Do Nepal ao Brasil: a adaptação climática deixou de ser escolha e virou questão de sobrevivência

Em artigo publicado nesta quinta-feira (10/09), na seção Tendências/Debates da Folha de S.Paulo, os pesquisadores Paulo Artaxo, Augusto Getirana e Pedro Henrique de Christo fazem um alerta que deveria ocupar lugar central no debate público brasileiro: diante do avanço da crise climática, antecipar os impactos já não é apenas desejável; tornou-se condição para reduzir mortes, perdas econômicas e destruição de infraestrutura.

Intitulado “Do Nepal ao Brasil, antecipação é decisiva para a adaptação climática”, o texto parte do recente colapso glacial ocorrido na região de Langtang Lirung, no Nepal. O evento produziu uma violenta enxurrada associada ao derretimento de gelo, capaz de destruir estradas, pontes, instalações e comunidades em poucos minutos. O ponto importante levantado pelos autores é que tais acontecimentos deixaram de poder ser tratados simplesmente como “desastres naturais”. O aquecimento do clima está alterando rapidamente as condições que controlam geleiras, chuvas extremas, secas, enchentes e deslizamentos, enquanto boa parte das sociedades continua planejando o território com base em um clima que já não existe.

Há ainda uma dimensão de justiça climática que merece destaque. Como observam Artaxo, Getirana e de Christo, o Nepal contribuiu muito pouco para a crise climática global, mas figura entre os países mais vulneráveis aos seus efeitos. Essa assimetria recoloca no centro do debate a responsabilidade histórica das grandes economias emissoras e a necessidade de financiamento, transferência tecnológica e cooperação internacional para adaptação. Não basta reconhecer que certos países e populações são vulneráveis; é necessário criar condições materiais para que possam se proteger.

Para o Brasil, o alerta ganha uma dimensão adicional diante do Super El Niño de 2026-2027, mencionado pelos autores como potencial amplificador de extremos climáticos. Ondas de calor, secas na Amazônia e no Nordeste, enchentes, tempestades e deslizamentos no Sul e em áreas costeiras poderão testar duramente sistemas urbanos e infraestruturas que já demonstram fragilidades mesmo sob condições menos extremas. O problema torna-se particularmente grave porque nossas cidades cresceram, em grande medida, ignorando rios, encostas, áreas inundáveis e limites ambientais.

Um aspecto especialmente relevante do artigo é a defesa da antecipação. Isso significa abandonar a lógica predominante segundo a qual governos esperam o desastre ocorrer para então mobilizar Defesa Civil, decretar emergência e contabilizar prejuízos. Os autores defendem o fortalecimento de sistemas de monitoramento e alerta, modelos climáticos e hidrológicos de maior resolução, protocolos de segurança, intervenções de urbanismo climático e novas formas de governança capazes de transformar previsões científicas em medidas concretas de proteção.

Essa discussão é particularmente pertinente no Brasil, onde existe conhecimento técnico suficiente para identificar muitas das áreas que sofrerão com enchentes, deslizamentos, secas ou calor extremo, mas frequentemente falta transformar esse conhecimento em planejamento territorial, investimento público e políticas preventivas permanentes. A tragédia, portanto, muitas vezes começa bem antes da chuva, da enchente ou da onda de calor: começa quando alertas científicos são ignorados, obras de prevenção são adiadas e a ocupação de áreas vulneráveis continua sendo tolerada.

O artigo de Paulo Artaxo, Augusto Getirana e Pedro Henrique de Christo, publicado pela Folha de S.Paulo, traz assim uma mensagem simples, mas incômoda: não podemos impedir todos os eventos extremos que já foram colocados em movimento pela mudança climática, mas podemos decidir quantas pessoas estarão expostas a eles e quão devastadores serão seus efeitos. Em tempos de Super El Niño e aquecimento global acelerado, esperar o desastre para agir não constitui falta de previsão. É uma escolha política.

A Terra entrou no modo autoforno: aquecimento pode gerar mais 0,4 °C até 2100

Estudo publicado na Environmental Research Letters mostra que o calor provocado pelas emissões humanas está ativando novas liberações de CO₂ e metano pela própria natureza

Um artigo publicado em 10 de setembro de 2026 na revista científica Environmental Research Letters, da IOP Publishing, traz um alerta particularmente incômodo: as projeções climáticas podem estar subestimando o aquecimento futuro porque muitos modelos ainda não representam adequadamente as emissões de gases de efeito estufa provocadas pelo próprio aumento da temperatura. Intitulado “Projected amplification of global warming by warming-induced greenhouse gas emissions”, o estudo foi produzido por Sam Abernethy, Danielle Monteverde, Christina Schädel, Brian Buma, Philip B. Duffy, Robert B. Jackson, Susan M. Natali, Ilissa Ocko, Brendan M. Rogers e Benjamin Poulter.

O mecanismo analisado é uma típica retroalimentação climática positiva. As atividades humanas emitem dióxido de carbono e metano, a concentração desses gases aquece o planeta e o aumento da temperatura, por sua vez, estimula novas emissões provenientes de fontes naturais. Entre elas estão o degelo do permafrost, as áreas úmidas, lagos e rios e os incêndios florestais. O sistema climático deixa, portanto, de funcionar apenas como receptor das emissões humanas e passa a amplificá-las.

Por outro lado, com base em estimativas produzidas por modelos de processos naturais em três cenários socioeconômicos — SSP1-2.6, SSP2-4.5 e SSP4-6.0 —, a equipe calculou que as emissões de metano induzidas pelo aquecimento, considerando conjuntamente permafrost, áreas úmidas, águas continentais e incêndios, aumentam cerca de 97 milhões de toneladas por ano para cada grau adicional de aquecimento. No caso do dióxido de carbono liberado pelo permafrost e pelos incêndios, o acréscimo estimado chega a aproximadamente 7 bilhões de toneladas anuais por grau nos cenários intermediários analisados.

Ao incorporar essas emissões ao modelo climático MAGICC, os autores estimaram um acréscimo de 0,2 °C a 0,4 °C na temperatura global até 2100. Pode parecer pouco para quem ainda imagina a temperatura planetária como a regulagem doméstica de um aparelho de ar-condicionado, mas esse aumento representaria uma amplificação de 20% a 30% do aquecimento antropogênico posterior a 2020. Em um planeta que já se aproxima perigosamente dos limites estabelecidos pelo Acordo de Paris, algumas frações de grau podem separar impactos graves de transformações potencialmente irreversíveis.

O trabalho também indica que dióxido de carbono e metano contribuiriam em proporções aproximadamente equivalentes para esse aquecimento adicional. Esse resultado reforça a importância de reduzir rapidamente as emissões de metano, cujo tempo de permanência na atmosfera é menor que o do CO₂, mas cujo poder de aquecimento é muito superior no curto prazo. Ao mesmo tempo, mostra que a redução do metano não substitui a necessidade de eliminar as emissões de carbono provenientes dos combustíveis fósseis.

As estimativas carregam incertezas expressivas: os autores calculam uma margem de aproximadamente 0,2 °C para o aquecimento adicional e uma faixa de 10 a 30 pontos percentuais para sua amplificação relativa. O estudo combina resultados de modelos de processos com um modelo climático simplificado, não constituindo uma previsão exata do que ocorrerá. Ainda assim, a incerteza não oferece conforto, pois funciona nos dois sentidos: o efeito real pode ser menor, mas também pode superar a estimativa central.

A principal mensagem do artigo é que os chamados “orçamentos de carbono” talvez estejam sendo tratados com uma precisão que não possuem. Se parte relevante das emissões naturais induzidas pelo aquecimento continua ausente dos modelos utilizados para estimar quanto ainda poderíamos emitir, então o espaço disponível para manter o aquecimento abaixo de 1,5 °C ou mesmo de 2 °C pode ser menor do que se supõe.

O  artigo publicado na Environmental Research Letters desmonta definitivamente a confortável fantasia de que ainda dispomos de tempo para uma transição climática lenta, subordinada aos calendários eleitorais e às taxas de retorno dos investimentos. Quanto mais o aquecimento avança, maior se torna a possibilidade de que florestas, solos congelados, áreas úmidas e ambientes aquáticos liberem quantidades adicionais de gases de efeito estufa. Nesse processo, a demora não apenas acumula emissões humanas: ela fortalece mecanismos naturais capazes de tornar o controle do aquecimento ainda mais difícil, caro e incerto.

Agrotóxicos proibidos na Europa seguem liberados no Brasil

Um artigo publicado na revista Ciencia Digna, da Unión de Científicos Comprometidos con la Sociedad y la Naturaleza de América Latina (UCCSNAL), expõe de forma contundente a desigualdade regulatória que marca o uso de agrotóxicos no Brasil. Assinado por Sonia Corina Hess e Leonardo Melgarejo , o estudo mostra que, entre 429 ingredientes ativos químicos analisados, 223 não tinham uso autorizado na União Europeia.Desses, 190 estavam presentes em 1.891 produtos comerciais registrados no Brasil e responderam por cerca de 289 mil toneladas comercializadas em 2023.

A lista inclui substâncias amplamente utilizadas no país, como acefato, clorotalonil, atrazina, S-metolacloro, glufosinato de amônio e diquate. O ponto central não é apenas que a Europa adota regras diferentes, mas que muitos desses ingredientes estão associados a riscos relevantes à saúde humana e ao ambiente, incluindo toxicidade aguda, desregulação endócrina, genotoxicidade, contaminação de águas e danos a organismos não alvo.

O contraste fica ainda mais incômodo quando se observa que o banimento europeu não significou necessariamente redução de uso no Brasil. O mancozebe, proibido na União Europeia em 2021, teve sua comercialização brasileira ampliada de 41,7 mil toneladas em 2022 para 52,3 mil toneladas em 2023. Já o clorotalonil, banido na Europa em 2019, passou de aproximadamente 16,7 mil toneladas naquele ano para mais de 41 mil toneladas em 2023.

Hess e Melgarejo chamam atenção também para as chamadas “áreas de sacrifício”, territórios onde indicadores de câncer, suicídios e anomalias congênitas aparecem acima das médias nacionais e podem estar associados à exposição a agrotóxicos. A proposta dos autores é combinar o banimento das substâncias já proibidas na Europa com medidas territoriais de proteção, especialmente em assentamentos de reforma agrária, áreas indígenas, unidades protegidas e regiões de transição agroecológica.

O artigo da Ciencia Digna coloca, portanto, uma questão que deveria ocupar o centro do debate público brasileiro: se determinadas substâncias são consideradas perigosas demais para permanecer no mercado europeu, por que trabalhadores, comunidades rurais, consumidores e ecossistemas brasileiros continuam expostos a elas? O problema não é apenas toxicológico. É também político e econômico, porque revela uma divisão internacional do risco em que alguns países conseguem impor limites mais rigorosos, enquanto outros seguem funcionando como espaço de absorção dos custos ambientais e sanitários do agronegócio.

Cui bono? Dark Horse e a tentativa de decapitar a Polícia Federal

Operação da PF sobre o financiamento de Dark Horse torna ainda mais inquietante a tentativa de André Mendonça de afastar simultaneamente os responsáveis pela direção e pela inteligência da instituição

A operação deflagrada nesta quinta-feira (10) pela Polícia Federal acrescentou uma peça importante ao quebra-cabeça que envolve o Banco Master, Vorcaro, o filme Dark Horse e a crise instalada no Supremo Tribunal Federal. A Operação Make Up cumpriu 49 mandados de busca e apreensão e atingiu, entre outros, o deputado federal Mario Frias e Karina Gama, produtora do filme sobre Jair Bolsonaro. A investigação, autorizada pelo ministro Flávio Dino e realizada em conjunto com a Controladoria-Geral da União, apura suspeitas de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares e movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas.

O que torna a operação particularmente relevante é que Dark Horse aparece em duas frentes investigativas distintas. Enquanto a investigação sob relatoria de Flávio Dino procura esclarecer o possível uso irregular de recursos públicos, outra apuração, inserida no caso Master e sob relatoria de André Mendonça, investiga repasses relacionados ao financiamento privado do filme e sua conexão com  Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro.

É diante desse cenário que a tentativa de André Mendonça de afastar simultaneamente Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Leandro Almada, diretor de Inteligência da instituição, precisa ser examinada com especial atenção.  André Mendonça justificou sua decisão afirmando ter sido vítima de um “monitoramento sistemático” e ilegal realizado pela inteligência da PF. É uma acusação grave e que evidentemente precisa ser investigada. O problema começa quando aquele que se considera vítima dos atos investigados utiliza seus poderes jurisdicionais para afastar justamente os dirigentes da instituição responsável pela produção das informações que o atingem.

Foi precisamente essa contradição que Flávio Dino apontou ao determinar a reintegração dos dois delegados. Segundo Dino, André Mendonça não poderia transformar a defesa de seus próprios direitos em fundamento para uma decisão “em causa própria”, sobretudo quando o efeito concreto seria interferir na continuidade de investigações em andamento.   O ministro Flávio Dino destacou ainda que a substituição abrupta da direção e da inteligência da PF poderia comprometer equipes, fluxos de informação e o cumprimento das próprias determinações judiciais.

E aqui chegamos à velha pergunta latina: cui bono? A quem beneficia?  Não é necessário afirmar que André Mendonça decidiu afastar Andrei Rodrigues e Leandro Almada com a intenção de proteger  Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro personagem das investigações. Não existem, até este momento, elementos públicos suficientes para fazer essa afirmação. Mas existe uma pergunta perfeitamente legítima sobre os efeitos objetivos da decisão: quem seria beneficiado pela desorganização da direção da Polícia Federal justamente quando diferentes investigações começam a convergir sobre Dark Horse, recursos públicos, Vorcaro e personagens politicamente ligados ao bolsonarismo?

A operação desta quinta-feira torna essa pergunta ainda mais incômoda. Andrei Rodrigues chegou a argumentar perante Flávio Dino que seu afastamento estava interferindo diretamente na organização da equipe responsável pelo caso Dark Horse, retardando o acesso ao material investigado e comprometendo a rapidez da apuração.  Portanto, já não estamos discutindo uma consequência abstrata. O próprio diretor-geral da PF afirmou judicialmente que a decisão de André Mendonça estava produzindo efeitos sobre uma investigação concreta que agora resulta em 49 mandados de busca e apreensão.

Há ainda outra dimensão que não pode ser ignorada. André Mendonça é o relator do caso Master e, ao mesmo tempo, tornou-se personagem da controvérsia produzida pelos relatórios da inteligência da Polícia Federal. Com sua decisão, passou a ocupar simultaneamente as posições de autoridade atingida pelos relatórios, julgador da legalidade desses documentos e responsável pelo afastamento daqueles que comandavam a instituição que os produziu. Juristas ouvidos pelo UOL apontaram justamente essa sobreposição como uma das vulnerabilidades da decisão.

Nada disso prova que André Mendonça esteja tentando proteger alguém. Mas demonstra por que a aparência de conflito de interesses tornou-se praticamente incontornável.  E existe uma coincidência temporal difícil de ignorar: menos de 48 horas depois da tentativa de decapitar a direção e a inteligência da Polícia Federal, a instituição colocou nas ruas uma operação que alcança justamente o universo político e financeiro de Dark Horse.  Talvez seja por isso que a pergunta mais importante neste momento não seja descobrir antecipadamente quais eram as intenções de André Mendonça. Em instituições republicanas, intenções são difíceis de demonstrar; consequências são muito mais fáceis de observar.

E a consequência potencial daquela decisão era bastante concreta: retirar simultaneamente o diretor-geral e o diretor de Inteligência de uma Polícia Federal que está investigando alguns dos personagens política e financeiramente mais poderosos do país.  Por isso, diante da Operação Make Up, vale repetir a velha pergunta que costuma ser particularmente útil quando dinheiro, poder e política começam a circular pelos mesmos corredores: 

Cui bono? Quem ganharia com uma Polícia Federal decapitada justamente agora?

Experimento: quão fácil é comprar um artigo científico no mercado negro?

As fábricas de artigos não realizam pesquisas genuínas, mas produzem em massa artigos aparentemente confiáveis, cuja autoria pode ser comprada por um preço módico para impulsionar o prestígio de um pesquisador em bases de dados acadêmicas. Fonte: Johannes Peetsalu/Unsplash

Por Johannes Peetsalu para “ERR”

As fábricas de papel estão tornando mais fácil do que nunca para os pesquisadores comprarem a autoria de artigos acadêmicos falsos, alimentando preocupações de que a crescente pressão para publicar esteja prejudicando a integridade da pesquisa.

No mundo da pesquisa atual, as publicações são a principal moeda de troca. Em meio à acirrada competição acadêmica, o salário, a posição e toda a carreira futura de um pesquisador dependem do número e do sucesso de seus artigos publicados. Mas a pressão constante para publicar um número cada vez maior de artigos de pesquisa influentes criou o ambiente perfeito para um negócio obscuro.

Isso deu origem a um mercado negro que floresce principalmente nas redes sociais, onde operam as chamadas fábricas de artigos acadêmicos. Em vez de conduzirem pesquisas reais, elas produzem em massa textos elaborados para parecerem confiáveis. Por uma taxa módica, pesquisadores podem comprar a autoria de um artigo falso para melhorar seu prestígio em bases de dados acadêmicas. Aqueles que vendem fraudes acadêmicas também fazem de tudo para garantir que o artigo seja de fato publicado em um periódico acadêmico renomado.

Para descobrir o quão fácil é comprar a autoria de um artigo científico, realizamos um experimento jornalístico e contatamos algumas empresas que vendem artigos acadêmicos.

É importante ressaltar que a equipe editorial da ERR não defende o uso dos serviços de fábricas de papel. Essas fábricas são operações fraudulentas que contrariam totalmente os princípios da ética em pesquisa e, no pior dos casos, o uso de seus serviços pode resultar em penalidades criminais. Nosso único objetivo foi demonstrar o quão absurdamente fácil é entrar em contato com uma fábrica de papel.

Um cientista em 20 dias por 800 dólares

As fábricas de papel comercializam abertamente seus serviços nas redes sociais. Em comunidades do Facebook com nomes aparentemente inocentes, como “Ajuda gratuita para publicação e pesquisa no Scopus”, diversos serviços são anunciados por meio de cartazes repletos de informações, gerados por inteligência artificial. Superficialmente, parecem oferecer serviços de consultoria, mas, na realidade, fica claro que estão anunciando algo diferente.

Coletamos os dados de contato de sete dos vendedores mais ativos nos grupos e enviamos mensagens diretamente para eles pelo WhatsApp, conforme as instruções dos anúncios. Nas conversas, nos fizemos passar por um cientista da computação fictício chamado John Robert Steezy e perguntamos diretamente sobre a possibilidade de comprar os direitos autorais de um artigo científico.

Captura de tela de uma mensagem enviada para fábricas de papel. Fonte: ERR

Não tivemos que esperar muito por ajuda. Dos sete contatos, a maioria com nomes indianos, cinco responderam na meia hora seguinte, com notificações do WhatsApp iluminando constantemente a tela do celular.

As ofertas variavam bastante. O artigo mais caro custava US$ 800 e seria publicado em um periódico intitulado “Journal of Intelligent Decision Making and Information Science”. Segundo o vendedor, a publicação levaria apenas 20 dias. Comparado a um artigo científico convencional, que pode levar meses para passar pela revisão por pares e edição, esse era um período ridiculamente curto.

A oferta mais barata, por sua vez, era de apenas US$ 200, em troca da qual o cientista da computação receberia a coautoria de um artigo em uma revista de pesca. Tirando algumas ofertas mais estranhas, as fábricas de artigos científicos apresentavam uma qualidade bastante consistente. À primeira vista, todos os artigos de amostra pareciam trabalhos de pesquisa genuínos, e somente uma análise mais detalhada revelava que algumas figuras eram ilógicas ou as referências, arbitrárias.

Na primeira meia hora, a conta fictícia do WhatsApp do pesquisador, criada pela redação, recebeu mais de 20 artigos oferecendo autoria por valores entre US$ 200 e US$ 800. Captura de tela das notificações do WhatsApp. Fonte: ERR

O atendimento ao cliente das fábricas de papel não era menos impecável. Conseguimos falar com um vendedor por telefone e um homem com sotaque indiano explicou o processo de publicação e os preços em inglês fluente. Notavelmente, esse vendedor em particular só exigiu o pagamento depois que os editores da revista aceitassem o artigo.

Em poucas horas, todas as conversas haviam chegado ao ponto em que um único e-mail seria suficiente para enviar o artigo para periódicos sob o nome do pesquisador fictício. Para evitar sobrecarregar o mundo acadêmico com ainda mais lixo, no entanto, encerramos as conversas ali. Os vendedores insistentes continuaram bombardeando a redação com mensagens de WhatsApp por dias a fio.

Pesquisa roubada

De onde as fábricas de papel obtêm o material aparentemente genuíno que vendem? É aqui que entra em jogo um lado possivelmente ainda mais desonesto desse negócio sujo: o roubo do trabalho de pesquisadores de verdade.

Embora, como seria de esperar hoje em dia, alguns dos trabalhos oferecidos para venda sejam gerados por inteligência artificial, as informações geralmente provêm de pesquisas já publicadas. Nesses casos, as empresas que vendem trabalhos acadêmicos selecionam artigos menos conhecidos ou em língua estrangeira, submetem-nos a tradução automática e alteram a redação, as tabelas e os gráficos para evitar a detecção de plágio. O objetivo é fazer com que o trabalho pareça genuíno à primeira vista.

Ao que tudo indica, foi exatamente isso que aconteceu com Lauri Laanisto, professor titular de macroecologia na Universidade de Ciências da Vida da Estônia, que descobriu na primavera passada que haviam tentado republicar um estudo no qual ele havia trabalhado, em uma versão ligeiramente alterada e com o nome de outra pessoa. Laanisto descreveu o ocorrido pela primeira vez em seu blog.

“Foi uma feliz coincidência”, recordou Laanisto. “Apenas alguns meses antes, eu havia participado de uma reunião conjunta na Polônia com o editor-chefe de uma revista científica, onde apresentei esses mesmos resultados e figuras. Então, tivemos pura sorte de que, como editor-chefe, ele tenha se deparado com esse manuscrito reenviado e notado que tudo parecia suspeitosamente semelhante”, disse ele.

Segundo Laanisto, tratava-se de um caso inequívoco de plágio: o título e a redação haviam sido alterados e uma figura colorida convertida para preto e branco, mas o conteúdo do estudo permanecia o mesmo. O artigo listava como autor uma pessoa supostamente afiliada a uma universidade chinesa, mas essa pessoa não foi encontrada no site da universidade nem em bases de dados acadêmicas.

Laanisto afirmou que o objetivo final do autor do crime pode nem ter sido a publicação do artigo. “Talvez fosse um estudante de doutorado que precisava mostrar ao seu orientador que havia submetido um manuscrito dentro de um prazo determinado para ser aprovado na avaliação. Simplesmente submeter o artigo pode ter sido suficiente”, disse ele.

Também poderia ter sido um pesquisador sob pressão tentando manter o emprego. “Há muitos pesquisadores, a competição por financiamento é acirrada e os requisitos para manter um cargo acadêmico estão se tornando cada vez mais exigentes. Usar publicações que vendem artigos pode ser a maneira mais fácil de acumular créditos acadêmicos. Assim como o número de votos é uma espécie de moeda para os políticos em uma eleição, o equivalente para os pesquisadores é o número de artigos que publicaram ou o conjunto de suas pesquisas publicadas”, acrescentou Laanisto.

Mas como os fraudadores conseguem contornar a revisão por pares? Como pilar do sistema de pesquisa moderno, a revisão por pares tem como objetivo garantir que especialistas independentes examinem um estudo antes de sua publicação. As fábricas de artigos científicos têm seus próprios truques para burlar o processo.

O método mais descarado envolve revisores falsos. Uma fábrica de artigos científicos recomenda pesquisadores fictícios a um periódico como potenciais revisores, fornecendo endereços de e-mail que encaminham as mensagens da editora diretamente para os funcionários da fábrica. Estes, por sua vez, usam contas falsas para aprovar seus próprios trabalhos. Outro método consiste em subornar editores de periódicos ou criar um periódico fraudulento inteiro.

Uma análise abrangente publicada na revista PNAS encontrou quase 30.000 artigos suspeitos de baixa qualidade nas bases de dados acadêmicas examinadas. Pior ainda, os pesquisadores estimam que cerca de 75% desse conteúdo de baixa qualidade permanecerá permanentemente nas bases de dados acadêmicas. Isso significa que estudos futuros ou mesmo diretrizes de tratamento médico podem acabar sendo baseados em informações completamente falsas.

A pressão para publicar aumenta

Segundo Lauri Laanisto, a venda de coautoria não é novidade na pesquisa científica, sendo que esse tipo de fraude existe há pelo menos 20 anos. O que mudou, no entanto, foi a escala e a acessibilidade do negócio. No passado, as vagas de coautoria eram vendidas durante um curto período após um artigo legítimo ter passado pela primeira rodada de revisão por pares, mas antes de ser publicado. “Mas o experimento mostrou que agora a loja está essencialmente aberta 24 horas por dia, 7 dias por semana — as coisas mudaram”, acrescentou.

Laanisto apontou para a raiz do problema: a pressão cada vez maior para publicar. “Você pode ser um bom pesquisador, mas se não publicar o suficiente, não terá sucesso. Ao mesmo tempo, chegamos a um ponto em que você pode ser um pesquisador de sucesso sem necessariamente ser um pesquisador de verdade”, disse ele.

O ambiente de trabalho dos pesquisadores mudou drasticamente ao longo do tempo. “Quando comecei meu mestrado, meu orientador me disse que o ano de um ecologista era assim: você planeja um experimento na primavera, realiza-o no verão, analisa os dados no outono, escreve o artigo no inverno e recomeça na primavera. Isso resulta em um artigo por ano”, disse Laanisto.

Hoje, porém, a competição é tão intensa que, por exemplo, um ecologista que publica menos de 10 artigos por ano não consegue mais manter um perfil suficientemente elevado, afirmou ele. Essa pressão inevitavelmente afeta a qualidade da pesquisa. “É óbvio que, se você sempre publicou um artigo por ano, não vai repentinamente atingir um nível em que tenha 10 vezes mais conhecimento novo ou 10 vezes mais resultados. Isso só pode acontecer distribuindo o conteúdo de forma mais diluída entre os artigos”, disse Laanisto.

Ao mesmo tempo, Laanisto observou que, embora a pressão para publicar também seja um problema para os pesquisadores na Estônia, ele não tem conhecimento de nenhum pesquisador no país que utilize serviços de produção de artigos científicos. Por ora, esse tipo de fraude está predominantemente associado a países que oferecem bônus financiados pelo Estado para artigos publicados, como a China.

Laanisto afirmou que a pressão para publicar poderia ser reduzida dando maior valor às habilidades qualitativas na avaliação do trabalho dos pesquisadores, como a boa didática. “Dentro das universidades, provavelmente sabem melhor como distribuir esse dinheiro entre pessoas que realmente fazem algo, como aquelas que orientam bem os alunos de graduação.” Em sua opinião, isso aliviaria a pressão criada pela avaliação dos pesquisadores unicamente com base no número de suas publicações.

No entanto, quando se trata de conter os negócios obscuros das fábricas de papel, Laanisto acredita que a abordagem mais sensata seria impor consequências reais para violações da ética em pesquisa. “Se você for pego, por exemplo, comprando de uma fábrica de papel, duplicando dados ou publicando resultados roubados, geralmente não há nenhum tipo de punição formal”, disse Laanisto, descrevendo uma situação em que um pesquisador flagrado cometendo má conduta muitas vezes pode simplesmente se transferir para outra universidade.

“Mas se ser apanhado resultasse numa proibição oficial de receber financiamento para a investigação, isso tornaria as pessoas menos dispostas a arriscar cometer fraude”, disse Laanisto. 


Fonte: ERR

O maravilhoso mundo de Daniel Vorcaro: papéis podres, amigos poderosos e um Dark Horse

Se Franz Kafka tivesse conhecido Brasília, talvez tivesse desistido da literatura por falta de imaginação, pois o caso do Banco Master está demonstrando que, no Brasil, realidade, ficção e sátira podem disputar uma corrida em que a realidade costuma vencer com vários corpos de vantagem.

No centro da história está Daniel Vorcaro, personagem que passou em poucos anos da relativa obscuridade ao seleto clube dos banqueiros capazes de circular pelos salões onde política, dinheiro e poder se encontram sem precisar marcar audiência. O crescimento do Master ocorreu em meio a uma extraordinária expansão de operações financeiras que agora estão sendo destrinchadas por investigadores e órgãos reguladores. A CVM acaba, inclusive, de condenar o Banco Master, Daniel Vorcaro e outros envolvidos por práticas fraudulentas ocorridas entre 2018 e 2019, período em que o grupo procurava viabilizar a aquisição do antigo Banco Máxima. Mais interessante ainda é que a história do Master atravessou governos e construiu relações em diferentes quadrantes políticos, confirmando que o dinheiro sofre de uma conhecida dificuldade para distinguir direita de esquerda.

A situação mudou quando apareceu a Polícia Federal e Daniel Vorcaro acabou preso quando se preparava para deixar o país em um avião privado, enquanto as investigações começaram a revelar uma impressionante rede de contatos envolvendo políticos, empresários e integrantes das instituições que deveriam fiscalizar justamente esse tipo de atividade. De repente, o Banco Master deixou de parecer apenas um banco com problemas e começou a adquirir a aparência de uma espécie de rede social VIP da República: quanto mais se investigava, mais gente importante aparecia.

No meio dessa história surgiu ainda o Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro confirmou ter procurado Daniel Vorcaro em busca de recursos para o filme e declarou que estava apenas fazendo aquilo que qualquer filho dedicado faria: procurando patrocínio privado para contar a história do pai. Segundo informações tornadas públicas, Daniel Vorcaro teria colocado R$ 61 milhões na produção, enquanto Flávio chegou a solicitar R$ 134 milhões. Convenhamos que é uma homenagem filial de proporções cinematográficas, pois há filhos que dão gravatas no Dia dos Pais, enquanto outros procuram banqueiros para levantar dezenas de milhões de reais.

O roteiro ficaria apenas curioso se Flávio Bolsonaro não estivesse agora disputando a Presidência da República apresentando-se como adversário da corrupção e utilizando justamente o escândalo Master como arma política. O homem que procurou Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre o pai transformou-se, por alguma maravilhosa alquimia eleitoral, em acusador das relações de terceiros com Daniel Vorcaro. O Dark Horse talvez ainda nem tenha chegado às telas, mas já poderia disputar o prêmio de melhor roteiro político adaptado.

Como toda boa produção brasileira sobre poder precisa chegar ao Supremo, eis que André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. André Mendonça sustenta que relatórios produzidos pela PF representariam monitoramento ilegal e violação do Estado de Direito, mas existe um inconveniente político difícil de esconder debaixo do tapete: o próprio nome de André Mendonça apareceu no emaranhado de relações que as investigações do caso Master passaram a escrutinar. Temos, portanto, uma situação extraordinária em que integrantes da instituição investigadora produziram informações envolvendo autoridades e uma dessas autoridades participou da decisão que afastou justamente o chefe da instituição investigadora.

Não é necessário acusar ninguém de crime para perceber o tamanho do problema institucional, pois a questão deixou de ser apenas aquilo que cada autoridade fez ou deixou de fazer e passou a envolver algo muito mais elementar: quem investiga os investigadores, quem investiga os julgadores e, sobretudo, quem julga quando o próprio julgador aparece no universo dos fatos investigados?

Talvez essa seja a grande contribuição histórica do Banco Master, pois Daniel Vorcaro conseguiu produzir uma espécie de teste de estresse da República brasileira. Ao puxar um fio, apareceram banqueiros, políticos, ministros, advogados, empresários, contratos milionários, relações pessoais e até uma superprodução cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. O Master foi liquidado, mas sua verdadeira contabilidade talvez esteja apenas começando a ser conhecida, e não se trata daquela registrada nos balanços bancários, mas da contabilidade muito mais interessante das relações entre dinheiro e poder.

É precisamente nesse ponto que a sátira deixa de ser engraçada, porque o caso Master revela como parcelas das elites brasileiras circulam por uma zona onde negócios privados, relações políticas e instituições públicas parecem perigosamente próximas. As ideologias proclamadas diante das câmeras tornam-se surpreendentemente flexíveis quando as portas se fecham, permitindo que um banqueiro converse com gente situada em diferentes pontos do espectro político porque, nas alturas da República, talvez exista uma ideologia muito mais ecumênica do que aquelas apresentadas ao eleitorado: a proximidade com o dinheiro e com quem pode abrir portas.

Por isso, transformar o Master simplesmente em escândalo “do bolsonarismo”, “do lulismo”, “da direita” ou “da esquerda” pode acabar servindo justamente aos personagens que precisam ser investigados. O que emerge dessa história é algo estruturalmente mais desagradável: um sistema de relações entre dinheiro e poder capaz de atravessar governos, partidos e instituições, enquanto cada grupo tenta convencer a população de que Daniel Vorcaro só conhecia profundamente os integrantes do campo adversário.

Daniel Vorcaro talvez tenha começado essa história querendo construir um banco e terminado ajudando involuntariamente a produzir uma radiografia da República. O problema é que, diante do que começa a aparecer na chapa, o diagnóstico talvez não recomende simplesmente trocar o médico, mas examinar com muito mais cuidado o hospital inteiro.

Caso Master: André Mendonça afasta quem investiga e amplia as dúvidas sobre sua própria atuação

Ao afastar Andrei Rodrigues e Leandro Almada enquanto a PF apura fatos que alcançam sua relação com Vorcaro, ministro do STF aprofunda um delicado problema de conflito de interesses e credibilidade institucional

O afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, acrescentou um ingrediente particularmente explosivo ao caso do Banco Master. A questão não está apenas na excepcionalidade de um ministro do STF afastar dois integrantes da cúpula da Polícia Federal, mas no fato de que o próprio André Mendonça aparece no universo de informações levantadas pela instituição que agora tem seus dirigentes afastados.

André Mendonça sustenta que relatórios produzidos pela PF envolveram procedimentos ilegais de inteligência e que ele próprio teria sido alvo de monitoramento indevido. Essa alegação precisa evidentemente ser apurada. O problema institucional surge porque o ministro que se considera atingido pelos procedimentos é também aquele que determinou uma das medidas mais severas possíveis contra a direção da instituição responsável por produzi-los. Mesmo que André Mendonça esteja juridicamente correto sobre eventuais ilegalidades cometidas pela PF, permanece uma pergunta difícil de afastar: seria adequado que ele próprio decidisse sobre as consequências para os responsáveis por uma estrutura investigativa que produziu informações a seu respeito?

A situação torna-se ainda mais delicada porque André Mendonça confirmou ter recebido o banqueiro Vorcaro em março de 2025, embora sustente que o encontro tenha ocorrido uma única vez, em contexto institucional, e que sua atuação posterior no STF tenha inclusive contrariado interesses do banqueiro. O encontro, por si só, não demonstra qualquer irregularidade. Entretanto, sua existência torna especialmente necessária a preservação de uma distância inequívoca entre André Mendonça e decisões que possam interferir em investigações capazes de alcançar suas próprias relações com Vorcaro.

Existe ainda outra contradição. Quando informações obtidas nas investigações do caso Master alcançaram outros integrantes do STF, André Mendonça defendeu o aprofundamento das apurações e posteriormente retirou o sigilo de elementos que expunham relações entre Alexandre de Moraes e Vorcaro. Agora que informações produzidas pela PF atingem o próprio André Mendonça, sua reação foi questionar a legalidade dos procedimentos e afastar preventivamente o diretor-geral e o diretor de Inteligência da instituição. As situações podem ter diferenças jurídicas relevantes, mas a assimetria é suficientemente evidente para exigir uma explicação pública particularmente robusta.

Não se trata, neste momento, de acusar André Mendonça de prevaricação ou de qualquer outro crime. As informações disponíveis não autorizam semelhante conclusão. O problema é anterior e talvez institucionalmente mais profundo: a aparência de que uma autoridade possa estar exercendo poderes jurisdicionais em uma controvérsia na qual possui interesse pessoal direto. Em um Estado de Direito, não basta que uma decisão seja juridicamente fundamentada; é igualmente necessário preservar condições capazes de afastar dúvidas razoáveis sobre a imparcialidade de quem decide.

O afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada também cria um precedente preocupante para a autonomia operacional da Polícia Federal. Se dirigentes policiais podem ser removidos por decisão de uma autoridade que aparece nas próprias informações produzidas pela instituição, investigadores encarregados de apurar fatos envolvendo integrantes dos poderes superiores passam a trabalhar sob uma ameaça objetiva: suas investigações poderão produzir consequências não apenas para os investigados, mas para os próprios investigadores.

É justamente por isso que a crise do Banco Master deixou há muito tempo de ser apenas uma investigação sobre Vorcaro e seus negócios. Ela passou a colocar à prova as relações entre Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal e demais instituições responsáveis pelo sistema de Justiça. Quanto mais as investigações se aproximam de autoridades encarregadas de supervisioná-las, maior deveria ser o cuidado com impedimentos, controles colegiados e transparência.

André Mendonça pode, ao final, estar correto ao sustentar que houve abusos na produção dos relatórios da Polícia Federal. Mas essa conclusão será muito mais convincente se for estabelecida por autoridades que não sejam simultaneamente julgadoras e personagens dos fatos examinados. Ao afastar Andrei Rodrigues e Leandro Almada enquanto ele próprio está inserido no universo das apurações relacionadas ao Banco Master, André Mendonça criou uma contradição que nenhuma decisão judicial consegue simplesmente apagar.

E talvez seja essa a pergunta que permanecerá sobre o episódio: quando uma investigação alcança quem possui poder para controlar os investigadores, quem deve decidir sobre os limites da investigação? A resposta institucionalmente saudável certamente não pode depender apenas da autoridade de quem está sendo investigado.

Não haverá desculpa para a surpresa: é hora de preparar o Brasil para o El Niño

O artigo “Emergência climática: o que o Brasil precisa fazer para enfrentar os impactos esperados do El Niño que já começou, de Regina Célia dos Santos Alvalá, diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em parceria com José Antônio Marengo e Marcelo Seluchi, publicado originalmente pelo The Conversation Brasil, traz uma contribuição particularmente oportuna: o El Niño 2026–2027 deixou de ser uma possibilidade distante e exige que previsões meteorológicas sejam transformadas imediatamente em políticas de prevenção, preparação e proteção da população.

O problema é especialmente complexo porque não existe um único “efeito El Niño” para o Brasil. Enquanto o Sul poderá enfrentar chuvas extremas, enchentes e deslizamentos, partes do Norte e Nordeste estarão mais expostas à seca, aos incêndios e à redução da disponibilidade de água. Centro-Oeste e Sudeste, por sua vez, poderão experimentar temperaturas excepcionalmente elevadas, baixa umidade e ondas de calor. Como lembra Regina Alvalá, os impactos ultrapassam a meteorologia e alcançam simultaneamente agricultura, geração de energia, abastecimento de água, logística, saúde e segurança alimentar.

A questão decisiva, portanto, é preparar as pessoas antes que os eventos extremos ocorram. Isso significa identificar populações residentes em áreas sujeitas a enchentes e deslizamentos, estabelecer e divulgar rotas de evacuação, testar sistemas de alerta e preparar abrigos. Significa também criar protocolos específicos para ondas de calor, incluindo adaptação dos horários de escolas e trabalhos realizados ao ar livre, disponibilização de água e ambientes refrigerados ou termicamente protegidos e atenção especial a crianças, idosos, trabalhadores expostos e pessoas em situação de rua.

O mesmo princípio deve valer para a saúde pública. O Ministério da Saúde já apresentou um plano para o El Niño 2026–2027 que prevê salas de situação, estoques emergenciais de medicamentos e capacidade de deslocamento de equipes da Força Nacional do SUS. Mas esses mecanismos precisam chegar efetivamente aos estados e municípios, porque é na rede local do SUS que aparecerão inicialmente os casos de desidratação, insolação, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias e outras consequências do calor, da fumaça dos incêndios, das enchentes e da deterioração das condições sanitárias.

Também será indispensável transformar informação climática em informação pública compreensível. Não basta anunciar que haverá um El Niño “muito forte”. Cada município deveria informar aos seus moradores quais são os riscos esperados naquele território, quem está mais vulnerável, onde procurar ajuda e como agir diante de cada tipo de emergência. Sistemas de alerta por celular, agentes comunitários de saúde, escolas, associações de moradores, rádios locais e redes sociais precisam integrar uma estratégia permanente de comunicação de risco. O próprio Painel El Niño recomenda que a população mantenha atualizado o cadastro para alertas da Defesa Civil e conheça previamente áreas de risco e rotas de fuga.

Há ainda uma dimensão social que não pode ser escondida. Eventos climáticos extremos atingem populações diferentes de maneira profundamente desigual. Quem possui casa climatizada, automóvel, reserva financeira e acesso regular à água enfrenta uma onda de calor de maneira muito diferente de quem vive em uma residência precária, trabalha sob o sol ou depende diariamente do transporte público. Da mesma forma, uma enchente possui consequências muito diferentes para quem dispõe de seguro e recursos para deixar rapidamente uma área ameaçada e para uma família que perderá praticamente tudo o que possui se tiver de abandonar sua casa.

Por isso, preparar o Brasil para o El Niño significa também fazer política social de adaptação climática. Os R$ 1,335 bilhão mencionados por Regina Alvalá para ações relacionadas a abastecimento, segurança alimentar, saúde, monitoramento e prevenção de incêndios são importantes, mas o teste decisivo será verificar quanto dessa preparação chegará efetivamente aos territórios e às populações mais expostas.

O El Niño oferece, paradoxalmente, uma vantagem que terremotos e outros eventos súbitos não oferecem: sabemos antecipadamente que ele está chegando e temos uma ideia razoável dos tipos de impactos que poderá produzir. Se, mesmo dispondo de meses de antecedência, sistemas de monitoramento e conhecimento científico acumulado, continuarmos esperando as enchentes, secas, incêndios e ondas de calor acontecerem para então decretar emergência e distribuir ajuda, não estaremos diante apenas de desastres climáticos. Estaremos diante de desastres anunciados cuja gravidade também refletirá nossas escolhas políticas.