Enquanto milhares de brasileiros ocupavam a Avenida Paulista em defesa da democracia, a cobertura das grandes redes de TV levantou dúvidas sobre suas prioridades editoriais e os efeitos políticos da invisibilidade de uma manifestação popular
Neste domingo, 11 de outubro, milhares de brasileiros ocuparam a Avenida Paulista na chamada Marcha pela Democracia, em uma demonstração expressiva de mobilização popular em apoio à candidatura do presidente Lula. Segundo reportagem do UOL, a manifestação ocupou sete quarteirões da avenida, reunindo estudantes, movimentos sociais, artistas e lideranças políticas. A concentração foi tamanha que a estação Trianon-Masp do metrô precisou ser temporariamente fechada. Entretanto, o que deveria ser um acontecimento de grande destaque na televisão brasileira parece não ter recebido, nas principais redes abertas, uma cobertura proporcional à sua dimensão. Essa discrepância merece ser examinada, especialmente quando estamos a apenas duas semanas de um segundo turno presidencial marcado por intensa polarização.
Um exemplo particularmente revelador dessa situação foi a opção da TV Globo de dedicar espaço a uma competição universitária de robótica realizada em São Paulo, conforme demonstra vídeo disponibilizado pela própria emissora no portal G1. Nada tenho contra competições de robótica, muito pelo contrário. O problema está na hierarquia das prioridades jornalísticas. Enquanto milhares de pessoas ocupavam a principal avenida de São Paulo, em um ato de evidente importância política, a Globo encontrou espaço para mostrar robôs. A existência dessa reportagem não comprova, isoladamente, que tenha ocorrido uma substituição deliberada da cobertura da manifestação. Mas o contraste é suficientemente significativo para exigir uma pergunta: por que uma mobilização dessa magnitude não recebeu uma cobertura televisiva à altura de sua relevância?
A resposta pode estar nas escolhas editoriais dos grandes conglomerados de comunicação, que estão longe de ser politicamente neutras em seus efeitos. Não é necessário que uma emissora declare apoio a Flávio Bolsonaro para que suas decisões sobre o que mostrar, quanto mostrar e quando mostrar possam produzir consequências favoráveis à sua candidatura. A reduzida visibilidade de uma manifestação em apoio a Lula, caso confirmada por uma comparação sistemática da programação, representa uma desvantagem objetiva na circulação de imagens e informações sobre a mobilização de seus apoiadores. Em uma disputa eleitoral tão polarizada, a capacidade de demonstrar força nas ruas é parte importante da construção da percepção pública sobre as candidaturas. Limitar essa visibilidade pode, portanto, produzir efeitos eleitorais, ainda que não seja possível demonstrar uma intenção deliberada de favorecer determinado candidato.
Há outro aspecto que torna a cobertura televisiva dessa manifestação especialmente relevante: a forte presença da juventude. As imagens da Paulista desafiam a narrativa de que a esquerda brasileira perdeu sua capacidade de mobilização e de diálogo com as novas gerações. O protagonismo de estudantes e de coletivos juvenis é, por si só, um acontecimento político relevante, independentemente das preferências partidárias de quem o observa. Não deixa de ser pertinente perguntar se uma manifestação de dimensão semelhante organizada por apoiadores de Flávio Bolsonaro receberia o mesmo tratamento das grandes redes de televisão. A resposta exigiria comparar as coberturas, mas a própria necessidade dessa comparação revela a importância de submeter as decisões editoriais ao escrutínio público.
É preciso reconhecer que veículos como UOL, Folha de S.Paulo e CNN Brasil noticiaram a manifestação. Entretanto, publicar uma notícia em um portal e oferecer cobertura robusta na televisão aberta são coisas distintas. A televisão continua sendo um instrumento poderoso de construção da percepção coletiva, sobretudo entre os segmentos da população que não acompanham continuamente as redes sociais. Nesse contexto, a decisão de conceder maior ou menor visibilidade a uma manifestação pode interferir na compreensão pública da realidade política. Não se trata de exigir que as emissoras promovam Lula ou qualquer outro candidato, mas de questionar critérios editoriais que possam resultar em tratamento desigual de acontecimentos de relevância comparável.
A situação é ainda mais preocupante porque a concentração do poder de informar nas mãos de poucos grupos empresariais constitui um problema estrutural da democracia brasileira. A existência de transmissões independentes, como as realizadas pela DiaTV e pela TVT, permite que acontecimentos pouco destacados pela televisão convencional alcancem outros públicos. Entretanto, essa alternativa também depende de plataformas digitais controladas por grandes corporações, cujos algoritmos e mecanismos de moderação podem restringir a circulação de conteúdos. Assim, entre as escolhas editoriais dos conglomerados televisivos e o poder das big techs, a sociedade brasileira permanece sujeita a filtros privados que influenciam profundamente o que pode ser visto, conhecido e debatido.
O que aconteceu neste domingo na Avenida Paulista deveria servir como oportunidade para uma discussão mais ampla sobre o papel político das grandes redes de televisão. Não é necessário comprovar uma conspiração entre emissoras para reconhecer que a hierarquização das notícias possui consequências políticas e que essas consequências podem prejudicar uma candidatura em benefício de outra. A questão fundamental é saber se os critérios utilizados para definir a importância dos acontecimentos estão sendo aplicados de maneira consistente, especialmente durante uma eleição presidencial.
Afinal, o problema não é a Globo mostrar robôs. O problema é a possibilidade de que uma multidão de brasileiros nas ruas receba menos atenção televisiva do que merece. E quando a visibilidade de manifestações políticas depende das conveniências editoriais de grandes corporações, o que está em jogo não é apenas a cobertura de uma eleição, mas a qualidade da própria democracia brasileira.









