Da França à Espanha, da Índia ao Chile, uma nova onda de mobilizações populares revela o esgotamento das políticas que sacrificam serviços públicos, empregos e direitos sociais em nome da austeridade fiscal. No centro dessa insatisfação está uma juventude que se recusa a aceitar a precariedade como destino
Da França à Espanha, da Índia ao Chile, uma nova onda de mobilizações populares revela o esgotamento das políticas que sacrificam serviços públicos, empregos e direitos sociais em nome da austeridade fiscal. No centro dessa insatisfação está uma juventude que se recusa a aceitar a precariedade como destino.
Há quase 180 anos, Karl Marx e Friedrich Engels abriram o Manifesto Comunista anunciando que um espectro rondava a Europa. Em outubro de 2026, uma imagem semelhante parece ganhar atualidade, mas agora ultrapassando amplamente as fronteiras europeias. Das ruas de Paris e Madri às manifestações em Nova Délhi e Santiago, milhares de jovens estão protagonizando mobilizações que, apesar de suas particularidades nacionais, revelam um denominador comum: a crescente rejeição a um modelo econômico que subordina necessidades sociais aos interesses do mercado e transforma direitos fundamentais em despesas que precisam ser reduzidas.
A juventude ocupa o centro dessas manifestações porque é justamente ela que começa a perceber que o futuro prometido pelas políticas neoliberais não está sendo entregue. Em vez de educação pública de qualidade, encontra escolas deterioradas e universidades submetidas a restrições orçamentárias. Em vez de empregos estáveis, enfrenta desemprego, precarização e salários insuficientes. Em vez de acesso universal à saúde e à moradia, descobre que necessidades essenciais estão cada vez mais condicionadas à capacidade individual de pagamento. O que se apresenta como responsabilidade fiscal para os governos aparece, para parcelas crescentes da população, como uma política de transferência dos custos da crise para aqueles que menos condições possuem de suportá-los.
Na França, as manifestações começaram em escolas de bairros populares da periferia parisiense, impulsionadas pela falta de professores, pela deterioração das instalações escolares e pela perspectiva de novos cortes orçamentários. Rapidamente, entretanto, ultrapassaram os limites do sistema educacional e assumiram dimensões nacionais. Segundo a Al Jazeera, aproximadamente 550 mil pessoas participaram das manifestações de 17 de outubro, de acordo com o Ministério do Interior francês. O que começou como uma reivindicação por melhores condições de ensino converteu-se em expressão de uma crise política mais profunda, alimentada pelo custo de vida e pela percepção de que as instituições já não respondem às necessidades da população.
Na Espanha, o processo assume contornos igualmente reveladores. A explosão dos preços dos aluguéis e a especulação imobiliária tornaram a moradia praticamente inacessível para parcelas importantes da juventude. Entretanto, as mobilizações não se limitam à questão habitacional. Em Madri, a defesa da educação e da saúde públicas passou a integrar um movimento mais amplo de contestação à privatização dos serviços essenciais. Reportagem do jornal espanhol Público, publicada em 18 de outubro, identifica precisamente essa convergência entre as lutas por moradia, educação e saúde, mostrando que a crítica à mercantilização dos direitos sociais está se transformando em um eixo de articulação das mobilizações.
No Chile, país historicamente associado à implantação das experiências neoliberais mais radicais da América Latina, o movimento estudantil voltou a ocupar as ruas contra os cortes previstos no orçamento de 2027 do governo de José Antonio Kast. Em 1º de outubro, mais de 20 mil manifestantes participaram de uma mobilização em Santiago, convocada pela Confederação de Estudantes do Chile, com a participação de professores e organizações sociais. A defesa da educação pública voltou a demonstrar que, décadas depois da ditadura de Augusto Pinochet, permanece aberta a disputa sobre quem deve financiar os direitos sociais e qual deve ser o papel do Estado na sua garantia.
Na Índia, as manifestações possuem características distintas, mas não menos significativas. A juventude protesta contra o desemprego, a falta de oportunidades e problemas no acesso à educação e aos concursos públicos, ao mesmo tempo que questiona a transparência eleitoral e a atuação das instituições políticas. Reportagem da Reuters, publicada em 16 de outubro, aponta que o crescimento das mobilizações representa um dos maiores desafios enfrentados pelo governo de Narendra Modi. Nesse caso, a insatisfação econômica se combina com reivindicações democráticas, mostrando que a expansão do produto interno bruto, por si só, não garante que seus benefícios sejam distribuídos entre a população.
O que une essas manifestações é a recusa de um futuro privatizado
Seria equivocado afirmar que todos esses movimentos possuem uma direção política única ou que suas reivindicações são idênticas. Na Índia, a defesa da transparência eleitoral ocupa posição central; na Espanha, a crise habitacional constitui um dos principais motores da mobilização. Entretanto, essas diferenças não eliminam a existência de uma contradição estrutural compartilhada: o aprofundamento da distância entre o crescimento da riqueza e a capacidade da maioria da população de acessar os benefícios desse crescimento.
A questão central é que o neoliberalismo não representa simplesmente a redução do Estado. Na prática, ele frequentemente reorganiza a atuação estatal, restringindo recursos destinados às necessidades coletivas enquanto preserva mecanismos de sustentação da acumulação privada. O Estado considerado excessivamente caro quando precisa financiar escolas, hospitais e políticas habitacionais pode se mostrar bastante generoso quando se trata de garantir condições favoráveis aos grandes grupos econômicos.
É justamente essa contradição que parece estar chegando às ruas. Para milhões de jovens, o discurso de que a austeridade constitui um sacrifício necessário para assegurar a prosperidade futura perdeu credibilidade. Afinal, que prosperidade é essa que exige aceitar escolas sem professores, serviços de saúde insuficientes, empregos precários e moradias cujos aluguéis consomem parcelas crescentes dos salários?
Há também um componente geracional que merece atenção. Diferentemente de seus pais e avós, muitos desses jovens cresceram em sociedades nas quais a precarização dos serviços públicos e a flexibilização dos direitos trabalhistas já eram apresentadas como condições naturais da vida econômica. Entretanto, a experiência cotidiana está produzindo uma percepção diferente: a precariedade não é uma fatalidade histórica, mas o resultado de escolhas políticas que podem e devem ser contestadas.
É nesse ponto que as mobilizações assumem uma dimensão potencialmente transformadora. Ao defender a educação, a saúde, a moradia e o emprego, os manifestantes estão recolocando no centro do debate uma questão que décadas de hegemonia neoliberal tentaram deslocar para a periferia: a responsabilidade do Estado na garantia das condições materiais necessárias a uma vida digna.
O espectro que ronda o mundo é a exigência de justiça social
As manifestações que hoje sacodem diferentes países ainda não constituem um movimento internacional organizado, tampouco permitem concluir que estamos diante de uma ruptura iminente com a ordem neoliberal. Contudo, seria igualmente equivocado tratá-las como explosões isoladas de descontentamento. A simultaneidade das mobilizações, a participação expressiva da juventude e a recorrência de reivindicações relacionadas aos direitos sociais sugerem que estamos diante de uma crise mais ampla de legitimidade das políticas de austeridade.
A própria imprensa internacional começa a reconhecer essa conexão. Reportagens recentes da Associated Press, do The Guardian e do Common Dreams identificam uma onda de protestos juvenis que atravessa continentes, articulando reivindicações por melhores escolas, moradia acessível, oportunidades econômicas e mudanças políticas.
Para o Brasil, essas mobilizações oferecem uma advertência particularmente importante. Em um país marcado por desigualdades sociais profundas, qualquer projeto que proponha reduzir drasticamente os investimentos públicos em nome do equilíbrio fiscal precisa responder a uma pergunta elementar: quem pagará a conta? Para a maioria da população brasileira, que depende diretamente do SUS, das escolas e universidades públicas e dos programas de proteção social, o encolhimento dessas políticas não representa uma abstração contábil. Representa a perda concreta de condições de sobrevivência e de oportunidades de ascensão social.
O espectro que hoje ronda não apenas a Europa, mas diferentes partes do mundo, não é necessariamente o de uma revolução nos moldes imaginados no século XIX. É, antes de tudo, o da recusa crescente de uma ordem econômica que exige sacrifícios permanentes da maioria enquanto concentra os benefícios do crescimento em parcelas cada vez mais restritas da sociedade.
E talvez a mensagem mais importante que vem das ruas de Paris, Madri, Nova Délhi e Santiago seja precisamente esta: uma geração inteira começa a perceber que não existe futuro digno quando o Estado abandona sua responsabilidade de garantir direitos sociais.
O neoliberalismo prometeu prosperidade pela expansão dos mercados. A juventude que ocupa as ruas está cobrando a conta dessa promessa.









