11 anos depois do rompimento da barragem de Fundão, diversas atividades marcam a continuidade da luta por justiça

Caminhada em Bento de Origem, Webinário Internacional sobre o novo projeto de mineração da Samarco e a condenação criminal marcam o 5 de novembro

Pessoas atingidas comemoram a condenação criminal na porta do TRF-6 

Famílias atingidas pelo crime que deixou 19 pessoas mortas1 e um rastro de destruição em todo o rio Doce, apoiadores e organizações sociais realizam um ato no dia 5 de novembro de 2026, próxima quinta-feira. Com o lema “11 anos de um crime, 11 anos de luta”, será realizada uma missa, seguida por uma caminhada no território Bento de Origem, comunidade devastada pela lama em 2015.

“São 11 anos de saudade, de direitos negados, de promessas não cumpridas e de uma reparação que ainda não chegou para todos”, reforça o convite da atividade. “Cada passo será em memória dos que partiram, em respeito aos que resistem e em defesa dos direitos que ainda precisamos conquistar”.

Webinário Internacional vai discutir a ampliação da mineração na região

O Instituto Cordilheira, em parceria com o Loucos por Bento, a Comissão de Atingidos e Atingidas pela barragem de Fundão (CABF), a Environmental Law Alliance Worldwide (ELAW), o Fórum Permanente São Francisco e o Grupo de Pesquisa e Extensão sobre Conflitos em Territórios Atingidos (Conterra – UFOP), realiza, no dia 18 de novembro, às 10h (horário de Brasília), o webinário “A expansão da mineração em Mariana e Ouro Preto e os riscos de novos desastres”.

 O evento vai analisar aspectos jurídicos, ambientais e de garantia de direitos humanos relacionados ao Projeto de Longo Prazo da Samarco (PLP), que visa expandir as atividades de mineração no Complexo Germano, em Mariana e Ouro Preto, na mesma região onde ocorreu o rompimento.

O webinário reunirá lideranças das comunidades, profissionais do direito e pesquisadores para dialogar sobre iniciativas técnicas e jurídicas para contestar a legalidade do projeto, com o foco na proteção dos direitos e na prevenção de novos danos socioambientais. Também serão abordados os impactos sobre os sítios históricos e culturais, a segurança e a manutenção dos modos de vida local.

As evidências científicas coletadas ao longo dos processos judiciais em andamento serão apresentadas, com atenção especial aos riscos das barragens de mineração e pilhas de rejeitos (PDEs), especialmente à luz das fortes chuvas que são esperadas para a região.

O que é o PLP

O Projeto Longo Prazo da Samarco prevê a ampliação da mineração no Complexo Germano, situado em Mariana e Ouro Preto: duas novas pilhas de estéril e rejeito, ampliação da pilha já existente, depósito de rejeitos úmidos em cava confinada e instalação de estruturas para transportadores de correia de longa distância.

O projeto teve sua licença ambiental aprovada pelo Conselho de Política Ambiental (COPAM) em junho de 2025. No dia 20 de dezembro do mesmo ano, a juíza Patrícia Alencar Teixeira de Carvalho determinou a suspensão imediata dos efeitos da licença. A decisão atendeu aos pedidos de moradores de Bento Rodrigues, com base em normas nacionais e internacionais, precedentes de tribunais de outros países e uma extensa pesquisa de especialistas que demonstraram que a mineradora e o órgão ambiental não consideraram adequadamente os impactos das mudanças climáticas e os riscos de eventos extremos sobre as estruturas planejadas. Cientistas alertam para o risco de novas tragédias.

Essa decisão foi inédita, pois foi a primeira vez que atividades minerárias no estado foram paralisadas por falta de estudos sobre os riscos decorrentes das mudanças climáticas. Em 30/12/2025, um desembargador do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6) acolheu o pedido da Samarco para retomar suas atividades, mas a determinação de reabrir o licenciamento para analisar os riscos climáticos foi mantida.

Luta por condenação criminal continua

 Em 3 de setembro de 2026, o TRF-6 condenou, por unanimidade, a Samarco e três de seus ex-engenheiros – Germano Silva Lopes, Daviély Rodrigues Silva e Wagner Milagres Alves – pelo rompimento da barragem do Fundão. A Samarco foi impedida de firmar contratos com órgãos públicos por dez anos e condenada a pagar cerca de R$ 7,2 milhões em multas.

Mais de 100 moradores de diversos municípios atingidos se deslocaram até Belo Horizonte para acompanhar presencialmente a sessão. Ao final, celebraram a condenação na porta do Tribunal: “Justiça, justiça, ainda que tardia.”

Os desembargadores julgaram dois recursos de apelação: um do Ministério Público Federal, e o outro interposto por quatro mulheres (três familiares de vítimas fatais e uma moradora de Bento Rodrigues, comunidade soterrada pela lama do rompimento da barragem da Samarco/Vale/BHP Billiton), que atuam como assistentes de acusação. As apelações questionaram a absolvição dos 10 réus remanescentes (o caso começou com 26 réus), depois da decisão da juíza federal de Ponte Nova, Patrícia Alencar Teixeira de Carvalho, que em novembro de 2024, absolveu os réus de todas as acusações.

“Quebramos o ciclo de impunidade. Ao reconhecer que a Samarco e três de seus executivos conheciam o risco, ignoraram os alertas e optaram por fazer vista grossa, o Judiciário finalmente confirmou que isso não foi um acidente”, afirma Danilo Chammas, um dos advogados das vítimas e membro da Equipe de Litígio e Direitos Humanos do Instituto Cordilheira. Danilo reforça que a mobilização pela continuidade da condenação é fundamental.

Confira aqui a repercussão internacional da condenação.

1 A tragédia de Mariana deixou 19 mortos, mas uma das vítimas pede o reconhecimento do bebê que carregava no ventre como a 20ª vítima fatal, enquanto a Samarco nega responsabilidade pela morte do feto. A mãe que sofreu aborto na lama e luta para incluir feto entre vítimas de Mariana. BBC Brasil, São Paulo, 4 nov. 2016. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-37829548.

A derrota de Trump nas eleições legislativas muda o tabuleiro geopolítico e enfraquece a extrema direita mundial

Vitória democrata no Congresso dos EUA amplia a margem de manobra de Lula, coloca Javier Milei sob pressão e pode alterar os rumos das guerras na Ucrânia e no Irã

A derrota acachapante do presidente Donald Trump nas eleições legislativas realizadas nesta terça-feira (3 de novembro) nos EUA representa muito mais do que um revés doméstico para o presidente estadunidense. Com os democratas conquistando amplas maiorias no Senado e na Câmara dos Representantes, o resultado poderá alterar significativamente a correlação de forças na política internacional, especialmente para governos que apostaram no alinhamento com o trumpismo. O fato é que a partir de janeiro de 2027, Donald Trump terá de governar diante de um Congresso controlado pela oposição, que poderá bloquear iniciativas legislativas, fiscalizar suas decisões e dificultar o financiamento de determinadas políticas. Embora continue dispondo de importantes poderes presidenciais, sua capacidade de impor unilateralmente sua agenda sofrerá limitações consideráveis.

Para o presidente Lula, o resultado representa uma oportunidade de ampliar a autonomia diplomática brasileira. O enfraquecimento de Donald Trump poderá reduzir as pressões comerciais e políticas sobre o Brasil, criando condições mais favoráveis para o fortalecimento dos BRICS, a diversificação das parcerias internacionais e a defesa de uma ordem mundial multipolar. Isso não significa que os democratas sejam aliados naturais de Lula. Afinal, republicanos e democratas compartilham interesses estratégicos relacionados à preservação da hegemonia estadunidense, especialmente diante da ascensão da China. Entretanto, negociar com um presidente politicamente enfraquecido é bastante diferente de enfrentar uma administração que controla integralmente o Executivo e o Legislativo.

Para Javier Milei, por outro lado, a derrota de Trump poderá representar um problema de grandes proporções. O presidente argentino apostou fortemente em sua identificação ideológica e pessoal com o ocupante da Casa Branca, transformando essa aproximação em um dos pilares de sua estratégia internacional. Com a nova composição do Congresso, eventuais mecanismos de apoio financeiro à Argentina poderão enfrentar maior fiscalização e resistência política. Para uma economia que permanece dependente de financiamento externo e enfrenta dificuldades estruturais, a perda de influência de seu principal aliado internacional poderá ampliar as incertezas. Milei poderá descobrir que sua proximidade pessoal com Trump não garante os mesmos benefícios quando o presidente estadunidense perde força política.

As consequências também poderão ser importantes para as guerras na Ucrânia e no Irã.  Na Ucrânia, a vitória democrata tende a dificultar eventuais concessões de Trump à Rússia, especialmente em relação às sanções econômicas e ao apoio militar a Kiev. Isso poderá aumentar a pressão sobre Vladimir Putin, mas não significa necessariamente que a guerra esteja mais próxima do fim. O fortalecimento da assistência militar à Ucrânia também poderá prolongar o conflito, caso não seja acompanhado por iniciativas diplomáticas efetivas. No Irã, a situação poderá ser ainda mais delicada para Donald Trump. A guerra conduzida pelos Estados Unidos e Israel tornou-se um importante fator de desgaste político interno, sobretudo pelos custos econômicos e pelo impacto sobre os preços dos combustíveis. Um Congresso controlado pelos democratas poderá ampliar a fiscalização das operações militares, questionar novos gastos e pressionar pela busca de uma saída negociada.

Há ainda uma consequência política mais ampla: o resultado eleitoral enfraquece a narrativa de que a ascensão da extrema direita seria um processo inevitável e irreversível. Trump continua sendo uma figura poderosa, mas sua derrota representa um golpe simbólico importante para lideranças internacionais que fizeram de sua presidência uma referência política.  É preciso, contudo, evitar uma interpretação equivocada. A derrota de Trump não significa o enfraquecimento automático do poder imperial dos Estados Unidos. Democratas e republicanos possuem diferenças importantes, mas compartilham o objetivo de preservar a liderança econômica, militar e tecnológica estadunidense. O que poderá mudar são os instrumentos utilizados para alcançar esse objetivo.

Para o presidente Lula, o novo cenário oferece uma oportunidade de ampliar o protagonismo brasileiro, mas seu aproveitamento dependerá de uma estratégia que combine autonomia diplomática, fortalecimento econômico e defesa dos interesses nacionais. Para  Javier Milei, o desafio será enfrentar uma conjuntura internacional potencialmente menos favorável ao projeto político que representa.

A principal conclusão é que a derrota de Trump altera o equilíbrio de forças internacional sem necessariamente modificar as estruturas que sustentam a hegemonia dos Estados Unidos. Ainda assim, o resultado poderá reduzir a capacidade de pressão de Washington sobre governos como o brasileiro, aumentar a vulnerabilidade de aliados como Milei e abrir novas possibilidades diplomáticas nos conflitos internacionais.  A grande questão, a partir de agora, é saber se o enfraquecimento de Trump contribuirá para reduzir as tensões mundiais ou se o presidente estadunidense tentará compensar sua derrota interna com novas demonstrações de força no exterior.

A Amazônia que Lula precisar enfrentar um ano depois da COP30

Por Ismael Machado

Aqui em minha casa, numa pequena reunião festiva, o geógrafo Bruno Malheiro sorve um pouco da cerveja gelada e, rindo, dispara: “Já posso voltar para a oposição?”. Estávamos discutindo a épica virada que protagonizamos na eleição pouco mais de uma semana atrás. De há muito tempo Bruno tem pesquisado questões ligadas a Lula, bolsonarismo e Amazônia. Nesse momento está preparando uma nova versão de seu livro ‘Geografias do Bolsonarismo’. Se você não conheceu ainda esse trabalho, pesquise.

Segundo explica o geógrafo, inclusive em um artigo para o Le Monde Diplomatique, o bolsonarismo não nasceu nas urnas. “Antes de se tornar força eleitoral, já se constituía nas fronteiras do capitalismo brasileiro pela expansão de uma racionalidade territorial que subordinava a terra, a natureza e as relações sociais à acumulação privada, legitimando a destruição dos bens comuns e desqualificando outras formas de organizar a vida”. Como Bruno Malheiro comprova isso? Pesquisando em dados do IBGE, Datasus e outras fontes primárias, ele conseguiu elaborar mapas que vinculam poder político a ideias defendidas pelo bolsonarismo.

Um exemplo: em 2018, os mapas da soja, da pecuária e da mineração convergiam com aqueles em que Jair Bolsonaro obtinha seus melhores resultados eleitorais. Essas fronteiras articulavam-se a circuitos políticos e culturais — de festas agropecuárias a clubes de tiro e redes religiosas — que difundiam a defesa irrestrita da propriedade, a promessa da prosperidade e o empreendedorismo de si. “A homogeneização das paisagens pelas commodities alcançava também os comportamentos e as narrativas sociais, fragilizando vínculos com a terra, com a memória e com a vida coletiva. Afinal, o “agro” tornou-se “pop” e passou a ocupar lugar central na produção de sentidos no Brasil”, escreveu no referido artigo.

Bruno me mostrou alguns dos novos mapas que está construindo para essa nova versão do livro e é espantoso o quanto isso realmente converge. Vou dar ‘spoiler’ sobre dois pequenos dados a respeito. Num deles, se vê que onde houve maior incentivo à agricultura familiar, ocorreram mais votos em Lula. Noutro, com base em dados do SUS, é mostrado como em locais predominantemente bolsonaristas, houve mais mortes por consequência da Covid. Ou seja, o que Malheiro está pesquisando poderia ser uma excelente fonte de estudos para o horizonte e foco da esquerda.

Voltei a pensar nesses dados mostrados pelo amigo pesquisador quando meu filho me lembrou um ano da morte de Lô Borges. E isso me remeteu à COP-30 e ao pesadelo interno que vivenciamos no período com uma equipe de jornalismo que ficou hospedada aqui em casa e que nos submeteu a todo tipo de assédio moral. Mas isso é outra história.

Fato é que um ano depois da COP30, realizada em Belém, Lula tem diante de si uma tarefa que vai muito além de cumprir compromissos ambientais assumidos perante o mundo. Precisa demonstrar que seu governo é capaz de alterar, concretamente, a relação histórica do Estado brasileiro com a Amazônia. A conferência terminou, as delegações internacionais retornaram aos seus países, mas os problemas estruturais da região continuam exigindo respostas que não podem ficar restritas aos discursos diplomáticos.

Não é pouca coisa que Lula terá diante de si. Durante décadas, governos de diferentes orientações políticas enxergaram a região como reserva de riquezas disponíveis para sustentar projetos econômicos concebidos longe daqui. Mudaram os discursos, as justificativas e os beneficiários, mas a lógica permaneceu relativamente intacta. Retirar minérios, produzir energia, ampliar a fronteira agropecuária, exportar matérias-primas e deixar para a população local uma parcela pequena dos resultados e uma quantidade desproporcional dos prejuízos. A Amazônia sempre foi considerada estratégica para o país, mas raramente seus habitantes tiveram participação equivalente nas decisões sobre o próprio território. Já escrevi sobre isso aqui e pareço estar me repetindo, mas é essa a lógica que não teve mudança ainda.

Penso que Lula teve o mérito de ter recuperado a política ambiental depois de um período de desmonte institucional, incentivo à ilegalidade e hostilidade aos povos indígenas e aos movimentos sociais. A retomada da fiscalização, a reconstrução de órgãos públicos e a redução do desmatamento representam avanços importantes. Seria injusto ignorá-los. Mas recuperar instrumentos de proteção ambiental, embora indispensável, não equivale a construir outro projeto de desenvolvimento. E é esse o grande ponto de interrogação que temos diante de nós.

O mesmo governo que defende a preservação da floresta admite novas frentes de exploração de petróleo, mantém grandes empreendimentos minerais e energéticos e ainda não apresenta uma alternativa econômica suficientemente robusta para milhões de amazônidas. Não basta argumentar que o país precisa crescer ou que os recursos naturais são necessários ao desenvolvimento nacional. É preciso perguntar quem ganha com esse crescimento, onde a riqueza permanece, quais atividades econômicas são estimuladas e quem paga seus custos sociais e ambientais.

A exploração de petróleo na Margem Equatorial, por exemplo, expõe uma divergência que o governo não conseguiu superar. De um lado, a necessidade de recursos para financiar políticas públicas e sustentar a economia nacional. De outro, o compromisso de liderar uma transição energética que reduza a dependência dos combustíveis fósseis. Não se trata de uma discussão simples, mas também não pode ser resolvida apenas com a promessa de que os benefícios econômicos compensarão os riscos. A história amazônica está repleta de empreendimentos apresentados como indispensáveis ao progresso, cujos resultados sociais ficaram muito aquém do anunciado.

Há também uma dívida com as cidades amazônicas. A COP30 expôs Belém ao mundo, mobilizou investimentos e colocou a capital paraense no centro das discussões internacionais. Entretanto, os problemas de saneamento, habitação, mobilidade e desigualdade continuam presentes. A maior parte da população da Amazônia brasileira vive em áreas urbanas frequentemente submetida a condições precárias de infraestrutura e serviços públicos. É uma população que pouco aparece nas imagens internacionais da floresta, embora experimente diariamente os efeitos de um modelo de desenvolvimento profundamente desigual. E de quebra recebe os comentários preconceituosos do Sul Maravilha quando o resultado das urnas desagrada os defensores das ideias antiesquerda.

O desafio de Lula, portanto, envolve uma mudança na estrutura produtiva regional. É necessário investir de maneira consistente em ciência, universidades, pesquisa tecnológica, agricultura familiar, beneficiamento de produtos regionais e atividades industriais compatíveis com a preservação ambiental. A chamada bioeconomia pode representar uma alternativa, mas somente se deixar de ser uma expressão repetida em seminários e passar a significar emprego, renda, conhecimento e capacidade produtiva instalada na própria Amazônia.

De pouco adiantará substituir a exportação de minérios pela exportação de matérias-primas da biodiversidade se o conhecimento, a tecnologia, as patentes e a maior parte dos lucros continuarem concentrados fora da região. A mudança econômica precisa alcançar também a distribuição da riqueza. Caso contrário, estaremos apenas atualizando os mecanismos de uma dependência antiga, agora revestida de uma linguagem ambientalmente mais aceitável.

Outra questão incontornável é a violência associada à disputa pela terra. A expansão de atividades ilegais, a grilagem, o garimpo e os conflitos fundiários continuam ameaçando comunidades e lideranças sociais. A ameaça de envenenamento da água que abastece populações indígenas é somente a ponta do iceberg desse ideário. Sabemos, mas é bom repetir, que a proteção da floresta depende também da presença efetiva do Estado, da regularização fundiária, da demarcação de terras indígenas e da garantia de direitos às populações tradicionais. Não se pode exigir que essas comunidades sejam responsáveis pela conservação ambiental enquanto permanecem expostas à insegurança e à ausência de políticas públicas.

Lula governa sob limitações políticas concretas. Enfrenta um Congresso no qual os interesses do agronegócio, da mineração irregular e de grandes grupos econômicos possuem enorme capacidade de pressão. Governa também um país marcado por desigualdades regionais e por uma estrutura produtiva dependente da exportação de produtos primários. Reconhecer essas dificuldades não significa transformá-las em justificativa permanente para a manutenção do que existe. A política se mede também pela capacidade de disputar caminhos que parecem bloqueados. E a própria eleição recente mostra o quanto a maioria da população defende ideias que Lula poderia amplificar, como a presença do Estado em escala estratégica, a manutenção de políticas sociais, a não privatização e a melhoria no bem-estar social (o fim da escala 6×1 é um sinal inequívoco disso).

Há, ainda, uma questão federativa que não pode ser desprezada. Estados e municípios amazônicos precisam participar da formulação de um projeto regional de longo prazo, mas isso exige mais do que transferências financeiras e obras isoladas. Exige planejamento, instituições fortalecidas e capacidade de estabelecer prioridades que ultrapassem os interesses imediatos de governos e grupos empresariais. Sem essa articulação, mesmo investimentos expressivos correm o risco de produzir resultados fragmentados e de curta duração. Durante a semana recebi aquelas petições online reivindicando a criação de uma ‘Terrabrás’, para melhor domínio de questões relacionados às chamadas ‘terras raras’, o que por si só, mostra que há gente preocupada com esse tema.

A COP30 deu visibilidade internacional à Amazônia e reforçou a responsabilidade brasileira no enfrentamento da crise climática. Mas a conferência também ampliou as expectativas de uma população que conhece muito bem a distância entre as promessas de desenvolvimento e seus resultados concretos. Para essa população, a discussão sobre o futuro da floresta não pode estar separada do acesso à saúde, à educação, ao trabalho, à moradia e à segurança.

Lula ainda tem a oportunidade de fazer da Amazônia uma referência de transformação econômica e social, e não apenas de protagonismo diplomático. Para isso, precisará enfrentar interesses consolidados, rever prioridades e compreender que preservar a floresta não significa manter a região economicamente subordinada. Ao contrário, significa criar condições para que seus habitantes possam viver melhor sem depender da destruição do território em que vivem.

Um ano depois da COP30, a questão permanece e é simples em sua complexidade. O governo Lula conseguirá iniciar uma mudança efetiva no modelo de desenvolvimento amazônico ou a região continuará ocupando o mesmo lugar que lhe foi reservado ao longo da história econômica brasileira? A resposta a essa pergunta terá consequências muito mais duradouras do que a conferência realizada em Belém em 2025.


Fonte: Medium

A revista Scientific Reports está suspensa no PubMed e Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA reavalia sua publicação

Por Retraction Watch

A Biblioteca Nacional de Medicina (NLM) interrompeu a indexação de artigos da Scientific Reports no MEDLINE porque a inclusão da revista na maior biblioteca biomédica do mundo está sob revisão, conforme apurado pelo Retraction Watch. 

“Após seu crescimento significativo nos últimos anos, a Scientific Reports está atualmente sendo revisada pela Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA (NLM)”, escreveu o editor-chefe da revista, Rafal Marszalek, em um e-mail de 20 de outubro que tivemos acesso. “Fomos informados de que, durante esse período, a indexação de conteúdo recém-publicado no MEDLINE e o arquivamento no PubMed Central (PMC) estão suspensos e não aparecerão no PubMed.”

Marszalek não explicou por que a NLM está revisando o Scientific Reports, que é o maior periódico indexado no PubMed em termos de artigos. Mas, de acordo com a página de políticas do MEDLINE , a NLM reavalia os periódicos se “houver mudanças significativas em um periódico”, observando que a biblioteca monitora os periódicos “em busca de mudanças nas práticas de publicação, como volume anual de publicações ou tipos de conteúdo dos artigos principais”.

Os artigos mais recentes da Scientific Reports indexados no PubMed datam de 15 de setembro, e a revista contém 28.593 artigos em 2026, excluindo erratas e retratações. De acordo com o site da revista, foram publicados 41.122 artigos este ano.

A revista Scientific Reports “cresceu significativamente desde o seu lançamento, há 15 anos, quando também foi indexada pela primeira vez pela Biblioteca Nacional de Medicina (NLM)”, disse Richard White, vice-presidente de publicação do portfólio Scientific Reports, em um comunicado à Retraction Watch. “Publicou artigos de mais de um milhão de autores e, em 2025, as pesquisas publicadas na revista foram citadas mais de um milhão de vezes. Mantemos o compromisso de preservar altos padrões de qualidade e estamos trabalhando ativamente com a NLM para fornecer todas as informações atualizadas necessárias.”

A anomalia foi descoberta por Tom Lahey, um pesquisador que se descreve como “independente e autofinanciado, com interesse em saúde pública e pesquisa”. Lahey mantém um conjunto de ferramentas baseadas em dados do PubMed, incluindo uma página que mostra periódicos classificados pelo número total de artigos indexados no PubMed . Segundo a contagem de Lahey, o Scientific Reports tem sido o periódico com o maior número de artigos indexados no PubMed a cada ano desde 2019. Ele está familiarizado com os atrasos típicos no processamento de dados, mas quando notou números abaixo do normal para o Scientific Reports por dois meses consecutivos, abriu um chamado de suporte com a NLM para questionar o motivo. A equipe do PubMed sugeriu que ele contatasse a editora, o que ele fez. Marszalek respondeu em 20 de outubro, revelando que a NLM estava revisando o periódico. 

“Algo realmente deve ter dado errado”, disse Lahey ao Retraction Watch.

Nem a entrada do periódico no catálogo da NLM nem sua listagem no PubMed Central indicam que o periódico está sob revisão. A NLM não respondeu imediatamente às perguntas sobre os motivos da revisão, quanto tempo se espera que ela leve ou se a lista de periódicos em reavaliação é tornada pública. No entanto, a página de políticas afirma que a reavaliação normalmente leva de sete a dez meses.

“Estamos em contato com a NLM e esperamos que a indexação, incluindo do conteúdo publicado durante o período atual, seja retomada após a revisão”, disse Marszalek no e-mail.

A revista Scientific Reports , publicada pela Springer Nature, tem cerca de 50 editores adjuntos, seniores e associados em tempo integral , e mais de 11.000 membros em seu conselho editorial. Sua taxa de processamento de artigos é de US$ 2.850.


Fonte: Retraction Watch

Aquecimento acima de 1,5°C pode causar perdas irreversíveis de gelo e afetar oceanos, aponta relatório

Iceberg na Antártida; grandes camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida perdem massa cerca de seis vezes mais rapidamente do que na década de 1990. Foto: James Kirkham / ICCI

Ultrapassar temporariamente o limite de 1,5°C de aquecimento global estabelecido pelo Acordo de Paris em 2015 pode provocar perdas irreversíveis de gelo, acelerar a elevação do nível do mar e comprometer o equilíbrio dos oceanos por séculos. É o que aponta o relatório Overshoot and the Cryosphere: Averting Global Meltdown, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e pela International Cryosphere Climate Initiative (ICCI), com a participação de mais de 80 cientistas.

Divulgado na noite de domingo (1), às vésperas da COP31, sediada pela Turquia, o documento alerta que mesmo uma redução posterior das temperaturas não seria suficiente para reverter todos os impactos sobre as regiões congeladas do planeta. Os efeitos são sentidos principalmente pelas comunidades costeiras, as primeiras a sofrerem com a elevação do nível do mar decorrente da perda desse gelo.

O relatório reúne evidências científicas sobre as consequências de ultrapassar o limite estabelecido pelo Acordo de Paris, fenômeno conhecido como overshoot. A análise considera diferentes cenários em que o aquecimento supera 1,5°C e depois retorna a níveis inferiores. Segundo os pesquisadores, quanto maior a temperatura atingida e mais longo o período acima desse limite, maiores serão os danos.

Atualmente, as grandes camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida perdem massa cerca de seis vezes mais rapidamente do que na década de 1990. Os impactos também atingem geleiras de montanha, reservas de neve e solos permanentemente congelados, o chamado permafrost. O desaparecimento dessas áreas ameaça o abastecimento de água, aumenta o risco de desastres em regiões montanhosas, como o que atingiu o Nepal em agosto de 2026, e pode liberar gases de efeito estufa armazenados no solo.

Um dos capítulos do relatório, que conta com a participação do pesquisador brasileiro Thiago Monteiro, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), trata das alterações nos oceanos Ártico e Antártico, que desempenham um papel fundamental na regulação do clima de todo o planeta. Mesmo após a queda das temperaturas globais, esses efeitos podem persistir por séculos.

O cientista explica que uma das consequências mais preocupantes para o Brasil é a elevação do nível do mar: “O derretimento do gelo continental da Antártica, juntamente com a expansão da água do mar provocada pelo aquecimento, contribui para esse aumento. No Brasil, isso significa maiores riscos de inundações costeiras, erosão das praias e entrada de água salgada em aquíferos e áreas agrícolas. Esses impactos ameaçam diretamente cidades costeiras, moradias, infraestrutura, turismo e diversas atividades econômicas”.

Monteiro detalha ainda que o excesso de dióxido de carbono na atmosfera altera a química das águas brasileiras e intensifica a acidificação dos oceanos. Isso prejudica organismos marinhos como corais e moluscos, cadeias alimentares, atividades pesqueiras e, consequentemente, a segurança alimentar de comunidades que dependem dos recursos marinhos. Além disso, as mudanças na circulação dos oceanos polares, como o enfraquecimento de grandes correntes oceânicas no Atlântico, podem afetar o clima de regiões tropicais, alterando a distribuição das chuvas no Brasil, acrescenta o pesquisador.

Segundo Monteiro, a perda de gelo marinho ao redor da Antártica também merece atenção. “O gelo funciona como uma superfície que reflete parte da radiação solar de volta ao espaço. Quando desaparece, o oceano absorve mais calor, contribuindo para intensificar o aquecimento global. Esse processo adiciona pressão a um planeta que já enfrenta ondas de calor cada vez mais perigosas”, aponta.

Para limitar os impactos, os autores defendem a redução acelerada das emissões de gases de efeito estufa, com diminuição de pelo menos 5% ao ano e alcance de emissões líquidas zero até meados do século. Também apontam a necessidade de ampliar a remoção de carbono da atmosfera e os investimentos em adaptação climática. Segundo o relatório, manter o aquecimento acima de 1,5°C pelo menor tempo possível é fundamental para evitar danos ainda maiores, embora uma temperatura próxima de 1°C ou inferior seja considerada mais segura, no longo prazo, para as regiões congeladas da Terra.


Fonte: Agência Bori

A Europa em ebulição: jovens e trabalhadores voltam às ruas ao som de A Internacional e Bella Ciao

Enquanto governos europeus enfrentam uma crescente onda de protestos contra as políticas neoliberais e a deterioração das condições de vida, uma nova geração recupera antigas tradições de resistência e recoloca a luta social no centro da política

Enquanto o Brasil concentrava suas atenções na disputa eleitoral entre o presidente Lula e o agora autoexilado Flávio Bolsonaro, a Europa se transformava em palco de gigantescas manifestações populares, reunindo jovens, trabalhadores e idosos em protestos contra as políticas neoliberais e a deterioração das condições de vida. Consideradas em seu conjunto, as diferentes jornadas de mobilização em vários países europeus alcançaram milhões de participantes, revelando uma insatisfação social que ultrapassa fronteiras nacionais. Embora a França tenha se tornado o principal foco das atenções, manifestações expressivas também ocorreram e continuam ocorrendo na Espanha, Alemanha, Itália e em outros países europeus.

O que está acontecendo na Europa revela um confronto cada vez mais aberto entre uma combinação de jovens, trabalhadores e outros segmentos populares e governos que, apesar de suas diferenças políticas, vêm adotando políticas econômicas que transferem para a população os custos das crises. A elevação dos preços dos alimentos e da energia, a dificuldade crescente de acesso à moradia, a precarização do trabalho e a deterioração dos serviços públicos compõem um cenário em que parcelas cada vez maiores da população percebem que suas perspectivas de futuro estão sendo comprometidas. O que está em questão não é apenas a rejeição a medidas econômicas específicas, mas o crescente questionamento de um modelo de sociedade que concentra riqueza enquanto impõe sacrifícios à maioria da população.

Esse confronto tende a ganhar força também em consequência das escolhas geopolíticas dos governos europeus, particularmente de seu envolvimento nos conflitos que ocorrem em diferentes partes do planeta, incluindo a guerra na Ucrânia, o conflito palestino-israelense e a guerra contra o Irã. Ao se alinharem às estratégias dos Estados Unidos e de Israel, esses governos assumiram custos econômicos, políticos e sociais que acabam repercutindo sobre populações já pressionadas pela perda de poder aquisitivo. É verdade que os conflitos internacionais não explicam isoladamente a atual onda de protestos, mas contribuem para aprofundar contradições que já estavam presentes nas sociedades europeias. Afinal, torna-se cada vez mais difícil justificar gastos militares crescentes enquanto escolas, hospitais, salários e aposentadorias sofrem os efeitos das restrições orçamentárias.

Apesar de a mídia corporativa internacional, e mesmo parte da mídia alternativa, não conferir a essas mobilizações a atenção proporcional à sua dimensão política, o que está acontecendo nas ruas europeias parece representar algo mais profundo do que uma sucessão de protestos isolados. Estamos possivelmente diante do início de um ciclo de contestação social generalizada, ainda que suas diferentes expressões nacionais não constituam necessariamente um movimento unificado. A questão central é saber se essa insatisfação encontrará respostas no interior dos sistemas políticos existentes ou se continuará se aprofundando, abrindo espaço para formas mais intensas de enfrentamento social. Em outras palavras, o que hoje se manifesta como uma onda de protestos poderá tanto ser absorvido institucionalmente quanto evoluir para uma crise mais profunda de legitimidade dos governos europeus.

Nesse sentido, novembro poderá oferecer indicações importantes. As eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos e as disputas eleitorais europeias poderão influenciar tanto a orientação dos governos quanto as expectativas dos movimentos que hoje ocupam as ruas. Seus resultados poderão contribuir para amenizar as tensões ou, dependendo das respostas oferecidas pelas forças políticas vitoriosas, aprofundar a insatisfação social. Entretanto, seria precipitado imaginar que uma simples mudança eleitoral será suficiente para resolver contradições econômicas e sociais que vêm se acumulando há anos.

Há, contudo, um aspecto dessas manifestações europeias que considero particularmente significativo: a presença da música como instrumento de mobilização, identidade coletiva e resistência política. Independentemente do país em que os protestos estejam ocorrendo, as multidões recorrem a canções para fortalecer sua disposição de permanecer nas ruas e enfrentar o aparato repressivo do Estado. E duas antigas composições associadas à história das lutas populares reaparecem nesse repertório: A Internacional e Bella Ciao.

Para quem conhece minimamente a trajetória histórica dessas canções, sua recuperação pelas novas gerações possui um significado especial. A Internacional, historicamente associada ao movimento socialista e às lutas da classe trabalhadora, e Bella Ciao, consagrada como símbolo da resistência antifascista italiana, carregam memórias de confrontos políticos que muitos imaginavam definitivamente relegados aos livros de história. O mais surpreendente é que essas músicas não estão restritas às vozes de antigos militantes de partidos de esquerda ou de organizações sindicais. Elas encontram ressonância também entre integrantes da chamada geração Z, da qual, até pouco tempo atrás, muitos esperavam uma participação política limitada às redes sociais.

O protagonismo desses jovens representa, por si só, uma mudança que merece atenção. Uma geração frequentemente descrita como individualista, despolitizada e excessivamente dependente das tecnologias digitais está demonstrando disposição para ocupar as ruas, organizar manifestações e enfrentar estruturas repressivas que, em diferentes países, vêm respondendo aos protestos com detenções, restrições ao direito de manifestação e denúncias de uso excessivo da força policial. A resposta de muitos manifestantes, entretanto, tem sido insistir na mobilização e recuperar símbolos e canções que expressam antigas aspirações de liberdade, igualdade e transformação social. É como se palavras de ordem que pareciam definitivamente enterradas pelo triunfo ideológico do neoliberalismo estivessem recuperando sua capacidade de mobilizar multidões.

Não se trata de afirmar que todos os participantes dessas manifestações compartilham uma mesma ideologia ou que a Europa esteja prestes a experimentar uma revolução socialista. O que chama a atenção é justamente a capacidade de antigas tradições políticas reaparecerem em um contexto histórico profundamente diferente daquele em que foram originalmente construídas. Ao serem entoadas por jovens que enfrentam problemas contemporâneos, essas canções recuperam sua dimensão de instrumentos de contestação e solidariedade coletiva. Mais do que uma manifestação de nostalgia, sua presença sugere que experiências históricas de resistência continuam oferecendo referências para novas gerações que procuram alternativas a um presente marcado pela insegurança econômica e pela ausência de perspectivas.

Como sempre, a roda da história parece pronta a nos surpreender. Quando muitos acreditavam que o neoliberalismo havia conseguido transformar o individualismo e a resignação em valores definitivos, multidões voltam às ruas para questionar a ordem estabelecida. E, ao som de A Internacional e Bella Ciao, antigas sementes de resistência demonstram que continuam capazes de germinar.

Talvez seja justamente essa a principal mensagem que vem das ruas europeias: a história não terminou, as contradições sociais não desapareceram e as novas gerações podem estar redescobrindo que a transformação da realidade exige muito mais do que indignação nas redes sociais. Exige organização, mobilização e disposição para ocupar as ruas.

Afinal, a história tem dessas ironias: quando os defensores da ordem estabelecida imaginam que determinadas ideias foram definitivamente derrotadas, elas reaparecem nas vozes de jovens que sequer haviam nascido quando muitos decretaram seu desaparecimento. E a velha Europa, tantas vezes apresentada como um continente politicamente acomodado, pode estar demonstrando que as sementes da rebeldia continuam vivas, esperando apenas as condições necessárias para voltar a florescer.

Tese de doutorado defendida na UFPR revela como o direito contribui para a hegemonia dos agrotóxicos na agricultura brasileira

Pesquisa de Joaquim Basso, defendida na Universidade Federal do Paraná, demonstra como o sistema jurídico participa da legitimação dos interesses econômicos que sustentam o modelo agrícola dependente de agrotóxicos

A hegemonia dos agrotóxicos na agricultura brasileira não resulta apenas do poder econômico das grandes corporações ou de sua influência política. Ela também é construída e reproduzida por meio do próprio sistema jurídico. Essa é uma das principais conclusões da tese de doutorado defendida por Joaquim Basso, professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), no Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Fundamentada na teoria dos campos de Pierre Bourdieu, a pesquisa apresenta uma contribuição inovadora ao tratar o direito não como um instrumento neutro de regulação, mas como parte das relações de poder que sustentam a dependência brasileira dos agrotóxicos. Para isso, Basso analisou documentos e realizou 14 entrevistas com representantes da indústria, órgãos reguladores, do Parlamento e de movimentos contrários ao uso dessas substâncias.

A investigação examina as disputas jurídicas e políticas que envolvem o setor, com destaque para a aprovação da Lei nº 14.785/2023, conhecida como nova Lei dos Agrotóxicos, e os debates relacionados à Lei de Bioinsumos. O trabalho demonstra como conceitos como segurança jurídica, previsibilidade regulatória e formalização normativa podem ser mobilizados para conferir legitimidade a interesses econômicos particulares.

Uma das conclusões mais instigantes da tese é que o direito opera uma verdadeira “alquimia social“, transformando violências materiais associadas ao uso dos agrotóxicos em formas de violência simbólica legitimadas oficialmente pelo Estado. Assim, interesses particulares podem adquirir a aparência de normas universais, contribuindo para naturalizar e perpetuar um modelo agrícola cujos impactos ambientais e sanitários ja estão amplamente documentados.

A originalidade da contribuição de Joaquim Basso está justamente em demonstrar que a hegemonia dos agrotóxicos também é produzida no campo jurídico, ampliando significativamente a compreensão dos mecanismos institucionais que sustentam esse modelo de agricultura. O fato é que esta pesquisa merece ser conhecida e debatida por pesquisadores, movimentos sociais e todos aqueles que defendem uma agricultura menos dependente de substâncias químicas perigosas. Afinal, superar a hegemonia dos agrotóxicos exige compreender não apenas seus impactos, mas também os mecanismos jurídicos que ajudam a legitimar sua permanência.

Para facilitar o acesso a essa importante contribuição acadêmica, disponibilizo o arquivo integral da tese de doutorado de Joaquim Basso, para leitura e consulta dos interessados [Aqui!]

Bets: a máquina de retirar dinheiro dos pobres e aprofundar o endividamento das famílias brasileiras

Com perdas estimadas em R$ 62,5 bilhões em 2025, as apostas online drenam recursos dos orçamentos familiares, comprometem o consumo de alimentos e aprofundam as desigualdades sociais

A expansão das plataformas de apostas online, conhecidas como bets, transformou-se em um grave problema econômico e social no Brasil. Muito além das perdas individuais, essas empresas construíram um negócio altamente lucrativo que explora a esperança de enriquecimento rápido, especialmente entre aqueles que enfrentam dificuldades financeiras. Em um país marcado pela desigualdade de renda e pela precarização do trabalho, as consequências dessa atividade recaem de maneira particularmente cruel sobre as famílias mais pobres.

Segundo levantamento divulgado pelo G1, com base em dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), as famílias brasileiras perderam aproximadamente R$ 62,5 bilhões líquidos para as bets em 2025. Outro indicador aponta perdas médias de R$ 4,7 bilhões mensais entre outubro de 2024 e março de 2026. Já as transferências realizadas por apostadores via Pix alcançaram quase R$ 351 bilhões no período analisado, conforme informações divulgadas pela Agência Brasil. Embora esse último valor represente a movimentação bruta, incluindo recursos posteriormente devolvidos como prêmios, os números revelam a dimensão da captura de renda promovida pelo setor.

O impacto dessas perdas é profundamente desigual. Para uma família de alta renda, perder algumas centenas de reais pode significar apenas a redução de despesas supérfluas. Para quem sobrevive com um ou dois salários mínimos, entretanto, o mesmo valor pode representar menos comida na mesa, atraso nas contas de energia elétrica, dificuldades para comprar medicamentos ou a necessidade de recorrer ao crédito. O que está em jogo, portanto, não é apenas o dinheiro perdido nas apostas, mas a própria capacidade de milhões de famílias satisfazerem suas necessidades básicas.

Essa situação ajuda a explicar a relação entre as bets e o endividamento. Pesquisa da CNDL e do SPC Brasil identificou que aproximadamente 39,5 milhões de brasileiros haviam realizado apostas em um período de 12 meses, dos quais cerca de 7,5 milhões admitiram comprometer parte de sua renda com os jogos. Já um estudo do Ibevar e da FIA Business School, divulgado pelo UOL em março de 2026, apontou as apostas online como um dos fatores mais fortemente associados ao endividamento das famílias brasileiras, superando, no modelo analisado, variáveis tradicionalmente relacionadas ao problema, como juros e custo do crédito.

Há ainda um efeito econômico frequentemente negligenciado. O dinheiro perdido nas bets deixa de circular nas feiras livres, supermercados, farmácias e pequenos estabelecimentos comerciais. São recursos que poderiam fortalecer o consumo popular, sustentar empregos e movimentar as economias locais, mas acabam transferidos para empresas que lucram com a expectativa de ganhos dos apostadores. Isso cria uma contradição evidente com políticas públicas destinadas a recuperar salários, combater a pobreza e ampliar o mercado interno.

A responsabilidade por esse cenário não pode ser atribuída exclusivamente aos apostadores. As empresas de apostas investiram pesadamente em publicidade, influenciadores digitais e patrocínios esportivos, transformando o futebol brasileiro em uma gigantesca vitrine comercial. Dirigentes de clubes e personalidades esportivas ajudaram a naturalizar uma atividade cujos custos financeiros e sociais são suportados por milhões de torcedores e suas famílias. Não surpreende, portanto, que setores beneficiados por esses contratos resistam às restrições impostas ao mercado.

Nesse contexto, a decisão do governo Lula de proibir as operações das bets, por meio da Medida Provisória 1.394, de setembro de 2026, representa uma mudança importante no enfrentamento do problema. Entretanto, a medida também exige vigilância diante das pressões econômicas e políticas daqueles que lucravam com as apostas. Além de preservar mecanismos efetivos de restrição, será necessário ampliar o atendimento às pessoas que desenvolveram dependência do jogo e enfrentam situações de endividamento.

O debate sobre as bets precisa deixar de ser apresentado como uma simples questão de liberdade individual ou de arrecadação tributária. Estamos diante de um mecanismo de transferência de renda que compromete o orçamento das famílias, enfraquece o consumo popular e aprofunda desigualdades. Em um país onde milhões de trabalhadores ainda enfrentam dificuldades para colocar comida na mesa, não é aceitável que a esperança de escapar da pobreza seja transformada em fonte de lucros bilionários.

Afinal, quando as bets ganham bilhões, quem paga essa conta são, sobretudo, aqueles que menos podem perder.

A contradição de Lula na Amazônia

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

A mais recente vitória eleitoral do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva foi recebida com entusiasmo por ambientalistas e líderes políticos de todo o mundo. Após os ataques de Jair Bolsonaro às instituições ambientais, aos direitos indígenas e à floresta amazônica, o alívio é compreensível.

O retorno de Lula ao poder trouxe consigo promessas renovadas de proteger a floresta e combater as mudanças climáticas.

Os dados mais recentes sobre desmatamento no Brasil são motivo de otimismo. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento na Amazônia caiu 41,8% entre agosto de 2025 e julho de 2026, atingindo 3.335 quilômetros quadrados, o menor índice anual desde o início do monitoramento, em 1988.

A fiscalização ambiental também foi reforçada. No entanto, o governo de Lula continua a apoiar a exploração de petróleo, a mineração e grandes projetos de infraestrutura em regiões ambientalmente sensíveis.

Degradação

Uma floresta não precisa ser derrubada para ser destruída. Incêndios, secas e degradação podem matar árvores e liberar grandes quantidades de carbono, deixando florestas danificadas ainda de pé.

Um estudo publicado na revista Biosciences em outubro de 2025 estimou que os incêndios que degradaram as florestas amazônicas liberaram 791 milhões de toneladas de CO₂ em 2024, superando as 625 milhões de toneladas atribuídas ao desmatamento em toda a Pan-Amazônia. Juntas, essas fontes foram responsáveis ​​por aproximadamente 1,42 bilhão de toneladas de CO₂ . O Brasil foi responsável por cerca de 61% das emissões relacionadas à degradação florestal causada pelos incêndios.

As árvores continuam morrendo, as florestas estão ficando mais secas e os incêndios se tornam mais frequentes. Mas o Relatório Nacional de Inventário de Emissões do Brasil de 2024 reconhece que certas emissões provenientes de incêndios que não resultam em mudanças no uso da terra não são totalmente contabilizadas.

Uma pesquisa liderada pela cientista brasileira Luciana Gatti, publicada na revista Nature em outubro de 2026, reforça essas preocupações. Com base em 15 anos de medições atmosféricas, o estudo constatou que a Amazônia era uma fonte líquida de carbono, com os incêndios dominando as emissões e as perturbações humanas amplificadas por diversas secas.

Essas descobertas levantam sérias questões sobre a celebração da queda nas taxas de desmatamento enquanto as perdas significativas de carbono devido à degradação florestal continuam.

Óleo

Em outubro de 2025, a Petrobras, empresa petrolífera estatal brasileira, iniciou a perfuração de um poço exploratório na bacia da Foz do Amazonas, na costa do Amapá. O Ministério de Minas e Energia do Brasil saudou a decisão. E, no início daquele ano, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) ofereceu 172 blocos de exploração de petróleo e gás, tendo concedido 34.

O governo de Lula defendeu a exploração de petróleo como necessária para o emprego, o investimento e a segurança energética. Um poço exploratório não garante a produção comercial, mas cria a possibilidade de extração futura.

A busca incessante do Brasil por mais reservas de petróleo entra em conflito com suas promessas de combater as mudanças climáticas.

BR-319

O apoio de Lula à pavimentação da BR-319, a controversa rodovia que liga Manaus a Porto Velho, é anterior ao seu retorno à presidência.

Em maio de 2021, enquanto estava fora do cargo, ele defendeu a pavimentação da estrada como necessária para o desenvolvimento regional. Ele reiterou sua posição em 2023, argumentando que a estrada poderia ser “reconstruída” com salvaguardas ambientais.

Seu compromisso continuou no cargo. Em maio de 2026, Lula visitou as obras da BR-319 no Amazonas, quando o Ministério dos Transportes autorizou melhorias em um trecho de 120,5 quilômetros. Quatro contratos foram anunciados naquele ano, abrangendo mais de 339 quilômetros de intervenções, com investimentos superiores a R$ 1,45 bilhão.

Há muito tempo que os cientistas alertam que a reconstrução da rodovia pode acelerar o desmatamento, incentivando a grilagem de terras, a exploração madeireira, a pecuária e a construção de estradas secundárias, incluindo a AM-366.

Os riscos vão além do simples desmatamento. As estradas fragmentam os ecossistemas, aumentam o acesso humano e tornam as florestas circundantes mais vulneráveis ​​à degradação e aos incêndios.

A legislação brasileira sobre licenciamento ambiental acirrou ainda mais essa controvérsia. Lula vetou 63 disposições do chamado “projeto de lei de devastação”, plenamente consciente de que o Congresso poderia derrubar esses vetos. E foi exatamente o que aconteceu. O Congresso derrubou 52 desses vetos.

Entretanto, sua administração continua avançando com as obras da BR-319, afirmando que a reconstrução pode prosseguir com salvaguardas ambientais.

Mineração

A mineração continua sendo fundamental para a estratégia de desenvolvimento do Brasil, incluindo projetos que enfrentaram oposição de comunidades indígenas e organizações ambientais.

No Amazonas, a mineradora canadense Potássio do Brasil está desenvolvendo um grande projeto de potássio em Autazes, área tradicionalmente ocupada pelo povo Mura. Lula apoia integralmente o projeto, promovendo-o com o intuito de reduzir a dependência do Brasil em relação à importação de fertilizantes. O projeto atraiu a atenção das autoridades federais de mineração.

O projeto dividiu as comunidades Mura. Alguns representantes apoiam os empregos e as oportunidades que ele promete, mas outros temem os danos ao seu território, aos recursos hídricos e aos meios de subsistência tradicionais.

Procuradores federais contestaram o processo de licenciamento e consulta ambiental, alegando violações dos direitos indígenas.

No Pará, a proposta da mineradora canadense Belo Sun para a mina de ouro Volta Grande, próxima ao rio Xingu, enfrenta anos de contestações judiciais e oposição de comunidades indígenas. O projeto entrou para o programa de minerais estratégicos do Brasil em 2021, durante a presidência de Bolsonaro, e permanece na lista do governo federal.

Em outubro de 2026, o Supremo Tribunal Federal do Brasil restabeleceu a suspensão da licença de instalação da mina, após preocupações com os impactos ambientais e consultas com as comunidades indígenas potencialmente afetadas.

Essas disputas revelam as dificuldades que as comunidades enfrentam ao contestar grandes projetos de extração, independentemente das mudanças na liderança política.

Bioeconomia

O governo de Lula promoveu a bioeconomia amazônica com o intuito de gerar renda e, ao mesmo tempo, conservar a floresta tropical. Essa abordagem atraiu investimentos de bancos de desenvolvimento, empresas e instituições financeiras internacionais interessadas em biodiversidade, mercados de carbono e produtos florestais.

Esses acordos podem conferir aos investidores externos uma influência considerável sobre os recursos florestais e o conhecimento tradicional.

Em alguns projetos, as comunidades indígenas e tradicionais fornecem matérias-primas e conhecimento especializado, enquanto as empresas e os intermediários financeiros mantêm maior controle sobre o processamento, o financiamento e os mercados internacionais.

Empresas de petróleo, mineração e agronegócio também contribuem para fundos de conservação e iniciativas de restauração. Esses investimentos podem melhorar a reputação corporativa enquanto atividades ambientalmente prejudiciais continuam em outros lugares.

As crescentes evidências de degradação florestal também levantam preocupações sobre se os esforços de conservação devem se concentrar apenas em manter as árvores em pé, em vez de proteger a saúde da floresta e sua capacidade de armazenar carbono.

Direitos indígenas

O governo Bolsonaro enfraqueceu as instituições ambientais e as proteções aos povos indígenas. Sua trajetória política continua sendo motivo de preocupação para ambientalistas e organizações indígenas.

Muitos líderes indígenas apoiaram Lula porque temiam um retorno às políticas de seu antecessor.

O apoio político, contudo, não equivale à aprovação de projetos de desenvolvimento individuais . As comunidades indígenas e tradicionais têm o direito de contestar a mineração, a construção de rodovias, a agricultura industrial, a pecuária e a exploração de petróleo e gás que afetem seus territórios, e de exigir uma consulta significativa antes que as decisões sejam tomadas.

O papel do jornalismo

A cobertura jornalística internacional sobre o Brasil tem destacado os compromissos ambientais de Lula, seus discursos em conferências sobre o clima e a redução do desmatamento na Amazônia.

Os relatórios ambientais devem examinar as decisões governamentais com a mesma atenção que as promessas políticas. As melhorias na proteção florestal merecem reconhecimento, mas não devem ofuscar políticas que possam comprometer essas conquistas.

A queda no desmatamento não deve ser confundida com a saúde ecológica geral da Amazônia. Pesquisas sobre incêndios, degradação e emissões de carbono demonstram que as florestas podem permanecer de pé enquanto perdem biomassa, biodiversidade e sua capacidade de absorver carbono.

Durante décadas, sucessivos governos brasileiros prometeram que as estradas, a mineração e o agronegócio trariam prosperidade à Amazônia. Hoje, promessas semelhantes são feitas sob a linguagem da sustentabilidade, do investimento verde e da bioeconomia.

Muitos dos mesmos interesses econômicos permanecem envolvidos, enquanto os povos indígenas e as comunidades tradicionais continuam lutando pelo controle de seus territórios e recursos.

Os jornalistas têm a responsabilidade de investigar esses interesses, apurar quem beneficia dos projetos de desenvolvimento e noticiar as consequências para as comunidades afetadas.

Lula merece reconhecimento por reduzir o desmatamento, mas seu governo também deve ser responsabilizado por suas políticas de desenvolvimento e suas consequências.

Proteger a Amazônia exige mais do que simplesmente diminuir as estatísticas de desmatamento. Exige enfrentar a degradação florestal, os incêndios, as emissões de carbono, além das atividades econômicas que ameaçam a floresta tropical.

Isso também exige jornalismo independente disposto a examinar minuciosamente todos os governos, incluindo aqueles que prometem defendê-los.


Fonte: YourVoiz

Lula venceu nas urnas, mas o mercado financeiro quer governar: a disputa pelo rumo econômico de 2027 já começou

Após a derrota de Flávio Bolsonaro, bancos e mídia corporativa pressionam por um ajuste fiscal que ameaça transferir aos trabalhadores e aos mais pobres a conta de uma política econômica rejeitada nas urnas

Desde que foi conhecida a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial, o que se tem visto é uma verdadeira enxurrada de matérias e editoriais pressionando pela aplicação de uma receita econômica que, em grande medida, foi derrotada pela maioria dos eleitores brasileiros. O discurso praticamente uníssono da mídia corporativa insiste na necessidade imperiosa de um ajuste fiscal que contenha os gastos públicos, especialmente aqueles destinados às políticas sociais. Curiosamente, essa mesma cobrança raramente é acompanhada de um debate proporcional sobre o custo da dívida pública, seus juros e os interesses beneficiados por sua remuneração. A seletividade não parece casual: quando se fala em austeridade, o alvo preferencial costuma ser o orçamento social, e não os mecanismos de transferência de recursos públicos para o sistema financeiro.

O governo que se encerra, mas que terá continuidade a partir de janeiro de 2027, tem respondido de maneira ambígua a essas pressões. Seus representantes não descartam a realização de um ajuste fiscal, mas tampouco esclarecem quais despesas seriam atingidas e quem efetivamente pagaria a conta. Felizmente, algumas vozes importantes já começam a se levantar contra a possibilidade de uma nova rodada de austeridade, entre elas Elias Jabbour, Guilherme Boulos e Jones Manoel. Destaco esses nomes porque representam posições políticas que se contrapõem à ideia de que o equilíbrio das contas públicas deva ser alcançado mediante a retirada de direitos dos trabalhadores, a compressão dos investimentos sociais e a imposição de novos sacrifícios à população mais pobre. Afinal, não existe neutralidade social em um ajuste fiscal: alguém sempre paga a conta, e a questão fundamental é saber quem será chamado a pagá-la.

O mais revelador é que as principais reclamações partem justamente do chamado “mercado financeiro”, expressão aparentemente abstrata que frequentemente serve para ocultar interesses econômicos bastante concretos. Por trás dela estão grandes bancos nacionais e internacionais, fundos de investimento, gestores de fortunas e agentes que lucram com a especulação e a remuneração do capital financeiro. Não se trata de um bloco absolutamente homogêneo, mas de setores com enorme capacidade de influenciar a política econômica e a formação da opinião pública. Muitos desses interesses estiveram politicamente alinhados à candidatura derrotada de Flávio Bolsonaro e agora procuram impor ao vencedor uma agenda que não conseguiu conquistar a maioria dos votos. Em outras palavras, o que não foi obtido nas urnas tenta-se alcançar por meio da pressão econômica e midiática.

O presidente Lula, que já demonstrou inúmeras vezes sua inteligência e capacidade de leitura política, certamente sabe que sua reeleição não foi resultado apenas de acordos partidários ou estratégias de marketing eleitoral. Ela dependeu da mobilização destemida de milhões de brasileiros comuns, muitos dos quais colocaram seu tempo, suas energias e até seus próprios recursos a serviço da derrota de Flávio Bolsonaro. Parte dessas pessoas enfrenta agora a hostilidade da extrema-direita e, em alguns casos, a perseguição de patrões inconformados com o resultado eleitoral. Lula também deveria compreender que a energia política liberada durante essa mobilização não poderá ser simplesmente recolhida e guardada até a próxima eleição. Trata-se de uma força social que possui expectativas concretas de melhoria das condições de vida, ampliação de direitos e enfrentamento das desigualdades.

Por isso, seria um erro político de enormes proporções ignorar as expectativas dessa base social e apostar em uma concertação com os grandes bancos e seus aliados na mídia corporativa que resultasse em novas concessões à austeridade. A tentativa de conciliar interesses profundamente contraditórios pode até produzir uma trégua momentânea com os setores dominantes, mas também corre o risco de desmobilizar justamente aqueles que tornaram possível a vitória eleitoral. Lula precisa compreender que sua maior fonte de sustentação política não está nos editoriais dos grandes jornais nem nas avaliações das agências de risco, mas na capacidade de manter mobilizada a população que o reconduziu à Presidência da República.

De toda forma, tudo indica que em 2027 precisaremos nos comportar como se ainda estivéssemos disputando o segundo turno da eleição presidencial. As pressões contra os direitos dos trabalhadores, da juventude e dos segmentos mais vulneráveis da população continuarão intensas, mesmo depois da derrota eleitoral da extrema-direita. A vitória nas urnas foi fundamental, mas não encerrou a disputa sobre os rumos do país. Pelo contrário, abriu uma nova etapa dessa disputa, agora centrada na definição de quem será beneficiado pelas escolhas econômicas do próximo governo. E, se a mobilização popular foi decisiva para impedir a vitória de Flávio Bolsonaro, ela também poderá ser indispensável para impedir que seu programa econômico seja aplicado por um governo que foi eleito para derrotá-lo.