A decisão mais recente do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, no caso dos chamados “penduricalhos”, reacende um velho roteiro: no fim das contas, a conta recai sobre os mais frágeis — a imensa maioria dos servidores públicos brasileiros. O que hoje se condena como distorção transformou-se, para muitos, na única válvula de escape diante de salários corroídos por anos de inflação acumulada.
Não se trata de defender o mecanismo. Os penduricalhos são uma solução improvisada e precária para compensar perdas salariais. Têm prazo de validade: desaparecem quando o servidor deixa a função que os justifica e, com frequência, evaporam na aposentadoria. É justamente na etapa mais sensível da vida funcional, após décadas de dedicação ao serviço público — federal, estadual ou municipal — que o trabalhador vê sua renda encolher de forma abrupta. O resultado é um corte expressivo no orçamento de quem já perdeu poder de compra ao longo do tempo.
Na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), o impasse ganha contornos ainda mais graves. Um novo plano de cargos e vencimentos está engavetado pelo governador Claúdio Castro há quase cinco anos. Nesse cenário, a supressão dos adicionais criados para mitigar a corrosão salarial representaria um impacto severo, independentemente da função exercida. A situação suscita uma pergunta direta ao ministro: por que restringir-se ao combate aos penduricalhos sem exigir que governadores, como Cláudio Castro, cumpram legislações que beneficiam os servidores ou deem andamento a planos de carreira paralisados, como ocorre na Uenf?
É igualmente revelador que a ofensiva contra verbas que ultrapassem o teto constitucional — medida em si legítima — não alcance os supersalários praticados na alta burocracia do Estado, a começar pelo Judiciário. O foco nos penduricalhos mantém intocadas as distorções salariais entre os Poderes e, sobretudo, dentro de nichos específicos da máquina pública. Enquanto isso, a maioria dos servidores segue exposta a armadilhas como o endividamento via empréstimos consignados, muitas vezes marcados por abusos de instituições financeiras — como no caso recente do Banco Master, cuja derrocada consumiu bilhões de reais de fundos de previdência de servidores.
O debate é necessário. Que se enfrentem excessos e distorções. Mas que se faça isso sem ignorar o essencial: a recomposição salarial e a garantia de condições dignas de trabalho para a ampla maioria dos servidores públicos, hoje pressionados por vencimentos corroídos e rotinas frequentemente exaustivas, quando não insalubres.
Há mais de 15 dias, 14 etnias indígenas ocupam área da Cargill no porto de Santarém (PA)
Indígenas na ocupação do terminal de cargas da Cargill na semana passada. Foto: Comunicação/CITA
Por SindSef-SP
A ocupação indígena no po rto da multinacional Cargill, em Santarém (PA), que já ultrapassa duas semanas, tornou-se símbolo de uma das maiores controvérsias ambientais recentes no país.
Povos originários, ribeirinhos e movimentos sociais denunciam o Decreto nº 12.600/2025, de iniciativa do governo Lula, que inclui trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND), abrindo caminho para concessões privadas de hidrovias amazônicas. A mobilização cresce em defesa dos rios e cobra a revogação imediata da medida.
Para o Sindsef-SP, o decreto faz parte de uma política mais ampla que vem priorizando grandes projetos de infraestrutura voltados à exportação de commodities, ampliando pressões sobre territórios tradicionais e aprofundando contradições entre o discurso ambiental e as medidas efetivamente implementadas pelo governo federal.
Trata-se de um ataque direto aos povos da floresta, à soberania nacional e ao meio ambiente, com potencial de acelerar a destruição da Amazônia em benefício do agronegócio exportador.
O que diz o decreto e o que ele representa
O Decreto nº 12.600 incluiu mais de 3 mil quilômetros de hidrovias amazônicas em planos de concessão à iniciativa privada. Na prática, a medida permite que empresas passem a explorar trechos estratégicos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, sob o argumento de ampliar a logística e reduzir custos do transporte de commodities.
Embora o governo apresente o projeto como modernização da navegação, movimentos indígenas e entidades socioambientais apontam que o verdadeiro objetivo é ampliar o escoamento de soja, minérios e outras cargas destinadas à exportação. Isso inclui intervenções como dragagens, derrocamentos e expansão de portos privados, que podem alterar profundamente o equilíbrio ambiental da região.
Os rios atingidos atravessam territórios indígenas, comunidades quilombolas e áreas de conservação, o que levanta críticas sobre a ausência de consulta livre, prévia e informada, prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Lideranças indígenas denunciam que decisões foram tomadas sem diálogo efetivo com quem vive nos territórios afetados.
A resistência indígena e a ocupação em Santarém
Desde 22 de janeiro, pelo menos 14 etnias do Baixo Tapajós ocupam a entrada do terminal da Cargill em Santarém, no Pará. A mobilização ganhou força com o bloqueio do acesso ao aeroporto da cidade e manifestações que pressionaram o governo federal a suspender um edital de dragagem do rio Tapajós. Ainda assim, os povos indígenas mantêm o acampamento e afirmam que só encerrarão o protesto quando o decreto for revogado.
Segundo as comunidades, a dragagem e a intensificação do transporte hidroviário podem comprometer a pesca, alterar sedimentos do rio e afetar territórios considerados sagrados. Além disso, a ampliação da logística para o agronegócio tende a intensificar conflitos territoriais e pressionar modos de vida tradicionais.
Mesmo após reuniões com representantes do governo, não houve consenso. Lideranças destacam que a suspensão de editais não resolve o problema central: a inclusão das hidrovias no PND. Por isso, a mobilização continua e já mobilizou caminhadas, plenárias públicas e denúncias internacionais.
As ações contra as privatizações dos rios e em defesa do meio ambiente reúnem povos indígenas do Baixo Tapajós, movimentos sociais e entidades sindicais, entre elas a CSP-Conlutas, que participa das ações em defesa dos territórios e pela revogação do decreto.
Histórico da mobilização e denúncias de falta de consulta
Os protestos contra o projeto não começaram agora. Durante a COP30, realizada em Belém, povos indígenas já haviam denunciado o avanço das hidrovias e exigido a revogação do decreto. Na época, representantes do governo federal, entre eles o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, e a própria ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, anunciaram mesas de diálogo e promessas de consulta prévia às comunidades afetadas. No entanto, as negociações prometidas não ocorreram.
O Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita/CITABT), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e o Coletivo Indígena Kirim Bawaita (CIKI) denunciam que editais, estudos e planejamentos ligados à hidrovia avançaram sem a realização da consulta livre, prévia e informada, direito garantido pela Convenção 169 da OIT. Para essas organizações, a inclusão dos rios no Programa Nacional de Desestatização ocorreu sem diálogo real com os povos afetados.
O advogado Leonardo Borari, assessor jurídico indígena vinculado à Coiab, afirma que a medida viola direitos coletivos e a autodeterminação dos povos originários. Já levantamento do Grupo de Trabalho Infraestrutura (GT Infra), formado por engenheiras e pesquisadoras, aponta ampliação dos trechos previstos para dragagem e aumento significativo do orçamento das intervenções, o que torna ainda mais preocupante a falta de transparência no que diz respeito aos impactos ambientais e sociais.
Todo apoio e solidariedade aos povos indígenas!
O Sindsef-SP manifesta total solidariedade à luta dos povos indígenas e se soma às entidades que exigem a revogação imediata do Decreto nº 12.600/2025. A entrega da gestão de rios estratégicos à iniciativa privada ameaça a soberania nacional, o patrimônio ambiental e aprofunda um modelo predatório do agronegócio, que coloca o lucro acima da vida e transforma a Amazônia em corredor de exportação de commodities.
O sindicato repudia a criminalização das mobilizações e defende o respeito integral à Convenção 169 da OIT, com consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas.
A resistência no Tapajós vai além de uma pauta regional: expressa a disputa entre um projeto baseado na exploração intensiva dos recursos naturais e outro que prioriza a vida, a biodiversidade e os direitos dos povos. Defender o Tapajós e a Amazônia é defender o futuro da classe trabalhadora.
Entenda em 5 pontos por que o decreto das hidrovias na Amazônia é tão grave
Privatização de rios estratégicos: o Decreto nº 12.600/2025 inclui trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização, abrindo caminho para concessões privadas em mais de 3 mil km de hidrovias.
Corredores para exportação de commodities: a proposta prioriza o escoamento de soja, minérios e outras cargas do agronegócio, transformando rios da Amazônia em rotas logísticas voltadas ao mercado internacional.
Violação do direito à consulta prévia: organizações indígenas denunciam que não houve consulta livre, prévia e informada, como determina a Convenção 169 da OIT, apesar dos impactos diretos nos territórios.
Riscos ambientais e sociais: dragagens, ampliação de portos e aumento do tráfego hidroviário podem afetar a pesca, a biodiversidade e a segurança alimentar de povos tradicionais.
Avanço de um modelo destrutivo: o agronegócio impulsiona um projeto que concentra terra e riqueza, destrói o meio ambiente e prioriza exportação, sem garantir comida de qualidade na mesa da população brasileira.
Por isso, defendemos:
Revogação imediata do Decreto nº 12.600/2025! Rios não são mercadoria — são vida, território e ancestralidade.
Nenhuma privatização das hidrovias amazônicas! A floresta não pode ser transformada em corredor de exportação do agronegócio.
Suspensão definitiva das dragagens e megaprojetos que ameaçam o Tapajós! A lógica do lucro não pode se impor sobre a natureza e os povos.
Consulta livre, prévia e informada já! Respeito integral à Convenção 169 da OIT e à autodeterminação dos povos originários.
Chega do projeto de morte do agronegócio! Defender a Amazônia é defender comida saudável, biodiversidade e o futuro do povo.
Fim da criminalização das mobilizações indígenas! Resistir não é crime — é direito histórico.
Pela Amazônia viva, pela soberania nacional e pela vida acima do lucro!
O estudo também avaliou os riscos do consumo de cacau e mandioca cultivados em Linhares, município localizado em uma área afetada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Minas Gerais, Brasil, há dez anos
O grupo de pesquisa alerta que o consumo contínuo de alimentos cultivados em solo contaminado pode representar um risco cancerígeno devido ao acúmulo a longo prazo de elementos potencialmente tóxicos no organismo ( montagem de imagens do Pixabay e Wikimedia Commons ).
Por Karina Ninni para “Agência FAPESP”
Cientistas especialistas em geoquímica do solo, engenharia ambiental e saúde, vinculados à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), no Brasil, e à Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, avaliaram os riscos do consumo de bananas, mandioca e polpa de cacau cultivadas em solos impactados por rejeitos da mineração de ferro no estuário do Rio Doce, em Linhares, no estado do Espírito Santo. A região recebe o material desde o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, no estado vizinho de Minas Gerais, em novembro de 2015.
As concentrações de cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo no solo estão associadas ao principal componente dos rejeitos: óxidos de ferro. A equipe também descobriu que o consumo de bananas cultivadas em solo impactado pelos rejeitos representa um possível risco à saúde de crianças de até seis anos de idade.
“Nosso grupo estuda os impactos do rompimento da barragem há anos. Obtivemos as primeiras amostras sete dias após o acidente e imediatamente percebemos o risco iminente de contaminação de plantas, solo, água e peixes. Mas a questão permanecia: essa contaminação representa um risco para a saúde humana?”, relembra Tiago Osório , engenheiro agrônomo e professor do Departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ-USP).
Em um artigopublicado na revista Environmental Geochemistry and Health , o grupo revela como as plantas acessam elementos potencialmente tóxicos (EPTs) associados aos rejeitos e os acumulam em suas partes comestíveis. Eles também explicam como esse material entra na cadeia alimentar. O artigo faz parte do doutorado de Amanda Duim na ESALQ. A tese de Duim já rendeu sete publicações em periódicos internacionais e conquistou dois prêmios em 2025: o Prêmio de Tese da USP em Sustentabilidade e o Prêmio de Tese da Capes, concedido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação do Brasil. Duim recebeu apoio da FAPESP por meio de uma bolsa de doutorado .
O apoio da FAPESP ao trabalho do grupo inclui duas bolsas de pós-doutorado ( 20/12823-5 e 21/00221-3 ), duas bolsas de pesquisa ( 23/01493-2 e 22/12966-6 ), uma bolsa do programa de fixação de jovens doutores e uma bolsa de iniciação científica .
Alta concentração
Segundo Duim, primeiro autor do artigo, o que diferencia este estudo é que a equipe correlacionou o risco à saúde humana com a transferência de elementos potencialmente tóxicos (EPTs) do solo para a planta. “O teor de óxido de ferro no solo, principal componente dos rejeitos, correlaciona-se com seu teor na planta. Estudamos a passagem de componentes dos rejeitos no solo para a água e, em seguida, da água para a planta, incluindo suas folhas e frutos.”
“Primeiro, precisamos saber quais elementos estão presentes e em que quantidades para entender a dinâmica bioquímica de sua liberação”, explica Osório.
Duim iniciou seus estudos de doutorado em 2019, pesquisando maneiras de usar plantas de regiões alagadas para limpar ambientes contaminados. “Avaliamos espécies cultivadas e nativas. No caso destas últimas, queríamos saber como elas afetam a dissolução do óxido de ferro e, nesse processo, entender se e como os elementos potencialmente tóxicos (EPTs) associados a esse resíduo entram na planta, já que diferentes espécies acumulam EPTs de maneiras distintas”, explica a pesquisadora. “A ideia era encontrar as melhores espécies nativas para limpar ambientes contaminados, e encontramos mais de uma espécie que pode cumprir essa função, com resultados já publicados. No caso das espécies cultivadas, queríamos saber se os EPTs seriam transferidos para os frutos e partes comestíveis das plantas”, explica ela.
“Coletamos o solo e a planta, lavamos a planta, pesamos a biomassa fresca, secamos a planta, pesamos a biomassa seca e moemos separadamente as raízes, o caule, as folhas e os frutos descascados. Só então analisamos todas as partes para descobrir o que havia em cada uma. Dissolvemos o ‘pó vegetal’, transformando-o em uma solução usando vários ácidos, e determinamos a concentração na solução. Convertemos o cálculo da concentração do material na solução e o comparamos com o peso do material diluído, obtendo assim a concentração de PTE em miligramas por quilograma de biomassa seca”, descreve Duim.
Em bananas e mandioca, todos os elementos potencialmente tóxicos (exceto o cromo) acumularam-se mais nas partes subterrâneas, como raízes e tubérculos, do que nas partes aéreas. O cacau, por outro lado, apresentou alta acumulação de elementos potencialmente tóxicos nas partes aéreas (caules, folhas e frutos). Além disso, as concentrações de cobre e chumbo na polpa dos frutos excederam os valores limite estabelecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Ao descobrirem que as plantas cultivadas apresentavam concentrações de elementos potencialmente tóxicos (EPT) superiores aos níveis recomendados, inclusive nas partes comestíveis, a equipe decidiu realizar uma análise de risco nos frutos e tubérculos.
Riscos para a saúde
Os cientistas estimaram os riscos do consumo de bananas, rizomas de mandioca e polpa de cacau calculando o quociente de risco (QR), o índice de risco (IR) e o índice de risco total (IRT) para crianças (menores de seis anos de idade) e adultos (maiores de 18 anos de idade). O QR é a razão entre a ingestão diária média de uma substância química e sua dose de referência correspondente. O IRT é uma métrica fundamental para avaliar os potenciais riscos não carcinogênicos à saúde associados à exposição a elementos potencialmente tóxicos (EPTs). Para indicar baixo risco, o IRT deve ser menor que 1.
“Esses elementos existem naturalmente no meio ambiente. Estamos expostos a eles em concentrações mais baixas. Mas, no caso de um desastre como o das Marianas, quando se espera um aumento da exposição, precisamos ter ainda mais cautela”, afirma Tamires Cherubin , doutora em ciências da saúde e uma das autoras do estudo. A metodologia geralmente utilizada consiste em calcular o risco da biodisponibilidade desses elementos, visto que a exposição a certas concentrações pode causar problemas de saúde significativos, como problemas renais e cardíacos, desconforto gastrointestinal e danos pulmonares por exposição respiratória. Outros riscos agudos incluem problemas de pele e irritação ocular.
O cálculo da análise de risco inclui fatores como o consumo de plantas cultivadas localmente pela população. Os pesquisadores estimaram a porcentagem da alimentação da população local proveniente de fora da região e a porcentagem proveniente de alimentos cultivados localmente, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outros fatores incluem a duração da exposição (quantos anos uma pessoa consome o produto), os níveis de consumo em relação à massa corporal de adultos e crianças e o tempo necessário para que o consumo cause efeitos nocivos.
“De acordo com as doses diárias de referência para contaminantes abordadas na literatura, consideramos os limites de 0,05 mg/kg para a presença de cádmio em frutas e 0,1 mg/kg em tubérculos, 0,5–1,0 mg/kg para a presença de cromo, 20,0 mg /kg para cobre, 0,5–1,0 mg/kg para níquel, 0,8–2,3 mg/kg para chumbo e 50,0 mg/kg para zinco”, explica Cherubin.
Embora os TRIs (Índices de Referência de Toxicidade) para a maioria dos elementos analisados estivessem abaixo do nível de risco (menos de 1), indicando que o consumo desses alimentos cultivados no estuário do Rio Doce não representa uma ameaça significativa para adultos, o TRI para bananas em crianças ultrapassou 1, sugerindo potenciais impactos na saúde. O principal fator de risco foi a maior concentração de chumbo na fruta, que também apresentou um teor de cádmio superior ao recomendado pela FAO. Segundo os cientistas, a exposição prolongada ao chumbo, mesmo em baixas doses, está associada a danos irreversíveis ao desenvolvimento neurológico, incluindo redução do QI, déficits de atenção e distúrbios comportamentais.
O grupo alerta que o consumo contínuo de alimentos cultivados em solo contaminado pode representar riscos cumulativos a longo prazo. “Com o tempo, considerando a expectativa de vida no Brasil, em torno de 75 anos, pode haver um risco carcinogênico, já que existe a possibilidade de danos diretos e indiretos ao DNA”, afirma Cherubin. Essas mutações têm o potencial de resultar em uma maior incidência de vários tipos de câncer, incluindo aqueles que afetam o sistema nervoso central, o trato gastrointestinal e o sistema hematológico. “Tudo depende da capacidade do corpo humano de absorver e metabolizar esses elementos disponíveis no meio ambiente”, explica o pesquisador.
O artigo “Dos rejeitos às mesas: avaliação de risco de elementos potencialmente tóxicos em culturas comestíveis cultivadas em solos impactados por rejeitos de mineração” pode ser lido em doi.org/10.1007/s10653-025-02770-9 .
Cientistas alertam o Brasil entrando em uma crise oculta da água com consequências globais
Em frente ao Mercado Municipal Adolpho Lisboa está o Rio Negro, que é o maior afluente esquerdo do rio Amazonas, que por sua vez é o maior rio de águas negras do mundo. Imagem: Dennis Jarvis / Creative Commons 2.0.
Por Monica Piccinini para “The Ecologist”
Ao nascer do sol ao longo do Rio Negro, os pescadores frequentemente falam da água como se ela estivesse viva. Eles leem os humores do rio, medem o tempo pelos níveis e marcam as estações pelas correntes.
Por gerações, os cursos d’água em toda a Amazônia moldaram a vida cotidiana. Agora, essesritmosfamiliares estão se tornando mais difíceis deler e confiar.
As florestas brasileiras fazem mais do que armazenar carbono, elas regulam os sistemas hídricos que sustentam rios, agricultura e cidades em toda a América do Sul.
Alimentação
À medida que o desmatamento e a degradação aceleram, cientistas alertam que o país está entrando em uma crise oculta da água com consequências globais.
O Brasil é frequentemente descrito como uma nação moldada pela água. Ela possui cerca de 12% das reservas mundiais de água doce, enquanto a bacia amazônica forma o maior sistema de água doce do planeta.
O Cerrado, a vasta savana tropical do país, alimenta rios que abastecem cidades e agricultura por toda a América do Sul.
No papel, o Brasil parece seguro em termos de água. No entanto, cientistas alertam que essa segurança depende fortemente dos ecossistemas que estão gradualmente perdendoa capacidade de regular a precipitação e o fluxo dos rios.
Augusto Getirana, pesquisador do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, no Laboratório de Ciências Hidrológicas, falando em caráter pessoal, explicou como os sistemas hídricos do Brasil influenciam o fornecimento global de alimentos.
Riqueza
“O Brasil é o maior produtor mundial de café, soja e carne bovina, entre outras commodities dependentes de água”, disse ele ao The Ecologist.
“Uma crise da água no Brasil que resulta em interrupção na produção doméstica de alimentos rapidamente se torna uma crise global. Vimos isso em 2021, quando os preços dessas commodities aumentaram substancialmente em todo o mundo.”
Luciana Gatti, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial do Brasil (INPE), argumentou que o desmatamento e a degradação na Amazônia, impulsionados pela expansão agrícola impulsionada pelas exportações do Brasil, estão diretamente ligados à crise hídrica.
“Houve um enorme aumento nas exportações de madeira, carne bovina, soja, milho e minerais. Este é um projeto baseado na destruição da natureza para vender commodities primárias.
“Os sistemas hídricos são prejudicados por esses modelos de desenvolvimento, com consequências severas para os ecossistemas e a população brasileira, enquanto concentram riqueza e poder entre grandes proprietários de terras.”
Uma rede de água
O sistema hídrico do Brasil depende de uma parceria delicada entre a floresta amazônica e o Cerrado. Juntos, formam uma vasta rede hidrológica que move a umidade pela atmosfera, armazena água subterrânea e estabiliza bacias hidroelétricas em grande parte da América do Sul.
Reduzir o tamanho do rebanho de gado ajudaria a diminuir a pressão ambiental e a instabilidade hídrica.
A insegurança hídrica no Brasil não é apenas sobre a queda das chuvas. Pesquisadoresdescrevem isso como o enfraquecimento dos processos naturais de regulação climática, uma mudança gradual com consequências potencialmente de longo alcance.
Pesquisas da Universidade de São Paulo estimamque o desmatamento amazônico representa cerca de 74,5% da redução das precipitações e aumento de 16,5% da temperatura durante a estação seca.
A Amazônia desempenha um papel central no ciclo da água da América do Sul. As árvores extraem umidade do solo e a liberam para a atmosfera, gerando correntes de ar úmido frequentemente descritas como “rios voadores”.
Essas correntes de ar invisíveis transportam a chuva muito além da floresta, sustentando regiões agrícolas, reservatórios e grandes centros urbanos. Por exemplo, uma grande porcentagem das chuvas que abastecem o sistema hídrico de Cantareiraem São Paulo depende da umidade originária da Amazônia.
Para muitos brasileiros, essas correntes de água atmosférica são invisíveis, mas seus efeitos influenciam quando as culturas crescem, os reservatórios se enchem e se os rios permanecem navegáveis.
Segundo a Agência Nacional de Água e Saneamento Básico (ANA) do Brasil, em 30 de janeiro, o sistema Cantareira estava em operaçãocom 22%.
À medida que as florestas encolhem, oscientistas alertamque esse processo de reciclagem de umidade enfraquece. A redução da cobertura arbórea significa menos umidade no ar, a precipitação se torna mais irregular e os fluxos dos rios se tornam cada vez mais instáveis. Algumas regiões enfrentam secas prolongadas, enquanto outras apresentam chuvas intensas em períodos mais curtos.
Pesquisadores afirmam que esses extremos não são anomalias isoladas, mas sinais de crescente estresse ecológico. Solos mais secos reduzem a recarga do lençol freático, enquanto os rios respondem de forma mais acentuada tanto à seca quanto às chuvas intensas.
Eventosclimáticos em grande escala, como El Niño, La Niña e condições quentes no Atlântico Tropical Norte (NTA), sóaumentam apressão, desencadeando enchentes ousecasque se espalham por sistemas fluviais e aquíferos.
Ao longo das vias navegáveis da Amazônia, as comunidades já estão sentindo as consequências. Os estoques de peixes estão diminuindo, a água potável é menos instável e as rotas de transporte fluvial são interrompidas durante as estações secas, isolando vilarejos e restringindo o acesso a alimentos e suprimentos essenciais.
A fonte de água negligenciada do Brasil
Embora a Amazônia frequentemente domine as manchetes, os cientistas enfatizam que o Cerradodesempenha um papeligualmente crítico na manutenção do equilíbrio hídrico do Brasil. Cobrindo aproximadamente um quarto do país, o biomaalimentagrandes sistemas fluviais, incluindo São Francisco, Paraná e Tocantins.
Gatti ressaltou que o bioma do Cerrado é fundamental para a sustentação dos sistemas hídricos e bacias hidrográficas do Brasil: “O Cerrado contém cerca de 80% das bacias hidrográficas do Brasil. Funciona como uma floresta invertida, concentrada em sistemas radiculares profundos. Essas raízes permitem que a chuva se infiltre gradualmente e recarregue as reservas de água subterrânea.
“Quando ocorre o desmatamento, o sistema natural de amortecimento desaparece. A água da chuva não é mais absorvida corretamente. O solo fica exposto e a água escorre em vez de penetrar o solo.”
Por gerações, comunidades rurais e indígenas dependem desses riachos alimentados por águas subterrâneas para agricultura, pesca e práticas culturais ligadas aos ciclos sazonais da água.
Mas o Cerrado estádesaparecendo rápido. O cultivo de soja, a criação de gado e a monocultura em grande escala substituíram vastas áreas de vegetação nativa. Culturas de raízes rasas captam menos água, reduzem a recarga de água subterrânea e aceleram a erosão do solo. Os riachos que antes sustentavam comunidades rurais agrícolas estão diminuindo ou desaparecendo completamente.
Expansão da pressão industrial
O setor agrícola do Brasil tornou-se um pilar do crescimento econômico, mas também intensificou a pressãosobre os recursos hídricos.
A demanda por irrigação está aumentando, enquanto fertilizantes e pesticidas frequentemente escorrem para sistemas fluviais, poluindo a água, o solo e a vida selvagem. Globalmente, a agricultura responde por 70% do uso de água doce, um padrão refletido na expansão do agronegócio no Brasil.
Gatti enfatizou o papel da demanda internacional por commodities no sustento do desmatamento: “É hipócrita culpar apenas o Brasil por não combater o desmatamento, enquanto países como os Estados Unidos, a Europa, a China, o Reino Unido e outros continuam a comprar produtos ligados ao desmatamento.
“Se parassem de comprar madeira, carne, soja, milho e minerais produzidos em áreas desmatadas, o desmatamento poderia acabar muito rapidamente.”
Incêndios introduzem outra camada de risco. Paisagens queimadas absorvem e liberam água de forma desigual, aumentando o risco de enchentes durante períodos chuvosos e piorando as condições de seca durante meses secos. Incêndios recorrentes estão alterando a composição das florestas em partes da Amazônia, potencialmente enfraquecendo a geração de chuvas ao longo do tempo.
Gatti disse: “Em 2024, a Amazônia registrou suas maiores emissões de carbono já registradas, principalmente devido a incêndios. O ministério da ciência, tecnologia e inovação (MCTI) do Brasil considera as emissões dos incêndios da Amazônia como zero líquidas em sua metodologia oficial. No entanto, os incêndios representam a maior fonte de emissões de carbono da Amazônia.”
Em 2024,incêndios atingiram3,3 milhões de hectares da Amazônia, liberando cerca de 791 milhões de toneladas de CO₂, aproximadamente o que a Alemanha emite em um ano. Pela primeira vez, a degradação florestal causada por incêndios foi superada pelo desmatamento como principal responsável por carbono na Amazônia.
As operações demineração sobrecarregam ainda mais os sistemas de água. Os cursos dos rios às vezes são desviados, florestas desmatadas e cursos d’água contaminados com produtos químicos, reduzindo a quantidade de água doce segura disponível para consumo, pesca, agricultura, transporte e ecossistemas.
Cientistas alertam que, se o desmatamento e a degradação dos ecossistemas continuarem, os fluxos de rios e os padrões de chuva podem se tornar progressivamente menos previsíveis, ameaçando a agricultura e o abastecimento de água urbana.
O Instituto das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH) descreveesse desafio emergente como “falência de água”, uma situação em que a água doce é consumida mais rapidamente do que a natureza pode reabastecê-la.
Especialistas alertam que o acesso desigual à água pode aprofundar a desigualdade social, impulsionar a migração e aumentar o risco de conflitos em regiões vulneráveis.
Política
Apesar das crescentes evidências científicas, a escassez de água ainda é amplamente percebida como um problema distante ou regional em um país historicamente definido pela abundância.
Ao mesmo tempo, as decisões políticas estão remodelando os próprios rios. Assinado pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, em agosto de 2025, o Decreto12.600/2025 adicionou os rios Tapajós e Tocantins (estado do Pará), bem como o rio Madeira (estado do Amazonas), ao gasoduto de privatização do Brasil para expandir o transporte marítimo ao longo do Arco Norte.
Hidrólogos e comunidades ribeirinhasalertamque dragar leitos de rios e remover rochas para manter essas rotas abertas para navios cargueiros maiores pode interromper o movimento de sedimentos e os padrões sazonais de enchentes.
Em uma bacia já sobrecarregada por secas crescentes, essas mudanças podem enfraquecer ainda mais a segurança hídrica dos ecossistemas e das pessoas quedependem deles.
Getirana destacou que a emergente crise hídrica do Brasil está enraizada em práticas políticas e culturais de longa data: “Muitas das decisões políticas e econômicas do Brasil se basearam na ideia de que é um país rico em água.
“Decisões políticas ruins que resultaram em impactos negativos no meio ambiente e na disponibilidade de água não têm relação com partidos ou ideologias. É a cultura do país. Isso vem acontecendo há décadas, talvez séculos, independentemente de quem esteja no poder. A má gestão da água está enraizada na cultura brasileira.
“Uma mudança política precisa, primeiro, de uma mudança de mentalidade na população brasileira. Talvez uma forma de mudar essa mentalidade seja demonstrando como a má gestão está impactando seus meios de subsistência e finanças.”
Gatti também alertou que, no Brasil, a pesquisa científica é frequentemente negligenciada no desenvolvimento de políticas: “As evidências científicas não estão chegando aos tomadores de decisão. Promessas de desmatamento zero até 2030 correm o risco de chegar tarde demais porque partes da Amazônia já podem estar se aproximando de pontos de inflexão ecológica.
“Embora o Brasil tenha passado por mudanças políticas na liderança, políticas estruturais de uso da terra que impulsionam o desmatamento permaneceram em grande parte inalteradas.”
Recuperação
Apesar da crescente preocupação, alguns cientistas enfatizam que a recuperação ainda é possível.
Gatti explicou que várias medidas podem fazer uma diferença considerável na segurança hídrica do Brasil: “Zero desmatamento em todo o país até 2027, não apenas na Amazônia, é essencial para estabilizar os sistemas de chuva e água.
“Reduzir o tamanho do rebanho de gado, estabelecer limites para a agricultura em monocultura em grande escala e exigir restauração florestal em paisagens agrícolas ajudaria a diminuir a pressão ambiental e a instabilidade hídrica.
“Expandir os sistemas agroflorestais em grande escala poderia ajudar a restaurar o equilíbrio ecológico enquanto mantém a produtividade agrícola.”
Getirana argumentou que reformar a governança hídrica deveria ser o primeiro passo para restaurar a estabilidade hídrica do Brasil: “Acredito que reformar a governança hídrica seria a base para outras medidas, como restaurar terras degradadas e enfrentar a mitigação climática. Além disso, políticas que previnam a poluição da água podem ter impactos quase imediatos.”
Alguns pesquisadores estão examinando se o reconhecimento dos rios como seres vivos poderia proporcionar uma proteção ambiental mais forte. Um projeto liderado pela Universidade de Leeds estáexplorandocomo tais estruturas legais podem ajudar a prevenir a poluição, o desmatamento e a superexploração industrial.
Para as comunidades ao longo do Rio Negro e por todo o interior do Brasil, a crise já é profundamente pessoal. Os rios são menos previsíveis, os padrões de chuva estão mudando e a qualidade da água está em declínio. Suas experiências diárias refletem uma realidade mais ampla: o futuro hídrico do Brasil depende da sobrevivência dos ecossistemas que o sustentam.
Proteger as florestas brasileiras pode, em última análise, determinar não apenas o futuro ambiental do país, mas também a estabilidade dos sistemas hídricos dos quais milhões de pessoas dependem diariamente.
Esta Autora
Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.
Cinco países responsáveis por 75% da oferta mundial de café registram uma média de 57 dias extras de calor por ano, o que prejudica a produção da cultura
Grãos de café danificados em San Tecla, El Salvador. As plantas, especialmente a variedade arábica, sofrem com temperaturas acima de 30°C. Fotografia: AFP/Getty Images
Por Damien Gayle para “The Guardian”
Na Etiópia , berço do café, mais de 4 milhões de famílias dependem dele como principal fonte de renda. O café contribui com quase um terço das receitas de exportação do país, mas não se sabe por quanto tempo isso continuará.
“Os cafeicultores da Etiópia já estão sentindo o impacto do calor extremo”, disse Dejene Dadi, gerente geral da União de Cooperativas de Cafeicultores de Oromia (OCFCU), uma cooperativa de pequenos produtores.
Uma análise sugeriu que os países onde os grãos de café são cultivados estão se tornando quentes demais para o cultivo devido às mudanças climáticas.
Os cinco maiores países produtores de café, responsáveis por 75% da oferta mundial, sofreram, em média, 57 dias adicionais de calor prejudicial à cultura do café por ano devido à crise climática, segundo dados da Climate Central, organização que pesquisa e divulga informações sobre a crise.
Dias de calor prejudicial ao café adicionados pela crise climática Número anual de dias acima de 30°C, cinco maiores produtores de café, média de 2021-2025
Os grãos de café são provenientes principalmente de uma área conhecida como “cinturão do café”, entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio, e precisam de condições específicas de temperatura e pluviosidade para prosperar.
As plantas, especialmente a variedade arábica, a mais apreciada, têm dificuldades em temperaturas acima de 30°C.
Segundo a indústria, são consumidas cerca de 2 bilhões de xícaras de café por dia. Mas essa indústria está sob pressão.De acordo com o Banco Mundial, os preços dos grãos de café arábica e robusta quase dobraram entre 2023 e 2025. Em fevereiro de 2025, os preços do café atingiram o valor mais alto de todos os tempos .
A análise da Climate Central contabilizou o número de dias com temperaturas acima de 30°C em regiões produtoras de café entre 2021 e 2025, e comparou esse número com o que teria ocorrido em um mundo sem poluição de carbono.
O país produtor de café mais afetado foi El Salvador , que, segundo os cálculos, teve 99 dias adicionais com calor prejudicial à cultura do café. O Brasil, maior produtor mundial de café, responsável por 37% da produção global, teve 70 dias adicionais com temperaturas acima de 30°C. A Etiópia, que responde por 6,4% da produção de café, teve 34 dias adicionais com temperaturas acima de 30°C.
Os grãos de café precisam de condições específicas de temperatura e chuva para prosperar. Fotografia: André Penner/AP
“O café arábica etíope é particularmente sensível à luz solar direta”, disse Dadi. “Sem sombra suficiente, os cafeeiros produzem menos grãos e ficam mais vulneráveis a doenças.”
A cooperativa Oromia distribuiu fogões de cozinha com baixo consumo de energia aos seus membros para desencorajar o desmatamento nas áreas florestais que servem de abrigo natural para o cultivo de café.
Segundo ativistas, o financiamento climático necessário para uma adaptação significativa é insuficiente. Os pequenos agricultores produzem de 60% a 80% do café, masreceberam apenas 0,36%dos fundos necessários para se adaptarem aos impactos da crise climática em 2021, de acordo com um estudo do ano passado.
Sem ajuda, eles só podem fazer até certo ponto, disse Dadi. “Para garantir o abastecimento de café, os governos precisam agir em relação às mudanças climáticas.”
O indicador conhecido como “Produto Interno Bruto” foi desenvolvido na década de 1930 pelo economista russo-americano Simon Kuznets, em resposta à necessidade de medir a produção econômica durante a Grande Depressão. Já a ferramenta para calcular o PIB foi formalmente desenvolvida em 1937 e aprimorada na década de 40 por Richard Stone, ganhando destaque internacional após a conferência de Bretton Woods em 1944.
Na prática, o crescimento do valor do PIB se dá pelo avanço das formas predatórias de produção e reprodução do capitalismo. No entanto, governos nacionais tendem a festejar o crescimento do PIB e dar de ombros para a óbvia realidade que isso se dá, invariavelmente, às custas dos sistemas naturais da Terra e da exploração dos trabalhadores.
Mas há algo mais candente ainda em tempos de colapso climático: o aumento do PIB, ou a perseguição dele, está na raiz da crise climática. É que quanto mais crescimento se tem, mais destruição está ocorrendo e mais gases estufa estão sendo emitidos para aquecer ainda mais a atmosfera.
Economia solidária? Capitalismo verde? Essas são fórmulas nas quais não se abre mão do crescimento do PIB, ou seja, não alteram em nada o ritmo de destruição imposto pelas formas concretas pelas quais o capitalismo opera. Quando muito, essas variantes servem para dar um “greenwashing” no capitalismo, nada mais do que isso.
O fato inescapável é que só poderemos falar com um mínimo de credibilidade em lutar pelo controle do colapso climático que se avizinha se a noção de crescimento do PIB for a única aceita para se medir o grau de êxito de sociedades inteiras. Na prática, a única notícia que poderá ser considerada boa virá com a queda acentuada do PIB global. Qualquer coisa diferente disso, será inútil para se tatar do problema climático.
Caso recente em Bacabal deixou família intoxicada e roça destruída. Organizações apontam escalada da pulverização por drones sobre comunidades tradicionais no estado
Por Yuri Almeida para “Atual 7”
A Rama(Rede de Agroecologia do Maranhão) denunciou ao Ministério Público estadual e federal, ao CNDH (Conselho Nacional de Direitos Humanos) e à ONU (Organização das Nações Unidas) a contaminação por agrotóxicos de 141 comunidades no estado, identificadas somente em janeiro de 2026. O Atual7 teve acesso aos documentos que compõem o conjunto das denúncias.
Entre os casos documentados está o de Joacy Oliveira Marinho, agricultor familiar do povoado Pau D’Arco do Igapó, zona rural de Bacabal. Conforme a denúncia enviada ao procurador-geral de Justiça Danilo de Castro, no dia 22 de janeiro último, um drone teria partido da propriedade de Marilene Henrique Santana, vizinha do terreno da família, e pulverizado defensivo agrícola para além dos limites do próprio imóvel, atingindo os dois hectares onde Joacy, sua esposa Maria Lecy Martins dos Santos e a filha Ariele dos Santos Marinho de Mesquita cultivam o sustento da família.
Laudo técnico do engenheiro agrônomo Jerffson Leite Santos constatou fitotoxicidade severa, termo usado pelos especialistas quando confirmado o envenenamento das plantas por agrotóxicos, com amarelecimento de folhas, morte de tecidos vegetais, murcha, abortamento de flores e frutos e perda total de plantios. Os prejuízos diretos foram estimados em mais de R$ 33,5 mil.
Na denúncia, a Rama enquadra a conduta no artigo 54 da Lei nº 9.605/98, que classifica como crime causar poluição que resulte ou possa resultar em danos à saúde humana ou destruição significativa da flora, com pena de reclusão de um a cinco anos quando o lançamento de substância ocorre em desacordo com a legislação.
Em vídeo divulgado pela entidade nas redes sociais, Joacy relata que o veneno caiu sobre seu corpo enquanto trabalhava. “O veneno pegou em mim aqui, eu senti aquele mau cheiro do veneno e foi na hora que eu chamei minha filha: ‘tão jogando é veneno aqui’”, conta. Ele diz que passou dias com queimação nos braços.
Ainda na gravação, aos prantos, o trabalhador rural mostra plantas que cultivava havia uma década. “Eu cuido do quê? Há dez anos uma planta dessa. Dez anos. Aí vê uma coisa dessa que aconteceu. É um absurdo”, desabafa.
Maria Lecy, esposa de Joacy, aparece no registro mostrando as plantas destruídas e diz que a produção abastecia também a comunidade escolar local. “A gente entrega isso aqui pro colégio, [agora] a gente não tem o que entregar mais”, lamenta.
De acordo com a Rama, a pulverização atingiu ainda espécies nativas como palmeiras de coco babaçu e colocou em risco um igarapé próximo à propriedade.
Até a última quinta-feira (12), data da denúncia, nenhuma das três vítimas da contaminação por agrotóxicos havia recebido assistência médica ou acompanhamento toxicológico. O estado sequer dispõe de um Plano de Vigilância e Atenção à Saúde de Populações Expostas aos Agrotóxicos, segundo apontou o advogado Diogo Cabral, da Rama, em publicação nas redes sociais no sábado (14).
Bacabal já tem histórico de ocorrências graves envolvendo agrotóxicos. O balanço anual da Rama, publicado em janeiro de 2026, registra que dez comunidades do município foram atingidas por pulverização somente em 2025, entre elas Barreirinhas, Catucá, Fundamento e Piratininga. Em novembro de 2022, Cabral denunciou a morte de milhares de peixes no povoado Alto Bonito, no mesmo município, após agrotóxico lançado por um fazendeiro atingir um rio.
A Constituição Federal, no artigo 225, assegura a todos o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e impõe ao poder público o dever de defendê-lo. A Lei nº 11.326/2006, que estabelece as diretrizes da Política Nacional da Agricultura Familiar, garante proteção aos agricultores contra práticas que comprometam sua atividade produtiva. No plano internacional, o direito à alimentação adequada, reconhecido no Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, do qual o Brasil é parte, está diretamente ameaçado quando uma família perde a totalidade da sua produção por contaminação química.
O caso de Pau D’Arco não é isolado. Na denúncia enviada à ONU em 5 de fevereiro, a Rama detalha o perfil das 141 comunidades maranhenses atingidas no mês passado pela pulverização de agrotóxicos. Segundo a organização, 120 são comunidades tradicionais e povoados, o que representa 85,1% do total. O monitoramento também identificou sete aldeias da Terra Indígena Bacurizinho sob o que a rede descreve como pressão química constante, além de cinco territórios quilombolas e nove assentamentos de reforma agrária. Os municípios de Brejo e Milagres do Maranhão concentram 41 comunidades afetadas. São Benedito do Rio Preto registra 27. Em Anapurus, a Rama aponta contaminação no nascimento do rio Preguiça.
O documento pede à ONU um chamamento urgente ao Estado brasileiro, visita oficial para ouvir vítimas e suspensão imediata da pulverização aérea e por drones nas cercanias de territórios protegidos. A Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), ratificada pelo Brasil, obriga o Estado a proteger a integridade territorial e ambiental de povos indígenas e tribais.
Em 2024, levantamento da Rama, Fetaema (Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão) e Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia da Universidade Federal do Maranhão (LEPENG/UFMA) já havia registrado 228 comunidades contaminadas por pesticidas em 35 municípios do estado, com 94% dos casos atribuídos a drones,segundo a Repórter Brasil. Em 2025,o balanço consolidado da Ramaaponta 110 comunidades atingidas em 29 municípios. A rede interpreta a queda como resultado de subnotificação agravada por intimidação e pelo uso de “drones fantasmas”, equipamentos sem registro que operam à noite ou nos fins de semana para dificultar flagrantes. As 141 comunidades identificadas somente em janeiro de 2026 superam, em um único mês, o total de todo o ano anterior.
Já a CPT (Comissão Pastoral da Terra),em dados publicados pelo Brasil de Fato, registrou que, apenas no primeiro semestre de 2024 de um total de 182 casos de contaminação por agrotóxico em todo o Brasil, 156 ocorreram no Maranhão, o que representa quase dez vezes mais que no mesmo período do ano anterior.
Os registros de drones para pulverização na Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), responsável por regular e fiscalizar a aviação civil no país, inclusive a operação de aeronaves não tripuladas, saltaram de 674 para mais de 7,3 mil no país entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025. No Maranhão, foram de 1 para 104, de acordo com levantamento da DW.
O próprio MPF reconhece que o sistema de fiscalização não funciona. Em novembro de 2025, o procurador da República Alexandre Silva Soares constatou que as fiscalizações isoladas ou tardias dos órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental e agropecuária no estado vinham produzindo laudos “inconclusivos” porque, entre a denúncia e a chegada das equipes, as provas se dissipavam.
Como forma de enfrentar o problema, recomendou o estabelecimento de uma operação conjunta de fiscalização para o período entre dezembro de 2025 e março de 2026, quando a pulverização é mais intensa no estado. O documento foi enviado à Superintendência Federal de Agricultura do Mapa, à Sema (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais) e a Aged (Agência Estadual de Defesa Agropecuária), autarquia vinculada à Sagrima (Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Pesca).
A competência para essa fiscalização é compartilhada entre União e estado, nos termos da Lei nº 14.785/2024, cabendo ao Mapa a aviação agrícola, à Sema os impactos ambientais e à Aged a regularidade dos produtos e receituários. Os órgãos tinham 30 dias para responder se acatariam a recomendação. O caso de Pau D’Arco ocorreu em 22 de janeiro, em pleno período crítico.
Mapa produzido pela Rama, Fetaema e Lepeng/UFMA mostra os 110 territórios atingidos por pulverização de agrotóxicos no Maranhão em 2025Reprodução/Rama
Em outubro do ano passado,a Justiça Federal no Maranhão reafirmou a legitimidade das proibições municipais à pulverização aérea. A 6ª Vara Federal indeferiu pedido da Faema (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Maranhão) e do Sindag (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola), que tentavam suspender a recomendação conjunta do MPF e do MP-MA sobre o tema. O juiz Jorge Ferraz de Oliveira Junior reconheceu a autonomia dos municípios para legislar sobre saúde pública e meio ambiente, com base nos artigos 23 e 24 da Constituição e na ADI 6137 do STF (Supremo Tribunal Federal). A decisão fortalece as dez leis municipais que já proíbem a pulverização aérea no Maranhão, aprovadas desde o lançamento da campanha Chega de Agrotóxicos, articulada pela Rama em 2023.
Entre os documentos aos quais o Atual7 teve acesso na denúncia à ONU está também uma análise técnica que dimensiona o problema por outro ângulo. Segundo o Parecer Técnico nº 01/2025, da professora Sônia Hess, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), 228 dos 429 ingredientes ativos de agrotóxicos autorizados no Brasil (53,1%) não possuem autorização na União Europeia, banidos por riscos como câncer, desregulação endócrina, neurotoxicidade e danos reprodutivos.
Vários desses ingredientes constam na lista de produtos cadastrados pela Aged no Maranhão, incluindo dezenas de formulações à base de 2,4-D, herbicida associado a forte deriva, contaminação de águas e doenças graves; e substâncias como atrazina, clorpirifós e neonicotinoides. Em 2025, o Brasil bateu novo recorde ao liberar 912 agrotóxicos, aumento de 37% em relação ao ano anterior, segundo o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária). Uma nota técnica conjunta do Ministério da Saúde registra mais de 63 mil notificações de intoxicação por agrotóxicos nos últimos cinco anos e alerta que a deriva da pulverização aérea pode alcançar até 32 quilômetros da área-alvo.
Segundo Cabral, que representou a Rama em audiência na ONU em Genebra em setembro de 2025, o Maranhão registrou aumento de 191% no consumo de agrotóxicos e é o estado com o maior número de comunidades contaminadas do país. O avanço do monocultivo de soja e milho sobre áreas de Cerrado e transição amazônica é o motor dessa escalada, pressionando territórios historicamente ocupados por comunidades tradicionais. Grande parte dessas territórios está na Amazônia Legal e no Matopiba, a região de expansão agrícola que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Na denúncia ao Ministério Público, a Rama pede, entre outras providências, a instauração de inquérito civil e de ação penal sobre o caso de Bacabal, audiência pública sobre os impactos da pulverização aérea em comunidades de agricultores familiares e atendimento médico especializado para os atingidos. Na denúncia à ONU, por sua vez, pede que o relator especial sobre substâncias tóxicas e direitos humanos, Marcos Orellana, inste o Estado brasileiro a suspender a pulverização nas proximidades de territórios indígenas, quilombolas e de agricultura familiar.
O Atual7 enviou e-mail com pedido de posicionamento à Sema, à Aged, à Superintendência Federal de Agricultura no Maranhão e à Prefeitura de Bacabal sobre os fatos relatados na denúncia da Rama, e aguarda retorno. Não foi possível localizar contato da proprietária do imóvel de onde, segundo a denúncia, teria partido o drone. O espaço permanece aberto para manifestações.
Levantamento global analisou impacto de onda de calor marinha entre 2014 e 2017 em mais de 15 mil amostragens em todos os oceanos
No Brasil, o terceiro evento global (2014- 2017) teve impactos menores, mas deixou os recifes mais vulneráveis a episódios posteriores
Um levantamento global sobre o terceiro evento de branqueamento em massa de corais, ocorrido entre 2014 e 2017, revela que 80% dos recifes do planeta apresentaram branqueamento moderado ou mais severo, e que 35% sofreram mortalidade também moderada ou elevada.
O estudo analisou mais de 15 mil levantamentos de recifes ao redor do mundo e foipublicado na revista Nature Communications na terça (10). Com abrangência geográfica inédita, a pesquisa envolve quase 200 coautores de 143 instituições e 41 países, incluindo cientistas brasileiros das universidades federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Bahia (UFBA) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O branqueamento ocorre quando o aumento da temperatura do oceano rompe a associação entre os corais e as microalgas que vivem em seus tecidos e fornecem energia para sua sobrevivência. Sem essas algas, os corais perdem a coloração, reduzem crescimento e reprodução e, em casos mais intensos ou prolongados, podem morrer.
Para estimar a extensão dos danos, a equipe internacional combinou dados de satélite sobre temperatura da superfície do mar, produzidos pelo sistema Coral Reef Watch, com observações diretas em campo e levantamentos aéreos realizados em dezenas de países. A calibração entre estresse térmico e danos observados permitiu extrapolar os impactos também para áreas não amostradas diretamente, chegando a uma estimativa de que mais da metade dos recifes do mundo sofreu branqueamento significativo.
Os resultados mostram que o impacto desse terceiro evento global foi o mais extenso já documentado até então, superando episódios anteriores. Além das perdas ecológicas, a degradação dos recifes ameaça serviços ecossistêmicos essenciais, como pesca, turismo, proteção costeira e segurança alimentar, com reflexos diretos em economias locais e regionais.
No caso do Brasil, o terceiro evento global, entre 2014 e 2017, teve impactos relativamente menores, mas deixou os recifes mais vulneráveis a episódios posteriores, explica Guilherme Longo, pesquisador da UFRN e um dos autores brasileiros do estudo. Ele observa que em 2019 e 2020 houve um branqueamento forte no país, em decorrência de uma das mais intensas ondas de calor marinhas documentadas no Brasil, mas com poucos registros em outros lugares do mundo devido à pandemia, e que abriu caminho para perdas maiores no quarto branqueamento em massa, ocorrido em 2024.
“Os branqueamentos sucessivos de 2014-2017, seguido do episódio de 2020 foram determinantes para a mortalidade ainda maior observada no quarto branqueamento, em 2024, com perdas de até 80%. Os corais ficaram muito vulneráveis e não tiveram tempo de se recuperar. Para algumas espécies isso está significando extinção local”, aponta Longo. Segundo o pesquisador, o diferencial do estudo agora publicado é mostrar, em escala global e comparativa sem precedentes, como esses impactos se acumulam ao longo do tempo e ajudam a explicar a gravidade documentada nos eventos mais recentes.
Uma maior presença de mulheres cientistas nem sempre se traduz em maior gualdade. Muitas enfrentam redes de poder abusivas que dificultam ou encerram suas carreiras. Crédito da imagem: Concytec Peru. Imagem em domínio público.
Por Aleida Rueda para “SciDev”
[CIDADE DO MÉXICO, SciDev.Net ] Apesar de haver mais mulheres em organizações científicas em comparação com 10 anos atrás, ainda persistem redes de poder que contribuem para a discriminação e para a persistente falta de participação em cargos de liderança, segundo um novo relatório internacional divulgado no último dia 11 de fevereiro, Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência.
Publicado pelo Conselho Internacional de Ciência ( ISC ), pela Associação InterAcademia e pelo Comitê Permanente sobre Igualdade de Gênero na Ciência ( SCGES ), o relatório analisa dados de 136 organizações científicas em todo o mundo e 600 entrevistas com cientistas.
Segundo suas descobertas, em 2015 as mulheres representavam 12% das academias nacionais de ciências, enquanto em 2025 esse número subiu para apenas 19%. Apenas uma em cada cinco era presidida por uma mulher, e quase metade não tinha vice-presidentes mulheres, demonstrando que a presença feminina não se traduz necessariamente em maior igualdade.
As organizações não têm restrições explícitas à participação das mulheres; pelo contrário, declaram-se abertas e com procedimentos de seleção baseados no mérito acadêmico; no entanto, o relatório indica que persistem processos e redes de poder informais que determinam quem é um candidato legítimo e quem não é.
Percentagem de mulheres entre os membros das academias nacionais de ciências nos anos de 2015, 2020 e 2025. Fonte: Conselho Internacional de Ciência, Parceria Interacadêmica e Comitê Permanente para a Igualdade de Gênero na Ciência (fevereiro de 2026). Rumo à igualdade de gênero nas organizações científicas: avaliação e recomendações. DOI: 10.24948/2026.03
Além disso, o relatório afirma que “as mulheres têm 2,5 vezes mais probabilidade do que os homens de relatar experiências de discriminação ou assédio em organizações científicas e demonstram menos confiança nos mecanismos organizacionais para lidar com condutas impróprias”.
Da mesma forma, um estudorecente baseado em entrevistas com mais de 100 cientistas mulheres do México, Argentina, Colômbia e Peru confirma a existência de redes de poder em instituições científicas que apoiam e legitimam comportamentos como assédio sexual, assédio psicológico, exclusão institucional, apropriação do trabalho alheio e punição da maternidade.
“A violência vai além de um ato interpessoal: o comentário misógino do professor ou a decisão de reduzir as horas de aula de um colega. Esses atos de violência são possíveis porque existem redes de abuso de poder no meio acadêmico.”
Carolina Espinosa Luna, pesquisadora do Centro Regional de Pesquisa Multidisciplinar da Universidade Nacional Autônoma do México
A autora do estudo, Carolina Espinosa Luna, do Centro Regional de Pesquisa Multidisciplinar da Universidade Nacional Autônoma do México, define essas formas de violência como “economias abusivas de legitimidade”: relações de troca desiguais — materiais, simbólicas ou afetivas — inseridas em redes de poder dentro de instituições acadêmicas e socialmente validadas.
“A violência vai além de um ato interpessoal: um comentário misógino de um professor ou a decisão de reduzir as horas de aula de um colega. Esses atos de violência são possíveis porque existem redes de abuso de poder na academia”, disse Espinosa à SciDev.Net .
Segundo a pesquisadora, o poder dos chefes de laboratório, orientadores de teses, editores de periódicos ou cientistas premiados é sustentado por administradores e colegas. “Essas relações de poder não servem apenas paragerar conhecimentoou treinar pessoal, mas também para proteger os perpetradores”, acrescenta ela.
Embora as instituições possuam protocolos para prevenir a violência de gênero , Espinosa constatou que as denúncias das mulheres não têm consequências para os agressores, pois é mais custoso para a instituição desmantelar as redes de poder do que defender as vítimas.
O peso do silêncio
Para a antropóloga Menara Guizardi, pesquisadora associada do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica e da Universidade Nacional de San Martín, na Argentina, que lidera um projetoexplorando as desigualdades entre mulheres cientistas sociais na América Latina, outro fator que legitima situações de discriminação é o silêncio da comunidade e das vítimas.
“Em nosso projeto, encontramos dezenas de mulheres se culpando. E não, não é um problema individual, é um problema social”, diz ela.
Isso inclui violência simbólica. “Por que os médicos homens são chamados pelo sobrenome e as médicas pelo primeiro nome?”, questiona María Loreto Mora Olate, pesquisadora de pós-doutorado chilena na Universidade do Chile. “Podem parecer detalhes insignificantes, mas tornam nossos méritos acadêmicos invisíveis”, argumenta.
“Quando eu falava, todos olhavam para seus celulares como se minha palavra não tivesse importância”, recorda a antropóloga Francisca Márquez, ex-reitora de uma universidade chilena, sobre suas reuniões com outros reitores homens.
Guizardi afirma que essas situações “aconteceram mais do que imaginamos, e se não falarmos sobre elas, nos isolamos, pensando: ‘Eu sou o louco, o problema é comigo’”. Portanto, ela ressalta, “precisamos quebrar o tabu em torno desses assuntos”.
Distribuição de cientistas em alguns países do mundo. Fonte: Conselho Internacional de Ciência, Parceria Interacadêmica e Comitê Permanente para a Igualdade de Gênero na Ciência (fevereiro de 2026). Rumo à igualdade de gênero nas organizações científicas: avaliação e recomendações. DOI: 10.24948/2026.03
Os dados são insuficientes
Existem dados que confirmam essas disparidades. Um estudo publicado na PLOS Biology analisou mais de 36 milhões de artigos biomédicos e de ciências da vida e descobriu que os artigos escritos por mulheres tiveram tempos de revisão entre 7,4% e 14,6% maiores do que os escritos por autores do sexo masculino.
Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências, argumenta que, embora existam alguns dados, as desigualdades na ciênciaprecisam ser estudadas em profundidade.
“Na América Latina, as mulheres representam cerca de 50% dos estudantes universitários. No entanto, à medida que progridem em suas carreiras, tornam-se minoria. Por quê? Não faz sentido”, questiona ela.
E isso precisa ser investigado porque a região sofre com a falta de dados sistemáticos. “Os dados são insuficientes, dispersos e não conseguimos avaliar se o problema está evoluindo ou não”, afirma Guizardi. E sem uma perspectiva sistêmica, é muito difícil desenvolver políticas públicas, acrescenta.
Os protocolos
Apenas 4 das 10 principais universidades da América Latina possuem protocolos contra assédio e violência de gênero. Em instituições acadêmicas e sindicatos científicos, entre 62% e 64%, respectivamente, possuem essas políticas, segundo o relatório do ISC.
Os especialistas enfatizam que, mesmo onde esses programas existem, o problema persiste devido à implementação, avaliação e financiamento insuficientes. O mesmo relatório indica que menos de 10% das instituições acadêmicas e apenas 30% das associações científicas possuem um orçamento específico para a igualdade de gênero.
Para Nader, a falta de transparência é crucial. “No Brasil, muitos colegas denunciam todos os tipos de violência: assédio, assédio sexual ou abuso psicológico, mas não se sabe como essas investigações terminam. É preciso haver transparência sobre os motivos pelos quais uma pessoa é condenada ou absolvida.”
Espinosa é mais radical: “Enquanto as redes de poder não forem desmanteladas, enquanto houver impunidade para os agressores devido à posição que ocupam e enquanto as universidades priorizarem a estabilidade institucional em detrimento das vítimas, os protocolos permanecerão simbólicos.”
Mas para Guizardi há esperança: o Chile é o único país da região que transformou protocolos institucionais em política estatal por meio da Lei 21.369 , que obriga todas as instituições de ensino superior a prevenir e punir o assédio sexual e a discriminação de gênero.
O acadêmico reconhece que, embora sua eficácia esteja sendo avaliada, a cobertura formal está próxima de 100%.
“Precisamos promover esse tipo de lei nacional”, conclui Guizardi. “O Estado deveria exigir que as universidades mensurassem esses fenômenos para elaborar políticas públicas com diagnósticos confiáveis, quantitativos e qualitativos.”
Comunidade Grinalda do Ouro sofre com pacote da devastação imposto por invasores no município de Gilbués (PI), a 830 quilômetros de Teresina
Por Bruno Santiago para “Lemonde Diplomatique”
Já imaginou acordar pela manhã, em sua própria casa, onde você vive com sua família, com o barulho de tratores e árvores sendo derrubadas?
Ao correr para a janela, você percebe máquinas enormes destruindo a mata a poucos metros do seu quintal – o mesmo lugar em que você cresceu e que seus filhos e netos brincam. Aquela árvore que você conhece desde pequena ou pequeno, que abrigou ninhos de passarinhos e da qual você colheu frutos para saciar a fome tantas vezes, já não está mais lá. Foi derrubada por invasores que nunca pisaram naquele território onde sua família vive há gerações, desde o tempo dos bisavós.
Desde o início de fevereiro, a comunidade sofre com a ação ilegal de grileiros que estão desmatando a vegetação nativa do território com o uso de tratores de esteira para a produção agrícola e para a construção de piscinões de captação de água para irrigação. Parte das famílias acordou, na última quarta-feira (11/02), com o barulho de árvores sendo derrubadas e das máquinas operando a poucos metros de suas casas.
Crédito: Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí
“Já tem tempo que eles estão desmatando aqui dentro, muita árvore já foi derrubada, mas essa semana foi quase no quintal de casa. Eu tomei um susto com o barulho do trator e corri para ver o que era”, relata uma das moradoras da comunidade que prefere não se identificar por motivos de segurança.
Uma das lideranças da comunidade, que está gestante, tentou dialogar com os invasores para impedir a destruição, mas não obteve sucesso. “Disseram que só vão parar com uma liminar da justiça”, explica a moradora.
“Ele me disse que mandava nisso tudo, que se ele quisesse ele derrubava até a nossa roça e que o trator ia passar por cima se eu entrasse na frente”, conta a liderança comunitária, que explicou que esse tipo de intimidação faz parte do diálogo com os funcionários da Fazenda.
O empreendimento responsável pela ação é a Fazenda Ouro, de Pedro Lustosa do Amaral Hidasi. A empresa possui licença de operação concedida pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH) do Estado do Piauí para o desmatamento, produção agrícola e outorga para captação subterrânea de água.
Ilegalidade da ação
Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Coletivo de Comunidades Tradicionais do Cerrado no Piauí e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, entidades que acompanham o caso, no entanto, a existência da licença ambiental não afasta a ilegalidade da ação. As organizações afirmam que a invasão e o desmatamento ameaçam diretamente a vida de mais de vinte famílias que vivem tradicionalmente no território há gerações e que não foram consultadas ou sequer notificadas sobre a intervenção.
Emrequerimentoenviado para o Instituto de Terras do Piauí (Interpi) em outubro de 2025, as entidades afirmam que “as intervenções em curso vêm sendo realizadas com licenças concedidas pela SEMARH sem o preenchimento dos mais básicos requisitos legais, comprometendo gravemente a segurança jurídica, o ecossistema local e o modo de vida tradicional da comunidade”.
Segundo a argumentação jurídica apresentada pela comunidade e por entidades que acompanham o caso, a autorização ambiental não supre exigências previstas na legislação fundiária estadual. Para as organizações, ao autorizar o desmatamento em área ocupada secularmente e tradicionalmente por mais de vinte famílias, o Estado teria ignorado requisitos legais básicos, colocando em xeque a própria validade do procedimento e ampliando o risco de danos socioambientais irreversíveis.
“A Lei Estadual nº 7.294/2019 determina que a destinação de terras públicas deve priorizar a regularização de territórios tradicionais. O texto é explícito ao estabelecer que áreas públicas e devolutas ocupadas coletivamente por comunidades tradicionais devem ser destinadas a esses grupos e que, em caso de conflito entre comunidades locais e particulares, o Estado deve priorizar a regularização em favor das comunidades”, explica Mauricio Correia, pesquisador e advogado da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.
A mesma norma reconhece como povos e comunidades tradicionais aqueles que ocupam e utilizam seus territórios como condição de reprodução cultural, social e econômica – exatamente a situação descrita na Grinalda do Ouro. Ainda assim, segundo a denúncia, não houve mediação do conflito fundiário antes da liberação da atividade.
Segundo a assessoria jurídica da comunidade, a Fazenda Ouro apresentou a órgãos públicos uma documentação de registro de posse da área datada de cerca de sessenta anos. No entanto, esse documento não consta nos registros oficiais do patrimônio público, o que pode indicar que não haja comprovação de que tenha sido emitido por um órgão competente nem de que a área tenha sido regularmente destacada de terras públicas para uso privado – requisito fundamental para a validade jurídica de títulos fundiários no Brasil.
Essa ausência de origem pública nos registros suscita em uma contradição com a memória histórica da própria comunidade. A pessoa mais velha viva na Grinalda do Ouro tem mais de 70 anos, e tanto ela quanto seus pais nasceram e viveram naquele território desde sempre – muito antes, portanto, de qualquer suposto título datado de sessenta anos atrás. Esse desencontro entre a presença secular da comunidade e a suposta data de registro da área levanta dúvidas sobre a legitimidade do documento apresentado pela Fazenda.
“A Lei Complementar nº 244/2019 estabelece critérios objetivos para que o Estado reconheça domínio privado sobre imóveis rurais cuja cadeia dominial não comprove o destaque regular do patrimônio público para o privado. Entre as exigências estão a comprovação de boa-fé, a inexistência de disputa judicial e, de forma expressa, que o imóvel não se sobreponha a territórios tradicionais”, afirma Mauricio.
Em novembro de 2025, o próprio Interpi publicou despacho favorável à denúncia apresentada pela comunidade. No documento, a Diretoria de Povos e Comunidades Tradicionais reconhece que o processo tramitou sem a devida consideração da sobreposição com o território tradicional da Comunidade Grinalda do Ouro e opinou pela suspensão da Certidão de Regularidade Dominial emitida com base no Decreto nº 23.692/2025. “O despacho aponta que a certidão não levou em conta a área do território tradicional indicado em processo específico, comprometendo sua validade e exigindo reanálise imediata para registro formal da sobreposição existente”, ressalta o advogado.
Para Correia, a existência de sobreposição e conflito fundiário ativo tornaria incompatível o reconhecimento pleno do domínio particular e, consequentemente, fragilizaria qualquer autorização ou licença baseada nesse título.
Diante disso, as entidades defendem a intervenção imediata do Interpi para apurar a situação fundiária e evitar que a devastação avance sobre um território cuja regularização deveria, por lei, ser prioridade do próprio Estado.
Roubo das águas
Outra ameaça iminente provocada pelos invasores diz respeito à preservação dos rios, nascentes e cachoeiras presentes no território da comunidade e adjacências. Com piscinões sendo construídos às margens da BR 335, dentro do perímetro da comunidade, o objetivo da Fazenda Ouro é a captação de água para irrigação de sua produção agrícola.
Apesar das irregularidades legais e da fragilidade da situação fundiária do empreendimento, a SEMARH concedeu outorgas para perfuração de poço e captação em níveis subterrâneos e superficiais do curso de água. “O ponto de captação da água, de acordo com a lei, precisa estar dentro da propriedade do fazendeiro, não no território da comunidade, como está acontecendo”, destaca Maurício.
A captação afeta diretamente as bacias dos Rios Alto Parnaíba e Uruçuí Preto, ambas situadas no Cerrado, que cumprem importante função para a subsistência da comunidade Grinalda do Ouro e de tantos outros territórios de populações ribeirinhas e tradicionais da região, além de abastecer o sistema hídrico de municípios do sul do estado, chegando até Teresina.
Para Altamiran Ribeiro, agente da CPT no Piauí, a captação das águas em comunidades tradicionais é uma prática sistemática do agronegócio da região. “Já aconteceu isso na comunidade de Melancias, também em Gilbués, onde tentaram fechar o rio Uruçuí Preto com uma barragem, mas a comunidade se mobilizou e impediu a ação do empreendimento naquele período”.
“Grinalda do Ouro é conhecida por ser um paraíso natural, numa região de brejo, pois se encontra entres as nascentes dos rios Uruçuí Preto e Uruçuí Vermelho, além de estar muito próxima da nascente do Rio Parnaíba, que são fundamentais para a vida da comunidade, para o Piauí, e agora estão em risco”, conta o agente da Pastoral.
Crédito: Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí
Vidas envenenadas
Além do desmatamento, das intimidações e do roubo deliberado das águas do território tradicional, a comunidade sofre, há anos, com o uso abusivo de agrotóxicos nos monocultivos da região, especialmente a soja.
“A gente sabe que as águas de nossos brejos não estão mais puras, não podemos mais beber, como fazíamos antes. Tem gente que adoeceu, que passou mal, mas tem muitas famílias que não têm alternativa, que só têm aquela água contaminada para beber”, relata uma das moradoras da comunidade.
Com o avanço do desmatamento e a licença para a produção agrícola, a comunidade sabe que os monocultivos poderão ser produzidos a poucos metros de distância de suas casas, afetando ainda mais a saúde das famílias de Grinalda do Ouro. “Temos crianças, idosos, mulheres grávidas. Como vamos ficar se o veneno for despejado em cima de nossas cabeças?”, enfatiza a liderança comunitária.
Reivindicações
A SEMARH foi procurada pela reportagem para se posicionar a respeito das licenças e outorga expedidas, mas alegou que questões fundiárias são de responsabilidade do Interpi. Insistimos com o pedido de posicionamento por se tratar de licenças concedidas pela Secretaria e não por outro órgão, mas até o fechamento da reportagem não obtivemos retorno.
Em entrevista para a Rádio Jornal Teresina, o secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí, Feliphe Araújo, informou que o governo do estado irá deslocar equipes de fiscalização ao território da Comunidade Grinalda do Ouro para apurar as denúncias e verificar o cumprimento das condicionantes da licença concedida à Fazenda Ouro.
Enquanto aguardam a atuação dos órgãos estaduais, as famílias da comunidade e as entidades que acompanham o caso reivindicam a suspensão imediata e a anulação permanente das licenças concedidas para o desmatamento na área, além da revisão da situação fundiária e do reconhecimento formal da sobreposição com território tradicional.
Também cobram a intervenção do Interpi para garantir a regularização do território em favor da comunidade, a paralisação definitiva das atividades que impactam a área e o respeito ao direito à consulta prévia, livre e informada.
Para as famílias da comunidade, mais do que uma disputa jurídica, trata-se da defesa de suas vidas, de seu território, das águas e da própria permanência das famílias na terra onde vivem há gerações.
Até o momento da publicação deste texto as máquinas seguem trabalhando na comunidade, derrubando árvores, perfurando a terra e devastando vidas.
Bruno Santiago é pesquisador e coordenador de comunicação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.