ONU finalmente admite que o aquecimento global ultrapassará o limite climático de 1,5 ºC

Segundo um relatório, a Terra ultrapassará uma meta de longa data antes do final da década

Uma estação de resfriamento em Colônia, na Alemanha, ofereceu alívio durante uma onda de calor em junho, agravada pelas mudanças climáticas. Crédito: Ina Fassbender/AFP/Getty

Por James Dineen para “Nature” 

A meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C para evitar as consequências mais perigosas das mudanças climáticas está oficialmente morta. De acordo com um relatório divulgado hoje pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o melhor que o planeta pode esperar, considerando sua atual trajetória de emissões, é um aquecimento de cerca de 1,8 °C acima dos níveis pré-industriais neste século.

“Obviamente, sim, procrastinamos em relação ao clima”, disse Inger Anderson, diretora-executiva do PNUMA, durante uma coletiva de imprensa em 1º de setembro. “E obviamente, sim, quando começamos a UNFCCC [Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima], sabíamos quais ações precisavam ser tomadas. E não as tomamos na velocidade que poderíamos.”

 Os quase 200 países que assinaram o Acordo de Paris sobre o clima em 2015 concordaram em reduzir as emissões de gases de efeito estufa com rapidez suficiente para manter o aumento da temperatura média global “bem abaixo” de 2 °C em relação à média pré-industrial, com a meta ambiciosa de limitar o aumento a 1,5 °C. Acima desse limite de 1,5 °C, os riscos de desencadear pontos de inflexão perigosos no sistema climático tornam-se mais agudos¹ e aumentam a cada décimo de grau de aquecimento a partir desse ponto, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU.

A meta de 1,5 °C permaneceu um objetivo importante nas negociações climáticas da ONU, mesmo com os países não conseguindo realizar os cortes drásticos necessários para alcançá-la. O tema da cúpula climática da ONU em Glasgow, Escócia, em 2021, foi “manter 1,5 °C ao alcance”, e a reunião climática da ONU no ano passado, no Brasil, terminou com uma resolução para “manter 1,5 °C ao alcance”, mesmo com pesquisadores apontando que as temperaturas médias globais em 2024 ultrapassaram 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais pela primeira vez . A média de longo prazo usada para definir a meta agora deve ultrapassar 1,5 °C até o final da década.

Ao ultrapassar o limiar

O novo relatório do PNUMA, intitulado ” Limitando a Ultrapassagem”, reconhece a realidade de que os países não conseguirão evitar ultrapassar esse limite. “Este é o primeiro relatório de uma agência das Nações Unidas que afirma, sem ambiguidade, que ultrapassaremos os 1,5 °C nos próximos anos, devido à insuficiência de ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, afirma Andy Reisinger, pesquisador climático da Universidade Nacional da Austrália, em Canberra, e um dos autores do relatório.

O relatório conclui que o aumento da temperatura do planeta ultrapassará 1,5 °C, atingindo um mínimo de cerca de 1,8 °C neste século, mesmo no cenário de emissões mais otimista. Esse cenário prevê que as emissões globais caiam pela metade na próxima década e alcancem emissões líquidas zero até meados do século — uma meta muito mais ambiciosa do que os compromissos formais de redução de emissões dos participantes, que atualmente colocam o mundo no caminho de um aquecimento de até 2,5 °C até 2100. “Todos os nossos caminhos futuros são caminhos de ultrapassagem”, disse Debra Roberts, cientista climática da Universidade de KwaZulu-Natal, na África do Sul, e coautora do relatório, durante a apresentação.

Caso o aumento da temperatura se estabilize em torno de 1,8 ºC, o relatório sugere que ainda seria possível que ela retornasse a níveis abaixo de 1,5 ºC até o final do século, se a queda mais otimista nas emissões fosse acompanhada por uma rápida expansão dos esforços para remover o dióxido de carbono da atmosfera . Isso envolveria a expansão das florestas e a implantação de tecnologia para capturar o gás do ar e armazená-lo permanentemente.

O campo da remoção de CO₂ tem recebido crescente atenção desde que o IPCC reconheceu a necessidade dessa estratégia para atingir as metas climáticas. No entanto, o relatório sugere que o retorno a 1,5 °C exigiria a remoção de dezenas de bilhões de toneladas de CO₂ da atmosfera a cada ano, durante décadas, uma quantidade milhares de vezes maior do que as tecnologias de remoção de CO₂ têm proporcionado até o momento.

doi: https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.1038/d41586-026-02753-5

Referências

  1. Armstrong McKay, DI et al. Science 377 , eabn7950 (2022).


Fonte: Nature

Às vésperas do super El Niño, municípios brasileiros não promovem transparência climática

Em uma escala de 0 a 100, nota média do conjunto de cidades avaliadas foi de 33,63 de acordo com nova edição do Índice de Transparência e Governança Pública

Em 2024, chuvas intensas destruíram o Rio Grande do Sul e alagaram o Mercado Público de Porto Alegre. Foto: Ricardo André Frantz 

Por Transparência Internacional BRASIL

Às vésperas do ‘Super El Niño‘, um novo levantamento do Índice de Transparência e Governança Pública (ITGP), da Transparência Internacional – Brasil revela que a nota média dos municípios em transparência de informações sobre adaptação climática é de apenas 33,62 (em uma escala de 0 a 100).  

Na prática, isso significa que, justamente quando eventos climáticos extremos estão mais frequentes e intensos, muitas prefeituras ainda não disponibilizam de forma adequada informações que permitam aos cidadãos saber quais são os riscos de sua cidade, o que está sendo feito para prevení-los e como o poder público está se preparando para enfrentar esses eventos. 

O alerta ganha ainda mais importância diante da previsão da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados (NOAA, na sigla em inglês) de um El Niño de grandes proporções para os próximos meses. O evento deve figurar entre os mais fortes eventos climáticos registrados pela humanidade desde 1950. Por conta disso, este fenômeno, que deve durar até o início de 2027, ganhou o apelido de ‘Super El Niño‘. 

El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico. Ele ocorre a cada dois a sete anos e impacta a temperatura do planeta inteiro. No Brasil, ele geralmente causa o aumento de chuvas na região Sul, o agravamento de secas e estiagens no Norte e no Nordeste e um clima mais irregular no Sudeste e Centro-Oeste – com aumento de calor, chuvas mal distribuídas e oscilações no comportamento de frentes frias.   

Maioria dos municípios brasileiros tem nota ‘ruim’ ou ‘péssima’ em transparência climática

Nesta edição do ITGP, 278 municípios de 10 estados foram avaliados no módulo Adaptação Climática. O objetivo foi saber como essas cidades promovem a transparência de informações sobre o assunto. Foram avaliadas, por exemplo, a existência e a divulgação de instrumentos para lidar com a crise do clima (como planos de adaptação e de contingência, metas climáticas no orçamento e espaços participativos) e como as prefeituras divulgam e disseminam informações sobre o tema aos seus cidadãos. 

O resultado não foi bom. Numa escala de 0 a 100, a nota média do conjunto de cidades avaliadas foi 33,62. O melhor resultado foi a existência de órgãos municipais de meio ambiente (85,3% das cidades cumpriram esse item) e o pior resultado diz respeito à divulgação de audiências e consultas públicas sobre clima e defesa civil (apenas 8,7% das cidades atenderam a esse quesito).  

Na análise de planos setoriais, o cenário permaneceu igualmente grave e preocupante: apenas 13% dos municípios avaliados possuem Plano de Adaptação à Mudança do Clima.

Isso é bastante relevante, pois é esse plano que reúne o conjunto de ações que busca preparar uma cidade e reduzir os impactos de eventos extremos como enchentes, secas, ondas de calor e deslizamentos. Ele ajuda a proteger vidas, moradias, serviços públicos e a economia, especialmente em áreas vulneráveis. Também orienta investimentos e políticas públicas para tornar os municípios mais seguros, resilientes e preparados para os efeitos atuais e futuros do clima.

Em 2023, uma estiagem histórica fez com que os rios da Amazônia secassem e prejudicassem milhares de pessoas no norte do Brasil. Foto: Alberto César Araújo/ Amazônia Real

Cidades melhoraram suas notas e classificação

A metodologia torna possível comparar os resultados do Índice de Transparência e Governança Pública de 2025 com 2026. Nos 233 municípios em que foi possível fazer essa comparação, todos os 22 indicadores melhoraram, com alta média de 7,9 pontos.

Diversos municípios melhoraram sua classificação – a concentração de cidades com nota ‘péssima’ ou ‘ruim ‘era de 75% em 2025; este ano, o número diminuiu para 59%.

As cidades classificadas como ‘regular’ cresceram (de 15% para 19%), assim como as classificadas com ‘bom’, de 7% para 15%. Em 2025, seis municípios foram classificados como ‘ótimo’; neste ano, a lista se estende a 14. Entraram neste grupo mais bem avaliado, por exemplo, as cidades de Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Gaspar (SC), Santa Tereza, Aracruz, Cachoeiro de Itapemirim, Sooretama e Serra (ES).

Questões climáticas não aparecem no orçamento

Somente 14% das cidades avaliadas possuem planos importantes para que as cidades estejam preparadas para eventos extremos (como Plano Diretor, Plano de Habitação, Plano de Saneamento Básico e Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos) e apenas 24,1% colocaram metas relativas às mudanças climáticas em seus Planos Plurianuais (PPA). O PPA é um instrumento de planejamento da prefeitura que define as principais diretrizes, objetivos e metas das políticas públicas e dos investimentos do município, orientando a elaboração dos orçamentos e a aplicação dos recursos públicos.

Dos 278 municípios avaliados, apenas 27% têm um órgão colegiado de mudanças climáticas ativo – prejudicando a participação e o controle social a respeito deste tema. Dos 75 municípios com colegiado de clima ativo, apenas 21 divulgam integralmente seu funcionamento; 29 não divulgam nenhuma informação.

Também é de 27% a taxa dos municípios que possuem órgão colegiado de proteção e defesa civil ativo. Das 77 cidades com colegiado de defesa civil ativo, 13 divulgam integralmente as informações referentes a esses conselhos e 36 não divulgam nenhuma informação. Das cidades analisadas, 57,2% não tem nenhum dos dois colegiados ativos.

A transparência climática é fundamental para que os cidadãos tenham acesso à informação e saibam as providências a serem tomadas na ocorrência de eventos extremos. Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real

 

Cidadãos não têm acesso a informações sobre clima

A Coordenadora de Projetos da Transparência Internacional – Brasil, Letícia Castro, disse que a transparência sobre adaptação climática não é apenas uma questão de acesso à informação – tem a ver também com uma diferença concreta na capacidade das pessoas de se protegerem diante de eventos extremos. Ainda há inúmeros instrumentos que necessitam ser criados e implementados pelas cidades.

“Apenas 37,1% dos municípios publicam o Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil, por exemplo. Isso significa que em 175 cidades esse documento não está disponível para o público. O plano de contingência é o instrumento que define quais áreas são consideradas de risco, quais são as rotas de saída, onde ficam os pontos de abrigo, quais órgãos são acionados em cada nível de alerta. Sem acesso a ele, o morador não tem como saber, por exemplo, se a sua rua está mapeada como área de risco e para onde deve se deslocar em caso de evacuação”, explicou a coordenadora.

Conheça o Índice de Transparência e Governança Pública

O Índice de Transparência e Governança Pública é uma ferramenta da Transparência Internacional – Brasil que avalia a transparência de entes subnacionais do país, como governos estaduais, capitais, assembleias legislativas e municípios. Ele atribui a cada entidade uma nota de 0 a 100 pontos, classificada em faixas como “ótimo”, “bom” e “regular”, com base em critérios como acesso à informação e boas práticas de governança.

O objetivo é permitir comparações ao longo do tempo, mostrando a evolução de cada ente entre uma edição e outra do Índice. Na avaliação mais recente de governos estaduais, feita em 2025, o estado do Espírito Santo liderou o ranking com 95 pontos, enquanto o Amapá ficou em último lugar, com 46,9 pontos. O Índice de Transparência e Governança Pública é uma ferramenta que serve à melhoria da transparência no Brasil.


Fonte: Transparência Internacional Brasil

Daniel Vorcaro e os corredores laterais da República

O escândalo do Banco Master começa a mostrar que o verdadeiro privilégio dos muito ricos talvez não seja apenas possuir dinheiro, mas ter acesso direto a quem exerce o poder

O imbróglio envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master parece estar longe de terminar, pois praticamente a cada nova rodada de informações surge algum elemento capaz de ampliar ainda mais a dimensão política de um caso que começou como um gigantesco escândalo financeiro. O que inicialmente poderia ser visto como mais um episódio envolvendo operações bancárias suspeitas começa a oferecer uma oportunidade particularmente reveladora para observar como funcionam as relações entre dinheiro e poder no Brasil.

As informações que vieram a público nos últimos dias são especialmente perturbadoras. Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro teria mantido pelo menos seis encontros com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, entre 2024 e 2025, chegando, dois dias antes de ser preso, a enviar uma mensagem perguntando se deveria deixar o país. As respostas eventualmente enviadas por Moraes não foram recuperadas pela investigação, o que impede qualquer conclusão sobre o conteúdo efetivo dessas conversas, mas o simples fato de um banqueiro que posteriormente seria preso possuir tamanho grau de acesso a um ministro do STF já deveria provocar alguma reflexão sobre a forma como as elites econômicas circulam pelas estruturas superiores do Estado brasileiro.

A situação fica ainda mais complicada quando lembramos que o Banco Master havia firmado um contrato que poderia alcançar R$ 131 milhões com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Segundo as informações divulgadas, documentos apreendidos pela Polícia Federal indicariam que o próprio ministro teria participado da análise do contrato, enquanto o escritório sustenta que sua participação teria se limitado à verificação da inexistência de impedimentos à contratação. Evidentemente, nada disso permite concluir automaticamente pela existência de qualquer ilegalidade, mas também seria ingenuidade imaginar que relações envolvendo dezenas ou centenas de milhões de reais e pessoas situadas no topo da estrutura institucional brasileira sejam politicamente irrelevantes.

Como se esse quadro já não fosse suficientemente espinhoso, agora sabemos que Daniel Vorcaro também esteve pessoalmente com outro ministro do Supremo Tribunal Federal. André Mendonça confirmou ter recebido o banqueiro em março de 2025 para tratar de uma questão relacionada a precatórios de interesse do Banco Master e afirma que apenas ouviu Vorcaro, acrescentando que sua atuação posterior teria sido contrária aos interesses defendidos pelo banqueiro. O fato ganhou uma dimensão adicional porque Mendonça é hoje justamente o relator das investigações envolvendo o Banco Master no STF, situação que não demonstra por si mesma qualquer irregularidade, mas inevitavelmente aumenta a necessidade de transparência sobre as circunstâncias e o conteúdo desses contatos.

É preciso deixar claro que ter conversado com Daniel Vorcaro não transforma automaticamente ninguém em participante de qualquer atividade ilegal, assim como conhecer ou receber um empresário não constitui crime. Entretanto, talvez estejamos fazendo a pergunta errada se ficarmos apenas tentando descobrir se cada encontro, jantar, telefonema ou mensagem configura individualmente algum delito, pois a questão politicamente mais interessante é entender como um banqueiro conseguiu construir uma rede de acesso que aparentemente alcançava alguns dos personagens mais poderosos da República.

Os tentáculos dessa história tampouco parecem terminar no Supremo Tribunal Federal, pois outra revelação particularmente saborosa envolve o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, que negociou com Vorcaro recursos para financiar Dark Horse, um filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Segundo as informações publicadas pela imprensa, o projeto poderia receber até US$ 24 milhões, algo em torno de R$ 134 milhões na cotação da época, dos quais aproximadamente R$ 61 milhões teriam efetivamente sido aportados. Flávio Bolsonaro reconheceu que procurou Vorcaro em busca dos recursos, mas sustenta que se tratava simplesmente de um investimento privado numa produção cinematográfica.

Ainda que se aceite essa explicação, permanece uma questão que atravessa todo o caso: não é qualquer brasileiro que consegue telefonar para um banqueiro e discutir algumas dezenas de milhões de reais para financiar um filme sobre o próprio pai, da mesma forma que não é qualquer empresário que consegue chegar diretamente a ministros do Supremo Tribunal Federal para discutir assuntos de seu interesse. É justamente quando juntamos essas diferentes peças que o caso Vorcaro deixa de parecer apenas uma sucessão de episódios curiosos e começa a revelar algo estrutural sobre o funcionamento do poder no Brasil.

Existe o Brasil das instituições formais, onde cidadãos precisam preencher formulários, protocolar requerimentos, esperar meses por respostas administrativas, contratar advogados e atravessar anos de processos judiciais para fazer valer direitos relativamente elementares. Paralelamente, parece existir outro Brasil, onde pessoas suficientemente ricas conseguem circular por gabinetes, escritórios, restaurantes e residências frequentados pelos integrantes das camadas superiores do poder político, econômico e judicial, estabelecendo um tipo de interlocução com o Estado que permanece simplesmente inacessível para a esmagadora maioria da população.

Talvez esteja justamente aí uma das formas menos discutidas da desigualdade brasileira. Quando pensamos em desigualdade, normalmente lembramos da concentração de renda, da pobreza, das diferenças salariais ou da distribuição profundamente desigual da propriedade, mas existe também uma desigualdade de acesso ao Estado, na qual milhões de brasileiros encontram diante de si balcões, protocolos e burocracias enquanto uma pequena parcela da população parece dispor de números de telefone, intermediários e relações pessoais capazes de abrir portas que permanecem hermeticamente fechadas para quase todos os demais.

Não é necessário encontrar uma mala de dinheiro sobre uma mesa para reconhecer que existe um problema democrático nessa situação, pois o poder econômico também se transforma em poder político por meio da capacidade de estabelecer relações, financiar projetos, contratar escritórios influentes, organizar encontros e fazer com que determinados interesses cheguem rapidamente aos ouvidos daqueles que possuem capacidade para tomar decisões. O problema, portanto, não começa necessariamente quando se comprova uma propina, mas muito antes, quando percebemos que alguns grupos possuem condições extraordinariamente superiores para colocar seus interesses diante daqueles que controlam as engrenagens do Estado.

Por isso, talvez o maior erro neste momento seja transformar Daniel Vorcaro em personagem de mais uma disputa infantil entre esquerda e direita, pois tudo o que começa a aparecer sugere justamente o contrário. O banqueiro aparentemente sabia circular por diferentes ambientes políticos e institucionais, mantendo relações com personagens que dificilmente poderiam ser colocados dentro de uma mesma caixinha ideológica, algo que não deveria surpreender ninguém porque o grande capital raramente possui fidelidades políticas permanentes. Governos mudam, partidos alternam-se e ministros chegam e vão embora, enquanto os interesses econômicos continuam procurando as portas pelas quais possam chegar aos centros onde decisões importantes são tomadas.

É justamente por isso que o caso Banco Master poderá terminar sendo muito mais importante do que Daniel Vorcaro. O banqueiro poderá ser condenado ou absolvido das diferentes acusações que hoje pesam sobre ele, e as investigações ainda terão de esclarecer até onde chegaram suas relações e se alguma delas resultou efetivamente em favorecimentos, mas aquilo que já apareceu oferece material suficiente para uma reflexão que deveria interessar a qualquer pessoa preocupada com a qualidade da democracia brasileira.

Nesse sentido, a pergunta que precisamos fazer não é apenas quem Daniel Vorcaro conhecia, mas como ele chegou a conhecer tanta gente poderosa, por que tantas portas estavam abertas para recebê-lo e o que exatamente circulava por essas portas além do próprio banqueiro. Se as investigações confirmarem que favores públicos foram concedidos em decorrência dessas relações privadas, estaremos diante de um problema criminal de enormes proporções; entretanto, mesmo que nenhuma dessas relações venha individualmente a configurar crime, continuará existindo uma questão política difícil de ignorar, que é a existência de uma República onde o acesso aos centros de decisão parece variar brutalmente conforme o tamanho da conta bancária de quem bate à porta.

Daniel Vorcaro pode, assim, acabar prestando ao Brasil um serviço que certamente não pretendia prestar, pois ao deixar exposta sua extraordinária rede de relações está permitindo que enxerguemos um pouco melhor os corredores laterais pelos quais circulam dinheiro, influência e poder no país. E talvez seja justamente por esses corredores, longe dos balcões, protocolos e filas onde espera a maioria dos brasileiros, que possamos compreender como uma parte importante da República realmente funciona.

Brasil pode estar vivendo uma epidemia silenciosa de intoxicação por agrotóxicos

Novo estudo estima mais de 400 milhões de intoxicações agudas por ano no mundo e acende o alerta em um país que consome grandes volumes de agrotóxicos, inclusive substâncias proibidas na União Europeia

Um novo estudo publicado nesta quarta-feira (2) na revista científica Frontiers in Public Health oferece números que deveriam produzir um sério debate sobre os custos humanos do modelo agrícola contemporâneo. No artigo intitulado Worldwide unintentional acute pesticide poisonings: reassessing the occupational and non-occupational burden, Wolfgang Boedeker, Meriel Watts, Peter Clausing e Emily Marquez estimam que ocorram atualmente entre 402 milhões e 433 milhões de casos de intoxicação aguda não intencional por agrotóxicos todos os anos no mundo, acompanhados por aproximadamente 11 mil mortes. Mais impressionante ainda é a estimativa de que cerca de 46% da população mundial envolvida na agricultura seja intoxicada por agrotóxicos a cada ano.

O trabalho de Boedeker e seus colegas merece atenção não apenas pela magnitude dos números apresentados, mas também pelo esforço realizado para ampliar e atualizar a base empírica utilizada para estimar a dimensão mundial das intoxicações. Os autores analisaram informações referentes a 139 países, combinando 214 trabalhos científicos publicados entre 2006 e 2023 com dados da base de mortalidade da Organização Mundial da Saúde. O estudo também incorporou uma análise de sensibilidade destinada a avaliar como diferenças metodológicas entre os trabalhos poderiam afetar as estimativas globais. Mesmo quando os autores adotaram critérios mais restritivos, o resultado continuou impressionante: o número anual estimado permaneceu acima de 400 milhões de intoxicações.

Há outro elemento particularmente importante nesse trabalho. Entre 1990 e 2023, o consumo mundial de agrotóxicos praticamente dobrou, passando de aproximadamente 1,8 milhão para 3,8 milhões de toneladas anuais. Entretanto, essa expansão foi profundamente desigual. Enquanto o consumo caiu cerca de 5% na Europa, aumentou aproximadamente 210% nas Américas e 185% na África. A geografia mundial da exposição aos agrotóxicos está, portanto, se deslocando justamente em direção às regiões onde frequentemente são mais frágeis os mecanismos de fiscalização ambiental, vigilância epidemiológica, proteção aos trabalhadores rurais e controle da comercialização das substâncias mais perigosas.

E o Brasil no meio dessa tempestade química?

É justamente nesse ponto que o estudo publicado na Frontiers in Public Health deveria acender todas as luzes vermelhas no Brasil. O país ocupa posição central no mercado mundial de agrotóxicos e apresenta níveis extraordinariamente elevados de consumo. Dados reunidos em outro estudo publicado em 2025 indicaram que somente em 2021 foram aplicadas aproximadamente 719,5 mil toneladas de agrotóxicos nas áreas agrícolas brasileiras, quantidade equivalente ao consumo conjunto dos Estados Unidos e da China naquele ano. A aplicação média brasileira chegou a cerca de 10,9 quilos por hectare, contra 2,85 kg/ha nos Estados Unidos e 1,9 kg/ha na China.

Os dados oficiais do Ibama mostram que essa dependência química continua extraordinariamente elevada. Somente o glifosato e seus sais responderam por aproximadamente 231,9 mil toneladas comercializadas em 2024. O mancozebe alcançou 75,1 mil toneladas, enquanto substâncias como 2,4-D, acefato e glufosinato continuam figurando entre os ingredientes ativos mais comercializados no território brasileiro.

Mas o problema brasileiro não está apenas na quantidade utilizada. Está também na qualidade toxicológica das substâncias que permanecem autorizadas.

Levantamentos recentes indicam que sete dos dez ingredientes ativos mais vendidos no Brasil são proibidos na União Europeia, entre eles mancozebe, 2,4-D, acefato, clorotalonil, atrazina, S-metolacloro e dibrometo de diquate. Isso significa que substâncias consideradas perigosas demais para serem utilizadas em sistemas agrícolas europeus continuam sendo despejadas em grandes quantidades sobre lavouras brasileiras.

A discrepância regulatória é ainda maior quando se observa o conjunto das substâncias autorizadas. Em março de 2025, dos 369 ingredientes ativos químicos autorizados para utilização no Brasil, 234 — ou 63,4% — não estavam autorizados na União Europeia. Além disso, entre 2019 e 2024, centenas de novos produtos contendo princípios ativos não autorizados no mercado europeu continuaram recebendo registro brasileiro.

O próprio Ibama reconhece problemas graves com determinadas substâncias ainda utilizadas no país. Em dezembro de 2025, o órgão iniciou a reavaliação ambiental do metomil e do tiodicarbe, classificados como altamente tóxicos ao ambiente, altamente transportáveis e persistentes e altamente tóxicos para abelhas e pequenos crustáceos aquáticos. O metomil já havia sido banido em cerca de 50 países, mas sua comercialização brasileira vinha crescendo.

Uma epidemia química que dificilmente aparece nas estatísticas

O estudo de Boedeker, Watts, Clausing e Marquez oferece ainda uma chave fundamental para compreender o que provavelmente acontece no Brasil: os sistemas oficiais registram apenas uma fração das intoxicações realmente existentes.

Os autores mostram que muitos trabalhadores intoxicados não procuram atendimento médico, enquanto outros recebem diagnósticos que não identificam corretamente a exposição aos agrotóxicos. Entre as razões para a subnotificação estão dificuldades de acesso aos serviços de saúde, sintomas confundidos com outras doenças, falta de treinamento dos profissionais para reconhecer intoxicações, investigação inadequada dos episódios e fragmentação das bases de dados. Há estudos internacionais sugerindo que sistemas convencionais de vigilância podem subestimar dramaticamente a quantidade real de intoxicações ocupacionais.

Essa observação é particularmente relevante para o Brasil, onde o próprio artigo utiliza diferentes estudos nacionais sobre intoxicações e exposição ocupacional e apresenta uma estimativa de 26% de prevalência anual de intoxicação aguda não fatal entre a população agrícola/ocupacional brasileira, embora os próprios autores ressaltem que estimativas nacionais possuem graus diferentes de incerteza e não devem ser interpretadas como levantamentos epidemiológicos completos de cada país.

Por isso, talvez seja necessário começar a discutir seriamente a possibilidade de que esteja ocorrendo no Brasil aquilo que poderíamos denominar de epidemia química silenciosa. Não se trata de utilizar a palavra epidemia como recurso retórico, mas de chamar atenção para uma exposição populacional disseminada, repetitiva e estruturalmente produzida por determinado modelo de agricultura. Diferentemente das epidemias infecciosas, entretanto, não existe aqui um vírus ou uma bactéria facilmente identificável. Existem centenas de substâncias químicas circulando simultaneamente pelo ambiente e alcançando trabalhadores, comunidades rurais e, por diferentes vias, parcelas muito maiores da população.

E há uma diferença adicional. O artigo da Frontiers in Public Health trata essencialmente das intoxicações agudas, isto é, dos efeitos que aparecem em período relativamente curto após a exposição. Ele não pretende contabilizar toda a carga de doenças decorrente da exposição crônica aos agrotóxicos. Os próprios autores defendem novos estudos longitudinais capazes de investigar esses efeitos de longo prazo. Portanto, os 402 a 433 milhões de casos estimados anualmente representam apenas uma dimensão do problema.

É justamente aí que a noção de epidemia química ganha ainda mais relevância. A exposição brasileira não ocorre apenas durante a aplicação dos produtos. Os agrotóxicos podem alcançar trabalhadores diretamente envolvidos no preparo e pulverização, famílias residentes próximas às áreas agrícolas e ambientes contaminados por deriva, além de água e alimentos. Um estudo apresentado por pesquisadores da Fiocruz encontrou, em amostras brasileiras de água analisadas em 2024, resíduos de sete agrotóxicos proibidos na União Europeia, entre eles atrazina, metolacloro, fipronil e flutriafol.

Quando o veneno proibido lá continua permitido aqui

Existe ainda uma dimensão política que não pode ser ignorada. O contraste entre a regulação europeia e brasileira demonstra que a exposição aos agrotóxicos não resulta apenas de decisões individuais tomadas pelos agricultores. Ela é produzida também por escolhas regulatórias e econômicas.

Quando determinadas substâncias são consideradas perigosas demais para permanecer no mercado europeu, mas continuam sendo comercializadas e utilizadas em larga escala no Brasil, estabelece-se uma espécie de geografia internacional desigual do risco químico. Os riscos que sociedades com maior capacidade regulatória decidiram reduzir continuam sendo socialmente tolerados em países transformados simultaneamente em grandes produtores de commodities e grandes mercados consumidores de agrotóxicos.

Não por acaso, a literatura científica já descreve há décadas o problema do duplo padrão internacional, no qual produtos proibidos ou severamente restringidos nos países industrializados continuam sendo exportados para países como o Brasil.

O novo estudo publicado na Frontiers in Public Health demonstra que as consequências desse modelo estão longe de ser marginais. Estamos falando potencialmente de centenas de milhões de intoxicações anuais e de uma população agrícola mundial na qual quase metade dos trabalhadores pode sofrer pelo menos um episódio de intoxicação aguda por ano. Os próprios autores concluem que as evidências disponíveis já são mais do que suficientes para justificar ações imediatas e defendem a implementação da recomendação da FAO para a eliminação progressiva dos chamados Highly Hazardous Pesticides (HHPs), os agrotóxicos altamente perigosos.

Para o Brasil, essa recomendação deveria ser particularmente urgente. Um país que utiliza quantidades gigantescas de agrotóxicos, mantém autorizadas centenas de substâncias não permitidas na União Europeia e apresenta reconhecidos problemas de subnotificação das intoxicações não deveria continuar tratando os efeitos sanitários desse modelo como simples externalidades inevitáveis da produção agrícola.

A pergunta que precisa ser feita é relativamente simples: quanto da extraordinária produtividade do agronegócio brasileiro está sendo obtida mediante a transferência de custos ambientais e sanitários para trabalhadores rurais, comunidades agrícolas e para o Sistema Único de Saúde?

Os números apresentados por Wolfgang Boedeker, Meriel Watts, Peter Clausing e Emily Marquez sugerem que essa conta pode ser muito maior do que mostram as estatísticas oficiais. E talvez o problema mais grave seja justamente este: enquanto o agronegócio e o governantes celebram recordes de safras e exportações, podemos estar convivendo com uma epidemia química cuja verdadeira dimensão sequer conseguimos medir.

O artigo Worldwide unintentional acute pesticide poisonings: reassessing the occupational and non-occupational burden, de Wolfgang Boedeker, Meriel Watts, Peter Clausing e Emily Marquez, foi publicado em 2 de setembro de 2026 na revista científica Frontiers in Public Health, na seção Occupational Health and Safety.

Leia o artigo original na Frontiers in Public Health

Quando a conservação se torna uma mercadoria

Transporte de toras de árvores da floresta para a serraria rio abaixo, aproveitando a correnteza, exploração madeireira na Amazônia, Brasil. Crédito: Ricardo Beliel / BrazilPhotos / Alamy

Por Monica Piccini para “YourVoiz” 

O Brasil aposta que a Amazônia pode ser protegida tornando suas florestas economicamente valiosas, por meio da exploração madeireira, de produtos florestais e de créditos de carbono. Mas, à medida que mais florestas públicas são abertas ao comércio, o desafio é estabelecer se o uso comercial pode permanecer dentro dos limites ecológicos da floresta.

A Amazônia sempre atraiu pessoas em busca de algo valioso. Desde os tempos coloniais do Brasil, com a chegada dos portugueses em 1500, os recursos naturais, incluindo madeira, açúcar, ouro, diamantes, borracha, café, minerais, gado e terras, têm gerado ondas de extração na floresta.

Atualmente, as florestas públicas podem fornecer óleos, sementes, frutos, madeira, serviços ambientais e, segundo regras mais recentes, créditos de carbono, mantendo-se oficialmente protegidas e em pé.

O Brasil chama isso de manejo florestal sustentável . A ideia é que, se uma floresta viva tem valor econômico , há menos incentivo para destruí-la. A recuperação da floresta, no entanto, ocorre em uma escala de tempo muito maior do que o planejamento comercial. As árvores levam décadas, às vezes séculos, para crescer. O que importa é o que resta após a exploração madeireira e se as árvores de valor comercial se recuperaram antes que a colheita recomece.

Um estudo publicado na revista Forest Ecology and Management testou 27 cenários diferentes de exploração madeireira na Amazônia brasileira para verificar se a produção comercial de madeira poderia ser mantida ao longo de colheitas repetidas.

Em condições semelhantes às utilizadas atualmente nas concessões florestais brasileiras, com colheita de cerca de 15 a 20 metros cúbicos de madeira por hectare e retorno após 35 anos, a produção madeireira poderia ser mantida durante o primeiro ciclo, mas não no mesmo nível posteriormente.

Plinio Sist, cientista florestal sênior da Unidade de Pesquisa Florestas e Sociedades do CIRAD (Centro Francês de Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento Internacional) e principal autor da pesquisa, explicou:

O problema não é necessariamente se a floresta permanece de pé após a exploração madeireira. A biomassa e a biodiversidade florestal podem se recuperar relativamente bem quando a exploração madeireira é cuidadosamente controlada. O problema são as árvores de madeira valiosa. Elas se recuperam muito mais lentamente.

No atual ciclo de colheita, estudos sugerem que apenas cerca de metade do volume original de madeira pode ter se recuperado até o retorno dos madeireiros. Assim, uma floresta pode parecer verde e saudável vista de cima, mas já não conter madeira comercial suficiente para sustentar o mesmo nível de colheita.

O cenário mais sustentável no estudo envolvia a colheita de 10 metros cúbicos por hectare a cada 60 anos. O material explicativo subsequente do CIRAD descreve o ciclo de corte correspondente como sendo de 65 anos. Também assumiu que 90% das espécies de madeira potencialmente colhíveis teriam valor comercial, em comparação com cerca de 20% nas práticas atuais.

Sist argumenta que, para uma produção madeireira verdadeiramente sustentável, a indústria talvez tenha que aceitar extrair consideravelmente menos da floresta e esperar muito mais tempo antes de retornar a ela. Ele disse:

Nossas simulações sugerem que a exploração madeireira deve ser limitada a cerca de 10 metros cúbicos por hectare, que uma gama mais ampla de espécies de madeira deve ser utilizada e que as florestas devem ter um período de cerca de 60 anos antes de serem exploradas novamente.

Nessas condições, a exploração madeireira poderia ser sustentável a longo prazo. Mas há uma contrapartida importante: uma exploração verdadeiramente sustentável produziria muito menos madeira do que o mercado demanda atualmente. Devemos reconhecer que a floresta tem limites ecológicos. Não podemos simplesmente exigir que ela continue produzindo a mesma quantidade indefinidamente.

Uma floresta se torna um investimento

Pau-Rosa faz parte de uma expansão muito maior de concessões florestais na Amazônia. A Floresta Nacional Pau-Rosa abrange cerca de 828.000 hectares e situa-se entre os rios Madeira e Tapajós, uma região de imensa riqueza ecológica. Cerca de 249.000 hectares estão atualmente propostos para concessão de manejo florestal sustentável. Até agosto de 2026, o projeto ainda não havia sido licitado. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) havia programado o edital de licitação para o final de 2026 e o ​​leilão para o primeiro trimestre de 2027.

Os documentos do projeto governamental afirmam que as concessões visam proteger a biodiversidade e apoiar o desenvolvimento sustentável, permitindo, ao mesmo tempo, o uso comercial da floresta. Espera-se que essa mesma floresta seja, simultaneamente, produtiva comercialmente e conservada.

Pau-Rosa é apenas um dos vários projetos de concessão em toda a região. A Floresta Nacional de Castanho Glebe , a Floresta Nacional do Amapá , a Floresta Nacional de Jatuarana (quatro Unidades de Manejo Florestal, UMFs), as Florestas Nacionais de Iquiri Anauá Bom Futuro (duas UMFs) e Balata-Tufari três UMFs ) estão entre as outras florestas amazônicas envolvidas em projetos de concessão, embora os projetos estejam em diferentes estágios, desde estudos e preparação de licitações até leilões e concessões contratadas.

Esses projetos são coordenados pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil, e contam com o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em sua estruturação.

Cada concessão tem seus próprios limites e plano de gestão, mas em toda a região, espera-se que mais florestas públicas produzam madeira e outras formas de renda, mantendo-se em pé.

Fonte da imagem: Hub de Projetos BNDES 

Algumas dessas florestas públicas e unidades de concessão estão localizadas dentro da área mais ampla influenciada pela infraestrutura de transporte associada ao corredor da rodovia BR-319, ou são afetadas por ela .

Pesquisas e avaliações ambientais têm identificado repetidamente a melhoria do acesso rodoviário nesta parte da Amazônia como um fator de pressão sobre florestas remotas, áreas protegidas e comunidades indígenas. Estradas existentes e planejadas podem criar vias para extração ilegal de madeira e mineração, grilagem de terras, crime organizado e outras atividades ilícitas, além de aumentar o risco de desmatamento e degradação.

Madeira sustentável

Um plano de gestão pouco significa se a origem da madeira não for confiável.

Um estudo de 2025 publicado na revista One Earth examinou registros de madeira e observações de satélite no estado do Pará, Brasil, entre 2009 e 2019, e constatou lacunas significativas entre o que estava registrado em papel e o que podia ser observado na floresta. Embora 96% do volume de madeira que entrou na cadeia de suprimentos formal pudesse ser vinculado a uma licença de exploração madeireira por localização, apenas 45% da exploração detectada por satélite coincidiu com áreas com autorização legal.

Os pesquisadores também encontraram casos em que a quantidade de madeira declarada como proveniente de uma área autorizada parecia inconsistente com a quantidade de extração madeireira realmente visível no local. Segundo os pesquisadores, essas inconsistências criam oportunidades para que as licenças de exploração madeireira sejam usadas para lavar madeira extraída ilegalmente em outros lugares.

Mas o problema não desapareceu, já que operações de fiscalização e investigações recentes continuam a encontrar evidências de que licenças fraudulentas, créditos florestais e outros documentos podem ser usados ​​para disfarçar a verdadeira origem da madeira extraída ilegalmente.

Em 2025, uma investigação da Agência de Investigação Ambiental (EIA) ligou cerca de 53.000 metros cúbicos de madeira, associados a operações autorizadas ou irregulares, a cadeias de abastecimento que chegavam aos Estados Unidos e à Europa.

A madeira pode parecer rastreável e legal em um banco de dados oficial sem a documentação que comprove que ela realmente veio da floresta indicada nos registros.

Grande parte da Amazônia é remota, e a exploração madeireira sob a copa das árvores pode ser difícil de comparar com o que acontece nos registros oficiais. Um plano de manejo pode definir como a exploração madeireira deve ser feita, mas verificar se essas regras são seguidas na prática é muito mais difícil.

Uma árvore em pé se transforma em mercadoria

A exploração madeireira deixou de ser a única forma de uma floresta gerar renda. Em outubro de 2025, o Serviço Florestal Brasileiro introduziu normas que permitem às concessões de manejo florestal já em vigor a inclusão de atividades voltadas à redução das emissões provenientes do desmatamento e da degradação florestal, com o objetivo de gerar, certificar e comercializar créditos de carbono.

Em 25 de março de 2026, o Brasil realizou seu primeiro leilão federal para concessão florestal com foco em restauração ecológica na Floresta Nacional do Bom Futuro, em Rondônia. A Re.green venceu o leilão para uma unidade de manejo de aproximadamente 51.200 hectares. A concessão tem duração de 40 anos e permite a geração de receita por meio de ativos ambientais, incluindo créditos de carbono e produtos da silvicultura de espécies nativas.

A Re.green foi a vencedora do Earthshot Prize de 2025. Seus clientes e parceiros incluem Microsoft, Nestlé, Vivo e a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk. Seu investimento e apoio vêm da gestora de ativos Dynamo , da holding privada do Grupo Moreira Salles – Brasil Warrant (BW), da empresa de private equity e investimentos Lanx Capital , da empresa de private equity Principia Capital e da Gávea Investimentos .

O mercado voluntário de carbono adiciona mais uma fonte de receita . Uma árvore em pé pode gerar renda por meio do carbono que armazena. Seu carbono é medido, calculado e transformado em crédito que pode ser negociado. Para projetos de restauração, os créditos de carbono podem fornecer recursos para recuperar terras degradadas, mas também transformam a capacidade natural da floresta de armazenar carbono em algo que pode ser comprado e vendido.

O Dr. Thales AP West, professor assistente titular do Instituto de Estudos Ambientais (IVM) da Universidade Livre de Amsterdã, falou sobre as salvaguardas do mercado de créditos de carbono :

Se as empresas compram créditos de projetos florestais, a floresta precisa estar lá. Se ela desaparecer, os créditos também desaparecem. O problema é que mesmo cálculos certificados e auditados podem carecer de credibilidade — a certificação por si só não garante nada.

A maioria dos projetos dura apenas algumas décadas; uma vez expirados, seus créditos também podem expirar. No entanto, ninguém quer falar sobre isso porque é inconveniente. O mercado voluntário simplesmente optou por não levar a questão da permanência a sério.

Os volumes de madeira e as toneladas de carbono descrevem apenas parte do valor de uma floresta. As florestas sustentam o solo, a água, a vida selvagem e as relações entre as espécies. Para as pessoas que viveram nelas e dependeram delas por gerações, elas também são lar, alimento e remédio.

Os mercados voluntários de carbono atribuem um valor mensurável e negociável a uma função de um sistema mais amplo: o armazenamento de carbono e a mitigação das mudanças climáticas. Os críticos têm um nome para isso: “extrativismo verde”, argumentando que ele pode continuar a definir as florestas por meio do valor econômico que elas geram, mesmo quando as árvores permanecem de pé.

Sist argumenta que atribuir um preço a uma floresta em pé pode ajudar a protegê-la, mas apenas se a conservação não se tornar mais uma justificativa para o crescimento econômico desenfreado. Ele disse:

Sempre existe um perigo quando atribuímos um valor financeiro à natureza. Ao mesmo tempo, gerar renda a partir de uma floresta em pé pode dar às pessoas um forte incentivo para conservá-la.

Acho que o conceito de bioeconomia não é muito útil porque abrange muitas coisas e cada um tem sua própria definição e visão do que é bioeconomia. Penso que a bioeconomia deveria ser implementada dentro de um sistema econômico que defenda o decrescimento, e não como uma solução milagrosa dentro de um sistema capitalista que não pode existir sem crescimento.

Um relacionamento antigo com um nome mais verde

Durante séculos, a floresta amazônica foi explorada, vista como fonte de borracha, madeira de lei, minerais, petróleo, pastagens para gado e terras. As concessões florestais atuais operam sob regulamentação e monitoramento, com normas de gestão destinadas a limitar os danos associados à extração descontrolada.

Essas regras, por si só, não tornam o modelo transparente ou sustentável. Um sistema que valoriza as florestas principalmente por meio da madeira, do óleo, do carbono e de outros produtos comercializáveis ​​ainda corre o risco de negligenciar valores ecológicos e sociais mais difíceis de precificar.

A sustentabilidade dessas concessões dependerá do que acontecer na floresta ao longo do tempo: a recuperação das árvores colhidas, a condição dos rios e solos, a sobrevivência da vida selvagem, a influência das comunidades locais e indígenas nas decisões e quanta da riqueza gerada permanece nos locais onde é produzida.

Em conjunto, eles fornecem uma visão mais significativa da condição da floresta a longo prazo do que o valor de uma concessão ou o número de créditos de carbono que ela produz.

O Brasil precisa de alternativas à extração ilegal de madeira, à grilagem de terras e ao desmatamento. Concessões cuidadosamente gerenciadas poderiam talvez reduzir algumas dessas pressões, mas sua sustentabilidade a longo prazo ainda depende da capacidade de manter a recuperação ecológica e uma fiscalização eficaz ao longo de repetidos ciclos de exploração.

Sist alertou que as concessões não devem ser encaradas como a única solução. Ele disse:

O sistema de concessões florestais do Brasil está entre os melhores do mundo tropical, mas as regras de exploração precisarão ser alteradas para que seja sustentável a longo prazo. E as concessões, por si só, não conseguem suprir toda a demanda de madeira do mercado.

O Brasil precisa de uma abordagem muito mais abrangente: acabar com a extração ilegal de madeira, permitir que comunidades florestais e pequenos agricultores gerenciem as florestas de forma sustentável e restaurar os milhões de hectares de floresta e terra degradadas. Precisamos diversificar não apenas a origem da madeira, mas também quem tem condições de produzi-la.

O verdadeiro teste começa após a assinatura do contrato e o início da exploração madeireira. Os efeitos não podem ser avaliados apenas no próximo ano fiscal ou mesmo durante a vigência de uma concessão de 40 anos. Eles se tornarão mais claros em prazos muito mais longos, observando se as árvores de grande porte continuarão a se regenerar, se os rios e ecossistemas florestais permanecerão saudáveis ​​e se as pessoas que dependem da floresta conquistarão um papel significativo nas decisões sobre o seu futuro.

Direito de resposta: O Serviço Florestal Brasileiro (SFB) foi contatado para entrevistas a fim de discutir algumas das questões levantadas neste artigo. Até o momento da publicação, nenhuma resposta às perguntas enviadas havia sido recebida.


Fonte: YourVoiz

A carne bovina brasileira no centro da máquina global do desmatamento

Novos dados mostram que a pecuária bovina brasileira respondeu sozinha por cerca de um quarto do desmatamento mundial associado à expansão agropecuária entre 2001 e 2023, desmontando também a ideia confortável de que a destruição das florestas brasileiras ocorre principalmente para alimentar consumidores estrangeiros.

Uma nova análise publicada pelo Our World in Data coloca números bastante incômodos sobre uma relação que há décadas é conhecida no Brasil: a expansão da pecuária bovina continua sendo um dos principais motores da conversão de florestas em áreas produtivas. O que chama atenção agora é a dimensão global do fenômeno, pois, segundo os dados compilados a partir do estudo de Chandrakant Singh e Martin Persson, a produção de carne bovina respondeu por 41% do desmatamento mundial associado à expansão agropecuária entre 2001 e 2023, sendo que aproximadamente 63% desse desmatamento relacionado à carne ocorreu no Brasil. Em outras palavras, a carne bovina produzida no Brasil respondeu sozinha por cerca de 26% de todo o desmatamento mundial associado à produção agropecuária nesse período.

A figura produzida pelo Our World in Data torna essa desproporção particularmente evidente. Depois da carne bovina aparecem as oleaginosas, categoria que inclui soja e dendê, com 16%, seguidas pela produção florestal e pelos cereais, ambos com aproximadamente 12%. Nenhuma dessas atividades, entretanto, chega perto da participação da pecuária bovina, e dentro dos 41% atribuídos mundialmente à carne o Brasil ocupa uma posição absolutamente dominante, o que transforma a pecuária brasileira em um componente estrutural do processo global de destruição de florestas, particularmente grave porque essa transformação territorial avança sobre alguns dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta, entre eles a Amazônia e o Cerrado.

O dado mais desconfortável talvez esteja dentro do Brasil

Há, entretanto, outro resultado apresentado pelo Our World in Data que merece tanta atenção quanto o primeiro. A narrativa predominante costuma associar o desmatamento brasileiro à demanda internacional por commodities, especialmente carne e soja, e essa relação existe e evidentemente não deve ser minimizada. Mas os dados sobre o comércio do desmatamento indicam que ela explica apenas uma parcela do problema, pois aproximadamente 85% do desmatamento brasileiro associado à demanda por produtos teria sido impulsionado pelo próprio mercado doméstico, enquanto apenas cerca de 15% estaria relacionado à demanda internacional.

Esse dado muda significativamente a maneira como o problema precisa ser discutido. Se a maior parte da pressão que produz desmatamento está relacionada ao mercado interno, não podemos simplesmente atribuir a destruição da Amazônia e do Cerrado aos consumidores chineses, europeus ou norte-americanos. Existe uma cadeia econômica e territorial profundamente enraizada dentro do próprio Brasil, envolvendo abertura de pastagens, apropriação e valorização fundiária, expansão da fronteira agropecuária, frigoríficos, sistemas de distribuição e consumo de carne. Nesse sentido, uma parte substancial do problema não começa no supermercado europeu, mas dentro do próprio território brasileiro e termina também no mercado brasileiro.

O problema da soja também não desaparece

Outro aspecto importante é evitar uma leitura excessivamente simplificada desses dados, pois o fato de a pecuária aparecer muito à frente das oleaginosas não significa que a expansão da soja tenha importância secundária na transformação territorial brasileira. O próprio Our World in Data lembra que grande parte da soja mundial não é consumida diretamente pelos seres humanos, já que mais de três quartos da produção global é destinada à alimentação animal, especialmente de aves e suínos.

Além disso, os efeitos territoriais podem ocorrer indiretamente. A expansão da agricultura mecanizada sobre áreas anteriormente ocupadas pela pecuária pode deslocar rebanhos e pressionar novas fronteiras de ocupação, tornando insuficiente olhar apenas para a atividade instalada imediatamente depois da derrubada da floresta. As cadeias da carne, da soja, da terra e da infraestrutura encontram-se territorialmente articuladas, e separar artificialmente esses componentes pode acabar ocultando os mecanismos pelos quais a fronteira agropecuária continua avançando.

Há ainda uma importante lição histórica, pois a Moratória da Soja mostrou que mecanismos de controle das cadeias produtivas podem funcionar. Depois de sua implementação na Amazônia, a participação direta da soja na conversão recente de florestas caiu fortemente, embora parte da pressão territorial possa simplesmente migrar para outras regiões, particularmente o Cerrado. Isso reforça a necessidade de políticas que não se limitem a commodities ou biomas isoladamente, mas alcancem o conjunto das cadeias responsáveis pela transformação do território.

A contradição entre potência agropecuária e potência ambiental

Os números também expõem uma contradição que o discurso oficial brasileiro frequentemente prefere contornar. O Brasil apresenta-se simultaneamente como potência agropecuária e potência ambiental, mas essas duas condições somente poderão coexistir se o aumento da produção deixar definitivamente de depender da incorporação contínua de novas terras e da conversão de vegetação nativa.

Não estamos falando de uma questão marginal. Segundo o levantamento utilizado pelo Our World in Data, desde o início deste século foi eliminada globalmente uma área de floresta equivalente a aproximadamente cinco vezes o território do Reino Unido para expansão de terras agrícolas, sendo que somente a produção de carne bovina teria provocado a destruição de uma área superior a duas vezes o tamanho daquele país. É nesse contexto que aparece o dado que deveria provocar particular desconforto no Brasil: aproximadamente uma em cada quatro unidades de área florestal eliminadas no planeta para expansão agropecuária entre 2001 e 2023 esteve associada à produção brasileira de carne bovina.

Essa constatação coloca em perspectiva determinadas narrativas triunfalistas sobre o agronegócio brasileiro. Não se trata de negar sua importância econômica, tampouco de transformar produtores rurais individualmente em responsáveis por um processo histórico muito mais complexo, mas de reconhecer que existe um modelo territorial no qual a expansão da produção continua vinculada à apropriação de novas áreas, à valorização da terra e à conversão da vegetação nativa. Enquanto essa ligação permanecer intacta, recordes de produção e exportação precisarão ser confrontados com os custos ambientais e climáticos que normalmente permanecem fora das contas apresentadas pelo setor.

Quando a floresta entra na conta, a carne deixa de ser barata

Talvez a principal contribuição dos dados apresentados pelo Our World in Data seja justamente retirar o debate do terreno das abstrações. O desmatamento não acontece simplesmente porque existe uma entidade genérica chamada “agronegócio”, mas porque determinadas cadeias produtivas demandam terra, infraestrutura e recursos naturais e porque existem incentivos econômicos, políticos e institucionais que permitem que essa expansão continue acontecendo. No caso brasileiro, os números apontam diretamente para a pecuária bovina e mostram que sua importância na transformação das paisagens ultrapassa amplamente as fronteiras nacionais.

Quando 26% do desmatamento mundial associado à expansão agropecuária pode ser relacionado a uma única commodity produzida em um único país, já não estamos diante de uma externalidade ambiental secundária, mas de uma característica estrutural de determinado modelo de produção e ocupação territorial. Qualquer política brasileira séria de combate ao desmatamento terá, portanto, de enfrentar diretamente a cadeia da carne bovina, incluindo rastreabilidade dos animais, controle da origem dos rebanhos, desmatamento indireto, regularização fundiária, fiscalização ambiental e recuperação de áreas degradadas.

Se o Brasil pretende reivindicar protagonismo mundial no enfrentamento da crise climática e na proteção da biodiversidade, essa é uma conta que não poderá continuar escondida atrás das estatísticas de produção e exportação. A figura publicada pelo Our World in Data praticamente dispensa metáforas, pois mostra que, quando o assunto é desmatamento global, o boi brasileiro ocupa um espaço grande demais no gráfico justamente porque vem ocupando um espaço grande demais sobre o território.

Ciência predatória: é hora de fechar a torneira do dinheiro público

Artigo publicado na FEBS Letters sustenta que o combate à deterioração da publicação científica precisa atingir seu combustível econômico: bilhões de dólares pagos por pesquisadores, universidades e agências de financiamento às editoras

A proliferação das chamadas revistas predatórias costuma ser tratada como um problema de comportamento individual. O pesquisador deveria escolher melhor onde publica, desconfiar de convites recebidos por e-mail e evitar periódicos que prometem publicação rápida mediante pagamento. Tudo isso é verdade, mas deixa escapar uma questão muito maior, que diz respeito a quem está pagando a conta desse sistema e por que instituições públicas continuam financiando modalidades de publicação cuja qualidade editorial nem sempre corresponde aos valores cobrados.

É justamente nesse ponto que entra o artigo “Stop paying predatory publishers of academic journals — A policy proposal to restore scientific integrity and transparency, publicado em 26 de agosto na revista FEBS Letters por Paul B. Rainey, Kenneth N. Timmis, Paul A. Williams e outros 19 pesquisadores de instituições de diferentes países. O texto parte de uma afirmação forte: o sistema de publicação científica atravessa uma ruptura sistêmica, na qual milhares de revistas cobram taxas de processamento de artigos, as famosas APCs (Article Processing Charges), enquanto oferecem níveis muito distintos — e, em determinados casos, mínimos — de controle editorial e revisão por pares.

O tamanho da conta ajuda a entender a dimensão do problema. Citando levantamento de Haustein e colaboradores, os autores estimam que apenas seis grandes grupos editoriais — Elsevier, Frontiers, MDPI, PLOS, Springer Nature e Wiley — receberam mais de US$ 8 bilhões em APCs entre 2019 e 2023. O valor anual teria saltado de pouco menos de US$ 1 bilhão em 2019 para mais de US$ 2,5 bilhões em 2023, sendo que uma parcela significativa desse dinheiro tem origem, direta ou indireta, em recursos públicos destinados à pesquisa.

Aqui aparece uma das contradições mais interessantes levantadas pelo artigo. O Estado estabelece controles relativamente rigorosos para conceder recursos para pesquisas, exige projetos, pareceres, prestação de contas, comitês de ética e uma infinidade de procedimentos administrativos. Entretanto, quando chega o momento de pagar pela publicação dos resultados dessas pesquisas, bilhões podem ser transferidos às editoras sem que exista um mecanismo igualmente robusto para verificar a qualidade do serviço editorial que está sendo comprado.

Não basta fazer uma lista negra

A proposta de Rainey e seus colegas não consiste simplesmente em criar outra lista de revistas “boas” e “ruins”. Eles defendem um mecanismo de acreditação editorial, baseado em critérios públicos, transparentes e auditáveis, de modo que somente revistas que cumprissem esses critérios pudessem receber recursos provenientes de universidades, agências de fomento ou outras instituições públicas.

Entre as exigências estariam a existência de um conselho editorial efetivamente constituído, processos documentados e auditáveis de revisão por pares, regras claras para aceitação e rejeição de manuscritos, transparência sobre os valores cobrados dos autores e sobre o destino das receitas, políticas explícitas para evitar conflitos de interesse e padrões mínimos para a qualidade da revisão editorial. A ideia é particularmente interessante porque muda o foco do problema: em vez de perguntar apenas por que determinado pesquisador publicou em uma revista de qualidade duvidosa, deveríamos perguntar também por que uma instituição pública pagou para que ele publicasse nela.

O problema não começa nas revistas predatórias

Talvez o aspecto mais importante do artigo seja reconhecer que as revistas predatórias são apenas uma manifestação de um problema estrutural mais amplo. Os próprios autores observam que algumas grandes editoras consideradas tradicionais vêm adotando práticas que aproximam perigosamente a fronteira entre publicação científica e maximização de receitas, inclusive por meio da expansão acelerada de famílias de periódicos e de modelos baseados em grande volume de publicação.

Esse ponto é fundamental porque impede uma explicação confortável segundo a qual existiriam, de um lado, editoras científicas virtuosas e, do outro, alguns aventureiros predatórios. O crescimento explosivo das APCs criou incentivos econômicos bastante claros, pois, em um modelo no qual cada artigo publicado gera receita, aumentar o volume de publicações pode se transformar em objetivo econômico em si mesmo.

Existe ainda outro aspecto peculiar desse mercado. Uma parcela considerável do trabalho necessário para produzir aquilo que as editoras comercializam é realizada gratuitamente pela própria comunidade científica. Os pesquisadores escrevem os artigos, outros pesquisadores fazem a revisão por pares e cientistas frequentemente atuam como editores ou membros de conselhos editoriais sem remuneração. Depois disso, universidades e agências públicas ainda desembolsam milhares de dólares para tornar os artigos acessíveis, criando um modelo no qual o setor público financia a produção do conhecimento, fornece gratuitamente boa parte do trabalho editorial e depois volta a pagar para que o resultado desse trabalho seja publicado.

O “publique ou pereça” também precisa acabar

Há, entretanto, uma dimensão do argumento que considero ainda mais importante. Os autores reconhecem que fechar a torneira do dinheiro público para periódicos de baixa qualidade não resolverá sozinho o problema, pois é necessário atacar também aquilo que eles chamam de fatores de “empurrão” (push factors).

Enquanto universidades, agências de financiamento e sistemas de avaliação continuarem premiando quantidade de artigos, velocidade de publicação, índices bibliométricos e posição das revistas em rankings, continuará existindo uma enorme demanda por periódicos capazes de publicar rapidamente uma quantidade crescente de manuscritos. O mercado predatório não surgiu no vácuo, mas responde aos incentivos criados pelo próprio sistema acadêmico, no qual pesquisadores são pressionados a produzir continuamente novos artigos para disputar bolsas, recursos, promoções e posições profissionais.

Por isso, Rainey e seus colegas defendem também mudanças nos critérios utilizados para contratação, promoção e financiamento de pesquisadores, valorizando qualidade, originalidade e impacto científico em lugar da simples contagem de publicações. Nesse ponto, o artigo converge com iniciativas como a Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa (DORA) e o Manifesto de Leiden, que há anos questionam o uso mecânico de métricas bibliométricas para avaliar pesquisadores e instituições.

E o Brasil com isso?

Essa discussão deveria interessar particularmente às universidades e agências de fomento brasileiras. Em um sistema científico permanentemente pressionado pela escassez de recursos, é difícil justificar que dinheiro destinado à produção de conhecimento seja transferido para editoras sem uma avaliação igualmente rigorosa sobre quanto se está pagando, pelo que se está pagando e qual qualidade editorial está sendo efetivamente adquirida.

Mais importante ainda seria saber quanto universidades públicas, CAPES, CNPq e fundações estaduais de amparo à pesquisa estão desembolsando direta ou indiretamente em APCs e acordos editoriais. Antes de exigir cada vez mais artigos dos pesquisadores, talvez fosse útil tornar essa conta pública e avaliar quanto do orçamento destinado à ciência brasileira termina alimentando um mercado editorial internacional cujo faturamento cresce justamente com a multiplicação do número de artigos publicados.

A proposta publicada na FEBS Letters tem, portanto, uma virtude fundamental ao deslocar o debate da moralização do comportamento individual dos pesquisadores para a economia política da publicação científica. Revistas predatórias precisam de artigos para sobreviver, mas precisam igualmente de dinheiro, e, se uma parcela relevante desses recursos vem dos orçamentos públicos, existe uma medida bastante concreta para começar a modificar os incentivos existentes: impedir o pagamento de taxas de publicação quando não houver qualidade editorial comprovada.

Se o dinheiro utilizado para financiar a produção e a divulgação do conhecimento científico é público, transparência, revisão por pares efetiva e integridade editorial deveriam ser requisitos mínimos para decidir quem pode receber esses recursos.

Justiça holandesa barra fungicida com fludioxonil; no Brasil, substância continua presente no Maxim e Maxim XL

Decisão da Justiça holandesa determina retirada de produto contendo o fungicida após reconhecimento de suas propriedades de desregulação endócrina; no Brasil, o princípio ativo está presente em produtos como Maxim e Maxim XL

Uma decisão recente da mais alta corte administrativa dos Países Baixos deveria chamar a atenção das autoridades sanitárias brasileiras. O tribunal determinou que o fungicida Pitcher seja retirado do mercado o mais rapidamente possível porque contém fludioxonil, princípio ativo reconhecido como desregulador endócrino. O caso, divulgado pela Pesticide Action Network Europe (PAN Europe), coloca novamente no centro do debate uma questão recorrente na regulação dos agrotóxicos: o que fazer quando novas evidências científicas indicam riscos que não foram devidamente considerados no momento da autorização de um produto?

A importância da decisão vai muito além dos Países Baixos. Em 2024, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) concluiu que o fludioxonil atende aos critérios europeus para identificação de substâncias com propriedades de desregulação endócrina nas modalidades relacionadas a estrogênio, androgênio e esteroidogênese, tanto para seres humanos como para organismos não alvo. A legislação europeia estabelece restrições severas para substâncias com essas características, razão pela qual o tribunal concluiu que uma formulação que permita exposição humana não deveria ter sido autorizada.

A questão interessa diretamente ao Brasil porque o fludioxonil continua autorizado pela Anvisa e pelo Ministério da Agricultura. Um dos produtos mais conhecidos é o Maxim, fungicida para tratamento de sementes registrado pela Syngenta, contendo 25 g/L de fludioxonil. Existe ainda o Maxim XL, também da Syngenta, que combina 25 g/L de fludioxonil com 10 g/L de metalaxil-M. O Maxim está registrado no MAPA sob o nº 05397, enquanto o Maxim XL possui registro nº 09499. Portanto, não estamos falando de uma molécula distante da realidade agrícola brasileira, mas de um princípio ativo efetivamente autorizado e comercializado no país.

E há aqui uma contradição que merece atenção. No sistema brasileiro de classificação, tanto o Maxim quanto o Maxim XL aparecem na Categoria 5 — “Produto Improvável de Causar Dano Agudo”. Essa classificação, entretanto, refere-se essencialmente à toxicidade aguda e não significa ausência de efeitos associados à exposição crônica. Esse ponto torna-se particularmente importante quando estamos diante de uma substância que a avaliação europeia passou a considerar desreguladora endócrina. Aliás, a própria bula brasileira do Maxim XL informa que, em estudos crônicos com animais, fígado e rins foram identificados como órgãos-alvo do fludioxonil, com alterações hepáticas, renais e hematológicas observadas nas doses mais elevadas.

Há também uma dimensão ambiental que não deveria ser esquecida. Enquanto o Maxim é classificado como “Produto Perigoso ao Meio Ambiente”, o Maxim XL é classificado como “Produto Muito Perigoso ao Meio Ambiente”. Assim, a confortável expressão “improvável de causar dano agudo”, quando lida isoladamente, pode transmitir ao usuário uma percepção de segurança que não corresponde ao conjunto das informações toxicológicas e ambientais disponíveis.

O caso holandês levanta ainda uma questão institucional particularmente relevante para o Brasil. O tribunal europeu reafirmou que as autoridades responsáveis pelo registro de agrotóxicos não podem simplesmente permanecer presas às avaliações realizadas no momento inicial da autorização quando surgem novas evidências científicas relevantes. A própria controvérsia começou porque a autoridade holandesa continuava autorizando determinados produtos sem incorporar adequadamente conhecimentos científicos mais recentes. O princípio é elementar: a autorização de um agrotóxico não pode funcionar como um salvo-conduto permanente diante do avanço do conhecimento científico.

É justamente aí que a situação brasileira merece acompanhamento. O fludioxonil permanece na lista de ingredientes ativos autorizados pela Anvisa e integra diferentes formulações comercializadas no país. Além do Maxim e Maxim XL, aparecem no mercado brasileiro produtos como Maxim XL Professional, Apron RFC e Celest XL, todos registrados pela Syngenta e contendo fludioxonil em diferentes combinações com outros fungicidas.

Até o momento, não consegui confirmar nos bancos públicos consultados quais produtos registrados por outras empresas poderiam ser rigorosamente classificados como genéricos do Maxim ou do Maxim XL no mercado brasileiro. Essa informação merece investigação adicional, inclusive porque a existência de registros por equivalência pode ampliar significativamente o universo de produtos e marcas comerciais associados ao mesmo princípio ativo.

O ponto central, entretanto, independe disso. Se uma autoridade científica europeia identificou o fludioxonil como desregulador endócrino e uma corte determinou a retirada de uma formulação do mercado justamente por causa desse risco, Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura deveriam explicar se essas novas evidências já foram incorporadas à avaliação brasileira do ingrediente ativo. Não se trata de importar automaticamente uma decisão europeia, mas de aplicar um princípio básico de proteção à saúde pública: diante de novas evidências sobre efeitos crônicos potencialmente graves, registros concedidos no passado precisam ser reavaliados à luz do conhecimento científico disponível no presente.

O caso do fludioxonil mostra mais uma vez por que classificar um agrotóxico apenas pelo risco de intoxicação aguda oferece uma imagem incompleta de sua segurança. Um produto pode não provocar facilmente uma intoxicação imediata e, ainda assim, apresentar riscos associados à exposição repetida, à interferência no sistema endócrino ou aos efeitos sobre organismos e ecossistemas. E é justamente nesse intervalo entre aquilo que mata rapidamente e aquilo que pode produzir danos silenciosos ao longo do tempo que muitas vezes se instala o problema dos agrotóxicos.

Trabalho escravo no Mato Grosso do Sul: quando a reforma agrária se torna também uma questão de direitos humanos

Casos em duas grandes fazendas de Mato Grosso do Sul mostram que o trabalho escravo contemporâneo não é uma aberração isolada do agronegócio brasileiro, mas parte de um problema estrutural que continua aparecendo nas fiscalizações realizadas no campo

Uma notícia publicada nesta segunda-feira (31) pelo Campo Grande News merece atenção não apenas pelo que revela sobre duas propriedades rurais de Mato Grosso do Sul, mas pelo que diz sobre uma realidade que o discurso triunfalista em torno do agronegócio brasileiro frequentemente prefere deixar fora da fotografia. Duas fazendas, que juntas somam 5.341 hectares, estão sendo objeto de ações para expropriação e posterior destinação à reforma agrária depois que fiscalizações encontraram trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão.

Uma delas é a Fazenda Carandazal, com 2.091 hectares, localizada em Corumbá, na região de fronteira com a Bolívia. Ali, quatro trabalhadores foram resgatados em fevereiro de 2025, e a ação movida pelo Ministério Público do Trabalho aponta inclusive histórico de reincidência em infrações trabalhistas. O MPT pede a destinação da propriedade à reforma agrária e R$ 25 milhões em reparação pelos danos causados à sociedade. A outra é a Fazenda Bahia dos Carneiros, de 3.250 hectares, em Porto Murtinho, onde sete trabalhadores foram resgatados em abril de 2025. O dado é particularmente grave: entre eles havia dois adolescentes e três indígenas. Nesse caso, as indenizações requeridas chegam a R$ 8,9 milhões.

Esses casos não deveriam ser tratados como episódios excepcionais protagonizados por alguns poucos proprietários rurais que teriam se desviado das práticas predominantes no campo brasileiro. Os números disponíveis mostram algo bem mais incômodo. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), somente em 2025 foram registrados 159 casos de trabalho escravo rural no Brasil, envolvendo 1.991 trabalhadores resgatados. Entre as atividades nas quais ocorreram resgates aparecem lavouras, cana-de-açúcar, mineração e pecuária, ou seja, setores diretamente relacionados às cadeias produtivas rurais e ao agronegócio. A pecuária, sozinha, respondeu por 154 trabalhadores resgatados naquele ano.

O Mato Grosso do Sul oferece uma demonstração especialmente clara desse padrão. Em 2025, foram registrados no estado 12 casos e 92 trabalhadores resgatados, com a pecuária concentrando a maior parcela das ocorrências. Mais significativo ainda é observar a série histórica: desde 1995, o estado acumulou 165 casos e 3.335 trabalhadores resgatados. Em 2024, nada menos que 13 propriedades rurais sul-mato-grossenses apareciam na chamada “lista suja” do trabalho escravo do governo federal.

E o problema está longe de ser exclusivamente sul-mato-grossense. A atualização de abril de 2026 da lista nacional acrescentou 169 empregadores ao cadastro, e a criação de bovinos para corte apareceu como a segunda atividade econômica com maior número de novas inclusões, atrás apenas do trabalho doméstico. Portanto, quando casos de trabalho escravo são encontrados em fazendas dedicadas às atividades típicas do agronegócio, estamos diante de manifestações locais de um problema de dimensão nacional.

É justamente por isso que a possível expropriação das duas fazendas de Mato Grosso do Sul possui uma importância que ultrapassa os 5.341 hectares envolvidos. A Constituição brasileira estabelece que propriedades rurais nas quais seja constatada a exploração de trabalho escravo podem ser expropriadas e destinadas à reforma agrária, sem indenização ao proprietário, além das demais sanções cabíveis. O acordo firmado entre Ministério Público do Trabalho, Superintendência Regional do Trabalho e Incra procura finalmente dar maior efetividade a esse mecanismo. Há ainda uma dimensão particularmente interessante: os trabalhadores resgatados terão prioridade na distribuição dos lotes provenientes das terras expropriadas.

Há uma lógica poderosa nessa medida. Uma propriedade rural não cumpre sua função social simplesmente porque produz soja, carne, cana ou qualquer outra mercadoria capaz de gerar receitas de exportação. A função social da propriedade envolve também o respeito aos direitos trabalhistas e à dignidade humana. Quando uma grande propriedade produz riqueza utilizando trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão, é difícil imaginar demonstração mais evidente do descumprimento dessa função.

Talvez esteja justamente aí uma das discussões que deveriam acompanhar o debate brasileiro sobre reforma agrária. Não se trata apenas de perguntar quem possui a terra e quanto ela produz, mas como essa riqueza é produzida e sob quais relações sociais de trabalho. Afinal, em pleno século XXI, encontrar adolescentes, indígenas e trabalhadores adultos vivendo e trabalhando em condições análogas à escravidão dentro de grandes propriedades rurais não combina muito bem com a imagem de modernidade tecnológica e eficiência que o chamado “agro” construiu para si.

E se uma propriedade somente consegue produzir riqueza violando direitos humanos elementares, talvez a questão não seja saber se ela deve ser destinada à reforma agrária. A pergunta mais apropriada é por que demoramos tanto para fazer cumprir aquilo que a Constituição brasileira já determina.

Revistas predatórias abrem as porteiras para artigos feitos por ChatGPT

Um artigo recém-publicado por Daniel Stockemer e Farah Fakri, da University of Ottawa, na revista científica PS: Political Science & Politics, publicada pela Cambridge University Press em nome da American Political Science Association, oferece evidências bastante incômodas sobre algo que há muito tempo se suspeita no mundo acadêmico: em muitas revistas predatórias, o que determina a publicação de um artigo parece ter muito menos relação com sua qualidade científica do que com a disposição do autor em participar do negócio editorial.

O mérito do trabalho de Stockemer e Fakri está justamente em ter colocado essa suspeita à prova. Os autores selecionaram 144 revistas identificadas como potencialmente predatórias a partir de mensagens de spam, da Lista de Beall e de uma base especializada. Em seguida, submeteram dois tipos de material que dificilmente deveriam atravessar uma avaliação científica minimamente rigorosa: trabalhos produzidos por estudantes de graduação e pequenos artigos de engenharia integralmente gerados pelo ChatGPT.

Os resultados são impressionantes. Entre as 76 revistas às quais foram enviados trabalhos de graduação, 51 chegaram a uma decisão editorial. Dessas, 39 aceitaram os manuscritos, uma chegou a publicá-lo imediatamente e apenas 11 os rejeitaram. Isso significa uma taxa de aceitação de 78,4% entre aquelas que efetivamente responderam. E não estamos falando de artigos científicos produzidos por jovens pesquisadores, mas de trabalhos acadêmicos escritos originalmente para disciplinas de graduação, principalmente dos primeiros anos, sem contribuição original para a literatura.

Com os textos produzidos por inteligência artificial, o resultado foi ainda mais revelador. Foram submetidos 10 pequenos estudos de caso de engenharia, totalmente gerados pelo ChatGPT, a 68 revistas. Quarenta e seis aceitaram os manuscritos, apenas quatro os rejeitaram e 18 simplesmente não responderam. Os textos tinham cerca de 800 palavras e continham problemas que uma revisão minimamente cuidadosa poderia identificar, incluindo inconsistências técnicas e referências bibliográficas inexistentes.

Há episódios quase caricatos. Um trabalho de graduação sobre a crise da dívida no Sul Global foi aceito e publicado por uma revista dedicada a imagens clínicas e médicas, apesar de o artigo tratar de economia política e não possuir qualquer relação com a área médica. Em outro caso, uma revista aceitou um artigo de engenharia totalmente produzido pelo ChatGPT depois de os autores declararem deliberadamente que não haviam utilizado inteligência artificial. A resposta editorial informou simplesmente que o trabalho havia passado pelo teste de plágio. As referências falsas produzidas pela própria IA aparentemente não despertaram qualquer preocupação.

Mas há aqui uma questão que considero particularmente importante. O artigo de Stockemer e Fakri não demonstra que a inteligência artificial seja incompatível com a produção científica. Demonstra algo diferente e talvez mais grave: a existência de um sistema editorial capaz de transformar textos sem qualquer pesquisa original — inclusive aqueles produzidos automaticamente e contendo informações falsas — em aparentes artigos científicos. A diferença é fundamental. Ferramentas de IA podem auxiliar pesquisadores na organização de informações, revisão de textos, programação, exploração preliminar de dados e inúmeras outras tarefas. Nada disso elimina a responsabilidade intelectual do pesquisador nem substitui método, dados, análise, verificabilidade ou revisão crítica. O problema começa quando um texto sintético passa a ocupar o lugar da pesquisa e encontra, do outro lado, uma revista cuja preocupação principal aparentemente não é verificar se existe ciência no manuscrito.

É aí que as revistas predatórias representam um problema que ultrapassa os autores que pagam para publicar nelas. Ao imitarem a aparência de periódicos científicos legítimos — com DOI, volume, número, conselho editorial e páginas cuidadosamente diagramadas — elas podem introduzir conteúdos sem validade científica no próprio ecossistema de circulação do conhecimento. Uma vez publicado, um artigo ruim pode ser encontrado por mecanismos de busca, incorporado a revisões bibliográficas e eventualmente citado por outros pesquisadores. Stockemer e Fakri alertam justamente para o risco de conteúdos fabricados ingressarem dessa maneira no registro científico e contaminarem trabalhos posteriores.

Por isso, talvez a conclusão mais importante desse experimento seja que o problema das revistas predatórias não está apenas na cobrança de taxas de publicação. Existem excelentes revistas de acesso aberto que cobram APCs e realizam revisão por pares rigorosa. A característica essencial da predação está na transformação da publicação científica em uma relação essencialmente comercial, na qual os mecanismos que deveriam separar conhecimento cientificamente defensável de simples aparência de ciência deixam de funcionar.

E a chegada da inteligência artificial generativa torna esse problema ainda mais perigoso. Se antes produzir dezenas ou centenas de artigos fraudulentos exigia algum esforço humano, hoje é tecnicamente possível produzir textos com aparência acadêmica em escala industrial. Se existirem revistas igualmente dispostas a publicá-los sem revisão efetiva, estarão dadas as condições para uma verdadeira linha de montagem de pseudociência.

O trabalho de Daniel Stockemer e Farah Fakri, portanto, deveria servir também de alerta para universidades e agências de fomento. Em um sistema acadêmico que continua premiando quantidade de publicações, número de artigos e determinados indicadores bibliométricos, combater revistas predatórias exige mais do que elaborar listas de periódicos suspeitos. Exige modificar os próprios incentivos que alimentam esse mercado e recolocar no centro da avaliação aquilo que deveria importar: a qualidade da pesquisa e a contribuição efetiva que ela oferece ao conhecimento científico.