Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa

Deputado cobra investigação do Ibama e do Ministério Público e cita terceirizada Costa Pinto como envolvida no episódio

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa

Em 2019 foram registradas mortes de abelhas causadas por agrotóxicos em SC, RS, MS e SP (Getty Image)

Por Edir Viégas para “Vox” 

Acidente ambiental de graves proporções que resultou no extermínio por envenenamento de centenas de milhares de abelhas resultou em Moção de Repúdio e pedido de investigação na Assembleia Legislativa contra a multinacional e gigante de celulose Suzano.

Requerimento nesse sentido foi apresentado pelo deputado Zeca do PT na sessão desta quarta-feira (8), que também responsabilizou a empresa Costa Pinto, terceirizada da Suzano e responsável pela situação.

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa
Plantação de eucalipto próxima a um fragmento do Cerrado, na região de Santa Rita do Pardo (UFMS/Divulgação)

Colmeias dizimadas

A mortandade das abelhas aconteceu em dezembro do ano passado no município de Santa Rita do Pardo. Foram dizimadas 20 colmeias instaladas ao lado da floresta de eucalipto da Suzano.

Vídeo postado no canal da ONG uruguaia World Rain Forest Movement (Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais) no Youtube sugere que a multinacional teria tentado compensar o apicultor que perdeu as colmeias.

“Ele deve ter borrifado aqui tudo e entrou lá. Eu vi a caminhonete da Suzano e o pessoal da [empreiteira] Costa Pinto com o trator. O técnico estava com eles, então eles não têm desculpa”, diz o autor do vídeo, o apicultor identificado como Davi.

“A Suzano me disse: calcule o prejuízo. E eu disse: não vou calcular nada, até porque vocês vão me pagar e vão continuar. É uma outorga para vocês matarem minhas abelhas de novo”, relata o apicultor.

Crime ambiental

Pulverizar agrotóxicos em época de floração é considerado uma prática ilícita no Brasil, podendo ser configurado como crime ambiental, especialmente quando causa a morte de abelhas e outros polinizadores, essenciais para a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas.

Moção de repúdio

“Manifestamos nosso repúdio em face à atuação da empresa Suzano no Estado do Mato Grosso do Sul, bem como de sua prestadora de serviço, a empreiteira Costa Pinto, diante das graves denúncias de uso irregular de agrotóxico que resultaram na mortandade massiva de abelhas”, disse Zeca do PT ao se reportar à denúncia.

De acordo com ele, o acidente ambiental aconteceu na região de Santa Rita do Pardo e foi denunciado por produtores locais.

“Eles denunciaram a implantação de substâncias tóxicas, bem como o inseticida à base de friponil, em período de floração, prática considerada ilegal e altamente prejudicial aos polinizadores e ao equilíbrio ambiental”, esclareceu o parlamentar.

Veneno foi banido na Europa

O fipronil, segundo informações do próprio fabricante, é especialmente perigoso para as abelhas, mesmo em doses muito baixas. Os efeitos vão além da morte imediata — ele compromete funções essenciais para a sobrevivência da colônia.

Desde 2014 ele é proibido em culturas agrícolas da União Europeia justamente pelo alto risco de mortalidade em massa de abelhas e outros polinizadores. No Brasil, o uso é liberado.

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa
Flagrante da mistura de glifosato e fipronil, ambos venenos que matam insetos polinizadores (Divulgação/UFMS)

Prática comum

O caso do apicultor do vídeo não é o único. Marine Dubos-Raoul é geógrafa, doutora pela Universidade Paris 8, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e coordenadora do Instituto Pró-Cerrado Vivo. 

Ela conta que em 2019, no município de Brasilândia, vizinho de Santa Rita do Pardo, realizou pesquisas em um assentamento onde houve relatos de impactos por pulverização de agrotóxicos em canaviais. Desde então, começaram a surgir cada vez mais histórias similares.

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa

Ameaça à biodiversidade

“Relatos de apicultores apontam que a pulverização desses produtos provocou a morte de colmeias inteiras, afetando diretamente a produção apícola e subsistência de trabalhadores rurais, além de representar grave ameaça à biodiversidade do bioma cerrado”, disse Zeca do PT.

Ele esclareceu que especialistas alertam sobre o uso indiscriminado de agrotóxico, que impacta não apenas as abelhas, mas toda a fauna e flora, comprometendo o equilíbrio do ecossistema.

 Ressalta-se que as abelhas desempenham um papel essencial na polinização e na produção de alimentos, sendo responsável por grande parte da manutenção da vida vegetal e da segurança alimentar.

Sua eliminação, em larga escala, configura não apenas dano ambiental, mas um risco sistêmico à agricultura familiar e à vida humana. 

Zeca do PT exigiu rigorosa apuração dos fatos pelos órgãos competentes, como o Ibama e o Ministério Público, e solicitou “a responsabilização da empresa, caso comprovada as irregularidades”.

Outro lado

Vox MS encaminhou pedido de esclarecimento à assessoria de imprensa da Suzano, que se manifestou por meio de nota.

A companhia apoia mais de 158 apicultores e apicultoras no Mato Grosso do Sul por meio do seu Programa de Apicultura. Em 2024, a iniciativa contribuiu para a produção de 309 toneladas de mel, o que representa 40% da produção no estado. 

Todas as operações da empresa seguem rigoroso processo de conformidade legal e socioambiental, com observância das normas nacionais e internacionais, e são atestadas por certificações internacionais. 

A companhia reitera que busca os mais altos padrões de manejo florestal, e utiliza apenas defensivos devidamente registrados no MAPA e aprovados pelos órgãos sanitários, respeitando as recomendações técnicas da bula, fichas de emergência e do receituário agronômico. 

Além do cuidado com o meio ambiente, o compromisso com as pessoas pela companhia se reflete na comunicação prévia realizada com os apicultores conveniados ao Programa de Apicultura ou cadastrados no estado como vizinhos da empresa, por meio de sua equipe social, antes de qualquer aplicação de defensivos em suas operações florestais. 

A companhia orienta ainda aos públicos de relacionamento a sinalizarem por meio de canais de comunicação abertos para envio de dúvidas, sugestões, denúncias ou busca de informações sobre quaisquer temas que julgarem relevantes, com a Suzano prontamente endereçando essas solicitações.


Fonte: Vox

O uso de glifosato na agricultura do Reino Unido aumentou 1.000% desde 1990

Glyphosate use in UK farming up 1,000% since 1990 | News | The Grocer

Por PAN UK 

Uma análise de dados oficiais do governo – divulgada no dia 09/04 pela PAN UK – revela que a quantidade de glifosato aplicada às plantações no Reino Unido aumentou de 200 toneladas métricas por ano em 1990 para mais de 2.200 toneladas em 2024. Aumentos significativos foram observados em uma ampla gama de culturas. Por exemplo, mais de 66 toneladas de glifosato foram aplicadas em batatas britânicas em 2024, contra 1,5 tonelada em 1990. Durante o mesmo período, a área de terras agrícolas no Reino Unido tratadas com o herbicida tóxico aumentou dez vezes, chegando a mais de 2,6 milhões de hectares em 2024, dezesseis vezes o tamanho da Grande Londres. A grande maioria desses aumentos ocorreu no setor de culturas aráveis, com destaque para os cereais (trigo, cevada e milho).

Embora os dados fora do setor agrícola sejam muito mais fragmentados, o uso de glifosato por conselhos locais em espaços públicos, como parques, áreas de lazer e ruas, também parece ter crescido drasticamente. De acordo com estatísticas oficiais do governo do Reino Unido, os conselhos locais utilizaram aproximadamente 60 toneladas de produtos à base de glifosato em 2020. No  entanto, o maior levantamento já realizado sobre o uso de pesticidas por conselhos, publicado no ano passado, revelou que eles utilizaram pelo menos 354 toneladas de pesticidas em 2024, sendo que a grande maioria continha glifosato.

Esses aumentos expressivos serão minuciosamente analisados ​​ainda este ano, já que o governo do Reino Unido precisa decidir até meados de dezembro se renovará a aprovação do glifosato. Caso optem por conceder a licença máxima de 15 anos, é improvável que haja oportunidade de revisão da decisão até 2041.

“Os números de hoje revelam que o vício em glifosato no Reino Unido saiu completamente do controle. O uso excessivo desse produto químico tóxico está causando uma série de problemas, e ainda assim continuamos a pulverizá-lo nos alimentos que consumimos e nos locais onde nossas crianças brincam. Sabemos que o glifosato está ligado a diversos tipos de câncer e outras doenças potencialmente fatais. Além disso, ele prejudica o meio ambiente, poluindo nossas águas e afetando a vida selvagem. O governo precisa urgentemente se comprometer a eliminar gradualmente – e, em última instância, proibir – o glifosato e apoiar os agricultores e as administrações locais na adoção de alternativas seguras e sustentáveis. Caso contrário, todos continuaremos a pagar o preço.”  Nick Mole, Analista de Políticas, PAN UK

Um trator pulverizando campos. Crédito: Foto-up / Shutterstock.org

Crédito Foto-up / Shutterstock.org

O glifosato – frequentemente conhecido por sua marca mais comum, Roundup – tem sido alvo de controvérsia há muitos anos devido ao crescente número de evidências que demonstram seu potencial para causar danos irreversíveis à saúde humana e ao meio ambiente. Nos EUA, foi objeto de uma série de processos judiciais que levaram o fabricante a pagar US$ 11 bilhões a pacientes com câncer que alegam que o herbicida causou linfoma não Hodgkin ou outros tipos de câncer relacionados.  O governo francês reconheceu a ligação entre a doença de Parkinson e o glifosato e tem pago indenizações a agricultores.

Também foi demonstrado que o produto químico tem impactos ambientais negativos de grande alcance, desde a contaminação da água até danos diretos e indiretos a uma variedade de animais selvagens, incluindo anfíbios , abelhas e outros polinizadores.  Embora seja apresentado por alguns como uma solução para as mudanças climáticas, o glifosato é derivado de combustíveis fósseis e produz 31,29 quilogramas de CO2e por quilograma de produto químico produzido.

Devido ao uso excessivo, as ervas daninhas no Reino Unido estão se tornando resistentes ao glifosato . Os primeiros casos de resistência foram confirmados em 2025 e estão se tornando cada vez mais comuns.  A resistência já é um problema antigo nos EUA, onde o glifosato é usado em grandes quantidades.

Em 2023, a UE proibiu o uso de glifosato na dessecação pré-colheita , uma prática que consiste em pulverizar a plantação com produtos químicos pouco antes da colheita para secá-la.  No entanto, o Reino Unido continua permitindo o uso de glifosato como dessecante pré-colheita, apesar de frequentemente resultar em altos níveis de resíduos nos alimentos.

“A clara evidência do aumento do uso de glifosato nessa escala deveria servir de alerta. Isso mostra que temos dependido demais de um único produto químico, principalmente em nossos sistemas de cultivo. Precisamos reduzir o uso de glifosato, e poderíamos começar com seu uso como dessecante pré-colheita em culturas destinadas à cadeia de suprimentos alimentares. Também devemos evitar múltiplas aplicações no mesmo campo na mesma safra. Os agricultores precisam de alternativas práticas, bons conselhos e incentivos adequados do governo e da cadeia de suprimentos para reduzir o uso de pesticidas. E devemos evitar simplesmente pressionar os agricultores a adotarem outro produto ou sistemas de cultivo excessivos que levam a resultados ruins para a natureza e nossos solos.” ​​Martin Lines, agricultor e CEO da Nature Friendly Farming Network 

O Reino Unido e a UE estão atualmente negociando um novo Acordo SPS, que provavelmente levará o Reino Unido a adotar a licença de dez anos concedida pela UE para o glifosato em 2023. Enquanto isso, o governo britânico deve tomar sua própria decisão sobre o glifosato até 15 de  dezembro de 2026 e afirmou que lançará uma consulta pública de 60 dias em junho.

A PAN UK está pedindo que o glifosato não seja reaprovado. No entanto, se uma nova licença for concedida, ela deverá vir acompanhada de um conjunto de restrições destinadas a reduzir o uso geral e limitar o impacto da exposição ao glifosato na saúde humana e no meio ambiente, incluindo:

  • Proibição de vendas a usuários não profissionais, como jardineiros amadores.
  • Proibido o uso em espaços públicos, como parques, calçadas, playgrounds, escolas e hospitais.
  • Proibição do uso na dessecação pré-colheita – isso contribuiria significativamente para ajudar o governo do Reino Unido a atingir sua meta de reduzir o uso e os danos causados ​​por pesticidas no setor agrícola em 10% até 2030.

Fonte: PAN UK

Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental lança publicação, Veredas do III SIMGAT: Comunicações 

A Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental acabar de lançar a publicação na forma de E-Book a obra “Veredas do III SIMGAT: Comunicações apresentadas nos Grupos de Trabalho, fruto do III Simpósio Nacional Geografia, Ambiente e Território, (SIMGAT) realizado no Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGEO), da Universidade Estadual de Goiás (UEG), na Cidade de Goiás (GO), em junho de 2025. O evento teve como tema central Geografia e Ecologia Política: Conflitos (socio)ambientais no Brasil e nos territórios do Cerrado e Pantanal – Da pesquisa ao enfrentamento. 

O E-book conta com 33 capítulos que estão organizados em quatro Veredas (eixos temáticos), cujos temas são: Vereda 1 – Riscos e vulnerabilidade, contaminação e desastres; Vereda 2 – Críticas ao neoextrativismo: dimensões geobiofísica e sócio-espacial; Vereda 3 – Da “devolutiva” à cooperação: divulgação de resultados e colaboração com atores sociais; e Vereda 4 – Temas emergentes em Geografia Ambiental e Ecologia Política.

Esta obra se soma a outras publicações que a RP-G(S)A tem realizado no âmbito das discussões sobre Geografia Ambiental e Ecologia Política, como é caso da já consolidada AMBIENTES: Revista de Geografia e Ecologia Política e de seus eventos, como é o caso dos SIMGATS e dos Beiradeandos o SIMGAT.

E muito em breve, uma nova publicação da RP-G(S)A será lançada, e é importante lembrar que todo acesso ao conteúdo da RP-G(S)A é gratuito. Além disso, as publicações e contato podem ser facilmente obtidas por meio de um dos links a seguir.

Aproveitem e sigam as redes sociais da RP-G(S)A.

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 Revista Ambientes
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A pavimentação da BR-319 trará aumento de riscos de biossegurança, aponta artigo publicado pela Science

Uma equipe de pesquisa coleta amostras em campo para monitoramento epidemiológico em áreas da Amazônia central.
FOTO: Ferrante et. al.
Lucas Ferrante e outros para “Science”
O desmatamento das florestas amazônicas representa riscos crescentes à biossegurança em escalas local, regional e global ( 1 ). O recente acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia está prestes a exacerbar o desmatamento, acelerando a expansão do agronegócio brasileiro ( 2 ) — especialmente a pecuária e a produção de soja — em terras ocupadas ilegalmente no sul e centro da Amazônia ( 3 ). Essa expansão está sendo ativamente facilitada pelo governo brasileiro por meio da consolidação da rodovia BR-319 ( 3 ), que liga Porto Velho a Manus, no centro do arco de desmatamento amazônico, e por meio de seu apoio político à mineração de potássio ( 4 ) em uma área do município de Autazes historicamente ocupada pelo povo indígena Mura ( 5 ). Além de afetar o desmatamento, esses projetos irão perturbar florestas, solos e sistemas hidrológicos intactos, forçando um novo contato entre humanos, animais e comunidades microbianas anteriormente isoladas ( 6 )
Análises metagenômicas recentes revelam que o corredor central BR-319 e as áreas propostas para extração de potássio abrigam conjuntos microbianos desconhecidos enriquecidos em genes associados à resistência a antibióticos, alta virulência, toxicidade e transferência horizontal de genes ( 6 ). A perturbação desses reservatórios cria condições ecológicas que facilitam a disseminação de patógenos e a recombinação genética com patógenos humanos conhecidos, amplificando os riscos globais de biossegurança ( 1 , 6 ).
A limitada capacidade institucional para detectar, conter e responder a patógenos emergentes na Amazônia já produziu consequências internacionais mensuráveis ​​( 1 ). A variante gama do coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) surgiu em Manaus e rapidamente cruzou fronteiras internacionais ( 7 ). Se consolidada, a rodovia BR-319 conectaria um dos maiores reservatórios zoonóticos do mundo a aeroportos internacionais, aumentando substancialmente a velocidade e a escala com que novos patógenos poderiam se disseminar globalmente ( 1 , 6 ). Mais recentemente, uma nova linhagem do vírus Oropouche, originária do corredor da BR-319, expandiu-se para além do Brasil ( 8 ), com circulação confirmada na América Central e na Europa ( 9 , 10 ). Esses casos demonstram que o vazamento de patógenos da Amazônia não é um risco hipotético futuro, mas um processo contínuo, com implicações globais para a saúde pública ( 6 ).
Essas evidências foram formalmente submetidas ao Ministério do Meio Ambiente do Brasil ( 6 ), onde as autoridades são legalmente obrigadas a avaliar toda a documentação técnica. As mesmas obrigações se aplicam à autoridade estadual do Amazonas responsável pela licença para mineração de potássio em Autazes. Nossos resultados indicam que a consolidação da BR-319 e a mineração de potássio não apenas estão ligadas ao desmatamento e à instabilidade climática, mas também criam vias ativas para o surgimento e a disseminação global de patógenos ( 6 ). Em consonância com o princípio de Saúde Única e o princípio da precaução ( 11 ), esses projetos justificam uma reavaliação urgente, inclusive por parte dos parceiros comerciais internacionais.

Fonte: Science

Mercado clandestino de agrotóxicos vira fonte lucrativa de negócios para facções criminosas

Com fiscalização insuficiente e rotas consolidadas, produtos falsificados e contrabandeados podem representam até um quinto do mercado no agro

agronegócio

Fotomontagem: Ca Aulucci/JOTA

Por Victoria Lacerda para “Jota”

Os agrotóxicos se tornaram uma frente estratégica para a infiltração do crime organizado no agronegócio brasileiro, com riscos que preocupam o setor. Esse é um dos mercados ilícitos das organizações criminosas, que migraram das cidades para se fixar no interior e áreas rurais, com logísticas próprias e negócios rentáveis.

Ao longo da última década, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) passaram a disputar territórios nas zonas agrícolas, onde encontram infraestrutura consolidada para o transporte, menor presença do Estado e cadeias produtivas com grande circulação financeira, de acordo com diagnóstico do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

“Essa combinação cria oportunidades para que áreas agrícolas funcionem como hubs logísticos para diferentes mercados ilícitos”, explica Leonardo Silva, pesquisador sênior do FBSP. O mercado de defensivos agrícolas ilegais é uma das mais novas minas de ouro da interiorização das facções.

Esses produtos se movimentam por elos logísticos próprios do crime organizado, que formam a chamada “Rota Caipira”, conectando fronteiras ao interior do país. Dados da Receita Federal e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) obtidos pelo JOTA, somados a levantamentos do setor, dão pistas sobre o espaço ocupado por esse mercado ilegal.

O volume total de agrotóxicos apreendidos nas rodovias federais, incluindo produtos contrabandeados, falsificados, adulterados ou sem registro no país, chegou a 127 toneladas em 2025, mais do que o dobro das 62,9 toneladas apreendidas em 2024. Antes, em 2023, o volume se aproximava de 200 toneladas.

Ao mesmo tempo, as apreensões de agrotóxicos irregulares pela Receita cresceram 55% entre 2020 e 2025, atingindo R$ 16,4 milhões. Mas o pico foi em 2023, com quase R$ 60 milhões apreendidos.

As oscilações nas apreensões não indicam, necessariamente, quedas nesse mercado ilegal, mas subnotificação e limitações dos órgãos de controle. “Os números variam conforme o foco das operações e as prioridades estratégicas. Em alguns períodos, a fiscalização é direcionada para determinados tipos de ilícitos ou regiões específicas, o que pode influenciar o volume de apreensões”, explica o chefe do setor de enfrentamento aos crimes transfronteiriços da PRF, Thiago de Castro.

Além disso, a detecção pelas autoridades é complexa: os defensivos são ocultados como outras mercadorias, enviados em pequenas cargas ou fragmentados. O uso de estradas vicinais e vias secundárias também tem sido uma estratégia de sucesso para evitar fiscalização.

“Muitas vezes, a identificação exige conhecimento técnico específico. Sem essa qualificação, é difícil distinguir um produto falsificado ou irregular apenas pela análise visual”, afirma Castro.

Os números da Receita Federal sugerem ainda que mercado ilegal de agrotóxicos não se restringe a rotas rodoviárias, mas envolve cadeias internacionais de fornecimento e distribuição. A concentração geográfica das apreensões reforça esse ponto.

No ano passado, as maiores apreensões ocorreram em cidades como Eldorado (MS), quase na fronteira com o Paraguai; e em Boa Vista, capital próxima à divisa com a Venezuela e Guiana. Em 2026, o padrão se mantém, com Mato Grosso do Sul, Goiás e Rio Grande do Sul entre os estados com maior número de apreensões até agora.

Oportunidades de mercado

Tradicionalmente, as regiões de fronteira com Paraguai e Bolívia, funcionam como principal porta de entrada do contrabando de drogas, armas e cigarros. Essas rotas foram então adotadas para o tráfico de  agrotóxicos ilegais, que se conectam à malha de transporte do agronegócio legítimo.

“As organizações criminosas aproveitam a infraestrutura logística já existente para ampliar a distribuição de insumos agrícolas ilegais”, comenta Nilto Mendes, gerente de Combate a Produtos Ilegais da CropLife Brasil.

Assim, a Rota Caipira do crime usa um corredor logístico que atravessa desde as fronteiras do Mato Grosso do Sul e Paraná, até polos agrícolas de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo. Ela também se formou a partir de uma oportunidade de mercado: uma ampla e pulverizada infraestrutura rodoviária, justamente para o escoamento da produção agropecuária, somada a brechas de fiscalização.

Embora o uso desse corredor por organizações como o PCC seja conhecido, especialistas apontam que o enfrentamento é afetado pela extensão territorial, multiplicidade de vias secundárias e a adaptação constante das organizações criminosas.

Essa rede opera com divisão de funções, envolvendo transportadoras, caminhões e intermediários locais para pulverizar a distribuição e confundir a fiscalização, segundo as investigações. Para impedir que os produtos sejam rastreados, elas falsificam rótulos e reutilizam embalagens. Por fim, o mercado do insumo agrícola se consolidou como um dos elos de lavagem de dinheiro das facções.

Contudo, a estratégia logística e operacional não foi um único fator a permitir que esse mercado florescesse. O próprio desenvolvimento do agronegócio brasileiro gera uma demanda sempre crescente por insumos agrícolas, o que, na falta de fiscalização mais robusta sobre os materiais aplicados pelos produtores, fomentou a atratividade do mercado ilegal de defensivos.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) é responsável por operações de fiscalização e controle sobre o uso de  agrotóxicos, mas a avalição do setor é que os preços baixos, aliados a lacunas na fiscalização e na rastreabilidade, facilitam a adesão ao mercado ilegal.

A pesquisadora do Ipea Maria Paula Gomes dos Santos comenta que o avanço faz parte de uma estratégia mais ampla do crime organizado. “As organizações criminosas têm buscado novos mercados com alta circulação financeira e menor capacidade de fiscalização. O agronegócio reúne essas características”, afirma.

E a demanda não deve diminuir. Segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), a área tratada com defensivos deve alcançar 2,6 bilhões de hectares em 2025, com crescimento de 6,1% em relação ao ano anterior. Nesse cenário, estimativas do setor indicam que produtos ilegais podem representar até um quinto do volume total de defensivos usados no Brasil

A presença desses produtos, além de representar concorrência desleal, cria riscos operacionais e comerciais para produtores e empresas, além de levantar preocupações ambientais e sanitárias. Produtos sem registro podem contaminar solos e mananciais, além de gerar resíduos acima dos limites permitidos, por exemplo.

Agora, uma nova preocupação é que a penetração do crime possa ser facilitada pela pressão de preços exercida em fertilizantes e insumos agrícolas, devido a conflitos geopolíticos. O início da Guerra no Irã, em fevereiro, fez disparar o preço da ureia, utilizada na fabricação de fertilizantes nitrogenados. Com isso, o produtor precisará cortar custos e pode ter um incentivo a mais para migrar para o mercado ilegal de agrotóxicos.

Combate à nova fronteira do crime no agro

Diante desse cenário e de seu papel estratégico, o mercado ilegal de  agrotóxicos passou a ganhar mais prioridade no combate ao crime organizado. Ele ganhou atenção em iniciativas como o Programa Vigia, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e operações integradas no âmbito do Plano Nacional de Fronteiras.

A atuação conjunta entre forças de segurança, aduana e fiscalização agropecuária também tem aumentado as apreensões e permitido mapear rotas utilizadas pelo crime organizado. Ainda assim, especialistas avaliam que a dinâmica do crime organizado tem evoluído de forma mais rápida do que a capacidade de resposta do Estado.

Nilto Mendes, da CropLife Brasil, aponta que, embora as apreensões tenham aumentado, elas ainda não são suficientes para conter a expansão das redes criminosas, já que elas operam com logística estruturada e distribuição pulverizada.

Na perspectiva da pesquisadora do Ipea Maria Paula Gomes dos Santos, o avanço do crime organizado para atividades econômicas legais, como cadeias produtivas agrícolas, e por meio de mecanismos de lavagem de dinheiro torna o combate ainda mais complexo. Isso exigiria esforços melhor coordenados.

Nessa linha, um ponto crítico é a necessidade de integração entre diferentes órgãos, desde as forças de segurança até a vigilância agrícola. A ausência de compartilhamento sistemático de dados e de estratégias conjuntas entre fiscalização, inteligência e investigação limita a capacidade de atuação. Ainda, em regiões de fronteira, a cooperação internacional também é essencial para reduzir a entrada de produtos ilegais.

Além disso, esse combate passa por aprimorar a integração entre forças de segurança, fiscalização agropecuária e inteligência financeira, com foco na identificação de redes de lavagem de dinheiro ligadas ao agronegócio. A recomendação aparece em análises do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), reunidas no Boletim de Análise Político-Institucional, que apontam a necessidade de ampliar operações conjuntas e fortalecer o monitoramento de rotas logísticas utilizadas pelo crime organizado, por exemplo.

Com a conexão tão forte entre crime e demanda do agronegócio, o enfrentamento ao problema dependerá de estratégias integradas entre segurança pública, fiscalização e políticas agrícolas.


Fonte: Jota

A “fábula do agronegócio” e seus impactos no território brasileiro

Por Observatório das Metrópoles 

O livro A produção da fábula do agronegócio no Brasil: novas e velhas faces da dependência”, de Denise Elias, pesquisadora do Núcleo Fortaleza do INCT Observatório das Metrópoles, acaba de ser disponibilizado em nossa Biblioteca Digital. Publicada originalmente em 2025 pela Letra Capital Editora, a obra reúne décadas de pesquisa da autora sobre as transformações recentes da agropecuária brasileira e suas implicações socioespaciais.

No momento de seu lançamento, o livro esteve disponível apenas para compra, em uma iniciativa da pesquisadora de destinar integralmente os recursos arrecadados à Escola Nacional Florestan Fernandes, vinculada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A doação foi realizada em março de 2026, durante visita à escola, localizada em Guararema (SP). Com a ação concluída, a publicação passa agora a ser acessível em formato digital aberto ao público.

A obra se propõe a analisar criticamente o papel do agronegócio na reorganização do território brasileiro nas últimas décadas. Entre seus principais objetivos, destaca-se a desconstrução de mitos amplamente difundidos sobre o setor, como sua suposta capacidade de erradicar a fome ou de operar de forma ambientalmente sustentável, evidenciando as contradições entre crescimento econômico, concentração de renda e aprofundamento das desigualdades sociais.

A partir de uma abordagem ancorada na geografia crítica e fortemente influenciada pelo pensamento de Milton Santos, Denise Elias argumenta que o agronegócio globalizado atua como um dos principais vetores de reestruturação do espaço brasileiro desde os anos 1970. Esse processo, segundo a autora, ocorre de maneira seletiva e concentradora, promovendo a intensificação da urbanização, a formação de regiões produtivas especializadas e o agravamento das desigualdades socioespaciais no campo e nas cidades.

O livro também chama atenção para a dimensão ideológica do setor, ao tratar da construção de uma “fábula do agronegócio”, sustentada por discursos midiáticos e institucionais que ocultam seus impactos sociais, ambientais e territoriais. Nessa perspectiva, a análise articula economia política, urbanização e dinâmica regional, evidenciando como o avanço do agronegócio está associado tanto à financeirização da economia quanto à expansão de novas formas de controle sobre a terra e os recursos naturais.

Ao longo dos capítulos, a autora explora ainda conceitos como “regiões produtivas do agronegócio” e “cidades do agronegócio”, destacando o papel dessas formações na reconfiguração urbano-regional do país. Ao mesmo tempo, aponta para os conflitos e resistências que emergem nesses territórios, especialmente por parte de populações camponesas, povos tradicionais e movimentos sociais.

Acesse gratuitamente, CLIQUE AQUI.


Fonte: Observatório das Metrópoles

Agrotóxicos geram estragos no microbioma intestinal, causando diabetes e outras doenças

A disrupção do ecossistema intestinal pode contribuir para o desenvolvimento de diabetes e outros problemas de saúde, dizem os cientistas

O uso crescente de agrotóxicos — aplicados aqui na cana-de-açúcar no estado de Maharashtra, na Índia — pode explicar o aumento global do diabetes tipo 2 em pessoas não obesas. S. JAIN/ SCIENCE

Por Sanket Jain para “Science”

Há oito anos, Bhanudas More foi fazer um exame de sangue de rotina. More, um trabalhador rural desta pequena aldeia no estado de Maharashtra, era magro, trabalhava longas horas nos campos e parecia saudável, por isso o resultado o surpreendeu. Ele foi diagnosticado com diabetes tipo 2, uma doença comumente associada à vida sedentária na cidade.

A medicação pouco ajudou a controlar seu quadro. Ele também começou a sentir inchaço persistente e desconforto estomacal. “Eu tomava os remédios, mas ainda não me sentia normal”, diz More, que agora tem 56 anos. “Em alguns dias, era difícil conseguir trabalhar.”

A origem de seus problemas permanece um mistério, mas os médicos descobriram uma pista ao questioná-lo sobre suas condições de trabalho. Nos canaviais e vinhedos onde trabalha, More é rotineiramente exposto a uma mistura de agrotóxicos. Um número crescente de pesquisas sugere que esses produtos químicos podem afetar o microbioma intestinal, o ecossistema de trilhões de bactérias, fungos e vírus que ajudam na digestão dos alimentos, produzem nutrientes essenciais, treinam o sistema imunológico e enviam sinais químicos que influenciam o metabolismo e até mesmo a função cerebral. Tais alterações podem levar a uma série de problemas de saúde, dizem os pesquisadores, entre eles o aumento global do diabetes tipo 2 em pessoas não obesas.

Aqueles que estão expostos no trabalho, como More, podem estar em maior risco, mas os agrotóxicos usados ​​em plantações ou em residências também podem afetar o microbioma. “Se você o expõe repetidamente a baixas doses de substâncias químicas bioativas, pode não observar um efeito dramático imediato, mas pode criar uma pressão seletiva a longo prazo”, afirma Robin Mesnage, diretor científico das clínicas Buchinger Wilhelmi e pesquisador visitante do King’s College London.

Até o momento, não há evidências concretas de danos à saúde humana. Além disso, os cientistas alertam que muitos outros fatores, incluindo dieta, estilo de vida e genética, influenciam o microbioma intestinal, o que dificulta a identificação dos efeitos dos pesticidas.

Em 2023, o uso de agrotóxicos atingiu 3,73 milhões de toneladas em todo o mundo, aproximadamente o dobro da quantidade usada em 1990. (A Índia registrou um aumento de quase 20% apenas na última década.) As pesquisas sobre os riscos à saúde têm se concentrado, por muito tempo, em intoxicação aguda, neurotoxicidade e câncer. Mas novas ferramentas genéticas para o estudo de diversos ecossistemas microbianos tornaram possível rastrear os efeitos dos pesticidas no microbioma.

Velmurugan Ganesan, da Fundação de Pesquisa KMCH, questionou se a exposição a agrotóxicos poderia explicar uma descoberta curiosa. Em um estudo com quase 3.000 pessoas no sul da Índia, sua equipe descobriu que 23% dos participantes em áreas urbanas tinham diabetes, que se agrupava com fatores de risco clássicos, como obesidade e colesterol alto. No entanto, em áreas rurais, a prevalência ainda era de 16%, e não havia associação com esses fatores de risco. “Começamos a nos perguntar se substâncias químicas ambientais poderiam estar desempenhando algum papel”, diz Ganesan.

A equipe então explorou os efeitos da exposição a um inseticida agrícola amplamente utilizado, o clorpirifós, em camundongos. Estudos anteriores com animais frequentemente testavam altas doses por curtos períodos, mas a equipe de Ganesan usou o que ele chama de “dose realista”, baseada nos resíduos de pesticidas na dieta média indiana, por 120 dias. O estudo, publicado em agosto de 2025 , descobriu que o clorpirifós remodelou o microbioma intestinal, com bactérias benéficas como o Lactobacillus diminuindo e espécies potencialmente nocivas como o Helicobacter aumentando. Camundongos expostos ao clorpirifós também desenvolveram hiperglicemia e diabetes, apesar de não ganharem peso, afirma Karthika Durairaj, primeira autora do estudo.

Outro estudo, do qual Ganesan é coautor, sugere um possível mecanismo: quando os micróbios intestinais decompõem o clorpirifós, produzem acetato e outros metabólitos que o fígado utiliza para produzir glicose através de um processo chamado gliconeogênese, levando a níveis elevados de açúcar no sangue.

A equipe de Ganesan está agora analisando amostras de sangue, urina e fezes de pessoas com diabetes, com e sem obesidade, e de indivíduos saudáveis ​​do grupo de controle, para verificar se os padrões se repetem em humanos. “Estamos trabalhando para demonstrar que o diabetes induzido por substâncias químicas ambientais é bastante diferente [do diabetes associado ao estilo de vida] em seus mecanismos subjacentes e pode exigir cuidados clínicos distintos”, afirma Ganesan.

Os agrotóxicos parecem provocar não apenas alterações na população de microrganismos, mas também mudanças em sua atividade. Em um amplo estudo publicado em 2025, por exemplo, pesquisadores expuseram 17 espécies bacterianas representativas do intestino humano a 18 agrotóxicos diferentes e detectaram alterações na produção microbiana de centenas de pequenas moléculas. Entre elas, ácidos graxos de cadeia curta, ácidos biliares e moléculas relacionadas ao triptofano — compostos que ajudam a manter a mucosa intestinal saudável, a regular a inflamação e a direcionar as respostas imunológicas.

“A maioria dos estudos se concentra no efeito dos agrotóxicos na composição da microbiota intestinal, mas este estudo mostra que os efeitos são muito maiores do que isso”, afirma a coautora do estudo, Caroline Johnson, epidemiologista de saúde ambiental da Escola de Saúde Pública de Yale. A equipe também descobriu que algumas bactérias acumulam agrotóxicos dentro de suas células, o que pode prolongar sua presença no corpo humano e aumentar o risco de efeitos na saúde a longo prazo.

Ao alterar a produção das bactérias intestinais, os pesticidas também podem influenciar a sinalização cerebral e as respostas imunológicas. Em estudos com animais , por exemplo, a exposição ao clorpirifós foi associada a comportamentos semelhantes à depressão, juntamente com alterações na microbiota intestinal. “Não se trata de um único mecanismo. É uma rede de efeitos biológicos que pode, em última análise, interromper a comunicação ao longo do eixo intestino-cérebro”, afirma John Cryan, neurocientista da University College Cork.

Mas Cryan alerta que provar a causalidade é um dos maiores desafios da área. Mesmo estudos controlados com animais muitas vezes não conseguem determinar se as mudanças comportamentais são impulsionadas pela disrupção do microbioma ou pelos efeitos diretos dos agrotóxicos no cérebro, por exemplo. Alguns experimentos recentes estão começando a abordar essa lacuna. Em estudos com animais, a alteração do microbioma por si só, por exemplo, por meio do transplante de microbiota fecal, foi suficiente para mudar o comportamento, sugerindo que os micróbios intestinais desempenham um papel causal.

Ainda não está claro se os agrotóxicos podem ter um efeito semelhante em humanos. E, ao contrário dos animais em estudos de laboratório, os humanos são frequentemente expostos durante anos a uma mistura de vários produtos químicos. Mesnage e seus colegas, por exemplo, analisaram a presença de resíduos de 186 agrotóxicos comuns na urina de 130 pessoas no Reino Unido.

Os resultados o surpreenderam: a equipe encontrou resíduos de inseticidas piretroides ou organofosforados em amostras de todos os participantes, com níveis mais altos em pessoas que relataram consumir mais frutas e verduras. (Agrotóxicoss usados ​​dentro de casa ou em animais de estimação também contribuem para a exposição, afirma Mesnage.) Os pesquisadores também analisaram amostras de fezes e descobriram que níveis mais altos de resíduos de agrotóxicos na urina dos participantes estavam associados a alterações na composição e no metabolismo da microbiota intestinal.

No entanto, estabelecer uma ligação definitiva entre essas alterações no microbioma e os pesticidas exigirá estudos de intervenção. Por exemplo, as pessoas poderiam ser solicitadas a consumir apenas produtos orgânicos, o que reduziria sua exposição, para verificar se e como isso altera seu microbioma intestinal.

Ainda não se sabe se é possível reverter a disrupção do microbioma intestinal causada por agrotóxicos. “No momento, não temos uma solução simples ou universal”, afirma Cryan. “Há uma tendência a pensar que tomar um probiótico” — uma mistura de bactérias intestinais benéficas — “pode ​​resolver tudo”, diz ele, mas o microbioma é influenciado por muitos fatores e restaurar o equilíbrio raramente é simples.

Por enquanto, a melhor abordagem é reduzir a exposição a agrotóxicos, dizem os cientistas. Mas para More, isso não é fácil. Agora ele cobre o rosto enquanto pulveriza as plantações e, às vezes, se pergunta se deveria abandonar a agricultura. Mas, como muitos outros em sua aldeia, ele não tem escolha.


Fonte: Science

Cessar-fogo ou derrota? O recuo estratégico dos Estados Unidos diante do Irã

Pausa no conflito expõe limites do poder militar tradicional, reforça o papel da guerra assimétrica e aprofunda a instabilidade na ordem global

Os últimos dias foram intensos na escalada do conflito entre Estados Unidos/Israel e Irã, a ponto de se cogitar que o eixo liderado por Donald Trump recorreria ao uso de artefatos nucleares para reverter o curso desfavorável imposto pelos iranianos ao longo de pouco mais de um mês de enfrentamentos. No entanto, em vez da aniquilação anunciada em discursos e análises mais alarmistas, o que emergiu foi um cessar-fogo de duas semanas — um desfecho provisório que, na prática, sinaliza o encerramento desta etapa do conflito.

O que se desenhou, na realidade, foi um recuo tático. Pressionado pelas desvantagens impostas por uma guerra assimétrica conduzida com eficiência pelo Irã, Donald Trump foi forçado a ceder, ainda que sob a narrativa de uma pausa estratégica. O gesto, no entanto, ecoa como reconhecimento implícito de um revés militar e político, mesmo que temporário.

Mais do que um episódio isolado, o conflito expõe uma inflexão relevante na natureza das guerras contemporâneas. O modelo tradicional de confronto bélico — centrado em poderio tecnológico ostensivo e superioridade numérica — sofre um abalo significativo diante da eficácia de estratégias assimétricas. Nesse contexto, o desempenho iraniano reposiciona o debate estratégico global e tende a impulsionar uma reconfiguração das doutrinas militares em diversas regiões. Ironicamente, o mesmo Ocidente que incentivou e financiou a adoção de táticas assimétricas em cenários como o da Ucrânia vê-se agora confrontado com os efeitos dessa lógica aplicada contra seus próprios interesses geopolíticos.

A já fragilizada hegemonia dos EUA sofre, assim, um abalo adicional, reforçando a percepção de um mundo em transição para uma ordem mais fragmentada e imprevisível. Ainda assim, qualquer leitura que associe esse cenário a uma futura estabilidade global parece precipitada.

Em síntese, o que se observa não é o fim das tensões, mas sua mutação. A aparente pausa no conflito encobre um reposicionamento estratégico mais amplo, no qual velhos paradigmas de poder são questionados e novas formas de confronto ganham centralidade. Longe de inaugurar um período de equilíbrio, o episódio revela um sistema internacional mais volátil, onde derrotas são disfarçadas de cessar-fogo e onde a disputa por hegemonia tende a se intensificar em terrenos menos previsíveis — e, possivelmente, mais perigosos.

Observatório denuncia impactos da construção do Porto do Piauí sobre comunidades pesqueiras no Delta do Parnaíba no Piauí

Porto Piauí tem nova etapa concluída e avança para operação

Por Observatório do Delta do Parnaíba 

A proposta de implantação de um porto no litoral do Piauí remonta ao século XIX, quando o atual município de Luís Correia abrigava o Porto de Amarração, utilizado como ancoradouro para transporte de mercadorias e passageiros.

Ao longo do tempo, diferentes iniciativas buscaram transformá-lo em um porto comercial permanente. Entre as décadas de 1960 e 1980, foram realizados estudos técnicos e iniciadas obras preliminares, como a construção de um molhe, mas o projeto não chegou a ser concluído. A retomada do empreendimento ocorreu em 2007, com anúncio do governo federal, embora tenha enfrentado paralisações e disputas judiciais. Apenas em 2023 houve avanço concreto, com a dragagem do canal de acesso e autorização para funcionamento da primeira etapa do Porto Piauí. Ao longo de 2024 e 2025, o projeto seguiu com a expansão da infraestrutura, incluindo cais multipropósito, pátio logístico, sede administrativa e estruturas do terminal pesqueiro, além da contratação de cerca de R$ 543 milhões para implantação de um Terminal de Uso Privado (TUP). A projeção estadual indica investimentos que podem ultrapassar R$ 7 bilhões até 2030.

Apesar desses avanços, o porto ainda se encontra em fase inicial e depende de novas etapas de licenciamento ambiental e investimentos, sendo que o único licenciamento concedido até o momento refere-se ao terminal pesqueiro. O projeto está associado a uma estratégia logística mais ampla, voltada ao escoamento de minério de ferro de Piripiri, grãos do MATOPIBA, calcário da região de Tutóia (MA) e à produção de hidrogênio verde em Parnaíba — este último, entretanto, teve recentemente suas licenças ambientais negadas pela Justiça Federal, devido à ausência.

O estudo de impacto ambiental do Porto Piauí

O licenciamento ambiental do Porto do Piauí baseia-se em um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) que deveria analisar aspectos físicos, biológicos, hidrodinâmicos e socioeconômicos da região costeira. O estudo reconhece que o empreendimento está inserido em uma área de alta sensibilidade ambiental, dentro da APA Delta do Parnaíba — uma das regiões de maior biodiversidade do litoral brasileiro e onde se localiza o único delta em mar aberto das Américas. Apesar disso, análises independentes indicam lacunas importantes, especialmente na dimensão socioeconômica do estudo. Há uma caracterização limitada das comunidades pesqueiras tradicionais e a ausência de estudos etnográficos aprofundados dificulta avaliar como mudanças ambientais podem afetar diretamente a produtividade da pesca e o modo de vida dessas populações.

O pedido de licenciamento foi protocolado em 2025 junto à SEMAR-PI, mas, por se tratar de uma unidade de conservação federal, o ICMBio também se manifestou e negou a autorização, apontando riscos de impactos irreversíveis e a inviabilidade do projeto na área. Ainda assim, o governo estadual tem buscado rever normas e o zoneamento da APA para viabilizar o porto, o que gera preocupação, já que o próprio EIA reconhece um potencial de danos significativos aos recursos socioambientais e à biodiversidade da região.

A consulta prévia, livre e informada (CPLI)

Outro ponto central do debate sobre o Porto do Piauí é o processo de Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI), direito garantido pela Convenção 169 da OIT, que exige que povos e comunidades tradicionais sejam consultados antes da implementação de projetos que afetem seus territórios.

Embora tenham sido realizadas oficinas e reuniões com colônias e associações de pescadores e organizações sociais, pescadores e especialistas apontam fragilidades no processo: elaboração inicial do plano de consulta sem participação das comunidades; ausência de assessoria técnica independente para apoiar os pescadores; curto prazo de realização das oficinas; falta de compromissos concretos assinados, prazos e responsabilidades financeiras definidas pelos acordos anunciados pelo governo do Piauí ; remoção de pescadores artesanais profissionais tradicionais do Porto do Buraco do Dandão,devido à ampliação e consolidação do TUP.

Porto do Dandão (à esquerda), em Luís Correia (PI), sendo cercado pelo TUP – Porto do Piauí (a direita.), em um processo de desterritorialização portuária. Fotografia: Maxim Repetto

Os desafios futuros das comunidades tradicionais pesqueiras

O Porto do Piauí é apresentado como um projeto estratégico para inserir o estado nas grandes rotas comerciais nacionais e internacionais, articulando a produção mineral e do agronegócio com grandes investimentos econômicos. No entanto, sua implantação ocorre em uma área ambientalmente sensível — a APA do Delta do Parnaíba — e em um território socialmente complexo, onde vivem comunidades tradicionais. Esse cenário evidencia a necessidade de fortalecer mecanismos de avaliação ambiental, participação social e proteção dos modos de vida locais. Verificamos que os pescadores artesanais profissionais tradicionais são os mais afetados, embora não tenham sido devidamente considerados no Estudo de Impacto Ambiental, nem no processo de Consulta Prévia, Livre e Informada. Diante disso, as comunidades vêm demandando acompanhamento e atuação de instituições como o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública da União e a Defensoria Pública do Estado.

Diante desse contexto, colocam-se questões fundamentais para reflexão: qual será o impacto sobre o preço do peixe nos mercados locais caso a produção regional seja direcionada à exportação? Projetos como esse fortalecem as comunidades pesqueiras ou tendem a subordiná-las a interesses externos? Qual modelo de desenvolvimento está sendo proposto para as comunidades tradicionais da APA do Delta do Parnaíba? E como equilibrar os impactos do empreendimento com a garantia dos modos de vida e direitos dessas populações?

Pescadores do Porto do Dandão, em Luís Correia (PI), questionam o TUP – Porto do Piauí, por lhes afasta de seu lugar tradicional de trabalho. Fotografia: Luciano Galé.

Para maiores informações sobre a luta das comunidades que estão sendo ameaçadas pela construção do Porto do Piauí, a dica é seguir o perfil do Observatório do Delta do Parnaíba na rede social Instagram que é  @Observatorio_delta_parnaiba.