O El Niño pode atingir seu pico no pior momento para a Amazônia – e isso deveria nos preocupar a todos

O atraso na estação chuvosa em florestas já danificadas pelo aquecimento provocado pelo homem pode desencadear um poderoso El Niño “Godzilla”

Os cientistas preveem que o pico do El Niño ocorrerá no pior momento possível para a maior floresta tropical do mundo: o final da estação seca, entre outubro e dezembro, quando os rios estão com seus níveis mais baixos e a vegetação rasteira provavelmente estará extremamente seca. Este será um período de extrema vulnerabilidade para a floresta, que desempenha um papel globalmente importante na estabilização do clima e na irrigação de plantações.

O sistema de suporte à vida do planeta já está sofrendo um duplo golpe. A perturbação climática causada pela ação humana, resultante da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento, está aquecendo o mundo implacavelmente e amplificando eventos climáticos extremos, como ondas de calor e tempestades. Além dessa tendência de longo prazo, há o recente El Niño, um fenômeno natural de altas temperaturas no Oceano Pacífico que leva ao aquecimento global – e à seca e incêndios – em grande parte do resto do mundo.

Caminhões de bombeiros e bombeiros em uma estrada na beira de uma floresta em chamas.

Bombeiros combatendo um grande incêndio florestal que consome uma floresta de pinheiros no departamento de Gironde, na França, em julho. Fotografia: Le Gonidec Margot/Abaca/Shutterstock

Cientistas afirmam que este El Niño está a caminho de ser o mais forte em 150 anos por uma margem impressionante“.  Mesmo em sua fase inicial, está causando estragos em todo o planeta.

A Europa Ocidental sofreu com os meses de junho e julho mais quentes da história, com chuvas excepcionalmente baixas, provocando incêndios florestais extremos na França, Grécia e outros países mediterrâneos, além de escassez de água nas bacias dos rios Sena, Reno e Danúbio. Três quartos da Inglaterra estão em situação de seca e sofrendo com o que se prevê ser o verão mais quente já registrado no Reino Unido.

Na Ásia, a Coreia do Sul e o Japão sofrem com uma onda de calor recorde , enquanto a China foi devastada pelo tufão Dolphin , que transformou as ruas de Xangai em rios, arrancou telhados de casas e forçou a evacuação de mais de 1 milhão de pessoas. Inundações mataram mais de 100 pessoas no estado de Assam, na Índia , e a previsão é de mais chuvas.

Vista aérea de um terreno alagado em ambos os lados de uma estrada.Inundações em Wenzhou, na província de Zhejiang, na China, após a passagem do tufão Dolphin no domingo. Fotografia: VCG/Getty Images

Vastos territórios ao redor do mundo estão em chamas. No Canadá, incêndios florestais “fora de controle” forçaram dezenas de milhares de pessoas a fugir da Colúmbia Britânica e escureceram os céus da distante Nova York. Enormes incêndios também devastam a ilha de Java, na Indonésia, e Utah, nos EUA, estado que também foi atingido por uma onda de calor recorde em julho .

Na África, a ONU prevê um impacto severo na produção de alimentos. No Oriente Médio, recordes de temperatura locais estão sendo quebrados quase diariamente, com os Emirados Árabes Unidos registrando 51,2°C em Al Dhafra.

Entretanto, as temperaturas da superfície do mar estão ultrapassando em muito os parâmetros anteriores, ameaçando os recifes de coral e outras formas de vida marinha. Como os oceanos são os principais absorvedores de calor do mundo , suas temperaturas são um prenúncio do que acontecerá em terra.

Mas entre as maiores preocupações sobre o futuro está a Amazônia, que é essencial para manter a biodiversidade e garantir chuvas para as regiões produtoras de alimentos em toda a América do Sul.

O rio Curuá, um afluente do Amazonas, atravessa a floresta nacional de Caxiuanã, no Brasil.

O rio Curuá, um afluente do Amazonas, atravessa a floresta nacional de Caxiuanã, no Brasil. Fotografia: Jorge Sáenz/AP

Há algumas décadas, a ideia de seca na floresta tropical pareceria absurda. O Amazonas é o maior rio do mundo e seus principais afluentes – Xingu, Negro, Tapajós, Madeira, Purus, Juruá e Japurá – estão entre as principais fontes de água doce do planeta. A floresta ao redor sempre foi famosa por sua umidade, com árvores gigantes que absorviam a umidade e a liberavam na atmosfera, gerando “rios voadores” que resfriavam e irrigavam um continente inteiro. Os trilhões de árvores e plantas na Amazônia também absorvem enormes quantidades de dióxido de carbono, trazendo benefícios para todo o planeta. Qualquer enfraquecimento dessa função aumenta os riscos de instabilidade, insegurança alimentar e eventos climáticos extremos.

Agora, a agência meteorológica brasileira divulgou uma previsão de que o El Niño, excepcionalmente forte, atrasará o início da estação chuvosa na Amazônia, elevará as temperaturas, diminuirá o nível dos rios e intensificará os riscos de incêndios.

Assim como em muitas outras partes do planeta, isso cria uma emergência dentro de outra emergência: o início de um El Niño natural, porém extremamente poderoso, do tipo “Godzilla”, que pode durar até o ano novo, além do aquecimento global causado pela ação humana.

Cientistas e moradores indígenas afirmam que a Amazônia está lutando para se recuperar da devastação causada pelo último El Niño, em 2023-24, que deixou alguns dos maiores rios do mundo em níveis recordes de baixa, provocou incêndios sem precedentes e causou a morte em massa de botos e peixes.

Com um terço da Amazônia agora degradada pela agricultura, mineração e alterações climáticas causadas pelo homem, as árvores e a vegetação rasteira estão mais inflamáveis ​​e vulneráveis ​​a megaincêndios“, aumentando as preocupações de que muitas áreas possam ultrapassar o ponto de não retorno .

Casas e barcos encalhados ao longo de um rio Negro seco.
Casas e barcos ilhados ao longo do Rio Negro, um importante afluente do Amazonas, que secou no estado do Amazonas, em outubro de 2023. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

O governo está tentando solucionar esse problema com monitoramento por satélite, operações de fiscalização e maiores investimentos em capacidade de combate a incêndios . Isso produziu resultados positivos no ano passado, quando as áreas queimadas na Amazônia caíram para o menor nível desde o início dos registros, em 1985.

Mas um ano não é tempo suficiente para a floresta se recuperar, e agora ela enfrenta uma ameaça muito maior.

Três eventos El Niño anteriores (1997-98, 2015-16 e 2023-24) foram desastrosos para a Amazônia. O professor Jos Barlow, especialista em Amazônia do Centro Ambiental de Lancaster, afirmou que a perspectiva de um fenômeno ainda mais forte é profundamente preocupante: “É difícil imaginar as consequências de secas e ondas de calor ainda mais severas.”

A temporada de incêndios na Amazônia já começou, mas o pico ainda está a alguns meses de distância.

Comunidades indígenas estão criando suas próprias unidades de combate a incêndios para lidar com focos em áreas mais profundas da floresta. A Dra. Erika Berenguer, especialista em florestas da Universidade de Oxford e autora de um livro sobre como lidar com incêndios em florestas tropicais, disse: “É uma loucura. A floresta úmida não deveria estar queimando.”

Uma das principais causas do problema, segundo Berenguer, foi a ocorrência de múltiplos fenômenos El Niño em um curto período de tempo: “É semelhante a quando você já está doente e contrai uma infecção. Essa infecção terá um impacto muito maior no seu organismo, porque seu sistema imunológico já está comprometido combatendo a doença.”

Um homem observa a floresta queimar.

Campos e floresta tropical queimando descontroladamente na Amazônia em outubro de 2023. Fotografia: NurPhoto/Getty Images

É provável que as condições extremas persistam – e possivelmente se intensifiquem – em 2027, devido a um atraso de cerca de três meses entre o pico do aquecimento do El Niño no Oceano Pacífico e o aumento das temperaturas em outras partes do mundo.

Carlos Nobre, professor da Universidade de São Paulo e um dos principais cientistas climáticos do Brasil, afirmou: “A Amazônia precisa estar muito bem preparada de agora até o início de 2027, pelo menos até março, porque este El Niño tem grande probabilidade de provocar uma seca severa.”

Os pecuaristas estão se preparando para um ano turbulento. “Caros pecuaristas, PREPAREM-SE PARA O EL NIÑO”, diz uma publicação em um grupo popular de WhatsApp para produtores de carne bovina no estado do Pará, na Amazônia. “O El Niño impactará a pecuária brasileira causando estresse térmico nos animais, reduzindo a qualidade das pastagens e levando à escassez de água. Isso aumenta os custos com suplementação e pode reduzir o ganho de peso e a produção de leite.”

Outras empresas agrícolas publicam imagens apocalípticas de solo ressecado ou cidades inundadas (a previsão é de muito mais chuva no sul do Brasil). “O Super El Niño de 2026 deixou de ser um mero fenômeno climático para se tornar um símbolo de uma nova era de instabilidade global”, alerta uma publicação.

A revista especializada Agroforte relata que as colheitas de soja no Brasil caíram durante anos anteriores de El Niño forte, mas omite qualquer menção às causas humanas para o clima mais hostil: o desmatamento – geralmente realizado por agricultores – e a queima de combustíveis fósseis.

Imagem aérea de uma colheitadeira se deslocando pelo campo.

Colheita de soja em uma fazenda perto de Senador Guiomard, no estado do Acre, Brasil. Fotografia: Bloomberg/Getty Images

Em contrapartida, os grupos indígenas tendem a preservar a floresta e a ajudar a manter um clima estável, mas também enfrentam a tripla ameaça do aquecimento global, do desmatamento e do El Niño.

O governo alertou que as terras tradicionais enfrentarão riscos maiores de incêndios e estocou alimentos para o caso de escassez. Durante o El Niño anterior, algumas comunidades florestais nas bacias dos rios Xingu e Tapajós ficaram isoladas, sedentas e preocupadas com a fome quando os rios – a principal via de transporte – secaram e as hortas foram devastadas. Se a situação piorar no próximo ano, o Brasil poderá enfrentar o cenário apocalíptico de refugiados da seca em uma floresta tropical.

O simples fato de isso ser uma possibilidade já deveria alarmar o mundo. Uma Amazônia severamente enfraquecida perturbará ainda mais o clima e a produção agrícola em um momento em que agricultores em muitas partes do mundo já afirmam que as mudanças são rápidas demais para que consigam se adaptar. Os preços globais dos alimentos estão em seu nível mais alto em três anos, devido à queda nas colheitas combinada com a inflação dos combustíveis causada pelo ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irã. A ONU prevê que mais 49 milhões de pessoas provavelmente enfrentarão fome aguda por causa do El Niño.

É preciso fazer muito mais para proteger biomas como a Amazônia, dos quais o mundo depende. Investir mais em bombeiros florestais é uma medida necessária a curto prazo, mas lida apenas com as consequências, e não com as causas locais e globais. A menos que o desmatamento seja interrompido e os combustíveis fósseis sejam eliminados gradualmente, a atmosfera continuará a aquecer e a intensificar eventos climáticos extremos. Mesmo o El Niño deste ano, com sua intensidade colossal, parecerá insignificante em comparação com o que está por vir.


Fonte: The Guardian

“Tanto o alheamento do cidadão quanto o despreparo dos territórios são perigosos frente às mudanças climáticas” | Alice Grimm

Alice Grimm é uma das principais pesquisadoras do Brasil sobre oscilações climáticas. Como  professora do Departamento de Física da UFPR, Grimm alerta para os efeitos do El Niño esperado para este ano e pontua a necessidade de políticas públicas de prevenção de desastres articuladas com o conhecimento científico

A cidade de Rio do Sul (SC), onde morava a família de Alice Grimm, debaixo de uma enchente em julho de 1983. Foto: Acervo Pessoal

Por Camile Bropp para “Ciência UFPR”

No Oceano Pacífico, a mais de 5 mil quilômetros do Brasil, fica o Niño 3.4, um ponto monitorado por satélites de agências científicas que medem se as águas superficiais estão mais quentes ou subiram de nível. Esses são os indicadores para a previsão do El Niño, a fase quente da oscilação climática chamada ENOS (El Niño-Oscilação Sul), que alterna entre o aquecimento e o resfriamento da superfície do mar, influenciando o tempo em quase todo o planeta. Dessa medição partiu o aviso de que as águas começaram a esquentar entre abril e junho deste ano com aceleração incomum, sugerindo um El Niño de grau “muito forte” para 2026, que deve ter seu pico de intensidade perto do fim do ano.

O El Niño acontece em intervalos irregulares de dois a sete anos e sempre é pauta pública, porque aumenta o risco de desastres e prejuízo econômico. Por sua localização e extensão continental, o Brasil é um dos países mais impactados por essa oscilação climática, que tende a ficar mais comum e intensa como resultado do aquecimento global. Hoje o El Niño já aumenta a propensão para seca e incêndios ao Norte, tempestades, enchentes e ciclones mais ao Sul, e crise hídrica em boa parte do país.

Isso leva à questão: como o Brasil, que está no caminho das rotas preferenciais das alterações causadas pelo El Niño, tem se preparado para essa e outras oscilações climáticas? Segundo a professora titular e pesquisadora Alice Grimm, do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde coordena o Laboratório de Meteorologia (Labmet), há urgência na revisão de posicionamentos.

Alice Marlene Grimm figura na lista da Universidade de Stanford entre os cientistas mais influentes do mundo, com destaque nacional no campo das ciências atmosféricas. Outras credenciais da pesquisadora passam pela revisão do quinto relatório (2013-2014) do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), órgão científico da ONU sobre questões de clima, e pela atuação em comitês científicos internacionais, como o da Rede de Pesquisa em Mudanças Climáticas Urbanas (UCCRN) da Universidade de Columbia e o do Painel de Monções da Organização Meteorológica Mundial (WMO), no qual representou a América do Sul.

Os desastres climáticos que se repetem no país espelham entraves resistentes, como a insuficiência de planejamento estrutural de longo prazo e a falha de comunicação técnica entre a ciência e a gestão pública. Um exemplo disso está nos resultados do levantamento do Tribunal de Contas do Estado do Paraná que expôs, em julho, que 60% das prefeituras do estado não possuem estrutura de Defesa Civil e 70% carecem de sistemas de alerta de riscos para a população.

Neste ano, a professora tem agido para tentar quebrar o ciclo de desinformação, apresentando pontos de vista científicos a gestores públicos. Uma dessa falas está marcada para essa segunda-feira (17), às 14 horas, em Curitiba, com transmissão on-line pelo canal de eventos da UFPR TV no YouTube.

Como pano de fundo dessa atuação está uma motivação antiga, a mesma que a levou a estudar oscilações climáticas. Em 1983, mestre em Ciências Geodésicas e à procura de um tema para doutorado, vivenciou o que significa um desastre natural para uma família. Os pais de Grimm perderam parte da casa onde residiam no Vale do Itajaí (SC) durante a enchente que deixou a cidade debaixo d’água, em julho daquele ano, durante um evento de El Niño. Assim a pesquisadora começou a construir sua trajetória na investigação de eventos climáticos de teleconexão, o conceito meteorológico que trata da ligação entre regiões distantes do planeta.

Na entrevista abaixo, Alice Grimm explica descobertas científicas recentes a respeito das oscilações climáticas naturais e das mudanças climáticas antrópicas, além de comentar os aspectos que colocam o Brasil em risco na pauta climática: o foco em reação em vez de prevenção, a desinformação, e as lacunas de dados confiáveis e adaptados ao continente para serem disponibilizados aos gestores públicos, entre outras questões.

Confira a matéria completa: https://ciencia.ufpr.br/portal/?p=29748  


Fonte: Ciência UFPR

Agrotóxicos: entre o que se aplica, o que chega à cultura e o que efetivamente alcança o alvo

Quase três décadas de avanços tecnológicos tornaram a pulverização mais precisa, mas não eliminaram as perdas para outros compartimentos ambientais nem resolveram a enorme distância entre a quantidade aplicada e aquela que efetivamente alcança o organismo-alvo

Quando David Pimentel e Lois Levitan publicaram, em 1986, o artigo Pesticides: Amounts Applied and Amounts Reaching Pests, chamaram atenção para uma característica desconcertante do modelo de controle químico de pragas: frequentemente, menos de 0,1% dos agrotóxicos aplicados às culturas alcançava efetivamente as pragas-alvo. A eficiência, entretanto, variava muito conforme o tipo de aplicação. O problema levantado pelos autores era justamente a enorme distância existente entre a quantidade lançada no ambiente e aquela que efetivamente cumpria a finalidade para a qual havia sido aplicada.

Vinte e oito anos depois, Peter Kryger Jensen e Merete Halkjær Olesen abordaram o problema por outro ângulo. Em uma revisão publicada na revista Crop Protection, os pesquisadores analisaram estudos de balanço de massa das pulverizações, procurando determinar quanto do produto aplicado ficava depositado sobre a cultura, quanto chegava ao solo e quanto era transportado para fora da área tratada por deriva.

A comparação entre os dois trabalhos exige uma distinção fundamental. Chegar à cultura não significa chegar à praga. Pimentel e Levitan estavam interessados principalmente na parcela que efetivamente alcançava o organismo que se pretendia controlar. Jensen e Olesen analisaram sobretudo a eficiência física da pulverização. Assim, uma aplicação pode apresentar elevada deposição sobre folhas e frutos e, ainda assim, apenas uma pequena parcela da dose original alcançar o inseto, patógeno ou planta daninha que justificou sua utilização.

A tecnologia avançou, mas as perdas permaneceram

Entre os dois estudos ocorreu um importante desenvolvimento tecnológico. Melhorias nos bicos, controle do tamanho das gotas, assistência de ar, sistemas de reciclagem e equipamentos como os tunnel sprayers aumentaram substancialmente a capacidade de colocar o produto sobre a vegetação e reduzir determinadas formas de perda.  Jensen e Olesen encontraram situações em que a deposição sobre a cultura ultrapassava 70% ou mesmo 80%, mas também demonstraram enorme variação conforme cultura, estágio de desenvolvimento e tecnologia utilizada. Em videiras, por exemplo, pulverizadores convencionais apresentaram frações não contabilizadas entre aproximadamente 10,8% e 25,7%, enquanto nos sistemas em túnel esses valores ficaram entre 0% e 7,3%.

Isso demonstra um ganho tecnológico real. Mas não significa que o problema ambiental tenha desaparecido.  O fato é que em aplicações convencionais sobre macieiras, 20% a 40% da quantidade aplicada não foi recuperada nas plantas ou no solo. Em outros sistemas de fruticultura, a fração não contabilizada alcançou 38,2% na laranja, 50,4% no pêssego e 61,8% na tangerina. Além disso, as condições meteorológicas alteraram radicalmente os resultados: em um experimento com macieiras, a recuperação da dose caiu de 91% pela manhã para apenas 68% ao meio-dia, sob temperatura mais elevada e menor umidade relativa.

O paradoxo da eficiência

Há, entretanto, uma segunda dimensão que precisa ser incorporada a essa discussão. Enquanto aperfeiçoamos as tecnologias de aplicação, ampliamos enormemente a escala em que os agrotóxicos são utilizados pela agricultura. E isso significa que o problema não pode ser analisado apenas em termos percentuais.   Mas uma redução relativa das perdas não implica necessariamente redução da quantidade absoluta de substâncias químicas transferidas para o ambiente.  É que se a quantidade total aplicada aumenta, mesmo uma porcentagem menor de perda pode representar uma massa considerável de agrotóxicos alcançando lugares que nunca foram seus alvos.

E aquilo que não chega ao alvo não simplesmente desaparece. Jensen e Olesen lembram que as perdas durante a aplicação são inevitáveis e que a deposição no solo constitui uma fonte potencial de lixiviação e contaminação das águas superficiais e subterrâneas. Os autores também chamam atenção para a deriva aérea, cuja quantificação continua metodologicamente difícil e que pode representar uma fração significativa do produto aplicado.

Assim, o que aparece como “perda” do ponto de vista agronômico deve ser entendido ambientalmente como transferência. O produto pode chegar ao solo, às águas superficiais e subterrâneas e à atmosfera e, por essas diferentes rotas, criar condições de exposição de organismos não alvo. É nesse contexto mais amplo que precisam ser considerados os impactos sobre plantas, microrganismos, insetos, polinizadores, organismos aquáticos, aves e também seres humanos. A extensão concreta desses efeitos, entretanto, precisa ser estabelecida por estudos toxicológicos e ambientais específicos, pois não foi objeto da revisão de Jensen e Olesen.

Mais precisão não resolve uma questão de escala

Colocados lado a lado, os dois estudos revelam uma contradição importante. Em 28 anos, aperfeiçoamos consideravelmente a capacidade de entregar o agrotóxico à cultura, mas não eliminamos sua transferência para compartimentos que não constituíam o alvo. Tampouco Jensen e Olesen oferecem evidências de que essa melhoria na deposição tenha produzido um aumento equivalente na fração da dose original que efetivamente alcança o organismo que se pretende controlar.

Por isso, o valor de menos de 0,1% apresentado por Pimentel e Levitan não deve ser simplesmente transportado para os dias atuais como se décadas de inovação tecnológica não tivessem ocorrido. Mas também não há nesses trabalhos evidência de que o problema fundamental identificado em 1986 tenha sido resolvido. Talvez esteja aí o aspecto mais inquietante dessa comparação.  A melhoria tecnológica tornou mais eficiente o processo de pulverização, mas simultaneamente aumentamos a escala na qual pulverizamos. Quando essas duas tendências são combinadas, ganhos relativos de eficiência podem ser anulados pelo crescimento absoluto da quantidade utilizada, mantendo ou mesmo ampliando a pressão química exercida sobre os sistemas ambientais.

A pergunta relevante, portanto, não deveria ser apenas quanto do agrotóxico conseguimos colocar sobre uma lavoura. Deveríamos perguntar quanto efetivamente chega ao organismo-alvo, quanto é necessário aplicar para produzir esse resultado e onde termina todo o restante. Afinal, aperfeiçoar a entrega é importante. Mas, diante da expansão do uso dessas substâncias, a questão ambiental fundamental continua sendo outra: quanto mais agrotóxico colocamos em circulação, maior é a importância de saber quanto dele vai parar justamente onde nunca deveria ter chegado.

Porto do Açu: gigantismo portuário, dependência de commodities e o risco de permanecer um enclave de recursos

Enquanto o Espírito Santo avança na disputa pelos contêineres, o Açu aposta na multifuncionalidade, mas continua diante de uma questão fundamental: o que sustentará o complexo quando o petróleo deixar de cumprir o papel de commodity-âncora?

O Porto do Açu é hoje alegadamente uma das maiores infraestruturas portuárias privadas existentes no Brasil. Com águas profundas, extensa retroárea e diferentes terminais especializados, o empreendimento costuma ser apresentado como evidência da emergência de um novo polo de desenvolvimento no Norte Fluminense. Entretanto, quase duas décadas depois do início de sua implantação, talvez seja necessário formular uma pergunta diferente daquela normalmente utilizada para medir seu sucesso: o gigantismo físico do Porto do Açu está efetivamente se convertendo em uma estrutura econômica capaz de dinamizar e diversificar a economia regional?

Essa questão ganha importância quando observamos uma característica peculiar do Porto do Açu. Apesar de suas dimensões hiperdimensionadas, o complexo ainda não possui um terminal especializado na movimentação de contêineres. E isso está longe de ser um detalhe, pois a conteinerização transformou profundamente a geografia mundial dos portos. Desde a segunda metade do século XX, o contêiner tornou-se um dos principais instrumentos de integração das cadeias globais de produção, fazendo com que a importância de um porto deixe de depender apenas da profundidade de seus canais, do comprimento de seus cais ou da tonelagem movimentada e passe a depender também de sua posição nas redes regulares de transporte marítimo.

Um grande terminal de contêineres não movimenta apenas caixas metálicas. Ele conecta indústrias, centros de distribuição, transportadoras, ferrovias, armadores e operadores logísticos, produzindo aquilo que poderíamos chamar de centralidade relacional. Quanto maior o número de linhas e escalas regulares, maior tende a ser a capacidade de atrair novas cargas, e quanto maior o volume de cargas, maior o interesse dos armadores em manter ou ampliar suas escalas.

É justamente nesse ponto que o avanço da estrutura portuária do estado vizinho do Espírito Santo merece atenção. Além da infraestrutura já existente na Grande Vitória, novos investimentos estão sendo realizados para transformar o território capixaba em um corredor ainda mais importante para a movimentação de contêineres. O exemplo mais significativo é o Porto da Imetame, em Aracruz, projetado como terminal multipropósito com capacidade expressiva para contêineres e possibilidade de conexão ferroviária com a Estrada de Ferro Vitória-Minas.

Isso significa que o Porto do Açu pode estar diante de uma janela de oportunidade que não permanecerá aberta indefinidamente.  Além disso, construir fisicamente um terminal de contêineres é uma coisa; construir uma rede de contêineres é algo muito diferente. Para isso são necessários armadores, escalas regulares, cargas de ida e retorno, operadores logísticos, conexões terrestres e uma hinterlândia capaz de sustentar economicamente essas operações.

Se o Espírito Santo consolidar primeiro essas relações, empresas poderão organizar suas cadeias logísticas em função dos portos capixabas, operadores poderão instalar centros de distribuição em suas proximidades e os grandes armadores poderão estruturar suas rotas utilizando essas escalas. Nesse cenário, quando o  Porto do Açu eventualmente decidir entrar de maneira mais agressiva no mercado de contêineres, não encontrará necessariamente um espaço vazio esperando para ser ocupado, e terá de disputar cargas e escalas com redes previamente estabelecidas.

Assim, talvez a pergunta relevante já não seja quando o Porto do Açu terá um terminal de contêineres, mas se, quando isso acontecer, ainda haverá espaço econômico para uma nova escala relevante entre Santos e um sistema portuário capixaba cada vez mais especializado.

O petróleo como força e calcanhar de Aquiles

Existe ainda outra questão talvez mais importante. Depois do colapso do projeto empresarial original associado a Eike Batista, o Porto do Açu encontrou no petróleo offshore  sua commodity-âncora. Atualmente, uma parcela expressiva do petróleo exportado pelo Brasil passa pelo complexo, enquanto diferentes empresas ligadas às atividades de petróleo, gás, serviços offshore e subsea instalaram operações no empreendimento.  Esta foi uma solução extremamente bem-sucedida para garantir movimentação e receitas ao porto no plano imediato. Mas aquilo que representa sua grande força no presente pode também constituir seu calcanhar de Aquiles no futuro.

Portos são construídos para funcionar durante muitas décadas. O problema é que ciclos de commodities não possuem necessariamente a mesma duração. Independentemente das divergências sobre a velocidade da transição energética mundial, parece arriscado imaginar que o petróleo continuará ocupando indefinidamente a posição que possui atualmente na economia internacional. O  Porto do Açu está  procurando diversificar suas operações. O Terminal Multicargas vem incorporando café, soja, milho, fertilizantes, produtos minerais, cargas de projeto e outros fluxos. Também existem apostas relacionadas à siderurgia, gás, energia e novos combustíveis. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre diversificar cargas e diversificar estruturalmente uma economia.

Petróleo, minério, siderurgia, fertilizantes, gás e parte dos novos projetos energéticos permanecem, apesar de suas diferenças, fortemente relacionados a um metabolismo econômico baseado na exploração de recursos naturais, energia, processamento primário e exportação. Podemos estar, portanto, diante de uma diversificação dentro da especialização.  E isso faz toda a diferença.

E se as indústrias prometidas não chegarem?

A variável verdadeiramente decisiva para o futuro do Açu talvez não esteja nos navios que hoje atracam em seus terminais, mas no que acontecerá com sua enorme retroárea industrial.  Se indústrias diversificadas forem efetivamente instaladas no complexo, poderá ocorrer uma transformação qualitativa. Essas empresas importarão insumos, demandarão fornecedores, processarão matérias-primas, produzirão mercadorias de maior valor agregado e gerarão seus próprios fluxos logísticos. Nesse caso, o porto poderá deixar progressivamente de depender de uma commodity específica para justificar sua existência.

Poderá surgir um círculo virtuoso: o porto atrai indústrias, as indústrias geram cargas, as cargas atraem novas linhas marítimas, a maior conectividade reduz custos e os menores custos tornam o território mais atraente para novas empresas. Nesse contexto, inclusive a instalação de um terminal de contêineres poderia resultar de uma demanda econômica previamente constituída.

Mas existe também a possibilidade inversa. Se as indústrias não forem instaladas na escala anunciada, o complexo continuará dependendo fortemente das commodities. E, quando uma delas entrar em declínio, não haverá garantia de que outra atividade conseguirá ocupar imediatamente o seu lugar.  Essa é uma questão que toneladas movimentadas podem esconder.

Um porto pode movimentar volumes extraordinários e, ainda assim, possuir baixa complexidade econômica. Afinal, quebra-mares, canais profundos, quilômetros de cais e milhares de hectares de retroárea não produzem cargas por si mesmos.

Porto industrial ou enclave de recursos?

Essa discussão torna-se ainda mais importante quando consideramos os custos territoriais e socioambientais associados à implantação do Porto do Açu. Sua construção exigiu uma profunda reorganização territorial do V Distrito de São João da Barra, envolvendo desapropriações de agricultores, mudanças nas formas tradicionais de uso do território e impactos sobre ecossistemas costeiros, sistemas agrícolas e atividades pesqueiras.

O território onde o complexo foi implantado não era um espaço vazio esperando pela chegada do grande capital. Ali existiam comunidades, sistemas produtivos, pescadores artesanais, agricultores familiares, lagoas, restingas e relações históricas de pertencimento e utilização dos recursos naturais.  Por isso, avaliar o Açu apenas pela tonelagem movimentada significa observar somente uma parte da equação. A questão fundamental deveria ser: quanto da riqueza que atravessa o Porto do Açu permanece efetivamente no Norte Fluminense e contribui para diversificar sua estrutura econômica?

O petróleo é particularmente revelador. Uma parcela significativa do óleo exportado pelo Brasil passa pelo Açu, mas esse petróleo não é produzido em São João da Barra. Ele chega ao complexo pelo mar e pode sair novamente pelo mar. O território funciona, nesse caso, essencialmente como plataforma logística de conexão entre áreas produtoras offshore e mercados externos.

Isso não significa negar os empregos, contratos, impostos e atividades econômicas gerados pelo empreendimento. Eles existem e são relevantes. A questão é saber se possuem magnitude, diversidade e capacidade multiplicadora suficientes para justificar a narrativa de que o Açu estaria produzindo uma transformação estrutural da economia regional. É justamente aqui que aparece a diferença entre um complexo portuário-industrial territorialmente integrado e um enclave de recursos.

No primeiro caso, o porto produz encadeamentos para frente e para trás, estimula fornecedores regionais, promove inovação, atrai diferentes atividades produtivas e gera uma economia que progressivamente adquire capacidade de reprodução própria. No segundo, enormes volumes de recursos atravessam o território, enquanto as decisões fundamentais, os mercados consumidores, grande parte dos fornecedores e os circuitos de acumulação permanecem localizados fora dele.

O paradoxo do gigantismo

Talvez esse seja o grande paradoxo do Porto do Açu.  O seu gigantismo físico é um dos atributos mais reclamados pelos seus gestores, mas gigantismo portuário não significa necessariamente centralidade econômica regional.  Essa distinção torna-se ainda mais importante quando lembramos a magnitude das transformações territoriais realizadas para permitir sua implantação. Grandes extensões foram incorporadas ao projeto sob a justificativa da formação de um complexo portuário-industrial que produziria uma profunda transformação econômica no Norte Fluminense.

Quanto maiores os custos sociais e ambientais impostos para viabilizar esse empreendimento, maior deveria ser também sua obrigação de produzir benefícios econômicos duradouros e territorialmente distribuídos. Por isso, quase duas décadas depois do início desse processo, talvez seja necessário olhar menos para o número de navios que entram no porto e mais para aquilo que está acontecendo fora de seus portões.

Quantas cadeias produtivas regionais foram efetivamente criadas? Quantos fornecedores locais adquiriram capacidade tecnológica para participar dessas cadeias? Quanto da riqueza movimentada permanece no Norte Fluminense? Quantas atividades econômicas sobreviveriam independentemente do petróleo? E, principalmente, quanto da gigantesca retroárea apropriada para o empreendimento efetivamente se transformou em uma base industrial produtiva?

Essas perguntas se tornam ainda mais importantes diante do avanço do Espírito Santo na conteinerização. Se os portos capixabas consolidarem primeiro suas linhas regulares, conexões ferroviárias e relações com grandes hinterlândias, o Açu poderá descobrir que possuir espaço para construir um terminal de contêineres é muito diferente de possuir as condições econômicas necessárias para torná-lo competitivo.

No final das contas, o verdadeiro teste histórico do Porto do Açu provavelmente ocorrerá quando o petróleo deixar de desempenhar o papel de commodity-âncora que exerce atualmente. Se nesse momento houver indústrias diversificadas, cadeias produtivas regionais, conectividade logística e atividades capazes de gerar seus próprios fluxos, o Açu terá conseguido realizar a prometida transformação de porto de commodities em complexo portuário-industrial.

Mas, se isso não ocorrer, poderemos descobrir que aquilo que foi apresentado durante décadas como um novo polo de desenvolvimento do Norte Fluminense constituiu essencialmente um gigantesco enclave de recursos: extraordinariamente eficiente para conectar commodities brasileiras aos mercados globais, mas incapaz de criar raízes econômicas proporcionais às profundas transformações sociais, ambientais e territoriais que foram impostas para viabilizá-lo.

Revista de biologia despublica mais de 100 artigos de edições especiais por manipulação da revisão por pares

Por Retraction Watch

O periódico International Journal of Biological Macromolecules, da Elsevier, já publicou mais de 100 retratações, e esse número continua aumentando, devido à manipulação da revisão por pares em edições especiais editadas por autores convidados. A editora afirmou que mais uma retratação está a caminho. 

Desde junho, a editora retirou 120 artigos. De acordo com os avisos de retratação , a revista identificou “manipulação sistemática, coordenada e generalizada do processo de revisão por pares”.

Um porta-voz da Elsevier disse ao Retraction Watch que a editora “tomou conhecimento de possível manipulação sistemática e outros problemas, como plágio, duplicação de imagens e questões de autoria em diversos artigos publicados em Edições Especiais” em 2025, o que a levou a conduzir uma investigação mais ampla em edições especiais mais recentes. 

Quase todos os artigos retratados tinham autores com vínculos na China e foram publicados em 2024 e 2025. Os artigos abordavam mutações em células cancerígenas e causas moleculares de doenças crônicas como apneia do sono e dor, entre outros tópicos. 

Edições especiais editadas por autores convidados parecem ser particularmente vulneráveis ​​à manipulação. Em meio à retratação de mais de 10.000 artigos entre o final de 2022 e o início de 2024, a Hindawi suspendeu temporariamente a publicação de edições especiais em 2023 devido à manipulação do processo de revisão por pares. Em 2024, um periódico da Springer Nature retratou 34 artigos de edições especiais por “manipulação editorial e processo de revisão por pares comprometidos”. No mesmo ano, o periódico Annals of Operations Research retratou uma edição especial inteira devido a preocupações com a revisão por pares “comprometida”.

O autor que perdeu o maior número de artigos (cinco) na última onda de retratações foi Junkai Qin, que listou afiliações com o Hospital Minzu da Região Autônoma de Guangxi Zhuang e o Hospital Afiliado da Universidade Médica de Youjiang para Nacionalidades. Os cinco artigos retratados do International Journal of Biological Macromolecules são os únicos listados no perfil de Qin no ResearchGate . Não conseguimos encontrar um ORCID correspondente ou uma página de perfil institucional para o pesquisador, e nenhum dos autores correspondentes dos cinco artigos respondeu aos nossos e-mails. 

Li Jin , um pesquisador que listou afiliações com a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau e a Universidade de Ciência e Tecnologia Eletrônica, perdeu três artigos na retratação em massa. Jin nos disse que estava em contato com a revista “para se informar sobre os detalhes específicos e a justificativa oficial dessas retratações, incluindo as preocupações com a revisão por pares”. 

O porta-voz da Elsevier nos disse que as retratações “relativas a esse esquema de manipulação da revisão por pares estão quase concluídas, e as verificações dos editores convidados foram ainda mais reforçadas para permitir a detecção de problemas o mais rápido possível”.

Fabian Wittmers, um pesquisador de pós-doutorado da Universidade Estadual do Oregon, nos contou que vem enviando lotes de artigos preocupantes para o periódico desde abril de 2025. Ele já sinalizou mais de 300 artigos , tanto para o periódico quanto no PubPeer, e escreveu sobre o periódico em uma postagem de blog em setembro passado. Apenas um dos artigos que ele relatou estava entre os retratados por manipulação na revisão por pares; 11 dos 352 que ele relatou foram retratados por outros motivos. 

A revista praticamente dobrou seu volume de publicações, passando de quase 5.000 artigos em 2023 para mais de 9.600 em 2024, e publicou mais de 10.300 artigos em 2025. 

A editora não respondeu à nossa pergunta sobre esse aumento repentino, mas afirmou: “Considerando o aumento no número de submissões em todo o ecossistema de publicação científica e outras mudanças observadas nos últimos anos, o investimento feito pela indústria editorial acadêmica para garantir a integridade da pesquisa é maior do que nunca”. Até o momento, em 2026, o International Journal of Biological Macromolecules publicou mais de 4.000 artigos. 

O pesquisador assistente de banco de dados, Noah Knox, contribuiu com dados para este artigo.


Fonte: Retraction Watch

STF reconhece a Moratória da Soja, mas permite punições aos seus signatários: em plena emergência climática, estamos jogando com fogo

Em matéria publicada pelo ClimaInfo nesta quarta-feira (12), somos informados de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que contém uma contradição difícil de ignorar. Ao mesmo tempo em que a Corte reconheceu a validade da Moratória da Soja e determinou o encerramento de processos que questionavam o acordo sob alegações de irregularidade concorrencial, considerou legítimas leis estaduais que retiram benefícios fiscais de empresas que participam desse mecanismo de proteção ambiental.

Em outras palavras, o STF reconheceu que a Moratória da Soja é legítima, mas permitiu que governos estaduais criem mecanismos econômicos capazes de punir as empresas que decidam continuar participando dela. A decisão produz, assim, uma situação paradoxal: preserva-se formalmente um dos mais importantes instrumentos privados de combate ao desmatamento associado à expansão da soja na Amazônia, enquanto se legitima a utilização do poder público para aumentar o custo econômico de participar dele.

O problema se torna ainda mais grave quando essa decisão é confrontada com as evidências científicas acumuladas sobre o agravamento da crise climática. O desmatamento das florestas tropicais não representa apenas perda de biodiversidade. A remoção da vegetação libera carbono, reduz a capacidade dos ecossistemas de armazená-lo e interfere na evapotranspiração e na reciclagem da umidade, afetando o funcionamento do sistema climático regional. Na Amazônia, a continuidade desse processo ameaça progressivamente a própria capacidade da floresta de sustentar seu regime climático e hidrológico.

No Cerrado, onde a Moratória da Soja não se aplica, o avanço da fronteira agropecuária sobre a vegetação nativa também representa uma ameaça crescente à biodiversidade, aos recursos hídricos e à estabilidade climática. Aliás, no mesmo dia em que publicou a matéria sobre a decisão do STF, o ClimaInfo noticiou novos dados do MapBiomas mostrando o avanço do agro e a redução da vegetação nativa brasileira.

É justamente nesse contexto que a Moratória da Soja precisa ser avaliada. Criada em 2006, ela estabeleceu um mecanismo pelo qual grandes empresas passaram a se comprometer a não adquirir soja produzida em áreas da Amazônia desmatadas depois da data de referência estabelecida pelo acordo. Ao separar, ao menos parcialmente, a expansão da soja da derrubada direta da floresta amazônica, a Moratória demonstrou que cadeias produtivas podem ser submetidas a critérios ambientais mais rigorosos do que aqueles estabelecidos pelo mínimo exigido pela legislação.

É exatamente aí que reside um dos aspectos mais preocupantes da decisão do STF. Existe uma diferença fundamental entre os estados estabelecerem critérios para a concessão de benefícios fiscais e utilizarem esses instrumentos para penalizar empresas justamente porque elas decidiram adotar compromissos ambientais. O precedente pode contribuir para transformar a legislação ambiental brasileira não em um piso mínimo de proteção, sobre o qual empresas e cadeias produtivas poderiam estabelecer compromissos mais ambiciosos, mas em uma espécie de teto ambiental, acima do qual comportamentos empresariais ambientalmente mais responsáveis poderiam ser economicamente desestimulados.

Uma decisão que ignora o Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade

A gravidade dessa contradição fica ainda mais evidente quando lembramos um tema que tratei recentemente aqui no Blog do Pedlowski: o Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade (World Scientists’ Warning to Humanity: A Third Notice).

O documento, elaborado por William Ripple, Christopher Wolf, Johan Rockström e diversos outros pesquisadores, dá continuidade aos grandes alertas científicos dirigidos à humanidade em 1992 e 2017. Desta vez, porém, o diagnóstico é ainda mais contundente: os autores concluem que a Terra já se encontra em um estado de emergência planetária, provocado pela combinação entre mudança climática, perda de biodiversidade, degradação das terras e das águas, poluição e padrões insustentáveis de produção e consumo. O alerta destaca ainda que sete dos nove limites planetários já foram ultrapassados, aumentando os riscos de mudanças de grande escala e potencialmente irreversíveis no sistema terrestre.

Entre as seis grandes transformações propostas pelos cientistas está justamente algo que deveria orientar decisões públicas no Brasil: proteger e restaurar a natureza. O documento afirma que a proteção imediata dos ecossistemas ainda intactos e a restauração daqueles já degradados são essenciais para a estabilidade do sistema terrestre e para o bem-estar humano. Florestas e outros ecossistemas não são, portanto, obstáculos ao desenvolvimento econômico, mas componentes fundamentais da regulação climática, da disponibilidade de água, da conservação da biodiversidade e da própria manutenção das condições que tornam nossas sociedades possíveis.

Sob essa perspectiva, a decisão do STF parece caminhar precisamente na direção contrária ao alerta lançado pelos cientistas. Se estamos diante de uma emergência planetária e se uma das respostas consideradas indispensáveis é fortalecer a proteção dos ecossistemas naturais, como justificar que governos possam utilizar incentivos fiscais justamente para desestimular empresas que voluntariamente adotam mecanismos adicionais de combate ao desmatamento?

Não se trata, portanto, apenas de uma discussão jurídica sobre livre iniciativa, concorrência ou autonomia tributária dos estados. Existe uma questão ambiental muito maior. O Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade afirma que a deterioração ambiental continuou avançando desde os alertas anteriores e que a margem disponível para ações corretivas tornou-se menor. Os autores também advertem que a emergência planetária persiste não por falta de conhecimento científico, mas pela incapacidade dos sistemas econômicos e políticos de se ajustarem aos limites físicos e ecológicos do planeta.

A decisão sobre a Moratória da Soja oferece um exemplo quase didático desse problema.

E tudo isso acontece sob um El Niño muito forte

Há ainda um componente que torna o momento particularmente preocupante. Estamos atravessando um período de forte influência do El Niño, fenômeno que pode amplificar extremos climáticos e agravar situações de calor, seca e risco de incêndios em partes do território brasileiro.

Nesse cenário, enfraquecer economicamente mecanismos destinados a impedir a conversão de vegetação nativa equivale a aumentar deliberadamente nossa exposição aos efeitos de uma crise climática que já está em curso. Amazônia e Cerrado cumprem funções fundamentais na regulação climática e hidrológica da América do Sul. Continuar permitindo que interesses econômicos imediatos prevaleçam sobre mecanismos destinados a conter sua destruição significa ampliar os riscos que recaem sobre toda a sociedade.  Por isso, há algo profundamente inquietante nessa decisão. Enquanto os cientistas aumentam o volume do alarme, parte das instituições brasileiras parece continuar operando como se ainda dispuséssemos de décadas para decidir o que fazer. Não dispomos.  O Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade é explícito ao afirmar que a emergência planetária já está acontecendo e que as decisões tomadas nos próximos anos serão determinantes para definir se conseguiremos estabilizar o sistema terrestre ou se avançaremos em direção a transformações cada vez mais difíceis de controlar.

Nesse contexto, a contradição criada pelo STF é difícil de esconder: a Corte reconheceu a legitimidade da Moratória da Soja, mas também legitimou instrumentos capazes de contribuir para torná-la economicamente inviável. A floresta, entretanto, não responde a sutilezas jurídicas. Quando os mecanismos de proteção são enfraquecidos e o desmatamento avança, as consequências aparecem concretamente na forma de emissões de carbono, perda de biodiversidade, alterações no ciclo hidrológico, temperaturas mais elevadas e maior vulnerabilidade a secas e incêndios. 

Em plena emergência climática, sob a influência de um El Niño muito forte e poucos dias depois de cientistas de diferentes partes do mundo emitirem seu terceiro grande aviso à humanidade, permitir que governos penalizem economicamente quem adota mecanismos adicionais de proteção das florestas equivale a jogar com fogo. E, quando estamos falando da Amazônia e do Cerrado, essa expressão corre o risco de ser muito mais literal do que gostaríamos.

 

O mar está subindo, mas o solo também pode estar descendo: um alerta para as cidades costeiras brasileiras

Um novo estudo publicado na revista Nature Communications acrescenta uma dimensão particularmente preocupante ao debate sobre os impactos da elevação do nível do mar. O artigo “Subsidence more than doubles sea-level rise today along densely populated coasts, assinado por Julius Oelsmann, Robert J. Nicholls, Daniel Lincke, Marta Marcos, Manoochehr Shirzaei, Laura Sánchez, Leonard Ohenhen, Denise Dettmering, Jochen Hinkel, Benjamin P. Horton e Florian Seitz, mostra que olhar apenas para a elevação dos oceanos provocada pelas mudanças climáticas pode levar a uma importante subestimação dos riscos enfrentados pelas populações costeiras.

O problema está no movimento vertical da própria superfície terrestre. Em numerosas regiões costeiras, o terreno está sofrendo subsidência, isto é, está afundando. Como consequência, a população não experimenta apenas a elevação absoluta do oceano, mas uma elevação relativa do nível do mar resultante da combinação entre o mar que sobe e o terreno que desce. Os autores lembram que esse movimento pode estar associado tanto a processos naturais quanto a atividades humanas, entre elas a retirada de água subterrânea, petróleo e gás e intervenções sobre sistemas de drenagem. Em algumas regiões suscetíveis, a subsidência relacionada principalmente à extração de águas subterrâneas pode alcançar valores da ordem de 10 milímetros por ano.

Os números apresentados no artigo dão a dimensão do problema. Os autores estimam que 71% da população costeira mundial considerada pelo estudo vive atualmente em regiões que apresentam subsidência. Cerca de 55% experimentam subsidência de pelo menos 1 milímetro por ano e 43%, de pelo menos 2 milímetros anuais. O resultado é que a elevação relativa média do nível do mar experimentada pela população costeira chega a aproximadamente 6 milímetros por ano, enquanto a componente associada à elevação absoluta do oceano é de cerca de 3,15 milímetros anuais. Em outras palavras, a subsidência acrescenta, em média, aproximadamente 2,8 milímetros por ano ao problema.

Esse resultado é especialmente importante porque a subsidência não ocorre de maneira aleatória. Ela tende a ser mais relevante justamente nas regiões costeiras densamente povoadas. Os autores ressaltam que aproximadamente 90% da população costeira mundial está concentrada em apenas cerca de 10% da extensão das costas, e essas áreas altamente povoadas apresentam maior probabilidade estatística de coincidir com taxas de subsidência superiores à média. Além dos processos físicos, entram nessa equação decisões humanas relacionadas à drenagem, às formas de construção, à compactação dos solos, à exploração de recursos subterrâneos e à própria governança do subsolo.

E o que isso significa para as cidades brasileiras?

Embora o artigo não apresente uma análise individualizada de cidades brasileiras, seus resultados deveriam servir como um alerta particularmente forte para o Brasil. Temos uma extensa faixa costeira onde estão localizadas algumas das maiores concentrações urbanas do país, muitas delas ocupando planícies costeiras, estuários, áreas aterradas e terrenos de baixa altitude. Nessas condições, avaliar o risco futuro considerando apenas quantos centímetros o oceano deverá subir pode produzir uma imagem incompleta da vulnerabilidade real.

O estudo demonstra justamente que médias nacionais e mesmo regionais podem esconder diferenças locais enormes. Os autores defendem explicitamente que os efeitos da subsidência precisam ser quantificados em escalas subnacionais e locais, pois a movimentação vertical do terreno apresenta forte variabilidade espacial. Para uma cidade costeira, alguns poucos milímetros anuais de subsidência persistindo durante décadas podem alterar significativamente o nível relativo do mar e, consequentemente, aumentar a frequência de alagamentos, ampliar os efeitos das marés meteorológicas, dificultar a drenagem urbana e agravar processos de erosão costeira.

Essa constatação deveria despertar especial atenção em metrópoles e cidades costeiras brasileiras assentadas sobre terrenos baixos e densamente urbanizados. O ponto fundamental não é afirmar que todas essas cidades estejam afundando na mesma velocidade — o artigo não fornece evidências para tal afirmação —, mas reconhecer que não podemos elaborar políticas sérias de adaptação climática sem saber se o terreno sobre o qual essas cidades estão construídas permanece estável.

Há ainda uma implicação política importante. Parte da subsidência pode decorrer de processos naturais, mas outra parte está relacionada às formas pelas quais as sociedades utilizam o território e seus recursos. Isso significa que, diferentemente da elevação global do nível dos oceanos, sobre a qual uma prefeitura possui pouca capacidade direta de intervenção, determinadas causas locais da subsidência podem ser objeto de políticas públicas. Os próprios autores destacam que identificar a parcela induzida pelas atividades humanas pode permitir medidas de mitigação, incluindo, por exemplo, a regulamentação da extração de águas subterrâneas.

O estudo também traz uma advertência metodológica relevante para o Brasil. Sistemas tradicionais baseados apenas em estações GNSS e marégrafos podem não captar adequadamente variações espaciais muito localizadas. A combinação dessas observações com técnicas de interferometria por radar de abertura sintética (InSAR) permite detectar deformações da superfície com resolução espacial muito maior. Os autores mostram que a incorporação desses dados aumentou extraordinariamente a capacidade de identificar populações submetidas à subsidência, revelando fenômenos que métodos anteriores simplesmente não conseguiam enxergar.

Para o Brasil, portanto, a mensagem que emerge do artigo é bastante concreta: não basta monitorar o oceano; precisamos monitorar também o continente. Planos municipais de adaptação climática, estudos de vulnerabilidade costeira e políticas de ordenamento territorial deveriam incorporar sistematicamente medições do movimento vertical do terreno, sobretudo nas áreas urbanas mais baixas e densamente ocupadas.

A mudança climática está elevando o nível dos oceanos e esse processo deverá acelerar nas próximas décadas. Mas Oelsmann e seus colegas demonstram que, para milhões de pessoas, o risco já está sendo amplificado porque o chão sob seus pés também está descendo.

Para um país que possui grande parte de sua população, infraestrutura estratégica e patrimônio econômico concentrados próximo ao litoral, ignorar essa segunda metade do problema pode significar subestimar justamente os riscos que deveriam orientar desde agora o planejamento das cidades costeiras brasileiras.

BMJ Group “despublica” artigo sobre vacinas contra COVID-19 e mortalidade apresentado em audiência no Senado dos EUA

Por Retraction Watch 

O BMJ Public Health retratou um artigo que alguns — incluindo uma testemunha em uma recente audiência de uma subcomissão do Senado dos EUA — usaram para associar as vacinas contra a COVID-19 a mortes. A ação ocorre mais de dois anos depois que um pesquisador citado no trabalho apontou problemas no estudo. 

Publicado em 6 de maio de 2024, o artigo utilizou o banco de dados “Our World in Data” e o World Mortality Dataset para analisar as mortes relacionadas à COVID-19 durante o auge da pandemia. Diversos veículos de imprensa noticiaram o fato, desde o The Telegraph — que publicou a manchete “ vacinas podem ter contribuído para o aumento do número de mortes em excesso ” — até o New York Post, que citou declarações do artigo sobre supostos “ferimentos graves e mortes após a vacinação”, uma informação que foi posteriormente corrigida. 

Uma declaração de preocupação , publicada no artigo cerca de um mês após sua publicação, tentou refutar essas alegações, observando que o estudo “ não estabelece qualquer ligação desse tipo ”. O comunicado também anunciou uma investigação institucional pelo Centro Princesa Máxima, na Holanda, onde três dos quatro autores trabalhavam, incluindo a autora correspondente Saskia Mostert.

Os críticos do artigo afirmaram que ele continha citações incorretas e omissões sobre vacinas e estava “ repleto de insinuações inapropriadas “. Ariel Karlinsky , economista da Universidade Hebraica de Jerusalém, Israel, e cocriador do Conjunto de Dados de Mortalidade Mundial, contatou a revista a partir de junho de 2024, solicitando uma retratação diversas vezes. Karlinsky considerou que a análise utilizou seus dados de forma inadequada e “copiou blocos inteiros de texto e notação matemática” de seu artigo . 

De acordo com o comunicado de retratação de 11 de agosto o BMJ Public Health retratou o artigo devido a “informações incorretas na discussão sobre as possíveis causas do excesso de mortalidade e porque a natureza limitada do trabalho original dos autores não foi suficientemente descrita”.

Em 2024, o Centro Princesa Máxima investigou o envolvimento de dois autores, Minke Huibers e Gertjan Kaspers , mas não analisou o trabalho de Mostert no estudo porque ela “não pôde cooperar com a investigação”, segundo o relatório. 

A versão anonimizada do resumo do relatório, datada de janeiro de 2025, foi publicada juntamente com a retratação e concluiu que, embora as ações dos autores não constituíssem má conduta, Kaspers e Huibers demonstraram “descuido, ignorância e negligência”.

O relatório também constatou que o artigo “dá atenção desproporcional à possibilidade de que a introdução de medidas contra a Covid-19 e a vacinação possam ter causado excesso de mortalidade, ignorando em grande parte explicações alternativas” e “cita de forma enganosa e unilateral literatura que apoia seus próprios argumentos”.

De acordo com o comunicado detalhado de retratação, com mais de 700 palavras, Kaspers e Huibers solicitaram a retratação juntamente com sua instituição “devido a preocupações com a má interpretação do artigo por terceiros e o consequente risco à saúde pública”, mas discordaram da conclusão da revista de que o artigo continha informações incorretas. E-mails enviados a ambos os pesquisadores retornaram mensagens de ausência do escritório. 

Em um comunicado de junho de 2024, que foi removido , mas está arquivado aqui , o Centro Princesa Máxima afirmou que se distanciava “enfaticamente” da publicação e que “apoiava fortemente a vacinação”.

Jan Hoeijmakers, presidente do comitê de reclamações de integridade científica do Centro Princesa Máxima, não respondeu às nossas perguntas sobre detalhes da investigação nem ao nosso pedido de uma cópia do relatório completo. 

Aautora principal, Mostert, renunciou em 2024, após o Centro Princesa Máxima anunciar que investigaria o artigo, conforme declarou em uma audiência realizada em 3 de junho perante a subcomissão do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado dos EUA, que investigava os “ Mecanismos plausíveis de injeções de COVID-19 causando câncer e ataques a publicações e pesquisas científicas ”. Em seu depoimento , que se concentrou principalmente no artigo publicado no BMJ Public Health , ela afirmou que os autores “não alegaram certeza quanto às causas do excesso de mortalidade. Em vez disso, chamaram a atenção para três eventos principais que não existiam antes da pandemia: infecção por COVID, medidas de contenção e vacinas contra COVID”. 

O gabinete de imprensa do senador americano Ron Johnson, presidente da subcomissão de investigações, não respondeu ao nosso pedido de comentário sobre a retratação do artigo.

Mostert argumentou que governos e meios de comunicação implementaram táticas de medo e propaganda para reduzir a “tolerância à razão e às vozes dissidentes” durante a pandemia e alegou que a investigação sobre seu artigo violou a liberdade acadêmica e constituiu censura. 

Ela também afirmou que respostas institucionais como a do Centro Princesa Máxima “são cada vez mais usadas como táticas de ‘canais oficiais’ para desacreditar, intimidar, isolar e silenciar aqueles que levantam questões científicas indesejáveis”, o que levou à sua renúncia. 

Em seu depoimento, Mostert também afirmou ter proposto uma revisão ao artigo publicado, que “incluía uma seção sobre a eficácia da vacina na redução da mortalidade”, mas a sugestão foi “ignorada pela revista”. Ela também alegou que a seção original sobre medidas de contenção e vacinas era “muito mais curta na versão original do artigo”, mas os revisores “nos pediram para excluir o texto ou fornecer mais evidências. Como havia evidências disponíveis, nós as incluímos”.

O comunicado de retratação publicado no BMJ Public Health reconheceu a submissão, mas afirmou que a alteração seria “insuficiente”. 

Mostert escreveu à revista em nome dela e do quarto autor do estudo, Marcel Hoogland, manifestando sua discordância com a decisão de retratação. Hoogland constava como pesquisador independente, baseado em Amsterdã, no artigo agora retratadoO artigo mais recente de Mostert , publicado em fevereiro no JCO Global Oncology , a lista como pesquisadora não afiliada. Solicitações de comentários enviadas para dois endereços de e-mail retornaram como não entregues.

O artigo foi citado 21 vezes, de acordo com o Web of Science da Clarivate. As métricas altmétricas do artigo o colocam entre os 5% melhores de todos os trabalhos de pesquisa avaliados pelo site. Ele entra para nossa lista de quase 700 artigos sobre COVID-19 que foram retratados. 

A retratação não é a primeira de um artigo que associa as vacinas contra a COVID-19 ao excesso de mortes. Por exemplo, no início deste ano , uma ação judicial não conseguiu impedir a retratação de um artigo que associava mortes por problemas cardíacos à vacina contra a COVID-19. Em 2024, a Cureus retratou um artigo sobre os supostos danos “extensos” da vacina. 

Karlinsky, cujo modelo de estimativa foi citado no artigo agora retratado, disse que respeitava a “ação rápida e a investigação interna do Centro Princesa Máxima, bem como o pedido de retratação sobre o assunto, mas discordou da conclusão de que não houve plágio ou má-fé”.

Ele nos disse que suspeitava que o artigo retratado plagiava seu trabalho, usando uma frase rebuscada como exemplo: Não havia “outra maneira de explicar como o ‘compromisso entre flexibilidade e simplicidade’” em seu artigo “foi distorcido para ‘uma troca entre flexibilidade e castidade’”, disse ele. Frases rebuscadas podem indicar plágio .

Karlinsky também classificou a resposta do BMJ Group como “bastante ruim”. O periódico “não estava abordando as questões fundamentais e estava tentando se promover, quando na verdade não estava”, disse ele. 

Ele criticou especialmente a demora na retratação. Karlinsky enviou um comentário em junho de 2024 criticando o trabalho, que foi rejeitado sem revisão um mês depois, conforme nos contou. 

De acordo com o comunicado de retratação, o Centro Princesa Máxima compartilhou o relatório de investigação com a revista no final de 2024. “O tempo necessário para investigar este artigo foi longo porque a revista aguardou primeiro o resultado oficial formal do relatório institucional”, que foi compartilhado em maio de 2025, diz o comunicado. Após receber o relatório, a revista tentou contatar Mostert novamente “para obter sua perspectiva sobre questões-chave”, afirma o texto, antes de tomar sua decisão final. 

“O fato de [a revista] se orgulhar de ter esperado até receber uma resposta de Mostert é, na minha opinião, ridículo”, disse Karlinsky, observando que a medida prolongou a investigação. “É como deixar um suspeito de assassinato escapar impune porque ele se recusa a ir à delegacia.”


Fonte: Retraction Watch

Casos cruciais para a Amazônia chegam ao STF após derrotas de Lula no Congresso

Árvores margeiam o rio Oiapoque, na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, em Oiapoque, estado do Amapá, Brasil, 10 de março de 2026. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)

Árvores margeiam o rio Oiapoque, na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, em Oiapoque, estado do Amapá, Brasil, 10 de março de 2026. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)

Por Gabriela Sá Pessoa para “Associated Press” 

SÃO PAULO (AP) — O Supremo Tribunal Federal do Brasil deve analisar nos próximos dias uma série de casos que podem reformular as proteções à floresta amazônica e às comunidades indígenas que dependem dela.

Os casos abrangem desde direitos territoriais indígenas, retrocessos recentes em salvaguardas ambientais e projetos de infraestrutura. Apesar de suas diferenças, compartilham um caminho comum até chegarem ao tribunal.

Nos últimos anos, um Congresso majoritariamente conservador aprovou medidas que, segundo ambientalistas, violam direitos constitucionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo governo tem priorizado uma agenda ambiental, vetou algumas medidas por completo e partes de outras.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante uma coletiva de imprensa na COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em 19 de novembro de 2025, em Belém, Brasil. (Foto AP/Andre Penner, Arquivo)

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante uma coletiva de imprensa na COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em 19 de novembro de 2025, em Belém, Brasil. (Foto AP/Andre Penner, Arquivo)

Os casos ilustram as limitações enfrentadas pelo governo Lula. Apesar das conquistas notáveis ​​na redução do desmatamento e no direcionamento de recursos para fomentar investimentos ecológicos , o governo frequentemente enfrenta dificuldades para se contrapor a um Congresso conservador, onde os interesses do agronegócio exercem influência significativa.

“O governo é muito fraco na arena legislativa”, disse Suely Araújo, coordenadora de políticas do Observatório do Clima, uma rede de organizações ambientais sem fins lucrativos. “Frequentemente se opõe a projetos de lei antiambientais, mas não tem força política para persuadir o Congresso a votar a favor deles.”

O governo Lula não só está em minoria no Congresso, como também tem menos poder de negociação do que os governos brasileiros anteriores. Nos últimos anos, os parlamentares têm conquistado maior controle sobre o orçamento federal, uma ferramenta fundamental de negociação política.

O agronegócio, um dos setores econômicos mais poderosos do Brasil, também detém a maioria no Congresso e impulsionou medidas que enfraquecem as proteções ambientais. Como resultado, o Supremo Tribunal Federal (STF) surgiu como um mecanismo de controle do Congresso, ajudando a preservar partes da agenda ambiental de Lula quando os parlamentares pressionam na direção oposta.

O gabinete do chefe de gabinete do presidente, que coordena as relações do governo com o Congresso, afirmou em comunicado à Associated Press que não comentaria casos pendentes no Supremo Tribunal.

O Brasil é o maior produtor mundial de soja e carne bovina. Embora a maior parte da carne bovina brasileira seja consumida internamente, a maior parte da soja é exportada. De janeiro a julho de 2026, a China, maior parceiro comercial do Brasil, comprou 50% das exportações de carne bovina e 70% das exportações de soja do país, segundo dados oficiais de comércio exterior.

A Frente Agrícola Parlamentar não respondeu ao pedido de comentário. Grupos do agronegócio afirmam há tempos que se opõem ao desmatamento ilegal e apontam para o aumento da produtividade agrícola, mesmo com a redução do desmatamento.

Proteger a floresta tropical é fundamental para combater as mudanças climáticas . A Amazônia ajuda a regular o clima e os padrões de chuva, além de armazenar vastas quantidades de carbono que, se liberadas, poderiam acelerar ainda mais o aquecimento global.

Na sexta-feira, o Supremo Tribunal Federal do Brasil começou a analisar as moções finais que buscavam esclarecimentos sobre uma decisão de 2025 que rejeitou a tese do “Marco Temporal”, uma teoria jurídica apoiada pela bancada do agronegócio que restringiria as reivindicações territoriais indígenas aos territórios que eles ocupavam ou que estavam sob disputa judicial quando a Constituição entrou em vigor em 5 de outubro de 1988.

Os defensores da medida afirmam que o prazo final oferece segurança jurídica aos proprietários de terras. Grupos indígenas argumentam que ele ignora décadas de expulsões e deslocamentos forçados, particularmente durante a expansão agrícola do Brasil no século XX.

Os juízes estão analisando as moções apresentadas pelo governo, partidos políticos, agricultores e organizações indígenas, com votações previstas para 18 de agosto. Entre outras questões, espera-se que abordem as regras de indenização e os possíveis prazos para a conclusão da demarcação de terras indígenas.

Ricardo Terena, advogado da organização de defesa dos direitos indígenas Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, afirmou que algumas das propostas poderiam efetivamente paralisar futuras demarcações, adicionando entraves administrativos e ampliando os direitos de indenização para ocupantes não indígenas, permitindo que permaneçam em terras disputadas até que o pagamento seja efetuado.

Segundo a organização sem fins lucrativos Survival International, os Kawahiva remanescentes são caçadores-coletores nômades que sobreviveram a ataques e doenças e continuam evitando o contato com pessoas de fora.

Na quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal do Brasil também deverá analisar outros dois conjuntos de casos importantes: leis estaduais que levaram ao fim da moratória da soja e uma nova lei de licenciamento ambiental que acelerou a aprovação de projetos de infraestrutura estratégicos.

Em janeiro, as principais empresas de comércio de grãos se retiraram da moratória da soja, um pacto de quase 20 anos creditado por reduzir o desmatamento da Amazônia ao proibir o cultivo de soja em terras desmatadas. O acordo ruiu depois que os principais estados produtores de soja aprovaram leis revogando os benefícios fiscais para as empresas participantes. O juiz Flávio Dino emitiu uma liminar suspendendo temporariamente a legislação estadual, e o tribunal pleno agora analisará sua decisão.

Também nesta quarta-feira, o tribunal deverá analisar uma contestação à nova lei de licenciamento ambiental que entrou em vigor em fevereiro. A lei agiliza a emissão de licenças para projetos de grande impacto, incluindo minas, rodovias e instalações industriais.

Araújo, do Observatório do Clima, afirmou esperar que a Suprema Corte derrube pelo menos as disposições da lei que os ambientalistas consideram mais claramente inconstitucionais, incluindo aquelas que permitem a autolicenciamento para projetos com impactos ambientais moderados. Ela acrescentou que a lei já está tendo consequências tangíveis na Amazônia, citando a pavimentação de uma rodovia controversa e os planos de dragagem de um importante rio sem a devida avaliação ambiental prévia.

O Ministério do Meio Ambiente defendeu a moratória da soja, afirmando que ela ajudou a reduzir o desmatamento na Amazônia, mesmo com a expansão da produção brasileira. Sobre a lei de licenciamento ambiental, o ministério disse que o governo tentou vetar as disposições consideradas problemáticas e que continua preocupado em manter os padrões mínimos nacionais.

“O Brasil precisa de um sistema de licenciamento ambiental mais eficiente, previsível, tecnicamente robusto e capaz de enfrentar os desafios de uma economia que precisa expandir os investimentos em infraestrutura, ao mesmo tempo que enfrenta as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade”, afirmou o ministério.

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Gabriela Sá Pessoa  trabalha como correspondente da Associated Press na região da Amazônia brasileira. Ela reside em São Paulo, Brasil.

Terceiro alerta dos cientistas à humanidade: a emergência planetária já está acontecendo

Em artigo aceito pela BioScience, William J. Ripple, Christopher Wolf e colaboradores alertam que sete dos nove limites planetários já foram ultrapassados e afirmam que mudanças graduais já não são suficientes diante da dimensão da crise

Há mais de três décadas, cientistas vêm alertando que a crescente pressão das atividades humanas sobre os sistemas naturais poderia colocar em risco as condições que sustentam a vida e a própria civilização. Em 1992 veio o primeiro World Scientists’ Warning to Humanity. Em 2017, um segundo alerta constatou que, apesar do conhecimento acumulado, a deterioração ambiental continuava avançando. Agora, quase uma década depois, chega uma terceira advertência, e seu diagnóstico é consideravelmente mais grave: a emergência planetária deixou de ser uma ameaça futura e já está acontecendo. Essa é a mensagem central de World Scientists’ Warning to Humanity: A Third Notice, manuscrito aceito para publicação no periódico científico BioScience. O trabalho é liderado conjuntamente por William J. Ripple, da Oregon State University e do Conservation Biology Institute, e Christopher Wolf, da Terrestrial Ecosystems Research Associates (TERA), que contribuíram igualmente para o artigo. Entre os demais autores está Johan Rockström, um dos principais pesquisadores envolvidos no desenvolvimento do conceito de limites planetários.

O ponto de partida de Ripple, Wolf e seus colaboradores é inequívoco. Mudança climática, perda de biodiversidade, poluição, degradação dos solos e das águas doces, esgotamento de recursos e padrões insustentáveis de produção e consumo estão desestabilizando o sistema terrestre. Segundo os autores, as evidências científicas dessa emergência são claras e crescentes. Mais importante ainda, eles afirmam que já não estamos diante apenas da tarefa de evitar crises futuras: precisamos limitar os impactos de processos que estão em andamento, enquanto aumentamos a resiliência das sociedades e dos ecossistemas. O alerta é dirigido explicitamente a governos, instituições financeiras, corporações e cidadãos, em um momento no qual as crises ambientais e sociais interagem e se reforçam enquanto, paralelamente, diminuem a capacidade institucional, a autoridade da ciência e a cooperação multilateral.

Um dos dados mais alarmantes apresentados no artigo é que sete dos nove limites planetários que delimitam o chamado espaço operacional seguro da humanidade já foram ultrapassados. Entre eles estão os relacionados à mudança climática, integridade da biosfera, mudanças no uso da terra, alterações da água doce, fluxos biogeoquímicos de nitrogênio e fósforo, introdução de novas entidades, como substâncias químicas produzidas pelos seres humanos, e, mais recentemente, acidificação dos oceanos. Apenas os limites relacionados à destruição do ozônio estratosférico e à carga atmosférica de aerossóis ainda não foram ultrapassados.

O problema é que essas alterações não acontecem isoladamente. A ultrapassagem simultânea de diferentes limites planetários aumenta a possibilidade de mudanças não lineares, efeitos em cascata e transformações potencialmente irreversíveis do sistema terrestre. Os autores alertam para o risco de uma trajetória de Hothouse Earth, uma espécie de “Terra Estufa” impulsionada por mecanismos de retroalimentação e pela ultrapassagem de pontos de inflexão. Nesse aspecto, o artigo contém uma advertência especialmente importante para o Brasil: os limiares críticos associados às camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida Ocidental podem já ter sido ultrapassados, enquanto o permafrost boreal, as geleiras de montanha e a floresta amazônica podem estar próximas de seus respectivos pontos de inflexão. Os pesquisadores lembram ainda que a ultrapassagem desses limiares pode comprometer o sistema terrestre com transformações de longa duração e potencialmente irreversíveis, de modo que as condições atuais podem esconder uma instabilidade crescente cujas consequências mais graves somente aparecerão posteriormente.

Outro mérito importante do artigo é não diluir as responsabilidades pela emergência planetária em uma genérica “humanidade”. Ripple, Wolf e seus colaboradores identificam explicitamente os motores da atual desestabilização ambiental como estando concentrados nos países de alta renda, nas indústrias poderosas e nos sistemas econômicos que priorizam lucros de curto prazo e crescimento contínuo, reforçados por instituições e valores sociais que identificam progresso com expansão material. Ao mesmo tempo, aqueles que menos contribuíram para produzir a crise frequentemente enfrentam seus impactos mais severos. Os autores ressaltam que países de alta renda, indivíduos mais ricos e grandes corporações produzem os maiores impactos ambientais e possuem, simultaneamente, maior capacidade de agir. Além disso, parte considerável dos custos ecológicos associados às economias mais ricas é transferida, através das cadeias globais de produção, para regiões distantes e politicamente menos poderosas.

Essa constatação tem consequências políticas importantes, pois significa que não apenas os impactos são desigualmente distribuídos, mas também as responsabilidades por sua produção. Se alguns grupos sociais, países e corporações exercem uma pressão desproporcional sobre os sistemas naturais, não faz sentido distribuir igualmente os custos das transformações necessárias entre aqueles que consomem pouco e aqueles cujos padrões de consumo e produção respondem por parcela muito maior da degradação ambiental. Nesse sentido, o terceiro alerta científico é também uma advertência sobre justiça ambiental e sobre a impossibilidade de enfrentar a emergência planetária sem enfrentar simultaneamente as profundas desigualdades existentes entre países e dentro deles.

Talvez uma das dimensões politicamente mais contundentes do artigo esteja justamente nas soluções propostas. Os pesquisadores identificam seis grandes transformações envolvendo energia, natureza, economia, consumo, sistemas alimentares e justiça social. No campo energético, defendem a rápida eliminação da extração e do uso de combustíveis fósseis e afirmam explicitamente que a redução da demanda energética no Norte Global também é essencial. Na esfera ambiental, propõem proteção imediata dos ecossistemas ainda intactos e restauração em larga escala de terras, rios e oceanos degradados, reconhecendo simultaneamente os povos indígenas como detentores de direitos e a importância dos sistemas indígenas e locais de governança.

Mas é na discussão econômica que o terceiro alerta adquire uma dimensão particularmente significativa. Os autores sustentam que alinhar as economias aos limites planetários exige superar modelos de desenvolvimento dependentes da expansão contínua do uso de materiais e energia. Os sistemas econômicos atuais, argumentam, continuam priorizando o crescimento da produção e do consumo apesar da acumulação de riscos ambientais. Em contraposição, defendem abordagens voltadas prioritariamente para o bem-estar humano, a equidade social e a sustentabilidade ambiental. O sobreconsumo das nações e dos indivíduos mais ricos também é explicitamente apontado como um dos principais motores das pressões ambientais globais. Por isso, os cientistas defendem simultaneamente a satisfação das necessidades básicas de todas as pessoas e a redução do consumo excessivo dos segmentos mais afluentes da sociedade.

Os sistemas alimentares também ocupam posição central nesse diagnóstico. Segundo o artigo, eles respondem por aproximadamente um terço das emissões globais de gases de efeito estufa e exercem forte pressão sobre os solos, a água doce, os ciclos de nutrientes e a biodiversidade. Os pesquisadores defendem mudanças em direção a dietas baseadas predominantemente em alimentos vegetais integrais, redução das perdas e do desperdício de alimentos e ampliação de práticas agrícolas sustentáveis e regenerativas. Ao mesmo tempo, colocam a justiça social como uma das seis transformações necessárias, defendendo acesso universal à educação, saúde, moradia e serviços básicos como componentes da construção de sociedades simultaneamente mais resilientes, equitativas e ambientalmente sustentáveis.

Talvez a afirmação mais desconfortável de todo o artigo seja a de que a emergência planetária não persiste por falta de conhecimento. Segundo os cientistas, ela persiste porque os sistemas humanos não conseguiram se ajustar aos limites físicos e ecológicos do planeta. Cada novo adiamento aumenta a possibilidade de danos irreversíveis, cujas consequências recairão sobretudo sobre aqueles que menos contribuíram para a crise e sobre as futuras gerações. Enfrentar essa emergência exigirá, portanto, responsabilidade, equidade e transformações na escala da própria civilização, incluindo mudanças fundamentais na maneira como as sociedades produzem, consomem recursos e se relacionam com o mundo natural.

Essa constatação deveria provocar uma reflexão profunda. Desde o primeiro alerta de 1992, nosso conhecimento científico sobre o funcionamento do sistema terrestre avançou extraordinariamente. Temos hoje satélites, modelos climáticos, séries temporais globais e uma capacidade de observar mudanças ambientais que seria inimaginável há poucas décadas. O conjunto de indicadores apresentado pelos autores é revelador: continuam crescendo as emissões de gases de efeito estufa, o consumo de energia, o rebanho de ruminantes, a produção de carne, a produção de plástico e a economia mundial, enquanto persistem a perda de cobertura arbórea, o declínio da abundância de vertebrados e outras pressões sobre os ecossistemas. A expansão das energias renováveis constitui uma mudança positiva importante, mas ocorre em meio à continuidade de diversas tendências ambientalmente negativas.

Não estamos, portanto, diante de uma crise produzida simplesmente pela ignorância sobre aquilo que está acontecendo. Estamos diante de uma enorme distância entre aquilo que a ciência já sabe e aquilo que os sistemas políticos e econômicos estão dispostos a fazer. E é precisamente isso que torna especialmente perturbadora a necessidade de um terceiro alerta. A comunidade científica fez uma primeira advertência em 1992, repetiu-a em 2017 e retorna agora, quase uma década depois, afirmando que houve deterioração continuada e que as margens disponíveis para ações corretivas se estreitaram.

Apesar da gravidade do diagnóstico, Ripple, Wolf e seus colaboradores não apresentam um futuro inevitavelmente catastrófico. Eles lembram que a recuperação parcial da camada de ozônio demonstra que ações internacionais rápidas, coordenadas e baseadas em evidências científicas podem reverter danos ambientais graves. A humanidade possui conhecimento, instrumentos e recursos para reduzir rapidamente as pressões ambientais e, ao mesmo tempo, melhorar o bem-estar humano. O problema é transformar esse conhecimento em ação política compatível com a escala da emergência.

É por isso que talvez nenhuma frase sintetize melhor a gravidade deste terceiro alerta do que aquela escolhida pelos próprios autores: “não estamos mais nos aproximando de uma emergência planetária. Estamos vivendo dentro dela”. Para Ripple, Wolf e seus colaboradores, as escolhas feitas nos próximos anos determinarão se a humanidade conseguirá estabilizar o sistema terrestre e assegurar um futuro habitável para as pessoas e para as demais formas de vida.

Depois de três alertas científicos em pouco mais de três décadas, a pergunta já não parece ser se fomos suficientemente avisados. A questão que se impõe é quantos alertas ainda serão necessários para que governos, grandes corporações e sociedades passem finalmente a agir de acordo com aquilo que a ciência já demonstrou.