ADUENF solicita audiência ao governador em exercício para discutir crise salarial da UENF

Documento protocolado nesta sexta-feira apresenta reivindicações dos docentes e cobra abertura de negociação com o governo do estado

A Associação de Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (ADUENF) protocolou, na manhã desta sexta-feira (22), um ofício dirigido ao governador em exercício do Estado do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, solicitando a realização de uma audiência para discutir a grave situação enfrentada pelos docentes da UENF e apresentar uma pauta emergencial de reivindicações.

No documento, a ADUENF relembra a importância histórica e estratégica da UENF para o desenvolvimento científico e tecnológico do estado do Rio de Janeiro. Criada a partir da visão inovadora de Darcy Ribeiro, a universidade tornou-se referência nacional em ensino, pesquisa e extensão, sendo a primeira universidade brasileira estruturada integralmente com professores doutores em regime de dedicação exclusiva. Atualmente, a instituição figura entre as universidades estaduais mais produtivas do país, segundo indicadores da CAPES.

Apesar desse histórico de excelência, o ofício destaca que os docentes enfrentam um longo processo de deterioração salarial e institucional. Segundo estudo elaborado pelo DIEESE e anexado ao documento, as perdas inflacionárias acumuladas entre julho de 2014 e maio de 2026 chegam a 37,61%, sendo necessário um reajuste de 60,29% para recompor o poder de compra dos salários.

A ADUENF também chama atenção para o fato de que o atual Plano de Cargos e Vencimentos da universidade encontra-se defasado, sem revisão estrutural desde 2014, além de não prever mecanismos adequados de progressão funcional, como a carreira de professor titular. Segundo o sindicato, esse cenário tem dificultado a atração e permanência de novos docentes altamente qualificados, colocando em risco a capacidade futura da universidade de manter seus níveis de excelência acadêmica.

Outro ponto ressaltado no documento é que os docentes da UENF permanecem em estado de greve desde novembro de 2025. Ainda assim, a categoria afirma ter mantido disposição permanente para o diálogo institucional, sem que houvesse resposta efetiva da gestão do ex-governador Cláudio Castro.

Entre os principais pontos da pauta apresentada ao governador em exercício estão:

  • Implantação do novo Plano de Cargos e Vencimentos da UENF;
  • Reajuste do auxílio-refeição dos servidores;
  • Revogação da lei que extinguiu os triênios dos servidores estaduais;
  • Pagamento integral da recomposição salarial prevista na Lei Estadual nº 9.436/2021, incluindo o percentual pendente de 13,06%.

Agora, os professores da UENF aguardam uma resposta do desembargador Ricardo Couto quanto ao pedido de audiência e à possibilidade de abertura de um canal efetivo de negociação com o governo estadual.

A fábrica de diplomas EAD e a erosão da formação docente no Brasil

O avanço descontrolado do ensino à distância nas licenciaturas ameaça aprofundar a crise estrutural da educação básica brasileira

Os novos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) deveriam soar como um alarme nacional. Mais da metade dos cursos de formação de professores ofertados na modalidade de ensino à distância (EaD) obteve desempenho insuficiente no Enade 2025. O dado é devastador: 60,5% dos cursos EaD avaliados receberam conceitos 1 e 2, as faixas mais baixas do indicador de qualidade.

Segundo reportagem da Agência Brasil, os cursos com desempenho insuficiente responderam pela formação de aproximadamente 155 mil novos professores. A dimensão do problema ganha contornos ainda mais graves quando se observa que a maior parte dessas matrículas está concentrada em grandes grupos privados de ensino superior.

A reportagem publicada pela Folha de S.Paulo mostra que o setor privado concentrou quase a totalidade das matrículas em cursos EaD mal avaliados. O quadro reforça a percepção de que se consolidou no Brasil um modelo educacional fortemente orientado pela lógica de mercado, em que a redução de custos e a ampliação acelerada de matrículas passaram a prevalecer sobre critérios acadêmicos elementares.

O que está em jogo não é apenas uma discussão sobre metodologias pedagógicas ou inovação tecnológica. Trata-se da qualidade futura da educação básica brasileira. A expansão vertiginosa do EaD na formação docente ocorreu sem a construção paralela de mecanismos rigorosos de controle de qualidade, supervisão acadêmica e garantia de experiências presenciais consistentes. Em muitos casos, consolidou-se um sistema baseado em videoaulas padronizadas, tutoria precarizada e avaliações automatizadas.

Formar pedagogos e licenciados não é equivalente à simples transmissão remota de conteúdos. A docência exige experiência prática, observação de dinâmicas escolares, construção de vínculos humanos, desenvolvimento de capacidades de mediação social e domínio didático adquirido em interação concreta com estudantes e professores experientes.

A formação docente possui uma dimensão relacional impossível de ser plenamente reproduzida por plataformas digitais. Professores não atuam apenas como transmissores de conteúdos curriculares. Eles enfrentam diariamente conflitos sociais, desigualdades, dificuldades cognitivas, vulnerabilidades emocionais e processos complexos de socialização. A escola é um espaço vivo de convivência humana. Reduzir a formação docente a uma experiência predominantemente virtual significa empobrecer dramaticamente a compreensão da própria natureza do trabalho pedagógico.

O crescimento explosivo do EaD nas licenciaturas não ocorreu espontaneamente. Ele foi resultado direto de políticas de expansão quantitativa do ensino superior associadas à privatização e financeirização da educação. Grandes conglomerados educacionais identificaram nas licenciaturas a distância um nicho extremamente lucrativo: mensalidades baixas, estruturas operacionais enxutas, poucos professores contratados e milhares de alunos distribuídos em polos frequentemente frágeis do ponto de vista acadêmico.

Dados reunidos pela organização Todos Pela Educação já vinham alertando há anos para o avanço acelerado do EaD na formação de professores. Em diversas licenciaturas, os cursos a distância passaram a representar a maioria absoluta dos concluintes. Os resultados mais recentes do Enade apenas tornam visível aquilo que já vinha sendo denunciado por pesquisadores e entidades educacionais: a expansão quantitativa ocorreu sem garantia equivalente de qualidade.

Existe ainda uma dimensão social profundamente desigual nesse processo. A precarização da formação docente atinge sobretudo estudantes das camadas populares, que recorrem ao EaD devido à ausência de alternativas presenciais acessíveis. Em outras palavras, consolida-se um sistema dual: estudantes com maior renda continuam tendo acesso à formação presencial mais robusta, enquanto os mais pobres são direcionados para modelos massificados e frequentemente frágeis.

As consequências futuras podem ser severas. Professores mal formados tendem a enfrentar maiores dificuldades em alfabetização, planejamento pedagógico, gestão de sala de aula e desenvolvimento de práticas inclusivas de aprendizagem. O impacto disso recai diretamente sobre milhões de crianças e adolescentes matriculados na educação pública brasileira.

Não se trata de rejeitar integralmente o uso de tecnologias digitais na educação. Ferramentas remotas podem ampliar oportunidades de formação continuada, complementar atividades presenciais e democratizar determinados acessos. O problema emerge quando a lógica empresarial substitui a lógica pedagógica e transforma a formação docente em mera mercadoria de baixo custo.

A recente sinalização do Ministério da Educação (MEC) de restringir licenciaturas totalmente a distância demonstra que o próprio governo reconhece a gravidade da situação. Ainda assim, reverter esse quadro exigirá mais do que ajustes regulatórios pontuais. Será necessário reconstruir uma política nacional de valorização docente baseada na expansão das universidades públicas, no fortalecimento dos estágios supervisionados, na formação presencial consistente e em condições dignas de trabalho para os futuros educadores.

A crise revelada pelos dados do Enade expõe muito mais do que um problema educacional. Ela revela um modelo de país que converteu a formação de professores — uma das funções sociais mais estratégicas para qualquer democracia — em um mercado de diplomas de baixo custo e qualidade duvidosa. Se o Brasil deseja efetivamente melhorar sua educação básica, precisará começar pelo princípio mais elementar: professores não podem ser formados sob a lógica da precarização.

À espera do El Niño Godzilla: crise climática e colapso político no Brasil

Enquanto a possibilidade de um novo ciclo extremo do El Niño ameaça aprofundar desastres sociais e ambientais, o sistema político brasileiro acelera o desmonte das proteções ambientais e reforça um modelo econômico baseado na superexploração da natureza

O mundo se encontra, neste momento, à espera da definição da dimensão que o próximo ciclo do El Niño terá sobre o clima de grande parte do planeta. A dúvida já não é mais se haverá ou não um novo episódio do fenômeno, mas sim qual será sua intensidade. Entre climatólogos e analistas do sistema climático global, cresce a preocupação com a possibilidade de ocorrência de um evento extremo, apelidado informalmente de “El Niño Godzilla”, em referência aos episódios excepcionalmente intensos registrados em 1982-1983 e 1997-1998, que produziram impactos devastadores em diferentes continentes.

Para quem não acompanha os estudos sobre variabilidade climática, basta compreender que um El Niño extremo significa a combinação simultânea de eventos severos de chuva e seca. Enquanto algumas regiões poderão enfrentar enchentes catastróficas, outras sofrerão com estiagens prolongadas, colapso hídrico, perdas agrícolas e ondas de calor intensas. Não se trata apenas de um problema meteorológico. A experiência histórica demonstra que eventos fortes de El Niño tendem a desencadear crises sociais, econômicas e ambientais de larga escala, afetando a produção de alimentos, a geração de energia, a infraestrutura urbana, a saúde pública e a estabilidade política.

Mesmo que o evento previsto para 2026-2027 não alcance a magnitude de um “Godzilla”, sua simples ocorrência já será suficiente para ampliar drasticamente a vulnerabilidade de países periféricos e dependentes de exportações primárias, como o Brasil. Em função de suas dimensões continentais e de sua posição geográfica, o território brasileiro costuma experimentar de forma particularmente aguda os extremos associados ao aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial. Historicamente, episódios fortes de El Niño estão associados a chuvas acima da média no Sul do país — especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina — e a secas severas no Nordeste, na Amazônia e em partes do Centro-Oeste e Sudeste.

Os efeitos recentes ajudam a dimensionar o problema. As enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024 produziram centenas de mortes, deslocaram mais de meio milhão de pessoas e causaram prejuízos econômicos bilionários. Ao mesmo tempo, a Amazônia enfrentou secas históricas em 2023 e 2024, com rios atingindo níveis mínimos inéditos, comprometendo o abastecimento, a navegação e a segurança alimentar de milhares de comunidades. O Nordeste, por sua vez, segue convivendo com ciclos cada vez mais prolongados de estiagem e desertificação. Não há, salvo entre negacionistas climáticos ou charlatães travestidos de especialistas, qualquer base científica séria para afirmar que o Brasil atravessará o final de 2026 e o início de 2027 sem enfrentar graves perturbações socioambientais.

O mais alarmante é que esse cenário se desenrola no exato momento em que o sistema político brasileiro demonstra enorme incapacidade — e, em muitos casos, indisposição — para enfrentar a crise climática que se aproxima. Enquanto sucessivos escândalos financeiros e institucionais monopolizam a atenção pública, o Congresso Nacional, sob forte influência da bancada ruralista e de interesses minerários, avança na aprovação de uma verdadeira pauta de desmonte ambiental. Entre os temas em discussão estão a flexibilização do licenciamento ambiental, a redução de áreas protegidas, o enfraquecimento de órgãos de fiscalização e a ampliação de mecanismos que favorecem o desmatamento e a expansão predatória da fronteira agromineral.

Parte dessa ofensiva decorre da percepção, entre setores do establishment político, de que o atual ciclo de poder pode estar entrando em uma fase de desgaste acelerado. Nesse contexto, amplia-se a pressão para consolidar mudanças legislativas que favoreçam os interesses de grandes corporações ligadas ao agronegócio, à mineração e à exportação de commodities. Essas empresas operam segundo uma lógica estritamente financeira e de curto prazo: maximizar lucros, reduzir custos regulatórios e ampliar o acesso a recursos naturais, independentemente dos impactos sociais e ambientais produzidos. O problema é que países periféricos como o Brasil acabam convertidos em plataformas de extração intensiva de riqueza natural, aprofundando padrões históricos de dependência e destruição ecológica.

O governo Lula, apesar do discurso internacional em defesa da sustentabilidade e da proteção da Amazônia, também mantém fortes vínculos com esse modelo de desenvolvimento baseado na expansão de commodities agrícolas, minerais e energéticas. Há uma evidente contradição entre a retórica ambiental apresentada em fóruns globais e a continuidade de projetos de infraestrutura, exploração mineral, expansão do agronegócio e flexibilização de controles ambientais em regiões estratégicas, especialmente na Amazônia e no Cerrado. Isso não significa ignorar diferenças reais entre o campo democrático e a extrema direita, mas reconhecer que existe uma convergência estrutural em torno de um modelo econômico profundamente dependente da superexploração da natureza.

É justamente nesse quadro de degradação progressiva das proteções ambientais e de ausência de planejamento climático consistente que o Brasil se aproxima de um possível novo ciclo extremo de El Niño. O país entra em uma fase potencialmente crítica sem políticas robustas de adaptação climática, sem sistemas adequados de prevenção de desastres e sem investimentos compatíveis na proteção de populações vulneráveis. A combinação entre crise climática, fragilidade institucional e avanço do extrativismo predatório cria condições para uma deterioração acelerada das condições de vida de amplos setores da população.

A encruzilhada histórica que se coloca para o Brasil — e para grande parte do Sul Global — é, portanto, profunda. De um lado, consolida-se um modelo econômico baseado na exportação intensiva de recursos naturais, na flexibilização ambiental e na financeirização da natureza. De outro, cresce a evidência de que esse mesmo modelo amplia vulnerabilidades sociais e climáticas justamente no momento em que os eventos extremos tendem a se intensificar globalmente. O desafio central deixa de ser apenas ambiental: trata-se de decidir se sociedades periféricas continuarão subordinadas a uma lógica de saque ecológico e concentração de riqueza ou se conseguirão construir formas de organização política e econômica capazes de priorizar proteção social, soberania ambiental e adaptação coletiva diante do colapso climático em curso.

A máquina de greenwashing “neutro em carbono” da Petrobras continua operando

Extrair cada vez mais combustíveis fósseis não pode, de forma alguma, ser “neutro em carbono”

Crédito da foto: Refinaria Abreu e Lima, Petrobras.

Por Chris Lang para o REDD-Monitor

A Petrobras é uma gigantesca empresa brasileira de petróleo e gás. Ela é responsável por uma grande contribuição para a crise climática, que está se agravando. Em 2025, a empresa aumentou sua produção de petróleo e gás em 11%.

Em setembro de 2021, a Petrobras foi uma das 12 empresas de petróleo e gás da Iniciativa Climática do Petróleo e Gás (Oil and Gas Climate Initiative) que anunciaram uma estratégia de emissões líquidas zero . A Iniciativa Climática do Petróleo e Gás é uma manobra de greenwashing das grandes poluidoras . Seus membros incluem BP, Chevron, CNPC, Eni, Equinor, ExxonMobil, Occidental, Petrobras, Repsol, Saudi Aramco, Shell e TotalEnergies.

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Obviamente, essas empresas não planejam interromper a extração e o lucro com a venda de combustíveis fósseis para atingir sua meta de emissões líquidas zero. Em vez disso, elas ignorarão as emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis ( emissões de escopo 3 ) e se concentrarão na redução das emissões em suas próprias operações (emissões de escopo 1 e 2).

E, claro, eles compram créditos de carbono. Em seu suplemento “Mudanças climáticas e transição energética 2025 “, publicado recentemente, a Petrobras explica que,

Acreditamos que a compensação de emissões por meio de créditos de carbono pode complementar nossa jornada de descarbonização. Esses créditos podem ser baseados na natureza, aproveitando florestas, solos, oceanos e algas marinhas, ou derivados de soluções tecnológicas. Embora se espere que as compensações sejam utilizadas, elas são concebidas como contribuições suplementares e não substituem a necessidade de um fornecimento de energia com menor emissão de carbono.

A última frase soa bem, mas a Petrobras está aumentando a quantidade de petróleo e gás que extrai. A realidade é que a Petrobras é mais uma grande poluidora que usa créditos de carbono para maquiar suas operações destrutivas.

Gasolina “neutra em carbono”

A Petrobras vende seu Gasolina Podium como “neutro em carbono”. O REDD-Monitor escreveu sobre essa completa farsa em 2023:

Em 2025, a Petrobras comprou 1,2 milhão de créditos de carbono. Eis o que a Petrobras escreveu em seu relatório publicado recentemente:

Desde 2023, investimos no mercado voluntário para compensar as emissões da gasolina Petrobras Podium Carbon Neutral. Em 2025, adquirimos 1,2 milhão de créditos do projeto APD Grouped na Amazônia brasileira, dos quais 455 mil foram utilizados para compensar as emissões do Podium. Os créditos, da safra de 2022, são certificados pelo Verified Carbon Standard (VCS) da Verra.

O projeto APD Agrupado da Amazônia Brasileira foi desenvolvido pela empresa brasileira BRCarbon. O projeto abrange uma área total de mais de 30.000 hectares, composta por 15 propriedades nos estados de Mato Grosso, Acre, Amazonas e Pará.

Em seu site, a empresa desenvolvedora do projeto, BRCarbon, apresenta este mapa da área do projeto:

O projeto vendeu um total de 3.220.904 créditos de carbono. Entre os compradores, além da Petrobras, estão a Air New Zealand, a trip.com, a Rhodia Brasil (agora pertencente à empresa franco-belga Solvay), a PwC International e a Air Canada.

Segundo o Código Florestal brasileiro de 2012, todas as propriedades em áreas florestais devem manter uma área mínima de 80% com cobertura vegetal nativa, constituindo Reserva Legal. Em áreas de cerrado, o percentual é de 35%. O restante da área pode ser legalmente desmatado. O documento do projeto BRCarbon explica que,

Os proprietários de terras que decidirem aderir à iniciativa, renunciando ao seu direito de desmatar legalmente as suas áreas florestais, poderão aceder a recursos financeiros do mercado voluntário de carbono, tornando-se parceiros da BRCarbon.

Adicional? Permanente?

A questão de se o projeto é adicional ou não é discutível — como acontece com todos os projetos REDD . A BRCarbon afirma que “qualquer propriedade privada legalmente constituída dentro do bioma Amazônico, com mais de 80% de cobertura florestal (ou 35% para o Cerrado), é elegível para este projeto agrupado”.

É impossível saber se a floresta permanecerá protegida enquanto as emissões da queima de combustíveis fósseis permanecerem na atmosfera, e enquanto os créditos de carbono do projeto estiverem sendo negociados .

O documento do projeto reconhece que,

A atividade proposta para o projeto é economicamente menos atrativa do que qualquer projeto agrícola, pois não se esperam benefícios financeiros para o proponente do projeto além da receita relacionada ao comércio voluntário e à cadeia de valor, devido à sua implementação.

Em qualquer momento no futuro, um proprietário de terras poderá decidir ganhar mais dinheiro desmatando a floresta, vendendo a madeira e convertendo a terra em pastagens para gado ou plantações de soja.

Mesmo que a floresta permanecesse de pé como resultado do projeto REDD pelos próximos mil anos , os benefícios climáticos seriam anulados pelas operações poluentes das empresas que compram os créditos de carbono.

“Consideramos os mercados de carbono um instrumento crucial no combate às mudanças climáticas e estamos em discussões sobre a implementação de um mercado de carbono regulamentado no Brasil”, escreve a Petrobras .

A empresa está inclusive analisando a possibilidade de gerar seus próprios créditos de carbono, “otimizando a infraestrutura de transporte como alavanca de descarbonização por meio de parcerias público-privadas”.

A indústria de petróleo e gás precisa urgentemente ser regulamentada. Em vez disso, o governo brasileiro está convidando uma das maiores empresas poluidoras do país a ajudar a implementar a brecha do comércio de carbono para permitir que a destruição continue.

Com o agravamento da crise climática, a Amazônia se aproxima cada vez mais de um ponto de inflexão perigoso . Simplesmente não podemos nos dar ao luxo de trocar o carbono armazenado nas florestas por emissões contínuas de combustíveis fósseis. No entanto, é exatamente isso que a Petrobras e outras grandes empresas poluidoras estão fazendo.


Fonte: REDD-Monitor

A adoção acrítica da IA ​​na ciência é alarmante — precisamos urgentemente de mecanismos de controle

A inteligência artificial está acelerando rapidamente a produção científica, mas corre o risco de restringir a investigação, enfraquecer o discernimento e prejudicar a formação dos cientistas

A automação computadorizada pode dificultar a aquisição de habilidades e conhecimentos especializados. Crédito: Westend61/Getty

Por  Lisa Messeri e  MJ Crockett para “Nature”

A comunidade científica está adotando ferramentas de inteligência artificial, especialmente grandes modelos de linguagem (LLMs), a uma velocidade surpreendente. A escrita de artigos com auxílio de LLMs aumentou drasticamente nos últimos três anos e os pesquisadores têm buscado incorporar agentes semiautônomos em seus fluxos de trabalho . No entanto, a adoção rápida e acrítica da Inteligência Artificial (IA) ​​na ciência acarreta riscos significativos. Vários problemas já são evidentes: artigos que utilizam ferramentas de IA se concentram em um conjunto mais restrito de questões de pesquisa estabelecidas e , em alguns casos, foram avaliados como tendo menor mérito científico do que estudos que não dependem de IA.

Além disso, à medida que a IA automatiza tarefas científicas rotineiras, as preocupações com a erosão das oportunidades de formação para investigadores em início de carreira permanecem em grande parte sem solução e muitas vezes ignoradas. Convencionalmente, a formação científica tem combinado instrução formal em factos e métodos com a aquisição gradual de conhecimento tácito através de trabalho prático de nível inicial. Os académicos em estudos de ciência e tecnologia têm demonstrado repetidamente que os textos científicos, por si só, não comunicam totalmente o conhecimento; em vez disso, o saber-fazer crucial está incorporado nas comunidades de investigação e é transmitido através da aprendizagem e da prática .

Esse conhecimento tácito — por exemplo, sobre o que constitui dados “razoáveis”, ou os detalhes de uma técnica que são difíceis de articular em uma seção de métodos, ou se um resultado é consistente com a literatura existente — é essencial para que um pesquisador supervisione fluxos de trabalho assistidos por IA de forma eficaz no futuro. Se os sistemas de IA substituírem cada vez mais o trabalho científico de nível inicial, os estagiários podem nunca desenvolver essas habilidades, deixando potencialmente a próxima geração de cientistas mal preparada para supervisionar pesquisas orientadas por IA de forma responsável.

Essas tendências exigem que os cientistas reflitam sobre o propósito das instituições científicas. Nosso objetivo é simplesmente construir uma coleção de fatos científicos ou também cultivar uma comunidade viva e em constante evolução de cientistas? Se as ferramentas de IA aceleram o primeiro objetivo, mas ameaçam o segundo, como os cientistas devem proceder? Com ​​base em evidências emergentes sobre os efeitos da IA ​​na prática científica, destacamos aqui os principais riscos e delineamos possíveis soluções.

Mais produção, menos compreensão

A indústria de IA tem comercializado agressivamente produtos LLM para cientistas como tecnologias para aumentar a produtividade. Alguns pesquisadores abraçaram essa promessa, destacando a capacidade desses produtos de “turbinar” sua escrita acadêmica.

Se considerarmos a produtividade como a produção de artigos científicos, os produtos de IA sem dúvida cumpriram a promessa  , com efeitos de longo alcance. Repositórios online de pré-publicações , como o SocArXiv e o PsyArXiv, impuseram moratórias temporárias a artigos de IA ou atualizaram suas políticas de revisão; o arXiv mudou sua política e não aceita mais artigos de opinião em ciência da computação (que são relativamente fáceis de produzir para mestrados em direito), e os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA começaram a limitar as propostas de financiamento a seis por ano por pesquisador principal.

Além do aumento da produtividade, há evidências de que cientistas que utilizam ferramentas de IA em seu trabalho recebem mais citações e progridem mais rapidamente para cargos de pesquisador principal do que aqueles que não autilizam, sendo que pessoas com inglês como primeira língua se beneficiam de forma desproporcional.Vale ressaltar, no entanto, que os benefícios de carreira proporcionados por produtos de IA são mais evidentes em métricas quantitativas, como número de publicações e citações. Tais medidas não conseguem determinar se esses benefícios decorrem da contribuição científica ou de conexões com uma área em alta. Seria, portanto, um erro considerar essas métricas como representativas de uma vitória para a ciência, sem analisar mais atentamente a qualidade desse aumento de produtividade.

Mais nem sempre é melhor, e há cada vez mais evidências de que o aumento da produtividade científica impulsionado pelo aprendizado de máquina muitas vezes tem um custo. O mais óbvio é a introdução de “lixo de IA” na literatura, incluindo imagens sem sentido geradas por IA e citações alucinadas.

Diversos estudos documentaram tendências preocupantes em artigos que dependem fortemente da assistência de especialistas em redação (LLM, na sigla em inglês) na escrita. O periódico Organization Science auditou todas as 6.957 submissões recebidas entre janeiro de 2021 e janeiro de 2026 e observou que os artigos com assistência de especialistas em redação apresentavam qualidade científica inferior (medida pela probabilidade de serem aceitos pelo periódico). Outro estudo , com 264.125 artigos coletados em uma conferência de IA de 2024 e submissões publicadas em três servidores de pré-impressão (arXiv, bioRxiv e SSRN) entre 2023 e 2024, constatou que, em artigos com assistência de especialistas em redação, a boa escrita deixou de ser um indicador preciso de qualidade científica (medida pelo resultado da publicação e pelas notas da revisão por pares).

As ferramentas de IA implementadas em toda a cadeia de pesquisa também estão limitando a compreensão científica de maneiras mais sutis, por exemplo, reduzindo o conjunto de preocupações que os pesquisadores exploram. Uma análise de 41,3 milhões de artigos científicos abrangendo biologia, medicina, química, física, ciência dos materiais e geologia mostra que a adoção da IA ​​parece “induzir os autores a convergirem para as mesmas soluções para problemas conhecidos, em vez de criarem novas”. Este é um alerta precoce da probabilidade de a IA ter impactos em cascata no ecossistema do conhecimento .

Ameaça de desqualificação

As visões mais ambiciosas da IA ​​para a ciência envolvem ‘cientistas de IA’ semiautônomos ou totalmente autônomos, e protótipos recentes dessa visão têm recebidogrande alarde tanto na ciência quanto na indústria. Os desenvolvedores de cientistas de IA fazem questão de assegurar que sua intenção “não é substituir cientistas humanos, mas sim complementar e acelerar seu trabalho” . Esses produtos, portanto, devem ser supervisionados por um cientista qualificado que possa direcionar e verificar, de forma responsável, os resultados da IA.

Questionamos se essa visão pode se concretizar sem uma definição clara de como o cientista responsável pode desenvolver a expertise necessária para distinguir entre resultados bons e ruins da IA. Grande parte do entusiasmo pelas ferramentas de IA em toda a cadeia científica vem da promessa de aliviar a carga de trabalho. Mas muitas tarefas consideradas “pouco qualificadas” têm sido tradicionalmente pontos de partida importantes para cientistas em formação.

A limpeza de dados brutos ajuda os estagiários a compreender a diversidade e a qualidade dos dados; a pesquisa, a leitura e o resumo da literatura científica desenvolvem a percepção de quais áreas de pesquisa são densamente povoadas versus quais são escassas, e quais tipos de descobertas são comuns versus raras. Os cientistas seniores de hoje encontram-se na posição singular de terem sido treinados antes da ampla disponibilidade de ferramentas de IA, beneficiando-se, assim, de décadas de experiência prática que os estagiários atuais talvez nunca venham a desenvolver. Parte ou mesmo todo esse trabalho árduo pode não ser necessário para o desenvolvimento da expertise que os cientistas seniores de hoje possuem. Mas é uma aposta arriscada presumir, de antemão, que esse será o caso.

Um caminho a seguir

Para lidar com esses riscos, defendemos políticas e práticas que apoiem a autoavaliação contínua nas comunidades científicas, de forma análoga à maneira como os ecologistas monitoram os ecossistemas em busca de sinais de danos.

Uma intervenção simples seria que editoras e financiadores exigissem mais transparência. Nos últimos anos, cientistas desenvolveram uma norma de divulgação do uso de IA em seus trabalhos. Este é um primeiro passo importante, mas a divulgação por si só obscurece a diversidade de razões para o uso de ferramentas de IA. Um pesquisador que não tem o inglês como língua materna pode usar um modelo de aprendizado de máquina para aprimorar a versão final de um artigo. Outro pode depender de modelos de aprendizado de máquina para trabalhar com grandes conjuntos de dados que seriam inviáveis ​​de analisar sem automação, ou mesmo para gerar uma revisão bibliográfica do zero dentro de um prazo apertado. Tratar todos esses usos como equivalentes obscurece suas diferentes implicações para o trabalho científico, o julgamento e a responsabilidade.

Exigimos mais transparência não apenas no uso de ferramentas de IA na ciência, mas também nas razões por trás de seu uso. Assim como não podemos confiar em descobertas científicas sem métodos descritos de forma transparente e justificativas para esses métodos, não podemos confiar em ferramentas de IA na ciência sem mais informações sobre como e por que elas estão sendo usadas. Como ocorre com outras novas técnicas e tecnologias, o diálogo entre revisores e autores estabelecerá novas normas.

Essa troca só pode ocorrer com explicações e justificativas mais explícitas, além da mera divulgação. Tais informações poderiam, em última análise, servir como fonte de dados para projetos de metaciência que avaliam a conexão entre as diversas justificativas para o uso de IA e a robustez das descobertas resultantes. Se os cientistas que utilizam produtos de IA em seu trabalho desejam conectar os ganhos de produtividade aos ganhos de compreensão, a divulgação com explicações pode ser um primeiro passo para atingir esse objetivo.

Um conjunto mais complexo de questões diz respeito a como devemos treinar os futuros cientistas e certificar sua competência em cada etapa. Os pesquisadores principais precisam considerar o quanto podem confiar que seus orientandos usarão ferramentas de IA de forma responsável, e os programas de pós-graduação precisam discutir políticas para o uso de mestrados em direito (LLM) em exames de qualificação e dissertações.

Quais habilidades elementares pesquisadores em início de carreira devem adquirir para garantir que se tornem cientistas responsáveis, independentemente dos futuros desenvolvimentos tecnológicos? A resposta a essa pergunta varia de acordo com a disciplina. Por exemplo, alguns pesquisadores das ciências humanas estão entusiasmados com o uso de modelos de aprendizagem baseados em linguagem (LLMs) para automatizar entrevistas e a análise de dados qualitativos, enquanto outros argumentam que a leitura e a análise desses dados são cruciais para a compreensão das experiências dos participantes humanos, indo além de resumos quantitativos. Os cientistas devem promover debates abrangentes sobre o assunto agora, em vez de presumir, sem evidências, que a automatização do trabalho inicial não influenciará a expertise de futuros colegas.

Ao navegarmos por esta nova fase da produção de conhecimento, devemos lembrar que os objetivos da indústria não são os mesmos da ciência. A ciência acadêmica não se resume à produtividade; ela também busca a compreensão profunda, a exploração de soluções criativas e a formação de pensadores críticos para serem a próxima geração de pesquisadores. Chegou a hora de a comunidade científica avaliar se os produtos de IA auxiliam ou dificultam esses esforços.

Nature 653 , 675-676 (2026)

doi: https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.1038/d41586-026-01557-x


Fonte: Nature

Pequenos fragmentos florestais isolados são importantes para a preservação das populações de aves

florestas isoladas 1Pequenos remanescentes florestais são frequentemente considerados marginais, mas seu valor pode aumentar se as paisagens circundantes forem menos áridas e a cobertura arbórea próxima for mantida ou restaurada. Crédito da imagem: Alexandre C. Lees.

Por  Rodrigo de Oliveira Andrade para “scidev.net” 

[SÃO PAULO, SciDev.Net] Os pequenos fragmentos florestais que restam após a exploração madeireira e o avanço da agricultura ou a criação de reservatórios hidrelétricos podem ajudar a proteger mais espécies de aves do que se imagina, especialmente quando seu ambiente imediato é menos hostil e abundante em cobertura arbórea.

A conclusão desafia uma premissa ecológica amplamente aceita: a de que remanescentes florestais menores e mais isolados tendem a abrigar poucas espécies e geralmente são considerados de baixo valor para a conservação da biodiversidade. Ela deriva de um estudo publicado recentemente na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Além disso, a pesquisa se destaca porque “fornece evidências convincentes de que o valor ecológico de um remanescente florestal não pode ser compreendido apenas por sua área de superfície”, disse o ecologista Juan Pablo Ramírez-Delgado, pesquisador da Universidade do Norte da Colúmbia Britânica, Canadá, em um comentário sobre o estudo publicado na mesma revista em 11 de maio.

O trabalho original combinou dados de pesquisas sobre aves em escala de paisagem em regiões tropicais e subtropicais da América Latina, África e Ásia com imagens de satélite da cobertura arbórea ao redor de fragmentos florestais para medir até que ponto um ambiente com maior cobertura florestal pode atenuar o risco de extinção de espécies locais.

Realizada por 58 cientistas de 19 países, a pesquisa comparou dois tipos de remanescentes florestais: ilhas florestais criadas por reservatórios hidrelétricos — consideradas uma das formas mais extremas de fragmentação de habitat — e fragmentos florestais terrestres, geralmente formados por desmatamento e cercados por áreas agrícolas.

Ilhas florestais são uma das formas mais extremas de fragmentação de habitat. Crédito da imagem: Anderson Saldanha Bueno.

“Como as ilhas representam o cenário mais extremo de isolamento, pudemos avaliar como a melhoria da paisagem circundante influencia o número de espécies de aves em fragmentos florestais”, disse ao SciDev.Net o biólogo Anderson Saldanha Bueno, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, Rio Grande do Sul, Brasil, e principal autor do estudo publicado na PNAS .

No total, foram analisados ​​mais de 1.000 remanescentes florestais — 336 ilhas florestais e 669 fragmentos terrestres — e cerca de 2.000 espécies de aves. Entre elas, cinco espécies estão criticamente em perigo, 12 em perigo, 44 ​​vulneráveis, 83 quase ameaçadas e 1.810 classificadas como de menor preocupação.

A pesquisa descobriu que o que acontece fora do fragmento — na chamada paisagem circundante — pode influenciar decisivamente a persistência e o número de espécies de aves que o habitam.

Em particular, fragmentos florestais rodeados por áreas agrícolas apresentam taxas de extinção de aves mais baixas em comparação com fragmentos do mesmo tamanho localizados em ilhas formadas por barragens ou reservatórios.

“O número de espécies de aves em remanescentes florestais de até um hectare pode mais que dobrar quando o ambiente imediato é composto por áreas terrestres com um número maior de árvores.”

Anderson Saldanha Bueno, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, Rio Grande do Sul, Brasil

E as perdas de espécies associadas à redução da área — um indicador conhecido pelos ecologistas como relação espécie-área — foram menores tanto em ilhas quanto em fragmentos terrestres quando outros fragmentos florestais estavam próximos, em um raio de até 300 metros.

“O número de espécies de aves em remanescentes florestais de até um hectare pode mais que dobrar quando o ambiente imediato é composto por áreas terrestres com um número maior de árvores”, acrescentou Bueno.

“Em outras palavras, aumentar o número de árvores em apenas 300 metros ao redor de um fragmento reduz significativamente a taxa de extinções locais, especialmente entre as aves dependentes da floresta”, explicou ele.

Segundo Bueno, o número de aves pode duplicar quando o ambiente imediato consiste em áreas terrestres com maior número de árvores. Crédito da imagem: Luis Fábio Silveira.

Segundo o pesquisador, isso ocorre porque as árvores próximas facilitam a movimentação das aves entre os fragmentos e oferecem alimento e abrigo, reduzindo o isolamento das populações.

“A proteção de florestas extensas e intactas continua sendo essencial, mas as descobertas indicam que os esforços de conservação devem ir além”, observou Ramírez-Delgado em seu comentário na PNAS .

“Medidas como o reflorestamento em áreas próximas aos remanescentes, o plantio ou a preservação de árvores dispersas e a promoção de mosaicos agrícolas mais complexos podem contribuir para reduzir o risco de extinção local”, acrescentou.

“O que distingue este estudo é a força, a escala e a clareza da comparação. Em vez de se concentrarem em ilhas oceânicas, os autores usam ilhas de reservatório como um raro experimento natural para explorar como o contexto da paisagem influencia a biodiversidade após a fragmentação”, acrescentou.

Para a bióloga Eliana Cazetta, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz, Bahia, Brasil, que não participou do estudo publicado na PNAS , a conclusão é importante para a conservação. “Nem todas as soluções dependem da expansão de áreas protegidas”, disse ela à SciDev.Net . “A melhoria do ambiente imediato de fragmentos florestais existentes também pode contribuir para a redução da perda de biodiversidade.”

Segundo ela, isso pode ser alcançado por meio do plantio de árvores, da restauração da vegetação degradada e da conexão de fragmentos florestais, como reservas legais e áreas de preservação permanente. “Dessa forma, é possível aumentar substancialmente o número de espécies sem expandir a área total de floresta remanescente.”

“Em vez de ignorarmos os pequenos fragmentos florestais, precisamos reconhecê-los como peças-chave para a conservação da biodiversidade”, conclui Bueno.


Fonte:  SciDev.Net

Os “Doze Sujos” e a geopolítica do veneno: como o sistema alimentar global normalizou a contaminação cotidiana

Novo relatório sobre resíduos de agrotóxicos revela mais do que um problema sanitário: expõe um modelo agrícola dependente de químicos, cadeias globais de exportação e a captura corporativa da alimentação 

Durante décadas, o capitalismo agrícola vendeu ao mundo a promessa de abundância. A chamada “revolução verde” transformou sementes em mercadorias patenteadas, fertilizantes em instrumentos de dependência econômica e agrotóxicos em condição estrutural da produção em larga escala. Agora, um novo relatório divulgado nos EUA reacende uma pergunta incômoda: o que exatamente estamos colocando no prato?

O levantamento anual conhecido como Dirty Dozen (“Doze Sujos”), produzido a partir de dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e divulgado pelo Environmental Working Group (EWG), identificou níveis elevados de resíduos de agrotóxicos em alimentos consumidos diariamente, mesmo após lavagem doméstica. Espinafre, morango e uva lideram a lista de produtos com maior contaminação química detectada em 2026. 

Mais de 54 mil amostras de frutas e legumes foram analisadas. O resultado impressiona não apenas pela escala, mas pela persistência dos contaminantes: 264 agrotóxicos diferentes foram encontrados nos alimentos avaliados. Em muitos casos, quatro ou mais substâncias químicas apareciam simultaneamente na mesma amostra.  

O dado mais perturbador talvez seja outro: os resíduos permaneceram presentes mesmo após processos de higienização semelhantes aos realizados em cozinhas domésticas. Isso significa que a contaminação não está apenas na superfície dos alimentos. Ela penetra o próprio sistema alimentar industrializado. A lista dos “Doze Sujos” inclui ainda nectarinas, pêssegos, cerejas, maçãs, amoras, peras, batatas e mirtilos. Muitos desses produtos possuem cascas finas ou elevada sensibilidade a fungos e insetos, o que leva ao uso intensivo de agrotóxicos durante o cultivo.  

Mas o debate não pode ser reduzido a uma simples recomendação individual de “lavar melhor os alimentos” ou “consumir orgânicos”. O que está em jogo é um modelo agrícola profundamente subordinado às grandes corporações químicas e ao imperativo da produtividade permanente.

Desde os anos 1990, a agricultura global passou por um processo radical de financeirização e concentração empresarial. Poucas multinacionais controlam sementes, agrotóxicos, fertilizantes e sistemas logísticos. Nesse arranjo, o agricultor torna-se dependente de pacotes tecnológicos completos — frequentemente incompatíveis com práticas agroecológicas ou sistemas biodiversos. O resultado é uma agricultura que produz commodities em escala planetária, mas também produz contaminação difusa, degradação ambiental e exposição química permanente.

Os impactos sobre a saúde humana já não pertencem apenas ao campo das hipóteses. Estudos anteriores relacionaram a exposição prolongada a agrotóxicos a problemas hormonais, infertilidade masculina, alterações neurológicas, cânceres e doenças cardiovasculares. Crianças e fetos aparecem entre os grupos mais vulneráveis. A própria American Academy of Pediatrics alerta para riscos como baixo peso ao nascer, dificuldades de aprendizagem e problemas de desenvolvimento cognitivo.  

O relatório também menciona a presença de PFAS — os chamados “químicos eternos” — substâncias extremamente persistentes no ambiente e associadas a múltiplos efeitos tóxicos.  

No Sul Global, entretanto, o problema ganha contornos ainda mais dramáticos. Países exportadores de commodities agrícolas frequentemente flexibilizam regulações ambientais para manter competitividade nos mercados internacionais. O Brasil tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos dessa dinâmica. Nos últimos anos, o nosso país ampliou autorizações para novos agrotóxicos e consolidou uma das maiores dependências químicas do planeta. Enquanto o agronegócio se apresenta como símbolo de modernização econômica, amplia-se silenciosamente a exposição populacional a substâncias potencialmente perigosas — especialmente entre trabalhadores rurais, populações periféricas e consumidores de baixa renda, que raramente têm acesso regular a alimentos orgânicos.

Nas redes sociais e fóruns online, cresce a percepção de que o atual modelo agroexportador produz riqueza concentrada, mas socializa riscos ambientais e sanitários. Em discussões públicas recentes, usuários brasileiros relacionam diretamente a expansão do agronegócio à intensificação do uso de agrotóxicos e à fragilidade dos mecanismos de controle estatal. 

Existe, portanto, uma dimensão política central nesse debate. O problema dos agrotóxicos não decorre apenas de “falhas” regulatórias. Ele nasce da lógica estrutural de um sistema alimentar organizado para maximizar produtividade, padronização e lucro corporativo, mesmo às custas da saúde coletiva e da integridade ecológica.

A retórica dominante insiste em apresentar os agrotóxicos como um “mal necessário” para alimentar o mundo. Contudo, essa narrativa omite que boa parte da produção agrícola global não se destina diretamente à alimentação humana, mas à exportação de commodities, produção de ração animal e cadeias industriais altamente concentradas.

Os “Doze Sujos” revelam, assim, algo maior que uma lista de alimentos contaminados. Eles expõem o paradoxo central da agricultura contemporânea: um sistema capaz de produzir abundância material sem garantir segurança alimentar real.

No centro desse modelo, a comida deixa de ser direito e transforma-se em plataforma de acumulação financeira. O alimento torna-se mercadoria química. E o consumidor, um sujeito permanentemente exposto a riscos invisíveis normalizados pela rotina.

Talvez a pergunta mais importante não seja quais frutas possuem mais agrotóxicos. A questão decisiva é por que aceitamos como inevitável um sistema alimentar baseado em contaminação crônica, dependência química e degradação ambiental em larga escala.

A China muda de rumo — e o Brasil insiste no atraso

Enquanto Pequim investe em soberania alimentar, biotecnologia e proteínas alternativas, o Brasil aprofunda sua dependência da exportação de commodities agrícolas

Durante décadas, a relação econômica entre Brasil e China foi apresentada como uma parceria estratégica quase perfeita. O Brasil exportaria commodities agrícolas e minerais; a China compraria em volumes crescentes para alimentar sua industrialização, urbanização e ascensão de sua classe média. A soja tornou-se o símbolo máximo desse pacto silencioso. Mas um artigo escrito pelo professor da USP, Ricardo Abramovay, publicado pelo Valor Econômico, chama atenção para uma mudança estrutural que pode redefinir profundamente essa relação: Pequim está buscando reduzir sua dependência externa de proteínas vegetais — especialmente aquelas produzidas nas Américas.

O alerta é sério porque toca justamente no coração do modelo agroexportador brasileiro. Desde os anos 2000, boa parte da expansão da fronteira agrícola brasileira foi impulsionada pela demanda chinesa por soja destinada à alimentação animal, sobretudo de suínos e aves. O crescimento do agronegócio brasileiro passou então a depender não apenas da produtividade agrícola, mas também da continuidade quase infinita do apetite chinês por ração animal.

Agora, porém, a lógica começa a mudar.  A China vem investindo pesadamente em novas tecnologias alimentares, biotecnologia, fermentação de precisão, proteínas alternativas e substituição parcial de insumos importados. O objetivo é estratégico: ampliar sua segurança alimentar e reduzir vulnerabilidades externas num cenário internacional marcado por guerras comerciais, instabilidade geopolítica e crise climática. Essa transição não significa que Pequim deixará de importar soja amanhã. Mas significa algo talvez mais importante: o atual padrão de crescimento das exportações brasileiras pode ter chegado ao seu teto histórico.

O grande problema é que o Brasil parece continuar apostando exatamente no modelo que a China tenta superar. Enquanto Pequim direciona recursos para inovação científica, agregação tecnológica e sistemas alimentares mais sofisticados, o Brasil segue aprofundando sua especialização em commodities primárias de baixo valor agregado. A consequência é um risco crescente de descompasso estrutural entre os dois países.

Ricardo Abramavoy sugere em seu artigo que a grande ameaça para o Brasil não é simplesmente econômica, mas civilizatória. O país continua expandindo áreas agrícolas, pressionando biomas estratégicos como Cerrado e Amazônia, enquanto o mercado internacional começa lentamente a questionar os custos ambientais desse modelo. Ao mesmo tempo, os setores mais dinâmicos da economia global caminham para produtos intensivos em conhecimento, inovação biológica e sustentabilidade.

Há uma ironia importante nesse processo. O Brasil possui algumas das maiores capacidades científicas do mundo tropical: biodiversidade incomparável, centros avançados de pesquisa agropecuária, universidades públicas relevantes e condições excepcionais para liderar uma nova economia da bioinovação. No entanto, insiste em ocupar um papel subordinado na divisão internacional do trabalho, exportando matéria-prima e importando tecnologia.

A mudança chinesa deveria funcionar como um sinal de alerta estratégico. Se o principal comprador global de proteínas vegetais começa a buscar autonomia tecnológica e alimentar, países altamente dependentes desse mercado precisam rever urgentemente suas estratégias de desenvolvimento.

A questão central não é apenas “quanto soja o Brasil conseguirá vender no futuro”, mas qual será o lugar do país numa economia global cada vez mais baseada em ciência, inovação e sustentabilidade.

Datacenters estão se tornando o mais novo vilão político nos EUA

Novas pesquisas projetam que os custos de eletricidade no atacado nos EUA podem subir até 29% até o final da década, alimentando uma crise política crescente para o setor

Por Cris Tolomia para “Quartz” 

A frustração dos estadunidenses com a inteligência artificial está se transformando em oposição política organizada, impulsionada em grande parte pela raiva em relação aos custos de eletricidade ligados à rápida expansão de centros de dados em todo o país.

Uma pesquisa da Gallup divulgada na semana passada revelou que aproximadamente 70% dos estadunidesnes se oporiam à construção de um centro de dados de Inteligência Artificial (IA) em suas comunidades, citando preocupações com a sobrecarga nos recursos energéticos locais e a possibilidade de contas de luz mais altas como suas principais objeções. Uma pesquisa da YouGov e da Economist, realizada no mesmo período, mostrou que a maioria dos americanos acredita que o ritmo do desenvolvimento da IA ​​está ultrapassando a capacidade da sociedade de gerenciá-lo e que a tecnologia não trará benefícios econômicos significativos para as pessoas comuns.

A reação negativa já está remodelando a política local. A oposição da comunidade paralisou ou interrompeu 48 projetos, representando mais de US$ 156 bilhões em construções planejadas somente no ano passado, de acordo com dados da Data Center Watch citados pela Fortune .

Por trás dessa resistência, existe uma preocupação financeira concreta. Novas descobertas publicadas na revista Environmental Research Letters mostraram que a participação dos data centers na demanda nacional de energia mais que dobrou, passando de 1,9% para 4,4%, no período de cinco anos que termina em 2023. Dependendo da trajetória de crescimento dos data centers, essa mesma pesquisa estima que os preços da eletricidade no atacado em todo o país podem aumentar de 6% a 29% até o final da década. Na Virgínia, um polo de construção de data centers, os custos de geração podem subir até 57%.

Jeremiah Johnson, professor associado de engenharia civil e ambiental da Universidade Estadual da Carolina do Norte e principal autor do estudo, afirmou que a escala do crescimento da demanda não tem precedentes recentes no setor de energia. “O desafio aqui é que a magnitude dessa demanda de que estamos falando é realmente grande. Ela está em uma escala que supera em muito algumas das outras mudanças que vivenciamos no setor de energia nos últimos anos”, disse Johnson à Fortune.

A modelagem do estudo indica que os fornecedores de energia dependeriam substancialmente do gás natural, ao mesmo tempo que reativariam instalações de carvão ociosas, uma combinação que, segundo estimativas dos pesquisadores, poderia aumentar as emissões de dióxido de carbono do setor elétrico em até 28% antes do final da década. Sem subsídios federais para energia limpa na escala daqueles fornecidos pela Lei de Redução da Inflação — incentivos que o Congresso revogou em grande parte este ano —, o estudo constatou que o gás natural absorveria cerca de 70% do aumento da carga de geração, com o carvão, a energia eólica e a solar respondendo pelo restante.

As consequências políticas do aumento das contas de luz já tiveram um grande impacto no resultado de uma eleição . O democrata John McAuliff, ex-conselheiro climático da Casa Branca, derrotou um deputado republicano na Assembleia Legislativa da Virgínia no ano passado, atribuindo sua vitória apertada, em parte, à frustração dos eleitores com os custos de energia elétrica, ligados à concentração de data centers no Condado de Loudoun. Os legisladores da Virgínia agora estão analisando um projeto de lei que transferiria certos custos de conexão à rede elétrica de clientes residenciais para usuários de alto consumo, como data centers.

A viabilidade econômica dos data centers também tem sido questionada. A Virgínia deixou de arrecadar mais de US$ 1,6 bilhão em impostos no ano fiscal de 2025 devido às isenções fiscais para data centers, enquanto o setor gerou 1.610 empregos no mesmo período — um custo de cerca de US$ 1,2 milhão por novo emprego, segundo a VPM.

A indústria está respondendo com investimentos. Empresas de IA, incluindo Anthropic, OpenAI e Meta $META-1,41% Estão destinando pelo menos US$ 150 milhões para eleições estaduais e federais este ano por meio de organizações políticas e prometeram absorver uma parcela maior de seus custos com eletricidade, a pedido do presidente Donald Trump.


Fonte: Quartz

A incorporação sem projeto: os riscos da absorção do Antônio Sarlo pela Uenf

Enquanto docentes acumulam sobrecarga e perdas salariais históricas, a Uenf assume novas funções sem apresentar um projeto claro de integração do Antônio Sarlo nem definir quem conduzirá a transição institucional 

O anúncio de que a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) assumirá a gestão do Colégio Técnico Estadual Antônio Sarlo foi apresentado pela reitoria como um “marco histórico” para a educação do Norte Fluminense. Mas, por trás da retórica triunfalista da notícia oficial, permanecem questões fundamentais sem resposta — e justamente as mais importantes para o futuro da própria Uenf e da escola incorporada.

A primeira delas é a ausência de um projeto institucional claro. O texto publicado pela universidade celebra a incorporação como um fim em si mesmo, mas praticamente não explica como essa absorção será operacionalizada nem de que maneira o Antônio Sarlo será integrado às atividades já desenvolvidas pela Uenf. Isso é especialmente grave porque a universidade possui uma estrutura fortemente baseada na articulação entre ensino, pesquisa e extensão, sobretudo através do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA).

A questão central, portanto, não é simplesmente “assumir” uma escola agrícola, mas definir qual será sua função dentro do projeto universitário. O Antônio Sarlo será apenas um colégio técnico administrado burocraticamente pela Uenf? Ou será transformado em escola de aplicação, espaço de formação integrada, laboratório de inovação agroecológica e extensão rural, articulado aos cursos de Agronomia, Zootecnia, Veterinária e licenciaturas? O silêncio da administração universitária sobre isso é eloquente.

Esse vazio estratégico chama ainda mais atenção porque o debate sobre a incorporação já se arrasta há muitos anos. Desde pelo menos 2011 discutia-se a possibilidade de anexar o Antônio Sarlo à estrutura universitária, inclusive com expectativas de transformá-lo em uma escola de aplicação vinculada à Uenf. No entanto, mais de uma década depois, continua nebuloso qual modelo acadêmico e administrativo efetivamente se pretende construir.

Outro aspecto preocupante é a forma pouco democrática com que o processo vem sendo conduzido. Uma decisão dessa magnitude deveria passar por amplo debate interno envolvendo centros, colegiados, sindicatos, técnicos, estudantes e docentes. Afinal, incorporar uma instituição de ensino básico e técnico modifica profundamente a natureza administrativa, pedagógica e financeira da universidade. Porém,  essa discussão foi restrita a pequenos círculos decisórios, sem a construção de um consenso real dentro da comunidade universitária.  Lembro ainda que quando esta questão foi discutida no Conselho Universitário, fui um dos poucos a problematizar as consequências dessa assimilação.

Isso produz uma sensação perigosa de fato consumado. A universidade é chamada a absorver novas responsabilidades sem que se saiba claramente quais serão os impactos orçamentários, administrativos e acadêmicos dessa decisão. Quem coordenará a transição? Qual estrutura administrativa será criada? Haverá orçamento adicional? Haverá contratação de professores doutores para realizar a transição? Quais setores assumirão as demandas pedagógicas e burocráticas? O texto oficial praticamente ignora essas perguntas.

A indefinição é particularmente séria porque a Uenf já enfrenta um quadro estrutural de sobrecarga funcional. Ao longo dos últimos anos, a universidade viu reduzir seu quadro técnico e docente sem reposição adequada, enquanto as exigências institucionais cresceram continuamente. Os professores acumulam ensino, orientação, pesquisa, extensão, administração e captação de recursos em condições cada vez mais precárias. Nesse contexto, a incorporação de uma nova estrutura educacional exige planejamento robusto — algo que não aparece no discurso institucional.

Além disso, há o problema da corrosão salarial. Os docentes da Uenf convivem há anos com perdas inflacionárias massivas,  estimadas pelo DIEESE como estando em torno de 60% até  o início deste mês, o que produz desmotivação, evasão de quadros qualificados e deterioração das condições de trabalho. Nesse cenário, soa contraditório que o governo estadual e a  reitoria da Uenf apresentem a expansão de responsabilidades como sinal de fortalecimento institucional, enquanto a própria universidade  continua sem um novo Plano de Cargos de Vencimentos e pagando salários baixos.

Existe aí uma contradição típica das políticas públicas contemporâneas: amplia-se a missão institucional sem ampliar proporcionalmente os meios materiais para executá-la. A expansão aparece como símbolo político de dinamismo administrativo, mas pode acabar aprofundando a precarização cotidiana dos trabalhadores responsáveis por sustentar a universidade.

Isso não significa negar a importância histórica do Antônio Sarlo. Ao contrário. A escola possui enorme relevância regional, trajetória histórica consolidada e potencial extraordinário para fortalecer a formação agrícola e tecnológica do Norte Fluminense. O problema é que esse potencial somente poderá ser realizado se houver um verdadeiro projeto acadêmico e social de integração, e não apenas uma transferência administrativa.

Uma incorporação conduzida sem planejamento, sem participação democrática e sem recomposição estrutural da universidade corre o risco de produzir um resultado perverso: fragilizar simultaneamente o Antônio Sarlo e a própria Uenf. Em vez de criar um polo articulado de formação técnica, pesquisa aplicada e extensão rural, pode-se acabar construindo apenas mais uma estrutura precarizada sustentada pelo voluntarismo e pela sobrecarga de servidores já exaustos.

No fundo, a questão central talvez seja esta: a incorporação do Antônio Sarlo servirá para fortalecer o projeto original de universidade concebido por Darcy Ribeiro — integrado ao desenvolvimento regional e à transformação social — ou será apenas mais um movimento administrativo improvisado em meio à crise permanente do ensino público fluminense? Hoje, infelizmente, os sinais apontam mais para a segunda hipótese do que para a primeira.