Contrabando de agrotóxicos: um crime que começa na fronteira e termina nas lavouras brasileiras

Uma nova apreensão de Paraquat, herbicida banido no Brasil e em dezenas de outros países devido aos seus graves riscos à saúde humana, expõe a necessidade de punir não apenas os contrabandistas, mas também quem financia esse mercado ilegal ao comprar produtos proibidos

Uma reportagem publicada pela Gazeta do Triângulo relata a apreensão de aproximadamente oito toneladas do herbicida Paraquat, contrabandeadas do Paraguai e interceptadas em uma operação conjunta das polícias Federal, Civil, Militar e Penal na BR-050, entre Uberlândia e Araguari. A carga, avaliada em cerca de R$ 1 milhão, seguia de Cascavel (PR) para Catalão (GO), e o motorista acabou preso por contrabando. 

Embora expressiva, essa apreensão está longe de constituir um fato isolado. Ao contrário, ela integra uma sequência cada vez mais frequente de operações policiais que desmantelam carregamentos ilegais de agrotóxicos provenientes do Paraguai. A repetição desses casos indica que o Brasil enfrenta uma verdadeira epidemia de contrabando de agrotóxicos, impulsionada por uma rede criminosa bem estruturada e, sobretudo, por uma demanda constante dentro do próprio setor agropecuário.

O caso torna-se ainda mais grave porque o produto apreendido foi o Paraquat, um dos herbicidas mais controversos do mundo. Diversos estudos científicos associaram sua exposição a intoxicações agudas, danos pulmonares irreversíveis e a um aumento do risco de desenvolvimento da doença de Parkinson. Esses riscos levaram dezenas de países a proibir seu uso, incluindo o Brasil, onde sua comercialização deixou de ser permitida justamente em razão dos perigos que representa para trabalhadores rurais e para a saúde pública.

A insistência em trazer clandestinamente esse herbicida ao território brasileiro revela uma realidade desconfortável. Se existe uma oferta permanente cruzando a fronteira, é porque existe uma clientela disposta a adquiri-la. O contrabando não sobrevive apenas graças aos atravessadores, motoristas e organizações criminosas. Ele depende igualmente daqueles que compram deliberadamente agrotóxicos ilegais para reduzir custos ou manter o acesso a substâncias cuja utilização foi proibida após criteriosa avaliação toxicológica.

Esse aspecto merece especial atenção. Durante anos, a fiscalização concentrou seus esforços nas rotas do contrabando e nas organizações criminosas responsáveis pela entrada clandestina desses produtos no país. Esta é, sem dúvida,  uma ação necessária. Entretanto, nenhuma organização criminosa manteria uma estrutura logística sofisticada para importar ilegalmente toneladas de agrotóxicos se não existisse um amplo mercado consumidor disposto a adquiri-los. Em outras palavras, cada carga apreendida revela a existência de compradores que aguardavam sua chegada.

Por isso, concentrar toda a repressão apenas sobre quem transporta essas cargas significa atacar apenas a parte mais visível do problema. É indispensável identificar e responsabilizar criminal e administrativamente quem financia esse mercado clandestino. Sejam comerciantes que abastecem lojas de insumos agrícolas, sejam proprietários rurais que adquirem conscientemente produtos contrabandeados, todos participam da mesma cadeia ilícita e contribuem para manter um mercado que coloca em risco trabalhadores, consumidores e o meio ambiente.

Também não se pode ignorar os impactos ambientais dessa prática. O uso clandestino de agrotóxicos proibidos dificulta qualquer controle oficial sobre aplicação, armazenamento e destinação de embalagens. Como resultado, cresce o potencial de contaminação de solos, rios, aquíferos e da biodiversidade, além da exposição de polinizadores, peixes, aves e outros organismos não alvo a substâncias cuja elevada toxicidade já motivou sua retirada do mercado legal. Quando se trata do Paraquat, esses riscos tornam-se ainda maiores, pois sua elevada persistência e toxicidade ampliam os danos potenciais para os ecossistemas e para as populações expostas.

A sucessão de apreensões de cargas ilegais provenientes do Paraguai demonstra que o contrabando de agrotóxicos deixou de ser um episódio esporádico para se transformar em um problema estrutural da agricultura brasileira. Enquanto esse comércio continuar sendo tratado apenas como uma questão de segurança nas fronteiras, novas operações policiais continuarão produzindo manchetes sem alterar a lógica econômica que sustenta esse mercado clandestino.

O verdadeiro enfrentamento exige romper toda a cadeia do crime. Isso significa prender os contrabandistas, desarticular as organizações criminosas que atuam nas fronteiras, fortalecer os mecanismos de rastreabilidade dos insumos agrícolas e, principalmente, aplicar punições exemplares aos comerciantes e produtores rurais que alimentam esse mercado ao adquirir agrotóxicos contrabandeados. Sem reduzir essa demanda interna, o fluxo de cargas ilegais vindas do Paraguai continuará encontrando destino certo nas lavouras brasileiras, colocando em risco a saúde da população, degradando os ecossistemas e fortalecendo um dos ramos mais lucrativos do crime organizado no campo.

Quando as máquinas escrevem, precisamos de mais pessoas que saibam ler

Precisamos de pessoas que consigam detectar quando a linguagem se torna excessivamente simplista, quando os termos escondem mais do que explicam, quando a história é simplificada demais e quando as experiências humanas são encaixadas em categorias que parecem neutras, mas não o são

Por Zeshan Ullah Qureshi, candidato a doutorado, Universidade de Ciências Aplicadas MF, para “Kronos” 

Se o texto, a análise e o controle da análise forem deixados a cargo de modelos de linguagem, não teremos resolvido o problema. Apenas teremos transferido o poder de julgamento da responsabilidade humana, afirma Zeshan Ullah Qureshi. Foto: Particular

Quase 4.000 vagas nas áreas de humanidades, ciências sociais e artes desapareceram das universidades britânicas   em apenas um ano. É particularmente preocupante que tais cortes enfraqueçam as humanidades em um momento em que a sociedade precisa de mais, e não menos, pensamento crítico.

Ao mesmo tempo, a redução de pessoal está acontecendo justamente quando a inteligência artificial torna a produção de texto, análise e cultura mais barata e rápida do que nunca.

Portanto, é pertinente quando Vivienne Stern, CEO da Universities UK, afirma que, na era da IA, valorizaremos mais  , e não menos, a compreensão de como as pessoas pensam e agem. 

As ciências humanas são frequentemente defendidas com o argumento de que as disciplinas nos proporcionam a capacidade de reflexão crítica, desenvolvimento democrático e compreensão social.

Tudo isso está correto, mas diante da inteligência artificial, o argumento pode ser formulado de maneira ainda mais incisiva: a IA não torna as humanidades menos relevantes. Ela as torna mais necessárias.

Quando a IA puder escrever a tese, o doutorado deverá ser sobre os dados.

A questão não é mais apenas quem consegue produzir texto, porque as máquinas agora podem fazer isso em larga escala. Nem é apenas quem consegue analisar texto, porque a IA já pode nos ajudar a identificar pressupostos, conceitos, fontes e perspectivas em um texto.

Portanto, surge uma nova questão: quem deve avaliar a análise da IA? Quem deve decidir se ela trata as fontes adequadamente, se ignora nuances históricas, se repete preconceitos estabelecidos ou se simplesmente imita a linguagem crítica sem discernimento profissional?

Uma possível solução seria ter vários sistemas de IA verificando uns aos outros. Poderíamos pedir ao ChatGPT para avaliar o Gemini, ao Gemini para avaliar o Claude, ao Claude para avaliar o DeepSeek, e assim por diante, de modelo para modelo.

Isso pode ser útil, mas será que é realmente suficiente?

Se deixarmos o texto, a análise e o controle da análise a cargo de modelos de linguagem, não teremos resolvido o problema. Teremos apenas transferido o poder de julgamento da responsabilidade humana.

No debate sobre IA, estamos falando de coisas diferentes.

A IA pode ser uma ferramenta poderosa para a leitura crítica, mas não pode, por si só, garantir a sua eficácia. Quando modelos de linguagem são usados ​​para resumos, ensino, pesquisa e políticas públicas, a sociedade torna-se mais dependente de humanos capazes de distinguir entre textos aparentemente bem formulados e insights genuínos.

A IA pode imitar a forma do conhecimento, mas não pode assumir a responsabilidade humana pela verdade, pelo contexto ou pelas consequências. Ela não possui memória histórica no verdadeiro sentido e precisa ser verificada por críticos textuais treinados nos métodos das humanidades e capazes de perguntar: O que realmente está acontecendo neste texto?

As humanidades não se resumem à leitura de livros antigos, ao aprendizado de idiomas ou à compreensão da história cultural. Em um nível mais elevado, as humanidades também abrangem os métodos de interpretação.

A hermenêutica nos ensina a navegar pelo significado dentro do contexto. A análise do discurso nos ensina como a linguagem não apenas descreve o mundo, mas também o molda, e quais estruturas de poder operam nos bastidores. A crítica das fontes nos ensina a questionar quem diz o quê, com base em quê, em que situação e com quais interesses.

A análise histórica nos ensina que os conceitos não são atemporais.

Na minha área, estudos religiosos, frequentemente trabalhamos com textos que transitaram entre línguas, culturas e contextos históricos. Uma tradução nunca é apenas uma transferência técnica de um idioma para outro. Envolve escolhas, interpretações, adaptações e nuances.

A questão não é apenas se o texto está certo ou errado, mas quais categorias ele usa, em quais autoridades se baseia e como torna uma tradição compreensível dentro de um contexto cultural diferente.

Na era da IA, o conceito de indústria cultural de Adorno e Horkheimer também pode ganhar nova relevância. Na década de 1940, eles descreveram como a cultura poderia ser produzida em massa de maneiras que tornavam o público mais passivo e menos crítico. Não é preciso adotar toda a análise deles para perceber que algo semelhante está acontecendo hoje. Quando o conteúdo pode ser gerado em segundos, torna-se mais fácil consumir significados prontos do que pensar por si mesmo.

Então, as humanidades se tornam um contrapeso.

Não porque os humanistas devam ser guardiões nostálgicos das antigas tradições profissionais, mas porque a sociedade precisa de pessoas que saibam ler devagar numa época em que tudo é produzido rapidamente.

Precisamos de pessoas que consigam detectar quando a linguagem se torna excessivamente simplista, quando os termos escondem mais do que explicam, quando a história é simplificada demais e quando as experiências humanas são encaixadas em categorias que parecem neutras, mas não o são.

Portanto, a discussão sobre as ciências humanas não deve se limitar ao número de vagas de estudo, à relevância para o mercado de trabalho ou a quais áreas têm o maior número de candidatos no momento.

Deveria também ser sobre que tipo de sociedade teremos se desvalorizarmos as disciplinas que nos ensinam a compreender a linguagem, a cultura, a história e a interpretação.

Quando as máquinas escrevem, não precisamos de menos humanistas. Precisamos de mais pessoas que saibam ler.


Fonte: Kronos

Portos-enclave: quando a promessa do desenvolvimento produz territórios sacrificáveis

Da violência lenta descrita por Rob Nixon aos grandes complexos portuários brasileiros

Em Slow Violence and the Environmentalism of the Poor, Rob Nixon argumenta que a expansão das economias extrativas no Sul Global costuma produzir um tipo muito particular de organização territorial: o resource enclave, ou enclave de recursos. Trata-se de espaços cuidadosamente planejados para maximizar a extração, o processamento e a exportação de riquezas naturais, mantendo uma relação mínima com o território ao seu redor. Em vez de irradiar desenvolvimento, esses enclaves frequentemente aprofundam desigualdades, fragmentam economias locais e transformam comunidades inteiras em populações descartáveis. Embora Nixon tenha em mente principalmente a indústria do petróleo e da mineração, sua interpretação ajuda a compreender um dos fenômenos territoriais mais importantes do Brasil desde o início dos anos 2000: a multiplicação de grandes complexos portuários voltados à exportação de commodities.

A partir de 2003, o país assistiu à criação ou à profunda expansão de infraestruturas como o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Ceará), o Complexo Industrial Portuário de Suape (Pernambuco), o Porto do Açu (Rio de Janeiro) e, posteriormente, a expansão do Porto Sudeste (Itaguaí). Cada um possui especificidades próprias, mas todos compartilham uma mesma lógica territorial: conectar áreas produtoras de minério, petróleo, gás, grãos e outras commodities diretamente ao mercado internacional, reduzindo ao máximo os custos de circulação dessas mercadorias. Sob esse ponto de vista, o porto deixa de ser apenas uma infraestrutura de transporte. Ele se converte no núcleo de um enclave logístico que reorganiza vastas áreas ao seu redor segundo as necessidades do capital global.

Essa reorganização começa pela própria ocupação doespaço. Grandes extensões de terra passam a ser controladas por empresas privadas ou consórcios empresariais. Áreas tradicionalmente utilizadas por pescadores artesanais, agricultores familiares e comunidades tradicionais são cercadas, desapropriadas ou submetidas a restrições crescentes de acesso. O espaço deixa de funcionar como território vivido para tornar-se plataforma operacional.

É precisamente aqui que a reflexão de Nixon se torna particularmente atual. Em uma das passagens mais contundentes do livro, ele observa que a economia do petróleo costuma gerar poucos empregos permanentes para as populações locais, substituindo antigas formas de subsistência destruídas pela contaminação da água, do solo e do ar. Em vez de contratar trabalhadores das comunidades diretamente afetadas, as empresas frequentemente importam mão de obra especializada de outras áreas, incluindo trabalhadores estrangeiros.

Essa descrição parece ter sido escrita para diversos empreendimentos brasileiros. No Porto do Açu, por exemplo, milhares de hectares foram desapropriados sob a promessa de um intenso processo de industrialização e geração de empregos. Entretanto, passados mais de quinze anos, observa-se uma economia fortemente especializada na exportação de petróleo, minério e apoio à indústria offshore, enquanto boa parte das comunidades rurais e pesqueiras continua convivendo com perda de território, redução de atividades tradicionais e crescente dependência de empregos temporários e altamente seletivos.

Em Suape, diversos estudos documentaram deslocamentos populacionais, conflitos fundiários e profundas alterações nos ecossistemas estuarinos. No Pecém, a expansão industrial transformou comunidades pesqueiras e provocou intensas disputas pelo acesso ao litoral e aos recursos hídricos. Já o Porto Sudeste representa outro elo dessa cadeia exportadora baseada na mineração, cujo dinamismo econômico pouco se traduz em melhoria proporcional das condições sociais dos municípios vizinhos.

O problema não reside apenas na distribuição desigual dos benefícios econômicos. Nixon chama atenção para algo mais profundo: os enclaves produzem uma separação material e imaginária entre os espaços considerados úteis ao capital e aqueles vistos como descartáveis.

Os investimentos ficam concentrados  dentro dos limites cuidadosamente protegidos do enclave. Fora dele permanecem comunidades submetidas aos impactos ambientais, à pressão imobiliária, ao aumento do custo de vida, à fragmentação das redes sociais e à degradação dos ecossistemas. É difícil encontrar descrição mais precisa para aquilo que ocorre em muitos desses complexos portuários brasileiros.

No caso do Porto do Açu, essa lógica é particularmente evidente quando se observa a coexistência entre uma infraestrutura portuária altamente sofisticada e um entorno marcado pela precariedade de serviços públicos, pela persistência da pobreza e pela crescente restrição do acesso a áreas tradicionalmente utilizadas para pesca, agricultura e circulação comunitária.

Além disso, os enclaves contemporâneos também operam por meio de um sofisticado aparato discursivo. Sustentabilidade, inovação, transição energética, economia azul e desenvolvimento regional passam a compor uma narrativa institucional que frequentemente obscurece as profundas assimetrias produzidas por esses empreendimentos. Multiplicam-se programas de responsabilidade social, reservas privadas, projetos de conservação e ações de compensação ambiental que ajudam a legitimar a expansão do enclave sem alterar sua lógica fundamental de funcionamento.

Nesse sentido, a violência lenta descrita por Nixon é manifestada menos em grandes desastres ambientais do que na erosão contínua das condições que sustentavam a vida das populações locais. A perda gradual do acesso à terra, às lagoas, aos estuários, às áreas de pesca, às fontes de água e às redes de sociabilidade constitui um processo cumulativo de desterritorialização que dificilmente aparece nos indicadores tradicionais de desenvolvimento. Os grandes portos brasileiros certamente ampliaram a capacidade exportadora do país e fortaleceram sua inserção nos mercados globais. A questão que permanece aberta é outra: desenvolvimento para quem?

Quando observados a partir da perspectiva dos enclaves de recursos proposta por Rob Nixon, Pecém, Suape, Açu e Porto Sudeste deixam de aparecer apenas como exemplos de modernização logística. Eles revelam um modelo de desenvolvimento em que territórios inteiros são reorganizados para atender às demandas das cadeias globais de commodities, enquanto as populações que historicamente construíram esses lugares permanecem do lado de fora das cercas físicas e simbólicas que delimitam o enclave.

Talvez essa seja a maior contribuição da obra de Nixon para compreender a geografia contemporânea dos grandes portos brasileiros: mostrar que a violência nem sempre se manifesta em explosões, vazamentos ou acidentes espetaculares. Muitas vezes ela se instala silenciosamente, tornando invisíveis aqueles que vivem fora dos limites protegidos do enclave, mas suportam diariamente os custos sociais e ambientais de seu funcionamento.

Ética em pesquisa e IA generativa: por uma abordagem crítica e soberana

Por Deisy Ventura, professora títular da Faculdade de Saúde Pública da USP,  para o “Jornal da USP”

Impulsionada em escala global por grandes corporações estrangeiras, a vertiginosa generalização do emprego de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (IAGen) no cotidiano acadêmico traz importantes desafios éticos, em particular para a ética em pesquisa. Antes de abordar alguns deles, lembro que atualmente “80% das universidades brasileiras dependem de Google ou Microsoft”, como indica o Caderno Vozes da Ciência, recentemente publicado pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC). Resultante de um ciclo de debates do qual tive a honra de participar, este valioso documento formula 117 propostas para “o Brasil que queremos”, entre elas as que buscam assegurar a soberania digital e tecnológica brasileira.

O primeiro desafio que enfrentamos é resgatar a história da ciência. A atribuição às máquinas de tarefas outrora exclusivamente humanas inscreve-se em um longo debate sobre as relações entre ética, técnica e produção científica. Numerosos autores demonstraram como as tecnologias, impulsionadas por imperativos econômicos, avançaram de forma alheia, senão antagônica, à reflexão e ao pensamento crítico, deixando a ética isolada em algum rincão das ciências ditas sociais e humanas. Podemos escolher os anos 1970 para resgatar Hans Jonas, filósofo alemão que em diversas obras apontou a responsabilidade dos cientistas pelos efeitos devastadores do “progresso”, e o quanto a “novidade” (“o epíteto laudatório novo”) pode funcionar como salvo-conduto para agir sem precaução nem dever de prestar contas. Porém, muito antes de Jonas e outros tantos pensadores ocidentais, os povos originários já nos alertavam para a possível confusão entre avanço tecnológico e progresso humano; a repartição brutalmente assimétrica dos benefícios e danos oriundos da técnica; e o modo pelo qual, nas palavras de Ailton Krenak, estamos vendendo o amanhã – aliás, a um preço módico.

O segundo desafio é reconhecer que a IA não avança em ambiente “neutro”. A extração de grandes volumes de dados sem prévio consentimento esclarecido e sem contrapartida à altura; a presença de vieses em ferramentas aparentemente anódinas; e a subtração a modalidades de controle legal e social, do ponto de vista das big techs, constituem funcionalidades dessas tecnologias, e não disfunções. Todos sabemos que tais atributos servem não apenas aos vultosos lucros que envolvem a chamada “economia de dados”, mas também aos ecossistemas de desinformação dotados de financiamento bilionário e objetivos político-ideológicos ostensivos, que vêm desempenhando papel importante na crescente ascensão global das extremas direitas. Exceto pela escala e pela velocidade, tampouco estamos diante de uma novidade. O mesmo homem pode aceitar boquiaberto os mais fantasiosos relatos e rejeitar com desprezo as verdades mais solidamente estabelecidas, escreveu Marc Bloch em suas Reflexões de um historiador sobre as notícias falsas da guerra (1921). Soldado durante a Primeira Guerra e fuzilado pela Gestapo durante a Segunda, Bloch foi recentemente homenageado com a entrada simbólica no Panteão francês. Fascinado pela credulidade humana, concluiu que o sucesso de uma notícia falsa nasce de representações coletivas pré-existentes, como medos, ódios e preconceitos. Assim, o processo pelo qual mentiras deslavadas tornam-se grandes lendas não se explica pela ignorância, e sim pela existência de um ambiente favorável a elas. Lamento constatar que hoje, em matéria de plágio, fabricação ou falsificação de dados, considerados as más práticas científicas mais graves, enfrentamos um verdadeiro boom de empreendedorismo.

Isto nos leva a um terceiro desafio: discernir o modus operandi das big techs e de seus aliados, que compreende tanto a coerção como a propaganda. Começando pela imposição, muitos motores de busca, softwares e aplicativos que utilizamos cotidianamente não oferecem a opção de recusa à IA. Sendo condição de acesso aos conteúdos que de fato buscamos, ignorá-la exige um gesto contraintuitivo. Mesmo quando a desativação é possível, nem sempre temos o letramento necessário para fazê-la. Por outro lado, ao lidar com outros serviços públicos ou privados que impõem diferentes modalidades de IA, não raro sofremos um atendimento ansiogênico, redutor das demandas do cidadão ou consumidor a alternativas enviesadas, por vezes tornando impossível uma efetiva interação. Ademais, a persistente exclusão digital de diversos grupos é demonstrada em inúmeras pesquisas.

Sobre a propaganda, limito-me a abordar quatro de suas muitas dimensões. A primeira é o determinismo que apregoa a inexorabilidade da disseminação da IAGen: estaríamos diante de uma ruptura antropológica maior, de caráter irreversível. Todavia, colegas como Anne Alombert, filósofa e professora da Universidade de Paris 8, questionam a natureza desta ruptura, eis que a IA dá continuidade à externalização de funções humanas. Enquanto por meio dos algoritmos de recomendação externalizamos nossa capacidade de decidir o que ver, o que consumir, quem seguir etc., por meio da IAGen transferimos a sistemas probabilísticos a nossa capacidade de expressão. Modelos se expressam em nosso lugar por meio de categorias que não provêm de nossas trajetórias, sempre únicas, mas sim de cálculos sobre volumes de dados, orientados por critérios opacos e de rastreabilidade limitada ou inexistente. No artigo Curar a estupidez artificial, Alombert aponta os efeitos nefastos da generalização do uso subalterno da IAGen, entre eles a dependência cognitiva dos indivíduos: quanto menos exercemos a capacidade de triar e organizar as informações, a memória, a criatividade ou a busca de sentido, menos estamos treinados para pensar de forma autônoma. Além disso, o espaço simbólico é uniformizado pela “média”, paulatinamente eliminando singularidades, inclusive idiomáticas. Ao “fotocopiar indefinidamente a fotocópia”, favorece a esterilização cultural.

Na mesma direção, a cientista política de origem tunisiana Asma Mhalla, professora da Politécnica de Paris, autora do livro Cyberpunk: o novo sistema totalitário, se diz impressionada não com a suposta ruptura, e sim com o rolo compressor imposto pelas infraestruturas digitais, concentradas em um punhado de atores poderosos. A propalada irreversibilidade está sendo imposta na prática, por meio de imponentes pressões econômicas e políticas. Logo, a questão não é a máquina, e sim quem a governa ou desgoverna. A tecnologia deveria ser usada como um instrumento do bem comum, e não como ferramenta de dominação e exploração. Especialmente no meio universitário, creio que o argumento da suposta inexorabilidade serve para nos desalojar de nossa condição de sujeitos responsáveis, elemento central da ética, e obnubilar nossa capacidade de agir. Ambas precisam ser recuperadas não para que recusemos a tecnologia, e sim para que decidamos conscientemente quando, como e com que finalidade a utilizaremos, sempre avaliando com transparência e rigor os efeitos de seu uso.

Uma segunda dimensão da propaganda é a desqualificação sistemática de quem questiona o uso da IA, apontado como anacrônico, vetusto, reacionário ou tecnofóbico, responsáveis pelo “atraso” de nosso mergulho no admirável mundo novo da IA. A desqualificação contrasta, porém, com a seriedade e a competência de colegas como os do MIT (Massachusetts Institute of Technology) que demonstram a queda de desempenho nos níveis neural, linguístico e comportamental de pessoas que utilizam o ChatGPT em certas condições. Também é o caso dos profissionais que vêm comprovando nosso grau de dependência das infraestruturas tecnológicas externas, como pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB) que criaram um índice de soberania digital. Enquanto China, França, Rússia e Estados Unidos ocupam os primeiros lugares do ranking, grande parte de África, América Latina e Sudeste Asiático depende de um restrito clube de corporações estrangeiras, reproduzindo, sob o manto do “novo”, a velha clivagem Norte/Sul, levando a literatura acadêmica a falar de colonialismo de dados ou digital.

Uma terceira dimensão que atinge particularmente nossas agendas e métodos de pesquisa é a intensa propaganda sobre os benefícios da IAGen, que contribuiria para aumentar e acelerar a produtividade, em especial para lidar com grandes volumes de dados. Essas ferramentas se tornariam imprescindíveis para uma produção científica atualizada e de qualidade, e deveriam ser utilizadas também na avaliação da produção acadêmica. Aqui reconhecemos a disputa permanente pela definição do que é ciência e o legado colonial de importação de padrões de excelência.

Entre os incontáveis riscos da “excelência artificial”, sublinho que, no atual contexto de superficialidade e desatenção coletivas, decorrentes justamente do estágio de automação que alcançamos, é evidente a tolerância a sínteses incorretas ou enviesadas, a mediocridade e o reducionismo de textos, os erros crassos ou sutis de tradução, os mal-entendidos e as imprecisões técnicas. Quando apontados, rapidamente se opera a transferência de responsabilidades do sistema ao indivíduo: perguntas ou prompts é que teriam sido mal formulados; seria preciso “ensinar” ou “treinar” corretamente a IA; a falha seria da revisão etc. Diga-se de passagem, essas ferramentas, na verdade, não aprendem nem conversam, tampouco são inteligentes, razão pela qual Alombert prefere chamá-las de autômatos computacionais interativos, recusando metáforas antropomórficas que servem a naturalizá-las.

Neste ponto, urge recordar que o papel da universidade brasileira não é formar revisores de textos gerados por algoritmos, tampouco reproduzir de forma acrítica interesses de corporações estrangeiras ao facultar-lhes o acesso a lucrativos ou estratégicos acervos de dados arduamente construídos, inclusive com recursos públicos.

A quarta dimensão da propaganda alardeia que a regulação do uso da IAGen seria suficiente para evitar riscos e derivas. Ela enseja também um grande desafio, entre os tantos que o espaço de um artigo não permite abordar. Note-se que diversos defensores da suficiência regulatória são contratados por empresas de tecnologia ou conduzem pesquisas financiadas por elas, mas nem sempre declaram conflitos de interesse. Também é importante registrar que, apesar desta propaganda, na prática, as big techs investem agressivamente contra qualquer regulação, e igualmente contra juízes, tribunais e governos capazes de aplicá-la. Em qualquer caso, trata-se de uma ética a posteriori, ou seja, de princípios propostos após a comercialização massiva de ferramentas, muitos deles sendo violados de forma corriqueira até mesmo por quem os propõe.

Neste cenário, será decisivo o papel das Comissões de Ética em Pesquisa (CEPs), que precisam ter voz ativa nos processos regulatórios, não apenas pela função que desempenham, mas sobretudo pelas décadas de experiência que acumulam. No mês passado, tive a oportunidade de participar de um evento que abordou tais desafios regulatórios, organizado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, que reuniu as CEPs da USP, na atenta presença da Pró-Reitora, professora Maria Helena Palucci Marziale, com curadoria da professora Ana Paula Magalhães, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

No referido evento, compartilhei uma mesa com a pesquisadora Márcia Azevedo Coelho, da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica (Instituto de Estudos Avançados da USP), cujos estudos sobre o uso da IAGen nas escolas eu já admirava. Ela destacou os limites de iniciativas como a Portaria CNPq n. 2.664, de 6 de março de 2026, que apesar de representarem um avanço, não dão conta de problemas éticos importantes como o risco de dependência na formulação de problemas de pesquisa; o condicionamento epistêmico pelas limitações da ferramenta em uso; a análise de dados feita por meio de sistemas opacos, não rastreáveis e de reprodutibilidade incontrolada, podendo comprometer a validade dos achados, entre muitos outros. O depoimento de pesquisadores que usam a IAGen com a devida precaução é também importante, e por certo trará à luz novas dificuldades.

Desculpando-me de antemão pela analogia, o encorajamento acrítico do uso da IAGen no meio universitário faz lembrar a propaganda das Bets, ao pedir que pesquisadores “joguem com responsabilidade” na ausência de regras e controle adequados. As derrotas em cascata que se anunciam vão da dependência cognitiva individual à dependência tecnológica nacional. Mas há também o pêndulo percebido por Marc Bloch, a oscilar entre a credulidade inocente e a desconfiança generalizada. Mesmo letrados, podemos hesitar em nossa percepção do que é real ou artificial. Cresce o risco de perda da confiança na ciência, que induz a cidadania a renunciar ao usufruto de seus resultados. Por tudo isto, nossos desafios devem ser enfrentados com urgência, não apenas por especialistas em IA, mas por todos os pesquisadores, pelo Estado e pela sociedade brasileira.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados noJornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)


Fonte: Jornal da USP

Poluição sonora de turismo e embarcações afeta a comunicação de peixes em recifes, mostra estudo

O ruído produzido pelo turismo e por embarcações como lanchas e jet skis pode interferir diretamente na comunicação entre os peixes recifais, afetando atividades fundamentais para a sobrevivência dessas espécies, como reprodução, alimentação e defesa de território. Isso ocorre porque a poluição sonora encobre os sons emitidos pelos peixes, já que os ruídos ocupam a mesma faixa de frequência sonora que os animais utilizam para interações biológicas. As conclusões são de artigo publicado na segunda (20) na revista científica Neotropical Ichthyology por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A equipe cruzou dados sonoros e de observação obtidos em duas praias pernambucanas. Alef Morais/Unsplash

A equipe cruzou dados sonoros e de observação obtidos em pontos com diferentes tipos de exposição a atividades humanas em duas localidades turísticas no litoral de Pernambuco – a Praia dos Carneiros, que recebe turistas o ano todo, e Praia de Tamandaré, que tem pico de visitantes no verão. Os registros foram realizados em janeiro e fevereiro de 2022, período de alta temporada, e em abril de 2023. Os pesquisadores instalaram nesses pontos um sistema de gravação subaquática para captar de forma contínua todos os sons do ambiente.  Simultaneamente, um membro da equipe acompanhava na superfície todas as atividades humanas geradoras de ruído, enquanto mergulhadores realizavam censos visuais para verificar a composição da comunidade de peixes nesses locais.

O estudo identificou cinco tipos de poluição sonora nos locais amostrados – jet skis, lanchas, barcos de pesca, parapente motorizado e presença de banhistas, além de nove diferentes tipos de sons de peixes. Três desses sons emitidos pelos animais deixaram de ser registrados em locais expostos ao movimento humano. Ambientes mais ruidosos também tiveram redução de sua complexidade acústica – índice que mede a variação de padrões sonoros dos peixes ao longo do tempo.

Túlio Freire Xavier, pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE e um dos autores do artigo, explica que a poluição sonora pode impactar comportamentos importantes das espécies, como a atração de parceiros, a defesa de áreas de alimentação e outras interações sociais, comprometendo a estrutura das comunidades a longo prazo.

O censo visual registrou de 18 a 23 espécies diferentes em cada ponto de amostragem, sendo a família das donzelinhas a mais abundante. Xavier ressalta que os peixes da região são fundamentais para a saúde dos recifes de coral, contribuindo para processos como a ciclagem de nutrientes e a manutenção do equilibro das cadeias alimentares. “Esses recifes sustentam atividades importantes para a economia da região, como o turismo e a pesca artesanal. Portanto, quando a poluição sonora interfere no comportamento desses peixes, existe o potencial de afetar, ainda que de forma indireta, os serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem”, detalha o pesquisador.

Para a equipe, os dados do estudo reforçam a importância de englobar a poluição sonora como um dos fatores de planejamento e de gestão das áreas marinhas protegidas. “Como identificamos quais atividades geram maior interferência acústica e quais áreas são mais vulneráveis ao ruído, esses dados podem ajudar gestores na definição de estratégias como o ordenamento do tráfego de embarcações, a criação de áreas de menor velocidade para barcos, a delimitação de zonas mais sensíveis à atividade humana e até a definição de horários de uso turístico em períodos biologicamente importantes para os peixes”, explica Xavier.

O pesquisador aponta que, além de contribuírem para a geração de conhecimento científico, os resultados do trabalho vêm sendo compartilhados com gestores e comunidades locais. E com o intuito de dar continuidade ao monitoramento do impacto dos ruídos, os pesquisadores já atuam em um projeto de longo prazo em uma escala espacial maior na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais. “Nosso objetivo é que esse conhecimento possa contribuir para políticas públicas e estratégias de manejo que conciliem o uso turístico da região com a conservação da biodiversidade e da paisagem sonora dos recifes”, finaliza Xavier.

Quem desejar ter acesso ao artigo publicado na Neotropical Ichthyology  , basta clicar [Aqui!].


Fonte: Agência Bori

Canetas emagrecedoras e agrotóxicos: quando dois mercados ilegais cruzam a mesma fronteira

A apreensão conjunta de canetas emagrecedoras clandestinas e agrotóxicos contrabandeados na Ponte da Amizade revela a convergência de dois mercados ilegais que já movimentam enormes volumes de recursos e ameaçam tanto a saúde pública quanto a segurança alimentar

Uma apreensão realizada na Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu, revelou uma cena que simboliza de forma quase didática os riscos do avanço do mercado ilegal no Brasil. Durante a fiscalização, agentes da Receita Federal localizaram milhares de canetas emagrecedoras à base de semaglutida, semelhantes ao Ozempic, escondidas entre centenas de caixas de agrotóxicos contrabandeados. A operação escancarou um fato preocupante: duas cadeias ilícitas extremamente lucrativas passaram a compartilhar as mesmas rotas logísticas do crime organizado.

À primeira vista, alguém pode imaginar que o maior problema resida na proximidade física entre medicamentos e agrotóxicos. Sem dúvida, transportar medicamentos que exigem controle rigoroso de temperatura e condições sanitárias ao lado de substâncias altamente tóxicas aumenta o risco de contaminação, degradação do princípio ativo e exposição química dos consumidores. Quem compra uma dessas canetas no mercado clandestino não recebe qualquer garantia sobre sua procedência, armazenamento ou composição. Na prática, pode injetar no próprio organismo um produto falsificado, deteriorado ou contaminado por resíduos de agrotóxicos.

Entretanto, o aspecto mais inquietante talvez seja outro. Esse episódio não significa que esses dois tipos de contrabando tenham surgido agora ou que normalmente circulem separados. Muito pelo contrário. O comércio ilegal de canetas emagrecedoras e o de agrotóxicos proibidos movimentam grandes volumes de recursos há anos e utilizam as mesmas rotas clandestinas entre Paraguai e Brasil. A fiscalização apenas flagrou, desta vez, uma carga que reunia os dois produtos antes que ela alcançasse o mercado brasileiro.

Esse detalhe merece atenção porque revela a crescente integração entre diferentes mercados ilegais. As mesmas organizações criminosas que transportam cigarros, eletrônicos e drogas também passaram a explorar produtos de alto valor agregado, como medicamentos para emagrecimento, e insumos agrícolas proibidos que encontram demanda constante no campo brasileiro. O crime organizado diversifica seus negócios, reduz riscos e amplia seus lucros com uma infraestrutura logística já consolidada.

Surge daí um duplo perigo. O primeiro atinge diretamente quem compra esses produtos. Consumidores atraídos pelos preços menores das canetas clandestinas correm o risco de adquirir medicamentos sem qualquer controle sanitário, sujeitos à falsificação, perda de eficácia ou contaminação. O enorme sucesso comercial da semaglutida criou um mercado paralelo altamente lucrativo, alimentado pela escassez do produto, pelos preços elevados nas farmácias e pela busca incessante por soluções rápidas para emagrecer.

Mais do que um episódio policial, essa operação lança um alerta sobre a sofisticação crescente do crime organizado. Ao mesmo tempo, expõe uma contradição preocupante da sociedade contemporânea: a busca por soluções rápidas — seja para emagrecer, seja para reduzir custos na produção agrícola — fortalece mercados clandestinos que colocam em risco tanto a saúde individual quanto a saúde coletiva. No caso dos agrotóxicos ilegais, especialmente daqueles que já receberam banimento em diversos países devido à sua elevada toxicidade, os impactos vão muito além da lavoura. O uso de agrotóxicos contamina solos, rios e aquíferos, reduz populações de polinizadores e outros organismos benéficos, afeta peixes, anfíbios e aves e compromete processos ecológicos essenciais para a manutenção da biodiversidade e da produção de alimentos. O fato de medicamentos clandestinos e agrotóxicos proibidos terem viajado juntos nesta carga não constitui uma exceção extraordinária. Essa apreensão apenas tornou visível uma realidade que, muito provavelmente, cruza diariamente as fronteiras brasileiras: a mesma logística criminosa que lucra com a falsa promessa de saúde também alimenta um modelo de produção agrícola que cobra um preço elevado da natureza e da sociedade.

Alface contaminada e um velho problema: quando a segurança alimentar depende mais da reação do que da prevenção

A decisão da empresa Taylor Farms de retirar do mercado norte-americano lotes de alface-americana processada distribuídos em 27 estados dos EUA, diante da suspeita de contaminação pelo protozoário Cyclospora cayetanensis, é mais um lembrete de que a crescente industrialização das cadeias globais de alimentos continua produzindo vulnerabilidades sanitárias de grande escala. A informação foi publicada pelo jornalista Edward Helmore no jornal britânico The Guardian, a partir de dados divulgados pelas autoridades sanitárias norte-americanas.

O episódio ocorre em meio a um dos maiores surtos de ciclosporíase já registrados nos Estados Unidos. Até o momento, milhares de casos estão sendo investigados, centenas de pessoas precisaram de hospitalização e as investigações conduzidas pela Food and Drug Administration (FDA) e pelos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) apontam para a alface processada como um dos principais veículos de transmissão. A empresa suspendeu temporariamente a comercialização de alface proveniente da região central do México, enquanto as autoridades procuram determinar a extensão da contaminação e verificar se outros produtos e marcas também foram afetados.

Embora o caso tenha recebido ampla cobertura por envolver uma grande empresa e milhares de consumidores, ele expõe um problema estrutural que transcende uma única marca ou um único país. A produção moderna de alimentos frescos depende de cadeias logísticas altamente concentradas, nas quais um único fornecedor pode abastecer dezenas de empresas, restaurantes e redes varejistas. Quando ocorre uma falha sanitária em um elo dessa cadeia, seus efeitos rapidamente se espalham por vastas regiões geográficas, tornando extremamente difícil identificar tanto a origem da contaminação quanto todos os consumidores potencialmente expostos.

Outro aspecto preocupante é que a Cyclospora cayetanensis não representa um risco decorrente do alimento em si, mas das condições sob as quais ele foi produzido, irrigado, lavado ou processado.  Este é um parasita cuja presença está associada à contaminação fecal da água ou do ambiente produtivo. Em outras palavras, surtos dessa natureza são também indicadores das condições de saneamento, da qualidade da água utilizada na agricultura e da efetividade dos sistemas de fiscalização ao longo da cadeia produtiva.

Há ainda uma dimensão econômica frequentemente negligenciada. O modelo de produção baseado em grandes plantas de processamento permite ganhos expressivos de escala e redução de custos, mas concentra igualmente os riscos. Quando um único centro de processamento distribui alimentos para dezenas de estados, qualquer falha sanitária deixa de ser um problema local para se transformar rapidamente em uma crise nacional. O próprio histórico recente da Taylor Farms, envolvida anteriormente em outros episódios de contaminação microbiológica, mostra que esses eventos não podem mais ser tratados como acidentes isolados, mas como sintomas recorrentes de cadeias alimentares cada vez mais complexas e interdependentes.

Para países como o Brasil, um dos maiores exportadores mundiais de alimentos, episódios como esse oferecem uma lição importante. Garantir a segurança alimentar não significa apenas aumentar a produtividade agrícola ou ampliar mercados consumidores.  De fato, isto significa investir continuamente em rastreabilidade, monitoramento microbiológico, infraestrutura sanitária, fiscalização independente e transparência na comunicação dos riscos. Afinal, em um sistema alimentar globalizado, a confiança do consumidor pode ser perdida tão rapidamente quanto um lote contaminado percorre milhares de quilômetros.

Startups, inovação e muito otimismo: uma análise necessária sobre o futuro imaginado para a UENF

A aproximação entre universidades e empresas sempre fez parte do projeto concebido por Darcy Ribeiro para a UENF. O problema começa quando a inovação deixa de ser um instrumento de transformação social e passa a ocupar o lugar do próprio projeto de universidade

Uma entrevista recentemente publicada no portal da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) reacende uma discussão que acompanha a instituição desde sua criação, ainda que hoje apareça envolvida por uma linguagem mais contemporânea, marcada por expressões como inovação, empreendedorismo, propriedade intelectual, incubação e startups de base tecnológica. A entrevista deve ser entendida apenas como um ponto de partida, pois a visão nela expressa não é exclusiva de seu interlocutor nem da própria Uenf, mas representa uma concepção que ganhou crescente centralidade nas universidades brasileiras, nos organismos de fomento e nos governos, segundo a qual a aproximação com empresas e a capacidade de gerar novos negócios constituiriam indicadores privilegiados de modernização institucional e de impacto social. O verdadeiro tema, portanto, não é uma declaração específica, mas o significado progressivamente atribuído à inovação e o lugar que ela passou a ocupar no imaginário da universidade pública.

Não há razão para negar a importância dessa agenda, pois universidades públicas não devem permanecer isoladas da estrutura produtiva, indiferentes à aplicação do conhecimento ou satisfeitas com uma circulação acadêmica que raramente ultrapassa os limites dos congressos, periódicos e grupos especializados. A produção de tecnologias, a transferência de conhecimento, a proteção da propriedade intelectual e a formação de empresas capazes de transformar pesquisa científica em produtos e serviços socialmente úteis são objetivos legítimos, sobretudo em um país que historicamente investiu pouco na articulação entre ciência, indústria e desenvolvimento econômico. O problema começa quando esses instrumentos, por mais relevantes que sejam, deixam de ser apresentados como partes de uma missão mais ampla e passam a ocupar o lugar do próprio projeto universitário, adquirindo o estatuto de uma narrativa redentora capaz de resolver, quase por efeito cumulativo, o desemprego de mestres e doutores, a baixa intensidade tecnológica da economia brasileira, a fragilidade do desenvolvimento regional e talvez, com algum esforço adicional de publicidade institucional, quase todas as limitações históricas da universidade pública.

As universidades também produzem suas modas institucionais e, ao longo das últimas décadas, diferentes expressões foram apresentadas, cada uma a seu tempo, como chaves capazes de destravar problemas acumulados durante gerações. Houve o tempo da excelência, da internacionalização, da interdisciplinaridade, da sustentabilidade, da governança, da transformação digital e, mais recentemente, das startups e dos ecossistemas de inovação. Nenhuma dessas agendas é irrelevante, e muitas delas deixaram contribuições importantes, mas o inconveniente surge quando uma formulação legítima se transforma em explicação universal, dispensando a necessidade de examinar as condições históricas, econômicas e políticas que permitem ou impedem que seus objetivos sejam efetivamente alcançados. A realidade, como se sabe, costuma demonstrar menos entusiasmo do que os textos institucionais e geralmente exige mais do que a inauguração de incubadoras, a realização de eventos de empreendedorismo ou a contabilização de empresas nascentes.

A experiência internacional mostra que os grandes polos de inovação não surgiram simplesmente porque universidades decidiram criar startups em escala crescente. Regiões como o Vale do Silício, Boston, Cambridge ou os complexos tecnológicos asiáticos foram construídas por meio de longos processos que combinaram universidades fortes, financiamento público duradouro, empresas dispostas a investir em pesquisa e desenvolvimento, políticas industriais, compras governamentais, infraestrutura, capital de risco e uma estrutura produtiva capaz de incorporar conhecimento científico. As startups apareceram como resultado desse ecossistema, ainda que posteriormente também tenham contribuído para sua expansão. Imaginar o processo de forma inversa, como se a multiplicação de empresas nascentes produzisse automaticamente as condições estruturais que lhes deram origem em outros contextos, equivale a tomar o efeito pela causa e a esperar que o símbolo de um processo substitua o processo propriamente dito.

No caso brasileiro, o contraste é particularmente evidente, pois o país ampliou sua capacidade de formar mestres e doutores, consolidou grupos de pesquisa competitivos internacionalmente e desenvolveu instituições científicas de reconhecida qualidade, ao mesmo tempo que permaneceu marcado pela baixa intensidade tecnológica de parte expressiva de sua estrutura produtiva, pelo reduzido investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento e por um processo de desindustrialização que limitou a demanda por profissionais altamente qualificados. A dificuldade de absorção de pesquisadores fora das universidades não decorre, portanto, apenas da ausência de cultura empreendedora entre os egressos ou de uma insuficiência de incubadoras, mas de uma economia que historicamente incorporou pouco conhecimento científico aos seus processos de produção. As startups podem criar oportunidades, gerar soluções relevantes e abrir novos caminhos profissionais, mas dificilmente absorverão o contingente de mestres e doutores formado anualmente ou compensarão, por iniciativa própria, décadas de fragilidade na política industrial, científica e tecnológica brasileira.

É justamente nesse ponto que a trajetória da Uenf oferece um contraponto especialmente fecundo, pois sua concepção original não nasceu da rejeição à inovação tecnológica ou à aproximação entre universidade e setor produtivo. Antes de definir a arquitetura institucional da nova universidade, Darcy Ribeiro visitou instituições de excelência científica, incluindo o California Institute of Technology, procurando compreender de que maneira pesquisa avançada, formação de alto nível, produção tecnológica e interação com empresas poderiam ser articuladas em um modelo universitário adequado às necessidades brasileiras.  A opção de Darcy de organizar a Uenf em torno de laboratórios de pesquisa, em vez de reproduzir integralmente a estrutura departamental tradicional, não constituiu simples escolha administrativa, mas refletiu a tentativa de construir uma instituição capaz de abordar problemas complexos por meio de formas igualmente complexas de organização do conhecimento.

Essa lembrança é importante porque impede que a crítica ao reducionismo contemporâneo seja confundida com uma defesa de uma universidade fechada em si mesma, hostil ao setor produtivo ou indiferente ao desenvolvimento tecnológico. Darcy Ribeiro reconhecia a necessidade de articular ciência, produção e desenvolvimento econômico, mas inseria essa articulação em um horizonte muito mais amplo, no qual a universidade deveria contribuir para a transformação do país, para a redução das desigualdades e para a formação de profissionais dotados não apenas de competência técnica, mas também de consciência cidadã. Na concepção da Universidade do Terceiro Milênio, inovação, excelência científica e aproximação com empresas eram componentes de um projeto histórico, e não substitutos desse projeto.

Também não há qualquer razão para transformar Darcy Ribeiro em uma espécie de deidade institucional ou em um fundador infalível cuja palavra devesse encerrar debates contemporâneos. O próprio Darcy provavelmente rejeitaria esse papel com a irreverência que marcou sua trajetória, até porque tinha plena consciência de suas contradições, de seus excessos e dos limites de suas próprias escolhas.  A relevância de Darcy Ribeiro para este debate não decorre de uma suposta perfeição pessoal, mas da escala das perguntas que formulava e da nitidez de seu compromisso com a justiça social, com o desenvolvimento do Brasil e com a construção de instituições capazes de enfrentar desigualdades historicamente produzidas. O que permanece atual em seu pensamento não é a pretensão de oferecer respostas definitivas, mas a recusa em reduzir a universidade a uma única função ou a um conjunto de instrumentos de gestão.

Darcy não pensava a universidade a partir das ferramentas que ela utilizava, mas da sociedade que desejava ajudar a construir. Essa distinção permite compreender por que a ligação com empresas, a inovação tecnológica e a produção de conhecimento aplicável eram desejáveis, sem jamais se converterem em fins autônomos. Startups, patentes, incubadoras, parques tecnológicos e acordos de cooperação são instrumentos, e instrumentos somente adquirem sentido quando subordinados a um projeto social, econômico e político mais amplo. O problema não está em utilizá-los, mas em permitir que sua visibilidade, sua capacidade de gerar indicadores e sua aderência à linguagem contemporânea da inovação acabem substituindo a discussão sobre os objetivos que deveriam orientar a universidade pública.

Essa questão assume importância ainda maior quando se considera o território para o qual a Uenf foi concebida.  A região Norte Fluminense não era, e continua não sendo, uma região desprovida de riqueza econômica, mas uma região historicamente incapaz de converter ciclos de prosperidade em desenvolvimento socialmente distribuído. A concentração fundiária, o predomínio secular da economia açucareira, a decadência de atividades tradicionais, a dependência das receitas petrolíferas, a implantação de grandes empreendimentos e a persistência de desigualdades profundas demonstram que produzir riqueza jamais foi suficiente. O desafio sempre consistiu em transformar recursos econômicos em capacidades sociais, diversificação produtiva, cidadania, educação, ciência e melhoria duradoura das condições de vida.

Foi para intervir nesse contexto que a Uenf foi criada. A instituição deveria formar quadros altamente qualificados, produzir ciência de excelência, contribuir para a modernização produtiva e oferecer à região Norte Fluminense uma base intelectual e tecnológica capaz de sustentar um processo de desenvolvimento menos desigual. A inovação fazia parte desse projeto, mas sua finalidade não se limitava ao aumento do número de empresas ou à ampliação da competitividade de determinados setores econômicos. Sua medida deveria ser também a capacidade de responder aos problemas concretos da região, fortalecendo políticas públicas, atividades produtivas socialmente inclusivas, serviços essenciais, sustentabilidade ambiental e mecanismos de redução das desigualdades.

É nesse sentido que a entrevista utilizada como ganchopara esta reflexão se torna reveladora menos pelo que afirma do que pelo que deixa de incluir em seu horizonte. A ênfase recai sobre empreendedorismo, empresas de base tecnológica, propriedade intelectual, incubação e aproximação com o mercado, enquanto temas como desenvolvimento regional, redução das desigualdades, formação cidadã e compromisso social aparecem ausentes ou, no mínimo, muito distantes do centro da narrativa. Não se trata de exigir que uma única entrevista contenha a totalidade do projeto universitário, mas de reconhecer que as escolhas discursivas revelam prioridades e que a repetição dessas escolhas pode indicar um estreitamento mais profundo na forma de conceber a inovação e o próprio papel da Uenf.

Esse estreitamento também pode ser observado na tendência de reconhecer como inovação, prioritariamente, aquilo que pode ser convertido em patente, empresa, produto ou modelo de negócios. Uma tecnologia voltada para fortalecer a agricultura familiar, um protocolo capaz de aperfeiçoar políticas de saúde, uma metodologia de recuperação ambiental, um sistema de gestão pública ou uma estratégia educacional podem transformar profundamente a vida social sem jamais produzir uma startup. Quando essas contribuições passam a ocupar um lugar secundário porque não se ajustam facilmente aos indicadores tradicionais da inovação mercadológica, não é a inovação que se torna maior, mas a universidade que corre o risco de ficar menor.

O uso de indicadores reforça essa mudança, pois é relativamente simples contar empresas incubadas, depósitos de patentes, contratos firmados e eventos realizados, embora seja muito mais difícil medir a contribuição de uma universidade para a redução das desigualdades, para a qualificação das políticas públicas, para o fortalecimento da cidadania ou para a construção de um projeto regional de desenvolvimento. Essa dificuldade não deveria servir de justificativa para abandonar objetivos mais amplos em favor daqueles que produzem números mais imediatos. Toda redução conceitual tende a gerar eficiência, facilitar a prestação de contas e tornar mais atraente a comunicação institucional, mas também pode produzir uma forma de cegueira quando transforma aquilo que é mais facilmente mensurável na única dimensão considerada relevante.

A aproximação com o setor produtivo, portanto, deve ser defendida, mas dentro de uma concepção na qual empresas sejam interlocutoras de uma universidade comprometida com a sociedade como um todo, e não destinatárias privilegiadas de sua missão. Uma universidade pública também dialoga com escolas, hospitais, agricultores, pescadores, servidores públicos, organizações comunitárias e grupos socialmente vulneráveis, pois seu papel não consiste apenas em converter conhecimento em riqueza, mas em transformá-lo em capacidade pública, qualidade de vida, justiça social e desenvolvimento humano. Essa amplitude não enfraquece a inovação, mas a retira de uma definição excessivamente estreita e a devolve ao terreno dos problemas concretos que justificam sua existência.

A Uenf não trai seu projeto original quando produz startups, protege tecnologias ou amplia sua interação com empresas, pois tudo isso pode contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento regional e para a criação de novas oportunidades. Ela corre o risco de se afastar desse projeto quando passa a acreditar que produzir startups resume sua razão de existir, substituindo uma concepção ampla de transformação social por um conjunto de instrumentos cuja relevância depende justamente dos objetivos aos quais estão subordinados. O desafio não consiste em escolher entre inovação e compromisso social, entre pesquisa básica e aplicação tecnológica ou entre universidade e setor produtivo, mas em recuperar a hierarquia que permite a essas dimensões coexistirem sem que uma delas ocupe o lugar de todas as demais.

A entrevista publicada pela Uenf talvez tenha produzido, assim, um efeito involuntariamente positivo ao recolocar em circulação uma pergunta que ultrapassa incubadoras, patentes, empresas nascentes e indicadores de desempenho. O verdadeiro debate diz respeito ao significado da universidade pública em uma sociedade profundamente desigual e ao papel que uma instituição concebida por Darcy Ribeiro deve desempenhar em uma região marcada por sucessivos ciclos de riqueza concentrada e desenvolvimento incompleto.

A aproximação com empresas e o estímulo à inovação tecnológica continuarão sendo componentes indispensáveis dessa missão, mas somente manterão seu sentido quando articulados ao compromisso com a justiça social, com a formação cidadã e com a construção de um projeto regional e nacional de desenvolvimento. A grande questão, portanto, não é saber se a Uenf deve produzir startups, mas se ela pode se dar ao luxo de esquecer por que e para quê foi criada.

Excesso de burocracia prejudica o desenvolvimento da ciência latino-americana

Existem poucas iniciativas na América Latina para reduzir os procedimentos burocráticos

ciência da burocraciaDevido à enorme quantidade de burocracia administrativa que precisam lidar, os pesquisadores muitas vezes acabam se tornando gerentes de logística, o que lhes rouba o tempo que deveriam dedicar à pesquisa. Crédito da imagem: cottobro studio/Pexels .

“A questão não reside necessariamente na existência de mecanismos de controle. Muitos deles desempenham funções essenciais para garantir a segurança dos experimentos, a transparência e o uso adequado dos recursos públicos”, disse Max Chavarría, pesquisador da Universidade da Costa Rica, ao SciDev.Net .

“Nosso argumento é que esses mecanismos muitas vezes acabam sendo excessivos, redundantes ou desproporcionais em relação aos riscos que buscam prevenir, gerando altos custos em tempo e esforço sem proporcionar benefícios equivalentes”, acrescenta.

Chavarría é um dos autores de um editorial publicado na revista Microbial Biotechnology que analisa como o excesso de burocracia afeta a produtividade científica e o avanço do conhecimento.

O excesso de burocracia na ciência é um problema global. Um estudo que entrevistou mais de 6.000 pesquisadores nos Estados Unidos constatou que os responsáveis ​​por projetos financiados pelo governo federal gastavam, em média, 42% do seu tempo de trabalho em tarefas administrativas relacionadas aos seus projetos.

Em outro estudo , conduzido pela editora holandesa Elsevier, entre mais de cem cientistas do Brasil, China, Alemanha e Índia, apenas 45% dos entrevistados disseram ter tempo suficiente para se dedicar à pesquisa.

Mas para os países em desenvolvimento, cujos sistemas científicos têm menos recursos, infraestrutura limitada e fontes de financiamento mais instáveis , o problema é maior.

“Cada hora gasta em procedimentos administrativos é uma hora que o pesquisador não dedica à inovação”, confirma José Seade, presidente da Academia Mexicana de Ciências (AMC) , à SciDev.Net .

“Se eu precisar de um reagente, tenho que preencher vários formulários, procurar fornecedores e solicitar orçamentos. Depois vem o processo de compra e o acompanhamento, que pode levar meses. Enquanto isso, um concorrente na Alemanha recebe o reagente em um dia”, disse o biólogo Daniel Martins-de-Souza, da Universidade Estadual de Campinas, Brasil, ao SciDev.Net .

[O excesso de burocracia] “dificulta a capacidade dos pesquisadores de responderem rapidamente às oportunidades científicas que exigem decisões ágeis e mecanismos flexíveis, um fator que limita nossa competitividade científica no cenário internacional ”.

José Seade, presidente da Academia Mexicana de Ciências (AMC).

Crédito da imagem: Nataliya Vaitkevich/Pexels .

O químico Aldo Zarbin, da Universidade Federal do Paraná, Brasil, relata que, para importar equipamentos para um de seus projetos, precisou apresentar 117 documentos, incluindo três orçamentos com traduções juramentadas e uma justificativa detalhada da necessidade dos equipamentos. Além disso, para finalizar o pagamento, teve que ir pessoalmente ao banco e repetir o processo até quatro vezes devido aos limites diários de transferência.

“Em meio a esse processo, eu ainda precisava encontrar tempo para fazer ciência inovadora, dar aulas, orientar alunos de pós-graduação e avaliar artigos científicos , disse ele ao SciDev.Net .

María Quintana, diretora do Departamento de Engenharia Física da Universidade Nacional de Engenharia do Peru, relata que em seu país a carga administrativa pode representar entre 30 e 50 por cento, “e até mais”, do tempo disponível do pesquisador principal de projetos experimentais que envolvem a compra de reagentes, equipamentos, gases especiais, manutenção, importações ou adaptações de laboratório.

“É um custo invisível muito alto que impacta diretamente a pesquisa”, disse ele ao SciDev.Net .

Silvana Ravía, coordenadora-geral da Secretaria Nacional de Ciência e Valorização do Conhecimento do Uruguai, explica que o tempo gasto nessas tarefas não só impacta diretamente na redução das horas dedicadas à criação de conhecimento e à produção de novas publicações, como também na motivação, “porque são tarefas que desmotivam e tiram o foco”.

“O excesso de burocracia dificulta a capacidade dos pesquisadores de responderem rapidamente às oportunidades científicas que exigem decisões ágeis e mecanismos flexíveis, um fator que limita nossa competitividade científica no cenário internacional”, acrescenta Seade, da AMC.

Para Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a burocracia também pode influenciar o tipo de pesquisa que é realizada.

“Diante das dificuldades em adquirir equipamentos e da sobrecarga de tarefas administrativas, muitos especialistas acabam modificando suas linhas de pesquisa, geralmente para tópicos menos complexos e ambiciosos”, disse ele ao SciDev.Net .

“Isso é muito sério, porque leva o sistema a optar por pesquisas mais simples ou de menor risco, quando a inovação exige justamente o enfrentamento de desafios técnicos mais complexos”, acrescenta Quintana.

No Brasil, havia a expectativa de que o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) — aprovado em 2016 e regulamentado por decreto em 2018 — ajudaria a reduzir a burocracia nas atividades de pesquisa e inovação no país. No entanto, Garcia argumenta que seus efeitos ainda são limitados.

“O Brasil, assim como outros países da América Latina, ainda não conseguiu superar a chamada ‘cultura do risco zero’”, observa ele, referindo-se à tendência das instituições públicas e dos órgãos de controle de priorizar a eliminação de qualquer possibilidade de erro administrativo, mesmo quando isso dificulta ou atrasa a pesquisa científica.

“A busca por segurança e transparência absolutas no uso de recursos, especialmente em atividades de apoio à pesquisa, entra em conflito com a própria natureza da ciência, uma atividade baseada em experimentação, incerteza e erro. Além disso, força os pesquisadores a se envolverem em tarefas que pouco têm a ver com seu trabalho”, disse ele ao SciDev.Net .

Seade acrescenta: “Os procedimentos administrativos são geralmente concebidos mais como mecanismos de supervisão do que como instrumentos de apoio à pesquisa.”

Quintana explica que tais procedimentos foram construídos dentro de um sistema em que o pesquisador deve demonstrar constantemente conformidade, mesmo quando já existem relatórios, cronogramas, entregas, orçamentos aprovados e mecanismos institucionais de prestação de contas.

“Em alguns projetos, o monitoramento pode se tornar um fardo adicional que não necessariamente melhora a qualidade científica do trabalho”, disse ele ao SciDev.Net .

“Seria mais inteligente avaliar o sucesso de um projeto não pela forma como o pesquisador gerenciou os recursos alocados para apoiar as atividades, mas sim se ele alcançou os objetivos e resultados previstos na proposta original”, argumenta Garcia.

Para Anabel Fernández, presidente da Investiga.Uy, que reúne mais de 1.200 pesquisadores uruguaios pertencentes a instituições públicas e privadas, “é essencial promover uma mudança estrutural para evitar que recursos humanos altamente qualificados acabem absorvidos por tarefas que deveriam ser da responsabilidade de profissionais especializados em gestão”.

“Esse sistema que força os pesquisadores a serem multifuncionais causa uma profunda ineficiência na execução dos projetos”, explica ele ao SciDev.Net .

Quintana defende a profissionalização da gestão de projetos científicos. “Universidades e centros de pesquisa devem ter unidades especializadas em aquisição de recursos científicos, importações, procedimentos alfandegários, gestão financeira e monitoramento administrativo de projetos. Os pesquisadores devem liderar a vertente científica, e não se tornarem gestores de logística.”

Além disso, sugere-se a adoção de procedimentos mais simplificados para bens científicos, fornecedores únicos ou altamente especializados e aquisições urgentes justificadas pela natureza dos experimentos.

“As universidades e os centros de pesquisa devem ter unidades especializadas em aquisição de recursos científicos, importações, procedimentos alfandegários, gestão financeira e acompanhamento administrativo de projetos. O pesquisador deve liderar o lado científico, e não se tornar um gestor de logística.”

María Quintana, diretora do Departamento de Engenharia Física da Universidade Nacional de Engenharia do Peru

No Uruguai, a Secretaria Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SENCI) tem colaborado com outras partes interessadas no projeto da Lei da Competitividade do Ministério da Economia e Finanças, com foco em questões relacionadas à ciência, tecnologia e inovação (CTI). Ravía informou à SciDev.Net que a Secretaria está atualmente desenvolvendo o novo Plano Estratégico Nacional para CTI, que incluirá um estudo dos procedimentos burocráticos que precisam ser revistos para fortalecer o sistema.

“A burocracia é um obstáculo para que a ciência latino-americana alcance maior destaque internacional e deixe de ocupar uma posição subordinada nas principais redes de pesquisa”, argumenta Garcia.

“Precisamos mudar essa realidade se quisermos nos integrar a essas redes como líderes na definição de agendas científicas, e não apenas como fornecedores de dados ou implementadores de projetos concebidos em outros países”, conclui ele.


Fonte:  SciDev.Net

TCE dá cinco dias para Rioprevidência explicar investimentos de R$ 118 milhões em instituições sem credenciamento

Sede do Rioprevidência — Foto: Agência Brasil

Por Gabriele Maia para “Tempo Real”
O Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) deu cinco dias para o Rioprevidência explicar investimentos de R$ 118 milhões realizados no fim de dezembro de 2025. A Corte apura se os recursos foram aplicados em três fundos administrados por instituições financeiras que, segundo representação encaminhada ao tribunal, ainda não estavam devidamente credenciadas para operar com a autarquia.

A decisão monocrática do conselheiro José Gomes Graciosa, assinada em 2 de julho e divulgada nesta quarta-feira (15), reúne uma representação apresentada pelo Conselho Fiscal do Rioprevidência e uma denúncia protocolada pelo deputado estadual Luiz Paulo (PSD).

O presidente do Conselho Fiscal, Vinicius Zanata, afirmou que as aplicações investigadas só vieram à tona porque o colegiado revisou toda a documentação dos investimentos após a crise envolvendo o Banco Master.

“Ao analisar os relatórios, identificamos algumas aplicações vultosas realizadas antes do devido credenciamento das instituições. Já havia muitas suspeitas sobre a gestão do órgão à época e, ao encontrar novas irregularidades, pedimos esclarecimentos e encaminhamos cópia ao TCE-RJ”, explicou.

Segundo a representação, os R$ 118 milhões foram aplicados entre 24 e 29 de dezembro de 2025 em três fundos de investimento. O Conselho Fiscal do Rioprevidência afirma que, no momento dos aportes, as instituições envolvidas na gestão e administração desses fundos ainda não tinham o credenciamento obrigatório para receber recursos da autarquia.

Entre os pontos levantados está o fato de que o credenciamento da gestora R Capital Asset Management, responsável pelos três fundos, só teria sido concluído em 13 de janeiro de 2026, semanas após as aplicações. A representação também questiona a situação da Inter DTVM e da Qore DTVM, esta última descrita como uma instituição criada em 2024 e com histórico operacional ainda limitado.

Fundo de investimento Valor do aporte Data da aplicação
Linea Fundo de Investimento Financeiro Renda Fixa Longo Prazo R$ 8,2 milhões 24/12/2025
R CAP – Alocação Fundo de Investimento Financeiro Renda Fixa Longo Prazo R$ 80 milhões 26/12/2025
R CAP Soberano FIF Renda Fixa Longo Prazo R$ 29,8 milhões 29/12/2025
Total R$ 118 milhões 24 a 29 de dezembro de 2025

Na decisão, o conselheiro Graciosa afirma que o credenciamento não é uma mera formalidade administrativa, mas um mecanismo previsto nas normas do Conselho Monetário Nacional para avaliar a capacidade técnica, financeira e reputacional das instituições antes que recebam recursos dos regimes próprios de previdência.

Porém, apesar de reconhecer a necessidade de aprofundar a apuração, o TCE ainda não analisou o mérito das acusações. A Corte determinou apenas que o atual presidente do Rioprevidência apresente explicações e a documentação pertinente antes da manifestação da área técnica e do Ministério Público de Contas.

Aportes de R$ 118 milhões aconteceram depois de investimentos no Banco Master

Os aportes passaram a ser questionados poucos meses depois do caso Banco Master, que já havia colocado o Rioprevidência sob investigação. Inicialmente estimados em R$ 970 milhões, os investimentos da autarquia ligados ao banco chegaram a quase R$ 3 bilhões, segundo investigações da Polícia Federal.

O TCE-RJ já havia alertado para os riscos dessas operações e determinado que o fundo deixasse de realizar novos aportes em ativos administrados pela instituição.

Foi nesse contexto que o deputado Luiz Paulo apresentou uma denúncia ao Tribunal de Contas questionando os novos investimentos.

“Desde o caso do Banco Master eu vinha alertando para o uso inadequado dos recursos do Rioprevidência. Quando surgiram essas novas informações, resolvi levar o caso ao Tribunal de Contas para que tudo fosse apurado”, explicou.

O parlamentar explicou que, durante a tramitação do processo originado a partir de sua denúncia no TCE, o governador em exercício Ricardo Couto adotou uma série de medidas para endurecer as regras para a gestão dos recursos da autarquia.

“O governo publicou um decreto restringindo aplicações apenas em bancos S1 e, mais recentemente, outro reforçando a profissionalização da gestão do Rioprevidência. São medidas importantes, mas elas não impedem que os fatos já ocorridos sejam examinados sob o aspecto da legalidade”, afirmou.

MP pediu afastamento de presidente interino do Rioprevidência após aportes

Os mesmos investimentos também são alvo de uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público (MPRJ). O órgão pediu o afastamento de Nicholas Cardoso, que ocupava a presidência interina do Rioprevidência quando a ação foi ajuizada, além do bloqueio de R$ 1,088 bilhão em bens dele, do ex-presidente Deivis Marcon Antunes, do Banco Master e da empresa PKL One.

Segundo o MP, os R$ 118 milhões foram aplicados quando Nicholas ainda era diretor de Investimentos da autarquia. Assim como o TCE, a Promotoria sustenta que os aportes ocorreram sem o credenciamento prévio das instituições financeiras responsáveis pelos fundos, em desacordo com as normas do Conselho Monetário Nacional.

Quatro dias após o pedido de afastamento, Nicholas foi exonerado da presidência interina do Rioprevidência. O governo do estado nomeou Luana Abreu dos Santos Lourenço para a Diretoria de Administração e Finanças da autarquia, passando a responder pelo órgão.


Fonte: Tempo Real