Prisão de ex-presidente do RioPrevidência não alivia o fato de que o futuro dos aposentados e pensionistas está sob risco

A mídia corporativa está noticiando de forma parcimoniosa a prisão do ex-presidente do RioPrevidência, Deivis Marcon Antunes, por causa da inversão temerária (e bota temerária nisso!) de cerca de R$ 1 bilhão no agora defunto Banco Master. Aparentemente, ao contrário de algumas figurinahs carimbadas que fugiram para os EUA, Deivis Marcos estava tentando evadir o território fluminense para adentrar as terras paulistas. É que, segundo o que informam diferentes veículos da mídia corporativa, Deivis Marcon foi preso na fronteira RJ-SP em aparente tentativa de fuga.

Posso parecer pessimista, mas essa prisão não deverá mudar em absolutamente nada o destino atualmente sombrio de milhares de aposentados e pensionistas do RioPrevidência já que o R$ 1 bilhão desperdiçado por Deivis Marcon não deverá retornar aos cofres do fundo próprio dos servidores estaduais do estado do Rio de Janeiro.

A situação é complexa, pois o RioPrevidência tem sido alvo de seguidas “retiradas” pelo governador Cláudio Castro que as usa para pagar a vídia pública do Rio de Janeiro. Agora, pior do que uma retirada ilegal, o que temos é o simples desaparecimento de uma fortuna que deveria estar sendo cuidadosamente gerida para dar conta das aposentadorias e pensões devidas pelo RioPrevidência.

Como futuro aposentado do RioPrevidência não posso deixar de me preocupar com o meu próprio futuro, pois se o RioPrevidência quebrar a minha possibilidade de uma aposentadoria minimanete digna irá se esvair sem muita chance de resgate. E aí é que parece residir algo que servidores e suas associações e sindicatos já deveriam estar nas ruas protestando e exigindo a cobertura imediata dos R$ 1 bilhão que Deivis Marcon e seus colegas afundaram no Banco Master sob críticas dos técnicos do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.

Eu sinceramente espero que a apatia e a letargia frente aos contínuos ataques do governador Cláudio Castro cessem após este prisão. Do contrário o futuro de milhares de aposentado e pesionistas estará dentro de um patamar de profunda incerteza.

 

O mundo entra na era da ‘falência global da água’

UNU-INWEH report on 'Global Water Bankruptcy' | UN-Water

Durante décadas, cientistas, legisladores e a mídia alertaram para uma “crise global da água”, sugerindo um choque temporário seguido de recuperação.

O que está surgindo em muitas regiões, no entanto, é uma escassez persistente, em que os sistemas de água não conseguem mais, de forma realista, retornar aos seus níveis históricos.

“ Para grande parte do mundo, o ‘normal’ acabou ”, disse Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.

 “O objetivo não é matar a esperança, mas sim incentivar a ação e o reconhecimento honesto da nossa falha hoje, para que possamos proteger e viabilizar o amanhã”, disse ele em uma coletiva de imprensa em Nova York na terça-feira.

Encargos desiguais

O Sr. Madani enfatizou que as conclusões não sugerem um colapso mundial, mas existem sistemas falidos ou quase falidos em número suficiente, interligados pelo comércio, pela migração e pelas dependências geopolíticas, de modo que o panorama global de riscos foi fundamentalmente alterado.

Os  encargos recaem desproporcionalmente sobre os pequenos agricultores, os povos indígenas, os residentes urbanos de baixa renda, as mulheres e os jovens, enquanto os benefícios do uso excessivo muitas vezes se acumulam nas mãos de atores mais poderosos.

Da crise à recuperação? 

O relatório apresenta a falência por dívida hídrica como uma condição definida tanto pela insolvência quanto pela irreversibilidade .

Insolvência refere-se à extração e poluição de água além dos níveis de entrada renováveis ​​e dos limites de esgotamento seguro.

Irreversibilidade refere-se aos danos a partes essenciais do capital natural relacionado à água , como zonas úmidas e lagos, que tornam inviável a restauração do sistema às suas condições iniciais.

Mas nem tudo está perdido: comparando a questão da água com as finanças, o Sr. Madani afirmou que a falência não significa o fim da luta. 

“ É o início de um plano de recuperação estruturado : estancar a sangria, proteger os serviços essenciais, reestruturar as reivindicações insustentáveis ​​e investir na reconstrução”, observou ele.

Conta cara

Segundo o estudo, o mundo está rapidamente esgotando suas “reservas naturais de água”: mais da metade dos grandes lagos do mundo diminuíram desde o início da década de 1990, enquanto cerca de 35% dos pântanos naturais foram perdidos desde 1970, afirmou o Sr. Madani.

O custo humano já é significativo. Quase três quartos da população mundial vivem em países classificados como com insegurança hídrica ou com insegurança hídrica crítica.

Cerca de quatro bilhões de pessoas sofrem com a grave escassez de água por pelo menos um mês a cada ano, enquanto os impactos da seca custam cerca de US$ 307 bilhões anualmente.

“Se continuarmos a gerir estas falhas como ‘crises’ temporárias com soluções de curto prazo, apenas iremos agravar os danos ecológicos e alimentar os conflitos sociais”, alertou o Sr. Madani.

Correções de rota

O relatório defende uma transição da resposta à crise para a gestão da falência , baseada na honestidade quanto à irreversibilidade das perdas, na proteção dos recursos hídricos remanescentes e em políticas que correspondam à realidade hidrológica, em vez de normas do passado.


Fonte: ONU

Porque o governo não deve concluir Angra 3

Por Heitor Scalambrini Costa**

O setor nuclear brasileiro tem em sua trajetória um passado nebuloso, repleto de episódios controversos. Desde o contrabando e exportação de areias monazíticas do litoral capixaba/baiano/fluminense, passando pela cabulosa venda de urânio para o Iraque; o encerramento das atividades do Programa do Tório na UFMG, em 1975; o legado de morte e contaminação provocado pela Nuclemon (antiga estatal) na extração de minerais radioativos e de terras raras; o secretismo do Programa Nuclear Paralelo/Clandestino; a tragédia do Césio-137, em Goiânia; o enorme passivo ambiental no Planalto de Poços de Caldas/MG e em Caetité/BA; a falta de transparência e de controle social; escândalos com o recebimento de propinas milionárias pelos gestores do setor; roubos e sumiços de radiofármacos e de fontes radioativas, até a omissão de informações cruciais para a população sobre graves ocorrências (por exemplo: vazamentos de água radioativa) nas usinas nucleares, em Angra dos Reis (RJ). 

Esses e outros episódios aprofundaram o crescente descrédito sobre o desempenho da indústria nuclear, com seus gestores privilegiados com supersalários. O desgaste sobressaiu, diante da atual crise financeira e gestão temerária, que acabou levando a uma greve inusitada dos trabalhadores da Eletronuclear, em 2025.

No caso específico de Angra 3 (construção iniciada em 1984), o governo não deve avançar na sua conclusão por razões diversas, reunindo desafios nas áreas tecnológica, econômica, ambiental, social, além dos riscos associados a esta forma de produzir energia elétrica. Angra 3 é o resultado do Acordo Nuclear assinado em 1974 com a Alemanha, em plena ditadura militar, e que previa a construção de 8 usinas, entre outras ações relacionadas ao ciclo do combustível nuclear. Deste acordo somente Angra 2 foi construída.

Também havia o interesse bélico de construir a bomba atômica, projeto tocado em sigilo pela ditadura militar, cuja intenção ficou evidenciado pela negativa, em 1968, quando o Brasil se recusou a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear, só o fazendo no final dos anos 90.

Um dos aspectos a ser levado em conta para de vez interromper a construção de Angra 3 é o custo da energia nuclear muito mais cara (4 a 6 vezes) que as fontes renováveis. Segundo estudos recentes do BNDES (não acessível), a conclusão desta usina representaria um gasto de 23,9 bilhões de reais, com início de operação em 2031, e com custo da energia entre R$ 778 – R$ 817 por MWh. Este valor seria repassado para todos os consumidores, o que representaria um adicional na já exorbitante conta de energia. Existe também uma dúvida, se no cálculo da energia está incluído os custos de armazenamento dos resíduos (lixo atômico) e do descomissionamento da usina.

Os riscos da energia nuclear incluem o descarte/armazenamento seguro dos resíduos de alta radioatividade, que continuam a irradiar por milhares de anos, constituindo um grave legado para as gerações futuras, já que não existe uma solução definitiva e duradoura para o armazenamento de tais substâncias. Além da possibilidade de acidentes nas usinas, com a radiação contaminando solo, ar e água, exigindo evacuação de grandes contingentes populacionais, causando doenças graves (câncer, leucemia). Os impactos sociais, com o descarte inadequado do lixo nuclear, constituem um perigo constante para o meio ambiente e a saúde humana/animal. Acidentes importantes já ocorreram em usinas nucleoelétricas, o de Chernobyl (Ucrânia-1986), o de Fukushima (Japão-2011), só para citar os que tiveram maior publicidade. Além do maior acidente radiológico do mundo em Goiânia (Brasil-1987), mostraram os perigos da liberação de substâncias radioativas.

Outra questão relevante é a tecnologia antiga e ultrapassada de muitos equipamentos essenciais ao funcionamento dessa usina que já foram adquiridos desde a década de 80 do século passado. A obra, que já dura 45 anos, gasta R$ 1 bilhão por ano (R$ 800 milhões para pagar dívidas ao BNDES e CEF; R$ 200 milhões em manutenção de equipamentos e caducas estruturas). Os grandes e graves eventos ocorridos com usinas nucleares introduziram maior segurança nas usinas construídas posteriormente aos acidentes, todavia não impedindo que acidentes possam ocorrer. Uma máxima aceita é “não existe risco zero em engenharia”.

Afirmar que é uma fonte “limpa” é uma grande inverdade. Como se houvesse na natureza qualquer tipo de energia que não contamina, libera produtos tóxicos, polui, agride o meio ambiente e as pessoas. Não existe fonte de energia “limpa”. Só na propaganda mentirosa da Eletronuclear, repetida à exaustão pelo MME.

A interrupção e construção de usinas nucleares no país não impedirá a aquisição de conhecimentos estratégicos na área nuclear, pois é nas universidades e centros de pesquisas que tais estudos são realizados, e não nas compras “turnkey” dos equipamentos que compõem uma usina nuclear.

Na discussão sobre se o Brasil avança na nuclearização de seu território com a conclusão de Angra 3, a mediocridade e a falácia dos argumentos pró nuclear andam à solta. Nada indica que usinas nucleares sejam necessárias ao país. As fontes renováveis constituem a espinha dorsal da matriz elétrica, e podem garantir a segurança e sustentabilidade energética em um contexto em que a diversidade e complementaridade andem juntas. Para um contingente cada vez maior da sociedade brasileira a energia nuclear é vista como uma alternativa de alto risco, cara e perigosa, em um país com extraordinário potencial de fontes renováveis.

Logo, neste ano que inicia, basta coragem ao governo federal para enfrentar os lobbies e interromper definitivamente a obra de Angra 3, e, de maneira clara, deixar uma mensagem ao povo brasileiro e ao mundo de que o Brasil não irá nuclearizar seu território.

 

“Em memória do prof. Célio Bermann: gratidão e lembranças”


* Publicado no blog: https://taniamalheiros-jornalista.blogspot.com

**  Heitor Scalambrini é Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix – Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de   Energia Atômica (CEA)-França.

Janeiro tem número de focos de calor duas vezes maior que a média

Inpe indica aumento de 46% em relação a 2025
Porto Jofre (MT) 19/11/2023 – Uma boiada é vista proxima a cortina de fumaça por conta do incêndio florestal que atige o Pantanal.
Foto: Joédson Alves/Agência BrasilJoédson Alves/Agência Brasil
Por Guilherme Jeronymo para Agência Brasil 

O painel de monitoramento de focos de calor do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), indicou um janeiro atípico, com 4.347 focos ativos detectados pelo satélite de referência do órgão. 

O dado deste ano está atualizado até a quinta-feira (29) e corresponde ao dobro da média para o mês e a um aumento de 46% em relação a 2025.

Esse é o sexto maior resultado para um mês de janeiro desde o começo do levantamento, em 1999, e o segundo maior da década, atrás de 2024, com 4.555 focos.

O estado que mais registrou focos foi o Pará (985 focos registrados), que tem áreas consideradas em seca, segundo a última atualização do Monitor de Secas do Brasil da Agência Nacional de Águas (ANA), de dezembro.

A concentração de focos coincide com a persistência de um quadro acentuado de seca no Nordeste, onde estão três dos estados com mais focos ─ Maranhão (945), Ceará (466) e Piauí (229) ─ e com chuvas abaixo da normalidade na Região Norte.

No caso do Maranhão (945), todo o território sofre com secas. Já Ceará e Piauí têm presença de secas de maneira contínua em partes de sua extensão desde o inverno de 2023.

A situação maranhense é considerada preocupante: 2026 já é o ano com maior número de focos de calor no estado desde o começo da série histórica, superando 2019, quando foram contabilizados 712 focos.

A quantidade de focos não é a única forma de medir incêndios ou queimadas, porém é um indicador comum para políticas de prevenção e combate.

A maior incidência em janeiro não significa, necessariamente, um ano com mais queimadas do que a média. Entretanto, se considerados os anos em que janeiro teve quantidade maior de focos, apenas 2016 teve o resultado anual abaixo da média nacional, que é de 200 mil registros por ano. 

O que dizem os estados

A reportagem procurou as assessorias dos estados com mais registros. Pará e Ceará consideram o indicador com ressalvas.

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas) do Pará afirmou que “recortes temporais muito curtos devem ser analisados com cautela” e que “janelas reduzidas podem refletir ocorrências concentradas em poucos dias ou localidades específicas, o que não permite antecipar uma tendência anual consolidada”.

O estado afirma que segue acompanhando os registros de 2026 e adotará as medidas necessárias previstas na política estadual de enfrentamento às queimadas e aos incêndios florestais.

No Ceará, a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema) afirmou que o elevado quantitativo de focos de calor observado no mês de janeiro “reflete, em grande medida, o cenário registrado em dezembro de 2025”, que teve o maior número de focos em 20 anos.

De acordo com a Sema-CE, os focos de calor podem estar associados a incêndios ou queimadas, mas também podem decorrer de outras fontes de calor, não sendo possível afirmar, de forma automática, que todos os focos representem eventos de fogo em vegetação.

Segundo o Governo do Estado do Maranhão, foram intensificadas as ações de prevenção e combate às queimadas, com campanhas educativas, medidas de prevenção, doação de equipamentos de combate a incêndios florestais às brigadas municipais e ao Corpo de Bombeiros Militar do Maranhão e resposta rápida às ocorrências.

“A severa estiagem que afeta o Estado cria condições extremamente favoráveis para esse aumento, apesar das ações preventivas”, explicou a Secretaria Estadual de Meio Ambiente.

Também houve aumento das operações de fiscalização e inserção do uso de drones para identificação de áreas críticas. O estado tem priorizado ações de apoio às comunidades rurais e pequenas cidades e de resgate e cuidado de animais silvestres.


Fonte: Agência Brasil

Pesquisa detecta ampla contaminação por agrotóxicos das águas de Santa Catarina

Estudo na água feito a pedido do Ministério Público alerta para poluição com agrotóxicos no meio ambiente

Um estudo feito nas águas que abastecem os 295 municípios catarinenses, e apresentado ao Grupo de Trabalho da Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA) nesta quarta-feira (28/1), acendeu um alerta ao Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) para a presença de agrotóxicos no meio ambiente – incluindo aqueles de uso proibido no Brasil. Com base no levantamento, elaborado a pedido do Centro de Apoio Operacional do Consumidor (CCO) do MPSC, a Instituição pretende atuar para reduzir os impactos que o excesso desses resíduos químicos pode causar na vida das pessoas, especialmente no médio e no longo prazo. 

A ideia inicial é atacar o problema de forma integrada com as áreas do consumidor, da saúde pública e do meio ambiente e em diferentes frentes: de forma regionalizada, com grupos de trabalho fixos e sugestão de instauração de procedimentos administrativos nas Promotorias das comarcas onde se identificou maior concentração de substâncias diferentes no meio ambiente (veja mais abaixo); e, no âmbito nacional, com a sensibilização do Ministério da Saúde sobre a necessidade de revisão da Portaria n. 888/2021, que define os limites aceitáveis de resíduos químicos na água potável. 

Parecer Técnico N. 01/2024

“O que nós pretendemos é, por meio da apresentação de dados, colaborar com o debate nacional sobre a definição dos parâmetros de potabilidade da água, porque entendemos que a plena proteção à vida e à saúde do consumidor está atrelada à melhora da qualidade do produto ofertado para a população”, disse a Coordenadora do CCO, Promotora de Justiça Aline Restel Trennepohl. 

O levantamento ocorreu entre 2018 e 2023 dentro do Programa Alimento Sem Risco, do MPSC, que atua no monitoramento e no combate ao uso indiscriminado de agrotóxicos, e foi custeado pelo Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL).  

As análises foram realizadas em laboratórios credenciados, com coleta nas águas tratadas que abastecem todos os municípios do estado, abrangendo mananciais superficiais e subterrâneos. O objetivo foi identificar quais substâncias estão presentes, em que concentrações, e comparar com os limites da legislação brasileira. 

O estudo revelou que, embora os níveis estejam dentro dos limites permitidos pela legislação brasileira, 155 municípios (52,5%) apresentam resíduos de agrotóxicos na água potável, indicando poluição ambiental que atinge não apenas os recursos hídricos – como água tratada, poços artesianos e bicas –, mas também o solo e o ar. 

“Em uma reunião com a Secretaria de Estado da Saúde, por sua Superintendência de Vigilância em Saúde e a Diretoria de Vigilância Sanitária, a equipe técnica avaliou que a água é a última matriz por onde o agrotóxico vai passar. Sendo assim, estamos falando de todo um ambiente poluído, de resíduos que, antes de chegar à água, ocuparam o ar e o solo”, explicou Aline.  

Ao todo, 42 resíduos ativos foram encontrados nas águas analisadas. Entre os detectados, cinco estão banidos no Brasil, de acordo com a Anvisa: benomil (por ter carbendazim – este banido – como ingrediente ativo), carbofurano, haloxifobe metílico, metolacloro e molinato.  

Os agrotóxicos de uso proibido foram detectados em Balneário Camboriú, Rancho Queimado, Imbuia, Canelinha, Itaiópolis, Ituporanga e São João do Sul. Os demais, em municípios espalhados por todo o estado.  

As concentrações identificadas estavam abaixo dos parâmetros nacionais de potabilidade, atendendo aos valores máximos permitidos (VMP) para cada substância contemplada na Portaria n. 888/2021, o que faz com que, pela legislação brasileira, essas águas não sejam consideradas impróprias para consumo (entenda mais abaixo).  

Parecer Técnico N. 01/2024

“Embora contenha resíduos de agrotóxicos, a água distribuída pela rede de abastecimento em Santa Catarina é segura ao consumo e não oferece risco imediato ao consumidor. Os processos de tratamento garantem proteção contra inúmeros contaminantes perigosos aos humanos e animais, a exemplo de bactérias e parasitas. A água não tratada, advinda de poços ou bicas, além de não estar livre da contaminação pelos resíduos de agrotóxicos, traz mais ameaças diretas ao seu consumidor do que a entregue pela rede geral de distribuição. Por isso deve ser evitada”, salientou Aline.    

A principal preocupação está na exposição crônica, ou seja, no contato constante e contínuo que a população tem com esses resíduos. Estudos científicos indicam que o contato sucessivo, seja por ar, pele ou ingestão, pode gerar efeitos cumulativos e aumentar o risco, a longo prazo, para doenças como linfoma não-Hodgkin, câncer de estômago, próstata e tireoide, além de alterações endócrinas e neurológicas. 

Municípios com maior número de resíduos 

Entre os municípios onde foram detectados resíduos de agrotóxicos na água tratada, os dados revelam diferenças significativas entre as regiões catarinenses. 

Na mesorregião Oeste, 63 dos 118 municípios apresentaram ao menos um ingrediente ativo. No Norte, foram 11 de 26 (42,3%), enquanto na Serra, 10 dos 30 (33,3%). Na Grande Florianópolis, 12 dos 21 municípios analisados (57,1%) tiveram resíduos, e no Sul do estado o índice chegou a 35 de 46 (76,1%). Já no Vale do Itajaí, 24 dos 54 municípios (44,4%) registraram algum tipo de poluição. 

O diagnóstico aponta o Vale do Itajaí como uma das regiões mais críticas. Embora a maioria dos municípios tenha apresentado um, dois ou três ingredientes ativos, casos como Ituporanga e Imbuia chamam atenção pela presença simultânea de diversos resíduos químicos.  

Em Imbuia, por exemplo, foram identificados 17 tipos diferentes de resíduos de agrotóxicos, incluindo dois ingredientes ativos proibidos no Brasil desde 2019, mas encontrados em amostras de 2022 e 2023. Também em Imbuia foi encontrado um fungicida em concentração superior a 12 microgramas por litro (µg/L), patamar considerado elevado por especialistas.  

Já em Ituporanga, as análises apontaram a presença simultânea de 23 ingredientes ativos de agrotóxicos, com nove substâncias acima de 1,000 micrograma por litro (µg/L). Na região, também foram encontrados resíduos de fungicidas banidos no país.  

Para a região, em especial nas cidades onde a presença simultânea de diversos resíduos foi identificada, o MPSC, em parceria com a Diretoria de Vigilância Sanitária de Santa Catarina, Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, pretende fomentar a criação de grupos de trabalho intersetoriais. Esses grupos envolverão equipes de saúde, assistência social, agricultura e proteção ao consumidor e atuarão com busca ativa de pacientes, além de conscientização sobre o uso e manuseio de agrotóxicos. 

O Centro de Apoio Operacional do Consumidor considera essencial que os órgãos sanitários trabalhem de forma organizada e planejada, especialmente nas regiões mais críticas do estado, para melhorar a situação e garantir mais segurança para todos. 

Legislação brasileira 

Apesar desses resultados, a Portaria n. 888/2021 do Ministério da Saúde considera essas águas próprias para consumo, porque as concentrações encontradas estão abaixo dos VMP definidos para cada substância.  

Esses parâmetros foram fixados com margem de segurança ampla, muito inferiores às doses que poderiam causar efeitos agudos, garantindo que a água seja considerada segura pela Vigilância Sanitária. 

Os VMP têm justamente essa função: assegurar que a água distribuída esteja muito abaixo das concentrações que causariam dano imediato à saúde. Isso garante que, segundo os padrões da Vigilância Sanitária, a água seja considerada segura para consumo. 

A lei brasileira, no entanto, não considera a simultaneidade das substâncias presentes para estabelecer risco. Por essa perspectiva, a Coordenadora do Centro de Apoio Operacional do Consumidor foi a Brasília em busca de uma sensibilização em âmbito nacional para uma revisão legislativa.  

Em uma reunião com equipe técnica em dezembro, o MPSC apresentou o estudo. No encontro, colocou-se à disposição do governo federal e salientou a importância de uma revisão na portaria. 

Além disso, o Ministério Público continua com sua atuação no controle do uso de agrotóxicos por meio do Programa Alimento Sem Risco. Com ele, a testagem acontece nos alimentos de origem vegetal.  

Alimento Sem Risco 

Programa Alimento Sem Risco atua no monitoramento e no combate ao uso indiscriminado de resíduos de agrotóxicos, bem como no estímulo à rastreabilidade dos produtos, na fiscalização do comércio de agrotóxicos, além de impedir o uso de produtos banidos no exterior. 
 
A iniciativa também incentiva o desenvolvimento de estudos técnicos e pesquisas, bem como busca coibir irregularidades no mercado de produtos orgânicos.  

Desde 2010, quando surgiu, mais de 8.300 amostras de vegetais já foram analisadas por um laboratório especializado na pesquisa de resíduos de agrotóxicos. Nos primeiros cinco anos do Programa Alimento Sem Risco, cerca de 200 ingredientes ativos eram pesquisados em cada amostra. A partir de 2017, o total de ingredientes ativos passou para mais de 420 moléculas, possibilitando um diagnóstico mais amplo do uso de agrotóxicos. 
 
Os resultados gerais das análises indicam que houve queda do percentual de produtos fora da conformidade legal, que são aqueles nos quais foram usados agrotóxicos não autorizados para a cultura, acima do limite máximo permitido ou de uso proibido. Era de 34,4%, em 2011, e caiu para 11,4% em outubro de 2025. 
 
Até outubro de 2025, a partir da atuação das Promotorias de Justiça do Consumidor no estado, mais de 500 acordos extrajudiciais na forma de termos de compromisso de ajustamento de conduta foram firmados, visando promover medidas de adequação do cultivo e do comércio. 
 
Anualmente, são examinadas amostras de alface, abacaxi, arroz, banana, batata, berinjela, brócolis, cebola, cenoura, feijão, laranja, maçã, mamão, mandioca, manga, maracujá, morango, pepino, pêssego, pimentão, repolho, rúcula, tomate, trigo e uva, entre outros produtos. 


Fonte: Coordenadoria de Comunicação Social do MPSC

A recusa aos rankings e ao produtivismo acadêmico: o exemplo da Sorbonne

A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada

Imagem: Chepe Nicoli

Por Everton Fargoni para “Outras Palavras”

A decisão da Universidade Sorbonne, instituição cuja trajetória longeva se amalgama à própria gênese do pensamento ocidental, de interromper o fornecimento de dados ao sistema World University constitui um ato de ruptura contra a lógica da reificação acadêmica. Não se vislumbra ali um capricho administrativo, mas a insurgência diante de um modelo que reduz a densidade da atividade intelectual a categorias quantitativas desprovidas de substância humana e histórica.

O que emerge é o esgotamento de um método que intenta aprisionar a universidade em tabelas globais, obliterando que o conhecimento possui raízes profundas na totalidade da vida social. Como pretender mensurar séculos de compromisso científico e ensino público sob o peso de um padrão abstrato, voltado unicamente à valorização de indicadores estranhos à ontologia do ser social?

Tal fratura adquire o caráter de denúncia ao desvelar a estrutura de captura do trabalho vivo. Por trás da frieza dos índices, reside a exploração da atividade intelectual levada ao paroxismo. Pesquisadores docentes e discentes não apenas exercem o ensino ou a investigação, mas são capturados por uma teia burocrática que exige o gerenciamento da própria produtividade.

Observa-se uma intensificação das tarefas que expropria o tempo de vida e converte corpos exaustos em combustível para alimentar o fetiche da excelência. O adoecimento e o esgotamento configuram-se como o valor de troca oculto nesse processo de avaliação, no qual a saúde do cientista é imolada perante a abstração da métrica.

A contradição atinge seu ápice quando essa estrutura de opressão é celebrada por aqueles que ela própria desumaniza. É recorrente o espetáculo de instituições e indivíduos que difundem, com entusiasmo, posições e universidades em rankings, como se a conquista de um lugar na hierarquia justificasse a penúria da existência cotidiana. Opera-se aqui uma forma de alienação na qual a consciência do sujeito é obscurecida pelo fetiche do reconhecimento simbólico.

O trabalhador do conhecimento, ao festejar tais números, comemora a eficácia dos meios que garantem sua própria subordinação. A competição institucional é apresentada como prestígio, ocultando que este nada mais representa do que a legitimação do desgaste humano em prol da acumulação de capital simbólico.

O movimento de recusa observado na Sorbonne reverbera em outras latitudes, evidenciando o declínio da legitimidade desses modelos de controle. Nos Estados Unidos, faculdades de direito centenárias romperam com classificações que desvalorizavam a função social das ciências humanas.

Na Ásia, instituições sul-coreanas reagiram à volatilidade de empresas como a Quacquarelli Symonds, cujas oscilações metodológicas revelam a fragilidade de critérios impostos como verdades inquestionáveis. Na Europa central, o boicote ao envio de dados reflete a percepção de que tais sistemas em nada contribuem para a efetiva missão acadêmica. O desconforto não é um fenômeno episódico; é o sintoma de uma estatistização forçada que tenta converter a universidade em uma sucursal do “Big Brother” acadêmico. Essa competitividade-vigiada institui uma numeralização da consciência, subjugando a produção intelectual a uma burocracia-algorítmica que aniquila a finalidade política do conhecimento.

No Brasil, o cenário assume tons de uma dramaticidade corrosiva. Tornou-se trivial presenciar perfis oficiais celebrando o fato de uma universidade pública estatal superar outra de mesma natureza, como se o êxito residisse no aniquilamento simbólico do par. Questiona-se a racionalidade de uma lógica de rivalidade entre entes que deveriam constituir o alicerce de um projeto coletivo de nação.

Ao mimetizar códigos competitivos típicos do mercado financeiro, o ambiente acadêmico renuncia à cooperação para se lançar em uma corrida por visibilidade numérica. Essa prática ignora as desigualdades históricas, tratando instituições com realidades distintas como se estivessem em uma pista de competição corporativa.

Os rankings internacionais atuam como reguladores das consciências e das práticas pedagógicas, impondo uma temporalidade que nega a maturação do pensamento. A investigação científica é expropriada do tempo do kairós, voltado à elaboração teórica profunda e à escuta das necessidades sociais, para se submeter ao império do kronos, marcado pela aceleração linear e pela contabilidade fria.

Projetos são arquitetados sob a receita da fragmentação e da entrega imediata, enquanto investigações que exigem demora e rigor são relegadas ao abandono. Por que o sistema premia o cientista que converte sua atividade em índice? Como aceitar que a densidade intelectual morra em nome da mera exibição de rendimento? Seria essa a vitória final do “Big Brother acadêmico” sobre a nossa própria consciência?

Essa análise não descarta a necessidade de diagnósticos sobre o ensino superior, desde que estes funcionem como instrumentos de identificação de assimetrias estruturais a serviço de políticas públicas de fortalecimento. A patologia se instala quando a classificação passa a ditar o financiamento e a sobrevivência, constrangendo a universidade a se adequar a um modelo de excelência que atende apenas aos interesses da hegemonia global.

Instituições com trajetórias singulares são forçadas a abrir mão de suas identidades para que possam ser contempladas no figurino estreito da padronização mercadológica, perdendo sua capacidade de resposta às contradições da realidade nacional.

A decisão da Sorbonne de romper com este circuito deve ser apreendida como um ato de resistência contra a mercantilização do conhecimento. Ao questionar as regras estabelecidas, a instituição recoloca no centro do debate a função social da universidade. Marx nos lembraria que a produção intelectual assume a forma de mercadoria, na qual o valor de uso da ciência é eclipsado pelo seu valor de troca simbólico.

Marx veria esses critérios de classificação como o fetiche da mercadoria em sua expressão máxima: o conhecimento deixa de servir à emancipação humana para ser um objeto quantificável. Como o pensamento pode sobreviver quando a métrica dita o que é real? Por que aceitamos que algoritmos de instituições-rankings funcionem como o capital variável que extrai a mais-valia do nosso intelecto? Essa tomada de posição demonstra que a comparação seriada desidrata a relevância histórica da produção do conhecimento. É a revolta contra a alienação de um sistema que nos obriga a produzir apenas para alimentar o apetite de um mercado de prestígio vazio.

O risco reside na fabricação (formação) de um cientista funcional à cadência da produtividade incessante. Pesquisas distantes dos interesses de conglomerados editoriais perdem tempo e legitimidade, pois o trabalho intelectual mira abstrações numéricas em vez de problemas sociais.

Ao romper com esse ciclo, a universidade francesa nos faz questionar: a quem serve esse conhecimento? Nossos pares refutam a hostilidade científica que reduz o semelhante a adversário por resíduos de prestígio. Ou será que, obcecados por selos estrangeiros, aceitamos o fetiche do ranking como substância da vida acadêmica? Marx veria o triunfo da mercadoria: o conhecimento não respira como práxis, mas jaz como mercadoria inerte. Qual o resultado dessa corrida senão o eclipse da soberania intelectual e o silêncio da negatividade crítica? Como cultivar a dúvida se cada ideia é vendida antes de ser dita? Resta o peso de uma consciência reduzida a números.

*Everton Fargoni é doutor em educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Fonte: Outras Palavras


Do Brasil à Grã-Bretanha: o custo oculto da soja e da carne bovina na destruição do Cerrado

Frequentemente negligenciado nos debates globais sobre conservação, o Cerrado brasileiro está sendo rapidamente transformado pela agricultura industrial, com o comércio com o Reino Unido desempenhando um papel direto na perda de sistemas hídricos, biodiversidade e estabilidade climática

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Com o aumento da demanda global por commodities, o Cerrado brasileiro está desaparecendo em um ritmo alarmante, com consequências que vão muito além da América do Sul. Essa extensa área mista de campos, savanas e florestas desempenha um papel fundamental nos sistemas hídricos e no clima da América do Sul, mas é um dos ecossistemas mais ameaçados do continente

A destruição do Cerrado chega ao Reino Unido através dos alimentos que consumimos, transformando uma crise regional em uma responsabilidade compartilhada com consequências globais.

Uma revisão científica publicada na revista Nature Conservation constatou que mais da metade da vegetação nativa do Cerrado desapareceu, principalmente nas últimas cinco décadas. Isso corresponde a aproximadamente 1.000.000 quilômetros quadrados, uma área maior que a França e a Alemanha juntas, agora substituída por terras agrícolas, pastagens e cidades em expansão.

Frequentemente descrito como o motor hidrológico do Brasil, o Cerrado alimenta oito das doze principais bacias hidrográficas do país. Sua contínua degradação ameaça a segurança hídrica muito além de suas fronteiras, com consequências sentidas em grande parte da América do Sul.

Segundo Cássio Cardoso Pereira, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e principal autor da revisão, os danos ecológicos vão muito além da perda de habitat:

A consequência mais urgente é a ruptura do papel do Cerrado como regulador hídrico continental.

A perda da vegetação nativa reduz a recarga dos aquíferos, seca rios que abastecem importantes bacias hidrográficas na América do Sul e agrava secas e ondas de calor extremas.

Ao mesmo tempo, estamos perdendo biodiversidade única e enormes reservas subterrâneas de carbono, o que torna essa destruição uma ameaça direta tanto para as espécies quanto para a estabilidade climática.

O Cerrado é o segundo maior ecossistema da América do Sul, depois da Amazônia, ocupando 23% da superfície do Brasil.

Os autores da revisão usam o termo “Ecodomínio” para se referir a grandes áreas ecológicas que incluem múltiplos ecossistemas, biomas e ecorregiões. O termo descreve essas regiões como existiam em sua extensão original, independentemente de seu estado atual de conservação.

Soja e carne bovina

A destruição do Cerrado não é impulsionada apenas pelo Brasil; está intimamente ligada à demanda global por soja e carne bovina, commodities que vinculam essa paisagem diretamente ao sistema alimentar e à pegada climática do Reino Unido.

A agricultura industrial é responsável por grande parte dessa perda. Desde o início do monitoramento por satélite em 2001, mais de 326.000 quilômetros quadrados do Cerrado foram desmatados, às vezes em ritmo mais acelerado do que até mesmo na Amazônia.

As plantações de soja e as fazendas de gado dominam hoje grandes áreas que antes abrigavam uma biodiversidade extraordinária. Essas paisagens, em sua maioria monoculturas, dependem de máquinas pesadas, fertilizantes e agrotóxicos, deixando pouco espaço para a recuperação dos ecossistemas.

O estudo destaca a região do MATOPIBA, que abrange os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, como um ponto focal das recentes mudanças no uso da terra, onde a expansão agrícola continua a avançar sobre a vegetação nativa remanescente.

O desmatamento está remodelando o clima do Cerrado: a estação chuvosa agora chega cerca de um mês mais tarde, a precipitação total diminuiu e as temperaturas diurnas subiram aproximadamente 1,5 ° C.

Com a chuva cada vez menos previsível, a agricultura torna-se cada vez mais dependente da irrigação. Isso cria um ciclo vicioso perigoso, acelerando o esgotamento dos recursos hídricos e aprofundando a degradação ecológica em toda a região.

Grande parte do carbono do Cerrado está armazenado no subsolo, aprisionado em raízes que podem atingir mais de 15 metros de profundidade. Essa “floresta invertida” ajuda as plantas a suportarem longos períodos de seca, enquanto silenciosamente reabastece os aquíferos.

Quando a vegetação nativa é desmatada, o carbono armazenado por longos períodos é liberado. Paisagens que antes absorviam emissões se transformam em fontes de gases de efeito estufa, intensificando as pressões climáticas que já afetam a região.

Colapso ecológico

O Cerrado desempenha um papel central no sistema hídrico brasileiro. Ele dá origem a oito bacias hidrográficas e se situa sobre três imensos aquíferos que armazenam vastas reservas de água doce. A crescente demanda da agricultura industrial, da geração de energia hidrelétrica e da expansão urbana está submetendo esses sistemas a uma pressão implacável.

A extração de água em larga escala, combinada com o uso generalizado de agrotóxicos, está contaminando solos e cursos d’água, além de esgotar as reservas subterrâneas. Os rios estão diminuindo, os ecossistemas estão se desestabilizando e a biodiversidade está declinando à medida que os sistemas hídricos perdem sua resiliência.

O desenvolvimento da energia hidrelétrica acelerou os danos. As barragens fragmentam os rios, interrompem os fluxos naturais e bloqueiam as rotas de migração dos peixes, das quais dependem tanto a vida selvagem quanto as comunidades locais. Com o tempo, essas mudanças estão remodelando fundamentalmente sistemas fluviais inteiros.

O estudo também documenta a extensa degradação causada pelo fogo, que muitas vezes não é contabilizada nos números oficiais de desmatamento. Incêndios naturais no Cerrado são raros, geralmente provocados por raios, mas estima-se que 99% dos incêndios no Brasil sejam causados ​​por atividades humanas ligadas ao desmatamento e à expansão agrícola.

Entre 1985 e 2022, cerca de 40% do Cerrado foi queimado pelo menos uma vez. Quase dois terços dessa área queimaram repetidamente, matando espécies sensíveis ao fogo e favorecendo o crescimento de gramíneas invasoras que aprisionam as paisagens em ciclos de degradação.

O Ecodomínio abriga cerca de 13.000 espécies de plantas, mais de 3.200 vertebrados e dezenas de milhares de invertebrados. Aproximadamente um terço de sua flora é endêmica, ou seja, não é encontrada em nenhum outro lugar da Terra.

No entanto, apenas uma pequena parte do Cerrado está estritamente protegida. Muitas espécies ameaçadas, particularmente plantas e insetos, permanecem mal avaliadas e politicamente negligenciadas. Ecossistemas com menor cobertura arbórea, como os campos, continuam sendo subvalorizados apesar de sua imensa importância ecológica.

Não se trata apenas de proteger espécies ameaçadas. Cerca de 80 povos indígenas vivem em mais de 200 territórios reconhecidos no Cerrado, muitos deles salvaguardando os últimos trechos de vegetação intacta da região.

Por gerações, essas comunidades cuidaram da terra, guiando rios, protegendo a vida selvagem e mantendo as paisagens resilientes. Muitos territórios permanecem apenas parcialmente reconhecidos pela lei, deixando tanto as pessoas quanto os ecossistemas expostos às crescentes pressões da agricultura e do desmatamento.

Rodolfo Salm, ecologista, ativista, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e um dos autores da revisão, afirma que as lacunas legais atuais têm raízes em uma longa história de desapropriação, agora reforçada por novas leis:

Durante grande parte da história do Cerrado, os povos indígenas foram progressivamente expulsos de seus territórios, primeiro pela pecuária, depois pela produção de grãos em larga escala. Esse processo se acelerou com a mudança da capital do Brasil para Brasília e se intensificou sob a ditadura militar das décadas de 1960 e 70.

Hoje, a recém-aprovada Lei do Marco Temporal , que restringe o direito ao reconhecimento legal de um território indígena às áreas que eram efetivamente ocupadas por povos indígenas na época da Constituição de 1988, combinada com complexas barreiras legais e burocráticas, tornou o reconhecimento de novas terras indígenas no Cerrado praticamente impossível.

Isso representa um duro golpe para a biodiversidade, pois os territórios indígenas estão entre as áreas mais eficazes e confiáveis ​​para a proteção dos ecossistemas.

A participação do Reino Unido no Cerrado

Muitas pessoas no Reino Unido ficariam surpresas ao saber o quão intimamente suas dietas estão ligadas a essa paisagem distante.

A Grã-Bretanha importa milhões de toneladas de soja por ano, a maior parte destinada à alimentação animal. Cerca de 90% é direcionada à pecuária, principalmente aves e suínos, o que liga diretamente a destruição do Cerrado à cadeia de abastecimento de carne.

Somos profundamente dependentes do resto do mundo, importando cerca de 40 a 50% dos nossos alimentos. E grande parte disso provém de regiões que também estão sendo duramente atingidas pelos impactos climáticos de que temos falado, disse o Professor Paul Behrens na Reunião Informativa Nacional de Emergência em Londres, em novembro passado.

Investigações da ONG Mighty Earth mostram que os principais comerciantes globais que abastecem os mercados do Reino Unido e da Europa continuam a obter soja de áreas ligadas à destruição do Cerrado, apesar dos repetidos compromissos públicos com a sustentabilidade.

A Mighty Earth também alertou que as regras de due diligence pouco rigorosas do Reino Unido podem transformar a Grã-Bretanha em um depósito de soja e carne bovina ligadas ao desmatamento, à medida que as empresas desviam o fornecimento de alto risco de mercados mais rigorosamente regulamentados.

Apesar das promessas do governo, as importações britânicas de soja e carne bovina continuam a impulsionar a destruição do Cerrado por meio das cadeias de suprimento de ração animal.

Philip Fearnside, professor pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e um dos autores da revisão, explica por que os compromissos voluntários e os códigos de sustentabilidade não atingiram seus objetivos, destacando os impactos indiretos negligenciados da produção de commodities:

A maior parte da expansão da soja na Amazônia e no Cerrado ocorre não por meio do desmatamento direto, mas pela conversão de pastagens de gado em plantações de soja. Essa transformação geralmente resulta da venda de terras por pecuaristas para plantadores de soja, em vez da conversão deles próprios para o cultivo da soja.

Como as terras adequadas para o cultivo de soja têm preços elevados, os pecuaristas frequentemente usam o dinheiro para comprar extensões muito maiores e mais baratas de floresta tropical no interior da Amazônia, o que indiretamente impulsiona ainda mais o desmatamento. Esses impactos indiretos escaparam, em grande parte, de todos os sistemas de monitoramento e certificação existentes.

O Reino Unido pode estabelecer regras juridicamente vinculativas para empresas fornecedoras de produtos como a soja, exigindo que elas prestem contas dos impactos ambientais diretos e indiretos. Ao monitorar esses efeitos combinados, o Reino Unido poderia evitar o fornecimento de soja associada ao desmatamento generalizado tanto no Cerrado quanto na Amazônia.

O Regulamento de Produtos Florestais de Risco do Reino Unido (UKFRC, na sigla em inglês), previsto na Lei Ambiental de 2021, ainda não entrou em vigor. E como a lei visa apenas o desmatamento ilegal, vastas áreas de terra que foram legalmente convertidas, mas que ainda assim estão destruindo habitats únicos, permanecem desprotegidas.

Grande parte desses danos permanece invisível. A soja necessária para a alimentação animal é uma “pegada fantasma”, invisível nos rótulos, mas muito real em termos climáticos e ecológicos.

Pereira afirma que os responsáveis ​​pela destruição do Cerrado são bem conhecidos e, em grande parte, tolerados:

A rápida destruição do Cerrado é impulsionada principalmente pela expansão do agronegócio, especialmente o cultivo de soja e a pecuária, facilitada por políticas permissivas de uso da terra e fiscalização deficiente.

Diferentemente da Amazônia, a maior parte do desmatamento no Cerrado ainda é legalmente permitida, o que protege corporações e cadeias de suprimentos da fiscalização. A responsabilização internacional falhou porque as estruturas globais de clima e biodiversidade negligenciam amplamente os campos e savanas, tratando-os como paisagens descartáveis ​​em vez de ecossistemas críticos.

Um aviso e uma escolha

Segundo o relatório da Nature Conservation, o Cerrado está sendo levado ao colapso.

Fearnside alerta que a destruição contínua do Cerrado não é apenas uma crise regional, mas um risco global, que acelera as alterações climáticas e prejudica os sistemas hídricos, a biodiversidade e as comunidades que deles dependem:

A perda do Cerrado contribui diretamente para o aquecimento global e para a interrupção do ciclo da água, assim como o desmatamento da Amazônia. Juntos, esses processos destroem a biodiversidade e as sociedades humanas que dependem da vegetação nativa.

As práticas atuais estão levando o clima global a pontos de inflexão que, se ultrapassados, seriam devastadores não apenas para o Brasil, mas para o mundo. Evitar esse desfecho exige mais do que apenas proteger as florestas: significa acabar com o desmatamento do Cerrado e da Amazônia e interromper rapidamente o uso de combustíveis fósseis.

Para o Reino Unido, o Cerrado não é um problema distante. Seu destino está diretamente ligado às nossas importações, dietas e escolhas diárias. A responsabilidade climática começa muito antes da linha costeira, em nossas cozinhas, em nossos pratos e por meio das escolhas que fazemos todos os dias.

Imagem em destaque: O primeiro-ministro Sir Keir Starmer (à esquerda) reunindo-se com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, para um encontro bilateral em Nova York, antes de seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas. Alamy/Leon Neal


Fonte: Your Voiz

Crise hídrica espalha efeitos pelo Brasil: combinação de desmatamento e mudanças climáticas agrava problema

Bacias hidrográficas do Sudeste e do Centro-Oeste seguem no vermelho, e a recomendação do Cemaden é que a gestão dos reservatórios ao longo do ano seja feita considerando o pior cenário de seca possível

Agravada pelo desmatamento e pelas mudanças climáticas, crise hídrica  espalha efeitos pelo país

Reservatório Paulo de Paiva Castro, que faz parte do Sistema Cantareira: ele regula o fluxo de água que, no fim da linha, abastece a Grande São Paulo — Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo/07/10/2025

Por Ana Lucia Azevedo para “O GLOBO”

Choveu, mas não resolveu. A água que caiu nos últimos dias, no maior volume da estação chuvosa iniciada em outubro, trouxe alívio temporário para o calor e provocou transtornos, mas não tirou do nível crítico os rios dos quais depende a maior parte da população do Brasil. As bacias hidrográficas do Sudeste e do Centro-Oeste seguem no vermelho, e a recomendação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) é que a gestão dos reservatórios ao longo do ano seja feita considerando o pior cenário de seca possível.

— Não choverá o bastante para recuperar reservatórios, sobretudo no Sudeste. A estação seca começa em março e irá até outubro, quando as chuvas deveriam voltar. A situação está crítica e pode piorar. Será preciso planejar muito bem — destaca o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador de operações do Cemaden.

A crise não brotou de hora para outra. É fruto de anos seguidos de pouca precipitação e menor umidade. Esses problemas, por sua vez, decorrem de mudanças climáticas e, em especial, do desmatamento, frisam cientistas. Menos cobertura vegetal, menos evaporação e, consequentemente, menos vapor d’água e umidade no ar para fazer chover.

As florestas e a vegetação nativa de Cerrado também captam e fixam a água no subsolo, formando nascentes e evitando a erosão que assoreia rios. A evaporação de uma área de pastagem é, em média, de quatro a cinco vezes menor do que à de uma com cobertura vegetal nativa (o valor varia com o bioma), já indicaram estudos.

Sem chuva nas cabeceiras

Temporais como o da noite de domingo no Rio de Janeiro podem alagar a cidade e até interromper um Fla-Flu, mas não têm impacto na recuperação de reservatórios. Primeiro, porque são pontuais. Além disso, localizados — segue sem chover nas cabeceiras. E o nível dos lençóis freáticos está tão baixo que os rios absorvem a chuva como se fossem ralos.

A crise afeta quase todo o Brasil, enfatiza Adriana Cuartas, especialista em recursos hídricos e também do Cemaden. Sudeste e Centro-Oeste estão em pior situação. Exceções são o Sul, parte da Amazônia e o Rio São Francisco até a Hidroelétrica de Três Marias (MG), beneficiado por chuvas mais intensas nas cabeceiras.

Chama a atenção a situação ruim da Bacia do Rio Grande (MG/SP), na qual o reservatório de Furnas está um pouco acima de 30%. Panorama também bastante crítico para as bacias do Sistema Cantareira (Piracicaba, Capivari e Jundiaí) e do Rio Paraíba do Sul. Todas estão em condição de seca excepcional, e volumes em torno de 21% para o Cantareira e 34% para o reservatório do Jaguary, que faz a interligação com o Cantareira.

O esperado seriam aproximadamente 70%, no mínimo 60%, para essa época do ano. No Centro-Oeste, as bacias do Tocantins e do Araguaia passaram janeiro em situação de seca extrema. Já as bacias do Sudeste começaram a ficar críticas lá em 2014, diz Cuartas:

— A situação é ruim e com tendência de piora. A conta de luz vai continuar cara, e o risco de problemas no abastecimento, presente. A energia até pode ser trazida do Norte, mas a água, não. As pessoas olham a chuva, cidades alagadas, e pensam que está resolvido. Mas estamos longe disso, com chuva abaixo da média, muito irregulares e localizadas.

O Sistema Cantareira exemplifica a consequência de chover pouco e no lugar “errado”. Ele abastece São Paulo, mas as cabeceiras de suas três bacias ficam em Minas Gerais. A capital paulista penou com uma semana de enchentes, mas nas nascentes dos rios formadores do sistema a seca imperou.

No Brasil tem chovido não só pouco e no lugar errado, mas literalmente no molhado. Uma pesquisa de Cuartas com outros cientistas brasileiros e estrangeiros, publicada em 2025 na revista “Frontiers of environmental sciences”, revela que neste século as chuvas estão reduzindo nos continentes e crescendo nos oceanos.

Secas mais longas

Ninguém se atreve a dizer como será a próxima estação chuvosa, que começa em outubro. A atual já é considerada perdida. Fenômenos como El Niño e La Niña não influenciam o regime de chuvas do Sudeste e do Centro-Oeste. A estação das chuvas termina em março e não há previsão de que haverá precipitação razoável. E, ainda que caísse muita água, o que é altamente improvável, não seria possível recuperar o cenário.

Marcus Suassuna, hidrólogo do Serviço Geológico do Brasil (SGB), explica que grandes reservatórios levam de dois a três anos, em média, para se recuperar após períodos de escassez. Ele ressalta ainda a situação ruim de bacias naturais, como no Rio Paraguai, que dá vida ao Pantanal.

Nas últimas seis décadas, ano a ano chove menos no Brasil, à exceção do Sul, pontua Seluchi. E, nos últimos 40 anos, a estação chuvosa encurtou 25 dias no Sudeste e no Centro-Oeste, mostrou outro estudo do Cemaden. Isso quer dizer que a estação seca também está quase um mês maior.

Mesmo a chuva da semana passada, associada a uma Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), despejou bem menos água do que o esperado. Segundo Seluchi, possivelmente, os modelos de previsão do tempo superestimaram o volume de precipitação previsto porque não consideraram a umidade tão baixa:

— Isso tem relação com mudanças climáticas, mas também com desmatamento. O Brasil tem desmatado cumulativamente Mata Atlântica e Cerrado, onde estão as cabeceiras dos principais rios do Centro-Sul. Com isso, as nascentes secam, os lençóis freáticos não são repostos.

Uma pesquisa apoiada pelo Movimento Viva a Água, lançado pela Fundação Grupo Boticário, evidenciou o impacto do desmatamento nas reservas de água. Cientistas compararam o comportamento de microbacias do Alto Iguaçu, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), sob situação de seca severa. Naquelas com mais de 50% de floresta preservada, a redução de volume d’água de rios não passava de 10%. Já nas desmatadas a diminuição chegava a 50%.

— Manter a cobertura vegetação e restaurar áreas desmatadas é uma medida de adaptação à mudança climática crucial no Brasil e precisa do envolvimento de toda a sociedade — salienta Guilherme Karam, gerente de Economia da Biodiversidade da fundação.

A crise deste ano também insere-se em um cenário global. A ONU declarou oficialmente esta semana que o planeta está em falência hídrica, com 75% da Humanidade vivendo em países classificados como criticamente inseguros e metade tendo que enfrentar pelo menos um mês por ano de escassez severa.


FONTE: O GLOBO

Em novo incidente em Congonhas, vistoria aponta que resíduos de mineração da CSN também atingiram afluente do Rio Paraopeba

Incidente também ocorreu no fim de semana, mas só foi confirmado na terça (27), após fiscalização do município; afluente do Paraopeba foi atingido novamente

Imagem mostra área alagada entre o dique da mineradora e trilhos de trem

Imagem mostra área alagada entre o dique da mineradora e trilhos de tremFoto: ARQUIVO PESSOAL / DIVULGAÇÃO 

Por José Vítor Camilo para o “O TEMPO”

Prefeitura de Congonhas, na região Central de Minas Gerais, confirmou, nesta quarta-feira (28/1), um terceiro incidente que culminou em carreamento de resíduos da mineração para o rio Maranhão, afluente do rio Paraopeba. Desta vez, os danos ambientais ocorreram em área da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), no dique de Fraile, na Mina Casa de Pedra, que passa por obras desde então. O volume de material que atingiu o rio não foi confirmado e, segundo a mineradora, apesar da informação divulgada pela mineradora, não trata-se de resíduos da mineração, mas de acessos abertos pela empresa na região. 

Assim como os dois vazamentos registrados em minas da Vale, o episódio também foi registrado durante as chuvas do último final de semana. Porém, o fato só foi descoberto após vistoria promovida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas na terça-feira (27). Segundo a nota do município, não foram constatados danos causados pelo incidente no dique da mineradora, entretanto, foi identificado “carreamento de resíduos da atividade minerária” em rios da região.

“Ainda que nenhuma estrutura tenha se rompido, ao longo das vistorias, a fiscalização ambiental identificou problemas de drenagem e danos ambientais decorrentes do carreamento de resíduos da atividade minerária que atingiram corpos d’água, classificados como de natureza moderada. Em razão disso, o município adotará as medidas administrativas cabíveis, incluindo a lavratura de autos de infração contra o empreendimento”, divulgou a prefeitura. 

Ainda conforme o município, foi constatado no local o carreamento de resíduos por enxurradas fruto de deficiências nos sistemas de drenagem das vias da mineradora. Com isso, o dique de Fraile acabou recebendo grande parte da lama que escorreu. As enxurradas também atingiram a cachoeira de Santo Antônio, no Parque da Cachoeira. 

“No Dique do Fraile, na região do bairro Plataforma, verificou-se carreamento significativo de resíduos, situação que motivou a exigência de adequações estruturais, de forma que a estrutura passe a suportar adequadamente o elevado volume de material proveniente de diferentes direções, evitando riscos de extravasamento”, informou a Prefeitura. 

Foto mostra máquinas pesadas trabalhando na área do dique de Fraile, da CSN l Arquivo Pessoal / Divulgação

Procurada, a CSN informou, por nota, que mantém relacionamento “transparente e permanente” com as autoridades competentes, que foram recebidas “por diversas vezes” para a inspeção no local. “Durante as vistorias, segundo manifestação da própria prefeitura de Congonhas, foi constatado que não houve qualquer extravasamento, transbordamento, rompimento ou anormalidade em quaisquer das estruturas de barragem ou contenção de sedimentos da Companhia”, escreveu.

A empresa argumenta ainda que, durante as inspeções, a prefeitura constatou o “carreamento de resíduos por enxurrada, decorrentes de deficiências nos sistemas de drenagem”. “A CSN esclarece que esse carreamento está relacionado exclusivamente à drenagem de estradas de terra e acessos da região, assim como o eventual carreamento de galhos em decorrência das fortes chuvas, sem qualquer relação com barragens ou com as atividades operacionais da Companhia. Esse esclarecimento é primordial para evitar interpretações equivocadas e pânico desnecessário”, completou.

Por fim, a mineradora informou que as estruturas têm a função de conter sedimentos e passam por manutenções e limpezas periódicas. Além disso, as intervenções que acontecem no local são rotineiras e fazem parte do “plano de chuvas da CSN Mineração”, visando ampliar a capacidade de drenagem e reforçar a segurança da área. 

Os sedimentos que atingiram o rio Maranhão também inundaram uma área localizada entre o dique da CSN e a linha férrea da MRS. A empresa de transporte ferroviário foi questionada por O TEMPO, mas não se posicionou até a publicação da reportagem. 

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) também foram questionadas sobre o episódio, mas ainda não se manifestaram.

Enxurradas foram denunciadas dias antes do ocorrido

Ainda na última sexta-feira (23), dois dias antes dos vazamentos serem registrados, o diretor da Unaccon, Sandoval Pinto, enviou uma denúncia à Prefeitura de Congonhas sobre as enxurradas registradas na área da CSN. “Carreamento de sólidos em grande volume para curso d’água que cruza a ferrovia, com nascente em áreas da CSN Mineração, que estão sendo decapeadas”, dizia o documento. 

“Na sexta-feira eu recebi diversos vídeos dos moradores do bairro Plataforma, preocupados com a situação. As imagens mostravam uma lama muito densa correndo para o rio Maranhão e, no local, constatamos que esse material era proveniente do desmatamento que a CSN está promovendo para instalação da pilha de Fraile”, denuncia. 

Veja a foto que mostra a área desmatada pela mineradora: 

Lama que afetou dique teria escorrido de áreas desmatadas l ARQUIVO PESSOAL / DIVULGAÇÃO

 

Ainda segundo a Prefeitura de Congonhas, na fiscalização realizada pela Defesa Civil do município foi constatado que, apesar do incidente, “não houve risco à integridade física de pessoas, restringindo-se os impactos aos danos ambientais já descritos”.

“A Prefeitura de Congonhas segue acompanhando a situação de forma rigorosa e permanente, mantendo o monitoramento técnico das áreas afetadas e adotando todas as providências legais necessárias para a proteção do meio ambiente, a prevenção de novos impactos e a segurança da população”, finalizou o município. 

Confira a nota da CSN na íntegra

“A CSN Mineração mantém relacionamento transparente e permanente com as autoridades competentes, que estiveram na Companhia por diversas vezes para inspeção de suas estruturas e operações.

Durante as vistorias, segundo manifestação da própria prefeitura de Congonhas, foi constatado que não houve qualquer extravasamento, transbordamento, rompimento ou anormalidade em quaisquer das estruturas de barragem ou contenção de sedimentos da Companhia. 

Em relação ao que foi mencionado na nota da Prefeitura, que afirma que, durante as inspeções, foram constatados episódios de carreamento de resíduos por enxurrada, decorrentes de deficiências nos sistemas de drenagem, a CSN esclarece que esse carreamento está relacionado exclusivamente à drenagem de estradas de terra e acessos da região, assim como o eventual carreamento de galhos em decorrência das fortes chuvas, sem qualquer relação com barragens ou com as atividades operacionais da Companhia. Esse esclarecimento é primordial para evitar interpretações equivocadas e pânico desnecessário.

As estruturas inspecionadas têm a função de contenção de sedimentos e passam por manutenções e limpezas periódicas. Assim, as intervenções realizadas são rotineiras, fazem parte do plano de chuvas da CSN Mineração e visam ampliar a capacidade de drenagem e reforçar a segurança da área.”


Fonte:  O TEMPO

Identitarismos e luta de classes: o problema de se ignorar a hegemonia capitalista nas relações sociais

The Problems Posed by the Concrete Class Struggle and Popular Organization

Publiquei aqui o singular caso da expulsão da mestranda Beatriz Bueno do programa de Mestrado em Cultura e Territorialidades da UFF.  Comentei apenas a minha estranheza sobre a tomada de uma medida tão radical, especialmente em um tempo em que os pós-graduandos gozam quase de imunidade completa para suas eventuais impropriedades ao longo dos seus estudos, seja de Mestrado ou Doutorado.

No post inicial eu me furtei a tecer maiores comentários porque a área das relações sociais não é nem de perto o foco das minhas pesquisas, e preferi não meter a minha colher, digamos assim, em um debate no qual não tenho conhecimento suficiente.

Mas desde a eclosão do caso da expulsão de Beatriz Bueno, o que eu tenho lido e ouvido sobre as razões e objetivos do debate por ela levantado sobre a desconsideração dos pardos no acesso às políticas sociais voltadas para melhorar a posição dos não brancos na sociedade brasileira vai do alinhamento até os ataques mais virulentos possíveis.  No caso dos ataques, Beatriz Bueno é apresentada como uma espécie de Cavalo de Tróia que está sendo usado para negar os direitos historicamente negados aos brasileiros afrodescendentes.

Ao ler e ouvir o que Beatriz Bueno coloca, o que me parece surgir é uma cobrança para que se reconheça que a estrutura racial brasileira não é binomial (brancos e negros), mas que congrega um grande contingente de mestiços, os pardos, que não se reconhecem ou não são reconhecidos por um grupo ou outro.  Nesse sentido, não considero que o principal problema de Beatriz Bueno seja o de apresentador um caso sem bases teóricas que possam ser discutidas de forma racional e lógica. Afinal, o grau de mestiçagem é alto no Brasil, e já se sabe há algum tempo que existem brasileiro que não identificam com os dois grupos aos quais o debate foi concentrado nas últimas duas décadas (i.e., brancos e negros).

Então qual seria para mim o principal problema do caso apresentado por Beatriz Bueno? O mesmo problema daqueles que reduzem os problemas sociais e econômicos existentes no Brasil à questão da raça, desconsiderando um elemento que me parece essencial que é o da classe.  É que sendo o Brasil um país capitalista de caráter atrasado e dependente, não há porque se desconsiderar cabalmente a questão da classe social, já que existem milhões de brancos brasileiros que são pobres e excluídos dos direitos que são hoje garantidos, precariamente há que se enfatizar, dos não brancos.

O fato é que qualquer forma de opressão existente no capitalismo é ditada pela posição de classe do indíviduo. Assim, apenas aumentar o universo dos pleiteantes às melhorias condicionadas que o Estado entrega para reparar as distorções da forma de capitalismo vigente no Brasil não vai mudar essencialmente nada. Aliás, isto já foi claramente demonstrada pela experiência estadunidense no qual o modelo bionamial de relações raciais foi desenvolvido. 

Finalmente, há que se dizer que diante da catástrofe climática e de seus impactos mais visíveis sobre os trabalhadores, as tarefas que estão postas precisam de estratégias que mostrem a insuficiência de se manter o debate apenas no plano de que se precisa aumentar o número de pessoas sentadas na mesa do banquete capitalista. O buraco neste momento é bem mais fundo e perigoso.