Deputado cobra investigação do Ibama e do Ministério Público e cita terceirizada Costa Pinto como envolvida no episódio

Em 2019 foram registradas mortes de abelhas causadas por agrotóxicos em SC, RS, MS e SP (Getty Image)
Por Edir Viégas para “Vox”
Acidente ambiental de graves proporções que resultou no extermínio por envenenamento de centenas de milhares de abelhas resultou em Moção de Repúdio e pedido de investigação na Assembleia Legislativa contra a multinacional e gigante de celulose Suzano.
Requerimento nesse sentido foi apresentado pelo deputado Zeca do PT na sessão desta quarta-feira (8), que também responsabilizou a empresa Costa Pinto, terceirizada da Suzano e responsável pela situação.

Colmeias dizimadas
A mortandade das abelhas aconteceu em dezembro do ano passado no município de Santa Rita do Pardo. Foram dizimadas 20 colmeias instaladas ao lado da floresta de eucalipto da Suzano.
Vídeo postado no canal da ONG uruguaia World Rain Forest Movement (Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais) no Youtube sugere que a multinacional teria tentado compensar o apicultor que perdeu as colmeias.
“Ele deve ter borrifado aqui tudo e entrou lá. Eu vi a caminhonete da Suzano e o pessoal da [empreiteira] Costa Pinto com o trator. O técnico estava com eles, então eles não têm desculpa”, diz o autor do vídeo, o apicultor identificado como Davi.
“A Suzano me disse: calcule o prejuízo. E eu disse: não vou calcular nada, até porque vocês vão me pagar e vão continuar. É uma outorga para vocês matarem minhas abelhas de novo”, relata o apicultor.
Crime ambiental
Pulverizar agrotóxicos em época de floração é considerado uma prática ilícita no Brasil, podendo ser configurado como crime ambiental, especialmente quando causa a morte de abelhas e outros polinizadores, essenciais para a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas.
Moção de repúdio
“Manifestamos nosso repúdio em face à atuação da empresa Suzano no Estado do Mato Grosso do Sul, bem como de sua prestadora de serviço, a empreiteira Costa Pinto, diante das graves denúncias de uso irregular de agrotóxico que resultaram na mortandade massiva de abelhas”, disse Zeca do PT ao se reportar à denúncia.
De acordo com ele, o acidente ambiental aconteceu na região de Santa Rita do Pardo e foi denunciado por produtores locais.
“Eles denunciaram a implantação de substâncias tóxicas, bem como o inseticida à base de friponil, em período de floração, prática considerada ilegal e altamente prejudicial aos polinizadores e ao equilíbrio ambiental”, esclareceu o parlamentar.
Veneno foi banido na Europa
O fipronil, segundo informações do próprio fabricante, é especialmente perigoso para as abelhas, mesmo em doses muito baixas. Os efeitos vão além da morte imediata — ele compromete funções essenciais para a sobrevivência da colônia.
Desde 2014 ele é proibido em culturas agrícolas da União Europeia justamente pelo alto risco de mortalidade em massa de abelhas e outros polinizadores. No Brasil, o uso é liberado.

Prática comum
O caso do apicultor do vídeo não é o único. Marine Dubos-Raoul é geógrafa, doutora pela Universidade Paris 8, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e coordenadora do Instituto Pró-Cerrado Vivo.
Ela conta que em 2019, no município de Brasilândia, vizinho de Santa Rita do Pardo, realizou pesquisas em um assentamento onde houve relatos de impactos por pulverização de agrotóxicos em canaviais. Desde então, começaram a surgir cada vez mais histórias similares.

Ameaça à biodiversidade
“Relatos de apicultores apontam que a pulverização desses produtos provocou a morte de colmeias inteiras, afetando diretamente a produção apícola e subsistência de trabalhadores rurais, além de representar grave ameaça à biodiversidade do bioma cerrado”, disse Zeca do PT.
Ele esclareceu que especialistas alertam sobre o uso indiscriminado de agrotóxico, que impacta não apenas as abelhas, mas toda a fauna e flora, comprometendo o equilíbrio do ecossistema.
Ressalta-se que as abelhas desempenham um papel essencial na polinização e na produção de alimentos, sendo responsável por grande parte da manutenção da vida vegetal e da segurança alimentar.
Sua eliminação, em larga escala, configura não apenas dano ambiental, mas um risco sistêmico à agricultura familiar e à vida humana.
Zeca do PT exigiu rigorosa apuração dos fatos pelos órgãos competentes, como o Ibama e o Ministério Público, e solicitou “a responsabilização da empresa, caso comprovada as irregularidades”.
Outro lado
O Vox MS encaminhou pedido de esclarecimento à assessoria de imprensa da Suzano, que se manifestou por meio de nota.
A companhia apoia mais de 158 apicultores e apicultoras no Mato Grosso do Sul por meio do seu Programa de Apicultura. Em 2024, a iniciativa contribuiu para a produção de 309 toneladas de mel, o que representa 40% da produção no estado.
Todas as operações da empresa seguem rigoroso processo de conformidade legal e socioambiental, com observância das normas nacionais e internacionais, e são atestadas por certificações internacionais.
A companhia reitera que busca os mais altos padrões de manejo florestal, e utiliza apenas defensivos devidamente registrados no MAPA e aprovados pelos órgãos sanitários, respeitando as recomendações técnicas da bula, fichas de emergência e do receituário agronômico.
Além do cuidado com o meio ambiente, o compromisso com as pessoas pela companhia se reflete na comunicação prévia realizada com os apicultores conveniados ao Programa de Apicultura ou cadastrados no estado como vizinhos da empresa, por meio de sua equipe social, antes de qualquer aplicação de defensivos em suas operações florestais.
A companhia orienta ainda aos públicos de relacionamento a sinalizarem por meio de canais de comunicação abertos para envio de dúvidas, sugestões, denúncias ou busca de informações sobre quaisquer temas que julgarem relevantes, com a Suzano prontamente endereçando essas solicitações.
Fonte: Vox













