Super El Niño rompe recorde antes do pico e empurra a Terra para águas desconhecidas

O fenômeno natural encontra uma atmosfera superaquecida pela queima de combustíveis fósseis, ampliando secas, enchentes, incêndios e fome em escala global

Em reportagem publicada neste domingo (21), o editor de meio ambiente do The Guardian, Damian Carrington, informa que o atual El Niño já ultrapassou o maior aquecimento anteriormente registrado no coração do fenômeno, embora seu pico seja esperado apenas para novembro ou dezembro. A anomalia da temperatura no Pacífico equatorial chegou a 3,05 °C acima da média de 1991–2020, superando os 3,02 °C observados em novembro de 2015. Na métrica preferida por muitos meteorologistas, o índice Niño 3.4, o recorde está igualmente próximo de ser rompido.

As projeções reunidas pelo cientista climático Zeke Hausfather são ainda mais inquietantes: a média de 14 modelos indica que o aquecimento pode alcançar 4 °C no final do ano. Para efeito de comparação, um El Niño já é caracterizado a partir de 0,5 °C, enquanto eventos acima de 2 °C são classificados como muito fortes e frequentemente chamados de “super El Niños”. Evidências extraídas de corais, anéis de árvores e registros históricos sugerem que um episódio dessa magnitude pode não ter ocorrido nos últimos mil anos.

É importante, contudo, não transformar o El Niño em uma explicação conveniente para todas as catástrofes que virão. Trata-se de uma oscilação natural do sistema climático, mas que agora se desenvolve sobre um planeta aquecido pela emissão continuada de gases de efeito estufa. A crise climática aumenta a temperatura de fundo sobre a qual o El Niño atua, enquanto o próprio fenômeno transfere mais calor dos oceanos para a atmosfera. É uma combinação explosiva: o aquecimento global fortalece os extremos associados ao El Niño, e o El Niño, por sua vez, intensifica temporariamente o aquecimento global. Pesquisas recentes indicam que a variabilidade desses eventos aumentou cerca de 37% desde a industrialização.

O resultado provável não será apenas um novo número nos gráficos climáticos. Serão secas mais prolongadas, chuvas concentradas, enchentes, incêndios florestais, quebras de safras, aumento dos preços dos alimentos e pressão adicional sobre os sistemas de saúde e de abastecimento de água. O Programa Mundial de Alimentos estima que cerca de 50 milhões de pessoas poderão ser empurradas para uma situação de fome aguda. Como sempre, os maiores custos recairão sobre populações que pouco contribuíram para o aquecimento do planeta, mas que vivem em territórios com infraestrutura precária e reduzida capacidade de resposta.

Para o Brasil, o alerta deveria ser tratado como assunto de Estado. Os padrões históricos associados ao El Niño indicam risco de excesso de chuva no Sul e de estiagem e calor intenso em áreas das regiões Norte e Nordeste, embora um evento tão extremo, combinado ao aquecimento global, possa produzir comportamentos fora dos padrões conhecidos. Também é necessário considerar os efeitos indiretos sobre a produção agrícola, a geração hidrelétrica, os reservatórios, os preços dos alimentos e a ocorrência de desastres urbanos. Preparação, neste caso, não significa divulgar alertas quando a chuva já começou ou distribuir água quando os reservatórios estiverem vazios, mas antecipar cenários, proteger populações vulneráveis e coordenar políticas públicas entre os diferentes níveis de governo.

A reportagem de Damian Carrington desmonta, sobretudo, a narrativa confortável segundo a qual ainda dispomos de tempo abundante para agir. O recorde foi ultrapassado meses antes do pico previsto, e 2027 poderá superar todas as marcas anteriores de temperatura global. O planeta já não está apenas se aproximando de uma zona de perigo: começa a operar fora dos parâmetros que orientaram nossa agricultura, nossas cidades e nossos sistemas de proteção social.

O El Niño é natural; a vulnerabilidade social, a dependência dos combustíveis fósseis e o despreparo governamental não são. Quando um fenômeno climático inevitável encontra um sistema econômico que continua queimando carvão, petróleo e gás como se a atmosfera fosse um depósito gratuito de resíduos, a catástrofe deixa de ser exclusivamente natural e passa a ser também uma escolha política. O “espantoso” El Niño descrito pelo The Guardian talvez seja uma prévia do clima que estamos fabricando — e uma demonstração de que a conta dessa fabricação será distribuída de maneira profundamente desigual.

Flávio Bolsonaro 2027–2030: Paulo Lindesay coloca as propostas na lupa

Em meio à campanha presidencial de 2026, compreender aquilo que está efetivamente sendo proposto pelos candidatos é mais importante do que acompanhar apenas discursos, slogans e peças de propaganda eleitoral. É com esse objetivo que disponibilizo aos leitores do Blog do Pedlowski o infográfico interativo produzido por Paulo Lindesay, que sistematiza e analisa criticamente propostas associadas ao programa apresentado por Flávio Bolsonaro para um eventual governo entre 2027 e 2030.

O material está organizado em dez eixos temáticos e dedica atenção especial às possíveis repercussões das propostas sobre Previdência Social, regimes próprios de previdência dos servidores, reforma administrativa, relações de trabalho, segurança pública, soberania nacional e dívida pública. Há ainda gráficos sobre a trajetória projetada da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), pagamento de juros e déficit nominal.

Um dos méritos do infográfico é justamente procurar deslocar a discussão do terreno abstrato das promessas eleitorais para suas possíveis consequências econômicas e sociais. No caso da Previdência, por exemplo, Paulo Lindesay discute os efeitos que mudanças na política de reajustes e nos regimes previdenciários poderiam produzir sobre trabalhadores, aposentados e servidores públicos. Na reforma administrativa, concentra sua análise em estabilidade, concursos, vínculos temporários, aposentadorias e mudanças nas relações entre Estado e funcionalismo.

O mesmo ocorre na discussão sobre segurança pública e soberania. O infográfico relaciona a proposta de tratar organizações criminosas brasileiras como organizações terroristas às possíveis implicações jurídicas e geopolíticas dessa classificação, especialmente quanto à cooperação e à atuação dos Estados Unidos no combate ao crime organizado. Também examina as possíveis consequências de um maior alinhamento internacional para setores e recursos considerados estratégicos.

É importante fazer uma ressalva metodológica. O infográfico não deve ser lido como se fosse o próprio plano de governo de Flávio Bolsonaro. Trata-se de uma análise produzida por Paulo Lindesay a partir de propostas, declarações, documentos e outras fontes. Consequentemente, o leitor encontrará tanto informações sobre propostas efetivamente apresentadas quanto interpretações críticas sobre seus possíveis efeitos. Essa distinção é fundamental e, ao mesmo tempo, constitui um convite para que cada leitor confronte a análise com as fontes indicadas no próprio material e com o programa oficial da candidatura.

Em uma eleição na qual boa parte do debate tende a ser reduzida a personagens, slogans e disputas nas redes sociais, materiais desse tipo oferecem outra possibilidade: discutir políticas concretas e perguntar quem ganha, quem perde, quanto custa e quais transformações institucionais poderão resultar das escolhas feitas nas urnas.

Por isso, agradeço a Paulo Lindesay pela elaboração e pelo compartilhamento do material e o disponibilizo aos leitores do Blog do Pedlowski como contribuição ao debate público. Independentemente da posição política de cada um, vale examinar as propostas, conferir suas fontes e refletir sobre suas possíveis consequências para o Brasil a partir de 2027.

O  leitor pode acessar e navegar pelo infográfico interativo completo elaborado por Paulo Lindesay [Aqui!].

Donald Trump diante do Brasil: o predador que precisa olhar para a própria armadilha

A possibilidade de Donald Trump tentar interferir politicamente nas eleições presidenciais brasileiras de 2026 não pode ser simplesmente descartada. Documentos recentemente revelados mostraram que o governo norte-americano chegou a incluir, nas negociações realizadas com Brasília em 2025, exigências relacionadas às condições de participação de “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras. Ao mesmo tempo, Lula já advertiu publicamente Trump para que não interfira no processo eleitoral brasileiro. Há, portanto, razões concretas para acompanhar com atenção os movimentos de Washington. 

Isso, entretanto, é diferente de afirmar que Donald Trump já decidiu não reconhecer uma eventual vitória de Lula. Até agora, não encontrei declaração pública que sustente essa afirmação. Pelo contrário, uma fonte do Departamento de Estado afirmou à CNN Brasil, em agosto, que os Estados Unidos respeitariam a escolha dos brasileiros em eleições consideradas livres e justas. O problema, portanto, não é antecipar uma ruptura que ainda não ocorreu, mas perguntar quanto espaço político Trump realmente terá para pressionar o Brasil caso Lula seja reeleito.

É nesse ponto que as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos entram na equação. Existe uma coincidência cronológica particularmente interessante: o primeiro turno brasileiro ocorrerá em 4 de outubro e o eventual segundo turno em 25 de outubro, enquanto os norte-americanos irão às urnas em 3 de novembro. Ou seja, quando o Brasil escolher seu presidente, Trump ainda não conhecerá o tamanho da bancada republicana que terá durante os dois últimos anos de seu mandato.

E os sinais disponíveis neste momento são desconfortáveis para a Casa Branca. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em setembro encontrou apenas 35% de aprovação ao desempenho de Trump e uma vantagem democrata de sete pontos — 44% contra 37% — na preferência nacional para o Congresso. A média do Silver Bulletin apontava vantagem democrata de 7,5 pontos em 18 de setembro. Outra pesquisa Economist/YouGov encontrou 51% dos eleitores considerados prováveis votantes inclinados aos democratas e 39% aos republicanos.

Esses números não significam que uma derrota republicana esteja determinada. Pesquisas nacionais de voto genérico não reproduzem automaticamente as disputas realizadas distrito por distrito para a Câmara e estado por estado para o Senado. A própria Reuters chama atenção para essa limitação. Além disso, os republicanos partem atualmente do controle das duas Casas: são 218 republicanos contra 214 democratas e um independente na Câmara, enquanto no Senado a composição é de 53 republicanos, 45 democratas e dois independentes.

Mas justamente aí aparece o problema político de Donald Trump. A margem republicana na Câmara é estreita, enquanto o próprio presidente apresenta índices baixos de aprovação. Uma perda do controle de uma das Casas — ou das duas — alteraria profundamente as condições políticas dos dois últimos anos de sua presidência. O Congresso não controla sozinho a política externa norte-americana, e Trump continuaria dispondo de instrumentos presidenciais relevantes. Mas uma administração pressionada internamente teria de dividir atenção e capital político entre disputas domésticas, orçamento, investigações parlamentares, nomeações, política econômica e suas ambições internacionais.  Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja simplesmente se Trump tentará interferir na eleição brasileira. A pergunta é em que condições políticas ele poderá fazê-lo.

Há ainda uma ironia temporal. Se Lula vencer em outubro, qualquer reação de Trump ocorrerá poucos dias antes de os próprios norte-americanos julgarem, nas urnas, os primeiros dois anos de seu segundo mandato. Trump poderia tentar projetar poder sobre Brasília justamente quando estaria enfrentando um teste decisivo de seu poder dentro dos Estados Unidos.  Isso modifica a imagem convencional de um presidente norte-americano todo-poderoso determinando unilateralmente os rumos políticos da América Latina. Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência do hemisfério e a Presidência norte-americana dispõe de instrumentos diplomáticos, comerciais e financeiros capazes de produzir custos reais para o Brasil. Seria um erro minimizar essa capacidade.

Mas também seria um erro analisar Trump como se ele atuasse num vazio político. Sua capacidade de pressionar o Brasil dependerá da economia norte-americana, de sua aprovação popular, da coesão do Partido Republicano e, sobretudo, da composição do Congresso que emergirá das urnas de novembro. É justamente aí que a metáfora do predador começa a ficar mais complicada. Trump pode tentar mostrar os dentes para o Brasil em outubro, mas terá de fazê-lo olhando constantemente por cima do ombro para as urnas que estarão esperando por ele nos Estados Unidos apenas alguns dias depois.

Talvez, portanto, a imagem mais adequada para outubro de 2026 não seja simplesmente a de Trump como predador ou como presa. É a de um presidente que ainda dispõe de enorme poder institucional, mas que tenta projetá-lo para fora enquanto enfrenta uma crescente contestação política dentro de casa. E isso pode fazer toda a diferença na quantidade de força que Washington conseguirá efetivamente mobilizar contra Brasília.

Flávio Bolsonaro e a República dos Amigos: quando tanta coincidência começa a pedir explicação

Viagens, apartamento e uma rede de relações que passa por Willer Tomaz, Cláudio Castro e personagens ligados ao Banco Master tornam cada vez mais relevante esclarecer onde termina a amizade privada e onde começam as relações políticas e patrimoniais

A reportagem de Patrik Camporez, de O Globo, retomada e ampliada por Luis Nassif no Jornal GGN, acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça formado pelas investigações envolvendo o Banco Master, as fraudes do INSS e personagens que circulam há anos nos ambientes político, empresarial e jurídico de Brasília e do Rio de Janeiro. No centro dessa trama aparece o advogado Willer Tomaz, cuja importância talvez esteja menos em cada relação tomada separadamente do que na extraordinária capacidade de conectar personagens, patrimônio, negócios e interesses que reaparecem em diferentes investigações.

A relação com Flávio Bolsonaro vai muito além de um encontro ocasional

A proximidade entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro é documentada há anos. Durante a CPI da Covid, em 2021, o próprio Flávio chamou Tomaz publicamente de seu “amigo”. Mais recentemente, vieram à tona viagens internacionais realizadas conjuntamente. Registros obtidos pela Polícia Federal indicam ao menos cinco viagens dos dois no primeiro semestre de 2025, incluindo um safári na África do Sul do qual também participou o senador Weverton Rocha. A piauí confirmou ainda a existência de um grupo de WhatsApp da viagem do qual participavam Flávio, Tomaz, Weverton e familiares.

Isso ganhou outra dimensão durante a atual campanha presidencial. Flávio utilizou em São Paulo um apartamento pertencente à empresa de Willer Tomaz. O imóvel havia sido comprado poucos meses antes de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e apontado pela PF como operador financeiro ligado ao ex-controlador do Banco Master. Zettel havia adquirido o apartamento por R$ 5,5 milhões e o vendeu à empresa de Tomaz por R$ 3,5 milhões. A utilização do imóvel por Flávio durante atividades de campanha foi confirmada pela piauí e pela Folha de S.Paulo.

Nada disso, isoladamente, demonstra que Flávio tenha participado das irregularidades atribuídas a terceiros. Mas modifica a natureza da questão. Já não se trata apenas de saber se duas pessoas eram amigas, mas de esclarecer como essa amizade se relacionava com imóveis, viagens, serviços e estruturas patrimoniais que posteriormente aparecem em investigações diferentes.

Cláudio Castro entra na mesma rede

A relação de Willer Tomaz com Cláudio Castro também ultrapassa uma convivência social. Tomaz atuou como advogado pessoal de Castro e, em julho de 2021, protocolou no STF uma petição sigilosa em nome do então governador para saber se existiam investigações contra ele. Naquela mesma época, Tomaz já era publicamente identificado como amigo de Flávio Bolsonaro, enquanto Castro era aliado político do senador.

A relação continuou. Em novembro de 2025, Castro, sua mulher e seus filhos viajaram para Lima para assistir à final da Libertadores em uma aeronave cuja estrutura de propriedade incluía Willer Tomaz. Também estavam no avião o próprio Tomaz, seus familiares e Weverton Rocha. Castro declarou que fora convidado pelo advogado, de quem afirmou ser amigo havia anos. A aeronave era administrada pela Prime Aviation/Prime You, grupo do qual Daniel Vorcaro havia sido acionista minoritário até setembro daquele ano.

Esse dado se torna politicamente relevante porque, durante a administração Castro, instituições vinculadas ao Estado do Rio ficaram fortemente expostas ao universo do Banco Master. Segundo dados do Tribunal de Contas citados pela Band, o Rioprevidência possuía cerca de R$ 1,6 bilhão em fundos ligados direta ou indiretamente ao Master, enquanto a Cedae havia investido R$ 200 milhões. Isso não demonstra que a amizade entre Castro e Tomaz tenha determinado essas operações, mas torna legítima a pergunta sobre a existência — ou não — de conexões entre relações privadas e decisões envolvendo estruturas públicas.

O ponto central: não são apenas amizades

É precisamente aqui que a matéria ganha importância. Willer Tomaz aparece simultaneamente como amigo de Flávio Bolsonaro, antigo advogado pessoal de Cláudio Castro, pessoa próxima de Weverton Rocha, proprietário de empresas e imóveis envolvidos em operações examinadas pelas autoridades e participante de estruturas de propriedade compartilhada administradas por uma empresa da qual Daniel Vorcaro foi acionista. A PF, no caso envolvendo Weverton, chegou a descrevê-lo como um “hub financeiro, patrimonial e logístico”, expressão que precisa ser entendida como uma caracterização dos investigadores, e não como uma conclusão judicial de culpa.

É justamente a recorrência que merece atenção. Em uma ocasião há uma viagem; em outra, uma relação advocatícia; depois aparece um imóvel; posteriormente uma aeronave; em seguida, pessoas ligadas às mesmas redes empresariais e políticas reaparecem em outras investigações. Nenhuma dessas conexões, sozinha, autoriza concluir pela existência de uma organização comum ou pela participação de todos em atividades ilícitas. Mas a repetição dos mesmos personagens em diferentes circuitos reduz a capacidade explicativa da tese de que tudo possa ser compreendido apenas como uma coleção de relações privadas independentes.

E o problema para a candidatura de Flávio Bolsonaro?

Para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, a questão objetiva é de transparência e explicação pública. A revelação do apartamento já levou a um questionamento perante o TSE sobre se seu uso durante a campanha deveria ter sido contabilizado como doação ou despesa eleitoral; isso é uma alegação apresentada por adversários e ainda não equivale a uma decisão de que houve irregularidade.

Há também uma questão política mais ampla: Willer Tomaz não aparece agora, repentinamente, na periferia das relações do candidato. A proximidade é antiga, foi reconhecida pelo próprio Flávio e inclui viagens e disponibilização de imóvel. A piauí registrou ainda que Flávio não respondeu aos seus questionamentos sobre a viagem à África do Sul, o grupo de WhatsApp e suas relações com Tomaz e os demais participantes.

Por isso, o episódio aumenta o conjunto de perguntas às quais o candidato pode ser chamado a responder: qual era exatamente a natureza de sua relação com Willer Tomaz; quem custeou e organizou cada uma das viagens; em quais circunstâncias utilizou o apartamento de São Paulo; como esse uso foi tratado contabilmente pela campanha; e até que ponto conhecia as relações empresariais e patrimoniais mantidas pelo advogado com outros personagens hoje investigados?

Responder a essas questões é particularmente relevante em uma eleição presidencial porque o problema colocado pelas reportagens não é simplesmente “com quem Flávio Bolsonaro é amigo”. O problema factual a esclarecer é onde terminam as relações pessoais e onde começam relações patrimoniais, profissionais ou políticas com possível interesse público.

É nesse ponto que a apuração de Patrik Camporez ganha força. Em vez de uma fotografia isolada, começa a aparecer uma rede. E, diante de uma rede na qual os mesmos personagens atravessam sucessivamente o INSS, o Banco Master, estruturas empresariais, patrimônio imobiliário e círculos políticos, a distinção entre coincidência, amizade e interesse passa a depender cada vez mais de documentação e esclarecimentos verificáveis — e cada vez menos de simples declarações de que todos eram apenas amigos.

A fachada é suíça, mas o domínio é chinês: a nova geografia do colonialismo químico

Syngenta, ADAMA e os pós-patentes revelam como a China avançou sobre a indústria mundial de agrotóxicos e como o Brasil se tornou peça-chave de um colonialismo químico cada vez mais Sul–Sul

A reportagem publicada pelo Correio 24 Horas sobre o crescimento da Syngenta no Brasil oferece uma oportunidade para discutir algo muito maior do que o desempenho comercial de uma empresa de sementes e agrotóxicos. O dado mais imediato já chama atenção: enquanto a receita global da companhia recuou no primeiro semestre de 2026, suas vendas de sementes cresceram 18% no Brasil. Mais importante é perceber que esse crescimento ocorre em um dos maiores mercados mundiais de agrotóxicos e em um país no qual continuam autorizados ingredientes ativos que não possuem autorização para uso na União Europeia.

Há, entretanto, outra questão que merece ser colocada no centro dessa discussão. A própria definição da Syngenta como uma “gigante suíça” tornou-se insuficiente para explicar quem controla hoje uma parcela importante da indústria mundial de agrotóxicos e, principalmente, para compreender o peso adquirido pela China nessa cadeia global.

Suíça na fachada, China no controle

A Syngenta mantém sua sede em Basileia e conserva uma identidade corporativa fortemente associada à Suíça, mas isso não significa que continue sendo uma companhia suíça independente. Em 2017, a empresa foi adquirida pela estatal chinesa ChemChina por aproximadamente US$ 43 bilhões. Posteriormente, a reorganização envolvendo ChemChina e Sinochem colocou o Syngenta Group sob controle da Sinochem Holdings, empresa estatal supervisionada pela SASAC, órgão do Conselho de Estado chinês responsável pela administração dos grandes ativos empresariais estatais.

Mas a Syngenta não foi a única aquisição estratégica realizada pelos chineses. Alguns anos antes, em 2011, a ChemChina já havia adquirido o controle da Makhteshim Agan, companhia israelense que posteriormente passou a operar mundialmente sob a marca ADAMA. O controle chinês foi ampliado nos anos seguintes e, atualmente, a ADAMA integra o próprio Syngenta Group. A empresa continua sediada em Israel e preserva sua marca e identidade histórica, mas seu controle societário está inserido na mesma estrutura chinesa que controla a Syngenta.

A incorporação da ADAMA é especialmente reveladora porque não se tratava de uma empresa marginal. Antes mesmo de sua integração à atual estrutura chinesa, a companhia se apresentava como uma das maiores empresas mundiais de agrotóxicos genéricos e pós-patente. Atualmente, a própria ADAMA informa possuir um portfólio de centenas de ingredientes ativos e ocupar posição de destaque mundial na proteção de cultivos.

Quando colocamos Syngenta e ADAMA lado a lado, portanto, a estratégia chinesa torna-se muito mais clara. De um lado, a aquisição da Syngenta permitiu acessar pesquisa, desenvolvimento, patentes, sementes, marcas e uma gigantesca estrutura internacional de comercialização. De outro, o controle da ADAMA reforçou uma posição particularmente importante no mercado dos produtos genéricos e pós-patente. O resultado foi a construção de uma estrutura capaz de operar simultaneamente no topo tecnológico da indústria e no enorme mercado mundial dos princípios ativos cujas patentes já expiraram.

A China domina justamente a base industrial dos agrotóxicos

Esse aspecto é particularmente importante porque ajuda a entender por que a dimensão chinesa da indústria mundial de agrotóxicos permanece muito menos visível do que deveria. Um estudo publicado na revista World Development estima que empresas chinesas já respondem por quase 70% da produção mundial de agrotóxicos, sendo grande parte dessa produção constituída justamente por ingredientes ativos pós-patente.

A ascensão chinesa, portanto, não ocorreu apenas pelo crescimento das exportações, mas por uma estratégia de ocupação progressiva dos diferentes níveis da cadeia agroquímica. Empresas chinesas começaram fortemente concentradas na fabricação de ingredientes ativos e genéricos de menor valor agregado, avançaram sobre formulação e distribuição e, por meio de fusões e aquisições, passaram a controlar empresas que detêm marcas globais, redes comerciais, tecnologias e capacidade de pesquisa e desenvolvimento. O estudo da World Development mostra inclusive que empresas estatais e privadas chinesas estão hoje presentes nos diferentes estratos da cadeia mundial de agrotóxicos, enquanto a propriedade estatal possui importância especialmente forte justamente no seu nível superior.

A aquisição da Syngenta deve ser entendida nesse contexto, assim como a incorporação da ADAMA. Não estamos diante de compras empresariais desconectadas, mas da formação de um complexo agroquímico capaz de combinar produção massiva de ingredientes ativos pós-patente, formulação, marcas internacionais, pesquisa e desenvolvimento e redes globais de comercialização.

É justamente essa estrutura que torna a presença chinesa menos evidente do que efetivamente é. Um agrotóxico pode chegar ao agricultor brasileiro carregando uma marca historicamente suíça ou israelense e, ainda assim, integrar uma cadeia corporativa cujo controle final está ligado ao Estado chinês. Em outras situações, o ingrediente ativo utilizado na formulação pode ter sido produzido por uma empresa chinesa e comercializado posteriormente sob outra marca. A nacionalidade estampada no rótulo, portanto, diz cada vez menos sobre a verdadeira geografia econômica dos agrotóxicos.

O Brasil tornou-se estratégico para essa engrenagem

É nesse ponto que o caso brasileiro ganha enorme importância. Dados do comércio internacional mostram que a China se consolidou como principal fornecedora externa de agrotóxicos e produtos relacionados para o Brasil. Em 2024, aproximadamente 45% do valor importado pelo Brasil na categoria internacional que reúne inseticidas, herbicidas, fungicidas e produtos semelhantes veio diretamente da China. Em quantidade física, a concentração foi ainda maior, aproximando-se de dois terços de todo o volume importado.

Esses números precisam ser observados juntamente com o fato de que, além de ser o principal fornecedor direto, o capital estatal chinês controla justamente alguns dos ativos corporativos mais importantes da indústria agroquímica mundial. Temos, portanto, dois movimentos que se reforçam mutuamente: uma enorme corrente comercial China → Brasil, abastecendo diretamente o mercado brasileiro, e outra menos visível, mediada por empresas transnacionais historicamente identificadas com outros países, mas atualmente integradas a conglomerados chineses.

Quando Syngenta e ADAMA entram juntas nessa equação, torna-se ainda mais difícil tratar a China apenas como uma fornecedora de matérias-primas baratas para a indústria agroquímica mundial. Ela ocupa progressivamente a própria estrutura de comando dessa indústria.

E a Índia também entrou no mapa

Mas a China não é o único país do Sul Global cuja ascensão modifica a velha geografia mundial dos agrotóxicos. A Índia também se transformou em um importante produtor e exportador, apoiando-se em vantagens semelhantes às que impulsionaram inicialmente a indústria chinesa: capacidade industrial química, custos competitivos de produção e forte especialização em moléculas genéricas e pós-patente.

Dados recentes colocam a Índia entre os maiores produtores mundiais de agrotóxicos e mostram uma indústria fortemente voltada para exportações. A expiração de patentes é explicitamente identificada pelo próprio setor indiano como uma importante oportunidade para ampliar a fabricação de moléculas genéricas e conquistar mercados internacionais.

Os números mostram que essa não é uma transformação marginal. As exportações indianas de agrotóxicos, considerando produtos técnicos e formulados, passaram de aproximadamente 461 mil toneladas em 2018-19 para 641 mil toneladas em 2023-24. E há um dado especialmente significativo para nós: naquele último período, o Brasil foi o principal destino em volume dos agrotóxicos exportados pela Índia, recebendo 23,7% do total.

China, Índia e Brasil passam, assim, a formar alguns dos nós fundamentais de uma nova geografia mundial dos agrotóxicos.

O colonialismo químico está mudando de direção

É justamente aqui que o conceito de colonialismo químico, desenvolvido pela geógrafa brasileira Larissa Bombardi, ganha uma nova dimensão. Ao estudar os fluxos internacionais de agrotóxicos, Bombardi demonstrou a existência de uma profunda assimetria entre aquilo que países europeus consideram aceitável para seus próprios territórios e aquilo que suas empresas produzem ou comercializam em outras partes do mundo. O paradoxo tornou-se conhecido: determinadas substâncias deixam de ser autorizadas na União Europeia em função dos riscos ambientais ou sanitários associados ao seu uso, mas continuam circulando internacionalmente e sendo utilizadas em países onde a regulação é mais permissiva.

O Brasil tornou-se um dos exemplos mais evidentes dessa geografia desigual, mas a ascensão chinesa e, mais recentemente, a consolidação da Índia como grande produtora e exportadora de agrotóxicos obrigam a ampliar essa interpretação. O fluxo já não pode ser compreendido exclusivamente segundo o eixo Norte Global → Sul Global, pois uma parcela crescente da produção mundial está concentrada no próprio Sul Global e circula intensamente entre países do Sul.

Isso não invalida a formulação de Bombardi, mas mostra que a geografia do colonialismo químico está se tornando mais complexa. O mecanismo fundamental permanece: determinados territórios concentram produção e acumulação econômica, enquanto outros absorvem desproporcionalmente os riscos ambientais e sanitários associados ao uso intensivo dessas substâncias. O que está mudando são os lugares ocupados pelos diferentes atores nessa divisão internacional.

O colonialismo químico também pode ser Sul–Sul

A emergência de novas potências econômicas do Sul Global não significa necessariamente a superação das relações ambientalmente desiguais que caracterizaram historicamente o sistema internacional. Em determinadas cadeias produtivas, pode significar simplesmente sua reprodução por novos atores, e o complexo agroquímico oferece um exemplo particularmente evidente dessa transformação.

China e Índia desenvolveram gigantescas capacidades de produção de ingredientes ativos e produtos pós-patente, enquanto países como o Brasil oferecem uma combinação extremamente atraente de agricultura em larga escala, enorme demanda por insumos químicos e um sistema regulatório que permite a utilização de substâncias que enfrentam restrições em outros mercados.

Nesse sentido, o colonialismo químico deixa de possuir apenas uma direção geográfica. Ele continua operando no eixo Norte–Sul, mas passa também a circular intensamente no eixo Sul–Sul, produzindo uma rede muito mais complexa de transferência de riscos ambientais.

O caso brasileiro é particularmente revelador porque o país aparece simultaneamente como grande potência agrícola e como gigantesco mercado consumidor de produtos fabricados em outros países do Sul Global. O fato de o Brasil ter se tornado o maior destino das exportações chinesas de agrotóxicos em determinados anos e aparecer também como principal destino em volume das exportações indianas em 2023-24 mostra que essa nova geografia já não é uma hipótese abstrata.

Os lucros circulam; a toxicidade fica

O problema fundamental, portanto, não está simplesmente na nacionalidade das empresas. O que está se formando é uma cadeia agroindustrial transnacional na qual corporações historicamente europeias ou israelenses, capitais estatais chineses, fabricantes chineses e indianos de ingredientes ativos, tradings internacionais e grandes produtores agrícolas brasileiros participam de um mesmo sistema econômico, enquanto os benefícios e os riscos associados a esse sistema permanecem distribuídos de maneira profundamente desigual.

Os lucros, as marcas e os capitais atravessam fronteiras com enorme facilidade, enquanto a toxicidade permanece principalmente nos territórios onde esses produtos são utilizados, acumulando-se potencialmente na água, nos solos e nos organismos expostos e alcançando trabalhadores rurais, populações próximas às áreas de aplicação e consumidores por diferentes rotas de exposição. Por isso, a discussão sobre a nacionalidade das empresas não pode obscurecer uma questão essencial: quem se apropria dos benefícios econômicos e quem permanece com os custos ambientais e sanitários desse modelo?

O Brasil como grande mercado da permissividade

É justamente nesse ponto que o crescimento da Syngenta relatado pelo Correio 24 Horas ganha significado político e econômico mais amplo. O Brasil não se tornou um mercado estratégico para a indústria mundial de agrotóxicos por acaso, pois somos simultaneamente uma gigantesca potência agrícola, um dos maiores mercados mundiais desses produtos e um país no qual substâncias que enfrentam restrições em outros mercados continuam encontrando espaço comercial.

A permissividade regulatória, portanto, não pode ser tratada apenas como uma peculiaridade burocrática brasileira, pois ela possui evidente valor econômico. Cada ingrediente ativo que perde mercado em países com regulações mais restritivas precisa encontrar outros destinos para continuar gerando receita, enquanto cada patente que expira abre um gigantesco mercado para fabricantes chineses e indianos especializados em produtos genéricos e pós-patente. O Brasil oferece simultaneamente escala territorial, demanda agrícola e condições regulatórias para absorver parte expressiva dessa produção. 

Por isso, quando uma corporação agroquímica cresce fortemente justamente no mercado brasileiro enquanto determinados produtos enfrentam regulações mais rigorosas em outras regiões, é necessário perguntar se estamos diante apenas de uma história empresarial de sucesso ou de algo muito mais profundo: uma nova divisão internacional da produção e dos riscos químicos.

O agrotóxico tem passaporte, mesmo quando ele fica escondido

A reportagem do Correio 24 Horas ajuda, portanto, a revelar uma contradição importante do capitalismo agroquímico contemporâneo. A Syngenta continua tendo endereço suíço e a ADAMA continua carregando uma história empresarial israelense, mas ambas integram hoje uma estrutura corporativa controlada pelo Estado chinês. Paralelamente, gigantescos volumes de ingredientes ativos e produtos formulados saem diretamente de fábricas chinesas e indianas em direção aos grandes mercados agrícolas mundiais, entre os quais o Brasil ocupa posição privile

Glifosato encontrado em tecido endometrial: novo estudo amplia as preocupações sobre exposição crônica

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Toxicology Reports acrescenta uma peça importante — e preocupante — ao debate sobre os possíveis efeitos do glifosato sobre a saúde humana. Liderado por Márkó Unicsovics e desenvolvido por uma equipe de pesquisadores vinculados principalmente à Semmelweis University e à Hungarian University of Agriculture and Life Sciences, na Hungria, o trabalho investigou algo ainda pouco estudado: a presença de glifosato diretamente no tecido endometrial humano.

O estudo, intitulado Presence of glyphosate in endometrial cancer tissue: A cross-sectional study, foi publicado na Toxicology Reports, periódico científico de acesso aberto publicado pela Elsevier. Além de Unicsovics, assinam o trabalho Apolka Szentirmay, Györgyi Fekécs, Patrik Plank, Zsófia Molnár, György Nagyéri, Katalin Posta, Nándor Ács, Szabolcs Varbíró, Levente Sára e Zsuzsanna Szőke.

Glifosato não apenas no sangue, mas no próprio tecido

Os pesquisadores compararam mulheres com câncer endometrial e pacientes-controle com doenças endometriais benignas, procurando glifosato tanto no sangue quanto no tecido retirado durante procedimentos cirúrgicos. O desenho incluiu 32 pacientes no grupo de câncer analisado e 32 controles, além de subgrupos definidos pelo tipo e grau das alterações encontradas.

O resultado mais interessante talvez não seja simplesmente a detecção do composto. As concentrações de glifosato encontradas no tecido endometrial foram significativamente superiores às encontradas no sangue em todos os grupos analisados. Além disso, quando os pesquisadores separaram os casos segundo a gravidade da doença, as diferenças estatisticamente significativas em relação aos controles ficaram concentradas nas pacientes com câncer endometrial de alto grau.

Esse resultado abre uma questão que merece atenção: substâncias às quais as populações estão ambientalmente expostas podem apresentar comportamentos nos tecidos que não são adequadamente representados apenas por medições sanguíneas.

O problema pode estar também nas misturas

Outro aspecto especialmente interessante do estudo é que os pesquisadores não analisaram o glifosato isoladamente. Eles investigaram também micotoxinas presentes nos mesmos tecidos e encontraram forte correlação positiva entre os níveis endometriais de glifosato e zearalenona (ZEN), uma micotoxina com atividade estrogênica. Também foi observada correlação positiva com fumonisina B1.

Isso coloca em primeiro plano um problema frequentemente secundarizado na avaliação toxicológica: os seres humanos não estão expostos a uma substância de cada vez. Agrotóxicos, seus metabólitos, micotoxinas e inúmeros outros contaminantes ambientais podem chegar simultaneamente ao organismo. Os próprios autores levantam a hipótese de efeitos sinérgicos ou de coamplificação entre compostos capazes de interferir nas vias hormonais.

Um sinal de alerta, não uma demonstração de causalidade

Aqui é importante não fazer o estudo dizer mais do que ele efetivamente demonstra. Trata-se de uma investigação transversal, realizada com número relativamente pequeno de pacientes. O subgrupo no qual apareceu a associação mais forte — câncer endometrial de alto grau — possuía apenas seis mulheres. Os próprios autores ressaltam, portanto, que não é possível saber se a maior presença de glifosato antecedeu o desenvolvimento do tumor ou ocorreu posteriormente.

Em outras palavras, o estudo não demonstra que o glifosato causou câncer endometrial. Ele demonstra algo diferente e suficientemente importante: o composto foi encontrado no tecido endometrial, apresentou concentrações particularmente elevadas nos casos de câncer de alto grau e apareceu associado à presença de outros contaminantes com atividade endócrina. Os próprios pesquisadores classificam esses resultados como preliminares e defendem sua confirmação em amostras maiores e independentes.

A pergunta que permanece

Há um detalhe do artigo que merece correção. Os autores dizem que a Organização Mundial da Saúde teria classificado o glifosato como “provavelmente carcinogênico” no Grupo 2B. Na realidade, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, classificou o glifosato em 2015 como “provavelmente carcinogênico para humanos”, Grupo 2A. Grupo 2B corresponde a “possivelmente carcinogênico”. A própria IARC mantém essa informação em sua documentação oficial.  Esse lapso não altera os resultados experimentais apresentados no artigo, mas vale registrá-lo para que a informação seja reproduzida corretamente.

O ponto central levantado pelo trabalho de Unicsovics e seus colegas na Toxicology Reports talvez esteja justamente em outro lugar. Se resíduos de um dos agrotóxicos mais utilizados mundialmente podem ser encontrados em tecidos humanos e aparecem associados a outros contaminantes capazes de interferir no sistema endócrino, a discussão sobre limites considerados individualmente “seguros” parece cada vez menos suficiente. Os próprios autores concluem que é necessário investigar exposições crônicas de baixa dose, misturas de contaminantes e possíveis efeitos sinérgicos, além de desenvolver métodos mais sensíveis para medir glifosato no endométrio.

Nesse sentido, talvez a principal contribuição do estudo seja mudar ligeiramente a pergunta. Em vez de perguntar apenas quanto glifosato uma pessoa pode receber sem apresentar toxicidade aguda, torna-se necessário perguntar onde esse composto chega, por quanto tempo permanece, com quais outras substâncias interage e quais podem ser as consequências de uma exposição ambiental contínua ao longo de anos. É nesse terreno que o estudo publicado na Toxicology Reports abre uma nova e importante frente de investigação.

Colonialismo energético verde: o vento leva a riqueza e deixa a desigualdade

A reportagem publicada neste sábado (19/09) pelo The Guardian, assinada por Alice Lima e Marilia Gurgel, oferece uma contribuição importante para um debate que o Brasil precisa fazer com urgência: não basta substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis se a transição energética reproduzir velhas formas de apropriação dos territórios e de concentração dos benefícios econômicos.

O ponto de partida é aparentemente uma história de enorme sucesso. O Brasil possui cerca de 35 GW de capacidade eólica instalada e transformou principalmente o Nordeste em uma das grandes fronteiras mundiais dessa fonte energética. Segundo o Balanço Energético Nacional 2026, a geração eólica chegou a 116,5 TWh em 2025, enquanto a potência instalada centralizada alcançou 34.689 MW. Mas esses números escondem uma questão fundamental: quem efetivamente está se beneficiando desse sucesso?

Quando o vento sopra, mas a riqueza vai embora

Em Serra do Mel, no Rio Grande do Norte, o Guardian encontrou agricultores convivendo com restrições ao uso de suas propriedades, contratos de longa duração, perda de áreas produtivas e conflitos sobre os valores pagos pelas empresas. Um dos casos relatados é particularmente ilustrativo: embora o contrato considere aproximadamente um hectare ocupado pela infraestrutura, o agricultor Antonio de Souza afirma que, na prática, quatro hectares de sua propriedade de 50 hectares deixaram de ser produtivos.

A situação revela algo maior do que um conflito contratual. Existe uma geografia profundamente desigual da transição energética, na qual o território fornece terra e vento e recebe torres, linhas de transmissão, estradas e restrições de uso, enquanto parte significativa da eletricidade e do valor econômico produzido é transferida para outros lugares. É uma lógica bastante conhecida em outras atividades extrativas brasileiras e que, guardadas as diferenças evidentes, reaparece na expansão das energias renováveis: o recurso está territorialmente localizado, grandes empresas controlam sua transformação econômica e as comunidades que vivem nesses territórios nem sempre participam proporcionalmente da riqueza produzida.

Energia renovável não significa impacto zero

Há outro problema que frequentemente desaparece sob a expressão confortável de “energia limpa”. O próprio Ministério do Meio Ambiente reconhece que a expansão das fontes eólica e solar vem se tornando um vetor relevante de transformação do uso da terra na Caatinga, inclusive com incompatibilidades entre esses empreendimentos e usos preexistentes, como produção agrícola e manejo florestal.

Isso não significa colocar a energia eólica no mesmo patamar ambiental dos combustíveis fósseis. Significa abandonar a ideia de que uma tecnologia, por emitir pouco carbono durante a geração de eletricidade, esteja automaticamente livre de impactos sociais, ambientais e territoriais.

Essa distinção será ainda mais importante agora que o Brasil começa a avançar sobre a geração eólica offshore. A Lei 15.097/2025 criou o marco para aproveitamento energético no mar, enquanto os processos de licenciamento terão de considerar questões relacionadas à pesca artesanal, navegação, turismo, fauna marinha e ambientes recifais. O caso de Areia Branca, abordado pelo Guardian, merece por isso atenção especial, pois poderá funcionar não apenas como experiência tecnológica, mas como precedente para a maneira pela qual o Brasil tratará comunidades pesqueiras diante da expansão dessa nova fronteira energética marítima.

Produzir mais energia não resolve tudo

Existe ainda uma contradição adicional. Enquanto novos projetos continuam sendo planejados, o sistema elétrico brasileiro enfrenta dificuldades crescentes para absorver toda a geração renovável disponível. O chamado curtailment, que corresponde à redução compulsória da geração, tornou-se um problema estrutural e coloca em questão a ideia de que basta continuar instalando parques eólicos e solares para avançar na transição energética.

Se a capacidade de geração crescer mais rapidamente do que a infraestrutura de transmissão, armazenamento e consumo capaz de absorvê-la, novas usinas poderão simplesmente disputar espaço no sistema com empreendimentos renováveis já existentes. Nesse cenário, torna-se ainda mais necessária uma pergunta básica sobre para que, para quem e sob quais condições territoriais continuaremos expandindo essa infraestrutura.

Uma transição energética precisa ser também social

A reportagem do Guardian tem o mérito de desmontar uma simplificação perigosa. O Brasil precisa ampliar o uso de fontes renováveis e reduzir progressivamente sua dependência dos combustíveis fósseis, mas trocar petróleo, carvão e gás por vento e sol não resolverá automaticamente os conflitos socioambientais associados ao modelo brasileiro de desenvolvimento.

Se comunidades rurais cedem seus territórios por décadas, pescadores perdem acesso às áreas onde trabalham e a eletricidade produzida segue para grandes centros consumidores enquanto as localidades produtoras recebem apenas uma parcela dos benefícios econômicos, teremos mudado a fonte energética sem necessariamente modificar a estrutura de apropriação da riqueza.

A experiência relatada no Nordeste mostra, portanto, que uma verdadeira transição energética não pode ser medida apenas em gigawatts instalados ou toneladas de CO₂ evitadas. Ela precisa ser avaliada também pela forma como distribui renda, poder, custos e benefícios entre aqueles que cedem seus territórios para tornar essa transição possível. Afinal, o vento pode ser renovável, mas isso não significa que o modelo de exploração deva reproduzir velhas desigualdades.

Marcha pelo Clima no Rio: El Niño com capitalismo é pior!

Neste domingo, 20 de setembro, a partir das 14 horas, o Leme, no Rio de Janeiro, será palco da Marcha pelo Clima, mobilização que pretende chamar atenção para o agravamento da crise climática e para a necessidade de respostas políticas diante das transformações ambientais em curso.

Com o lema “El Niño com capitalismo é pior!”, os organizadores partem de um fenômeno natural conhecido há muito tempo — o aquecimento anômalo das águas do Pacífico equatorial — para discutir sua interação com um planeta já submetido a um intenso processo de aquecimento provocado pelas atividades humanas.

A manifestação propõe, entretanto, ir além do diagnóstico climático. Na perspectiva dos organizadores, a crise ambiental não pode ser separada do modelo econômico baseado na exploração intensiva dos recursos naturais, no consumo crescente de energia e matérias-primas e na apropriação desigual dos benefícios e prejuízos produzidos por esse processo.

A Marcha também pretende confrontar diferentes formas de negacionismo climático, desde a negação aberta das mudanças climáticas até posições que, segundo os organizadores, reconhecem a existência da crise, mas apostam na possibilidade de solucioná-la sem alterar profundamente as estruturas econômicas responsáveis pela pressão sobre os ecossistemas.

Nesse sentido, a palavra de ordem “El Niño com capitalismo é pior!” procura estabelecer uma conexão entre um fenômeno climático natural e as condições sociais e econômicas que podem ampliar seus impactos, sobretudo sobre as populações mais vulneráveis.

Marcha pelo Clima – Rio de Janeiro

Data: 20 de setembro
Horário: 14h
Local: Leme – Rio de Janeiro

“Venha marchar com a gente! Não existe planeta B!”

Rodrigo Fux, o Porto do Açu e as desapropriações que continuam sem pagamento

As recentes revelações sobre a proximidade entre o advogado Rodrigo Fux e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro recolocaram em debate as relações entre grandes interesses econômicos, escritórios de advocacia influentes e os tribunais superiores. No Norte Fluminense, essa discussão possui um antecedente que merece atenção: a atuação de Rodrigo Fux na defesa de empresas ligadas ao Porto do Açu.

Documentos judiciais confirmam que Rodrigo Fux representou a Porto do Açu Operações e a Grussaí Siderúrgica do Açu em processos envolvendo terras desapropriadas no V Distrito de São João da Barra. No processo nº 0000721-89.2017.8.19.0053, ele compareceu como advogado das empresas em uma ação destinada a retirar agricultores que haviam retomado áreas desapropriadas durante o governo Sérgio Cabral.

A distinção necessária é que Rodrigo Fux não aparece como responsável pelo pagamento das indenizações, atribuição do Estado do Rio de Janeiro e da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin). Sua atuação ocorreu na defesa das empresas beneficiárias das desapropriações. Enquanto o Estado não pagava aos antigos proprietários, seus clientes procuravam garantir judicialmente a posse das terras e afastar os agricultores que haviam retornado às propriedades.

Essa atuação proeminente já havia sido percebida por fontes locais diretamente envolvidas no conflito. O advogado Antonio Mauricio Costa, representante dos desapropriados, vinha chamando atenção para a presença de Rodrigo Fux na defesa dos interesses empresariais relacionados ao Porto do Açu. Registros posteriores mostram que o advogado continuou representando a Porto do Açu Operações em outros litígios, enquanto o próprio escritório Fux Advogados apresenta a Porto do Açu Operações e a Prumo Logística entre seus clientes relevantes.

O caso também expõe uma profunda desproporcionalidade nas capacidades de defesa jurídica. De um lado estão grandes  fundos de investimentos e empresas dotados de recursos financeiros e assessoradas por escritórios com trânsito nacional, entre cujos advogados se encontra o filho de um ministro do STF. Do outro estão agricultores desapropriados que, quando muito, podem contar com advogados locais muito capazes, mas obrigados a conduzir processos longos e complexos sem a mesma estrutura material, a mesma rede de relações institucionais ou a mesma capacidade de sustentar indefinidamente uma disputa judicial.

Isso não diminui a competência dos advogados dos agricultores. Ao contrário, mostra o tamanho da tarefa que enfrentam. Enquanto a defesa empresarial pode mobilizar equipes especializadas e levar rapidamente suas demandas a diferentes instâncias, os desapropriados dependem de uma tramitação predominantemente local, marcada por mudanças de magistrados, perícias demoradas ou nunca realizadas e processos que atravessam anos sem uma solução definitiva. A desigualdade não está apenas nos argumentos apresentados, mas nas condições concretas disponíveis para fazê-los chegar, com a necessária celeridade, aos espaços onde as decisões são tomadas.

Não existe, por si só, qualquer ilegalidade no exercício da atividade profissional de Rodrigo Fux. O problema é de natureza institucional. Processos relativos às desapropriações e às indenizações ainda não pagas continuam tramitando e podem alcançar os tribunais superiores. Caso algum deles chegue ao Supremo Tribunal Federal e seja submetido ao ministro Luiz Fux, pai de Rodrigo Fux, surgirá uma questão objetiva de possível impedimento ou suspeição.

É importante registrar que, até o momento, não encontrei elementos que permitam afirmar que Rodrigo Fux tenha atuado para provocar ou impedir o pagamento das indenizações, tampouco provas de interferência do ministro Luiz Fux nesses processos. Essa ausência de evidências na pesquisa realizada, entretanto, não permite excluir definitivamente tal possibilidade. Diante da presença destacada de Rodrigo Fux na defesa das empresas beneficiárias das desapropriações, permanece legítima a dúvida sobre a extensão de sua atuação e sobre a eventual existência de iniciativas ainda não identificadas nos documentos consultados. Entretanto,  há que se ressaltar que aquilo que está documentado é suficientemente grave e dispensa exageros: enquanto centenas de desapropriados aguardavam aquilo que lhes era devido, Rodrigo Fux atuava para assegurar às empresas beneficiárias das desapropriações o controle das terras e a retirada dos antigos ocupantes.

Não se trata de criminalizar a advocacia, mas de reconhecer que relações familiares, grandes interesses empresariais e processos capazes de alcançar os tribunais superiores exigem transparência redobrada.  Além disso, também é necessário reconhecer que a igualdade formal perante a Justiça pouco significa quando uma das partes dispõe de recursos, estruturas e conexões incomparavelmente superiores. No V Distrito, onde milhares famílias de agricultores pobres continuam esperando pelas indenizações das terras tomadas pelo Estado há mais de uma década, essa não é uma discussão abstrata. É uma questão de terra, dinheiro, poder e justiça que tarda há tempo demais.

Muito paradigma para pouca ciência: a universidade dos autoproclamados inovadores

Há algo se disseminando pelas universidades brasileiras que merece ser examinado com mais cuidado: a retórica da autoexcepcionalidade. Trata-se de uma forma de apresentar a atividade acadêmica na qual já não basta pesquisar, ensinar, publicar ou desenvolver uma tecnologia. É preciso apresentar cada iniciativa como ruptura, cada projeto como inovação, cada conceito como descoberta e cada experiência pessoal como demonstração de uma capacidade singular de enxergar aquilo que os outros ainda não conseguiram perceber.

Nesse universo discursivo, expressões como “pensar fora da caixa”, “romper paradigmas”, “construir novas possibilidades”, “produzir inovação” e “abrir caminhos onde antes não havia passagem” aparecem com frequência crescente. O problema não está propriamente nessas expressões, algumas das quais podem descrever processos intelectuais reais. A questão começa quando a grandiosidade da linguagem passa a substituir a demonstração da qualidade do que efetivamente foi produzido.

A ciência funciona exatamente ao contrário. Uma contribuição intelectual não se torna relevante porque seu autor declara que rompeu paradigmas ou porque uma plateia se emocionou diante de sua apresentação. Ela precisa sobreviver ao escrutínio dos pares, demonstrar consistência teórica e metodológica, dialogar seriamente com aquilo que já foi produzido e, sobretudo, apresentar evidências que permitam aos outros avaliar o alcance de suas conclusões. A relevância científica não deveria ser proclamada pelo próprio autor; deveria emergir da capacidade de seu trabalho resistir à crítica.  A cultura da autoexcepcionalidade embaralha essa lógica. O pesquisador deixa progressivamente de apresentar apenas aquilo que fez e passa também a construir uma narrativa sobre sua própria excepcionalidade. Ele aparece como alguém que desafia estruturas rígidas, enfrenta resistências, pensa diferentemente e finalmente obtém o reconhecimento que confirmaria a originalidade de sua trajetória. A produção acadêmica transforma-se, assim, também em produção de personagem.

Esse fenômeno encontra terreno particularmente fértil numa universidade cada vez mais submetida à lógica da visibilidade. Redes sociais, assessorias de comunicação, eventos institucionais, rankings, indicadores, editais e métricas de produtividade criaram um ambiente no qual comunicar o impacto pode se tornar quase tão importante quanto demonstrá-lo. Em situações mais extremas, ocorre uma inversão preocupante: primeiro se proclama a excelência; depois se procura alguma evidência que possa sustentá-la. É nesse ambiente que produção intelectual de qualidade duvidosa pode circular revestida por uma linguagem de grande sofisticação. Conceitos complexos são mobilizados sem o necessário rigor teórico, palavras importadas do vocabulário empresarial são incorporadas ao discurso acadêmico e experiências relativamente banais passam a ser descritas como grandes rupturas epistemológicas. Quanto mais frágil é o conteúdo, maior pode ser a tentação de compensá-lo com uma retórica grandiosa.

Há ainda um problema adicional: a autoexcepcionalidade tende a apagar a natureza coletiva da produção do conhecimento. Universidades não funcionam graças a indivíduos iluminados que encontram sozinhos “linhas de fuga” onde ninguém mais percebeu passagem. Ciência depende de laboratórios, estudantes, técnicos, bibliotecas, financiamento público, debates, críticas, erros, revisões e de uma comunidade intelectual que acumula conhecimento ao longo do tempo. Mesmo as contribuições verdadeiramente originais surgem dentro dessa infraestrutura coletiva.

Talvez por isso uma das virtudes acadêmicas mais importantes seja justamente aquela que parece estar perdendo espaço: a modéstia intelectual. Não a falsa modéstia performática, mas a consciência de que qualquer trabalho possui limites, de que nossas ideias podem estar erradas e de que conceitos sofisticados não dispensam evidências sólidas.

A universidade deveria ser um dos lugares onde afirmações extraordinárias encontram as perguntas mais difíceis. Quando acontece o contrário, e a grandiosidade da narrativa passa a proteger a fragilidade do conteúdo, surge uma espécie de inflação acadêmica: multiplicam-se as “inovações”, as “rupturas”, os “novos paradigmas” e as experiências supostamente transformadoras, enquanto se torna cada vez mais difícil identificar onde está efetivamente a contribuição original. Talvez esteja aí um dos paradoxos da universidade contemporânea: nunca se falou tanto em excelência, inovação e transformação, mas a repetição incessante dessas palavras não necessariamente veio acompanhada de igual crescimento da qualidade intelectual.

No fim, existe um teste bastante simples. Quem realmente produz conhecimento novo não precisa anunciar a cada parágrafo que pensa fora da caixa. Pode simplesmente abrir a caixa, colocar o trabalho sobre a mesa e deixar que os outros examinem o que há dentro.