Formigas inspiram IA e intrigam cientistas com inteligência coletiva

Obra reúne 144 cientistas para apresentar o estado da arte da mirmecologia do Brasil, e revelar por que o país concentra a maior diversidade de formigas do planeta

Brasil é o país com a maior diversidade de formigas do mundo. Foto: Matheus Bertelli/Pexels

Por Lívia Inácio para Ciência UFPR 

Elas inspiram algoritmos, podem cultivar fungos e se orientar pela mata com precisão. As donas desse currículo impressionante são as formigas. O Brasil abriga a maior diversidade delas: são 1.737 espécies e subespécies registradas até 2025. Globalmente, estima-se que existam cerca de 20 quatrilhões de indivíduos, o equivalente a 2,5 milhões de formigas para cada ser humano do planeta.

O livro Brazilian Myrmecology: Exploring the World’s Richest Ant Fauna (Mirmecologia brasileira: explorando a fauna de formigas mais rica do mundo, em tradução livre), publicado no fim do ano passado, investiga esse universo, documentando a evolução da mirmecologia (área que estuda formigas) desde os primeiros naturalistas até pesquisas contemporâneas em taxonomia, ecologia e comportamento.

Organizada pelos pesquisadores Rodrigo Machado Feitosa, do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR); Carla Rodrigues Ribas, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); e Fernando Augusto Schmidt, do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza da Universidade Federal do Acre (UFAC), a obra conta com a participação de 144 cientistas de 48 instituições e diferentes gerações.

Se organizar direitinho, todo mundo se orienta

Um dos aspectos mais surpreendentes que o livro descreve são os modelos de organização das formigas. “Na chamada inteligência coletiva, decisões complexas emergem da cooperação entre muitos indivíduos, e não do controle exercido por um só organismo”, diz Feitosa em entrevista à Ciência UFPR.

Em biomas como o Pantanal, que sofrem inundações sazonais, formigas desenvolveram táticas como a migração vertical, mudando colônias inteiras temporariamente para o topo das árvores até que as águas baixem. Em situações de ataque, algumas espécies formam campos de sobrevivência, evacuando o ninho em massa com suas crias até o perigo passar.

A inteligência coletiva também se manifesta em parcerias entre espécies. É o que ocorre com a Camponotus femoratus e a Crematogaster levior, que compartilham trilhas e ninhos, se beneficiando mutuamente da defesa e da busca por recursos.
A cooperação ainda fornece base matemática para algoritmos que vasculham e organizam grandes volumes de informação.

Um exemplo vem das operárias da espécie Acromyrmex crassispinus. Elas ajustam o uso do espaço nas trilhas entre o ninho e as fontes de alimento, e compartilham as rotas por meio de contato tátil e feromônios (substâncias químicas que funcionam como sinais de orientação). Isso reduz erros de navegação em bifurcações e evita congestionamentos.As formigas do gênero Pachycondyla, por sua vez, utilizam a chamada corrida em tandem, na qual uma formiga experiente guia outra até a fonte de alimento, transmitindo o caminho de forma precisa às demais.

Em sistemas de logística, algoritmos simulam milhares de formigas explorando diferentes rotas de entrega. À medida que caminhos mais eficientes são encontrados, essas rotas recebem um reforço digital semelhante às trilhas químicas deixadas pelos animais, fazendo com que o sistema convirja para as melhores opções e reduza o tempo de deslocamento e o consumo de combustível. Essa lógica também é usada em modelos algorítmicos que precisam encontrar informações em grandes bancos de dados, evitando rotas redundantes da informação.

Cabe lembrar, porém, que os feromônios e o contato tátil não são os únicos recursos de orientação. Dependendo da espécie e do ambiente em que vivem, as formigas combinam diferentes ferramentas de navegação. Algumas utilizam o padrão formado pelo dossel das árvores ou a luz polarizada do sol para encontrar o caminho de volta ao ninho com precisão. Outras, como a Mayaponera constricta, possuem partículas magnéticas no corpo que permitem perceber o campo magnético da Terra, funcionando como uma espécie de bússola natural. A combinação dessas estratégias garante deslocamentos eficientes mesmo em ambientes complexos e segue inspirando pesquisas em robótica e sistemas autônomos.

Aliadas da ciência

Outro campo de contribuição das formigas é a área forense. “Determinadas espécies visitam cadáveres em diferentes estágios de decomposição e o conhecimento sobre esse comportamento pode auxiliar peritos a interpretar evidências e reconstruir circunstâncias relacionadas a investigações criminais”, diz o professor.

A relação estreita com o ambiente também faz das formigas importantes aliadas da ciência. Por responderem rapidamente a alterações ambientais, elas são consideradas bons bioindicadores da qualidade dos ecossistemas.

“Como praticamente todas as espécies dependem da temperatura e da umidade para realizar suas atividades, mudanças climáticas podem modificar profundamente sua distribuição e abundância”, diz Feitosa.

Além de sinalizar transformações ambientais, ainda desempenham funções essenciais para os ecossistemas: dispersam sementes, reciclam nutrientes, controlam populações de outros insetos, modificam a estrutura do solo e servem de alimento para diversos animais.

Donas da terra

A ciência sabe também que, há dezenas de milhões de anos, algumas formigas já cultivavam fungos para alimentação. As dos gêneros Atta e Acromyrmex coletam e processam grandes quantidades de material vegetal, mantendo jardins de fungos altamente organizados e protegidos contra patógenos.

A parceria com a natureza ainda se reflete em espécies que incorporam sementes de plantas às paredes de seus ninhos. À medida que as plantas crescem, fornecem sustentação física e recursos para as formigas. Em contrapartida, recebem nutrientes e proteção contra herbívoros, formando uma relação de benefício mútuo.

Por todo esse potencial, o professor reforça a importância da preservação. Segundo ele, regiões mais quentes e secas tendem a favorecer poucas espécies generalistas, enquanto espécies mais especializadas ou restritas a determinados ambientes podem desaparecer localmente, reduzindo a diversidade das comunidades e comprometendo o equilíbrio ecológico.

“Compreender como as formigas respondem às mudanças climáticas pode ajudar a identificar áreas prioritárias para conservação e antecipar os efeitos sobre outros grupos de organismos”, finaliza.

➕ Acesse o livro Brazilian Myrmecology: Exploring the World’s Richest Ant Fauna (em inglêsaberto) 


Fonte: Ciência UFPR

Microplásticos de pneus: como partículas de desgaste afetam peixes e camarões em estuários

A tire is half submerged in a pool of water on a coastline. Tree trunks or wood pieces are also poking out of the sand in the background.

Por Mariana Figueiredo Nascimento para “NewEnergyBrasil” 

Sempre que um carro trava, faz uma curva ou simplesmente segue pela estrada, os pneus liberam fragmentos microscópicos de borracha. Com a chuva, esse resíduo vai parar em córregos e estuários – e, ao que tudo indica, representa um risco para a vida marinha muito maior do que os cientistas imaginavam.

Um estudo recente indica que essas partículas podem alterar a forma como peixes e camarões crescem, se alimentam e se comportam, sobretudo depois de passarem por um período de “envelhecimento” no ambiente.

Para se aproximar do que ocorre de fato nos cursos d’água, os investigadores expuseram duas espécies típicas de estuários a uma combinação de partículas de pneu envelhecidas e partículas “novas”, procurando evitar testes limitados a borracha fresca, sem uso.

Um poluente negligenciado

Quando o tema é microplásticos, a discussão costuma girar em torno de lixo de embalagens e microesferas.

Já os pneus quase nunca entram na conversa – apesar de figurarem entre as maiores fontes desse tipo de contaminação. Há trabalhos que sugerem que o desgaste de pneus pode responder por quase metade dos microplásticos encontrados tanto em ambientes terrestres como em sistemas aquáticos.

“Dirigir um carro ou até mesmo andar de autocarro é um pouco como arrastar uma borracha pelo planeta, só que as migalhas são microplásticos. Microplásticos tóxicos”, disse Britta Baechler, diretora de investigação em plásticos no oceano da Ocean Conservancy, à AGU.

Um motivo para a subestimação está na classificação. Só há pouco tempo a investigação ambiental passou a reconhecer os fragmentos de pneus como partículas nano e microplásticas; por isso, a dimensão real do problema provavelmente ficou subcontada durante anos.

O que realmente há em um pneu

Um pneu não é apenas “borracha”. Ele reúne borracha natural e sintética, além de químicos, aditivos e metais – componentes que, à medida que o pneu se desgasta, podem acabar a integrar a dieta de peixes e de outros animais marinhos.

Grande parte dos estudos existentes concentrou-se nos químicos provenientes de pneus novos, e não no material que o uso real na estrada gera. Com isso, permanece uma lacuna sobre o que, de facto, está a entrar nos cursos de água.

“Vai haver maior contaminação [por partículas de pneu] ao longo das bermas, por exemplo, e não apenas nos cursos de água”, disse à AGU Susanne Brander, ecotoxicologista da Universidade Estadual do Oregon.

As partículas menores tornam-se suspensas no ar assim que se formam. Depois, a chuva arrasta o restante do pavimento para sarjetas e bueiros, frequentemente conduzindo diretamente a mananciais de água doce.

“É aí que o ciclo começa. Essas partículas de pneu são pequenas, conseguem deslocar-se; algumas são transportadas pelo ar, outras pela água, e é assim que se tornam tão disseminadas”, afirmou Baechler à AGU.

Entre os ingredientes, um chama atenção pela toxicidade: o 6PPD, adicionado para evitar que a borracha rache, é capaz de matar salmões mesmo em concentrações surpreendentemente baixas.

Recriando as condições da estrada

Para simular o que realmente vai parar nos cursos de água, os investigadores usaram uma mistura de pneus que corresponde ao tráfego típico dos EUA: 14% de veículos utilitários leves, 41% de carros de passageiros e 45% de camiões e autocarros.

As partículas foram “envelhecidas” ao serem mantidas em suspensão em água com matéria orgânica e, em seguida, degradadas mecanicamente por meio de agitação e autoclavagem. Assim, formaram-se micropartículas entre 1 e 20 micrômetros e nanopartículas ainda menores.

Num segundo conjunto, o material foi processado para isolar o lixiviado – os compostos químicos libertados pelas partículas de pneu na água.

Para representar diferentes níveis de contaminação do mundo real, os investigadores expuseram larvas do peixe prateado-do-interior e camarões misídeos a uma faixa de concentrações de partículas de pneu e de lixiviado.

Efeitos em peixes e camarões

Em comparação com as partículas novas, as partículas de pneu envelhecidas levaram a taxas de ingestão consideravelmente maiores nas duas espécies.

“Observámos taxas de ingestão significativamente mais altas em ambas as espécies quando foram expostas a partículas de pneu envelhecidas”, disse à AGU a autora principal Clarissa Raguso, investigadora de pós-doutoramento em ciência marinha na Universidade Estadual de Portland.

Não houve mortalidade relevante em nenhuma das espécies, mas o material envelhecido reduziu o crescimento em ambas. Os camarões mostraram-se mais sensíveis: reagiram a quantidades menores de resíduo e, no total, consumiram mais partículas – provavelmente por se alimentarem no fundo.

“Fiquei surpresa com as respostas específicas de cada espécie”, disse Raguso. “Esperávamos que as partículas de pneu envelhecidas tivessem, de forma consistente, os efeitos mais fortes em ambas as espécies e em todos os desfechos.”

Também houve alterações comportamentais, mas não de maneira igual. Nos peixes, a resposta comportamental foi mais marcada com partículas novas; nos camarões, o impacto foi maior com as partículas envelhecidas.

“Embora tenhamos observado efeitos mais fortes em crescimento e ingestão em ambas as espécies, o aumento de alterações comportamentais associado ao envelhecimento só foi observado em [camarões misídeos], o que sugere que a vulnerabilidade à poluição por pneus varia entre espécies”, acrescentou Raguso.

Microplásticos na teia alimentar

Algumas exposições desencadearam hiperatividade e respostas ao estresse atenuadas; outras fizeram os animais desacelerarem. Em ambiente natural, qualquer uma dessas mudanças pode facilitar a captura por predadores ou atrapalhar alimentação e reprodução, com efeitos em cascata por toda a teia alimentar.

“Os camarões misídeos são um alimento muito importante para espécies críticas”, disse Brander à AGU. “As baleias-cinzentas, por exemplo, comem milhões desses organismos por dia.”

“Os peixes maiores que capturamos como alimento do mar comem misídeos. Mesmo que estejamos a olhar para esses peixes e camarões larvais pequenos que humanos não comem, eles são um caminho para chegar ao que nós comemos.”

Reduzindo a poluição por pneus

As soluções já começam a avançar. Uma linha de investigação procura formulações de pneus que libertem menos partículas nocivas durante o uso.

Na Universidade Estadual de Portland, outros grupos testam armadilhas concebidas para reter o resíduo de pneus no escoamento pluvial antes de ele alcançar ambientes marinhos. Em paralelo, um projeto distinto está a desenvolver dispositivos que capturam poeira de pneus diretamente nos veículos, antes mesmo de tocar no asfalto.

“Este estudo é importante porque aproxima a investigação sobre microplásticos das condições do mundo real, do tipo de partículas a que os organismos realmente ficam expostos na natureza”, disse Baechler à AGU.

“E compreender como essas partículas se comportam depois de envelhecerem é fundamental para avaliar o risco ecológico e orientar futuras estratégias de prevenção e mitigação.”


Fonte: NewEnergyBrasil

Portos brasileiros à venda: a financeirização da infraestrutura e a consolidação dos enclaves exportadores

A possível venda do Porto Sudeste reforça uma tendência preocupante: ativos estratégicos passam ao controle de grandes fundos internacionais, aprofundando um modelo de desenvolvimento voltado para a exportação de commodities e cada vez mais distante dos interesses nacionais

A notícia de que o Porto Sudeste, em Itaguaí (RJ), poderá ser vendido em uma operação estimada em cerca de US$ 5 bilhões merece muito mais atenção do que a cobertura convencional do mercado financeiro costuma oferecer. Para investidores, é mais uma oportunidade de negócio envolvendo a infraestrutura logística brasileira. Para quem analisa a economia política do território brasileiro, entretanto, o episódio representa mais um passo no acelerado processo de desnacionalização de ativos estratégicos e de fortalecimento de um modelo de desenvolvimento baseado em enclaves exportadores.

A disputa reúne alguns dos maiores atores financeiros do planeta. Entre os interessados aparecem fundos de investimento ligados à BlackRock, à Stonepeak, investidores chineses, fundos soberanos e grandes grupos internacionais de infraestrutura, além do consórcio formado por Vale e Gerdau. Independentemente de quem saia vencedor, um aspecto chama a atenção: o centro de gravidade das decisões sobre um equipamento estratégico para a economia brasileira é deslocado para agentes financeiros cuja lógica principal não é o desenvolvimento nacional ou regional, mas a maximização da rentabilidade global de seus portfólios.

Esse processo não constitui um caso isolado. Ao contrário, revela uma transformação estrutural da economia brasileira nas últimas décadas. Portos, ferrovias, terminais privados e sistemas logísticos deixam de ser instrumentos de uma estratégia nacional de desenvolvimento para se converterem em ativos financeiros negociados em escala global. O território passa a ser administrado segundo critérios definidos em Nova York, Beijing, Singapura ou Abu Dhabi, e não pelas necessidades econômicas, sociais e ambientais das regiões onde esses empreendimentos efetivamente se inserem.

Do ponto de vista geográfico, isso significa o fortalecimento daquilo que diversos autores descrevem como economias de enclave. Os portos tornam-se nós logísticos altamente eficientes para a exportação de minério de ferro, petróleo, gás natural e outras commodities, mas mantêm conexões extremamente limitadas com o desenvolvimento regional. Geram enormes fluxos de riqueza para seus acionistas, enquanto seus efeitos multiplicadores sobre emprego qualificado, diversificação produtiva, inovação tecnológica e fortalecimento das economias locais permanecem modestos.

Essa lógica já se manifesta de forma bastante evidente no Porto do Açu. Desde sua implantação, consolidou-se um modelo territorial fortemente subordinado aos interesses do mercado internacional de petróleo, minério e gás natural. As mudanças societárias colocaram parcelas crescentes do controle do empreendimento sob investidores estrangeiros, ao mesmo tempo em que o município de São João da Barra continua apresentando profundas desigualdades sociais, elevada dependência econômica e frágil diversificação produtiva.

Em outras palavras, o Porto do Açu tornou-se um caso emblemático de como um empreendimento bilionário pode produzir enorme circulação de capitais sem romper a lógica de enclave. A riqueza atravessa o território, mas permanece muito pouco nele. O desenvolvimento prometido transforma-se, na prática, em crescimento econômico altamente concentrado e desconectado das necessidades das populações locais.

Caso o Porto Sudeste siga caminho semelhante, essa lógica tende a se aprofundar em escala nacional. Em vez de fortalecer uma política integrada de infraestrutura portuária voltada aos interesses estratégicos do país, amplia-se a competição entre grandes fundos globais interessados em controlar corredores de exportação de commodities. O porto deixa de ser compreendido como infraestrutura estratégica para o desenvolvimento nacional e passa a funcionar como um ativo financeiro cuja propriedade muda de mãos sempre que surgir uma oportunidade de valorização patrimonial.

Há ainda uma dimensão geopolítica frequentemente negligenciada. Quando ativos logísticos essenciais passam simultaneamente ao controle de fundos sediados nos Estados Unidos, na China ou em outros grandes centros financeiros, o Brasil reduz sua autonomia sobre segmentos críticos de sua infraestrutura exportadora. Evidentemente, não se trata de demonizar o investimento estrangeiro em si, mas de reconhecer que infraestrutura estratégica não constitui um ativo qualquer. Ela condiciona cadeias produtivas, influencia políticas industriais, afeta a segurança econômica nacional e molda o desenvolvimento territorial por décadas.

Mais grave ainda é que o fortalecimento desse modelo de enclave não produz apenas concentração econômica. Ele amplia um mecanismo clássico do capitalismo contemporâneo: a socialização dos prejuízos e a privatização dos lucros. Enquanto os rendimentos gerados pela movimentação de minério, petróleo, gás natural e outras commodities são apropriados por acionistas e fundos de investimento sediados em centros financeiros internacionais, as populações que vivem no entorno dos portos permanecem expostas às externalidades negativas desses empreendimentos.

São essas populações que convivem diariamente com a intensificação do tráfego pesado, da poluição atmosférica e sonora, da degradação de ecossistemas costeiros, da pressão sobre recursos hídricos, da especulação imobiliária, da elevação do custo de vida, da precarização das atividades econômicas tradicionais — como a pesca artesanal — e da crescente vulnerabilidade socioambiental produzida pela expansão contínua da infraestrutura logística e industrial. Em outras palavras, os custos permanecem no território, enquanto uma parcela crescente dos benefícios financeiros atravessa as fronteiras nacionais em direção aos grandes fundos globais de investimento.

O Porto do Açu ilustra com nitidez esse processo. Ao longo de pouco mais de uma década, o empreendimento passou por sucessivas mudanças em sua estrutura de controle acionário, consolidando um padrão no qual a valorização financeira do ativo tornou-se tão ou mais importante que sua contribuição para o desenvolvimento regional. Ao mesmo tempo, persistem conflitos fundiários, restrições à pesca artesanal, pressões sobre áreas ambientalmente sensíveis, processos de desterritorialização, desigualdades sociais e uma forte dependência econômica de atividades voltadas quase exclusivamente para a exportação de commodities.

Se a venda do Porto Sudeste se concretizar dentro da mesma lógica, o Brasil dará mais um passo na consolidação de uma infraestrutura portuária subordinada aos interesses do capital financeiro internacional. O resultado será a ampliação de um modelo em que os territórios brasileiros assumem os riscos ambientais, sociais e econômicos da produção e da logística exportadora, enquanto a apropriação da riqueza gerada por esses ativos estratégicos se desloca cada vez mais para investidores sediados em Nova York, Pequim, Singapura, Toronto ou Abu Dhabi.

Essa dinâmica expressa com clareza aquilo que David Harvey definiu como acumulação por espoliação. Nesse processo, ativos estratégicos, recursos naturais, infraestrutura logística e mesmo as condições de reprodução da vida nos territórios transformam-se em mecanismos permanentes de transferência de riqueza para o grande capital. Os portos deixam de cumprir prioritariamente uma função de desenvolvimento nacional para se converterem em plataformas de valorização financeira, subordinadas às exigências dos mercados globais. Enquanto isso, os custos ambientais, sociais e territoriais permanecem concentrados nas regiões que sediam esses empreendimentos.

A partir da aplicação dessa lógica, o território é transformado em mero suporte físico da acumulação global. Os impactos permanecem onde vivem as populações locais; os dividendos seguem o fluxo dos mercados financeiros internacionais.  Essa é uma versão contemporânea da velha economia de enclave, agora administrada não apenas por grandes empresas mineradoras ou petrolíferas, mas sobretudo por fundos de investimento transnacionais que enxergam portos, ferrovias, minerodutos e terminais logísticos como ativos financeiros destinados a maximizar retornos para seus cotistas espalhados pelo mundo.

O paradoxo é evidente. O Brasil amplia continuamente sua capacidade de exportar minério de ferro, petróleo, gás natural e outras commodities, movimentando bilhões de dólares por ano, mas reduz progressivamente sua soberania sobre a infraestrutura que sustenta esse comércio. Mais do que isso, limita sua capacidade de transformar essa riqueza em desenvolvimento econômico, diversificação produtiva, justiça social e sustentabilidade ambiental.

A eventual venda do Porto Sudeste, somada ao percurso já trilhado pelo Porto do Açu, confirma que o país aprofunda sua inserção subordinada na economia mundial. Exporta recursos naturais, externaliza sua soberania sobre ativos estratégicos e transfere parcelas crescentes do controle de sua infraestrutura para o capital financeiro internacional. Enquanto isso, as populações que vivem nos territórios portuários permanecem submetidas aos custos sociais e ambientais desse modelo de desenvolvimento. A riqueza produzida em solo brasileiro alimenta a acumulação de capital em centros financeiros situados muito além de suas fronteiras, reafirmando um padrão histórico de dependência que, sob a hegemonia das finanças globais, assume novas formas, mas preserva a velha lógica da espoliação do território nacional.

Quando o mar avança, o Brasil responde despejando areia

Enquanto bilhões podem ser consumidos por obras temporárias de engorda de praias, cidades costeiras seguem sem investimentos à altura dos desafios impostos pelas mudanças climáticas

Uma reportagem publicada pelo O Estado de S. Paulo, assinada pelo jornalista José Maria Tomazela, chama atenção para um problema que tende a se agravar nas próximas décadas: cerca de 40% das praias brasileiras já sofrem com processos erosivos, enquanto cresce a aposta em obras de engorda artificial como principal resposta ao avanço do mar.

A própria matéria deixa claro aquilo que especialistas em geomorfologia costeira vêm afirmando há anos: a engorda de praias não representa uma solução definitiva. Trata-se de uma intervenção temporária, extremamente cara e que exige repetição periódica. Em muitos casos, a areia adicionada acaba sendo novamente removida pelas ondas e correntes, obrigando novas aplicações e multiplicando os custos públicos.

O problema é que essa estratégia continua tratando a erosão como um fenômeno isolado, quando ela é apenas uma das manifestações de uma crise muito maior. A combinação entre mudanças climáticas, elevação do nível médio do mar, intensificação de eventos extremos e décadas de ocupação inadequada do litoral altera profundamente a dinâmica costeira. Nenhuma quantidade de areia conseguirá reverter processos físicos que tendem a se intensificar ao longo deste século.

Há ainda um aspecto pouco discutido. Grande parte das obras de engorda visa proteger empreendimentos imobiliários de alto valor econômico, áreas turísticas e infraestrutura instalada junto à linha de costa. Em outras palavras, frequentemente se socializam os custos para preservar ativos privados altamente valorizados. Isso não significa que determinadas intervenções emergenciais não possam ser necessárias, mas elas não deveriam ser confundidas com uma política consistente de adaptação climática.

Nesse sentido, talvez a principal reflexão provocada pela reportagem seja outra: quanto dinheiro continuará sendo destinado a obras que precisam ser refeitas continuamente, enquanto cidades brasileiras permanecem despreparadas para enfrentar os impactos das mudanças climáticas?

Os recursos públicos empregados em sucessivas engordas de praias seriam muito mais bem utilizados em um amplo programa de adaptação climática das cidades brasileiras, especialmente das cidades litorâneas, que já sofrem — e sofrerão cada vez mais — com a elevação do nível do mar, tempestades mais intensas, inundações costeiras, salinização de aquíferos, perda de infraestrutura e deslocamento de populações. Isso inclui planejamento urbano, restauração de ecossistemas costeiros, proteção de manguezais e restingas, revisão do uso e ocupação do solo, sistemas de drenagem resilientes e, em situações inevitáveis, programas de retirada planejada de ocupações em áreas de alto risco.

Persistir na lógica de reconstruir praias indefinidamente equivale a insistir em enxugar gelo diante de um oceano em transformação. O desafio colocado pelas mudanças climáticas exige abandonar soluções paliativas e investir em políticas públicas capazes de aumentar a resiliência das cidades e das populações costeiras.

Super El Niño pode causar um choque global nos preços dos alimentos que durará até 2028, afirmam especialistas

Há três anos, o Banco Central Europeu estimou que um El Niño forte poderia elevar os preços das commodities alimentares em até 9%, com a soja entre as mais afetadas. Fotografia: Bloomberg/Getty Images  

Por Richard Partington, correspondente sênior de economia, para “The Guardian”

Economistas alertam que um ciclo climático “super” El Niño este ano pode causar um choque severo nos preços globais dos alimentos, com efeitos que podem se estender até 2028.

Com a guerra no Irã elevando os preços mundiais dos alimentos ao nível mais alto em três anos, economistas afirmaram que as cadeias de suprimentos enfrentam “dois choques simultâneos”, provocados por eventos climáticos extremos ligados ao aquecimento global.

Cientistas afirmaram que o El Niño de 2026-27 – que se forma quando mudanças nos padrões de vento permitem que águas mais quentes se espalhem pelo Pacífico equatorial central e oriental – tem uma chance historicamente sem precedentes de se tornar um evento “muito forte”, provocando ondas de calor, inundações e tempestades.

Informalmente descrito como um El Niño “super” ou “Godzilla”, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) confirmou no mês passado que as condições de aquecimento estavam se instalando no Pacífico e que havia 63% de chance de as temperaturas da superfície do mar ultrapassarem 2°C acima do normal ainda este ano.

Num momento em que as famílias em todo o mundo já sentem o impacto do aumento vertiginoso do custo de vida, especialistas afirmam que um El Niño extremo poderia agravar ainda mais a situação. A perspectiva de um novo choque inflacionário também preocupa os bancos centrais, aumentando o receio de que as taxas de juro possam ser mantidas em níveis elevados.

Algumas regiões da Índia receberam apenas metade da precipitação normal, o que pode afetar o abastecimento de trigo, arroz e cana-de-açúcar. Fotografia: Charlie Riedel/AP

“O El Niño recoloca a ‘climaflação’ na agenda”, escreveram analistas do banco italiano UniCredit em uma nota de pesquisa. “As recentes ondas de calor na Europa são um lembrete de que a linha de base climática já está mudando. O El Niño pode adicionar uma nova camada de pressão ainda este ano, à medida que amplifica os efeitos do aquecimento global.”

O fenômeno natural tem um histórico de impacto nas colheitas e na rede de abastecimento alimentar. Há mais de um século, um El Niño, provavelmente o mais severo já registrado, provocou secas catastróficas na China, no sul da África, no Brasil, no Egito e na Índia. Causando condições de fome em uma situação agravada pelo domínio colonial, milhões morreram, incluindo mais de 6 milhões de pessoas na Índia entre 1876 e 1878.

Os eventos El Niño de 1981-82, 1996-97, 2015-16 e 2023-24 foram alguns dos mais intensos já registrados. No entanto, as projeções da NOAA indicam que o ciclo de 2026-27 poderá ser ainda mais severo, aumentando o risco de secas e inundações que afetarão as colheitas e o abastecimento de alimentos em todo o mundo.

 

Segundo analistas do Goldman Sachs, a intensidade deste El Niño poderá causar um aumento de 15,8% nos preços globais das commodities alimentares. Isso teria um efeito cascata em todo o mundo, inclusive para os consumidores na Europa, onde a previsão é de um aumento de 1,3% nos preços dos alimentos em toda a zona do euro.

No entanto, o impacto total levará tempo para ser sentido, devido à forma como o custo das mudanças climáticas se propaga pela cadeia alimentar global. Consequentemente, o Goldman Sachs afirmou que as consequências podem levar até o segundo semestre de 2028 para serem “totalmente percebidas”.

A maior parte do atraso se deve ao momento em que eventos climáticos extremos afetam a produção de alimentos, considerando os diferentes ciclos de plantio, crescimento e colheita para os diversos tipos de culturas. Desafios logísticos – incluindo os níveis de água em canais e rios utilizados para importantes remessas – também terão impacto.

“O El Niño não afeta a agricultura de forma uniforme. Ele remodela os padrões globais de chuva e temperatura, criando regiões vencedoras e perdedoras”, afirmaram analistas do UBS. Algumas regiões podem se beneficiar de condições climáticas mais quentes. 

Um trabalhador segura uma amostra de grãos de soja. Fotografia: Fred Scheiber/AFP/Getty

Analistas afirmam que o El Niño agravaria os problemas causados ​​pela guerra com o Irã, adicionando dificuldades na cadeia de suprimentos de alimentos aos preços já elevados e à escassez de fertilizantes e energia. “Mesmo pequenas interrupções no fornecimento poderiam desencadear oscilações de preços muito maiores do que as previstas pelos padrões históricos”, disseram os analistas do UBS.

Normalmente, o El Niño acarreta riscos elevados de seca no sul da África e no norte da América do Sul, mas também de inundações no sul do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Analistas afirmam que os países de baixa renda – já os mais afetados pelo conflito com o Irã – provavelmente sofrerão mais.

“O El Niño já começou a afetar as colheitas, provocando uma estação das monções mais seca na Índia, com algumas regiões registrando apenas 25% da precipitação normal e partes da Índia central recebendo apenas 50%, o que pode afetar o abastecimento de trigo, arroz e cana-de-açúcar”, escreveram os analistas do Goldman Sachs.

O impacto provavelmente será sentido em todo o mundo.

Analistas afirmam que a seca no sudeste asiático pode afetar o fornecimento de óleo de palma – um ingrediente importante em alimentos processados ​​– enquanto as colheitas de café e cacau também podem ser prejudicadas. Condições climáticas mais quentes e úmidas podem agravar a disseminação de doenças, afetando a produtividade agrícola nos próximos anos.

Na América do Norte, o impacto do El Niño é mais forte no inverno, e embora as condições na Europa possam ser influenciadas pelo fenômeno climático, analistas afirmam que outros fatores – como o efeito sobre os preços globais dos alimentos – serão onde ele será sentido.

Há três anos, o Banco Central Europeu estimou que um El Niño forte poderia elevar os preços globais das commodities alimentares em até 9%, com a soja, o milho e o arroz apresentando os maiores aumentos.

Pêssegos à venda em um mercado ao ar livre em Chauvigny, França.

O impacto mais profundo do El Niño na Europa provavelmente virá do aumento dos preços, e não de eventos climáticos extremos. Fotografia: lucentius/Getty Images/iStockphoto

A forma como os preços se refletem nas prateleiras depende das estratégias de mitigação e das políticas nacionais. Fatores como a demanda do consumidor e os preços no varejo também desempenham um papel importante.

Segundo o UniCredit, a possibilidade de um cenário extremo de El Niño permanece alta. Isso poderia levar a uma queda de 14,3% na produção agrícola global – o equivalente a US$ 342 bilhões (R$ 254 bilhões) em perdas de produção, afirmou a instituição.

“Os choques de preços podem atingir de 10% a 50% nas principais commodities, enquanto as culturas mais expostas – incluindo arroz, óleo de palma, açúcar e café – podem subir de 50% a 100% ou mais”, afirmou o banco. “O sistema alimentar entra no segundo semestre de 2026 com reservas, mas com pouca margem para erros.”


Fonte: The Guardian

MPF abre inquérito para investigar contaminação por agrotóxicos em terra indígena no MT

Investigação apura possível contaminação na Terra Indígena Tirecatinga, em Sapezal, após estudo identificar resíduos de agrotóxicos em plantas medicinais consumidas por indígenas

Por Redação da Única News

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito civil para investigar uma possível contaminação por agrotóxicos na Terra Indígena Tirecatinga, em Sapezal (473 km de Cuiabá). A medida foi publicada nesta sexta-feira (10) e tem como objetivo aprofundar as investigações sobre os impactos à saúde da comunidade indígena Nambikwara e ao meio ambiente.

Segundo a portaria, a investigação começou após uma reportagem denunciar o uso de agrotóxicos proibidos internacionalmente nas proximidades da terra indígena.

O documento cita um estudo do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que encontrou resíduos de agrotóxicos em 88% das amostras de plantas medicinais cultivadas pelos indígenas, como breozinho, pata-de-vaca e raiz-doce. Entre as substâncias identificadas estão carbofurano, atrazina, clorpirifós, tiametoxam e acetamiprido. Segundo o MPF, algumas delas são proibidas na União Europeia e, no caso do carbofurano, também no Brasil.

A portaria também menciona relatos de lideranças indígenas sobre o aumento de problemas de saúde na comunidade, incluindo doenças respiratórias, fortes dores de cabeça e casos de aborto espontâneo. Conforme o MPF, há suspeitas de que esses problemas estejam relacionados à pulverização aérea de agrotóxicos e à contaminação de corpos d’água próximos ao território indígena.

Outro ponto destacado é que Sapezal figura como o segundo maior consumidor de agrotóxicos de Mato Grosso, o que, segundo o Ministério Público Federal, pode ampliar a exposição da população indígena às substâncias utilizadas nas lavouras de soja e algodão que cercam a terra indígena.

Com a conversão da notícia de fato em inquérito civil, o MPF pretende monitorar a presença de resíduos de agrotóxicos em produtos consumidos pela comunidade, mapear possíveis pulverizações irregulares no entorno da Terra Indígena Tirecatinga e adotar medidas para reduzir os impactos à saúde e à subsistência dos indígenas Nambikwara.

Entre as primeiras providências determinadas estão a solicitação de informações técnicas ao Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea-MT), à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT), ao Ministério da Saúde, ao Ibama e ao Ministério do Meio Ambiente, além do compartilhamento dos autos com o Ofício de Populações Indígenas do MPF em Mato Grosso para atuação conjunta.


Fonte: Única News

El Niño muito forte à vista: o problema não é apenas prever o desastre, mas continuar produzindo suas causas

Com 81% de chance de um evento extremo, novo alerta mostra que a crise climática já não pode ser tratada como uma sucessão de anomalias naturais

Uma reportagem da jornalista Jéssica Maes, publicada pela Folha de S.Paulo, traz um alerta que deveria ser tratado com muito mais seriedade do que normalmente recebem as previsões climáticas: segundo a agência meteorológica dos Estados Unidos (NOAA), a chance de formação de um El Niño muito forte chegou a 81%. Além disso, há 69% de probabilidade de o fenômeno se estender até abril do próximo ano.

A informação é particularmente preocupante porque um El Niño muito forte não representa apenas uma variação passageira do clima. Como mostra a reportagem, episódios dessa magnitude tendem a intensificar secas severas em algumas regiões e chuvas extremas em outras, além de elevar as temperaturas globais. No Brasil, os efeitos conhecidos incluem secas mais intensas na Amazônia e no Nordeste e aumento das chuvas no Sul e em partes do Sudeste.

A imagem que acompanha a reportagem é, nesse sentido, quase uma antecipação do que pode estar por vir. Uma embarcação encalhada no porto de Maués, no Amazonas, em razão do baixo nível do rio Maués-Açu, sintetiza os efeitos concretos de um clima cada vez mais extremo. A crise climática não se manifesta apenas nos gráficos dos centros de pesquisa. Ela aparece nos rios que desaparecem, nas plantações perdidas, nas cidades inundadas e na vida das populações que dependem diretamente dos ciclos da natureza.

Mas há um problema adicional. O El Niño continua sendo frequentemente apresentado como se fosse o único responsável pelas catástrofes que acompanham sua passagem. O fenômeno é natural, mas agora atua sobre um planeta já aquecido pela emissão massiva de gases de efeito estufa. O resultado é uma combinação particularmente perigosa: a variabilidade natural do clima encontra oceanos mais quentes, atmosferas mais carregadas de energia e territórios profundamente vulneráveis.

É por isso que não basta anunciar que o próximo El Niño poderá ser muito forte. Governos precisam preparar sistemas de saúde, abastecimento de água, defesa civil, produção de alimentos e infraestrutura urbana. No entanto, também é necessário enfrentar a questão que quase sempre fica em segundo plano: continuamos ampliando o desmatamento, a dependência dos combustíveis fósseis e modelos econômicos baseados na exploração intensiva da natureza, enquanto tratamos cada novo desastre como uma surpresa.

A reportagem de Jéssica Maes cumpre um papel importante ao mostrar a gravidade do cenário que se aproxima. O que falta, como de costume, é transformar alertas científicos em decisões políticas. Afinal, quando uma probabilidade de 81% de um El Niño muito forte encontra um país marcado por desigualdades sociais, cidades despreparadas e ecossistemas sob pressão, o desastre deixa de ser apenas climático. Ele passa a ser, sobretudo, político.

Agronegócio quer socializar os prejuízos climáticos, mas não a responsabilidade pela crise

Bancada ruralista pede renegociação geral de dívidas e juros menores por perdas provocadas por secas e enchentes, enquanto o modelo agropecuário permanece no centro da crise climática brasileira

Uma reportagem da jornalista Fernanda Brigatti, publicada pela Folha de S.Paulo, informa que a bancada do agronegócio no Congresso Nacional apresentou ao Ministério da Fazenda uma contraproposta para uma ampla renegociação das dívidas rurais. Entre as reivindicações estão prazos de até dez anos para pagamento, dois anos de carência sem juros e taxas menores para produtores que sofreram perdas provocadas por secas e enchentes.  A cobrança revela uma das contradições mais evidentes do agronegócio brasileiro. O setor exige que o Estado e, portanto, toda a sociedade absorvam parte crescente dos prejuízos causados pelos eventos climáticos extremos, mas evita reconhecer sua própria responsabilidade na produção das condições que tornam esses eventos mais frequentes e destrutivos.

Na narrativa construída pelas entidades do setor, a seca aparece apenas como seca, a enchente como enchente e a quebra de safra como uma fatalidade natural. Desaparece da equação o fato de que o modelo de expansão agropecuária brasileiro está profundamente associado ao desmatamento, à conversão de ecossistemas, à expansão de pastagens e monoculturas e à degradação dos sistemas naturais que regulam o clima e o ciclo hidrológico.

É preciso, evidentemente, diferenciar pequenos e médios produtores de grandes proprietários e corporações agropecuárias. Produtores efetivamente atingidos por eventos climáticos extremos não podem ser abandonados. Mas é exatamente por isso que causa estranheza a tentativa da bancada ruralista de ampliar a renegociação para além daqueles que comprovadamente sofreram perdas provocadas por secas e enchentes.

O que se pretende, assim, é transformar uma política de socorro a vítimas de eventos climáticos extremos em uma renegociação geral das dívidas do setor. E o cardápio de reivindicações inclui até a utilização de recursos do Fundo Social do Pré-Sal. Em outras palavras, quando os lucros são elevados, eles permanecem privados; quando chegam as secas, enchentes, quebras de safra e crises de endividamento, os prejuízos devem ser repartidos com toda a sociedade.

Há ainda uma contradição política que não pode ser ignorada. A mesma bancada ruralista que agora invoca as “perdas climáticas” para exigir condições financeiras excepcionais tem atuado sistematicamente pela flexibilização da legislação ambiental, pelo enfraquecimento do licenciamento e pela expansão da fronteira agropecuária. O setor quer proteção pública contra os efeitos da crise climática, mas resiste às medidas destinadas a enfrentar suas causas.

A agricultura é, sem dúvida, uma das principais vítimas do aquecimento global. Mas, no Brasil, o agronegócio é também um dos seus principais motores. Essa dupla condição não pode continuar sendo ocultada por um discurso que apresenta o setor apenas como vítima de fenômenos naturais imprevisíveis. Secas e enchentes cada vez mais intensas fazem parte de uma crise climática cuja produção tem responsáveis econômicos e políticos.

Uma renegociação voltada aos produtores efetivamente atingidos pode ser necessária e socialmente justificável. Mas ela deveria exigir comprovação das perdas, diferenciação por porte econômico, cumprimento da legislação ambiental e compromissos concretos de adaptação e redução de emissões. Sem isso, o socorro climático corre o risco de se transformar em mais um subsídio público a um modelo que contribui para aprofundar a própria crise da qual agora pede proteção.

No fundo, a fórmula é conhecida: o agronegócio quer privatizar os lucros, socializar os prejuízos e deixar de fora da conta a sua responsabilidade pela crise climática. E talvez seja justamente essa a dívida que a bancada ruralista menos queira renegociar.

Em Campos dos Goytacazes, a distância também é uma forma de desigualdade

Estudo mostra que moradores das periferias e dos distritos pagam com mais tempo e dificuldades pelo acesso à cidade

Há trabalhos acadêmicos que cumprem corretamente as exigências formais de um curso universitário. E há aqueles que, além disso, ajudam a enxergar com maior clareza problemas que estão diante de nós, mas que frequentemente são tratados de forma fragmentada. É nesse segundo grupo que situo o trabalho de conclusão de curso de Gustavo Araujo Bezerra, intitulado A mobilidade urbana em Campos dos Goytacazes (RJ): mecanismo de perpetuação da segregação socioespacial ou ferramenta de garantia do direito à cidade?.

O trabalho foi apresentado ao curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) e aprovado em 2 de julho de 2026. Tive a satisfação de orientar Gustavo Araújo nessa pesquisa, que combinou a aplicação de 151 questionários com usuários do transporte coletivo, entrevistas com representantes do Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT) e observações de campo. O estudo retira a mobilidade urbana do terreno estreito da engenharia de tráfego e a coloca onde ela efetivamente deve estar: no centro da discussão sobre desigualdade, segregação socioespacial e direito à cidade.

A principal contribuição do estudo está em demonstrar que, em Campos dos Goytacazes, a experiência de circular pela cidade é profundamente condicionada pelo lugar onde se mora. Os moradores dos bairros periféricos e dos distritos mais distantes enfrentam maiores tempos de deslocamento, maior dependência do transporte coletivo e mais dificuldades para acessar trabalho, educação, saúde e lazer. A distância em relação ao centro não é apenas uma medida em quilômetros: ela se transforma em tempo perdido e em redução concreta das possibilidades de participação na vida urbana.

A pesquisa mostra ainda que os moradores das áreas mais distantes avaliam o sistema de forma mais negativa, especialmente quanto ao tempo de deslocamento, à disponibilidade do serviço e ao acesso aos equipamentos urbanos. Parte da população recorre a modalidades alternativas ou informais para contornar as limitações do sistema formal. O que poderia parecer uma simples escolha de transporte revela-se, assim, uma estratégia diante de um sistema incapaz de garantir condições equivalentes de circulação aos diferentes territórios do município.

É justamente nesse ponto que a mobilidade deixa de ser apenas uma questão de ônibus, linhas e horários. O morador periférico não está somente mais distante dos serviços e oportunidades: ele paga por essa distância com horas adicionais de deslocamento, menor previsibilidade e maior dependência de um sistema precário. A segregação socioespacial se expressa, portanto, não apenas no lugar onde cada grupo social consegue morar, mas também nas condições concretas que possui para acessar o restante da cidade.

Gustavo Araújo também identifica uma distância significativa entre o planejamento formal e a realidade vivida pelos usuários. Embora o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável contenha diretrizes voltadas à acessibilidade, à integração dos transportes e à mobilidade sustentável, sua implementação permanece limitada. Persistem problemas de cobertura, frequência e integração do transporte coletivo, além da ausência de uma rede cicloviária efetivamente conectada.

Mas talvez a conclusão politicamente mais incômoda do trabalho seja outra. Entre 1999 e 2024, Campos dos Goytacazes recebeu mais de R$ 37 bilhões em royalties e participações especiais do petróleo. Ainda assim, chegou a 2026 com um sistema de mobilidade incapaz de assegurar condições minimamente equitativas de acesso ao seu território. A disponibilidade excepcional de recursos não produziu uma estrutura capaz de reduzir desigualdades territoriais historicamente acumuladas.

Isso significa que o problema de Campos não pode ser atribuído simplesmente à falta de dinheiro. A questão está também nas escolhas políticas feitas ao longo de décadas sobre onde investir, que territórios conectar e quais grupos sociais priorizar. A precariedade da mobilidade não é apenas uma deficiência administrativa ou operacional; ela é também resultado de uma determinada forma de produzir e governar o espaço urbano.

Como orientador deste trabalho, considero especialmente relevante que uma pesquisa produzida por um novo cientista social formado pelo curso de Ciências Sociais da UENF ofereça uma contribuição tão concreta ao debate sobre Campos dos Goytacazes. A universidade pública cumpre uma de suas funções mais importantes quando forma estudantes capazes de olhar criticamente para o território em que vivem e produzir conhecimento sobre suas contradições.

O estudo de Gustavo Araújo mostra, afinal, que a mobilidade pode funcionar tanto como instrumento de integração quanto como mecanismo de segregação. Em Campos dos Goytacazes, as evidências reunidas sugerem que, para uma parcela significativa da população, ela ainda opera muito mais como barreira do que como garantia de direitos. Enquanto o acesso à cidade continuar dependendo do lugar onde se mora, o direito à cidade continuará sendo distribuído de forma profundamente desigual.

Quem desejar baixar o arquivo contendo a monografia de graduação de Gustavo Araújo, basta clicar [Aqui!].

A água, a RPPN Caruara e a máquina de propaganda do Porto do Açu

Por trás do discurso de “gestão hídrica” e conservação ambiental, seguem sem resposta as contradições envolvendo o Aquífero Emborê, a exclusão territorial e a violência lenta em São João da Barra

A matéria publicada por um veículo da mídia corporativa local sobre os investimentos do Porto do Açu em “gestão hídrica” tem todos os traços de um texto produzido para vender uma imagem positiva do empreendimento. O problema não está apenas no fato de se tratar de material de assessoria reproduzido como notícia, mas no silêncio conveniente sobre aquilo que deveria estar no centro de qualquer debate sério sobre água em São João da Barra: quem consome, quem controla e quem fica sem acesso.

O próprio Porto do Açu informa que uma de suas fontes relevantes de água é o Aquífero Emborê, manancial subterrâneo de elevada qualidade natural e grande extensão no litoral norte-fluminense. O empreendimento também procura destacar medidas de monitoramento, reúso e aproveitamento de água da chuva. Mas essa narrativa de eficiência não elimina o dado fundamental: em 2024, segundo o Relatório de Sustentabilidade do próprio empreendimento, foram extraídos 708 mil m³ do Aquífero Emborê, com retirada superior a 2 milhões de m³ no acumulado de três anos.

Enquanto isso, comunidades de São João da Barra convivem com falta d’água, estiagens prolongadas e relatos de moradores que passaram até dois meses sem água nas torneiras. Reportagem jornalística independente também registrou a informação do Inea de que existem 20 poços operando no Porto do Açu. Assim, a pergunta que a peça de comunicação empresarial reproduzida por um veículo da mídia corporativa local evita é simples: como chamar de “desenvolvimento regional” um modelo no qual o complexo portuário acessa uma reserva subterrânea estratégica enquanto populações vizinhas enfrentam insegurança hídrica?

É justamente nesse ponto que a matéria deixa de ser apenas uma peça de comunicação corporativa e passa a funcionar como instrumento de greenwashing. A gestão de um recurso natural estratégico é apresentada como demonstração de responsabilidade ambiental, enquanto ficam fora do enquadramento o volume da demanda industrial, a pressão sobre o Aquífero Emborê e a desigualdade existente no acesso à água no próprio município que abriga o empreendimento. A sustentabilidade aparece, assim, não como uma transformação das relações entre empresa, natureza e sociedade, mas como um ativo reputacional.

O mesmo ocorre no plano social. A associação recorrente entre o Porto do Açu e expressões como “desenvolvimento regional”, “segurança hídrica” e “benefícios para a população” também carrega elementos evidentes de social washing. Nesse tipo de operação discursiva, os benefícios sociais são amplificados, enquanto os custos territoriais, ambientais e humanos são diluídos ou simplesmente retirados da narrativa. O objetivo final não é difícil de perceber: reduzir resistências, ampliar a legitimidade social do empreendimento e criar condições políticas mais favoráveis à expansão dos negócios e, consequentemente, ao aumento das taxas de lucro.

A contradição se amplia quando se observa a RPPN Caruara. Apresentada pelo Porto do Açu como uma espécie de vitrine de excelência ambiental, ela também integra uma profunda reorganização territorial que restringiu usos tradicionais e alterou a relação de comunidades pesqueiras com a Lagoa de Iquipari. Estudos já demonstraram que a RPPN foi criada como compensação aos impactos do complexo portuário e que sua existência não anulou os efeitos provocados pela implantação do empreendimento sobre os ecossistemas locais.

Mais grave ainda é o fato de que a Reserva Caruara e a Lagoa de Iquipari já chegaram à Alerj como parte de um conflito socioambiental envolvendo restrições de acesso, uso de bens naturais públicos, posse da terra e violações de direitos associadas à instalação do Porto do Açu. Portanto, não estamos diante apenas de uma “boa prática ambiental”, mas de um arranjo no qual conservação, controle territorial e exclusão social aparecem profundamente misturados. A área conservada se transforma em capital reputacional da empresa, enquanto os grupos que historicamente utilizaram aquele território arcam com os custos da restrição de acesso.

É aqui que a noção de slow violence, ou violência lenta, formulada por Rob Nixon, ajuda a compreender aquilo que a propaganda corporativa procura tornar invisível. Diferentemente de uma catástrofe súbita, a violência lenta se acumula de forma gradual, dispersa no tempo e no espaço. Ela aparece na perda progressiva de acesso aos territórios de pesca, na necessidade de percorrer distâncias maiores, na pressão sobre outros ambientes lagunares, na insegurança hídrica, na degradação ambiental e na erosão silenciosa das condições materiais de existência das populações locais.

O greenwashing e o social washing cumprem precisamente a função de encobrir essa violência lenta. Enquanto os impactos se acumulam sobre pescadores, agricultores e moradores do V Distrito, a comunicação corporativa produz imagens de eficiência, conservação e desenvolvimento compartilhado, que encontram canais de difusão em veículos da mídia corporativa local. A natureza degradada ou apropriada reaparece como ativo ambiental; a população atingida reaparece como beneficiária; e os recursos naturais mobilizados para sustentar a expansão industrial são apresentados como objetos de uma gestão tecnicamente virtuosa.

O ponto central é que a água, no discurso empresarial, surge como recurso técnico a ser “gerido”. Para as comunidades, porém, ela é condição de vida, permanência territorial e reprodução social. Quando a água subterrânea de melhor qualidade abastece a engrenagem portuário-industrial enquanto moradores enfrentam escassez e precariedade no abastecimento, a palavra “sustentabilidade” passa a cumprir uma função mais publicitária do que explicativa.

Por isso, a matéria deve ser lida pelo que ela efetivamente representa: uma peça de comunicação corporativa reproduzida por um veículo da mídia corporativa local e inserida em uma estratégia mais ampla de greenwashing e social washing. O Porto do Açu pode apresentar programas de eficiência hídrica, reúso e monitoramento, mas nada disso responde ao problema político maior: a apropriação privada de recursos estratégicos em um território marcado por desigualdade, desapropriações, restrições de acesso e conflitos socioambientais persistentes.

No fim das contas, o discurso da “gestão hídrica” serve para polir a imagem de um empreendimento que continua exigindo volumes expressivos de água, reorganizando territórios e distribuindo de forma profundamente desigual os benefícios e os custos de sua operação. Onde a assessoria empresarial vê inovação, é preciso enxergar também concentração de poder, apropriação privada da natureza e violência lenta. E talvez seja justamente esta a principal função do greenwashing e do social washing: fazer com que a expansão dos lucros pareça desenvolvimento, enquanto os seus custos sociais e ambientais são empurrados para fora do enquadramento.