No ensino superior, a grande disparidade dos cursos à distância durante a pandemia

  Para alguns alunos, as aulas online assumem a forma de arquivos PDF ou apresentações de slides, enquanto outros professores têm a opção de criar formatos interativos ou gravar suas aulas com equipamentos de qualidade

online

Por Alice Raybaud para o Le Monde

Cinco objetos não identificados acabaram de aparecer na Terra. Eles são enviados por vida extraterrestre? Qual propósito ? Nesse dia, é esse o cenário em que se imergem 25 alunos do segundo ano da licença de física da Universidade de Paris-Saclay. Cabe a eles entrar em contato com cada habitante do globo que encontrou um desses objetos imaginários e ajudá-los a decifrar a mensagem que ele carrega. Para isso, devem ser ensinados, remotamente, a construir um microscópio com um smartphone ou a medir a ressonância acústica com papel higiênico.

Devido à pandemia (esta muito real), o curso ocorre online e os “habitantes” e especialistas, encarnados pelos seus dois professores, são contactados por vídeo. A ficção então passa a criar “um alento em sua vida de aluno remoto” , explica o professor Julien Bobroff. “Um trabalho de grupo participativo algo excêntrico, que os tira da solidão, mas mantém as mesmas questões educacionais e científicas” , acrescenta o físico, que já experimentava, antes da crise, esse tipo de formato presencial.

Grande heterogeneidade

Interatividade, lúdico, criatividade … Todos os alunos estão longe de ter acesso a esse tipo de curso, desde a mudança para a educação a distância. Passado o espanto inicial do primeiro confinamento, a organização dos cursos online permaneceu muito díspare segundo as instituições, setores e professores – uma grande heterogeneidade que, graças à crise, evidencia as desigualdades estruturais da região.

Além disso, se alguns jovens que entrevistamos se congratulam por terem um bom suporte por meio de seus cursos online, outros dizem que estão se afogando em horas de monólogos frios afixados em apresentações de slides. Alguns alunos chegam a dizer que são “abandonados” pelos professores.

“Alguns professores nem dão aulas de vídeo e apenas nos enviam PDFs. Posso ter a mesma coisa pesquisando na Wikipedia ”, aponta um estudante de história de 20 anos em Lyon-III, que observa que a “ exclusão digital ” “ também ” afeta os professores.  Natcha, no terceiro ano de licenciatura em Ciências Políticas em Lyon-III só recebe áudios gravados em algumas disciplinas, e em outras apenas PDFs.

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Este é um estrato de um artigo escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal “Le Monde” [Aqui! ].

Precarização e desumanização do trabalho docente durante a pandemia, o caso da UENF

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 Ilustração por César Berje

Por Luciane Soares da Silva*

Neste texto vou adotar um olhar mais distanciado e trabalhar em uma escala que parte do governo federal e chega até a administração das Universidades, em especial a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Este método é possível ao observarmos discursos cotidianos sobre alinhamentos em diferentes esferas do poder quanto as suas formas de atuação. Devemos começar pelo óbvio: a constatação do custo de milhares de vidas pela incompetência do governo federal, pelo negacionismo científico e principalmente, pela perseguição aos cientistas. Seguem tentando interferir na autonomia das Universidades Federais, desqualificam o trabalho de institutos sérios, contingenciam verbas para pesquisas. O caso do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nos servirá como exemplo. O constrangimento de Ricardo Galvão, a frente do INPE, é parte das arbitrariedades constantes de um governo sem qualquer plano eficaz para o Brasil no combate ao desmatamento na Amazônia. Mas também sem qualquer eficácia nas ações de combate a pandemia de COVID 19. Se foram desenvolvidos respiradores na Paraíba e em São Paulo, se as Universidades, Fundações e Institutos trabalharam constantemente em pesquisas na tentativa de conhecer e desenvolver formas de combate ao Coronavírus, tudo isto foi feito na contramão das ações do governo federal.

Descendo na escala, chegamos em março de 2021 testemunhando governos estaduais e municipais pressionando professores e comunidade pela volta às aulas presenciais. Sabemos que as crianças podem transmitir o vírus para familiares e mesmo aos educadores com este retorno, mesmo que a escola tente assegurar as condições ideais de imunização, o risco é alto e os resultados já são públicos:

  • “Professora da rede estadual é a primeira vítima da COVID-19 na volta às aulas em São Paulo”
  • “Professores denunciam 209 casos de COVID-19 na volta às aulas. Doria fecha sete escolas”
  • “ Com nove professores do IFAM mortos pela COVID, docentes querem aula só após a vacina”
  • “ Após 12 dias internado, professor morre em decorrência da COVID-19”.
  • “Vocês vão mandar suas crianças de volta para as aulas?”
  • “No Amazonas 64 professores morreram de COVID-19 desde janeiro, diz Sinteam”.

No caso de São Paulo, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), responsabiliza a gestão de Doria e o secretário de Educação pela morte da professora Maria Tereza Miguel de 32 anos. Mesmo com denúncia de salas pouco ventiladas, álcool gel vencido e outras irregularidades, as aulas foram iniciadas. Observação importante: a presença dos alunos não é obrigatória. Mas a obrigatoriedade está posta para os professores.

Chegamos ao terceiro momento deste texto. Nas palavras do ex secretário municipal da educação de São Paulo, Alexandre Schneider, “é preciso haver diálogo entre os governantes e quem está no chão da escola”. Esta recomendação poderia ser útil para a definição dos calendários acadêmicos em cada instituição de ensino superior no país, observando singularidades e recursos. A maioria delas adotou o ensino remoto, com disciplinas e equipamentos. Mesmo existindo um consenso sobre as dificuldades de acesso, avaliação e questões pedagógicas específicas desta modalidade remota, também existem muitas críticas. Dentre elas, as condições de trabalho docente.

Temos visto docentes adoecendo pelo excesso de trabalho, pelas reuniões de planejamento, pelas pressões para seguir produzindo durante a pandemia. No caso da Uenf, vivemos um caso exemplar das formas de precarização e desumanização que atingem a Ciência e Educação no Rio de Janeiro. Depois de um ano experimental, docentes decidiram em seus colegiados, adotar medidas já em vigor nas demais Universidades. Avaliação por nota e frequência. O que poderia ser um tema de exercício de diálogo e fortalecimento dos laços internos, se transformou em uma arena de “cancelamentos” e insultos públicos. O resultado disto é uma exposição lamentável da Universidade nas redes sociais como se a tragédia envolvendo uma pandemia não fosse o suficiente.

Observamos em vários momento que o descumprimento dos ritos internos de autonomia dos colegiados (a não nomeação de reitores é só um exemplo), fere de morte a democracia interna das Universidades. O discurso populista que nega o que todos já sabem, torna-se uma forma perigosa de construção da realidade pois o voto perde qualquer efeito jurídico real. Nós já vimos isto na história. Nós sabemos como inicia. E sem dúvida a tragédia consiste nesta repetição meias verdades ad nauseam em redes sociais. É uma forma de rebaixamento de toda comunidade acadêmica. O placar só tem perdedores. O ideal de uma formação crítica e de excelência fica em um horizonte distante.

Um cotidiano exageradamente atribulado

 Docentes nas redes públicas e privadas de ensino tem vivido infortúnios simultâneos: a busca das condições para o domínio de uma modalidade de ensino para a qual não foram preparados, a perda de colegas e familiares, um cansaço constante que gera quadros de ansiedade e depressão e por fim, a total desumanização de seu ofício. No caso da Uenf, a animosidade exposta nas redes sociais como se estivéssemos em uma “vendeta”, explicita os resultados cognitivos acumulados após as jornadas de junho de 2013 e do golpe de 2016. Temos uma geração (ou uma boa parte dela) tomada pelo imediatismo, fascinada por uma forma de comunicação pelas redes e que abre mão das formas de construção participativa (as Assembleias). O mais grave é pensar neste processo de desumanização do docente como parte das formas de administração em voga nos governos Federais (intervenção e destruição da ciência), Estaduais (cortes de salários e ataque aos docentes, lembremos da Bahia) municipais (pressão pela volta presencial das aulas).

Mas que debate deveríamos fazer?

 Para aqueles que sonhavam com a Petrobras no Norte Fluminense ou mesmo com a carreira docente, o debate deveria ser outro. Defender o servidor público é, em minha avaliação como docente com uma década de trabalho na Uenf, a única saída realmente vitoriosa neste momento. Vejam aí os efeitos da propaganda em uma era pós verdade. O que realmente deveria importar é exatamente o que está sob ataque daqueles que são o foco da política pública de educação.

Estas formas de ataque, de insulto, feitas aos docentes seguem a lógica em vigência na era Bolsonaro. A da declaração de Paulo Guedes “o hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita”. Fomos chamados de algo parecido recentemente. Mas o que esperam nossos alunos em um futuro próximo?

Aprofundando esta análise, e concluindo, é o próprio ideal de Ciência que sai ferido de morte quando seus instrumentos são destruídos. Nós, no ensino Fundamental, Médio e Superior vivemos a sala de aula. Trabalhamos utilizando nossos recursos, recebemos alunos que precisam de cestas básicas, acesso a tratamentos diversos, atenção e acolhimento. Em que momento fomos demonizados e em que bases este processo de demonização se sustenta?

Em meio a tantas mortes diárias, projetos contínuos de privatização (como o da Eletrobras), volta do país ao mapa da fome, violência contínua contra as mulheres, desmatamento da Amazônia e morte de indígenas, as instituições de ensino poderiam ter como vitória a construção do Brasil que queremos. No caso da Uenf, fundada por Darcy Ribeiro, não é uma opção, é uma obrigação. Do contrário, o que vemos são apenas pequenas vitórias na derrota. Nós professores, já vimos tempos piores e melhores. E por isto, a despeito das tentativas de destruição da nossa categoria, seguimos fortes. E lutaremos pela manutenção de vidas, aguardando a derrota do projeto destes governos em todas as suas escalas. Todas.

Dedico este texto ao professor de Geografia Celso Roth, 40 anos, vítima da COVID-19, professor da Escola Municipal Camilo Alves, Esteio, Rio Grande do Sul. Assim como ele, professores que não possuíam comorbidades, pressionados ao retorno para sala de aula, vieram à óbito nestas semanas.

*Luciane Soares da Silva é é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe do Laboratório de Estudo da Sociedade Civil e do Estado (Lesce), e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

Diretoria da ADUENF lança nota sobre assédio moral durante a pandemia

aduenf 1A considerar o aumento das horas trabalhadas pelos docentes durante a pandemia, o excesso de reuniões virtuais, o autofinanciamento dos docentes em relação ao uso de equipamentos e recursos, a degradação das relações pessoais, o comprometimento da saúde mental da comunidade acadêmica e a diminuição do número de pessoas para realização de tarefas cotidianas, a Associação de Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (ADUENF) emite nota sobre as condições de trabalho na instituição.

A implementação do ensino remoto tem suscitado questionamentos e angústias nos servidores públicos federais, estaduais e municipais com especial foco na categoria docente. Isto porque as formas de adaptação dos modelos foram em muitas instituições feitas de forma intempestiva com resultados diversos e que devem ser avaliados.

Desde o ano de 2020, os docentes na UENF dedicaram horas extras à construção de atividades possíveis ao conjunto dos alunos. Devemos saudar esta iniciativa e reafirmar a autonomia dos colegiados na regulação e implementação das atividades remotas. São nestas instâncias de deliberação que garantimos constitucionalmente a democracia interna das Universidades brasileiras.

As Universidades públicas gozam de autonomia, garantida pela Constituição Federal e frequentemente reafirmada pelo Supremo Tribunal Federal, de forma que foi normatizado o direito dos docentes realizarem a opção ou não pela participação nas atividades remotas. A opção, por sua vez, se encontra no campo da liberdade individual dos docentes e qualquer forma de coação implica no vício da vontade e pode configurar assédio moral. Sendo esta adesão FACULTATIVA, uma vez que o caráter de vigência deste modelo de ensino é TRANSITÓRIO, “os docentes não poderão ser compelidos a aderi-lo sob pena de violação das diretrizes constantes nas discussões colegiadas e ofensa à liberdade de cátedra do docente que atua com o amplo respaldo da instituição a que se vincula”.

É esperado que a instituição de ensino seja capaz de garantir a integridade de seus docentes atuando como fiscalizadora em casos de reconhecido assédio moral. O docente não pode ser afetado negativamente além dos efeitos da pandemia no exercício de suas funções como professor, pesquisador e extensionista.

Estas medidas de proteção da categoria são fundamentais na boa fé objetiva que deve vigorar nas relações de trabalho entre Administração e docentes. O descumprimento das mesmas, justificaria a adoção de medidas judiciais em prol dos docentes.

Sabemos que o assédio moral é tema consolidado e durante o trabalho remoto as denúncias têm crescido no Brasil. Isto porque a fronteira entre tempo de trabalho e tempo de descanso encontra-se suspensa, com professores trabalhando até 15 ou 18 horas por dia para seguir produzindo (as formas de produtivismo acadêmicas não estão suspensas), cumprir a carga horária da sala de aula e ainda das reuniões de caráter administrativo.

Arcando com os custos deste trabalho, muitos ainda enfrentam a violação de seus direitos de imagem e recebem (de forma nem sempre aceitável) mensagens fora de seu horário de trabalho. Estas relações, quando postas de forma assimétrica e dependendo de seu conteúdo, constituem formas adoecedoras e comprometem a qualidade de vida dos professores e professoras. No caso das professoras, ainda devemos observar as formas de divisão desigual do trabalho que acabam por produzir uma sobrecarga cotidiana.

Por último, devemos lembrar que ao arcar com estes custos o servidor público faz uma enorme economia para o Estado. A insalubridade não está assegurada para todos os servidores na UENF. Aqueles que não tiverem recursos para realização destas atividades, devem ter seu direito garantido. A necessidade do isolamento social também deve ser respeitada, não sendo o espaço físico da Universidade, uma solução aos custos do docente.

Qualquer conduta abusiva, intencional, frequente, que ocorra dentro ou fora do ambiente de trabalho, será considerada assédio.

Nossa Associação está atenta, comprometida com o acolhimento dos casos e prestando assessoria jurídica aos docentes que procurarem proteção de seus direitos para melhor exercício de suas funções.

DIRETORIA ADUENF-SESDUENF

Gestão Avançar na Luta!  2019/2021

Brasil é um dos cinco países em que os preços dos alimentos está causando preocupação

Um fornecimento seguro de nutrição acessível está emergindo novamente como um risco para governos e economias. Tiramos uma foto dos principais países

World food prices hit 18-month high | Dhaka Tribune

Por  Agnieszka de Sousa e  Jeremy Diamond para a Bloomberg

O mundo está correndo para vacinar para sair da pandemia do coronavírus, mas outro desafio já surgiu para alguns governos e economias mais vulneráveis.  Os preços globais dos alimentos estão nos mais altos em mais de seis anos , impulsionados por um salto no custo de tudo, da soja ao óleo de palma, devido à demanda da China, cadeias de abastecimento vulneráveis ​​e clima adverso.

Alguns bancos alertam que o mundo está caminhando para um “ superciclo” de commodities . A inflação está pressionando novamente os consumidores que sofrem com a recessão induzida pela pandemia e – em alguns lugares – com a queda das moedas.

Custos de Surgimento

A inflação de alimentos está afetando as nações de forma desigual.

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Desde o início do ano, protestos ocorreram no Sudão, enquanto a ansiedade em relação à obtenção de alimentos contribuiu para os conflitos no Líbano e na Tunísia, marco zero para os levantes da Primavera Árabe há uma década. Na Índia, os agricultores se revoltaram contra os esforços para baixar os preços. Rússia e Argentina restringiram os embarques de safras para suprimir os preços internos. Até mesmo países ricos como os Emirados Árabes Unidos estão considerando possíveis limites de preço para alguns alimentos.

“Esses aumentos de preços são desestabilizadores, não apenas porque induzem muitas dificuldades às comunidades e famílias, mas também porque há essa expectativa de que o governo fará algo a respeito”, disse Cullen Hendrix , bolsista sênior não residente do Peterson Institute for International Economics, um think tank com sede em Washington. “As implicações vão durar mais tempo e além da pandemia.”

Como sempre, o impacto é desproporcional. Nos países ocidentais ricos, pode ser apenas um caso de troca de marca de produto. Nas nações mais pobres, pode significar a diferença entre mandar uma criança para a escola ou sair para ganhar dinheiro.

No entanto, é nos maiores países de renda média que os efeitos podem repercutir mais no mundo. Eles são alguns dos lugares mais populosos do planeta e onde os custos dos alimentos representam uma parcela maior das cestas de preços ao consumidor. São também onde os governos estão sob maior pressão para agir.

Brasil: pressão populista

A maior economia da América Latina se destaca entre os mercados emergentes por ter o aumento mais rápido nos preços dos alimentos no ano passado em relação à inflação geral devido ao declínio sustentado da moeda, de acordo com Oxford Economics Ltd. 

Enquanto isso, a popularidade do presidente Jair Bolsonaro está caindo para níveis quase recordes e ele está tentando encontrar novas maneiras de apaziguar o eleitorado. Em 19 de fevereiro, ele destituiu abruptamente o chefe da estatal petrolífera após uma discussão sobre os preços dos combustíveis. Ele também tem pressionado por uma nova rodada de ajuda ao coronavírus para os pobres, depois que a distribuição de dinheiro terminou em dezembro.

Risco de agitação

Potencial dos países para se recuperar da Covid19 vs. risco de mobilização social.

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O problema é que o dinheiro serviu para elevar os preços dos alimentos, segundo Maria Andreia Lameiras , pesquisadora do Instituto de Pesquisas Econômicas (Ipea). O arroz cresceu 76% no ano passado, enquanto o leite e a carne bovina subiram mais de 20%. “O governo distribuiu dinheiro para a população com maiores gastos com alimentação”, disse Lameiras.

O custo de garantir uma nutrição vital ameaça aumentar a desigualdade em um país com a maior lacuna de renda da região, uma situação que só foi exacerbada pela pandemia. Mesmo que a ajuda retorne, o pagamento mensal seria menor e atingiria menos pessoas, limitando seu alcance para mitigar a pobreza extrema.

Rússia: Lição de História

Memórias de preços em alta e prateleiras vazias após o colapso da União Soviética ainda são vivas para muitos russos. Com sua popularidade mal tendo voltado do ponto mais baixo e protestos exigindo a libertação do líder da oposição preso Alexei Navalny, o presidente Vladimir Putin está desconfiado do impacto político dos custos dos alimentos.

Nas últimas semanas, o maior exportador de trigo do mundo impôs tarifas e cotas destinadas a conter as vendas no exterior e baixar os preços domésticos. Os maiores varejistas da Rússia também foram obrigados a congelar alguns preços dos alimentos, com batatas e cenouras aumentando em mais de um terço em relação ao ano passado.

Mas esses limites podem sair pela culatra e acabar alimentando a inflação geral. A Câmara de Auditoria, órgão fiscalizador do governo, estimou em janeiro que os preços gerais dos alimentos vão subir quando as restrições forem suspensas no final de março.

Mulher soviética em uma mercearia vaziaAs memórias das prateleiras vazias após o colapso da União Soviética ainda são vivas para muitos russos. Fotógrafo: Shepard Sherbell / Corbis SABA / Corbis / Getty Images

“A Rússia pode ver alguma mobilização política real em torno dos preços dos alimentos”, disse Hendrix. “Os governos autoritários tendem a ser um pouco mais permissivos com esses tipos de protestos de“ problema da mesa da cozinha ”do que com campanhas mais gerais contra a corrupção e o governo autoritário. Embora, como a Primavera Árabe demonstrou, o primeiro pode se tornar o último – às vezes muito rapidamente. ”

Nigéria: tempestade perfeita

Os preços dos alimentos na maior economia da África representam mais da metade do índice de inflação do país e subiram pelo ritmo mais rápido em mais de 12 anos em janeiro. Uma família nigeriana média gasta mais de 50% de seu orçamento com alimentos. Os custos estão se somando a uma tempestade perfeita de desafios à segurança alimentar que tem assombrado a Nigéria durante a pandemia.

Mercados de alimentos como pandemia expõem a insegurança alimentar da Nigéria

Os comerciantes descarregam sacos de laranjas de um caminhão de entrega no Orange Market em Mararaba, Nigéria. Fotógrafo: KC Nwakalor / Bloomberg

As reservas de moeda estrangeira necessárias para importar bens secaram após uma queda nos preços do petróleo. Gargalos de oferta e ataques aos agricultores  também pesaram sobre a oferta de produtos agrícolas. Também houve escassez de alimentos básicos, como arroz, depois que as autoridades restringiram as importações e fecharam as fronteiras terrestres por 16 meses. Eles reabriram em dezembro, mas isso fez pouco para aliviar a inflação.

Queixas relacionadas à comida desempenharam um papel na sustentação dos protestos #EndSARS no outono. O que primeiro começou como manifestações contra a brutalidade policial sob o presidente Muhammadu Buhari se transformou em pilhagem de armazéns que armazenavam coisas como macarrão, arroz e macarrão.

Turquia: Líder Irritado

Como o maior consumidor per capita de pão do mundo e seu maior exportador de farinha, a Turquia está particularmente exposta a uma alta nos mercados de commodities. Os preços dos alimentos subiram 18% em janeiro em relação ao ano anterior, com grandes saltos nos produtos básicos, dos grãos aos vegetais.

A Turquia vem lutando contra uma inflação de alimentos de dois dígitos há anos, mas as implicações políticas para o presidente Recep Tayyip Erdogan estão aumentando à medida que os custos dos alimentos atingem sua base de apoio central junto com a queda no valor da lira.

Economia turca enquanto a inflação pressiona o banco central a apertar a política

Os preços dos alimentos na Turquia subiram 18% em janeiro em relação ao ano anterior. Fotógrafo: Nicole Tung / Bloomberg

Erdogan ordenou uma investigação sobre o aumento dos preços dos alimentos. Ele disse que óleo, leguminosas, vegetais e frutas eram a “principal preocupação”. O Ministério do Comércio pode impor multas às empresas que vendem produtos alimentícios a preços elevados, alertou o presidente em janeiro. O problema é que as ameaças do governo e as penalidades financeiras em 2019 mal moveram a agulha.

Índia: ato de equilíbrio

Lar das terras mais aráveis ​​depois dos Estados Unidos, a Índia é o maior exportador mundial de arroz e o segundo maior produtor de trigo. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas não têm acesso a alimentos acessíveis e o país tem algumas das taxas mais altas de desnutrição infantil.

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Embora os custos dos alimentos básicos tenham subido mais lentamente nas últimas semanas, os alimentos continuam no centro das tensões políticas que têm dominado a Índia. Os protestos de agricultores aumentaram devido a uma ação do governo do primeiro-ministro Narendra Modi de liberalizar o mercado de safras. Os produtores estão preocupados que a nova lei baixe os preços.

Modi está promovendo reformas que muitos acreditam que visam, em última instância, cortar a conta de subsídios aos alimentos da Índia , a maior do mundo. O governo disse em janeiro que estava se tornando “incontrolável” grande. Cortes nos subsídios aos alimentos e combustíveis muitas vezes se traduzem em inquietação e as projeções não parecem boas nos próximos dois anos, de acordo com a Verisk Maplecroft . 

– Com a ajuda de Samuel Dodge, Cagan Koc, Tope Alake, Irina Reznik, Sophia Chalmer, Marisa Wanzeller, Tatiana Freitas, Pratik Parija, Simon Kennedy e Max De Haldevang

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela agência Bloomberg [Aqui!].

Apesar da desconfiança ocidental, a Sputnik V se tornou uma das vacinas mais procuradas do mundo

vacinaçãoSó na semana passada, cinco outros países aprovaram a vacina corona da Rússia. Um país da UE já registrou a vacina. O ceticismo do Ocidente foi inapropriado?

Por Katharina Wagner de Moscou para o Frankfurter Allgemeine 

A conta oficial do Twitter do “Sputnik V” relata novos sucessos todos os dias. Só na semana passada, a vacina russa contra a COVID-19 foi aprovada no Egito, Quirguistão, Honduras, Guatemala e República da Moldávia; Já chegaram as entregas no México e na Sérvia, e as primeiras doses foram administradas no Paraguai.

Trinta e oito países países já registraram o “Sputnik V”. A Hungria, há também um país da UE, não quis esperar pelo exame da Agência de Medicamentos da União Europeia (EMA), e agora arca com os próprios riscos. O governo tcheco também anunciou no sábado que havia procurado o presidente Vladimir Putin sobre a entrega da vacina russa. A vacina é particularmente popular em países mais pobres, pois custa pouco menos de US $ 20 para as duas doses e pode ser guardada na geladeira. Um estudo publicado na revista “The Lancet” também certificou o “Sputnik V” como sendo altamente eficaz e seguro.

Ainda não está claro se a Rússia conseguirá cumprir suas promessas de entrega, já que depende de fábricas no exterior, por exemplo na Índia e no Brasil, algumas das quais, segundo reportagens da mídia, ainda não produzem. Até agora, os volumes de entrega russos não estão nem perto dos produtores ocidentais. Este é provavelmente um dos motivos pelos quais a Rússia anunciou que estará oferecendo uma “versão light” de sua vacina a partir de março, que fornecerá apenas uma vacina em vez de duas.

Dúvidas são rotuladas como “politização”

Isso também poderia resolver o problema de que o “Sputnik V” aparentemente não é muito mais barato do que a concorrência, como afirma Kirill Dmitrijew, chefe do estatal Fundo de Investimento Diretos da Rússia (RDIF), que co-financiou o desenvolvimento do “Sputnik V” e da vacina agora comercializado no exterior. Segundo o “Financial Times”, a União Africana negociou preços significativamente melhores do que os cobrados para a vacina russa, por exemplo com a Biontech e a Astra-Zeneca.

Mesmo assim, o “Sputnik V” já é um sucesso: em termos de pedidos, atualmente é uma das vacinas mais populares do mundo. Então, o ceticismo que há muito se mostra a ele, especialmente no Ocidente, é inapropriado? Os responsáveis ​​em Moscou retratam dessa forma: dúvidas ou críticas são rotuladas como “politizando” a busca por vacinas. Quando a chefe da Comissão da UE, Ursula von der Leyen, recentemente expressou surpresa por Moscou estar oferecendo milhões de doses de sua vacina a outros países enquanto a campanha de vacinação avançava lentamente em seu próprio país, a representação permanente da Rússia na UE tuitou em resposta: “Não à politização à questão da vacina da COVID-19 “.

Até agora, o ceticismo tem a ver principalmente com questões científicas. Até a publicação no “The Lancet” no início de fevereiro, a segurança e a eficácia do “Sputnik V” não podiam ser avaliadas independentemente porque os desenvolvedores dificilmente divulgaram quaisquer dados. Quando a Rússia aprovou a vacina no verão passado, menos de 100 pessoas participaram dos testes clínicos; a terceira fase crucial do estudo ainda estava pendente e ainda não foi concluída. Essa pressa e o desrespeito aos padrões internacionais alimentaram a desconfiança.

Compare com a Segunda Guerra Mundial

O estudo do “The Lancet” não respondeu a todas, mas a muitas perguntas. O Kremlin também está usando a publicação para promover a vacina em seu próprio país; Presidente Vladimir Putin a revista especializada elogiou-o por sua “objetividade”. Quando o “The Lancet” publicou um estudo em dezembro sobre o envenenamento do membro da oposição Alexei Navalnyj com o agente de guerra Novichok, o porta-voz de Putin disse: “Não lemos revistas médicas”. Agora, o sucesso do “Sputnik V” dá à Rússia a oportunidade de melhorar sua imagem manchada no mundo. Grandes comparações são feitas para isso. O RDIF, portanto, estabeleceu uma conexão com a Segunda Guerra Mundial: o “Sputnik V” queria trabalhar com os Estados Unidos e outros países para enfrentar esse desafio à humanidade “assim como fizemos na Segunda Guerra Mundial”.

Moscou também busca a aprovação da UE, de acordo com suas próprias informações. Mas informações contraditórias vieram da Rússia, o que semeou novas dúvidas sobre a seriedade dos responsáveis: No final de janeiro, o RDIF anunciou que havia pedido a aprovação da UE. A  EMA rejeitou essa informação dizendo que apenas “aconselhamento científico” havia ocorrido e os desenvolvedores expressaram seu interesse em iniciar um processo de “revisão contínua”.

Há pouca confiança no Sputnik V na Rússia

No procedimento de teste que está sendo usado na pandemia da COVID-19 para economizar tempo, os desenvolvedores da vacina enviam dados à EMA continuamente durante os estudos clínicos. Antes de fazer isso, no entanto, a agência da UE verificará se a vacina é promissora e se há dados suficientes disponíveis. Os desenvolvedores só podem enviar um pedido de “revisão contínua” depois que a EMA tiver dado seu consentimento. O RDIF tuitou em meados de fevereiro que esse pedido havia sido feito. No entanto, a agência de drogas da UE confirmou à FAZ que este não era o caso. Definir os próximos passos “em diálogo com a empresa”.

É claro que os requisitos da EMA são muito altos. Por exemplo, todos os dados do paciente dos estudos devem ser enviados e as instalações de produção inspecionadas. Além disso, a EMA agora também exige dados confiáveis ​​sobre a eficácia da vacina contra as novas mutações do vírus. De acordo com o Instituto Gamaleja do Estado de Moscou, que desenvolveu o “Sputnik V”, as vacinações de reforço também devem ajudar contra as variantes britânica e sul-africana. No entanto, dados sobre isso ainda não foram publicados.

Na Rússia, as mutações quase não desempenham nenhum papel até agora. O número de infecções está caindo, embora quase não haja restrições, as regras de distância e máscara são seguidas apenas com indiferença e até agora apenas 2,7 por cento da população recebeu pelo menos uma dose de vacina. Embora todos os adultos em muitas regiões agora possam ser vacinados, a confiança é baixa.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Frankfurter Allgemeine [Aqui!].

Facebook virou entreposto da grilagem de terras na Amazônia

Parts of Amazon Rainforest in Brazil Are Being Illegally Offered for Sale  on Facebook Marketplace : US News : Latin Post - Latin news, immigration,  politics, culture

Não sei se o hoje multi bilionário Mark Zuckerberg imaginou que um dia o seu “Facebook” iria virar uma espécie de entreposto avançado da grilagem de terras em áreas de conservação ambiental e de terras indígenas na Amazônia brasileira, mas o fato é que virou.  E isto foi meticulosamente documentado por jornalista da rede BBC que acabam de lançar um documentário mostrando o uso da área de anúncios do Facebook, o Marketplace, para que terras públicas sejam vendidas ilegalmente em um esquema que envolve diferentes escalas de envolvimento.

O documentário “Our World: Selling the Amazon” (Amazônia à venda) expõe o funcionamento de um vigoroso mercado ilegal online que opera livremente no Facebook, e uma dos elementos mais comprometedores para o Facebook é que os grileiros admitem que as terras que anunciam não lhes pertencem. E o pior é que o levantamento feito pelos pelos jornalistas da BBC mostra que eles reconhecem que estão vendendo terras públicas, com um detalhe importante que é o fato deles contarem com a impunidade por acreditarem que o presidente Jair Bolsonaro é uma espécie de aliado nesse processo de grilagem de terras públicas.

Interessante notar que a equipe de jornalistas da BBC identificou que a maioria dos anúncios de venda ilegal de terras públicas veio do estado de Rondônia. Como conheço bem o estado já que realizei trabalhos de campo na sua região central entre os anos de 1991 e 2008, pude reconhecer algumas das práticas reveladas como recorrentes dos tempos em que cruzei as estradas empoeiradas na região central do estado.

Brazil map

O documentário “Amazônia à Venda” tem um duração de 41:10 minutos e pode ser assistido abaixo.

A retomada que não funcionou: um alerta nos números da segunda onda de COVID-19

Análise estatística de pesquisadores da Rede ModInterv sustenta que reaceleração da curva de mortalidade é mais intensa onde ela havia sido “achatada”, traduzindo em números o choque vivenciado em países como a Alemanha. O Brasil também enfrenta segunda onda, mas em situação diferente: “não teve como piorar”

UFPR 1Com o início da “segunda onda” de COVID-19, verificada nos gráficos ModInterv no fim de outubro, a Alemanha adotou lockdown em novembro, que persiste até hoje. Foto: Mega Merkel/Flickr, 2020

Por Camille Bropp

O relaxamento de medidas sanitárias nos países que haviam alcançado o “achatamento da curva” da mortalidade por COVID-19 conduziu a uma segunda onda da doença ainda mais grave, sugerem pesquisadores da Rede Cooperativa de Pesquisa em Modelagem da Epidemia de COVID-19 e Intervenções não Farmacológicas (Modinterv). O estudo “Standard and anomalous second waves in the COVID-19 pandemic, publicado na plataforma de pré-prints medRxiv e submetido ao periódico Scientific Reports, considerou o cenário de dez países, incluindo o Brasil, em seis continentes. A constatação é de que metade dos países analisados haviam controlado a doença, mas registraram até 13 vezes mais mortes na segunda onda na comparação com a primeira.

Com base em parâmetros do modelo matemático, o estudo apresenta um índice que foi descrito pelos pesquisadores de “número de mortes que poderiam ter sido poupadas se o país tivesse conseguido evitar uma segunda onda de covid-19”. A situação foi verificada em Marrocos, Austrália, Áustria, Alemanha e Sérvia. Todos são países que tinham alcançado o platô da curva de mortalidade por COVID-19 — que, no gráfico que considera número de mortes acumuladas e dias desde a primeira morte, significa ausência de mortes —, e viram a retomada da curva chegar a níveis ainda mais altos na segunda onda. Nesse cenário, os casos mais graves dentre os países considerados no estudo são os do Marrocos (12,7 vezes mais mortes), do Irã (8,7 vezes) e da Alemanha (8,4).

O estudo dá números à sensação de “péssima escolha” que governos de países com medidas de contenção bem-sucedidas vivenciaram na sequência das tentativas de retomada do cotidiano ainda sem a existência de uma vacina contra a doença.

“A mensagem do trabalho é que não devemos baixar a guarda pelo fato de a epidemia ter sido ‘controlada’ pela adoção de medidas de controle em um primeiro momento. Quem se ‘arriscou’ e descuidou demais, pagou um preço alto”, avalia Giovani Vasconcelos, professor do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador da rede ModInterv. Também fazem parte da rede pesquisadores das universidades federais de Pernambuco (UFPE) e Sergipe (UFS).

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Os outros países que tiveram retrocessos com essa dinâmica foram Austrália, Japão, Itália e Sérvia. Segundo um dos conceitos inaugurados pelo estudo, esses países apresentaram uma “segunda onda padrão” da doença, em que a retomada da curva de mortalidade é visível porque houve em algum momento um achatamento dela. Ou seja, a sensação de regressão no combate à doença foi perceptível, ganhando muitas vezes repercussão mundial, porque as populações já haviam experimentado uma época de controle.

Outro caso não mencionado no estudo, mas também considerado pelos pesquisadores como de “segunda onda padrão”, é o da Suíça. “No ajuste da curva de óbitos desse país se vê claramente que a segunda onda é enorme, com cerca de cinco vezes a amplitude da primeira, quando medida em termos dos platôs da curva acumulada”, avalia Vasconcelos.

O risco de “segunda onda” já havia sido registrado em outro estudo da rede, “Power law behaviour in the saturation regime of fatality curves of the COVID-19 pandemic, publicado no final de julho no medRxiv e nesta quinta-feira (25), revisado por pares, no Scientific Reports. Nele, os cientistas aplicam o modelo matemático para medir o comportamento das curvas de mortalidade e concluíram que o achatamento dessa curva precisa ser alcançado rapidamente — por meio de medidas rígidas e por tempo prolongado — não só para evitar mortes, mas para impedir que a doença ressurja. Já nesse estudo, os cientistas notaram a “reaceleração das curvas de fatalidade” em alguns países.

Países como o Brasil, com cenário de mortes constantes, tiveram “segunda onda anômala”

No artigo mais recente, em contraponto à “segunda onda padrão”, os pesquisadores construíram o conceito de “segunda onda anômala” para definir a condição de países que experimentaram uma nova onda da doença sem nunca terem contido as mortes. Nesse quadro estão Brasil, Irã e Estados Unidos.

Segundo Vasconcelos, os conceitos foram inaugurados para distinguir os dois tipos de ondas. “Na Física, existem processos que dão origem a ‘ondas anômalas’. Embora os processos sejam bem diferentes, fizemos uma analogia com esses fenômenos físicos para introduzir o conceito de ‘segunda onda anômala’ no contexto de epidemias”, explica.

No caso dos países com “segunda onda anômala”, a constância do alto número de mortes diárias causadas pela covid-19 já na primeira onda fez com que essa se estendesse por longo período e já fosse significativa em número de mortes, portanto difícil de ser superada. Ainda assim, a curva de mortalidade mostra uma acentuação no número de mortes em algum momento da pandemia.

“A segunda onda começou a partir de um patamar alto de óbitos diários e, portanto, bem antes de a primeira onda ter sido ‘achatada’, por isso dizemos que foi um efeito ‘anômalo’. A segunda onda existe, mas o pico dela mostrou-se menor que o primeiro. É possível que, nesses casos, o ‘sofrimento’ mais prolongado tenha deixado a situação tão ruim que não teve muito como piorar”, avalia o professor Antônio Macêdo do Departamento de Física da UFPE, um dos autores do trabalho.

Ainda assim, o estudo sustenta que esses países tiveram uma segunda onda. No Brasil, ela se apresenta graficamente no dia 26 de outubro. É possível notá-la porque o país, mesmo em meio a uma situação preocupante, apresentou leve queda no número de mortes a partir de um pico, em junho, mas em outubro essa tendência se inverteu e o número diário de mortes voltou a crescer, iniciando assim a segunda onda. Até o último dia, 24 de fevereiro, o país registrava mais de 248,5 mil mortes por covid-19, das quais 62% ocorridas até 19 de outubro.

A situação é oposta à de países que experimentaram a “segunda onda padrão”. Pelas medições da ModInterv, a segunda onda alemã, por exemplo, começou em 17 de outubro, após um verão marcado por reabertura de bares e de festas. O país adotou o lockdown (protocolo de isolamento) em novembro, o que não havia feito antes — o sucesso da contenção se baseava na testagem em massa e no monitoramento de infectados pelo vírus Sars-Cov-2. Depois de um Natal com restrições às reuniões familiares, o governo alemão prorrogou o protocolo três vezes, sendo a última delas para 7 de março. Até o último dia 24, o país registrava quase 68,8 mil mortes por covid-19 e apenas 14% delas ocorreram antes de meados de outubro.

Gráficos matemáticos detectaram países em “terceira onda” de covid-19

Por meio da abordagem dos estudos da ModInterv, que usam modelos matemáticos, já se verificam países em “terceira onda” de COVID-19. No universo dessas projeções, cada onda equivale a uma re-aceleração da curva de mortalidade por motivos variados, desde que não sejam atribuídos à flutuação estatística — isto é, se apresentam como tendências, não casuísticas.

ufpr 3Entre os países do estudo que haviam “achatado” a curva de mortalidade de COVID-19, o Marrocos tem o caso mais preocupante: foram 12,7 vezes mais mortes na segunda onda em relação à primeira. Na foto, a cidade de Rabat. Foto: Lisa Ferdinando/DoD/Fotos Públicas

“Matematicamente falando, podemos definir uma ‘onda epidêmica ‘ como um regime de forte aceleração no crescimento dos números de casos e óbitos, que se mantém por um período prolongado, digamos semanas. Ou seja, houve de fato uma mudança na dinâmica da epidemia e nos respectivos parâmetros epidemiológicos. Essa re-aceleração é um sinal claro do início de uma onda epidêmica”, argumenta Vasconcelos.

Uma reaceleração culmina em um pico e pode ser seguida de uma desaceleração, em uma dinâmica com possibilidade de se repetir em diversos momentos. De acordo com o modelo da ModInterv, vários países já exibem uma terceira onda, entre eles Sérvia, Estados Unidos e Japão. “É possível ainda que alguns venham a exibir ainda uma quarta onda, até que a epidemia seja controlada pela vacina”, avalia o coordenador da rede.

Projeções da Modinterv estão disponíveis em aplicativo para celular

O sistema ModInterv se baseia em um modelo matemático descrito em um artigo científico publicado em junho na revista PeerJ, focada em ciências da vida e ambientais. A inovação do modelo é a capacidade de adaptação da sua fórmula, que permite fazer projeções em diferentes cenários e localidades, desde que a hipótese de um tratamento farmacológico específico para a doença esteja fora da equação. A nova versão do aplicativo já incorpora o modelo com segunda onda e permite identificar se a mesma está presente em uma dada localidade.

O ModInterv pode ser acessado por meio de aplicativo para navegadores de internet e celulares, batizado com o nome da rede. Tanto na ferramenta on-line como na versão para celular, o aplicativo permite escolher curva (contágio ou óbitos) e localidade (cidade, estado ou país). Há ainda a opção de gerar imagens dos gráficos para download.

O aplicativo foi desenvolvido pelo doutorando Arthur Brum, do programa de Física da UFPE, e pelo professor Gerson Duarte, do Departamento de Física da UFS, sob coordenação de Vasconcelos e participação dos demais pesquisadores da Rede ModInterv. Está disponível para uso pela internet e para download na Google Play Store (baixe neste link).

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Este texto foi originalmente publicado pela Universidade Federal do Paraná [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 67 liberações, governo Bolsonaro lançou 1.100 agrotóxicos no mercado brasileiro

Predominância de empresas chinesas continua marcante na nova leva, com 61% dos agrotóxicos sendo produzidos na China

Conheça os acordos firmados entre Brasil e China em cerimônia realizada no  Itamaraty — Português (Brasil)

Principal parceiro comercial do Brasil na compra de commodities agrícolas, a China está na posição estratégica de impor o consumo de seus agrotóxicos no mercado brasileiro, sob a batuta célere de Tereza Cristina e Jair Bolsonaro

Em uma demonstração que quando quer é eficiente, o governo Bolsonaro acaba de publicar o Ato No. 9 de 22 de fevereiro de 2021  que oficializa a liberação de mais 67 agrotóxicos, o que completa um total de 1.100 agrotóxicos liberados nos primeiros 26 meses da atual administração federal, o que é um verdadeiro recorde em um mercado já altamente saturado pela disponibilidade de mais de 3.000 produtos.

Em mais uma demonstração da hegemonia de empresas chinesas no fornecimento de produtos já existentes no mercado brasileiro, a China é origem de 61% dos produtos aprovados, com o Brasil ficando em segundo lugar (21%) por causa da liberação de 12 agrotóxicos de base biológica (ver figura abaixo).

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Um detalhe a mais é que a influência chinesa no fornecimento de venenos agrícolas é ainda maior, visto que empresas controladas por capital chinês forneceram produtos a partir de países como Espanha, Israel e o próprio Brasil a partir de uma subsidiária da Syngenta.

Desmontando o mito da modernização e do compromisso da segurança

CBG - Carlos Latuff

Um dos argumentos utilizados rotineiramente pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS), é de que essa verdadeira enxurrada de liberações implicaria na modernização dos produtos sendo vendidos no mercado brasileiro, com a aposentadoria de agrotóxicos mais antigos. O fato é que dos 67 produtos liberados, 64 (95,5%) utilizam ingredientes ativos já registrados anteriormente no país. Ou seja, um verdadeiro museu de velhos agrotóxicos.

Outra falácia propalada por Tereza Cristina é de que os produtos liberados trariam mais segurança para os trabalhadores, consumidores e para o meio ambiente.  Se levarmos em conta os critérios utilizados pela União Europeia, 31% dos produtos sendo liberados se encontram proibidos no mercado europeu por causa dos riscos criados para a saúde humana e o meio ambiente (ver figura abaixo).

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Agrotóxicos altamente perigosos sendo classificados como de baixo risco para a saúde humana 

Mas é ao se examinar que aparecem problemas ainda mais complexos para o entendimento do que está ocorrendo com a política de liberações de agrotóxicos indesejados em mercados mais regulados. Um dos exemplos mais marcantes é o do herbicida Atrazina, proibido na União Europeia a partir de estudos que comprovaram impactos na contaminação do lençol freático. Além disso, a Atrazina tem sido considerada com um disruptor endócrino e que assim pode afetar o processo de reprodução, além de possuir características mutagênicas. Entretanto, no Brasil a Atrazina está classificada como pertencente à Categoria 5 (Improvável de Causar Dano Agudo) à saúde humana.

Mas a Atrazina não é o único agrotóxico com alto potencial de dano à saúde humana e ao meio ambiente e que está classificado como pertencente à Categoria 5.  Bons exemplos disso são os herbicidas Clorimurom-Etílico e Trifloxissulurom-sódico que também foi liberados no Brasil como também pertencendo essa categoria de suposta menor capacidade de causar dano agudo, mas que se encontram proibidos na União Europeia.

Um caso ainda mais gritante é o do é o herbicida Haloxifop-p-metílico que nunca foi autorizado na União Europeia, e que foi classificado pelo governo Bolsonaro, usando a classificação antiga, como sendo de Classe I (Extremamente Tóxico). 

A enxurrada de agrotóxicos deve continuar ao longo de 2021

Pesticides in Drinking Water | Effects of Pesticides in Water

Mas se engana quem pensar que a aprovação de 1.100 agrotóxicos deve diminuir a apresentação de novos pedidos de liberação. Por ter verificado que existem dezenas de pedidos pendentes, a minha avaliação é de que ainda teremos centenas de produtos sendo liberados ao longo de 2021.  O motivo para isso é simples: estamos diante de um governo que é parceiro dos interesses dos grandes fabricantes de agrotóxicos e do latifúndio agro-exportador que pratica um tipo de agricultura que depende da aplicação intensiva de venenos agrícolas para viabilizar suas margens de lucro.

O fato é que depois de superada a pandemia da COVID-19, os brasileiros terão que enfrentar a pandemia dos agrotóxicos, pois, do contrário, nos transfomaremos em um laboratório avançado quem quiser estudar os danos causados por venenos agrícolas sobre a saúde humana e o ambiente. 

Para quem desejar acessar a lista de agrotóxicos liberados pelo Ato No. 9 de 22 de fevereiro, basta clicar [Aqui!]. Já os interessados em baixar a lista de 1.100 agrotóxicos liberados desde janeiro de 2019, basta clicar [Aqui!].

Com risco de colapso por causa da COVID-19, governador Ratinho Junior decreta “lockdown” até 8 de março no Paraná

Santa Catarina anuncia lockdown e aumenta expectativa das medidas do Paraná

Na iminência de enfrentar um colapso generalizado na rede de saúde estadual, o governador Ratinho Júnior PSD) decretou nesta sexta-feira a imposição de um “lockdown” a partir de amanhã (27/02)  em todo o estado do Paraná, que deverá se prolongar inicialmente até o dia 08 de março.

A decisão de Ratinho Junior inclui a suspensão do funcionamento de todas as atividades consideradas não essenciais e a proibição da circulação de pessoas no período de 20 h até os 05 h, bem como está proibida a venda de bebidas alcoólicas em público no mesmo período.

Além disso, estão suspensas as aulas presenciais em escolas públicas e privadas de todo o Paraná, inclusive nas entidades conveniadas com o estado do Paraná, cursos técnicos e em universidades públicas e privadas.

O governo do Paraná também suspendeu por 30 dias a realização de cirurgias eletivas em hospitais públicos e privados para assegurar os estoques de medicamentos anestésicos e reduzir a demanda por leitos hospitalares.

Quem desejar ler todas as medidas adotadas pelo governador do Paraná, basta clicar [Aqui!].

Brasil terá que refazer suas metas no Acordo de Paris antes da COP26

ONU pede revisão de planos climáticos ruins; Brasil ficou fora de Cúpula em 2020 por submeter objetivos que reduzem esforço do país contra aquecimento global

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Um relatório da ONU divulgado hoje (26/02) afirma que as metas atuais dos principais poluidores combinadas não chegam nem perto de mitigar as mudanças climáticas. Segundo o documento, as propostas atuais dos países que representam 30% das emissões de gases de efeito estufa conseguirão reduzir em apenas 1% as emissões até 2030 em relação aos níveis de 2010. Para garantir que o aquecimento global fique abaixo de 2ºC, esse percentual deveria ser de 25%, sendo 45% para a meta de 1,5ºC, segundo cálculos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), maior autoridade científica sobre o assunto.

O relatório Síntese Inicial NDC foi solicitado pelas Partes do Acordo de Paris para medir o progresso dos planos nacionais de ação climática – Contribuições Nacionais Determinadas, conhecidos pela sigla NDC – antes da COP26 em novembro deste ano, que será realizada em Glasgow, na Escócia.

No ano passado, o Brasil ficou de fora da Cúpula de Ambição Climática da ONU exatamente porque os organizadores do evento não consideraram suficientes as metas climáticas divulgadas quatro dias antes do encontro pelo Ministério do Meio Ambiente. O Brasil é o 6º maior emissor do mundo, e a destruição das florestas responde pelo maior volume de emissões.

“No momento, é como se estivéssemos entrando em um campo minado de olhos vendados”, definiu Patrícia Espinosa, secretária executiva de Mudança Climática da ONU. Ela encorajou todas as nações a investigar outras áreas a fim de criar planos mais robustos. “O que precisamos é muito mais radical e transformador do que o que temos agora. Precisamos de planos concretos para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis o mais rápido possível”.

“O relatório provisório de hoje é um alerta vermelho para nosso planeta”, lamenta o secretário geral das Nações Unidas Antonio Guterres. “Os principais emissores devem apresentar metas muito mais ambiciosas de redução de emissões para 2030 em suas Contribuições Nacionais Determinadas bem antes da Conferência Climática da ONU em Glasgow, em novembro. Agora é a hora.”

Laurence Tubiana, CEO da Fundação Europeia do Clima e uma das idealizadoras do Acordo de Paris afirma que os países do G20 deveriam liderar o processo de mitigação das mudanças climáticas. “Os governos que entregaram planos pouco ambiciosos devem — como sugere a ONU — reconsiderar e reapresentar os planos até a COP26”.

Entre pesquisadores e ambientalistas, os resultados do relatório geraram comoção. “É espantoso como os países estão longe de lidar com a crise climática”, afirma Mohamed Adow, diretor da Power Shift Africa, um think tank com sede no Quênia que estuda a transição energética no continente africano. “Alguns países fizeram bem em atualizar suas promessas do Acordo de Paris, mas muitos outros, como Brasil, Japão, Austrália, México e até mesmo a Nova Zelândia não fizeram nada, vergonhosamente. Este estado de coisas não pode continuar.”

Para Niklas Höhne, fundador do NewClimate Institute, organização especializada em políticas climáticas, o maior impacto positivo vem da União Europeia, seguida do Reino Unido e da Argentina. “Mas dez países apresentaram NDCs revisadas sem nenhuma melhoria na ambição ou mesmo retrocedendo: Austrália, Brasil, Japão, México, Nova Zelândia, Singapura, Coreia do Sul, Suíça e Vietnã”, destaca o pesquisador. Ele ressalta que dessa lista, ao menos o Japão já reconheceu a pouca ambição da meta submetida em 2020 e se comprometeu a melhorá-la este ano.

“O Brasil apresentou uma NDC que efetivamente enfraquece suas já insuficientes metas de ação climática para 2025 e 2030”, avalia Höhne. “Como resultado, as emissões do Brasil em 2030 sob a nova meta poderiam ser 27% maiores do que eram quando ratificou o Acordo de Paris em 2016.” Ele lembra que um recuo nas metas de redução de emissões desobedece a exigência do Acordo de Paris de que cada nova NDC seja mais ambiciosa que a anterior.

Esperança

Os resultados do relatório aumentam ainda mais as expectativas em relação a uma postura mais ambiciosa este ano por parte dos dois grandes poluidores do planeta: EUA e China.

“Espero que os EUA e a China possam igualar a União Europeia na entrega de estratégias que nos coloquem no caminho do zero líquido”, afirma Tubiana, que também é embaixadora da França para a Mudança Climática.

A diretora executiva do Greenpeace Internacional, Jennifer Morgan, também joga os holofotes sobre os dois países. “Estamos chamando os maiores emissores do mundo, os Estados Unidos e a China, para entregar NDCs no próximo mês que nos dêem motivos de esperança”, afirma. Ela ainda vê a possibilidade de países que estão indo no caminho contrário voltarem a cooperar pelo clima.

“A Austrália e o Brasil, arrasados por queimadas agravadas pela emergência climática, devem, respectivamente, controlar os interesses dos combustíveis fósseis e da agricultura industrial, enquanto trabalham para criar um futuro justo e seguro para seus cidadãos e proteger a preciosa biodiversidade”, disse a ambientalista.

 
“Com planos climáticos lamentavelmente fracos, grandes emissores como Japão, Austrália e Brasil estão pesando sobre a ambição global, quando na verdade deveriam estar liderando”, afirma Tasneem Essop, diretor executivo da Climate Action Network. Para ele, anúncios de metas líquidas zero em 2050 não podem ser o único sinal de ambição climática. “Os EUA e a China – que ainda vão apresentar suas NDCs – devem fazê-lo o mais rápido possível. É imperativo que os Estados Unidos forneçam sua parte justa, tanto sobre a redução de emissões, como em relação às finanças.”

O relatório está disponível  [Aqui!]