Novo acidente da CSN em Congonhas mostra que as mineradoras continuam brincando com a tragédia em Minas Gerais

Vazamento de minério atinge cursos d’água e se soma a uma sequência de incidentes ocorridos em Congonhas em 2026. Depois de Mariana e Brumadinho, a pergunta inevitável é: quantos sinais ainda serão necessários para que o princípio da precaução prevaleça sobre os interesses das mineradoras?

Um novo acidente envolvendo a mineração em Congonhas, Minas Gerais, deveria acender todas as luzes vermelhas dos órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental e pela segurança das estruturas minerárias. Na quinta-feira, 6 de agosto, ocorreu um vazamento em uma tubulação utilizada pela CSN Mineração para transportar pellet feed na Mina Casa de Pedra. Segundo informações divulgadas após fiscalização, o material extravasado alcançou o córrego Maria José, e a ocorrência foi caracterizada como acidente ambiental. A empresa deverá ser autuada por dano ambiental.

A CSN procurou minimizar o episódio, afirmando que teria ocorrido um vazamento “pontual” e “limitado”, rapidamente interrompido após a identificação do problema. O ponto fundamental, entretanto, não é apenas a quantidade de material que escapou desta vez, mas a recorrência de incidentes em uma região intensamente ocupada pela mineração e na qual estruturas industriais e áreas urbanas convivem perigosamente próximas.

Este já é o quarto incidente envolvendo estruturas de mineradoras registrado em Congonhas somente em 2026. Os três anteriores ocorreram em janeiro, período em que fortes chuvas provocaram diferentes ocorrências envolvendo estruturas da Vale e da própria CSN. Entre elas esteve um episódio na área de Fraile, pertencente à CSN. Naquele momento, a sucessão de problemas já havia levado a Prefeitura de Congonhas a adotar medidas de paralisação temporária de atividades minerárias.

A repetição dos episódios deveria produzir uma pergunta bastante simples: até quando será considerado aceitável manter normalmente atividades minerárias diante de uma sequência tão curta de acidentes, extravasamentos e falhas em estruturas de contenção e transporte?

Não se trata de defender que qualquer ocorrência isolada determine automaticamente o encerramento definitivo de um empreendimento. Trata-se de aplicar seriamente o princípio da precaução. Diante da recorrência dos incidentes, seria perfeitamente razoável perguntar por que determinadas operações não permanecem suspensas até que auditorias técnicas efetivamente independentes demonstrem que as causas dos episódios foram identificadas, que as estruturas estão seguras e que medidas capazes de impedir novas ocorrências foram implementadas.

Em Minas Gerais, essa pergunta possui um peso histórico impossível de ignorar. Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana, matou 19 pessoas e lançou rejeitos de mineração ao longo da bacia do Rio Doce. Pouco mais de três anos depois, em janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho matou 270 pessoas. Os dois episódios transformaram Minas Gerais numa espécie de símbolo mundial das consequências que podem resultar da combinação entre mineração intensiva, estruturas de rejeitos de grande porte e falhas nos sistemas de prevenção, fiscalização e responsabilização.

E Congonhas possui um componente que torna qualquer complacência ainda mais preocupante: a Barragem Casa de Pedra, pertencente à CSN Mineração.

Há anos existem preocupações públicas acerca da proximidade dessa estrutura com bairros da cidade. Em 2019, o Ministério Público de Minas Gerais chegou a anunciar ação civil pública contra a CSN diante de incertezas relacionadas à segurança da barragem, destacando justamente que um eventual rompimento poderia atingir a área urbana de Congonhas. Naquele mesmo período, moradores cobravam a paralisação das atividades diante dos riscos percebidos associados à estrutura.

É importante registrar que a CSN afirma atualmente que a Barragem Casa de Pedra é estável, construída pelo método a jusante, atende aos critérios de segurança previstos na legislação e passa periodicamente por auditorias externas independentes. Essa posição da empresa, contudo, não elimina a dimensão do dano potencial associado à localização de uma grande estrutura de rejeitos nas proximidades de áreas habitadas.

É justamente aí que reside a questão central. Segurança de barragens não pode ser avaliada apenas pela probabilidade estatística de rompimento, mas também pela magnitude das consequências caso uma falha efetivamente aconteça. Quando uma estrutura possui potencial para atingir bairros inteiros, a tolerância institucional ao risco deveria ser próxima de zero.

Depois de Mariana e Brumadinho, ninguém em Minas Gerais pode alegar desconhecimento sobre o que uma barragem de rejeitos é capaz de produzir. Em ambos os casos, o desastre mostrou brutalmente que avaliações técnicas, sistemas de monitoramento e mecanismos formais de licenciamento não constituem, por si mesmos, garantia absoluta contra uma catástrofe.

Por isso, o novo acidente envolvendo a CSN não deveria ser tratado simplesmente como mais um “vazamento pontual”. Ele precisa ser interpretado dentro de um quadro mais amplo de recorrência de incidentes minerários em Congonhas e de uma atividade econômica cujo potencial de dano ambiental e humano já foi demonstrado de maneira trágica em Minas Gerais.

O problema fundamental passa então a ser político e institucional: quantos incidentes são necessários para que os órgãos ambientais e de fiscalização considerem que a continuidade normal das operações representa um risco que não pode mais ser administrado apenas por multas, notificações e promessas empresariais de correção?

Multas aplicadas depois dos acidentes não recuperam integralmente cursos d’água contaminados. Tampouco sistemas de emergência conseguem devolver vidas depois de uma ruptura catastrófica. Mariana e Brumadinho deveriam ter ensinado definitivamente que, quando se trata de mineração e grandes estruturas de rejeitos, prevenir custa infinitamente menos — ambiental, social e humanamente — do que reparar.

Congonhas não pode ser transformada no local onde Minas Gerais descobrirá, pela terceira vez, que os sinais estavam presentes antes da tragédia. E quando esses sinais começam a se repetir, a pergunta deixa de ser apenas o que a CSN fará para reparar o vazamento desta semana. A pergunta que precisa ser dirigida ao governo de Minas Gerais, aos órgãos ambientais, à Agência Nacional de Mineração e ao Ministério Público é muito mais incômoda: o que ainda precisa acontecer para que a proteção da população e dos ecossistemas de Congonhas seja colocada acima da continuidade da produção mineral?

Governo do Rio de Janeiro recua e anuncia recriação da Secretaria de Ciência e Tecnologia: uma vitória da mobilização

Reação rápida da comunidade científica força o governo estadual a rever uma decisão equivocada, mas agora será preciso acompanhar o Diário Oficial para verificar se os compromissos anunciados serão efetivamente cumpridos

Menos de 24 horas depois deste  blog divulgar a extinção da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio de Janeiro (SECTI-RJ), que ficaria incorporada à estrutura da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, chega uma notícia que merece ser saudada: o governo estadual decidiu recuar e anunciou que recriará uma secretaria específica para a área de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Segundo reportagem publicada nesta sexta-feira (7) pelo Tempo Real RJ, assinada pelo jornalista João Pedro Lima, o governador em exercício, Ricardo Couto, assumiu o compromisso de recriar a secretaria em até dez dias. O anúncio ocorreu depois da forte reação provocada pela extinção da pasta entre pesquisadores, universidades e entidades representativas da comunidade científica fluminense.

A informação foi divulgada publicamente pela vereadora Tatiana Roque, que participou de uma reunião com o governador em exercício, parlamentares e representantes da comunidade científica. Além da recriação da secretaria, o governo anunciou a constituição de um comitê formado por reitores de universidades e integrantes da comunidade científica, que deverá participar da discussão sobre a estrutura e as atribuições da nova pasta.

Além das informações tornadas públicas pela vereadora Tatiana Roque, recebi comunicação direta do deputado estadual Carlos Minc (PSB), que me transmitiu essencialmente as mesmas informações: o governo estadual teria decidido recriar a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e constituir um espaço de interlocução com as universidades e a comunidade científica. A convergência entre as informações divulgadas pela vereadora e aquelas que me foram comunicadas diretamente pelo deputado Carlos Minc reforça a indicação de que houve, de fato, uma mudança de posição do governo estadual.

As duas medidas devem ser saudadas. A manutenção de uma estrutura administrativa própria para Ciência, Tecnologia e Inovação é fundamental para um estado que abriga algumas das principais universidades, instituições de pesquisa e centros de produção científica do Brasil. Igualmente positiva é a decisão de envolver as reitorias e representantes da comunidade científica na discussão sobre a estruturação da secretaria. Se esse diálogo for efetivo, poderá inclusive contribuir para que a pasta retorne mais fortalecida e com atribuições claramente definidas.

O episódio demonstra também que a mobilização pública produz resultados. A rápida reação das universidades, pesquisadores, entidades científicas, parlamentares e demais setores preocupados com o futuro da ciência fluminense obrigou o governo estadual a reconsiderar uma decisão que, caso permanecesse em vigor, representaria um inequívoco rebaixamento institucional da Ciência, Tecnologia e Inovação no estado do Rio de Janeiro.

Entretanto, entre o anúncio de uma decisão e sua efetiva materialização administrativa existe uma diferença importante. Por isso, o Blog do Pedlowski continuará acompanhando atentamente as próximas edições do Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro. O compromisso anunciado é de recriar a secretaria em até dez dias, e será no Diário Oficial que poderemos verificar a formalização da nova estrutura, suas atribuições, sua posição dentro da administração estadual e as demais medidas necessárias para transformar o anúncio político em realidade administrativa.

Há, finalmente, uma lição bastante óbvia que o governo estadual deveria retirar deste episódio: todo esse desgaste poderia ter sido evitado. Antes de extinguir uma secretaria responsável por uma área estratégica para o desenvolvimento econômico, social e tecnológico do Rio de Janeiro, o governador em exercício poderia — e deveria — ter ouvido justamente aqueles que conhecem o sistema estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação. Bastaria consultar as reitorias das universidades públicas sediadas no estado, pesquisadores, dirigentes das instituições científicas e entidades nacionais como a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Se essa consulta tivesse ocorrido antes da reforma administrativa, e não depois da reação provocada por ela, provavelmente o governo teria percebido antecipadamente a dimensão do equívoco que estava prestes a cometer. Política pública de ciência e tecnologia não deve ser construída por meio de decisões administrativas tomadas de cima para baixo, muito menos tratando a ciência como um apêndice de políticas de desenvolvimento econômico e interesses empresariais.

Por enquanto, fica registrada uma vitória importante da mobilização da comunidade científica fluminense, cuja reação rápida e contundente parece ter sido decisiva para produzir o recuo do governo estadual. Agora, porém, será preciso aguardar os próximos atos.  Afinal, como ensina o velho adágio derivado do jogo do bicho, “só vale o que está escrito”. E, neste caso, o que realmente valerá será aquilo que estiver formalmente publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro. Anúncios, compromissos e informações transmitidas por interlocutores políticos são importantes, mas a recriação da SECTI somente estará efetivamente consumada quando o ato correspondente aparecer preto no branco no DOERJ.

Por isso, como já disse, o Blog do Pedlowski ficará de olho — e com lupa — nas próximas edições do Diário Oficial para verificar o cumprimento do compromisso de recriação da SECTI. A mobilização da comunidade científica fluminense pode comemorar esta primeira e importante vitória, mas sem baixar a guarda.  Só vale o que está escrito. Até lá, aguardemos os próximos atos.

Maricá promove oficina de diagnóstico do Plano Local de Ação Climática

Oficina de diagnóstico do Plano Local de Ação Climática de Maricá

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O passivo do urânio em Caldas (MG): resíduos radioativos, águas contaminadas e os riscos de uma nova fronteira minerária

Mais de três décadas após o fim da mineração de urânio, rejeitos radioativos, drenagem ácida e plumas de contaminação permanecem ativos; novos projetos de terras raras podem ampliar uma “violência lenta” cujos riscos ficam no território enquanto os lucros circulam globalmente

A Informação Técnica nº 2/2026-Supes-MG, elaborada pela Superintendência do Ibama em Minas Gerais, oferece um retrato preocupante da situação ambiental do Planalto de Poços de Caldas. Mais do que avaliar apenas os novos projetos de mineração de terras raras previstos para a região, o documento chama atenção para um problema que deveria ocupar posição central em qualquer decisão sobre o futuro mineral daquele território: os graves passivos deixados pela mineração de urânio continuam ambientalmente ativos mais de três décadas depois do encerramento da produção.

As atividades de extração e beneficiamento de urânio para fabricação do chamado yellow cake ocorreram entre 1982 e 1995, mas o encerramento da mineração não significou o fim de seus impactos. Segundo o Ibama, permaneceu um passivo distribuído por aproximadamente 1.360 a 1.400 hectares, atualmente denominado Unidade de Descomissionamento de Caldas (UDC), sob responsabilidade das Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Nesse território permanecem uma cava de mineração inundada com águas acidificadas, bacias de rejeitos radioativos, depósitos de borra de enxofre e grandes estruturas de bota-fora contendo estéril capaz de gerar continuamente drenagem ácida de mina. A própria existência da UDC mais de trinta anos depois do fechamento da mina demonstra a extraordinária duração dos efeitos desse tipo de empreendimento, sendo que somente em janeiro de 2025 o Ibama emitiu a Licença de Operação nº 1.709/2025, estabelecendo obrigações para o descomissionamento, recuperação das áreas degradadas e tratamento contínuo de efluentes ácidos e radiológicos.

Os números apresentados pelo documento ajudam a dimensionar esse legado. Apenas o Bota-fora 4 contém mais de 100 milhões de toneladas de estéril gerador de drenagem ácida de mina; a Barragem de Rejeitos possui resíduos radioativos líquidos e sólidos, incluindo diuranato de cálcio (DUCA); a Barragem de Águas Claras acumula mais de 500 mil metros cúbicos de sedimentos químicos radioativos contendo DUCA; e os galpões da unidade armazenam aproximadamente 15 mil toneladas de Torta II e mesotório distribuídas por cerca de 25 mil bombonas. Estamos, portanto, muito longe da imagem de uma mineração encerrada e de um problema ambiental resolvido, pois o território continua abrigando materiais cuja gestão deve considerar simultaneamente toxicidade química, radiológica e persistência ambiental.

Um ponto particularmente importante é a determinação para que a INB atualize seu Programa de Gerenciamento de Materiais Radioativos considerando não apenas os critérios tradicionais de radioproteção, mas também a toxicidade química estável do urânio e do tório. O Ibama exige ainda a caracterização química e física de resíduos históricos como a chamada goianita e o inareno, sendo que a primeira apresenta composição semelhante à Torta II e altos teores de óxido de tório. Isso demonstra que o problema não pode ser reduzido à existência ou não de níveis de radiação acima dos limites normativos, pois urânio, tório e outros elementos associados aos processos de mineração também podem contaminar solos, sedimentos e águas e entrar nas cadeias alimentares.

Talvez um dos alertas mais graves da Informação Técnica esteja justamente relacionado à água subterrânea. O Ibama informa que existem plumas ativas de contaminação por drenagem ácida de mina a jusante do Bota-fora 4 e da Barragem de Rejeitos, demonstrando que parte do passivo ambiental possui mobilidade hidrogeológica. O problema se torna ainda mais preocupante porque o mesmo Planalto de Poços de Caldas está se transformando em uma nova fronteira de mineração de terras raras, com os projetos Caldeira, da Meteoric, e Colossus, da Viridis, prevendo dezenas de frentes de lavra de argilas iônicas e intervenções diretas no lençol freático.

O rebaixamento das águas subterrâneas necessário à operação dessas novas minas poderá modificar os gradientes hidráulicos e, consequentemente, alterar o comportamento das plumas provenientes da antiga mineração de urânio. Em outras palavras, uma nova mineração poderá modificar a trajetória de contaminantes deixados por uma atividade encerrada há mais de três décadas. O próprio documento reconhece que ainda não existem estudos integrados suficientemente capazes de estabelecer como os cones de rebaixamento provocados pelas futuras cavas poderão interferir nas plumas ácidas e radioativas da UDC, além de apontar lacunas no conhecimento sobre a circulação geoquímica profunda e os fluxos entre as sub-bacias do Ribeirão das Antas e do Ribeirão Soberbo.

Outra preocupação deriva dos próprios métodos previstos para extração das terras raras. As empresas pretendem processar depósitos de argilas iônicas através de lavagem e lixiviação química e, depois da retirada dos elementos de interesse econômico, devolver parte das chamadas “argilas lixiviadas” às cavas por meio de backfill. O Ibama alerta que essa alteração química pode promover lixiviação secundária e mobilização de metais pesados, urânio e tório naturalmente presentes na matriz mineral. Essa preocupação é reforçada por análises de águas subterrâneas da área do Projeto Caldeira que apresentaram concentrações de urânio total de 0,0117 mg/L e 0,0121 mg/L, valores já próximos do limite de 0,015 mg/L citado no documento para consumo humano. Por isso, foram exigidos estudos geoquímicos capazes de demonstrar que a disposição das argilas lixiviadas não produzirá contaminação secundária dos aquíferos.

Existe aí uma contradição que merece ser ressaltada. Os elementos de terras raras são frequentemente apresentados como minerais indispensáveis à chamada transição energética, mas sua extração poderá criar novas formas de degradação justamente sobre um território que já contém um dos passivos ambientais mais complexos associados à mineração de elementos radioativos no Brasil. A transição energética não elimina impactos ambientais simplesmente porque substitui um mineral por outro, sobretudo quando as novas operações podem interferir na mobilidade de contaminantes produzidos por ciclos anteriores de mineração.

Também preocupam as estruturas responsáveis pela contenção dos rejeitos. A UDC possui três grandes barramentos — a Barragem de Águas Claras, a Barragem de Rejeitos e a Barragem D4 — e o documento registra que auditorias independentes já apontaram problemas de estabilidade, com a Barragem de Rejeitos mantida em nível de alerta e apresentando sinais de deterioração. A introdução de novas escavações, movimentação pesada de máquinas e vibrações acrescenta mais um componente a esse sistema, sendo que o próprio documento admite que eventual comprometimento dessas estruturas poderia resultar no vazamento de rejeitos ácidos e sedimentos contendo urânio e tório para os sistemas do Ribeirão Soberbo e do Rio Verde.

A atmosfera constitui outra rota potencial de exposição. O aumento do tráfego e da movimentação de milhões de toneladas de solos poderá gerar poeira capaz de atingir setores da UDC onde permanecem resíduos radioativos secos e solos contaminados. O Ibama alerta que essa movimentação pode favorecer a ressuspensão de partículas contendo radionuclídeos de longa vida, aumentando a exposição por inalação das comunidades do entorno e da fauna silvestre. Não por acaso, o programa de monitoramento ambiental da UDC abrange um raio de dez quilômetros, justamente para acompanhar a possível circulação de urânio, tório, radônio e outros contaminantes através da atmosfera e das águas superficiais e subterrâneas.

A Informação Técnica incorpora ainda os riscos relacionados à mudança climática. Cenários de precipitações extremas concentradas, combinados com períodos prolongados de estiagem, podem aumentar a pressão sobre sistemas de contenção e drenagem. Durante chuvas torrenciais cresce o risco de transbordamento de águas ácidas armazenadas na cava inundada da antiga mina e de falhas em canais de drenagem, sendo que águas contaminadas poderiam alcançar novas cavas e transportar sedimentos e metais pesados para sistemas externos. A gestão dos resíduos radioativos precisa, portanto, considerar não apenas as condições ambientais históricas, mas um cenário climático potencialmente mais instável durante as próximas décadas.

Outro aspecto revelador é o reconhecimento de que o descomissionamento da UDC constitui um processo que já se prolonga por quase três décadas, marcado em diversos momentos por ações emergenciais e paliativas em função, inclusive, da instabilidade e das limitações dos recursos financeiros destinados à empresa pública responsável pelo passivo. Esse fato expõe uma incompatibilidade evidente: instalações associadas a materiais radioativos exigem tratamento de águas, manutenção de barragens, monitoramento hidrogeológico e acompanhamento da biota por períodos muito superiores aos ciclos administrativos e orçamentários convencionais.

É nesse ponto que a noção de violência lenta, desenvolvida por Rob Nixon, oferece uma chave particularmente poderosa para interpretar o caso de Caldas. Nixon utiliza essa expressão para tratar de formas de violência ambiental que não se manifestam necessariamente através de acontecimentos espetaculares como explosões ou rompimentos de barragens, mas se desenvolvem de forma gradual, acumulativa e muitas vezes invisível durante anos ou décadas. Drenagem ácida, contaminação de aquíferos, dispersão de radionuclídeos, bioacumulação e exposição prolongada de populações são exemplos particularmente claros dessa forma de violência, cuja baixa visibilidade imediata não reduz sua gravidade.

O caso de Caldas é praticamente paradigmático dessa lógica. A produção de urânio terminou em 1995, mas seus efeitos materiais continuam ativos mais de trinta anos depois, com enormes volumes de estéril acidificante, rejeitos contendo urânio e tório, barragens, águas contaminadas e plumas subterrâneas que ainda precisam ser monitoradas e tratadas. O encerramento econômico da mina não representou, portanto, o encerramento da produção de risco. No caso da mineração de elementos radioativos, essa dissociação temporal é especialmente grave, pois a vida econômica de uma jazida pode durar algumas décadas, enquanto seus resíduos e os processos de contaminação associados podem exigir cuidado por gerações. O lucro possui uma temporalidade curta; a contaminação pode possuir uma temporalidade muito mais longa.

A violência lenta também possui uma geografia profundamente desigual. Quem vive próximo às minas permanece sujeito aos riscos relacionados à qualidade da água, poeira, bioacumulação, barragens e circulação de contaminantes, enquanto os benefícios financeiros podem ser apropriados por empresas, acionistas, fundos de investimento e cadeias industriais situadas a centenas ou milhares de quilômetros dali. Em empreendimentos controlados ou financiados por capitais internacionais, parte dos beneficiários sequer reside no Brasil. Cria-se assim uma assimetria elementar: o lucro pode se desterritorializar enquanto o risco permanece territorializado, deixando para as populações próximas às minas a convivência cotidiana com rejeitos, barragens, cavas e águas que precisarão ser monitoradas por décadas.

Ignorar essa dimensão da violência lenta não é apenas uma deficiência analítica. Também facilita uma transferência política e econômica dos custos da mineração, pois permite contabilizar os benefícios no presente enquanto os danos ambientais são empurrados para o futuro e para populações que não participam proporcionalmente da apropriação dos ganhos. No Planalto de Poços de Caldas, essa questão se torna ainda mais grave porque o território poderá experimentar uma verdadeira sobreposição de violências lentas: os efeitos persistentes da mineração de urânio poderão passar a interagir com uma nova geração de impactos derivados da mineração de terras raras.

Por isso, uma das conclusões mais importantes da Informação Técnica é justamente que o conhecimento atual ainda não permite avaliar adequadamente os efeitos cumulativos, sinérgicos e de longo prazo produzidos pelo conjunto dos empreendimentos previstos para a região. O documento considera necessária uma Avaliação de Impacto Cumulativo capaz de examinar conjuntamente as interações geoquímicas, hidrogeológicas e radiológicas entre a UDC e os novos projetos de mineração. Essa abordagem é indispensável porque aquíferos, cursos d’água, sedimentos, partículas atmosféricas e organismos não reconhecem os limites administrativos usados para separar processos de licenciamento.

A experiência internacional analisada pelo próprio Ibama também mostra que passivos desse tipo exigem garantias institucionais muito superiores à duração das empresas responsáveis pela mineração. No Canadá foram criados mecanismos destinados a financiar permanentemente a manutenção das áreas após o encerramento das operações, enquanto na Alemanha os passivos da mineração de urânio chegaram a ser tratados como uma verdadeira “tarefa eterna” (Ewigkeitslasten). Por isso, a Informação Técnica propõe a criação de um Fundo de Custódia Institucional e a constituição de garantias financeiras vinculadas também aos novos projetos, capazes de manter tratamento e monitoramento mesmo diante da falência ou encerramento das empresas e evitando que futuros passivos sejam transferidos ao Estado.

A pergunta central colocada pelo documento do Ibama, portanto, não deveria ser simplesmente se os novos projetos de terras raras são economicamente viáveis ou tecnologicamente possíveis, mas se é ambiental e socialmente aceitável introduzir uma nova fronteira de mineração num território que ainda carrega os efeitos persistentes de uma mineração de urânio encerrada há mais de trinta anos. Sem avaliação cumulativa independente, garantias financeiras de longo prazo, monitoramento ambiental permanente e estruturas de governança capazes de atravessar gerações, existe o risco de que a chamada transição energética apenas reproduza uma velha lógica extrativa: os minerais mudam e os investidores podem mudar, mas os lucros continuam viajando enquanto os rejeitos e os riscos permanecem no território.

Glifosato não precisa matar as abelhas para ameaçá-las: estudo revela alterações no forrageamento e na química cerebral

Pesquisa publicada no Journal of Experimental Biology mostra que exposição subletal ao herbicida reduz a atividade de forrageamento das abelhas e altera processos neuroquímicos, somando-se a um conjunto crescente de evidências sobre impactos do glifosato em organismos não alvo e possíveis riscos à saúde humana

Durante décadas, uma das principais linhas de defesa utilizadas para sustentar a suposta segurança ambiental do glifosato esteve baseada no argumento de que seu mecanismo de ação teria como alvo uma via metabólica presente em plantas e microrganismos, mas inexistente nos animais. Um estudo publicado em maio de 2025 no Journal of Experimental Biology acrescenta novas evidências de que essa interpretação é insuficiente para compreender os efeitos ecológicos do herbicida.

O artigo, intitulado “Sublethal glyphosate exposure reduces honey bee foraging and alters the balance of biogenic amines in the brain“, tem como primeira autora Laura C. McHenry, pesquisadora que realizou o trabalho no Departamento de Entomologia da Virginia Tech, nos Estados Unidos. O estudo foi desenvolvido juntamente com Roger Schürch, McAlister Council-Troche, Aaron D. Gross, Lindsay E. Johnson, Bradley D. Ohlinger e Margaret J. Couvillon.

A importância da pesquisa começa justamente pelo conceito de exposição subletal. Em vez de perguntar apenas se determinada concentração de glifosato mata uma abelha, McHenry e seus colaboradores investigaram algo ecologicamente mais complexo: se uma concentração que não provoca mortalidade imediata é capaz de modificar comportamentos essenciais para a sobrevivência das abelhas e, consequentemente, para o funcionamento das colônias.

Os pesquisadores treinaram grupos de abelhas (Apis mellifera) das mesmas colmeias para visitar alimentadores artificiais contendo solução de sacarose. Um grupo recebeu apenas a solução açucarada, enquanto outro foi exposto a uma solução contendo glifosato na concentração de 5 mg de equivalente ácido por litro. Posteriormente, os pesquisadores compararam o comportamento de forrageamento e recrutamento das abelhas e analisaram substâncias relacionadas ao funcionamento do sistema nervoso desses insetos.

O resultado merece atenção: as abelhas expostas ao glifosato reduziram em 13,4% sua atividade de forrageamento. Os pesquisadores também encontraram alterações envolvendo a tiramina e relações entre tiramina, octopamina e tirosina no cérebro das abelhas. Essas chamadas aminas biogênicas desempenham funções importantes na regulação do comportamento dos insetos.

Isso significa que a toxicidade ambiental não pode ser medida exclusivamente contando organismos mortos. Uma abelha pode permanecer viva e, ainda assim, ter reduzida sua capacidade de executar atividades fundamentais para a colônia. Forragear significa localizar recursos, coletar néctar e pólen e contribuir para a manutenção energética e nutricional da colmeia. Uma redução persistente nessa atividade pode adquirir consequências que ultrapassam amplamente o indivíduo contaminado.

E existe aqui uma dimensão ainda maior. As abelhas estão entre os principais polinizadores dos ecossistemas terrestres e desempenham um papel fundamental tanto na reprodução de plantas silvestres quanto na produção agrícola. Assim, alterações aparentemente discretas no comportamento individual podem potencialmente produzir consequências em cascata quando milhões de indivíduos são continuamente expostos em paisagens agrícolas dominadas pelo uso intensivo de agrotóxicos.

O estudo de McHenry e colaboradores também não aparece isoladamente. Pesquisas anteriores já haviam identificado diversos efeitos subletais do glifosato sobre abelhas, incluindo alterações da homeostase fisiológica, desregulação imunológica, mudanças nos padrões de sono, redução da capacidade de navegação, menor resposta à sacarose e prejuízos à aprendizagem associativa e à retenção da memória olfativa. Os próprios autores recuperam essa literatura ao contextualizar seus resultados.

Outro resultado particularmente importante havia sido publicado em 2018 na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Erick V. S. Motta, Kasie Raymann e Nancy A. Moran demonstraram que o glifosato pode modificar a microbiota intestinal das abelhas, reduzindo populações de bactérias benéficas. As abelhas expostas tornaram-se posteriormente mais vulneráveis à bactéria oportunista Serratia marcescens. Em outras palavras, o herbicida pode produzir efeitos indiretos sobre um animal justamente porque interfere nos microrganismos dos quais esse animal depende.

Essa constatação desmonta uma simplificação recorrente no discurso sobre a segurança do glifosato. O fato de os animais não possuírem a via do chiquimato, que constitui o alvo primário do herbicida nas plantas, não significa automaticamente que estejam protegidos de seus efeitos. Animais vivem associados a comunidades microbianas, enquanto processos de estresse oxidativo, alterações metabólicas e outros mecanismos podem oferecer caminhos adicionais de toxicidade.

O problema vai muito além das abelhas

A literatura científica disponível indica que os efeitos potenciais do glifosato e de suas formulações comerciais precisam ser examinados em uma escala ecotoxicológica muito mais ampla. Estudos com organismos aquáticos, por exemplo, vêm relatando alterações fisiológicas, histológicas, metabólicas e comportamentais. Uma revisão sobre glifosato e seu principal produto de degradação, o AMPA, reuniu evidências de impactos em organismos aquáticos, particularmente peixes.

Uma síntese mais recente da ecotoxicidade do glifosato em ambientes aquáticos identificou efeitos associados a mecanismos como estresse oxidativo, inibição enzimática e alterações endócrinas, com possíveis consequências neurológicas, reprodutivas e de desenvolvimento em diferentes grupos taxonômicos. Isso é especialmente preocupante porque a utilização agrícola em grande escala cria múltiplas rotas pelas quais resíduos podem alcançar solos, águas superficiais e organismos que jamais foram o alvo da aplicação do herbicida.

Temos, portanto, um problema típico da agricultura quimicamente intensiva: o agrotóxico é aplicado para controlar uma espécie ou conjunto de espécies consideradas indesejáveis, mas sua circulação não respeita as fronteiras do campo cultivado. Deriva, escoamento superficial, transporte pelo solo e contaminação da água ampliam espacialmente a exposição e transformam uma decisão agronômica localizada em um problema potencialmente ecossistêmico.

E os seres humanos?

Quando passamos para a saúde humana, é necessário reconhecer que existe uma controvérsia científica e regulatória importante. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato no Grupo 2A, isto é, como “provavelmente carcinogênico para humanos”. A avaliação considerou evidência limitada de carcinogenicidade em seres humanos, evidência suficiente em animais experimentais e fortes evidências de genotoxicidade.

A associação epidemiológica com câncer continua sendo debatida. Uma meta-análise publicada em 2019 encontrou associação entre as categorias de maior exposição a herbicidas à base de glifosato e maior risco de linfoma não Hodgkin. Por outro lado, uma meta-análise posterior não encontrou associação estatisticamente significativa para linfoma não Hodgkin considerado em conjunto, embora tenha indicado que uma associação com determinados subtipos, particularmente o linfoma difuso de grandes células B, não poderia ser descartada.

Essa divergência é importante porque mostra que não se deve apresentar como consenso científico aquilo que continua sendo objeto de disputa. Também revela a diferença entre identificação de perigo e avaliação de risco. A classificação da IARC procura determinar se uma substância possui capacidade de provocar câncer sob determinadas condições de exposição; avaliações regulatórias procuram estimar o risco considerando níveis e formas específicas de exposição.

É justamente por isso que existe contraste entre instituições. Em 2023, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) informou que sua revisão não identificara “áreas críticas de preocupação” que impedissem a renovação da autorização do glifosato, embora tenha reconhecido lacunas de dados em determinados aspectos da avaliação.

Entretanto, novas evidências experimentais continuam aparecendo. Em 2025, pesquisadores ligados ao Global Glyphosate Study publicaram na revista Environmental Health os resultados de um experimento de carcinogenicidade realizado com ratos Sprague-Dawley expostos desde a vida pré-natal ao glifosato e a formulações comerciais contendo o herbicida. O estudo encontrou aumento estatisticamente significativo de diferentes tipos de tumores nos grupos expostos, inclusive em algumas das doses estudadas dentro de faixas utilizadas como referência regulatória.

Nenhum desses estudos, isoladamente, encerra a discussão sobre os riscos do glifosato. Mas o conjunto das evidências torna cada vez mais difícil sustentar a imagem de uma substância ambientalmente inócua simplesmente porque sua toxicidade aguda para determinados animais é relativamente baixa.

A morte não pode continuar sendo a única medida da toxicidade

É justamente nesse ponto que o trabalho liderado por Laura C. McHenry adquire relevância especial. A pergunta fundamental deixa de ser “quanto glifosato é necessário para matar uma abelha?” e passa a ser “o que acontece com uma abelha que permanece viva depois de ser exposta ao glifosato?”.

Essa mudança parece pequena, mas possui enormes implicações para a maneira como avaliamos agrotóxicos. Um organismo pode sobreviver e apresentar alterações na memória, orientação espacial, alimentação, reprodução, imunidade, microbiota ou comportamento. Quando esses efeitos atingem organismos sociais como as abelhas, alterações individuais podem potencialmente repercutir sobre a organização da colônia inteira.

E quando o organismo afetado é um polinizador, as consequências potenciais avançam ainda mais pela cadeia ecológica.  A pesquisa publicada no Journal of Experimental Biology contribui, portanto, para questionar um paradigma regulatório excessivamente concentrado na toxicidade aguda. Ecossistemas não são constituídos simplesmente por organismos “vivos” ou “mortos”. Eles dependem de relações ecológicas, comportamentos, processos fisiológicos, reprodução, comunicação, competição, mutualismos e inúmeras outras interações.

O glifosato pode não matar imediatamente uma abelha exposta a uma determinada concentração. Mas uma abelha que forrageia menos, navega pior, apresenta alterações neuroquímicas ou possui microbiota intestinal modificada não é ecologicamente equivalente a uma abelha não exposta.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das principais lições desse novo estudo: quando milhões de organismos são submetidos repetidamente a exposições subletais, aquilo que parece pequeno no laboratório pode deixar de ser pequeno na escala de uma paisagem agrícola inteira.  A pergunta que deveria orientar políticas públicas e sistemas de avaliação ambiental, portanto, não é apenas quanto de um agrotóxico um organismo consegue suportar antes de morrer. A questão deveria ser muito mais exigente: quanto é possível alterar silenciosamente o funcionamento dos organismos antes de comprometer também o funcionamento dos ecossistemas dos quais dependemos?

Ao extinguir a SECTI, governo do Rio rebaixa a ciência fluminense à condição de apêndice do mercado

A absorção da política de ciência, tecnologia e ensino superior por uma megassecretaria dedicada ao desenvolvimento econômico reduz sua autonomia institucional, enfraquece universidades e centros de pesquisa, amplia a influência empresarial sobre as prioridades científicas e pode representar o primeiro passo para a privatização gradual do sistema público estadual de produção do conhecimento

A decisão do governador em exercício do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, de extinguir a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação como órgão independente e incorporar sua estrutura a uma pasta ampliada de desenvolvimento econômico não representa uma simples mudança de organograma. Publicada no Diário Oficial desta quinta-feira, 6 de agosto de 2026, a medida cria a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio, Serviços, Ciência, Tecnologia e Inovação e reduz a formulação das políticas científicas, tecnológicas e de ensino superior à condição de uma subsecretaria submetida a uma estrutura administrativa hiperdimensionada.

O governo poderá apresentar a mudança como uma medida de racionalização administrativa, integração de políticas e redução de custos. Entretanto, a extinção de uma secretaria não elimina apenas um gabinete ou alguns cargos. Ela elimina um espaço institucional próprio de representação política, formulação estratégica e disputa pelo orçamento estadual. Ciência, tecnologia e ensino superior deixam de comparecer diretamente à mesa principal do governo e passam a depender da mediação de uma secretaria cuja agenda será inevitavelmente dominada por investimentos privados, incentivos fiscais, atração de empresas, mineração, energia, logística, comércio, serviços e geração imediata de empregos.

A diferença não é meramente simbólica. Em uma estrutura governamental, a posição hierárquica define quem participa das decisões, quem controla os fluxos administrativos, quem estabelece prioridades e quem possui capacidade de defender recursos. Um secretário de Estado pode dialogar diretamente com o governador, com a Secretaria de Fazenda e com a Secretaria de Planejamento. Um subsecretário responde, antes de tudo, ao titular da pasta à qual está subordinado. Com o rebaixamento, as demandas das universidades estaduais, da Faperj, da Faetec, da Fundação Cecierj e das demais instituições científicas terão de disputar espaço com interesses econômicos muito mais próximos dos grupos empresariais e da agenda cotidiana do governo.

Antes da mudança, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação congregava instituições estratégicas como a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), a Faperj, a Faetec, a Fundação Cecierj, o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico e o Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia. Essas instituições não constituem acessórios de uma política econômica. Elas formam um sistema público de produção de conhecimento, formação profissional, pesquisa básica, pesquisa aplicada, extensão universitária e democratização do acesso à educação.

Ao colocar esse sistema sob o comando de uma secretaria orientada prioritariamente pelos interesses da indústria, do comércio e dos serviços, o governo altera a própria concepção de ciência que deverá orientar as políticas públicas. A tendência será avaliar universidades, centros de pesquisa e programas de formação segundo critérios de retorno econômico imediato, capacidade de atrair investimentos, geração de patentes, contratos empresariais e atendimento às demandas do mercado. Áreas que não ofereçam resultados mercantis rápidos poderão ser apresentadas como pouco produtivas ou como despesas que deveriam ser reduzidas.

Esse enquadramento ameaça sobretudo a pesquisa básica, as Ciências Humanas, as Ciências Sociais, as artes, os estudos ambientais críticos e as investigações voltadas para problemas sociais que não interessam diretamente ao setor empresarial. Pesquisas sobre desigualdade, violência, degradação ambiental, conflitos territoriais, saúde pública, educação, racismo ou impactos socioambientais de grandes empreendimentos dificilmente serão consideradas prioritárias por uma estrutura governamental que interpreta inovação como sinônimo de competitividade empresarial.

Uma política científica séria não pode ser organizada exclusivamente a partir daquilo que as empresas já sabem que desejam. Parte essencial da ciência consiste justamente em produzir conhecimentos cujas aplicações ainda não são conhecidas, questionar modelos econômicos estabelecidos e investigar problemas que o mercado prefere ignorar. Quando a ciência é submetida administrativamente aos setores que poderão ser objeto de suas pesquisas, instala-se uma contradição estrutural: os potenciais investigados passam a influenciar a definição das prioridades dos investigadores.

Da produção de conhecimento à prestação de serviços

A fusão também poderá aprofundar uma tendência já presente nas políticas de ciência e tecnologia: a transformação das universidades públicas em prestadoras de serviços especializados para empresas. Em vez de o Estado financiar pesquisas definidas pela comunidade científica e pelas necessidades sociais, projetos poderão ser crescentemente condicionados à obtenção de parceiros privados, contrapartidas empresariais e metas de inovação comercial.

Nesse modelo, a universidade deixa de ser uma instituição pública relativamente autônoma, dedicada ao ensino, à pesquisa e à extensão, e passa a ser tratada como uma infraestrutura de apoio ao desenvolvimento empresarial. Laboratórios públicos, pesquisadores financiados pelo Estado e estudantes bolsistas podem ser mobilizados para reduzir custos de pesquisa e desenvolvimento de corporações privadas, enquanto os resultados economicamente apropriáveis são direcionados para quem possui capacidade de transformá-los em mercadoria.

Isso não significa que universidades e empresas não devam cooperar. O problema surge quando a cooperação deixa de ser uma possibilidade regulada pelo interesse público e se converte no critério dominante para definir o que merece ser pesquisado. A partir daí, a relevância científica e social tende a ser substituída pela rentabilidade potencial, e a universidade passa a responder mais rapidamente aos sinais emitidos pelo mercado do que às demandas da população.

O risco de privatização e o avanço do Sistema S

A mudança não privatiza automaticamente as universidades estaduais ou a educação profissional. A autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial das universidades está protegida pelo artigo 207 da Constituição Federal. Seria, portanto, impreciso afirmar que o decreto, isoladamente, extingue essa autonomia ou entrega imediatamente a Uerj, a Uenf ou a Faetec à iniciativa privada.

Entretanto, o rebaixamento institucional poderá criar condições políticas e administrativas para um processo gradual de privatização. Privatizar não significa apenas vender uma universidade. A privatização também pode ocorrer pela terceirização de atividades, pela cobrança crescente de serviços, pela transferência de cursos para organizações privadas, pelo financiamento condicionado a contratos empresariais, pela substituição de servidores efetivos por vínculos precários e pela entrega da formação profissional a entidades empresariais.

Nesse contexto, o Sistema S poderá aparecer como alternativa supostamente mais eficiente, flexível e próxima das necessidades do mercado. O governo poderá argumentar que instituições como Senai, Senac e outras entidades possuem maior capacidade de responder rapidamente às demandas empresariais por qualificação profissional. Com isso, a Faetec e outras estruturas públicas poderão perder recursos, cursos, infraestrutura e centralidade política.

O problema é que o Sistema S é administrado por entidades patronais e organiza sua oferta formativa a partir das necessidades dos setores econômicos que o controlam. Ele pode cumprir funções relevantes de formação profissional, mas não deve substituir uma política pública de educação tecnológica submetida ao controle democrático, à transparência estatal e às necessidades mais amplas da população.

Caso a nova secretaria passe a privilegiar convênios e contratos com essas entidades, o Estado poderá financiar uma estrutura controlada pelo empresariado enquanto enfraquece suas próprias instituições. O dinheiro continuará sendo público, mas as prioridades, os métodos de gestão e parte das decisões serão progressivamente deslocados para organizações privadas. Essa é uma das formas mais recorrentes de privatização contemporânea: não se vende formalmente o patrimônio, mas se esvazia a instituição pública até que a terceirização pareça inevitável.

A fragilização da Faperj e da pesquisa de longo prazo

A Faperj possui uma proteção constitucional importante. A Constituição do Estado do Rio de Janeiro estabelece a destinação anual de 2% da receita tributária estadual, deduzidas as transferências e vinculações legais, para o financiamento da pesquisa científica e tecnológica. Isso impede que a simples reorganização administrativa elimine formalmente sua fonte de recursos.

Contudo, a existência de uma vinculação constitucional não torna a Faperj imune a pressões políticas. A agência poderá sofrer alterações nas prioridades de seus editais, na composição de seus órgãos dirigentes, na distribuição dos recursos entre pesquisa básica e inovação empresarial e na forma de avaliar projetos. O orçamento poderá permanecer formalmente protegido, enquanto sua aplicação passa a ser orientada por interesses econômicos mais estreitos.

Sob uma secretaria dominada por indústria, comércio e serviços, a Faperj poderá ser pressionada a concentrar seus investimentos em startups, incubadoras, empresas de base tecnológica, projetos com potencial de mercado e parcerias público-privadas. Essas áreas são legítimas, mas não podem absorver os recursos necessários à manutenção da pesquisa básica, à formação de pesquisadores e à investigação de problemas sociais, ambientais e culturais.

A produção científica exige continuidade, estabilidade institucional e horizontes de longo prazo. Empresas operam frequentemente com ciclos mais curtos, orientados por rentabilidade, competitividade e retorno sobre investimentos. Quando a lógica empresarial passa a comandar a política científica, projetos estratégicos podem ser interrompidos porque seus resultados não aparecem em um mandato governamental, não geram produtos patenteáveis ou não interessam aos grupos econômicos mais influentes.

Uma secretaria grande demais para pensar a ciência

A nova secretaria nasce com uma quantidade extraordinariamente ampla de atribuições. A estrutura anunciada deverá reunir desenvolvimento econômico, indústria, comércio, serviços, ciência, tecnologia, inovação, transformação digital, cidades inteligentes, economia criativa, mineração, energia, infraestrutura, logística, qualificação profissional, empreendedorismo e captação de investimentos.

Uma secretaria com tantas competências corre o risco de não formular adequadamente nenhuma delas. Na prática, os setores com maior capacidade de mobilizar investimentos, produzir anúncios governamentais e pressionar politicamente tendem a ocupar o centro das decisões. Ciência e educação superior, cujos resultados são mais complexos e normalmente aparecem no médio e no longo prazo, provavelmente serão empurradas para uma posição periférica.

Há ainda um evidente problema de conflito de prioridades. Uma política científica comprometida com o interesse público poderá produzir pesquisas que revelem danos ambientais causados por mineradoras, riscos associados a empreendimentos industriais, efeitos sociais da expansão portuária ou consequências sanitárias de determinadas atividades econômicas. Ao subordinar a área científica à mesma secretaria encarregada de atrair e apoiar esses investimentos, o governo cria uma situação em que a produção independente do conhecimento pode colidir com os objetivos econômicos da pasta.

Esse conflito poderá se manifestar na escolha dos dirigentes, na definição dos editais, na distribuição de bolsas e na seleção das áreas consideradas estratégicas. Não será necessário censurar diretamente pesquisadores. Bastará financiar abundantemente os temas convenientes e deixar sem recursos aqueles capazes de gerar resultados politicamente incômodos.

A falsa integração entre ciência e mercado

A aproximação entre ciência, tecnologia e desenvolvimento econômico costuma ser apresentada como um objetivo incontestável. Mas ciência e mercado não são sinônimos, assim como inovação não pode ser reduzida à criação de produtos comercializáveis. O conhecimento científico também é indispensável para melhorar políticas públicas, proteger ecossistemas, combater epidemias, compreender desigualdades, planejar cidades, formar professores e ampliar direitos sociais.

Uma integração equilibrada exigiria fortalecer a secretaria científica, ampliar sua capacidade de coordenação e criar mecanismos permanentes de diálogo com os demais setores do governo. O que foi feito segue o caminho inverso: extinguiu-se a instância própria e subordinou-se a ciência a uma agenda econômica muito mais ampla.

O nome da nova secretaria tenta produzir a aparência de que todas as áreas possuem o mesmo peso. Mas a ordem institucional não é definida pela quantidade de palavras incluídas na placa do órgão. Ela é definida pela hierarquia administrativa, pelo controle orçamentário, pelo acesso ao governador e pela capacidade de estabelecer prioridades. Ciência, tecnologia e inovação aparecem no final de uma longa denominação porque também correm o risco de ficar no final da fila das decisões governamentais.

O início de um processo que precisa ser enfrentado

O decreto publicado em 6 de agosto não deve ser analisado apenas pelo que determina imediatamente, mas pelas mudanças que poderá facilitar. Ele abre caminho para o esvaziamento político das universidades estaduais, para o enfraquecimento da educação profissional pública, para a reorientação empresarial da Faperj e para a transferência gradual de atividades educacionais ao Sistema S e a outras organizações privadas.

A defesa da autonomia universitária não pode limitar-se à autonomia formal inscrita na Constituição. Uma universidade sem recursos, submetida a contingenciamentos, pressionada a vender serviços e obrigada a buscar patrocinadores para manter seus laboratórios poderá continuar sendo chamada de autônoma, mas terá perdido grande parte de sua capacidade de decidir livremente o que ensinar, pesquisar e oferecer à sociedade.

A comunidade científica, as universidades, os sindicatos, as entidades estudantis e a Assembleia Legislativa precisam exigir transparência sobre a nova estrutura, a vinculação das instituições, o controle dos fundos, a composição dos órgãos decisórios e a destinação dos recursos. Também será necessário acompanhar qualquer tentativa de transferir cursos, equipamentos, prédios, laboratórios ou funções públicas a entidades privadas.

Ao extinguir uma secretaria própria, o governo em exercício emitiu uma mensagem inequívoca sobre suas prioridades. Ciência e tecnologia deixaram de ser tratadas como políticas de Estado e passaram a ser concebidas como instrumentos auxiliares da atividade empresarial. O perigo maior não está apenas na criação de uma secretaria com um nome quase interminável. Está na tentativa de reduzir o conhecimento público, a educação superior e a formação tecnológica à condição de fornecedores subordinados de mão de obra, serviços e inovações para o mercado.

O Rio de Janeiro não precisa de menos capacidade pública de produzir conhecimento. Precisa exatamente do contrário: universidades fortalecidas, financiamento estável, pesquisa independente e uma política científica capaz de enfrentar os problemas econômicos, sociais e ambientais do estado sem pedir autorização aos mesmos setores que frequentemente contribuem para produzi-los.

A ciência pública a serviço do greenwashing? O caso do workshop da Reserva Caruara

O episódio envolvendo um workshop da RPPN Caruara mostra como a credibilidade da pesquisa científica pode ser incorporada às estratégias de marketing ambiental do Porto do Açu, enquanto permanecem invisibilizados os conflitos socioambientais produzidos pelo empreendimento 

Publicizei recentemente neste blog a realização de um workshop promovido pela Reserva Caruara/Porto do Açu em torno do que foi apresentado como “experiências turísticas de bases ecossistêmicas.  A “novidade” que chamou a atenção de muitos foi que o evento aparecia como copromovido pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Com base nisso, manifestei minha estranheza diante do envolvimento de uma universidade federal em um evento fechado que, entre outras coisas, serviria para conferir uma camada de legitimidade ambiental a uma reserva particular cuja implantação resultou no fechamento da Lagoa de Iquipari, ecossistema lagunar que, até a criação da RPPN Caruara, constituía uma importante fonte de sustento econômico, obtenção de proteínas e reprodução social para centenas de famílias de pescadores artesanais de São João da Barra.

A menção à participação da UFF gerou repercussão inclusive entre docentes que atuam no campus da instituição em Campos dos Goytacazes, onde existem pesquisadores que há anos estudam justamente os impactos socioambientais decorrentes da forma autoritária como o Porto do Açu foi implantado. Uma das reações foi a de que eu teria sido injusto ao não mencionar que há pesquisadores da UFF Campos que não são alinhados aos interesses do empreendimento. Respondi que compreendia essa inquietação, mas que o problema decorria muito mais da forma como o evento foi divulgado pela direção da RPPN Caruara do que da postagem publicada neste blog. Afinal, a utilização da logomarca da UFF no material de divulgação funcionava como uma chancela institucional ampla, e foi exatamente essa associação que motivou minhas observações. Acrescentei ainda que buscaria esclarecer aos leitores quem, efetivamente, estaria envolvido no workshop sobre turismo ecossistêmico promovido pela Caruara.

Pois bem, após consultas realizadas, inclusive em Niterói, fui informado de que a proposta do workshop sobre turismo ecossistêmico na RPPN Caruara integra uma dissertação de mestrado que deverá ser desenvolvida por uma estudante do Programa de Pós-Graduação em Turismo da UFF. Segundo as informações obtidas, o workshop, em formato híbrido, seria destinado a colaboradores da Reserva Caruara, pesquisadores e membros da comunidade. Em outras palavras, a Caruara passou a divulgar um evento vinculado a uma pesquisa que sequer iniciou sua etapa de campo. Além disso, ficou esclarecido que a UFF não figura como copromotora ou coexecutora da iniciativa, mas apenas como a instituição onde a pesquisa será desenvolvida.

O que se apurou até o momento revela uma situação preocupante. Uma pesquisa financiada com recursos públicos tende, na prática, a ser utilizada para conferir cobertura verde — o conhecido greenwashing — a uma propriedade privada criada como medida compensatória pela destruição de extensas áreas de vegetação de restinga durante a implantação do Porto do Açu. Ao mesmo tempo, essa mesma implantação produziu um efeito social de enorme relevância: o fechamento da Lagoa de Iquipari aos pescadores artesanais que historicamente dependiam daquele ecossistema para garantir seu sustento econômico, sua segurança alimentar e a reprodução de seu modo de vida.

A questão, entretanto, exige uma distinção importante. Nada impede que universidades públicas estabeleçam parcerias com empresas privadas. Em muitos casos, essa interação é desejável e pode produzir avanços científicos e tecnológicos relevantes. O problema surge quando a produção de conhecimento passa a ser utilizada para conferir legitimidade a narrativas corporativas sem que os conflitos socioambientais que lhes dão origem sejam efetivamente enfrentados. No caso em questão, o caráter fechado do workshop, restrito a convidados, transforma o chamado turismo ecossistêmico em um discurso que obscurece um processo concreto de exclusão territorial. Enquanto se promove uma imagem de conservação ambiental, permanecem invisibilizados justamente aqueles que foram privados do acesso ao território e aos recursos naturais que garantiam sua sobrevivência. Essa lógica dificilmente se compatibiliza com o compromisso crítico e social que deve orientar a pesquisa realizada em universidades públicas financiadas pela sociedade.

Se algo positivo emergiu desse imbróglio, foi a oportunidade de compreender com maior clareza como operam as estratégias de greenwashing associadas ao Porto do Açu. Mais do que promover ações de conservação, essas iniciativas parecem buscar a apropriação da credibilidade de instituições públicas e da linguagem da ciência para construir uma narrativa de responsabilidade socioambiental que pouco dialoga com os impactos concretos produzidos pelo empreendimento. Nesse contexto, a Reserva Caruara deixa de ser apenas uma unidade de conservação privada e passa a desempenhar um papel central na arquitetura simbólica de legitimação do Porto do Açu. É precisamente por isso que toda aproximação entre universidades públicas e esse tipo de iniciativa deve ser examinada com máximo rigor e transparência, para que a pesquisa científica não seja convertida, ainda que involuntariamente, em instrumento de marketing ambiental corporativo.

A crise da água começa na bacia: por que mais barragens não garantirão segurança hídrica

O Rio Paraíba do Sul demonstra que a escassez de água não será superada apenas com novas obras de represamento. A recuperação da cobertura florestal, a proteção das áreas de recarga, a gestão integrada dos recursos hídricos e a adaptação às mudanças climáticas são condições indispensáveis para restabelecer o equilíbrio da bacia e reduzir a vulnerabilidade da zona costeira

Por Carlos Eduardo de Rezende*

A bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, com múltiplos usos da água, vem apresentando, ao longo de décadas, redução de suas vazões em decorrência da intensificação das captações e dos efeitos das mudanças climáticas. Eu sempre repito que o Rio Paraíba do Sul representa um sistema em desequilíbrio, cuja solução dificilmente será encontrada na construção de novas barragens, e reafirmo que esse é um modelo de pior hipótese para outras bacias. Os reservatórios regulam as vazões e o armazenamento de água durante períodos chuvosos; eles não aumentam a disponibilidade hídrica da bacia, mas apenas redistribuem no tempo um volume de água que já existe. Se a quantidade de água que entra na bacia está diminuindo e a demanda continua aumentando, novas barragens ampliam conflitos entre os diferentes usuários e aumentam as perdas por evaporação, especialmente em regiões de clima quente.

Outro aspecto frequentemente negligenciado nas discussões sobre segurança hídrica é a profunda alteração da cobertura vegetal original da bacia. A supressão de grande parte da Mata Atlântica ao longo dos últimos séculos comprometeu significativamente processos hidrológicos essenciais, como a interceptação da chuva, a infiltração, o tempo de residência da água no solo e a recarga dos aquíferos. A substituição da floresta por áreas agrícolas, pastagens e superfícies urbanizadas favoreceu o aumento do escoamento superficial, reduziu a recarga das águas subterrâneas e tornou as vazões dos rios mais dependentes das chuvas sazonais, que estão substancialmente alteradas. Além disso, observamos o aumento dos períodos de estiagem, que geram outros problemas de ordem sanitária e de desequilíbrio ecológico, como o crescimento de algas.

Um ponto que observamos é que existe uma forte diferença no monitoramento desse recurso hídrico, pois essa bacia está inserida em três estados, e as agências ambientais deveriam ter maior harmonia no monitoramento quanto ao número de parâmetros e à frequência. Assim, qualquer proposta voltada à ampliação da disponibilidade de água na bacia deve necessariamente incorporar ações de restauração florestal, especialmente nas áreas de recarga, nas nascentes e ao longo das matas ciliares. Ignorar esse componente significa desconsiderar um dos principais processos naturais responsáveis pela recuperação hídrica da bacia em longo prazo. E não adianta pensar em reflorestamento econômico com eucaliptos.

Esse cenário torna-se ainda mais preocupante quando chegamos à região costeira. As barragens retêm grande parte dos sedimentos transportados pelos rios, reduzindo o aporte sedimentar aos estuários, deltas e praias. Como consequência, o litoral perde sua principal fonte natural de reposição de sedimentos, tornando-se mais vulnerável à ação das ondas, das correntes e à elevação do nível do mar, fatores que já vêm sendo intensificados pelas mudanças climáticas. Assim, a implantação sucessiva de barragens pode contribuir para agravar a erosão costeira (ex.: região de Atafona), comprometendo ecossistemas, infraestrutura e atividades econômicas dependentes da faixa litorânea.

Nesse contexto, o problema da escassez de água deve ser analisado com cautela e fundamentado em estudos hidrológicos, climáticos e sedimentológicos. É indispensável avaliar se a redução das vazões decorre predominantemente do aumento das demandas, das alterações climáticas ou da combinação desses fatores. Portanto, quantificar os impactos cumulativos dos empreendimentos já existentes e daqueles previstos para a bacia torna-se fundamental, pois precisamos nos adaptar às alterações climáticas impostas pelo Antropoceno, que tem aumentado as incertezas e gerado eventos extremos de precipitação e secas prolongadas.

Assim, a gestão integrada dos recursos hídricos, baseada na redução das perdas, no aumento da eficiência do uso da água, na recuperação das áreas de recarga, na proteção das matas ciliares, no reuso da água e na operação otimizada dos reservatórios existentes, produz resultados mais sustentáveis do que a simples ampliação da infraestrutura de represamento. Em outras palavras, reservatórios são instrumentos de gestão, mas não substituem a necessidade de garantir que a disponibilidade natural de água e de sedimentos seja compatível com as demandas da sociedade e com a manutenção dos processos ecológicos que sustentam a própria bacia e sua zona costeira.


*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia da Uenf e Bolsista Produtividade 1A do CNPq.

Super El Niño, austeridade fiscal e a crise da adaptação climática: por que o litoral brasileiro continua caminhando para um desastre anunciado

Embora a ciência já disponha de informações suficientes para antecipar grande parte dos impactos do fortalecimento do El Niño, a ausência de planejamento territorial, a destruição dos ecossistemas costeiros e a persistência das políticas de austeridade mantêm o Brasil perigosamente vulnerável a uma sucessão de desastres que já deixaram de ser imprevisíveis

Os modelos climáticos produzidos pelos principais centros internacionais de monitoramento convergem para um diagnóstico preocupante: o atual episódio de El Niño deverá permanecer ativo ao longo dos próximos meses e poderá atingir grande intensidade até o final de 2026. Trata-se de um cenário que merece atenção especial porque ocorre em um contexto marcado pelo aquecimento excepcional do Atlântico Tropical e do Atlântico Sul, resultado do avanço das mudanças climáticas induzidas pelas emissões de gases de efeito estufa. A interação entre esses diferentes fatores aumenta significativamente a probabilidade de ocorrência de eventos extremos em diversas regiões brasileiras.

No entanto, limitar a discussão aos aspectos meteorológicos seria um equívoco. O problema central não reside apenas na intensidade que o El Niño poderá alcançar, mas na elevada vulnerabilidade construída ao longo de décadas de ocupação desordenada do território, degradação ambiental e sucessivos adiamentos das políticas públicas de adaptação climática. O fenômeno climático funciona como um poderoso multiplicador de riscos, incidindo sobre uma costa que já se encontra profundamente fragilizada por decisões políticas e econômicas que reduziram sua capacidade natural de enfrentar eventos extremos.  Essa constatação é particularmente importante quando se observa o litoral brasileiro. Ainda prevalece entre grande parte da população a percepção de que os efeitos do El Niño se resumem ao aumento ou à redução das chuvas. Embora essa seja uma das manifestações mais conhecidas do fenômeno, seus impactos sobre as zonas costeiras são muito mais complexos e potencialmente mais destrutivos.

Ao alterar a circulação atmosférica sobre a América do Sul, o El Niño modifica a frequência e a intensidade da atuação de frentes frias, ciclones extratropicais e sistemas de ventos persistentes. Quando esses processos coincidem com marés elevadas e com um oceano mais aquecido, cria-se um ambiente extremamente favorável à ocorrência de ressacas, alagamentos costeiros, erosão acelerada das praias e danos à infraestrutura instalada junto à linha de costa.

Por outro lado, existe ainda um mecanismo pouco conhecido fora dos círculos especializados, mas decisivo para compreender o agravamento da erosão costeira. Ventos persistentes transferem maior quantidade de energia para a superfície do oceano, elevando a altura, o período e a força das ondas que alcançam o litoral. Como consequência, aumenta a velocidade da coluna d’água na zona de arrebentação, intensificam-se as correntes longitudinais ao longo das praias e tornam-se mais vigorosas as chamadas correntes de retorno (rip currents), responsáveis pelo transporte de grandes volumes de areia para áreas mais profundas.

O resultado desse conjunto de processos é uma remoção acelerada dos sedimentos que naturalmente protegem as praias. À medida que o estoque sedimentar diminui, a faixa de areia se estreita, a linha de costa recua e cresce a exposição de dunas, calçadões, rodovias, edificações e outras infraestruturas construídas em áreas extremamente vulneráveis. O problema fica ainda mais grave porque a erosão apresenta caráter cumulativo: cada ressaca intensa reduz a capacidade natural da praia de dissipar a energia das ondas seguintes. Em consequência, tempestades de intensidade moderada podem provocar danos muito superiores aos observados anteriormente, simplesmente porque a costa já perdeu parte de seus mecanismos naturais de proteção.

Entretanto, os impactos do fortalecimento do El Niño não se restringem às regiões sujeitas ao excesso de chuvas e às ressacas. Em áreas onde o fenômeno tende a reduzir as precipitações e elevar as temperaturas, como porções da Amazônia e do Nordeste brasileiro, a diminuição das vazões fluviais favorece a intrusão de água salgada em estuários, lagoas costeiras e aquíferos, altera o equilíbrio ecológico de manguezais e compromete atividades fundamentais como a pesca artesanal, além do abastecimento de água de inúmeras comunidades.

Esse quadro torna-se ainda mais preocupante porque hoje não é mais possível interpretar os impactos costeiros exclusivamente a partir das oscilações do Oceano Pacífico. O aquecimento persistente do Atlântico Tropical e do Atlântico Sul adiciona calor e umidade à atmosfera, potencializando tempestades, alterando padrões de circulação dos ventos e intensificando a energia das ondas que alcançam o litoral brasileiro. Em outras palavras, os impactos que deverão ser observados ao longo dos próximos meses resultarão da interação entre a variabilidade climática natural representada pelo El Niño e um sistema climático já profundamente alterado pelo aquecimento global.

Mas reduzir essa discussão aos processos físicos significaria ignorar um aspecto ainda mais importante: a vulnerabilidade costeira brasileira é, antes de tudo, uma construção social e política. Embora eventos extremos façam parte da dinâmica natural do sistema climático, sua transformação em desastres depende diretamente das formas de ocupação do território. Nas últimas décadas, o litoral brasileiro passou por um intenso processo de expansão imobiliária, impulsionado por grandes empreendimentos turísticos, resorts, condomínios fechados, complexos residenciais de alto padrão e obras de infraestrutura voltadas à valorização econômica da faixa costeira. Em muitos casos, essa expansão ocorreu precisamente sobre os ambientes que desempenham papel fundamental na proteção natural da costa.

Dunas, restingas, manguezais, praias, áreas úmidas e remanescentes de Mata Atlântica não constituem obstáculos ao desenvolvimento, como frequentemente sugerem setores interessados na flexibilização da legislação ambiental. Ao contrário, esses ecossistemas representam uma verdadeira infraestrutura natural de adaptação às mudanças climáticas.  As dunas armazenam e redistribuem sedimentos, permitindo que as praias recuperem parte do material perdido durante ressacas. A vegetação de restinga estabiliza a areia e reduz a erosão provocada pelo vento. Os manguezais dissipam parte da energia das ondas e das marés, diminuindo a intensidade das inundações costeiras. Já a Mata Atlântica desempenha papel essencial na estabilização de encostas e na regulação hidrológica das bacias que deságuam no litoral.

Quando esses ecossistemas são substituídos por concreto, asfalto e grandes empreendimentos imobiliários, perde-se justamente a primeira linha de defesa contra eventos extremos. O resultado é um aumento expressivo da exposição ao risco, acompanhado da necessidade crescente de obras de engenharia cada vez mais caras e, muitas vezes, incapazes de reproduzir os serviços ambientais anteriormente prestados pelos ecossistemas naturais. Não por acaso, muitas das áreas hoje classificadas como críticas para erosão costeira coincidem exatamente com trechos que sofreram intensa ocupação urbana ou turística nas últimas décadas.

Esse processo revela uma contradição que precisa ser enfrentada. Grande parte das políticas públicas continua tratando o litoral prioritariamente como espaço de valorização imobiliária e expansão econômica, quando deveria reconhecê-lo como um território estratégico para a adaptação climática. Ao flexibilizar normas ambientais, reduzir áreas protegidas ou permitir a ocupação de ambientes ecologicamente frágeis, o próprio Estado contribui para ampliar riscos que posteriormente serão apresentados como simples consequências de fenômenos naturais.

Sob essa perspectiva, o El Niño deixa de ser apenas um evento climático extraordinário para revelar problemas estruturais acumulados ao longo de décadas de planejamento territorial inadequado. Os desastres que poderão ocorrer nos próximos meses não decorrerão exclusivamente da intensidade do fenômeno atmosférico, mas da combinação entre mudanças climáticas, degradação ambiental e escolhas políticas que aumentaram progressivamente a vulnerabilidade das zonas costeiras brasileiras. É justamente nessa dimensão política da adaptação climática que reside um dos maiores desafios enfrentados pelo Brasil.

O maior déficit brasileiro: transformar conhecimento científico em políticas públicas

Se o Brasil dispõe hoje de um conhecimento científico suficientemente robusto para antecipar boa parte dos impactos de um episódio intenso de El Niño, por que o país continua tão vulnerável aos desastres climáticos? A resposta não está na ciência, mas na política. Instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a Marinha do Brasil, além das universidades e centros estaduais de pesquisa, produzem regularmente previsões meteorológicas, modelos climáticos, mapas de suscetibilidade e sistemas de alerta reconhecidos internacionalmente por sua qualidade técnica. O país, portanto, não sofre de falta de informação ou de insuficiência de capacidade científica. O verdadeiro problema reside na enorme distância que separa o conhecimento produzido por essas instituições das decisões efetivamente adotadas pelos diferentes níveis de governo. Enquanto a capacidade científica brasileira avançou significativamente nas últimas décadas, a capacidade política de incorporar esse conhecimento ao planejamento territorial permaneceu praticamente estagnada.

Essa desconexão manifesta-se de forma particularmente evidente nas zonas costeiras. Há décadas o Brasil dispõe de um instrumento legal destinado justamente a orientar o planejamento dessas áreas: o Plano Municipal de Gerenciamento Costeiro (PMGC), previsto no âmbito do Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC). Em princípio, cada município costeiro deveria possuir um diagnóstico detalhado das áreas sujeitas à erosão, às inundações, às ressacas e à elevação do nível do mar, estabelecendo critérios claros para o uso e a ocupação do território, para o licenciamento ambiental e para a prevenção de desastres. Na prática, entretanto, esse instrumento permanece quase inexistente. Levantamentos realizados por órgãos públicos e pesquisadores indicam que menos de quinze municípios brasileiros possuem Planos Municipais de Gerenciamento Costeiro efetivamente estruturados e institucionalizados. Algumas avaliações realizadas ao longo da presente década apontavam um cenário ainda mais preocupante, indicando que apenas nove municípios haviam concluído todas as etapas necessárias para sua implementação. Trata-se de um quadro extremamente preocupante quando se considera que o Brasil possui 443 municípios inseridos na zona costeira, dos quais 279 confrontam diretamente o Oceano Atlântico.

A consequência dessa omissão é que a imensa maioria das cidades costeiras brasileiras continua enfrentando riscos crescentes sem qualquer planejamento territorial especificamente voltado para as mudanças climáticas. Empreendimentos continuam sendo licenciados em áreas naturalmente suscetíveis à erosão; condomínios avançam sobre dunas e restingas; bairros inteiros permanecem vulneráveis às inundações; e obras de drenagem seguem sendo concebidas para responder ao clima do passado, ignorando completamente as novas condições impostas pelo aquecimento global. Não surpreende, portanto, que danos materiais e perdas humanas aumentem mesmo em episódios que poderiam produzir consequências muito menores caso existisse um planejamento territorial consistente. Essa realidade revela uma inversão de prioridades que precisa ser urgentemente corrigida: o Brasil continua investindo muito mais na reconstrução posterior aos desastres do que na prevenção de seus impactos.

Uma estratégia muito mais eficiente, econômica e ambientalmente adequada consiste em recuperar e conservar os ecossistemas que funcionam como infraestrutura natural de adaptação climática. Manguezais, restingas, dunas, praias e áreas úmidas desempenham funções que dificilmente podem ser reproduzidas por grandes obras de engenharia. Esses ambientes dissipam parte da energia das ondas, estabilizam sedimentos, armazenam água, reduzem processos erosivos e funcionam como barreiras naturais contra ressacas e inundações. Ao contrário do que frequentemente se afirma, conservar esses ecossistemas não representa obstáculo ao desenvolvimento. Trata-se, na verdade, de um investimento estratégico capaz de reduzir futuros prejuízos econômicos, ambientais e sociais. O problema é que essa perspectiva frequentemente entra em conflito com interesses associados à especulação imobiliária, à expansão do turismo de alto padrão e à implantação de grandes empreendimentos sobre áreas ambientalmente frágeis. Em consequência, decisões voltadas para ganhos imediatos acabam comprometendo a capacidade adaptativa do litoral durante décadas.

Entretanto, mesmo que houvesse consenso político sobre a necessidade de fortalecer a adaptação climática, persistiria um obstáculo cuja importância costuma receber muito menos atenção do que merece: o financiamento público. Nas últimas décadas, sucessivos programas de ajuste fiscal reduziram significativamente a capacidade de investimento do Estado brasileiro justamente nas áreas responsáveis pelo planejamento territorial, pela gestão ambiental, pela prevenção de desastres e pela adaptação às mudanças climáticas. Essa escolha possui consequências extremamente concretas. Elaborar Planos Municipais de Gerenciamento Costeiro, monitorar continuamente a evolução da linha de costa, recuperar ecossistemas degradados, ampliar redes de drenagem, fortalecer as Defesas Civis, modernizar sistemas de alerta, capacitar equipes técnicas e preparar os serviços públicos de saúde e assistência social exige recursos permanentes. Não se trata de ações pontuais, mas de políticas públicas contínuas que dependem de financiamento estável. Sem orçamento adequado, planos permanecem restritos ao papel e acabam incapazes de proteger a população diante de riscos que já são amplamente conhecidos.

Essa talvez seja uma das maiores contradições da política climática brasileira. Ao mesmo tempo em que os impactos das mudanças climáticas se tornam progressivamente mais evidentes, continuam prevalecendo concepções econômicas que tratam investimentos em prevenção como despesas passíveis de adiamento sempre que surgem pressões por contenção dos gastos públicos. Essa lógica ignora um princípio elementar da gestão de riscos: cada real economizado hoje em prevenção tende a transformar-se em múltiplos reais gastos amanhã na reconstrução de infraestrutura, no atendimento às populações atingidas, na recuperação das atividades econômicas e na reparação de danos ambientais frequentemente irreversíveis. A adaptação climática precisa deixar de ser tratada como um gasto para ser reconhecida como um investimento estratégico na proteção do território nacional.

Essa mudança torna-se ainda mais urgente diante do fortalecimento do atual episódio de El Niño. Os eventos registrados recentemente na Região Sul, caracterizados por chuvas intensas, tempestades severas, ventos destrutivos e episódios de granizo, demonstram que o país já atravessa um período de elevada instabilidade atmosférica. Embora não seja correto atribuir cada episódio extremo exclusivamente ao El Niño, esses acontecimentos funcionam como um importante sinal de alerta para aquilo que poderá ocorrer caso o fenômeno alcance a intensidade atualmente projetada pelos modelos climáticos. Ao mesmo tempo, as projeções indicam elevada probabilidade de secas severas em partes da Amazônia e do Nordeste, ampliando os riscos de incêndios florestais, comprometimento do abastecimento de água, redução da produção agrícola, dificuldades para a pesca artesanal e agravamento da insegurança alimentar.

Essa diversidade de impactos evidencia uma característica frequentemente negligenciada nas políticas públicas brasileiras: a geografia dos riscos climáticos é profundamente desigual. Enquanto determinadas regiões enfrentarão excesso de água, outras conviverão com escassez hídrica extrema. Enquanto algumas cidades precisarão reforçar sistemas de drenagem e proteção costeira, outras dependerão prioritariamente da gestão de reservatórios, da proteção de mananciais e do combate aos incêndios. Não existe, portanto, uma única política de adaptação capaz de responder adequadamente a todos esses desafios. Cada território exige estratégias específicas, mas essas respostas precisam integrar uma política nacional coerente, baseada na cooperação entre União, estados, municípios, universidades e instituições científicas.

Infelizmente, o Brasil ainda permanece excessivamente preso a uma cultura política marcada pela improvisação. Recursos continuam sendo liberados principalmente após a ocorrência das tragédias; obras emergenciais substituem planejamento permanente; reconstrução recebe prioridade sobre prevenção; e os alertas produzidos pela comunidade científica frequentemente deixam de produzir consequências práticas na administração pública. Essa lógica precisa ser definitivamente superada. Os sinais emitidos pela ciência são suficientemente claros, os instrumentos legais para o planejamento territorial já existem e o conhecimento técnico necessário encontra-se amplamente disponível. O que continua faltando é vontade política para transformar a adaptação climática em uma prioridade permanente de Estado.

Caso essa mudança não ocorra, será cada vez mais difícil atribuir as futuras tragédias exclusivamente à intensidade dos fenômenos naturais. Em larga medida, elas representarão o resultado de escolhas políticas conscientes: a opção por manter políticas de austeridade que limitam investimentos públicos, por flexibilizar a proteção dos ecossistemas costeiros e por permitir que interesses imediatos da especulação imobiliária prevaleçam sobre a segurança ambiental da população. O Brasil dispõe de todas as condições técnicas para reduzir significativamente sua vulnerabilidade aos eventos extremos que tendem a se intensificar nas próximas décadas. O desafio já não é compreender os riscos, mas decidir enfrentá-los. Persistir adiando essa decisão significará aceitar que a geografia dos desastres continue sendo produzida menos pela força da natureza do que pela incapacidade do Estado brasileiro de transformar conhecimento científico em políticas públicas consistentes de adaptação climática.

O tempo da prevenção é agora

Diante desse cenário, torna-se inevitável perguntar se o Brasil está efetivamente preparado para enfrentar as consequências de um episódio de El Niño de grande intensidade. A resposta exige uma distinção importante. Do ponto de vista científico, o país dispõe de instituições altamente qualificadas e de capacidade técnica suficiente para antecipar grande parte dos impactos que poderão ocorrer nos próximos meses. O INPE, o INMET, o Cemaden, a Marinha do Brasil, as universidades e diversos centros estaduais de pesquisa produzem previsões, boletins, sistemas de monitoramento e cenários prospectivos que permitem identificar com razoável antecedência as regiões mais suscetíveis aos diferentes tipos de eventos extremos. Em outras palavras, o Brasil não enfrenta um déficit de conhecimento científico.

Entretanto, possuir informação qualificada está longe de significar que o país esteja preparado para responder aos riscos anunciados. O maior problema continua sendo a enorme distância entre as previsões produzidas pela comunidade científica e sua incorporação pelas diferentes esferas de governo. Em muitos casos, os alertas são conhecidos com antecedência, mas permanecem sem consequências práticas. Áreas de risco continuam sendo ocupadas; empreendimentos seguem sendo licenciados em ecossistemas costeiros frágeis; sistemas de drenagem permanecem insuficientes; estruturas de contenção deixam de receber manutenção adequada; e os órgãos responsáveis pela prevenção convivem com limitações orçamentárias e institucionais que reduzem significativamente sua capacidade de atuação.

As inundações que atingiram o Rio Grande do Sul entre 2023 e 2024 constituem um exemplo eloquente dessa desconexão entre ciência e política. Os eventos meteorológicos foram extraordinários, mas seus efeitos foram amplificados por deficiências acumuladas durante muitos anos na manutenção da infraestrutura, no planejamento territorial e na preparação dos sistemas de resposta. O desastre revelou que eventos extremos podem superar rapidamente estruturas degradadas e políticas públicas insuficientes, especialmente quando se combinam à fragmentação das responsabilidades entre União, estados e municípios e à recorrente tendência de liberar recursos apenas depois da ocorrência das catástrofes. Trata-se de uma lógica que, além de produzir perdas humanas e materiais muito maiores, acaba transferindo os custos mais elevados justamente para as populações socialmente mais vulneráveis.

Por essa razão, o fortalecimento do atual episódio de El Niño deveria ser interpretado como uma oportunidade para substituir a cultura da reação pela cultura da prevenção. A ciência já oferece informações suficientes para indicar que o país atravessa um período de elevado risco climático, cujos efeitos serão distintos conforme as características ambientais, sociais e econômicas de cada região. Isso significa que União, estados e municípios não podem aguardar a ocorrência de novos desastres para começar a agir. O momento exige a elaboração imediata de planos de contingência capazes de responder aos diferentes cenários projetados pelos modelos climáticos.

Nas regiões Sul, Sudeste e em grande parte da costa brasileira, esses planos precisam contemplar a possibilidade de chuvas intensas, ventos de grande velocidade, tempestades de granizo, ressacas, erosão costeira, alagamentos urbanos, inundações, deslizamentos de encostas e interrupção de serviços essenciais. Para que sejam efetivos, deverão definir responsabilidades institucionais, aperfeiçoar os sistemas de monitoramento e alerta, estabelecer rotas de evacuação, estruturar locais de acolhimento temporário e fortalecer a coordenação entre Defesa Civil, órgãos ambientais, universidades, serviços de saúde e assistência social. Não basta produzir boletins meteorológicos; é indispensável que a informação científica seja convertida em protocolos operacionais capazes de reduzir a exposição da população aos riscos.

Ao mesmo tempo, os modelos climáticos indicam elevada probabilidade de secas severas em partes da Amazônia e da região Nordeste. Nesses territórios, os planos de contingência precisarão seguir uma lógica distinta, priorizando a gestão dos recursos hídricos, a proteção de reservatórios e mananciais, o abastecimento de água para populações urbanas e rurais, a preparação dos serviços de saúde para enfrentar ondas de calor, o monitoramento da qualidade do ar e o fortalecimento das estruturas de prevenção e combate aos incêndios florestais. A redução das vazões dos rios poderá ainda comprometer o transporte, o abastecimento de alimentos, a produção agrícola, a pesca artesanal, a geração de energia e o acesso à água potável em inúmeras comunidades, exigindo políticas específicas de apoio aos agricultores familiares, pescadores artesanais, povos indígenas, comunidades quilombolas e demais populações tradicionais, que normalmente figuram entre as primeiras vítimas das crises climáticas e dispõem de menor capacidade econômica e institucional para enfrentá-las.

Esse conjunto de desafios confirma uma ideia que deveria orientar toda a política brasileira de adaptação: os riscos climáticos distribuem-se de maneira profundamente desigual pelo território nacional. O país poderá conviver simultaneamente com excesso de água em algumas regiões e escassez hídrica extrema em outras, exigindo respostas diferenciadas para problemas igualmente distintos. Não existe, portanto, um modelo único de adaptação capaz de atender à diversidade ambiental e social brasileira. Cada território necessita de medidas compatíveis com suas características específicas, mas essas iniciativas precisam integrar uma estratégia nacional coerente, apoiada na cooperação entre os diferentes níveis de governo e sustentada pelo conhecimento produzido pelas instituições científicas.

Entretanto, nenhuma dessas iniciativas produzirá resultados concretos se continuar faltando aquilo que, historicamente, tem impedido a consolidação de uma política consistente de adaptação climática: recursos públicos. As diferentes esferas de governo precisam instituir imediatamente dotações orçamentárias específicas para prevenção de desastres, adaptação climática e resposta antecipada aos eventos extremos. Investimentos em monitoramento, sistemas de alerta, drenagem urbana, recuperação de manguezais, restingas e dunas, proteção de mananciais, armazenamento de água, combate aos incêndios, fortalecimento da Defesa Civil, saúde pública e assistência social não podem continuar submetidos à lógica dos cortes permanentes ou às restrições impostas pelas políticas de austeridade fiscal. Sem financiamento estável, planos de contingência permanecerão como documentos formais incapazes de alterar a realidade.

É precisamente nesse ponto que a discussão sobre o El Niño ultrapassa os limites da meteorologia para ingressar definitivamente no terreno das escolhas políticas. Persistir tratando a adaptação climática como uma despesa secundária equivale a aceitar, de forma consciente, que os prejuízos humanos, econômicos e ambientais continuarão crescendo à medida que os eventos extremos se intensificarem. A aparente economia produzida pelos cortes orçamentários transforma-se, inevitavelmente, em custos muito mais elevados na reconstrução de cidades, na recuperação de infraestruturas destruídas, na assistência às populações atingidas e na compensação de perdas que, em muitos casos, jamais poderão ser plenamente reparadas.

A pior resposta que o Brasil poderia oferecer diante do fortalecimento do atual episódio de El Niño seria continuar tratando cada desastre como um acontecimento isolado e imprevisível. Os modelos climáticos hoje disponíveis permitem antecipar grande parte dos riscos que deverão atingir o território nacional. Se as diferentes esferas de governo insistirem em ignorar esses alertas, dificilmente poderão alegar desconhecimento diante dos danos futuros. As tragédias que vierem a ocorrer resultarão não apenas da intensidade dos fenômenos naturais, mas também da incapacidade — ou da falta de vontade política — de transformar conhecimento científico em ação preventiva.

Em última análise, o desafio colocado pelo fortalecimento do El Niño transcende o próprio fenômeno climático. O que está em jogo é a capacidade do Estado brasileiro de abandonar o negacionismo climático tácito que ainda orienta parcela significativa das políticas públicas e reconhecer que adaptação deixou de ser uma agenda para o futuro. Ela constitui uma necessidade imediata e uma responsabilidade permanente de Estado. Enquanto essa mudança não ocorrer, o país continuará repetindo um ciclo perverso: produzir previsões científicas cada vez mais precisas e, ao mesmo tempo, fracassar sistematicamente em prevenir os impactos que elas anunciam.

Romper com o negacionismo climático tácito

Há um aspecto que atravessa toda essa discussão e que precisa ser enfrentado de maneira explícita. O Brasil não sofre apenas com os impactos crescentes das mudanças climáticas, mas também com um negacionismo climático que raramente se manifesta por meio da negação aberta das evidências científicas, mas que se expressa de forma muito mais sutil e igualmente nociva: a recusa em transformar o conhecimento disponível em políticas públicas permanentes de adaptação.

Nas últimas décadas, tornou-se relativamente comum ouvir autoridades reconhecerem a gravidade da crise climática em discursos, conferências internacionais e documentos oficiais. Entretanto, esse reconhecimento raramente se converte em decisões compatíveis com a dimensão do problema.  Empreendimento continuam sendo aprovados s em áreas ambientalmente frágeis; seguem sendo flexibilizadas normas de proteção dos ecossistemas costeiros; os investimentos em prevenção permanecem insuficientes; e políticas de ajuste fiscal continuam limitando justamente os órgãos responsáveis pelo planejamento territorial, pela gestão ambiental e pela redução dos riscos de desastres. Em outras palavras, admite-se a existência da crise climática, mas age-se como se seus efeitos pudessem ser enfrentados futuramente ou por meio de respostas emergenciais.

Essa postura representa uma forma particularmente perversa de negacionismo. Ao contrário da negação explícita da ciência, ela reconhece formalmente o problema, mas esvazia sua importância prática ao adiar continuamente as medidas necessárias para reduzir a vulnerabilidade da sociedade. Trata-se de um negacionismo que se manifesta nos orçamentos públicos, nas prioridades de investimento, na ausência de planejamento territorial e na incapacidade de integrar a produção científica às decisões governamentais. É justamente por isso que seus efeitos costumam ser menos visíveis no debate público, embora sejam profundamente perceptíveis quando eventos extremos atingem a população.

A adaptação climática precisa deixar de ocupar uma posição secundária na agenda nacional para tornar-se uma política estruturante do desenvolvimento brasileiro. Isso significa incorporar os riscos climáticos ao planejamento urbano, ao ordenamento territorial, à política habitacional, à gestão costeira, à proteção dos recursos hídricos, à infraestrutura, à agricultura, à saúde pública e à educação. Significa, igualmente, reconhecer que a conservação de manguezais, restingas, dunas, florestas e áreas úmidas não constitui apenas uma política ambiental, mas um componente essencial da infraestrutura necessária para reduzir perdas humanas, econômicas e ecológicas diante da intensificação dos eventos extremos.

Essa transformação exige também recuperar a capacidade de planejamento do Estado brasileiro. A prevenção de desastres não pode continuar dependente de programas temporários ou de iniciativas fragmentadas entre diferentes níveis de governo. É indispensável construir uma política nacional de adaptação climática dotada de financiamento estável, metas claras, responsabilidades definidas e mecanismos permanentes de coordenação entre União, estados e municípios. Nesse processo, as universidades públicas, os institutos de pesquisa e os órgãos técnicos precisam deixar de ser consultados apenas em momentos de crise e passar a ocupar posição central na formulação e no acompanhamento das políticas públicas.

Ao mesmo tempo, torna-se imprescindível reconhecer que a adaptação climática possui uma dimensão profundamente social. Os impactos do fortalecimento do El Niño e das mudanças climáticas não atingirão toda a população de maneira uniforme. Agricultores familiares, pescadores artesanais, povos indígenas, comunidades quilombolas, moradores das periferias urbanas e populações residentes em áreas costeiras ou sujeitas a inundações e deslizamentos tendem a suportar uma parcela desproporcional dos prejuízos. A construção de uma política de adaptação, portanto, deve partir do reconhecimento dessa geografia desigual dos riscos e priorizar justamente os territórios e grupos sociais historicamente mais vulnerabilizados.

O fortalecimento do atual episódio de El Niño oferece ao Brasil uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. Os modelos climáticos permitem antecipar grande parte dos riscos; as instituições científicas dispõem de competência reconhecida internacionalmente; e o país possui instrumentos legais capazes de orientar políticas de prevenção e adaptação. O que permanece ausente é a decisão política de mobilizar esses recursos de maneira articulada e contínua. Enquanto essa decisão continuar sendo adiada, o Brasil permanecerá preso a um ciclo perverso no qual previsões cada vez mais precisas convivem com uma incapacidade igualmente crescente de evitar desastres anunciados.

Em última análise, o desafio colocado pelo El Niño transcende o próprio fenômeno climático. Ele expõe os limites de um modelo de desenvolvimento que continua subordinando o planejamento territorial, a proteção ambiental e a segurança das populações aos imperativos da expansão imobiliária, do crescimento econômico de curto prazo e das políticas permanentes de austeridade fiscal. Romper com essa lógica deixou de ser apenas uma necessidade ambiental; tornou-se uma condição indispensável para reduzir a vulnerabilidade do território brasileiro diante de um clima em rápida transformação.

Se o Brasil pretende enfrentar de forma consequente os desafios colocados pelo atual ciclo do El Niño e pelos eventos extremos que tendem a se tornar cada vez mais frequentes nas próximas décadas, será necessário abandonar definitivamente o negacionismo climático tácito que ainda permeia as diferentes esferas de governo. A adaptação climática precisa ser elevada à condição de política de Estado, sustentada por planejamento de longo prazo, financiamento público adequado e compromisso efetivo com a redução das desigualdades socioambientais. Somente assim será possível interromper o ciclo recorrente de tragédias anunciadas que continua marcando a relação do Brasil com os desastres climáticos e construir uma sociedade efetivamente preparada para enfrentar os desafios de um planeta em acelerada transformação.

Estudo abrangente associa glifosato à ansiedade e ao autismo

Por Sustainable Pulse

O estudo multigeneracional mais abrangente sobre os herbicidas glifosato e Roundup revelou comportamento semelhante à ansiedade, dependente da dose, em ratos expostos a doses consideradas “seguras” pelos órgãos reguladores. As descobertas, que em breve serão publicadas após revisão por pares, reforçam diversos estudos menores que demonstraram um possível papel do glifosato no transtorno do espectro autista.

Herbicidas à base de glifosato são pulverizados em tudo, desde plantações de soja até calçadas suburbanas. Órgãos reguladores nos Estados Unidos e na Europa há muito tempo afirmam que as doses às quais a maioria das pessoas é exposta são seguras. No entanto, este novo estudo abrangente , publicado este mês como pré-impressão por pesquisadores do Instituto Ramazzini, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, da Universidade George Mason e do Boston College, sugere que essa suposição merece uma análise mais aprofundada — pelo menos no que diz respeito ao cérebro.

O estudo expôs ratos ao glifosato ou a uma de duas formulações comerciais, Roundup Bioflow e Ranger Pro, continuamente ao longo de três gerações — começando no útero e continuando por um ano inteiro de vida. As doses variaram da Ingestão Diária Aceitável da União Europeia (UDI), o nível que os reguladores consideram seguro para exposição humana ao longo da vida, até o Nível Sem Efeitos Adversos Observados (NOAA) da UE, a dose mais alta na qual não se supõe que ocorram danos.

Quando a terceira geração de ratos atingiu um ano de idade, aproximadamente equivalente à meia-idade em humanos, os animais expostos apresentavam comportamentos diferentes. Em um teste padrão de comportamento exploratório chamado teste de campo aberto, os ratos tratados — especialmente os machos e, principalmente, aqueles expostos às formulações comerciais do herbicida em vez de apenas ao glifosato — passavam mais tempo junto às paredes da arena de teste, movimentavam-se com menos liberdade em espaços abertos, congelavam com mais frequência e se limpavam de forma desorganizada e fragmentada, em vez da sequência suave da cabeça à cauda típica de um rato sem perturbações. Em conjunto, segundo os pesquisadores, esses são marcadores clássicos de ansiedade elevada em roedores. Os ratos machos expostos às formulações comerciais também apresentaram reduções modestas na força de preensão dos membros posteriores, sugerindo efeitos sutis na função neuromuscular. A memória, a coordenação motora geral e os sinais neurológicos evidentes não foram afetados.

“Nossos resultados toxicológicos levantam preocupações importantes sobre os efeitos neurocomportamentais dos herbicidas à base de glifosato, incluindo transtornos do espectro autista, mesmo em doses atualmente consideradas “seguras””, afirmou na terça-feira o Dr. Daniele Mandrioli, Investigador Principal do Estudo Global sobre Glifosato e autor sênior do artigo.

Por que o autismo entra na conversa?

O artigo não afirma ter encontrado evidências diretas de autismo em ratos — não foram realizados os testes, como avaliações de comportamento social, que os pesquisadores normalmente usam para modelar características semelhantes ao autismo em animais. O que ele faz é adicionar um dado a um crescente conjunto de pesquisas em humanos e animais que, segundo os pesquisadores, levantam a questão de se o glifosato deve ser incluído na lista de exposições ambientais que merecem ser investigadas quanto a um possível papel em condições de neurodesenvolvimento, incluindo o transtorno do espectro autista.

Essa ligação mais ampla se baseia principalmente em outros estudos, que o novo artigo cita como contexto. Estudos epidemiológicos encontraram associações entre a exposição ao glifosato, medida na urina, e comprometimento cognitivo, sintomas depressivos e desempenho inferior em testes de percepção social em adolescentes. Estudos separados com animais — que não fazem parte deste novo artigo — relataram que camundongos expostos a herbicidas à base de glifosato durante a gestação apresentam déficits sociais semelhantes ao autismo na idade adulta. Uma revisão de 2025 analisou as evidências existentes que conectam a exposição a herbicidas à base de glifosato especificamente ao transtorno do espectro autista, descrevendo-a como uma área de pesquisa emergente, mas ainda incompleta.

Os autores do novo estudo abrangente com ratos argumentam que suas descobertas são relevantes para essa discussão porque a ansiedade, os padrões de higiene alterados e a reatividade sensorial modificada a novos ambientes são domínios comportamentais que se sobrepõem a características observadas no transtorno do espectro autista, e porque as vias neurobiológicas implicadas em outras pesquisas sobre o glifosato — sinalização serotoninérgica interrompida, neuroinflamação, distúrbios do microbioma intestinal que afetam a química cerebral — são vias também implicadas na pesquisa sobre autismo de forma mais ampla.

O que tornou este estudo diferente?

O novo estudo faz parte de um projeto maior: o Estudo Global do Glifosato, um programa de pesquisa multi-institucional que representa a avaliação toxicológica mais abrangente já realizada sobre o glifosato e suas formulações comerciais. O estudo examina não apenas o comportamento neurológico, mas também o risco de câncer, a toxicidade para órgãos, a disrupção endócrina e os efeitos no desenvolvimento em uma mesma coorte multigeneracional de animais. Outras vertentes desse programa, incluindo um estudo de carcinogenicidade, já foram publicadas e demonstraram que herbicidas à base de glifosato causam diversos tipos de câncer; esta análise neurocomportamental é a mais recente delas. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) está atualmente realizando uma revisão completa dos resultados do estudo de carcinogenicidade, o que pode levar a mudanças na regulamentação do produto químico na União Europeia.

A maioria das pesquisas anteriores com animais sobre os efeitos neurológicos do glifosato analisou uma única geração, exposta por algumas semanas, e testou o produto químico em sua forma pura. Este estudo fez o oposto em todos os aspectos: três gerações, exposição contínua desde antes do nascimento até um ano de idade e — crucialmente — testes dos produtos comerciais aos quais as pessoas são realmente expostas, não apenas do ingrediente ativo.

Essa distinção acabou sendo importante. Em praticamente todas as medidas, as formulações comerciais Roundup Bioflow e Ranger Pro produziram efeitos mais amplos e, muitas vezes, maiores do que o glifosato isoladamente, mesmo quando a dose de glifosato era idêntica. Os pesquisadores apontam isso como evidência de que os ingredientes inativos em herbicidas comerciais — os surfactantes e adjuvantes que ajudam os produtos a aderir e penetrar nas folhas das plantas — não são biologicamente inertes em mamíferos, uma preocupação que outros laboratórios vêm levantando há anos, mas que as avaliações de risco regulatórias, que normalmente avaliam apenas o glifosato, não abrangem completamente.

O padrão com predominância de machos também é notável. Em todos os resultados, quando uma diferença entre os sexos surgiu, foram os ratos machos que se mostraram mais afetados — um padrão que ecoa a proporção de aproximadamente quatro para um de machos nos diagnósticos de transtorno do espectro autista em humanos, embora os autores do estudo sejam cautelosos em não traçar uma relação direta entre os dois.


Fonte: Sustainable Pulse