STJ julgará nesta terça-feira (16) dois pedidos de trancamento do processo criminal sobre o rompimento da barragem em Brumadinho

Familiares de vítimas fatais viajarão até a capital federal para mais uma sessão de julgamento que pode invalidar as ações penais que tratam dos crimes de homicídios dolosos e outras infrações penais relacionadas ao rompimento da barragem I na mina do Córrego do Feijão.

A Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), formada pelos ministros Carlos Pires Brandão, Rogerio Schietti Cruz, Sebastião Reis Júnior, Og Fernandes e pela Desembargadora convocada Nilsoni de Freitas, iniciará nesta terça (16/06) o julgamento de dois recursos impetrados pelas defesas de quatro réus do processo que apura a responsabilidade criminal de pessoas físicas e jurídicas do rompimento da barragem da Vale S.A. em Brumadinho. Esta mesma turma já julgou improcedente o pedido de habeas corpus do ex-presidente da Vale, Fabio Schvartsman

Um desses recursos tem como impetrantes os advogados do engenheiro da Vale Felipe Figueiredo Rocha, enquanto o outro foi impetrado em nome de três engenheiros da Tüv Süd: André Jum Yassuda, Makoto Namba e Marlísio Oliveira Cecílio Júnior.

As defesas pedem o trancamento da ação penal, isto é, que todo o processo seja invalidado porque, segundo eles, um laudo pericial, produzido em 2021, sobre o gatilho que provocou o rompimento da barragem, teria alterado a versão dos fatos, fazendo com que a acusação ficasse incompatível com as imputações originalmente formuladas em 2020. O Ministério Público Federal, titular da acusação, refuta essa alegação, defendendo que há inquestionável justa causa para continuidade do processo, fundamentada nos seguidos atos comissivos e omissivos dos acusados, relacionados a declarações inidôneas de estabilidade da barragem e ao não cumprimento do dever de agir para evitar o colapso ou assegurar meios de salvação a todas as vítimas.

Em 11 de março de 2026, a Segunda Turma do Tribunal Regional Federal da 6a Região (TRF6), formada pela desembargadora Luciana Pinheiro Costa, contando também com os desembargadores federais Flávio Boson Gambogi, Klaus Kuschel e Pedro Felipe de Oliveira Santos, julgou esses mesmos pedidos improcedentes, por unanimidade. Foi contra essa decisão que as defesas recorreram ao STJ.

A AVABRUM, que atua como assistente de acusação nos processos criminais, em nome de 463 familiares diretos de vítimas fatais, estará representada durante o julgamento. Segundo os advogados Danilo Chammas e Pablo Martins, “a revelação sobre o gatilho não contradiz a acusação. Pelo contrário, a reforça. Não existe razão jurídica apta a sustentar o encerramento prematuro da persecução penal”. Para Jacira Francisca, que perdeu seu filho Thiago Matheus Costa, de 32 anos, no rompimento da barragem, “o processo precisa continuar até que a justiça seja feita, nenhum dos réus pode fugir do banco dos réus”.

Desde 23 de fevereiro de 2026, o processo criminal está em momento crucial: todas as segundas e sextas estão acontecendo as audiências de instrução, sob a condução da juíza federal Raquel Vasconcelos de Lima. Até o momento já foram ouvidas mais de 40 pessoas, entre familiares de vítimas fatais, trabalhadores sobreviventes, moradores das comunidades atingidas, especialistas em geotecnia, funcionários da Vale, entre outros.

Caso o STJ julgue procedentes esses recursos, todos os atos do processo criminal realizados desde janeiro de 2023 serão invalidados, o que significará um enorme prejuízo para aqueles que trabalham e anseiam por justiça.

Corpos contaminados, agricultura dependente de agrotóxicos

Pesquisa internacional evidencia que a exposição aos agrotóxicos é uma característica estrutural do modelo agrícola da Revolução Verde e reforça que a redução do uso de venenos é uma condição para a promoção da saúde, da justiça ambiental e da soberania alimentar

O artigo de Anouk Petitpierre, Aggrey Atuhaire, Christian H. Lindh, Ana M. Mora, Martin Röösli, Philipp Staudacher e Samuel Fuhrimann, publicado na revista The Lancet Planetary Health, traz uma contribuição importante para um tema que costuma permanecer invisível: a exposição cotidiana de pequenos agricultores aos agrotóxicos em países tropicais de baixa e média renda. Em vez de confiar apenas em questionários ou relatos dos trabalhadores, os autores analisaram biomarcadores presentes na urina de mais de 600 agricultores da Costa Rica e de Uganda, oferecendo um retrato objetivo da contaminação ocupacional.

O primeiro resultado impressiona pela contundência: todos os sete biomarcadores pesquisados foram encontrados em praticamente todos os participantes do estudo, confirmando que a exposição aos agrotóxicos é ampla e sistemática entre agricultores familiares, independentemente do país analisado.  Essa constatação desmonta a ideia frequentemente difundida de que o problema estaria restrito ao uso inadequado de equipamentos de proteção ou a comportamentos individuais. A contaminação aparece como uma característica estrutural do atual modelo agrícola.

Outro aspecto relevante é a comparação entre agricultores convencionais e orgânicos. Os pesquisadores verificaram que aqueles que trabalham exclusivamente com práticas orgânicas apresentam concentrações significativamente menores de diversos biomarcadores, com reduções que chegam a 68% em alguns casos. Também foi observado que agricultores que receberam treinamento sobre segurança no manejo de agrotóxicos exibiam níveis inferiores de exposição, embora essa redução tenha sido relativamente modesta quando comparada aos benefícios proporcionados pela adoção da agricultura orgânica.

Há, entretanto, um resultado particularmente provocador. O estudo não encontrou evidências de que o simples uso de equipamentos de proteção individual seja suficiente para reduzir a exposição. Em alguns casos, como no uso de luvas durante a aplicação de determinados inseticidas, a concentração dos biomarcadores foi até maior. Os autores sugerem que o problema decorre do uso inadequado dos equipamentos, da reutilização de luvas contaminadas e da ausência de procedimentos básicos de higiene, demonstrando que distribuir EPIs sem treinamento adequado pode produzir uma falsa sensação de segurança.

Embora o artigo tenha sido desenvolvido na Costa Rica e em Uganda, suas conclusões dialogam diretamente com a realidade brasileira. O Brasil ocupa há anos uma posição de destaque no consumo mundial de agrotóxicos e vem ampliando continuamente o registro de novos produtos, muitos deles contendo ingredientes ativos proibidos na União Europeia. Nesse contexto, a demonstração científica de que pequenos agricultores permanecem cronicamente expostos a múltiplos compostos químicos reforça a necessidade de superar uma visão centrada exclusivamente no “uso seguro” dos venenos agrícolas.

Os dados apresentados também dialogam com o conceito de injustiça ambiental. São justamente agricultores familiares, trabalhadores rurais e comunidades de menor renda que assumem os maiores riscos sanitários para sustentar um modelo agrícola altamente dependente de insumos químicos, enquanto os benefícios econômicos concentram-se nas grandes corporações que controlam o mercado global de sementes, fertilizantes e agrotóxicos. O estudo evidencia que essa desigualdade não é apenas econômica, mas também biológica: ela pode ser medida diretamente no organismo das pessoas.

Nesse sentido, a principal contribuição do trabalho vai além da demonstração de que a agricultura orgânica reduz a exposição aos agrotóxicos. O artigo aponta que uma transição para sistemas produtivos menos dependentes de insumos químicos exige políticas públicas robustas, apoio financeiro aos agricultores, programas permanentes de capacitação e investimentos em pesquisa sobre métodos alternativos de controle de pragas. Os próprios autores defendem que essa transformação depende de subsídios, assistência técnica e mecanismos que permitam aos pequenos produtores migrar para práticas agroecológicas sem sofrer perdas econômicas.

Em um momento em que o debate público frequentemente opõe produtividade e sustentabilidade como se fossem objetivos incompatíveis, o estudo publicado na The Lancet Planetary Health oferece uma evidência importante: reduzir a dependência dos agrotóxicos não é apenas uma questão ambiental, mas uma medida urgente de saúde pública, justiça social e proteção dos trabalhadores rurais que garantem a produção de alimentos.

Você sabe por que o agro é pop, é tec, é tudo?

 Por Paulo Lindesay*

Você conhece a Lei Kandir (LC 87/1996) e os efeitos que ela causa em sua vida, na vida de seu Município, de seu Estado e no país como um todo? Essa é uma lei aprovada por Fernando Henrique Cardoso (FHC) na década de 1990, que constitui um dos principais elementos do desmantelamento do federalismo brasileiro, além dos substanciais benefícios financeiros oferecidos pelo governo a setores privilegiados do agronegócio e da mineração. 

Em essência, a Lei Kandir, que inicialmente seria um dos pilares fundamentais da política econômica de FHC, ainda persiste hoje com aditivos legais que geram perdas adicionais para Estados e Municípios. Com o objetivo de aumentar as exportações brasileiras, a lei concedeu a grandes empresas exportadoras de produtos primários e semielaborados benefícios fiscais extraordinários, especialmente a imunidade do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), além de outros favores tributários.

Como resultado dessa lei, entre 1999 e 2018, essas empresas deixaram de pagar aproximadamente R$ 637 bilhões aos estados em isenções de ICMS. Durante esse período, para supostamente compensar essa isenção, a União transferiu apenas R$ 45 bilhões aos Estados por meio das transferências obrigatórias consolidadas, o que corresponde a aproximadamente 7% do valor ao qual estava comprometida, segundo dados oficiais do Tesouro Nacional.

Ao deflacionar (IPCA/IBGE) os montantes entre junho de 2018 e agosto de 2025, o valor total corrigido apropriado pela União ultrapassa R$ 936,5 bilhões.

No entanto, em maio de 2020, o plenário do STF, em conluio com o ministro da Fazenda Paulo Guedes, ratificou um acordo vergonhoso entre a União e os Estados. Nesse acordo, o Governo se compromete a repassar aos Estados e seus Municípios aproximadamente R$ 65 bilhões em parcelas anuais, ao longo de um período de 17 anos (2020 a 2037). Isso se refere a uma dívida que, quando atualizada pelo IGP-DI entre julho de 2018 e agosto de 2025, ultrapassa R$ 1.093 trilhão. Isso é um acordo ou um crime contra os Estados e Municípios?

Contudo, no mesmo ano de 2020, o Senado Federal aprovou o PLP 133, que foi convertido na lei complementar n.º 176/2020. Essa lei estabelece transferências obrigatórias da União em parcelas anuais para os Estados, Distrito Federal e Municípios, confirmando o acordo sugerido pelo STF (ADO 25). Além disso, houve um repasse adicional de R$ 2 bilhões referente aos blocos de petróleo de Atapu e Sépia.

Em resumo, a lei Kandir isenta as empresas que exportam produtos primários e semielaborados (commodities) do pagamento do ICMS, o principal imposto estadual. A União compensará os Estados, DF e Municípios por meio de transferências obrigatórias. O Art. da Constituição Federal assegura tudo isso – 91 ADCT. No entanto, a PEC Emergencial n°186/2021, convertida na Emenda Constitucional n° 109/2021, revogou o Art. 91 do ADCT.  Com essa revogação, a União deixou obrigatoriamente de ressarcir os Estados e Municípios pelas perdas estipuladas na Lei Kandir. 

Este é o texto que foi revogado do Art. 91 ADCT: “A União entregará aos Estados e ao Distrito Federal o montante definido em lei complementar, de acordo com critérios, prazos e condições nela determinados, podendo considerar as exportações para o exterior de produtos primários e semielaborados, a relação entre as exportações e as importações, os créditos decorrentes de aquisições destinadas ao ativo permanente e a efetiva manutenção e aproveitamento do crédito do imposto a que se refere o art. 155, § 2º, X, a.” 

Com a revogação do Art. 91 do ADCT e sem a anulação dos efeitos da Lei Kandir, Estados e Municípios continuarão a enfrentar prejuízos ainda maiores, pois o Governo federal não é mais obrigado a compensar as perdas do ICMS. Por outro lado, a lei Kandir manterá a isenção de ICMS para empresas que exportam produtos primários e semielaborados.

Os grandes empresários do agronegócio, mineração, setor energético, entre outros, são os maiores favorecidos pela imunidade do ICMS, uma vez que exportam em dólar, euro e outras moedas estrangeiras, sem arcar com o imposto principal sobre suas exportações. Em contrapartida, suas empresas, tanto nacionais quanto transnacionais, seguirão causando danos ao solo e subsolo brasileiro, em virtude das explorações predatórias de áreas para produção de commodities, extração de madeiras e minérios. Elas contribuem pouco para o país, pagando poucos impostos e gerando escassos postos de trabalho, em razão do avanço tecnológico do setor.

Em 2006, o Banco Central do Brasil implementou medidas de simplificação no setor de câmbio. A Lei n.º 11.371/2006 permitiu a flexibilização da exigência de cobertura cambial nas exportações, e o Conselho Monetário Nacional passou a ter a competência para determinar a porcentagem dos recursos que poderia ser mantida no exterior. Nesse mesmo ano, o CMN definiu o limite percentual de 30%. Trata-se de mais uma concessão feita aos exportadores. 
Em 2008, dois anos depois, o CMN autorizou os exportadores a manterem a totalidade dos 100% dos recursos referentes ao recebimento de suas exportações no exterior.

A eliminação da obrigatoriedade de cobertura cambial representou um relevante recurso econômico e gerencial para as empresas exportadoras, acompanhando o crescimento da presença do Brasil no mercado global. No entanto, considerando todos os impactos da lei Kandir, isso contribuiu de forma significativa para o agravamento das políticas públicas em cada ente federado e da infraestrutura estatal, resultando em uma piora na qualidade de vida da população brasileira. O paradoxo é que os beneficiários da lei Kandir, que saqueiam os tesouros estaduais, são aqueles que precisam que os Estados invistam em logística para poder exportar.   

A anulação imediata da Lei Kandir é necessária, pois ela continuará a causar prejuízos às receitas estaduais de ICMS, passadas, presentes e futuras. Isso ocorre porque as empresas exportadoras de produtos primários e semielaborados (commodities) manterão a imunidade do pagamento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação – ICMS. Porém, agora, sem a exigência das transferências compulsórias da União para os Estados.

No caso do Estado do Rio de Janeiro, em 2017, o repasse foi de pouco mais de R$ 1,8 bilhão, de uma perda de receita de ICMS acumulada entre 1999 e junho de 2018 no valor de cerca
R$ 34 bilhões. Deflacionando esse valor até agosto de 2025, a perda atingirá quase R$ 50 bilhões.

Aprovando a Lei Complementar 192/22, que isentou combustíveis e outros produtos do pagamento de ICMS, o governo Bolsonaro agravou a situação financeira dos estados em 2022. Trata-se de uma medida claramente eleitoreira, transferindo a responsabilidade para os governadores. No que diz respeito ao Rio de Janeiro, a redução na arrecadação do ICMS, conforme indicado no projeto de lei orçamentária de 2023, variou entre R$ 5 bilhões e R$ 10 bilhões. A população fluminense também arcará com essa despesa.

Caso não haja uma mobilização significativa para revogar a lei Kandir e outros dispositivos legais que dispensaram o Governo Federal de transferir os valores correspondentes ao ICMS retido, os predadores do meio ambiente continuarão a desfrutar de imunidades fiscais e isenção de ICMS sobre produtos primários e semielaborados destinados à exportação. Para onde o Brasil está indo com isso, e, especificamente, para onde o Estado do Rio de Janeiro está indo?

Agora, creio que você pode entender melhor por que o Agro é pop, é tec, é tudo!

*Paulo Lindesay é  Diretor da ASSIBGE-SN/Coordenador do Núcleo Sindical Canabarro e  Coordenador do Núcleo da Auditoria Cidadã RJ

Regulação farmacêutica em transformação: Merck Regulatory Summit LATAM acontece nos dias 16 e 17 de junho

Em um momento em que a inovação tecnológica, a inteligência artificial e a crescente complexidade das normas sanitárias estão redefinindo o setor farmacêutico, a atualização permanente tornou-se uma necessidade para profissionais da área.

É nesse contexto que acontece a 7ª edição do Merck Regulatory Summit LATAM, promovido pela divisão de Life Science da Merck. O evento será realizado nos dias 16 e 17 de junho, reunindo especialistas de diversos países da América Latina para debater os principais desafios e tendências que estão moldando o futuro dos assuntos regulatórios na indústria farmacêutica e farmoquímica.

Entre os temas em destaque estão:

🔹 Produtos à base de Cannabis
🔹 Inteligência Artificial aplicada aos Assuntos Regulatórios
🔹 Identificação Única de Dispositivos (UDI)
🔹 Validação de Métodos Analíticos
🔹 Boas Práticas de Fabricação (GMP) para Produtos Estéreis
🔹 Dispositivos Médicos
🔹 Novas tendências regulatórias para a indústria farmacêutica

A participação é gratuita, mas as vagas são limitadas, sendo uma excelente oportunidade para pesquisadores, profissionais da indústria, estudantes e especialistas interessados em acompanhar as mudanças que impactam diretamente o desenvolvimento, a produção e a aprovação de medicamentos e dispositivos médicos na América Latina.

Inscrições presenciais
https://forms.office.com/pages/responsepage.aspx?id=Wft223ejIEG8VFnerX05yZ51Nf5ALy5Mlf3MHdvl6_hUM0VRRVZJVEVLOEhNOVZDQ0tNWkY5MFk2Ui4u&route=shorturl

Inscrições remotas
https://events.teams.microsoft.com/event/cb8468d0-edc0-42d8-862f-d8148c89000f@db76fb59-a377-4120-bc54-59dead7d39c9

Em um cenário de rápidas transformações regulatórias, eventos como este oferecem uma oportunidade importante para compreender como novas tecnologias, exigências de qualidade e processos de inovação estão redefinindo a governança do setor farmacêutico e os desafios para empresas, pesquisadores e órgãos reguladores.

Círculo de Estudos debate a crítica de Ruy Mauro Marini às ilusões do reformismo

Nesta terça-feira, 16 de junho, às 19h, o Centro Ruy Mauro Marini realiza mais uma edição de seu Círculo de Estudos, desta vez dedicada a um dos textos mais instigantes do principal formulador da Teoria Marxista da Dependência: “Reforma e revolução: uma crítica a Lelio Basso” (1974).

Escrito em um contexto marcado por intensos debates estratégicos no interior da esquerda latino-americana, o ensaio de Marini confronta as perspectivas reformistas que apostavam na transformação gradual do capitalismo por meio das instituições existentes. Em diálogo crítico com o pensador italiano Lelio Basso, Marini argumenta que as particularidades do capitalismo dependente impõem limites estruturais às reformas, tornando indispensável uma ruptura mais profunda com as relações de dominação econômica, política e social.

Mais de cinquenta anos após sua publicação, o texto permanece surpreendentemente atual. Em um momento em que as disputas sobre os caminhos da transformação social voltam ao centro do debate político, revisitar a obra de Marini significa recuperar uma reflexão rigorosa sobre dependência, luta de classes, imperialismo e emancipação dos povos latino-americanos.

O encontro será realizado por meio do Google Meet, com o link sendo disponibilizado no grupo de WhatsApp do Círculo de Estudos. A atividade é aberta a estudantes, pesquisadores, militantes e a todas as pessoas interessadas na tradição marxista e no pensamento crítico latino-americano.

Serviço

📅 Data: 16 de junho de 2026 (terça-feira)
🕖 Horário: 19h
💻 Modalidade: Google Meet

Os interessados podem ingressar no grupo de WhatsApp pelo endereço:
https://chat.whatsapp.com/KVUIpV9Wz5W0sEgVBy8osH

A atividade conta com o apoio do Grupo de Trabalho sobre Teoria Marxista da Dependência (GT-TMD/SEP).

Em tempos de ofensiva neoliberal, financeirização e aprofundamento das desigualdades, iniciativas como esta reafirmam a importância do estudo coletivo e da produção crítica do conhecimento como instrumentos fundamentais para compreender a realidade e pensar alternativas de transformação social. A participação é aberta a todos e todas.

Amazônia e bolsonarismo: um encontro marcado pela contradição

Por IsmaeL machado*

Toda visita de um representante da família Bolsonaro à Amazônia produz uma cena política peculiar. Seus discursos costumam evocar desenvolvimento, soberania nacional e liberdade econômica. Arrastam seguidores vestidos com as cores da seleção brasileira de futebol, a quem inclusive Flavio Bolsonaro teve o desplante de chamar de ‘camisa de meu pai’. À primeira vista, trata-se de conceitos legítimos e desejáveis. Mas basta observar com atenção a história da região para perceber que, muitas vezes, essas palavras carregam significados profundamente distintos daqueles defendidos por quem vive, pesquisa e luta pela Amazônia. É como se fossem o chamado ‘ouro de tolo’. A presença de Flávio Bolsonaro no Pará inevitavelmente reacende um debate que ultrapassa a disputa eleitoral. Trata-se de uma discussão sobre projetos de país e, sobretudo, sobre visões radicalmente distintas a respeito da Amazônia.

A contradição não está apenas em medidas específicas ou em governos determinados. Ela é mais profunda. Trata-se do choque entre duas formas de imaginar a própria existência da Amazônia. E como a família Bolsonaro atende mais a uma chamada necropolítica que a uma política de vida, com o zero alguma coisa, a Amazônia corre mais riscos que nunca. Não que esteja atualmente em boas condições de um olhar maduro sobre si, já que há um desenvolvimentismo latente em Lula que não condiz com o que, pelo menos eu, gostaria que fosse o futuro dessa região.

Historicamente, a região foi tratada pelo Estado brasileiro como uma fronteira a ser conquistada. Nunca como uma sociedade complexa. Desde o ciclo da borracha, passando pelos grandes projetos de integração nacional da ditadura militar, a floresta foi frequentemente percebida como um vazio demográfico e econômico à espera de ocupação. A famosa expressão “integrar para não entregar” sintetizou essa visão.

foto ismael machado

O problema é que a Amazônia nunca foi um vazio. Antes da chegada dos colonizadores, milhões de pessoas habitavam a região. Povos indígenas desenvolveram sistemas sofisticados de manejo ambiental, construíram redes comerciais, produziram conhecimento sobre biodiversidade e transformaram a floresta sem destruí-la. Mesmo após séculos de violência colonial, essas populações continuam presentes e continuam reivindicando seu direito de existir.

O bolsonarismo, entretanto, herda em grande medida uma tradição política que vê esses grupos como obstáculos ao desenvolvimento. Quando lideranças indígenas são acusadas de impedir o progresso ou quando a demarcação de terras é apresentada como um entrave econômico, o que está sendo questionado? No fundo, o próprio direito dessas populações de definir seus modos de vida.

Por trás dessa disputa existe uma questão filosófica fundamental sobre quem tem o direito de decidir o futuro da Amazônia. A visão bolsonarista costuma responder que esse futuro deve ser definido prioritariamente pelo mercado, pela propriedade privada e pelos grandes investimentos econômicos, mas entregando tudo de mão beijada, tirando da frente qualquer sistema regulatório e fiscalizatório. A floresta aparece como recurso. A terra aparece como ativo econômico. Os rios aparecem como potencial energético. A biodiversidade aparece como matéria-prima. Que sejam disponibilizadas a quem tem dinheiro. Outro dia, o Ministério Público interveio para impedir o leilão de uma área de praia em Santarém, que seria privatizada.

Mas existe outra perspectiva, cada vez mais defendida por pesquisadores, movimentos sociais e comunidades tradicionais. Nela, a Amazônia não é apenas um estoque de recursos. É uma rede complexa de relações entre seres humanos, territórios, culturas e ecossistemas. Essa diferença parece abstrata, mas produz consequências concretas. Claro, precisamos achar soluções econômicas para a região, mas não de forma predatória como frequentemente se vê.

Quando a floresta é vista simplesmente como recurso econômico, a destruição pode ser justificada em nome do crescimento. O desmatamento torna-se um efeito colateral aceitável para o desenvolvimento. Os conflitos fundiários passam a ser tratados como inevitáveis. A expulsão de comunidades tradicionais é apresentada como custo do progresso. É essa a promessa dos bolsonaros a monocultores latifundiários, ao garimpo ilegal, aos acusados de trabalho escravo. Vimos isso entre 2019 e 2022.

As políticas defendidas pelo bolsonarismo foram frequentemente criticadas por enfraquecer mecanismos de fiscalização ambiental, questionar demarcações de terras indígenas e estimular uma narrativa segundo a qual a proteção ambiental seria um obstáculo ao desenvolvimento. Essa visão ignora um dado fundamental. A destruição da floresta não representa desenvolvimento sustentável para a Amazônia. Ao contrário, tende a aprofundar conflitos fundiários, ampliar a concentração de renda e acelerar processos de degradação ambiental que atingem diretamente as populações locais.

Quando a floresta é compreendida como condição de existência, porém, a lógica muda completamente. Preservar deixa de ser obstáculo ao desenvolvimento e passa a ser requisito para qualquer projeto econômico duradouro. A própria crise climática mundial tornou essa questão incontornável. Há alguns anos as pautas discursivas sobre a Amazônia passaram a incluir a justiça climática, que basicamente significa compreender que a crise climática não afeta todas as pessoas da mesma forma. Embora o aquecimento global seja um fenômeno planetário, seus impactos recaem de maneira desproporcional sobre populações que historicamente contribuíram muito pouco para a destruição ambiental. Essa é uma das grandes contradições amazônicas.

Os povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas e agricultores familiares da região estão entre aqueles que menos emitem gases de efeito estufa. Seus modos de vida, em muitos casos, são baseados justamente na conservação da floresta, no manejo sustentável dos recursos naturais e em formas de ocupação de baixo impacto ambiental. No entanto, são essas populações que frequentemente enfrentam primeiro os efeitos das mudanças climáticas, como as secas extremas, alterações no ciclo dos rios, perda de biodiversidade, insegurança alimentar, aumento das queimadas e eventos climáticos cada vez mais imprevisíveis.

Hoje sabemos que a Amazônia desempenha papel decisivo na regulação climática do continente sul-americano. Seus rios voadores influenciam o regime de chuvas que sustenta a agricultura em diversas regiões do Brasil. Sua biodiversidade abriga conhecimentos ainda desconhecidos pela ciência. Sua destruição afeta o país inteiro.

O que a ideologia bolsonarista defende? Políticas que flexibilizam controles ambientais ou enfraquecem órgãos de fiscalização. Isso significa apostar num modelo de desenvolvimento cada vez mais questionado pela própria realidade ecológica do século XXI.

Lembremos que a Amazônia é um território marcado por massacres, expulsões e disputas violentas pela terra. O Pará conhece essa história melhor do que quase qualquer outro estado brasileiro. Nomes como a Guerrilha do Araguaia, a violência contra povos indígenas, os conflitos agrários do sul e sudeste do estado e o Massacre de Eldorado dos Carajás, para ficar nesses exemplos simples, revelam um padrão histórico de concentração fundiária e exclusão social.

Por isso, quando determinados discursos exaltam apenas a expansão econômica e silenciam sobre direitos humanos, reforma agrária, proteção territorial ou justiça ambiental, acabam reproduzindo uma lógica antiga. A ideia de que a Amazônia existe para servir a interesses externos, e não para garantir dignidade às populações que nela vivem. Talvez seja justamente nesse ponto que a incompatibilidade entre a Amazônia e o bolsonarismo se torne mais evidente.

A Amazônia contemporânea exige diálogo, diversidade, ciência, proteção ambiental e reconhecimento dos direitos territoriais. O bolsonarismo, por sua vez, consolidou-se politicamente por meio de uma retórica de confronto com quase tudo e todos. Ambientalistas, movimentos sociais, organizações internacionais, universidades e, frequentemente, com os próprios povos indígenas. São concepções distintas de democracia, de natureza e de futuro.

No fundo, a pergunta é simples. Devemos discutir se a Amazônia deve ser tratada como uma fronteira econômica a ser conquistada ou como uma civilização socioambiental a ser preservada e fortalecida? A resposta a essa pergunta define o destino do Brasil. Porque a Amazônia não é um problema a ser resolvido. É uma possibilidade histórica a ser compreendida. E qualquer projeto político que não consiga enxergar essa complexidade corre o risco de repetir os erros que, há décadas, transformam riqueza natural em desigualdade social. O jovem Flávio Bolsonaro representa o que de mais velho e antigo (não no sentido de sabedoria e experiência, mas de ultrapassado e arcaico) pode advir para a Amazônia. Que impeçamos seu avanço sobre nós.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte: Medium

Alerta Observatório dos Agrotóxicos: Venenos proibidos na Europa continuam chegando aos pratos e às águas dos brasileiros

O Ato nº 34 escancara a lógica do colonialismo químico e a crescente influência de fabricantes chineses na cadeia de agrotóxicos utilizada pelo agronegócio nacional

Desde 2019, o Observatório dos Agrotóxicos  do Blog do Pedlowski acompanha sistematicamente os atos publicados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária que autorizam a comercialização e o uso de novos agrotóxicos no Brasil. Ao longo desse período, uma tendência preocupante tem se repetido: um número expressivo dos produtos registrados contém ingredientes ativos que já foram proibidos ou deixaram de ser aprovados em diversos países, especialmente na União Europeia, em razão de evidências relacionadas aos seus impactos sobre a saúde humana e o meio ambiente. A análise do Ato nº 34, de 29 de maio de 2026, feita a partir da base oficial da União Europeia, confirma esse padrão e reforça um diagnóstico inquietante: o Brasil continua consolidando sua posição como um dos maiores mercados mundiais para substâncias rejeitadas por sistemas regulatórios mais rigorosos. Mais do que uma simples estatística, esse cenário revela uma escolha política que transfere riscos ambientais e sanitários para trabalhadores rurais, consumidores e ecossistemas brasileiros, ao mesmo tempo em que sustenta um modelo agrícola altamente dependente do uso intensivo de venenos.

O fato é que o  Ato nº 34, de 29 de maio de 2026, publicado hoje (15/6) pelo Ministério da Agricultura e Pecuária,  confirma uma contradição profunda da política brasileira de agrotóxicos: enquanto diversos ingredientes ativos deixam de ser aceitos na União Europeia por razões sanitárias, ambientais ou toxicológicas, eles continuam sendo registrados e utilizados no Brasil. Na triagem realizada pelo Blog do Pedlowski, como informado,  a partir da própria base oficial da União Europeia, ao menos 24 dos 50 registros autorizados contêm substâncias que aparecem como não aprovadas na base oficial europeia, entre elas acefato, clorotalonil, glufosinato de amônio, S-metolacloro, diquate, isopirazam, clorfenapir, etiprole, bifentrina e imidacloprido. O próprio Ato nº 34 explicita que muitos desses produtos são classificados como “muito perigosos” ou “altamente perigosos” ao meio ambiente, o que torna ainda mais grave a naturalização de sua presença no território brasileiro. A base da Comissão Europeia permite consultar o status regulatório dessas substâncias e indica a condição de “not approved” para diversos ingredientes ativos citados no ato.

As implicações para a população brasileira são evidentes. Trabalhadores rurais, moradores de áreas agrícolas, comunidades indígenas, quilombolas, populações camponesas, consumidores de alimentos contaminados e ecossistemas inteiros passam a funcionar como zona de tolerância química para substâncias que já não encontram autorização em mercados regulatórios mais rigorosos. Não se trata apenas da exposição ocupacional direta, embora essa seja uma das dimensões mais dramáticas do problema. A pulverização terrestre e aérea, a deriva dos produtos, a lixiviação para o solo e a infiltração em aquíferos, rios, lagoas e reservatórios fazem com que esses compostos ultrapassem os limites das propriedades rurais e se espalhem pelo território, produzindo um processo de contaminação difusa de difícil controle e monitoramento. Como consequência, resíduos de agrotóxicos alcançam sistemas de abastecimento de água, alimentos de origem vegetal e animal e diversos componentes da cadeia alimentar, expondo milhões de brasileiros que jamais tiveram contato direto com a aplicação desses produtos. Trata-se de uma exposição crônica, silenciosa e cumulativa, cujos efeitos podem levar anos ou décadas para se manifestarem, estando associados na literatura científica ao aumento do risco de câncer, doenças neurológicas, distúrbios endócrinos, problemas reprodutivos e alterações no desenvolvimento infantil. O veneno, portanto, deixa de ser um insumo agrícola localizado e passa a constituir um contaminante ambiental disseminado, incorporado à água que se bebe, aos alimentos que se consomem e aos ecossistemas que sustentam a vida.

O caso também mostra o peso crescente das empresas chinesas na cadeia global dos agrotóxicos. A leitura do Ato nº 34 revela que a China aparece como sede de fabricantes técnicos e formuladores em grande parte dos registros, muitas vezes fornecendo ingredientes ativos que chegam ao Brasil por meio de empresas registrantes nacionais ou multinacionais instaladas no país. Isso indica que o mercado brasileiro não é apenas consumidor final de substâncias perigosas, mas parte de uma engrenagem internacional em que a produção química se desloca para polos industriais asiáticos, enquanto os riscos ambientais e sanitários são redistribuídos para países dependentes da agricultura de exportação. A China, nesse contexto, ocupa uma posição central como fornecedora industrial de moléculas que sustentam a expansão do agronegócio brasileiro, especialmente em cadeias como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e eucalipto.

Esse quadro ajuda a compreender a atualidade do conceito de “colonialismo químico”, formulado por Larissa Bombardi. A autora vem demonstrando que há uma geografia desigual dos agrotóxicos: substâncias recusadas ou restringidas em países centrais continuam circulando em países periféricos ou semiperiféricos, onde a vida humana e os ecossistemas parecem valer menos diante dos interesses do comércio internacional de commodities. A Articulação Nacional de Agroecologia sintetiza esse ponto ao observar que Bombardi relaciona o colonialismo químico aos interesses dos países centrais e ao duplo padrão de comportamento regulatório. Seu livro Agrotóxicos e colonialismo químico, publicado em 2023, aprofunda justamente essa crítica à divisão internacional dos riscos químicos.

O dado novo, contudo, é que esse colonialismo químico já não pode ser entendido apenas como uma relação direta entre Europa e Brasil. A presença dominante de fabricantes chineses mostra que a cadeia se tornou mais complexa e multipolar. Mesmo assim, a lógica colonial permanece: países como o Brasil continuam ocupando o lugar de território de aplicação intensiva, onde populações vulneráveis absorvem os custos sanitários e ambientais de um modelo agrícola orientado para exportar commodities baratas. Em outras palavras, muda a origem industrial de parte dos venenos, mas permanece a estrutura que converte o território brasileiro em plataforma de experimentação, consumo e dispersão de substâncias perigosas.

O problema, portanto, não se resume a uma lista técnica de ingredientes ativos. O Ato nº 34 revela uma escolha política. Ao autorizar produtos que carregam substâncias banidas ou não aprovadas na União Europeia, o Estado brasileiro reafirma uma hierarquia perversa: protege-se a competitividade do agronegócio, enquanto se relativiza a saúde de trabalhadores, comunidades rurais e consumidores. A pergunta que fica é simples e incômoda: se essas substâncias são consideradas inadequadas para circular nos campos europeus, por que deveriam ser aceitáveis nos corpos, nas águas, nos solos e nos alimentos dos brasileiros?

Essa é a essência do colonialismo químico: a transferência seletiva do risco. O Brasil exporta soja, milho, carne, celulose, açúcar e outras commodities; em troca, internaliza contaminação, adoecimento e degradação ambiental. O Ato nº 34, longe de ser apenas mais uma publicação burocrática do Diário Oficial da União, é um retrato da inserção subordinada do país na economia mundial dos venenos agrícolas.

Mudanças climáticas atingem as reservas subterrâneas de água do Brasil, mostra estudo da Science

Pesquisa baseada em inteligência artificial e dados de satélite revela que as mudanças climáticas já alteram o armazenamento de águas subterrâneas, colocando em risco a segurança hídrica do país

Embora o Brasil detenha a maior reserva de água doce renovável do planeta, a ideia de abundância hídrica pode estar escondendo uma vulnerabilidade crescente. Um estudo publicado na revista Science Advances demonstra que as mudanças climáticas já estão modificando a quantidade de água armazenada no subsolo brasileiro, criando um cenário de maior instabilidade para o abastecimento humano, a agricultura e a produção de energia.

A pesquisa, assinada por Clyvihk Renna Camacho, Otto Corrêa Rotunno Filho, Maria Antonieta Mourão e colaboradores, utilizou inteligência artificial, dados de satélite da missão GRACE da NASA e modelos hidrológicos para reconstruir a dinâmica do armazenamento de águas subterrâneas em todo o território nacional. O trabalho representa um dos levantamentos mais abrangentes já realizados sobre esse componente invisível, mas estratégico, do ciclo hidrológico brasileiro.

Os resultados mostram que o comportamento das reservas subterrâneas está cada vez mais condicionado pelas alterações climáticas. Em diversas regiões do país, secas prolongadas e mudanças no regime de chuvas estão reduzindo a capacidade natural de recarga dos aquíferos, enquanto outras áreas experimentam oscilações extremas entre períodos de excesso e escassez de água.

Essa constatação é particularmente preocupante porque a água subterrânea funciona como uma espécie de “poupança hídrica”. Em momentos de estiagem, ela mantém rios correndo, sustenta nascentes, abastece cidades e garante a irrigação agrícola. Quando esse estoque começa a diminuir de forma persistente, toda a segurança hídrica do país passa a ficar ameaçada.

O estudo também demonstra o potencial do uso combinado de inteligência artificial e observações por satélite para monitorar recursos naturais em larga escala. Essa capacidade de acompanhar mudanças quase em tempo real pode fornecer informações essenciais para políticas públicas, planejamento territorial e prevenção de crises hídricas.

No entanto, os resultados também sugerem que soluções tecnológicas, por si só, não serão suficientes. A degradação de bacias hidrográficas, o avanço do desmatamento, a expansão desordenada da agricultura intensiva e o aumento das temperaturas reduzem a infiltração da água no solo e aceleram a perda dos estoques subterrâneos. Em outras palavras, a tecnologia pode medir o problema com precisão crescente, mas sua solução depende de decisões políticas e de uma gestão ambiental mais rigorosa.

Para o Brasil, onde a narrativa da abundância hídrica frequentemente serve para justificar o uso predatório dos recursos naturais, o artigo publicado na Science Advances funciona como um importante alerta. A maior reserva de água doce do planeta não é infinita nem está protegida das mudanças climáticas. Pelo contrário: ela já apresenta sinais claros de transformação.

A principal lição do trabalho é que a segurança hídrica do século XXI dependerá cada vez mais da capacidade de conservar ecossistemas, recuperar áreas degradadas e incorporar o monitoramento científico ao planejamento público. Ignorar esses sinais significa colocar em risco não apenas a disponibilidade futura de água, mas também a própria resiliência econômica e social do país diante de um clima em rápida mudança.

Pacto Global da ONU versus realidade territorial: as contradições do Porto do Açu entre o discurso ESG e os conflitos sociais

Enquanto o Porto do Açu reforça sua imagem internacional ao aderir às iniciativas climáticas e hídricas do Pacto Global da ONU, trabalhadores denunciam a precarização das condições de trabalho e comunidades locais continuam convivendo com conflitos socioambientais que colocam em xeque a efetiva sustentabilidade do empreendimento portuário 

A leitura conjunta das notícias sobre a adesão do Porto do Açu aos movimentos Ambição Net Zero e +Água do Pacto Global da ONU e do protesto realizado pelo Sindipetro-NF contra a mudança da escala de trabalho nas plataformas P-26 e P-33 revela uma contradição que merece ser analisada com atenção. Enquanto a primeira apresenta um empreendimento comprometido com sustentabilidade, inovação e responsabilidade corporativa, a segunda expõe trabalhadores mobilizados para defender direitos básicos diante da tentativa de alteração unilateral de suas condições de trabalho.

Essa contradição não é um detalhe, mas um elemento estrutural do modelo de desenvolvimento representado pelo Porto do Açu. Afinal, um compromisso genuíno com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU não pode ser medido apenas por metas de redução de emissões ou  anúncios de programas de gestão hídrica. Ele deve ser avaliado também pela qualidade das relações de trabalho, pelo respeito às comunidades locais e pela forma como os custos ambientais e sociais do empreendimento são distribuídos.

O “S” do ESG e a realidade dos trabalhadores

A adesão ao Pacto Global pressupõe compromisso com princípios relacionados aos direitos humanos e aos direitos do trabalho, incluindo diálogo social, valorização dos trabalhadores e respeito às normas internacionais da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Entretanto, o protesto organizado pelo Sindipetro-NF denuncia justamente a tentativa de impor uma escala 6×9 nas plataformas em processo de descomissionamento sem negociação adequada com os trabalhadores. A mobilização sindical evidencia que, por trás do discurso institucional, permanecem conflitos relacionados às condições de trabalho, à saúde ocupacional e ao direito de participação nas decisões que afetam diretamente a vida dos empregados.

Essa situação suscita uma pergunta inevitável: é possível reivindicar liderança em sustentabilidade enquanto trabalhadores precisam recorrer à mobilização pública para garantir condições mínimas de negociação?

A dimensão ambiental para além das emissões

O anúncio do Porto do Açu enfatiza metas climáticas e gestão eficiente da água, alinhadas às agendas internacionais de descarbonização. Trata-se em tese de iniciativas relevantes, sobretudo diante da crescente pressão para reduzir emissões de gases de efeito estufa.  No entanto, a sustentabilidade ambiental de um empreendimento dessa magnitude não pode ser reduzida a indicadores corporativos de carbono.

Ao longo dos últimos anos, acumulam-se denúncias e estudos apontando impactos territoriais significativos associados à implantação e expansão do complexo portuário, incluindo:

  • desterritorialização de pescadores artesanais;
  • restrições de acesso a áreas tradicionalmente utilizadas para pesca;
  • conflitos pelo uso da água;
  • processos de salinização e alterações em ecossistemas costeiros;
  • pressão permanente sobre lagoas, restingas e comunidades rurais.

A própria transformação da Lagoa de Iquipari em área de acesso restrito, dentro da RPPN Caruara, tornou-se objeto de pesquisas acadêmicas que apontam processos de exclusão territorial sob o argumento da conservação ambiental. Esse tipo de conflito demonstra que políticas ambientais corporativas podem coexistir com perda de direitos de populações tradicionais quando não são construídas de forma participativa.

O paradoxo social do Porto do Açu

Talvez a maior contradição esteja na dimensão social do empreendimento. São João da Barra abriga um dos maiores complexos portuário-industriais do país e apresenta um dos maiores PIBs per capita do estado do Rio de Janeiro. Entretanto, indicadores sociais mostram que grande parte da população permanece em situação de vulnerabilidade, com elevada dependência do Cadastro Único e pouca conversão da riqueza gerada em melhoria efetiva das condições de vida.

Esse fenômeno pode ser compreendido a partir do conceito de paradoxo do enclave. Na literatura sobre desenvolvimento regional, um enclave econômico é um empreendimento altamente integrado aos fluxos globais de capital, mercadorias e investimentos, mas fracamente articulado com a economia e a sociedade do território onde se instala. Em vez de produzir encadeamentos produtivos capazes de dinamizar a economia local e distribuir renda, o enclave concentra riqueza, importa mão de obra especializada, externaliza parcela significativa de seus lucros e deixa para a população local uma parte desproporcional dos custos sociais e ambientais de sua operação.

O resultado é a convivência aparentemente paradoxal entre um território extremamente rico em produção econômica e uma população que continua enfrentando desemprego, precarização do trabalho, conflitos fundiários, perda de acesso aos recursos naturais e fragilidade das políticas públicas. A riqueza produzida pelo complexo portuário circula em escala nacional e internacional, remunerando investidores, operadores logísticos e grandes corporações, enquanto seus impactos permanecem territorializados no V Distrito de São João da Barra, recaindo sobre agricultores familiares, pescadores artesanais e trabalhadores locais.

Nesse contexto, conflitos trabalhistas como o denunciado pelo Sindipetro-NF deixam de ser episódios isolados e passam a integrar um padrão mais amplo de assimetria entre a capacidade de decisão das grandes corporações e o poder de negociação dos trabalhadores e das comunidades locais.

ESG ou gestão da reputação?

A adesão ao Pacto Global da ONU certamente representa um compromisso público importante e cria parâmetros pelos quais o Porto do Açu poderá ser cobrado futuramente. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre incorporar indicadores ESG e efetivamente transformar a governança territorial do empreendimento.

Quando anúncios sobre neutralidade climática convivem com protestos trabalhistas, disputas fundiárias, conflitos com pescadores artesanais e questionamentos sobre participação social, surge uma hipótese que merece ser considerada: a de que parte significativa da agenda ESG pode estar funcionando como instrumento de gestão reputacional (“greenwashing” e “social washing“), mais voltado à construção de legitimidade perante investidores do que à resolução dos conflitos concretos produzidos pelo empreendimento.

Uma sustentabilidade que precisa incluir pessoas

A verdadeira sustentabilidade não será alcançada apenas por meio de metas de carbono, projetos de eficiência hídrica ou certificações internacionais. Ela exige respeito aos trabalhadores que mantêm o funcionamento das operações offshore, garantia de negociação coletiva, proteção das comunidades tradicionais, transparência na governança ambiental e distribuição mais justa dos benefícios econômicos produzidos pelo complexo portuário.

Enquanto essas dimensões permanecerem dissociadas do discurso oficial, continuará existindo uma distância significativa entre a imagem de porto sustentável projetada para o mercado global e a realidade vivida por trabalhadores, pescadores, agricultores familiares e moradores do V Distrito de São João da Barra.

É justamente nessa tensão entre narrativa corporativa e experiência territorial que se encontra o principal desafio para avaliar, de forma crítica, o verdadeiro significado do compromisso do Porto do Açu com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

El Niño está de volta e o planeta pode estar às portas de um novo período de extremos climáticos

Análise publicada por Marshall Shepherd na Forbes alerta que o aquecimento do Pacífico poderá evoluir para um evento intenso, agravando secas, enchentes, incêndios florestais e a insegurança alimentar em um planeta já superaquecido pelas mudanças climática

A confirmação oficial da formação de um novo El Niño no Oceano Pacífico não representa apenas uma mudança cíclica do sistema climático. Segundo análise do climatologista Marshall Shepherd, publicada na revista Forbes, os indicadores atuais sugerem que o fenômeno pode evoluir para um evento de grande intensidade, com potencial para alterar profundamente padrões de chuva, temperatura e ocorrência de eventos extremos em diferentes regiões do planeta.

As projeções mais recentes da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) apontam uma probabilidade elevada de que o episódio de 2026-2027 figure entre os mais fortes desde o início dos registros sistemáticos, em 1950. Essa possibilidade é especialmente preocupante porque o El Niño se desenvolve sobre um planeta que já apresenta temperaturas médias recordes devido ao aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa. Em outras palavras, a variabilidade natural do clima passa a atuar sobre uma nova linha de base muito mais quente, potencializando seus efeitos.

Marshall Shepherd destaca que o fenômeno não deve ser visto como uma simples curiosidade meteorológica. O aquecimento anormal das águas do Pacífico modifica a circulação atmosférica global e desencadeia uma cascata de impactos: secas severas em algumas regiões, chuvas torrenciais em outras, ondas de calor mais intensas, incêndios florestais, perdas agrícolas e alterações importantes nos ecossistemas marinhos.

Para o Brasil, os sinais merecem atenção redobrada. Historicamente, episódios fortes de El Niño estão associados à redução das chuvas na Amazônia e no Nordeste, ao aumento do risco de queimadas e ao comprometimento dos recursos hídricos, enquanto a região Sul pode experimentar precipitações muito acima da média e enchentes de grandes proporções. Essas mudanças afetam diretamente a produção agrícola, a geração de energia hidrelétrica, o abastecimento urbano e a biodiversidade.

O aspecto talvez mais importante da análise de Shepherd é o reconhecimento de que o El Niño não atua isoladamente. Seus efeitos são amplificados pelo aquecimento global antropogênico, criando uma combinação particularmente perigosa. A energia adicional acumulada nos oceanos e na atmosfera funciona como combustível para eventos extremos mais frequentes e intensos, tornando mais vulneráveis justamente as populações que dispõem de menos recursos para adaptação.

Esse cenário também lança luz sobre a fragilidade dos sistemas alimentares globais. Alterações simultâneas nos regimes de chuva de grandes regiões produtoras de grãos, associadas a ondas de calor persistentes e incêndios florestais, podem provocar perdas significativas de produção e aumentar a volatilidade dos preços internacionais dos alimentos. Países em desenvolvimento e populações de baixa renda tendem a suportar o maior peso dessas transformações, ampliando desigualdades já existentes.

Há ainda um aspecto político que merece destaque. Embora a ciência venha alertando há décadas sobre o aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos, grande parte dos governos continua investindo pesadamente na expansão da exploração de petróleo, gás e carvão, aprofundando justamente o problema que torna fenômenos como o El Niño cada vez mais destrutivos. O resultado é um círculo vicioso em que a sociedade paga duas vezes: primeiro pelos impactos da crise climática e depois pelos elevados custos econômicos e sociais da adaptação e da reconstrução.

Assim, mais do que acompanhar a evolução das temperaturas do Pacífico, é fundamental compreender que o possível fortalecimento do El Niño constitui um alerta sobre os limites do atual modelo de desenvolvimento. Se as previsões se confirmarem, o planeta poderá enfrentar, nos próximos meses, uma combinação particularmente perigosa de extremos climáticos, insegurança alimentar, perdas econômicas e agravamento das injustiças ambientais. Ignorar esses sinais significará aceitar que eventos cada vez mais severos deixem de ser exceções para se tornarem parte permanente da nossa realidade.