Porto do Açu: gigante para o mundo, gargalo no território

Gargalos logísticos revelam os limites de um enclave de recursos que cresce mais rápido do que o território consegue — ou deve — suportar

A matéria de Jenifer Ribeiro publicada pela CNN Brasil sobre os gargalos logísticos enfrentados pelo Porto do Açu merece ser lida para além da aparente discussão sobre estradas. O que está sendo revelado é uma contradição estrutural que acompanha o empreendimento desde sua implantação: construído para conectar rapidamente recursos naturais, energia e mercadorias aos circuitos nacionais e internacionais de acumulação, o Porto do Açu permanece precariamente articulado ao território que o abriga.

Os números apresentados pela reportagem são particularmente reveladores. Cerca de 600 caminhões circulam diariamente pela região, enquanto aproximadamente 12 quilômetros da RJ-238 encontram-se em condições precárias. Para resolver parte do problema, projeta-se o chamado Arco Sul, incluindo uma nova ligação de aproximadamente 27 quilômetros, além da recuperação da Estrada dos Ceramistas. A conta estimada chega a R$ 379 milhões. O objetivo declarado é melhorar o acesso ao porto e, simultaneamente, retirar parte do trânsito pesado das áreas urbanas de Campos dos Goytacazes.

Aqui aparece uma questão fundamental: quem paga pela infraestrutura necessária para sustentar a expansão de um gigantesco complexo portuário privado? A Prumo financiou os estudos das intervenções, mas a realização das obras depende essencialmente do poder público. E justamente aí surgiu o impasse: a crise financeira do Estado do Rio de Janeiro levou à suspensão de licitações e contratos do DER-RJ e das secretarias envolvidas. Diante disso, representantes do Porto do Açu passaram a conversar com candidatos ao governo estadual sobre uma solução para os acessos terrestres.

Essa situação ajuda a compreender por que considero apropriado analisar o Porto do Açu como um enclave de recursos. Enclaves desse tipo não devem ser entendidos simplesmente como empreendimentos geograficamente isolados. Ao contrário, podem possuir conexões extremamente sofisticadas com mercados internacionais, empresas transnacionais e cadeias globais de commodities. O isolamento relevante é outro: existe uma enorme assimetria entre a capacidade de conexão do empreendimento com o exterior e sua integração econômica, social e infraestrutural com o território imediatamente circundante.

No Açu essa assimetria é especialmente evidente. Pelo complexo passam petróleo, minério de ferro e outros produtos destinados a circuitos econômicos de grande escala, enquanto novos projetos relacionados ao agronegócio, fertilizantes, energia, data centers e outras atividades industriais continuam sendo anunciados. A própria CNN Brasil informa, em outra reportagem publicada simultaneamente, que um terminal de grãos previsto para começar a operar em 2028 deverá movimentar inicialmente 1 milhão de toneladas anuais, podendo chegar posteriormente a 2,5 milhões, e foi projetado para receber inicialmente 100% das cargas por rodovia.

Temos então uma situação quase paradoxal: um empreendimento que se apresenta como um dos maiores complexos portuários privados da América Latina, destacando sua capacidade de movimentar volumes crescentes de petróleo, minério de ferro e outras commodities e de atrair sucessivamente novos investimentos, continua dependendo de estradas estaduais deterioradas para estabelecer suas conexões terrestres mais elementares com o restante do território.

A contradição é ainda mais significativa porque a grandiosidade reivindicada pelo Porto do Açu contrasta com a fragilidade da infraestrutura regional que precisa sustentá-la. Quanto mais o complexo anuncia novos terminais, indústrias e atividades logísticas, mais evidente se torna a distância entre a escala global de suas ambições e as condições concretas do território no qual foi implantado.

Mais interessante ainda é observar que a tão anunciada integração ferroviária continua distante. Segundo a reportagem, a EF-118 somente deverá entrar em operação em aproximadamente dez anos. Até lá, a expansão do complexo continuará dependendo fundamentalmente do transporte rodoviário. Isso significa mais caminhões, maior pressão sobre a infraestrutura regional, maiores riscos de acidentes, emissões, ruído e congestionamentos e uma crescente necessidade de investimentos públicos destinados a tornar possível a expansão das atividades privadas instaladas no porto.

É justamente aqui que a categoria de enclave ganha força explicativa. O Porto do Açu não está desconectado. Está seletivamente conectado. Sua infraestrutura interna e marítima permite estabelecer relações diretas com mercados situados a milhares de quilômetros, enquanto as conexões terrestres com Campos dos Goytacazes, São João da Barra e outras partes da região permanecem insuficientes. Em outras palavras, o território funciona extraordinariamente bem quando considerado como plataforma de exportação e circulação de recursos, mas muito menos eficientemente quando observado como espaço cotidiano das populações que nele vivem.

Há ainda uma segunda contradição. À medida que o enclave cresce, ele começa a exigir que o território ao redor seja progressivamente reorganizado segundo suas próprias necessidades. Estradas precisam ser reconstruídas, contornos urbanos precisam ser abertos, novas conexões ferroviárias precisam ser implantadas e parcelas crescentes do espaço regional passam a ser subordinadas às exigências logísticas do complexo. Nesse processo, os custos da expansão deixam de permanecer circunscritos ao empreendimento e passam a ser distribuídos territorialmente, inclusive por meio da mobilização de recursos públicos.  Isso significa que os impactos do Porto do Açu já não podem ser analisados apenas dentro dos limites físicos do empreendimento. Eles se propagam pelas rodovias, cidades, áreas rurais, lagoas, unidades de conservação e comunidades do Norte Fluminense. Quanto maior o porto, maior a infraestrutura territorial necessária para sustentá-lo — e maior também a área sobre a qual seus custos sociais, ambientais e econômicos tendem a se espalhar.

Esse é um aspecto particularmente importante quando novos empreendimentos continuam sendo incorporados ao complexo antes que gargalos estruturais anteriores tenham sido solucionados. Se um novo terminal de grãos nasce prevendo inicialmente a chegada de toda a sua carga por caminhões, não estamos diante apenas de uma deficiência logística herdada da implantação do porto. Estamos diante da reprodução ampliada do próprio problema: acrescentam-se novos fluxos de mercadorias e novas demandas sobre uma infraestrutura regional que já demonstra sinais evidentes de saturação.  A matéria da CNN Brasil, portanto, acaba revelando algo que talvez não fosse sua intenção principal demonstrar. O gargalo rodoviário não constitui simplesmente um problema técnico a ser solucionado para aumentar a eficiência do Porto do Açu. Ele expõe a própria lógica territorial sobre a qual o empreendimento foi construído.

Criou-se primeiro uma enorme plataforma destinada a inserir o Norte Fluminense nos circuitos globais de petróleo, minério, energia e commodities. Agora se descobre que o território real — com suas cidades, estradas, comunidades, ecossistemas e limitações ambientais — não possui a mesma capacidade de expansão aparentemente ilimitada imaginada pelos planejadores do complexo.  Talvez estejamos, portanto, diante de uma inversão reveladora. Em vez de o Porto do Açu adaptar-se às características e aos limites do território onde foi instalado, é o território que passa a ser continuamente convocado a adaptar-se às necessidades de expansão do porto. E, quando essa adaptação exige centenas de milhões de reais em obras públicas para garantir a circulação associada aos novos negócios privados, torna-se inevitável perguntar não apenas quem captura os benefícios desse modelo, mas também quem fica com a conta e com os impactos de sua expansão.

E talvez seja justamente por isso que a pergunta que venho fazendo se torne cada vez mais pertinente: quantos Portos do Açu cabem no Açu?

Pequenas empresas, grandes coincidências: Flávio Bolsonaro e o Careca do INSS na mesma sala

Reportagem do ICL Notícias revela que empresa da família Bolsonaro compartilha endereço e serviços contábeis com uma rede de empresas ligada a Antonio Carlos Camilo Antunes, personagem central do escândalo dos descontos sobre aposentadorias

Há coincidências que podem ser apenas coincidências. E há aquelas que, pelo número de personagens, endereços e relações cruzadas, merecem pelo menos uma boa lupa. A reportagem de Alice Maciel, publicada nesta sexta-feira (11) pelo ICL Notícias, coloca nesta segunda categoria a descoberta de que a Bravo Grafeno, empresa de capacetes da qual Flávio Bolsonaro é sócio, está registrada na Sala 2601 do Edifício Connect Towers, em Águas Claras, Brasília, exatamente o mesmo endereço utilizado por pelo menos 16 empresas vinculadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, o chamado Careca do INSS.

O dado isoladamente não demonstra participação de Flávio Bolsonaro nas fraudes investigadas no INSS, e a própria reportagem registra que ele já negou envolvimento no escândalo. O problema começa quando se descobre que a proximidade aparentemente não se limita ao CEP. Segundo o ICL, a Bravo Grafeno utilizou também serviços da mesma estrutura contábil associada às empresas do Careca do INSS. A Voga Serviços Contábeis pertence a Alexandre Caetano dos Reis, ex-sócio de Antunes em uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas e responsável também pela contabilidade do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Alexandre está preso e aparece nas investigações como contador de diferentes empresas relacionadas ao Careca do INSS.

A Sala 2601 torna-se ainda mais interessante quando se olha quem passou por ela. O ICL encontrou pelo menos 16 empresas ligadas ao Careca do INSS registradas naquele endereço, atuando em ramos tão variados quanto consultoria, construção, incorporação, comércio, locação de veículos e call center. Entre elas está a Prospect Consultoria Empresarial, apontada pela reportagem, com base no relatório final da CPMI, como receptora de R$ 204,2 milhões de nove entidades investigadas. O endereço cadastral da Prospect? A mesma Sala 2601.

É nesse ambiente empresarial extraordinariamente povoado que aparece a Bravo Grafeno, aberta pela família Bolsonaro em junho de 2024, com capital social de R$ 100 mil. Além de Flávio Bolsonaro, a reportagem identifica Carlos Bolsonaro e outros três sócios na empresa, enquanto Jair Bolsonaro já participou da sociedade e aparece como garoto-propaganda dos capacetes. Mais interessante ainda é que alguns personagens associados à empresa reaparecem em outros episódios envolvendo Flávio Bolsonaro: um dos sócios teve ligação empresarial com Marcello de Oliveira Lopes, que, segundo a reportagem, enviou R$ 1 milhão à produtora do filme Dark Horse em dezembro de 2025.

Eis o ponto politicamente mais relevante. Não se trata de transformar endereço compartilhado em prova criminal, coisa que ele evidentemente não é. Trata-se de perceber que, à medida que diferentes investigações avançam, começa a aparecer uma geografia bastante concentrada de pessoas, empresas, contadores, escritórios, endereços e negócios. Os personagens mudam, mas os círculos parecem surpreendentemente próximos. Quando se puxa um fio relacionado ao INSS, aparecem relações que alcançam estruturas empresariais ligadas à família Bolsonaro; quando se puxa outro relacionado ao Banco Master e ao financiamento de Dark Horse, alguns personagens e conexões empresariais voltam a surgir.

Por isso, talvez a charge que acompanha este texto não seja tão exagerada quanto parece. A faixa “Pequenas empresas, grandes negócios” funciona como ironia justamente porque a questão deixou de ser o tamanho formal das empresas envolvidas. O que importa é compreender a dimensão das redes econômicas e políticas que podem circular por trás de CNPJs aparentemente modestos, escritórios de contabilidade, salas de coworking e sociedades empresariais que, vistas separadamente, parecem banais.

A reportagem do ICL não prova que Flávio Bolsonaro tenha participado do esquema atribuído ao Careca do INSS. Mas revela uma proximidade empresarial suficientemente concreta para exigir explicações muito melhores do que a palavra “coincidência”. Afinal, quando uma única sala de Brasília consegue acomodar tantas empresas, tantos personagens e tanto dinheiro, talvez o problema já não seja saber quantos metros quadrados ela possui. O mais interessante é descobrir quantos negócios cabem dentro dela.

Flávio Bolsonaro e Luis Inácio: duas faces da mesma moeda fiscal

Enquanto as campanhas disputam o campeonato de arremesso de lama, ambas escondem do eleitor o arrocho preparado para começar em 2027

A estas alturas do campeonato, parece estar ficando claro que o torneio de arremesso de lama entre as campanhas de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio  beneficia ambos, ainda que abra algum espaço para um crescimento não pactuado dos votos em Augusto Cury.

Além desse ganho comum, a fixação nos supostos poderes demoníacos das duas candidaturas majoritárias serve apenas para esconder que, na pauta comportamental, uma delas é essencialmente a versão piorada da outra. O que permanece obscurecido em meio à trama das acusações recíprocas de corrupção é que ambas carregam programas de arrocho fiscal prontos para entrar em vigor já no primeiro dia de 2027. Sob o ruído cuidadosamente alimentado da polarização, Flávio Bolsonaro e Luis Inácio aparecem, assim, como faces distintas de uma mesma moeda fiscal.

O desconhecimento dessa convergência pela maioria dos eleitores acaba contribuindo para o avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas. Além de enfrentar o desgaste inerente a quem governa, o governo de Luis Inácio vem tornando cada vez mais difícil que milhões de brasileiros consigam se proteger debaixo do cobertor, já curto, dos programas sociais que deveriam minimizar seu sofrimento. Essa é uma das principais razões para a aproximação de Flávio Bolsonaro. Embora os planos do primogênito de Jair Bolsonaro apontem para encurtar ainda mais esse cobertor, a maioria vive as urgências do presente e dispõe de poucos elementos para avaliar um futuro que se anuncia cinzento, seja qual for o candidato escolhido.

Por isso, a tentativa de Luis Inácio de chegar a um quarto mandato somente se tornará viável se ele disser com clareza o que pretende fazer, objetivamente, para melhorar a vida daqueles que mais vêm perdendo sob sua batuta. Não bastará afirmar que Flávio Bolsonaro representa algo pior, sobretudo quando o presente oferecido pelo governo Lula já se mostra ruim para quem vive do próprio trabalho e não participa das festinhas animadas do andar de cima. É justamente aí que a porca torce o rabo: quando chega a hora de abandonar o campeonato de lama e apresentar uma alternativa concreta ao arrocho fiscal, as diferenças entre as duas principais candidaturas começam a parecer bem menores do que seus marqueteiros gostariam que o eleitor percebesse.

Daniel Vorcaro, médico-legista do Brasil do andar de cima

Entre whisky caro, cifras milionárias, ministros, parlamentares e um estranho Cavalo de Troia chamado Dark Horse, o caso Master expõe as entranhas de um poder que cobra moralidade dos pobres enquanto festeja longe deles

Os últimos acontecimentos envolvendo Daniel Vorcaro são reveladores da forma como funciona o Brasil do andar de cima. As revelações envolvem não apenas ministros do STF, mas alcançam também membros estrelados do Congresso Nacional. As cifras arroladas são consideráveis, e a mistura de personagens é de impressionar até quem observa o que acontece nos palácios e tribunais com um mínimo de distanciamento crítico.

Entre as coisas que saltam aos olhos, o que mais me chama a atenção é que todos os purismos e reservas cobrados dos pobres em termos de etiqueta e comportamento não são absolutamente seguidos por quem pode participar de festas luxuosas, regadas a whisky caro e frequentadas por jovens mulheres que certamente sabem o tipo de entretenimento que se espera delas.

O que realmente importa é que muitas das relações e decisões que agora deixam ministros do STF em um emaranhado de situações embaraçosas para quem diz prezar o decoro público eram mais do que conhecidas pela classe política que, não raras vezes, era copartícipe das festinhas — vamos chamá-las assim — que Daniel Vorcaro promovia para atrair os incautos, que depois se tornavam parceiros, tal como moscas são parceiras das aranhas enquanto balançam presas em suas teias.

Mas o que realmente importa para mim é que todos esses acontecimentos burlescos nos ajudam a entender como certas decisões claramente danosas para o país e para a maioria da população são aprovadas pelo Congresso Nacional e depois mantidas pelos tribunais superiores. É muita convergência de interesses para que haja algum desvio do percurso que começa a ser traçado em festas para as quais o povo jamais é chamado a participar.

Uma nota especial deve ser reservada para a situação cada vez mais inexplicável que cerca o filme Dark Horse, que vai se mostrando um verdadeiro Cavalo de Troia para Flávio Bolsonaro. Uma pergunta que tenho visto poucos fazerem é por que Daniel Vorcaro teria interesse em investir pelo menos R$ 61 milhões em um filme cuja marca maior seria trazer para dentro do projeto um ator cuja carreira já vinha em declínio, marcado por suas ligações com a extrema-direita e por escolhas ruins de casting. O que parece transparecer é que Vorcaro não estaria simplesmente apostando no retorno comercial de uma produção cinematográfica, mas mirando o futuro político, principalmente um futuro em que a família Bolsonaro voltasse a comandar o país. Diante do que já veio à tona, essa é a hipótese que me parece mais plausível a esta altura do campeonato.

Por outro lado, toda essa exposição do que agora aparece como as entranhas do poder político confere a Daniel Vorcaro um papel que ele provavelmente jamais almejou: o de uma espécie de médico-legista de um sistema político que está morto em pé. Quanto mais aparecem as relações construídas nos salões reservados, nas festas privadas e nos encontros entre personagens dos poderes político, econômico e judiciário, mais difícil fica sustentar a ficção de que determinadas decisões públicas são tomadas em ambientes impermeáveis aos interesses privados.

O problema agora é reconhecer que já passou da hora de ficarmos escolhendo entre o mal menor. É preciso assumir uma postura ativa em defesa da construção de uma nova ordem política em que esse tipo de festa de arromba se torne impossível, não por alguma súbita conversão moral daqueles que frequentam o andar de cima, mas pela postura ativa da maioria pobre e trabalhadora que, afinal, é quem produz a riqueza que torna este país um dos mais ricos do planeta.

Do Nepal ao Brasil: a adaptação climática deixou de ser escolha e virou questão de sobrevivência

Em artigo publicado nesta quinta-feira (10/09), na seção Tendências/Debates da Folha de S.Paulo, os pesquisadores Paulo Artaxo, Augusto Getirana e Pedro Henrique de Christo fazem um alerta que deveria ocupar lugar central no debate público brasileiro: diante do avanço da crise climática, antecipar os impactos já não é apenas desejável; tornou-se condição para reduzir mortes, perdas econômicas e destruição de infraestrutura.

Intitulado “Do Nepal ao Brasil, antecipação é decisiva para a adaptação climática”, o texto parte do recente colapso glacial ocorrido na região de Langtang Lirung, no Nepal. O evento produziu uma violenta enxurrada associada ao derretimento de gelo, capaz de destruir estradas, pontes, instalações e comunidades em poucos minutos. O ponto importante levantado pelos autores é que tais acontecimentos deixaram de poder ser tratados simplesmente como “desastres naturais”. O aquecimento do clima está alterando rapidamente as condições que controlam geleiras, chuvas extremas, secas, enchentes e deslizamentos, enquanto boa parte das sociedades continua planejando o território com base em um clima que já não existe.

Há ainda uma dimensão de justiça climática que merece destaque. Como observam Artaxo, Getirana e de Christo, o Nepal contribuiu muito pouco para a crise climática global, mas figura entre os países mais vulneráveis aos seus efeitos. Essa assimetria recoloca no centro do debate a responsabilidade histórica das grandes economias emissoras e a necessidade de financiamento, transferência tecnológica e cooperação internacional para adaptação. Não basta reconhecer que certos países e populações são vulneráveis; é necessário criar condições materiais para que possam se proteger.

Para o Brasil, o alerta ganha uma dimensão adicional diante do Super El Niño de 2026-2027, mencionado pelos autores como potencial amplificador de extremos climáticos. Ondas de calor, secas na Amazônia e no Nordeste, enchentes, tempestades e deslizamentos no Sul e em áreas costeiras poderão testar duramente sistemas urbanos e infraestruturas que já demonstram fragilidades mesmo sob condições menos extremas. O problema torna-se particularmente grave porque nossas cidades cresceram, em grande medida, ignorando rios, encostas, áreas inundáveis e limites ambientais.

Um aspecto especialmente relevante do artigo é a defesa da antecipação. Isso significa abandonar a lógica predominante segundo a qual governos esperam o desastre ocorrer para então mobilizar Defesa Civil, decretar emergência e contabilizar prejuízos. Os autores defendem o fortalecimento de sistemas de monitoramento e alerta, modelos climáticos e hidrológicos de maior resolução, protocolos de segurança, intervenções de urbanismo climático e novas formas de governança capazes de transformar previsões científicas em medidas concretas de proteção.

Essa discussão é particularmente pertinente no Brasil, onde existe conhecimento técnico suficiente para identificar muitas das áreas que sofrerão com enchentes, deslizamentos, secas ou calor extremo, mas frequentemente falta transformar esse conhecimento em planejamento territorial, investimento público e políticas preventivas permanentes. A tragédia, portanto, muitas vezes começa bem antes da chuva, da enchente ou da onda de calor: começa quando alertas científicos são ignorados, obras de prevenção são adiadas e a ocupação de áreas vulneráveis continua sendo tolerada.

O artigo de Paulo Artaxo, Augusto Getirana e Pedro Henrique de Christo, publicado pela Folha de S.Paulo, traz assim uma mensagem simples, mas incômoda: não podemos impedir todos os eventos extremos que já foram colocados em movimento pela mudança climática, mas podemos decidir quantas pessoas estarão expostas a eles e quão devastadores serão seus efeitos. Em tempos de Super El Niño e aquecimento global acelerado, esperar o desastre para agir não constitui falta de previsão. É uma escolha política.

A Terra entrou no modo autoforno: aquecimento pode gerar mais 0,4 °C até 2100

Estudo publicado na Environmental Research Letters mostra que o calor provocado pelas emissões humanas está ativando novas liberações de CO₂ e metano pela própria natureza

Um artigo publicado em 10 de setembro de 2026 na revista científica Environmental Research Letters, da IOP Publishing, traz um alerta particularmente incômodo: as projeções climáticas podem estar subestimando o aquecimento futuro porque muitos modelos ainda não representam adequadamente as emissões de gases de efeito estufa provocadas pelo próprio aumento da temperatura. Intitulado “Projected amplification of global warming by warming-induced greenhouse gas emissions”, o estudo foi produzido por Sam Abernethy, Danielle Monteverde, Christina Schädel, Brian Buma, Philip B. Duffy, Robert B. Jackson, Susan M. Natali, Ilissa Ocko, Brendan M. Rogers e Benjamin Poulter.

O mecanismo analisado é uma típica retroalimentação climática positiva. As atividades humanas emitem dióxido de carbono e metano, a concentração desses gases aquece o planeta e o aumento da temperatura, por sua vez, estimula novas emissões provenientes de fontes naturais. Entre elas estão o degelo do permafrost, as áreas úmidas, lagos e rios e os incêndios florestais. O sistema climático deixa, portanto, de funcionar apenas como receptor das emissões humanas e passa a amplificá-las.

Por outro lado, com base em estimativas produzidas por modelos de processos naturais em três cenários socioeconômicos — SSP1-2.6, SSP2-4.5 e SSP4-6.0 —, a equipe calculou que as emissões de metano induzidas pelo aquecimento, considerando conjuntamente permafrost, áreas úmidas, águas continentais e incêndios, aumentam cerca de 97 milhões de toneladas por ano para cada grau adicional de aquecimento. No caso do dióxido de carbono liberado pelo permafrost e pelos incêndios, o acréscimo estimado chega a aproximadamente 7 bilhões de toneladas anuais por grau nos cenários intermediários analisados.

Ao incorporar essas emissões ao modelo climático MAGICC, os autores estimaram um acréscimo de 0,2 °C a 0,4 °C na temperatura global até 2100. Pode parecer pouco para quem ainda imagina a temperatura planetária como a regulagem doméstica de um aparelho de ar-condicionado, mas esse aumento representaria uma amplificação de 20% a 30% do aquecimento antropogênico posterior a 2020. Em um planeta que já se aproxima perigosamente dos limites estabelecidos pelo Acordo de Paris, algumas frações de grau podem separar impactos graves de transformações potencialmente irreversíveis.

O trabalho também indica que dióxido de carbono e metano contribuiriam em proporções aproximadamente equivalentes para esse aquecimento adicional. Esse resultado reforça a importância de reduzir rapidamente as emissões de metano, cujo tempo de permanência na atmosfera é menor que o do CO₂, mas cujo poder de aquecimento é muito superior no curto prazo. Ao mesmo tempo, mostra que a redução do metano não substitui a necessidade de eliminar as emissões de carbono provenientes dos combustíveis fósseis.

As estimativas carregam incertezas expressivas: os autores calculam uma margem de aproximadamente 0,2 °C para o aquecimento adicional e uma faixa de 10 a 30 pontos percentuais para sua amplificação relativa. O estudo combina resultados de modelos de processos com um modelo climático simplificado, não constituindo uma previsão exata do que ocorrerá. Ainda assim, a incerteza não oferece conforto, pois funciona nos dois sentidos: o efeito real pode ser menor, mas também pode superar a estimativa central.

A principal mensagem do artigo é que os chamados “orçamentos de carbono” talvez estejam sendo tratados com uma precisão que não possuem. Se parte relevante das emissões naturais induzidas pelo aquecimento continua ausente dos modelos utilizados para estimar quanto ainda poderíamos emitir, então o espaço disponível para manter o aquecimento abaixo de 1,5 °C ou mesmo de 2 °C pode ser menor do que se supõe.

O  artigo publicado na Environmental Research Letters desmonta definitivamente a confortável fantasia de que ainda dispomos de tempo para uma transição climática lenta, subordinada aos calendários eleitorais e às taxas de retorno dos investimentos. Quanto mais o aquecimento avança, maior se torna a possibilidade de que florestas, solos congelados, áreas úmidas e ambientes aquáticos liberem quantidades adicionais de gases de efeito estufa. Nesse processo, a demora não apenas acumula emissões humanas: ela fortalece mecanismos naturais capazes de tornar o controle do aquecimento ainda mais difícil, caro e incerto.

Agrotóxicos proibidos na Europa seguem liberados no Brasil

Um artigo publicado na revista Ciencia Digna, da Unión de Científicos Comprometidos con la Sociedad y la Naturaleza de América Latina (UCCSNAL), expõe de forma contundente a desigualdade regulatória que marca o uso de agrotóxicos no Brasil. Assinado por Sonia Corina Hess e Leonardo Melgarejo , o estudo mostra que, entre 429 ingredientes ativos químicos analisados, 223 não tinham uso autorizado na União Europeia.Desses, 190 estavam presentes em 1.891 produtos comerciais registrados no Brasil e responderam por cerca de 289 mil toneladas comercializadas em 2023.

A lista inclui substâncias amplamente utilizadas no país, como acefato, clorotalonil, atrazina, S-metolacloro, glufosinato de amônio e diquate. O ponto central não é apenas que a Europa adota regras diferentes, mas que muitos desses ingredientes estão associados a riscos relevantes à saúde humana e ao ambiente, incluindo toxicidade aguda, desregulação endócrina, genotoxicidade, contaminação de águas e danos a organismos não alvo.

O contraste fica ainda mais incômodo quando se observa que o banimento europeu não significou necessariamente redução de uso no Brasil. O mancozebe, proibido na União Europeia em 2021, teve sua comercialização brasileira ampliada de 41,7 mil toneladas em 2022 para 52,3 mil toneladas em 2023. Já o clorotalonil, banido na Europa em 2019, passou de aproximadamente 16,7 mil toneladas naquele ano para mais de 41 mil toneladas em 2023.

Hess e Melgarejo chamam atenção também para as chamadas “áreas de sacrifício”, territórios onde indicadores de câncer, suicídios e anomalias congênitas aparecem acima das médias nacionais e podem estar associados à exposição a agrotóxicos. A proposta dos autores é combinar o banimento das substâncias já proibidas na Europa com medidas territoriais de proteção, especialmente em assentamentos de reforma agrária, áreas indígenas, unidades protegidas e regiões de transição agroecológica.

O artigo da Ciencia Digna coloca, portanto, uma questão que deveria ocupar o centro do debate público brasileiro: se determinadas substâncias são consideradas perigosas demais para permanecer no mercado europeu, por que trabalhadores, comunidades rurais, consumidores e ecossistemas brasileiros continuam expostos a elas? O problema não é apenas toxicológico. É também político e econômico, porque revela uma divisão internacional do risco em que alguns países conseguem impor limites mais rigorosos, enquanto outros seguem funcionando como espaço de absorção dos custos ambientais e sanitários do agronegócio.

Cui bono? Dark Horse e a tentativa de decapitar a Polícia Federal

Operação da PF sobre o financiamento de Dark Horse torna ainda mais inquietante a tentativa de André Mendonça de afastar simultaneamente os responsáveis pela direção e pela inteligência da instituição

A operação deflagrada nesta quinta-feira (10) pela Polícia Federal acrescentou uma peça importante ao quebra-cabeça que envolve o Banco Master, Vorcaro, o filme Dark Horse e a crise instalada no Supremo Tribunal Federal. A Operação Make Up cumpriu 49 mandados de busca e apreensão e atingiu, entre outros, o deputado federal Mario Frias e Karina Gama, produtora do filme sobre Jair Bolsonaro. A investigação, autorizada pelo ministro Flávio Dino e realizada em conjunto com a Controladoria-Geral da União, apura suspeitas de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares e movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas.

O que torna a operação particularmente relevante é que Dark Horse aparece em duas frentes investigativas distintas. Enquanto a investigação sob relatoria de Flávio Dino procura esclarecer o possível uso irregular de recursos públicos, outra apuração, inserida no caso Master e sob relatoria de André Mendonça, investiga repasses relacionados ao financiamento privado do filme e sua conexão com  Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro.

É diante desse cenário que a tentativa de André Mendonça de afastar simultaneamente Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Leandro Almada, diretor de Inteligência da instituição, precisa ser examinada com especial atenção.  André Mendonça justificou sua decisão afirmando ter sido vítima de um “monitoramento sistemático” e ilegal realizado pela inteligência da PF. É uma acusação grave e que evidentemente precisa ser investigada. O problema começa quando aquele que se considera vítima dos atos investigados utiliza seus poderes jurisdicionais para afastar justamente os dirigentes da instituição responsável pela produção das informações que o atingem.

Foi precisamente essa contradição que Flávio Dino apontou ao determinar a reintegração dos dois delegados. Segundo Dino, André Mendonça não poderia transformar a defesa de seus próprios direitos em fundamento para uma decisão “em causa própria”, sobretudo quando o efeito concreto seria interferir na continuidade de investigações em andamento.   O ministro Flávio Dino destacou ainda que a substituição abrupta da direção e da inteligência da PF poderia comprometer equipes, fluxos de informação e o cumprimento das próprias determinações judiciais.

E aqui chegamos à velha pergunta latina: cui bono? A quem beneficia?  Não é necessário afirmar que André Mendonça decidiu afastar Andrei Rodrigues e Leandro Almada com a intenção de proteger  Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro personagem das investigações. Não existem, até este momento, elementos públicos suficientes para fazer essa afirmação. Mas existe uma pergunta perfeitamente legítima sobre os efeitos objetivos da decisão: quem seria beneficiado pela desorganização da direção da Polícia Federal justamente quando diferentes investigações começam a convergir sobre Dark Horse, recursos públicos, Vorcaro e personagens politicamente ligados ao bolsonarismo?

A operação desta quinta-feira torna essa pergunta ainda mais incômoda. Andrei Rodrigues chegou a argumentar perante Flávio Dino que seu afastamento estava interferindo diretamente na organização da equipe responsável pelo caso Dark Horse, retardando o acesso ao material investigado e comprometendo a rapidez da apuração.  Portanto, já não estamos discutindo uma consequência abstrata. O próprio diretor-geral da PF afirmou judicialmente que a decisão de André Mendonça estava produzindo efeitos sobre uma investigação concreta que agora resulta em 49 mandados de busca e apreensão.

Há ainda outra dimensão que não pode ser ignorada. André Mendonça é o relator do caso Master e, ao mesmo tempo, tornou-se personagem da controvérsia produzida pelos relatórios da inteligência da Polícia Federal. Com sua decisão, passou a ocupar simultaneamente as posições de autoridade atingida pelos relatórios, julgador da legalidade desses documentos e responsável pelo afastamento daqueles que comandavam a instituição que os produziu. Juristas ouvidos pelo UOL apontaram justamente essa sobreposição como uma das vulnerabilidades da decisão.

Nada disso prova que André Mendonça esteja tentando proteger alguém. Mas demonstra por que a aparência de conflito de interesses tornou-se praticamente incontornável.  E existe uma coincidência temporal difícil de ignorar: menos de 48 horas depois da tentativa de decapitar a direção e a inteligência da Polícia Federal, a instituição colocou nas ruas uma operação que alcança justamente o universo político e financeiro de Dark Horse.  Talvez seja por isso que a pergunta mais importante neste momento não seja descobrir antecipadamente quais eram as intenções de André Mendonça. Em instituições republicanas, intenções são difíceis de demonstrar; consequências são muito mais fáceis de observar.

E a consequência potencial daquela decisão era bastante concreta: retirar simultaneamente o diretor-geral e o diretor de Inteligência de uma Polícia Federal que está investigando alguns dos personagens política e financeiramente mais poderosos do país.  Por isso, diante da Operação Make Up, vale repetir a velha pergunta que costuma ser particularmente útil quando dinheiro, poder e política começam a circular pelos mesmos corredores: 

Cui bono? Quem ganharia com uma Polícia Federal decapitada justamente agora?