Na última segunda-feira (20/4) tive a oportunidade de participar de um debate organizado pela Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF) que teve como título “A pesquisa ambiental e seus inimigos: negacionismo, produtivismo & Cia“. Participei desta mesa/debate com meus colegas geógrafos Marcelo Lopes de Souza (UFRJ) e Carlos Bordalo (UFPA).
Apesar da duração do debate ter extrapolado as duas horas previstas, isto ocorreu em função dos elementos que foram discutidos, mas que revolveram em torno dos impactos nefastos que o produtivismo acadêmico e o crescimento exponencial da produção de artigos que estão sendo publicados por revistas predatórias ou ainda por por “paper mills” que têm se infiltrado até em revistas científicas tradicionais.
Como Marcelo Lopes de Souza bem demonstrou a combinação de produtivismo acadêmico e a disseminação de artefatos que possuem baixa ou nenhuma qualidade científica está agravando os ataques de inimigos da ciência que se utilizam de argumentos não-científicos para avançar suas agendas anti-ambientais.
Eu me ative a abordar o crescente problema representado pela privatização da ciência a partir da participação de grandes corporações na definição do que deve ser pesquisado, em combinação com a disseminação da pseudo-ciência que se serve das pressões impostas pelo sistema do “publicar ou perecer” que coloca mais peso na quantidade do que na qualidade das publicações científicas.
Quem desejar assistir a mesa/debate em sua integridade ou mesmo parcialmente, o vídeo completo segue abaixo. De minha parte, considero que essa questão deverá merecer muitas outras mesas e debates, pois corremos o risco de que a empreitada científica seja desmantelada em função da quantidade de lixo que está sendo publicado como se resultassem de investigações e pesquisas que passem pelos crivos da boa ciência.
Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro formalizou reconhecimento, que permite acesso a políticas da reforma agrária
Foto ilustrativa: Canva
Por ASCOM/ MPF RJ
O Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro (Iterj) acatou recomendação do Ministério Público Federal (MPF) e publicou a Portaria nº 363, que reconhece formalmente o Assentamento Campo Alegre como assentamento rural. A atuação do MPF buscou solucionar uma demanda histórica que perdurava por aproximadamente 40 anos.
A ocupação da área, localizada entre os municípios de Nova Iguaçu e Queimados, teve início em 1984, quando cerca de 600 famílias de lavradores e trabalhadores urbanos ocuparam a região em busca de moradia e trabalho. Apesar de tentativas anteriores de desapropriação pelo estado, a falta de pagamento de indenizações e a revogação de decretos impediram a formalização da área por décadas.
Na recomendação, assinada pelo procurador regional dos Direitos do Cidadão adjunto Julio Araujo, o MPF destacou que a ausência de reconhecimento formal impedia os produtores de acessar políticas públicas federais, como créditos agrícolas. O documento ressalta que a regularização é essencial para a segurança jurídica das famílias e para a pacificação de conflitos no campo, citando inclusive condenações do Estado brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos por violência rural.
O reconhecimento oficial, publicado no Diário Oficial da União, nesta sexta-feira (17), abrange uma área composta por 308 parcelas, onde residem cerca de 340 famílias de pequenos produtores. Segundo o Iterj, esses agricultores já desenvolvem atividades de subsistência e comercialização no local de forma mansa e pacífica, contando com assistência técnica e insumos fornecidos pelo órgão estadual.
Com a edição da portaria, o assentamento passa a ser tecnicamente apto a integrar a Política Nacional de Reforma Agrária. O ato administrativo determina especificamente que o reconhecimento visa possibilitar a participação dos produtores rurais de Campo Alegre como beneficiários no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
O processo de regularização foi impulsionado pelas tratativas no âmbito do Fórum da Terra, conduzido pelo MPF. O espaço de diálogo reuniu órgãos como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), o próprio Iterj e representantes das prefeituras envolvidas, além das lideranças dos assentados, para destravar as pendências administrativas que se arrastavam desde 1999.
A partir de agora, as unidades técnicas do Iterj deverão supervisionar o processo junto aos Cartórios de Registro de Imóveis competentes e órgãos municipais. Além disso, a Gerência de Assentamentos do instituto buscará junto ao Incra o registro das informações no sistema nacional, garantindo que as famílias aptas possam efetivamente contratar os créditos fundiários necessários para o desenvolvimento de suas produções.
Rede ÓSocioBio e Conexsus apontam que ao menos 40% dos agricultores familiares atendidos pela Rede de Ativadores de Crédito Socioambiental não conseguem acessar a documentação exigida para obter crédito. Recursos seguem concentrados na pecuária, enquanto uma parcela reduzida alcança as cadeias da sociobioeconomia
O acesso ao crédito rural no Brasil ainda enfrenta distorções que limitam a inclusão de agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Apesar de ser a principal política pública de financiamento do setor, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) segue concentrado em poucas atividades e regiões, deixando de alcançar cadeias produtivas ligadas à sociobioeconomia, como extrativismo, sistemas agroflorestais e pesca artesanal.
Na prática, o crédito rural não chega de forma efetiva a uma parcela significativa dos produtores que atuam em sistemas produtivos sustentáveis, sobretudo em territórios mais isolados ou com menor presença de serviços financeiros.
Esse cenário está diretamente ligado a entraves burocráticos e operacionais que dificultam a inclusão dessas populações nas políticas públicas. Entre os principais desafios estão a exigência de documentação que muitas famílias não possuem ou têm dificuldade de atualizar, como o Cadastro da Agricultura Familiar (CAF), além da baixa oferta e baixa remuneração de assistência técnica para elaboração dos projetos de financiamento.
Em territórios mais remotos, as dificuldades são ainda maiores. Na fase pós crédito, há casos em que produtores não conseguem comprovar despesas por falta de nota fiscal — comum em regiões onde insumos são adquiridos em pequenos comércios locais ou de forma informal. Também há limitações logísticas, como longas distâncias até agências bancárias, acesso precário à internet e falta de orientação técnica contínua, o que acaba afastando parte das famílias das linhas de crédito disponíveis.
O CAF é um documento indispensável para o acesso a linhas de financiamento voltadas à agricultura familiar, como o Pronaf, permitindo acesso a recursos para produção, infraestrutura e comercialização, além de viabilizar a participação em programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Apesar dos avanços recentes, os dados mostram que o financiamento rural ainda apresenta forte concentração produtiva e regional. Atualmente, cerca de 70% dos recursos do Pronaf estão concentrados na região Sul e Sudeste, enquanto mais de 85% das operações seguem vinculadas à pecuária, evidenciando um descompasso entre a política de crédito e a diversidade produtiva dos territórios brasileiros.
“O excesso de exigências burocráticas seguem excluindo povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares das políticas públicas que deveriam fortalecê-los. É urgente adequar o Pronaf à realidade dos territórios, ampliando o acesso ao financiamento para as cadeias da sociobioeconomia. Garantir esse acesso é fundamental para gerar renda, valorizar os modos de vida e manter a floresta em pé como estratégia de desenvolvimento para o país”, afirma Laura Souza, secretária executiva do ÓSocioBio.
Na região Norte por exemplo, 85,4% do volume de recursos do Pronaf em 2025 foi destinado à pecuária, enquanto menos de 8% chegaram às cadeias da sociobioeconomia, como cacau, açaí, castanha-do-Brasil, óleos vegetais, pesca artesanal e sistemas agroflorestais. Apesar do aumento do percentual de operações para os produtos da sociobiodiversidade quando comparado ao ano 2024, as operações dessa categoria concentram-se em 53% na cadeia do cacau. Esse movimento está associado ao aumento expressivo do preço do cacau, e consequentemente, o interesse de famílias em operações de crédito para essa cadeia produtiva.
Esse cenário reforça a necessidade de ajustes estruturais no Plano Safra 2026/2027 para garantir maior equilíbrio na distribuição do crédito rural e ampliar o acesso às atividades ligadas ao uso sustentável da biodiversidade e de outros produtos da sociobiodiversidade ainda pouco financiados.
“A sociobioeconomia representa uma oportunidade estratégica para o Brasil. São cadeias produtivas de alto valor que geram renda, fortalecem comunidades rurais e contribuem para manter a floresta em pé. Ampliar o acesso ao crédito para essas atividades significa transformar a biodiversidade em desenvolvimento sustentável”, afirma Fernando Moretti, diretor de Políticas da Sociobioeconomia da Conexsus.
Segundo ele, ainda há um desalinhamento entre o desenho do crédito rural e a realidade produtiva de muitas comunidades. “Superar essas barreiras é essencial para que agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais possam ampliar sua produção e fortalecer suas economias locais”, diz.
Além da concentração de recursos, outro desafio central é o acesso à documentação. Estimativas da Conexsus, com uma base de dados de mais de 5 mil famílias de agricultores familiares, principalmente povos e comunidades tradicionais, indicam que cerca de 40% das famílias da sociobioeconomia declararam não possuir CAF ativo, o que limita o acesso ao crédito rural e a outras políticas públicas. Esse percentual é semelhante ao identificado em diagnósticos recentes sobre a bioeconomia amazônica. Estudos da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia, NatureFinance e WRI Brasil apontam que aproximadamente 40% das famílias envolvidas nas cadeias da sociobiodiversidade na Amazônia ainda não possuem CAF ativo, o que limita o acesso ao crédito rural e a políticas públicas voltadas à agricultura familiar e à sociobiodiversidade.
Diante desse cenário, especialistas e organizações que atuam no tema apontam que o Plano Safra 2026/2027 será decisivo para reorientar o crédito rural e ampliar o acesso às cadeias produtivas sustentáveis.
Entre as principais expectativas para este ano estão a ampliação do número de operações de crédito voltadas à sociobioeconomia, com crescimento em todas as regiões do país, além da adoção de critérios que garantam maior participação dessas atividades na destinação dos recursos.
Também está no radar a expansão e descentralização da emissão do Cadastro da Agricultura Familiar (CAF), considerada essencial para ampliar o acesso ao financiamento, e o fortalecimento da assistência técnica, com maior cobertura e remuneração adequada aos profissionais que atuam diretamente nos territórios.
Outro ponto considerado estratégico é a criação de mecanismos de garantia que facilitem o acesso ao crédito por cooperativas e negócios comunitários, além de incentivos para que instituições financeiras ampliem a oferta de financiamento para essas cadeias produtivas.
Para especialistas do setor, a adoção dessas medidas pode transformar o Pronaf em um instrumento mais eficiente de desenvolvimento sustentável, ao alinhar geração de renda, inclusão produtiva e conservação ambiental.
“Quando essas economias ganham escala, os impactos são múltiplos: geração de renda, valorização dos territórios e conservação dos ecossistemas”, afirma Moretti.
Mais do que ampliar recursos, o desafio central está em reorientar o crédito rural, tornando-o mais acessível, inclusivo e alinhado às demandas da agricultura familiar e das economias da floresta.
Tecnologia tenta aproximar comunidades do crédito
Uma das iniciativas recentes para facilitar o acesso ao crédito rural é um aplicativo desenvolvido pela Conexsus para conectar cooperativas e negócios comunitários às linhas de financiamento do Pronaf para seus associados.
A ferramenta funciona como uma plataforma digital de apoio para cadastro e elaboração de projetos de crédito, organizar documentos e facilitar a interlocução entre comunidades, negócios comunitários e instituições financeiras.
Além de facilitar o acesso ao crédito, a iniciativa contribui para estruturar cadeias produtivas da sociobioeconomia e fortalecer Negócios Comunitários que atuam em territórios da sociobioeconomia.
Sobre a Conexus
O Instituto Conexões Sustentáveis – Conexsus atua na promoção da conexão dos negócios comunitários com os mercados, sejam locais, regionais, nacionais ou internacionais, disponibilizando acesso a investimentos financeiros customizados, aliados à orientação técnica voltada a melhoria da maturidade organizacional e o desenvolvimento de sua base de associados.
Sobre o Ósociobio
O Observatório das Economias da Sociobiodiversidade é uma rede que nasceu em meio ao contexto político-eleitoral, em junho de 2022, para demarcar um espaço em defesa das economias dos povos e seus territórios, e se tornar um interlocutor necessário na construção e fortalecimento de políticas públicas orientadas para a sociobiodiversidade, agregando experiências, conhecimentos, habilidades e capacidades de nossos membros, parceiros e colaboradores.
Estudo liderado por brasileiros mostra substituição de espécies por generalistas, sem tendência de savanização; porém, áreas recuperadas são mais vulneráveis
Pesquisa foi realizada com base em 20 anos de monitoramento de campo (foto: Paulo Brando).
Por Luciana Constantino para “Agência FAPESP”
Mesmo após incêndios, secas severas e tempestades de ventos, a vegetação de florestas degradadas na Amazônia demonstra alta capacidade de regeneração, incluindo espécies arbóreas. A recuperação, no entanto, ocorre sob novas condições ecológicas, com perda de diversidade e aumento de vulnerabilidade a novos distúrbios.
Pesquisapublicadana segunda-feira (20/04) na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), uma das revistas científicas mais citadas no mundo, mostra que há substituição de espécies vulneráveis por outras generalistas, mais resistentes. Indica, assim, segundo os autores, a formação de florestas homogêneas, mas não uma tendência à savanização, como parte da literatura científica vinha apontando. Esse processo reforça a resiliência do bioma.
Por outro lado, o estudo, realizado com base em 20 anos de monitoramento de campo e liderado por brasileiros, destaca que as áreas recuperadas são mais vulneráveis a eventos extremos cada vez mais frequentes no bioma e aos impactos do desmatamento e das mudanças climáticas. Além de intensificar secas e incêndios, o aquecimento global prejudica os serviços ecossistêmicos, como a regulação de água e a captura de carbono.
O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010) (foto: Paulo Brando)
De acordo com os pesquisadores, essa compreensão é fundamental para orientar a conservação florestal e as estratégias de mitigação, especialmente frente a eventos como o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial que provoca alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.
“A principal mensagem do nosso estudo é que, mesmo altamente degradadas, as florestas conseguem se recuperar. No entanto, estão muito vulneráveis a novos distúrbios. Elas são resilientes, mas, mesmo assim, é preciso preservar. No sítio experimental, temos o controle e o fogo não ocorre mais na área, o que não é possível fazer na Amazônia toda”, pondera à Agência FAPESP o biólogo Leandro Maracahipes, primeiro autor do artigo juntamente com o engenheiro florestal Paulo Brando.
O trabalho é resultado do pós-doutorado de Maracahipes no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp). Atualmente, ele é pesquisador na Yale School of the Environment (Estados Unidos) e também colaborador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). O biológo e Brando têm apoio da FAPESP, respectivamente, por meio de Bolsa de Pós-Doutorado e Projeto Temático.
Acompanhamento
O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010). Cada uma delas está próxima a áreas agrícolas, que eram utilizadas como pastagem com gramíneas exóticas.
“A escolha do lugar é chave, já que modelos climáticos consideram que a região de transição da Amazônia para o Cerrado será a primeira a sofrer mudanças com os impactos do aquecimento global. Essa pesquisa é inovadora porque integra múltiplos fatores estressantes, como fogo, vento forte e seca, e mostra que a floresta sofreu, se degradou e depois voltou. Mais empobrecida de espécies, porém ainda com características de floresta”, explica o ecólogo e professor do IB-Unicamp Rafael Silva Oliveira.
Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, as gramíneas reduziram drasticamente. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana (foto: Paulo Brando)
Também autor do artigo e então supervisor de Maracahipes no pós-doutorado, Oliveira complementa: “Outro ponto importante é que as árvores cresceram e as gramíneas saíram, sem evidência de savanização. Os modelos criados pelos climatólogos foram úteis para alertar sobre os riscos à Amazônia, mas simplificaram os ecossistemas tropicais, reduzindo-os à floresta ou à savana. Isso ajudou a fortalecer a ideia de um ‘ponto de não retorno’, ainda pouco sustentada por dados de campo. Na prática, a Amazônia é muito mais diversa, com diferentes tipos de florestas e vulnerabilidades. Ao incorporar esse olhar biológico, mostramos uma Amazônia menos previsível e mais resiliente em algumas regiões do que os modelos sugerem”.
Oliveira também teve apoio da FAPESP por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).
Passo a passo
Os resultados mostraram que, com a suspensão das queimadas, a recuperação da estrutura e do funcionamento da floresta foi rápida em seu interior, com diversidade de espécies relativamente estável.
Já nas áreas de borda o processo foi mais lento, com riqueza de espécies caindo de 20% a 46%, entre 2004 e 2024. O efeito de borda é uma alteração ecológica que ocorre nas margens de áreas desmatadas, onde a floresta passa a ter contato direto com ambientes abertos, como pastagens, estradas ou lavouras, alterando o clima e a biodiversidade.
Apesar da recuperação de alguns serviços ecossistêmicos, como fluxos de carbono e de água, com o crescimento de vegetação após os incêndios a composição de espécies mudou. Passou a ter mais generalistas, com características de tolerância à seca, mas que estão operando em limiares perigosos. A composição original de espécies não retornou mesmo após 14 anos, principalmente das consideradas especialistas de floresta.
As gramíneas foram fator-chave para promover fogos de alta intensidade e impediram a regeneração de árvores, tendo inicialmente se expandido ao longo das bordas. Foram observadas espécies ligadas a áreas de pastagens, como Aristida longifolia e Imperata sp, de origem africana. Após incêndios de alta severidade, gramíneas invasoras, especialmente Andropogon gayanus, entraram nas bordas, atingindo o pico em 2012.
Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, elas foram reduzidas drasticamente, ficando apenas manchas de gramíneas tolerantes à sombra. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana.
“Olhando para a parte biológica, quando analisamos a composição de espécies de gramíneas na floresta que passou por distúrbios, vemos que são espécies utilizadas em pastagem, como braquiária e andropogon. Se o aumento fosse de espécies nativas, poderíamos dizer que o componente graminoso seria um fator importante na recuperação de florestas degradadas. Além disso, não há chegada de espécies lenhosas de savana. Nosso sítio experimental está a cinco quilômetros de áreas de savana do Cerrado, podendo ter fonte de propagação, e mesmo assim não registramos essa savanização”, complementa Maracahipes, que fez análise da composição das espécies ao longo dos anos no local.
A pesquisa mostrou ainda que a vulnerabilidade da floresta ao fogo aumenta por causa da casca fina das árvores; enquanto a baixa densidade da madeira prejudica mais em tempestades de vento. Nas secas severas algumas espécies operam próximo ao potencial de perda da condutividade hidráulica.
Um ponto que se mostrou importante na regeneração florestal foi a presença de fauna local, sendo mamíferos (como antas e macacos) e aves agentes-chave para promover o reaparecimento de árvores consideradas “especialistas de florestas”, ou seja, com alta densidade de madeira e de vida longa.
Cenário
Mesmo com uma queda significativa do desmatamento na Amazônia principalmente nos últimos dois anos, o bioma vem sofrendo com degradações constantes. O fogo tem sido o principal fator. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo.
Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, o desmatamento na Amazônia Legal afetou uma área de 1.324 quilômetros quadrados (km²), com uma redução de 35% em comparação ao ciclo anterior (agosto de 2024 a janeiro de 2025). Já a degradação florestal atingiu uma área de 2.923 km² no período.
Nos primeiros três meses de 2026, foi registrado o segundo menor nível para o primeiro trimestre do ano – 399,59 km², o que representa queda de cerca de 7% em relação a 2025. Os dados são do Deter, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de alerta de desmatamento em tempo real.
Para este ano, outra preocupação é com a possibilidade de um “super El Niño” a partir do segundo semestre até 2027. Novas projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo apontam para a possibilidade de um fenômeno com potencial para ser o mais intenso em 140 anos. Em 2024, a seca que afetou a Amazônia foi provocada pelo El Niño e seus efeitos vêm sendo estudados até hoje.
“Apesar da resiliência da floresta, a preservação ainda é o caminho que precisamos buscar”, conclui Maracahipes.
O artigo Forest recovery pathways after fire, drought and windstorms in southeast Amazonia pode ser lido em: pnas.org/doi/10.1073/pnas.2532833123.
Recentemente, um pesquisador da Universidade de Lund foi repreendido após sua tese de doutorado ter sido apontada como utilizando inteligência artificial. O pesquisador, que alegou não ter usado nenhuma ferramenta de IA, foi autorizado a manter o título de doutor, apesar da condenação por má conduta em pesquisa
Uma tese de doutorado foi sinalizada na Universidade de Lund por causa do uso de fontes falsas. Foto: Alexandra Wendt Höjer/Levart_ Photographer (unsplah) (Montagem)
Por Dione Zijp para Lund University
Sabe-se que os projetos de pesquisa de doutorado são submetidos a rigorosos padrões acadêmicos, pois visam preparar os doutorandos para uma carreira futura na academia. O uso da IA em processos de pesquisa é um tema controverso, que levanta questões sobre rigor acadêmico, integridade e ética científica.
Em fevereiro deste ano, a Universitetsläraren ( Associação de Professores Universitários) informou que o Conselho Nacional de Avaliação de Má Conduta em Pesquisa (NPOF) havia sinalizado uma tese de doutorado da Universidade de Lund por suspeita de uso indevido de inteligência artificial, alegando que o projeto continha 14 referências falsificadas. A lista de referências do projeto continha diversas fontes inexistentes, títulos citados incorretamente e DOIs referenciados de forma errada. Como a tese já havia sido defendida e aprovada pelo orientador e pela banca examinadora, o pesquisador tem permissão para manter o título de doutor.
Uma análise mais detalhada da avaliação do NPOF mostra que as referências falsificadas apareceram apenas na lista de referências, e todas as citações no texto estavam corretas. De acordo com o relatório , o pesquisador de doutorado argumentou que, como todos os erros de referência ocorreram apenas nessa lista, não houve falsificação nem plágio.
As referências incorretas na lista foram resultado do estresse durante o processo de pesquisa de doutorado e do uso de ferramentas de busca para a compilação da bibliografia. Além disso, a pesquisadora afirmou que uma lista correta foi submetida à banca e que o objetivo final era citar autoras em uma área predominantemente masculina.
Embora o uso da IA por si só não seja conclusivo para determinar má conduta em pesquisa, o caso destaca o papel crescente que as ferramentas de IA desempenham no processo de pesquisa, inclusive em nível de doutorado. Até o momento, existem poucas pesquisas que avaliam o papel da IA nos processos de pesquisa de doutorado.
A Universidade de Linköping está atualmente conduzindoum estudo com entrevistas sobre a opinião de estudantes de doutorado a respeito do papel da IA em trabalhos de tese, mas os resultados ainda não foram publicados. Enquanto isso, os alunos continuam sendo repreendidos pelo uso de IA em trabalhos acadêmicos, embora os relatos de fraude com IA na Universidade de Lund sejam relativamente baixos em comparação com outras universidades suecas.
O uso da IA no trabalho universitário continua sendo um tema de debate acadêmico. Enquanto isso, a Universidade de Lund publicou suas próprias diretrizes para o uso da inteligência artificial no processo de pesquisa.Em uma das publicações da universidade, os pró-reitores Jimmie Kristensson e Per Mickwitz afirmam que: “O ponto de partida ao usar IA em pesquisa é seguir os princípios básicos da ética em pesquisa e deixar que eles orientem sua conduta como pesquisador.”
A universidade também menciona as diretrizes de pesquisa publicadas pelo Conselho Sueco de Pesquisa, incentivando os pesquisadores a se guiarem pelos princípios de confiabilidade, honestidade, respeito e responsabilidade ao utilizarem ferramentas de IA.
A expansão silenciosa dos ramais revela como a infraestrutura precária, impulsionada por políticas públicas ambíguas e ocupações informais, reconfigura o território amazônico ao mesmo tempo em que aprofunda o desmatamento e fragiliza áreas protegidas
Na Amazônia, onde rios sempre foram caminhos e fronteiras, a abertura de estradas representa mais do que infraestrutura: é a materialização de um projeto histórico de ocupação. Desde a expansão promovida durante o regime militar brasileiro, entre 1964 e 1985, a malha viária na região tem avançado como instrumento de integração territorial, mas também como vetor de profundas transformações sociais e ambientais. No Acre, esse processo ganha contornos particularmente reveladores ao expor a tensão permanente entre políticas públicas, dinâmicas econômicas e a fragilidade dos mecanismos de controle territorial.
O mais recente mapeamento da rede de estradas e ramais no estado mostra que, entre 1989 e 2025, foram identificados mais de 24 mil quilômetros de vias. Trata-se de um crescimento contínuo, com acelerações em momentos específicos — como em 2006, 2019, 2020 e 2025 — que coincidem com ciclos de expansão da fronteira agrícola e aumento do desmatamento. Esses números não apenas dimensionam a extensão física da rede, mas revelam a persistência de um modelo de ocupação que se apoia na abertura de caminhos precários, muitas vezes fora de qualquer planejamento institucional.
A distinção entre estradas oficiais e ramais é central para compreender essa dinâmica. Enquanto as primeiras são registradas e, ao menos formalmente, monitoradas por órgãos públicos, os ramais — vias de terra batida, frequentemente abertas sem autorização — constituem uma malha capilar que escapa à regulação. São essas estradas invisíveis nos mapas oficiais que frequentemente sustentam o avanço de atividades ilegais ou informais, conectando áreas remotas a circuitos econômicos mais amplos.
Os dados indicam que 35% da extensão dessas vias se concentram em projetos de assentamento, o que não surpreende diante da necessidade de garantir acesso à produção agrícola familiar. No entanto, essa concentração também levanta questões sobre o papel do próprio Estado: ao mesmo tempo em que promove a ocupação por meio da reforma agrária, cria as condições para a fragmentação florestal e a intensificação de pressões ambientais. Em seguida aparecem propriedades privadas e terras públicas, reforçando a ideia de que a expansão viária não é apenas um fenômeno marginal, mas parte integrante das formas contemporâneas de apropriação do território.
Particularmente preocupante é a presença crescente de estradas em unidades de conservação, que já concentram cerca de 12% da malha identificada. A partir de 2018, observa-se uma intensificação desse processo, com mais da metade das novas aberturas ocorrendo nos anos recentes. Em áreas como as reservas extrativistas Chico Mendes e Cazumbá-Iracema, a abertura de ramais sinaliza a emergência de novas frentes de ocupação, frequentemente associadas ao desmatamento. Aqui, a contradição se explicita: territórios criados para proteger a floresta tornam-se, gradualmente, permeáveis a dinâmicas que a degradam.
Nos municípios, o avanço também segue padrões definidos. Rio Branco, Sena Madureira e Feijó concentram boa parte da expansão recente, com centenas de quilômetros de novos ramais abertos apenas em 2025. Esses movimentos indicam não apenas crescimento local, mas a reorganização de fluxos econômicos e populacionais que reposicionam o estado dentro da lógica da fronteira amazônica. Em Sena Madureira, por exemplo, a abertura de um ramal de mais de 20 quilômetros dentro de uma unidade de conservação evidencia a fragilidade dos mecanismos de fiscalização.
Se nas terras indígenas a presença de estradas ainda é relativamente baixa, o que se observa é um cerco progressivo em seu entorno. Essa pressão indireta tende a produzir impactos duradouros, seja pela intensificação de conflitos, seja pela introdução de novas dinâmicas econômicas que afetam modos de vida tradicionais. A baixa incidência interna, portanto, não deve ser interpretada como ausência de ameaça, mas como um estágio de um processo mais amplo de pressão territorial.
Por fim, as conexões regionais ampliam a escala do problema. A identificação de dezenas de pontos de ligação com estados vizinhos e países como Bolívia e Peru revela que os ramais não são estruturas isoladas, mas parte de uma rede transfronteiriça que pode facilitar tanto a circulação de mercadorias quanto a expansão de atividades ilegais. Nesse contexto, a estrada deixa de ser apenas um traço no mapa e se torna um dispositivo estratégico na reconfiguração da Amazônia contemporânea.
O que emerge desse panorama é menos uma narrativa de desenvolvimento e mais um retrato das ambiguidades do Estado e de seus instrumentos de intervenção. As estradas que prometem integração também abrem caminho para a degradação; os assentamentos que visam justiça social podem operar como vetores de pressão ambiental; e a ausência de regulação efetiva transforma a infraestrutura em um território de disputas. No Acre, como em grande parte da Amazônia, o avanço da malha viária não apenas acompanha a fronteira — ele a produz, redefine e, sobretudo, a expõe em suas contradições mais profundas.
Quem desejar baixar o arquivo contendo o relatório ” Expansão de estradas e ramais no Estado Acre -1989 a 2025″, basta clicar [Aqui!].
Na Guatemala, o império bananeiro da Chiquita depende de uma força de trabalho terceirizada e explorada, que trabalha no coração das plantações, apesar de possuírem certificação da Rainforest Alliance. Salários abaixo do mínimo legal, exposição a agrotóxicos pulverizados por via aérea e o abuso de coquetéis de drogas altamente potentes para suportar cargas de trabalho exaustivas: a investigação da Public Eye revela o que se esconde por trás do selo
Por Adrià Budry Carbó, Fotografias: Tomás Ayuso / Panos Pictures, para “Public Eye”
Ao amanhecer, a plantação de bananas começa a despertar mesmo antes do sol romper a névoa úmida da costa sul da Guatemala. Nessas plantações terceirizadas pela Chiquita, trabalhadores agrícolas com rostos abatidos caminham entre as bananeiras, botas de borracha afundando na lama negra, facões afiados presos aos cintos. Eles sabem que o dia será longo: 10 horas, às vezes 12, por um salário irrisório – frequentemente abaixo do mínimo legal.
José Maldonado* esfrega mecanicamente os antebraços, irritado pela coceira causada pelos agrotóxicos pulverizados nos campos. Suas mãos contam a história melhor do que palavras: estão calejadas e marcadas por anos de trabalho, com uma ferida ainda aberta. “O corpo humano não é uma máquina”, murmura, mostrando seu último contracheque. Nele consta a quantia de 1.198 quetzales – ou cerca de 105 francos suíços líquidos, seu pagamento por duas semanas de trabalho. O valor é 35% menor que o salário mínimo agrícola nacional.
À sombra das bananeiras, José olha para o contracheque. Seus irmãos, Rogelio* e Luis*, repetem os mesmos movimentos, respiram o mesmo ar carregado de produtos químicos e contam o mesmo número de quetzales ao final de cada quinzena. Na família Maldonado, o trabalho com as bananas é compartilhado – assim como o desgaste físico. A história dos irmãos é também a história desta terra e das pessoas que a trabalham.
A terra do ouro verde
Devido ao clima de violência nas plantações no sul da Guatemala, anonimizamos a maioria dos depoimentos.
Em novembro de 2025, a Public Eye percorreu a Guatemala – traçando uma linha diagonal da cidade portuária de Puerto Barrios, no nordeste, até Puerto San José, no sul – para documentar as condições de trabalho e de vida nas plantações administradas pela Chiquita, com sede no cantão suíço de Vaud desde 2008, e suas subcontratadas.
Ao pé dos bananais e em alojamentos improvisados, encontramos dezenas de colhedores, fumigadores, aparadores de folhas, embaladores e seladores: um amplo espectro de trabalhadores empregados diretamente pela multinacional ou por meio de suas inúmeras subcontratadas no litoral sul do país, onde pudemos identificar diversos locais de trabalho. Em todos os lugares, ouvimos os mesmos relatos: fadiga extrema, salários inadequados, exposição desprotegida a produtos químicos, restrições à liberdade de associação. Cada uma das plantações que visitamos no sul – onde observamos as piores condições – possui, no entanto, a certificação da Rainforest Alliance, uma ONG sediada nos EUA cujo selo visa atestar não apenas a proteção da biodiversidade, mas também os direitos e a segurança dos trabalhadores.
Nossa investigação documenta a clara exploração de trabalhadores em plantações de banana, violações de direitos fundamentais e condições de trabalho que infringem padrões internacionais (incluindo o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU e as principais convenções da Organização Internacional do Trabalho, ambos ratificados pela Suíça). Em um país marcado pela pobreza, tráfico de drogas, impunidade e violência endêmica, um clima de medo e desconfiança prevalecia de uma plantação guatemalteca para outra. Maldonado resumiu a situação sem rodeios: “Aqui, ninguém pode dizer não. Você tem que aguentar as longas jornadas e os produtos químicos na pele, ou eles encontram outra pessoa”. Para proteger os indivíduos que entrevistamos de demissões ou represálias físicas, anonimizamos a maioria deles, bem como as plantações que os empregam.
O testemunho dos irmãos Maldonado está longe de ser um caso isolado. No sul do país, onde se concentram 85% dos empregos na indústria bananeira, as empresas que administram as plantações em nome da Chiquita dependem de uma força de trabalho jovem, isolada e com pouca organização sindical – condições ideais para manter regimes de trabalho árduos e controle rígido. Aqui, o “ouro verde” se refere às bananas ainda verdes: embora a cultura sustente toda a economia regional, os próprios guatemaltecos raramente veem os frutos do seu trabalho.
Este relatório nos leva ao coração das plantações, onde a economia global encontra o silêncio – e muitas vezes a cumplicidade – das instituições locais. É um mundo onde milhares de pessoas trabalham em quase total invisibilidade. Aqui, a história brutal da Guatemala ainda está sendo escrita com facões; é uma história não de progresso, mas de suor, pesticidas e coquetéis de drogas.
Uma força de trabalho dopada com la bomba
Em sua paróquia em Puerto San José, uma pequena cidade na costa do Pacífico da Guatemala, o padre Leonel acolhe os poucos membros restantes de sua comunidade que ainda ousam se manifestar. Ele descreve trabalhadores exaustos, famílias ansiosas e jovens que desaparecem por duas semanas seguidas para trabalhar em plantações no sul. “Eles vieram à igreja. Primeiro por Deus… e então, começaram a falar. Não dava para ignorar”, diz ele, apoiando as mãos no púlpito. Nesta parte da Guatemala, o medo é onipresente. “Você nunca sabe com quem está falando”, confidencia o clérigo. “Aqui, muitos não temem apenas perder o emprego; temem por suas vidas.”
O padre Leonel, no entanto, se descreve como “um facilitador, não um agitador” e diz que quer “lançar luz e orientar questões sociais através da religião”. Isso foi o suficiente para que ele fosse proibido de entrar em uma pequena igreja perto de uma plantação. “As portas estão sempre trancadas”, diz ele em voz baixa. Em uma região dominada pelo agronegócio, até mesmo um padre pode se tornar uma ameaça se der voz a quem não a tem.
O padre Leonel caminha cautelosamente por esta terra de ameaças veladas: “Aquí en San José todo se resulve con la muerte.” Aqui, tudo se resolve com a morte.
De sua paróquia em Puerto San José, o padre Leonel oferece um ouvido compassivo aos trabalhadores explorados da indústria bananeira.
Violência nas sombras das plantações
Ao redor dos portos de Puerto Quetzal e Puerto Barrios, o medo assume outra forma. Esses corredores logísticos estratégicos atraem traficantes e redes criminosas, e diversas apreensões de cocaína escondida em carregamentos de banana foram documentadas nos últimos anos. Grupos do agronegócio se apresentam como vítimas desse tráfico. Para alguns sindicalistas, porém, a cadeia de suprimentos deveria ser limpa “de ponta a ponta”.
O medo está enraizado em uma longa história de repressão sindical. Na Guatemala, o movimento operário ainda carrega a memória do Plano Sacapa, um programa clandestino desenvolvido no final da guerra civil (1960-1996) para desmantelar sindicatos em setores considerados estratégicos. O documento – mantido em segredo por muito tempo e consultado pela Public Eye – foi escrito em um contexto de estreita colaboração entre o exército, os serviços de inteligência e certas empresas.
Entre 2004 e 2024, 110 sindicalistas foram assassinados na Guatemala, frequentemente em ataques direcionados realizados por homens armados em motocicletas. Em outubro de 2023, um trabalhador de uma subsidiária da Del Monte, que havia organizado dois dias de greve, foi morto a tiros em frente a uma plantação. A maioria desses crimes nunca foi solucionada.
Muitos trabalhadores vêm para as plantações ao redor de Puerto San José de Cobán, uma cidade indígena nas terras altas, a 10 horas de carro. Isolados de suas comunidades, sem acesso a informações ou apoio, eles aceitam tudo o que as fazendas agrícolas exigem. Sua situação só piorou desde que as ONGs locais – até recentemente apoiadas por fundos da USAID – começaram a desaparecer. Na lacuna que se abriu, outra forma de ajuda humanitária ganhou força nos últimos anos: esta, porém, é química, clandestina e perigosa.
Semana após semana, a mesma palavra surge: la bomba . Essa mistura caseira é feita dissolvendo tramadol – um analgésico opioide – em Raptor, uma bebida energética. “O efeito é mais rápido” assim, explica Pedro*, um jovem sobrecarregado da região. O coquetel explosivo suprime a fome, atenua a fadiga e produz uma sensação artificial de bem-estar. Os trabalhadores daqui consomem até sete por dia só para aguentar. “Faz você sentir que seu corpo aguenta”, explica Pedro.
O tramadol circula de mão em mão, vendido por funcionários mais experientes encarregados de obter e distribuir as drogas. Os supervisores alegam não saber de nada, diz Pedro. Mas os trabalhadores repetem a mesma frase: “Sem a bomba , muitos não aguentariam”. Diante de um ritmo implacável, calor intenso e falta de pausas, a substância se tornou uma ferramenta de sobrevivência – uma espécie de narcótico diário compartilhado entre as fileiras de bananeiras.
Juan Alberto López (50) fraturou a coluna após cair de uma bananeira. Ele se descreve como um “sobrevivente milagroso”, mas acredita que foi bem tratado por Chiquita. Gustavo Vázquez é um descascador de folhas, um dos trabalhos mais difíceis e com menor remuneração nas plantações da Chiquita.
As consequências desse coquetel de drogas podem ser graves. Em umalonga investigaçãopublicada em outubro de 2024, a revista guatemalteca No Ficción documentou o que descreveu como uma “epidemia” silenciosa que afeta toda a costa sul. Embora reconheça que as causas da doença renal crônica – atualmente uma das principais causas de morte na região – sejam controversas, a reportagem destaca o trabalho agroindustrial como um fator de risco crucial, citado por muitos especialistas. Dados de saúde mostram um aumento nos casos de doença renal crônica no departamento de Escuintla, onde se localiza Puerto San José: embora a costa do Pacífico represente apenas cerca de um décimo da população do país, concentra uma parcela desproporcional das mortes relacionadas a essas doenças.
Estudos científicos e observações de organizações médicas como Médicos Sem Fronteiras também confirmamum aumento nos danos renais entre trabalhadores agrícolas, sem estabelecer uma ligação direta com o tramadol. Umestudocom trabalhadores guatemaltecos estimou a prevalência de doenças renais de origem desconhecida em cerca de 3%, com uma taxa ainda maior no setor bananeiro. Em Puerto San José, muitos atribuem o colapso físico – desmaios, doenças e, às vezes, até a morte – ao calor extremo, aos refrigerantes açucarados, às condições de trabalho forçado e à bomba .
Uma maldição que cai do céu
Encontramos os irmãos Maldonado novamente à porta de casa. No sul da Guatemala, o desgaste físico não resulta apenas do trabalho pesado ou de coquetéis de estimulantes. Outro veneno está sempre presente nas plantações. Quase invisível, este é pulverizado do céu semana após semana.
Ao lado dele, Rogelio, irmão de José, permanece em silêncio. Seus olhos estão fixos em um ponto invisível à distância, como se ainda pudesse ver os pequenos aviões sobrevoando os bananeiros, pulverizando mancozeb, um fungicida agrícola. Em milhares de hectares de plantações de banana na Guatemala, esse fungicida é onipresente. É a principal arma das plantações contra a Sigatoka Negra, uma doença foliar que devasta o precioso “ouro verde” das bananas. Mas para os trabalhadores, é uma ameaça diária.
Uma placa na entrada de uma plantação proíbe o acesso e alerta para a pulverização de agrotóxicos.
“Eles voam muito baixo e o pó amarelo cai direto em nós. Às vezes conseguimos cortar uma folha de bananeira para nos cobrir, mas não é suficiente”, diz Rogelio*, o mais velho dos irmãos Maldonado, que, assim como José e seu irmão Pedro, também trabalha para uma subcontratada da Chiquita. Quando o fungicida é pulverizado, os trabalhadores não têm pausa – nem mesmo um aviso. Eles simplesmente precisam continuar cortando as bananas, carregando-as em carrinhos e puxando os cabos que sustentam os cachos. Às vezes, ele conta, a pulverização ácida os atinge durante o horário de almoço, enquanto comem à sombra das bananeiras. O mancozeb penetra em suas roupas, em seus alimentos e em seus poros, carregado pela densa névoa onipresente no sul da Guatemala.
Neste excerto, Rogelio Maldonado relata sua exposição a agrotóxicos:
O mancozeb foi proibido na União Europeiaem 2020 e na Suíça em 2021, após ser classificado como um desregulador endócrino tóxico para a reprodução. Estudos demonstraram que a exposição ao fungicida pode causar malformações cerebrais em fetos. As autoridades europeias também suspeitamque ele seja cancerígeno. Apesar disso, a gigante agroquímica Syngenta – que comercializa o fungicida localmente sob o nome de Ridomil– continua a vendê-lo em países como a Guatemala, onde a regulamentação é mais branda. Outras empresas também o produzem. Em 2024, a empresa búlgara Agria exportou 180 toneladas da Europa para a Guatemala, segundo umareportagem anterior da Public Eye .
Os fungicidas são pulverizados por avião, frequentemente diretamente sobre os colhedores de banana em atividade. O mancozeb está associado a altos riscos de esterilidade.
Contactada para comentar o assunto, a Syngenta, grupo com sede em Basileia, afirmou que opera “em total conformidade com as leis e regulamentações locais”. A empresa declarou ser uma participante de médio porte no mercado de mancozeb e afirmou que seu produto Ridomil Gold “não está registrado para uso em plantações de banana na Guatemala”. Ressaltou ainda que a agricultura tropical difere fundamentalmente da praticada na Europa e que, consequentemente, “as abordagens de proteção de plantas também devem ser adaptadas às realidades locais”.
Na luta contra a Sigatoka Negra, o mancozeb continua sendo amplamente utilizado. A entidade certificadora Rainforest Alliance concedeu uma autorização excepcional para seu uso em plantações na Guatemala até 31 de dezembro de 2028, citando a necessidade de um “controle rigoroso da doença”.
Nas plantações de banana da Guatemala, a exposição a fungicidas é sistêmica. Aeronaves leves pulverizam mancozeb uma, duas e até três vezes por semana, durante todo o ano. NodocumentárioBanana Land: Blood, Bullets and Poison (2014), um pesquisador relatou como pilotos equatorianos admitiram sofrer breves perdas de consciência ou comprometimento das funções cognitivas durante certos voos, devido aos vapores do fungicida. Estatísticas oficiais mostram que 43 aviões agrícolas caíram na Guatemala entre 2012 e 2025, principalmente no departamento de Escuintla – uma média de três acidentes por ano. Entre as causas citadas nos relatórios está uma enigmática “perda situacional de consciência” do piloto.
O mancozeb é apenas um dos muitos produtos químicos usados nessas plantações. Outros fungicidas, herbicidas e inseticidas são aplicados ao longo do ciclo de cultivo, tanto por via aérea quanto terrestre, utilizando pulverizadores costais. Em seusite na Guatemala, a Syngenta lista 18 agrotóxicos para o cultivo de banana. Oito deles contêm substâncias ativas agora proibidas na Suíça e na União Europeia devido aos riscos à saúde humana ou ao meio ambiente. Mesmo assim, nas plantações, esses produtos continuam sendo usados rotineiramente, muitas vezes entrando em contato direto com os trabalhadores.
Taylorismo implacável
Nos bananais, nenhum desses riscos, desgastes ou injeções de toxinas é recompensado. O pagamento é por unidade de produção – muitas vezes equivalente ao máximo que o corpo é fisicamente capaz de suportar. O sistema salarial não é segredo, mas é um mecanismo cruel. Para os empregadores, os baixos salários são uma ferramenta de eficiência; para os trabalhadores, uma armadilha que os leva à exaustão. O trabalho por peça molda cada minuto do dia, independentemente das condições climáticas.
Em Puerto Barrios, no nordeste, as nove plantações da região são controladas diretamente pela Chiquita. Ali, 2.700 funcionários (20% com contratos por prazo determinado) ganham pouco mais de um franco por dia do que o salário mínimo – desde que cumpram metas de produção rigorosamente definidas. Essas metas estão estipuladas em um acordo coletivo de trabalho (ACT), cuja cópia foi obtida pelo Public Eye.
Para os colhedores, a regra é simples: 14 segundos para cortar um cacho de bananas, de acordo com o acordo coletivo. Trabalhando em grupos de três, eles devem carregar cerca de 350 cachos por dia nos cabos que cruzam os 2.069 hectares de plantações, segundo um sindicalista. “Nós nos apoiamos o máximo que podemos”, diz um colhedor, “porque se um de nós diminui o ritmo, todo o grupo ganha menos.”
Preso por uma correia, o carregador ( halador ) puxa grupos de 20 cachos em direção à unidade de processamento, onde as frutas são selecionadas e etiquetadas com o selo Chiquita. A CBA afirma que ele deve percorrer 250 metros em 2,7 minutos – uma média de 1,56 metros por segundo – carregando meia tonelada de bananas. Em alguns dias, a distância pode chegar a cinco quilômetros, a serem percorridos em 53,4 minutos.
O “carregador” caminha quilômetros, carregando centenas de quilos de bananas presos ao cinto.
Na unidade de processamento, muitas mulheres são empregadas. Elas também têm metas de produção: 390 caixas por pessoa por dia, segundo o Acordo Coletivo de Trabalho – ou cerca de 17 toneladas de frutas. “Não podemos sair até terminarmos, geralmente às 20h”, diz uma embaladora, cujo nome, assim como muitos outros nesta reportagem, tivemos que anonimizar para proteger a identidade da funcionária.
Segundo um relatório de 2021 da Universidade Estadual da Pensilvânia (PennState), as estações de embalagem de bananas também mantêm protocolos de monitoramento rigorosos. “Cada trabalhador é acompanhado individualmente e os trabalhadores são repreendidos se trabalharem muito lentamente”, observa o relatório. A investigação considera esse ritmo de trabalho incompatível com a “capacidade produtiva” individual, um conceito protegido pelas normas regulamentares da Guatemala. O relatório conclui que “forçar os trabalhadores a um ritmo de produção além do que uma pessoa razoável consideraria humanamente possível constitui uma violação das normas da Segurança Social na Guatemala”.
Na Chiquita, aqueles que conseguem superar as metas podem ganhar um pouco mais do que o salário mínimo. Para Manuel Rivas, presidente do sindicato Colsiba, que representa as plantações ao redor de Puerto Barrios, essa é a visão otimista. Rivas reconheceu as conquistas sindicais, mesmo admitindo que elas “não compensam a inflação anual de 4 a 5%”. “Ainda temos uma dívida com a classe trabalhadora”, concluiu.
Chiquita: um século de globalização
Na virada do século XX, a antecessora da Chiquita, a United Fruit Company (UFCO), desenvolveu o porto caribenho de Puerto Barrios para o embarque de seus navios frigoríficos carregados de bananas, formando o que chama de “Grande Frota Branca”.
Hoje, Puerto Quetzal e Puerto Barrios são partes integrantes do circuito logístico da Chiquita na Guatemala. Nas unidades de processamento, caixas preparadas por trabalhadoras são carregadas em contêineres refrigerados e transportadas por caminhões com a marca Chiquita, uma cena comum nas estradas do país. De Puerto Barrios e Puerto Quetzal, as bananas são enviadas para os mercados internacionais.
Com 2,5 milhões de toneladas por ano, a Guatemala é o terceiro maior exportador de bananas do mundo. Os Estados Unidos são o principal destino (cerca de 80%). Parte do volume é enviada para a Europa via Holanda.
Um salário arrancado a golpes de facão
Neste fornecedor da Chiquita, as ameaças explícitas são mal disfarçadas: “Eles precisam levar um bom susto”. Outros sugerem que as pessoas “começarão a aparecer uma a uma nos canaviais” – uma frase que implica que seus corpos podem ser encontrados lá.
As condições são ainda mais difíceis no sul, onde a Chiquita depende mais de subcontratados. De acordo com a PennState, o contraste entre as duas regiões é gritante: no norte, onde há sindicatos, os trabalhadores ganhavam em média US$ 586 por mês e trabalhavam 54 horas por semana em 2021, em comparação com US$ 308 e 68 horas no sul, onde não há sindicatos. As condições no sul também são muito mais árduas, afirma o relatório. Os intervalos são mais curtos e o abuso verbal ou sexual é mais frequente, enquanto a proteção é frágil e o acesso à saúde é limitado. Isso apesar de todas as observações da ONG terem sido feitas em empresas supervisionadas por sistemas de certificação como o GlobalGAP (um padrão agrícola global) e a Rainforest Alliance, que supostamente garantem o bem-estar e a segurança dos trabalhadores.
A Public Eye confrontou a Rainforest Alliance, compartilhando confidencialmente os nomes de duas fazendas onde foram documentados abusos particularmente graves. O órgão certificador ressaltou que as auditorias não conseguem “encontrar tudo, em todos os lugares, o tempo todo” e que nenhum sistema pode garantir 100% de conformidade em toda a cadeia de suprimentos. A organização também afirmou que, desde o lançamento do Padrão de Agricultura Sustentável de 2020 e seu mecanismo de reclamações, nenhuma queixa foi recebida em relação ao setor bananeiro da Guatemala. No caso de um produtor privado — um dos principais fornecedores da Chiquita Brands International e detentor de um certificado que abrange diversas plantações — a auditoria mais recente ocorreu em meados de fevereiro de 2026 e seus resultados ainda estão sendo processados. “No caso das plantações em questão, as auditorias anteriores estão sendo reavaliadas e as medidas cabíveis serão tomadas”, disse uma porta-voz da Rainforest Alliance, acrescentando que não poderia fornecer mais detalhes neste momento.
Rosalía* nos recebe em sua casa e nos mostra seus últimos quatro contracheques. Ela recebe o salário mínimo nacional (cerca de 11,90 francos suíços por dia), mas há meses vem pagando um empréstimo concedido pela subcontratada da Chiquita, para a qual trabalha, com juros que ela desconhece. Ela conta que o custo de equipamentos (luvas, máscara) também é descontado de seu salário a cada duas semanas – ilegalmente, segundo um sindicalista que consultamos. Taxas de associação significativas a uma cooperativa da qual faz parte também são descontadas. No total, quase 40 francos suíços são retidos a cada duas semanas, por razões que ela não compreende totalmente. Quando perguntamos como ela consegue sobreviver com um salário tão baixo depois de três anos, seus olhos se enchem de lágrimas: “Como é que a gente se vira?”, pergunta ela. “Me digam vocês.”
Na Chiquita, os cachos de banana são envoltos em sacos azuis contendo inseticidas.
O salário de Rosalía não cobre a cesta básica ampliada para sua família nesta região agrícola (cerca de 290 francos suíços por mês para duas pessoas). A inflação acumulada atingiu 29% na Guatemala em comparação com os níveis pré-pandemia de 2019. Seu salário líquido evidencia a discrepância entre a renda agrícola real e o que o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU e as convenções da OIT sobre salário mínimo definem como salário digno, ou seja, um salário suficiente para garantir condições de vida decentes.
Apesar de repetidas constatações que sugerem isso, a Chiquita não demonstrou a devida diligência eficaz em toda a sua cadeia produtiva. A multinacional depende de uma rede de fornecedores e fazendas terceirizadas, enquanto terceiriza os riscos sociais, de saúde e humanos. Sem mecanismos confiáveis de prevenção, monitoramento independente ou reparação para os trabalhadores afetados, isso configura uma falha no dever de cuidado esperado de uma empresa domiciliada na Suíça. Ao ser contatada, a multinacional sediada em Etoy não respondeu às perguntas da Public Eye.
As origens da ‘república das bananas’
Por trás das práticas contemporâneas da empresa, esconde-se uma questão subjacente mais antiga: um modelo econômico moldado muito antes da chegada da Chiquita à Suíça, à sombra de sua antecessora, a United Fruit Company (UFCO).
A partir do final do século XIX, a UFCO construiu um imenso poderio econômico e político na América Central, controlando portos, ferrovias, terras, exportações e até mesmo governos inteiros. Essa dominação do setor privado sobre frágeis estados estrangeiros deu origem ao termo “república das bananas”. O poder da UFCO atingiu seu auge em 1954, quando um golpe de Estado apoiado pela CIA, organizado a pedido da empresa, derrubou o governo democraticamente eleito de Jacobo Árbenz. Descendente de imigrantes suíços, Árbenz havia implementado a reforma agrária como forma de redistribuir as terras não cultivadas pertencentes à empresa bananeira aos camponeses. O golpe mergulhou a Guatemala em uma situação de profunda instabilidade, culminando em uma guerra civil de 36 anos (1960-1996), uma das mais longas e sangrentas da América Latina.
Na América Central, essa história não é apenas uma relíquia do passado. A multinacional, agora operando sob um nome diferente, continua a exercer pressão sobre os governos locais. Ela paira a ameaça de realocação como a lâmina de uma guilhotina. No Panamá,em meio a uma greve por causa da reforma da previdência, a Chiquita demitiu todos os seus 6.500 funcionários no verão de 2025. Depois de pressionar o governo local, a empresa – outrora apelidada de “polvo” por seus múltiplos tentáculos – concordou em retomar as operações no início de 2026, mas sob um novo modelo de “parceria agrícola”. Nesse acordo, a terra é disponibilizada aos proprietários locais para o cultivo de bananas, sem que a propriedade seja transferida. No sul da Guatemala, como observou a Public Eye, esse sistema se traduz na clara precarização dos trabalhadores.
A cidade de Puerto Barrios foi construída há um século pela United Fruit para exportar suas bananas para a Costa Leste dos Estados Unidos.
O episódio do Panamá soou como um alerta em toda a América Central: a empresa está preparada para abandonar uma região inteira da noite para o dia se os trabalhadores se tornarem muito exigentes. Isso não é inédito. Já em 2003, o fechamento de cinco fazendas ligadas a multinacionais no norte da Guatemala provocou um colapso salarial e o êxodo de famílias inteiras. Rivas, presidente do sindicato Colsiba, referiu-se a isso como um “desastre sindical”. Decisões ruins foram tomadas, disse ele, mas as táticas agressivas foram, acima de tudo, uma demonstração de força por parte da empresa. Desde então, o medo se instalou. “Se a Chiquita fosse embora, seria devastador”, repetiu o sindicalista. Alguns gerentes de nível médio teriam alertado os trabalhadores contra exigências “excessivas”, citando as demissões no Panamá.
A fragilidade estrutural está ligada à transformação global da Chiquita. No início dos anos 2000, a multinacional enfrentou uma crise financeira e declarou falência. Reorganizou-se, vendeu parte de seus ativos na América Central e transferiu seu centro operacional para a Suíça francófona, em Étoy, onde encontrou estabilidade, vantagens fiscais e autonomia. Em 2014, a Chiquita deixou a bolsa de valores, reduzindo suas obrigações de transparência. Na Guatemala, isso foi observado com uma mistura de preocupação e resignação: os centros de tomada de decisão se distanciaram, mas as consequências permaneceram locais.
María Victoria (Maru) trabalha como embaladora e mora com o marido em um alojamento da Chiquita que abriga 40 famílias. Sua casa foi inundada e ela não recebeu nenhuma ajuda da empresa.
Sa voisine et belle-soeur Araceli est femme au foyer. Ela está trabalhando para o carro multinacional no foyer e não perdeu a ajuda humanitária na data de lançamento de 2022.
Sua vizinha e cunhada, Araceli, é dona de casa. Ela gostaria de trabalhar para a Chiquita para ter uma renda extra em casa.
A “lista vermelha”
Nesse cenário de dependência, todo ato de dissidência se torna um risco. Demissões seletivas servem como advertências. E quando um trabalhador cai, raramente cai sozinho.
Os irmãos Maldonado trabalharam na mesma plantação de bananas até alguns anos atrás. A família de trabalhadores rurais dependia inteiramente dos contracheques da indústria bananeira – modestos, mas essenciais para o sustento da casa. Quando um deles compareceu a uma reunião sindical – não para se filiar, explica, mas apenas para entender seus direitos, e principalmente pelos 50 quetzales recebidos em troca da presença, para comprar comida e combustível para sua moto – alguns dias depois, cada irmão foi chamado separadamente e demitido.
Em Puerto Barrios, toda a economia local ainda parece girar em torno da banana.
José ainda não consegue acreditar que seu nome foi repassado ao empregador. “Acho que o sindicato estava a serviço do patrão”, conclui. Seu sobrenome foi adicionado ao que os trabalhadores chamam de “lista vermelha” – um cadastro informal, porém temido, de pessoas consideradas “problemáticas” e proibidas de serem contratadas.
“Depois que seu nome entra nessa lista, você não encontra mais trabalho na indústria bananeira”, diz Pedro, que foi demitido pela segunda vez por comparecer a uma reunião sindical, junto com outros 15 funcionários. A presença de Pedro foi imediatamente reclassificada como “abandono de trabalho”. Quanto aos irmãos Maldonado…
Desde que foram demitidos, alguns dos irmãos Madonado encontraram emprego com um produtor independente, ainda em condições precárias. Pedro, no entanto, não voltou a pisar numa plantação. Desde o seu sofrimento, ele diz que perdeu o apetite pela fruta amarela: “Dizem que vem da natureza, mas quando você sabe o que está por trás da produção de bananas…”, diz ele, deixando a frase incompleta.
Do lado de fora do portão de sua plantação, Rivas mantém um otimismo cauteloso, apontando para uma fina fileira de brotos novos. “A Chiquita ainda está investindo. Veja essas bananeiras: em seis meses elas darão frutos e, em nove meses, as bananas serão exportadas.” Na Guatemala, como em outros lugares, a promessa de uma planta em crescimento permanece frágil.
Participei hoje do tradicional “Programa Faixa Livre” que é um dos principais canais da mídia alternativa brasileira. A razão da participação foi uma entrevista conduzida pelo jornalista Anderson Gomes sobre a situação de “Estado de Greve” em que os professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) se encontram desde novembro de 2025.
A entrevista aborda as raízes da crise salarial que aflige os professores da Uenf, os passos que estão sendo adotadas para informar a comunidade universitária e a população de Campos dos Goytacazes, e ainda os esforços para estabelecer de diálogo com o governo do estado do Rio de Janeiro.
Abaixo segue o conteúdo completo da entrevista ocorrida no Faixa Livre.
Se há um consenso contemporâneo no debate público nacional e internacional, ele atende pelo nome de Amazônia. A floresta (ou o imaginário que se tem dela) ocupa o centro das discussões sobre emergência climática, soberania territorial, transição energética e futuro civilizatório. Chefes de Estado, organismos multilaterais, universidades e corporações globais convergem seus discursos para esse território que representa quase 60% do Brasil e abriga a maior floresta tropical do planeta. No entanto, quando deslocamos o olhar da geopolítica para a cultura e, mais especificamente, para o audiovisual, a centralidade desaparece. A Amazônia, que é centro no discurso global, continua periferia na produção de imagens sobre si mesma.
Esse descompasso revela algo estrutural, onde o Brasil debate a Amazônia, mas raramente a Amazônia debate o Brasil em igualdade de condições. O cinema, a televisão e, mais recentemente, as plataformas de streaming tornaram-se arenas privilegiadas de disputa simbólica. Nelas, constroem-se imaginários, consolidam-se estereótipos e projetam-se visões de mundo. É algo para além do entretenimento. Trata-se de poder narrativo. De capital simbólico e circulação de riquezas.
Historicamente, o setor audiovisual brasileiro concentrou-se no eixo Rio–São Paulo. Desde a consolidação da indústria cinematográfica nacional no século XX até a estruturação contemporânea dos mecanismos de fomento, a maior parte dos recursos, das produtoras estruturadas, das distribuidoras e das redes de exibição permaneceu nesses dois estados, com algumas exceções dignas de nota. Mesmo após a criação da Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 2001, e do fortalecimento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), relatórios públicos ao longo da década de 2010 reiteraram a concentração majoritária dos investimentos em produções sediadas no Sudeste, frequentemente ultrapassando dois terços do volume total aplicado em longas-metragens.
A Região Norte, por sua vez, permaneceu durante anos com participação residual. Antes da implementação de mecanismos de indução regional, sua presença no volume total de investimentos era frequentemente inferior a 5%. A desproporção é evidente: um território que ocupa mais da metade do mapa brasileiro não ocupava sequer fração equivalente no mapa simbólico das telas.
Essa assimetria não é meramente econômica; é discursiva. Ao longo das últimas décadas, a Amazônia foi reiteradamente representada como exotismo, como estratégia ambiental, como fronteira violenta ou como santuário intocado. Raramente como território urbano complexo, produtor de ciência, arte, tecnologia e pensamento político próprio. Quando a imagem é majoritariamente produzida de fora, consolida-se uma forma de colonialismo interno, onde o centro interpreta e a periferia é interpretada.
A política de descentralização implementada nos anos 2000, sobretudo durante as gestões de Gilberto Gil no Ministério da Cultura e de Manoel Rangel na Ancine (parece que este, sócio de uma grande produtora do eixo Rio-SP, esqueceu o que ele próprio defendeu com sucesso), introduziu mecanismos de regionalização nos editais do FSA. Em diversos programas, aproximadamente 30% dos recursos eram destinados às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste conjuntamente. Essa inflexão produziu efeitos concretos: surgiram produtoras estruturadas no Pará, Amazonas, Amapá, Rondônia e Acre; festivais se consolidaram; profissionais foram formados; longas-metragens deixaram de parecer um horizonte inalcançável.
Mas a política tinha limites. Ao agrupar Norte, Nordeste e Centro-Oeste em uma mesma cota, mantinha-se uma disputa interna desigual. O Nordeste, com maior densidade populacional e cadeia produtiva mais amadurecida, naturalmente absorvia e continua a absorver, parcela significativa desses recursos. É de lá (principalmente Pernambuco e Bahia) que muitas produções mostraram a força criativa para além do chamado eixo. Mas é fato que nesse contexto, a Região Norte continuava competindo dentro da própria política compensatória. Houve avanço, mas não equidade.
A reação do eixo dominante não tardou. A descentralização significava dividir orçamento, prestígio e poder. Circularam críticas sobre suposta “fragilidade técnica” de produtoras amazônicas e questionamentos sobre sua capacidade de gerir grandes orçamentos — argumentos que ecoam antigas justificativas utilizadas historicamente para concentrar terra, renda e infraestrutura nas regiões centrais do país. Uma das associações criadas para defender pequenas produtoras praticamente passou a sofrer censura por parte de um grupo autodenominado ‘eixinho’, que impede a discussão sobre cotas regionais em assembleias e grupos de zap. É assim que a banda toca.
O agravante geral é que, em alguns casos, grandes produtoras passaram a abrir (ou pelo menos tentar) CNPJs em estados do Norte ou a firmar parcerias formais com empresas locais apenas para acessar cotas regionais, prática que revela a permanência de uma lógica extrativista também no campo simbólico.
Ainda assim, os resultados demonstraram que a descentralização não significou perda para o setor como um todo. Ao contrário, o audiovisual brasileiro experimentou crescimento, geração de emprego e ampliação de diversidade estética durante o período em que a política regionalizada esteve mais estruturada. O problema, portanto, nunca foi eficiência econômica; foi redistribuição de poder.
Nos últimos anos, alguns sinais concretos indicam que o audiovisual brasileiro começa, ainda que timidamente, a olhar para a Amazônia não apenas como cenário exótico, mas como território de produção. Há centenas de projetos em execução ou em fase de contratação com recursos públicos por meio da ANCINE e do Fundo Setorial do Audiovisual, o que demonstra a potencialidade de uma política de fomento estruturada no país. Dentro desse movimento mais amplo, a região Norte passou a receber investimentos específicos, inclusive via arranjos regionais coordenados pelo Ministério da Cultura (que retorna neste ano de 2026), além de aportes extraordinários como os da Lei Paulo Gustavo e a consolidação anual da Lei Aldir Blanc.
É um avanço inegável. Durante décadas, a Amazônia foi objeto de narrativas produzidas majoritariamente fora dela. O fato de haver hoje dezenas de obras financiadas por editais públicos com produção local, entre curtas, documentários, séries e longas, já altera esse quadro. Mais recursos têm chegado aos estados da Amazônia Legal, fortalecendo produtoras independentes, coletivos audiovisuais e novos realizadores.
O impacto econômico dessa movimentação também é promissor. Em âmbito nacional, o audiovisual movimenta bilhões de reais e sustenta centenas de milhares de empregos diretos e indiretos. Trata-se de uma cadeia produtiva extensa: roteiristas, técnicos de som e imagem, diretores, montadores, figurinistas, profissionais de transporte, hospedagem, alimentação, tecnologia e comunicação. Cada obra financiada ativa uma pequena economia ao seu redor. Em contextos amazônicos marcados por forte dependência da mineração, do agronegócio ou do funcionalismo público, o audiovisual pode representar uma alternativa estratégica de diversificação econômica.
E, no entanto, é justamente aqui que emerge a dimensão crítica dessa positividade.
Se já existem investimentos, eles ainda são desproporcionais diante da centralidade geopolítica, ambiental e simbólica que a Amazônia ocupa no Brasil e no mundo. Se o bioma é apresentado como eixo das discussões sobre clima, biodiversidade e futuro civilizatório, por que a produção de imagens e narrativas a partir de dentro ainda é relativamente pequena quando comparada ao eixo Rio–São Paulo? Se milhares de projetos são financiados nacionalmente, quantos têm origem efetiva na região amazônica? Quantos são dirigidos por realizadores amazônidas? Quantos constroem cadeias permanentes de trabalho e não apenas produções pontuais?
Os recursos que chegam são importantes, mas poderiam ser estruturantes. Poderiam consolidar polos técnicos permanentes em Belém, Manaus, Santarém, Porto Velho, Rio Branco etc. Poderiam fomentar escolas de formação audiovisual articuladas com universidades e institutos federais. Poderiam estimular redes de exibição regionais, fortalecendo circuitos próprios e ampliando a circulação das obras.
A positividade existe, pois há mais editais, mais obras, mais discussão sobre descentralização. Mas a escala ainda não corresponde ao tamanho do desafio histórico. A Amazônia não pode ser apenas tema recorrente de financiamento; precisa ser centro de decisão sobre o próprio financiamento. Não basta aparecer nas telas, é preciso controlar câmeras, roteiros, orçamentos e estratégias de distribuição. Controlar histórias. Se a energia promovida por hidrelétricas polêmicas abastece mais os de fora que os daqui, se uma das maiores mineradoras do mundo, tudo ganha e pouco deixa, se o latifúndio é exercido por maioria de pessoas do sul maravilha, porque então não temos uma compensação maior?
O potencial de geração de emprego e renda é real. O crescimento da cadeia produtiva audiovisual pode significar trabalho qualificado, retenção de talentos locais, economia criativa articulada com turismo cultural e memória social. Porém, para que isso se torne política de desenvolvimento e não apenas política cultural pontual é necessário ampliar volume, continuidade e autonomia regional. É nesse contexto que a defesa de uma cota amazônica específica se impõe como necessidade estrutural. Não se trata de privilégio regional, mas de mecanismo federativo de correção histórica. A Amazônia possui singularidade territorial, ambiental e geopolítica que justifica tratamento próprio nas políticas culturais. Sua sub-representação acumulada ao longo de décadas exige instrumentos mais precisos do que cotas genéricas compartilhadas com outras regiões. Além disso, a fragilidade estrutural da cadeia produtiva local, resultado direto da ausência prolongada de investimentos, não pode ser usada como argumento para perpetuar a exclusão.
Se a Amazônia é hoje epicentro do debate climático global e é um dos alvos preferenciais do atual ocupante da Casa Branca, ela precisa ser também centro de produção narrativa. A soberania ambiental está intrinsecamente ligada à soberania cultural. Não basta proteger a floresta; é necessário proteger o direito de narrá-la. Em um mundo mediado por imagens, quem controla a representação controla parte significativa da percepção pública e, consequentemente, das decisões políticas.
Uma cota amazônica no audiovisual brasileiro significaria mais do que financiamento. Significaria fortalecer instâncias decisórias com presença efetiva de profissionais da região, criar editais exclusivos para a Amazônia Legal, garantir distribuição nacional das obras produzidas e consolidar políticas de formação técnica contínua. Em outras palavras, reconhecer que diversidade territorial não é obstáculo, mas condição de uma democracia cultural plena.
O Brasil que reivindica protagonismo ambiental não pode continuar sendo figurante quando se trata de suas próprias imagens amazônicas. Se a floresta é central para o futuro do planeta, as vozes que nela habitam precisam ser centrais para o imaginário nacional. Permanecer como cenário exótico ou problema a ser resolvido é perpetuar a lógica colonial que marcou nossa história.
Em outras palavras, há razões sim para reconhecer avanços. Mas, diante da dimensão amazônica, o que foi feito até agora parece mais um começo do que um horizonte. E talvez o verdadeiro debate não seja apenas quantas obras já foram financiadas, mas quantas ainda poderiam existir se a Amazônia deixasse de ser periferia decisória e se tornasse protagonista estrutural do (mas não só) audiovisual brasileiro.
A Amazônia já é centro no mapa geopolítico. Está na hora de ser centro também nas telas. Porque não há democracia audiovisual possível enquanto metade geográfico do país continuar assistindo à própria história contada apenas e tão somente por outros.
Líderes indígenas, comunidades tradicionais e pesquisadores estão resistindo ao desenvolvimento na floresta amazônica, que poderia levar seus ecossistemas a ultrapassar pontos de inflexão irreversíveis
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, durante visita às instalações da Regap, no Distrito Industrial Paulo Camilo Sul. Imagem: Ricardo Stuckert / Lula Oficial/ Creative Commons 4.0.
Por Monica Piccinini para “The Ecologist”
Fumaça paira sobre o sul da Amazônia, onde apenas algumas semanas atrás havia floresta. Ao longo de novas rodovias, caminhões de gado passam por rios com níveis de água baixos, e no vasto Cerrado vizinho, a soja se estende em direção a um horizonte antes coberto por vegetação nativa. O que está acontecendo não é um surto isolado de desmatamento, mas um momento decisivo para o modelo econômico que molda o Brasil moderno.
Da carne bovina aos biocombustíveis, passando por créditos de carbono, blocos de petróleo e mega-represas, esta edição especial traça como práticas extrativistas familiares estão sendo reformuladas na linguagem do crescimento verde. Projetos de infraestrutura como a rodovia BR-319, a expansão das fronteiras dos combustíveis fósseis e o enfraquecimento das salvaguardas ambientais expõem um abismo crescente entre as promessas climáticas e a realidade. Esta não é apenas uma história de perdas, mas também de resistência.
Líderes indígenas, comunidades tradicionais e pesquisadores resistem a um caminho que pode levar esses ecossistemas a pontos de inflexão irreversíveis. As consequências vão muito além das fronteiras do Brasil. O que acontecer lá terá repercussões nos sistemas alimentares globais, nos ciclos da água e no próprio clima.
O desmatamento e a degradação florestal deixaram de ser fenômenos distantes em grande parte da Amazônia meridional brasileira. Fazem parte do cotidiano. Caminhões transportam gado por estradas recém-abertas; nuvens de fumaça se elevam de campos onde, poucas semanas antes, havia floresta. Durante a estação seca, os rios começam a secar, o horizonte se torna uma linha cinza opaca e o cheiro de madeira queimada se espalha por quilômetros, às vezes por dias. Em conjunto, essas histórias revelam não uma crise isolada, mas uma complexa teia de pressões ecológicas, políticas e econômicas que irão remodelar a Amazônia e o Cerrado nas próximas décadas. Isso não é obra de alguns poucos indivíduos isolados. É o resultado de decisões tomadas em escritórios e salas de negociação distantes, em Brasília, São Paulo, Pequim e capitais europeias. A demanda global, acordos políticos, novas rodovias e pacotes de financiamento convergem aqui, na orla da floresta.
Na Amazônia e no Cerrado vizinho, forças poderosas colidem. O agronegócio avança cada vez mais em terras intocadas, enquanto projetos de petróleo e gás progridem, barragens são construídas e rodovias como a BR-319 atravessam regiões remotas. Ao mesmo tempo, batalhas por direitos territoriais indígenas e proteção ambiental se desenrolam silenciosamente no Congresso e nos tribunais, muitas vezes longe dos olhos do público, mas com consequências duradouras no terreno. Paralelamente a essa expansão, surge uma nova promessa: um futuro “verde” baseado embiocombustíveis , mercados de carbono e a chamada bioeconomia . Essas ideias são vendidas como soluções climáticas. Elas atraem investidores e aplausos. Mas muitas comunidades indígenas e tradicionais fazem uma pergunta simples: isso realmente manterá a floresta de pé, ou é extração disfarçada de discurso mais ameno?
As escolhas feitas agora moldarão essas paisagens e as vidas a elas ligadas, por gerações.
As consequências vão muito além do Brasil. A Amazônia e o Cerrado regulam as chuvasem toda a América do Sul e ajudam a estabilizar o clima global, armazenando imensas quantidades de carbono. Só a Amazônia abriga mais da metade das florestas tropicais remanescentes do mundo e uma parcela extraordinária de sua vida selvagem. Se ela entrar em colapso a ponto de não se recuperar, as consequências serão sentidas nas colheitas, no abastecimento de água, na saúde pública e nas economias em todos os continentes. O que está acontecendo não é uma crise isolada, mas uma complexa teia de pressões políticas, econômicas e ecológicas. As escolhas feitas agora moldarão essas paisagens e as vidas a elas ligadas, por gerações.
Carne bovina e soja
O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de carne bovina, abastecendo os mercados da China, Europa, Oriente Médio, Reino Unido e outros países. No entanto, a pecuária continua sendo o principal fatorde desmatamento e degradação na Amazônia brasileira. Vastos trechos de floresta são desmatados, muitas vezes ilegalmente, e convertidos em pastagens, uma transformação que pode levar semanas, mas cujos efeitos perduram por gerações. Pesquisadores que monitoram os padrões de desmatamento estimam que cerca de 80% das terras desmatadas na Amazônia acabam sendo convertidas em pastagens para gado. As implicações para os gases de efeito estufa são profundas: as emissões provenientes do desmatamento, incêndios, metanoe degradação do solo fazem do setor pecuário um dos maiores passivos climáticos do Brasil.
Os territórios indígenas estão cada vez mais cercados por pastagens. Incêndios provocados para limpar a terra frequentemente se alastram para as bordas das florestas, degradando ecossistemas que evoluíram sem queimadas regulares. Em anos de seca, esses incêndios podem ficar fora de controle. A fumaça não respeita as fronteiras demarcadas nos mapas. Para as comunidades que vivem na floresta, as consequências são imediatas. Os rios ficam obstruídos por sedimentos, os estoques de peixes diminuem e a fumaça aumenta as doenças respiratórias entre crianças e idosos.
Luciana Gatti, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), afirmou: “Houve um aumento enorme nas exportações de madeira, carne bovina, soja, milho e minerais. Este é um projeto baseado na destruição da natureza para a venda de commodities primárias. Os sistemas hídricos são prejudicados por esses modelos de desenvolvimento, com graves consequências para os ecossistemas e para a população brasileira, ao mesmo tempo que concentram riqueza e poder nas mãos de grandes latifundiários.”
Embora a pecuária seja a principal causa do desmatamento e da degradação na Amazônia, a sojatransformou o Cerrado, uma região de pastagens, florestas e savanas que abrange mais de 2 milhões de quilômetros quadrados e alimenta as nascentes de oito das doze principais bacias hidrográficas do Brasil. Nas últimas cinco décadas, metade do Cerrado foi destruída. A soja industrial, grande parte destinada à alimentação animal para abastecer a China, a Europa, o Reino Unido e outros países, continua a se expandir e a destruir as áreas remanescentes. Diferentemente da Amazônia, o Cerrado possui menos proteções legais e menos fiscalização internacional. Com o endurecimento das leis em algumas partes da Amazônia, o agronegócio migrou para o Cerrado, onde a governança é muito mais frágil. Cássio Cardoso Pereira, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirmou:
“Ao contrário da Amazônia, a maior parte do desmatamento no Cerrado ainda é legalmente permitida, o que protege as corporações e as cadeias de suprimentos da fiscalização. A responsabilização internacional falhou porque as estruturas globais de clima e biodiversidade negligenciam amplamente os campos e savanas, tratando-os como paisagens descartáveis em vez de ecossistemas críticos.”
O sistema hídrico do Brasil dependede uma delicada parceria entre a floresta amazônica e o Cerrado. Juntos, eles formam um vasto sistema hidrológico que transporta umidade pela atmosfera, armazena água subterrânea e estabiliza as bacias hidrográficas em grande parte da América do Sul. A bacia amazônica é o maior sistema de água doce do planeta, e o Cerrado abriga cerca de 80% das bacias hidrográficas do Brasil. Apesar dessa abundância, o Brasil está entrando em uma crise hídrica. Com o desaparecimento da vegetação nativa, os aquíferos recarregam mais lentamente e os rios que alimentam as grandes bacias hidrográficas do continente estão ficando mais secos. Os padrões de chuva se enfraquecem, as secas se prolongam e as ondas de calor se intensificam. O que começa como desmatamento se transforma em algo muito maior: uma lenta desestabilização do ciclo da água. Segundo Gatti, 2024 marcou o maior índice de emissões de carbono já registrado na Amazônia, impulsionado principalmente por incêndios. No entanto, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) do Brasil classifica as emissões dos incêndios na Amazônia como líquidas zero em sua metodologia oficial de contabilização, embora os incêndios sejam agora a maior fonte individual de emissões de carbono da região.
Augusto Getirana, cientista pesquisador do Laboratório de Ciências Hidrológicas do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, falando a título pessoal, disse: “Uma crise hídrica no Brasil que resulta em interrupção da produção nacional de alimentos rapidamente se transforma em uma crise global. Vimos isso em 2021, quando os preços dessas commodities aumentaram substancialmente em todo o mundo.”
Comunidades relatam redução na disponibilidade de água e contaminação por agrotóxicos.
As comunidades tradicionais de geraizeiros (comunidades tradicionais do Cerrado) e quilombolas (comunidades formadas por afro-brasileiros fugitivos ou libertos da escravidão), muitas sem títulos de propriedade oficiais, encontram-se cercadas por monoculturas. A transformação não é apenas física, mas também cultural. Não se trata apenas de carne bovina ou soja, mas de um modelo de crescimento que desmata mais rápido do que a terra consegue se recuperar. Os lucros vão para o exterior, enquanto os danos permanecem, visíveis em rios esgotados, solos degradados e comunidades marginalizadas. Se isso continuar, o Brasil corre o risco de enfraquecer os próprios sistemas que sustentam seu povo e sua economia.
A rodovia BR-319
Poucos projetos simbolizam a encruzilhada da Amazônia de forma tão marcante quanto a BR-319 . A BR-319 é uma rodovia federal de 885 quilômetros que liga Manaus, capital do Amazonas, a Porto Velho, no extremo sul da floresta. Construída na década de 1970, durante a ditadura militar brasileira, e abandonada no final da década de 1980 devido à dificuldade de manutenção, a rodovia tornou-se o centro de um debate acirrado sobre o futuro da Amazônia. Ela corta uma das áreas mais intocadas da região. Os planos atuais do governo para reconstruí-la e asfaltá-la são apresentados como um impulso para o desenvolvimento regional e a conectividade com o restante do país, mas críticos alertam que a BR-319 pode acarretar consequências ambientais, sociais e de saúde de grande escala. Philip Fearnside, professor pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), explicou: “Pavimentar a rodovia BR-319 conectaria a Amazônia central, relativamente preservada, à região da AMACRO – um ponto crítico de desmatamento que recebeu o nome dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Embora a AMACRO seja promovida como uma zona de desenvolvimento sustentável (ZDS), tornou-se um dos principais motores do desmatamento na floresta amazônica.”
Um líder indígena do povo Mura, da região do Lago Capanã Grande, compartilhou suas preocupações sobre o impacto da rodovia em sua aldeia. (Seu nome foi omitido para garantir sua segurança.) Ele disse : “Gostaria de expressar minha indignação perante todos em relação ao impacto da rodovia BR-319 nas terras indígenas do Lago Capanã. Isso nos traz problemas, manipulação de direitos, violação de nossas áreas tradicionais, ocupação por grileiros, poluição de nossos rios, destruição de nossa natureza. E isso está causando grandes problemas no fluxo de nossos rios. Córregos estão sendo soterrados. Aqui, usamos a água do rio. O resultado dessa estrada será uma porta aberta para a entrada de criminosos, traficantes de drogas e todos os tipos de drogas, como já acontece. A população indígena vive de alimentos da natureza; a população indígena não vive da pecuária. Os povos indígenas vivem de seus objetos tradicionais. Eles vivem da subsistência da natureza e extraem da natureza para sua sobrevivência e para proteger sua própria natureza. Sou contra essa pavimentação.”
A reconstrução da rodovia BR-319 é particularmente perigosa porque incentiva a expansão para além da via principal. Uma rede de estradas secundárias não autorizadas já se ramifica do corredor, abertas por madeireiros, mineradores e grileiros. Assim que a rodovia principal estiver totalmente transitável durante todo o ano, espera-se que essas estradas secundárias cresçam rapidamente em um padrão em “espinha de peixe”, penetrando cada vez mais fundo em florestas que permaneceram praticamente intocadas. Os planos oficiais também incluem rodovias estaduais como a AM-366, AM-360, AM-343 e AM-356, projetadas para conectar a BR-319 a áreas florestais remotas como a região de Trans-Purus, abrindo ainda mais áreas que até agora foram amplamente protegidas da atividade humana em larga escala. Comunidades indígenas e tradicionais estão na linha de frente dessas ameaças. Existem 69 territórios indígenas e dezoito mil indígenas ao longo do trajeto da rodovia. Essas comunidades não foram devidamente consultadas, em violação à Convenção 169 da OIT, que exige o consentimento livre, prévio e informado antes que projetos que afetem terras indígenas sejam iniciados. Para essas comunidades, a rodovia não é apenas um projeto de desenvolvimento: ela ameaça seus meios de subsistência, rios, florestas e sobrevivência cultural.
As consequências ambientais seriam enormes. A Amazônia armazena vastas quantidades de carbono e gera os fluxos de umidade conhecidos como “rios voadores”, que sustentam as chuvas em todo o Brasil e além. A construção de uma rodovia pavimentada e a abertura das estradas secundárias planejadas acelerariam o desmatamento, fragmentariam habitats e liberariam grandes quantidades de carbono, comprometendo a capacidade da floresta de funcionar como um ecossistema estável. Cientistas alertam que a infraestrutura combinada poderia levar a Amazônia a um ponto de inflexão climático irreversível.Os riscosà saúde já são evidentes e provavelmente aumentarão. A fragmentação da floresta e o aumento da atividade humana ao longo da BR-319 têm sido associados ao aumento de casos de malária, enquanto doenças como a febre de Oropouche têm apresentado surtos na região. A expansão para habitats naturais anteriormente intocados aproxima humanos e animais, aumentando o risco de transmissões zoonóticas, quando patógenos passam de animais para humanos, e criando condições para potenciais novas pandemias. “O desmatamento na floresta amazônica e em outras regiões tropicais aumenta o risco de surgimento de novas doenças humanas, intensificando o contato entre a fauna silvestre da floresta e a população humana e seus animais domésticos. Também contribui para as mudanças climáticas, que podem criar condições favoráveis ao surgimento de infecções parasitárias, fúngicas, virais e bacterianas”, explicou Fearnside.
A BR-319 também atrai o crime organizado, que já está em crescimento na região. A grilagem de terras, a extração ilegal de madeira e a mineração prosperam onde a fiscalização é fraca, e uma rodovia pavimentada com múltiplas estradas secundárias tornaria essas atividades mais fáceis e lucrativas. Em vez de trazer benefícios às comunidades locais, a rodovia corre o risco de disseminar deslocamentos populacionais, violência e destruição ambiental. As decisões tomadas em relação à BR-319 e sua rede de estradas secundárias moldarão não apenas o futuro da Amazônia, mas também a estabilidade climática, a biodiversidade e a saúde humana em todo o Brasil, América do Sul e no resto do planeta nas próximas décadas.
Biocombustíveis
O Brasil há muito se posiciona como pioneiro em biocombustíveis. O etanol de cana-de-açúcar e o biodiesel de soja são apresentados como alternativas de baixo carbono aos combustíveis fósseis. Mudanças recentes nas políticas públicas aceleraram a obrigatoriedade da mistura de combustíveis fósseis e incentivaram a produção, mas por trás dos slogans reside uma realidade complexa. O cultivo em larga escala de cana-de-açúcar, palma de óleo, soja e milho, culturas essenciais para a produção debiocombustíveis , continua a se expandir para áreas ecologicamente sensíveis. Projetos rotulados como “verdes” ou “limpos” muitas vezes replicam a mesma lógica extrativista que definiu as ondas passadas de crescimento agrícola.
Jorge Ernesto Rodriguez Morales, professor e pesquisador do Departamento de História Econômica e Relações Internacionais da Universidade de Estocolmo, alerta : “Apesar do seu sucesso, a indústria de biocombustíveis no Brasil se desenvolveu dentro de objetivos mais amplos de desenvolvimento e segurança territorial, muitas vezes exercendo pressão significativa sobre ecossistemas e comunidades em um ambiente institucional que geralmente negligenciava as preocupações socioambientais”. Ele acrescentou: “Essa coevolução insustentável de trajetórias de desenvolvimento e bioenergia – marcada pelo desmatamento, pela colonização de terras e pela expansão agrícola – limitou o espaço de adaptação na agricultura”.
Morales explicou que, assim como a produção de alimentos, o etanol requer terra, água e nutrientes, o que significa que uma expansão em larga escala poderia intensificar os efeitos colaterais negativos do crescimento agrícola. Esses efeitos incluem desafios socioambientais significativos relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como o desmatamento (ODS 15), as emissões de CO2 decorrentes da mudança no uso da terra (ODS 13), as perdas de nitrogênio (ODS 13, 14 e 15), a extração insustentável de água (ODS 14) e os riscos à segurança alimentar (ODS 2), entre outros. Nesse contexto, o boom dos biocombustíveis se assemelha menos a uma solução climática e mais a uma intensificação de conflitos fundiários de longa data e da pressão ecológica. Embora o Brasil produza bilhões de litros de etanol e biodiesel anualmente, a contabilização completa dos impactos climáticos, incluindo as emissões decorrentes da mudança no uso da terra e a intensidade energética do cultivo, mina a alegação de que os biocombustíveis são inerentemente “verdes”.
Créditos de carbono
Créditos de carbono florestais são promovidos para financiar a conservação, permitindo que as empresas compensem as emissões residuais. Projetos de carbono florestal, incluindo os esquemas REDD+ (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), multiplicaram-se na Amazônia. Em teoria, os créditos de carbono poderiam canalizar recursos para a proteção das florestas, criando incentivos econômicos para a manutenção da integridade ecológica. Na prática, a realidade muitas vezes fica aquém do esperado. Críticos argumentam que o sistema atual concede aos poluidores o que equivale a um passe livre para continuar emitindo, enquanto os direitos à terra, a governança e a fiscalização são negligenciados.
A ideia de que a compra de créditos de carbonopermite que uma empresa compense sua poluição enquanto as florestas globais permanecem intactas parece simplista, mas é contestada por acadêmicos, que revelam uma realidade muito mais complexa. Projetos que antes conquistaram reconhecimento internacional, como a iniciativa de conservação liderada pelos indígenas Suruí, ruíram sob a pressão da mineração ilegal e da expansão da pecuária, demonstrando que mesmo compensações bem elaboradas são vulneráveis em ambientes legais e de fiscalização frágeis. Além disso, a permanência do carbono florestal é cada vez mais incerta em um mundo em aquecimento. Secas, incêndios e extração ilegal de madeira ameaçam a integridade dos estoques de carbono que sustentam os esquemas de compensação. Thales AP West, professor assistente titular do Instituto de Estudos Ambientais (IVM) da Universidade Livre de Amsterdã e uma das principais vozes entre os pesquisadores que analisam os mecanismos do mercado de carbono, alertou que, a menos que ocorra uma reforma sistêmica, a negociação de carbono continuará priorizando a conveniência em detrimento da integridade climática. Ele afirmou : “A menos que haja uma mudança de atitude entre empresas, governos e organizações como a ONU, é provável que o mercado continue priorizando a conveniência em detrimento da integridade.”
Para as comunidades indígenas, os mercados de carbono também podem mercantilizar territórios há muito governados por relações culturais e espirituais. As florestas tornam-se unidades de medida e de comércio, enquanto as questões de direitos territoriais e poder permanecem sem solução.
Bioeconomia
O Brasil promove a bioeconomiacomo um caminho para o crescimento sem desmatamento. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva descreveu um futuro em que a Amazônia se torna um centro de negócios sustentáveis, utilizando recursos renováveis em vez de desmatar. Essa ideia se tornou um elemento-chave da estratégia climática do governo, atraindo grandes promessas de investimento e atenção internacional. Mas existe uma crescente discrepância entre o discurso otimista e a realidade. O termo “bioeconomia” tem sido usado para descrever tudo, desde pesquisa biotecnológica e mercados de carbono até grandes plantações de biocombustíveis e mineração, sem regras claras sobre proteção ambiental ou direitos das comunidades locais. Enquanto organizações como a Eco Invest Brasil captam bilhões para projetos “verdes”, críticos temem que a fragilidade das salvaguardas possa permitir que grandes empresas avancem sem a devida participação ou fiscalização local.
Ossi Ollinaho, professor da Universidade de Helsinque, alertou que a promessa de produtos verdes pode ser facilmente subvertida quando os incentivos econômicos ainda favorecem grandes monoculturas em detrimento da biodiversidade. Ele advertiu : “A extensão desse conceito [de bioeconomia] à Amazônia e a contextos semelhantes de alta sociobiodiversidade acarreta o risco inerente de que ela acabe sendo transformada em celulose e vendida para obter lucro”. Em outras palavras, sem um planejamento cuidadoso, a bioeconomia pode acabar prejudicando as próprias florestas e comunidades que alega proteger.
Uma das questões é que o termo “bioeconomia” está sendo usado de forma ampla para abranger coisas muito diferentes. Colocar plantações industriais e produtos florestais de pequena escala na mesma categoria esconde o fato de que seus impactos são muito distintos. Culturas como soja, óleo de palma, milho e cana-de-açúcar, mesmo quando chamadas de “bioeconômicas”, ainda podem impulsionar mudanças no uso da terra, deslocar pequenos produtores e prejudicar a biodiversidade. O açaí é o exemplo mais conhecido. Antes um alimento básico local, agora é um produto global que vale mais de US$ 1 bilhão. Muitas vezes é usado como prova de que a bioeconomia funciona, mas a crescente demanda mudou a forma como é cultivado e colhido, remodelando partes da floresta e criando novas pressões sobre as pessoas que vivem ali há gerações. O que antes era visto como trabalho sustentável e comunitário agora faz parte de um sistema comercial maior que nem sempre beneficia aqueles que dependem da floresta.
Líderes indígenas e comunidades locais apontam que sempre viveram em harmonia com os recursos da floresta e dependeram deles. Castanha-do-pará, açaí e outros produtos fazem parte de suas economias há séculos. O que mudou foi a escala e o tipo de dinheiro externo que chega à região. Grandes iniciativas como a Amazônia 4.0, promovidas como caminhos de alta tecnologia para uma bioeconomia moderna, correm o risco de repetir os mesmos padrões de extração e desigualdade que há muito caracterizam a região.
Sem direitos fundiários seguros e poder de decisão para as populações locais, existe um temor real de biopirataria: empresas utilizando conhecimentos tradicionais e recursos genéticos sem justa compensação. O Brasil tem a oportunidade de modelar um tipo de crescimento econômico que realmente apoie tanto as pessoas quanto a natureza. Mas se as políticas permanecerem vagas e as salvaguardas forem frágeis, a bioeconomia poderá acabar sendo pouco mais do que um novo rótulo para padrões de extração já conhecidos.
Petróleo e gás
Embora o Brasil se posicione como líder climático no cenário global, o país continua expandindo a exploração de petróleo e gás em um ritmo alarmante. Em junho de 2025, pouco antes da COP30, a Agência Nacional do Petróleo e Gás Natural (ANP) anunciou um leilão para direitos de exploração de 172 blocos de petróleo e gás, a maioria em alto-mar, incluindo 47 blocos na bacia amazônica. Essa medida evidencia uma crescente tensão entre os compromissos climáticos e o desenvolvimento contínuo de combustíveis fósseis. A Petrobras já perfura poços na margem equatorial da Amazônia, a apenas 500 km do rio Amazonas. Trata-se de um ecossistema extremamente sensível, lar de recifes de coral e manguezais. Já foram relatados vazamentos de petróleo na região.
Segundo a Amazônia Real, a exploração planejada na foz do rio ameaça afetar diretamente diversas comunidades indígenas no estado do Amapá. Entre as mais vulneráveis estão os povos Karipuna, Palikur-Arukwayene, Galibi Marworno e Galibi Kali’na, que vivem em três territórios indígenas oficialmente reconhecidos: Uaçá, Juminã e Galibi. Juntos, esses territórios abrangem aproximadamente 518.454 hectares e abrigam cerca de 13.000 pessoas em 56 aldeias, uma região que depende fortemente da floresta e dos cursos d’água para sobreviver.
Mais a oeste, na Amazônia, a Rosneft, empresa estatal russa de petróleo e gás, detém direitos de perfuração em vários blocos na bacia sedimentar do Solimões, perto do rio Purus, trajeto da futura rodovia BR-319. Essa área remota e em grande parte intacta da floresta tropical permanece notavelmente preservada, com ecossistemas e comunidades locais altamente dependentes das terras e rios circundantes. As preocupações ambientais são urgentes, pois novas estradas e infraestrutura podem abrir essas áreas isoladas para atividades industriais, pressionando a floresta por meio do desmatamento, da fragmentação do habitat e da extração de combustíveis fósseis em uma das regiões ecologicamente mais sensíveis da Amazônia.
Em 2025, o Brasil avançou ainda mais na expansão da produção de combustíveis fósseis, com uma produção diária de petróleo e gás natural de pouco menos de 4,9 milhões de barris de óleo equivalente, representando um aumento de 13,3% em relação ao ano anterior. A produção de petróleo, por si só, responde por cerca de 3,7 milhões de barris por dia, dos quais mais da metade é exportada, vinculando a expansão brasileira diretamente à demanda global de energia. As consequências são claras e urgentes. O aumento da produção de combustíveis fósseis eleva as emissões, intensificando os impactos climáticos já visíveis por meio de tempestades mais fortes, ondas de calor, inundações e perda de ecossistemas. Cada atraso na redução da dependência de combustíveis fósseis agrava os riscos futuros, e a janela para evitar os desfechos mais catastróficos está se fechando rapidamente.
Energia hidrelétrica
A energia hidrelétrica fornece mais de 50% da eletricidade do Brasil e é frequentemente celebrada como uma conquista nacional. Grandes barragens são promovidas como uma fonte de energia limpa, mas os custos sociais e ecológicos contam uma história muito mais dura. Em toda a bacia amazônica, barragensinundaram vastas áreas de floresta, deslocaram milhares de comunidades indígenas e ribeirinhas e interromperam o fluxo dos rios dos quais essas comunidades dependem para obter alimentos como peixes. Elas desencadearam desmatamento e poluição generalizados e, ironicamente, contribuíram para as emissões de gases de efeito estufa, incluindo metano e dióxido de carbono. A chegada de trabalhadores aos canteiros de obras das barragens muitas vezes impulsiona a urbanização acelerada, sobrecarregando a infraestrutura local e alimentando o aumento da violência, da criminalidade e dos problemas de saúde física e mental. Os efeitos deixam cicatrizes profundas e duradouras em comunidades que já lutam para sobreviver.
Um exemplo marcante é o complexo hidrelétrico de Belo Monte, no estado do Pará. Sua construção deslocou à força cerca de 40 mil pessoas, incluindo comunidades ribeirinhas e um quarto da população de Altamira, realocando-as para assentamentos remotos na periferia da cidade. Igor Cavallini Johansen, professor do Departamento de Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), explicou: “Precisamos lidar com as persistentes desigualdades criadas pelas grandes barragens hidrelétricas – tanto na região de Altamira quanto em toda a bacia amazônica. Esse legado de desenvolvimento desigual, em que as comunidades locais arcam com os custos ambientais e sociais enquanto centros urbanos distantes colhem os benefícios energéticos, exige uma reparação urgente.”
Para Maria Francineide Ferreira dos Santos, Belo Monte levou mais do que sua casa. Levou seu paraíso. Morando em Paratizinho, ela se manifestou contra a destruição, apenas para ser forçada a ir para a cidade. Mesmo assim, ela nunca parou de lutar. Hoje, ela vive na Volta Grande do Xingu, não apenas como sobrevivente, mas como uma ferrenha protetora do rio e de seu povo. Ela disse : “Todos os impactos que sofremos são irreparáveis. O primeiro impacto foi o maior crime que Belo Monte cometeu no Xingu, a morte dos peixes e o deslocamento de seu povo, que nasceu e cresceu nesta região, que vivia nas ilhas, sem direitos, sem ser ouvido, sem respeito, tendo suas casas arrancadas e queimadas, violando nossos direitos.”
Outro impacto foi ver nosso povo, que não entendia nada, perder suas casas, sendo transferido para a cidade onde os preços dos terrenos eram exorbitantes, sem nos dar as condições para sobreviver. O governo faz o que quer. Esta tem sido uma luta perdida. Nenhuma justiça foi feita.” Rodolfo Salm, ecologista, ativista e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), que mora em Altamira, descreveu as consequências mais amplas do projeto: “O projeto hidrelétrico de Belo Monte é um claro exemplo de fracasso ambiental, social e econômico. Longe de trazer prosperidade, o projeto deixou a região economicamente fragilizada e ambientalmente danificada. A produção de energia em Belo Monte é instável, com o Rio Xingu apresentando níveis muito baixos durante a maior parte do ano, uma falha que já era conhecida antes mesmo do início da construção.”
Johansen destacou os danos irreversíveis causados por barragens hidrelétricas em áreas de alta biodiversidade como a Amazônia: “Em primeiro lugar, esses projetos causam danos ecológicos irreversíveis – inundando vastas áreas de floresta tropical intocada, destruindo habitats únicos e potencialmente levando à extinção de espécies. Igualmente preocupante é o padrão consistente de violações dos direitos humanos. Comunidades indígenas e tradicionais enfrentam repetidamente o deslocamento sem consulta adequada ou compensação justa, como demonstrado de forma contundente pelo projeto Belo Monte. O cálculo climático para barragens tropicais também se mostrou falho. Em vez de serem soluções de energia limpa, seus reservatórios se tornam fábricas de metano à medida que a vegetação submersa se decompõe. Isso questiona a própria lógica de priorizar a energia hidrelétrica em regiões de floresta tropical. Talvez a lição mais crucial seja que não podemos mais justificar o sacrifício da riqueza ecológica e cultural da Amazônia por ganhos energéticos questionáveis. As evidências mostram claramente que, em áreas de alta biodiversidade, os custos de grandes barragens quase sempre superam os benefícios – uma realidade que exige uma mudança fundamental na política energética.” Apesar disso, as propostas para novas barragens continuam, frequentemente defendidas como essenciais para a segurança energética e o desenvolvimento industrial.
O campo de batalha legislativo
A expansão da infraestrutura e do agronegócio cresce nas regiões da Amazônia e do Cerrado, em paralelo a propostas legislativas controversas . O controverso Marco Temporal , um argumento jurídico que afirma que os povos indígenas têm direito apenas às terras que ocupavam fisicamente em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição brasileira, tem sido alvo de intenso debate. Organizações indígenas argumentam que isso ignora os deslocamentos forçados ocorridos durante a ditadura e períodos anteriores. Essa lei poderia prejudicar as reivindicações de territórios não formalmente demarcados até 1988, abrindo-os para exploração. Os territórios indígenas permanecem entre as barreiras mais eficazes contra o desmatamento e a degradação florestal. Estudos demonstram consistentemente menores taxas de perda florestal dentro de terras indígenas demarcadas em comparação com as áreas circundantes.
Enquanto isso, a Lei de Devastação (15.190/2025), que entrou em vigor em fevereiro deste ano, introduz um sistema de autolicenciamento. As empresas agora podem obter licenças ambientais preenchendo formulários online, dispensando os estudos de impacto ambiental. Anteriormente, o licenciamento podia levar de cinco a sete anos, mas agora pode ser concluído em apenas 12 meses. Isso facilitará projetos de infraestrutura de grande escala, como a reconstrução da rodovia BR-319, mineração, petróleo e gás e barragens. Essa lei também isenta de licenciamento 13 categorias de atividades, que vão desde a manutenção de estradas até o agronegócio. Especialistas em direito ambiental alertam que o enfraquecimento do licenciamento em um momento de expansão da infraestrutura pode exacerbar o desmatamento e a degradação, além de aumentar a poluição e os conflitos sociais. É fundamental destacar que pelo menos 40% das terras indígenas reconhecidas pelo Estado brasileiro estarão expostas ao desenvolvimento industrial, ao desmatamento e à mineração ilegal.
Para piorar a situação, a Moratória da Soja na Amazônia (MSA), de 2006, que impediu empresas de comprarem soja cultivada em áreas recém-desmatadas da Amazônia, está sendo enfraquecida à medida que as principais associações do setor de soja no Brasil, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE) e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC), retiram seu apoio à medida. Essas associações representam grandes empresas globais do setor, como Cargill, Bunge, ADM, Louis Dreyfus e COFCO, cujas decisões de compra influenciam fortemente a proteção das florestas. Grupos ambientalistas alertam que, se o acordo ruir, poderá levar a mais desmatamento e violação dos direitos indígenas, enquanto alguns supermercados do Reino Unido e da Europa, incluindo Tesco, Sainsbury’s, Asda, Lidl, Audi, Ocado e Waitrose, pressionam as empresas a manterem regras rígidas de fornecimento sem desmatamento.
Ação coletiva
O Brasil se encontra em um momento decisivo. De um lado, promessas de acabar com o desmatamento ilegal, de proteger o que resta da floresta, de agir em nome do clima. Do outro, poderosos interesses pressionam por mais gado, mais soja, mais mineração, mais estradas que cortam terras ancestrais. A linguagem da proteção é forte, mas a máquina da expansão é ainda mais. O que acontece em Brasília não ficará em Brasília. A fumaça que sobe da Amazônia não para nas fronteiras nacionais: torna-se parte do mesmo ar que todos respiramos. A pressão para desmatar não começa com uma motosserra: começa com a demanda global. O bife servido em Xangai, a soja usada para alimentar o gado na Europa, os minerais dentro dos celulares na Califórnia, a madeira usada para construir hotéis de luxo nos EUA, tudo está ligado de alguma forma ao que acontece nessas florestas. Empréstimos assinados em centros financeiros distantes da orla da floresta. Podemos viver a milhares de quilômetros de distância, mas nossas economias e nosso consumo estão intimamente ligados ao mesmo tecido. A floresta não está caindo isoladamente. Está sendo desmantelado por um sistema global que recompensa a extração e chama isso de progresso. Mas essa história ainda não terminou.
Existem escolhas que poderiam desviar a trajetória da destruição. Proteções mais rigorosas para a soja, compromissos reais de desmatamento zero que signifiquem algo na prática, e não apenas no papel. Projetos de infraestrutura recusados quando ameaçam florestas intactas, leis ambientais aplicadas com a devida seriedade, porque de fato importam. Territórios indígenas reconhecidos e protegidos, não atrasados ou contestados. Inúmeras vezes, as evidências mostram que onde os povos indígenas têm direitos territoriais seguros, a floresta permanece. Mas nem mesmo as melhores políticas nacionais, sozinhas, conseguirão deter o aquecimento global. A menos que o uso de combustíveis fósseis diminua drasticamente e rapidamente, a seca e os incêndios se intensificarão, e a Amazônia e o Cerrado secarão de dentro para fora. Há um ponto de inflexão além do qual a floresta não poderá se recuperar e, uma vez ultrapassado, nenhuma promessa ou cúpula a trará de volta.
A Amazônia e o Cerrado não são “recursos”. São sistemas vivos e pulsantes, vastas comunidades de água, solo, plantas, animais e pessoas, interligadas de maneiras que só agora começamos a compreender. Armazenam carbono, sim, mas também guardam histórias, línguas, remédios, canções. Regulam as chuvas que alimentam as plantações em toda a América do Sul, refrescam um planeta que está em crise. Protegê-los exige mais do que discursos eloquentes. Exige coragem política, ciência que seja ouvida e um profundo respeito pelas comunidades indígenas e tradicionais que defendem essas terras há gerações, muitas vezes correndo grandes riscos pessoais. Exige confrontar a incômoda verdade de que a expansão econômica desenfreada em um planeta finito é uma contradição.
Se falharmos, as consequências serão sentidas em colheitas perdidas e aumento dos preços dos alimentos, na escassez de água, em migrações forçadas, em conflitos por recursos cada vez mais escassos, em culturas e espécies perdidas para sempre. O desmantelamento desses ecossistemas não seria uma tragédia apenas do Brasil. Seria um acerto de contas global. No fim das contas, a Amazônia e o Cerrado são mais do que debates políticos ou slogans de campanha: são uma medida de quem escolhemos ser. Continuaremos trilhando um caminho onde o lucro a curto prazo se sobrepõe aos direitos humanos e à sanidade ecológica? Ou trilharemos um caminho diferente, moldado pela cooperação, justiça e humildade perante o mundo vivo? A janela está se fechando. As decisões tomadas agora reverberarão por gerações. E um dia, a história perguntará se defendemos a floresta quando ainda tínhamos a chance, ou se assistimos à sua queima e a consideramos inevitável.
Monica é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma, YourVoiz.org .