Porto do Açu drena milhões de litros por dia: quem protege a água do V Distrito?

O Porto do Açu costuma ser apresentado como uma vitrine de investimentos, mas os documentos que sustentam seu funcionamento levantam perguntas sobre os custos socioambientais desse empreendimento. A outorga OUT nº IN010339, concedida pelo Instituto Estadual do Ambiente (INEA) à Águas Industriais do Açu S/A, autoriza a retirada de até 1,9 milhão de litros de água subterrânea por dia em um único poço, o T2-5, instalado no complexo portuário. No limite autorizado, são 57 milhões de litros mensais, destinados a atividades como resfriamento, aspersão de cargas, construção civil, limpeza e fornecimento a embarcações, além de consumo e higiene humana, sujeitos às restrições do documento.

Essa autorização não constitui um cheque em branco. O bombeamento está limitado a 95 mil litros por hora, durante 20 horas diárias, e deve ser acompanhado por medições e controle da qualidade da água. A outorga também proíbe a comercialização da água extraída e exige avaliação prévia do INEA para alterações nos usos autorizados. Cabe, portanto, esclarecer como ocorre o fornecimento a terceiros e se sua execução respeita essa proibição, sem presumir uma irregularidade que o termo, sozinho, não demonstra.

A condição ambiental mais sensível determina que, ocorrendo entrada de água salgada no aquífero, a extração seja suspensa, o INEA seja informado e seja solicitado o tamponamento do poço. A cláusula reconhece um risco central da exploração de aquíferos costeiros: o bombeamento precisa permanecer compatível com a prevenção da salinização. A existência de uma vazão autorizada não dispensa o monitoramento de seus efeitos reais, especialmente em períodos de menor recarga e diante da soma das captações do complexo.

Para a população do V Distrito de São João da Barra, a questão é saber se essa exploração interfere nas fontes utilizadas pelas comunidades. Caso exista conexão hidráulica entre o aquífero captado e os poços dos moradores, o bombeamento pode contribuir para o rebaixamento dos níveis, a redução da disponibilidade e alterações de salinidade. O termo não comprova esses impactos, mas tampouco comprova sua ausência. A resposta depende dos estudos hidrogeológicos, dos registros de extração e do acompanhamento dos poços industriais e comunitários, considerando os efeitos cumulativos.

Há uma razão imediata para cobrar essas informações: a validade expressa da outorga se esgota no próximo dia 8 de outubro de 2026. Agora resta saber se estão reunidas as condições para sua renovação e se elas serão devidamente escrutinadas pelo INEA. O pedido deveria ter sido apresentado até 10 de junho, respeitando a antecedência mínima de 120 dias. Um requerimento tempestivo pode manter os efeitos da autorização durante a análise, mas isso não equivale à aprovação da renovação nem substitui a verificação do cumprimento das condições impostas.

O INEA precisa demonstrar quanto foi efetivamente retirado, como o aquífero respondeu e se há sinais de salinização ou interferência sobre outras fontes. Esses dados devem ser confrontados com as necessidades da população, lembrando que a legislação dá prioridade ao consumo humano e à dessedentação animal em situações de escassez. O pagamento pelo uso da água não transforma um recurso público em propriedade empresarial, nem assegura precedência absoluta às operações industriais.

O vencimento da outorga oferece uma oportunidade concreta para exigir transparência e fiscalização. A renovação precisa estar apoiada em evidências de sustentabilidade da captação e de proteção dos usos coletivos. Afinal, a propaganda do desenvolvimento perde credibilidade quando a segurança hídrica das empresas recebe garantias e a das comunidades permanece cercada de perguntas.

Por que a cidade tão rica é também tão pobre?

Habito Campos dos Goytacazes desde janeiro de 1998 e tenho, inclusive, a honra de ter recebido o título de cidadão campista, em 2008, por iniciativa do então vereador Otávio Cabral. Como muitos dos que chegaram por aqui para ajudar a consolidar o projeto universitário da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), passei por muitos lugares antes de lançar âncora nestas terras. Ao contrário de muitos que vieram cumprir essa tarefa profissional, gosto de estar por aqui e aprecio as idiossincrasias desta terra. Aprecio, principalmente, a capacidade e a resiliência dos trabalhadores campistas que, historicamente, ficam com o bagaço da laranja, enquanto as elites locais ficam sempre com o melhor do suco.

Pois bem: como observador privilegiado de quase três décadas da história campista, não posso deixar de expressar minha frustração ao constatar que, muitos bilhões depois, esta cidade está cada vez mais segregada, suja e despreparada para arcar com o peso das mudanças climáticas em curso. Neste momento, quem andar pelas ruas com os olhos minimamente abertos verá muito lixo espalhado, uma infraestrutura viária em condições que beiram o sofrível e a inexistência de algo que se assemelhe ao que deveria ser o transporte público. Além disso, como quem acompanha o que escrevo neste blog sabe, a cidade está passando por algo inacreditável em relação ao seu já diminuto estoque de árvores, fruto de uma política de desmanche marcada por podas drásticas e pela remoção completa de milhares de árvores.

Quem ainda se der ao trabalho de observar os chamados conjuntos habitacionais de interesse social notará o aumento do isolamento social, o peso da violência decorrente das disputas territoriais entre os diferentes grupos que controlam o narcotráfico e a quase completa ausência de serviços essenciais, a começar pelas condições sofríveis em que se encontram hospitais e postos de saúde. Além disso, a educação municipal padece com condições degradantes, que afetam a saúde física e mental do profissionais da área e dificultam seus esforços para oferecer às crianças e aos adolescentes campistas um vislumbre de futuro digno.

A questão é que Campos dos Goytacazes não precisava estar nas condições que descrevo, marcadas por um grande fosso entre seus muitos pobres e seus poucos muito ricos. Com um orçamento bilionário, turbinado pela exploração do petróleo na Bacia de Campos, a vida por aqui poderia ser muito melhor, e a maioria pobre da população poderia ter, pelo menos, vislumbres de um futuro mais justo. Mas não é isso que se vê, qualquer que seja o montante investido em propaganda oficial.

E o pior é que temos visto uma piora, em vez de melhora, nos últimos anos, sem que sequer exista um projeto mínimo de futuro. Vive-se como se não houvesse amanhã, entre uma aposta fantasiosa e outra, sempre com o uso generoso de verbas públicas em iniciativas que não destinadas a tornar a cidade mais habitável,  e que claramente não beneficiam a maioria.

A atual campanha eleitoral espelha toda essa miséria intelectual, com candidaturas que nada dizem sobre a realidade dos campistas mais sofridos. É como se aqueles que pretendem representar o povo nem soubessem o CEP da sede da Prefeitura ou da Câmara de Vereadores. É tanta desconsideração pela realidade da cidade que não chega a surpreender a estimativa de que uma parcela significativa dos votos dos campistas irá para candidaturas de não residentes. Nesse caso, pode-se encontrar muitos culpados, menos entre os eleitores que não se reconhecem nos candidatos locais e preferem apertar o número de algum forasteiro.

Minha expectativa é que, uma hora dessas, a juventude e os trabalhadores campistas consigam se organizar para lutar por seus direitos, vencendo o entorpecimento que parece anestesiar vontades e impede a cobrança necessária para que a riqueza do petróleo chegue aos pobres antes que os poços se esgotem. É que, se depender dos ganhadores de sempre, nada vai mudar na terra de Benta Pereira. Isso me faz lembrar o ataque de uma praga que suga uma planta até deixá-la à beira da morte — e que, antes disso, parte para outra, como se a morte do hospedeiro não representasse também uma condenação mútua.

Desafios para pensar as cidades na perspectiva da adaptação climática

É urgente preparar as cidades para enfrentar as ameaças que tendem a se intensificar nos próximos anos, ao mesmo tempo em que é necessário repensar os modelos de produção e gestão das nossas cidades  

Crédito: Gladystone Fonseca/Unsplash

Por Lívia Izabel Bezerra de Miranda e Orlando Alves dos Santos Junior para “Le Monde Diplomatique”

Nosso ponto de partida é a constatação de que são cada vez mais intensas e frequentes as catástrofes decorrentes de eventos climáticos. Enchentes e deslizamentos, ondas de calor, secas prolongadas e aumento do nível do mar estão presentes no cotidiano das cidades brasileiras e têm gerado inúmeras perdas materiais e de vidas humanas. Apesar de também ter relação com outros fenômenos naturais, é inquestionável que a forma como a sociedade se relaciona com a natureza, como se organiza, produz e se reproduz, pode intensificar essas mudanças, ou pelo menos alterar as formas como os impactos decorrentes dessas mudanças são sentidos. 

A questão é reconhecer que a intensificação dos desastres climáticos-ambientais e dos seus impactos sobre as cidades, cada vez mais frequentes e profundos, ocorre no contexto de um mundo cada vez mais urbanizado. É preciso levar em consideração que desde a década de 1960, com o processo de expansão das áreas urbanas, o Brasil tem mais pessoas morando em cidades do que no campo. Esse processo de urbanização, por sua vez, tem sido historicamente marcado por um modelo excludente de cidades, caracterizadas pela concentração fundiária, de riqueza e renda; pela segregação socioespacial, fortemente conformada pelos marcadores de raça, gênero e etnia; pela distribuição desigual dos benefícios da urbanização; e pela distribuição desigual da arborização e de áreas verdes urbanas e de equipamentos públicos. Essas características são a expressão do modelo de desenvolvimento brasileiro e de suas contradições. 

Embora os eventos climáticos afetem todas as pessoas, seus impactos são muito desiguais: variam entre cidades e, dentro delas, entre diferentes grupos sociais. No Brasil, essas diferenças resultaram tanto das relações entre o ambiente construído e o ambiente natural quanto das desigualdades socioterritoriais que caracterizam as configurações urbanas e intraurbanas, especialmente nas periferias, favelas e territórios ribeirinhos. Assim, é preciso considerar que, apesar dos impactos dos eventos climáticos serem sentidos por todos, são as populações majoritariamente negras em situação de pobreza e vulnerabilizadas as que mais sofrem com os desastres, muitas vezes evitáveis se os territórios que ocupam tivessem recebido intervenções estruturais de urbanização e de recuperação ambiental e, também, políticas de prevenção de riscos e de adaptação climática. Mulheres, bebês, crianças, pessoas idosas e pessoas com deficiência também estão entre os grupos mais vulneráveis aos impactos da mudança do clima – o que reforça a relevância de uma abordagem interseccional nas ações de adaptação. 

Apenas um olhar específico e prioritário para os territórios periféricos e com recortes de gênero, raça, etnia, idade, renda possibilitará a efetivação de uma estratégia inclusiva de adaptação climática para as cidades. É necessário focar na justiça climática, buscando reduzir as desigualdades intraurbanas concretizadas na exclusão urbanística, no déficit habitacional e de áreas verdes urbanas, nas inadequações habitacionais e em serviços inadequados de saneamento básico e de mobilidade. É preciso reforçar os princípios do direito à cidade para enfrentar as adversidades da mudança do clima com foco nas áreas urbanas das cidades brasileiras. Nesse sentido, é urgente preparar as cidades para enfrentar as ameaças que tendem a se intensificar nos próximos anos, ao mesmo tempo em que é necessário repensar os modelos de produção e gestão das nossas cidades. O objetivo do nosso artigo é contribuir nesta perspectiva, discutindo o que está em disputa no contexto das eleições de 2026. 

Torna-se fundamental superar e repensar o paradigma que ainda persiste na nossa maneira de pensar, que separa a sociedade da natureza. Os fenômenos naturais não são considerados como produzidos socialmente e os fenômenos sociais não são percebidos como variáveis socioecológicas. Esse modo de pensar ignora que a sociedade e a natureza não são mundos separados: estamos inseridos em um ambiente dialético, em que tudo o que fazemos transforma o ambiente que também condiciona as nossas vidas cotidianas. E esse paradigma tem sido particularmente limitador dos nossos diagnósticos e das nossas propostas de enfrentamento do problema. Nesse sentido, o contexto de emergência climática nos parece uma oportunidade para pensar a nossa condição de espécie no planeta Terra, como propõe o geógrafo David Harvey. 

No contexto das eleições presidenciais de 2026, estão em disputa concepções, agendas e políticas que terão muitas consequências nas formas como o Brasil vai lidar com a temática do desenvolvimento urbano na perspectiva da adaptação climática. De uma forma sintética, podemos identificar três posicionamentos. 

O primeiro posicionamento pode ser chamado de negacionismo ou de fachada. Aqui estão as narrativas que não reconhecem as mudanças climáticas e seus impactos sobre as cidades como um problema; defendendo que tudo siga como está. Muitas vezes, mesmo que não haja uma negação explícita da agenda das mudanças climáticas, esta não recebe prioridade nos programas de governo nem na discussão das políticas de desenvolvimento urbano. 

O segundo posicionamento pode ser denominado ambientalismo excludente, que mobiliza os argumentos climáticos-ambientais para criminalizar as populações mais vulneráveis, inviabilizando os processos de produção desigual das cidades. Aqui o argumento climático é mobilizado para promover remoções, projetos segregadores expressos em conjuntos verticalizados e fechados voltados para as elites. 

Por fim, o terceiro posicionamento, a perspectiva crítica fundada no direito à cidade, na sustentabilidade ambiental e na justiça climática. Este posicionamento reconhece a necessidade de enfrentar este debate com foco no fenômeno urbano a partir de uma perspectiva crítica, o que implica duas abordagens interligadas. De um lado, identificar as ameaças climáticas e os riscos delas decorrentes: chuvas intensas e os riscos de enchentes e desabamentos; temperaturas extremas e os riscos da formação de ondas de calor; estiagem e secas prolongadas e os riscos de escassez hídrica; e aumento do nível do mar e os riscos de diminuição da área urbana. Por outro lado, é preciso focar nas ameaças desses fenômenos impactarem quatro dinâmicas vinculadas ao cotidiano: o direito à cidade, o acesso à moradia digna, o acesso ao saneamento básico e o acesso à mobilidade urbana.  

Nessa perspectiva, o esforço de monitoramento dos fenômenos climáticos deveria incorporar variáveis que permitam compreender os processos socioecológicos de produção da cidade que promovem e intensificam os riscos e ameaças de desastres e catástrofes, o que implica identificar seus agentes, seus interesses, conflitos sociais e suas contradições. É preciso discutir as condições que tornam possíveis o enfrentamento dos interesses do mercado imobiliário e o estabelecimento de pactos em torno da produção da cidade fundados na justiça socioambiental. 

Consideramos que a recriação do Ministério das Cidades, em 2023, trouxe uma inovação importante ao incorporar a adaptação das cidades à mudança do clima como uma política transversal, em sintonia com o Plano Clima Adaptação – Cidades sendo, inclusive, tema da 6ª Conferência Nacional das Cidades, realizada em 2026.   

Neste contexto, nossa perspectiva é que está em disputa a possibilidade de o Brasil avançar ou retroceder na superação de uma cultura tecnocrática que ainda predomina no campo de planejamento urbano, avançando para políticas que atuem sobre os processos de produção do espaço e da cidade. Isso deve se refletir na elaboração dos planos diretores municipais das nossas cidades e na implementação de instrumentos de política urbana na perspectiva da adaptação climática.  

Isso tem fortes implicações sobre as formas como nossas cidades têm sido produzidas e geridas, ainda fortemente subordinadas aos interesses do mercado imobiliário, que determina onde e como construir, quem vive aqui e ali, o que é preservado e o que é destruído, quem fica e quem é removido. A dinâmica e a força do capital imobiliário no contexto contemporâneo do nosso urbanismo periférico e dependente estão sendo reconfiguradas pela sua subordinação ao capital rentista e financeirizado do capitalismo global, e isso precisa ser estudado e compreendido para ser enfrentado. 

Em suma, apesar dos discursos em torno das mudanças climáticas parecerem um consenso, existem muitas diferenças sobre como esta temática é pensada e incorporada nos programas de governo e nas propostas de políticas públicas federais.  

É por isso que se torna um desafio a mobilização de ativistas sociais, movimentos populares, profissionais e acadêmicos, empresários e gestores públicos comprometidos com a justiça socioambiental para garantir que a agenda vitoriosa nas eleições favoreça novas práticas de planejamento urbano, orientadas pela adaptação climática e pelo direito à cidade. 

Lívia Izabel Bezerra de Miranda é pesquisadora do Núcleo Paraíba do INCT Observatório das Metrópoles e Orlando Alves dos Santos Junior é coordenador nacional do programa INCT Observatório das Metrópoles. 


Fonte: Le Monde Diplomatique

Bets: o veto precisa ser definitivo

Nunca apostei em bets. Não foi por falta de dinheiro, mas por acreditar que há maneiras mais proveitosas de usar o que conquisto com meu salário do que entregá-lo a plataformas que transformam a esperança de ganho em receitas fabulosas para seus operadores. Por isso, considero correta a decisão do governo Lula de proibir a exploração, a oferta e a publicidade das apostas de quota fixa. Mas ela chegou tarde, depois de anos de expansão acelerada e de um custo social que recaiu, em grande medida, sobre famílias com menos recursos.

A medida provisória assinada em 25 de setembro determina a interrupção dos novos depósitos, o encerramento das plataformas a partir de 6 de outubro e a devolução dos saldos existentes aos apostadores. O texto ainda precisa ser apreciado pelo Congresso em até 120 dias. Portanto, embora a decisão tenha efeito imediato, sua permanência não está garantida.  

O problema, porém, vai além do dinheiro perdido em apostas. Investigações e reportagens recentes levantaram suspeitas de que plataformas do setor possam ter sido usadas para movimentar ou lavar recursos de origem ilícita. Essas suspeitas precisam ser apuradas com rigor, sem transformar acusações em conclusões antecipadas. Mas, se confirmadas, revelariam um dano adicional: além de absorver recursos de famílias endividadas, o sistema teria servido para contaminar a economia com dinheiro de origem criminosa.  

Também é preciso reconhecer a contradição política do percurso até aqui. A autorização das apostas esportivas foi aprovada em 2018, durante o governo Michel Temer, mas a regulamentação que abriu caminho para a expansão das bets foi sancionada no governo Jair Bolsonaro, em 2022. Já no governo Lula, a Lei nº 14.790, de 2023, estabeleceu novas regras para o setor. Portanto, embora o governo Lula tenha participado da consolidação do modelo regulatório, a autorização inicial não começou em sua gestão. Agora, diante do agravamento do endividamento e dos impactos sociais, o governo tenta interromper uma atividade que cresceu, ganhou publicidade ostensiva e se instalou no cotidiano de milhões de brasileiros. A mudança de rumo é bem-vinda, mas não apaga o tempo em que essa expansão ocorreu.

Minha expectativa, portanto, não é que o veto seja apenas uma suspensão temporária, sujeita a negociações e recuos. Espero que o país caminhe para o banimento definitivo desse modelo de negócio, que extrai recursos de famílias — muitas vezes de quem menos pode perder — e concentra os ganhos nas empresas que operam as plataformas. Proteger a população exige mais do que interromper depósitos por alguns dias: exige impedir que esse circuito seja reconstituído sob outro nome, com outras marcas ou por meio do mercado ilegal.

A proibição precisa ser acompanhada de fiscalização efetiva, investigação das suspeitas de lavagem de dinheiro e políticas de cuidado para quem desenvolveu dependência ou sofreu perdas graves. Se o Congresso reverter a medida, ou se o setor apenas encontrar novas formas de operar, os custos continuarão recaindo sobre as mesmas pessoas. A decisão do governo abre uma possibilidade importante; cabe agora à sociedade cobrar que ela se converta em proteção duradoura.

Do Flamboyant ao Jardim São Benedito: o massacre da serra elétrica continua

A postagem sobre o “massacre da serra elétrica” no Flamboyant mostrou como a retirada ou a mutilação de árvores urbanas converte bairros em espaços mais expostos ao sol e ao calor. As imagens feitas nesta quarta-feira, 30 de setembro, no Jardim São Benedito, indicam que aquele episódio pode não ser um caso isolado: a sequência de cortes registrada no entorno da Praça Nilo Peçanha dá a impressão de um massacre da serra elétrica continuado. 

As fotografias mostram ramos estruturais cortados, copas visivelmente reduzidas em algumas árvores e grande quantidade de galhos removidos acumulados junto à calçada. Em certos registros, a intensidade dos cortes permite falar, ao menos em termos visuais, em poda severa ou drástica. A avaliação definitiva da técnica e dos danos exige inspeção presencial por profissional habilitado, mas as imagens já levantam uma questão incontornável: que planejamento orienta a intervenção e como se pretende preservar a cobertura arbórea de um espaço público central?

Há ainda a questão do tratamento dos cortes. As imagens não permitem verificar se foi aplicada calda bordalesa ou outro produto; portanto, não cabe afirmar que houve omissão. Cabe, isso sim, cobrar que a Prefeitura informe quais procedimentos foram adotados, qual foi o critério para cada corte e se houve acompanhamento técnico. A poda urbana não deveria ser uma operação opaca, executada sem explicação pública sobre seus objetivos e efeitos.

O Jardim São Benedito é uma área de convivência e um refúgio de sombra em meio ao tecido urbano. Reduzir copas de forma intensa significa diminuir serviços ambientais que levam anos para se recompor: sombra, conforto térmico, abrigo para a fauna e qualidade da paisagem. Essa intervenção também prejudica a adaptação climática da cidade, justamente quando Campos dos Goytacazes precisa ampliar e preservar sua arborização para enfrentar o calor crescente. E há um agravante simbólico: depredar o estoque arbóreo de uma das poucas áreas verdes da cidade transmite à população o péssimo exemplo de que árvores públicas são descartáveis. Quando episódios como o do Flamboyant se repetem no Jardim São Benedito, a pergunta deixa de ser apenas se uma poda foi bem executada. Passa a ser se existe uma política de manejo que proteja as árvores ou se a motosserra virou, na prática, o principal instrumento de gestão da arborização urbana.

Rolex de R$ 305 mil, festas e suspeita de lobby: as revelações do ex-sócio de Flávio Bolsonaro

Reportagem do PlatôBR reúne relatos sobre festas com garotas de programa, um Rolex de R$ 305 mil, despesas pessoais pagas por terceiros e uma possível intermediação junto ao ministro Kassio Nunes Marques

A reportagem publicada pelo PlatôBR em 29 de setembro reúne mensagens, documentos e relatos de Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio Bolsonaro. Segundo o veículo, esse material aponta que o senador teria participado de festas com garotas de programa, recebido presentes e despesas de alto valor pagos por pessoas próximas e atuado para aproximar interesses de um cliente do ex-sócio do ministro Kassio Nunes Marques, do STF. Entre os itens citados estão um Rolex avaliado em R$ 305 mil e equipamentos de academia que teriam custado mais de R$ 90 mil. São alegações que exigem apuração rigorosa, contraditório e respostas dos envolvidos — não conclusões antecipadas sobre responsabilidade criminal.

Flávio Bolsonaro não respondeu às perguntas relatadas pelo UOL e, questionado por jornalistas, evitou comentar o caso. A assessoria de Nunes Marques afirmou que o ministro recebe parlamentares de todos os partidos e que isso não compromete sua imparcialidade; essa resposta, porém, não esclarece por si só as circunstâncias específicas mencionadas na reportagem.

O aspecto que merece atenção para além do conteúdo da denúncia é a dimensão dada a ela pelos grandes veículos. Há uma diferença entre publicar uma matéria e incorporá-la de fato à agenda pública: acompanhar os desdobramentos, cobrar explicações, contextualizar as relações políticas e manter o assunto visível. Uma cobertura concentrada em notas breves, ou que rapidamente desaparece das manchetes, pode reduzir o peso público de revelações relevantes justamente quando o personagem envolvido disputa a Presidência.

Não é correto afirmar que toda a mídia corporativa ignorou o caso: UOL e Folha, por exemplo, publicaram matérias sobre a reportagem, e outros veículos também repercutiram seus elementos. A questão, portanto, não é uma ausência absoluta, mas a intensidade, a continuidade e o destaque concedidos. É aí que a comparação com a cobertura de notícias envolvendo Lula e sua família se torna pertinente: quando denúncias atingem o presidente ou seus parentes, elas frequentemente ocupam o centro do noticiário por dias, com sucessivas entrevistas, análises e cobranças. Se revelações sobre Flávio Bolsonaro recebem tratamento mais discreto ou episódico, a assimetria precisa ser exposta e discutida.

Essa diferença de tratamento não prova, por si só, uma coordenação editorial para favorecer uma candidatura. Mas seus efeitos são políticos, ainda que não haja uma ordem explícita: o que ganha destaque se torna assunto nacional; o que recebe pouca atenção corre o risco de ser tratado como ruído. Em uma eleição presidencial, a seleção e a hierarquização das notícias influenciam o que os eleitores conseguem conhecer e comparar.

O caso também não pode ser reduzido à vida privada do filho primogênito de  Jair  Bolsonaro. O interesse público está nas perguntas sobre presentes de alto valor, despesas pessoais pagas por terceiros e possíveis intermediações em favor de interesses privados junto a um ministro do STF. Se confirmadas, essas circunstâncias levantarão questões éticas, políticas e, dependendo das provas e do enquadramento jurídico, legais. Desta forma, cabe à mídia corporativa esclarecer o que os documentos comprovam, o que permanece como alegação e quais respostas ainda faltam.

A mídia corporativa tem a obrigação de tratar todos os candidatos com os mesmos critérios. Mas, quando reserva manchetes, comentários e cobranças insistentes para Lula e sua família e oferece a Flávio Bolsonaro um noticiário mais contido diante de revelações  claramente graves, deixa de apenas selecionar notícias: pratica dois pesos e duas medidas com consequências eleitorais. Depois, será difícil invocar com credibilidade o direito à liberdade de expressão para se apresentar como vítima de censura, se esse direito tiver sido usado seletivamente para favorecer uma candidatura e poupar seus candidatos de um escrutínio público proporcional. O silêncio também comunica — e, neste caso, pode funcionar como peça de campanha.

Massacre da serra elétrica no Flamboyant: para cada cinco árvores removidas, uma muda plantada

Levantamento preliminar no bairro encontrou uma reposição muito inferior ao número de árvores removidas. A pesquisa agora precisa verificar se esse padrão se repete em outras áreas da cidade

Uma das primeiras pesquisas que realizei como professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) teve como objeto a arborização urbana em Campos dos Goytacazes. O estudo resultou na primeira dissertação concluída sob minha orientação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF, no já distante ano de 2001.

Uma das principais descobertas foi que a arborização dos bairros estudados acompanhava um critério de renda. O Flamboyant se destacou por ter mais árvores e maior diversidade de espécies. Outro dado importante: ali, o plantio havia ocorrido por iniciativa dos próprios moradores, e não do poder público municipal. Na época, o estudo registrou uma proporção de quatro vezes mais árvores no Flamboyant, em comparação com os bairros periféricos que foram analisados em uma mesma quantidade de metros quadrados.

Voltei recentemente a estudar a arborização urbana de Campos, motivado pela necessidade de compreender como a cidade está enfrentando o agravamento das mudanças climáticas, entre cujos efeitos está o aumento das temperaturas. Também pesou nessa decisão uma constatação empírica: vivemos um período de remoção acelerada de árvores, em parte associado às prioridades impostas pela ocupação das vias públicas por redes aéreas, inclusive as da concessionária de energia elétrica.

A ciência mostra que as árvores podem ajudar a reduzir o calor urbano por dois mecanismos principais. A copa intercepta parte da radiação solar, sombreando o solo, as calçadas e os edifícios; além disso, a evapotranspiração transfere energia para a evaporação da água, em vez de deixá-la aquecer as superfícies e o ar ao redor. A vegetação também pode melhorar o conforto térmico de quem caminha ou permanece nas ruas. A intensidade desses efeitos varia conforme as espécies, o tamanho e a densidade das copas, a disponibilidade de água, o desenho das ruas e a forma como os edifícios influenciam a circulação do ar. Por isso, arborizar exige planejamento, continuidade e escolha adequada das espécies, além de proteger as árvores já adultas, cujo porte oferece sombra que uma muda recém-plantada ainda não pode proporcionar. 

As árvores também podem reter parte do material particulado em suas folhas e reduzir a exposição direta ao sol. Mas os efeitos sobre a qualidade do ar dependem do local e do desenho urbano: copas muito densas em ruas estreitas, por exemplo, podem alterar a circulação do ar e dificultar a dispersão de poluentes. A vegetação ainda pode contribuir para atenuar ruídos, embora esse efeito dependa da largura e da densidade da barreira vegetal. Portanto, a arborização favorece a saúde e o conforto urbano, mas não substitui medidas de controle das fontes de poluição, do ruído e do calor. 

Um dos primeiros dados que estamos levantando em uma investigação de campo diz respeito ao número de árvores removidas das vias públicas e de mudas plantadas para, em tese, repor o estoque arbóreo. Decidimos começar pelo Flamboyant, que há 25 anos apareceu como o bairro mais arborizado e com maior diversidade de espécies entre os locais estudados.

Os números preliminares são reveladores de um verdadeiro massacre da serra elétrica acontecendo sob nossos narizes. Somente no Flamboyant, identificamos uma desproporção entre árvores removidas e plantadas de 5,2 para 1. Em outras palavras, para cada cinco árvores removidas, apenas uma foi reposta (ver a figura abaixo).

A perda de árvores pode significar menos sombra, maior exposição das superfícies à radiação solar e menor capacidade de resfriamento por evapotranspiração. Isso tende a agravar o desconforto térmico nas ruas e pode aumentar a necessidade de refrigeração em residências e estabelecimentos. A redução da vegetação também pode diminuir a retenção de partículas e a atenuação do ruído, embora a dimensão desses efeitos precise ser verificada por medições locais. A questão, portanto, vai muito além da estética: envolve conforto, saúde pública e desigualdade no acesso a condições ambientais mais seguras. Estudos de saúde pública associam os espaços verdes à redução da exposição ao calor excessivo, à poluição do ar e ao ruído, mas a intensidade dos benefícios depende do contexto urbano e da distribuição dessas áreas. 

Se o Flamboyant ainda conserva uma cobertura arbórea superior à de muitos bairros periféricos, é razoável investigar se a situação nesses bairros é ainda mais grave. A hipótese de que a remoção de árvores não se restringe ao Flamboyant precisa ser testada com dados, mas o que observo cotidianamente torna essa investigação urgente.

Graças aos avanços no sensoriamento remoto e aos métodos de avaliação das árvores em campo, a pesquisa que estamos iniciando deverá alcançar outros bairros e incluir medições de diferentes variáveis relacionadas ao estoque arbóreo das vias públicas. Isso permitirá comparar não apenas a quantidade de árvores, mas também sua distribuição, a cobertura das copas, a diversidade de espécies e as condições em que as árvores estão crescendo.

Uma coisa é certa: se o padrão encontrado no Flamboyant se repetir em outras áreas, estaremos diante de um problema grave de preparação para a adaptação climática. Em Campos, essa necessidade parece estar sendo empurrada para as calendas. As árvores não substituem políticas mais amplas de adaptação, mas sua distribuição e conservação são parte concreta da resposta ao calor urbano — e precisam ser tratadas como infraestrutura pública, não como ornamento descartável.

O custo social da perda dessa infraestrutura pode ficar ainda mais evidente nos próximos meses, caso se confirmem as previsões de altas temperaturas e escassez de chuvas associadas ao El Niño. A cidade não pode esperar que o calor extremo torne impossível ignorar aquilo que a remoção das árvores já está anunciando.

São João da Barra: o PIB atravessa o porto, a riqueza não cruza a cerca

Uma reportagem publicada nesta terça-feira (29) pelo Tempo Real RJ expõe uma contradição que deveria constranger os defensores da ideia de que um grande empreendimento, por si só, produz desenvolvimento: São João da Barra aparece com o terceiro maior PIB do estado do Rio de Janeiro, enquanto mais de 70% de sua população está inscrita no Cadastro Único. O número exige uma leitura cuidadosa: estar no CadÚnico não significa que todas essas pessoas vivam na pobreza ou recebam Bolsa Família. Ainda assim, o contraste entre a dimensão da economia municipal e a quantidade de moradores que recorrem ao cadastro social é eloquente.

O PIB per capita de São João da Barra chegou a R$ 382.417,42 em 2023, segundo o IBGE. Mas essa cifra resulta da divisão de tudo o que é produzido no município pelo número de habitantes; não representa a renda recebida por cada morador. No caso de uma economia marcada por grandes operações portuárias, energéticas e petrolíferas, confundir as duas coisas é especialmente conveniente para quem prefere celebrar indicadores a examinar a distribuição da riqueza.

O Porto do Açu ajuda a explicar essa distância entre produção e condições de vida. A Prumo, responsável pelo desenvolvimento do complexo, é controlada pela EIG Global Energy Partners, gestora internacional de investimentos em energia e infraestrutura. A própria empresa identifica a EIG como sua controladora. Assim, decisões centrais sobre o uso de uma extensa área do território sanjoanense estão ligadas a uma estratégia de valorização de ativos que ultrapassa, em muito, as necessidades do município.

Chamar o Porto do Açu de enclave de recursos é uma interpretação política e territorial dessa estrutura. Terra, acesso marítimo, infraestrutura, energia e água são organizados para atender cadeias de negócios de grande escala. O complexo movimenta atividades que entram na contabilidade local, mas sua presença não garante, automaticamente, renda bem distribuída, serviços públicos proporcionais ou poder de decisão para as comunidades vizinhas. O dado trazido pelo Tempo Real RJ é um motivo concreto para cobrar essa prestação de contas.

O peso das estatais no negócio privado

Há ainda uma ironia pouco discutida: a consolidação desse empreendimento sob controle privado internacional conta com a participação de empresas estatais. A SPIC Brasil, ligada à estatal chinesa State Power Investment Corporation, adquiriu 33% dos projetos termelétricos GNA I e GNA II. No mesmo anúncio, a Prumo informou que a GNA II havia firmado financiamento de US$ 737 milhões com o BNDES. São formas distintas de participação, mas ambas mostram que a expansão do complexo depende também de capital e capacidade institucional associados ao Estado. A SPIC é sócia dos projetos de geração de energia; isso não significa que controle o Porto do Açu. 

O resultado é uma combinação que merece escrutínio público: uma gestora internacional controla a empresa que desenvolve o porto; uma estatal chinesa participa de negócios estratégicos dentro dele; e financiamento público brasileiro integra a construção de parte dessa infraestrutura. Enquanto isso, os moradores de São João da Barra precisam demonstrar sua condição socioeconômica para acessar políticas sociais. A pergunta não é se o porto produz riqueza. Os números indicam que produz. A pergunta é quem a controla, quem se apropria dos seus resultados e quanto dela chega à população que vive no território.

A reportagem do Tempo Real RJ oferece um ponto de partida para essa discussão. Se o PIB bilionário continuar sendo apresentado como prova suficiente de sucesso, o desenvolvimento de São João da Barra permanecerá preso à fotografia tirada do lado de dentro da cerca. Do lado de fora, vivem as pessoas que também deveriam aparecer no balanço.

Ato do MAPA expõe a engrenagem do mercado de agrotóxicos — e o avanço do colonialismo químico Sul-Sul

A publicação de mais um ato de pós-registro pelo Ministério da Agricultura oferece uma oportunidade para olhar além da lista de autorizações e alterações administrativas. O Ato nº 60, de 22 de setembro de 2026, reúne decisões sobre importação, inclusão de fabricantes e produtos técnicos e mudanças nas recomendações de uso de agrotóxicos já registrados. Ao compará-lo com atos anteriores, reaparece uma questão que merece atenção: como a expansão do mercado brasileiro se articula à crescente presença de fornecedores chineses e às desigualdades que podem caracterizar um colonialismo químico também entre países do Sul Global?

O registro não encerra a expansão

O Ato nº 60 confirma um padrão identificado em outros atos de pós-registro analisados pelo Blog do Pedlowski: depois que um agrotóxico recebe registro, sua cadeia de fornecimento continua sendo reorganizada. O MAPA autoriza novos importadores, inclui fabricantes e formuladores, acrescenta produtos técnicos a formulações já registradas e altera recomendações de uso.

O registro, portanto, não encerra o processo. Ele também funciona como base para ampliar as fontes de abastecimento, as marcas disponíveis e, em alguns casos, as possibilidades de uso dos produtos. O Ato nº 60 contém 200 itens, mas esse número não corresponde necessariamente a 200 decisões substantivamente distintas: há itens que repetem informações, retificam decisões anteriores ou tratam de vários produtos no mesmo processo.

O que o Ato nº 60 acrescenta

Entre as mudanças estão inclusões de produtos técnicos — como tebuconazol, glifosato, diquat, triclopir e clorantraniliprole — em formulações já registradas. Há também autorizações para diversas empresas importarem produtos registrados e inclusões de novos formuladores, inclusive empresas com endereços na China.

Essas decisões precisam ser distinguidas. Autorizar uma empresa a importar não comprova que o produto foi efetivamente importado ou vendido. Incluir um produto técnico ou um formulador também não significa, por si só, que o uso agrícola foi ampliado. Mas as decisões mostram como se diversificam as fontes de fornecimento e se reorganiza a circulação comercial dos produtos registrados.

O ato contém, além disso, alterações de recomendações de uso: inclusão de culturas e alvos biológicos, autorização de aplicação aérea do Sevin 480 SC em batata e inclusão de uso em dessecação de manejo para produtos à base de glifosato. No caso do Acehero, uma das alterações para uso em algodão registra aumento de dose. Estas são mudanças que justificam atenção especial, pois podem alterar as condições previstas para a aplicação dos produtos.

A presença chinesa na cadeia

A presença de empresas chinesas não é um episódio isolado. Nos atos anteriores analisados pelo Blog, foram identificadas numerosas inclusões de unidades industriais localizadas na China, especialmente como fabricantes e formuladores. O Ato nº 60 mantém essa tendência ao incorporar empresas chinesas à cadeia produtiva de produtos já registrados e ao registrar produtos técnicos associados a fornecedores estrangeiros.

Isso aponta para a importância crescente da indústria química chinesa no abastecimento de agrotóxicos ao Brasil. Mas o ato, isoladamente, não permite calcular a participação chinesa no mercado, medir volumes importados ou atribuir origem chinesa a todos os produtos mencionados. Para isso, é necessário cruzar os registros com dados de importação, produção, formulação e comercialização.

O próprio MAPA exige o envio de dados anuais sobre essas quantidades. A questão, portanto, pode e deve ser investigada: em que medida a ampliação das fontes industriais mencionadas nos atos se converte em dependência material do Brasil em relação a determinados polos de produção?

Genéricos, produtos banidos e cautela regulatória

A presença chinesa e a condição de “agrotóxico banido” são questões diferentes. O país onde está localizada uma fábrica não determina a situação regulatória do ingrediente ativo no Brasil, na União Europeia ou em outro país. Da mesma forma, “genérico” não significa automaticamente produto proibido ou de menor qualidade; o termo costuma designar produtos equivalentes que utilizam ingredientes ativos já conhecidos e registrados.

O Ato nº 60 autoriza, por exemplo, a importação do Clorpirifós Sabero 480 EC. A União Europeia não renovou a aprovação do clorpirifós para uso em produtos fitossanitários em 2020. Isso não torna automaticamente irregular sua autorização no Brasil: são jurisdições distintas, com regras e decisões próprias. Mas evidencia a coexistência de padrões regulatórios diferentes e reforça a necessidade de informar quais substâncias entram no mercado brasileiro, por quais empresas e para quais usos. A situação de cada ingrediente precisa ser verificada individualmente; não se deve presumir que todo produto à base de diquat ou glifosato, por exemplo, esteja banido na União Europeia.

O balanço divulgado pelo MAPA informa que, em 2025, foram registrados 101 produtos equivalentes ou genéricos, além de um produto químico com ingrediente ativo inédito. Esse dado não prova que os produtos equivalentes sejam de origem chinesa ou que estejam banidos em outros países. Mas, junto com as inclusões de fornecedores e formuladores nos atos de pós-registro, mostra que a oferta pode se expandir sem depender apenas da aprovação de novas moléculas.

Colonialismo químico Sul-Sul

É nesse contexto que cabe acrescentar a ideia de colonialismo químico Sul-Sul. O conceito chama atenção para relações desiguais que também podem ocorrer entre países do Sul Global: a transferência de produtos, riscos e custos ambientais e sanitários de economias mais industrializadas para países que mantêm mercados amplos para substâncias rejeitadas ou não renovadas em outros lugares.

Isso não significa equiparar automaticamente China e Brasil, nem atribuir a uma única origem nacional toda a responsabilidade pelo modelo. Empresas europeias, norte-americanas, chinesas e de outros países participam do mercado brasileiro. O problema está na posição ocupada pelo país nessa divisão internacional: o Brasil pode se tornar destino de produtos e substâncias que enfrentam restrições em certas jurisdições, enquanto sua produção agrícola se integra às cadeias globais de commodities e sua população e seus territórios absorvem parte dos riscos.

A dimensão Sul-Sul torna a discussão mais complexa. A China é uma potência industrial e grande fornecedora de insumos químicos; o Brasil é uma potência agroexportadora e um dos maiores mercados consumidores de agrotóxicos. A relação entre ambos pode ampliar a oferta de produtos equivalentes e reduzir custos para o agronegócio brasileiro, mas também pode consolidar uma dependência de insumos externos e reproduzir uma geografia desigual de riscos. A origem sulista do fornecedor não elimina a possibilidade de relações assimétricas ou de transferência de danos.

O que o ato permite concluir

O Ato nº 60 confirma a continuidade de uma infraestrutura de expansão e reorganização do mercado: incorpora novas fontes industriais, autoriza importadores e altera recomendações de uso. Também contém cancelamentos e exclusões, mostrando que o pós-registro pode retirar ou restringir componentes dessa estrutura.

O documento, sozinho, não demonstra a escala da hegemonia chinesa nem o volume de produtos proibidos em outros países que chega ao Brasil. Permite, porém, identificar uma agenda de investigação: cruzar cada ingrediente ativo com sua situação regulatória internacional e relacionar os registros a dados de importação e comercialização.

Como essas decisões aparecem dispersas em longas listas técnicas, o pós-registro não pode ser tratado como mera burocracia cadastral. É uma parte central da política que organiza quem fornece os agrotóxicos, como eles circulam e sob quais condições são usados. O escrutínio público precisa acompanhar essa engrenagem — inclusive quando as assimetrias se estabelecem entre países do próprio Sul Global.

A vaidade também aceita convites para a academia

Há golpes que prometem dinheiro fácil.  O investigado pelo jornalista Max Kozlov, em reportagem publicada pela Nature, oferece algo talvez ainda mais sedutor para quem vive no mundo acadêmico: distinção. Segundo a investigação, uma rede de organizações apresentadas como sociedades científicas prestigiosas vem atraindo pesquisadores de destaque por meio de práticas enganosas. A reportagem começa com o caso de Julia Hirschberg, que acreditou ter sido eleita para a European Academy of Engineering, instituição que se anuncia como uma das mais importantes de sua área.

O mecanismo é tão simples quanto constrangedor. Basta oferecer a um cientista a perspectiva de acrescentar mais uma honraria ao currículo. O nome da entidade soa respeitável, o convite parece exclusivo e a promessa de reconhecimento faz o resto. É preciso cobrar explicações de quem constrói essas fachadas de prestígio; também é preciso admitir que elas encontram terreno fértil numa academia cada vez mais obcecada por títulos, rankings e sinais exteriores de excelência.

Isso não significa culpar quem recebeu um convite enganoso. Significa perguntar por que uma eleição para uma entidade pouco conhecida pode ser recebida como consagração antes mesmo de se examinar quem a dirige, como escolhe seus membros e o que efetivamente faz. Quando a aparência de prestígio passa a valer tanto quanto o trabalho científico, alguém acaba descobrindo que há mercado para fabricar aparências.

A investigação da Nature merece atenção justamente por expor essa vulnerabilidade. A ciência depende de reconhecimento entre pares, mas esse reconhecimento perde o sentido quando pode ser encenado por organizações de fachada e incorporado, sem escrutínio, à vitrine dos currículos. No fim, a frase do Diabo interpretado por Al Pacino em Advogado do Diabo parece menos uma fala de cinema do que um diagnóstico da armadilha: “Vaidade, meu pecado favorito.”