Paulo Artaxo alerta: Brasil ainda não construiu uma cultura de adaptação ao novo clima

Docente da USP  defende planejamento de longo prazo, investimentos em prevenção e políticas públicas capazes de enfrentar uma crise climática que já amplia eventos extremos e aprofunda as desigualdades socioambientais no país

Em entrevista publicada pela jornalista Vanessa Oliveira no jornal Valor Econômico, o físico e professor da USP, Paulo Artaxo, faz um diagnóstico que deveria orientar o planejamento público em todas as escalas de governo: o Brasil ainda está muito atrasado na construção de uma estratégia consistente para enfrentar os impactos de um clima que já não corresponde aos padrões do passado. A mensagem central da reportagem é clara: não basta reagir às tragédias quando elas acontecem; é preciso criar uma cultura permanente de prevenção, adaptação e planejamento.

Essa avaliação ganha ainda mais relevância porque os eventos extremos deixaram de ser exceções. Secas prolongadas, ondas de calor, tempestades intensas, enchentes e incêndios florestais passam a ocorrer com maior frequência e intensidade, impondo custos humanos, econômicos e ambientais crescentes. A insistência em tratar esses episódios como acontecimentos isolados impede que sejam enfrentados como parte de uma transformação climática estrutural.

No caso brasileiro, entretanto, o problema é ainda mais complexo. Não existe um único “novo clima”, mas diferentes expressões regionais da crise climática. Enquanto o Sul enfrenta chuvas excepcionais e inundações recorrentes, partes da Amazônia e do Nordeste convivem com secas severas, redução da disponibilidade hídrica e aumento do risco de incêndios. Nas zonas costeiras, tempestades, erosão marinha e elevação do nível do mar ampliam a vulnerabilidade de municípios que, em sua grande maioria, sequer dispõem de instrumentos adequados de planejamento territorial e gerenciamento costeiro.

Há também uma dimensão social que frequentemente permanece invisível. Os impactos climáticos distribuem-se de maneira profundamente desigual. Populações de baixa renda, moradores de periferias urbanas, comunidades tradicionais, agricultores familiares, pescadores artesanais e povos indígenas costumam sofrer os efeitos mais severos, justamente porque dispõem de menor infraestrutura, menor proteção estatal e menor capacidade de recuperação após os desastres. Adaptar o país ao novo clima significa, portanto, enfrentar simultaneamente as desigualdades socioespaciais que amplificam esses riscos.

Outro aspecto importante da entrevista é a defesa de que adaptação não deve ser entendida como uma política emergencial, mas como uma política permanente de Estado. Isso exige planejamento territorial, fortalecimento da ciência, investimentos contínuos em monitoramento meteorológico, sistemas de alerta precoce, infraestrutura resiliente e políticas públicas capazes de reduzir vulnerabilidades antes que os desastres ocorram. Sem isso, continuará prevalecendo o modelo de reconstrução após cada tragédia, normalmente mais caro e menos eficiente do que a prevenção.

A advertência de Paulo Artaxo merece ser levada muito além do debate científico. Construir uma cultura de enfrentamento ao novo clima significa reconhecer que a emergência climática já está reorganizando o território brasileiro.  A persistência de uma lógica da improvisação, de cortes orçamentários e da ausência de planejamento significará transformar eventos extremos em crises humanitárias cada vez mais frequentes. A adaptação climática deixou de ser uma escolha política: tornou-se uma condição indispensável para proteger vidas, economias locais e ecossistemas em um país que já experimenta, diariamente, os efeitos das mudanças em curso.

Turismo ecossistêmico para escolhidos, exclusão territorial para pescadores

Evento fechado da Reserva Caruara, realizado em parceria com a UFF, reacende o debate sobre a legitimidade de uma conservação ambiental que restringiu o acesso de comunidades tradicionais à Lagoa de Iquipari enquanto reivindica o discurso do diálogo e da construção coletiva

A circulação de um convite para o I Workshop de Experiências Turísticas Ecossistêmicas, promovido pela Reserva Caruara em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), suscita uma série de questões que merecem ser debatidas publicamente. A primeira delas é bastante objetiva:  apesar do nome, a atividade é um evento fechado, com participação restrita a convidados previamente selecionados e autorizados pelos organizadores. Embora o material de divulgação utilize uma linguagem que remete ao diálogo, ao compartilhamento de experiências e à construção coletiva, a própria dinâmica anunciada contradiz esse discurso ao impedir a participação da sociedade em geral e, especialmente, daqueles diretamente afetados pela existência da Reserva Caruara.

Esse aspecto é particularmente sensível porque a Reserva Caruara não é uma unidade de conservação criada espontaneamente em resposta a uma demanda da sociedade pela proteção ambiental. Ela constitui uma medida compensatória vinculada ao licenciamento ambiental do Porto do Açu, empreendimento cuja implantação alterou profundamente a dinâmica territorial do V Distrito de São João da Barra. Entre os impactos mais conhecidos está a drástica restrição do acesso de pescadores artesanais à Lagoa de Iquipari, espaço utilizado por gerações como fonte de sustento, trabalho e reprodução de modos de vida tradicionais.

Nesse contexto, discutir “experiências turísticas ecossistêmicas” sem a presença efetiva daqueles que perderam acesso ao território em nome da chamada conservação ambiental produz um paradoxo estridente. O discurso da valorização dos serviços ecossistêmicos culturais é incompleto quando ignora justamente o patrimônio cultural representado pelas práticas históricas da pesca artesanal, que também constituem parte indissociável da paisagem, da memória social e da identidade territorial da região.

Outro ponto que merece reflexão diz respeito ao papel da Universidade Federal Fluminense (UFF), apresentada no material de divulgação como parceira da iniciativa. A questão que se coloca é simples e legítima: qual é exatamente o significado dessa parceria em um evento cuja participação é previamente definida pelos gestores da Reserva Caruara e, em última instância, pelo Porto do Açu? Ao figurar como parceira consentida de um encontro fechado, a UFF acaba associando sua imagem institucional a uma iniciativa que exclui justamente os segmentos sociais mais diretamente afetados pela implantação da Reserva Caruara.

Não se trata de discutir a qualidade técnica ou científica do workshop, mas de indagar sobre a responsabilidade institucional de uma universidade pública ao emprestar sua credibilidade a um evento privado que restringe o acesso ao debate. A direção da UFF considera compatível com sua missão institucional participar, como parceira, de uma atividade que se apresenta como espaço de diálogo, mas cuja participação depende de convite e autorização prévia? Em um território marcado por conflitos socioambientais ainda não resolvidos, seria de se esperar que uma universidade pública contribuísse para ampliar o debate público, e não para legitimar um processo deliberativo circunscrito a um grupo previamente selecionado.

Também merece atenção a própria estratégia de divulgação do evento. O convite enfatiza expressões como “pesquisa, conservação e turismo em diálogo”, “compartilhamento” e “construção coletiva”. Entretanto, em posição de destaque, informa que a participação ocorrerá “mediante convite e autorização prévia”. Há, portanto, uma evidente dissonância entre a mensagem transmitida e o formato efetivamente adotado. A linguagem visual busca comunicar abertura e diálogo, enquanto as regras de acesso revelam um encontro de natureza privada, reservado a um público previamente escolhido pelos organizadores.

Essa aparente falta de transparência se torna ainda mais evidente quando se busca obter informações adicionais sobre o workshop. Embora o site da Reserva Caruara disponibilize um link para o evento, o acesso não conduz a uma página contendo sua programação, objetivos, palestrantes, critérios de seleção dos participantes ou qualquer outra informação específica. Em vez disso, o visitante é direcionado para um conteúdo que não guarda relação com o workshop anunciado. Essa incongruência impede que o público conheça minimamente a estrutura do encontro e dificulta compreender quem participará das discussões e quais perspectivas estarão representadas.

Essa ausência de informações torna ainda mais pertinente questionar a natureza da parceria estabelecida entre a Reserva Caruara e a UFF. Se a proposta é promover um debate sobre turismo, conservação e serviços ecossistêmicos em um território marcado por conflitos socioambientais, seria razoável esperar que aspectos elementares do evento — como programação, convidados, critérios de participação e objetivos específicos — estivessem disponíveis de forma clara e acessível. A transparência é um componente indispensável da legitimidade, especialmente quando uma universidade pública associa seu nome a uma iniciativa dessa natureza.

Não se questiona o direito de uma instituição privada realizar eventos restritos aos seus convidados. O que merece problematização é a tentativa de apresentar um encontro dessa natureza como espaço de reflexão sobre questões de interesse coletivo em um território profundamente marcado por conflitos ambientais, sociais e fundiários. Quando se fala em turismo sustentável, conservação e serviços ecossistêmicos em uma área cuja criação implicou severas restrições ao acesso de comunidades tradicionais ao seu território histórico, transparência, pluralidade de vozes e participação pública deixam de ser detalhes organizacionais para se tornarem requisitos fundamentais de legitimidade.

Permanecem, assim, algumas perguntas que merecem resposta pública. Por que um workshop que afirma promover o diálogo sobre conservação e turismo não é aberto à sociedade? Haverá representantes dos pescadores artesanais que estão sendo prejudicados pela criação da Reserva Caruara? Pesquisadores que produziram estudos críticos sobre os impactos territoriais do Porto do Açu foram convidados? A programação e os critérios de participação serão finalmente tornados públicos? E, sobretudo, qual o sentido de a UFF figurar como parceira de uma iniciativa privada cujo formato restringe o debate público sobre um conflito socioambiental que permanece longe de ser resolvido?

Enquanto essas questões permanecerem sem resposta, será difícil não interpretar o workshop como mais um esforço de construção de legitimidade para um modelo de conservação ambiental corporativa que, ao mesmo tempo em que promove a proteção da biodiversidade e novas modalidades de turismo, continua associado à exclusão de comunidades tradicionais de territórios que, durante gerações, garantiram sua sobrevivência material, cultural e social. A verdadeira construção coletiva começa pela disposição de ouvir também aqueles cujas vozes foram historicamente silenciadas pelo mesmo processo que hoje se pretende apresentar como exemplo de sustentabilidade.

O INCT-TMCOcean amplia o acesso ao conhecimento com seu novo portal na internet

Já está no ar o novo portal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano (INCT-TMCOcean), um espaço criado para reunir e divulgar a produção científica, as atividades e as ações desenvolvidas por uma das mais importantes redes brasileiras de pesquisa sobre os processos que conectam os continentes aos oceanos.

No site, pesquisadores, estudantes e o público em geral podem conhecer quem integra o INCT-TMCOcean, consultar o perfil de seus pesquisadores, acessar a relação de artigos científicos publicados ao longo da trajetória do Instituto, explorar sua biblioteca especializada e acompanhar notícias sobre o cotidiano da instituição, além de informações sobre eventos, cursos, treinamentos e outras atividades científicas promovidas pela rede.

O portal também apresenta a missão, os objetivos e as principais linhas de pesquisa do Instituto, destacando sua contribuição para a compreensão dos processos de transporte de sedimentos, nutrientes, matéria orgânica e metais-traço entre os continentes e os oceanos, tema fundamental para o conhecimento das zonas costeiras, dos estuários e dos impactos das mudanças ambientais sobre esses ecossistemas.

Acesse o portal e descubra a riqueza das pesquisas desenvolvidas pelo INCT-TMCOcean:

https://inct-tmcocean.com/

Petrobras e a captura silenciosa da ciência brasileira

A crise do financiamento público fortalece a influência corporativa sobre universidades, pesquisadores e organizações socioambientais, enfraquecendo a autonomia crítica e o debate democrático

Em uma investigação publicada pela jornalista Mirna Wabi-Sabi na Plataforma9, intitulada “Como patrocínios ambientais da Petrobras compram o silêncio”, é revelado um aspecto pouco debatido da relação entre grandes corporações e a produção do conhecimento científico: a existência de cláusulas contratuais que podem limitar a autonomia de instituições de pesquisa financiadas por empresas cujas atividades são justamente objeto desses estudos. A reportagem descreve contratos firmados pela Petrobras com organizações ambientais que incluem dispositivos de confidencialidade, revisão prévia de materiais de divulgação e a possibilidade de encerramento do apoio caso a imagem da empresa seja considerada prejudicada.

O caso apresentado vai muito além de uma discussão jurídica sobre contratos. Ele coloca em evidência um problema estrutural: quem financia a pesquisa também pode adquirir capacidade de influenciar a forma como seus resultados circulam no espaço público. Ainda que isso não implique necessariamente manipulação direta dos dados científicos, a simples existência de mecanismos capazes de restringir a divulgação de informações críticas ou de induzir à autocensura já representa uma ameaça à independência da ciência. Afinal, o conhecimento científico só cumpre plenamente sua função social quando pode ser produzido, debatido e divulgado sem condicionantes impostos pelos interesses econômicos dos financiadores.

Entretanto, seria um erro tratar essa situação apenas como consequência da atuação de uma empresa. O problema é também resultado de décadas de desfinanciamento da ciência brasileira. A contínua redução dos investimentos públicos em universidades, institutos de pesquisa e agências de fomento criou um ambiente de extrema vulnerabilidade financeira. Laboratórios precisam sobreviver, pesquisadores precisam manter equipes, estudantes dependem de bolsas e equipamentos necessitam de manutenção. Quando o Estado abandona sua responsabilidade histórica de financiar a produção científica,  é aberto o espaço para que grandes corporações ocupem esse vazio.

É precisamente nesse contexto que estratégias de captura corporativa se tornam eficazes. Não é necessário comprar consciências de forma explícita quando se controla o acesso aos recursos indispensáveis para que a pesquisa continue existindo. A dependência financeira tende a produzir formas sutis de acomodação: temas deixam de ser investigados, críticas tornam-se mais cautelosas e resultados potencialmente inconvenientes passam a ser comunicados com menor intensidade. Trata-se de um mecanismo conhecido na literatura internacional como soft capture, no qual a influência é exercida menos pela censura aberta e mais pela construção de relações permanentes de dependência econômica.

Essa discussão assume especial relevância quando se trata da Petrobras. Durante décadas, a empresa construiu para si a imagem de patrimônio nacional e de protagonista do desenvolvimento brasileiro. Essa identidade, frequentemente mobilizada para neutralizar críticas, acabou por conferir uma espécie de blindagem política às suas práticas. No entanto, quando utiliza seu poder econômico para estabelecer relações de dependência com universidades, grupos de pesquisa e organizações não governamentais, a Petrobras reproduz mecanismos típicos da captura corporativa. Não se trata apenas de financiar projetos ambientais, mas de criar um ambiente em que críticas contundentes aos impactos de suas atividades tendem a se tornar mais raras, mais cautelosas ou simplesmente desaparecem da esfera pública.

Tal dinâmica é particularmente preocupante porque a Petrobras não atua apenas como financiadora de pesquisas. Em diferentes regiões do país, seus empreendimentos ligados à exploração, ao transporte e ao processamento de petróleo e gás têm contribuído para processos de reconfiguração territorial que frequentemente restringem o acesso de comunidades tradicionais aos espaços de que dependem para sua reprodução social e cultural. Pescadores artesanais, caiçaras, quilombolas e povos indígenas convivem, não raramente, com a ampliação de áreas de exclusão, dificuldades de acesso a territórios tradicionalmente utilizados e processos decisórios marcados por profundas assimetrias de poder.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa realidade é o da Baía de Guanabara. Ali, o pescador artesanal Alexandre Anderson, fundador e principal liderança da AHOMAR (Associação Homens e Mulheres do Mar), tornou-se símbolo da resistência aos impactos da expansão da indústria petrolífera sobre os territórios pesqueiros. Em razão dessa atuação, foi alvo de sucessivos atentados e ameaças de morte, passou anos sob escolta policial e precisou ser incluído no Programa Federal de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. Independentemente da autoria material desses ataques, sua trajetória revela o elevado grau de conflitividade associado aos grandes empreendimentos petrolíferos e os riscos enfrentados por quem desafia interesses econômicos poderosos. Não é por acaso que a luta de Alexandre Anderson extrapolou a defesa da pesca artesanal para tornar-se um símbolo nacional da resistência aos processos de desterritorialização promovidos pela expansão da indústria do petróleo.

É justamente nesse ponto que o financiamento de pesquisas e projetos socioambientais adquire uma dimensão política ainda mais ampla. Embora a reportagem da Plataforma9 não afirme que todas as instituições financiadas tenham renunciado à sua autonomia crítica, ela evidencia a existência de mecanismos capazes de produzir um ambiente favorável ao amansamento institucional. Em um cenário de escassez crônica de recursos públicos para a ciência, muitas universidades, grupos de pesquisa e organizações da sociedade civil  se tornam progressivamente dependentes do financiamento corporativo para garantir sua própria sobrevivência. Essa dependência tende a produzir autocontenção, evitar conflitos públicos e enfraquecer a disposição de questionar os impactos socioambientais dos próprios financiadores.

A consequência é a construção de um ambiente político particularmente favorável às grandes corporações. Enquanto lideranças comunitárias e defensores de direitos territoriais enfrentam ameaças, processos judiciais, criminalização e, em casos extremos,  a eliminação física, parte das instituições responsáveis pela produção do conhecimento científico e pela formulação de críticas públicas passa a depender financeiramente daqueles cujas atividades deveriam investigar com independência. Está é uma combinação extremamente funcional ao avanço do extrativismo: o espaço da contestação social é reduzido, ao mesmo tempo em que se enfraquece a capacidade crítica da ciência e das organizações da sociedade civil.

A investigação da Plataforma9, portanto, extrapola o caso específico dos contratos analisados. Ela revela como o desfinanciamento sistemático da ciência pública brasileira fortalece a capacidade de grandes empresas de moldar o ambiente institucional em que o conhecimento é produzido. Quanto menor for o investimento estatal, maior será a dependência de recursos corporativos e maior o risco de que universidades, laboratórios e organizações da sociedade civil passem a calibrar suas agendas de pesquisa e sua atuação pública em função dos interesses de seus financiadores.

A verdadeira resposta para esse dilema não consiste em demonizar toda parceria entre universidades e empresas. Cooperações podem produzir resultados socialmente relevantes, desde que estejam submetidas a regras rigorosas de transparência, autonomia científica e liberdade irrestrita para publicar resultados, favoráveis ou desfavoráveis ao financiador. O que não pode ser naturalizado é um modelo em que a escassez deliberadamente produzida de recursos públicos transforma pesquisadores em dependentes da boa vontade das corporações. Enquanto o Estado continuar renunciando ao seu papel de principal financiador da ciência, a autonomia da pesquisa permanecerá vulnerável à influência daqueles cujas atividades ela deveria investigar criticamente.

No caso da Petrobras, essa contradição assume contornos particularmente preocupantes. Uma empresa que reivindica para si a condição de símbolo do desenvolvimento nacional utiliza seu poder econômico para ampliar sua legitimidade social ao mesmo tempo em que atua em territórios marcados por conflitos ambientais, restrições aos modos de vida de comunidades tradicionais e mecanismos de influência capazes de reduzir o espaço do dissenso.  É preciso ressaltar que a investigação da Plataforma9 mostra apenas uma das faces desse problema. A questão mais profunda é saber até que ponto uma ciência crescentemente dependente do financiamento corporativo continuará sendo capaz de cumprir sua função essencial: produzir conhecimento crítico, independente e comprometido com o interesse público, e não com o esverdeamento da imagem de empresas cujas atividades são antagônicas com a preservação do ambiente e das comunidade tradicionais.

O neoliberalismo de esquerda e o preço ecológico da conciliação de classes

O artigo As raízes vermelhas do neoliberalismo brasileiro, publicado no portal A Terra é Redonda, oferece uma interpretação provocativa sobre a trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT) desde sua chegada ao governo federal em 2003. O argumento central produzido pelo  seu autor,  Eduardo Luiz Zen, é que, longe de representar uma ruptura com o neoliberalismo consolidado nos anos 1990, os governos petistas construíram uma modalidade própria de gestão do capitalismo brasileiro, combinando políticas redistributivas e de inclusão social com a preservação dos pilares do modelo econômico baseado na financeirização, na exportação de commodities e na conciliação com as frações dominantes do capital.

Há, entretanto, uma dimensão que merece ser ainda mais enfatizada: a ecológica. Se existe um “neoliberalismo vermelho”, uma de suas expressões mais evidentes é aquilo que se poderia chamar de negacionismo ecológico sutil. Não se trata da negação explícita das mudanças climáticas ou da destruição ambiental, como ocorreu em outros governos. Pelo contrário, o discurso oficial frequentemente incorpora a linguagem da sustentabilidade, da transição energética e da proteção dos biomas. O problema reside justamente na distância crescente entre esse discurso e a continuidade de um modelo de desenvolvimento assentado na expansão do agronegócio exportador, da mineração em larga escala e das grandes obras de infraestrutura voltadas para a integração do Brasil aos mercados globais de commodities.

Desde o primeiro governo do presidente Luiz Inácio, em 2003, consolidou-se uma estratégia de convivência e acomodação com os interesses do latifúndio agroexportador. Esse movimento ocorreu paralelamente à ampliação das exportações agrícolas e ao fortalecimento político das grandes entidades representativas do agronegócio, sem que fossem enfrentadas questões estruturais como a concentração fundiária, a reforma agrária ou os impactos socioambientais da agricultura intensiva. Diversos estudos científicos apontam que essa orientação representou uma continuidade importante da inserção primário-exportadora da economia brasileira, ainda que acompanhada de políticas sociais redistributivas.

O mesmo padrão pode ser observado na mineração. Grandes empreendimentos minerais continuaram sendo tratados como vetores privilegiados do crescimento econômico, frequentemente recebendo apoio institucional e financeiro do Estado, enquanto conflitos territoriais envolvendo comunidades tradicionais, povos indígenas e populações atingidas permaneceram em segundo plano. A lógica predominante foi a da expansão da fronteira extrativa, compatível com a crescente demanda internacional por minério de ferro, ouro, bauxita e, mais recentemente, minerais estratégicos para a chamada transição energética.

No caso da agricultura, essa opção política possui consequências que hoje se tornam cada vez mais difíceis de ignorar. O avanço contínuo da monocultura baseada no uso intensivo de agrotóxicos, fertilizantes sintéticos e sementes geneticamente modificadas vem produzindo impactos expressivos sobre a biodiversidade, os recursos hídricos, a qualidade dos solos e a saúde pública. Ao mesmo tempo, a expansão da fronteira agropecuária permanece como um dos principais vetores de desmatamento, degradação florestal e emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Ainda assim, essas contradições raramente aparecem como elementos centrais da estratégia de desenvolvimento defendida pelo governo.

É justamente aí que se manifesta esse negacionismo ecológico de baixa intensidade: reconhece-se a existência da crise climática, mas evita-se questionar o modelo econômico que a alimenta. Celebram-se metas ambientais em fóruns internacionais enquanto, internamente, preserva-se uma aliança política que impede mudanças mais profundas na organização da produção agrícola e mineral. Em vez de enfrentar os fatores estruturais da degradação ambiental, privilegia-se uma narrativa segundo a qual seria possível compatibilizar indefinidamente a expansão do extrativismo com a sustentabilidade.

Essa escolha política ajuda a explicar por que o Brasil continua apresentando enorme dificuldade para construir uma estratégia efetivamente pós-extrativista. Enquanto persistir a dependência das exportações de commodities agrícolas e minerais como principal eixo da inserção internacional do país, os conflitos ambientais tenderão a se aprofundar. O verdadeiro desafio, portanto, não consiste apenas em combater o negacionismo climático explícito, mas também em superar esse negacionismo mais sofisticado, que reconhece a emergência ecológica em seu discurso, ao mesmo tempo em que preserva as bases econômicas responsáveis por sua permanente reprodução.

Transição energética ou nova corrida extrativista? Webinar gratuito debate o futuro dos minerais críticos no Brasil

A disputa global pelos chamados minerais críticos, como o lítio e as terras raras, vem redesenhando a geopolítica mundial e colocando o Brasil no centro de interesses econômicos e estratégicos. Apresentados como fundamentais para a transição energética, esses recursos também abastecem setores como a indústria de alta tecnologia, a infraestrutura digital e a indústria bélica, diante desse cenário, a Floresta Ativista está com inscrições abertas para o webinar “Minerais críticos: oportunidade ou armadilha para o Brasil?”, que acontece no dia 6 de agosto, às 19h, de forma online e gratuita. As inscrições podem ser realizadas na aba “Oportunidades” do site da Floresta Ativista, onde também estão disponíveis todas as informações sobre o encontro.  

Embora sejam frequentemente apresentados como elementos indispensáveis para enfrentar a crise climática, os minerais críticos também levantam questionamentos sobre a expansão da mineração, os impactos socioambientais da atividade e a permanência de um modelo econômico baseado no extrativismo. O webinar convida o público a compreender como a crescente demanda internacional por esses recursos influencia políticas públicas, disputas geopolíticas e projetos de desenvolvimento, especialmente em países com grande disponibilidade mineral, como o Brasil.

Inscreva-se aqui!

Para aprofundar esse debate, o encontro reúne dois especialistas que acompanham o tema sob diferentes perspectivas. O pesquisador Bruno Milanez, engenheiro de produção, doutor em Política Ambiental e professor do Departamento de Engenharia de Produção e do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), Milanez é uma das principais referências brasileiras nos estudos sobre mineração, conflitos socioambientais e políticas minerais.

Também participa a jornalista Isabel Harari, da Repórter Brasil, atua na cobertura de meio ambiente e direitos humanos e, em 2025, foi bolsista da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center, desenvolvendo uma investigação sobre minerais críticos e seus impactos socioambientais.

A mediação será conduzida por Laila Zaid, atriz, ativista climática e fundadora da Cuíca, agência dedicada à comunicação sobre sustentabilidade e mudanças climáticas. Especialista pelo Climate Reality Leadership Corps e em Saúde e Crise Climática por Harvard, Laila atua na tradução de temas ambientais para diferentes públicos, aproximando o debate climático do cotidiano das pessoas.

Voltado a estudantes, pesquisadores, jornalistas, comunicadores, ativistas e todas as pessoas interessadas em compreender os desafios da transição energética, o webinar pretende ampliar o debate sobre quem se beneficia da exploração dos chamados minerais críticos, quais são seus impactos sobre comunidades e territórios e quais caminhos podem conciliar justiça climática, soberania nacional e proteção socioambiental. Após se inscrever pelo site da floresta ativista, os participantes receberam o link de acesso da aula por e-mail.

O Aulão é uma realização da Mídia NINJA, por meio de sua editoria de Clima e Cultura, Clímax, em parceria com o Pulitzer Center. A iniciativa busca ampliar o debate público sobre as mudanças climáticas e seus desdobramentos sociais, econômicos e ambientais, fortalecendo o jornalismo como ferramenta essencial para compreender e enfrentar os desafios que definirão o futuro. 

Serviço

Data: 6 de agosto (quarta-feira)

Horário: 19h

Participantes: Bruno Milanez (UFJF/PoEMAS) e Isabel Harari (Repórter Brasil/Pulitzer Center)

Mediação: Laila Zaid

Inscrições: https://rede.florestaativista.org/oportunidade/848/ 

PL do Homeschooling ameaça o direito de crianças e adolescentes à convivência escolar

O Senado Federal abriu uma consulta pública sobre o Projeto de Lei nº 1.338/2022, que propõe autorizar a oferta de educação domiciliar (homeschooling) na educação básica, alterando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Mais do que um espaço de aprendizagem, a escola é um lugar de convivência, socialização, construção da cidadania e desenvolvimento humano. É nela que crianças e adolescentes aprendem a viver em comunidade, estabelecem amizades, convivem com as diferenças, participam de atividades coletivas e têm acesso a direitos fundamentais, como a alimentação escolar, o acompanhamento pedagógico e a proteção proporcionada pela comunidade escolar.

A possibilidade de substituir a escola pelo ensino exclusivamente domiciliar levanta preocupações sobre o direito das crianças e dos adolescentes a uma formação integral, que vai muito além da transmissão de conteúdos.

Se você considera que lugar de criança e adolescente é na escola, participe da consulta pública do Senado e manifeste sua posição.

Vote NÃO ao PL nº 1.338/2022.

Participe da consulta pública:
https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=153194

Lugar de estudar é na escola!

Se desejar, posso preparar uma versão mais incisiva para mobilização nas redes sociais ou outra em tom mais institucional, voltada para educadores e entidades da área da educação.

A reinvenção do gado

A maior indústria bovina do mundo pode se tornar sustentável – ou a própria sustentabilidade está sendo redefinida?

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Florestas não foram perdidas apenas por motosserras e fogo. Por trás de cada hectare desmatado havia um modelo econômico que recompensava a conversão de florestas vivas em riqueza privada. Estradas abriram regiões remotas, a madeira financiou a primeira onda de desmatamento, o fogo consumiu o que restou, e o gado transformou terras desmatadas em um ativo que podia ser comprado, vendido, hipotecado e defendido. Dentro desse sistema, uma floresta em pé tinha pouco valor financeiro.

Hoje, o gado está sendo reestruturado. À medida que governos, investidores e agroempresas buscam formas de reduzir as emissões agrícolas, a pecuária não é mais apresentada apenas como um motor do declínio ambiental. Atualmente, está sendo promovido como parte da solução climática por meio da criação “regenerativa”, carne bovina “de baixo carbono”, rastreabilidade digital e financiamento verde.

Essa mudança vai além das práticas agrícolas. Reflete mudanças na governança ambiental, onde política climática, mercados financeiros e conservação estão se tornando cada vez mais interligados. A questão não é mais apenas como reduzir o custo ambiental da produção bovina, mas se a indústria pode continuar se expandindo enquanto afirma operar dentro dos limites ecológicos.

Como essa mudança está acontecendo, quem a está conduzindo e o que isso significa para o futuro da Amazônia? A reinvenção do gado representa uma verdadeira transição ambiental ou um modelo financeiro que permite que uma das indústrias mais poderosas do Brasil continue crescendo sob a linguagem da sustentabilidade?

Gado, desmatamento e uma narrativa em constante mudança

Cerca de 80% das terras desmatadas na Amazônia foram convertidas em pastagens. No vizinho Cerrado, um dos biomas mais biodiversos do mundo, a pecuária e a agricultura de mercadorias em grande escala substituíram os ecossistemas nativos em uma área imensa.

Décadas de monitoramento por satélite, pesquisas científicas e investigações governamentais chegam à mesma conclusão: o pasto é o uso dominante da terra estabelecido após o desmatamento amazônico, e a pecuária continua sendo seu principal motor direto. Nem todo hectare foi desmatado exclusivamente para a produção de carne bovina. O gado também serviu para ocupar terras disputadas, consolidar reivindicações especulativas e preparar propriedades para revenda ou conversão para outros usos agrícolas.

As consequências vão muito além da perda de florestas. A limpeza e queima liberam carbono acumulado ao longo de décadas ou séculos. O gado emite metano por digestão, enquanto o manejo de esterco e pastagem gera gases de efeito estufa adicionais. Substituir florestas e savanas nativas por pastagens também degrada os solos, altera sistemas fluviais, fragmenta habitats e acelera a perda de biodiversidade.

Em partes da Amazônia, a expansão do gado permaneceu intimamente ligada à apropriação de terras, reivindicações fraudulentas de propriedade e à ocupação ilegal de terras públicas, protegidas e indígenas. Promotores, jornalistas e organizações de direitos humanos documentaram repetidamente fazendas associadas ao trabalho forçado, intimidação violência contra povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos proprietários. Esses abusos não caracterizam todos os produtores, mas permanecem uma característica persistente e bem documentada da história da indústria.

Dados do Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil, compilados pela Repórter Brasil, revelaram que 65.600 trabalhadores foram resgatados de condições semelhantes à escravidão entre 1995 e 2024. Mais de 17.300 trabalhavam na criação de animais, tornando-se o setor com o maior número de casos registrados. Como observou um trabalhador resgatado: “Aqui, o gado é tratado melhor do que os trabalhadores”.

Por anos, o debate internacional enquadrou a expansão do gado e a conservação florestal como forças opostas. O desafio era limitar os danos ambientais causados por uma indústria cujo crescimento havia se tornado inseparável do avanço da fronteira agrícola.

Na última década, esse debate mudou. Governos, pesquisadores, agências de desenvolvimento, organizações ambientais, bancos, instituições filantrópicas e empresas de carne passaram de questionar se a produção bovina deveria mudar para se perguntar como ela pode ser alinhada com a política climática.

A mudança começou com a linguagem. Relatórios antes focados no desmatamento agora promovem a produção “bovina de baixo carbono”, a criação “regenerativa”, a produção “positiva para a natureza” e “sustentável”. Práticas como restauração de pastagens degradadas, melhoria da nutrição animal, redução da idade do abate e aumento da produtividade são apresentadas junto com financiamento climático, monitoramento via satélite, rastreabilidade digital e investimento ambiental.

Muitas dessas propostas oferecem benefícios ambientais reais. Restaurar pastagens degradadas é preferível a desmatar novas florestas. A rastreabilidade eficaz pode expor abusos que há muito tempo permanecem ocultos nas cadeias de suprimentos. Agências ambientais mais fortes, registros de terras confiáveis e melhor suporte técnico poderiam fortalecer produtores responsáveis, excluindo aqueles que lucram com o desmatamento ilegal.

Maior eficiência, no entanto, não necessariamente reduz o impacto ambiental. Produzir carne bovina com menos emissões por quilograma não reduz automaticamente as emissões totais, o uso da terra ou a pressão ecológica. Os animais podem atingir o peso de abate mais cedo, reduzindo a intensidade do metano, enquanto as emissões gerais continuam aumentando se o tamanho dos rebanhos e a produção continuarem crescendo.

Essa distinção é importante em um país com cerca de 238 milhões de gado, mais do que sua população humana, e a maior indústria de exportação de carne bovina do mundo. O Brasil persegue duas ambições ao mesmo tempo: apresentar a pecuária como parte de sua estratégia climática, ao mesmo tempo em que expande a escala e a competitividade de seu setor bovino.

Por trás dos relatórios, fundos de investimento e parcerias institucionais, outra história começa a surgir. A reinvenção do gado não se trata mais apenas de florestas, pastagens ou metano. Também diz respeito a crédito, dados ambientais, produtos financeiros e o mercado em rápida expansão para investimentos descritos como verdes, alinhados ao clima ou positivos para a natureza.

As organizações envolvidas não compartilham todos os mesmos objetivos, nem isso diminui o trabalho de cientistas, funcionários públicos e profissionais que passaram décadas protegendo florestas e melhorando os meios de subsistência rurais. A questão mais importante é se o gado sustentável representa uma verdadeira transformação da produção pecuária ou um modelo financeiro e tecnológico que permita à indústria continuar se expandindo.

Reescrevendo a linguagem da sustentabilidade

A transformação da indústria pecuária brasileira não começou nos ranchos. Começou com uma mudança de idioma.

Por décadas, o debate sobre a pecuária brasileira centrou no desmatamento, perda de biodiversidade, emissões de gases de efeito estufa, ocupação ilegal de terras e abusos trabalhistas embutidos nas cadeias de suprimentos de carne bovina. O objetivo, mesmo que politicamente difícil, era claro: reduzir os danos ambientais causados por uma das maiores indústrias pecuárias do mundo. Mas essa não é mais a conversa dominante.

Em vez de questionar se a produção pecuária deve continuar se expandindo, a política agora assume em grande parte que o gado continuará sendo central para a economia brasileira. O desafio passou a ser tornar a indústria mais produtiva, mais transparente, mais tecnologicamente sofisticada e mais atraente para investidores conscientes do clima.

A distinção é sutil, mas significativa. Se o problema for a escala da indústria pecuária, as respostas políticas podem incluir limitar a produção em regiões ecologicamente vulneráveis, desencorajar a expansão das fronteiras e reduzir a pressão para o crescimento contínuo. Se o problema for a ineficiência, as soluções passam a ser melhor genética, pastagem restaurada, monitoramento digital, crescimento animal mais rápido e novas formas de crédito rural.

A linguagem importa porque molda políticas. Ela influencia o que os governos medem, onde as instituições financeiras investem e o que conta como progresso ambiental. Termos como carne bovina “de baixo carbono”, pecuária “regenerativa”, produção “positiva para a natureza” e produção “sustentável” fazem mais do que descrever práticas agrícolas; Eles redefinem o próprio problema.

Essa mudança se reflete em pesquisas produzidas por meio da Amazônia 2030, uma colaboração entre o Instituto Amazônico do Homem e do Meio Ambiente (Imazon) e a Iniciativa de Política Climática (CPI). Seu trabalho reconhece o papel que a extensa pecuária, o pasto degradado e o desmatamento desempenharam na transformação da Amazônia, ao mesmo tempo em que argumenta que os investimentos futuros devem se concentrar em áreas de produção existentes, e não em novas fronteiras agrícolas.

As recomendações são práticas: redirecionar o crédito rural para ganhos mensuráveis de produtividade, expandir a assistência técnica, restaurar pastagens degradadas, fortalecer o monitoramento georreferenciado e esclarecer o status legal das florestas públicas vulneráveis à ocupação especulativa. O argumento subjacente é que o Brasil pode produzir mais carne bovina em terras já desmatadas, reduzindo o incentivo para destruir mais florestas.

A lógica é convincente. Se o pasto degradado sustenta apenas um pequeno número de gado, restaurá-lo deve aumentar a produção sem exigir novas terras. Em teoria, maior produtividade poderia poupar terras para conservação ou restauração ecológica. Se isso acontecer depende menos da produtividade do que da governança.

Rendimentos mais altos reduzem a pressão sobre as florestas apenas quando as proteções ambientais impedem a expansão e a terra restaurada é realmente conservada. Quando a fiscalização é fraca, maior eficiência pode ter o efeito oposto, tornando a produção de gado mais lucrativa, atraindo novos investimentos e aumentando a pressão para expandir.

A história não oferece uma resposta simples. A intensificação agrícola reduziu a pressão sobre a terra em algumas regiões enquanto acelerou a expansão em outras. Os resultados dependem da demanda, infraestrutura, crédito, aplicação da lei e se lucros maiores são canalizados para restaurar terras existentes ou adquirir novas propriedades.

Uma estatística ilustra esse ponto. Pesquisas citadas pela Amazônia 2030 sugerem que cada hectare de pastagem restaurada entre 2000 e 2023 coincidiu com aproximadamente 2,35 hectares de novo desmatamento. A figura descreve uma associação histórica em vez de provar que a restauração causou perda florestal, mas desafia a suposição de que ganhos de produtividade automaticamente deslocam a expansão da fronteira.

A questão central, então, não é se a pastagem pode ser tornada mais produtiva. Pode. A questão é se esses ganhos vêm acompanhados de salvaguardas que impedem que lucros maiores financiem um desmatamento adicional.

A mesma tensão permeia a linguagem mais ampla do gado “baixo carbono”.

A IDH, Iniciativa de Comércio Sustentável, promove programas que combinam restauração de pastagens, assistência técnica, financiamento e acesso ao mercado para apoiar a produção de gado de menor emissão. Suas parcerias no Brasil reúnem organizações ambientais, agronegócios, instituições financeiras e agências de desenvolvimento em torno de um objetivo comum: transformar a pecuária por meio do investimento, e não da contração.

Parceiros estratégicos da IDH no Brasil. Fonte: https://idh.org/contact/brazil 

Uma abordagem semelhante aparece no livro do Instituto de Recursos Mundiais para a Nova Economia para a Amazônia brasileira, onde a reforma pecuária faz parte de um programa mais amplo que liga universidades, ONGs, empresas e organizações de políticas públicas em torno do desenvolvimento econômico compatível com o clima.

A Nova Economia para a liderança brasileira da Amazonia. Fonte: https://www.wri.org/research/new-economy-brazil-amazon 

Outras iniciativas seguem o mesmo padrão. A Coalizão Financeira de Restauração e Bioeconomia do Brasil (BRBFC) reúne bancos comerciais, instituições de desenvolvimento, fundações filantrópicas e organizações ambientais para apoiar investimentos em grande escala em empresas de restauração e baseadas na natureza.

Essas organizações diferem em governança, prioridades e perspectiva política, e não devem ser vistas como um único projeto coordenado. Mas seus programas compartilham um vocabulário surpreendentemente semelhante: produtividade, resiliência, restauração, rastreabilidade, impacto mensurável, serviços ambientais e finanças mistas.

Juntas, essas iniciativas revelam uma mudança mais ampla na governança ambiental. A pecuária não é mais enquadrada apenas como uma responsabilidade ambiental que exige uma regulamentação mais rigorosa. Também é apresentado como uma oportunidade para investimento climático, dados ambientais e participação em mercados emergentes para carbono, biodiversidade e serviços ecossistêmicos.

As implicações vão além da pecuária. Florestas, biodiversidade e paisagens restauradas são tratadas como ativos econômicos mensuráveis. Instituições financeiras estão desenvolvendo produtos que recompensam o desempenho ambiental, enquanto as tecnologias digitais geram os dados necessários para verificar e negociar esses ativos.

O Brasil está no centro dessa mudança. Ele contém a maior floresta tropical do mundo, o vasto Cerrado, e milhões de hectares de pastagens degradadas que poderiam ser restauradas ou intensificadas. Essa combinação torna o país não apenas uma prioridade ambiental, mas também um dos maiores mercados potenciais do mundo para investimento climático.

Como o gado ocupa grande parte das terras do Brasil, ele está no centro dessa oportunidade. A pastagem pode ser apresentada simultaneamente como um problema climático, uma oportunidade de restauração e um ativo financeiro aguardando uso mais produtivo.

A reinvenção do gado, então, é muito mais do que reduzir as emissões de metano. Trata-se de reposicionar um dos maiores setores econômicos do Brasil dentro de um mercado de financiamento climático em rápida expansão.

Se isso coloca limites ecológicos acima da expansão econômica permanece a questão definidora.

mercado brasileiro de restauração florestal pode oferecer uma oportunidade de US$ 141 bilhões para empresas e investidores, segundo um relatório da Orbitas.

Seguindo o dinheiro

A reinvenção do gado não está sendo impulsionada apenas pela política ambiental. Também é moldada por uma arquitetura financeira crescente que liga metas climáticas, produção agrícola e investimento global.

Programas que promovem pecuária de baixo carbono raramente operam isoladamente. Em vez disso, elas surgem de parcerias entre governos, agências de desenvolvimento, fundações filantrópicas, bancos comerciais, gestores de investimentos, empresas de carne e organizações ambientais.

Juntos, esses atores estão redefinindo não apenas como a sustentabilidade é financiada, mas também como ela é medida.

Tal cooperação não é incomum nem inerentemente problemática. Restaurar pastagens degradadas, melhorar as cadeias de suprimentos e apoiar produtores responsáveis exigem investimentos de longo prazo que apenas o financiamento público provavelmente não proporcionará. A questão mais significativa é como essas parcerias influenciam a própria definição de sustentabilidade.

Quando os programas ambientais são projetados em torno das expectativas dos mercados financeiros, o sucesso tende a ser medido por meio de retornos de investimento, redução de riscos, escalabilidade e resultados quantificáveis. Valores que resistem a uma simples medição, como sobrevivência cultural, direitos territoriais, biodiversidade ou o valor intrínseco das florestas, podem se tornar mais difíceis de acomodar.

A IDH, Iniciativa de Comércio Sustentável, ilustra esse cenário em transformação. Estabelecida em 2008 por meio da colaboração entre o governo holandês, a sociedade civil e o setor privado, a IDH atua em cadeias globais de suprimentos de commodities, incluindo cacau, café, algodão, óleo de palma, soja e carne bovina. No Brasil, apoia a restauração de pastagens, assistência técnica e mecanismos financeiros projetados para acelerar a produção pecuária de menor carbono.

O financiamento do IDH reflete a amplitude da economia sustentável atual. Junto com o apoio do Ministério das Relações Exteriores da Holanda e da Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos da Suíça (SECO), o financiamento estratégico veio do Ministério das Relações Exteriores da Dinamarca (DANIDA), do Ministério do Meio Ambiente da Noruega (NORAD), da União Europeia, da Fundação Bill & Melinda Gates, da Fundação Laudes, da Fundação Mastercard, da Fundação IKEA e do Escritório de Relações Exteriores, Commonwealth e Desenvolvimento do Reino Unido (FCDO).

Isso ilustra uma mudança mais ampla na governança ambiental. A política não é mais moldada apenas por governos e reguladores. Ela surge cada vez mais por meio de parcerias nas quais instituições públicas, filantropia, organizações financeiras e interesses comerciais trabalham juntos para influenciar os resultados ambientais.

Um dos exemplos mais claros é o Fundo Cria da IDHDesenvolvido com a gestora de investimentos Violet, parte do Grupo VERT, o fundo tem como objetivo ampliar o acesso ao financiamento para pequenos e médios produtores de gado em toda a Amazônia brasileira. Combina crédito rural com assistência técnica digital e acesso ao mercado, reunindo terra, dados e capital.

Até 2030, o fundo visa mobilizar US$50 milhões, apoiar 1.000 produtores e cobrir 150.000 hectares sob práticas classificadas como sustentáveis. Um investimento inicial de US$ 10 milhões está previsto para alcançar 250 agricultores que administram aproximadamente 12.000 hectares.

Para muitos produtores, o acesso a financiamento acessível continua sendo uma barreira real. Restaurar pastagens, comprar equipamentos e adotar novos sistemas de produção exigem capital que o crédito rural convencional muitas vezes não consegue fornecer.

Fundo Cria também ilustra uma mudança mais ampla. O desempenho ambiental está se tornando inseparável da participação nos sistemas financeiros. As decisões de empréstimo dependem cada vez mais de dados de produção, monitoramento geoespacial e assistência técnica digital. O acesso ao capital está ligado não apenas às práticas agrícolas, mas também à capacidade de gerar e verificar informações ambientais.

Para os produtores, isso poderia melhorar o acesso aos mercados premium, ao mesmo tempo em que recompensa um melhor desempenho ambiental. Também levanta questões importantes. Quem é o dono dos dados gerados por esses programas? Como essas informações podem influenciar futuras decisões de empréstimo? Quem determina quais sistemas de produção se qualificam como regenerativos? E o que acontece com os produtores que não podem arcar com a tecnologia necessária ou cuja documentação de terra permanece sem solução?

Esses não são argumentos contra dados ambientais ou crédito rural. Em vez disso, mostram como a inclusão financeira pode criar novas formas de dependência junto com novas oportunidades.

A escolha de Violet como parceira de investimento do fundo destaca outra tendência significativa. Empresas especializadas em finanças estruturadas e mercados de capitais estão se tornando atores centrais na política ambiental. Questões antes abordadas principalmente por meio de serviços de extensão agrícola e regulação pública são cada vez mais gerenciadas por meio de finanças mistas, investimento privado e produtos financeiros projetados para atrair capital institucional.

Essa evolução ficou evidente durante a Semana de Ação Climática de Londres 2026, quando IDH, CPI, representantes do Foreign, Commonwealth and Development Office (FCDO) do Reino Unido, investidores e instituições financeiras focaram menos nas florestas em si e mais nos mecanismos financeiros necessários para tornar a pecuária regenerativa comercialmente viável.

A mesma lógica vai além do gado. Lançada durante a Cúpula do G20 em 2024, a Coalizão Financeira para a Restauração e Bioeconomia do Brasil (BRBFCreúne bancos públicos, instituições financeiras privadas, organizações de conservação e agências internacionais de desenvolvimento, com o objetivo de mobilizar pelo menos US$ 10 bilhões para projetos de restauração e bioeconomia até 2030.

Seus membros incluem Banco do Brasil, BNDES, BTG Pactual, Conservation International, IDB Invest, Instituto Arapyaú, Instituto Clima e Sociedade, Mombak, The Nature Conservancy (TNC), re.green, WWF Brasil, o Grupo Banco Mundial, o Fórum Econômico Mundial, entre outros.

Lista de membros do BRB. Fonte: https://brbfc.org/about-us/ 

Em julho de 2025, os membros da coalizão relataram compromissos de US$ 2,6 bilhões. Eles também visam restaurar ou proteger cinco milhões de hectares, enquanto direcionam US$ 500 milhões para projetos envolvendo povos indígenas e comunidades locais.

A ambição é substituir a economia de fronteira por uma que gere valor por meio da restauração, e não do desmatamento. As florestas tornam-se ativos investidos, em vez de obstáculos ao crescimento econômico.

Essa visão tem um potencial genuíno. A restauração de longo prazo exige capital de longo prazo, e organizações indígenas e grupos comunitários frequentemente têm dificuldade em acessar o financiamento convencional.

Mas restauração e bioeconomia continuam sendo conceitos amplos. Elas podem apoiar a recuperação de ecossistemas nativos, mas também podem incluir silvicultura comercial, mercados de carbono e sistemas agrícolas com resultados ecológicos e sociais muito diferentes.

Embora o BRBFC não seja um programa pecuário, ele opera em uma paisagem dominada por gado. Decisões sobre restaurar, intensificar ou reaproveitar pastagens inevitavelmente moldam o futuro do maior setor agrícola do Brasil.

Juntas, essas iniciativas apontam para algo maior do que projetos individuais. A governança ambiental está se tornando mais integrada às finanças globais. Florestas, biodiversidade, pastagens e serviços ecossistêmicos estão sendo convertidos em ativos que podem ser medidos, valorizados e incorporados em estratégias de investimento.

Na maioria dos programas analisados, o futuro proposto não envolve produzir menos carne bovina. Em vez disso, trata-se de produzir carne bovina de forma mais eficiente, monitorá-la mais de perto e conectá-la a novos fluxos de capital.

Nessa visão, a sustentabilidade não substitui o crescimento. Torna-se o mecanismo pelo qual se espera que o crescimento continue.

A rastreabilidade pode entregar resultados?

Se uma ideia se tornou central para a promessa de produção sustentável de gado, é a rastreabilidade. Documentos de política, relatórios de sustentabilidade corporativa e estratégias de investimento apresentam isso como a solução para um dos problemas mais antigos da indústria pecuária: saber onde um animal passou sua vida.

Em teoria, cada animal seria identificado desde o nascimento, cada movimento entre fazendas registrado e cada propriedade verificada contra imagens de satélite, embargos ambientais, territórios indígenas e violações trabalhistas. Reguladores, investidores e consumidores poderiam então verificar se a carne vendida em São Paulo, Bruxelas ou Xangai veio de uma cadeia de suprimentos legal e livre de desmatamento.

Sem rastreabilidade confiável, no entanto, as alegações de carne bovina de baixo carbono ou livre de desmatamento continuam difíceis de verificar. O Brasil fez avanços significativos no monitoramento da produção pecuária, mas os sistemas dos quais depende a rastreabilidade permanecem fragmentados, implementados de forma desigual e, em alguns casos, vulneráveis à manipulação.

Três mecanismos formam o quadro atual: o Registro Ambiental Rural (CAR), o Guia de Trânsito Animal (GTA) e acordos entre promotores federais e abatedouros conhecidos como Acordo de Ajuste de Conduta da Indústria Carnívora (TAC da Carne). Juntos, eles representam um avanço importante na transparência, mas também expõem as fraquezas que continuam a limitar a supervisão eficaz.

Criado sob o Código Florestal do Brasil, o CAR é um registro digital no qual os proprietários declaram limites de propriedades, áreas de vegetação nativa, reservas legais e terras agrícolas. Essas declarações podem ser comparadas com imagens de satélite, áreas protegidas e embargos ambientais, tornando a RCA uma ferramenta essencial para a governança ambiental. Sua principal fraqueza é que a informação é inicialmente autodeclarada e só se torna confiável após verificação pelas autoridades ambientais estaduais. Esse processo avançou lentamente, deixando um acúmulo de milhões de registros aguardando validação.

As consequências vão muito além da regulamentação ambiental. Bancos consultam a CAR antes de aprovar crédito rural, empresas de carne a usam para triar fornecedores e investidores dependem dela para avaliar riscos ambientais. Se a informação subjacente for incompleta ou imprecisa, toda decisão baseada nela se torna menos confiável.

Pesquisas do Centro de Análise de Crimes Climáticos, reportadas pelo Repórter Brasil, destacam o problema. Entre 2019 e 2024, 14.223 propriedades na Amazônia Legal alteraram seus registros CAR de formas que removeram áreas ambientalmente restritas. Em meio a essas mudanças, cerca de 4,9 milhões de hectares desapareceram dos limites declarados da propriedade. Tais alterações não provam por si só irregularidades, mas a escala das mudanças, e a remoção, em alguns casos, de embargos ambientais e sobreposições com territórios indígenas, levanta sérias preocupações sobre a integridade do sistema.

Rastrear o território é apenas parte do desafio. Reconstruir a vida de um animal individual é mais complexo porque a indústria bovina do Brasil atua em várias fazendas. Uma propriedade pode criar bezerros; outro os cria e um terceiro os prepara para o massacre. O Animal Transit Guide registra esses movimentos, mas foi criado principalmente para controlar doenças do rebanho, e não para reconstruir a história ambiental de um animal.

Essa distinção tem consequências importantes. Os matadouros tradicionalmente monitoram apenas seus fornecedores diretos, sendo as fazendas que vendem animais imediatamente antes do abate, enquanto as fases iniciais da cadeia de produção frequentemente permanecem fora do sistema. Portanto, um animal pode passar grande parte de sua vida em terras desmatadas ilegalmente antes de ser transferido para uma propriedade conforme pouco antes do abate. A transação final parece legal, mesmo que grande parte da história ambiental do animal permaneça oculta.

A prática, comumente descrita como lavagem de gado, não se baseia necessariamente em documentos falsificados. Em vez disso, explora as lacunas entre sistemas que registram diferentes estágios da cadeia de suprimentos sem se comunicar efetivamente entre si. A fazenda que abastece o matadouro pode cumprir verificações ambientais, enquanto as propriedades onde o animal já viveu permanecem praticamente invisíveis.

Identificação eletrônica, bancos de dados integrados, monitoramento por satélite e análise automatizada de riscos podem ajudar a fechar parte dessa lacuna, tornando muito mais difícil apagar o histórico de um animal. Essas tecnologias representam avanços genuínos em relação aos sistemas fragmentados atualmente em vigor, mas não podem substituir uma governança eficaz. Etiquetas eletrônicas não podem resolver reivindicações fraudulentas de terras, imagens de satélite não podem aplicar a lei ambiental, e plataformas digitais não podem verificar declarações de propriedade imprecisas ou compensar instituições fracas e fiscalização inadequada.

Em última análise, a rastreabilidade é menos um desafio tecnológico do que uma questão de governança. Sua credibilidade depende de registros públicos confiáveis, verificação independente, informações transparentes, reguladores eficazes e consequências significativas para aqueles que violam a lei ambiental.

Os sistemas de monitoramento do Brasil estão se tornando cada vez mais sofisticados, mas sofisticação não deve ser confundida com certeza. Até que o gado possa ser rastreado de forma confiável desde o nascimento até o abate, e cada etapa da cadeia de suprimentos esteja sujeita a uma supervisão eficaz, as alegações de que a carne bovina está livre de desmatamento permanecerão tão fortes quanto o elo mais fraco da cadeia.

Quem define bovino sustentável?

Essa pergunta atravessa todas as etapas do debate.

O termo gado “sustentável” aparece em estratégias governamentais, prospectos de investimento e relatórios corporativos. A carne bovina é descrita como “de baixo carbono”, a pecuária torna-se “regenerativa” e as cadeias de suprimentos são rotuladas como “positivas para a natureza”. A linguagem sugere uma conclusão definitiva, mas o significado de sustentabilidade permanece contestado.

Não existe uma definição científica única que determine se a produção industrial de gado na Amazônia e no Cerrado pode ser considerada sustentável. Uma fazenda pode atender a um padrão porque não desmatou florestas recentemente e falha em outro porque seus animais vieram de fornecedores não monitorados. Pode reduzir as emissões por quilograma de carne bovina enquanto aumenta a produção geral e pode restaurar uma área enquanto sua cadeia de suprimentos se expande para outra.

Grande parte do argumento para o gado “baixo carbono” baseia-se na distinção entre intensidade de emissões e emissões absolutas. Melhor manejo do pasto, nutrição aprimorada, seleção e abate mais precoce podem reduzir as emissões de gases de efeito estufa por quilograma de carne bovina ao reduzir o tempo que o gado gasta emitindo metano. Esses ganhos são significativos, mas a atmosfera responde às emissões totais, e não à eficiência produtiva.

Se as emissões por quilograma caírem enquanto o tamanho dos rebanhos permanece estável ou diminui, as emissões gerais podem diminuir. Se a produtividade melhorar enquanto o número de gado e a produção de gado continuarem crescendo, as emissões totais podem permanecer inalteradas ou até mesmo aumentar. Para um país com o maior rebanho comercial de gado do mundo, essa distinção é fundamental.

O metano torna a questão particularmente significativa. A fermentação entérica continua sendo a maior fonte de metano agrícola no mundo. Embora o metano persista na atmosfera por um período menor do que o dióxido de carbono, seu efeito de aquecimento é especialmente forte nas décadas imediatamente após sua liberação. Reduzir as emissões de metano pode, portanto, desacelerar o aquecimento a curto prazo, mas isso continua sendo politicamente desafiador, pois o gado é central para uma das indústrias exportadoras mais importantes do Brasil.

O debate sobre a contabilidade do metano ilustra o quão controversas essas questões se tornaram. Alguns pesquisadores e grupos industriais apoiam métricas alternativas, incluindo a Global Warming Potential Star (GWP*), argumentando que a contabilidade convencional superestima o efeito de aquecimento a longo prazo de rebanhos estáveis ao tratar o metano como gases de efeito estufa de longa duração. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), no entanto, continua a aconselhar contra o uso do GWP* para a contabilidade nacional de emissões, pois ele não captura totalmente a contribuição para o aquecimento de cada emissão de metano. O debate é técnico, mas suas implicações são políticas porque influenciam como as emissões do gado são interpretadas e, em última análise, como a própria sustentabilidade é medida.

A tecnologia ocupa um lugar igualmente proeminente na reinvenção do gado. Sistemas de satélite detectam desmatamento, etiquetas eletrônicas acompanham os movimentos dos animais, inteligência artificial analisa riscos da cadeia de suprimentos e plataformas digitais integram dados ambientais, financeiros e de produção. Juntas, essas ferramentas transformaram a capacidade de monitorar a produção pecuária em um país do tamanho do Brasil, fornecendo informações que seriam inimagináveis há apenas uma geração.

A tecnologia, no entanto, não pode resolver as questões políticas no cerne do debate. Imagens de satélite podem revelar onde as florestas foram desmatadas, mas não podem processar os responsáveis. Registros digitais podem identificar sobreposições com territórios indígenas, mas não podem garantir que as autoridades irão intervir. As plataformas financeiras podem medir a conformidade com indicadores selecionados, mas não podem determinar se a expansão contínua da produção bovina é compatível com os limites ecológicos.

Um padrão mais amplo emerge. Desafios políticos e sociais são repetidamente reformulados como técnicos, a ocupação ilegal se torna um problema de qualidade dos dados, a fraca aplicação da lei passa a ser uma questão de monitoramento, e os limites ecológicos se tornam questões de eficiência e otimização. Uma tecnologia melhor, sem dúvida, melhora a supervisão, mas não pode substituir uma governança eficaz.

O mesmo padrão ajuda a explicar por que as finanças se tornaram tão entrelaçadas com a política ambiental. Antes que a sustentabilidade possa ser recompensada pelos investidores, ela deve primeiro ser traduzida em dados mensuráveis. Uma vez quantificado, o desempenho ambiental pode ser verificado, precificado e incorporado às decisões financeiras. Nesse processo, a sustentabilidade torna-se não apenas um objetivo ecológico, mas também uma categoria financeira.

Nada disso diminui o valor de restaurar pastagens degradadas, melhorar a rastreabilidade ou apoiar produtores que desejam adotar melhores práticas. Também não sugere que as organizações aqui discutidas compartilhem motivações idênticas. Bancos públicos de desenvolvimento, organizações ambientais, produtores e fundos de investimento frequentemente participam das mesmas iniciativas por razões muito diferentes.

As evidências sugerem, no entanto, que a autoridade para definir sustentabilidade está mudando gradualmente. Ecologistas podem julgar a produção bovina pelo impacto que tem nas florestas, biodiversidade e clima. Os povos indígenas podem julgá-la pela permanência de seus territórios, culturas e direitos intactos. Os agricultores podem julgá-la pela capacidade de manter meios de subsistência viáveis sem perder o controle de suas terras ou se tornar dependentes de novos sistemas financeiros e tecnológicos. Os investidores, por outro lado, tendem a priorizar indicadores mensuráveis, relatórios padronizados e riscos quantificáveis.

A questão não é se uma perspectiva é inerentemente mais legítima que outra. É quem, em última instância, tem autoridade para decidir qual definição molda a política.

Isso importa porque a linguagem orienta a regulação, a regulação direciona investimentos e o investimento remodela o cenário. O sucesso não pode ser medido apenas pelo número de gado equipado com etiquetas eletrônicas, hectares restaurados ou bilhões de dólares comprometidos com financiamento verde.

O teste mais significativo é se as florestas permanecem de pé, as emissões de metano caem em termos absolutos, os povos indígenas mantêm o controle de seus territórios e a prosperidade rural não depende mais de empurrar a fronteira agrícola para ecossistemas naturais.

Se a reinvenção do gado se mostrará uma transição ambiental genuína ou uma justificativa mais sofisticada para o funcionamento do negócio como de costume, não será julgado pela linguagem da sustentabilidade, mas por esses resultados.


Fonte: YourVoiz

A geografia da desigualdade transforma o El Niño em uma tragédia social anunciada no Brasil

A cada novo ciclo do El Niño, a atenção da imprensa e dos governos se concentra, quase sempre, nas alterações dos padrões de temperatura e precipitação provocadas pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico. No Brasil, os modelos climáticos apontam para uma combinação particularmente preocupante de secas severas em parte da Amazônia, do Nordeste e do Centro-Oeste, ao mesmo tempo em que aumentam a probabilidade de chuvas extremas no Sul e em parcelas do Sudeste. Esses impactos decorrem da própria diversidade climática de um país de dimensões continentais.

No entanto, existe uma questão muito menos debatida, embora talvez seja a mais importante para compreender as consequências concretas do El Niño sobre a população brasileira: a geografia da desigualdade. O mesmo fenômeno atmosférico produz efeitos profundamente distintos porque incide sobre um território marcado por enormes disparidades econômicas, sociais e espaciais. Em outras palavras, não é apenas o clima que determina a dimensão dos impactos, mas a forma profundamente desigual como a sociedade brasileira produz e organiza seu território.

A primeira dimensão dessa desigualdade é física. O Brasil abriga diferentes biomas, regimes hidrológicos e paisagens naturais que respondem de maneiras distintas às alterações da circulação atmosférica. Enquanto algumas regiões enfrentam enchentes recorrentes, outras convivem com secas prolongadas, incêndios florestais e escassez hídrica. Essa distribuição desigual dos impactos decorre das próprias características naturais do território brasileiro.  Entretanto, essa geografia física apenas estabelece o palco sobre o qual se desenrola uma segunda geografia, construída historicamente pelas relações sociais e econômicas. Como ensinou Milton Santos, o espaço geográfico nunca constitui um simples suporte das atividades humanas. Ele representa uma construção social produzida por relações de poder, investimentos seletivos e diferentes capacidades de acesso aos recursos públicos. Dessa forma, também os riscos ambientais se distribuem de maneira profundamente desigual.

Décadas de urbanização acelerada, concentração fundiária, especulação imobiliária e políticas habitacionais insuficientes empurraram milhões de brasileiros para encostas instáveis, margens de rios, áreas de baixada sujeitas a inundações e periferias carentes de infraestrutura. Essas populações convivem diariamente com condições que amplificam qualquer evento climático extremo. A chuva intensa, portanto, não cria sozinha a tragédia. Ela encontra cidades previamente organizadas para produzir desigualdades.

Henri Acselrad demonstra que os chamados desastres naturais dificilmente podem ser compreendidos como fenômenos exclusivamente naturais. Eles expressam processos de injustiça ambiental, nos quais determinados grupos sociais concentram sistematicamente os maiores riscos enquanto outros desfrutam das melhores condições de proteção. No Brasil, essa lógica aparece de forma cristalina. Bairros valorizados contam com sistemas eficientes de drenagem, abastecimento de água, coleta de resíduos, redes de saúde, áreas verdes e infraestrutura capaz de reduzir os danos provocados por eventos extremos. Nas periferias urbanas, a realidade costuma ser exatamente a oposta.

David Harvey e Neil Smith ajudam a compreender por que essa desigualdade territorial não ocorre por acaso. Ambos demonstram que a produção capitalista do espaço direciona investimentos para áreas capazes de gerar maior valorização imobiliária, enquanto territórios ocupados pelas populações de menor renda permanecem historicamente subinvestidos. O resultado é uma distribuição profundamente desigual da infraestrutura urbana, da proteção ambiental e da própria capacidade de adaptação às mudanças climáticas.  Mike Davis mostrou, em seus estudos sobre as megacidades contemporâneas, que a expansão das periferias urbanas transforma milhões de pessoas em habitantes permanentes do risco. Não se trata apenas da ausência de renda, mas da combinação entre pobreza, localização territorial e fragilidade institucional. Essa descrição ajusta-se de maneira quase perfeita a inúmeras cidades brasileiras, onde enchentes, deslizamentos, ondas de calor e problemas sanitários atingem de forma recorrente exatamente os mesmos grupos sociais.

Essa realidade revela que os eventos extremos associados ao El Niño jamais atingem uma sociedade homogênea. Ao contrário, eles atravessam um território profundamente fragmentado por desigualdades históricas. Enquanto parte da população dispõe de seguros, moradias de alta qualidade, sistemas privados de abastecimento, climatização e acesso rápido aos serviços de saúde, outra parcela enfrenta os mesmos fenômenos vivendo em habitações precárias, frequentemente construídas sem assistência técnica, em áreas ambientalmente vulneráveis e com reduzida presença do Estado.

Essa geografia da desigualdade também possui forte expressão regional. Municípios amazônicos enfrentam secas históricas sem infraestrutura logística adequada para atender populações isoladas. Comunidades do Semiárido convivem com sucessivos déficits de investimento em adaptação hídrica. Grandes regiões metropolitanas concentram milhões de habitantes em áreas suscetíveis a enchentes e deslizamentos. Ao mesmo tempo, municípios mais ricos dispõem de maior capacidade financeira para investir em drenagem, contenção de encostas, sistemas de alerta precoce e reconstrução da infraestrutura danificada.

O quadro torna-se ainda mais preocupante diante das restrições fiscais impostas ao Estado brasileiro nas últimas décadas. A redução da capacidade de investimento público compromete justamente as políticas capazes de diminuir a vulnerabilidade da população, como habitação social, saneamento básico, defesa civil, monitoramento climático e adaptação às mudanças climáticas. Em um cenário de intensificação dos eventos extremos, essa combinação entre austeridade fiscal e desigualdade territorial amplia o potencial destrutivo de fenômenos como o El Niño.

Deste modo, discutir o El Niño no Brasil exige, portanto, ir muito além das previsões meteorológicas. Exige compreender que o risco climático não nasce apenas das anomalias atmosféricas. Ele resulta da interação entre processos naturais e uma estrutura social profundamente desigual. A atmosfera fornece o fenômeno físico; a sociedade determina quem perderá a casa, quem ficará sem água, quem verá sua renda desaparecer e, em muitos casos, quem sobreviverá.

É preciso reconhecer essa geografia da desigualdade constitui uma condição indispensável para que o Brasil construa políticas eficazes de adaptação às mudanças climáticas e aos eventos extremos associados ao El Niño. Isso significa abandonar a ideia de que o risco climático se distribui de forma homogênea pelo território nacional e reconhecer que diferentes regiões, cidades, bairros e grupos sociais apresentam níveis muito distintos de exposição, vulnerabilidade e capacidade de resposta. Políticas públicas orientadas por uma lógica meramente isonômica tendem, na prática, a perpetuar desigualdades históricas, pois distribuem recursos de maneira uniforme para realidades profundamente desiguais.

O Estado brasileiro precisa inverter essa lógica: quanto maior a vulnerabilidade socioambiental de um território, maior deve ser a prioridade dos investimentos em habitação, saneamento, drenagem urbana, sistemas de alerta, defesa civil, infraestrutura e proteção social. Dessa forma, a adaptação climática deixará de reproduzir desigualdades históricas e passará a enfrentá-las de maneira explícita, reconhecendo que justiça climática e justiça social constituem dimensões inseparáveis de um mesmo projeto de desenvolvimento. Somente uma política de adaptação construída a partir da geografia da desigualdade brasileira poderá reduzir os impactos humanos e materiais dos eventos climáticos extremos que, segundo todas as evidências científicas, tendem a se tornar cada vez mais frequentes e intensos nas próximas décadas.

Diquate mostra as duas faces da mesma política: a Europa proíbe, mas continua exportando veneno para o Sul Global

A reportagem “Intoxicações por agrotóxico banido na Europa crescem 1.100% em 8 anos no Brasil”, assinada pela jornalista Naira Hofmeister e publicada pela Repórter Brasil, revela um aspecto particularmente perverso do modelo agrícola dominante. O levantamento mostra que os casos de intoxicação por diquate aumentaram onze vezes entre 2018 e 2025, alcançando 250 registros e ao menos 40 mortes. O crescimento acompanha a rápida expansão do uso desse herbicida após a proibição do paraquate no Brasil, evidenciando que a substituição de uma substância altamente tóxica por outra da mesma família química dificilmente representa um avanço em termos de proteção à saúde pública.

O trabalho jornalístico também expõe uma contradição que há muito tempo deveria provocar indignação internacional. O diquate encontra-se proibido na União Europeia em razão dos riscos identificados para trabalhadores rurais, moradores vizinhos às áreas agrícolas e ao meio ambiente. Ainda assim, empresas sediadas em países europeus continuam fabricando esse produto e exportando grandes volumes para países como o Brasil. A própria investigação mostra que parte significativa do Reglone, principal formulação comercial do diquate, chega ao mercado brasileiro a partir de unidades produtivas da Syngenta localizadas na Inglaterra e na China.

Essa prática revela uma hipocrisia difícil de justificar. Se uma substância é considerada perigosa demais para agricultores e consumidores europeus, sob qual princípio ético ela se torna aceitável para trabalhadores rurais, comunidades e consumidores brasileiros? Na prática, cria-se uma geografia da toxicidade em que vidas humanas recebem valores diferentes conforme o país onde vivem. A União Europeia protege sua população por meio de critérios regulatórios mais rigorosos, mas tolera que suas empresas transformem o Sul Global em mercado consumidor de produtos que ela própria rejeitou. Trata-se de uma manifestação contemporânea do chamado colonialismo químico, no qual riscos sanitários e ambientais são externalizados para países com menor capacidade regulatória e maior influência política do agronegócio.

No caso brasileiro, esse cenário tornou-se ainda mais preocupante com a consolidação do chamado Pacote do Veneno”. A nova legislação flexibilizou procedimentos de registro, fortaleceu o papel do Ministério da Agricultura nas decisões regulatórias e reduziu salvaguardas historicamente associadas à proteção da saúde e do meio ambiente. Embora o diquate já estivesse autorizado anteriormente, o novo marco legal aprofundou um ambiente político e institucional claramente favorável à expansão do mercado de agrotóxicos, facilitando a permanência e a introdução de substâncias cuja segurança permanece alvo de intenso debate científico.

Os números apresentados pela Repórter Brasil sugerem que essa flexibilização possui consequências concretas. O aumento de mais de 1.100% nas intoxicações por diquate não representa apenas uma estatística preocupante. Ele indica que a ampliação da disponibilidade desses produtos inevitavelmente aumenta a exposição de trabalhadores rurais, comunidades vizinhas às áreas agrícolas e do próprio sistema público de saúde aos custos humanos desse modelo produtivo. Como a própria Repórter Brasil já havia mostrado em investigação anterior, 2025 registrou o maior número de intoxicações por agrotóxicos da última década no Brasil, reforçando a associação entre expansão do mercado desses produtos e crescimento das contaminações.

O caso do diquate também desmonta um argumento frequentemente utilizado por fabricantes e setores do agronegócio: o de que a aprovação regulatória equivaleria automaticamente à segurança do produto. A história recente dos agrotóxicos demonstra exatamente o contrário. Diversas substâncias foram consideradas aceitáveis durante anos antes de novas evidências científicas levarem ao seu banimento. O paraquate constitui um exemplo emblemático desse processo, e não há razão para supor que a trajetória do diquate será diferente caso novas evidências continuem acumulando riscos à saúde humana e aos ecossistemas.

Enquanto isso, o Brasil segue consolidando sua posição como destino preferencial para substâncias rejeitadas em outras partes do mundo. Essa condição não decorre da ausência de conhecimento científico, mas de escolhas políticas que colocam interesses econômicos acima da proteção da saúde coletiva. Ao mesmo tempo em que a União Europeia preserva seus cidadãos dos riscos desses compostos, aceita que empresas instaladas em seu território lucrem com sua comercialização em países periféricos. Essa combinação entre desregulação doméstica e exportação internacional de riscos sanitários talvez constitua uma das expressões mais explícitas das profundas desigualdades que continuam estruturando o sistema agroalimentar global.