O apito para cachorro de Flávio Bolsonaro: barulho contra o STF, silêncio sobre o ataque planejado aos direitos dos trabalhadores

Flávio Bolsonaro e o comando de sua campanha continuam investindo nas promessas de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Segundo informações divulgadas pelo UOL, o afastamento de integrantes da Corte já é apresentado por membros da campanha como um marco de um eventual governo. Enquanto isso, Rogério Marinho, coordenador da candidatura, defende uma mudança nas regras do Senado para facilitar o encaminhamento desses pedidos. O confronto institucional ocupa, assim, o lugar que deveria ser destinado à explicação de como pretendem governar o país.

Considero que essa insistência funciona como um “apito para cachorro”: uma mensagem que mobiliza a base bolsonarista, reativa ressentimentos e transforma o STF no inimigo em torno do qual todos devem cerrar fileiras. O conflito também cumpre uma função eleitoral conveniente: desvia a atenção das consequências materiais do programa econômico. A Folha de S.Paulo noticiou justamente que a campanha explora a crise do Supremo enquanto evita detalhar suas propostas econômicas. Minha leitura é que o barulho ajuda a dispensar explicações sobre quem pagará a conta do ajuste prometido.

É nesse terreno que os trabalhadores precisam concentrar sua atenção. A desvinculação dos reajustes das aposentadorias dos aumentos reais do salário mínimo foi atribuída a integrantes da campanha em publicação da CUT. Posteriormente, Adolfo Sachsida afirmou, conforme noticiou a Reuters, que a vinculação seria preservada. Essa negativa precisa ser registrada, mas também confrontada com compromissos claros: quais despesas serão cortadas, quais direitos serão preservados e como pretendem realizar o ajuste fiscal anunciado? O eleitor merece conhecer essas respostas antes de entregar seu voto.

O mesmo cuidado vale para a Previdência. Rogério Marinho sinalizou a intenção de promover outra revisão do sistema, mas os parâmetros dessa mudança permanecem sem esclarecimento suficiente. Não há confirmação sólida, nas fontes consultadas, de que aposentadorias aos 65 anos para mulheres e aos 70 para homens constituam uma proposta oficial da candidatura. Há, contudo, motivo para cobrar uma resposta inequívoca sobre o aumento das idades e o endurecimento das condições de acesso ao benefício. Deixar esse debate para depois da eleição significa pedir autorização para governar sem apresentar previamente o tamanho do sacrifício exigido.

Retirar dos benefícios os ganhos reais associados à valorização do salário mínimo significaria excluir aposentados dessa melhoria de renda. Elevar a idade de aposentadoria, por sua vez, imporia mais anos de trabalho a pessoas que já enfrentam desgaste físico, desemprego e dificuldade de permanecer no mercado formal. Para as mulheres, seria preciso considerar ainda a sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidado. Aquilo que aparece nas planilhas como contenção de despesas se traduz, na vida cotidiana, em menos proteção e mais insegurança.

Por isso, a resposta ao apito precisa trazer a discussão de volta ao salário, à aposentadoria, à jornada e aos serviços públicos. O STF deve estar sujeito ao escrutínio público, como qualquer instituição, mas transformar o impeachment de seus ministros em promessa central de campanha favorece uma eleição movida pelo ressentimento e esvazia o debate sobre direitos. Enquanto Flávio Bolsonaro aponta para o Supremo, cabe aos trabalhadores conferir o que seu grupo pretende fazer com o bolso e com o futuro de quem vive do próprio trabalho. O entusiasmo com a revanche pode acabar servindo de autorização para um novo ataque às condições de vida da maioria.

O Brasil não sobreviverá a mais quatro anos de negacionismo: no segundo turno, voto em Lula

Os leitores deste blog sabem que mantive uma posição crítica em relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao longo de todo o seu terceiro mandato. Na maioria das minhas manifestações, o centro dessa crítica esteve naquilo que considero uma postura de negacionismo sutil diante de questões fundamentais, a começar pelas mudanças climáticas, mas não apenas. O atual governo tem se caracterizado por práticas de meio-termo, tentando conciliar preocupações sociais com a manutenção de uma política de controle fiscal que, objetivamente, impede o enfrentamento dos problemas produzidos pela profunda desigualdade econômica existente na sociedade brasileira.

Por outro lado, fui um crítico ainda mais contundente do governo de Jair Bolsonaro, especialmente no que se refere às questões ambientais e, mais ainda, à condução da pandemia de COVID-19. Além disso, sempre me pareceu evidente que uma das principais propostas de Jair Bolsonaro era desmantelar as concessões mínimas asseguradas a partir da Constituição Federal de 1988. Ao fazer isso, Bolsonaro pai acabou desmontando até mesmo medidas adotadas durante o regime civil-militar instaurado em 1964. Com essa postura, e de forma até coerente com seu projeto político, Jair Bolsonaro mostrou-se, em diversos aspectos, mais regressivo do que o próprio regime dos generais.

Agora, temos a possibilidade concreta do retorno do bolsonarismo ao governo federal, desta vez na figura do primogênito de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro. Tendo vencido o primeiro turno sem falar muito sobre seus planos de governo, Flávio certamente tentará evitar fazê-lo também durante o segundo turno. A razão é simples: aquilo que já se conhece de suas propostas aponta para a implantação no Brasil de uma versão igual ou ainda mais radical daquela adotada por Javier Milei na Argentina, envolvendo a privatização de empresas estatais estratégicas, o desmonte de políticas sociais que funcionam como anteparo mínimo contra a pobreza extrema e a adoção de políticas antiambientais que poderão fazer o Brasil retornar a taxas elevadas de desmatamento na Amazônia.

Há ainda um componente particularmente preocupante nesse projeto: a permanência da postura anticiência e do negacionismo que marcaram o governo de Jair Bolsonaro. Durante a pandemia de COVID-19, vimos até onde pode chegar um governo que despreza evidências científicas, transforma questões técnicas em batalhas ideológicas e trata o conhecimento produzido pelas universidades e instituições de pesquisa como um obstáculo a ser removido. O resultado dessa combinação de obscurantismo, improvisação e ideologia ficou dramaticamente exposto durante a crise sanitária.

Flávio Bolsonaro dá sinais de que essa postura não desapareceu com o pai. Um exemplo particularmente revelador ocorreu quando, questionado sobre o enfrentamento das mudanças climáticas, respondeu apontando o saneamento básico como uma das respostas para o problema. Evidentemente, ampliar o saneamento básico é uma necessidade urgente em um país no qual milhões de pessoas ainda vivem sem acesso adequado à água tratada e à coleta e tratamento de esgoto. Mas apresentar o saneamento como resposta ao aquecimento global revela uma incompreensão preocupante sobre a natureza e a escala da crise climática. Uma coisa é defender políticas de saneamento, inclusive como componente da adaptação e da redução da vulnerabilidade social; outra, completamente diferente, é apresentá-las como substitutas de políticas destinadas à redução das emissões de gases de efeito estufa, ao combate ao desmatamento, à transição energética e à adaptação dos territórios às mudanças climáticas já em curso.

E é justamente aí que o caráter tosco desse negacionismo se torna particularmente perigoso. O Brasil não enfrentará a crise climática com frases de efeito ou soluções improvisadas em palanques eleitorais. Enfrentará — ou deixará de enfrentar — um processo que já se manifesta por meio de secas, enchentes, ondas de calor, incêndios florestais, alterações nos regimes de chuvas e crescente pressão sobre os sistemas urbanos, agrícolas e energéticos. Colocar novamente o governo federal nas mãos de forças políticas que tratam a ciência como adversária significaria perder anos decisivos justamente quando as condições climáticas estão se deteriorando rapidamente.

O problema tampouco termina nas fronteiras brasileiras. O Brasil abriga a maior parcela da Amazônia, possui uma das maiores biodiversidades do planeta e ocupa posição central nas disputas internacionais sobre clima, energia, florestas e uso da terra. Um eventual governo Flávio Bolsonaro que retomasse o negacionismo climático, estimulasse o desmatamento e enfraquecesse novamente os organismos de fiscalização ambiental não produziria consequências apenas para os brasileiros. Em um momento em que limitar o aquecimento global exige redução acelerada das emissões, transformar novamente o Brasil em vetor de retrocesso ambiental seria desastroso para o país e contribuiria para agravar uma crise que é planetária.

Essa receita ainda inclui a entrega das reservas brasileiras de minerais estratégicos a empresas dos Estados Unidos, sob a justificativa de estabelecer um alinhamento estratégico com o governo de Donald Trump e, simultaneamente, criar uma espécie de contraposição à China, que ocupa posição dominante nas cadeias globais de terras raras. Além disso, esse alinhamento poderia se estender ao combate ao narcotráfico, inclusive com a possível presença de tropas estadunidenses em território brasileiro, o que representaria uma ameaça particularmente grave à soberania nacional.

Como ocorreu com seu pai, Flávio Bolsonaro, caso eleito, provavelmente chegaria ao governo acompanhado por quadros escolhidos mais pela fidelidade ideológica do que pela competência técnica. Isso tenderia a ampliar o grau de confusão e truculência governamental, sobretudo porque boa parte das medidas anunciadas ou insinuadas teria caráter profundamente antipopular, atingindo inclusive parcelas significativas da própria base eleitoral bolsonarista. Quando a fidelidade ideológica se combina com o desprezo pelo conhecimento científico, os resultados podem ser ainda mais graves, como a experiência recente do próprio Brasil já demonstrou.

Por isso, a escolha colocada neste segundo turno não diz respeito apenas à política econômica, ao destino das empresas estatais ou às políticas sociais. Ela envolve também decidir se o Brasil continuará, ainda que com todas as insuficiências e contradições do atual governo, reconhecendo a ciência e as mudanças climáticas como elementos que devem orientar políticas públicas, ou se retornará ao obscurantismo que caracterizou os anos de Jair Bolsonaro. Depois do que ocorreu durante a pandemia e diante do que já estamos experimentando com a crise climática, alegar desconhecimento sobre as consequências dessa escolha não será mais possível.

Todo esse cenário me leva a apontar, sem qualquer contradição com as críticas que fiz e continuarei fazendo ao atual governo, para a necessidade do voto em Lula no segundo turno. A situação social brasileira já é grave o suficiente para que nos arrisquemos a experimentar uma versão brasileira do programa de Javier Milei, aplicada a frio sobre uma sociedade marcada por níveis extremos de desigualdade. Acrescente-se a isso a possibilidade de retorno do negacionismo científico ao centro das decisões governamentais e teremos uma combinação potencialmente explosiva de regressão social, destruição ambiental e obscurantismo.

Mas, para derrotar Flávio Bolsonaro, será necessário ampliar o diálogo principalmente com aqueles que não foram votar no domingo passado. A disputa pelo eleitorado que compareceu às urnas será inevitavelmente difícil, ainda que exista alguma possibilidade de deslocamento de votos entre as duas candidaturas. Por isso, a ampliação da participação eleitoral e a disputa política daqueles que se abstiveram assumem importância decisiva.

E isso exige abandonar qualquer soberba e, sobretudo, qualquer depreciação da capacidade de escolha dos brasileiros e brasileiras. Quem pretende conquistar votos precisa primeiro compreender as razões pelas quais milhões de pessoas se afastaram das urnas ou deixaram de enxergar na atual alternativa governista uma resposta suficiente para seus problemas cotidianos. Tratar essas pessoas como ignorantes ou politicamente incapazes seria não apenas um erro político, mas talvez o caminho mais curto para entregá-las definitivamente ao bolsonarismo.

Não há, portanto, tempo a perder. É preciso começar desde já a trabalhar pela vitória de Lula no segundo turno, sem abandonar a crítica às limitações de seu governo e sem transformar o voto contra Flávio Bolsonaro em um cheque em branco para os próximos quatro anos. Derrotar o bolsonarismo nas urnas é a tarefa imediata. Enfrentar as políticas econômicas, sociais e ambientais que produziram o terreno no qual ele prospera continuará sendo uma tarefa para o dia seguinte.

E há uma diferença fundamental entre fazer oposição a um governo cujas políticas consideramos insuficientes e ter de enfrentar novamente um governo que transforma a própria realidade objetiva em inimiga. A experiência da pandemia deveria ter ensinado definitivamente o preço que uma sociedade pode pagar quando o negacionismo deixa de ser apenas discurso e passa a orientar políticas de Estado.

Por isso, no segundo turno, meu voto será em Lula. Sem cheque em branco, sem abandonar as críticas e sem qualquer ilusão de que uma vitória eleitoral resolverá as contradições profundas da sociedade brasileira. Mas com a convicção de que permitir o retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto, agora sob o comando de Flávio Bolsonaro, seria um risco que o Brasil simplesmente não precisa — e talvez não possa — correr.

Como se diz atualmente nas manifestações que percorrem as ruas da Europa: às ruas, cidadãos!

Quando a Bolsa comemora, convém perguntar quem pagará a conta

A mídia corporativa noticiou nesta segunda-feira (5) com indisfarçável entusiasmo a reação do chamado “mercado” ao resultado do primeiro turno da eleição presidencial. E, de fato, os números foram espetaculares: o Ibovespa subiu 7,70%, ultrapassou os 206 mil pontos e estabeleceu novo recorde histórico, enquanto o dólar caiu mais de 4% e fechou praticamente em R$ 5,00. O volume negociado na B3 chegou a R$ 79,3 bilhões, cerca de três vezes o registrado em uma sessão normal. 

Não existe, entretanto, nada de politicamente neutro nessa euforia. A própria cobertura econômica associa a disparada dos ativos ao resultado eleitoral, no qual Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, e à expectativa de que uma eventual mudança de governo resulte em maior contenção dos gastos públicos, redução de impostos, privatizações e outras medidas consideradas favoráveis pelos investidores.  E aqui está a pergunta que deveria acompanhar todas as manchetes sobre a “felicidade do mercado”: felicidade para quem?

O programa apresentado por Flávio Bolsonaro propõe um novo teto de gastos, redução da estrutura ministerial e um amplo corte de despesas que sua própria campanha batizou de “tesouraço”. Integrantes de sua equipe econômica chegaram a mencionar um ajuste fiscal equivalente a 1,5% do PIB, embora permaneça pouco claro de onde sairia todo esse dinheiro. Durante a campanha também foram noticiadas discussões sobre alterações nas vinculações de recursos para saúde e educação e sobre mudanças na política de valorização dos benefícios previdenciários.

É precisamente aí que a comemoração dos operadores financeiros merece ser examinada com maior cuidado. Para quem possui ações, títulos e outros ativos financeiros, a expectativa de contenção fiscal pode significar valorização patrimonial e aumento da rentabilidade esperada. Para quem depende diretamente da escola pública, do SUS, das universidades federais, da Previdência e das demais políticas financiadas pelo Estado, entretanto, o significado concreto de um ajuste dependerá fundamentalmente de onde serão realizados os cortes.

É por isso que expressões aparentemente técnicas como “ajuste fiscal”, “controle das despesas”, “redução do tamanho do Estado” ou “melhora da percepção de risco” nunca deveriam aparecer desacompanhadas dessa pergunta elementar. Afinal, despesas públicas não são simplesmente números em uma planilha. Elas financiam hospitais, escolas, universidades, aposentadorias, fiscalização ambiental, ciência, infraestrutura e uma infinidade de serviços dos quais depende principalmente a parcela da população que não dispõe de recursos para comprá-los no mercado.

Também é necessário olhar para o outro lado do orçamento. Considerando juros, amortizações e rolagem da dívida, cerca de 44% do orçamento federal de 2026 estão associados ao serviço e ao refinanciamento da dívida pública. É importante esclarecer que esse percentual não representa integralmente dinheiro transferido aos credores, pois uma parcela expressiva corresponde à rolagem de títulos que vencem por meio da emissão de novos títulos. Ainda assim, a dimensão desses valores evidencia o peso extraordinário ocupado pela dívida pública e por seu financiamento nas contas da União. Assim, o que aconteceu nesta segunda-feira não demonstra que “o Brasil melhorou” algumas horas depois da abertura das urnas. Demonstra algo bem mais específico: os detentores de ativos financeiros reavaliaram rapidamente suas expectativas e passaram a atribuir maior valor aos ativos brasileiros diante do novo cenário eleitoral.

A reação também mostra que uma parcela relevante dos investidores recebeu favoravelmente o resultado do primeiro turno e as expectativas de mudança na orientação econômica a partir de 2027. Isso não significa que todos os investidores tenham a mesma preferência eleitoral, nem permite transformar o movimento da Bolsa numa espécie de plebiscito político. Mas revela quais expectativas econômicas foram inicialmente valorizadas pelos mercados.

Portanto, em vez de simplesmente celebrar que “a Bolsa bateu recorde” e “o dólar caiu”, talvez fosse mais esclarecedor perguntar quem espera ganhar com as políticas que produziram tamanha euforia e, principalmente, quem poderá pagar a conta caso o prometido “tesouraço” alcance os serviços públicos e as políticas sociais.  Porque Bolsa em alta é uma informação econômica. Transformá-la automaticamente em sinônimo de país melhor é uma escolha política.

A derrota foi de Lula, mas a conta será da classe trabalhadora

O avanço da extrema-direita expressa uma crise que vai muito além das urnas. Impedir a repetição do cenário argentino exige, agora, derrotar Flávio Bolsonaro no segundo turno

Postei aqui um comentário sobre a guinada que os institutos de pesquisa tiveram de sexta-feira para sábado e deixei as respostas para as urnas. Pois bem, passada a apuração, pode-se dizer que o movimento dos institutos pode ter sido uma correção de previsões que já se mostravam antecipadamente erradas, e seus proprietários resolveram fazer ajustes no último minuto para não saírem ainda mais desacreditados.

Analisando os resultados eleitorais — e muitos estão fazendo isso neste momento —, quero deixar clara a minha posição de que esta foi uma pesada derrota para a classe trabalhadora, e não simplesmente para o governo Lula. Ainda que parcelas importantes dessa mesma classe sejam artífices da derrota ao votarem em candidatos que prometem acabar com a parca estrutura de direitos criada principalmente a partir da Constituição de 1988, é preciso dizer que vivemos um período de retrocesso em escala global, basicamente em função do que se convencionou chamar de crise sistêmica do capitalismo.

A identificação dessa crise pelas classes dominantes dos países centrais tem tido como consequência o encurtamento de direitos e a ascensão de agrupamentos políticos dispostos a barganhar certa ascensão política e econômica em troca de desempenhar o papel de algozes da classe trabalhadora. E me parece que é justamente isso que está posto não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina.

Uma questão inegável é que parcelas significativas da população não se sentem — e nem poderiam se sentir — contempladas por uma estrutura de direitos e privilégios reservada às elites que controlam a riqueza e a estrutura do Estado. É a partir desse estranhamento que ocorre a ascensão da extrema-direita, que, curiosamente, não propõe democratizar esse controle, mas apenas passar a participar dele, sem que isso implique necessariamente ampliar o acesso a direitos para os seus próprios eleitores.

Além disso, no caso brasileiro, há que se ressaltar o fato de que o PT e seus partidos satélites passaram a ocupar o papel de defensores da ordem democrática burguesa, que tem se mostrado insuficiente para atender às necessidades e demandas da parcela da população que hoje prefere apostar na extrema-direita. Com isso, o PT termina associado aos erros e aos limites dessa mesma ordem, atraindo de forma crescente o ressentimento que vem se manifestando nos processos eleitorais recentes.

O horizonte imediato, caso a vitória de Flávio Bolsonaro se confirme no segundo turno, é o de termos algo muito parecido com o que aconteceu na Argentina sob a presidência de Javier Milei, com um amplo desmonte das estruturas que hoje amortecem, mas não resolvem, a miséria que atinge grandes parcelas da população. E, se isso realmente acontecer, é provável que as consequências sociais sejam ainda piores no Brasil.

A questão será, então, como responder a esse processo. Neste momento, entretanto, a quem não deseja assistir à repetição do cenário argentino no Brasil, sugiro que comece a trabalhar hoje para reverter a derrota de Lula e permitir que ele vença o segundo turno, que ocorrerá no dia 25 de outubro.

Simples assim.

Pesquisas mudaram ou o eleitor mudou?

Parte da aparente oscilação pode ser real, mas é importante não confundir variação amostral com movimento eleitoral. O próprio Datafolha oferece um bom exemplo: no levantamento realizado entre 29 de setembro e 1º de outubro, Lula aparecia com 45% dos válidos e Flávio com 40%; na pesquisa realizada já no sábado, o placar passou para 45% a 42%. Lula permaneceu exatamente onde estava; foi Flávio que oscilou dois pontos. Como a margem de erro é de dois pontos, isso pode representar tanto alguma movimentação de última hora quanto simplesmente variação estatística.

Há ainda um problema mais importante: os institutos não estão medindo exatamente o mesmo eleitorado da mesma maneira. Datafolha trabalha com entrevistas presenciais em pontos de fluxo; Quaest faz entrevistas presenciais domiciliares e, nesta reta final, incorporou um modelo de likely voter, procurando estimar quem efetivamente comparecerá às urnas; AtlasIntel utiliza recrutamento digital e ponderação posterior. Diferenças na composição das amostras, na ponderação por renda, escolaridade e região e, sobretudo, na estimativa de comparecimento podem produzir diferenças relevantes quando dois candidatos concentram quase 90% dos votos válidos. 

Também existe um componente propriamente político. O Datafolha já mostrava redução dos indecisos na pesquisa espontânea de 18% para 13% e crescimento simultâneo das menções espontâneas a Lula e Flávio. Isso sugere uma consolidação acelerada do voto na reta final. Além disso, os eleitores dos dois principais candidatos conhecem muito melhor seus números de urna do que os eleitores de candidaturas menores, o que pode favorecer concentração adicional do voto no momento efetivo da votação. 

E o que isso significa para hoje?

A consequência mais prudente é que as pesquisas deixaram uma faixa de incerteza maior do que os números isoladamente sugerem. O agregador do UOL chega ao domingo com Lula em 40,5% das intenções totais e Flávio em 37,2%, diferença de 3,3 pontos, mas essa média esconde uma dispersão considerável entre os institutos.

Assim, talvez a principal questão desta eleição não seja descobrir qual pesquisa “acertou” na manhã de domingo, mas observar quem efetivamente comparecerá às urnas e como se comportará a parcela do eleitorado que deixou sua decisão para as últimas horas. Em uma disputa tão concentrada, diferenças relativamente pequenas de abstenção entre regiões e grupos sociais, além de eventual migração de votos das candidaturas menores, podem produzir um resultado diferente da fotografia captada por qualquer levantamento individual. Pesquisa eleitoral mede intenção de voto; a urna mede quem compareceu e apertou o botão.

É justamente por isso que, hoje, mais do que em eleições com diferenças amplas entre os candidatos, convém esperar a abertura das urnas antes de transformar oscilações de dois ou três pontos em grandes teorias sobre o comportamento do eleitor brasileiro.

A EAE bateu na porta errada: quem fez a investigação foi a Nature

No dia 28 de setembro publiquei neste Blog o comentário “A vaidade também aceita convites para a academia”, tendo como ponto de partida uma extensa investigação publicada pela revista Nature e assinada pelo jornalista Max Kozlov. Minha intenção naquele texto era bastante clara: discutir como títulos, honrarias, filiações e convites internacionais podem adquirir enorme valor simbólico no ambiente acadêmico antes que alguém faça a pergunta mais elementar de todas: afinal, quem está concedendo aquilo e qual é a efetiva consistência da instituição que oferece a distinção?

Pois bem, a European Academy of Engineering (EAE) resolveu responder. Em mensagem encaminhada ao Blog do Pedlowski, a organização solicita uma revisão editorial das referências feitas à academia, contesta aspectos da cobertura que originou meu comentário e pede que sejam diferenciadas afirmações relacionadas à própria EAE daquelas referentes a outras organizações mencionadas pela Nature. A EAE também afirma operar como uma associação sueca sem fins lucrativos e nega ter criado ou autorizado a imagem alterada de um edifício que aparece entre os elementos examinados pela reportagem.

Tudo isso merece ser registrado, pois direito de resposta não é favor concedido por quem publica, mas parte elementar de qualquer ambiente que pretenda levar a sério o debate público. Por isso, registro aqui a posição apresentada pela EAE e considero correto que os leitores deste Blog tenham conhecimento de que a organização contesta aspectos da reportagem que serviu de ponto de partida para meu comentário.

Entretanto, existe um pequeno elefante sentado no meio da sala: quem realizou a investigação foi a revista Nature. Não foi o Blog do Pedlowski que pesquisou registros suecos, procurou pesquisadores apresentados como integrantes ou dirigentes de organizações, entrou em contato com universidades para verificar vínculos institucionais ou investigou imagens, websites, parcerias e a trajetória das diferentes entidades mencionadas. Quem realizou esse trabalho de apuração foi a Nature, e isso estava informado, sem qualquer disfarce ou ambiguidade, desde o primeiro parágrafo do comentário publicado neste Blog.

Há, portanto, algo peculiar na solicitação agora recebida. A EAE pede ao Blog que identifique as evidências que sustentariam determinadas conclusões específicas sobre a organização, mas o Blog não apresentou essas conclusões como resultado de investigação própria. O que fiz foi comentar uma reportagem publicada pela Nature, identificando explicitamente sua origem e discutindo as implicações mais amplas das informações nela apresentadas para um sistema acadêmico cada vez mais dependente de títulos, rankings, distinções e outras formas de reconhecimento simbólico.

Se a EAE considera que determinadas evidências apresentadas naquela investigação estão erradas, incompletas ou foram interpretadas incorretamente, possui todo o direito de demonstrá-lo. Entretanto, o endereço principal dessa controvérsia parece bastante evidente: é a redação da Nature. Transferir para quem comentou uma investigação o ônus de refazer a apuração realizada pelo veículo que a publicou seria uma inversão curiosa das responsabilidades editoriais.

Aliás, a própria Nature demonstrou que correções são possíveis. Em 30 de setembro, a revista acrescentou uma clarificação à reportagem explicando que uma declaração de Tsu-Jae Liu, presidente da National Academy of Engineering dos Estados Unidos, sobre a necessidade de verificar a respeitabilidade profissional de dirigentes de sociedades científicas não havia sido feita especificamente em referência a Michael Chu. Esse é precisamente o procedimento esperado de uma publicação que pretende manter sua credibilidade: apresenta evidências, recebe contestações, examina os documentos e, quando necessário, corrige publicamente aquilo que publicou.

Mas há um detalhe que não deveria passar despercebido. A clarificação acrescentada pela Nature não retirou a reportagem do ar nem significou uma retratação do conjunto de informações apresentado. A investigação permanece publicada e, portanto, continua disponível para que seus argumentos, fontes e evidências sejam examinados, contestados e, quando for o caso, confrontados com documentação apresentada pela EAE.

Também merece atenção o fato de a própria European Academy of Engineering ter anunciado publicamente que examinaria registros relativos a filiações, consentimento para cargos, parcerias institucionais, história da organização, imagens e outros conteúdos associados à sua presença pública, comprometendo-se a corrigir informações eventualmente consideradas incorretas ou potencialmente enganosas. Esse compromisso é relevante porque indica que existem questões que merecem esclarecimento e que podem ser resolvidas de maneira bastante objetiva mediante a apresentação dos documentos correspondentes.

E aqui chegamos ao ponto essencial. Se existem dúvidas sobre registros, consentimentos, vínculos, parcerias, imagens ou continuidade institucional, o caminho mais simples não é pedir que comentaristas reconstruam uma investigação jornalística realizada pela Nature, mas apresentar a documentação capaz de esclarecer definitivamente essas questões. Documentos possuem uma vantagem extraordinária sobre longas controvérsias epistolares: permitem que qualquer pessoa confronte afirmações com evidências verificáveis.

Por isso, a manifestação da European Academy of Engineering fica registrada neste Blog e considero correto que os leitores conheçam diretamente a posição apresentada pela organização. Se aparecer documentação demonstrando que alguma afirmação factual feita por este Blog está errada, ela será corrigida publicamente, com a mesma visibilidade dada ao texto original e com a indicação da alteração realizada. Não vejo qualquer problema nisso, porque reconhecer e corrigir um erro factual é parte inseparável daquilo que entendo como exercício responsável da crítica pública.

Mas não confundamos as coisas. Corrigir um erro factual é uma coisa; abandonar uma análise crítica porque a instituição mencionada na reportagem que lhe deu origem não gostou das perguntas levantadas é outra bastante diferente. O primeiro procedimento fortalece a credibilidade de quem publica, enquanto o segundo apenas contribuiria para transformar pedidos de esclarecimento em instrumentos de constrangimento editorial.

É justamente aqui que retornamos ao argumento central de “A vaidade também aceita convites para a academia”. O problema não começa nem termina na European Academy of Engineering, pois diz respeito a um ambiente universitário no qual títulos, distinções, prêmios, rankings, memberships, fellowships e convites internacionais podem funcionar como uma espécie de moeda de prestígio, convertendo-se rapidamente em linhas de currículo, notícias institucionais e instrumentos de diferenciação acadêmica. Quanto maior for a disposição para ostentar essas distinções, maior deveria ser também a disposição para verificar cuidadosamente sua procedência.

Assim, se uma academia concede uma honraria, é legítimo perguntar quem é essa academia e quais são seus critérios. Se um pesquisador recebe a honraria, também é legítimo perguntar em que condições ela foi oferecida e aceita. E, se uma universidade transforma a distinção em notícia institucional, parece razoável esperar que tenha previamente verificado sua procedência. Finalmente, se uma reportagem da Nature apresenta evidências que colocam esse circuito de produção e circulação de prestígio sob escrutínio, o caminho intelectualmente mais produtivo é examinar as evidências e confrontá-las com outras evidências.

A EAE tem, portanto, todo o direito de contestar a reportagem, enquanto a Nature possui a responsabilidade de sustentar documentalmente aquilo que publicou e corrigir aquilo que eventualmente não puder sustentar. Da mesma forma, o Blog do Pedlowski continuará exercendo o direito de comentar criticamente informações de interesse público, indicando suas fontes e corrigindo eventuais erros factuais quando eles forem efetivamente demonstrados.

No fim das contas, existe um método bastante antigo e surpreendentemente eficiente para resolver controvérsias dessa natureza: mostrem os documentos. Afinal, prestígio pode até aceitar convite, mas a vaidade, como sabemos, costuma ser bem menos seletiva.

Finalmente, não posso deixar de registrar que me senti muito honrado com o contato feito diretamente pela European Academy of Engineering. Afinal, não é todos os dias que uma organização com pretensões internacionais dedica seu tempo a escrever para este modesto Blog produzido a partir de Campos dos Goytacazes. O episódio parece confirmar algo que talvez eu próprio estivesse subestimando: o Blog do Pedlowski possui uma audiência verdadeiramente global. Evidentemente, alcançar leitores em diferentes partes do mundo não significa necessariamente agradar a todos eles. Mas isso é perfeitamente compreensível e, pensando bem, talvez seja até um sinal de que algumas das perguntas feitas por aqui estão chegando aos lugares certos.

A vida é bela, apesar da farsa eleitoral e da tempestade

Enquanto a chuva inclemente se abate sobre Campos dos Goytacazes, sob o impulso de um Super El Niño, milhões de brasileiros se preparam para ir às urnas amanhã escolher o próximo presidente, os governadores, os senadores e os deputados federais e estaduais. Chegamos ao fim de uma campanha eleitoral particularmente medíocre, na qual a maioria dos candidatos não se deu ao trabalho de apresentar propostas concretas para os problemas que se acumulam diante de nós — problemas agravados não apenas pela crise climática, mas também pelos efeitos especialmente nefastos que ela impõe aos segmentos mais pobres de um país marcado por brutais desigualdades de renda e de condições de vida.

O debate que deveria ter existido foi substituído pela imposição de uma retórica que parte de visões de mundo reais, mas acaba por apresentá-las como simulacros do que de fato são. De um lado, fomos confrontados com os perigos de uma suposta ditadura comunista, dominada por tribunais corruptos; de outro, recebemos uma receita que combina o risco de ver o Brasil transformado em uma ditadura neofascista com a denúncia de que o país estaria submetido à vontade imperial do grande império do mal que nos vigia desde o Norte.

A verdade é que essas narrativas que se complementam servem, sobretudo, para ocultar que os dois lados compartilham a determinação de manter a ordem neoliberal que literalmente nos sufoca e nos deixa sem perspectivas de superação. Não quero dizer com isso que não vivamos sob o risco grave de uma intervenção política ou até militar — risco que decorre, em grande parte, do fato de a ordem capitalista estar submetida a uma pressão quase terminal. Esse risco existe. O problema é que, neste momento, os dois lados acenam para um tigre de papel: as aventuras desastradas na Ucrânia e no Irã tornam uma intervenção no Brasil mais provável a partir de forças internas do que de uma ação externa.

A quem me lê, parece necessário reconhecer que, independentemente de quem vença as eleições — seja o neoliberalismo tosco ou o sutil —, temos diante de nós uma tarefa histórica monumental: construir alternativas políticas e partidárias capazes de enfrentar o que o nosso tempo histórico nos impõe. Por mais que se diga que a extrema-direita avança em todo o planeta, essa é apenas uma meia-verdade, pois também temos visto o outro extremo avançar e conquistar importantes vitórias eleitorais. Mais importante ainda, o espectro da esquerda tem sido capaz de impulsionar grandes mobilizações contra as manifestações mais impiedosas da ordem neoliberal, como ocorre neste momento na Espanha, em protesto contra os despejos de idosos.

Há um detalhe importante: quando se acena apenas para o avanço eleitoral da extrema-direita, o que se pretende impedir é uma resposta à altura do outro extremo, pois o que importa é salvar o status quo reinante. O problema é que esse status quo não pode ser salvo, e a tentativa de preservá-lo apenas nos empurra para mais perto da barbárie completa, como um dia profetizou Rosa Luxemburgo.

Dito isso, considero correto desejar que as pessoas compareçam às urnas e derrotem eleitoralmente a extrema-direita. As tarefas políticas que estão postas, porém, não serão resolvidas apenas por meio das eleições. A plataforma política do futuro imediato precisa incluir a derrota das políticas neoliberais e um compromisso claro com a adaptação climática, centrada nas necessidades da classe trabalhadora e da juventude. E, se a chuva continuar caindo no ritmo atual, especialmente na Região Sul, o El Niño poderá se tornar um fator eleitoral que os institutos de pesquisa não previram, apesar dos alertas contínuos da comunidade científica sobre a intensidade e as consequências do fenômeno, inclusive durante o período eleitoral brasileiro. Ainda assim, é preciso preservar a esperança, como escreveu Leon Trotsky em seu testamento: “A vida é bela. Que as futuras gerações a livrem de todo mal e opressão, e possam desfrutá-la em toda sua plenitude.”

Em defesa da cultura

Por Luciane Soares da Silva

“Miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes”. A letra dos Titãs é de 1989. E reflete uma condição global das periferias. A cor, o gênero, a falta de saneamento, o excesso de poluição, o lixo. Uma cidade com grandes centros comerciais, carros de primeira linha e casas suntuosas ainda pode experimentar uma condição específica: a precariedade do acesso a cultura. Aqui, não como espetáculo de entretenimento de massas mas como arena de encontro, possibilidade de transformação e momento de reflexão.

O que faz de uma cidade, algo mais do que território de exploração, precariedade e desigualdade?

Nesta semana lemos sobre problemas técnicos que afetam a programação  no Teatro de Bolso e do Teatro Trianon. Uma cidade com tão poucas possibilidades para o teatro deveria zelar por estes espaços. E este é um exemplo que pode ser estendido à música, aos parques, a Bienal e outros equipamentos.

Manifesto toda solidariedade aos artistas das mais diversas frentes. Que trabalham na noite, investem tempo e dinheiro próprio. Este silêncio do poder público torna-se inadmissível se reconhecemos que esta não é uma cidade sem recursos.

É preciso fazer do Conselho de Cultura um órgão realmente forte na gestão dos recursos da área em Campos. E o mesmo vale para patrimônio e outros Conselhos. Muitos têm agentes da sociedade civil extremamente engajados mas pouco capazes de fazer valer suas demandas frente a Prefeitura. Que age minando esta potência.

Temos Casas de Cultura, espaços alternativos, Universidades com palcos e auditórios que podem receber peças (e recebem). Mas atores, diretores, seguranças, produtores, músicos, fotógrafos, cinegrafistas e outros profissionais, precisam pagar contas. E a população tem direito a acessar cultura. Formar memória crítica.

O mesmo projeto que não investe em educação também se estende à cultura. E a vida vai, sem árvores, sem transporte, sem qualidade de vida, sem saúde, sem renda e em silêncio.

A cultura em Campos deve acontecer em Santa Rosa, no Eldorado, na Penha, em Goytacazes. Com uma organização básica, a praça pode ser lugar de teatro, de festivais para crianças, espaço para feiras e encontros. Isto torna uma cidade viva, isto anima pessoas a falarem dos problemas da cidade. Manter cada família em sua casa, equivale a manutenção em celas. Onde não há diálogo nada floresce. Temos visto projetos furarem este isolamento urbano. Mas onde está a Prefeitura como gestora?

Ainda devemos lembrar a relação entre economia, criação de renda e cultura. Festivais, teatros abertos, espaços abertos, condições de mobilidade para famílias tudo isto incrementaria a economia. De forma menos centralizada e não dependente dos royalties (com os quais devemos parar de contar). Existe uma classe artística. Ela está mobilizada.  Devemos apoiar eventos, iniciativas, manifestos. Viver a cultura como ato político de defesa da cidade.

O voto não resolve todos os problemas de nossa vida em sociedade. É preciso ocupar os Conselhos, investir em uma auto formação sobre cidadania e cultura, ter atenção aos problemas públicos. Mas o voto orienta parte significativa dos processos de alocação de recursos que devem ser geridos a favor do povo. Em resumo, não é possível mudar a vida das pessoas votando no mesmo grupo político.

*Luciane Soares da Silva é professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense   Darcy Ribeiro (Uenf), onde atua no Laboratório de Estudos sobre Sociedade Social e do Estado (Lesce). É coordenadora do projeto de extensão Web Rádio Maíra. 

A liberdade de imprensa não pode virar salvo-conduto para escolher o palco

A reação de entidades da imprensa e da própria TV Globo ao cancelamento do debate presidencial está sendo apresentada como uma defesa da liberdade de expressão. Mas a invocação desse princípio não encerra a discussão: é preciso olhar para o que estava em jogo — a exibição de uma cadeira vazia para Lula e a exclusão de Renan Santos do debate.

A decisão do TSE impediu que a ausência de Lula fosse transformada em parte do espetáculo televisivo: a emissora não poderia destacar o púlpito vazio nem permitir que os demais candidatos simulassem perguntas dirigidas a ele. Já a decisão do STF determinou a participação de Renan Santos, invocando a liberdade de expressão e o pluralismo político. Pode-se discutir o momento e os fundamentos dessas decisões, mas elas não equivalem a uma proibição de realizar o debate.

A cadeira vazia, afinal, não era um detalhe neutro de cenário. Sua exibição — acompanhada de perguntas dirigidas a um candidato ausente — poderia converter a transmissão em instrumento para marcar sua ausência diante do eleitorado. Impedir esse recurso não significa impedir que a emissora informe que Lula não compareceria, nem que os candidatos presentes critiquem sua decisão. Significa limitar o uso de um formato que poderia transformar o debate em peça de campanha.

Também é preciso colocar a sequência dos acontecimentos em ordem. Flávio Bolsonaro anunciou que não participaria depois das decisões judiciais; a Globo, então, decidiu cancelar o debate. Portanto, quem retirou sua participação foi Flávio, e quem cancelou o evento foi a emissora. A Globo tinha essa prerrogativa, mas não cabe atribuir exclusivamente ao Judiciário uma decisão que ela própria tomou. A cobertura registrou a desistência de Flávio e, em seguida, o cancelamento anunciado pela emissora.

A presença de Renan Santos alterava o quadro político do debate e, evidentemente, desagradava a Flávio. O senador apresentou publicamente outra justificativa — chamou de censura a decisão do TSE sobre o púlpito vazio —, enquanto reportagens também registraram que ele se preparava para responder a ataques de Renan. O dado incontornável é que Flávio desistiu e o debate deixou de acontecer; a Globo não pode transformar essa sequência em prova automática de que a Justiça suprimiu a liberdade de imprensa. Há ainda uma contradição que merece ser discutida. As organizações Globo reivindicam ampla liberdade para definir quem participa, quais regras serão aplicadas e como o evento será apresentado. Mas a liberdade de imprensa não elimina a responsabilidade pública de veículos que ocupam posição central no debate eleitoral.

Quando decisões editoriais e formatos de cobertura parecem favorecer determinados candidatos, a defesa abstrata da liberdade perde força e passa a soar seletiva — especialmente quando a mesma imprensa denuncia interferência judicial, mas trata suas próprias escolhas como se fossem politicamente neutras.  Isso não autoriza afirmar que toda cobertura pró-Flávio decorreu de uma decisão coordenada ou de uma intenção comprovada. Autoriza, sim, questionar os critérios editoriais, comparar o tratamento dado aos candidatos e cobrar transparência. Liberdade de expressão não é um princípio que se invoca apenas quando protege as preferências de quem controla o microfone; vale também para os candidatos excluídos do palco e para o público que tem direito a um debate plural.

O debate cancelado prejudicou os eleitores, que perderam a oportunidade de comparar propostas e ouvir os candidatos em confronto direto. Mas a responsabilidade não pode ser empurrada integralmente para o STF e o TSE: Flávio Bolsonaro desistiu, e a Rede Globo cancelou. Transformar essa sequência em denúncia simples de censura é uma maneira conveniente de escapar da pergunta central: por que o debate não pôde continuar com quem estava disposto a participar?

A Globo perdeu a hegemonia!

Lá se ia o ano de 1989. Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, Fernando Collor e Lula estavam diante das câmeras da TV Globo. Collor tinha uma pilha de pastas, entre elas a rosa, que ficaria mais famosa. Nunca se soube o que elas continham, mas a edição meticulosa da emissora fez parecer que ali havia segredos que Lula temia ver expostos durante o debate. Com a edição das imagens, Collor venceu a eleição. Depois, confiscou as cadernetas de poupança e sofreu impeachment, tudo em rápida sucessão. Ficou a demonstração de que, quando queria, as Organizações Globo podiam eleger quem bem entendessem.

Trinta e sete anos depois, com outra eleição presidencial em curso, assistimos a uma espécie de fantasma da TV Globo tentando operar mais uma disputa. Mais uma vez, Lula se defronta com o aparente escolhido dos irmãos Marinho: o controverso Flávio Bolsonaro. Diante dele, duas perspectivas: tornar-se presidente e ganhar imunidade temporária ou enfrentar um número indefinido de pendências judiciais, algumas com potencial para levá-lo à prisão. Nada no currículo do primogênito de Jair Bolsonaro, porém, parece abalar a preferência dos irmãos Marinho, que têm trabalhado consistentemente para oferecer a Flávio a melhor cobertura, na expectativa de derrotar Lula mais uma vez.

No meio do caminho, surgiu outro debate, para o qual a TV Globo havia preparado um roteiro cheio de armadilhas para Lula. A coisa parecia tão evidente que Lula, supostamente contrariando até sua equipe de campanha, decidiu dar de ombros para a emissora e gastar seu tempo no Flow, um podcast com público expressivo, mas sem a amplitude da cobertura da TV Globo. A emissora se preparou para tirar o melhor proveito da ausência: colocou uma cadeira vazia com o nome do presidente e abriu espaço para perguntas dirigidas ao “participante fujão”.

Tudo ia bem até o TSE e o STF entrarem em campo para retirar a cadeira e as perguntas e ainda colocarem no debate o estrepitoso candidato do Missão, Renan Santos, de quem Flávio Bolsonaro parece ter mais pavor do que de Lula. Com isso, o primogênito de Jair também resolveu fugir do palco da TV Globo e se dedicar a uma transmissão ao vivo em seu próprio canal no YouTube. Restou à emissora suspender o debate. O resto é história.

Uma história que marca uma mudança profunda na forma de fazer comunicação no Brasil — e talvez no mundo. Como o próprio Lula disse, com bastante acerto, o formato da TV Globo, com muitos candidatos, já não acompanha as formas e a velocidade que a comunicação de massa assumiu na era das lives e dos podcasts. Enquanto a emissora e muitos outros veículos da mídia corporativa ainda lutam para se ajustar, a decisão inicial de Lula mostrou-se particularmente aguda e sintonizada com esses novos tempos.

A esquerda, em geral, já deveria ter percebido que a banda agora toca assim. Mas ainda insiste em formas ultrapassadas de comunicação, abrindo espaço para a hegemonia da extrema direita nesse terreno.

Para os irmãos Marinho, a manhã desta sexta-feira deve estar sendo particularmente dura. Não apenas pela suspensão de um debate de primeiro turno, mas porque ficou mais claro do que nunca que a TV Globo, seus articulistas e seus produtores de conteúdo perderam a hegemonia que mantiveram por décadas — e que agora estamos diante de uma nova fronteira da comunicação, mais caótica e acelerada. Pensando bem, só por isso já valeu a pena acompanhar eleições que pouco discutiram os grandes desafios postos diante da sociedade brasileira.

Como diz a frase: “O rei está morto. Viva o rei!”