Ecological Economics investiga aparente discrepância de dados em estudo climático

Por Retraction Watch

Uma importante revista de economia ambiental está investigando alegações de que um estudo de 2025, que relaciona inovação nacional à redução das emissões de carbono, contém dados que não correspondem à sua fonte, após um especialista na área ter solicitado a retratação do artigo. 

O artigo foi publicado na revista Ecological Economics , da Sociedade Internacional de Economia Ecológica, pela editora Elsevier. Os autores, três pesquisadores da ESSCA School of Management em Lyon, afirmaram ter utilizado dados de 229 países entre 2013 e 2020 e relataram uma relação negativa entre o nível de inovação de um país e suas emissões de dióxido de carbono per capita. O artigo foi citado cinco vezes, segundo o Web of Science da Clarivate. 

Mas três meses após a publicação, em outubro de 2025, a revista começou a investigar anomalias no conjunto de dados, embora os autores afirmem que nada foi fabricado. Em uma carta aos editores da revista solicitando uma retratação em outubro passado, vista pelo Retraction Watch, um acadêmico com experiência na área que revisou o conjunto de dados disse que o artigo apresentava “sérias preocupações com a integridade dos dados” e descreveu um “claro caso de má conduta na pesquisa”. 

Essas alegações derivam dos dados do estudo, que utiliza o Índice Global de Inovação (GII, na sigla em inglês), um ranking anual do desempenho em inovação de países ao redor do mundo. Os autores afirmaram que sua análise incluiu 229 países. No entanto, nos anos utilizados na análise do estudo, de 2013 a 2020, os relatórios do GII disponíveis online mostram o desempenho de apenas 126 a 143 economias globais. 

Cerca de 80 registros adicionais não correspondem aos dados subjacentes do GII, apesar de não haver divulgação do uso desses dados adicionais — acréscimos que inflacionam a amostra em cerca de 60% e distorcem os resultados estatísticos do estudo, segundo a denúncia. 

Muitas dessas inscrições usaram pontuações de inovação idênticas dentro de um mesmo ano. “A uniformidade desses valores demonstra manipulação intencional, e não erro”, segundo o e-mail. 

Os autores negaram a alegação em um e-mail enviado ao Retraction Watch. “Nenhum dado foi fabricado, conforme demonstrado pela documentação fornecida ao editor”, escreveu Naciba Chassagnon, economista da ESSCA School of Management, em nome dos três autores. Ela afirmou que a equipe respondeu prontamente às perguntas da revista e não “desejava antecipar a análise do editor sobre o assunto”. Chassagnon se recusou a explicar por que o conjunto de dados diferia do material original. 

Stefan Baumgärtner, coeditor-chefe da revista e economista da Universidade de Freiburg, afirmou que a revista abriu uma “investigação minuciosa e detalhada” e que tomará medidas dependendo do resultado, em resposta à denúncia inicial. Ele disse que os autores enviaram uma “resposta detalhada” que está sendo analisada pelos editores. 

“Preferimos não comentar mais sobre a questão do conjunto de dados nesta fase, por respeito ao processo editorial em andamento”, disse-nos por e-mail Christoph Weber, economista da ESSCA School of Management e autor responsável pela curadoria dos dados, de acordo com a declaração da CRediT sobre o artigo. “Nenhum dado foi fabricado.” 

Apesar de inicialmente concordarem em explicar a discrepância, os autores recusaram-se a fornecer mais informações depois de descobrirem que a revista estava investigando o caso. 

“Quando respondi à sua mensagem inicial, fiz isso de boa fé e com a disposição de estar disponível para esclarecimentos”, escreveu Chassagnon. “No entanto, desde então, fui informado de que a revista está atualmente revisando o assunto e que a avaliação editorial está em andamento.”

Ele disse que iriam “reconsiderar se uma conversa seria apropriada”, assim que as decisões editoriais estivessem mais claras. 


Fonte: Retraction Watch

O asfalto contra a maré

O mangue como fonte de vida (Ismael Machado)

Por Ismael Machado para “Medium”

A Marcha dos Manguezais Amazônicos, realizada em Belém semana passada, foi apresentada como um ato em defesa do meio ambiente. É uma leitura confortável, mas insuficiente. O que caminhou entre o Cais do Porto e o Ver-o-Peso foi a contestação de uma forma de produzir território que, há décadas, orienta principalmente o nordeste paraense, mas que ainda continua quase invisível aos olhares menos atentos.

O cimento e o asfalto são nossos deuses. Não, não estou exagerando. Existe uma ideia persistente de desenvolvimento segundo a qual rios devem ser canalizados, áreas alagáveis precisam ser aterradas e manguezais representam um vazio econômico à espera de investimentos. Essa lógica não nasceu agora. Ela acompanha a urbanização da Amazônia desde o século XX e continua orientando decisões públicas e privadas em municípios costeiros como Bragança, Salinópolis, Curuçá, Marapanim, Vigia, São Caetano de Odivelas, Augusto Corrêa e Quatipuru, para ficar apenas nesses. Nenhum desses lugares existe apesar da água. Eles existem por causa dela. E não paramos um segundo sequer pensando nisso. Seja quando brincamos carnaval nos cobrindo de lama do mangue de Curuçá ou fazendo campeonatos de pesca em São Caetano de Odivelas.

A economia pesqueira, a circulação entre comunidades, os ciclos do extrativismo, a fertilidade dos estuários e até a configuração das cidades dependem de uma dinâmica que nunca foi estática. A costa amazônica não oferece terreno firme como condição permanente. Ela oferece movimento. A maré altera margens, redistribui sedimentos, redefine canais. O manguezal é parte desse mecanismo, não um acidente geográfico esperando correção ou um progresso urbano calcado em empreendimentos imobiliários para poucos. Recentemente fui a Outeiro, uma ilha que habita minhas memórias infantis e constatei essa questão de condomínios que privatizam a área costeira de forma implacável. Li recentemente que pretendem fazer algo assim nos Lençóis Maranhenses.

Insistimos em aplicar à região um modelo de urbanização concebido para territórios onde a água deve permanecer confinada. Quando essa lógica chega ao litoral amazônico, ela produz um paradoxo, pois tenta estabilizar um ambiente cuja principal característica é justamente a transformação contínua. Os efeitos aparecem rapidamente. Aterros interrompem a circulação das águas, loteamentos ocupam áreas naturalmente inundáveis, obras de contenção deslocam processos erosivos para outras localidades e bairros inteiros passam a depender de soluções de drenagem cada vez mais caras e menos eficientes. Depois, quando a maré invade ruas ou a chuva encontra caminhos bloqueados, o fenômeno recebe o nome de desastre natural. A única coisa natural aqui, porém, é a maré. E artificial é a expectativa de que ela respeite projetos elaborados sem considerar o funcionamento do território.

Essa insistência não decorre de desconhecimento técnico. Há décadas nossas principais universidades e centros de pesquisa descrevem o papel dos manguezais na proteção costeira, na estabilidade dos estuários, na manutenção da biodiversidade e no armazenamento de carbono. O problema, portanto, não é ausência de informação. É a escolha política sobre quais conhecimentos merecem orientar o planejamento urbano.

Essa escolha costuma privilegiar indicadores de curto prazo. Um aterro amplia a oferta de terrenos. Um condomínio eleva o valor imobiliário da vizinhança. Uma avenida construída sobre áreas úmidas produz a sensação imediata de progresso. Os custos, entretanto, não aparecem na mesma planilha. Eles surgem anos depois, distribuídos entre pescadores que perdem áreas de captura, comunidades que convivem com inundações mais frequentes e administrações municipais obrigadas a investir continuamente em obras para corrigir problemas que elas próprias ajudaram a criar.

No nordeste paraense, essa conta tende a se tornar ainda mais elevada. A elevação do nível do mar, as alterações no regime de chuvas e o aumento da intensidade de eventos extremos ampliam a importância dos manguezais como infraestrutura natural. Destruí-los significa reduzir justamente a capacidade de adaptação de uma região cuja relação com a água sempre definiu sua existência. E fico sempre a refletir o quanto a Amazônia urbana de águas e marés não cabe nos gabinetes de planejamento que tratam o ecossistema costeiro como mero espaço vazio à espera de concreto, onde o manguezal tratado como um estorvo geográfico que precisa ser drenado, aterrado e loteado.

Essa ânsia por transformar ‘lama’ em metro quadrado ignora a física mais básica do território. O solo do mangue é esponjoso, dinâmico e cumpre uma função estrutural de escoamento e amortecimento das marés. Quando o capital imobiliário avança sobre essas áreas com o aval de um zoneamento urbano míope, o resultado é a supressão de braços de rio e a impermeabilização forçada do solo.

O preço dessa conta não demora a chegar, mas nunca é pago pelos idealizadores dos loteamentos. Ele recai sobre as comunidades tradicionais que são escorraçadas de seus territórios ancestrais e sobre os bairros periféricos que submergem a cada temporal ou oscilação forte da maré. A especulação imobiliária em áreas de mangue vende uma falsa segurança que se desmancha na primeira chuva forte combinada com a lua cheia.

Não custa lembrar que o manguezal é a primeira e mais sólida linha de defesa contra eventos climáticos extremos, como a elevação do nível do mar e a intensificação das ressacas. Destruir o mangue é um contrassenso econômico e ecológico catastrófico. É cavar a própria ruína sob a justificativa de “desenvolvimento”. O problema é que acumulamos erros e erros e nunca aprendemos. E quando se fala de erros, não é uma prerrogativa paraense. É uma democrática distribuição de sandices na Amazônia inteira.


Fonte: Medium

A corrida global por minerais críticos alimenta a militarização, a inteligência artificial e um novo ciclo de extrativismo

Novo relatório do Oakland Institute revela que inteligência artificial, indústria militar e grandes corporações impulsionam a nova onda extrativista mundial

Um novo relatório do Oakland Institute desmonta uma das narrativas mais repetidas nos últimos anos: a de que a expansão acelerada da mineração de minerais críticos ocorre principalmente para viabilizar a transição energética. O estudo “RUSH: Global Scramble for Minerals Wages War on People and Planet” argumenta que essa explicação se tornou insuficiente e, em muitos casos, serve para ocultar os verdadeiros motores da atual corrida global por cobre, lítio, níquel, cobalto e terras raras. Segundo os autores, a expansão da inteligência artificial, dos data centers, da indústria militar e das disputas geopolíticas entre Estados Unidos e China passou a exercer um papel decisivo na demanda por esses recursos.

O tema foi analisado em um artigo publicado por Chris Lang na newsletter REDD-Monitor (Substack), que apresenta uma excelente síntese das principais conclusões do relatório e as insere no contexto mais amplo da economia política contemporânea da mineração. Lang chama atenção para um dado particularmente revelador: mais de 70% da demanda atual por minerais críticos não está vinculada diretamente à transição energética, mas sim a setores como indústria automotiva convencional, comunicações, aeroespacial, tecnologia digital, inteligência artificial e complexo militar-industrial.

Essa constatação possui enorme relevância política. Durante anos, governos, organismos multilaterais e empresas mineradoras justificaram a abertura de centenas de novas minas com o argumento de que o combate às mudanças climáticas exigiria uma expansão sem precedentes da oferta de minerais. O relatório do Oakland Institute mostra que essa narrativa omite deliberadamente a explosão da demanda proveniente da militarização crescente das relações internacionais e da corrida tecnológica associada à inteligência artificial.

O documento identifica um processo de convergência entre gigantes da tecnologia, empresas de defesa, fundos de investimento e governos nacionais interessados em assegurar cadeias de suprimento consideradas estratégicas. Empresas como KoBold Metals, financiada por Bill Gates e outros investidores do setor tecnológico, aparecem como exemplos dessa nova geração de companhias que utilizam inteligência artificial para localizar jazidas minerais ao mesmo tempo em que buscam atender às necessidades futuras dos próprios data centers, da computação em larga escala e da indústria bélica.

Esse aspecto merece atenção especial no Brasil. Nos últimos meses, tenho chamado atenção para a rápida expansão dos projetos de data centers no país e para a ausência de um debate público consistente sobre seus impactos territoriais. A instalação dessas infraestruturas costuma ser apresentada como símbolo da economia digital, da inovação tecnológica e da modernização produtiva. No entanto, raramente se discute que toda essa infraestrutura depende de uma cadeia global extremamente intensiva em mineração, consumo de energia, uso de água e produção de resíduos eletrônicos.

A relação entre data centers e mineração crítica torna-se ainda mais evidente quando observamos o crescimento explosivo da inteligência artificial generativa. Cada nova geração de chips, servidores e equipamentos exige volumes crescentes de cobre, lítio, cobalto, níquel e terras raras. Dessa forma, a expansão da infraestrutura digital produz uma pressão indireta, mas extremamente poderosa, sobre territórios minerários localizados principalmente na América Latina, na África e em partes da Ásia.

Outro mérito importante do relatório consiste em recolocar a questão geopolítica no centro da discussão. A disputa entre Estados Unidos e China pelo controle das cadeias globais de minerais críticos passou a influenciar acordos internacionais, políticas de financiamento, estratégias militares e iniciativas diplomáticas. Em vez de representar apenas uma questão ambiental ou econômica, os minerais críticos tornaram-se elementos centrais da segurança nacional das grandes potências.

Enquanto isso, os custos sociais continuam recaindo sobre populações indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e trabalhadores da mineração. O relatório alerta que a abertura acelerada de centenas de novas minas tende a ampliar conflitos fundiários, deslocamentos compulsórios, contaminação por rejeitos tóxicos, perda de biodiversidade e destruição de modos de vida em uma escala ainda maior do que aquela observada nas últimas décadas.

Esse diagnóstico dialoga diretamente com inúmeros conflitos que já conhecemos no Brasil. A expansão da mineração na Amazônia, o avanço sobre terras indígenas, a crescente pressão sobre aquíferos e a multiplicação de grandes projetos de infraestrutura revelam que o país ocupa posição estratégica nessa nova divisão internacional dos recursos naturais. Caso o governo brasileiro continue tratando a mineração apenas como uma oportunidade econômica, sem fortalecer os mecanismos de controle ambiental, consulta às populações afetadas e planejamento territorial, o país poderá aprofundar um modelo primário-exportador baseado na intensificação do extrativismo e na exportação de impactos ambientais.

A principal contribuição do Oakland Institute talvez seja justamente desfazer a falsa oposição entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental. O problema não reside simplesmente na extração de minerais necessários à descarbonização, mas no fato de que a atual corrida mineral atende, em grande medida, aos interesses da militarização global, da financeirização da economia e da expansão acelerada da inteligência artificial corporativa. Sob esse prisma, a chamada “transição verde” deixa de ser o principal motor do processo e passa a funcionar como uma narrativa legitimadora de um novo ciclo de acumulação baseado na intensificação do extrativismo.

Para países como o Brasil, a mensagem é clara. Não basta discutir quantas minas serão abertas ou quanto investimento estrangeiro será atraído. É indispensável perguntar quem controlará esses recursos, quem capturará seus benefícios econômicos e, sobretudo, quem suportará os custos sociais e ambientais dessa nova corrida global pelos minerais críticos.

Para baixar o relatório  “RUSH: Global Scramble for Minerals Wages War on People and Planet”, basta clicar [Aqui! ].

Virgínia mostra o caminho: por que o Brasil precisa estudar antes de entregar sua água aos data centers

Relatório de 144 páginas demonstra que decisões sobre data centers devem partir de pesquisa científica, monitoramento permanente e regulação pública, enquanto o Brasil corre o risco de transformar seu território em uma zona livre para esses empreendimentos

A corrida global pela instalação de data centers costuma aparecer no discurso de governos e empresas como uma oportunidade incontestável de desenvolvimento econômico, modernização tecnológica e atração de investimentos. Governos estaduais e municipais disputam esses empreendimentos, oferecem incentivos fiscais e prometem acesso à energia, à água e à infraestrutura territorial, mas raramente apresentam estudos capazes de demonstrar se os territórios escolhidos podem suportar as demandas ambientais desses projetos. No Brasil, essa expansão assume contornos ainda mais preocupantes porque ocorre em um contexto marcado pela fragilidade da regulação, pela escassez de informações hidrológicas integradas e pela crescente pressão política para acelerar os licenciamentos ambientais.

Um relatório publicado em julho de 2026 pelo Departamento de Qualidade Ambiental do estado de Virginia , nos EUA, demonstra que outro caminho não apenas é possível, mas também necessário. A Assembleia Legislativa estadual determinou a realização do estudo para avaliar a disponibilidade das águas subterrâneas na porção oriental do estado, uma região que concentra diversos usos industriais e enfrenta a rápida expansão dos data centers. O documento possui 144 páginas e procura responder a uma pergunta básica que deveria anteceder qualquer autorização de novos empreendimentos: quanto de água subterrânea permanece efetivamente disponível para sustentar novas atividades industriais sem comprometer os usos existentes e a integridade dos aquíferos?

O estudo representa décadas de pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Qualidade Ambiental da Virgínia em cooperação com o Serviço Geológico dos Estados Unidos. Os pesquisadores utilizaram modelos hidrogeológicos, séries históricas de captação, análises da qualidade da água, estimativas demográficas e simulações de cenários futuros. Uma rede formada por mais de 440 poços de observação fornece dados sobre os níveis e a qualidade das águas subterrâneas, permitindo que o órgão ambiental acompanhe as alterações dos aquíferos e utilize informações concretas nas decisões regulatórias. O relatório, portanto, não se apoia nas expectativas das empresas interessadas em instalar novos projetos, mas em um sistema público e permanente de produção de conhecimento.

As conclusões mostram que décadas de bombeamento intensivo transformaram profundamente a dinâmica das águas subterrâneas na Planície Costeira da Virgínia. Grandes captações industriais reduziram os níveis da água para cotas inferiores às do mar em determinadas áreas, alteraram os fluxos naturais dos aquíferos e criaram condições favoráveis à subsidência do terreno e à intrusão de água salgada. O relatório também identificou aumentos locais nas concentrações de cloreto e projetou que, mantidas as condições atuais, os níveis do Aquífero Potomac poderão entrar novamente em uma trajetória generalizada de queda nos próximos cinco a dez anos.

A análise ganha especial importância quando examina a capacidade regional para suportar novas indústrias, entre elas os data centers. Os pesquisadores simularam retiradas de 3 milhões de galões de água por dia em diferentes pontos da região, uma demanda compatível com grandes instalações que adotam sistemas de resfriamento evaporativo. Nenhuma das retiradas hipotéticas atenderia aos critérios técnicos necessários para receber uma licença ambiental, pois os aquíferos não apresentaram capacidade suficiente para absorver uma pressão adicional dessa magnitude. As estimativas indicaram uma disponibilidade máxima de 360 mil galões diários na área mais favorável e volumes inferiores a 30 mil galões por dia em regiões próximas ao corredor da rodovia interestadual I-95, onde se concentra a infraestrutura que atrai os novos projetos.

Esses resultados demonstram que o interesse de empresas e governos não cria disponibilidade hídrica onde ela não existe. A presença de linhas de transmissão, redes de fibra óptica, incentivos fiscais e terrenos disponíveis pode tornar uma região economicamente atraente, mas nenhum desses elementos altera os limites físicos dos aquíferos. O relatório do estado da Virgínia parte justamente desse reconhecimento e subordina a autorização dos empreendimentos à capacidade real dos sistemas ambientais, em vez de adaptar os critérios ambientais às necessidades previamente definidas pelos investidores.

O documento também apresenta recomendações que reforçam a responsabilidade do poder público na gestão das águas subterrâneas. O Departamento de Qualidade Ambiental propõe ampliar sua capacidade para negar novas licenças, especialmente quando existem fontes alternativas de abastecimento, incorporar a disponibilidade hídrica aos planos territoriais dos governos locais, contratar mais técnicos, melhorar os modelos hidrogeológicos, instalar equipamentos de monitoramento em tempo real e assegurar recursos permanentes para a fiscalização. O estudo recomenda ainda que o planejamento urbano limite o crescimento em áreas onde a disponibilidade de água subterrânea não consegue sustentar novas demandas.

O contraste com o Brasil dificilmente poderia ser maior, pois estados e municípios brasileiros disputam data centers utilizando como argumento a suposta abundância de água e energia, embora frequentemente não apresentem estudos regionais capazes de estimar os impactos cumulativos dos empreendimentos. A inexistência de redes extensas e permanentes de monitoramento, a fragmentação institucional e a dependência das informações fornecidas pelos próprios interessados comprometem a capacidade do Estado de avaliar os impactos sobre os aquíferos, os rios e o abastecimento das populações.

A ausência de estudos independentes cria uma situação na qual o licenciamento ambiental corre o risco de se transformar em um procedimento destinado apenas a legitimar decisões já tomadas. Cada empreendimento pode apresentar sua demanda como administrável quando analisada isoladamente, mas a instalação sucessiva de vários data centers em uma mesma bacia hidrográfica pode produzir efeitos cumulativos que nenhum estudo individual consegue captar adequadamente. O poder público precisa conhecer a disponibilidade hídrica regional, os usos existentes, as projeções climáticas, a velocidade de recarga dos aquíferos e os impactos combinados das novas captações antes de autorizar qualquer polo de infraestrutura digital.

O caso da Virgínia demonstra que o desenvolvimento tecnológico e a prudência ambiental não constituem objetivos incompatíveis. Quanto maior a demanda potencial de uma atividade econômica sobre os recursos naturais, maior deve ser o investimento público em pesquisa, monitoramento, planejamento e regulação. O relatório também mostra que o conhecimento científico somente produz efeitos quando o Estado possui autoridade institucional para impedir empreendimentos incompatíveis com os limites ambientais do território.

O Brasil possui universidades, institutos de pesquisa, serviços geológicos e órgãos técnicos capazes de produzir estudos tão completos quanto o realizado no estado da Virgínia. O principal obstáculo não reside na ausência de capacidade científica, mas na falta de uma decisão política que coloque a ciência no centro do planejamento territorial e da gestão dos recursos hídricos. O país precisa construir redes públicas de monitoramento, desenvolver modelos regionais, divulgar os dados e avaliar os impactos cumulativos dos empreendimentos antes de comprometer água, energia e território com projetos de longa duração.

Sem esse esforço, o Brasil poderá repetir um padrão conhecido de inserção dependente na economia mundial, no qual grandes corporações recebem incentivos, infraestrutura e acesso privilegiado aos recursos naturais, enquanto a sociedade assume os custos ambientais e sociais. A expansão desregulada dos data centers poderá transformar determinadas regiões em enclaves tecnológicos controlados por empresas transnacionais, com poucos encadeamentos econômicos locais e uma enorme apropriação de água e energia. O Brasil precisa urgentemente produzir conhecimento independente e impor limites claros para evitar que seu território se converta em um espaço livre e desregulado para uma indústria que se apresenta como imaterial, mas depende de volumes muito concretos de água, eletricidade e terra.

Um dia depois, a fumaça continua e um silêncio sepulcral envolve os responsáveis por combatê-la

As imagens registradas nesta sexta-feira (24) mostram que as queimadas seguem consumindo áreas de Campos dos Goytacazes e mantêm uma espessa camada de fumaça sobre a cidade. A repetição do problema apenas um dia após a informação publicada neste blog revela a incapacidade — ou a falta de disposição — dos órgãos públicos para enfrentar uma situação que já ultrapassou os limites de uma questão ambiental e assumiu contornos evidentes de uma crise de saúde pública

Ontem publiquei neste espaço o texto Quando a fumaça domina o horizonte, o problema já deixou de ser apenas ambiental com o objetivo de chamar atenção para um fenômeno que se repete todos os anos, mas que em 2026 atingiu uma intensidade particularmente preocupante. As fotografias divulgadas naquele momento mostravam grandes colunas de fumaça cercando Campos dos Goytacazes e indicavam que a população estava submetida a uma deterioração significativa da qualidade do ar. A expectativa mais modesta seria que a ampla visibilidade do problema estimulasse uma resposta rápida dos órgãos encarregados da fiscalização e da proteção ambiental.

As imagens registradas nesta sexta-feira demonstram, entretanto, que praticamente nada mudou. Novos focos de queimadas continuam ativos em diferentes pontos do município, enquanto extensas massas de fumaça permanecem cobrindo o horizonte e reduzindo a visibilidade em diversos bairros. A população continua respirando material particulado e outros poluentes produzidos pela combustão da vegetação, situação que aumenta os riscos para crianças, idosos e pessoas acometidas por doenças respiratórias e cardiovasculares, ao mesmo tempo em que compromete a qualidade de vida de todos os moradores. 

A persistência desse cenário evidencia que o problema não decorre apenas das condições climáticas típicas do inverno no Norte Fluminense, caracterizadas por baixa umidade relativa do ar, vegetação ressecada e ventos que favorecem a propagação do fogo. Esses fatores são conhecidos há décadas e deveriam orientar ações preventivas permanentes por parte do poder público. Quando as queimadas continuam ocorrendo sucessivamente e a fumaça permanece encobrindo a cidade por vários dias,  é inevitável concluir que as medidas de prevenção, monitoramento e fiscalização têm sido insuficientes para impedir que a situação se agrave.

Também não faz sentido restringir essa responsabilidade a um único órgão. A proteção da população exige atuação coordenada da administração municipal, do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), do IBAMA, do Corpo de Bombeiros e das demais instituições responsáveis pela fiscalização ambiental e pela repressão aos responsáveis pelas queimadas. Diante da gravidade do quadro, a população tem o direito de conhecer quais operações foram realizadas, quantos autos de infração foram lavrados, quantos responsáveis foram identificados e quais providências concretas estão sendo adotadas para interromper uma sequência de eventos que já não pode mais ser considerada excepcional.

As fotografias obtidas hoje reforçam ainda mais a gravidade da situação porque documentam uma realidade impossível de ocultar. A fumaça permanece visível a grandes distâncias, altera completamente a paisagem urbana e demonstra que a poluição atmosférica deixou de ser um problema localizado para atingir uma parcela expressiva do território municipal. Trata-se de uma evidência objetiva de que milhares de pessoas continuam expostas diariamente a um ambiente degradado, enquanto as respostas institucionais permanecem praticamente invisíveis.

Nesse contexto, é razoável esperar que o Ministério Público e a Defensoria Pública já estejam adotando as medidas cabíveis para apurar responsabilidades e exigir providências imediatas dos órgãos competentes. Os danos produzidos pelas queimadas ultrapassam claramente a esfera ambiental e atingem direitos difusos relacionados à saúde pública, ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e à qualidade de vida da população. As imagens produzidas ao longo de dois dias consecutivos constituem um registro eloquente dessa realidade e oferecem elementos suficientes para justificar a abertura de procedimentos destinados a identificar tanto os responsáveis pelos incêndios quanto eventuais omissões do poder público.

Infelizmente, a sucessão de fotografias produzidas ontem e hoje transmite uma mensagem que nenhuma cidade deveria aceitar com naturalidade. Enquanto a fumaça continua dominando o horizonte de Campos dos Goytacazes, cresce a percepção de que os órgãos responsáveis pela proteção ambiental e pela defesa da saúde coletiva permanecem incapazes de oferecer uma resposta compatível com a gravidade do problema. A população já fez sua parte ao denunciar aquilo que qualquer pessoa pode ver a olho nu; agora cabe às instituições demonstrar que ainda são capazes de cumprir a missão para a qual foram criadas.

Estudo revela que agrotóxicos de uso corrente danificam o DNA das células intestinais humanas — mesmo em doses muito baixas

Por Sustainable Pulse

Cientistas do projeto SPRINT, na União Europeia, testaram dez agrotóxicos amplamente utilizados em fazendas europeias — incluindo o herbicida glifosato, diversos inseticidas e alguns fungicidas — para verificar se eles danificam o DNA em células intestinais humanas cultivadas em laboratório. Eles também testaram dois “coquetéis” realistas, feitos combinando vários desses agrotóxicos, já que, na vida real, as pessoas raramente são expostas a apenas um produto químico por vez.

Os resultados, revisados ​​por pares, comprovaram que a maioria dos agrotóxicos causou danos ao DNA, e alguns o fizeram em concentrações muito menores do que as relatadas anteriormente — em alguns casos, próximas aos níveis que os órgãos reguladores consideram atualmente “seguros” para exposição diária.

“As conclusões do projeto SPRINT destacaram a presença ubíqua e os efeitos tóxicos das misturas de agrotóxicos, mesmo em baixas doses”, afirmou o Dr. Daniele Mandrioli, Investigador Principal e Líder do Grupo de Trabalho de Toxicologia do SPRINT.

Por que este estudo foi realizado

Em todo o mundo, são aplicados agrotóxicos em plantações para afastar insetos, ervas daninhas e fungos. Como parte de um amplo projeto de pesquisa europeu chamado SPRINT, pesquisadores já haviam descoberto que resíduos de múltiplos agrotóxicos estão praticamente em todos os lugares nas regiões agrícolas — no solo, na água, nas plantações, na poeira doméstica e até mesmo no ar dentro das casas dos agricultores. O que não estava claro era se esses produtos químicos, sozinhos ou misturados, poderiam de fato prejudicar as células humanas nos níveis aos quais as pessoas estão realisticamente expostas.

Um importante sinal de alerta para o perigo a longo prazo de um produto químico é se ele é “genotóxico” — ou seja, se danifica ou altera o DNA. Danos ao DNA são uma das vias bem estabelecidas que podem levar ao câncer e outras doenças crônicas ao longo do tempo. Portanto, testar a genotoxicidade de agrotóxicos é uma etapa padrão e importante para determinar se eles são seguros para uso.

Como funciona o teste

Os pesquisadores utilizaram um teste laboratorial consagrado e reconhecido internacionalmente, chamado ensaio de micronúcleos . Eis a ideia básica, em termos simples:

  • Células intestinais humanas (de uma linhagem celular chamada Caco-2, comumente usada como modelo para o revestimento intestinal) foram cultivadas em placas de Petri e brevemente expostas a um agrotóxico.
  • Em seguida, as células foram deixadas dividir-se uma vez e, posteriormente, adicionou-se uma substância química que as impedia de se dividirem em duas células separadas (para que os cientistas pudessem ter certeza de que cada célula realmente tentou se dividir).
  • Ao microscópio, os técnicos procuravam minúsculos aglomerados extras de material genético fora do núcleo principal, chamados micronúcleos . Eles se formam quando os cromossomos de uma célula são danificados ou dispersos durante a divisão celular — são basicamente um sinal visível de que algo deu errado com o DNA.
  • Mais micronúcleos = mais danos ao DNA causados ​​pela substância testada.

A equipe também verificou se as doses utilizadas não estavam simplesmente matando um grande número de células (o que tornaria os resultados não confiáveis) — uma etapa fundamental de controle de qualidade exigida pelas diretrizes internacionais de testes.

O que eles testaram

Dez agrotóxicos foram testados individualmente, cada um em cinco doses que variaram de muito baixa (0,01 miligramas por litro) até uma dose alta (100 mg/L):

  • Inseticidas: lambda-cialotrina, cipermetrina, deltametrina, acetamiprida
  • Fungicidas: tebuconazol, ciprodinil, fluopiram, imazalil
  • Herbicida: glifosato
  • Sinergista/coformulante: butóxido de piperonila (um ingrediente adicionado a alguns inseticidas para melhorar a eficácia do princípio ativo)

Eles também testaram duas misturas realistas: uma combinação de 3 agrotóxicos (acetamiprida + glifosato + tebuconazol) e uma combinação de 8 agrotóxicos (adicionando cipermetrina, ciprodinil, deltametrina, lambda-cialotrina e butóxido de piperonila à mistura).

O que eles descobriram

A maioria dos agrotóxicos danificou o DNA. Nove das dez substâncias causaram um aumento significativo de micronúcleos em uma ou mais doses. Apenas o imazalil não pôde ser avaliado adequadamente, pois era muito tóxico para as células mesmo em baixas doses, o que tornou a medição do dano ao DNA não confiável.

O glifosato destacou-se como o mais prejudicial. Causou danos ao DNA em todas as doses testadas, incluindo a mais baixa (0,01 mg/L) — uma concentração bem abaixo dos níveis que demonstraram causar danos em outros tipos de células, como as sanguíneas. Na dose mais alta, o glifosato causou ainda mais danos ao DNA do que o composto químico de “controle positivo” (um composto já conhecido por ser altamente prejudicial, usado para confirmar o funcionamento correto do teste). Isso é notável, visto que a segurança do glifosato tem sido debatida publicamente há anos — a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer o classificou como um provável carcinógeno humano em 2015, uma conclusão contestada por alguns órgãos reguladores.

Alguns agrotóxicos causaram danos que não aumentaram de forma constante com a dose — a cipermetrina, o acetamiprido e o ciprodinil apresentaram danos em algumas doses (frequentemente as mais baixas), mas não em um padrão crescente constante. Os pesquisadores observam que esses resultados merecem confirmação em estudos de acompanhamento.

Três substâncias foram recentemente identificadas como prejudiciais, contradizendo suposições anteriores:

  • O butóxido de piperonila — um aditivo usado em muitos inseticidas piretroides — nunca havia demonstrado causar danos às células humanas, apesar de ser considerado não genotóxico.
  • Anteriormente, acreditava-se que o ciprodinil e a deltametrina não danificavam o DNA, com base em estudos mais antigos em células sanguíneas, mas demonstraram danos claros nessas células intestinais.

As misturas de agrotóxicos também causaram danos.  A mistura de três agrotóxicos causou danos significativos ao DNA mesmo na dose mais baixa, mais do que qualquer um de seus ingredientes isoladamente nessa dose — sugerindo que os efeitos individuais dos produtos químicos se somam.

Por que as baixas doses são importantes?

Uma característica fundamental deste estudo é que ele testou concentrações mais baixas do que a maioria das pesquisas anteriores — chegando perto dos níveis oficiais de “ingestão diária aceitável” (IDA), as doses que os órgãos reguladores consideram atualmente seguras para consumo ao longo da vida. A detecção de danos ao DNA nesses níveis ou próximos a eles é significativa, pois sugere que os limites de segurança atuais para algumas dessas substâncias químicas podem precisar ser revistos.

Esta pesquisa soma-se a um crescente conjunto de evidências de que agrotóxicos agrícolas comuns — incluindo alguns que há muito se supõem seguros do ponto de vista de danos ao DNA — podem prejudicar as células humanas em concentrações surpreendentemente baixas, às vezes próximas aos níveis de exposição atualmente permitidos.


Fonte: Sustainable Pulse

Amplo estudo realizado em Nova York reforça a evidência que associa o glifosato ao risco de parto prematuro

Por Julie Zenderoudi para “The New Lede”

Mulheres grávidas expostas ao glifosato, o herbicida mais  amplamente utilizado no mundo, podem enfrentar um risco maior de partos prematuros, de acordo com um dos maiores estudos já realizados sobre essa relação. 

O estudo, liderado pelo New York University (NYU) Langone Health e publicado na revista Environmental Pollution , mostrou que mulheres grávidas com maior exposição ao glifosato, o ingrediente ativo do herbicida Roundup, apresentaram um risco significativamente maior de entrar em trabalho de parto espontâneo prematuro. Embora pesquisas anteriores já tivessem associado a exposição ao glifosato a gestações mais curtas, o estudo da NYU é um dos maiores a examinar a exposição durante a gravidez e o parto prematuro em humanos.

“Este estudo reforça a ideia de que a exposição ao glifosato durante a gravidez é generalizada e pode estar ligada ao risco de parto prematuro. Mesmo associações modestas são importantes porque a gravidez é um período sensível, e pequenos riscos podem se traduzir em grandes impactos populacionais”, disse Jessie Buckley, professora de epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, em um e-mail.

“A gravidez é um período sensível, e pequenos riscos podem se traduzir em grandes impactos populacionais.” — Jessie Buckley, Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill

Pesquisadores coletaram amostras de urina de 1.450 mulheres que deram à luz entre 2016 e 2019 e descobriram que aquelas com níveis mais altos de glifosato durante o meio da gravidez tinham maior probabilidade de entrar em trabalho de parto espontâneo — ou seja, entrar em trabalho de parto naturalmente antes de 37 semanas, em vez de ter o parto induzido medicamente — em comparação com aquelas com níveis mais baixos.

O parto prematuro é uma das principais causas de doenças e morte em recém-nascidos. Bebês prematuros podem enfrentar uma série de problemas de saúde, incluindo infecções e dificuldades de aprendizagem e desenvolvimento a longo prazo.

As participantes planejavam dar à luz em hospitais da cidade de Nova York, longe de áreas agrícolas, o que sugere que a exposição provavelmente ocorreu por meio dos alimentos. “Não é como se estivessem em populações agrícolas onde há pulverização em larga escala e dispersão de resíduos de herbicidas pelo ar”, disse o Dr. Leonardo Trasande, autor sênior do estudo e professor de pediatria na Escola de Medicina Grossman da NYU.

Buckley observou que a exposição ao glifosato não é algo que as pessoas possam necessariamente evitar. “A exposição ao glifosato é fundamentalmente um problema sistêmico. Reduções reais exigem decisões políticas sobre como e onde o glifosato é usado”, disse Buckley. “Embora a dieta possa influenciar a exposição pessoal, mudanças como a escolha de alimentos orgânicos não estão igualmente disponíveis para todos. Escolhas individuais não podem substituir ações preventivas que eliminem o risco de exposição em primeiro lugar.”

O estudo surge um mês depois de o Supremo Tribunal ter decidido a favor da Monsanto, agora propriedade da Bayer, limitando os processos judiciais de consumidores contra empresas de pesticidas. A decisão no caso Monsanto v. Durnell determinou que as empresas de pesticidas não podem ser responsabilizadas por omitirem avisos sobre o risco de cancro, desde que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) tenha considerado esses avisos desnecessários.

Em fevereiro, o governo Trump assinou uma ordem executiva protegendo a produção de glifosato. A ordem foi amplamente criticada por grupos de saúde pública e ambientalistas.

Um porta-voz da Ruveon, subsidiária da Bayer que administra seus produtos à base de glifosato, afirmou que estão analisando a publicação. “O glifosato tem sido usado com segurança há 50 anos e está entre os produtos de sua categoria mais extensivamente estudados”, diz o comunicado, acrescentando que “nenhuma autoridade regulatória no mundo determinou que o glifosato cause danos reprodutivos ou ao desenvolvimento”.

Trasande acredita que os resultados apresentados no estudo destacam a necessidade de regulamentações mais rigorosas para proteger a saúde de gestantes e bebês, dois grupos especialmente vulneráveis ​​a substâncias químicas no meio ambiente. “Certamente, isso reforça ainda mais a necessidade de mudanças, tanto individuais quanto sociais, em relação ao que comemos e como produzimos [alimentos].”

Imagem em destaque por Eduardo Ramos no Unsplash


Fonte: The New Lede

Uberização não é, nem nunca será, um projeto nacional de desenvolvimento

A “escuta” dos trabalhadores pode orientar políticas sociais, mas não pode substituir uma estratégia baseada em ciência, tecnologia, reindustrialização e empregos de alta produtividade.

O artigo publicado no dia de ontem (23/7) pela Folha de São Paulo e assinado pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, em defesa das medidas anunciadas pelo governo do presidente Luís Inácio para motoristas e entregadores de aplicativos parte de um diagnóstico correto. A classe trabalhadora brasileira mudou profundamente nas últimas décadas. A desindustrialização, a financeirização da economia e o avanço das plataformas digitais empurraram milhões de brasileiros para formas extremamente precárias de inserção no mercado de trabalho. Entretanto, o texto revela uma limitação importante ao apresentar como estratégia de desenvolvimento aquilo que, na realidade, constitui apenas uma política de administração da precarização.

Segundo Guilherme Boulos, as medidas anunciadas pelo governo resultaram de um amplo processo de “escuta” dos trabalhadores. É perfeitamente plausível que isso tenha ocorrido, pois quem passa doze ou quatorze horas por dia dirigindo um automóvel ou uma motocicleta para conseguir pagar combustível, alimentação e a prestação do veículo dificilmente reivindicará uma política nacional de reindustrialização ou um programa de desenvolvimento tecnológico. O trabalhador pede aquilo que lhe permita continuar trabalhando no dia seguinte, mas um governo não pode limitar seu horizonte às urgências impostas pela sobrevivência cotidiana. Entretanto, governar exige responder às necessidades imediatas da população, mas também criar condições para que essas necessidades deixem de definir o futuro do país.

Esse é precisamente o ponto em que a proposta do governo do presidente Luís Inácio revela suas limitações. Quando a estratégia econômica passa a ser construída exclusivamente a partir das necessidades produzidas pela pobreza, pela informalidade e pela precarização do trabalho, o resultado não é a superação da dependência, mas sua administração. A política pública melhora marginalmente as condições de vida de milhões de trabalhadores, mas não altera os mecanismos econômicos que produziram sua inserção precária no mercado de trabalho.

O Brasil vive esse processo há pelo menos quatro décadas. A indústria perde participação na economia nacional, a pauta de exportações torna-se cada vez mais concentrada em commodities agrícolas e minerais, o conteúdo tecnológico da produção diminui e os empregos industriais de maior qualificação desaparecem. Em sentido inverso, cresce continuamente o número de brasileiros cuja única alternativa de renda consiste em trabalhar para plataformas digitais que não controlam, utilizando veículos próprios, assumindo todos os custos da atividade e permanecendo submetidos a algoritmos sobre os quais não exercem qualquer influência.

Essa realidade confirma, de maneira quase exemplar, a interpretação formulada por Ruy Mauro Marini acerca da superexploração da força de trabalho nas economias dependentes. Em vez de elevar a produtividade por meio da incorporação de ciência, tecnologia e inovação, essas economias preservam sua competitividade comprimindo salários e transferindo para os trabalhadores uma parcela crescente dos custos da produção. No trabalho por aplicativos, o motorista financia o veículo, paga combustível, manutenção, pneus, seguro e depreciação, enquanto a plataforma controla os preços, distribui as corridas e apropria-se de parcela significativa da renda gerada.

A partir dessa perspectiva, a política anunciada pelo governo do presidente Luís Inácio reduz alguns custos enfrentados pelos trabalhadores, mas não modifica a lógica econômica da qual decorre sua precarização. O crédito subsidiado para aquisição de automóveis e motocicletas facilita o acesso ao trabalho, mas também amplia a capacidade de reprodução de um modelo baseado justamente na transferência dos riscos e dos custos da atividade para o próprio trabalhador. Em outras palavras, melhora-se a forma de funcionamento da engrenagem sem questionar a natureza da máquina.

Essa análise torna-se ainda mais preocupante quando se observa aquilo que o artigo de Guilherme Boulos simplesmente deixa de mencionar. Não há qualquer referência à reindustrialização do país, à necessidade de reconstruir cadeias produtivas nacionais, ao fortalecimento da pesquisa científica ou ao desenvolvimento tecnológico. A ausência desses temas revela uma mudança importante na forma como parte da esquerda brasileira passou a pensar o desenvolvimento. Se durante grande parte do século XX a preocupação central consistia em construir capacidade industrial, infraestrutura, universidades, empresas nacionais e autonomia tecnológica, hoje o debate parece restringir-se às formas de tornar menos precária uma economia crescentemente marcada pela informalidade.

Esse deslocamento ajuda a compreender a atualidade das formulações de André Gunder Frank sobre o desenvolvimento do subdesenvolvimento. A economia de plataformas representa uma nova expressão da inserção dependente do Brasil na divisão internacional do trabalho. O país fornece trabalhadores, consumidores, infraestrutura urbana e uma enorme massa de dados produzidos diariamente pelos usuários, enquanto os algoritmos, a inteligência artificial, a propriedade intelectual, os sistemas financeiros e o comando empresarial permanecem concentrados nas economias centrais. Exportamos trabalho barato e importamos tecnologia sofisticada, reproduzindo uma dinâmica histórica que transfere riqueza para fora do país ao mesmo tempo que limita nossa capacidade de inovação.

O aspecto mais inquietante dessa estratégia reside justamente na naturalização desse processo. O artigo de Guilherme Boulos transmite a impressão de que a economia de plataformas constitui um dado permanente da realidade, cabendo ao Estado apenas reduzir seus efeitos mais perversos. Entretanto, a expansão da uberização não resulta de uma escolha espontânea dos trabalhadores, mas do esvaziamento da capacidade produtiva brasileira. Milhões de pessoas passaram a depender dos aplicativos porque desapareceram empregos industriais, reduziram-se oportunidades de trabalho qualificado e o país abandonou qualquer estratégia consistente de transformação estrutural da economia.

Esse diagnóstico torna ainda mais paradoxal a posição brasileira. Poucos países reúnem condições tão favoráveis para reconstruir uma política nacional de desenvolvimento baseada em ciência, tecnologia e inovação. O Brasil dispõe de universidades públicas de excelência, centros de pesquisa reconhecidos internacionalmente, empresas estatais estratégicas, abundância de recursos naturais, enorme biodiversidade, crescente capacidade energética e um dos maiores mercados consumidores do planeta. Essas vantagens permitiriam estruturar cadeias produtivas em áreas como inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, indústria farmacêutica, equipamentos médicos, transição energética e mobilidade elétrica, gerando empregos de alta produtividade e reduzindo a dependência tecnológica externa.

Entretanto, o debate público parece conformado com um horizonte muito menos ambicioso. Em vez de discutir como reconstruir uma economia intensiva em conhecimento, inovação e produção industrial, o governo do presidente Luís Inácio age para facilitar o financiamento da motocicleta ou do automóvel que permitirá ao trabalhador continuar prestando serviços para plataformas controladas por empresas cujo centro decisório permanece localizado fora do  Brasil. Essa inversão de prioridades talvez constitua a evidência mais clara da pobreza estratégica que passou a marcar o debate sobre desenvolvimento  nacional.

Ouvir os trabalhadores constitui uma obrigação elementar de qualquer governo democrático. Contudo, um projeto nacional de desenvolvimento não pode ficar restrito às expectativas produzidas pela própria precarização do trabalho. A responsabilidade do Estado consiste precisamente em ampliar essas expectativas e criar condições para que as futuras gerações encontrem oportunidades de inserção produtiva baseadas em conhecimento, inovação tecnológica e empregos de elevada produtividade. Enquanto essa mudança de horizonte não ocorrer, continuaremos confundindo políticas sociais necessárias e legítimas com uma estratégia de desenvolvimento que, na prática, apenas administra a dependência e consolida a posição periférica do Brasil na economia mundial.

Bloqueio judicial no Rioprevidência expõe os riscos da captura financeira da previdência dos servidores fluminenses

Decisão da Justiça reacende o debate sobre investimentos de alto risco e reforça críticas ao uso dos recursos previdenciários pelo governo Cláudio Castro para financiar o pagamento da dívida pública, ampliando a insegurança de aposentados e pensionistas

A decisão da Justiça do Rio de Janeiro de bloquear R$ 135,1 milhões em contas e bens de empresas e executivos envolvidos em operações financeiras com recursos do Rioprevidência representa mais um capítulo de uma história marcada por sucessivas apostas de alto risco com o patrimônio previdenciário dos servidores estaduais. A medida decorre de uma ação proposta pelo próprio Governo do Estado e pelo Rioprevidência para tentar recuperar recursos perdidos após um investimento de R$ 150 milhões no fundo Texas I FIA, cuja carteira estava fortemente concentrada em ações da Ambipar e sofreu uma desvalorização superior a 90%.

Embora o bloqueio de bens possa representar um primeiro passo na tentativa de recuperar parte do prejuízo, ele não elimina a questão central: como um fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de centenas de milhares de servidores públicos foi exposto a operações financeiras de tamanho risco? A resposta exige uma investigação profunda sobre os critérios adotados para essas aplicações, os mecanismos de fiscalização existentes e as responsabilidades administrativas e políticas de quem autorizou tais investimentos.

O caso também reforça a necessidade de examinar a condução da política previdenciária durante o governo Cláudio Castro. Nos últimos anos, os recursos do Rioprevidência deixaram de cumprir exclusivamente sua finalidade previdenciária e passaram a servir, reiteradamente, como instrumento para atender às necessidades fiscais do governo estadual, inclusive por meio de operações destinadas ao pagamento da dívida pública com a União. Essa utilização recorrente do patrimônio previdenciário como mecanismo de ajuste das contas estaduais fragilizou ainda mais a sustentabilidade financeira do fundo e ampliou a insegurança de aposentados e pensionistas, justamente aqueles que dependem desses recursos para sua sobrevivência.

O episódio atual evidencia que o problema não se resume a um investimento malsucedido. Ele revela um modelo de gestão que transformou um fundo previdenciário em instrumento de engenharia financeira e de administração da crise fiscal do Estado. Quando isso ocorre, os riscos deixam de recair apenas sobre operadores do mercado e passam a ameaçar diretamente a renda de milhares de servidores que contribuíram durante décadas para garantir uma aposentadoria digna.

Por isso, a recuperação dos recursos eventualmente desviados ou perdidos constitui apenas uma parte da solução. O Estado precisa identificar e responsabilizar civil, administrativa e criminalmente todos aqueles que contribuíram para expor o patrimônio previdenciário a riscos incompatíveis com sua finalidade. Da mesma forma, torna-se indispensável impedir que futuros governos continuem tratando o Rioprevidência como uma reserva financeira disponível para solucionar problemas de caixa ou honrar compromissos fiscais de curto prazo. Um fundo de previdência existe para garantir segurança aos aposentados e pensionistas, não para financiar aventuras financeiras nem servir como colchão para políticas fiscais equivocadas.

Diante desse histórico, os servidores ativos, aposentados e pensionistas não podem permanecer como espectadores. Sindicatos e associações  ligados aos servidores precisam ampliar a pressão política e institucional para impedir que novos investimentos temerários coloquem em risco o patrimônio do Rioprevidência. Da mesma forma, essas entidades devem exigir o fim da utilização recorrente dos recursos do fundo para viabilizar o pagamento da dívida pública do Estado com a União, prática que desvirtua a finalidade da previdência e compromete sua sustentabilidade de longo prazo. È preciso lembrar que defender o Rioprevidência significa defender o direito dos servidores de receber, com segurança, os benefícios que financiaram ao longo de toda a sua vida como servidores públicos do Rio de Janeiro.

Quando a fumaça domina o horizonte, o problema já deixou de ser apenas ambiental

As imagens desta 5a. feira (23/7) em Campos dos Goytacazes mostram um horizonte praticamente encoberto por uma espessa camada de fumaça. O cenário impressiona pela perda de visibilidade, mas o que realmente preocupa é o que essa fumaça representa. Ela não é apenas um episódio passageiro de poluição atmosférica. Ela revela o acúmulo de problemas estruturais que o município ignorou durante décadas e que agora se tornam cada vez mais evidentes.

O primeiro desses problemas é o modelo de ocupação da paisagem. Campos dos Goytacazes transformou grande parte de seu território em uma vasta monocultura de cana-de-açúcar. Ao longo do tempo, esse processo eliminou praticamente toda a Mata Atlântica que originalmente cobria a região. Restaram apenas pequenos fragmentos florestais, incapazes de exercer plenamente suas funções ecológicas de regulação do clima, retenção de umidade e redução da propagação do fogo.

A simplificação extrema da paisagem tornou o município muito mais vulnerável às queimadas. Grandes extensões contínuas de vegetação seca, associadas ao inverno mais seco e às temperaturas cada vez mais elevadas, criam condições ideais para que pequenos focos de incêndio se transformem rapidamente em grandes queimadas. Quando isso ocorre, a fumaça não permanece restrita às áreas rurais. Ela invade bairros, avenidas, escolas, hospitais e residências, afetando diretamente a qualidade de vida da população.

As mudanças climáticas agravam ainda mais esse quadro. Períodos prolongados de estiagem, ondas de calor mais intensas e redução da umidade relativa do ar ampliam o risco de incêndios. O que antes poderia ser tratado como um evento excepcional passou a fazer parte de uma nova realidade climática, exigindo respostas completamente diferentes das adotadas até hoje.

Entretanto, o clima não explica tudo. A fumaça que hoje cobre Campos dos Goytacazes também evidencia a insuficiente preparação do poder público para prevenir e combater queimadas. A prevenção exige monitoramento permanente das áreas de risco, abertura e manutenção de aceiros, planejamento territorial, fiscalização rigorosa, campanhas educativas e equipes treinadas para atuar antes que os incêndios saiam do controle. Esperar que o fogo comece para então mobilizar recursos significa atuar quando boa parte do dano ambiental e sanitário já ocorreu.

As consequências recaem principalmente sobre a saúde pública. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias sofrem imediatamente com o aumento das partículas finas em suspensão. Crescem os casos de irritação nos olhos, crises de asma, bronquite e outros problemas cardiovasculares e pulmonares. Ao mesmo tempo, a fumaça reduz a visibilidade nas rodovias, aumenta o risco de acidentes e compromete as atividades econômicas.

O horizonte tomado pela fumaça deve servir como um alerta. Campos dos Goytacazes precisa abandonar a lógica de apenas reagir às emergências e construir uma política permanente de gestão da paisagem. Isso passa pela recuperação da Mata Atlântica, pela proteção das áreas úmidas, pela diversificação do uso do solo, pelo fortalecimento da prevenção e pelo investimento em estruturas de combate aos incêndios. Enquanto essas mudanças não ocorrerem, a fumaça continuará retornando a cada período seco, lembrando que a degradação ambiental não permanece confinada ao campo: ela invade a cidade, entra nas casas e chega aos pulmões de toda a população.