Super El Niño, austeridade fiscal e a crise da adaptação climática: por que o litoral brasileiro continua caminhando para um desastre anunciado

Embora a ciência já disponha de informações suficientes para antecipar grande parte dos impactos do fortalecimento do El Niño, a ausência de planejamento territorial, a destruição dos ecossistemas costeiros e a persistência das políticas de austeridade mantêm o Brasil perigosamente vulnerável a uma sucessão de desastres que já deixaram de ser imprevisíveis

Os modelos climáticos produzidos pelos principais centros internacionais de monitoramento convergem para um diagnóstico preocupante: o atual episódio de El Niño deverá permanecer ativo ao longo dos próximos meses e poderá atingir grande intensidade até o final de 2026. Trata-se de um cenário que merece atenção especial porque ocorre em um contexto marcado pelo aquecimento excepcional do Atlântico Tropical e do Atlântico Sul, resultado do avanço das mudanças climáticas induzidas pelas emissões de gases de efeito estufa. A interação entre esses diferentes fatores aumenta significativamente a probabilidade de ocorrência de eventos extremos em diversas regiões brasileiras.

No entanto, limitar a discussão aos aspectos meteorológicos seria um equívoco. O problema central não reside apenas na intensidade que o El Niño poderá alcançar, mas na elevada vulnerabilidade construída ao longo de décadas de ocupação desordenada do território, degradação ambiental e sucessivos adiamentos das políticas públicas de adaptação climática. O fenômeno climático funciona como um poderoso multiplicador de riscos, incidindo sobre uma costa que já se encontra profundamente fragilizada por decisões políticas e econômicas que reduziram sua capacidade natural de enfrentar eventos extremos.  Essa constatação é particularmente importante quando se observa o litoral brasileiro. Ainda prevalece entre grande parte da população a percepção de que os efeitos do El Niño se resumem ao aumento ou à redução das chuvas. Embora essa seja uma das manifestações mais conhecidas do fenômeno, seus impactos sobre as zonas costeiras são muito mais complexos e potencialmente mais destrutivos.

Ao alterar a circulação atmosférica sobre a América do Sul, o El Niño modifica a frequência e a intensidade da atuação de frentes frias, ciclones extratropicais e sistemas de ventos persistentes. Quando esses processos coincidem com marés elevadas e com um oceano mais aquecido, cria-se um ambiente extremamente favorável à ocorrência de ressacas, alagamentos costeiros, erosão acelerada das praias e danos à infraestrutura instalada junto à linha de costa.

Por outro lado, existe ainda um mecanismo pouco conhecido fora dos círculos especializados, mas decisivo para compreender o agravamento da erosão costeira. Ventos persistentes transferem maior quantidade de energia para a superfície do oceano, elevando a altura, o período e a força das ondas que alcançam o litoral. Como consequência, aumenta a velocidade da coluna d’água na zona de arrebentação, intensificam-se as correntes longitudinais ao longo das praias e tornam-se mais vigorosas as chamadas correntes de retorno (rip currents), responsáveis pelo transporte de grandes volumes de areia para áreas mais profundas.

O resultado desse conjunto de processos é uma remoção acelerada dos sedimentos que naturalmente protegem as praias. À medida que o estoque sedimentar diminui, a faixa de areia se estreita, a linha de costa recua e cresce a exposição de dunas, calçadões, rodovias, edificações e outras infraestruturas construídas em áreas extremamente vulneráveis. O problema fica ainda mais grave porque a erosão apresenta caráter cumulativo: cada ressaca intensa reduz a capacidade natural da praia de dissipar a energia das ondas seguintes. Em consequência, tempestades de intensidade moderada podem provocar danos muito superiores aos observados anteriormente, simplesmente porque a costa já perdeu parte de seus mecanismos naturais de proteção.

Entretanto, os impactos do fortalecimento do El Niño não se restringem às regiões sujeitas ao excesso de chuvas e às ressacas. Em áreas onde o fenômeno tende a reduzir as precipitações e elevar as temperaturas, como porções da Amazônia e do Nordeste brasileiro, a diminuição das vazões fluviais favorece a intrusão de água salgada em estuários, lagoas costeiras e aquíferos, altera o equilíbrio ecológico de manguezais e compromete atividades fundamentais como a pesca artesanal, além do abastecimento de água de inúmeras comunidades.

Esse quadro torna-se ainda mais preocupante porque hoje não é mais possível interpretar os impactos costeiros exclusivamente a partir das oscilações do Oceano Pacífico. O aquecimento persistente do Atlântico Tropical e do Atlântico Sul adiciona calor e umidade à atmosfera, potencializando tempestades, alterando padrões de circulação dos ventos e intensificando a energia das ondas que alcançam o litoral brasileiro. Em outras palavras, os impactos que deverão ser observados ao longo dos próximos meses resultarão da interação entre a variabilidade climática natural representada pelo El Niño e um sistema climático já profundamente alterado pelo aquecimento global.

Mas reduzir essa discussão aos processos físicos significaria ignorar um aspecto ainda mais importante: a vulnerabilidade costeira brasileira é, antes de tudo, uma construção social e política. Embora eventos extremos façam parte da dinâmica natural do sistema climático, sua transformação em desastres depende diretamente das formas de ocupação do território. Nas últimas décadas, o litoral brasileiro passou por um intenso processo de expansão imobiliária, impulsionado por grandes empreendimentos turísticos, resorts, condomínios fechados, complexos residenciais de alto padrão e obras de infraestrutura voltadas à valorização econômica da faixa costeira. Em muitos casos, essa expansão ocorreu precisamente sobre os ambientes que desempenham papel fundamental na proteção natural da costa.

Dunas, restingas, manguezais, praias, áreas úmidas e remanescentes de Mata Atlântica não constituem obstáculos ao desenvolvimento, como frequentemente sugerem setores interessados na flexibilização da legislação ambiental. Ao contrário, esses ecossistemas representam uma verdadeira infraestrutura natural de adaptação às mudanças climáticas.  As dunas armazenam e redistribuem sedimentos, permitindo que as praias recuperem parte do material perdido durante ressacas. A vegetação de restinga estabiliza a areia e reduz a erosão provocada pelo vento. Os manguezais dissipam parte da energia das ondas e das marés, diminuindo a intensidade das inundações costeiras. Já a Mata Atlântica desempenha papel essencial na estabilização de encostas e na regulação hidrológica das bacias que deságuam no litoral.

Quando esses ecossistemas são substituídos por concreto, asfalto e grandes empreendimentos imobiliários, perde-se justamente a primeira linha de defesa contra eventos extremos. O resultado é um aumento expressivo da exposição ao risco, acompanhado da necessidade crescente de obras de engenharia cada vez mais caras e, muitas vezes, incapazes de reproduzir os serviços ambientais anteriormente prestados pelos ecossistemas naturais. Não por acaso, muitas das áreas hoje classificadas como críticas para erosão costeira coincidem exatamente com trechos que sofreram intensa ocupação urbana ou turística nas últimas décadas.

Esse processo revela uma contradição que precisa ser enfrentada. Grande parte das políticas públicas continua tratando o litoral prioritariamente como espaço de valorização imobiliária e expansão econômica, quando deveria reconhecê-lo como um território estratégico para a adaptação climática. Ao flexibilizar normas ambientais, reduzir áreas protegidas ou permitir a ocupação de ambientes ecologicamente frágeis, o próprio Estado contribui para ampliar riscos que posteriormente serão apresentados como simples consequências de fenômenos naturais.

Sob essa perspectiva, o El Niño deixa de ser apenas um evento climático extraordinário para revelar problemas estruturais acumulados ao longo de décadas de planejamento territorial inadequado. Os desastres que poderão ocorrer nos próximos meses não decorrerão exclusivamente da intensidade do fenômeno atmosférico, mas da combinação entre mudanças climáticas, degradação ambiental e escolhas políticas que aumentaram progressivamente a vulnerabilidade das zonas costeiras brasileiras. É justamente nessa dimensão política da adaptação climática que reside um dos maiores desafios enfrentados pelo Brasil.

O maior déficit brasileiro: transformar conhecimento científico em políticas públicas

Se o Brasil dispõe hoje de um conhecimento científico suficientemente robusto para antecipar boa parte dos impactos de um episódio intenso de El Niño, por que o país continua tão vulnerável aos desastres climáticos? A resposta não está na ciência, mas na política. Instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a Marinha do Brasil, além das universidades e centros estaduais de pesquisa, produzem regularmente previsões meteorológicas, modelos climáticos, mapas de suscetibilidade e sistemas de alerta reconhecidos internacionalmente por sua qualidade técnica. O país, portanto, não sofre de falta de informação ou de insuficiência de capacidade científica. O verdadeiro problema reside na enorme distância que separa o conhecimento produzido por essas instituições das decisões efetivamente adotadas pelos diferentes níveis de governo. Enquanto a capacidade científica brasileira avançou significativamente nas últimas décadas, a capacidade política de incorporar esse conhecimento ao planejamento territorial permaneceu praticamente estagnada.

Essa desconexão manifesta-se de forma particularmente evidente nas zonas costeiras. Há décadas o Brasil dispõe de um instrumento legal destinado justamente a orientar o planejamento dessas áreas: o Plano Municipal de Gerenciamento Costeiro (PMGC), previsto no âmbito do Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC). Em princípio, cada município costeiro deveria possuir um diagnóstico detalhado das áreas sujeitas à erosão, às inundações, às ressacas e à elevação do nível do mar, estabelecendo critérios claros para o uso e a ocupação do território, para o licenciamento ambiental e para a prevenção de desastres. Na prática, entretanto, esse instrumento permanece quase inexistente. Levantamentos realizados por órgãos públicos e pesquisadores indicam que menos de quinze municípios brasileiros possuem Planos Municipais de Gerenciamento Costeiro efetivamente estruturados e institucionalizados. Algumas avaliações realizadas ao longo da presente década apontavam um cenário ainda mais preocupante, indicando que apenas nove municípios haviam concluído todas as etapas necessárias para sua implementação. Trata-se de um quadro extremamente preocupante quando se considera que o Brasil possui 443 municípios inseridos na zona costeira, dos quais 279 confrontam diretamente o Oceano Atlântico.

A consequência dessa omissão é que a imensa maioria das cidades costeiras brasileiras continua enfrentando riscos crescentes sem qualquer planejamento territorial especificamente voltado para as mudanças climáticas. Empreendimentos continuam sendo licenciados em áreas naturalmente suscetíveis à erosão; condomínios avançam sobre dunas e restingas; bairros inteiros permanecem vulneráveis às inundações; e obras de drenagem seguem sendo concebidas para responder ao clima do passado, ignorando completamente as novas condições impostas pelo aquecimento global. Não surpreende, portanto, que danos materiais e perdas humanas aumentem mesmo em episódios que poderiam produzir consequências muito menores caso existisse um planejamento territorial consistente. Essa realidade revela uma inversão de prioridades que precisa ser urgentemente corrigida: o Brasil continua investindo muito mais na reconstrução posterior aos desastres do que na prevenção de seus impactos.

Uma estratégia muito mais eficiente, econômica e ambientalmente adequada consiste em recuperar e conservar os ecossistemas que funcionam como infraestrutura natural de adaptação climática. Manguezais, restingas, dunas, praias e áreas úmidas desempenham funções que dificilmente podem ser reproduzidas por grandes obras de engenharia. Esses ambientes dissipam parte da energia das ondas, estabilizam sedimentos, armazenam água, reduzem processos erosivos e funcionam como barreiras naturais contra ressacas e inundações. Ao contrário do que frequentemente se afirma, conservar esses ecossistemas não representa obstáculo ao desenvolvimento. Trata-se, na verdade, de um investimento estratégico capaz de reduzir futuros prejuízos econômicos, ambientais e sociais. O problema é que essa perspectiva frequentemente entra em conflito com interesses associados à especulação imobiliária, à expansão do turismo de alto padrão e à implantação de grandes empreendimentos sobre áreas ambientalmente frágeis. Em consequência, decisões voltadas para ganhos imediatos acabam comprometendo a capacidade adaptativa do litoral durante décadas.

Entretanto, mesmo que houvesse consenso político sobre a necessidade de fortalecer a adaptação climática, persistiria um obstáculo cuja importância costuma receber muito menos atenção do que merece: o financiamento público. Nas últimas décadas, sucessivos programas de ajuste fiscal reduziram significativamente a capacidade de investimento do Estado brasileiro justamente nas áreas responsáveis pelo planejamento territorial, pela gestão ambiental, pela prevenção de desastres e pela adaptação às mudanças climáticas. Essa escolha possui consequências extremamente concretas. Elaborar Planos Municipais de Gerenciamento Costeiro, monitorar continuamente a evolução da linha de costa, recuperar ecossistemas degradados, ampliar redes de drenagem, fortalecer as Defesas Civis, modernizar sistemas de alerta, capacitar equipes técnicas e preparar os serviços públicos de saúde e assistência social exige recursos permanentes. Não se trata de ações pontuais, mas de políticas públicas contínuas que dependem de financiamento estável. Sem orçamento adequado, planos permanecem restritos ao papel e acabam incapazes de proteger a população diante de riscos que já são amplamente conhecidos.

Essa talvez seja uma das maiores contradições da política climática brasileira. Ao mesmo tempo em que os impactos das mudanças climáticas se tornam progressivamente mais evidentes, continuam prevalecendo concepções econômicas que tratam investimentos em prevenção como despesas passíveis de adiamento sempre que surgem pressões por contenção dos gastos públicos. Essa lógica ignora um princípio elementar da gestão de riscos: cada real economizado hoje em prevenção tende a transformar-se em múltiplos reais gastos amanhã na reconstrução de infraestrutura, no atendimento às populações atingidas, na recuperação das atividades econômicas e na reparação de danos ambientais frequentemente irreversíveis. A adaptação climática precisa deixar de ser tratada como um gasto para ser reconhecida como um investimento estratégico na proteção do território nacional.

Essa mudança torna-se ainda mais urgente diante do fortalecimento do atual episódio de El Niño. Os eventos registrados recentemente na Região Sul, caracterizados por chuvas intensas, tempestades severas, ventos destrutivos e episódios de granizo, demonstram que o país já atravessa um período de elevada instabilidade atmosférica. Embora não seja correto atribuir cada episódio extremo exclusivamente ao El Niño, esses acontecimentos funcionam como um importante sinal de alerta para aquilo que poderá ocorrer caso o fenômeno alcance a intensidade atualmente projetada pelos modelos climáticos. Ao mesmo tempo, as projeções indicam elevada probabilidade de secas severas em partes da Amazônia e do Nordeste, ampliando os riscos de incêndios florestais, comprometimento do abastecimento de água, redução da produção agrícola, dificuldades para a pesca artesanal e agravamento da insegurança alimentar.

Essa diversidade de impactos evidencia uma característica frequentemente negligenciada nas políticas públicas brasileiras: a geografia dos riscos climáticos é profundamente desigual. Enquanto determinadas regiões enfrentarão excesso de água, outras conviverão com escassez hídrica extrema. Enquanto algumas cidades precisarão reforçar sistemas de drenagem e proteção costeira, outras dependerão prioritariamente da gestão de reservatórios, da proteção de mananciais e do combate aos incêndios. Não existe, portanto, uma única política de adaptação capaz de responder adequadamente a todos esses desafios. Cada território exige estratégias específicas, mas essas respostas precisam integrar uma política nacional coerente, baseada na cooperação entre União, estados, municípios, universidades e instituições científicas.

Infelizmente, o Brasil ainda permanece excessivamente preso a uma cultura política marcada pela improvisação. Recursos continuam sendo liberados principalmente após a ocorrência das tragédias; obras emergenciais substituem planejamento permanente; reconstrução recebe prioridade sobre prevenção; e os alertas produzidos pela comunidade científica frequentemente deixam de produzir consequências práticas na administração pública. Essa lógica precisa ser definitivamente superada. Os sinais emitidos pela ciência são suficientemente claros, os instrumentos legais para o planejamento territorial já existem e o conhecimento técnico necessário encontra-se amplamente disponível. O que continua faltando é vontade política para transformar a adaptação climática em uma prioridade permanente de Estado.

Caso essa mudança não ocorra, será cada vez mais difícil atribuir as futuras tragédias exclusivamente à intensidade dos fenômenos naturais. Em larga medida, elas representarão o resultado de escolhas políticas conscientes: a opção por manter políticas de austeridade que limitam investimentos públicos, por flexibilizar a proteção dos ecossistemas costeiros e por permitir que interesses imediatos da especulação imobiliária prevaleçam sobre a segurança ambiental da população. O Brasil dispõe de todas as condições técnicas para reduzir significativamente sua vulnerabilidade aos eventos extremos que tendem a se intensificar nas próximas décadas. O desafio já não é compreender os riscos, mas decidir enfrentá-los. Persistir adiando essa decisão significará aceitar que a geografia dos desastres continue sendo produzida menos pela força da natureza do que pela incapacidade do Estado brasileiro de transformar conhecimento científico em políticas públicas consistentes de adaptação climática.

O tempo da prevenção é agora

Diante desse cenário, torna-se inevitável perguntar se o Brasil está efetivamente preparado para enfrentar as consequências de um episódio de El Niño de grande intensidade. A resposta exige uma distinção importante. Do ponto de vista científico, o país dispõe de instituições altamente qualificadas e de capacidade técnica suficiente para antecipar grande parte dos impactos que poderão ocorrer nos próximos meses. O INPE, o INMET, o Cemaden, a Marinha do Brasil, as universidades e diversos centros estaduais de pesquisa produzem previsões, boletins, sistemas de monitoramento e cenários prospectivos que permitem identificar com razoável antecedência as regiões mais suscetíveis aos diferentes tipos de eventos extremos. Em outras palavras, o Brasil não enfrenta um déficit de conhecimento científico.

Entretanto, possuir informação qualificada está longe de significar que o país esteja preparado para responder aos riscos anunciados. O maior problema continua sendo a enorme distância entre as previsões produzidas pela comunidade científica e sua incorporação pelas diferentes esferas de governo. Em muitos casos, os alertas são conhecidos com antecedência, mas permanecem sem consequências práticas. Áreas de risco continuam sendo ocupadas; empreendimentos seguem sendo licenciados em ecossistemas costeiros frágeis; sistemas de drenagem permanecem insuficientes; estruturas de contenção deixam de receber manutenção adequada; e os órgãos responsáveis pela prevenção convivem com limitações orçamentárias e institucionais que reduzem significativamente sua capacidade de atuação.

As inundações que atingiram o Rio Grande do Sul entre 2023 e 2024 constituem um exemplo eloquente dessa desconexão entre ciência e política. Os eventos meteorológicos foram extraordinários, mas seus efeitos foram amplificados por deficiências acumuladas durante muitos anos na manutenção da infraestrutura, no planejamento territorial e na preparação dos sistemas de resposta. O desastre revelou que eventos extremos podem superar rapidamente estruturas degradadas e políticas públicas insuficientes, especialmente quando se combinam à fragmentação das responsabilidades entre União, estados e municípios e à recorrente tendência de liberar recursos apenas depois da ocorrência das catástrofes. Trata-se de uma lógica que, além de produzir perdas humanas e materiais muito maiores, acaba transferindo os custos mais elevados justamente para as populações socialmente mais vulneráveis.

Por essa razão, o fortalecimento do atual episódio de El Niño deveria ser interpretado como uma oportunidade para substituir a cultura da reação pela cultura da prevenção. A ciência já oferece informações suficientes para indicar que o país atravessa um período de elevado risco climático, cujos efeitos serão distintos conforme as características ambientais, sociais e econômicas de cada região. Isso significa que União, estados e municípios não podem aguardar a ocorrência de novos desastres para começar a agir. O momento exige a elaboração imediata de planos de contingência capazes de responder aos diferentes cenários projetados pelos modelos climáticos.

Nas regiões Sul, Sudeste e em grande parte da costa brasileira, esses planos precisam contemplar a possibilidade de chuvas intensas, ventos de grande velocidade, tempestades de granizo, ressacas, erosão costeira, alagamentos urbanos, inundações, deslizamentos de encostas e interrupção de serviços essenciais. Para que sejam efetivos, deverão definir responsabilidades institucionais, aperfeiçoar os sistemas de monitoramento e alerta, estabelecer rotas de evacuação, estruturar locais de acolhimento temporário e fortalecer a coordenação entre Defesa Civil, órgãos ambientais, universidades, serviços de saúde e assistência social. Não basta produzir boletins meteorológicos; é indispensável que a informação científica seja convertida em protocolos operacionais capazes de reduzir a exposição da população aos riscos.

Ao mesmo tempo, os modelos climáticos indicam elevada probabilidade de secas severas em partes da Amazônia e da região Nordeste. Nesses territórios, os planos de contingência precisarão seguir uma lógica distinta, priorizando a gestão dos recursos hídricos, a proteção de reservatórios e mananciais, o abastecimento de água para populações urbanas e rurais, a preparação dos serviços de saúde para enfrentar ondas de calor, o monitoramento da qualidade do ar e o fortalecimento das estruturas de prevenção e combate aos incêndios florestais. A redução das vazões dos rios poderá ainda comprometer o transporte, o abastecimento de alimentos, a produção agrícola, a pesca artesanal, a geração de energia e o acesso à água potável em inúmeras comunidades, exigindo políticas específicas de apoio aos agricultores familiares, pescadores artesanais, povos indígenas, comunidades quilombolas e demais populações tradicionais, que normalmente figuram entre as primeiras vítimas das crises climáticas e dispõem de menor capacidade econômica e institucional para enfrentá-las.

Esse conjunto de desafios confirma uma ideia que deveria orientar toda a política brasileira de adaptação: os riscos climáticos distribuem-se de maneira profundamente desigual pelo território nacional. O país poderá conviver simultaneamente com excesso de água em algumas regiões e escassez hídrica extrema em outras, exigindo respostas diferenciadas para problemas igualmente distintos. Não existe, portanto, um modelo único de adaptação capaz de atender à diversidade ambiental e social brasileira. Cada território necessita de medidas compatíveis com suas características específicas, mas essas iniciativas precisam integrar uma estratégia nacional coerente, apoiada na cooperação entre os diferentes níveis de governo e sustentada pelo conhecimento produzido pelas instituições científicas.

Entretanto, nenhuma dessas iniciativas produzirá resultados concretos se continuar faltando aquilo que, historicamente, tem impedido a consolidação de uma política consistente de adaptação climática: recursos públicos. As diferentes esferas de governo precisam instituir imediatamente dotações orçamentárias específicas para prevenção de desastres, adaptação climática e resposta antecipada aos eventos extremos. Investimentos em monitoramento, sistemas de alerta, drenagem urbana, recuperação de manguezais, restingas e dunas, proteção de mananciais, armazenamento de água, combate aos incêndios, fortalecimento da Defesa Civil, saúde pública e assistência social não podem continuar submetidos à lógica dos cortes permanentes ou às restrições impostas pelas políticas de austeridade fiscal. Sem financiamento estável, planos de contingência permanecerão como documentos formais incapazes de alterar a realidade.

É precisamente nesse ponto que a discussão sobre o El Niño ultrapassa os limites da meteorologia para ingressar definitivamente no terreno das escolhas políticas. Persistir tratando a adaptação climática como uma despesa secundária equivale a aceitar, de forma consciente, que os prejuízos humanos, econômicos e ambientais continuarão crescendo à medida que os eventos extremos se intensificarem. A aparente economia produzida pelos cortes orçamentários transforma-se, inevitavelmente, em custos muito mais elevados na reconstrução de cidades, na recuperação de infraestruturas destruídas, na assistência às populações atingidas e na compensação de perdas que, em muitos casos, jamais poderão ser plenamente reparadas.

A pior resposta que o Brasil poderia oferecer diante do fortalecimento do atual episódio de El Niño seria continuar tratando cada desastre como um acontecimento isolado e imprevisível. Os modelos climáticos hoje disponíveis permitem antecipar grande parte dos riscos que deverão atingir o território nacional. Se as diferentes esferas de governo insistirem em ignorar esses alertas, dificilmente poderão alegar desconhecimento diante dos danos futuros. As tragédias que vierem a ocorrer resultarão não apenas da intensidade dos fenômenos naturais, mas também da incapacidade — ou da falta de vontade política — de transformar conhecimento científico em ação preventiva.

Em última análise, o desafio colocado pelo fortalecimento do El Niño transcende o próprio fenômeno climático. O que está em jogo é a capacidade do Estado brasileiro de abandonar o negacionismo climático tácito que ainda orienta parcela significativa das políticas públicas e reconhecer que adaptação deixou de ser uma agenda para o futuro. Ela constitui uma necessidade imediata e uma responsabilidade permanente de Estado. Enquanto essa mudança não ocorrer, o país continuará repetindo um ciclo perverso: produzir previsões científicas cada vez mais precisas e, ao mesmo tempo, fracassar sistematicamente em prevenir os impactos que elas anunciam.

Romper com o negacionismo climático tácito

Há um aspecto que atravessa toda essa discussão e que precisa ser enfrentado de maneira explícita. O Brasil não sofre apenas com os impactos crescentes das mudanças climáticas, mas também com um negacionismo climático que raramente se manifesta por meio da negação aberta das evidências científicas, mas que se expressa de forma muito mais sutil e igualmente nociva: a recusa em transformar o conhecimento disponível em políticas públicas permanentes de adaptação.

Nas últimas décadas, tornou-se relativamente comum ouvir autoridades reconhecerem a gravidade da crise climática em discursos, conferências internacionais e documentos oficiais. Entretanto, esse reconhecimento raramente se converte em decisões compatíveis com a dimensão do problema.  Empreendimento continuam sendo aprovados s em áreas ambientalmente frágeis; seguem sendo flexibilizadas normas de proteção dos ecossistemas costeiros; os investimentos em prevenção permanecem insuficientes; e políticas de ajuste fiscal continuam limitando justamente os órgãos responsáveis pelo planejamento territorial, pela gestão ambiental e pela redução dos riscos de desastres. Em outras palavras, admite-se a existência da crise climática, mas age-se como se seus efeitos pudessem ser enfrentados futuramente ou por meio de respostas emergenciais.

Essa postura representa uma forma particularmente perversa de negacionismo. Ao contrário da negação explícita da ciência, ela reconhece formalmente o problema, mas esvazia sua importância prática ao adiar continuamente as medidas necessárias para reduzir a vulnerabilidade da sociedade. Trata-se de um negacionismo que se manifesta nos orçamentos públicos, nas prioridades de investimento, na ausência de planejamento territorial e na incapacidade de integrar a produção científica às decisões governamentais. É justamente por isso que seus efeitos costumam ser menos visíveis no debate público, embora sejam profundamente perceptíveis quando eventos extremos atingem a população.

A adaptação climática precisa deixar de ocupar uma posição secundária na agenda nacional para tornar-se uma política estruturante do desenvolvimento brasileiro. Isso significa incorporar os riscos climáticos ao planejamento urbano, ao ordenamento territorial, à política habitacional, à gestão costeira, à proteção dos recursos hídricos, à infraestrutura, à agricultura, à saúde pública e à educação. Significa, igualmente, reconhecer que a conservação de manguezais, restingas, dunas, florestas e áreas úmidas não constitui apenas uma política ambiental, mas um componente essencial da infraestrutura necessária para reduzir perdas humanas, econômicas e ecológicas diante da intensificação dos eventos extremos.

Essa transformação exige também recuperar a capacidade de planejamento do Estado brasileiro. A prevenção de desastres não pode continuar dependente de programas temporários ou de iniciativas fragmentadas entre diferentes níveis de governo. É indispensável construir uma política nacional de adaptação climática dotada de financiamento estável, metas claras, responsabilidades definidas e mecanismos permanentes de coordenação entre União, estados e municípios. Nesse processo, as universidades públicas, os institutos de pesquisa e os órgãos técnicos precisam deixar de ser consultados apenas em momentos de crise e passar a ocupar posição central na formulação e no acompanhamento das políticas públicas.

Ao mesmo tempo, torna-se imprescindível reconhecer que a adaptação climática possui uma dimensão profundamente social. Os impactos do fortalecimento do El Niño e das mudanças climáticas não atingirão toda a população de maneira uniforme. Agricultores familiares, pescadores artesanais, povos indígenas, comunidades quilombolas, moradores das periferias urbanas e populações residentes em áreas costeiras ou sujeitas a inundações e deslizamentos tendem a suportar uma parcela desproporcional dos prejuízos. A construção de uma política de adaptação, portanto, deve partir do reconhecimento dessa geografia desigual dos riscos e priorizar justamente os territórios e grupos sociais historicamente mais vulnerabilizados.

O fortalecimento do atual episódio de El Niño oferece ao Brasil uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. Os modelos climáticos permitem antecipar grande parte dos riscos; as instituições científicas dispõem de competência reconhecida internacionalmente; e o país possui instrumentos legais capazes de orientar políticas de prevenção e adaptação. O que permanece ausente é a decisão política de mobilizar esses recursos de maneira articulada e contínua. Enquanto essa decisão continuar sendo adiada, o Brasil permanecerá preso a um ciclo perverso no qual previsões cada vez mais precisas convivem com uma incapacidade igualmente crescente de evitar desastres anunciados.

Em última análise, o desafio colocado pelo El Niño transcende o próprio fenômeno climático. Ele expõe os limites de um modelo de desenvolvimento que continua subordinando o planejamento territorial, a proteção ambiental e a segurança das populações aos imperativos da expansão imobiliária, do crescimento econômico de curto prazo e das políticas permanentes de austeridade fiscal. Romper com essa lógica deixou de ser apenas uma necessidade ambiental; tornou-se uma condição indispensável para reduzir a vulnerabilidade do território brasileiro diante de um clima em rápida transformação.

Se o Brasil pretende enfrentar de forma consequente os desafios colocados pelo atual ciclo do El Niño e pelos eventos extremos que tendem a se tornar cada vez mais frequentes nas próximas décadas, será necessário abandonar definitivamente o negacionismo climático tácito que ainda permeia as diferentes esferas de governo. A adaptação climática precisa ser elevada à condição de política de Estado, sustentada por planejamento de longo prazo, financiamento público adequado e compromisso efetivo com a redução das desigualdades socioambientais. Somente assim será possível interromper o ciclo recorrente de tragédias anunciadas que continua marcando a relação do Brasil com os desastres climáticos e construir uma sociedade efetivamente preparada para enfrentar os desafios de um planeta em acelerada transformação.

Estudo abrangente associa glifosato à ansiedade e ao autismo

Por Sustainable Pulse

O estudo multigeneracional mais abrangente sobre os herbicidas glifosato e Roundup revelou comportamento semelhante à ansiedade, dependente da dose, em ratos expostos a doses consideradas “seguras” pelos órgãos reguladores. As descobertas, que em breve serão publicadas após revisão por pares, reforçam diversos estudos menores que demonstraram um possível papel do glifosato no transtorno do espectro autista.

Herbicidas à base de glifosato são pulverizados em tudo, desde plantações de soja até calçadas suburbanas. Órgãos reguladores nos Estados Unidos e na Europa há muito tempo afirmam que as doses às quais a maioria das pessoas é exposta são seguras. No entanto, este novo estudo abrangente , publicado este mês como pré-impressão por pesquisadores do Instituto Ramazzini, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, da Universidade George Mason e do Boston College, sugere que essa suposição merece uma análise mais aprofundada — pelo menos no que diz respeito ao cérebro.

O estudo expôs ratos ao glifosato ou a uma de duas formulações comerciais, Roundup Bioflow e Ranger Pro, continuamente ao longo de três gerações — começando no útero e continuando por um ano inteiro de vida. As doses variaram da Ingestão Diária Aceitável da União Europeia (UDI), o nível que os reguladores consideram seguro para exposição humana ao longo da vida, até o Nível Sem Efeitos Adversos Observados (NOAA) da UE, a dose mais alta na qual não se supõe que ocorram danos.

Quando a terceira geração de ratos atingiu um ano de idade, aproximadamente equivalente à meia-idade em humanos, os animais expostos apresentavam comportamentos diferentes. Em um teste padrão de comportamento exploratório chamado teste de campo aberto, os ratos tratados — especialmente os machos e, principalmente, aqueles expostos às formulações comerciais do herbicida em vez de apenas ao glifosato — passavam mais tempo junto às paredes da arena de teste, movimentavam-se com menos liberdade em espaços abertos, congelavam com mais frequência e se limpavam de forma desorganizada e fragmentada, em vez da sequência suave da cabeça à cauda típica de um rato sem perturbações. Em conjunto, segundo os pesquisadores, esses são marcadores clássicos de ansiedade elevada em roedores. Os ratos machos expostos às formulações comerciais também apresentaram reduções modestas na força de preensão dos membros posteriores, sugerindo efeitos sutis na função neuromuscular. A memória, a coordenação motora geral e os sinais neurológicos evidentes não foram afetados.

“Nossos resultados toxicológicos levantam preocupações importantes sobre os efeitos neurocomportamentais dos herbicidas à base de glifosato, incluindo transtornos do espectro autista, mesmo em doses atualmente consideradas “seguras””, afirmou na terça-feira o Dr. Daniele Mandrioli, Investigador Principal do Estudo Global sobre Glifosato e autor sênior do artigo.

Por que o autismo entra na conversa?

O artigo não afirma ter encontrado evidências diretas de autismo em ratos — não foram realizados os testes, como avaliações de comportamento social, que os pesquisadores normalmente usam para modelar características semelhantes ao autismo em animais. O que ele faz é adicionar um dado a um crescente conjunto de pesquisas em humanos e animais que, segundo os pesquisadores, levantam a questão de se o glifosato deve ser incluído na lista de exposições ambientais que merecem ser investigadas quanto a um possível papel em condições de neurodesenvolvimento, incluindo o transtorno do espectro autista.

Essa ligação mais ampla se baseia principalmente em outros estudos, que o novo artigo cita como contexto. Estudos epidemiológicos encontraram associações entre a exposição ao glifosato, medida na urina, e comprometimento cognitivo, sintomas depressivos e desempenho inferior em testes de percepção social em adolescentes. Estudos separados com animais — que não fazem parte deste novo artigo — relataram que camundongos expostos a herbicidas à base de glifosato durante a gestação apresentam déficits sociais semelhantes ao autismo na idade adulta. Uma revisão de 2025 analisou as evidências existentes que conectam a exposição a herbicidas à base de glifosato especificamente ao transtorno do espectro autista, descrevendo-a como uma área de pesquisa emergente, mas ainda incompleta.

Os autores do novo estudo abrangente com ratos argumentam que suas descobertas são relevantes para essa discussão porque a ansiedade, os padrões de higiene alterados e a reatividade sensorial modificada a novos ambientes são domínios comportamentais que se sobrepõem a características observadas no transtorno do espectro autista, e porque as vias neurobiológicas implicadas em outras pesquisas sobre o glifosato — sinalização serotoninérgica interrompida, neuroinflamação, distúrbios do microbioma intestinal que afetam a química cerebral — são vias também implicadas na pesquisa sobre autismo de forma mais ampla.

O que tornou este estudo diferente?

O novo estudo faz parte de um projeto maior: o Estudo Global do Glifosato, um programa de pesquisa multi-institucional que representa a avaliação toxicológica mais abrangente já realizada sobre o glifosato e suas formulações comerciais. O estudo examina não apenas o comportamento neurológico, mas também o risco de câncer, a toxicidade para órgãos, a disrupção endócrina e os efeitos no desenvolvimento em uma mesma coorte multigeneracional de animais. Outras vertentes desse programa, incluindo um estudo de carcinogenicidade, já foram publicadas e demonstraram que herbicidas à base de glifosato causam diversos tipos de câncer; esta análise neurocomportamental é a mais recente delas. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) está atualmente realizando uma revisão completa dos resultados do estudo de carcinogenicidade, o que pode levar a mudanças na regulamentação do produto químico na União Europeia.

A maioria das pesquisas anteriores com animais sobre os efeitos neurológicos do glifosato analisou uma única geração, exposta por algumas semanas, e testou o produto químico em sua forma pura. Este estudo fez o oposto em todos os aspectos: três gerações, exposição contínua desde antes do nascimento até um ano de idade e — crucialmente — testes dos produtos comerciais aos quais as pessoas são realmente expostas, não apenas do ingrediente ativo.

Essa distinção acabou sendo importante. Em praticamente todas as medidas, as formulações comerciais Roundup Bioflow e Ranger Pro produziram efeitos mais amplos e, muitas vezes, maiores do que o glifosato isoladamente, mesmo quando a dose de glifosato era idêntica. Os pesquisadores apontam isso como evidência de que os ingredientes inativos em herbicidas comerciais — os surfactantes e adjuvantes que ajudam os produtos a aderir e penetrar nas folhas das plantas — não são biologicamente inertes em mamíferos, uma preocupação que outros laboratórios vêm levantando há anos, mas que as avaliações de risco regulatórias, que normalmente avaliam apenas o glifosato, não abrangem completamente.

O padrão com predominância de machos também é notável. Em todos os resultados, quando uma diferença entre os sexos surgiu, foram os ratos machos que se mostraram mais afetados — um padrão que ecoa a proporção de aproximadamente quatro para um de machos nos diagnósticos de transtorno do espectro autista em humanos, embora os autores do estudo sejam cautelosos em não traçar uma relação direta entre os dois.


Fonte: Sustainable Pulse

O negacionismo climático que une a política brasileira

Enquanto a ciência e a meteorologia alertam para a intensificação dos eventos extremos, o sistema político permanece preso à disputa eleitoral e ao consenso em torno da austeridade fiscal

Nesta quarta-feira, o portal UOL repercute uma matéria publicada pelo Estadão informando que, a partir de amanhã, o Brasil — especialmente a Região Sul — deverá ser atingido por um “ciclone bomba“, capaz de provocar tempestades severas, queda de granizo e ventos de alta intensidade. Caso as previsões se confirmem, o episódio poderá reproduzir, em escala ainda maior, os impactos recentemente observados nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde eventos extremos provocaram destruição material e perdas de vidas humanas. 

Entretanto, basta observar as manchetes dos principais veículos da mídia corporativa para perceber que esse alerta meteorológico recebe muito menos atenção do que a cobertura das pesquisas eleitorais e das convenções partidárias, que alimentam mais um ciclo de polarização política. Enquanto isso, permanece praticamente ausente qualquer discussão consistente sobre as diferenças programáticas entre os candidatos diante da emergência climática que o país já enfrenta.

Minha impressão é que essa dissintonia revela algo mais profundo: uma crescente desconexão entre as prioridades do sistema político e a realidade vivida pela população. A disputa eleitoral transcorre como se a sucessão de eventos climáticos extremos fosse um tema secundário, quando, na verdade, deveria ocupar posição central na agenda pública. Pouco ou nada se discute sobre as medidas necessárias para reduzir os impactos dos fenômenos previstos para os próximos meses — inclusive durante o próprio período eleitoral — e evitar novas perdas materiais e humanas, que, como de costume, tendem a atingir de forma mais intensa as periferias urbanas e os segmentos socialmente mais vulneráveis.

Há ainda um aspecto que merece destaque. Os sinais são cada vez mais claros de que, quando o assunto é adaptação às mudanças climáticas, os principais agrupamentos políticos nacionais compartilham uma forma de negacionismo, ainda que manifestada com diferentes intensidades. Em vez de priorizar investimentos capazes de preparar o país para enfrentar uma realidade climática em rápida transformação, prevalece o consenso de que a principal prioridade do Estado continua sendo assegurar o funcionamento do sistema de pagamentos da já impagável dívida pública. Nesse ponto, as divergências que dominam o debate político desaparecem: a manutenção da asfixia financeira do Estado em benefício do sistema financeiro parece reunir um consenso muito maior do que a proteção da população diante da intensificação dos riscos climáticos.

A consequência dessa escolha política é preocupante. Enquanto a ciência acumula evidências sobre a intensificação dos eventos extremos e os serviços meteorológicos conseguem antecipar com razoável precisão muitos desses fenômenos, a resposta institucional permanece marcada pela inércia. Em vez de investir de forma sistemática em prevenção, infraestrutura resiliente, fortalecimento da Defesa Civil e planejamento territorial, o país continua reagindo às tragédias apenas depois que elas ocorrem, multiplicando custos econômicos, sociais e humanos que poderiam ser significativamente reduzidos.

Romper esse negacionismo climático tácito dependerá, cada vez mais, da capacidade de mobilização da sociedade. Será necessário que universidades, organizações científicas, movimentos sociais, sindicatos, associações comunitárias e entidades ambientalistas construam uma agenda comum de pressão sobre os diferentes níveis de governo para exigir políticas permanentes de adaptação climática, acompanhadas de recursos orçamentários compatíveis com a dimensão do desafio. Sem essa pressão coletiva, o Brasil continuará tratando a crise climática como um problema do futuro, quando ela já se manifesta diariamente em enchentes, secas, ondas de calor, incêndios e tempestades que atingem milhões de brasileiros. A adaptação precisa deixar de ser um tema periférico e tornar-se uma prioridade de Estado, sob pena de perpetuarmos uma ruptura cada vez mais perigosa entre a realidade climática e as escolhas políticas que moldam o país.

Paulo Artaxo alerta: Brasil ainda não construiu uma cultura de adaptação ao novo clima

Docente da USP  defende planejamento de longo prazo, investimentos em prevenção e políticas públicas capazes de enfrentar uma crise climática que já amplia eventos extremos e aprofunda as desigualdades socioambientais no país

Em entrevista publicada pela jornalista Vanessa Oliveira no jornal Valor Econômico, o físico e professor da USP, Paulo Artaxo, faz um diagnóstico que deveria orientar o planejamento público em todas as escalas de governo: o Brasil ainda está muito atrasado na construção de uma estratégia consistente para enfrentar os impactos de um clima que já não corresponde aos padrões do passado. A mensagem central da reportagem é clara: não basta reagir às tragédias quando elas acontecem; é preciso criar uma cultura permanente de prevenção, adaptação e planejamento.

Essa avaliação ganha ainda mais relevância porque os eventos extremos deixaram de ser exceções. Secas prolongadas, ondas de calor, tempestades intensas, enchentes e incêndios florestais passam a ocorrer com maior frequência e intensidade, impondo custos humanos, econômicos e ambientais crescentes. A insistência em tratar esses episódios como acontecimentos isolados impede que sejam enfrentados como parte de uma transformação climática estrutural.

No caso brasileiro, entretanto, o problema é ainda mais complexo. Não existe um único “novo clima”, mas diferentes expressões regionais da crise climática. Enquanto o Sul enfrenta chuvas excepcionais e inundações recorrentes, partes da Amazônia e do Nordeste convivem com secas severas, redução da disponibilidade hídrica e aumento do risco de incêndios. Nas zonas costeiras, tempestades, erosão marinha e elevação do nível do mar ampliam a vulnerabilidade de municípios que, em sua grande maioria, sequer dispõem de instrumentos adequados de planejamento territorial e gerenciamento costeiro.

Há também uma dimensão social que frequentemente permanece invisível. Os impactos climáticos distribuem-se de maneira profundamente desigual. Populações de baixa renda, moradores de periferias urbanas, comunidades tradicionais, agricultores familiares, pescadores artesanais e povos indígenas costumam sofrer os efeitos mais severos, justamente porque dispõem de menor infraestrutura, menor proteção estatal e menor capacidade de recuperação após os desastres. Adaptar o país ao novo clima significa, portanto, enfrentar simultaneamente as desigualdades socioespaciais que amplificam esses riscos.

Outro aspecto importante da entrevista é a defesa de que adaptação não deve ser entendida como uma política emergencial, mas como uma política permanente de Estado. Isso exige planejamento territorial, fortalecimento da ciência, investimentos contínuos em monitoramento meteorológico, sistemas de alerta precoce, infraestrutura resiliente e políticas públicas capazes de reduzir vulnerabilidades antes que os desastres ocorram. Sem isso, continuará prevalecendo o modelo de reconstrução após cada tragédia, normalmente mais caro e menos eficiente do que a prevenção.

A advertência de Paulo Artaxo merece ser levada muito além do debate científico. Construir uma cultura de enfrentamento ao novo clima significa reconhecer que a emergência climática já está reorganizando o território brasileiro.  A persistência de uma lógica da improvisação, de cortes orçamentários e da ausência de planejamento significará transformar eventos extremos em crises humanitárias cada vez mais frequentes. A adaptação climática deixou de ser uma escolha política: tornou-se uma condição indispensável para proteger vidas, economias locais e ecossistemas em um país que já experimenta, diariamente, os efeitos das mudanças em curso.

Turismo ecossistêmico para escolhidos, exclusão territorial para pescadores

Evento fechado da Reserva Caruara, realizado em parceria com a UFF, reacende o debate sobre a legitimidade de uma conservação ambiental que restringiu o acesso de comunidades tradicionais à Lagoa de Iquipari enquanto reivindica o discurso do diálogo e da construção coletiva

A circulação de um convite para o I Workshop de Experiências Turísticas Ecossistêmicas, promovido pela Reserva Caruara em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), suscita uma série de questões que merecem ser debatidas publicamente. A primeira delas é bastante objetiva:  apesar do nome, a atividade é um evento fechado, com participação restrita a convidados previamente selecionados e autorizados pelos organizadores. Embora o material de divulgação utilize uma linguagem que remete ao diálogo, ao compartilhamento de experiências e à construção coletiva, a própria dinâmica anunciada contradiz esse discurso ao impedir a participação da sociedade em geral e, especialmente, daqueles diretamente afetados pela existência da Reserva Caruara.

Esse aspecto é particularmente sensível porque a Reserva Caruara não é uma unidade de conservação criada espontaneamente em resposta a uma demanda da sociedade pela proteção ambiental. Ela constitui uma medida compensatória vinculada ao licenciamento ambiental do Porto do Açu, empreendimento cuja implantação alterou profundamente a dinâmica territorial do V Distrito de São João da Barra. Entre os impactos mais conhecidos está a drástica restrição do acesso de pescadores artesanais à Lagoa de Iquipari, espaço utilizado por gerações como fonte de sustento, trabalho e reprodução de modos de vida tradicionais.

Nesse contexto, discutir “experiências turísticas ecossistêmicas” sem a presença efetiva daqueles que perderam acesso ao território em nome da chamada conservação ambiental produz um paradoxo estridente. O discurso da valorização dos serviços ecossistêmicos culturais é incompleto quando ignora justamente o patrimônio cultural representado pelas práticas históricas da pesca artesanal, que também constituem parte indissociável da paisagem, da memória social e da identidade territorial da região.

Outro ponto que merece reflexão diz respeito ao papel da Universidade Federal Fluminense (UFF), apresentada no material de divulgação como parceira da iniciativa. A questão que se coloca é simples e legítima: qual é exatamente o significado dessa parceria em um evento cuja participação é previamente definida pelos gestores da Reserva Caruara e, em última instância, pelo Porto do Açu? Ao figurar como parceira consentida de um encontro fechado, a UFF acaba associando sua imagem institucional a uma iniciativa que exclui justamente os segmentos sociais mais diretamente afetados pela implantação da Reserva Caruara.

Não se trata de discutir a qualidade técnica ou científica do workshop, mas de indagar sobre a responsabilidade institucional de uma universidade pública ao emprestar sua credibilidade a um evento privado que restringe o acesso ao debate. A direção da UFF considera compatível com sua missão institucional participar, como parceira, de uma atividade que se apresenta como espaço de diálogo, mas cuja participação depende de convite e autorização prévia? Em um território marcado por conflitos socioambientais ainda não resolvidos, seria de se esperar que uma universidade pública contribuísse para ampliar o debate público, e não para legitimar um processo deliberativo circunscrito a um grupo previamente selecionado.

Também merece atenção a própria estratégia de divulgação do evento. O convite enfatiza expressões como “pesquisa, conservação e turismo em diálogo”, “compartilhamento” e “construção coletiva”. Entretanto, em posição de destaque, informa que a participação ocorrerá “mediante convite e autorização prévia”. Há, portanto, uma evidente dissonância entre a mensagem transmitida e o formato efetivamente adotado. A linguagem visual busca comunicar abertura e diálogo, enquanto as regras de acesso revelam um encontro de natureza privada, reservado a um público previamente escolhido pelos organizadores.

Essa aparente falta de transparência se torna ainda mais evidente quando se busca obter informações adicionais sobre o workshop. Embora o site da Reserva Caruara disponibilize um link para o evento, o acesso não conduz a uma página contendo sua programação, objetivos, palestrantes, critérios de seleção dos participantes ou qualquer outra informação específica. Em vez disso, o visitante é direcionado para um conteúdo que não guarda relação com o workshop anunciado. Essa incongruência impede que o público conheça minimamente a estrutura do encontro e dificulta compreender quem participará das discussões e quais perspectivas estarão representadas.

Essa ausência de informações torna ainda mais pertinente questionar a natureza da parceria estabelecida entre a Reserva Caruara e a UFF. Se a proposta é promover um debate sobre turismo, conservação e serviços ecossistêmicos em um território marcado por conflitos socioambientais, seria razoável esperar que aspectos elementares do evento — como programação, convidados, critérios de participação e objetivos específicos — estivessem disponíveis de forma clara e acessível. A transparência é um componente indispensável da legitimidade, especialmente quando uma universidade pública associa seu nome a uma iniciativa dessa natureza.

Não se questiona o direito de uma instituição privada realizar eventos restritos aos seus convidados. O que merece problematização é a tentativa de apresentar um encontro dessa natureza como espaço de reflexão sobre questões de interesse coletivo em um território profundamente marcado por conflitos ambientais, sociais e fundiários. Quando se fala em turismo sustentável, conservação e serviços ecossistêmicos em uma área cuja criação implicou severas restrições ao acesso de comunidades tradicionais ao seu território histórico, transparência, pluralidade de vozes e participação pública deixam de ser detalhes organizacionais para se tornarem requisitos fundamentais de legitimidade.

Permanecem, assim, algumas perguntas que merecem resposta pública. Por que um workshop que afirma promover o diálogo sobre conservação e turismo não é aberto à sociedade? Haverá representantes dos pescadores artesanais que estão sendo prejudicados pela criação da Reserva Caruara? Pesquisadores que produziram estudos críticos sobre os impactos territoriais do Porto do Açu foram convidados? A programação e os critérios de participação serão finalmente tornados públicos? E, sobretudo, qual o sentido de a UFF figurar como parceira de uma iniciativa privada cujo formato restringe o debate público sobre um conflito socioambiental que permanece longe de ser resolvido?

Enquanto essas questões permanecerem sem resposta, será difícil não interpretar o workshop como mais um esforço de construção de legitimidade para um modelo de conservação ambiental corporativa que, ao mesmo tempo em que promove a proteção da biodiversidade e novas modalidades de turismo, continua associado à exclusão de comunidades tradicionais de territórios que, durante gerações, garantiram sua sobrevivência material, cultural e social. A verdadeira construção coletiva começa pela disposição de ouvir também aqueles cujas vozes foram historicamente silenciadas pelo mesmo processo que hoje se pretende apresentar como exemplo de sustentabilidade.

O INCT-TMCOcean amplia o acesso ao conhecimento com seu novo portal na internet

Já está no ar o novo portal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano (INCT-TMCOcean), um espaço criado para reunir e divulgar a produção científica, as atividades e as ações desenvolvidas por uma das mais importantes redes brasileiras de pesquisa sobre os processos que conectam os continentes aos oceanos.

No site, pesquisadores, estudantes e o público em geral podem conhecer quem integra o INCT-TMCOcean, consultar o perfil de seus pesquisadores, acessar a relação de artigos científicos publicados ao longo da trajetória do Instituto, explorar sua biblioteca especializada e acompanhar notícias sobre o cotidiano da instituição, além de informações sobre eventos, cursos, treinamentos e outras atividades científicas promovidas pela rede.

O portal também apresenta a missão, os objetivos e as principais linhas de pesquisa do Instituto, destacando sua contribuição para a compreensão dos processos de transporte de sedimentos, nutrientes, matéria orgânica e metais-traço entre os continentes e os oceanos, tema fundamental para o conhecimento das zonas costeiras, dos estuários e dos impactos das mudanças ambientais sobre esses ecossistemas.

Acesse o portal e descubra a riqueza das pesquisas desenvolvidas pelo INCT-TMCOcean:

https://inct-tmcocean.com/

Petrobras e a captura silenciosa da ciência brasileira

A crise do financiamento público fortalece a influência corporativa sobre universidades, pesquisadores e organizações socioambientais, enfraquecendo a autonomia crítica e o debate democrático

Em uma investigação publicada pela jornalista Mirna Wabi-Sabi na Plataforma9, intitulada “Como patrocínios ambientais da Petrobras compram o silêncio”, é revelado um aspecto pouco debatido da relação entre grandes corporações e a produção do conhecimento científico: a existência de cláusulas contratuais que podem limitar a autonomia de instituições de pesquisa financiadas por empresas cujas atividades são justamente objeto desses estudos. A reportagem descreve contratos firmados pela Petrobras com organizações ambientais que incluem dispositivos de confidencialidade, revisão prévia de materiais de divulgação e a possibilidade de encerramento do apoio caso a imagem da empresa seja considerada prejudicada.

O caso apresentado vai muito além de uma discussão jurídica sobre contratos. Ele coloca em evidência um problema estrutural: quem financia a pesquisa também pode adquirir capacidade de influenciar a forma como seus resultados circulam no espaço público. Ainda que isso não implique necessariamente manipulação direta dos dados científicos, a simples existência de mecanismos capazes de restringir a divulgação de informações críticas ou de induzir à autocensura já representa uma ameaça à independência da ciência. Afinal, o conhecimento científico só cumpre plenamente sua função social quando pode ser produzido, debatido e divulgado sem condicionantes impostos pelos interesses econômicos dos financiadores.

Entretanto, seria um erro tratar essa situação apenas como consequência da atuação de uma empresa. O problema é também resultado de décadas de desfinanciamento da ciência brasileira. A contínua redução dos investimentos públicos em universidades, institutos de pesquisa e agências de fomento criou um ambiente de extrema vulnerabilidade financeira. Laboratórios precisam sobreviver, pesquisadores precisam manter equipes, estudantes dependem de bolsas e equipamentos necessitam de manutenção. Quando o Estado abandona sua responsabilidade histórica de financiar a produção científica,  é aberto o espaço para que grandes corporações ocupem esse vazio.

É precisamente nesse contexto que estratégias de captura corporativa se tornam eficazes. Não é necessário comprar consciências de forma explícita quando se controla o acesso aos recursos indispensáveis para que a pesquisa continue existindo. A dependência financeira tende a produzir formas sutis de acomodação: temas deixam de ser investigados, críticas tornam-se mais cautelosas e resultados potencialmente inconvenientes passam a ser comunicados com menor intensidade. Trata-se de um mecanismo conhecido na literatura internacional como soft capture, no qual a influência é exercida menos pela censura aberta e mais pela construção de relações permanentes de dependência econômica.

Essa discussão assume especial relevância quando se trata da Petrobras. Durante décadas, a empresa construiu para si a imagem de patrimônio nacional e de protagonista do desenvolvimento brasileiro. Essa identidade, frequentemente mobilizada para neutralizar críticas, acabou por conferir uma espécie de blindagem política às suas práticas. No entanto, quando utiliza seu poder econômico para estabelecer relações de dependência com universidades, grupos de pesquisa e organizações não governamentais, a Petrobras reproduz mecanismos típicos da captura corporativa. Não se trata apenas de financiar projetos ambientais, mas de criar um ambiente em que críticas contundentes aos impactos de suas atividades tendem a se tornar mais raras, mais cautelosas ou simplesmente desaparecem da esfera pública.

Tal dinâmica é particularmente preocupante porque a Petrobras não atua apenas como financiadora de pesquisas. Em diferentes regiões do país, seus empreendimentos ligados à exploração, ao transporte e ao processamento de petróleo e gás têm contribuído para processos de reconfiguração territorial que frequentemente restringem o acesso de comunidades tradicionais aos espaços de que dependem para sua reprodução social e cultural. Pescadores artesanais, caiçaras, quilombolas e povos indígenas convivem, não raramente, com a ampliação de áreas de exclusão, dificuldades de acesso a territórios tradicionalmente utilizados e processos decisórios marcados por profundas assimetrias de poder.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa realidade é o da Baía de Guanabara. Ali, o pescador artesanal Alexandre Anderson, fundador e principal liderança da AHOMAR (Associação Homens e Mulheres do Mar), tornou-se símbolo da resistência aos impactos da expansão da indústria petrolífera sobre os territórios pesqueiros. Em razão dessa atuação, foi alvo de sucessivos atentados e ameaças de morte, passou anos sob escolta policial e precisou ser incluído no Programa Federal de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. Independentemente da autoria material desses ataques, sua trajetória revela o elevado grau de conflitividade associado aos grandes empreendimentos petrolíferos e os riscos enfrentados por quem desafia interesses econômicos poderosos. Não é por acaso que a luta de Alexandre Anderson extrapolou a defesa da pesca artesanal para tornar-se um símbolo nacional da resistência aos processos de desterritorialização promovidos pela expansão da indústria do petróleo.

É justamente nesse ponto que o financiamento de pesquisas e projetos socioambientais adquire uma dimensão política ainda mais ampla. Embora a reportagem da Plataforma9 não afirme que todas as instituições financiadas tenham renunciado à sua autonomia crítica, ela evidencia a existência de mecanismos capazes de produzir um ambiente favorável ao amansamento institucional. Em um cenário de escassez crônica de recursos públicos para a ciência, muitas universidades, grupos de pesquisa e organizações da sociedade civil  se tornam progressivamente dependentes do financiamento corporativo para garantir sua própria sobrevivência. Essa dependência tende a produzir autocontenção, evitar conflitos públicos e enfraquecer a disposição de questionar os impactos socioambientais dos próprios financiadores.

A consequência é a construção de um ambiente político particularmente favorável às grandes corporações. Enquanto lideranças comunitárias e defensores de direitos territoriais enfrentam ameaças, processos judiciais, criminalização e, em casos extremos,  a eliminação física, parte das instituições responsáveis pela produção do conhecimento científico e pela formulação de críticas públicas passa a depender financeiramente daqueles cujas atividades deveriam investigar com independência. Está é uma combinação extremamente funcional ao avanço do extrativismo: o espaço da contestação social é reduzido, ao mesmo tempo em que se enfraquece a capacidade crítica da ciência e das organizações da sociedade civil.

A investigação da Plataforma9, portanto, extrapola o caso específico dos contratos analisados. Ela revela como o desfinanciamento sistemático da ciência pública brasileira fortalece a capacidade de grandes empresas de moldar o ambiente institucional em que o conhecimento é produzido. Quanto menor for o investimento estatal, maior será a dependência de recursos corporativos e maior o risco de que universidades, laboratórios e organizações da sociedade civil passem a calibrar suas agendas de pesquisa e sua atuação pública em função dos interesses de seus financiadores.

A verdadeira resposta para esse dilema não consiste em demonizar toda parceria entre universidades e empresas. Cooperações podem produzir resultados socialmente relevantes, desde que estejam submetidas a regras rigorosas de transparência, autonomia científica e liberdade irrestrita para publicar resultados, favoráveis ou desfavoráveis ao financiador. O que não pode ser naturalizado é um modelo em que a escassez deliberadamente produzida de recursos públicos transforma pesquisadores em dependentes da boa vontade das corporações. Enquanto o Estado continuar renunciando ao seu papel de principal financiador da ciência, a autonomia da pesquisa permanecerá vulnerável à influência daqueles cujas atividades ela deveria investigar criticamente.

No caso da Petrobras, essa contradição assume contornos particularmente preocupantes. Uma empresa que reivindica para si a condição de símbolo do desenvolvimento nacional utiliza seu poder econômico para ampliar sua legitimidade social ao mesmo tempo em que atua em territórios marcados por conflitos ambientais, restrições aos modos de vida de comunidades tradicionais e mecanismos de influência capazes de reduzir o espaço do dissenso.  É preciso ressaltar que a investigação da Plataforma9 mostra apenas uma das faces desse problema. A questão mais profunda é saber até que ponto uma ciência crescentemente dependente do financiamento corporativo continuará sendo capaz de cumprir sua função essencial: produzir conhecimento crítico, independente e comprometido com o interesse público, e não com o esverdeamento da imagem de empresas cujas atividades são antagônicas com a preservação do ambiente e das comunidade tradicionais.

O neoliberalismo de esquerda e o preço ecológico da conciliação de classes

O artigo As raízes vermelhas do neoliberalismo brasileiro, publicado no portal A Terra é Redonda, oferece uma interpretação provocativa sobre a trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT) desde sua chegada ao governo federal em 2003. O argumento central produzido pelo  seu autor,  Eduardo Luiz Zen, é que, longe de representar uma ruptura com o neoliberalismo consolidado nos anos 1990, os governos petistas construíram uma modalidade própria de gestão do capitalismo brasileiro, combinando políticas redistributivas e de inclusão social com a preservação dos pilares do modelo econômico baseado na financeirização, na exportação de commodities e na conciliação com as frações dominantes do capital.

Há, entretanto, uma dimensão que merece ser ainda mais enfatizada: a ecológica. Se existe um “neoliberalismo vermelho”, uma de suas expressões mais evidentes é aquilo que se poderia chamar de negacionismo ecológico sutil. Não se trata da negação explícita das mudanças climáticas ou da destruição ambiental, como ocorreu em outros governos. Pelo contrário, o discurso oficial frequentemente incorpora a linguagem da sustentabilidade, da transição energética e da proteção dos biomas. O problema reside justamente na distância crescente entre esse discurso e a continuidade de um modelo de desenvolvimento assentado na expansão do agronegócio exportador, da mineração em larga escala e das grandes obras de infraestrutura voltadas para a integração do Brasil aos mercados globais de commodities.

Desde o primeiro governo do presidente Luiz Inácio, em 2003, consolidou-se uma estratégia de convivência e acomodação com os interesses do latifúndio agroexportador. Esse movimento ocorreu paralelamente à ampliação das exportações agrícolas e ao fortalecimento político das grandes entidades representativas do agronegócio, sem que fossem enfrentadas questões estruturais como a concentração fundiária, a reforma agrária ou os impactos socioambientais da agricultura intensiva. Diversos estudos científicos apontam que essa orientação representou uma continuidade importante da inserção primário-exportadora da economia brasileira, ainda que acompanhada de políticas sociais redistributivas.

O mesmo padrão pode ser observado na mineração. Grandes empreendimentos minerais continuaram sendo tratados como vetores privilegiados do crescimento econômico, frequentemente recebendo apoio institucional e financeiro do Estado, enquanto conflitos territoriais envolvendo comunidades tradicionais, povos indígenas e populações atingidas permaneceram em segundo plano. A lógica predominante foi a da expansão da fronteira extrativa, compatível com a crescente demanda internacional por minério de ferro, ouro, bauxita e, mais recentemente, minerais estratégicos para a chamada transição energética.

No caso da agricultura, essa opção política possui consequências que hoje se tornam cada vez mais difíceis de ignorar. O avanço contínuo da monocultura baseada no uso intensivo de agrotóxicos, fertilizantes sintéticos e sementes geneticamente modificadas vem produzindo impactos expressivos sobre a biodiversidade, os recursos hídricos, a qualidade dos solos e a saúde pública. Ao mesmo tempo, a expansão da fronteira agropecuária permanece como um dos principais vetores de desmatamento, degradação florestal e emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Ainda assim, essas contradições raramente aparecem como elementos centrais da estratégia de desenvolvimento defendida pelo governo.

É justamente aí que se manifesta esse negacionismo ecológico de baixa intensidade: reconhece-se a existência da crise climática, mas evita-se questionar o modelo econômico que a alimenta. Celebram-se metas ambientais em fóruns internacionais enquanto, internamente, preserva-se uma aliança política que impede mudanças mais profundas na organização da produção agrícola e mineral. Em vez de enfrentar os fatores estruturais da degradação ambiental, privilegia-se uma narrativa segundo a qual seria possível compatibilizar indefinidamente a expansão do extrativismo com a sustentabilidade.

Essa escolha política ajuda a explicar por que o Brasil continua apresentando enorme dificuldade para construir uma estratégia efetivamente pós-extrativista. Enquanto persistir a dependência das exportações de commodities agrícolas e minerais como principal eixo da inserção internacional do país, os conflitos ambientais tenderão a se aprofundar. O verdadeiro desafio, portanto, não consiste apenas em combater o negacionismo climático explícito, mas também em superar esse negacionismo mais sofisticado, que reconhece a emergência ecológica em seu discurso, ao mesmo tempo em que preserva as bases econômicas responsáveis por sua permanente reprodução.

Transição energética ou nova corrida extrativista? Webinar gratuito debate o futuro dos minerais críticos no Brasil

A disputa global pelos chamados minerais críticos, como o lítio e as terras raras, vem redesenhando a geopolítica mundial e colocando o Brasil no centro de interesses econômicos e estratégicos. Apresentados como fundamentais para a transição energética, esses recursos também abastecem setores como a indústria de alta tecnologia, a infraestrutura digital e a indústria bélica, diante desse cenário, a Floresta Ativista está com inscrições abertas para o webinar “Minerais críticos: oportunidade ou armadilha para o Brasil?”, que acontece no dia 6 de agosto, às 19h, de forma online e gratuita. As inscrições podem ser realizadas na aba “Oportunidades” do site da Floresta Ativista, onde também estão disponíveis todas as informações sobre o encontro.  

Embora sejam frequentemente apresentados como elementos indispensáveis para enfrentar a crise climática, os minerais críticos também levantam questionamentos sobre a expansão da mineração, os impactos socioambientais da atividade e a permanência de um modelo econômico baseado no extrativismo. O webinar convida o público a compreender como a crescente demanda internacional por esses recursos influencia políticas públicas, disputas geopolíticas e projetos de desenvolvimento, especialmente em países com grande disponibilidade mineral, como o Brasil.

Inscreva-se aqui!

Para aprofundar esse debate, o encontro reúne dois especialistas que acompanham o tema sob diferentes perspectivas. O pesquisador Bruno Milanez, engenheiro de produção, doutor em Política Ambiental e professor do Departamento de Engenharia de Produção e do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), Milanez é uma das principais referências brasileiras nos estudos sobre mineração, conflitos socioambientais e políticas minerais.

Também participa a jornalista Isabel Harari, da Repórter Brasil, atua na cobertura de meio ambiente e direitos humanos e, em 2025, foi bolsista da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center, desenvolvendo uma investigação sobre minerais críticos e seus impactos socioambientais.

A mediação será conduzida por Laila Zaid, atriz, ativista climática e fundadora da Cuíca, agência dedicada à comunicação sobre sustentabilidade e mudanças climáticas. Especialista pelo Climate Reality Leadership Corps e em Saúde e Crise Climática por Harvard, Laila atua na tradução de temas ambientais para diferentes públicos, aproximando o debate climático do cotidiano das pessoas.

Voltado a estudantes, pesquisadores, jornalistas, comunicadores, ativistas e todas as pessoas interessadas em compreender os desafios da transição energética, o webinar pretende ampliar o debate sobre quem se beneficia da exploração dos chamados minerais críticos, quais são seus impactos sobre comunidades e territórios e quais caminhos podem conciliar justiça climática, soberania nacional e proteção socioambiental. Após se inscrever pelo site da floresta ativista, os participantes receberam o link de acesso da aula por e-mail.

O Aulão é uma realização da Mídia NINJA, por meio de sua editoria de Clima e Cultura, Clímax, em parceria com o Pulitzer Center. A iniciativa busca ampliar o debate público sobre as mudanças climáticas e seus desdobramentos sociais, econômicos e ambientais, fortalecendo o jornalismo como ferramenta essencial para compreender e enfrentar os desafios que definirão o futuro. 

Serviço

Data: 6 de agosto (quarta-feira)

Horário: 19h

Participantes: Bruno Milanez (UFJF/PoEMAS) e Isabel Harari (Repórter Brasil/Pulitzer Center)

Mediação: Laila Zaid

Inscrições: https://rede.florestaativista.org/oportunidade/848/ 

PL do Homeschooling ameaça o direito de crianças e adolescentes à convivência escolar

O Senado Federal abriu uma consulta pública sobre o Projeto de Lei nº 1.338/2022, que propõe autorizar a oferta de educação domiciliar (homeschooling) na educação básica, alterando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Mais do que um espaço de aprendizagem, a escola é um lugar de convivência, socialização, construção da cidadania e desenvolvimento humano. É nela que crianças e adolescentes aprendem a viver em comunidade, estabelecem amizades, convivem com as diferenças, participam de atividades coletivas e têm acesso a direitos fundamentais, como a alimentação escolar, o acompanhamento pedagógico e a proteção proporcionada pela comunidade escolar.

A possibilidade de substituir a escola pelo ensino exclusivamente domiciliar levanta preocupações sobre o direito das crianças e dos adolescentes a uma formação integral, que vai muito além da transmissão de conteúdos.

Se você considera que lugar de criança e adolescente é na escola, participe da consulta pública do Senado e manifeste sua posição.

Vote NÃO ao PL nº 1.338/2022.

Participe da consulta pública:
https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=153194

Lugar de estudar é na escola!

Se desejar, posso preparar uma versão mais incisiva para mobilização nas redes sociais ou outra em tom mais institucional, voltada para educadores e entidades da área da educação.