A fragmentação da previdência dos servidores públicos: um processo silencioso de desmonte do Estado

Ao examinar a divisão administrativa e previdenciária do funcionalismo federal, Paulo Lindesay revela como décadas de reformas produziram um sistema fragmentado, mais vulnerável à lógica financeira e menos comprometido com a proteção social dos servidores

O texto elaborado por Paulo Lindesay oferece uma leitura detalhada e profundamente crítica sobre as sucessivas mudanças administrativas e previdenciárias impostas aos servidores públicos federais do Poder Executivo Civil nas últimas décadas. Longe de se limitar a uma exposição técnica das normas legais, Lindesay demonstra como reformas constitucionais e alterações infraconstitucionais produziram uma verdadeira fragmentação do funcionalismo público, criando categorias distintas de trabalhadores submetidos a direitos, formas de aposentadoria e perspectivas de futuro bastante diferentes.

O ponto de partida da análise é a distinção entre servidores estáveis excepcionais, servidores não estáveis e servidores efetivos concursados, demonstrando que a própria estrutura administrativa passou a ser organizada de maneira segmentada. Essa diferenciação, segundo o autor, não possui apenas caráter jurídico, mas abre caminho para futuras reestruturações do Estado, inclusive com a extinção de cargos considerados “obsoletos” e a consequente redução do quadro permanente de servidores.

A análise ganha ainda maior relevância quando aborda a evolução das regras previdenciárias. Paulo Lindesay mostra que hoje coexistem pelo menos três grandes grupos de servidores: aqueles que preservam a paridade e a integralidade por terem ingressado antes da Emenda Constitucional nº 41/2003; os que se aposentam pela média das remunerações; e os novos servidores vinculados ao regime de previdência complementar da FUNPRESP, cujo benefício futuro depende diretamente do desempenho do mercado financeiro.

Essa multiplicidade de regimes, argumenta Lindesay, representa uma ruptura do princípio histórico da solidariedade previdenciária. Em vez de um sistema público baseado na repartição e na responsabilidade estatal, avança-se para um modelo híbrido no qual parte significativa da aposentadoria passa a depender da capitalização individual e dos rendimentos das aplicações financeiras. Os números apresentados são reveladores: embora o patrimônio da FUNPRESP ultrapasse R$ 16 bilhões, mais de 85% desses recursos estão aplicados no mercado financeiro, especialmente em títulos da dívida pública, transferindo para os trabalhadores riscos que antes eram assumidos pelo Estado.

Outro aspecto importante do texto é a crítica às mudanças introduzidas pela Emenda Constitucional nº 103/2019. O autor destaca que mesmo servidores que mantiveram formalmente os direitos de paridade e integralidade passaram a sofrer perdas reais em seus rendimentos líquidos em razão das alíquotas progressivas de contribuição previdenciária, da ampliação da base de incidência dessas contribuições e da profunda alteração nas regras das pensões por morte. Na prática, sustenta Lindesay, preservou-se o direito nominal enquanto se reduziu o valor efetivamente recebido pelos aposentados e pensionistas.

Especial atenção é dada aos parágrafos 1-A, 1-B e 1-C do artigo 149 da Constituição Federal, introduzidos pela Reforma da Previdência. Na interpretação do autor, esses dispositivos criam um verdadeiro “cheque em branco”, permitindo a cobrança de contribuições extraordinárias sobre aposentados e pensionistas sempre que houver alegação de déficit atuarial. Trata-se de um mecanismo que amplia significativamente a insegurança jurídica dos servidores e que ainda é objeto de questionamentos perante o Supremo Tribunal Federal.

O texto também analisa os possíveis efeitos do Decreto nº 10.620/2021 e do Projeto de Lei Complementar nº 189/2021, que propõem a centralização da gestão previdenciária do funcionalismo federal. Para Paulo Lindesay, essa centralização não constitui apenas uma mudança administrativa, mas representa um passo adicional no processo de enfraquecimento das carreiras públicas e de redução da autonomia de instituições como IBGE, Fiocruz, INPI e diversas autarquias e fundações federais.

Mais do que um estudo jurídico,  Paulo Lindesay apresenta uma interpretação política das reformas administrativas e previdenciárias implementadas nas últimas décadas. A fragmentação das regras de ingresso, aposentadoria e gestão previdenciária aparece como parte de um processo contínuo de flexibilização dos direitos dos servidores públicos e de aproximação do modelo estatal brasileiro aos mecanismos de mercado.

Independentemente de concordar integralmente com suas conclusões, o texto tem o mérito de organizar um tema extremamente complexo de forma acessível, reunindo dispositivos constitucionais, dados estatísticos e cenários políticos futuros para mostrar que as disputas em torno da previdência dos servidores públicos estão longe de serem apenas questões técnicas. Elas dizem respeito ao próprio modelo de Estado que se pretende construir e ao papel que os serviços públicos desempenharão na garantia dos direitos da população.

Ao final, Paulo Lindesay deixa uma pergunta que ultrapassa os interesses corporativos dos servidores: até que ponto a contínua fragmentação administrativa e previdenciária representa apenas uma reforma do sistema ou, na realidade, um processo gradual de privatização da gestão pública e de enfraquecimento das capacidades estatais? É uma reflexão oportuna e necessária para todos aqueles que compreendem que a defesa dos direitos dos servidores está intimamente ligada à defesa de serviços públicos universais e de qualidade.

El Niño se fortalece enquanto Brasil segue despreparado para enfrentar eventos extremos

NOAA alerta para um El Niño potencialmente muito forte enquanto milhares de municípios brasileiros seguem sem infraestrutura, planejamento e protocolos capazes de enfrentar enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos intensificados pelas mudanças climáticas

Reportagens publicadas pela Folha de S.Paulo nesta sexta-feira, 12 de junho de 2026, assinadas por Clayton Castelani, Jéssica Maes e Philippe Watanabe, traçam um quadro preocupante: ao mesmo tempo em que cresce a probabilidade de um El Niño de grande intensidade, o Brasil continua apresentando baixíssima capacidade de adaptação a enchentes, deslizamentos e demais eventos climáticos extremos.

Segundo a reportagem de Clayton Castelani, aproximadamente 3,6 mil municípios brasileiros apresentam baixa capacidade de adaptação aos efeitos das chuvas intensas. Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que avaliou 5.570 cidades, mostra que apenas uma pequena parcela possui elevada capacidade institucional para enfrentar enchentes e deslizamentos. O levantamento considera fatores como infraestrutura, políticas públicas, recursos financeiros e capacidade administrativa, revelando que grande parte da população permanece altamente vulnerável.

A segunda reportagem, de Jéssica Maes, argumenta que a adaptação climática depende muito menos de obras caras do que de planejamento e organização institucional. Especialistas defendem a criação e atualização permanente de protocolos de emergência, sistemas de alerta, rotas de fuga bem sinalizadas, centros públicos de resfriamento durante ondas de calor e planos de contingência conhecidos pela população. O texto ressalta que essas medidas possuem custo relativamente baixo quando comparadas aos enormes prejuízos econômicos e sociais provocados por desastres climáticos, que já se multiplicam em diversas regiões do país.

Complementando esse diagnóstico, Philippe Watanabe informa que a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou para 84% a probabilidade de desenvolvimento do fenômeno entre setembro e dezembro de 2026. Além disso, existe uma possibilidade significativa de que o evento alcance a categoria de El Niño muito forte entre novembro e janeiro, podendo estabelecer novos recordes históricos de temperatura do oceano Pacífico.

A reportagem destaca que o aquecimento observado na região Niño 3.4 já ultrapassa valores compatíveis com um El Niño moderado e pode superar a marca de 2°C acima da média, patamar característico dos episódios mais intensos já registrados. Caso essa projeção se confirme, os impactos poderão incluir secas severas em algumas regiões do planeta, enchentes em outras, redução da produção agrícola, aumento do risco de incêndios florestais e maior ocorrência de eventos climáticos extremos.

Para o Brasil, as consequências podem variar regionalmente. A Amazônia e parte do Norte tendem a enfrentar redução das chuvas e aumento do risco de queimadas, enquanto o Sul pode registrar precipitações acima da média e enchentes mais frequentes. Ao mesmo tempo, o aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa atua como um fator de amplificação desses fenômenos, tornando os eventos associados ao El Niño ainda mais intensos.

Em conjunto, as três reportagens da Folha de S.Paulo oferecem uma mensagem clara: o problema não é apenas a possibilidade de um El Niño muito forte, mas a enorme distância entre os riscos climáticos conhecidos pela ciência e a capacidade efetiva do Estado brasileiro de proteger sua população. Em um cenário de mudanças climáticas aceleradas, investir em adaptação, planejamento e prevenção deixa de ser uma opção para se tornar uma necessidade urgente de política pública.

Ferramenta identifica revistas suspeitas antes que pesquisadores submetam artigos

A plataforma gratuita, chamada Journal Trends, também poderia permitir que investigadores da integridade identificassem publicações de baixa qualidade

O Journal Trends permite que os usuários acompanhem os artigos publicados por um periódico, por país e ano. Crédito: Michael Szebor/ Nature 

Por Mohana Basu para “Nature”

Decidir onde publicar ficou um pouco mais fácil. Uma ferramenta online que monitora padrões de publicação em periódicos acadêmicos pode alertar pesquisadores sobre periódicos potencialmente problemáticos antes mesmo de submeterem seus trabalhos, afirma o desenvolvedor da ferramenta.

A plataforma, chamada Journal Trends , foi lançada no mês passado por seu desenvolvedor, Achal Agrawal , um cientista de dados e investigador de integridade de pesquisa radicado na Índia.

O número crescente de periódicos torna cada vez mais difícil para os pesquisadores avaliarem quais publicações são confiáveis, afirma René Aquarius, pesquisador de neurocirurgia no Centro Médico da Universidade Radboud em Nijmegen, na Holanda, e especialista em integridade da pesquisa.

Agrawal conta que costumava passar horas examinando manualmente periódicos em busca de sinais de que estavam publicando uma grande quantidade de estudos de baixa qualidade. Um sinal de alerta comum é um aumento repentino no número de artigos publicados por um periódico, principalmente de autores de um único país, afirma Agrawal. Isso sugere que o periódico está priorizando a publicação de muitos artigos sem realizar uma revisão por pares adequada, explica ele. Mas identificar esses padrões exigia uma análise minuciosa dos dados de publicação, periódico por periódico, diz Agrawal, fundador do India Research Watch, um grupo online de pesquisadores e estudantes que denunciam problemas de integridade.

Então ele criou o Journal Trends . A ferramenta permite que os usuários insiram o número de identificação exclusivo de um periódico e obtenham uma análise dos artigos publicados por país e ano, explica ele.

A ferramenta também será útil para investigadores da integridade da pesquisa que tentam determinar se artigos suspeitos refletem problemas sistêmicos mais amplos em um periódico, afirma a Aquarius.

Os dados que sustentam a ferramenta provêm do OpenAlex, um índice de código aberto que cataloga centenas de milhões de documentos científicos, oferecendo uma alternativa a bases de dados comerciais como o Scopus, que pertence à editora holandesa Elsevier.

O Journal Trends também integra dados do Problematic Paper Screener (PPS), uma ferramenta criada por Guillaume Cabanac, cientista da computação da Universidade de Toulouse, na França, e seus colegas, que examina milhões de artigos científicos semanalmente em busca de indicadores de possível má conduta. As ferramentas de Agrawal agora podem gerar visualizações compartilháveis ​​que destacam picos de artigos sinalizados pelo PPS ou tendências de publicação incomuns.

Processo de exclusão da lista lento

Por exemplo, os dados visualizados através do Journal Trends mostram que o International Journal of Advances in Signal and Image Sciences , publicado pela XLE Science na Índia, publicou apenas 19 artigos em 2024. Mas em 2025, as publicações saltaram para 153, com 53% delas incluindo um autor da Índia.

Segundo Agrawal, um aumento repentino no número de publicações não prova, por si só, que uma revista não seja confiável, mas pode indicar que os pesquisadores devem investigar melhor a revista antes de submeter seus trabalhos ou pagar as taxas de processamento de artigos.

A revista foi removida da Scopus em 2025, o que significa que não aparece mais em listas de publicações confiáveis ​​e não é mais contabilizada em determinadas métricas de citação. No entanto, em seu site, a revista continua a anunciar sua indexação na Scopus. Ela cobra até US$ 1.200 para processar artigos e, até 28 de maio, havia publicado 465 artigos neste ano.

A revista não respondeu às perguntas da Nature sobre o aumento repentino de publicações ou por que continua a anunciar sua indexação no Scopus.

Até que uma revista seja excluída do catálogo, pode ser difícil para os pesquisadores determinarem se ela começou a publicar muitos artigos de baixa qualidade, afirma Cabanac. Revistas que atraíram atenção negativa e retrataram um grande número de artigos podem continuar operando sem avisos visíveis em seus sites, acrescenta ele.

Mesmo quando pesquisadores ou investigadores de integridade levantam preocupações sobre periódicos suspeitos, as investigações resultantes podem levar meses, afirma Agrawal. Algumas bases de dados comerciais não divulgam publicamente quando estão investigando um periódico, acrescenta ele. Durante esse período, os pesquisadores podem continuar submetendo artigos e pagando taxas de processamento, apenas para descobrir mais tarde que seus artigos não estão mais indexados nas principais bases de dados.

É aí que o Journal Trends pode ajudar, diz Agrawal, embora ele reconheça que a plataforma não pode identificar definitivamente os periódicos problemáticos.

Agrawal também lançou outro site chamado Author Trends. Ele extrai informações de bancos de dados públicos para criar tendências de publicação para pesquisadores individuais. Essas tendências incluem publicações, citações, artigos sinalizados pelo PPS e retratações. Agrawal afirma que a ferramenta poderia ser usada por agências de fomento e universidades para verificar os pesquisadores que estão sendo considerados para financiamento ou vagas de emprego.

doi: https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.1038/d41586-026-01707-1


Fonte: Nature

Manguezais renascem e mostram que a natureza ainda resiste à destruição humana

Recuperação de florestas costeiras revela o enorme potencial de regeneração dos ecossistemas, mas também evidencia que sua sobrevivência depende de proteção permanente, políticas públicas e da contenção dos interesses econômicos que continuam ameaçando o litoral

Em um momento em que as notícias sobre a degradação ambiental parecem se suceder em ritmo acelerado, a recuperação de áreas de manguezais em diferentes regiões do planeta surge como um raro e importante sinal de esperança. Conforme mostra reportagem da BBC, ecossistemas que durante décadas foram destruídos pela expansão urbana, pela aquicultura intensiva, pela construção de portos e pela poluição começam a apresentar sinais concretos de regeneração quando recebem proteção adequada e esforços consistentes de restauração.

Essa recuperação vai muito além da volta das árvores. Os manguezais constituem alguns dos ecossistemas mais produtivos do planeta, funcionando como verdadeiros berçários para peixes, crustáceos e inúmeras espécies de aves. Além disso, desempenham um papel estratégico na proteção das zonas costeiras contra tempestades, reduzem processos erosivos e armazenam enormes quantidades de carbono em seus solos alagados, sendo considerados uma das mais eficientes soluções naturais para o enfrentamento das mudanças climáticas.

O aspecto mais interessante da recuperação observada é que ela demonstra a extraordinária capacidade de resiliência desses ecossistemas. Quando as pressões humanas diminuem, os processos ecológicos voltam a operar: sementes são dispersas pelas marés, a fauna retorna e a vegetação recompõe gradualmente a estrutura do ambiente. Em outras palavras, a natureza ainda possui uma impressionante capacidade de cura.

Entretanto, seria um erro interpretar essas histórias de sucesso como sinal de que a crise ambiental está sendo superada. A regeneração dos manguezais dependeu de políticas públicas, fiscalização ambiental, envolvimento das comunidades locais e investimentos contínuos em restauração ecológica. Onde continuam predominando interesses imobiliários, grandes obras de infraestrutura ou modelos predatórios de exploração costeira, os manguezais seguem desaparecendo em ritmo preocupante.

No Brasil, essa discussão é particularmente relevante. O país abriga uma das maiores extensões contínuas de manguezais do mundo, ecossistemas fundamentais para a pesca artesanal, para a segurança alimentar de milhares de famílias e para a manutenção da biodiversidade costeira. Ainda assim, esses ambientes permanecem sob intensa pressão de projetos portuários, expansão urbana, turismo desordenado e atividades industriais que frequentemente recebem licenciamento ambiental flexibilizado.

A recuperação relatada pela BBC deveria servir como inspiração, mas também como alerta. Os manguezais conseguem se regenerar, porém esse processo leva anos ou décadas e depende da manutenção das condições naturais que permitam sua sobrevivência. Destruir um manguezal continua sendo muito mais rápido e barato do que restaurá-lo.

Em um contexto de aceleração das mudanças climáticas e de aumento do nível do mar, proteger os manguezais não é apenas uma questão de conservação da natureza. Trata-se de uma estratégia de adaptação climática, de proteção das comunidades costeiras e de preservação de modos de vida tradicionais que dependem diretamente da saúde desses ecossistemas.

Os manguezais estão demonstrando que a recuperação é possível. Resta saber se a sociedade será capaz de aprender essa lição antes que a destruição avance mais rapidamente do que a capacidade de regeneração da própria natureza.

El Niño está se formando no Pacífico e, segundo especialistas, provavelmente intensificará os eventos climáticos extremos

Meteorologistas preveem que será o ciclo mais forte do século, enquanto o secretário-geral da ONU a classifica como um “alerta climático urgente” 

Um bombeiro carrega uma mangueira ao longo de uma estrada enquanto um incêndio se alastra ao fundo.

Um bombeiro monitora as chamas causadas pelo incêndio Hughes em Castaic, Califórnia, em 22 de janeiro de 2025. Fotografia: Jae C Hong/AP

Por Dani Anguiano para “The Guardian”

O El Niño , fenômeno climático que intensifica as condições meteorológicas em todo o mundo, chegou oficialmente e poderá atingir níveis históricos no outono, disseram autoridades americanas na quinta-feira.

Os meteorologistas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) confirmaram a formação do El Niño no Oceano Pacífico, próximo ao equador, que está mais quente que o normal e afeta os padrões climáticos globais.

Cientistas já haviam alertado que o El Niño deste ano poderia ser o mais forte do século. António Guterres, secretário-geral da ONU, descreveu o El Niño como um “alerta climático urgente”.

Segundo a NOAA, havia 63% de probabilidade de o El Niño se intensificar tanto no final do outono e início do inverno que “estaria entre os maiores eventos El Niño já registrados historicamente, desde 1950”.

Nos Estados Unidos, o El Niño tem sido associado a tempestades mais intensas no sul, aumento do risco de inundações por maré alta, proliferação de algas na costa oeste e alterações nos padrões migratórios da vida marinha. Mas essas condições afetam o clima em todo o mundo, alterando as correntes de jato e modificando os padrões de chuva, o que pode levar a tempestades mais severas, aumento das temperaturas e secas.

“Cada El Niño é diferente; cada um é único, com sua própria marca em nosso clima”, disse Ken Graham, diretor do Serviço Nacional de Meteorologia (NWS) da NOAA, em um comunicado. “O monitoramento avançado e uma melhor compreensão dos padrões do El Niño permitem que o NWS preveja melhor e prepare melhor o público e nossos principais parceiros para o que está por vir.”

Isso afeta os padrões climáticos ao trazer “muito calor extra para a superfície, alimentando muitos eventos extremos em muitos lugares ao redor do mundo”, disse Abby Frazier, cientista climática da Universidade Clark.

Ela disse que “a situação pode ficar crítica muito rapidamente”, especialmente no Pacífico.

Os efeitos variam conforme a região. O El Niño geralmente atenua – mas não elimina – a atividade da temporada de furacões no Atlântico, porém a intensifica no Pacífico. Assim, enquanto as costas leste e do Golfo dos EUA podem ter um alívio, o Havaí e outras ilhas correm maior risco, disse Frazier. Normalmente, o fenômeno resulta em invernos mais chuvosos na Califórnia.

O Oriente Médio, assolado pela seca, poderá se beneficiar, disseram cientistas climáticos. Outras regiões, porém, enfrentam maiores riscos. Partes do oeste da América do Sul – onde os primeiros fenômenos El Niño foram observados décadas atrás – frequentemente sofrem com chuvas torrenciais e inundações, além de verões excepcionalmente quentes. A Índia enfrenta ondas de calor mais intensas, enquanto a seca, os incêndios florestais e o calor ameaçam a Austrália.

O nordeste da África provavelmente sofrerá com mudanças climáticas bruscas, passando de secas intensas a chuvas perigosamente fortes, disse Muhammad Azhar Ehsan, cientista climático da Universidade de Columbia e especialista em El Niño.

O fenômeno El Niño pode beneficiar a indústria agrícola dos EUA, afirmou Jon Gottschalck, chefe da divisão operacional do Centro de Previsão Climática da NOAA.

Michael Ferrari, meteorologista e chefe de pesquisa da empresa de pesquisa de investimentos Moby, disse que as condições para grãos e sementes, especialmente soja, parecem favoráveis ​​em 18 dos principais estados produtores, mas são mais incertas quando se trata de laticínios e gado.

Mas especialistas alertam que as condições podem levar a um choque no abastecimento global de alimentos, com culturas como milho e arroz especialmente vulneráveis ​​ao El Niño e à seca, reduzindo a produção de alimentos na África do Sul, Índia, Indonésia, Vietnã e Brasil.

As Montanhas Rochosas do norte e o sudoeste – onde há uma seca de neve “fora de controle” – podem receber fortes chuvas de verão, disse Gottschalck. O maior impacto nos EUA costuma ocorrer no inverno, quando o sul fica mais úmido e o noroeste do Pacífico mais quente e seco.

Mas, no geral, o aumento das temperaturas causado por esse padrão climático pode prejudicar o crescimento econômico americano, afirmou Marshall Burke, economista climático de Stanford. Diversos cientistas climáticos preveem que 2027 será o ano mais quente já registrado devido aos efeitos tardios do El Niño, que deve atingir seu pico no outono ou inverno.

“Temos evidências bastante claras de que a economia dos EUA cresce mais lentamente quando as temperaturas estão acima do normal”, disse Burke.

Os eventos climáticos extremos causados ​​pelo El Niño também dependem de quando ele se desenvolve.

Normalmente, os fenômenos El Niño se formam no verão, atingem o pico no final do outono ou início do inverno e desaparecem na primavera seguinte, disseram os cientistas.

No entanto, a equipe de Ehsan prevê que este El Niño atingirá seu pico um ou dois meses antes, com base em fortes indícios das últimas semanas. O cientista climático da Universidade de Princeton, Gabriel Vecchi, afirmou que grandes El Niños como este também tendem a durar mais tempo.

Os primeiros indícios – incluindo o aquecimento das águas na superfície do Pacífico – têm sido tão fortes e perceptíveis que todos os meteorologistas têm previsto o mesmo El Niño extremamente forte, disse Vecchi, acrescentando que as previsões do El Niño costumam ser muito inconsistentes nesta época do ano.

Cientistas preveem El Niños mais intensos à medida que o mundo aquece devido à queima de carvão, petróleo e gás, disseram Frazier e outros. Mas ela afirmou ser muito cedo para dizer se este El Niño faz parte disso.

Mesmo antes de se formar oficialmente, este El Niño já havia recebido apelidos que variam de “super” a “Godzilla”.

“Em vez de termos medo, podemos pedir às pessoas que estejam preparadas”, disse Ehsan, da Universidade Columbia.

O Met Office, o serviço meteorológico nacional do Reino Unido, afirmou que no Reino Unido isso poderia “aumentar a probabilidade de condições climáticas mais instáveis ​​no final do ano, incluindo uma maior chance de clima mais ameno, úmido e ventoso durante o outono e o início do inverno”.

A Associated Press contribuiu com reportagens.


Fonte: The Guardian

Do Texas ao Brasil: o Parkinson revela o custo oculto da agricultura química

O avanço da doença no coração agrícola norte-americano expõe uma geografia global da injustiça ambiental e o colonialismo químico que continua envenenando trabalhadores e comunidades rurais

O excelente artigo da jornalista Daisy Yuhas, publicado pelo EL PAÍS América, expõe uma realidade que há décadas vem sendo denunciada por pesquisadores da saúde ambiental: a agricultura baseada no uso intensivo de agrotóxicos produz alimentos, mas também produz doenças. O que ocorre no Vale do Rio Grande, no Texas, está longe de ser um problema regional. Trata-se de um retrato inquietante do modelo agrícola intensivo que domina grande parte do planeta, uma paisagem de alta produtividade construída à custa da exposição permanente de trabalhadores e comunidades rurais a substâncias químicas capazes de comprometer sua saúde por toda a vida.

No centro da reportagem está o crescimento do número de casos de doença de Parkinson em uma das regiões agrícolas mais importantes dos Estados Unidos. Médicos e pesquisadores passaram a identificar uma concentração incomum de pacientes e, a partir dessa constatação, investigações científicas começaram a relacionar esse fenômeno à exposição crônica a herbicidas e outros produtos químicos utilizados nas lavouras.

Entre eles está o paraquat, considerado um dos herbicidas mais tóxicos já comercializados no mundo. Diversos estudos epidemiológicos vêm associando sua exposição ao aumento do risco de desenvolvimento da doença de Parkinson e de outras alterações neurológicas graves. Embora dezenas de países tenham proibido sua utilização e a Anvisa tenha determinado seu banimento no Brasil em 2020, a substância continua cercada de intensa disputa política e econômica. Setores do agronegócio e da indústria química resistiram durante anos à sua retirada do mercado e seguem pressionando por flexibilizações regulatórias sempre que surgem oportunidades políticas para isso.

A contradição torna-se ainda mais evidente quando se observa que, apesar da proibição do uso interno, o Brasil continua produzindo paraquat para exportação. Ou seja, reconhece oficialmente que o herbicida oferece riscos inaceitáveis para sua população, mas mantém uma cadeia industrial dedicada a fabricar e comercializar esse mesmo produto para outros países. A lógica é simples e perversa: aquilo que é considerado perigoso demais para os brasileiros continua sendo uma mercadoria perfeitamente aceitável quando os riscos recaem sobre trabalhadores e comunidades estrangeiras.

Esse aspecto talvez seja o mais importante da discussão. A exposição aos agrotóxicos não é apenas um problema ocupacional, restrito àqueles que manipulam diretamente os produtos. Trata-se de um problema territorial e de saúde pública. A deriva dos produtos químicos rompe os limites das propriedades rurais e transforma comunidades inteiras em populações expostas, ampliando desigualdades ambientais e sanitárias e distribuindo os riscos de forma profundamente injusta.

Sob essa perspectiva, o avanço do Parkinson no Vale do Rio Grande deve ser compreendido como parte de uma verdadeira geografia da injustiça ambiental. Os benefícios econômicos da agricultura intensiva concentram-se nas grandes corporações do agronegócio e da indústria química, enquanto os custos são espalhados pelo território, recaindo sobre trabalhadores rurais, moradores de pequenas comunidades, crianças que frequentam escolas próximas às lavouras e sistemas públicos de saúde que terão de arcar com tratamentos de longa duração.

Essa dinâmica dialoga diretamente com o conceito de “colonialismo químico”, desenvolvido pela geógrafa brasileira Larissa Bombardi. Segundo essa perspectiva, existe uma divisão internacional dos riscos ambientais em que países e populações periféricas são transformados em mercados consumidores ou produtores de substâncias proibidas ou severamente restringidas nos países centrais. Empresas multinacionais e cadeias globais do agronegócio deslocam para territórios considerados mais vulneráveis os impactos sanitários e ambientais de produtos que suas próprias sociedades já não aceitam utilizar.

O caso brasileiro ilustra perfeitamente esse mecanismo. O país permanece entre os maiores consumidores mundiais de agrotóxicos e continua autorizando diversos princípios ativos proibidos na União Europeia. Ao mesmo tempo, mantém a produção de paraquat para exportação, reproduzindo uma lógica em que os lucros permanecem privados enquanto os riscos são internacionalizados e socializados entre populações com menor capacidade de influenciar decisões regulatórias.

O mérito da reportagem do EL PAÍS está justamente em humanizar aquilo que frequentemente aparece apenas como estatística. Histórias como as do ex-professor Leo Ramírez e da ex-enfermeira Esmeralda Garza mostram como uma doença neurodegenerativa pode transformar radicalmente a vida de pessoas que jamais imaginaram estar sujeitas a esse risco simplesmente por viverem próximas às áreas cultivadas.

O caso texano também evidencia uma contradição recorrente nas políticas agrícolas contemporâneas. Enquanto a ciência acumula evidências sobre os efeitos dos agrotóxicos, a regulação continua lenta e frequentemente submetida à influência econômica do agronegócio e da indústria química. Milhares de ações judiciais já foram movidas contra fabricantes do paraquat, e restrições vêm sendo adotadas em diferentes países, mas a proteção da saúde pública continua chegando muito depois da exposição das populações.

Para o Brasil, essa discussão é particularmente urgente. O país permanece entre os maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, convive com a pulverização aérea, com a proximidade entre grandes lavouras e escolas, territórios indígenas, quilombolas e comunidades rurais, além de um sistema de fiscalização frequentemente incapaz de impedir episódios recorrentes de contaminação.

Esperar que décadas de exposição produzam uma epidemia de doenças neurodegenerativas para somente então rever políticas públicas representa uma completa inversão do princípio da precaução. As evidências científicas já são suficientemente robustas para justificar medidas preventivas mais rigorosas.

Nesse sentido, o Vale do Rio Grande não é uma exceção. É apenas um espelho que reflete os riscos de um modelo agrícola cuja dependência química continua sendo apresentada como sinônimo de modernidade e eficiência, quando, na realidade, reproduz uma economia que privatiza os lucros, socializa os danos ambientais e distribui doenças segundo a posição que cada território ocupa na divisão internacional do trabalho. O avanço do Parkinson no coração agrícola do Texas é um alerta contundente de que o verdadeiro custo dos alimentos produzidos sob esse modelo está sendo pago, silenciosamente, pela saúde das populações expostas — no Texas, no Brasil e em todas as regiões transformadas em zonas de sacrifício pela expansão da agricultura química.

Agência europeia classifica TFA como altamente perigosa para saúde humana

POR PAN EUROPE

A Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA) classificou oficialmente o ácido trifluoroacético (TFA) como tóxico para a reprodução (Categoria 1B), concluindo que “pode prejudicar o bebê ainda não nascido” e é “suspeito de prejudicar a fertilidade” [1]. A PAN Europa insta as autoridades europeias a agirem imediatamente e banir todos os agrotóxicos que contenham PFAS (i.e., Substâncias Per e Polifluoroalquiladas) que liberem TFA no meio ambiente. 

O TFA é um PFAS persistente – um ‘químico eterno’ – e o contaminante mais difundido nos recursos hídricos, alimentos e meio ambiente da Europa. Também é um produto direto de decomposição de quase todos os agrotóxicos PFAS. A conclusão da ECHA sobre a toxicidade da TFA confirma o que cientistas e a sociedade civil alertaram nos últimos dois anos: a TFA é uma ameaça de fronteira planetária e ações vinculativas para reduzir as emissões são urgentes [2].

A decisão anunciada confirma o que venhamos alertando desde 2023: a TFA não é um metabólito inofensivo de PFAS. Pode ser tóxico para os humanos e o dano é maior durante os períodos mais vulneráveis da vida — gravidez e primeira infância”, disse a Dra. Angeliki Lysimachou, chefe de Ciência e Políticas da PAN Europe

A classificação segue uma avaliação científica abrangente apresentada na 77ª reunião do Comitê de Avaliação de Riscos (RAC) da ECHA na semana passada, sobre a proposta de classificação de perigo da TFA [3]. As conclusões do RAC baseiam-se em evidências que mostram danos ao desenvolvimento em filhotes de animais de laboratório após exposição pré-natal a TFA: malformações oculares e esqueléticas em coelhos; efeitos do sistema imunológico e da tireoide em ratos; Indicações de efeitos na qualidade do esperma. O RAC também classificou a TFA como móvel, persistente e tóxica, um perigo sério para o meio ambiente.

A PAN Europe participou das discussões do RAC como observadora e elogia os especialistas por sua avaliação rigorosa.

Aplaudimos o comitê RAC por sua avaliação rigorosa, objetiva e independente. As evidências foram cuidadosamente examinadas e a justificativa científica foi do mais alto padrão, como deveria ser em um comitê tão importante”, disse o Dr. Peter Clausing, toxicologista sênior da PAN Alemanha, que participou das discussões do RAC junto com a PAN Europe.

O resultado valida o próprio trabalho científico da PAN Europe, que analisou os mesmos estudos com animais e chegou a conclusões semelhantes. Em seu relatório Manufacturing Doubt, a PAN Europe critica como a indústria minimizou sistematicamente essas descobertas [4]. A rejeição do RAC à posição da indústria é muito bem-vinda.

A PAN Europe e sua rede documentaram repetidamente a ampla contaminação por TFA em toda a Europa, ligada ao uso de agrotóxicos PFAS, detectando a substância em rios, águas subterrâneas, água potável, águas minerais, vinhos e produtos alimentícios, com concentrações continuando a aumentar [5].

Atualmente, a EFSA está avaliando um valor de orientação baseado em saúde para níveis seguros de exposição à TFA – um processo que a rede da PAN Europe criticou por ser insuficientemente protetor [6]. Mas nenhum limiar seguro pode substituir a parada da contaminação na fonte: nas taxas atuais de aumento, a exposição atingirá níveis prejudiciais independentemente de onde o limite esteja definido.

A classificação tem implicações regulatórias diretas. Segundo a legislação da UE sobre pesticidas, substâncias que contaminam as águas subterrâneas com metabólitos de preocupação toxicológica não podem permanecer autorizadas nem ser reaprovadas.

A toxicidade do TFA agora está além de qualquer dúvida. Cada ano de atraso significa mais poluição que as futuras gerações terão que suportar. A lei dos agrotóxicos é clara: os formuladores de políticas em nível da UE e dos Estados-Membros agora são legalmente obrigados a proibir todos os agrotóxicos PFAS e substâncias emissoras de TFA – sem demora”, disse Salomé Roynel, Oficial de Políticas da PAN Europa.


Fonte: Pan Europe

Roda de Conversa promovida pela ADUENF debate salário, previdência e dívida do estado

RODA DE CONVERSA PROMOVIDA PELA ADUENF DEBATE SALÁRIO, PREVIDÊNCIA E DÍVIDA DO ESTADO

Por ASCOM/ADUENF

Dois temas de interesse dos docentes da UENF e dos trabalhadores em geral foram debatidos na roda de conversa “Salário, previdência e dívida do estado do Rio de Janeiro”, promovida pela ADUENF na última terça-feira (02/06) no auditório do CCH. Participaram o coordenador do Núcleo Rio de Janeiro da Auditoria Cidadã da Dívida, Paulo Lindesay, e a assessora jurídica da ADUENF, Veronica Triani. Pela importância da participação dos docentes neste debate, houve paralisação na universidade nesse dia.

RODA DE CONVERSA PROMOVIDA PELA ADUENF DEBATE SALÁRIO, PREVIDÊNCIA E DÍVIDA DO ESTADO

Lindesay baseou-se numa análise crítica feita por ele sobre o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (PROPAG), instituído pela Lei Complementar nº 212/2025. A íntegra da análise pode ser acessada no link abaixo.

Análise Crítica e Impactos Fiscais, Patrimoniais e Sociais do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (PROPAG)

Assista à integra da roda de conversa no canal da ADUENF no YouTube, acessando o link abaixo.

Embora o governo federal apresente o PROPAG como solução para a crise fiscal dos estados, Lindesay alerta que seus efeitos podem representar uma forte limitação à autonomia administrativa, financeira e patrimonial do Rio de Janeiro. Sua principal crítica é que o programa aceita integralmente os valores cobrados pela União sem auditoria prévia sobre contratos, juros acumulados ou práticas como a cobrança de juros sobre juros, consolidando uma dívida cuja legitimidade nunca foi investigada.

Dados apresentados pela Auditoria Cidadã da Dívida indicam que a dívida consolidada do estado com a União chega a cerca de R$ 205,4 bilhões. Embora o Rio tenha refinanciado aproximadamente R$ 15,2 bilhões em 1999 e pago mais de R$ 31,8 bilhões desde então, o saldo devedor continua crescendo, superando R$ 108 bilhões apenas no contrato original. “A situação do estado do Rio de Janeiro vem de vários governos, de um projeto histórico neoliberal que vem sendo construído até chegarmos à situação de hoje e ao PROPAG”, analisou Paulo Lindesay.

Outro ponto de preocupação é a possibilidade de antecipação de receitas futuras dos royalties do petróleo para amortização da dívida. Lindesay argumenta que essa medida compromete recursos que poderiam ser destinados a áreas como educação, saúde, infraestrutura e transição energética. O mesmo ocorre com os recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR), que poderão ser comprometidos por décadas para obtenção de melhores condições de refinanciamento.

O programa também estabelece um novo teto de gastos para os estados, limitando o crescimento das despesas à inflação. Mesmo com aumento da arrecadação, parte dos recursos ficará vinculada aos compromissos do programa. Na avaliação da Auditoria Cidadã da Dívida, isso reduz a capacidade de ampliar investimentos públicos e valorizar os servidores.

Os impactos sobre o funcionalismo seriam significativos. Na roda de conversa, Paulo destacou que os recursos economizados com a redução dos juros não poderão ser utilizados para contratação de pessoal ou reajustes salariais. Ao contrário: ampliará a sobrecarga de trabalho, a terceirização e as dificuldades de funcionamento dos serviços públicos. Na educação, por exemplo, seria possível construir escolas e adquirir equipamentos, mas não contratar profissionais.

Diante desse cenário, a Auditoria Cidadã da Dívida defende a realização de uma auditoria completa da dívida fluminense, com participação popular, além da revisão dos mecanismos de cálculo e da rejeição das restrições que limitam investimentos em pessoal e serviços essenciais.

Assessora jurídica da ADUENF, a advogada Veronica Triani apresentou um histórico da previdência no Brasil, destacando seus pilares garantidos pela Constituição (solidariedade, contributividade e capitalização). Também destacou as sucessivas reformas ocorridas no país nas últimas décadas, que aumentaram a idade e o tempo de contribuição para aposentadoria e, no caso de servidores que ingressaram no sistema previdenciário a partir de 2021, limitaram a aposentadoria a 60% do salário de contribuição – o que acarretará perdas aos futuros aposentados e pensionistas.

No caso do estado do Rio de Janeiro, Veronica citou os ataques praticados pelo Governo do Estado contra o Rioprevidência, como o recente aporte de R$ 3,7 bilhões no Banco Master. Citou, ainda, a insegurança que paira sobre o futuro do Regime de Previdência Complementar (RJPrev), cuja adesão é facultativa.

Através de tabelas, a assessora jurídica apresentou as bases de cálculo vigentes para que o trabalhador se aposente. No caso específico dos docentes da UENF, chamou a atenção para o fato de professor titular e professor associado serem cargos diferentes, o que afeta as regras para aposentadoria. “Se um professor associado fizer concurso para professor titular, precisará trabalhar pelo menos mais cinco anos para ter direito às regras de transição”, observou.

Veronica defendeu a criação de um fundo de proteção para que os servidores estaduais não fiquem à mercê de aventuras e, ao final de sua carreira, tenham a garantia de receber pelo que contribuíram durante sua vida laboral.

Para o presidente da ADUENF, professor Ricardo Nóbrega, previdência e dívida do estado são dois temas de interesse imediato da categoria docente. “Este é um debate importante para situar nossos direitos no quadro mais amplo, que é o da administração do estado, destacou Ricardo, observando que é compromisso da associação promover debater informativos para conscientizar e alertar os servidores.


FONTE: ADUENF

Grilagem S.A.: como a privatização ilegal de terras públicas alimenta a destruição da Amazônia

Artigo publicado na revista Environmental Science & Policy mostra que a grilagem funciona como uma engrenagem organizada que conecta especulação fundiária, desmatamento, violência e captura do Estado, transformando a floresta em ativo financeiro

O artigo “Forms of land grabbing in the Amazon: From land deals to illegal land appropriation, assinado por Rayane Pacheco, Natalia Valdivieso Kastner e Amy Penfield e publicado na revista Environmental Science & Policy (Elsevier, 2026), oferece uma das sínteses mais abrangentes já produzidas sobre um dos principais motores da devastação amazônica: a apropriação privada de terras públicas,  popularmente conhecida  como grilagem.

Mais do que uma revisão bibliográfica, o trabalho demonstra que a disputa pela terra na Amazônia não pode ser reduzida à simples expansão da fronteira agrícola ou a conflitos fundiários isolados. Trata-se de um sistema complexo de acumulação de riqueza baseado na privatização ilegal de bens públicos, na expulsão de populações tradicionais e na transformação da floresta em ativo financeiro.

Um dos maiores méritos do artigo é mostrar que o conceito de land grabbing (“apropriação de terras”) precisa ser ampliado para abarcar diferentes modalidades de controle territorial. As autoras identificam duas grandes categorias: os land deals, que envolvem grandes aquisições ou concessões de terras por governos e corporações, e os land seizures ou encroachments, que correspondem à ocupação e apropriação ilegal de terras públicas ou privadas por grupos privados.

Essa distinção é particularmente importante para compreender a realidade brasileira. Enquanto boa parte da literatura internacional associa o land grabbing à compra de grandes extensões por investidores estrangeiros, na Amazônia o fenômeno assume predominantemente a forma da grilagem de terras públicas, realizada por agentes nacionais ligados ao agronegócio, à mineração, à exploração madeireira e à especulação fundiária.

Os dados reunidos pelas autoras são eloquentes. A revisão analisou 219 publicações produzidas entre 1982 e 2026 e constatou que 83% dos estudos concentram-se no Brasil. Entre eles, 44,5% tratam especificamente da apropriação ou ocupação ilegal de terras, sendo a forma mais recorrente a privatização de áreas públicas por atores privados.

O artigo desmonta ainda um dos mitos mais difundidos sobre a ocupação da Amazônia: o de que a destruição da floresta seria resultado da ação espontânea de pequenos agricultores ou posseiros. Pelo contrário, as autoras mostram que a grilagem moderna funciona como uma verdadeira cadeia empresarial.

Existe uma divisão organizada de funções. Há financiadores que aportam capital, gestores responsáveis pela falsificação documental e pela coordenação das operações, pistoleiros encarregados da expulsão violenta de moradores e comunidades tradicionais, “laranjas” utilizados para registrar propriedades fictícias e colaboradores instalados dentro do próprio aparelho estatal, incluindo cartórios, órgãos públicos e agentes políticos.

Essa descrição aproxima-se muito do conceito de máfia da terra, utilizado por diversos pesquisadores brasileiros e estrangeiros e citado pelas autoras. Não se trata de criminalidade difusa, mas de uma estrutura organizada que conecta interesses econômicos, violência privada e fragilidades institucionais.

Outro aspecto extremamente relevante é a descrição da sequência operacional da grilagem.  Primeiro ocorre a ocupação da área pública. Em seguida vem a extração seletiva de madeira de alto valor comercial. Depois realiza-se a derrubada e a queima da floresta, convertendo-a em pastagem. A presença de gado, por sua vez, funciona como demonstração de “uso produtivo” da terra, aumentando seu valor de mercado e fortalecendo futuras reivindicações de regularização fundiária. Finalmente, a área é registrada, subdividida e revendida para grandes empreendimentos agropecuários ou investidores.  Essa sequência revela uma constatação incômoda: o desmatamento não é um efeito colateral da ocupação territorial; ele é parte integrante da estratégia de apropriação da terra.

Nesse sentido, o artigo dialoga diretamente com uma vasta literatura brasileira que identifica a especulação fundiária como um dos principais motores da devastação amazônica. Derrubar a floresta significa produzir uma “benfeitoria” que valoriza economicamente o imóvel e aumenta suas chances de futura regularização.

As autoras também oferecem uma análise particularmente interessante sobre o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Criado originalmente como instrumento de monitoramento ambiental, o sistema passou a ser utilizado por grileiros como uma espécie de comprovação informal de posse.

Por ser um cadastro autodeclaratório, o CAR permite que ocupantes ilegais registrem áreas públicas em seu nome, criando uma aparência de legalidade que posteriormente pode servir como argumento para obtenção de títulos definitivos ou acesso a crédito rural. O resultado é um paradoxo institucional: um mecanismo concebido para proteger a floresta acaba sendo apropriado como ferramenta de expansão da grilagem.

O texto também destaca como mudanças legislativas, anistias sucessivas e discursos políticos favoráveis à flexibilização ambiental contribuem para alimentar expectativas de impunidade. Quando invasões passadas são posteriormente regularizadas, cria-se um incentivo permanente para novas ocupações ilegais.

Talvez a principal contribuição do artigo seja demonstrar que a grilagem não pode ser interpretada apenas como um problema fundiário ou ambiental. Ela representa um mecanismo de acumulação de capital baseado na privatização de patrimônio público, articulando especulação imobiliária, expansão do agronegócio, exploração madeireira, mineração, lavagem de dinheiro e violência contra povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores.

As recomendações apresentadas pelas autoras são claras: destinar imediatamente as florestas públicas ainda não designadas para unidades de conservação ou territórios indígenas; fortalecer os sistemas de regularização fundiária sem premiar ocupações ilegais; integrar cadastros ambientais e registros de propriedade; interromper sucessivas mudanças legais que enfraquecem a proteção territorial; e investigar os esquemas financeiros que sustentam a grilagem e a lavagem de dinheiro.

O trabalho de Pacheco, Kastner e Penfield é particularmente oportuno porque evidencia que a Amazônia continua sendo tratada como uma fronteira aberta para a acumulação privada, onde o patrimônio coletivo é convertido em riqueza particular por meio da violência, da fraude documental e da captura das instituições públicas.

No fim das contas, a grilagem não é apenas uma disputa pela terra. É uma disputa pelo futuro da Amazônia. Enquanto a apropriação privada de terras públicas permanecer sendo um negócio altamente lucrativo e politicamente tolerado, o avanço do desmatamento continuará sendo menos um problema ambiental do que uma consequência previsível de um modelo de desenvolvimento baseado na mercantilização da floresta e na expulsão daqueles que historicamente a preservaram.

Inteligência Artificial: a nova corrida do ouro que pode nos deixar sem água

Enquanto grandes corporações acumulam fortunas com a expansão acelerada da IA, pouco se discute sobre seus custos ambientais, a substituição do trabalho humano e a crescente captura do próprio fazer científico

O uso disseminado da chamada Inteligência Artificial (IA) é a principal transformação que vem ocorrendo no mundo científico, afetando, por assim dizer, o conjunto da obra. Não se trata mais de usar a IA para realizar correções linguísticas pontuais, mas até mesmo para escrever textos inteiros, incluindo o desenvolvimento de hipóteses e questões de pesquisa.

Os defensores da IA veem esse processo de captura do fazer científico como uma espécie de chegada de uma nova pedra filosofal, pois haveria um ganho não apenas de tempo, mas também na complexidade dos desafios que se poderiam enfrentar na realização da empreitada científica. É como se, do nada, estivéssemos entrando em uma nova idade de ouro da ciência.

A questão que esses apologistas da IA não fazem, nem querem que se faça, é a seguinte: quem ganha — e aí eu digo economicamente — com toda essa aceleração? Claramente, as grandes corporações econômicas que hoje monopolizam a produção dos algoritmos que impulsionam as diferentes ferramentas que cabem sob a sombrinha da IA. São essas corporações que estão especulando com a IA e, por enquanto, amealhando grandes fortunas com a sensação de que temos ganhos produtivos decorrentes dessa corrida.

Por outro lado, quem perde e o que se perde? Os perdedores são, essencialmente, os trabalhadores que estão vendo suas oportunidades de trabalho serem diminuídas pelo uso da IA. Mas pouco se fala sobre os custos ambientais trazidos pelo boom da IA, a começar pelo consumo exagerado de água, em um momento em que as reservas planetárias já estão se escasseando, inclusive no Brasil.

Como em qualquer onda gerada pela máquina capitalista, existe uma certa euforia em torno da IA. E é justamente por isso que precisamos ter um olhar crítico, e não um de mero deslumbre, sobre as ferramentas de IA. Ainda que não se possam ignorar os ganhos pontuais que se obtêm com a IA, o que não se pode esquecer é que o desenvolvimento intelectual humano ainda possui grande potencial de crescimento, e não há sequer necessidade de uma substituição sistemática da capacidade crítica que os seres humanos possuem.

Por isso, como em muitas outras situações atravessadas pela hegemonia capitalista, esse boom da IA precisa ser compreendido pelo que é e pelos custos que carrega. Do contrário, daqui a pouco não teremos água nem para o cafezinho, enquanto os donos das corporações de IA se afogam em suas fortunas.

Por outro lado, a inteligência humana sempre avançou porque aprendeu a construir ferramentas. O problema nunca foram as ferramentas, mas quem as controla, quem se apropria de seus benefícios e quem é obrigado a suportar seus custos socioambientais. A IA pode ampliar a capacidade humana de produzir conhecimento ou acelerar sua captura pelo capital. A diferença entre um caminho e outro não será decidida pelos algoritmos, mas pela  luta política e pelas decisões que sejam tomadas em sociedade.