Vitória democrata no Congresso dos EUA amplia a margem de manobra de Lula, coloca Javier Milei sob pressão e pode alterar os rumos das guerras na Ucrânia e no Irã
A derrota acachapante do presidente Donald Trump nas eleições legislativas realizadas nesta terça-feira (3 de novembro) nos EUA representa muito mais do que um revés doméstico para o presidente estadunidense. Com os democratas conquistando amplas maiorias no Senado e na Câmara dos Representantes, o resultado poderá alterar significativamente a correlação de forças na política internacional, especialmente para governos que apostaram no alinhamento com o trumpismo. O fato é que a partir de janeiro de 2027, Donald Trump terá de governar diante de um Congresso controlado pela oposição, que poderá bloquear iniciativas legislativas, fiscalizar suas decisões e dificultar o financiamento de determinadas políticas. Embora continue dispondo de importantes poderes presidenciais, sua capacidade de impor unilateralmente sua agenda sofrerá limitações consideráveis.
Para o presidente Lula, o resultado representa uma oportunidade de ampliar a autonomia diplomática brasileira. O enfraquecimento de Donald Trump poderá reduzir as pressões comerciais e políticas sobre o Brasil, criando condições mais favoráveis para o fortalecimento dos BRICS, a diversificação das parcerias internacionais e a defesa de uma ordem mundial multipolar. Isso não significa que os democratas sejam aliados naturais de Lula. Afinal, republicanos e democratas compartilham interesses estratégicos relacionados à preservação da hegemonia estadunidense, especialmente diante da ascensão da China. Entretanto, negociar com um presidente politicamente enfraquecido é bastante diferente de enfrentar uma administração que controla integralmente o Executivo e o Legislativo.
Para Javier Milei, por outro lado, a derrota de Trump poderá representar um problema de grandes proporções. O presidente argentino apostou fortemente em sua identificação ideológica e pessoal com o ocupante da Casa Branca, transformando essa aproximação em um dos pilares de sua estratégia internacional. Com a nova composição do Congresso, eventuais mecanismos de apoio financeiro à Argentina poderão enfrentar maior fiscalização e resistência política. Para uma economia que permanece dependente de financiamento externo e enfrenta dificuldades estruturais, a perda de influência de seu principal aliado internacional poderá ampliar as incertezas. Milei poderá descobrir que sua proximidade pessoal com Trump não garante os mesmos benefícios quando o presidente estadunidense perde força política.
As consequências também poderão ser importantes para as guerras na Ucrânia e no Irã. Na Ucrânia, a vitória democrata tende a dificultar eventuais concessões de Trump à Rússia, especialmente em relação às sanções econômicas e ao apoio militar a Kiev. Isso poderá aumentar a pressão sobre Vladimir Putin, mas não significa necessariamente que a guerra esteja mais próxima do fim. O fortalecimento da assistência militar à Ucrânia também poderá prolongar o conflito, caso não seja acompanhado por iniciativas diplomáticas efetivas. No Irã, a situação poderá ser ainda mais delicada para Donald Trump. A guerra conduzida pelos Estados Unidos e Israel tornou-se um importante fator de desgaste político interno, sobretudo pelos custos econômicos e pelo impacto sobre os preços dos combustíveis. Um Congresso controlado pelos democratas poderá ampliar a fiscalização das operações militares, questionar novos gastos e pressionar pela busca de uma saída negociada.
Há ainda uma consequência política mais ampla: o resultado eleitoral enfraquece a narrativa de que a ascensão da extrema direita seria um processo inevitável e irreversível. Trump continua sendo uma figura poderosa, mas sua derrota representa um golpe simbólico importante para lideranças internacionais que fizeram de sua presidência uma referência política. É preciso, contudo, evitar uma interpretação equivocada. A derrota de Trump não significa o enfraquecimento automático do poder imperial dos Estados Unidos. Democratas e republicanos possuem diferenças importantes, mas compartilham o objetivo de preservar a liderança econômica, militar e tecnológica estadunidense. O que poderá mudar são os instrumentos utilizados para alcançar esse objetivo.
Para o presidente Lula, o novo cenário oferece uma oportunidade de ampliar o protagonismo brasileiro, mas seu aproveitamento dependerá de uma estratégia que combine autonomia diplomática, fortalecimento econômico e defesa dos interesses nacionais. Para Javier Milei, o desafio será enfrentar uma conjuntura internacional potencialmente menos favorável ao projeto político que representa.
A principal conclusão é que a derrota de Trump altera o equilíbrio de forças internacional sem necessariamente modificar as estruturas que sustentam a hegemonia dos Estados Unidos. Ainda assim, o resultado poderá reduzir a capacidade de pressão de Washington sobre governos como o brasileiro, aumentar a vulnerabilidade de aliados como Milei e abrir novas possibilidades diplomáticas nos conflitos internacionais. A grande questão, a partir de agora, é saber se o enfraquecimento de Trump contribuirá para reduzir as tensões mundiais ou se o presidente estadunidense tentará compensar sua derrota interna com novas demonstrações de força no exterior.










