Sem bets, mais comida na mesa: o que os cartolas do futebol não querem enxergar

A recuperação do consumo de alimentos após a proibição das apostas online expõe a contradição dos dirigentes de clubes que defendem os lucros das bets acima do bem-estar de seus próprios torcedores

A notícia publicada pelo Monitor Mercantil, com base em informações da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), sobre o aumento do consumo após a proibição das bets no Brasil traz um elemento fundamental para o debate sobre os efeitos econômicos e sociais das apostas online. Embora ainda seja necessário estabelecer com maior precisão a relação entre a proibição e a recuperação do consumo, os dados apresentados apontam para uma possibilidade bastante significativa: o dinheiro que antes alimentava as plataformas de apostas pode estar retornando aos supermercados e, consequentemente, à mesa das famílias brasileiras.

Esse resultado merece atenção especial em um país onde milhões de pessoas enfrentam dificuldades para garantir uma alimentação adequada. Afinal, quando recursos familiares deixam de ser consumidos pelas apostas e passam a financiar a compra de alimentos, não estamos diante apenas de uma mudança nos hábitos de consumo, mas de uma possível melhoria concreta nas condições de vida da população.

É justamente nesse contexto que se torna particularmente indefensável a postura dos dirigentes de clubes de futebol que continuam pressionando pela liberalização das apostas online. Sob o argumento de que a proibição compromete contratos milionários de patrocínio, esses cartolas parecem considerar mais importante preservar as receitas de suas agremiações do que enfrentar os prejuízos econômicos e sociais provocados pela indústria das bets.

A contradição é evidente. Os mesmos clubes que dependem da paixão de milhões de torcedores, muitos deles trabalhadores de baixa renda, defendem a continuidade de um modelo de financiamento que pode contribuir para o endividamento e o empobrecimento dessas mesmas famílias. Em outras palavras, querem continuar recebendo dinheiro de empresas que lucram quando seus clientes perdem.

O futebol brasileiro precisa encontrar formas de financiamento que não dependam da vulnerabilidade econômica de seus torcedores. A incapacidade dos dirigentes de controlar despesas e diversificar receitas não pode servir de justificativa para manter uma atividade que pode comprometer o orçamento doméstico de milhões de brasileiros.

Se a retirada das bets está contribuindo para colocar mais alimentos na mesa das famílias, os dirigentes do futebol deveriam ser os primeiros a reconhecer esse benefício, em vez de trabalhar para restaurar os lucros das empresas de apostas. No fim das contas, a questão é muito simples: o que deve ter prioridade no Brasil — a comida na mesa dos trabalhadores ou os milhões das bets nos cofres dos clubes de futebol? A resposta deveria ser óbvia. Infelizmente, para muitos cartolas, parece não ser.

“Fuga das Galinhas” à la Bolsonaro: Flávio prometeu resistência até o fim, mas escolheu a escapada noturna após a derrota nas urnas

Derrotado por Lula após receber cerca de 60 milhões de votos, senador deixa o Brasil em menos de 48 horas, descumpre ordem judicial e transforma seu discurso de resistência em um roteiro que parece saído de uma comédia cinematográfica

Se os roteiristas da animação “Fuga das Galinhas“ estivessem procurando inspiração para uma continuação brasileira, talvez encontrassem no senador Flávio Bolsonaro um personagem bastante peculiar. Afinal, não é todo dia que um candidato à Presidência da República recebe cerca de 60 milhões de votos, anuncia disposição para contestar o resultado eleitoral e, menos de 48 horas depois, aparece nos noticiários internacionais como protagonista de uma saída apressada do país.

A diferença é que, no filme, as galinhas elaboram um plano para escapar de um galinheiro onde estão ameaçadas de morte. Na versão brasileira, o protagonista não está tentando escapar de uma ditadura, de um campo de concentração ou de qualquer regime que tenha suprimido seus direitos políticos. Flávio está deixando um país no qual acaba de disputar livremente a Presidência da República, recebeu dezenas de milhões de votos e continua ocupando uma cadeira no Senado Federal.

O contraste entre a retórica e os acontecimentos dificilmente poderia ser mais cinematográfico.

Da promessa de resistência ao desaparecimento em tempo recorde

No domingo, 25 de outubro, Flávio Bolsonaro foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais. Mesmo assim, o senador questionou a legitimidade do resultado e defendeu medidas para impedir a consolidação da vitória adversária.  A mensagem política era de enfrentamento. A promessa era de resistência. O cenário anunciado parecia exigir disposição para permanecer no Brasil e sustentar publicamente suas acusações.

Entretanto, na terça-feira, 27 de outubro, a narrativa ganhou um capítulo inesperado. Enquanto a Polícia Federal aguardava a entrega de seus passaportes, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, o senador já estaria a caminho dos Estados Unidos. Posteriormente, fontes ligadas ao governo norte-americano confirmaram sua chegada ao território estadunidense e a disposição de conceder vistos à família.

Entre o discurso de resistência e a saída do país transcorreram menos de 48 horas. Para os milhões de eleitores que acreditaram na promessa de uma batalha política em território nacional, a mudança de cenário certamente merece explicações.

Afinal, como sustentar uma campanha pela anulação de uma eleição brasileira estando a milhares de quilômetros de Brasília?

Uma fuga com escalas ideológicas

Outro elemento curioso da história é a possível rota utilizada para deixar o Brasil. Reportagens mencionaram uma passagem pela Argentina, governada por Javier Milei, antes da chegada aos Estados Unidos de Donald Trump.

As autoridades argentinas, entretanto, afirmaram não ter registros da entrada de Flávio Bolsonaro no país. Portanto, essa escala permanece como hipótese, e não como fato comprovado.  Ainda assim, a associação entre os destinos mencionados e os governos politicamente próximos ao bolsonarismo oferece um elemento adicional à sátira. Na geografia política dessa viagem, o destino confirmado foi justamente o país cujo presidente mantém relações de proximidade com a família Bolsonaro.

No filme “Fuga das Galinhas”, os personagens precisam construir uma engenhoca voadora para alcançar a liberdade. Na versão brasileira, aparentemente basta encontrar uma maneira de chegar aos Estados Unidos, onde o governo Trump já sinalizou disposição para receber o senador e sua família.

Mas há uma diferença essencial entre os dois roteiros: as galinhas do filme não precisavam explicar movimentações financeiras, relações empresariais ou suspeitas de lavagem de dinheiro.

O problema não é a derrota eleitoral, mas as perguntas que continuam sem resposta

A saída de Flávio Bolsonaro não ocorreu em um vazio jurídico. O senador é alvo de investigações que envolvem suspeitas de irregularidades financeiras, incluindo uma apuração relacionada ao advogado Willer Tomaz e a possíveis operações de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

A Polícia Federal apontou elementos que, em sua avaliação, indicavam risco concreto de saída do território nacional. Por isso, foi determinada a entrega dos passaportes, ordem que não foi cumprida no prazo estabelecido.

É importante ressaltar que investigações não equivalem a condenações e que Flávio Bolsonaro tem direito à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa. Mas esses direitos não dispensam ninguém do cumprimento de decisões judiciais válidas.

A questão central, portanto, não é simplesmente por que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil depois de perder a eleição. É por que decidiu fazê-lo justamente quando deveria cumprir uma ordem judicial e prestar esclarecimentos sobre fatos investigados pelas autoridades.

O episódio também recoloca em discussão as relações financeiras do senador, a origem e a movimentação de recursos associados a pessoas de seu círculo de confiança e as conexões internacionais mencionadas nas investigações. São questões que precisam ser esclarecidas com provas, e não resolvidas por meio de discursos sobre perseguição política.

As galinhas fugiam para conquistar a liberdade. Flávio deixou um país onde pôde disputar a Presidência

É nesse ponto que a comparação cinematográfica ganha seu sentido mais revelador. Na animação, a fuga é uma reação à ausência de liberdade. No episódio envolvendo Flávio Bolsonaro, a saída ocorre depois de uma eleição democrática na qual o senador participou como candidato de oposição, realizou campanha nacional e conquistou aproximadamente 60 milhões de votos.  A existência de investigações contra um político não constitui, por si só, evidência de perseguição. Da mesma forma, a derrota eleitoral não transforma automaticamente um candidato em vítima de um regime autoritário.

Se Flávio Bolsonaro considera ilegítimas as decisões judiciais que o atingem, existem instrumentos legais para contestá-las. Se considera infundadas as suspeitas sobre suas relações financeiras, pode apresentar documentos e argumentos por intermédio de sua defesa.

O que permanece sem explicação satisfatória é a contradição entre afirmar que permaneceria no país para enfrentar uma batalha política e deixar o território nacional justamente quando uma determinação judicial exigia sua colaboração.

O senador que deixou 60 milhões de votos na sala de embarque

Talvez o aspecto politicamente mais significativo dessa história seja a relação entre Flávio Bolsonaro e os eleitores que depositaram nele suas expectativas.

Receber cerca de 60 milhões de votos não é um acontecimento trivial. Trata-se de uma parcela expressiva da sociedade brasileira, formada por cidadãos que, por razões diversas, escolheram seu projeto político.

Esses eleitores têm o direito de perguntar por que o candidato que lhes prometeu resistência decidiu deixar o país tão rapidamente. Também têm o direito de saber se sua saída será temporária, se pretende continuar exercendo o mandato parlamentar e como pretende responder às determinações da Justiça brasileira.

Na animação “Fuga das Galinhas”, a solidariedade entre os personagens é fundamental para que todos consigam escapar. No episódio brasileiro, a imagem política é outra: o candidato chega aos Estados Unidos enquanto milhões de apoiadores permanecem no Brasil aguardando explicações.

E talvez esteja aí a ironia mais expressiva de toda essa história. O personagem que prometia enfrentar o sistema brasileiro agora terá de explicar, a partir do exterior, por que não permaneceu no país para sustentar suas próprias palavras.  A comparação com “Fuga das Galinhas” revela mais diferenças do que semelhanças. As galinhas da animação tinham razões concretas para escapar de seus algozes. Flávio Bolsonaro, por sua vez, precisa esclarecer as circunstâncias de sua saída e responder às questões que motivaram as investigações em andamento.

O cinema pode transformar uma fuga em aventura. Na vida pública, entretanto, nem mesmo um roteiro digno de Hollywood substitui o dever de prestar contas.

“Ou morrer pelo Brasil”: Flávio Bolsonaro deixa o país e segue para os EUA, informa CNN

Segundo a emissora, duas fontes confirmaram a saída do senador; o destino expõe a distância entre o patriotismo dos palanques e a conduta após a derrota

Segundo reportagem da CNN, assinada por Max Saltman, Mauricio Torres, Anabella Gonzalez e Kevin Liptak, Flávio Bolsonaro deixou o Brasil e seguia para os Estados Unidos após perder a eleição presidencial para Lula. A emissora afirma ter confirmado a informação com duas fontes, incluindo uma autoridade americana que informou que o senador estava em voo para a Flórida. Uma fonte brasileira próxima a Flávio acrescentou que ele temia ser preso. O senador nega irregularidades nas investigações mencionadas pela reportagem.

O relato representa uma mudança importante em relação às especulações anteriores: a CNN informa ter confirmado a saída do país e o destino americano, embora permaneça desconhecido o caminho utilizado. A passagem pela Argentina continua sem confirmação: o governo argentino declarou não possuir registro da entrada de Flávio. A reportagem também informa, citando a CNN Brasil, que seus passaportes foram cancelados e que a Polícia Federal procurava localizá-lo.

É diante desse quadro que se impõe uma pergunta: como pode um candidato que fazia a plateia cantar “Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil” deixar o país após a derrota, enquanto deveria prestar esclarecimentos às instituições brasileiras? Ninguém precisa morrer para demonstrar compromisso com o Brasil. Mas quem transforma esse verso em instrumento de mobilização política precisa explicar por que a disposição para o sacrifício desaparece quando chega a hora de enfrentar as próprias responsabilidades.

A contradição fica ainda mais evidente porque, segundo a CNN, Flávio havia declarado que não pretendia fugir e reconhecido ter sido informado pessoalmente da proibição de deixar o Brasil. A notícia de sua saída exige, portanto, explicações sobre o cumprimento dessa determinação. O temor de prisão relatado por uma fonte próxima ajuda a compreender o contexto, mas não substitui a apuração dos fatos nem constitui prova de culpa nas investigações.

Politicamente, porém, o contraste já é contundente. Durante a campanha, a pátria era apresentada como um compromisso absoluto, acompanhado de bandeiras, hinos e promessas de coragem. Depois da derrota, o destino informado pela CNN é a Flórida. Os eleitores que foram convocados a demonstrar tamanha devoção ao Brasil têm o direito de cobrar coerência daquele que pretendia governá-los.

Respeitar o resultado das urnas e responder às instituições brasileiras também são demonstrações de compromisso com o país. O patriotismo de um candidato precisa sobreviver ao encerramento do comício, à perda da eleição e ao fim das conveniências pessoais. Caso contrário, o verso cantado pela multidão acaba reduzido a uma exigência dirigida aos outros.

Flávio Bolsonaro: derrotado nas urnas, cercado por investigações e sob suspeita de fuga do Brasil

Após a derrota para Lula, a Polícia Federal apura uma possível saída do país rumo aos Estados Unidos. O passaporte italiano, os recursos financeiros e as conexões internacionais acrescentam novos elementos ao dilema que já havíamos apontado: presidente ou presidiário?

Há poucos dias, abordamos aqui no Blog do Pedlowski a situação paradoxal em que Flávio Bolsonaro se encontrava diante da possibilidade de vencer ou perder a eleição presidencial. A pergunta era provocativa, mas traduzia uma contradição concreta: presidente ou presidiário? Com a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva, o primeiro caminho foi fechado pelas urnas, enquanto o segundo permanece como possibilidade jurídica, dependente do andamento das investigações, da apresentação de provas e de eventuais decisões judiciais.

Agora, uma informação publicada pelo jornalista Lauro Jardim, em O Globo, nesta terça-feira (27), acrescenta um ingrediente potencialmente explosivo à situação. Segundo a nota, a Polícia Federal apura se Flávio Bolsonaro teria deixado o Brasil rumo aos Estados Unidos. A informação ainda não representa a confirmação de uma fuga, mas sua gravidade aumenta diante da notícia de que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou a entrega dos passaportes do senador e o proibiu de deixar o território nacional.

A possibilidade de uma saída do Brasil não surgiu do nada. O próprio Eduardo Bolsonaro, atualmente nos Estados Unidos, havia defendido publicamente que seu irmão deixasse o país caso fosse derrotado nas eleições. Além disso, reportagens recentes trouxeram à tona investigações e suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro e pessoas de seu círculo de relações, incluindo o advogado Willer Tomaz, negócios relacionados ao setor de apostas e questionamentos sobre movimentações financeiras. Há ainda notícias sobre apurações envolvendo o financiamento do filme Dark Horse, relacionado à trajetória de Jair Bolsonaro, nas quais aparece o nome do banqueiro Daniel Vorcaro. Essas referências, entretanto, não significam que tenha sido comprovada responsabilidade criminal de Flávio Bolsonaro, que nega irregularidades.

É nesse contexto que a hipótese de fuga adquire um significado político particular. Para alguém que acaba de perder uma eleição presidencial e enfrenta diferentes frentes de investigação, deixar o Brasil pode parecer uma alternativa para evitar os riscos de futuras decisões judiciais desfavoráveis. Isso não significa que os crimes investigados estejam comprovados, nem que uma prisão seja inevitável. Significa, entretanto, que a acumulação de suspeitas e procedimentos judiciais pode criar um cenário no qual a permanência no país seja percebida pelo investigado como um risco crescente.

Há ainda um elemento que não pode ser ignorado: as informações sobre a posse de um passaporte italiano por Flávio Bolsonaro. Embora a Justiça brasileira possa determinar sua apreensão e impedir que seja utilizado para deixar o país, não possui competência para anular diretamente um documento emitido pelo Estado italiano. A eventual cidadania italiana, somada à disponibilidade de recursos financeiros e às conexões internacionais de Flávio, poderia ampliar suas alternativas de deslocamento e permanência no exterior. Isso não impediria um pedido de extradição, inclusive à Itália, mas poderia acrescentar dificuldades jurídicas e diplomáticas ao processo. Em outras palavras, uma saída clandestina do Brasil não se tornaria legal pelo simples uso de um passaporte estrangeiro, mas a existência desse documento poderia representar uma vantagem prática para quem pretendesse permanecer fora do alcance imediato das autoridades brasileiras.

Há uma diferença fundamental entre ser associado publicamente a crimes, correta ou incorretamente, e ter responsabilidade criminal demonstrada perante a Justiça. Essa distinção precisa ser preservada. Entretanto, também não se pode ignorar que a dimensão das investigações e das notícias envolvendo Flávio Bolsonaro ultrapassou o terreno das disputas eleitorais e passou a produzir consequências judiciais, como a determinação de entrega de passaportes e a proibição de deixar o Brasil, conforme noticiado.

A notícia de Lauro Jardim precisa, portanto, ser acompanhada com atenção. Outras informações divulgadas nesta terça-feira mencionam uma suposta passagem pela Argentina, mas há negativas de aliados e ainda não foi apresentada confirmação pública de que Flávio tenha efetivamente deixado o território brasileiro. A confirmação ou o desmentido dessa hipótese será decisivo para compreender a extensão do episódio.

O que antes parecia uma mera hipótese— presidente ou presidiário? — transformou-se em uma questão que envolve também a possibilidade de uma terceira alternativa: a tentativa de escapar da jurisdição brasileira. A derrota eleitoral retirou de Flávio Bolsonaro a possibilidade imediata de chegar à Presidência da República, mas não eliminou as questões judiciais que o cercam. Nesse contexto, a hipótese de deixar o país pode deixar de ser apenas uma possibilidade abstrata e passar a representar uma alternativa considerada diante dos riscos de responsabilização criminal.

Se a fuga vier a ser confirmada, estaremos diante de um episódio com consequências políticas e jurídicas potencialmente graves, especialmente se houver descumprimento de uma ordem judicial. Se for descartada, permanecerá a necessidade de esclarecer as suspeitas e investigações existentes, sem antecipar condenações.

A derrota nas urnas já ocorreu. O desfecho judicial continua em aberto. E a pergunta que agora se acrescenta ao dilema original é inevitável: Flávio Bolsonaro permanecerá no Brasil para responder às investigações ou tentará encontrar no exterior uma saída para seus problemas com a Justiça?

A virada de Lula em Campos dos Goytacazes: a força da militância invisível e o potencial para a mudança

O crescimento expressivo da votação de Lula e a perda de votos de Flávio Bolsonaro no segundo turno revelam a força de uma militância popular fora das estruturas partidárias tradicionais e abrem novas possibilidades para romper a hegemonia da direita na política campista

Algo muito diferente aconteceu em Campos dos Goytacazes no segundo turno da eleição presidencial de 2026. O presidente Lula recebeu 115.927 votos, um acréscimo de 24.822 votos em relação ao primeiro turno. Já Flávio Bolsonaro totalizou 159.470 votos, o que representou uma perda líquida de 1.389 votos. Essa é uma situação efetivamente inusitada, que merece uma análise mais cuidadosa do que aquelas apresentadas por comentaristas que, após o primeiro turno, atribuíram o resultado a um suposto elitismo da esquerda local. A diferença observada entre os dois turnos coloca em xeque essas interpretações rasteiras, e vou tentar oferecer uma explicação que não caia na vala comum das análises mequetrefes.

Em primeiro lugar, não me parece crível que esse resultado seja consequência da atuação dos militantes do PT de Campos. O passado imediato, e aqui me refiro ao primeiro turno, indica que, se dependêssemos exclusivamente da militância petista, o resultado poderia ter sido ainda pior no segundo turno, repetindo a tendência observada quando Lula enfrentou Jair Bolsonaro. Em 2022, Jair Bolsonaro passou de 159.381 votos (58,01%) no primeiro turno para 171.999 votos (63,14%) no segundo, enquanto Lula saiu de 93.870 votos (34,16%) para 100.427 votos. Como explicar, então, a discrepância entre os dois turnos de 2026 e, mais ainda, a diferença em relação ao que aconteceu em 2022? Para mim, um fator decisivo foi a disposição da juventude de arregaçar as mangas por aqui, como também ocorreu no restante do país. Como Campos possui um contingente considerável de estudantes secundaristas e universitários, a entrada desse segmento nas manifestações e no corpo a corpo nas ruas deu uma energia significativa à campanha de Lula. Houve ainda divergências explícitas entre os integrantes da principal corrente política local, ligada ao ex-governador Anthony Garotinho, com uma divisão que se manifestou até mesmo nas escolhas eleitorais de membros de sua família e do secretariado municipal.

Mas há outro elemento que presenciei diretamente em diversos locais: o engajamento de pessoas comuns na campanha, seja por meio de suas próprias redes interpessoais, seja pela participação no agora famoso Exército do Lula, organizado pelo deputado federal André Janones (Rede/MG). Foi essa militância não partidária que desempenhou um papel decisivo para alcançar pessoas que haviam anulado o voto, votado em branco ou sequer comparecido às urnas no primeiro turno. Na minha avaliação, foi justamente essa militância invisível, formada por pessoas comuns, que contribuiu para a situação insólita de termos Campos dos Goytacazes entre os municípios em que Flávio Bolsonaro perdeu votos de um turno para outro. Mais do que uma simples mudança nos números eleitorais, esse movimento sugere a existência de uma capacidade de mobilização popular que não passa necessariamente pelas estruturas partidárias tradicionais e que, por isso mesmo, tende a escapar das análises convencionais sobre o comportamento do eleitorado campista.

Se a minha tese estiver correta, abre-se uma grande janela de oportunidades para quem estiver disposto a romper o ciclo de hegemonia histórica dos partidos de direita sobre a política municipal. Isso porque, ao contrário do que parece ou do que se tenta fazer crer, existe uma consciência clara de que as políticas sociais que aliviam as dificuldades enfrentadas por milhares de cidadãos pobres precisam ser preservadas e de que os direitos dos trabalhadores devem ser garantidos. Digo isso também com base em conversas que tive com pessoas que me reconheciam no supermercado ou na padaria, ocasiões em que pude perceber que a população não está tão desconectada da realidade quanto muitos querem fazer parecer. O problema talvez esteja menos na ausência de consciência sobre os próprios interesses e mais na falta de canais permanentes de organização política capazes de transformar essa percepção em ação coletiva.

A pergunta de um milhão de reais, agora, é quem estará disposto a estudar esses resultados para identificar as áreas do município com maior potencial de mudança e nelas estabelecer as bases de uma perspectiva de organização política da população. Como o período que temos pela frente tem mais cara de tempestade do que de dia ensolarado, existe uma oportunidade concreta de transformar em organização política a energia que emergiu no segundo turno. Resta saber quem estará disposto a realizar o trabalho duro de elevar a consciência política e dar continuidade a uma mobilização que demonstrou ser capaz de produzir resultados inesperados nas urnas.

Flávio Bolsonaro: a presidência escapou, os passaportes também. E agora?

Apenas quatro dias depois de o Blog do Pedlowski apontar o dilema entre a Presidência e uma eventual prisão, a derrota eleitoral e uma decisão do STF colocam o senador diante de uma situação ainda mais complicada

No dia 22 de outubro, publiquei aqui no Blog do Pedlowski um artigo intitulado “Presidiário ou presidente? Essas são as duas opções que Flávio Bolsonaro tem diante de si”. Na ocasião, utilizei a expressão inglesa Catch-22 para caracterizar a situação paradoxal em que se encontrava o senador, então candidato à Presidência da República. Minha avaliação era de que Flávio Bolsonaro enfrentava uma situação particularmente delicada: precisava vencer uma eleição presidencial enquanto se acumulavam revelações jornalísticas e investigações envolvendo seu nome e pessoas de seu círculo mais próximo. 

Quatro dias depois, o cenário político mudou radicalmente. Flávio Bolsonaro perdeu a eleição para Luiz Inácio Lula da Silva, que conquistou 51,79% dos votos válidos contra 48,21% do candidato do PL. Mas a derrota nas urnas não foi a única notícia desagradável para o primogênito de Jair Bolsonaro. Nesta segunda-feira (26), a Polícia Federal o intimou a entregar seus passaportes comum e diplomático, em cumprimento a uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo reportagem publicada pelo UOL, Flávio terá 24 horas para entregar os documentos e também está proibido de manter contato com o advogado Willer Tomaz, personagem central de algumas das investigações que já havíamos mencionado no artigo de 22 de outubro. A decisão representa um agravamento concreto de sua situação jurídica, embora não constitua condenação nem signifique que uma prisão seja inevitável.

O aspecto mais significativo dessa nova situação é que ela recoloca no centro das atenções justamente a relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz. Como já destacamos anteriormente, o advogado teve seu nome associado a investigações sobre movimentações financeiras suspeitas, incluindo a descoberta, pela Polícia Federal, de um compartimento oculto em um hangar utilizado por empresas de aviação ligadas a ele, onde foi encontrada uma máquina de contar dinheiro. Também foram noticiadas suspeitas envolvendo operações financeiras e empresas de apostas, inclusive a Best Bet. Essas suspeitas continuam dependendo de investigação e comprovação, e as defesas dos envolvidos negam irregularidades.

A reportagem do UOL acrescenta agora um elemento relevante: segundo a Polícia Federal, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz compartilhavam uma conta bancária no Santander. A proibição de contato entre ambos sugere que as autoridades consideram necessário preservar as investigações de possíveis interferências. Isso não comprova os crimes investigados, mas demonstra que as relações financeiras e pessoais entre o senador e o advogado estão longe de ser uma questão encerrada.

Há ainda um componente político particularmente revelador. Segundo o próprio Flávio Bolsonaro, a decisão de apreender seus passaportes também estaria relacionada a declarações de seu irmão Eduardo Bolsonaro, que defendeu publicamente que ele deixasse o Brasil caso fosse derrotado nas eleições. Flávio nega ter considerado essa possibilidade e classificou a medida judicial como uma tentativa de intimidação. A legalidade, a necessidade e a proporcionalidade das restrições poderão ser questionadas pela defesa, como deve ocorrer em qualquer Estado democrático de direito.

Entretanto, o fato político permanece: menos de 24 horas depois de perder a disputa presidencial, Flávio Bolsonaro passou a enfrentar restrições judiciais à sua liberdade de deslocamento internacional. Ao mesmo tempo, em vez de reconhecer a derrota, anunciou que pretende buscar a cassação da chapa vencedora, recorrendo a questionamentos sobre a prorrogação do horário de votação em algumas localidades. Ocorre que os aproximadamente 34 mil votos registrados depois das 17 horas representam uma fração insignificante diante da vantagem superior a quatro milhões de votos obtida por Lula.

É nesse ponto que a hipótese apresentada no Blog do Pedlowski em 22 de outubro ganha nova atualidade. Naquele momento, sugerimos que a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro estava atravessada por uma contradição fundamental: enquanto buscava alcançar o posto político mais importante do país, o senador acumulava problemas que poderiam comprometer seu futuro político e jurídico. A vitória eleitoral poderia representar um extraordinário fortalecimento de sua posição política. A derrota, por outro lado, deixaria exposta uma trajetória marcada por controvérsias e investigações ainda não concluídas.

Não se trata de afirmar que a perda da eleição tenha causado a decisão judicial, tampouco que a apreensão dos passaportes antecipe uma condenação criminal. Trata-se de reconhecer que a sequência dos acontecimentos tornou muito mais visível a vulnerabilidade política e jurídica que apontávamos antes da votação.

A ironia histórica é difícil de ignorar. Flávio Bolsonaro entrou na disputa presidencial carregando o sobrenome de um ex-presidente condenado e submetido à prisão domiciliar. Agora, derrotado nas urnas, vê-se obrigado a entregar seus documentos de viagem enquanto prosseguem investigações que poderão ter consequências importantes para seu futuro.

O Catch-22 que identificamos no dia 22 de outubro parece, portanto, ter entrado em uma nova fase. A alternativa da Presidência foi afastada pela vontade popular, mas a possibilidade de consequências judiciais mais graves permanece em aberto. Entre a derrota política consumada e o desfecho ainda incerto das investigações, Flávio Bolsonaro terá de enfrentar uma realidade que nenhuma campanha eleitoral poderá resolver por ele.

A pergunta que fizemos quatro dias atrás continua pertinente, mas agora precisa ser reformulada: sem a Presidência e com os passaportes sob determinação de entrega à Polícia Federal, qual será o próximo capítulo da trajetória de Flávio Bolsonaro?

A resposta dependerá das provas reunidas, do exercício do direito de defesa e das decisões da Justiça. Mas uma coisa já podemos afirmar: o cenário de vulnerabilidade que apontamos antes da eleição não desapareceu com a abertura das urnas. Pelo contrário, os acontecimentos desta segunda-feira indicam que ele pode estar apenas começando.   E, para quem pretendia chegar ao Palácio do Planalto, terminar a eleição tendo de entregar os passaportes à Polícia Federal está longe de ser um desfecho trivial.

Brasil continua abrindo as portas para agrotóxicos rejeitados na Europa: dois atos do Ministério da Agricultura revelam a dimensão do problema

Publicações de 26 de outubro expõem a expansão do mercado brasileiro de agrotóxicos, a dependência de fabricantes estrangeiros e a permanência de ingredientes ativos sem aprovação para uso agrícola na União Europeia

Enquanto o debate público brasileiro se concentra nos resultados das eleições presidenciais, a máquina administrativa responsável pela regulamentação dos agrotóxicos continua funcionando. A edição de 26 de outubro de 2026 do Diário Oficial da União trouxe dois atos da Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins, vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que ajudam a compreender a dimensão de um problema estrutural: a continuidade da expansão do mercado brasileiro de substâncias químicas destinadas à agricultura, inclusive de ingredientes ativos que não possuem aprovação vigente para utilização fitossanitária na União Europeia.

Os Atos nº 65 e nº 66, relacionados a procedimentos de registro de agrotóxicos, oferecem um retrato revelador das prioridades que orientam a política brasileira para o setor. O primeiro apresenta 72 registros de produtos técnicos, enquanto o segundo reúne 27 pedidos de registro, sendo 25 referentes a produtos técnicos equivalentes e dois a produtos técnicos novos. Embora representem etapas administrativas distintas, os documentos demonstram a intensidade com que empresas nacionais e estrangeiras buscam ampliar sua participação no mercado brasileiro.

É importante observar que os 99 procedimentos identificados não representam 99 novos ingredientes ativos nem 99 produtos comerciais imediatamente disponíveis para aplicação nas lavouras. Há registros repetidos de uma mesma substância, pedidos ainda sujeitos à análise e produtos técnicos destinados à formulação de agrotóxicos. Essa distinção, entretanto, não diminui a relevância dos atos. Ao contrário, permite identificar como se organiza a ampliação da oferta de ingredientes ativos no país.

O que a Europa não aprova continua encontrando espaço no Brasil

Um dos aspectos mais preocupantes dos dois atos é a presença de substâncias que não possuem aprovação vigente para uso fitossanitário na União Europeia. No Ato nº 65 aparecem, entre outros, atrazina, clorotalonil, clotianidina, propiconazol, picoxistrobina, diuron, etiprole e ciproconazol. No Ato nº 66, a análise dos pedidos também identificou ciproconazol, espiromesifeno e espinetoram entre os ingredientes sem aprovação europeia vigente.

As razões para essas situações não são necessariamente iguais. Algumas substâncias tiveram suas aprovações não renovadas após avaliações regulatórias; outras deixaram de ser aprovadas em decorrência da retirada de pedidos pelas empresas interessadas. Há ainda ingredientes submetidos a restrições específicas de utilização. Por isso, seria incorreto tratar todas essas situações como se fossem proibições fundamentadas exatamente nos mesmos riscos.

Mas a diversidade dos procedimentos administrativos não elimina a contradição central: substâncias que não podem ser regularmente utilizadas como agrotóxicos na agricultura europeia continuam integrando processos de registro e comercialização no Brasil.

A atrazina é um exemplo emblemático. Esse herbicida deixou de ser aprovado na União Europeia em 2004, em meio a preocupações com a contaminação das águas subterrâneas. Mais de duas décadas depois, continua aparecendo em registros brasileiros, como demonstra o Ato nº 65.

O clorotalonil, fungicida cuja aprovação europeia não foi renovada em 2019, também está presente no documento. A clotianidina, inseticida neonicotinoide associado a preocupações com os impactos sobre abelhas e outros polinizadores, aparece em dois registros. Já o propiconazol e a picoxistrobina integram a relação de fungicidas que perderam aprovação para uso fitossanitário na União Europeia.

O caso do ciproconazol merece uma ressalva. A substância aparece nos dois atos, mas sua situação europeia não deve ser apresentada simplesmente como resultado de uma proibição decorrente de comprovação definitiva de danos. Sua aprovação deixou de vigorar após a retirada ou não continuidade do pedido de renovação. O resultado prático é a ausência de autorização fitossanitária vigente na União Europeia, mas a precisão sobre o procedimento regulatório é necessária para compreender o caso.

A pergunta que permanece é por que o Brasil continua incorporando ao seu mercado ingredientes ativos que deixaram de atender às condições necessárias para sua utilização agrícola em outras jurisdições.

A indústria asiática fornece, as empresas brasileiras registram

Outro elemento que atravessa os dois atos é a presença expressiva de fabricantes estrangeiros, especialmente chineses e indianos, nas cadeias de fornecimento de ingredientes ativos destinados ao mercado brasileiro.

Entre as empresas identificadas no Ato nº 65 aparecem fabricantes como Ningxia Yifan Biotechnology, Shandong Weifang Rainbow Chemical, Anhui Guangxin Agrochemical, Hebei Veyong Bio-Chemical e Jiangsu Flag Chemical. Do lado brasileiro, empresas como Solagro Soluções Agrícolas, Rainbow Defensivos Agrícolas, Nortox, Cropchem e Agrolianza figuram como titulares de diferentes registros.

O Ato nº 66 reforça essa estrutura, com a presença de empresas como Rainbow, Biorisk, Lemma, Nortox, Solagro, Bioagri e Hemani entre os requerentes.

Esse padrão revela uma característica importante do modelo brasileiro: parte significativa do mercado é abastecida por ingredientes ativos fabricados no exterior, enquanto empresas instaladas no país atuam como titulares de registros, importadoras ou participantes das cadeias de formulação e distribuição.

Não se trata de afirmar que a origem chinesa ou indiana de uma substância seja, por si só, um indicador de perigo. O problema é a combinação entre dependência externa, ampliação da oferta de produtos químicos e diferenças nos padrões regulatórios adotados pelos países consumidores.

O Brasil, que possui uma das maiores agriculturas comerciais do planeta, continua ocupando uma posição estratégica para fabricantes internacionais de agrotóxicos. E essa posição precisa ser examinada também sob a perspectiva dos custos ambientais e sanitários associados ao modelo de produção agrícola predominante.

Os riscos ambientais não desaparecem com a multiplicação dos registros

A classificação ambiental dos produtos incluídos no Ato nº 65 acrescenta outra dimensão ao problema. O documento apresenta substâncias enquadradas nas Classes I, II, III e IV de periculosidade ambiental, incluindo produtos considerados altamente perigosos ou muito perigosos ao meio ambiente.

Entre os exemplos está o Lambda-Cyhalothrin Técnico CG, classificado na Classe I — Produto Altamente Perigoso ao Meio Ambiente. Essa classificação é particularmente relevante porque demonstra que a ampliação dos registros não envolve apenas produtos de baixo potencial de impacto ambiental.

No Ato nº 66, a presença de ingredientes como sulfoxaflor e fenazaquina também merece atenção. O sulfoxaflor possui restrições de utilização na União Europeia, enquanto a fenazaquina está submetida a condições regulatórias específicas. Portanto, mesmo quando uma substância mantém aprovação europeia, isso não significa que seu uso esteja autorizado sem limitações.

O problema se torna ainda mais complexo quando se considera que os impactos dos agrotóxicos não se restringem aos organismos que se pretende controlar. Dependendo das propriedades das substâncias, das condições de aplicação e dos níveis de exposição, podem ocorrer efeitos sobre organismos não alvo, recursos hídricos, solos e biodiversidade.

Além disso, a avaliação de cada ingrediente ativo isoladamente não resolve a questão dos impactos cumulativos e das exposições simultâneas a diferentes substâncias químicas. Esse é um desafio particularmente importante em regiões agrícolas caracterizadas pela utilização intensiva de agrotóxicos.

Quem fica com os lucros e quem assume os riscos?

A leitura conjunta dos Atos nº 65 e nº 66 permite formular uma questão que ultrapassa o campo estritamente regulatório. A expansão do mercado brasileiro de agrotóxicos está inserida em uma estrutura econômica na qual fabricantes internacionais, empresas registrantes, distribuidores e grandes produtores agrícolas ocupam posições diferentes das populações potencialmente expostas aos efeitos dessas substâncias.

Os benefícios econômicos da comercialização de agrotóxicos são apropriados pelas empresas que participam das cadeias produtivas e comerciais. Já os custos associados à contaminação ambiental, à exposição ocupacional e aos possíveis danos à saúde podem alcançar trabalhadores rurais, comunidades agrícolas e populações que não participam diretamente das decisões sobre sua utilização.

Trata-se de uma distribuição desigual de benefícios e riscos que precisa ocupar o centro do debate sobre o modelo agrícola brasileiro.

Nesse contexto, o conceito de violência lenta, desenvolvido pelo pesquisador Rob Nixon, oferece uma chave importante de interpretação. Diferentemente dos desastres ambientais que produzem imagens imediatas de destruição, a contaminação por substâncias químicas pode ocorrer de maneira gradual, dispersa e frequentemente pouco visível. Seus efeitos podem se acumular no tempo, enquanto os mecanismos responsáveis por sua produção permanecem distantes do cotidiano das populações atingidas.

Isso não significa atribuir automaticamente danos específicos aos produtos relacionados nos dois atos, mas reconhecer que a avaliação dos riscos precisa considerar processos de exposição prolongada e suas possíveis consequências sociais e ambientais.

O Brasil precisa discutir o modelo agrícola que sustenta essa expansão

Os Atos nº 65 e nº 66 demonstram que a política brasileira de agrotóxicos não pode ser compreendida apenas pela contagem de registros ou pela velocidade dos procedimentos administrativos. É necessário discutir quais ingredientes ativos estão sendo incorporados ao mercado, por que determinadas substâncias continuam sendo utilizadas no Brasil depois de perderem aprovação em outros países e quais mecanismos efetivamente protegem a saúde humana e o meio ambiente.

Também é preciso evitar uma interpretação simplista das diferenças entre os sistemas regulatórios. A ausência de aprovação europeia não significa necessariamente que uma substância tenha sido proibida após comprovação definitiva de danos. Entretanto, decisões de não renovação, restrições de uso e preocupações identificadas em avaliações científicas constituem informações relevantes que não deveriam ser ignoradas pelas autoridades brasileiras.

A comparação internacional não substitui a avaliação científica realizada no Brasil, mas deveria servir como instrumento de transparência e de aperfeiçoamento das decisões regulatórias.

A questão central é saber se o país está utilizando sua capacidade institucional para reduzir riscos ou se continua priorizando a ampliação da oferta de insumos químicos para atender às demandas de um modelo agrícola fortemente dependente de agrotóxicos.

Os dois atos publicados em 26 de outubro mostram que, enquanto parte do mundo restringe ou abandona determinados ingredientes ativos, o Brasil continua oferecendo espaço para sua circulação comercial. E, diante desse quadro, a pergunta mais importante não é quantos registros o Ministério da Agricultura consegue processar, mas quem se beneficia dessa expansão e quem poderá pagar sua conta ambiental e sanitária.

Afinal, quando os lucros são concentrados e os riscos potencialmente distribuídos por toda a sociedade, a discussão sobre agrotóxicos deixa de ser apenas uma questão de produtividade agrícola. Torna-se uma questão de saúde pública, justiça ambiental e escolha política sobre o futuro da agricultura brasileira.

Lula venceu nas urnas, mas foi o povo nas ruas que derrotou Flávio Bolsonaro

A mobilização histórica que uniu jovens, trabalhadores e idosos reverteu a vitória da extrema-direita no primeiro turno e mostrou a força da combinação entre redes sociais e ruas. Agora, o desafio é manter essa energia popular para transformar a vitória eleitoral em conquistas sociais e impedir novos retrocessos

Eu poderia me concentrar, neste momento, na atitude de mau perdedor que Flávio Bolsonaro demonstrou em seu pronunciamento após a derrota. Mas entendo que isso não apenas seria gastar vela com mau defunto, como também significaria passar ao largo do que me parece essencial neste momento. Prefiro destacar a impressionante mobilização da parcela da população que votou em Lula, incluindo até pessoas centenárias. Foi essa mobilização, iniciada no dia 5 de outubro por estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ), que rapidamente se estendeu por todas as partes do Brasil, desde as grandes áreas metropolitanas até os mais distantes rincões do país, que desempenhou um papel decisivo na vitória eleitoral.

É importante notar que essa mobilização, que uniu a juventude e os segmentos mais idosos da nossa população, ocorreu porque as pessoas compreenderam a gravidade da vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e as profundas repercussões institucionais, políticas e econômicas que sua eventual confirmação no segundo turno poderia produzir a partir de sua posse, em janeiro de 2027. Aqui, é fundamental apontar que, pelo que veio a público, as medidas que seriam adotadas por Flávio Bolsonaro reproduziriam o mesmo modelo arrasa-quarteirão implementado por Javier Milei na Argentina, que acabou empurrando uma parcela significativa da classe média argentina para a pobreza. Caso Flávio vencesse, havia indicações de que seriam publicados pelo menos 200 decretos que afetariam diretamente direitos trabalhistas, pensões e aposentadorias.

Foi o espectro desse imenso ataque à classe trabalhadora que impulsionou mobilizações inéditas, não apenas nas capitais, mas também em pequenas cidades espalhadas por todas as regiões brasileiras. Essas mobilizações se refletem agora nos resultados eleitorais, que mostram que Lula avançou sobre Flávio na maioria das cidades brasileiras, revertendo derrotas ou ampliando suas margens de vitória. Dois casos particularmente emblemáticos foram as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, onde Lula venceu, rompendo um ciclo de derrotas que provocava não apenas desconforto numérico, mas também político, na medida em que a extrema-direita parecia ter conquistado um controle praticamente permanente das urnas.

Há ainda que se frisar que também ontem foi derrotado o líder direitista da Sérvia, Aleksandar Vučić, por uma coligação liderada pela juventude, que se levantou contra a percepção de corrupção estrutural nas instituições daquela nação dos Bálcãs. A mobilização na Sérvia não pode ser analisada isoladamente do que ocorreu nas eleições brasileiras, pois ambas as situações parecem conectadas a outros grandes levantes populares em curso na Índia, Espanha e França. Na raiz desses movimentos, que começam a produzir repercussões eleitorais, encontra-se a crise do capitalismo, agravada pelo esgotamento das políticas neoliberais difundidas a partir do chamado Consenso de Washington. Aliás, as eleições de meio de mandato que ocorrerão nos Estados Unidos, no próximo dia 3 de novembro, poderão ser tão impactantes quanto a vitória de Lula, pois também estão inseridas nesse mesmo contexto de insatisfação social e contestação política.

Também é necessário observar que a vitória de Lula terá repercussões imediatas sobre toda a América Latina, na medida em que interrompe uma sequência de derrotas eleitorais impostas pela extrema-direita, frequentemente impulsionada pelas chamadas big techs. Cabe lembrar que, apenas nos últimos 12 meses, a extrema-direita venceu eleições na Bolívia, no Chile, na Colômbia e no Peru, sempre com o uso ostensivo das redes sociais. Com a vitória de Lula, esse ciclo não apenas é interrompido, como também parece ter surgido um poderoso antídoto contra essa ofensiva: a combinação entre a mobilização nas redes sociais e a ocupação das ruas.

Finalmente, que ninguém imagine que todos os problemas do Brasil estejam resolvidos com a vitória de Lula. O que evitamos foi a consolidação da hegemonia da extrema-direita bolsonarista sobre os três Poderes constituídos. Agora, é preciso lembrar que o que garantiu esse resultado foi uma mobilização política que rompeu com a inércia da direção do PT e do comando da campanha de Lula. Manter essa mobilização será fundamental não apenas para impedir quaisquer estripulias da extrema-direita, mas também para garantir que a vitória eleitoral se traduza em melhorias efetivas nas condições de trabalho e de vida dos trabalhadores e da juventude.

O resto, me permitam dizer, já faz parte da história.

Lula faz história: a virada nas urnas e a mobilização popular marcam a eleição de 2026

Depois de perder o primeiro turno para Flávio Bolsonaro, Lula conquista um quarto mandato inédito. A mobilização da juventude, dos movimentos sociais e de eleitores de diferentes gerações marca uma eleição também atravessada por denúncias de restrições ao transporte público e pela atuação controversa da Justiça Eleitoral

O Brasil acaba de assistir a um acontecimento sem precedentes em sua história eleitoral recente. Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República neste domingo, 25 de outubro, depois de protagonizar uma virada que nenhum outro candidato havia conseguido realizar nas eleições presidenciais desde a redemocratização: terminar o primeiro turno atrás do adversário e conquistar a vitória no segundo. O resultado assegura a Lula um quarto mandato presidencial, outro marco histórico, e encerra uma campanha que parecia encaminhar-se em direção bastante diferente após a votação de 4 de outubro.

Naquele primeiro turno, Flávio Bolsonaro havia conquistado 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, abrindo uma vantagem superior a 2,2 milhões de votos. Três semanas depois, o quadro eleitoral estava invertido. Com mais de 98% das seções totalizadas, Lula já havia ultrapassado 63 milhões de votos, alcançando 51,75% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro registrava 48,25%. A diferença superior a 4,2 milhões de votos tornou matematicamente irreversível o resultado e confirmou uma reviravolta que merece ser examinada para além dos números.

Um dos elementos mais relevantes dessa transformação foi a mobilização social ocorrida entre os dois turnos. As manifestações estudantis que começaram logo depois do primeiro turno, as mobilizações organizadas por movimentos sociais e a intensificação da disputa política nas ruas e nas redes digitais contribuíram para modificar o ambiente de uma campanha inicialmente marcada por dificuldades de organização e comunicação. A juventude teve uma presença particularmente visível nesse processo, ocupando espaços públicos e participando de manifestações que recolocaram o debate sobre o futuro do país no centro da disputa eleitoral.

Seria precipitado atribuir a vitória exclusivamente a um segmento do eleitorado, mas seria igualmente inadequado ignorar a importância política dessa mobilização. A campanha do segundo turno não ficou restrita aos programas eleitorais e às estruturas partidárias tradicionais. Ela passou a envolver organizações estudantis, movimentos sociais, sindicatos, coletivos culturais e redes de participação política que buscaram ampliar o engajamento popular. A relação exata entre essas mobilizações e a transferência de votos ainda deverá ser investigada, mas sua presença na dinâmica eleitoral foi evidente.

Outro aspecto que merece atenção é a participação dos eleitores mais idosos. A campanha de Lula procurou estimular o comparecimento desse segmento, inclusive daqueles com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo. A mobilização intergeracional é uma dimensão importante da eleição de 2026, embora seja necessário aguardar os dados de comparecimento por faixa etária para determinar se houve efetivamente uma participação excepcional dos idosos. O encontro político entre diferentes gerações poderá ser uma das chaves para compreender a mudança observada entre os dois turnos.

Entretanto, a vitória de Lula também ocorreu em meio a uma controvérsia que não pode ser relegada ao esquecimento. As denúncias de restrições ao transporte público em cidades como Salvador e São Paulo levantaram questionamentos sobre as condições oferecidas aos eleitores que dependem dos ônibus para chegar às seções eleitorais. Em uma sociedade profundamente desigual, qualquer redução deliberada do transporte em dia de eleição pode atingir desproporcionalmente os trabalhadores e os moradores das periferias urbanas.

A gravidade dessas denúncias levou o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, a determinar a prorrogação da votação até as 19 horas. Entretanto, a decisão foi tomada praticamente no momento previsto para o encerramento das urnas, produzindo uma situação de difícil administração. Sob a presidência de Kassio Nunes Marques, o Tribunal Superior Eleitoral orientou que a votação prosseguisse apenas nas seções que ainda permaneciam abertas. Em consequência, a extensão do horário não pôde beneficiar uniformemente todos os eleitores potencialmente prejudicados.

A questão exige uma investigação rigorosa. Caso seja comprovado que autoridades ou gestores de transporte restringiram deliberadamente a circulação de ônibus para dificultar o comparecimento de eleitores, estaremos diante de uma interferência grave no exercício dos direitos políticos. O eventual caráter intencional dessas restrições, suas responsabilidades e seus efeitos concretos ainda precisam ser demonstrados. A vitória de Lula não elimina a necessidade de apuração, assim como as denúncias não constituem, por si mesmas, prova de que o resultado tenha sido alterado.

É nesse sentido que o segundo turno de 2026 apresenta duas dimensões inseparáveis. De um lado, uma virada eleitoral histórica, construída em um ambiente de intensa mobilização política e participação social. De outro, a necessidade de esclarecer episódios que colocaram em discussão a capacidade das instituições de assegurar condições iguais de participação aos cidadãos.

A reeleição de Lula também não significa o desaparecimento das profundas divisões políticas reveladas pelas urnas. A votação expressiva recebida por Flávio Bolsonaro demonstra que o novo mandato começará em um país politicamente dividido, com disputas importantes sobre políticas sociais, direitos trabalhistas, serviços públicos, economia e o papel do Estado. A dimensão histórica da vitória não elimina os desafios que estarão colocados a partir de janeiro de 2027.

Ainda assim, há uma conclusão política importante a extrair deste domingo: os resultados eleitorais não são determinados antecipadamente pelas vantagens obtidas em uma primeira votação. A reorganização das campanhas, a participação popular e a capacidade de mobilizar diferentes setores da sociedade podem modificar profundamente uma disputa em poucas semanas.

A eleição de 2026 ficará registrada como aquela em que Lula conseguiu transformar uma derrota no primeiro turno em uma vitória no segundo. Também deverá ser lembrada pela mobilização social que marcou as semanas finais da campanha e pelas controvérsias institucionais que exigirão esclarecimentos.

O desafio que permanece é fazer com que a vitória eleitoral conviva com a defesa intransigente das garantias democráticas. Afinal, o direito de votar precisa estar assegurado tanto para quem apoia o vencedor quanto para quem escolheu o candidato derrotado. A legitimidade da democracia depende dessa garantia, e não apenas do resultado apresentado pelas urnas.

Eleição sob suspeita: o caos no transporte e a confusão judicial colocam em risco a legitimidade do segundo turno

Denúncias de boicote ao transporte público, intervenção tardia da Justiça Eleitoral e fechamento desigual das urnas lançam dúvidas sobre a legitimidade do resultado, independentemente de quem vença a disputa presidencial

O segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, realizado neste domingo (25), poderá ficar marcado não apenas pela disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, mas também por uma crise institucional cujas consequências ainda estão longe de ser conhecidas. As denúncias de restrições deliberadas ao transporte público em municípios estratégicos, somadas à intervenção emergencial do Supremo Tribunal Federal (STF) e à aplicação desigual da prorrogação do horário de votação, criaram uma situação que poderá alimentar questionamentos sobre a legitimidade do resultado, independentemente de quem seja declarado vencedor.

O problema começou com denúncias de redução da oferta de transporte coletivo em cidades como Salvador e São Paulo, além de outros municípios brasileiros. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, a disponibilidade de transporte público não constitui uma questão secundária no processo eleitoral. Para milhões de trabalhadores, moradores das periferias urbanas e cidadãos de baixa renda, o ônibus representa a principal, quando não a única, possibilidade de chegar ao local de votação. Portanto, qualquer restrição deliberada à circulação dos veículos no dia da eleição pode representar uma interferência direta no exercício da soberania popular.

A gravidade das denúncias levou o ministro Cristiano Zanin, do STF, a determinar a prorrogação da votação até as 19 horas. Entretanto, a decisão chegou no momento em que o horário regulamentar de votação estava terminando e diversas seções eleitorais já haviam encerrado suas atividades. A posterior orientação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, estabeleceu que a prorrogação seria aplicada apenas às seções cujas urnas ainda não haviam sido fechadas. Com isso, a solução emergencial destinada a assegurar o direito de voto acabou produzindo uma situação institucionalmente problemática: eleitores submetidos às mesmas dificuldades de deslocamento poderiam encontrar condições diferentes para votar, dependendo de a seção eleitoral ter permanecido aberta ou não.

É justamente nesse ponto que emerge o problema central da legitimidade. Uma eleição democrática não depende exclusivamente da contagem correta dos votos depositados nas urnas. Sua legitimidade também exige que os cidadãos tenham condições efetivas e equivalentes de participar do processo. Se houver comprovação de que decisões administrativas restringiram deliberadamente o acesso de determinados grupos sociais às seções eleitorais, estaremos diante de algo muito mais grave do que uma falha operacional. Estaremos diante de uma possível violação do princípio da igualdade política, segundo o qual cada cidadão deve dispor de condições reais para exercer seu direito ao voto.

A situação torna-se ainda mais delicada porque a prorrogação parcial não necessariamente repara o prejuízo causado aos eleitores que não conseguiram chegar às urnas. Uma pessoa que tenha desistido de votar diante da ausência de transporte não recupera automaticamente essa oportunidade porque uma decisão judicial foi anunciada no final da tarde. Tampouco a manutenção de algumas seções abertas resolve o problema daqueles que encontraram seus locais de votação definitivamente encerrados. A extensão efetiva desse prejuízo ainda precisará ser demonstrada, mas a dificuldade de mensurá-lo já constitui um desafio para a Justiça Eleitoral.

Há também uma questão que não pode ser ignorada: a necessidade de examinar a atuação das instituições responsáveis pela organização do pleito. Será fundamental esclarecer quando o TSE tomou conhecimento das denúncias, quais providências foram adotadas, por que a controvérsia chegou ao STF tão perto do encerramento da votação e se existiam medidas preventivas capazes de evitar o impasse. Essas perguntas não pressupõem responsabilidade previamente estabelecida de qualquer autoridade, mas exigem respostas públicas, documentadas e verificáveis.

O risco político é evidente: qualquer que seja o vencedor, o candidato derrotado poderá utilizar as irregularidades denunciadas para questionar o processo eleitoral. Isso não significa que tais questionamentos tenham necessariamente fundamento jurídico para modificar o resultado. Significa, porém, que a ausência de esclarecimentos convincentes poderá alimentar uma crise de confiança nas instituições eleitorais, especialmente em um ambiente político já marcado por intensa polarização.

Também é indispensável evitar uma conclusão precipitada: a existência de problemas no transporte e de dificuldades na aplicação da decisão judicial não demonstra, por si só, que o resultado nacional tenha sido alterado. Para sustentar uma afirmação dessa natureza, será necessário investigar a extensão territorial das irregularidades, identificar os eleitores potencialmente prejudicados, verificar as responsabilidades administrativas e avaliar a relevância eleitoral dos fatos à luz da legislação. A gravidade das denúncias exige investigação rigorosa, não a substituição das provas por especulações.

O episódio revela, entretanto, uma fragilidade que merece atenção para além da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. A democracia não se realiza apenas quando os votos são contabilizados corretamente. Ela depende igualmente de condições materiais que permitam à população participar das decisões coletivas. Quando o acesso ao transporte público se transforma em objeto de disputa eleitoral, fica evidente como as desigualdades sociais podem comprometer o exercício de um direito formalmente universal.

Por isso, a resposta institucional ao que ocorreu neste domingo não poderá se limitar à proclamação do vencedor. Será necessário apresentar um balanço transparente das ocorrências, investigar as denúncias de descumprimento das obrigações relativas ao transporte eleitoral e esclarecer os critérios que determinaram a manutenção ou o encerramento da votação em diferentes localidades. Caso sejam comprovadas condutas deliberadas para impedir o comparecimento de eleitores, seus responsáveis deverão responder nos termos da lei.

O Brasil precisa saber não apenas quem recebeu mais votos, mas também se todos os cidadãos tiveram uma oportunidade efetiva de votar. Essa é a questão fundamental que emerge do segundo turno de 2026. Independentemente do resultado, a credibilidade da eleição dependerá da capacidade das instituições de demonstrar que as irregularidades foram investigadas, que eventuais responsabilidades foram apuradas e que os direitos políticos dos cidadãos foram tratados com a seriedade que a democracia exige.

Afinal, uma democracia não pode se contentar apenas em contar os votos de quem conseguiu chegar às urnas. Precisa também se preocupar com aqueles que, por razões alheias à sua vontade, podem ter sido impedidos de chegar até elas.