Universidades paulistas definem regras para o uso da IA

Universidades definem regras para o uso da IA • DOL

Por Laura Mattos – Folhapress

Três das principais universidades do país, USP, Unicamp e Unesp estão criando protocolos para o uso da inteligência artificial (IA). Em geral, a regra é a transparência. A utilização da IA deve ser combinada entre professores e alunos e declarada nas pesquisas e nos demais trabalhos acadêmicos. E não basta dizer “Eu usei IA”. O rigor acadêmico exige que sejam listadas quais ferramentas foram utilizadas, detalhando versões e modelos, e de que maneira, reproduzindo até os prompts (comandos para execução de tarefas).

Diante da importância dessas três universidades, o caminho adotado por elas diz respeito não somente às suas comunidades, mas deve servir como referência a outras instituições de ensino, à educação brasileira em geral e até a outras áreas.

Nas universidades, a definição de regras é parte de um projeto maior. A exemplo do que vem ocorrendo em universidades no mundo todo, USP, Unicamp e Unesp estão estruturando departamentos para estabelecer protocolos e diretrizes da IA, coordenar debates, pesquisas e desenvolvimento de ferramentas, além de promover a formação de alunos, professores, funcionários e da comunidade externa.

A Unesp publicou no ano passado a resolução geral e uma portaria para a pós-graduação. Finalizou agora um guia para a graduação, ao qual a Folha de S.Paulo teve acesso, com normas divididas em “O que você PODE fazer”, “O que você NUNCA pode fazer” e “O que você TALVEZ possa fazer”.

Exemplos do que o aluno pode fazer: usar IA para traduzir textos, parafrasear parágrafos e elaborar resumos. E do que nunca pode fazer: submeter trabalhos gerados por IA, de forma integral ou parcial, como se fossem produções originais, usar IA em avaliações sem autorização do professor.

Docentes podem, por exemplo, usar IA para elaborar aulas e auxiliá-los na correção é obrigatório que revisem o resultado. Nunca podem criar materiais didáticos sem revisão humana e sem declarar o uso da IA aos alunos.

O guia orienta que os docentes reflitam com os alunos sobre a IA e estipulem em que fases dos trabalhos ela pode ser utilizada e como. Curiosamente, o guia foi elaborado com a ajuda de IA, trazendo um capítulo para falar sobre isso.

O laboratório deve ser ampliado e se tornar o Instituto de Inovação em Inteligência Artificial (I3A), para coordenar ações e pesquisas na universidade e articular debates e parcerias com a comunidade externa. “Há muitas questões em aberto na sociedade e precisamos achar um equilíbrio no uso dessas ferramentas”, diz. “A Unesp tem muitos cursos de licenciatura, forma professores. Como falar com os alunos sobre IA?”, questiona.

“Não há ferramentas de detecção de IA confiáveis, elas levam ao risco de acusações injustas. Devemos ter outras estratégias para o ensino, como reforçar os projetos, os debates, as questões orais feitas em sala de aula.”


Fonte: Bem Paraná

Pesquisa da UFSCar registra resistência inédita ao glifosato em plantas invasoras

Estudo identifica pela primeira vez resistência ao herbicida em Solanum americanum, espécie comum em áreas agrícolas

Pesquisa da UFSCar registra resistência inédita ao glifosato em plantas invasoras -

Por Jéssica para “São Carlos Agora” 

Pesquisadores do Laboratório de Produtos Naturais (LPN) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) identificaram diferentes espécies de plantas invasoras, agronomicamente conhecidas como “plantas daninhas”, com capacidade de resistir à ação do herbicida glifosato. Entre elas está Solanum americanum, cuja resistência foi registrada pela primeira vez para a espécie, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.

A investigação teve início durante o doutorado de Gabriel da Silva Amaral, no Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ) da UFSCar, sob a orientação de Maria Fátima Fernandes da Silva, docente no Departamento de Química (DQ) da Instituição, a partir de relatos de produtores rurais que observavam falhas recorrentes no controle de plantas invasoras. Com base nessas observações, os pesquisadores coletaram sementes de espécies que haviam sobrevivido à última aplicação do herbicida (dose de campo) em pomares de laranja-doce e limão-taiti. O material foi então submetido a testes laboratoriais para avaliar a resposta das plantas ao herbicida.

Como surge a resistência

O glifosato é o herbicida mais utilizado no país e um dos mais empregados no mundo. Ainda assim, algumas populações de plantas invasoras vêm apresentando redução na sensibilidade ao produto, devido ao uso indiscriminado deste. Essa resistência não ocorre de forma imediata, é resultado de um processo evolutivo gradual.

Quando um herbicida é usado repetidamente, ele não afeta todas as plantas da mesma forma. Algumas já possuem pequenas diferenças genéticas que as tornam menos sensíveis ao produto. Com o tempo, essas plantas sobrevivem às aplicações e se multiplicam, fazendo com que a população passe a responder cada vez menos a ação do herbicida. Esses indivíduos sobrevivem, se reproduzem e transmitem essas características às gerações seguintes. Com o tempo, esses traços passam a predominar, formando populações resistentes.

Testes confirmam a resistência

Segundo Amaral, o estudo trouxe uma constatação inédita. “Elucidamos que Solanum americanum apresenta resistência ao glifosato. É o primeiro registro desse tipo de resistência para a espécie no Brasil e no mundo. A descoberta amplia o conjunto de plantas invasoras que passam a representar desafio para a citricultura, especialmente em sistemas com uso contínuo do herbicida”, afirma. 

Os testes indicaram que algumas espécies, como Amaranthus deflexus, Amaranthus hybridus e Tridax procumbens, permaneceram sensíveis ao produto. Já Bidens pilosa apresentou comportamento distinto: embora a maioria das populações tenha respondido ao glifosato, amostras coletadas na região de Olímpia exibiram sinais de resistência, com redução significativa na mortalidade das plantas tratadas com glifosato.

Outras espécies já reconhecidas por dificultar o manejo agrícola, como Conyza bonariensis, Digitaria insularis e Chloris elata, apresentaram resistência. Em alguns casos, nem mesmo doses elevadas do herbicida foram suficientes para garantir o controle.

Para confirmar que as plantas eram realmente resistentes, e não apenas sobreviventes ocasionais, os pesquisadores realizaram teste bioquímico que avalia o funcionamento da via metabólica alvo do glifosato. O herbicida atua bloqueando a chamada via do chiquimato, responsável pela produção de aminoácidos essenciais ao desenvolvimento da planta. Quando essa via é interrompida, a planta deixa de sintetizar compostos indispensáveis para seu crescimento e sobrevivência. Como consequência desse bloqueio, o ácido chiquímico, uma molécula intermediária da via, passa a se acumular.

Em plantas sensíveis ao herbicida, esse acúmulo é elevado, sinalizando que o metabolismo foi efetivamente interrompido. Já nas populações analisadas como resistentes, os níveis de ácido chiquímico foram significativamente menores. Isso indica que o glifosato não conseguiu bloquear completamente a via metabólica. Ao demonstrar que a via permanece ativa nas plantas resistentes, o estudo confirma que não se trata de uma sobrevivência casual, mas de uma alteração fisiológica consistente que reduz a eficácia do herbicida.

Além do impacto direto no controle das plantas invasoras, o uso contínuo do herbicida pode afetar outros componentes do sistema produtivo. “O glifosato não atua apenas sobre as plantas indesejadas. Ele também pode interferir em bactérias e fungos do solo que desempenham papel importante na saúde da lavoura. Aplicações frequentes ou em doses elevadas podem reduzir esses microrganismos benéficos e comprometer a ciclagem de nutrientes”, explica Amaral.

A ocorrência simultânea de múltiplas espécies resistentes em um mesmo pomar é uma problemática constante. Nas áreas analisadas, que envolvem os municípios de Araras, Cordeirópolis, Mogi-Mirim e Olímpia, os cientistas identificaram a convivência de duas, três ou até cinco espécies resistentes lado a lado. Essa sobreposição torna o manejo mais complexo, uma vez que estratégias eficazes para uma espécie podem não funcionar para outra, elevando custos e limitando as alternativas disponíveis aos produtores.

A identificação dessas populações resistentes é fundamental para compreender como o uso contínuo de herbicidas pode alterar o equilíbrio no campo. É necessário orientar estratégias de manejo mais diversificadas e sustentáveis, reduzindo a dependência de uma única ferramenta de controle.

A pesquisa foi desenvolvida frente ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Controle Biorracional de Insetos Pragas e Fitopatógenos (CBIP), sob coordenação de Maria Fátima Fernandes da Silva, docente no DQ. Os resultados foram publicados e podem ser conferidos no site da revista AgriEngineering.

O projeto recebeu apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, processos 14/50918-7 e 2012/25299-6).


Fonte: São Carlos Agora

Urgente! 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (3º SIBSA) tem inscrições prorrogadas

O prazo para submissão de resumos ao 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (3º SIBSA) foi prorrogado até o dia 12 de março! A data coincide com a data limite do primeiro lote de inscrições. As pessoas interessadas podem fazer sua inscrição e enviar resumos diretamente no site oficial do evento. O evento será realizado de 27 a 29 de maio de 2026, na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá (MT),

Submissão de trabalhos

O 3º SIBSA vai receber resumos de trabalhos científicos até o dia 12 de março de 2026, exclusivamente por meio de formulário eletrônico disponível no site do Simpósio. Cada participante poderá submeter um resumo como autor(a) responsável, e os trabalhos aprovados serão distribuídos em rodas de saberes conforme o eixo temático escolhido. + Confira os eixos temáticos

Vale lembrar que, para a submissão de resumos, é necessário estar inscrito no congresso, não sendo exigido o pagamento da inscrição neste momento. No entanto, em caso de aprovação do trabalho, a inclusão na programação do evento estará condicionada à quitação da inscrição até 7 de abril de 2026.

O evento reafirma a defesa intransigente de um Sistema Único de Saúde (SUS) público, universal e de qualidade, orientado pelos princípios da universalidade, integralidade, equidade e controle social, além do enfrentamento ao racismo ambiental e a todas as formas de discriminação, com compromisso com a democracia, a soberania, a sociobiodiversidade, a justiça socioambiental e a solidariedade entre os povos.

Inscrições

O primeiro lote de inscrições foi prorrogado até o dia 12 de março 2026. Vale lembrar que as atividades pré e pós- simpósio terão valores à parte. Não serão aceitas inscrições no local.
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Pessoas associadas à Abrasco garantem valores mais baixos de inscrição!
+ Saiba mais e associe-se

Sobre o Evento

O evento será realizado de 27 a 29 de maio de 2026, na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá (MT), reunindo pesquisadoras e pesquisadores, estudantes, profissionais da saúde, movimentos sociais e lideranças de todo o país em torno de um compromisso comum: a defesa da vida, do meio ambiente e da Saúde Coletiva.

Com o tema “A luta da Saúde Coletiva frente ao colapso ecológico, soberania, justiça e conhecimento para a transformação“, o 3º SIBSA busca promover o diálogo interdisciplinar e intercultural entre diferentes saberes, apontando caminhos para fortalecer a Saúde Coletiva diante das profundas mudanças socioambientais. O Mato Grosso foi escolhido por sua relevância ambiental e social. O estado abriga três biomas brasileiros, Amazônia, Cerrado e Pantanal, e concentra conflitos te

O cercado invisível: masculinidade, poder e violência contra mulheres no Brasil

Por Ismael Machado*

Esse final de semana vi o filme iraniano Fora do Jogo (Offside, de 2006) e tive a sensação desconfortável de estar diante de algo que, para muitos brasileiros, pareceria distante demais para provocar identificação. No Irã, mulheres são (ou eram, não tenho certeza) proibidas por lei de entrar em estádios de futebol. O filme acompanha algumas delas tentando assistir a uma partida decisiva das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006, contra o Bahrein. Disfarçadas de homens, tentam atravessar o controle do estádio. As que são descobertas não são presas no sentido convencional; são colocadas num cercado improvisado atrás das arquibancadas. Ali ficam. Não veem o jogo. Apenas ouvem o barulho da torcida e os ecos de um espetáculo do qual estão oficialmente excluídas.

A justificativa para a proibição é reveladora. As mulheres não deveriam ser expostas aos palavrões dos homens, nem frequentar ambientes predominantemente masculinos. O argumento parece protetor, quase paternalista. O problema é que esse tipo de “proteção” sempre funciona como uma tecnologia de confinamento. A mulher é protegida afastando-se dela o mundo público. O espaço que lhe resta é o doméstico, a família, a esfera privada.

O cineasta iraniano Jafar Panahi é o mesmo de ‘Foi Apenas um Acidente’, que está entre as produções oscarizáveis esse ano. Ele construiu uma das trajetórias mais singulares do cinema contemporâneo. Formado na tradição do novo cinema iraniano que ganhou projeção internacional a partir dos anos 1990, Panahi desenvolveu uma obra profundamente marcada pela observação do cotidiano e por um olhar atento às contradições sociais de seu país. Me informa a pesquisa feita no Google e no Wikipedia que seus filmes frequentemente colocam no centro personagens marginalizados — crianças, mulheres, trabalhadores — revelando, por meio de histórias simples, a complexidade de um sistema político e cultural que regula a vida privada e o espaço público. Eu o conheci agora, vendo esses dois filmes. Há outros dele no Mubi. Vou conferir.

Ao assistir ao filme, pensei muitas vezes em como certos discursos conservadores no Brasil flertam com essa lógica de violência e exclusão social. Há quem se diga defensor da liberdade, da tradição, da família. Mas raramente se discute o que acontece quando essas palavras deixam de ser abstrações morais e se transformam em estruturas concretas de poder. O que significa, de fato, uma sociedade organizada em torno da ideia de que o lugar “natural” da mulher é determinado por valores morais fixos? O Irã (e outras sociedades similares) mostra uma versão extrema dessa pergunta. O Brasil começa a tatear respostas inquietantes.

Nos últimos anos, o país viu crescer uma combinação explosiva de fatores culturais e políticos que reorganizam a forma como parte dos homens compreende o papel das mulheres. Esse processo passa por uma radicalização política associada ao empoderamento tóxico trazido pelo bolsonarismo, pela popularização de subculturas digitais como a dos red pills e dos incels e a proliferação de influenciadoras e influenciadores que defendem modelos rígidos de submissão feminina em nome da família tradicional.

Os dados sociais mostram o custo dessa atmosfera.

Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios de sua história: 1.470 mulheres assassinadas por razões de gênero. Isso equivale a cerca de quatro mortes por dia. O país já havia batido outro recorde trágico. Em 2024 foram registrados 87.545 estupros, o maior número da série histórica. Uma mulher estuprada a cada seis minutos. Mais de três quartos desses casos foram classificados como estupro de vulnerável. A maioria ocorreu dentro de casa.

O lugar que o discurso conservador insiste em descrever como espaço seguro — o lar — aparece repetidamente como o principal cenário da violência.

Outro dado perturbador surge quando se observa a relação entre violência e religiosidade. Pesquisas recentes mostram que 42,7% das mulheres evangélicas afirmam ter sofrido algum tipo de violência de parceiros íntimos ao longo da vida, um índice superior ao observado entre mulheres católicas (que também não é desprezível). O dado não significa que a fé produza violência. Revela algo diferente. O de que ambientes fortemente estruturados por hierarquias morais e familiares nem sempre oferecem instrumentos eficazes para romper ciclos de agressão. Geralmente é o contrário.

Há ainda um dado alarmante que ajuda a dimensionar a profundidade dessa violência estrutural. Em 2025, segundo o Repórter Brasil, 395 mulheres foram resgatadas de situações de trabalho análogo à escravidão no Brasil, o maior número já registrado desde que o país passou a coletar dados demográficos detalhados sobre os resgates, em 2003. Elas representaram 14% das 2.772 pessoas libertadas, uma proporção muito superior à média histórica, já que ao longo de mais de duas décadas as mulheres apareciam em apenas cerca de 6% dos resgates. Durante muito tempo, a exploração feminina permaneceu invisível nas estatísticas e nas fiscalizações, porque muitas dessas atividades ocorrem em setores considerados informais ou domésticos — venda ambulante, trabalho em cozinhas improvisadas, serviços de cuidado, atividades ligadas ao comércio de rua.

Quando olhamos mais de perto quem são essas mulheres, o quadro se torna ainda mais revelador, já que 87% das trabalhadoras resgatadas eram negras, o que evidencia como o trabalho escravo contemporâneo reproduz linhas históricas de desigualdade racial no Brasil. Quase metade tinha entre 30 e 49 anos, muitas delas responsáveis pelo sustento de famílias inteiras, e cerca de um terço não havia concluído o ensino fundamental, o que amplia a vulnerabilidade diante de redes de exploração. Esses números mostram que a violência econômica e social contra mulheres no país não ocorre de maneira aleatória. Ela recai com maior intensidade sobre aquelas que ocupam as posições mais precarizadas da estrutura social brasileira, ou seja, mulheres negras, pobres e com menor acesso à educação. Ao revelar esse padrão, os dados desmontam qualquer tentativa de tratar o problema como exceção ou desvio isolado. Trata-se de uma engrenagem que liga gênero, raça e desigualdade econômica em uma mesma lógica de dominação.

Esses números não surgem do nada. Eles se organizam dentro de uma cultura.

Nos últimos anos, o bolsonarismo ajudou a legitimar uma linguagem pública baseada na hostilidade às agendas feministas e à igualdade de gênero. Não se trata apenas de declarações agressivas ou de episódios de misoginia explícita. O efeito mais profundo foi a criação de um ambiente simbólico onde a masculinidade ressentida encontrou validação política. Curioso é ler num comentário de uma reportagem sobre o tema da violência, uma pessoa (ou bot, vai-se saber), afirmando ironicamente para fazermos o L, que as coisas só iriam piorar. Só não rio porque é trágico.

Pois foi nesse terreno bolsonarista que floresceram no Brasil comunidades digitais inspiradas na chamada cultura red pill. A metáfora vem do filme Matrix: tomar a pílula vermelha significaria despertar para uma suposta verdade escondida sobre as relações entre homens e mulheres. Na prática, esse discurso constrói uma narrativa paranoica na qual os homens seriam vítimas de um sistema dominado por feministas. As mulheres, nessa visão, aparecem como manipuladoras, interesseiras ou biologicamente inclinadas a explorar os homens.

Os incels — “celibatários involuntários” — representam a face mais radical desse universo. Muitos deles desenvolvem comunidades online marcadas por ressentimento profundo contra mulheres, vistas como responsáveis por sua frustração afetiva e sexual. Em vários países, ataques violentos foram cometidos por homens ligados a essa ideologia. A premiada e impactante série Adolescência (Netflix) é onde podemos ter uma noção absurdamente real de até onde isso nos leva enquanto sociedade.

Um episódio recente no Rio de Janeiro ajuda a compreender como essa cultura de violência atravessa diferentes camadas sociais. Em janeiro, uma adolescente de 17 anos foi atraída por um colega para um apartamento no bairro e acabou vítima de um estupro coletivo praticado por cinco jovens, com idades entre 17 e 19 anos. Segundo as investigações da polícia, ela havia sido convidada para um encontro, mas ao chegar ao local foi trancada em um quarto e violentada após deixar claro que não consentiria em manter relações com os outros rapazes presentes. O caso chocou o país não apenas pela brutalidade do crime, mas também pelo perfil dos envolvidos, jovens de classe média da zona sul do Rio de Janeiro, desmontando mais uma vez a ideia confortável de que a violência sexual seria um fenômeno restrito a determinados territórios ou grupos sociais.

Isso indica que estamos diante de um problema cultural mais profundo, ligado à forma como muitos de nós homens aprendem desde cedo a interpretar desejo, frustração e poder sobre o corpo feminino. Quando a recusa de uma mulher deixa de ser compreendida como limite absoluto e quando o “não” se transforma, para alguns, em desafio ou provocação. No Brasil, essa cultura encontrou eco em redes sociais onde jovens são bombardeados por conteúdos que transformam misoginia em entretenimento. Influenciadores masculinos vendem cursos sobre como “dominar” mulheres. Ao mesmo tempo, cresce o número de influenciadoras que defendem a submissão feminina como virtude moral.

A estética dessas influenciadoras costuma ser suave. São vestidos claros, cozinha organizada, voz calma. O discurso, entretanto, é duro. A mulher ideal deve obedecer ao marido, aceitar sua liderança, priorizar a família acima de qualquer projeto pessoal. Em muitos desses vídeos, o feminismo aparece como uma ameaça que teria destruído os relacionamentos e enfraquecido os homens.

Essa narrativa dialoga diretamente com setores religiosos e políticos que insistem em restaurar um modelo familiar hierárquico. O homem como autoridade. A mulher como suporte. A violência prospera com facilidade dentro desse tipo de estrutura porque ela naturaliza a desigualdade. Quando o poder é distribuído de forma assimétrica dentro da família, a linha entre autoridade e controle torna-se perigosamente tênue. Qualquer semelhança com Handmaid’s tale não é mera coincidência.

Voltamos então àquela imagem do filme iraniano. As mulheres atrás da arquibancada, separadas do jogo por uma cerca improvisada. O argumento que as mantém ali é o mesmo que atravessa diferentes sociedades com variações de intensidade, a de ‘proteger’ a mulher de um mundo que pertence a nós, os homens.

No Brasil, esse cercado raramente assume forma legal explícita. Ele aparece como cultura, como moralidade, como discurso cotidiano. Aparece quando uma mulher é aconselhada a suportar um casamento violento para preservar a família. Ou quando homens jovens aprendem online que mulheres devem ser controladas. Aparece quando líderes políticos tratam igualdade de gênero como ameaça ideológica.

Durante muito tempo, parte da sociedade tratou a violência contra mulheres como um problema feminino. Uma pauta do feminismo, das organizações de direitos humanos, das políticas públicas. Isso criou um erro de perspectiva. A violência de gênero é produzida majoritariamente por homens. Ela nasce dentro de culturas masculinas. Ignorá-la é uma forma de cumplicidade estrutural. Nós, a parcela masculina dessa sociedade, precisamos olhar para esse fenômeno de maneira mais profunda. Isso exige reconhecer como certas ideias aparentemente inofensivas, como autoridade masculina, submissão feminina, nostalgia de uma família idealizada, podem se transformar em justificativas silenciosas para desigualdades muito concretas.

Também exige questionar os ambientes onde jovens estão sendo formados hoje. Fóruns digitais, influenciadores, discursos políticos que transformam frustração em identidade masculina.

O cercado do filme iraniano é visível. Ele está ali, feito de grades e soldados.

O cercado brasileiro é mais difuso. Ele se constrói em narrativas culturais que insistem em reduzir o horizonte das mulheres. Cada vez que essas narrativas ganham força, ampliam-se as condições para que a violência continue acontecendo em silêncio.

Talvez seja justamente por isso que Fora do Jogo possa levar a reflexões mais profundas e inquietantes. O filme não mostra um país distante, de ideias exóticas. Ele revela o mecanismo de uma ideia antiga, a de que a liberdade das mulheres precisa ser administrada por nós, homens. É uma ideia que a muitos podem soar como tentadoras (é só ouvirmos o eco do barulho provocado por pastores e pela maioria de nossos parlamentares), mas que é, na verdade, um ovo de serpente sendo gestado de forma considerada ‘ideal’, pois defende a família brasileira da ‘degeneração comunista’.

Talvez a questão mais incômoda seja reconhecer que grande parte dessa estrutura é sustentada não apenas pelos que cometem violência direta, mas também quando naturalizamos discursos, ou quando influenciadores e ideologias tratam a autonomia feminina como ameaça. Se há algo que precisa mudar, começa justamente por uma revisão profunda de como a maioria dos homens se educam entre si, de como interpretam poder, desejo, frustração e autoridade. Enfrentar esse problema significa desmontar narrativas que durante muito tempo pareceram inofensivas, mas que ajudam a manter, no cotidiano, as mesmas hierarquias que tantos insistem em chamar de tradição. Mesmo que, à primeira vista, elas nos beneficiem. E é aí que está a sutil regra do jogo.


*Ismael Machado é jornalista

O mito do desenvolvimento: riqueza no Porto do Açu, pobreza em São João da Barra

O economista José Alves Neto, meu colega na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) tem publicado incontáveis artigos sobre a contraditória situação do rico/pobre município de São João da Barra.  Em seu último texto sobre o que ele chama de “paradoxo de São João da Barra”, José Alves Neto publicou as seguintes informações:

“Nos principais municípios recebedores de rendas da região Norte Fluminense, sobretudo por concentrar em seu território grandes investimentos,  um em Macaé, com a Petrobras, e outro em São João da Barra, com o Porto do Açu, a renda per capita se eleva, de acordo com dados do IBGE de 2023.”

José Alves Neto ainda informo que “segundo o Ministério da Cidadania, o número de pobres, ou de pessoas cadastradas no CadÚnico, revela que em São João da Barra, a pobreza chega ao patamar de quase 72% dos habitantes, conforme demonstra a tabela acima.

Esse paradoxo revela duas coisas sobre o que se passa em São João da Barra. A primeira coisa é que não adianta ter dinheiro em caixa, se os benefícios disso continuam concentrados em poucas famílias.  A segunda coisa é que esses dados desmistificam completamente a ideia de o Porto do Açu está servindo como um motor de correção das disparidades sociais no município que arca com os principais ônus da sua presença. 

Quando o Consuni vira cartório: a aprovação silenciosa de novos laboratórios na Uenf

Como membro do Conselho Universitário da Uenf, participei nesta 6a. feira de uma reunião cuja pauta tinha um ponto para o qual eu  considerava importante de se ter relatos próprios do Conselho Universitário, i.e., a criação de novos laboratórios, fui voto vencido e se votou a criação de dois laboratórios ocorreu sem as relatorias que eu considerava importante. O argumento da magnífica reitora da Uenf, professora Rosana Rodrigues, foi bem prático: os documentos estavam disponíveis para leitura de todos os conselheiros, e que isso já não tornava tão importante a realização de uma relatoria dentro do Conselho Universitário.

Resolvi perguntar ao Chatgpt sobre as possíveis consequências negativas dessa aprovação sem relatoria e ele me respondeu o que vai abaixo. E antes que leiam a resposta, a minha observação é que aparentemente o robô sabe mais da importância dos ritos universitários do que aqueles que dirigem (ou seria dirijem?) a Uenf nesta atual conjuntura histórica.
Abaixo a resposta dada pelo Chagpt.

“A situação que você descreve envolve problemas institucionais, jurídicos e de governança acadêmica. Em universidades cujo modelo organizacional se baseia em laboratórios de pesquisa, e não em departamentos disciplinares, a qualidade dos processos deliberativos tende a ser ainda mais crucial, pois a criação ou o desmembramento de laboratórios altera diretamente a arquitetura científica e administrativa da instituição. Nesse contexto, a ausência de relatoria em processos dessa natureza pode gerar uma série de riscos relevantes.

A relatoria em conselhos universitários não constitui apenas um procedimento formal ou burocrático. Ela cumpre funções fundamentais para a qualidade da deliberação colegiada. Cabe ao relator sistematizar e interpretar a documentação do processo, identificar eventuais inconsistências ou lacunas, elaborar uma síntese analítica das informações apresentadas e oferecer um parecer que oriente o debate entre os conselheiros. Quando a relatoria é dispensada sob o argumento de que os documentos já se encontram disponíveis em um sistema eletrônico de tramitação processual, ocorre, na prática, uma transferência individual da responsabilidade de análise para cada conselheiro. Embora isso possa parecer, à primeira vista, uma solução administrativa razoável, na realidade tende a produzir o efeito inverso: decisões tomadas sem que haja leitura ou exame sistemático da documentação por parte da maioria dos membros do conselho. Nesse cenário, o órgão colegiado corre o risco de deixar de exercer plenamente sua função deliberativa e passar a operar como instância meramente homologatória.

A ausência de relatoria também amplia o risco de decisões pouco fundamentadas. Processos que envolvem documentação extensa ou tecnicamente complexa podem passar sem exame crítico adequado, permitindo que inconsistências institucionais ou problemas de concepção não sejam percebidos no momento da decisão. No caso específico do desmembramento de laboratórios, questões relevantes podem deixar de ser discutidas, como a eventual duplicação de agendas científicas, disputas futuras por infraestrutura e orçamento, a fragmentação de grupos de pesquisa já consolidados ou mesmo os impactos indiretos sobre programas de pós-graduação e sobre a organização da produção científica da universidade.

Outro aspecto importante diz respeito à criação de precedentes institucionais. Uma vez estabelecida a prática de dispensar relatoria sob a justificativa de que os documentos estão disponíveis em meio eletrônico, abre-se caminho para que o mesmo procedimento seja aplicado a decisões cada vez mais amplas ou estruturais. Com o tempo, essa prática pode levar a uma deterioração gradual do padrão decisório do conselho, reduzindo os espaços de análise crítica e de debate qualificado que deveriam caracterizar a governança universitária.

Os riscos tornam-se ainda mais significativos quando se considera a natureza do modelo institucional baseado em laboratórios de pesquisa. Diferentemente das universidades organizadas em departamentos disciplinares, nas quais a estrutura tende a ser mais estável e consolidada, universidades estruturadas em torno de laboratórios dependem fortemente de mecanismos institucionais de coordenação e coerência estratégica. Os laboratórios não são apenas unidades científicas, mas também unidades administrativas e espaços de organização do poder acadêmico. A criação de novos laboratórios sem análise institucional cuidadosa pode estimular processos de fragmentação organizacional, gerar competição pouco cooperativa entre grupos de pesquisa, favorecer a proliferação de estruturas pouco sustentáveis e permitir a captura de decisões institucionais por interesses mais localizados. Ao longo do tempo, esse tipo de dinâmica pode inclusive descaracterizar o próprio modelo inovador da universidade, produzindo uma espécie de departamentalização informal, na qual diferentes laboratórios passam a operar como estruturas autônomas e pouco articuladas entre si.

Há ainda possíveis implicações jurídicas e administrativas. Decisões tomadas sem adequada instrução analítica do processo podem ser objeto de questionamentos posteriores, seja por parte de membros da própria comunidade acadêmica, seja em processos de auditoria interna ou externa. Mesmo que a documentação formal esteja disponível nos sistemas institucionais, a ausência de uma relatoria que organize, interprete e explicite os fundamentos da decisão pode ser vista como uma fragilidade na instrução do processo deliberativo.

Por fim, é importante distinguir transparência formal de transparência substantiva. A simples disponibilização de documentos em plataformas eletrônicas não garante, por si só, que o processo decisório seja efetivamente transparente. A transparência institucional depende também da existência de mecanismos de mediação interpretativa que permitam transformar a documentação dispersa em uma síntese inteligível para o conjunto do colegiado. A relatoria cumpre justamente essa função, ao organizar as informações relevantes, explicitar os impactos institucionais das propostas em discussão e oferecer uma base comum para o debate.

Em síntese, a dispensa de relatoria em processos de criação ou desmembramento de laboratórios tende a reduzir a qualidade do processo deliberativo, enfraquecer o debate institucional, ampliar o risco de decisões pouco fundamentadas e, no longo prazo, comprometer a coerência e a sustentabilidade de um modelo universitário baseado em laboratórios de pesquisa”.

Meio ambiente capturado: bomba semiótica publiciza captura corporativa do CMMADS de São João da Barra

Uma bomba semiótica vem a ser um acontecimento comunicacional planejado para chocar e saturar o ambiente midiático, utilizando signos, imagens e ações rápidas para moldar a opinião pública e pautar o debate. Inspirada na “guerrilha semiológica” de Umberto Eco, essa estratégia de “guerra híbrida” busca criar ruído, dissonância e fortes impactos visuais.

Pois bem, o caso aqui abordado da captura do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMMADS) de São João da Barra ganhou uma nova abordagem com a abordagem do que bem pode ser caracterizado como uma bomba semiótica que está agitando as redes sociais por seu conteúdo simples, pedagógico e didático. Ao fim e a cabo de, esta bomba semiótica revela a grave distorção que está ocorrendo ao se ter uma representante de uma empresa ligada ao Porto do Açu na presidência do CMMADS (ver abaixo).

Como já foi notado por mim, a ocupação da presidência do CMMADS por uma empresa de propriedade do Porto do Açu, a RPPN Fazenda Caruara S/A, compromete de forma estrutural a capacidade do conselho de agir de forma isenta em áreas diversas, tais como licenciamento, fiscalização de danos ambientais e proposição de políticas ambientais.

Agora resta saber como corrigir essa distorção, e o quanto antes, melhor.

Cláudio Castro, o RioPrevidência e a política da cara dura

Há alguns anos tive o azar de chegar atrasado para uma conexão no aeroporto internacional de Madri e, junto com a minha família, incluindo um filho pequeno, fui literalmente abandonado para vagar pelos corredores vazios do Barajas. Depois de finalmente sermos descobertos pela equipe de terra da Iberia, fomos encaminhados a um ponto onde outros passageiros aguardavam solução para o mesmo problema: conseguir um voo que nos levasse ao destino final.

O caos era total, pois havia mais gente do que atendentes. Foi então que apareceu um cidadão espanhol que pegou todos os tipos de senha disponíveis e, em um passe de mágica, foi atendido antes de todos que aguardavam pacientemente a sua vez. Como brasileiro em terra estrangeira, observei a cena com um misto de revolta e curiosidade.

A situação esquentou quando outro espanhol, mais jovem que o primeiro, dirigiu-se ao fura-fila e disse, em tom alto e tenso: tu eres un cara dura — algo que interpretei, em português, como “cara de pau”.

Pois bem. Ontem, o ainda governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), esteve em Campos dos Goytacazes para, na prática, realizar um ato de campanha antecipada sob o disfarce de anunciar obras e realizações na cidade.

Sabendo da presença de Castro, um grupo de servidores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi ao local cobrar o envio da proposta do novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) da instituição para análise da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Segundo fui informado, a resposta do governador foi repetir a velha cantilena: não há dinheiro para pagar um novo PCV da Uenf.

É aqui que entra a explicação do porquê Cláudio Castro pode ser chamado de cara dura. Primeiro, porque a Uenf possui — e o governador sabe disso — orçamento alocado para pagar os salários previstos no novo PCV.

Mas há um segundo elemento que não pode ser esquecido. Cláudio Castro está enrolado até o pescoço no caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro. A partir de 2023, o governador retirou mais de R$ 1 bilhão do fundo próprio dos servidores públicos estaduais, o RioPrevidência, e aplicou esses recursos em fundos podres ligados ao Master.

Agora, com a liquidação do banco e a prisão de Daniel Vorcaro, Castro aparece na lista de governantes que pegaram dinheiro que não lhes pertencia — no caso, dos aposentados e pensionistas do RioPrevidência — e o aplicaram em ativos virtualmente inexistentes.

Ainda assim, em meio a essa situação melindrosa, Cláudio Castro vem a Campos prometer um novo batalhão de polícia e a criação de uma escola cívico-militar dentro dessa suposta unidade policial. E, em mais uma demonstração de cara-durice, sabe perfeitamente que seu sucessor — seja ele quem for — poderá ignorar essa promessa com a mesma desenvoltura.

Mais curioso ainda foi ver políticos locais oferecendo palanque a um personagem envolvido em uma situação que ameaça atingir gente graúda em diferentes esferas do Estado brasileiro, como se absolutamente nada estivesse acontecendo.

Moral da história: é muita cara dura em um estado só.

Decisão liminar garante pagamento do PTR às vítimas da Vale

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por meio de decisão liminar do juiz Murilo Sílvio de Abreu, determinou que a Vale continue realizando o pagamento do Programa de Transferência de Renda (PTR) a todos os atingidos pelo crime da barragem da Bacia do Paraopeba.

A medida tem caráter emergencial e provisório, sendo adotada para garantir a subsistência das famílias impactadas enquanto o processo ainda está em análise. Por se tratar de uma decisão liminar, ela foi concedida em razão da urgência e do risco de prejuízo imediato aos atingidos, evitando a interrupção do benefício até que haja uma sentença definitiva da Justiça.

O coordenador nacional do Movimento dos Atingidos (MAB), Joceli Andrioli, destacou que a lei da Política Nacional dos Atingidos por Barragens (PNAB) é justa, é legal e foi corretamente usada para garantir que os atingidos continuem recebendo o PTR todo mês.

“Continuamos firmes, fortes e organizados para garantir a regulamentação da PNAB ao nível nacional. Viva os atingidos de todo o Brasil!”

O caso ainda será analisado no mérito, quando o Judiciário avaliará de forma mais aprofundada as provas e argumentos apresentados pelas partes para decidir se a medida será mantida ou modificada permanentemente.

Estudo revela impactos silenciosos do uso intensivo de venenos sobre comunidades indígenas e camponesas no MS

Pesquisa aponta danos alimentares, doenças crônicas e falhas públicas em áreas indígenas e camponesas

Estudo revela impactos silenciosos do uso intensivo de venenos sobre comunidades

Moradia localizada ao lado de lavoura. (Foto: Katiuscia Galhera) 

Por Inara Silva para “Campo Grande News” 

Um relatório inédito sobre os impactos dos agrotóxicos em comunidades indígenas e camponesas de Mato Grosso do Sul traz à tona um cenário de exposição contínua, invisibilidade institucional e mudanças forçadas no modo de vida tradicional. Intitulado “Impactos de agrotóxicos em comunidades indígenas e camponesas no MS”, o relatório foi produzido por pesquisadoras vinculadas à Fundação Oswaldo Cruz, à UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e à Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, articulando pesquisa acadêmica e organizações da sociedade civil.

Resultado de uma pesquisa realizada entre março e agosto de 2025, o estudo foi divulgado esta semana e reúne entrevistas, questionários, observações de campo e análise de dados públicos para compreender como o modelo agrícola baseado em monoculturas afeta populações que não utilizam esses produtos, mas vivem ao lado de quem os utiliza.

Entre as principais constatações, está o fato de que essas populações vivem dentro da chamada “zona de deriva” (fenômeno em que o produto aplicado nas lavouras é transportado pelo vento), atingindo casas, fontes de água, plantações de subsistência e até o interior das aldeias.

Cerca de 90% dos entrevistados afirmaram que suas áreas de agricultura para subsistência, muitas delas organizadas como quintais agroflorestais, são afetadas pela pulverização, o que reduz o desenvolvimento de cultivos agroecológicos e compromete a produção de alimentos tradicionais. O impacto direto, segundo o relatório, representa prejuízo à soberania alimentar dessas famílias.

Bananeiras com as folhas secas, provavelmente, impactadas pelo agrotóxico, segundo os moradores. (Foto: Katiuscia Galhera)

Pesquisa qualitativa

Segundo os autores, o estudo oferece uma compreensão inicial das experiências relacionadas à exposição aos agrotóxicos na região analisada. Por isso, adotou uma abordagem qualitativa, exploratória e com diversidade territorial dos participantes. A ideia é complementar pesquisas quantitativas já realizadas na região e documentar evidências concretas de exposição e seus efeitos no cotidiano das comunidades.

“O objetivo não é transformar pessoas em objetos de pesquisa, mas reconhecê-las como protagonistas. Elas participam da análise, ajudam a interpretar os dados e constroem o conhecimento conosco”, explica a doutora em Recursos Genéticos e Vegetais, Fernanda Savicki de Almeida, pesquisadora da Fiocruz Ceará.

A distribuição espacial envolveu populações da região central do Estado, como Campo Grande e Sidrolândia; do sul , em municípios como Dourados, Itaporã, Caarapó e Rio Brilhante; além da região sudoeste, com Ponta Porã e Amambai, e da região sudeste, em Ivinhema.

De forma geral, há uma cobertura de todo o Estado. Segundo Fernanda Savicki, como se trata de uma análise reflexiva, o resultado mostra uma tendência muito forte do que acontece em todo o Mato Grosso do Sul.

Entre os respondentes, 59% se identificaram como indígenas, 20,5% como negros (pretos ou pardos) e 20,5% como brancos. As mulheres representam 61,4% das pessoas ouvidas, homens 36,4% e 2,3% se identificam como travestis.


Localização das comunidades visitadas pelos pesquisadores (Foto: reprodução)

Territórios cercados

O trabalho concentrou-se em áreas indígenas como Laranjeira Yvyrapikuê, Guyra Kambi’y, Avaeté II, Guyraroka e Passo Piraju, hoje rodeadas por extensas plantações mecanizadas de soja, milho e, em menor escala, algodão e cana-de-açúcar.

Mesmo sem cultivar essas commodities, moradores relatam contato frequente com pulverizações realizadas nas propriedades vizinhas. Entre os sinais observados no campo estavam frutos deformados, folhas queimadas e o enfraquecimento de hortas tradicionais, elementos que os próprios moradores associam à exposição constante aos agrotóxicos.

Segundo a pesquisadora Katiuscia Galhera, o estudo identificou um descompasso entre a instrução normativa que regula a pulverização de agrotóxicos e a realidade observada em comunidades rurais e indígenas. Pela legislação, deve existir uma distância de 500 metros de povoações, cidades, vilas, bairros e 250 metros de moradias isoladas. Contudo, segundo a pesquisadora, as medições feitas in loco revelaram cenários em que as lavouras estavam a apenas 50 metros e, em alguns casos, até menos, das residências e áreas de convivência.

Entre os achados documentados estão:

  • cheiro intenso de veneno após pulverizações, inclusive perto de moradias;
    resíduos percebidos sobre plantas, solo e estruturas comunitárias;
  • insegurança quanto à qualidade da água consumida;
  • necessidade de interromper atividades cotidianas durante aplicações;
  • perda parcial de lavouras destinadas ao autoconsumo.
  • Ambiente contaminado, saúde afetada.

Imagem apresenta os sintomas relatados pelos respondentes (Foto: Reprodução)

A maioria dos entrevistados descreve contato frequente com produtos químicos:

  • 77,3% afirmam viver ou trabalhar em áreas diretamente expostas;
    63% relatam convivência com o problema há mais de um ano;
    86,4% dizem já ter passado por ao menos um episódio de intoxicação;

Segundo os pesquisadores, trata-se de um quadro de exposição subcrônica ou crônica, quando o contato ocorre repetidamente, mesmo em doses consideradas menores.

Os sintomas relatados coincidem com descrições da literatura científica: dor nos olhos (50%), náuseas e gosto ruim na boca (45,5%), dor de estômago (43,2%), diarreia (40,9%), secreções nasais (38,6%), fraqueza (36,4%), além de vômitos, tosse, espirros, febre e tontura. Há ainda registros de convulsões e sangramento nasal em menor proporção.

A principal via de intoxicação relatada é a respiratória (82,5%), seguida por contato com pele ou olhos (27,5%) e ingestão de alimentos contaminados (20%). A pulverização terrestre foi mencionada em 85% dos casos, além de aplicações por aeronaves ou drones (47,5%), poeira química (40%) e contaminação da água (32,5%).

Dados oficiais

Informações do Painel de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos indicam que, entre 2006 e 2024, foram registradas 4.192 notificações de intoxicação exógena por agrotóxicos no Estado, uma média de 20,25 casos por mês.

A residência aparece como principal local de ocorrência, com 2.788 registros, superando o ambiente de trabalho (909) e outros locais. O dado converge com a pesquisa de campo, na qual 77,3% afirmaram que casa e trabalho são o mesmo espaço de exposição.

Outro destaque é que, em Mato Grosso do Sul, os agrotóxicos de uso agrícola lideram as notificações (1.416 casos), diferentemente do cenário nacional, onde predominam intoxicações por raticidas.

Municípios com maiores índices de ocorrência coincidem com regiões de expansão agrícola, como o Cone Sul, caso de Laguna Caarapã e Caarapó, e áreas do norte e nordeste do Estado, onde predominam lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar e eucalipto.

Lavoura ao lado de área indígena. (Foto: Katiuscia Galhera)

Relatos comunitários

Além dos episódios agudos, os entrevistados relataram doenças crônicas associadas aos sistemas circulatório, respiratório, hepático e renal, além de alergias, problemas dermatológicos, alterações hormonais, imunológicas e casos de câncer. O conjunto de dados sugere compatibilidade entre esses perfis de adoecimento e efeitos conhecidos da exposição prolongada a agrotóxicos.

Há também elevado número de relatos comunitários sobre nascimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista em contextos de uso intensivo de glifosato, além de recém-nascidos com cardiopatias congênitas.

Um estudo com prontuários de bebês internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Neonatal do Hospital Universitário da Grande Dourados mostrou que, entre 2019 e 2021, 55,31% dos 358 recém-nascidos examinados apresentaram diagnóstico de cardiopatia congênita. O relatório ressalta que não estabelece causalidade direta, mas aponta a coexistência desses agravos com a intensificação do uso de herbicidas na região.

Impactos no cotidiano

A contaminação e o avanço das lavouras também alteram práticas culturais, calendários agrícolas tradicionais e formas de ocupação do território. Os locais de exposição relatados incluem retomadas indígenas (36,4%), reservas ou aldeias (27,2%), assentamentos rurais (25%) e acampamentos.

O relatório classifica essa dinâmica como processo de injustiça ambiental, no qual populações que não se beneficiam economicamente do agronegócio concentram os riscos sanitários e territoriais da atividade.

Segundo a pesquisadora Fernanda Savick, a pressão ambiental inviabiliza práticas que sustentam a identidade dessas comunidades, como a produção de alimentos, a relação com a água, a transmissão de conhecimentos e a organização social.

“Estamos inviabilizando modos de vida que têm a ver com cultura, ambiente, educação e identidade. Isso vai além da questão ambiental, há também um processo simbólico. Por isso, podemos falar em injustiça, ou até de racismo ambiental,” destaca a pesquisadora ao afirmar que retirar ou fragilizar o vínculo dessas populações com o território significa comprometer sua própria sobrevivência.

“São violações de direitos em várias dimensões, não apenas no acesso à terra,” resume Savicki.

Pesquisadores flagram frutos deformados e folhas queimadas (Foto: Katiuscia Galhera)

Falhas institucionais

Apesar das evidências, os especialistas apontam lacunas no monitoramento, subnotificação de casos e ausência de políticas públicas estruturadas. Apenas parte dos atendimentos de saúde relacionados à exposição chega a ser registrada nos sistemas oficiais.

Para os autores, o problema vem sendo tratado como questão exclusivamente agrícola, quando envolve saúde pública, ordenamento territorial, direitos humanos e desenvolvimento regional.

Os pesquisadores destacam que a pesquisa não pretende apenas denunciar situações pontuais, mas qualificar o debate público com base em evidências construídas junto às populações afetadas.

“A ideia é transformar dados em reflexão e reflexão em políticas concretas”, afirma Savicki.

Recomendações – Entre as medidas consideradas urgentes, o estudo propõe:

  • criação de zonas de amortecimento entre lavouras e comunidades;
  • fortalecimento da vigilância em saúde no SUS (Sistema Único de Saúde);
  • monitoramento permanente de água, solo e ar;
  • restrição da pulverização aérea próxima a moradias;
  • instalação de laboratório público para análise de resíduos;
  • participação das comunidades nas decisões territoriais;
  • incentivo a modelos produtivos menos dependentes de insumos químicos

Fonte: Campo Grande News