Contaminantes emergentes e turismo: uma combinação perigosa

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Esmeraldas é uma das cidades mais turísticas do Equador, devido à combinação de belas praias e um clima muito agradável.  Mas afluência turística também pode jogar contra. Crédito da imagem: Aldo Barba/Wikimedia Commons , bajo licencia Creative Commons (CC BY-SA 2.5)

Por Carmina de la Luz para a SciDev

A presença de contaminantes emergentes na água dos rios e do mar está diretamente vinculada ao turismo costeiro.  É o que sugere um estudo realizado na provincia de Esmeraldas, no Equador,  que acaba de ser publicado na Science of The Total Environment .

Os contaminantes emergentes são um grupo diverso de substâncias de detecção recente no ambiente, como medicamentos, produtos de cuidado pessoal ou de limpeza de casas e produtos agrícolas, entre muitos outros.

No final de 2019, Isabel Cipriani Ávila, professora-investigadora da Pontificia Universidad Católica del Ecuador e autora principal da pesquisa e seus colaboradores avaliaram a qualidade da água neste destino popular pouco depois de ser iniciado o confinamento para evitar a propagação do COVID-19 e o fluxo de turistas.

“Em novembro de 2020 voltamos a coletar mostras e aproveitamos para fazer a comparação de contaminantes emergentes antes e durante a pandemia, a qual foi uma oportunidade de demonstrar o impacto tão forte que o turismo tem nos nossos hábitos e no meio ambiente ”, disse Cipriani Ávila em entrevista para a SciDev.Net .

O equipamento foi calibrado para identificar e quantificar cafeína, acetaminofén (paracetamol), diclofenaco, trimetoprima e sulfametoxazol em 10 desembocaduras de ríos e 14 praias de Esmeraldas. Esses compostos foram selecionados pelo fato do Ministério da Saúde Pública do Equador considerando-los de alto uso.entre a população.

“O que mais nos surpreendeu foi observar as maiores concentrações de contaminantes emergentes nos pontos onde o grau de urbanização era baixo, mas que estava muito próximo do local de descarga de águas residuais de um grande resort”, apontou a pesquisadora.

A análise evidenciou que a contaminação por cafeína e diclofenaco diminuiu notoriamente no contexto do confinamento, quando não houve  turismo. Da mesma forma, a aparição e a quantidade das substâncias estudadas foram menores durante esse tempo. O sulfametoxazol – um medicamento antibacteriano – resultou ser a exceção, pois não foi detectado nem antes ou durante a pandemia.

Os contaminantes emergentes são de interesse para os científicos no solo porque afetam a qualidade da água, mas também por suas conseqüências na vida silvestre e na saúde humana. Associarlos com uma atividade econômica específica –como se logró com o turismo neste estúdio– é complexo, já que nos ecossistemas aquáticos intervêm múltiplas variáveis.

Para o coautor Jon Molinero, o caso de Esmeraldas evidencia o problema da desigualdade no acesso a uma recreação com água limpa no Equador: “Vemos que os desejos do turismo de alta gama estão contaminando as zonas de entorno que são sedes de pequenos hotéis e negócios com os quais as pessoas humildes obtém sua renda”.

“Os turistas vêm em busca de água limpa para tomar banho, mas a atividade em si está prejudicando esse serviço. Se não fizermos algum tipo de controle não haverá turismo simplesmente porque as águas não vão ter qualidade suficiente”.

Jon Molinero, Escuela de Gestión Ambiental – Pontificia Universidad Católica, Equador

Tal cenário poderia estar se repetindo em outros países da América Latina, onde um quarto da população vive nas costas, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento . Nas nações caribenhas , o turismo equivale a 26% do Produto Interno Bruto total e no resto da região representa 10%, de acordo com um informe de 2020 elaborado pela Comissão Económica para América Latina e Caribe (CEPAL) .

“Os turistas vêm em busca de água limpa para tomar banho, mas a atividade em si está prejudicando esse serviço. Se não fizermos algum tipo de controle, não haverá turismo simplesmente porque as águas não terão qualidade suficiente”, acrescenta Molinero.

María Teresa Alarcón Herrera, que não participou da investigação, comentou no SciDev.Net que essas reflexões constituem a porta mais destacada do estudo em Esmeraldas.

“O diagnóstico ambiental que é importante, mas também está entendendo o tema desde o ponto de vista econômico. O chamado que faz com sua investigação é melhorar os sistemas de tratamento de águas para que o turismo marítimo seja mais sustentável ”, aponta a acadêmica do Centro de Investigações de Materiais Avançados no México.

Na América Latina, apenas 40 % das águas residuais são tratadas, e as plantas que realizam esse processo não são aptas para eliminar contaminantes emergentes. Germán Santacruz, que também participou do estúdio, relaciona esta deficiência com o fato de que a disposição final dos contaminantes emergentes a um menu não está regulamentada.

Estudos como o publicado na Science of The Total Environment “são relevantes para compreender o fenômeno dos contaminantes emergentes, mas também nos lembramos que a maneira de fazer frente à ‘epidemia silenciosa’ que representam está caminhando para a regulamentação em nossos países”, conclui o professor do programa Água e Sociedade do Colégio de San Luis, no México.

Acesse o artigo completo [Aqui!].


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev [Aqui! ].

Carne representa 86% da pegada de carbono na dieta dos brasileiros, mostra pesquisa

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De 2008 a 2017, a presença da carne aumentou 12% no prato dos brasileiros de todas as faixas de renda. Por isso, o consumo deste alimento contribui com 86% da pegada de carbono da dieta, um indicador de emissão de carbono na atmosfera. Os dados são da análise de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) publicada hoje (31) no periódico científico “Environment, Development and Sustainability”. 

O estudo foi realizado a partir da análise da Pesquisa de Orçamento Familiar, nos anos 2008 e 2017, que divulgou informações sobre consumo individual e também do  preço dos alimentos. “Juntar informações sobre consumo e preço dos alimentos não é muito comum na literatura científica. Essa é uma inovação do artigo”, explica Aline Martins de Carvalho, docente da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Nele são especificados as características do consumo de acordo com cada tipo de carne. Entre todos os grupos, o consumo de peixe reduziu 23%; de porco aumentou 78%; frango, 36%; e a carne bovina não apresentou mudanças expressivas no consumo no período analisado, apesar de ser a carne mais consumida pelo brasileiro.

A partir de um recorte de renda, os pesquisadores constataram que as famílias mais pobres, com menos de meio salário mínimo por pessoa, não aumentaram o consumo total de carne no período analisado. Este grupo reduziu o consumo de peixe, mas as refeições com frango e porco aumentaram. Dessa forma, seu impacto ambiental foi menor que os demais grupos. Entretanto, isso pode ter se dado pelo preço, acesso e aspectos sociais envolvidos no consumo de carne.

De acordo com Carvalho, o consumo da carne em altas quantidades impacta o meio-ambiente e a saúde das pessoas, aumentando o risco  de quadros de câncer de intestino, hipertensão, diabetes e obesidade. Dessa forma, reduzir o seu consumo é uma saída importante, mas não é a única para melhorar a saúde das pessoas e do planeta. “Também é preciso verificar relações de preço, acesso, cultura, consumo e sustentabilidade nos diferentes grupos econômicos”, recomenda a pesquisadora.

Além disso, a nutricionista reforça a importância de discutir os impactos do consumo de carne com a população por meio das políticas públicas. “É necessária também uma abordagem inter e transdisciplinar para investigar as variações do consumo de carne no Brasil, com foco nos valores e na intencionalidade dos sujeitos”, conclui a autora do artigo. 


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Este texto foi originalmente produzido pela Agência Bori [Aqui!].

O gerente do porto, o reitor e os atingidos eternamente esquecidos e com seus direitos pisoteados

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A assessoria de comunicação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) noticiou ontem, com pompa e circunstância, um encontro entre o reitor Raul Palácio e Gustavo Cruz, gerente do Porto do Açu, para aludidamente firmar um acordo de pesquisa envolvendo o  reuso da lama de dragagem que é continuamente retirada das estruturas do megaempreendimento/enclave construído no município de São João da Barra.

Para o Porto do Açu as imagens de um encontro dentro da Uenf para firmar um acordo em que não se sabe quanto (ou mesmo se algum) dinheiro será colocado pela empresa para financiar as pesquisas é uma oportunidade única de propaganda. Com certeza as imagens do encontro estarão brevemente no Instagram e no Facebook da empresa, pois estar na Uenf confere um nível de legitimidade que nem com muito dinheiro gasto com propaganda será possível de alcançar.

Já no caso dos pesquisadores da Uenf envolvidos nessa “parceria” ,  o mais provável é que tenham garantido o acesso que é negado frequentemente a quem mostra as múltiplas mazelas sociais e ambientais causadas por um empreendimento cada vez mais voltado para o seu interior.  Se só isso justificaria a chancela de legitimidade dada ao Porto do Açu? Obviamente que não, pois é muito pouco.  No caso do reitor da Uenf, sempre cioso de abraçar a oportunidade de aparecer em fotografias que escondam sua inoperância, o ganho já está aí.

O problema é que essa acolhida do Porto do Açu  irá dificultar outras pesquisas e projetos já em andamento, mas que dependem da acolhida dos moradores do V Distrito, pois a partir dessa visita, a Uenf será vista (e com razão) como uma instituição que está ao lado do porto e contra aqueles que foram e continuam sendo atingidos pela instalação do empreendimento.

Obviamente que quando menciono atingidos, estou fando dos milhares de habitantes do V Distrito de São João da Barra que tiveram suas vidas devastadas pela tomada de terras que ocupavam há várias gerações, e que continuam até hoje sem receber o dinheiro devido pelo estado do Rio de Janeiro.  Ao se aliar publicamente ao Porto do Açu, o que reitor da Uenf fez foi jogar água no moinho que esmaga os direitos sociais e econômicos dos que tiveram suas terras tomadas pelo governo estadual, e que hoje servem para que a Prumo Logística Global cobre aluguéis tão salgados quando o material de dragagem que foi objeto da “happy hour” entre o reitor e o gerente do Porto do Açu.

E enquanto isso, os ossos de Darcy Ribeiro devem estar se revirando no túmulo, em um sentimento que mistura vergonha e raiva.

Artigo sobre liberação de agrotóxicos no governo Bolsonaro agora é de acesso gratuito

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Nesta segunda-feira recebi a informação da editora Taylor & Francis que o artigo que co-escrevi com os meus colegas Ossi Ollinaho e Markus Kroger sobre a economia política dos agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonro, que foi intitulado de “Toxic turn in Brazilian agriculture? The political economy of pesticide legalisation in post-2016 Brazil” agora é de acesso livre, ou seja, pode ser baixado gratuitamente por qualquer que queira lê-lo.

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Essa é uma informação interessante, pois além de permitir que o acesso ao artigo seja gratuito, a decisão de fazer isso implica em um desejo dos editores da revista Third World Quarterly de aumentar o número de leitores, na medida em que haverá uma natural perda de receita ao não se cobrar nada pelo direito de possuir uma cópia.

Desta forma, quem desejar acessar gratuitamente este trabalho que aborda as diferentes facetas e implicações por trás da aprovação recorde de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!].

Tal como a Americanas, corporação indiana é acusada de usar esquema de fraude contábil e manipulação de ações

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Em 1937, um dirigível alemão movido a hidrogênio voando para Nova Jersey pegou fogo e caiu, matando 35 passageiros a bordo. Foi uma espécie de desastre causado pelo homem, pois cerca de 100 pessoas foram carregadas em um balão cheio do material mais inflamável do universo. O dirigível foi nomeado Hindenburg.

Oito décadas depois, em 2017, um graduado em gestão de negócios internacionais pela Universidade de Connecticut fundou uma empresa de “pesquisa financeira forense” para se especializar em detectar irregularidades e fraudes, ou o que chama de “desastres causados ​​pelo homem”, em empresas ao redor o globo e fazer apostas de mercado contra eles. O fundador Nathan (Nate) Anderson nomeou sua empresa Hindenburg Research em homenagem ao dirigível condenado.

Nesta semana, Hindenburg iniciou uma feroz tempestade de fogo que ameaça chamuscar o homem mais rico da Ásia, o magnata indiano Gautam Adani, que preside um império em expansão que agora se estende de portos e aeroportos a energia, cimento e data centers.

Na quarta-feira, divulgou um relatório alegando que o Adani Group havia “se envolvido em um esquema descarado de manipulação de ações e fraude contábil ao longo de décadas”. A divulgação provocou uma liquidação de US$ 51 bilhões em ações das empresas de seu grupo em dois pregões, empurrando-o quatro posições para baixo no índice mundial de bilionários.

Pior, veio antes de uma venda subsequente de ações de Rs 20.000 crore na Adani Enterprises. A venda de ações pode chegar a míseros 1% no dia da abertura, sexta-feira, quando as ações da Adani Enterprises caíram 18,5%, caindo abaixo do preço de oferta.

Desde então, o grupo Adani descartou o relatório como uma “combinação maliciosa de desinformação seletiva e alegações obsoletas, infundadas e desacreditadas”. Isso, no entanto, não impediu os investidores de venderem.

Na sexta-feira, as ações das empresas do Adani Group continuaram sua seqüência de perdas pelo segundo dia, com a Adani Enterprises caindo 18,5% e Adani Ports & SEZ 16%, levando o índice de referência mais amplo – o Sensex – para baixo em 874,16 pontos ou 1,45 por cento. cento.

O que as pesquisas da Hindenburg fazem

A Hindenburg se envolve em vendas a descoberto que envolvem a venda de ações emprestadas na esperança de comprá-las a um preço mais baixo posteriormente. Se os preços caírem de forma esperada, os vendedores a descoberto conseguem fazer  um grande lucro.

A Hindenburg, que investe capital próprio, faz essas apostas com base em sua pesquisa, que busca “desastres provocados pelo homem”, como irregularidades contábeis, má administração e transações não divulgadas com partes relacionadas.

Procura especialmente “irregularidades contabilísticas; atores mal-intencionados em funções de gerenciamento ou provedores de serviços importantes; transações não divulgadas com partes relacionadas; negócios ilegais/antiéticos ou práticas de relatórios financeiros; e questões regulatórias, de produtos ou financeiras não divulgadas” nas empresas.

“Embora usemos a análise fundamental para auxiliar nossa tomada de decisão de investimento, acreditamos que as pesquisas mais impactantes resultam da descoberta de informações difíceis de encontrar de fontes atípicas”, diz o site da empresa.

Os alvos anteriores de Hindenburg incluem Lordstown Motors Corp (EUA), Kandi (China), Nikola Motor Company (EUA), Clover Health (EUA) e Tecnoglass (Colômbia).

Os vendedores a descoberto, no entanto, não são admirados pela maioria. As empresas visadas pelos ativistas têm pressionado os reguladores a perseguir esses vendedores a descoberto, pois podem estar praticando algum tipo de negociação com informações privilegiadas. Os defensores, no entanto, dizem que a pesquisa na verdade revela fraudes e faz mais bem do que mal aos investidores.

As pessoas nos bastidores 

Não se sabe muito sobre a Hindenburg Research, exceto seu fundador Anderson, de 38 anos, que morou em Jerusalém, Israel, antes de retornar aos Estados Unidos, onde primeiro trabalhou como consultor em uma empresa de dados financeiros FactSet e depois trabalhou em corretoras de valores em Washington DC e Nova York.

Antes de fundar a Hindenburg, Anderson trabalhou com Harry Markopolos, que havia sinalizado o esquema Ponzi de Bernie Madoff, para investigar o Platinum Partners, um fundo de hedge que acabou sendo acusado de fraude no valor de US$ 1 bilhão.

Enquanto morava em Jerusalém, Anderson se ofereceu para um serviço de ambulância local.

Alvos anteriores

A Hindenburg é mais conhecida por sua aposta contra a fabricante de caminhões elétricos Nikola Corp em setembro de 2020 por suas “supostas mentiras e enganos” nos anos que antecederam sua proposta de parceria com a General Motors.

Entre dezenas de outras questões, desafiou um vídeo promocional que Nikola produziu mostrando seu caminhão elétrico em alta velocidade. Disse que isso nada mais era do que um caminhão descendo uma colina no deserto de Utah, uma alegação que a empresa mais tarde admitiu e seu fundador e presidente executivo Trevor Milton renunciou.

A Nikola, que concordou em 2021 em pagar US$ 125 milhões para resolver um caso com a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA, foi listada em junho de 2020 e sua avaliação atingiu US$ 34 bilhões no pico, mas agora vale US$ 1,34 bilhão.

O site da Hindenburg lista mais de uma dúzia de empresas onde ela sinalizou supostas irregularidades. Isso inclui a WINS Finance, que Hindenburg revelou não ter divulgado aos investidores americanos um congelamento de ativos de RMB 350 milhões imposto a uma de suas subsidiárias na China; a “empresa zumbi” China Metal Resources Utilization, que teve “100 por cento de desvantagem” e estava “sob graves dificuldades financeiras” com “numerosas irregularidades contábeis”; O acordo de teste Covid-19 “completamente falso” da SC Worx; “grandes transações não divulgadas com partes relacionadas, incluindo uma fusão de US$ 509 milhões” na HF Foods; “bilhões de dólares em passivos não divulgados fora do balanço” da Bloom Energy; e um relatório de denúncia à Securities and Exchange Commission (SEC) dos Estados Unidos “relacionado ao RD Legal,

Quase todo o trabalho de Hindenburg foi seguido por ações legais ou regulatórias, de acordo com seu site.

Vendas a descoberto

Para assumir uma posição vendida, os investidores vendem ações emprestadas na esperança de comprá-las de volta a um preço mais baixo mais tarde. Se os preços caírem de forma esperada, eles fazem uma matança. Se, em vez disso, o preço subir, eles terão de comprar ações para “cobrir” o que tomaram emprestado.

Os vendedores a descoberto, no entanto, não são admirados pela maioria. As empresas visadas pelos ativistas têm pressionado os reguladores a perseguir esses vendedores a descoberto, pois podem estar praticando algum tipo de negociação com informações privilegiadas. Os defensores, no entanto, dizem que a pesquisa realmente revela fraudes e faz mais bem do que mal aos investidores.  


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “The Print” [Aqui!].

A criminalização de Junho de 2013 como um sintoma

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Por Aline Moreira Magalhães para o “Le Monde Diplomatique”

Tornou-se corrente em meios de esquerda localizar o início do bolsonarismo nas manifestações que começaram a ocorrer em junho de 2013 no Brasil. Em suma, nesse período teria se forjado o “ovo da serpente” – para usar uma expressão amplamente adotada – do poder bolsonarista e do alastramento da violência fascista no país. Esse discurso é cada vez mais intensificado conforme os eventos se desenrolam, como o impeachment de Dilma em 2016, a ascensão de Bolsonaro ao poder, o transcorrer excruciante de seu governo, e a ameaça de golpe que ora se abate sobre o governo Lula 3. Essa narrativa, mais do que tentar invisibilizar um evento histórico e sua real composição social, encobre os pressupostos centrais da atuação de um vasto e complexo campo de esquerda no Brasil. Se junho de 2013 demarcou, de fato, um antes e depois, que antes e depois seria esse? Um antes “sem bolsonarismo” e um depois “com fascismo” e tendo Bolsonaro como porta voz? É necessário ir além da conveniência e seletividade argumentativa para apontar com alguma justeza o que efetivamente ocorreu.

O que se chama de Jornadas de Junho de 2013 se trata, em verdade, de uma eclosão de um longo período de mobilizações nacionais – porém concentrados em número e intensidade no Rio de Janeiro e em São Paulo – que durou pelo menos dois anos, se arrastando de maneira mais errática até 2016.1 Mas mesmo se nos ativermos às manifestações de Junho de 2013, sua composição, que chegou a milhões de pessoas participando de atos, era heterogênea a ponto de haver conflitos entre manifestantes com posições ideológicas opostas em sua primeira semana. Como foi o caso do conflito entre os que já vestiam camisa da seleção brasileira e os que vestiam camisas vermelhas e empunhavam bandeiras de partidos da esquerda parlamentar, rasgadas em episódios que deflagraram brigas durante os atos. As manifestações já nesse junho eram majoritariamente compostas por setores populares: professores e estudantes da rede pública de ensino, trabalhadores precarizados, moradores de rua e de comunidades pobres urbanas. Provas disso não faltam a quem se disponha a procurar por imagens na internet. Em uma delas, emblemática desse Junho especificamente, é o dia 20 na Avenida Presidente Vargas, Rio de Janeiro, em que manifestantes, dentre os quais homens negros periféricos, enfrentam um caveirão2 que tentava reprimir e conter a manifestação. 

Manifestantes enfrentam o Caveirão no Rio de Janeiro, em 20 de junho de 2013. (Foto: Daniel Marenco)

Essa cena não foi isolada: enfrentamentos semelhantes e protagonizados pelo mesmo setor social ocorreram em diversos outros atos nos dois anos que se seguiram. Não tardou, assim, para o setor que vestia verde e amarelo se destacasse como divergente a essas bandeiras e táticas e passasse a convocar atos próprios. Ambos os setores, os que empunhavam bandeiras de esquerda, e os que falavam apenas em corrupção vestindo camisa da seleção, passaram a convocar atos separados, em dias e locais diferentes. Isso apenas algumas semanas depois dos meados de junho. 

No entanto, suas dimensões em termos de frequência, intensidade e quantidade de pessoas agregadas se distanciavam abissalmente. Durante dois anos de maneira quase ininterrupta, os atos da esquerda ocorriam duas vezes por semana no mínimo, agregavam de 500 a 20 mil pessoas, eram impreterivelmente reprimidos pela PM, assim como entravam em rota de colisão com ela. Nesse mesmo período, os que hoje são identificados como germe do bolsonarismo, por sua vez, realizavam atos quinzenais ou mensais e suas aglomerações variavam de 100 a 2 mil pessoas. Como ocorre até hoje, esses atos não só não eram reprimidos nem contidos como eram quase aplaudidos pelas PMs, caso pudessem fazê-lo. Tratavam-se de colegas marchando lado a lado, praticamente.

Os atos organizados e convocados pela esquerda procuravam promover pautas de esquerda: de defesa de direitos sociais básicos prescritos pela Constituição, como o acesso à mobilidade e moradia urbana, à educação e saúde de qualidades e públicas. Os atos também rechaçavam duramente a violência policial, reivindicando o fim da PM, e denunciavam o extermínio da população negra, a ponto de ter invertido a narrativa midiática: “vândalo é o Estado”. Defendia, sobretudo, a participação e consulta populares em torno de todas as pautas que afetavam diretamente a sociedade, indo contra a resolução a portas fechadas, que é o procedimento rotineiro estatal quando se trata de assuntos de grande impacto social no Brasil, como a venda de bens e serviços públicos. Por isso alguns dos atos mais duramente reprimidos ocorriam quando o objetivo era interceder uma reunião parlamentar ou votações em assembleias legislativas específicas que definiriam a vida de grande parte dos moradores e trabalhadores das cidades. Os manifestantes e as manifestações de rua adensaram e/ou impulsionaram também as próprias mobilizações de sindicatos, como dos professores, de garis, de motoristas de ônibus, metroviários, de entregadores de aplicativos. 

Em sequência e no bojo desses acontecimentos, outros se desenrolaram, mas para se ater às alternâncias de poder de Estado: Dilma foi deposta em um golpe articulado no Congresso Nacional, em grande medida porque não encaminhou as reformas de interesse do empresariado nacional conforme desenhadas naquele momento, em virtude da efervescência das ruas, e em meio à uma crise econômica3 pela qual não passou seu antecessor.  

O golpe parlamentar de 2016 abriu então caminho para ascensão de uma nova fração da burguesia ao poder no Brasil, encabeçada pela família Bolsonaro, e enraizada em alguns valores caros à formação nacional brasileira, como a aversão violenta e o desprezo a tudo ou quase tudo o que se desloca estética e existencialmente do que é irradiado pela elite nacional e seu padrão de consumo. Essa fração tem características específicas ainda a ser examinadas por estudos mais depurados, mas pode-se dizer que ela se caracteriza principalmente pela premissa de que mais pessoas querem ser ricas ou ter acesso a bens ostentados pelos ricos; que querem se igualar, ou ter chances de construir um lugar ao sol junto ao restrito círculo de milionários e bilionários do país. O pano de fundo, nem sempre explicitado claramente por um patriota do caminhão, por exemplo, é que um Estado justo deveria garantir os meios para isso, em vez de manter os mesmos privilégios de sempre – leia-se aos mesmos sobrenomes de sempre bem como à alta burocracia estatal. É caracterizada, ainda, pela oposição à prática e aos valores da burguesia brasileira mais tradicional, que mantém a concentração financeira, os privilégios materiais e simbólicos em círculos restritos, com perfil aristocrático dotado de um capital cultural forjado e/ou legitimado no conhecimento acadêmico/científico, em lugar de promover a acumulação de riqueza para mais pessoas, ou seja, ampliar um pouco o círculo e também o perfil dos ricos no país – o adjetivo “ressentidos” utilizado pela esquerda encobre com um verniz de superioridade moral uma hierarquia social real. Não à toa, foi Rio das Pedras a primeira favela encurralada pela aliança paramilitar dessa fração burguesa ascendente, materializada na formação das milícias com a influência dos novos ricos, residentes da Barra da Tijuca, vizinha a Rio das Pedras e onde muitos de seus moradores vendem sua força de trabalho. Barra da Tijuca é um conhecido bairro do Rio de Janeiro onde passaram a residir o que se chama, popularmente inclusive, de novos emergentes ricos. Mesmo bairro onde mantém residência a família Bolsonaro.

Ao manter essa promessa no horizonte, o discurso de Bolsonaro ecoa e se ancora fortemente nessa fração e na sua franja, que paira em ocupações e empregos instáveis insuficientes para sua ascensão, crédulas em seu marketing de prosperidade, bens e conforto para mais pessoas – não necessariamente muitas pessoas e certamente meticulosamente selecionadas, a depender de seus vínculos e perfis sociais.4 Por isso é muito caro a Bolsonaro retomar o discurso militar da exploração do que ele classifica como “terras vazias”, como as terras indígenas e de populações tradicionais, onde se encontram preservados recursos energéticos e minerais que, se sobre-explorados (portanto destruídos), seriam capazes de criar mais “novos ricos”. Pelo menos virtualmente a propaganda funciona. Objetivamente é claro que isso não se efetiva, basta ver, por exemplo, o grau de exploração e depauperação em que vivem migrantes que rumam para o norte do país para trabalhar em garimpos.5

O processo de racha do PSDB (via Doria, mas não somente), porta voz da elite mais aristocrática paulistana ao mesmo tempo que procura contemplar os interesses da alta burguesia nacional, e que ditava os rumos estruturais do país sem maiores crises até então, e a ascensão política de um capitão da reserva do Exército, adulador público de um torturador, foram dois movimentos articulados, que pavimentaram os caminhos para o aprofundamento da violência de teor fascista altamente deflagrada em que nos encontramos hoje. No final das contas, o partido apoiou em bloco a candidatura de Bolsonaro, mesmo dentre tergiversações e silêncios de uma prestigiada intelectualidade/elite brasileira que compõe o partido, durante o transcorrer da campanha eleitoral. Do alto de seu preconceito de classe, o setor tradicional-aristocrático do partido tomou por segura a manipulação de Bolsonaro, considerando que moldariam suas ações conforme os interesses representados pelo partido, e as adestrariam conforme, pelo menos, alguns dos seus princípios burgueses mais caros. Acreditaram, sobretudo, que ele realizaria as reformas necessárias à continuidade e aprofundamento de privilégios, como as vendas das estatais remanescentes – inclusive da própria gestão da água, as reformas da previdência, trabalhista e com o desmonte de serviços de educação e saúde estatais – sem maiores riscos de inversão do poder no país. 

Não tardou, entretanto, para que os antagonismos entre esses dois setores – um voltado aos novos ricos (a burguesia véio da Havan), e outro voltado à elite tradicional – se aprofundassem e culminassem com o apoio irrestrito do partido e determinante ao retorno de Lula à presidência, único candidato capaz de vencer a eleição em número de votos frente à extorsão, cabresto e compra de votos com dinheiro público que já se avizinhava a níveis inéditos na história do país. Enquanto isso o PSDB tentava expurgar do partido quadros e discursos bolsonaristas. Porém, depois de todo esse processo e rachas e do que foi o próprio governo Bolsonaro, o PSDB já não representa em sua totalidade a burguesia, nem a paulistana nem a nacional, hoje composta por setores mistos em termos de taxas de lucro e ideológicos, que oscilam entre a fachada democrático-burguesa e o fascismo puro e simples. 

O grosso do que se chama de Jornadas de Junho e seus desdobramentos refere-se em grande medida a manifestações com pautas que se opunham radicalmente a esses setores e seus respectivos projetos de sociedade. E foi o evento histórico que colocou uma lupa sobre todos os problemas intensificados, mas não gerados, no governo Bolsonaro, retirando os problemas estruturais da sociedade brasileira dos escombros da invisibilidade, como é o caso tanto do racismo como do atual problema militar enfrentado pelo governo Lula 3. Pode-se atribuir muitas coisas às Jornadas de Junho de 2013 e seus desdobramentos, inclusive de ser um elemento que contribuiu para a instabilidade do governo Dilma que culminou em sua deposição. Contudo, além de estar longe de ser o único e determinante – Dilma foi deposta por não cumprir a contento o aprofundamento da agenda neoliberal que estava sendo imposta pela burguesia nacional naquele momento –, as mobilizações populares em torno de pautas de esquerda fazem parte da própria história do Partido dos Trabalhadores. Então manifestações populares e trabalhistas com reivindicações claramente de esquerda não deveriam ser uma surpresa desagradável para um partido que supostamente se identifica e surgiu desde os mesmos setores e pautas. 

Mas por que é assim? Por que o esforço reiterado para criminalizar ou jogar no lixo da história qualificando como fascista um dos eventos mais centrais do Brasil contemporâneo? Aí entramos no ponto ululantemente contraditório da questão: para a esquerda brasileira, mas não apenas brasileira, o único enquadramento viável de construção de poder popular localiza-se no Estado-nação, dele emana ou viabiliza-se.6 Não é possível legitimar acontecimentos que o opõem, com o risco de ver ao mesmo tempo estratégias políticas questionadas ou diluídas. Mesmo a retórica variando conforme a situação, na prática grande parte dos partidos de esquerda no Brasil, cujas leituras de realidade e estratégias são amplamente reverberadas e endossadas em redes sociais e canais de mídia, canaliza suas atuações para as eleições da democracia burguesa, as toma como o objetivo final e mais central de um ciclo que se inicia nas formações de organizações “da base” e suas lideranças e culmina principalmente no parlamento nacional, mas também na direção de um sindicato ou de uma central sindical. Faz parte da própria constituição da esquerda no país o foco sobre o poder estatal como um bote salva-vidas que irá livrar todos do “mal maior”, seja ele qual for.7 Não é nem a questão de validar ou não o sistema representativo liberal-burguês, mas uma questão de vetor e de prioridades. Não se cogita sequer o contrário, isto é, das formações e organizações populares serem o verdadeiro e mais importante objetivo final de qualquer atuação de esquerda, já que isso poderia gerar uma transformação da moralidade burguesa, sua desfascistizacão, e poderia construir maiorias graduais capazes de pressionar (Estado, governo ou o que valha) e promover mudanças cada vez mais significativas com vistas à promoção de igualdade social. Claro que essa tendência política que gravita em torno do poder estatal sempre entra em contradição dialética com as próprias forças e movimentos populares que dão legitimidade e força a esses partidos. Entretanto, mesmo esses últimos são, por vezes, enredados na narrativa de que o mais importante é eleger “representantes” na República liberal na qual nos encontramos atados há mais de um século. Vide a catarse coletiva em que se transformou a eleição de 2022. Nesse enquadramento, construir uma sociedade mais justa passa mais por construir e formar representantes, porta-vozes, do que realizar ações concretas e de pressão que visem a construção de uma sociedade mais justa. Não nos deixemos ludibriar com relativizações sobre o que é uma resistência política eficaz: no Brasil, votações em pautas socialmente significativas só venceram e vencem no parlamento e em assembleias legislativas mediante pressão popular intensa e quantitativa, a exemplo da própria Assembleia Constituinte de 1988 – independentemente se houverem ou se fazerem maioria “representantes” da classe trabalhadora ali ou não. E toda essa sobrevalorização da capacidade representativa parlamentar é contraditória em si porque, além de já ter sido demonstrada inoperante pela própria experiência brasileira, rasga a própria tradição teórica que esses setores dizem reivindicar. 

Os resultados de quatro anos de governo Bolsonaro estão aí para quem quiser ver, mas para mencionar apenas o quadro da gestão da violência em um Estado neoliberal, que é o principal dilema nesse início de 2023: houve um avanço territorial e de intensidade do poder paramilitar miliciano, o avanço da articulação nacional das polícias militares (umbilicalmente ligadas às milícias) e da PRF, o financiamento de tentativas de golpe ou de golpes propriamente ditos, antes, durante e depois da eleição pela burguesia média e pelos desesperados que querem ser parte dela: com a diferença que agora eles têm a convicção que conseguem destituir a alta burguesia (atualmente a financeira) do poder. Como acabaram de fazer na Fiesp.

O problema Polícia Militar, e de modo mais abrangente a atual ameaça militar contra o governo eleito, vêm atualmente colados às considerações reacionárias e conservadoras sobre Junho de 2013, justamente o período em que se começou a colocar em evidência a violência policial no Brasil por meio de suas palavras de ordem e estratégias de enfrentamento contra esse tipo de autoritarismo. O irônico é que, pela primeira vez, antes e após a posse, o governo atual do PT tanto convoca as mesmas forças das ruas que culpou como responsável pela sua deposição em 2016, quanto é obrigado a cogitar levar a sério uma de suas principais reivindicações: a reformulação estrutural do lugar dos militares no país. Já aparenta estar mais do que entendido que sem ambos será muito difícil para esse governo seguir incólume, e, muito pior do que isso, evitar o retorno do bolsonarismo (ou algum congênere) ao poder em sua face ainda mais destruidora, como uma autocracia gângster baseada na violência e extorsão milicianas, e em uma exploração do trabalho de fazer revisitar as descrições de Engels sobre a Inglaterra do século XVIII.

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Uma análise e descrição dos antecedentes sociais e econômicos das Jornadas de Junho de 2013 são realizadas em: Ecos de Junho: Insurgências e crise política no Brasil (2013-2018) – Le Monde Diplomatique

2 Tanque militar preto com uma caveira desenhada em suas laterais, símbolo do Bope, utilizado para intimidar e coagir cotidianamente moradores de favela no Rio de Janeiro.

3 Por crise econômica refere-se aqui aos efeitos da crise econômica mundial nas taxas de lucro do empresariado nacional, que passam a demitir trabalhadores em massa, fechar indústrias e filiais, além do processo inflacionário que diminui o poder de compra da classe trabalhadora, aumentando consideravelmente o contingente de desempregados e depauperados.

4 O que é vendido como minimamente digno para pessoas que gostavam, até então, de se sentir “classe média alta” no Brasil é, para além do básico (moradia com localização privilegiada, educação e saúde privadas), ter uma Smart Tv com canais a cabo em cada cômodo, sustentar um carro para cada adulto na família e viajar ao exterior todo ano.

5 Esse discurso tampouco é novo: remonta a todo processo contínuo de formação histórica do Estado capitalista em todo o mundo, apregoando que existem fronteiras/terras a serem vigiadas, ocupadas e exploradas. No Brasil, o regime militar adotou esse discurso amplamente durante a implementação de projetos de desenvolvimento nacional, às expensas de diversos e amplos setores populacionais (ver Otávio Velho, 1976).

6 Reivindica-se de forma uníssona na esquerda a categoria “Estado democrático de direito”, apropriando-se, sem qualquer tipo de crítica, da tecnicidade ficcional da teoria jurídica clássica que justifica a atual democracia republicana liberal. 

7 Ver Revolução e subdesenvolvimento, 1969, de Ruy Mauro Marini.

Aline Moreira Magalhães é antropóloga e doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional, UFRJ.


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Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal “Le Monde Diplomatique” [Aqui!].

Crise climática e alienação

Por MICHAEL LÖWY*

Ainda podemos sair do círculo infernal da alienação e retomar o controle da navegação e evitar uma tragédia

Somos passageiros de um novo Titanic. No entanto, ao contrário daquele de 1912, os oficiais e a maioria dos passageiros deste magnífico navio transatlântico estão cientes. Eles sabem que, se o novo Titanic continuar em seu curso atual, atingirá inevitavelmente um iceberg e afundará. O iceberg chama-se “Mudança Climática”.

Alguns dos oficiais levantaram a questão sore uma mudança de rumo. A resposta foi “muito caro”: os passageiros teriam que ser indenizados, etc., em suma, enormes despesas. Entretanto, foi tomada a decisão de reduzir a velocidade, mas ela quase não foi implementada. Enquanto isso, na luxuosa Classe Executiva, a orquestra toca e os passageiros dançam. Na Classe Econômica, as pessoas assistem com entusiasmo ao campeonato de futebol na televisão. Um grupo de jovens indignados protesta e exige outra direção, mas suas vozes são abafadas pelo barulho da orquestra e da televisão.

Alguns passageiros, tanto na Classe Executiva como na Classe Econômica, estão preocupados. Realmente muito preocupados. Eles sabem que alguns passageiros clandestinos conseguiram embarcar no transatlântico. Mobilizam-se ativamente para caçá-los e jogá-los ao mar. Uma minoria filantrópica propõe que lhes seja dado um colete salva-vidas antes de serem abandonados no oceano. Isto ainda está em discussão.

Enquanto isso, o novo Titanic avança inexoravelmente em direção ao seu iceberg.

Esta alegoria tragicômica pode ajudar a ilustrar a situação da nossa civilização (capitalista industrial moderna) face à ameaça, cada vez mais evidente, da catástrofe ecológica, a saber, de uma mudança climática irreversível e incontrolável, que ameace os próprios fundamentos da vida em geral, e da vida humana em particular. Não será isto uma alienação da humanidade como um todo, incapaz de lidar com o perigo iminente?

O iceberg aproxima-se

Então, o que é alienação? O dicionário Robert dá duas definições: (i) Transtorno mental, temporário ou permanente, que torna o indivíduo incapaz de se comportar normalmente; (ii) estado do indivíduo que se torna escravo das coisas e das conquistas da humanidade, que se voltam contra ele.

Nós estamos no primeiro caso? Podemos falar de uma espécie de “transtorno mental” coletivo, que torna os indivíduos incapazes de se comportarem normalmente? Talvez. Mas, em vez de “transtorno mental”, deveríamos falar de cegueira voluntária ou de miopia agravada ou de comportamento de avestruz (face ao perigo, enfia a cabeça dentro da terra).

Tendo a considerar a segunda definição do dicionário, desde que seja estendida do indivíduo para a coletividade.

A análise clássica da alienação (Entfremdung) é encontrada em Marx, especialmente nos Manuscritos de 1844. Para o jovem Marx, a alienação é o processo pelo qual os produtos da atividade humana, do trabalho, da produção, se tornam independentes de seus criadores e assumem a forma de um poder autônomo, que escapa a seu controle e opõe-se a eles como hostil e estranho.

É o caso das mercadorias, do mercado mundial, dos combustíveis fósseis, da agricultura industrial, do produtivismo e do consumismo.

De fato, corresponde a totalidade da civilização industrial que se tornou um poder incontrolável, que se volta contra seus criadores e ameaça destruí-los. É uma espécie de sistema “autômato”, impessoal, que funciona segundo suas próprias regras, perfeitamente baseado em cálculos matemáticos (de perdas e lucros) impecáveis. O Novo Titanic navega com direção automática, cujo funcionamento é amargamente defendido por aqueles que gozam dos privilégios deste navio de luxo.

O pior ainda pode ser evitado. Ainda podemos sair do círculo infernal da alienação e retomar o controle da navegação. Ainda podemos mudar de direção. Mas não temos muito tempo…

Mudemos de direção

Quem são estes jovens que tentam, com energia inesgotável, despertar os passageiros do Novo Titanic e quebrar o encanto mortífero da alienação mercantil? A nova geração está cada vez mais consciente de que caberá a ela “pagar a conta”, dentro de algumas décadas, pela cegueira daqueles que detêm o poder hoje, seja ele econômico ou político. Ela compreende muito bem que o problema não está apenas nos governantes – cuja inércia é evidente, e se reflete no fracasso espetacular de dezenas de reuniões da COP, incluindo a última sobre o clima em Sharm el-Sheikh – mas no sistema econômico em vigor (ou seja, o capitalismo industrial moderno). Esta consciência reflete-se na palavra de ordem de inúmeras manifestações desde a Conferência de Copenhague em 2009: “Mudemos o sistema, não o clima!” Pois, como Greta Thunberg resume com perfeição: “É matematicamente impossível resolver a crise climática dentro do atual sistema político e econômico”.

Greta Thunberg – chamada de “bruxa” pelos fascistas, neofascistas e reacionários de todos os tipos – desempenhou inegavelmente um papel de catalisadora na mobilização da juventude para o clima. Seu apelo de 2019 para uma greve climática mundial foi seguido por 1,6 milhões de jovens em 125 países do mundo, e o de 20 de setembro de 2019 por 7 milhões! A crise de Covid-19 pode ter atenuado esta mobilização, mas ela está recomeçando, sob mil formas diferentes: Friday for FutureGlobal Climate StrikeExtinction RebellionYouth for Climate, etc.

Resumindo o espírito desta geração, Greta Thunberg disse recentemente: “Não capitularemos sem lutar”. Esta combatividade da juventude é a nossa principal esperança para evitar o naufrágio coletivo.

*Michael Löwy é diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). Autor, entre outros livros, de O que é o ecossocialismo (Cortez).

Tradução: Fernando Lima das Neves


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Este texto foi inicialmente publicado pelo site “A terra é redonda” [Aqui!].

Compensações climáticas não passam de uma licença para poluir

Mais e mais empresas querem compensar as emissões prejudiciais ao clima. Com esses certificados de CO2, a consciência pode ser acalmada, mas as mudanças climáticas não podem ser detidas

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Tudo é tão lindamente verde aqui – graças às árvores plantadas em outro lugar. Foto: Getty Images/VICTOR de SCHWANBERG/SCIENCE P
Por Manuel Grebenjak para o “Neues Deutschland”

Um voo de Berlim para a metrópole indiana de Mumbai leva cerca de doze horas, incluindo uma passagem. Isso causa danos climáticos de quase quatro toneladas de CO2 por passageiro . Isso é o equivalente a dirigir um carro por dois anos, ou duas vezes o total anual de emissões de CO2 de uma pessoa média na Índia. Um voo de férias, portanto, tem um preço alto para o clima. Viajar com a consciência tranquila, por outro lado, promete compensação climática por meio de certificados de CO2: continue como antes se, em troca, você financiar projetos ecológicos que economizam emissões.

Muitas empresas também preferem investir na compensação de suas emissões prejudiciais ao clima, em vez de reduzi-las elas mesmas. E até mesmo os estados podem melhorar seu equilíbrio climático no âmbito do Acordo Climático de Paris por meio de projetos em outros países. A chave para isso são os chamados certificados de CO 2 . São gerados por projetos que visam contribuir para a proteção do clima, como a expansão das energias renováveis ​​ou a arborização e proteção de áreas florestais para manter sua função de sumidouro de CO 2 . Tais projetos podem ser certificados de acordo com diferentes padrões e reduzir ou vincular CO 2, que pode ser creditado com a compra de um certificado. Este sistema não só lhe dá uma boa consciência, mas também reduz as emissões onde elas são mais eficientes – de acordo com a teoria.

O mercado de indenizações está crescendo rapidamente: só o de indenizações voluntárias atingiu um valor de dois bilhões de dólares em 2021. Agora, uma extensa pesquisa conjunta do “Zeit” e do “Guardian” obscureceu a bela aparência dessas “compensações”: mais de 90% dos certificados de CO2 de projetos de proteção florestal da maior certificadora do mundo Verra, usados ​​pela Netflix, Disney e Gucci, portanto, são inúteis, não economizam emissões. A pesquisa levanta questões importantes, mas a crítica não vai longe o suficiente. Ele afirma que, para que o sistema funcione, “basta alguém garantir que o CO 2 será realmente economizado”. Mas o problema não é tanto o CO2– , mas o fato que certificados são inúteis. O problema é que, em vez de parar as emissões na fonte, aceitamos a compensação em primeiro lugar.

Isso pode ser visto no exemplo da Gucci, que foi considerado pelos jornais Zeit e  The Guardian A empresa de moda afirma que agora é  COneutro. Na verdade, porém, hoje emite mais gases nocivos ao clima do que há alguns anos – atualmente cerca de um milhão de toneladas de CO 2 por ano. Como compra certificados de compensação, ainda pode se considerar neutra em CO 2 .

O futuro das florestas é incerto

Vamos olhar para o futuro: devido à crescente pressão do movimento climático, da sociedade e da política e de metas climáticas mais fortes, mais e mais empresas, setores inteiros como a aviação e também países serão forçados a reduzir suas emissões. Pelo menos é o que se espera. Isso aumentará a demanda por certificados de compensação. Em algum momento, o sistema chegará ao seu limite: a área florestal realmente ameaçada pelo desmatamento – é isso que certificados de proteção florestal como os que a Gucci compra – não é infinita. Eventualmente todas as florestas ameaçadas pelo desmatamento serão destruídas pelo CO 2– Projetos de compensação são protegidos (embora apenas teoricamente, leia mais sobre isso abaixo) e outras opções de compensação também devem ser esgotadas. Ao mesmo tempo, as emissões reais das empresas compensadoras permanecem altas. Graças à compensação, eles realmente não precisam reestruturar sua produção, desde que os políticos e os clientes aceitem essa brecha. Eles têm licença para poluir nossa atmosfera.

Mas simplesmente não há terra suficiente para compensar as emissões de todas as empresas. De acordo com uma análise da ONG ActionAid, a empresa de energia fóssil Shell sozinha teria que reflorestar uma área três vezes maior que a Holanda para seus planos declarados de emissões “líquidas zero”. E mesmo que houvesse espaço suficiente no mundo para tais projetos, levaria muito tempo para que surtissem efeito. Uma árvore leva décadas para fixar uma tonelada de CO 2 . Perdemos um tempo valioso com a mentira da compensação. Porque, no final das contas, a possibilidade de compensação climática tem um efeito principal: cria a ilusão de que nada precisa mudar.

A pesquisa »Zeit« revelou erros no sistema existente. É difícil, se não impossível, calcular a quantidade de emissões efetivamente compensadas por um projeto específico. A adicionalidade é crucial aqui: uma floresta protegida por dinheiro de sistemas de compensação teria sido derrubada de outra forma? O reflorestamento também não seria financiado por fontes estatais? As turbinas eólicas em locais adequados também não seriam financiadas por outras fontes, desde que fossem lucrativas para os investidores?

Além disso, o futuro das florestas é incerto. Ninguém pode garantir que uma floresta protegida ou reflorestada para compensar será preservada a longo prazo: devido ao aquecimento global, os incêndios florestais estão aumentando em todo o mundo. Repetidas vezes, as florestas que fazem parte dos projetos de compensação também são afetadas. Em alguns casos, isso é levado em consideração e são criadas “reservas”, ou seja, mais áreas florestais são disponibilizadas para compensar – mas geralmente muito pouco. Na Califórnia, os incêndios florestais em menos de 10 anos destruíram todas as reservas de 100 anos que o programa de compensação de carbono do estado estava tentando garantir, de acordo com uma análise do grupo de pesquisa CarbonPlan. Só os incêndios florestais em 2020 têm uma estimativa de 127 milhões de toneladas de CO 2liberadas – isso corresponde a um sexto de todas as emissões anuais prejudiciais ao clima na Alemanha.

Questões de justiça

Outro problema são os efeitos de esquiva. O objetivo dos projetos de proteção florestal é proteger áreas específicas contra o desmatamento. Mas se a perda de floresta diminuir em geral porque o desmatamento está se deslocando para outras áreas, nada se ganha. A compensação pode até levar a que mais produtos prejudiciais ao clima sejam produzidos e comprados, afinal pode ser compensado. Fala-se do »efeito rebote«.

Questões de justiça também surgem: CO 2-A compensação é frequentemente usada para atividades não essenciais à vida, como viagens aéreas, ou para produtos de luxo, como no caso da Gucci. Estes devem ser os primeiros que reduzimos no interesse de um futuro digno de ser vivido por todos. Em contraste, a maioria dos projetos de compensação é implementada em países do Sul Global, especialmente na América Latina e na África. Isso leva à “apropriação de terras”, com empresas ocidentais se apropriando de terras usadas por residentes locais, muitas vezes por grupos indígenas, como a Global Forest Coalition (GFC), uma coalizão internacional de ONGs e organizações indígenas. Souparna Lahiri, do GFC, relata que muitas vezes essas comunidades não são suficientemente informadas e não têm o direito de se envolver no planejamento dos projetos:

A compensação climática não é um sistema com erros, o próprio sistema é o erro. Para deter o aquecimento global, devemos reduzir a zero as emissões de nosso sistema energético e de todos os setores da economia, ao mesmo tempo em que detemos a destruição de florestas e outros ecossistemas. A proteção florestal não é uma alternativa à conversão e desmantelamento de indústrias prejudiciais ao clima, mas deve acontecer independentemente disso. Isso requer novos acordos em nível internacional e um adeus a sistemas e atores comprovadamente prejudiciais como Verra, que lucram com a compensação. Souparna Lahiri também confirma isso: a proteção do clima só terá sucesso com uma mudança muito mais rápida para energias renováveis ​​e agricultura sustentável com redução da pecuária. O pré-requisito para isso é o fim de uma política climática, determinada pelos interesses corporativos. Para Lahiri, as pessoas certas para serem responsáveis ​​pela proteção das florestas não são as empresas de compensação, mas as comunidades locais e indígenas: »Elas podem combater as mudanças climáticas com seus conhecimentos tradicionais e devem ser fortalecidas para conservar, proteger e restaurar as florestas, a diversidade biológica e recursos naturais. Porque sabem viver em harmonia com a natureza e estabelecem uma relação simbiótica. Eles devem ser os arquitetos de soluções reais.« para conservar, proteger e restaurar a diversidade biológica e os recursos naturais. Porque sabem viver em harmonia com a natureza e estabelecem uma relação simbiótica. Eles devem ser os arquitetos de soluções reais.« para conservar, proteger e restaurar a diversidade biológica e os recursos naturais. Porque sabem viver em harmonia com a natureza e estabelecem uma relação simbiótica. Eles devem ser os arquitetos de soluções reais.«

Manuel Grebenjak é ecologista político, trabalhou como ativista para várias organizações ambientais e é ativo no movimento climático.


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Este artigo escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

O calvário lento e doloroso dos Yonamami

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Enock Taurepang* para o “Uma gota no oceano”

“O que os olhos não veem, o coração não sente”, diz um ditado do homem branco. As últimas imagens da campanha de extermínio contra os Yanomami ganharam páginas de jornais, sites e emissoras de TV do planeta. São cenas que preferíamos que não fossem reveladas, em respeito aos que sofrem e porque elas também nos envergonham como seres humanos – sim, nós fazemos parte da mesma espécie de quem nos faz mal. Não fomos todos gerados por Omama? Tínhamos nossas razões para não querer olhar para aquilo; vimos 570 de nossas crianças morrerem nos últimos anos. O resto do mundo, não. Este tinha o dever.

Agora, diante das fotos de anciãos e crianças esqueléticos, não faltaram comparações ao horror nazista. A diferença é que o Holocausto que assassinou milhões judeus, homossexuais, ciganos, negros, durou 12 anos e o os seus carrascos foram derrotados e julgados; enquanto o Yanomami é uma lenta agonia, como uma doença dolorosa e incurável, de número incerto de perdas. Esse sentimento de empatia é bem-vindo, pois nós, indígenas, não somos apenas Guardiões da Floresta, mas também pais, mães, filhos, filhas, avôs e avós que choram a perda de seus entes queridos.

A ideia de Brasil grande nunca foi para todos. Os garimpeiros começaram a chegar 20 anos depois, mas a invasão de garimpeiros se acelerou na década de 1970, graças à construção de estradas e de projetos de mineração pela ditadura. Não é possível calcular o número de vítimas, mas obras como a da BR-210 causaram contatos involuntários entre trabalhadores e Yanomami. Segundo a Comissão da Verdade, não se pode afirmar quantos se foram por doenças transmitidas por essa proximidade ou por conflitos, mas se sabe que a vacinação dos indígenas foi negligenciada. 

Hoje, calcula-se que haja por volta 20 mil garimpeiros ilegais na Terra Indígena (TI) Yanomami – mais ou menos quanto a população indígena no território. Mas, acredite: já foi muito pior. A partir de 1987 eles começaram a entrar aos milhares, de uma vez. Mais de 100 aeroportos clandestinos foram abertos em meio à mata e acredita-se que, em 1990, 40 mil garimpeiros haviam invadido. A situação se tornou insustentável e a Terra Indígena Yanomami, que cobre uma área de 96.650 km², na fronteira com a Venezuela, foi homologada em 25 de maio de 1992. 

A ironia é que quem assinou o documento foi Jarbas Passarinho, então ministro da Justiça de Collor, que já havia servido à ditadura – tão exaltada por Bolsonaro. O relatório da Comissão da Verdade responsabilizou não apenas o regime militar, mas também o governo do ex-presidente José Sarney pelas invasões. Mas nada disso foi o suficiente para manter a segurança do povo. A chacina de 12 Yanomami por garimpeiros, em 1993, gerou a primeira condenação por genocídio no Brasil. O julgamento do massacre de Haximu durou três anos. Em 1996, Pedro Emiliano Garcia, Eliézio Monteiro Neri, Juvenal Silva, João Pereira de Morais e Francisco Alves Rodrigues foram condenados por tentativa de extermínio de etnia, e não só por homicídio. Mas, atualmente, os assassinos se vangloriam do que fizeram e ganharam o respeito e a admiração dos demais criminosos. 

Um laudo recente da Polícia Federal revelou que quatros rios da Terra Indígena Yanomami têm uma contaminação por mercúrio absurda: 8.600% maior que o permitido. Em 2019, um estudo de pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz) constatou uma contaminação de 56% das mulheres e crianças Yanomami na região de Maturacá, no Amazonas. Não podemos regar hortas, beber água, nem comer peixe de nossos rios. Dá para imaginar morrer de fome e sede na maior concentração de água doce e biodiversidade do planeta? Não é exagero afirmar que a população da capital de Roraima também se encontra já com um grau de contaminação por mercúrio, uma vez que os rios que cortam a TI Yanomami são os mesmos que desaguam no principal rio que abastece a capital Boa Vista.

Bolsonaro está mais próximo de Haia do que imagina. Sua própria obsessão o condena; a compulsão de produzir provas contra si é incalculável. “Torna sem efeito o Decreto de 25 de maio de 1992, que homologa a demarcação administrativa da terra indígena Yanomami”, diz o projeto de decreto legislativo 365/1993, escrito por ele de próprio punho, no estilo lacônico que caracterizou sua passagem pela presidência. Ele, que iniciava seu primeiro mandato, não se deu ao trabalho de inventar uma justificativa qualquer. 

O documento foi arquivado e o ex-presidente tentou levá-lo mais três vezes à votação. “A Cavalaria brasileira foi muito incompetente”, afirmou na Câmara, em 16 de abril de 1998. “Competente, sim, foi a Cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema no país”, continuou. Só em 2007 a ideia foi sepultada de vez. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) vai acrescentar o Holocausto Yanomami à denúncia que apresentou em 2021 a Haia, e que está em processo de avaliação. Entre as provas apresentadas há 21 ofícios com pedidos de ajuda dos Yanomami que foram ignorados.

“Estamos apreensivos, para além de nossa própria vida, com a da terra inteira, que corre risco de entrar em caos. Os brancos não temem, como nós, ser esmagados pela queda do céu. Mas um dia talvez tenham tanto medo disso quanto nós!”, alertou um sábio do povo Yanomami, Davi Kopenawa. Muitos já perceberam que o céu já está caindo. Nenhuma pessoa sensata não acredita nas mudanças climáticas e em seus efeitos devastadores. Nós, povos indígenas, ajudamos a sustentar o céu desde tempos imemoriais. Mas há uma minoria que não entende que, quando se mata o indígena, está também matando sonhos e a possibilidade de um futuro. E que vidas indígenas importam.

* Enock Taurepang, vice-coordenador geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), organização que atua nas 35 terras indígenas de Roraima, atendendo uma população de 58 mil indígenas das etnias Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Patamona, Sapará, Taurepang, Wai-Wai, Yanomami, Yekuana e Pirititi.


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Este texto foi originalmente publicado pelo site “Uma gota no oceano” [Aqui!].

Americanas foi palco de uma das ‘maiores fraudes contábeis da iniciativa privada’, diz Bradesco

“Hoje, passadas duas semanas do evento, ninguém mais tem receio de dizer que o que se sucedeu nos livros da Americanas não foi um acidente”, aponta a ação do banco

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Beto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles (Foto: Reuters | Reprodução)

247 – A ação do Bradesco contra as Americanas, assinada pelo escritório Warde Advogados, não poupa a empresa pela fraude bilionária nem seus controladores Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles. “A Americanas foi palco de uma das maiores fraudes contábeis da iniciativa privada, afirmam os advogados do Bradesco em resposta a rede de varejo, que decidiu recorrer nesta sexta-feira, 27, ao Tribunal de Justiça de São Paulo da decisão do dia anterior, que determinou, entre outros pontos, a busca e a apreensão de e-mails de executivos e funcionários da rede de varejo, em caráter de urgência”, aponta reportagem do Estado de S. Paulo.

“Os advogados comentam que é difícil evitar a tentação de associar os R$ 20 bilhões do rombo que Americanas diz terem sumido dos seus balanços, ao longo de dez anos, com os R$ 2 bilhões que foram distribuídos aos seus acionistas no mesmo período, ou com os quase R$ 800 milhões que foram pagos aos seus administradores. A alegação na petição do banco é que o rombo da Americanas foi criado justamente para viabilizar dividendos e bônus aos principais executivos da empresa”, prossegue a reportagem.

“Hoje, passadas duas semanas do evento, ninguém mais tem receio de dizer que o que se sucedeu nos livros da Americanas não foi um acidente, fruto de um equívoco, de um erro cometido por um grupo de contadores e que teve o azar de se propagar inadvertidamente por anos e anos. Não, hoje ninguém mais economiza palavras para dizer o que já era intuído, mas ficou óbvio: a Americanas foi palco para uma das maiores fraudes contábeis da iniciativa privada”, escrevem os advogados.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “Brasil 247” [Aqui!]