Banco Master: o caso que pode implodir a política brasileira

Relatos de coerção, registros comprometedores e decisões públicas sob suspeita expõem um sistema que atravessa partidos e ameaça a transparência democrática

Quanto mais surgem informações sobre o escândalo envolvendo o Banco Master, mais difícil se torna ignorar os paralelos com outros casos internacionais de cooptação e coerção de elites políticas. A comparação com Jeffrey Epstein não é casual — ainda que, no caso brasileiro, não haja até o momento acusações de crimes da mesma natureza.

O que emerge, contudo, é um padrão perturbador: o uso sistemático de estratégias de sedução, captura e posterior constrangimento como instrumentos de influência política. No centro dessa engrenagem estaria Daniel Vorcaro, associado à promoção de encontros privados, festas e ambientes cuidadosamente preparados — não apenas para entretenimento, mas para registro. Segundo relatos, essas situações teriam sido gravadas, criando um acervo potencialmente explosivo de material comprometedor.

A lógica é conhecida: primeiro, a aproximação; depois, a exposição; por fim, a possibilidade de coerção. Trata-se de um mecanismo que desloca o eixo da influência política do campo público — debate, convencimento, negociação — para o terreno opaco da chantagem e do controle privado. Não é apenas uma questão moral; é uma distorção estrutural do funcionamento democrático.

Agora, com a confirmação da existência de gravações que colocariam figuras públicas em situações embaraçosas — algumas delas autoproclamadas defensoras da moral, dos bons costumes e da família —, assiste-se a um movimento previsível: a tentativa de blindagem das informações sob o argumento do direito à privacidade.

Mas essa alegação merece escrutínio. A partir do momento em que comportamentos privados passam a ser utilizados como instrumento de pressão para influenciar decisões públicas — especialmente aquelas com impacto econômico relevante —, a fronteira entre o privado e o público se dissolve. Não se trata mais de intimidade, mas de interesse coletivo.

Se, como indicado, essas práticas foram mobilizadas para garantir facilidades ao Banco Master, com potenciais prejuízos bilionários para os trabalhadores brasileiros, o caso deixa de ser um escândalo restrito a indivíduos e se transforma em uma questão de responsabilidade pública. E, nesse contexto, o acesso à informação não é um capricho — é uma exigência democrática.

Outro aspecto relevante é o caráter transversal dos envolvidos. Ao que tudo indica, o alcance dessas práticas não respeita alinhamentos ideológicos ou partidários. A teia se estende por diferentes segmentos do espectro político, revelando uma zona de convergência pouco visível: aquela onde interesses privados se sobrepõem a compromissos públicos.

Diante disso, a divulgação integral das informações disponíveis não deve ser vista como exposição gratuita, mas como condição para que a sociedade possa exercer julgamento informado — especialmente em um contexto pré-eleitoral. Saber quem são os agentes públicos suscetíveis a esse tipo de cooptação é fundamental para qualquer escolha consciente nas urnas.

No fim, o caso Banco Master não é apenas sobre um banco, um empresário ou um conjunto de políticos. É sobre os limites — cada vez mais tênues — entre poder, intimidade e controle. E sobre o preço que se paga, coletivamente, quando esses limites são ultrapassados.

A guerra silenciosa do Brasil contra as mulheres

No Brasil, quatro mulheres são mortas por feminicídio todos os dias. Por trás das estatísticas está uma crise mais profunda, onde a violência de gênero colide com racismo, legados coloniais e desigualdade territorial, deixando mulheres negras, indígenas e rurais em maior risco

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Quando a jornalista brasileira Vanessa Ricarte foi assassinada por seu ex-noivo, o caso dominou brevemente a atenção nacional. Ricarte tinha 42 anos e, segundo investigadores policiais, já havia sofrido abusos e períodos de cativeiro antes do assassinato. Amigos depois descreveram um relacionamento que se tornou cada vez mais controlador. O assassinato, por mais devastador que tenha sido, não surgiu do nada.

Como muitos casos de feminicídio no Brasil, a violência não começou com o assassinato, ela cresceu lentamente, por meio de intimidação, controle e abusos crescentes, muito antes de se tornar fatal.

Em todo o país, esse padrão se repete com uma frequência inquietante.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram mortas em feminicídios no Brasil em 2025. Isso significa que quatro mulheres morrem todos os dias. Esse número representa um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior, e é o maior registrado desde que o feminicídio foi formalmente reconhecido como crime na lei brasileira em 2015.

Desde que a lei entrou em vigor, pelo menos 13.703 mulheres foram mortas simplesmente por serem mulheres. Nos últimos cinco anos, o número de casos aumentou cerca de 14,5%. Entre 2021 e 2024, 97,3% dos casos de feminicídio foram cometidos exclusivamente por homens.

Só os números não explicam o que está acontecendo. Em muitos casos, a violência cresce lentamente: intimidação, insultos, coerção, isolamento e ameaças.

O que começa como controle psicológico pode escalar para agressão física. Quando as autoridades tomam conhecimento da situação, o perigo geralmente já é grave.

Jesem Orellana, epidemiologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apontou uma lacuna crítica entre legislação e prevenção. Ele disse:

O Brasil possui um arcabouço legal robusto para proteger as mulheres, incluindo penalidades severas para feminicídio. No entanto, milhares de mulheres foram mortas nos últimos anos. Apesar das leis rigorosas, fizemos pouco progresso na prevenção eficaz, especialmente na saúde pública.

Fazemos pouco na atenção primária e temos dificuldade em reconhecer e denunciar diferentes formas de violência contra as mulheres. Isso leva à falta de intervenção precoce ou oportuna para prevenir o feminicídio.

Fora do Brasil, a violência no país é frequentemente associada ao tráfico de drogas ou ao crime organizado. O feminicídio conta uma história diferente. A maioria dos assassinatos acontece dentro de relacionamentos íntimos.

Dados analisados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que quase 60% das vítimas são mortas por um parceiro atual, enquanto cerca de 21% são assassinadas por ex-parceiros. Em outras palavras, a pessoa responsável geralmente é alguém em quem a vítima confiou, um parceiro, um marido ou ex-parceiro.

A localização do crime reflete essa realidade.

Em 66,3% dos casos de feminicídio, o assassinato ocorre dentro da própria casa da vítima. As armas envolvidas raramente são sofisticadas. Facas e outros objetos cortantes representam quase metade de todos os casos, enquanto armas de fogo são usadas em cerca de um quarto de água.

A pesquisa de Orellana destacou como sinais de alerta muitas vezes são visíveis muito antes do crime. Ele disse:

A maioria dos feminicídios, especialmente aqueles ligados à violência doméstica, são precedidos por problemas de relacionamento ou financeiros. Ciúmes e senso de pertença às mulheres são comuns e devem ser tratados como questões de saúde mental. A dependência financeira também desempenha um papel importante, muitas mulheres são impedidas de trabalhar, o que aumenta sua vulnerabilidade a abusos psicológicos e físicos, incluindo tentativas de feminicídio.

Ele acrescentou que a violência frequentemente se intensifica quando mulheres tentam sair:

É frequentemente nesse contexto de violência extrema que as mulheres decidem terminar o relacionamento, e o ciclo de ameaças e agressão se intensifica. Alguns obtêm medidas de proteção, mas outros ainda são mortos, mesmo sendo minoria, apesar dessas proteções.

A dimensão racial do feminicídio

As estatísticas também revelam profundas disparidades raciais.

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras, enquanto 36,8% eram brancas. A violência de gênero no país não pode ser separada de sua longa história de desigualdade racial e exclusão social.

A demógrafa Jackeline Ferreira Romio,analisada pelo veículo independente Outras Palavras, argumenta que o feminicídio deve ser examinado pela interseção de raça, gênero e classe. Ela disse:

Feminicídio é uma violência baseada no ódio.

Quando o racismo se cruza com a misoginia, a violência se intensifica, deixando mulheres que já enfrentam discriminação ou pobreza em risco muito maior de violência letal.

Observe onde os casos ocorrem e as desigualdades ficam mais claras. Mulheres que vivem em bairros urbanos periféricos, regiões rurais ou comunidades historicamente marginalizadas frequentemente enfrentam os maiores níveis de violência, tendo o menor acesso à proteção institucional.

Nesse sentido, o feminicídio não é apenas uma questão de gênero, é também um problema político e histórico moldado por legados do colonialismo e da desigualdade estrutural na sociedade brasileira.

Mulheres indígenas e violência colonial

Para as mulheres indígenas, a violência está frequentemente ligada a histórias mais longas de desapropriação colonial e disputas contemporâneas por terras.

Análises da plataforma Gênero e Número mostram que os relatos de violência física, psicológica e sexual contra mulheres indígenas mais que triplicaram entre 2014 e 2023. No mesmo período, a violência sexual, muitas vezes afetando meninas, quase quadruplicou.

Entre 2003 e 2022, as mortes violentas de mulheres indígenas aumentaram cerca de 500%.

A socióloga indígena, Pagu Rodrigues, argumenta que essa violência não pode ser explicada como parte das tradições culturais indígenas. Em vez disso, reflete séculos de violência colonial e patriarcado. Ela disse:

A violência contra as mulheres não é cultura indígena, faz parte de um processo colonial de violência, de patriarcado.

Em muitos territórios, a violência está intimamente ligada a conflitos por terras e recursos naturais. As mulheres indígenas frequentemente assumem papéis de liderança na defesa de suas comunidades e territórios, o que pode colocá-las em situações de risco elevado.

Rodrigues observa que a violência sexual às vezes é usada deliberadamente como intimidação. Ela explicou:

O estupro tem sido usado como estratégia para desmobilizar líderes indígenas.

Onde a mineração e grandes projetos de infraestrutura, a expansão do agronegócio e outras indústrias extrativistas avançam para terras indígenas, a violência de gênero pode se entrelaçar com conflitos ambientais e territoriais.

Geografia e ausência institucional

Onde uma mulher vive no Brasil pode influenciar se há proteção significativa disponível.

Municípios menores, com menos de 100.000 habitantes, registram as maiores taxas de feminicídio do país, cerca de 1,7 por 100.000 mulheres, em comparação com a média nacional de 1,4.

Embora apenas 41% das mulheres brasileiras vivam nessas cidades, elas representam cerca de metade de todos os feminicídios registrados em todo o país.

Parte da explicação está na ausência de serviços especializados. Mais de 70% desses municípios não possuem delegacias de polícia feminina, abrigos ou centros de apoio dedicados.

Orellana enfatizou que a desigualdade territorial aumenta diretamente o risco letal:

Em municípios com menor presença estatal, seja em segurança, saúde, judiciário ou serviços sociais, as chances de mulheres serem mortas são ainda maiores, porque não há apoio seguro ou oportuno.

Essas mulheres são frequentemente revitimizadas pelo Estado, que às vezes não só nega proteção, mas também as culpa, revelando outra face do machismo estrutural e do patriarcado.

Para mulheres em áreas rurais, buscar ajuda envolve viajar longas distâncias ou denunciar às autoridades que ainda são vítimas de violência doméstica como um assunto privado, e não um crime. A diferença entre a proteção legal e a realidade cotidiana pode ser grande.

As leis ficam aquém

O Brasil é frequentemente reconhecido por ter um dos marcos legais mais abrangentes da América Latina para combater a violência contra as mulheres.

No centro está a Lei Maria da Penha, promulgada em 2006, que comemora seu vigésimo aniversário este ano. A lei continua sendo o principal instrumento legal do país para combater a violência doméstica e familiar. Mas o problema não é mais criar novas leis, mas sim a capacidade de implementá-las de forma eficaz.

Orellana argumentou que a falha é sistêmica e requer ação coordenada:

O feminicídio não é um problema que possa ser enfrentado de forma eficaz por um único setor. Exige ação coordenada entre assistência social, saúde pública, judiciário e segurança pública.

Ainda não entendemos que a prevenção exige respostas integradas e intersetoriais e uma mudança cultural na forma como reconhecemos a violência contra as mulheres.

Evidências analisadas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 13,1% das mulheres mortas em casos de feminicídio já haviam obtido ordens judiciais anteriormente. O sistema de justiça já havia reconhecido o risco, mas a proteção não conseguiu evitar o assassinato.

Paula Bevilacqua, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), disse que a violência em si está em constante mudança.

Falando no Seminário Amazônico sobre Vigilância de Inteligência sobre Feminicídio, ela observou:

Sempre haverá o fato de que os dados estão desatualizados. Sempre haverá uma nova violência recriada, inventada ou reinventada.

Alguns pesquisadores acreditam que a prevenção deve começar mais cedo. A mídia pode desempenhar um papel seguindo as diretrizes de reportagem promovidas pela ONU Mulheres, evitando narrativas que justificam implicitamente a violência ou sensacionalizam as vítimas.

Os profissionais de saúde também poderiam estar melhor preparados para identificar abuso psicológico, que muitas vezes aparece muito antes da violência física. A detecção precoce pode tornar a intervenção possível.

Um sistema que normaliza a violência

Alguns estudiosos argumentam que o feminicídio persiste não apenas por causa dos perpetradores individuais, mas porque formas anteriores de violência são frequentemente toleradas.

No mesmo seminário, Danúzia Rocha, professora da Universidade Federal de Acre, descreveu o feminicídio como a fase final de um ciclo de violência que repetidamente não é controlado. Ela disse:

O feminicídio acontece porque os homens têm permissão para matar. Essa morte é legitimada.

A tolerância ao assédio, intimidação ou agressão física pode permitir que a violência escale com o tempo.

Bevilacqua citou um caso polêmico em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, onde um desembargador liberou um homem acusado de estuprar repetidamente uma menina de 12 anos, argumentando que os atos ocorreram “por amor” e com consentimento.

Para Bevilacqua, casos como este ilustram como o sexismo e o preconceito ainda podem moldar decisões dentro do sistema de justiça. Quando as instituições deixam de responder de forma consistente, a impunidade torna-se mais provável.

A dimensão da crise

Até mesmo medir o feminicídio continua sendo um desafio.

Segundo Fiocruz, o Brasil ainda carece de um sistema nacional totalmente integrado capaz de registrar com precisão essas mortes. As informações frequentemente são espalhadas por registros policiais, sistemas de saúde e bancos de dados judiciais, o que pode resultar em subnotificação e inconsistências na classificação.

A violência em si está em constante evolução. O assédio digital e as ameaças online passam a fazer cada vez mais parte de relacionamentos abusivos, criando desafios adicionais para instituições que tentam monitorar riscos.

Em resposta, Fiocruz lançou uma rede nacional de observatórios de monitoramento e prevenção conhecida como Vigifeminicídio. Coordenada pela Fiocruz Brasília, a iniciativa visa reunir pesquisadores, autoridades públicas e organizações da sociedade civil para estratégias de monitoramento e prevenção.

Orellana, coordenador do Vigifeminicídio, explicou como novas ferramentas de monitoramento podem melhorar a prevenção:

Desenvolvemos uma estratégia rápida e de baixo custo para rastrear e caracterizar assassinatos de mulheres, permitindo coletar dados abrangentes em poucos meses, algo que as estatísticas oficiais não conseguem fazer devido à subnotificação. Essa é a principal vantagem do Vigifeminicídio: ele permite o monitoramento quase em tempo real dos padrões de violência letais.

No entanto, ele alertou que essas ferramentas ainda são subutilizadas politicamente:

Com esses dados, poderíamos agir de forma mais eficaz na prevenção. Mas, infelizmente, não nos é permitido avançar nessa direção, apesar da conscientização dentro dos ministérios federais. A violência contra as mulheres também é frequentemente ignorada nas chamadas para financiamento de pesquisas, o que reflete os poderosos efeitos do machismo estrutural no Brasil.

Além das estatísticas

No fim das contas, o feminicídio no Brasil não pode ser compreendido apenas por estatísticas. Os assassinatos refletem profundas desigualdades estruturais, moldadas pela história colonial, hierarquia racial, marginalização econômica e normas patriarcais enraizadas.

Mulheres negras, indígenas e aquelas que vivem em áreas rurais ou marginalizadas continuam sendo as mais expostas e menos protegidas. A vulnerabilidade deles não é acidental; É produzido por sistemas que distribuem segurança e justiça de forma desigual.

Enfrentar o feminicídio exige mais do que punição criminal, exige mudanças estruturais de longo prazo, desde a educação até a reforma institucional e políticas públicas mais fortes, reconhecendo a violência muito antes de se tornar fatal.

Até lá, a guerra silenciosa do país contra as mulheres continua, muitas vezes invisível, desenrolando-se atrás das portas fechadas, em lares onde os sinais de alerta antes eram pequenos o suficiente para serem ignorados.


Fonte: YourVoiz

Denúncias de poluição hídrica no Rio Tibagi apontam para crime ambiental em Telêmaco Borba (PR)

Pode ser uma imagem de texto que diz "BT間LEMACO FOLHA DETELEMACO Denúncias Denúnciasapontam apontam possível poluição no Rio Tibagi"

Por TB Express

Nas últimas semanas, vídeos que circulam nas redes sociais chamaram a atenção ao mostrarem um material estranho sobrenadando no rio Tibagi com aparência semelhante à polpa celulósica nas proximidades da Klabin (do Paraná, que fica localizada no município de Telêmaco Borba).

Esse material, conhecido como polpa ou cavaco cozido, é composto por fibras de madeira. O despejo desse tipo de resíduo diretamente em corpos d’água configura um grave crime ambiental, pois provoca sérios desequilíbrios ecológicos, com impactos imediatos e também de longo prazo para a vida aquática e para a saúde humana.

Um dos principais efeitos é a morte de organismos aquáticos por asfixia. Durante a decomposição dessa matéria, ocorre um consumo intenso do oxigênio dissolvido na água, o que leva ao sufocamento de peixes e outros seres vivos.

Além disso, essa polpa pode conter substâncias tóxicas, como dióxido de enxofre, metais pesados, dioxinas e furanos. Esses contaminantes tendem a se acumular no leito do rio, causando poluição persistente.

A celulose sólida também pode se depositar no fundo do rio, soterrando habitats naturais, destruindo áreas de reprodução de peixes e reduzindo a profundidade do leito, o que agrava ainda mais os danos ambientais.

Outra consequência visível é a alteração física da água, que passa a apresentar turbidez, mau cheiro e formação de espuma. Essas condições comprometem o abastecimento de água e prejudicam atividades tradicionais das comunidades ribeirinhas.

Os riscos à saúde humana também são significativos. Populações que utilizam a água do rio podem sofrer com alergias de pele, dores de cabeça, enxaquecas e até contaminações mais graves por meio da ingestão de substâncias tóxicas.

Vale destacar que a polpa celulósica não se dissolve facilmente na água. Ela forma uma massa de resíduos sólidos que demora a se decompor, prolongando os efeitos da poluição. Além disso, as toxinas podem se acumular ao longo da cadeia alimentar, contaminando peixes que posteriormente são consumidos pela população.

Portanto, os munícipes querem saber: Quem vai arcar com o ônus de ações que causam prejuízos ao meio ambiente, à saúde pública e à qualidade de vida?


Fonte: TB Express

Experimentos indicam que agrotóxicos e fertilizantes desequilibram ecossistemas aquáticos

Contaminantes provocaram desaparecimento de predadores e interferiram em papeis ecológicos de organismos aquáticos

Duas pesquisadoras vestidas de azul abastecendo tanques de água cobertos de águas. Os tanques estão instalados em uma área rural, gramado e com árvores ao fundo

Pesquisadores enchendo os tanques experimentais (mesocosmos) instalados a céu aberto próximo a áreas agrícolas para análise da água e monitoramento dos macroinvertebrados como larvas, insetos, moluscos e minhocas – Foto: Allan Pretti Ogura

Por Ivanir Ferreira,  Arte: Leonor T. Shiroma, para “Jornal da USP” 

Em meio à expansão do setor sucroenergético brasileiro que demanda uso intensivo de defensivos agrícolas, pesquisa da USP alerta para os impactos desses contaminantes na base da cadeia alimentar aquática, com efeitos indiretos sobre peixes e outros predadores. O estudo mostra que os macroinvertebrados bentônicos — como larvas de insetos, moluscos e minhocas — estão entre os organismos mais sensíveis às substâncias. A aplicação isolada ou combinada do inseticida fipronil e do herbicida 2,4-D (herbicida), além da vinhaça — resíduo líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar —, levou ao desaparecimento de predadores e a desequilíbrios ecossistêmicos. A contaminação comprometeu funções essenciais desempenhadas por esses organismos, como a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e o controle populacional de espécies.

A coleta e a análise das amostras de água, assim como o monitoramento dos macroinvertebrados, foram realizados em tanques experimentais (mesocosmos) instalados a céu aberto, próximos a áreas agrícolas no município de Itirapina (SP), onde a cana-de-açúcar é a principal atividade econômica. As observações ocorreram 7, 14, 28, 75 e 150 dias após a exposição aos contaminantes.

Os resultados foram publicados no artigo científico Impacts of pesticides and vinasse on the composition and functional diversity of aquatic macroinvertebrates exposed in a mesocosm system, assinado, entre outros autores, pela professora Raquel Aparecida Moreira, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, e pelo pesquisador Thandy Junio da Silva Pinto, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Montagem de imagens de tanque de água turva e poluida, contendo insetos, caramujos e invertebrados boiando na superfícei.Macroinvertebrados – Larvas, insetos, moluscos e minhocas afetados pelos poluentes – Foto: Allan Pretti Ogura

Vinhaça

Imagem de uma mulher branca de cabelos pretos e longos. Sorri e veste uma blusa branca. Fundo, campo de flores.
Raquel Aparecida Moreira, FZEA/ USP – Foto: Arquivo pessoal

A professora Raquel destaca que os resultados confirmaram a toxicidade da vinhaça e seu elevado potencial de impacto ambiental, especialmente quando aplicada em conjunto com agrotóxicos, prática comum na agricultura brasileira. Segundo a pesquisadora, a vinhaça é um resíduo líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar e é utilizada como fertilizante, por [td1.1]fertirrigação. O produto apresenta altas concentrações de nutrientes, como potássio, magnésio, fósforo e nitrogênio.

“É justamente a elevada carga de nutrientes e de matéria orgânica que compromete o ecossistema aquático”, relata. A vinhaça analisada apresentou Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) de 46.500 miligramas por litro e Demanda Química de Oxigênio (DQO) de 107.000 miligramas por litro — indicadores de grande quantidade de matéria orgânica e alto consumo de oxigênio na água.

“A redução do oxigênio pode ter consequências graves. Se os níveis caem muito, peixes e outros organismos aquáticos podem morrer por asfixia. Por isso, a DBO é um dos principais parâmetros para medir a qualidade da água e o grau de poluição de rios e lagoas”, explica Raquel.

Imagem de vários tanques de águas instalados em uma área rural para monitoramento da qualidade da água e dos macroinvertebrados que vivem no ambiente aquáticoVisão geral dos mesocosmos instalados próximos a áreas agrícolas – Foto: Allan Pretti Ogura

Contaminação por fertilizantes e agrotóxicos potencializa efeitos

Thandy da Silva Pinto- afirma que, nas amostras em que a vinhaça foi aplicada junto aos agrotóxicos, houve prolongamento da permanência do fipronil na água e aceleração da degradação do 2,4-D em subprodutos (metabólitos) que, segundo o pesquisador podem ser tão ou mais tóxicos que a molécula original.

De acordo com o pesquisador, essas alterações químicas tiveram impacto direto sobre a fauna aquática. “Na prática, o ecossistema deixa de funcionar de forma equilibrada, mesmo que nem todas as espécies desapareçam”, diz. Nos tanques contaminados com 2,4-D, foi registrado aumento de organismos conhecidos como coletores-catadores — que se alimentam de partículas orgânicas — e redução acentuada de raspadores, grupo essencial no controle de algas, sobretudo na amostragem realizada aos 75 dias.

Homem branco, cabelos e olhos castanhos, usa jaleco branco e camiseta azul.
Thandy Junio da Silva Pinto, Unicamp – Foto: Arquivo pessoal

O fipronil foi o contaminante mais tóxico. Nas amostras contaminadas com inseticida, os pesquisadores observaram ausência total de predadores após a exposição. O mesmo ocorreu quando os dois agrotóxicos foram aplicados em conjunto.

Já nos ambientes com aplicação exclusiva de vinhaça, houve predominância de predadores e redução de coletores-catadores. Quando a vinhaça e os agrotóxicoss foram utilizados simultaneamente, os coletores-catadores permaneceram até o sétimo dia, mas posteriormente foram registradas mudanças significativas na composição dos grupos funcionais, evidenciando o efeito combinado dos poluentes.

Os pesquisadores destacam que os resultados reforçam a necessidade de monitoramento contínuo e de critérios mais rigorosos para o uso combinado de agrotóxicos e fertilizantes em áreas próximas a corpos d’água. Segundo eles, a adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis é fundamental para reduzir os riscos de contaminação e evitar impactos duradouros sobre a biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

Mais informações: Raquel Aparecida Moreira, raquelmoreira@usp.br e Thandy Junio da Silva Pinto, thandyjuniosilva@gmail.com


Fonte: Jornal da USP

Urgente! Professores da Uenf decidem paralisar atividades em defesa de seus direitos

A Uenf vai parar!

Sem diálogo com o governador Cláudio Castro, sem recomposição salarial e sem PCV, nosso caminho agora é pela luta!

Nesta quarta-feira (18/03), vamos parar a Uenf e acompanhar o grande Ato Pela Recomposição Salarial que acontecerá às 10h no Rio de Janeiro, com concentração no Largo do Machado.

Não dá mais para engolir! Por que não sobra nada para os docentes, enquanto Cláudio Castro torra R$ 1 bilhão com o Banco Master? Por que o silêncio diante dos servidores estaduais? 

A paralisação desta quarta-feira é apenas o primeiro movimento de 2026 após o estado de greve dos docentes da UENF, aprovado em novembro de 2025. Vamos precisar de todo mundo para seguir com esta luta pelos nossos direitos!

Chega de perder, é hora de ganhar!

Gestão ADUENF Autônoma e de Luta

Plataforma internacional monitora a dengue para aprimorar a vigilância

observatório da dengue

A incidência de dengue “aumentou enormemente” nas últimas décadas, alerta a Organização Mundial da Saúde (OMS). Crédito da imagem: Walterson Rosa/Ministério da Saúde do Brasil , licenciada sob <a href=”https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/deed.es&#8221; target=”_blank”Creative Commons CC BY-NC-SA 2.0 Deed> 

Criado pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM), o Observatório Global da Dengue baseia-se em informações geradas pela Organização Mundial da Saúde e pelo site Open Dengue , e destina-se a pesquisadores, governos e ao público em geral.

Seu objetivo é monitorar os países que registraram pelo menos cinco casos por mês nas últimas cinco temporadas. Portanto, por enquanto, exclui países como França e Itália, onde a doença está emergindo.

O observatório “poderá permitir que aqueles que gerenciam programas, secretarias e ministérios tomem decisões melhores” para combater a dengue.

Tomás Orduna, consultor do Hospital Muñiz, especializado em doenças infecciosas, em Buenos Aires (Argentina)

Até agora, devido às diferenças na capacidade de notificação dos países, um dos principais desafios para compreender a verdadeira extensão da dengue é a demora nas notificações. “Quando surge um caso, ele não aparece imediatamente nos bancos de dados; precisa ser identificado e notificado às autoridades locais, agregado em nível nacional e, em seguida, compartilhado com organizações internacionais”, explicou Katie Milligan Susong, do Departamento de Epidemiologia e Dinâmica de Doenças Infecciosas da LSHTM, à SciDev.Net .

“Essa cadeia pode levar de dias a meses, o que significa que as informações mais recentes quase sempre subestimam o número real de casos”, explica ele.

Além disso, “cada país relata casos de dengue com frequências diferentes”, observa ele. “Harmonizar isso em um panorama coerente é um desafio constante. Na América Latina, os dados existem, mas chegam tarde. E em grande parte da África, a vigilância rotineira da doença ainda está em desenvolvimento.”

Para suprir essa lacuna, pesquisadores da LSHTM desenvolveram algoritmos que indicam, com base nesses atrasos e omissões, a proporção esperada de casos finais. Por ora, essa correção se aplica apenas à América Latina, a região mais afetada pela doença.

Como a dengue é uma doença altamente sazonal, o observatório também redefiniu o conceito de “estação” — priorizando o período de início dos casos em relação ao ano civil — e construiu um perfil temporal médio para cada país.

Com essas contribuições, seus promotores esperam alcançar estimativas mais precisas da situação da doença, o que permitirá comparações confiáveis ​​nos níveis nacional e regional.

A plataforma “tem o potencial de fornecer informações acessíveis e em tempo real que ajudarão os países africanos a fortalecer a vigilância, antecipar surtos e formular políticas de controle mais eficazes”, disse Doris Kemunto Nyamwaya, especialista da LSHTM no continente que não está envolvida em seu desenvolvimento, ao SciDev.Net .

O observatório “poderá permitir que aqueles que gerenciam programas, secretarias e ministérios tomem decisões melhores” para combater a dengue, especialmente “diante de números que mostram uma situação preocupante ou crescente ”, disse Tomás Orduna, consultor do Hospital Muñiz, especializado em doenças infecciosas, em Buenos Aires (Argentina), à SciDev.Net .

“O conhecimento atualizado sobre o que está acontecendo em um determinado local também é valioso para quem viaja de um país para outro”, acrescenta Orduna, ex-presidente da Sociedade Latino-Americana de Medicina de Viagem.

O especialista sugere que o observatório seria mais eficaz se incluísse uma análise regional para cada país, pois as situações epidemiológicas podem variar significativamente dentro de um mesmo país. As comparações regionais também permitiriam a coordenação de novas medidas preventivas em países que compartilham uma fronteira.

Doença à espreita

O observatório registrou 314.783 casos acumulados até fevereiro, dos quais 235.075 estão na América do Sul. Embora esses números estejam abaixo da média dos últimos cinco anos, ainda existem fatores desafiadores no combate a uma doença endêmica em mais de cem países que, segundo a OMS , já coloca em risco quase metade da população mundial.

A incidência da doença “aumentou enormemente” nas últimas décadas, alerta a agência , com os números subindo de 505.430 casos em 2000 para 14,6 milhões em 2024, quando foi registrado o maior número de infecções em nível global.

Ele acrescenta que esse crescimento se deve a mudanças na distribuição do mosquito vetor, às mudanças climáticas, às deficiências dos sistemas de saúde e à instabilidade dos países em crise.

De fato, um estudo publicado recentemente no Virology Journal relatou que, em 2024, a cidade boliviana de Cochabamba, localizada a 2.550 metros acima do nível do mar, vivenciou seu maior surto de dengue.

Este é um evento excepcional de circulação do vírus em grandes altitudes, visto que os casos positivos naquela cidade — anteriormente restritos a áreas tropicais de baixa altitude — passaram de 130 antes de 2018 para 1.400 em 2019 e mais de 8.000 em 2024.

Os autores estimam que esse aumento foi facilitado pela expansão da distribuição geográfica do Aedes aegypti , impulsionada pelas mudanças climáticas. Em Cochabamba, a primavera de 2023, assim como o outono e o verão de 2024, registraram as temperaturas mais altas já registradas.

Apesar dessas situações extremas, a OMS registrou 4,4 milhões de casos em 2025 , uma redução de 66% em comparação com o recorde do ano anterior. Essa queda se explica pelo fato de que mais pessoas agora possuem imunidade de curto prazo, reduzindo assim o número de potenciais infecções.

As exceções são Cuba, Guiana e Suriname, que registram um alto número de infecções. Milligan atribui o aumento de casos em Cuba a uma mudança no sorotipo dominante e à falta de combustível, o que restringiu os programas de fumigação, a coleta de lixo e a distribuição de água. A escassez de água leva ao acúmulo de recipientes abertos, um habitat ideal para os mosquitos Aedes .

As duas nações sul-americanas, por sua vez, formam um corredor costeiro com ecologia tropical compartilhada, populações altamente conectadas e um número historicamente baixo de casos, o que limita a imunidade de seus habitantes.

Essas exceções reforçam a necessidade de um monitoramento atualizado, insiste o pesquisador, porque “a média regional pode mascarar aumentos locais perigosos”.


Fonte: SciDev

Agrotóxicos disparam no Brasil e crescem 2,6 vezes mais que a área plantada

Um levantamento realizado pela pesquisadora Sonia Hess, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ajuda a dimensionar uma tendência preocupante na agricultura brasileira. O gráfico abaixo mostra que, entre 2019 e 2024, o consumo de agrotóxicos no Brasil cresceu muito mais rapidamente do que a área cultivada.

Enquanto a área plantada aumentou 17,98%, a quantidade de agrotóxicos comercializados no país saltou 46,25% no mesmo período. Em outras palavras, o uso desses produtos cresceu 2,6 vezes mais do que a expansão da área agrícola.

Esse descompasso não é um detalhe estatístico. Uma parte significativa desse aumento está associada ao uso de agrotóxicos que já foram banidos em diversos países, devido aos seus efeitos nocivos sobre o meio ambiente e a saúde humana. No Brasil, muitos desses produtos chegam ao mercado por meio da importação de agrotóxicos genéricos, produzidos majoritariamente na China.

O paradoxo é evidente. Cerca de 80% dos agrotóxicos utilizados no Brasil são aplicados em culturas voltadas à exportação, e a China figura justamente como o principal destino de boa parte dessas commodities agrícolas. Assim, produtos químicos proibidos em várias partes do mundo acabam sendo amplamente utilizados aqui para produzir alimentos e matérias-primas destinados ao mercado internacional.

O resultado é uma grave situação de injustiça ambiental: os impactos ambientais e sanitários ficam no Brasil, enquanto os benefícios econômicos da produção agrícola se concentram nas cadeias globais de comércio.

Diante desse cenário, torna-se urgente tirar do papel a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos e ampliar os investimentos em modelos de produção capazes de reduzir a dependência desses insumos. Promover a produção de alimentos livres de agrotóxicos não é apenas uma questão ambiental — é também uma medida essencial para proteger a saúde da população brasileira e os ecossistemas do país.

STJ retomará nesta terça-feira (17) julgamento sobre a responsabilidade penal do ex-presidente da Vale pelo rompimento da barragem em Brumadinho

Julgamento estava suspenso desde 16 de dezembro, quando o Ministro Saldanha Palheiro, da 6.a. Turma, pediu vista dos autos do recurso especial do MPF que busca reincluir Fabio Schvartsman no banco dos réus. Dois Ministros já haviam votado pela procedência do recurso. Familiares das vítimas acompanharão a sessão

O julgamento do recurso especial do Ministério Público Federal (MPF), pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), para reincluir Fábio Schvartsman na ação por homicídio doloso duplamente qualificado por 270 mortes, será retomado nesta terça (17/3). O anúncio da nova data foi divulgado ao final da tarde da última sexta (13/3), mas mesmo assim representantes da AVABRUM e seus advogados vão à Brasília para acompanhar presencialmente a sessão desta terça, 14h, com transmissão ao vivo pelo youtube do STJ.

A expectativa é que o ex-presidente volte ao processo. “O posicionamento dos dois Ministros que já votaram mostra que temos razão e que há argumentos sólidos para que Fábio Schvartsman volte a ser réu e responda pelos seus atos, permitindo que a justiça siga seu curso” afirma Maria Regina da Silva, vice-presidente da AVABRUM.

Em setembro de 2025, o relator Sebastião Reis votou pela procedência do recurso. Ao defender seu posicionamento, declarou que a decisão que retirou Fabio Schvartsman do processo “violou o artigo 413 do CPP por ter adentrado no exame aprofundado e pormenorizado de fatos e provas indiciárias usurpando a competência do juízo natural da causa, na hipótese a denúncia não é genérica descreve de forma ampla os fatos que culminaram com as mortes de 270 pessoas na região de Brumadinho e afetou o meio ambiente.”

Na defesa do recurso, a representante da Procuradoria-Geral da República, lembrou que a farta documentação, com provas robustas, não imputa a responsabilidade ao Fábio Schvartsman pelo simples fato de ocupar o cargo de presidente da Vale. Segundo a Sub Procuradora Geral, Dra. Ana Borges, a responsabilidade imputada é pelo risco assumido de morte em condições devastadoras, por 270 vezes. O MPF alega que foi uma tragédia anunciada. O presidente da empresa tinha o dever de agir e evitar as mortes. Algo previsível, calculado, conhecido e assumido: o risco de uma abrupta ruptura da estrutura.

Depois do primeiro pedido de vista, o julgamento foi retomado em dezembro de 2025, com a apresentação do voto-vista do Ministro Rogerio Schietti Cruz, o qual acompanhou o posicionamento do relator, levando o placar para 2 a 0 pela procedência do recurso do MPF.

Segundo os advogados Danilo Chammas e Pablo Martins, da equipe de Litígio em Direitos Humanos do Instituto Cordilheira, representantes da AVABRUM nos processos criminais, “ambos os ministros apresentaram votos muito consistentes, o que nos faz manter a esperança de que os outros três ministros restantes seguirão o mesmo posicionamento”.

“Estamos há 7 anos e dois meses sem nossos amores e o retorno do julgamento nos traz esperança de que a justiça será realizada. É como se 272 pessoas, enterradas vivas, não fossem suficientes para responsabilizar quem tinha poder de evitar as mortes”, afirma Nayara Porto, presidente da AVABRUM.

Entenda o vai e vem do processo

Em fevereiro de 2020, Fábio Schvartsman se tornou réu sob a acusação de crimes de homicídio doloso duplamente qualificado, por 270 vezes, e diversos crimes ambientais em decorrência do rompimento da barragem em Brumadinho. Em março de 2024, a 2ª Turma do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6) decidiu pelo trancamento das ações penais em relação ao ex-CEO da Vale, ao acatar um habeas corpus apresentado por sua defesa. Diante dessa decisão, o MPF interpôs um recurso especial que foi remetido ao STJ, para que ele volte a responder pelo crime de homicídio duplamente qualificado

Ánálise identificou “pontos críticos” de glifosato e câncer em Iowa e outros estados do meio-oeste dos EUA

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Por Carey Gillam para “The New Lede” 

Uma nova análise relaciona o uso elevado do herbicida glifosato a taxas elevadas de linfoma não Hodgkin (LNH), particularmente no Centro-Oeste dos Estados Unidos, reforçando anos de pesquisa que associam o câncer ao herbicida popularizado pela Monsanto.

A análise feita pela Food & Water Watch (FWW), uma organização sem fins lucrativos de defesa da saúde pública, examinou os condados que aplicam as maiores quantidades de herbicidas à base de glifosato no país, concentrando-se naqueles que estão entre os 20% que mais utilizam glifosato em culturas agrícolas.

Em seguida, o grupo cruzou esses dados com as taxas de incidência de linfoma não Hodgkin (LNH). Entre as descobertas, o grupo afirmou que 60% dos condados com alto uso de glifosato apresentavam taxas de LNH acima da média nacional.

A maior sobreposição entre a aplicação de glifosato e o linfoma não Hodgkin foi observada no Centro-Oeste, uma importante região agrícola dos EUA.

Um mapa dos pontos críticos mostra aglomerados de taxas de linfoma não Hodgkin (LNH) particularmente altas em muitas partes de Iowa, o principal estado produtor de milho do país e um dos cinco principais estados produtores de soja. Ambas as culturas foram geneticamente modificadas para tolerar a pulverização com glifosato.

Iowa tem a segunda maior taxa de câncer do país e é  um dos três únicos estados onde a incidência de câncer está aumentando , de acordo com os Institutos Nacionais de Saúde. A análise da FWW constatou que 82% das áreas com alta incidência de pulverização de glifosato apresentavam taxas elevadas de incidência de linfoma não Hodgkin.

A FWW afirmou que baseou sua análise em dados do Programa de Uso de Produtos Químicos Agrícolas do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) e no banco de dados de Perfis Estaduais de Câncer do Instituto Nacional do Câncer. O mapa exibe apenas os condados que estão entre os 20% com maior aplicação total de glifosato por quilômetro quadrado e que também possuem dados em nível de condado sobre a incidência de linfoma não Hodgkin (LNH), segundo a FWW.

“É impressionante que muitos dos condados que mais utilizam glifosato sejam também ‘pontos críticos’ para o linfoma não Hodgkin — um câncer associado à exposição ao glifosato”, disse Amanda Starbuck, diretora de pesquisa da FWW.

Sarah Green, diretora executiva do Conselho Ambiental de Iowa, que tem uma iniciativa em andamento para explorar a relação entre fatores de risco ambiental e taxas de câncer em Iowa, disse que a nova análise não foi surpreendente.

“Sabemos que as taxas de câncer em Iowa atingiram níveis alarmantes, e pesquisas crescentes mostram que os habitantes de Iowa enfrentam riscos desproporcionais devido à exposição a produtos químicos agrícolas, incluindo glifosato, atrazina, acetoclor e nitratos provenientes de fertilizantes e da aplicação de esterco”, disse ela. “O que é especialmente notável é que os habitantes de Iowa não estão expostos a apenas um fator de risco, mas frequentemente a vários simultaneamente.”

Green alertou que correlação não implica causalidade e afirmou que é necessário realizar pesquisas mais abrangentes sobre os impactos na saúde das exposições ambientais.

O glifosato foi introduzido pela Monsanto na década de 1970 e, por muito tempo, tem sido um herbicida amplamente utilizado na agricultura, bem como em uma variedade de usos comerciais e residenciais. Popularmente conhecido como Roundup, o uso desse produto químico disparou depois que a Monsanto introduziu culturas geneticamente modificadas para tolerar o glifosato, facilitando aos agricultores o controle de ervas daninhas em suas plantações sem prejudicar as culturas geneticamente modificadas.

Com o aumento do uso, cresceu também o escrutínio científico dos potenciais riscos ambientais e para a saúde humana associados ao produto químico.

Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, parte da Organização Mundial da Saúde, classificou o agrotóxico como provavelmente cancerígeno para humanos, observando ligações com o linfoma não Hodgkin.

Em 2019, pesquisadores publicaram um estudo que constatou que pessoas com alta exposição a herbicidas à base de glifosato apresentavam um risco 41% maior de desenvolver linfoma não Hodgkin, classificando as evidências como “uma ligação convincente” entre o produto químico e o câncer.

Diversos cientistas se reunirão ainda este mês em um simpósio para analisar as pesquisas sobre o glifosato em relação aos seus potenciais impactos na saúde.

A professora Lianne Sheppard , da Universidade de Washington , que está organizando o simpósio e é uma das autoras do estudo de 2019, afirmou que as evidências sobre os potenciais riscos do glifosato para a saúde continuam a aumentar.

“Desde a publicação do nosso estudo, acumularam-se evidências de que os herbicidas à base de glifosato causam danos ao DNA e afetam os mecanismos de reparo do DNA, o que pode resultar em câncer, e que os cânceres do sangue, como o linfoma não Hodgkin, podem ser os mais afetados”, disse ela.

Dezenas de milhares de pessoas nos Estados Unidos processaram a Monsanto e a empresa alemã Bayer, que comprou a Monsanto em 2018, alegando que a exposição aos herbicidas à base de glifosato da empresa causou o desenvolvimento de linfoma não Hodgkin (LNH).

A Monsanto, e posteriormente a Bayer, afirmam que seus produtos não causam câncer. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) sustenta que o glifosato “ provavelmente não é cancerígeno para humanos“.


Fonte: The New Lede

Redução de espécies marinhas coloca em risco saúde de comunidades pesqueiras do litoral nordestino

Foto: Luiz Rocha / Integramar

A segurança nutricional de comunidades pesqueiras do litoral nordestino pode correr risco diante da redução de espécies marinhas ameaçadas de extinção pelas mudanças climáticas, ambientais e pelo crescimento da pesca comercial. Isso é o que alerta artigo de pesquisadores brasileiros da Rede Integramar, das universidades federais do Rio Grande do Norte (UFRN), de Santa Maria (UFSM) e do Pará (UFPA), em parceria com universidades internacionais, e publicado na segunda (16) na revista People and Nature.

A pesquisa mostra que os pescados são a principal fonte de proteína animal das famílias pesqueiras nordestinas, representando de 30% a 40% da ingestão mensal, seguida de ovos (15-20%) e frango (8-15%). Além disso, correspondem a mais de 70% da oferta dos nutrientes avaliados, em especial cálcio, selênio e ômega-3. Diante da iminente redução do consumo de peixes (ricos em cálcio, ferro, selênio e ácidos graxos Ômega 3), a saúde dos moradores locais pode ser afetada, aumentando o risco de desnutrição, anemia, doenças cardiovasculares e problemas cognitivos.

Para chegar a estes dados, em 2024, a equipe entrevistou 111 famílias de pescadores, de seis comunidades dos estados do Rio Grande do Norte (Touros, Rio do Fogo e Baía Formosa) e Pernambuco (Ipojuca, Tamandaré e São José da Coroa Grande) – todas com amplo potencial de pesca comercial e artesanal. O estudo também listou 122 espécies mais capturadas e consumidas e simulou a potencial extinção delas em cenários climáticos futuros com base em características como tamanho, vulnerabilidade e nível na cadeia alimentar. A partir dessas informações, os pesquisadores estimaram o impacto na saúde nutricional das famílias.

Por exemplo, a possível extinção de 25% das espécies de peixes poderia reduzir em mais de 70% a oferta dos nutrientes avaliados. Quando se trata de espécies mais nutritivas perdidas, a redução de nutrientes poderia ultrapassar 90%. “Se o peixe desaparecer, as famílias não necessariamente vão passar fome, pois restam ainda as outras opções de alimentos, mas podem ficar mal nutridas. Ou seja, não se trata apenas de comida na mesa, mas da qualidade dessa comida”, observa o pesquisador Fabrício Albuquerque, um dos autores do artigo.

Albuquerque explica que o estudo mostra que conservar a biodiversidade tem impacto direto na saúde das comunidades tradicionais e que a partir deste levantamento é possível orientar políticas públicas de proteção também de espécies com alto valor nutricional (ou seja, para além do valor econômico), como peixes papagaio e sardinhas, e de áreas de interesse ambiental, como recifes e manguezais. “A perda de biodiversidade atinge de forma desigual quem mais depende dela. Assim, proteger os peixes do Nordeste brasileiro é também proteger as pessoas que vivem do mar e sua cultura”, conclui o pesquisador.


Fonte: Agência Bori