Com Vorcaro, Flávio mentiu pelos cotovelos e passou liso; com Nossa Senhora, o buraco parece ser mais embaixo

O imbróglio envolvendo Nossa Senhora Aparecida continua dando tração e, a cada tentativa de encerrá-lo, parece ganhar uma nova camada. O que começou com a atribuição incorreta a Flávio Bolsonaro de um antigo projeto destinado a alterar o título de Padroeira do Brasil rapidamente deixou de ser apenas uma controvérsia sobre erro jornalístico. A reação da campanha, as decisões do ministro do TSE André Mendonça, o pedido de prisão de um servidor da Presidência, o tratamento dispensado à jornalista Maria Cristina Fernandes e a explosão das buscas pelo assunto transformaram o episódio numa questão política muito maior.

As reportagens publicadas pelo ICL Notícias, UOL e Jornal GGN, somadas ao artigo de Renato Rovai na Revista Fórum, permitem observar essa mudança de escala. O ponto central já não é apenas saber quem apresentou o projeto original — questão facilmente verificável —, mas entender por que Nossa Senhora Aparecida entrou com tamanha força na campanha presidencial de 2026 e por que as tentativas de retirar o assunto da circulação parecem contribuir para mantê-lo vivo.

De um erro factual a um problema político

É preciso começar pelo que está documentado. Flávio Bolsonaro não apresentou projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil e nega defender essa proposta. O projeto que efetivamente existiu foi o PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Victório Galli, que pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta acabou arquivada em 2008.

A correção desse erro, entretanto, não encerrou a história. Nossa Senhora Aparecida entrou definitivamente na campanha, provocando milhões de interações nas redes sociais, forte crescimento das buscas no Google e uma sucessão de iniciativas políticas e judiciais que continuam alimentando o assunto.

O fantasma de Victório Galli

Há um detalhe importante que impede que o projeto seja tratado simplesmente como uma curiosidade legislativa de quase vinte anos atrás. Victório Galli não é uma personagem desconectada do bolsonarismo. Depois de apoiar Jair Bolsonaro, foi assessor especial da Presidência da República durante seu governo, trabalhando na articulação com a Câmara dos Deputados.

Mais importante para a controvérsia atual, Galli está novamente nas urnas em 2026, concorrendo a deputado federal pelo PP em Mato Grosso, e declarou-se aliado de Flávio Bolsonaro. Isso significa que, embora seja incorreto atribuir ao candidato presidencial o projeto de 2007, também não existe razão institucional para considerar impossível que uma proposição semelhante volte ao Congresso.

Caso Galli seja eleito, poderá apresentar novamente uma proposta com conteúdo semelhante. Não há evidência de que tenha anunciado que fará isso, tampouco de que Flávio Bolsonaro apoiaria tal iniciativa. Mas uma eventual presença simultânea de Galli na Câmara dos Deputados e de Flávio Bolsonaro na Presidência da República certamente daria ao velho projeto um contexto político inteiramente diferente daquele existente quando foi arquivado.

Quando o desmentido produz mais notícia

A reação da campanha contribuiu para ampliar a controvérsia. A pedido de Flávio Bolsonaro, o ministro do TSE André Mendonça determinou a retirada de publicações que atribuíssem ao candidato ou à sua família a intenção de retirar o título de Nossa Senhora Aparecida. Segundo reportagem de Juliana Dal Piva para o ICL Notícias, a decisão alcançou uma extensa relação de publicações e estabeleceu mecanismo para remoção de conteúdos futuros considerados substancialmente equivalentes.

A discussão passou então do conteúdo originalmente falso para uma questão institucional bem mais delicada: até onde pode ir a Justiça Eleitoral no combate à desinformação sem produzir restrições excessivamente amplas ao debate político?

O assunto ganhou outra dimensão quando a campanha de Flávio Bolsonaro pediu ao Ministério Público Eleitoral a prisão preventiva de George Marques, servidor da Presidência que havia compartilhado uma publicação relacionada ao episódio. Segundo reportagem de Letícia Casado e Julia Affonso no UOL, foram solicitadas também busca e apreensão de equipamentos, suspensão do exercício da função pública e restrições ao uso das redes sociais.

Assim, uma controvérsia que poderia talvez ter terminado com uma correção jornalística passou a produzir decisões judiciais, pedidos de prisão, discussões sobre liberdade de expressão e, inevitavelmente, novas manchetes.

Maria Cristina Fernandes e a liberdade de imprensa

O artigo de Renato Rovai publicado na Revista Fórum acrescenta outra dimensão ao episódio ao discutir o tratamento dispensado à jornalista Maria Cristina Fernandes após a divulgação da informação incorreta.

Erro jornalístico precisa ser corrigido, como efetivamente ocorreu. Mas uma democracia também precisa preservar a diferença entre erro jornalístico, interpretação política, desinformação deliberada e atividade criminosa. Quando essas fronteiras começam a desaparecer, a questão deixa de envolver apenas determinado jornalista e passa a alcançar o próprio ambiente em que a imprensa exerce sua função durante uma campanha eleitoral.

E existe aqui uma questão adicional: corrigir uma informação não significa decretar o desaparecimento do assunto que ela colocou em circulação. Jornalistas continuam tendo o direito — e, dependendo do caso, o dever — de investigar as relações políticas, religiosas e institucionais que emergiram da controvérsia.

Nossa Senhora viralizou

Talvez o maior problema para a campanha de Flávio Bolsonaro esteja justamente onde decisões judiciais possuem alcance limitado: o assunto ganhou vida própria. O levantamento divulgado pelo Jornal GGN, com base em dados da Casa Galileia, registrou 7.712 ocorrências e 6,32 milhões de interações relacionadas à controvérsia. No Google, combinações de buscas envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida tiveram crescimento excepcional, enquanto a procura por “Nossa Senhora Aparecida Padroeira” cresceu fortemente. Esses indicadores não demonstram quantas pessoas aderiram a determinada interpretação, mas mostram inequivocamente a dimensão do interesse despertado pelo episódio.

Pode-se remover uma publicação, corrigir uma reportagem e contestar judicialmente uma informação falsa. O que não se consegue apagar com a mesma facilidade são as perguntas que milhões de pessoas passaram a fazer depois que a história entrou na esfera pública.

E Nossa Senhora começa a cobrar a conta

É justamente aqui que aparece um possível custo político para Flávio Bolsonaro. Tudo isso ocorre num momento particularmente importante da campanha presidencial. Cada entrevista destinada a explicar o episódio, cada petição judicial, cada reação a uma postagem, cada pedido de remoção e cada nova manchete sobre Nossa Senhora Aparecida consomem tempo, energia política e recursos que poderiam estar sendo empregados em outras frentes da campanha.

Há ainda uma ironia particularmente incômoda. Levantamento publicado pela agência de checagem Aos Fatos identificou ao menos 43 declarações consideradas enganosas de Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Daniel Vorcaro e o caso Banco Master, apontando sucessivas mudanças de versão à medida que novas informações vieram a público.

É justamente um candidato enfrentando questionamentos dessa natureza sobre sua própria credibilidade que agora precisa convencer o eleitorado de que, no caso de Nossa Senhora Aparecida, a informação divulgada sobre ele é falsa. Uma coisa evidentemente não transforma a outra em verdade: o fato de alguém ter sido acusado de fazer afirmações enganosas sobre determinado assunto não autoriza que se atribua a essa pessoa algo que ela não fez. Mas a ironia política permanece difícil de ignorar.

Depois das controvérsias envolvendo Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro encontra-se agora na posição de exigir que sua palavra seja prontamente aceita justamente quando afirma estar sendo vítima de uma informação falsa. E credibilidade política, depois de desgastada, não é algo que possa ser recomposto por decisão judicial.

Talvez esteja aí o maior problema produzido por esse imbróglio. Nossa Senhora Aparecida não é candidata a nada, mas conseguiu ocupar um espaço considerável na campanha presidencial de 2026. E, num momento particularmente chave da disputa, cada dia dedicado a tentar retirar a santa da eleição significa energia, tempo e recursos que Flávio Bolsonaro deixa de utilizar para tentar colocar a si próprio na Presidência.

Antes de restaurar a Amazônia, será melhor parar de destruí-la

Estudo publicado na Science mostra que impedir desmatamento e degradação é mais eficiente e barato do que reconstruir florestas — e lança uma luz incômoda sobre a financeirização da conservação e as promessas da bioeconomia

Um artigo publicado na revista Science em 17 de setembro traz uma conclusão aparentemente óbvia, mas que deveria provocar alguma inquietação entre os formuladores das atuais políticas de conservação: é muito mais eficiente impedir que uma floresta seja destruída ou degradada do que permitir sua destruição para depois gastar grandes quantidades de dinheiro tentando restaurá-la.

O estudo, liderado por Leonardo S. Miranda e realizado por uma ampla equipe de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, comparou três estratégias de conservação na Amazônia: evitar o desmatamento, impedir perturbações florestais — especialmente incêndios e exploração madeireira — e restaurar áreas já desmatadas. A análise foi realizada nas regiões de Santarém e Paragominas, abrangendo mais de 3 milhões de hectares e utilizando dados de campo e sensoriamento remoto de alta resolução. 

Primeiro não destruir, depois restaurar

Os resultados são contundentes. Impedir perturbações florestais poderia evitar 68,5% das perdas de biodiversidade, enquanto impedir o desmatamento evitaria 60,8% das perdas de carbono. A restauração utilizada isoladamente compensaria apenas 6,5% das perdas de biodiversidade e 14,7% das perdas de carbono. Mais significativo ainda, somente quando a proteção contra desmatamento e contra degradação foi combinada apareceram ganhos líquidos de biodiversidade e carbono em relação à situação inicial. 

Quando os pesquisadores incorporaram os custos econômicos, a diferença aumentou. Para conservar a biodiversidade, evitar perturbações apresentou relação custo-benefício muito superior à restauração; para preservar carbono, evitar o desmatamento foi a alternativa mais eficiente. Há ainda um resultado particularmente revelador: mesmo simulando uma redução de 95% nos custos da restauração, ela continuou menos eficiente economicamente do que evitar previamente a destruição ou degradação da floresta. 

Isso não significa que restaurar seja desnecessário, pois os autores mostram justamente que os maiores benefícios aparecem quando proteção contra desmatamento, prevenção da degradação e restauração são combinadas. O problema é transformar a restauração numa espécie de substituto tecnológico e financeiro para a conservação, quando o próprio artigo conclui que, isoladamente, ela é incapaz de compensar adequadamente as perdas provocadas pela continuidade da destruição florestal.

Quando a Science encontra Monica Piccinini

É nesse ponto que os resultados do estudo dialogam de maneira interessante com textos recentes da jornalista Monica Piccinini publicados neste Blog. Em suas análises sobre os investimentos destinados à conservação e sobre a chamada bioeconomia, Piccinini vem chamando atenção para uma questão que normalmente desaparece por trás do discurso aparentemente consensual sobre a necessidade de financiar a floresta: quem define as prioridades, quem controla os recursos e, finalmente, quem se apropria economicamente da transformação da natureza em ativo?

A crítica de Piccinini não é à conservação em si, mas à formação de uma arquitetura na qual governos, grandes corporações, bancos, fundos, fundações filantrópicas e organizações ambientais passam a convergir em torno de mecanismos de financiamento capazes de transformar carbono, biodiversidade, restauração e bioeconomia em novas oportunidades de investimento. Nesse processo, existe o risco de a floresta deixar de ser considerada primordialmente como território, ecossistema e espaço de reprodução social das populações amazônicas para adquirir valor sobretudo na medida em que possa ser convertida em fluxos financeiros.

Em um texto publicado neste Blog, “A Amazônia não precisa de novos donos”, Piccinini aprofunda justamente esse problema ao discutir quem controla a nova economia da floresta em pé. O risco é que a bioeconomia gere renda sem necessariamente redistribuir poder, mantendo processamento, propriedade intelectual, financiamento e comercialização concentrados longe das comunidades que fornecem território, biodiversidade e conhecimentos tradicionais.

O artigo publicado na Science não analisa essa arquitetura financeira e seria incorreto atribuir essa crítica aos seus autores. Seus resultados, entretanto, acrescentam uma peça importante ao quebra-cabeça ao demonstrar que as intervenções mais eficientes podem ser justamente aquelas menos dependentes da criação de novos mercados ambientais.

E se a solução mais eficiente for justamente a menos financeirizável?

Existe aqui uma contradição que merece ser examinada. Restaurar milhares de hectares pode movimentar fundos de investimento, empresas especializadas, consultorias, créditos de carbono, viveiros, sistemas de certificação, monitoramento por satélite e toda uma nova cadeia de serviços ambientais. A bioeconomia, por sua vez, pode transformar biodiversidade, carbono, recursos genéticos e conhecimentos tradicionais em ativos economicamente mensuráveis. Não derrubar uma floresta que já existe, entretanto, é muito mais difícil de converter em um grande produto financeiro, apesar de os dados apresentados por Miranda e seus colegas mostrarem justamente que proteger a floresta existente oferece resultados extraordinariamente melhores por unidade de dinheiro investido.

Surge daí uma ironia considerável: podemos estar construindo mecanismos financeiros cada vez mais sofisticados para recuperar aquilo que simultaneamente continuamos permitindo que seja destruído. Os próprios pesquisadores lembram que aproximadamente 60 milhões de hectares de terras públicas não destinadas na Amazônia permanecem vulneráveis à grilagem e outras atividades ilegais e alertam que mudanças capazes de enfraquecer o licenciamento ambiental podem criar novas possibilidades legais para o avanço do desmatamento. 

Talvez isso ajude a explicar por que algumas das medidas ambientalmente mais eficientes são também politicamente tão difíceis. Proteger terras públicas, combater a grilagem, fiscalizar a exploração madeireira, impedir incêndios, fazer cumprir a legislação ambiental e conter atividades econômicas responsáveis pela degradação significa confrontar interesses estabelecidos, enquanto criar fundos, mercados e novos instrumentos financeiros pode ser muito mais facilmente apresentado como uma solução capaz de acomodar interesses aparentemente contraditórios.

A floresta não precisa morrer para adquirir valor

O estudo publicado na Science oferece, portanto, uma contribuição que ultrapassa a simples comparação técnica entre diferentes políticas ambientais, pois seus resultados nos obrigam a perguntar onde estamos colocando dinheiro e, principalmente, por quê. Restaurar áreas destruídas continuará sendo indispensável, assim como desenvolver atividades econômicas capazes de gerar renda mantendo a floresta em pé pode ser importante, especialmente quando essas atividades fortalecem a autonomia das populações amazônicas. Mas nenhuma dessas estratégias deveria funcionar como justificativa para tolerar a continuidade do desmatamento e da degradação.

É precisamente nesse ponto que o estudo de Miranda e colaboradores e as análises de Monica Piccinini parecem se encontrar. O primeiro demonstra empiricamente que proteger aquilo que ainda existe pode produzir benefícios ambientais maiores e a custos menores; Piccinini, por sua vez, chama atenção para os limites de uma arquitetura de conservação que tende a privilegiar soluções capazes de gerar ativos, contratos e oportunidades de investimento. A aproximação entre os dois argumentos sugere uma pergunta incômoda: não estaremos desenvolvendo instrumentos cada vez mais sofisticados para financiar as consequências da destruição enquanto deixamos relativamente intocados os mecanismos econômicos que continuam produzindo essa mesma destruição?

A ciência apresentada no artigo da Science nos lembra, afinal, de algo muito mais simples: sai mais barato, conserva mais biodiversidade e mantém mais carbono impedir a destruição e a degradação da floresta que ainda está de pé do que tentar reconstruí-la depois. E talvez seja justamente por essa solução exigir menos engenharia financeira e mais enfrentamento das causas concretas do desmatamento que ela encontre tantas dificuldades para ocupar o centro da chamada economia verde.

Capitalismo das apostas: os brasileiros ficam com as dívidas, e as multinacionais levam a bolada

A explosão das bets expõe uma nova engrenagem da desigualdade: enquanto milhões de brasileiros comprometem sua renda na esperança de enriquecer, grandes conglomerados internacionais transformam as perdas dos apostadores em lucros bilionários

A decisão anunciada pelo governo Lula de proibir as chamadas bets e os cassinos on-line no Brasil representa uma mudança radical em relação ao caminho seguido pelo próprio Estado brasileiro nos últimos anos. Segundo reportagem de Leticia Moreira e Danilo Moliterno, publicada pela CNN Brasil, a Medida Provisória assinada em 25 de setembro impede imediatamente novos aportes, estabelece prazo até 5 de outubro para retirada voluntária dos saldos e determina que, a partir de 6 de outubro, sites e aplicativos de apostas sejam bloqueados. Os valores que permanecerem nas contas deverão ser devolvidos posteriormente aos apostadores por intermédio das instituições financeiras.

A justificativa apresentada pelo governo coloca no centro da questão algo que durante muito tempo ficou subordinado ao debate sobre arrecadação tributária, publicidade e patrocínio esportivo: o custo social das apostas. E os números disponíveis ajudam a compreender por que esse mercado deixou de ser uma questão marginal para se transformar em problema econômico e social de grande escala.

Uma gigantesca máquina de circulação — e retenção — de dinheiro

É preciso inicialmente tomar cuidado com os números. Dinheiro depositado numa bet não corresponde automaticamente a dinheiro perdido e muito menos a endividamento. Em levantamento referente a 2024, o Banco Central estimou que aproximadamente 24 milhões de brasileiros haviam realizado transferências para empresas de apostas. Entre janeiro e agosto daquele ano, essas empresas receberam em média R$ 20,8 bilhões por mês, embora aproximadamente 85% retornassem aos apostadores na forma de prêmios. A diferença, cerca de 15%, constituía aproximadamente a receita efetivamente retida pelo sistema.

Dados posteriores mostram que a escala continuou impressionante. Somente no primeiro semestre de 2025, as empresas autorizadas tiveram R$ 17,4 bilhões de receita bruta de jogos (GGR), isto é, dinheiro apostado menos os prêmios devolvidos. Foram 17,7 milhões de apostadores, com perda efetiva média calculada em aproximadamente R$ 164 mensais por apostador.

Em 2026, o universo já havia alcançado proporções ainda maiores. Dados obtidos junto ao Ministério da Fazenda indicavam que 43,8 milhões de brasileiros já haviam realizado apostas até agosto, equivalentes a cerca de 27% da população adulta. Apenas no primeiro semestre deste ano, os depósitos nas plataformas autorizadas chegaram a aproximadamente R$ 88,5 bilhões.  É aqui que começa a aparecer a dimensão distributiva do problema.

A dívida não pode ser confundida com a aposta, mas os dois fenômenos se encontram

O Brasil chegou a abril de 2026 com 83,3 milhões de pessoas inadimplentes, correspondentes a 50,81% da população adulta. Eram 342 milhões de dívidas negativadas, acumulando mais de R$ 568 bilhões. Seria incorreto afirmar que esse endividamento foi produzido pelas bets, pois bancos e instituições financeiras continuam respondendo pela principal parcela das dívidas.

Mas existe uma interseção preocupante. Levantamento citado pela Serasa informa que 58% dos apostadores admitiam possuir dívidas atrasadas há mais de 90 dias. A própria regulamentação federal reconheceu esse problema ao proibir apostas feitas com cartão de crédito e a concessão de crédito pelas próprias plataformas. Em agosto de 2026, aproximadamente 800 mil pessoas que haviam renegociado dívidas já estavam impedidas de apostar; somadas aos beneficiários de programas sociais e às pessoas que solicitaram autoexclusão, representavam cerca de 10% dos 40 milhões de usuários então cadastrados no sistema oficial.

Talvez nenhum número seja tão revelador quanto aquele encontrado anteriormente pelo Banco Central entre beneficiários do Bolsa Família. Em agosto de 2024, aproximadamente 5 milhões de beneficiários transferiram R$ 3 bilhões às bets em apenas um mês. Cerca de 70% dos apostadores identificados eram chefes de família, responsáveis por aproximadamente R$ 2 bilhões dessas transferências. O próprio Banco Central observou que o apelo da promessa de enriquecimento por meio das apostas tende a ser especialmente poderoso entre pessoas em situação de vulnerabilidade econômica.

Assim, ainda que não possamos transformar mecanicamente os bilhões movimentados pelas bets em bilhões de reais de dívida, podemos afirmar algo talvez mais importante: o capitalismo das apostas encontrou um enorme mercado justamente em uma sociedade profundamente endividada e desigual.

Quem fica do outro lado da mesa?

Existe ainda uma dimensão pouco discutida desse processo. Quando milhões de brasileiros perdem pequenas quantias, quem acumula os ganhos? Entre as empresas que lideraram o mercado brasileiro em 2025 estavam Betano, Bet365, Superbet e Sportingbet. A primeira pertence ao grupo grego Kaizen Gaming, liderado pelo fundador George Daskalakis. A própria companhia descreve sua trajetória como a transformação de uma pequena empresa grega numa corporação global do setor de jogos.

A Bet365 é britânica e permanece sob controle da família Coates, com Denise Coates detendo a participação majoritária do grupo. A Sportingbet pertence à britânica Entain, companhia de capital aberto cujos grandes acionistas incluem fundos e gestores financeiros internacionais. Já a Superbet nasceu na Romênia, foi fundada pelo empresário Sacha Dragic e recebeu investimentos da gigantesca gestora norte-americana Blackstone.

Até marcas apresentadas ao consumidor como brasileiras foram sendo incorporadas à estrutura internacional do setor. Em maio de 2025, a multinacional Flutter Entertainment concluiu a compra de 56% da NSX, controladora da Betnacional, por aproximadamente US$ 350 milhões em dinheiro, integrando a empresa brasileira a um dos maiores conglomerados globais de apostas.

Isso não significa que todo o setor seja estrangeiro. Existem operadores nacionais relevantes, como a Esportes da Sorte, além de outras empresas brasileiras autorizadas pelo Ministério da Fazenda. Em agosto deste ano havia 85 empresas habilitadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas.  O que chama atenção é a presença dominante de grandes grupos internacionais justamente entre as marcas de maior participação no mercado. Estimativas para 2025 colocavam Betano, Bet365 e Sportingbet entre as empresas de maior receita bruta obtida no Brasil.

Uma nova geografia internacional da desigualdade

É nesse ponto que a discussão deixa de ser simplesmente moral ou sanitária e adquire uma dimensão de economia política. As plataformas digitais permitem que empresas sediadas na Europa ou controladas por grandes fundos internacionais explorem, em escala gigantesca, mercados consumidores situados em países muito mais desiguais.

O produto vendido não é uma mercadoria convencional. Ele comercializa essencialmente probabilidade, expectativa e esperança de mobilidade econômica. E quanto mais difícil se torna obter essa mobilidade por meio do salário, do emprego ou das políticas sociais, maior pode ser o apelo da promessa de enriquecimento instantâneo.  Desta forma, com isso tudo surge uma espécie de circuito internacional de transferência de renda. De um lado estão milhões de apostadores realizando depósitos relativamente pequenos, muitos deles vivendo em famílias endividadas ou economicamente vulneráveis; do outro, plataformas capazes de agregar essas pequenas transferências em receitas bilionárias, remunerando acionistas, fundos de investimento e controladores empresariais.

Isso ajuda a explicar por que considero insuficiente analisar as bets apenas como problema de ludopatia. Existe evidentemente uma questão de saúde pública, mas existe igualmente uma questão de classe e de geografia econômica.  A periferia não exporta apenas soja, minério de ferro, petróleo ou outras commodities. Na economia digital, ela pode também exportar renda por meio de algoritmos.

O cassino fechou, mas a pergunta permanece

A decisão do governo federal certamente enfrentará resistência econômica, jurídica e política. O futebol brasileiro, por exemplo, tornou-se profundamente dependente dos patrocínios das casas de apostas, e dirigentes já estimam perdas bilionárias de receitas com a proibição. Também existe um argumento relevante de que simplesmente retirar as empresas regulamentadas pode deslocar apostadores para plataformas clandestinas, tornando ainda mais difícil fiscalizar o mercado.

Por isso, bloquear sites não encerra automaticamente o problema. Será necessário acompanhar a migração para operadores clandestinos, bloquear fluxos financeiros ilegais e, principalmente, enfrentar as condições sociais que transformaram dezenas de milhões de brasileiros em consumidores de uma promessa estatisticamente destinada a produzir mais perdedores do que vencedores.

A explosão das bets talvez tenha revelado algo incômodo sobre o Brasil contemporâneo. Em uma sociedade na qual mais de 80 milhões de adultos convivem com a inadimplência, vender a possibilidade de enriquecimento instantâneo tornou-se um negócio extraordinariamente lucrativo.  E quando a esperança dos pobres se transforma em receita de grandes corporações, inclusive multinacionais, talvez já não estejamos falando simplesmente de jogo. Estamos falando de uma nova engrenagem do capitalismo da desigualdade.

O veneno e a gaveta: o que os documentos da Syngenta revelam sobre o paraquate

A investigação publicada nesta sexta-feira (25) pelo The Guardian, assinada pela jornalista Carey Gillam e realizada em colaboração com o The New Lede, acrescenta novos elementos a uma história que deveria servir de advertência para qualquer país que entregue às próprias fabricantes de agrotóxicos parcela importante da produção das evidências utilizadas para decidir se seus produtos podem permanecer no mercado. O caso envolve o paraquate, herbicida extremamente tóxico produzido durante décadas pela Syngenta e associado por diversos estudos ao desenvolvimento da doença de Parkinson.

A novidade da reportagem está em aproximadamente 3.700 páginas de documentos internos, depoimentos e registros corporativos que vieram à tona em processos judiciais nos Estados Unidos. Segundo o material analisado pelos jornalistas, a Syngenta possuía informações sobre riscos relacionados ao paraquate que não teriam sido fornecidas à Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). Entre elas aparecem estudos sobre a velocidade com que o produto atravessava roupas, sua absorção pela pele e pela corrente sanguínea e os efeitos da mistura do paraquate com surfactantes, substâncias justamente utilizadas para aumentar a eficiência dos herbicidas. A Syngenta contesta essa interpretação e afirma nunca ter deliberadamente omitido das autoridades informações pertinentes ou exigidas pela legislação.

Esse ponto é particularmente importante porque desloca a discussão para além da velha pergunta sobre se existe ou não uma relação causal definitivamente estabelecida entre paraquate e Parkinson. A própria EPA afirma atualmente que examinou centenas de estudos e que não encontrou uma relação clara entre o uso do produto conforme registrado e Parkinson ou câncer. Ao mesmo tempo, a agência reconhece que o paraquate é altamente tóxico, que uma pequena ingestão pode ser fatal e que existem riscos ocupacionais e de exposição de pessoas próximas às áreas pulverizadas.

O problema revelado pelos documentos é anterior à conclusão científica: quem controla as informações que chegam aos órgãos reguladores? A legislação norte-americana determina que fabricantes comuniquem informações que possam indicar efeitos adversos não razoáveis. Entretanto, os documentos apresentados nos processos mostram situações em que dados potencialmente desfavoráveis permaneceram dentro da empresa enquanto outros estudos, considerados mais favoráveis à manutenção do produto no mercado, recebiam atenção e divulgação. Um e-mail interno revelado na investigação chega a registrar a intenção de substituir uma década de pesquisas realizadas por outros cientistas por pesquisas produzidas no âmbito da própria estratégia científica da companhia.

É precisamente aqui que aparece uma das questões mais graves do caso. Quando uma empresa controla simultaneamente o produto, parte dos dados toxicológicos e os recursos financeiros necessários para produzir pesquisas, contratar especialistas e sustentar longas disputas regulatórias e judiciais, surge uma profunda assimetria na produção do conhecimento científico. Não é necessário imaginar uma conspiração para reconhecer o problema. Basta perguntar quem possui dinheiro, laboratórios, advogados e décadas para produzir evidências destinadas a manter um produto lucrativo no mercado.

O contraste internacional torna a situação ainda mais reveladora. Mais de 70 países proibiram o paraquate, a União Europeia não permite seu uso desde 2007 e o Brasil também o baniu. Até mesmo a China — país que controla a Syngenta desde a aquisição pela ChemChina — retirou o produto do mercado doméstico depois de realizar seus próprios estudos sobre exposição dérmica e por inalação. Segundo os documentos citados pelo Guardian, a decisão chinesa de realizar testes independentes chegou a causar preocupação dentro da companhia.

Enquanto isso, o produto permaneceu amplamente utilizado nos Estados Unidos. A EPA ainda permite seu emprego sob fortes restrições, embora esteja reavaliando aspectos importantes da exposição. Em 2025, por exemplo, a agência reconheceu maior incerteza do que anteriormente considerada sobre a possibilidade de volatilização do paraquate e decidiu exigir novos dados dos fabricantes.

Há ainda uma ironia difícil de ignorar: em 2026, a própria Syngenta anunciou que encerraria mundialmente a produção de paraquate, atribuindo a decisão a razões comerciais e negando que ela represente reconhecimento de que o produto cause Parkinson. Paralelamente, milhares de processos continuam tramitando nos Estados Unidos, movidos por pessoas que afirmam ter desenvolvido a doença depois da exposição ao herbicida. A empresa nega responsabilidade, e acordos judiciais realizados até agora não representam admissão de culpa.

Para o Brasil, a reportagem deveria provocar uma reflexão que vai muito além do paraquate, justamente porque aqui ele já está proibido. O verdadeiro problema é saber quantos outros agrotóxicos atualmente autorizados dependem de um sistema no qual parte substancial das evidências utilizadas pelos órgãos reguladores é produzida ou financiada pelas próprias empresas interessadas em comercializá-los.

Esse problema torna-se ainda mais relevante quando observamos a velocidade com que novos produtos comerciais e produtos pós-patente chegam ao mercado brasileiro. A experiência do paraquate mostra que registro regulatório não pode ser confundido com certificado permanente de inocuidade. A ciência muda, novos efeitos aparecem, formas de exposição antes subestimadas são descobertas e, principalmente, documentos empresariais podem revelar que aquilo que o regulador conhecia não correspondia necessariamente a tudo aquilo que a empresa conhecia.

Por isso, talvez a principal lição da investigação de Carey Gillam seja relativamente simples: quando a sociedade depende das empresas para saber quão perigosos são os produtos que essas mesmas empresas lucram vendendo, o princípio da precaução deixa de ser radicalismo ambiental e passa a ser uma exigência elementar de saúde pública.

O caso do paraquate mostra também que a pergunta correta não é apenas se determinado agrotóxico passou pelos procedimentos exigidos para obter registro. É preciso perguntar quem produziu os dados, quem financiou os estudos, quais resultados foram entregues aos reguladores, quais permaneceram nas gavetas das empresas e quanto tempo pode transcorrer até que a sociedade descubra a diferença entre essas duas coisas.

No final das contas, o problema talvez seja exatamente esse: o veneno pode desaparecer do mercado. Seus efeitos, porém, podem permanecer durante décadas nos corpos daqueles que foram expostos a ele.

As bruxas rondam Flávio Bolsonaro: Nossa Senhora Aparecida entra na campanha presidencial

O projeto contra o título da Padroeira não é de Flávio, mas seu autor virou assessor de Jair Bolsonaro, enquanto a aproximação da família com setores do evangelicalismo conservador ajuda a explicar por que essa velha história voltou para assombrar a campanha presidencial

A eleição presidencial ganhou nos últimos dias um componente religioso que talvez ninguém imaginasse capaz de produzir tamanho ruído: entrou no debate a antiga proposta de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil e as possíveis conexões políticas entre aquele episódio e o ambiente religioso que hoje cerca a candidatura de Flávio Bolsonaro. É importante começar estabelecendo que não existe projeto de autoria de Flávio Bolsonaro com esse objetivo, nem evidência disponível de que o candidato tenha assumido pessoalmente essa proposta. Mas, como diz a conhecida frase, “no creo en brujas, pero que las hay, las hay”, pois a inexistência dessa ligação direta não significa que as conexões políticas e religiosas existentes em torno dessa história devam simplesmente ser ignoradas.

O projeto existiu — mas não era de Flávio Bolsonaro

Em dezembro de 2007, o então deputado federal Professor Victorio Galli apresentou o PL 2.623/2007, propondo modificar a Lei 6.802/1980 para que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser denominada “Padroeira do Brasil” e passasse a ser definida como “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O próprio Galli escreveu na justificativa que a alteração retiraria o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, argumentando que o Estado brasileiro, por ser laico, não deveria possuir padroeiro. O projeto acabou rejeitado e arquivado em agosto de 2008.

Portanto, o projeto existiu, mas não era de Flávio, Jair ou Eduardo Bolsonaro, e esse ponto precisa ser estabelecido para que não se transforme uma conexão política posterior em falsa autoria. A história, entretanto, possui um epílogo que não pode simplesmente ser ignorado: Victorio Galli, pastor ligado à Assembleia de Deus e posteriormente integrante do PSL, aproximou-se do bolsonarismo e, em 2019, foi nomeado assessor especial da Presidência da República durante o governo Jair Bolsonaro. Não é correto transferir retroativamente para a família Bolsonaro a responsabilidade por um projeto apresentado por Galli doze anos antes dessa nomeação, mas tampouco seria razoável fingir que o autor daquela proposta permaneceu completamente estranho ao universo político construído posteriormente em torno do bolsonarismo.

Quando religião e projeto político começam a se misturar

Existe ainda outro elemento que ajuda a compreender por que uma história tão antiga voltou ao debate em 2026. Flávio Bolsonaro vem construindo publicamente sua candidatura com forte utilização de símbolos e linguagem religiosa, chegando a declarar que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Independentemente da intenção atribuída ao candidato, uma frase desse tipo adquire inevitável significado político quando pronunciada por alguém que pretende presidir um país constitucionalmente laico e caracterizado por enorme diversidade religiosa.

É nesse terreno que aparece a interpretação desenvolvida pelo pesquisador Fábio Py por meio do conceito de cristofascismo. Ao analisar a construção religiosa em torno de Flávio Bolsonaro, Py identifica uma narrativa baseada em “chamado”, “missão” e escolha divina, transportando categorias teológicas para o terreno da disputa política. Trata-se de uma categoria analítica utilizada pelo pesquisador, e não de uma caracterização consensual de Flávio Bolsonaro ou dos evangélicos brasileiros, mas ela oferece uma chave interpretativa importante para compreender a utilização crescente de uma gramática religiosa na disputa pelo poder.

Também são documentadas as aproximações de Flávio Bolsonaro com lideranças e grandes denominações evangélicas, entre elas figuras como André Valadão e Silas Malafaia, ainda que as relações com essas lideranças não sejam necessariamente lineares e tenham atravessado momentos de aproximação, tensão e recomposição. Nada disso demonstra que Flávio Bolsonaro pretenda retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, mas ajuda a compreender por que essa questão encontra combustível político, especialmente quando religião e campanha eleitoral passam a compartilhar uma linguagem na qual as fronteiras entre fé, identidade religiosa e projeto de poder se tornam cada vez menos nítidas.

O paradoxo da padroeira

É justamente aqui que aparece a maior ironia dessa história, pois Flávio Bolsonaro chegou à disputa presidencial convivendo com controvérsias muito mais diretamente relacionadas à sua própria trajetória política. O antigo caso das chamadas “rachadinhas”, por exemplo, terminou sem processo criminal depois da anulação judicial de provas, embora tenha deixado questões que continuam sendo debatidas publicamente. Mais recentemente, seu nome voltou a aparecer associado a denúncias e investigações envolvendo corrupção, lavagem de dinheiro e relações políticas com personagens sob investigação, acusações que precisam ser tratadas como tais enquanto não houver decisões judiciais que estabeleçam responsabilidades.

Nesse contexto, seria politicamente curioso que uma candidatura capaz de atravessar denúncias de grande gravidade encontrasse uma dificuldade particularmente sensível em uma controvérsia essencialmente religiosa e simbólica. Isso ocorre porque símbolos religiosos operam em uma dimensão diferente daquela dos inquéritos, processos e investigações: eles mobilizam identidade, pertencimento e memória coletiva, e Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar especialmente poderoso nesse universo para milhões de brasileiros.

O episódio traz inevitavelmente à memória o famoso “chute na santa”, ocorrido em 1995, quando o ataque de um bispo da Igreja Universal a uma imagem de Nossa Senhora Aparecida provocou enorme reação social e colocou sob tensão as relações entre determinados segmentos evangélicos e católicos. Três décadas depois, ninguém chutou imagem alguma e não existe projeto de Flávio Bolsonaro retirando o título da padroeira, mas a memória histórica permanece disponível e pode ser reativada rapidamente quando aparecem elementos capazes de sugerir novamente um conflito entre determinados projetos religiosos e símbolos profundamente enraizados no catolicismo popular brasileiro.

Por isso, talvez a pergunta politicamente mais interessante não seja se Flávio Bolsonaro pretende retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de Padroeira do Brasil, pois até agora as evidências disponíveis não sustentam essa afirmação. A questão mais reveladora está em compreender por que essa associação adquiriu plausibilidade política, já que ela não nasceu do nada: existe um projeto verdadeiro apresentado por um parlamentar evangélico que posteriormente trabalhou no governo Jair Bolsonaro; existe uma crescente associação política entre a família Bolsonaro e setores conservadores do evangelicalismo; e existe uma candidatura presidencial que incorporou explicitamente a linguagem religiosa à sua estratégia política.

É justamente nesse intervalo entre aquilo que não pode ser atribuído diretamente a Flávio Bolsonaro e as conexões políticas que efetivamente existem que está o aspecto mais interessante desta história. Se a controvérsia religiosa adquirir importância na campanha, haverá uma ironia difícil de ignorar: depois de atravessar denúncias de rachadinhas, suspeitas financeiras e outras controvérsias graves sem que nenhuma delas, isoladamente, tenha encerrado sua trajetória política, Flávio Bolsonaro poderá descobrir que a mistura entre religião e política também produz riscos inesperados para quem dela procura retirar dividendos eleitorais. Afinal, quando a religião é trazida para dentro da arena política, ninguém controla completamente quais símbolos, memórias e contradições serão despertados.

E talvez seja exatamente por isso que o velho ditado se encaixe tão bem neste episódio: no creo en brujas, pero que las hay, las hay.

E salve-nos, Fábio Porchat

Quando um comediante precisa fazer o trabalho que a mídia e a esquerda institucional deixaram de fazer

Uma coisa me ocorreu sobre o resultado fenomenal do vídeo de Fábio Porchat que desvelou as relações íntimas entre Daniel Vorcaro e uma plêiade de figuras que transitam pela política nacional e por setores das igrejas evangélicas, às vezes juntos, outras vezes separados. Em pouco mais de meia hora, Porchat conseguiu transformar uma trama complexa, envolvendo relações financeiras, políticas, empresariais e religiosas, em uma narrativa compreensível para milhões de pessoas. O alcance do episódio não foi apenas resultado da dimensão das revelações, mas também da capacidade de comunicação de Porchat, que soube apresentar a teia de relações e, principalmente, mostrar como ela foi sendo construída ao longo do tempo. Crédito, portanto, a Porchat e à equipe que preparou o material investigativo que ele magistralmente soube traduzir para um público muito mais amplo.

Mas o sucesso de Porchat também revela algo muito mais incômodo: o fracasso não apenas da mídia corporativa brasileira, mas também do PT e de seus aliados, que vêm sendo progressivamente engolidos pela máquina de comunicação do bolsonarismo, a ponto de essa máquina conseguir dar sobrevida eleitoral a um candidato cercado por relações e episódios que, no mínimo, exigem explicações. O fenômeno Porchat expõe, assim, um vazio que não deveria existir. Quando um comediante consegue organizar e comunicar em poucas horas aquilo que uma parcela importante da imprensa não conseguiu — ou não quis — transformar em informação acessível para a maioria da população, há alguma coisa profundamente errada no funcionamento da comunicação política brasileira.

A posição da mídia corporativa pode ser explicada, em boa medida, pelos interesses que se entrelaçam com aqueles que agora foram deixados nus em praça pública pelo trabalho de Porchat, incluindo figuras centrais do bolsonarismo como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira. O problema do PT, entretanto, é de outra natureza e talvez seja ainda mais profundo. O partido tem nas mãos a máquina federal e dispõe de ferramentas poderosas de comunicação, mas parece incapaz de utilizá-las para disputar de maneira consequente a narrativa política do país. E aqui não quero colocar a culpa apenas na incompetência das equipes de campanha de Lula ou nos dirigentes partidários que controlam cuidadosamente aquilo que pode ou não ser dito pelo presidente e pelos demais candidatos do partido. O problema, a meu ver, é mais estrutural: o PT se tornou também parte da irmandade que Porchat revelou, ainda que quase sempre na condição desconfortável de penetra.

É justamente por isso que é tão duro admitir que um comediante possa estar fazendo aquilo que a esquerda institucional e boa parte do jornalismo brasileiro deveriam ter feito há muito tempo. E digo isso sendo fã de Porchat desde muito antes do vídeo arrasador que agora está remexendo as placas tectônicas da campanha eleitoral de 2026. O problema, portanto, não é Porchat ocupar esse espaço. Pelo contrário. O problema é que tenha sido necessário um comediante ocupá-lo. Isso diz muito sobre a falência do projeto de esquerda capitaneado pelo PT e sobre a incapacidade de seus dirigentes de compreender que, na política contemporânea, não basta administrar o Estado: é preciso disputar a produção de sentidos, desmontar narrativas adversárias e falar com a sociedade em uma linguagem que ela efetivamente consiga ouvir.

O mais irônico é que o vídeo de Porchat demonstra que ainda existe uma enorme demanda por informação política capaz de conectar os pontos, revelar as relações e explicar aquilo que a avalanche cotidiana de notícias costuma fragmentar. A resposta do público foi gigantesca. O episódio chegou ao primeiro lugar do ranking Hype do YouTube em menos de 24 horas e seus cortes passaram a circular massivamente pelas redes sociais. Não se trata, portanto, de uma sociedade desinteressada pela política. Trata-se de uma sociedade que está sendo mal informada, mal atendida e, sobretudo, abandonada por aqueles que deveriam disputar esse espaço.

Por isso, mesmo reconhecendo a contribuição extraordinária de Porchat, é difícil não enxergar a ironia — e até a tragédia — de que um comediante tenha se transformado em um dos mais eficientes tradutores de uma trama política que envolve banqueiros, igrejas, empresários e candidatos à Presidência da República. Se um vídeo de humor precisa fazer o trabalho que partidos, governos e veículos de comunicação deveriam estar fazendo, talvez o problema não esteja apenas no bolsonarismo. Talvez esteja também em quem permitiu que o bolsonarismo ocupasse praticamente sozinho o terreno da comunicação política.

E é justamente aí que a questão deixa de ser apenas eleitoral. Mesmo que Lula vença as eleições, teremos de reconhecer que as perspectivas para a classe trabalhadora brasileira continuarão sendo obscuras se o projeto político que se apresenta como alternativa à direita continuar incapaz de enfrentar os mecanismos econômicos, midiáticos e políticos que produzem e reproduzem esse poder. Ganhar uma eleição não é o mesmo que recuperar a capacidade de disputar a sociedade. E administrar o governo tampouco significa reconstruir um projeto de transformação social.

Assim, resta reconhecer o que talvez seja a parte mais desconcertante de toda essa história: em uma campanha eleitoral na qual bilhões de reais, enormes estruturas partidárias, máquinas governamentais e exércitos de profissionais da comunicação estão mobilizados, foi um comediante quem conseguiu abrir uma fresta na cortina e mostrar ao público algumas das conexões que estavam sendo cuidadosamente embaralhadas.

E salve-nos, Fábio Porchat!

Nova reforma da Previdência: mais uma vez, a conta do ajuste sobre os trabalhadores

O Brasil volta a discutir uma nova reforma da Previdência poucos anos depois das mudanças aprovadas em 2019. A proposta em debate parte do envelhecimento da população e da queda da fecundidade para defender novas alterações nas regras de aposentadoria, entre elas a elevação da idade mínima para 67 anos, mudanças nas regras de categorias especiais, alterações na contribuição dos MEIs e a introdução de um modelo híbrido que combinaria o atual sistema de repartição com mecanismos de capitalização.

É nesse contexto que merece atenção a análise apresentada por Paulo Lindesay, diretor da ASSIBGE-SN, coordenador do Núcleo Sindical Canabarro e coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida do Núcleo RJ. Em sua Nota Técnica, intitulada “Análise Crítica: A Proposta de ‘Nova Previdência’ e os Rumos da Seguridade Social no Brasil”, Lindesay questiona a ideia de que o envelhecimento demográfico seja suficiente para explicar os problemas de financiamento da Previdência. Para o autor, é necessário considerar também a precarização do trabalho, a informalidade e a redução da base de trabalhadores com vínculos formais de contribuição.

Os dados utilizados na nota ajudam a dimensionar essa questão. Embora o Brasil tivesse 103,3 milhões de pessoas ocupadas no trimestre encerrado em julho de 2026, apenas 39,4 milhões eram empregados privados com carteira assinada. Para Lindesay, esse quadro evidencia que discutir exclusivamente o aumento da idade para aposentadoria significa deixar em segundo plano um problema estrutural: a deterioração das condições de trabalho e seus efeitos sobre a própria capacidade de financiamento da Previdência.

A crítica também alcança a proposta de capitalização. Na avaliação de Lindesay, a transferência de parte da proteção previdenciária para contas individuais administradas pelo mercado financeiro  significará uma transferência adicional de riscos para os trabalhadores, especialmente em uma economia marcada pela informalidade e pela instabilidade dos vínculos ocupacionais. A nota também questiona o aumento da contribuição dos pequenos contribuintes e defende que o debate deveria incorporar outras fontes de financiamento, incluindo a tributação de grandes fortunas e dividendos, a contribuição das plataformas digitais, o combate à evasão e a cobrança de grandes devedores.

A contribuição mais importante da análise de Paulo Lindesay está, portanto, em deslocar o debate da pergunta sobre quanto a Previdência deve cortar ou economizar para uma questão mais ampla: quem deve financiar a Seguridade Social brasileira e como esse financiamento deve ser distribuído entre os diferentes segmentos da sociedade? É uma discussão que não pode ser reduzida a cálculos atuariais, pois envolve também o futuro do trabalho, a desigualdade social e a própria concepção de proteção social estabelecida pela Constituição de 1988.

Para quem quiser conhecer integralmente os argumentos apresentados pelo autor, disponibilizamos abaixo a Nota Técnica de Paulo Lindesay:

Leia ou baixe Aqui! a Nota Técnica “Análise Crítica: A Proposta de ‘Nova Previdência’ e os Rumos da Seguridade Social no Brasil”

Quando a Meta decide o que o Brasil pode ver: o estranho caso do vídeo de Fábio Porchat

Há momentos em que um episódio aparentemente pontual revela algo muito maior do que ele próprio. O que aconteceu nesta quarta-feira (23/9) com o perfil da série “Revelando”, apresentado por Fábio Porchat, é um desses casos.

O Instagram, plataforma controlada pela Meta, retirou temporariamente do ar o perfil da série justamente quando um de seus episódios mais controversos e de maior repercussão começava a alcançar milhões de pessoas. O vídeo aborda as relações entre a Igreja Batista da Lagoinha, a família Vorcaro e o Banco Master, além de trazer informações sobre relações financeiras e políticas que aparecem nas investigações em curso.

A justificativa inicial da Meta foi praticamente um exercício de opacidade: o conteúdo teria violado os “padrões” da plataforma. Qual padrão teria sido violado, qual trecho teria provocado a remoção e quais critérios foram utilizados para tomar a decisão não foram esclarecidos de forma suficientemente clara. Depois, veio a reviravolta: a Meta realizou uma “revisão interna”, devolveu o perfil ao ar e pediu desculpas pelo ocorrido.

É exatamente nesse ponto que o episódio deixa de ser apenas uma ocorrência envolvendo uma rede social e passa a ser uma questão de democracia. Não há, até aqui, elementos públicos suficientes para afirmar que a Meta tenha retirado o conteúdo deliberadamente para proteger a Igreja Batista da Lagoinha, Daniel Vorcaro, o Banco Master, algum político ou qualquer outro personagem mencionado na reportagem. Seria irresponsável transformar essa possibilidade em certeza. Mas também seria ingênuo ignorar que uma empresa privada possui hoje a capacidade de retirar temporariamente uma reportagem do espaço público sem precisar explicar imediatamente, de forma satisfatória, por que tomou essa decisão.

Quem decide o que pode circular?

É preciso começar por uma distinção importante. É legítimo que uma plataforma privada estabeleça regras de utilização e disponha de mecanismos de moderação. Diante da quantidade gigantesca de conteúdos publicados diariamente nas redes sociais, algum tipo de moderação é inevitável. O problema surge quando uma plataforma retira do ar um conteúdo jornalístico de evidente interesse público, não informa claramente qual regra foi violada e, algumas horas depois, simplesmente volta atrás.

Nesse caso, permanecem perguntas relevantes: qual regra foi efetivamente violada? Quem tomou a decisão de retirar o perfil? A decisão foi automatizada ou tomada por uma pessoa? Houve denúncias contra o conteúdo? Por que a revisão posterior chegou a uma conclusão diferente? E, se a primeira decisão estava errada, quantas outras decisões semelhantes podem permanecer sem revisão?

Essa questão vai muito além de Fábio Porchat, do Banco Master ou da Igreja Batista da Lagoinha. Ela diz respeito ao funcionamento da democracia digital e ao poder crescente das grandes plataformas sobre a circulação da informação.

Durante décadas, aprendemos a discutir censura pensando no Estado, nos governos e nos órgãos de repressão. A experiência contemporânea acrescentou um novo personagem a essa equação: as grandes plataformas digitais. Elas não são governos e não devem ser confundidas com governos, mas possuem uma capacidade extraordinária de interferir na circulação da informação e, consequentemente, nas condições em que o debate público acontece.

O algoritmo também produz efeitos políticos

Existe uma tendência de imaginar que uma decisão algorítmica é necessariamente neutra porque não foi tomada diretamente por uma pessoa. Não é. Algoritmos são construídos segundo critérios definidos por empresas, treinados com determinados conjuntos de dados e submetidos a regras estabelecidas por seres humanos. Quando esses sistemas classificam um conteúdo como inadequado, perigoso ou passível de remoção, produzem consequências concretas.

Um erro algorítmico pode silenciar uma reportagem; uma denúncia em massa pode provocar a retirada de um conteúdo; uma classificação equivocada pode reduzir drasticamente seu alcance; e uma decisão tomada em poucos segundos pode atingir uma audiência que levou meses ou anos para ser construída. Portanto, mesmo que ninguém dentro da Meta tenha decidido conscientemente retirar a reportagem de Fábio Porchat, o efeito político da decisão continua existindo. A ausência de intenção política não elimina necessariamente o efeito político de uma decisão tomada por uma plataforma.

Essa talvez seja uma das questões mais importantes colocadas pelo episódio. Um erro de moderação pode retirar uma reportagem do alcance de milhões de pessoas, uma classificação equivocada pode interromper a circulação de uma investigação e uma denúncia coordenada pode produzir efeitos semelhantes aos de uma decisão editorial. Uma empresa pode posteriormente corrigir tudo, mas o dano à circulação da informação já terá ocorrido.

E o que exatamente estava sendo investigado?

O episódio do Revelando não trata de uma fofoca sobre celebridades. O roteiro procura estabelecer conexões entre a Igreja Batista da Lagoinha e a família Vorcaro, passando por relações familiares, doações, negócios e política. A narrativa parte, entre outros elementos, do casamento de Natália Vorcaro com Fabiano Zettel, celebrado por André Valadão, e reconstrói relações que remontam a décadas.

O programa também aborda as investigações envolvendo o Banco Master e a atuação atribuída pela Polícia Federal a Fabiano Zettel, além de apresentar informações sobre doações políticas e sobre as relações de Daniel Vorcaro com integrantes da política brasileira.

É justamente aqui que uma ressalva precisa ser feita. Investigação não é condenação, prisão preventiva não é sentença e suspeita não é prova definitiva. O próprio texto de apresentação do episódio registra que Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel estavam presos preventivamente e não haviam sido condenados até a publicação do vídeo.

Essa cautela é necessária porque jornalismo investigativo não pode ser confundido com julgamento antecipado. Mas a existência dessa cautela não diminui a relevância pública das perguntas apresentadas pela reportagem. Ao contrário, é justamente porque essas questões envolvem dinheiro, instituições religiosas, sistema financeiro e política que elas precisam ser discutidas publicamente.

A remoção acabou produzindo o efeito contrário

Há ainda um elemento quase irônico nessa história. O episódio já havia alcançado enorme repercussão no YouTube, e a retirada do perfil do Revelando no Instagram acrescentou um novo componente à história: a própria intervenção da Meta.

De repente, milhares de pessoas passaram a discutir não apenas o conteúdo da reportagem, mas também a pergunta sobre por que ela havia sido retirada. O episódio deixou de ser apenas uma reportagem sobre Banco Master, Lagoinha, Vorcaro e política e passou a ser também uma reportagem sobre o poder das plataformas de decidir o que circula.

Esse é um dos paradoxos da comunicação digital contemporânea: uma intervenção destinada a reduzir a circulação de determinado conteúdo pode produzir exatamente o efeito contrário quando desperta uma discussão sobre liberdade de expressão e controle das plataformas.

O pedido de desculpas não encerra o problema

A Meta merece ser cobrada não apenas pela decisão inicial, mas também pela falta de transparência sobre ela. Se houve um erro, é importante saber qual foi o erro. Se houve uma denúncia, é importante saber como ela foi processada. Se houve uma decisão automatizada, é importante saber por que o sistema classificou o conteúdo daquela maneira. Se houve uma decisão humana, é importante saber quais critérios foram utilizados.

Não se trata de exigir que a Meta revele mecanismos internos que possam comprometer seus sistemas de segurança. Trata-se de algo mais simples: transparência sobre decisões que interferem diretamente na circulação de informação de interesse público.

A empresa devolveu o perfil e pediu desculpas. Isso é positivo. Mas uma pergunta continua sem resposta: por que o perfil foi retirado em primeiro lugar?

O poder das Big Techs é um problema democrático

O caso também deveria servir para ampliar uma discussão que frequentemente fica escondida atrás das guerras políticas do cotidiano. As grandes empresas de tecnologia acumularam um poder gigantesco sobre a comunicação contemporânea. Elas determinam quais conteúdos serão recomendados, quais serão reduzidos em alcance, quais receberão advertências, quais poderão ser monetizados e quais serão removidos.

Em determinadas circunstâncias, essas empresas também podem determinar quais contas inteiras poderão desaparecer temporariamente do espaço público. Isso significa que parte significativa daquilo que chamamos de “opinião pública” é hoje mediada por empresas privadas que não foram eleitas por ninguém.

Esse fato não significa que essas empresas sejam necessariamente inimigas da democracia. Significa que seu poder precisa ser submetido a mecanismos de transparência e responsabilização compatíveis com a dimensão que alcançaram. Uma coisa é administrar uma rede social. Outra, muito diferente, é possuir a capacidade de interferir na circulação de informações que interessam a milhões de cidadãos.

Hoje foi Porchat. Amanhã pode ser qualquer outro

É justamente por isso que seria um erro transformar esse episódio em uma disputa entre quem gosta ou não de Fábio Porchat, entre apoiadores ou críticos da Lagoinha, ou entre simpatizantes e adversários de qualquer corrente política. O problema é maior.

Hoje é uma reportagem sobre o Banco Master. Amanhã poderá ser uma investigação sobre corrupção ambiental. Depois poderá ser uma denúncia envolvendo uma empresa multinacional. Em outro momento poderá ser uma reportagem sobre abusos cometidos por uma autoridade pública. Em todos esses casos, haverá alguém utilizando uma plataforma privada para decidir se aquela informação merece ou não continuar circulando.

É por isso que a democracia digital não pode depender exclusivamente da boa vontade dos donos das plataformas. Precisamos de regras claras, transparência, mecanismos de recurso e capacidade efetiva de escrutinar decisões que tenham impacto relevante sobre a circulação da informação.

O episódio deixa uma pergunta incômoda

O caso Fábio Porchat não permite, neste momento, afirmar que houve censura deliberada por parte da Meta. Mas permite afirmar algo talvez ainda mais importante: uma empresa privada foi capaz de retirar temporariamente do espaço público um conteúdo jornalístico de enorme repercussão e depois restaurá-lo sem oferecer uma explicação suficientemente detalhada sobre a origem da primeira decisão.

Isso deveria preocupar qualquer pessoa interessada no funcionamento da democracia, independentemente de concordar ou não com Fábio Porchat, com o Revelando, com a Igreja Batista da Lagoinha, com os personagens citados na reportagem ou com qualquer uma das interpretações apresentadas no episódio.

Liberdade de expressão não significa apenas ter a possibilidade formal de produzir uma informação. Na sociedade contemporânea, significa também ter condições para que essa informação circule. E aquilo que não circula dificilmente consegue participar efetivamente do debate público.

Esse é o ponto que não deveria ser perdido em meio à disputa política em torno do vídeo. A Meta voltou atrás, mas o episódio deixou exposta uma questão que continuará conosco por muito tempo: quem vigia os vigilantes da esfera pública digital?

Mais importante ainda, o caso nos obriga a perguntar quem garante que um erro de uma plataforma privada não se transforme, mesmo que por algumas horas, em uma forma de silêncio público.

Assista ao episódio completo

O episódio “Revelando: Grandes Igrejas, Master Negócios”, apresentado por Fábio Porchat, está disponível no YouTube.

Assista ao vídeo completo no YouTube

Wiley está investigando capítulo de livro sobre biodiversidade por uso de referências falsas

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Por Retraction Watch

Ao ler um capítulo de um livro de 2024 sobre a restauração da biodiversidade em terras pós-industriais no início deste mês, uma ecologista se deparou com uma referência a um estudo sobre renaturalização que ela quis consultar. 

Mas a ecologista, que pediu para permanecer anônima por medo de represálias dos autores do capítulo, não conseguiu encontrar nenhum registro do artigo de 2020, supostamente publicado na Ambio por “Knijn et al.”. Ela decidiu verificar as outras referências. Ela disse ao Retraction Watch que encontrou pelo menos oito que não existiam. 

A ecologista alertou a editora do livro, Wiley, sobre o problema em 7 de setembro, mas nos disse que nunca recebeu resposta, além de uma mensagem automática.

Um porta-voz da Wiley nos disse que a editora “leva a integridade a sério e investiga todas as preocupações quando elas nos são comunicadas”. Ele afirmou que a Wiley “tomará as medidas cabíveis assim que a investigação for concluída”.

A editora era proprietária da Edifix , um serviço de verificação de referências, de 2019 até sua aquisição por outra empresa no início deste ano. O porta-voz não respondeu à nossa pergunta sobre se os livros, incluindo este, foram verificados pelo programa, mas afirmou que a Wiley “publicou diretrizes de uso de IA para autores de livros e protege a integridade e a qualidade dos livros que publicamos por meio de verificações estabelecidas em três etapas: proposta do livro, contratação e revisão e desenvolvimento do manuscrito. A Edifix não é uma das ferramentas que utilizamos atualmente.”

O representante da Wiley não respondeu quando perguntamos se a editora tinha conhecimento dos problemas com o capítulo do livro antes de entrarmos em contato com eles na semana passada. 

Bhanu Pandey , um dos quatro autores do capítulo do livro ” Restaurando a Biodiversidade e os Serviços Ecossistêmicos em Terras Pós-Industriais”, disse-nos que não tinha conhecimento das citações falsas antes de entrarmos em contato. Todos os quatro autores eram pesquisadores do CSIR-Central Institute of Mining and Fuel Research em Jharkhand, Índia, na época do estudo. 

Bhanu Pandey nos contou que o primeiro autor, Sameer Shekhar , “liderou a compilação do material do capítulo e a coordenação do envio”. Ele disse que está revisando o capítulo e planeja enviar uma solicitação de correção à Wiley: “Quando uma citação estiver incorreta ou a afirmação associada não tiver fundamento, proporei a correção, revisão ou remoção apropriada e a enviarei ao editor do capítulo e à editora por meio de seu processo editorial formal”.

Nenhum dos outros autores respondeu ao nosso pedido de comentário, incluindo Shekhar, com quem entramos em contato diversas vezes, tanto em seu endereço de e-mail profissional quanto pessoal.

Vimal Chandra Pandey (sem parentesco com Bhanu), pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa Botânica do CSIR, editou o livro. Ele nos disse que iria “verificar a questão”, mas não respondeu às perguntas sobre como as referências falsas podem ter passado despercebidas. A página da Wiley sobre potenciais conflitos de interesse para editores afirma que eles “devem se abster de lidar com manuscritos se tiverem um conflito de interesse, como um relacionamento profissional ou pessoal com os autores”.

Outras editoras lidaram com casos semelhantes: após retirar de circulação um livro sobre aprendizado de máquina que continha referências inexistentes, na sequência da nossa cobertura do caso, a Springer Nature afirmou em junho que começaria a emitir comunicados de preocupação para livros. Em outubro, o especialista em integridade da pesquisa Michał Wójcik escreveu um script em Python para identificar diversos livros com citações falsas , o que pode ser um indício de uso indevido de grandes modelos de linguagem.


Fonte: Retraction Watch

El Niño, 13 mil mortes e o silêncio da política brasileira diante da crise climática

Uma nova projeção divulgada nesta quarta-feira pelo The Guardian deveria estar ocupando um lugar central no debate público brasileiro. Segundo estimativa de pesquisadores do Climate Impact Lab, o atual episódio de El Niño poderá provocar cerca de 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. O número não inclui outras mortes que poderão decorrer de secas, incêndios florestais, enchentes e outros eventos associados ao fenômeno.

O dado que mais deveria nos preocupar é que o Brasil está entre os cinco países que deverão registrar os maiores números de mortes adicionais relacionadas ao calor nos próximos seis meses. Ou seja, não estamos diante de uma ameaça distante, localizada em alguma região remota do planeta. Estamos falando de uma situação que terá consequências concretas para a população brasileira.

E o problema não termina no calor. O El Niño atualmente em desenvolvimento já alcançou uma intensidade excepcional e ocorre sobre um planeta cuja temperatura média foi significativamente elevada pela acumulação de gases de efeito estufa. Como explicou à reportagem a cientista Friederike Otto, o fenômeno natural passa a produzir consequências mais perigosas quando ocorre sobre uma atmosfera e uma superfície terrestre já muito mais quentes em consequência do aquecimento global.

No Brasil, essa combinação possui características particularmente preocupantes. O próprio Ministério da Saúde informou, em setembro, que o El Niño está em nível forte, com possibilidade de alcançar intensidade muito forte, e que seus efeitos deverão se estender até março de 2027. Para a região Sul, a previsão é de aumento do volume de chuvas e do risco de tempestades, enxurradas e inundações.

Basta observar o que vem acontecendo no Sul do país para compreender que não estamos discutindo uma possibilidade abstrata. As cenas de cidades atingidas por chuvas extremas, inundações e tempestades deveriam funcionar como uma espécie de antecipação concreta daquilo que significa viver em um país cada vez mais exposto à instabilidade climática.

Há, portanto, uma questão que ultrapassa a discussão sobre a intensidade específica deste ou daquele El Niño. O problema fundamental é que eventos climáticos naturais estão ocorrendo sobre uma base climática progressivamente mais quente e, por isso, seus impactos podem se tornar maiores e mais difíceis de administrar.

Isso deveria estar no centro da campanha eleitoral brasileira de 2026. Entretanto, ocorre justamente o contrário. A poucos dias do primeiro turno, a crise climática ocupa um espaço muito menor do que sua importância objetiva exigiria no debate sobre o futuro do país. Uma análise publicada recentemente pela Folha de S.Paulo, com base em levantamento do Observatório do Clima, mostrou que a pauta ambiental aparece de maneira bastante desigual nos programas dos principais candidatos à presidência da república. A análise identificou propostas robustas em apenas uma das candidaturas avaliadas, enquanto nos demais programas o tema aparece de forma mais vaga ou com menor detalhamento.

O contraste é ainda mais significativo quando se considera que uma pesquisa Ipsos realizada para o Observatório do Clima apontou que 91% dos brasileiros consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar a crise climática, enquanto 62% classificaram esse tema como muito importante. Desta forma, existe uma distância considerável entre a dimensão do problema, a preocupação manifestada pela população e o espaço efetivamente dedicado ao tema na disputa eleitoral. E essa distância deverá custar caro. 

O fato é que a questão climática não diz respeito apenas à proteção de florestas ou à redução das emissões de carbono já que ela envolve saúde pública, habitação, mobilidade, produção de alimentos, abastecimento de água, energia, infraestrutura, planejamento urbano, proteção das populações mais vulneráveis e capacidade de resposta do Estado diante de eventos extremos.

No caso brasileiro, isto também significa discutir o futuro da Amazônia, do Cerrado, do Pantanal, da Caatinga e da Mata Atlântica; a expansão de atividades econômicas em áreas ambientalmente frágeis; a política energética; o desmatamento; a ocupação das cidades; a prevenção de desastres; e a preparação do sistema público de saúde para uma realidade de temperaturas cada vez mais elevadas.

Significa, sobretudo, discutir adaptação. É porque mesmo que o mundo interrompesse imediatamente a emissão de gases de efeito estufa, uma parcela importante das mudanças climáticas já desencadeadas continuaria produzindo efeitos durante décadas. A redução das emissões é indispensável, mas não substitui a necessidade de preparar cidades, sistemas de saúde, redes de infraestrutura, áreas rurais e populações vulneráveis para aquilo que já está acontecendo.

O estudo citado pelo The Guardian oferece justamente uma dimensão importante dessa questão: os pesquisadores não estão apenas projetando mortes, mas indicando que parte delas poderia ser evitada por medidas de preparação, como sistemas de alerta para calor extremo, espaços de resfriamento, reforço dos serviços de saúde nos períodos críticos e proteção de trabalhadores expostos às altas temperaturas. Isso deveria nos levar a uma pergunta incômoda: quanto o Brasil está preparado para enfrentar os próximos episódios extremos?

E uma segunda pergunta é ainda mais importante: quanto essa preparação está sendo discutida pelos candidatos que pretendem governar o país? O silêncio relativo da campanha não significa que a crise climática tenha desaparecido. Ao contrário. Ela está se tornando uma presença cada vez mais concreta no cotidiano brasileiro. As chuvas extremas no Sul, as ondas de calor, as secas, os incêndios e os problemas crescentes de abastecimento e infraestrutura são manifestações diferentes de uma mesma transformação das condições ambientais nas quais nossa sociedade está organizada.

O risco é que continuemos tratando cada desastre como uma ocorrência isolada, mobilizando recursos depois que a tragédia aconteceu, em vez de construir políticas permanentes de prevenção, adaptação e redução de vulnerabilidades.O atual El Niño, portanto, deveria ser entendido como mais do que um fenômeno meteorológico excepcional. Ele é também um alerta sobre o tipo de futuro que pode estar se tornando cada vez mais frequente.

Diante disso, a ausência relativa da crise climática no debate eleitoral brasileiro é especialmente preocupante. Não porque faltem assuntos importantes em uma eleição, mas porque nenhum projeto de futuro para o Brasil pode ser considerado completo se não responder à transformação das condições climáticas em que esse futuro terá de ser construído. As cenas dramáticas que estão emergindo da região Sul deveriam ser suficientes para demonstrar que essa discussão não pertence a um futuro distante. Ela já chegou às nossas cidades, às nossas casas e aos nossos sistemas de infraestrutura.

O que está em jogo agora é saber se a política brasileira será capaz de reconhecer essa realidade antes que a sucessão de emergências climáticas transforme a adaptação em uma permanente política de reação às tragédias.