A Uenf não está fechada, ela está se insurgindo contra sua destruição pelo (des) governo Pezão

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Greves em universidades públicas são eventos indesejados porque atrapalham o funcionamento de uma série de ações que são extremamente sensíveis, desde o processo de ensino, passando pela pesquisa, e chegando na difusão do conhecimento que é gerado por meio da extensão.

Lamentavelmente nos últimos anos os diferentes segmentos que formam a comunidade universitária da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) têm necessitado usar o instrumento da greve para se insurgir contra um projeto de desmonte de uma das melhores instituições universitárias existentes no Brasil.

A atual greve decretada por servidores técnico-administrativos e professores é mais um caso de insurgência contra um (des) governo que vem tentando de tudo para inviabilizar a contribuição da Uenf para o desenvolvimento regional.  E essa greve foi decretada não apenas por causa do vexaminoso atraso no pagamento de quatro salários, mas também por causa do corte das verbas de custeio que remonta ao mês de Outubro de 2015.

Mas que ninguém se engane. A Uenf não está fechada. Aliás, muito pelo contrário, o que estamos vivenciando todos os dias é um esforço concentrado para mantê-la aberta e com a manutenção de seu caráter público, gratuito e de excelência.  

E o mais importante é entender que greves são momentos específicos dentro da trajetória de universidades que vivem sob constante ataque de (des) governos que gostariam de fechá-las em nome de um projeto econômico que quer manter o Brasil para sempre como uma Nação na rabeira do processo de desenvolvimento capitalista.

É contra esse projeto que os segmentos organizados da Uenf estão se insurgindo neste momento, pois não é possível que se aceite passivamente o que o (des) governo Pezão está tentando fazer. 

As longas fileiras dos inimigos das universidades estaduais do Rio de Janeiro já tem um farol, Elio Gaspari

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Não tenho certeza por quais cargas d´água, o jornalista Elio Gaspari decidiu depositar na sua coluna dominical o petardo acima contra a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).  Uns podem até pensar que é por falta de assunto mais relevante ou até um caso de jornalista que não checa bem suas fontes.

Aliás, pontos facultativos em órgãos públicos como a Uerj normalmente decorrem de determinações de instâncias superiores do executivo estadual, o que deveria ter sido adicionado, a bem da informação, por Elio Gaspari em seu comentário.

Mas Elio Gaspari não é nenhum foca no jornalismo e sua mensagem parece mais uma daquelas em que se atende um pedido de amigos dentro das altas esferas. Como a Uerj possui mais de um professor no pleno do Superior Tribunal Federal (STF) essa minha hipótese não pode ser desprezada.

Como pelo menos um desses professores, o ministro Luís Roberto Barroso, já se manifestou positivamente em tempos recentes sobre a necessidade da Uerj ser geradora de sua autonomia financeira [1] (cobrando mensalidades dos seus estudantes para começo de conversa, é preciso que se diga), não posso deixar de entender essa associação a uma decisão da reitoria da Uerj, se ela realmente ocorreu, à ideia de que no serviço público perdura uma atitude perdulária e irresponsável no uso do dinheiro dos contribuintes. 

Ao levantar este tipo de ataque à Uerj, enquanto ignora as reais condições que têm sido impostas à instituição pelo (des) governo Pezão, Elio Gaspari não apenas sacia a fome dos seus leitores dos jornalões da mídia corporativa por matérias que exponham uma suposta preguiça dos servidores públicos.  Na verdade ele vai além e tenta dar argumentos para quem quer privatizar as universidades estaduais do Rio de Janeiro, negando-lhes a possibilidade de continuar educando jovens oriundos das classes mais pobres da nossa população. 

Interessante notar que a crise que assola a Uerj vem recebendo um tratamento mais abrangente da mídia estrangeira como foi o caso de um artigo publicado em janeiro de 2017 pelo jornal “El País” com o título “Universidade do Estado do Rio pede socorro em meio à grave crise” [2].

Aluna da UERJ confecciona cartazes de protesto na universidade.

Entretanto, sobre a situação pré-falimentar que ronda a Uerj e as demais universidades estaduais do Rio de Janeiro certamente não leremos nada na coluna de Elio Gaspari. É que está claro que ele serve muito bem a outros propósitos, a começar por ser um farol das longas fileiras de inimigos que as universidades estaduais do Rio de Janeiro acumulam fora e até do lado de dentro dos seus muros.

De toda forma, é preciso repudiar de forma rápida e contundente este tipo de mensagem falaciosa, sob pena de que o que está sendo imputado por Elio Gaspari se torne mais instrumento de ataque ao ensino superior estadual do Rio de Janeiro.


[1] http://justificando.cartacapital.com.br/2017/01/15/especialistas-rebatem-defesa-de-barroso-de-privatizacao-da-uerj/

[2] https://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/18/politica/1484780217_645185.html

A crise (seletiva) do RJ: adoção de solução errada irá agravar e não resolver o caos atual

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Estive presente na interessante palestra que foi dada pelo economista e professor  Bruno Leonardo Barth Sobral da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) na programação oficial do aniversário de 24 anos da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). 

A palestra oferecida pelo professor Bruno Sobral serviu para me educar sobre os elementos macro-estruturais da crise financeira que assola o estado do Rio de Janeiro neste momento. Ainda que já tenha oferecida a ele uma rápida crítica ao que eu considerei um subestimação das interações entre elementos estruturais da economia fluminense e os impactos da corrupção e da farra fiscal no atual cenário, vou me ater aqui a três aspectos  que ele apontou e que eu penso devem ser melhor compreendidos pelos que estão sofrendo os efeitos da crise seletiva que se abate sobre servidores e a população que depende mais diretamente dos serviços públicos.

O primeiro aspecto que quero ressaltar na fala do professor Bruno Sobral é o fato de que o Rio de Janeiro vive hoje um problema causado mais pela queda de receitas do que pelo aumento das despesas que também estão caindo.  O problema é que as receitas estão caindo num ritmo mais acelerado (ver  a figura abaixo).

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Mas mais drástico ainda é a situação da chamada Receita Corrente Líquida (RCL) [1] onde o Rio de Janeiro ocupa o último lugar dentro da federação brasileira, o que evidenvia um grave problema estrutural.

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Em  segundo lugar, destaco o problema que a questão anterior causa no aumento da dívida líquida, especialmente quando comparamos com outros estados que estão igualmente em dificuldades neste momento, como Minas Gerais e Rio Grande do Sul. É que no caso do Rio de Janeiro, este aumento vem sendo visivelmente mais acelerado.

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Um terceiro aspecto que considero fundamental é que todo o receituário adotado pelo governo do Rio de Janeiro por imposição do governo “de facto” de Michel Temer.  Falo aqui da questão do peso das despesas com pessoal  no total de despesas primárias. Como se pode observar na figura abaixo, o Rio de Janeiro ocupa apenas a 13ª. posição, ficando muito próximo da média nacional. Em outras palavras, as despesas com os salários não explicam a situação caótica em que se encontram as finanças do estado.

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Mas o pior é que como foi mostrado pelo professor Bruno Sobral, o chamado “Pacote de Recuperação Fiscal” que foi assinado pelo (des) governo Pezão adota exatamente a premissa de que o problema está no aumento das despesas (com o foco principal ficando sobre os servidores) e não na queda das receitas.   Essa é mais uma aplicação da “moral de tesouraria” que despreza qualquer olhar mais amplo do problema para se concentrar, de forma equivocada, num receituário claramente recessivo.

E no caso do Rio de Janeiro, como bem demonstrou o professor Bruno Sobral, uma receita que despreza a estrutura econômica existente, o que certamente deverá agravar a crise e não resolvê-la.  Mas espero o que de um (des) governo tão desqualificado e incompetente como o comandado pelo Sr. Luiz Fernando Pezão? O problema para todos nós é de como escapar dessa armadilha que foi tramada pelo dublê de ministro e banqueiro, o Sr. Henrique Meirelles.

Quem desejar saber mais sobre estas questões tão graves para o futuro do Rio de Janeiro, sugiro a leitura do artigo “A Crise do Rio de não deve ser tratada como crise do Rio” do próprio professor Bruno Sobral, onde essas e outras questões são analisadas [Aqui!].

Rafael Diniz e sua moral de Shylock estão na raiz do profundo desencanto que grassa nas ruas de Campos dos Goytacazes

Enquanto o jovem prefeito Rafael Diniz segue aplicando na sua gestão o que o professor de economia da Universidade do Rio de Janeiro Bruno Sobral rotula de “Moral de Tesouraria” {[1], as conversas que venho tendo nas ruas mostram que há um profundo desencanto crescendo dentre os segmentos mais pobres da população que caíram na propaganda de que este seria o governo da mudança.

Esse desencanto, ao contrário do que possa querer imputar o alto clero do governo Diniz, não é motivado por questões difíceis de serem entendidas ou, menos ainda, por mera agitação política do grupo político do ex-governador Anthony Garotinho.

Ao conversar com pessoas que ninguém para arguir opiniões sobre a qualidade da gestão governamental por estarem em funções mais basilares da estrutura laboral, o que tenho ouvido é que o pouco que foi mudado foi para prejudicar os pobres. Obviamente os dois primeiros exemplos lembrados são o fechamento de Restaurante Popular e o encarecimento da passagem de ônibus.

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Mas um item que também tem sido lembrado se refere ao oferecimento de cargos comissionados a parentes de vereadores e de membros do executivo municipal, o que é visto como uma continuidade de práticas que se prometeu seriam extintas.  Aliás, dois nomes de vereadores que aparecem na boca dos que conversam comigo como péssimos exemplos neste quesito são Marcão Gomes (REDE) e Cláudio Andrade (PSDC).

Outra coisa interessante é que não vejo propriamente saudade do governo anterior, de Rosinha Garotinho. A questão, que me parece ser mais grave para Rafael Diniz, é o fato de que ele está sendo visto como um prefeito que está atacando os pobres apenas para destruir o legado de Anthony Garotinho, enquanto aos ricos está sendo dado o que há de melhor.

Um problema que surge em todas as conversas que tenho mantido é a disposição de não votar em mais ninguém visto o descompasso monumental que está sendo visto entre as promessas eleitorais de Rafael Diniz e sua prática de governo. Aí os exemplos que são citados se referem também ao restaurante popular e à passagem de ônibus. Um dos meus interlocutores e que votou em Rafael Diniz me lembrou do fato de que na campanha o candidato “da mudança” prometeu não apenas não extinguir o restaurante popular e a passagem social, mas também que iria ampliar ambos os programas. Para ele aquele que falava em ampliar para melhorar, agora só faz cortar do pouco que era destinado aos pobres.

Em contrapartida ao argumento corrente “de que todos são iguais”, venho tentando mostrar que lembrar aos eleitos o tamanho da distância existente entre as promessas e o que de fato está sendo feito é a única forma de melhorarmos o próprio processo de escolha de que vai nos governar.

Reconheço que o tamanho da minha amostra ainda é pequeno, mas irei continuar tendo minhas conversas com os “invisíveis” que só são lembrados na hora de capturar seus votos.  E farei isto por um motivo simples: os “invisíveis” compõe a imensa maioria da nossa população e são quem efetivamente resultados eleitorais. Assim, a opinião deles é importante, ao menos para quem realmente deseja que vivamos um real processo de mudança na forma de governar não apenas Campos dos Goytacazes, mas o Brasil como um todo.

Apesar da ressalva do parágrafo anterior, eu não hesito dizer que após apenas pouco mais de sete meses de governo, se Rafael Diniz mantiver sua atual trajetória de governar como fiscal de tesouraria, ele não irá ter qualquer futuro político se depender da população de Campos dos Goytacazes.  E se isso acontecer, só terá a si mesmo para culpar.

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[1] Moral de tesouraria seria aquela que no processo de entender as razões da crise financeira do estado não se consegue ir além da aparência do problema refletida em uma soma dos desequilíbrios entre gastos e receitas. Com isso, se perde a oportunidade de analisar os aspectos estruturais da mesma, insistindo-se assim só na realização de cortes em áreas que se acredita serem as culpadas pelo desequilíbrio.  Para quem conhece a obra de William Shakespeare, um exemplo direto da “Moral de Tesouraria” é encontrada na pela “O Mercador de Veneza”, e mais diretamente no personagem Shylock.

Força Tarefa da Lava Jato RJ lança nota sobre possível libertação precoce de presos da Operação Ponto Final

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Lava Jato/RJ – Nota Pública

 

Em relação à liminar em habeas corpus concedida na data de ontem (17/08/2017) pelo Ministro Gilmar Mendes, os membros da Força Tarefa da Lava Jato no Rio de Janeiro vêm a público manifestar a sua apreensão diante da possível liberdade precoce de empresários com atuação marcante no núcleo econômico de organização criminosa que atuou por quase dez anos no Estado, subjugando as instituições e princípios republicanos, e que detêm poder e meios para continuarem delinquindo em prejuízo da ordem pública e da higidez da instrução criminal.

A Operação Ponto Final é um desdobramento de diversas operações que têm ocorrido desde novembro de 2016 no Rio de Janeiro, reunindo um esforço imenso de vários órgãos de Estado com o objetivo comum de infirmar a atuação de detentores de espaços de poder corrompidos há muitos anos, e que, não obstante, nunca cessaram as suas atividades insidiosas, nem mesmo com o encerramento da gestão estadual anterior, havendo registros recentes de pagamentos de propina e atos de obstrução a Justiça.

A aplicação de um processo penal em que se entende não ser cabível a prisão preventiva para um acusado de pagar quase R$ 150 milhões de propina a um ex-governador e que tentou fugir do país com um documento sigiloso fundamental da investigação, definitivamente não é a aplicação de uma lei que se espera seja igual para todos. 

A apreensão dos Procuradores sobreleva diante de contexto em que o prolator das referidas decisões é cônjuge de integrante do escritório de advocacia que patrocina, em processos criminais da Operação Ponto Final, os interesses de pessoas jurídicas diretamente vinculadas aos beneficiários das ordens concedidas o que, à luz do art. 252, I, do Código de Processo Penal, e do art. 144, VIII, do Código de Processo Civil, aplicável com base no art. 3º do Código de Processo Penal, deveria determinar o autoafastamento do Ministro Gilmar Mendes da causa. 

Para garantir um juízo natural sobre o qual não paire qualquer  dúvida de imparcialidade, e em respeito aos jurisdicionados e à instituição do Supremo Tribunal Federal, os Procuradores encaminham na data de hoje ao Procurador-Geral da República ofício solicitando o ajuizamento de exceção de suspeição/impedimento, instrumento processual disponível às partes em tais hipóteses.

Integrantes da Força Tarefa da Lava Jato no Rio de Janeiro – PR/RJ e PRR2

Documentos relacionados:

Ofício 1257/2017 ao PGR

Anexo ao Ofício 1257/2017 ao PGR

FONTE:  Assessoria de Comunicação Social da Procuradoria da República no Rio de Janeiro

Revolução e contrarrevolução na Alemanha: um ótimo guia para entender o avanço do fascismo no Brasil e no mundo

Em tempos de manifestação aberta de grupos neofascistas e neonazistas em várias partes do mundo há uma corrente desinformação não só sobre a gênese dos movimentos originais ocorridos na Itália e na Alemanha e uma evidente incapacidade de entender os componentes sociais desse ressurgimento, bem como do papel que esses saudosistas de Benito Mussolini e Adolf Hitler desempenham no centro e na periferia do sistema capitalista.

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Para quem desejar entender melhor o contexto e as condicionantes que permitiram a ascensão do nazi-fascismo, eu recomendo a aquisição da obra “Revolução e contrarrevolução na Alemanha” que é o resultado da combinação de uma série de textos escritos por Leon Trotsky entre 1931 e 1933, tomando como caso exemplar o Partido Nacional Socialista de Alemanha. 

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Como não vou  resenhar aqui o livro como um todo, me aterei a dois aspectos que considero fundamentais do livro e que me parecem permanecerem bastante atuais, inclusive para o caso brasileiro.

A primeira se refere ao que Trotsky se referiu a um apelo da pequena burguesia para abraçar o Fascismo para superar os movimentos de grave crise econômica, como é o que vivemos atualmente no mundo e no Brasil. Em relação a isso, Trotsky apontou para o caráter dúbio da pequena burguesia que pode tanto abraçar a revolução como a contrarrevolução. No caso da Alemanha da década de 1930. Trotsky afirmou que “o desespero contrarrevolucionário abraçou a massa pequeno-burguesa com tal força que atraiu importantes camadas do proletariado“.  Qualquer semelhança do que afirmou Trotsky sobre a Alemanha não pode ser negado como mera coincidência com o que andamos vendo no Brasil e também nos EUA em pleno 2017.

A segunda questão que trago desta obra de Trotsky se refere ao processo de fascistização do aparelho de Estado. Neste caso Trotsky apontou que a “fascistização do Estado significa (…) antes de tudo e, sobretudo, destruir organizações operárias, reduzir o proletariado a um estado amorfo, criar um sistema de organismos que penetre profundamente nas massas e esteja destinado a impedir a cristalização independente do proletariado. É precisamente nisto que consiste a essência do regime fascista”.

Essa referência ao processo de fascistização do Estado, além de ser uma primorosa caracterização, também nos auxilia a desmascarar a lenda de que os nazifascistas (ou mais precisamente os nazistas) eram de esquerda.  É que os eventuais vícios que a esquerda cometeu após a Revolução Russa, dificilmente envolverão o receituário apontado por Trotsky em relação à tomada do Estado pelo Fascismo.

Mas o essencial aqui é que a análise de Trotsky nos permite sair do aparvalhamento em que muitos estão imersos neste momento em relação ao aparecimento público de grupamentos que não tem a menor vergonha de pregar a eliminação física de judeus, negros, imigrantes e homossexuais.  É que a partir do entendimento das bases teóricas identificadas no  “Revolução e contrarrevolução na Alemanha” que podemos entender as cenas que reproduziam mensagens nazifascistas nas manifestações que pediam o impeachment de Dilma Rousseff, e agora foram repetidas em um tom ainda mais alto nas manifestações em Charlottesville. 

E que ninguém se engane: o nazifascismo representa a expressão mais aguda do caminho sem saída do regime burguês. Foi assim na Alemanha, e está sendo assim no Brasil e nos EUA.

Ah, sim, o livro pode ser encontrado para compra na Estante Virtual [1] e ou em algumas livrarias mais diversificadas em várias partes do Brasil.


[1https://www.estantevirtual.com.br/

A interpretação de Trotski acerca do estalinismo

Por Perry Anderson, originalmente publicado em New Left Review , maio-junho de 1983. Traduzido por Morgana Romão e revisado por Marcio Lauria Monteiro.

A interpretação de Trotski acerca do significado histórico do estalinismo, até hoje a teoria mais coerente e desenvolvida sobre o fenômeno dentro da tradição marxista, foi construída ao longo de vinte anos de luta política prática contra isso. Seu pensamento, portanto, evoluiu através da tensão com os principais conflitos e eventos desses anos, e pode ser convenientemente periodizado em três fases essenciais. *


Os primeiros escritos de Trotski sobre o assunto datam da luta interpartidária que eclodiu no PCUS após a Guerra Civil. Eles não nomeiam o estalinismo como tal. O foco é o que a tradição do partido chamou de “burocratismo”. O Novo Curso (1923) é o texto chave desse período. Nele, Trotski assumiu os dois principais termos que foram as explicações de Lênin sobre esse fenômeno antes de sua morte. O burocratismo, Lênin argumenta, estava enraizado na falta de cultura das massas russas, rurais ou urbanas, que as privou das aptidões necessárias para a administração competente do pós-guerra, e no caráter de subsistência e limitado comércio da economia agrária, cuja imensa dispersão dos produtores primários tornava inevitável uma demasiada centralização do aparelho estatal na Rússia. Trotski adicionou uma terceira causa: a inevitável contradição entre os interesses imediatos e de longo prazo da classe trabalhadora em meio à grande escassez e às extremas exigências da reconstrução do pós-guerra. Mais significativamente, entretanto, ele insistiu que o burocratismo não era “apenas o agregado dos maus hábitos dos titulares de cargos”, mas representava “um fenômeno social, um sistema definitivo de administração de homens e coisas” [1]. O principal locus desse fenômeno era o aparelho estatal, mas o último – ao absorver “uma enorme quantidade de elementos partidários mais ativos” [2] – estava infectando o próprio Partido Bolchevique. A expressão dessa contaminação era o crescente domínio do aparelho central dentro do partido, operando através de um sistema de nomeações, reprimindo o debate democrático, e separando a Velha Guarda das bases e da geração mais nova. Esse desenvolvimento representou o perigo de uma “degeneração burocrática” [3] da própria Velha Guarda. O burocratismo foi, portanto – e aqui Trotski claramente foi além da análise de Lênin – “não uma sobrevivência de algum regime precedente, uma sobrevivência em processo de desaparecimento; pelo contrário, é um fenômeno essencialmente novo, decorrente das novas tarefas, das novas funções, das novas dificuldades e dos novos erros do partido” [4].

A Derrota da Oposição de Esquerda

O Novo Curso alertou para os perigos do burocratismo antes da vitória do grupo de Stálin dentro do PCUS. Após a consumação dessa vitória, os escritos de oposição de Trotski na década de 1920 tentaram fornecer uma melhor explicação desse fenômeno. A Terceira Internacional Depois de Lênin (1928, às vezes intitulado Stálin, o Grande Organizador de Derrotas) é provavelmente o texto mais importante da fase intermediária de seu pensamento. Nele, Trotski atribui a derrota da Oposição de Esquerda na Rússia, que selou o triunfo de um regime burocrático interno, à desaceleração da luta de classes internacional, acima de tudo aos desastres a que levaram a Revolução Alemã de 1923 e a Revolução Chinesa em 1927, respectivamente nos lados Ocidental e Oriental da URSS. A mudança no equilíbrio mundial das forças de classe em benefício do capital foi inevitavelmente traduzida em um aumento das pressões sociais externas ao Partido Bolchevique, na Rússia. Estes foram, por sua vez, compostos pelo fracasso da fração de Stálin em alcançar a rápida industrialização na URSS, o que teria contrabalanceado o peso do proletariado soviético. Depois que os efeitos do Primeiro Plano Quinquenal tornaram-se visíveis, Trotski modificou essa alegação para argumentar que a nova “aristocracia operária” criada pelo stakhanovismo, acima da massa da classe trabalhadora, funcionava objetivamente como um ponto de apoio do regime burocrático dentro do partido. A fração de Stálin, que obteve sua vitória através do slogansocial-patriótico do socialismo em um só país, Trotski ainda caracterizou, nesse momento, como uma ala de centro e como a criatura do aparato permanente do PCUS, posicionado entre a direita do Partido (Bukharin-Rykov-Tomsky) e a ala esquerda.

Em sua autobiografia Minha Vida (1929), Trotski esboçou o que viu como mecanismos social-psicológicos que converteram muitos revolucionários de 1917 em funcionários desse regime – “a libertação do filisteu que vivia dentro do bolchevique”-. Conforme o impulso das massas insurgentes declinou após a Guerra Civil, a fadiga e a apatia se estabeleceram, criando um período de “reação social” generalizada na URSS.

Em ensaios subsequentes, sobre a condução da industrialização de Stálin, Trotski estendeu a noção de um “centro” fracional para a categoria de centrismo estalinista, de maior alcance, argumentando que, embora o centrismo fosse um fenômeno inerentemente instável nos países capitalistas – uma postura a meio caminho entre reforma e revolução no movimento operário, refletindo mudanças da esquerda à direita ou vice-versa nas pressões de massas –, ele poderia adquirir, na URSS, uma base material durável na burocracia do novo Estado proletário. Os abruptos ziguezagues das políticas de Stálin no país e no exterior, do apaziguamento à guerra total contra os kulaks, da conciliação de classe ao ultra-esquerdismo na Terceira Internacional, eram a expressão lógica desse caráter centrista de seu regime, sujeito às complexas e contraditórias pressões de classe sobre ele. A arena decisiva dessas pressões, no entanto, era internacional, não nacional.

As Quatro Teses Fundamentais

A interpretação de Trotski acerca do estalinismo, até então fragmentada e experimental em muitos aspectos, tornou-se sistemática e conclusiva de 1933 em diante. O motivo, é claro, foi o triunfo do nazismo na Alemanha, que convenceu Trotski de que a Comintern – para cuja retificação de linha ele tinha lutado até o último momento – era agora irrecuperável, e com isso o próprio PCUS estalinizado. A decisão de fundar uma nova Internacional foi, portanto, um impulso imediato para o seu engajamento frontal com o problema da natureza do estalinismo, que, pela primeira vez, tornou-se então o objeto direto de uma extensa interpretação teórica em si mesmo, em vez de um problema tratado no decorrer de textos que discutem muitas outras questões, como foi feito anteriormente.

O ensaio crucial, que fornece quase todos os principais temas do pensamento maduro de Trotski sobre o estalinismo, foi escrito alguns meses após a tomada de poder de Hitler: A Natureza de Classe do Estado Soviético (1933). Nele, Trotski estabeleceu as quatro teses fundamentais que viriam a ser a base de sua posição até a sua morte. Em primeiro lugar, foi necessário distinguir o papel do estalinismo na União Soviética e no exterior. Dentro da URSS, a burocracia estalinista desempenhava um papel contraditório, defendendo-se simultaneamente da classe trabalhadora soviética, da qual usurpou o poder, e da burguesia mundial, que buscou acabar com todos os ganhos da Revolução de Outubro e restaurar o capitalismo na Rússia. Nesse sentido, continuou a atuar como uma força “centrista”. Fora da URSS, em contraste, a Comintern estalinizada deixou de desempenhar qualquer papel anti-capitalista, como já havia provado irrevogavelmente o seu desastre na Alemanha. Consequentemente, “o aparato estalinista poderia desperdiçar completamente o seu significado como uma força revolucionária internacional, e ainda preservar parte do seu significado progressivo como portador das conquistas sociais da revolução proletária” [5]. Logo em seguida, Trotski argumentaria que a Comintern desempenhou um papel ativamente contrarrevolucionário na política mundial, tramando junto ao capital e algemando os trabalhadores no interesse de proteger o monopólio estalinista do poder na própria Rússia, que seria ameaçado pelo exemplo de qualquer revolução socialista vitoriosa, que criasse uma democracia proletária em outro lugar.

Em segundo lugar, dentro da URSS, o estalinismo representava o domínio de um estratoburocrático que emergira da classe trabalhadora e a parasitava, não uma nova classe. Esse estrato não ocupou um papel estrutural independente no processo de produção, mas derivava seus privilégios econômicos da confiscação do poder político dos produtores diretos, dentro da estrutura das relações de propriedade nacionalizadas. Em terceiro lugar, a administração sobre a qual o estalinismo presidiu permaneceu tipologicamente um Estado proletário, precisamente porque essas relações de propriedade – incorporando a expropriação dos expropriadores, alcançada em 1917 – persistiram. A identidade e legitimação da burocracia como uma “casta” política dependia da sua defesa. Com isso, Trotski descartou os dois relatos alternativos do estalinismo mais difundidos no movimento operário na década de 1930 (que emergiu dentro da própria Segunda Internacional, durante a Guerra Civil) –que representavam uma forma de “capitalismo de Estado” ou de “coletivismo burocrático”. A ditadura de ferro exercida pela polícia estalinista e pelo aparato administrativo sobre o proletariado soviético não era incompatível com a preservação da natureza proletária do próprio Estado – não mais do que as ditaduras absolutistas sobre a nobreza haviam sido incompatíveis com a preservação da natureza do Estado feudal, ou as ditaduras fascistas exercidas sobre a classe burguesa o foram com a preservação da natureza do Estado capitalista. A União Soviética era, de fato, um Estado proletário degenerado, mas uma ditadura do proletariado “pura” – compatível com sua definição ideal – nunca existiu na União Soviética em primeira instância.

Em quarto e último lugar, os marxistas devem adotar uma postura dupla em relação ao Estado soviético. Por um lado, agora não havia chance do regime estalinista se reformar ou ser reformado pacificamente dentro da URSS. Seu domínio só poderia ser encerrado por uma derrubada revolucionária vinda de baixo, destruindo todo o maquinário de privilégio e de repressão, enquanto deixasse intactas as relações de propriedade social sobre as quais ele presidia – mas agora dentro do contexto de uma democracia proletária. Por outro lado, o Estado soviético tinha que ser defendido externamente contra a constante ameaça de agressão ou ataque da burguesia mundial. Contra esse inimigo, a URSS – encarnando, como ela fazia, os ganhos anticapitalistas de Outubro – precisava da resoluta e incondicional solidariedade dos socialistas revolucionários em todos os lugares. “Toda tendência política que vira as costas sem esperanças para a União Soviética, sob pretexto de seu caráter ‘não-proletário’, corre o risco de se tornar um instrumento passivo do imperialismo” [6].

“A Revolução Traída”

Esses quatro pilares fundamentais da análise de Trotski sobre o estalinismo permaneceram estáveis até seu assassinato. Foi sobre eles que Trotski ergueu o principal edifício desse estudo da sociedade soviética sob Stálin: o livro intitulado Para onde vai a Rússia? (1936; equivocadamente traduzido para A Revolução Traída). Neste trabalho, Trotski apresenta um levantamento panorâmico das estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais da URSS em meados dos anos trinta, combinando uma ampla variedade de materiais empíricos com um fundamento teórico mais profundo para a sua análise sobre o estalinismo. Ele ancorou todo o fenômeno de uma burocracia proletária repressora na categoria de escassez (nuzhda), básica no materialismo histórico desde a formulação de Marx na Ideologia Alemã. “A base do governo burocrático é a pobreza da sociedade em objetos de consumo, com a luta resultante de todos contra todos. Quando há bens suficientes em uma loja, os compradores podem vir quando quiserem. Quando há poucos bens, os compradores são obrigados a ficar na fila. Quando as filas são muito longas, é necessário nomear um policial para manter a ordem. Tal é o ponto de partida do poder da burocracia soviética. Ela ‘sabe’ quem deve conseguir algo e quem tem que esperar.” [7] Enquanto prevalecesse a escassez, seria inevitável uma contradição entre as relações socializadas de produção e as normas burguesas de distribuição: era essa contradição que fatalmente produzia e reproduzia o poder restritivo da burocracia estalinista.

Trotski, então, prosseguiu à exploração de cada lado dessa contradição, avaliando e enfatizando a grandeza do desenvolvimento industrial soviético, por mais bárbaros que fossem os métodos que a burocracia empregasse para levá-lo adiante, ao mesmo tempo em que expunha meticulosamente a vasta gama de desigualdades econômicas, culturais e sociais geradas pelo estalinismo, e que fornecia estimativas estatísticas do tamanho e da distribuição do estrato burocrático na própria URSS (cerca de 12 a 15% da população). Essa burocracia traiu a revolução mundial, mesmo que ainda se sentisse subjetivamente leal a ela; mas manteve-se como um inimigo irreconciliável aos olhos da burguesia mundial, enquanto o capitalismo não fosse restaurado na Rússia. A dinâmica desse regime era igualmente contraditória: por um lado, o desenvolvimento promovido a um ritmo vertiginoso dentro da URSS aumentava rapidamente o potencial econômico e cultural da classe trabalhadora soviética e a sua capacidade de se levantar contra o regime; por outro lado, o seu próprio parasitismo tornou-se cada vez mais um impedimento para o progresso industrial adicional. Por mais espetaculares que fossem as realizações dos Planos Quinquenais, advertiu Trotski, eles ainda deixariam a produtividade social do trabalho muito atrás da do capitalismo ocidental, em uma lacuna que jamais seria fechada até que uma mudança para o crescimento qualitativo fosse alcançada, o que o desvio burocrático bloqueou com precisão.

 “O papel progressivo da burocracia soviética coincide com o período da introdução na União Soviética dos elementos mais importantes da técnica capitalista. O trabalho duro, de empréstimo, imitação, transplante e enxerto, foi realizado nas bases estabelecidas pela revolução. Até o momento, não havia dúvida de qualquer nova palavra na esfera da técnica, da ciência ou da arte. É possível construir fábricas gigantescas de acordo com um padrão pronto por comando burocrático – embora, com certeza, pelo triplo do custo normal. No entanto, quanto mais longe se vá, mais a economia se depara com problemas de qualidade, que deslizam para fora das mãos da burocracia como uma sombra. Os produtos soviéticos são como se fossem marcados com o rótulo cinza da indiferença. Sob uma economia nacionalizada, a qualidade exige uma democracia de produtores e consumidores, liberdade de crítica e iniciativa.”. [8] A superioridade tecnológica ficaria com o imperialismo enquanto o estalinismo persistisse, e lhe asseguraria a vitória em qualquer guerra com a URSS – a menos que estourasse uma revolução no Ocidente. A tarefa dos socialistas soviéticos era realizar, antes que isso ocorresse, uma revolução política contra a burocracia , cuja relação com a revolução socioeconômica de 1917 seria como a mudança de poder em 1830 ou 1848 para o levante de 1789 na França, no ciclo das revoluções burguesas.

Nos dois últimos anos de sua vida, quando começou a Segunda Guerra Mundial, Trotski reiterou suas perspectivas básicas em uma série de polêmicas conclusivas com Rizzi, Burnham, Schachtman e outros defensores da noção de “coletivismo burocrático”. A classe trabalhadora não era, de forma alguma, congenitamente incapaz de estabelecer o seu próprio domínio soberano sobre a sociedade. A URSS – “o país mais transicional em uma época de transição” – situava-se entre capitalismo e socialismo, dominada por um feroz regime policial que ainda defendeu, à moda própria, a ditadura do proletariado. Todavia, a experiência soviética foi uma “refração excepcional” das leis gerais de transição do capitalismo para o socialismo, em um país atrasado cercado pelo imperialismo – não um modelo clássico. O papel contraditório do estalinismo nacionalmente e no exterior foi confirmado pelos episódios mais recentes da política internacional – a sua sabotagem contrarrevolucionária da Revolução Espanhola (para além do seu controle) contrastava com a abolição revolucionária da propriedade privada nas regiões fronteiriças da Polônia e da Finlândia incorporada na URSS. O dever dos marxistas em defender a União Soviética contra o ataque capitalista permaneceu importante. A desilusão e a fadiga não eram desculpas para renunciar às perspectivas clássicas do materialismo histórico. “Vinte e cinco anos nas escalas da história, quando se trata de mudanças profundas nos sistemas econômicos e culturais, pesam menos de uma hora na vida do homem. O quão bom é o indivíduo que, devido às falhas empíricas ao longo de uma hora ou de um dia, renuncia a um objetivo que ele estabeleceu para si próprio nas bases da experiência e da análise de toda a sua vida anterior?” [9]

Uma Reavaliação: Quarenta Anos Depois

Outros quarenta anos depois, nós ainda estamos apenas a algumas horas daquela vida. Essas horas – que, subjetivamente, parecem tão longas – nos dão razões para questionar os julgamentos básicos de Trotski? Como devemos avaliar o legado de sua perspectiva geral sobre o estalinismo?

Pode-se dizer que os méritos da interpretação de Trotski têm três aspectos. Primeiramente, ela fornece uma teoria do fenômeno do estalinismo em uma longa temporalidade histórica, congruente com as categorias fundamentais do marxismo clássico. Em cada ponto de sua análise da natureza da burocracia soviética, Trotski procurou situá-la na lógica dos modos sucessivos de produção e nas transições entre estes, com o poder de classe e os regimes políticos correspondentes, que herdou de Marx, Engels ou Lênin. Daí a sua insistência de que a ótica adequada para definir a relação da burocracia com a classe trabalhadora partia das relações antecedentes e análogas entre absolutismo e aristocracia, fascismo e burguesia; assim como os precedentes relevantes para a sua derrubada futura seriam levantamentos políticos como os de 1830 ou 1848, em vez de um novo 1789. Como Trotski pôde pensar o desenvolvimento e a consolidação do estalinismo em um tal espectro histórico, ele evitou as explicações do jornalismo apressado e as teorizações improvisadas sobre novas classes ou modos de produção não ancorados no materialismo histórico, que marcou a reação de muitos de seus contemporâneos.

Em segundo lugar, a riqueza sociológica e a penetração de sua pesquisa sobre a URSS sob Stálin não tinham igual na literatura da esquerda sobre o assunto. Para onde vai a Rússia?permanece como uma obra-prima de destaque até hoje. Por outro lado, as coletâneas de artigos de Schachtman ou Kautsky, os livros de Burnham ou Rizzi ou Cliff, parecem surpreendentemente superficiais e datados. Os maiores avanços na análise empírica detalhada da URSS desde o tempo de Trotski vieram, em grande medida, de profissionais acadêmicos que se dedicaram aos estudos sovietólogos após a Segunda Guerra Mundial: Nove, Rigby, Carr, Davies, Hough, Lane e outros. Suas descobertas desenvolveram as análises de Trotski, ao invés de contradizê-las, nos proporcionando um conhecimento muito mais amplo das estruturas internas da economia e da burocracia soviéticas. Eram, no entanto, destituídos de uma teoria integrada como a legada por Trotski. O maior trabalho histórico sobre o destino da Revolução são os escritos de Isaac Deutscher, compostos em profunda continuidade com esse legado.

Em terceiro lugar, a interpretação de Trotski do estalinismo foi notável por seu balanço político– a sua recusa de adulação ou cominação, para uma estimativa sóbria da natureza contraditória e dinâmica do regime burocrático na URSS. No tempo de Trotski, a primeira atitude era a incomum na esquerda, em meio ao entusiasmo intoxicado não só dos partidos comunistas, mas de tantos outros observadores da ordem estalinista na Rússia. Hoje, é a segunda atitude que é mais incomum, em meio à denunciação apoplética da experiência soviética, não só por vários observadores na esquerda, mas até dentro de certos Partidos comunistas. Há pouca dúvida de que foi a firme insistência de Trotski – tão fora de moda nos anos posteriores, até mesmo entre muitos dos seus próprios seguidores – de que a URSS era, em última instância, um Estado proletário e a chave para esse equilíbrio. Aqueles que rejeitaram essa classificação em prol das noções de “capitalismo de Estado” ou “coletivismo burocrático” invariavelmente se depararam com a dificuldade de definir uma atitude política em relação à entidade que categorizaram. Uma coisa evidente sobre o “capitalismo de Estado” ou o “coletivismo burocrático” na Rússia era que não havia nenhum vestígio das liberdades democráticas que se encontravam no “capitalismo privado” do Ocidente. Não deveriam, portanto, os socialistas apoiarem este último em um conflito entre ambos, dado que se tratava do mal menor – por não ser “totalitário”? Em outras palavras, a lógica dessas interpretações sempre tendeu, em última instância (embora com poucas exceções, menos consistentes), em deslocar seus adeptos para a direita. Kautsky – pai tanto do “capitalismo de Estado”, quanto do “coletivismo burocrático”, no início dos anos 1920 – é emblemático dessa trajetória; e Schachtman terminou sua carreira aplaudindo a guerra dos EUA no Vietnã na década de 1960. A solidez e a disciplina contrastantes da interpretação de Trotski acerca do estalinismo obtiveram um alívio retrospectivo diante das tentativas que se seguiram de repensar o estalinismo.

As Limitações da Análise de Trotski

Ao mesmo tempo, como todos os julgamentos históricos, a teoria de Trotski do estalinismo revelou certos limites após sua morte. Quais são estes? Paradoxalmente, eles dizem respeito menos ao balanço “interno” do estalinismo do que a sua trajetória “externa”. Internamente, o diagnóstico de Trotski sobre o motor e o freio do desenvolvimento econômico da Rússia, desde que persistissem as normas burocráticas, provou-se extraordinariamente preciso. Nas quatro décadas posteriores à sua morte, um enorme progresso material foi registrado na União Soviética, mas a produtividade do trabalho se revelou cada vez mais como o calcanhar de Aquiles da economia, como Trotski havia previsto. Conforme chegou ao fim a época do crescimento extensivo, o planejamento autoritário e demasiado centralizado se mostrou cada vez mais incapaz de efetuar uma transição para um crescimento qualitativo e intensivo: uma desaceleração que ameaçava uma crise entrópica para o regime, se não fosse resolvida. A durabilidade da burocracia, que sobreviveu até bem depois de Stálin, tem sido maior, é claro, do que Trotski imaginava em alguns de seus escritos conjunturais, embora não se trate de uma “longevidade” real em termos de tempo histórico, do qual ele falou no final de sua vida.

Parte do motivo dessa persistência foi, provavelmente, a promoção social de setores da classe trabalhadora soviética através dos canais do próprio regime burocrático – o recrutamento de quadros proletários, que frequentemente tem sido enfatizado pelos acadêmicos subsequentes (Nove, Rigby, etc.) Outra parte, é claro, encontrava-se presente na atomização política e no atordoamento cultural da classe trabalhadora amplamente alargada que emergiu durante a década de 1930 – a sua falta de qualquer memória pré-estalinista, que Trotski subestimou. Mas de um modo geral, o retrato da sociedade russa que ele desenhou há aproximadamente meio século permanece preciso e atual.

No exterior, entretanto, o diagnóstico do estalinismo de Trotski se mostrou mais falível. Há dois motivos para essa discrepância em seus prognósticos. Em primeiro lugar, ele cometeu um erro ao qualificar o papel externo da burocracia soviética como simples e unilateralmente “contrarrevolucionário” – quando o seu papel se mostrou ser, de fato, profundamente contraditório em suas ações e efeitos no exterior tanto quanto o era em território nacional. Em segundo lugar, Trotski estava equivocado ao pensar que o estalinismo representava meramente uma refração “excepcional” ou “aberrante” das leis gerais de transição do capitalismo para o socialismo, que seria confinada à própria Rússia. As estruturas do poder burocrático e a mobilização pioneira sob Stálin provaram ser um fenômeno mais dinâmico e mais geral no plano internacional do que Trotski jamais imaginou. Ele terminou sua vida prevendo que a URSS seria derrotada em uma guerra contra o imperialismo, a menos que a revolução estourasse no Ocidente. Na verdade, apesar de todos os erros criminosos de Stálin, o Exército Vermelho repeliu a Wehrmacht e marchou vitoriosamente para Berlim sem o auxílio de uma Revolução Ocidental. O fascismo europeu foi essencialmente destruído pela União Soviética (242 divisões alemãs desdobradas na Frente Oriental a apenas 22 na primeira Frente Ocidental na Itália). O capitalismo foi abolido em mais da metade do continente, por um impulso burocrático vindo de cima – as operações polonesas e finlandesas se estenderam ao Elba. Posteriormente, o comando das massas na tomada do poder. Os Estados assim criados viriam a ser manifestamente cognatos (não idênticos, mas afins) com a URSS em seu sistema político básico. O estalinismo, em outras palavras, se mostrou ser não somente um aparelho, mas um movimento – capaz não só de manter o poder em um ambiente atrasado dominado pela escassez (URSS), mas de realmente conquistá-lo em ambientes ainda mais atrasados e pobres (China e Vietnã) – de expropriar a burguesia e iniciar o lento trabalho da construção socialista, mesmo contra a vontade do próprio Stálin. Com isso, uma das equações da interpretação de Trotski, sem dúvidas, caiu. O estalinismo, como um fenômeno amplo – isto é, um Estado proletário governado por um estrato burocrático autoritário –, não representava meramente uma degeneração de um Estado anterior de (relativo) privilégio de classe, também poderia ser uma geração espontânea, produzida por forças de classe revolucionárias em muitas sociedades atrasadas, sem qualquer tradição de democracia burguesa ou proletária. Essa possibilidade – cuja realização foi a transformação do mapa mundial após 1945 – nunca foi levantada por Trotski.

O Estalinismo Hoje

Nesses dois aspectos críticos, portanto, a interpretação de Trotski do estalinismo encontrou seus limites. No entanto, eles permaneceram em consonância com a sua ênfase temática central: a natureza contraditória do estalinismo, hostil, ao mesmo tempo, à propriedade capitalista e à liberdade proletária. Seu erro foi, ironicamente, apenas ter pensado que essa contradição poderia confinar-se à própria URSS, enquanto o estalinismo em um só país provou ser uma contradição nos próprios termos. Ao apontarmos aqui os caminhos pelos quais o estalinismo continuou a atuar como um “fator revolucionário internacional”, não deveria ser necessário recordar, ao mesmo tempo, as formas em que também continuou a atuar como um fator reacionário internacional. Todo ganho imprevisível teve um preço incalculável. A multiplicação de Estados proletários burocratizados, cada um com o seu próprio egoísmo nacional sagrado, conduziu inexoravelmente a conflitos econômicos, políticos e agora até mesmo armados entre eles. A proteção militar da URSS, que pode se estender às revoluções socialistas ou às forças nacionais de libertação no Terceiro Mundo, também aumenta objetivamente os perigos da guerra nuclear global. A abolição do capitalismo na Europa Oriental desencadeou as fúrias do nacionalismo contra a Rússia, que, por sua vez, respondeu às aspirações populares da região com a série mais puramente reacionária de intervenções externas, repressoras e regressivas, da burocracia soviética em todo o mundo. A Checoslováquia e a Polônia são apenas os últimos exemplos.

Acima de tudo, porém, enquanto o modelo básico estalinista de uma transição para além do capitalismo possa ter se propagado com sucesso através das zonas atrasadas da Eurásia, a sua grande extensão geográfica e prolongamento temporal – completa com a repetição da demência da Yezhovschina (“Processos de Moscou”) na “Revolução Cultural”, e o “Kampuchea Democrático” – tem prejudicado profundamente a própria ideia do socialismo no Ocidente avançado, principalmente com a sua absoluta negação da democracia proletária, inibindo a classe trabalhadora de derrubar o capitalismo dentro das estruturas da democracia burguesa, fortalecendo decisivamente os bastiões do imperialismo do final do século XX. Rien ne se perd, alas (“Nada está perdido, infelizmente.”)Nós ainda temos que resolver as contas com a ameaça permanente do “campo socialista”, que agiu como o acelerador decisivo da descolonização burguesa na África e na Ásia na época do pós-guerra. Sem o Segundo Mundo das décadas de 1940 e 1950, não haveria o Terceiro Mundo na década de 1960. As duas principais formas de progresso histórico registradas dentro do capitalismo mundial nos últimos cinquenta anos – a derrota do fascismo e o fim do colonialismo – têm sido diretamente dependentes da presença e performance da URSS nas políticas internacionais. Nesse sentido, pode-se argumentar que, paradoxalmente, as classes exploradas fora da União Soviética podem ter se beneficiado mais diretamente de sua existência do que a classe trabalhadora dentro da União Soviética. Assim, em uma escala histórica mundial, os custos decisivos do estalinismo foram internos, e os ganhos, externos.

Todavia, esses efeitos foram, obviamente, processos largamente objetivos e involuntários, em vez de produtos de intenções conscientes da burocracia soviética (mesmo a destruição do fascismo, que, certamente, não constou como parte dos planos de Stálin em 1940). Tais efeitos testemunham, não obstante, a lógica contraditória de um “Estado proletário degenerado” – colossalmente distorcido, mesmo que ainda persistentemente anticapitalista –, que Trotski erroneamente suspendeu na fronteira soviética.

No final da década de 60, a URSS até chegou a alcançar algo semelhante a uma parceria estratégica com o imperialismo, o que Trotski achou impossível sob o domínio burocrático. Com isso, a URSS provou ser capaz de ampliar a vital ajuda econômica e militar às revoluções socialistas e aos movimentos de libertação nacional no exterior – assegurando a sobrevivência da Revolução Cubana, permitindo a vitória da Revolução Vietnamita e garantindo a existência da Revolução Angolana. Tais ações, inteiramente conscientes e deliberadas – em contraste diametral com as opções de Stálin em Espanha, Iugoslávia ou Grécia –, foram precisamente as que Trotski descartara para a União Soviética quando a considerou como uma inequívoca e omnipresente força contrarrevolucionária além de suas próprias fronteiras.

O segundo equívoco da interpretação de Trotski foi mais radical. Para ele, o estalinismo era essencialmente um aparato burocrático, erguido acima de uma decadente classe trabalhadora, em nome do mito “nacional-reformista” do socialismo em um só país. Trotski julgou os partidos estrangeiros da Comintern, após 1933, como simplesmente instrumentos subordinados ao PCUS, incapazes de fazer uma revolução socialista em seus respectivos países, pois realizá-la significaria agir contra as diretrizes de Stálin. O máximo que ele concedia era que  – em casos absolutamente excepcionais – as massas insurgentes, contra a vontade de tais partidos, poderiam obrigá-los a tomar o poder. Ao mesmo tempo, Trotski olhou para frente, sobretudo para o Ocidente industrializado, como a arena do futuro sucesso socialista, inspirado pelos partidos antiestalinistas no despertar da Segunda Guerra Mundial. De fato, como sabemos, a história seguiu outro caminho. A revolução espalhou-se, mas para as regiões atrasadas da Ásia e dos Balcãs. Ademais, essas revoluções foram uniformemente organizadas e lideradas pelos partidos comunistas locais que professavam lealdade a Stálin – chineses, vietnamitas, iugoslavos, albaneses –, e modeladas, em suas estruturas internas, pelo PCUS. Longe de serem movidos passivamente pelas massas de seus respectivos países, esses partidos mobilizaram ativa e verticalmente uma imensa meada de consequências e conexões internacionais, progressivas e regressivas, revolucionárias e contrarrevolucionárias, que se seguiram ao destino que sucedeu a Revolução de Outubro, que originou o fenômeno que ainda hoje nós chamamos de estalinismo.


Notas

[*] Texto de uma comunicação apresentada em Paris, em 1982.

[1] O Novo Curso, Ann Arbour, 1965, p. 45.

[2] Ibid, p. 45.

[3] Ibid, p. 22.

[4] Ibid, p. 24.

[5] A Natureza de Classe do Estado Soviético, Londres, 1968, p. 4.

[6] Ibid, p. 32.

[7] A Revolução Traída, Nova Iorque, 1945, p. 112.

[8] Ibid, p. 276.

[9] Em Defesa do Marxismo, Nova Iorque 1965, p.

FONTE: https://lavrapalavra.com/2017/08/16/a-interpretacao-de-trotski-acerca-do-estalinismo/