A fachada é suíça, mas o domínio é chinês: a nova geografia do colonialismo químico

Syngenta, ADAMA e os pós-patentes revelam como a China avançou sobre a indústria mundial de agrotóxicos e como o Brasil se tornou peça-chave de um colonialismo químico cada vez mais Sul–Sul

A reportagem publicada pelo Correio 24 Horas sobre o crescimento da Syngenta no Brasil oferece uma oportunidade para discutir algo muito maior do que o desempenho comercial de uma empresa de sementes e agrotóxicos. O dado mais imediato já chama atenção: enquanto a receita global da companhia recuou no primeiro semestre de 2026, suas vendas de sementes cresceram 18% no Brasil. Mais importante é perceber que esse crescimento ocorre em um dos maiores mercados mundiais de agrotóxicos e em um país no qual continuam autorizados ingredientes ativos que não possuem autorização para uso na União Europeia.

Há, entretanto, outra questão que merece ser colocada no centro dessa discussão. A própria definição da Syngenta como uma “gigante suíça” tornou-se insuficiente para explicar quem controla hoje uma parcela importante da indústria mundial de agrotóxicos e, principalmente, para compreender o peso adquirido pela China nessa cadeia global.

Suíça na fachada, China no controle

A Syngenta mantém sua sede em Basileia e conserva uma identidade corporativa fortemente associada à Suíça, mas isso não significa que continue sendo uma companhia suíça independente. Em 2017, a empresa foi adquirida pela estatal chinesa ChemChina por aproximadamente US$ 43 bilhões. Posteriormente, a reorganização envolvendo ChemChina e Sinochem colocou o Syngenta Group sob controle da Sinochem Holdings, empresa estatal supervisionada pela SASAC, órgão do Conselho de Estado chinês responsável pela administração dos grandes ativos empresariais estatais.

Mas a Syngenta não foi a única aquisição estratégica realizada pelos chineses. Alguns anos antes, em 2011, a ChemChina já havia adquirido o controle da Makhteshim Agan, companhia israelense que posteriormente passou a operar mundialmente sob a marca ADAMA. O controle chinês foi ampliado nos anos seguintes e, atualmente, a ADAMA integra o próprio Syngenta Group. A empresa continua sediada em Israel e preserva sua marca e identidade histórica, mas seu controle societário está inserido na mesma estrutura chinesa que controla a Syngenta.

A incorporação da ADAMA é especialmente reveladora porque não se tratava de uma empresa marginal. Antes mesmo de sua integração à atual estrutura chinesa, a companhia se apresentava como uma das maiores empresas mundiais de agrotóxicos genéricos e pós-patente. Atualmente, a própria ADAMA informa possuir um portfólio de centenas de ingredientes ativos e ocupar posição de destaque mundial na proteção de cultivos.

Quando colocamos Syngenta e ADAMA lado a lado, portanto, a estratégia chinesa torna-se muito mais clara. De um lado, a aquisição da Syngenta permitiu acessar pesquisa, desenvolvimento, patentes, sementes, marcas e uma gigantesca estrutura internacional de comercialização. De outro, o controle da ADAMA reforçou uma posição particularmente importante no mercado dos produtos genéricos e pós-patente. O resultado foi a construção de uma estrutura capaz de operar simultaneamente no topo tecnológico da indústria e no enorme mercado mundial dos princípios ativos cujas patentes já expiraram.

A China domina justamente a base industrial dos agrotóxicos

Esse aspecto é particularmente importante porque ajuda a entender por que a dimensão chinesa da indústria mundial de agrotóxicos permanece muito menos visível do que deveria. Um estudo publicado na revista World Development estima que empresas chinesas já respondem por quase 70% da produção mundial de agrotóxicos, sendo grande parte dessa produção constituída justamente por ingredientes ativos pós-patente.

A ascensão chinesa, portanto, não ocorreu apenas pelo crescimento das exportações, mas por uma estratégia de ocupação progressiva dos diferentes níveis da cadeia agroquímica. Empresas chinesas começaram fortemente concentradas na fabricação de ingredientes ativos e genéricos de menor valor agregado, avançaram sobre formulação e distribuição e, por meio de fusões e aquisições, passaram a controlar empresas que detêm marcas globais, redes comerciais, tecnologias e capacidade de pesquisa e desenvolvimento. O estudo da World Development mostra inclusive que empresas estatais e privadas chinesas estão hoje presentes nos diferentes estratos da cadeia mundial de agrotóxicos, enquanto a propriedade estatal possui importância especialmente forte justamente no seu nível superior.

A aquisição da Syngenta deve ser entendida nesse contexto, assim como a incorporação da ADAMA. Não estamos diante de compras empresariais desconectadas, mas da formação de um complexo agroquímico capaz de combinar produção massiva de ingredientes ativos pós-patente, formulação, marcas internacionais, pesquisa e desenvolvimento e redes globais de comercialização.

É justamente essa estrutura que torna a presença chinesa menos evidente do que efetivamente é. Um agrotóxico pode chegar ao agricultor brasileiro carregando uma marca historicamente suíça ou israelense e, ainda assim, integrar uma cadeia corporativa cujo controle final está ligado ao Estado chinês. Em outras situações, o ingrediente ativo utilizado na formulação pode ter sido produzido por uma empresa chinesa e comercializado posteriormente sob outra marca. A nacionalidade estampada no rótulo, portanto, diz cada vez menos sobre a verdadeira geografia econômica dos agrotóxicos.

O Brasil tornou-se estratégico para essa engrenagem

É nesse ponto que o caso brasileiro ganha enorme importância. Dados do comércio internacional mostram que a China se consolidou como principal fornecedora externa de agrotóxicos e produtos relacionados para o Brasil. Em 2024, aproximadamente 45% do valor importado pelo Brasil na categoria internacional que reúne inseticidas, herbicidas, fungicidas e produtos semelhantes veio diretamente da China. Em quantidade física, a concentração foi ainda maior, aproximando-se de dois terços de todo o volume importado.

Esses números precisam ser observados juntamente com o fato de que, além de ser o principal fornecedor direto, o capital estatal chinês controla justamente alguns dos ativos corporativos mais importantes da indústria agroquímica mundial. Temos, portanto, dois movimentos que se reforçam mutuamente: uma enorme corrente comercial China → Brasil, abastecendo diretamente o mercado brasileiro, e outra menos visível, mediada por empresas transnacionais historicamente identificadas com outros países, mas atualmente integradas a conglomerados chineses.

Quando Syngenta e ADAMA entram juntas nessa equação, torna-se ainda mais difícil tratar a China apenas como uma fornecedora de matérias-primas baratas para a indústria agroquímica mundial. Ela ocupa progressivamente a própria estrutura de comando dessa indústria.

E a Índia também entrou no mapa

Mas a China não é o único país do Sul Global cuja ascensão modifica a velha geografia mundial dos agrotóxicos. A Índia também se transformou em um importante produtor e exportador, apoiando-se em vantagens semelhantes às que impulsionaram inicialmente a indústria chinesa: capacidade industrial química, custos competitivos de produção e forte especialização em moléculas genéricas e pós-patente.

Dados recentes colocam a Índia entre os maiores produtores mundiais de agrotóxicos e mostram uma indústria fortemente voltada para exportações. A expiração de patentes é explicitamente identificada pelo próprio setor indiano como uma importante oportunidade para ampliar a fabricação de moléculas genéricas e conquistar mercados internacionais.

Os números mostram que essa não é uma transformação marginal. As exportações indianas de agrotóxicos, considerando produtos técnicos e formulados, passaram de aproximadamente 461 mil toneladas em 2018-19 para 641 mil toneladas em 2023-24. E há um dado especialmente significativo para nós: naquele último período, o Brasil foi o principal destino em volume dos agrotóxicos exportados pela Índia, recebendo 23,7% do total.

China, Índia e Brasil passam, assim, a formar alguns dos nós fundamentais de uma nova geografia mundial dos agrotóxicos.

O colonialismo químico está mudando de direção

É justamente aqui que o conceito de colonialismo químico, desenvolvido pela geógrafa brasileira Larissa Bombardi, ganha uma nova dimensão. Ao estudar os fluxos internacionais de agrotóxicos, Bombardi demonstrou a existência de uma profunda assimetria entre aquilo que países europeus consideram aceitável para seus próprios territórios e aquilo que suas empresas produzem ou comercializam em outras partes do mundo. O paradoxo tornou-se conhecido: determinadas substâncias deixam de ser autorizadas na União Europeia em função dos riscos ambientais ou sanitários associados ao seu uso, mas continuam circulando internacionalmente e sendo utilizadas em países onde a regulação é mais permissiva.

O Brasil tornou-se um dos exemplos mais evidentes dessa geografia desigual, mas a ascensão chinesa e, mais recentemente, a consolidação da Índia como grande produtora e exportadora de agrotóxicos obrigam a ampliar essa interpretação. O fluxo já não pode ser compreendido exclusivamente segundo o eixo Norte Global → Sul Global, pois uma parcela crescente da produção mundial está concentrada no próprio Sul Global e circula intensamente entre países do Sul.

Isso não invalida a formulação de Bombardi, mas mostra que a geografia do colonialismo químico está se tornando mais complexa. O mecanismo fundamental permanece: determinados territórios concentram produção e acumulação econômica, enquanto outros absorvem desproporcionalmente os riscos ambientais e sanitários associados ao uso intensivo dessas substâncias. O que está mudando são os lugares ocupados pelos diferentes atores nessa divisão internacional.

O colonialismo químico também pode ser Sul–Sul

A emergência de novas potências econômicas do Sul Global não significa necessariamente a superação das relações ambientalmente desiguais que caracterizaram historicamente o sistema internacional. Em determinadas cadeias produtivas, pode significar simplesmente sua reprodução por novos atores, e o complexo agroquímico oferece um exemplo particularmente evidente dessa transformação.

China e Índia desenvolveram gigantescas capacidades de produção de ingredientes ativos e produtos pós-patente, enquanto países como o Brasil oferecem uma combinação extremamente atraente de agricultura em larga escala, enorme demanda por insumos químicos e um sistema regulatório que permite a utilização de substâncias que enfrentam restrições em outros mercados.

Nesse sentido, o colonialismo químico deixa de possuir apenas uma direção geográfica. Ele continua operando no eixo Norte–Sul, mas passa também a circular intensamente no eixo Sul–Sul, produzindo uma rede muito mais complexa de transferência de riscos ambientais.

O caso brasileiro é particularmente revelador porque o país aparece simultaneamente como grande potência agrícola e como gigantesco mercado consumidor de produtos fabricados em outros países do Sul Global. O fato de o Brasil ter se tornado o maior destino das exportações chinesas de agrotóxicos em determinados anos e aparecer também como principal destino em volume das exportações indianas em 2023-24 mostra que essa nova geografia já não é uma hipótese abstrata.

Os lucros circulam; a toxicidade fica

O problema fundamental, portanto, não está simplesmente na nacionalidade das empresas. O que está se formando é uma cadeia agroindustrial transnacional na qual corporações historicamente europeias ou israelenses, capitais estatais chineses, fabricantes chineses e indianos de ingredientes ativos, tradings internacionais e grandes produtores agrícolas brasileiros participam de um mesmo sistema econômico, enquanto os benefícios e os riscos associados a esse sistema permanecem distribuídos de maneira profundamente desigual.

Os lucros, as marcas e os capitais atravessam fronteiras com enorme facilidade, enquanto a toxicidade permanece principalmente nos territórios onde esses produtos são utilizados, acumulando-se potencialmente na água, nos solos e nos organismos expostos e alcançando trabalhadores rurais, populações próximas às áreas de aplicação e consumidores por diferentes rotas de exposição. Por isso, a discussão sobre a nacionalidade das empresas não pode obscurecer uma questão essencial: quem se apropria dos benefícios econômicos e quem permanece com os custos ambientais e sanitários desse modelo?

O Brasil como grande mercado da permissividade

É justamente nesse ponto que o crescimento da Syngenta relatado pelo Correio 24 Horas ganha significado político e econômico mais amplo. O Brasil não se tornou um mercado estratégico para a indústria mundial de agrotóxicos por acaso, pois somos simultaneamente uma gigantesca potência agrícola, um dos maiores mercados mundiais desses produtos e um país no qual substâncias que enfrentam restrições em outros mercados continuam encontrando espaço comercial.

A permissividade regulatória, portanto, não pode ser tratada apenas como uma peculiaridade burocrática brasileira, pois ela possui evidente valor econômico. Cada ingrediente ativo que perde mercado em países com regulações mais restritivas precisa encontrar outros destinos para continuar gerando receita, enquanto cada patente que expira abre um gigantesco mercado para fabricantes chineses e indianos especializados em produtos genéricos e pós-patente. O Brasil oferece simultaneamente escala territorial, demanda agrícola e condições regulatórias para absorver parte expressiva dessa produção. 

Por isso, quando uma corporação agroquímica cresce fortemente justamente no mercado brasileiro enquanto determinados produtos enfrentam regulações mais rigorosas em outras regiões, é necessário perguntar se estamos diante apenas de uma história empresarial de sucesso ou de algo muito mais profundo: uma nova divisão internacional da produção e dos riscos químicos.

O agrotóxico tem passaporte, mesmo quando ele fica escondido

A reportagem do Correio 24 Horas ajuda, portanto, a revelar uma contradição importante do capitalismo agroquímico contemporâneo. A Syngenta continua tendo endereço suíço e a ADAMA continua carregando uma história empresarial israelense, mas ambas integram hoje uma estrutura corporativa controlada pelo Estado chinês. Paralelamente, gigantescos volumes de ingredientes ativos e produtos formulados saem diretamente de fábricas chinesas e indianas em direção aos grandes mercados agrícolas mundiais, entre os quais o Brasil ocupa posição privile

Glifosato encontrado em tecido endometrial: novo estudo amplia as preocupações sobre exposição crônica

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Toxicology Reports acrescenta uma peça importante — e preocupante — ao debate sobre os possíveis efeitos do glifosato sobre a saúde humana. Liderado por Márkó Unicsovics e desenvolvido por uma equipe de pesquisadores vinculados principalmente à Semmelweis University e à Hungarian University of Agriculture and Life Sciences, na Hungria, o trabalho investigou algo ainda pouco estudado: a presença de glifosato diretamente no tecido endometrial humano.

O estudo, intitulado Presence of glyphosate in endometrial cancer tissue: A cross-sectional study, foi publicado na Toxicology Reports, periódico científico de acesso aberto publicado pela Elsevier. Além de Unicsovics, assinam o trabalho Apolka Szentirmay, Györgyi Fekécs, Patrik Plank, Zsófia Molnár, György Nagyéri, Katalin Posta, Nándor Ács, Szabolcs Varbíró, Levente Sára e Zsuzsanna Szőke.

Glifosato não apenas no sangue, mas no próprio tecido

Os pesquisadores compararam mulheres com câncer endometrial e pacientes-controle com doenças endometriais benignas, procurando glifosato tanto no sangue quanto no tecido retirado durante procedimentos cirúrgicos. O desenho incluiu 32 pacientes no grupo de câncer analisado e 32 controles, além de subgrupos definidos pelo tipo e grau das alterações encontradas.

O resultado mais interessante talvez não seja simplesmente a detecção do composto. As concentrações de glifosato encontradas no tecido endometrial foram significativamente superiores às encontradas no sangue em todos os grupos analisados. Além disso, quando os pesquisadores separaram os casos segundo a gravidade da doença, as diferenças estatisticamente significativas em relação aos controles ficaram concentradas nas pacientes com câncer endometrial de alto grau.

Esse resultado abre uma questão que merece atenção: substâncias às quais as populações estão ambientalmente expostas podem apresentar comportamentos nos tecidos que não são adequadamente representados apenas por medições sanguíneas.

O problema pode estar também nas misturas

Outro aspecto especialmente interessante do estudo é que os pesquisadores não analisaram o glifosato isoladamente. Eles investigaram também micotoxinas presentes nos mesmos tecidos e encontraram forte correlação positiva entre os níveis endometriais de glifosato e zearalenona (ZEN), uma micotoxina com atividade estrogênica. Também foi observada correlação positiva com fumonisina B1.

Isso coloca em primeiro plano um problema frequentemente secundarizado na avaliação toxicológica: os seres humanos não estão expostos a uma substância de cada vez. Agrotóxicos, seus metabólitos, micotoxinas e inúmeros outros contaminantes ambientais podem chegar simultaneamente ao organismo. Os próprios autores levantam a hipótese de efeitos sinérgicos ou de coamplificação entre compostos capazes de interferir nas vias hormonais.

Um sinal de alerta, não uma demonstração de causalidade

Aqui é importante não fazer o estudo dizer mais do que ele efetivamente demonstra. Trata-se de uma investigação transversal, realizada com número relativamente pequeno de pacientes. O subgrupo no qual apareceu a associação mais forte — câncer endometrial de alto grau — possuía apenas seis mulheres. Os próprios autores ressaltam, portanto, que não é possível saber se a maior presença de glifosato antecedeu o desenvolvimento do tumor ou ocorreu posteriormente.

Em outras palavras, o estudo não demonstra que o glifosato causou câncer endometrial. Ele demonstra algo diferente e suficientemente importante: o composto foi encontrado no tecido endometrial, apresentou concentrações particularmente elevadas nos casos de câncer de alto grau e apareceu associado à presença de outros contaminantes com atividade endócrina. Os próprios pesquisadores classificam esses resultados como preliminares e defendem sua confirmação em amostras maiores e independentes.

A pergunta que permanece

Há um detalhe do artigo que merece correção. Os autores dizem que a Organização Mundial da Saúde teria classificado o glifosato como “provavelmente carcinogênico” no Grupo 2B. Na realidade, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, classificou o glifosato em 2015 como “provavelmente carcinogênico para humanos”, Grupo 2A. Grupo 2B corresponde a “possivelmente carcinogênico”. A própria IARC mantém essa informação em sua documentação oficial.  Esse lapso não altera os resultados experimentais apresentados no artigo, mas vale registrá-lo para que a informação seja reproduzida corretamente.

O ponto central levantado pelo trabalho de Unicsovics e seus colegas na Toxicology Reports talvez esteja justamente em outro lugar. Se resíduos de um dos agrotóxicos mais utilizados mundialmente podem ser encontrados em tecidos humanos e aparecem associados a outros contaminantes capazes de interferir no sistema endócrino, a discussão sobre limites considerados individualmente “seguros” parece cada vez menos suficiente. Os próprios autores concluem que é necessário investigar exposições crônicas de baixa dose, misturas de contaminantes e possíveis efeitos sinérgicos, além de desenvolver métodos mais sensíveis para medir glifosato no endométrio.

Nesse sentido, talvez a principal contribuição do estudo seja mudar ligeiramente a pergunta. Em vez de perguntar apenas quanto glifosato uma pessoa pode receber sem apresentar toxicidade aguda, torna-se necessário perguntar onde esse composto chega, por quanto tempo permanece, com quais outras substâncias interage e quais podem ser as consequências de uma exposição ambiental contínua ao longo de anos. É nesse terreno que o estudo publicado na Toxicology Reports abre uma nova e importante frente de investigação.

Colonialismo energético verde: o vento leva a riqueza e deixa a desigualdade

A reportagem publicada neste sábado (19/09) pelo The Guardian, assinada por Alice Lima e Marilia Gurgel, oferece uma contribuição importante para um debate que o Brasil precisa fazer com urgência: não basta substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis se a transição energética reproduzir velhas formas de apropriação dos territórios e de concentração dos benefícios econômicos.

O ponto de partida é aparentemente uma história de enorme sucesso. O Brasil possui cerca de 35 GW de capacidade eólica instalada e transformou principalmente o Nordeste em uma das grandes fronteiras mundiais dessa fonte energética. Segundo o Balanço Energético Nacional 2026, a geração eólica chegou a 116,5 TWh em 2025, enquanto a potência instalada centralizada alcançou 34.689 MW. Mas esses números escondem uma questão fundamental: quem efetivamente está se beneficiando desse sucesso?

Quando o vento sopra, mas a riqueza vai embora

Em Serra do Mel, no Rio Grande do Norte, o Guardian encontrou agricultores convivendo com restrições ao uso de suas propriedades, contratos de longa duração, perda de áreas produtivas e conflitos sobre os valores pagos pelas empresas. Um dos casos relatados é particularmente ilustrativo: embora o contrato considere aproximadamente um hectare ocupado pela infraestrutura, o agricultor Antonio de Souza afirma que, na prática, quatro hectares de sua propriedade de 50 hectares deixaram de ser produtivos.

A situação revela algo maior do que um conflito contratual. Existe uma geografia profundamente desigual da transição energética, na qual o território fornece terra e vento e recebe torres, linhas de transmissão, estradas e restrições de uso, enquanto parte significativa da eletricidade e do valor econômico produzido é transferida para outros lugares. É uma lógica bastante conhecida em outras atividades extrativas brasileiras e que, guardadas as diferenças evidentes, reaparece na expansão das energias renováveis: o recurso está territorialmente localizado, grandes empresas controlam sua transformação econômica e as comunidades que vivem nesses territórios nem sempre participam proporcionalmente da riqueza produzida.

Energia renovável não significa impacto zero

Há outro problema que frequentemente desaparece sob a expressão confortável de “energia limpa”. O próprio Ministério do Meio Ambiente reconhece que a expansão das fontes eólica e solar vem se tornando um vetor relevante de transformação do uso da terra na Caatinga, inclusive com incompatibilidades entre esses empreendimentos e usos preexistentes, como produção agrícola e manejo florestal.

Isso não significa colocar a energia eólica no mesmo patamar ambiental dos combustíveis fósseis. Significa abandonar a ideia de que uma tecnologia, por emitir pouco carbono durante a geração de eletricidade, esteja automaticamente livre de impactos sociais, ambientais e territoriais.

Essa distinção será ainda mais importante agora que o Brasil começa a avançar sobre a geração eólica offshore. A Lei 15.097/2025 criou o marco para aproveitamento energético no mar, enquanto os processos de licenciamento terão de considerar questões relacionadas à pesca artesanal, navegação, turismo, fauna marinha e ambientes recifais. O caso de Areia Branca, abordado pelo Guardian, merece por isso atenção especial, pois poderá funcionar não apenas como experiência tecnológica, mas como precedente para a maneira pela qual o Brasil tratará comunidades pesqueiras diante da expansão dessa nova fronteira energética marítima.

Produzir mais energia não resolve tudo

Existe ainda uma contradição adicional. Enquanto novos projetos continuam sendo planejados, o sistema elétrico brasileiro enfrenta dificuldades crescentes para absorver toda a geração renovável disponível. O chamado curtailment, que corresponde à redução compulsória da geração, tornou-se um problema estrutural e coloca em questão a ideia de que basta continuar instalando parques eólicos e solares para avançar na transição energética.

Se a capacidade de geração crescer mais rapidamente do que a infraestrutura de transmissão, armazenamento e consumo capaz de absorvê-la, novas usinas poderão simplesmente disputar espaço no sistema com empreendimentos renováveis já existentes. Nesse cenário, torna-se ainda mais necessária uma pergunta básica sobre para que, para quem e sob quais condições territoriais continuaremos expandindo essa infraestrutura.

Uma transição energética precisa ser também social

A reportagem do Guardian tem o mérito de desmontar uma simplificação perigosa. O Brasil precisa ampliar o uso de fontes renováveis e reduzir progressivamente sua dependência dos combustíveis fósseis, mas trocar petróleo, carvão e gás por vento e sol não resolverá automaticamente os conflitos socioambientais associados ao modelo brasileiro de desenvolvimento.

Se comunidades rurais cedem seus territórios por décadas, pescadores perdem acesso às áreas onde trabalham e a eletricidade produzida segue para grandes centros consumidores enquanto as localidades produtoras recebem apenas uma parcela dos benefícios econômicos, teremos mudado a fonte energética sem necessariamente modificar a estrutura de apropriação da riqueza.

A experiência relatada no Nordeste mostra, portanto, que uma verdadeira transição energética não pode ser medida apenas em gigawatts instalados ou toneladas de CO₂ evitadas. Ela precisa ser avaliada também pela forma como distribui renda, poder, custos e benefícios entre aqueles que cedem seus territórios para tornar essa transição possível. Afinal, o vento pode ser renovável, mas isso não significa que o modelo de exploração deva reproduzir velhas desigualdades.

Marcha pelo Clima no Rio: El Niño com capitalismo é pior!

Neste domingo, 20 de setembro, a partir das 14 horas, o Leme, no Rio de Janeiro, será palco da Marcha pelo Clima, mobilização que pretende chamar atenção para o agravamento da crise climática e para a necessidade de respostas políticas diante das transformações ambientais em curso.

Com o lema “El Niño com capitalismo é pior!”, os organizadores partem de um fenômeno natural conhecido há muito tempo — o aquecimento anômalo das águas do Pacífico equatorial — para discutir sua interação com um planeta já submetido a um intenso processo de aquecimento provocado pelas atividades humanas.

A manifestação propõe, entretanto, ir além do diagnóstico climático. Na perspectiva dos organizadores, a crise ambiental não pode ser separada do modelo econômico baseado na exploração intensiva dos recursos naturais, no consumo crescente de energia e matérias-primas e na apropriação desigual dos benefícios e prejuízos produzidos por esse processo.

A Marcha também pretende confrontar diferentes formas de negacionismo climático, desde a negação aberta das mudanças climáticas até posições que, segundo os organizadores, reconhecem a existência da crise, mas apostam na possibilidade de solucioná-la sem alterar profundamente as estruturas econômicas responsáveis pela pressão sobre os ecossistemas.

Nesse sentido, a palavra de ordem “El Niño com capitalismo é pior!” procura estabelecer uma conexão entre um fenômeno climático natural e as condições sociais e econômicas que podem ampliar seus impactos, sobretudo sobre as populações mais vulneráveis.

Marcha pelo Clima – Rio de Janeiro

Data: 20 de setembro
Horário: 14h
Local: Leme – Rio de Janeiro

“Venha marchar com a gente! Não existe planeta B!”

Rodrigo Fux, o Porto do Açu e as desapropriações que continuam sem pagamento

As recentes revelações sobre a proximidade entre o advogado Rodrigo Fux e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro recolocaram em debate as relações entre grandes interesses econômicos, escritórios de advocacia influentes e os tribunais superiores. No Norte Fluminense, essa discussão possui um antecedente que merece atenção: a atuação de Rodrigo Fux na defesa de empresas ligadas ao Porto do Açu.

Documentos judiciais confirmam que Rodrigo Fux representou a Porto do Açu Operações e a Grussaí Siderúrgica do Açu em processos envolvendo terras desapropriadas no V Distrito de São João da Barra. No processo nº 0000721-89.2017.8.19.0053, ele compareceu como advogado das empresas em uma ação destinada a retirar agricultores que haviam retomado áreas desapropriadas durante o governo Sérgio Cabral.

A distinção necessária é que Rodrigo Fux não aparece como responsável pelo pagamento das indenizações, atribuição do Estado do Rio de Janeiro e da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin). Sua atuação ocorreu na defesa das empresas beneficiárias das desapropriações. Enquanto o Estado não pagava aos antigos proprietários, seus clientes procuravam garantir judicialmente a posse das terras e afastar os agricultores que haviam retornado às propriedades.

Essa atuação proeminente já havia sido percebida por fontes locais diretamente envolvidas no conflito. O advogado Antonio Mauricio Costa, representante dos desapropriados, vinha chamando atenção para a presença de Rodrigo Fux na defesa dos interesses empresariais relacionados ao Porto do Açu. Registros posteriores mostram que o advogado continuou representando a Porto do Açu Operações em outros litígios, enquanto o próprio escritório Fux Advogados apresenta a Porto do Açu Operações e a Prumo Logística entre seus clientes relevantes.

O caso também expõe uma profunda desproporcionalidade nas capacidades de defesa jurídica. De um lado estão grandes  fundos de investimentos e empresas dotados de recursos financeiros e assessoradas por escritórios com trânsito nacional, entre cujos advogados se encontra o filho de um ministro do STF. Do outro estão agricultores desapropriados que, quando muito, podem contar com advogados locais muito capazes, mas obrigados a conduzir processos longos e complexos sem a mesma estrutura material, a mesma rede de relações institucionais ou a mesma capacidade de sustentar indefinidamente uma disputa judicial.

Isso não diminui a competência dos advogados dos agricultores. Ao contrário, mostra o tamanho da tarefa que enfrentam. Enquanto a defesa empresarial pode mobilizar equipes especializadas e levar rapidamente suas demandas a diferentes instâncias, os desapropriados dependem de uma tramitação predominantemente local, marcada por mudanças de magistrados, perícias demoradas ou nunca realizadas e processos que atravessam anos sem uma solução definitiva. A desigualdade não está apenas nos argumentos apresentados, mas nas condições concretas disponíveis para fazê-los chegar, com a necessária celeridade, aos espaços onde as decisões são tomadas.

Não existe, por si só, qualquer ilegalidade no exercício da atividade profissional de Rodrigo Fux. O problema é de natureza institucional. Processos relativos às desapropriações e às indenizações ainda não pagas continuam tramitando e podem alcançar os tribunais superiores. Caso algum deles chegue ao Supremo Tribunal Federal e seja submetido ao ministro Luiz Fux, pai de Rodrigo Fux, surgirá uma questão objetiva de possível impedimento ou suspeição.

É importante registrar que, até o momento, não encontrei elementos que permitam afirmar que Rodrigo Fux tenha atuado para provocar ou impedir o pagamento das indenizações, tampouco provas de interferência do ministro Luiz Fux nesses processos. Essa ausência de evidências na pesquisa realizada, entretanto, não permite excluir definitivamente tal possibilidade. Diante da presença destacada de Rodrigo Fux na defesa das empresas beneficiárias das desapropriações, permanece legítima a dúvida sobre a extensão de sua atuação e sobre a eventual existência de iniciativas ainda não identificadas nos documentos consultados. Entretanto,  há que se ressaltar que aquilo que está documentado é suficientemente grave e dispensa exageros: enquanto centenas de desapropriados aguardavam aquilo que lhes era devido, Rodrigo Fux atuava para assegurar às empresas beneficiárias das desapropriações o controle das terras e a retirada dos antigos ocupantes.

Não se trata de criminalizar a advocacia, mas de reconhecer que relações familiares, grandes interesses empresariais e processos capazes de alcançar os tribunais superiores exigem transparência redobrada.  Além disso, também é necessário reconhecer que a igualdade formal perante a Justiça pouco significa quando uma das partes dispõe de recursos, estruturas e conexões incomparavelmente superiores. No V Distrito, onde milhares famílias de agricultores pobres continuam esperando pelas indenizações das terras tomadas pelo Estado há mais de uma década, essa não é uma discussão abstrata. É uma questão de terra, dinheiro, poder e justiça que tarda há tempo demais.

Muito paradigma para pouca ciência: a universidade dos autoproclamados inovadores

Há algo se disseminando pelas universidades brasileiras que merece ser examinado com mais cuidado: a retórica da autoexcepcionalidade. Trata-se de uma forma de apresentar a atividade acadêmica na qual já não basta pesquisar, ensinar, publicar ou desenvolver uma tecnologia. É preciso apresentar cada iniciativa como ruptura, cada projeto como inovação, cada conceito como descoberta e cada experiência pessoal como demonstração de uma capacidade singular de enxergar aquilo que os outros ainda não conseguiram perceber.

Nesse universo discursivo, expressões como “pensar fora da caixa”, “romper paradigmas”, “construir novas possibilidades”, “produzir inovação” e “abrir caminhos onde antes não havia passagem” aparecem com frequência crescente. O problema não está propriamente nessas expressões, algumas das quais podem descrever processos intelectuais reais. A questão começa quando a grandiosidade da linguagem passa a substituir a demonstração da qualidade do que efetivamente foi produzido.

A ciência funciona exatamente ao contrário. Uma contribuição intelectual não se torna relevante porque seu autor declara que rompeu paradigmas ou porque uma plateia se emocionou diante de sua apresentação. Ela precisa sobreviver ao escrutínio dos pares, demonstrar consistência teórica e metodológica, dialogar seriamente com aquilo que já foi produzido e, sobretudo, apresentar evidências que permitam aos outros avaliar o alcance de suas conclusões. A relevância científica não deveria ser proclamada pelo próprio autor; deveria emergir da capacidade de seu trabalho resistir à crítica.  A cultura da autoexcepcionalidade embaralha essa lógica. O pesquisador deixa progressivamente de apresentar apenas aquilo que fez e passa também a construir uma narrativa sobre sua própria excepcionalidade. Ele aparece como alguém que desafia estruturas rígidas, enfrenta resistências, pensa diferentemente e finalmente obtém o reconhecimento que confirmaria a originalidade de sua trajetória. A produção acadêmica transforma-se, assim, também em produção de personagem.

Esse fenômeno encontra terreno particularmente fértil numa universidade cada vez mais submetida à lógica da visibilidade. Redes sociais, assessorias de comunicação, eventos institucionais, rankings, indicadores, editais e métricas de produtividade criaram um ambiente no qual comunicar o impacto pode se tornar quase tão importante quanto demonstrá-lo. Em situações mais extremas, ocorre uma inversão preocupante: primeiro se proclama a excelência; depois se procura alguma evidência que possa sustentá-la. É nesse ambiente que produção intelectual de qualidade duvidosa pode circular revestida por uma linguagem de grande sofisticação. Conceitos complexos são mobilizados sem o necessário rigor teórico, palavras importadas do vocabulário empresarial são incorporadas ao discurso acadêmico e experiências relativamente banais passam a ser descritas como grandes rupturas epistemológicas. Quanto mais frágil é o conteúdo, maior pode ser a tentação de compensá-lo com uma retórica grandiosa.

Há ainda um problema adicional: a autoexcepcionalidade tende a apagar a natureza coletiva da produção do conhecimento. Universidades não funcionam graças a indivíduos iluminados que encontram sozinhos “linhas de fuga” onde ninguém mais percebeu passagem. Ciência depende de laboratórios, estudantes, técnicos, bibliotecas, financiamento público, debates, críticas, erros, revisões e de uma comunidade intelectual que acumula conhecimento ao longo do tempo. Mesmo as contribuições verdadeiramente originais surgem dentro dessa infraestrutura coletiva.

Talvez por isso uma das virtudes acadêmicas mais importantes seja justamente aquela que parece estar perdendo espaço: a modéstia intelectual. Não a falsa modéstia performática, mas a consciência de que qualquer trabalho possui limites, de que nossas ideias podem estar erradas e de que conceitos sofisticados não dispensam evidências sólidas.

A universidade deveria ser um dos lugares onde afirmações extraordinárias encontram as perguntas mais difíceis. Quando acontece o contrário, e a grandiosidade da narrativa passa a proteger a fragilidade do conteúdo, surge uma espécie de inflação acadêmica: multiplicam-se as “inovações”, as “rupturas”, os “novos paradigmas” e as experiências supostamente transformadoras, enquanto se torna cada vez mais difícil identificar onde está efetivamente a contribuição original. Talvez esteja aí um dos paradoxos da universidade contemporânea: nunca se falou tanto em excelência, inovação e transformação, mas a repetição incessante dessas palavras não necessariamente veio acompanhada de igual crescimento da qualidade intelectual.

No fim, existe um teste bastante simples. Quem realmente produz conhecimento novo não precisa anunciar a cada parágrafo que pensa fora da caixa. Pode simplesmente abrir a caixa, colocar o trabalho sobre a mesa e deixar que os outros examinem o que há dentro.

Hidrovias na Amazônia: encontro abre diálogo entre comunidades, ministérios e órgãos de controle sobre planejamento de transporte fluvial na região

Após quase um ano desde o envio de carta cobrando diálogo sobre o modelo de hidrovias na Amazônia, encontro aproxima órgãos públicos e sociedade civil para discutir planejamento, licenciamento e direitos das populações afetadas.

Representantes de comunidades e movimentos sociais das bacias dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins, organizações da sociedade civil, pesquisadores e órgãos do governo federal e de controle participaram, na última sexta-feira (11), de uma videoconferência organizada pelo Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra) para discutir caminhos para fortalecer as políticas públicas voltadas à infraestrutura de transportes na Amazônia.

Entre os principais temas discutidos no encontro estiveram:

  • Participação das comunidades nas decisões sobre infraestrutura de transportes, com destaque para a necessidade de ampliar a presença de povos indígenas e comunidades tradicionais nos processos de planejamento, bem como respeitar o direito à Consulta livre, prévia e informada;
  • Planejamento integrado das hidrovias, considerando a relação entre rios, portos, rodovias e ferrovias e os efeitos dos empreendimentos sobre os corredores logísticos, incluindo o desafio de equilibrar o transporte de grandes volumes de commodities com as necessidades de mobilidade, abastecimento e produção das comunidades locais;
  • Infraestrutura de transporte para as populações amazônicas, com discussão sobre a falta de portos, entrepostos, energia e conexões intermodais adequadas às comunidades e às cadeias da sociobiodiversidade;
  • Avaliação de impactos cumulativos e sinérgicos, incluindo os efeitos combinados de diferentes obras e intervenções existentes e planejadas nas bacias hidrográficas;
  • Limitações do atual modelo de licenciamento ambiental, incluindo a necessidade de avaliar os impactos da operação das hidrovias em toda a sua extensão, e não apenas de intervenções isoladas;
  • Continuidade do diálogo entre governo e sociedade civil, com propostas para ampliar a participação social na elaboração dos planos setoriais de transporte no âmbito do Planejamento Integrado de Transportes (PIT).

A videoconferência foi um desdobramento da carta enviada em outubro de 2025 por organizações sociais das três bacias, junto ao Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra), ao Ministério de Portos e Aeroportos (MPOR) e outros órgãos federais. O documento propôs a construção de um diálogo estruturado entre governo e sociedade civil para enfrentar os conflitos associados ao atual modelo de hidrovias e buscar alternativas, começando pela realização de um encontro presencial. A proposta, no entanto, não teve retorno na época.

Nos meses seguintes, os conflitos se intensificaram, especialmente na bacia do Tapajós. No início de 2026, povos indígenas realizaram protestos contra as dragagens previstas para o rio e contra o Decreto nº 12.600/2025, que havia incluído trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização. Em fevereiro, o processo de contratação das dragagens no Tapajós foi suspenso. As intervenções voltaram ao centro do debate em julho, quando um novo plano de dragagem avançou após a dispensa de licenciamento ambiental concedida pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas-PA). No mesmo mês, lideranças indígenas do Tapajós levaram suas reivindicações ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reunião no Palácio do Planalto.

Foi nesse contexto que o MPOR retomou a interlocução com o GT Infra, abrindo caminho para esta videoconferência. O encontro marcou um primeiro passo na construção de um diálogo mais amplo entre sociedade civil e instituições públicas envolvidas no planejamento, licenciamento e concessão de hidrovias na Amazônia. . Participaram representantes do MPOR, da Controladoria-Geral da União (CGU), do Tribunal de Contas da União (TCU), do Ministério Público Federal (MPF), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), entre outros órgãos. O Ministério dos Transportes também foi convidado, mas não participou da videoconferência.

Durante uma primeira mesa sobre impactos socioambientais do atual modelo de hidrovias na Amazônia e a infraestrutura que queremos, representantes das três bacias mostraram como diferentes projetos de infraestrutura têm produzido problemas semelhantes. No rio Madeira, Iremar Ferreira, do Instituto Madeira Vivo (IMV), chamou atenção para os efeitos da expansão dos corredores de transporte de grãos e defendeu que a infraestrutura amazônica seja discutida a partir das necessidades de quem vive nos rios e deles depende. No Tapajós, Johnson Portela, do Movimento Tapajós Vivo (MTV), destacou que os impactos da hidrovia se somam às pressões já existentes do agronegócio e da expansão portuária e afetam atividades como pesca, transporte local e turismo.

“Parece que estamos falando do mesmo rio”, resumiu Claudelice Santos, do Instituto Zé Cláudio e Maria (IZM). Segundo ela, problemas encontrados no Madeira, Tapajós e Tocantins se repetem, entre eles o fracionamento dos empreendimentos e de seus processos de licenciamento, dificuldades relacionadas à consulta prévia e a falta de informações acessíveis às comunidades sobre a dimensão das intervenções previstas. No Tocantins, ela lembrou ainda que populações afetadas pela hidrovia convivem com impactos acumulados de outras grandes obras, como a hidrelétrica de Tucuruí e a Transamazônica.

A necessidade de participação dos povos desde as primeiras etapas dos projetos também foi ressaltada pelo cacique Manoel Munduruku, do planalto santareno, região cercada pela monocultura de soja. “Temos que ser consultados antes do projeto ser colocado no papel”, afirmou. Para ele, realizar a consulta quando as principais definições sobre um empreendimento já foram tomadas limita a possibilidade de participação efetiva dos povos afetados.

Planejamento bem antes das obras

Durante o encontro, representantes de organizações da sociedade civil também apontaram que parte dos conflitos relacionados às hidrovias poderia ser enfrentada ainda na etapa de planejamento setorial de transportes, antes da definição de obras e da abertura dos processos de licenciamento.

André Luis Ferreira, diretor-executivo do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), defendeu que os planos setoriais de transporte sejam construídos de forma integrada, com a análise comparativa entre corredores de transporte que tipicamente envolvem modais interconectados (rodovias, hidrovias, ferrovias), considerando riscos socioambientais e questões de viabilidade econômica. Ele lembrou ainda que uma hidrovia não funciona de forma isolada: depende de portos, rodovias e outras estruturas. Por isso, seus efeitos precisam ser analisados no contexto dos corredores logísticos, considerando impactos cumulativos e sinérgicos desde o início do planejamento. Ainda segundo ele, várias infraestruturas propostas no PNL 2050, têm como motivação principal resolver o mesmo problema logísticos, especialmente no que se refere a milho e soja. Ao que parece, será necessário avaliar a real necessidade das de todas infraestruturas planejadas e avaliar alternativas com menores riscos sociais e ambientais.

A assessora técnica do GT Infra, Renata Utsunomiya, apresentou exemplos das hidrovias do Madeira, Tapajós e Tocantins para mostrar limitações do atual modelo de licenciamento ambiental. No Madeira, por exemplo, ela apontou a existência de intervenções próximas a Terras Indígenas e Unidades de Conservação e questionou a ausência de consulta livre, prévia e informada. No Tapajós, destacou que quatro dos sete pontos previstos no plano de dragagem de 2026 não haviam sido dragados anteriormente, questionando sua classificação como meras dragagens de manutenção.

Outro ponto levantado foi a necessidade de avaliar os impactos da operação ao longo das hidrovias, e não apenas das intervenções em trechos específicos dos rios, o que se intensifica com o fatiamento do licenciamento ambiental. As projeções indicam forte crescimento da movimentação de cargas no Tapajós e no Tocantins até 2035, o que reforça, segundo Renata, a necessidade de modelar esses fluxos para compreender a frequência do tráfego e os riscos associados, como o aumento do desmatamento associado à expansão da soja na Amazônia.

Infraestrutura para quem vive nos territórios

Além de mudanças no planejamento de grandes empreendimentos, o debate colocou em pauta a infraestrutura de transporte fluvial necessária para atender às próprias populações amazônicas.

Andressa Neves, do WWF Brasil e do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade, destacou que comunidades tradicionais e cadeias produtivas que dependem dos rios ainda são pouco consideradas no planejamento e enfrentam carências de estruturas como portos, trapiches, entrepostos, energia e conexões intermodais.

Para ela, a infraestrutura de transportes fluvial e terrestre pode contribuir para reduzir desigualdades se também estiver voltada às economias locais e às cadeias com impacto socioambiental positivo, em vez de ser planejada quase exclusivamente para o transporte de cargas do agronegócio e da mineração, como ocorre atualmente.

O procurador da República Gabriel de Amorim, do Ministério Público Federal (MPF), defendeu maior protagonismo dos povos indígenas e comunidades tradicionais nas decisões sobre as hidrovias e alertou para a necessidade de não repetir erros de grandes projetos de infraestrutura implantados anteriormente na Amazônia. Segundo ele, a garantia do direito à consulta livre, prévia e informada junto aos povos afetados deve fazer parte de um modelo de governança que considere os rios e seus diferentes usos de forma integrada.

Gabriel também criticou o fracionamento dos processos de licenciamento, que, segundo ele, impede conhecer a totalidade dos custos e impactos do modelo hidroviário. O procurador defendeu que a análise das hidrovias considere impactos acumulados de empreendimentos já existentes, como hidrelétricas, e apontou a necessidade de fortalecer a gestão das bacias hidrográficas, com participação dos povos tradicionais.

Diálogo deve continuar

O secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier, afirmou que a secretaria tem buscado ampliar o diálogo com diferentes setores da sociedade e reconheceu a percepção de que a atuação do poder público no setor hidroviário muitas vezes está associada prioritariamente ao transporte de cargas de grandes grupos econômicos, menosprezando as necessidades de comunidades locais. Segundo ele, o desafio é equilibrar a matriz logística brasileira e construir políticas que promovam desenvolvimento sustentável com inclusão social. O secretário também propôs o alinhamento de próximos passos para a continuidade das discussões.

Ao final, os participantes apontaram a reunião como um primeiro passo para a construção de uma agenda permanente de diálogo. Entre os próximos passos e propostas discutidos estão a continuidade da interlocução entre instituições e organizações, o aprimoramento dos mecanismos de consulta livre, prévia e informada, a incorporação das necessidades das comunidades no debate sobre infraestrutura e a ampliação da participação social na fase de elaboração dos planos setoriais de transporte, no âmbito do Planejamento Integrado de Transportes (PIT). Também foi apontada a necessidade de realização de um encontro presencial, logo após o período eleitoral, para aprofundar os debates e a definição de encaminhamentos.

 

Lagoa Feia: os 2,20 metros são assunto de toda a sociedade

A controvérsia sobre a regulação das comportas da Lagoa Feia não pode ser reduzida a uma disputa sobre a legitimidade do Comitê da Bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana. O Comitê possui atribuições institucionais importantes e acumulou conhecimento sobre o sistema hídrico regional. Mas isso não transforma suas decisões em verdades incontestáveis, muito menos torna a Lagoa Feia assunto exclusivo de seus integrantes.

Legitimidade não significa exclusividade

A Resolução nº 77/2026 estabeleceu a cota-alvo de 2,20 metros entre maio e outubro de 2026. Trata-se de uma decisão institucionalmente tomada pelo CBH-BPSI. Mas permanece perfeitamente legítima a pergunta sobre se essa cota continua adequada diante das condições hidrológicas atuais, das mudanças climáticas e dos diferentes usos sociais da água.

A afirmação de que “nenhuma pesquisa se sobrepõe” ao acervo acumulado pelo Comitê é especialmente problemática. Ciência funciona justamente pela possibilidade de revisão de conhecimentos anteriores diante de novos dados. O acervo do Comitê deve ser utilizado pelas pesquisas, assim como os resultados das pesquisas devem servir para revisar decisões de gestão quando necessário.

E quem controla as intervenções ilegais?

Há ainda uma questão anterior à própria operação das comportas. Não basta estabelecer uma cota se intervenções ilegais puderem alterar a capacidade de armazenamento e circulação das águas.

A história recente da Lagoa Feia oferece um exemplo contundente. Durante a atuação do falecido promotor Marcelo Lessa, quatro diques considerados irregulares foram dinamitados. As águas rapidamente voltaram a ocupar áreas das quais haviam sido artificialmente afastadas. Estudos posteriores relacionaram esses diques à redução da capacidade de expansão da lagoa e aos graves problemas ocorridos durante as cheias de 2008.

Marcelo Lessa deixou então uma observação que continua atual: depois da retirada dos diques, caberia aos órgãos de fiscalização impedir que novos bloqueios fossem implantados.

Daí surge uma pergunta que merece uma resposta pública: quantos daqueles diques foram posteriormente reconstruídos, total ou parcialmente, e por quem?

E outras perguntas decorrem imediatamente dela: existem hoje novos diques, aterros, canais ou outras intervenções irregulares reduzindo áreas de expansão da Lagoa Feia? Quem fiscaliza essas estruturas? Quantas foram autuadas? Quantas foram removidas?

Sem responder a essas questões, discutir apenas a abertura das comportas significa administrar a torneira sem verificar o tamanho do reservatório.

Água e alimento

Existe ainda outra razão pela qual a discussão não pode permanecer restrita ao Comitê. A Lagoa Feia possui função estratégica para o abastecimento hídrico regional e para a produção de alimentos.

Estudos registram sua importância para o abastecimento de Quissamã, enquanto levantamentos mais recentes apontam sua relevância para mais de 30 mil pessoas em Quissamã e Carapebus. A própria Prefeitura de Quissamã realizou em 2026 uma intervenção destinada a reter água proveniente da Lagoa Feia para garantir o abastecimento dos canais Campos-Macaé e do Arrozal, atendendo produtores e pescadores.

A lagoa é também território de pesca e fonte de alimento e renda para comunidades que historicamente dependem de seus recursos pesqueiros. Pesquisa realizada na região já registrou conflitos entre pescadores e proprietários rurais justamente em torno do manejo das comportas e da manutenção da água necessária à produção pesqueira.

Portanto, cada centímetro retirado ou mantido na Lagoa Feia possui consequências ambientais, sociais e econômicas.

A pergunta precisa ser maior que os 2,20 metros

A contribuição mais importante surgida desse debate talvez seja justamente a proposta de discutir reservação de água, segurança hídrica e sustentabilidade no Norte e Noroeste Fluminense.

A Lagoa Feia já perdeu uma parcela extraordinária de seu espelho d’água por intervenções humanas. Estudos sobre o sistema mostram como canais artificiais, drenagens e diques modificaram profundamente sua dinâmica e reduziram sua superfície. Somam-se a isso as pressões sobre a Lagoa de Campelo e as alterações observadas no sistema do Rio Paraíba do Sul.

Nesse contexto, a pergunta fundamental não deveria ser apenas quem decidiu pelos 2,20 metros?

Precisamos perguntar quanta água queremos conservar na paisagem do Norte Fluminense, quem está retirando essa capacidade de armazenamento e o que os órgãos públicos estão fazendo para protegê-la.

Quando estão em jogo água para consumo humano, pesca, produção de alimentos, biodiversidade e segurança hídrica de municípios inteiros, 2,20 metros deixam definitivamente de ser assunto interno de um comitê. Tornam-se assunto de toda a sociedade.

A Amazônia não precisa de novos donos

O mundo descobriu uma nova maneira de lucrar com a Amazônia viva. Mas, a menos que o poder acompanhe o dinheiro, os povos indígenas e as comunidades tradicionais podem se ver servindo a outra economia construída em torno de sua floresta, em vez de moldar uma economia própria

Floresta Amazônica, Rio Amazonas, Brasil. Crédito: Dennis Schmelz/Alamy

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Aconteceu algo bastante estranho na forma como falamos sobre os povos da Amazônia. 

O conhecimento antes visto como primitivo, atrasado, até mesmo um obstáculo ao progresso, agora está sendo considerado um ativo da bioeconomia e parte da solução para as crises climáticas e da biodiversidade. Dizem-lhes agora que seu conhecimento pode ser a chave para o futuro.

As comunidades indígenas e tradicionais sabem o que cresce em cada lugar, quando as frutas estão seguras, maduras e prontas para o consumo, como uma planta pode ser usada e o que acontece quando um rio é perturbado a montante. Grande parte desse conhecimento foi transmitido através de famílias e comunidades por muitas gerações.

Agora tem outro nome: inovação. E há muito dinheiro nisso.

A bioeconomia da Amazônia está atraindo muitos governos, bancos, empresas, organizações ambientais, entidades filantrópicas e investidores com uma proposta convincente: o desenvolvimento econômico não precisa ocorrer às custas da floresta.

Desejamos muito que isso seja verdade. A Amazônia precisa desesperadamente de um futuro que não dependa de sua destruição.

Valor

A coisa fica bem mais interessante e menos confortável quando você acompanha um produto amazônico desde a floresta até o consumidor.

Uma comunidade pode possuir gerações de conhecimento sobre uma determinada planta: onde ela cresce, como é colhida sem prejudicar a produção futura e como pode ser utilizada. Mas, uma vez que a planta entra em uma cadeia comercial, o equilíbrio muda completamente.

O processamento pode ocorrer em outros locais, juntamente com a pesquisa, o desenvolvimento do produto, o patenteamento, a criação da marca e a distribuição.

Um ingrediente comprado por um preço relativamente baixo em sua origem pode eventualmente estar presente em um produto cosmético, alimentício ou farmacêutico caro, vendido em São Paulo, Londres, Paris, Berlim ou Nova York.

Em algum ponto dessa jornada, o valor aumenta enormemente. Aqueles que forneceram a matéria-prima e o conhecimento que tornaram o produto possível podem permanecer na base da cadeia.

Por isso, perguntar simplesmente se as comunidades estão lucrando com a bioeconomia nos diz muito pouco. Elas podem ganhar muito mais e ainda assim ter muito pouco controle sobre os negócios construídos ao seu redor.

Uma comunidade pode receber renda de um projeto e ainda assim perder parte da autonomia sobre seu território, tornar-se dependente de um único comprador ou até mesmo alterar suas práticas tradicionais para atender às demandas de um mercado externo.

E o conhecimento não é apenas mais uma matéria-prima.

Como atribuir a propriedade de algo desenvolvido coletivamente e transmitido entre gerações? O que acontece quando o conhecimento e o território entram em sistemas construídos em torno do registro, da propriedade intelectual e da propriedade comercial?

O reconhecimento do conhecimento tradicional deve ser celebrado, mas não deve se tornar uma oportunidade para se apropriar dele.

Convidado em

Atualmente, há muitas fotografias de povos indígenas em conferências sobre o clima. Eles aparecem em relatórios de sustentabilidade corporativa, em eventos internacionais e em apresentações sobre conservação florestal. Eles também se tornaram políticos.

A visibilidade melhorou significativamente. Mas a potência é algo completamente diferente.

Muitas das decisões importantes relativas a um projeto podem ser tomadas anos antes de a comunidade ser formalmente consultada.

Frequentemente, essas comunidades aparecem nesses projetos como parceiras, beneficiárias ou guardiãs da floresta, enquanto as decisões estratégicas relativas ao financiamento, ao desenho do programa, aos critérios de sucesso e à distribuição de recursos são tomadas em outro lugar.

A consulta gratuita, prévia e informada visa precisamente evitar isso. “Prévia” não pode significar depois que as decisões importantes já foram tomadas. “Informada” não pode significar entregar às comunidades documentos que elas não tiveram tempo nem aconselhamento independente para avaliar adequadamente.

Existe um enorme desequilíbrio quando as instituições passam anos desenvolvendo um projeto e espera-se que as comunidades tomem decisões em semanas, ou até mesmo em dias.

Eles precisam de seus próprios advogados e consultores independentes quando necessário, e de tempo para conversar entre si, inclusive com anciãos e organizações em que confiam. Também precisam saber quem lucrará com o projeto, e não apenas o que lhes foi prometido.

Acima de tudo, eles precisam poder dizer não. O consentimento não deve ser um cheque em branco assinado no início de um projeto.

As condições podem mudar; os impactos podem ser diferentes dos previstos e novos investidores podem entrar no projeto. O uso de dados ou recursos naturais também pode se expandir.

Deverá haver pontos de revisão formais ao longo de todo o ciclo de vida do projeto, com mecanismos claros para renegociação, reclamações e reparação.

O dinheiro chega com condições

Não há dúvida de que a Amazônia precisa de investimentos. Quem romantiza a pobreza em nome da proteção da floresta não está fazendo nenhum favor às pessoas que vivem lá. Pequenas empresas e cooperativas lutam para obter apoio.

O financiamento misto surgiu em parte como resposta a esses problemas. O dinheiro público e filantrópico pode assumir parte do risco que os investidores privados não estão dispostos a assumir, tornando os projetos mais atraentes para o capital comercial.

Mas se o dinheiro público torna o risco aceitável, enquanto grande parte do retorno é privado, devemos saber como os benefícios estão sendo distribuídos. Mais importante ainda, devemos analisar que tipo de projetos o sistema favorece.

Investidores gostam de coisas que podem ser medidas, reproduzidas e escaladas com um retorno rápido. A floresta é bem menos organizada.

Uma comunidade pode ter uma forma excepcional de gerir um ecossistema específico, desenvolvida em função das condições e da cultura locais, mas essa forma pode nunca se tornar um modelo capaz de ser expandido para milhares de hectares. Um projeto maior e padronizado, com métricas já conhecidas, pode ser muito mais fácil de financiar.

Lentamente, a pergunta pode mudar. Em vez de perguntarmos que tipo de financiamento funciona para a Amazônia, começamos a perguntar que tipo de Amazônia funciona para o setor financeiro.

O que o dinheiro não vê

Os mercados são particularmente ruins em enxergar coisas que não geram receita.

Não há valor comercial óbvio ou retorno financeiro em permitir que uma espécie ameaçada de extinção continue existindo, em limpar o mercúrio de um rio, em proteger uma bacia hidrográfica remota ou em preservar uma relação ecológica que os cientistas mal compreendem. Essas ações podem ser essenciais sem que se produza nada que possa ser vendido.

A natureza não opera segundo o calendário de um fundo de investimento. Um ecossistema danificado pode precisar de décadas para se recuperar.

O carbono ofereceu uma resposta para parte desse problema ao criar algo mensurável que pudesse ser comercializado.

Como resultado, houve um fluxo de dinheiro para projetos florestais, incluindo verbas que, de outra forma, talvez nunca tivessem chegado à conservação.

Mas os mercados voluntários de carbono também expuseram a dificuldade de tentar integrar uma floresta viva em um sistema de contabilidade.

Em muitos projetos florestais, os créditos dependem de uma projeção do que supostamente teria acontecido com aquela floresta se o projeto não tivesse existido. Quanto maior a projeção de desmatamento nesse cenário hipotético, maior o volume potencial de créditos gerados.

Isso cria um sério conflito de incentivos. Se você exagerar o risco futuro de desmatamento, poderá gerar mais créditos. E esses créditos têm valor financeiro.

Além disso, existem outros problemas, como o “vazamento”: você protege uma área específica, mas o desmatamento simplesmente se desloca para outro lugar.

Há também a questão da permanência. Uma floresta que gerou créditos de carbono hoje pode ser destruída por um incêndio, degradada ou desmatada daqui a alguns anos. No entanto, esses créditos podem já ter sido vendidos e utilizados por uma empresa para compensar suas emissões.

Isso evidencia o quão difícil é transformar algo tão complexo e dinâmico como uma floresta em uma unidade financeira perfeitamente mensurável.

Talvez a questão mais preocupante seja esta: uma empresa pode comprar créditos de carbono e alegar ter compensado suas emissões sem necessariamente reduzir a poluição na fonte.

Isso pode criar uma espécie de licença moral para continuar emitindo: continuo queimando combustíveis fósseis aqui enquanto pago alguém para preservar uma floresta do outro lado do mundo. Mas uma coisa não anula necessariamente a outra.

Por isso, é perigoso acreditar que o mercado sozinho resolverá a crise climática.

Existe uma enorme diferença entre pagar pessoas para proteger uma floresta e pagar pessoas para proteger uma floresta para que outra pessoa possa alegar ter eliminado a poluição.

Certificações ecológicas

A nova economia criou algumas alianças muito incomuns.

Empresas dos setores de petróleo e gás, mineração e agronegócio agora atuam ao lado de governos e organizações ambientais em iniciativas de conservação. Algumas financiam programas de restauração e biodiversidade.

Esse dinheiro pode alcançar algo útil. Rejeitar uma floresta restaurada por causa da identidade do financiador não faria sentido.

O que faz menos sentido é analisar a restauração sem analisar a empresa.

Se uma empresa investe milhões em conservação, como isso se compara ao que ela gasta expandindo as atividades responsáveis ​​por seu impacto ambiental? Quais são suas emissões?

Que danos estão associados às suas operações? O que permanece sem solução? Qual a proporção entre o que é destinado à conservação e o que continua a ser destinado às atividades responsáveis ​​pelo problema?

Esses não são argumentos contra o financiamento ambiental corporativo. São questões básicas de proporcionalidade.

A sustentabilidade também se tornou valiosa para as empresas. Ela afeta sua reputação, o relacionamento com os investidores e a licença social para operar. Uma empresa agora pode se associar a um problema ambiental e financiar parte da solução proposta simultaneamente.

O financiamento para a conservação está transformando os modelos de negócio dessas empresas ou está ajudando-as a continuar operando sem uma transformação proporcional de seus modelos de negócio?

Memórias antigas

Há motivos para sermos céticos em relação às grandes promessas econômicas nesta região do Brasil.

A Amazônia foi repetidamente reorganizada em torno de coisas que pessoas de fora decidiram que eram valiosas. A borracha teve seu momento, assim como a madeira, o ouro, os minerais e a terra. Riquezas foram geradas, muitas vezes muito longe das comunidades que ficaram para trás, sofrendo as consequências.

Hoje, as coisas valiosas têm nomes diferentes: carbono, biodiversidade, informação genética e conhecimento tradicional.

Esse valor pode ser gerado enquanto a floresta permanece de pé? Se sim, o valor ainda pode sair da Amazônia mesmo quando as árvores não estiverem mais lá.

Um recurso genético pode se tornar propriedade intelectual em outro lugar. Uma floresta pode gerar um ativo financeiro negociado longe do território. O conhecimento tradicional pode ajudar a criar um produto lucrativo, enquanto as pessoas que desenvolveram esse conhecimento permanecem fornecedoras em vez de proprietárias.

Devemos ter cuidado para não confundir uma mudança no que é extraído com uma mudança em quem detém o poder.

Mais do que beneficiários

O investimento público pode apoiar causas importantes, mesmo que elas nunca gerem um retorno comercial atrativo.

Mais importante ainda, os povos indígenas e as comunidades tradicionais podem ser tratados como atores políticos e econômicos com autoridade sobre seus territórios, e não como beneficiários vinculados a um projeto de terceiros.

Por gerações, essas comunidades protegeram grande parte daquilo que o resto do mundo descobriu repentinamente ser valioso. Fizeram isso muito antes de o carbono ter um preço e a biodiversidade aparecer em apresentações de investimento, frequentemente enfrentando violência, invasões de terras e políticas destinadas a marginalizá-las.

Agora todos querem algo deles e da floresta viva.

Antes de celebrarmos a quantidade de dinheiro que entra na Amazônia, precisamos perguntar:

Que tipo de Amazon queremos deixar para trás depois que todo esse dinheiro tiver passado por ela?

Porque os investimentos vêm e vão. Os governos vêm e vão. As empresas vêm e vão. Os políticos vêm e vão. Mas a floresta tem de permanecer.

A atmosfera está carregando mais água — e isso significa extremos climáticos ainda mais perigosos

Recorde de vapor d’água registrado em agosto mostra como o aquecimento global e o fortalecimento do El Niño estão criando condições para chuvas mais intensas, tempestades mais energéticas e ondas de calor mais sufocantes

Uma matéria publicada pelo The Guardian traz um dado que ajuda a compreender por que a crise climática não pode ser reduzida simplesmente ao aumento das temperaturas médias. Em agosto de 2026, a atmosfera terrestre apresentou a maior quantidade de vapor d’água já registrada, segundo dados do Copernicus Climate Change Service (C3S). Foram 27,35 kg de água por metro quadrado na coluna atmosférica, superando o recorde anterior, de julho de 2024.

A diferença de apenas 0,04 kg/m² em relação ao recorde anterior parece pequena. Quando projetada para toda a atmosfera do planeta, porém, corresponde a aproximadamente 20 trilhões de litros adicionais de água. O mais importante não é apenas o recorde em si, mas aquilo que ele revela sobre o funcionamento de uma atmosfera progressivamente mais quente.  A relação física é conhecida: para cada grau Celsius de aquecimento, o ar pode conter aproximadamente 7% mais vapor d’água. Oceanos excepcionalmente quentes aumentam a evaporação e fornecem ainda mais umidade à atmosfera. Em agosto, esse mecanismo foi reforçado pelo fortalecimento do atual El Niño, especialmente sobre os oceanos tropicais.

O resultado é uma espécie de carregamento adicional do sistema climático. Quando essa enorme quantidade de água condensa, libera calor e fornece energia às tempestades. Isso cria condições para precipitações mais intensas e pode contribuir para o fortalecimento de ciclones. Não significa que choverá mais em todos os lugares ou permanentemente: significa que, quando determinadas condições atmosféricas produzirem chuva, existe potencial para eventos muito mais intensos.

O vapor d’água também agrava o outro extremo. Em períodos de calor intenso, a elevada umidade dificulta a evaporação do suor e reduz o resfriamento noturno, aumentando o estresse térmico sobre o organismo humano. Assim, a mesma atmosfera mais úmida que potencializa chuvas torrenciais pode tornar ondas de calor ainda mais perigosas, especialmente nas grandes cidades.

Existe ainda um mecanismo de retroalimentação particularmente preocupante. O vapor d’água é um gás de efeito estufa: o aumento de CO₂ e metano aquece o planeta; uma atmosfera mais quente comporta mais umidade; essa umidade adicional reforça o efeito estufa, contribuindo para um aquecimento ainda maior. Como ressaltam os pesquisadores ouvidos pelo Guardian, a causa inicial dessa espiral continua sendo o aumento das concentrações de gases de efeito estufa decorrente principalmente da queima de combustíveis fósseis.

O cenário se torna ainda mais preocupante porque esse recorde coincide com o desenvolvimento de um El Niño excepcionalmente intenso, capaz de adicionar variabilidade natural a um planeta que já possui uma temperatura média muito mais elevada devido ao aquecimento antropogênico.  É justamente essa combinação que deveria receber atenção especial no Brasil. O dado do vapor d’água não permite prever onde ocorrerá a próxima enchente, seca ou onda de calor. Mas mostra que o sistema climático está acumulando condições capazes de amplificar os extremos.

Por isso, talvez a principal mensagem trazida por esse novo recorde seja bastante simples: não estamos apenas vivendo em um planeta mais quente. Estamos alterando a quantidade de energia e água que circula pela atmosfera. E quando um sistema climático mais quente encontra uma atmosfera carregada com níveis recordes de umidade, as consequências podem aparecer sob a forma de chuvas torrenciais, enchentes, tempestades mais intensas e calor úmido cada vez mais difícil de suportar.

A crise climática está, assim, mudando não apenas a temperatura do planeta, mas também a potência do seu ciclo hidrológico. E os eventos extremos que já estamos observando são um aviso bastante concreto do que isso significa.