A violência lenta dos microplásticos já alcançou a Amazônia Azul

Pesquisa publicada no Journal of Soils and Sediments identifica contaminação em todos os pontos analisados no litoral baiano e mostra que a degradação dos ecossistemas marinhos avança muito antes de aparecer nas manchetes

A poluição por microplásticos deixou há muito tempo de ser um problema restrito aos grandes centros urbanos ou às regiões industriais. Um estudo recém-publicado no Journal of Soils and Sediments mostra que essa contaminação já está disseminada nos sedimentos marinhos da chamada Amazônia Azul, conceito utilizado para designar a vasta zona econômica exclusiva brasileira no Atlântico. A pesquisa, conduzida por Rayane Sorrentino e colaboradores, analisou sedimentos de diferentes regiões do litoral da Bahia e encontrou microplásticos em todos os locais amostrados, sem exceção.

À primeira vista, os números podem parecer modestos quando comparados a áreas extremamente degradadas do planeta. Foram identificados 270 microplásticos por quilograma de sedimento seco, variando entre 8 e 90 partículas por quilograma conforme o local analisado. Mas a relevância do estudo não está apenas na quantidade encontrada. O verdadeiro alerta reside no fato de que mesmo áreas reconhecidas por sua elevada biodiversidade e importância ecológica já apresentam um nível consistente de contaminação, demonstrando que praticamente não existem mais ambientes costeiros livres da presença desse novo poluente planetário.

Outro aspecto que merece destaque é o predomínio das microfibras, responsáveis por aproximadamente dois terços de todas as partículas identificadas. Esse resultado aponta diretamente para uma das principais fontes contemporâneas de poluição: os tecidos sintéticos utilizados pela indústria da moda. A simples lavagem de roupas produzidas com poliéster, poliamida e outros polímeros libera milhares de microfibras que passam pelos sistemas convencionais de tratamento de esgoto e acabam sendo transportadas para rios, estuários e, finalmente, para o oceano. Não se trata apenas de lixo plástico descartado inadequadamente, mas de uma forma contínua e invisível de contaminação produzida diariamente pelo próprio funcionamento da economia contemporânea.

Os autores também identificaram uma tendência de maiores concentrações de microplásticos nas áreas mais urbanizadas, especialmente em Salvador e Itaparica. Embora a correlação estatística com a densidade populacional não tenha alcançado significância, a distribuição espacial dos resultados indica que o crescimento urbano, o lançamento insuficientemente tratado de esgoto, a drenagem pluvial e o turismo intenso constituem importantes vetores da poluição marinha. Em outras palavras, os microplásticos acompanham o avanço da urbanização desordenada e das deficiências históricas da infraestrutura sanitária brasileira.

Talvez o aspecto mais inquietante do estudo seja justamente aquilo que ele não consegue medir plenamente. Os pesquisadores reconhecem que as limitações analíticas impediram a identificação química de muitas partículas extremamente pequenas. Isso significa que a contaminação observada provavelmente representa apenas uma fração do problema real. À medida que os plásticos continuam sofrendo fragmentação física e química no ambiente, transformam-se em partículas cada vez menores, potencialmente mais biodisponíveis e mais facilmente incorporadas por organismos marinhos ao longo da cadeia alimentar.

Esse processo merece atenção especial porque os microplásticos já não são considerados apenas resíduos inertes. Hoje se sabe que eles funcionam como vetores de contaminantes químicos, metais pesados e microrganismos patogênicos, além de liberarem aditivos utilizados durante sua fabricação. Dessa forma, cada pequena partícula pode atuar como um veículo de múltiplas formas de contaminação ambiental e alimentar.

No caso brasileiro, o trabalho ganha importância adicional por demonstrar que a degradação da Amazônia Azul ocorre de maneira silenciosa e cumulativa. O debate público costuma concentrar-se em grandes desastres ambientais, como derramamentos de petróleo, rompimentos de barragens ou episódios de mortandade de peixes. Entretanto, a poluição por microplásticos representa um tipo distinto de ameaça: difusa, permanente e praticamente invisível. Todos os dias milhões de partículas chegam ao ambiente marinho sem provocar manchetes ou mobilizações políticas, mas acumulam-se lentamente nos sedimentos e nos organismos que sustentam a biodiversidade e a pesca costeira.

Esse caráter gradual aproxima a contaminação por microplásticos do conceito de violência lenta, formulado pelo pesquisador Rob Nixon. Ao contrário das catástrofes espetaculares, a violência lenta se manifesta por processos ambientais que evoluem quase imperceptivelmente ao longo do tempo, acumulando danos que acabam recaindo de forma desproporcional sobre populações costeiras, pescadores artesanais e comunidades que dependem diretamente dos ecossistemas marinhos para sua sobrevivência. É justamente essa invisibilidade que torna o problema tão difícil de enfrentar politicamente.

O estudo de Sorrentino e colaboradores reforça, portanto, uma constatação incômoda: o Brasil continua tratando seus oceanos como receptores passivos dos resíduos produzidos pelo atual modelo de desenvolvimento. Enquanto o país celebra a expansão da chamada economia azul e projeta novos investimentos em infraestrutura portuária, exploração offshore e turismo costeiro, a contaminação por microplásticos avança silenciosamente sobre ecossistemas cuja recuperação poderá levar décadas, talvez séculos. A Amazônia Azul, frequentemente apresentada como patrimônio estratégico nacional, já revela sinais de uma degradação que não pode mais ser considerada um problema do futuro. Ela já está presente nos sedimentos do presente.

Plano Safra 2026/2027: governo Lula mantém prioridade para o latifúndio agroexportador e deixa a agricultura familiar em segundo plano

O anúncio do Plano Safra 2026/2027 confirma a permanência de uma das maiores contradições da política agrícola brasileira. Embora o governo Lula reafirme, em seus discursos, a importância estratégica da agricultura familiar para garantir a segurança alimentar da população, sua política de crédito rural continua concentrando a maior parte dos recursos públicos na agricultura empresarial voltada para a exportação de commodities. Os números do novo Plano Safra deixam pouca margem para dúvidas: o governo destina um volume de recursos muito superior ao agronegócio empresarial do que ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), preservando uma desigualdade histórica que sucessivos governos prometeram reduzir, mas nunca enfrentaram de forma consistente.

Enquanto isso, a agricultura familiar continua enfrentando dificuldades para acessar financiamento, assistência técnica, infraestrutura de armazenamento e canais de comercialização. Ainda assim, são justamente os agricultores familiares que produzem grande parte dos alimentos que abastecem diariamente a mesa dos brasileiros. Feijão, mandioca, frutas, hortaliças, leite e inúmeros outros produtos essenciais dependem muito mais do trabalho das pequenas propriedades do que das grandes monoculturas destinadas ao mercado internacional. Ao concentrar a maior parte do crédito no agronegócio exportador, o governo envia um sinal inequívoco sobre quais interesses considera prioritários.  Essa é uma escolha que enfraquece justamente o segmento mais importante para a segurança alimentar do país e reforça um modelo voltado prioritariamente para a geração de divisas por meio da exportação de commodities agrícolas.

Essa opção política se torna ainda mais difícil de justificar quando se analisa a situação financeira do próprio agronegócio. Nos últimos anos, grandes produtores rurais e empresas agrícolas acumularam pedidos de recuperação judicial, revelando um setor muito mais dependente do apoio estatal do que seus representantes costumam admitir. Apesar do discurso permanente sobre eficiência, competitividade e capacidade de gerar riqueza, boa parte do grande agronegócio enfrenta elevados níveis de endividamento e encontra cada vez mais dificuldades para sustentar seu próprio modelo de expansão sem o apoio do crédito subsidiado oferecido pelo Estado. Em outras palavras, o governo direciona a maior parcela dos recursos públicos justamente para um segmento que demonstra crescente dependência financeira, enquanto limita o apoio ao setor que efetivamente garante o abastecimento alimentar da população brasileira.

Essa política também produz profundas consequências ambientais. O crédito rural não apenas financia a produção agrícola; ele define a forma como o território brasileiro se organiza e se transforma. Quando o governo concentra recursos nas grandes monoculturas de soja, milho, algodão e outras commodities, ele estimula a expansão contínua da fronteira agrícola. Esse processo mantém forte pressão sobre a Amazônia e, principalmente, sobre o Cerrado, onde grandes proprietários continuam convertendo áreas de vegetação nativa em extensas plantações mecanizadas. Não existe neutralidade nessa escolha orçamentária. Quem financia determinado modelo agrícola também financia os impactos ambientais que esse modelo produz.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que o desmatamento continua representando uma das principais fontes das emissões brasileiras de gases de efeito estufa. Embora o governo tenha obtido resultados importantes na redução do desmatamento ilegal em algumas áreas da Amazônia, a expansão da agricultura empresarial continua deslocando a fronteira agropecuária sobre regiões ambientalmente sensíveis, especialmente no Cerrado, bioma que abriga parte significativa das nascentes que alimentam as principais bacias hidrográficas do país. Ao ampliar o financiamento desse modelo produtivo, o Plano Safra reforça uma lógica territorial que caminha na direção oposta aos compromissos climáticos assumidos pelo próprio governo brasileiro.

O Plano Safra também fortalece um modelo agrícola profundamente dependente do uso intensivo de agrotóxicos. As grandes monoculturas de exportação alcançam seus atuais níveis de produtividade porque utilizam enormes quantidades de herbicidas, inseticidas e fungicidas ao longo de seus ciclos produtivos. Ao privilegiar financeiramente esse segmento, o governo também reforça a continuidade de um padrão tecnológico cuja sustentabilidade ambiental e sanitária enfrenta questionamentos cada vez mais sólidos por parte da comunidade científica.

Nos últimos anos, pesquisadores brasileiros e estrangeiros produziram um conjunto robusto de evidências que associam a exposição aos agrotóxicos ao aumento da incidência de doenças neurológicas, alterações hormonais, diferentes tipos de câncer, problemas reprodutivos e contaminação de solos, rios e aquíferos. Estudos recentes também demonstram impactos relevantes sobre polinizadores, organismos aquáticos e diversas espécies fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas. Em vez de utilizar o crédito rural para acelerar uma transição em direção a sistemas produtivos menos dependentes desses produtos, o governo continua destinando a maior parte dos recursos públicos justamente ao segmento que mais consome agrotóxicos no país.

O mesmo raciocínio vale para o consumo de água. Grandes monoculturas exigem volumes crescentes de recursos hídricos, sobretudo nas áreas irrigadas, justamente em um momento em que diversos aquíferos brasileiros apresentam sinais preocupantes de sobreexploração e em que os efeitos das mudanças climáticas tornam cada vez mais frequentes os períodos de estiagem prolongada. Ao estimular continuamente esse padrão produtivo, o governo amplia a pressão sobre recursos naturais que já demonstram claros sinais de esgotamento.

Essa orientação política revela uma contradição difícil de ignorar. O presidente Lula busca projetar o Brasil como liderança internacional no enfrentamento da crise climática e pretende transformar a realização da COP30 em uma vitrine da política ambiental brasileira. Entretanto, a principal política de financiamento da agricultura continua privilegiando um modelo baseado na concentração fundiária, na expansão das monoculturas, no consumo intensivo de água e no uso maciço de agrotóxicos. A distância entre o discurso ambiental e a política agrícola permanece significativa.

Não se trata de negar a importância econômica das exportações agrícolas nem de ignorar o papel que o agronegócio desempenha na balança comercial brasileira. O problema reside na enorme desproporção da distribuição dos recursos públicos e na ausência de critérios que condicionem o acesso ao crédito subsidiado à redução efetiva do desmatamento, do consumo de agrotóxicos, do desperdício de água e da concentração fundiária. O Estado dispõe de instrumentos suficientes para induzir uma agricultura mais diversificada, mais sustentável e mais comprometida com a produção de alimentos para a população brasileira. No entanto, continua utilizando o Plano Safra para fortalecer exatamente o modelo que concentra terras, amplia os conflitos socioambientais e aprofunda a dependência da economia nacional da exportação de commodities primárias.

Talvez a maior contradição do novo Plano Safra resida justamente em sua dimensão política. Ao concentrar a maior parte do crédito subsidiado no latifúndio agroexportador, o governo Lula fortalece um segmento que permanece amplamente identificado com o bolsonarismo e que, desde o início do atual mandato, atua sistematicamente contra as principais iniciativas do governo no Congresso Nacional e na disputa política mais ampla. Essa escolha expressa a lógica de concertação que tem orientado o governo desde 2023: na tentativa de reduzir conflitos com setores historicamente conservadores, o Palácio do Planalto amplia concessões sem conseguir alterar o alinhamento político desse segmento. Ao mesmo tempo, essa política contradiz os compromissos assumidos durante a campanha eleitoral, quando Lula prometeu fortalecer a agricultura familiar, ampliar a produção agroecológica e conduzir a agricultura brasileira por uma trajetória social e ambientalmente mais sustentável. Na prática, o governo percorreu o caminho inverso. Em vez de utilizar o crédito rural para acelerar a transição para um modelo menos dependente do desmatamento, dos agrotóxicos e das grandes monoculturas de exportação, preferiu reforçar econômica e politicamente um setor que continua resistindo às mudanças necessárias e que permanece entre os principais adversários do próprio projeto político que levou Lula de volta à Presidência da República.

Incêndios “zumbis”: quando o Ártico passa a alimentar a crise climática

O reaparecimento de incêndios subterrâneos mostra que o aquecimento global já alterou profundamente o funcionamento dos ecossistemas boreais

A expressão “incêndio zumbi” pode parecer um recurso de marketing para atrair leitores, mas descreve um fenômeno absolutamente real e cada vez mais frequente nas regiões boreais do planeta. Como mostra a reportagem publicada pela Sierra Club, esses incêndios conseguem sobreviver durante todo o inverno queimando lentamente sob a superfície do solo, protegidos pela neve e por espessas camadas de turfa, ressurgindo meses depois, na primavera, como novos focos de incêndio. Trata-se de um comportamento que, até poucas décadas atrás, era considerado raro, mas que vem se tornando parte da nova realidade climática do Norte do planeta.

O aspecto mais inquietante desse processo é que ele revela uma mudança estrutural no funcionamento dos ecossistemas do Ártico e das florestas boreais. O fogo deixa de ser um evento sazonal para transformar-se em um processo praticamente contínuo, capaz de atravessar o inverno e reiniciar sua propagação quando as temperaturas voltam a subir. Em outras palavras, a estação fria já não representa necessariamente o fim da temporada de incêndios.

Essa transformação está diretamente relacionada ao aquecimento acelerado das altas latitudes. O Ártico aquece várias vezes mais rapidamente do que a média global, reduzindo a umidade dos solos, prolongando as estações de fogo e favorecendo grandes incêndios durante o verão. Quando esses incêndios alcançam solos ricos em matéria orgânica — especialmente turfeiras e áreas de permafrost — parte do fogo permanece latente durante meses, alimentando-se lentamente do carbono acumulado ao longo de milhares de anos.

O problema, entretanto, vai muito além da destruição local das florestas. As regiões de permafrost armazenam quantidades gigantescas de carbono, superiores ao total atualmente presente na atmosfera. Quando esse carbono é liberado pela combustão ou pela degradação do solo congelado, intensifica-se o efeito estufa, aumentando ainda mais o aquecimento global. Forma-se, assim, um perigoso ciclo de retroalimentação: temperaturas mais altas produzem mais incêndios; mais incêndios liberam mais carbono; mais carbono provoca temperaturas ainda mais elevadas.

Além das emissões de dióxido de carbono, os incêndios subterrâneos liberam grandes quantidades de metano e de material particulado fino, deteriorando a qualidade do ar em milhares de quilômetros de distância. A fumaça proveniente dos grandes incêndios canadenses dos últimos anos atingiu extensas áreas da América do Norte e até mesmo a Europa, demonstrando que os impactos desses eventos ultrapassam em muito as regiões onde eles se originam.

Outro aspecto frequentemente negligenciado diz respeito às profundas alterações ecológicas provocadas pelos incêndios zumbis. Ao consumirem lentamente as camadas orgânicas do solo, eles destroem bancos de sementes, alteram a hidrologia local e dificultam significativamente a regeneração natural das florestas. Em alguns casos, os ecossistemas podem deixar de retornar ao estado anterior, sendo substituídos por formações vegetais completamente distintas.

Embora o fenômeno esteja ocorrendo nas altas latitudes, seria um equívoco considerá-lo um problema distante do Brasil. Os incêndios extremos observados recentemente na Amazônia, no Pantanal e em partes do Cerrado evidenciam que o planeta está entrando em uma nova fase da dinâmica do fogo. Se, no Norte, o grande combustível é a turfa congelada e o permafrost, nos trópicos a combinação entre desmatamento, degradação florestal, secas prolongadas e expansão da fronteira agropecuária produz um cenário igualmente preocupante. Em ambos os casos, o elemento comum é o mesmo: mudanças climáticas potencializadas pela ação humana.

Talvez a principal contribuição da reportagem da Sierra Club seja justamente desmontar a falsa percepção de que o aquecimento global produzirá apenas eventos climáticos mais intensos. Na realidade, o que está ocorrendo é uma transformação muito mais profunda: estão sendo alterados processos ecológicos fundamentais que sustentaram o funcionamento dos ecossistemas durante milhares de anos. Os incêndios zumbis são apenas uma das manifestações dessa nova realidade.

Como costumo observar neste espaço, as mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça futura. Elas já estão reorganizando o funcionamento do sistema terrestre. E quando até o inverno deixa de conseguir extinguir o fogo, torna-se evidente que estamos diante de mudanças que ultrapassam em muito aquilo que os modelos climáticos mais conservadores projetavam há apenas duas décadas.

Quem financia a ciência também pode moldar as soluções para a crise climática

Investigação da ProPublica revela como a BP influenciou um dos estudos climáticos mais importantes das últimas décadas e reacende o debate sobre conflitos de interesse, autonomia universitária e captura corporativa da produção científica

A recente investigação publicada pela ProPublica lança nova luz sobre uma questão que deveria preocupar toda a comunidade científica e qualquer cidadão interessado no enfrentamento da crise climática: até que ponto o financiamento privado é capaz de influenciar não apenas os resultados das pesquisas, mas também as próprias perguntas que os cientistas formulam? Ao analisar documentos internos da British Petroleum (BP) e registros da Universidade de Princeton, a reportagem mostra que um dos artigos científicos mais influentes da história da política climática contemporânea foi produzido em um ambiente de intensa interação entre pesquisadores e executivos da indústria petrolífera. Mais do que denunciar um caso específico, a investigação revela um mecanismo de captura da agenda científica que se repete em diferentes áreas do conhecimento e que merece ser discutido com muito mais profundidade.

O estudo em questão, conhecido como Stabilization Wedges (“Cunhas de Estabilização”), foi publicado em 2004 por pesquisadores de Princeton e rapidamente se tornou uma referência mundial ao defender que seria possível estabilizar as emissões globais de gases de efeito estufa por meio da combinação de diferentes tecnologias, entre elas a captura e armazenamento de carbono (Carbon Capture and Storage – CCS). A proposta exerceu enorme influência sobre formuladores de políticas públicas, organismos internacionais e empresas do setor energético, por transmitir a ideia de que seria possível enfrentar as mudanças climáticas sem alterar profundamente o modelo de produção e consumo baseado em combustíveis fósseis.

O problema apontado pela ProPublica não está na existência de erros metodológicos ou de fraude científica. Ao contrário, a investigação não questiona a competência técnica dos pesquisadores nem a validade dos cálculos apresentados no artigo. A questão central reside na influência exercida pela BP sobre o ambiente institucional em que a pesquisa foi desenvolvida. O estudo nasceu dentro da Carbon Mitigation Initiative (CMI), um programa criado em Princeton e financiado durante décadas pela petroleira com dezenas de milhões de dólares. Documentos obtidos pela reportagem mostram que executivos da empresa acompanharam versões preliminares do manuscrito, discutiram diretamente seu conteúdo com os autores e participaram das conversas sobre quais tecnologias deveriam receber maior destaque. 

Esse aspecto é particularmente relevante porque evidencia uma forma muito mais sofisticada de influência corporativa sobre a produção científica. Não é necessário manipular dados experimentais para direcionar o conhecimento produzido pelas universidades. Basta influenciar quais problemas serão investigados, quais soluções serão consideradas mais promissoras e quais alternativas permanecerão à margem do debate científico. Trata-se de um mecanismo silencioso de definição de agendas que dificilmente aparece nas discussões públicas sobre integridade acadêmica.

No caso específico da captura e armazenamento de carbono, o interesse empresarial era evidente. Se essa tecnologia fosse capaz de neutralizar as emissões provenientes da queima de petróleo, gás e carvão, não haveria necessidade de reduzir drasticamente a extração desses combustíveis. A solução para a crise climática deixaria de passar por transformações estruturais no sistema energético mundial e passaria a depender do desenvolvimento futuro de tecnologias capazes de capturar o carbono depois que ele já tivesse sido emitido. Em outras palavras, criava-se uma narrativa na qual seria possível continuar explorando combustíveis fósseis enquanto a ciência encontraria, em algum momento, uma solução tecnológica para seus impactos.

Passadas mais de duas décadas, a realidade mostrou que essa aposta estava longe de representar uma resposta suficiente à emergência climática. Apesar dos bilhões de dólares investidos mundialmente, os projetos de captura e armazenamento de carbono continuam respondendo por uma parcela mínima das emissões globais e enfrentam enormes dificuldades técnicas, econômicas e logísticas. Embora a tecnologia possa desempenhar algum papel em setores industriais específicos, ela está muito distante de representar a solução abrangente que muitos imaginaram no início dos anos 2000. Ainda assim, sua promoção ajudou a retardar debates mais profundos sobre a necessidade de reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis.

O caso investigado pela ProPublica tampouco constitui uma exceção. Ele se insere em um padrão histórico bastante conhecido. Durante décadas, a indústria do tabaco financiou pesquisas destinadas a gerar dúvidas sobre a relação entre cigarro e câncer. Empresas do setor açucareiro patrocinaram estudos que deslocavam a responsabilidade pelas doenças cardiovasculares para o consumo de gorduras. A indústria química investiu pesadamente em pesquisas que minimizavam os impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos. Em todos esses casos, o objetivo não era necessariamente produzir ciência falsa, mas criar incertezas, deslocar prioridades e influenciar o ritmo das decisões regulatórias.

O Brasil conhece muito bem essa realidade. Basta observar o crescimento do financiamento privado de pesquisas nas áreas do agronegócio, da mineração, da indústria petrolífera e da expansão portuária. Evidentemente, a colaboração entre universidades e empresas pode gerar avanços científicos importantes e contribuir para o desenvolvimento tecnológico. O problema surge quando a dependência financeira limita a autonomia acadêmica e reduz o espaço para investigações que possam contrariar os interesses econômicos dos patrocinadores. Não é coincidência que ainda sejam relativamente poucos os estudos independentes sobre os impactos cumulativos dos grandes empreendimentos portuários, da mineração em larga escala ou do uso intensivo de agrotóxicos sobre a saúde humana e os ecossistemas brasileiros.

Essa realidade nos obriga a formular algumas perguntas incômodas. Quem define as prioridades da pesquisa científica? Quem decide quais problemas merecem financiamento? Quem estabelece quais soluções tecnológicas são consideradas viáveis? Em um contexto de redução progressiva do investimento público em ciência, essas questões tornam-se ainda mais urgentes. Quanto maior a dependência das universidades em relação aos recursos privados, maior também será a necessidade de mecanismos robustos de transparência, gestão de conflitos de interesse e proteção da autonomia científica.

A reportagem da ProPublica presta um importante serviço público justamente por demonstrar que a independência da ciência não depende apenas da honestidade individual dos pesquisadores. Ela depende, sobretudo, das condições institucionais em que o conhecimento é produzido. Uma ciência verdadeiramente comprometida com o interesse público precisa preservar sua capacidade de formular perguntas incômodas, mesmo quando as respostas contrariem interesses econômicos poderosos. Em tempos de crise climática, essa talvez seja uma das maiores responsabilidades da universidade pública: produzir conhecimento que não esteja subordinado às necessidades estratégicas das corporações responsáveis por boa parte dos problemas que a própria ciência busca resolver.

Em última análise, o caso investigado pela ProPublica reforça uma lição que a economia política da ciência conhece há muito tempo: a captura do conhecimento raramente ocorre pela falsificação dos resultados, mas pela definição das agendas de pesquisa e das soluções consideradas aceitáveis. Em um cenário de crescente dependência do financiamento privado, preservar a autonomia científica torna-se uma condição indispensável para que a ciência continue servindo ao interesse público e não aos balanços financeiros das grandes corporações. Como diz o velho ditado, quem paga a banda, escolhe a música. A investigação da ProPublica mostra que esse provérbio popular continua tendo uma inquietante capacidade de explicar parte importante das relações entre ciência, poder econômico e crise climática.

Nova exigência da Europa isola agricultura familiar e acende alerta para as exportações do Mercosul

Com 50% do café exportado pra Europa, Brasil encara barreiras verdes e risco de isolamento logístico no campo.

O risco de isolamento logístico de pequenos agricultores e a imposição de novos custos de rastreabilidade ameaçam as exportações brasileiras para a União Europeia, que hoje absorve mais da metade de todo o café nacional. O alerta pauta um novo levantamento de pesquisadoras do projeto DIP-BR (Descarbonização e Política Industrial: Desafios para o Brasil) do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ). Ao analisar o impacto do Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), as pesquisadoras Kethelyn Ferreira e Marta Castilho mostram que a medida ambiental pressiona cadeias agrícolas vulneráveis e têm o potencial de gerar um desvio severo na geografia do comércio internacional.

Embora a exposição geral da economia brasileira à nova regra seja de apenas 5,3% do total de exportações, o impacto atinge o agronegócio de forma concentrada. O regulamento condiciona o acesso ao mercado europeu à comprovação de que os produtos não foram cultivados em áreas que sofreram desmatamento após dezembro de 2020. Sem essa prova, a entrada é vetada. O mercado europeu classificou o Brasil como um país de “risco padrão”, o que obriga os produtores a executarem um processo rigoroso e caro de verificação e rastreabilidade para comprovar a origem sustentável de suas safras. O café é uma das commodities mais vulneráveis ao novo marco regulatório, não pelo peso que tem na exportação, mas pela dependência quase exclusiva do mercado europeu como comprador. Mais de 50% do volume exportado tem a Europa como destino final, ante menos de 15% no caso da soja, que também será afetada pelo EUDR, mas em menor escala. Os dois setores concentram os maiores indicadores de exposição ao regulamento no caso brasileiro: a soja pelo volume que representa na pauta exportadora, e o café pela dependência quase exclusiva do mercado europeu como destino.

“O EUDR impõe devida diligência proporcional ao risco do país; como o Brasil está classificado como ‘risco padrão’, os procedimentos e custos de conformidade tendem a ser mais exigentes do que para países de ‘baixo risco’, pressionando preço, tempo e burocracia na venda ao mercado europeu. A própria lógica do EUDR abre espaço para que operadores europeus privilegiem produtos de países de ‘baixo risco’”, afirmam as pesquisadoras no levantamento.

O peso da nova legislação recai de forma agressiva sobre a base da pirâmide produtiva. Famílias e cooperativas rurais esbarram em limitações técnicas e na ausência crônica de regularização fundiária no país. Sem acesso a tecnologias sofisticadas para gerar os dados rastreáveis exigidos pelo operador europeu, o custo fixo por unidade produzida dispara. A exigência inviabiliza a comercialização direta por esses grupos, atuando como um “protecionismo verde” que aprofunda as desigualdades produtivas da agricultura brasileira.

O cenário da soja expõe uma dinâmica de poder distinta e aponta para o risco de ineficácia climática da lei. Hoje, menos de 15% da soja brasileira vai para a União Europeia, enquanto a China absorve cerca de 60% das exportações dessa commodity, segundo dados do ComexStat/MDIC para 2024. Como o Brasil fornece quase 35% de toda a soja que o bloco europeu importa, o país retém maior margem de barganha. Diante das fricções regulatórias, o agronegócio pode direcionar suas cargas para mercados com regras ambientais mais flexíveis, como o chinês, esvaziando o efeito de conservação florestal inicialmente pretendido pelos europeus. O resultado seria um desvio de comércio sem redução real do desmatamento. Do lado oposto, os EUA se beneficiariam como fornecedor alternativo para o próprio mercado europeu, ampliando sua fatia às custas do Brasil.

O adiamento da vigência da lei para os próximos anos abriu uma janela estratégica de negociação diplomática para o agronegócio sul-americano. A prioridade do Mercosul passa por reivindicar o reconhecimento de sistemas de monitoramento locais já operantes, como a Moratória da Soja e o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Além disso, a revisão do caráter retroativo da data de corte de 2020 e a equiparação entre desmatamento legal e ilegal, que ignora as legislações ambientais vigentes em cada país produtor são temas fundamentais. A criação de fundos europeus de apoio técnico e financeiro para pequenos produtores também se desenha como uma etapa indispensável para modernizar o rastreio sem asfixiar financeiramente os elos mais frágeis do campo.


Fonte: Agência Bori

O desenvolvimento sequestrado: como as elites mantêm Campos prisioneira de seu passado

José Luís Vianna da Cruz argumenta que o município permanece submetido a estruturas de poder herdadas do escravismo e do patrimonialismo, que alimentam desigualdades, reprimem iniciativas populares e impedem a construção de um futuro mais justo

Por José Luis Vianna da Cruz*

Grande parte das  nossas elites políticas, econômicas e sociais  cultivam um conjunto de práticas predatórias, contra o desenvolvimento econômico, político, social e cultural de Campos, com influências igualmente negativas sobre o desenvolvimento regional. São práticas herdeiras da tradição colonialista, de senhor de escravos, de uma pretensa aristocracia sucroalcooleira e de donos de latifúndios, patrimonialistas. Exercidas com mandonismo, autoritarismo, clientelismo, racismo, patriarcalismo, discriminação, segregação e violência contra a população trabalhadora, empobrecida e exercendo atividades precarizadas.

Quais as evidências dessas características? Em quê elas impedem o desenvolvimento de Campos e da região? Me baseio nas pesquisas e produções acadêmicas e na militância dos movimentos e coletivos libertários, além do conhecimento como campista militante social. Falo do que está na boca do povo, como na canção de Chico Buarque e Milton Nascimento:

“O que será, que será…

Que andam combinando no breu das tocas

Que anda nas cabeças, anda nas bocas

Que andam acendendo velas nos becos

Que andam falando alto pelos botecos

E gritam nos mercados…”

A existência de inúmeros quilombos e “bairros negros”, em favelas e bairros de baixa renda, segregados em relação à existência e à qualidade da infraestrutura, ao acesso e mobilidade, à integração na cidade. A segregação de favelas e bairros pobres urbanos, onde a maioria é preta.

A predominância, nos lugarejos, vilas e áreas urbanas rurais, do abandono dos serviços urbanos, particularmente do esgotamento sanitário e do atendimento à saúde e, principalmente, das vias e do transporte coletivo, na frequência, qualidade e acesso. Essas localidades são ilhas de vida saudável, respiram natureza, conservam as relações de vizinhança, amizade, solidariedade e apoio mútuo entre seus moradores, têm história e cultura de modos de vida, que tendem a desaparecer, pela total irresponsabilidade dos poderes públicos.

A precariedade dos vínculos trabalhistas nas atividades tradicionais, desde o trabalho na área rural até o trabalho no comércio. É amplamente sabido que muitas lojas de comércio não assinam carteira, ou mesmo quando assinam, a remuneração vem somente das comissões das vendas. As jornadas de trabalho chegam a mais de 10 horas por dia. É comum comerciantes que sonegam os impostos municipais e se utilizam da proximidade com políticos para terem suas dívidas postergadas, anuladas ou ignoradas. A assinatura da carteira de trabalho e o respeito aos direitos trabalhistas da(o)s trabalhadora(e)s doméstica(o)s é majoritariamente ignorado pelas famílias e o tratamento dado a ela(e)s mantém resquícios da crueldade e violação dos direitos herdados da sociedade escravocrata.

 A prática das monoculturas que geram monolitismo nas estruturas de poder, empresariais, nas instituições públicas e privadas; ou seja, no conjunto da vida social, impedem a valorização, a reprodução e o fortalecimento da economia popular e da diversificação produtiva, tanto na produção como no comércio e serviços. Isso se expressa na substituição da monocultura da cana pela do petróleo e gás e, agora, pela da infraestrutura de armazenagem, transporte e circulação de mercadorias internas e de commodities do extrativismo, via condomínios logísticos, porto e vias. Também nos oligopólios dos atacarejos e varejos, com os megaempreendimentos sufocando os médios e pequenos de capitais locais, gerando falências, desemprego e aprofundamento da precarização. Isso explica o apartheid urbano expresso numa cidade (re)partida entre condomínios horizontais de renda média e alta, fechados, murados, segregados e o resto da cidade. E, ainda querem atrair monoculturas do agronegócio, datacenters, fazendas de energia eólica e outras atividades profundamente predatórias do meio ambiente e da vida social, cujo nível de automação não gera empregos e desemprega, como explicarei adiante. O mesmo acontece com as expressões culturais da periferia, marginalizadas e, muitas vezes, hostilizadas pelos Poderes Públicos.

Fazem isso através de estratégias econômicas, sociais, políticas e militaristas: impedem a agricultura familiar, a agricultura dos pequenos produtores tradicionais e a dos assentados, agroecológica e orgânica, que fortalece a natureza, o ambiente, a saúde, o trabalho, a distribuição de renda, a diversificação e, por consequência o verdeiro desenvolvimento, diversificado, democrático, inclusivo, distributivo e saudável. Destroem e inibem as economias tradicionais, de pequeno e médio porte, produzindo desemprego e favorecendo o subemprego e a total informalidade e abandono dos trabalhadores. O que chamam de desenvolvimento é um balcão de negócios privados, visando beneficiar-se financeiramente da implantação de mega empresas nos segmentos imobiliário, de atacado e varejo, de educação, de hospedagem, dentre outros; tendo o cuidado de bloquear quaisquer iniciativas econômicas, sociais, culturais e políticas que possam ameaçar o monopólio do poder, o controle dos territórios, da força de trabalho; isto é, bloquear as energias e iniciativas que possam “abrir”, romper e superar essa herança perversa.

Nisso consiste o trabalho mais profundo, dramático e leviano, contra a o bem-estar social. Por meios coercitivos, repressivos e, muitas vezes, violentos, reprimem e oprimem qualquer possibilidade de reação a esse padrão de condução do poder na sociedade campista: controlam o poder na gestão das escolas e dos equipamentos de assistência social e serviços públicos; controlam a liderança política nas favelas e bairros mais pobres, onde se encontra a maioria do eleitorado, obrigada a conviver com o poder e controle dos traficantes, nessas favelas e bairro pobres. Quando promovem políticas sociais, como a da habitação popular, misturam populações de bairros controlados por facções rivais, aprisionando e submetendo a população às leis dos conflitos entre poderes institucionais, formais e os do crime organizado. Grande parte da população está aprisionada em suas residências, tolhida e controlada no direito de morar, conviver e de ir e vir na cidade. Não encontram abrigo no Poder Público local, omisso, indiferente e verdadeiramente hostil às vozes populares.

Para mim, a expressão mais revoltante dessa prática é o Campo de Concentração chamado Tapera III, à margem da BR-101, no meio do nada, uma das formas mais violentas de confinar a população pobre, expulsa da Favela Margem da Linha e jogadas numa área vulnerável ao controle do crime organizado, sem nenhum serviço urbano digno, submetida à total insegurança, ao transporte absolutamente precário e à morte frequente de seus moradores, pelo tráfego da BR-101. Digna de um projeto nazista, que submete os moradores à tortura e privação diárias dos mais elementares direitos humanos. Uma monstruosidade.

O que faz do nosso município – e da região – um território marcado pela predominância do legado da sociabilidade e do poder vigentes na escravatura, no Império e no pior da República, que se instalou nesse país e, muito forte e profundamente, por aqui. A parte dominante dessa elite embrulha tudo isso com o invólucro do conservadorismo direitista, falsamente moralizador, de braços dados com segmentos inimigos da democracia e do desenvolvimento. Porque não ama nossa cidade e nossa região, porque não ama nossa gente.

Como diz o ditado, que muitos atribuem a Abraham Lincoln: “você pode enganar algumas pessoas o tempo todo, ou todas as pessoas por algum tempo, mas não pode enganar todas as pessoas o tempo todo”. As investigações da Polícia Federal parecem confirmar o ditado.

Da nossa parte, continuamos firmes na luta para superar radicalmente essa história nefasta imposta por uma parcela da elite dominante campista e regional, porque amamos essa terra e a nossa gente.


*José Luis Vianna da Cruz é professor aposentado da Universidade Federal Fluminense, possui graduação em Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS, 1978), Mestrado em Planejamento Urbano e Regional, Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR, 1990), e Doutorado em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR, 2003).

As queimadas da cana como expressão da violência lenta de Rob Nixon: uma nova forma de compreender um velho problema de Campos dos Goytacazes

A persistência da fumaça, da poluição atmosférica e da exposição cotidiana da população aos seus efeitos demonstra que algumas das formas mais graves de violência ambiental não ocorrem em grandes desastres, mas na repetição silenciosa de práticas que a legislação já deveria ter eliminado

Recentemente participei de uma banca de qualificação de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRJ. Durante a leitura do projeto, fiquei com a impressão de que havia espaço para ampliar sua fundamentação teórica e comecei a procurar autores que pudessem oferecer novas chaves de interpretação para o problema investigado. Nessa busca encontrei o livro Slow Violence and the Environmentalism of the Poor, publicado em 2011 por Rob Nixon, pesquisador sul-africano e professor do Departamento de Inglês da Universidade de Princeton. Apesar de sua enorme influência internacional, a obra continua inédita em português. Convencido da relevância de suas ideias, comprei um exemplar e, agora que o recebi, comecei sua leitura com bastante expectativa.

As primeiras páginas já deixam claro por que esse livro se tornou uma referência nos estudos sobre justiça ambiental. Nixon propõe o conceito de violência lenta (slow violence), definido como uma forma de violência que “ocorre gradualmente e fora de vista”, produzindo uma destruição retardada, dispersa no tempo e no espaço, que normalmente sequer é reconhecida como violência. Em vez de chamar atenção apenas para guerras, explosões, acidentes industriais ou grandes desastres ambientais, Nixon convida o leitor a olhar para processos cumulativos, como a contaminação química, a degradação dos solos, as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade e a exposição permanente à poluição. São processos que se desenvolvem lentamente, dificultando tanto sua percepção pela sociedade quanto a responsabilização política daqueles que os produzem.

Enquanto avançava na leitura, tornou-se impossível não estabelecer um paralelo com uma realidade que há décadas faz parte da vida dos moradores de Campos dos Goytacazes e de outros municípios canavieiros do Norte Fluminense: as queimadas da cana-de-açúcar.

Ao contrário de um desastre industrial ou de um grande vazamento de produtos tóxicos, a queima da palha da cana não produz um único episódio catastrófico. Ela consiste em centenas de pequenos incêndios distribuídos ao longo de toda a safra. Cada um deles libera para a atmosfera grandes quantidades de material particulado fino (PM₂.₅), monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, compostos orgânicos voláteis e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos. A literatura científica também demonstra que a combustão da biomassa pode reemitir metais-traço previamente acumulados no solo e na vegetação, entre eles o mercúrio, ampliando a toxicidade da fumaça respirada diariamente pela população.

Nenhuma dessas emissões, considerada isoladamente, costuma provocar uma tragédia imediatamente perceptível. O problema reside justamente na repetição cotidiana dessa exposição durante meses, ano após ano. Crianças, idosos, trabalhadores rurais e moradores das áreas urbanas respiram continuamente essa mistura de poluentes, aumentando progressivamente o risco de doenças respiratórias, cardiovasculares, inflamatórias e, potencialmente, neurológicas. É exatamente essa temporalidade que Nixon denomina destruição retardada (delayed destruction): a violência não explode diante dos nossos olhos; ela se acumula lentamente nos corpos, nos ecossistemas e nas estatísticas de adoecimento.

Há ainda outro aspecto fundamental da violência lenta: sua invisibilidade.

Uma explosão industrial produz imagens que ocupam imediatamente os telejornais. Uma enchente ou um rompimento de barragem mobilizam autoridades e geram forte repercussão pública. Já a fumaça das queimadas desaparece poucas horas depois. No dia seguinte, a cidade parece ter voltado ao normal. Entretanto, os contaminantes permanecem suspensos na atmosfera, depositam-se sobre o solo e continuam circulando no organismo das pessoas expostas.

No caso das queimadas da cana, essa invisibilidade assume diferentes formas. A primeira é temporal: os efeitos à saúde aparecem lentamente e dificultam a associação entre causa e efeito. A segunda é espacial: a fumaça ultrapassa os limites das propriedades rurais e alcança bairros urbanos cujos moradores não recebem qualquer benefício econômico da atividade sucroenergética. A terceira é epidemiológica: embora estudos demonstrem o aumento do risco de adoecimento associado à exposição prolongada ao material particulado, dificilmente se consegue atribuir um caso específico de doença a uma determinada queimada, favorecendo a diluição das responsabilidades. Por fim, existe a invisibilidade política. Durante décadas, a chamada “chuva de fuligem” foi naturalizada como parte da paisagem de Campos, transformando uma forma permanente de exposição tóxica em algo aparentemente inevitável.

Essa naturalização talvez seja uma das maiores vitórias do modelo de produção baseado nas queimadas. Afinal, quando uma população passa a considerar normal respirar fumaça durante boa parte do ano, a violência deixa de ser percebida como violência.

O mais preocupante é que essa situação não decorre da inexistência de instrumentos legais. Ao contrário. A legislação brasileira e a legislação fluminense caminham há anos no sentido de eliminar progressivamente as queimadas pré-colheita, especialmente onde a mecanização já é tecnicamente possível. No entanto, sucessivos adiamentos, flexibilizações e a fragilidade da fiscalização transformaram aquilo que deveria ser uma prática cada vez mais excepcional em uma rotina que continua afetando milhares de pessoas.

É justamente aí que o conceito de Rob Nixon ganha uma força extraordinária para compreender a realidade de Campos dos Goytacazes. A violência lenta não se manifesta apenas na fumaça que respiramos ou nas doenças que aparecem anos depois. Ela também se expressa na incapacidade — ou na falta de vontade política — de fazer cumprir normas criadas para proteger a saúde da população e o meio ambiente. Cada safra em que as queimadas continuam ocorrendo representa não apenas o descumprimento de um compromisso legal, mas a renovação de um modelo de desenvolvimento que socializa os danos ambientais e sanitários enquanto concentra os benefícios econômicos em poucos agentes da cadeia sucroenergética.

Talvez essa seja uma das mais importantes lições de Slow Violence and the Environmentalism of the Poor. Algumas das formas mais profundas de violência não chegam acompanhadas de explosões, sirenes ou imagens espetaculares. Elas se repetem todos os dias, tornam-se parte da paisagem e acabam sendo aceitas como inevitáveis. Em Campos dos Goytacazes, a persistência das queimadas da cana constitui um exemplo emblemático desse processo: uma violência lenta, silenciosa e politicamente tolerada, que continua comprometendo a saúde da população apesar do conhecimento científico acumulado e da existência de instrumentos legais destinados justamente a impedir sua continuidade.

Novo estudo associa exposição ao glifosato a alterações em hormônios importantes durante a gravidez

Por Sustainable Pulse

Um novo estudo que examinou como o herbicida mais usado no mundo pode afetar o corpo das mulheres durante a gravidez revelou que a exposição ao glifosato, o ingrediente ativo de muitos herbicidas, está relacionada a alterações em diversos hormônios que contribuem para a gravidez e o desenvolvimento fetal.

 estudo , publicado no Journal of Exposure Science and Environmental Epidemiology, analisou 752 mulheres grávidas em Porto Rico. A equipe de pesquisa descobriu que níveis mais altos de glifosato e um composto relacionado estavam associados a alterações hormonais que auxiliam na manutenção da placenta, no crescimento fetal e no momento do parto. O glifosato é amplamente utilizado na agricultura, paisagismo e em produtos para controle de ervas daninhas, e as pessoas podem ser expostas por meio de alimentos, água, solo, deriva de pesticidas ou contato com áreas tratadas.

“Este é o herbicida mais utilizado no mundo, contudo, existem surpreendentemente poucos estudos sobre os potenciais impactos que ele pode ter na saúde reprodutiva humana, na gravidez ou no desenvolvimento fetal e infantil”, afirmou John Meeker, professor de Ciências da Saúde Ambiental na Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan e autor principal do artigo. “Ao considerarmos nossas novas descobertas juntamente com as de estudos experimentais, fica claro que é preciso dar mais atenção a esses riscos potenciais e que mais pesquisas são urgentemente necessárias.”

Os pesquisadores utilizaram dados da  coorte de nascimento PROTECT , um estudo de longa duração sobre exposições ambientais e saúde materno-infantil em Porto Rico.

As participantes forneceram amostras de urina até três vezes durante a gravidez, por volta das 18, 22 e 26 semanas. Os pesquisadores também mediram diversos hormônios em amostras de sangue, incluindo estrogênio, hormônios da tireoide e hormônio liberador de corticotropina (CRH). O CRH é um hormônio envolvido na resposta do corpo ao estresse e em processos biológicos relacionados ao trabalho de parto.

Glifosato e AMPA — a principal substância em que o glifosato se decompõe no meio ambiente — foram encontrados na maioria (70%) das amostras coletadas nas visitas de estudo, demonstrando que a exposição era comum entre os participantes.

Para cada aumento moderado nos níveis de AMPA, os pesquisadores encontraram níveis de estriol 10,6% menores durante a gravidez. Um aumento semelhante no glifosato foi associado a níveis de estriol 8,3% menores. O AMPA também foi associado a níveis mais elevados do hormônio tireoidiano T3.

Mais tarde na gravidez, o AMPA foi associado a níveis mais elevados de hormônio estimulante da tireoide, e o glifosato foi associado a níveis mais elevados de CRH.

“Os níveis de exposição que medimos em Porto Rico são mais altos do que os relatados para a população geral dos EUA, e os territórios americanos historicamente suportam uma parcela desproporcional dos impactos ambientais”, disse Mislael Valentín-Cortés, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Epidemiologia da Universidade de Michigan. “Crucialmente, essas exposições químicas coincidem com eventos climáticos extremos, desastres e falhas de infraestrutura, e seus efeitos adversos cumulativos sobre a saúde exigem uma atenção mais constante do que a que recebem atualmente.”

Alguns estudos recentes em humanos associaram a exposição ao glifosato a certos desfechos relacionados à gravidez, incluindo parto prematuro e diferenças no crescimento fetal. Até então, pouco se sabia sobre as alterações biológicas que poderiam explicar essas associações.

Este estudo aponta para a disrupção hormonal como uma possível via. As descobertas complementam estudos em laboratório e com animais que sugerem que herbicidas à base de glifosato podem afetar o sistema endócrino e acrescentam novas evidências em humanos a partir de medições repetidas durante a gravidez.

Os autores observaram que o estudo foi observacional, o que significa que pode mostrar associações, mas não pode comprovar causa e efeito por si só sem considerações adicionais. As amostras de urina também refletem a exposição recente e podem não capturar a exposição total de uma pessoa ao longo da gravidez. O estudo não testou se as alterações hormonais levaram a resultados do parto ou efeitos posteriores na saúde da criança, mas os pesquisadores planejam explorar isso no futuro com a coleta de mais dados.

Ainda assim, os pesquisadores afirmam que as descobertas contribuem para o crescente interesse em como as exposições ambientais comuns podem afetar a saúde durante a gravidez.

“À medida que a atenção pública continua a crescer em torno de alimentos, pesticidas e saúde ambiental, essas descobertas ajudam a direcionar a conversa de uma preocupação geral para mudanças mensuráveis ​​em processos fisiológicos”, disse Meeker. “Compreender como as exposições comuns podem afetar a gravidez é um passo importante para proteger a saúde materna e infantil.”


Fonte: Sustainable Pulse

Guilherme Boulos no PSOL: realinhamento ou entrismo?

Da filiação de Guilherme Boulos às atuais tensões em torno da Revolução Solidária, uma reflexão sobre a relação do PSOL com o PT e os desafios para reconstruir um partido voltado à organização política da classe trabalhadora

Uma tática utilizada inicialmente pelos bolcheviques e posteriormente retomada por Leon Trotsky ficou conhecida como entrismo. Essa tática consistia em ingressar em organizações e partidos com orientações não necessariamente revolucionárias, mas que possuíam forte apelo entre a classe trabalhadora e a juventude. Um exemplo clássico eram os partidos social-democratas europeus, especialmente o francês, que, em determinados momentos da conjuntura e apesar de suas direções, conseguiam atrair os segmentos mais radicalizados da classe trabalhadora.

A justificativa para o entrismo decorria do fato de que as organizações revolucionárias, por se encontrarem conjunturalmente em posição minoritária diante desses partidos maiores, poderiam recrutar mais militantes justamente entre seus setores mais combativos. Para Trotsky, porém, tratava-se de uma ação estritamente tática e temporária, pois o principal risco consistia na adaptação política a programas não revolucionários, em vez da conquista de novos militantes.

O fato é que, desde que Trotsky formulou essa tática, incontáveis organizações, movimentos sociais e partidos passaram por processos de entrismo, nem sempre com o objetivo exclusivo de recrutar militantes. Em muitos casos, o entrismo serviu para neutralizar e reduzir a capacidade organizativa de agrupamentos políticos que poderiam colocar em xeque a hegemonia de determinados partidos sobre a classe trabalhadora.

Como alguém que já presenciou o entrismo sendo praticado in loco, tive a sensação de assistir ao mesmo método sendo aplicado contra o PSOL quando Guilherme Boulos se filiou ao partido, em 2018. Até então, um dileto filho da classe média paulista ocupava a liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e utilizava uma linguagem política muito mais próxima do PT do que do PSOL.  A decisão de Boulos de ingressar no PSOL, e não no PT, pareceu estranha para alguns, inclusive para mim. Ainda assim, as resistências internas mostraram-se insuficientes para impedir que fosse rapidamente alçado à condição de candidato à Presidência da República, algo, no mínimo, inusitado para alguém recém-chegado ao partido.

A questão é que, desde sua entrada no PSOL, Boulos  promoveu um  exitoso processo de realinhamento político em relação ao PT que contribuiu para o enfraquecimento da proposta original do partido: constituir uma alternativa à esquerda capaz de aglutinar e organizar a classe trabalhadora. É possível discutir até que ponto realinhamento e entrismo são ou não faces da mesma moeda. O fato, contudo, é que esse processo foi acompanhado pelo fortalecimento e pela quase hegemonia das chamadas pautas identitárias no programa político do PSOL. Ainda que a atuação de Boulos não se caracterize prioritariamente pela defesa dessas pautas, foi em torno de sua liderança que se reuniram quadros políticos orientados por elas e que, em grande medida, relegam a segundo plano elementos mais clássicos da tradição da esquerda.

Além disso, todo processo de realinhamento tende a produzir tensões, e no PSOL isso não tem sido exceção. Essas tensões se intensificaram em março de 2026, quando foi rejeitada a proposta de formação de uma federação com o PT. A discussão, que se arrastou durante parte de 2025, aprofundou as divergências internas, ainda que tenha produzido apenas movimentações pontuais, e não um êxodo em massa. Ainda assim, a corrente liderada por Boulos e integrada por parlamentares como Érika Hilton e Henrique Vieira parece manter um pé em cada partido. Aliás, a permanência de Érika Hilton e Henrique Vieira no PSOL parece decorrer menos de uma opção preferencial pela legenda do que da inexistência, por ora, de espaço equivalente no eleitorado petista, configurando uma escolha tática voltada a maximizar a viabilidade eleitoral nas eleições de outubro.

É nesse contexto que parece se inserir a recente controvérsia levantada por Érika Hilton acerca da distribuição dos recursos do fundo partidário entre as candidaturas do PSOL. Embora tenha recebido uma dotação de R$ 2,3 milhões — a maior entre as candidaturas proporcionais do partido (deputados federais e estaduais) —, o que parece estar em jogo é uma demonstração de descontentamento com o apoio destinado a outras candidaturas, como a de Manuela D’Ávila ao Senado pelo Rio Grande do Sul, que não compartilham o mesmo viés programático atribuído à parlamentar. Em outras palavras, a celeuma pode estar servindo mais para reforçar uma determinada agenda identitária do que propriamente para discutir a justiça dos mecanismos de distribuição dos recursos partidários. Nada impedirá, por exemplo, que essa polêmica venha a servir de justificativa para uma futura saída de Hilton do PSOL rumo ao PT, já de posse de um novo mandato.

O aspecto que considero mais importante em todo esse debate diz respeito ao destino do PSOL, não apenas como força institucional ocupante de mandatos parlamentares, mas como partido político capaz de organizar as lutas da classe trabalhadora e da juventude contra as políticas neoliberais que asfixiam o cotidiano da população brasileira. Ainda que isso possa parecer contraditório, a saída de figuras como Guilherme Boulos e Érika Hilton — acompanhados dos segmentos da corrente Revolução Solidária que ainda permanecem no partido — poderá produzir o realinhamento de que o PSOL necessita para deixar a longa sombra exercida pelo PT. Hoje, essa influência se traduziria na redução da ação política para uma atuação predominantemente parlamentar e em um foco hegemônico nas pautas identitárias, que mobilizam parte da classe trabalhadora, mas que, objetivamente, não alcançam os segmentos mais atingidos pelas políticas neoliberais emanadas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Voltando ao ponto de partida, resta a pergunta: caso essa saída venha a ocorrer, estaremos diante apenas de um novo realinhamento político ou do encerramento de uma bem-sucedida estratégia de entrismo disfarçado? O futuro dará a resposta.

Paulo Lindesay disseca a “caixa preta” da dívida pública e o desmonte silencioso do Estado brasileiro

Em novo ensaio, Paulo Lindesay articula seis décadas de reformas fiscais, administrativas e monetárias para sustentar que a prioridade conferida ao capital financeiro redefiniu o papel do Estado e aprofundou os limites ao financiamento das políticas públicas

O texto A Caixa Preta do Sistema da Dívida: O Desmonte do Estado Nacional da Ditadura à autonomia do Banco Central, de Paulo Lindesay, oferece uma das mais abrangentes reconstruções históricas recentes das transformações institucionais que moldaram as finanças públicas brasileiras nas últimas seis décadas. Mais do que uma cronologia de leis e reformas administrativas, o autor procura demonstrar que existe um fio condutor ligando diferentes governos, orientações ideológicas e ciclos econômicos: a crescente subordinação do Estado aos interesses do capital financeiro.

O principal mérito do trabalho reside justamente em romper com uma interpretação fragmentada das reformas do Estado. Em vez de analisar isoladamente o Decreto-Lei nº 200/1967, a Lei Kandir, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Emenda Constitucional nº 95, a autonomia do Banco Central ou o novo Arcabouço Fiscal, Lindesay os interpreta como componentes de uma mesma arquitetura institucional. Segundo essa leitura, cada uma dessas mudanças contribuiu, em maior ou menor grau, para ampliar a prioridade conferida ao pagamento da dívida pública e restringir a capacidade do Estado de financiar políticas sociais e investimentos públicos.

Essa perspectiva possui grande força explicativa porque evidencia que a disputa em torno do orçamento público não constitui apenas uma questão técnica. Ao contrário, Lindesay mostra que se trata de uma disputa política sobre quem se apropria do fundo público. Nesse sentido, o texto aproxima-se das formulações da economia política crítica e da sociologia do Estado ao mostrar que as regras fiscais, monetárias e administrativas expressam relações de poder e escolhas distributivas, e não meros imperativos econômicos.

Outro aspecto particularmente relevante é a conexão estabelecida entre política monetária, reformas administrativas e precarização do serviço público. Em geral, esses temas aparecem separados no debate nacional. Lindesay demonstra que a contenção das despesas primárias, a flexibilização das relações de trabalho no setor público, a terceirização e a expansão de formas privadas de gestão podem ser compreendidas como parte de uma mesma lógica de reorganização do Estado em favor da sustentabilidade financeira da dívida pública.

Ao mesmo tempo, o texto suscita questões que merecem aprofundamento. Diversas interpretações apresentadas  (tal  como a caracterização de determinados dispositivos legais como instrumentos deliberados de favorecimento ao rentismo ou a avaliação sobre aspectos jurídicos da dívida pública) pertencem a uma corrente específica da economia política brasileira e permanecem objeto de intenso debate entre economistas, juristas e cientistas políticos. Justamente por isso, sua maior contribuição talvez não esteja em oferecer respostas definitivas, mas em recolocar perguntas frequentemente ausentes da agenda pública: quem ganha e quem perde com o atual desenho institucional das finanças públicas? Quais interesses são privilegiados pelas sucessivas reformas do Estado? E quais são os custos sociais de um modelo em que o pagamento da dívida assume posição central na organização do orçamento?

Para quem acompanha a situação das universidades públicas estaduais, essas reflexões adquirem significado especial. A compressão dos investimentos em educação, ciência, saúde e infraestrutura não decorre apenas de dificuldades conjunturais de arrecadação, mas também das prioridades estabelecidas pelo próprio Estado na distribuição dos recursos públicos. É precisamente nesse ponto que o debate sobre dívida pública deixa de ser um tema restrito aos especialistas em finanças e passa a interessar diretamente a professores, pesquisadores, servidores públicos e à sociedade como um todo.

Independentemente das posições adotadas em relação às teses defendidas por Paulo Lindesay, seu trabalho presta um serviço importante ao estimular uma discussão que raramente ultrapassa os círculos técnicos do Ministério da Fazenda, do Banco Central ou do mercado financeiro. Em uma democracia, a forma como o Estado arrecada, distribui e prioriza seus recursos não pode permanecer como uma “caixa preta”. Tornar essas escolhas transparentes constitui um passo indispensável para que a sociedade possa decidir, de forma informada, qual projeto de desenvolvimento deseja construir para o Brasil.