Lula faz história: a virada nas urnas e a mobilização popular marcam a eleição de 2026

Depois de perder o primeiro turno para Flávio Bolsonaro, Lula conquista um quarto mandato inédito. A mobilização da juventude, dos movimentos sociais e de eleitores de diferentes gerações marca uma eleição também atravessada por denúncias de restrições ao transporte público e pela atuação controversa da Justiça Eleitoral

O Brasil acaba de assistir a um acontecimento sem precedentes em sua história eleitoral recente. Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República neste domingo, 25 de outubro, depois de protagonizar uma virada que nenhum outro candidato havia conseguido realizar nas eleições presidenciais desde a redemocratização: terminar o primeiro turno atrás do adversário e conquistar a vitória no segundo. O resultado assegura a Lula um quarto mandato presidencial, outro marco histórico, e encerra uma campanha que parecia encaminhar-se em direção bastante diferente após a votação de 4 de outubro.

Naquele primeiro turno, Flávio Bolsonaro havia conquistado 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, abrindo uma vantagem superior a 2,2 milhões de votos. Três semanas depois, o quadro eleitoral estava invertido. Com mais de 98% das seções totalizadas, Lula já havia ultrapassado 63 milhões de votos, alcançando 51,75% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro registrava 48,25%. A diferença superior a 4,2 milhões de votos tornou matematicamente irreversível o resultado e confirmou uma reviravolta que merece ser examinada para além dos números.

Um dos elementos mais relevantes dessa transformação foi a mobilização social ocorrida entre os dois turnos. As manifestações estudantis que começaram logo depois do primeiro turno, as mobilizações organizadas por movimentos sociais e a intensificação da disputa política nas ruas e nas redes digitais contribuíram para modificar o ambiente de uma campanha inicialmente marcada por dificuldades de organização e comunicação. A juventude teve uma presença particularmente visível nesse processo, ocupando espaços públicos e participando de manifestações que recolocaram o debate sobre o futuro do país no centro da disputa eleitoral.

Seria precipitado atribuir a vitória exclusivamente a um segmento do eleitorado, mas seria igualmente inadequado ignorar a importância política dessa mobilização. A campanha do segundo turno não ficou restrita aos programas eleitorais e às estruturas partidárias tradicionais. Ela passou a envolver organizações estudantis, movimentos sociais, sindicatos, coletivos culturais e redes de participação política que buscaram ampliar o engajamento popular. A relação exata entre essas mobilizações e a transferência de votos ainda deverá ser investigada, mas sua presença na dinâmica eleitoral foi evidente.

Outro aspecto que merece atenção é a participação dos eleitores mais idosos. A campanha de Lula procurou estimular o comparecimento desse segmento, inclusive daqueles com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo. A mobilização intergeracional é uma dimensão importante da eleição de 2026, embora seja necessário aguardar os dados de comparecimento por faixa etária para determinar se houve efetivamente uma participação excepcional dos idosos. O encontro político entre diferentes gerações poderá ser uma das chaves para compreender a mudança observada entre os dois turnos.

Entretanto, a vitória de Lula também ocorreu em meio a uma controvérsia que não pode ser relegada ao esquecimento. As denúncias de restrições ao transporte público em cidades como Salvador e São Paulo levantaram questionamentos sobre as condições oferecidas aos eleitores que dependem dos ônibus para chegar às seções eleitorais. Em uma sociedade profundamente desigual, qualquer redução deliberada do transporte em dia de eleição pode atingir desproporcionalmente os trabalhadores e os moradores das periferias urbanas.

A gravidade dessas denúncias levou o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, a determinar a prorrogação da votação até as 19 horas. Entretanto, a decisão foi tomada praticamente no momento previsto para o encerramento das urnas, produzindo uma situação de difícil administração. Sob a presidência de Kassio Nunes Marques, o Tribunal Superior Eleitoral orientou que a votação prosseguisse apenas nas seções que ainda permaneciam abertas. Em consequência, a extensão do horário não pôde beneficiar uniformemente todos os eleitores potencialmente prejudicados.

A questão exige uma investigação rigorosa. Caso seja comprovado que autoridades ou gestores de transporte restringiram deliberadamente a circulação de ônibus para dificultar o comparecimento de eleitores, estaremos diante de uma interferência grave no exercício dos direitos políticos. O eventual caráter intencional dessas restrições, suas responsabilidades e seus efeitos concretos ainda precisam ser demonstrados. A vitória de Lula não elimina a necessidade de apuração, assim como as denúncias não constituem, por si mesmas, prova de que o resultado tenha sido alterado.

É nesse sentido que o segundo turno de 2026 apresenta duas dimensões inseparáveis. De um lado, uma virada eleitoral histórica, construída em um ambiente de intensa mobilização política e participação social. De outro, a necessidade de esclarecer episódios que colocaram em discussão a capacidade das instituições de assegurar condições iguais de participação aos cidadãos.

A reeleição de Lula também não significa o desaparecimento das profundas divisões políticas reveladas pelas urnas. A votação expressiva recebida por Flávio Bolsonaro demonstra que o novo mandato começará em um país politicamente dividido, com disputas importantes sobre políticas sociais, direitos trabalhistas, serviços públicos, economia e o papel do Estado. A dimensão histórica da vitória não elimina os desafios que estarão colocados a partir de janeiro de 2027.

Ainda assim, há uma conclusão política importante a extrair deste domingo: os resultados eleitorais não são determinados antecipadamente pelas vantagens obtidas em uma primeira votação. A reorganização das campanhas, a participação popular e a capacidade de mobilizar diferentes setores da sociedade podem modificar profundamente uma disputa em poucas semanas.

A eleição de 2026 ficará registrada como aquela em que Lula conseguiu transformar uma derrota no primeiro turno em uma vitória no segundo. Também deverá ser lembrada pela mobilização social que marcou as semanas finais da campanha e pelas controvérsias institucionais que exigirão esclarecimentos.

O desafio que permanece é fazer com que a vitória eleitoral conviva com a defesa intransigente das garantias democráticas. Afinal, o direito de votar precisa estar assegurado tanto para quem apoia o vencedor quanto para quem escolheu o candidato derrotado. A legitimidade da democracia depende dessa garantia, e não apenas do resultado apresentado pelas urnas.

Eleição sob suspeita: o caos no transporte e a confusão judicial colocam em risco a legitimidade do segundo turno

Denúncias de boicote ao transporte público, intervenção tardia da Justiça Eleitoral e fechamento desigual das urnas lançam dúvidas sobre a legitimidade do resultado, independentemente de quem vença a disputa presidencial

O segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, realizado neste domingo (25), poderá ficar marcado não apenas pela disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, mas também por uma crise institucional cujas consequências ainda estão longe de ser conhecidas. As denúncias de restrições deliberadas ao transporte público em municípios estratégicos, somadas à intervenção emergencial do Supremo Tribunal Federal (STF) e à aplicação desigual da prorrogação do horário de votação, criaram uma situação que poderá alimentar questionamentos sobre a legitimidade do resultado, independentemente de quem seja declarado vencedor.

O problema começou com denúncias de redução da oferta de transporte coletivo em cidades como Salvador e São Paulo, além de outros municípios brasileiros. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, a disponibilidade de transporte público não constitui uma questão secundária no processo eleitoral. Para milhões de trabalhadores, moradores das periferias urbanas e cidadãos de baixa renda, o ônibus representa a principal, quando não a única, possibilidade de chegar ao local de votação. Portanto, qualquer restrição deliberada à circulação dos veículos no dia da eleição pode representar uma interferência direta no exercício da soberania popular.

A gravidade das denúncias levou o ministro Cristiano Zanin, do STF, a determinar a prorrogação da votação até as 19 horas. Entretanto, a decisão chegou no momento em que o horário regulamentar de votação estava terminando e diversas seções eleitorais já haviam encerrado suas atividades. A posterior orientação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, estabeleceu que a prorrogação seria aplicada apenas às seções cujas urnas ainda não haviam sido fechadas. Com isso, a solução emergencial destinada a assegurar o direito de voto acabou produzindo uma situação institucionalmente problemática: eleitores submetidos às mesmas dificuldades de deslocamento poderiam encontrar condições diferentes para votar, dependendo de a seção eleitoral ter permanecido aberta ou não.

É justamente nesse ponto que emerge o problema central da legitimidade. Uma eleição democrática não depende exclusivamente da contagem correta dos votos depositados nas urnas. Sua legitimidade também exige que os cidadãos tenham condições efetivas e equivalentes de participar do processo. Se houver comprovação de que decisões administrativas restringiram deliberadamente o acesso de determinados grupos sociais às seções eleitorais, estaremos diante de algo muito mais grave do que uma falha operacional. Estaremos diante de uma possível violação do princípio da igualdade política, segundo o qual cada cidadão deve dispor de condições reais para exercer seu direito ao voto.

A situação torna-se ainda mais delicada porque a prorrogação parcial não necessariamente repara o prejuízo causado aos eleitores que não conseguiram chegar às urnas. Uma pessoa que tenha desistido de votar diante da ausência de transporte não recupera automaticamente essa oportunidade porque uma decisão judicial foi anunciada no final da tarde. Tampouco a manutenção de algumas seções abertas resolve o problema daqueles que encontraram seus locais de votação definitivamente encerrados. A extensão efetiva desse prejuízo ainda precisará ser demonstrada, mas a dificuldade de mensurá-lo já constitui um desafio para a Justiça Eleitoral.

Há também uma questão que não pode ser ignorada: a necessidade de examinar a atuação das instituições responsáveis pela organização do pleito. Será fundamental esclarecer quando o TSE tomou conhecimento das denúncias, quais providências foram adotadas, por que a controvérsia chegou ao STF tão perto do encerramento da votação e se existiam medidas preventivas capazes de evitar o impasse. Essas perguntas não pressupõem responsabilidade previamente estabelecida de qualquer autoridade, mas exigem respostas públicas, documentadas e verificáveis.

O risco político é evidente: qualquer que seja o vencedor, o candidato derrotado poderá utilizar as irregularidades denunciadas para questionar o processo eleitoral. Isso não significa que tais questionamentos tenham necessariamente fundamento jurídico para modificar o resultado. Significa, porém, que a ausência de esclarecimentos convincentes poderá alimentar uma crise de confiança nas instituições eleitorais, especialmente em um ambiente político já marcado por intensa polarização.

Também é indispensável evitar uma conclusão precipitada: a existência de problemas no transporte e de dificuldades na aplicação da decisão judicial não demonstra, por si só, que o resultado nacional tenha sido alterado. Para sustentar uma afirmação dessa natureza, será necessário investigar a extensão territorial das irregularidades, identificar os eleitores potencialmente prejudicados, verificar as responsabilidades administrativas e avaliar a relevância eleitoral dos fatos à luz da legislação. A gravidade das denúncias exige investigação rigorosa, não a substituição das provas por especulações.

O episódio revela, entretanto, uma fragilidade que merece atenção para além da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. A democracia não se realiza apenas quando os votos são contabilizados corretamente. Ela depende igualmente de condições materiais que permitam à população participar das decisões coletivas. Quando o acesso ao transporte público se transforma em objeto de disputa eleitoral, fica evidente como as desigualdades sociais podem comprometer o exercício de um direito formalmente universal.

Por isso, a resposta institucional ao que ocorreu neste domingo não poderá se limitar à proclamação do vencedor. Será necessário apresentar um balanço transparente das ocorrências, investigar as denúncias de descumprimento das obrigações relativas ao transporte eleitoral e esclarecer os critérios que determinaram a manutenção ou o encerramento da votação em diferentes localidades. Caso sejam comprovadas condutas deliberadas para impedir o comparecimento de eleitores, seus responsáveis deverão responder nos termos da lei.

O Brasil precisa saber não apenas quem recebeu mais votos, mas também se todos os cidadãos tiveram uma oportunidade efetiva de votar. Essa é a questão fundamental que emerge do segundo turno de 2026. Independentemente do resultado, a credibilidade da eleição dependerá da capacidade das instituições de demonstrar que as irregularidades foram investigadas, que eventuais responsabilidades foram apuradas e que os direitos políticos dos cidadãos foram tratados com a seriedade que a democracia exige.

Afinal, uma democracia não pode se contentar apenas em contar os votos de quem conseguiu chegar às urnas. Precisa também se preocupar com aqueles que, por razões alheias à sua vontade, podem ter sido impedidos de chegar até elas.

Flávio Bolsonaro até tentou parecer preparado, mas o debate da Globo mostrou os limites do personagem

Entre respostas ensaiadas, improvisos desastrosos e promessas contraditórias, Flávio Bolsonaro expôs suas fragilidades no último debate. Agora, a disputa será decidida nas ruas, nas redes e nas urnas

Não sei quantos leitores deste blog acompanharam integralmente o debate presidencial de ontem na TV Globo. Eu consegui, apesar de considerar esses eventos frequentemente entediantes e, por vezes, um verdadeiro teste de resistência diante da televisão.

Minha impressão inicial foi de que Lula começou frio, enquanto Flávio Bolsonaro conseguiu marcar alguns pontos no primeiro bloco. Diferentemente do que ocorreu no debate da Band, o candidato bolsonarista chegou mais bem preparado e, sobretudo, consciente de que repetir o comportamento grosseiro e quase infantil adotado anteriormente, aparentemente sob orientação de Pablo Marçal, poderia ser fatal às suas pretensões eleitorais.

O problema para Flávio é que o debate não terminou no primeiro bloco. À medida que as discussões avançaram, começaram a aparecer as limitações de um candidato que, apesar de ocupar uma cadeira no Senado da República, demonstrou desconhecimento sobre questões que deveria dominar. Quando precisou abandonar o roteiro preparado por seus assessores, as escorregadas se multiplicaram. Uma delas foi a referência aos nove dedos de Lula, provocação que o presidente soube devolver com dureza.

Houve também momentos que beiraram o ridículo, como a declaração de que seria o mais nordestino dos cariocas caso fosse eleito, ou as confusas referências a pagamentos em dólares envolvendo uma ferrovia nordestina. Em vez de demonstrar compromisso com o Nordeste, região que vem experimentando importantes transformações econômicas e educacionais, Flávio pareceu recorrer a frases ensaiadas e desconectadas da realidade.

Igualmente infeliz foi sua referência ao mau cheiro em Belém, justamente uma cidade que vem recebendo investimentos em saneamento destinados a enfrentar problemas históricos de infraestrutura urbana. A tentativa de desqualificar a cidade acabou revelando mais sobre a superficialidade de sua abordagem do que sobre os problemas reais da capital paraense.

Mas houve um momento particularmente constrangedor: quando Flávio precisou explicar sua posição diante do assassinato de Ana Clara Gomes Machado, uma criança de apenas cinco anos, morta em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói. A situação ganhou contornos ainda mais dramáticos quando ele se dirigiu à mãe da vítima, presente no debate, utilizando o nome da filha assassinada. Sua tentativa de relativizar a responsabilidade pelo crime, em vez de demonstrar sensibilidade diante da tragédia, transmitiu uma impressão de crueldade absolutamente desnecessária.

Entretanto, o aspecto que mais me chamou a atenção foi outro: a estratégia de prometer aquilo a que Flávio Bolsonaro já se opôs ou que integrantes de sua própria campanha indicaram pretender fazer exatamente ao contrário, caso cheguem ao governo. Essa contradição pode ser especialmente prejudicial entre os eleitores que acompanharam o debate buscando decidir seu voto.

Para mim, foi aí que Flávio mais perdeu. Porque uma coisa é decorar respostas e reproduzir promessas cuidadosamente preparadas por marqueteiros. Outra, muito diferente, é transmitir convicção e compromisso com aquilo que se está dizendo. E, independentemente das críticas que possam ser feitas a Lula, essa é uma qualidade política que o atual presidente possui e que seu adversário não conseguiu demonstrar.

Mas o debate decidirá a eleição de amanhã?

Minha resposta é não. A esta altura, dificilmente um único debate será capaz de determinar o resultado de uma disputa tão apertada. O que poderá fazer a diferença é a capacidade de mobilização das duas campanhas, tanto nas ruas quanto nas redes sociais.  E é justamente aí que a eleição permanece completamente aberta.

Para quem chegou até este ponto do texto e pretende votar em Lula, a conclusão é simples: não basta torcer pela vitória. É preciso buscar votos, conversar com os indecisos e transformar apoio político em participação efetiva nas urnas. Afinal, seria difícil imaginar, logo após o primeiro turno, que chegaríamos à véspera da eleição em uma situação de tamanha incerteza.

Por outro lado, as manifestações que tomaram as ruas de inúmeras cidades brasileiras e a mobilização digital impulsionada por André Janones e seu chamado Exército de Lula mostram que ainda existe capacidade de reação. Uma virada histórica continua possível, mas dependerá muito mais da disposição dos eleitores do que de qualquer desempenho televisivo.

Por isso, adaptando o espírito de uma das palavras de ordem da Revolução Francesa, deixo aqui minha convocação:

ÀS REDES E ÀS RUAS, CIDADÃOS!

Afinal, o Brasil não merece um segundo governo Bolsonaro.

 

Mais de 50 mil mortos pelo calor na Europa: a crise climática já está cobrando vidas, e o Brasil pode ser o próximo a pagar uma conta ainda maior

Pesquisa revela que o aquecimento global provocado pelas atividades humanas responde por aproximadamente dois terços das mortes associadas ao calor no verão europeu de 2026. Os resultados reforçam alertas já publicados no Blog do Pedlowski sobre a mortalidade invisível e a falta de preparação do Brasil para enfrentar temperaturas extremas

Uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira (23/10) pela London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM), em parceria com o Imperial College London, apresenta números que deveriam provocar uma reação imediata dos governos de todo o planeta. Durante o verão europeu de 2026, mais de 50 mil pessoas teriam morrido em consequência do calor extremo em áreas urbanas, sendo que aproximadamente dois terços dessas mortes foram atribuídos ao aquecimento global provocado pelas atividades humanas. Estamos falando de mais de 33 mil mortes que, segundo as estimativas científicas, não teriam ocorrido nas mesmas condições em um planeta sem o aquecimento causado pela humanidade. 

O estudo, publicado na revista científica Nature Health, analisou 854 áreas urbanas distribuídas por 30 países europeus, abrangendo aproximadamente 40% da população desses países. O resultado é particularmente perturbador porque o verão de 2026 apresentou a maior mortalidade estimada relacionada ao calor desde 2000, superando amplamente os registros estimados para os verões de 2003 e 2022, quando aproximadamente 28 mil e 29 mil pessoas, respectivamente, morreram em consequência das temperaturas elevadas nas mesmas áreas analisadas.

Esses números não representam uma contagem direta de atestados de óbito, mas estimativas epidemiológicas construídas a partir da relação entre temperatura e mortalidade. Ainda assim, revelam uma realidade que se torna cada vez mais difícil de esconder: o aquecimento global deixou de ser uma ameaça projetada para as próximas décadas e já constitui um fator concreto de adoecimento e morte em larga escala.

A mortalidade invisível que já havíamos apontado

Os resultados europeus confirmam uma preocupação apresentada no Blog do Pedlowski em 4 de setembro, no texto intitulado “O calor mata mais do que mostram as estatísticas — e o Brasil precisa se preparar para o El Niño de 2026–2027″.

Naquela ocasião, destaquei uma investigação da National Public Radio (NPR), realizada em parceria com pesquisadores da Boston University, indicando que as mortes relacionadas ao calor nos Estados Unidos poderiam ser aproximadamente cinco vezes superiores aos números oficialmente registrados. O problema é que o calor frequentemente atua como fator desencadeador ou agravante de doenças cardiovasculares, respiratórias e renais, sem aparecer nas declarações de óbito.

A nova pesquisa europeia reforça essa constatação. Ao recorrer a modelos epidemiológicos, os pesquisadores conseguem identificar uma parcela da mortalidade que permanece escondida nas estatísticas convencionais. É justamente essa invisibilidade que permite que governos continuem tratando ondas de calor como simples desconfortos meteorológicos, quando deveriam reconhecê-las como emergências de saúde pública.

Há aqui uma manifestação daquilo que o pesquisador Rob Nixon denominou violência lenta: processos de destruição que não necessariamente produzem imagens espetaculares, mas que acumulam vítimas de maneira progressiva, frequentemente longe da atenção da mídia e das prioridades dos governos.

O calor não escolhe suas vítimas de maneira socialmente neutra

Outro aspecto importante do estudo europeu é que a mortalidade não ficou restrita às regiões tradicionalmente mais quentes. Países do norte e do oeste europeu, historicamente acostumados a verões mais amenos, também registraram impactos expressivos. Somente nas 135 áreas urbanas analisadas no Reino Unido, os pesquisadores estimaram aproximadamente 4.500 mortes relacionadas ao calor.

Embora os idosos tenham sido os mais atingidos, aproximadamente 6 mil mortes estimadas ocorreram entre pessoas com menos de 65 anos. Isso demonstra que a exposição ao calor extremo não constitui um problema exclusivo do envelhecimento populacional.  Entretanto, existe uma dimensão que precisa ser incorporada à interpretação desses resultados: a capacidade de escapar do calor depende profundamente das condições materiais de existência.

Uma pessoa que vive em uma residência bem ventilada, arborizada e climatizada enfrenta riscos muito diferentes daqueles suportados por trabalhadores obrigados a permanecer ao ar livre ou por famílias que habitam casas pequenas, com coberturas que absorvem e retêm calor, em bairros com pouca vegetação.

Portanto, embora o aquecimento global afete o conjunto da sociedade, suas consequências são profundamente desiguais. A crise climática também é uma crise de classe, porque a exposição aos seus efeitos e a capacidade de proteção são distribuídas de maneira desigual.

E o Brasil, que se prepara para enfrentar um El Niño excepcional?

A divulgação desses resultados ocorre em um momento especialmente preocupante para o Brasil. Em setembro, publiquei no Blog do Pedlowski o texto “El Niño, 13 mil mortes e o silêncio da política brasileira diante da crise climática”, discutindo projeções internacionais que colocavam o Brasil entre os países potencialmente mais afetados pela mortalidade adicional associada ao calor durante o atual episódio de El Niño.

Mais recentemente, em 23 de outubro, voltei ao tema no texto “El Niño fora da escala: o planeta se prepara para um choque climático, mas quem vai pagar a conta?“.

O ponto central dessas análises é que o El Niño não atua isoladamente. Seus efeitos se manifestam sobre um planeta já aquecido pela emissão acumulada de gases de efeito estufa, principalmente aqueles associados à queima de combustíveis fósseis. Isso significa que alterações naturais da circulação atmosférica e oceânica podem produzir consequências mais severas em um sistema climático cuja temperatura média já foi significativamente elevada.

É importante observar que as projeções de mortalidade para o Brasil não constituem previsões de óbitos inevitáveis. São estimativas condicionadas a cenários climáticos e modelos de exposição. Mas justamente por isso deveriam servir para orientar políticas preventivas, e não para justificar a inação.  O que ocorreu na Europa durante o verão de 2026 oferece uma demonstração contundente de que mesmo sociedades com sistemas de saúde relativamente estruturados estão encontrando dificuldades para proteger suas populações contra temperaturas extremas. Se isso acontece no continente europeu, quais serão as consequências em um país marcado por profundas desigualdades habitacionais, precarização do trabalho e insuficiência de infraestrutura urbana?

Quando o calor chega às cidades brasileiras, a desigualdade amplia seus efeitos

Em cidades como Campos dos Goytacazes, onde o aumento das temperaturas se combina com a redução da cobertura vegetal em determinadas áreas, a impermeabilização do solo e a expansão de espaços construídos pouco adaptados às condições climáticas, os riscos não podem ser tratados como abstrações.

É necessário perguntar quantas escolas públicas possuem condições adequadas de ventilação, quantas unidades de saúde estão preparadas para atender a um aumento de casos associados ao estresse térmico e quantos trabalhadores precisam permanecer expostos ao sol durante os períodos mais quentes do dia. A ausência de respostas para essas perguntas demonstra que a vulnerabilidade climática não decorre apenas das condições atmosféricas. Ela também resulta de decisões políticas sobre planejamento urbano, habitação, serviços públicos e proteção social. 

Nesse sentido, os resultados europeus deveriam funcionar como um alerta para prefeitos, governadores e autoridades federais. Não basta emitir comunicados recomendando hidratação e evitar exposição ao sol. É preciso estabelecer sistemas de vigilância epidemiológica, protocolos de proteção para trabalhadores, planos de contingência para escolas e hospitais e investimentos em arborização, sombreamento e infraestrutura urbana.  Também será necessário enfrentar a questão estrutural que alimenta a crise: a continuidade de um modelo econômico fortemente dependente de combustíveis fósseis, cuja expansão frequentemente é apresentada como sinônimo de desenvolvimento, mesmo quando seus custos ambientais e sanitários são transferidos para a população.

A crise climática já tem um custo humano. A questão é quem continuará pagando

O aspecto mais inquietante da pesquisa divulgada pela LSHTM talvez seja sua demonstração de que aproximadamente dois terços das mortes estimadas durante o verão europeu de 2026 estão associados ao aquecimento provocado pelas atividades humanas. Trata-se de uma evidência científica de que decisões econômicas e políticas tomadas ao longo de décadas possuem consequências diretas sobre a sobrevivência das populações.

Não estamos diante de uma fatalidade natural inevitável. Estamos diante de riscos agravados por um modelo de desenvolvimento que continua elevando as emissões de gases de efeito estufa, ao mesmo tempo em que os investimentos necessários à proteção das populações permanecem insuficientes.

A Europa acaba de oferecer mais uma demonstração de que o calor extremo pode matar dezenas de milhares de pessoas em poucos meses. O Brasil, por sua vez, aproxima-se de um verão potencialmente agravado por um El Niño de intensidade excepcional.  A pergunta que precisa ser feita não é apenas quantos recordes de temperatura serão quebrados, mas quantas vidas poderiam ser preservadas caso os governos tratassem a emergência climática com a seriedade que ela exige.

Afinal, quando mais de 50 mil pessoas morrem em um único verão europeu em decorrência do calor, continuar tratando a crise climática como um problema secundário deixa de ser apenas um erro de avaliação. Passa a ser uma escolha política cujas consequências podem ser medidas em vidas humanas.

El Niño fora da escala: o planeta se prepara para um choque climático, mas quem vai pagar a conta?

Organização Meteorológica Mundial alerta para um fenômeno de intensidade sem precedentes no final de 2026. A combinação entre aquecimento global, eventos extremos e desigualdade social ameaça transformar uma crise climática em uma tragédia humanitária

A notícia publicada nesta sexta-feira (23/10) pela MetSul Meteorologia, com base em informações da agência AFP, deveria estar ocupando as manchetes dos principais veículos de comunicação do planeta. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o El Niño que se desenvolve no Oceano Pacífico poderá atingir, no final de 2026, uma intensidade nunca antes registrada, com anomalias de temperatura da superfície do mar chegando a impressionantes 3,8°C acima da média. A própria OMM admite que estamos diante de um fenômeno que poderá ultrapassar os limites das séries históricas utilizadas para monitorar esse tipo de evento climático.

É importante esclarecer que esses 3,8°C não representam um aumento da temperatura média de todo o planeta, mas uma anomalia projetada para as águas superficiais de uma região específica do Pacífico Equatorial. Ainda assim, trata-se de um indicador extraordinário da intensidade potencial do fenômeno, capaz de alterar profundamente os padrões de circulação atmosférica e distribuição das chuvas em diferentes continentes.

O aspecto mais preocupante é que esse El Niño excepcional ocorre em um planeta já submetido ao aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa. Estamos, portanto, diante da sobreposição de dois processos distintos, mas interligados: a variabilidade natural do sistema climático e o aquecimento antropogênico, que amplia os riscos associados a temperaturas extremas, secas e precipitações intensas.

O Brasil diante de um cenário de extremos

Para o Brasil, as perspectivas são particularmente preocupantes. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) já havia divulgado, no início de outubro, uma probabilidade de 95% de que o El Niño atingisse intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026. As projeções apontam para chuvas acima da média no Sul, com riscos de inundações, enquanto partes das regiões Norte e Nordeste poderão enfrentar redução das precipitações, agravamento das secas e maior ocorrência de incêndios florestais.

Na Amazônia, onde o desmatamento e a degradação florestal já comprometem a capacidade dos ecossistemas de resistir às alterações climáticas, um período prolongado de estiagem poderá produzir consequências especialmente graves. No Sul, a possibilidade de novas enchentes recoloca a questão da vulnerabilidade das cidades e da insuficiência dos investimentos em prevenção e adaptação.

É preciso reconhecer que as projeções sazonais não permitem antecipar com precisão a ocorrência de desastres em municípios específicos. Entretanto, elas oferecem informações suficientes para exigir que os governos abandonem a postura de agir apenas depois que as tragédias já aconteceram.

A crise climática não atinge todos da mesma maneira

Há uma dimensão política e social que não pode ser ignorada. Embora os fenômenos climáticos sejam processos físicos, suas consequências são profundamente condicionadas pela organização da sociedade. Uma chuva extrema não produz os mesmos efeitos em um condomínio de alto padrão e em uma comunidade construída sobre uma planície de inundação sem infraestrutura adequada. Da mesma forma, uma seca prolongada não afeta igualmente grandes empresas agrícolas capitalizadas e pequenos agricultores familiares que dependem diretamente das chuvas para sobreviver.

O alerta da OMM deve ser compreendido também como uma advertência sobre o aprofundamento das desigualdades sociais. Os grupos que menos contribuíram para o aquecimento global frequentemente estão entre aqueles que dispõem de menos recursos para enfrentar suas consequências. Nesse contexto, cortes em políticas sociais, saúde pública, habitação, saneamento e defesa civil não representam apenas escolhas orçamentárias: podem aumentar diretamente a exposição de milhões de pessoas aos desastres climáticos.

A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, destacou que ainda existe uma janela de oportunidade para medidas preventivas. A questão central, entretanto, é saber se os governos estarão dispostos a mobilizar recursos públicos antes que os danos se materializem, em vez de continuar tratando cada catástrofe como uma surpresa inevitável.

O verdadeiro desastre será insistir na ausência de prevenção

O possível El Niño recorde de 2026–2027 deveria servir como um divisor de águas no debate sobre políticas climáticas. Não basta reconhecer que eventos extremos estão se tornando mais perigosos. É necessário fortalecer sistemas de monitoramento, investir em infraestrutura resiliente, proteger populações vulneráveis e enfrentar as atividades econômicas responsáveis pela degradação ambiental e pelas emissões de gases de efeito estufa. 

No Brasil, onde ainda prevalece uma lógica de ocupação territorial marcada pela desigualdade, pela expansão desordenada das cidades e pela destruição de ecossistemas, os riscos associados ao El Niño expõem os limites de um modelo de desenvolvimento que frequentemente trata a proteção ambiental e social como obstáculos ao crescimento econômico.

A ciência está cumprindo seu papel ao produzir alertas cada vez mais precisos. O problema é que conhecimento científico, por si só, não salva vidas quando falta decisão política para transformá-lo em prevenção. Se as previsões da OMM se confirmarem, o final de 2026 poderá entrar para a história como um dos momentos mais extremos já registrados no sistema climático. Mas a dimensão da tragédia humana não será determinada apenas pela temperatura das águas do Pacífico. Ela dependerá também das decisões que os governos tomarem — ou deixarem de tomar — enquanto ainda existe tempo para agir.

E talvez essa seja a principal conclusão: o El Niño é um fenômeno natural, mas transformar seus impactos em catástrofes sociais não é uma fatalidade da natureza. É também resultado de escolhas políticas.

Não sou petista nem lulista, mas sei o que está em jogo

Esta é a manifestação de alguém que não é petista nem lulista, mas considera fundamental derrotar o projeto político representado por Flávio Bolsonaro. Minha posição parte da avaliação de que esse projeto traz o risco de graves retrocessos nos direitos dos trabalhadores e nas políticas sociais das quais dependem os mais pobres.

Não é preciso ter filiação partidária ou adesão pessoal a Lula para reconhecer a necessidade de impedir esses retrocessos. Meu posicionamento preserva a independência crítica e assume um compromisso: defender direitos, serviços públicos e condições dignas de vida para a maioria da população.

Meta, a dona dos algoritmos e das regras que ninguém consegue questionar

A charge satiriza a postura da Meta diante das publicações políticas do Blog do Pedlowski. Enquanto a multinacional comunica a rejeição de dois anúncios e recomenda que o responsável adapte seus conteúdos às regras da plataforma, permanece a questão fundamental: quais critérios justificam impedir a ampliação da circulação de charges baseadas em reportagens jornalísticas?

A imagem contrapõe a tranquilidade de uma empresa que controla os mecanismos de distribuição de informações à perplexidade de quem vê seu trabalho submetido a decisões pouco transparentes. O problema não é apenas o impedimento do impulsionamento, mas a concentração de poder nas mãos de uma corporação capaz de influenciar a visibilidade do debate político.

Afinal, quem controla os controladores dos algoritmos?

Meta aperta o cerco às charges políticas no final da campanha eleitoral

Entre bloqueios geográficos, restrições ao impulsionamento e denúncias sem explicações, a multinacional amplia seu poder sobre o que os brasileiros podem ver às vésperas da votação  

A poucos dias da eleição presidencial, a Meta parece empenhada em demonstrar que não precisa apagar uma publicação para limitar sua circulação. Depois de impedir o impulsionamento de duas charges políticas produzidas pelo Blog do Pedlowski, a empresa restringiu no Brasil a visualização de uma terceira, baseada em reportagem da revista piauí sobre a participação atribuída a Flávio Bolsonaro em uma festa numa lancha no Lago Paranoá, durante a pandemia da COVID-19, envolvendo garotas de programa e pessoas ligadas à comercialização de vacinas.

A justificativa apresentada pela Meta mencionou reclamações cujos fundamentos específicos não foram esclarecidos. Quem reclamou? Qual regra foi violada? Por que uma charge baseada em informações publicadas por um veículo jornalístico estaria impedida de circular no país onde seu conteúdo possui maior relevância política? Há que se enfatizar que as três charges foram elaboradas a partir de reportagens publicadas na imprensa, sem recorrer à exposição sexual explícita, e respeitaram os limites de conteúdo estabelecidos pela OpenAI durante sua produção. Isso não representa uma certificação jurídica automática, mas demonstra a preocupação em exercer a sátira política dentro de parâmetros éticos e legais.

O problema é que a Meta dispõe de um verdadeiro arsenal de mecanismos para limitar o alcance de publicações: veto ao impulsionamento, bloqueios geográficos, exclusão de recomendações e redução da distribuição algorítmica. Nem todos esses mecanismos foram comprovadamente aplicados ao Blog do Pedlowski, mas sua existência revela como uma empresa privada pode controlar a visibilidade de manifestações políticas sem necessariamente excluí-las.

E o caso está longe de ser isolado. O Tribunal Superior Eleitoral já cobrou explicações da Meta sobre restrições à circulação de conteúdos da campanha de Lula. Reportagem da Folha de S.Paulo revelou mensagens internas reconhecendo problemas que prejudicaram contas ligadas ao presidente, enquanto o próprio Comitê de Supervisão da empresa apontou falhas na aplicação das regras de integridade eleitoral. A Meta nega favorecimento político e atribui parte das restrições a problemas técnicos. É necessário reconhecer que limitações gerais ao impulsionamento de propaganda eleitoral também decorrem de determinações da Justiça Eleitoral. Entretanto, isso não explica automaticamente o bloqueio territorial de uma charge política. Tampouco elimina a necessidade de demonstrar que as regras são aplicadas de maneira uniforme.

O aspecto mais preocupante é que todas as charges atingidas do Blog do Pedlowski apresentam críticas a Flávio Bolsonaro ou a integrantes de seu campo político. Isso não comprova uma operação deliberada da Meta para favorecer sua candidatura, mas levanta uma questão incontornável: por que manifestações críticas a um dos candidatos estão enfrentando obstáculos tão significativos justamente quando sua circulação pode influenciar o debate eleitoral?  A charge política existe para incomodar os poderosos, expor contradições e provocar reflexão. Quando uma multinacional pode restringir sua circulação com justificativas genéricas e mecanismos pouco transparentes, o problema deixa de ser apenas a liberdade de expressão de um blogueiro. Passa a envolver o próprio funcionamento da democracia.

A Meta precisa explicar suas decisões, identificar as regras supostamente violadas e assegurar mecanismos efetivos de contestação. Afinal, uma publicação bloqueada nos últimos dias de campanha pode perder sua relevância política antes mesmo que um recurso seja analisado.  A questão central é simples: a Meta não precisa declarar apoio a Flávio Bolsonaro para produzir efeitos que possam beneficiá-lo eleitoralmente. Basta restringir, ainda que sob o pretexto de uma moderação neutra, a circulação de críticas que poderiam prejudicá-lo.  Não se trata de afirmar uma intenção ainda não demonstrada, mas de exigir transparência sobre consequências políticas concretas. Em uma democracia, nenhuma empresa privada deveria exercer tamanho poder sobre o debate público sem prestar contas à sociedade.

E se a Meta pretende continuar se apresentando como uma plataforma neutra, que comece demonstrando essa neutralidade com fatos, critérios transparentes e tratamento efetivamente igualitário. Porque, na reta final de uma eleição presidencial, controlar quem pode ser visto também pode significar influenciar quem será ouvido — e, consequentemente, quem terá melhores condições de disputar o voto.

A Meta está decidindo quem pode ser ouvido: a censura econômica à charge política

Ao impedir o impulsionamento de duas charges depositadas no meu perfil do Instagram, a gigante das redes sociais expõe o poder das plataformas digitais de limitar a circulação da crítica política sob o argumento de proteger o processo eleitoral

Hoje tentei impulsionar duas charges publicadas no meu perfil oficial do Instagram (@marcospedlowski). A primeira abordava a contradição entre o apoio político do ex-prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho, a Flávio Bolsonaro e a importância do Bolsa Família para aproximadamente 150 mil campistas. A segunda ironizava a produção de uma narrativa sobre a pobreza no Nordeste pelo deputado federal Nikolas Ferreira. Em ambos os casos, a Meta, empresa proprietária do Instagram e do Facebook, recusou o impulsionamento sob a justificativa de que as publicações continham conteúdo eleitoral.

O episódio levanta uma questão que vai muito além dessas duas charges: desde quando uma corporação privada, sediada nos Estados Unidos, passou a deter tamanho poder sobre a circulação da crítica política no Brasil?

É importante esclarecer que as publicações não foram removidas. A restrição atingiu especificamente a possibilidade de ampliar seu alcance mediante pagamento. Entretanto, em plataformas nas quais a visibilidade é profundamente condicionada por algoritmos e mecanismos comerciais de distribuição, impedir o impulsionamento de uma publicação pode significar restringir sua capacidade de alcançar novos públicos.

O problema não está simplesmente na existência de regras para publicidade política. Afinal, a transparência sobre quem financia anúncios eleitorais é necessária. A questão é saber se essas regras estão sendo aplicadas de maneira proporcional, coerente e transparente, sem transformar a moderação comercial em instrumento de limitação do debate público.

Quando denunciar a pobreza vira conteúdo eleitoral

A charge envolvendo Wladimir Garotinho e Flávio Bolsonaro procurava explicitar uma contradição concreta: como justificar o apoio a um projeto político que questiona programas de transferência de renda em um município onde dezenas de milhares de famílias dependem do Bolsa Família?

Trata-se de uma questão social, econômica e política absolutamente legítima. A existência de um período eleitoral não elimina o direito de jornalistas, professores e cidadãos de questionar propostas que possam afetar diretamente as condições de sobrevivência da população.

Já a charge sobre Nikolas Ferreira questionava a construção de representações políticas sobre a pobreza nordestina. Seu objetivo era estimular uma reflexão crítica sobre a utilização de imagens e narrativas da realidade social como instrumentos de disputa política.

Nos dois casos, estamos diante de manifestações de opinião por meio da sátira, uma forma tradicional de crítica ao poder. Se a simples presença de figuras públicas ou a discussão de políticas sociais bastar para impedir a ampliação dessas manifestações, corre-se o risco de transformar praticamente todo debate sobre assuntos relevantes em conteúdo sujeito a restrições comerciais.

A contradição de uma empresa que promete defender a liberdade de expressão

A Meta afirma que suas políticas de publicidade política buscam assegurar transparência e integridade eleitoral. A empresa exige procedimentos de identificação e avisos sobre o responsável pelo financiamento de anúncios envolvendo eleições, figuras políticas e temas sociais.

Mas há uma contradição que não pode ser ignorada: a mesma empresa que apresenta a liberdade de expressão como um de seus compromissos fundamentais controla mecanismos capazes de ampliar ou limitar a visibilidade das manifestações políticas de milhões de usuários.

Essa preocupação não é meramente teórica. Em 20 de outubro, a Agência Brasil noticiou que o próprio Comitê de Supervisão da Meta apontou falhas recorrentes na aplicação das regras da plataforma durante as eleições brasileiras, incluindo restrições excessivas que podem prejudicar a circulação do discurso político.

Mais grave ainda, uma investigação da Anistia Internacional divulgada em agosto identificou inconsistências na avaliação de anúncios eleitorais no Brasil, incluindo a aprovação de peças com desinformação e a rejeição de outras por questões relacionadas à classificação política.

Esses episódios não demonstram, por si mesmos, que as duas charges do Blog do Pedlowski tenham sido alvo de discriminação ideológica. Entretanto, reforçam a necessidade de questionar a consistência dos critérios utilizados pela empresa.

O novo poder dos porteiros digitais

Durante décadas, a circulação das ideias políticas foi condicionada pelo controle dos grandes meios de comunicação. Hoje, parte significativa desse poder está concentrada nas mãos de corporações tecnológicas que administram redes sociais utilizadas por bilhões de pessoas.

A diferença é que essas empresas não apenas distribuem conteúdos: elas estabelecem regras de visibilidade, administram sistemas de recomendação e comercializam a possibilidade de ampliar audiências.

Forma-se, assim, uma espécie de pedágio digital sobre a circulação das ideias, no qual a capacidade de alcançar novos públicos depende de decisões tomadas por sistemas automatizados e estruturas empresariais pouco transparentes.

Quando uma charge política tem seu impulsionamento recusado, o conteúdo continua existindo, mas perde uma via importante de circulação. Não se trata necessariamente de censura no sentido jurídico estrito, mas de uma restrição econômica à difusão de opiniões que merece escrutínio público.

O problema se torna ainda mais preocupante quando não há explicações suficientemente específicas sobre os motivos da decisão, nem procedimentos acessíveis para contestá-la.

Quem fiscaliza os novos donos da praça pública?

O Blog do Pedlowski existe desde 2011 como um espaço independente de análise crítica da realidade política, econômica, social e ambiental. Não representa partidos políticos nem funciona como instrumento de propaganda eleitoral. Seu compromisso é com a divulgação de informações, a reflexão crítica e o debate público.

As charges são parte dessa atividade editorial. Sua função é provocar, ironizar e revelar contradições que frequentemente escapam ao discurso político convencional.

Não reivindico qualquer privilégio diante das regras das plataformas. Reivindico, isto sim, que essas regras sejam claras, proporcionais e aplicadas de maneira consistente, distinguindo publicidade eleitoral, manifestação de opinião e produção jornalística independente, sem ignorar as exigências legais aplicáveis a cada modalidade.

A Meta precisa esclarecer se a recusa ao impulsionamento decorreu exclusivamente de exigências de identificação e rotulagem, de alguma restrição eleitoral específica ou de uma avaliação sobre o conteúdo das charges. Estas são situações diferentes, com implicações igualmente distintas.  Afinal, proteger a democracia não pode significar entregar a uma empresa privada o poder de definir, sem transparência suficiente, quais críticas políticas merecem maior circulação.

Se a charge é uma das formas mais antigas de questionar o poder, talvez o verdadeiro problema não esteja no seu conteúdo, mas no desconforto que ela provoca ao expor as contradições daqueles que pretendem governar.

E, enquanto as grandes plataformas tentam administrar os limites da circulação do debate político, continuaremos exercendo o direito de produzir, publicar e compartilhar nossas críticas.  Porque a liberdade de expressão não pode depender exclusivamente da autorização comercial dos novos donos da praça pública.

O segundo turno será a última chance para a Amazônia?

Sob Flávio Bolsonaro haveria a aceleração do desmatamento, militarização e carta branca para a mineração na Amazônia

Enorme reservatório de carbono, flora e fauna impressionantes e lar de muitas pessoas: a floresta amazônica é de enorme importância. Quais seriam as implicações de eleger Flávio Bolsonaro como presidente do Brasil?  Fonte:Alexey Yakovlev/Wikimedia Commons Licença:CC-BY-SA-2.0 

Por Ulrike Bickel para Amerika21

O segundo turno presidencial brasileiro em 25 de outubro de 2026 será o foco dos debates ambientais internacionais porque o resultado tem consequências de longo alcance para a Amazônia e para a política climática global. Candidato conservador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, promete retomar as medidas anti ambientais do seu pai. Ele quer acelerar o desmatamento da floresta amazônica e incluir o Brasil na iniciativa US‑ “Escudo das Américas”, cujo objetivo é garantir cadeias de abastecimento de terras raras e outros minerais críticos, necessário para a transição energética e para sistemas de defesa,  e para reduzir a dependência da China.

Segundo Flávio Bolsonaro, a cooperação com os EUA e a abertura ao investimento estrangeiro no setor de mineração devem ser uma prioridade. Com o segundo maior depósito de terras raras, o Brasil é considerado um parceiro-chave em todo o mundo depois da China. A partir de 2022, começou um boom de aplicação de concessões mineiras. Cerca de metade dos pedidos provêm de subsidiárias de empresas estrangeiras na Austrália, nos EUA e no Canadá. A degradação está associada ao alto consumo de água e energia, bem como ao uso de produtos químicos tóxicos que poluem solos e corpos d’água.

No Brasil, os pedidos de autorização para explorar depósitos de terras raras se sobrepõem em grande parte às áreas de assentamento rural de pequenos agricultores: que há muito se caracterizam por conflitos sobre apropriação de terras, mineração de ouro, pecuária extensiva, cultivo de soja e uso de pesticidas. Se Flávio Bolsonaro vencer, os projetos extrativistas seriam acelerados e mais capital estrangeiro seria atraído para investimento. O presidente e candidato Inácio Lula da Silva também tem como alvo a mineração, mas com o objetivo de fortalecer as indústrias locais de processamento de terras raras para que as empresas estrangeiras por si só não se beneficiem.

O futuro da Amazônia está em jogo no segundo turno presidencial do Brasil. As eleições já resultaram em uma mudança significativa no equilíbrio de poder no Congresso, com facções fortalecidas defendendo a mineração em terras indígenas e diluições da proteção territorial e ambiental.

Vários deputados eleitos nos estados amazônicos manifestaram-se a favor da mineração, inclusive nas terras indígenas, e a favor do enfraquecimento mais uma vez da proteção ambiental: Fernando Maximo, um senador eleito do Partido Liberal (PL) de Rondônia rejeitou as descobertas científicas sobre a poluição por mercúrio da mineração ilegal de ouro como “falsidades” Tais posições vão além do partido de Bolsonaro. O senador Plínio Valério, do Partido Social Democrata, de centro-direita, que foi reeleito no estado do Amazonas, pediu a legalização da mineração.

Dinâmica ilegal de mineração e desmatamento

Sob o governo de Jair Bolsonaro (2019 – 2022), as taxas de desmatamento na Amazônia atingiram níveis recordes. O controle foi severamente enfraquecido por cortes nas autoridades ambientais. A situação melhorou sob o atual governo de esquerda de Lula. Apesar disso, a mineração ilegal de ouro e o desmatamento e a agricultura de corte e queima para a pecuária continuaram a avançar, de acordo com um recente  análise pelo instituto de pesquisa sem fins lucrativos Amazon, a mineração de ouro em áreas indígenas quase aumentou sete vezes entre 2016 e 2024. Os preços recordes do ouro provocaram um novo boom mineiro na Amazónia nos últimos anos, levando a um aumento da desflorestação e da poluição por mercúrio entre os vizinhos dos rios e as comunidades indígenas.

O programa de monitoramento por satélite‑ para a área andina ‑Amazon‑ (Maap) para 2024 mostra que incêndios recordes que devastaram cerca de 2,8 milhões de hectares e aumentaram as taxas de desmatamento em 34 por cento.2025 viu uma recuperação parcial, com a área desmatada caindo para seu nível mais baixo na última década. No geral, cerca de 13% do bioma Amazon( foi destruído desde o início do programa Maap )2015‑. Flávio Bolsonaro levantaria as restrições anteriores.

Paralelos regionais

Atualmente, grande parte do bioma Amazon‑ é controlada por governos que priorizam a exploração de recursos em detrimento da conservação. Governos de direita foram estabelecidos em muitos países da Amazônia nos últimos anos, com chefes de Estado se manifestando contra a proteção ambiental e a favor da militarização, da mineração e da expansão da indústria agrícola.

 

Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz aboliu o Ministério do Meio Ambiente em 2026 e relaxou o controle sobre os projetos de mineração. O Peru é liderado desde julho por Keiko Fujimori, que quer combater as atividades ilegais de mineração com força militar, mas rejeita o Acordo Ambiental Escazú. A Colômbia escolheu como presidente o ultradireitista Abelardo de la Espriella, que enfatiza a militarização da Amazônia e cortou pela metade o orçamento para investimentos ambientais. No Equador, o Environment‑ e o Ministério da Energia foram fundidos e novas leis para facilitar os projetos de mineração‑ e petróleo foram aprovadas. No caso da eleição de Flávio, até 95%  da região amazônica seria governada por governos de direita, incluindo Bolívia, Equador, Peru, Colômbia e Venezuela.

Se a conservação deixasse de ser uma prioridade regional, o futuro das organizações intergovernamentais que trabalham para o desenvolvimento sustentável e os direitos dos povos indígenas também seria posto em causa, como a organização do Tratado de Cooperação Amazônica (Otca). Por outro lado, os projectos de infra-estruturas transamazónicas, que têm sido fortemente criticados pelos efeitos nocivos sobre o ambiente e os povos indígenas, poderão ganhar impulso, medos Márcio Astrini, diretor executivo do Observatório do Clima do Brasil (OC), uma coalizão de organizações não governamentais de defesa das mudanças climáticas.

Direitos indígenas e violência contra ativistas ambientais e de direitos humanos: mulheres

Como mencionado acima, uma análise do Ipam, que a mineração de ouro está se expandindo mais rapidamente nas áreas da população indígena da Amazônia brasileira. A área ocupada pela mineração de ouro nos territórios indígenas (TI) na região amazônica cresceu 562% entre 2016 e 2024, tornar esta categoria de terras proporcionalmente a mais afetada pela mineração ilegal.

De acordo com a legislação brasileira, qualquer mineral‑ ou atividade de mineração em terras indígenas requer consulta às comunidades afetadas e aprovação do Congresso. O novo parlamento (Congreso), que tomará posse em 2027, decidirá sobre a futura concepção destes regulamentos. Facções de extrema-direita no parlamento já anunciaram que vão relaxar as leis que permitem a mineração em territórios indígenas. Organizações indígenas alertam que uma vitória de Flávio abre um precedente em que a própria terra não é mais claramente atribuída aos povos indígenas, mas a empresas privadas de mineração.

Entretanto, a violência contra os defensores do ambiente e dos direitos humanos: as mulheres estão novamente a atingir níveis recorde em vários países da América Latina. De acordo com o novo relatório do Testemunha Global a partir de 2026, dos 124 assassinatos documentados de ativistas ambientais: 39 cometidos na Colômbia em todo o mundo, seguidos por 26 no Brasil. O crescente Militarização  da Amazônia sob Bolsonaro também incentivou o comércio ilegal de madeira e o tráfico de drogas, em vez de proteger a floresta.

Perspectiva

Desde a sua eleição em 2023, Lula da Silva reduziu a taxa de desflorestação para o mínimo de dez anos no seu terceiro mandato, criou um ministério para os povos indígenas e reestruturou a autoridade para os assuntos indígenas. No entanto, algumas das suas promessas, como a demarcação clara das terras indígenas, bem como as reformas agrárias das terras abandonadas em favor das famílias sem terra, estavam longe de ser plenamente concretizadas. As organizações indígenas apoiam Lula apesar das críticas porque o vêem como o menor perigo em comparação com um possível governo Bolsonaro‑.

O resultado das eleições brasileiras será crucial para saber se o progresso provisório de Lula na conservação da natureza será revertido. Uma vitória de Flávio Bolsonaro aceleraria as tendências de aumento do desmatamento, expansão da mineração, enfraquecimento das leis ambientais e militarização da Amazônia. Ao mesmo tempo, a integração na estratégia de terras raras dos EUA aumentaria os incentivos económicos para a exploração de mercadorias.

Mesmo que Lula seja reeleito, os desafios continuarão grandes: a limitada margem de ação do governo, a presença contínua de atores ilegais e o crescente poder político das facções de direita dificultam a proteção sustentável da Amazônia e dos direitos dos povos indígenas. Um sinal claro da comunidade internacional, apoiar o meio ambiente‑ e as organizações de direitos humanos, bem como incorporar dados atualizados dos programas de monitoramento, são necessários, segundo a sociedade civil brasileira, para combater a regressão iminente.


Fonte: Amerika21