Lucas Ferrante e outros para “Science”
Fonte: Science
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Com fiscalização insuficiente e rotas consolidadas, produtos falsificados e contrabandeados podem representam até um quinto do mercado no agro

Fotomontagem: Ca Aulucci/JOTA
Os agrotóxicos se tornaram uma frente estratégica para a infiltração do crime organizado no agronegócio brasileiro, com riscos que preocupam o setor. Esse é um dos mercados ilícitos das organizações criminosas, que migraram das cidades para se fixar no interior e áreas rurais, com logísticas próprias e negócios rentáveis.
Ao longo da última década, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) passaram a disputar territórios nas zonas agrícolas, onde encontram infraestrutura consolidada para o transporte, menor presença do Estado e cadeias produtivas com grande circulação financeira, de acordo com diagnóstico do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
“Essa combinação cria oportunidades para que áreas agrícolas funcionem como hubs logísticos para diferentes mercados ilícitos”, explica Leonardo Silva, pesquisador sênior do FBSP. O mercado de defensivos agrícolas ilegais é uma das mais novas minas de ouro da interiorização das facções.
Esses produtos se movimentam por elos logísticos próprios do crime organizado, que formam a chamada “Rota Caipira”, conectando fronteiras ao interior do país. Dados da Receita Federal e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) obtidos pelo JOTA, somados a levantamentos do setor, dão pistas sobre o espaço ocupado por esse mercado ilegal.
O volume total de agrotóxicos apreendidos nas rodovias federais, incluindo produtos contrabandeados, falsificados, adulterados ou sem registro no país, chegou a 127 toneladas em 2025, mais do que o dobro das 62,9 toneladas apreendidas em 2024. Antes, em 2023, o volume se aproximava de 200 toneladas.
Ao mesmo tempo, as apreensões de agrotóxicos irregulares pela Receita cresceram 55% entre 2020 e 2025, atingindo R$ 16,4 milhões. Mas o pico foi em 2023, com quase R$ 60 milhões apreendidos.
As oscilações nas apreensões não indicam, necessariamente, quedas nesse mercado ilegal, mas subnotificação e limitações dos órgãos de controle. “Os números variam conforme o foco das operações e as prioridades estratégicas. Em alguns períodos, a fiscalização é direcionada para determinados tipos de ilícitos ou regiões específicas, o que pode influenciar o volume de apreensões”, explica o chefe do setor de enfrentamento aos crimes transfronteiriços da PRF, Thiago de Castro.
Além disso, a detecção pelas autoridades é complexa: os defensivos são ocultados como outras mercadorias, enviados em pequenas cargas ou fragmentados. O uso de estradas vicinais e vias secundárias também tem sido uma estratégia de sucesso para evitar fiscalização.
“Muitas vezes, a identificação exige conhecimento técnico específico. Sem essa qualificação, é difícil distinguir um produto falsificado ou irregular apenas pela análise visual”, afirma Castro.
Os números da Receita Federal sugerem ainda que mercado ilegal de agrotóxicos não se restringe a rotas rodoviárias, mas envolve cadeias internacionais de fornecimento e distribuição. A concentração geográfica das apreensões reforça esse ponto.
No ano passado, as maiores apreensões ocorreram em cidades como Eldorado (MS), quase na fronteira com o Paraguai; e em Boa Vista, capital próxima à divisa com a Venezuela e Guiana. Em 2026, o padrão se mantém, com Mato Grosso do Sul, Goiás e Rio Grande do Sul entre os estados com maior número de apreensões até agora.
Oportunidades de mercado
Tradicionalmente, as regiões de fronteira com Paraguai e Bolívia, funcionam como principal porta de entrada do contrabando de drogas, armas e cigarros. Essas rotas foram então adotadas para o tráfico de agrotóxicos ilegais, que se conectam à malha de transporte do agronegócio legítimo.
“As organizações criminosas aproveitam a infraestrutura logística já existente para ampliar a distribuição de insumos agrícolas ilegais”, comenta Nilto Mendes, gerente de Combate a Produtos Ilegais da CropLife Brasil.
Assim, a Rota Caipira do crime usa um corredor logístico que atravessa desde as fronteiras do Mato Grosso do Sul e Paraná, até polos agrícolas de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo. Ela também se formou a partir de uma oportunidade de mercado: uma ampla e pulverizada infraestrutura rodoviária, justamente para o escoamento da produção agropecuária, somada a brechas de fiscalização.
Embora o uso desse corredor por organizações como o PCC seja conhecido, especialistas apontam que o enfrentamento é afetado pela extensão territorial, multiplicidade de vias secundárias e a adaptação constante das organizações criminosas.
Essa rede opera com divisão de funções, envolvendo transportadoras, caminhões e intermediários locais para pulverizar a distribuição e confundir a fiscalização, segundo as investigações. Para impedir que os produtos sejam rastreados, elas falsificam rótulos e reutilizam embalagens. Por fim, o mercado do insumo agrícola se consolidou como um dos elos de lavagem de dinheiro das facções.
Contudo, a estratégia logística e operacional não foi um único fator a permitir que esse mercado florescesse. O próprio desenvolvimento do agronegócio brasileiro gera uma demanda sempre crescente por insumos agrícolas, o que, na falta de fiscalização mais robusta sobre os materiais aplicados pelos produtores, fomentou a atratividade do mercado ilegal de defensivos.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) é responsável por operações de fiscalização e controle sobre o uso de agrotóxicos, mas a avalição do setor é que os preços baixos, aliados a lacunas na fiscalização e na rastreabilidade, facilitam a adesão ao mercado ilegal.
A pesquisadora do Ipea Maria Paula Gomes dos Santos comenta que o avanço faz parte de uma estratégia mais ampla do crime organizado. “As organizações criminosas têm buscado novos mercados com alta circulação financeira e menor capacidade de fiscalização. O agronegócio reúne essas características”, afirma.
E a demanda não deve diminuir. Segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), a área tratada com defensivos deve alcançar 2,6 bilhões de hectares em 2025, com crescimento de 6,1% em relação ao ano anterior. Nesse cenário, estimativas do setor indicam que produtos ilegais podem representar até um quinto do volume total de defensivos usados no Brasil
A presença desses produtos, além de representar concorrência desleal, cria riscos operacionais e comerciais para produtores e empresas, além de levantar preocupações ambientais e sanitárias. Produtos sem registro podem contaminar solos e mananciais, além de gerar resíduos acima dos limites permitidos, por exemplo.
Agora, uma nova preocupação é que a penetração do crime possa ser facilitada pela pressão de preços exercida em fertilizantes e insumos agrícolas, devido a conflitos geopolíticos. O início da Guerra no Irã, em fevereiro, fez disparar o preço da ureia, utilizada na fabricação de fertilizantes nitrogenados. Com isso, o produtor precisará cortar custos e pode ter um incentivo a mais para migrar para o mercado ilegal de agrotóxicos.
Combate à nova fronteira do crime no agro
Diante desse cenário e de seu papel estratégico, o mercado ilegal de agrotóxicos passou a ganhar mais prioridade no combate ao crime organizado. Ele ganhou atenção em iniciativas como o Programa Vigia, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e operações integradas no âmbito do Plano Nacional de Fronteiras.
A atuação conjunta entre forças de segurança, aduana e fiscalização agropecuária também tem aumentado as apreensões e permitido mapear rotas utilizadas pelo crime organizado. Ainda assim, especialistas avaliam que a dinâmica do crime organizado tem evoluído de forma mais rápida do que a capacidade de resposta do Estado.
Nilto Mendes, da CropLife Brasil, aponta que, embora as apreensões tenham aumentado, elas ainda não são suficientes para conter a expansão das redes criminosas, já que elas operam com logística estruturada e distribuição pulverizada.
Na perspectiva da pesquisadora do Ipea Maria Paula Gomes dos Santos, o avanço do crime organizado para atividades econômicas legais, como cadeias produtivas agrícolas, e por meio de mecanismos de lavagem de dinheiro torna o combate ainda mais complexo. Isso exigiria esforços melhor coordenados.
Nessa linha, um ponto crítico é a necessidade de integração entre diferentes órgãos, desde as forças de segurança até a vigilância agrícola. A ausência de compartilhamento sistemático de dados e de estratégias conjuntas entre fiscalização, inteligência e investigação limita a capacidade de atuação. Ainda, em regiões de fronteira, a cooperação internacional também é essencial para reduzir a entrada de produtos ilegais.
Além disso, esse combate passa por aprimorar a integração entre forças de segurança, fiscalização agropecuária e inteligência financeira, com foco na identificação de redes de lavagem de dinheiro ligadas ao agronegócio. A recomendação aparece em análises do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), reunidas no Boletim de Análise Político-Institucional, que apontam a necessidade de ampliar operações conjuntas e fortalecer o monitoramento de rotas logísticas utilizadas pelo crime organizado, por exemplo.
Com a conexão tão forte entre crime e demanda do agronegócio, o enfrentamento ao problema dependerá de estratégias integradas entre segurança pública, fiscalização e políticas agrícolas.
Fonte: Jota

O livro “A produção da fábula do agronegócio no Brasil: novas e velhas faces da dependência”, de Denise Elias, pesquisadora do Núcleo Fortaleza do INCT Observatório das Metrópoles, acaba de ser disponibilizado em nossa Biblioteca Digital. Publicada originalmente em 2025 pela Letra Capital Editora, a obra reúne décadas de pesquisa da autora sobre as transformações recentes da agropecuária brasileira e suas implicações socioespaciais.
No momento de seu lançamento, o livro esteve disponível apenas para compra, em uma iniciativa da pesquisadora de destinar integralmente os recursos arrecadados à Escola Nacional Florestan Fernandes, vinculada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A doação foi realizada em março de 2026, durante visita à escola, localizada em Guararema (SP). Com a ação concluída, a publicação passa agora a ser acessível em formato digital aberto ao público.
A obra se propõe a analisar criticamente o papel do agronegócio na reorganização do território brasileiro nas últimas décadas. Entre seus principais objetivos, destaca-se a desconstrução de mitos amplamente difundidos sobre o setor, como sua suposta capacidade de erradicar a fome ou de operar de forma ambientalmente sustentável, evidenciando as contradições entre crescimento econômico, concentração de renda e aprofundamento das desigualdades sociais.
A partir de uma abordagem ancorada na geografia crítica e fortemente influenciada pelo pensamento de Milton Santos, Denise Elias argumenta que o agronegócio globalizado atua como um dos principais vetores de reestruturação do espaço brasileiro desde os anos 1970. Esse processo, segundo a autora, ocorre de maneira seletiva e concentradora, promovendo a intensificação da urbanização, a formação de regiões produtivas especializadas e o agravamento das desigualdades socioespaciais no campo e nas cidades.
O livro também chama atenção para a dimensão ideológica do setor, ao tratar da construção de uma “fábula do agronegócio”, sustentada por discursos midiáticos e institucionais que ocultam seus impactos sociais, ambientais e territoriais. Nessa perspectiva, a análise articula economia política, urbanização e dinâmica regional, evidenciando como o avanço do agronegócio está associado tanto à financeirização da economia quanto à expansão de novas formas de controle sobre a terra e os recursos naturais.
Ao longo dos capítulos, a autora explora ainda conceitos como “regiões produtivas do agronegócio” e “cidades do agronegócio”, destacando o papel dessas formações na reconfiguração urbano-regional do país. Ao mesmo tempo, aponta para os conflitos e resistências que emergem nesses territórios, especialmente por parte de populações camponesas, povos tradicionais e movimentos sociais.
Acesse gratuitamente, CLIQUE AQUI.
Fonte: Observatório das Metrópoles
A disrupção do ecossistema intestinal pode contribuir para o desenvolvimento de diabetes e outros problemas de saúde, dizem os cientistas
O uso crescente de agrotóxicos — aplicados aqui na cana-de-açúcar no estado de Maharashtra, na Índia — pode explicar o aumento global do diabetes tipo 2 em pessoas não obesas. S. JAIN/ SCIENCE
Há oito anos, Bhanudas More foi fazer um exame de sangue de rotina. More, um trabalhador rural desta pequena aldeia no estado de Maharashtra, era magro, trabalhava longas horas nos campos e parecia saudável, por isso o resultado o surpreendeu. Ele foi diagnosticado com diabetes tipo 2, uma doença comumente associada à vida sedentária na cidade.
A medicação pouco ajudou a controlar seu quadro. Ele também começou a sentir inchaço persistente e desconforto estomacal. “Eu tomava os remédios, mas ainda não me sentia normal”, diz More, que agora tem 56 anos. “Em alguns dias, era difícil conseguir trabalhar.”
A origem de seus problemas permanece um mistério, mas os médicos descobriram uma pista ao questioná-lo sobre suas condições de trabalho. Nos canaviais e vinhedos onde trabalha, More é rotineiramente exposto a uma mistura de agrotóxicos. Um número crescente de pesquisas sugere que esses produtos químicos podem afetar o microbioma intestinal, o ecossistema de trilhões de bactérias, fungos e vírus que ajudam na digestão dos alimentos, produzem nutrientes essenciais, treinam o sistema imunológico e enviam sinais químicos que influenciam o metabolismo e até mesmo a função cerebral. Tais alterações podem levar a uma série de problemas de saúde, dizem os pesquisadores, entre eles o aumento global do diabetes tipo 2 em pessoas não obesas.
Até o momento, não há evidências concretas de danos à saúde humana. Além disso, os cientistas alertam que muitos outros fatores, incluindo dieta, estilo de vida e genética, influenciam o microbioma intestinal, o que dificulta a identificação dos efeitos dos pesticidas.
Em 2023, o uso de agrotóxicos atingiu 3,73 milhões de toneladas em todo o mundo, aproximadamente o dobro da quantidade usada em 1990. (A Índia registrou um aumento de quase 20% apenas na última década.) As pesquisas sobre os riscos à saúde têm se concentrado, por muito tempo, em intoxicação aguda, neurotoxicidade e câncer. Mas novas ferramentas genéticas para o estudo de diversos ecossistemas microbianos tornaram possível rastrear os efeitos dos pesticidas no microbioma.
Velmurugan Ganesan, da Fundação de Pesquisa KMCH, questionou se a exposição a agrotóxicos poderia explicar uma descoberta curiosa. Em um estudo com quase 3.000 pessoas no sul da Índia, sua equipe descobriu que 23% dos participantes em áreas urbanas tinham diabetes, que se agrupava com fatores de risco clássicos, como obesidade e colesterol alto. No entanto, em áreas rurais, a prevalência ainda era de 16%, e não havia associação com esses fatores de risco. “Começamos a nos perguntar se substâncias químicas ambientais poderiam estar desempenhando algum papel”, diz Ganesan.
A equipe então explorou os efeitos da exposição a um inseticida agrícola amplamente utilizado, o clorpirifós, em camundongos. Estudos anteriores com animais frequentemente testavam altas doses por curtos períodos, mas a equipe de Ganesan usou o que ele chama de “dose realista”, baseada nos resíduos de pesticidas na dieta média indiana, por 120 dias. O estudo, publicado em agosto de 2025 , descobriu que o clorpirifós remodelou o microbioma intestinal, com bactérias benéficas como o Lactobacillus diminuindo e espécies potencialmente nocivas como o Helicobacter aumentando. Camundongos expostos ao clorpirifós também desenvolveram hiperglicemia e diabetes, apesar de não ganharem peso, afirma Karthika Durairaj, primeira autora do estudo.
Outro estudo, do qual Ganesan é coautor, sugere um possível mecanismo: quando os micróbios intestinais decompõem o clorpirifós, produzem acetato e outros metabólitos que o fígado utiliza para produzir glicose através de um processo chamado gliconeogênese, levando a níveis elevados de açúcar no sangue.
A equipe de Ganesan está agora analisando amostras de sangue, urina e fezes de pessoas com diabetes, com e sem obesidade, e de indivíduos saudáveis do grupo de controle, para verificar se os padrões se repetem em humanos. “Estamos trabalhando para demonstrar que o diabetes induzido por substâncias químicas ambientais é bastante diferente [do diabetes associado ao estilo de vida] em seus mecanismos subjacentes e pode exigir cuidados clínicos distintos”, afirma Ganesan.
Os agrotóxicos parecem provocar não apenas alterações na população de microrganismos, mas também mudanças em sua atividade. Em um amplo estudo publicado em 2025, por exemplo, pesquisadores expuseram 17 espécies bacterianas representativas do intestino humano a 18 agrotóxicos diferentes e detectaram alterações na produção microbiana de centenas de pequenas moléculas. Entre elas, ácidos graxos de cadeia curta, ácidos biliares e moléculas relacionadas ao triptofano — compostos que ajudam a manter a mucosa intestinal saudável, a regular a inflamação e a direcionar as respostas imunológicas.
“A maioria dos estudos se concentra no efeito dos agrotóxicos na composição da microbiota intestinal, mas este estudo mostra que os efeitos são muito maiores do que isso”, afirma a coautora do estudo, Caroline Johnson, epidemiologista de saúde ambiental da Escola de Saúde Pública de Yale. A equipe também descobriu que algumas bactérias acumulam agrotóxicos dentro de suas células, o que pode prolongar sua presença no corpo humano e aumentar o risco de efeitos na saúde a longo prazo.
Ao alterar a produção das bactérias intestinais, os pesticidas também podem influenciar a sinalização cerebral e as respostas imunológicas. Em estudos com animais , por exemplo, a exposição ao clorpirifós foi associada a comportamentos semelhantes à depressão, juntamente com alterações na microbiota intestinal. “Não se trata de um único mecanismo. É uma rede de efeitos biológicos que pode, em última análise, interromper a comunicação ao longo do eixo intestino-cérebro”, afirma John Cryan, neurocientista da University College Cork.
Mas Cryan alerta que provar a causalidade é um dos maiores desafios da área. Mesmo estudos controlados com animais muitas vezes não conseguem determinar se as mudanças comportamentais são impulsionadas pela disrupção do microbioma ou pelos efeitos diretos dos agrotóxicos no cérebro, por exemplo. Alguns experimentos recentes estão começando a abordar essa lacuna. Em estudos com animais, a alteração do microbioma por si só, por exemplo, por meio do transplante de microbiota fecal, foi suficiente para mudar o comportamento, sugerindo que os micróbios intestinais desempenham um papel causal.
Ainda não está claro se os agrotóxicos podem ter um efeito semelhante em humanos. E, ao contrário dos animais em estudos de laboratório, os humanos são frequentemente expostos durante anos a uma mistura de vários produtos químicos. Mesnage e seus colegas, por exemplo, analisaram a presença de resíduos de 186 agrotóxicos comuns na urina de 130 pessoas no Reino Unido.
Os resultados o surpreenderam: a equipe encontrou resíduos de inseticidas piretroides ou organofosforados em amostras de todos os participantes, com níveis mais altos em pessoas que relataram consumir mais frutas e verduras. (Agrotóxicoss usados dentro de casa ou em animais de estimação também contribuem para a exposição, afirma Mesnage.) Os pesquisadores também analisaram amostras de fezes e descobriram que níveis mais altos de resíduos de agrotóxicos na urina dos participantes estavam associados a alterações na composição e no metabolismo da microbiota intestinal.
No entanto, estabelecer uma ligação definitiva entre essas alterações no microbioma e os pesticidas exigirá estudos de intervenção. Por exemplo, as pessoas poderiam ser solicitadas a consumir apenas produtos orgânicos, o que reduziria sua exposição, para verificar se e como isso altera seu microbioma intestinal.
Ainda não se sabe se é possível reverter a disrupção do microbioma intestinal causada por agrotóxicos. “No momento, não temos uma solução simples ou universal”, afirma Cryan. “Há uma tendência a pensar que tomar um probiótico” — uma mistura de bactérias intestinais benéficas — “pode resolver tudo”, diz ele, mas o microbioma é influenciado por muitos fatores e restaurar o equilíbrio raramente é simples.
Por enquanto, a melhor abordagem é reduzir a exposição a agrotóxicos, dizem os cientistas. Mas para More, isso não é fácil. Agora ele cobre o rosto enquanto pulveriza as plantações e, às vezes, se pergunta se deveria abandonar a agricultura. Mas, como muitos outros em sua aldeia, ele não tem escolha.
Fonte: Science
Leia o Boletim da Aduenf [Aqui!].
Pausa no conflito expõe limites do poder militar tradicional, reforça o papel da guerra assimétrica e aprofunda a instabilidade na ordem global
Os últimos dias foram intensos na escalada do conflito entre Estados Unidos/Israel e Irã, a ponto de se cogitar que o eixo liderado por Donald Trump recorreria ao uso de artefatos nucleares para reverter o curso desfavorável imposto pelos iranianos ao longo de pouco mais de um mês de enfrentamentos. No entanto, em vez da aniquilação anunciada em discursos e análises mais alarmistas, o que emergiu foi um cessar-fogo de duas semanas — um desfecho provisório que, na prática, sinaliza o encerramento desta etapa do conflito.
O que se desenhou, na realidade, foi um recuo tático. Pressionado pelas desvantagens impostas por uma guerra assimétrica conduzida com eficiência pelo Irã, Donald Trump foi forçado a ceder, ainda que sob a narrativa de uma pausa estratégica. O gesto, no entanto, ecoa como reconhecimento implícito de um revés militar e político, mesmo que temporário.
Mais do que um episódio isolado, o conflito expõe uma inflexão relevante na natureza das guerras contemporâneas. O modelo tradicional de confronto bélico — centrado em poderio tecnológico ostensivo e superioridade numérica — sofre um abalo significativo diante da eficácia de estratégias assimétricas. Nesse contexto, o desempenho iraniano reposiciona o debate estratégico global e tende a impulsionar uma reconfiguração das doutrinas militares em diversas regiões. Ironicamente, o mesmo Ocidente que incentivou e financiou a adoção de táticas assimétricas em cenários como o da Ucrânia vê-se agora confrontado com os efeitos dessa lógica aplicada contra seus próprios interesses geopolíticos.
A já fragilizada hegemonia dos EUA sofre, assim, um abalo adicional, reforçando a percepção de um mundo em transição para uma ordem mais fragmentada e imprevisível. Ainda assim, qualquer leitura que associe esse cenário a uma futura estabilidade global parece precipitada.
Em síntese, o que se observa não é o fim das tensões, mas sua mutação. A aparente pausa no conflito encobre um reposicionamento estratégico mais amplo, no qual velhos paradigmas de poder são questionados e novas formas de confronto ganham centralidade. Longe de inaugurar um período de equilíbrio, o episódio revela um sistema internacional mais volátil, onde derrotas são disfarçadas de cessar-fogo e onde a disputa por hegemonia tende a se intensificar em terrenos menos previsíveis — e, possivelmente, mais perigosos.

A proposta de implantação de um porto no litoral do Piauí remonta ao século XIX, quando o atual município de Luís Correia abrigava o Porto de Amarração, utilizado como ancoradouro para transporte de mercadorias e passageiros.
Ao longo do tempo, diferentes iniciativas buscaram transformá-lo em um porto comercial permanente. Entre as décadas de 1960 e 1980, foram realizados estudos técnicos e iniciadas obras preliminares, como a construção de um molhe, mas o projeto não chegou a ser concluído. A retomada do empreendimento ocorreu em 2007, com anúncio do governo federal, embora tenha enfrentado paralisações e disputas judiciais. Apenas em 2023 houve avanço concreto, com a dragagem do canal de acesso e autorização para funcionamento da primeira etapa do Porto Piauí. Ao longo de 2024 e 2025, o projeto seguiu com a expansão da infraestrutura, incluindo cais multipropósito, pátio logístico, sede administrativa e estruturas do terminal pesqueiro, além da contratação de cerca de R$ 543 milhões para implantação de um Terminal de Uso Privado (TUP). A projeção estadual indica investimentos que podem ultrapassar R$ 7 bilhões até 2030.
Apesar desses avanços, o porto ainda se encontra em fase inicial e depende de novas etapas de licenciamento ambiental e investimentos, sendo que o único licenciamento concedido até o momento refere-se ao terminal pesqueiro. O projeto está associado a uma estratégia logística mais ampla, voltada ao escoamento de minério de ferro de Piripiri, grãos do MATOPIBA, calcário da região de Tutóia (MA) e à produção de hidrogênio verde em Parnaíba — este último, entretanto, teve recentemente suas licenças ambientais negadas pela Justiça Federal, devido à ausência.
O estudo de impacto ambiental do Porto Piauí
O licenciamento ambiental do Porto do Piauí baseia-se em um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) que deveria analisar aspectos físicos, biológicos, hidrodinâmicos e socioeconômicos da região costeira. O estudo reconhece que o empreendimento está inserido em uma área de alta sensibilidade ambiental, dentro da APA Delta do Parnaíba — uma das regiões de maior biodiversidade do litoral brasileiro e onde se localiza o único delta em mar aberto das Américas. Apesar disso, análises independentes indicam lacunas importantes, especialmente na dimensão socioeconômica do estudo. Há uma caracterização limitada das comunidades pesqueiras tradicionais e a ausência de estudos etnográficos aprofundados dificulta avaliar como mudanças ambientais podem afetar diretamente a produtividade da pesca e o modo de vida dessas populações.
O pedido de licenciamento foi protocolado em 2025 junto à SEMAR-PI, mas, por se tratar de uma unidade de conservação federal, o ICMBio também se manifestou e negou a autorização, apontando riscos de impactos irreversíveis e a inviabilidade do projeto na área. Ainda assim, o governo estadual tem buscado rever normas e o zoneamento da APA para viabilizar o porto, o que gera preocupação, já que o próprio EIA reconhece um potencial de danos significativos aos recursos socioambientais e à biodiversidade da região.
A consulta prévia, livre e informada (CPLI)
Outro ponto central do debate sobre o Porto do Piauí é o processo de Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI), direito garantido pela Convenção 169 da OIT, que exige que povos e comunidades tradicionais sejam consultados antes da implementação de projetos que afetem seus territórios.
Embora tenham sido realizadas oficinas e reuniões com colônias e associações de pescadores e organizações sociais, pescadores e especialistas apontam fragilidades no processo: elaboração inicial do plano de consulta sem participação das comunidades; ausência de assessoria técnica independente para apoiar os pescadores; curto prazo de realização das oficinas; falta de compromissos concretos assinados, prazos e responsabilidades financeiras definidas pelos acordos anunciados pelo governo do Piauí ; remoção de pescadores artesanais profissionais tradicionais do Porto do Buraco do Dandão,devido à ampliação e consolidação do TUP.
Porto do Dandão (à esquerda), em Luís Correia (PI), sendo cercado pelo TUP – Porto do Piauí (a direita.), em um processo de desterritorialização portuária. Fotografia: Maxim Repetto
Os desafios futuros das comunidades tradicionais pesqueiras
O Porto do Piauí é apresentado como um projeto estratégico para inserir o estado nas grandes rotas comerciais nacionais e internacionais, articulando a produção mineral e do agronegócio com grandes investimentos econômicos. No entanto, sua implantação ocorre em uma área ambientalmente sensível — a APA do Delta do Parnaíba — e em um território socialmente complexo, onde vivem comunidades tradicionais. Esse cenário evidencia a necessidade de fortalecer mecanismos de avaliação ambiental, participação social e proteção dos modos de vida locais. Verificamos que os pescadores artesanais profissionais tradicionais são os mais afetados, embora não tenham sido devidamente considerados no Estudo de Impacto Ambiental, nem no processo de Consulta Prévia, Livre e Informada. Diante disso, as comunidades vêm demandando acompanhamento e atuação de instituições como o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública da União e a Defensoria Pública do Estado.
Diante desse contexto, colocam-se questões fundamentais para reflexão: qual será o impacto sobre o preço do peixe nos mercados locais caso a produção regional seja direcionada à exportação? Projetos como esse fortalecem as comunidades pesqueiras ou tendem a subordiná-las a interesses externos? Qual modelo de desenvolvimento está sendo proposto para as comunidades tradicionais da APA do Delta do Parnaíba? E como equilibrar os impactos do empreendimento com a garantia dos modos de vida e direitos dessas populações?
Pescadores do Porto do Dandão, em Luís Correia (PI), questionam o TUP – Porto do Piauí, por lhes afasta de seu lugar tradicional de trabalho. Fotografia: Luciano Galé.
Para maiores informações sobre a luta das comunidades que estão sendo ameaçadas pela construção do Porto do Piauí, a dica é seguir o perfil do Observatório do Delta do Parnaíba na rede social Instagram que é @Observatorio_delta_parnaiba.
Sou especialista em ética em pesquisa e frequentemente sou solicitada pela minha universidade a investigar quando surgem potenciais preocupações sobre nossos funcionários ou alunos. Um exemplo disso foi o caso recente da suposta fábrica de artigos científicos e das autocitações de Hitler Louis e Innocent Benjamin . O assunto levantou questões importantes sobre quem, dentro da comunidade científica, tem a responsabilidade de agir quando surgem preocupações desse tipo.
Os leitores assíduos do Retraction Watch sabem que detectar supostas condutas impróprias em pesquisa é uma tarefa complexa. Frequentemente, uma universidade toma conhecimento de irregularidades após ser notificada por investigadores da integridade da pesquisa que escrevem sob pseudônimos. Neste caso, “Cisticola Tinniens” nos informou que um de nossos atuais alunos de mestrado (Benjamin) tinha um número excepcionalmente alto de publicações para o início de sua carreira, algumas delas destacadas no site PubPeer como potencialmente problemáticas.
A primeira coisa que fizemos foi verificar se nossa universidade era mencionada em algum desses artigos, pois é evidente que as instituições têm responsabilidade pelas pesquisas atribuídas a seus pesquisadores ou alunos. Descobrimos que apenas um dos artigos suspeitos nos mencionava diretamente e, como o trabalho definitivamente não havia sido realizado em nossa instituição, foi relativamente fácil corrigir essa afiliação quase que imediatamente .
Mas e quanto a todos os outros artigos problemáticos sem ligação direta com a nossa universidade? Era difícil saber o que mais poderia ser feito além de pedir a Cisticola Tinniens que contatasse as revistas. Embora Benjamin fosse agora um dos nossos alunos, que direito tínhamos de interferir em artigos supostamente revisados por pares, publicados por uma revista acadêmica especializada antes mesmo de o indivíduo chegar para estudar conosco?
Esperávamos que este fosse o fim do caso, mas ficamos surpresos ao receber ainda mais correspondências cerca de um ano depois, bem após o término do curso do aluno. A essa altura, muitos dos artigos problemáticos já haviam sido investigados e retratados. Mesmo assim, Cisticola Tinniens e outros no PubPeer pareciam achar que deveríamos tomar outras providências.
Discordamos. Os pesquisadores transitam frequentemente entre instituições, portanto, se o trabalho não puder ser diretamente vinculado a uma instituição específica, que direito essa instituição tem de tomar medidas adicionais? Realisticamente, há pouco mais que uma universidade possa fazer, exceto talvez revogar diplomas, mas isso seria muito difícil de justificar se não houver uma ligação óbvia entre as retratações e o trabalho exigido para a obtenção do diploma.
Infelizmente, a crescente sofisticação da IA generativa, as pressões criadas pela cultura acadêmica do “publique ou pereça” e a oportunidade de lucro financeiro tornam cada vez mais fácil para indivíduos minarem a confiabilidade do registro científico. Isso é e deve ser uma preocupação para todos nós, mas, como neste caso, a responsabilidade por corrigir o registro científico é compartilhada.
Caso surjam preocupações sobre o conteúdo de artigos científicos, os editores da revista que aprovaram a publicação desses artigos são as pessoas mais indicadas (e supostamente com o conhecimento específico sobre o assunto) para investigar essas preocupações. Isso se deve, sobretudo, à crescente tendência de divergências acadêmicas legítimas serem transformadas em denúncias de má conduta em pesquisa, especialmente quando há fortes diferenças de opinião. Como instituição, podemos encaminhar as preocupações, como fizemos neste caso, mas a responsabilidade de fazer o difícil julgamento sobre a diferença entre uma divergência acadêmica legítima e uma má conduta em pesquisa deve recair sobre a comunidade de especialistas relevante, representada pelo editor da revista.
Como acadêmico, prezo profundamente a precisão dos registros de pesquisa e me frustra a facilidade com que algumas pessoas conseguem se aproveitar do sistema sem consequências aparentes. Mas, embora as universidades, como empregadoras e instituições que conferem diplomas, possuam certo poder, não se pode esperar que assumam o risco (às vezes legal) e o ônus de sancionar todas as falhas ao longo do processo de pesquisa.
Se as revistas científicas, em particular, desejam obter grandes lucros representando e controlando a literatura de pesquisa, também precisam assumir a responsabilidade de impedir que situações como essa ocorram. Se demonstrarem ineficazes na prevenção de publicações fraudulentas ou na gestão eficaz da revisão por pares, isso será mais uma prova de que o sistema de publicação científica está falho e precisa ser substituído por formas alternativas de avaliar e comunicar a pesquisa.
Simon Kolstoe é professor associado de bioética na Universidade de Portsmouth, Reino Unido. Sua pesquisa concentra-se no papel dos comitês de ética e dos processos de governança na promoção da integridade da pesquisa.
Fonte: Retraction Watch
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva faz um joinha após receber um tradicional cocar indígena do Cacique Raoni Metuktire, chefe do povo Kayapo, durante uma cerimônia em Brasília, Brasil, em abril de 2023. (Foto AP/Eraldo Peres/Alamy).
Uma rede complexa de ONGs, corporações, bancos de desenvolvimento e capital filantrópico está remodelando a “bioeconomia” da Amazônia. Mas, à medida que o dinheiro entra na região, novas questões surgem sobre poder, influência e quem realmente determina o futuro da floresta tropical.
Nos últimos vinte anos, a linguagem usada para descrever a floresta amazônica foi gradualmente mudando. Antes visto principalmente como um ecossistema vulnerável que precisa de proteção contra o desmatamento e exploração, agora é cada vez mais descrito em termos econômicos como um sistema de valor mensurável e importância crescente nas discussões financeiras e políticas.
Grandes instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o World Resources Institute (WRI) e fundos climáticos globais têm sido centrais na promoção dessa ideia, desenvolvendo estruturas que conectam a conservação a abordagens baseadas no mercado.
Alguns dos doadores do WRI incluem Cargill, Bezos Earth Fund, Bill and Melinda Gates Foundation, CLUA, Google, Good Energies Foundation, Ford Foundation, Gordon and Betty Moore Foundation, Meta, Rockefeller Philanthropy Advisors, Skoll Foundation, Oak Foundation, Banco Mundial, Departamento de Estado dos EUA, Walmart e muitos outros.
À primeira vista, o conceito é simples e atraente: uma floresta viva pode valer mais do que uma desmatada, se seu valor ecológico for devidamente reconhecido e valorizado.
Mas essa mudança traz consequências. Quando uma floresta se torna um sistema econômico, ela não é mais guiada pela proteção ambiental ou por prioridades sociais. Em vez disso, ela passa a ser moldada por expectativas financeiras, métricas, metas de desempenho e a necessidade de gerar retornos.
Nesse contexto, a conservação não é mais apenas sobre proteção. Ela passa a se vincular a ideias de eficiência, produtividade e escala.
A Amazônia, em outras palavras, não está apenas sendo preservada, está sendo reorganizada.
A arquitetura oculta
Grande parte dessa transformação acontece fora de vista. Muito antes de os projetos alcançarem territórios ou comunidades específicas, suas bases são lançadas em outros lugares, por meio de planejamento financeiro, parcerias institucionais e estratégias de investimento.
O que está surgindo não é apenas financiamento para conservação, mas um sistema projetado para tornar a natureza investidora.
Esse sistema depende de parcerias entre instituições públicas, bancos de desenvolvimento e investidores privados. Juntos, eles estão construindo estruturas financeiras que transformam a conservação em algo que pode ser financiado em larga escala.
Organizações como a Corporação Financeira Internacional, IFC (membro do Grupo Banco Mundial), o banco brasileiro de desenvolvimento, BNDES, e o banco estatal alemão de desenvolvimento, KfW, são centrais para a construção desses frameworks, estruturando instrumentos que permitem que capital se mova para regiões historicamente consideradas muito arriscadas para investimento.
Mas o financiamento não vem sem condições. Os projetos devem ser mensuráveis, escaláveis e alinhados às expectativas dos investidores.
Isso cria um efeito sutil de filtragem. Iniciativas enraizadas em tradições locais e formas não comerciais de gestão da terra não são explicitamente excluídas, mas muitas vezes têm dificuldade em se encaixar nesses quadros e, por isso, muitas vezes permanecem à margem.
Finanças mistas: o motor da bioeconomia
No cerne desse sistema está a “finança mista”, um modelo que combina dinheiro público, financiamento filantrópico e investimento privado para reduzir riscos e atrair capital em grande escala.
O BID, o IFC e fundos como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) são fundamentais no desenho desses mecanismos, muitas vezes trabalhando em coordenação com atores nacionais como o BNDES. A intenção é mobilizar grandes volumes de capital para conservação, tornando projetos financeiramente viáveis para investidores privados.
Na prática, esse modelo redistribui o risco financeiro de forma altamente estruturada. Instituições públicas e atores filantrópicos, como a Fundação Gordon e Betty Moore e alianças como a Climate and Land Use Alliance, normalmente absorvem prejuízos iniciais ou oferecem garantias, permitindo que investidores privados participem com retornos mais previsíveis.
O mecanismo é eficaz em certo sentido: ele traz níveis de financiamento que a conservação historicamente teve dificuldades em alcançar.
Mas isso também levanta uma questão mais profunda: se o risco é compartilhado, quem se beneficia das recompensas?
A influência do financiamento misto vai além do financiamento, ela molda como os projetos se apresentam. Como os investidores exigem previsibilidade, as iniciativas geralmente são projetadas em torno de resultados mensuráveis, como créditos de carbono, commodities certificadas e receitas ligadas à biodiversidade.
Isso pode impulsionar a inovação, mas também pode limitar o que é possível. Projetos focados em saúde ecológica de longo prazo, continuidade cultural ou formas não comerciais de gestão podem ter dificuldade para atrair apoio.
Com o tempo, isso tem um efeito cumulativo. O sistema não financia apenas a bioeconomia, ele a define. Ela determina o que é visível, o que cresce e o que fica para trás.
O risco também assume novas formas. Ele aparece quando narrativas sobre sustentabilidade avançam mais rápido que a realidade no terreno, ou quando pequenos sucessos são amplificados apesar das pressões ambientais contínuas.
Preocupações com greenwashing nem sempre vêm de alegações totalmente falsas. Frequentemente, elas emergem da própria estrutura, de um sistema onde retornos financeiros e reputação estão intimamente ligados.
Nesse processo, a Amazônia não está apenas sendo protegida, mas também atraída para sistemas financeiros que remodelam como a natureza é valorizada e como o sucesso é medido.
Intermediários
No Brasil, certas organizações atuam como intermediárias-chave, como o Fundo Brasileiro de Biodiversidade (FUNBIO), que está no centro desses fluxos financeiros.
Ativa desde 1996, a FUNBIO foi criada com o apoio do GEF e parceiros multilaterais. Opera como um centro financeiro, arrecadando fundos de governos, corporações e instituições filantrópicas, e redistribuindo-os para projetos por toda a Amazônia e Brasil.
Esse papel confere a essas instituições influência significativa. Eles não financiam apenas iniciativas, ajudam a determinar quais são bem-sucedidos, quais modelos são expandidos e quais abordagens são priorizadas.
Embora essa concentração possa melhorar a eficiência, ela também concentra o poder de tomada de decisão dentro de uma rede relativamente pequena.
Um exemplo claro é o Projeto de Carbono da Floresta de Suruí, lançado em 2009 e gerenciado em parte pela FUNBIO em parceria com o povo indígena Paiter-Suruí. O projeto foi amplamente visto como um esforço pioneiro para conectar a conservação aos mercados de carbono, mas também revelou algumas das tensões por trás desses modelos.
Com o tempo, alguns líderes comunitários disseram que os pagamentos de créditos de carbono demoraram a chegar e que as decisões-chave estavam sendo tomadas por um pequeno grupo, e não pela comunidade em geral. Ao mesmo tempo, a extração e o desmatamento ilegal continuaram no território, enfraquecendo o impacto do projeto. Para alguns, isso levantou questões difíceis sobre quem realmente se beneficia dessas iniciativas e se o sistema é tão transparente ou justo quanto parece.
As divulgações financeiras ilustram a amplitude dessa rede. Programas ligados ao FUNBIO envolveram financiamento e parcerias com entidades como BNDES, KfW, IDB, Fundação Gordon e Betty Moore, WWF, Good Energies Foundation, CLUA, Bezos Earth, Petrobras, Eneva, ExxonMobil, Chevron, Vale, Anglo American, Natura, JBS, Heineken e outras, abrangendo domínios público, privado e filantrópico.
Na prática, um único projeto de conservação pode envolver financiamento de bancos de desenvolvimento, setores de petróleo, mineração e agronegócio, doadores filantrópicos e ONGs ambientais, tudo ao mesmo tempo. Essas parcerias em camadas podem mobilizar grandes quantias de dinheiro, mas também criam teias complexas de dependência.
Filantropia
Fundações filantrópicas tornaram-se indispensáveis para esse sistema, muitas vezes intervindo onde outros não querem ou não podem.
Organizações como a Fundação Gordon e Betty Moore, a Fundação Good Energies (Porticus) e a Aliança para o Clima e Uso do Solo (CLUA) fornecem financiamento em estágio inicial que permite que projetos se desenvolvam e se tornem atraentes para grandes investidores. Sem esse apoio inicial, muitas iniciativas não seriam implementadas.
Pegue o programa ARPA como exemplo. Criada em 2002 e gerenciada pelo FUNBIO, essa aliança tem trabalhado para conservar e gerenciar de forma sustentável 60 milhões de hectares de terra, uma área aproximadamente o dobro do tamanho da Alemanha. Seu financiamento vem de uma mistura de grandes players, incluindo a Fundação Gordon e Betty Moore, WWF, o governo alemão (por meio da KfW), GEF, Anglo American, Amazon Fund, IDB, Banco Mundial, Margaret A. Cargill e BNDES. O próprio projeto é gerenciado e entregue pela FUNBIO.
Somente em 2024, a Fundação Gordon e Betty Moore injetou mais de 24 milhões de dólares em projetos no Brasil, principalmente na região amazônica.
Mas a filantropia não é neutra. Ao escolher quais iniciativas financiar, essas organizações influenciam a direção da própria bioeconomia.
Projetos que prometem escalar e se alinhar com abordagens orientadas pelo mercado têm mais chances de receber apoio. Enquanto isso, alternativas, especialmente aquelas focadas em direitos fundiários ou soluções não comerciais, podem ter dificuldades para competir.
O Fundo de Desenvolvimento Econômico Soros, apoiado pela rede Open Society de George Soros , identificou o Brasil como um destino-chave para investimento de impacto, especialmente em áreas como agricultura regenerativa, bioinsumos e soluções baseadas na natureza. Sua abordagem enfatiza a escalabilidade de modelos comercialmente viáveis que vinculam a preservação ambiental aos retornos financeiros, reforçando a tendência mais ampla de alinhar a conservação com estruturas orientadas pelo mercado.
Isso levanta uma questão importante: quem está realmente moldando o futuro da Amazônia? Comunidades locais, governos nacionais ou redes globais de financiadores?
Participação corporativa
As corporações agora estão profundamente envolvidas na bioeconomia.
Empresas dos setores de petróleo, mineração e agronegócio contribuem para fundos ambientais e participam de iniciativas de conservação, muitas vezes como parte de estratégias mais amplas de sustentabilidade.
Esses esforços podem apoiar a restauração e o desenvolvimento local. Ao mesmo tempo, eles operam dentro de uma economia reputacional, onde o engajamento ambiental visível pode melhorar a imagem pública e a confiança dos investidores.
Isso cria uma tensão clara. As mesmas indústrias historicamente ligadas a danos ambientais agora estão ajudando a financiar seu reparo.
Comercialização
A expansão dos negócios baseados na biodiversidade oferece uma das ilustrações mais claras de como a bioeconomia funciona na prática.
Corporações como a empresa brasileira de cosméticos Natura estão construindo mercados globais em torno de produtos derivados da floresta, muitas vezes em parceria com comunidades locais.
O envolvimento da Natura em iniciativas como o programa Amazônia Viva, desenvolvido em conjunto com o IFC e o FUNBIO, ilustra como cadeias de suprimentos comerciais podem ser integradas ao financiamento da conservação.
Em um nível, o modelo da Natura demonstra que economias baseadas em florestas podem gerar renda sem desmatamento. Em outra, revela as complexidades de escalar tais sistemas.
À medida que a demanda aumenta, as cadeias de suprimentos precisam se expandir e padronizar. Isso pode pressionar as práticas locais, remodelando-as para atender às expectativas do mercado global.
O equilíbrio entre oportunidade e restrição é frequentemente frágil.
Narrativas sustentáveis sobre carne bovina
A participação dos grandes produtores de carne adiciona outra camada de complexidade.
A JBS, maior produtora de carne do mundo, por meio do JBS Fund for The Amazon, destaca outra dimensão da bioeconomia: a participação de setores historicamente ligados ao desmatamento, degradação ambiental e violações de direitos humanos. O fundo apoia projetos de conservação e desenvolvimento sustentável, posicionando a empresa como parte da solução de desafios ambientais.
No entanto, um corpo substancial de reportagens investigativas e análises fiscales levantou preocupações contínuas sobre a transparência das cadeias de suprimentos e o impacto ambiental da JBS.
Isso destaca uma contradição mais ampla: as empresas podem apoiar iniciativas de sustentabilidade enquanto continuam práticas que contribuem para danos sociais e ambientais.
Capital de mineração
Um padrão semelhante pode ser observado no setor de mineração, especialmente no caso da gigante mineradora brasileira Vale. A empresa investiu em programas de biodiversidade, projetos de restauração e parcerias de bioeconomia, posicionando-se dentro da linguagem da responsabilidade ambiental.
Mas o histórico ambiental de Vale inclui um dos desastres industriais mais devastadores da história do Brasil. O desastre da barragem das Marianas em 2015, operado por uma joint venture entre Vale e BHP, liberou milhões de metros cúbicos de resíduos tóxicos, causando destruição generalizada e desencadeando reivindicações legais de centenas de milhares de pessoas afetadas.
Nesse contexto, o envolvimento de Vale em iniciativas ambientais e bioeconômicas ganha ainda mais importância. Por meio de entidades como a Fundo Vale, a empresa cofinancia projetos de conservação e desenvolvimento ao lado de instituições públicas e ONGs, integrando-se a estruturas de sustentabilidade que enfatizam a restauração e a resiliência.
Essas iniciativas são frequentemente apresentadas como parte de uma transição para práticas mais sustentáveis. Ao mesmo tempo, eles convivem com atividades de extração em andamento que têm impacto social e ambiental significativo.
Isso reflete uma tendência mais ampla: iniciativas de sustentabilidade frequentemente acompanham, em vez de substituir, indústrias extrativas.
Web institucional e aceleradores
Organizações como WWF, IDESAM, Conexsus e Sitawi ocupam uma posição fundamental conectando finanças e implementação no terreno.
Eles projetam projetos, gerenciam o financiamento e trabalham diretamente com as comunidades. Isso lhes confere um papel importante de transição, mas também os coloca em uma posição delicada.
Muitos dependem do financiamento dos mesmos atores que devem responsabilizar.
Novas plataformas como a Amaz e redes ligadas ao Instituto Arapyaú visam expandir negócios baseados na Amazon, conectando-os a investidores, mentores e mercados. Esses aceleradores são frequentemente apresentados como veículos de empoderamento, permitindo que empreendedores locais acessem oportunidades antes inalcançáveis.
Essas iniciativas podem ampliar oportunidades, mas também atraem empresas locais para sistemas globais, onde o sucesso é definido pelo crescimento e retorno financeiro. A participação vem cada vez mais acompanhada de condições.
O Fundo Amazonas
O Fundo Amazonas representa um dos maiores recursos internacionais de financiamento para a conservação florestal.
Gerenciada pelo BNDES, recebeu bilhões em contribuições, principalmente do governo norueguês. A gigante estatal de energia do Brasil, Petrobras, também é doadora. A estrutura do fundo canaliza o financiamento climático internacional em programas nacionais, muitas vezes atuando por meio de intermediários como o FUNBIO.
Esse sistema multilayer permite investimentos significativos, mas também introduz camadas de complexidade. A tomada de decisão é compartilhada entre múltiplos atores, tornando a responsabilidade mais difícil de rastrear.
É importante notar que Aloisio Mercadante atua como presidente tanto do Amazon Fund quanto do BNDES.
Quem se beneficia?
No centro da bioeconomia estão os povos indígenas e as comunidades locais.
Seu conhecimento, práticas e relação de longa data com a terra ajudam a moldar muitos projetos que agora atraem atenção global e investimentos. Mas a parcela de benefícios financeiros que chegam a eles frequentemente permanece limitada. Em muitos casos, a responsabilidade de entregar resultados recai principalmente sobre eles, sem uma participação equivalente nas recompensas.
Esse desequilíbrio está no centro do debate sobre a bioeconomia. A bioeconomia está redistribuindo valor ou reforçando desigualdades existentes?
Não existe uma única resposta. Os resultados variam de um projeto para outro, moldados pelas condições locais e pela forma como cada iniciativa é projetada. Mas a própria questão permanece inevitável e cada vez mais urgente.
A bioeconomia amazônica não é uma solução simples. É um sistema complexo e em evolução, moldado por objetivos ambientais, interesses financeiros, prioridades políticas e realidades sociais.
Oferece a possibilidade de direcionar investimentos para a conservação e criar novas vias econômicas que mantenham a floresta de pé.
Mas também corre o risco de enraizar a natureza ainda mais profundamente em sistemas financeiros que há muito tempo são impulsionados pela extração.
A tensão permanece sem solução.
A questão definidora permanece: a bioeconomia, em última instância, servirá à floresta e às pessoas que dela dependem, ou aos sistemas que a financiam?
Fonte: YourVoiz
O acesso aberto , um conceito ainda confundido em alguns círculos com o termo mais amplo “ciência aberta ” , continua sendo um dos termos mais frequentemente usados na área da informação. Nascido em meio a ideais de progresso, o acesso aberto a publicações científicas tornou-se um espectro de possibilidades e, em seu avanço (supostamente) imparável, perdeu sua essência e alterou os parâmetros do mundo editorial — esperemos que não de forma irreversível.
O que aconteceu com o acesso aberto? Como nos lembra Marina Garcés, “pode haver promessas ilusórias, mas não impossíveis (…) É por isso que uma promessa não é apenas uma declaração de intenções, uma coleção de belas fantasias, mas uma interpretação da situação” (2023, p. 92). Que o acesso aberto era uma promessa possível é demonstrado pelo fato de ter se tornado, em grande parte, uma realidade um quarto de século após as primeiras declarações internacionais.
A seguir, exploraremos diversos fatores que distorcem a “promessa” do acesso aberto: a “transformação” da assinatura em publicação mediante o pagamento de taxas (APCs), o efeito “palimpsesto” da Inteligência Artificial Generativa e uma avaliação da pesquisa ancorada na “produtividade”.
Transformações? Transformador?
O modelo de publicação com APC (Taxa de Processamento de Artigos) não é meramente uma transição do modelo de assinatura; pelo contrário, aliado à ânsia inerente do sistema em publicar, abre uma comporta inesperada e avassaladora. Pode distorcer um dos pilares da comunicação científica: a seleção dos melhores trabalhos para publicação. O pagamento permite (embora não exija) a subversão dos outrora meticulosos processos de revisão por pares, encurtando os prazos. Ao fomentar a proliferação quase ilimitada de periódicos, volumes e edições para absorver tanto artigos de alta qualidade quanto subprodutos de fábricas de papel , cria um excesso de informação duvidosa que sobrecarrega o sistema. Os interesses daqueles que controlam a estrutura prevalecem sobre a essência do conteúdo, criado por pesquisadores que não hesitam em publicar mesmo sabendo que o que publicam não contribui para o avanço do conhecimento.
Não se trata apenas da proliferação de revistas predatórias, mas também da criação, por grandes editoras, de suas próprias franquias com modelos de baixo custo (Delgado-López-Cozar e Martín-Martín, 2024). Isso reforça os estudos que revelam uma tendência a um menor número de descobertas disruptivas em comparação com outras épocas? Ou é influenciado pelo fato de que nem toda pesquisa de ponta é conduzida na academia, e que alguns estudos preferem permanecer ocultos dentro das grandes empresas de tecnologia e plataformas digitais que moldam nossa época e nossas mentes? (Dans, 2018; Delgado López-Cozar, 2026).
Acordos transformativos sobre assinaturas tradicionais de periódicos são uma forma de cumprir o acesso aberto exigido pelas agências de fomento. No entanto, essas agências podem impor condições. O programa Horizonte Europa, por exemplo, considera os pagamentos por publicação em periódicos híbridos “inelegíveis”, enquanto cobre prontamente as taxas de publicação em periódicos indexados como ouro, cujo conteúdo é 100% de acesso aberto. Em outras palavras, as agências de fomento não questionam a necessidade de pagar para publicar, especialmente se aqueles que antes pagavam pelas assinaturas — as bibliotecas — agora pagam pelas publicações. Assim, aqueles que mais pesquisam e publicam geram a maior parte dos gastos com periódicos: o acesso aberto é aceitável, principalmente quando outros arcam com os custos.
Existe algum cálculo concreto sobre o declínio do valor econômico da leitura como consequência da transformação de assinaturas em contratos de publicação? Quanto custa uma APC (Taxa de Publicação de Artigo)? Por que os custos variam tanto, mesmo dentro da mesma área do conhecimento? Por que é tão caro “processar” um artigo quando, tecnologicamente, os custos são insignificantes em comparação com o mundo impresso (produção, armazenamento, envio, etc.)? Por que as editoras costumam dizer que a revisão por pares influencia os custos? Se esse fosse o caso, as revistas que exigem menos tempo de revisão (porque não há revisão por pares propriamente dita ou porque ela é mais branda) não deveriam custar menos? E se um maior número de publicações reduz o custo por publicação (Grossmann e Brembs, 2021), por que o aumento no número de publicações leva a preços mais altos?
Embora o acesso aberto tenha sido concebido para facilitar a igualdade de acesso ao conhecimento, sua estrutura atual dificulta a publicação para aqueles com menos recursos, seja porque seus campos de pesquisa recebem menos financiamento, seja porque trabalham em instituições localizadas em áreas geograficamente menos desenvolvidas economicamente.
É difícil encontrar editoras comerciais que ofereçam informações sobre APCs. A MDPI dedica uma página web a elas sem quantificar os valores ou percentagens alocados a cada conceito. A Springer Nature, que publicou apenas algumas perguntas frequentes breves, forneceu, no entanto, algumas pistas num inquérito enviado em dezembro de 2025 aos seus colaboradores, incentivando-os a avaliar, entre outros aspetos, os custos administrativos, a gestão de manuscritos e a produção editorial, o alojamento de conteúdos e a preservação digital, o controlo do plágio e a integridade académica, o apoio ao cliente e ao autor e, naturalmente, os lucros comerciais.
Grossmann e Brembs (2021) analisam, entre outras coisas, muitos desses conceitos. Eles estabelecem, de forma conservadora, o preço do processamento de artigos. Se, como calculam, esse preço varia entre US$ 194,89 e US$ 723,16, e no ano de referência apenas cerca de 3 milhões de documentos foram publicados na comunidade STM (Ciência, Tecnologia e Medicina), o custo total das APCs (se seguirmos seus cálculos) estaria entre US$ 584.670.000 e US$ 2.169.480.000. Uma vez pago esse valor, todas as publicações seriam de acesso aberto.
É muito dinheiro, mas quantas instituições teriam que compartilhar o custo? Quantos megajornais públicos como os mencionados por Aguillo (2025) poderiam ser criados com esse orçamento? E quantos repositórios poderiam ser devidamente protegidos para que bots pudessem acessá-los, mas não os derrubassem? Quantos financiaríamos com os gastos atuais em APCs? APCs que excedem os valores mencionados (Beigel et al., 2025; eles citam um valor de cerca de US$ 2,5 bilhões em APCs pagos à Elsevier, Frontiers, MDPI, Springer Nature e Wiley), mas que deixam apenas uma parte da coleção em código aberto. E ainda teríamos que contabilizar o custo das assinaturas (bilhões em todo o mundo), que não deveriam ser pagas.
A pesquisa da Springer Nature também perguntou aos pesquisadores se eles acreditam que existe uma relação entre as taxas de publicação de artigos (APCs) e as citações, o fator de impacto ou o prestígio. Quantas pessoas responderam afirmativamente? Se sim, isso influencia suas decisões sobre onde e como publicar? Gastar um centavo sequer com isso seria o mesmo que admitir que o sistema é manipulado. Aliás, se a editora publicar um relatório sobre a pesquisa, deveria esclarecer que isso não procede.
As alternativas não são uma utopia
Retornar à rota verde e desenvolver ainda mais a rota diamante mitigaria os problemas levantados. Criar um (ou mais) mega-repositórios ou um (ou mais) mega-revistas em espanhol, compartilhando recursos, em suma, são opções possíveis e necessárias.
Desde o início, a via dourada pareceu prevalecer sobre a via verde, provavelmente porque os periódicos funcionavam como canais de conhecimento e eram considerados nas avaliações, favorecidos pela bibliometria e (bem) revisados por pares, etc. Além disso, os repositórios não eram tão desenvolvidos quanto são agora, e as instituições demoraram a adotar os modelos de publicação em diamante.
“Estima-se que entre 17.000 e 29.000 periódicos de Acesso Aberto Diamante em todo o mundo sejam um componente essencial da comunicação acadêmica, publicando entre 8% e 9% do volume total de artigos e 45% das publicações de acesso aberto.” Esta afirmação (Anción et al., 2022) revela que mais de 90% das publicações contribuem com pouco mais da metade do acesso aberto.
Seguindo a mesma linha de pesquisa, Aguillo (2025) propõe que, na Espanha, os orçamentos de assinaturas e APCs sejam redirecionados para financiar um megajornal público de referência , reconhecido nos processos de avaliação, apoiado pela equipe de pesquisa de ponta do país e que atraia a produção espanhola que atualmente é destinada a outros megajornais e editoras, como MDPI ou Frontiers.
Os relatórios que medem a publicação em acesso aberto nas universidades espanholas e no CSIC, elaborados pela REBIUN (2019, 2026), revelam uma tendência positiva no acesso aberto que requer maior esclarecimento. Deixando de lado as diferenças metodológicas que influenciaram os resultados ao longo do tempo, o relatório de 2014-2018 apontou um percentual de acesso aberto de 42,95% em 2014, enquanto o relatório de 2020-2024 projeta um valor de 75,60% para 2024.
Essa progressão foi influenciada nos últimos anos pela consolidação de vias comerciais de acesso aberto. Em 2014, as vias ouro e híbrida representavam 15,45% e 4,26%, respectivamente, e em 2024, esses números atingiram 28,20% e 18,60%, respectivamente. O impacto dos acordos transformadores assinados em 2021 pela Crue-CSIC com a American Chemical Society, Elsevier, Springer e Wiley, e em 2023 pela Crue com o IEEE e a Royal Society of Chemistry, é evidente. Ao mesmo tempo, a via verde declinou gradualmente, caindo para menos de 7,00% em 2023 e 2024.
Embora Cabezas (2025) indique que a via verde não seria adequada para aqueles que estão iniciando suas carreiras de pesquisa, ela continua sendo apresentada como uma alternativa viável à publicação convencional (Puebla, Polka e Rieger, 2022). Projetar plataformas que integrem a revisão por pares aberta ou adicionar essa funcionalidade a repositórios institucionais são maneiras de “hackear” o ecossistema de publicação comercial a partir de dentro das instituições. Isso não é uma utopia: a ORE (Open Research Europe) na União Europeia e o CSIC na Espanha com seu modelo de “diamante verde” já estão fazendo isso.
Mas será que faz sentido cada instituição ter seu próprio repositório especialmente configurado ? E que cada repositório colete (para isso que servem as licenças de reutilização) documentos de outros repositórios? E que todos esses documentos sejam coletados por agregadores, e esses agregadores por agregadores de nível superior? Quanto custa manter tantos repositórios e agregadores? Principalmente quando o software de código aberto que os suporta é inflexível e muitas vezes força as instituições a dependerem de empresas para a manutenção. Será que eles são deliberadamente inflexíveis e incompletos para que precisemos de ajuda para mantê-los funcionando? Para que tenhamos que atualizá-los constantemente (e precisemos de subsídios porque os orçamentos universitários tornam isso impossível)? Como se isso não bastasse, a IA generativa está causando frequentes interrupções de serviço e falta de disponibilidade nessas infraestruturas (COAR, 2026).
Atualizações, desenvolvimentos, migrações e investimentos em tecnologia e infraestrutura poderiam ser compartilhados, e as estatísticas seriam unificadas. Quantas citações, usos e menções acumularia o repositório de todos os documentos científicos espanhóis?
Na chamada de propostas María de Guzmán de 2021, da Fundação Espanhola para a Ciência e a Tecnologia (FECYT), foi criada uma segunda linha de financiamento dedicada a infraestruturas de ciência aberta. A chamada mais recente, de 2023, teve um orçamento de 3 milhões de euros distribuídos por 47 projetos. Aproximadamente um terço do financiamento foi destinado a repositórios institucionais. Não seria suficiente 1 milhão de euros a cada dois anos, ou 500 mil euros por ano, para manter um único repositório em Espanha? Esta questão já chegou à REBIUN, que está atualmente envolvida no desenvolvimento do projeto PLATICA (Plataforma para a Promoção da Ciência Aberta), promovido pela RedIRIS, Crue e FECYT. O PLATICA irá fornecer infraestruturas a nível nacional para monitorizar a ciência aberta, catalogar e armazenar dados de investigação e gerar planos de gestão de dados. Seriam adequadas novas infraestruturas modulares neste contexto?
O efeito “palimpsesto” da IA Generativa
A Inteligência Artificial Generativa não apenas “sabe” como auxiliar na escrita, mas também como criar documentos inteiros a partir de instruções, contribuindo para a proliferação de manuscritos. Não se trata apenas de ferramentas de uso geral que podem fazer isso; existem aplicativos de pesquisa especializados que atuam como escritores fantasmas . Mesmo que as editoras promovam políticas restritivas, parece que a IA também estará envolvida na revisão e — por que não? — no design de toda a revista. Além disso, ela se alimentará de tudo o que for publicado, com ou sem seu envolvimento direto, até chegar ao ponto em que tudo será criado (com) ela?
O conceito multidimensional de um “palimpsesto digital” pode nos ajudar a compreender o cenário que enfrentamos. Segundo Kembellec (2024), a produção acadêmica atual caracteriza-se pela integração de dados visíveis e metadados invisíveis em hipertextos científicos lidos tanto por humanos quanto por máquinas. Cabe acrescentar que, a partir do momento em que as máquinas produzem novas camadas de informação, o conhecimento se emaranha em estratos sucessivos, onde se torna impossível reconhecer o que é original, quais são as fontes ou qual a contribuição humana para a inovação e o progresso.
Surge um dilema: se a IA generativa e seus usuários criam conteúdo sem levar em conta as licenças de suas fontes, devemos simplesmente permitir isso? Não defendemos o acesso aberto? Precisamos criar tipos de licenças inteiramente novos especificamente para esse fim ? Em que direção o Creative Commons (2025) está se encaminhando com seu modelo (provisório) de “sinalização”? E se colocarmos obstáculos (podemos?) no caminho desse consumo, não estaremos incentivando-o a se basear exclusivamente nas informações menos verificadas e disponíveis gratuitamente na internet? Ou em publicações por assinatura cujos direitos são comercializados por gigantes da mídia? Ou a garantir que as informações cientificamente mais relevantes permaneçam fora de seus processos e discursos? Não estaremos contribuindo para o crescimento de um palimpsesto cada vez mais distorcido e distante da realidade?
A ciência aberta é, sem dúvida, o combustível para uma Inteligência Artificial a serviço da humanidade, baseada em informações selecionadas e não em conteúdo gratuito indiscriminado; vulnerável a vieses não intencionais, mas não a vieses deliberados; independente dos interesses comerciais das editoras, mas não da vocação científica para o progresso; totalmente reutilizável (palimpsesto), mas com absoluto respeito às condições estabelecidas.
A avaliação é fundamental
Parece haver alternativas suficientes para publicar sem ter que lidar com as onerosas taxas de publicação de artigos (APCs): repositórios e periódicos Diamond (ou megaperiódicos). Mas sua natureza aberta não impede a existência de más práticas. A ânsia de encontrar atalhos para a publicação (impulsionada pela pressão do sistema de revisão por pares) corre o risco de levar muitos repositórios a se encherem de lixo (gerado por IA ou não) e os periódicos Diamond a se comportarem exatamente como megaperiódicos predatórios (periódicos Diamond predatórios?!). Não é surpresa que especialistas em processos editoriais admitam que algumas pessoas os procuram pedindo ajuda para criar periódicos que possam vender por um milhão de euros em três anos. O sistema de pesquisa está corrompido.
A chave certamente reside em mudar a forma como os pesquisadores são avaliados: publicar menos, porém com conteúdo de melhor qualidade (Publishing Futures, 2025; Cabezas, 2025), e pôr fim à mentalidade de ” publicar ou perecer” . Como apontam Maggie Berg e Barbara K. Seeber, “a universidade corporativa, que redefine os acadêmicos como atores-chave na economia do conhecimento, acentua a instrumentalização e a lucratividade” (2022, p. 96). Os mecanismos que buscam justificar o financiamento da pesquisa, formalizar os processos de atração de talentos e o planejamento de carreira acadêmica, e publicar em acesso aberto de acordo com as exigências das entidades financiadoras contribuem para a mediocridade científica. Periódicos predatórios, a explosão de monografias, revisões por pares superficiais… tornaram-se aceleradores do processo de publicação. Ninguém parece se importar em conduzir pesquisas aprofundadas e abrangentes se os indicadores medem com sucesso resultados imediatos e quantificáveis (períodos de pesquisa de seis anos, promoções, rankings, etc.).
É crucial ir além da avaliação da qualidade da pesquisa com base na “produtividade” documental e no uso de indicadores tradicionais. Os fatores de impacto têm sido discutidos há anos, mas as citações, recentemente desconstruídas por Delgado López-Cozar (2025), não. As chamadas “altmétricas” também não oferecem muito mais, dadas as suas inúmeras limitações. Uma carreira de pesquisa vai muito além da publicação de um artigo científico , como delineado no primeiro compromisso do Acordo sobre a Reforma da Avaliação da Pesquisa (ARRA), assinado pelas instituições que compõem a Coalizão para o Avanço da Avaliação da Pesquisa (CoARA). A ANECA incorporou essa perspectiva em sua chamada de propostas de 2023 para a avaliação de períodos de pesquisa de seis anos, bem como em seus critérios de avaliação de acreditação.
As agências de avaliação devem explorar abordagens alternativas que reflitam melhor o escopo completo da atividade de pesquisa, evitando a tentação de considerar qualquer contribuição como relevante ou de retornar a práticas passadas. Devem também estar abertas a outras fontes de informação se realmente pretendem fazer algo diferente. Uma análise comparativa dos relatórios da ANECA sobre os editais de 2023 e 2022 para períodos de pesquisa de seis anos revela que a diferença geral nos períodos avaliados positivamente é inferior a um ponto percentual. Além disso, uma revisão dos relatórios sobre o credenciamento de docentes contratados mostra que as porcentagens de avaliações positivas em 2024 (incorporando os novos critérios) são geralmente maiores do que as de 2023.
Será que esse método de avaliação permite o reconhecimento da pesquisa de qualidade, ou apenas valida sua qualidade aparente? E isso tem consequências: há um efeito funil quando as instituições podem oferecer menos vagas do que o número de pesquisadores credenciados. Se promover a avaliação qualitativa já é difícil para a ANECA, é ainda mais complexo para as universidades.
Em outras palavras: a mudança nos critérios de avaliação nos últimos anos não prejudicou a equipe de pesquisa, mas provavelmente está preparando o terreno para futuras frustrações.
Em direção a algumas não-conclusões
O acesso aberto tem sido apresentado, durante muitos anos, como uma Era de Ouro projetada para o futuro. A inflação de expectativas, contudo, pode provocar uma perturbadora “futuralgia”, para usar o título que Jorge Reichmann deu a parte de sua obra poética. E também leva a uma espécie de melancolia retrospectiva que, como argumenta Clara Ramas, nos coloca entre o niilismo e a reação e constitui “o produto mais puro do capitalismo avançado, do neoliberalismo e da pós-modernidade” (2024, pp. 39–62).
Os desafios do futuro imediato são inquietantes. A Comissão Europeia está a conceber um novo quadro político e jurídico, a ser consagrado na Lei do Espaço Europeu da Investigação, onde a valorização do conhecimento e da competitividade será fundamental num ambiente marcado pela segurança da investigação. O Horizonte Europa 2028-2034 estabelecerá, assim, um quadro financeiro alinhado com as prioridades emergentes, mas também com as salvaguardas recentemente criadas.
A Recomendação para melhorar a segurança da investigação , publicada pelo Conselho da União Europeia em 2024, alerta para os riscos do atual panorama geopolítico global e para o desafio que este representa para a liberdade acadêmica e a colaboração internacional. Para evitar entraves a estes esforços, a Science Europe (2025) propõe, por exemplo, a definição de mecanismos de gestão e mitigação, a identificação do âmbito das “linhas vermelhas” e o estabelecimento de medidas proporcionais para prevenir o protecionismo excessivo.
Embora a transparência do processo de pesquisa esteja sendo questionada mais do que nunca neste contexto, o acesso aberto às publicações pode permanecer intacto. Afinal, os pesquisadores são incentivados, reconhecidos e contratados com base em seus resultados de pesquisa tangíveis. E as publicações de acesso aberto são, sem dúvida, o exemplo mais visível disso.
Referências
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Raúl Aguilera Ortega
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Fonte: Boletín SciELO-México