O alerta da rã-cachorro sobre agrotóxicos à base de glifosato

Estudo experimental sugere que agrotóxico pode alterar crescimento, desenvolvimento e provocar deformidades em girinos, com possíveis impactos em ecossistemas inteiros.

🌎 O alerta da rã-cachorro sobre agrotóxicos à base de glifosato Estudo experimental sugere que agrotóxico pode alterar crescimento, desenvolvimento e provocar deformidades em girinos, com possíveis impactos em ecossistemas inteiros. Texto de Edson Antonio Tanhoffer, Luana Wunsche, Marta Margarete Cestari e Mauricio Moura
Anfíbios anuros são mais vulneráveis a poluentes por terem fase aquática e outra terrestre, o que aumenta risco de contaminação. Na foto, subespécies de rã Physalaemus cuvieri. Fotos: Herpto.org/Reprodução
Por Edson Antonio Tanhoffer, Luana Wunsche, Marta Margarete Cestari e Mauricio Moura para Ciência UFPR 

 Há questões na vida que são falsas dicotomias. Um exemplo é a ideia de que se não aumentarmos a área plantada, não haverá alimentos para todos. Ou ainda, a de que se não se usar agrotóxico, não há como produzir alimentos em grande quantidade. São polêmicas infundadas porque é possível ter uma área plantada grande, diversificada e saudável, com uso de menos insumos. Mas isso implicaria a mudança da lógica dominante de plantio, a lógica do agronegócio.

Esse modelo, que recebe fartos incentivos fiscais, privilegia a produção de commodities, produtos de origem primária, de baixo valor agregado e voltados para exportação, além do aumento do capital privado em vez da preservação da natureza e da segurança e soberania alimentar das populações.

A questão dos agrotóxicos é particularmente sensível porque afeta o sistema de produção em todos os níveis e tem um peso econômico gigante com diversos interesses associados. O uso dos agrotóxicos também tem impacto na saúde humana e de uma diversidade de outros organismos. Então, a equação não é simples.

Os organismos vivos são bastante complexos e o grande desafio da química, de fármacos ou agrotóxicos é ser preciso quanto ao alvo de atuação de seus produtos. A indústria dos agrotóxicos desenvolve produtos tóxicos e que potencialmente envolvem riscos aos organismos vivos e aos ambientes ao quais estão associados.

O alto incentivo ao aumento do uso de agrotóxicos denota que essa indústria pouco considera tais efeitos nocivos. Estudos que avaliam a segurança dos agrotóxicos são de responsabilidade das próprias empresas desenvolvedoras, o que abre espaço para ações que garantam seus interesses, como o acúmulo de capital.

Uma forma de evitar esse conflito de interesse seria um processo de controle externo, acompanhado e determinado pelo Estado. Entretanto, no Brasil, os grandes latifundiários e as multinacionais do agronegócio possuem um forte poder político, tornando o país permissivo aos interesses desse setor.

É claro que um exame do comportamento ecotoxicológico das substâncias sob todas as combinações possíveis de fatores influentes é praticamente impossível e certamente inviável. Fato que demonstra que os estudos utilizados nos processos de avaliação de risco e liberação de uso são insuficientes, especialmente quando se tratam de substâncias utilizadas de maneira difusa, em grande escala.

Mas, dentro desse contexto, o princípio da precaução deveria prevalecer. Esse é um princípio moral e político que determina que, se há dúvidas sobre uma ação que pode originar um dano socioambiental severo, é recomendável que ela não ocorra. Nesse sentido, é necessário mostrar os efeitos nocivos em diversos grupos de organismos e de ecossistemas, forçando uma discussão ampla.

Rãs-cachorro são vulneráveis à contaminação da água

Como os organismos usualmente encontrados nos cultivos não se queixam, esse artigo tem por finalidade buscar ouvir as queixas de um deles, a rã-cachorro (Physalaemus cuvieri), sobre as ações de um herbicida com base de glifosato.

Esse anfíbio está amplamente distribuído pela América do Sul e muito embora tenham populações grandes e estáveis, encontra-se localmente ameaçado na Argentina, especialmente devido à perda e contaminação de áreas de ocorrência desta espécie pelo agronegócio.

Os anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas) são organismos com características bem particulares. O grupo recebe esse nome por possuir duas fases em seu ciclo de vida, uma aquática e outra terrestre. Os anfíbios foram os primeiros animais vertebrados terrestres e sobreviveram às grandes extinções, incluindo aquela que extinguiu os dinossauros.

Mesmo com essa história de sucesso, hoje é o grupo de vertebrados com mais risco de desaparecer, com aproximadamente 41% das espécies ameaçadas.

As atividades antropogênicas (aquelas derivadas das atividades humanas) são responsáveis por uma grande parcela do desaparecimento populacional. E, dentre estas atividades, o agronegócio tem grande importância, tanto pela expansão da fronteira agrícola (redução e fragmentação das paisagens naturais) quanto pela utilização do controle químico nos plantios (contaminação).

A contaminação por agrotóxicos talvez seja a mais agravante, uma vez que essas substâncias são formuladas para eliminar formas de vida e causam efeitos nocivos, que, nesse caso específico, podem passar despercebidos a grande parte das pessoas.

Os anfíbios anuros são particularmente susceptíveis, justamente por possuírem uma fase aquática e outra terrestre, o que aumenta a probabilidade de contaminação. Além disso, possuem a pele altamente permeável, o que facilita a absorção de diversas substâncias, incluindo os agrotóxicos.

Considerando que as poças dentro de cultivos ou no seu entorno têm pouco volume de água, os girinos nesses ambientes podem ser expostos a doses muito altas de agrotóxicos,  que são prontamente absorvidas, como o observado no caso do glifosato. Uma vez absorvido, o glifosato e produtos formulados possuem como efeito final para os girinos, o aumento da mortalidade, distúrbios no desenvolvimento, ou mesmo indução de malformações, o que levará a um menor sucesso reprodutivo do indivíduo adulto.

Esses efeitos só ocorrem se o agrotóxico interferir nos processos naturais de formação e manutenção do funcionamento do corpo dos organismos. Independentemente do efeito, a mensagem é direta: um produto químico pode alterar vias metabólicas de um organismo de maneira danosa.

Glifo o quê?

O glifosato é o agrotóxico mais utilizado no Brasil e no mundo, e um dos mais controversos com relação às suas propriedades toxicológicas e ecotoxicológicas. O volume de glifosato aplicado em campo tem aumentado expressivamente e assimetricamente em relação à área plantada nos últimos anos, principalmente após o desenvolvimento de cultivos transgênicos resistentes a esse herbicida.

Até o momento, os dados não demonstraram haver uma correlação positiva entre o uso desse herbicida e o aumento da produtividade agrícola. Pelo contrário, em um período de 12 anos, o uso do glifosato por hectares aumentou 124%, enquanto a produtividade cresceu 9,5%.

Existem ainda correlações positivas significativas em estudos epidemiológicos de casos de malformação e abortos em humanos que estão próximos a áreas de aplicação de herbicidas a base de glifosato. Em adição, estudos experimentais têm demonstrado efeitos de disrupção endócrina, tumores em mamas e danos nos rins e fígado.

O glifosato não é utilizado de forma isolada. Existem mais de 750 formulações comerciais, mas usamos no estudo o mais consumido em nível mundial. Embora alguns desses efeitos tóxicológicos sejam exclusivos do princípio ativo (o glifosato), ingredientes contidos nas formulações muitas vezes possuem também a sua própria toxicidade.

Desse modo, os estudos que avaliam exclusivamente o glifosato não garantem a segurança dos seus produtos formulados, como realizado muitas vezes pelas agências reguladoras. Resíduos de glifosato já foram encontrados em amostras do ar, da água da chuva e do abastecimento público, nos alimentos, no sangue, urina e leite humano, em várias regiões do mundo, incluindo o Brasil.

Embora os resultados na literatura científica independente (não vinculados à indústria de venenos) e da ciência regulatória (oficial) sejam muitas vezes controversos, crescem as evidências dos efeitos adversos do glifosato e seus produtos formulados sobre a saúde humana e de muitos outros organismos.

Com base nessas evidências, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), órgão da Organização Mundial da Saúde (OMS), reclassificou o glifosato como provável carcinógeno em humanos. No Brasil, no entanto, após ter permanecido ao longo de dez anos em reavaliação, o glifosato teve sua manutenção no mercado brasileiro mantida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em 2019.

Portanto, dada a escassez de estudos e as incertezas dos impactos desses pacotes tecnológicos sobre o conjunto de seres vivos e do ambiente ao qual estão associados, torna-se necessário ampliar nossos conhecimentos sobre os efeitos destas substâncias. Com isso, espera-se fortalecer os debates e decisões em torno da liberação de uso destas substâncias, com base em novas evidências. Para abordar essa questão, pretendemos determinar o efeito do agrotóxico sobre atributos da história de vida e incidência de malformações em girinos de rã-cachorro.

Como fizemos nosso estudo?

Foi realizado um experimento de 12 dias, com o intuito de avaliar efeitos que possam aparecer ao longo do desenvolvimento das rãs, como malformações e alterações da forma. Nesse experimento, repetido 5 vezes, foram utilizados três aquários de vidro contendo as seguintes concentrações de glifosato:

T1 = 0.28mg.L-1;
T 2 = 2.8mg.L-1;
T 3= 4mg.L-1.

Além de um grupo controle negativo (CN), sem a exposição ao agrotóxico, que possibilita analisar os possíveis desvios da normalidade. Essas dosagens representam concentrações ambientalmente relevantes, ou seja, possíveis de serem encontradas nos ambientes que esses organismos ocupam e onde se reproduzem.

Para o estudo de malformações e desenvolvimento, um total de 80 indivíduos foram analisados através da utilização de uma lupa e paquímetro (instrumento utilizado para medições). Em cada girino, foram avaliados quatro parâmetros:

1) Desenvolvimento;
2) Crescimento;
3) Morfologia do disco oral;
4) Pigmentação.

Esse parâmetros foram escolhidos por possuírem impacto na sobrevivência dos girinos e no sucesso reprodutivo dos adultos.

O que descobrimos?

O agrotóxico foi capaz de afetar igualmente as taxas de desenvolvimento e crescimento dos girinos, de forma que, quanto maior a dose, menor e mais novo era o girino. Ou seja, maior era o efeito do agrotóxico sobre essas características. Ainda, observamos um aumento na incidência de deformidades no disco oral, como dequeratinização, fusão de lábios ou ausência de lábios, dentículos e papilas.

Da mesma forma, foram notadas diferenças na pigmentação da pele dos girinos. Essas diferenças estão relacionadas ao tamanho, morfologia e desenvolvimento das expansões ramificadas (processos dendríticos) das células pigmentares.

Mas o que dizem esses resultados?

Indicam que o agrotóxico foi capaz de alterar as taxas de crescimento, desenvolvimento e produzir deformidades em girinos de rã-cachorro. E como o agrotóxico afeta o crescimento e o desenvolvimento? Uma possibilidade são os custos da detoxificação e reparação de tecidos, pois os danos causados pelo agrotóxico nos tecidos, como brânquias, fígado e rins, têm como consequência um deslocamento energético para a reparação desses danos.

Este processo leva a uma grande redução das reservas energéticas, que podem trazer prejuízos para outros processos fisiológicos importantes, processos esses que envolvem o funcionamento e a manutenção da vida, como o crescimento e o desenvolvimento.

Outra possibilidade é a quebra das vias neuro-endócrinas, já que o glifosato é considerado um desregulador endócrino. Essas vias bioquímicas regulam diversos processos que estão também relacionados, dentre outras funções, ao crescimento e desenvolvimento.

E, com relação às alterações nas células pigmentares e malformação do aparato bucal? As alterações nas células pigmentares encontradas estão relacionadas a danos provocados pelo Roundup no citoesqueleto, o que prejudica a formação das expansões dendríticas e consequentemente o transporte dos pigmentos no interior das células. Dessa forma há uma redução da cobertura pigmentar.

E qual seria o impacto? A pigmentação tem função ecológica sob diversos aspectos, como a camuflagem. Alterações no padrão de pigmentação podem alterar interações ecológicas, como a predação e a seleção sexual. Já as malformações no aparato bucal impactam tanto a alimentação quanto funções sensoriais. Portanto, quebras nos padrões biológicos encontrados podem levar a mudanças de alto significado ecológico para os indivíduos, com implicações na sobrevivência dos girinos e no sucesso reprodutivo dos adultos e assim afetar a dinâmica populacional. Esses impactos podem também interferir em outros níveis da hierarquia ecológica, como as comunidades e os ecossistemas.

Independentemente se é possível ou não relacionar os mecanismos bioquímicos e fisiológicos de atuação do agrotóxico sobre as alterações morfológicas e de crescimento encontradas, o fato é que existe um efeito nocivo potencial do agrotóxico da marca testada nos girinos.

Isso demonstra que organismos não alvo podem ser afetados pelo agrotóxico. Embora não contemplados na maioria das legislações mundiais, os anuros podem ser um grupo importante a ser avaliado, especialmente devido às suas características particulares e seu grau de vulnerabilidade.

A cada conhecimento adicional relacionado aos fatores que afetam a sobrevivência e reprodução dos indivíduos desse grupo que sofre taxas alarmantes de extinção, são importantes em uma abordagem da preservação das espécies e ambientes associados. Além disso, como são componentes fundamentais dos ambientes aquáticos, possuem potencial para serem utilizados como bioindicadores da saúde desses sistemas.

Autores

EDSON ANTONIO TANHOFFER é docente no Departamento de Anatomia da UFPR

LUANA WUNSCHE DE ALMEIDA é bióloga e mestra em Ecologia e Conservação pela UFPR

MARTA MARGARETE CESTARI é professora titular no Departamento de Genética da UFPR, onde coordena o Laboratório de Citogenética Animal e Mutagênese Ambiental (Labmuta)

MAURICIO MOURA é professor no Departamento de Zoologia da UFPR e coordenador do Laboratório de Dinâmicas Ecológicas

Edição: Lívia Inácio

➕ Leia detalhes na dissertação Efeito do Roundup sobre as variações morfológicas de girinos de rã-cachorro (Physalaemus cuvieri Fitzinger, 1826), defendida por Luana Wunsche de Almeida no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação (PPGEco) da UFPR


📌 Conteúdo elaborado na disciplina de divulgação científica do PPGEco/UFPR

🌎 A Ponte com a Ciência é a editoria especializada em divulgação científica da Ciência UFPR. Nela, cientistas da UFPR puxam conversas sobre temas de seus estudos. Textos e argumentações são próprias dos autores. Saiba como enviar seu texto 


Fonte: Ciência UFPR

A neoliberalização das universidades federais

A universidade federal não foi privatizada, mas neoliberalizada: o orçamento encolheu, a competição por emendas e parcerias cresceu, e o mimetismo da gestão privada corroeu a colaboração e a excelência, sem que um debate público sobre esse destino fosse travado

Por Nuno Teles para “A Terra é Redonda”

As universidades federais encontram-se em uma encruzilhada. Fruto de um processo lento, mas inexorável, de degradação, a missão e funções da universidade estão sendo paulatinamente transformadas sem qualquer debate e deliberação públicos e políticos. No entanto, a discussão política na sua gestão pode parecer difusa, senão mesmo artificial e forçada, sobretudo em ano eleitoral. Afinal, dentro da universidade são poucas as vozes que defendem o fim do seu caráter público e da sua gratuitidade.

As discussões e disputas políticas sobre modelos de gestão universitária, sobretudo no que toca ao seu financiamento e funcionamento, podem parecer meras variações de um consenso na defesa do caráter público do ensino superior. Não são. Estas são disputas sobre o significado, presente e futuro, de universidade federal na sociedade brasileira.

Como tem sido reiteradamente apontado pelos estudos sobre neoliberalismo, a questão primordial não é, nem nunca foi, a do espantalho do laissez-faire, isto é, de “menos Estado” face à propriedade privada, coordenada pelo mercado. Os últimos quarenta anos mostram que o peso da despesa pública na economia, medida enquanto produto interno bruto, não se alterou significativamente. O que, de fato, mudou foi o funcionamento do Estado no seu esforço de privatizar os ativos apetecíveis ao capital e, sobretudo, na construção de novos mercados, da saúde à educação.

De forma mais perversa, impôs-se no seu próprio seio um mimetismo do funcionamento do mercado e da administração privada — entendida como mais eficiente —, denominado “Nova Gestão Pública“. Estas diversas dimensões, em sua forma mais despudorada, foram apresentadas para a universidade federal por meio do programa “Future-se“, em 2019.

Graças à mobilização das universidades, o “Future-se” foi derrotado. Porém, a derrota política esteve longe de ser uma derrota ideológica. O neoliberalismo não é um programa político estático. Ele é um projeto de sociedade que, corroendo as bases não mercantis de provisão, tem a necessária plasticidade adaptada às condições políticas de cada momento. Assumindo o caráter eternamente inacabado do neoliberalismo, é mais frutuoso entender a evolução recente do ensino superior brasileiro como processo de neoliberalização em curso, contraditório, com avanços e recuos, mas com sentido único.

2.

Os avanços e recuos da neoliberalização do ensino superior no Brasil estiveram bem patentes na forma como a dinamização da oferta pública de ensino superior coincidiu com a criação e explosão de um mercado de educação superior, onde o apoio financeiro do Estado foi, e continua sendo, vital. A oferta pública conseguiu democratizar não só o acesso ao ensino superior, mas a própria universidade federal.

É certo que a universidade deixou de ser o ponto focal da hegemonia ideológica das elites desde a luta contra a ditadura, promovendo o pluralismo intelectual crítico. Todavia, foi a sua expansão e as ações afirmativas que realmente democratizaram a universidade federal ao integrar no seu corpo discente as classes populares como público majoritário. Infelizmente, face a um crescimento exponencial do ensino privado, esta expansão não se refletiu numa apropriação popular e política deste instrumento de emancipação social.

Hoje, mais de 70% dos estudantes estão no ensino privado. A lógica do mercado privado de ensino, onde a educação é um mero diploma com valor no mercado de trabalho e o estudante um “consumidor”, prevaleceu na sociedade como um todo, privando a universidade pública de apoio político.

Concomitantemente, um quadro de austeridade orçamentária permanente, inscrito em lei pela lógica econômica neoliberal — seja no “teto de gastos”, seja no “arcabouço fiscal” —, impediu que a expansão do ensino público fosse acompanhada por níveis de investimento adequados nas diversas missões que lhe são atribuídas no ensino, na pesquisa e na extensão.

A degradação das estruturas físicas, do apoio social à permanência dos estudantes e das carreiras dos seus servidores criam uma profunda descrença e cinismo em relação à promessa da universidade democrática e um clima de competição por recursos cada vez mais escassos entre docentes, discentes e técnicos. Crescentemente afastados ficam os princípios da estabilidade, da reciprocidade e do trabalho colaborativo que devem reger a provisão de educação. Nunca foi por meio de incentivos pecuniários que se atingiu a excelência acadêmica.

O neoliberalismo da competição de mercado por recursos e a rentabilização de ativos como princípios de organização da provisão de ensino superior semeiam as condições para a desigualdade e mediocridade no ensino superior, mesmo em um quadro por enquanto de propriedade pública e acesso gratuito.

A mesma lógica é observada na “captação” de recursos de empresas junto do mercado. Abdicando da colaboração com o setor privado, onde o Estado age como disciplinador e organizador do capital privado em prol do bem comum, assistimos à predação do conhecimento das universidades que, devido à sua penúria, se colocam numa posição de necessidade e subordinação.

É verdade que as alterações na economia contemporânea tornam o conhecimento e a acreditação da qualificação dos trabalhadores, crescentemente mercadorizados, ativos apetitosos para as empresas. Contudo, a pesquisa fundamental, a pesquisa em campos de conhecimento dificilmente mercadorizados, como as artes e humanidades, fica desvalorizada neste quadro, criando novas desigualdades entre e dentro das universidades.

3.

A mercadorização da pesquisa e do ensino é exacerbada pela vulnerabilidade dos estudantes sem adequado apoio social. Com uma crescente percentagem de estudantes obrigados a trabalhar por um salário, é inevitável que as suas demandas estejam concentradas naquilo que são os imperativos do mercado de trabalho, na sinalização da sua qualificação, agindo como consumidores de “ensino”. A formação voltada para as competências gerais e cidadania, úteis ao longo da vida, é substituída pela preferência por formações profissionais, úteis no curto prazo, mas que se tornarão rapidamente obsoletas na voragem do mercado.

Finalmente, o mimetismo de mercado não é só visível na competição e na alocação de recursos, mas também na administração cada vez mais parecida à de uma grande empresa. No quadro acima descrito, as burocracias tornam-se cada vez mais necessárias e poderosas — muitas vezes em sua forma parapública, como nas fundações — na captação e gestão de recursos. Por outro lado, exige-se que reitores e pró-reitores se comportem como CEOs, concentrando funções de corte de custos, de negociação de contratos e de atração de financiamento.

A universidade passou a gestora de ativos, intangíveis — quando falamos de conhecimento e diplomas —, e também de ativos tangíveis, quando falamos do enorme patrimônio imobiliário que boa parte das universidades federais detém. Esta confusão de princípios administrativos, onde o público e o privado se misturam, dá necessariamente azo à desorientação e ineficiência, refletida nos graves problemas administrativos com que docentes, discentes e técnicos se confrontam diariamente.

Nenhuma destas lógicas mercantis que vão permeando a universidade brasileira é nova no panorama internacional. A neoliberalização das universidades, obedecendo às especificidades históricas e institucionais de cada país, é uma realidade facilmente identificável na Europa e, na sua forma mais avançada, nos EUA.

Conseguimos vislumbrar o nosso provável futuro nos problemas vividos pelas universidades destes países: desigualdades crescentes entre universidades — medidas em rankings de proveniência duvidosa —; incrustamento dos interesses privados na sua administração; precarização de boa parte do corpo docente; desvalorização do ensino; dependência financeira de investimentos no mercado financeiro, entre outros.

Por outro lado, ainda que a autonomia universitária se tenha esboroado face ao mercado, as recentes notícias mostram que tal reconfiguração universitária não se traduz em qualquer perda de poder do Estado. Recentemente, algumas das mais bem-sucedidas universidades norte-americanas — Harvard ou Columbia, com conselhos de administração repletos de bilionários — rapidamente abdicaram da sua autonomia perante as demandas e a chantagem financeira da administração de Donald Trump.

Com os olhos no que se passa em outros países, a trajetória recente da universidade federal convoca, pois, os seus docentes, discentes, servidores técnicos e funcionários terceirizados para uma reflexão profunda em relação aos caminhos futuros da universidade. A encruzilhada é real. Universalidade e gratuitidade têm que estar aliadas a uma cultura de rigor e excelência no ensino, na pesquisa e na extensão. Este desiderato só é atingível com recursos públicos que obedeçam a um projeto claro e transparente de universidade, enquanto projeto coletivo de toda a sociedade brasileira.

Nuno Teles é professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA).


Fonte: A Terra é Redonda

Sobre os 30 anos do massacre de Eldorado dos Carajás

Estamos no mês de abril. E com ele, a lembrança dos 30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás. Uma importante marcha promovida pelo MST no mesmo local, homenageia o triste episódio. Não cobri o massacre em si, morava em Rondônia à época, mas atuei como repórter em todo o julgamento do caso. É uma lembrança reflexiva que faço agora

Por Ismael Machado*

Conflitos de terra (e água) no Pará são comuns e quase sempre os principais motivos para crimes hediondos no chamado interior do Estado. O massacre de Eldorado dos Carajás é um desses capítulos sangrentos da história de violência pela Reforma Agrária. Cobri as diversas sessões de julgamento do episódio no período. Eu era correspondente do Jornal do Brasil em Belém e repórter de O Liberal. Antes disso, eu havia feito a cobertura do massacre de Corumbiara em Rondônia, como repórter televisivo. Eu trabalhava na TV Rondônia, afiliada da Rede Globo.

Corumbiara chamou a atenção nacional, mas alguns meses depois seria suplantada por Eldorado dos Carajás. Fiz essa reportagem (sobre a chacina em Rondônia) junto ao cinegrafista Laelho Barbosa e ao operador de VT Gideone Barroso. Lembro do depoimento de uma menina de 12 anos, descrevendo o terror vivido por ela, tendo de correr pela própria vida e vendo pessoas morrendo ao redor. Em determinado trecho da reportagem, eu afirmava que geralmente crianças de seis, oito anos, costumam brincar, andar em segurança com os pais. Na passagem de vídeo, eu complementava: ‘pois na semana passada, crianças de seis, oito anos, tiveram que correr como nunca, se embrenhar na mata e esquecer que eram crianças para tentar uma coisa básica. Sobreviver’. Ao fundo, um menino sobrevivente, com um caminhão de brinquedo nas mãos.

Quando ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás, eu ainda morava em Porto Velho. Li as reportagens sobre o assunto. Vi as matérias na televisão. No ano seguinte (1997) eu voltaria a Belém. Dois anos depois, já como repórter de O Liberal e correspondente do JB, eu cobriria o julgamento dos militares envolvidos no caso.

No Liberal o assunto era tratado com muito cuidado político. Com tendência conservadora, o jornal não podia fugir do assunto, já que não dava para simplesmente ignorar, mas buscava não ferir suscetibilidades, principalmente a do então governador Almir Gabriel, do PSDB que, para muitos, deveria sentar no banco dos réus. O governador tinha o apoio do matutino, que mantinha rivalidade comercial e política com o Diário do Pará, da família Barbalho, ligada ao (P)MDB.

Às vésperas do julgamento, Paulo Silber, o editor de Cidades/Atualidades, incumbiu-me de produzir uma página sobre o tema. Na edição, fizemos um pequeno perfil dos promotores e dos advogados de defesa. Reproduzimos o que seria o Tribunal de Júri para dar ao leitor uma ideia de como era o ambiente de julgamento. Explicamos como se daria, com a escolha dos jurados, os primeiros dias de sessão etc. Todo esse cuidado tinha razão de ser. Eldorado dos Carajás mobilizara entidades de defesa dos direitos humanos do mundo inteiro, além de atrair a atenção da imprensa mundial, sendo chamado de ‘O Julgamento do Século’. Além disso, o leitor do jornal não estava familiarizado com julgamentos desse porte em Belém. Fomos quase didáticos na apresentação.

Silber destacou três repórteres para a cobertura. Eu, Tatiana Ferreira e Carlos Mendes. Assim como eu, Mendes também produziria matérias para fora, no caso a Agência Estado. Tatiana era uma das mais competentes e esforçadas repórteres da editoria, o que justificava sua escolha também.

A cobertura jornalística foi um aprendizado. Cheguei a dar um furo no meu concorrente externo, O Globo, que havia escalado o repórter Rodrigo Taves para cobrir o julgamento. Talvez graças a isso, três anos depois Taves lembraria meu nome para indicar como correspondente do jornal para a Amazônia. Permaneci de 2002 a 2007 nessa função.

Logo de início conheci e estabeleci uma parceria de informações com a repórter Mariluz Coelho, que fazia a cobertura para o SBT local e nacional. Fechamos acordo de passar informações novas que um obtivesse e o outro não. Assim, ao contrário dos outros repórteres, era como se estivéssemos em dois lugares ao mesmo tempo. Trocávamos ideias, comparávamos o que tínhamos e analisávamos os fatos apurados.

No primeiro dia de julgamento, eu e Carlos Mendes entrevistamos Américo Leal, um dos advogados de defesa, e ele nos profetizara: “o julgamento estava no papo”. Essa declaração foi reproduzida depois na edição especial da revista Caros Amigos sobre o massacre.

Uma das curiosidades a respeito do julgamento de Eldorado foi a palavra ‘massacre’, sempre suprimida no Liberal. Ninguém chegou aos repórteres informando ou determinando que essa palavra não pudesse ser usada. Usávamos, mas no dia seguinte, ela sempre estava substituída por conflito ou confronto.

A palavra é o que nos distingue. Segundo Mayra Rodrigues Gomes, autora do livro “Jornalismo e Ciências da Linguagem”, “há algo negligenciado nas reflexões sobre jornalismo. Antes de registrar ou informar, antes de ser discutido por meio de categorias como universalidade, atualidade ou difusão, o jornalismo é ele próprio um fato de língua”. Ou seja, quando a palavra “massacre” desaparecia de nossos textos e era substituída por palavras mais amenas, como conflito, havia um posicionamento ideológico por parte do jornal. Segundo o dicionário Aurélio, conflito é ‘luta, combate/ guerra/ desavença, discórdia’. Já confronto é algo semelhante a paralelo e comparação/ briga. No mesmo dicionário, massacre é ‘morticínio cruel’.

Há diferenças gritantes entre esses conceitos. Tanto conflito como confronto pressupõem ter havido um equilíbrio de forças entre os trabalhadores rurais e os policiais militares. O saldo final de mortos e feridos mostra o contrário. E o fato de grande parte dos agricultores ter sido executada com tiros na nuca também é sintomático de que Eldorado dos Carajás foi algo mais que uma luta, combate ou briga. Era dessa forma sutil que o jornal marcava sua posição em relação a Eldorado. De nossa parte, repórteres, garanto não termos praticado em nenhum momento a autocensura. Escrevíamos ‘massacre’ diariamente. E diariamente líamos conflito/confronto.

foto: João Roberto Ripper

Mas o fato é que trinta anos passaram e a estrada continua lá. A curva do ‘S’ segue no mesmo lugar, cortando o sudeste do Pará como se nada tivesse acontecido. O Brasil, não. O país mudou. Lembro, com certo asco, que no meio da campanha presidencial de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro foi até o local e defendeu entusiasticamente que mais pessoas deveriam ter sido assassinadas naquele fatídico dia. Foi aplaudido pela claque presente.

Era e é um sinal dos tempos. Em 1996, quando a Polícia Militar abriu fogo contra os militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em Eldorado dos Carajás, a disputa política existia e era áspera. Havia rejeição ao movimento, como sempre houve, críticas às ocupações, um medo alimentado por proprietários e seus porta-vozes, os mesmos que agora lutam contra a escala 6×1. Mesmo assim, o que se viu no asfalto da rodovia ultrapassou a trincheira ideológica. A execução de camponeses praticamente desarmados produziu repulsa que não cabia na retórica da ordem. O país discutiu a ação policial e não comemorou explicitamente, pelo menos, o resultado.

A televisão repetia as imagens. Os jornais impressos estampavam corpos no chão. Não havia como fingir que se tratava de confronto equilibrado. O excesso era visível. A violência tinha nome e o Estado foi cobrado. Ainda que a justiça tenha caminhado de forma lenta e incompleta, houve constrangimento público. Ninguém disputava a narrativa para transformar mortos em ameaça neutralizada.

 

Manchetes como essa, mostram que casos desse tipo ainda ensejavam repúdio. Hoje, talvez não.

Nos dias atuais, quando conflitos agrários terminam em sangue, a reação costuma nascer fracionada. Antes da compaixão vem a filtragem. A vítima é submetida a julgamento sumário nas redes. Se militava, se ocupava, se protestava. A biografia vira sentença. A morte deixa de ser tragédia compartilhada e passa a ser episódio útil para alimentar bolhas nas redes digitais. É só lembrar o que tentaram fazer com a imagem de Marielle Franco e é só pesquisar as frases do deputado e ex-delegado Éder Mauro quando da Chacina de Pau d’Arco, em 24 de maio de 2017, em que dez trabalhadores rurais– nove homens e uma mulher — tiveram suas vidas brutalmente interrompidas em uma ação criminosa praticada por policiais militares e civis do estado do Pará. Mesmo com evidências claras e inequívocas de chacina, o deputado da extrema-direita chamou o relatório sobre o episódio de ‘fantasioso’. Quase sai aos tapas com o deputado Carlos Bordalo, do PT, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) por conta de divergências sobre o conteúdo do relatório. O documento concluiu que a polícia violou direitos humanos, desobedeceu a protocolos legais e descaracterizou a cena de crime. Ou seja, repetia Eldorado dos Carajás.

A questão atual, ou uma delas, é que o ambiente digital reorganizou a sensibilidade coletiva. A indignação tornou-se segmentada. A timeline entrega versões moldadas ao gosto do usuário. O que não confirma crenças pessoais é descartado. Nesse circuito, a violência pode ser enquadrada como correção necessária. Comentários celebratórios aparecem sem pudor. O linchamento simbólico antecede qualquer apuração.

Não se trata apenas de avanço eleitoral da extrema direita, embora ele pese. O que se consolidou foi uma cultura política que transforma adversário em inimigo interno, algo que se formos buscar com cuidado, já aparece na época da ditadura militar com a Doutrina de Segurança Nacional. O campo, sempre território de conflito, converteu-se também em palco de demonstração de força discursiva. Morrer vira prova de que o Estado agiu. A linguagem militariza o debate. E nem precisamos ir ao campo, à zona rural. O governador Cláudio Castro, afastado por corrupção no Rio de Janeiro, fez de uma ação policial com mais de uma centena de mortos, uma vitrine eleitoreira. São Paulo e Bahia também seguem o mesmo diapasão, com direita e esquerda apertando as mãos no gatilho nessas horas.

Há trinta anos, a crítica preconceituosa ao MST convivia com a percepção de que a polícia cruzara um limite. Hoje, essa crítica muitas vezes se mistura ao aplauso da repressão. A fronteira moral foi deslocada à direita. A ideia de direitos humanos perdeu centralidade em parte do imaginário social. Em seu lugar entrou a lógica do merecimento. Quem merece viver. Quem provocou a própria morte (que o digam as mulheres vitimadas pela violência nesse país). Quem estava do lado errado da cerca. Na minha concepção de pensamento, também devemos isso aos programas policialescos na televisão, com seus bordões de ‘bandido bom é bandido morto’, ‘CFPs cancelados’ etc. O próprio delegado Éder Mauro ganhou notoriedade junto a um tal coronel Neil a partir de uma parceria estranha com um desses programas, onde até uma minicâmera era colocada nas metralhadoras e fuzis desses ‘guardiões da segurança’. Edição sim, outra também, os dois eram elogiados na tela pelo apresentador como se fossem paladinos da justiça. Ambos se elegeram parlamentares.

A memória do Massacre de Eldorado dos Carajás expõe essa mudança menos pelo passado e mais pelo contraste atual. Em 1996, houve quem atacasse o movimento e, ainda assim, reconhecesse a violência. Hoje, há quem veja cenas semelhantes e procure justificativa imediata. A diferença não está só na política institucional. Está na forma como a sociedade reage ao sofrimento que não é seu.

Quando, por conta desse projeto, voltei às minhas próprias matérias sobre o julgamento do Massacre de Eldorado dos Carajás, o que mais me chamou atenção não foram as frases ditas, mas os silêncios, o que não estava exposto. Eu escrevia para esses dois veículos, como disse antes. O registro era sóbrio. Havia a obrigação de narrar o que acontecia dentro e fora do plenário. Eu evitava adjetivos, por óbvio. Deixava as contradições falarem.

Lembro de abrir no meu primeiro texto com cartazes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra espalhados por Belém. Não comecei pelo rito formal do júri. Comecei pelo clima. Era uma maneira de situar o leitor no ambiente político que cercava o julgamento. A cidade estava marcada pelo caso. Foi montado acampamento de militantes na Praça Eneida de Moraes, próxima ao local onde se daria o tribunal do júri. Havia tensão na porta da Unama, a universidade particular que cedera seu auditório para o julgamento. Havia expectativa de o país estar olhando. E estava. O Brasil acompanhava a tudo sob o filtro de seus principais telejornais.

Dentro do auditório, os oficiais se diziam inocentes. O coronel Mário Pantoja afirmava não ter visto cadáver algum. O major José Maria Oliveira dizia ter visto seis corpos. Um dizia ter ordenado socorro. O outro afirmava o mesmo. Nenhum assumia disparos. Pelos depoimentos dos cerca de 150 soldados, ouvidos de forma uniforme, ninguém atirou. Aliás, todos atiraram, mas para cima. Ainda assim, pelo menos dezenove trabalhadores foram mortos na curva da estrada em Eldorado dos Carajás. Um promotor chegou a ironizar, afirmando que talvez por isso houvesse tantos tiros na nuca. As balas, em sua trajetória descendente, atingiam as cabeças dos sem-terra. Só isso explicaria a façanha de termos praticamente duas dezenas de mortos e nenhum atirador.

Eu relatava as contradições de forma quase protocolar. Um oficial desmentia o outro. A defesa recusava juradas mulheres. O promotor ironizava a versão dos comandantes. O governador aparecia apenas como testemunha, sendo ouvido em sua residência oficial, uma aprazível chácara numa zona periférica do município de Ananindeua. Tudo estava ali, na superfície dos fatos. O leitor podia perceber o desalinho entre discurso e realidade sem ser preciso sublinhar. Pelo menos essa era a minha ilusão. Na verdade, percebi que entre o que eu pensava ser justo e o que era enxergado dessa forma, havia uma distância imensa. Acompanhando uma passeata dos sem-terra iniciada em São Braz, atravessando a cidade e encerrando na pracinha em frente ao Tribunal de Justiça, testemunhei duas pessoas funcionárias do TJE, um homem e uma mulher, bem vestidos, na varanda do prédio, fazendo o conhecido gesto ‘top top’, aquele indicando que uma pessoa se ferrou (não é essa a palavra, mas vocês entenderam). Eu estava com o saudoso fotógrafo Ary Souza e comentei o fato de ver pessoas do TJ assumindo essa postura. Era um sinal claro para que lado a Justiça bambeia suas pernas na maioria das vezes.

Dias depois, quando o julgamento foi suspenso por mais um recurso, abri a matéria destacando ter a sessão durado dez minutos. A frustração estava no dado objetivo. O reinício que não recomeçava. O promotor arguindo suspeição do juiz. Acusações de parcialidade. A presidência do Tribunal sugerindo que o julgamento do século ficaria para o século seguinte. A plateia diminuindo. O acampamento esvaziando. A cidade já menos mobilizada.

Naquele momento eu ainda escrevia como repórter que observa. Registrava o embate jurídico, a troca de acusações, o rumor de suborno envolvendo um jurado. A narrativa era contida. O que estava em jogo era a condução processual. O centro da cobertura era o tribunal e seus holofotes. Lembro o então deputado Babá, oriundo da militância na Convergência Socialista, adentrando a plenária do júri e xingando o então juiz do caso, Ronaldo Valle, causando um alvoroço e saindo em seguida, deixando todo mundo atônito no local. Lembro também a postura estranhíssima do jurado Sílvio Queiroz Mendonça, seja em alguns rumores (não comprovados) de ter oferecido suborno a outros jurados, seja na postura adotada durante o julgamento, quase afirmando a tese de legítima defesa dos policiais. Tudo isso esteve ali, naqueles dias.

Anos depois, quando a revista Cadernos do Terceiro Mundo me pediu um texto interpretativo, a chave mudou. Já não bastava relatar o acontecido no plenário. Era preciso ligar as sessões ao desfecho político. O título “Massacre Impune” não deixava margem para neutralidade. A absolvição em massa, a liberdade concedida aos condenados e o esvaziamento da mobilização nacional compunham um quadro mais amplo.

Ali eu articulei o que, na cobertura diária, aparecia em fragmentos. A seleção de jurados com vínculos com o Estado. O acesso restrito ao tribunal. A repetição mecânica da pergunta aos policiais e a resposta idêntica. Ninguém atirou. Ninguém viu. As fotos dos mortos não alteraram o veredito. O julgamento caminhou para uma absolvição coletiva que produziu sensação de encenação.

Hoje, relendo esse material, percebo que a mudança maior está na atmosfera pública que cercava o caso. Em 1999, quando o julgamento teve início, houve presença de lideranças nacionais. Nomes graúdos da esquerda, como o próprio Lula. Houve debate sobre direitos humanos e receio de condenação internacional. A própria ideia de que o Brasil poderia ser responsabilizado fora de suas fronteiras tinha peso simbólico.

Quando o interesse arrefeceu e o plenário ficou quase vazio na leitura final da sentença, escrevi sobre o anticlímax. Era um modo de registrar o desgaste da memória. O massacre que mobilizara o país tornava-se assunto restrito a poucas pessoas, militantes e alguns jornalistas. Ainda assim, a palavra impunidade carregava sentido coletivo. Havia certo constrangimento.

Três décadas depois do massacre, sinto ter mudado o modo como a sociedade reage a episódios de violência no campo e nas cidades. Naquela época, mesmo com críticas ao MST, a execução de trabalhadores produziu comoção ampla. O julgamento era acompanhado como teste institucional. Hoje, conflitos agrários muitas vezes são consumidos como mais um item na disputa ideológica diária. A morte pode ser relativizada conforme o alinhamento político da vítima.

A cobertura do julgamento me ensinou que detalhes aparentemente pequenos revelam estruturas maiores. A recusa de juradas mulheres era um sinal disso. Segundo um advogado de defesa, mulheres seriam mais suscetíveis a olhar o lado humano da questão. O quesito da insuficiência de provas foi mantido apesar das contestações. A repetição de versões incompatíveis entre si. Esses elementos, vistos em sequência, desenhavam um sistema que se protegia.

Se eu escrevesse aquelas matérias agora, talvez tivesse de lidar com outro tipo de pressão. A disputa não ocorreria apenas no tribunal, mas nas redes. Trechos isolados seriam recortados para confirmar crenças prévias. A própria ideia de massacre seria contestada por versões paralelas. O campo jurídico dividiria espaço com o tribunal permanente da internet.

Essa semana voltei a esses textos, que um dia cheguei a pensar como um livro, como quem retorna a uma sala de audiência vazia, buscando entender o que ficou dele e se ainda me fazia sentido. O texto analítico que produzi à época assumia posição crítica, alinhada ao campo progressista que cobrava responsabilização. Havia ali a convicção de ter o Estado falhado duplamente. Primeiro ao matar. Depois ao não punir. Essa leitura dialogava com o ambiente político de então, quando ainda se acreditava que expor a falha institucional produziria constrangimento suficiente para gerar mudança.

Trinta anos depois, a releitura me provoca outra inquietação. Não apenas sobre o julgamento, mas sobre a recepção social de casos semelhantes. Em 1996, as imagens dos corpos na estrada causaram indignação ampla. Em 1999 e 2002, o debate sobre impunidade mobilizou partidos, organizações, juristas. Hoje, conflitos no campo muitas vezes são absorvidos pelo ruído digital antes de se transformarem em questão pública. De certa forma, avalio, retrocedemos.

A diferença, penso eu, não está só na tecnologia, usada para pulverizar debates democráticos, é bem verdade, mas também num certo olhar coletivo que mudou. Durante a cobertura, mesmo críticos do MST admitiam que o uso da força fora desmedido. A morte não era celebrada como restauração da ordem. Havia disputa sobre responsabilidades, não aplauso à eliminação do adversário. Havia hipocrisia? Claro, mas pelo menos tínhamos um verniz de civilidade. Atualmente, ao integrar essas lembranças a uma reflexão mais ampla, percebo que Eldorado dos Carajás vai além da violência no campo. É um episódio que fala da relação entre memória e poder, algo ao qual tenho me aprofundado por conta de minha tese de doutorado que liga essas duas questões, mas relacionadas à Guerrilha do Araguaia.

Quando a sociedade pressiona, o Estado reage, ainda que de modo imperfeito, mas quando a pressão se dissolve, prevalece a lógica interna das corporações. O massacre produziu comoção suficiente para gerar um julgamento histórico em tamanho. Não produziu, ao final, responsabilização proporcional ao crime.

Não tenho, talvez, a mesma crença de antes nesse país, quando tinha pouco mais de 30 anos de vida. Sei que a estrada de luta permanece, mas processos como esse viram arquivos. As matérias escritas registram o momento em que o país ainda se sentia interpelado por aquelas mortes. Reorganizá-las hoje é um exercício de comparação. Não apenas entre passado e presente, mas entre duas atitudes coletivas diante da violência. Uma que se constrangia. Outra que, em certos setores, já não vê problema em justificar. Ao contrário, até incentiva mais e mais sangue.

A cobertura me ensinou também que nenhum detalhe é neutro. Tudo compõe um quadro maior. Na época, eu anotava. Hoje, compreendo melhor o desenho que se formava.

O Massacre de Eldorado não se encerrou na sentença quase inócua. Terminou, para muitos, no cansaço. Pode ser, penso, essa a herança mais difícil de enfrentar. Não a lembrança do massacre em si, mas a erosão da capacidade de sustentar a cobrança por justiça ao longo do tempo. É nessa erosão, nesses fiapos históricos, que o passado encontra o presente. Conheci muitos sobreviventes desse massacre, os entrevistei, ouvi suas histórias. Li pesquisas sobre o tema, como o de Walmir Brelaz, que o estudou em seu mestrado e produziu um livro importante sobre o assunto. Leio as contundentes análises do incansável advogado da CPT José Batista Afonso sobre essa terra manchada de sangue. E vejo também o brilho nos olhos de novos e velhos militantes renovando esperanças de luta. Dirigi um documentário sobre uma ocupação do MST, alcançada pouco tempo depois do massacre e testemunhei o orgulho pelas lutas travadas. Ainda assim, há algo que me soa desalentador no contexto geral. Talvez seja realmente esse cansaço de estarmos sempre num eterno recomeço.

A Curva do S permanece como marca física. O que se alterou foi o entorno simbólico. O país que um dia se constrangeu diante de (oficialmente) dezenove corpos não me parece mais disposto a discutir a humanidade. Esse deslocamento talvez seja o dado mais duro dessas três décadas. Não porque conflitos sobre a terra e a água tenham desaparecido, muito pelo contrário, mas porque a capacidade de sentir e se solidarizar foi corroída no caminho. Como testemunhas cada vez mais solitárias, ali ainda resistem as 19 árvores calcinadas fincadas como memória, à margem de uma estrada, numa curva que redefiniu o país. O que elas dizem e o que elas representam, está aos poucos desaparecendo entre sol, chuva e poeira no sudeste de um estado chamado Pará.

Ismael Machado é jornalista*


Fonte: Medium 

A produção agrícola é a principal causa de incêndios destrutivos nas florestas tropicais secas da América do Sul

Uma equipe de pesquisa internacional liderada pela HU usou imagens de satélite para reconstruir a história do incêndio do Gran Chaco, uma das maiores regiões de floresta seca do mundo

Agricultural production is the main cause of destructive fires in South  America's tropical dry forests - News - Technology Park Berlin Adlershof

Por Humboldt-University Berlin 

Todos os anos, vastas áreas de floresta queimam no Chaco Sul-Americano, uma região de floresta tropical seca que se estende pela Argentina, Bolívia, e o Paraguai forma a segunda maior região florestal do continente, depois da Amazônia. Até agora, os incêndios crescentes nas florestas secas da América do Sul eram frequentemente atribuídos às mudanças climáticas e às secas mais frequentes e extremas que elas trazem. No entanto, um estudo publicado na revista Nature Sustainability, conduzido por investigadores da Humboldt-University Berlin (HU) em colaboração com parceiros na Bolívia e na Argentina, desafia agora esta suposição.

Reconstrução do histórico de incêndios usando imagens de satélite

Usando cerca de 175.000 imagens de satélite, os investigadores reconstruíram a história dos incêndios na região do Chaco e descobriram que ocorreram incêndios pelo menos uma vez desde 1985 em dois terços da área de 1,1 milhões de quilómetros quadrados. Nos anos de seca, a floresta queima com mais frequência, mas o estudo mostra uma forte conexão entre incêndios e produção agrícola: em anos mais secos, áreas de floresta particularmente grandes são desmatadas para o cultivo de soja e a expansão da pecuária industrializada, e o uso subsequente dessas terras muitas vezes leva à eclosão de incêndios durante os períodos de seca. Estes resultados são importantes porque os incêndios libertam enormes quantidades de gases com efeito de estufa e ameaçam tanto a biodiversidade como os meios de subsistência das comunidades indígenas locais.

Esses insights também ganham importância à luz da nova regulamentação da UE para cadeias de suprimentos livres de desmatamento (EUDR), que será aplicada a grandes empresas a partir de 30 de dezembro de 2026. O EUDR exige requisitos de devida diligência para sete matérias-primas e produtos delas derivados. De acordo com o regulamento, matérias-primas como soja e carne bovina podem não ser produzidas em terras que foram desmatadas após 31 de dezembro de 2020.

Dado que o Chaco é um hotspot global para a produção de bens de exportação, como soja e carne bovina, o estudo fornece a base científica para monitorar o cumprimento de tais regulamentações. Mostra que proibições mais rigorosas de desflorestação e uma melhor gestão dos incêndios são essenciais para limitar os custos ecológicos da expansão agrícola.

A dinâmica do fogo no Chaco não é um fenômeno natural

“Quando você olha para as imagens de satélite, você não vê um fenômeno natural, mas sim dinâmicas de fogo que estão intimamente ligadas à transformação da paisagem,” explica o Dr. Matthias Baumann, autor principal do estudo e Cientista Sênior do Departamento de Geografia da Humboldt-University Berlin. “Nossos dados mostram claramente que os períodos de seca são frequentemente usados como janelas favoráveis para limpar a terra de forma barata com fogo. O fogo aqui não é uma perturbação natural ou um acidente, mas uma ferramenta do agronegócio.”

O Prof. Tobias Kümmerle, Professor do Departamento de Geografia, e líder do projeto SystemShift, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC) no qual o estudo foi conduzido, acrescenta: “A ideia de que a floresta simplesmente pega fogo porque fica mais seca é insuficiente. A mudança climática e o uso da terra agem juntos: no Chaco, ocorrem incêndios onde os seres humanos estão empurrando para trás a floresta para produzir soja e carne bovina. Alguns destes produtos chegam até nós na Europa.”
“Isso também nos dá esperança,” diz Oswaldo Maillard, coautor do estudo que trabalha para a fundação boliviana Fundación para la Conservación del Bosque Chiquitano. “Se os pecuaristas e agricultores utilizarem os incêndios de forma mais responsável e gerirmos o uso da terra de forma mais eficaz através de instrumentos como o EUDR, temos uma alavanca direta para impedir estes incêndios desastrosos.” O estudo mostra claramente que os incêndios no Chaco não são um destino climático inevitável, mas podem ser novamente restringidos através de políticas inteligentes e de uma gestão sustentável.

O estudo foi apoiado por o projeto SystemShift, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC). 

Mais informações

O estudo “Dinâmica de incêndios no Chaco sul-americano e sua ligação com a agricultura e a seca” por M. Baumann, O. Maillard, I. Gasparri, J. Burton, G. Gavier Pizarro e T. Kuemmerle foram publicados na Nature Sustainability.


Fonte: Humboldt-University Berlin

Governança sob influência: o avanço do Porto do Açu

Atuação do Porto do Açu em instâncias estratégicas expõe assimetrias e fragiliza o controle democrático em São João da Barra

Este blog vem acompanhando com interesse as evidências crescentes de que o Porto do Açu já não se contenta em manter apenas interlocutores dentro do governo municipal de São João da Barra, passando a se fazer representar diretamente em instâncias de governança e grupos de trabalho relacionados à gestão territorial e ambiental do município. Isso ficou evidente no recente imbróglio envolvendo a presidência do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, e tudo indica que essa participação direta está longe de ser um episódio isolado.

Ontem, recebi um material visual sobre uma reunião de trabalho da equipe responsável pela elaboração do novo Plano de Mobilidade Urbana de São João da Barra. Uma imagem chamou particularmente a atenção: nela aparece o gerente de Relacionamento com a Comunidade do Porto do Açu, Wanderson Primo de Sousa, segurando um mapa do município.

Como geógrafo e doutor em Planejamento Territorial, costumo afirmar que quem controla os mapas controla o território. A ideia, na verdade, remete ao geógrafo francês Yves Lacoste, em sua obra “A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra”, na qual distingue entre uma geografia escolar, que frequentemente obscurece a compreensão da realidade, e uma geografia estratégica, utilizada por centros de poder para consolidar seu domínio sobre os territórios. É nesse ponto que a situação se torna particularmente sensível: a presença de um ente privado, com interesses diretos, em espaços de formulação e planejamento estratégico.

Argumenta-se que o Porto do Açu, por ser o principal empreendimento econômico local, teria legitimidade para participar dessas discussões. No entanto, essa suposta legitimidade não se traduz em igualdade de condições para o conjunto da população sanjoanense, que também será diretamente afetada pelas decisões tomadas. Em uma democracia substantiva, tal assimetria exigiria mecanismos robustos de controle, transparência e contraposição de interesses — o que, na prática, não se verifica.

Mais do que uma simples participação, o que se observa é um processo de ocupação progressiva dos espaços de decisão por um agente privado com capacidade desproporcional de influência. Isso coloca em xeque a própria ideia de governança pública, ao deslocar o centro das decisões para fora do campo democrático. Diante disso, a pergunta que permanece é incômoda, mas inevitável: estamos diante de um modelo de desenvolvimento que distribui benefícios ou de um arranjo que concentra poder, captura instituições e naturaliza a subordinação do interesse coletivo às estratégias corporativas?

A guerra contra o Irã é o momento “Canal de Suez” dos EUA?

Um cessar-fogo está estabelecido, mas a guerra continua. A nova ordem mundial dos EUA caracteriza-se sobretudo pelo caos

Manifestação em frente à embaixada dos EUA nas Filipinas.

Manifestação em frente à embaixada dos EUA nas Filipinas. Foto: AFP/JAM STA ROSA
Por Raul Zelik para “Neues Deutschland” 

Enquanto a Alemanha reclama dos preços dos combustíveis e Israel bombardeia o Líbano apesar do cessar-fogo, o debate internacional gira principalmente em torno da convulsão geopolítica desencadeada pela guerra com o Irã: apesar da esmagadora superioridade militar, os EUA e Israel não conseguiram remodelar o Oriente Médio de acordo com sua própria visão. Em vez de mudança de regime ou fragmentação permanente do Irã, o ataque americano, surpreendentemente, fortaleceu a posição do país no Oriente Médio.

O caso iraniano é semelhante, pois o fechamento do Estreito de Ormuz desencadeou uma reação em cadeia na qual os preços da gasolina na Alemanha representam um problema relativamente marginal. O bloqueio do Estreito de Ormuz tem potencial para ser uma catástrofe econômica: alimentos, medicamentos, semicondutores – tudo é afetado pela interrupção das rotas de abastecimento. Graças a Donald Trump, o Irã percebeu que pode arrastar a economia global consigo.

A posição da política externa da China está agora mais alinhada ao direito internacional do que as políticas dos EUA, de Israel e de seus aliados europeus.

É improvável que o Irã conquiste um poder tão significativo. Internamente, o governo permanece sob imensa pressão. E milhares de ataques dos EUA causaram enormes danos. Mesmo assim, continua sendo verdade que os racistas na Casa Branca erraram gravemente nos cálculos.

Aslı Bâli, especialista em direito internacional da Faculdade de Direito de Yale, descreve o desenvolvimento da seguinte forma: Donald Trump acreditava que poderia orquestrar uma “tomada de poder hostil” no Irã, como é prática comum no mundo dos negócios. No entanto, devido às interconexões globais de produção, uma reação em cadeia foi desencadeada, surpreendendo completamente a liderança dos EUA. Bâli continua: “Agora está ficando claro que os conceitos de ordem não podem ser mantidos a longo prazo apenas pela força. Quanto mais os EUA tentam impor sua vontade por meio da coerção, mais diminuem seu poder como potência líder.”

Na União Europeia, que depende da continuidade dos lucros com a exploração e a desigualdade globais dentro do sistema transatlântico de pilhagem, essa constatação talvez ainda não tenha sido totalmente assimilada. Mas está se tornando cada vez mais claro: mesmo para as elites nacionais corruptas, há cada vez menos razões para se aliarem ao Ocidente. Mesmo que o regime de segurança interna chinês claramente não esteja em conformidade com a Carta dos Direitos Humanos, a posição da política externa da China hoje está mais próxima do direito internacional do que as políticas dos EUA, de Israel e de seus aliados europeus, que se tornaram cúmplices dos crimes de guerra da última semana.

Está cada vez mais claro que o rearme da Europa irá alimentar ainda mais a espiral global de violência. O “Ocidente esclarecido”, com sua arrogância, é em si uma das maiores ameaças à paz mundial. Qualquer pessoa que queira deter senhores da guerra como Trump deve fortalecer os sistemas multilaterais de segurança, em vez de copiar seu frenesi militar.


Fonte: Neues Deutschland

Dica teatral: O Noviço no Teatro de Bolso merece ser visto

Estive ontem no Teatro de Bolso para assistir à encenação da peça “O Noviço”, escrito por Luis Carlos Martins Pena em 1845, sob direção do incansável e interminável Fernando Rossi.  E saí de lá com a impressão que a peça continua super atual, o que denota a genialidade de um dos melhores observadores da sociedade brasileira de seu tempo, e cujo olhar claramente transcendeu a sua própria época.

O mais interessante é que a encenação foi feita por um grupo de atrizes e atores locais, mas que empregaram com muita eficiência um tom adequado para manter a peça com sua pegada crítica e divertida. Com isso, mostraram para mim que a verve genial de Martins Pena continua certeira, pois, lamentavelmente, o Brasil ( Campos dos Goytacazes inclusa) não mudou tanto assim.

Por isso, como a temporada é curta, sugiro que mais gente vá ao Teatro de Bolso para assistir “O Noviço”, pois esforços de qualidade merecem casa cheia.

Importações britânicas de combustível de aviação “verde” estão ligadas ao desmatamento da Amazônia

Uma refinaria do Texas que exporta combustível de aviação sustentável para a Europa obteve sebo bovino de uma empresa de processamento de carne multada por compras ilegais de gado

UK imports of "green" jet fuel linked to Amazon deforestation

Por Naira Hofmeister, Charlotte Teunis, Hyury Potter, Lucy Jordan,  Bela de Jong e  Gabriele Di Donfrancesco para “Climate Home News”

A Diamond Green Diesel (DGD), uma das principais fornecedoras de combustível de aviação sustentável (SAF) e diesel renovável, adquiriu centenas de milhares de toneladas de sebo bovino do Brasil, juntamente com gorduras residuais de outras fontes, nos últimos três anos, à medida que a demanda global por matérias-primas para biocombustíveis aumenta vertiginosamente .

Reportagens da Unearthed e da organização investigativa sem fins lucrativos Repórter Brasil revelam a ligação da DGD com uma fábrica de processamento de resíduos animais que se abastece de um frigorífico multado por comprar gado de uma reserva amazônica desmatada ilegalmente. Uma investigação anterior da Reuters e da Repórter Brasil descobriu que a DGD havia comprado gordura animal de outras duas fábricas de processamento de resíduos animais ligadas ao fornecimento de gado de fazendas ilegais.

A fábrica recém-identificada, Pacífico Indústria e Comércio de Óleos e Proteínas Ltda, com sede em Cacoal, uma pequena cidade no estado de Rondônia, no extremo oeste da Amazônia, foi fornecida pelo frigorífico de Rondônia DistriBoi, mostra um documento judicial de 2022. 

A DistriBoi foi multada há dois anos por comprar ilegalmente gado da reserva de conservação estadual Jaci-Paraná, que foi devastada pela pecuária ilegal.

Não há indícios de que as empresas envolvidas tivessem conhecimento do desmatamento em nível de fazenda. No entanto, as descobertas apontam para uma lacuna de rastreabilidade na cadeia de suprimentos de matérias-primas para combustíveis sustentáveis, onde os subprodutos da pecuária estão sujeitos a menos fiscalização do que as principais commodities do setor, como carne e couro. 

Vista aérea da entrada da Diamond Green Diesel, LLC, uma joint venture entre a Valero Energy Corporation e a Darling Ingredients Inc., em Port Arthur, Texas, EUA, em 30 de julho de 2025. REUTERS/Adrees Latif

A reserva Jaci-Paraná era coberta por uma floresta tropical intocada quando foi criada, há 30 anos, para proteger atividades florestais tradicionais, como a extração de látex e a colheita de nozes. 

Hoje, a pecuária ilegal devastou quase 80% da cobertura florestal e tornou-se um exemplo notório da destruição causada por grileiros na maior floresta tropical do mundo.

“Os danos à biodiversidade têm sido devastadores”, disse a ativista indígena local Neidinha Suruí, que participou do documentário “O Território”, vencedor do Prêmio Emmy de 2025.

Viagens aéreas mais ecológicas?

O “diesel renovável” e o combustível de aviação sustentável (SAF) que estão sendo exportados pela DGD – uma joint venture entre a refinaria de petróleo americana Valero Energy Corp e a Darling Ingredients, com sede no Texas – são classificados como “verdes” porque são feitos a partir de matérias-primas classificadas como resíduos, incluindo sebo, que consiste em gordura separada de carcaças de gado.

Muitos governos e companhias aéreas depositam suas esperanças em voos mais ecológicos com combustível de aviação sustentável (SAF) produzido com resíduos orgânicos, incluindo a Grã-Bretanha, que introduziu uma exigência obrigatória de mistura no ano passado.

O transporte aéreo é responsável por cerca de 2,5% das emissões globais de carbono e, ao contrário de outros setores de transporte que podem ser eletrificados, reduzir a pegada de carbono da aviação é muito mais difícil.

Resíduos como sebo bovino e óleo de cozinha usado (UCO) são considerados as matérias-primas viáveis ​​mais ecológicas para a produção de SAF (Combustíveis Sustentáveis ​​em Suspensão), visto que não competem com produtos alimentícios como óleo de soja ou óleo de palma, nem aumentam a pressão sobre o desmatamento.

Uma aeronave da Air France, operada com combustível de aviação sustentável (SAF) produzido pela TotalEnergies, é reabastecida antes de seu primeiro voo de Nice para Paris, no aeroporto de Nice, França, em 1º de outubro de 2021. REUTERS/Eric Gaillard

No entanto, existe a preocupação de que a corrida global para aumentar o uso de SAF possa exacerbar indiretamente a pressão sobre o desmatamento, aumentando a demanda por matérias-primas como sebo e óleo de cozinha usado.

Isso poderia aumentar as margens de lucro das fazendas de gado – incluindo as ilegais – e ter outras consequências não intencionais, como incentivar a fraude nas cadeias de suprimentos, conforme relatado pelo Climate Home News .

Uma investigação publicada em março pela Climate Home News e pela emissora sueca SVT revelou que a gigante finlandesa de biocombustíveis Neste está obtendo ingredientes essenciais para seu SAF (Combustível de Aviação Sustentável) de uma cadeia de suprimentos opaca que permite que óleo de palma fresco seja comercializado como óleo usado e residual.

Como o sebo é classificado como resíduo por órgãos reguladores em mercados como o Reino Unido e a UE, o esquema de certificação mais utilizado na indústria de combustíveis verdes – a Certificação Internacional de Sustentabilidade e Carbono (ISCC) – não avalia se houve desmatamento para a criação do gado que o produziu.

Isso permite que o sebo bovino seja considerado uma matéria-prima sustentável para combustíveis verdes, mesmo que os animais tenham sido criados em terras desmatadas ilegalmente.

“É evidente que existe uma falha nas regras se os produtos, neste caso o sebo animal, provêm originalmente de terras desmatadas”, afirmou Cian Delaney , coordenador de campanhas do grupo de defesa do transporte e energia limpos Transport & Environment.

Isso significa que as medidas governamentais de emissões de poluentes atmosféricos, destinadas a reduzir as emissões do transporte aéreo, podem ajudar a aumentar os rendimentos dos pecuaristas ligados ao desmatamento ilegal no Brasil, onde a pecuária e outras formas de agricultura têm sido os principais fatores de perda florestal.

Atacadistas de terras abrem caminho para pecuaristas 

Outrora coberta por uma densa cobertura de floresta tropical, a reserva Jaci-Paraná, em Rondônia, foi devastada pelo desmatamento ilegal impulsionado pela pecuária – uma das principais causas da perda de árvores na Amazônia.

Os grileiros se apropriaram – muitas vezes violentamente – e desmataram mais de três quartos da floresta para pastagem, à medida que a pecuária avança de forma constante para o sul da Amazônia.

Suruí, o ativista indígena local, afirmou que as empresas que compram produtos derivados de atividades ilegais perpetuam crimes ambientais na floresta tropical.

“Se não houvesse frigoríficos comprando gado de origem ilegal, não haveria grilagem de terras nem desmatamento”, disse Suruí à Repórter Brasil, que fez a nova investigação em parceria com a Unearthed e uma equipe de jornalistas apoiada pelo JournalismFund Europe. 

Processos judiciais e cadeias de suprimentos interligadas

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva prometeu acabar com todo o desmatamento no país até 2030, em parte fortalecendo a fiscalização ambiental na maior floresta tropical do mundo.

Em Rondônia, as autoridades abriram mais de 50 processos relacionados à grilagem de terras e ao desmatamento somente na reserva Jaci-Paraná. O frigorífico DistriBoi é citado em 31 desses processos, incluindo o de 2024 , no qual foi multado.

Segundo o documento judicial de 2022, referente a uma disputa trabalhista não relacionada, os advogados da Pacífico se referem à DistriBoi como a “maior fornecedora de matéria-prima” da fábrica de processamento de resíduos animais.

A DGD, com sede nos EUA, recebeu quase 15.000 toneladas de sebo da Pacífico entre 2023 e 2025 em sua refinaria no Texas, além de óleo de cozinha usado de diversos países e fontes, de acordo com o banco de dados comercial Panjiva.

Um rebanho de gado é visto na fazenda Marupiara, na cidade de Tailândia, estado do Pará, Brasil, em 17 de março de 2020. Foto tirada em 17 de março de 2020. Para acompanhar a reportagem especial BRASIL-DESMATAMENTO/GADO REUTERS/Pilar Olivares

A Darling Ingredients também é empresa controladora da Pacífico desde a aquisição, em 2022, da empresa brasileira de processamento de resíduos animais FASA Group.

Um porta-voz da Darling Ingredients negou que a Pacífico tenha obtido resíduos de carne bovina do matadouro Ji-Paraná da DistriBoi – um dos dois que a empresa de processamento de carne opera em Rondônia.

“A fábrica de processamento de resíduos animais Pacífico não adquire nenhum material do matadouro Distriboi em Ji-Paraná”, disse o porta-voz em resposta por e-mail, sem apresentar provas ou comentar diretamente o conteúdo do documento judicial de 2022.

Darling não respondeu a uma pergunta subsequente sobre o outro matadouro da Distriboi na região, que, de acordo com documentos de transferência de gado, também comprou gado de uma fazenda que desmatou ilegalmente a floresta dentro da reserva extrativista.

“Nossas relações são normalmente com o matadouro, estando a vários níveis de distância dos pecuaristas. Independentemente disso, estamos comprometidos em garantir que nossas matérias-primas sejam provenientes de fontes livres de desmatamento. Esperamos que nossos fornecedores de matéria-prima cumpram nosso código de conduta. Além disso, estamos em processo de exigir que todos os fornecedores de matéria-prima atestem que seu material é proveniente de fontes livres de desmatamento”, disse o porta-voz em comunicado. 

A DistriBoi afirmou, em aparente referência aos processos judiciais pendentes de Jaci-Paraná, que “as questões mencionadas… já estão sob análise, inclusive por tribunais superiores”. A empresa já havia negado qualquer irregularidade anteriormente. A declaração da empresa não abordou uma questão sobre seus laços comerciais com a Pacífico. 

A Valero Energy, a principal refinadora que é coproprietária da DGD juntamente com a Darling Ingredients, não respondeu aos pedidos de comentários, assim como a própria DGD.

Do matadouro às Forças Armadas de Singapura

Num esforço para conter as emissões de carbono provenientes do transporte aéreo, os reguladores do Reino Unido e da UE determinaram quotas progressivamente crescentes para a mistura de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) nos próximos anos, criando um novo mercado para matérias-primas, incluindo sebo bovino.

As exportações brasileiras de sebo para os EUA aumentaram acentuadamente nos últimos anos, passando de menos de 10.000 toneladas em 2021 para quase 400.000 toneladas no ano passado, segundo a Panjiva, refletindo a crescente demanda por biocombustíveis como o SAF (Combustível de Aviação Sustentável).

No Reino Unido, o maior mercado de aviação da Europa em termos de capacidade de assentos, o combustível de aviação deveria conter 2% de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) até o final de 2025, aumentando para 10% em 2030 e 22% em 2040.  

Segundo dados comerciais da Panjiva, a DGD exportou 134 mil toneladas de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) do Texas para o Reino Unido em 2025, num valor próximo a 90 milhões de dólares. A empresa também exportou quantidades menores de diesel renovável para a Grã-Bretanha.

Os dados mostram que a UE recebeu biocombustíveis – incluindo quantidades muito menores de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) – no valor de mais de US$ 1,1 bilhão da refinaria da DGD no Texas no ano passado. 

A investigação da Unearthed não conseguiu identificar quais companhias aéreas ou aeroportos compram o SAF da DGD quando este chega à Grã-Bretanha.

A Valero, outra empresa controladora da DGD, está se posicionando como um ator fundamental na transição para combustíveis com menor emissão de carbono no Reino Unido, onde comercializa seu diesel renovável sob a marca Texaco.

A empresa tem participado ativamente nas discussões sobre políticas de SAF (combustível de aviação suplementar) e criticou o limite planejado pelo governo para fontes de gordura residual no SAF, classificando-as como “a rota de produção de SAF mais rentável do mundo” em uma apresentação ao parlamento.

Contribuindo para a redução das emissões?

Uma supervisão ainda mais rigorosa das matérias-primas do SAF (Combustível de Aviação Sustentável) é crucial para garantir que as medidas de mistura, como a do Reino Unido, estejam efetivamente reduzindo as emissões, afirmou Anna Krajinska, diretora da Transport & Environment UK.

As florestas armazenam grandes quantidades de carbono e, quando são derrubadas ou queimadas, esse carbono é liberado na atmosfera. 

“Se houver sebo proveniente de terras desmatadas, essas emissões podem ser tão altas que talvez não se atinja o limite de redução de gases de efeito estufa”, disse Krajinska.

Um funcionário é fotografado abastecendo o Boeing 777-300ER da Emirates Airlines com Combustível de Aviação Sustentável (SAF, na sigla em inglês), durante um voo de demonstração histórico, enquanto um de seus motores operava com 100% de SAF, no aeroporto de Dubai, em Dubai, Emirados Árabes Unidos, em 30 de janeiro de 2023. REUTERS/Rula Rouhana

Mas, à medida que o apetite mundial por voos continua a crescer , alguns especialistas afirmam que o SAF (Combustível de Aviação Sustentável) é o único meio viável para reduzir as emissões da aviação atualmente.

Referindo-se às ligações com o desmatamento identificadas na investigação da Unearthed, Wouter Dewulf, economista da aviação da Universidade de Antuérpia, na Bélgica, afirmou que “seria importante avaliar a dimensão dessa infração”.

“Tenho quase certeza de que existem exceções”, acrescentou Dewulf. “Mas os biocombustíveis são a melhor alternativa no momento.”

Delaney, da T&E, afirmou que é necessária mais transparência e melhor supervisão por parte das autoridades reguladoras. “No momento, existem muitos pontos cegos”, acrescentou.


Fonte: Climate Home News

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa

Deputado cobra investigação do Ibama e do Ministério Público e cita terceirizada Costa Pinto como envolvida no episódio

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa

Em 2019 foram registradas mortes de abelhas causadas por agrotóxicos em SC, RS, MS e SP (Getty Image)

Por Edir Viégas para “Vox” 

Acidente ambiental de graves proporções que resultou no extermínio por envenenamento de centenas de milhares de abelhas resultou em Moção de Repúdio e pedido de investigação na Assembleia Legislativa contra a multinacional e gigante de celulose Suzano.

Requerimento nesse sentido foi apresentado pelo deputado Zeca do PT na sessão desta quarta-feira (8), que também responsabilizou a empresa Costa Pinto, terceirizada da Suzano e responsável pela situação.

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa
Plantação de eucalipto próxima a um fragmento do Cerrado, na região de Santa Rita do Pardo (UFMS/Divulgação)

Colmeias dizimadas

A mortandade das abelhas aconteceu em dezembro do ano passado no município de Santa Rita do Pardo. Foram dizimadas 20 colmeias instaladas ao lado da floresta de eucalipto da Suzano.

Vídeo postado no canal da ONG uruguaia World Rain Forest Movement (Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais) no Youtube sugere que a multinacional teria tentado compensar o apicultor que perdeu as colmeias.

“Ele deve ter borrifado aqui tudo e entrou lá. Eu vi a caminhonete da Suzano e o pessoal da [empreiteira] Costa Pinto com o trator. O técnico estava com eles, então eles não têm desculpa”, diz o autor do vídeo, o apicultor identificado como Davi.

“A Suzano me disse: calcule o prejuízo. E eu disse: não vou calcular nada, até porque vocês vão me pagar e vão continuar. É uma outorga para vocês matarem minhas abelhas de novo”, relata o apicultor.

Crime ambiental

Pulverizar agrotóxicos em época de floração é considerado uma prática ilícita no Brasil, podendo ser configurado como crime ambiental, especialmente quando causa a morte de abelhas e outros polinizadores, essenciais para a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas.

Moção de repúdio

“Manifestamos nosso repúdio em face à atuação da empresa Suzano no Estado do Mato Grosso do Sul, bem como de sua prestadora de serviço, a empreiteira Costa Pinto, diante das graves denúncias de uso irregular de agrotóxico que resultaram na mortandade massiva de abelhas”, disse Zeca do PT ao se reportar à denúncia.

De acordo com ele, o acidente ambiental aconteceu na região de Santa Rita do Pardo e foi denunciado por produtores locais.

“Eles denunciaram a implantação de substâncias tóxicas, bem como o inseticida à base de friponil, em período de floração, prática considerada ilegal e altamente prejudicial aos polinizadores e ao equilíbrio ambiental”, esclareceu o parlamentar.

Veneno foi banido na Europa

O fipronil, segundo informações do próprio fabricante, é especialmente perigoso para as abelhas, mesmo em doses muito baixas. Os efeitos vão além da morte imediata — ele compromete funções essenciais para a sobrevivência da colônia.

Desde 2014 ele é proibido em culturas agrícolas da União Europeia justamente pelo alto risco de mortalidade em massa de abelhas e outros polinizadores. No Brasil, o uso é liberado.

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa
Flagrante da mistura de glifosato e fipronil, ambos venenos que matam insetos polinizadores (Divulgação/UFMS)

Prática comum

O caso do apicultor do vídeo não é o único. Marine Dubos-Raoul é geógrafa, doutora pela Universidade Paris 8, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e coordenadora do Instituto Pró-Cerrado Vivo. 

Ela conta que em 2019, no município de Brasilândia, vizinho de Santa Rita do Pardo, realizou pesquisas em um assentamento onde houve relatos de impactos por pulverização de agrotóxicos em canaviais. Desde então, começaram a surgir cada vez mais histórias similares.

Extermínio de abelhas em MS coloca Suzano na mira da Assembleia Legislativa

Ameaça à biodiversidade

“Relatos de apicultores apontam que a pulverização desses produtos provocou a morte de colmeias inteiras, afetando diretamente a produção apícola e subsistência de trabalhadores rurais, além de representar grave ameaça à biodiversidade do bioma cerrado”, disse Zeca do PT.

Ele esclareceu que especialistas alertam sobre o uso indiscriminado de agrotóxico, que impacta não apenas as abelhas, mas toda a fauna e flora, comprometendo o equilíbrio do ecossistema.

 Ressalta-se que as abelhas desempenham um papel essencial na polinização e na produção de alimentos, sendo responsável por grande parte da manutenção da vida vegetal e da segurança alimentar.

Sua eliminação, em larga escala, configura não apenas dano ambiental, mas um risco sistêmico à agricultura familiar e à vida humana. 

Zeca do PT exigiu rigorosa apuração dos fatos pelos órgãos competentes, como o Ibama e o Ministério Público, e solicitou “a responsabilização da empresa, caso comprovada as irregularidades”.

Outro lado

Vox MS encaminhou pedido de esclarecimento à assessoria de imprensa da Suzano, que se manifestou por meio de nota.

A companhia apoia mais de 158 apicultores e apicultoras no Mato Grosso do Sul por meio do seu Programa de Apicultura. Em 2024, a iniciativa contribuiu para a produção de 309 toneladas de mel, o que representa 40% da produção no estado. 

Todas as operações da empresa seguem rigoroso processo de conformidade legal e socioambiental, com observância das normas nacionais e internacionais, e são atestadas por certificações internacionais. 

A companhia reitera que busca os mais altos padrões de manejo florestal, e utiliza apenas defensivos devidamente registrados no MAPA e aprovados pelos órgãos sanitários, respeitando as recomendações técnicas da bula, fichas de emergência e do receituário agronômico. 

Além do cuidado com o meio ambiente, o compromisso com as pessoas pela companhia se reflete na comunicação prévia realizada com os apicultores conveniados ao Programa de Apicultura ou cadastrados no estado como vizinhos da empresa, por meio de sua equipe social, antes de qualquer aplicação de defensivos em suas operações florestais. 

A companhia orienta ainda aos públicos de relacionamento a sinalizarem por meio de canais de comunicação abertos para envio de dúvidas, sugestões, denúncias ou busca de informações sobre quaisquer temas que julgarem relevantes, com a Suzano prontamente endereçando essas solicitações.


Fonte: Vox

O uso de glifosato na agricultura do Reino Unido aumentou 1.000% desde 1990

Glyphosate use in UK farming up 1,000% since 1990 | News | The Grocer

Por PAN UK 

Uma análise de dados oficiais do governo – divulgada no dia 09/04 pela PAN UK – revela que a quantidade de glifosato aplicada às plantações no Reino Unido aumentou de 200 toneladas métricas por ano em 1990 para mais de 2.200 toneladas em 2024. Aumentos significativos foram observados em uma ampla gama de culturas. Por exemplo, mais de 66 toneladas de glifosato foram aplicadas em batatas britânicas em 2024, contra 1,5 tonelada em 1990. Durante o mesmo período, a área de terras agrícolas no Reino Unido tratadas com o herbicida tóxico aumentou dez vezes, chegando a mais de 2,6 milhões de hectares em 2024, dezesseis vezes o tamanho da Grande Londres. A grande maioria desses aumentos ocorreu no setor de culturas aráveis, com destaque para os cereais (trigo, cevada e milho).

Embora os dados fora do setor agrícola sejam muito mais fragmentados, o uso de glifosato por conselhos locais em espaços públicos, como parques, áreas de lazer e ruas, também parece ter crescido drasticamente. De acordo com estatísticas oficiais do governo do Reino Unido, os conselhos locais utilizaram aproximadamente 60 toneladas de produtos à base de glifosato em 2020. No  entanto, o maior levantamento já realizado sobre o uso de pesticidas por conselhos, publicado no ano passado, revelou que eles utilizaram pelo menos 354 toneladas de pesticidas em 2024, sendo que a grande maioria continha glifosato.

Esses aumentos expressivos serão minuciosamente analisados ​​ainda este ano, já que o governo do Reino Unido precisa decidir até meados de dezembro se renovará a aprovação do glifosato. Caso optem por conceder a licença máxima de 15 anos, é improvável que haja oportunidade de revisão da decisão até 2041.

“Os números de hoje revelam que o vício em glifosato no Reino Unido saiu completamente do controle. O uso excessivo desse produto químico tóxico está causando uma série de problemas, e ainda assim continuamos a pulverizá-lo nos alimentos que consumimos e nos locais onde nossas crianças brincam. Sabemos que o glifosato está ligado a diversos tipos de câncer e outras doenças potencialmente fatais. Além disso, ele prejudica o meio ambiente, poluindo nossas águas e afetando a vida selvagem. O governo precisa urgentemente se comprometer a eliminar gradualmente – e, em última instância, proibir – o glifosato e apoiar os agricultores e as administrações locais na adoção de alternativas seguras e sustentáveis. Caso contrário, todos continuaremos a pagar o preço.”  Nick Mole, Analista de Políticas, PAN UK

Um trator pulverizando campos. Crédito: Foto-up / Shutterstock.org

Crédito Foto-up / Shutterstock.org

O glifosato – frequentemente conhecido por sua marca mais comum, Roundup – tem sido alvo de controvérsia há muitos anos devido ao crescente número de evidências que demonstram seu potencial para causar danos irreversíveis à saúde humana e ao meio ambiente. Nos EUA, foi objeto de uma série de processos judiciais que levaram o fabricante a pagar US$ 11 bilhões a pacientes com câncer que alegam que o herbicida causou linfoma não Hodgkin ou outros tipos de câncer relacionados.  O governo francês reconheceu a ligação entre a doença de Parkinson e o glifosato e tem pago indenizações a agricultores.

Também foi demonstrado que o produto químico tem impactos ambientais negativos de grande alcance, desde a contaminação da água até danos diretos e indiretos a uma variedade de animais selvagens, incluindo anfíbios , abelhas e outros polinizadores.  Embora seja apresentado por alguns como uma solução para as mudanças climáticas, o glifosato é derivado de combustíveis fósseis e produz 31,29 quilogramas de CO2e por quilograma de produto químico produzido.

Devido ao uso excessivo, as ervas daninhas no Reino Unido estão se tornando resistentes ao glifosato . Os primeiros casos de resistência foram confirmados em 2025 e estão se tornando cada vez mais comuns.  A resistência já é um problema antigo nos EUA, onde o glifosato é usado em grandes quantidades.

Em 2023, a UE proibiu o uso de glifosato na dessecação pré-colheita , uma prática que consiste em pulverizar a plantação com produtos químicos pouco antes da colheita para secá-la.  No entanto, o Reino Unido continua permitindo o uso de glifosato como dessecante pré-colheita, apesar de frequentemente resultar em altos níveis de resíduos nos alimentos.

“A clara evidência do aumento do uso de glifosato nessa escala deveria servir de alerta. Isso mostra que temos dependido demais de um único produto químico, principalmente em nossos sistemas de cultivo. Precisamos reduzir o uso de glifosato, e poderíamos começar com seu uso como dessecante pré-colheita em culturas destinadas à cadeia de suprimentos alimentares. Também devemos evitar múltiplas aplicações no mesmo campo na mesma safra. Os agricultores precisam de alternativas práticas, bons conselhos e incentivos adequados do governo e da cadeia de suprimentos para reduzir o uso de pesticidas. E devemos evitar simplesmente pressionar os agricultores a adotarem outro produto ou sistemas de cultivo excessivos que levam a resultados ruins para a natureza e nossos solos.” ​​Martin Lines, agricultor e CEO da Nature Friendly Farming Network 

O Reino Unido e a UE estão atualmente negociando um novo Acordo SPS, que provavelmente levará o Reino Unido a adotar a licença de dez anos concedida pela UE para o glifosato em 2023. Enquanto isso, o governo britânico deve tomar sua própria decisão sobre o glifosato até 15 de  dezembro de 2026 e afirmou que lançará uma consulta pública de 60 dias em junho.

A PAN UK está pedindo que o glifosato não seja reaprovado. No entanto, se uma nova licença for concedida, ela deverá vir acompanhada de um conjunto de restrições destinadas a reduzir o uso geral e limitar o impacto da exposição ao glifosato na saúde humana e no meio ambiente, incluindo:

  • Proibição de vendas a usuários não profissionais, como jardineiros amadores.
  • Proibido o uso em espaços públicos, como parques, calçadas, playgrounds, escolas e hospitais.
  • Proibição do uso na dessecação pré-colheita – isso contribuiria significativamente para ajudar o governo do Reino Unido a atingir sua meta de reduzir o uso e os danos causados ​​por pesticidas no setor agrícola em 10% até 2030.

Fonte: PAN UK