulo de evidências científicas e da exposição cotidiana das populações, a prevenção não pode ser tratada como uma alternativa facultativa. Ela deve constituir uma obrigação sanitária e regulatória, na qual a proteção da saúde humana prevaleça sobre os interesses econômicos associados à manutenção do uso de substâncias sobre as quais pesam evidências relevantes de risco.

Bolsas defasadas, ciência precarizada: quanto custa formar quem produz o futuro do Brasil?

Valores das bolsas de mestrado e doutorado perderam dramaticamente poder de compra. Recuperar o patamar real de 1995 exigiria bolsas de R$ 4.712 para o mestrado e R$ 6.984 para o doutorado — muito acima dos valores atualmente pagos

O gráfico mostrado abaixo oferece uma imagem bastante eloquente de um problema que se arrasta há décadas na ciência brasileira: a brutal perda do poder de compra das bolsas de pós-graduação. Quando os valores históricos são corrigidos pelo IPCA, fica evidente que mestrandos e doutorandos brasileiros recebem hoje muito menos, em termos reais, do que recebiam seus colegas três décadas atrás.

Segundo os valores apresentados no gráfico, para que as bolsas recuperassem simplesmente o poder de compra que possuíam em 1995, uma bolsa de mestrado deveria estar hoje em aproximadamente R$ 4.712, enquanto uma bolsa de doutorado deveria alcançar cerca de R$ 6.984. A comparação com os valores atualmente praticados — R$ 2.100 para o mestrado e R$ 3.100 para o doutorado — mostra a dimensão da defasagem, deixando claro que não estamos falando de pequenas diferenças que poderiam ser explicadas por oscilações conjunturais, mas de uma redução histórica muito expressiva da remuneração real destinada justamente aos estudantes responsáveis por uma parcela considerável da produção científica brasileira. 

Há outro dado revelador no gráfico: mesmo para que as bolsas simplesmente retornassem ao poder de compra que possuíam em 2013, seria necessário um reajuste de aproximadamente 42%. Isso mostra que a deterioração não é apenas resultado de uma comparação distante com a situação existente três décadas atrás, pois uma parcela importante dessa perda ocorreu em período relativamente recente e ainda não foi revertida pelos reajustes concedidos nos últimos anos.

Bolsa de pesquisa não é favor

É necessário romper com uma concepção ainda muito presente no debate público brasileiro segundo a qual uma bolsa seria uma espécie de auxílio concedido a alguém que está simplesmente “estudando”. Essa interpretação ignora completamente como funciona a pós-graduação e, principalmente, como funciona a produção científica dentro das universidades e dos institutos de pesquisa, onde mestrandos e doutorandos realizam trabalho científico, participam de projetos, coletam e analisam dados, trabalham em laboratórios, realizam pesquisas de campo, escrevem artigos, apresentam resultados em congressos e frequentemente contribuem para atividades de ensino e extensão.

Em inúmeras áreas, uma parcela substancial da produção científica brasileira depende diretamente desse trabalho, razão pela qual pagar bolsas adequadas não representa uma concessão aos pós-graduandos, mas um investimento na própria infraestrutura humana da ciência brasileira. A situação se torna ainda mais contraditória quando se exige desses estudantes dedicação integral ou praticamente integral às suas pesquisas, pois é difícil imaginar como alguém poderá dedicar-se plenamente à produção científica recebendo um valor insuficiente para assegurar condições materiais minimamente adequadas de existência.

O resultado previsível é que muitos pós-graduandos precisam procurar outras fontes de renda para pagar aluguel, alimentação, transporte e as demais despesas cotidianas. Cria-se assim uma contradição evidente: o sistema exige dedicação à pesquisa, mas oferece condições financeiras que frequentemente obrigam o pesquisador em formação a retirar tempo justamente da atividade para a qual recebeu a bolsa.

O Brasil não é um país pobre

Existe ainda uma questão política que não deveria ser evitada, pois frequentemente ouvimos que o Brasil simplesmente “não possui recursos” para remunerar adequadamente seus pesquisadores em formação. Essa afirmação precisa ser confrontada com a dimensão real da economia brasileira, que se encontra entre as dez maiores do planeta, tornando difícil atribuir a precariedade das bolsas exclusivamente à ausência de recursos econômicos.

Não estamos, portanto, discutindo a incapacidade absoluta de uma economia pobre para financiar sua ciência, mas as prioridades adotadas na distribuição dos recursos produzidos por uma das maiores economias do mundo. Quando uma economia desse porte mantém durante décadas bolsas científicas fortemente depreciadas, a pergunta necessária passa a ser qual lugar a formação científica ocupa efetivamente entre as prioridades nacionais e por que investimentos considerados indispensáveis em outros setores raramente são submetidos ao mesmo discurso permanente de escassez utilizado quando se trata de financiar universidades, pesquisa científica e formação de pesquisadores.

Essa contradição tampouco aparece apenas nas bolsas, pois se manifesta na remuneração do trabalho, no financiamento das universidades públicas, na infraestrutura científica, na manutenção de laboratórios e na capacidade de absorção profissional dos mestres e doutores que o próprio país forma. O resultado é uma política contraditória na qual recursos públicos são investidos durante anos na formação de pesquisadores altamente qualificados sem que, posteriormente, sejam necessariamente oferecidas condições adequadas para que permaneçam produzindo conhecimento no Brasil.

A precarização também seleciona quem pode ser cientista

Há ainda uma consequência menos evidente, mas particularmente perversa: bolsas insuficientes funcionam como mecanismo de seleção socioeconômica dentro da própria ciência. Um estudante proveniente de uma família capaz de complementar sua renda pode conseguir permanecer durante quatro anos realizando um doutorado com uma bolsa defasada, enquanto alguém proveniente de uma família de baixa renda, que precisa pagar aluguel, alimentação, transporte e outras despesas sem qualquer rede familiar de proteção financeira, pode simplesmente considerar inviável seguir a mesma trajetória.

Nesse sentido, a precarização das bolsas não reduz apenas a qualidade das condições de trabalho científico, mas também pode determinar quem possui condições materiais de permanecer na carreira científica. O problema deixa então de ser exclusivamente orçamentário e passa a envolver a própria democratização da universidade e do sistema brasileiro de ciência e tecnologia, já que ampliar o acesso à pós-graduação sem garantir condições materiais de permanência pode produzir uma democratização apenas parcial.

Esse aspecto ganha importância adicional quando se considera a ampliação, nas últimas décadas, do acesso de estudantes provenientes das camadas populares às universidades públicas brasileiras. Se a graduação se torna progressivamente mais acessível, mas a pós-graduação continua dependendo implicitamente da existência de algum suporte financeiro familiar, cria-se uma nova barreira justamente no momento em que esses estudantes poderiam avançar para a formação científica de mais alto nível.

Não basta formar pesquisadores; é preciso permitir que eles pesquisem

CAPES e CNPq desempenharam historicamente um papel decisivo na construção do sistema brasileiro de pós-graduação e pesquisa, e poucos países conseguiram construir, em algumas décadas, uma estrutura de formação de mestres e doutores com a dimensão alcançada pelo Brasil. Essa conquista institucional, entretanto, não pode ser sustentada indefinidamente pela precarização daqueles que efetivamente realizam grande parte da pesquisa produzida nas universidades e nos institutos brasileiros.

Por isso, é necessário estabelecer uma política permanente de valorização das bolsas, preferencialmente acompanhada de mecanismos regulares de atualização que impeçam que longos períodos sem reajuste voltem a corroer seu poder de compra. Recuperar os valores históricos das bolsas não constituiria luxo nem privilégio corporativo, mas o reconhecimento de que um país que pretende produzir ciência, desenvolver tecnologia e reduzir sua dependência científica e tecnológica precisa oferecer condições dignas às pessoas responsáveis por realizar esse trabalho.

Finalmente, uma questão que deveria incomodar gestores públicos, dirigentes universitários, sociedades científicas e todos aqueles que afirmam defender o desenvolvimento científico brasileiro: se em 1995 o Brasil conseguia sustentar bolsas cujo poder de compra corresponderia hoje a aproximadamente R$ 4.712 no mestrado e R$ 6.984 no doutorado, por que uma economia muito maior aceita pagar, três décadas depois, valores reais tão inferiores? A explicação dificilmente poderá ser encontrada simplesmente na suposta pobreza do Brasil; ela terá de ser procurada nas prioridades políticas e orçamentárias que o país estabeleceu — e que continua escolhendo manter.

De Marighella a Lacerda: Mário Magalhães e a coragem de enfrentar grandes personagens da história brasileira

Conheço o jornalista e escritor Mário Magalhães desde a década de 1980 e, desde nossos primeiros encontros, pude notar sua capacidade analítica e sua velocidade de raciocínio. Ao longo dos anos, primeiro como jornalista e depois também como escritor, Mário mostrou que o tempo o ajudou a desenvolver a devida paciência diante das tarefas que tinha à mão, fosse no ambiente ruidoso de um campo de futebol ou no silêncio de um quarto de seu apartamento.

Da pena de Mário Magalhães já saíram grandes reportagens, capítulos de livros e obras magistrais, como Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, lançado originalmente em 2012 e que, desde então, teve diversas reedições.

Agora, acabo de receber diretamente de Mário Magalhães o convite para o lançamento do primeiro volume de sua mais nova obra, Lacerda: Coração de tempestade (1914-1955), que ocorrerá no dia 26 de agosto, na Livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio de Janeiro (ver abaixo).

Essa obra, aparentemente ainda mais volumosa do que a biografia de Carlos Marighella, revela outra faceta de Mário Magalhães: sua disposição destemida para abraçar grandes desafios intelectuais. E, convenhamos, depois de enfrentar a tarefa extremamente laboriosa de reconstruir a vida e a trajetória de Carlos Marighella, escolher como personagem seguinte ninguém menos que Carlos Lacerda demonstra uma disposição para o trabalho de pesquisa e para o enfrentamento das controvérsias da história brasileira que poucos teriam coragem de assumir.

Há ainda algo particularmente interessante nessa passagem de Marighella a Lacerda. Trata-se de personagens situados em campos políticos radicalmente distintos e que atravessaram, cada um à sua maneira, alguns dos momentos mais conflituosos da história política brasileira no século XX. Biografar ambos exige não apenas uma enorme capacidade de pesquisa, mas também disposição para enfrentar documentos, versões conflitantes, paixões políticas e mitologias construídas ao redor de seus personagens. É justamente aí que o trabalho de Mário Magalhães ganha uma dimensão especial.

Por isso, recomendo aos leitores que estiverem na cidade do Rio de Janeiro no dia 26 de agosto que não percam a oportunidade de ir até a Livraria da Travessa, em Ipanema, para conhecer Lacerda: Coração de tempestade, comprar o livro e, de quebra, trocar um dedo de prosa com Mário Magalhães.

Afinal, Mário reúne duas características fundamentais para um grande biógrafo: a capacidade de observar e narrar personagens e acontecimentos com fina ironia e a permanente disposição para uma boa conversa. E, considerando os personagens que resolveu enfrentar em suas biografias, assunto certamente não faltará.

Estudo registra recorde de anomalias em peixes no litoral do ES e aponta desastre de Mariana como hipótese

60,5% dos peixes da espécie Stellifer naso analisados pelos cientistas apresentaram malformações nos otólitos, estruturas localizadas na cabeça

Estudo analisou 38 indivíduos da espécie peixes da espécie Stellifer naso. Foto: Rafael Lima Oliveira / Acervo Pesquisadores 

No litoral do Espírito Santo, cientistas verificaram a maior taxa de anomalias já documentadas em peixes costeiros de todo o Brasil, de acordo com a literatura científica disponível. No local, 60,5% dos peixes da espécie Stellifer naso têm deformidades nos otólitos sagitais, estruturas calcificadas localizadas na cabeça, assemelhadas a pequenas “pedrinhas”, que servem para a orientação no espaço e percepção sonora.

Publicado na revista Ocean and Coastal Research, o estudo analisou os otólitos de 38 espécimes que foram coletados na foz do Rio São Mateus, nas proximidades do município capixaba de Conceição da Barra, em maio de 2022. A equipe encontrou anomalias em duas regiões específicas dos otólitos – a porção ventral e a margem caudal do sulco acústico –, sinalizando um padrão específico nas alterações morfológicas.

Os resultados foram comparados aos percentuais relatados em estudos anteriores com outras espécies – para se ter uma ideia, a maior taxa de deformações em otólitos observada até então havia sido de 27,11%, referente ao bagre Cathorops spixii.

A alta incidência de malformações pode estar relacionada à contaminação ambiental severa e prolongada causada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), no ano de 2015. O desastre liberou toneladas de rejeitos de mineração de ferro no Rio Doce, que acabaram se depositando no sedimento oceânico. Peixes como o Stellifer naso, que vivem no fundo do mar em águas rasas, ficam expostos aos poluentes presentes na lama e na areia.

“Comparando com outros trabalhos similares no Brasil e também expandindo para outras regiões, o nosso trabalho teve um resultado bem acima da média em quantidade de peixes com anomalias, o que possivelmente está relacionado às marcas do desastre”, destaca o pesquisador Jonas Andrade-Santos, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que assina o artigo com Marcelo R. Britto, da mesma instituição, e com Rafael Menezes, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Os autores observam que a persistência desse cenário evidencia a lentidão na recuperação do ecossistema costeiro do Espírito Santo. Os peixes utilizados na pesquisa foram coletados quase sete anos após o rompimento da barragem, e ainda assim apresentaram altas taxas de malformações.

A equipe pondera que a ausência de amostras de peixes coletadas na região antes de 2015 impossibilitou uma comparação exata e irrefutável entre os cenários pré e pós-tragédia. Para Andrade, isso mostra a urgência de se financiar coleções biológicas regionais de referência em universidades locais, para que futuros estudos possam avaliar efeitos precisos da contaminação ambiental sobre os organismos.

Agora, os cientistas planejam compreender a fundo a gravidade da contaminação a partir de análises químicas para identificar a composição dos minerais retidos nos otólitos. Eles pretendem expandir o escopo do estudo para observar anomalias externas, como deformações nas nadadeiras dos peixes.

A equipe também buscará atuar em parceria com instituições locais focadas na recuperação do ecossistema e planeja repetir a pesquisa na região daqui a cinco ou dez anos. O objetivo a longo prazo é monitorar a área de forma contínua para avaliar se o ambiente costeiro impactado apresentará algum sinal positivo de recuperação com o passar do tempo. “Mais do que um diagnóstico de contaminação, o estudo reforça a necessidade de diálogo entre a ciência e a sociedade para garantir a segurança do ecossistema e das populações locais”, conclui Jonas Andrade.


Fonte: Agência Bori

Cinema na UENF: antes de anunciar cursos, é preciso construir o Colégio de Aplicação

Ao anunciar um curso técnico de Cinema e Audiovisual para uma unidade cujo projeto pedagógico ainda não foi discutido pelos colegiados, a Reitoria da UENF corre o risco de inverter prioridades e transformar o legado de Darcy Ribeiro em justificativa para decisões que deveriam resultar de planejamento, debate acadêmico e construção coletiva.

A declaração da reitora da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Rosana Rodrigues, durante a abertura do II Festival Internacional Goitacá de Cinema, merece ser examinada com atenção. Segundo a reitora, Campos dos Goytacazes deverá ganhar “em breve” um curso técnico de Cinema e Audiovisual, a ser instalado no Colégio Universitário de Aplicação da Uenf, que deverá funcionar nas instalações da antiga Escola Agrícola Antônio Sarlo. Na mesma ocasião, Rosana Rodrigues vinculou a iniciativa ao desejo de Darcy Ribeiro de implantar uma Escola de Cinema na Universidade e afirmou que, nos primeiros anos da Uenf, talvez tenha faltado “maturidade suficiente” para acolher aquele projeto.

A possibilidade de a UENF desenvolver atividades permanentes nas áreas de cinema e audiovisual pode, em princípio, ser recebida positivamente. A universidade nasceu sob a inspiração de Darcy Ribeiro, que efetivamente pretendia incorporar uma Escola de Cinema ao projeto institucional que havia concebido. Recuperar essa dimensão cultural e educacional da proposta original pode representar um enriquecimento da UENF e produzir impactos importantes para Campos dos Goytacazes e para o Norte Fluminense. O problema, portanto, não está necessariamente na ideia de criar um curso técnico de Cinema e Audiovisual, mas na forma pela qual sua criação está sendo anunciada e, sobretudo, na aparente inversão da ordem que deveria orientar uma decisão dessa natureza.

A primeira pergunta a ser feita é bastante simples: qual Colégio de Aplicação receberá esse curso? A questão evidentemente não diz respeito à existência de um prédio, pois o espaço físico existe e foi incorporado à Uenf. O que ainda precisa ser estabelecido é qual instituição educacional deverá existir dentro dele. Até onde essa questão foi discutida nos colegiados da Universidade, ainda não existe um projeto político-pedagógico amplamente debatido que estabeleça claramente qual será a natureza do Colégio Universitário de Aplicação, quais serão seus objetivos educacionais, que níveis e modalidades de ensino oferecerá, qual será sua relação com os cursos de graduação e pós-graduação, como serão incorporadas as atividades de pesquisa e extensão e, principalmente, que papel essa nova unidade deverá desempenhar na formação de professores e na experimentação pedagógica.

É justamente a ausência dessa definição institucional construída coletivamente que torna particularmente estranho o anúncio de que um curso técnico específico deverá funcionar “em breve” no Colégio de Aplicação. A questão que se coloca é elementar: como definir um curso que fará parte de uma instituição cuja concepção pedagógica ainda não foi estabelecida? Quando a ordem é essa, surge a impressão de que primeiro se definem cursos, atividades e ocupações do espaço físico e, posteriormente, procura-se construir um projeto pedagógico capaz de acomodar decisões previamente tomadas.

Primeiro o curso, depois o projeto pedagógico?

Um Colégio de Aplicação não deveria ser simplesmente um edifício pertencente a uma universidade no qual diferentes cursos são instalados à medida que aparecem oportunidades ou interesses circunstanciais. Historicamente, os colégios de aplicação vinculados às universidades públicas brasileiras possuem funções muito mais complexas, pois, além de oferecerem educação básica, constituem espaços de formação inicial e continuada de professores, realização de estágios, desenvolvimento e avaliação de metodologias pedagógicas, pesquisa educacional, extensão universitária e experimentação de novas práticas de ensino. Sua própria existência pressupõe, portanto, uma articulação orgânica entre educação básica e universidade.

Por essa razão, a discussão sobre quais cursos e modalidades de ensino deverão funcionar em seu interior deveria decorrer de seu projeto pedagógico, e não antecedê-lo. Não se trata, novamente, de ser contrário à criação de um curso técnico de Cinema e Audiovisual, mas de perguntar de qual concepção de Colégio de Aplicação esse curso resulta e qual função deverá cumprir dentro de um projeto educacional mais amplo. Seria necessário saber como essa formação dialogará com a educação básica, que centros, laboratórios e cursos da  Uenf participarão de sua concepção, quem constituirá seu corpo docente, quais serão suas instalações e equipamentos, qual será sua matriz curricular, como será financiado, qual será a forma de ingresso dos estudantes e de que maneira se relacionará com pesquisa, extensão e formação de professores.

Essas não são questões burocráticas que possam ser resolvidas depois. Elas constituem precisamente aquilo que diferencia a criação de uma instituição educacional da simples abertura de um curso. Se o futuro Colégio de Aplicação pretende ser efetivamente uma unidade universitária de educação, pesquisa, extensão, formação docente e experimentação pedagógica, sua identidade precisa preceder a definição das atividades que serão colocadas dentro dele.

A Escola de Cinema que Darcy realmente imaginou

A referência feita pela reitora ao desejo de Darcy Ribeiro de criar uma Escola de Cinema acrescenta uma dimensão particularmente importante ao problema. Nesse caso, sequer precisamos especular sobre o que Darcy pensava, porque ele deixou isso registrado. Em abril de 1996, no artigo “A universidade do 3º milênio“, publicado na Folha de S.Paulo, Darcy fez um balanço extremamente revelador da Universidade que havia ajudado a conceber e confirmou seu empenho na implantação de uma Escola de Cinema e Televisão.

Mas há um detalhe fundamental: a Escola de Cinema não aparece isoladamente no pensamento de Darcy. No mesmo texto, ele menciona outros projetos para os quais havia buscado recursos, entre eles o Herbarium, um Seminário de Estudos Internacionais e uma Faculdade de Educação e Comunicação, esta última relacionada à formação de professores e à articulação entre educação, comunicação, informática e meios audiovisuais. A Escola de Cinema, portanto, integrava uma arquitetura institucional muito mais abrangente e estava relacionada a uma determinada concepção sobre o papel que a Uenf deveria desempenhar na produção do conhecimento, na formação profissional e no desenvolvimento da sociedade.

Esse contexto é particularmente importante porque impede que a referência à antiga Escola de Cinema seja reduzida à ideia de que “Darcy queria cinema na Uenf”. Evidentemente queria, mas a pergunta relevante é por que queria, de que maneira pretendia institucionalizar essa proposta e como ela se articulava ao restante da Universidade que estava concebendo. Retirar a Escola de Cinema dessa arquitetura intelectual e institucional e transformá-la simplesmente em antecedente histórico de um curso técnico contemporâneo significa correr o risco de preservar a ideia enquanto se perde o método que lhe dava sentido.

O fracasso anterior também precisa ser estudado

Há ainda uma questão que não deveria ser evitada: por que a Escola de Cinema imaginada nos primeiros anos da  Uenf  não conseguiu se consolidar? A tentativa não fracassou simplesmente por ausência de ambição intelectual ou pela inexistência de pessoas qualificadas. Nomes reconhecidos do campo cinematográfico como Geraldo Sarno e Orlando Sena foram atraídos para participar daquele projeto. Ainda assim, a Escola de Cinema não se institucionalizou. Por isso, afirmar que teria faltado “maturidade suficiente” à  universidade para acolher a Escola de Cinema parece uma explicação excessivamente simples para um processo que merece ser estudado com muito mais cuidado. Faltaram condições institucionais? Houve problemas de financiamento? O projeto encontrou dificuldades para se integrar à estrutura acadêmica que estava sendo construída? Existiam conflitos entre diferentes concepções sobre o perfil da nascente Universidade? Houve obstáculos para constituir e manter um corpo permanente de professores, técnicos e pesquisadores? Que papel desempenharam as escolhas administrativas feitas naquele momento?

Responder a essas perguntas não representa um exercício de arqueologia institucional. Ao contrário, constitui uma condição importante para que uma nova iniciativa não reproduza dificuldades já experimentadas pela própria Universidade. Uma instituição que pretende recuperar um projeto fracassado deveria começar estudando as razões de seu fracasso. A experiência histórica só se transforma em aprendizado quando seus problemas são examinados, e não quando são convertidos em uma narrativa simplificada sobre oportunidades que teriam sido perdidas.

Não existia em Darcy uma lógica de “criação pela criação”

Há, portanto, um risco de que a invocação da figura de Darcy Ribeiro acabe substituindo uma análise mais cuidadosa da própria experiência histórica da UENF. Recuperar o nome de Darcy sem recuperar o método pelo qual ele pensava a construção institucional pode produzir uma espécie de “darcynismo” meramente cerimonial, no qual determinadas ideias do fundador são lembradas quando ajudam a legitimar iniciativas da administração, enquanto outras dimensões fundamentais de seu pensamento deixam de orientar concretamente as práticas de gestão.

Darcy Ribeiro possuía, sem dúvida, um espírito arrojado e não hesitava em propor instituições e experiências educacionais inovadoras. Mas dificilmente conceberia a criação de uma nova estrutura acadêmica como um fim em si mesmo, desvinculada dos objetivos estratégicos atribuídos à Uenf e de sua contribuição para o desenvolvimento econômico, social, científico, educacional e cultural do Norte Fluminense.  A ousadia de Darcy Ribeiro não deveria ser confundida, portanto, com uma espécie de método de “criação pela criação”. Ao contrário, a inovação institucional concebida por Darcy estava associada a uma determinada visão de universidade e à função transformadora que esta deveria desempenhar sobre o território em que estava inserida.

O próprio artigo de 1996 reforça essa interpretação. Darcy descrevia a Uenf como uma universidade concebida para preparar o Brasil para dominar as ciências e tecnologias que estruturariam o futuro.  Para Darcy, a Uenf se tratava de uma universidade criada com finalidade estratégica e não de uma coleção de cursos ou estruturas independentes entre si. Por isso, se a atual administração pretende recorrer ao desejo de Darcy de criar uma Escola de Cinema para justificar a implantação de um curso técnico de Cinema e Audiovisual, deveria responder também a uma questão essencialmente darcyniana: de que maneira esse curso se articula com a missão estratégica da Uenf, com o projeto pedagógico ainda por construir de seu Colégio de Aplicação e com as necessidades econômicas, sociais, educacionais e culturais do Norte Fluminense?

O alerta de Darcy sobre os órgãos-meio e os órgãos-fim

O artigo de 1996 contém ainda uma advertência que deveria receber atenção especial da atual administração. Ao fazer um balanço dos primeiros anos da universidade, Darcy Ribeiro reconheceu ter cometido aquilo que chamou de um “erro fatal” na estruturação institucional da UENF e lamentou o domínio dos órgãos-meio sobre os órgãos-fim. Mais significativo ainda, associou problemas institucionais ao afastamento de professores que haviam sido atraídos para Campos dos Goytacazes justamente para implantar laboratórios de pesquisa e programas de pós-graduação. Essa reflexão estabelece uma conexão direta com outra advertência conhecida de Darcy Ribeiro, feita na aula inaugural da universidade. Naquela ocasião, ele alertou a comunidade universitária para que não se deixasse inebriar pelos prédios novos, laboratórios, equipamentos e demais estruturas materiais que estavam sendo construídas. O essencial eram as pessoas, pois uma universidade não existe simplesmente porque possui edifícios e equipamentos; ela existe porque uma comunidade de professores, técnicos, estudantes e trabalhadores a constrói diariamente.

As duas reflexões precisam ser lidas conjuntamente. O Darcy  Ribeiro de 1996 já havia aprendido, a partir da própria experiência da Uenf , que estruturas administrativas inadequadas poderiam comprometer projetos acadêmicos e afastar justamente as pessoas necessárias para realizá-los.  A advertência de Darcy sobre prédios e equipamentos, portanto, não era uma frase ornamental sobre a importância abstrata das pessoas.  Essa advertência continha a defesa de uma concepção profundamente institucional sobre como universidades são construídas e sobre o lugar que sua comunidade acadêmica deve ocupar nesse processo.

Um prédio não é um Colégio de Aplicação

No caso do Colégio de Aplicação, essa advertência assume uma atualidade evidente. A incorporação da antiga Escola Agrícola Antônio Sarlo oferece à UENF um patrimônio físico importante e abre possibilidades educacionais igualmente relevantes, mas possuir o espaço físico não significa possuir um Colégio de Aplicação. Para que este efetivamente exista, será necessário construí-lo acadêmica e pedagogicamente, definindo coletivamente suas finalidades antes de simplesmente ocupá-lo administrativamente.

Isso pressupõe discutir sua concepção dentro da Uenf , ouvir seus centros e colegiados, envolver os professores que trabalham com educação, incorporar as licenciaturas, os servidores técnico-administrativos e os estudantes e dialogar com os setores da sociedade que serão diretamente afetados pela criação da nova instituição.  Assim, será somente a partir dessa construção coletiva será possível definir de maneira coerente quais cursos, modalidades de ensino e atividades deverão integrá-lo.

A questão assume ainda maior importância porque um Colégio de Aplicação não deveria funcionar como espaço residual para acomodar iniciativas que não encontram lugar na estrutura existente da Universidade. A criação de um colégio de aplicação deverá representar uma oportunidade para a Uenf pensar sua relação com a educação básica, com a formação docente e com os desafios educacionais do Norte Fluminense. Desperdiçar essa oportunidade pela ausência de um projeto pedagógico construído coletivamente seria transformar uma iniciativa potencialmente estratégica em simples ocupação de um novo espaço físico.

A melhor homenagem a Darcy é praticar Darcy

Um festival internacional de cinema pode representar uma excelente oportunidade cultural para Campos dos Goytacazes e para a própria Uenf .   Um evento deste tipo pode aproximar a  universidade de cineastas, produtores, estudantes e movimentos culturais e estimular uma discussão séria sobre a presença do audiovisual na instituição. Da mesma forma, um curso técnico de Cinema e Audiovisual poderá perfeitamente vir a fazer parte do futuro Colégio de Aplicação e poderá se transformar em uma iniciativa inovadora e relevante para o Norte Fluminense. Mas um festival não substitui um projeto acadêmico, assim como a memória de uma Escola de Cinema imaginada por Darcy Ribeiro não constitui, por si mesma, um projeto pedagógico para um curso técnico de Cinema e Audiovisual.

Se a atual gestão da Uenf deseja realmente recuperar o espírito do projeto de Darcy, deveria começar justamente por sua recomendação mais elementar: colocar as pessoas no centro da construção da universidade. Na prática, isso significa substituir a lógica do anúncio pela lógica da discussão, decisões apresentadas como encaminhadas pela elaboração colegiada e a simples ocupação de espaços físicos pela construção de instituições acadêmicas dotadas de identidade, finalidade e legitimidade. O curso de Cinema e Audiovisual poderá surgir desse processo, mas deveria chegar como consequência de uma concepção educacional previamente construída, e não aparecer no início como um fato aparentemente consumado ao qual o futuro projeto pedagógico terá de se adaptar.

Em minha opinião, existe aí uma ironia histórica que não deveria passar despercebida. No mesmo artigo de 1996 em que reafirmava seu compromisso com a criação da Escola de Cinema, Darcy Ribeiro fazia uma dura autocrítica sobre escolhas realizadas na implantação da Uenf. Ele demonstrava, assim, que fidelidade a um projeto não significa repetir indefinidamente suas ideias originais, mas possuir capacidade para aprender com seus erros, rever caminhos e preservar os objetivos fundamentais que justificaram sua criação.

Por isso, a melhor homenagem que os atuais gestores da Uenf podem prestar a Darcy Ribeiro não consiste em repetir seu nome em cerimônias, recuperar seletivamente seus projetos inconclusos ou transformar suas ideias em justificativas históricas para decisões presentes. Consiste em praticar aquilo que Darcy ensinou: construir instituições com finalidade estratégica, submeter grandes projetos ao debate, colocar os órgãos-fim acima dos órgãos-meio e reconhecer que nenhuma universidade se sustenta apenas por prédios, equipamentos ou anúncios. Se a Uenf pretende continuar sendo a universidade que Darcy imaginou para transformar o Norte Fluminense e contribuir para o desenvolvimento do país, será preciso lembrar que uma universidade não é aquilo que seus gestores anunciam que ela será, mas aquilo que sua comunidade universitária consegue construir coletivamente todos os dias.

Há, finalmente, um problema de credibilidade institucional que não pode ser ignorado: anunciar publicamente para “em breve” a criação de um curso quando  ainda não foram cumpridos passos elementares para sua concretização — começando pela discussão colegiada do próprio projeto pedagógico da unidade que deverá abrigá-lo — cria expectativas que a universidade poderá não ser capaz de cumprir nos prazos sugeridos. Quando anúncios antecedem projetos, decisões colegiadas, condições acadêmicas e planejamento institucional, há a criação objetiva do risco de transformar iniciativas potencialmente relevantes em promessas e, pela repetição desse procedimento, comprometer a confiança da própria comunidade universitária e da sociedade na palavra institucional da universidade.

Novo acidente da CSN em Congonhas mostra que as mineradoras continuam brincando com a tragédia em Minas Gerais

Vazamento de minério atinge cursos d’água e se soma a uma sequência de incidentes ocorridos em Congonhas em 2026. Depois de Mariana e Brumadinho, a pergunta inevitável é: quantos sinais ainda serão necessários para que o princípio da precaução prevaleça sobre os interesses das mineradoras?

Um novo acidente envolvendo a mineração em Congonhas, Minas Gerais, deveria acender todas as luzes vermelhas dos órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental e pela segurança das estruturas minerárias. Na quinta-feira, 6 de agosto, ocorreu um vazamento em uma tubulação utilizada pela CSN Mineração para transportar pellet feed na Mina Casa de Pedra. Segundo informações divulgadas após fiscalização, o material extravasado alcançou o córrego Maria José, e a ocorrência foi caracterizada como acidente ambiental. A empresa deverá ser autuada por dano ambiental.

A CSN procurou minimizar o episódio, afirmando que teria ocorrido um vazamento “pontual” e “limitado”, rapidamente interrompido após a identificação do problema. O ponto fundamental, entretanto, não é apenas a quantidade de material que escapou desta vez, mas a recorrência de incidentes em uma região intensamente ocupada pela mineração e na qual estruturas industriais e áreas urbanas convivem perigosamente próximas.

Este já é o quarto incidente envolvendo estruturas de mineradoras registrado em Congonhas somente em 2026. Os três anteriores ocorreram em janeiro, período em que fortes chuvas provocaram diferentes ocorrências envolvendo estruturas da Vale e da própria CSN. Entre elas esteve um episódio na área de Fraile, pertencente à CSN. Naquele momento, a sucessão de problemas já havia levado a Prefeitura de Congonhas a adotar medidas de paralisação temporária de atividades minerárias.

A repetição dos episódios deveria produzir uma pergunta bastante simples: até quando será considerado aceitável manter normalmente atividades minerárias diante de uma sequência tão curta de acidentes, extravasamentos e falhas em estruturas de contenção e transporte?

Não se trata de defender que qualquer ocorrência isolada determine automaticamente o encerramento definitivo de um empreendimento. Trata-se de aplicar seriamente o princípio da precaução. Diante da recorrência dos incidentes, seria perfeitamente razoável perguntar por que determinadas operações não permanecem suspensas até que auditorias técnicas efetivamente independentes demonstrem que as causas dos episódios foram identificadas, que as estruturas estão seguras e que medidas capazes de impedir novas ocorrências foram implementadas.

Em Minas Gerais, essa pergunta possui um peso histórico impossível de ignorar. Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana, matou 19 pessoas e lançou rejeitos de mineração ao longo da bacia do Rio Doce. Pouco mais de três anos depois, em janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho matou 270 pessoas. Os dois episódios transformaram Minas Gerais numa espécie de símbolo mundial das consequências que podem resultar da combinação entre mineração intensiva, estruturas de rejeitos de grande porte e falhas nos sistemas de prevenção, fiscalização e responsabilização.

E Congonhas possui um componente que torna qualquer complacência ainda mais preocupante: a Barragem Casa de Pedra, pertencente à CSN Mineração.

Há anos existem preocupações públicas acerca da proximidade dessa estrutura com bairros da cidade. Em 2019, o Ministério Público de Minas Gerais chegou a anunciar ação civil pública contra a CSN diante de incertezas relacionadas à segurança da barragem, destacando justamente que um eventual rompimento poderia atingir a área urbana de Congonhas. Naquele mesmo período, moradores cobravam a paralisação das atividades diante dos riscos percebidos associados à estrutura.

É importante registrar que a CSN afirma atualmente que a Barragem Casa de Pedra é estável, construída pelo método a jusante, atende aos critérios de segurança previstos na legislação e passa periodicamente por auditorias externas independentes. Essa posição da empresa, contudo, não elimina a dimensão do dano potencial associado à localização de uma grande estrutura de rejeitos nas proximidades de áreas habitadas.

É justamente aí que reside a questão central. Segurança de barragens não pode ser avaliada apenas pela probabilidade estatística de rompimento, mas também pela magnitude das consequências caso uma falha efetivamente aconteça. Quando uma estrutura possui potencial para atingir bairros inteiros, a tolerância institucional ao risco deveria ser próxima de zero.

Depois de Mariana e Brumadinho, ninguém em Minas Gerais pode alegar desconhecimento sobre o que uma barragem de rejeitos é capaz de produzir. Em ambos os casos, o desastre mostrou brutalmente que avaliações técnicas, sistemas de monitoramento e mecanismos formais de licenciamento não constituem, por si mesmos, garantia absoluta contra uma catástrofe.

Por isso, o novo acidente envolvendo a CSN não deveria ser tratado simplesmente como mais um “vazamento pontual”. Ele precisa ser interpretado dentro de um quadro mais amplo de recorrência de incidentes minerários em Congonhas e de uma atividade econômica cujo potencial de dano ambiental e humano já foi demonstrado de maneira trágica em Minas Gerais.

O problema fundamental passa então a ser político e institucional: quantos incidentes são necessários para que os órgãos ambientais e de fiscalização considerem que a continuidade normal das operações representa um risco que não pode mais ser administrado apenas por multas, notificações e promessas empresariais de correção?

Multas aplicadas depois dos acidentes não recuperam integralmente cursos d’água contaminados. Tampouco sistemas de emergência conseguem devolver vidas depois de uma ruptura catastrófica. Mariana e Brumadinho deveriam ter ensinado definitivamente que, quando se trata de mineração e grandes estruturas de rejeitos, prevenir custa infinitamente menos — ambiental, social e humanamente — do que reparar.

Congonhas não pode ser transformada no local onde Minas Gerais descobrirá, pela terceira vez, que os sinais estavam presentes antes da tragédia. E quando esses sinais começam a se repetir, a pergunta deixa de ser apenas o que a CSN fará para reparar o vazamento desta semana. A pergunta que precisa ser dirigida ao governo de Minas Gerais, aos órgãos ambientais, à Agência Nacional de Mineração e ao Ministério Público é muito mais incômoda: o que ainda precisa acontecer para que a proteção da população e dos ecossistemas de Congonhas seja colocada acima da continuidade da produção mineral?

Governo do Rio de Janeiro recua e anuncia recriação da Secretaria de Ciência e Tecnologia: uma vitória da mobilização

Reação rápida da comunidade científica força o governo estadual a rever uma decisão equivocada, mas agora será preciso acompanhar o Diário Oficial para verificar se os compromissos anunciados serão efetivamente cumpridos

Menos de 24 horas depois deste  blog divulgar a extinção da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio de Janeiro (SECTI-RJ), que ficaria incorporada à estrutura da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, chega uma notícia que merece ser saudada: o governo estadual decidiu recuar e anunciou que recriará uma secretaria específica para a área de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Segundo reportagem publicada nesta sexta-feira (7) pelo Tempo Real RJ, assinada pelo jornalista João Pedro Lima, o governador em exercício, Ricardo Couto, assumiu o compromisso de recriar a secretaria em até dez dias. O anúncio ocorreu depois da forte reação provocada pela extinção da pasta entre pesquisadores, universidades e entidades representativas da comunidade científica fluminense.

A informação foi divulgada publicamente pela vereadora Tatiana Roque, que participou de uma reunião com o governador em exercício, parlamentares e representantes da comunidade científica. Além da recriação da secretaria, o governo anunciou a constituição de um comitê formado por reitores de universidades e integrantes da comunidade científica, que deverá participar da discussão sobre a estrutura e as atribuições da nova pasta.

Além das informações tornadas públicas pela vereadora Tatiana Roque, recebi comunicação direta do deputado estadual Carlos Minc (PSB), que me transmitiu essencialmente as mesmas informações: o governo estadual teria decidido recriar a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e constituir um espaço de interlocução com as universidades e a comunidade científica. A convergência entre as informações divulgadas pela vereadora e aquelas que me foram comunicadas diretamente pelo deputado Carlos Minc reforça a indicação de que houve, de fato, uma mudança de posição do governo estadual.

As duas medidas devem ser saudadas. A manutenção de uma estrutura administrativa própria para Ciência, Tecnologia e Inovação é fundamental para um estado que abriga algumas das principais universidades, instituições de pesquisa e centros de produção científica do Brasil. Igualmente positiva é a decisão de envolver as reitorias e representantes da comunidade científica na discussão sobre a estruturação da secretaria. Se esse diálogo for efetivo, poderá inclusive contribuir para que a pasta retorne mais fortalecida e com atribuições claramente definidas.

O episódio demonstra também que a mobilização pública produz resultados. A rápida reação das universidades, pesquisadores, entidades científicas, parlamentares e demais setores preocupados com o futuro da ciência fluminense obrigou o governo estadual a reconsiderar uma decisão que, caso permanecesse em vigor, representaria um inequívoco rebaixamento institucional da Ciência, Tecnologia e Inovação no estado do Rio de Janeiro.

Entretanto, entre o anúncio de uma decisão e sua efetiva materialização administrativa existe uma diferença importante. Por isso, o Blog do Pedlowski continuará acompanhando atentamente as próximas edições do Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro. O compromisso anunciado é de recriar a secretaria em até dez dias, e será no Diário Oficial que poderemos verificar a formalização da nova estrutura, suas atribuições, sua posição dentro da administração estadual e as demais medidas necessárias para transformar o anúncio político em realidade administrativa.

Há, finalmente, uma lição bastante óbvia que o governo estadual deveria retirar deste episódio: todo esse desgaste poderia ter sido evitado. Antes de extinguir uma secretaria responsável por uma área estratégica para o desenvolvimento econômico, social e tecnológico do Rio de Janeiro, o governador em exercício poderia — e deveria — ter ouvido justamente aqueles que conhecem o sistema estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação. Bastaria consultar as reitorias das universidades públicas sediadas no estado, pesquisadores, dirigentes das instituições científicas e entidades nacionais como a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Se essa consulta tivesse ocorrido antes da reforma administrativa, e não depois da reação provocada por ela, provavelmente o governo teria percebido antecipadamente a dimensão do equívoco que estava prestes a cometer. Política pública de ciência e tecnologia não deve ser construída por meio de decisões administrativas tomadas de cima para baixo, muito menos tratando a ciência como um apêndice de políticas de desenvolvimento econômico e interesses empresariais.

Por enquanto, fica registrada uma vitória importante da mobilização da comunidade científica fluminense, cuja reação rápida e contundente parece ter sido decisiva para produzir o recuo do governo estadual. Agora, porém, será preciso aguardar os próximos atos.  Afinal, como ensina o velho adágio derivado do jogo do bicho, “só vale o que está escrito”. E, neste caso, o que realmente valerá será aquilo que estiver formalmente publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro. Anúncios, compromissos e informações transmitidas por interlocutores políticos são importantes, mas a recriação da SECTI somente estará efetivamente consumada quando o ato correspondente aparecer preto no branco no DOERJ.

Por isso, como já disse, o Blog do Pedlowski ficará de olho — e com lupa — nas próximas edições do Diário Oficial para verificar o cumprimento do compromisso de recriação da SECTI. A mobilização da comunidade científica fluminense pode comemorar esta primeira e importante vitória, mas sem baixar a guarda.  Só vale o que está escrito. Até lá, aguardemos os próximos atos.

Maricá promove oficina de diagnóstico do Plano Local de Ação Climática

Oficina de diagnóstico do Plano Local de Ação Climática de Maricá

📆 Dia 12 de agosto

⏰ Das 14h às 18 horas

📍 No Cine Henfil – Rua Alferes Gomes, 390 – Centro Maricá.

📝 Inscreva-se em tinyurl.com/yksny9jk

📖 O PLAC é um guia que oferece soluções para o município se prevenir, adaptar e responder aos impactos da mudança do clima, fortalecendo a resiliência local.

🌐🌳 A iniciativa é conduzida pela prefeitura, com o apoio do Governo do Estado do Rio de Janeiro em parceria com o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), com atuação do ICLEI como parceiro implementador.