Quando a Meta decide o que o Brasil pode ver: o estranho caso do vídeo de Fábio Porchat

Há momentos em que um episódio aparentemente pontual revela algo muito maior do que ele próprio. O que aconteceu nesta quarta-feira (23/9) com o perfil da série “Revelando”, apresentado por Fábio Porchat, é um desses casos.

O Instagram, plataforma controlada pela Meta, retirou temporariamente do ar o perfil da série justamente quando um de seus episódios mais controversos e de maior repercussão começava a alcançar milhões de pessoas. O vídeo aborda as relações entre a Igreja Batista da Lagoinha, a família Vorcaro e o Banco Master, além de trazer informações sobre relações financeiras e políticas que aparecem nas investigações em curso.

A justificativa inicial da Meta foi praticamente um exercício de opacidade: o conteúdo teria violado os “padrões” da plataforma. Qual padrão teria sido violado, qual trecho teria provocado a remoção e quais critérios foram utilizados para tomar a decisão não foram esclarecidos de forma suficientemente clara. Depois, veio a reviravolta: a Meta realizou uma “revisão interna”, devolveu o perfil ao ar e pediu desculpas pelo ocorrido.

É exatamente nesse ponto que o episódio deixa de ser apenas uma ocorrência envolvendo uma rede social e passa a ser uma questão de democracia. Não há, até aqui, elementos públicos suficientes para afirmar que a Meta tenha retirado o conteúdo deliberadamente para proteger a Igreja Batista da Lagoinha, Daniel Vorcaro, o Banco Master, algum político ou qualquer outro personagem mencionado na reportagem. Seria irresponsável transformar essa possibilidade em certeza. Mas também seria ingênuo ignorar que uma empresa privada possui hoje a capacidade de retirar temporariamente uma reportagem do espaço público sem precisar explicar imediatamente, de forma satisfatória, por que tomou essa decisão.

Quem decide o que pode circular?

É preciso começar por uma distinção importante. É legítimo que uma plataforma privada estabeleça regras de utilização e disponha de mecanismos de moderação. Diante da quantidade gigantesca de conteúdos publicados diariamente nas redes sociais, algum tipo de moderação é inevitável. O problema surge quando uma plataforma retira do ar um conteúdo jornalístico de evidente interesse público, não informa claramente qual regra foi violada e, algumas horas depois, simplesmente volta atrás.

Nesse caso, permanecem perguntas relevantes: qual regra foi efetivamente violada? Quem tomou a decisão de retirar o perfil? A decisão foi automatizada ou tomada por uma pessoa? Houve denúncias contra o conteúdo? Por que a revisão posterior chegou a uma conclusão diferente? E, se a primeira decisão estava errada, quantas outras decisões semelhantes podem permanecer sem revisão?

Essa questão vai muito além de Fábio Porchat, do Banco Master ou da Igreja Batista da Lagoinha. Ela diz respeito ao funcionamento da democracia digital e ao poder crescente das grandes plataformas sobre a circulação da informação.

Durante décadas, aprendemos a discutir censura pensando no Estado, nos governos e nos órgãos de repressão. A experiência contemporânea acrescentou um novo personagem a essa equação: as grandes plataformas digitais. Elas não são governos e não devem ser confundidas com governos, mas possuem uma capacidade extraordinária de interferir na circulação da informação e, consequentemente, nas condições em que o debate público acontece.

O algoritmo também produz efeitos políticos

Existe uma tendência de imaginar que uma decisão algorítmica é necessariamente neutra porque não foi tomada diretamente por uma pessoa. Não é. Algoritmos são construídos segundo critérios definidos por empresas, treinados com determinados conjuntos de dados e submetidos a regras estabelecidas por seres humanos. Quando esses sistemas classificam um conteúdo como inadequado, perigoso ou passível de remoção, produzem consequências concretas.

Um erro algorítmico pode silenciar uma reportagem; uma denúncia em massa pode provocar a retirada de um conteúdo; uma classificação equivocada pode reduzir drasticamente seu alcance; e uma decisão tomada em poucos segundos pode atingir uma audiência que levou meses ou anos para ser construída. Portanto, mesmo que ninguém dentro da Meta tenha decidido conscientemente retirar a reportagem de Fábio Porchat, o efeito político da decisão continua existindo. A ausência de intenção política não elimina necessariamente o efeito político de uma decisão tomada por uma plataforma.

Essa talvez seja uma das questões mais importantes colocadas pelo episódio. Um erro de moderação pode retirar uma reportagem do alcance de milhões de pessoas, uma classificação equivocada pode interromper a circulação de uma investigação e uma denúncia coordenada pode produzir efeitos semelhantes aos de uma decisão editorial. Uma empresa pode posteriormente corrigir tudo, mas o dano à circulação da informação já terá ocorrido.

E o que exatamente estava sendo investigado?

O episódio do Revelando não trata de uma fofoca sobre celebridades. O roteiro procura estabelecer conexões entre a Igreja Batista da Lagoinha e a família Vorcaro, passando por relações familiares, doações, negócios e política. A narrativa parte, entre outros elementos, do casamento de Natália Vorcaro com Fabiano Zettel, celebrado por André Valadão, e reconstrói relações que remontam a décadas.

O programa também aborda as investigações envolvendo o Banco Master e a atuação atribuída pela Polícia Federal a Fabiano Zettel, além de apresentar informações sobre doações políticas e sobre as relações de Daniel Vorcaro com integrantes da política brasileira.

É justamente aqui que uma ressalva precisa ser feita. Investigação não é condenação, prisão preventiva não é sentença e suspeita não é prova definitiva. O próprio texto de apresentação do episódio registra que Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel estavam presos preventivamente e não haviam sido condenados até a publicação do vídeo.

Essa cautela é necessária porque jornalismo investigativo não pode ser confundido com julgamento antecipado. Mas a existência dessa cautela não diminui a relevância pública das perguntas apresentadas pela reportagem. Ao contrário, é justamente porque essas questões envolvem dinheiro, instituições religiosas, sistema financeiro e política que elas precisam ser discutidas publicamente.

A remoção acabou produzindo o efeito contrário

Há ainda um elemento quase irônico nessa história. O episódio já havia alcançado enorme repercussão no YouTube, e a retirada do perfil do Revelando no Instagram acrescentou um novo componente à história: a própria intervenção da Meta.

De repente, milhares de pessoas passaram a discutir não apenas o conteúdo da reportagem, mas também a pergunta sobre por que ela havia sido retirada. O episódio deixou de ser apenas uma reportagem sobre Banco Master, Lagoinha, Vorcaro e política e passou a ser também uma reportagem sobre o poder das plataformas de decidir o que circula.

Esse é um dos paradoxos da comunicação digital contemporânea: uma intervenção destinada a reduzir a circulação de determinado conteúdo pode produzir exatamente o efeito contrário quando desperta uma discussão sobre liberdade de expressão e controle das plataformas.

O pedido de desculpas não encerra o problema

A Meta merece ser cobrada não apenas pela decisão inicial, mas também pela falta de transparência sobre ela. Se houve um erro, é importante saber qual foi o erro. Se houve uma denúncia, é importante saber como ela foi processada. Se houve uma decisão automatizada, é importante saber por que o sistema classificou o conteúdo daquela maneira. Se houve uma decisão humana, é importante saber quais critérios foram utilizados.

Não se trata de exigir que a Meta revele mecanismos internos que possam comprometer seus sistemas de segurança. Trata-se de algo mais simples: transparência sobre decisões que interferem diretamente na circulação de informação de interesse público.

A empresa devolveu o perfil e pediu desculpas. Isso é positivo. Mas uma pergunta continua sem resposta: por que o perfil foi retirado em primeiro lugar?

O poder das Big Techs é um problema democrático

O caso também deveria servir para ampliar uma discussão que frequentemente fica escondida atrás das guerras políticas do cotidiano. As grandes empresas de tecnologia acumularam um poder gigantesco sobre a comunicação contemporânea. Elas determinam quais conteúdos serão recomendados, quais serão reduzidos em alcance, quais receberão advertências, quais poderão ser monetizados e quais serão removidos.

Em determinadas circunstâncias, essas empresas também podem determinar quais contas inteiras poderão desaparecer temporariamente do espaço público. Isso significa que parte significativa daquilo que chamamos de “opinião pública” é hoje mediada por empresas privadas que não foram eleitas por ninguém.

Esse fato não significa que essas empresas sejam necessariamente inimigas da democracia. Significa que seu poder precisa ser submetido a mecanismos de transparência e responsabilização compatíveis com a dimensão que alcançaram. Uma coisa é administrar uma rede social. Outra, muito diferente, é possuir a capacidade de interferir na circulação de informações que interessam a milhões de cidadãos.

Hoje foi Porchat. Amanhã pode ser qualquer outro

É justamente por isso que seria um erro transformar esse episódio em uma disputa entre quem gosta ou não de Fábio Porchat, entre apoiadores ou críticos da Lagoinha, ou entre simpatizantes e adversários de qualquer corrente política. O problema é maior.

Hoje é uma reportagem sobre o Banco Master. Amanhã poderá ser uma investigação sobre corrupção ambiental. Depois poderá ser uma denúncia envolvendo uma empresa multinacional. Em outro momento poderá ser uma reportagem sobre abusos cometidos por uma autoridade pública. Em todos esses casos, haverá alguém utilizando uma plataforma privada para decidir se aquela informação merece ou não continuar circulando.

É por isso que a democracia digital não pode depender exclusivamente da boa vontade dos donos das plataformas. Precisamos de regras claras, transparência, mecanismos de recurso e capacidade efetiva de escrutinar decisões que tenham impacto relevante sobre a circulação da informação.

O episódio deixa uma pergunta incômoda

O caso Fábio Porchat não permite, neste momento, afirmar que houve censura deliberada por parte da Meta. Mas permite afirmar algo talvez ainda mais importante: uma empresa privada foi capaz de retirar temporariamente do espaço público um conteúdo jornalístico de enorme repercussão e depois restaurá-lo sem oferecer uma explicação suficientemente detalhada sobre a origem da primeira decisão.

Isso deveria preocupar qualquer pessoa interessada no funcionamento da democracia, independentemente de concordar ou não com Fábio Porchat, com o Revelando, com a Igreja Batista da Lagoinha, com os personagens citados na reportagem ou com qualquer uma das interpretações apresentadas no episódio.

Liberdade de expressão não significa apenas ter a possibilidade formal de produzir uma informação. Na sociedade contemporânea, significa também ter condições para que essa informação circule. E aquilo que não circula dificilmente consegue participar efetivamente do debate público.

Esse é o ponto que não deveria ser perdido em meio à disputa política em torno do vídeo. A Meta voltou atrás, mas o episódio deixou exposta uma questão que continuará conosco por muito tempo: quem vigia os vigilantes da esfera pública digital?

Mais importante ainda, o caso nos obriga a perguntar quem garante que um erro de uma plataforma privada não se transforme, mesmo que por algumas horas, em uma forma de silêncio público.

Assista ao episódio completo

O episódio “Revelando: Grandes Igrejas, Master Negócios”, apresentado por Fábio Porchat, está disponível no YouTube.

Assista ao vídeo completo no YouTube

Wiley está investigando capítulo de livro sobre biodiversidade por uso de referências falsas

Por Retraction Watch

Ao ler um capítulo de um livro de 2024 sobre a restauração da biodiversidade em terras pós-industriais no início deste mês, uma ecologista se deparou com uma referência a um estudo sobre renaturalização que ela quis consultar. 

Mas a ecologista, que pediu para permanecer anônima por medo de represálias dos autores do capítulo, não conseguiu encontrar nenhum registro do artigo de 2020, supostamente publicado na Ambio por “Knijn et al.”. Ela decidiu verificar as outras referências. Ela disse ao Retraction Watch que encontrou pelo menos oito que não existiam. 

A ecologista alertou a editora do livro, Wiley, sobre o problema em 7 de setembro, mas nos disse que nunca recebeu resposta, além de uma mensagem automática.

Um porta-voz da Wiley nos disse que a editora “leva a integridade a sério e investiga todas as preocupações quando elas nos são comunicadas”. Ele afirmou que a Wiley “tomará as medidas cabíveis assim que a investigação for concluída”.

A editora era proprietária da Edifix , um serviço de verificação de referências, de 2019 até sua aquisição por outra empresa no início deste ano. O porta-voz não respondeu à nossa pergunta sobre se os livros, incluindo este, foram verificados pelo programa, mas afirmou que a Wiley “publicou diretrizes de uso de IA para autores de livros e protege a integridade e a qualidade dos livros que publicamos por meio de verificações estabelecidas em três etapas: proposta do livro, contratação e revisão e desenvolvimento do manuscrito. A Edifix não é uma das ferramentas que utilizamos atualmente.”

O representante da Wiley não respondeu quando perguntamos se a editora tinha conhecimento dos problemas com o capítulo do livro antes de entrarmos em contato com eles na semana passada. 

Bhanu Pandey , um dos quatro autores do capítulo do livro ” Restaurando a Biodiversidade e os Serviços Ecossistêmicos em Terras Pós-Industriais”, disse-nos que não tinha conhecimento das citações falsas antes de entrarmos em contato. Todos os quatro autores eram pesquisadores do CSIR-Central Institute of Mining and Fuel Research em Jharkhand, Índia, na época do estudo. 

Bhanu Pandey nos contou que o primeiro autor, Sameer Shekhar , “liderou a compilação do material do capítulo e a coordenação do envio”. Ele disse que está revisando o capítulo e planeja enviar uma solicitação de correção à Wiley: “Quando uma citação estiver incorreta ou a afirmação associada não tiver fundamento, proporei a correção, revisão ou remoção apropriada e a enviarei ao editor do capítulo e à editora por meio de seu processo editorial formal”.

Nenhum dos outros autores respondeu ao nosso pedido de comentário, incluindo Shekhar, com quem entramos em contato diversas vezes, tanto em seu endereço de e-mail profissional quanto pessoal.

Vimal Chandra Pandey (sem parentesco com Bhanu), pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa Botânica do CSIR, editou o livro. Ele nos disse que iria “verificar a questão”, mas não respondeu às perguntas sobre como as referências falsas podem ter passado despercebidas. A página da Wiley sobre potenciais conflitos de interesse para editores afirma que eles “devem se abster de lidar com manuscritos se tiverem um conflito de interesse, como um relacionamento profissional ou pessoal com os autores”.

Outras editoras lidaram com casos semelhantes: após retirar de circulação um livro sobre aprendizado de máquina que continha referências inexistentes, na sequência da nossa cobertura do caso, a Springer Nature afirmou em junho que começaria a emitir comunicados de preocupação para livros. Em outubro, o especialista em integridade da pesquisa Michał Wójcik escreveu um script em Python para identificar diversos livros com citações falsas , o que pode ser um indício de uso indevido de grandes modelos de linguagem.


Fonte: Retraction Watch

El Niño, 13 mil mortes e o silêncio da política brasileira diante da crise climática

Uma nova projeção divulgada nesta quarta-feira pelo The Guardian deveria estar ocupando um lugar central no debate público brasileiro. Segundo estimativa de pesquisadores do Climate Impact Lab, o atual episódio de El Niño poderá provocar cerca de 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. O número não inclui outras mortes que poderão decorrer de secas, incêndios florestais, enchentes e outros eventos associados ao fenômeno.

O dado que mais deveria nos preocupar é que o Brasil está entre os cinco países que deverão registrar os maiores números de mortes adicionais relacionadas ao calor nos próximos seis meses. Ou seja, não estamos diante de uma ameaça distante, localizada em alguma região remota do planeta. Estamos falando de uma situação que terá consequências concretas para a população brasileira.

E o problema não termina no calor. O El Niño atualmente em desenvolvimento já alcançou uma intensidade excepcional e ocorre sobre um planeta cuja temperatura média foi significativamente elevada pela acumulação de gases de efeito estufa. Como explicou à reportagem a cientista Friederike Otto, o fenômeno natural passa a produzir consequências mais perigosas quando ocorre sobre uma atmosfera e uma superfície terrestre já muito mais quentes em consequência do aquecimento global.

No Brasil, essa combinação possui características particularmente preocupantes. O próprio Ministério da Saúde informou, em setembro, que o El Niño está em nível forte, com possibilidade de alcançar intensidade muito forte, e que seus efeitos deverão se estender até março de 2027. Para a região Sul, a previsão é de aumento do volume de chuvas e do risco de tempestades, enxurradas e inundações.

Basta observar o que vem acontecendo no Sul do país para compreender que não estamos discutindo uma possibilidade abstrata. As cenas de cidades atingidas por chuvas extremas, inundações e tempestades deveriam funcionar como uma espécie de antecipação concreta daquilo que significa viver em um país cada vez mais exposto à instabilidade climática.

Há, portanto, uma questão que ultrapassa a discussão sobre a intensidade específica deste ou daquele El Niño. O problema fundamental é que eventos climáticos naturais estão ocorrendo sobre uma base climática progressivamente mais quente e, por isso, seus impactos podem se tornar maiores e mais difíceis de administrar.

Isso deveria estar no centro da campanha eleitoral brasileira de 2026. Entretanto, ocorre justamente o contrário. A poucos dias do primeiro turno, a crise climática ocupa um espaço muito menor do que sua importância objetiva exigiria no debate sobre o futuro do país. Uma análise publicada recentemente pela Folha de S.Paulo, com base em levantamento do Observatório do Clima, mostrou que a pauta ambiental aparece de maneira bastante desigual nos programas dos principais candidatos à presidência da república. A análise identificou propostas robustas em apenas uma das candidaturas avaliadas, enquanto nos demais programas o tema aparece de forma mais vaga ou com menor detalhamento.

O contraste é ainda mais significativo quando se considera que uma pesquisa Ipsos realizada para o Observatório do Clima apontou que 91% dos brasileiros consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar a crise climática, enquanto 62% classificaram esse tema como muito importante. Desta forma, existe uma distância considerável entre a dimensão do problema, a preocupação manifestada pela população e o espaço efetivamente dedicado ao tema na disputa eleitoral. E essa distância deverá custar caro. 

O fato é que a questão climática não diz respeito apenas à proteção de florestas ou à redução das emissões de carbono já que ela envolve saúde pública, habitação, mobilidade, produção de alimentos, abastecimento de água, energia, infraestrutura, planejamento urbano, proteção das populações mais vulneráveis e capacidade de resposta do Estado diante de eventos extremos.

No caso brasileiro, isto também significa discutir o futuro da Amazônia, do Cerrado, do Pantanal, da Caatinga e da Mata Atlântica; a expansão de atividades econômicas em áreas ambientalmente frágeis; a política energética; o desmatamento; a ocupação das cidades; a prevenção de desastres; e a preparação do sistema público de saúde para uma realidade de temperaturas cada vez mais elevadas.

Significa, sobretudo, discutir adaptação. É porque mesmo que o mundo interrompesse imediatamente a emissão de gases de efeito estufa, uma parcela importante das mudanças climáticas já desencadeadas continuaria produzindo efeitos durante décadas. A redução das emissões é indispensável, mas não substitui a necessidade de preparar cidades, sistemas de saúde, redes de infraestrutura, áreas rurais e populações vulneráveis para aquilo que já está acontecendo.

O estudo citado pelo The Guardian oferece justamente uma dimensão importante dessa questão: os pesquisadores não estão apenas projetando mortes, mas indicando que parte delas poderia ser evitada por medidas de preparação, como sistemas de alerta para calor extremo, espaços de resfriamento, reforço dos serviços de saúde nos períodos críticos e proteção de trabalhadores expostos às altas temperaturas. Isso deveria nos levar a uma pergunta incômoda: quanto o Brasil está preparado para enfrentar os próximos episódios extremos?

E uma segunda pergunta é ainda mais importante: quanto essa preparação está sendo discutida pelos candidatos que pretendem governar o país? O silêncio relativo da campanha não significa que a crise climática tenha desaparecido. Ao contrário. Ela está se tornando uma presença cada vez mais concreta no cotidiano brasileiro. As chuvas extremas no Sul, as ondas de calor, as secas, os incêndios e os problemas crescentes de abastecimento e infraestrutura são manifestações diferentes de uma mesma transformação das condições ambientais nas quais nossa sociedade está organizada.

O risco é que continuemos tratando cada desastre como uma ocorrência isolada, mobilizando recursos depois que a tragédia aconteceu, em vez de construir políticas permanentes de prevenção, adaptação e redução de vulnerabilidades.O atual El Niño, portanto, deveria ser entendido como mais do que um fenômeno meteorológico excepcional. Ele é também um alerta sobre o tipo de futuro que pode estar se tornando cada vez mais frequente.

Diante disso, a ausência relativa da crise climática no debate eleitoral brasileiro é especialmente preocupante. Não porque faltem assuntos importantes em uma eleição, mas porque nenhum projeto de futuro para o Brasil pode ser considerado completo se não responder à transformação das condições climáticas em que esse futuro terá de ser construído. As cenas dramáticas que estão emergindo da região Sul deveriam ser suficientes para demonstrar que essa discussão não pertence a um futuro distante. Ela já chegou às nossas cidades, às nossas casas e aos nossos sistemas de infraestrutura.

O que está em jogo agora é saber se a política brasileira será capaz de reconhecer essa realidade antes que a sucessão de emergências climáticas transforme a adaptação em uma permanente política de reação às tragédias.

Veracel, Stora Enso e a transformação da grilagem em propriedade corporativa na Bahia

Um artigo recentemente publicado no Journal of Business Ethics lança novas luzes sobre a atuação da Veracel Celulose no extremo sul da Bahia e sobre um aspecto particularmente importante de sua expansão territorial: as estratégias utilizadas para transformar terras de origem ou situação fundiária questionável em propriedades corporativas aparentemente legais.

O estudo, intitulado “Corporate (Il)legal Enclosures: How Fraudulent Land Titles Override Community Rights in Forestry Land Conflicts in Bahia, Brazil”, é de autoria de Markus Kröger, Maria Ehrnström-Fuentes e Adriana Margutti e foi publicado em setembro de 2026.

A Veracel ocupa uma posição particularmente importante nesse processo. A empresa é resultado da associação entre a brasileira Suzano e a sueco-finlandesa Stora Enso, uma das maiores corporações globais do setor de papel e celulose. Assim, a expansão da empresa no território baiano não pode ser compreendida apenas como uma questão regional: trata-se também da materialização, no território brasileiro, de uma estratégia corporativa vinculada às cadeias globais da celulose.

É justamente aí que o estudo de Kröger, Ehrnström-Fuentes e Margutti ganha relevância.

A grilagem como estratégia de apropriação territorial

Os pesquisadores analisaram documentos relacionados a reivindicações de terras feitas pela Veracel e identificaram, em vários casos, irregularidades na documentação fundiária.

Entre os problemas encontrados estão títulos cuja localização não corresponde às terras reivindicadas, diferenças significativas entre as áreas indicadas nos documentos e problemas na comprovação da chamada cadeia dominial — isto é, a sequência documental que deveria demonstrar como uma propriedade foi legitimamente transferida ao longo do tempo. O ponto mais importante, entretanto, é que os autores não tratam essas irregularidades apenas como episódios isolados de falsificação documental.

Eles mostram como títulos de origem duvidosa podem ser incorporados a procedimentos administrativos e judiciais, adquirindo progressivamente uma aparência de legitimidade. É esse processo que os autores denominam “corporate (il)legal enclosure”, ou “cercamento corporativo (i)legal”.

A expressão é particularmente feliz porque revela que a apropriação empresarial do território pode ocorrer através de uma combinação de práticas legais, ilegais e mecanismos situados em uma zona intermediária entre as duas.

Em outras palavras, a grilagem não necessariamente termina quando o documento fraudulento é produzido. Ela pode continuar através dos esforços para fazer esse documento funcionar como prova de propriedade.

O papel da Veracel

O caso da Veracel é especialmente significativo porque a empresa conseguiu construir uma enorme base territorial para sustentar sua produção de celulose em uma região historicamente marcada por conflitos fundiários. Segundo o estudo, parte das reivindicações analisadas apresentava problemas que impediam seu reconhecimento imediato pelos órgãos responsáveis pela regularização fundiária. Isso demonstra que a situação documental dessas terras estava longe de ser simples.

Mas também revela algo mais profundo: o poder econômico e institucional de uma grande corporação pode permitir que reivindicações fundiárias contestáveis sejam levadas para dentro das estruturas formais do Estado e, assim, possam eventualmente ser convertidas em direitos reconhecidos.

É nesse ponto que a relação entre a Veracel e seus acionistas ganha importância. A presença da Stora Enso, uma corporação transnacional com origem na Suécia e na Finlândia, conecta os conflitos territoriais do extremo sul da Bahia a uma cadeia global de produção de celulose e papel. Isso significa que a discussão sobre as terras utilizadas pela Veracel não é apenas uma discussão sobre conflitos fundiários locais. Ela envolve também a maneira como grandes corporações transnacionais constroem suas bases territoriais de produção em países onde a estrutura fundiária é historicamente marcada pela concentração da propriedade e pela existência de terras públicas apropriadas de maneira irregular.

Quando a ilegalidade ganha aparência de legalidade

Talvez a principal contribuição do artigo esteja justamente em mostrar que o problema não se resume à existência de documentos falsos ou títulos questionáveis. A questão fundamental é o que acontece depois. Quando um título problemático entra em um sistema de registros, processos administrativos ou disputas judiciais, ele pode adquirir uma aparência de legitimidade que torna cada vez mais difícil questionar sua origem. Assim, uma terra que foi originalmente apropriada de forma irregular pode acabar sendo apresentada, anos depois, simplesmente como “propriedade privada”. Essa transformação é particularmente preocupante quando envolve grandes empresas, porque a capacidade financeira e jurídica de uma corporação amplia enormemente sua possibilidade de disputar o reconhecimento dessas terras perante o Estado.

O estudo sobre a Veracel, portanto, ajuda a compreender um mecanismo mais amplo de produção da concentração fundiária no Brasil: não se trata apenas de ocupar uma terra, mas de produzir as condições institucionais para que a ocupação passe a ser reconhecida como propriedade. E é justamente nesse ponto que a experiência da Veracel merece ser observada com atenção.

A expansão da indústria de celulose costuma ser apresentada como resultado de investimentos, tecnologia, geração de empregos e inserção internacional. O artigo de Kröger, Ehrnström-Fuentes e Margutti nos lembra, entretanto, que antes de uma árvore ser plantada e antes de uma fábrica produzir celulose existe uma questão fundamental que precisa ser respondida: como a empresa conseguiu controlar a terra onde essa produção acontece?

No caso da Veracel, a resposta passa necessariamente pela história da propriedade fundiária no extremo sul da Bahia — e pelas estratégias através das quais terras griladas ou de origem documental contestável podem acabar adquirindo a aparência de propriedade corporativa legítima.

Super El Niño rompe recorde antes do pico e empurra a Terra para águas desconhecidas

O fenômeno natural encontra uma atmosfera superaquecida pela queima de combustíveis fósseis, ampliando secas, enchentes, incêndios e fome em escala global

Em reportagem publicada neste domingo (21), o editor de meio ambiente do The Guardian, Damian Carrington, informa que o atual El Niño já ultrapassou o maior aquecimento anteriormente registrado no coração do fenômeno, embora seu pico seja esperado apenas para novembro ou dezembro. A anomalia da temperatura no Pacífico equatorial chegou a 3,05 °C acima da média de 1991–2020, superando os 3,02 °C observados em novembro de 2015. Na métrica preferida por muitos meteorologistas, o índice Niño 3.4, o recorde está igualmente próximo de ser rompido.

As projeções reunidas pelo cientista climático Zeke Hausfather são ainda mais inquietantes: a média de 14 modelos indica que o aquecimento pode alcançar 4 °C no final do ano. Para efeito de comparação, um El Niño já é caracterizado a partir de 0,5 °C, enquanto eventos acima de 2 °C são classificados como muito fortes e frequentemente chamados de “super El Niños”. Evidências extraídas de corais, anéis de árvores e registros históricos sugerem que um episódio dessa magnitude pode não ter ocorrido nos últimos mil anos.

É importante, contudo, não transformar o El Niño em uma explicação conveniente para todas as catástrofes que virão. Trata-se de uma oscilação natural do sistema climático, mas que agora se desenvolve sobre um planeta aquecido pela emissão continuada de gases de efeito estufa. A crise climática aumenta a temperatura de fundo sobre a qual o El Niño atua, enquanto o próprio fenômeno transfere mais calor dos oceanos para a atmosfera. É uma combinação explosiva: o aquecimento global fortalece os extremos associados ao El Niño, e o El Niño, por sua vez, intensifica temporariamente o aquecimento global. Pesquisas recentes indicam que a variabilidade desses eventos aumentou cerca de 37% desde a industrialização.

O resultado provável não será apenas um novo número nos gráficos climáticos. Serão secas mais prolongadas, chuvas concentradas, enchentes, incêndios florestais, quebras de safras, aumento dos preços dos alimentos e pressão adicional sobre os sistemas de saúde e de abastecimento de água. O Programa Mundial de Alimentos estima que cerca de 50 milhões de pessoas poderão ser empurradas para uma situação de fome aguda. Como sempre, os maiores custos recairão sobre populações que pouco contribuíram para o aquecimento do planeta, mas que vivem em territórios com infraestrutura precária e reduzida capacidade de resposta.

Para o Brasil, o alerta deveria ser tratado como assunto de Estado. Os padrões históricos associados ao El Niño indicam risco de excesso de chuva no Sul e de estiagem e calor intenso em áreas das regiões Norte e Nordeste, embora um evento tão extremo, combinado ao aquecimento global, possa produzir comportamentos fora dos padrões conhecidos. Também é necessário considerar os efeitos indiretos sobre a produção agrícola, a geração hidrelétrica, os reservatórios, os preços dos alimentos e a ocorrência de desastres urbanos. Preparação, neste caso, não significa divulgar alertas quando a chuva já começou ou distribuir água quando os reservatórios estiverem vazios, mas antecipar cenários, proteger populações vulneráveis e coordenar políticas públicas entre os diferentes níveis de governo.

A reportagem de Damian Carrington desmonta, sobretudo, a narrativa confortável segundo a qual ainda dispomos de tempo abundante para agir. O recorde foi ultrapassado meses antes do pico previsto, e 2027 poderá superar todas as marcas anteriores de temperatura global. O planeta já não está apenas se aproximando de uma zona de perigo: começa a operar fora dos parâmetros que orientaram nossa agricultura, nossas cidades e nossos sistemas de proteção social.

O El Niño é natural; a vulnerabilidade social, a dependência dos combustíveis fósseis e o despreparo governamental não são. Quando um fenômeno climático inevitável encontra um sistema econômico que continua queimando carvão, petróleo e gás como se a atmosfera fosse um depósito gratuito de resíduos, a catástrofe deixa de ser exclusivamente natural e passa a ser também uma escolha política. O “espantoso” El Niño descrito pelo The Guardian talvez seja uma prévia do clima que estamos fabricando — e uma demonstração de que a conta dessa fabricação será distribuída de maneira profundamente desigual.

Flávio Bolsonaro 2027–2030: Paulo Lindesay coloca as propostas na lupa

Em meio à campanha presidencial de 2026, compreender aquilo que está efetivamente sendo proposto pelos candidatos é mais importante do que acompanhar apenas discursos, slogans e peças de propaganda eleitoral. É com esse objetivo que disponibilizo aos leitores do Blog do Pedlowski o infográfico interativo produzido por Paulo Lindesay, que sistematiza e analisa criticamente propostas associadas ao programa apresentado por Flávio Bolsonaro para um eventual governo entre 2027 e 2030.

O material está organizado em dez eixos temáticos e dedica atenção especial às possíveis repercussões das propostas sobre Previdência Social, regimes próprios de previdência dos servidores, reforma administrativa, relações de trabalho, segurança pública, soberania nacional e dívida pública. Há ainda gráficos sobre a trajetória projetada da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), pagamento de juros e déficit nominal.

Um dos méritos do infográfico é justamente procurar deslocar a discussão do terreno abstrato das promessas eleitorais para suas possíveis consequências econômicas e sociais. No caso da Previdência, por exemplo, Paulo Lindesay discute os efeitos que mudanças na política de reajustes e nos regimes previdenciários poderiam produzir sobre trabalhadores, aposentados e servidores públicos. Na reforma administrativa, concentra sua análise em estabilidade, concursos, vínculos temporários, aposentadorias e mudanças nas relações entre Estado e funcionalismo.

O mesmo ocorre na discussão sobre segurança pública e soberania. O infográfico relaciona a proposta de tratar organizações criminosas brasileiras como organizações terroristas às possíveis implicações jurídicas e geopolíticas dessa classificação, especialmente quanto à cooperação e à atuação dos Estados Unidos no combate ao crime organizado. Também examina as possíveis consequências de um maior alinhamento internacional para setores e recursos considerados estratégicos.

É importante fazer uma ressalva metodológica. O infográfico não deve ser lido como se fosse o próprio plano de governo de Flávio Bolsonaro. Trata-se de uma análise produzida por Paulo Lindesay a partir de propostas, declarações, documentos e outras fontes. Consequentemente, o leitor encontrará tanto informações sobre propostas efetivamente apresentadas quanto interpretações críticas sobre seus possíveis efeitos. Essa distinção é fundamental e, ao mesmo tempo, constitui um convite para que cada leitor confronte a análise com as fontes indicadas no próprio material e com o programa oficial da candidatura.

Em uma eleição na qual boa parte do debate tende a ser reduzida a personagens, slogans e disputas nas redes sociais, materiais desse tipo oferecem outra possibilidade: discutir políticas concretas e perguntar quem ganha, quem perde, quanto custa e quais transformações institucionais poderão resultar das escolhas feitas nas urnas.

Por isso, agradeço a Paulo Lindesay pela elaboração e pelo compartilhamento do material e o disponibilizo aos leitores do Blog do Pedlowski como contribuição ao debate público. Independentemente da posição política de cada um, vale examinar as propostas, conferir suas fontes e refletir sobre suas possíveis consequências para o Brasil a partir de 2027.

O  leitor pode acessar e navegar pelo infográfico interativo completo elaborado por Paulo Lindesay [Aqui!].

Donald Trump diante do Brasil: o predador que precisa olhar para a própria armadilha

A possibilidade de Donald Trump tentar interferir politicamente nas eleições presidenciais brasileiras de 2026 não pode ser simplesmente descartada. Documentos recentemente revelados mostraram que o governo norte-americano chegou a incluir, nas negociações realizadas com Brasília em 2025, exigências relacionadas às condições de participação de “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras. Ao mesmo tempo, Lula já advertiu publicamente Trump para que não interfira no processo eleitoral brasileiro. Há, portanto, razões concretas para acompanhar com atenção os movimentos de Washington. 

Isso, entretanto, é diferente de afirmar que Donald Trump já decidiu não reconhecer uma eventual vitória de Lula. Até agora, não encontrei declaração pública que sustente essa afirmação. Pelo contrário, uma fonte do Departamento de Estado afirmou à CNN Brasil, em agosto, que os Estados Unidos respeitariam a escolha dos brasileiros em eleições consideradas livres e justas. O problema, portanto, não é antecipar uma ruptura que ainda não ocorreu, mas perguntar quanto espaço político Trump realmente terá para pressionar o Brasil caso Lula seja reeleito.

É nesse ponto que as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos entram na equação. Existe uma coincidência cronológica particularmente interessante: o primeiro turno brasileiro ocorrerá em 4 de outubro e o eventual segundo turno em 25 de outubro, enquanto os norte-americanos irão às urnas em 3 de novembro. Ou seja, quando o Brasil escolher seu presidente, Trump ainda não conhecerá o tamanho da bancada republicana que terá durante os dois últimos anos de seu mandato.

E os sinais disponíveis neste momento são desconfortáveis para a Casa Branca. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em setembro encontrou apenas 35% de aprovação ao desempenho de Trump e uma vantagem democrata de sete pontos — 44% contra 37% — na preferência nacional para o Congresso. A média do Silver Bulletin apontava vantagem democrata de 7,5 pontos em 18 de setembro. Outra pesquisa Economist/YouGov encontrou 51% dos eleitores considerados prováveis votantes inclinados aos democratas e 39% aos republicanos.

Esses números não significam que uma derrota republicana esteja determinada. Pesquisas nacionais de voto genérico não reproduzem automaticamente as disputas realizadas distrito por distrito para a Câmara e estado por estado para o Senado. A própria Reuters chama atenção para essa limitação. Além disso, os republicanos partem atualmente do controle das duas Casas: são 218 republicanos contra 214 democratas e um independente na Câmara, enquanto no Senado a composição é de 53 republicanos, 45 democratas e dois independentes.

Mas justamente aí aparece o problema político de Donald Trump. A margem republicana na Câmara é estreita, enquanto o próprio presidente apresenta índices baixos de aprovação. Uma perda do controle de uma das Casas — ou das duas — alteraria profundamente as condições políticas dos dois últimos anos de sua presidência. O Congresso não controla sozinho a política externa norte-americana, e Trump continuaria dispondo de instrumentos presidenciais relevantes. Mas uma administração pressionada internamente teria de dividir atenção e capital político entre disputas domésticas, orçamento, investigações parlamentares, nomeações, política econômica e suas ambições internacionais.  Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja simplesmente se Trump tentará interferir na eleição brasileira. A pergunta é em que condições políticas ele poderá fazê-lo.

Há ainda uma ironia temporal. Se Lula vencer em outubro, qualquer reação de Trump ocorrerá poucos dias antes de os próprios norte-americanos julgarem, nas urnas, os primeiros dois anos de seu segundo mandato. Trump poderia tentar projetar poder sobre Brasília justamente quando estaria enfrentando um teste decisivo de seu poder dentro dos Estados Unidos.  Isso modifica a imagem convencional de um presidente norte-americano todo-poderoso determinando unilateralmente os rumos políticos da América Latina. Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência do hemisfério e a Presidência norte-americana dispõe de instrumentos diplomáticos, comerciais e financeiros capazes de produzir custos reais para o Brasil. Seria um erro minimizar essa capacidade.

Mas também seria um erro analisar Trump como se ele atuasse num vazio político. Sua capacidade de pressionar o Brasil dependerá da economia norte-americana, de sua aprovação popular, da coesão do Partido Republicano e, sobretudo, da composição do Congresso que emergirá das urnas de novembro. É justamente aí que a metáfora do predador começa a ficar mais complicada. Trump pode tentar mostrar os dentes para o Brasil em outubro, mas terá de fazê-lo olhando constantemente por cima do ombro para as urnas que estarão esperando por ele nos Estados Unidos apenas alguns dias depois.

Talvez, portanto, a imagem mais adequada para outubro de 2026 não seja simplesmente a de Trump como predador ou como presa. É a de um presidente que ainda dispõe de enorme poder institucional, mas que tenta projetá-lo para fora enquanto enfrenta uma crescente contestação política dentro de casa. E isso pode fazer toda a diferença na quantidade de força que Washington conseguirá efetivamente mobilizar contra Brasília.

Flávio Bolsonaro e a República dos Amigos: quando tanta coincidência começa a pedir explicação

Viagens, apartamento e uma rede de relações que passa por Willer Tomaz, Cláudio Castro e personagens ligados ao Banco Master tornam cada vez mais relevante esclarecer onde termina a amizade privada e onde começam as relações políticas e patrimoniais

A reportagem de Patrik Camporez, de O Globo, retomada e ampliada por Luis Nassif no Jornal GGN, acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça formado pelas investigações envolvendo o Banco Master, as fraudes do INSS e personagens que circulam há anos nos ambientes político, empresarial e jurídico de Brasília e do Rio de Janeiro. No centro dessa trama aparece o advogado Willer Tomaz, cuja importância talvez esteja menos em cada relação tomada separadamente do que na extraordinária capacidade de conectar personagens, patrimônio, negócios e interesses que reaparecem em diferentes investigações.

A relação com Flávio Bolsonaro vai muito além de um encontro ocasional

A proximidade entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro é documentada há anos. Durante a CPI da Covid, em 2021, o próprio Flávio chamou Tomaz publicamente de seu “amigo”. Mais recentemente, vieram à tona viagens internacionais realizadas conjuntamente. Registros obtidos pela Polícia Federal indicam ao menos cinco viagens dos dois no primeiro semestre de 2025, incluindo um safári na África do Sul do qual também participou o senador Weverton Rocha. A piauí confirmou ainda a existência de um grupo de WhatsApp da viagem do qual participavam Flávio, Tomaz, Weverton e familiares.

Isso ganhou outra dimensão durante a atual campanha presidencial. Flávio utilizou em São Paulo um apartamento pertencente à empresa de Willer Tomaz. O imóvel havia sido comprado poucos meses antes de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e apontado pela PF como operador financeiro ligado ao ex-controlador do Banco Master. Zettel havia adquirido o apartamento por R$ 5,5 milhões e o vendeu à empresa de Tomaz por R$ 3,5 milhões. A utilização do imóvel por Flávio durante atividades de campanha foi confirmada pela piauí e pela Folha de S.Paulo.

Nada disso, isoladamente, demonstra que Flávio tenha participado das irregularidades atribuídas a terceiros. Mas modifica a natureza da questão. Já não se trata apenas de saber se duas pessoas eram amigas, mas de esclarecer como essa amizade se relacionava com imóveis, viagens, serviços e estruturas patrimoniais que posteriormente aparecem em investigações diferentes.

Cláudio Castro entra na mesma rede

A relação de Willer Tomaz com Cláudio Castro também ultrapassa uma convivência social. Tomaz atuou como advogado pessoal de Castro e, em julho de 2021, protocolou no STF uma petição sigilosa em nome do então governador para saber se existiam investigações contra ele. Naquela mesma época, Tomaz já era publicamente identificado como amigo de Flávio Bolsonaro, enquanto Castro era aliado político do senador.

A relação continuou. Em novembro de 2025, Castro, sua mulher e seus filhos viajaram para Lima para assistir à final da Libertadores em uma aeronave cuja estrutura de propriedade incluía Willer Tomaz. Também estavam no avião o próprio Tomaz, seus familiares e Weverton Rocha. Castro declarou que fora convidado pelo advogado, de quem afirmou ser amigo havia anos. A aeronave era administrada pela Prime Aviation/Prime You, grupo do qual Daniel Vorcaro havia sido acionista minoritário até setembro daquele ano.

Esse dado se torna politicamente relevante porque, durante a administração Castro, instituições vinculadas ao Estado do Rio ficaram fortemente expostas ao universo do Banco Master. Segundo dados do Tribunal de Contas citados pela Band, o Rioprevidência possuía cerca de R$ 1,6 bilhão em fundos ligados direta ou indiretamente ao Master, enquanto a Cedae havia investido R$ 200 milhões. Isso não demonstra que a amizade entre Castro e Tomaz tenha determinado essas operações, mas torna legítima a pergunta sobre a existência — ou não — de conexões entre relações privadas e decisões envolvendo estruturas públicas.

O ponto central: não são apenas amizades

É precisamente aqui que a matéria ganha importância. Willer Tomaz aparece simultaneamente como amigo de Flávio Bolsonaro, antigo advogado pessoal de Cláudio Castro, pessoa próxima de Weverton Rocha, proprietário de empresas e imóveis envolvidos em operações examinadas pelas autoridades e participante de estruturas de propriedade compartilhada administradas por uma empresa da qual Daniel Vorcaro foi acionista. A PF, no caso envolvendo Weverton, chegou a descrevê-lo como um “hub financeiro, patrimonial e logístico”, expressão que precisa ser entendida como uma caracterização dos investigadores, e não como uma conclusão judicial de culpa.

É justamente a recorrência que merece atenção. Em uma ocasião há uma viagem; em outra, uma relação advocatícia; depois aparece um imóvel; posteriormente uma aeronave; em seguida, pessoas ligadas às mesmas redes empresariais e políticas reaparecem em outras investigações. Nenhuma dessas conexões, sozinha, autoriza concluir pela existência de uma organização comum ou pela participação de todos em atividades ilícitas. Mas a repetição dos mesmos personagens em diferentes circuitos reduz a capacidade explicativa da tese de que tudo possa ser compreendido apenas como uma coleção de relações privadas independentes.

E o problema para a candidatura de Flávio Bolsonaro?

Para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, a questão objetiva é de transparência e explicação pública. A revelação do apartamento já levou a um questionamento perante o TSE sobre se seu uso durante a campanha deveria ter sido contabilizado como doação ou despesa eleitoral; isso é uma alegação apresentada por adversários e ainda não equivale a uma decisão de que houve irregularidade.

Há também uma questão política mais ampla: Willer Tomaz não aparece agora, repentinamente, na periferia das relações do candidato. A proximidade é antiga, foi reconhecida pelo próprio Flávio e inclui viagens e disponibilização de imóvel. A piauí registrou ainda que Flávio não respondeu aos seus questionamentos sobre a viagem à África do Sul, o grupo de WhatsApp e suas relações com Tomaz e os demais participantes.

Por isso, o episódio aumenta o conjunto de perguntas às quais o candidato pode ser chamado a responder: qual era exatamente a natureza de sua relação com Willer Tomaz; quem custeou e organizou cada uma das viagens; em quais circunstâncias utilizou o apartamento de São Paulo; como esse uso foi tratado contabilmente pela campanha; e até que ponto conhecia as relações empresariais e patrimoniais mantidas pelo advogado com outros personagens hoje investigados?

Responder a essas questões é particularmente relevante em uma eleição presidencial porque o problema colocado pelas reportagens não é simplesmente “com quem Flávio Bolsonaro é amigo”. O problema factual a esclarecer é onde terminam as relações pessoais e onde começam relações patrimoniais, profissionais ou políticas com possível interesse público.

É nesse ponto que a apuração de Patrik Camporez ganha força. Em vez de uma fotografia isolada, começa a aparecer uma rede. E, diante de uma rede na qual os mesmos personagens atravessam sucessivamente o INSS, o Banco Master, estruturas empresariais, patrimônio imobiliário e círculos políticos, a distinção entre coincidência, amizade e interesse passa a depender cada vez mais de documentação e esclarecimentos verificáveis — e cada vez menos de simples declarações de que todos eram apenas amigos.

A fachada é suíça, mas o domínio é chinês: a nova geografia do colonialismo químico

Syngenta, ADAMA e os pós-patentes revelam como a China avançou sobre a indústria mundial de agrotóxicos e como o Brasil se tornou peça-chave de um colonialismo químico cada vez mais Sul–Sul

A reportagem publicada pelo Correio 24 Horas sobre o crescimento da Syngenta no Brasil oferece uma oportunidade para discutir algo muito maior do que o desempenho comercial de uma empresa de sementes e agrotóxicos. O dado mais imediato já chama atenção: enquanto a receita global da companhia recuou no primeiro semestre de 2026, suas vendas de sementes cresceram 18% no Brasil. Mais importante é perceber que esse crescimento ocorre em um dos maiores mercados mundiais de agrotóxicos e em um país no qual continuam autorizados ingredientes ativos que não possuem autorização para uso na União Europeia.

Há, entretanto, outra questão que merece ser colocada no centro dessa discussão. A própria definição da Syngenta como uma “gigante suíça” tornou-se insuficiente para explicar quem controla hoje uma parcela importante da indústria mundial de agrotóxicos e, principalmente, para compreender o peso adquirido pela China nessa cadeia global.

Suíça na fachada, China no controle

A Syngenta mantém sua sede em Basileia e conserva uma identidade corporativa fortemente associada à Suíça, mas isso não significa que continue sendo uma companhia suíça independente. Em 2017, a empresa foi adquirida pela estatal chinesa ChemChina por aproximadamente US$ 43 bilhões. Posteriormente, a reorganização envolvendo ChemChina e Sinochem colocou o Syngenta Group sob controle da Sinochem Holdings, empresa estatal supervisionada pela SASAC, órgão do Conselho de Estado chinês responsável pela administração dos grandes ativos empresariais estatais.

Mas a Syngenta não foi a única aquisição estratégica realizada pelos chineses. Alguns anos antes, em 2011, a ChemChina já havia adquirido o controle da Makhteshim Agan, companhia israelense que posteriormente passou a operar mundialmente sob a marca ADAMA. O controle chinês foi ampliado nos anos seguintes e, atualmente, a ADAMA integra o próprio Syngenta Group. A empresa continua sediada em Israel e preserva sua marca e identidade histórica, mas seu controle societário está inserido na mesma estrutura chinesa que controla a Syngenta.

A incorporação da ADAMA é especialmente reveladora porque não se tratava de uma empresa marginal. Antes mesmo de sua integração à atual estrutura chinesa, a companhia se apresentava como uma das maiores empresas mundiais de agrotóxicos genéricos e pós-patente. Atualmente, a própria ADAMA informa possuir um portfólio de centenas de ingredientes ativos e ocupar posição de destaque mundial na proteção de cultivos.

Quando colocamos Syngenta e ADAMA lado a lado, portanto, a estratégia chinesa torna-se muito mais clara. De um lado, a aquisição da Syngenta permitiu acessar pesquisa, desenvolvimento, patentes, sementes, marcas e uma gigantesca estrutura internacional de comercialização. De outro, o controle da ADAMA reforçou uma posição particularmente importante no mercado dos produtos genéricos e pós-patente. O resultado foi a construção de uma estrutura capaz de operar simultaneamente no topo tecnológico da indústria e no enorme mercado mundial dos princípios ativos cujas patentes já expiraram.

A China domina justamente a base industrial dos agrotóxicos

Esse aspecto é particularmente importante porque ajuda a entender por que a dimensão chinesa da indústria mundial de agrotóxicos permanece muito menos visível do que deveria. Um estudo publicado na revista World Development estima que empresas chinesas já respondem por quase 70% da produção mundial de agrotóxicos, sendo grande parte dessa produção constituída justamente por ingredientes ativos pós-patente.

A ascensão chinesa, portanto, não ocorreu apenas pelo crescimento das exportações, mas por uma estratégia de ocupação progressiva dos diferentes níveis da cadeia agroquímica. Empresas chinesas começaram fortemente concentradas na fabricação de ingredientes ativos e genéricos de menor valor agregado, avançaram sobre formulação e distribuição e, por meio de fusões e aquisições, passaram a controlar empresas que detêm marcas globais, redes comerciais, tecnologias e capacidade de pesquisa e desenvolvimento. O estudo da World Development mostra inclusive que empresas estatais e privadas chinesas estão hoje presentes nos diferentes estratos da cadeia mundial de agrotóxicos, enquanto a propriedade estatal possui importância especialmente forte justamente no seu nível superior.

A aquisição da Syngenta deve ser entendida nesse contexto, assim como a incorporação da ADAMA. Não estamos diante de compras empresariais desconectadas, mas da formação de um complexo agroquímico capaz de combinar produção massiva de ingredientes ativos pós-patente, formulação, marcas internacionais, pesquisa e desenvolvimento e redes globais de comercialização.

É justamente essa estrutura que torna a presença chinesa menos evidente do que efetivamente é. Um agrotóxico pode chegar ao agricultor brasileiro carregando uma marca historicamente suíça ou israelense e, ainda assim, integrar uma cadeia corporativa cujo controle final está ligado ao Estado chinês. Em outras situações, o ingrediente ativo utilizado na formulação pode ter sido produzido por uma empresa chinesa e comercializado posteriormente sob outra marca. A nacionalidade estampada no rótulo, portanto, diz cada vez menos sobre a verdadeira geografia econômica dos agrotóxicos.

O Brasil tornou-se estratégico para essa engrenagem

É nesse ponto que o caso brasileiro ganha enorme importância. Dados do comércio internacional mostram que a China se consolidou como principal fornecedora externa de agrotóxicos e produtos relacionados para o Brasil. Em 2024, aproximadamente 45% do valor importado pelo Brasil na categoria internacional que reúne inseticidas, herbicidas, fungicidas e produtos semelhantes veio diretamente da China. Em quantidade física, a concentração foi ainda maior, aproximando-se de dois terços de todo o volume importado.

Esses números precisam ser observados juntamente com o fato de que, além de ser o principal fornecedor direto, o capital estatal chinês controla justamente alguns dos ativos corporativos mais importantes da indústria agroquímica mundial. Temos, portanto, dois movimentos que se reforçam mutuamente: uma enorme corrente comercial China → Brasil, abastecendo diretamente o mercado brasileiro, e outra menos visível, mediada por empresas transnacionais historicamente identificadas com outros países, mas atualmente integradas a conglomerados chineses.

Quando Syngenta e ADAMA entram juntas nessa equação, torna-se ainda mais difícil tratar a China apenas como uma fornecedora de matérias-primas baratas para a indústria agroquímica mundial. Ela ocupa progressivamente a própria estrutura de comando dessa indústria.

E a Índia também entrou no mapa

Mas a China não é o único país do Sul Global cuja ascensão modifica a velha geografia mundial dos agrotóxicos. A Índia também se transformou em um importante produtor e exportador, apoiando-se em vantagens semelhantes às que impulsionaram inicialmente a indústria chinesa: capacidade industrial química, custos competitivos de produção e forte especialização em moléculas genéricas e pós-patente.

Dados recentes colocam a Índia entre os maiores produtores mundiais de agrotóxicos e mostram uma indústria fortemente voltada para exportações. A expiração de patentes é explicitamente identificada pelo próprio setor indiano como uma importante oportunidade para ampliar a fabricação de moléculas genéricas e conquistar mercados internacionais.

Os números mostram que essa não é uma transformação marginal. As exportações indianas de agrotóxicos, considerando produtos técnicos e formulados, passaram de aproximadamente 461 mil toneladas em 2018-19 para 641 mil toneladas em 2023-24. E há um dado especialmente significativo para nós: naquele último período, o Brasil foi o principal destino em volume dos agrotóxicos exportados pela Índia, recebendo 23,7% do total.

China, Índia e Brasil passam, assim, a formar alguns dos nós fundamentais de uma nova geografia mundial dos agrotóxicos.

O colonialismo químico está mudando de direção

É justamente aqui que o conceito de colonialismo químico, desenvolvido pela geógrafa brasileira Larissa Bombardi, ganha uma nova dimensão. Ao estudar os fluxos internacionais de agrotóxicos, Bombardi demonstrou a existência de uma profunda assimetria entre aquilo que países europeus consideram aceitável para seus próprios territórios e aquilo que suas empresas produzem ou comercializam em outras partes do mundo. O paradoxo tornou-se conhecido: determinadas substâncias deixam de ser autorizadas na União Europeia em função dos riscos ambientais ou sanitários associados ao seu uso, mas continuam circulando internacionalmente e sendo utilizadas em países onde a regulação é mais permissiva.

O Brasil tornou-se um dos exemplos mais evidentes dessa geografia desigual, mas a ascensão chinesa e, mais recentemente, a consolidação da Índia como grande produtora e exportadora de agrotóxicos obrigam a ampliar essa interpretação. O fluxo já não pode ser compreendido exclusivamente segundo o eixo Norte Global → Sul Global, pois uma parcela crescente da produção mundial está concentrada no próprio Sul Global e circula intensamente entre países do Sul.

Isso não invalida a formulação de Bombardi, mas mostra que a geografia do colonialismo químico está se tornando mais complexa. O mecanismo fundamental permanece: determinados territórios concentram produção e acumulação econômica, enquanto outros absorvem desproporcionalmente os riscos ambientais e sanitários associados ao uso intensivo dessas substâncias. O que está mudando são os lugares ocupados pelos diferentes atores nessa divisão internacional.

O colonialismo químico também pode ser Sul–Sul

A emergência de novas potências econômicas do Sul Global não significa necessariamente a superação das relações ambientalmente desiguais que caracterizaram historicamente o sistema internacional. Em determinadas cadeias produtivas, pode significar simplesmente sua reprodução por novos atores, e o complexo agroquímico oferece um exemplo particularmente evidente dessa transformação.

China e Índia desenvolveram gigantescas capacidades de produção de ingredientes ativos e produtos pós-patente, enquanto países como o Brasil oferecem uma combinação extremamente atraente de agricultura em larga escala, enorme demanda por insumos químicos e um sistema regulatório que permite a utilização de substâncias que enfrentam restrições em outros mercados.

Nesse sentido, o colonialismo químico deixa de possuir apenas uma direção geográfica. Ele continua operando no eixo Norte–Sul, mas passa também a circular intensamente no eixo Sul–Sul, produzindo uma rede muito mais complexa de transferência de riscos ambientais.

O caso brasileiro é particularmente revelador porque o país aparece simultaneamente como grande potência agrícola e como gigantesco mercado consumidor de produtos fabricados em outros países do Sul Global. O fato de o Brasil ter se tornado o maior destino das exportações chinesas de agrotóxicos em determinados anos e aparecer também como principal destino em volume das exportações indianas em 2023-24 mostra que essa nova geografia já não é uma hipótese abstrata.

Os lucros circulam; a toxicidade fica

O problema fundamental, portanto, não está simplesmente na nacionalidade das empresas. O que está se formando é uma cadeia agroindustrial transnacional na qual corporações historicamente europeias ou israelenses, capitais estatais chineses, fabricantes chineses e indianos de ingredientes ativos, tradings internacionais e grandes produtores agrícolas brasileiros participam de um mesmo sistema econômico, enquanto os benefícios e os riscos associados a esse sistema permanecem distribuídos de maneira profundamente desigual.

Os lucros, as marcas e os capitais atravessam fronteiras com enorme facilidade, enquanto a toxicidade permanece principalmente nos territórios onde esses produtos são utilizados, acumulando-se potencialmente na água, nos solos e nos organismos expostos e alcançando trabalhadores rurais, populações próximas às áreas de aplicação e consumidores por diferentes rotas de exposição. Por isso, a discussão sobre a nacionalidade das empresas não pode obscurecer uma questão essencial: quem se apropria dos benefícios econômicos e quem permanece com os custos ambientais e sanitários desse modelo?

O Brasil como grande mercado da permissividade

É justamente nesse ponto que o crescimento da Syngenta relatado pelo Correio 24 Horas ganha significado político e econômico mais amplo. O Brasil não se tornou um mercado estratégico para a indústria mundial de agrotóxicos por acaso, pois somos simultaneamente uma gigantesca potência agrícola, um dos maiores mercados mundiais desses produtos e um país no qual substâncias que enfrentam restrições em outros mercados continuam encontrando espaço comercial.

A permissividade regulatória, portanto, não pode ser tratada apenas como uma peculiaridade burocrática brasileira, pois ela possui evidente valor econômico. Cada ingrediente ativo que perde mercado em países com regulações mais restritivas precisa encontrar outros destinos para continuar gerando receita, enquanto cada patente que expira abre um gigantesco mercado para fabricantes chineses e indianos especializados em produtos genéricos e pós-patente. O Brasil oferece simultaneamente escala territorial, demanda agrícola e condições regulatórias para absorver parte expressiva dessa produção. 

Por isso, quando uma corporação agroquímica cresce fortemente justamente no mercado brasileiro enquanto determinados produtos enfrentam regulações mais rigorosas em outras regiões, é necessário perguntar se estamos diante apenas de uma história empresarial de sucesso ou de algo muito mais profundo: uma nova divisão internacional da produção e dos riscos químicos.

O agrotóxico tem passaporte, mesmo quando ele fica escondido

A reportagem do Correio 24 Horas ajuda, portanto, a revelar uma contradição importante do capitalismo agroquímico contemporâneo. A Syngenta continua tendo endereço suíço e a ADAMA continua carregando uma história empresarial israelense, mas ambas integram hoje uma estrutura corporativa controlada pelo Estado chinês. Paralelamente, gigantescos volumes de ingredientes ativos e produtos formulados saem diretamente de fábricas chinesas e indianas em direção aos grandes mercados agrícolas mundiais, entre os quais o Brasil ocupa posição privile

Glifosato encontrado em tecido endometrial: novo estudo amplia as preocupações sobre exposição crônica

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Toxicology Reports acrescenta uma peça importante — e preocupante — ao debate sobre os possíveis efeitos do glifosato sobre a saúde humana. Liderado por Márkó Unicsovics e desenvolvido por uma equipe de pesquisadores vinculados principalmente à Semmelweis University e à Hungarian University of Agriculture and Life Sciences, na Hungria, o trabalho investigou algo ainda pouco estudado: a presença de glifosato diretamente no tecido endometrial humano.

O estudo, intitulado Presence of glyphosate in endometrial cancer tissue: A cross-sectional study, foi publicado na Toxicology Reports, periódico científico de acesso aberto publicado pela Elsevier. Além de Unicsovics, assinam o trabalho Apolka Szentirmay, Györgyi Fekécs, Patrik Plank, Zsófia Molnár, György Nagyéri, Katalin Posta, Nándor Ács, Szabolcs Varbíró, Levente Sára e Zsuzsanna Szőke.

Glifosato não apenas no sangue, mas no próprio tecido

Os pesquisadores compararam mulheres com câncer endometrial e pacientes-controle com doenças endometriais benignas, procurando glifosato tanto no sangue quanto no tecido retirado durante procedimentos cirúrgicos. O desenho incluiu 32 pacientes no grupo de câncer analisado e 32 controles, além de subgrupos definidos pelo tipo e grau das alterações encontradas.

O resultado mais interessante talvez não seja simplesmente a detecção do composto. As concentrações de glifosato encontradas no tecido endometrial foram significativamente superiores às encontradas no sangue em todos os grupos analisados. Além disso, quando os pesquisadores separaram os casos segundo a gravidade da doença, as diferenças estatisticamente significativas em relação aos controles ficaram concentradas nas pacientes com câncer endometrial de alto grau.

Esse resultado abre uma questão que merece atenção: substâncias às quais as populações estão ambientalmente expostas podem apresentar comportamentos nos tecidos que não são adequadamente representados apenas por medições sanguíneas.

O problema pode estar também nas misturas

Outro aspecto especialmente interessante do estudo é que os pesquisadores não analisaram o glifosato isoladamente. Eles investigaram também micotoxinas presentes nos mesmos tecidos e encontraram forte correlação positiva entre os níveis endometriais de glifosato e zearalenona (ZEN), uma micotoxina com atividade estrogênica. Também foi observada correlação positiva com fumonisina B1.

Isso coloca em primeiro plano um problema frequentemente secundarizado na avaliação toxicológica: os seres humanos não estão expostos a uma substância de cada vez. Agrotóxicos, seus metabólitos, micotoxinas e inúmeros outros contaminantes ambientais podem chegar simultaneamente ao organismo. Os próprios autores levantam a hipótese de efeitos sinérgicos ou de coamplificação entre compostos capazes de interferir nas vias hormonais.

Um sinal de alerta, não uma demonstração de causalidade

Aqui é importante não fazer o estudo dizer mais do que ele efetivamente demonstra. Trata-se de uma investigação transversal, realizada com número relativamente pequeno de pacientes. O subgrupo no qual apareceu a associação mais forte — câncer endometrial de alto grau — possuía apenas seis mulheres. Os próprios autores ressaltam, portanto, que não é possível saber se a maior presença de glifosato antecedeu o desenvolvimento do tumor ou ocorreu posteriormente.

Em outras palavras, o estudo não demonstra que o glifosato causou câncer endometrial. Ele demonstra algo diferente e suficientemente importante: o composto foi encontrado no tecido endometrial, apresentou concentrações particularmente elevadas nos casos de câncer de alto grau e apareceu associado à presença de outros contaminantes com atividade endócrina. Os próprios pesquisadores classificam esses resultados como preliminares e defendem sua confirmação em amostras maiores e independentes.

A pergunta que permanece

Há um detalhe do artigo que merece correção. Os autores dizem que a Organização Mundial da Saúde teria classificado o glifosato como “provavelmente carcinogênico” no Grupo 2B. Na realidade, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, classificou o glifosato em 2015 como “provavelmente carcinogênico para humanos”, Grupo 2A. Grupo 2B corresponde a “possivelmente carcinogênico”. A própria IARC mantém essa informação em sua documentação oficial.  Esse lapso não altera os resultados experimentais apresentados no artigo, mas vale registrá-lo para que a informação seja reproduzida corretamente.

O ponto central levantado pelo trabalho de Unicsovics e seus colegas na Toxicology Reports talvez esteja justamente em outro lugar. Se resíduos de um dos agrotóxicos mais utilizados mundialmente podem ser encontrados em tecidos humanos e aparecem associados a outros contaminantes capazes de interferir no sistema endócrino, a discussão sobre limites considerados individualmente “seguros” parece cada vez menos suficiente. Os próprios autores concluem que é necessário investigar exposições crônicas de baixa dose, misturas de contaminantes e possíveis efeitos sinérgicos, além de desenvolver métodos mais sensíveis para medir glifosato no endométrio.

Nesse sentido, talvez a principal contribuição do estudo seja mudar ligeiramente a pergunta. Em vez de perguntar apenas quanto glifosato uma pessoa pode receber sem apresentar toxicidade aguda, torna-se necessário perguntar onde esse composto chega, por quanto tempo permanece, com quais outras substâncias interage e quais podem ser as consequências de uma exposição ambiental contínua ao longo de anos. É nesse terreno que o estudo publicado na Toxicology Reports abre uma nova e importante frente de investigação.