Metade de peixes analisados no litoral fluminense apresenta mercúrio acima do limite seguro

Exemplar de bonito-pintado (Euthynnus alletteratus) analisado na pesquisa

Um artigo publicado na revista Neotropical Ichthyology na sexta (15) mostra que 50% das amostras do peixe bonito-pintado (Euthynnus alletteratus) comercializadas em Cabo Frio, no litoral do Rio de Janeiro, apresentaram concentrações de mercúrio acima do permitido. Um exemplar atingiu concentração de até 1,980 miligramas por quilo, quase o dobro do limite máximo estabelecido pelas legislações brasileira e internacional para peixes carnívoros, que é de 1 miligrama por quilo.

O estudo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense (IFF), Campus Cabo Frio, em colaboração com pesquisadores das universidades do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Federal Fluminense (UFF) e do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM), analisou o tecido muscular de peixes capturados na região. O objetivo era determinar as concentrações de mercúrio total (HgT) no músculo de espécimes de bonito-pintado, comparar as concentrações entre machos e fêmeas, além de verificar se essas concentrações estavam em conformidade com os limites de segurança alimentar. Os pesquisadores coletaram 30 indivíduos de peixes no Mercado Municipal de Peixe de Cabo Frio, contemplando capturas em diferentes épocas do ano.

Os achados são preocupantes quando contextualizados com estudos similares, pois as concentrações encontradas no bonito-pintado, um atum de médio porte, superam as de espécies de atuns muito maiores analisadas em estudos anteriores.

Quanto à origem do metal, não há indícios de contaminação ambiental histórica ou fontes industriais diretas nas cidades de Cabo Frio e Arraial do Cabo. Os autores salientam que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês), a elevada contaminação de mercúrio em espécies de atuns é um indicativo da ampla e elevada poluição global desse elemento nos oceanos.

Peixes predadores que ocupam níveis superiores na cadeia alimentarpossuem mercúrio em concentrações elevadas no organismo, explicam os cientistas. Isso ocorre devido à capacidade desse elemento biomagnificar nesses animais — ou seja, a concentração de mercúrio aumenta através da ingestão de organismos menores por organismos maiores. “A principal via de absorção de mercúrio (Hg) em vertebrados marinhos é através da alimentação, que juntamente com a baixa taxa de excreção desses animais, leva ao aumento das concentrações do Hg ao longo da cadeia trófica”, observam.

Um estudo prévio em Arraial do Cabo já havia detectado a presença de mercúrio em diversos organismos de diferentes níveis da cadeia alimentar. Para os pesquisadores, isso evidencia a necessidade de vigilância constante desse metal em áreas de ressurgência – em que as águas frias e profundas sobrem para a parte mais quente e superficial do oceano, estimulado a circulação de nutrientes. Juntamente com as áreas costeiras marinhas, elas possuem um importante papel econômico, sendo responsáveis por 98% da produção pesqueira mundial.

Os dados fornecem base científica para que agências reguladoras revisem os limites de tolerância para contaminantes como o mercúrio e implementem diretrizes de consumo mais rígidas, especialmente para grupos vulneráveis, como gestantes e crianças. Além disso, os autores reforçam que programas de monitoramento de mercúrio são ferramentas essenciais para reduzir os riscos associados ao consumo de peixes com esse contaminante e garantir a segurança alimentar da população local.


Fonte: Agência Bori

O El Niño está chegando mais rápido do que o esperado e crescem as chances de que ele seja historicamente forte

Por Chris Dolce para CNN

O fenômeno El Niño está surgindo ainda mais rápido do que o esperado no Oceano Pacífico, e as chances de que ele se torne historicamente forte — um raro “Super” El Niño — até o outono ou inverno estão aumentando.

Segundo uma atualização recém-divulgada pelo Centro de Previsão Climática da NOAA, há 2 em 3 chances de que o pico de intensidade do El Niño seja forte ou muito forte.

El Niño é um ciclo climático natural que ocorre quando o Oceano Pacífico tropical aquece o suficiente para desencadear mudanças nos padrões de vento em toda a atmosfera, o que tem um efeito cascata nas condições climáticas em todo o mundo.

Secas e ondas de calor podem se intensificar em algumas regiões, aumentando o risco de incêndios florestais e problemas no abastecimento de água, enquanto outras são inundadas por chuvas torrenciais. Os efeitos abrangentes do El Niño também podem prejudicar a temporada de furacões no Atlântico. Em uma escala maior, ele faz com que as temperaturas globais, já elevadas devido às mudanças climáticas causadas pelo homem, disparem ainda mais. El Niños mais fortes tornam todos esses impactos mais prováveis.

Aumentam as chances de um Super El Niño

O El Niño ocorre aproximadamente a cada dois a sete anos e dura de nove a doze meses . Sua intensidade é medida pela elevação da temperatura da água acima da média em uma área do Oceano Pacífico equatorial, e geralmente atinge seu pico no inverno do Hemisfério Norte.

As condições de um El Niño fraco desenvolvem-se quando a temperatura sobe mais de 0,5 graus Celsius acima da média por um período prolongado. As temperaturas da água devem estar mais de 2 graus acima da média para que seja considerado um El Niño muito forte ou um Super El Niño.

O retângulo mostra a área do Oceano Pacífico onde as temperaturas da superfície do mar estão sendo monitoradas para a formação do El Niño.

A temperatura média da água está agora pouco abaixo do limite de 0,5 grau, mas a previsão é de que suba acima desse patamar no próximo mês, de acordo com a atualização mensal de quinta-feira do Centro de Previsão Climática . Essa é uma mudança significativa em relação à atualização do mês passado, que indicava condições neutras — nem El Niño nem seu equivalente mais frio, La Niña — até junho.

É provável que o El Niño se intensifique durante o verão e o outono. As chances de ele persistir durante o inverno também aumentaram para 96%, praticamente uma certeza de que isso acontecerá.

O aumento da confiança deve-se à vasta massa de água quente que se acumulou nas profundezas do Pacífico equatorial central e oriental nas últimas semanas. Essa água acabará por subir à superfície, dando início ao El Niño e fortalecendo-o continuamente a partir daí.

Mas, embora os meteorologistas estejam mais confiantes em sua formação, “ainda existe uma incerteza considerável quanto à intensidade máxima do El Niño”, afirmou o Centro de Previsão Climática.

Ainda assim, as probabilidades de um Super El Niño entre novembro e janeiro aumentaram de 1 em 4 no mês passado para cerca de 1 em 3 nas últimas projeções de intensidade do CPC.

Um El Niño mais forte é mais provável se as mudanças na atmosfera continuarem a se sincronizar com as mudanças no Oceano Pacífico tropical neste verão, como o enfraquecimento dos ventos perto do equador ao mesmo tempo em que as temperaturas oceânicas aumentam, disse Michelle L’Heureux, cientista que lidera a previsão de El Niño e La Niña no CPC.

Alguns modelos computacionais geralmente confiáveis ​​indicam que o potencial do Super El Niño deste ano pode ser o mais forte já registrado. Seria o primeiro Super El Niño desde 2015-2016, que foi o mais forte nos registros da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), que datam de 1950. Outros exemplos incluem 1997-1998, 1982-1983 e 1972-1973.

Mesmo que este El Niño não atinja o status de “super”, ainda assim é provável que seja um El Niño forte. El Niños mais fortes geralmente têm um impacto maior nas condições climáticas globais, porém os efeitos nem sempre se manifestam como o esperado.

O Super El Niño de 2015-2016 fez jus à sua reputação de causar seca severa no Caribe, mas também não produziu o inverno mais úmido que a média, pelo qual é conhecido, no sul da Califórnia.

Um impacto mais provável é o aquecimento global: o El Niño está aumentando as chances de 2026 ou 2027 se tornarem os anos mais quentes já registrados na Terra. Já é “muito provável” que este ano seja um dos cinco mais quentes já registradosafirmou a NOAA na segunda-feira , e isso ainda não leva em conta o fator imprevisível de aquecimento do El Niño

Forte ou super, essas são as condições climáticas que o El Niño poderá impactar até o início do próximo ano.

 Temporada de furacões invertida: El Niños mais intensos costumam produzir condições favoráveis ​​à formação de tempestades no Caribe e no Atlântico tropical, resultando em menos tempestades tropicais e furacões nessas regiões. O oposto ocorre no Pacífico central e oriental, onde a temporada de furacões costuma ser mais intensa. Isso pode significar mais ameaças tropicais para o Havaí e o sudoeste dos EUA, dependendo da trajetória das tempestades.

 Os maiores impactos nos EUA ocorrem no inverno: Um inverno mais quente do que a média é típico do norte dos EUA até o oeste do Canadá e o Alasca, embora o frio intenso ainda possa ocorrer ocasionalmente. A faixa sul dos EUA costuma ser mais úmida e fria, já que uma corrente de jato mais forte direciona mais tempestades para essa região.

• Condições climáticas extremas, como períodos de seca e umidade, além de temperaturas extremas: No verão, as chuvas de monção diminuem na Índia e no sudeste da Ásia. O Caribe também costuma sofrer com o aumento da seca. Invernos quentes e secos são típicos em partes do sul e leste da Ásia. A seca pode se intensificar no sudeste da África durante o verão do Hemisfério Sul, de dezembro a fevereiro.

Impactos globais típicos do El Niño no inverno do Hemisfério Norte e no verão do Hemisfério Sul.

O ar também está contaminado por agrotóxicos, mostra estudo

Artigo científico alerta que a dispersão aérea de agrotóxicos é muito maior do que admitem os modelos regulatórios atuais

O novo artigo publicado no periódico científico Journal of Hazardous Materials lança um alerta contundente sobre um tema que continua sendo sistematicamente subestimado pelas autoridades regulatórias e pelo agronegócio global: a contaminação atmosférica por agrotóxicos. Intitulado “Pesticide fate and transport in the atmosphere and implications for risk assessment”, o estudo coordenado por Carole Bedos e dezenas de pesquisadores europeus demonstra que os agrotóxicos não permanecem confinados às áreas onde são aplicados. Pelo contrário, eles entram na atmosfera em grandes quantidades, circulam por centenas ou até milhares de quilômetros e acabam contaminando ecossistemas, populações humanas, áreas urbanas, reservas ambientais e até regiões remotas como o Ártico.

Os autores explicam que a atmosfera funciona como um enorme reservatório e meio de transporte desses compostos químicos. A contaminação ocorre principalmente por dois mecanismos: a deriva da pulverização durante a aplicação e a volatilização posterior a partir do solo, da vegetação e da água superficial. Em alguns casos, até 60% do volume aplicado pode alcançar a atmosfera imediatamente após a pulverização. Além disso, resíduos presentes no solo podem voltar ao ar por meio da erosão eólica, mantendo o ciclo de contaminação ativo durante dias ou semanas.

O estudo destaca que, durante décadas, acreditou-se que o problema da dispersão atmosférica dos agrotóxicos era apenas local. Hoje, porém, o monitoramento científico mostra algo muito mais grave: resíduos de pesticidas são encontrados em chuvas, poeira doméstica, insetos de áreas de preservação, alimentos orgânicos e solos de propriedades que sequer utilizam produtos sintéticos. A presença desses compostos em áreas distantes dos locais de aplicação demonstra que o transporte atmosférico possui escala continental e global.

Outro aspecto alarmante abordado pela pesquisa é que muitos agrotóxicos sofrem transformações químicas na atmosfera, produzindo compostos secundários potencialmente ainda mais tóxicos. Reações com radicais hidroxila, ozônio e nitratos podem gerar subprodutos associados à formação de ozônio troposférico e aerossóis secundários, elementos diretamente ligados à poluição atmosférica e a doenças respiratórias e cardiovasculares. Em alguns casos, os produtos da degradação podem apresentar toxicidade superior à do composto original.

Os pesquisadores também chamam atenção para um problema quase invisível nos debates públicos: os chamados coformulantes presentes nas formulações comerciais dos agrotóxicos. Esses produtos incluem solventes, surfactantes e hidrocarbonetos aromáticos que podem representar mais de 98% da composição total de determinadas formulações. Muitos desses compostos possuem alta volatilidade e forte capacidade de gerar ozônio e partículas finas na atmosfera, agravando problemas de saúde pública e contribuindo para processos de aquecimento climático.

Segundo os autores, os atuais modelos regulatórios europeus e internacionais subestimam fortemente a dimensão atmosférica da contaminação por agrotóxicos. As avaliações de risco normalmente concentram-se apenas nos impactos locais e imediatos, ignorando o transporte de médio e longo alcance, a formação de produtos de transformação e os efeitos combinados das misturas químicas presentes no ambiente. O artigo afirma que existe uma lacuna crítica entre o conhecimento científico acumulado e os mecanismos regulatórios efetivamente utilizados para autorizar pesticidas.

A revisão científica também ressalta que as mudanças climáticas podem ampliar ainda mais esses processos, embora o tema não tenha sido aprofundado no artigo. O aumento das temperaturas, a intensificação das secas e o crescimento dos eventos extremos tendem a favorecer tanto a volatilização quanto a redistribuição atmosférica dos agrotóxicos, criando novos cenários de exposição humana e ambiental.

O trabalho termina defendendo mudanças urgentes nas políticas de monitoramento e regulação. Entre as recomendações estão o fortalecimento das redes de monitoramento atmosférico, a incorporação obrigatória da análise de produtos de degradação, o desenvolvimento de modelos mais sofisticados para prever transporte de longa distância e a adoção de avaliações de risco cumulativo capazes de considerar a exposição simultânea a múltiplos contaminantes.

Mais do que uma revisão técnica, o artigo desmonta um dos pilares discursivos mais utilizados para justificar o uso intensivo de agrotóxicos: a ideia de que os impactos estariam restritos às áreas agrícolas. As evidências reunidas mostram exatamente o contrário. Quando um agrotóxico é lançado no ambiente, ele rapidamente ultrapassa cercas, propriedades e fronteiras nacionais. A atmosfera transforma-se então em um vetor silencioso de contaminação planetária, conectando lavouras intensivas, centros urbanos, ecossistemas frágeis e populações humanas em uma mesma rede de exposição química difusa e permanente.

A crise de Flávio Bolsonaro pode redefinir a eleição presidencial

 

O enfraquecimento de Flávio Bolsonaro altera o tabuleiro eleitoral e reabre o debate sobre a ausência de uma alternativa de esquerda ao lulismo

A bomba que caiu sobre a pré-campanha de Flávio Bolsonaro, após a revelação de que o filho primogênito do ex-presidente teria solicitado R$ 134 milhões ao agora desmoralizado ex-banqueiro Daniel Vorcaro, colocou o processo eleitoral em uma espécie de animação suspensa. Atingida de forma potencialmente letal pelas denúncias de favorecimento financeiro, a candidatura de Flávio Bolsonaro talvez sequer consiga ultrapassar a fase de pré-campanha.

Como as demais candidaturas de direita não têm conseguido empolgar no confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e um nome potencialmente forte como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, não se desincompatibilizou a tempo e, portanto, está impedido de disputar a Presidência da República, abre-se um cenário político bastante peculiar. O atual presidente, que previa enfrentar uma disputa dura e polarizada, pode acabar encontrando um caminho eleitoral significativamente menos turbulento diante da ausência de uma candidatura competitiva da direita ou da extrema-direita.

Por outro lado, é impossível ignorar, diante do descontentamento de uma parcela importante do eleitorado com o governo Lula III, o tamanho do erro estratégico cometido pelo Partido Socialismo e Liberdade ao aderir à candidatura petista já no primeiro turno. O partido corre o risco de ter pouca ou nenhuma relevância efetiva em uma eventual campanha de reeleição de Lula e, de quebra, comprometer sua própria viabilidade nas disputas proporcionais.

Ao abdicar de uma candidatura própria, o PSOL perdeu a oportunidade de dialogar diretamente com setores da classe trabalhadora que já não se sentem contemplados pela estratégia de um capitalismo de face supostamente humana, fórmula política que o Partido dos Trabalhadores adotou desde sua chegada ao poder, em 2003.

Nesse contexto, talvez exista uma janela importante para que uma candidatura situada à esquerda do PT deixe de ocupar a condição de mero “traço” nas pesquisas eleitorais. Mas isso dependerá da coragem e da disposição dos partidos que não aderiram ao governo de construir uma campanha voltada aos trabalhadores reais — e não apenas aos seus próprios círculos militantes.

Mas para que essa possibilidade se concretize, não bastará apenas ocupar um espaço eleitoral vazio deixado pelas crises da direita e pelas limitações do lulismo. Uma alternativa efetivamente de esquerda precisará apresentar propostas estruturais para enfrentar a brutal concentração de riqueza que marca a sociedade brasileira, recolocando no centro do debate temas como reforma tributária progressiva, valorização do trabalho, ampliação dos serviços públicos e democratização do acesso à terra e à moradia. Ao mesmo tempo, será inevitável abraçar uma agenda ecológica consequente, baseada na transição para um novo modelo agrícola menos dependente de monoculturas e agrotóxicos, bem como na implantação urgente de políticas de adaptação climática, especialmente nas grandes metrópoles, onde enchentes, ondas de calor e desastres ambientais já atingem de forma desproporcional as populações mais pobres.

Flávio Bolsonaro: do chocolate às superproduções

Depois das mansões milionárias, das transações nebulosas e da épica carreira como vendedor de chocolates, surge agora a tentativa de transformar Jair Bolsonaro em personagem de blockbuster político

A mais recente revelação envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro adiciona mais um capítulo ao já vasto repertório de relações nebulosas entre política, dinheiro e conveniências mútuas no entorno do clã Jair Bolsonaro. Segundo informações divulgadas recentemente, Flávio teria negociado com Vorcaro um aporte milionário supostamente destinado à produção de um filme biográfico sobre seu pai — um projeto que, por si só, já suscita perguntas sobre prioridades políticas, interesses privados e os limites entre propaganda e produção cultural.

Naturalmente, a tentativa de vender uma epopeia cinematográfica sobre Jair Bolsonaro como empreendimento “artístico” seria cômica se não fosse também reveladora. Afinal, não se trata apenas de um ex-presidente polarizador tentando consolidar seu próprio mito político através das telas. O que chama atenção é o elenco de personagens envolvidos na operação — especialmente Flávio Bolsonaro, cuja trajetória pública parece oscilar entre negócios improváveis e patrimônio imobiliário surpreendentemente robusto.

E aqui talvez caiba uma pergunta inevitavelmente irônica: quem ainda consegue se surpreender com revelações envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro? Estamos falando de um senador cuja biografia pública já inclui episódios suficientemente pitorescos para transformar qualquer roteiro cinematográfico em mera adaptação documental. Entre a célebre atuação como vendedor de chocolates e a recorrente habilidade de circular em negociações relacionadas a mansões milionárias, o espanto já deveria ter sido aposentado há bastante tempo.

O episódio do suposto financiamento do filme apenas reforça a percepção de que, no bolsonarismo, a política nunca caminhou sozinha. Ela vem invariavelmente acompanhada de redes empresariais, favores cruzados, relações financeiras opacas e projetos pessoais embalados como causas nacionais. A construção da imagem pública de Jair Bolsonaro sempre dependeu de uma poderosa máquina de marketing político; agora, aparentemente, busca-se elevá-la ao status de superprodução cinematográfica.

Resta saber se o público brasileiro ainda possui disposição para consumir esse tipo de narrativa heroica depois de anos marcados por crises institucionais, escândalos financeiros, ataques à democracia e uma permanente confusão entre interesses familiares e funções públicas. Porque uma coisa é certa: se o objetivo era produzir um filme de ficção convincente, talvez a realidade já tenha ultrapassado qualquer possibilidade de roteiro.

E antes que eu me esqueça: quem precisa da Lei Roaunet quando se é amigo de Daniel Vorcaro?

O mercado da carne e a geopolítica da contaminação

A crise envolvendo antibióticos banidos em carnes brasileiras mostra como o acordo com a União Europeia preserva assimetrias históricas: aos países sul-americanos cabem as commodities e os passivos sanitários; à Europa, o controle das regras, dos mercados e das barreiras

O episódio envolvendo a decisão da União Europeia de excluir temporariamente o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e outros produtos de origem animal possui implicações muito mais profundas do que uma mera disputa comercial sanitária. O que está em jogo é a credibilidade internacional do sistema agropecuário brasileiro e, sobretudo, a crescente associação entre o agronegócio exportador e práticas produtivas consideradas incompatíveis com os novos padrões globais de saúde pública e segurança alimentar.

Do ponto de vista econômico, o impacto potencial é expressivo. A União Europeia representa um dos mercados de maior valor agregado para a carne brasileira. A ameaça de interrupção dessas exportações tende a produzir efeitos em cadeia: pressão sobre frigoríficos, insegurança em contratos internacionais, perda de competitividade e fortalecimento de concorrentes como Argentina, Uruguai e Paraguai — todos mantidos na lista europeia de países aptos a exportar.

Politicamente, a situação é ainda mais delicada porque ocorre em um momento em que o governo brasileiro tenta consolidar internacionalmente a imagem de um país ambiental e sanitariamente alinhado às exigências globais. A decisão europeia funciona, portanto, como um constrangimento direto ao discurso oficial de modernização regulatória e de confiabilidade do agronegócio brasileiro.

Ao mesmo tempo, o episódio fornece munição política tanto para setores europeus protecionistas quanto para críticos internos do modelo agroexportador brasileiro. Agricultores europeus vêm pressionando Bruxelas há meses contra a entrada ampliada de produtos agropecuários do Mercosul, alegando concorrência desleal baseada justamente em padrões sanitários e ambientais mais permissivos. Nesse sentido, a controvérsia dos antibióticos oferece uma justificativa técnica poderosa para medidas que também possuem forte dimensão econômica e geopolítica.

Mas talvez a questão mais perturbadora esteja no que essa crise revela sobre o mercado interno brasileiro.

Se determinados antibióticos ou antimicrobianos são considerados inadequados ou perigosos para consumidores europeus, surge inevitavelmente uma pergunta: qual é exatamente o nível de exposição da população brasileira a essas substâncias? A crise abre uma linha inquisitória extremamente sensível sobre a existência de um possível “duplo padrão sanitário”: um sistema rigoroso para atender mercados externos exigentes e outro muito mais permissivo para o consumo doméstico.

A discussão deixa de ser apenas comercial e passa a envolver saúde pública. O uso intensivo de antibióticos na pecuária está associado internacionalmente à seleção de bactérias resistentes, capazes de comprometer tratamentos médicos humanos. Ou seja, não se trata apenas de resíduos químicos na carne, mas da possibilidade de fortalecimento silencioso de superbactérias resistentes a medicamentos.

Nesse contexto, torna-se inevitável questionar:

  • quais substâncias continuam sendo utilizadas na pecuária brasileira apesar de restrições internacionais;
  • qual é o nível efetivo de fiscalização realizado sobre frigoríficos e confinamentos;
  • quantos testes são feitos no mercado interno;
  • e por que consumidores brasileiros deveriam aceitar padrões sanitários inferiores aos exigidos para consumidores europeus.

As reações públicas revelam, inclusive, um dado preocupante: parte da população passou a interpretar a possível permanência dessas carnes no mercado interno apenas como oportunidade de queda de preços. Isso expõe uma contradição social dramática: a deterioração do poder de compra é tamanha que parcelas da população passam a relativizar riscos sanitários em nome do acesso à proteína animal.

A questão dos antibióticos banidos também se soma diretamente ao debate sobre os agrotóxicos proibidos na União Europeia, formando um quadro mais amplo de divergência regulatória entre Brasil e Europa. O país já convive com críticas internacionais relacionadas ao uso extensivo de princípios ativos vetados em território europeu. Agora, a controvérsia alcança também a pecuária, ampliando a percepção externa de que o Brasil estaria se consolidando como um espaço de flexibilização sanitária e ambiental para maximização da competitividade agroexportadora.

E há aqui uma ironia particularmente incômoda. Assim como ocorre com diversos agrotóxicos proibidos na Europa mas exportados para países periféricos, parte significativa dos antibióticos e insumos veterinários utilizados globalmente é produzida justamente por corporações sediadas em países da própria União Europeia. Ou seja, substâncias consideradas inadequadas para consumo interno europeu continuam gerando lucros para empresas europeias quando destinadas a mercados externos menos protegidos regulatoriamente.

O resultado é uma hipocrisia sanitária difícil de ignorar: a Europa proíbe o consumo doméstico de determinadas substâncias, mas tolera — e  lucra diretamente com — sua circulação em países do Sul Global como o Brasil. Ao mesmo tempo, quando os efeitos desse modelo retornam sob a forma de resíduos em carnes exportadas ou risco de resistência antimicrobiana global, o bloco europeu ergue barreiras sanitárias para proteger seus próprios consumidores.

A diferença é que os consumidores brasileiros não dispõem do mesmo nível de proteção regulatória, rastreabilidade e fiscalização existente na União Europeia. Assim, cria-se uma divisão sanitária internacional profundamente desigual: os riscos são externalizados para populações periféricas enquanto os mercados centrais preservam para si padrões mais rigorosos de segurança alimentar.

No limite, a crise atual pode marcar o início de uma transformação profunda no comércio internacional de alimentos. O que antes era debatido apenas em torno de tarifas e subsídios passa agora a envolver rastreabilidade sanitária, padrões ambientais, antibióticos, bem-estar animal e resíduos químicos. E isso coloca o Brasil diante de uma escolha estratégica: adaptar-se às exigências crescentes dos mercados globais ou correr o risco de se tornar um exportador associado a produtos considerados sanitariamente problemáticos.

Este episódio também exemplifica de maneira cristalina os limites e as profundas desigualdades estruturais do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. Enquanto a Europa mantém plena capacidade de erguer barreiras sanitárias, ambientais e regulatórias contra produtos sul-americanos sempre que seus interesses econômicos ou políticos forem ameaçados, dificilmente os países do Mercosul possuirão margem semelhante para bloquear a entrada de produtos industriais europeus. É difícil imaginar, por exemplo, que Brasil ou Argentina consigam impor restrições equivalentes contra veículos europeus baseados em tecnologias já relativamente ultrapassadas — especialmente automóveis movidos a combustão — mesmo quando existirem alternativas chinesas mais modernas, mais eficientes e frequentemente mais baratas. O desequilíbrio é evidente: a Europa preserva o direito de proteger seu mercado, sua indústria e seus consumidores com todo o peso de sua estrutura regulatória, enquanto aos países sul-americanos resta sobretudo a posição de exportadores de commodities sujeitos a exigências crescentes e frequentemente assimétricas.

No fundo, o caso das carnes contaminadas por antibióticos proibidos revela algo maior: o acordo Mercosul–União Europeia parece ter sido desenhado sobre pesos e contrapesos profundamente desiguais, nos quais os países do Sul assumem os riscos sanitários, ambientais e econômicos, enquanto os países centrais preservam para si o poder de decidir quais produtos podem circular, em quais condições e em benefício de quem.

El Niño: a engrenagem invisível que reorganiza o clima e pressiona sociedades

Do aquecimento do Pacífico às secas amazônicas e enchentes no Sul do Brasil, o risco de um Super El Niño revela como a variabilidade climática pode amplificar crises ambientais, econômicas e históricas

Há fenômenos naturais que funcionam como engrenagens discretas do sistema terrestre. Eles operam longe do cotidiano das cidades, mas quando entram em ação reconfiguram economias, paisagens e até trajetórias históricas. O El Niño é um desses mecanismos profundos , sendo um fenômeno que nasce nas águas tropicais do Oceano Pacífico e reverbera em escala planetária, com efeitos particularmente sensíveis na América do Sul.

Em anos considerados “normais”, os ventos alísios empurram águas quentes em direção ao Pacífico oeste, acumulando calor próximo ao Sudeste Asiático e permitindo que águas frias, ricas em nutrientes, subam à superfície na costa oeste sul-americana. Esse mecanismo sustenta uma das regiões pesqueiras mais produtivas do mundo e ajuda a manter relativa estabilidade climática nos trópicos. O El Niño começa quando essa engrenagem enfraquece: os ventos perdem força, o calor oceânico se desloca para leste e a atmosfera reage reorganizando suas grandes correntes. O resultado é uma redistribuição global de calor e um efeito dominó climático.

É por isso que o El Niño não é apenas um “evento regional”. Ele é um reorganizador do clima planetário. Em escala global, costuma empurrar as temperaturas médias para cima e amplificar extremos: secas mais severas, chuvas mais intensas, ondas de calor mais persistentes. Em outras palavras, ele age como um multiplicador das tensões já presentes no sistema climático.

Na América do Sul, essa reorganização ganha contornos dramáticos. Ao atingir a costa do Peru e do Equador, o aquecimento das águas interrompe a ressurgência fria que sustenta a pesca. Ao mesmo tempo, regiões desérticas passam a receber chuvas torrenciais, desencadeando enchentes e deslizamentos. Enquanto isso, a Amazônia tende a experimentar o oposto: secas prolongadas, rios com níveis críticos e incêndios florestais mais frequentes. O continente vive, portanto, uma espécie de divisão climática: excesso de água em algumas regiões, escassez dramática em outras.

Esse contraste torna-se ainda mais evidente quando olhamos para o Brasil. O país costuma experimentar o El Niño como um fenômeno de extremos simultâneos. O Sul enfrenta chuvas persistentes e enchentes recorrentes; o Sudeste oscila entre ondas de calor e tempestades intensas; a Amazônia sofre com secas que elevam o risco de queimadas e pressionam a geração hidrelétrica. Em anos de El Niño muito forte, os chamados “Super El Niño” , esses padrões tendem a se intensificar, produzindo impactos que se espalham da agricultura ao sistema energético. O risco deixa de ser apenas meteorológico e passa a ser socioeconômico, com efeitos mais dramáticos atingindo as camadas mais pobres da população.

Além disso,  um Super El Niño em um planeta já aquecido pelo aquecimento global cria uma combinação particularmente preocupante. O fenômeno natural não ocorre em um mundo estático: ele se soma a oceanos mais quentes, florestas mais vulneráveis e cidades mais expostas. Assim, secas podem tornar-se mais profundas, enchentes mais destrutivas e ondas de calor mais prolongadas. O que antes era variabilidade climática passa a interagir com uma tendência de fundo, ampliando seus efeitos.

Mas o El Niño não é apenas uma questão contemporânea. Evidências arqueológicas sugerem que ele acompanha a história humana há milênios. Civilizações costeiras andinas dependiam de pesca abundante e de sistemas agrícolas delicados. Quando eventos extremos interrompiam a produtividade marinha ou desencadeavam chuvas devastadoras em regiões áridas, as consequências eram profundas: colapsos produtivos, migrações e instabilidade social. Há indícios de que episódios intensos do fenômeno contribuíram para crises em sociedades pré-colombianas.

No caso do mundo andino, especialmente nas regiões dos Andes, a variabilidade climática pode ter sido um fator silencioso na fragilização do Império Inca. Terraços agrícolas dependiam de equilíbrio hídrico delicado; chuvas extremas podiam destruir encostas cultivadas, enquanto secas comprometiam colheitas. Quando os europeus chegaram, encontraram uma sociedade já pressionada por tensões internas e possivelmente por oscilações climáticas recentes. O clima não explica sozinho a queda de grandes civilizações, mas frequentemente aparece como um fator agravante em momentos de crise.

Talvez seja essa a lição mais incômoda do El Niño: ele lembra que a história humana sempre esteve entrelaçada com a variabilidade climática. A diferença é que hoje a escala da exposição é muito maior. Populações urbanas densas, cadeias globais de alimentos e sistemas energéticos interdependentes tornam a sociedade contemporânea mais sensível a choques climáticos amplificados.

Observar o Pacífico tropical, portanto, é observar um dos termômetros mais importantes do futuro próximo. Quando suas águas aquecem além do habitual, não se trata apenas de uma anomalia oceânica, mas é um sinal de que o planeta inteiro pode estar prestes a sentir os efeitos dessa engrenagem invisível.

Análise revela que a Elsevier é a editora que menos despublica seus artigos e a que mais os reintegra

Frequência dos motivos apresentados por 10 editoras para a retratação de artigos ( fonte).

Por Retraction Watch

Embora a Elsevier supere outras editoras em termos de volume absoluto, um 
estudo recente revelou que ela também apresenta a menor taxa de retratação e a maior taxa de reintegração de artigos entre nove das principais editoras de artigos acadêmicos. O estudo também identificou uma décima editora como um caso atípico em relação aos motivos de retratação. 

“Cada editora tem seu próprio perfil de retratação e as taxas de retratação variam em duas ordens de magnitude”, disse Jonas Oppenlaender , autor do preprint de fevereiro e pesquisador da Universidade de Oulu, na Finlândia, ao Retraction Watch. “Isso reflete diferentes culturas editoriais e estratégias de detecção, e não apenas diferentes níveis de má conduta.”

Oppenlaender examinou dados do banco de dados Retraction Watch, abrangendo o período de 1997 até o início de 2026, para identificar as nove principais editoras com o maior número de retratações. Ele também incluiu a Association for Computing Machinery (ACM), “porque é uma importante editora de sociedade profissional que não havia sido examinada anteriormente em estudos de retratação entre editoras”, escreveu ele no preprint.

Segundo seus cálculos, a taxa de retratação da Elsevier foi de 3,97 artigos por 10.000 publicados. Em comparação, a SAGE teve 5,46, a Wiley 6,21, a Taylor & Francis 6,50, a Springer Nature 9,06, a IEEE 17,70, a PLOS 26,82 e a IOS Press 283,77.

Os leitores do Retraction Watch não ficarão surpresos ao saber que a maior taxa de retratações foi registrada na Hindawi, com 320,02 por 10.000. A Wiley adquiriu a editora em 2023 e o alto número de retratações – incluindo mais de 11.000 do final de 2022 ao início de 2024 – é “compatível com as retratações em massa que se seguiram à aquisição pela Wiley”, escreveu Oppenlaender. 

Dos 98 artigos no conjunto de dados que foram reintegrados após a retratação, 86 foram publicados em periódicos da Elsevier. Essa editora reintegrou 1,3% dos artigos retratados. Apenas a Taylor & Francis chegou perto, com uma taxa de reintegração de 0,4%.

Entre as nove principais editoras, os motivos mais comuns para retratação foram problemas com resultados e/ou conclusões, envolvimento ou preocupações de terceiros, plágio, problemas com os dados e revisão por pares problemática. No entanto, Oppenlaender descobriu que sete dos dez motivos mais comuns para retratação — incluindo má conduta, plágio e problemas com os dados — estavam “totalmente ausentes” dos registros da ACM. 

Das 354 retratações feitas pela ACM no conjunto de dados, todas, exceto duas, foram resultado de revisão por pares comprometida em dois conjuntos de anais de conferências, sem nenhuma retratação antes de 2020. Como relatamos em 2022, a ACM retratou mais de 300 artigos de conferência de uma só vez .

Oppenlaender argumentou no preprint que a ACM move pelo menos uma parte de seus artigos retratados para um “arquivo obscuro”, o que “significa que alguns conteúdos retratados ou removidos podem não aparecer em nenhum banco de dados público, incluindo o Retraction Watch, o que pode levar à subnotificação das retratações da ACM”.

“Isso não condiz com a realidade”, disse-nos Scott Delman, diretor de publicações da ACM, por e-mail. “Artigos que são ‘removidos’ por um dos motivos indicados em nossa Política [de Retratações] ainda teriam páginas de citação disponíveis, juntamente com um Aviso de Remoção.”

Quanto à ACM ser uma anomalia no que diz respeito aos motivos para retratação, “O que eu diria é que nosso limite para comprovar má conduta é ‘extremamente alto'”, disse Delman. “A qualquer momento, a ACM está investigando bem mais de 100 alegações de má conduta.”

Em 2023, a ACM afirmou que iria retratar dois artigos de um pioneiro dos deepfakes por má conduta. Eles ainda não foram retratados. Quando pedimos uma atualização sobre esses artigos, Delman nos disse que “um recurso foi apresentado de acordo com a Política de Recursos da ACM, e este caso está aguardando uma revisão formal pelo Comitê de Recursos da ACM”.

Oppenlaender também descobriu que o intervalo entre a publicação de um artigo e sua retratação variava de semanas a anos, com o “atraso” da PLOS apresentando uma média de mais de quatro anos. O tempo relativamente curto entre a publicação e a retratação de um artigo no IEEE — 41 dias — “mostra que é viável emitir retratações rápidas em larga escala”, afirmou. Quase todas as suas retratações, mais de 99%, foram concluídas em menos de um ano, de acordo com o preprint. 

Tanto a Elsevier quanto a Springer Nature apresentaram um “crescimento constante” nas taxas de retratação na última década. Quanto à geografia, a Springer Nature teve um conjunto de retratações de pesquisadores na Índia classificados como “Editor Desonesto”, o que “é praticamente exclusivo entre as editoras analisadas”, disse Oppenlaender. 

Nosso banco de dados usa a classificação “Editor Desonesto” para retratações causadas por credenciais de editor falsas ou forjadas, ou quando um editor subverte pelo menos um processo sob sua responsabilidade. O agrupamento corresponde às retratações em massa que já abordamos . 

De acordo com o estudo preliminar, em cada uma das nove editoras com o maior número de retratações, os autores afiliados à China “representam a maior parcela de retratações em todas as editoras analisadas, refletindo pressões sistêmicas”. Em termos de nacionalidade dos autores dos trabalhos retratados, a China representou 52,54%, a Índia 7,25%, os EUA 5,72%, a Arábia Saudita 2,83%, o Irã 2,51% e o Reino Unido 2,10%.

Com reportagem de Avery Orrall


Fonte: Retraction Watch

Monitorar a água, liberar o veneno: o paradoxo dos agrotóxicos no governo Lula

O governo lança ferramentas de monitoramento hídrico ao mesmo tempo em que consolida o Brasil como o líder mundial de consumo de agrotóxicos

O anúncio do governo Lula sobre a criação de um painel de monitoramento de agrotóxicos nas bacias hidrográficas brasileiras expõe uma contradição política difícil de ignorar. Ao mesmo tempo em que o Ministério do Meio Ambiente apresenta a iniciativa como um avanço em transparência e prevenção de riscos ambientais, o próprio governo Lula vem acumulando recordes na liberação de novos agrotóxicos, incluindo princípios ativos proibidos na União Europeia devido aos seus comprovados riscos à saúde humana e ao meio ambiente. O resultado é um cenário paradoxal: monitora-se cada vez mais a contaminação da água enquanto se amplia simultaneamente a autorização para o uso das substâncias responsáveis por essa mesma contaminação. 

O discurso oficial procura associar o monitoramento à ideia de responsabilidade ambiental e sustentabilidade agrícola. Contudo, essa narrativa entra em choque com a política concreta de expansão do mercado de agrotóxicos no Brasil. Desde o início do atual governo, centenas de novos registros comerciais de agrotóxicos foram autorizados, muitos deles contendo substâncias que países europeus já decidiram retirar de circulação por seu potencial cancerígeno, neurotóxico, desregulador endócrino ou persistente no ambiente. Assim, o monitoramento anunciado corre o risco de funcionar mais como instrumento de gestão da contaminação do que como política efetiva de prevenção.

A contradição se torna ainda mais evidente quando autoridades federais afirmam que “competitividade e sustentabilidade não podem caminhar separadas”, enquanto a estrutura regulatória brasileira continua profundamente orientada para atender às demandas do agronegócio exportador dependente de agrotóxicos. Na prática, o país permanece consolidando sua posição como um dos maiores mercados consumidores de agrotóxicos do planeta, inclusive de princípios ativos rejeitados em outras partes do mundo.

Há ainda uma questão estrutural que fragiliza o alcance real dessa iniciativa. Após a aprovação do chamado “Pacote do Veneno”, o poder decisório sobre a liberação de novos agrotóxicos foi significativamente concentrado no Ministério da Agricultura, historicamente mais permeável às pressões das corporações multinacionais que monopolizam a produção de venenos agrícolas e das grandes entidades do agronegócio. Isso significa que, mesmo que o monitoramento identifique níveis preocupantes de contaminação em rios, aquíferos e bacias hidrográficas, não existe garantia de que essas informações resultarão em restrições efetivas ou na proibição das substâncias detectadas.

O problema é que monitorar não equivale automaticamente a proteger. Um painel pode produzir mapas sofisticados, estatísticas detalhadas e relatórios públicos, mas continuará sendo insuficiente se não houver disposição política para enfrentar as causas da contaminação. E essas causas estão diretamente ligadas ao modelo agrícola dominante e à contínua flexibilização regulatória promovida pelo próprio Estado brasileiro.

Os dados apresentados no lançamento do painel já revelam um quadro preocupante. Mais de 10 mil análises foram realizadas, com detecção de agrotóxicos em 7,2% das amostras, sendo o S-Metolacloro o composto mais frequentemente encontrado. O fato de substâncias químicas aparecerem de maneira recorrente nos recursos hídricos brasileiros deveria acender um alerta sanitário nacional, sobretudo em um país onde milhões de pessoas dependem diretamente dessas águas para abastecimento, pesca, agricultura familiar e consumo cotidiano.

Nesse contexto, a iniciativa do governo parece caminhar sobre uma linha ambígua: de um lado, reconhece oficialmente os impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos; de outro, mantém e amplia a política de liberação dessas substâncias. Sem enfrentar essa contradição central, o risco é que o monitoramento se transforme apenas em um grande inventário da contaminação progressiva das águas brasileiras — um mecanismo de observação da crise, mas não de sua contenção.

Cientistas alertam que o El Niño pode intensificar os eventos climáticos extremos em 2026

O surgimento de um forte padrão climático El Niño este ano, em um mundo que está aquecendo como resultado das mudanças climáticas causadas pelo homem, pode alimentar extremos climáticos “sem precedentes”, alertaram cientistas do clima

Incêndio arde no tronco de uma árvore em Vilar de Condes, Galiza, Espanha, 15 de agosto de 2025. REUTERS/Nacho Doce 

Por Mateo Civillini, edição de Megan Rowling, para “Climate Home News”

Os meteorologistas preveem que o El Niño – o fenômeno climático natural caracterizado por temperaturas da superfície do mar excepcionalmente elevadas no Oceano Pacífico – se desenvolva já neste mês . Alguns especialistas afirmam que, desta vez, o evento poderá ser particularmente intenso.

Cientistas afirmam que a combinação do El Niño com o aumento das temperaturas globais pode fazer de 2026 o ano mais quente ou o segundo mais quente já registrado. Um El Niño anterior contribuiu para que as temperaturas médias globais em 2024 atingissem um recorde de 1,55°C acima dos níveis pré-industriais.

Pesquisadores alertam que um El Niño forte pode intensificar ainda mais as condições climáticas extremas, contribuindo para incêndios e secas mais severos em algumas regiões e tempestades e inundações em outras.

El Niño encontra o aquecimento global

Friederike Otto, professora de ciências climáticas no Imperial College London, afirmou que o El Niño em si “não é motivo para pânico”, mas sim o fato de estar ocorrendo em um contexto de aquecimento global cada vez maior.

“El Niño é um fenômeno natural que vem e vai”, disse ela a jornalistas esta semana. “O que o torna tão dramático não é o evento em si, nem se é um ‘Super El Niño’ ou não, mas sim o fato de estar acontecendo em um clima que está mudando drasticamente.”

“Os recordes ainda serão quebrados devido às mudanças climáticas causadas pelo homem e à queima contínua de combustíveis fósseis”, acrescentou Otto.

A Organização Meteorológica Mundial divulgará sua próxima atualização sobre as perspectivas de um El Niño no final de maio, que, segundo ela, fornecerá orientações mais robustas para a tomada de decisões sobre como proteger as pessoas e a natureza dos impactos associados .

Mesmo antes da provável chegada do fenômeno El Niño, 2026 já se configura como um ano “extraordinário” em termos de eventos climáticos extremos, afirmaram cientistas do grupo de pesquisa World Weather Attribution (WWA).

Em abril, as temperaturas da superfície do mar se aproximaram de seus máximos históricos, enquanto o gelo marinho do Ártico atingiu seu nível mais baixo pelo segundo ano consecutivo. Em março, os Estados Unidos vivenciaram uma onda de calor recorde que teria sido “virtualmente impossível” sem as mudanças climáticas, de acordo com uma análise da WWA.

Risco dramático de incêndios florestais

Em todo o mundo, a temporada de incêndios florestais teve um início dramático. Incêndios recordes na África Ocidental e no Sahel, bem como grandes focos na Índia, no Sudeste Asiático e em partes da China, contribuíram para que o mundo registrasse a maior área queimada de todos os tempos para o período de janeiro a abril, de acordo com Theodore Keeping, pesquisador da WWA.

Ele observou que o surgimento de um evento El Niño poderoso poderia ter um grande impacto na intensificação dos incêndios florestais, aumentando a probabilidade de condições climáticas “severas”, quentes e secas, na Austrália, nos EUA e no Canadá, bem como na floresta amazônica.

“A probabilidade de incêndios extremos e prejudiciais pode ser a mais alta que vimos na história recente, caso um El Niño forte se desenvolva”, acrescentou Keeping.


Fonte: Clima Home News