A maior termelétrica do Brasil parou no Porto do Açu. E poucos parecem ter notado

Falha na GNA II expõe questões sobre segurança tecnológica, padrões ambientais mais permissivos que os europeus e uma forma de “violência lenta” que permanece quase invisível no debate público

No dia 10 de agosto, a GNA II, instalada no Porto do Açu, em São João da Barra, interrompeu completamente sua operação depois que uma falha no disjuntor da turbina a vapor afetou o transformador elevador da unidade. Não se trata de uma termelétrica qualquer: com cerca de 1,7 GW de capacidade instalada, a GNA II é a maior usina termelétrica do Brasil e havia iniciado sua operação comercial pouco mais de um ano antes, em maio de 2025. Até o momento, a empresa não informou quando a geração será retomada e afirma que equipes técnicas, com a participação do fabricante do equipamento, continuam investigando as causas da falha.

O acontecimento chama atenção não apenas pelo porte da usina, mas também pela juventude do empreendimento e pelo aparato tecnológico mobilizado em sua construção. A GNA II integra, juntamente com a GNA I, um complexo de aproximadamente 3 GW instalado dentro do Porto do Açu e apresentado como o maior parque termelétrico a gás natural da América Latina. A paralisação da maior unidade desse complexo pouco depois de sua entrada em operação inevitavelmente levanta questões sobre a natureza da falha, a confiabilidade dos equipamentos empregados e as responsabilidades envolvidas em sua construção e manutenção.

A dimensão internacional do empreendimento torna essas perguntas ainda mais pertinentes. A GNA reúne empresas de diferentes nacionalidades, entre elas a britânica BP, a alemã Siemens Energy e a SPIC Brasil, vinculada ao grupo estatal chinês SPIC. No caso da GNA II, a participação da Siemens Energy merece atenção especial, pois a empresa teve papel central no fornecimento tecnológico e na implantação da usina. Isso torna particularmente relevante compreender como uma instalação tão nova e apresentada como tecnologicamente avançada pôde sofrer uma falha suficientemente grave para retirar de operação a maior termelétrica do país.

Uma falha pequena em um sistema gigantesco

A GNA II parou porque ocorreu uma falha no disjuntor associado à turbina a vapor, que atingiu também o transformador elevador. Os sistemas de proteção desligaram a instalação, e a empresa afirma que não houve vítimas nem impactos ambientais associados ao evento. Até a divulgação da ocorrência, entretanto, a própria companhia ainda investigava a causa e não apresentava previsão para retomada da operação.

Não existe contradição técnica absoluta entre uma usina equipada com tecnologia alemã avançada e a ocorrência de uma pane.  Afinal de contas, equipamentos de alta tensão trabalham submetidos a correntes enormes, aquecimento, ciclos térmicos, vibrações e transientes elétricos; disjuntores e transformadores podem apresentar defeitos de fabricação, problemas de montagem, falhas de isolamento, problemas de conexão ou falhas associadas às operações de abertura e fechamento. Neste momento, porém, seria especulação atribuir o episódio a qualquer uma dessas causas. O fabricante do equipamento participa da investigação, e não encontrei informação pública identificando sequer o fabricante específico do disjuntor que falhou.

A questão relevante encontra-se em outro lugar: uma instalação relativamente nova, inaugurada comercialmente há pouco mais de um ano, perdeu integralmente 1,7 GW de capacidade por causa de um evento iniciado em um componente elétrico. A companhia gosta de apresentar a GNA II como expressão de “alta tecnologia e eficiência energética”; exatamente por isso, uma falha dessa magnitude deveria produzir investigação pública detalhada, inclusive sobre fabricação, montagem, manutenção preventiva e resultados do comissionamento.

Há ainda um detalhe curioso: a falha ocorreu em 10 de agosto, mas a notícia ganhou circulação nacional somente em 19 de agosto, quando surgiu o fato relevante da companhia. A maior termelétrica brasileira ficou, portanto, indisponível durante nove dias antes de o episódio se transformar em notícia relevante para o público, embora a indisponibilidade já tivesse sido comunicada ao ONS.

O que seria permitido no Brasil e na Alemanha

Aqui aparece talvez a parte mais interessante do problema. O relatório de sustentabilidade da própria GNA informa como parâmetros da Resolução CONAMA nº 382/2006 limites de 50 mg/Nm³ para NOx e 65 mg/Nm³ para monóxido de carbono, declarando que a GNA I apresentava valores médios de aproximadamente 15 mg/Nm³ para ambos. Para a GNA II, a empresa informou que utilizaria monitoramento contínuo de NOx, CO e O₂.

Na Alemanha, uma turbina a gás natural operando em ciclo combinado — precisamente a tecnologia utilizada na GNA II — está submetida atualmente a regras mais complexas. A legislação alemã estabelece, para novas instalações desse tipo, 15 mg/m³ de NOx como média anual, 40 mg/m³ como média diária e até o dobro desse último valor como média de meia hora.

Isso permite fazer uma comparação reveladora, mas com uma ressalva importante. Não podemos simplesmente colocar todos esses números lado a lado como se fossem metodologicamente idênticos, porque existem diferenças de período de média, condições de referência, teor de oxigênio e critérios operacionais. Mesmo assim, fica claro que a Alemanha exige controle do NOx em escala anual muito mais rigoroso que o teto de 50 mg/Nm³ usado pela GNA como referência brasileira. Desta forma, há uma assimetria regulatória interessante: tecnologia produzida e comercializada por uma empresa alemã pode ser instalada no Brasil obedecendo formalmente a limites que não reproduzem integralmente o regime que incidiria sobre uma planta equivalente em território alemão.

Isso não significa que a GNA necessariamente esteja emitindo NOx acima do padrão alemão. Ao contrário, o valor médio de 15 mg/Nm³ informado pela empresa para a GNA I coincide numericamente com o limite anual alemão. O problema político e ambiental está em outra parte: o padrão jurídico brasileiro permite maior margem de emissão que aquela aceita na Alemanha, especialmente quando se observa o NOx. Uma empresa pode operar tecnologicamente melhor do que a lei exige; isso não transforma uma legislação permissiva numa legislação ambientalmente adequada.

A dimensão da “slow violence”

É justamente aí que Rob Nixon ajuda a interpretar o complexo termelétrico do Açu. Para Nixon, slow violence é uma violência ambiental que se acumula lentamente, espalha-se pelo espaço e pelo tempo e dificilmente produz a imagem espetacular que normalmente associamos a um desastre.

A falha do dia 10 de agosto é o contrário disso: ela possui data, equipamento defeituoso e desligamento abrupto. É um acontecimento identificável. Mas o funcionamento normal da termelétrica oferece uma porta muito mais interessante para pensar a violência lenta.

Uma usina a gás não precisa explodir para produzir impactos. Durante anos ela queima combustível, libera CO₂ e óxidos de nitrogênio, participa de uma cadeia de GNL que também envolve emissões de metano, adiciona poluentes à atmosfera e contribui incrementalmente para o aquecimento climático. Cada emissão isolada parece pequena diante da atmosfera; acumuladas durante décadas e somadas às emissões de milhares de outras fontes, elas constituem precisamente o tipo de processo que Nixon procura tornar visível.

A própria eficiência da GNA II não elimina essa questão. A companhia informa eficiência superior a 60%, o que significa menor emissão por unidade de eletricidade do que uma termelétrica antiga. Mas uma termelétrica a gás altamente eficiente continua queimando um combustível fóssil. A eficiência diminui a intensidade da emissão; não elimina sua existência.

E existe uma dimensão territorial adicional. Os benefícios econômicos da eletricidade produzida entram no Sistema Interligado Nacional, enquanto grande parte das externalidades ambientais permanece concentrada no território onde se encontram as usinas, o terminal de GNL, as linhas de transmissão e as demais estruturas industriais. Essa separação espacial entre quem recebe os benefícios e quem convive permanentemente com os riscos é bastante compatível com a leitura de Nixon sobre desigualdade ambiental.

O silêncio talvez seja a parte mais reveladora

Minha busca mostra que a paralisação apareceu em veículos nacionais como G1, Folha de S.Paulo, UOL, Terra e posteriormente CNN Brasil. Mas existe uma característica evidente: a maior parte da cobertura praticamente reproduziu a mesma informação empresarial, sem investigação das causas, sem comparação internacional dos padrões ambientais e sem discussão mais ampla sobre o significado de uma usina de 1,7 GW permanecer fora de operação.

Na busca por cobertura regional, encontrei, por exemplo, uma nota do portal Resumo RJ, mas não encontrei repercussão proporcional ao porte do acontecimento nos principais veículos locais pesquisados. Isso não permite afirmar que nenhuma mídia regional tratou do assunto, mas indica uma cobertura surpreendentemente reduzida para um equipamento situado em São João da Barra e apresentado há pouco mais de um ano como símbolo do desenvolvimento regional.  O que se pode concluir então é que aí existe uma assimetria jornalística interessante. A inauguração da GNA II recebeu cobertura televisiva regional, inclusive com presença do presidente da República e destaque para o fato de se tratar da maior termelétrica a gás do país. Quando a mesma usina ficou paralisada, entretanto, a dimensão espetacular desapareceu rapidamente.

Talvez esteja justamente aí uma segunda conexão com Nixon: nossa cultura política e midiática enxerga com facilidade a inauguração, a obra bilionária, a autoridade cortando a fita e a promessa de empregos; tem muito mais dificuldade para acompanhar aquilo que acontece depois — emissões cotidianas, riscos acumulados, panes técnicas, condicionantes ambientais e consequências territoriais.

No caso da GNA II, a pane deveria suscitar perguntas que ainda permanecem abertas: qual componente efetivamente falhou; quem o fabricou; por que falhou numa planta praticamente nova; houve danos permanentes ao transformador; quando ocorreu a última manutenção; quanto tempo a usina permanecerá indisponível; e quais são os dados atuais do monitoramento contínuo de NOx e CO da GNA II?

Enquanto essas respostas não aparecem, talvez a notícia mais importante não seja apenas que a maior termelétrica brasileira parou. É que ela pôde parar durante nove dias antes que a maior parte da sociedade sequer soubesse que havia parado. E num empreendimento deste porte, construído cercado por discursos sobre tecnologia de ponta, segurança energética e sustentabilidade, esse silêncio também merece investigação.

Mato Grosso do Sul: uma vitrine da violência contra os povos indígenas no Brasil

Relatório do Cimi mostra que a violência não se distribui aleatoriamente pelo território brasileiro: ela acompanha as disputas pela terra e o avanço de poderosos interesses econômicos

O Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2025, divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), apresenta números que deveriam causar constrangimento a um país que pretende se apresentar internacionalmente como defensor dos povos indígenas.

Em 2025, o Cimi registrou 1.276 casos de violência contra o patrimônio indígena. Desse total, 897 estavam relacionados à omissão ou morosidade na regularização das terras, 169 envolveram conflitos relativos a direitos territoriais e 210 corresponderam a invasões, exploração ilegal de recursos naturais e outros danos ao patrimônio indígena.

Os 169 conflitos territoriais atingiram 143 Terras Indígenas distribuídas por 23 estados. Aproximadamente dois terços desses territórios apresentavam alguma pendência em sua regularização ou sequer haviam recebido providências efetivas para iniciar a demarcação.

Esses números ajudam a identificar a origem de grande parte da violência. Não estamos diante de centenas de conflitos locais independentes. Existe uma geografia da violência contra os povos indígenas que acompanha a disputa pelo controle da terra e dos recursos naturais.

Na Amazônia, aparecem com força o garimpo, a extração ilegal de madeira e grandes projetos minerais. Em outras regiões, avançam a pecuária, a soja, a cana-de-açúcar, as plantações comerciais de árvores e diferentes empreendimentos de infraestrutura. O relatório registra inclusive danos a cursos d’água relacionados à mineração, à drenagem destinada às monoculturas e à contaminação por agrotóxicos.

Mas existe um estado que talvez sintetize como poucos essa combinação entre concentração da terra, poder econômico e violência contra povos indígenas: Mato Grosso do Sul.

Mato Grosso do Sul: quando a disputa territorial se torna permanente

Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou 37 assassinatos de indígenas, ficando atrás apenas de Roraima, com 82, e Amazonas, com 47. O estado também registrou 42 suicídios indígenas, novamente um dos maiores números do país. 

A situação dos Guarani e Kaiowá ajuda a compreender por que isso acontece. Durante décadas, comunidades foram confinadas em áreas extremamente reduzidas enquanto seus territórios tradicionais passaram ao controle de grandes propriedades rurais. Posteriormente, partes importantes dessas áreas foram incorporadas à expansão da soja, do milho, da cana-de-açúcar e, mais recentemente, das plantações de eucalipto associadas à produção de celulose.  Quando comunidades realizam as chamadas retomadas, portanto, não estão simplesmente invadindo propriedades escolhidas aleatoriamente. Elas tentam retornar a territórios que reivindicam como tradicionalmente ocupados e cuja demarcação frequentemente permanece inconclusa depois de anos ou mesmo décadas.

Guyraroká oferece um exemplo particularmente revelador. A Terra Indígena possui mais de 11 mil hectares oficialmente reconhecidos, mas a comunidade permaneceu confinada a aproximadamente 50 hectares, cercada por áreas agrícolas. As pulverizações de agrotóxicos nas proximidades das moradias tornaram-se tão graves que, em setembro de 2025, indígenas Guarani e Kaiowá retomaram uma fazenda sobreposta ao território numa tentativa de impedir novas pulverizações. A reação incluiu ataques de homens armados e ações policiais contra os indígenas.

Esse caso mostra que o conflito começa muito antes do primeiro tiro. Ele começa quando uma terra tradicional permanece décadas sem solução; continua quando grandes propriedades e monoculturas ocupam o território reivindicado; agrava-se quando agrotóxicos atingem casas, escolas, águas e plantações indígenas; finalmente explode quando as comunidades tentam recuperar partes dessas terras.

Quando o Estado escolhe um lado

A situação de Mato Grosso do Sul ganha contornos ainda mais graves porque existem registros recorrentes de participação das forças policiais estaduais em conflitos envolvendo indígenas e proprietários rurais. No caso de Guyraroká, o Cimi denunciou a participação da Tropa de Choque da Polícia Militar e do Departamento de Operações de Fronteira em ações contra indígenas. Em outros territórios também existem denúncias de despejos realizados sem ordem judicial.

Os Conselhos dos povos Terena e Guató chegaram a acusar publicamente as forças policiais estaduais de atuarem na defesa de interesses privados durante conflitos fundiários. Esse padrão coloca uma questão incômoda: o Estado que pode levar décadas para garantir o direito territorial indígena demonstra uma capacidade impressionante de mobilização quando a propriedade privada precisa ser protegida.

É justamente essa assimetria que transforma Mato Grosso do Sul numa espécie de vitrine do problema indígena brasileiro. Ali se encontram praticamente todos os elementos presentes em outras regiões do país: concentração fundiária, demora nas demarcações, avanço de atividades econômicas sobre territórios tradicionais, confinamento de comunidades, contaminação por agrotóxicos, retomadas, ataques armados e intervenção policial.

A violência começa pela disputa da terra

O relatório do Cimi permite, portanto, enxergar uma cadeia bastante clara. A demora na demarcação mantém territórios em situação conflituosa; a valorização econômica da terra amplia a pressão sobre essas áreas; agricultura, pecuária, mineração e outros empreendimentos avançam; comunidades indígenas permanecem confinadas ou tentam retornar aos seus territórios; proprietários e outros agentes privados reagem; finalmente, a violência aparece como instrumento de manutenção da estrutura territorial existente.

Em novembro de 2025, essa sequência voltou a produzir uma morte em Mato Grosso do Sul. Vicente Fernandes Vilhalva, Guarani Kaiowá, foi assassinado durante um ataque à retomada de Pyelito Kue, na Terra Indígena Iguatemipeguá I. O Ministério Público Federal classificou a situação como grave e voltou a cobrar a conclusão da demarcação. Por isso, chamar episódios como esse simplesmente de “conflitos fundiários” pode esconder mais do que esclarecer. É preciso perguntar quem controla a terra, quem foi historicamente retirado dela, quem possui recursos econômicos e políticos para defender sua posição e como o Estado se comporta diante dessa enorme desigualdade.

O Mato Grosso do Sul oferece uma resposta particularmente desconfortável, pois o que acontece ali mostra que a violência contra os povos indígenas não constitui um problema isolado nas margens da sociedade brasileira.  A violência está diretamente ligada ao modelo de ocupação do território, à concentração da propriedade e à expansão de atividades econômicas que transformam terra, água e florestas em mercadorias.Nesse sentido, Mato Grosso do Sul não representa uma exceção. É por isso que o Mato Grosso do Sul se mostra como uma vitrine particularmente transparente de um conflito que atravessa grande parte do território brasileiro.

E talvez seja justamente por isso que aquilo que acontece com os Guarani e Kaiowá receba tão pouca atenção nacional. Olhar demoradamente para Mato Grosso do Sul obrigaria o Brasil a enfrentar uma pergunta que permanece incômoda desde sua formação: quem tem direito à terra e de que lado fica o Estado quando esse direito entra em conflito com os interesses dos grandes proprietários e das grandes empresas?

A prisão de Fernando Cerimedo, as granjas de bots e a caixa de Pandora da extrema direita

A prisão do estrategista argentino e a descoberta de uma suposta estrutura de manipulação digital na Bolívia expõem conexões transnacionais que podem alcançar a eleição brasileira de 2026

A prisão do consultor político argentino Fernando Cerimedo na Bolívia abriu uma verdadeira caixa de Pandora na extrema direita da América Latina e da Espanha, colocando sob os holofotes conexões políticas, empresariais e digitais que ultrapassam amplamente o episódio policial que desencadeou o caso. Cerimedo foi detido sob suspeita de envolvimento no ataque a tiros contra sua ex-companheira, Nadia Beller, atingida por três disparos; posteriormente, a Justiça boliviana determinou sua prisão preventiva enquanto o Ministério Público investiga uma possível tentativa de feminicídio.  Fernando Cerimedo nega participação no atentado e sua defesa contesta as acusações, razão pela qual é necessário separar os fatos já documentados daqueles que ainda dependem de comprovação judicial.

O problema é que Fernando Cerimedo está longe de ser apenas um publicitário envolvido em uma investigação criminal. Nos últimos anos, ele transitou pelo entorno de importantes personagens da nova extrema direita, participou da ascensão de Javier Milei na Argentina, trabalhou para Jair Bolsonaro e manteve relações políticas em outros países latino-americanos.  A rede de Cerimedo alcançou também a Espanha por meio de sua sociedade no La Derecha Diario com o empresário e comunicador espanhol Javier Negre. O caso começa, portanto, a expor uma estrutura política e comunicacional que atravessa fronteiras nacionais.

Para o Brasil existe um antecedente especialmente importante. Depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022, Cerimedo participou ativamente da disseminação de alegações falsas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas brasileiras. Sua atuação acabou investigada pela Polícia Federal no inquérito sobre a tentativa de golpe, embora posteriormente a Procuradoria-Geral da República não tenha apresentado denúncia contra ele. O episódio demonstra, de qualquer maneira, que Cerimedo não era um observador distante da crise política brasileira produzida após a vitória de Lula.

É nesse contexto que adquire especial importância aquilo que as autoridades bolivianas afirmam ter encontrado durante buscas em imóveis ligados a Cerimedo. Além de dezenas de milhares de dólares em espécie, investigadores relataram a existência de uma suposta “granja de bots”, enquanto a defesa de Cerimedo nega que essa estrutura existisse. A descoberta precisa ser investigada cuidadosamente, mas ganha relevância adicional porque Cerimedo construiu sua trajetória política justamente como especialista em comunicação digital e já falou publicamente sobre o uso de trolls, múltiplas contas e mecanismos destinados a influenciar a conversação política nas redes.

Se as investigações confirmarem que essa infraestrutura servia para favorecer campanhas ou políticos, estaremos diante de algo muito mais importante do que a atuação individual de um marqueteiro agressivo. Granjas de bots podem multiplicar mensagens, impulsionar artificialmente determinadas pautas, atacar adversários e interferir nos algoritmos das plataformas, criando a impressão de que uma posição política possui apoio social muito maior do que realmente tem. Uma granja de bots não fabrica apenas mensagens; ela pode fabricar a aparência de maioria.

E o Brasil de 2026?

É justamente nesse ponto que o caso Cerimedo interessa diretamente ao Brasil. Flávio Bolsonaro disputa a Presidência da República pelo PL, enquanto outros integrantes da família Bolsonaro participam das eleições de 2026. A proximidade anterior de Cerimedo com o bolsonarismo evidentemente não demonstra que essas candidaturas tenham participado de qualquer atividade ilegal. Entretanto, sua atuação na disseminação de desinformação sobre as urnas brasileiras em 2022 e sua experiência com operações digitais tornam inevitável perguntar se as estruturas agora investigadas na Bolívia chegaram a operar também no Brasil.

Caso as autoridades bolivianas comprovem que a suposta granja de bots fazia parte de uma estrutura destinada a favorecer políticos da extrema direita em diferentes países, algumas perguntas precisarão ser respondidas: quais campanhas foram beneficiadas, durante quanto tempo, quem financiava essas operações e em quais países elas funcionaram? No Brasil, essas respostas podem adquirir enorme importância em plena eleição presidencial de 2026, principalmente se surgirem evidências de operações dirigidas ao público brasileiro ou contatos recentes entre essa infraestrutura e pessoas vinculadas a campanhas eleitorais. Por enquanto, é importante ressaltar que não existe evidência pública que demonstre uma ligação operacional entre a suposta granja de bots encontrada na Bolívia e a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026. A proximidade política não substitui a prova. Mas o histórico de Fernando Cerimedo torna perfeitamente legítimo investigar até onde chegaram as estruturas digitais que ele construiu ou ajudou a operar e quem se beneficiou delas.

O caso revela ainda um problema maior. A extrema direita construiu nos últimos anos redes políticas, empresariais e comunicacionais que atravessam a América Latina e chegam à Espanha. Operadores digitais não precisam sequer estar no país cuja opinião pública pretendem influenciar; a infraestrutura tecnológica permite que contas administradas a milhares de quilômetros produzam artificialmente tendências, ampliem determinadas narrativas e ataquem adversários políticos. A trajetória de Cerimedo oferece um exemplo particularmente revelador desse novo tipo de operador político transnacional.

Se as investigações confirmarem a utilização coordenada de granjas de bots para esses fins, aquilo que muitas vezes aparece apresentado como simples “militância digital” assumirá contornos bem diferentes. Estaremos falando de dinheiro, tecnologia, profissionais especializados e estruturas organizadas capazes de simular apoio popular e interferir artificialmente naquilo que milhões de pessoas percebem como opinião pública. Por isso, a pergunta brasileira diante do caso Cerimedo não deveria se limitar ao que aconteceu na Bolívia. Em plena campanha presidencial de 2026, quando Flávio Bolsonaro representa uma das principais forças políticas em disputa, existe uma questão que merece ser investigada até o fim: até onde chegaram as máquinas digitais que Fernando Cerimedo ajudou a construir e quem, afinal, se beneficiou delas no Brasil?

A meta de 1,5 °C já ficou para trás: Paulo Artaxo alerta para a urgência climática

Cientista do IPCC alerta que reduzir rapidamente as emissões e iniciar medidas concretas de adaptação são tarefas simultâneas e urgentes diante de impactos climáticos que já atingem o Brasil

No debate realizado na última quinta-feira sobre o atual ciclo do El Niño, o professor Paulo Artaxo (USP), membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), fez uma série de observações importantes sobre o avanço do aquecimento da atmosfera terrestre e suas consequências cada vez mais evidentes. Artaxo participou de uma atividade organizada pela Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF), que reuniu também os pesquisadores Luciana Gatti (INPE) e  Roberto Verdum (UFRGS) para discutir as mudanças em curso no sistema climático e os desafios que elas colocam para a sociedade brasileira.

Para começo de conversa, Artaxo lembrou que, apesar de todas as conferências realizadas pela Organização das Nações Unidas para enfrentar o aquecimento provocado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, as emissões globais de gases de efeito estufa já ultrapassam 57 bilhões de toneladas por ano. Como resultado, a temperatura média global já aumentou cerca de 1,45 °C, enquanto nas áreas continentais esse aquecimento chega a aproximadamente 2,1 °C. No caso do Brasil, mantida a atual trajetória de aumento da temperatura, o aquecimento poderá atingir entre 3,5 °C e 4 °C, produzindo situações especialmente graves nas grandes cidades. Artaxo ressaltou ainda que o clima não se resume à temperatura, pois envolve também a precipitação e outros componentes do sistema climático; alterações importantes nos padrões de chuva já podem ser observadas em diferentes regiões.

Ao tratar dessas mudanças, Artaxo mencionou um estudo recente do MapBiomas que apontou uma redução de cerca de 30% no estoque de água do Pantanal, processo que já produz graves impactos ambientais, econômicos e sociais. No caso da Amazônia, ele destacou estudos que indicam que partes da floresta passaram da condição de sumidouro para a de fonte de carbono. Esse processo reforça a preocupação de que a Amazônia possa estar se aproximando do chamado ponto de não retorno, situação que produziria impactos não apenas sobre sua composição e estrutura florestal, mas também sobre sua capacidade de reciclar e transportar umidade para extensas áreas do território brasileiro.

Questionado sobre a implantação de grandes projetos econômicos na Amazônia, especialmente sobre a expansão da exploração de petróleo na região, Artaxo observou de forma enfática que esse tipo de iniciativa caminha na direção contrária aos esforços necessários para conter o aumento da temperatura global. A abertura de novas fronteiras petrolíferas amplia a oferta de combustíveis fósseis justamente quando a ciência climática indica a necessidade de reduzir rapidamente sua utilização e, consequentemente, as emissões de gases de efeito estufa.

Outro ponto importante destacado por Artaxo foi a necessidade de o Brasil acelerar a implantação de medidas de adaptação a uma condição climática que deverá se tornar mais severa nas próximas décadas. Segundo ele, embora já existam recursos destinados a iniciar esse processo, o país utiliza pouco do dinheiro disponível e, em diversos casos, utiliza esses recursos de maneira inadequada. A adaptação deixou, portanto, de ser uma questão que pode ser adiada para algum momento futuro, pois parte das mudanças climáticas já está em curso e continuará produzindo consequências mesmo que o mundo consiga reduzir significativamente suas emissões nos próximos anos.

Finalmente, Artaxo observou que a comunidade científica já considera inalcançável a meta de limitar o aquecimento da atmosfera terrestre a 1,5 °C. Esse reconhecimento, longe de justificar qualquer acomodação, torna ainda mais urgente a redução rápida e consistente das emissões de gases de efeito estufa, pois cada fração adicional de grau amplia a intensidade e a frequência dos impactos climáticos. Ao mesmo tempo, governos e sociedades precisam iniciar imediatamente medidas concretas de adaptação, uma vez que os efeitos do aquecimento já começam a se manifestar nos territórios. Adiar essas duas tarefas significa aumentar deliberadamente a exposição da população a ondas de calor, secas, chuvas extremas, enchentes, perdas agrícolas, crises no abastecimento de água e outros eventos capazes de produzir graves consequências sociais e econômicas. A inação, portanto, não representa apenas um risco projetado para as próximas décadas; ela já cobra seu preço no presente e pode transformar fenômenos climáticos cujos impactos poderiam ser prevenidos ou mitigados em desastres de proporções cada vez maiores.

Quem desejar ouvir na íntegra as declarações de Paulo Artaxo e as contribuições dos demais debatedores, Luciana Gatti e Paulo Verdum, poderá acessar a gravação da atividade no canal do GENAT/UFPB [ Aqui!].

Os parques eólicos têm efeitos incertos na escala local

Os parques eólicos trazem benefícios econômicos de curto prazo para os municípios onde são instalados.  No entanto, a longo prazo, esses efeitos podem diminuir e até mesmo se tornar negativos

parques eólicosMuitos parques eólicos no Nordeste do Brasil estão localizados muito perto de residências e estão causando diversos problemas de saúde. Crédito da imagem: Felipe Correia/Kaosenlared 

[SÃO PAULO, SciDev.Net ] A instalação de parques eólicos para a produção de eletricidade pode ter um efeito positivo na economia dos municípios que os recebem, especialmente os mais pobres, com um aumento de aproximadamente 20% no seu Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

Essa é a conclusão de um estudo publicado na revista The Electricity Journal , que analisou mais de 1.500 municípios do Nordeste brasileiro entre 2005 e 2021. No entanto, outros especialistas alertam que o impulso na economia local gerado por esses projetos pode ser temporário.

O Brasil é atualmente o quinto maior produtor mundial de energia eólica , com aproximadamente 36 gigawatts (GW) de capacidade instalada, concentrada principalmente no Nordeste, segundo reportagem do Valor Econômico, jornal brasileiro especializado em energia eólica. Em pouco mais de uma década, a capacidade instalada cresceu de quase zero para 31 GW.

Essa concentração e crescimento são amplamente explicados por suas condições naturais. O interior semiárido e os altos planaltos do nordeste geram ventos constantes, com fatores de capacidade superiores a 40%, entre os mais altos do mundo.

Mas não estava claro se a chegada desses parques melhorou a economia dos municípios que os receberam ou se simplesmente criou complexos de turbinas eólicas cuja eletricidade era exportada para outras cidades.

O estudo, conduzido por Fernando Antonio Ignacio González, pesquisador da Escola de Ciências Empresariais da Universidade Católica do Norte, no Chile, e do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica, na Argentina, analisou 1.613 municípios da região. Destes, 41 receberam parques eólicos entre 2005 e 2021.

Utilizando métodos estatísticos, ele comparou a evolução econômica desses municípios antes e depois da instalação dos parques com a de 1.572 municípios que não os receberam.

O principal indicador foi o PIB per capita, ou seja, quanto a economia produz, em média, por habitante. Além disso, foram analisados ​​o valor gerado pelo setor de serviços, o emprego formal e as diferenças entre os municípios mais pobres e mais ricos.

Os resultados indicam que os parques aumentaram o PIB per capita em uma média de 20%: 29% nos municípios mais pobres em comparação com 13% nos mais ricos. Em termos absolutos — isto é, em reais per capita — ambos os grupos obtiveram ganhos semelhantes, entre R$ 3.200 e R$ 4.100 (aproximadamente US$ 615 e US$ 790).

Segundo González, embora a diferença absoluta entre um município pobre e um rico praticamente não se altere, esse valor tem um impacto muito maior numa economia cujo ponto de partida é mais baixo.

“Para um município do interior do Piauí, onde o Estado era praticamente o único empregador, essa renda extra significa passar de uma economia de subsistência para uma economia monetária, com comércio , emprego formal e arrecadação própria de impostos”, disse ele à SciDev.Net .

O pesquisador também identificou um aumento no emprego formal tanto em municípios pobres quanto ricos, porque os parques criam empregos durante sua construção e mantêm empregos permanentes em sua operação e manutenção.

Além disso, o valor agregado do setor de serviços aumentou 12,5%. “Esse número é importante porque o comércio, a hospedagem e a logística não são contabilizados em relação à geração de eletricidade. Se estão crescendo, é porque há atividade econômica real na região”, acrescenta.

Diante dessas descobertas, o especialista defende a instalação de parques eólicos em municípios carentes. “O pré-requisito, obviamente, é que haja vento. Mas se for possível combinar a instalação com uma região que tenha bons ventos e altos níveis de pobreza, melhor ainda”, destaca.

Efeitos temporários

Segundo Mariana Traldi, professora do Instituto Federal de São Paulo, que não participou do estudo, esses projetos geram empregos principalmente durante a construção dos parques, mas a contratação de trabalhadores locais é limitada e a arrecadação de impostos diminui após a conclusão das obras.

Ele explica ao SciDev.Net que, como os trabalhadores contratados para a construção vêm principalmente de outras regiões do país, isso aumenta momentaneamente a demanda por hospedagem, alimentação e outros serviços, ajudando a impulsionar a economia local.

“No entanto, uma vez concluídas as obras, as cidades se esvaziam e o emprego local se reduz aos serviços de segurança das turbinas eólicas e à produção de peças para os equipamentos em algumas fábricas localizadas nas proximidades”, acrescenta, com base em seus estudos .

A arrecadação de impostos segue uma dinâmica semelhante: aumenta durante a construção e pode alterar temporariamente o orçamento dos municípios, mas diminui assim que as obras são concluídas, retornando a níveis semelhantes aos registrados antes da instalação dos parques.

“Há relatos de proprietários de terras semianalfabetos que assinam contratos com suas impressões digitais e descobrem anos depois que os documentos incluem severas restrições ao uso de suas próprias terras e são válidos por muitos anos.”
Mariana Traldi, professora do Instituto Federal de São Paulo, Brasil

Segundo Traldi, para muitos proprietários de terras, tudo o que resta é a renda do arrendamento de suas terras para a instalação de turbinas eólicas. Mas, embora alguns ainda mantenham a propriedade formal de suas terras, eles têm pouco poder de decisão e recebem apenas uma pequena parcela da renda gerada.

“Há relatos de proprietários de terras semianalfabetos que assinam contratos com suas impressões digitais e descobrem anos depois que os documentos incluem severas restrições ao uso de suas próprias terras e são válidos por muitos anos”, diz ele.

Impactos ambientais e na saúde

Os impactos dos parques eólicos também podem ser ambientais , como a mortalidade de aves e morcegos que colidem com as pás das turbinas eólicas.

A geógrafa Adryane Gorayeb, da Universidade Federal do Ceará, que estuda os impactos desses projetos no estado há mais de 15 anos e também não participou do estudo do The Electricity Journal , explica que muitos parques foram instalados sem diálogo prévio com as comunidades ou estudos sobre seus possíveis efeitos nos territórios.

O documento observa que algumas turbinas eólicas foram instaladas em terrenos anteriormente utilizados para agricultura e que continham lagoas para pesca e recreação. As obras de aterro e nivelamento do terreno causaram o ressecamento de algumas dessas lagoas, reduzindo o acesso da comunidade a áreas que antes eram de uso coletivo.

O pesquisador também alerta para os efeitos relacionados ao ruído das turbinas eólicas. Muitas foram instaladas a pouco mais de 100 metros das residências, gerando problemas como distúrbios do sono, estresse, ansiedadedores de cabeça e sofrimento psicológico, o que, por sua vez, leva os moradores locais a fazer uso contínuo de medicamentos e a desenvolver doenças crônicas.

Gorayeb conclui que a instalação de parques pode ser uma estratégia para promover o desenvolvimento local, mas deve ser acompanhada pelo reconhecimento oficial dos territórios das populações marginalizadas, pelo cumprimento dos procedimentos previstos nos estudos de impacto ambiental e por um maior diálogo com as comunidades.


Fonte:  SciDev.Net

Peixes revelam sinais preocupantes sobre a saúde dos rios no Oeste do Paraná

Alterações em órgãos, danos genéticos e indicadores de estresse apontam impactos associados à degradação ambiental e à presença de contaminantes

Com relevância ambiental, econômica e social para o Oeste do Paraná, os rios estudados abastecem atividades essenciais como irrigação agrícola, abastecimento rural e industrial, pesca e manutenção dos ecossistemas aquáticos. Fotos: Denis Ferreira Netto/Acervo Pessoal

Por Jéssica Tokarski para “Ciência UFPR” 

Lesões em brânquias, danos no fígado e alterações genéticas encontradas em peixes acenderam um alerta sobre a situação dos rios do Oeste do Paraná. A baixa qualidade da água nos rios São Camilo, Santa Fé e Pioneiro revela sinais de degradação ambiental associados à ação humana na região.

O cenário, identificado em pesquisa da Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia Ambiental (PPGETA) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), pode comprometer a saúde dos ecossistemas aquáticos, reduzir a biodiversidade, favorecer desequilíbrios ecológicos e limitar os múltiplos usos da água, como o abastecimento, a irrigação, a piscicultura e a garantia de água potável para os animais.

Para avaliar esses parâmetros, Fernando Garrido de Oliveira, orientado pela professora Lilian Dena dos Santos, utilizou, em sua tese de doutorado, métodos de monitoramento, biomonitoramento e ferramentas geotecnológicas.

As análises identificaram aumento de nutrientes, maior turbidez da água, excesso de sedimentos e presença de metais, indicadores associados ao processo de degradação ambiental e relacionados principalmente à atividade agrícola, uso de fertilizantes e agrotóxicos, urbanização e lançamento inadequado de efluentes não tratados.

Pesquisa buscou identificar “sinais invisíveis” de contaminação

Os biomarcadores avaliados funcionam como uma espécie de “termômetro” da saúde dos rios, pois permitem detectar os efeitos da contaminação diretamente nos organismos que vivem nos rios ao longo do tempo, diferentemente das análises químicas, que registram a presença de substâncias em um momento específico da coleta.

Mapas com resultados finais da pesquisa, incluindo as duas estações nas quais foram realizadas coletas de água

Uma das coordenadoras do Laboratório de Qualidade de Água e Limnologia da UFPR Palotina, Lilian dos Santos explica que as alterações fisiológicas, bioquímicas, histológicas e genéticas identificadas nos organismos aquáticos refletem condições ambientais que podem comprometer a sobrevivência, o crescimento e a reprodução das espécies.

“Quando esses efeitos ocorrem de forma contínua, há maior risco de redução das populações, diminuição da diversidade biológica e desaparecimento de espécies mais sensíveis à contaminação. Como consequência, os ecossistemas tendem a se tornar mais simples e menos resilientes, favorecendo a predominância de organismos mais tolerantes à poluição e reduzindo o equilíbrio ecológico dos ambientes aquáticos”, disse à Ciência UFPR.

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O pesquisador Fernando de Oliveira alerta que, embora os principais impactos da degradação ambiental sejam inicialmente observados nos ecossistemas aquáticos, eles também podem representar riscos indiretos à saúde humana.

“A presença de contaminantes em rios e córregos pode comprometer a qualidade da água utilizada para abastecimento, irrigação, atividades produtivas e recreação. Além disso, substâncias como agrotóxicos, metais e outros poluentes podem se acumular nos organismos aquáticos e ser transferidas ao longo da cadeia alimentar, aumentando a exposição de animais e seres humanos. A degradação da qualidade da água também está associada ao aumento do risco de doenças relacionadas à contaminação hídrica e à proliferação de organismos patogênicos”, salienta.

Como o uso do solo influencia os rios

Segundo o estudo, o modelo agrícola predominante no Oeste do Paraná, baseado na sucessão soja-milho e na alta intensidade produtiva, exerce forte influência sobre a qualidade dos recursos hídricos da região.

“A expansão e o manejo dessas culturas estão associados à redução da vegetação ciliar, ao aumento dos processos erosivos e ao assoreamento dos cursos d’água. Além disso, o uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos favorece o transporte de nutrientes, sedimentos e contaminantes para os rios por meio do escoamento superficial. Esse aporte contínuo de poluentes contribui para alterações físico-químicas na água, para processos de eutrofização e para a degradação dos habitats aquáticos”, revelam os pesquisadores.

Os resultados evidenciam a necessidade da adoção de estratégias de manejo sustentável para garantir o desenvolvimento da piscicultura sem comprometer a integridade dos ecossistemas aquáticos.

“A melhoria da qualidade dos rios São Camilo, Santa Fé e Pioneiro depende de ações integradas voltadas à conservação dos recursos hídricos e ao uso sustentável do solo”, pontua Lilian.

Entre as medidas consideradas prioritárias estão a recuperação e a preservação das matas ciliares (fundamentais para reduzir a erosão) e a adoção de métodos para o tratamento dos efluentes oriundos da piscicultura.  Também são essenciais o controle dos processos erosivos e do assoreamento, a ampliação e a eficiência dos sistemas de coleta e tratamento de esgoto e a adoção de práticas agrícolas que reduzam o uso inadequado de fertilizantes e agrotóxicos.

“No setor aquícola, o fortalecimento de estratégias de manejo sustentável pode minimizar o aporte excessivo de nutrientes e de matéria orgânica aos ambientes aquáticos. Além disso, o monitoramento contínuo da qualidade da água, aliado à avaliação de biomarcadores em organismos aquáticos, permite detectar precocemente impactos ambientais”, comenta Oliveira.

O estudo, fomentado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação Araucária, foi indicado como a melhor tese de doutorado de 2025 pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia Ambiental. Um artigo derivado da pesquisa também recebeu prêmio no eixo Saúde e Meio Ambiente do VI Congresso da Sociedade de Análise de Risco Latino-Americana.

➕ Leia a tese Análise integrada da qualidade e saúde dos ecossistemas aquáticos de três rios do oeste paranaense, apresentada ao curso de Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia Ambiental da UFPR Palotina e disponibilizada no Acervo Digital da UFPR; e o artigo Environmental assessment of three southern Brazilian rivers using an integrated biomarker response index in Hypostomus ancistroides applied to GIS, publicado no periódico Environmental Research (acesso aberto; em inglês)


FONTE: CIÊNCIA UFPR

A “live” do El Niño para assistir, distribuir e guardar

Posto abaixo o vídeo da live organizada pela Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF), transmitida ontem pelo canal do GENAT/UFPB no YouTube. A atividade reuniu os pesquisadores Paulo Artaxo (USP), Luciana Gatti (INPE) e Roberto Verdum (UFRGS) para discutir os mecanismos responsáveis pelo El Niño, as possíveis relações desse fenômeno com o aquecimento da atmosfera terrestre e os efeitos diretos dos eventos meteorológicos extremos associados tanto ao El Niño quanto às mudanças climáticas.

As manifestações dos três pesquisadores, todos com sólida produção científica em suas respectivas áreas de atuação, combinaram conhecimento científico com reflexões sobre os impactos do modelo econômico vigente e sobre a maneira como a interação entre esses processos contribui para mudanças profundas no funcionamento dos sistemas naturais do planeta. Uma das consequências mais imediatas dessas transformações aparece nas alterações cada vez mais perceptíveis da dinâmica atmosférica e na intensificação de determinados eventos extremos.

Em conjunto, os três participantes demonstraram especial preocupação com a falta de preparação da sociedade e do poder público para o necessário processo de adaptação aos novos padrões climáticos. Essa preocupação ganha ainda mais relevância diante do atual ciclo do El Niño, que deverá produzir impactos bastante diversos sobre a dinâmica climática, especialmente no território brasileiro. A ciência já oferece informações suficientes sobre os riscos envolvidos; o problema central passa, portanto, pela capacidade de transformar esse conhecimento em planejamento, prevenção e medidas concretas de adaptação.

 

Revista de ciência dos materiais retira dezenas de artigos sob suspeita

Por Retraction Watch 

Uma revista científica de ciência dos materiais já retirou 56 artigos este ano por transgressões que incluem sobreposição de imagens , preocupações com a integridade dos dados e mudanças “suspeitas” na autoria . 

A revista Ceramics International começou a retratar os artigos em julho. Mais de 50 das retratações foram solicitadas por um “especialista imparcial da área, atuando como consultor independente de ética em publicações”, de acordo com os comunicados. 

A maioria dos avisos de retratação – 43 – faz referência a comentários do PubPeer que apontam problemas com o trabalho. Em e-mails que vimos, o investigador científico Mu Yang sinalizou 80 artigos da Ceramics International para a editora da revista, a Elsevier, em 23 de abril de 2025. 

Entre os artigos sinalizados por Yang, vários, como um publicado em julho de 2024, duplicavam dados publicados em outros artigos com autores em comum. Mu disse ao Retraction Watch que considerava artigos como esse “pertencentes à categoria de artigos genéricos, fáceis de publicar e sem esforço”. Yang é diretora do Mouse Neurobehavior Core, um laboratório de testes do Columbia University Medical Center, em Nova York. 

David Bimler, um psicólogo da percepção aposentado da Universidade Massey, na Nova Zelândia, conhecido pelo pseudônimo de Smut Clyde, foi um dos signatários do e-mail enviado à Elsevier em abril de 2025. Bimler nos disse que “a situação na Ceramics International parece bastante confusa no momento”. 

Quatro dias após os investigadores enviarem um e-mail para a revista, receberam uma resposta de Rajendra Bordia, coeditor-chefe, que disse ter alertado a Elsevier e solicitado uma reunião “para discutir o andamento dessas investigações e também as medidas que precisam ser tomadas para desencorajar esse tipo de comportamento”.

Sete das retratações recentes foram referentes a correções em artigos que, segundo os avisos, já haviam sido retratados. No entanto, em seis desses casos, o artigo original ainda não foi retratado, incluindo duas correções para um artigo de 2023 , ambas relacionadas a erros em figuras. 

Um porta-voz da Elsevier nos disse que “não podem discutir quaisquer retratações futuras em potencial”, mas confirmou que as retratações relacionadas às erratas “serão feitas nos próximos dias”. 

Na semana passada, relatamos a limpeza de dados em outro periódico da Elsevier por “[m]antistração sistemática, coordenada e generalizada do processo de revisão por pares” em edições especiais. 

A revista Ceramics International retratou um artigo no ano passado, devido à reutilização de imagens, e 18 em 2024, de acordo com nosso banco de dados. 

A maioria dos pesquisadores que perderam artigos este ano estava afiliada a instituições no Paquistão, Egito, Irã, Índia e Arábia Saudita. Majid Niaz Akhtar , pesquisador de materiais compósitos da Universidade Islâmica de Bahawalpur, no Paquistão, foi um dos autores de quatro dos artigos retratados. Ele não respondeu ao nosso pedido de comentário. 

Bimler apontou um caso em que autores foram adicionados após a aceitação do artigo, o que pode indicar autoria à venda. “No meu modelo de trabalho da indústria de papel e celulose, os serviços oferecidos pelas maiores fábricas de papel incluem ‘aumento da visibilidade da publicação’, bem como ‘conclusão do manuscrito'”, disse ele. Quinze das retratações citaram mudanças na autoria durante o processo de revisão por pares.

No entanto, Bimler também observou que alguns dos artigos parecem ser de autoria dos próprios autores. “Os baixos padrões editoriais não se restringiam às fábricas de papel”, disse ele. 


Fonte: Retraction Watch

Hoje tem debate sobre El Niño, crise climática e os desafios da adaptação no Brasil

Nesta quinta-feira, 20 de agosto, às 15h, participarei como mediador da live “Brasil sob o El Niño: crise climática, impactos socioambientais e urgência da adaptação”, promovida pela Comissão do Ambiente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB).

A conversa reunirá Luciana Gatti (INPE Amazônia), Paulo Artaxo (USP) e Roberto Verdum (UFRGS) para discutir os efeitos do El Niño sobre o território brasileiro, sua relação com a crise climática e, principalmente, a necessidade urgente de políticas de prevenção e adaptação diante de eventos extremos que a ciência já permite antecipar.

A transmissão ocorrerá pelo GENAT UFPB, canal da Geografia Brasileira impulsionado pelo Grupo de Pesquisa e Laboratório de Geomorfologia e Gestão de Riscos Naturais da Universidade Federal da Paraíba.

Hoje, às 15h.

▶️ Acompanhe a transmissão:
https://www.youtube.com/watch?v=5-i7tSO0bsk

Um debate especialmente oportuno diante dos sinais que o atual El Niño já começa a produzir no Brasil.

O El Niño não será o desastre: o desastre será chegar a ele despreparado

Mike Davis e Rob Nixon ajudam a entender por que eventos climáticos extremos se transformam em catástrofes sociais. Com um El Niño potencialmente muito forte avançando sobre um planeta cada vez mais quente, o Brasil já dispõe de conhecimento suficiente sobre o que poderá acontecer; falta transformar esse conhecimento científico em preparação concreta

Estou lendo Late Victorian Holocausts, de Mike Davis, um livro que, apesar de publicado há mais de duas décadas, adquire uma atualidade particularmente incômoda diante do El Niño que começa a se estabelecer sobre um planeta muito mais quente do que aquele do final do século XIX. Nessa obra, Davis analisa, entre outras coisas, as gigantescas fomes associadas aos grandes ciclos de El Niño ocorridos entre as décadas de 1870 e 1890. Sua estimativa mais conhecida situa entre 30 e 50 milhões o número de pessoas que morreram durante aquelas crises. Considerando que a população mundial girava então em torno de 1,5 bilhão de habitantes, estamos falando de algo equivalente a aproximadamente 2% a 3,3% de toda a humanidade. Se transportássemos mecanicamente essa proporção para a população mundial atual, chegaríamos a algo entre 166 e 277 milhões de pessoas.

Evidentemente, não estou sugerindo que o atual El Niño produzirá semelhante mortandade, pois fazer isso seria cientificamente irresponsável e cairia justamente no alarmismo que precisamos evitar. A comparação serve para outra coisa: mostrar a dimensão que eventos climáticos podem assumir quando encontram sociedades profundamente desiguais e despreparadas para enfrentá-los.

Esse é precisamente um dos grandes argumentos de Mike Davis. As dezenas de milhões de pessoas que morreram no final do século XIX não foram simplesmente “mortas pelo El Niño”; o fenômeno climático produziu secas, alterações nas monções e quebras de safras, enquanto a organização política e econômica das sociedades atingidas, particularmente sob o domínio colonial, transformou esses eventos em gigantescas crises de fome. Em outras palavras, o El Niño produziu o perigo; o imperialismo e a desigualdade produziram boa parte da vulnerabilidade que permitiu que esse perigo se convertesse em catástrofe.

É neste ponto que Davis se encontra de maneira particularmente fértil com Rob Nixon e seu conceito de “violência lenta”. Nixon chama nossa atenção para formas de violência que não explodem diante das câmeras, mas se acumulam silenciosamente durante anos ou décadas. A degradação ambiental, a contaminação, o empobrecimento, a destruição dos meios de subsistência e as mudanças climáticas constituem processos que raramente produzem uma imagem espetacular no momento em que estão construindo suas vítimas.

Essa perspectiva nos obriga a reconhecer que um desastre começa muito antes da enchente, da seca ou da onda de calor. A catástrofe começa a tomar forma quando as cidades crescem sobre áreas inundáveis sem infraestrutura adequada; quando trabalhadores ocupam encostas porque não conseguem acessar habitação segura; quando governos deixam sistemas de drenagem durante décadas sem investimentos; quando intervenções urbanas canalizam rios e impermeabilizam suas várzeas; quando populações rurais ficam sem acesso seguro à água; quando governos municipais mantêm sistemas de Defesa Civil sem pessoal, equipamentos e recursos suficientes; e quando alertas meteorológicos existem, mas não chegam a quem precisa deles. Quando finalmente chega a chuva extraordinária, a seca prolongada ou a onda de calor, décadas de escolhas políticas aparecem subitamente sob o conveniente rótulo de “desastre natural”.

Mas o evento físico pode ser natural; a distribuição social de suas consequências não é.

O problema brasileiro é que já sabemos o que está vindo

Essa discussão deixa de ser apenas histórica quando olhamos para o Brasil de agosto de 2026. O El Niño já está estabelecido e deverá ganhar força nos próximos meses; o INMET informa que as condições do fenômeno estão presentes desde junho e que ele deverá persistir até o final do verão austral de 2026/2027. As previsões mais recentes elevaram ainda mais o sinal de preocupação, pois indicam probabilidade igual ou superior a 90% de que o fenômeno alcance intensidade muito forte nos próximos trimestres, com seu período mais crítico podendo ocorrer justamente entre a primavera e o início do verão.

As consequências possíveis para o território brasileiro tampouco constituem mistério. O fenômeno tende a favorecer excesso de precipitação e maior risco de eventos extremos no Sul, enquanto partes do Norte e Nordeste podem enfrentar redução das chuvas, secas e agravamento do risco de incêndios; temperaturas elevadas poderão aumentar ainda mais a pressão sobre ecossistemas, agricultura, recursos hídricos e populações vulneráveis.

Nem precisamos esperar outubro ou dezembro para constatar que eventos extremos constituem uma ameaça concreta. O Sul já enfrentou sucessivos episódios de chuva intensa e tempestades neste inverno, enquanto o Sudeste experimentou grandes oscilações térmicas, calor, baixa umidade e episódios de ventos intensos associados à passagem de sistemas meteorológicos. Não podemos atribuir automaticamente cada um desses eventos ao El Niño; podemos, entretanto, enxergar neles a vulnerabilidade territorial sobre a qual um El Niño muito forte atuará durante os próximos meses.

A agricultura também começa a incorporar esse risco às suas decisões. As estimativas para a safra brasileira de trigo de 2026 já sofreram redução, acompanhadas de preocupação com os possíveis efeitos de um El Niño intensificado sobre uma cultura fortemente concentrada na Região Sul. O país, portanto, não enfrenta uma ameaça desconhecida; temos satélites, modelos climáticos, séries meteorológicas, supercomputadores, universidades, institutos de pesquisa e sistemas de monitoramento que permitem enxergar com meses de antecedência pelo menos parte considerável dos riscos. Essa capacidade científica nos coloca numa situação radicalmente diferente daquela enfrentada pelas populações analisadas por Mike Davis no século XIX; justamente por isso, ela aumenta nossa responsabilidade política diante do que poderá ocorrer.

Monitorar não significa estar preparado

Seria incorreto afirmar que o Estado brasileiro nada está fazendo. O governo federal criou um Painel El Niño 2026–2027 que reúne INMET, INPE, CEMADEN, ANA, Serviço Geológico Brasileiro, Defesa Civil e outras instituições; também iniciou articulações com os estados para enfrentar os riscos associados ao fenômeno. Essas iniciativas representam passos necessários, mas reconhecer o risco, produzir boletins e realizar reuniões não significa que municípios, estados e União tenham preparado o território brasileiro para enfrentá-lo.

A pergunta fundamental precisa ir além do monitoramento: o conhecimento científico disponível já se transformou em planos operacionais, recursos financeiros, pessoal, equipamentos e capacidade de resposta na escala exigida pelo problema?

Essa pergunta abre imediatamente outras. Quantos municípios brasileiros possuem planos atualizados para enfrentar enchentes, deslizamentos, ondas de calor, secas e incêndios? Quantas Defesas Civis municipais possuem equipes e equipamentos compatíveis com os riscos previstos? Quantos governos municipais estão limpando e ampliando preventivamente seus sistemas de drenagem? Quantos hospitais possuem protocolos específicos para ondas de calor? Quais estoques estratégicos de alimentos, água e medicamentos governos municipais, estaduais e federal estão preparando? Quais comunidades vulneráveis conhecem previamente suas rotas de evacuação e seus locais de abrigo? Quais políticas apoiarão agricultores familiares caso a seca ou o excesso de chuva comprometam suas safras?

Governadores, prefeitos, ministérios e candidatos deveriam colocar essas perguntas no centro de suas agendas neste momento; afinal, quando a água entra nas casas, a prevenção já fracassou.

E começou a campanha eleitoral

Talvez um dos aspectos mais preocupantes da conjuntura seja justamente o fato de o Brasil ter entrado oficialmente na campanha eleitoral de 2026 sem que a emergência climática tenha ocupado, até agora, um espaço compatível com sua importância objetiva. Os primeiros movimentos da campanha concentram-se fortemente em segurança pública, economia, soberania e nas disputas políticas tradicionais; embora apareçam referências ambientais nos programas e discursos, ainda não se percebe uma centralidade política equivalente à magnitude de um problema que poderá atingir o país justamente durante os meses decisivos da eleição e da transição para o próximo governo.

Essa ausência ganha contornos ainda mais estranhos quando lembramos que o próximo presidente da República poderá assumir o cargo em janeiro de 2027 ainda sob os efeitos do mesmo El Niño. Mudanças climáticas e adaptação, portanto, não deveriam aparecer como um capítulo protocolar ou decorativo dos programas de governo; elas deveriam atravessar propostas para habitação, agricultura, saúde pública, energia, infraestrutura urbana, transportes, proteção social, planejamento territorial e Defesa Civil.

A ciência já realizou uma parte importante do trabalho ao demonstrar que o El Niño existe, está se fortalecendo e poderá alcançar intensidade excepcional; os cientistas também indicam as regiões mais vulneráveis, identificam os tipos de eventos que apresentam maior probabilidade de ocorrência e oferecem uma janela preciosa de alguns meses para que governos e sociedade se preparem. Se desperdiçarmos essa janela e depois assistirmos autoridades declarando surpresa diante de cidades inundadas, plantações destruídas, rios secos ou florestas queimando, não estaremos diante de uma simples falha de previsão; estaremos diante da transformação consciente de conhecimento disponível em oportunidade perdida.

É justamente aqui que Mike Davis e Rob Nixon têm algo importante a nos ensinar. O evento climático pode ter origem natural; a catástrofe social resulta da maneira como organizamos nossas sociedades, distribuímos recursos, produzimos vulnerabilidades e decidimos quem merece proteção. Não podemos impedir o El Niño, assim como não podemos evitar todos os eventos extremos associados a uma atmosfera profundamente alterada pelo aquecimento global; podemos, contudo, reduzir drasticamente a quantidade de pessoas expostas, diminuir perdas materiais, proteger sistemas alimentares, preparar hospitais, fortalecer Defesas Civis, criar estoques, apoiar agricultores e proteger comunidades vulneráveis.

O Brasil precisa, portanto, abandonar sua conhecida cultura política de agir depois da catástrofe e transformar previsão científica em prevenção material. Governos precisam limpar canais, revisar barragens, preparar abrigos, fortalecer a Defesa Civil, proteger sistemas de abastecimento, organizar brigadas contra incêndios, preparar o SUS, apoiar agricultores e mapear populações vulneráveis agora; quando a água estiver subindo, os reservatórios estiverem secando ou o fogo estiver atravessando florestas e campos, será tarde demais para transformar boletins meteorológicos em políticas públicas.

Mike Davis mostrou como eventos climáticos contribuíram para algumas das maiores tragédias humanas do século XIX quando encontraram sociedades organizadas para proteger mercados e impérios, mas não necessariamente pessoas; Rob Nixon nos ajuda a compreender que as condições que permitem uma catástrofe não surgem no instante em que começa a chover ou deixa de chover, mas resultam de processos de violência lenta que acumulam vulnerabilidades durante anos ou décadas.

O Brasil de 2026 possui uma vantagem extraordinária sobre as sociedades estudadas por Davis: sabemos que o fenômeno está chegando, conhecemos razoavelmente seus possíveis efeitos e dispomos de instrumentos científicos capazes de acompanhar sua evolução quase em tempo real. Ainda existe tempo para escolher outro caminho, mas a ciência já fez o alerta e agora cabe ao poder público transformar informação em prevenção concreta; o conhecimento acumulado também retira de governantes e candidatos qualquer possibilidade legítima de fingir surpresa caso a falta de preparação amplifique as consequências de um El Niño superforte. Se isso ocorrer, ninguém poderá dizer que não sabia o que estava por vir; a questão já não é falta de informação, mas o que aqueles que governam ou pretendem governar o Brasil decidirão fazer com ela.