Derrotados nas urnas, patrões perseguem eleitores de Lula e Ministério do Trabalho abre canal de denúncias

Diante de relatos de represálias contra trabalhadores que apoiaram a reeleição de Lula, governo federal reage ao assédio eleitoral e anuncia medidas para responsabilizar empregadores

A derrota de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais de 25 de outubro parece não ter sido digerida por determinados setores do empresariado brasileiro. Depois de não conseguirem impor sua vontade nas urnas, alguns patrões estariam agora tentando descontar sua frustração sobre trabalhadores que cometeram o suposto “crime” de votar em Luiz Inácio Lula da Silva ou manifestar publicamente seu apoio à reeleição do presidente.

Os relatos de perseguição, ameaças de demissão e constrangimentos por motivações políticas, que precisam ser devidamente investigados, revelam uma face particularmente autoritária das relações de trabalho no Brasil. Para determinados empregadores, aparentemente, o trabalhador pode até ter o direito de votar, desde que escolha o candidato de preferência do patrão. Caso contrário, corre o risco de sofrer represálias justamente de quem controla sua principal fonte de sobrevivência.

Diante dessa situação, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), por orientação do ministro Luiz Marinho, disponibilizou um canal oficial para receber denúncias de assédio eleitoral, centralizando as informações sobre possíveis violações dos direitos políticos dos trabalhadores. A iniciativa integra um conjunto de medidas anunciadas pelo governo federal, incluindo a intensificação da fiscalização trabalhista e a articulação com o Ministério Público do Trabalho e outros órgãos competentes para apurar denúncias e responsabilizar empregadores que pratiquem discriminação política.

É preciso lembrar que o assédio eleitoral não se limita às pressões exercidas antes da votação. Ele também pode ocorrer depois das eleições, quando trabalhadores passam a sofrer ameaças, humilhações ou punições em razão de suas escolhas políticas. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, utilizar a ameaça do desemprego para intimidar funcionários representa uma forma particularmente perversa de abuso do poder econômico.

O que parece incomodar certos setores empresariais não é apenas a vitória de Lula, mas a constatação de que seus empregados possuem vontade política própria e não estão obrigados a reproduzir as preferências de quem lhes paga os salários. A carteira de trabalho não é um título de propriedade sobre a consciência política de ninguém.

A abertura do canal de denúncias pelo Ministério do Trabalho é uma resposta necessária, mas será fundamental que o governo não fique apenas na coleta de informações. As denúncias precisam ser investigadas, os trabalhadores protegidos contra novas represálias e os responsáveis por eventuais práticas ilegais devidamente punidos.  Afinal, se a extrema-direita foi derrotada nas urnas, não se pode permitir que sua intolerância encontre abrigo nos locais de trabalho. A democracia não pode terminar na porta das fábricas, dos supermercados, dos escritórios ou das propriedades rurais.

Aos trabalhadores que estejam sofrendo perseguição por suas escolhas eleitorais, fica a orientação: preservem as provas e denunciem. Votar em Lula, ou em qualquer outro candidato, não é motivo legítimo para perder o emprego ou sofrer humilhações.

Canal oficial de denúncias do Ministério do Trabalho e Emprego:

https://assedioeleitoral.trabalho.gov.br/

Brasil mantém abertas as portas para agrotóxicos rejeitados na Europa: três atos do Ministério da Agricultura revelam como funciona essa engrenagem

Enquanto novos registros ampliam a oferta de agrotóxicos, autorizações posteriores incorporam fabricantes, importadores e novas condições de uso, inclusive para produtos associados a substâncias não aprovadas na União Europeia

A publicação de três atos do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), em outubro de 2026, oferece mais uma oportunidade para compreender a política brasileira de autorização e comercialização de agrotóxicos. Os Atos nº 65, 66 e 67, publicados em sequência, permitem observar diferentes etapas de funcionamento de um mercado que continua incorporando produtos e reorganizando suas cadeias de produção e distribuição, inclusive no caso de ingredientes ativos que já perderam a aprovação para uso agrícola na União Europeia.

Embora os documentos tratem de procedimentos administrativos distintos, sua análise conjunta revela uma questão fundamental: a entrada de agrotóxicos no mercado brasileiro não depende apenas da concessão inicial de registros. Existe também um conjunto de decisões posteriores que permite incluir fabricantes, autorizar novos importadores, transferir titularidades, modificar marcas comerciais e alterar as recomendações de uso de produtos já registrados. Essas medidas podem ampliar as possibilidades comerciais de substâncias anteriormente autorizadas, mesmo sem representar o registro de uma nova molécula.

Os Atos nº 65 e 66, examinados anteriormente neste blog, já haviam chamado atenção para a presença de ingredientes ativos que não possuem aprovação na União Europeia. Entre os casos discutidos estava o ciproconazol, fungicida cuja aprovação europeia expirou em 2021. Agora, o Ato nº 67, de 23 de outubro e publicado no Diário Oficial da União em 28 de outubro, acrescenta uma dimensão importante ao problema: a continuidade das autorizações administrativas envolvendo produtos que já circulam no mercado brasileiro.

Substâncias rejeitadas na Europa continuam presentes no mercado brasileiro

O Ato nº 67 apresenta 148 itens numerados, além de uma extensa seção de retificações. Entre os produtos mencionados aparecem formulações associadas à atrazina, ao glufosinato de amônio, ao diquate, ao clorotalonil e ao metribuzim. Todas essas substâncias perderam a aprovação para uso fitossanitário na União Europeia, embora por decisões e fundamentos regulatórios que não são necessariamente idênticos.

A atrazina é um exemplo particularmente expressivo. Esse herbicida deixou de ser aprovado na União Europeia há mais de duas décadas, em um contexto de preocupações com a contaminação das águas subterrâneas. No Brasil, entretanto, continua presente no mercado, e o Ato nº 67 registra autorizações de importação envolvendo diferentes produtos comerciais associados à substância. Entre as empresas mencionadas estão a brasileira Araguaia S.A. e a Sumitomo Chemical Brasil, integrante de um grupo empresarial sediado no Japão.

Outro caso relevante é o glufosinato de amônio, herbicida cuja aprovação europeia expirou em 2018. O documento brasileiro menciona diferentes formulações comerciais relacionadas à substância, demonstrando a continuidade de operações administrativas envolvendo esse ingrediente ativo. O diquate, outro herbicida cuja aprovação não foi renovada na União Europeia, também aparece entre os produtos contemplados pelas autorizações de importação.

O clorotalonil merece atenção especial porque permite observar a participação de fabricantes estrangeiros na cadeia brasileira de agrotóxicos. O item 7 do Ato nº 67 inclui uma unidade fabricante da Jiangsu Lanfeng Biochemical Co., Ltd., localizada na China, no registro de um produto técnico associado à substância. A União Europeia decidiu não renovar a aprovação do clorotalonil em 2019, diante de preocupações relacionadas aos seus riscos toxicológicos e ambientais.

Há ainda o caso do metribuzim, cuja aprovação europeia não foi renovada em outubro de 2024. A decisão determinou a retirada das autorizações dos produtos que continham a substância até maio de 2025, com encerramento do prazo máximo de utilização dos estoques em novembro daquele ano. No Ato nº 67, o item 145 registra uma autorização de importação do produto comercial Metrimil 48% SC pela empresa Agroallianz S.A., cuja composição deve ser confirmada no cadastro oficial para estabelecer documentalmente sua correspondência com o ingrediente ativo.

Esses exemplos demonstram que a diferença entre as políticas regulatórias brasileira e europeia não é apenas uma questão histórica. Ela continua aparecendo nas decisões administrativas contemporâneas, inclusive naquelas relacionadas à importação e à manutenção de produtos já registrados.

Multinacionais, empresas brasileiras e fabricantes chineses

Outro aspecto que chama atenção nos atos analisados é a diversidade de empresas envolvidas nas operações de registro e pós-registro. O Ato nº 67 menciona companhias brasileiras, subsidiárias de grupos internacionais e fabricantes localizados em diferentes regiões da China.

Entre as empresas identificadas estão a Sumitomo Chemical Brasil, vinculada ao grupo japonês Sumitomo Chemical; a Cargill Agrícola, pertencente a um grupo de origem norte-americana; e empresas brasileiras como Araguaia S.A., IASA do Brasil, BRA Defensivos Agrícolas e Ouro Fino.

A participação chinesa também aparece de forma expressiva. Além da Jiangsu Lanfeng Biochemical, o documento menciona empresas como Jiangsu Changqing Biotechnology e Jiangyin Suli Chemical, associadas a operações de inclusão de fabricantes ou formuladores. Esses registros ilustram a importância da indústria química chinesa na cadeia internacional de fornecimento de agrotóxicos destinados ao Brasil.

É necessário distinguir, entretanto, a nacionalidade dos grupos empresariais do país em que cada produto é efetivamente fabricado. Uma multinacional japonesa ou norte-americana pode comercializar produtos formulados na China ou em outros países, enquanto empresas brasileiras podem atuar principalmente como titulares de registros, importadoras ou distribuidoras.

Essa organização internacional do setor coloca uma questão que merece maior transparência: quais empresas efetivamente fabricam os ingredientes ativos utilizados no Brasil, onde estão localizadas suas unidades industriais e quais substâncias comercializadas no país já não podem ser utilizadas como agrotóxicos na União Europeia?

Os pós-registros: uma engrenagem pouco visível

A principal contribuição do Ato nº 67 para esta análise está na demonstração de que a autorização de um agrotóxico não termina com a concessão do registro inicial. Depois dessa etapa, diferentes procedimentos administrativos podem modificar as condições de fabricação, importação, comercialização e utilização do produto.

Entre as operações identificadas no documento estão a inclusão de novos fabricantes e formuladores, a autorização de importadores, a transferência de titularidade, a alteração de marcas comerciais e a ampliação das recomendações de uso para determinadas culturas agrícolas.

É justamente nessa etapa que se encontra uma dimensão frequentemente negligenciada do debate público sobre agrotóxicos. Uma substância pode permanecer registrada durante anos e, ao longo desse período, ter sua cadeia de fornecimento reorganizada, receber novos importadores ou passar a ser utilizada em culturas adicionais, conforme as autorizações concedidas pelos órgãos responsáveis.

Isso não significa que cada alteração resulte necessariamente em aumento do consumo de agrotóxicos. Entretanto, tais decisões podem criar condições comerciais para ampliar sua disponibilidade e, em alguns casos, suas possibilidades de utilização. Por essa razão, os pós-registros também deveriam ser acompanhados por pesquisadores, organizações da sociedade civil e órgãos de fiscalização ambiental e sanitária.

A ampliação das culturas autorizadas merece atenção particular, pois pode modificar os cenários de exposição dos trabalhadores rurais, dos consumidores e dos ecossistemas. A avaliação desses efeitos depende das características toxicológicas e ambientais de cada substância, das doses autorizadas, das modalidades de aplicação e das condições concretas de utilização.

O que os três atos revelam quando analisados em conjunto

A leitura integrada dos Atos nº 65, 66 e 67 permite observar duas dimensões complementares da política brasileira de agrotóxicos. A primeira está relacionada à concessão de registros e à entrada de produtos no mercado. A segunda envolve a manutenção e a reorganização das condições comerciais e técnicas dos produtos já autorizados.

Essa distinção é importante porque o debate público costuma concentrar-se na quantidade de novos registros concedidos pelo Ministério da Agricultura. Embora esse indicador seja relevante, ele não revela sozinho a dinâmica do mercado. Também é necessário acompanhar as alterações posteriores, especialmente quando envolvem ingredientes ativos que já perderam a aprovação em outros sistemas regulatórios.

A comparação com a União Europeia não significa que todas as substâncias autorizadas no Brasil sejam proibidas naquele mercado. O glifosato, por exemplo, teve sua aprovação europeia renovada até dezembro de 2033, embora sujeito a condições e restrições. O problema está precisamente na necessidade de distinguir as substâncias que continuam aprovadas daquelas que foram retiradas do mercado europeu por decisões regulatórias específicas.

Também não se pode afirmar, apenas com base nos atos examinados, que uma autorização concedida em um deles tenha provocado diretamente uma alteração registrada em outro. Para demonstrar essas conexões seria necessário cruzar os números de registro, os processos administrativos e os respectivos titulares.

Ainda assim, os documentos mostram que a política brasileira de agrotóxicos funciona por meio de uma sucessão de decisões que, consideradas em conjunto, sustentam a operação de um mercado amplo e internacionalizado.

Quem se beneficia e quem assume os riscos?

A questão mais importante colocada por esses documentos ultrapassa os procedimentos administrativos. Ela diz respeito à distribuição dos benefícios econômicos e dos riscos associados ao uso de agrotóxicos no Brasil.

As empresas fabricantes, importadoras e distribuidoras participam de um mercado que depende da manutenção de registros e da autorização de operações comerciais. Por outro lado, trabalhadores rurais, comunidades próximas às áreas de aplicação e consumidores podem estar expostos a diferentes riscos, cuja intensidade depende das substâncias utilizadas e das condições de exposição.

A existência de ingredientes ativos não aprovados na União Europeia não constitui, isoladamente, prova de que sua utilização no Brasil provoque determinado dano. Entretanto, representa uma justificativa importante para examinar as razões científicas das decisões europeias e confrontá-las com as avaliações utilizadas pelas autoridades brasileiras.

É igualmente necessário que o Ministério da Agricultura, a Anvisa e o Ibama assegurem transparência sobre os fundamentos das decisões de registro e pós-registro, incluindo os estudos toxicológicos, ambientais e agronômicos pertinentes.

A sociedade brasileira precisa saber não apenas quantos produtos foram autorizados, mas também quais substâncias eles contêm, quem as fabrica, onde são produzidas e quais riscos foram considerados aceitáveis pelas autoridades responsáveis.

Uma política que exige mais transparência e escrutínio público

A análise conjunta dos três atos publicados em outubro de 2026 reforça a necessidade de acompanhar a política brasileira de agrotóxicos para além dos anúncios de novos registros. O Ato nº 67 demonstra que as decisões posteriores à autorização inicial também fazem parte da organização econômica e regulatória desse mercado.

A presença de produtos associados à atrazina, ao glufosinato, ao diquate, ao clorotalonil e possivelmente ao metribuzim, juntamente com a participação de empresas brasileiras e estrangeiras, revela a importância de investigar permanentemente as diferenças entre os padrões regulatórios adotados no Brasil e na União Europeia.

O que está em discussão não é apenas a liberdade de comercialização de produtos agrícolas, mas a capacidade do Estado brasileiro de demonstrar, com base em evidências científicas e informações públicas acessíveis, que suas decisões protegem adequadamente a saúde humana e o meio ambiente.

Enquanto substâncias que perderam aprovação na União Europeia continuam aparecendo em operações de registro e pós-registro no Brasil, permanece uma pergunta fundamental: por que produtos considerados incompatíveis com os critérios regulatórios europeus continuam encontrando espaço no mercado brasileiro, e quais evidências sustentam essa diferença de tratamento?

Responder a essa pergunta deveria ser uma prioridade para os órgãos reguladores, para a comunidade científica e para todos os setores interessados na construção de uma agricultura que não transfira à sociedade e ao meio ambiente custos que deveriam ser devidamente avaliados e prevenidos.

A linha de frente do colonialismo de carbono

A transição para energia verde oferece esperança. Mas cada bateria, rede elétrica, turbina eólica e veículo elétrico necessita de enormes quantidades de matérias-primas

Uma escavadeira transporta sal durante a inauguração da fábrica de carbonato de lítio, dependente do Ministério de Hidrocarbonetos e Energia da Bolívia, no Complexo Industrial YLB, em 15 de dezembro de 2023, em Potosí, Bolívia. Foto de Gaston Brito Miserocchi / Getty Images.

Por Monica Piccinini para “The Ecologist”

A Europa quer carros e baterias elétricas. A China está investindo pesadamente em tecnologias renováveis. Governos de todo o mundo assumiram compromissos para reduzir as emissões de carbono de suas economias.

Mas existe outra corrida por trás dessa promessa: uma corrida pelos minerais, terras e recursos naturais necessários para torná-la realidade.

Grande parte do que as economias mais ricas do mundo desejam está sob as terras do Sul Global, e essa parte da história recebe muito menos atenção.

Colonialidade

Comunidades indígenas, tradicionais e rurais, juntamente com os ecossistemas mais frágeis do mundo, estão sendo chamadas a pagar o preço. A América do Sul está, mais uma vez, no centro disso.

Por mais de cinco séculos, a América do Sul tem fornecido ao mundo exterior suas riquezas. Da prata e do ouro levados durante a colonização europeia, ao açúcar, à borracha, à madeira, ao petróleo, ao gás, à soja, à carne bovina e a outras commodities. 

Agora o mundo quer lítio, cobre, níquel , cobalto e outros minerais classificados como “críticos”. As commodities e os países que competem por elas podem mudar, mas o padrão de quem extrai os recursos e quem sofre as consequências permanece dolorosamente familiar .

Os pesquisadores têm um nome para isso: a “colonialidade da transformação verde”, um termo que eles usaram em artigos escritos para a revista The Sociological Review , por exemplo. 

Seguro

Argumenta-se que a transição verde está intensificando antigos padrões de extração. As matérias-primas saem das regiões mais pobres, que arcam com grande parte dos danos ambientais, enquanto os países mais ricos desfrutam dos benefícios. Agora, essas mesmas práticas podem ser defendidas como ação climática.

Perder suas terras ou água não dói menos porque o lítio extraído delas será usado em um carro elétrico. 

E quando uma floresta se torna um crédito de carbono que uma empresa pode negociar, ela não deixa de ser o lar, o território, a história e a fonte de vida de alguém. Chamá-la de “compensação” não muda nada disso.

A disputa por esses recursos agora envolve atores mais poderosos . A China construiu uma forte posição econômica na América do Sul e é um importante parceiro comercial para países como Brasil e Chile.

Os Estados Unidos e a União Europeia também estão tentando garantir o acesso às matérias-primas da região.

Quem decidiu que esses lugares poderiam ser sacrificados? E quem se beneficia com isso?

Investimento

Assim, a divisão entre “Ocidente” e “Resto do Mundo” já não é exatamente a mais adequada. E o papel atribuído à América do Sul na economia mundial praticamente não mudou: fornecer o que os poderosos precisam.

Isso não pode ser atribuído a um único governo ou a uma única crença política. Um artigo de pesquisa de 2026 publicado na revista Humanities and Social Sciences Communications, da Springer Nature , argumenta que o colonialismo verde vai além da extração mineral. 

Ioannis Rigkos-Zitthen, pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Roskilde, na Dinamarca, e autor da pesquisa, aponta para as desigualdades inerentes à organização global da produção e do consumo. 

Ele argumenta que a verdadeira questão não é se o mundo deve abandonar os combustíveis fósseis, mas quem controla os recursos necessários para essa transição. 

Ele afirmou: “A demanda por minerais críticos pode criar oportunidades reais de desenvolvimento, mas a questão crucial é quem controla a extração, o processamento e o investimento; quem captura o valor; e quem arca com os custos ambientais e sociais.”

Demanda

Para países como o Chile e o Brasil, diz ele, ganhar dinheiro com exportações não é suficiente. Eles também precisam ter o poder de determinar como seus recursos são desenvolvidos e se determinados projetos devem ou não prosseguir. 

Ele explicou: “Governos e comunidades devem ter a capacidade de determinar o ritmo e os termos do desenvolvimento, inclusive quando um projeto proposto não for aceitável.”

Governos de esquerda, direita e centro mantiveram a exploração em curso, incluindo aqueles eleitos com promessas de mudança. Alguns exigem uma parcela maior para o Estado ou prometem distribuir os lucros de forma mais justa. 

Mas a pressão para abrir terras para mineração, petróleo, gás, agricultura industrial e outras formas de extração permanece. Agora eles podem dizer que esses recursos são necessários não apenas para o crescimento, mas também para salvar o planeta.

O Chile demonstra na prática o que isso significa. Seus vastos depósitos de lítio e cobre são cada vez mais importantes à medida que cresce a demanda por carros elétricos, baterias e infraestrutura de energia renovável. 

Escasso

Segundo a pesquisa, aproximadamente 87% das exportações chilenas consistem em matérias-primas com pouco ou nenhum processamento, enquanto a mineração representa mais da metade das exportações do país há décadas.

O Chile é o maior produtor mundial de cobre e o segundo maior produtor de lítio, possuindo algumas das maiores reservas de ambos os minerais.

Em 2040, a demanda europeia por lítio poderá ser 14 vezes maior do que em 2020, principalmente devido às baterias para carros elétricos e ao armazenamento de energia. 

Para o Chile, isso significa uma pressão crescente do exterior para extrair mais minerais que outros países precisam para atingir suas metas climáticas.

Grande parte dessa mineração ocorre no Deserto do Atacama, um dos lugares mais secos da Terra. Ali, as minas competem pela escassa água com agricultores, comunidades e os ecossistemas vivos.

Poluição

Pesquisadores contabilizaram 758 depósitos de rejeitos de mineração criados ao longo do tempo. Esses resíduos contêm produtos químicos e metais pesados ​​que poluem o solo, a água e o ar, e eventualmente entram na cadeia alimentar. 

Algumas áreas de mineração foram chamadas de “zonas de sacrifício “: locais onde pessoas e natureza são obrigadas a suportar os danos para que a vida econômica em outros lugares possa continuar. 

Pense nessas duas palavras: zonas de sacrifício. Quem decidiu que esses lugares poderiam ser sacrificados? E quem se beneficia com isso?

Um carro elétrico numa rua europeia pode ser mais limpo no local onde circula, mas a sua história começou muito antes de alguém o ligar a um ponto de carregamento. O cobre e o lítio que o compõem vieram de algum lugar. 

A pressão sobre a água, a poluição e os resíduos da mineração não desaparecem só porque o motorista não os vê.

Interrupção

Rigkos-Zitthen alerta que a forma como os países medem o progresso ambiental pode ocultar esses custos. 

Um país pode reduzir a poluição dentro de suas próprias fronteiras, ao mesmo tempo que depende de produtos importados cuja extração e produção danificaram o meio ambiente em outros lugares. 

Ele explicou: “Sim, o progresso ambiental pode ser mal interpretado se for medido apenas pelas emissões e pela poluição geradas dentro das fronteiras nacionais. 

“As medidas baseadas na produção continuam sendo úteis, mas as contas baseadas no consumo revelam as pressões ambientais incorporadas nos bens importados.”

Ele argumenta que as emissões de carbono por si só contam apenas parte da história. “A contabilização de carbono sozinha não consegue captar todas as consequências da mineração, incluindo o uso da água, a perturbação dos ecossistemas, os resíduos e a alteração territorial.”

Custo

Segundo dados citados por alguns pesquisadores, a mineração de cobre consome cerca de 35% da eletricidade do Chile e 20% do seu combustível diesel. O setor de mineração é responsável por cerca de 21% das emissões de gases de efeito estufa do país.

Comunidades indígenas, tradicionais e rurais estão especialmente expostas a essa corrida por minerais.

Um estudo publicado na revista Nature Sustainability analisou 5.097 projetos envolvendo minerais necessários para a transição energética. 

O estudo constatou que 54% das áreas estavam localizadas em terras indígenas ou próximas a elas. Incluindo as terras de camponeses, esse número sobe para 69%. No caso das reservas e recursos de lítio, a sobreposição com terras indígenas foi de 85%.

O relatório “Transition Minerals Tracker 2026” do Business & Human Rights Resource Centre mostra o custo humano por trás desses números. 

Sobrepostos

O estudo registrou 447 denúncias de abuso relacionadas à extração de minerais em transição na América do Sul desde 2010, sendo 97 somente em 2025. Das denúncias registradas em 2025, 64 diziam respeito ao cobre e dez ao lítio. O Peru registrou 26 e o ​​Chile 25. 

Os relatórios levantam repetidamente problemas relacionados à água e à poluição, consultas deficientes, falhas na obtenção do consentimento livre, prévio e informado, ataques a pessoas que defendem suas terras e violações dos direitos indígenas. 

Essas são alegações, não provas de que todas as empresas citadas sejam responsáveis. Mas os números revelam a dimensão das preocupações em torno de um setor promovido como essencial para o combate às mudanças climáticas. 

O colonialismo nunca se resumiu apenas à ocupação de terras. Tratava-se também do poder de decidir que as terras, os recursos e o trabalho de outro povo poderiam ser usados ​​para servir à ideia de progresso de outrem.

No Brasil, a escala é impressionante. Uma investigação da Repórter Brasil , utilizando dados do Observatório da Transição Energética, encontrou 2.055 aplicações ou processos de mineração que se sobrepunham a, ou estavam a menos de dez quilômetros de, 278 territórios indígenas. 

Meios de subsistência

Isso corresponde a 44% das terras indígenas do país abrangidas pelo estudo. Das 29.213 solicitações e processos examinados para 27 minerais, metade foi protocolada entre 2021 e 2025. 

Nem todas essas minas estão em funcionamento, mas elas mostram como os territórios indígenas podem ficar cercados por interesses de mineração muito antes do início das escavações.

Para Rigkos-Zitthen, a urgência de combater as mudanças climáticas não justifica a tomada de decisões que não cabem às pessoas cujas terras e meios de subsistência estão em risco. 

Ele disse: “A urgência climática não deve ser interpretada como uma permissão para suspender os direitos democráticos ou desconsiderar as reivindicações territoriais. 

“Projetos promovidos como necessários para um bem público global podem impor custos concentrados às comunidades cujas terras, água e meios de subsistência são diretamente afetados.”

Fertilizantes

A importância de um projeto para a economia global também não pode automaticamente sobrepor-se às objeções da comunidade. 

Ele acrescentou: “As decisões devem respeitar a legislação aplicável e os direitos dos povos indígenas, incluindo o consentimento livre, prévio e informado, quando necessário, e criar possibilidades reais de alterar, realocar ou rejeitar um projeto.”

A Coalizão SIRGE alertou que a mineração está sendo rotulada como verde, enquanto as antigas disputas sobre terras indígenas e consentimento permanecem sem solução.

Na Amazônia, uma promessa diferente de desenvolvimento trouxe consigo uma luta semelhante por direitos.

Em Autazes, no estado brasileiro do Amazonas, a Potássio do Brasil, subsidiária da empresa canadense Brazil Potash, está desenvolvendo um projeto de potássio. O projeto é promovido como uma forma de tornar o Brasil menos dependente da importação de fertilizantes. 

Colonialismo de povoamento

Mas as comunidades Mura se opõem a ele há anos, e o projeto tem sido alvo de questionamentos legais devido aos seus efeitos sobre suas terras e vidas. 

O Ministério Público Federal (MPF) do Brasil contestou as licenças ambientais, alegando que os direitos indígenas , os impactos no território e o dever de consultar as comunidades não foram devidamente respeitados.  

Em maio de 2026, o MPF solicitou novamente o cancelamento das licenças. A empresa afirma que seu processo de consulta e suas autorizações são válidos e informou ter recebido uma decisão favorável da Suprema Corte em agosto.

O Chile também demonstra que essas desigualdades não começaram com a chegada de uma mina. Elas foram construídas ao longo de gerações. 

A pesquisa realizada no município de Valdivia revela a distribuição desigual dos benefícios e perigos ambientais decorrentes do colonialismo de povoamento, do deslocamento das comunidades Mapuche, do devastador terremoto de 1960 e, posteriormente, do desenvolvimento urbano neoliberal.

Problemas

O colonialismo deixa a sua marca na terra: quem a possui, quem é marginalizado, quem tem espaço verde e quem convive com os seus riscos.

A mineração é apenas parte da história. A Amazônia agora é valiosa não apenas pelo que pode ser extraído dela, mas também pelo carbono que a floresta pode armazenar.

Os mercados de carbono atribuem um preço ao carbono armazenado pelas florestas. Créditos podem então ser comprados e vendidos, de modo que a poluição em um local seja supostamente compensada, pelo menos em teoria, pela proteção do carbono em outro.

A promessa parece boa. Proteger as florestas, apoiar as comunidades e combater as mudanças climáticas ao mesmo tempo. 

No entanto, estudos sobre projetos de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+) na Amazônia encontraram problemas sérios . 

Agarrando

Essas restrições incluem limitações às formas tradicionais de uso da terra, benefícios financeiros muito menores do que as comunidades indígenas e tradicionais esperavam e conflitos sobre quem controla o território.

Pessoas que pouco contribuíram para as mudanças climáticas podem ser orientadas a mudar seu estilo de vida em suas próprias terras, enquanto empresas e consumidores em outros lugares continuam poluindo e comprando créditos de carbono para compensar as perdas. 

Os pesquisadores chamam isso de “colonialismo de carbono”.

Esses mercados não surgem em terrenos baldios. Eles se instalam em lugares onde as pessoas lutaram pela posse da terra durante gerações. 

Grandes áreas da Amazônia brasileira ainda apresentam títulos de propriedade incertos ou contestados. Pesquisadores alertam que projetos de crédito de carbono podem se tornar alvo de grilagem de terras e especulação imobiliária.

Ecossistemas

Em 2024, a Polícia Federal do Brasil investigou uma organização criminosa acusada de usar projetos de carbono para dar a aparência de legitimidade ao roubo de cerca de meio milhão de hectares de terras públicas.

Isso não é justiça climática.

As mudanças climáticas são reais, perigosas e já estão afetando muitas das mesmas comunidades que são o foco desta história. Abandonar os combustíveis fósseis é essencial. 

Mas uma transição que continua a retirar terras e recursos das regiões mais pobres, ao mesmo tempo que nega às comunidades voz ativa no seu futuro, corre o risco de reproduzir as desigualdades que deveria ajudar a superar. 

Os pesquisadores propuseram outras maneiras de pensar sobre a transição: parar de transferir os danos ambientais para os outros, construir economias locais mais fortes, proteger a capacidade das pessoas de cultivar seus próprios alimentos, compartilhar a riqueza de forma mais justa, manter os ecossistemas saudáveis ​​e parar de tratar cada parte da natureza como algo para comprar e vender.

Responsabilidade

Rigkos-Zitthen acredita que uma transição verdadeiramente justa também deve questionar a premissa de que o crescimento econômico é sempre a medida do progresso. Mas ele rejeita a ideia de que se deva esperar que todos, em todos os lugares, consumam menos. 

Ele disse: “As sociedades ricas têm responsabilidades específicas em reduzir o consumo excessivo de materiais do ponto de vista ecológico, enquanto as sociedades mais pobres devem manter a capacidade de expandir o acesso à habitação, saúde, energia, infraestrutura e outras necessidades essenciais. 

“A questão fundamental não é simplesmente o quanto as economias crescem, mas o que é produzido, para quem, sob o controle de quem e com quais consequências sociais e ecológicas.”

Ele também rejeita a ideia de que as pessoas comuns devam arcar com a principal responsabilidade pela mudança de seus estilos de vida quando opções mais sustentáveis ​​ainda estiverem além de suas possibilidades.

“É profundamente problemático atribuir a responsabilidade principal pela transição ecológica às pessoas comuns, enquanto as estruturas econômicas que moldam suas escolhas permanecem praticamente inalteradas. 

Transição

“Não podemos simplesmente culpar as famílias por não comprarem veículos elétricos ou por não terem acesso a alimentos mais sustentáveis ​​quando essas alternativas continuam economicamente inacessíveis para muitos.” 

“Uma transição justa deve transformar as condições de acesso, produção e distribuição, em vez de moralizar o consumo individual.” 

As consequências políticas de ignorar essas desigualdades podem ser graves.

Rigkos-Zitthen alerta que, quando as políticas climáticas são vistas como injustas ou impostas de cima para baixo, a raiva resultante pode ser explorada por movimentos de extrema-direita e autoritários. 

Mas essas mesmas queixas também podem impulsionar reivindicações por uma transição mais justa e democrática. 

Redistribuição

Ele explicou: “Quando as políticas climáticas são percebidas como impostas de cima para baixo, com seus custos afetando desproporcionalmente famílias comuns e comunidades vulneráveis, as queixas resultantes podem ser exploradas por movimentos de extrema direita e autoritários. 

“No entanto, essas queixas também podem se tornar a base para a mobilização política democrática e progressista, exigindo maior justiça social, redistribuição e participação popular na transição ecológica.” 

“O desafio político não é ignorar essas queixas, mas desenvolver instituições democráticas capazes de lidar com elas.”

Para ele, uma transição mais justa significa dar às pessoas poder genuíno sobre as decisões que moldam suas vidas, em vez de simplesmente consultá-las depois que as escolhas importantes já foram feitas. 

Ele disse: “A lição deles não é simplesmente que as comunidades locais devem ser consultadas com mais frequência; é que as instituições democráticas devem ser capazes de redistribuir o poder de tomada de decisão.

Sacrifício

“Meu argumento mais amplo é que as iniciativas de base, as práticas comunitárias e as economias solidárias precisam desenvolver relações com instituições públicas, organizações políticas e coalizões que operam em diferentes escalas geográficas para que possam transformar as estruturas mais amplas que moldam suas possibilidades.”

Em vez de perguntarmos como o Sul Global pode produzir o suficiente para a transição do Norte, deveríamos perguntar como seria essa transição se as comunidades, suas terras e os limites da natureza viessem em primeiro lugar.

A crise climática exige mudanças profundas. Mas se as comunidades indígenas, tradicionais e rurais ainda precisam defender suas terras de forasteiros, se a América do Sul ainda é tratada como um depósito de matérias-primas, se potências distantes ainda decidem o valor das florestas e dos rios, e se alguns ainda consomem enquanto outros precisam se sacrificar, então o colonialismo não acabou. 

Foi apenas pintado de verde. 

Este autor

Monica Piccinini é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma,  YourVoiz.org .


Fonte: The Ecologist

A fuga das galinhas: Flávio Bolsonaro, as cartas do autoexílio e o conforto de quem nunca precisou trabalhar

Da escapada para os Estados Unidos às sucessivas versões de sua carta de exílio, o candidato derrotado deixa para trás perguntas sobre a origem dos recursos que sustentarão sua nova vida

Se alguém tivesse perguntado, antes da apuração dos votos da eleição presidencial, o que poderia acontecer no Brasil depois de conhecido o resultado das urnas, dificilmente alguém teria previsto que o país acabaria assistindo a uma espécie de versão política do filme de animação Fuga das Galinhas, protagonizada pela espetaculosa escapada do candidato derrotado rumo aos Estados Unidos.

Mas a comparação com Fuga das Galinhas se torna ainda mais apropriada quando observamos o roteiro seguido por Flávio Bolsonaro. Não me refiro apenas à saída do território nacional pela fronteira com a Argentina, seguida de uma passagem pelo Equador antes da chegada aos Estados Unidos. Refiro-me, sobretudo, ao roteiro político que o primogênito de Jair Bolsonaro resolveu encenar, com a divulgação de quatro versões de sua suposta carta de exílio. Trata-se de uma tentativa de apropriação de uma condição que muitos brasileiros conheceram de maneira dolorosa, especialmente durante a ditadura militar instaurada em 1964. No caso de Flávio, entretanto, não estamos diante de alguém obrigado a abandonar o país por viver sob um regime ditatorial. Minha interpretação é que estamos diante de um autoexílio motivado por interesses financeiros e pela tentativa de escapar de explicações sobre negócios nebulosos. Por trás do fino verniz de denúncia de uma suposta perseguição política, permanecem questões que merecem esclarecimento, a começar pela alegada participação de Daniel Vorcaro no financiamento do filme Dark Horse.

Já relatei em outras oportunidades minha experiência de ter vivido nos Estados Unidos por mais de sete anos. Durante esse período, morei em diferentes estados e conheci de perto aquilo que se costuma chamar de Estados Unidos profundos, inclusive o coração dos Apalaches, uma região cuja extraordinária beleza natural contrasta com a pobreza que marca a vida de parte significativa de sua população. Dessa experiência nasceu um profundo respeito pela tenacidade e pela capacidade de resistência dos trabalhadores estadunidenses. Afinal, por trás do chamado sonho americano existe uma realidade muito menos rósea do que aquela vendida pela propaganda, mesmo em uma sociedade marcada pela abundância de bens de consumo e pelas possibilidades materiais oferecidas pela maior economia do planeta.

Flávio Bolsonaro certamente não terá de experimentar as dificuldades que conheci durante minha permanência naquele país. Sua chegada aos Estados Unidos ocorre em um contexto de proximidade política com o governo de Donald Trump e, ao que tudo indica, em condições financeiras que lhe permitirão viver em uma bolha social acessível a uma parcela diminuta da população estadunidense. E aqui surge uma questão que deveria incomodar todos os brasileiros, inclusive aqueles que votaram nele: de onde virão os recursos necessários para sustentar a vida confortável que Flávio e sua família poderão desfrutar em território estadunidense? A remuneração de um senador brasileiro, por si só, não parece suficiente para explicar um padrão elevado de despesas no exterior. E tampouco a famosa lojinha de chocolates na Barra da Tijuca oferece uma resposta evidente para essa pergunta.

O curioso é que, pelo que tenho lido e ouvido desde que a saída de Flávio Bolsonaro se consumou, muitos daqueles que se beneficiaram eleitoralmente da franquia Bolsonaro parecem agora empenhados em se distanciar de seu antigo candidato presidencial. Ainda que alguns continuem encenando lealdade por mais algum tempo, a possibilidade de um progressivo isolamento político parece bastante concreta. Nesse cenário, Flávio poderá acabar experimentando um destino semelhante ao de Juan Guaidó, que chegou a se autoproclamar presidente interino da Venezuela e contou, durante algum tempo, com expressivo reconhecimento internacional, mas acabou perdendo protagonismo político. A comparação é especialmente irônica quando lembramos que Guaidó chegou a desfrutar de uma projeção internacional que Flávio Bolsonaro nunca alcançou.

Enquanto isso, para nós que permanecemos no Brasil, a realidade continuará sendo bem menos cinematográfica. Teremos de seguir fazendo aquilo que sustenta a vida da imensa maioria dos brasileiros e que Flávio Bolsonaro jamais precisou experimentar nas mesmas condições: vender nossa força de trabalho para garantir o próprio sustento.

No fim das contas, talvez essa seja a maior ironia de toda essa história. Enquanto o protagonista de nossa versão tropical de Fuga das Galinhas procura construir uma narrativa de perseguição e exílio, milhões de brasileiros continuarão acordando cedo, enfrentando jornadas exaustivas e tentando sobreviver com o resultado de seu trabalho. Para esses brasileiros, não existe carta de exílio, proteção de governos estrangeiros ou a possibilidade de uma vida confortável longe dos problemas nacionais. Existe apenas a obrigação cotidiana de trabalhar para viver.

Sem bets, mais comida na mesa: o que os cartolas do futebol não querem enxergar

A recuperação do consumo de alimentos após a proibição das apostas online expõe a contradição dos dirigentes de clubes que defendem os lucros das bets acima do bem-estar de seus próprios torcedores

A notícia publicada pelo Monitor Mercantil, com base em informações da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), sobre o aumento do consumo após a proibição das bets no Brasil traz um elemento fundamental para o debate sobre os efeitos econômicos e sociais das apostas online. Embora ainda seja necessário estabelecer com maior precisão a relação entre a proibição e a recuperação do consumo, os dados apresentados apontam para uma possibilidade bastante significativa: o dinheiro que antes alimentava as plataformas de apostas pode estar retornando aos supermercados e, consequentemente, à mesa das famílias brasileiras.

Esse resultado merece atenção especial em um país onde milhões de pessoas enfrentam dificuldades para garantir uma alimentação adequada. Afinal, quando recursos familiares deixam de ser consumidos pelas apostas e passam a financiar a compra de alimentos, não estamos diante apenas de uma mudança nos hábitos de consumo, mas de uma possível melhoria concreta nas condições de vida da população.

É justamente nesse contexto que se torna particularmente indefensável a postura dos dirigentes de clubes de futebol que continuam pressionando pela liberalização das apostas online. Sob o argumento de que a proibição compromete contratos milionários de patrocínio, esses cartolas parecem considerar mais importante preservar as receitas de suas agremiações do que enfrentar os prejuízos econômicos e sociais provocados pela indústria das bets.

A contradição é evidente. Os mesmos clubes que dependem da paixão de milhões de torcedores, muitos deles trabalhadores de baixa renda, defendem a continuidade de um modelo de financiamento que pode contribuir para o endividamento e o empobrecimento dessas mesmas famílias. Em outras palavras, querem continuar recebendo dinheiro de empresas que lucram quando seus clientes perdem.

O futebol brasileiro precisa encontrar formas de financiamento que não dependam da vulnerabilidade econômica de seus torcedores. A incapacidade dos dirigentes de controlar despesas e diversificar receitas não pode servir de justificativa para manter uma atividade que pode comprometer o orçamento doméstico de milhões de brasileiros.

Se a retirada das bets está contribuindo para colocar mais alimentos na mesa das famílias, os dirigentes do futebol deveriam ser os primeiros a reconhecer esse benefício, em vez de trabalhar para restaurar os lucros das empresas de apostas. No fim das contas, a questão é muito simples: o que deve ter prioridade no Brasil — a comida na mesa dos trabalhadores ou os milhões das bets nos cofres dos clubes de futebol? A resposta deveria ser óbvia. Infelizmente, para muitos cartolas, parece não ser.

“Fuga das Galinhas” à la Bolsonaro: Flávio prometeu resistência até o fim, mas escolheu a escapada noturna após a derrota nas urnas

Derrotado por Lula após receber cerca de 60 milhões de votos, senador deixa o Brasil em menos de 48 horas, descumpre ordem judicial e transforma seu discurso de resistência em um roteiro que parece saído de uma comédia cinematográfica

Se os roteiristas da animação “Fuga das Galinhas“ estivessem procurando inspiração para uma continuação brasileira, talvez encontrassem no senador Flávio Bolsonaro um personagem bastante peculiar. Afinal, não é todo dia que um candidato à Presidência da República recebe cerca de 60 milhões de votos, anuncia disposição para contestar o resultado eleitoral e, menos de 48 horas depois, aparece nos noticiários internacionais como protagonista de uma saída apressada do país.

A diferença é que, no filme, as galinhas elaboram um plano para escapar de um galinheiro onde estão ameaçadas de morte. Na versão brasileira, o protagonista não está tentando escapar de uma ditadura, de um campo de concentração ou de qualquer regime que tenha suprimido seus direitos políticos. Flávio está deixando um país no qual acaba de disputar livremente a Presidência da República, recebeu dezenas de milhões de votos e continua ocupando uma cadeira no Senado Federal.

O contraste entre a retórica e os acontecimentos dificilmente poderia ser mais cinematográfico.

Da promessa de resistência ao desaparecimento em tempo recorde

No domingo, 25 de outubro, Flávio Bolsonaro foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais. Mesmo assim, o senador questionou a legitimidade do resultado e defendeu medidas para impedir a consolidação da vitória adversária.  A mensagem política era de enfrentamento. A promessa era de resistência. O cenário anunciado parecia exigir disposição para permanecer no Brasil e sustentar publicamente suas acusações.

Entretanto, na terça-feira, 27 de outubro, a narrativa ganhou um capítulo inesperado. Enquanto a Polícia Federal aguardava a entrega de seus passaportes, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, o senador já estaria a caminho dos Estados Unidos. Posteriormente, fontes ligadas ao governo norte-americano confirmaram sua chegada ao território estadunidense e a disposição de conceder vistos à família.

Entre o discurso de resistência e a saída do país transcorreram menos de 48 horas. Para os milhões de eleitores que acreditaram na promessa de uma batalha política em território nacional, a mudança de cenário certamente merece explicações.

Afinal, como sustentar uma campanha pela anulação de uma eleição brasileira estando a milhares de quilômetros de Brasília?

Uma fuga com escalas ideológicas

Outro elemento curioso da história é a possível rota utilizada para deixar o Brasil. Reportagens mencionaram uma passagem pela Argentina, governada por Javier Milei, antes da chegada aos Estados Unidos de Donald Trump.

As autoridades argentinas, entretanto, afirmaram não ter registros da entrada de Flávio Bolsonaro no país. Portanto, essa escala permanece como hipótese, e não como fato comprovado.  Ainda assim, a associação entre os destinos mencionados e os governos politicamente próximos ao bolsonarismo oferece um elemento adicional à sátira. Na geografia política dessa viagem, o destino confirmado foi justamente o país cujo presidente mantém relações de proximidade com a família Bolsonaro.

No filme “Fuga das Galinhas”, os personagens precisam construir uma engenhoca voadora para alcançar a liberdade. Na versão brasileira, aparentemente basta encontrar uma maneira de chegar aos Estados Unidos, onde o governo Trump já sinalizou disposição para receber o senador e sua família.

Mas há uma diferença essencial entre os dois roteiros: as galinhas do filme não precisavam explicar movimentações financeiras, relações empresariais ou suspeitas de lavagem de dinheiro.

O problema não é a derrota eleitoral, mas as perguntas que continuam sem resposta

A saída de Flávio Bolsonaro não ocorreu em um vazio jurídico. O senador é alvo de investigações que envolvem suspeitas de irregularidades financeiras, incluindo uma apuração relacionada ao advogado Willer Tomaz e a possíveis operações de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

A Polícia Federal apontou elementos que, em sua avaliação, indicavam risco concreto de saída do território nacional. Por isso, foi determinada a entrega dos passaportes, ordem que não foi cumprida no prazo estabelecido.

É importante ressaltar que investigações não equivalem a condenações e que Flávio Bolsonaro tem direito à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa. Mas esses direitos não dispensam ninguém do cumprimento de decisões judiciais válidas.

A questão central, portanto, não é simplesmente por que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil depois de perder a eleição. É por que decidiu fazê-lo justamente quando deveria cumprir uma ordem judicial e prestar esclarecimentos sobre fatos investigados pelas autoridades.

O episódio também recoloca em discussão as relações financeiras do senador, a origem e a movimentação de recursos associados a pessoas de seu círculo de confiança e as conexões internacionais mencionadas nas investigações. São questões que precisam ser esclarecidas com provas, e não resolvidas por meio de discursos sobre perseguição política.

As galinhas fugiam para conquistar a liberdade. Flávio deixou um país onde pôde disputar a Presidência

É nesse ponto que a comparação cinematográfica ganha seu sentido mais revelador. Na animação, a fuga é uma reação à ausência de liberdade. No episódio envolvendo Flávio Bolsonaro, a saída ocorre depois de uma eleição democrática na qual o senador participou como candidato de oposição, realizou campanha nacional e conquistou aproximadamente 60 milhões de votos.  A existência de investigações contra um político não constitui, por si só, evidência de perseguição. Da mesma forma, a derrota eleitoral não transforma automaticamente um candidato em vítima de um regime autoritário.

Se Flávio Bolsonaro considera ilegítimas as decisões judiciais que o atingem, existem instrumentos legais para contestá-las. Se considera infundadas as suspeitas sobre suas relações financeiras, pode apresentar documentos e argumentos por intermédio de sua defesa.

O que permanece sem explicação satisfatória é a contradição entre afirmar que permaneceria no país para enfrentar uma batalha política e deixar o território nacional justamente quando uma determinação judicial exigia sua colaboração.

O senador que deixou 60 milhões de votos na sala de embarque

Talvez o aspecto politicamente mais significativo dessa história seja a relação entre Flávio Bolsonaro e os eleitores que depositaram nele suas expectativas.

Receber cerca de 60 milhões de votos não é um acontecimento trivial. Trata-se de uma parcela expressiva da sociedade brasileira, formada por cidadãos que, por razões diversas, escolheram seu projeto político.

Esses eleitores têm o direito de perguntar por que o candidato que lhes prometeu resistência decidiu deixar o país tão rapidamente. Também têm o direito de saber se sua saída será temporária, se pretende continuar exercendo o mandato parlamentar e como pretende responder às determinações da Justiça brasileira.

Na animação “Fuga das Galinhas”, a solidariedade entre os personagens é fundamental para que todos consigam escapar. No episódio brasileiro, a imagem política é outra: o candidato chega aos Estados Unidos enquanto milhões de apoiadores permanecem no Brasil aguardando explicações.

E talvez esteja aí a ironia mais expressiva de toda essa história. O personagem que prometia enfrentar o sistema brasileiro agora terá de explicar, a partir do exterior, por que não permaneceu no país para sustentar suas próprias palavras.  A comparação com “Fuga das Galinhas” revela mais diferenças do que semelhanças. As galinhas da animação tinham razões concretas para escapar de seus algozes. Flávio Bolsonaro, por sua vez, precisa esclarecer as circunstâncias de sua saída e responder às questões que motivaram as investigações em andamento.

O cinema pode transformar uma fuga em aventura. Na vida pública, entretanto, nem mesmo um roteiro digno de Hollywood substitui o dever de prestar contas.

“Ou morrer pelo Brasil”: Flávio Bolsonaro deixa o país e segue para os EUA, informa CNN

Segundo a emissora, duas fontes confirmaram a saída do senador; o destino expõe a distância entre o patriotismo dos palanques e a conduta após a derrota

Segundo reportagem da CNN, assinada por Max Saltman, Mauricio Torres, Anabella Gonzalez e Kevin Liptak, Flávio Bolsonaro deixou o Brasil e seguia para os Estados Unidos após perder a eleição presidencial para Lula. A emissora afirma ter confirmado a informação com duas fontes, incluindo uma autoridade americana que informou que o senador estava em voo para a Flórida. Uma fonte brasileira próxima a Flávio acrescentou que ele temia ser preso. O senador nega irregularidades nas investigações mencionadas pela reportagem.

O relato representa uma mudança importante em relação às especulações anteriores: a CNN informa ter confirmado a saída do país e o destino americano, embora permaneça desconhecido o caminho utilizado. A passagem pela Argentina continua sem confirmação: o governo argentino declarou não possuir registro da entrada de Flávio. A reportagem também informa, citando a CNN Brasil, que seus passaportes foram cancelados e que a Polícia Federal procurava localizá-lo.

É diante desse quadro que se impõe uma pergunta: como pode um candidato que fazia a plateia cantar “Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil” deixar o país após a derrota, enquanto deveria prestar esclarecimentos às instituições brasileiras? Ninguém precisa morrer para demonstrar compromisso com o Brasil. Mas quem transforma esse verso em instrumento de mobilização política precisa explicar por que a disposição para o sacrifício desaparece quando chega a hora de enfrentar as próprias responsabilidades.

A contradição fica ainda mais evidente porque, segundo a CNN, Flávio havia declarado que não pretendia fugir e reconhecido ter sido informado pessoalmente da proibição de deixar o Brasil. A notícia de sua saída exige, portanto, explicações sobre o cumprimento dessa determinação. O temor de prisão relatado por uma fonte próxima ajuda a compreender o contexto, mas não substitui a apuração dos fatos nem constitui prova de culpa nas investigações.

Politicamente, porém, o contraste já é contundente. Durante a campanha, a pátria era apresentada como um compromisso absoluto, acompanhado de bandeiras, hinos e promessas de coragem. Depois da derrota, o destino informado pela CNN é a Flórida. Os eleitores que foram convocados a demonstrar tamanha devoção ao Brasil têm o direito de cobrar coerência daquele que pretendia governá-los.

Respeitar o resultado das urnas e responder às instituições brasileiras também são demonstrações de compromisso com o país. O patriotismo de um candidato precisa sobreviver ao encerramento do comício, à perda da eleição e ao fim das conveniências pessoais. Caso contrário, o verso cantado pela multidão acaba reduzido a uma exigência dirigida aos outros.

Flávio Bolsonaro: derrotado nas urnas, cercado por investigações e sob suspeita de fuga do Brasil

Após a derrota para Lula, a Polícia Federal apura uma possível saída do país rumo aos Estados Unidos. O passaporte italiano, os recursos financeiros e as conexões internacionais acrescentam novos elementos ao dilema que já havíamos apontado: presidente ou presidiário?

Há poucos dias, abordamos aqui no Blog do Pedlowski a situação paradoxal em que Flávio Bolsonaro se encontrava diante da possibilidade de vencer ou perder a eleição presidencial. A pergunta era provocativa, mas traduzia uma contradição concreta: presidente ou presidiário? Com a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva, o primeiro caminho foi fechado pelas urnas, enquanto o segundo permanece como possibilidade jurídica, dependente do andamento das investigações, da apresentação de provas e de eventuais decisões judiciais.

Agora, uma informação publicada pelo jornalista Lauro Jardim, em O Globo, nesta terça-feira (27), acrescenta um ingrediente potencialmente explosivo à situação. Segundo a nota, a Polícia Federal apura se Flávio Bolsonaro teria deixado o Brasil rumo aos Estados Unidos. A informação ainda não representa a confirmação de uma fuga, mas sua gravidade aumenta diante da notícia de que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou a entrega dos passaportes do senador e o proibiu de deixar o território nacional.

A possibilidade de uma saída do Brasil não surgiu do nada. O próprio Eduardo Bolsonaro, atualmente nos Estados Unidos, havia defendido publicamente que seu irmão deixasse o país caso fosse derrotado nas eleições. Além disso, reportagens recentes trouxeram à tona investigações e suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro e pessoas de seu círculo de relações, incluindo o advogado Willer Tomaz, negócios relacionados ao setor de apostas e questionamentos sobre movimentações financeiras. Há ainda notícias sobre apurações envolvendo o financiamento do filme Dark Horse, relacionado à trajetória de Jair Bolsonaro, nas quais aparece o nome do banqueiro Daniel Vorcaro. Essas referências, entretanto, não significam que tenha sido comprovada responsabilidade criminal de Flávio Bolsonaro, que nega irregularidades.

É nesse contexto que a hipótese de fuga adquire um significado político particular. Para alguém que acaba de perder uma eleição presidencial e enfrenta diferentes frentes de investigação, deixar o Brasil pode parecer uma alternativa para evitar os riscos de futuras decisões judiciais desfavoráveis. Isso não significa que os crimes investigados estejam comprovados, nem que uma prisão seja inevitável. Significa, entretanto, que a acumulação de suspeitas e procedimentos judiciais pode criar um cenário no qual a permanência no país seja percebida pelo investigado como um risco crescente.

Há ainda um elemento que não pode ser ignorado: as informações sobre a posse de um passaporte italiano por Flávio Bolsonaro. Embora a Justiça brasileira possa determinar sua apreensão e impedir que seja utilizado para deixar o país, não possui competência para anular diretamente um documento emitido pelo Estado italiano. A eventual cidadania italiana, somada à disponibilidade de recursos financeiros e às conexões internacionais de Flávio, poderia ampliar suas alternativas de deslocamento e permanência no exterior. Isso não impediria um pedido de extradição, inclusive à Itália, mas poderia acrescentar dificuldades jurídicas e diplomáticas ao processo. Em outras palavras, uma saída clandestina do Brasil não se tornaria legal pelo simples uso de um passaporte estrangeiro, mas a existência desse documento poderia representar uma vantagem prática para quem pretendesse permanecer fora do alcance imediato das autoridades brasileiras.

Há uma diferença fundamental entre ser associado publicamente a crimes, correta ou incorretamente, e ter responsabilidade criminal demonstrada perante a Justiça. Essa distinção precisa ser preservada. Entretanto, também não se pode ignorar que a dimensão das investigações e das notícias envolvendo Flávio Bolsonaro ultrapassou o terreno das disputas eleitorais e passou a produzir consequências judiciais, como a determinação de entrega de passaportes e a proibição de deixar o Brasil, conforme noticiado.

A notícia de Lauro Jardim precisa, portanto, ser acompanhada com atenção. Outras informações divulgadas nesta terça-feira mencionam uma suposta passagem pela Argentina, mas há negativas de aliados e ainda não foi apresentada confirmação pública de que Flávio tenha efetivamente deixado o território brasileiro. A confirmação ou o desmentido dessa hipótese será decisivo para compreender a extensão do episódio.

O que antes parecia uma mera hipótese— presidente ou presidiário? — transformou-se em uma questão que envolve também a possibilidade de uma terceira alternativa: a tentativa de escapar da jurisdição brasileira. A derrota eleitoral retirou de Flávio Bolsonaro a possibilidade imediata de chegar à Presidência da República, mas não eliminou as questões judiciais que o cercam. Nesse contexto, a hipótese de deixar o país pode deixar de ser apenas uma possibilidade abstrata e passar a representar uma alternativa considerada diante dos riscos de responsabilização criminal.

Se a fuga vier a ser confirmada, estaremos diante de um episódio com consequências políticas e jurídicas potencialmente graves, especialmente se houver descumprimento de uma ordem judicial. Se for descartada, permanecerá a necessidade de esclarecer as suspeitas e investigações existentes, sem antecipar condenações.

A derrota nas urnas já ocorreu. O desfecho judicial continua em aberto. E a pergunta que agora se acrescenta ao dilema original é inevitável: Flávio Bolsonaro permanecerá no Brasil para responder às investigações ou tentará encontrar no exterior uma saída para seus problemas com a Justiça?

A virada de Lula em Campos dos Goytacazes: a força da militância invisível e o potencial para a mudança

O crescimento expressivo da votação de Lula e a perda de votos de Flávio Bolsonaro no segundo turno revelam a força de uma militância popular fora das estruturas partidárias tradicionais e abrem novas possibilidades para romper a hegemonia da direita na política campista

Algo muito diferente aconteceu em Campos dos Goytacazes no segundo turno da eleição presidencial de 2026. O presidente Lula recebeu 115.927 votos, um acréscimo de 24.822 votos em relação ao primeiro turno. Já Flávio Bolsonaro totalizou 159.470 votos, o que representou uma perda líquida de 1.389 votos. Essa é uma situação efetivamente inusitada, que merece uma análise mais cuidadosa do que aquelas apresentadas por comentaristas que, após o primeiro turno, atribuíram o resultado a um suposto elitismo da esquerda local. A diferença observada entre os dois turnos coloca em xeque essas interpretações rasteiras, e vou tentar oferecer uma explicação que não caia na vala comum das análises mequetrefes.

Em primeiro lugar, não me parece crível que esse resultado seja consequência da atuação dos militantes do PT de Campos. O passado imediato, e aqui me refiro ao primeiro turno, indica que, se dependêssemos exclusivamente da militância petista, o resultado poderia ter sido ainda pior no segundo turno, repetindo a tendência observada quando Lula enfrentou Jair Bolsonaro. Em 2022, Jair Bolsonaro passou de 159.381 votos (58,01%) no primeiro turno para 171.999 votos (63,14%) no segundo, enquanto Lula saiu de 93.870 votos (34,16%) para 100.427 votos. Como explicar, então, a discrepância entre os dois turnos de 2026 e, mais ainda, a diferença em relação ao que aconteceu em 2022? Para mim, um fator decisivo foi a disposição da juventude de arregaçar as mangas por aqui, como também ocorreu no restante do país. Como Campos possui um contingente considerável de estudantes secundaristas e universitários, a entrada desse segmento nas manifestações e no corpo a corpo nas ruas deu uma energia significativa à campanha de Lula. Houve ainda divergências explícitas entre os integrantes da principal corrente política local, ligada ao ex-governador Anthony Garotinho, com uma divisão que se manifestou até mesmo nas escolhas eleitorais de membros de sua família e do secretariado municipal.

Mas há outro elemento que presenciei diretamente em diversos locais: o engajamento de pessoas comuns na campanha, seja por meio de suas próprias redes interpessoais, seja pela participação no agora famoso Exército do Lula, organizado pelo deputado federal André Janones (Rede/MG). Foi essa militância não partidária que desempenhou um papel decisivo para alcançar pessoas que haviam anulado o voto, votado em branco ou sequer comparecido às urnas no primeiro turno. Na minha avaliação, foi justamente essa militância invisível, formada por pessoas comuns, que contribuiu para a situação insólita de termos Campos dos Goytacazes entre os municípios em que Flávio Bolsonaro perdeu votos de um turno para outro. Mais do que uma simples mudança nos números eleitorais, esse movimento sugere a existência de uma capacidade de mobilização popular que não passa necessariamente pelas estruturas partidárias tradicionais e que, por isso mesmo, tende a escapar das análises convencionais sobre o comportamento do eleitorado campista.

Se a minha tese estiver correta, abre-se uma grande janela de oportunidades para quem estiver disposto a romper o ciclo de hegemonia histórica dos partidos de direita sobre a política municipal. Isso porque, ao contrário do que parece ou do que se tenta fazer crer, existe uma consciência clara de que as políticas sociais que aliviam as dificuldades enfrentadas por milhares de cidadãos pobres precisam ser preservadas e de que os direitos dos trabalhadores devem ser garantidos. Digo isso também com base em conversas que tive com pessoas que me reconheciam no supermercado ou na padaria, ocasiões em que pude perceber que a população não está tão desconectada da realidade quanto muitos querem fazer parecer. O problema talvez esteja menos na ausência de consciência sobre os próprios interesses e mais na falta de canais permanentes de organização política capazes de transformar essa percepção em ação coletiva.

A pergunta de um milhão de reais, agora, é quem estará disposto a estudar esses resultados para identificar as áreas do município com maior potencial de mudança e nelas estabelecer as bases de uma perspectiva de organização política da população. Como o período que temos pela frente tem mais cara de tempestade do que de dia ensolarado, existe uma oportunidade concreta de transformar em organização política a energia que emergiu no segundo turno. Resta saber quem estará disposto a realizar o trabalho duro de elevar a consciência política e dar continuidade a uma mobilização que demonstrou ser capaz de produzir resultados inesperados nas urnas.

Flávio Bolsonaro: a presidência escapou, os passaportes também. E agora?

Apenas quatro dias depois de o Blog do Pedlowski apontar o dilema entre a Presidência e uma eventual prisão, a derrota eleitoral e uma decisão do STF colocam o senador diante de uma situação ainda mais complicada

No dia 22 de outubro, publiquei aqui no Blog do Pedlowski um artigo intitulado “Presidiário ou presidente? Essas são as duas opções que Flávio Bolsonaro tem diante de si”. Na ocasião, utilizei a expressão inglesa Catch-22 para caracterizar a situação paradoxal em que se encontrava o senador, então candidato à Presidência da República. Minha avaliação era de que Flávio Bolsonaro enfrentava uma situação particularmente delicada: precisava vencer uma eleição presidencial enquanto se acumulavam revelações jornalísticas e investigações envolvendo seu nome e pessoas de seu círculo mais próximo. 

Quatro dias depois, o cenário político mudou radicalmente. Flávio Bolsonaro perdeu a eleição para Luiz Inácio Lula da Silva, que conquistou 51,79% dos votos válidos contra 48,21% do candidato do PL. Mas a derrota nas urnas não foi a única notícia desagradável para o primogênito de Jair Bolsonaro. Nesta segunda-feira (26), a Polícia Federal o intimou a entregar seus passaportes comum e diplomático, em cumprimento a uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo reportagem publicada pelo UOL, Flávio terá 24 horas para entregar os documentos e também está proibido de manter contato com o advogado Willer Tomaz, personagem central de algumas das investigações que já havíamos mencionado no artigo de 22 de outubro. A decisão representa um agravamento concreto de sua situação jurídica, embora não constitua condenação nem signifique que uma prisão seja inevitável.

O aspecto mais significativo dessa nova situação é que ela recoloca no centro das atenções justamente a relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz. Como já destacamos anteriormente, o advogado teve seu nome associado a investigações sobre movimentações financeiras suspeitas, incluindo a descoberta, pela Polícia Federal, de um compartimento oculto em um hangar utilizado por empresas de aviação ligadas a ele, onde foi encontrada uma máquina de contar dinheiro. Também foram noticiadas suspeitas envolvendo operações financeiras e empresas de apostas, inclusive a Best Bet. Essas suspeitas continuam dependendo de investigação e comprovação, e as defesas dos envolvidos negam irregularidades.

A reportagem do UOL acrescenta agora um elemento relevante: segundo a Polícia Federal, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz compartilhavam uma conta bancária no Santander. A proibição de contato entre ambos sugere que as autoridades consideram necessário preservar as investigações de possíveis interferências. Isso não comprova os crimes investigados, mas demonstra que as relações financeiras e pessoais entre o senador e o advogado estão longe de ser uma questão encerrada.

Há ainda um componente político particularmente revelador. Segundo o próprio Flávio Bolsonaro, a decisão de apreender seus passaportes também estaria relacionada a declarações de seu irmão Eduardo Bolsonaro, que defendeu publicamente que ele deixasse o Brasil caso fosse derrotado nas eleições. Flávio nega ter considerado essa possibilidade e classificou a medida judicial como uma tentativa de intimidação. A legalidade, a necessidade e a proporcionalidade das restrições poderão ser questionadas pela defesa, como deve ocorrer em qualquer Estado democrático de direito.

Entretanto, o fato político permanece: menos de 24 horas depois de perder a disputa presidencial, Flávio Bolsonaro passou a enfrentar restrições judiciais à sua liberdade de deslocamento internacional. Ao mesmo tempo, em vez de reconhecer a derrota, anunciou que pretende buscar a cassação da chapa vencedora, recorrendo a questionamentos sobre a prorrogação do horário de votação em algumas localidades. Ocorre que os aproximadamente 34 mil votos registrados depois das 17 horas representam uma fração insignificante diante da vantagem superior a quatro milhões de votos obtida por Lula.

É nesse ponto que a hipótese apresentada no Blog do Pedlowski em 22 de outubro ganha nova atualidade. Naquele momento, sugerimos que a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro estava atravessada por uma contradição fundamental: enquanto buscava alcançar o posto político mais importante do país, o senador acumulava problemas que poderiam comprometer seu futuro político e jurídico. A vitória eleitoral poderia representar um extraordinário fortalecimento de sua posição política. A derrota, por outro lado, deixaria exposta uma trajetória marcada por controvérsias e investigações ainda não concluídas.

Não se trata de afirmar que a perda da eleição tenha causado a decisão judicial, tampouco que a apreensão dos passaportes antecipe uma condenação criminal. Trata-se de reconhecer que a sequência dos acontecimentos tornou muito mais visível a vulnerabilidade política e jurídica que apontávamos antes da votação.

A ironia histórica é difícil de ignorar. Flávio Bolsonaro entrou na disputa presidencial carregando o sobrenome de um ex-presidente condenado e submetido à prisão domiciliar. Agora, derrotado nas urnas, vê-se obrigado a entregar seus documentos de viagem enquanto prosseguem investigações que poderão ter consequências importantes para seu futuro.

O Catch-22 que identificamos no dia 22 de outubro parece, portanto, ter entrado em uma nova fase. A alternativa da Presidência foi afastada pela vontade popular, mas a possibilidade de consequências judiciais mais graves permanece em aberto. Entre a derrota política consumada e o desfecho ainda incerto das investigações, Flávio Bolsonaro terá de enfrentar uma realidade que nenhuma campanha eleitoral poderá resolver por ele.

A pergunta que fizemos quatro dias atrás continua pertinente, mas agora precisa ser reformulada: sem a Presidência e com os passaportes sob determinação de entrega à Polícia Federal, qual será o próximo capítulo da trajetória de Flávio Bolsonaro?

A resposta dependerá das provas reunidas, do exercício do direito de defesa e das decisões da Justiça. Mas uma coisa já podemos afirmar: o cenário de vulnerabilidade que apontamos antes da eleição não desapareceu com a abertura das urnas. Pelo contrário, os acontecimentos desta segunda-feira indicam que ele pode estar apenas começando.   E, para quem pretendia chegar ao Palácio do Planalto, terminar a eleição tendo de entregar os passaportes à Polícia Federal está longe de ser um desfecho trivial.