Entre o progresso e o declínio: A dualidade na produção científica na era do acesso aberto e da inteligência artificial

As transformações que vêm ocorrendo na produção e disseminação da ciência — ou, em muitos casos, da pseudociência — constituem uma combinação paradoxal de oportunidades e riscos para o avanço do conhecimento científico. Tais transformações ganharam impulso particularmente acelerado com o surgimento de duas ferramentas poderosas: o modelo de publicações de acesso aberto e o desenvolvimento recente da inteligência artificial. É necessário reconhecer que ambas possuem potencial significativo para democratizar a produção e a difusão do conhecimento científico. Contudo, também ampliam as condições para a proliferação do que se poderia denominar anti-ciência ou não-ciência, por meio da circulação de produtos que apenas simulam os atributos formais da produção científica, mas que, na prática, não passam de construções frágeis que adicionam ruído ao debate público em vez de oferecer explicações empírica e toericamente fundamentadas.

Um dos problemas centrais reside no fato de que o sistema de avaliação e premiação dos cientistas foi, há bastante tempo, capturado por uma lógica quantitativista segundo a qual o elemento determinante para o reconhecimento acadêmico é a velocidade e o volume de publicações — dinâmica amplamente conhecida pela expressão inglesa publish or perish. Como consequência, os sistemas de financiamento à pesquisa, que em grande medida dependem de recursos públicos, passaram a privilegiar pesquisadores capazes de sustentar ritmos elevados de publicação, ainda que isso ocorra frequentemente em detrimento da qualidade científica. Esse arranjo institucional tende a estimular mecanismos de competição distorcidos, promovendo a concentração de recursos em pesquisadores aparentemente prolíficos, cuja produção frequentemente se caracteriza pela repetição incremental de conteúdos já amplamente disseminados.

A esse problema soma-se um segundo elemento estruturante: a crescente utilização de indicadores estatísticos simplificados como instrumentos de aferição da qualidade científica, entre os quais se destaca o chamado fator de impacto das revistas. A centralidade atribuída a esse tipo de métrica contribuiu para a consolidação de um ecossistema editorial altamente problemático, no qual emergiram não apenas as chamadas fábricas de artigos científicos (paper mills), mas também uma indústria voltada à produção e disseminação de material acadêmico de baixa qualidade travestido de ciência legítima. Nesse contexto, práticas anteriormente criticadas, como a chamada salami science, parecem hoje quase triviais diante da complexidade dos mecanismos atualmente observados. Entre eles incluem-se a compra e venda de artigos, a comercialização de autorias e a formação de redes sistemáticas de autocitação destinadas a inflar artificialmente indicadores bibliométricos. Como resultado desse processo, surgiram os chamados “pesquisadores hiperprolíficos”, cuja produtividade aparente não corresponde necessariamente à geração de conhecimento científico substantivo, mas muitas vezes à multiplicação de material de valor científico questionável.

As implicações desse cenário ultrapassam o âmbito de disciplinas específicas e colocam em risco o próprio funcionamento do empreendimento científico. Dada a velocidade com que material de baixa qualidade pode ser produzido e disseminado, existe o risco concreto de que a parcela da produção acadêmica que efetivamente atende aos critérios de rigor metodológico, consistência teórica e verificabilidade empírica se torne progressivamente minoritária. A expansão do chamado “lixo científico” não apenas compromete a credibilidade da ciência enquanto instituição social, mas também enfraquece sua capacidade de orientar políticas públicas, inovação tecnológica e processos de tomada de decisão baseados em evidências.

Diante desse quadro, torna-se imperativa uma reconfiguração profunda dos mecanismos institucionais de avaliação, financiamento e reconhecimento da produção científica. Tal reconfiguração deve necessariamente envolver uma revisão crítica dos critérios atualmente utilizados por agências de fomento, universidades e sistemas de avaliação acadêmica, deslocando o foco da mera contagem de publicações para a análise substantiva da qualidade, originalidade e relevância do conhecimento produzido. Além disso, torna-se fundamental desenvolver instrumentos mais robustos de avaliação da produção científica, capazes de distinguir de forma mais eficaz entre contribuições efetivas ao avanço do conhecimento e produtos que apenas reproduzem a aparência formal da ciência. Caso tais transformações não sejam implementadas de maneira decisiva, o sistema científico corre o risco de aprofundar uma dinâmica de degradação institucional na qual a produção massiva de material de baixa qualidade passe a dominar o ecossistema acadêmico, comprometendo seriamente a capacidade da ciência de cumprir sua função social fundamental: produzir conhecimento confiável sobre o mundo.

Salários corroídos, dívida elevada e risco de cassação: a crise do governo Castro

O governador do estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), enfrenta o claro risco de ter seu mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em razão de um processo que investiga irregularidades ocorridas durante a campanha eleitoral de 2022, na qual foi reeleito. A ação examina a hipótese de que tenha havido abuso de poder político e econômico por meio do uso da estrutura administrativa do governo estadual para favorecer sua candidatura.

O ponto central das acusações envolve contratações em grande escala realizadas por órgãos vinculados ao governo do estado, especialmente a Fundação Ceperj (Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro). Segundo as investigações, programas administrados pela fundação teriam promovido a contratação de um número muito elevado de pessoas durante o período eleitoral. Parte dessas admissões teria ocorrido por meio de procedimentos pouco transparentes e, em alguns casos, com pagamentos realizados em espécie, circunstância que levantou suspeitas de que os recursos públicos estariam sendo utilizados para sustentar uma rede informal de apoiadores políticos e cabos eleitorais.

A acusação sustenta que essas contratações teriam servido não apenas para executar projetos administrativos, mas também para mobilizar apoio eleitoral à candidatura do governador, configurando uma utilização indevida da máquina pública. Na legislação eleitoral brasileira, o uso de recursos estatais ou da estrutura administrativa para beneficiar candidatos constitui uma forma de abuso de poder, capaz de comprometer a igualdade de condições entre os concorrentes e, por isso, pode levar à cassação do mandato obtido nas urnas.

A ação judicial que levou o caso ao TSE foi proposta por adversários políticos, entre eles o então candidato ao governo do estado Marcelo Freixo. O processo já havia sido analisado pela Justiça Eleitoral regional, mas acabou chegando ao tribunal superior por meio de recursos. No TSE, o julgamento ganhou grande repercussão política, pois envolve o chefe do Executivo de um dos principais estados do país.

Durante a análise do caso, a relatora do processo, Maria Isabel Gallotti, apresentou voto no sentido de reconhecer a ocorrência de abuso de poder político e econômico, defendendo a cassação do mandato e a declaração de inelegibilidade do governador por oito anos. Outros ministros começaram a apresentar seus votos, e o julgamento passou a ser acompanhado com atenção por observadores políticos e jurídicos, uma vez que sua conclusão poderá produzir efeitos relevantes na política fluminense.

Caso o tribunal forme maioria pela condenação, o governador poderá perder o mandato e ficar impedido de disputar eleições por um período determinado pela legislação. Dependendo da interpretação jurídica aplicada ao caso e do momento em que a decisão se tornar definitiva, o resultado também poderá implicar a realização de novas eleições para o governo do estado. Dessa forma, o processo em curso no Tribunal Superior Eleitoral tornou-se um dos episódios judiciais mais relevantes da política recente do Rio de Janeiro, ao colocar sob exame a legalidade das práticas administrativas adotadas durante o período eleitoral.

A situação política enfrentada por Cláudio Castro ocorre em um contexto mais amplo de fragilidade fiscal do estado do Rio de Janeiro, cuja dívida pública continua entre as mais elevadas do país. Nas últimas décadas, o estado acumulou um pesado passivo financeiro, resultado de sucessivas crises fiscais, queda de receitas em determinados períodos e compromissos estruturais de gasto. A gestão atual frequentemente justifica a contenção de despesas com pessoal como parte de uma estratégia de ajuste fiscal e de cumprimento de compromissos assumidos em acordos de recuperação das contas públicas firmados com a União.  

Essa postura, porém, é alvo de críticas cada vez mais duras por parte de servidores e analistas das finanças públicas. Para esses setores, a recusa em conceder sequer a reposição inflacionária equivale, na prática, a impor uma política deliberada de corrosão salarial ao funcionalismo estadual, transferindo para os trabalhadores do serviço público o custo do ajuste fiscal. Na visão desses críticos, o argumento da austeridade perde força quando confrontado com episódios que sugerem uso pouco criterioso de recursos públicos e expansão de estruturas administrativas marcadas por baixa transparência. Nesse contexto, o processo que envolve o governador no Tribunal Superior Eleitoral acaba reforçando a percepção de um contraste incômodo: enquanto o governo invoca limites fiscais para negar recomposição salarial a professores, policiais e outros servidores, a gestão pública permanece cercada por controvérsias que colocam em dúvida as prioridades efetivas da administração estadual liderada por Cláudio Castro. e que, em última instância, poderão resultar em sua cassação pelo TSE.

Agrotóxico banido, metais e aditivo para plásticos: boias encontram três tipos de poluentes no Dilúvio e no Guaíba

Projeto-piloto foi desenvolvido em parceria da prefeitura de Porto Alegre com a iniciativa privada

Camila Hermes / Agencia RBS

Caravela que ficava localizada próximo à foz do DilúvioCamila Hermes / Agencia RBS

Por Marcelo Gonzatto para a “Gaúcha ZH” 

Um relatório que deverá ser entregue nesta semana à prefeitura de Porto Alegre detalha o nível de poluentes presentes no Arroio Dilúvio e no Guaíba — manancial de onde é captada água que, após tratada, é servida à população. O estudo é fruto de um projeto inovador desenvolvido pela empresa paulista Infinito Mare em parceria com a prefeitura e a Heineken, pelo qual foram instaladas grandes boias azuis em três pontos da Capital.

A análise das algas que se desenvolveram nas chamadas “caravelas” revelou a presença de metais em concentrações muito acima do tolerado, de aditivos usados em plásticos e até de um agrotóxico banido do Brasil desde 2009 por sua periculosidade, o dicloro-difenil-tricloroetano (DDT) (veja detalhes abaixo).

A iniciativa conjunta foi realizada ao longo de três meses no final do ano passado em um ponto do Dilúvio e dois no Guaíba, nas proximidades do Parque do Pontal — a empresa decidiu manter as duas boias localizadas mais ao Sul. A Heineken ajudou a financiar o projeto, que se baseia em uma estrutura inovadora desenvolvida pela Infinito Mare.

As boias circulares têm, na parte inferior, uma espécie de tela na qual naturalmente se desenvolvem algas. Esses vegetais realizam uma dupla função: ajudam a “filtrar” a água, removendo impurezas, e acabam incorporando em sua estrutura partes desses elementos. Assim, ao analisar as algas de forma periódica, é possível fazer um mapeamento de poluentes que passaram pelo local em algum momento. Foram filtrados 330 mil litros de água ao longo do período. As algas captam gás carbônico do ar, ao mesmo tempo em que oxigenam o líquido.

— As algas retiram os elementos da natureza, da água, para crescer e, quando crescem, têm como característica reter vários elementos de forma química e de forma física. Quanto mais crescem, mais acumulam esses elementos. Então, o nosso período (de análise) foi para entender exatamente qual era esse potencial de acúmulo — explica o CEO da Infinito Mare, Bruno Libardoni.

Os poluentes encontrados

De forma preliminar, foram encontrados três tipos principais de poluentes por meio de amostras enviadas à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS):

  • DDT: agrotóxico associado a danos no sistema nervoso. Usado para combater mosquito transmissor da malária e para conter pragas em plantações, teve o uso agrícola proibido ainda nos anos 1980. No final dos anos 1990, deixou de ser usado para o controle de mosquitos. A proibição total em solo brasileiro (fabricação, importação, venda ou armazenamento) ocorreu em 2009.
  • Metais: ferro, manganês, alumínio e cobre em concentrações, em alguns casos, milhares de vezes acima do que a legislação tolera. As presenças de manganês e alumínio, que podem causar impacto neurológico, estavam 5 mil e 139 mil vezes acima do permitido, respectivamente. Além dos metais, também foi registrada alta concentração de fósforo, nutriente que pode multiplicar o número de micro-organismos e comprometer a qualidade da água. Essas substâncias são encontradas em efluentes urbanos e industriais.
  • Ftalatos: elementos químicos encontrados em plásticos flexíveis, embalagens, cosméticos e outros produtos, com impacto sobre o sistema hormonal humano. Podem se desprender desses materiais e contaminar os cursos d’água em caso de descarte irregular.
Camila Hermes / Agencia RBS
Envolvidos discutem continuidade do programa para monitoramento de mais longo prazoCamila Hermes / Agencia RBS

A engenheira química Cristiane Oliveira, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e líder do Grupo de Pesquisa do Laboratório de Poluição Ambiental (Lapam/UFCSPA), afirma que agrotóxicos como o DDT voltaram a aparecer em amostras de água da Capital nos últimos anos. Uma hipótese para isso é que a enchente de 2024 teria lavado solos onde esses contaminantes estavam armazenados há muito tempo e os conduzido até córregos, rios e lagos.

— O DDT é um poluente orgânico persistente, ou seja, permanece no ambiente por vários anos porque é muito estável. Então, pode ser um DDT lançado antes de 2009, mas que estava naqueles sedimentos. Como tivemos muita transposição de solos durante a enchente, pode voltar a aparecer — avalia Cristiane.

Por meio de nota, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informa que “a água distribuída à população de Porto Alegre passa por rigoroso controle de qualidade em todas as etapas do abastecimento, desde o manancial até a rede de distribuição”, e que “são realizadas análises frequentes da água bruta e da água tratada, incluindo monitoramento contínuo nas Estações de Tratamento e em mais de 350 pontos da rede de distribuição em toda a cidade. Todos os resultados obtidos pelo Dmae atendem aos limites estabelecidos na legislação de potabilidade, garantindo que a água distribuída é própria para consumo” (leia a íntegra ao final da reportagem).

Cristiane Oliveira afirma que os métodos de depuração existentes hoje são capazes de eliminar esses contaminantes, mas é preciso seguir monitorando a qualidade da água bruta com atenção.

— A gente tem hoje um tratamento que ainda segura (os poluentes), mas a nossa preocupação é com o futuro. Caso esses poluentes orgânicos comecem a ficar muito elevados, a estação (de tratamento) vai precisar incluir uma operação mais avançada — analisa a especialista da UFCSPA.

Conforme o CEO da Infinito Mare, ainda está em discussão com a prefeitura a continuidade do programa para monitoramento de mais longo prazo. A empresa já desenvolveu uma iniciativa semelhante em Belo Horizonte, vem atuando no Rio de Janeiro e tem planos para a região metropolitana de Curitiba e Santos, entre outras ações. Recentemente, o projeto da caravela recebeu prêmios como o Design For a Better World, no Brasil, e o IF Design Award, na Alemanha.

— O projeto visa a servir como uma ferramenta para aumentar o potencial de inteligência do monitoramento ecológico, e a gente promover serviços ambientais enquanto realiza esse monitoramento. O objetivo é “ouvir” a natureza e trazer soluções para o futuro próximo — complementa Libardoni.

O que diz a nota do Dmae

“O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informa que a água distribuída à população de Porto Alegre passa por rigoroso controle de qualidade em todas as etapas do abastecimento, desde o manancial até a rede de distribuição. O monitoramento segue as diretrizes da Portaria de Consolidação nº 5/2017 _ Anexo XX do Ministério da Saúde, atualizada pela Portaria GM/MS nº 888/2021, além da Portaria SES/RS nº 320/2014.

São realizadas análises frequentes da água bruta e da água tratada, incluindo monitoramento contínuo nas Estações de Tratamento e em mais de 350 pontos da rede de distribuição em toda a cidade. Todos os resultados obtidos pelo Dmae atendem aos limites estabelecidos na legislação de potabilidade, garantindo que a água distribuída é própria para consumo.

Em relação ao projeto-piloto conduzido pela empresa Infinito Mare, a Prefeitura ainda não recebeu o relatório final do estudo. Quando o documento for encaminhado oficialmente, os dados serão analisados e comparados com o monitoramento realizado pelo Dmae no mesmo período e local. O Departamento também realiza monitoramento permanente das águas do Arroio Dilúvio em 11 pontos. De forma preliminar, qualquer interpretação dos resultados do estudo exige avaliação detalhada da metodologia empregada, incluindo critérios de amostragem e forma de expressão dos dados.”


Fonte: Gaúcha ZH

Cientistas alertam que pesquisas falsas estão se espalhando mais rápido do que a ciência verdadeira

Uma grande investigação revelou redes organizadas que produziam artigos científicos falsos, vendiam direitos de autoria e manipulavam revistas científicas para publicar em massa pesquisas fraudulentas

Redes organizadas de “fábricas de papel” estão produzindo pesquisas falsas em massa — e cientistas alertam que a fraude está se espalhando mais rápido do que a ciência verdadeira.

Por Science Daily 

Um novo estudo da Universidade Northwestern alerta que a fraude científica coordenada está se tornando cada vez mais comum. De dados fabricados a autorias compradas e citações pagas, pesquisadores afirmam que grupos organizados estão manipulando o sistema de publicação acadêmica.

Para investigar o problema, os cientistas combinaram análises em larga escala de publicações científicas com estudos de caso detalhados. Embora a má conduta seja frequentemente retratada como obra de pesquisadores individuais que negligenciam as normas, a equipe da Northwestern descobriu algo muito mais complexo. Suas descobertas revelam redes globais de pessoas e organizações que trabalham juntas para explorar sistematicamente as fragilidades do processo de publicação.

A dimensão do problema é impressionante. Segundo os pesquisadores, estudos fraudulentos estão surgindo em ritmo mais acelerado do que publicações científicas legítimas. Os autores afirmam que as descobertas devem servir de alerta para a comunidade científica, para que reforce as medidas de segurança antes que a confiança pública na ciência comece a se deteriorar.

O estudo foi publicado nos Anais da Academia Nacional de Ciências .

“A ciência precisa se autorregular melhor para preservar sua integridade”, disse Luís AN Amaral, da Northwestern, autor sênior do estudo. “Se não conscientizarmos as pessoas sobre esse problema, comportamentos cada vez piores serão normalizados. Em algum momento, será tarde demais e a literatura científica estará completamente contaminada. Algumas pessoas temem que falar sobre esse assunto seja atacar a ciência. Mas acredito firmemente que estamos defendendo a ciência de pessoas mal-intencionadas. Precisamos estar cientes da gravidade desse problema e tomar medidas para resolvê-lo.”

Amaral estuda sistemas sociais complexos e ocupa a cátedra Erastus Otis Haven e é professor de ciências da engenharia e matemática aplicada na Escola de Engenharia McCormick da Northwestern. Reese Richardson, pesquisador de pós-doutorado no laboratório de Amaral, é o primeiro autor do estudo.

Investigando redes de fraude científicaQuando o público ouve falar de fraude científica, o foco geralmente recai em casos isolados envolvendo dados falsificados, plágio ou estudos retratados. Esses incidentes normalmente envolvem um único pesquisador tentando progredir na carreira tomando atalhos em um ambiente altamente competitivo.

No entanto, Amaral e seus colegas descobriram um sistema muito mais amplo e em grande parte oculto. Sua análise revelou uma extensa rede subterrânea operando praticamente fora da vista do público.

“Essas redes são essencialmente organizações criminosas, que atuam em conjunto para falsificar o processo científico”, disse Amaral. “Milhões de dólares estão envolvidos nesses processos.”

Para entender a extensão do problema, a equipe examinou grandes coleções de dados científicos. Isso incluiu registros de artigos retratados, informações editoriais e exemplos de imagens duplicadas. Grande parte das informações veio de importantes bases de dados científicas, incluindo Web of Science (WoS), Scopus da Elsevier, PubMed/MEDLINE da Biblioteca Nacional de Medicina e OpenAlex, que inclui dados do Microsoft Academic Graph, Crossref, ORCID, Unpaywall e outros repositórios institucionais.

Os pesquisadores também reuniram listas de periódicos desindexados. Trata-se de periódicos acadêmicos que foram removidos das bases de dados por não atenderem aos padrões de qualidade ou éticos. Outras fontes incluíram registros de estudos retratados do Retraction Watch, comentários de discussão do PubPeer e metadados de artigos, como nomes dos editores, datas de submissão e datas de aceitação de periódicos selecionados.

Fábricas de artigos falsos e o negócio da pesquisa falsa

Após analisar os dados, os pesquisadores identificaram operações coordenadas envolvendo “paper mills’ (i.e., fábricas de papel de artigos falsos), intermediários e periódicos comprometidos. As fábricas de papel funcionam como linhas de produção de manuscritos acadêmicos. Elas produzem um grande número de artigos e os vendem para pesquisadores que desejam aumentar rapidamente seu número de publicações.

Esses manuscritos frequentemente contêm dados fabricados, imagens manipuladas ou roubadas, texto plagiado e, às vezes, afirmações cientificamente impossíveis.

“Cada vez mais cientistas estão sendo enganados por fábricas de artigos científicos”, disse Amaral. “Eles não só podem comprar artigos, como também podem comprar citações. Assim, podem parecer cientistas renomados quando mal realizaram suas próprias pesquisas.”

“As fábricas de papel operam com diversos modelos diferentes”, acrescentou Richardson. “Portanto, mal conseguimos arranhar a superfície de como elas funcionam. Mas elas vendem basicamente qualquer coisa que possa ser usada para lavar reputação. Muitas vezes, vendem cotas de autoria por centenas ou até milhares de dólares. Uma pessoa pode pagar mais para ser o primeiro autor ou menos para ser o quarto autor. Também é possível pagar para que artigos escritos por ela sejam automaticamente aceitos em um periódico por meio de um processo fraudulento de revisão por pares.”

Para detectar artigos adicionais produzidos por meio dessas operações, o grupo de Amaral lançou um projeto separado que escaneia automaticamente estudos publicados nas áreas de ciência e engenharia de materiais. O sistema busca autores que identificam incorretamente os instrumentos utilizados em seus experimentos. Resultados desse trabalho foram aceitos para publicação na revista PLOS ONE .

Corretores, sequestro de diários e fraude coordenada

A equipe descobriu que as redes fraudulentas dependem de diversas estratégias para disseminar pesquisas falsas.

  1. Grupos de pesquisadores colaboram para publicar artigos em diversos periódicos, mesmo que o trabalho seja fraudulento. Quando a má conduta é descoberta, os artigos são posteriormente retratados.
  2. Os corretores atuam como intermediários que organizam a publicação de artigos fraudulentos em revistas comprometidas.
  3. A atividade fraudulenta costuma concentrar-se em áreas científicas específicas que são mais vulneráveis ​​à manipulação.
  4. Grupos organizados encontram maneiras de burlar as medidas de controle de qualidade, incluindo a desindexação de periódicos.

“Os intermediários conectam todas as diferentes pessoas nos bastidores”, disse Amaral. “Você precisa encontrar alguém para escrever o artigo. Precisa encontrar pessoas dispostas a pagar para serem os autores. Precisa encontrar um periódico onde possa publicar tudo. E precisa de editores nesse periódico que aceitem o artigo.”

Em alguns casos, esses grupos evitam completamente as revistas legítimas e, em vez disso, assumem o controle de publicações abandonadas. Quando uma publicação legítima deixa de operar, os fraudadores podem adquirir o site ou o nome de domínio e reativá-lo como um veículo para publicações fraudulentas.

“Isso aconteceu com a revista HIV Nursing”, disse Richardson. “Era a revista de uma organização profissional de enfermagem no Reino Unido, mas parou de publicar e seu domínio online expirou. Uma organização comprou o nome de domínio e começou a publicar milhares de artigos sobre assuntos completamente alheios à enfermagem, todos indexados no Scopus.”

Protegendo a integridade da ciência

Para enfrentar a crescente ameaça, Amaral e Richardson afirmam que a comunidade científica precisa de uma estratégia abrangente. Isso inclui um monitoramento mais rigoroso das práticas editoriais, ferramentas mais robustas para detectar estudos fraudulentos, uma compreensão mais profunda das redes que viabilizam a fraude e mudanças significativas nos sistemas de incentivo que regem a publicação científica.

Os pesquisadores também enfatizam a urgência de abordar esses problemas antes que a inteligência artificial (IA) se torne mais profundamente incorporada à literatura científica.

“Se não estivermos preparados para lidar com a fraude que já está ocorrendo, certamente não estaremos preparados para lidar com o que a IA generativa pode fazer com a literatura científica”, disse Richardson. “Não temos ideia do que vai acabar na literatura, o que será considerado fato científico e o que será usado para treinar futuros modelos de IA, que então serão usados ​​para escrever mais artigos.”

Amaral disse que o projeto era pessoalmente desanimador, mas necessário.

“Este estudo é provavelmente o projeto mais deprimente em que já me envolvi em toda a minha vida”, disse Amaral. “Desde criança, eu era fascinado por ciência. É angustiante ver outras pessoas cometendo fraudes e enganando os outros. Mas se você acredita que a ciência é útil e importante para a humanidade, então você tem que lutar por ela.”

O estudo, intitulado “As entidades que possibilitam a fraude científica em larga escala são grandes, resilientes e estão crescendo rapidamente”, recebeu apoio da Fundação Nacional de Ciência e dos Institutos Nacionais de Saúde.

 

Fonte da história:

Materiais fornecidos pela Northwestern University . Observação: o conteúdo pode ser editado para adequação ao estilo e tamanho.


Referência do periódico :

  1. Reese AK Richardson, Spencer S. Hong, Jennifer A. Byrne, Thomas Stoeger, Luís A. Nunes Amaral. As entidades que possibilitam a fraude científica em larga escala são grandes, resilientes e estão crescendo rapidamente . Anais da Academia Nacional de Ciências , 2025; 122 (32) DOI: 10.1073/pnas.2420092122

Fonte: Science Daily

Julgamento pode condenar envolvidos no rompimento da barragem de Fundão

Desembargadores do Tribunal Regional Federal da 6a. Região (TRF6) vão julgar na quarta- feira, dia 11 de março, na sessão das 10h, em Belo Horizonte, duas apelações criminais sobre o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Uma dessas apelações foi apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF), e a outra foi interposta por quatro mulheres, sendo três familiares de vítimas fatais e uma moradora de Bento Rodrigues.

As duas partes farão suas sustentações orais, o MPF e os advogados das mulheres atingidas, Danilo Chammas e Pablo Martins, da equipe de Litígio em Direitos Humanos do Instituto Cordilheira. Familiares de vítimas e outras pessoas atingidas, de Mariana e outros municípios, virão até Belo Horizonte para acompanhar a sessão. Os Desembargadores que participarão do julgamento são Pedro Felipe Santos, relator do caso, Klaus Kuschel e Luciana Pinheiro Costa.

Entenda o caso

 O processo teve início em 2016, com 26 réus, mas 15 deles saíram ao longo do processo. Além disso, as acusações que eram inicialmente de homicídios dolosos triplamente qualificados e de lesões corporais foram desclassificadas por decisões de segunda instância. Em novembro de 2024, a juíza federal de Ponte Nova, Patrícia Alencar Teixeira de Carvalho, proferiu uma sentença que absolveu todos os 11 réus remanescentes.

Indignadas com a notícia, familiares de vítimas fatais e uma moradora de Bento Rodrigues buscaram participar formalmente do processo. Com o apoio jurídico da equipe de Litígio em Direitos Humanos do Instituto Cordilheira, elas foram habilitadas como assistentes de acusação e interpuseram recurso de apelação.

As duas apelações defendem ter ficado comprovado que cada um dos réus deixou conscientemente de tomar medidas que poderiam ter evitado as consequências da tragédia e por isso devem ser punidos. Entre essas medidas estão estudos de suscetibilidade à liquefação e a retificação do eixo de um dos diques da barragem, que haviam sido recomendados por especialistas.

A decisão a ser dada pelos desembargadores no dia 11 pode resultar na condenação de todos os réus por diversos crimes previstos na Lei de Crimes Ambientais. Além disso, os réus pessoas físicas podem vir a ser condenados também pelo crime de inundação qualificada pelo resultado morte, que prevê uma pena de prisão de 6 a 12 anos.

Os réus que podem vir a ser condenados são quatro empresas: Samarco Mineração S.A. (proprietária da estrutura), Vale S.A e BHP Billiton Ltda. (acionistas) e VOGBR Recursos Hídricos e Geotecnia Ltda. (pela elaboração e apresentação da Declaração de Estabilidade falsa e enganosa) e 7 pessoas físicas: Daviely Rodrigues Silva, Germano Silva Lopes, Kleber Luiz de Mendonça Terra, Paulo Roberto Bandeira, Ricardo Vescovi de Aragão, Samuel Santana Paes Loures e Wagner Milagres Alves, que ocupavam cargos de diretoria, gerência e no conselho de administração da Samarco.

Habeas corpus do caso de Brumadinho também serão julgados nesta quarta (11)

 Na sessão de quarta-feira, dia 11 de março, desembargadores do Tribunal Regional Federal da 6a. Região (TRF6) julgarão dois habeas corpus apresentados pelas defesas de quatro réus do processo criminal que trata dos crimes de homicídios dolosos e outras infrações penais relacionadas ao rompimento da barragem de Brumadinho.

Um desses habeas corpus tem como impetrantes os advogados do engenheiro da Vale Felipe Figueiredo Rocha, enquanto o outro foi impetrado em nome de três engenheiros da Tüv Süd: André Jum Yassuda, Makoto Namba e Marlísio Oliveira Cecílio Júnior. As defesas pedem o trancamento da ação penal, isto é, que todo o processo seja invalidado porque, segundo eles, um laudo pericial, produzido em 2021, teria alterado a versão dos fatos, fazendo com que a acusação ficasse incompatível com as imputações originalmente formuladas em 2020.

O Ministério Público Federal, titular da acusação, refuta essa alegação, defendendo que há inquestionável justa causa para continuidade do processo, fundamentada nos atos comissivos e omissivos dos acusados, relacionados a declarações inidôneas de estabilidade da barragem e ao não cumprimento do dever de agir para evitar o colapso ou assegurar meios de salvação a todas as vítimas.

A AVABRUM, que atua como assistente de acusação nos processos criminais, em nome de 463 familiares diretos de vítimas fatais, estará representada durante o julgamento. Segundo os advogados Danilo Chammas e Pablo Martins, “esses mesmos julgadores já analisaram essa tese antes, tendo refutado as alegações das defesas dos réus. Esperamos que esse posicionamento se mantenha no julgamento do dia 11. A sociedade brasileira necessita que o processo criminal flua regularmente, sem mais atropelos”.

Serviço

Sessão de julgamento no TRF6 dos processos criminais sobre os rompimentos das barragens em Mariana e Brumadinho

Quarta, 11 de março, 10h

Avenida Álvares Cabral, 1741, Santo Agostinho, Belo Horizonte

Alternativa aos agrotóxicos sintéticos, ‘agrotóxicos naturais’ são ligados à morte precoce de abelhas em estudo

Estudo da UFSC identificou que 7 dos 12  agrotóxicos biológicos mais usados no país causam danos às abelhas, principal agente polinizador de culturas alimentares no Brasil; conhecidos também como bioagrotóxicos, esses produtos não passam por análise de risco como os agrotóxicos sintéticos

Os biopesticidas são feitos a partir de substâncias naturais e por isso são considerados menos nocivos, mas estudos mostram que eles podem reduzir o tempo médio de vida das abelhas, insetos polinizadores fundamentais para segurança alimentar (Ilustração: Rodrigo Bento/Repórter Brasil)

Por Adriana Amâncio | Edição Diego Junqueira para “Repórter Brasil”

Um estudo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) identificou que abelhas polinizadoras — necessárias para produção de alimentos, reprodução de plantas e equilíbrio de ecossistemas —, morrem mais cedo por conta de alguns dos bioagrotóxicos mais comercializados no país. O cenário se agrava pois esses produtos — também conhecidos como “agrotóxicos biológicos” ou “agentes de controle biológico” — estão batendo recordes de venda.

O problema é que, diferentemente dos agrotóxicos sintéticos, os bioagrotóxicos não passam por estudos rigorosos para avaliação de risco durante o processo de registro no Brasil. Isso significa que há efeitos adversos ignorados por produtores, pesquisadores e órgãos de regulação.

A constatação é do artigo A pertinência da avaliação dos efeitos adversos potenciais dos biopesticidas sobre as abelhas, recém publicado na Revista Brasileira de Agroecologia. Por meio de revisão de literatura científica, a análise identificou que 7 dos 12 agentes biológicos mais usados no país provocam danos às abelhas. Cada bioagrotóxico corresponde a um ingrediente ativo, que pode ser comercializado por dezenas de fabricantes. No caso das 12 substâncias analisadas pela UFSC, há 571 diferentes marcas disponíveis no mercado.

Um exemplo de impacto às abelhas citado no estudo é a interação de dois bioagrotóxicos à base de bactérias (um com Bacillus   thuringiensis aizawai e outro com B. amyloliquefaciens), que provocou a redução de 4,5 dias da vida útil dos insetos. Em testes nos quais as abelhas foram expostas a cada produto individualmente, a redução da vida útil subiu para 8 dias. 

Na espécie apis mellifera (abelha com ferrão comum na apicultura), as operárias vivem de 32 a 45 dias, o zangão, 80, e a rainha, de dois a cinco anos. Na espécie de meliponíneos (abelha sem ferrão, também polinizadora), a operária vive em torno de 45 dias e a rainha reprodutora pode chegar a dois anos.

Abelha em floração de batatas. Os insetos polinizadores acabam se contaminando ao se aproximarem de plantações na época da floração. (Foto: Pixabay)
Abelha em floração de batatas. Os insetos polinizadores são fundamentais para segurança alimentar e equilíbrio dos ecossistemas (Foto: Pixabay)

A pesquisa destaca que a dispensa de análise de risco para o registro dos bioinsumos impede prevenir os possíveis danos às abelhas. “O fato de [a legislação brasileira] não exigir estudos impede saber quais desses produtos causam danos às abelhas. Isso só será descoberto tarde demais”, afirma Rubens Nodari, professor do Departamento de Fitotecnia do Programa de Pós-graduação em Recursos Genéticos Vegetais da UFSC e coautor do estudo.

A falta de análise de risco no registro desses produtos pode mascarar as reais causas de mortandades de abelhas, avalia o biólogo José Maria Gusman Ferraz, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) e ex-integrante da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, que atua na regulamentação de organismos geneticamente modificados). 

“Muita mortalidade de abelha pode estar indo para a conta dos agrotóxicos e, na verdade, pode ser efeito sinérgico ou efeito desses bioinsumos que a gente não está medindo”, diz Ferraz. Efeito sinérgico é quando os impactos são provocados pela interação de dois produtos.

Nodari, da UFSC, enfatiza que o uso de caldas à base de organismos vivos para controle de pragas na agricultura é secular, resistem ao tempo e muitas delas têm baixíssimo risco. “O problema não é o uso desses produtos pelo agricultor no campo, o problema é acreditar no conceito de que, já que o produto é natural, não oferece risco”, detalha.

Outro exemplo de bioagrotóxico danoso às abelhas é o popular Neem, cujo ingrediente ativo é a Azadiractina, extraída de uma árvore de origem asiática e comumente usada na fabricação de repelentes naturais e inseticidas orgânicos. “Se a substância for aplicada em culturas como alface e repolho, não causará danos. Mas se usada em plantas com néctar e flores, certamente vai causar danos às abelhas”, afirma Nodari.

Uso de bioagrotóxicos cresce 674% em 4 anos

A falta de informações sobre os efeitos dos bioagrotóxicos chama atenção porque o consumo desses produtos é crescente. Entre 2014 e 2019, a comercialização registrou variações, mas se manteve sempre abaixo das 500 toneladas anuais. Nos últimos anos, contudo, as vendas explodiram e chegaram a 3.817 toneladas em 2023 — alta de 674% em relação a 2019 —, segundo dados do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente).

Um dos motivos por trás disso é a comercialização de alimentos orgânicos, cada vez mais presentes na mesa dos brasileiros. Esse modelo de produção adota diferentes práticas para o controle de pragas, incluindo a aplicação de biopesticidas. O número de produtores orgânicos cresceu 448% de 2012 a 2021, embora a área dedicada ainda seja pequena, de apenas 1 milhão de hectares, segundo a Embrapa — ou 0,4% da área agrícola do país.

O interesse em alimentos orgânicos tem levado produtores a cultivar extensas áreas com apenas uma cultura, explica José Ferraz, o que acaba exigindo maior quantidade de bioagrotóxico para o controle de pragas, que adquirem maior poder de destruição neste cenário de monocultura. 

“O modelo de monocultivo em larga escala irá demandar soluções também em massa, pela grande extensão da lavoura e pela falta de diversidade vegetal. Já os policultivos exigem menos controle, pois se assemelham ao ecossistema natural”, diz o biólogo.

O estudo da UFSC alerta ser necessária “cautela no uso dos biopesticidas, em particular na produção orgânica e agroecológica, enquanto os danos destes produtos aos organismos não-alvos não estiverem adequadamente avaliados”. Organismos não-alvos são aqueles que não se pretende exterminar com o uso do bioagrotóxico, mas que podem ser atingidos colateralmente.

A adoção de estudos abrangentes na fase de registro, como ocorre no caso dos agrotóxicos sintéticos, permitiria criar estratégias para reduzir os efeitos dos bioagrotóxicos, defende Nodari. “É importantíssimo que se faça estudos de impacto desses produtos em organismos não-alvo, principalmente as espécies polinizadoras, como as abelhas.”

Segundo os pesquisadores, isso é importante até por conta da segurança alimentar. “Das 114 principais plantas utilizadas para produção de alimentos, 87 necessitam da polinização animal. Para um terço delas, a dependência por polinizadores é grande ou essencial. Em uma eventual crise de polinizadores, a produção no Brasil seria comprometida em 40 a 100%, evidenciando a vulnerabilidade da economia brasileira, que é baseada na agricultura dependente de polinização”, diz o artigo da UFSC, assinado também pelas pesquisadoras Marcia Regina Faita e Sonia Corina Hess.

Bioagrotóxicos exigem estudos menos abrangentes do que agrotóxicos sintéticos

O registro de biopesticidas está previsto na Lei de Bioinsumos (Lei 15.070/2024), sancionada em dezembro de 2024 para criar regras de uso e comercialização de produtos biológicos no Brasil. Contudo, mais de um ano após entrar em vigor, a lei ainda não foi regulamentada. Por isso, a aprovação dos biopesticidas continua seguindo as regras da norma anterior, o Decreto nº 4.074/2002.

O Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) e a Croplife (associação que representa a indústria de agrotóxicos e de biopesticidas) disseram em nota à Repórter Brasil que as regras atuais exigem estudos de impacto à saúde e ao meio ambiente. Contudo, segundo os especialistas ouvidos pela Repórter Brasil, o decreto de 2002 não exige avaliação dos efeitos adversos em organismos não-alvo.

No caso dos agrotóxicos, por exemplo, o Ibama estabeleceu em 2017 uma norma específica para avaliação de risco dessas substâncias para insetos polinizadores. A regra, contudo, não se aplica aos produtos biológicos.

A Lei de Bioinsumos de 2024 prevê que “os órgãos governamentais de saúde e de meio ambiente deverão manifestar-se nos processos de registro de produtos novos destinados ao controle fitossanitário”, mas não considera os eventuais efeitos danosos dos produtos nem estabelece obrigação para avaliação de riscos. 

“A palavra risco só é mencionada uma vez na referida Lei, no Art. 9º, que estabelece que o órgão federal de defesa agropecuária poderá estabelecer isenções para produtos de baixo risco em ato normativo próprio. Contudo, se não há obrigação para realizar a avaliação de risco, como classificar um produto como ‘baixo risco’?”, questiona o artigo da UFSC.

“Na Europa, por exemplo, os agentes de controle biológico são enquadrados como os outros agrotóxicos. Ou seja, lá eles são obrigados a fazer a avaliação [de risco]. Nós até entendemos que esses produtos na maioria das vezes poderão ser, de fato, muito menos tóxicos do que os químicos, mas o fato de você dispensar a priori ou não exigir estudos, jamais vamos saber quais poderão causar danos”, afirma Nodari.

As diferenças para desenvolvimento e registro de um agrotóxico e de um bioagrotóxico se refletem também no tempo e no investimento necessários para levar um novo produto ao mercado.

Segundo a Croplife, o ciclo de inovação de um produto biológico leva, em média, de 5 a 8 anos, enquanto o dos agrotóxicos químicos pode chegar a 12 anos. 

Em relação aos investimentos, os produtos biológicos demandam entre US$ 6 milhões e US$ 10 milhões. “Já no caso dos ingredientes ativos químicos, o processo de descoberta, desenvolvimento e registro regulatório é complexo e prolongado, com investimentos que ultrapassam US$ 300 milhões”, diz a nota enviada à reportagem.

Para garantir segurança no uso dos bioagrotóxicos, Nodari diz que não seriam necessários os mesmos estudos exigidos no registro de um pesticida sintético. “Poderiam organizar estudos básicos mínimos de toxicidade, especialmente em organismos não-alvos, e as abelhas deveriam estar nessa lista”, defende.


O termo biopesticida presente no texto originalmente publicado pela Repórter Brasil foi substituído aqui por “bioagrotóxico” porque considero que é o termo mais correto conceitualmente.

Universidades paulistas definem regras para o uso da IA

Universidades definem regras para o uso da IA • DOL

Por Laura Mattos – Folhapress

Três das principais universidades do país, USP, Unicamp e Unesp estão criando protocolos para o uso da inteligência artificial (IA). Em geral, a regra é a transparência. A utilização da IA deve ser combinada entre professores e alunos e declarada nas pesquisas e nos demais trabalhos acadêmicos. E não basta dizer “Eu usei IA”. O rigor acadêmico exige que sejam listadas quais ferramentas foram utilizadas, detalhando versões e modelos, e de que maneira, reproduzindo até os prompts (comandos para execução de tarefas).

Diante da importância dessas três universidades, o caminho adotado por elas diz respeito não somente às suas comunidades, mas deve servir como referência a outras instituições de ensino, à educação brasileira em geral e até a outras áreas.

Nas universidades, a definição de regras é parte de um projeto maior. A exemplo do que vem ocorrendo em universidades no mundo todo, USP, Unicamp e Unesp estão estruturando departamentos para estabelecer protocolos e diretrizes da IA, coordenar debates, pesquisas e desenvolvimento de ferramentas, além de promover a formação de alunos, professores, funcionários e da comunidade externa.

A Unesp publicou no ano passado a resolução geral e uma portaria para a pós-graduação. Finalizou agora um guia para a graduação, ao qual a Folha de S.Paulo teve acesso, com normas divididas em “O que você PODE fazer”, “O que você NUNCA pode fazer” e “O que você TALVEZ possa fazer”.

Exemplos do que o aluno pode fazer: usar IA para traduzir textos, parafrasear parágrafos e elaborar resumos. E do que nunca pode fazer: submeter trabalhos gerados por IA, de forma integral ou parcial, como se fossem produções originais, usar IA em avaliações sem autorização do professor.

Docentes podem, por exemplo, usar IA para elaborar aulas e auxiliá-los na correção é obrigatório que revisem o resultado. Nunca podem criar materiais didáticos sem revisão humana e sem declarar o uso da IA aos alunos.

O guia orienta que os docentes reflitam com os alunos sobre a IA e estipulem em que fases dos trabalhos ela pode ser utilizada e como. Curiosamente, o guia foi elaborado com a ajuda de IA, trazendo um capítulo para falar sobre isso.

O laboratório deve ser ampliado e se tornar o Instituto de Inovação em Inteligência Artificial (I3A), para coordenar ações e pesquisas na universidade e articular debates e parcerias com a comunidade externa. “Há muitas questões em aberto na sociedade e precisamos achar um equilíbrio no uso dessas ferramentas”, diz. “A Unesp tem muitos cursos de licenciatura, forma professores. Como falar com os alunos sobre IA?”, questiona.

“Não há ferramentas de detecção de IA confiáveis, elas levam ao risco de acusações injustas. Devemos ter outras estratégias para o ensino, como reforçar os projetos, os debates, as questões orais feitas em sala de aula.”


Fonte: Bem Paraná

Pesquisa da UFSCar registra resistência inédita ao glifosato em plantas invasoras

Estudo identifica pela primeira vez resistência ao herbicida em Solanum americanum, espécie comum em áreas agrícolas

Pesquisa da UFSCar registra resistência inédita ao glifosato em plantas invasoras -

Por Jéssica para “São Carlos Agora” 

Pesquisadores do Laboratório de Produtos Naturais (LPN) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) identificaram diferentes espécies de plantas invasoras, agronomicamente conhecidas como “plantas daninhas”, com capacidade de resistir à ação do herbicida glifosato. Entre elas está Solanum americanum, cuja resistência foi registrada pela primeira vez para a espécie, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.

A investigação teve início durante o doutorado de Gabriel da Silva Amaral, no Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ) da UFSCar, sob a orientação de Maria Fátima Fernandes da Silva, docente no Departamento de Química (DQ) da Instituição, a partir de relatos de produtores rurais que observavam falhas recorrentes no controle de plantas invasoras. Com base nessas observações, os pesquisadores coletaram sementes de espécies que haviam sobrevivido à última aplicação do herbicida (dose de campo) em pomares de laranja-doce e limão-taiti. O material foi então submetido a testes laboratoriais para avaliar a resposta das plantas ao herbicida.

Como surge a resistência

O glifosato é o herbicida mais utilizado no país e um dos mais empregados no mundo. Ainda assim, algumas populações de plantas invasoras vêm apresentando redução na sensibilidade ao produto, devido ao uso indiscriminado deste. Essa resistência não ocorre de forma imediata, é resultado de um processo evolutivo gradual.

Quando um herbicida é usado repetidamente, ele não afeta todas as plantas da mesma forma. Algumas já possuem pequenas diferenças genéticas que as tornam menos sensíveis ao produto. Com o tempo, essas plantas sobrevivem às aplicações e se multiplicam, fazendo com que a população passe a responder cada vez menos a ação do herbicida. Esses indivíduos sobrevivem, se reproduzem e transmitem essas características às gerações seguintes. Com o tempo, esses traços passam a predominar, formando populações resistentes.

Testes confirmam a resistência

Segundo Amaral, o estudo trouxe uma constatação inédita. “Elucidamos que Solanum americanum apresenta resistência ao glifosato. É o primeiro registro desse tipo de resistência para a espécie no Brasil e no mundo. A descoberta amplia o conjunto de plantas invasoras que passam a representar desafio para a citricultura, especialmente em sistemas com uso contínuo do herbicida”, afirma. 

Os testes indicaram que algumas espécies, como Amaranthus deflexus, Amaranthus hybridus e Tridax procumbens, permaneceram sensíveis ao produto. Já Bidens pilosa apresentou comportamento distinto: embora a maioria das populações tenha respondido ao glifosato, amostras coletadas na região de Olímpia exibiram sinais de resistência, com redução significativa na mortalidade das plantas tratadas com glifosato.

Outras espécies já reconhecidas por dificultar o manejo agrícola, como Conyza bonariensis, Digitaria insularis e Chloris elata, apresentaram resistência. Em alguns casos, nem mesmo doses elevadas do herbicida foram suficientes para garantir o controle.

Para confirmar que as plantas eram realmente resistentes, e não apenas sobreviventes ocasionais, os pesquisadores realizaram teste bioquímico que avalia o funcionamento da via metabólica alvo do glifosato. O herbicida atua bloqueando a chamada via do chiquimato, responsável pela produção de aminoácidos essenciais ao desenvolvimento da planta. Quando essa via é interrompida, a planta deixa de sintetizar compostos indispensáveis para seu crescimento e sobrevivência. Como consequência desse bloqueio, o ácido chiquímico, uma molécula intermediária da via, passa a se acumular.

Em plantas sensíveis ao herbicida, esse acúmulo é elevado, sinalizando que o metabolismo foi efetivamente interrompido. Já nas populações analisadas como resistentes, os níveis de ácido chiquímico foram significativamente menores. Isso indica que o glifosato não conseguiu bloquear completamente a via metabólica. Ao demonstrar que a via permanece ativa nas plantas resistentes, o estudo confirma que não se trata de uma sobrevivência casual, mas de uma alteração fisiológica consistente que reduz a eficácia do herbicida.

Além do impacto direto no controle das plantas invasoras, o uso contínuo do herbicida pode afetar outros componentes do sistema produtivo. “O glifosato não atua apenas sobre as plantas indesejadas. Ele também pode interferir em bactérias e fungos do solo que desempenham papel importante na saúde da lavoura. Aplicações frequentes ou em doses elevadas podem reduzir esses microrganismos benéficos e comprometer a ciclagem de nutrientes”, explica Amaral.

A ocorrência simultânea de múltiplas espécies resistentes em um mesmo pomar é uma problemática constante. Nas áreas analisadas, que envolvem os municípios de Araras, Cordeirópolis, Mogi-Mirim e Olímpia, os cientistas identificaram a convivência de duas, três ou até cinco espécies resistentes lado a lado. Essa sobreposição torna o manejo mais complexo, uma vez que estratégias eficazes para uma espécie podem não funcionar para outra, elevando custos e limitando as alternativas disponíveis aos produtores.

A identificação dessas populações resistentes é fundamental para compreender como o uso contínuo de herbicidas pode alterar o equilíbrio no campo. É necessário orientar estratégias de manejo mais diversificadas e sustentáveis, reduzindo a dependência de uma única ferramenta de controle.

A pesquisa foi desenvolvida frente ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Controle Biorracional de Insetos Pragas e Fitopatógenos (CBIP), sob coordenação de Maria Fátima Fernandes da Silva, docente no DQ. Os resultados foram publicados e podem ser conferidos no site da revista AgriEngineering.

O projeto recebeu apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, processos 14/50918-7 e 2012/25299-6).


Fonte: São Carlos Agora

Urgente! 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (3º SIBSA) tem inscrições prorrogadas

O prazo para submissão de resumos ao 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (3º SIBSA) foi prorrogado até o dia 12 de março! A data coincide com a data limite do primeiro lote de inscrições. As pessoas interessadas podem fazer sua inscrição e enviar resumos diretamente no site oficial do evento. O evento será realizado de 27 a 29 de maio de 2026, na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá (MT),

Submissão de trabalhos

O 3º SIBSA vai receber resumos de trabalhos científicos até o dia 12 de março de 2026, exclusivamente por meio de formulário eletrônico disponível no site do Simpósio. Cada participante poderá submeter um resumo como autor(a) responsável, e os trabalhos aprovados serão distribuídos em rodas de saberes conforme o eixo temático escolhido. + Confira os eixos temáticos

Vale lembrar que, para a submissão de resumos, é necessário estar inscrito no congresso, não sendo exigido o pagamento da inscrição neste momento. No entanto, em caso de aprovação do trabalho, a inclusão na programação do evento estará condicionada à quitação da inscrição até 7 de abril de 2026.

O evento reafirma a defesa intransigente de um Sistema Único de Saúde (SUS) público, universal e de qualidade, orientado pelos princípios da universalidade, integralidade, equidade e controle social, além do enfrentamento ao racismo ambiental e a todas as formas de discriminação, com compromisso com a democracia, a soberania, a sociobiodiversidade, a justiça socioambiental e a solidariedade entre os povos.

Inscrições

O primeiro lote de inscrições foi prorrogado até o dia 12 de março 2026. Vale lembrar que as atividades pré e pós- simpósio terão valores à parte. Não serão aceitas inscrições no local.
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Pessoas associadas à Abrasco garantem valores mais baixos de inscrição!
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Sobre o Evento

O evento será realizado de 27 a 29 de maio de 2026, na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá (MT), reunindo pesquisadoras e pesquisadores, estudantes, profissionais da saúde, movimentos sociais e lideranças de todo o país em torno de um compromisso comum: a defesa da vida, do meio ambiente e da Saúde Coletiva.

Com o tema “A luta da Saúde Coletiva frente ao colapso ecológico, soberania, justiça e conhecimento para a transformação“, o 3º SIBSA busca promover o diálogo interdisciplinar e intercultural entre diferentes saberes, apontando caminhos para fortalecer a Saúde Coletiva diante das profundas mudanças socioambientais. O Mato Grosso foi escolhido por sua relevância ambiental e social. O estado abriga três biomas brasileiros, Amazônia, Cerrado e Pantanal, e concentra conflitos te

O cercado invisível: masculinidade, poder e violência contra mulheres no Brasil

Por Ismael Machado*

Esse final de semana vi o filme iraniano Fora do Jogo (Offside, de 2006) e tive a sensação desconfortável de estar diante de algo que, para muitos brasileiros, pareceria distante demais para provocar identificação. No Irã, mulheres são (ou eram, não tenho certeza) proibidas por lei de entrar em estádios de futebol. O filme acompanha algumas delas tentando assistir a uma partida decisiva das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006, contra o Bahrein. Disfarçadas de homens, tentam atravessar o controle do estádio. As que são descobertas não são presas no sentido convencional; são colocadas num cercado improvisado atrás das arquibancadas. Ali ficam. Não veem o jogo. Apenas ouvem o barulho da torcida e os ecos de um espetáculo do qual estão oficialmente excluídas.

A justificativa para a proibição é reveladora. As mulheres não deveriam ser expostas aos palavrões dos homens, nem frequentar ambientes predominantemente masculinos. O argumento parece protetor, quase paternalista. O problema é que esse tipo de “proteção” sempre funciona como uma tecnologia de confinamento. A mulher é protegida afastando-se dela o mundo público. O espaço que lhe resta é o doméstico, a família, a esfera privada.

O cineasta iraniano Jafar Panahi é o mesmo de ‘Foi Apenas um Acidente’, que está entre as produções oscarizáveis esse ano. Ele construiu uma das trajetórias mais singulares do cinema contemporâneo. Formado na tradição do novo cinema iraniano que ganhou projeção internacional a partir dos anos 1990, Panahi desenvolveu uma obra profundamente marcada pela observação do cotidiano e por um olhar atento às contradições sociais de seu país. Me informa a pesquisa feita no Google e no Wikipedia que seus filmes frequentemente colocam no centro personagens marginalizados — crianças, mulheres, trabalhadores — revelando, por meio de histórias simples, a complexidade de um sistema político e cultural que regula a vida privada e o espaço público. Eu o conheci agora, vendo esses dois filmes. Há outros dele no Mubi. Vou conferir.

Ao assistir ao filme, pensei muitas vezes em como certos discursos conservadores no Brasil flertam com essa lógica de violência e exclusão social. Há quem se diga defensor da liberdade, da tradição, da família. Mas raramente se discute o que acontece quando essas palavras deixam de ser abstrações morais e se transformam em estruturas concretas de poder. O que significa, de fato, uma sociedade organizada em torno da ideia de que o lugar “natural” da mulher é determinado por valores morais fixos? O Irã (e outras sociedades similares) mostra uma versão extrema dessa pergunta. O Brasil começa a tatear respostas inquietantes.

Nos últimos anos, o país viu crescer uma combinação explosiva de fatores culturais e políticos que reorganizam a forma como parte dos homens compreende o papel das mulheres. Esse processo passa por uma radicalização política associada ao empoderamento tóxico trazido pelo bolsonarismo, pela popularização de subculturas digitais como a dos red pills e dos incels e a proliferação de influenciadoras e influenciadores que defendem modelos rígidos de submissão feminina em nome da família tradicional.

Os dados sociais mostram o custo dessa atmosfera.

Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios de sua história: 1.470 mulheres assassinadas por razões de gênero. Isso equivale a cerca de quatro mortes por dia. O país já havia batido outro recorde trágico. Em 2024 foram registrados 87.545 estupros, o maior número da série histórica. Uma mulher estuprada a cada seis minutos. Mais de três quartos desses casos foram classificados como estupro de vulnerável. A maioria ocorreu dentro de casa.

O lugar que o discurso conservador insiste em descrever como espaço seguro — o lar — aparece repetidamente como o principal cenário da violência.

Outro dado perturbador surge quando se observa a relação entre violência e religiosidade. Pesquisas recentes mostram que 42,7% das mulheres evangélicas afirmam ter sofrido algum tipo de violência de parceiros íntimos ao longo da vida, um índice superior ao observado entre mulheres católicas (que também não é desprezível). O dado não significa que a fé produza violência. Revela algo diferente. O de que ambientes fortemente estruturados por hierarquias morais e familiares nem sempre oferecem instrumentos eficazes para romper ciclos de agressão. Geralmente é o contrário.

Há ainda um dado alarmante que ajuda a dimensionar a profundidade dessa violência estrutural. Em 2025, segundo o Repórter Brasil, 395 mulheres foram resgatadas de situações de trabalho análogo à escravidão no Brasil, o maior número já registrado desde que o país passou a coletar dados demográficos detalhados sobre os resgates, em 2003. Elas representaram 14% das 2.772 pessoas libertadas, uma proporção muito superior à média histórica, já que ao longo de mais de duas décadas as mulheres apareciam em apenas cerca de 6% dos resgates. Durante muito tempo, a exploração feminina permaneceu invisível nas estatísticas e nas fiscalizações, porque muitas dessas atividades ocorrem em setores considerados informais ou domésticos — venda ambulante, trabalho em cozinhas improvisadas, serviços de cuidado, atividades ligadas ao comércio de rua.

Quando olhamos mais de perto quem são essas mulheres, o quadro se torna ainda mais revelador, já que 87% das trabalhadoras resgatadas eram negras, o que evidencia como o trabalho escravo contemporâneo reproduz linhas históricas de desigualdade racial no Brasil. Quase metade tinha entre 30 e 49 anos, muitas delas responsáveis pelo sustento de famílias inteiras, e cerca de um terço não havia concluído o ensino fundamental, o que amplia a vulnerabilidade diante de redes de exploração. Esses números mostram que a violência econômica e social contra mulheres no país não ocorre de maneira aleatória. Ela recai com maior intensidade sobre aquelas que ocupam as posições mais precarizadas da estrutura social brasileira, ou seja, mulheres negras, pobres e com menor acesso à educação. Ao revelar esse padrão, os dados desmontam qualquer tentativa de tratar o problema como exceção ou desvio isolado. Trata-se de uma engrenagem que liga gênero, raça e desigualdade econômica em uma mesma lógica de dominação.

Esses números não surgem do nada. Eles se organizam dentro de uma cultura.

Nos últimos anos, o bolsonarismo ajudou a legitimar uma linguagem pública baseada na hostilidade às agendas feministas e à igualdade de gênero. Não se trata apenas de declarações agressivas ou de episódios de misoginia explícita. O efeito mais profundo foi a criação de um ambiente simbólico onde a masculinidade ressentida encontrou validação política. Curioso é ler num comentário de uma reportagem sobre o tema da violência, uma pessoa (ou bot, vai-se saber), afirmando ironicamente para fazermos o L, que as coisas só iriam piorar. Só não rio porque é trágico.

Pois foi nesse terreno bolsonarista que floresceram no Brasil comunidades digitais inspiradas na chamada cultura red pill. A metáfora vem do filme Matrix: tomar a pílula vermelha significaria despertar para uma suposta verdade escondida sobre as relações entre homens e mulheres. Na prática, esse discurso constrói uma narrativa paranoica na qual os homens seriam vítimas de um sistema dominado por feministas. As mulheres, nessa visão, aparecem como manipuladoras, interesseiras ou biologicamente inclinadas a explorar os homens.

Os incels — “celibatários involuntários” — representam a face mais radical desse universo. Muitos deles desenvolvem comunidades online marcadas por ressentimento profundo contra mulheres, vistas como responsáveis por sua frustração afetiva e sexual. Em vários países, ataques violentos foram cometidos por homens ligados a essa ideologia. A premiada e impactante série Adolescência (Netflix) é onde podemos ter uma noção absurdamente real de até onde isso nos leva enquanto sociedade.

Um episódio recente no Rio de Janeiro ajuda a compreender como essa cultura de violência atravessa diferentes camadas sociais. Em janeiro, uma adolescente de 17 anos foi atraída por um colega para um apartamento no bairro e acabou vítima de um estupro coletivo praticado por cinco jovens, com idades entre 17 e 19 anos. Segundo as investigações da polícia, ela havia sido convidada para um encontro, mas ao chegar ao local foi trancada em um quarto e violentada após deixar claro que não consentiria em manter relações com os outros rapazes presentes. O caso chocou o país não apenas pela brutalidade do crime, mas também pelo perfil dos envolvidos, jovens de classe média da zona sul do Rio de Janeiro, desmontando mais uma vez a ideia confortável de que a violência sexual seria um fenômeno restrito a determinados territórios ou grupos sociais.

Isso indica que estamos diante de um problema cultural mais profundo, ligado à forma como muitos de nós homens aprendem desde cedo a interpretar desejo, frustração e poder sobre o corpo feminino. Quando a recusa de uma mulher deixa de ser compreendida como limite absoluto e quando o “não” se transforma, para alguns, em desafio ou provocação. No Brasil, essa cultura encontrou eco em redes sociais onde jovens são bombardeados por conteúdos que transformam misoginia em entretenimento. Influenciadores masculinos vendem cursos sobre como “dominar” mulheres. Ao mesmo tempo, cresce o número de influenciadoras que defendem a submissão feminina como virtude moral.

A estética dessas influenciadoras costuma ser suave. São vestidos claros, cozinha organizada, voz calma. O discurso, entretanto, é duro. A mulher ideal deve obedecer ao marido, aceitar sua liderança, priorizar a família acima de qualquer projeto pessoal. Em muitos desses vídeos, o feminismo aparece como uma ameaça que teria destruído os relacionamentos e enfraquecido os homens.

Essa narrativa dialoga diretamente com setores religiosos e políticos que insistem em restaurar um modelo familiar hierárquico. O homem como autoridade. A mulher como suporte. A violência prospera com facilidade dentro desse tipo de estrutura porque ela naturaliza a desigualdade. Quando o poder é distribuído de forma assimétrica dentro da família, a linha entre autoridade e controle torna-se perigosamente tênue. Qualquer semelhança com Handmaid’s tale não é mera coincidência.

Voltamos então àquela imagem do filme iraniano. As mulheres atrás da arquibancada, separadas do jogo por uma cerca improvisada. O argumento que as mantém ali é o mesmo que atravessa diferentes sociedades com variações de intensidade, a de ‘proteger’ a mulher de um mundo que pertence a nós, os homens.

No Brasil, esse cercado raramente assume forma legal explícita. Ele aparece como cultura, como moralidade, como discurso cotidiano. Aparece quando uma mulher é aconselhada a suportar um casamento violento para preservar a família. Ou quando homens jovens aprendem online que mulheres devem ser controladas. Aparece quando líderes políticos tratam igualdade de gênero como ameaça ideológica.

Durante muito tempo, parte da sociedade tratou a violência contra mulheres como um problema feminino. Uma pauta do feminismo, das organizações de direitos humanos, das políticas públicas. Isso criou um erro de perspectiva. A violência de gênero é produzida majoritariamente por homens. Ela nasce dentro de culturas masculinas. Ignorá-la é uma forma de cumplicidade estrutural. Nós, a parcela masculina dessa sociedade, precisamos olhar para esse fenômeno de maneira mais profunda. Isso exige reconhecer como certas ideias aparentemente inofensivas, como autoridade masculina, submissão feminina, nostalgia de uma família idealizada, podem se transformar em justificativas silenciosas para desigualdades muito concretas.

Também exige questionar os ambientes onde jovens estão sendo formados hoje. Fóruns digitais, influenciadores, discursos políticos que transformam frustração em identidade masculina.

O cercado do filme iraniano é visível. Ele está ali, feito de grades e soldados.

O cercado brasileiro é mais difuso. Ele se constrói em narrativas culturais que insistem em reduzir o horizonte das mulheres. Cada vez que essas narrativas ganham força, ampliam-se as condições para que a violência continue acontecendo em silêncio.

Talvez seja justamente por isso que Fora do Jogo possa levar a reflexões mais profundas e inquietantes. O filme não mostra um país distante, de ideias exóticas. Ele revela o mecanismo de uma ideia antiga, a de que a liberdade das mulheres precisa ser administrada por nós, homens. É uma ideia que a muitos podem soar como tentadoras (é só ouvirmos o eco do barulho provocado por pastores e pela maioria de nossos parlamentares), mas que é, na verdade, um ovo de serpente sendo gestado de forma considerada ‘ideal’, pois defende a família brasileira da ‘degeneração comunista’.

Talvez a questão mais incômoda seja reconhecer que grande parte dessa estrutura é sustentada não apenas pelos que cometem violência direta, mas também quando naturalizamos discursos, ou quando influenciadores e ideologias tratam a autonomia feminina como ameaça. Se há algo que precisa mudar, começa justamente por uma revisão profunda de como a maioria dos homens se educam entre si, de como interpretam poder, desejo, frustração e autoridade. Enfrentar esse problema significa desmontar narrativas que durante muito tempo pareceram inofensivas, mas que ajudam a manter, no cotidiano, as mesmas hierarquias que tantos insistem em chamar de tradição. Mesmo que, à primeira vista, elas nos beneficiem. E é aí que está a sutil regra do jogo.


*Ismael Machado é jornalista