Por Luiz Drude de Lacerda & Edmo Campos, Academia Brasileira de Ciências
Em meados da Década da Ciência Oceânica (2021-2030), a humanidade enfrenta um ponto crítico. O bem-estar das gerações futuras e a própria integridade do ecossistema terrestre dependem de decisões urgentes sobre como gerimos o Oceano. Atualmente, operamos perigosamente perto de limites que, se ultrapassados, podem comprometer seriamente a humanidade.
O Gigante que Regula a Vida
O Oceano cobre 63% da superfície global e é o grande regulador do clima e dos ciclos biogeoquímicos. Ele atua como um escudo contra o aquecimento global, absorvendo:
30% do CO2 emitido por atividades humanas.
90% do excesso de calor gerado por essas emissões.
No entanto, essa proteção tem um preço alto. O aumento da temperatura da água está alterando correntes marinhas, intensificando ondas de calor e provocando a perda de oxigênio e o aumento da acidez.
As Ameaças em Curso
Correntes e Clima em Risco
Sensores instalados em grande profundidade indicam que a circulação de revolvimento meridional do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC, está enfraquecendo e corre o risco de sofrer uma mudança abrupta. Se atingir um “ponto de não retorno”, as consequências serão severas para o clima do planeta. Por exemplo, o Hemisfério Norte ficaria mais frio e o Sul mais quente, impactando drasticamente a biodiversidade marinha e terrestre, a agricultura, a saúde e a vida social nessas regiões.
Ondas de Calor e Perda de Biodiversidade
Em decorrência da absorção do excesso de calor, o oceano está se aquecendo. Esse aquecimento oceânico já causa mortalidade em massa em ecossistemas e fazendas de aquacultura. Recifes de coral sofrem com o branqueamento, sendo substituídos por espécies oportunistas e perdendo sua abundância em áreas rasas, o que ameaça a segurança alimentar de 40% da população mundial que depende do mar.
Desoxigenação e Acidificação
O excesso de nutrientes (eutrofização) e o aquecimento global estão criando zonas de baixo oxigênio. Isso altera a distribuição de grandes peixes, como atuns, e modifica toda a cadeia alimentar. Paralelamente, a acidificação — mais severa no Oceano Austral — impacta a base da rede alimentar, afetando a qualidade e quantidade de alimento disponível no mar.
4. O Legado da Poluição
A mudança climática está amplificando a escala da poluição local para o nível global. Poluentes persistentes, como mercúrio e microplásticos, estão se tornando mais reativos e biodisponíveis, aumentando os riscos de exposição para as populações humanas.
O Mar Profundo e a Nova Governança
O leito oceânico, abaixo de 200 metros, é vital para o sequestro de carbono e o ciclo de nutrientes. Embora fosse considerado “mar de ninguém”, a entrada em vigor do Tratado de Alto Mar (BBNJ) em janeiro deste ano marca um avanço na governança global. Contudo, atividades como mineração profunda e exploração de petróleo ainda carecem de avaliações ambientais rigorosas.
Conclusão
O Oceano não é apenas uma fonte de recursos, fármacos e energia; é a infraestrutura que mantém o planeta habitável. Compreender seu funcionamento dinâmico através de ciência transdisciplinar e ações multilaterais não é mais uma opção, mas uma necessidade urgente para estabelecer políticas públicas que garantam o nosso amanhã.
O gráfico que segue logo abaixo que mostra o ritmo do tráfego de navios petroleiros no Estreito de Ormuz revela um cenário de forte deterioração logística após a intensificação das tensões militares envolvendo Irã, Israel e os Estados Unidos. Observa-se uma queda abrupta no fluxo de navios petroleiros logo após o episódio destacado no gráfico, indicando um movimento de retração do transporte marítimo em uma das rotas energéticas mais estratégicas do planeta. Cerca de 20% do petróleo consumido globalmente passa diariamente pelo estreito, o que transforma qualquer instabilidade regional em um problema de escala mundial.
A redução do tráfego sugere que armadores, seguradoras e grandes operadores logísticos já estão reagindo ao aumento do risco geopolítico. Mesmo sem um bloqueio formal do estreito, o simples aumento da percepção de insegurança vem sendo suficiente para elevar os custos de seguro marítimo, reduzir a circulação de embarcações e provocar atrasos no abastecimento internacional. Isso tende a gerar forte volatilidade no preço do barril de petróleo, pressionando inflação, cadeias produtivas e custos de transporte em praticamente todas as economias dependentes de combustíveis fósseis.
Os impactos sobre a economia mundial serão profundos nos próximos meses. O primeiro efeito esperado é o aumento do preço da energia, afetando diretamente transporte marítimo, aviação, geração elétrica e indústria petroquímica. Em seguida, ocorre uma propagação inflacionária global: combustíveis mais caros elevam custos logísticos, pressionam alimentos, manufaturas e bens industriais. Países importadores líquidos de petróleo, especialmente na Europa e na Ásia, podem enfrentar desaceleração econômica combinada com inflação persistente, fenômeno semelhante a processos de estagflação observados em crises energéticas anteriores.
Outro ponto crítico é que o gráfico mostra não apenas uma oscilação pontual, mas uma quebra estrutural do fluxo regular de petroleiros após fevereiro. Isso indica que o mercado passou a incorporar o risco de conflito prolongado no Golfo Pérsico. Em um contexto de estoques globais apertados e recuperação desigual da produção em diferentes regiões produtoras, qualquer interrupção adicional pode desencadear choques ainda mais severos sobre o mercado energético.
No caso brasileiro, os efeitos podem ser particularmente graves para a agricultura de exportação. Embora o Brasil seja produtor relevante de petróleo, o país mantém forte dependência externa de fertilizantes nitrogenados, potássicos e fosfatados, muitos deles associados direta ou indiretamente à dinâmica energética global. A produção de fertilizantes nitrogenados depende intensamente do gás natural — cujo preço tende a subir junto com o petróleo — enquanto fertilizantes potássicos importados possuem cadeias logísticas altamente sensíveis ao custo do transporte marítimo.
Esse cenário pode provocar desabastecimento parcial e aumento expressivo no custo dos insumos agrícolas, afetando especialmente commodities exportadoras como soja, milho, algodão, café e cana-de-açúcar. O agronegócio brasileiro opera em larga escala e com elevada dependência de fertilização intensiva. Caso ocorram atrasos logísticos ou encarecimento prolongado dos fertilizantes, produtores poderão reduzir aplicação de nutrientes, comprometendo produtividade, margens de lucro e competitividade internacional.
Além disso, os impactos tendem a ser desiguais regionalmente. Grandes grupos exportadores podem conseguir absorver parte dos custos ou antecipar compras, enquanto médios e pequenos produtores ficam mais vulneráveis à volatilidade internacional. Isso pode ampliar processos de concentração econômica no campo e pressionar cadeias alimentares internas, elevando preços domésticos de alimentos.
A crise também evidencia uma fragilidade estrutural da economia brasileira: a dependência externa de insumos estratégicos mesmo em um país com enorme peso agrícola e energético. O risco geopolítico no Oriente Médio acaba revelando como a segurança alimentar global permanece profundamente conectada à estabilidade das rotas internacionais de petróleo e gás. Em outras palavras, uma crise militar no Golfo Pérsico pode rapidamente se transformar em inflação agrícola, insegurança alimentar e desaceleração econômica em países distantes como o Brasil.
Tudo isso posto junto revela o quanto foi precipitada e mal calculada a aventura militar comandada pelos EUA e por Israel contra o Irã. Como eu já havia escrito logo no início do conflito, a situação tinha tudo para dar errado. E deu.
Enquanto pesquisadores enfrentam abandono institucional e o hub de inovação da Faperj se deteriora no Catete, milhões destinados à ciência foram direcionados ao Segurança Presente sob influência de deputados da Alerj e interesses eleitorais
Um relatório interno do governo do estado do Rio de Janeiro revelou que a expansão do programa Segurança Presente, financiada parcialmente com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, teria sido conduzida por interesses políticos vinculados a deputados da bancada do PL na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, e não por critérios técnicos relacionados à incidência criminal. O convênio previa o repasse de R$ 20 milhões para a abertura de dez novas bases do programa, enquanto a Faperj estava sob influência política do então secretário estadual de Ciência e Tecnologia, o deputado Anderson Moraes.
Os documentos apontam que diferentes bases do Segurança Presente foram associadas diretamente a interesses eleitorais de parlamentares. Além de Anderson Moraes, aparecem envolvidos o presidente da Alerj, Douglas Ruas, e os deputados Thiago Gagliasso, Índia Armelau e Filippe Poubel, cada um ligado à instalação de bases em áreas de interesse político-eleitoral. O processo também registra a utilização de emendas parlamentares para financiar unidades em municípios do interior fluminense.
O episódio evidencia uma profunda contradição institucional: recursos de uma fundação cuja finalidade legal é fomentar ciência, tecnologia e pesquisa científica passaram a financiar um programa de segurança pública, área que deveria possuir orçamento próprio e planejamento técnico específico. A utilização de verbas da Faperj para sustentar ações policiais revela não apenas um desvio de finalidade administrativa, mas também uma inversão de prioridades em um estado marcado pelo sucateamento das universidades públicas, pela precarização da pesquisa e pela redução de investimentos científicos.
Essa contradição torna-se ainda mais simbólica quando se observa a situação do prédio histórico que abriga o hub de inovação da Faperj, no bairro do Catete. O imóvel segue sem receber reformas estruturais adequadas, incluindo a recuperação e pintura de sua fachada externa, apesar de representar institucionalmente a política estadual de ciência e inovação. A deterioração física do espaço amplia a percepção de desconexão entre a missão original da fundação e a forma como seus recursos vêm sendo direcionados. Enquanto laboratórios, pesquisadores e universidades enfrentam dificuldades para obtenção de financiamento e manutenção de infraestrutura científica básica, recursos milionários são deslocados para programas de segurança pública associados a disputas político-eleitorais. O contraste entre o abandono de um patrimônio ligado à produção do conhecimento e a priorização de iniciativas alheias à pesquisa explicita uma crise de identidade institucional da própria Faperj.
A situação fica ainda mais delicada diante das evidências de ingerência política sobre a definição territorial do programa. Em vez de obedecer a estudos técnicos, indicadores de violência ou diagnósticos de segurança pública, a expansão das bases teria seguido interesses de parlamentares em seus redutos eleitorais, convertendo um programa estatal em instrumento de capital político. O caso expõe a fragilidade dos mecanismos de controle sobre fundos públicos destinados à ciência e reforça o debate sobre a instrumentalização de estruturas do Estado para fins eleitorais e de fortalecimento de grupos políticos.
Diante das denúncias, o governo estadual anunciou a transferência do Segurança Presente para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e a realização de auditoria no programa. A promessa é que futuras expansões sejam orientadas por mapas de incidência criminal e critérios técnicos, buscando reduzir o peso das articulações políticas na condução da política de segurança pública.
Com o esgotamento de recursos, processo avança para fase que vai definir os valores de indenização às vítimas; audiência começa em abril de 2027
Foto: Reuters/Ricardo Moraes
Por Leonardo Morais para “Diário do Comércio”
A BHP, uma das acionistas da Samarco, sofreu nesta quarta-feira, (6) mais uma derrota na justiça britânica no Caso Mariana. O Tribunal de Apelação da Inglaterra rejeitou o pedido da mineradora para recorrer da decisão que a responsabilizou pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (Região Central de Minas Gerais) ocorrido em novembro de 2015.
Esta era a última via disponível no sistema jurídico inglês para contestar a condenação. A decisão consolida o entendimento firmado em novembro de 2025, quando o Tribunal Superior reconheceu a BHP como responsável pelo pior desastre ambiental da história do Brasil.
Na época, o tribunal concluiu que a empresa tinha conhecimento dos riscos da barragem antes do colapso e agiu com negligência e imprudência. Ao negar o recurso, o juiz Fraser foi categórico ao destacar que não aceitaria que qualquer dos fundamentos relativos à responsabilidade da BHP pelo rompimento da barragem seja razoavelmente defensável.
O sócio do escritório Pogust Goodhead, representante das vítimas, e líder do Caso Mariana na Inglaterra, Jonathan Wheeler, pontua que o Tribunal de Apelação agora se uniu ao Tribunal Superior ao concluir que os fundamentos de apelação da BHP não têm perspectivas reais de sucesso. “Um resultado enfático e inequívoco. A BHP é responsável pelo pior desastre ambiental da história do Brasil e não terá outra chance para reverter a decisão”, salienta.
Esta é a segunda vez que a BHP fracassa na tentativa de reverter a condenação. Segundo o escritório de advocacia, além da tentativa de reverter a decisão, a BHP estaria agindo para atrasar o processo, que perdura por quase 11 anos.
“Nossos clientes esperaram mais de uma década por justiça, enquanto a BHP buscou todas as vias processuais para evitar a responsabilização. Essas vias agora estão fechadas. Estamos focados em garantir a indenização que centenas de milhares de brasileiros têm direito há muito tempo”, acrescenta Wheeler.
Com o esgotamento das vias ordinárias, a única tentativa agora é a possibilidade de apresentação de um recurso extraordinário. Entretanto, para o escritório, a modalidade não apresenta potencial de reversão, já que possui aplicações restritas, com baixa probabilidade de sucesso nas circunstâncias do caso.
Audiência em 2027 analisará impactos de cada grupo afetado para calcular indenização
O processo avança agora para a Fase 2, com audiência prevista para abril de 2027. A etapa será focada na análise das perdas de cada grupo afetado, como indivíduos, comunidades, empresas e municípios ao longo do Rio Doce, nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.
Em termos de valores, a indenização prevista há três anos girava em torno de 36 bilhões de libras para os 620 mil clientes afetados em 46 municípios. O número, no entanto, deve ser inferior, já que alguns grupos aceitaram propostas no Brasil.
Atualmente, a expectativa é de que a BHP indenize aproximadamente 380 mil pessoas no Caso Mariana, situadas em 31 municípios, o que reforça a projeção de um valor total inferior aos 36 bilhões de libras.
Orompimento da barragem de Fundão, em 5 de novembro de 2015, despejou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de lama tóxica no Rio Doce, matando 19 pessoas, entre elas, uma gestante que perdeu o filho. A enxurrada de rejeitos percorreu centenas de quilômetros, destruindo comunidades ribeirinhas, comprometendo o abastecimento de água e chegando ao Oceano Atlântico. Quase 11 anos depois, os efeitos ambientais e sociais ainda são sentidos ao longo de todo o percurso do rio, nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.
Como o Porto do Açu transforma São João da Barra em um caso emblemático de crescimento econômico sem desenvolvimento social no Norte Fluminense
A análise a seguir resulta da fusão de dois textos publicados no blog do economista José Alves Neto, a quem se deve o crédito tanto pelo levantamento dos dados quanto pelas interpretações iniciais que fundamentam e inspiram o desenvolvimento crítico apresentado aqui. A partir dessa base empírica e analítica, busca-se não apenas integrar os argumentos originais, mas também aprofundar as relações ali sugeridas, evidenciando as dinâmicas estruturais que atravessam a economia da região Norte Fluminense.
Os dois textos convergem para um diagnóstico consistente — e incômodo — sobre a economia regional: a coexistência de alta geração de riqueza com baixa conversão dessa riqueza em bem-estar social. Ao fundi-los e avançar na análise, o que emerge não é apenas a constatação de um “paradoxo”, mas a evidência de um modelo territorial profundamente assimétrico, cuja lógica de funcionamento tende a reproduzir — e até aprofundar — desigualdades.
O caso do município de São João da Barra é o ponto mais agudo dessa contradição. O município ostenta um Produto Interno Bruto per capita extraordinariamente elevado, impulsionado pelo Porto do Açu. No entanto, simultaneamente, apresenta um dos maiores índices de pobreza da região, com cerca de 72% da população inscrita no CadÚnico. Essa dissociação entre produção de riqueza e condições de vida não é um erro estatístico, mas uma expressão clássica do que a literatura denomina economia de enclave: um arranjo produtivo altamente integrado a circuitos globais de capital, mas fracamente articulado com a economia local. Nesse modelo, o valor é gerado no território, mas não permanece nele. A renda se concentra em cadeias empresariais externas, em estruturas fiscais pouco capturadas pelo município e em fluxos financeiros que não se traduzem em emprego local de qualidade nem em políticas públicas robustas. A imagem sugerida pelos textos é bastante precisa: o PIB “nasce no porto e sai pela tubulação”, enquanto a pobreza permanece territorializada.
Quando contrastamos São João da Barra com Macaé, a diferença não está apenas no volume de riqueza, mas na forma como ela circula. Macaé, embora também dependente do petróleo, desenvolveu ao longo do tempo uma base econômica mais diversificada, com serviços especializados, empregos qualificados e uma estrutura tributária mais consolidada. Isso não elimina os problemas sociais, mas atenua seus efeitos, permitindo uma melhor posição no ranking de bem-estar relativo. Campos dos Goytacazes e Rio das Ostras ocupam posições intermediárias, mas revelam outra dimensão do problema: a dependência indireta. Campos, historicamente um polo regional, hoje se sustenta em grande medida pelas rendas do petróleo e, mais recentemente, pelos efeitos indiretos do Porto do Açu, sem uma estratégia clara de reindustrialização ou diversificação produtiva. Rio das Ostras, por sua vez, exemplifica um modelo de “economia satélite”, beneficiando-se das externalidades de Macaé e conseguindo estruturar nichos empresariais, como a Zona Especial de Negócios, mas ainda assim ancorada em dinâmicas externas.
O quadro regional sugere, portanto, que o problema não é a ausência de recursos — pelo contrário, trata-se de uma das regiões com maior volume de royalties per capita do país —, mas sim a forma como esses recursos são apropriados, distribuídos e convertidos em desenvolvimento. A crítica presente nos textos à gestão municipal aponta para um padrão recorrente: a priorização de gastos correntes e expansão da máquina pública em detrimento de investimentos estruturantes capazes de gerar emprego, renda e encadeamentos produtivos locais.
No entanto, é possível avançar um pouco além dessa explicação. A questão não é apenas de “má alocação” por parte dos gestores, mas também de limites estruturais impostos pelo próprio modelo de desenvolvimento baseado em enclaves. Esses empreendimentos são, por natureza, intensivos em capital, pouco demandantes de mão de obra local e altamente conectados a redes globais. Isso reduz o potencial de transbordamento econômico (spillover) para o território, mesmo quando há vontade política de promover redistribuição.
Além disso, há um descompasso entre a escala da riqueza gerada e a capacidade institucional dos municípios de capturá-la e transformá-la em políticas públicas eficazes. Municípios pequenos, como São João da Barra, enfrentam limitações administrativas, técnicas e de planejamento que dificultam a conversão de receitas extraordinárias em desenvolvimento sustentável.
O que se delineia, portanto, é um problema duplo: fiscal-distributivo e estrutural. De um lado, há falhas na gestão e na priorização do gasto público; de outro, há um modelo econômico que, por sua própria lógica, concentra renda e externaliza benefícios. A consequência é a consolidação de um território fragmentado, onde enclaves de alta produtividade coexistem com bolsões de vulnerabilidade social. Não se trata apenas de desigualdade, mas de uma desconexão entre economia e sociedade — um território onde a riqueza não organiza o espaço social, mas o atravessa sem enraizamento.
Superar esse quadro exige mais do que ajustes pontuais. Implica repensar as estratégias de desenvolvimento regional, fortalecer capacidades institucionais locais e, sobretudo, criar mecanismos que ampliem os encadeamentos produtivos e a retenção de valor no território. Caso contrário, o paradoxo tende a se perpetuar: regiões cada vez mais ricas em indicadores econômicos e, simultaneamente, pobres em termos de vida concreta de sua população.
Reestruturação reforça o papel estratégico de quadros técnicos na defesa do interesse público e no cumprimento das condicionantes
A recente reestruturação do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), promovida pelo governador em exercício, traz um elemento que merece destaque e reflexão mais aprofundada: a ocupação de cargos estratégicos exclusivamente por servidores de carreira. Mais do que uma mudança administrativa, trata-se de uma inflexão importante na forma como a gestão ambiental pode (e deve) ser conduzida em contextos marcados por pressões políticas, econômicas e sociais intensas.
Ao substituir todas as posições de liderança por profissionais concursados com trajetória consolidada dentro do próprio órgão, a gestão sinaliza uma valorização concreta do conhecimento técnico acumulado ao longo dos anos. Em instituições como o INEA, responsáveis por decisões que impactam diretamente territórios, ecossistemas e populações inteiras, esse acúmulo não é apenas desejável — é essencial. A análise de processos ambientais, sobretudo aqueles ligados ao licenciamento, exige domínio de metodologias, compreensão sistêmica dos impactos e, acima de tudo, independência técnica.
O licenciamento ambiental é, talvez, o campo onde essa mudança ganha maior relevância. A emissão de licenças não pode ser reduzida a um procedimento burocrático: trata-se de um instrumento de mediação entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental. Nesse contexto, a presença de servidores de carreira em posições-chave tende a fortalecer a consistência das análises, reduzir interferências externas e garantir que critérios técnicos prevaleçam sobre eventuais interesses conjunturais.
Além disso, as condicionantes que acompanham as licenças — frequentemente negligenciadas no debate público — são fundamentais para assegurar que os empreendimentos autorizados cumpram requisitos mínimos de mitigação e compensação ambiental. A efetividade dessas condicionantes depende diretamente da capacidade institucional de monitoramento, fiscalização e, quando necessário, sanção. Servidores experientes, que conhecem os trâmites internos e os desafios práticos da implementação, são peças centrais para que essas exigências não se tornem meras formalidades.
A nova configuração, articulada pela Secretaria de Ambiente e Sustentabilidade e pela presidência do instituto, também chama atenção pela diversidade de áreas contempladas — do planejamento à segurança hídrica, passando por biodiversidade e recuperação ambiental. Isso reforça a ideia de que a gestão ambiental contemporânea é, por natureza, interdisciplinar e demanda lideranças capazes de dialogar com múltiplos campos do conhecimento.
Outro aspecto relevante é a expressiva presença feminina nas posições de liderança. Ainda que a dimensão de gênero não seja o foco principal da medida, ela aponta para transformações importantes na composição do serviço público e na ocupação de espaços decisórios historicamente marcados por desigualdades.
A justificativa oficial enfatiza eficiência administrativa e valorização do funcionalismo. No entanto, o impacto potencial vai além. Em um cenário onde decisões ambientais frequentemente se encontram no centro de disputas políticas e econômicas, fortalecer o papel de servidores de carreira pode representar um passo decisivo na construção de uma governança mais estável, transparente e orientada por evidências.
Em última instância, garantir que quadros técnicos ocupem posições estratégicas no INEA é também uma forma de proteger o interesse público. Trata-se de reconhecer que a gestão ambiental não pode ser refém de ciclos políticos curtos, mas deve se apoiar em instituições sólidas, capazes de sustentar decisões complexas com base em critérios científicos e responsabilidade socioambiental.
No próximo dia 20 de maio será realizado o evento “Beiradeando o IV Simpósio Nacional Geografia, Ambiente e Território (SIMGAT)”, organizado pela Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)ambiental/RP-G(S)A – @rede_pgsa.
O evento ocorrerá no auditório Marcos Gorini, bloco P, 3º andar, do Instituto de Geociências da UFF, campus Praia Vermelha – Niterói.
O Beiradeando é um evento preparatório para o IV SIMGAT, a ser realizado em junho de 2027 na UFF. O Beiradeando tem o objetivo de alinhar temas, mobilizar esforços e promover o debate em direção ao SIMGAT, contando com integrantes da Rede e externos à ela. Em breve, anunciarmos mais informações sobre o IV SIMGAT.
Veja a programação completa logo abaixo.
O evento terá certificação para as/os participantes.
Um caso constrangedor envolvendo o veterano jornalista belga Peter Vandermeersh ilustrou os perigos associados ao uso indiscriminado de ferramentas de inteligência artificial (IA) na produção de conteúdo jornalístico. Chefe das operações irlandesas do Mediahuis, um dos principais grupos de mídia na Europa, ele foi suspenso de suas funções em março após uma investigação interna constatar que incorporou a seus textos falsas declarações entre aspas atribuídas a especialistas, que foram geradas erroneamente por programas como ChatGPT, Perplexity e Google NotebookLM.
Dezenas de declarações presentes em 15 textos publicados por Vandermeersh não correspondiam a fontes verificáveis e sete fontes citadas nos artigos negaram veementemente ter proferido aquelas palavras. “Existem citações que não podem ser encontradas nas publicações das quais Vandermeersch afirma tê-las obtido, como estudos científicos e notícias”, informou o jornal NRC (do qual Vandermeersch já foi editor-chefe), responsável pela investigação. O jornalista reconheceu os equívocos e afirmou ter “caído na armadilha das alucinações”, termo usado para descrever erros gerados por IA, ao confiar excessivamente nas ferramentas sem verificar o conteúdo replicado.
“Perdi muitos minutos do meu tempo procurando onde eu poderia ter dito alguma besteira sobre ‘conhecimento imersivo’”, queixou-se Emily Bell, diretora do Centro Tow de Jornalismo Digital da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, uma das vítimas das alucinações disseminadas por Vandermeersh. Usando ferramentas de IA do Google, Bell encontrou frases muito semelhantes em um discurso feito por outra pessoa. Seu nome também foi mencionado nesse discurso, mas em outro contexto, o que pode ser a origem da alucinação. O episódio evidencia um paradoxo da IA generativa: a tecnologia é capaz de produzir textos verossímeis, mas não há garantia de que sejam verdadeiros. Isso coloca em xeque princípios fundamentais do jornalismo profissional, como a verificação e a precisão dos fatos transmitidos ao público.
O tema tem sido abordado em estudos que investigam como jornalistas que cobrem assuntos científicos estão lidando com a incorporação da IA em suas rotinas de trabalho. Um artigo publicado em dezembro no Sage Journals por seis pesquisadores da área de comunicação, três deles brasileiros (Luisa Massarani e Cleiton Bezerra, da Fundação Oswaldo Cruz, e Luiz Neves, da Universidade Federal de Goiás), evidenciou uma ampla adoção das ferramentas de IA por repórteres especializados em ciência em tarefas corriqueiras, como transcrição de gravações e apoio à escrita. Nas entrevistas com os profissionais de imprensa, também foram relatadas preocupações com a confiabilidade das informações e com a compatibilidade do uso de IA com valores jornalísticos, como responsabilidade e ética. A maioria ainda é cautelosa ao utilizar a tecnologia em tarefas mais sofisticadas, como a análise de dados.
A adoção da inteligência artificial nas redações, segundo a pesquisa, varia entre países. Os autores se debruçaram sobre três deles: Brasil, Índia e Reino Unido. Jornalistas científicos britânicos mostraram certa resistência ao uso avançado das ferramentas, enquanto brasileiros e indianos indicaram ser mais flexíveis. Uma particularidade dos brasileiros é que adotam amplamente as ferramentas para traduzir textos e apoiar a escrita em um segundo idioma. Entre os benefícios propiciados pela IA, os entrevistados destacam o aumento da eficiência e o acesso facilitado à informação e, entre os perigos, a possibilidade de disseminar desinformação e a eliminação de postos de trabalho, que são cada vez mais escassos no jornalismo, incluindo sua vertente de ciência.
Outro estudo, esse publicado no Journal of Science Comunication por pesquisadores das universidades de Mainz e Ludwig Maximillian, de Munique, entrevistou 30 jornalistas científicos alemães sobre as perspectivas abertas pelo uso de IA. Os autores tinham interesse em saber se as novas ferramentas poderiam amenizar ou agravar o que se convencionou chamar de “crise do jornalismo científico”, impulsionada pela crescente digitalização dos meios de comunicação, pela perda de anunciantes e pelas mudanças nos hábitos de consumo de notícias do público. Em um fenômeno ambivalente, pesquisadores e divulgadores científicos criaram canais de comunicação direta com os leitores, por meio de blogs e redes sociais, enquanto os jornalistas profissionais foram impactados por demissões e sobrecarga de trabalho. A maioria dos profissionais entrevistados, contudo, disse não se sentir ameaçada e reconhece que sua atividade caminha pra uma integração cada vez maior com a IA.
Já um estudo da PLOS ONE realizado por duas pesquisadoras da Universidade de Twente, nos Países Baixos, e outro da Universidade de Bolonha, na Itália, analisou a qualidade da cobertura da imprensa sobre IA em quatro nações (Bélgica, Itália, Portugal e Espanha), examinando notícias e entrevistando jornalistas científicos. De forma geral, os entrevistados demonstraram preocupação com a situação do jornalismo científico, incluindo a falta de financiamento, que pode afetar a qualidade das reportagens. Segundo o estudo, novas vertentes, como o jornalismo de engajamento, que prevê a participação da audiência na produção da notícia, e o jornalismo de soluções, que busca evidências capazes de resolver problemas sociais, teriam potencial para contribuir no enfrentamento desses desafios, inclusive nesse momento de transição, com a IA batendo à porta.
Para auxiliar nessa travessia, em 2024 o Centro de Estudos de Ciência, Comunicação e Sociedade da Universidade Pompeu Fabra (SCS-UPF), instituição pública localizada em Barcelona, na Espanha, liderou o desenvolvimento de um guia de ferramentas de inteligência artificial para jornalistas científicos. O manual se divide em três blocos. O primeiro indica plataformas que auxiliam na pesquisa de documentos e imagens, na identificação de pesquisas revisadas por pares, na tradução de textos e na transcrição de áudios. O segundo se detém em recursos para podcasts e o terceiro na organização do fluxo de trabalho. Para selecionar as melhores ferramentas, foi realizado um webinar com profissionais da comunicação científica, que apontaram aquelas que usavam com mais frequência. Todas elas foram testadas em um curso-piloto realizado em Barcelona, para verificar se eram mesmo eficientes e úteis.
Por John Drake, professor da Universidade da Geórgia, para a Forbes
As submissões de artigos para revistas científicas aumentaram desde o lançamento do ChatGPT, sobrecarregando um sistema de revisão por pares construído para a produção em escala humana. Um novo estudo da Organization Science mede o impacto. getty
O termo “IA slop” geralmente descreve as imagens e o texto de baixa qualidade que a mídia social desordena. Chegou agora ao sistema de revisão por pares que governa o que conta como conhecimento científico.
As Submissões à Ciência da Organização, uma das principais revistas em pesquisa de gestão, subiram 42% desde o lançamento do ChatGPT. A escrita piorou.
Umnovo estudo da equipe editorial da revista descobriu que os manuscritos gerados por IA são mais difíceis de ler, mais jargões carregados e mais propensos a serem rejeitados do que aqueles escritos por humanos. Enquanto isso, mais de 30% das avaliações de especialistas que os periódicos rotineiramente usam para decidir o que publicar agora mostram o uso detectável de IA, e os editores relatam que essas revisões são essencialmente pouco informativas. A tecnologia que deveria tornar a ciência mais produtiva está, no momento, tornando mais difícil avaliar. Sem dúvida, este é um instantâneo de um sistema em transição, não um veredicto permanente sobre a IA na pesquisa. Mas o instantâneo vale a pena olhar de perto.
Tenho escritosobre as pressões estruturais sobre a revisão por pares, e sobre o risco de que as ferramentas de IA possamdegradar a qualidade do pensamento científico, mesmo à medida que aceleram a produção. Este artigo, da Força-Tarefa de IA da revista liderada por Sharique Hasan, da Duke, é o primeiro a colocar dados detalhados por trás dessas preocupações em um único periódico.
Esta foto tirada em 23 de janeiro de 2023 em Toulouse, sudoeste da França, mostra telas exibindo os logotipos do OpenAI e do ChatGPT. (Foto de Lionel BONAVENTURE / AFP) (Foto de Lionel BONAVENTURE/AFP via Getty Images)
AFP via Getty Images
A qualidade dessa escrita deteriorou-se. As pontuações de IA e Flesch Reading Ease foram negativamente correlacionadas entre as submissões. Manuscritos com alto conteúdo de IA exigem um nível de nível mais alto para analisar, usar mais nominalizações (palavras como “conceitualização” e “operacionalização”) e carregar mais jargões. Curiosamente, existem algumas dimensões em que o texto de IA teve melhor desempenho: tendia a ser mais específico e menos hedge. Mas o efeito líquido é a prosa que é mais densa e mais difícil de ler. Gartenberg invocou o ensaio de George Orwell “Política e a Língua Inglesa”, com seus exemplos de políticos enterrando significado na abstração. A prosa de IA, disse ela, se lê como esses políticos: densa, vagamente impressionante, difícil de seguir.
The Prompt: Receba as maiores notícias de IA da semana sobre as empresas mais movimentadas e avanços mais ousados, em sua caixa de entrada.
O título do jornal enquadra o problema: “Mais versus melhor”. “A IA, como está sendo usada hoje, está colidindo com incentivos institucionais para criar mais do que uma pesquisa melhor”, disse Gartenberg. “Não é a IA por si só. É IA mais incentivos de publicação ou pereza.”
Quem está usando e por quê
O jornal inclui uma descoberta que deve preocupar qualquer um que pense que isso é apenas sobre alguns maus atores com ChatGPT. As escolas de negócios cujo corpo docente historicamente mais responde aos rankings de contagem de publicações aumentaram desproporcionalmente seus envios de IA depois que o ChatGPT se tornou disponível. O ranking em questão é alista da UTD, mantida pela Universidade do Texas em Dallas, que pontua escolas de negócios por quantos artigos seu corpo docente publica em 24 revistas de topo designadas. É uma das métricas mais amplamente observadas na academia de negócios, e os acadêmicos de escolas que competem nela têm fortes incentivos para maximizar a quantidade.
O efeito é estatisticamente significativo: as escolas que competem no ranking da UTD enviaram mais trabalhos após o ChatGPT, e esses trabalhos adicionais foram desproporcionalmente IA escrita. Isso sugere que o uso pesado de IA em manuscritos não é aleatório, mas rastreia incentivos institucionais. Autores em escolas onde a contagem de publicações mais importa são os que mais se apoiam nas máquinas.
Gartenberg descreveu o que ela vê como sua visão central do projeto: a IA é uma ferramenta agnóstica. Você pode apontá-lo para a qualidade ou você pode apontá-lo para o volume. “Há incentivos de volume tão poderosos agora”, disse ela, “que pode realmente ser destrutivo”.
O lado da revisão
A IA não se limita ao pipeline de submissão. Mais de 30% das avaliações por pares na Organization Science agora mostram o uso detectável de IA, acima de quase zero antes do ChatGPT. Essas revisões seguem o mesmo padrão que os envios: mais difícil de ler, mais nominalização, mais jargões. Eles também mudam a ênfase para a teoria e para longe de dados e métodos empíricos, um estreitamento da faixa avaliativa que, se persistir, poderia remodelar que tipo de ciência é recompensada.
A ética da IA na revisão por pares é instável. Se um especialista usa a IA para informar uma opinião, essa opinião ainda é do especialista? Manuscritos inéditos são compartilhados com revisores em confiança. Enviá-los para os servidores de um chatbot é geralmente visto como inaceitável, uma divulgação para um leitor não autorizado, mesmo que esse leitor seja uma máquina. Mas o cálculo muda se o manuscrito já estiver público em um servidor de pré-impressão? Se a IA é executada em um ambiente com caixa de areia que não retém nada? Se o revisor coloca uma pergunta que nunca compartilha explicitamente o texto? Essas distinções importam, e nenhuma delas está resolvida.
A descoberta mais reveladora é que, na Organization Science, as revisões de IA não parecem informar decisões editoriais. As revisões humanas correlacionam-se com os resultados editoriais. As avaliações de IA não. “Não é como se os editores soubessem que essas são avaliações de IA e estão jogando-as fora”, disse Gartenberg. “Eles estão lendo e não estão informando a recomendação final do editor.” Os editores estão substituindo seu próprio julgamento, o que significa que a revisão, o mecanismo central do controle de qualidade na ciência, está produzindo um texto no qual ninguém age.
Segurando a Linha, por Enquanto
A boa notícia é que o processo editorial da Organization Science ainda está filtrando de forma eficaz. Apenas 3,2% dos manuscritos pontuados em 70% ou mais de uso da IA recebem uma revisão e reenvio, em comparação com 11,9% para papéis de IA baixos. Artigos publicados permanecem predominantemente gerados pelo ser humano. Os editores estão a apanhar o mau trabalho.
No entanto, há um custo humano significativo. A revista dobrou seus editores adjuntos de seis para onze e quase dobrou seus editores seniores de cerca de 30 para 60. Tudo isso é trabalho voluntário, acadêmicos não remunerados doando tempo para manter a qualidade científica. Quando esses acadêmicos estão eliminando o IA slop, eles não estão usando seu tempo para dar aulas, realizar pesquisas ou servir suas profissões.
O economista Scott Cunningham moldou a produção científica como uma função de produção com dois insumos: tempo humano e tempo da máquina. Um pouco de tempo de máquina, combinado com tempo humano substancial, aumenta a qualidade da saída. Mas se os pesquisadores deixarem a máquina substituir seu próprio engajamento, eles entram no que Cunningham chama de “zona de perigo”, uma região onde a qualidade da produção realmente fica abaixo do que eles teriam produzido sem a IA. O mecanismo é simples: o tempo humano não é apenas trabalho. É o processo através do qual a atenção se acumula no conhecimento e no julgamento. Evite as horas e você pule o aprendizado.
Os dados de Gartenberg sugerem que a zona de perigo não é hipotética. Já é visível nas estatísticas de submissão de uma grande revista. “As pessoas pensam como escrevem”, ela me disse, “e por isso, se você não escreve, você não está pensando tão profundamente sobre isso.” Os pesquisadores que enviam manuscritos obtiveram pontuação em 70% ou mais de conteúdo de IA, na estrutura de Cunningham, ultrapassaram esse limiar. Trocaram o pensamento pela produção. Os editores podem dizer.
Um instantâneo, não um veredicto
Essas descobertas merecem contexto. Os dados vão até o início de 2026, mas grande parte da IA que a equipe detectou foi produzida com modelos anteriores, ChatGPT 3.5 e GPT-4, que tinham contagens estilísticas bem conhecidas e uma tendência para a prosa nominal inchada. As ferramentas estão melhorando rapidamente. Não há nada fundamental para impedir que um modelo de linguagem seja treinado ou solicitado a escrever em um nível de leitura alvo, para minimizar o jargão, para passar nos mesmos testes de legibilidade que os editores humanos usam. A lacuna de qualidade deste documento em papel pode ser substancialmente uma função de quão grosseiramente a maioria dos pesquisadores está atualmente implantando as ferramentas. Há tanto a maturidade das próprias ferramentas quanto a maturidade das pessoas que as usam. Ambos estão evoluindo.
Também vale a pena notar o que o papel não mostra. A Ciência da Organização não está perdendo o seu melhor trabalho. Os principais artigos da revista ainda estão passando, e sua taxa geral de rejeição é essencialmente inalterada em todas as categorias de IA. Os envios adicionais são principalmente medíocres e os editores estão filtrando-os. Uma maneira de ler os dados é que o efeito líquido sobre o conhecimento ainda é positivo: toda a boa ciência que estava sendo produzida antes, além de alguma fração de novo trabalho que, embora não mude de campo, registra fatos e descobertas que podem ser úteis para alguém no futuro. A ciência sempre gerou uma longa cauda de trabalho incremental ao lado dos avanços. Se o custo de produção dessa cauda cair, e o processo editorial ainda puder separar o sinal do ruído, a base de conhecimento pode crescer mesmo que a qualidade média dos envios diminua.
Também existe uma possibilidade mais especulativa. Se a IA está aumentando a variação na qualidade de submissão enquanto o processo editorial apara a cauda inferior, os melhores papéis no pipeline poderiam realmente ser melhores do que antes. Pesquisadores que usam bem a IA, como um parceiro de pensamento em vez de um ghostwriter, podem estar produzindo um trabalho mais ambicioso do que poderiam ter conseguido sozinhos. Os dados ainda não podem confirmar isso. Mas eles são consistentes com isso.
Em um ponto de nossa conversa, Gartenberg desenhou uma analogia com o xadrez. A IA pode vencer qualquer jogador humano, mas o xadrez é mais popular agora do que nunca. A pergunta que ela continua entregando: o que se torna o objetivo da ciência quando a IA pode produzir as saídas? Quando falei com Jeff Clune, autor sênior de um artigo recente da Nature sobreautomação de pesquisa de ponta a ponta, ele fez uma observação semelhante sobre escalada em rocha. Alex Honnold pode escalar El Capitan mais rápido e melhor do que Clune jamais vai. Isso não fez Clune desistir de subir. Montanhas e xadrez e ciência não são entretenimento. São coisas que proporcionam significado às pessoas. A ciência pode estar se aproximando de um momento existencial, onde o propósito do trabalho importa mais do que os produtos dele.
Onde a IA pode realmente ajudar
A ironia da situação atual é que a mesma tecnologia que cria problemas no lado da submissão pode ser útil no lado editorial. O gargalo na publicação acadêmica não é produção. É avaliação. Os diários estão se afogando em manuscritos e lutando para encontrar revisores dispostos a lê-los. A IA é adequada exatamente para o tipo de avaliação estruturada que pode aliviar essa pressão.
Considere o que um periódico pode fazer com a IA no pipeline editorial. Antes que qualquer ser humano leia um envio, uma tela automatizada verifica a facilidade de leitura, a densidade do jargão e a complexidade da frase. Trabalhos abaixo de um limiar são devolvidos aos autores com feedback específico. Isso, por si só, filtraria uma parcela substancial dos envios de baixa qualidade que atualmente consomem tempo de editores voluntários.
A IA também pode avaliar dimensões que os editores humanos avaliam de forma intuitiva, mas inconsistente: se as alegações de um artigo são apoiadas por seus métodos, se a revisão da literatura envolve o trabalho anterior relevante, se a abordagem estatística corresponde ao design da pesquisa. Nenhuma dessas avaliações precisaria ser definitiva. Eles precisariam ser informativos o suficiente para ajudar os editores a alocar sua atenção para os manuscritos que merecem isso. O humano fica no circuito. A máquina lida com triagem. No lado da revisão, onde os dados de Gartenberg mostram a inteligência artificial mudando a atenção para a teoria e longe dos dados, um assistente de revisão bem projetado poderia fazer o oposto: levar os revisores a se envolver com alegações empíricas específicas, sinalizando inconsistências entre métodos e resultados, andaime da revisão em vez de substituí-la.
Para mim, a tecnologia não é madura o suficiente para ser implantada de forma confiável em escala. Errar a implementação pode introduzir novos problemas. Mas a restrição de ligação na ciência está mudando da produção para a avaliação, e a IA é a ferramenta mais plausível para abordá-la.
A própria Gartenberg usa Claude e Codex em sua própria pesquisa. Ela não está argumentando que a IA deve ser mantida fora da ciência. Seu artigo é uma medida de onde as coisas estão hoje, não uma previsão de onde elas vão acabar. Como editor de periódicos, reconheço tudo nele: as submissões crescentes, o engajamento do revisor em declínio, o crescente fardo editorial. O sistema está a aguentar. A questão em aberto é se as ferramentas que estão atualmente forçando-o podem ser reaproveitadas para fortalecê-lo.
Entre evidências emergentes e disputas institucionais, o herbicida mais usado do mundo desafia os paradigmas da saúde pública contemporânea
O glifosato tornou-se, nas últimas décadas, um símbolo paradigmático das contradições do modelo agroindustrial contemporâneo. Herbicida mais utilizado no mundo, sua trajetória acompanha a expansão de monoculturas intensivas e o avanço dos organismos geneticamente modificados tolerantes a herbicidas. Mas, à medida que seu uso se intensificou, também se acumularam evidências científicas que apontam para riscos relevantes à saúde humana e ao ambiente — evidências estas que permanecem no centro de uma disputa persistente entre indústria, agências reguladoras e comunidade científica.
Desde sua introdução comercial nos anos 1970 e, sobretudo, após a difusão das culturas “Roundup Ready” nos anos 1990, o glifosato passou de insumo agrícola a contaminante ambiental onipresente. Estudos indicam aumentos expressivos na exposição humana, com detecção frequente em amostras biológicas e alimentos. Esse cenário sugere não apenas um problema ocupacional, restrito a trabalhadores rurais, mas uma exposição difusa, crônica e de baixa dose, característica das sociedades contemporâneas altamente químicas.
A controvérsia central reside na avaliação de seus efeitos à saúde. Enquanto empresas e parte das agências reguladoras sustentam a segurança do produto quando utilizado conforme as recomendações, um corpo crescente de literatura independente aponta para associações com câncer, doenças hepáticas e renais, disfunções endócrinas, alterações reprodutivas e impactos neurológicos. A classificação do glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos” por uma agência internacional de referência marcou um ponto de inflexão nesse debate, ao reconhecer a consistência de evidências experimentais e epidemiológicas, ainda que não conclusivas.
Mais recentemente, estudos têm ampliado a preocupação ao demonstrar efeitos em baixas doses — níveis considerados “seguros” pelos parâmetros regulatórios atuais. Pesquisas toxicológicas e epidemiológicas indicam alterações genéticas, epigenéticas e hormonais, além de impactos no microbioma intestinal e possíveis efeitos intergeracionais. Esse conjunto de achados desafia um dos pilares da toxicologia clássica — a ideia de que “a dose faz o veneno” — ao sugerir que exposições prolongadas e combinadas podem produzir efeitos complexos e cumulativos.
Outro aspecto central da controvérsia diz respeito à própria produção do conhecimento científico. Documentos internos tornados públicos em processos judiciais, assim como análises independentes, revelaram práticas de influência corporativa sobre a literatura científica e sobre processos regulatórios. Estudos financiados pela indústria, frequentemente utilizados por agências governamentais, foram criticados por falhas metodológicas, falta de transparência e inadequação aos padrões científicos contemporâneos. Esse cenário levanta questões estruturais sobre conflitos de interesse e a captura regulatória em áreas de alta complexidade técnica.
A divergência entre avaliações científicas e decisões regulatórias também evidencia limites institucionais. Enquanto algumas agências continuam a afirmar a segurança do glifosato, decisões judiciais e revisões independentes têm questionado essas conclusões, apontando para lacunas nos processos de avaliação de risco. A própria noção de “uso seguro” torna-se problemática quando considerada à luz de exposições ambientais difusas, múltiplas vias de contato e populações vulneráveis, como gestantes e crianças.
Do ponto de vista político-econômico, o caso do glifosato revela a profunda interdependência entre agricultura industrial, mercados globais de commodities e regimes regulatórios nacionais. A dificuldade de restringir ou banir o produto não decorre apenas de incertezas científicas, mas também de sua centralidade nos sistemas produtivos contemporâneos. Nesse sentido, a controvérsia sobre o glifosato não é apenas um debate técnico, mas uma disputa sobre modelos de desenvolvimento, segurança alimentar e sustentabilidade.
Diante desse quadro, cresce entre cientistas e profissionais de saúde a defesa do princípio da precaução. Essa abordagem propõe que, na presença de evidências plausíveis de risco — ainda que não definitivas —, medidas de proteção devem ser adotadas para reduzir a exposição da população. Trata-se de uma inversão importante na lógica regulatória: em vez de exigir prova absoluta de dano, reconhece-se a necessidade de agir diante da incerteza, sobretudo quando os potenciais impactos são amplos e duradouros.
O caso do glifosato, portanto, ultrapassa o debate sobre um único herbicida. Ele expõe as tensões entre ciência, economia e política em um mundo marcado pela dependência de substâncias químicas em larga escala. Mais do que uma controvérsia isolada, trata-se de um laboratório contemporâneo das limitações dos sistemas de regulação frente à complexidade dos riscos ambientais e sanitários do século XXI.
Texto adaptado com base em publicação feita pelo site “U.S. Right to Know” [Aqui!].