Estudo explica por que inflação de alimentos é fenômeno estrutural no Brasil

Comida cara, prato vazio: o preço da desigualdade no Brasil

 

A alta nos preços dos supermercados costuma ser o principal termômetro da economia para a maioria da população. No noticiário, é comum que a culpa pelo encarecimento da comida recaia sobre vilões isolados, como uma seca inesperada, uma geada sazonal ou as oscilações do dólar. No entanto, para além das variações pontuais, o prato do brasileiro tem ficado cronicamente mais caro, dificultando o acesso contínuo a refeições balanceadas e nutritivas.

Um novo estudo brasileiro, publicado pela ACT Promoção da Saúde, revela que a inflação de alimentos no Brasil vai muito além de crises passageiras e se configura como um fenômeno estrutural e sistêmico, que encarece os produtos frescos em detrimento dos ultraprocessados. A pesquisa foi conduzida por Valter Palmieri Júnior, economista e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp, e detalha as engrenagens políticas e econômicas que ditam os preços nas prateleiras.

Para a ACT, o estudo supera análises simplificadas e superficiais ao revelar uma rede de fatores interdependentes, que se influenciam continuamente. De acordo com Marília Albiero, gerente de inovação e estratégia da ACT, “essa abordagem sistêmica amplia a compreensão dos mecanismos que sustentam o problema e qualifica o diagnóstico. Nesse sentido, reforça a importância de dar continuidade e aprimorar as políticas públicas existentes, e ao mesmo tempo chama atenção para a necessidade de soluções inovadoras capazes de responder às demandas atuais da sociedade e do planeta”.

Segundo o pesquisador Valter Palmieri Júnior, a inflação dos alimentos no país está profundamente ligada ao padrão de desenvolvimento focado na exportação, que deixa o abastecimento interno vulnerável e em segundo plano.

“A inflação de alimentos no Brasil decorre de um conjunto de fatores inter-relacionados que ajudam a explicar por que ela tem sido, nas últimas décadas, superior à inflação geral”, afirma Palmieri Júnior. O modelo agroexportador e a forma de inserção internacional do país direcionam recursos produtivos para a exportação, o que afeta, indiretamente, a produção e os custos dos alimentos voltados ao mercado interno, como arroz, feijão, frutas e hortaliças.

Além da prioridade voltada ao mercado externo, a ausência de políticas públicas consistentes para a agricultura familiar e a alta concentração econômica em toda a cadeia produtiva pressionam as margens de lucro e encarecem a comida. Esse cenário altera drasticamente as escolhas nos lares mais pobres, que acabam migrando para opções aparentemente mais baratas, porém prejudiciais à saúde.

“Se uma pessoa destinasse, por exemplo, 5% do salário mínimo para comprar alimentos em 2006, hoje, com essa mesma proporção, ela conseguiria levar mais produtos ultraprocessados e menos alimentos saudáveis. Entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas caiu cerca de 31%”, alerta o autor do estudo. “Alimentos in natura tiveram aumentos superiores à inflação geral, enquanto muitos ultraprocessados ficaram relativamente mais baratos. Esse movimento altera os incentivos econômicos de consumo e tende a piorar a qualidade da dieta.”

Para reverter esse quadro e garantir o direito à alimentação adequada, a pesquisa defende uma reconstrução institucional urgente, dividida em frentes interdependentes. O estudo propõe o fortalecimento da base produtiva nacional com crédito e acesso à terra, o fomento à concorrência para enfrentar a concentração de mercado, além da retomada de estoques públicos para reequilibrar o abastecimento doméstico frente às exportações. Controlar a inflação da comida, portanto, exige tratar a alimentação como um eixo central das políticas de Estado, superando a lógica focada apenas na rentabilidade e no comércio exterior.


Fonte: Agência Bori

Crise no CMMADS de São João da Barra revela tensões entre poder econômico, gestão pública e comunidades afetadas pelo Porto do Açu

Presença de representantes do Porto do Açu no conselho reacende debate sobre captura institucional, impactos socioambientais e a necessidade de mobilização social

Como observador privilegiado da política ambiental em São João da Barra, venho acompanhando a rede de intrigas que se formou no Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMMADS) após a reação — justa e necessária — à ocupação de dois assentos por representantes do Porto do Açu.  A situação já seria, por si só, insólita. Desde sua implantação, o Porto do Açu se consolidou como um relevante agente de alterações ambientais e fonte de poluição no município. A inclusão, no conselho, de uma empresa vinculada ao empreendimento — associada a um processo de desterritorialização que atinge centenas de pescadores dependentes da Lagoa de Iquipari — configurou um gesto considerado acintoso. Na prática, a decisão foi interpretada como um desrespeito direto às populações afetadas, ao atribuir a gestão ambiental a quem carece de isenção para exercê-la.

Diante da repercussão negativa, representantes do governo municipal de São João da Barra — liderados pela secretária de Meio Ambiente, Marcela Toledo, reconhecida por sua proximidade com o Porto do Açu — e integrantes do próprio empreendimento adotaram uma estratégia em duas frentes. Inicialmente, ensaiaram uma retirada parcial, no conhecido movimento de “recuar sem sair”: deixaram a presidência do CMMADS, mas mantiveram assentos no colegiado. Em seguida, articularam a saída do conselheiro considerado mais crítico, por meio da revogação de sua nomeação, anteriormente vinculada ao Rotary Club de São João da Barra.

As medidas, ainda que previsíveis, não devem encerrar os questionamentos legais sobre a presença de um dos principais agentes de impacto ambiental ocupando cadeiras no conselho. O contexto se agrava diante da proposta de transformar parte significativa do V Distrito em uma vitrine ambiental de caráter questionável, conforme previsto no novo Plano Diretor Municipal. O objetivo, segundo a crítica apresentada, seria isolar as comunidades locais e, ao mesmo tempo, obscurecer problemas já evidentes, como a erosão costeira, a salinização de águas continentais e a sobreexploração das reservas hídricas do Aquífero Emborê.

Com base em estudos já desenvolvidos sobre os impactos socioambientais associados ao Porto do Açu, a avaliação é de que São João da Barra, de forma deliberada ou não, tornou-se um caso emblemático. O município se apresenta hoje como um laboratório a céu aberto para a análise dos efeitos dos grandes empreendimentos portuários instalados ao longo da costa brasileira nas últimas duas décadas, voltados sobretudo à exportação de commodities agrícolas e minerais.

Nesse cenário, o episódio do CMMADS revela mais do que uma disputa pontual por assentos: expõe fragilidades institucionais, conflitos de interesse e a crescente assimetria entre atores econômicos e comunidades locais. Ao tensionar os limites da governança ambiental, o caso evidencia o risco de captura de instâncias participativas e reforça a necessidade de mecanismos mais robustos de controle social e transparência na gestão pública. Nesse contexto, torna-se fundamental o aprofundamento da mobilização social como estratégia para impedir a captura corporativa do CMMADS e assegurar que o conselho cumpra, de fato, sua função pública.

Da memória à esperança: títulos de terra são entregues no Assentamento Cícero Guedes nas terras da antiga Usina Cambahyba

A cerimônia realizada hoje no Centro de Convenções da UENF, na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, marcou um momento histórico para as famílias do Assentamento Cícero Guedes: a entrega de 185 títulos de concessão de uso dos lotes nas terras desapropriadas da antiga Usina Cambahyba. O ato reuniu dirigentes universitários, parlamentares, sindicalistas, assentados, movimentos sociais, e apoiadores da reforma agrária, consolidando uma conquista construída ao longo de anos de mobilização e resistência.

Um dos momentos mais emocionantes foi a fala de Mateus Guedes, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e filho de Cícero Guedes, liderança histórica assassinada enquanto apoiava a luta pela criação do assentamento. Em seu discurso, Mateus destacou que a entrega dos títulos simboliza não apenas segurança jurídica para as famílias, mas também a continuidade do legado de seu pai e de tantos trabalhadores que lutaram para transformar terras antes improdutivas em espaços de vida, trabalho e produção.

A formalização das concessões representa um passo decisivo para a consolidação do assentamento, garantindo às famílias condições mais estáveis para investir na produção, acessar políticas públicas e planejar o futuro com maior segurança. Ao mesmo tempo, o evento reafirmou o papel da reforma agrária como política estruturante para o país. Mais do que ampliar a produção de alimentos, a democratização do acesso à terra contribui para gerar trabalho, fortalecer economias locais e reduzir desigualdades históricas na distribuição de renda no Brasil.

Assim, a cerimônia de hoje simboliza uma vitória coletiva: das famílias assentadas, dos movimentos sociais e de todos que defendem um modelo de desenvolvimento rural baseado na justiça social, na produção de alimentos e na construção de um país mais igualitário.

Como nota final, a cerimônia também carregou um forte simbolismo histórico. Os fornos da antiga Usina Cambahyba foram utilizados durante a ditadura militar para incinerar corpos de oposicionistas do regime, um dos capítulos mais sombrios da história recente do país. De forma profundamente irônica e carregada de significado, a entrega dos títulos ocorreu exatamente no 62º aniversário do golpe militar de 1964, transformando um espaço marcado pela violência e pela tentativa de apagar vidas em um território de memória, justiça e reconstrução coletiva. Hoje, o que antes foi cenário de morte torna-se símbolo de vida, dignidade e esperança para centenas de famílias da reforma agrária.

Estudo na UENF mostra que RPPN Caruara causou desterritorialização da pesca lagunar em São João da Barra

Como uma política ambiental corporativa vem restringindo a pesca artesanal e reconfigurando territórios tradicionais no entorno do Porto do Açu

Um estudo recente sobre o entorno do Porto do Açu, no norte fluminense, traz à tona uma contradição cada vez mais presente em contextos de grandes empreendimentos: políticas de proteção ambiental podem estar sendo mobilizadas como instrumentos de exclusão territorial. O foco da análise é a Lagoa de Iquipari, historicamente utilizada por pescadores artesanais do V Distrito de São João da Barra (RJ). A pesquisa em questão é a dissertação de mestrado do geógrafo sanjoanense Jayson Freitas Gomes, desenvolvida  sob minha orientação no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). O trabalho investiga, com base empírica consistente, os impactos do programa de proteção ambiental implementado pelo Porto do Açu sobre comunidades pesqueiras locais.

A inflexão ocorre em 2012, quando a lagoa passa a integrar a RPPN Fazenda Caruara, uma reserva privada vinculada ao complexo portuário. A partir desse momento, o acesso à área passa a ser regulado por uma série de normas restritivas que impactam diretamente a pesca artesanal. Na prática, atividades tradicionais passam a ser limitadas, quando não completamente inviabilizadas. O argumento central do estudo é que esse processo vai além da regulação ambiental: trata-se de uma dinâmica de desterritorialização. Ao serem impedidos de acessar a lagoa, os pescadores não apenas perdem sua principal fonte de renda, mas também são progressivamente desconectados de um território que sustenta modos de vida, saberes e identidades construídas ao longo de gerações.

A dissertação, baseada em revisão bibliográfica, análise documental e trabalho de campo com entrevistas e questionários, evidencia que as restrições impostas não são percebidas como medidas de proteção compartilhada, mas como mecanismos de exclusão. Muitos pescadores relatam a impossibilidade de continuar exercendo sua atividade, o que intensifica quadros de vulnerabilidade socioeconômica já existentes.

Esse cenário se insere em um contexto mais amplo. Em economias periféricas como a brasileira, marcadas por políticas neoliberais e pela expansão do neoextrativismo, grandes corporações têm ampliado seu controle sobre territórios estratégicos. Nesse movimento, programas ambientais frequentemente cumprem uma dupla função: ao mesmo tempo em que contribuem para a valorização simbólica e financeira dos empreendimentos, também ajudam a reorganizar o uso do território em favor do capital.

No caso da Lagoa de Iquipari, isso se traduz em um paradoxo evidente: enquanto a área é formalmente protegida, os grupos que historicamente contribuíram para sua conservação são afastados. A natureza é preservada — mas sem as pessoas que sempre fizeram parte dela.

A questão que emerge é inevitável: quem define o que é proteger — e para quem essa proteção serve? Quando políticas ambientais desconsideram os direitos e os modos de vida de comunidades tradicionais, elas correm o risco de reproduzir, sob novas justificativas, antigas formas de expropriação.

Quem desejar baixar o arquivo contendo a dissertação de Jayson Freitas Gomes, basta clicar [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: No dia do Golpe de 1964, governo Lula libera mais 48 agrotóxicos

O governo Lula continua em sua marcha firme para quebrar todos os recordes de aprovação de agrotóxicos na história, no melhor estilo do “nunca antes na história desse país”.  É que hoje (31/03) o Diário Oficial da União publicou o Ato Nº 16, de 27 de março 2026 liberando mais 48 agrotóxicos do tipo “Produto Técnico”.  Com isso, o governo Lula superou o número de aprovações de agrotóxicos realizadas durante o mandato de Jair Bolsonaro.

Em um rápido exame dos produtos aprovados, o que temos é um museu de velhas novidades, a maioria produzida por empresas chinesas, fato que confirma uma trajetória de trocas de desiguais com o principal comprador de soja brasileira. Há que se lembrar que a cultura da soja consome sozinha quase 60% dos agrotóxicos consumidos no Brasil, sendo o principal vetor de contaminação ambiental da agricultura brasileira.

Curiosamente a publicação do Ato Nº 16 se dá no mesmo dia do golpe militar de 1964, o que confirma a continuidade da herança química do regime militar que adotou diversas medidas para garantir o crescimento do consumo de agrotóxicos no Brasil que até aquele período era insignificante. Com isso, temos uma continuidade do legado químico da ditadura militar sob a batuta de um governo que se pretende de esquerda.

Estudo mostra que aquecimento aumenta o risco de desnutrição infantil

desnutrição por calorEventos climáticos severos estão atingindo com mais força as populações vulneráveis, comprometendo o progresso na nutrição infantil. A foto mostra vítimas das enchentes em um abrigo no norte do Peru. Crédito da imagem: Rosa Quincho, Urpi/Diario La República

A análise, publicada na revista The Lancet Planetary Health, revelou que cada aumento de 1°C acima da temperatura média de 26°C está associado a um aumento de aproximadamente 10% na probabilidade de uma pessoa estar abaixo do peso para a idade e a um aumento de 8% no risco de estar abaixo do peso para a altura e ter baixa estatura para a idade.

A pesquisa foi baseada em dados de um período de 10 anos e de 6,5 milhões de crianças de 1 a 5 anos de idade de todas as regiões do Brasil.

“Infraestruturas precárias, insegurança alimentar crônica e acesso limitado a serviços de saúde […] reduzem a capacidade de adaptação às variações de temperatura, transformando o estresse climático em um resultado biológico mensurável e expondo uma situação de injustiça ambiental.”

Priscila Ribas, pesquisadora do Núcleo de Integração de Dados e Conhecimentos em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professora da Universidade Federal da Bahia, Brasil.

Diferentemente de outros estudos focados em eventos extremos isolados, os autores analisaram a temperatura média ao longo de todo o período e calcularam seu impacto cumulativo até 52 semanas após a exposição. Isso permitiu captar seus efeitos progressivos, visto que o impacto do calor na nutrição infantil geralmente se manifesta gradualmente.

“O estudo mostra que a exposição ao calor não só gera impactos imediatos, como também contribui para processos de desnutrição crônica que comprometem o desenvolvimento humano a longo prazo”, explicou a nutricionista Priscila Ribas, pesquisadora do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma das autoras do estudo, à SciDev.Net .

De acordo com os resultados, a associação entre o aumento da temperatura e a piora dos indicadores nutricionais foi mais intensa nas regiões Norte e Nordeste – que concentram os maiores índices de pobreza no Brasil – em áreas rurais e entre os filhos de mães indígenas .

Para Ribas, isso representa um “efeito multiplicador sobre vulnerabilidades preexistentes”.

“A infraestrutura precária, a insegurança alimentar crônica e o acesso limitado aos serviços de saúde nessas áreas e grupos reduzem a capacidade de adaptação às variações de temperatura, transformando o estresse climático em um resultado biológico mensurável e expondo uma situação de injustiça ambiental”, destacou Ribas, que também é professor da Universidade Federal da Bahia.

Segundo a pediatra Alicia Matijasevich Manitto, professora da Universidade de São Paulo e não envolvida no estudo, os resultados são consistentes com o que tem sido observado em outras partes do mundo, especialmente na África subsaariana e em outras regiões tropicais.

Na opinião deles, o fato de os efeitos serem mais acentuados nos contextos mais vulneráveis ​​reforça a evidência de que as mudanças climáticas “podem agravar as desigualdades sociais em saúde”.

Efeitos diretos e indiretos

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 559 milhões de crianças e adolescentes estão expostos a ondas de calor frequentes, definidas como períodos de pelo menos três dias com temperaturas máximas 10% acima da média histórica local. Nesse cenário, o UNICEF estima que, até 2050, todas as crianças e adolescentes do mundo estarão expostos a ondas de calor.

No Brasil, segundo dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, 5% das crianças entre 0 e 4 anos sofriam de desnutrição em 2025. Na América Latina e no Caribe, a desnutrição crônica nessa faixa etária era de 11,5% em 2022, de acordo com um relatório da Organização dos Estados Ibero-Americanos publicado no ano passado.

Os pesquisadores concordaram que crianças entre 0 e 11 anos têm características fisiológicas e metabólicas diferentes dos adultos, o que as torna mais vulneráveis.

“As altas temperaturas podem reduzir o apetite, aumentar o risco de desidratação e causar episódios de diarreia e infecções, afetando a absorção de nutrientes e causando perda de peso”, explicou Matijasevich Manitto.

Ribas acrescentou que as altas temperaturas favorecem a proliferação de patógenos e vetores de doenças , fazendo com que os bebês consumam menos calorias e percam nutrientes em um ritmo acelerado.

A nutrição infantil também pode ser afetada indiretamente, por meio dos efeitos das mudanças climáticas nos sistemas alimentares .

“ O calor extremo e os eventos climáticos adversos prejudicam a produtividade agrícola, reduzem a disponibilidade de alimentos e aumentam os preços, afetando o consumo nutricional das famílias mais pobres”, disse ele.

Danos futuros

O estudo alerta que as mudanças climáticas podem reverter os recentes avanços na nutrição infantil, alcançados graças ao desenvolvimento socioeconômico, à expansão da atenção primária à saúde e à redução das desigualdades.

Matijasevich Manitto explicou que diversos estudos mostram que a desnutrição infantil está associada a menor nível de escolaridade, menor produtividade econômica e menor renda ao longo da vida. “Uma nutrição adequada nos primeiros anos de vida é fundamental para o desenvolvimento cerebral e para as funções cognitivas e socioemocionais ”, enfatizou.

Reduzir a pobreza é uma medida eficaz para a adaptação às mudanças climáticas. Crédito da imagem: cortesia do jornal La República.

Os pesquisadores concordam que proteger as crianças do estresse térmico exige uma combinação de prevenção, preparação e uma resposta coordenada entre governos e sistemas de saúde . No entanto, a longo prazo, as soluções devem ser estruturais.

“Reduzir a pobreza não é apenas uma estratégia de justiça social, mas também pode servir como uma medida eficaz de adaptação às mudanças climáticas”, concluem os autores do artigo publicado na revista The Lancet Planetary Health .


Fonte: SciDev

Dia do Lixo Zero: Lixões e geração crescente de lixo ainda são problemas no Brasil

Dados municipais revelam baixa efetividade do Plano Nacional de Resíduos Sólidos de 2022, que tem foco em tratamento de resíduos em vez de prevenção. Uso pouco eficiente de recursos públicos e crescimento da geração de lixo acima do populacional têm sido reflexos dessa abordagem, aponta professora e pesquisadora da UFPR

Dia do Lixo Zero: Lixões e geração crescente de lixo ainda são problemas no Brasil Dados municipais revelam baixa efetividade do Plano Nacional de Resíduos Sólidos de 2022, que tem foco em tratamento de resíduos em vez de prevenção. Uso pouco eficiente de recursos públicos e crescimento da geração de lixo acima do populacional têm sido reflexos dessa abordagem, aponta professora e pesquisadora da UFPR

Meta do Planares era a extinção dos lixões até 2024, mas um ano depois disso pelo menos 1,6 mil municípios continuaram utilizando despejos de resíduos urbanos a céu aberto, sem tratamento. Na foto, lixão com 250 mil toneladas em Padre Bernardo (GO) que desabou duas vezes em 2025. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil 

Por Camille Bropp para “Ciência UFPR”

Pensado para um “horizonte de 20 anos”, o Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares), instituído por decreto presidencial em abril de 2022, tinha uma meta emergencial: abolir, em dois anos, o uso de lixões para despejo de resíduos sólidos nas cidades. Lixão é o nome que se dá a depósitos de lixo exposto, sem previsão de tratamento dos resíduos e nem de proteção do solo. Passado o prazo, os lixões continuam realidade nos municípios. 

De acordo com o levantamento mais recente do Ministério das Cidades (MCID), baseado na declaração das prefeituras, o Brasil iniciou 2025 com pelo menos 1.492 municípios (quase 27% do total e 31% dos respondentes) ainda operando vazadouros a céu aberto. O dado sugere uma estagnação em relação a 2020, ano em que se baseou o artigo de avaliação das expectativas sobre o Planares publicado pela professora Andréa Ryba Lenzi, do Departamento de Transportes da Universidade Federal do Paraná (UFPR), com outros dois autores, na revista Cuadernos de Educación y Desarrollo (CED)

“A partir dos dados [base de 2024], pode-se observar que a maioria dos estados ainda usa lixão ou aterro controlado, que são formas inadequadas. Isso gera custos ambientais, sociais e econômicos enormes. Contaminação do solo, da água, problemas de saúde pública, enfim, passivos, que depois vão sair muito mais caros de remediar”, avalia a professora, em entrevista à Ciência UFPR.

Publicado em 2024, o estudo aponta que, apesar de a justificativa dos municípios para continuarem dependentes de lixões centrar na falta de recursos financeiros, dinheiro poderia ser mais bem utilizado. Recursos escorrem com a manutenção do passivo ambiental — multas e demais problemas decorrentes dessas unidades impróprias — e com contratos onerosos de planejamento e execução, que rendem planos municipais sem requisitos básicos, não incluem parcerias sociais com cooperativas de catadores e negligenciam a coleta seletiva.

 

Nesse contexto, a exclusão dos catadores de contratos formais com o poder público tem ainda o efeito de manter precário um trabalho desempenhado principalmente por mulheres. Segundo o estudo que saiu na revista CED, elas representam em torno de 56% dos catadores.

“Muitas ainda permanecem na informalidade. Ficam sem direitos trabalhistas, sem previdência, sem estabilidade, com renda incerta e ainda acumulam o trabalho doméstico e a criação dos filhos. Sem formalização, os trabalhadores da reciclagem continuam vulneráveis. E, quando a gente fala em cooperativas, ter contrato com órgão público ou privado faz toda a diferença para garantir dignidade e direitos trabalhistas”, avalia Andréa.

Foco em tratamento não estanca geração de lixo; decreto de 2025 busca solução para plásticos

Na base dos problemas de resíduos sólidos no Brasil, existe também a tendência de que a geração de resíduos cresça a uma taxa superior ao crescimento populacional. O estudo publicado em 2024 indica isso: enquanto a população cresceu 0,76% entre 2019 e 2020, a quantidade de lixo coletado aumentou 2,3%. Ou seja, o crescimento populacional não é a única explicação para o aumento do lixo.

“Isso implica que cada pessoa, em média, está gerando mais resíduos. Mas este é só um exemplo. Não é só porque tem mais gente; é porque a gente está consumindo mais, produzindo mais embalagens, mais descartáveis. O padrão de consumo da sociedade só aumenta, e esta é uma interpretação baseada nos números”, diz Andréa Lenzi.

O quadro levanta questões sobre lacunas nas políticas públicas de orientação e estímulo à população para a redução do lixo na fonte — o que também implica apoio de setores econômicos. Em suma, políticas de redução da geração. Segundo a professora, esse é outra questão do Planares. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) precisa ser reavaliada no que diz respeito à logística reversa e à responsabilidade compartilhada entre setor público e privado.

“Sobre a questão da ‘não geração’, devemos levar em consideração principalmente o número reduzido de políticas públicas efetivas de educação ambiental”, avalia a professora.

“O próprio Planares não estabelece meta clara para a redução, então fica difícil cobrar ou monitorar. Na prática, a política acaba focando no que fazer com o lixo depois que ele já foi gerado, e não tanto em evitar que ele apareça. Ou seja, é muito mais uma questão de remediação do que antecipação ao problema”.

Atrás da matéria orgânica (44% do total apurado pelo MDCI), a segunda maior parcela de lixo no Brasil é de lixo plástico (cerca de 17%). Para reduzir esse tipo de lixo, o decreto federal 12.688, de outubro de 2025, é um instrumento normativo recente que define metas obrigatórias para a reciclagem de embalagens plásticas, regulamentando a lei da PNRS para tentar tirar do papel a logística reversa já prevista há mais de 15 anos.

Para Andréa Lenzi, em tese o decreto pode ajudar em “uma das grandes necessidades” do cenário, que é a de políticas públicas mais assertivas quanto às metas para as partes envolvidas.

“Se o decreto realmente impõe metas claras e passíveis de fiscalização, isso pode dar um empurrão na logística reversa de que a gente tanto precisa. O problema é que, sem estrutura e sem fiscalização, pode acabar virando mais uma meta no papel”.

Lixões e aterros controlados ameaçam meio ambiente, saúde e segurança

O lixão é uma unidade irregular de processamento de resíduos sólidos, por isso a extinção é considerada urgente.

Existe, porém, outra forma de disposição inadequada que é a terceira mais utilizada por municípios, o aterro controlado. Trata-se de um estágio intermediário entre os lixões e os aterros sanitários, que são a estrutura ideal. No aterro controlado o lixo não fica exposto — é coberto por terra — e existe algum controle de acesso, mas permanecem os riscos causados por ausência de impermeabilização do solo e falta de tratamento de efluentes e gases, que em geral impedem licenciamento ambiental.

Além dos riscos de poluição e de proliferação de doenças, os lixões também apresentam problemas de segurança devido ao empilhamento de lixo de forma desordenada e ao livre acesso pela população. Uma dessas unidades, em Goiás, apresentou dois episódios de desmoronamento num período de cinco meses no ano passado mesmo sendo administrado por uma empresa privada. As milhares de toneladas de lixo chegaram a atingir um córrego em área de preservação permanente.

O Centro-Oeste é uma das regiões com maiores percentuais de uso de unidades inadequadas por prefeituras, o que indica que os dados espelham a desigualdade regional do país. Enquanto Norte, Centro-Oeste e Nordeste têm alta dependência de lixões e aterros controlados, Sudeste está em situação intermediária e Sul usa bem menos esses destinos. Nenhuma região, porém, registra zero lixões.

“Isso mostra que a política nacional não consegue ser aplicada de forma igual. Tem estados que avançaram, mas outros ficaram para trás. Então qualquer solução tem que considerar essas desigualdades, senão a gente vai continuar tendo um Brasil desigual na gestão dos resíduos”, diz Andréa Lenzi.

Integridade dos dados é desafio para pesquisadores

Segundo a PNRS, os municípios têm a responsabilidade pela gestão integrada dos resíduos sólidos gerados em seu território. Portanto, são as prefeituras que se encarregam de coletar, transportar, tratar e dar destinação final adequada aos resíduos urbanos — soma do lixo doméstico e o da limpeza urbana. Também compete a elas elaborarem um Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, que é o requisito mínimo para que possam acessar verbas públicas.

Os governos estaduais e federal devem monitorar a situação e propor diretrizes e programas de enfrentamento ao problema.

O levantamento do MCID, chamado de Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico — a sigla foi alterada de SNI para Sinisa em 2023 —, é feito por meio da participação dos municípios. Isso faz com que a qualidade dos dados dependa tanto da cobertura quanto da segurança das informações prestadas.

A participação em 2024 foi de 4.854 municípios de um total de 5.570 (87,1%), um acréscimo em relação a 2013, por exemplo, quando o número de municípios era o mesmo e 3.765 participaram (67,6%).

Andréa Lenzi reforça a importância de melhoria contínua dos dados, acrescentando a eles verificação e validação, também como forma de melhorar a eficácia das políticas. “É um círculo vicioso. Sem dados, não tem política eficaz. Sem política eficaz, os dados continuam ruins. E quem sofre as consequências é quem está na ponta, o cidadão e o meio ambiente”.

Leia o artigo Avaliação da efetividade das políticas públicas que abordam a gestão de resíduos sólidos: um panorama brasileiro, publicado em Cuadernos de Educación y Desarrollo (em português; aberto)


Fonte: Ciência UFPR

Debate sobre a pesquisa ambiental e seus inimigos: negacionismo, produtivismo &Cia.

A Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF) promove, no dia 20 de abril, um debate sobre o tema “A pesquisa ambiental e seus inimigos: negacionismo, produtivismo & Cia.”. A atividade propõe discutir os desafios enfrentados pela produção científica na área ambiental em um contexto marcado por pressões institucionais, disputas políticas e questionamentos ao papel da ciência na compreensão e enfrentamento das crises ambientais contemporâneas.

O encontro contará com a minha participação  e a do professor Marcelo Lopes de Souza (UFRJ). A mediação será realizada pelo  professor Carlos Bordalo (UFPA), que conduzirá a conversa buscando aprofundar as reflexões sobre o papel da pesquisa ambiental e da Geografia Física diante dos desafios atuais.

A atividade será realizada das 14h30 às 16h30, com transmissão pelo canal do GENAT/UFPB no YouTube. A ABGF convida pesquisadores, estudantes e todos os interessados na temática ambiental a participarem do debate, que pretende ampliar o diálogo sobre a importância da ciência crítica e comprometida com a compreensão e a defesa dos sistemas socioambientais.

Belo Monte e o que vi, o que ficou, o que ainda ameaça correr

Imagens de algumas reportagens que fiz sobre Altamira e Belo Monte

Por Ismael Machado* 

Ando revendo, até por conta desse novo espaço criado, algumas das histórias que relatei nesses 35 anos de trajetória profissional. Algumas coisas testemunhadas nessa Amazônia repleta de complexidades. Belo Monte, por exemplo. Durante cerca de seis anos, entre idas e vindas à região do Rio Xingu, por volta de 2008 a 2013, acompanhei, como repórter, a construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte. Não foi uma cobertura contínua, mas uma sequência de retornos — e isso fez diferença. Porque, a cada viagem feita, o que antes era anúncio de desmazelos começava a ganhar forma concreta e o que era dúvida passava a ter consequência direta entre a população local.

O que mais ficou dessas viagens não foram os números do empreendimento, sempre grandiloquentes, mas as vozes de quem seria diretamente afetado por essa obra sonhada desde o regime militar e levada a cabo definitivamente na gestão federal do PT.

Rememoro essas vozes pouco ouvidas. Celso Albertino da Silva, morador de um travessão da Transamazônica, dizia que não se prende um rio como se prende um boi. Não havia ironia na frase. Era uma leitura direta de quem conhecia o comportamento da água. Ele explicava que, ao desviar o curso, o rio encontraria outro caminho. O lugar onde vivia, segundo o projeto, se transformaria numa espécie de cuia — as partes altas permanecendo, o resto submerso.

Em Paratizão, Émerson Nascimento Pessoa não falava de engenharia nem de impacto ambiental. Falava de permanência. “Não tenho vontade de sair daqui.” Tinha três filhos pequenos e uma casa à beira do rio. Ao lado, Silmara Mendes Costa, a Caçulinha, dizia o que talvez fosse mais preciso: sair dali seria uma tristeza. Não havia cálculo nisso.

Os pais de Émerson já tinham ido embora. Deslocados não para outro projeto de vida, mas para não assistir ao que consideravam inevitável. “Saíram antes pra não ver isso aqui perdido”, constatava Émerson. Em vários pontos do Xingu, a decisão de sair antecipadamente aparecia como forma de evitar o testemunho da própria perda.

Mais acima, em Arroz Cru, Francélia Nogueira da Costa insistia numa pergunta que se repetia em diferentes comunidades: o que significava, de fato, a tal “indenização”? Falava-se em assegurar isso às famílias, mas sem clareza sobre como se traduziria na vida concreta de quem sempre viveu da roça e da pesca. Nunca esqueci um casal formado por uma bióloga e um técnico agrícola lá no meio de uma propriedade num travessão da Transamazônica. No meio do almoço que ela fez questão de preparar a mim, ao motorista e ao repórter fotográfico, me endereçou essa resposta quando questionei sobre a indenização da pequena propriedade agroflorestal que eles mantinham há uns dez anos. “Quanto custa o nosso sonho? Qual o valor monetário dele?”. Essa fala me acompanha sempre quando alguma discussão nesse sentido entra em pauta em rodas de conversa.

Ao mesmo tempo, a ativista Antônia Melo denunciava a forma como as negociações eram conduzidas — fragmentadas, diretas, com promessas que circulavam de maneira desigual entre comunidades. Para ela, havia um esforço claro de dissolver resistências.

Na Prelazia do Xingu, Dom Erwin Krautler dizia que o ponto decisivo era impedir a primeira barragem. A leitura era simples: uma vez iniciada, a lógica do empreendimento seguiria adiante.

Enquanto essas falas se acumulavam, Altamira mudava rapidamente.

A cidade recebia trabalhadores, o comércio se movimentava, a promessa de crescimento ganhava corpo. Mas a estrutura não acompanhava. Ali por volta de 2013, o Hospital Municipal São Rafael passou de cerca de 200 atendimentos diários para uma média de 500 em poucos meses. Filas se formavam onde antes havia margem.

Lembro de Elismar Carvalho, dona de hotel, percorrendo hospitais em busca de atendimento e não conseguindo, mesmo com plano de saúde. O relato se repetia em diferentes versões. A cidade crescia mais rápido do que conseguia absorver esse crescimento.

O aumento populacional trouxe também pressão sobre segurança, educação, serviços básicos. A própria Associação Comercial de Altamira, inicialmente favorável à obra, passou a falar em cobranças, em acordos não cumpridos, em falta de planejamento.

No rio, as mudanças começavam a aparecer antes mesmo da conclusão da usina.

 

Na Volta Grande do Xingu, Manoel Juruna dizia não haver compensação possível para a destruição do modo de vida. A preocupação com a redução da água e com a pesca era constante. E não era apenas projeção.

Entre ribeirinhos, a incerteza e o medo eram regras.

Manoel Neves de Araújo sabia que a decisão não passava por ele. “Não é com muita vontade que a gente vai sair daqui.” Albino Pessoa dos Santos, o Fininho, também estava cadastrado para indenização, mas deixava claro: preferia não sair. Manoel Matos da Cruz e Laura de Souza, já idosos, sequer sabiam para onde iriam.

As perguntas estavam todas colocadas ali. Mas as respostas, como na canção de Bob Dylan, ficavam soprando no ar.

Hoje, passados anos da entrada em operação de Belo Monte, é possível olhar para trás e perceber que muitas dessas questões não foram resolvidas, apenas arquivadas no tempo.

A Volta Grande do Xingu convive com redução significativa de vazão em determinados períodos. A pesca, base alimentar e econômica de comunidades indígenas e ribeirinhas, foi profundamente afetada. Espécies diminuíram, rotas migratórias foram alteradas, e a regularidade que organizava a vida ao redor do rio deixou de existir como antes.

Os reassentamentos urbanos, apresentados como solução, trouxeram novos problemas. Muitas famílias deslocadas passaram a viver em áreas com infraestrutura padronizada, distante do rio e das atividades que garantiam sua subsistência. O custo de vida aumentou, a dependência de renda monetária se intensificou, e a promessa de melhoria não se realizou de forma homogênea.

Em Altamira, o ciclo da obra deixou marcas conhecidas. O crescimento acelerado durante a construção, seguido por retração econômica. Parte dos empregos desapareceu com o fim das obras. A pressão sobre serviços públicos não recuou na mesma proporção.

No campo energético, a usina opera, mas as limitações apontadas ainda durante a construção permanecem relevantes. A dependência do regime de chuvas do Xingu faz com que a geração efetiva varie bastante ao longo do ano, distante da potência instalada anunciada.

A energia produzida segue majoritariamente destinada a setores industriais de grande consumo. A relação direta entre o impacto local e o benefício para a população da região continua sendo uma questão aberta.

Nada disso é exatamente novo. Estava, de alguma forma, anunciado nas falas recolhidas ao longo daqueles anos. O que mudou foi o tempo, pois o que era previsão tornou-se condição. E é a partir dessa condição que se projeta o que vem pela frente.

Belo Monte nunca foi um caso isolado. Ela se insere numa lógica mais ampla de ocupação e uso dos rios amazônicos como base para grandes projetos energéticos. Outros rios da região — como o Rio Tapajós, o Rio Madeira e o Rio Tocantins — já foram ou continuam sendo, alvo de propostas semelhantes, em diferentes estágios.

A experiência do Xingu funciona, nesse sentido, como referência concreta.

Ela mostra que os impactos não se encerram com a conclusão da obra. O deslocamento nunca é apenas geográfico. E as compensações financeiras não substituem modos de vida. O que se percebeu é que sistemas urbanos locais dificilmente acompanham o ritmo imposto por grandes empreendimentos. E que os efeitos ambientais se estendem no tempo, muitas vezes de forma irreversível.

Há uma dimensão de Belo Monte não medida em megawatts, cronogramas ou cifras bilionárias. Ela aparece como lembrança incômoda nos alertas que, ainda no período de implantação da usina, foram feitos por pesquisadores, lideranças locais e órgãos públicos, muitos deles ignorados ou relativizados no calor da decisão política.

“Não há na história nenhum registro de construção de barragem que não tenha gerado consequências sérias e irreversíveis para as populações locais”, advertia a antropóloga Sônia Magalhães. Sua afirmação não era retórica. Ela sintetizava um conjunto de incertezas que, à época, cercavam o projeto, sobretudo pela ausência de estudos aprofundados em áreas consideradas sensíveis.

Do ponto de vista ecológico, os dados disponíveis já indicavam um cenário de excepcionalidade. Um estudo conduzido pelo biólogo Hermes Ferreira apontava que a diversidade de peixes na área diretamente afetada pela barragem superava a de todo o continente europeu. Tratava-se de um ecossistema singular, moldado por barreiras naturais como as cachoeiras da Volta Grande do Xingu, que funcionavam como zonas de isolamento e evolução de espécies. Ainda assim, como reconheciam os próprios especialistas, era uma área insuficientemente estudada, o que ampliava o grau de risco. “De qualquer perspectiva que se olhe, social ou ambiental, não se sabe o custo de Belo Monte”, resumia Sônia Magalhães.

Enquanto isso, o consórcio responsável pela obra, a Norte Energia, um grupo formado por diversas empresas estatais e privadas envolvidas na construção de Belo Monte, sustentava que os impactos estavam sendo mitigados dentro do previsto. Em notas oficiais, destacava investimentos em infraestrutura urbana, como a ampliação do saneamento básico em Altamira — onde, até então, apenas 18% da população tinha acesso à água tratada e não havia rede de esgoto estruturada. A empresa também citava ações vinculadas ao Projeto Básico Ambiental (PBA) e ao Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRS-X), que prometia destinar centenas de milhões de reais à região.

Essa narrativa institucional, no entanto, convivia com uma realidade mais desordenada no território. O avanço das obras trouxe consigo um crescimento populacional acelerado, pressões sobre serviços públicos e transformações sociais abruptas. Próximo aos canteiros, surgiam estruturas improvisadas que evidenciavam esse novo contexto — como a chamada “Boate Xingu”, instalada à margem da floresta, símbolo de uma economia paralela que acompanha grandes empreendimentos. Nossa equipe retornava de uma aldeia quando deparamos com essa ‘boate’ armada à margem da floresta, anunciando ‘modelos’ vindas de São Paulo para a inauguração. Mais ‘Bye Bye Brasil’ impossível.

Para as populações diretamente afetadas, o futuro aparecia como uma violenta ruptura. Povos indígenas da Volta Grande do Xingu temiam a redução drástica da vazão do rio, com impactos diretos sobre a pesca, a navegação e os modos de vida tradicionais. “Tampando o rio, como é que nós vamos ficar?”, questionava José Arara, liderança indígena, ao apontar o leito pedregoso que poderia secar. Entre os Juruna da aldeia Paquiçamba, a desconfiança em relação às compensações oferecidas era evidente. “Prometeram muito e cumpriram pouco”, dizia o cacique Manoel Juruna, reforçando a percepção de que não havia equivalência possível entre indenização financeira e perda territorial.

Entre ribeirinhos, o dilema assumia outra forma com o deslocamento compulsório. Comunidades inteiras seriam inundadas, e a indenização oferecida não garantia a reconstrução das condições de vida. “Poder é poder”, resumia Manoel Neves de Araújo, morador do Paratizinho, ao expressar a sensação de impotência diante da obra.

No campo jurídico, as controvérsias eram igualmente intensas. A Advocacia-Geral da União buscava no Supremo Tribunal Federal reverter decisões que haviam suspendido as obras, enquanto a Procuradoria-Geral da República sustentava que não havia base para tal intervenção. No centro da disputa estava um ponto crucial: o direito à consulta prévia, livre e informada dos povos indígenas, conforme previsto na Convenção 169 da OIT. Para o Ministério Público, consultas realizadas após decisões já tomadas eram “mera forma sem substância”, incompatíveis com o princípio da autodeterminação.

As críticas não se restringiam ao campo social ou jurídico. Especialistas em energia também questionavam a lógica econômica do empreendimento. O pesquisador Célio Bermann argumentava que Belo Monte não se justificava pela eficiência energética, mas pelo volume de recursos mobilizados durante sua construção. Segundo ele, a rentabilidade para grandes empreiteiras estava concentrada na execução da obra, não na geração de energia em si.

Os números reforçavam a desconfiança. O custo estimado do projeto saltou de R$ 4,5 bilhões, em 2006, para mais de R$ 26 bilhões — com projeções que ultrapassavam R$ 30 bilhões. Ao mesmo tempo, estudos indicavam que a usina operaria em plena capacidade por apenas alguns meses ao ano, devido ao regime hidrológico do rio Xingu. Durante a estiagem, a produção poderia cair a cerca de um décimo da capacidade instalada.

No campo ambiental, os riscos eram descritos com precisão técnica. Relatórios apontavam para a possibilidade de eutrofização dos reservatórios, com impactos na qualidade da água e na saúde pública. A eutrofização, para os menos afeitos a termos tão técnicos, é o enriquecimento excessivo de nutrientes (especialmente nitrogênio e fósforo em corpos d’água), causando o crescimento descontrolado de algas e cianobactérias. Esse processo, geralmente provocado por esgoto ou fertilizantes, reduz o oxigênio da água, causando a morte de peixes e a degradação do ecossistema.

A redução de até 80% da vazão na Volta Grande do Xingu ameaçava extinguir espécies endêmicas, enquanto a perda de igarapés, fundamentais para a reprodução de peixes, poderia comprometer mais da metade das espécies aquáticas da região. Era um cenário apocalíptico que lentamente foi se desenhando real.

Os próprios técnicos do IBAMA reconheciam limitações nos estudos de impacto ambiental. Em parecer interno, admitiam que análises não haviam sido concluídas com a profundidade necessária, especialmente em relação às populações indígenas e aos efeitos do crescimento populacional. Havia, segundo o documento, um “grau de incerteza elevado” em aspectos essenciais, como a qualidade da água.

Paralelamente, indicadores já mostravam efeitos indiretos do empreendimento. Dados do Imazon apontavam que Altamira liderava o desmatamento na Amazônia naquele período, um sinal claro da pressão territorial associada à obra.

É bom enfatizar, fazendo um extenso parêntesis, que desde pelo menos 2021, vários estudos científicos e análises de indicadores socioambientais mostram que os municípios da Amazônia (e do Brasil como um todo) que mais desmatam tendem a apresentar piores indicadores de qualidade de vida, desenvolvimento social e renda do que aqueles com menor desmatamento. Pesquisas baseadas no Índice de Progresso Social (IPS) — um indicador internacional que considera aspectos como moradia, acesso à educação, inclusão social e bem-estar — revelam que, na Amazônia Legal, os municípios com maiores áreas de floresta derrubada têm pontuações médias significativamente mais baixas no IPS do que tanto a média do Brasil quanto a média regional. Esse padrão sugere que o modelo de desenvolvimento baseado na remoção da floresta não tem trazido melhorias substanciais nas condições de vida das populações locais e pode estar associado à pobreza, exclusão social e baixo progresso social.

Um exemplo emblemático dessa relação é o caso de Altamira, tema principal desse texto, que por muitos anos foi apontado como um dos municípios brasileiros com maiores áreas desmatadas na Amazônia. A intensa pressão sobre a floresta local, historicamente impulsionada por atividades como pecuária e agricultura de corte e queima, se refletiu em desafios sociais e econômicos persistentes e em indicadores de progresso social abaixo da média nacional, conforme levantamentos do Imazon e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O legado de desmatamento intenso ilustra como a simples remoção de floresta dificilmente se traduz em qualidade de vida mais elevada ou desenvolvimento sustentável para as comunidades amazônicas.

E retorno a Belo Monte. O conjunto desses elementos compunha, já naquele momento, um quadro de alertas consistentes. Ainda assim, a resposta institucional frequentemente se apoiava na promessa de que falhas seriam corrigidas em projetos futuros. Como admitiu o então ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, havia problemas no processo, mas a expectativa era de que “o próximo seria diferente”.

Na Amazônia, essa lógica recorrente — de reconhecer erros apenas depois de consumados — revela uma constante histórica. Decisões estruturais são tomadas sob incerteza, enquanto os custos sociais e ambientais se tornam evidentes apenas no decorrer do tempo. Belo Monte, naquele contexto, já carregava todos os sinais de um projeto cujo impacto ultrapassaria, em muito, as previsões oficiais.

Celso Albertino, do alto de sua experiência ribeirinha, dizia que a água não se segura.

O que se tentou fazer em Belo Monte foi reorganizar o curso do rio dentro de um desenho técnico. O resultado não foi um rio contido, mas um sistema em permanente ajuste, com consequências distribuídas ao longo dos anos.

O Rio Xingu continua correndo.

E sofrendo novas ameaças. De algo que também já havia sido alertado anos atrás. A exploração de ouro, minério detectado quando da construção de Belo Monte.

E voltamos ao mesmo ciclo, já que a tentativa da mineradora canadense Belo Sun Mining Corp. de instalar o projeto Volta Grande, destinado à exploração de ouro na região de Altamira e de Senador José Porfírio, recoloca a Volta Grande do Xingu no centro de uma nova disputa socioambiental. Após idas e vindas judiciais, decisões recentes restabeleceram etapas do licenciamento do empreendimento, permitindo que a empresa avance no processo de instalação da mina. No entanto, a controvérsia está longe de encerrada. O Ministério Público Federal, organizações da sociedade civil e lideranças indígenas seguem questionando a validade dos estudos ambientais apresentados e, sobretudo, a ausência de consulta prévia, livre e informada às populações potencialmente afetadas, algo que, vale repetir, é um direito assegurado pela Convenção 169 da OIT e pela Constituição brasileira.

A proposta da Belo Sun prevê a implantação de uma das maiores minas de ouro a céu aberto do país justamente em uma área já profundamente impactada pela Usina de Belo Monte. A instalação de uma mineração em larga escala, com uso de substâncias químicas como cianeto no processamento do minério, amplia o risco de contaminação da água, do solo e da cadeia alimentar. Para povos que já enfrentam a diminuição da pesca e mudanças no regime do rio, a perspectiva de mais um grande empreendimento representa a sobreposição de impactos em um território fragilizado. O histórico amazônico mostra que a promessa de desenvolvimento raramente se traduz em melhoria estrutural da qualidade de vida da maioria da população local. Insisto nessa tecla, pois como repórter sempre ouvi a frase chantagista ‘ou é isso ou determinado município vai estagnar na miséria eterna’. Sempre foi uma coisa ou outra, no discurso de quem defende sempre os avanços em prol da palavra da moda (progresso, desenvolvimento etc).

A situação em Altamira evidencia, portanto, uma encruzilhada. De um lado, a lógica capitalista de expansão mineral como vetor de crescimento econômico; de outro, a defesa de direitos territoriais, da integridade ecológica e da precaução em uma região já marcada por desequilíbrios produzidos por Belo Monte. A insistência em avançar com um novo megaprojeto na Volta Grande do Xingu, sem que as incertezas acumuladas tenham sido plenamente enfrentadas, reforça a percepção de que a Amazônia continua sendo tratada como fronteira de exploração, e não como território de direitos.

É um filme gasto e repetido. Nas telas outrora verdes hoje cor de terra seca, um bangue-bangue estrelado por John Wayne onde infelizmente os vilões nunca são punidos ao final.

 

Postagem em protesto contra a exploração de ouro pela Belo Sun.


*Ismael Machado é jornalista