1º de maio: dia de luta pelo fim da escala 6 x 1

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As inovações tecnológicas trouxeram um aumento da riqueza social, que não foi apropriado pela classe trabalhadora | Crédito: divulgação

A luta pelo fim da escala 6×1 nos provoca a defender o direito ao tempo

Por Geraldo Márcio Alves dos Santos, Charles Moreira Cunha e Sania Barcelos Reis 

1º de maio de 2026: qual bandeira de luta dignificaria essa data? Trazemos e defendemos o fim da expropriadora escala que impõe seis dias de trabalho e apenas um dia de “descanso”. A pauta atual e quase generalizada sobre a jornada de trabalho cresce em tamanho e qualidade, e traz um mote que unifica, fortalece e conscientiza à luta milhares de trabalhadoras e trabalhadores de diferentes setores da economia brasileira.

Houve um tempo em que o galo, em seu canto da alvorada, anunciava a hora de começar a trabalhar. Já o fim da jornada diária poderia ser anunciado pelo crepúsculo, por outra referência da natureza, pelo fim de uma determinada tarefa ou pela completa exaustão humana.

Thompson, em “Tempo, disciplina de trabalho e o capitalismo industrial”, fala em como a difusão e imposição do relógio mecânico, a partir da Revolução Industrial, desfazem de antigos hábitos sobre a jornada de trabalho. Essa extorsão do tempo foi mais cruel com as mulheres, uma vez que, em uma sociedade patriarcal, recai sobre elas o trabalho doméstico e o cuidado com os filhos, transformando o único dia de folga em trabalho invisível e não remunerado.

Nas últimas décadas, o trabalho humano e as inovações tecnológicas trouxeram um extraordinário aumento quantitativo da riqueza social. No entanto, por coerência do próprio sistema econômico, político e social, não há um justo acesso aos bens e serviços que resultam dessa riqueza e, tampouco, uma diminuição das horas extensivas para o descanso ou para a fruição da vida e, quando muito, apenas uma flexibilização dos intervalos dessa jornada, ou as duplas jornadas e, com efeito, o crescimento dos chamados “bicos”, “entregadores por aplicativos”, “diaristas”, etc.

Essa equação injusta ficou mais complexa e perversa com a resignificação dos espaços-tempo de trabalho e de exploração. Há uma regulação do trabalho que continua capturando as relações entre tempo de trabalho, agora mediadas pelas tecnologias digitais, especialmente uma que se tornou muito íntima e praticamente insuprimível entre nós: o telefone celular.

Marx, ao explicar a maquinaria, diz que essa subverte a ferramenta do artesão, enquanto extensão de seu próprio corpo, e passou a ditar o ritmo do trabalho. Por isso, é importante refletir: o telefone celular, essa tecnologia de comunicação, controle e minerador de dados, é uma ferramenta de extensão da vontade humana, ou já dita o ritmo do nosso trabalho e de nossas vidas?

Entretanto, se isso já está dado, e como parcela da sociedade ideologicamente reproduz, se a CLT está derrotada, se o mundo do trabalho é radicalmente novo, então, como diria Carlinhos Jardel: “qual será a razão de tanto barulho contra o fim da escala 6×1?”.

A luta pelo fim dessa escala despertou a centralidade do trabalho em nossas vidas e nos provoca a defender o direito ao tempo ou tempos da fruição pelo tamanho da riqueza social das vidas de toda a classe social trabalhadora. E, neles, os tempos e espaços das vidas confluem todos os sentidos do trabalho, quais sejam, melhorar todas as vidas humanas no presente e no futuro. Nesse sentido, essa é a melhor bandeira social dos últimos tempos no Brasil. Por uma vida digna, diversa, democrática e justa, que venha o fim da escala 6×1.

Geraldo Márcio Alves dos Santos, Charles Moreira Cunha e Sania Barcelos Reis são membros do Coletivo da Experiência do Núcleo de Estudos sobre Trabalho e Educação, da Faculdade de Educação (FaE) da UFMG.


Fonte: Brasil de Fato

Estudo alegava que o ChatGPT melhorava o processo de aprendizagem causou grande impacto. Agora, ele foi despublicado

O artigo de pesquisa recomendava a integração do ChatGPT no ensino e teve ampla circulação. Graças a dois pesquisadores noruegueses, ele foi despublicado

O aplicativo ChatGPT da OpenAI em exibição na App Store da Apple em um smartphone.

Segundo os críticos, o estudo não mediu realmente se o uso do ChatGPT ajudou os alunos a aprenderem mais, mas sim a qualidade do que eles produziram usando o ChatGPT. São duas coisas bem diferentes. Foto: Matt Rourke /AP / NTB

Por JorgenSvarstad para “Krono”

Em um artigo de pesquisa publicado na revista Humanities and Social Sciences Communications em maio passado , dois pesquisadores chineses afirmaram que o uso do ChatGPT tem um grande efeito positivo na aprendizagem dos alunos.

Tratava-se de uma meta-análise que revisou 51 quase-experimentos sobre inteligência artificial (IA) e ChatGPT.

“Para obter os melhores resultados, o ChatGPT deve ser integrado ativamente ao ensino, de preferência ao longo de várias semanas e com suporte dentro de uma estrutura pedagógica clara”, recomendaram os autores.

O artigo recebeu muita atenção e foi destaque em diversos veículos de comunicação noruegueses, como  Khrono ,  NRK   Aftenposten 

Segundo a Altmetric, o artigo foi lido mais de 470.000 vezes e citado mais de 250 vezes em outras pesquisas .

Dois pesquisadores da UIT criticaram 

Mas também foi alvo de críticas. Dois funcionários de universidades norueguesas, o pesquisador Magnus Ingebrigtsen e o professor sênior Marko Lukic, da UiT – Universidade Ártica da Noruega, foram os primeiros a criticá-la. 

Eles acompanharam o caso de perto, e suas críticas foram decisivas para a decisão da revista esta semana de retratar o artigo.

O aviso de retirada de obra da editora é relativamente enigmático. Ele afirma:

“O editor decidiu retratar este artigo devido a preocupações relacionadas a discrepâncias na meta-análise. Essas questões, em última análise, comprometem a confiança que o editor pode ter na validade da análise e nas conclusões dela derivadas.”

O texto afirma ainda que os autores não responderam aos questionamentos sobre a retratação.

A Khrono também tentou entrar em contato com os autores para obter comentários, mas não recebeu resposta.

Você acha que isso não mede os resultados da aprendizagem? 

Algumas semanas após a publicação do artigo no ano passado, Ingebrigtsen e Lukic escreveram em uma coluna na Khrono que “Não, esta meta-análise não mostra melhor aprendizado com o ChatGPT.”

Eles escreveram ainda que a meta-análise não mediu principalmente a aprendizagem, mas sim os “resultados da aprendizagem”, ou seja, a qualidade do código ou dos textos acadêmicos produzidos com a ajuda do ChatGPT. 

Magnus Ingebrigtsen (à esquerda) e Marko Lukic duvidaram da conclusão do estudo.  Universidade de Tecnologia

Além disso, apontaram diversos erros graves: números incorretos de participantes, tamanhos de efeito calculados incorretamente, uso acrítico de estudos originais fracos e casos em que variáveis ​​que não foram medidas nos estudos originais foram, no entanto, utilizadas na análise.

“Os erros são tão significativos que o artigo jamais deveria ter passado pela revisão por pares e justificam uma revisão completa, ou mesmo uma retratação”, escreveram eles. 

Os dois entraram em contato diretamente com os autores, que é o que as diretrizes da editora Springer Nature indicam ser a primeira coisa que os críticos devem fazer.

A resposta dos pesquisadores

Magnus Ingebrigtsen diz:

– Eles nos responderam imediatamente. Enviaram-nos bastante material. Entre outras coisas, um arquivo chamado data.xlsx, mas que na verdade não continha nenhum dado, apenas a bibliografia. Depois, enviaram-nos um gráfico com uma resolução tão ruim que mal dava para ler os valores. Em seguida, responderam a todos os nossos pontos e admitiram muitos dos erros, mas atribuíram-nos a erros de formatação ocorridos durante o processo de composição tipográfica.

Em seguida, os dois pesquisadores noruegueses enviaram à revista um artigo intitulado “Questões Emergentes”, que consiste em um comentário científico sobre o artigo. 

Lá, eles solicitaram formalmente a retratação do artigo devido a erros. Apontaram, entre outras coisas, que o estudo individual com maior peso na meta-análise já havia sido retratado antes da publicação do controverso estudo ChatGPT. 

O segundo estudo com maior peso não mediu o desempenho de aprendizagem, mas sim a autoconfiança e a aceitação da tecnologia.

Finalmente foi despublicado

O editor respondeu que iriam investigar o assunto. Passaram-se meses sem que nada acontecesse. 

Em abril, os pesquisadores noruegueses encaminharam o caso ao grupo de integridade científica da editora Springer Nature. Apenas cinco dias depois, receberam a notícia de que o artigo havia sido retratado. 

O editor também escreveu que foi o artigo “Assuntos Emergentes” que desencadeou a investigação.

– É fantástico que tenha sido despublicado , mas demorou muito tempo, diz Ingebrigtsen.

Grande impacto 

Ele acredita que muitos danos foram causados ​​nos dez meses desde a publicação do artigo.

O vídeo recebeu quase meio milhão de visualizações e várias centenas de citações científicas.

Segundo Ingebrigtsen, um projeto educacional financiado pela União Europeia utilizou o estudo como argumento de que a IA tem um grande impacto positivo na aprendizagem. 

Ingebrigtsen afirma que as empresas de tecnologia educacional (edtech) usam isso em seu marketing.

Pesquisadores da área da educação na Noruega já discutiram o assunto.

— E se você perguntar a qualquer modelo de linguagem, ChatGPT, Gemini ou Claude, se existem bons estudos que mostram que o ChatGPT proporciona um aprendizado melhor, eles citarão este. Portanto, uma consequência disso é que potencialmente muitas pessoas se referem a este estudo — afirma ele.

– Por que você insistiu tanto nisso?

— Esta é a minha área de especialização. Estou escrevendo uma tese de doutorado sobre como aprendemos melhor e com mais eficácia. Me irrita que descobertas imprecisas e pouco confiáveis ​​como essa influenciem decisões importantes sobre escolas e educação — afirma ele.

 Acredito que a IA pode ter efeitos positivos na aprendizagem, mas também efeitos negativos significativos. Tudo depende de como a utilizamos. A literatura atual é caracterizada por “exageros”, e muitos artigos são publicados sobre IA e educação. No entanto, muitos deles apresentam fragilidades metodológicas e, ainda assim, chegam a conclusões extremamente positivas.


Fonte: Krono

UENF em luta: O significado do 1º de Maio no Rio de Janeiro

O 1º de Maio, mais do que uma data comemorativa, permanece como um marco histórico de  luta e afirmação coletiva. No Brasil — e de forma particularmente aguda no estado do Rio de Janeiro — o dia de hoje ganha contornos ainda mais urgentes: não se trata apenas de celebrar o trabalho ou os trabalhadores, mas de defender as condições mínimas para que se possa trabalhar com dignidade.

A imagem que inspira este texto traduz com força essa realidade. O campus Leonel Brizola, visto de cima, deixa de ser apenas um espaço físico e passa a simbolizar um território em disputa. Ali, onde deveriam florescer ensino, pesquisa e extensão, também é marcado pela resistência. A universidade pública, gratuita e de qualidade não é um dado garantido — é uma construção permanente, sustentada pelo trabalho cotidiano de professores, servidores técnicos e estudantes. 

No Rio de Janeiro, essa luta assume um peso particular. Décadas de instabilidade fiscal, má gestão, escândalos de corrupção e políticas de austeridade corroeram as bases do serviço público. As universidades estaduais, como a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, tornaram-se alvos recorrentes de corrosão salarial, cortes orçamentários e desvalorização institucional. O resultado é um cenário em que produzir conhecimento, formar profissionais e manter projetos de impacto social exige não apenas competência, mas resistência.

É nesse contexto que o 1º de Maio se reinventa como dia de denúncia e mobilização. As palavras de ordem que ecoam — por recomposição salarial, pela adoção do novo PCV, por investimento, por respeito à educação — não são retóricas vazias. Elas expressam a necessidade concreta de recompor condições de trabalho e de existência. Falar em valorização docente é, em última instância, falar sobre o futuro da própria sociedade.

 Defender a universidade pública no Rio de Janeiro hoje é também enfrentar um ambiente mais amplo de precarização social, marcado pela violência cotidiana e pela erosão da confiança nas instituições políticas. Nesse cenário, as universidades estaduais (Uenf e Uerj) se mantém como um espaços capazes de produzir conhecimento crítico, formar cidadania e oferecer alternativas para o desenvolvimento social.

Por isso, o 1º de Maio, neste contexto, não pode ser reduzido a uma celebração vazia. Ele é, antes de tudo, um chamado  à organização, à solidariedade e à ação coletiva. Um lembrete de que direitos não são concessões, mas conquistas — e que, como tal, precisam ser defendidos continuamente.

Celebrar o Dia do Trabalhador, portanto, é reafirmar um compromisso: com a educação pública e gratuita de qualidade, com os trabalhadores da educação e com a construção de um futuro que não seja refém do atraso, da negligência e da desigualdade. É preciso reconhecer que, enquanto houver luta, haverá também a possibilidade de transformação.

A terceirização do pensamento: IA, ensino superior e o futuro da ciência

O uso descontrolado de IA ameaça a formação crítica de estudantes e o futuro da produção científica

Nos últimos dois anos, a inteligência artificial (IA) deixou de ser uma curiosidade tecnológica para se tornar presença constante no cotidiano universitário. Hoje, uma quantidade significativa de estudantes consegue gerar resumos, resolver exercícios, escrever relatórios, montar apresentações e até produzir artigos científicos completos em questão de minutos. À primeira vista, isso parece apenas mais uma revolução tecnológica inevitável. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que estamos diante de um problema muito mais profundo, e potencialmente devastador para a formação universitária, a ética acadêmica e o próprio futuro da ciência. O ponto central é simples: o uso descontrolado da IA está corroendo silenciosamente o próprio processo de formação universitária.

A universidade nunca teve como missão apenas entregar diplomas.  O papel histórico das universidades sempre foi formar profissionais capazes de pensar, analisar, argumentar, duvidar e tomar decisões em contextos complexos. Em outras palavras, formar autonomia intelectual. E isso não se constrói com respostas prontas, pois toda a experiência acumulada mostra que isso se constrói com esforço cognitivo, erro, tentativa, leitura difícil e escrita trabalhosa. É justamente esse processo que a IA começa a substituir, e rapidamente assimilada em nome da formação mais veloz de profissionais que estariam sendo ansiosamente esperados pelo mercado.

O problema é que disciplinas obrigatórias existem por uma razão. Elas definem o perfil profissional que a sociedade espera de um engenheiro, de um médico, de um advogado, de um cientista. Anatomia, fisiologia, farmacologia e epidemiologia não são obstáculos burocráticos na formação médica; são a base que sustenta decisões clínicas que podem salvar ou perder vidas. Quando um estudante terceiriza a resolução de exercícios, a escrita de relatórios ou a síntese de textos para uma IA, ele pode até entregar um trabalho perfeito, mas sem ter trilhado o caminho cognitivo necessário para, de fato, aprender.  O fato é que estamos criando, silenciosamente, a figura do profissional diplomado sem domínio real das competências fundamentais.

E aqui o risco deixa de ser educacional e passa a ser social. Imaginemos médicos excessivamente dependentes de sistemas automatizados para interpretar exames ou propor diagnósticos. Imagine engenheiros incapazes de avaliar criticamente um cálculo gerado por software. Imaginemos cientistas que nunca desenvolveram plenamente a capacidade de formular perguntas originais. Esse cenário não é ficção científica, pois ele está começando a ser construído agora, dentro das universidades em todo o mundo.

Um dos efeitos mais preocupantes desse processo é a terceirização do esforço cognitivo. Pensar exige treino constante. Leitura profunda exige prática. Escrever exige sofrimento intelectual. Quando a IA passa a realizar essas tarefas com rapidez e fluidez, muitos estudantes deixam simplesmente de exercitar essas habilidades. Aos poucos, a tolerância à complexidade diminui, a capacidade de concentração se reduz e a autonomia intelectual se fragiliza. A tecnologia criada para ampliar capacidades humanas começa, paradoxalmente, a atrofiá-las. 

O impacto ético também é gigantesco. A fraude acadêmica entrou em uma nova fase. Durante décadas, plagiar significava copiar textos existentes. Hoje, tornou-se possível produzir trabalhos inteiros sem dominar o conteúdo e com baixíssima probabilidade de detecção. As universidades estão enfrentando uma crise silenciosa: trabalhos deixaram de ser evidência confiável de aprendizagem. Se professores não conseguem distinguir autoria humana de produção automatizada, as notas deixam de refletir competência real e os diplomas passam a sinalizar muito menos do que deveriam. Isso ameaça a credibilidade institucional do ensino superior. Mas talvez o impacto mais grave esteja acontecendo na própria ciência. A escrita acadêmica sempre foi parte essencial da formação de pesquisadores. Dissertações e teses não são apenas produtos finais; são rituais de passagem intelectual, mas um momento em que o estudante aprende a formular problemas, estruturar argumentos, lidar com incertezas e construir pensamento original. Quando a IA entra como autora invisível, esse processo formativo se enfraquece. 

Já começamos a ver sinais de uma possível “industrialização” da escrita científica: revisões de literatura produzidas em massa, artigos inflacionados, textos plausíveis mas superficiais. Existe o risco real de uma poluição textual da ciência — mais artigos publicados, mas menos pensamento crítico por trás deles. Em um cenário extremo, poderemos ter IA escrevendo artigos e IA ajudando a revisá-los, enquanto a participação humana se torna cada vez mais periférica. A ciência perderia sua função mais importante: o escrutínio crítico humano. Mas tudo indica que este cenário extremo já está entre nós, representando uma grave ameaça para o futuro da ciência enquanto um empreendimento que deveria servir para melhorar a vida da maioria da Humanidade.

Diante desse quadro, a resposta não pode ser fingir que nada está acontecendo. Tampouco é realista imaginar a proibição total da IA. O que precisamos urgentemente é de regulação pedagógica séria.  Primeiro, é inevitável reformular os sistemas de avaliação. Provas presenciais, avaliações orais, defesas públicas e atividades realizadas em tempo real precisam voltar ao centro do processo educativo. Não como nostalgia do passado, mas como estratégia para garantir que o estudante realmente pense no que e sobre o que está fazendo. Na medicina, isso significa reforçar simulações clínicas presenciais e avaliações de raciocínio diagnóstico ao vivo. Segundo, o uso de IA precisa ser declarado de forma obrigatória em qualquer produção acadêmica. Transparência deve se tornar regra básica. Terceiro, universidades precisam ensinar IA de forma crítica. Não basta permitir o seu uso, pois é preciso formar usuários capazes de compreender limites, vieses e riscos epistemológicos dessas ferramentas. E, acima de tudo, precisamos reafirmar um princípio simples: aprender não é produzir textos; aprender é desenvolver pensamento crítico e autônomo.

A IA não é apenas mais uma ferramenta já que ela redefine o que significa estudar, pesquisar e produzir conhecimento. Se continuarmos ignorando os riscos do uso descontrolado da IA, poderemos formar uma geração altamente certificada, mas intelectualmente frágil , e uma ciência que se tornará cada vez mais volumosa, porém menos crítica e, consequentemente, avessa às reais necessidades que a atual conjuntura histórica de um planeta em colapso climático impõe.

Finalmente, há que se reconhecer que a IA não é apenas mais uma ferramenta tecnológica incorporada ao cotidiano universitário dado que ela redefine silenciosamente o próprio significado de estudar, pesquisar, ensinar e produzir conhecimento. Se continuarmos tratando seu uso irrestrito como um fenômeno neutro ou inevitável, corremos o risco de formar uma geração altamente certificada, porém intelectualmente frágil; uma ciência cada vez mais volumosa, mas progressivamente menos crítica; e universidades que preservam rituais formais de avaliação enquanto perdem sua função substantiva de formação. O que está em jogo não é apenas a integridade acadêmica ou a qualidade dos diplomas, mas a própria capacidade da sociedade humana de produzir profissionais capazes de lidar com problemas complexos, tomar decisões responsáveis e sustentar práticas científicas confiáveis. Em última instância, se trata de preservar a credibilidade social da universidade e o papel civilizatório da ciência. Desta forma, o verdadeiro desafio não é impedir a IA, algo impossível a estas alturas do campeonato, mas impedir que ela substitua aquilo que constitui a essência da educação superior: o desenvolvimento paciente, exigente e insubstituível de mentes autônomas, críticas, criativas e responsáveis. Sem essa reação por parte das universidades e da comunidade científica, o risco é que a automação intelectual avance mais rápido do que nossa capacidade coletiva de compreender suas consequências, deixando para o futuro o custo de uma formação que parece moderna, eficiente e produtiva, mas que poderá se revelar profundamente vazia e antissocial.

Análise de dados oficiais revela aumento expressivo no uso de glifosato no Reino Unido desde 1990

A tractor spraying fields. Credit Foto-up / Shutterstock.org

Por Sustainable Pulse 

Uma análise recente de dados oficiais do governo, realizada pela PAN UK, revela que a quantidade de glifosato aplicada às plantações no Reino Unido aumentou de 200 toneladas métricas por ano em 1990 para mais de 2.200 toneladas em 2024, um aumento de 1000%.

Observou-se um aumento significativo em uma ampla gama de culturas. Por exemplo, mais de 66 toneladas de glifosato foram aplicadas em batatas britânicas em 2024, um aumento em relação às 1,5 tonelada aplicadas em 1990. Durante o mesmo período, a área de terras agrícolas no Reino Unido tratadas com o herbicida tóxico aumentou dez vezes, chegando a mais de 2,6 milhões de hectares em 2024, dezesseis vezes o tamanho da Grande Londres. A grande maioria desses aumentos ocorreu no setor de culturas aráveis, com destaque para os cereais (trigo, cevada e milho).

Embora os dados fora do setor agrícola sejam muito mais fragmentados, o uso de glifosato por governos locais em espaços públicos, como parques, áreas de lazer e ruas, também parece ter crescido drasticamente. De acordo com estatísticas oficiais do governo do Reino Unido, os conselhos locais utilizaram aproximadamente 60 toneladas de produtos à base de glifosato em 2020. No  entanto, o  maior levantamento já realizado  sobre o uso de agrotóxicos por conselhos, publicado no ano passado, revelou que eles utilizaram pelo menos 354 toneladas de agrotóxicos em 2024, sendo que a grande maioria continha glifosato.

Esses aumentos expressivos serão minuciosamente analisados ​​ainda este ano, já que o governo do Reino Unido precisa decidir até meados de dezembro se renovará a aprovação do glifosato. Caso optem por conceder a licença máxima de 15 anos, é improvável que haja oportunidade de revisão da decisão até 2041.

“Estes números revelam que o vício em glifosato no Reino Unido saiu completamente do controle. O uso excessivo deste produto químico tóxico está causando uma série de problemas, e ainda assim continuamos a pulverizá-lo nos alimentos que consumimos e nos locais onde nossas crianças brincam. Sabemos que o glifosato está ligado a diversos tipos de câncer e outras doenças potencialmente fatais. Além disso, ele prejudica o meio ambiente, poluindo nossas águas e afetando a vida selvagem. O governo precisa urgentemente se comprometer a eliminar gradualmente – e, em última instância, proibir – o glifosato e apoiar os agricultores e as administrações locais na adoção de alternativas seguras e sustentáveis. Caso contrário, todos continuaremos a pagar o preço.” Nick Mole, Analista de Políticas, PAN UK

O glifosato – frequentemente conhecido por sua marca mais comum, Roundup – tem sido alvo de controvérsia há muitos anos devido ao crescente número de evidências que demonstram seu potencial para causar danos irreversíveis à saúde humana e ao meio ambiente. Nos EUA, foi objeto de uma série de processos judiciais que levaram o fabricante a pagar US$ 11 bilhões a pacientes com câncer que alegam que o herbicida causou linfoma não Hodgkin ou outros tipos de câncer relacionados.  O governo francês reconheceu a ligação entre a doença de Parkinson e o glifosato e tem pago indenizações a agricultores.

Também foi demonstrado que o produto químico tem impactos ambientais negativos de grande alcance, desde a contaminação da água até danos diretos e indiretos a uma variedade de animais selvagens, incluindo anfíbios ,  abelhas e outros polinizadores.

Devido ao uso excessivo, as ervas daninhas no Reino Unido estão se tornando resistentes ao glifosato. Os primeiros casos de resistência foram confirmados em 2025 e estão se tornando cada vez mais comuns.  A resistência já é um problema antigo nos EUA, onde o glifosato é usado em grandes quantidades.

Em 2023, a Uniao Europeia proibiu o uso de glifosato na dessecação pré-colheita , uma prática que consiste em pulverizar a plantação com produtos químicos pouco antes da colheita para secá-la.  No entanto, o Reino Unido continua permitindo o uso de glifosato como dessecante pré-colheita, apesar de frequentemente resultar em altos níveis de resíduos nos alimentos.

“A clara evidência do aumento do uso de glifosato nessa escala deveria servir de alerta. Isso mostra que temos dependido demais de um único produto químico, principalmente em nossos sistemas de cultivo. Precisamos reduzir o uso de glifosato, e poderíamos começar com seu uso como dessecante pré-colheita em culturas destinadas à cadeia de suprimentos alimentares. Também devemos evitar múltiplas aplicações no mesmo campo na mesma safra. Os agricultores precisam de alternativas práticas, bons conselhos e incentivos adequados do governo e da cadeia de suprimentos para reduzir o uso de pesticidas. E devemos evitar simplesmente pressionar os agricultores a adotarem outro produto ou sistemas de cultivo excessivos que levam a resultados ruins para a natureza e nossos solos”, concluiu Martin Lines, agricultor e CEO da Nature Friendly Farming Network.

O Reino Unido e a UE estão atualmente negociando um novo Acordo SPS, que provavelmente levará o Reino Unido a adotar a licença de dez anos concedida pela UE para o glifosato em 2023. Enquanto isso, o governo britânico deve  tomar sua própria decisão  sobre o glifosato até 15 de dezembro de 2026 e afirmou que lançará uma consulta pública de 60 dias em junho.


Fonte: Sustainable Pulse

Milhares de poços artesianos em São Paulo operam sob risco de contaminação tóxica, alerta estudo

Dois terços dos 14 mil poços privados existentes na Região Metropolitana não estão formalmente cadastrados e muitos foram perfurados em antigas zonas industriais em processo de reconversão imobiliária

Entre os principais contaminantes destacam-se o percloroetileno e o tricloroetileno, utilizados como desengraxantes industriais, na limpeza de peças metálicas (imagem: Wirestock/Magnific)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

Com cerca de 22 milhões de habitantes, a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) consome em média 61,6 metros cúbicos (ou 61.600 litros) de água por segundo. Embora quase todo o abastecimento público provenha de mananciais superficiais, estima-se que aproximadamente 18% do consumo total dependa de aquíferos, por meio de cerca de 14 mil poços privados. O aporte dos aquíferos é de aproximadamente 347 milhões de metros cúbicos por ano.

Mas dois terços desses poços não estão formalmente cadastrados. E muitos deles foram perfurados em antigas zonas industriais, hoje desindustrializadas e em processo de reconversão imobiliária. A contaminação dessas áreas por resíduos industriais, principalmente solventes clorados utilizados na limpeza de máquinas, constitui um risco para o consumo de águas subterrâneas, considerando-se a dificuldade de gerir esse passivo ambiental em escala compatível com a da demanda de recursos hídricos.

Esse é o principal alerta de artigo publicado na revista científica Environmental Earth Sciences. O trabalho, apoiado pela FAPESP e assinado por Daphne Silva Pino e colaboradores, examina o quadro brasileiro, com foco especial na RMSP. “Chamamos a atenção para os riscos potenciais associados ao uso de aquíferos em áreas industriais antigas ou em reurbanização, em um contexto de monitoramento ainda fragmentado”, diz Pino.

Ela é pós-doutoranda no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGC-USP). Seu supervisor, Reginaldo Antonio Bertolo, também assina o artigo.

Bertolo sintetiza a situação: “Para cada três poços que são construídos, dois são irregulares, no sentido de que o poder público não tem ciência da existência deles nem consegue avaliar se a água utilizada oferece risco ao usuário”. Segundo o pesquisador, clubes, condomínios, indústrias e hospitais figuram entre os principais consumidores do recurso subterrâneo.

Desengraxantes industriais

Entre os principais contaminantes, englobados na categoria “solventes clorados”, destacam-se o percloroetileno (CCl) e tricloroetileno (CHCl), utilizados como desengraxantes industriais. “Essas substâncias, bastante empregadas na limpeza de peças metálicas, são altamente tóxicas”, afirma Pino. Ela lembra que o percloroetileno também foi utilizado durante décadas em lavanderias para lavagem a seco e que a atual legislação brasileira ainda permite o uso, apesar de impor diversas restrições e exigências. “Diminuiu bastante o uso, mas esses solventes continuam presentes em ambientes industriais”, pontua.

Embora esses produtos sejam controlados no âmbito industrial, informações públicas sobre quem os utiliza e em que quantidades ainda são escassas. Além disso, há lacunas regulatórias sobre descarte e reciclagem desses solventes.

Do ponto de vista hidrogeológico, o risco não se resume à toxicidade. Bertolo observa que hidrocarbonetos vazados por postos de gasolina tendem a se degradar com maior rapidez. Já os solventes clorados apresentam comportamento mais persistente. “Quando a degradação acontece, formam-se compostos ‘filhos’ que podem ser ainda mais tóxicos do que o composto original”, afirma. Pino acrescenta que, se há poços bombeando em profundidade, isso cria um gradiente hidráulico descendente que facilita o aporte desses contaminantes para níveis mais profundos do aquífero.

Uma das contribuições centrais do estudo é o cruzamento cartográfico entre três camadas de informação: zonas industriais, áreas oficialmente contaminadas por solventes clorados e poços de abastecimento. A análise mostra que, em São Paulo, essas três dimensões frequentemente se sobrepõem.


Área do bairro da Mooca, uma das regiões desindustrializadas da cidade de São Paulo (imagem: Daphne S.Pino)

Pino descreve uma das figuras produzidas pelo estudo, que corresponde a uma área do bairro da Mooca, uma das regiões da cidade de São Paulo que passaram por importante processo de desindustrialização: “Os pontos azuis representam poços de abastecimento conhecidos; os vermelhos, áreas contaminadas; e os polígonos verdes indicam áreas onde não deveria haver captação. O que chama atenção é a proximidade e até mesmo a sobreposição entre poços registrados e áreas contaminadas. O problema torna-se ainda mais grave se considerarmos a predominância de poços irregulares, que, obviamente, não aparecem na figura”.

O que acontece na Mooca ocorre também em outras áreas desindustrializadas da cidade de São Paulo. O processo de desindustrialização, iniciado ainda no final dos anos 1970, consolidou-se a partir da década seguinte e acentuou-se cada vez mais desde então. Por causa dos custos urbanos elevados, muitas empresas transferiram suas fábricas para municípios da Região Metropolitana, para o interior paulista ou até mesmo para outros Estados.

O processo deixou atrás de si um rastro de galpões abandonados e subsolo contaminado. Quando não simplesmente arruinados, antigos distritos fabris passaram a abrigar atividades de serviços, comércio e empreendimentos imobiliários em territórios não preparados para essa reconfiguração econômico-social. Com base na legislação paulista, se existir uma área contaminada em um raio de 500 metros de um poço, o responsável deve apresentar relatórios de qualidade da água ao órgão ambiental. Ao aplicar esse critério aos mapas produzidos no estudo, os autores identificaram 17 aglomerações de áreas contaminadas e poços cujos raios se sobrepõem: em regiões como Jurubatuba, Jaguaré, Mooca e Vila Prudente, na capital; e Diadema, Mauá e Osasco, na RMSP.

“Muitas dessas áreas funcionam como fontes multiponto de contaminação, com plumas que se interceptam. E há poços profundos usados para ingestão humana dentro desses cinturões”, enfatiza Pino. O estudo aponta que a gestão de áreas contaminadas costuma ser conduzida no limite de cada propriedade, enquanto a água subterrânea ignora fronteiras imobiliárias. “Remove-se solo superficial para controlar o risco imediato, impedindo, por exemplo, que vapores tóxicos entrem em edificações. Mas grande parte da massa contaminante permanece em profundidade e continua sendo transportada pela água subterrânea”, descreve Bertolo.

Reabilitação lenta

Até 2020, apenas 18,6% dos locais contaminados por solventes clorados haviam sido classificados como “reabilitados para o uso declarado”. Essa categoria não implica na eliminação completa da massa contaminante, mas em sua redução a níveis considerados aceitáveis do ponto de vista de risco. Ao analisar o cadastro paulista, os pesquisadores identificaram 596 áreas com histórico de solventes clorados. Mais da metade ainda estava em fase de remediação, enquanto 26% permaneciam em investigação.

Bertolo afirma que a contaminação tende a se concentrar nos primeiros metros do aquífero. “Mas, quando se bombeia a 100 metros de profundidade, cria-se um gradiente descendente que faz com que a água contaminada da zona rasa migre lentamente para baixo”, explica. Ele ressalta que camadas geológicas menos permeáveis podem atuar como filtro natural, mas reconhece incertezas importantes sobre a eficácia desse mecanismo ao longo de décadas. A toxicidade dos solventes agrava o quadro. “O limite de potabilidade é da ordem de partes por bilhão”, destaca o pesquisador. “Uma quantidade mínima dissolvida já é suficiente para comprometer volumes enormes de água.”

Jurubatuba, na zona sul paulistana, aparece no artigo como a área mais estudada da RMSP. Ainda assim, três quartos dos sítios ali localizados carecem de informação detalhada nos cadastros ambientais. Metade corresponde a instalações industriais com histórico documentado de uso de solventes clorados. Bertolo vê no monitoramento da região um ensaio do que poderia ser feito em escala maior, alcançando outras manchas industriais, como partes do ABCD paulista, com atuação coordenada entre a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e a Agência de Águas do Estado de São Paulo (SP Águas).

“Hoje, o cenário exige uma ação estratégica, que ultrapasse o caso a caso e direcione a política pública para impedir o uso da água subterrânea em áreas mais amplas. Quando se olha o aquífero, delimitações geométricas rígidas em torno de um imóvel não fazem sentido. É preciso tratar essas regiões como sistemas hidrogeológicos integrados”, acrescenta Pino.

O artigo conclui com um chamado por bases de dados mais robustas, equipes técnicas multidisciplinares e diagnósticos regionais sistemáticos, capazes de dimensionar a extensão real do problema e orientar políticas de longo prazo.

Procurada pela Agência FAPESP, a SP Águas afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, em linha com iniciativas de analisar o território de forma mais ampla e integrada – principalmente relacionando o binômio “águas subterrâneas e áreas contaminadas”, promoveu novos estudos hidrogeológicos para a região de Jurubatuba, por meio da Fundação Agência de Bacia Hidrográfica do Alto Tietê. “O principal objetivo desse trabalho foi aperfeiçoar o modelo de gestão existente na região, propondo o aprimoramento da integração entre os órgãos gestores e ampliando o entendimento sobre o comportamento da água subterrânea e o transporte de contaminantes”, diz a nota. “Como resultado, além da indicação de áreas com maior ou menor restrição de uso das águas, o estudo sinalizou que o modelo de gestão existente deve estabelecer, entre outras medidas, maior integração entre as Políticas Estaduais de Recursos Hídricos e de Gerenciamento de Áreas Contaminadas, especialmente diante da relação de causa e efeito já mencionada no trabalho de Pino”, complementa.

Ainda segundo a SP Águas, nesse contexto, para o sucesso da aplicação do modelo de gestão das águas subterrâneas proposto em Jurubatuba, os órgãos gestores devem considerar, entre outras medidas, a possibilidade de unificação de seus bancos de dados; uma gestão adaptativa que consiga ser aprimorada à medida que resultados de monitoramentos e outros trabalhos técnicos sejam produzidos; e o estabelecimento de comunicação simplificada com a população, visando que a complexidade da região seja traduzida em orientações explicitas e acessíveis ao público.

Também procurada, a Cetesb não se manifestou até a publicação desta reportagem.

O artigo Overview of groundwater management at sites contaminated by chlorinated solvents in Brazil pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s12665-025-12727-x.


Fonte: Agência Fapesp

Entre oportunismo e ruptura: o centrão troca o governo Luiz Inácio Lula da Silva por uma aliança de confronto

A união entre o “centrão” e o bolsonarismo, em meio a derrotas do Executivo, sinaliza inflexões no padrão de governabilidade e projeta incertezas para o ciclo eleitoral de 2026

Os episódios recentes envolvendo o Senado Federal do Brasil e o Congresso Nacional do Brasil, particularmente no que se refere à rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à mobilização para a derrubada de vetos presidenciais ao chamado PL da Dosimetria oferecem um ponto de observação privilegiado para a análise das dinâmicas contemporâneas de governabilidade no Brasil. Mais do que eventos isolados, tais movimentos sugerem uma reconfiguração das coalizões legislativas, com implicações institucionais relevantes.

No centro dessa inflexão encontra-se o comportamento do chamado “centrão”, um agrupamento heterogêneo de partidos e lideranças cuja atuação historicamente se caracteriza pelo pragmatismo e pela adesão contingente ao Executivo. Durante o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, esse bloco foi incorporado à base governista mediante a distribuição de recursos políticos e administrativos. No entanto, a recente convergência entre setores do centrão e parlamentares associados ao bolsonarismo indica uma alteração qualitativa nesse padrão de alinhamento.

Essa aproximação não deve ser interpretada apenas como uma oscilação tática. Ela aponta para um deslocamento mais profundo na estrutura de incentivos que orienta o comportamento legislativo. Em contextos de presidencialismo de coalizão, como o brasileiro, a estabilidade institucional depende da capacidade do Executivo de coordenar maiorias por meio de barganhas previsíveis. Quando esse mecanismo se fragiliza, abre-se espaço para arranjos alternativos que podem prescindir — ou mesmo se contrapor — à liderança presidencial. 

A atuação de figuras como Davi Alcolumbre, nesse cenário, ilustra o fortalecimento de polos autônomos de poder no interior do Legislativo. A capacidade de influenciar ou mesmo bloquear decisões estratégicas do Executivo, como indicações ao STF, sugere uma redistribuição de poder que tensiona o equilíbrio entre os poderes. Ainda que formalmente prevista no desenho institucional, a rejeição de indicações presidenciais ao STF permanece um evento de baixa frequência histórica, o que amplifica seu significado político.

A convergência entre centrão e bolsonarismo, por sua vez, introduz um elemento adicional de complexidade. Trata-se da articulação entre um bloco tradicionalmente pragmático e uma corrente política marcada por forte componente ideológico e mobilização social. Essa combinação potencializa a capacidade de obstrução e redefine os termos da disputa legislativa, ao incorporar tanto recursos institucionais quanto capital político mobilizado fora do Congresso. As implicações desse rearranjo transcendem o plano legislativo imediato. Ao sinalizar dificuldades do Executivo em manter uma coalizão estável, esses movimentos afetam expectativas de atores políticos em diferentes níveis, incluindo governadores, prefeitos e candidatos em disputa nas eleições de outubro. A percepção de fragilidade governamental tende a incentivar estratégias de distanciamento ou alinhamento seletivo, enfraquecendo ainda mais a coesão da base aliada criada por Lula a partir da distribuição massiva de benesses. Do ponto de vista institucional, o risco que se delineia não é necessariamente o de uma ruptura abrupta, mas o de uma erosão incremental da governabilidade. A formação de maiorias ad hoc, desvinculadas de compromissos programáticos com o Executivo, pode levar a um padrão decisório mais volátil e menos previsível. Em situações-limite, esse tipo de dinâmica pode evoluir para impasses recorrentes entre os três poderes, configurando um ambiente de instabilidade institucional.

Finalmente, é importante situar esse processo no contexto mais amplo da polarização política brasileira, intensificada desde a tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. A aproximação entre centrão e bolsonarismo sugere que a clivagem ideológica não elimina, mas reconfigura, as lógicas pragmáticas de poder. O resultado é um arranjo híbrido, no qual interesses distributivos e agendas políticas mais radicalizadas passam a coexistir e, em certos momentos, a convergir. Nesse contexto, as eleições de outubro tendem a ser fortemente influenciadas não apenas por programas ou desempenho econômico, mas pela percepção de capacidade de governar. A reconfiguração em curso no Congresso, ao desafiar os mecanismos tradicionais de coordenação política, coloca em questão justamente esse atributo — com efeitos que podem se estender para além do ciclo eleitoral imediato.

FAPERJ em falha: atraso de bolsas expõe crise estrutural

Enquanto outros estados reajustam e pagam em dia, o Rio de Janeiro normaliza o atraso, a desigualdade e o silêncio institucional

A crise das bolsas da  Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) já não pode mais ser tratada como um problema administrativo pontual. O que está em curso é algo mais profundo: a desestruturação silenciosa da pós-graduação no estado do Rio de Janeiro. A combinação entre valores defasados, atrasos na implementação e ausência de previsibilidade transformou aquilo que deveria ser política de fomento em um mecanismo de precarização acadêmica.

O ponto de partida dessa crise é conhecido, mas raramente enfrentado com a devida franqueza: o valor das bolsas. Em nível nacional, as bolsas da CAPES passaram quase uma década congeladas até sofrerem um reajuste em 2023, quando o mestrado passou para cerca de R$ 2.100 e o doutorado para R$ 3.100. Ainda assim, mesmo após o reajuste, esses valores permanecem modestos diante do custo de vida — especialmente em cidades como a do Rio de Janeiro.

O problema é que, no caso fluminense, a situação é ainda mais grave. Outras fundações estaduais não apenas acompanham reajustes, mas os superam deliberadamente como estratégia de fortalecimento científico. A FAPESP, por exemplo, paga atualmente cerca de R$ 3.120 a R$ 3.300 para mestrado e até R$ 6.810 para doutorado . Já a fundação do Espírito Santo elevou suas bolsas a níveis superiores aos federais, com mestrado em torno de R$ 3.200 e doutorado em R$ 4.500, explicitamente com o objetivo de recompor perdas inflacionárias .

Ou seja: enquanto outros estados tratam a bolsa como instrumento estratégico de investimento em capital humano, o Rio de Janeiro a mantém como um valor corroído — e, pior, incerto.

Porque o problema não é apenas quanto se paga, mas se e quando se paga. Editais da própria FAPERJ seguem anunciando cronogramas relativamente organizados, com previsão de implementação de bolsas em janelas específicas ao longo do ano, como maio e setembro . No papel, há planejamento. Na prática, há um abismo entre o edital e a realidade vivida pelos estudantes. A implementação atrasa, o pagamento não chega, e o bolsista — que já recebe pouco — passa a não receber nada.

É nesse ponto que a crise assume sua face mais cruel. A pós-graduação brasileira, por definição, exige dedicação exclusiva. Sem bolsa, não há renda alternativa legítima. O estudante não está apenas com dificuldades: ele está estruturalmente impedido de cumprir aquilo que o sistema exige dele. A bolsa deixa de ser apoio e passa a ser um fator de instabilidade.

Na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), essa distorção se torna ainda mais visível. A coexistência de bolsas pagas por diferentes agências, e até com verbas descentralizadas da própria FAPERJ, escancara uma desigualdade interna difícil de justificar: enquanto alguns estudantes recebem regularmente, outros — vinculados à FAPERJ “padrão” — enfrentam atrasos indefinidos. Cria-se, assim, uma hierarquia informal de sobrevivência dentro da própria pós-graduação da universidade do “Terceiro Milênio”.

Mas talvez o elemento mais perturbador de toda essa crise seja o silêncio. A ausência de posicionamento firme por parte de reitorias, pró-reitorias e coordenações não é apenas omissão — é cumplicidade passiva com a precarização. Ao não denunciar publicamente os atrasos, ao não pressionar institucionalmente por soluções, as universidades contribuem para a normalização de uma situação que deveria ser tratada como colapso.

E isso tem efeitos concretos e mensuráveis. Atrasos de bolsas significam evasão. Significam estudantes abandonando projetos, interrompendo pesquisas ou migrando para outros estados — justamente aqueles que oferecem melhores condições. Significam perda de competitividade científica. Significam, em última instância, um processo de “fuga de cérebros” interno, silencioso e contínuo.

Há ainda um dano menos visível, mas igualmente grave: a erosão da confiança institucional. Quando editais são lançados, resultados divulgados e bolsas prometidas — mas não implementadas —, o sistema perde credibilidade. E ciência não se sustenta apenas com financiamento: ela depende de previsibilidade, confiança e compromisso.

O caso da FAPERJ evidencia uma contradição estrutural. De um lado, a fundação continua lançando editais e reafirmando seu compromisso com a formação científica . De outro, falha em garantir o básico: a materialização dessas promessas na vida concreta dos estudantes. Não se trata mais de um problema técnico. Trata-se de uma escolha política — explícita ou por omissão.

Se o atual cenário persistir, o Rio de Janeiro corre o risco de consolidar um modelo perverso: formar pesquisadores em um ambiente de instabilidade crônica, onde a excelência acadêmica convive com a insegurança material. Um modelo em que a produção científica sobrevive não por apoio institucional, mas apesar dele.

E ciência, como se sabe, não floresce no improviso. Ela exige estabilidade, compromisso e, acima de tudo, respeito por aqueles que a constroem diariamente.

Pesquisa em larga escala revela que milhares de anúncios fraudulentos oferecem autorias de artigos científicos em troca de dinheiro

Os resultados são “apenas a ponta do iceberg” do obscuro mercado de fábricas de papel.

Ilustração conceitual de papéis jorrando de uma máquina de chicletes.

SARA GIRONI CARNEVALE

Por Jeffrey Brainard para a “Science” 

Pesquisadores inescrupulosos podem comprar a posição de primeiro autor em um manuscrito que não escreveram por valores que variam de US$ 57 a US$ 5.600. E, pelo menos desde 2021, anúncios online públicos oferecem milhares de oportunidades para isso. Esses são alguns dos resultados alarmantes de uma investigação de grande escala sobre um obscuro mercado online, no qual empresas chamadas de fábricas de artigos científicos vendem autoria de relatórios acadêmicos — muitas vezes de má qualidade, quando não totalmente fabricados — contribuindo para a enxurrada de conteúdo de baixa qualidade que polui a literatura científica.

Os anúncios, em sites e no aplicativo de mensagens e redes sociais Telegram, eram de sete empresas em diferentes países, identificadas pelos autores do estudo como prováveis ​​fábricas de artigos científicos (paper mills). Submetido esta semana ao servidor de pré-publicações arXiv, o estudo fornece “tantas evidências de como as fábricas de papel operam, algo que muitas pessoas não têm acesso ou conhecimento”, afirma Leslie McIntosh, vice-presidente de integridade e segurança da pesquisa na empresa de ferramentas de publicação Digital Science, que não participou do estudo. “Sabemos que existe um problema, agora vamos fazer algo a respeito.”

Utilizando análise automatizada de texto, os pesquisadores identificaram 18.710 anúncios de empresas que os autores rastrearam até a Rússia, Ucrânia, Uzbequistão, Índia e outros países. Além de oferecerem autoria em artigos acadêmicos, outros produtos à venda incluíam autoria de livros didáticos, registros de patentes e prêmios profissionais. (A pequena equipe limitou sua investigação principalmente a anúncios em inglês e não incluiu fábricas de papel em outros países, como a China, onde outras investigações indicaram que a prática proliferou .) Cerca de 85% dos anúncios informavam os preços da autoria, com a posição de primeiro autor custando em média US$ 1.030.

Muitos anúncios forneciam poucos detalhes, mas prometiam que o artigo seria publicado em um periódico de alto nível, de acordo com métricas baseadas em citações, e quase todos garantiam que o periódico estaria listado nos índices bibliográficos Web of Science ou Scopus — limiares de qualidade que podem ser valiosos para o avanço profissional, afirma a autora principal, Reese Richardson, pesquisadora de reprodutibilidade da Universidade Northwestern. Alguns anúncios mencionavam periódicos específicos de grandes editoras. Títulos da Elsevier e do IEEE, por exemplo, foram citados em 112 e 101 anúncios, respectivamente.

Em um comunicado, a Elsevier classificou o preprint como “valioso” porque “lança mais luz sobre as operações das fábricas de artigos”. A empresa acrescenta: “Nossa avaliação inicial sugere que a maioria dos manuscritos destacados no preprint não parece ter sido publicada pela Elsevier, embora uma investigação mais aprofundada esteja em andamento”, e observa que “já retirou diversos artigos devido a alterações suspeitas de autoria identificadas antes de ser alertada sobre as preocupações específicas levantadas, e outros estão sob análise”.

Em uma declaração separada, o IEEE afirmou: “Quando tomamos conhecimento de possíveis problemas com o conteúdo, dedicamos tempo para analisá-lo cuidadosamente e, quando justificado, retratamos as publicações não conformes.”

O estudo não investiga quais anúncios resultaram em artigos publicados, já que as fábricas de artigos frequentemente ocultam a origem de um artigo alterando seu título ou resumo antes de submetê-lo a um periódico, o que dificulta a conexão entre anúncios e artigos publicados. Mas uma investigação anterior, conduzida pela coautora do estudo, Anna Abalkina, cientista social da Universidade Livre de Berlim, rastreou aproximadamente 1.000 anúncios de autoria até mais de 400 artigos publicados . Destes, ela afirma que apenas 70 foram retratados.

As estimativas da prevalência de literatura científica proveniente de fábricas de papel variam. Um estudo publicado em janeiro no The BMJ , por exemplo, descobriu que quase 10% dos 2,6 milhões de artigos de pesquisa sobre câncer publicados entre 2019 e 2024 contêm semelhanças com artigos conhecidos provenientes de fábricas de papel . E as retratações de artigos científicos devido a indícios de origem em fábricas de papel aumentaram drasticamente nos últimos anos, de acordo com dados mantidos pela publicação sem fins lucrativos Retraction Watch. De quase zero em 2019, o número chegou a mais de 6.700 em 2023, ou 50% de todas as retratações naquele ano. O número de retratações relacionadas a fábricas de papel diminuiu desde então, mas ainda representa cerca de um quarto do total.

Richardson espera que outros pesquisadores usem o novo conjunto de dados para investigar mais a fundo as operações das fábricas de artigos— e que as editoras façam mais para fiscalizar os jornais que publicam. As descobertas do estudo são “apenas a ponta do iceberg”, diz ele. “Essas informações estavam disponíveis publicamente — alguns desses anúncios apareceram há anos — e essas revistas e editoras, em sua maioria, não tomaram nenhuma providência até que alguém as alertasse.  Se você quer ser visto como uma editora que não tolera isso, você não pode tolerar.” 

Jeffrey Brainard é repórter da revista Science em Washington, D.C., onde cobre temas como publicação científica, ciência aberta, revisão por pares, a ciência da ciência e outros assuntos. Você pode contatá-lo no Signal pelo endereço jbrainard.19 e no Bluesky pelo perfil @jeffreybrainard.bsky.social.


Fonte: Science

Políticas anti desmatamento estão falhando em proteger a Amazônia brasileira contra a degradação florestal

Incêndio na Amazônia brasileira

Antonio passou os últimos sete anos correndo em direção a incêndios dos quais a maioria foge. Bombeiro na Amazônia brasileira desde 2019, ele trabalha dentro da Reserva Extrativa Chico Mendes, um dos lugares mais biodiversos do mundo. 

Mas as coisas estão mudando, e rápido. “2024 foi o ano mais extremo para incêndios”, disse Antonio. “Nunca tinha visto nada igual. A floresta queimava como pastagem seca – era assustadora para aqueles de nós que arriscam a vida para protegê-la.”

O que Antonio e seus colegas bombeiros estão testemunhando no local foi comprovado por um novo estudo. Uma equipe internacional de pesquisadores, liderada pela Universidade de Cambridge, descobriu que as políticas que ajudaram a reduzir o desmatamento na Amazônia brasileira nas últimas duas décadas falharam em sua maioria em deter a degradação florestal: uma forma de destruição mais lenta e potencialmente mais perigosa. Seus resultados são publicados nos Anais da Academia Nacional de Ciências.

Diferente do desmatamento, onde áreas inteiras de floresta são desmatadas para agricultura, indústria ou infraestrutura, uma floresta degradada ainda possui árvores de pé. No entanto, foi tão danificado por incêndios, extração ilegal, fragmentação, secas e caça excessiva que perdeu grande parte de seu valor ecológico. O chão da floresta, desprovido de sombra e umidade, vira uma caixa de polvora.

“Ainda há uma floresta lá, mas está tão danificada que o carbono que antes armazenava começa a vazar, os animais desapareceram e novas espécies de gramíneas colonizam as bordas da floresta”, disse o autor principal, Dr. Federico Cammelli, do Departamento de Geografia de Cambridge e do Instituto de Pesquisa para a Conservação. “Incêndios em florestas tropicais são de baixa intensidade, as chamas frequentemente passam despercebidas sob a copa, mas após um ou dois anos, as árvores morrem enquanto estão em pé, e a floresta se transforma em um cemitério de árvores mortas em pé.”

Pesquisas anteriores mostraram que, entre 2001 e 2018, as emissões líquidas de carbono da degradação florestal na Amazônia brasileira foram comparáveis ou até maiores do que as do próprio desmatamento. Até 2050, a degradação pode afetar toda a Amazon brasileira, mas mal apareceu nas políticas destinadas a protegê-la.

O Brasil fez progressos reais no desmatamento. A primeira fase do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia do governo, lançado em meados dos anos 2000, reduziu o desmatamento de árvores em cerca de 60 a 80 por cento. Acordos no setor privado – incluindo uma moratória sobre a soja proveniente de terras desmatadas e o compromisso das empresas de processamento de carne de não obter gado de áreas recém-desmatadas – também contribuíram para o sucesso da região.

No entanto, os pesquisadores descobriram que quatro grandes políticas destinadas a reduzir o desmatamento em três estados brasileiros não diminuíram a degradação. Até o momento, poucas pesquisas foram feitas sobre esse tema devido à falta de dados sobre degradação e seus fatores. Os pesquisadores integraram os dados recém-disponíveis sobre degradação com conjuntos de dados de políticas para comparar os impactos de quatro tipos de intervenções políticas dos setores público e privado em diferentes fatores de degradação.

Quando o desmatamento desacelera, parte da degradação também diminui, já que as florestas sofrem menos com os chamados efeitos de borda onde áreas desmatadas tocam florestas intactas. “No entanto, não encontramos evidências conclusivas de que qualquer uma das políticas da cadeia de suprimentos, como a moratória da soja ou os acordos sobre gado, enfrentasse outros grandes fatores de degradação antropogênica, como incêndios, extração madeireira e fragmentação”, disse Cammelli.

Em um caso, sugere a pesquisa, até mesmo políticas bem-sucedidas de desmatamento podem agravar a degradação. O acordo G4 sobre o setor de gado, assinado pelos quatro maiores empacotadores de carne do Brasil, parecia estar ligado a um aumento na extração de madeira: possivelmente porque, à medida que a pecuária se tornou mais regulada, algumas empresas migraram para o setor madeireiro menos regulado.

De volta a Chico Mendes, Antonio vê algumas das consequências dessas lacunas nas políticas. Ele disse que a estação seca agora dura mais a cada ano, as florestas estão ficando mais frágeis e as chuvas chegam com violência repentina, derrubando pontes e bloqueando estradas.

Ele não está otimista de que a lei está acompanhando. “As leis ambientais deveriam ser mais rigorosas, e os infratores deveriam ser devidamente punidos”, disse ele. “Se perdermos a floresta, perdemos nossas vidas indiretamente.”

Cammelli afirmou que a vontade política é vital. Uma atualização da política ambiental brasileira publicada em 2023 inclui a degradação florestal entre os critérios para direcionar a aplicação da lei ambiental a municípios com histórico ambiental precário, além de exigências específicas para reduzir o desmatamento.

“Incêndios frequentemente se espalham por muitas propriedades e envolvem responsabilidades complexas: quem é responsável pela ignição, quem pela propagação do fogo? Eles são melhor tratados na escala da paisagem. O setor madeireiro continua pouco regulamentado, e muito pode ser feito para combater o desmatamento ilegal”, disse ele.

Os pesquisadores estão defendendo uma mudança fundamental na forma como governos, empresas e reguladores pensam sobre a melhor forma de proteger as florestas.

O Regulamento de Desmatamento da UE, que proíbe a importação de produtos ligados à destruição florestal, define a degradação de forma muito restrita, dizem os pesquisadores, e em grande parte ignora os danos causados pelo fogo e a fragmentação causados pela produção de soja e carne bovina. Os pesquisadores estão incentivando a UE a expandir sua definição de degradação.

Apesar dos compromissos com o desmatamento, os pesquisadores não encontraram exemplos publicamente documentados de empresas operando na Amazônia brasileira que tivessem estabelecido metas concretas para combater especificamente a degradação florestal.

“Evitar o desmatamento e a degradação é muito mais importante para o clima e a natureza do que restaurar o que já se foi”, disse a autora sênior Professora Rachael Garrett, também do Departamento de Geografia e do Instituto de Pesquisa em Conservação de Cambridge. “Existem certas coisas que você não pode recuperar.”

“A cada ano”, disse Antonio, “a floresta e a vida selvagem se tornam mais vulneráveis.”

A pesquisa foi apoiada em parte pela União Europeia e pela Fundação Nacional Suíça para a Ciência.

 

Referência 


Federico Cammelli et al. ‘
Políticas focadas no desmatamento não reduzem a degradação na Amazônia brasileira.‘ Anais da Academia Nacional de Ciências (2026). DOI: 10.1073/pnas.2507793123


Fonte: University of Cambridge