A EAE bateu na porta errada: quem fez a investigação foi a Nature

No dia 28 de setembro publiquei neste Blog o comentário “A vaidade também aceita convites para a academia”, tendo como ponto de partida uma extensa investigação publicada pela revista Nature e assinada pelo jornalista Max Kozlov. Minha intenção naquele texto era bastante clara: discutir como títulos, honrarias, filiações e convites internacionais podem adquirir enorme valor simbólico no ambiente acadêmico antes que alguém faça a pergunta mais elementar de todas: afinal, quem está concedendo aquilo e qual é a efetiva consistência da instituição que oferece a distinção?

Pois bem, a European Academy of Engineering (EAE) resolveu responder. Em mensagem encaminhada ao Blog do Pedlowski, a organização solicita uma revisão editorial das referências feitas à academia, contesta aspectos da cobertura que originou meu comentário e pede que sejam diferenciadas afirmações relacionadas à própria EAE daquelas referentes a outras organizações mencionadas pela Nature. A EAE também afirma operar como uma associação sueca sem fins lucrativos e nega ter criado ou autorizado a imagem alterada de um edifício que aparece entre os elementos examinados pela reportagem.

Tudo isso merece ser registrado, pois direito de resposta não é favor concedido por quem publica, mas parte elementar de qualquer ambiente que pretenda levar a sério o debate público. Por isso, registro aqui a posição apresentada pela EAE e considero correto que os leitores deste Blog tenham conhecimento de que a organização contesta aspectos da reportagem que serviu de ponto de partida para meu comentário.

Entretanto, existe um pequeno elefante sentado no meio da sala: quem realizou a investigação foi a revista Nature. Não foi o Blog do Pedlowski que pesquisou registros suecos, procurou pesquisadores apresentados como integrantes ou dirigentes de organizações, entrou em contato com universidades para verificar vínculos institucionais ou investigou imagens, websites, parcerias e a trajetória das diferentes entidades mencionadas. Quem realizou esse trabalho de apuração foi a Nature, e isso estava informado, sem qualquer disfarce ou ambiguidade, desde o primeiro parágrafo do comentário publicado neste Blog.

Há, portanto, algo peculiar na solicitação agora recebida. A EAE pede ao Blog que identifique as evidências que sustentariam determinadas conclusões específicas sobre a organização, mas o Blog não apresentou essas conclusões como resultado de investigação própria. O que fiz foi comentar uma reportagem publicada pela Nature, identificando explicitamente sua origem e discutindo as implicações mais amplas das informações nela apresentadas para um sistema acadêmico cada vez mais dependente de títulos, rankings, distinções e outras formas de reconhecimento simbólico.

Se a EAE considera que determinadas evidências apresentadas naquela investigação estão erradas, incompletas ou foram interpretadas incorretamente, possui todo o direito de demonstrá-lo. Entretanto, o endereço principal dessa controvérsia parece bastante evidente: é a redação da Nature. Transferir para quem comentou uma investigação o ônus de refazer a apuração realizada pelo veículo que a publicou seria uma inversão curiosa das responsabilidades editoriais.

Aliás, a própria Nature demonstrou que correções são possíveis. Em 30 de setembro, a revista acrescentou uma clarificação à reportagem explicando que uma declaração de Tsu-Jae Liu, presidente da National Academy of Engineering dos Estados Unidos, sobre a necessidade de verificar a respeitabilidade profissional de dirigentes de sociedades científicas não havia sido feita especificamente em referência a Michael Chu. Esse é precisamente o procedimento esperado de uma publicação que pretende manter sua credibilidade: apresenta evidências, recebe contestações, examina os documentos e, quando necessário, corrige publicamente aquilo que publicou.

Mas há um detalhe que não deveria passar despercebido. A clarificação acrescentada pela Nature não retirou a reportagem do ar nem significou uma retratação do conjunto de informações apresentado. A investigação permanece publicada e, portanto, continua disponível para que seus argumentos, fontes e evidências sejam examinados, contestados e, quando for o caso, confrontados com documentação apresentada pela EAE.

Também merece atenção o fato de a própria European Academy of Engineering ter anunciado publicamente que examinaria registros relativos a filiações, consentimento para cargos, parcerias institucionais, história da organização, imagens e outros conteúdos associados à sua presença pública, comprometendo-se a corrigir informações eventualmente consideradas incorretas ou potencialmente enganosas. Esse compromisso é relevante porque indica que existem questões que merecem esclarecimento e que podem ser resolvidas de maneira bastante objetiva mediante a apresentação dos documentos correspondentes.

E aqui chegamos ao ponto essencial. Se existem dúvidas sobre registros, consentimentos, vínculos, parcerias, imagens ou continuidade institucional, o caminho mais simples não é pedir que comentaristas reconstruam uma investigação jornalística realizada pela Nature, mas apresentar a documentação capaz de esclarecer definitivamente essas questões. Documentos possuem uma vantagem extraordinária sobre longas controvérsias epistolares: permitem que qualquer pessoa confronte afirmações com evidências verificáveis.

Por isso, a manifestação da European Academy of Engineering fica registrada neste Blog e considero correto que os leitores conheçam diretamente a posição apresentada pela organização. Se aparecer documentação demonstrando que alguma afirmação factual feita por este Blog está errada, ela será corrigida publicamente, com a mesma visibilidade dada ao texto original e com a indicação da alteração realizada. Não vejo qualquer problema nisso, porque reconhecer e corrigir um erro factual é parte inseparável daquilo que entendo como exercício responsável da crítica pública.

Mas não confundamos as coisas. Corrigir um erro factual é uma coisa; abandonar uma análise crítica porque a instituição mencionada na reportagem que lhe deu origem não gostou das perguntas levantadas é outra bastante diferente. O primeiro procedimento fortalece a credibilidade de quem publica, enquanto o segundo apenas contribuiria para transformar pedidos de esclarecimento em instrumentos de constrangimento editorial.

É justamente aqui que retornamos ao argumento central de “A vaidade também aceita convites para a academia”. O problema não começa nem termina na European Academy of Engineering, pois diz respeito a um ambiente universitário no qual títulos, distinções, prêmios, rankings, memberships, fellowships e convites internacionais podem funcionar como uma espécie de moeda de prestígio, convertendo-se rapidamente em linhas de currículo, notícias institucionais e instrumentos de diferenciação acadêmica. Quanto maior for a disposição para ostentar essas distinções, maior deveria ser também a disposição para verificar cuidadosamente sua procedência.

Assim, se uma academia concede uma honraria, é legítimo perguntar quem é essa academia e quais são seus critérios. Se um pesquisador recebe a honraria, também é legítimo perguntar em que condições ela foi oferecida e aceita. E, se uma universidade transforma a distinção em notícia institucional, parece razoável esperar que tenha previamente verificado sua procedência. Finalmente, se uma reportagem da Nature apresenta evidências que colocam esse circuito de produção e circulação de prestígio sob escrutínio, o caminho intelectualmente mais produtivo é examinar as evidências e confrontá-las com outras evidências.

A EAE tem, portanto, todo o direito de contestar a reportagem, enquanto a Nature possui a responsabilidade de sustentar documentalmente aquilo que publicou e corrigir aquilo que eventualmente não puder sustentar. Da mesma forma, o Blog do Pedlowski continuará exercendo o direito de comentar criticamente informações de interesse público, indicando suas fontes e corrigindo eventuais erros factuais quando eles forem efetivamente demonstrados.

No fim das contas, existe um método bastante antigo e surpreendentemente eficiente para resolver controvérsias dessa natureza: mostrem os documentos. Afinal, prestígio pode até aceitar convite, mas a vaidade, como sabemos, costuma ser bem menos seletiva.

Finalmente, não posso deixar de registrar que me senti muito honrado com o contato feito diretamente pela European Academy of Engineering. Afinal, não é todos os dias que uma organização com pretensões internacionais dedica seu tempo a escrever para este modesto Blog produzido a partir de Campos dos Goytacazes. O episódio parece confirmar algo que talvez eu próprio estivesse subestimando: o Blog do Pedlowski possui uma audiência verdadeiramente global. Evidentemente, alcançar leitores em diferentes partes do mundo não significa necessariamente agradar a todos eles. Mas isso é perfeitamente compreensível e, pensando bem, talvez seja até um sinal de que algumas das perguntas feitas por aqui estão chegando aos lugares certos.

A vida é bela, apesar da farsa eleitoral e da tempestade

Enquanto a chuva inclemente se abate sobre Campos dos Goytacazes, sob o impulso de um Super El Niño, milhões de brasileiros se preparam para ir às urnas amanhã escolher o próximo presidente, os governadores, os senadores e os deputados federais e estaduais. Chegamos ao fim de uma campanha eleitoral particularmente medíocre, na qual a maioria dos candidatos não se deu ao trabalho de apresentar propostas concretas para os problemas que se acumulam diante de nós — problemas agravados não apenas pela crise climática, mas também pelos efeitos especialmente nefastos que ela impõe aos segmentos mais pobres de um país marcado por brutais desigualdades de renda e de condições de vida.

O debate que deveria ter existido foi substituído pela imposição de uma retórica que parte de visões de mundo reais, mas acaba por apresentá-las como simulacros do que de fato são. De um lado, fomos confrontados com os perigos de uma suposta ditadura comunista, dominada por tribunais corruptos; de outro, recebemos uma receita que combina o risco de ver o Brasil transformado em uma ditadura neofascista com a denúncia de que o país estaria submetido à vontade imperial do grande império do mal que nos vigia desde o Norte.

A verdade é que essas narrativas que se complementam servem, sobretudo, para ocultar que os dois lados compartilham a determinação de manter a ordem neoliberal que literalmente nos sufoca e nos deixa sem perspectivas de superação. Não quero dizer com isso que não vivamos sob o risco grave de uma intervenção política ou até militar — risco que decorre, em grande parte, do fato de a ordem capitalista estar submetida a uma pressão quase terminal. Esse risco existe. O problema é que, neste momento, os dois lados acenam para um tigre de papel: as aventuras desastradas na Ucrânia e no Irã tornam uma intervenção no Brasil mais provável a partir de forças internas do que de uma ação externa.

A quem me lê, parece necessário reconhecer que, independentemente de quem vença as eleições — seja o neoliberalismo tosco ou o sutil —, temos diante de nós uma tarefa histórica monumental: construir alternativas políticas e partidárias capazes de enfrentar o que o nosso tempo histórico nos impõe. Por mais que se diga que a extrema-direita avança em todo o planeta, essa é apenas uma meia-verdade, pois também temos visto o outro extremo avançar e conquistar importantes vitórias eleitorais. Mais importante ainda, o espectro da esquerda tem sido capaz de impulsionar grandes mobilizações contra as manifestações mais impiedosas da ordem neoliberal, como ocorre neste momento na Espanha, em protesto contra os despejos de idosos.

Há um detalhe importante: quando se acena apenas para o avanço eleitoral da extrema-direita, o que se pretende impedir é uma resposta à altura do outro extremo, pois o que importa é salvar o status quo reinante. O problema é que esse status quo não pode ser salvo, e a tentativa de preservá-lo apenas nos empurra para mais perto da barbárie completa, como um dia profetizou Rosa Luxemburgo.

Dito isso, considero correto desejar que as pessoas compareçam às urnas e derrotem eleitoralmente a extrema-direita. As tarefas políticas que estão postas, porém, não serão resolvidas apenas por meio das eleições. A plataforma política do futuro imediato precisa incluir a derrota das políticas neoliberais e um compromisso claro com a adaptação climática, centrada nas necessidades da classe trabalhadora e da juventude. E, se a chuva continuar caindo no ritmo atual, especialmente na Região Sul, o El Niño poderá se tornar um fator eleitoral que os institutos de pesquisa não previram, apesar dos alertas contínuos da comunidade científica sobre a intensidade e as consequências do fenômeno, inclusive durante o período eleitoral brasileiro. Ainda assim, é preciso preservar a esperança, como escreveu Leon Trotsky em seu testamento: “A vida é bela. Que as futuras gerações a livrem de todo mal e opressão, e possam desfrutá-la em toda sua plenitude.”

Em defesa da cultura

Por Luciane Soares da Silva

“Miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes”. A letra dos Titãs é de 1989. E reflete uma condição global das periferias. A cor, o gênero, a falta de saneamento, o excesso de poluição, o lixo. Uma cidade com grandes centros comerciais, carros de primeira linha e casas suntuosas ainda pode experimentar uma condição específica: a precariedade do acesso a cultura. Aqui, não como espetáculo de entretenimento de massas mas como arena de encontro, possibilidade de transformação e momento de reflexão.

O que faz de uma cidade, algo mais do que território de exploração, precariedade e desigualdade?

Nesta semana lemos sobre problemas técnicos que afetam a programação  no Teatro de Bolso e do Teatro Trianon. Uma cidade com tão poucas possibilidades para o teatro deveria zelar por estes espaços. E este é um exemplo que pode ser estendido à música, aos parques, a Bienal e outros equipamentos.

Manifesto toda solidariedade aos artistas das mais diversas frentes. Que trabalham na noite, investem tempo e dinheiro próprio. Este silêncio do poder público torna-se inadmissível se reconhecemos que esta não é uma cidade sem recursos.

É preciso fazer do Conselho de Cultura um órgão realmente forte na gestão dos recursos da área em Campos. E o mesmo vale para patrimônio e outros Conselhos. Muitos têm agentes da sociedade civil extremamente engajados mas pouco capazes de fazer valer suas demandas frente a Prefeitura. Que age minando esta potência.

Temos Casas de Cultura, espaços alternativos, Universidades com palcos e auditórios que podem receber peças (e recebem). Mas atores, diretores, seguranças, produtores, músicos, fotógrafos, cinegrafistas e outros profissionais, precisam pagar contas. E a população tem direito a acessar cultura. Formar memória crítica.

O mesmo projeto que não investe em educação também se estende à cultura. E a vida vai, sem árvores, sem transporte, sem qualidade de vida, sem saúde, sem renda e em silêncio.

A cultura em Campos deve acontecer em Santa Rosa, no Eldorado, na Penha, em Goytacazes. Com uma organização básica, a praça pode ser lugar de teatro, de festivais para crianças, espaço para feiras e encontros. Isto torna uma cidade viva, isto anima pessoas a falarem dos problemas da cidade. Manter cada família em sua casa, equivale a manutenção em celas. Onde não há diálogo nada floresce. Temos visto projetos furarem este isolamento urbano. Mas onde está a Prefeitura como gestora?

Ainda devemos lembrar a relação entre economia, criação de renda e cultura. Festivais, teatros abertos, espaços abertos, condições de mobilidade para famílias tudo isto incrementaria a economia. De forma menos centralizada e não dependente dos royalties (com os quais devemos parar de contar). Existe uma classe artística. Ela está mobilizada.  Devemos apoiar eventos, iniciativas, manifestos. Viver a cultura como ato político de defesa da cidade.

O voto não resolve todos os problemas de nossa vida em sociedade. É preciso ocupar os Conselhos, investir em uma auto formação sobre cidadania e cultura, ter atenção aos problemas públicos. Mas o voto orienta parte significativa dos processos de alocação de recursos que devem ser geridos a favor do povo. Em resumo, não é possível mudar a vida das pessoas votando no mesmo grupo político.

*Luciane Soares da Silva é professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense   Darcy Ribeiro (Uenf), onde atua no Laboratório de Estudos sobre Sociedade Social e do Estado (Lesce). É coordenadora do projeto de extensão Web Rádio Maíra. 

A liberdade de imprensa não pode virar salvo-conduto para escolher o palco

A reação de entidades da imprensa e da própria TV Globo ao cancelamento do debate presidencial está sendo apresentada como uma defesa da liberdade de expressão. Mas a invocação desse princípio não encerra a discussão: é preciso olhar para o que estava em jogo — a exibição de uma cadeira vazia para Lula e a exclusão de Renan Santos do debate.

A decisão do TSE impediu que a ausência de Lula fosse transformada em parte do espetáculo televisivo: a emissora não poderia destacar o púlpito vazio nem permitir que os demais candidatos simulassem perguntas dirigidas a ele. Já a decisão do STF determinou a participação de Renan Santos, invocando a liberdade de expressão e o pluralismo político. Pode-se discutir o momento e os fundamentos dessas decisões, mas elas não equivalem a uma proibição de realizar o debate.

A cadeira vazia, afinal, não era um detalhe neutro de cenário. Sua exibição — acompanhada de perguntas dirigidas a um candidato ausente — poderia converter a transmissão em instrumento para marcar sua ausência diante do eleitorado. Impedir esse recurso não significa impedir que a emissora informe que Lula não compareceria, nem que os candidatos presentes critiquem sua decisão. Significa limitar o uso de um formato que poderia transformar o debate em peça de campanha.

Também é preciso colocar a sequência dos acontecimentos em ordem. Flávio Bolsonaro anunciou que não participaria depois das decisões judiciais; a Globo, então, decidiu cancelar o debate. Portanto, quem retirou sua participação foi Flávio, e quem cancelou o evento foi a emissora. A Globo tinha essa prerrogativa, mas não cabe atribuir exclusivamente ao Judiciário uma decisão que ela própria tomou. A cobertura registrou a desistência de Flávio e, em seguida, o cancelamento anunciado pela emissora.

A presença de Renan Santos alterava o quadro político do debate e, evidentemente, desagradava a Flávio. O senador apresentou publicamente outra justificativa — chamou de censura a decisão do TSE sobre o púlpito vazio —, enquanto reportagens também registraram que ele se preparava para responder a ataques de Renan. O dado incontornável é que Flávio desistiu e o debate deixou de acontecer; a Globo não pode transformar essa sequência em prova automática de que a Justiça suprimiu a liberdade de imprensa. Há ainda uma contradição que merece ser discutida. As organizações Globo reivindicam ampla liberdade para definir quem participa, quais regras serão aplicadas e como o evento será apresentado. Mas a liberdade de imprensa não elimina a responsabilidade pública de veículos que ocupam posição central no debate eleitoral.

Quando decisões editoriais e formatos de cobertura parecem favorecer determinados candidatos, a defesa abstrata da liberdade perde força e passa a soar seletiva — especialmente quando a mesma imprensa denuncia interferência judicial, mas trata suas próprias escolhas como se fossem politicamente neutras.  Isso não autoriza afirmar que toda cobertura pró-Flávio decorreu de uma decisão coordenada ou de uma intenção comprovada. Autoriza, sim, questionar os critérios editoriais, comparar o tratamento dado aos candidatos e cobrar transparência. Liberdade de expressão não é um princípio que se invoca apenas quando protege as preferências de quem controla o microfone; vale também para os candidatos excluídos do palco e para o público que tem direito a um debate plural.

O debate cancelado prejudicou os eleitores, que perderam a oportunidade de comparar propostas e ouvir os candidatos em confronto direto. Mas a responsabilidade não pode ser empurrada integralmente para o STF e o TSE: Flávio Bolsonaro desistiu, e a Rede Globo cancelou. Transformar essa sequência em denúncia simples de censura é uma maneira conveniente de escapar da pergunta central: por que o debate não pôde continuar com quem estava disposto a participar?

A Globo perdeu a hegemonia!

Lá se ia o ano de 1989. Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, Fernando Collor e Lula estavam diante das câmeras da TV Globo. Collor tinha uma pilha de pastas, entre elas a rosa, que ficaria mais famosa. Nunca se soube o que elas continham, mas a edição meticulosa da emissora fez parecer que ali havia segredos que Lula temia ver expostos durante o debate. Com a edição das imagens, Collor venceu a eleição. Depois, confiscou as cadernetas de poupança e sofreu impeachment, tudo em rápida sucessão. Ficou a demonstração de que, quando queria, as Organizações Globo podiam eleger quem bem entendessem.

Trinta e sete anos depois, com outra eleição presidencial em curso, assistimos a uma espécie de fantasma da TV Globo tentando operar mais uma disputa. Mais uma vez, Lula se defronta com o aparente escolhido dos irmãos Marinho: o controverso Flávio Bolsonaro. Diante dele, duas perspectivas: tornar-se presidente e ganhar imunidade temporária ou enfrentar um número indefinido de pendências judiciais, algumas com potencial para levá-lo à prisão. Nada no currículo do primogênito de Jair Bolsonaro, porém, parece abalar a preferência dos irmãos Marinho, que têm trabalhado consistentemente para oferecer a Flávio a melhor cobertura, na expectativa de derrotar Lula mais uma vez.

No meio do caminho, surgiu outro debate, para o qual a TV Globo havia preparado um roteiro cheio de armadilhas para Lula. A coisa parecia tão evidente que Lula, supostamente contrariando até sua equipe de campanha, decidiu dar de ombros para a emissora e gastar seu tempo no Flow, um podcast com público expressivo, mas sem a amplitude da cobertura da TV Globo. A emissora se preparou para tirar o melhor proveito da ausência: colocou uma cadeira vazia com o nome do presidente e abriu espaço para perguntas dirigidas ao “participante fujão”.

Tudo ia bem até o TSE e o STF entrarem em campo para retirar a cadeira e as perguntas e ainda colocarem no debate o estrepitoso candidato do Missão, Renan Santos, de quem Flávio Bolsonaro parece ter mais pavor do que de Lula. Com isso, o primogênito de Jair também resolveu fugir do palco da TV Globo e se dedicar a uma transmissão ao vivo em seu próprio canal no YouTube. Restou à emissora suspender o debate. O resto é história.

Uma história que marca uma mudança profunda na forma de fazer comunicação no Brasil — e talvez no mundo. Como o próprio Lula disse, com bastante acerto, o formato da TV Globo, com muitos candidatos, já não acompanha as formas e a velocidade que a comunicação de massa assumiu na era das lives e dos podcasts. Enquanto a emissora e muitos outros veículos da mídia corporativa ainda lutam para se ajustar, a decisão inicial de Lula mostrou-se particularmente aguda e sintonizada com esses novos tempos.

A esquerda, em geral, já deveria ter percebido que a banda agora toca assim. Mas ainda insiste em formas ultrapassadas de comunicação, abrindo espaço para a hegemonia da extrema direita nesse terreno.

Para os irmãos Marinho, a manhã desta sexta-feira deve estar sendo particularmente dura. Não apenas pela suspensão de um debate de primeiro turno, mas porque ficou mais claro do que nunca que a TV Globo, seus articulistas e seus produtores de conteúdo perderam a hegemonia que mantiveram por décadas — e que agora estamos diante de uma nova fronteira da comunicação, mais caótica e acelerada. Pensando bem, só por isso já valeu a pena acompanhar eleições que pouco discutiram os grandes desafios postos diante da sociedade brasileira.

Como diz a frase: “O rei está morto. Viva o rei!”

Globo arma o palco; os protagonistas fogem — e sobram as candidaturas anãs

Até poucas horas atrás, a ausência de Lula no debate da TV Globo era tratada como uma oportunidade para Flávio Bolsonaro ocupar sozinho o centro do palco. À esquerda, a crítica era direta: ao trocar o confronto com os adversários por uma entrevista no Flow Podcast, Lula deixaria o espaço televisivo aberto para que seu principal concorrente reinasse sem contestação. A decisão do TSE alterou esse roteiro. A ministra Estela Aranha proibiu a exibição do púlpito vazio reservado a Lula e também que os candidatos presentes lhe dirigissem perguntas, por entender que isso permitiria ataques sem resposta no próprio debate. Flávio Bolsonaro anunciou então que não participaria, chamando a decisão de censura.  

O episódio teve outro elemento judicial decisivo. O TSE autorizou a participação de Romeu Zema, do Novo, considerando a composição atual da bancada do partido. Renan Santos, do Missão, também tentou entrar no debate, mas seus pedidos foram rejeitados pelo TSE e pelo STF. A ausência de Lula, portanto, não abriu automaticamente uma vaga para Renan: a emissora tinha liberdade para convidar outro candidato, mas não obrigação de fazê-lo.  

O resultado é um roteiro que ninguém parecia ter previsto: Lula estará fora do estúdio, mas terá uma entrevista no Flow na mesma noite; Flávio, que inicialmente pretendia comparecer e explorar a ausência do presidente, agora também desistiu. O candidato que, segundo a leitura de seus estrategistas, poderia transformar o debate em confronto com Lula acabou sem o palco que esperava — e, ao menos por enquanto, com um vazio na agenda pública a poucos dias do primeiro turno.  

A cadeira que a Rede Globo não poderá mostrar para representar a ausência de Lula acabou ganhando uma irmã: a cadeira que ficará vazia porque Flávio Bolsonaro desistiu de comparecer. A emissora terá de se contentar com um debate que não reunirá nenhum dos dois principais candidatos à Presidência — um verdadeiro debate de candidaturas anãs, esvaziado justamente quando deveria concentrar a atenção do eleitorado. A ironia é que Flávio, que pretendia fazer da ausência de Lula o eixo de sua atuação, retirou-se depois que as condições do debate mudaram. Lula estará em outro palco, no Flow Podcast; Flávio, por ora, não estará em palco algum.

Isso não significa que a decisão de Lula esteja acima de crítica. Debates públicos são espaços importantes de prestação de contas, e o presidente poderia ter escolhido enfrentar diretamente seus adversários. Mas também é preciso reconhecer que ele não desapareceu da cena: optou por outro formato de comunicação, com grande alcance digital, enquanto a campanha adversária avaliou que o debate seria uma oportunidade de concentrar ataques sobre sua ausência. O eleitor terá de julgar as duas escolhas — comparecer a um podcast ou a um debate, e desistir de um confronto depois que suas condições mudaram.

Há aqui uma ironia política evidente. A cadeira vazia de Lula, que em 2006 foi exibida pela Globo e se converteu em poderosa imagem de campanha contra o então presidente, não poderá ser reproduzida neste debate. A decisão judicial limita a capacidade da emissora de transformar a ausência em peça visual e impede que os candidatos façam do presidente ausente um interlocutor fictício, sem direito de resposta. Flávio, que parecia contar com esse recurso, decidiu não comparecer.  

O episódio revela, ainda, uma transformação mais ampla na política brasileira. A Globo continua sendo uma organização de enorme alcance e capacidade de pautar o debate público, mas já não controla sozinha o palco, o formato e a audiência da disputa. Um candidato pode trocar seu debate por um podcast; decisões judiciais podem alterar as regras do espetáculo; e um concorrente pode abandonar o programa quando percebe que o roteiro previsto deixou de funcionar. Em um passado não distante, seria difícil imaginar que o debate final da maior emissora do país perdesse, na véspera, os dois candidatos mais votados nas pesquisas.  

A democracia brasileira aparece, nesse episódio, ao mesmo tempo resistente e vulnerável. Resistente porque há regras eleitorais, contestação judicial e limites à tentativa de converter a ausência de um candidato em arma unilateral de campanha. Vulnerável porque a discussão programática cede lugar à disputa por formatos, vantagens de imagem e controle da narrativa; porque os principais candidatos podem evitar o confronto direto; e porque decisões judiciais, ainda que fundamentadas, passam a definir em tempo real o desenho de um dos espaços mais visíveis da campanha.

No fim, a cadeira que não poderá ser mostrada acabou expondo outra ausência: a de um debate político capaz de reunir os principais concorrentes diante do eleitorado. A Globo terá uma cadeira a menos — a de Flávio Bolsonaro — e um debate sem Lula e sem Flávio, reduzido às candidaturas que restaram no estúdio. O fato de a emissora já não conseguir garantir esse encontro como acontecimento central talvez seja o sinal mais eloquente de que o sistema político e comunicacional brasileiro mudou. Resta saber se essa mudança amplia a pluralidade democrática ou apenas fragmenta ainda mais a esfera pública.

Porto do Açu drena milhões de litros por dia: quem protege a água do V Distrito?

O Porto do Açu costuma ser apresentado como uma vitrine de investimentos, mas os documentos que sustentam seu funcionamento levantam perguntas sobre os custos socioambientais desse empreendimento. A outorga OUT nº IN010339, concedida pelo Instituto Estadual do Ambiente (INEA) à Águas Industriais do Açu S/A, autoriza a retirada de até 1,9 milhão de litros de água subterrânea por dia em um único poço, o T2-5, instalado no complexo portuário. No limite autorizado, são 57 milhões de litros mensais, destinados a atividades como resfriamento, aspersão de cargas, construção civil, limpeza e fornecimento a embarcações, além de consumo e higiene humana, sujeitos às restrições do documento.

Essa autorização não constitui um cheque em branco. O bombeamento está limitado a 95 mil litros por hora, durante 20 horas diárias, e deve ser acompanhado por medições e controle da qualidade da água. A outorga também proíbe a comercialização da água extraída e exige avaliação prévia do INEA para alterações nos usos autorizados. Cabe, portanto, esclarecer como ocorre o fornecimento a terceiros e se sua execução respeita essa proibição, sem presumir uma irregularidade que o termo, sozinho, não demonstra.

A condição ambiental mais sensível determina que, ocorrendo entrada de água salgada no aquífero, a extração seja suspensa, o INEA seja informado e seja solicitado o tamponamento do poço. A cláusula reconhece um risco central da exploração de aquíferos costeiros: o bombeamento precisa permanecer compatível com a prevenção da salinização. A existência de uma vazão autorizada não dispensa o monitoramento de seus efeitos reais, especialmente em períodos de menor recarga e diante da soma das captações do complexo.

Para a população do V Distrito de São João da Barra, a questão é saber se essa exploração interfere nas fontes utilizadas pelas comunidades. Caso exista conexão hidráulica entre o aquífero captado e os poços dos moradores, o bombeamento pode contribuir para o rebaixamento dos níveis, a redução da disponibilidade e alterações de salinidade. O termo não comprova esses impactos, mas tampouco comprova sua ausência. A resposta depende dos estudos hidrogeológicos, dos registros de extração e do acompanhamento dos poços industriais e comunitários, considerando os efeitos cumulativos.

Há uma razão imediata para cobrar essas informações: a validade expressa da outorga se esgota no próximo dia 8 de outubro de 2026. Agora resta saber se estão reunidas as condições para sua renovação e se elas serão devidamente escrutinadas pelo INEA. O pedido deveria ter sido apresentado até 10 de junho, respeitando a antecedência mínima de 120 dias. Um requerimento tempestivo pode manter os efeitos da autorização durante a análise, mas isso não equivale à aprovação da renovação nem substitui a verificação do cumprimento das condições impostas.

O INEA precisa demonstrar quanto foi efetivamente retirado, como o aquífero respondeu e se há sinais de salinização ou interferência sobre outras fontes. Esses dados devem ser confrontados com as necessidades da população, lembrando que a legislação dá prioridade ao consumo humano e à dessedentação animal em situações de escassez. O pagamento pelo uso da água não transforma um recurso público em propriedade empresarial, nem assegura precedência absoluta às operações industriais.

O vencimento da outorga oferece uma oportunidade concreta para exigir transparência e fiscalização. A renovação precisa estar apoiada em evidências de sustentabilidade da captação e de proteção dos usos coletivos. Afinal, a propaganda do desenvolvimento perde credibilidade quando a segurança hídrica das empresas recebe garantias e a das comunidades permanece cercada de perguntas.

Por que a cidade tão rica é também tão pobre?

Habito Campos dos Goytacazes desde janeiro de 1998 e tenho, inclusive, a honra de ter recebido o título de cidadão campista, em 2008, por iniciativa do então vereador Otávio Cabral. Como muitos dos que chegaram por aqui para ajudar a consolidar o projeto universitário da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), passei por muitos lugares antes de lançar âncora nestas terras. Ao contrário de muitos que vieram cumprir essa tarefa profissional, gosto de estar por aqui e aprecio as idiossincrasias desta terra. Aprecio, principalmente, a capacidade e a resiliência dos trabalhadores campistas que, historicamente, ficam com o bagaço da laranja, enquanto as elites locais ficam sempre com o melhor do suco.

Pois bem: como observador privilegiado de quase três décadas da história campista, não posso deixar de expressar minha frustração ao constatar que, muitos bilhões depois, esta cidade está cada vez mais segregada, suja e despreparada para arcar com o peso das mudanças climáticas em curso. Neste momento, quem andar pelas ruas com os olhos minimamente abertos verá muito lixo espalhado, uma infraestrutura viária em condições que beiram o sofrível e a inexistência de algo que se assemelhe ao que deveria ser o transporte público. Além disso, como quem acompanha o que escrevo neste blog sabe, a cidade está passando por algo inacreditável em relação ao seu já diminuto estoque de árvores, fruto de uma política de desmanche marcada por podas drásticas e pela remoção completa de milhares de árvores.

Quem ainda se der ao trabalho de observar os chamados conjuntos habitacionais de interesse social notará o aumento do isolamento social, o peso da violência decorrente das disputas territoriais entre os diferentes grupos que controlam o narcotráfico e a quase completa ausência de serviços essenciais, a começar pelas condições sofríveis em que se encontram hospitais e postos de saúde. Além disso, a educação municipal padece com condições degradantes, que afetam a saúde física e mental do profissionais da área e dificultam seus esforços para oferecer às crianças e aos adolescentes campistas um vislumbre de futuro digno.

A questão é que Campos dos Goytacazes não precisava estar nas condições que descrevo, marcadas por um grande fosso entre seus muitos pobres e seus poucos muito ricos. Com um orçamento bilionário, turbinado pela exploração do petróleo na Bacia de Campos, a vida por aqui poderia ser muito melhor, e a maioria pobre da população poderia ter, pelo menos, vislumbres de um futuro mais justo. Mas não é isso que se vê, qualquer que seja o montante investido em propaganda oficial.

E o pior é que temos visto uma piora, em vez de melhora, nos últimos anos, sem que sequer exista um projeto mínimo de futuro. Vive-se como se não houvesse amanhã, entre uma aposta fantasiosa e outra, sempre com o uso generoso de verbas públicas em iniciativas que não destinadas a tornar a cidade mais habitável,  e que claramente não beneficiam a maioria.

A atual campanha eleitoral espelha toda essa miséria intelectual, com candidaturas que nada dizem sobre a realidade dos campistas mais sofridos. É como se aqueles que pretendem representar o povo nem soubessem o CEP da sede da Prefeitura ou da Câmara de Vereadores. É tanta desconsideração pela realidade da cidade que não chega a surpreender a estimativa de que uma parcela significativa dos votos dos campistas irá para candidaturas de não residentes. Nesse caso, pode-se encontrar muitos culpados, menos entre os eleitores que não se reconhecem nos candidatos locais e preferem apertar o número de algum forasteiro.

Minha expectativa é que, uma hora dessas, a juventude e os trabalhadores campistas consigam se organizar para lutar por seus direitos, vencendo o entorpecimento que parece anestesiar vontades e impede a cobrança necessária para que a riqueza do petróleo chegue aos pobres antes que os poços se esgotem. É que, se depender dos ganhadores de sempre, nada vai mudar na terra de Benta Pereira. Isso me faz lembrar o ataque de uma praga que suga uma planta até deixá-la à beira da morte — e que, antes disso, parte para outra, como se a morte do hospedeiro não representasse também uma condenação mútua.

Desafios para pensar as cidades na perspectiva da adaptação climática

É urgente preparar as cidades para enfrentar as ameaças que tendem a se intensificar nos próximos anos, ao mesmo tempo em que é necessário repensar os modelos de produção e gestão das nossas cidades  

Crédito: Gladystone Fonseca/Unsplash

Por Lívia Izabel Bezerra de Miranda e Orlando Alves dos Santos Junior para “Le Monde Diplomatique”

Nosso ponto de partida é a constatação de que são cada vez mais intensas e frequentes as catástrofes decorrentes de eventos climáticos. Enchentes e deslizamentos, ondas de calor, secas prolongadas e aumento do nível do mar estão presentes no cotidiano das cidades brasileiras e têm gerado inúmeras perdas materiais e de vidas humanas. Apesar de também ter relação com outros fenômenos naturais, é inquestionável que a forma como a sociedade se relaciona com a natureza, como se organiza, produz e se reproduz, pode intensificar essas mudanças, ou pelo menos alterar as formas como os impactos decorrentes dessas mudanças são sentidos. 

A questão é reconhecer que a intensificação dos desastres climáticos-ambientais e dos seus impactos sobre as cidades, cada vez mais frequentes e profundos, ocorre no contexto de um mundo cada vez mais urbanizado. É preciso levar em consideração que desde a década de 1960, com o processo de expansão das áreas urbanas, o Brasil tem mais pessoas morando em cidades do que no campo. Esse processo de urbanização, por sua vez, tem sido historicamente marcado por um modelo excludente de cidades, caracterizadas pela concentração fundiária, de riqueza e renda; pela segregação socioespacial, fortemente conformada pelos marcadores de raça, gênero e etnia; pela distribuição desigual dos benefícios da urbanização; e pela distribuição desigual da arborização e de áreas verdes urbanas e de equipamentos públicos. Essas características são a expressão do modelo de desenvolvimento brasileiro e de suas contradições. 

Embora os eventos climáticos afetem todas as pessoas, seus impactos são muito desiguais: variam entre cidades e, dentro delas, entre diferentes grupos sociais. No Brasil, essas diferenças resultaram tanto das relações entre o ambiente construído e o ambiente natural quanto das desigualdades socioterritoriais que caracterizam as configurações urbanas e intraurbanas, especialmente nas periferias, favelas e territórios ribeirinhos. Assim, é preciso considerar que, apesar dos impactos dos eventos climáticos serem sentidos por todos, são as populações majoritariamente negras em situação de pobreza e vulnerabilizadas as que mais sofrem com os desastres, muitas vezes evitáveis se os territórios que ocupam tivessem recebido intervenções estruturais de urbanização e de recuperação ambiental e, também, políticas de prevenção de riscos e de adaptação climática. Mulheres, bebês, crianças, pessoas idosas e pessoas com deficiência também estão entre os grupos mais vulneráveis aos impactos da mudança do clima – o que reforça a relevância de uma abordagem interseccional nas ações de adaptação. 

Apenas um olhar específico e prioritário para os territórios periféricos e com recortes de gênero, raça, etnia, idade, renda possibilitará a efetivação de uma estratégia inclusiva de adaptação climática para as cidades. É necessário focar na justiça climática, buscando reduzir as desigualdades intraurbanas concretizadas na exclusão urbanística, no déficit habitacional e de áreas verdes urbanas, nas inadequações habitacionais e em serviços inadequados de saneamento básico e de mobilidade. É preciso reforçar os princípios do direito à cidade para enfrentar as adversidades da mudança do clima com foco nas áreas urbanas das cidades brasileiras. Nesse sentido, é urgente preparar as cidades para enfrentar as ameaças que tendem a se intensificar nos próximos anos, ao mesmo tempo em que é necessário repensar os modelos de produção e gestão das nossas cidades. O objetivo do nosso artigo é contribuir nesta perspectiva, discutindo o que está em disputa no contexto das eleições de 2026. 

Torna-se fundamental superar e repensar o paradigma que ainda persiste na nossa maneira de pensar, que separa a sociedade da natureza. Os fenômenos naturais não são considerados como produzidos socialmente e os fenômenos sociais não são percebidos como variáveis socioecológicas. Esse modo de pensar ignora que a sociedade e a natureza não são mundos separados: estamos inseridos em um ambiente dialético, em que tudo o que fazemos transforma o ambiente que também condiciona as nossas vidas cotidianas. E esse paradigma tem sido particularmente limitador dos nossos diagnósticos e das nossas propostas de enfrentamento do problema. Nesse sentido, o contexto de emergência climática nos parece uma oportunidade para pensar a nossa condição de espécie no planeta Terra, como propõe o geógrafo David Harvey. 

No contexto das eleições presidenciais de 2026, estão em disputa concepções, agendas e políticas que terão muitas consequências nas formas como o Brasil vai lidar com a temática do desenvolvimento urbano na perspectiva da adaptação climática. De uma forma sintética, podemos identificar três posicionamentos. 

O primeiro posicionamento pode ser chamado de negacionismo ou de fachada. Aqui estão as narrativas que não reconhecem as mudanças climáticas e seus impactos sobre as cidades como um problema; defendendo que tudo siga como está. Muitas vezes, mesmo que não haja uma negação explícita da agenda das mudanças climáticas, esta não recebe prioridade nos programas de governo nem na discussão das políticas de desenvolvimento urbano. 

O segundo posicionamento pode ser denominado ambientalismo excludente, que mobiliza os argumentos climáticos-ambientais para criminalizar as populações mais vulneráveis, inviabilizando os processos de produção desigual das cidades. Aqui o argumento climático é mobilizado para promover remoções, projetos segregadores expressos em conjuntos verticalizados e fechados voltados para as elites. 

Por fim, o terceiro posicionamento, a perspectiva crítica fundada no direito à cidade, na sustentabilidade ambiental e na justiça climática. Este posicionamento reconhece a necessidade de enfrentar este debate com foco no fenômeno urbano a partir de uma perspectiva crítica, o que implica duas abordagens interligadas. De um lado, identificar as ameaças climáticas e os riscos delas decorrentes: chuvas intensas e os riscos de enchentes e desabamentos; temperaturas extremas e os riscos da formação de ondas de calor; estiagem e secas prolongadas e os riscos de escassez hídrica; e aumento do nível do mar e os riscos de diminuição da área urbana. Por outro lado, é preciso focar nas ameaças desses fenômenos impactarem quatro dinâmicas vinculadas ao cotidiano: o direito à cidade, o acesso à moradia digna, o acesso ao saneamento básico e o acesso à mobilidade urbana.  

Nessa perspectiva, o esforço de monitoramento dos fenômenos climáticos deveria incorporar variáveis que permitam compreender os processos socioecológicos de produção da cidade que promovem e intensificam os riscos e ameaças de desastres e catástrofes, o que implica identificar seus agentes, seus interesses, conflitos sociais e suas contradições. É preciso discutir as condições que tornam possíveis o enfrentamento dos interesses do mercado imobiliário e o estabelecimento de pactos em torno da produção da cidade fundados na justiça socioambiental. 

Consideramos que a recriação do Ministério das Cidades, em 2023, trouxe uma inovação importante ao incorporar a adaptação das cidades à mudança do clima como uma política transversal, em sintonia com o Plano Clima Adaptação – Cidades sendo, inclusive, tema da 6ª Conferência Nacional das Cidades, realizada em 2026.   

Neste contexto, nossa perspectiva é que está em disputa a possibilidade de o Brasil avançar ou retroceder na superação de uma cultura tecnocrática que ainda predomina no campo de planejamento urbano, avançando para políticas que atuem sobre os processos de produção do espaço e da cidade. Isso deve se refletir na elaboração dos planos diretores municipais das nossas cidades e na implementação de instrumentos de política urbana na perspectiva da adaptação climática.  

Isso tem fortes implicações sobre as formas como nossas cidades têm sido produzidas e geridas, ainda fortemente subordinadas aos interesses do mercado imobiliário, que determina onde e como construir, quem vive aqui e ali, o que é preservado e o que é destruído, quem fica e quem é removido. A dinâmica e a força do capital imobiliário no contexto contemporâneo do nosso urbanismo periférico e dependente estão sendo reconfiguradas pela sua subordinação ao capital rentista e financeirizado do capitalismo global, e isso precisa ser estudado e compreendido para ser enfrentado. 

Em suma, apesar dos discursos em torno das mudanças climáticas parecerem um consenso, existem muitas diferenças sobre como esta temática é pensada e incorporada nos programas de governo e nas propostas de políticas públicas federais.  

É por isso que se torna um desafio a mobilização de ativistas sociais, movimentos populares, profissionais e acadêmicos, empresários e gestores públicos comprometidos com a justiça socioambiental para garantir que a agenda vitoriosa nas eleições favoreça novas práticas de planejamento urbano, orientadas pela adaptação climática e pelo direito à cidade. 

Lívia Izabel Bezerra de Miranda é pesquisadora do Núcleo Paraíba do INCT Observatório das Metrópoles e Orlando Alves dos Santos Junior é coordenador nacional do programa INCT Observatório das Metrópoles. 


Fonte: Le Monde Diplomatique

Bets: o veto precisa ser definitivo

Nunca apostei em bets. Não foi por falta de dinheiro, mas por acreditar que há maneiras mais proveitosas de usar o que conquisto com meu salário do que entregá-lo a plataformas que transformam a esperança de ganho em receitas fabulosas para seus operadores. Por isso, considero correta a decisão do governo Lula de proibir a exploração, a oferta e a publicidade das apostas de quota fixa. Mas ela chegou tarde, depois de anos de expansão acelerada e de um custo social que recaiu, em grande medida, sobre famílias com menos recursos.

A medida provisória assinada em 25 de setembro determina a interrupção dos novos depósitos, o encerramento das plataformas a partir de 6 de outubro e a devolução dos saldos existentes aos apostadores. O texto ainda precisa ser apreciado pelo Congresso em até 120 dias. Portanto, embora a decisão tenha efeito imediato, sua permanência não está garantida.  

O problema, porém, vai além do dinheiro perdido em apostas. Investigações e reportagens recentes levantaram suspeitas de que plataformas do setor possam ter sido usadas para movimentar ou lavar recursos de origem ilícita. Essas suspeitas precisam ser apuradas com rigor, sem transformar acusações em conclusões antecipadas. Mas, se confirmadas, revelariam um dano adicional: além de absorver recursos de famílias endividadas, o sistema teria servido para contaminar a economia com dinheiro de origem criminosa.  

Também é preciso reconhecer a contradição política do percurso até aqui. A autorização das apostas esportivas foi aprovada em 2018, durante o governo Michel Temer, mas a regulamentação que abriu caminho para a expansão das bets foi sancionada no governo Jair Bolsonaro, em 2022. Já no governo Lula, a Lei nº 14.790, de 2023, estabeleceu novas regras para o setor. Portanto, embora o governo Lula tenha participado da consolidação do modelo regulatório, a autorização inicial não começou em sua gestão. Agora, diante do agravamento do endividamento e dos impactos sociais, o governo tenta interromper uma atividade que cresceu, ganhou publicidade ostensiva e se instalou no cotidiano de milhões de brasileiros. A mudança de rumo é bem-vinda, mas não apaga o tempo em que essa expansão ocorreu.

Minha expectativa, portanto, não é que o veto seja apenas uma suspensão temporária, sujeita a negociações e recuos. Espero que o país caminhe para o banimento definitivo desse modelo de negócio, que extrai recursos de famílias — muitas vezes de quem menos pode perder — e concentra os ganhos nas empresas que operam as plataformas. Proteger a população exige mais do que interromper depósitos por alguns dias: exige impedir que esse circuito seja reconstituído sob outro nome, com outras marcas ou por meio do mercado ilegal.

A proibição precisa ser acompanhada de fiscalização efetiva, investigação das suspeitas de lavagem de dinheiro e políticas de cuidado para quem desenvolveu dependência ou sofreu perdas graves. Se o Congresso reverter a medida, ou se o setor apenas encontrar novas formas de operar, os custos continuarão recaindo sobre as mesmas pessoas. A decisão do governo abre uma possibilidade importante; cabe agora à sociedade cobrar que ela se converta em proteção duradoura.