A tragédia silenciosa no sistema de saúde brasileiro

A saúde de milhares de brasileiros já não depende apenas de prescrições médicas, mas de decisões judiciais. Em A Judicialização da Saúde – Um Caos à Vista, livro a ser lançado brevemente, o advogado José Octávio Montesanti mostra que, além da própria doença, pacientes enfrentam um segundo sofrimento: a batalha na Justiça para conseguir tratamentos a que já têm direito

(São Paulo, 21/07/2026) – Conseguir uma cirurgia, um medicamento ou um tratamento deveria representar esperança. Para milhares de brasileiros, porém, esse é apenas o começo de mais sofrimento. Depois da primeira fila, no sistema de saúde, vem uma segunda fila: a batalha nos tribunais, onde uma decisão judicial pode definir o acesso ao tratamento prescrito pelo médico.

Essa realidade é o ponto de partida de A Judicialização da Saúde – Um Caos à Vista, livro do advogado José Octávio Montesanti, especialista em Direito da Saúde, que será lançado brevemente pela Editora Appris. Ao longo de treze capítulos, o autor sustenta uma tese contundente: a judicialização não é a causa da crise da saúde brasileira. É o sintoma mais evidente de um sistema que, cada vez mais, deixa de responder às necessidades da população.

“A saúde é um direito fundamental garantido pela Constituição. Ainda assim, milhões de brasileiros são obrigados a recorrer ao Poder Judiciário para conseguir consultas, medicamentos, cirurgias e tratamentos que deveriam estar disponíveis pelo SUS ou pelos planos de saúde”, afirma Montesanti.

Para o autor, cada ação judicial representa muito mais que um processo. Representa uma pessoa que não encontrou resposta no sistema de saúde. São pacientes que aguardam meses por uma cirurgia, famílias que enfrentam negativas de cobertura, pessoas obrigadas a interromper tratamentos ou recorrer a empréstimos para custear medicamentos enquanto aguardam uma decisão judicial.

O livro reúne dados que ajudam a dimensionar essa realidade. Atualmente, cerca de 160 milhões de brasileiros dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde, que enfrenta escassez de recursos, longas filas e dificuldades operacionais. Em pelo menos 16 Estados e no Distrito Federal, aproximadamente 500 mil pessoas aguardam por cirurgias eletivas, enquanto o prazo médio para uma consulta especializada chega a 50 dias.

Ao mesmo tempo, mais de 52 milhões de brasileiros mantêm planos de saúde privados na expectativa de obter atendimento mais rápido e maior segurança assistencial. Entretanto, o livro mostra que a realidade também preocupa na saúde suplementar. Em 2024, as operadoras registraram lucro líquido superior a R$ 10 bilhões, crescimento de 429% em relação ao ano anterior. No mesmo período, aproximadamente 300 mil ações judiciais foram movidas contra planos de saúde em razão de negativas de atendimento, cobertura ou procedimentos.

Para Montesanti, além de priorizar o lucro em detrimento da saúde de seus segurados, “as seguradoras cometem fraude ao classificar como planos coletivos, em vez de familiares, empresas com poucos participantes da mesma família”.

Para ele, esse contraste sintetiza uma das maiores contradições do sistema: “Quando milhares de pacientes precisam recorrer à Justiça para conseguir tratamentos garantidos por lei ou por contrato, o problema deixou de ser jurídico. Passou a ser uma questão de saúde pública.”

Ao longo da obra, o autor procura mostrar que a judicialização não pode ser compreendida apenas pela ótica do Direito. Ela revela um conjunto de falhas estruturais que envolve o SUS, operadoras de planos de saúde, órgãos reguladores, hospitais e políticas públicas.

Entre os temas abordados estão as negativas de cobertura para tratamentos oncológicos, medicamentos de alto custo, exames, internações e procedimentos cirúrgicos; a utilização de planos coletivos como alternativa para impor reajustes elevados; o impacto da judicialização sobre a gestão do SUS; o crescimento das ações por erro médico; e a necessidade de reformas capazes de reduzir os conflitos entre pacientes, operadoras e poder público.

Outro tema que recebe destaque é o aumento expressivo dos processos por erro médico. Segundo dados citados pelo autor, as ações judiciais cresceram 506%, revelando uma combinação preocupante de sobrecarga dos serviços, escassez de profissionais, falhas assistenciais e maior conscientização da população sobre seus direitos.

Mais do que analisar decisões judiciais, A Judicialização da Saúde – Um Caos à Vista convida a sociedade a refletir sobre um sistema que obriga pacientes a percorrer um caminho cada vez mais longo entre o diagnóstico e o tratamento. Um percurso que começa no consultório médico, passa pelas filas do sistema de saúde e, muitas vezes, termina nos tribunais.

Sobre o autor

José Octávio Montesanti é advogado, fundador do escritório Moraes Montesanti Advogados Associados e atua na advocacia há mais de seis décadas. Doutor e professor aposentado de Direito Comercial, construiu uma sólida trajetória nas áreas Empresarial, Civil, Comercial, Tributária e, mais recentemente, Direito da Saúde. Também é autor do livro Rumo aos 120 Anos de Idade (ou mais), dedicado aos temas da saúde e da longevidade. Em A Judicialização da Saúde – Um Caos à Vista, reúne a experiência acumulada ao longo de décadas de atuação profissional para analisar um dos fenômenos mais relevantes e desafiadores da saúde brasileira.

Quando a inteligência artificial encontra resistência: a revolta popular contra os data centers chega ao coração dos EUA

Durante muito tempo, as grandes empresas de tecnologia conseguiram vender a expansão da inteligência artificial como um processo inevitável, sinônimo de progresso, inovação e desenvolvimento econômico. Entretanto, uma reportagem de Pamela Ferdinand, publicada pelo The New Lede, mostra que essa narrativa começa a encontrar um obstáculo inesperado: a resistência organizada das populações locais que serão obrigadas a conviver com a infraestrutura física necessária para sustentar a chamada revolução da IA.

O caso descrito na reportagem ocorre no estado do Kansas, onde moradores passaram a questionar a instalação de enormes centros de processamento de dados (data centers) destinados principalmente ao treinamento e funcionamento de sistemas de inteligência artificial. Embora frequentemente apresentados como empreendimentos de alta tecnologia e baixo impacto ambiental, esses complexos exigem enormes quantidades de eletricidade e água, além de provocar ruído permanente, ocupar extensas áreas de terra e demandar novas linhas de transmissão elétrica. O que parecia uma infraestrutura invisível revela, na prática, uma pesada pegada territorial.

O aspecto mais interessante da reportagem talvez seja mostrar que a oposição não decorre de um movimento ideológico tradicional. Agricultores, moradores rurais, conservadores, ambientalistas e representantes de diferentes espectros políticos começam a compartilhar preocupações semelhantes. A questão deixa de ser simplesmente tecnológica para assumir uma dimensão profundamente territorial: quem suporta os custos ambientais e sociais da economia digital?

Esse fenômeno merece atenção especial no Brasil. Existe uma tendência recorrente de imaginar que a economia digital ocupa apenas o “mundo virtual”. Na realidade, a inteligência artificial depende de uma infraestrutura extremamente material: minas para extração de minerais estratégicos, fábricas de semicondutores, grandes sistemas de geração elétrica, redes de transmissão, cabos submarinos e gigantescos centros de dados funcionando ininterruptamente. Em outras palavras, o aparente caráter imaterial da IA repousa sobre uma base física que consome recursos naturais em escala crescente.

É justamente essa materialidade que começa a alimentar conflitos socioambientais. Nos Estados Unidos, comunidades locais passaram a perguntar por que deveriam aceitar aumentos na demanda por energia, maior consumo de água e alterações na paisagem para atender empresas globais cujos lucros dificilmente permanecerão no território. A promessa de geração de empregos também perde força quando se observa que, após a fase de construção, os data centers operam com um número relativamente reduzido de trabalhadores altamente especializados.

Essa situação lembra, em muitos aspectos, os conflitos provocados por grandes projetos extrativos e de infraestrutura observados há décadas em diferentes partes do mundo. Muda a mercadoria, muda a tecnologia, mas permanece a mesma lógica de concentração dos benefícios econômicos e distribuição desigual dos custos ambientais. Em vez de minas de carvão ou grandes barragens, surgem agora verdadeiras “fábricas digitais” cujo funcionamento depende de um fluxo contínuo de energia, água e capital.

Não por acaso, a resistência também cresce rapidamente em outros estados norte-americanos. Protestos simultâneos ocorreram recentemente em dezenas de estados, enquanto diversos projetos foram suspensos, adiados ou rejeitados por governos locais em razão da pressão popular. A expansão da infraestrutura da inteligência artificial começa, assim, a enfrentar um problema que seus promotores não anteciparam: a perda de sua licença social para operar.

No Brasil, esse debate ainda engatinha. Entretanto, seria um erro imaginar que permaneceremos à margem dessa corrida global. A crescente demanda por eletricidade, água e minerais estratégicos tende a ampliar a pressão sobre nossos sistemas ambientais, especialmente em regiões já marcadas pela expansão do agronegócio, da mineração e dos grandes projetos energéticos. Se nada mudar, a inteligência artificial poderá acrescentar uma nova camada à já extensa lista de conflitos territoriais produzidos pelo capitalismo contemporâneo.

Talvez a principal contribuição da reportagem de Pamela Ferdinand seja justamente desfazer uma ilusão bastante difundida: a de que a inteligência artificial habita apenas a nuvem. Na realidade, essa “nuvem” possui endereço, ocupa território, consome recursos naturais e produz impactos ambientais concretos. E, como demonstra o caso do Kansas, as comunidades diretamente afetadas começam a dizer que não pretendem pagar essa conta em silêncio.

Super El Niño, austeridade fiscal e a produção política da próxima tragédia climática

Projeções indicam que um Super El Niño poderá intensificar secas, incêndios, enchentes e deslizamentos no Brasil, enquanto a austeridade fiscal mantém a prevenção e a adaptação climática subordinadas ao pagamento da dívida e expõe a população trabalhadora a novas tragédias anunciadas

Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.

Por Marcos Pedlowski para “Jornal Nova Democracia”

A comunidade científica com crescente preocupação a evolução do atual ciclo do El Niño. As projeções elaboradas por diferentes centros internacionais de monitoramento climático, entre eles a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indicam que o aquecimento das águas do Pacífico poderá alcançar intensidade muito forte durante a primavera de 2026. Ao mesmo tempo, o Atlântico Sul continua registrando temperaturas excepcionalmente elevadas, criando uma combinação capaz de alterar profundamente os padrões atmosféricos sobre a América do Sul.

O Brasil ocupa uma posição particularmente vulnerável diante desse cenário. A interação entre um Super El Niño e um Atlântico Sul excepcionalmente aquecido deverá ampliar os contrastes climáticos em praticamente todo o território nacional. A Amazônia, parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste poderão enfrentar secas prolongadas, ondas de calor mais intensas, redução da disponibilidade hídrica e uma explosão no número de incêndios florestais. O Sul e parte do Sudeste, por sua vez, poderão registrar episódios extremos de precipitação, enchentes de grandes proporções e deslizamentos de encostas. Essa combinação também deverá comprometer a produção agrícola, reduzir a capacidade de geração hidrelétrica, pressionar os sistemas de abastecimento de água e acelerar a degradação de ecossistemas que já sofrem os efeitos do desmatamento e das mudanças climáticas. Nenhum desses fenômenos constitui uma surpresa. A comunidade científica vem alertando há meses para essa possibilidade, enquanto os modelos climáticos refinam continuamente as projeções.

A verdadeira questão, portanto, não reside na existência ou não de avisos prévios. O problema reside na capacidade — ou, mais precisamente, na incapacidade — do Estado brasileiro de transformar conhecimento científico em políticas públicas capazes de proteger a população antes que a próxima emergência climática se instale. O Rio Grande do Sul oferece o exemplo mais dramático dessa incapacidade. As enchentes de 2024 destruíram cidades inteiras, desalojaram centenas de milhares de pessoas, interromperam cadeias produtivas, devastaram a infraestrutura estadual e deixaram marcas profundas na memória coletiva do país. A tragédia expôs o elevado grau de vulnerabilidade construído ao longo de décadas de ocupação desordenada do território, de insuficiência dos investimentos públicos e de sucessivos adiamentos das obras de prevenção. As projeções atuais indicam que o estado poderá voltar a ocupar o centro da crise climática brasileira.

Essa situação revela um problema muito mais profundo do que uma simples demora administrativa, e revela uma forma de governar que reage aos desastres depois que eles já produziram destruição e mortes. Os governantes anunciam planos de reconstrução, liberam recursos emergenciais e organizam solenidades para apresentar novas iniciativas. Entretanto, eles raramente transformam essas respostas emergenciais em políticas permanentes de adaptação climática. O resultado dessa lógica aparece diante de nossos olhos: cada tragédia encerra seu ciclo sem produzir as transformações estruturais necessárias para impedir a seguinte.

No plano federal, o governo do presidente Luís Inácio reconhece formalmente a gravidade da emergência climática. A atual administração elaborou planos nacionais de adaptação, incorporou o tema ao planejamento estatal e ampliou o discurso oficial sobre sustentabilidade. Essas iniciativas possuem importância política e técnica, mas elas não alteram o principal problema enfrentado pelo país. Por outro lado, o presente governo optou por preservar a lógica central do ajuste fiscal ao substituir o antigo teto de gastos pelo novo arcabouço fiscal. Essa opção mantém a adaptação climática, a defesa civil, e a infraestrutura urbana dentro da mesma disputa orçamentária que caracteriza as políticas neoliberais adotadas nas últimas décadas. Assim sendo, o problema ultrapassa a simples existência de limites fiscais, e a questão central envolve a disputa pelo fundo público. Como resultado, o orçamento federal continua destinando centenas de bilhões de reais ao pagamento de juros e demais despesas financeiras associadas à dívida pública, enquanto trata os investimentos destinados à adaptação climática como despesas sujeitas a contingenciamentos, cortes e negociações.

Assim, quando a emergência finalmente chega, os governos recorrem aos créditos extraordinários, mobilizam operações de socorro e anunciam programas de reconstrução. Esse ciclo se repete há décadas porque a política econômica prefere financiar a resposta ao desastre em vez de investir sistematicamente na prevenção. Mais grave ainda, essa lógica distribui os riscos de maneira profundamente desigual. O capital financeiro permanece protegido pelas prioridades orçamentárias do Estado, enquanto a população trabalhadora permanece exposta às enchentes, aos deslizamentos, às ondas de calor, aos incêndios florestais e às sucessivas interrupções dos serviços públicos essenciais. A crise climática não produz essa desigualdade. O capitalismo brasileiro produz essa desigualdade. A crise climática apenas amplia suas consequências e torna mais visíveis as escolhas políticas que historicamente privilegiaram a acumulação privada em detrimento da proteção coletiva.

A distribuição desigual dos riscos climáticos revela outra característica fundamental da sociedade brasileira. As classes dominantes dispõem de recursos para reduzir sua exposição aos eventos extremos. Elas vivem em bairros dotados de melhor infraestrutura, contratam seguros privados, possuem acesso mais rápido aos serviços de saúde e, quando necessário, conseguem abandonar temporariamente as áreas atingidas. A classe trabalhadora enfrenta uma realidade completamente diferente, já que milhões de brasileiros vivem em periferias urbanas, encostas, margens de rios e áreas de ocupação precária onde o Estado nunca garantiu infraestrutura adequada, drenagem eficiente, saneamento básico ou políticas habitacionais compatíveis com a dimensão do problema. É por causa disso que quando chegam as enchentes, os deslizamentos, as ondas de calor ou os incêndios florestais, os trabalhadores pagam o preço de décadas de abandono das políticas públicas.

O professor Rob Nixon oferece uma chave importante para compreender esse processo em seu livro Violência lenta e o ambientalismo dos pobres. Nixon critica a falsa dicotomia entre desastres naturais e desastres humanos. Segundo ele, um furacão, uma inundação ou uma seca podem resultar de processos naturais, mas o número de mortos, de desabrigados e de perdas materiais depende fundamentalmente das decisões políticas tomadas antes da chegada do evento extremo. Governos que investem em prevenção, fortalecem a defesa civil, organizam sistemas de alerta, constroem infraestrutura resiliente e elaboram planos eficientes de evacuação reduzem significativamente os impactos sociais desses fenômenos. Já governos que negligenciam essas medidas transformam eventos climáticos previsíveis em tragédias humanas primeiro, e depois em oportunidades econômicas para os seus aliados.

O problema ultrapassa, portanto, a esfera de eventos meteorológicos. O Brasil não enfrenta apenas uma emergência climática. A verdade é que o nosso país enfrenta uma crise política produzida pela permanência de um modelo econômico que privatiza os ganhos do crescimento e socializa seus prejuízos ambientais. A lógica neoliberal não reduz apenas investimentos públicos, mas também redefine as prioridades do Estado, desloca recursos para a esfera financeira, enfraquece sua capacidade de planejamento e transforma a proteção da vida em uma variável subordinada às exigências do mercado.

A questão central, portanto, não consiste apenas em acompanhar os próximos boletins meteorológicos ou esperar que o governo anuncie novas medidas emergenciais. A sociedade brasileira precisa construir, desde já, uma ampla mobilização para enfrentar um cenário que a comunidade científica vem anunciando há meses. A população, os sindicatos, os movimentos sociais, as organizações populares, as universidades, as entidades científicas e os coletivos ambientais precisam pressionar os governos federal, estaduais e municipais para fortalecer a defesa civil, ampliar os sistemas de monitoramento e alerta, recuperar infraestruturas críticas, reconstruir plenamente os sistemas de proteção contra cheias, preparar os serviços públicos e direcionar recursos aos territórios mais vulneráveis. Essa pressão também precisa exigir o abandono da lógica de austeridade fiscal sempre que ela impedir investimentos indispensáveis para proteger vidas humanas.

O calendário climático já começou a impor seus prazos. Cada semana desperdiçada reduz a capacidade de resposta do Estado e amplia os riscos enfrentados pela população trabalhadora. O Brasil dispõe de pouco tempo para reduzir os impactos do que poderá ser um dos episódios climáticos mais severos de sua história recente, e esse tempo escasso não permite hesitações nem falsas prioridades. Desta forma, somente uma mobilização social ampla poderá impedir que um fenômeno climático amplamente previsto pela ciência se transforme, mais uma vez, em uma tragédia social produzida por escolhas políticas. Essa mobilização social precisa começar agora, antes que as primeiras chuvas ou os primeiros meses de seca extrema tornem irreversível aquilo que ainda pode ser evitado. 


Fonte: Jornal Nova Democracia

Estudante de medicina no Nepal está por trás de uma movimentada fábrica de artigos

Por Retraction Watch

Um estudante de medicina do segundo ano no Nepal está no centro de uma rede internacional de pesquisa que produz de tudo, desde revisões sistemáticas e meta-análises até relatos de casos e estudos de banco de dados, conforme apurado pelo Retraction Watch.

O estudante Raghabendra Kumar Mahato utiliza essa rede, que inclui quase mil membros conectados pelo WhatsApp, para produzir um grande número de resumos para conferências e artigos científicos em ritmo acelerado, de acordo com publicações e mensagens que analisamos. Seu trabalho foi apresentado ou aceito para apresentação em conferências organizadas pela American Heart Association (AHA), pela European Society for Medical Oncology (ESMO) e por muitas outras sociedades médicas, e foi publicado em periódicos de importantes editoras.

Mas uma análise de dezenas de mensagens do WhatsApp que obtivemos e uma entrevista com um membro desiludido da comunidade, chamada de “Consórcio Global de Pesquisa Clínica”, sugerem que a rede produz ciência de forma acelerada , inclui um conhecido produtor de papel e trata a autoria como uma mercadoria negociável.

“Temos estudos de alta qualidade de revisões sistemáticas e meta-análises (SRMA) e de bancos de dados do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) prontos para submissão”, escreveu Mahato em uma mensagem recente sobre o Simpósio de Qualidade em Cuidados da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), que acontecerá em Boston neste outono. “Buscamos pessoas interessadas em participar como coautoras e, de preferência, apresentar os resumos aceitos.”

As conferências geralmente exigem a apresentação presencial de resumos, mas os custos de inscrição e viagem podem ser proibitivos para muitos no Sul Global, assim como as taxas de publicação em periódicos. Os materiais que obtivemos mostram que Mahato negociava a autoria com pessoas dispostas a apresentar a pesquisa da rede e arcar com as despesas associadas.

“É possível você apresentar-se fisicamente nos EUA?”, perguntou Mahato, dono da comunidade do WhatsApp, a um membro da rede em uma mensagem no início deste ano. Após receber uma resposta afirmativa, Mahato respondeu que, em troca, “Podemos oferecer a você os direitos autorais da nossa parte”.

Representantes da AHA e da ESMO confirmaram que vários resumos coescritos por Mahato foram aceitos para suas próximas conferências e, após nossa consulta, irão analisá-los mais detalhadamente.

Outras mensagens para a comunidade incluíram chamadas “urgentes” para apresentadores e colaboradores de conferências, solicitando resumos prontos para submissão, e em um caso, até mesmo um “artigo já aceito”. Mahato observou que pesquisadores “que desejam apresentar seus próprios trabalhos também são bem-vindos”. Em uma mensagem, ele prometeu “autoria garantida” para colaboradores que obtivessem isenção da taxa de publicação pelas editoras MDPI ou Frontiers.

Em um e-mail enviado para nós, Mahato, que já possui mais de 100 publicações em seu nome, negou que “a autoria seja trocada unicamente em troca de apresentação em conferências”.

Raghabendra Kumar Mahato

Ele afirmou que os apresentadores foram identificados com antecedência para “muitos projetos baseados em conferências” e que se esperava que eles “fizessem contribuições acadêmicas significativas”, como “revisar as diretrizes de submissão de trabalhos para conferências”, “analisar criticamente o conteúdo científico preparado por colaboradores” e “participar da curadoria de dados, quando apropriado”.

Não há indícios, no material que obtivemos, de que Mahato venda direitos autorais em troca de dinheiro. Ele rejeitou a caracterização de sua organização como uma fábrica de artigos científicos, acrescentando: “Nosso objetivo é facilitar a pesquisa acadêmica colaborativa envolvendo colaboradores com diferentes áreas de especialização.”

O Consórcio Global de Pesquisa Clínica pertence a um crescente setor de empresas e organizações que atendem estudantes de medicina e médicos recém-formados pressionados a publicar , muitas vezes na esperança de conseguir residências prestigiosas nos EUA. Algumas dessas organizações cobram por seus serviços , que podem ou não incluir algum tipo de treinamento em pesquisa, enquanto outras afirmam que não . Todas elas visam o mesmo objetivo: ajudar clientes ou membros a turbinar seus currículos.

Iniciativas como essas podem criar uma desconexão entre a autoria e a publicação e o propósito fundamental da pesquisa, afirmou Martina Linnenluecke, diretora do Centro de Risco Climático e Resiliência da Universidade de Tecnologia de Sydney. “O objetivo principal da pesquisa não deve ser simplesmente garantir a aceitação em uma conferência ou periódico para fins de carreira, mas sim responder a uma questão de pesquisa relevante por meio de análises rigorosas”, disse Linnenluecke, coautora do artigo de 2025 intitulado “A descaracterização da pesquisa”.

A organização de Mahato atua em diversas especialidades médicas, incluindo neurologia, cardiologia, pediatria e oncologia. Um de seus pontos fortes, segundo o material publicitário, é “Transformar Ideias em Publicações de Alto Impacto”. Com base nas postagens de Mahato no LinkedIn e em mensagens do WhatsApp, mais de 70 de seus resumos para conferências parecem ter sido aceitos para apresentação, e ele já submeteu, ou planeja submeter, dezenas de outros. Ele também possui mais de uma dezena de estudos completos e relatos de casos em periódicos como o Clinical Cardiology e o Clinical Case Reports, da Wiley, e o Journal of Cardiothoracic Surgery e o BMC Neurology , da Springer Nature .

Assim como outras organizações do mesmo tipo, o Consórcio Global de Pesquisa Clínica produz estudos que podem ser realizados em frente a um computador, como análises de conjuntos de dados abertos. Um recente aumento na ciência aberta sugere que os esforços estão sendo sentidos no nível das revistas científicas. Em particular, um preprint de janeiro constatou um crescimento exponencial nas publicações baseadas no banco de dados WONDER do CDC, com uma proporção crescente de autores do Paquistão e, em menor grau, da Índia. De acordo com o preprint, a maioria dos artigos apresentava indícios de “ter sido produzida a partir de um modelo, com títulos padronizados e métodos idênticos”.

A rede de contatos de Mahato pode ser uma fonte dessas publicações. A maioria de seus coautores está no Paquistão . Seu grupo de WhatsApp também é dominado por números paquistaneses, embora centenas sejam de outros países, incluindo Índia, Egito, Nigéria, Estados Unidos, Reino Unido, Geórgia, Peru e Coreia do Sul.

Até o momento, Mahato publicou um estudo do CDC WONDER com coautores no Paquistão e carregou mais dois em servidores de pré-impressão. Outros podem seguir. Em uma mensagem de WhatsApp deste verão, Mahato escreveu que precisava de “5 pessoas que possam escrever artigos para o CDC todo o trabalho já está feito, só preciso da redação e que consigam concluir um artigo para o CDC em 4 dias!”

Uma mensagem no WhatsApp indicava que “mais de 10 resumos” do grupo haviam sido aceitos para o encontro da ESMO de 2026.

Em sua página no LinkedIn, Mahato escreveu que “mais de 11 resumos de nossas pesquisas foram aceitos para apresentação” no Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica de 2026, em outubro, e que cinco resumos foram aceitos pelas Sessões Científicas de Ciências Cardiovasculares Básicas da Associação Americana do Coração, que ocorreram de 13 a 16 de julho. 

Vanessa Pavinato, chefe de comunicação da ESMO, disse-nos que a sociedade não tinha conhecimento de quaisquer práticas questionáveis ​​por parte de Mahato ou da sua rede. Os responsáveis ​​da ESMO conseguiram encontrar sete resumos aceites com a coautoria de Mahato, principalmente ePosters, informou-nos Pavinato. A sociedade está agora a analisar os trabalhos submetidos, acrescentou.  

“Iniciamos imediatamente uma investigação interna, com base nas informações que você gentilmente compartilhou”, disse ela. “Levará algum tempo, porém, para chegarmos ao fundo da questão.”

Da mesma forma, um porta-voz da AHA confirmou que Mahato teve cinco resumos aceitos para a conferência recente da organização. “Como parte de nossa análise quando alegações são apresentadas, trabalharemos com nossos líderes voluntários para identificar a melhor ação para cada caso e/ou resumo”, disse o porta-voz. “Essa etapa está em andamento.”

Uma imagem enviada pelo WhatsApp solicitou que apresentadores e coautores enviassem resumos para a recente sessão científica da AHA.

Em larga escala, disse Linnenluecke, “práticas destinadas a garantir vagas em conferências ou a publicar artigos em periódicos exercem uma pressão significativa sobre os sistemas de revisão e de conferências, que já estão sobrecarregados, e contribuem para o crescente volume de pesquisas mal verificadas, o que torna muito mais difícil identificar resultados confiáveis”.

Omembro desiludido da rede que entrevistamos, Anit Sinha, forneceu mais detalhes sobre o funcionamento interno da rede. Sinha se formou recentemente na Faculdade de Medicina de Gandaki, em Pokhara, Nepal – a mesma faculdade que Mahato frequenta atualmente – e está se preparando para a residência. Ele se juntou à rede de Mahato para turbinar seu currículo, mas diz que começou a suspeitar de suas práticas depois de começar a trabalhar em um artigo de revisão em “um dos subgrupos”.

Após ver um esboço do manuscrito em tópicos, que parecia ter sido gerado por IA, Sinha disse que ele e outros sete membros da rede escolheram uma seção cada um para escrever “sob a direção de um administrador associado” cujo nome de usuário no WhatsApp era “SB”. 

“Nenhum dos administradores (incluindo Raghabendra Kumar Mahato) escreveu qualquer seção”, disse-nos Sinha. “O feedback deles consistiu inteiramente em instruções de formatação. Quando pedi feedback substancial sobre o conteúdo, não recebi nenhum.”

O número SB pertence a Shreya Singh Beniwal , uma médica empreendedora e conhecida empresária do ramo de papel na Índia. Beniwal foi a primeira autora de um artigo questionável anunciado para venda pela extinta iTrilon , como relatamos em 2024 em uma investigação para a revista Science . Descobrimos posteriormente que  ela também administrava uma organização no WhatsApp que vendia cotas de autoria em artigos científicos.

Beniwal, que continua a publicar amplamente , disse-nos que “não tinha conhecimento do grupo de WhatsApp [de Mahato] nem de nenhum dos seus subgrupos” e que “não conhecia nenhum dos administradores ou membros ativos dessa comunidade”. Ela pode ter sido “adicionada ao grupo por outra pessoa ou pode ter entrado por meio de um link compartilhado sem intenção”. 

Mas as capturas de tela que analisamos mostram que Beniwal era administradora de um subgrupo chamado “Novo tópico de Cardiologia”, juntamente com Mahato e outra pessoa na Índia. Ela gerenciava o trabalho do grupo em várias seções de um manuscrito sobre doenças cardíacas e frequentemente usava um tom autoritário com outros membros, incluindo Mahato. “Termine até o final da tarde”, disse ela a Mahato em certo momento. “Claro, me dê um tempinho”, ele respondeu. O proprietário do manuscrito no Google Docs era um e-mail que ela usou em vários artigos recentes.

Em 4 de junho, Beniwal perguntou ao subgrupo se alguém estava “interessado em juntar resumos conosco no 6º prazo da AHA, então estamos submetendo mais alguns tópicos”. E em 19 de julho, quatro dias depois de a contatarmos, ela anunciou em um subgrupo chamado “Comunidade de Projetos em Andamento 6” que começaria “apenas 3 a 4 tópicos este mês” devido a restrições de tempo, e que essas colaborações seriam “projetos acelerados”. 

Após entrarmos em contato com ela, o nome de usuário do WhatsApp de Beniwal mudou de “SB” para um asterisco, mas ela permaneceu no grupo de Mahato. Outro número no grupo também pertence a Beniwal.

Mahato, que figura como autor correspondente em quase todos os seus artigos, disse-nos que seu “papel vai muito além da gestão da comunicação” entre os membros da rede.

“Participo do planejamento de projetos, da coordenação de colaboradores, da redação de manuscritos, da edição científica, da integração de contribuições de múltiplos autores, da organização de revisões, da garantia da consistência em todo o manuscrito, do gerenciamento de submissões, da correspondência com editores, da resposta a comentários de revisores quando aplicável e da coordenação de projetos até a sua conclusão”, disse ele.

Mahato começou a publicar no ano passado, pouco depois de ingressar na faculdade de medicina em dezembro de 2024. Desde então, sua carreira de pesquisa tem sido meteórica. De acordo com seu perfil no Google Acadêmico , ele já acumulou quase 120 publicações – incluindo um resumo na revista Neurology, do qual Beniwal também é autor. O resumo afirma que os autores fizeram uma “análise comparativa retrospectiva de dados de ensaios clínicos e de extensão de estudo aberto”, mas simplesmente repete dados já publicados , como apontou Sinha. “Eles sequer fizeram uma análise independente”, disse ele.

Postagens em seu perfil no LinkedIn mostram que Mahato é revisor de vários periódicos de grandes editoras, incluindo o International Journal of Surgery , Annals of Medicine and Surgery e o International Journal of Surgery Case Reports , todos pertencentes a um problemático conjunto de títulos da Wolters Kluwer . E em breve, ele disse a Sinha em uma troca de mensagens pelo WhatsApp, ele se juntará ao conselho editorial de um periódico; ele não especificou qual.

A maioria das primeiras publicações de Mahato são comentários, mas recentemente ele adicionou várias revisões sistemáticas, estudos de banco de dados e relatos de casos à sua bibliografia. Seus numerosos resumos de congressos começaram a aparecer recentemente em suplementos de periódicos científicos.

Em vários de seus artigos, Mahato aparece com a sigla “MBBS” anexada ao seu nome, sugerindo que ele já havia obtido seu diploma de medicina. Alguns artigos também afirmam que ele fornecia “supervisão acadêmica sênior”. Mahato nos disse que o sufixo deveria indicar seu “programa de estudos acadêmicos” e “nunca teve a intenção de deturpar meu status acadêmico”.

Sinha afirmou que o comportamento antiético é “bastante comum” entre estudantes e pesquisadores no Nepal, “mas não na escala em que Raghabendra Mahato está operando”.

Com informações adicionais de Alicia Gallegos e Kate Travis.


Fonte:  Retraction Watch

Negacionismo tosco versus negacionismo: duas faces da mesma moeda

Por Grupo de Estudo Ecologia e Marxismo

O negacionismo ambiental da extrema direita é tosco, nega o que todas as evidências comprovam e trata a comunidade científica como um bando de conspiradores a serviço de um plano secreto dos globalistas (ou da China, ou da ONU). Ao mesmo tempo, espalham “teorias” esdrúxulas, sem nenhuma base na realidade, que buscam essencialmente esconder a responsabilidade da sociedade capitalista industrial pelo colapso ambiental, como o HAARP e as chemtrails (rastros químicos). Defendem o bonde do capital sem freios.

O negacionismo ambiental da esquerda da ordem é sutil, mas é negacionismo e serve à ilusão de um capitalismo verde. O discurso é bonito, mas o modelo de “desenvolvimento” do país segue fazendo avançar o colapso ambiental. O negacionismo sutil não nega a existência da questão ambiental, mas insiste em chamar colapso de “crise” e parece não perceber a urgência, a gravidade e a profundidade do problema. Defendem reformas para criar uma economia capitalista sustentável.

Enquanto isso, as perspectivas para a questão ambiental no Brasil seguem mais do que alarmantes.

1- Relações internacionais voltadas para expandir a venda de soja, gado e minério. Acordos com a União Europeia e a China, por exemplo.

2- Novos poços de petróleo, inclusive na Amazônia.

3- Política trilionária de financiamento do latifúndio através do Plano Safra, Lei Kandir etc.

4- Investimentos em infraestrutura para exportação de commodities e produção de energia:

a. Pavimentação de rodovias no coração da Amazônia, com destaque para a BR-319.

b. Construção de hidrovias e ferrovias.

c. Novas hidrelétricas na Amazônia.

d. Expansão de outras formas predatórias de exploração de energias não fósseis como as “fazendas” eólicas e solares.

5- Liberação indiscriminada de agrotóxicos.

6- Proliferação de datacenters.

7- Aumento da mineração de terras raras.

8- Retrocesso legislativo generalizado.

Os governos brasileiros são reféns da nossa condição de economia periférica do capitalismo e da nossa história de fornecedores de commodities para os países ricos.

O governo Lula pratica o negacionismo sutil. Finge que não é negacionista, mas mantém a política de desenvolvimento que nos aproxima cada vez mais do colapso. Um eventual governo Bolsonaro fará mais ou menos a mesma política, mas sem pudor nenhum de pisar no acelerador. Sem sutileza, bem tosco.

Radicalizar os ecologistas. Ecologizar os radicais.
Produzir menos. Produzir diferente. Dividir melhor.

Revolução ou extinção.
A saída é comunista, ecológica e libertária.

 

Contrabando de agrotóxicos: um crime que começa na fronteira e termina nas lavouras brasileiras

Uma nova apreensão de Paraquat, herbicida banido no Brasil e em dezenas de outros países devido aos seus graves riscos à saúde humana, expõe a necessidade de punir não apenas os contrabandistas, mas também quem financia esse mercado ilegal ao comprar produtos proibidos

Uma reportagem publicada pela Gazeta do Triângulo relata a apreensão de aproximadamente oito toneladas do herbicida Paraquat, contrabandeadas do Paraguai e interceptadas em uma operação conjunta das polícias Federal, Civil, Militar e Penal na BR-050, entre Uberlândia e Araguari. A carga, avaliada em cerca de R$ 1 milhão, seguia de Cascavel (PR) para Catalão (GO), e o motorista acabou preso por contrabando. 

Embora expressiva, essa apreensão está longe de constituir um fato isolado. Ao contrário, ela integra uma sequência cada vez mais frequente de operações policiais que desmantelam carregamentos ilegais de agrotóxicos provenientes do Paraguai. A repetição desses casos indica que o Brasil enfrenta uma verdadeira epidemia de contrabando de agrotóxicos, impulsionada por uma rede criminosa bem estruturada e, sobretudo, por uma demanda constante dentro do próprio setor agropecuário.

O caso torna-se ainda mais grave porque o produto apreendido foi o Paraquat, um dos herbicidas mais controversos do mundo. Diversos estudos científicos associaram sua exposição a intoxicações agudas, danos pulmonares irreversíveis e a um aumento do risco de desenvolvimento da doença de Parkinson. Esses riscos levaram dezenas de países a proibir seu uso, incluindo o Brasil, onde sua comercialização deixou de ser permitida justamente em razão dos perigos que representa para trabalhadores rurais e para a saúde pública.

A insistência em trazer clandestinamente esse herbicida ao território brasileiro revela uma realidade desconfortável. Se existe uma oferta permanente cruzando a fronteira, é porque existe uma clientela disposta a adquiri-la. O contrabando não sobrevive apenas graças aos atravessadores, motoristas e organizações criminosas. Ele depende igualmente daqueles que compram deliberadamente agrotóxicos ilegais para reduzir custos ou manter o acesso a substâncias cuja utilização foi proibida após criteriosa avaliação toxicológica.

Esse aspecto merece especial atenção. Durante anos, a fiscalização concentrou seus esforços nas rotas do contrabando e nas organizações criminosas responsáveis pela entrada clandestina desses produtos no país. Esta é, sem dúvida,  uma ação necessária. Entretanto, nenhuma organização criminosa manteria uma estrutura logística sofisticada para importar ilegalmente toneladas de agrotóxicos se não existisse um amplo mercado consumidor disposto a adquiri-los. Em outras palavras, cada carga apreendida revela a existência de compradores que aguardavam sua chegada.

Por isso, concentrar toda a repressão apenas sobre quem transporta essas cargas significa atacar apenas a parte mais visível do problema. É indispensável identificar e responsabilizar criminal e administrativamente quem financia esse mercado clandestino. Sejam comerciantes que abastecem lojas de insumos agrícolas, sejam proprietários rurais que adquirem conscientemente produtos contrabandeados, todos participam da mesma cadeia ilícita e contribuem para manter um mercado que coloca em risco trabalhadores, consumidores e o meio ambiente.

Também não se pode ignorar os impactos ambientais dessa prática. O uso clandestino de agrotóxicos proibidos dificulta qualquer controle oficial sobre aplicação, armazenamento e destinação de embalagens. Como resultado, cresce o potencial de contaminação de solos, rios, aquíferos e da biodiversidade, além da exposição de polinizadores, peixes, aves e outros organismos não alvo a substâncias cuja elevada toxicidade já motivou sua retirada do mercado legal. Quando se trata do Paraquat, esses riscos tornam-se ainda maiores, pois sua elevada persistência e toxicidade ampliam os danos potenciais para os ecossistemas e para as populações expostas.

A sucessão de apreensões de cargas ilegais provenientes do Paraguai demonstra que o contrabando de agrotóxicos deixou de ser um episódio esporádico para se transformar em um problema estrutural da agricultura brasileira. Enquanto esse comércio continuar sendo tratado apenas como uma questão de segurança nas fronteiras, novas operações policiais continuarão produzindo manchetes sem alterar a lógica econômica que sustenta esse mercado clandestino.

O verdadeiro enfrentamento exige romper toda a cadeia do crime. Isso significa prender os contrabandistas, desarticular as organizações criminosas que atuam nas fronteiras, fortalecer os mecanismos de rastreabilidade dos insumos agrícolas e, principalmente, aplicar punições exemplares aos comerciantes e produtores rurais que alimentam esse mercado ao adquirir agrotóxicos contrabandeados. Sem reduzir essa demanda interna, o fluxo de cargas ilegais vindas do Paraguai continuará encontrando destino certo nas lavouras brasileiras, colocando em risco a saúde da população, degradando os ecossistemas e fortalecendo um dos ramos mais lucrativos do crime organizado no campo.

Quando as máquinas escrevem, precisamos de mais pessoas que saibam ler

Precisamos de pessoas que consigam detectar quando a linguagem se torna excessivamente simplista, quando os termos escondem mais do que explicam, quando a história é simplificada demais e quando as experiências humanas são encaixadas em categorias que parecem neutras, mas não o são

Por Zeshan Ullah Qureshi, candidato a doutorado, Universidade de Ciências Aplicadas MF, para “Kronos” 

Se o texto, a análise e o controle da análise forem deixados a cargo de modelos de linguagem, não teremos resolvido o problema. Apenas teremos transferido o poder de julgamento da responsabilidade humana, afirma Zeshan Ullah Qureshi. Foto: Particular

Quase 4.000 vagas nas áreas de humanidades, ciências sociais e artes desapareceram das universidades britânicas   em apenas um ano. É particularmente preocupante que tais cortes enfraqueçam as humanidades em um momento em que a sociedade precisa de mais, e não menos, pensamento crítico.

Ao mesmo tempo, a redução de pessoal está acontecendo justamente quando a inteligência artificial torna a produção de texto, análise e cultura mais barata e rápida do que nunca.

Portanto, é pertinente quando Vivienne Stern, CEO da Universities UK, afirma que, na era da IA, valorizaremos mais  , e não menos, a compreensão de como as pessoas pensam e agem. 

As ciências humanas são frequentemente defendidas com o argumento de que as disciplinas nos proporcionam a capacidade de reflexão crítica, desenvolvimento democrático e compreensão social.

Tudo isso está correto, mas diante da inteligência artificial, o argumento pode ser formulado de maneira ainda mais incisiva: a IA não torna as humanidades menos relevantes. Ela as torna mais necessárias.

Quando a IA puder escrever a tese, o doutorado deverá ser sobre os dados.

A questão não é mais apenas quem consegue produzir texto, porque as máquinas agora podem fazer isso em larga escala. Nem é apenas quem consegue analisar texto, porque a IA já pode nos ajudar a identificar pressupostos, conceitos, fontes e perspectivas em um texto.

Portanto, surge uma nova questão: quem deve avaliar a análise da IA? Quem deve decidir se ela trata as fontes adequadamente, se ignora nuances históricas, se repete preconceitos estabelecidos ou se simplesmente imita a linguagem crítica sem discernimento profissional?

Uma possível solução seria ter vários sistemas de IA verificando uns aos outros. Poderíamos pedir ao ChatGPT para avaliar o Gemini, ao Gemini para avaliar o Claude, ao Claude para avaliar o DeepSeek, e assim por diante, de modelo para modelo.

Isso pode ser útil, mas será que é realmente suficiente?

Se deixarmos o texto, a análise e o controle da análise a cargo de modelos de linguagem, não teremos resolvido o problema. Teremos apenas transferido o poder de julgamento da responsabilidade humana.

No debate sobre IA, estamos falando de coisas diferentes.

A IA pode ser uma ferramenta poderosa para a leitura crítica, mas não pode, por si só, garantir a sua eficácia. Quando modelos de linguagem são usados ​​para resumos, ensino, pesquisa e políticas públicas, a sociedade torna-se mais dependente de humanos capazes de distinguir entre textos aparentemente bem formulados e insights genuínos.

A IA pode imitar a forma do conhecimento, mas não pode assumir a responsabilidade humana pela verdade, pelo contexto ou pelas consequências. Ela não possui memória histórica no verdadeiro sentido e precisa ser verificada por críticos textuais treinados nos métodos das humanidades e capazes de perguntar: O que realmente está acontecendo neste texto?

As humanidades não se resumem à leitura de livros antigos, ao aprendizado de idiomas ou à compreensão da história cultural. Em um nível mais elevado, as humanidades também abrangem os métodos de interpretação.

A hermenêutica nos ensina a navegar pelo significado dentro do contexto. A análise do discurso nos ensina como a linguagem não apenas descreve o mundo, mas também o molda, e quais estruturas de poder operam nos bastidores. A crítica das fontes nos ensina a questionar quem diz o quê, com base em quê, em que situação e com quais interesses.

A análise histórica nos ensina que os conceitos não são atemporais.

Na minha área, estudos religiosos, frequentemente trabalhamos com textos que transitaram entre línguas, culturas e contextos históricos. Uma tradução nunca é apenas uma transferência técnica de um idioma para outro. Envolve escolhas, interpretações, adaptações e nuances.

A questão não é apenas se o texto está certo ou errado, mas quais categorias ele usa, em quais autoridades se baseia e como torna uma tradição compreensível dentro de um contexto cultural diferente.

Na era da IA, o conceito de indústria cultural de Adorno e Horkheimer também pode ganhar nova relevância. Na década de 1940, eles descreveram como a cultura poderia ser produzida em massa de maneiras que tornavam o público mais passivo e menos crítico. Não é preciso adotar toda a análise deles para perceber que algo semelhante está acontecendo hoje. Quando o conteúdo pode ser gerado em segundos, torna-se mais fácil consumir significados prontos do que pensar por si mesmo.

Então, as humanidades se tornam um contrapeso.

Não porque os humanistas devam ser guardiões nostálgicos das antigas tradições profissionais, mas porque a sociedade precisa de pessoas que saibam ler devagar numa época em que tudo é produzido rapidamente.

Precisamos de pessoas que consigam detectar quando a linguagem se torna excessivamente simplista, quando os termos escondem mais do que explicam, quando a história é simplificada demais e quando as experiências humanas são encaixadas em categorias que parecem neutras, mas não o são.

Portanto, a discussão sobre as ciências humanas não deve se limitar ao número de vagas de estudo, à relevância para o mercado de trabalho ou a quais áreas têm o maior número de candidatos no momento.

Deveria também ser sobre que tipo de sociedade teremos se desvalorizarmos as disciplinas que nos ensinam a compreender a linguagem, a cultura, a história e a interpretação.

Quando as máquinas escrevem, não precisamos de menos humanistas. Precisamos de mais pessoas que saibam ler.


Fonte: Kronos

Portos-enclave: quando a promessa do desenvolvimento produz territórios sacrificáveis

Da violência lenta descrita por Rob Nixon aos grandes complexos portuários brasileiros

Em Slow Violence and the Environmentalism of the Poor, Rob Nixon argumenta que a expansão das economias extrativas no Sul Global costuma produzir um tipo muito particular de organização territorial: o resource enclave, ou enclave de recursos. Trata-se de espaços cuidadosamente planejados para maximizar a extração, o processamento e a exportação de riquezas naturais, mantendo uma relação mínima com o território ao seu redor. Em vez de irradiar desenvolvimento, esses enclaves frequentemente aprofundam desigualdades, fragmentam economias locais e transformam comunidades inteiras em populações descartáveis. Embora Nixon tenha em mente principalmente a indústria do petróleo e da mineração, sua interpretação ajuda a compreender um dos fenômenos territoriais mais importantes do Brasil desde o início dos anos 2000: a multiplicação de grandes complexos portuários voltados à exportação de commodities.

A partir de 2003, o país assistiu à criação ou à profunda expansão de infraestruturas como o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Ceará), o Complexo Industrial Portuário de Suape (Pernambuco), o Porto do Açu (Rio de Janeiro) e, posteriormente, a expansão do Porto Sudeste (Itaguaí). Cada um possui especificidades próprias, mas todos compartilham uma mesma lógica territorial: conectar áreas produtoras de minério, petróleo, gás, grãos e outras commodities diretamente ao mercado internacional, reduzindo ao máximo os custos de circulação dessas mercadorias. Sob esse ponto de vista, o porto deixa de ser apenas uma infraestrutura de transporte. Ele se converte no núcleo de um enclave logístico que reorganiza vastas áreas ao seu redor segundo as necessidades do capital global.

Essa reorganização começa pela própria ocupação doespaço. Grandes extensões de terra passam a ser controladas por empresas privadas ou consórcios empresariais. Áreas tradicionalmente utilizadas por pescadores artesanais, agricultores familiares e comunidades tradicionais são cercadas, desapropriadas ou submetidas a restrições crescentes de acesso. O espaço deixa de funcionar como território vivido para tornar-se plataforma operacional.

É precisamente aqui que a reflexão de Nixon se torna particularmente atual. Em uma das passagens mais contundentes do livro, ele observa que a economia do petróleo costuma gerar poucos empregos permanentes para as populações locais, substituindo antigas formas de subsistência destruídas pela contaminação da água, do solo e do ar. Em vez de contratar trabalhadores das comunidades diretamente afetadas, as empresas frequentemente importam mão de obra especializada de outras áreas, incluindo trabalhadores estrangeiros.

Essa descrição parece ter sido escrita para diversos empreendimentos brasileiros. No Porto do Açu, por exemplo, milhares de hectares foram desapropriados sob a promessa de um intenso processo de industrialização e geração de empregos. Entretanto, passados mais de quinze anos, observa-se uma economia fortemente especializada na exportação de petróleo, minério e apoio à indústria offshore, enquanto boa parte das comunidades rurais e pesqueiras continua convivendo com perda de território, redução de atividades tradicionais e crescente dependência de empregos temporários e altamente seletivos.

Em Suape, diversos estudos documentaram deslocamentos populacionais, conflitos fundiários e profundas alterações nos ecossistemas estuarinos. No Pecém, a expansão industrial transformou comunidades pesqueiras e provocou intensas disputas pelo acesso ao litoral e aos recursos hídricos. Já o Porto Sudeste representa outro elo dessa cadeia exportadora baseada na mineração, cujo dinamismo econômico pouco se traduz em melhoria proporcional das condições sociais dos municípios vizinhos.

O problema não reside apenas na distribuição desigual dos benefícios econômicos. Nixon chama atenção para algo mais profundo: os enclaves produzem uma separação material e imaginária entre os espaços considerados úteis ao capital e aqueles vistos como descartáveis.

Os investimentos ficam concentrados  dentro dos limites cuidadosamente protegidos do enclave. Fora dele permanecem comunidades submetidas aos impactos ambientais, à pressão imobiliária, ao aumento do custo de vida, à fragmentação das redes sociais e à degradação dos ecossistemas. É difícil encontrar descrição mais precisa para aquilo que ocorre em muitos desses complexos portuários brasileiros.

No caso do Porto do Açu, essa lógica é particularmente evidente quando se observa a coexistência entre uma infraestrutura portuária altamente sofisticada e um entorno marcado pela precariedade de serviços públicos, pela persistência da pobreza e pela crescente restrição do acesso a áreas tradicionalmente utilizadas para pesca, agricultura e circulação comunitária.

Além disso, os enclaves contemporâneos também operam por meio de um sofisticado aparato discursivo. Sustentabilidade, inovação, transição energética, economia azul e desenvolvimento regional passam a compor uma narrativa institucional que frequentemente obscurece as profundas assimetrias produzidas por esses empreendimentos. Multiplicam-se programas de responsabilidade social, reservas privadas, projetos de conservação e ações de compensação ambiental que ajudam a legitimar a expansão do enclave sem alterar sua lógica fundamental de funcionamento.

Nesse sentido, a violência lenta descrita por Nixon é manifestada menos em grandes desastres ambientais do que na erosão contínua das condições que sustentavam a vida das populações locais. A perda gradual do acesso à terra, às lagoas, aos estuários, às áreas de pesca, às fontes de água e às redes de sociabilidade constitui um processo cumulativo de desterritorialização que dificilmente aparece nos indicadores tradicionais de desenvolvimento. Os grandes portos brasileiros certamente ampliaram a capacidade exportadora do país e fortaleceram sua inserção nos mercados globais. A questão que permanece aberta é outra: desenvolvimento para quem?

Quando observados a partir da perspectiva dos enclaves de recursos proposta por Rob Nixon, Pecém, Suape, Açu e Porto Sudeste deixam de aparecer apenas como exemplos de modernização logística. Eles revelam um modelo de desenvolvimento em que territórios inteiros são reorganizados para atender às demandas das cadeias globais de commodities, enquanto as populações que historicamente construíram esses lugares permanecem do lado de fora das cercas físicas e simbólicas que delimitam o enclave.

Talvez essa seja a maior contribuição da obra de Nixon para compreender a geografia contemporânea dos grandes portos brasileiros: mostrar que a violência nem sempre se manifesta em explosões, vazamentos ou acidentes espetaculares. Muitas vezes ela se instala silenciosamente, tornando invisíveis aqueles que vivem fora dos limites protegidos do enclave, mas suportam diariamente os custos sociais e ambientais de seu funcionamento.

Ética em pesquisa e IA generativa: por uma abordagem crítica e soberana

Por Deisy Ventura, professora títular da Faculdade de Saúde Pública da USP,  para o “Jornal da USP”

Impulsionada em escala global por grandes corporações estrangeiras, a vertiginosa generalização do emprego de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (IAGen) no cotidiano acadêmico traz importantes desafios éticos, em particular para a ética em pesquisa. Antes de abordar alguns deles, lembro que atualmente “80% das universidades brasileiras dependem de Google ou Microsoft”, como indica o Caderno Vozes da Ciência, recentemente publicado pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC). Resultante de um ciclo de debates do qual tive a honra de participar, este valioso documento formula 117 propostas para “o Brasil que queremos”, entre elas as que buscam assegurar a soberania digital e tecnológica brasileira.

O primeiro desafio que enfrentamos é resgatar a história da ciência. A atribuição às máquinas de tarefas outrora exclusivamente humanas inscreve-se em um longo debate sobre as relações entre ética, técnica e produção científica. Numerosos autores demonstraram como as tecnologias, impulsionadas por imperativos econômicos, avançaram de forma alheia, senão antagônica, à reflexão e ao pensamento crítico, deixando a ética isolada em algum rincão das ciências ditas sociais e humanas. Podemos escolher os anos 1970 para resgatar Hans Jonas, filósofo alemão que em diversas obras apontou a responsabilidade dos cientistas pelos efeitos devastadores do “progresso”, e o quanto a “novidade” (“o epíteto laudatório novo”) pode funcionar como salvo-conduto para agir sem precaução nem dever de prestar contas. Porém, muito antes de Jonas e outros tantos pensadores ocidentais, os povos originários já nos alertavam para a possível confusão entre avanço tecnológico e progresso humano; a repartição brutalmente assimétrica dos benefícios e danos oriundos da técnica; e o modo pelo qual, nas palavras de Ailton Krenak, estamos vendendo o amanhã – aliás, a um preço módico.

O segundo desafio é reconhecer que a IA não avança em ambiente “neutro”. A extração de grandes volumes de dados sem prévio consentimento esclarecido e sem contrapartida à altura; a presença de vieses em ferramentas aparentemente anódinas; e a subtração a modalidades de controle legal e social, do ponto de vista das big techs, constituem funcionalidades dessas tecnologias, e não disfunções. Todos sabemos que tais atributos servem não apenas aos vultosos lucros que envolvem a chamada “economia de dados”, mas também aos ecossistemas de desinformação dotados de financiamento bilionário e objetivos político-ideológicos ostensivos, que vêm desempenhando papel importante na crescente ascensão global das extremas direitas. Exceto pela escala e pela velocidade, tampouco estamos diante de uma novidade. O mesmo homem pode aceitar boquiaberto os mais fantasiosos relatos e rejeitar com desprezo as verdades mais solidamente estabelecidas, escreveu Marc Bloch em suas Reflexões de um historiador sobre as notícias falsas da guerra (1921). Soldado durante a Primeira Guerra e fuzilado pela Gestapo durante a Segunda, Bloch foi recentemente homenageado com a entrada simbólica no Panteão francês. Fascinado pela credulidade humana, concluiu que o sucesso de uma notícia falsa nasce de representações coletivas pré-existentes, como medos, ódios e preconceitos. Assim, o processo pelo qual mentiras deslavadas tornam-se grandes lendas não se explica pela ignorância, e sim pela existência de um ambiente favorável a elas. Lamento constatar que hoje, em matéria de plágio, fabricação ou falsificação de dados, considerados as más práticas científicas mais graves, enfrentamos um verdadeiro boom de empreendedorismo.

Isto nos leva a um terceiro desafio: discernir o modus operandi das big techs e de seus aliados, que compreende tanto a coerção como a propaganda. Começando pela imposição, muitos motores de busca, softwares e aplicativos que utilizamos cotidianamente não oferecem a opção de recusa à IA. Sendo condição de acesso aos conteúdos que de fato buscamos, ignorá-la exige um gesto contraintuitivo. Mesmo quando a desativação é possível, nem sempre temos o letramento necessário para fazê-la. Por outro lado, ao lidar com outros serviços públicos ou privados que impõem diferentes modalidades de IA, não raro sofremos um atendimento ansiogênico, redutor das demandas do cidadão ou consumidor a alternativas enviesadas, por vezes tornando impossível uma efetiva interação. Ademais, a persistente exclusão digital de diversos grupos é demonstrada em inúmeras pesquisas.

Sobre a propaganda, limito-me a abordar quatro de suas muitas dimensões. A primeira é o determinismo que apregoa a inexorabilidade da disseminação da IAGen: estaríamos diante de uma ruptura antropológica maior, de caráter irreversível. Todavia, colegas como Anne Alombert, filósofa e professora da Universidade de Paris 8, questionam a natureza desta ruptura, eis que a IA dá continuidade à externalização de funções humanas. Enquanto por meio dos algoritmos de recomendação externalizamos nossa capacidade de decidir o que ver, o que consumir, quem seguir etc., por meio da IAGen transferimos a sistemas probabilísticos a nossa capacidade de expressão. Modelos se expressam em nosso lugar por meio de categorias que não provêm de nossas trajetórias, sempre únicas, mas sim de cálculos sobre volumes de dados, orientados por critérios opacos e de rastreabilidade limitada ou inexistente. No artigo Curar a estupidez artificial, Alombert aponta os efeitos nefastos da generalização do uso subalterno da IAGen, entre eles a dependência cognitiva dos indivíduos: quanto menos exercemos a capacidade de triar e organizar as informações, a memória, a criatividade ou a busca de sentido, menos estamos treinados para pensar de forma autônoma. Além disso, o espaço simbólico é uniformizado pela “média”, paulatinamente eliminando singularidades, inclusive idiomáticas. Ao “fotocopiar indefinidamente a fotocópia”, favorece a esterilização cultural.

Na mesma direção, a cientista política de origem tunisiana Asma Mhalla, professora da Politécnica de Paris, autora do livro Cyberpunk: o novo sistema totalitário, se diz impressionada não com a suposta ruptura, e sim com o rolo compressor imposto pelas infraestruturas digitais, concentradas em um punhado de atores poderosos. A propalada irreversibilidade está sendo imposta na prática, por meio de imponentes pressões econômicas e políticas. Logo, a questão não é a máquina, e sim quem a governa ou desgoverna. A tecnologia deveria ser usada como um instrumento do bem comum, e não como ferramenta de dominação e exploração. Especialmente no meio universitário, creio que o argumento da suposta inexorabilidade serve para nos desalojar de nossa condição de sujeitos responsáveis, elemento central da ética, e obnubilar nossa capacidade de agir. Ambas precisam ser recuperadas não para que recusemos a tecnologia, e sim para que decidamos conscientemente quando, como e com que finalidade a utilizaremos, sempre avaliando com transparência e rigor os efeitos de seu uso.

Uma segunda dimensão da propaganda é a desqualificação sistemática de quem questiona o uso da IA, apontado como anacrônico, vetusto, reacionário ou tecnofóbico, responsáveis pelo “atraso” de nosso mergulho no admirável mundo novo da IA. A desqualificação contrasta, porém, com a seriedade e a competência de colegas como os do MIT (Massachusetts Institute of Technology) que demonstram a queda de desempenho nos níveis neural, linguístico e comportamental de pessoas que utilizam o ChatGPT em certas condições. Também é o caso dos profissionais que vêm comprovando nosso grau de dependência das infraestruturas tecnológicas externas, como pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB) que criaram um índice de soberania digital. Enquanto China, França, Rússia e Estados Unidos ocupam os primeiros lugares do ranking, grande parte de África, América Latina e Sudeste Asiático depende de um restrito clube de corporações estrangeiras, reproduzindo, sob o manto do “novo”, a velha clivagem Norte/Sul, levando a literatura acadêmica a falar de colonialismo de dados ou digital.

Uma terceira dimensão que atinge particularmente nossas agendas e métodos de pesquisa é a intensa propaganda sobre os benefícios da IAGen, que contribuiria para aumentar e acelerar a produtividade, em especial para lidar com grandes volumes de dados. Essas ferramentas se tornariam imprescindíveis para uma produção científica atualizada e de qualidade, e deveriam ser utilizadas também na avaliação da produção acadêmica. Aqui reconhecemos a disputa permanente pela definição do que é ciência e o legado colonial de importação de padrões de excelência.

Entre os incontáveis riscos da “excelência artificial”, sublinho que, no atual contexto de superficialidade e desatenção coletivas, decorrentes justamente do estágio de automação que alcançamos, é evidente a tolerância a sínteses incorretas ou enviesadas, a mediocridade e o reducionismo de textos, os erros crassos ou sutis de tradução, os mal-entendidos e as imprecisões técnicas. Quando apontados, rapidamente se opera a transferência de responsabilidades do sistema ao indivíduo: perguntas ou prompts é que teriam sido mal formulados; seria preciso “ensinar” ou “treinar” corretamente a IA; a falha seria da revisão etc. Diga-se de passagem, essas ferramentas, na verdade, não aprendem nem conversam, tampouco são inteligentes, razão pela qual Alombert prefere chamá-las de autômatos computacionais interativos, recusando metáforas antropomórficas que servem a naturalizá-las.

Neste ponto, urge recordar que o papel da universidade brasileira não é formar revisores de textos gerados por algoritmos, tampouco reproduzir de forma acrítica interesses de corporações estrangeiras ao facultar-lhes o acesso a lucrativos ou estratégicos acervos de dados arduamente construídos, inclusive com recursos públicos.

A quarta dimensão da propaganda alardeia que a regulação do uso da IAGen seria suficiente para evitar riscos e derivas. Ela enseja também um grande desafio, entre os tantos que o espaço de um artigo não permite abordar. Note-se que diversos defensores da suficiência regulatória são contratados por empresas de tecnologia ou conduzem pesquisas financiadas por elas, mas nem sempre declaram conflitos de interesse. Também é importante registrar que, apesar desta propaganda, na prática, as big techs investem agressivamente contra qualquer regulação, e igualmente contra juízes, tribunais e governos capazes de aplicá-la. Em qualquer caso, trata-se de uma ética a posteriori, ou seja, de princípios propostos após a comercialização massiva de ferramentas, muitos deles sendo violados de forma corriqueira até mesmo por quem os propõe.

Neste cenário, será decisivo o papel das Comissões de Ética em Pesquisa (CEPs), que precisam ter voz ativa nos processos regulatórios, não apenas pela função que desempenham, mas sobretudo pelas décadas de experiência que acumulam. No mês passado, tive a oportunidade de participar de um evento que abordou tais desafios regulatórios, organizado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, que reuniu as CEPs da USP, na atenta presença da Pró-Reitora, professora Maria Helena Palucci Marziale, com curadoria da professora Ana Paula Magalhães, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

No referido evento, compartilhei uma mesa com a pesquisadora Márcia Azevedo Coelho, da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica (Instituto de Estudos Avançados da USP), cujos estudos sobre o uso da IAGen nas escolas eu já admirava. Ela destacou os limites de iniciativas como a Portaria CNPq n. 2.664, de 6 de março de 2026, que apesar de representarem um avanço, não dão conta de problemas éticos importantes como o risco de dependência na formulação de problemas de pesquisa; o condicionamento epistêmico pelas limitações da ferramenta em uso; a análise de dados feita por meio de sistemas opacos, não rastreáveis e de reprodutibilidade incontrolada, podendo comprometer a validade dos achados, entre muitos outros. O depoimento de pesquisadores que usam a IAGen com a devida precaução é também importante, e por certo trará à luz novas dificuldades.

Desculpando-me de antemão pela analogia, o encorajamento acrítico do uso da IAGen no meio universitário faz lembrar a propaganda das Bets, ao pedir que pesquisadores “joguem com responsabilidade” na ausência de regras e controle adequados. As derrotas em cascata que se anunciam vão da dependência cognitiva individual à dependência tecnológica nacional. Mas há também o pêndulo percebido por Marc Bloch, a oscilar entre a credulidade inocente e a desconfiança generalizada. Mesmo letrados, podemos hesitar em nossa percepção do que é real ou artificial. Cresce o risco de perda da confiança na ciência, que induz a cidadania a renunciar ao usufruto de seus resultados. Por tudo isto, nossos desafios devem ser enfrentados com urgência, não apenas por especialistas em IA, mas por todos os pesquisadores, pelo Estado e pela sociedade brasileira.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados noJornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)


Fonte: Jornal da USP

Poluição sonora de turismo e embarcações afeta a comunicação de peixes em recifes, mostra estudo

O ruído produzido pelo turismo e por embarcações como lanchas e jet skis pode interferir diretamente na comunicação entre os peixes recifais, afetando atividades fundamentais para a sobrevivência dessas espécies, como reprodução, alimentação e defesa de território. Isso ocorre porque a poluição sonora encobre os sons emitidos pelos peixes, já que os ruídos ocupam a mesma faixa de frequência sonora que os animais utilizam para interações biológicas. As conclusões são de artigo publicado na segunda (20) na revista científica Neotropical Ichthyology por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A equipe cruzou dados sonoros e de observação obtidos em duas praias pernambucanas. Alef Morais/Unsplash

A equipe cruzou dados sonoros e de observação obtidos em pontos com diferentes tipos de exposição a atividades humanas em duas localidades turísticas no litoral de Pernambuco – a Praia dos Carneiros, que recebe turistas o ano todo, e Praia de Tamandaré, que tem pico de visitantes no verão. Os registros foram realizados em janeiro e fevereiro de 2022, período de alta temporada, e em abril de 2023. Os pesquisadores instalaram nesses pontos um sistema de gravação subaquática para captar de forma contínua todos os sons do ambiente.  Simultaneamente, um membro da equipe acompanhava na superfície todas as atividades humanas geradoras de ruído, enquanto mergulhadores realizavam censos visuais para verificar a composição da comunidade de peixes nesses locais.

O estudo identificou cinco tipos de poluição sonora nos locais amostrados – jet skis, lanchas, barcos de pesca, parapente motorizado e presença de banhistas, além de nove diferentes tipos de sons de peixes. Três desses sons emitidos pelos animais deixaram de ser registrados em locais expostos ao movimento humano. Ambientes mais ruidosos também tiveram redução de sua complexidade acústica – índice que mede a variação de padrões sonoros dos peixes ao longo do tempo.

Túlio Freire Xavier, pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE e um dos autores do artigo, explica que a poluição sonora pode impactar comportamentos importantes das espécies, como a atração de parceiros, a defesa de áreas de alimentação e outras interações sociais, comprometendo a estrutura das comunidades a longo prazo.

O censo visual registrou de 18 a 23 espécies diferentes em cada ponto de amostragem, sendo a família das donzelinhas a mais abundante. Xavier ressalta que os peixes da região são fundamentais para a saúde dos recifes de coral, contribuindo para processos como a ciclagem de nutrientes e a manutenção do equilibro das cadeias alimentares. “Esses recifes sustentam atividades importantes para a economia da região, como o turismo e a pesca artesanal. Portanto, quando a poluição sonora interfere no comportamento desses peixes, existe o potencial de afetar, ainda que de forma indireta, os serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem”, detalha o pesquisador.

Para a equipe, os dados do estudo reforçam a importância de englobar a poluição sonora como um dos fatores de planejamento e de gestão das áreas marinhas protegidas. “Como identificamos quais atividades geram maior interferência acústica e quais áreas são mais vulneráveis ao ruído, esses dados podem ajudar gestores na definição de estratégias como o ordenamento do tráfego de embarcações, a criação de áreas de menor velocidade para barcos, a delimitação de zonas mais sensíveis à atividade humana e até a definição de horários de uso turístico em períodos biologicamente importantes para os peixes”, explica Xavier.

O pesquisador aponta que, além de contribuírem para a geração de conhecimento científico, os resultados do trabalho vêm sendo compartilhados com gestores e comunidades locais. E com o intuito de dar continuidade ao monitoramento do impacto dos ruídos, os pesquisadores já atuam em um projeto de longo prazo em uma escala espacial maior na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais. “Nosso objetivo é que esse conhecimento possa contribuir para políticas públicas e estratégias de manejo que conciliem o uso turístico da região com a conservação da biodiversidade e da paisagem sonora dos recifes”, finaliza Xavier.

Quem desejar ter acesso ao artigo publicado na Neotropical Ichthyology  , basta clicar [Aqui!].


Fonte: Agência Bori