A Paulista lotada, a Globo mostrando robôs: a seletividade da televisão em plena eleição presidencial

Enquanto milhares de brasileiros ocupavam a Avenida Paulista em defesa da democracia, a cobertura das grandes redes de TV levantou dúvidas sobre suas prioridades editoriais e os efeitos políticos da invisibilidade de uma manifestação popular

Neste domingo, 11 de outubro, milhares de brasileiros ocuparam a Avenida Paulista na chamada Marcha pela Democracia, em uma demonstração expressiva de mobilização popular em apoio à candidatura do presidente Lula. Segundo reportagem do UOL, a manifestação ocupou sete quarteirões da avenida, reunindo estudantes, movimentos sociais, artistas e lideranças políticas. A concentração foi tamanha que a estação Trianon-Masp do metrô precisou ser temporariamente fechada. Entretanto, o que deveria ser um acontecimento de grande destaque na televisão brasileira parece não ter recebido, nas principais redes abertas, uma cobertura proporcional à sua dimensão. Essa discrepância merece ser examinada, especialmente quando estamos a apenas duas semanas de um segundo turno presidencial marcado por intensa polarização.

Um exemplo particularmente revelador dessa situação foi a opção da TV Globo de dedicar espaço a uma competição universitária de robótica realizada em São Paulo, conforme demonstra vídeo disponibilizado pela própria emissora no portal G1. Nada tenho contra competições de robótica, muito pelo contrário. O problema está na hierarquia das prioridades jornalísticas. Enquanto milhares de pessoas ocupavam a principal avenida de São Paulo, em um ato de evidente importância política, a Globo encontrou espaço para mostrar robôs. A existência dessa reportagem não comprova, isoladamente, que tenha ocorrido uma substituição deliberada da cobertura da manifestação. Mas o contraste é suficientemente significativo para exigir uma pergunta: por que uma mobilização dessa magnitude não recebeu uma cobertura televisiva à altura de sua relevância?

A resposta pode estar nas escolhas editoriais dos grandes conglomerados de comunicação, que estão longe de ser politicamente neutras em seus efeitos. Não é necessário que uma emissora declare apoio a Flávio Bolsonaro para que suas decisões sobre o que mostrar, quanto mostrar e quando mostrar possam produzir consequências favoráveis à sua candidatura. A reduzida visibilidade de uma manifestação em apoio a Lula, caso confirmada por uma comparação sistemática da programação, representa uma desvantagem objetiva na circulação de imagens e informações sobre a mobilização de seus apoiadores. Em uma disputa eleitoral tão polarizada, a capacidade de demonstrar força nas ruas é parte importante da construção da percepção pública sobre as candidaturas. Limitar essa visibilidade pode, portanto, produzir efeitos eleitorais, ainda que não seja possível demonstrar uma intenção deliberada de favorecer determinado candidato.

Há outro aspecto que torna a cobertura televisiva dessa manifestação especialmente relevante: a forte presença da juventude. As imagens da Paulista desafiam a narrativa de que a esquerda brasileira perdeu sua capacidade de mobilização e de diálogo com as novas gerações. O protagonismo de estudantes e de coletivos juvenis é, por si só, um acontecimento político relevante, independentemente das preferências partidárias de quem o observa. Não deixa de ser pertinente perguntar se uma manifestação de dimensão semelhante organizada por apoiadores de Flávio Bolsonaro receberia o mesmo tratamento das grandes redes de televisão. A resposta exigiria comparar as coberturas, mas a própria necessidade dessa comparação revela a importância de submeter as decisões editoriais ao escrutínio público.

É preciso reconhecer que veículos como UOL, Folha de S.Paulo e CNN Brasil noticiaram a manifestação. Entretanto, publicar uma notícia em um portal e oferecer cobertura robusta na televisão aberta são coisas distintas. A televisão continua sendo um instrumento poderoso de construção da percepção coletiva, sobretudo entre os segmentos da população que não acompanham continuamente as redes sociais. Nesse contexto, a decisão de conceder maior ou menor visibilidade a uma manifestação pode interferir na compreensão pública da realidade política. Não se trata de exigir que as emissoras promovam Lula ou qualquer outro candidato, mas de questionar critérios editoriais que possam resultar em tratamento desigual de acontecimentos de relevância comparável.

A situação é ainda mais preocupante porque a concentração do poder de informar nas mãos de poucos grupos empresariais constitui um problema estrutural da democracia brasileira. A existência de transmissões independentes, como as realizadas pela DiaTV e pela TVT, permite que acontecimentos pouco destacados pela televisão convencional alcancem outros públicos. Entretanto, essa alternativa também depende de plataformas digitais controladas por grandes corporações, cujos algoritmos e mecanismos de moderação podem restringir a circulação de conteúdos. Assim, entre as escolhas editoriais dos conglomerados televisivos e o poder das big techs, a sociedade brasileira permanece sujeita a filtros privados que influenciam profundamente o que pode ser visto, conhecido e debatido.

O que aconteceu neste domingo na Avenida Paulista deveria servir como oportunidade para uma discussão mais ampla sobre o papel político das grandes redes de televisão. Não é necessário comprovar uma conspiração entre emissoras para reconhecer que a hierarquização das notícias possui consequências políticas e que essas consequências podem prejudicar uma candidatura em benefício de outra. A questão fundamental é saber se os critérios utilizados para definir a importância dos acontecimentos estão sendo aplicados de maneira consistente, especialmente durante uma eleição presidencial.

Afinal, o problema não é a Globo mostrar robôs. O problema é a possibilidade de que uma multidão de brasileiros nas ruas receba menos atenção televisiva do que merece. E quando a visibilidade de manifestações políticas depende das conveniências editoriais de grandes corporações, o que está em jogo não é apenas a cobertura de uma eleição, mas a qualidade da própria democracia brasileira.

“Fake news” virou senha para calar os outros? A estranha democracia dos bloqueios digitais

Enquanto perfis praticamente vazios atacam publicações críticas a Flávio Bolsonaro, a Justiça Eleitoral suspende um canal de mobilização de milhões de apoiadores de Lula. Afinal, quem está tentando controlar a circulação das mensagens políticas?

Nos últimos dias, minha conta oficial no Instagram passou a receber dezenas de comentários hostis depois da publicação de um card sobre propostas associadas à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. O que mais me chamou a atenção é que muitos desses ataques partem de perfis com zero ou pouquíssimas postagens, repetindo praticamente a mesma acusação: a de que estou divulgando fake news. A situação ficou ainda mais preocupante quando um desses perfis anunciou que iria bloquear minha conta. A ameaça merece atenção, especialmente porque meu perfil já ficou recentemente inacessível por uma medida de segurança aplicada pela Meta, após outra onda de ataques de natureza política.

É necessário, entretanto, distinguir a crítica política legítima das tentativas de intimidação digital. Qualquer pessoa tem o direito de discordar de minhas publicações, questionar seu conteúdo e até denunciá-las quando identificar possíveis violações das regras da plataforma. Entretanto, quando dezenas de perfis, muitos deles sem qualquer postagem, repetem acusações praticamente idênticas e um deles anuncia que irá bloquear minha conta, surgem indícios que merecem investigação. Isso não comprova uma operação coordenada, mas levanta a possibilidade de que o objetivo de alguns participantes não seja debater o conteúdo, e sim constranger seu autor ou tentar restringir sua presença na rede. A diferença é decisiva: contestar uma ideia é exercer a liberdade de expressão; tentar silenciar quem a apresenta, por meio de intimidação ou denúncias fraudulentas, é atentar contra essa mesma liberdade.

Esse cenário ganha contornos ainda mais preocupantes com a decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, de suspender o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones e que reunia aproximadamente 3,3 milhões de participantes. A decisão, tomada a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro sob alegações de disseminação de informações falsas, levanta questões sobre a proporcionalidade das restrições à mobilização política digital. Evidentemente, informações comprovadamente falsas devem ser combatidas, mas isso não elimina a necessidade de transparência, critérios consistentes e respeito à liberdade de expressão. 

O que me parece especialmente preocupante é a possibilidade de que o combate às fake news esteja sendo instrumentalizado para restringir a circulação de mensagens políticas adversárias. De um lado, uma decisão judicial suspende um canal de mobilização com milhões de participantes; de outro, perfis praticamente anônimos atacam publicações críticas e anunciam bloqueios de contas. Não há provas de conexão entre os episódios, nem se pode equiparar automaticamente uma decisão judicial a eventuais denúncias abusivas nas plataformas. Mas ambos justificam uma reflexão sobre quem controla os espaços de expressão política e como esse controle é exercido.

Afinal, não seria essa a verdadeira ação combinada que deveríamos estar discutindo? A transformação das acusações de fake news, dos mecanismos de denúncia e das decisões de moderação em possíveis instrumentos de intimidação e restrição do debate público? A democracia não pode depender da boa vontade das big techs, tampouco admitir que o combate à desinformação seja utilizado seletivamente para silenciar críticas. Se a liberdade de expressão só vale para quem concorda conosco, então já não estamos falando de liberdade, mas de uma disputa pela hegemonia do direito de falar.

Enquanto governo Trump se omite, Califórnia classifica herbicida Atrazina como cancerígena

Por Carey Gillam para “The New Lede”

Reguladores da Califórnia anunciaram na sexta-feira que pretendem classificar o herbicida atrazina, amplamente utilizado, como um carcinógeno conhecido, uma medida que contrasta com a opinião dos reguladores federais.

O Escritório de Avaliação de Riscos à Saúde Ambiental (OEHHA) da Agência de Proteção Ambiental da Califórnia informou que incluirá a atrazina na lista de substâncias “conhecidas pelo estado como causadoras de câncer, de acordo com uma disposição da Lei de Água Potável Segura e Fiscalização de Substâncias Tóxicas de 1986”, conhecida como Proposição 65.

A OEHHA afirmou que está dando às pessoas a oportunidade de comentar sobre o plano até 9 de novembro.

A ação do estado ocorre depois que a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) classificou a atrazina — o segundo herbicida mais usado nos EUA, depois do glifosato — como “provavelmente cancerígena para humanos”, em novembro, após uma longa revisão de anos de estudos científicos.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) rejeitou a classificação da IARC no ano passado, ridicularizando a equipe de cientistas do câncer e ecoando as críticas da Syngenta, fabricante da atrazina, ao afirmar que a IARC tem “um longo histórico de graves equívocos”.

Defensores da saúde pública e ambiental há muito tempo pedem a proibição da atrazina, não apenas devido a preocupações com o câncer, mas também devido a pesquisas que a associam a danos reprodutivos e ao desenvolvimento. A Califórnia incluiu a atrazina em sua lista de substâncias químicas “conhecidas pelo estado por causarem toxicidade reprodutiva” em 2016.

Uma pesquisa realizada pela própria Syngenta há mais de 20 anos mostrou altas taxas de câncer entre os trabalhadores de sua fábrica de agrotóxicos, um fato que a empresa não divulgou até ser obrigada por um processo judicial.

A atrazina é proibida em cerca de 60 outros países, incluindo toda a União Europeia, mas os agricultores dos EUA aplicam aproximadamente 70 milhões de libras do agrotóxico sem seus campos todos os anos, geralmente usando-o para cultivar milho, sorgo e cana-de-açúcar, de acordo com estimativas da EPA .

Além do câncer, evidências científicas associam a exposição à atrazina a defeitos congênitos, baixo peso ao nascer, disfunções hormonais e problemas no sistema imunológico. Um estudo de 2011 concluiu que a atrazina “causa efeitos graves na saúde humana”, que variam desde efeitos no sistema nervoso, sistema imunológico, rins, coração e fígado, até hormônios e enzimas.

Embora os trabalhadores agrícolas sejam considerados o principal grupo populacional exposto à atrazina, o produto químico é comumente levado das lavouras dos campos agrícolas para os cursos d’água e é um poluente recorrente no abastecimento de água potável para milhões de americanos.

Um estudo publicado no início desta semana pelo Centro para a Diversidade Biológica afirmou que uma estratégia da EPA para lidar com a contaminação por atrazina nos cursos d’água dos EUA provavelmente não terá impacto significativo na poluição generalizada da água por atrazina.

“ A Califórnia está, acertadamente, acompanhando as evidências científicas mais recentes que relacionam a atrazina ao câncer em humanos”, disse Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro.

“Apesar de ser proibida em mais de 60 países ao redor do mundo, ainda usamos tanta atrazina nos EUA que mais de um quarto de nossos rios e córregos estão contaminados com essa substância cancerígena. Devemos isso aos nossos filhos e a nós mesmos: banir a atrazina em todo o país de uma vez por todas”, disse ele.


Fonte: The New Lede

Flávio Bolsonaro, Trump e o modelo americano: terras raras para os EUA e salários precarizados ara os trabalhadores brasileiros?

Sob o discurso da liberdade de escolha, a proposta ameaça transformar o salário mínimo mensal em uma renda incerta e os direitos trabalhistas em benefícios cada vez menores

Uma das propostas mais preocupantes defendidas por Flávio Bolsonaro e seus apoiadores nesta campanha eleitoral é a ampliação da remuneração por hora trabalhada, apresentada como uma modernização das relações de trabalho no Brasil. O exemplo preferido dos defensores dessa mudança são os Estados Unidos, mas há aspectos fundamentais dessa comparação que estão sendo convenientemente omitidos. Afinal, os trabalhadores norte-americanos não possuem direito federal geral a férias remuneradas nem a um equivalente obrigatório ao nosso 13º salário, tampouco contam com um sistema público universal de saúde comparável ao SUS. Embora existam benefícios oferecidos por empresas e programas públicos específicos, o modelo norte-americano está longe de representar uma referência universal de proteção social. A pergunta que fica é por que importar justamente os mecanismos de flexibilização trabalhista de um país que não assegura a todos os seus trabalhadores direitos sociais já consolidados no Brasil.

É importante esclarecer que o pagamento por hora não é uma novidade no Brasil. Nossa legislação já utiliza o salário-hora em diferentes modalidades de contratação. A questão central é a possibilidade de ampliar contratos com jornadas reduzidas e remuneração proporcional, sem assegurar uma renda mensal suficiente para garantir condições dignas de sobrevivência. A proposta defendida por Flávio Bolsonaro não extingue formalmente férias, 13º salário ou FGTS, mas pode permitir que esses direitos sejam calculados sobre remunerações menores. Em outras palavras, não é necessário eliminar um direito da legislação para esvaziar seu significado econômico.

Tomemos um exemplo bastante simples para compreender o que está em jogo. Atualmente, um trabalhador que recebe o salário mínimo nacional de R$ 1.621 por uma jornada de 44 horas semanais tem assegurada essa remuneração mensal. Se, entretanto, uma empresa puder contratar outro trabalhador para a mesma função por apenas 20 horas semanais, pagando proporcionalmente às horas contratadas, sua remuneração seria de aproximadamente R$ 737 mensais. Isso representa uma diferença de 54,5% em relação ao salário de referência, sem que o valor pago por hora tenha sido diminuído. O empregador pagaria menos simplesmente porque contratou menos horas de trabalho, enquanto o empregado continuaria enfrentando praticamente as mesmas despesas com alimentação, moradia, transporte e outras necessidades básicas. Além disso, como férias, 13º salário e FGTS são calculados com base na remuneração, os valores correspondentes também seriam menores. O resultado é que, para alcançar uma renda equivalente a um único salário mínimo, esse trabalhador precisaria encontrar outro emprego, submetendo-se a novos deslocamentos, jornadas fragmentadas e maior insegurança econômica. E há uma pergunta decisiva: quem garante que ele encontrará outro empregador disposto a contratá-lo justamente nos horários em que estiver disponível? A suposta liberdade de trabalhar menos pode, assim, transformar-se na obrigação de procurar mais empregos para conseguir sobreviver.

É nesse ponto que o discurso da modernização revela seu caráter profundamente contraditório. A liberdade de escolher quanto trabalhar só existe efetivamente quando o trabalhador dispõe de condições materiais para exercer essa escolha. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, informalidade e baixos salários, a relação entre empregador e empregado está longe de ser equilibrada. Quem precisa desesperadamente de um emprego dificilmente poderá recusar condições contratuais desfavoráveis. Assim, aquilo que é apresentado como liberdade de escolha pode funcionar como um mecanismo de transferência dos riscos empresariais para os trabalhadores, enquanto as empresas ajustam seus gastos salariais às próprias necessidades.

A precarização associada a esse tipo de organização do trabalho encontra uma representação contundente no filme Nomadland, dirigido por Chloé Zhao, que acompanha trabalhadores norte-americanos obrigados a percorrer grandes distâncias em busca de empregos temporários e sazonais, muitas vezes vivendo em veículos adaptados. Embora não represente a totalidade do mercado de trabalho dos Estados Unidos, o filme expõe uma realidade perturbadora: a existência de pessoas que trabalham e, ainda assim, não conseguem assegurar condições estáveis de moradia e sobrevivência. Seria essa a modernidade que Flávio Bolsonaro pretende oferecer aos brasileiros?

Há também uma aproximação política que não deveria passar despercebida. Flávio Bolsonaro tem demonstrado afinidade com a orientação econômica adotada por Javier Milei na Argentina, onde a flexibilização das relações trabalhistas vem sendo apresentada como instrumento para estimular investimentos e contratações. Embora as propostas não sejam idênticas, ambas compartilham a premissa de que a redução de determinadas proteções trabalhistas seria necessária para aumentar a competitividade empresarial. O problema é que a competitividade obtida mediante a redução dos custos do trabalho pode significar, na prática, ampliação da precariedade e concentração dos benefícios econômicos nas mãos dos empregadores.

No caso brasileiro, o problema assume contornos ainda mais graves porque o salário mínimo já é insuficiente para assegurar as necessidades básicas de uma família. Nesse contexto, a possibilidade de fragmentar ainda mais a remuneração mensal deveria ser encarada como uma ameaça concreta à segurança econômica da classe trabalhadora. A situação se torna especialmente preocupante quando combinada com propostas de limitar a valorização real do salário mínimo, reduzindo as perspectivas de recuperação do poder aquisitivo dos trabalhadores. Em um país onde milhões de pessoas já precisam escolher quais despesas pagar a cada mês, transformar o salário mensal em uma renda variável e potencialmente insuficiente está longe de representar qualquer avanço social.

Outro aspecto que merece atenção é o possível enfraquecimento da negociação coletiva. A ampliação da prevalência dos contratos individuais sobre acordos coletivos pode reduzir a capacidade dos sindicatos de proteger trabalhadores submetidos a relações profundamente desiguais de poder. Afinal, a negociação entre um trabalhador isolado e uma grande empresa dificilmente ocorre em condições de igualdade. A história das conquistas trabalhistas demonstra precisamente o contrário: férias remuneradas, 13º salário, limites de jornada e outros direitos foram alcançados por meio de processos coletivos de organização e pressão social, e não por concessões espontâneas dos empregadores.

Há, finalmente, uma contradição econômica que os defensores dessa proposta parecem ignorar. A remuneração dos trabalhadores não representa apenas um custo para as empresas, mas também uma das principais fontes de sustentação do consumo e da atividade econômica. Se a disseminação dos contratos por hora resultar em redução da massa salarial, os efeitos poderão atingir o comércio, os serviços e as economias locais, especialmente em cidades onde grande parte da população já depende de salários baixos e de políticas públicas de transferência de renda. Aquilo que pode parecer vantajoso para uma empresa individualmente pode produzir consequências negativas para o conjunto da economia.

A verdadeira modernização das relações de trabalho deveria caminhar na direção oposta: redução da jornada sem redução dos salários, distribuição dos ganhos de produtividade, fortalecimento da proteção social e ampliação das condições materiais para que os trabalhadores possam desfrutar de mais tempo livre. Afinal, os avanços tecnológicos deveriam servir para melhorar a vida das pessoas, e não apenas para aumentar as margens de lucro das empresas. Existe uma diferença fundamental entre assegurar o direito de trabalhar menos e permitir que os empregadores paguem menos porque passaram a contratar menos horas.

O que Flávio Bolsonaro e seus apoiadores precisam explicar aos trabalhadores brasileiros é como alguém poderá viver dignamente recebendo uma fração do salário mínimo mensal, ainda que o valor de cada hora trabalhada permaneça legalmente preservado. Também precisam explicar como pretendem impedir que a suposta liberdade de escolha se transforme em imposição econômica, obrigando milhões de pessoas a acumular empregos precários para conseguir sobreviver.

No fundo, a pergunta é bastante simples: a modernização prometida por Flávio Bolsonaro pretende melhorar a vida de quem trabalha ou apenas baratear a mão de obra para quem contrata? Se a resposta for a segunda alternativa, estaremos diante de mais uma tentativa de apresentar como progresso aquilo que poderá representar um profundo retrocesso social. E, nesse caso, o Brasil não estará importando a prosperidade dos Estados Unidos, mas justamente uma de suas faces mais perversas: a normalização de uma sociedade na qual ter emprego já não significa necessariamente ter condições dignas de sobrevivência.

Voltei ao Instagram, mas até quando a Meta quiser: a falsa democratização da informação pelas big techs

Entre denúncias bolsonaristas, labirintos de verificação e exigências de reconhecimento facial, o bloqueio da minha conta expõe o poder arbitrário das plataformas digitais sobre a liberdade de expressão

Na manhã deste sábado (10/10), relatei aqui no Blog do Pedlowski o bloqueio da minha conta oficial no Instagram, que já acumulava 5.128 publicações e 1.997 seguidores. O bloqueio ocorreu após uma onda de ataques e denúncias de apoiadores de Flávio Bolsonaro contra uma publicação em que apresentava propostas e declarações associadas à sua candidatura presidencial. A Meta justificou a restrição alegando estar protegendo minha conta contra uma possível invasão. Não tenho como comprovar que as denúncias tenham provocado diretamente o bloqueio, mas a sequência dos acontecimentos é suficientemente preocupante para merecer atenção.

O primeiro registro público que fiz do problema ocorreu às 8h55. Às 10h55, voltei ao assunto para denunciar o que considerava uma grave ameaça à minha liberdade de expressão. Finalmente, às 12h30, já estava solicitando uma imagem para anunciar o restabelecimento do acesso. Foram, portanto, pelo menos 3 horas e 35 minutos entre meu primeiro relato e a comunicação da recuperação, embora as dificuldades tenham começado antes disso. Nesse intervalo, enfrentei um verdadeiro labirinto digital, sendo empurrado de uma etapa de verificação para outra, entre mensagens de e-mail, códigos de acesso e sucessivas tentativas de reconhecimento facial. Em vez de resolver o problema, os procedimentos frequentemente me devolviam ao ponto de partida, sem qualquer possibilidade efetiva de diálogo com um responsável humano.

A exigência de reconhecimento facial merece atenção especial. Para recuperar uma conta que já era minha, fui levado a fornecer repetidamente informações biométricas extremamente sensíveis. Quem garante que esses dados serão utilizados exclusivamente para verificar minha identidade? A Meta possui políticas declaradas de proteção e exclusão dessas informações, mas isso não equivale a oferecer ao usuário garantias independentes e verificáveis sobre sua destinação final. A própria Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) estabelece proteção especial aos dados biométricos. Não estou afirmando que minhas informações tenham sido utilizadas indevidamente, mas questionando a falta de transparência e a assimetria de poder que permite a uma empresa exigir dados tão sensíveis como condição prática para devolver o acesso a uma conta.

O episódio ganha uma dimensão política ainda mais inquietante diante das denúncias feitas pela campanha de Lula sobre restrições à circulação e ao impulsionamento de seus conteúdos nas plataformas da Meta, em contraste com o alegado favorecimento de Flávio Bolsonaro. A empresa nega qualquer favorecimento eleitoral, e as denúncias ainda precisam ser devidamente apuradas. Entretanto, a combinação entre dificuldades enfrentadas por uma campanha presidencial e episódios como o meu levanta questões legítimas sobre o funcionamento dos mecanismos de moderação e distribuição de conteúdos políticos. Não se trata de afirmar que existe uma conspiração comprovada, mas de exigir transparência sobre processos que podem interferir diretamente na disputa eleitoral.

Há uma ironia particular no meu caso. Não sou um apoiador incondicional de Lula. Ao longo de seu terceiro mandato, publiquei críticas contundentes às suas políticas econômica e ambiental, especialmente à continuidade da expansão petrolífera em plena crise climática. Minha decisão de votar nele no segundo turno resulta de uma avaliação programática e da rejeição às propostas regressivas e ao negacionismo científico associados ao bolsonarismo. Entretanto, aparentemente, para determinados setores da extrema-direita, basta não aderir ao seu projeto político para se tornar alvo de ataques e tentativas de silenciamento. E não deixa de ser curioso que a acusação de fake news seja utilizada por setores políticos cuja ascensão esteve profundamente associada à disseminação de desinformação.

Tudo isso nos remete à grande promessa que acompanhou a expansão das redes sociais: a democratização da informação. Durante anos, as big techs venderam a ideia de que qualquer cidadão poderia produzir conteúdos, alcançar grandes audiências e disputar narrativas antes monopolizadas pelos meios tradicionais de comunicação. O que essa promessa escondia era que os novos espaços públicos digitais seriam controlados por corporações privadas, capazes de decidir unilateralmente quem pode falar, quais conteúdos terão visibilidade e quem será condenado à invisibilidade algorítmica. A concentração do poder comunicacional não desapareceu; apenas mudou de mãos, tornando-se ainda mais opaca e difícil de fiscalizar.

Talvez o problema não seja simplesmente uma promessa comercial não cumprida, mas algo mais profundo: um produto intrinsecamente comprometido por seu próprio modelo de negócios. Afinal, plataformas que transformam nossos dados, nossa atenção e nossas interações em mercadorias dificilmente podem ser consideradas espaços plenamente democráticos. Isso não significa defender redes sociais sem regras, mas exigir mecanismos transparentes de moderação, proteção efetiva dos dados pessoais, direito de contestação e fiscalização pública independente. Sem essas condições, a liberdade de expressão continuará subordinada aos interesses de empresas que não prestam contas democraticamente à sociedade.

Voltei ao Instagram, agora para ficar — até quando a Meta quiser, evidentemente. Afinal, minha permanência na plataforma não depende apenas da minha vontade ou do meu direito constitucional à liberdade de expressão, mas também das decisões de uma corporação privada que pode, a qualquer momento, fechar novamente as portas. Volto ainda mais convencido de que enfrentar o poder desmedido das big techs é uma exigência democrática. Porque, se até o direito de permanecer em uma rede social é uma concessão precária de seus proprietários, talvez a tão prometida democratização da informação não passe de uma liberdade com prazo de validade definido pelos donos da plataforma.

Brasil em Jogo: um site para conhecer o que realmente está em disputa nas eleições presidenciais de 2026

Plataforma reúne dados oficiais, documentos, propostas e comparações entre os governos Lula e Bolsonaro, permitindo que os eleitores conheçam melhor os projetos políticos que disputam o futuro do país

Em um momento em que a disputa eleitoral brasileira é marcada pela circulação de desinformação, pela manipulação de conteúdos nas redes sociais e pela tentativa de substituir o debate programático por ataques pessoais, merece ser conhecida e divulgada a plataforma digital Brasil em Jogo. O site oferece aos eleitores a possibilidade de examinar, com base em documentos e dados públicos, o que foi realizado durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, além de comparar as propostas apresentadas por Lula e Flávio Bolsonaro para o período de 2027 a 2030.

A plataforma organiza seu conteúdo em 12 áreas temáticas, abrangendo economia, emprego, salário mínimo, combate à fome, educação, saúde, segurança pública, meio ambiente, habitação, direitos sociais, impostos, cultura e esporte. Em cada uma dessas áreas, os visitantes encontram informações sobre políticas implementadas, indicadores socioeconômicos e compromissos eleitorais, acompanhados das respectivas fontes documentais. O site também disponibiliza comparações sobre questões particularmente sensíveis para a classe trabalhadora, como poder de compra, geração de empregos, financiamento dos serviços públicos e proteção social.

Um aspecto especialmente relevante é a preocupação declarada pelos responsáveis pela plataforma em distinguir fatos, indicadores e propostas. Os dados são apresentados com referências a instituições como IBGE, Banco Central, Ipea, INPE e Ministério do Trabalho e Emprego, enquanto as promessas eleitorais são identificadas a partir dos documentos programáticos. O site também reconhece que a ocorrência de determinado resultado durante um governo não significa, necessariamente, que ele tenha sido causado por suas políticas. Essa distinção metodológica é importante para evitar simplificações e permitir uma avaliação mais rigorosa das informações apresentadas.
Evidentemente, o Brasil em Jogo apresenta uma perspectiva política identificada com a candidatura de Lula, algo perceptível em sua própria organização. Isso, entretanto, não elimina a utilidade de consultar as informações reunidas, desde que os leitores mantenham uma postura crítica e verifiquem as fontes disponibilizadas. Afinal, assumir uma posição política não é sinônimo de produzir desinformação. O problema começa quando opiniões são apresentadas como fatos, propostas são escondidas dos eleitores ou informações são deliberadamente distorcidas para favorecer determinados interesses.

Em uma eleição na qual estão em disputa questões fundamentais para o futuro da classe trabalhadora, dos serviços públicos, da democracia e do enfrentamento da crise climática, conhecer o conteúdo efetivo dos projetos políticos deveria ser uma exigência elementar. O Brasil precisa de mais debate sobre programas de governo e menos submissão à lógica dos algoritmos, das notícias falsas e dos ataques organizados nas redes sociais.

Por essas razões, recomendo aos leitores do Blog do Pedlowski que visitem o Brasil em Jogo, examinem suas informações, consultem os documentos originais e compartilhem os conteúdos que considerarem relevantes. Em tempos de crescente hostilidade ao conhecimento e ao pensamento crítico, a informação documentada continua sendo uma ferramenta indispensável para o exercício consciente da cidadania.

Acesse: https://obrasilemjogo.com.br/

Porque, muito mais do que escolher quem ocupará a Presidência da República, o que está em jogo é o tipo de sociedade que teremos nos próximos anos.

Quando a extrema-direita transforma denúncias em massa em instrumento de censura nas redes sociais

O bloqueio da conta oficial do Blog do Pedlowski no Instagram, após a publicação de um card crítico a Flávio Bolsonaro, expõe os riscos de transformar os mecanismos de segurança das big techs em instrumentos de silenciamento político

Aparentemente, para determinados setores da extrema-direita brasileira, a liberdade de expressão é um direito reservado àqueles que compartilham suas posições políticas. Quando alguém ousa questionar suas propostas e candidatos, a tão proclamada defesa dessa liberdade parece desaparecer. É o que sugere o episódio que estou enfrentando no Instagram, onde minha conta oficial (@marcospedlowski), com 5.128 publicações e 1.997 seguidores, encontra-se bloqueada pela Meta sob a justificativa de proteção contra uma possível invasão. Curiosamente, o bloqueio ocorreu após a publicação de um card crítico à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, que desencadeou uma onda de ataques de seus apoiadores.

O card reúne críticas às propostas econômicas e sociais associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro, abordando questões como o SUS, o Bolsa Família, a educação pública, o salário mínimo e os direitos trabalhistas. Seu conteúdo foi construído a partir de propostas programáticas e declarações públicas atribuídas ao candidato e a seus assessores. As consequências apontadas constituem interpretações políticas que podem e devem ser debatidas, não fatos já consumados. Discordar dessas interpretações é legítimo; tentar impedir sua circulação é outra coisa. Mais curioso ainda é ver acusações de fake news partindo de setores políticos cuja trajetória inclui episódios documentados de disseminação de desinformação. Parece que não basta disputar a hegemonia política: há quem também pretenda conquistar o monopólio das fake news e da autoridade para definir o que pode circular nas redes sociais.

Depois de sucessivas tentativas de recuperar minha conta pelos mecanismos oferecidos pela Meta, continuo preso a um circuito burocrático digital que não leva a lugar nenhum. A empresa afirma estar me protegendo, mas o resultado concreto é que estou impedido de acessar uma conta construída ao longo de anos. Embora ainda não disponha de provas técnicas de que os ataques tenham provocado diretamente o bloqueio, a sequência dos acontecimentos exige esclarecimentos. Afinal, a própria Meta já reconheceu a existência de operações coordenadas de denúncias em massa destinadas a retirar indevidamente conteúdos e contas de suas plataformas.

O problema é muito maior do que o bloqueio de uma conta. Se grupos políticos organizados conseguirem explorar os mecanismos automatizados das big techs para silenciar adversários, estaremos diante de uma modalidade particularmente eficiente de censura privatizada. Não será necessário fechar jornais, apreender computadores ou enviar policiais às redações. Bastará mobilizar militantes para acionar sistemas de denúncia e deixar que algoritmos opacos façam o restante. E tudo isso sob a conveniente justificativa de proteger os usuários.

A ironia é evidente. Setores da extrema-direita que apresentam qualquer tentativa de regulamentação das plataformas como um atentado à liberdade de expressão parecem não demonstrar o mesmo entusiasmo por essa liberdade quando seus adversários são atingidos. Essa contradição reforça a necessidade de impor regras transparentes às big techs, garantir mecanismos efetivos de contestação e impedir que empresas transnacionais exerçam tamanho poder sobre o debate público sem prestar contas à sociedade.

Por isso, exijo que a Meta esclareça as razões do bloqueio, informe se houve denúncias coordenadas ou tentativas efetivas de invasão e disponibilize um procedimento funcional para recuperar minha conta. Não reivindico privilégios, mas o direito de continuar exercendo minha liberdade de expressão, inclusive para criticar propostas políticas que considero prejudiciais à classe trabalhadora e aos direitos sociais.

Finalmente, fica uma pergunta: é essa a democracia que a extrema-direita pretende oferecer ao Brasil, na qual a discordância política é respondida com intimidação e tentativas de silenciamento? Se esse método se generalizar, especialmente com a complacência ou a incapacidade de reação das big techs, estaremos diante de uma ameaça concreta ao pluralismo político e à própria democracia.

Enquanto isso, continuarei publicando no Blog do Pedlowski. Afinal, bloquear uma conta pode dificultar a circulação das ideias, mas não elimina o pensamento crítico. E, para quem imagina que a democracia pode ser reduzida a um botão de denúncia, fica um lembrete: a liberdade de expressão não é propriedade privada da extrema-direita, e muito menos das big techs.

Quando a Meta diz que protege, mas acaba silenciando: minha conta no Instagram está bloqueada após ataques bolsonaristas

Com 5.128 publicações e 1.997 seguidores, meu perfil está inacessível depois de uma onda de ataques contra uma postagem crítica a Flávio Bolsonaro. A alegada proteção contra invasões se transformou em um bloqueio sem solução

Não é novidade para os leitores do Blog do Pedlowski que minhas posições políticas e minhas análises sobre a realidade brasileira não são formuladas para agradar a todos, muito menos aos que consideram a crítica política uma espécie de ofensa pessoal. Afinal, um dos princípios que orientam minha atuação como professor universitário e editor deste blog é justamente o de que a liberdade de expressão precisa ser exercida, inclusive quando aquilo que se diz contraria interesses políticos e econômicos poderosos. Entretanto, o que estou enfrentando neste momento no Instagram levanta uma questão que ultrapassa minha situação pessoal e alcança um problema central da democracia contemporânea: quem controla o direito de expressão dos cidadãos quando boa parte do debate público está submetida aos algoritmos e aos procedimentos administrativos das chamadas big techs?

Minha conta oficial no Instagram, que já reúne 5.128 publicações e 1.997 seguidores, encontra-se efetivamente bloqueada pela Meta, empresa proprietária da plataforma. O bloqueio ocorreu após uma onda de ataques de eleitores bolsonaristas contra uma publicação que apresentava uma crítica contundente às possíveis consequências sociais e econômicas de um eventual governo de Flávio Bolsonaro. A imagem abordava questões como o financiamento do Sistema Único de Saúde, a continuidade do Bolsa Família, a educação pública, a política de valorização do salário mínimo e os direitos trabalhistas. Tratava-se, portanto, de uma manifestação política sobre temas de interesse público, ainda que expressa em linguagem dura e com conclusões das quais os apoiadores do candidato evidentemente podem discordar.

O mais curioso, para não dizer kafkiano, é que a Meta não informa que minha conta tenha sido bloqueada por violar suas regras de conteúdo. A mensagem apresentada pela plataforma afirma que o bloqueio foi realizado para me proteger de uma possível invasão. Em seguida, oferece alternativas de recuperação por e-mail ou WhatsApp, acompanhadas da advertência de que o contato escolhido substituirá as informações de acesso anteriormente cadastradas. O problema é que já percorri repetidas vezes esses procedimentos, sem conseguir recuperar minha conta. O resultado é um verdadeiro labirinto digital no qual o proprietário legítimo da conta continua do lado de fora, enquanto a empresa responsável pela plataforma insiste em oferecer caminhos que não conduzem a lugar algum.

Não disponho, neste momento, de elementos que permitam afirmar categoricamente que o bloqueio tenha sido provocado por denúncias coordenadas dos eleitores bolsonaristas que atacaram minha publicação. Essa é uma possibilidade que precisa ser esclarecida pela Meta, especialmente diante da proximidade temporal entre os acontecimentos. Também não há, na mensagem recebida, comprovação de que uma tentativa efetiva de invasão tenha ocorrido. O que posso afirmar, porque estou experimentando diretamente suas consequências, é que a conta permanece inacessível e que os mecanismos oferecidos pela empresa não estão resolvendo o problema.

Há uma ironia particularmente amarga nessa situação. Uma empresa que concentra enorme poder sobre a circulação de informações e opiniões políticas afirma estar protegendo minha conta, mas o efeito concreto dessa proteção é impedir que eu continue utilizando um espaço de comunicação construído ao longo de milhares de publicações. Se o objetivo de quem me atacou era reduzir a circulação das minhas críticas, o resultado atual certamente não lhes será desagradável. É o tipo de proteção que, levada às últimas consequências, termina produzindo um resultado muito semelhante ao pretendido por aqueles que desejam calar a voz protegida.

O problema não se restringe ao meu caso. Em junho de 2026, o Ministério Público Federal divulgou a abertura de uma apuração sobre o bloqueio de mais de uma centena de perfis ligados à comunidade LGBTQIA+ no Instagram. Entre os esclarecimentos solicitados à Meta estava justamente a possibilidade de que suspensões tivessem resultado de mecanismos automatizados ou de campanhas coordenadas de denúncias em massa. Evidentemente, não se trata de afirmar que os dois episódios possuem a mesma origem, mas de reconhecer que a opacidade dos procedimentos adotados pelas plataformas digitais constitui um problema suficientemente sério para despertar a atenção dos órgãos responsáveis pela defesa dos direitos fundamentais.

No meu caso, considero especialmente preocupante a possibilidade de que manifestações de hostilidade política sejam acompanhadas de mecanismos de restrição de acesso que o usuário não consegue compreender nem contestar de maneira efetiva. Não reivindico qualquer privilégio, tampouco pretendo que minhas opiniões sejam colocadas acima das regras legitimamente estabelecidas para o funcionamento das redes sociais. O que reivindico é algo muito mais elementar: o direito de saber por que minha conta foi bloqueada, de ter acesso a um procedimento efetivo de recuperação e de não ser privado arbitrariamente de um canal de comunicação em razão de minhas manifestações políticas.

Também é importante registrar que a liberdade de expressão não significa ausência de contraditório. Os eleitores de Flávio Bolsonaro possuem todo o direito de discordar das minhas análises, questionar meus argumentos e apresentar suas próprias interpretações sobre as propostas de seu candidato. O que não se pode aceitar como prática democrática são ataques destinados a intimidar adversários ou eventuais tentativas de utilizar mecanismos de denúncia para retirar suas manifestações de circulação. Discordar é parte da democracia. Procurar silenciar quem discorda é outra coisa.

A situação se torna ainda mais contraditória quando lembramos que as grandes empresas de tecnologia frequentemente apresentam suas plataformas como espaços privilegiados para a livre circulação de ideias. Entretanto, quando um usuário enfrenta um bloqueio e não consegue encontrar um procedimento funcional para contestá-lo, fica evidente a assimetria entre o poder dessas corporações e os direitos daqueles que produzem os conteúdos responsáveis por alimentar suas redes. São milhares de publicações, anos de trabalho e relações estabelecidas com leitores que podem ficar submetidos a decisões automatizadas cujos fundamentos permanecem desconhecidos.

Por isso, faço aqui uma denúncia pública do bloqueio da minha conta e dos ataques políticos que antecederam essa situação, exigindo que a Meta esclareça as razões concretas da restrição e ofereça um mecanismo efetivo para restabelecer meu acesso. Também considero indispensável que a empresa informe se houve denúncias em massa contra meu perfil, tentativas identificadas de acesso não autorizado ou qualquer outro evento que justifique a medida adotada. Essas informações são fundamentais para distinguir um procedimento legítimo de segurança de uma eventual utilização abusiva dos mecanismos de controle da plataforma.

Enquanto isso, o Blog do Pedlowski continuará publicando análises sobre a realidade política, econômica, social e ambiental brasileira. Minha trajetória de atuação acadêmica e de intervenção no debate público não começou com o Instagram e certamente não terminará por causa de um bloqueio imposto pela Meta. O que está em discussão, entretanto, não é apenas a continuidade das minhas publicações, mas a necessidade de impedir que o debate democrático fique subordinado a sistemas privados de controle que não oferecem transparência e mecanismos adequados de responsabilização.

Aos que confundem discordância política com o direito de silenciar seus adversários, deixo uma observação: a democracia não existe apenas para proteger as opiniões com as quais concordamos. E à Meta cabe explicar por que sua alegada proteção está impedindo justamente o exercício do direito que deveria preservar.

Afinal, se para proteger minha liberdade de expressão a solução é me impedir de exercê-la, talvez seja necessário perguntar quem, exatamente, está sendo protegido.

Campos dos Goytacazes: a riqueza do petróleo, a pobreza persistente e as contradições reveladas pelas urnas

Com mais de 200 mil moradores inscritos no Cadastro Único, Campos deu uma vitória expressiva a Flávio Bolsonaro no primeiro turno presidencial. A aproximação da família Garotinho com o bolsonarismo ajuda a compreender esse resultado, mas também levanta uma pergunta incômoda: quem assumiria a responsabilidade por eventuais cortes nas políticas sociais?

A riqueza petrolífera e a persistência da pobreza

Os números do Cadastro Único (CadÚnico) revelam uma das contradições mais marcantes de Campos dos Goytacazes. Em um município historicamente beneficiado pelas receitas da exploração petrolífera, aproximadamente 212 mil moradores estão inscritos no cadastro federal, representando mais de 40% da população. Embora a inscrição no CadÚnico não signifique necessariamente o recebimento do Bolsa Família, esses números evidenciam a dimensão da vulnerabilidade socioeconômica em uma cidade onde a riqueza gerada pela exploração dos recursos naturais continua apresentando uma distribuição profundamente desigual.

A questão central não é a existência de políticas de transferência de renda, que representam instrumentos indispensáveis de proteção social, mas a dificuldade histórica de transformar a riqueza petrolífera em condições dignas de vida para a maioria da população. Enquanto os sinais da concentração de riqueza se multiplicam na paisagem urbana campista, milhares de famílias continuam dependendo de políticas públicas para assegurar suas necessidades básicas. Afinal, de que adianta uma cidade ostentar riqueza se uma parcela tão expressiva de seus habitantes permanece economicamente vulnerável?

O que revelam os resultados eleitorais?

Essa realidade ganha contornos particularmente interessantes quando confrontada com os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Em Campos, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 160.859 votos (59,10% dos válidos), enquanto Lula (PT) obteve 91.105 votos (33,47%). Dos 370.466 eleitores aptos, 80.008 não compareceram às urnas, enquanto 7.954 votaram em branco e 10.340 anularam seus votos. Somadas, as abstenções e os votos brancos e nulos alcançaram 98.302 eleitores, aproximadamente 26,5% do eleitorado municipal.

Esses números revelam uma combinação que merece investigação: uma cidade com elevada vulnerabilidade social, uma vitória expressiva de um candidato identificado com propostas econômicas liberais e um contingente considerável de eleitores que não registraram votos válidos. Evidentemente, não se pode concluir que os beneficiários de programas sociais tenham votado majoritariamente em qualquer candidato. Entretanto, cabe perguntar quais fatores políticos, culturais e econômicos ajudam a explicar essa configuração eleitoral.

A família Garotinho como correia auxiliar do bolsonarismo

Uma parte da resposta pode estar na atuação da família Garotinho, cuja influência política em Campos atravessa décadas. A aproximação de Wladimir Garotinho com Flávio Bolsonaro não foi apenas circunstancial: o ex-prefeito filiou-se ao PL e assumiu papel na coordenação regional da campanha presidencial, colocando sua experiência política e sua inserção territorial a serviço do projeto eleitoral bolsonarista. Anthony Garotinho, apesar de suas divergências com integrantes do PL fluminense, também declarou que votaria em Flávio Bolsonaro em um segundo turno contra Lula.

Nesse sentido, é possível interpretar a atuação de integrantes da família Garotinho como uma espécie de correia auxiliar eleitoral do bolsonarismo em Campos dos Goytacazes. Essa aproximação é especialmente relevante porque a família construiu grande parte de sua trajetória política associando sua imagem ao atendimento das necessidades das camadas populares e à implementação de políticas sociais. A hipótese é que essa transferência de capital político tenha ajudado a aproximar o bolsonarismo de segmentos populares historicamente vinculados aos Garotinho, embora não existam dados suficientes para quantificar esse efeito.

Assim, a aparente contradição entre vulnerabilidade social e preferência eleitoral por Flávio Bolsonaro torna-se menos surpreendente. Afinal, as escolhas eleitorais não decorrem exclusivamente da condição econômica, sendo também mediadas por lideranças locais, relações de confiança e identificações políticas construídas ao longo de muitos anos. A aliança de ocasião entre setores do garotismo e o bolsonarismo oferece, portanto, uma hipótese explicativa relevante para o resultado eleitoral campista.

O Bolsa Família e os riscos para a proteção social

Há, entretanto, uma questão que não deveria ficar ausente desse debate. Durante o governo de Jair Bolsonaro, o Bolsa Família foi extinto como programa específico e substituído pelo Auxílio Brasil, mantendo-se as transferências federais de renda sob outras regras. Em 2023, o governo Lula restabeleceu o Bolsa Família. Essa trajetória demonstra que mudanças de governo podem alterar substancialmente o desenho, os critérios e o financiamento das políticas de proteção social.

Embora Flávio Bolsonaro tenha declarado que pretende manter o Bolsa Família, permanecem questões sobre a compatibilidade entre a preservação dos benefícios e propostas de contenção de despesas públicas. Não seria correto afirmar que sua eleição significaria necessariamente o fim do programa, mas é legítimo exigir esclarecimentos sobre as garantias orçamentárias e institucionais de sua continuidade. Afinal, preservar o nome de uma política pública não significa necessariamente preservar seus valores, sua cobertura e suas condições de acesso.

Nesse contexto, cabe formular uma hipótese: como se comportaria o eleitorado campista se houvesse maior conhecimento sobre os possíveis efeitos das diferentes propostas econômicas para o financiamento das políticas sociais? A resposta não pode ser presumida, mas a pergunta ganha importância diante da quantidade de famílias que dependem direta ou indiretamente dessas políticas.

Quem vai levantar a lebre sobre o futuro do Bolsa Família?

A pergunta ganha especial importância em Campos, onde a vulnerabilidade social convive com uma estrutura política marcada pela influência de lideranças tradicionais. A aproximação de integrantes da família Garotinho com o bolsonarismo acrescenta uma dimensão ao problema: como essas lideranças conciliam sua trajetória de identificação com políticas sociais com o apoio a um candidato cujas propostas de ajuste das despesas públicas precisam ser examinadas quanto aos seus possíveis efeitos sobre a proteção social?

Quem pode levantar essa discussão? A imprensa local, os pesquisadores das universidades públicas, as organizações comunitárias, os movimentos sociais e as próprias famílias beneficiárias têm condições de cobrar respostas verificáveis. A responsabilidade também recai sobre os candidatos e suas lideranças locais, que devem explicar como pretendem conciliar seus compromissos sociais com suas propostas fiscais.

A questão já entrou na disputa nacional. Flávio Bolsonaro reafirmou que pretende manter o Bolsa Família e o Farmácia Popular. Ao mesmo tempo, notícias sobre possíveis mudanças nas despesas obrigatórias suscitaram questionamentos sobre o alcance do ajuste fiscal defendido por sua candidatura. A campanha nega que algumas dessas medidas estejam em seu programa. Por isso, o debate precisa ultrapassar tanto as promessas genéricas quanto as acusações sem comprovação.

E se a conta chegar? Quem vai embalar Mateus?

O caso de Campos dos Goytacazes expõe três questões interligadas: por que décadas de exploração petrolífera não foram suficientes para reduzir de maneira mais expressiva a vulnerabilidade social; como essa realidade se relaciona com as escolhas políticas dos habitantes; e em que medida a influência de lideranças tradicionais, como os Garotinho, contribui para organizar e transferir apoios eleitorais.

Mas há uma última questão, que merece uma pitada de ironia. Imaginemos, por hipótese, que Flávio Bolsonaro seja eleito e, contrariando suas declarações atuais, resolva restringir significativamente ou mesmo extinguir o Bolsa Família. Como se comportariam seus aliados nos governos estadual e municipal? Defenderiam a preservação dos benefícios, buscariam recursos próprios para compensar as perdas ou procurariam justificar as decisões tomadas em Brasília?

A questão não seria apenas política. Uma redução expressiva das transferências federais atingiria diretamente a renda das famílias mais pobres e poderia diminuir a circulação de dinheiro nos bairros populares, afetando pequenos mercados, farmácias, padarias e outros estabelecimentos comerciais. Em uma cidade onde a vulnerabilidade social alcança uma parcela tão significativa da população, os efeitos econômicos e sociais poderiam ultrapassar amplamente o universo dos beneficiários diretos.

E quem assumiria a responsabilidade por essas consequências? É nesse ponto que a sabedoria popular oferece duas expressões particularmente apropriadas: “filho feio não tem pai” e “quem pariu Mateus que o embale”. Em um cenário de redução dos benefícios, seria interessante observar se os três níveis de governo assumiriam suas respectivas responsabilidades ou se começaria uma interminável disputa para descobrir quem deveria embalar Mateus.

Afinal, não seria surpreendente que, diante de uma eventual deterioração das condições sociais, cada esfera de governo apontasse para outra, enquanto as famílias afetadas continuariam esperando por soluções. O governo federal poderia invocar a necessidade de ajuste fiscal; o estadual, suas limitações orçamentárias; e o municipal, a falta de recursos para compensar as perdas. Tudo isso, evidentemente, em nome da responsabilidade administrativa.

No fim das contas, a ironia seria esta: na hora de celebrar a vitória eleitoral, Mateus teria muitos pais; na hora de enfrentar as consequências sociais de eventuais cortes, talvez ninguém quisesse assumir a tarefa de embalá-lo. E há um detalhe particularmente saboroso nessa história: Anthony Garotinho também é Mateus, ao menos no nome. Resta saber se, diante de uma eventual redução do Bolsa Família, o experiente político campista estaria disposto a embalar o Mateus que ajudou a colocar no colo dos eleitores ou se preferiria recorrer à velha máxima de que filho feio não tem pai. Afinal, quando se trata de repartir os dividendos eleitorais, sempre aparecem muitos parentes; quando chega a conta da pobreza, corre-se o risco de descobrir que Mateus ficou órfão nos três níveis de governo.

ADUENF indica voto em Lula: defender a universidade pública exige uma escolha

Decisão aprovada em assembleia parte da defesa dos direitos sociais, da educação pública e da soberania nacional — compromissos que, neste segundo turno, levam ao voto em Lula

A assembleia docente da Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (ADUENF), realizada em 8 de outubro, aprovou, por maioria, o posicionamento público da entidade em apoio a Lula no segundo turno das eleições presidenciais. Conforme o informe divulgado pela associação, a decisão está vinculada à defesa da educação pública, à oposição às privatizações e aos cortes orçamentários, ao enfrentamento da extrema direita e à proteção dos direitos sociais dos trabalhadores. Também integra esse posicionamento a defesa das reservas de terras raras e da soberania nacional. Trata-se, portanto, de uma escolha alicerçada em compromissos programáticos que dizem respeito às condições de existência da universidade pública e ao projeto de sociedade que se pretende defender.

Esse ponto é central porque uma entidade sindical não pode tratar a disputa presidencial como se as alternativas fossem indiferentes aos interesses da categoria e da classe trabalhadora. Quem assume a defesa da educação pública, do financiamento das universidades, dos serviços públicos e dos direitos sociais precisa extrair desses compromissos suas consequências políticas. Dentro desse conjunto de critérios e diante das alternativas colocadas neste segundo turno, a única indicação de voto coerente seria em Lula. Uma posição de neutralidade deixaria sem consequência eleitoral justamente os princípios que orientam a atuação da entidade, como se fosse possível defender a universidade e ignorar as ameaças políticas à sua manutenção.

Isso não significa conceder um cheque em branco a Lula, muito menos suspender as críticas às políticas de seu governo. Apoiar sua candidatura a partir de uma perspectiva programática implica preservar a autonomia sindical e continuar cobrando financiamento adequado para a educação, valorização dos servidores, proteção dos direitos trabalhistas e medidas efetivas em defesa da soberania nacional. O voto não encerra essas disputas, nem substitui a mobilização. Ao contrário, precisa estar associado à disposição de enfrentar qualquer governo quando suas decisões contrariem os interesses dos trabalhadores. A coerência está em combinar a escolha eleitoral com a independência necessária para cobrar o cumprimento dos compromissos que a justificam.

No caso da UENF, essa compreensão ganha uma dimensão concreta. O informe da assembleia registra preocupação com ameaças ao financiamento das universidades, possíveis cortes orçamentários e falta de diálogo com o Governo do Estado, além da necessidade de intensificar a mobilização pela aprovação do PCV. Estas  são questões que demonstram como as escolhas políticas chegam ao cotidiano da universidade, às condições de trabalho e à capacidade de atender à sociedade. A decisão da ADUENF reconhece essa ligação e assume uma responsabilidade que não pode ser terceirizada: se o programa defendido é o da educação pública, dos direitos sociais e da soberania nacional, o voto precisa acompanhar essa defesa. Neste segundo turno, isso significa indicar o voto em Lula e manter a organização da categoria para as lutas que continuarão depois das urnas.