Por Ismael Machado
Aqui em minha casa, numa pequena reunião festiva, o geógrafo Bruno Malheiro sorve um pouco da cerveja gelada e, rindo, dispara: “Já posso voltar para a oposição?”. Estávamos discutindo a épica virada que protagonizamos na eleição pouco mais de uma semana atrás. De há muito tempo Bruno tem pesquisado questões ligadas a Lula, bolsonarismo e Amazônia. Nesse momento está preparando uma nova versão de seu livro ‘Geografias do Bolsonarismo’. Se você não conheceu ainda esse trabalho, pesquise.
Segundo explica o geógrafo, inclusive em um artigo para o Le Monde Diplomatique, o bolsonarismo não nasceu nas urnas. “Antes de se tornar força eleitoral, já se constituía nas fronteiras do capitalismo brasileiro pela expansão de uma racionalidade territorial que subordinava a terra, a natureza e as relações sociais à acumulação privada, legitimando a destruição dos bens comuns e desqualificando outras formas de organizar a vida”. Como Bruno Malheiro comprova isso? Pesquisando em dados do IBGE, Datasus e outras fontes primárias, ele conseguiu elaborar mapas que vinculam poder político a ideias defendidas pelo bolsonarismo.
Um exemplo: em 2018, os mapas da soja, da pecuária e da mineração convergiam com aqueles em que Jair Bolsonaro obtinha seus melhores resultados eleitorais. Essas fronteiras articulavam-se a circuitos políticos e culturais — de festas agropecuárias a clubes de tiro e redes religiosas — que difundiam a defesa irrestrita da propriedade, a promessa da prosperidade e o empreendedorismo de si. “A homogeneização das paisagens pelas commodities alcançava também os comportamentos e as narrativas sociais, fragilizando vínculos com a terra, com a memória e com a vida coletiva. Afinal, o “agro” tornou-se “pop” e passou a ocupar lugar central na produção de sentidos no Brasil”, escreveu no referido artigo.
Bruno me mostrou alguns dos novos mapas que está construindo para essa nova versão do livro e é espantoso o quanto isso realmente converge. Vou dar ‘spoiler’ sobre dois pequenos dados a respeito. Num deles, se vê que onde houve maior incentivo à agricultura familiar, ocorreram mais votos em Lula. Noutro, com base em dados do SUS, é mostrado como em locais predominantemente bolsonaristas, houve mais mortes por consequência da Covid. Ou seja, o que Malheiro está pesquisando poderia ser uma excelente fonte de estudos para o horizonte e foco da esquerda.
Voltei a pensar nesses dados mostrados pelo amigo pesquisador quando meu filho me lembrou um ano da morte de Lô Borges. E isso me remeteu à COP-30 e ao pesadelo interno que vivenciamos no período com uma equipe de jornalismo que ficou hospedada aqui em casa e que nos submeteu a todo tipo de assédio moral. Mas isso é outra história.
Fato é que um ano depois da COP30, realizada em Belém, Lula tem diante de si uma tarefa que vai muito além de cumprir compromissos ambientais assumidos perante o mundo. Precisa demonstrar que seu governo é capaz de alterar, concretamente, a relação histórica do Estado brasileiro com a Amazônia. A conferência terminou, as delegações internacionais retornaram aos seus países, mas os problemas estruturais da região continuam exigindo respostas que não podem ficar restritas aos discursos diplomáticos.
Não é pouca coisa que Lula terá diante de si. Durante décadas, governos de diferentes orientações políticas enxergaram a região como reserva de riquezas disponíveis para sustentar projetos econômicos concebidos longe daqui. Mudaram os discursos, as justificativas e os beneficiários, mas a lógica permaneceu relativamente intacta. Retirar minérios, produzir energia, ampliar a fronteira agropecuária, exportar matérias-primas e deixar para a população local uma parcela pequena dos resultados e uma quantidade desproporcional dos prejuízos. A Amazônia sempre foi considerada estratégica para o país, mas raramente seus habitantes tiveram participação equivalente nas decisões sobre o próprio território. Já escrevi sobre isso aqui e pareço estar me repetindo, mas é essa a lógica que não teve mudança ainda.
Penso que Lula teve o mérito de ter recuperado a política ambiental depois de um período de desmonte institucional, incentivo à ilegalidade e hostilidade aos povos indígenas e aos movimentos sociais. A retomada da fiscalização, a reconstrução de órgãos públicos e a redução do desmatamento representam avanços importantes. Seria injusto ignorá-los. Mas recuperar instrumentos de proteção ambiental, embora indispensável, não equivale a construir outro projeto de desenvolvimento. E é esse o grande ponto de interrogação que temos diante de nós.
O mesmo governo que defende a preservação da floresta admite novas frentes de exploração de petróleo, mantém grandes empreendimentos minerais e energéticos e ainda não apresenta uma alternativa econômica suficientemente robusta para milhões de amazônidas. Não basta argumentar que o país precisa crescer ou que os recursos naturais são necessários ao desenvolvimento nacional. É preciso perguntar quem ganha com esse crescimento, onde a riqueza permanece, quais atividades econômicas são estimuladas e quem paga seus custos sociais e ambientais.
A exploração de petróleo na Margem Equatorial, por exemplo, expõe uma divergência que o governo não conseguiu superar. De um lado, a necessidade de recursos para financiar políticas públicas e sustentar a economia nacional. De outro, o compromisso de liderar uma transição energética que reduza a dependência dos combustíveis fósseis. Não se trata de uma discussão simples, mas também não pode ser resolvida apenas com a promessa de que os benefícios econômicos compensarão os riscos. A história amazônica está repleta de empreendimentos apresentados como indispensáveis ao progresso, cujos resultados sociais ficaram muito aquém do anunciado.
Há também uma dívida com as cidades amazônicas. A COP30 expôs Belém ao mundo, mobilizou investimentos e colocou a capital paraense no centro das discussões internacionais. Entretanto, os problemas de saneamento, habitação, mobilidade e desigualdade continuam presentes. A maior parte da população da Amazônia brasileira vive em áreas urbanas frequentemente submetida a condições precárias de infraestrutura e serviços públicos. É uma população que pouco aparece nas imagens internacionais da floresta, embora experimente diariamente os efeitos de um modelo de desenvolvimento profundamente desigual. E de quebra recebe os comentários preconceituosos do Sul Maravilha quando o resultado das urnas desagrada os defensores das ideias antiesquerda.
O desafio de Lula, portanto, envolve uma mudança na estrutura produtiva regional. É necessário investir de maneira consistente em ciência, universidades, pesquisa tecnológica, agricultura familiar, beneficiamento de produtos regionais e atividades industriais compatíveis com a preservação ambiental. A chamada bioeconomia pode representar uma alternativa, mas somente se deixar de ser uma expressão repetida em seminários e passar a significar emprego, renda, conhecimento e capacidade produtiva instalada na própria Amazônia.
De pouco adiantará substituir a exportação de minérios pela exportação de matérias-primas da biodiversidade se o conhecimento, a tecnologia, as patentes e a maior parte dos lucros continuarem concentrados fora da região. A mudança econômica precisa alcançar também a distribuição da riqueza. Caso contrário, estaremos apenas atualizando os mecanismos de uma dependência antiga, agora revestida de uma linguagem ambientalmente mais aceitável.
Outra questão incontornável é a violência associada à disputa pela terra. A expansão de atividades ilegais, a grilagem, o garimpo e os conflitos fundiários continuam ameaçando comunidades e lideranças sociais. A ameaça de envenenamento da água que abastece populações indígenas é somente a ponta do iceberg desse ideário. Sabemos, mas é bom repetir, que a proteção da floresta depende também da presença efetiva do Estado, da regularização fundiária, da demarcação de terras indígenas e da garantia de direitos às populações tradicionais. Não se pode exigir que essas comunidades sejam responsáveis pela conservação ambiental enquanto permanecem expostas à insegurança e à ausência de políticas públicas.
Lula governa sob limitações políticas concretas. Enfrenta um Congresso no qual os interesses do agronegócio, da mineração irregular e de grandes grupos econômicos possuem enorme capacidade de pressão. Governa também um país marcado por desigualdades regionais e por uma estrutura produtiva dependente da exportação de produtos primários. Reconhecer essas dificuldades não significa transformá-las em justificativa permanente para a manutenção do que existe. A política se mede também pela capacidade de disputar caminhos que parecem bloqueados. E a própria eleição recente mostra o quanto a maioria da população defende ideias que Lula poderia amplificar, como a presença do Estado em escala estratégica, a manutenção de políticas sociais, a não privatização e a melhoria no bem-estar social (o fim da escala 6×1 é um sinal inequívoco disso).
Há, ainda, uma questão federativa que não pode ser desprezada. Estados e municípios amazônicos precisam participar da formulação de um projeto regional de longo prazo, mas isso exige mais do que transferências financeiras e obras isoladas. Exige planejamento, instituições fortalecidas e capacidade de estabelecer prioridades que ultrapassem os interesses imediatos de governos e grupos empresariais. Sem essa articulação, mesmo investimentos expressivos correm o risco de produzir resultados fragmentados e de curta duração. Durante a semana recebi aquelas petições online reivindicando a criação de uma ‘Terrabrás’, para melhor domínio de questões relacionados às chamadas ‘terras raras’, o que por si só, mostra que há gente preocupada com esse tema.
A COP30 deu visibilidade internacional à Amazônia e reforçou a responsabilidade brasileira no enfrentamento da crise climática. Mas a conferência também ampliou as expectativas de uma população que conhece muito bem a distância entre as promessas de desenvolvimento e seus resultados concretos. Para essa população, a discussão sobre o futuro da floresta não pode estar separada do acesso à saúde, à educação, ao trabalho, à moradia e à segurança.
Lula ainda tem a oportunidade de fazer da Amazônia uma referência de transformação econômica e social, e não apenas de protagonismo diplomático. Para isso, precisará enfrentar interesses consolidados, rever prioridades e compreender que preservar a floresta não significa manter a região economicamente subordinada. Ao contrário, significa criar condições para que seus habitantes possam viver melhor sem depender da destruição do território em que vivem.
Um ano depois da COP30, a questão permanece e é simples em sua complexidade. O governo Lula conseguirá iniciar uma mudança efetiva no modelo de desenvolvimento amazônico ou a região continuará ocupando o mesmo lugar que lhe foi reservado ao longo da história econômica brasileira? A resposta a essa pergunta terá consequências muito mais duradouras do que a conferência realizada em Belém em 2025.
Fonte: Medium










