Enquanto comentaristas transformam estudantes de esquerda em novos “Torquemadas”, provocações da extrema direita, o crescimento do neonazismo e a ofensiva para deslegitimar as universidades públicas permanecem convenientemente fora do enquadramento
O episódio ocorrido no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ está rapidamente adquirindo as características de uma disputa pela construção da narrativa sobre o que efetivamente aconteceu. De um lado, estudantes que estavam no local descrevem uma sequência envolvendo uma camiseta contendo iconografia inspirada naquela utilizada pela SS nazista, provocações, deboches e uma altercação que terminou em violência física. De outro, começa a se consolidar em determinados espaços da imprensa e entre comentaristas políticos uma versão muito mais simples e politicamente conveniente, segundo a qual um estudante teria sido brutalmente atacado por militantes de esquerda simplesmente por causa da roupa que vestia. O problema é que os elementos conhecidos até agora, inclusive registros em vídeo feitos durante o próprio incidente, tornam essa segunda narrativa difícil de sustentar sem eliminar partes importantes daquilo que ocorreu antes do confronto físico.
O estudante Diego Araujo estava usando uma camiseta da banda britânica Death in June contendo uma versão do Totenkopf, símbolo historicamente associado à SS nazista. Ele afirma que não é nazista, identifica-se politicamente com o marxismo e sustenta que a utilização daquela iconografia representaria uma forma de ridicularização do nazismo. Essas afirmações precisam ser consideradas e não existe, neste momento, base suficiente para classificá-lo como integrante de uma organização nazifascista. Entretanto, testemunhas que estavam no IFCS apresentaram uma narrativa bastante diferente daquela na qual Diego aparece apenas como vítima passiva. Segundo esses relatos, depois de ser questionado sobre os símbolos que utilizava, ele teria passado a debochar dos estudantes que o confrontavam. Deivid Lima, estudante de Direito diretamente envolvido no episódio, afirmou ainda que, durante a tentativa de conduzi-lo para fora do prédio, teria recebido uma cotovelada e sido puxado pelos cabelos por Diego. Outra estudante presente confirmou à imprensa que o confronto físico teria começado depois que Diego atingiu um dos estudantes envolvidos na abordagem, versão que ele nega e que deverá ser esclarecida pelas investigações.
Há ainda um elemento que merece atenção especial. Segundo relato de uma estudante de Ciências Sociais que presenciou os acontecimentos, Diego não teria chegado ao IFCS vestindo aquela camiseta, mas teria trocado de roupa no banheiro antes de entrar na sala. Se essa informação for confirmada pela investigação da UFRJ, será perfeitamente legítimo perguntar por que alguém decidiu vestir, já no interior de uma unidade universitária reconhecida por sua intensa vida política, uma camiseta contendo iconografia imediatamente associável à SS nazista. Isso não prova que tenha existido uma provocação deliberadamente planejada, muito menos permite atribuir ao estudante qualquer filiação fascista, mas impede que se descarte a questão da intencionalidade como se ela fosse irrelevante. A resposta pode ser inocente, mas a pergunta precisa ser feita.
Por isso, transformar Diego simplesmente na “vítima” do episódio significa encerrar prematuramente uma discussão que ainda precisa ser esclarecida. Ele foi indiscutivelmente atingido durante uma altercação e as responsabilidades individuais pelo que ocorreu devem ser investigadas. Entretanto, ter sido atingido não transforma automaticamente alguém em personagem inteiramente passivo de tudo aquilo que aconteceu anteriormente, nem autoriza jornalistas e comentaristas a iniciar a história exatamente no momento em que aparecem os primeiros golpes. É precisamente nesse ponto que abordagens como a adotada por Pedro Doria se tornam problemáticas, pois, ao concentrar a indignação na violência atribuída aos estudantes identificados com a esquerda, cria-se um enquadramento no qual a camiseta se transforma apenas em uma peça de roupa, as provocações relatadas por testemunhas praticamente desaparecem e as acusações de que o próprio Diego teria participado ativamente da escalada física do confronto tornam-se detalhes inconvenientes.
Há ainda um componente particularmente revelador nessa disputa narrativa: a atuação de elementos arrivistas de direita existentes no interior das próprias universidades, que se aproveitam de episódios como o ocorrido no IFCS para destilar sua hostilidade contra a esquerda e reforçar a representação dos estudantes antifascistas como intolerantes e autoritários. Em vez de demonstrarem preocupação semelhante diante do crescimento de organizações neonazistas, das provocações promovidas pela extrema direita nos campi ou dos ataques recorrentes à universidade pública, esses personagens encontram em qualquer altercação envolvendo estudantes de esquerda uma oportunidade para reeditar velhos discursos anticomunistas e apresentar-se como defensores da liberdade. A comparação dos estudantes antifascistas com “novos Torquemadas” é particularmente reveladora desse expediente, pois inverte os papéis históricos e transforma aqueles que reagem à presença e à provocação de símbolos associados ao fascismo em representantes contemporâneos da intolerância.
A história, entretanto, recomenda bastante cautela com essa inversão. A Noite dos Cristais, ocorrida na Alemanha em novembro de 1938, não foi promovida pela esquerda, mas constituiu um pogrom antissemita organizado pelo regime nazista, com participação de estruturas do Partido Nazista e de suas organizações paramilitares. Sinagogas foram incendiadas, estabelecimentos pertencentes a judeus foram destruídos, pessoas foram assassinadas e milhares de homens judeus foram enviados a campos de concentração. Portanto, recorrer à figura de Torquemada para caracterizar estudantes antifascistas contemporâneos, enquanto se relativiza o significado de símbolos historicamente associados às organizações que participaram diretamente da perseguição nazista, exige uma inversão histórica bastante conveniente.
No Brasil, aliás, não precisamos atravessar o Atlântico para encontrar antecedentes muito mais pertinentes à discussão. Durante a ditadura militar, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) protagonizou ações violentas contra estudantes, professores, artistas e pessoas identificadas ou simplesmente percebidas como pertencentes à esquerda. A chamada Batalha da Rua Maria Antônia, em outubro de 1968, constitui um dos episódios mais conhecidos dessa história, quando integrantes ligados ao CCC participaram do ataque à antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. A história brasileira deveria, portanto, recomendar alguma prudência antes de transformar estudantes de esquerda nos grandes inquisidores de nosso tempo, especialmente porque possuímos uma tradição bem documentada de organizações de extrema direita perseguindo professores e estudantes precisamente por suas posições políticas.
Essa lembrança é importante porque o paralelismo com o presente não está em afirmar que vivemos uma simples repetição de 1938 ou de 1968, mas em reconhecer a existência histórica de estratégias de intimidação e provocação dirigidas contra ambientes universitários e grupos identificados com o pensamento crítico e a esquerda. Quando a memória histórica é retirada seletivamente da gaveta apenas para comparar estudantes antifascistas a inquisidores, enquanto se guarda silêncio diante do crescimento contemporâneo de grupos neonazistas e das ações provocadoras da extrema direita, não estamos propriamente diante de uma defesa do pluralismo, mas de uma tentativa bastante transparente de reescrever quem historicamente perseguiu quem.
E não estamos falando apenas de fantasmas históricos. O crescimento contemporâneo de organizações neonazistas no Brasil vem sendo documentado há anos. O monitoramento realizado pela antropóloga Adriana Dias identificou um salto de aproximadamente 75 células neonazistas em 2015 para cerca de 530 em 2021, enquanto também aumentaram investigações relacionadas à apologia ao nazismo. A Polícia Federal, por sua vez, já realizou diferentes operações contra pessoas envolvidas na disseminação de propaganda nazista e supremacista, inclusive com apreensão de bandeiras, vestimentas, publicações e outros materiais associados a essas organizações. Em uma operação realizada em 2024, a PF informou ter identificado um investigado apontado como importante distribuidor de materiais relacionados ao nazismo e à supremacia branca no país.
É justamente diante dessa realidade que o silêncio de alguns dos críticos mais indignados com os estudantes do IFCS se torna particularmente revelador. Se o problema é realmente a intolerância política e o risco de extremismo dentro das universidades, por que tamanho interesse por uma altercação envolvendo estudantes de esquerda e tão pouca preocupação com a expansão documentada de organizações neonazistas? Por que não encontramos a mesma profusão de manifestações indignadas diante de grupos que difundem supremacismo branco, antissemitismo e propaganda nazista? E por que as incursões de personagens da extrema direita em universidades como USP e UnB, algumas delas envolvendo provocações, ameaças e confrontos, não provocam a mesma preocupação com a saúde da democracia brasileira?
Esse tipo de enquadramento seria menos problemático se estivéssemos diante de acontecimentos isolados, mas não estamos. Nos últimos anos, universidades públicas brasileiras vêm sendo transformadas em palco de ações de políticos, influenciadores e militantes ligados à extrema direita que perceberam o enorme potencial político das provocações produzidas especificamente para circular nas redes sociais. Na USP, particularmente na FFLCH, já ocorreram incursões de personagens desse campo político acompanhados de assessores, apoiadores e câmeras, algumas delas terminando em confrontos e estudantes feridos. Na Universidade de Brasília também ocorreram episódios envolvendo intimidação de professores e ações organizadas dentro do campus, chegando a circular mensagens convocando pessoas para comparecer à universidade com o objetivo declarado de confrontar fisicamente estudantes identificados como comunistas.
O método empregado nessas ações é especialmente adequado ao ecossistema político produzido pelas redes sociais. Entra-se em um ambiente reconhecido pela presença de movimentos estudantis e organizações de esquerda, provoca-se uma reação, mantém-se uma câmera permanentemente ligada e espera-se pelo momento em que alguém ultrapasse a fronteira entre o confronto verbal e o físico. Depois disso, selecionam-se alguns segundos de imagens e elimina-se tudo aquilo que aconteceu anteriormente. O provocador pode então aparecer como cidadão comum exercendo pacificamente sua liberdade de expressão, enquanto os estudantes são apresentados como uma massa intolerante e violenta. A reação física às provocações representa, por isso, uma armadilha política particularmente eficiente, pois alguns segundos de uma altercação podem circular milhões de vezes completamente separados dos minutos que a antecederam.
Mas existe uma dimensão ainda mais ampla que precisa ser incorporada a essa discussão. A universidade pública não é apenas o cenário acidental dessas operações políticas, pois ela própria constitui um dos alvos. A construção sistemática da imagem dos campi como territórios dominados por militantes radicais, intolerantes e violentos serve a uma ofensiva destinada a deslegitimar as universidades públicas perante a sociedade. Nesse discurso, as instituições deixam de aparecer como espaços de produção científica, formação profissional, pesquisa, extensão e desenvolvimento tecnológico e passam a ser apresentadas como ambientes de doutrinação ideológica sustentados pelo contribuinte. Quanto mais caótica, sectária e violenta for a imagem produzida sobre a universidade pública, mais fácil se torna perguntar por que o Estado deveria continuar financiando essas instituições.
É nesse ponto que as provocações realizadas dentro dos campi encontram uma convergência particularmente perigosa com o discurso pró-privatização do ensino superior. Primeiro constrói-se a universidade pública como instituição disfuncional, ideologizada e incapaz de garantir até mesmo a convivência entre pessoas com posições políticas diferentes. Depois questionam-se seus custos, seus servidores, sua autonomia e o próprio princípio do financiamento público. Finalmente aparecem como soluções aparentemente técnicas aquilo que desde o início constituía um projeto político: redução do financiamento estatal, cobrança de mensalidades, expansão de parcerias privadas, transferência de atividades para empresas, enfraquecimento das carreiras públicas e progressiva mercantilização do ensino superior. Nesse sentido, produzir imagens de estudantes em confrontos dentro de universidades não serve apenas para conquistar seguidores nas redes sociais, mas fornece matéria-prima para uma narrativa destinada a corroer a legitimidade social das instituições públicas.
Isso não significa afirmar que Diego Araujo tenha participado de uma operação organizada dessa natureza. Até que existam provas, estabelecer essa associação seria irresponsável. Significa reconhecer que o episódio ocorreu em um ambiente político no qual a provocação dentro das universidades já integra o repertório de setores da extrema direita e que, por isso, qualquer análise séria precisa reconstruir toda a sequência dos acontecimentos, e não apenas os segundos finais que melhor se adaptam à narrativa pretendida.
Há igualmente uma lição estratégica que os estudantes e organizações de esquerda precisam retirar desses acontecimentos. Independentemente do grau de provocação, entrar em uma altercação física pode significar entregar aos provocadores exatamente as imagens necessárias para alimentar a narrativa que se pretende combater. Diante da utilização de símbolos nazistas ou fascistas ou de comportamentos deliberadamente provocadores, a resposta politicamente mais eficaz é documentar o ocorrido, identificar os responsáveis e exigir ação imediata das autoridades universitárias e, quando necessário, policiais. Além de impedir que estudantes assumam funções que pertencem às instituições, essa postura dificulta que eventuais provocadores sejam posteriormente transformados em mártires da liberdade de expressão.
O que não se pode aceitar é que comentaristas externos e arrivistas de direita instalados no interior das próprias universidades descubram subitamente a violência política nos campi apenas quando ela pode ser atribuída à esquerda. A memória histórica brasileira mostra quem perseguia estudantes e professores durante a ditadura, assim como a história alemã não deixa dúvidas sobre quem organizou a Noite dos Cristais. No presente, pesquisas documentam a expansão de células neonazistas no Brasil, enquanto a Polícia Federal realiza operações relacionadas à disseminação de propaganda nazista e supremacista. Diante disso, transformar estudantes antifascistas em “novos Torquemadas” e simultaneamente manter um silêncio conveniente sobre organizações que reivindicam precisamente ideologias responsáveis por algumas das maiores perseguições políticas e raciais do século XX parece menos uma preocupação universal com a intolerância do que uma escolha bastante seletiva sobre qual intolerância merece ser denunciada.
A altercação ocorrida no IFCS deve ser investigada, as diferentes versões confrontadas e as responsabilidades individualizadas. Mas antes de transformar o episódio em demonstração da suposta barbárie da esquerda universitária, seria recomendável olhar para a história e também para aquilo que está acontecendo hoje no Brasil. Talvez então fique mais difícil sustentar que o grande perigo para nossas universidades esteja nos estudantes que se indignam diante da exibição de símbolos associados ao nazismo, enquanto grupos efetivamente neonazistas crescem, personagens da extrema direita promovem provocações dentro dos campi e setores de direita existentes nas próprias universidades aproveitam esses episódios para destilar seu anticomunismo e contribuir para a desmoralização das instituições em que trabalham. Afinal, transformar a universidade pública em território de intolerância, desordem e radicalismo não é uma narrativa politicamente neutra: ela serve perfeitamente àqueles que desejam enfraquecer sua legitimidade social, reduzir seu financiamento e, no limite, abrir caminho para sua privatização.














