A aproximação entre universidades e empresas sempre fez parte do projeto concebido por Darcy Ribeiro para a UENF. O problema começa quando a inovação deixa de ser um instrumento de transformação social e passa a ocupar o lugar do próprio projeto de universidade
Uma entrevista recentemente publicada no portal da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) reacende uma discussão que acompanha a instituição desde sua criação, ainda que hoje apareça envolvida por uma linguagem mais contemporânea, marcada por expressões como inovação, empreendedorismo, propriedade intelectual, incubação e startups de base tecnológica. A entrevista deve ser entendida apenas como um ponto de partida, pois a visão nela expressa não é exclusiva de seu interlocutor nem da própria Uenf, mas representa uma concepção que ganhou crescente centralidade nas universidades brasileiras, nos organismos de fomento e nos governos, segundo a qual a aproximação com empresas e a capacidade de gerar novos negócios constituiriam indicadores privilegiados de modernização institucional e de impacto social. O verdadeiro tema, portanto, não é uma declaração específica, mas o significado progressivamente atribuído à inovação e o lugar que ela passou a ocupar no imaginário da universidade pública.
Não há razão para negar a importância dessa agenda, pois universidades públicas não devem permanecer isoladas da estrutura produtiva, indiferentes à aplicação do conhecimento ou satisfeitas com uma circulação acadêmica que raramente ultrapassa os limites dos congressos, periódicos e grupos especializados. A produção de tecnologias, a transferência de conhecimento, a proteção da propriedade intelectual e a formação de empresas capazes de transformar pesquisa científica em produtos e serviços socialmente úteis são objetivos legítimos, sobretudo em um país que historicamente investiu pouco na articulação entre ciência, indústria e desenvolvimento econômico. O problema começa quando esses instrumentos, por mais relevantes que sejam, deixam de ser apresentados como partes de uma missão mais ampla e passam a ocupar o lugar do próprio projeto universitário, adquirindo o estatuto de uma narrativa redentora capaz de resolver, quase por efeito cumulativo, o desemprego de mestres e doutores, a baixa intensidade tecnológica da economia brasileira, a fragilidade do desenvolvimento regional e talvez, com algum esforço adicional de publicidade institucional, quase todas as limitações históricas da universidade pública.
As universidades também produzem suas modas institucionais e, ao longo das últimas décadas, diferentes expressões foram apresentadas, cada uma a seu tempo, como chaves capazes de destravar problemas acumulados durante gerações. Houve o tempo da excelência, da internacionalização, da interdisciplinaridade, da sustentabilidade, da governança, da transformação digital e, mais recentemente, das startups e dos ecossistemas de inovação. Nenhuma dessas agendas é irrelevante, e muitas delas deixaram contribuições importantes, mas o inconveniente surge quando uma formulação legítima se transforma em explicação universal, dispensando a necessidade de examinar as condições históricas, econômicas e políticas que permitem ou impedem que seus objetivos sejam efetivamente alcançados. A realidade, como se sabe, costuma demonstrar menos entusiasmo do que os textos institucionais e geralmente exige mais do que a inauguração de incubadoras, a realização de eventos de empreendedorismo ou a contabilização de empresas nascentes.
A experiência internacional mostra que os grandes polos de inovação não surgiram simplesmente porque universidades decidiram criar startups em escala crescente. Regiões como o Vale do Silício, Boston, Cambridge ou os complexos tecnológicos asiáticos foram construídas por meio de longos processos que combinaram universidades fortes, financiamento público duradouro, empresas dispostas a investir em pesquisa e desenvolvimento, políticas industriais, compras governamentais, infraestrutura, capital de risco e uma estrutura produtiva capaz de incorporar conhecimento científico. As startups apareceram como resultado desse ecossistema, ainda que posteriormente também tenham contribuído para sua expansão. Imaginar o processo de forma inversa, como se a multiplicação de empresas nascentes produzisse automaticamente as condições estruturais que lhes deram origem em outros contextos, equivale a tomar o efeito pela causa e a esperar que o símbolo de um processo substitua o processo propriamente dito.
No caso brasileiro, o contraste é particularmente evidente, pois o país ampliou sua capacidade de formar mestres e doutores, consolidou grupos de pesquisa competitivos internacionalmente e desenvolveu instituições científicas de reconhecida qualidade, ao mesmo tempo que permaneceu marcado pela baixa intensidade tecnológica de parte expressiva de sua estrutura produtiva, pelo reduzido investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento e por um processo de desindustrialização que limitou a demanda por profissionais altamente qualificados. A dificuldade de absorção de pesquisadores fora das universidades não decorre, portanto, apenas da ausência de cultura empreendedora entre os egressos ou de uma insuficiência de incubadoras, mas de uma economia que historicamente incorporou pouco conhecimento científico aos seus processos de produção. As startups podem criar oportunidades, gerar soluções relevantes e abrir novos caminhos profissionais, mas dificilmente absorverão o contingente de mestres e doutores formado anualmente ou compensarão, por iniciativa própria, décadas de fragilidade na política industrial, científica e tecnológica brasileira.
É justamente nesse ponto que a trajetória da Uenf oferece um contraponto especialmente fecundo, pois sua concepção original não nasceu da rejeição à inovação tecnológica ou à aproximação entre universidade e setor produtivo. Antes de definir a arquitetura institucional da nova universidade, Darcy Ribeiro visitou instituições de excelência científica, incluindo o California Institute of Technology, procurando compreender de que maneira pesquisa avançada, formação de alto nível, produção tecnológica e interação com empresas poderiam ser articuladas em um modelo universitário adequado às necessidades brasileiras. A opção de Darcy de organizar a Uenf em torno de laboratórios de pesquisa, em vez de reproduzir integralmente a estrutura departamental tradicional, não constituiu simples escolha administrativa, mas refletiu a tentativa de construir uma instituição capaz de abordar problemas complexos por meio de formas igualmente complexas de organização do conhecimento.
Essa lembrança é importante porque impede que a crítica ao reducionismo contemporâneo seja confundida com uma defesa de uma universidade fechada em si mesma, hostil ao setor produtivo ou indiferente ao desenvolvimento tecnológico. Darcy Ribeiro reconhecia a necessidade de articular ciência, produção e desenvolvimento econômico, mas inseria essa articulação em um horizonte muito mais amplo, no qual a universidade deveria contribuir para a transformação do país, para a redução das desigualdades e para a formação de profissionais dotados não apenas de competência técnica, mas também de consciência cidadã. Na concepção da Universidade do Terceiro Milênio, inovação, excelência científica e aproximação com empresas eram componentes de um projeto histórico, e não substitutos desse projeto.
Também não há qualquer razão para transformar Darcy Ribeiro em uma espécie de deidade institucional ou em um fundador infalível cuja palavra devesse encerrar debates contemporâneos. O próprio Darcy provavelmente rejeitaria esse papel com a irreverência que marcou sua trajetória, até porque tinha plena consciência de suas contradições, de seus excessos e dos limites de suas próprias escolhas. A relevância de Darcy Ribeiro para este debate não decorre de uma suposta perfeição pessoal, mas da escala das perguntas que formulava e da nitidez de seu compromisso com a justiça social, com o desenvolvimento do Brasil e com a construção de instituições capazes de enfrentar desigualdades historicamente produzidas. O que permanece atual em seu pensamento não é a pretensão de oferecer respostas definitivas, mas a recusa em reduzir a universidade a uma única função ou a um conjunto de instrumentos de gestão.
Darcy não pensava a universidade a partir das ferramentas que ela utilizava, mas da sociedade que desejava ajudar a construir. Essa distinção permite compreender por que a ligação com empresas, a inovação tecnológica e a produção de conhecimento aplicável eram desejáveis, sem jamais se converterem em fins autônomos. Startups, patentes, incubadoras, parques tecnológicos e acordos de cooperação são instrumentos, e instrumentos somente adquirem sentido quando subordinados a um projeto social, econômico e político mais amplo. O problema não está em utilizá-los, mas em permitir que sua visibilidade, sua capacidade de gerar indicadores e sua aderência à linguagem contemporânea da inovação acabem substituindo a discussão sobre os objetivos que deveriam orientar a universidade pública.
Essa questão assume importância ainda maior quando se considera o território para o qual a Uenf foi concebida. A região Norte Fluminense não era, e continua não sendo, uma região desprovida de riqueza econômica, mas uma região historicamente incapaz de converter ciclos de prosperidade em desenvolvimento socialmente distribuído. A concentração fundiária, o predomínio secular da economia açucareira, a decadência de atividades tradicionais, a dependência das receitas petrolíferas, a implantação de grandes empreendimentos e a persistência de desigualdades profundas demonstram que produzir riqueza jamais foi suficiente. O desafio sempre consistiu em transformar recursos econômicos em capacidades sociais, diversificação produtiva, cidadania, educação, ciência e melhoria duradoura das condições de vida.
Foi para intervir nesse contexto que a Uenf foi criada. A instituição deveria formar quadros altamente qualificados, produzir ciência de excelência, contribuir para a modernização produtiva e oferecer à região Norte Fluminense uma base intelectual e tecnológica capaz de sustentar um processo de desenvolvimento menos desigual. A inovação fazia parte desse projeto, mas sua finalidade não se limitava ao aumento do número de empresas ou à ampliação da competitividade de determinados setores econômicos. Sua medida deveria ser também a capacidade de responder aos problemas concretos da região, fortalecendo políticas públicas, atividades produtivas socialmente inclusivas, serviços essenciais, sustentabilidade ambiental e mecanismos de redução das desigualdades.
É nesse sentido que a entrevista utilizada como ganchopara esta reflexão se torna reveladora menos pelo que afirma do que pelo que deixa de incluir em seu horizonte. A ênfase recai sobre empreendedorismo, empresas de base tecnológica, propriedade intelectual, incubação e aproximação com o mercado, enquanto temas como desenvolvimento regional, redução das desigualdades, formação cidadã e compromisso social aparecem ausentes ou, no mínimo, muito distantes do centro da narrativa. Não se trata de exigir que uma única entrevista contenha a totalidade do projeto universitário, mas de reconhecer que as escolhas discursivas revelam prioridades e que a repetição dessas escolhas pode indicar um estreitamento mais profundo na forma de conceber a inovação e o próprio papel da Uenf.
Esse estreitamento também pode ser observado na tendência de reconhecer como inovação, prioritariamente, aquilo que pode ser convertido em patente, empresa, produto ou modelo de negócios. Uma tecnologia voltada para fortalecer a agricultura familiar, um protocolo capaz de aperfeiçoar políticas de saúde, uma metodologia de recuperação ambiental, um sistema de gestão pública ou uma estratégia educacional podem transformar profundamente a vida social sem jamais produzir uma startup. Quando essas contribuições passam a ocupar um lugar secundário porque não se ajustam facilmente aos indicadores tradicionais da inovação mercadológica, não é a inovação que se torna maior, mas a universidade que corre o risco de ficar menor.
O uso de indicadores reforça essa mudança, pois é relativamente simples contar empresas incubadas, depósitos de patentes, contratos firmados e eventos realizados, embora seja muito mais difícil medir a contribuição de uma universidade para a redução das desigualdades, para a qualificação das políticas públicas, para o fortalecimento da cidadania ou para a construção de um projeto regional de desenvolvimento. Essa dificuldade não deveria servir de justificativa para abandonar objetivos mais amplos em favor daqueles que produzem números mais imediatos. Toda redução conceitual tende a gerar eficiência, facilitar a prestação de contas e tornar mais atraente a comunicação institucional, mas também pode produzir uma forma de cegueira quando transforma aquilo que é mais facilmente mensurável na única dimensão considerada relevante.
A aproximação com o setor produtivo, portanto, deve ser defendida, mas dentro de uma concepção na qual empresas sejam interlocutoras de uma universidade comprometida com a sociedade como um todo, e não destinatárias privilegiadas de sua missão. Uma universidade pública também dialoga com escolas, hospitais, agricultores, pescadores, servidores públicos, organizações comunitárias e grupos socialmente vulneráveis, pois seu papel não consiste apenas em converter conhecimento em riqueza, mas em transformá-lo em capacidade pública, qualidade de vida, justiça social e desenvolvimento humano. Essa amplitude não enfraquece a inovação, mas a retira de uma definição excessivamente estreita e a devolve ao terreno dos problemas concretos que justificam sua existência.
A Uenf não trai seu projeto original quando produz startups, protege tecnologias ou amplia sua interação com empresas, pois tudo isso pode contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento regional e para a criação de novas oportunidades. Ela corre o risco de se afastar desse projeto quando passa a acreditar que produzir startups resume sua razão de existir, substituindo uma concepção ampla de transformação social por um conjunto de instrumentos cuja relevância depende justamente dos objetivos aos quais estão subordinados. O desafio não consiste em escolher entre inovação e compromisso social, entre pesquisa básica e aplicação tecnológica ou entre universidade e setor produtivo, mas em recuperar a hierarquia que permite a essas dimensões coexistirem sem que uma delas ocupe o lugar de todas as demais.
A entrevista publicada pela Uenf talvez tenha produzido, assim, um efeito involuntariamente positivo ao recolocar em circulação uma pergunta que ultrapassa incubadoras, patentes, empresas nascentes e indicadores de desempenho. O verdadeiro debate diz respeito ao significado da universidade pública em uma sociedade profundamente desigual e ao papel que uma instituição concebida por Darcy Ribeiro deve desempenhar em uma região marcada por sucessivos ciclos de riqueza concentrada e desenvolvimento incompleto.
A aproximação com empresas e o estímulo à inovação tecnológica continuarão sendo componentes indispensáveis dessa missão, mas somente manterão seu sentido quando articulados ao compromisso com a justiça social, com a formação cidadã e com a construção de um projeto regional e nacional de desenvolvimento. A grande questão, portanto, não é saber se a Uenf deve produzir startups, mas se ela pode se dar ao luxo de esquecer por que e para quê foi criada.







26 de julho a 1º de agosto de 2026
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