IFCS/UFRJ: a fabricação de uma vítima perfeita e o estranho silêncio sobre a extrema direita

Enquanto comentaristas transformam estudantes de esquerda em novos “Torquemadas”, provocações da extrema direita, o crescimento do neonazismo e a ofensiva para deslegitimar as universidades públicas permanecem convenientemente fora do enquadramento

O episódio ocorrido no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ está rapidamente adquirindo as características de uma disputa pela construção da narrativa sobre o que efetivamente aconteceu. De um lado, estudantes que estavam no local descrevem uma sequência envolvendo uma camiseta contendo iconografia inspirada naquela utilizada pela SS nazista, provocações, deboches e uma altercação que terminou em violência física. De outro, começa a se consolidar em determinados espaços da imprensa e entre comentaristas políticos uma versão muito mais simples e politicamente conveniente, segundo a qual um estudante teria sido brutalmente atacado por militantes de esquerda simplesmente por causa da roupa que vestia. O problema é que os elementos conhecidos até agora, inclusive registros em vídeo feitos durante o próprio incidente, tornam essa segunda narrativa difícil de sustentar sem eliminar partes importantes daquilo que ocorreu antes do confronto físico.

O estudante Diego Araujo estava usando uma camiseta da banda britânica Death in June contendo uma versão do Totenkopf, símbolo historicamente associado à SS nazista. Ele afirma que não é nazista, identifica-se politicamente com o marxismo e sustenta que a utilização daquela iconografia representaria uma forma de ridicularização do nazismo. Essas afirmações precisam ser consideradas e não existe, neste momento, base suficiente para classificá-lo como integrante de uma organização nazifascista. Entretanto, testemunhas que estavam no IFCS apresentaram uma narrativa bastante diferente daquela na qual Diego aparece apenas como vítima passiva. Segundo esses relatos, depois de ser questionado sobre os símbolos que utilizava, ele teria passado a debochar dos estudantes que o confrontavam. Deivid Lima, estudante de Direito diretamente envolvido no episódio, afirmou ainda que, durante a tentativa de conduzi-lo para fora do prédio, teria recebido uma cotovelada e sido puxado pelos cabelos por Diego. Outra estudante presente confirmou à imprensa que o confronto físico teria começado depois que Diego atingiu um dos estudantes envolvidos na abordagem, versão que ele nega e que deverá ser esclarecida pelas investigações.

Há ainda um elemento que merece atenção especial. Segundo relato de uma estudante de Ciências Sociais que presenciou os acontecimentos, Diego não teria chegado ao IFCS vestindo aquela camiseta, mas teria trocado de roupa no banheiro antes de entrar na sala. Se essa informação for confirmada pela investigação da UFRJ, será perfeitamente legítimo perguntar por que alguém decidiu vestir, já no interior de uma unidade universitária reconhecida por sua intensa vida política, uma camiseta contendo iconografia imediatamente associável à SS nazista. Isso não prova que tenha existido uma provocação deliberadamente planejada, muito menos permite atribuir ao estudante qualquer filiação fascista, mas impede que se descarte a questão da intencionalidade como se ela fosse irrelevante. A resposta pode ser inocente, mas a pergunta precisa ser feita.

Por isso, transformar Diego simplesmente na “vítima” do episódio significa encerrar prematuramente uma discussão que ainda precisa ser esclarecida. Ele foi indiscutivelmente atingido durante uma altercação e as responsabilidades individuais pelo que ocorreu devem ser investigadas. Entretanto, ter sido atingido não transforma automaticamente alguém em personagem inteiramente passivo de tudo aquilo que aconteceu anteriormente, nem autoriza jornalistas e comentaristas a iniciar a história exatamente no momento em que aparecem os primeiros golpes. É precisamente nesse ponto que abordagens como a adotada por Pedro Doria se tornam problemáticas, pois, ao concentrar a indignação na violência atribuída aos estudantes identificados com a esquerda, cria-se um enquadramento no qual a camiseta se transforma apenas em uma peça de roupa, as provocações relatadas por testemunhas praticamente desaparecem e as acusações de que o próprio Diego teria participado ativamente da escalada física do confronto tornam-se detalhes inconvenientes.

Há ainda um componente particularmente revelador nessa disputa narrativa: a atuação de elementos arrivistas de direita existentes no interior das próprias universidades, que se aproveitam de episódios como o ocorrido no IFCS para destilar sua hostilidade contra a esquerda e reforçar a representação dos estudantes antifascistas como intolerantes e autoritários. Em vez de demonstrarem preocupação semelhante diante do crescimento de organizações neonazistas, das provocações promovidas pela extrema direita nos campi ou dos ataques recorrentes à universidade pública, esses personagens encontram em qualquer altercação envolvendo estudantes de esquerda uma oportunidade para reeditar velhos discursos anticomunistas e apresentar-se como defensores da liberdade. A comparação dos estudantes antifascistas com “novos Torquemadas” é particularmente reveladora desse expediente, pois inverte os papéis históricos e transforma aqueles que reagem à presença e à provocação de símbolos associados ao fascismo em representantes contemporâneos da intolerância.

A história, entretanto, recomenda bastante cautela com essa inversão. A Noite dos Cristais, ocorrida na Alemanha em novembro de 1938, não foi promovida pela esquerda, mas constituiu um pogrom antissemita organizado pelo regime nazista, com participação de estruturas do Partido Nazista e de suas organizações paramilitares. Sinagogas foram incendiadas, estabelecimentos pertencentes a judeus foram destruídos, pessoas foram assassinadas e milhares de homens judeus foram enviados a campos de concentração. Portanto, recorrer à figura de Torquemada para caracterizar estudantes antifascistas contemporâneos, enquanto se relativiza o significado de símbolos historicamente associados às organizações que participaram diretamente da perseguição nazista, exige uma inversão histórica bastante conveniente.

No Brasil, aliás, não precisamos atravessar o Atlântico para encontrar antecedentes muito mais pertinentes à discussão. Durante a ditadura militar, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) protagonizou ações violentas contra estudantes, professores, artistas e pessoas identificadas ou simplesmente percebidas como pertencentes à esquerda. A chamada Batalha da Rua Maria Antônia, em outubro de 1968, constitui um dos episódios mais conhecidos dessa história, quando integrantes ligados ao CCC participaram do ataque à antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. A história brasileira deveria, portanto, recomendar alguma prudência antes de transformar estudantes de esquerda nos grandes inquisidores de nosso tempo, especialmente porque possuímos uma tradição bem documentada de organizações de extrema direita perseguindo professores e estudantes precisamente por suas posições políticas.

Essa lembrança é importante porque o paralelismo com o presente não está em afirmar que vivemos uma simples repetição de 1938 ou de 1968, mas em reconhecer a existência histórica de estratégias de intimidação e provocação dirigidas contra ambientes universitários e grupos identificados com o pensamento crítico e a esquerda. Quando a memória histórica é retirada seletivamente da gaveta apenas para comparar estudantes antifascistas a inquisidores, enquanto se guarda silêncio diante do crescimento contemporâneo de grupos neonazistas e das ações provocadoras da extrema direita, não estamos propriamente diante de uma defesa do pluralismo, mas de uma tentativa bastante transparente de reescrever quem historicamente perseguiu quem.

E não estamos falando apenas de fantasmas históricos. O crescimento contemporâneo de organizações neonazistas no Brasil vem sendo documentado há anos. O monitoramento realizado pela antropóloga Adriana Dias identificou um salto de aproximadamente 75 células neonazistas em 2015 para cerca de 530 em 2021, enquanto também aumentaram investigações relacionadas à apologia ao nazismo. A Polícia Federal, por sua vez, já realizou diferentes operações contra pessoas envolvidas na disseminação de propaganda nazista e supremacista, inclusive com apreensão de bandeiras, vestimentas, publicações e outros materiais associados a essas organizações. Em uma operação realizada em 2024, a PF informou ter identificado um investigado apontado como importante distribuidor de materiais relacionados ao nazismo e à supremacia branca no país.

É justamente diante dessa realidade que o silêncio de alguns dos críticos mais indignados com os estudantes do IFCS se torna particularmente revelador. Se o problema é realmente a intolerância política e o risco de extremismo dentro das universidades, por que tamanho interesse por uma altercação envolvendo estudantes de esquerda e tão pouca preocupação com a expansão documentada de organizações neonazistas? Por que não encontramos a mesma profusão de manifestações indignadas diante de grupos que difundem supremacismo branco, antissemitismo e propaganda nazista? E por que as incursões de personagens da extrema direita em universidades como USP e UnB, algumas delas envolvendo provocações, ameaças e confrontos, não provocam a mesma preocupação com a saúde da democracia brasileira?

Esse tipo de enquadramento seria menos problemático se estivéssemos diante de acontecimentos isolados, mas não estamos. Nos últimos anos, universidades públicas brasileiras vêm sendo transformadas em palco de ações de políticos, influenciadores e militantes ligados à extrema direita que perceberam o enorme potencial político das provocações produzidas especificamente para circular nas redes sociais. Na USP, particularmente na FFLCH, já ocorreram incursões de personagens desse campo político acompanhados de assessores, apoiadores e câmeras, algumas delas terminando em confrontos e estudantes feridos. Na Universidade de Brasília também ocorreram episódios envolvendo intimidação de professores e ações organizadas dentro do campus, chegando a circular mensagens convocando pessoas para comparecer à universidade com o objetivo declarado de confrontar fisicamente estudantes identificados como comunistas.

O método empregado nessas ações é especialmente adequado ao ecossistema político produzido pelas redes sociais. Entra-se em um ambiente reconhecido pela presença de movimentos estudantis e organizações de esquerda, provoca-se uma reação, mantém-se uma câmera permanentemente ligada e espera-se pelo momento em que alguém ultrapasse a fronteira entre o confronto verbal e o físico. Depois disso, selecionam-se alguns segundos de imagens e elimina-se tudo aquilo que aconteceu anteriormente. O provocador pode então aparecer como cidadão comum exercendo pacificamente sua liberdade de expressão, enquanto os estudantes são apresentados como uma massa intolerante e violenta. A reação física às provocações representa, por isso, uma armadilha política particularmente eficiente, pois alguns segundos de uma altercação podem circular milhões de vezes completamente separados dos minutos que a antecederam.

Mas existe uma dimensão ainda mais ampla que precisa ser incorporada a essa discussão. A universidade pública não é apenas o cenário acidental dessas operações políticas, pois ela própria constitui um dos alvos. A construção sistemática da imagem dos campi como territórios dominados por militantes radicais, intolerantes e violentos serve a uma ofensiva destinada a deslegitimar as universidades públicas perante a sociedade. Nesse discurso, as instituições deixam de aparecer como espaços de produção científica, formação profissional, pesquisa, extensão e desenvolvimento tecnológico e passam a ser apresentadas como ambientes de doutrinação ideológica sustentados pelo contribuinte. Quanto mais caótica, sectária e violenta for a imagem produzida sobre a universidade pública, mais fácil se torna perguntar por que o Estado deveria continuar financiando essas instituições.

É nesse ponto que as provocações realizadas dentro dos campi encontram uma convergência particularmente perigosa com o discurso pró-privatização do ensino superior. Primeiro constrói-se a universidade pública como instituição disfuncional, ideologizada e incapaz de garantir até mesmo a convivência entre pessoas com posições políticas diferentes. Depois questionam-se seus custos, seus servidores, sua autonomia e o próprio princípio do financiamento público. Finalmente aparecem como soluções aparentemente técnicas aquilo que desde o início constituía um projeto político: redução do financiamento estatal, cobrança de mensalidades, expansão de parcerias privadas, transferência de atividades para empresas, enfraquecimento das carreiras públicas e progressiva mercantilização do ensino superior. Nesse sentido, produzir imagens de estudantes em confrontos dentro de universidades não serve apenas para conquistar seguidores nas redes sociais, mas fornece matéria-prima para uma narrativa destinada a corroer a legitimidade social das instituições públicas.

Isso não significa afirmar que Diego Araujo tenha participado de uma operação organizada dessa natureza. Até que existam provas, estabelecer essa associação seria irresponsável. Significa reconhecer que o episódio ocorreu em um ambiente político no qual a provocação dentro das universidades já integra o repertório de setores da extrema direita e que, por isso, qualquer análise séria precisa reconstruir toda a sequência dos acontecimentos, e não apenas os segundos finais que melhor se adaptam à narrativa pretendida.

Há igualmente uma lição estratégica que os estudantes e organizações de esquerda precisam retirar desses acontecimentos. Independentemente do grau de provocação, entrar em uma altercação física pode significar entregar aos provocadores exatamente as imagens necessárias para alimentar a narrativa que se pretende combater. Diante da utilização de símbolos nazistas ou fascistas ou de comportamentos deliberadamente provocadores, a resposta politicamente mais eficaz é documentar o ocorrido, identificar os responsáveis e exigir ação imediata das autoridades universitárias e, quando necessário, policiais. Além de impedir que estudantes assumam funções que pertencem às instituições, essa postura dificulta que eventuais provocadores sejam posteriormente transformados em mártires da liberdade de expressão.

O que não se pode aceitar é que comentaristas externos e arrivistas de direita instalados no interior das próprias universidades descubram subitamente a violência política nos campi apenas quando ela pode ser atribuída à esquerda. A memória histórica brasileira mostra quem perseguia estudantes e professores durante a ditadura, assim como a história alemã não deixa dúvidas sobre quem organizou a Noite dos Cristais. No presente, pesquisas documentam a expansão de células neonazistas no Brasil, enquanto a Polícia Federal realiza operações relacionadas à disseminação de propaganda nazista e supremacista. Diante disso, transformar estudantes antifascistas em “novos Torquemadas” e simultaneamente manter um silêncio conveniente sobre organizações que reivindicam precisamente ideologias responsáveis por algumas das maiores perseguições políticas e raciais do século XX parece menos uma preocupação universal com a intolerância do que uma escolha bastante seletiva sobre qual intolerância merece ser denunciada.

A altercação ocorrida no IFCS deve ser investigada, as diferentes versões confrontadas e as responsabilidades individualizadas. Mas antes de transformar o episódio em demonstração da suposta barbárie da esquerda universitária, seria recomendável olhar para a história e também para aquilo que está acontecendo hoje no Brasil. Talvez então fique mais difícil sustentar que o grande perigo para nossas universidades esteja nos estudantes que se indignam diante da exibição de símbolos associados ao nazismo, enquanto grupos efetivamente neonazistas crescem, personagens da extrema direita promovem provocações dentro dos campi e setores de direita existentes nas próprias universidades aproveitam esses episódios para destilar seu anticomunismo e contribuir para a desmoralização das instituições em que trabalham. Afinal, transformar a universidade pública em território de intolerância, desordem e radicalismo não é uma narrativa politicamente neutra: ela serve perfeitamente àqueles que desejam enfraquecer sua legitimidade social, reduzir seu financiamento e, no limite, abrir caminho para sua privatização.

Campos dos Goytacazes: a anti-cidade?

Por Luciane Soares da Silva*

Em 2026 a maior parte da população reside em cidades. A urbanização torna-se um desafio cotidiano. Não apenas a criminalidade urbana mas problemas de trânsito, coleta de lixo, mobilidade, poluição, acesso aos espaços comuns de parques e praças. Como coordenar a vida compartilhando a cidade com milhares de pessoas? Nossas utopias de um futuro mais rápido foram soterradas por problemas não resolvidos durante o século XX. A desigualdade, a segregação, o racismo ambiental, a contaminação de rios e afluentes são alguns dos problemas. E qual a agência da população diante destes desafios?

Saio de casa as 8:00 horas de uma manhã chuvosa de agosto. Uma caminhada curta até a avenida Gilberto Cardoso e a paisagem apresenta lixo. Na rua, embalagens de quentinhas que não foram  recolhidas na noite passada. Na esquina, restos de plástico, comida, fraldas e outros objetos depositados em lugar inadequado. Próximo ao valão, um lixão a céu aberto sempre frequentado por urubus que usam os postes para tomar sol ao longo da avenida Alberto Lamego. Após o valão, garrafas de cerveja, sacos plásticos e aviso de proibição em relação ao lixo e carros na calçada. Pensando a produção de um dossiê sobre espaço, questão urbana e periferia, questiono o que faz a cidade de Campos tão diferente de periferias globais, no Rio de Janeiro ou na Índia? Sim, a comparação é necessária para avaliarmos as cidades no século XXI e suas periferias.

Após 20 anos pesquisando as favelas do Rio de Janeiro posso afirmar que caçambas de lixo são retiradas diariamente da Rocinha, da Maré, do Alemão. E ainda assim, sempre há uma luta inglória contra a capacidade de produção de lixo. A quantidade de latas, garrafas e materiais que permanecerão anos na natureza, iguala sociedades que ainda não resolveram esta questão central para qualidade de vida de seus habitantes. E aqui reside uma compreensão que pode ser estendida para questões como combate ao mosquito da dengue, o uso de máscaras e outras medidas que só funcionam coletivamente: como lidar com a atual situação ultra privatizada do espaço público? Condomínios de luxo não realizam um trabalho de manutenção das calçadas (porque esta é a sociedade do carro), não cortam a grama (o que impacta o controle de mosquitos se considerarmos pequenas formações de poças) e vivem em áreas de limpeza privada ignorando a restante da cidade. O mesmo ocorre em áreas nobres: a coleta nunca atinge o nível ótimo, o que em minha avaliação, revela que estamos produzindo mais lixo e descartando de forma absolutamente caótica. Como pensar o direito à cidade, a partir de Henri Lefebvre sem pensar o comum?

O parque abandonado na Artur Bernardes, apenas com um pórtico. A cidade não utiliza o espaço que literalmente torna-se um elefante na paisagem. A praça São Salvador, revitalizada a contragosto da população, já foi lugar prazeroso para sentar embaixo de árvores. Que modernidade é esta, na qual árvores têm de ceder espaço para carros, estacionamentos, igrejas e mármore? Que modernidade é esta, na qual a verticalização de prédios ao longo da avenida Pelinca, transforma dez minutos de chuva em horas de alagamento?

As relações na cidade se expressam no trânsito e neste caso, subimos pela Saldanha Marinho, descemos pela Formosa. Anda-se pela Beira Valão como em São Paulo. Mas a cidade, em sua zona central de circulação não deveria viver sob um caos completo, de costas para o Rio Paraíba.

Caos que se repete no rodoviária Roberto Silveira. Ali não apenas caos, mas sujeira, espera, perigo e desânimo. Descaso com os mais pobres que precisam chegar aos distritos da cidade. Na outra ponta, o Shopping Estrada apresenta uma infestação de pombos e andorinhas. O asco do cidadão comum só não é maior que a espera por transformações jamais vistas. Bancos não podem ser usados, e um teto metálico de 30 anos, mostra sinais do tempo, tomado por ferrugem. E esta é a rodoviária que liga a cidade a região nordeste, São Paulo, Vitória, Rio, Belo Horizonte. Difícil lembrar de algo parecido em outras cidades.

A cidade pós pandemia segue sua rotina sem coleta seletiva de lixo em todos os bairros, sem melhoria de transporte, sem acesso aos parques. O equipamento do CEPOP passa o ano fechado, usado raras vezes para alguma feira de carros, as bienais e o feriados oficais. É a expressão máxima da ausência de vida pulsante e eventos abertos.

A cidade cresce mas os hospitais não dão conta da complexidade representada pelo envelhecimento da população. Além disto, não há acessibilidade para pessoas com dificuldades de locomoção que precisem atravessar uma das pontes em Campos. Pontes que separam dois mundos. O preconceito do campista em relação a Guarus é uma das formas de racismo ambiental mais explícito que já presenciei. Lá estão a cidade de Palha, Santa Rosa,  Novo Horizonte, Santa Helena. Mas hoje, Guarus apresenta aquecimento do setor imobiliário. Ainda assim, ao pesquisar imagens, encontramos carros da PM, corpos furados à bala e quando discutimos de Guarus é um gueto, não há como esquecer a recusa de carros de aplicativo em levar passageiros aos bairros após as oito da noite (problema igual vive a Penha).

É curioso perceber como a região que abriga o Porto do Açu, a Bacia de Campos, grandes Universidades, uma rede extensão de escolas e terras para plantio, ocupe posições tão lamentáveis em indicadores de educação como o IDEB. Tecnologia de ponta e escassez de associação. A recepção dos royalties não altera a vida das famílias na Portelinha e na Tira Gosto. Acreditar que a pobreza é resultado de escolhas individuais colabora para que nada mude, é adesão à ideologia escravocrata da cana e obviamente, a neo escravização pelo petróleo. Mentalidade extrativista decadente. Nem para espoliação de trabalho servem aqueles que nunca tiveram carteira assinada. A renda que não circula, não produz melhores condições.

A cidade é vivida como estranhamento, negação e vergonha. Nos escandalizamos com a compra de votos como motor de uma política do “meu pirão primeiro”. Mas mesmo diante de denúncias, nenhuma fiscalização surte efeito. São em pequenas mesas que o poder legislativo encontra o judiciário e os empresários e coronéis. Talvez alguns pastores atualmente.

Como mover a vida, o urbano, a cidade, na direção do futuro? Como resistir a degradação social, fruto de segregação?

Que utopia ainda ocupa nossa imaginação nas cidades do século XXI?

É preciso pensar este com urgência sobre o lixo, a violência, a ausência de praças e escolas no campo, o uso de terra, o lugar do Rio Paraíba.

É preciso pensar a cidade.

*Luciane Soares da Silva é professora associada do Laboratório de Estudo da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) do Centro de Ciências do Homem da Uenf.

A expansão silenciosa dos agrotóxicos: o que 199 decisões de pós-registro do Ministério da Agricultura revelam

Ato publicado pelo Ministério da Agricultura mostra que a expansão do mercado de agrotóxicos não ocorre apenas pela concessão de novos registros: quase 70% das decisões analisadas ampliaram importadores, formuladores, fontes técnicas, marcas ou possibilidades de uso de produtos já existentes 

Quem acompanha o debate sobre os agrotóxicos no Brasil provavelmente já se acostumou com uma espécie de contabilidade macabra: a cada ano se anuncia quantos novos produtos foram registrados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), e a partir daí se tenta dimensionar o ritmo com que o mercado brasileiro continua sendo abastecido por novas formulações e marcas comerciais. O problema é que o Ato nº 53, de 1º de setembro de 2026, publicado no dia de hoje pela Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins, mostra que olhar apenas para os novos registros permite enxergar somente uma parte da história.

O documento, publicado no Diário Oficial da União, reúne nada menos que 199 decisões de pós-registro de agrotóxicos e afins. É importante esclarecer desde logo que isso não significa a liberação de 199 novos agrotóxicos. O que o documento revela é algo mais complexo e, em certos aspectos, ainda mais interessante: depois que um agrotóxico recebe seu registro, sua trajetória regulatória não termina. Ao contrário, o produto pode continuar adquirindo novos importadores, formuladores, fabricantes, fontes de produto técnico, marcas comerciais e até novas possibilidades de utilização. É justamente essa movimentação posterior ao registro que aparece quase invisível no debate público sobre a expansão dos agrotóxicos no Brasil.

Uma classificação que realizei dos 199 itens publicados no Ato nº 53 mostra a dimensão desse fenômeno. Dos 199 procedimentos, 139, ou aproximadamente 69,8%, representam alguma forma de expansão da estrutura regulatória associada aos produtos, enquanto 38 correspondem a movimentos de retração, como exclusões, cancelamentos ou restrições, e outros 22 possuem natureza predominantemente administrativa ou neutra. Evidentemente, esse saldo não mede toneladas comercializadas, faturamento das empresas ou risco toxicológico. Mas mostra de maneira bastante clara para qual direção se movimentou a maioria das decisões publicadas naquele ato.

O dado mais impressionante aparece quando se observa a composição das decisões classificadas como expansivas. Foram identificadas 53 autorizações de novos importadores, 35 inclusões de formuladores e 31 inclusões de produtos técnicos, além de inclusões de fabricantes, manipuladores, marcas comerciais e ampliações das recomendações de uso. Isso significa que mais de uma centena das decisões publicadas naquele único ato está diretamente relacionada à ampliação de algum componente da cadeia que permite produzir, formular, importar ou disponibilizar produtos no mercado brasileiro.

Um dos exemplos mais didáticos está no item 63, no qual a empresa Agrofito é autorizada a importar uma extensa relação de produtos que inclui formulações de 2,4-D, atrazina, clorotalonil, diquate, flumioxazina, glifosato e glufosinato, entre outras. Mais adiante, a mesma empresa recebe novas autorizações envolvendo produtos contendo 2,4-D e a combinação 2,4-D + picloram.

Há ainda uma peculiaridade importante: um único procedimento administrativo pode produzir efeitos sobre diversos produtos comerciais. No item 147, por exemplo, o MAPA aprovou a inclusão do Picloram Técnico RF como fonte técnica para produtos comercializados sob nomes como Torban, Canchim, Torban Plus, Kaboclo, Limpeza, Canchim Plus, Temicab XTRA, Chapon Plus e Wrangler. Portanto, contar esse procedimento simplesmente como “uma alteração” também subestima sua dimensão material.

É justamente aqui que aparece uma das principais peculiaridades do sistema. Imaginemos um agrotóxico registrado há alguns anos. Na estatística histórica ele continuará aparecendo como um registro. Entretanto, depois da concessão original podem ser incorporados um novo fabricante, dois novos formuladores, três importadores, uma nova fonte de produto técnico e outras marcas comerciais. Formalmente continuamos diante daquele registro original, mas economicamente sua infraestrutura de produção e abastecimento pode ter se tornado muito maior. Em outras palavras, o número de registros permanece parado enquanto a estrutura comercial por trás deles continua crescendo.

A forte presença da indústria chinesa

Outro aspecto que chama atenção no Ato nº 53 é a presença da indústria química chinesa. Em 22 dos 199 itens aparece referência explícita à China, sendo que 18 deles correspondem a movimentos classificados como expansivos. Esse número não deve ser confundido com 22 empresas diferentes nem permite concluir que todos os ingredientes ativos envolvidos sejam produzidos naquele país, mas evidencia a importância da China na cadeia industrial que abastece o mercado brasileiro de agrotóxicos.

O documento registra, por exemplo, sucessivas inclusões de empresas chinesas como formuladoras de produtos comercializados no Brasil. Um caso particularmente revelador envolve a Jiangsu Flag Chemical Industry Co. Ltd., que aparece sendo acrescentada como formuladora de vários produtos em decisões consecutivas. O padrão sugere que a análise do mercado brasileiro de agrotóxicos precisa considerar não apenas as empresas titulares dos registros no Brasil, mas também a geografia internacional da fabricação dos produtos técnicos e das formulações.

O pós-registro também pode ampliar onde e como o veneno é usado

Outro aspecto peculiar é que o mecanismo não atua apenas sobre a cadeia empresarial. O pós-registro pode modificar as próprias condições de utilização de um agrotóxico.

No item 167, por exemplo, o MAPA aprovou a inclusão da modalidade de aplicação aérea nas culturas de batata e tomate para o produto Consento. Nos itens seguintes aparecem inclusões de novas culturas nas recomendações de outros produtos, como a carinata. Assim, o mesmo instrumento administrativo que acrescenta importadores ou formuladores também pode aumentar as situações nas quais determinado produto poderá ser utilizado.

Isso torna o conceito de pós-registro particularmente importante para quem acompanha os impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos. Não estamos falando apenas de mudanças no endereço de uma empresa ou na titularidade de um registro. Em determinados casos, estamos diante de decisões capazes de alterar concretamente a maneira como o produto chega ao mercado ou é utilizado no território.

Produtos proibidos na União Europeia continuam circulando pela engrenagem brasileira

O cruzamento dos ingredientes explicitamente mencionados no Ato nº 53 com sua situação regulatória na União Europeia oferece outro elemento importante, mas exige alguma cautela. Não seria correto afirmar que todos os produtos encontrados no documento estão proibidos no mercado europeu. Glifosato, 2,4-D, picloram, tebuconazol, lambda-cialotrina e cletodim, por exemplo, permanecem aprovados para usos fitossanitários na União Europeia, ainda que sujeitos a diferentes condições e processos regulatórios.

Entretanto, aparecem no ato brasileiro moléculas cuja situação europeia é radicalmente diferente.

Uma delas é o clorpirifós, cuja aprovação não foi renovada pela União Europeia em 2020. No Ato nº 53 brasileiro, entretanto, aparece uma autorização de importação envolvendo produto à base dessa substância. Outra é o propiconazol, cuja aprovação europeia não foi renovada em 2018. No Brasil, o item 67 do Ato nº 53 autoriza a inclusão do Propiconazol Técnico Cropchem II como nova fonte técnica para o produto Maragato 500 EC.

O caso do fipronil mostra, por outro lado, por que é preciso analisar cada procedimento individualmente. A substância deixou de ser aprovada para produtos fitofarmacêuticos na União Europeia, mas a decisão encontrada no Ato nº 53 não representa expansão de uso. Ao contrário, o MAPA determinou a exclusão da cultura do milho das recomendações do Fipronil 80 WG Gharda.

Esse exemplo é importante porque demonstra que uma crítica consistente ao sistema brasileiro não precisa transformar toda decisão administrativa em flexibilização. O próprio documento contém restrições e cancelamentos. O problema é que, quando o conjunto das decisões é contabilizado, a balança pende fortemente para o lado da expansão.

O pós-registro como uma espécie de segunda vida comercial

Talvez esta seja a principal conclusão que se possa retirar do Ato nº 53. O sistema de registro de agrotóxicos não funciona simplesmente como uma porta que se abre uma única vez. Depois de atravessá-la, determinados produtos continuam acumulando alterações capazes de ampliar sua infraestrutura industrial e comercial.

Isso significa que o debate brasileiro sobre a quantidade de agrotóxicos liberados anualmente precisa incorporar uma segunda variável. Além de perguntar quantos novos registros foram concedidos, seria necessário perguntar quantas expansões foram posteriormente autorizadas sobre o estoque de registros já existente.

Essa diferença não é meramente semântica. Um produto registrado uma única vez pode, ao longo dos anos, passar a contar com novos fornecedores de ingrediente técnico, novos formuladores internacionais, novos importadores brasileiros, novas marcas e novas recomendações de utilização. Nenhuma dessas mudanças necessariamente aparecerá como um “novo agrotóxico” nas manchetes sobre o número anual de registros.  Por isso, o Ato nº 53 permite enxergar algo que permanece quase sempre fora do radar: existe uma expansão silenciosa dos agrotóxicos que ocorre depois do registro.

E talvez seja justamente por permanecer enterrada em centenas de itens burocráticos publicados no Diário Oficial que essa dimensão do problema receba tão pouca atenção. Enquanto a discussão pública se concentra na quantidade de novos produtos liberados, a máquina regulatória continua trabalhando sobre os produtos antigos, acrescentando importadores, formuladores, fontes técnicas e possibilidades de utilização. O registro, portanto, não representa necessariamente o ponto final da autorização de um agrotóxico. Em muitos casos, ele parece funcionar como o início de uma trajetória regulatória que permite sucessivas ampliações posteriores.

Se quisermos compreender a verdadeira dimensão da dependência brasileira dos agrotóxicos, talvez seja hora de parar de contar apenas quantos entram pela porta da frente e começar a observar o quanto continuam crescendo depois que já estão dentro da casa.

‘Aumento exponencial diante dos nossos olhos’: ONU alerta para a aproximação de um El Niño recorde

Um arrozal afetado pela seca em Darul Imarah, Indonésia. O fenômeno El Niño pode levar 50 milhões de pessoas à fome aguda, segundo uma agência da ONU. Fotografia: Hotli Simanjuntak/EPA

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente, para “The Guardian” 

O fenômeno climático El Niño está “aumentando de tamanho diante de nossos olhos”, afirmou a ONU. De acordo com as últimas previsões, é quase certo que o evento quebrará recordes de temperatura.

O El Niño provavelmente será o maior em pelo menos 1.000 anos e adicionará calor extra a uma atmosfera onde as temperaturas já estão subindo rapidamente devido ao aquecimento global. Essa combinação significa que 2027 está prestes a quebrar todos os recordes e se tornar o ano mais quente já registrado .

O aumento da temperatura causado pelo El Niño já está tendo impactos, desde o agravamento dos incêndios florestais na Indonésia até o enfraquecimento das vitais chuvas de monção na Índia . Os impactos se espalharão globalmente, desde um maior risco de incêndios na Austrália até inundações mais intensas na América do Sul. O Programa Mundial de Alimentos afirmou em agosto que o El Niño provavelmente levaria cerca de 50 milhões de pessoas à fome aguda .

A crise climática, causada pela poluição proveniente de combustíveis fósseis, já está intensificando eventos climáticos extremos e causando mortes , com a onda de calor mais extrema já registrada atingindo a Europa neste verão e resultando em pelo menos 35.000 mortes . O El Niño agravará ainda mais os impactos, com a escala do evento tendo sido descrita como “ verdadeiramente impressionante ” e um evento de “ nível Godzilla “.

O El Niño é um ciclo climático natural em que mudanças nos ventos sobre o Pacífico levam ao aumento da temperatura do oceano e à transferência de enormes quantidades de calor para a atmosfera. Os dados mais recentes, de segunda-feira, mostram que a temperatura do oceano no epicentro do El Niño está 2,6°C acima da média dos últimos 30 anos. Isso já se aproxima da maior anomalia já registrada na era dos dados de satélite, de 3,1°C em 2015, e ainda faltam meses para o pico ser atingido.

A previsão é de que esse pico atinja cerca de 4°C em novembro, de acordo com a média de 14 modelos diferentes. Dados de análises de corais, anéis de árvores e documentos históricos sugerem que nenhum El Niño atingiu esse nível no último milênio, afirmou Zeke Hausfather, analista climático. Qualquer anomalia de temperatura acima de 0,5°C é classificada como El Niño.

“O El Niño está se intensificando diante dos nossos olhos”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres. “A ciência não deixa dúvidas: o planeta está navegando em águas desconhecidas, e essas águas estão aquecendo. O mundo está na zona de perigo de eventos climáticos extremos. A corrida agora é entre os riscos crescentes e o nosso compromisso de agir contra as mudanças climáticas e proteger as pessoas. Precisamos vencer essa corrida.”

“O El Niño tem o potencial de causar um impacto devastador em comunidades e economias em todo o mundo”, disse Celeste Saulo, Secretária-Geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM) da ONU. “Já estamos vendo transtornos e devastação causados ​​por secas e inundações, e esperamos que esses impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifica.”

“Nunca antes, nos 50 anos de história da OMM, lançamos uma mobilização tão grande com os serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais, que estão na linha de frente da prestação de previsões e serviços para salvar vidas e meios de subsistência. Não temos tempo a perder.”

As atualizações da OMM sobre o El Niño são as previsões mais confiáveis ​​do mundo e baseiam-se em um consenso de modelos de centros de previsão climática de todo o planeta. A atualização mais recente, publicada na quinta-feira, afirma que o El Niño está firmemente estabelecido e se intensificará, tornando-se um evento “muito forte” nos próximos meses, com “grandes impactos”, incluindo inundações, secas e ondas de calor extremas, que persistirão até 2027.

Em algumas áreas, as temperaturas subsuperficiais do oceano registraram valores extraordinariamente 8°C acima da média durante julho e início de agosto.

Chris Jaccarini, da Unidade de Inteligência de Energia e Clima do Reino Unido, disse: “Eventos climáticos extremos em todo o mundo elevaram os preços dos alimentos, afetando os mais pobres com mais força. Isso não se aplica apenas aos alimentos que importamos, mas também aos que cultivamos em casa.

“Após cinco ondas de calor e uma seca generalizada, os agricultores britânicos que cultivam lavouras enfrentam agora a pior colheita de sempre em 2026. No entanto, sem medidas concretas, estes poderão ser os anos bons. A menos que reduzamos rapidamente as emissões e reforcemos a resiliência, o impacto das alterações climáticas continuará a agravar-se, com o El Niño a intensificar esta tendência a cada poucos anos.”


Fonte: The Guardian

Da motosserra para a urna: candidatos multados pelo Ibama acumulam R$ 15,7 milhões em infrações ambientais

Levantamento da Agência Tatu mostra que infrações contra a flora concentram 94% do valor das multas aplicadas aos candidatos identificados

Um levantamento da Agência Tatu feito em parceria com o Intercept Brasil, e que foi realizado a partir do cruzamento dos autos de infração do Ibama com o cadastro de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as eleições de 2026, traz uma informação que deveria merecer atenção dos eleitores: 49 candidatos, distribuídos por 15 partidos, acumulam 78 autos de infração ambiental válidos, que somam R$ 15,7 milhões em multas.

Há uma ressalva indispensável. Como destaca a própria Agência Tatu, um auto de infração é uma autuação administrativa e não equivale necessariamente a uma condenação definitiva, pois pode haver recursos em andamento. Além disso, três autos cancelados ou substituídos foram excluídos dos totais apresentados.

Feita essa ressalva, os números são eloquentes. Das sete categorias identificadas, as infrações contra a flora representam 53 dos 78 autos e concentram R$ 14,7 milhões, nada menos que 94% do valor total das multas.

A dimensão territorial também impressiona. Dos 78 autos válidos, 54 informam a área diretamente atingida. Somados, eles chegam a 4.445 hectares, dos quais 2.557 hectares estão na Amazônia e 1.278 no Cerrado. Em um único auto, a área atingida alcança 652,7 hectares.

A distribuição partidária mostra concentração, mas também revela que o problema atravessa diferentes legendas. O PL lidera, com 22 autos e R$ 6,2 milhões em multas atribuídas aos candidatos identificados, seguido pelo Podemos, com R$ 2,6 milhões, Republicanos, com R$ 1,7 milhão, MDB, com R$ 1,5 milhão, e PSDB, com R$ 1,1 milhão. No conjunto, entretanto, aparecem candidatos de 15 partidos, incluindo siglas da direita, do centro e da esquerda.

O maior valor individual está associado a Ulisses Vieira dos Santos, candidato do PL a deputado estadual no Maranhão, com R$ 3,265 milhões em multa e um auto envolvendo 652,7 hectares em Buriticupu. Em seguida aparece Daniel Barbosa Santos, candidato do Podemos ao governo do Pará, com R$ 1,4 milhão e uma ocorrência envolvendo 279,8 hectares em Tomé-Açu.

Mas o aspecto mais relevante do levantamento não está apenas nos valores ou no número de hectares atingidos. Está no fato de que pessoas que foram objeto da fiscalização ambiental agora disputam cargos que lhes poderão dar poder para interferir nas próprias políticas de proteção ambiental.

Deputados e senadores votam regras sobre licenciamento ambiental, Código Florestal, mineração, regularização fundiária e agrotóxicos, além dos orçamentos destinados ao Ibama e a outros órgãos de fiscalização. Governadores e deputados estaduais também possuem influência direta sobre políticas ambientais e estruturas estaduais de licenciamento e fiscalização.

A pergunta que os dados da Agência Tatu colocam diante do eleitor é, portanto, bastante simples: como candidatos que já entraram em conflito administrativo com a legislação ambiental se comportarão quando tiverem poder para modificar as regras e as instituições encarregadas de fazê-la cumprir?

Isso não significa transformar autuação administrativa em condenação antecipada, mas reconhecer que o histórico ambiental de quem disputa uma eleição é informação de evidente interesse público. Se o eleitor tem direito de conhecer patrimônio, profissão e antecedentes de um candidato, deveria igualmente conhecer sua relação com a legislação ambiental.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior importância do levantamento da Agência Tatu. Em um país no qual Amazônia e Cerrado continuam submetidos à enorme pressão econômica pela apropriação de terras e recursos naturais, a disputa eleitoral também define quem terá poder para escrever as regras que determinam o futuro das florestas brasileiras.

Nesse sentido, a passagem da motosserra para a urna pode ser muito mais curta do que imaginamos.

ONU finalmente admite que o aquecimento global ultrapassará o limite climático de 1,5 ºC

Segundo um relatório, a Terra ultrapassará uma meta de longa data antes do final da década

Uma estação de resfriamento em Colônia, na Alemanha, ofereceu alívio durante uma onda de calor em junho, agravada pelas mudanças climáticas. Crédito: Ina Fassbender/AFP/Getty

Por James Dineen para “Nature” 

A meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C para evitar as consequências mais perigosas das mudanças climáticas está oficialmente morta. De acordo com um relatório divulgado hoje pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o melhor que o planeta pode esperar, considerando sua atual trajetória de emissões, é um aquecimento de cerca de 1,8 °C acima dos níveis pré-industriais neste século.

“Obviamente, sim, procrastinamos em relação ao clima”, disse Inger Anderson, diretora-executiva do PNUMA, durante uma coletiva de imprensa em 1º de setembro. “E obviamente, sim, quando começamos a UNFCCC [Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima], sabíamos quais ações precisavam ser tomadas. E não as tomamos na velocidade que poderíamos.”

 Os quase 200 países que assinaram o Acordo de Paris sobre o clima em 2015 concordaram em reduzir as emissões de gases de efeito estufa com rapidez suficiente para manter o aumento da temperatura média global “bem abaixo” de 2 °C em relação à média pré-industrial, com a meta ambiciosa de limitar o aumento a 1,5 °C. Acima desse limite de 1,5 °C, os riscos de desencadear pontos de inflexão perigosos no sistema climático tornam-se mais agudos¹ e aumentam a cada décimo de grau de aquecimento a partir desse ponto, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU.

A meta de 1,5 °C permaneceu um objetivo importante nas negociações climáticas da ONU, mesmo com os países não conseguindo realizar os cortes drásticos necessários para alcançá-la. O tema da cúpula climática da ONU em Glasgow, Escócia, em 2021, foi “manter 1,5 °C ao alcance”, e a reunião climática da ONU no ano passado, no Brasil, terminou com uma resolução para “manter 1,5 °C ao alcance”, mesmo com pesquisadores apontando que as temperaturas médias globais em 2024 ultrapassaram 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais pela primeira vez . A média de longo prazo usada para definir a meta agora deve ultrapassar 1,5 °C até o final da década.

Ao ultrapassar o limiar

O novo relatório do PNUMA, intitulado ” Limitando a Ultrapassagem”, reconhece a realidade de que os países não conseguirão evitar ultrapassar esse limite. “Este é o primeiro relatório de uma agência das Nações Unidas que afirma, sem ambiguidade, que ultrapassaremos os 1,5 °C nos próximos anos, devido à insuficiência de ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, afirma Andy Reisinger, pesquisador climático da Universidade Nacional da Austrália, em Canberra, e um dos autores do relatório.

O relatório conclui que o aumento da temperatura do planeta ultrapassará 1,5 °C, atingindo um mínimo de cerca de 1,8 °C neste século, mesmo no cenário de emissões mais otimista. Esse cenário prevê que as emissões globais caiam pela metade na próxima década e alcancem emissões líquidas zero até meados do século — uma meta muito mais ambiciosa do que os compromissos formais de redução de emissões dos participantes, que atualmente colocam o mundo no caminho de um aquecimento de até 2,5 °C até 2100. “Todos os nossos caminhos futuros são caminhos de ultrapassagem”, disse Debra Roberts, cientista climática da Universidade de KwaZulu-Natal, na África do Sul, e coautora do relatório, durante a apresentação.

Caso o aumento da temperatura se estabilize em torno de 1,8 ºC, o relatório sugere que ainda seria possível que ela retornasse a níveis abaixo de 1,5 ºC até o final do século, se a queda mais otimista nas emissões fosse acompanhada por uma rápida expansão dos esforços para remover o dióxido de carbono da atmosfera . Isso envolveria a expansão das florestas e a implantação de tecnologia para capturar o gás do ar e armazená-lo permanentemente.

O campo da remoção de CO₂ tem recebido crescente atenção desde que o IPCC reconheceu a necessidade dessa estratégia para atingir as metas climáticas. No entanto, o relatório sugere que o retorno a 1,5 °C exigiria a remoção de dezenas de bilhões de toneladas de CO₂ da atmosfera a cada ano, durante décadas, uma quantidade milhares de vezes maior do que as tecnologias de remoção de CO₂ têm proporcionado até o momento.

doi: https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.1038/d41586-026-02753-5

Referências

  1. Armstrong McKay, DI et al. Science 377 , eabn7950 (2022).


Fonte: Nature

Às vésperas do super El Niño, municípios brasileiros não promovem transparência climática

Em uma escala de 0 a 100, nota média do conjunto de cidades avaliadas foi de 33,63 de acordo com nova edição do Índice de Transparência e Governança Pública

Em 2024, chuvas intensas destruíram o Rio Grande do Sul e alagaram o Mercado Público de Porto Alegre. Foto: Ricardo André Frantz 

Por Transparência Internacional BRASIL

Às vésperas do ‘Super El Niño‘, um novo levantamento do Índice de Transparência e Governança Pública (ITGP), da Transparência Internacional – Brasil revela que a nota média dos municípios em transparência de informações sobre adaptação climática é de apenas 33,62 (em uma escala de 0 a 100).  

Na prática, isso significa que, justamente quando eventos climáticos extremos estão mais frequentes e intensos, muitas prefeituras ainda não disponibilizam de forma adequada informações que permitam aos cidadãos saber quais são os riscos de sua cidade, o que está sendo feito para prevení-los e como o poder público está se preparando para enfrentar esses eventos. 

O alerta ganha ainda mais importância diante da previsão da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados (NOAA, na sigla em inglês) de um El Niño de grandes proporções para os próximos meses. O evento deve figurar entre os mais fortes eventos climáticos registrados pela humanidade desde 1950. Por conta disso, este fenômeno, que deve durar até o início de 2027, ganhou o apelido de ‘Super El Niño‘. 

El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico. Ele ocorre a cada dois a sete anos e impacta a temperatura do planeta inteiro. No Brasil, ele geralmente causa o aumento de chuvas na região Sul, o agravamento de secas e estiagens no Norte e no Nordeste e um clima mais irregular no Sudeste e Centro-Oeste – com aumento de calor, chuvas mal distribuídas e oscilações no comportamento de frentes frias.   

Maioria dos municípios brasileiros tem nota ‘ruim’ ou ‘péssima’ em transparência climática

Nesta edição do ITGP, 278 municípios de 10 estados foram avaliados no módulo Adaptação Climática. O objetivo foi saber como essas cidades promovem a transparência de informações sobre o assunto. Foram avaliadas, por exemplo, a existência e a divulgação de instrumentos para lidar com a crise do clima (como planos de adaptação e de contingência, metas climáticas no orçamento e espaços participativos) e como as prefeituras divulgam e disseminam informações sobre o tema aos seus cidadãos. 

O resultado não foi bom. Numa escala de 0 a 100, a nota média do conjunto de cidades avaliadas foi 33,62. O melhor resultado foi a existência de órgãos municipais de meio ambiente (85,3% das cidades cumpriram esse item) e o pior resultado diz respeito à divulgação de audiências e consultas públicas sobre clima e defesa civil (apenas 8,7% das cidades atenderam a esse quesito).  

Na análise de planos setoriais, o cenário permaneceu igualmente grave e preocupante: apenas 13% dos municípios avaliados possuem Plano de Adaptação à Mudança do Clima.

Isso é bastante relevante, pois é esse plano que reúne o conjunto de ações que busca preparar uma cidade e reduzir os impactos de eventos extremos como enchentes, secas, ondas de calor e deslizamentos. Ele ajuda a proteger vidas, moradias, serviços públicos e a economia, especialmente em áreas vulneráveis. Também orienta investimentos e políticas públicas para tornar os municípios mais seguros, resilientes e preparados para os efeitos atuais e futuros do clima.

Em 2023, uma estiagem histórica fez com que os rios da Amazônia secassem e prejudicassem milhares de pessoas no norte do Brasil. Foto: Alberto César Araújo/ Amazônia Real

Cidades melhoraram suas notas e classificação

A metodologia torna possível comparar os resultados do Índice de Transparência e Governança Pública de 2025 com 2026. Nos 233 municípios em que foi possível fazer essa comparação, todos os 22 indicadores melhoraram, com alta média de 7,9 pontos.

Diversos municípios melhoraram sua classificação – a concentração de cidades com nota ‘péssima’ ou ‘ruim ‘era de 75% em 2025; este ano, o número diminuiu para 59%.

As cidades classificadas como ‘regular’ cresceram (de 15% para 19%), assim como as classificadas com ‘bom’, de 7% para 15%. Em 2025, seis municípios foram classificados como ‘ótimo’; neste ano, a lista se estende a 14. Entraram neste grupo mais bem avaliado, por exemplo, as cidades de Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Gaspar (SC), Santa Tereza, Aracruz, Cachoeiro de Itapemirim, Sooretama e Serra (ES).

Questões climáticas não aparecem no orçamento

Somente 14% das cidades avaliadas possuem planos importantes para que as cidades estejam preparadas para eventos extremos (como Plano Diretor, Plano de Habitação, Plano de Saneamento Básico e Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos) e apenas 24,1% colocaram metas relativas às mudanças climáticas em seus Planos Plurianuais (PPA). O PPA é um instrumento de planejamento da prefeitura que define as principais diretrizes, objetivos e metas das políticas públicas e dos investimentos do município, orientando a elaboração dos orçamentos e a aplicação dos recursos públicos.

Dos 278 municípios avaliados, apenas 27% têm um órgão colegiado de mudanças climáticas ativo – prejudicando a participação e o controle social a respeito deste tema. Dos 75 municípios com colegiado de clima ativo, apenas 21 divulgam integralmente seu funcionamento; 29 não divulgam nenhuma informação.

Também é de 27% a taxa dos municípios que possuem órgão colegiado de proteção e defesa civil ativo. Das 77 cidades com colegiado de defesa civil ativo, 13 divulgam integralmente as informações referentes a esses conselhos e 36 não divulgam nenhuma informação. Das cidades analisadas, 57,2% não tem nenhum dos dois colegiados ativos.

A transparência climática é fundamental para que os cidadãos tenham acesso à informação e saibam as providências a serem tomadas na ocorrência de eventos extremos. Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real

 

Cidadãos não têm acesso a informações sobre clima

A Coordenadora de Projetos da Transparência Internacional – Brasil, Letícia Castro, disse que a transparência sobre adaptação climática não é apenas uma questão de acesso à informação – tem a ver também com uma diferença concreta na capacidade das pessoas de se protegerem diante de eventos extremos. Ainda há inúmeros instrumentos que necessitam ser criados e implementados pelas cidades.

“Apenas 37,1% dos municípios publicam o Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil, por exemplo. Isso significa que em 175 cidades esse documento não está disponível para o público. O plano de contingência é o instrumento que define quais áreas são consideradas de risco, quais são as rotas de saída, onde ficam os pontos de abrigo, quais órgãos são acionados em cada nível de alerta. Sem acesso a ele, o morador não tem como saber, por exemplo, se a sua rua está mapeada como área de risco e para onde deve se deslocar em caso de evacuação”, explicou a coordenadora.

Conheça o Índice de Transparência e Governança Pública

O Índice de Transparência e Governança Pública é uma ferramenta da Transparência Internacional – Brasil que avalia a transparência de entes subnacionais do país, como governos estaduais, capitais, assembleias legislativas e municípios. Ele atribui a cada entidade uma nota de 0 a 100 pontos, classificada em faixas como “ótimo”, “bom” e “regular”, com base em critérios como acesso à informação e boas práticas de governança.

O objetivo é permitir comparações ao longo do tempo, mostrando a evolução de cada ente entre uma edição e outra do Índice. Na avaliação mais recente de governos estaduais, feita em 2025, o estado do Espírito Santo liderou o ranking com 95 pontos, enquanto o Amapá ficou em último lugar, com 46,9 pontos. O Índice de Transparência e Governança Pública é uma ferramenta que serve à melhoria da transparência no Brasil.


Fonte: Transparência Internacional Brasil

Daniel Vorcaro e os corredores laterais da República

O escândalo do Banco Master começa a mostrar que o verdadeiro privilégio dos muito ricos talvez não seja apenas possuir dinheiro, mas ter acesso direto a quem exerce o poder

O imbróglio envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master parece estar longe de terminar, pois praticamente a cada nova rodada de informações surge algum elemento capaz de ampliar ainda mais a dimensão política de um caso que começou como um gigantesco escândalo financeiro. O que inicialmente poderia ser visto como mais um episódio envolvendo operações bancárias suspeitas começa a oferecer uma oportunidade particularmente reveladora para observar como funcionam as relações entre dinheiro e poder no Brasil.

As informações que vieram a público nos últimos dias são especialmente perturbadoras. Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro teria mantido pelo menos seis encontros com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, entre 2024 e 2025, chegando, dois dias antes de ser preso, a enviar uma mensagem perguntando se deveria deixar o país. As respostas eventualmente enviadas por Moraes não foram recuperadas pela investigação, o que impede qualquer conclusão sobre o conteúdo efetivo dessas conversas, mas o simples fato de um banqueiro que posteriormente seria preso possuir tamanho grau de acesso a um ministro do STF já deveria provocar alguma reflexão sobre a forma como as elites econômicas circulam pelas estruturas superiores do Estado brasileiro.

A situação fica ainda mais complicada quando lembramos que o Banco Master havia firmado um contrato que poderia alcançar R$ 131 milhões com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Segundo as informações divulgadas, documentos apreendidos pela Polícia Federal indicariam que o próprio ministro teria participado da análise do contrato, enquanto o escritório sustenta que sua participação teria se limitado à verificação da inexistência de impedimentos à contratação. Evidentemente, nada disso permite concluir automaticamente pela existência de qualquer ilegalidade, mas também seria ingenuidade imaginar que relações envolvendo dezenas ou centenas de milhões de reais e pessoas situadas no topo da estrutura institucional brasileira sejam politicamente irrelevantes.

Como se esse quadro já não fosse suficientemente espinhoso, agora sabemos que Daniel Vorcaro também esteve pessoalmente com outro ministro do Supremo Tribunal Federal. André Mendonça confirmou ter recebido o banqueiro em março de 2025 para tratar de uma questão relacionada a precatórios de interesse do Banco Master e afirma que apenas ouviu Vorcaro, acrescentando que sua atuação posterior teria sido contrária aos interesses defendidos pelo banqueiro. O fato ganhou uma dimensão adicional porque Mendonça é hoje justamente o relator das investigações envolvendo o Banco Master no STF, situação que não demonstra por si mesma qualquer irregularidade, mas inevitavelmente aumenta a necessidade de transparência sobre as circunstâncias e o conteúdo desses contatos.

É preciso deixar claro que ter conversado com Daniel Vorcaro não transforma automaticamente ninguém em participante de qualquer atividade ilegal, assim como conhecer ou receber um empresário não constitui crime. Entretanto, talvez estejamos fazendo a pergunta errada se ficarmos apenas tentando descobrir se cada encontro, jantar, telefonema ou mensagem configura individualmente algum delito, pois a questão politicamente mais interessante é entender como um banqueiro conseguiu construir uma rede de acesso que aparentemente alcançava alguns dos personagens mais poderosos da República.

Os tentáculos dessa história tampouco parecem terminar no Supremo Tribunal Federal, pois outra revelação particularmente saborosa envolve o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, que negociou com Vorcaro recursos para financiar Dark Horse, um filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Segundo as informações publicadas pela imprensa, o projeto poderia receber até US$ 24 milhões, algo em torno de R$ 134 milhões na cotação da época, dos quais aproximadamente R$ 61 milhões teriam efetivamente sido aportados. Flávio Bolsonaro reconheceu que procurou Vorcaro em busca dos recursos, mas sustenta que se tratava simplesmente de um investimento privado numa produção cinematográfica.

Ainda que se aceite essa explicação, permanece uma questão que atravessa todo o caso: não é qualquer brasileiro que consegue telefonar para um banqueiro e discutir algumas dezenas de milhões de reais para financiar um filme sobre o próprio pai, da mesma forma que não é qualquer empresário que consegue chegar diretamente a ministros do Supremo Tribunal Federal para discutir assuntos de seu interesse. É justamente quando juntamos essas diferentes peças que o caso Vorcaro deixa de parecer apenas uma sucessão de episódios curiosos e começa a revelar algo estrutural sobre o funcionamento do poder no Brasil.

Existe o Brasil das instituições formais, onde cidadãos precisam preencher formulários, protocolar requerimentos, esperar meses por respostas administrativas, contratar advogados e atravessar anos de processos judiciais para fazer valer direitos relativamente elementares. Paralelamente, parece existir outro Brasil, onde pessoas suficientemente ricas conseguem circular por gabinetes, escritórios, restaurantes e residências frequentados pelos integrantes das camadas superiores do poder político, econômico e judicial, estabelecendo um tipo de interlocução com o Estado que permanece simplesmente inacessível para a esmagadora maioria da população.

Talvez esteja justamente aí uma das formas menos discutidas da desigualdade brasileira. Quando pensamos em desigualdade, normalmente lembramos da concentração de renda, da pobreza, das diferenças salariais ou da distribuição profundamente desigual da propriedade, mas existe também uma desigualdade de acesso ao Estado, na qual milhões de brasileiros encontram diante de si balcões, protocolos e burocracias enquanto uma pequena parcela da população parece dispor de números de telefone, intermediários e relações pessoais capazes de abrir portas que permanecem hermeticamente fechadas para quase todos os demais.

Não é necessário encontrar uma mala de dinheiro sobre uma mesa para reconhecer que existe um problema democrático nessa situação, pois o poder econômico também se transforma em poder político por meio da capacidade de estabelecer relações, financiar projetos, contratar escritórios influentes, organizar encontros e fazer com que determinados interesses cheguem rapidamente aos ouvidos daqueles que possuem capacidade para tomar decisões. O problema, portanto, não começa necessariamente quando se comprova uma propina, mas muito antes, quando percebemos que alguns grupos possuem condições extraordinariamente superiores para colocar seus interesses diante daqueles que controlam as engrenagens do Estado.

Por isso, talvez o maior erro neste momento seja transformar Daniel Vorcaro em personagem de mais uma disputa infantil entre esquerda e direita, pois tudo o que começa a aparecer sugere justamente o contrário. O banqueiro aparentemente sabia circular por diferentes ambientes políticos e institucionais, mantendo relações com personagens que dificilmente poderiam ser colocados dentro de uma mesma caixinha ideológica, algo que não deveria surpreender ninguém porque o grande capital raramente possui fidelidades políticas permanentes. Governos mudam, partidos alternam-se e ministros chegam e vão embora, enquanto os interesses econômicos continuam procurando as portas pelas quais possam chegar aos centros onde decisões importantes são tomadas.

É justamente por isso que o caso Banco Master poderá terminar sendo muito mais importante do que Daniel Vorcaro. O banqueiro poderá ser condenado ou absolvido das diferentes acusações que hoje pesam sobre ele, e as investigações ainda terão de esclarecer até onde chegaram suas relações e se alguma delas resultou efetivamente em favorecimentos, mas aquilo que já apareceu oferece material suficiente para uma reflexão que deveria interessar a qualquer pessoa preocupada com a qualidade da democracia brasileira.

Nesse sentido, a pergunta que precisamos fazer não é apenas quem Daniel Vorcaro conhecia, mas como ele chegou a conhecer tanta gente poderosa, por que tantas portas estavam abertas para recebê-lo e o que exatamente circulava por essas portas além do próprio banqueiro. Se as investigações confirmarem que favores públicos foram concedidos em decorrência dessas relações privadas, estaremos diante de um problema criminal de enormes proporções; entretanto, mesmo que nenhuma dessas relações venha individualmente a configurar crime, continuará existindo uma questão política difícil de ignorar, que é a existência de uma República onde o acesso aos centros de decisão parece variar brutalmente conforme o tamanho da conta bancária de quem bate à porta.

Daniel Vorcaro pode, assim, acabar prestando ao Brasil um serviço que certamente não pretendia prestar, pois ao deixar exposta sua extraordinária rede de relações está permitindo que enxerguemos um pouco melhor os corredores laterais pelos quais circulam dinheiro, influência e poder no país. E talvez seja justamente por esses corredores, longe dos balcões, protocolos e filas onde espera a maioria dos brasileiros, que possamos compreender como uma parte importante da República realmente funciona.

Brasil pode estar vivendo uma epidemia silenciosa de intoxicação por agrotóxicos

Novo estudo estima mais de 400 milhões de intoxicações agudas por ano no mundo e acende o alerta em um país que consome grandes volumes de agrotóxicos, inclusive substâncias proibidas na União Europeia

Um novo estudo publicado nesta quarta-feira (2) na revista científica Frontiers in Public Health oferece números que deveriam produzir um sério debate sobre os custos humanos do modelo agrícola contemporâneo. No artigo intitulado Worldwide unintentional acute pesticide poisonings: reassessing the occupational and non-occupational burden, Wolfgang Boedeker, Meriel Watts, Peter Clausing e Emily Marquez estimam que ocorram atualmente entre 402 milhões e 433 milhões de casos de intoxicação aguda não intencional por agrotóxicos todos os anos no mundo, acompanhados por aproximadamente 11 mil mortes. Mais impressionante ainda é a estimativa de que cerca de 46% da população mundial envolvida na agricultura seja intoxicada por agrotóxicos a cada ano.

O trabalho de Boedeker e seus colegas merece atenção não apenas pela magnitude dos números apresentados, mas também pelo esforço realizado para ampliar e atualizar a base empírica utilizada para estimar a dimensão mundial das intoxicações. Os autores analisaram informações referentes a 139 países, combinando 214 trabalhos científicos publicados entre 2006 e 2023 com dados da base de mortalidade da Organização Mundial da Saúde. O estudo também incorporou uma análise de sensibilidade destinada a avaliar como diferenças metodológicas entre os trabalhos poderiam afetar as estimativas globais. Mesmo quando os autores adotaram critérios mais restritivos, o resultado continuou impressionante: o número anual estimado permaneceu acima de 400 milhões de intoxicações.

Há outro elemento particularmente importante nesse trabalho. Entre 1990 e 2023, o consumo mundial de agrotóxicos praticamente dobrou, passando de aproximadamente 1,8 milhão para 3,8 milhões de toneladas anuais. Entretanto, essa expansão foi profundamente desigual. Enquanto o consumo caiu cerca de 5% na Europa, aumentou aproximadamente 210% nas Américas e 185% na África. A geografia mundial da exposição aos agrotóxicos está, portanto, se deslocando justamente em direção às regiões onde frequentemente são mais frágeis os mecanismos de fiscalização ambiental, vigilância epidemiológica, proteção aos trabalhadores rurais e controle da comercialização das substâncias mais perigosas.

E o Brasil no meio dessa tempestade química?

É justamente nesse ponto que o estudo publicado na Frontiers in Public Health deveria acender todas as luzes vermelhas no Brasil. O país ocupa posição central no mercado mundial de agrotóxicos e apresenta níveis extraordinariamente elevados de consumo. Dados reunidos em outro estudo publicado em 2025 indicaram que somente em 2021 foram aplicadas aproximadamente 719,5 mil toneladas de agrotóxicos nas áreas agrícolas brasileiras, quantidade equivalente ao consumo conjunto dos Estados Unidos e da China naquele ano. A aplicação média brasileira chegou a cerca de 10,9 quilos por hectare, contra 2,85 kg/ha nos Estados Unidos e 1,9 kg/ha na China.

Os dados oficiais do Ibama mostram que essa dependência química continua extraordinariamente elevada. Somente o glifosato e seus sais responderam por aproximadamente 231,9 mil toneladas comercializadas em 2024. O mancozebe alcançou 75,1 mil toneladas, enquanto substâncias como 2,4-D, acefato e glufosinato continuam figurando entre os ingredientes ativos mais comercializados no território brasileiro.

Mas o problema brasileiro não está apenas na quantidade utilizada. Está também na qualidade toxicológica das substâncias que permanecem autorizadas.

Levantamentos recentes indicam que sete dos dez ingredientes ativos mais vendidos no Brasil são proibidos na União Europeia, entre eles mancozebe, 2,4-D, acefato, clorotalonil, atrazina, S-metolacloro e dibrometo de diquate. Isso significa que substâncias consideradas perigosas demais para serem utilizadas em sistemas agrícolas europeus continuam sendo despejadas em grandes quantidades sobre lavouras brasileiras.

A discrepância regulatória é ainda maior quando se observa o conjunto das substâncias autorizadas. Em março de 2025, dos 369 ingredientes ativos químicos autorizados para utilização no Brasil, 234 — ou 63,4% — não estavam autorizados na União Europeia. Além disso, entre 2019 e 2024, centenas de novos produtos contendo princípios ativos não autorizados no mercado europeu continuaram recebendo registro brasileiro.

O próprio Ibama reconhece problemas graves com determinadas substâncias ainda utilizadas no país. Em dezembro de 2025, o órgão iniciou a reavaliação ambiental do metomil e do tiodicarbe, classificados como altamente tóxicos ao ambiente, altamente transportáveis e persistentes e altamente tóxicos para abelhas e pequenos crustáceos aquáticos. O metomil já havia sido banido em cerca de 50 países, mas sua comercialização brasileira vinha crescendo.

Uma epidemia química que dificilmente aparece nas estatísticas

O estudo de Boedeker, Watts, Clausing e Marquez oferece ainda uma chave fundamental para compreender o que provavelmente acontece no Brasil: os sistemas oficiais registram apenas uma fração das intoxicações realmente existentes.

Os autores mostram que muitos trabalhadores intoxicados não procuram atendimento médico, enquanto outros recebem diagnósticos que não identificam corretamente a exposição aos agrotóxicos. Entre as razões para a subnotificação estão dificuldades de acesso aos serviços de saúde, sintomas confundidos com outras doenças, falta de treinamento dos profissionais para reconhecer intoxicações, investigação inadequada dos episódios e fragmentação das bases de dados. Há estudos internacionais sugerindo que sistemas convencionais de vigilância podem subestimar dramaticamente a quantidade real de intoxicações ocupacionais.

Essa observação é particularmente relevante para o Brasil, onde o próprio artigo utiliza diferentes estudos nacionais sobre intoxicações e exposição ocupacional e apresenta uma estimativa de 26% de prevalência anual de intoxicação aguda não fatal entre a população agrícola/ocupacional brasileira, embora os próprios autores ressaltem que estimativas nacionais possuem graus diferentes de incerteza e não devem ser interpretadas como levantamentos epidemiológicos completos de cada país.

Por isso, talvez seja necessário começar a discutir seriamente a possibilidade de que esteja ocorrendo no Brasil aquilo que poderíamos denominar de epidemia química silenciosa. Não se trata de utilizar a palavra epidemia como recurso retórico, mas de chamar atenção para uma exposição populacional disseminada, repetitiva e estruturalmente produzida por determinado modelo de agricultura. Diferentemente das epidemias infecciosas, entretanto, não existe aqui um vírus ou uma bactéria facilmente identificável. Existem centenas de substâncias químicas circulando simultaneamente pelo ambiente e alcançando trabalhadores, comunidades rurais e, por diferentes vias, parcelas muito maiores da população.

E há uma diferença adicional. O artigo da Frontiers in Public Health trata essencialmente das intoxicações agudas, isto é, dos efeitos que aparecem em período relativamente curto após a exposição. Ele não pretende contabilizar toda a carga de doenças decorrente da exposição crônica aos agrotóxicos. Os próprios autores defendem novos estudos longitudinais capazes de investigar esses efeitos de longo prazo. Portanto, os 402 a 433 milhões de casos estimados anualmente representam apenas uma dimensão do problema.

É justamente aí que a noção de epidemia química ganha ainda mais relevância. A exposição brasileira não ocorre apenas durante a aplicação dos produtos. Os agrotóxicos podem alcançar trabalhadores diretamente envolvidos no preparo e pulverização, famílias residentes próximas às áreas agrícolas e ambientes contaminados por deriva, além de água e alimentos. Um estudo apresentado por pesquisadores da Fiocruz encontrou, em amostras brasileiras de água analisadas em 2024, resíduos de sete agrotóxicos proibidos na União Europeia, entre eles atrazina, metolacloro, fipronil e flutriafol.

Quando o veneno proibido lá continua permitido aqui

Existe ainda uma dimensão política que não pode ser ignorada. O contraste entre a regulação europeia e brasileira demonstra que a exposição aos agrotóxicos não resulta apenas de decisões individuais tomadas pelos agricultores. Ela é produzida também por escolhas regulatórias e econômicas.

Quando determinadas substâncias são consideradas perigosas demais para permanecer no mercado europeu, mas continuam sendo comercializadas e utilizadas em larga escala no Brasil, estabelece-se uma espécie de geografia internacional desigual do risco químico. Os riscos que sociedades com maior capacidade regulatória decidiram reduzir continuam sendo socialmente tolerados em países transformados simultaneamente em grandes produtores de commodities e grandes mercados consumidores de agrotóxicos.

Não por acaso, a literatura científica já descreve há décadas o problema do duplo padrão internacional, no qual produtos proibidos ou severamente restringidos nos países industrializados continuam sendo exportados para países como o Brasil.

O novo estudo publicado na Frontiers in Public Health demonstra que as consequências desse modelo estão longe de ser marginais. Estamos falando potencialmente de centenas de milhões de intoxicações anuais e de uma população agrícola mundial na qual quase metade dos trabalhadores pode sofrer pelo menos um episódio de intoxicação aguda por ano. Os próprios autores concluem que as evidências disponíveis já são mais do que suficientes para justificar ações imediatas e defendem a implementação da recomendação da FAO para a eliminação progressiva dos chamados Highly Hazardous Pesticides (HHPs), os agrotóxicos altamente perigosos.

Para o Brasil, essa recomendação deveria ser particularmente urgente. Um país que utiliza quantidades gigantescas de agrotóxicos, mantém autorizadas centenas de substâncias não permitidas na União Europeia e apresenta reconhecidos problemas de subnotificação das intoxicações não deveria continuar tratando os efeitos sanitários desse modelo como simples externalidades inevitáveis da produção agrícola.

A pergunta que precisa ser feita é relativamente simples: quanto da extraordinária produtividade do agronegócio brasileiro está sendo obtida mediante a transferência de custos ambientais e sanitários para trabalhadores rurais, comunidades agrícolas e para o Sistema Único de Saúde?

Os números apresentados por Wolfgang Boedeker, Meriel Watts, Peter Clausing e Emily Marquez sugerem que essa conta pode ser muito maior do que mostram as estatísticas oficiais. E talvez o problema mais grave seja justamente este: enquanto o agronegócio e o governantes celebram recordes de safras e exportações, podemos estar convivendo com uma epidemia química cuja verdadeira dimensão sequer conseguimos medir.

O artigo Worldwide unintentional acute pesticide poisonings: reassessing the occupational and non-occupational burden, de Wolfgang Boedeker, Meriel Watts, Peter Clausing e Emily Marquez, foi publicado em 2 de setembro de 2026 na revista científica Frontiers in Public Health, na seção Occupational Health and Safety.

Leia o artigo original na Frontiers in Public Health

Quando a conservação se torna uma mercadoria

Transporte de toras de árvores da floresta para a serraria rio abaixo, aproveitando a correnteza, exploração madeireira na Amazônia, Brasil. Crédito: Ricardo Beliel / BrazilPhotos / Alamy

Por Monica Piccini para “YourVoiz” 

O Brasil aposta que a Amazônia pode ser protegida tornando suas florestas economicamente valiosas, por meio da exploração madeireira, de produtos florestais e de créditos de carbono. Mas, à medida que mais florestas públicas são abertas ao comércio, o desafio é estabelecer se o uso comercial pode permanecer dentro dos limites ecológicos da floresta.

A Amazônia sempre atraiu pessoas em busca de algo valioso. Desde os tempos coloniais do Brasil, com a chegada dos portugueses em 1500, os recursos naturais, incluindo madeira, açúcar, ouro, diamantes, borracha, café, minerais, gado e terras, têm gerado ondas de extração na floresta.

Atualmente, as florestas públicas podem fornecer óleos, sementes, frutos, madeira, serviços ambientais e, segundo regras mais recentes, créditos de carbono, mantendo-se oficialmente protegidas e em pé.

O Brasil chama isso de manejo florestal sustentável . A ideia é que, se uma floresta viva tem valor econômico , há menos incentivo para destruí-la. A recuperação da floresta, no entanto, ocorre em uma escala de tempo muito maior do que o planejamento comercial. As árvores levam décadas, às vezes séculos, para crescer. O que importa é o que resta após a exploração madeireira e se as árvores de valor comercial se recuperaram antes que a colheita recomece.

Um estudo publicado na revista Forest Ecology and Management testou 27 cenários diferentes de exploração madeireira na Amazônia brasileira para verificar se a produção comercial de madeira poderia ser mantida ao longo de colheitas repetidas.

Em condições semelhantes às utilizadas atualmente nas concessões florestais brasileiras, com colheita de cerca de 15 a 20 metros cúbicos de madeira por hectare e retorno após 35 anos, a produção madeireira poderia ser mantida durante o primeiro ciclo, mas não no mesmo nível posteriormente.

Plinio Sist, cientista florestal sênior da Unidade de Pesquisa Florestas e Sociedades do CIRAD (Centro Francês de Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento Internacional) e principal autor da pesquisa, explicou:

O problema não é necessariamente se a floresta permanece de pé após a exploração madeireira. A biomassa e a biodiversidade florestal podem se recuperar relativamente bem quando a exploração madeireira é cuidadosamente controlada. O problema são as árvores de madeira valiosa. Elas se recuperam muito mais lentamente.

No atual ciclo de colheita, estudos sugerem que apenas cerca de metade do volume original de madeira pode ter se recuperado até o retorno dos madeireiros. Assim, uma floresta pode parecer verde e saudável vista de cima, mas já não conter madeira comercial suficiente para sustentar o mesmo nível de colheita.

O cenário mais sustentável no estudo envolvia a colheita de 10 metros cúbicos por hectare a cada 60 anos. O material explicativo subsequente do CIRAD descreve o ciclo de corte correspondente como sendo de 65 anos. Também assumiu que 90% das espécies de madeira potencialmente colhíveis teriam valor comercial, em comparação com cerca de 20% nas práticas atuais.

Sist argumenta que, para uma produção madeireira verdadeiramente sustentável, a indústria talvez tenha que aceitar extrair consideravelmente menos da floresta e esperar muito mais tempo antes de retornar a ela. Ele disse:

Nossas simulações sugerem que a exploração madeireira deve ser limitada a cerca de 10 metros cúbicos por hectare, que uma gama mais ampla de espécies de madeira deve ser utilizada e que as florestas devem ter um período de cerca de 60 anos antes de serem exploradas novamente.

Nessas condições, a exploração madeireira poderia ser sustentável a longo prazo. Mas há uma contrapartida importante: uma exploração verdadeiramente sustentável produziria muito menos madeira do que o mercado demanda atualmente. Devemos reconhecer que a floresta tem limites ecológicos. Não podemos simplesmente exigir que ela continue produzindo a mesma quantidade indefinidamente.

Uma floresta se torna um investimento

Pau-Rosa faz parte de uma expansão muito maior de concessões florestais na Amazônia. A Floresta Nacional Pau-Rosa abrange cerca de 828.000 hectares e situa-se entre os rios Madeira e Tapajós, uma região de imensa riqueza ecológica. Cerca de 249.000 hectares estão atualmente propostos para concessão de manejo florestal sustentável. Até agosto de 2026, o projeto ainda não havia sido licitado. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) havia programado o edital de licitação para o final de 2026 e o ​​leilão para o primeiro trimestre de 2027.

Os documentos do projeto governamental afirmam que as concessões visam proteger a biodiversidade e apoiar o desenvolvimento sustentável, permitindo, ao mesmo tempo, o uso comercial da floresta. Espera-se que essa mesma floresta seja, simultaneamente, produtiva comercialmente e conservada.

Pau-Rosa é apenas um dos vários projetos de concessão em toda a região. A Floresta Nacional de Castanho Glebe , a Floresta Nacional do Amapá , a Floresta Nacional de Jatuarana (quatro Unidades de Manejo Florestal, UMFs), as Florestas Nacionais de Iquiri Anauá Bom Futuro (duas UMFs) e Balata-Tufari três UMFs ) estão entre as outras florestas amazônicas envolvidas em projetos de concessão, embora os projetos estejam em diferentes estágios, desde estudos e preparação de licitações até leilões e concessões contratadas.

Esses projetos são coordenados pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil, e contam com o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em sua estruturação.

Cada concessão tem seus próprios limites e plano de gestão, mas em toda a região, espera-se que mais florestas públicas produzam madeira e outras formas de renda, mantendo-se em pé.

Fonte da imagem: Hub de Projetos BNDES 

Algumas dessas florestas públicas e unidades de concessão estão localizadas dentro da área mais ampla influenciada pela infraestrutura de transporte associada ao corredor da rodovia BR-319, ou são afetadas por ela .

Pesquisas e avaliações ambientais têm identificado repetidamente a melhoria do acesso rodoviário nesta parte da Amazônia como um fator de pressão sobre florestas remotas, áreas protegidas e comunidades indígenas. Estradas existentes e planejadas podem criar vias para extração ilegal de madeira e mineração, grilagem de terras, crime organizado e outras atividades ilícitas, além de aumentar o risco de desmatamento e degradação.

Madeira sustentável

Um plano de gestão pouco significa se a origem da madeira não for confiável.

Um estudo de 2025 publicado na revista One Earth examinou registros de madeira e observações de satélite no estado do Pará, Brasil, entre 2009 e 2019, e constatou lacunas significativas entre o que estava registrado em papel e o que podia ser observado na floresta. Embora 96% do volume de madeira que entrou na cadeia de suprimentos formal pudesse ser vinculado a uma licença de exploração madeireira por localização, apenas 45% da exploração detectada por satélite coincidiu com áreas com autorização legal.

Os pesquisadores também encontraram casos em que a quantidade de madeira declarada como proveniente de uma área autorizada parecia inconsistente com a quantidade de extração madeireira realmente visível no local. Segundo os pesquisadores, essas inconsistências criam oportunidades para que as licenças de exploração madeireira sejam usadas para lavar madeira extraída ilegalmente em outros lugares.

Mas o problema não desapareceu, já que operações de fiscalização e investigações recentes continuam a encontrar evidências de que licenças fraudulentas, créditos florestais e outros documentos podem ser usados ​​para disfarçar a verdadeira origem da madeira extraída ilegalmente.

Em 2025, uma investigação da Agência de Investigação Ambiental (EIA) ligou cerca de 53.000 metros cúbicos de madeira, associados a operações autorizadas ou irregulares, a cadeias de abastecimento que chegavam aos Estados Unidos e à Europa.

A madeira pode parecer rastreável e legal em um banco de dados oficial sem a documentação que comprove que ela realmente veio da floresta indicada nos registros.

Grande parte da Amazônia é remota, e a exploração madeireira sob a copa das árvores pode ser difícil de comparar com o que acontece nos registros oficiais. Um plano de manejo pode definir como a exploração madeireira deve ser feita, mas verificar se essas regras são seguidas na prática é muito mais difícil.

Uma árvore em pé se transforma em mercadoria

A exploração madeireira deixou de ser a única forma de uma floresta gerar renda. Em outubro de 2025, o Serviço Florestal Brasileiro introduziu normas que permitem às concessões de manejo florestal já em vigor a inclusão de atividades voltadas à redução das emissões provenientes do desmatamento e da degradação florestal, com o objetivo de gerar, certificar e comercializar créditos de carbono.

Em 25 de março de 2026, o Brasil realizou seu primeiro leilão federal para concessão florestal com foco em restauração ecológica na Floresta Nacional do Bom Futuro, em Rondônia. A Re.green venceu o leilão para uma unidade de manejo de aproximadamente 51.200 hectares. A concessão tem duração de 40 anos e permite a geração de receita por meio de ativos ambientais, incluindo créditos de carbono e produtos da silvicultura de espécies nativas.

A Re.green foi a vencedora do Earthshot Prize de 2025. Seus clientes e parceiros incluem Microsoft, Nestlé, Vivo e a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk. Seu investimento e apoio vêm da gestora de ativos Dynamo , da holding privada do Grupo Moreira Salles – Brasil Warrant (BW), da empresa de private equity e investimentos Lanx Capital , da empresa de private equity Principia Capital e da Gávea Investimentos .

O mercado voluntário de carbono adiciona mais uma fonte de receita . Uma árvore em pé pode gerar renda por meio do carbono que armazena. Seu carbono é medido, calculado e transformado em crédito que pode ser negociado. Para projetos de restauração, os créditos de carbono podem fornecer recursos para recuperar terras degradadas, mas também transformam a capacidade natural da floresta de armazenar carbono em algo que pode ser comprado e vendido.

O Dr. Thales AP West, professor assistente titular do Instituto de Estudos Ambientais (IVM) da Universidade Livre de Amsterdã, falou sobre as salvaguardas do mercado de créditos de carbono :

Se as empresas compram créditos de projetos florestais, a floresta precisa estar lá. Se ela desaparecer, os créditos também desaparecem. O problema é que mesmo cálculos certificados e auditados podem carecer de credibilidade — a certificação por si só não garante nada.

A maioria dos projetos dura apenas algumas décadas; uma vez expirados, seus créditos também podem expirar. No entanto, ninguém quer falar sobre isso porque é inconveniente. O mercado voluntário simplesmente optou por não levar a questão da permanência a sério.

Os volumes de madeira e as toneladas de carbono descrevem apenas parte do valor de uma floresta. As florestas sustentam o solo, a água, a vida selvagem e as relações entre as espécies. Para as pessoas que viveram nelas e dependeram delas por gerações, elas também são lar, alimento e remédio.

Os mercados voluntários de carbono atribuem um valor mensurável e negociável a uma função de um sistema mais amplo: o armazenamento de carbono e a mitigação das mudanças climáticas. Os críticos têm um nome para isso: “extrativismo verde”, argumentando que ele pode continuar a definir as florestas por meio do valor econômico que elas geram, mesmo quando as árvores permanecem de pé.

Sist argumenta que atribuir um preço a uma floresta em pé pode ajudar a protegê-la, mas apenas se a conservação não se tornar mais uma justificativa para o crescimento econômico desenfreado. Ele disse:

Sempre existe um perigo quando atribuímos um valor financeiro à natureza. Ao mesmo tempo, gerar renda a partir de uma floresta em pé pode dar às pessoas um forte incentivo para conservá-la.

Acho que o conceito de bioeconomia não é muito útil porque abrange muitas coisas e cada um tem sua própria definição e visão do que é bioeconomia. Penso que a bioeconomia deveria ser implementada dentro de um sistema econômico que defenda o decrescimento, e não como uma solução milagrosa dentro de um sistema capitalista que não pode existir sem crescimento.

Um relacionamento antigo com um nome mais verde

Durante séculos, a floresta amazônica foi explorada, vista como fonte de borracha, madeira de lei, minerais, petróleo, pastagens para gado e terras. As concessões florestais atuais operam sob regulamentação e monitoramento, com normas de gestão destinadas a limitar os danos associados à extração descontrolada.

Essas regras, por si só, não tornam o modelo transparente ou sustentável. Um sistema que valoriza as florestas principalmente por meio da madeira, do óleo, do carbono e de outros produtos comercializáveis ​​ainda corre o risco de negligenciar valores ecológicos e sociais mais difíceis de precificar.

A sustentabilidade dessas concessões dependerá do que acontecer na floresta ao longo do tempo: a recuperação das árvores colhidas, a condição dos rios e solos, a sobrevivência da vida selvagem, a influência das comunidades locais e indígenas nas decisões e quanta da riqueza gerada permanece nos locais onde é produzida.

Em conjunto, eles fornecem uma visão mais significativa da condição da floresta a longo prazo do que o valor de uma concessão ou o número de créditos de carbono que ela produz.

O Brasil precisa de alternativas à extração ilegal de madeira, à grilagem de terras e ao desmatamento. Concessões cuidadosamente gerenciadas poderiam talvez reduzir algumas dessas pressões, mas sua sustentabilidade a longo prazo ainda depende da capacidade de manter a recuperação ecológica e uma fiscalização eficaz ao longo de repetidos ciclos de exploração.

Sist alertou que as concessões não devem ser encaradas como a única solução. Ele disse:

O sistema de concessões florestais do Brasil está entre os melhores do mundo tropical, mas as regras de exploração precisarão ser alteradas para que seja sustentável a longo prazo. E as concessões, por si só, não conseguem suprir toda a demanda de madeira do mercado.

O Brasil precisa de uma abordagem muito mais abrangente: acabar com a extração ilegal de madeira, permitir que comunidades florestais e pequenos agricultores gerenciem as florestas de forma sustentável e restaurar os milhões de hectares de floresta e terra degradadas. Precisamos diversificar não apenas a origem da madeira, mas também quem tem condições de produzi-la.

O verdadeiro teste começa após a assinatura do contrato e o início da exploração madeireira. Os efeitos não podem ser avaliados apenas no próximo ano fiscal ou mesmo durante a vigência de uma concessão de 40 anos. Eles se tornarão mais claros em prazos muito mais longos, observando se as árvores de grande porte continuarão a se regenerar, se os rios e ecossistemas florestais permanecerão saudáveis ​​e se as pessoas que dependem da floresta conquistarão um papel significativo nas decisões sobre o seu futuro.

Direito de resposta: O Serviço Florestal Brasileiro (SFB) foi contatado para entrevistas a fim de discutir algumas das questões levantadas neste artigo. Até o momento da publicação, nenhuma resposta às perguntas enviadas havia sido recebida.


Fonte: YourVoiz