A carne brasileira não pode entrar na Europa, mas o agrotóxico europeu pode entrar no Brasil?

Bruxelas invoca o princípio da precaução para proteger seus consumidores. Talvez seja a hora de o Brasil fazer o mesmo com os agrotóxicos que a própria União Europeia considera perigosos demais para usar em seu território

A decisão da União Europeia de suspender a importação de carnes e outros produtos de origem animal brasileiros produziu, como seria de esperar, indignação entre representantes do agronegócio nacional. O argumento europeu é que o Brasil não oferece garantias suficientes de controle e rastreabilidade sobre determinados antimicrobianos utilizados na produção animal. Curiosamente, não foi detectado um problema sanitário específico em lotes brasileiros: o que Bruxelas exige são garantias de que aquilo que chega à mesa dos europeus foi produzido segundo regras que os europeus consideram adequadas.  Pois bem. Talvez seja uma excelente oportunidade para o Brasil descobrir que o princípio da precaução também funciona deste lado do Atlântico.

Se a União Europeia considera perfeitamente legítimo impedir a entrada de produtos brasileiros produzidos segundo padrões que não considera suficientemente seguros, o governo brasileiro poderia aproveitar a inspiração e anunciar que passará a proibir a importação de agrotóxicos produzidos por empresas europeias quando essas substâncias estiverem proibidas para uso na própria União Europeia. Nada de retaliação comercial irracional. Apenas reciprocidade sanitária e ambiental.

A ideia fica ainda mais interessante quando lembramos que levantamento encaminhado ao Ministério da Agricultura identificou 147 substâncias autorizadas no Brasil que estão proibidas na União Europeia. Mais curioso ainda é que sete dos dez agrotóxicos mais comercializados no Brasil em 2023 estavam proibidos na UE, embora parte dessas substâncias continue sendo produzida por empresas europeias e exportada para países como o Brasil. É a peculiar geografia mundial do risco químico: perigoso demais para ser aplicado perto de Paris, Berlim ou Bruxelas, mas aparentemente administrável quando pulverizado sobre trabalhadores rurais, comunidades e ecossistemas brasileiros.

Aliás, a pesquisadora Larissa Mies Bombardi utiliza uma expressão bastante apropriada para caracterizar esse fenômeno: “colonialismo químico”. A Europa protege sua população e seus ecossistemas de determinadas moléculas, mas empresas sediadas naquele mesmo espaço econômico continuam encontrando mercados para elas no Sul Global. Depois, quando alimentos produzidos nesses países retornam ao mercado europeu, aparecem as barreiras destinadas a impedir que os resíduos dessas substâncias façam a viagem de volta.

Talvez esteja aí uma oportunidade diplomática extraordinária. O Brasil poderia comunicar educadamente a Bruxelas: compreendemos perfeitamente a preocupação europeia com a saúde de seus consumidores e, inspirados por tão elevado compromisso com o princípio da precaução, decidimos adotá-lo também. Todo agrotóxico considerado perigoso demais para ser utilizado na União Europeia será igualmente considerado perigoso demais para ser vendido no Brasil.

Seria fascinante observar quanto tempo duraria o entusiasmo europeu pela aplicação rigorosa do princípio da precaução quando ele começasse a atingir também os interesses comerciais de sua própria indústria química.

Caso Master: a porta da nulidade está sendo aberta?

A atuação de André Mendonça pode oferecer às defesas de Daniel Vorcaro um caminho para contestar a investigação e transformar um escândalo financeiro em uma crise de credibilidade das instituições brasileiras

O escândalo envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro parece estar entrando numa fase particularmente perigosa. Depois das revelações sobre a extensa rede de relações mantida pelo banqueiro com personagens situados nos estratos superiores da República, cresce agora a discussão sobre a possibilidade de que decisões tomadas pelo ministro André Mendonça tenham introduzido irregularidades capazes de provocar a anulação de parte da investigação.

A comparação que alguns analistas fazem com o caso Banestado é pertinente, ainda que os dois episódios não sejam juridicamente idênticos. Em 2020, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) anulou uma condenação relacionada ao Banestado por considerar que Sergio Moro ultrapassara os limites da atuação judicial e participara diretamente da produção de provas durante a investigação. O ponto central daquele julgamento foi relativamente simples: num sistema acusatório, investigar cabe à polícia e ao Ministério Público, enquanto ao juiz compete controlar a legalidade dos procedimentos, e não assumir o comando da investigação.

É precisamente por isso que a atuação de André Mendonça no caso Master desperta preocupação. As determinações para que a Polícia Federal aprofundasse determinados aspectos do material apreendido com Daniel Vorcaro levantaram questionamentos sobre os limites da atuação do relator. O procurador-geral Paulo Gonet chegou a pedir a nulidade de um relatório produzido pela PF a partir dessas determinações. Há, portanto, uma controvérsia processual real, e seria imprudente tratá-la simplesmente como uma manobra imaginária das defesas.

Isso não significa, entretanto, que todo o inquérito sobre o Banco Master esteja automaticamente condenado à anulação. Uma coisa é considerar ilegais determinadas ordens de André Mendonça e eventualmente invalidar o que foi produzido diretamente a partir delas; outra, muito diferente, seria destruir provas anteriormente obtidas de forma regular e independente. O perigo está no efeito dominó: uma primeira nulidade poderá oferecer às diversas defesas uma porta para questionar sucessivamente outros elementos da investigação.

Aqui o precedente do Banestado, somado à experiência posterior da Lava Jato, deveria servir de advertência. O Brasil parece ter desenvolvido um estranho ciclo no qual grandes escândalos produzem investigações excepcionais, a excepcionalidade leva autoridades a ultrapassarem limites processuais e, anos depois, justamente esses excessos fornecem os argumentos jurídicos para anulações. O resultado costuma ser perverso: muita revelação, enorme desgaste institucional e pouca responsabilização definitiva.

No caso Master, as consequências podem ser ainda maiores porque estamos em plena campanha eleitoral de 2026 e porque as relações de  Daniel Vorcaro aparentemente atravessam diferentes campos políticos. Uma eventual anulação ampla seria imediatamente incorporada à disputa eleitoral. Para alguns, seria apresentada como prova de uma investigação politicamente orientada; para outros, como demonstração de que as instituições brasileiras são incapazes de investigar os muito ricos e suas relações com os poderosos. Em ambos os casos, quem perderia seria a credibilidade das instituições.

Mas talvez o problema mais sério esteja para além das eleições. O caso Master colocou sob os holofotes as relações entre o grande capital financeiro e setores importantes do sistema político, jurídico e institucional brasileiro. O STF, que deveria funcionar como árbitro final dessa crise, terminou ele próprio envolvido nela, seja pelas referências a ministros no material investigado, seja pela controvérsia sobre a condução do inquérito. Quando aqueles que precisam decidir sobre a legalidade de uma investigação aparecem simultaneamente dentro do universo político e institucional revelado por ela, surge inevitavelmente um problema de legitimidade.

Por isso, respeitar as garantias processuais não significa proteger Daniel Vorcaro ou qualquer outro investigado. É exatamente o contrário: quanto mais grave e politicamente sensível for uma investigação, mais rigorosamente ela precisa obedecer às regras, justamente para impedir que erros cometidos pelos investigadores ou magistrados acabem se transformando na melhor estratégia de defesa dos investigados.

O pior desfecho possível para o caso Master seria termos uma enorme quantidade de revelações sobre as relações entre dinheiro e poder e, ao final, assistirmos à investigação desaparecer num labirinto de nulidades processuais. Isso reforçaria uma percepção extremamente corrosiva para qualquer democracia: a de que as instituições brasileiras conseguem aplicar todo o rigor da lei sobre os cidadãos comuns, mas começam a apresentar dificuldades extraordinárias quando precisam investigar aqueles que circulam pelos gabinetes mais importantes da República.

Se isso acontecer, o problema deixará de ser apenas Vorcaro ou o Banco Master. A pergunta que permanecerá depois das eleições de 2026 será muito mais incômoda: o Estado brasileiro ainda consegue investigar o andar de cima quando o andar de cima alcança as próprias instituições responsáveis pela investigação?

Do liberalismo ao neoliberalismo: a economia política das catástrofes climáticas

Mike Davis mostrou como El Niños, desigualdade e políticas liberais ajudaram a transformar secas em mortandade no século XIX. Em 2026, sua análise lança um alerta inquietante para o Brasil e outros países profundamente desiguais

A leitura de Late Victorian Holocausts, de Mike Davis, oferece uma chave particularmente inquietante para observar o El Niño que se desenvolve em 2026. Ao analisar as grandes fomes que atingiram Índia, China e outras regiões do mundo no final do século XIX, Davis contesta a explicação confortável segundo a qual milhões de pessoas teriam morrido simplesmente porque grandes secas acompanharam sucessivos episódios de El Niño. As secas existiram e foram severas, mas a transformação do fenômeno climático em mortandade de massa dependeu fundamentalmente das relações sociais e das decisões políticas existentes nos territórios atingidos.

O caso da Índia sob domínio britânico é especialmente revelador. Davis mostra como as autoridades coloniais combinaram princípios do liberalismo econômico, uma leitura malthusiana da pobreza e a crença na capacidade reguladora dos mercados para justificar uma intervenção limitada diante da fome. A assistência aos pobres poderia supostamente estimular dependência, a intervenção sobre os preços distorceria o funcionamento dos mercados e gastos excessivos comprometeriam as finanças públicas. Enquanto isso, populações já empobrecidas enfrentavam secas, perda das colheitas, elevação dos preços dos alimentos e destruição de seus meios de sobrevivência.

Eu reconheço que seria historicamente incorreto transportar mecanicamente aquela realidade para 2026. O colonialismo britânico do século XIX e os Estados contemporâneos são formações políticas profundamente diferentes. Mas a pergunta fundamental formulada por Davis permanece extraordinariamente atual: por que um mesmo fenômeno climático produz consequências relativamente administráveis para determinados grupos sociais e verdadeiras catástrofes para outros? Essa pergunta ganha importância diante de um El Niño que poderá alcançar grande intensidade justamente quando o planeta já se encontra muito mais quente devido à mudança climática antropogênica. O que teremos diante de nós, portanto, não será simplesmente mais um episódio da oscilação natural do Pacífico. Seus efeitos ocorrerão sobre temperaturas médias mais elevadas, cidades gigantescas, sistemas alimentares altamente concentrados, forte dependência de cadeias globais de abastecimento e sociedades marcadas por enormes desigualdades.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre neoliberalismo e austeridade retorna ao centro do problema. A linguagem mudou desde o século XIX. Poucos governos defenderiam hoje explicitamente que a fome constitui um mecanismo natural de regulação populacional. Em seu lugar aparecem conceitos aparentemente neutros como disciplina fiscal, equilíbrio das contas públicas, redução dos subsídios, focalização dos programas sociais, diminuição do tamanho do Estado e confiança dos mercados. O problema surge quando esses princípios passam a limitar a capacidade pública de responder a uma emergência climática. A questão fundamental será observar o que governos fortemente comprometidos com programas neoliberais farão quando forem obrigados a escolher entre preservar metas fiscais e ampliar rapidamente gastos com saúde, abastecimento de água, energia, defesa civil, segurança alimentar, agricultura familiar e proteção social. Uma grande crise climática exige justamente aquilo que décadas de austeridade procuram restringir: capacidade estatal, infraestrutura pública, planejamento, estoques estratégicos e possibilidade de mobilizar recursos rapidamente.

Essa contradição se torna ainda mais perigosa nos países marcados por desigualdades sociais profundas. Uma onda de calor de 45°C não significa a mesma coisa para quem dispõe de uma residência climatizada e para quem vive numa casa precária, trabalha oito horas sob o sol e depende de transporte coletivo superlotado. Uma seca prolongada não produz as mesmas consequências para uma grande empresa agrícola irrigada, capitalizada e segurada e para uma família de agricultores que depende diretamente das chuvas. Da mesma forma, uma crise no abastecimento de água é radicalmente diferente para quem pode comprar água mineral, instalar reservatórios e perfurar poços e para quem depende exclusivamente de uma rede pública já precária.

É por isso que o Brasil deveria prestar atenção especial ao argumento de Mike Davis. Somos uma das maiores economias do mundo, mas continuamos convivendo com enormes desigualdades de renda, habitação, saneamento, infraestrutura urbana e acesso aos serviços públicos. Em nossas cidades, essas desigualdades possuem inclusive uma geografia bastante clara. Os bairros mais arborizados e melhor equipados convivem com periferias densamente ocupadas, impermeabilizadas e praticamente desprovidas de cobertura vegetal. Quando chegam as ondas de calor, são justamente essas populações que recebem a maior carga térmica e possuem menos recursos para se proteger.  O mesmo raciocínio vale para secas, enchentes e crises alimentares. O Brasil possui capacidade científica, instituições públicas, sistemas de monitoramento meteorológico, um sistema público de saúde de dimensão continental e instrumentos de proteção social capazes de reduzir enormemente a mortalidade associada a eventos climáticos extremos. Portanto, se uma eventual sequência de ondas de calor, secas, enchentes ou crises de abastecimento produzir grande número de mortes evitáveis, dificilmente poderemos atribuí-las simplesmente ao El Niño.

É aqui que Late Victorian Holocausts deixa de ser apenas um extraordinário livro sobre o século XIX e se transforma em advertência para o século XXI. Davis nos ensina que devemos desconfiar da expressão “desastre natural”. A natureza produz secas, chuvas extremas e oscilações climáticas; sociedades produzem vulnerabilidades. E governos decidem, por ação ou omissão, quanto dessas vulnerabilidades será transformado em sofrimento e morte.

No Brasil, essa discussão ganha uma dimensão adicional porque teremos de enfrentar a intensificação dos extremos climáticos sob limites fiscais que restringem a capacidade de expansão dos gastos públicos. Isso significa que, diante de uma emergência de grandes proporções, poderá surgir uma disputa bastante concreta sobre prioridades: flexibilizar regras fiscais para proteger vidas ou preservar metas econômicas enquanto municípios, estados, SUS, Defesa Civil e programas de assistência social enfrentam uma demanda extraordinária por recursos.

Se o El Niño de 2026–2027 realmente atingir a intensidade que os modelos atualmente sugerem, ele não será apenas um gigantesco experimento climático. Será também um experimento político. Mostrará quais sociedades construíram capacidade para proteger seus cidadãos e quais aceitaram que renda, classe social, território e capacidade individual de consumo determinem quem poderá se proteger.  Mais de um século depois das grandes fomes analisadas por Mike Davis, talvez a questão fundamental continue assustadoramente semelhante. O clima poderá produzir o choque inicial, mas quem sofrerá suas consequências mais severas — e quem morrerá — continuará sendo, em grande medida, uma decisão política.

Mariana outra vez: depois de Bento Rodrigues e Brumadinho, risco de barragens não admite complacência

Elevação da categoria de risco da barragem Campo Grande não significa ameaça de rompimento iminente, mas mostra que descaracterizar uma estrutura não elimina a necessidade de fiscalização permanente dos passivos deixados pela mineração

Uma notícia publicada pelo jornal O Tempo merece atenção, sobretudo porque envolve novamente o município de Mariana, em Minas Gerais. Apenas sete meses depois de a Vale anunciar a conclusão das obras de descaracterização da barragem Campo Grande, a Agência Nacional de Mineração (ANM) elevou sua Categoria de Risco (CRI) de baixa para média. A decisão ocorreu após uma fiscalização identificar alterações no estado de conservação dos taludes, necessidade de revegetação e assoreamento de dispositivos de drenagem superficial.

É preciso começar estabelecendo uma distinção importante para que a gravidade da notícia não seja confundida com alarmismo. A própria ANM afirma que as ocorrências encontradas não indicam comprometimento da segurança da estrutura. A Vale, por sua vez, informa que Campo Grande permanece estável, sem qualquer nível de alerta ou emergência e sob monitoramento permanente. A Categoria de Risco é um indicador regulatório que incorpora características técnicas, condições de conservação e aspectos relacionados à gestão da segurança; portanto, sua elevação para o nível médio não significa que a barragem esteja prestes a romper.

Mas reconhecer isso não torna a notícia irrelevante. Pelo contrário. Campo Grande possui 94 metros de altura, reservatório de aproximadamente 20,1 milhões de metros cúbicos e foi originalmente construída pelo método de alteamento a montante, posteriormente eliminado pelas obras de descaracterização. Além disso, permanece classificada com Dano Potencial Associado (DPA) alto, indicador que não mede a probabilidade de ocorrência de um acidente, mas a magnitude das consequências caso uma falha grave acontecesse. Segundo os dados divulgados, entre mil e cinco mil pessoas encontram-se na área potencialmente atingida a jusante em um cenário hipotético de ruptura.

Há ainda um detalhe especialmente importante: segundo informações divulgadas sobre o processo, a descaracterização de Campo Grande envolveu retirada do alteamento a montante, reconfiguração da estrutura, reforços, impermeabilização e modificações no sistema de drenagem, mas não a remoção dos rejeitos armazenados. A estrutura permanece, portanto, submetida a acompanhamento posterior às intervenções, com monitoramento previsto até dezembro de 2027.

É exatamente aqui que a memória de Bento Rodrigues e Brumadinho se torna incontornável.  Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, destruiu Bento Rodrigues, matou 19 pessoas e desencadeou um desastre que percorreu a bacia do Rio Doce até o oceano Atlântico. Pouco mais de três anos depois, em janeiro de 2019, a ruptura da barragem B1 da Mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, mostrou novamente que as consequências de uma falha em uma grande estrutura de rejeitos podem ultrapassar qualquer capacidade posterior de reparação.

A relação entre aqueles desastres e a situação atual de Campo Grande precisa, entretanto, ser feita cuidadosamente. Não existem neste momento elementos técnicos que permitam afirmar que Campo Grande esteja seguindo o caminho de Fundão ou Brumadinho. Transformar a alteração de uma classificação regulatória em previsão de um novo rompimento seria tecnicamente irresponsável e acabaria enfraquecendo uma discussão que precisa ser feita com enorme seriedade.

A verdadeira conexão é outra: Mariana e Brumadinho ensinaram que, quando se trata de estruturas capazes de produzir consequências humanas e ambientais catastróficas, a prevenção precisa prevalecer sobre qualquer tendência à normalização do risco. E isso significa que alterações em taludes, problemas de drenagem ou outras anomalias de conservação devem ser tratadas rapidamente, acompanhadas por fiscalização pública independente e disponibilizadas de maneira transparente às populações potencialmente atingidas.

Descaracterizar não significa fazer desaparecer

O caso de Campo Grande também expõe um problema menos espetacular, mas provavelmente mais duradouro. A descaracterização reduz substancialmente determinados riscos e constitui uma medida necessária depois da proibição das barragens construídas pelo método a montante. Entretanto, ela não possui o poder de apagar instantaneamente décadas de transformação física da paisagem.

Uma estrutura de dezenas de metros de altura não desaparece simplesmente porque perdeu sua função original de barramento. Permanecem materiais depositados, taludes, sistemas de drenagem, superfícies que precisam ser estabilizadas e processos erosivos que precisam ser controlados. O fato de a própria regulamentação prever monitoramento posterior à conclusão das obras demonstra que a descaracterização deve ser entendida como processo, e não como uma espécie de certidão definitiva de inexistência de risco.

Essa constatação conduz a uma pergunta que deveria ocupar lugar central na política mineral brasileira: quem será responsável por monitorar e manter esses passivos daqui a dez, vinte ou cinquenta anos? Enquanto uma mina está produzindo bilhões de reais em minério, existem empresas, equipamentos e recursos financeiros disponíveis. Mas estruturas geotécnicas e paisagens profundamente transformadas pela mineração podem exigir acompanhamento muito depois de encerrada a atividade econômica que as produziu. O lucro possui um horizonte relativamente curto; o passivo ambiental pode atravessar gerações.

Nesse sentido, há algo que se aproxima daquilo que Rob Nixon chamou de violência lenta: danos e riscos ambientais que não necessariamente se manifestam em um único acontecimento espetacular, mas permanecem distribuídos no território e no tempo. Fundão e Brumadinho representam a face brutal e instantaneamente visível desse problema. Os passivos que permanecem durante décadas constituem sua dimensão silenciosa.

Depois de dois desastres, precaução não pode ser confundida com alarmismo

Há ainda uma razão adicional para acompanhar Campo Grande com atenção. Segundo os dados divulgados pela ANM e reproduzidos por O Tempo, Minas Gerais possui atualmente 22 barragens classificadas na Categoria de Risco alta, 11 na média e 158 na baixa. O problema, portanto, está longe de se resumir a uma única estrutura em Mariana.  A lição deixada pelos desastres anteriores não deveria ser produzir pânico sempre que uma classificação muda. Deveria ser exatamente o contrário: criar instituições suficientemente fortes para que não seja necessário esperar pela emergência para agir.

Por isso, a elevação da Categoria de Risco de Campo Grande deve resultar em acompanhamento rigoroso das medidas corretivas exigidas pela ANM, fiscalização pública independente, divulgação dos resultados do monitoramento e informação permanente às populações situadas nas áreas potencialmente atingidas. Mais importante ainda, o Estado brasileiro precisa assegurar recursos técnicos e financeiros para que esse acompanhamento continue mesmo depois que as estruturas forem retiradas dos cadastros de barragens ou quando as atividades minerárias que lhes deram origem forem encerradas.

Depois de Bento Rodrigues e Brumadinho, precaução não é sinônimo de alarmismo. É precisamente o contrário: significa utilizar o conhecimento acumulado por duas tragédias para impedir que seja necessária uma terceira para descobrirmos aquilo que já deveríamos ter aprendido.  A questão colocada por Campo Grande não é, portanto, anunciar que Mariana esteja diante de um novo desastre. É perguntar se o Brasil finalmente construiu uma política capaz de acompanhar durante décadas os passivos deixados pela mineração. Porque barragens podem ser descaracterizadas, minas podem ser fechadas e empresas podem eventualmente deixar determinados territórios. O risco residual e os passivos ambientais, entretanto, não desaparecem por decreto.

Depois de Luís Inácio: quem está pensando o mundo que virá?

A dependência eleitoral de uma liderança de 80 anos expõe uma crise mais profunda: enquanto o capitalismo aprofunda desigualdades e empurra o planeta para o colapso climático, a esquerda brasileira parece incapaz de construir um projeto político para além da administração do presente

O presidente Luís Inácio é, sem dúvida, um fenômeno da política brasileira. Do alto dos seus quase 81 anos, Luís Inácio tem a chance de ser eleito pela quarta vez para exercer um mandato do qual sairá como um dos presidentes mais velhos da história brasileira. A trajetória de Luís Inácio o habilita a ocupar um lugar entre os principais quadros políticos da história do país, algo que ganha contornos ainda mais impressionantes quando se leva em conta o ponto de onde começou sua história pessoal, marcada pela pobreza extrema.

Mas, se olharmos para o futuro, essa predominância de Luís Inácio na política brasileira inevitavelmente criará um grande vácuo quando ele decidir que finalmente chegou a hora de pendurar as chuteiras ou, pelo menos, continuar jogando de fora das quatro linhas, como outros políticos já fizeram ou continuam fazendo, a exemplo de José Sarney, aos 96 anos, e Michel Temer, aos 85.

A questão se torna ainda mais preocupante se considerarmos o contexto histórico em que a retirada de cena de Luís Inácio deverá ocorrer: um período marcado por uma profunda crise política em escala global, tendo como pano de fundo um sistema climático em vias de colapsar.

Alguém poderá me acusar de etarismo, de ser apologista do terror climático ou até de ambas as coisas. Entretanto, o que estou tentando realizar é um exercício básico de prognóstico político, até porque admiro a vitalidade física e mental que Luís Inácio ainda demonstra possuir. O problema é que, com toda a sua vitalidade, ele não é eterno, e a vida política brasileira continuará depois de sua saída de cena.

O que considero mais grave é que nem na esquerda que aceita os limites da política institucional, nem naquela que se pretende antissistema, parece existir qualquer discussão consistente sobre a preparação para um futuro sem Luís Inácio e, pior ainda, para um mundo no qual enfrentaremos um período particularmente desafiador para a espécie humana.

Essa inércia da dita esquerda advém, a meu ver, de uma espécie de preguiça política daqueles que se encontram adaptados às formas de funcionamento do sistema democrático burguês ou, no outro extremo, de uma profunda fragilidade programática por parte daqueles que se apresentam como combatentes empenhados na destruição do sistema.

De qualquer forma, o fato é que não vejo ninguém realizando uma crítica verdadeiramente estrutural à crise do capitalismo que agoniza diante dos nossos olhos, muito provavelmente porque sequer se consegue avançar para uma discussão mais séria sobre a necessidade objetiva de superar suas formas de produção e reprodução.

Em outras palavras, o problema não está apenas no fato de tantos parecerem satisfeitos e adaptados a um cenário em que Luís Inácio continua sendo apresentado como a única opção eleitoral capaz de derrotar a extrema-direita. O problema mais profundo é que inexiste hoje uma discussão política séria sobre a necessidade de avançarmos para uma fase de negação concreta das condições sociais, econômicas e ambientais que estão nos conduzindo à beira de um colapso societário. E essas condições não surgiram do nada: elas são produzidas e continuamente reproduzidas pelas próprias formas de produção e consumo engendradas pelo capitalismo.

Preparar-se para um futuro sem Luís Inácio, portanto, não significa simplesmente procurar outro nome capaz de ocupar seu lugar nas urnas, como se o problema pudesse ser resolvido pela fabricação de um novo líder eleitoral. O desafio é muito maior: passa pela reconstrução de organizações políticas e sociais capazes de produzir ação coletiva, pela formação de novas lideranças que não dependam exclusivamente do carisma individual, pela recuperação do debate programático e, sobretudo, pela elaboração de um projeto de transformação que enfrente simultaneamente a desigualdade social, a concentração da riqueza, a destruição ambiental e a crise climática. Isso exige que as diferentes vertentes da esquerda abandonem tanto o conforto da administração permanente do possível quanto a retórica antissistêmica desprovida de capacidade concreta de organização e transformação.

Um futuro sem Luís Inácio chegará, queiramos ou não, e a verdadeira questão é saber se estaremos preparados para enfrentá-lo com um projeto coletivo capaz de disputar os rumos da sociedade ou se descobriremos, tarde demais, que passamos décadas dependendo de um homem quando deveríamos estar construindo alternativas para um mundo que será muito mais difícil do que aquele em que ele se tornou o principal personagem da política brasileira.

Enquanto o calor aperta, a poda drástica continua dilapidando a arborização em Campos

A poda drástica da arborização urbana caminha exatamente na direção contrária do que uma cidade deveria fazer para se adaptar às mudanças climáticas

A fotografia abaixo, feita na esquina entre Riachuelo e Sete de Setembro em Campos dos Goytacazes, mostra uma prática que continua sendo tratada como corriqueira: a poda extremamente severa de árvores urbanas, com a retirada de grande parte de suas copas. O problema é que, em tempos de agravamento da crise climática, aquilo que já poderia ser considerado um manejo inadequado da arborização passa a representar também um sério equívoco de política urbana.

Árvores não são meros elementos decorativos das cidades. Suas copas produzem sombra, reduzem o aquecimento de calçadas, ruas e edificações e, por meio da evapotranspiração, contribuem para diminuir a temperatura do ambiente urbano. Além disso, ajudam na retenção da água das chuvas, na captura de carbono e de material particulado e oferecem abrigo e alimento para a fauna. Retirar drasticamente uma copa significa eliminar, justamente nos meses mais quentes, boa parte desses serviços ambientais.

A situação se torna ainda mais contraditória diante da perspectiva de um El Niño muito forte, que poderá contribuir para condições de calor particularmente severas no Brasil no final de 2026 e início de 2027. Para uma cidade quente como Campos dos Goytacazes, preparar-se para temperaturas extremas deveria significar aumentar a cobertura arbórea e preservar árvores adultas, principalmente nas áreas densamente urbanizadas, e não transformar árvores de grande porte em troncos praticamente desprovidos de copa.

Há ainda outro problema: podas excessivamente severas podem provocar estresse, favorecer doenças e produzir brotações estruturalmente frágeis, reduzindo a estabilidade e a longevidade das próprias árvores. Assim, uma intervenção muitas vezes justificada em nome da “segurança” pode, quando tecnicamente inadequada, produzir novos problemas no médio prazo.

A imagem que ilustra esta postagem é, portanto, mais do que o registro de algumas árvores podadas. Ela sintetiza uma contradição que precisa ser enfrentada em Campos: não existe política séria de adaptação ao calor extremo sem uma política igualmente séria de arborização urbana. Em plena emergência climática, retirar indiscriminadamente as copas das árvores significa desmontar uma das poucas infraestruturas naturais de resfriamento que a cidade já possui — e ainda por cima gratuitamente. Por isso, mais do que interromper a prática das podas drásticas, é necessário que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente comece a desenvolver um Plano Diretor Municipal de Arborização, capaz de estabelecer critérios técnicos para plantio, escolha de espécies, manejo, poda, substituição e ampliação da cobertura arbórea. Diante do agravamento da crise climática e da perspectiva de episódios cada vez mais intensos de calor, arborizar Campos deixou de ser uma questão meramente paisagística para se tornar uma política essencial de adaptação climática e de saúde pública.

China começa a disputar mercados com o Brasil, e o frango pode ser apenas o começo

Expansão chinesa na produção de alimentos e investimentos na África mostram que a condição de grande comprador das commodities brasileiras não impede Pequim de construir alternativas — e até novos concorrentes — ao agronegócio brasileiro

Uma matéria publicada pela Folha de S.Paulo neste sábado (05/9), assinada por Roberto Samora, acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça das transformações que estão ocorrendo nas relações econômicas entre Brasil e China. Segundo Chenjun Pan, especialista do Rabobank, a China deverá ampliar sua participação nas exportações globais de carne de frango e poderá se transformar, na próxima década, em concorrente importante do Brasil em mercados como Oriente Médio, Ásia e África. A informação merece atenção porque vai muito além da avicultura: ela ajuda a revelar uma mudança que pode atingir progressivamente diferentes segmentos do chamado agronegócio brasileiro. A China tornou-se exportadora líquida de carne de frango em 2025 e vem aumentando rapidamente sua produção. Ainda existe enorme distância em relação ao Brasil, que permanece como potência exportadora do setor, mas o aspecto relevante não está apenas nos volumes atuais. O que importa é a trajetória. Estamos diante de um país que durante muito tempo ampliou suas importações de alimentos e matérias-primas e que agora procura aumentar a produção doméstica, diversificar fornecedores e, em determinados segmentos, criar excedentes capazes de disputar mercados internacionais.

Essa notícia ganha outra dimensão quando colocada ao lado da crescente presença chinesa na África. Como discuti recentemente neste blog, os investimentos chineses no continente africano não se limitam à aquisição de minerais ou à construção de obras isoladas. Ferrovias, rodovias, portos, energia e infraestrutura logística estão criando condições para ampliar a capacidade africana de produzir e exportar commodities agrícolas e minerais. Para a China, isso representa diversificação das fontes de abastecimento e redução da dependência de fornecedores específicos. Para o Brasil, entretanto, significa a possibilidade de surgimento ou fortalecimento de competidores justamente nos produtos em que nossa economia se tornou crescentemente especializada.

O caso do frango revela que essa transformação pode ocorrer também na direção inversa. A África poderá simultaneamente aumentar sua capacidade de fornecer matérias-primas para a China e tornar-se mercado para produtos chineses. Se o frango brasileiro passar a disputar consumidores africanos, asiáticos e do Oriente Médio com empresas chinesas, estaremos diante de uma mudança qualitativa na relação entre os dois países: a China continuará sendo um dos maiores compradores do Brasil, mas poderá ser também uma concorrente crescente dos produtos brasileiros nos mercados internacionais.

Há ainda uma conexão particularmente importante com a soja. A expansão chinesa da produção de frango não ocorre apenas porque existe demanda por proteína animal. A avicultura apresenta maior eficiência na conversão alimentar do que a suinocultura, utilizando proporcionalmente menos milho e farelo de soja. Se mudanças dessa natureza avançarem na estrutura de produção e consumo chinesa, poderão contribuir para reduzir o ritmo de crescimento da demanda por soja importada. Para um país que estruturou parcela considerável de sua expansão agrícola contando com a aparentemente inesgotável demanda chinesa, isso deveria soar como um sinal de alerta.

O problema torna-se mais sério porque essa transformação acontece num momento em que produtos brasileiros enfrentam dificuldades crescentes em mercados dos Estados Unidos e da União Europeia, seja por barreiras tarifárias, sanitárias, ambientais ou outras exigências regulatórias. Quando um mercado se fecha ou se torna menos acessível, exportadores procuram redirecionar mercadorias para outros destinos. Mas esses mercados alternativos são justamente aqueles onde novos competidores começam a aparecer. O resultado pode ser maior oferta, competição por compradores e pressão para baixo sobre preços e margens.

É por isso que talvez esteja chegando o momento de abandonar uma visão excessivamente confortável da relação Brasil-China. Durante as últimas décadas consolidou-se a percepção de uma complementaridade quase natural: o Brasil possui terra, água, minérios e capacidade de produzir commodities; a China possui população, indústria e enorme demanda por matérias-primas. O problema é imaginar que essa divisão internacional do trabalho permanecerá congelada. Nenhuma potência econômica trabalha para permanecer indefinidamente dependente de poucos fornecedores estrangeiros de alimentos, energia e minerais estratégicos.

A estratégia chinesa parece caminhar precisamente na direção oposta. Pequim amplia sua produção doméstica quando isso é possível, modifica padrões produtivos para reduzir dependências, investe na infraestrutura necessária para criar fornecedores alternativos na África e em outras regiões e, quando alcança escala suficiente, transforma cadeias antes voltadas ao mercado interno em plataformas exportadoras. O frango oferece um exemplo particularmente didático dessa sequência: importar, ampliar a produção doméstica, alcançar maior autossuficiência, gerar excedentes e finalmente exportar.

Nada disso significa que a China deixará de comprar commodities brasileiras no futuro próximo. O tamanho de sua economia torna essa hipótese pouco plausível. A questão estratégica é outra: como já foi observado neste blog, o Brasil poderá continuar sendo importante para a China sem continuar sendo indispensável. E existe uma diferença enorme entre essas duas condições. Essa possibilidade deveria preocupar especialmente um país que nas últimas décadas aprofundou sua dependência da exportação de soja, minério de ferro, petróleo, carnes e celulose enquanto sua indústria perdeu participação relativa na economia. O sucesso recente das exportações de commodities acabou criando uma perigosa sensação de segurança, como se a demanda chinesa fosse uma espécie de garantia permanente para a economia brasileira.

A matéria publicada pela Folha sugere que essa garantia simplesmente não existe. A expansão chinesa na África e o avanço da própria China sobre mercados hoje ocupados pelo Brasil são duas faces de um mesmo movimento de reorganização das cadeias internacionais de produção e abastecimento. O maior comprador das commodities brasileiras pode continuar sendo nosso principal cliente enquanto simultaneamente constrói fornecedores alternativos e se transforma em nosso concorrente. Talvez essa seja a questão mais incômoda colocada pela notícia sobre o frango. O problema não é saber se a China continuará comprando do Brasil nos próximos anos, mas perguntar por quanto tempo o Brasil poderá sustentar um modelo econômico baseado na expectativa de que a China continuará precisando comprar aquilo que produzimos, nas quantidades e nas condições que interessam ao chamado agronegócio brasileiro. O frango pode ser apenas o primeiro aviso de que essa conta está começando a mudar.

Brasil, paraíso do rentismo? Um relatório que merece ser lido

Paulo Lindesay discute como mudanças constitucionais e o funcionamento da dívida pública favoreceram a expansão do poder do capital financeiro sobre o orçamento brasileiro

O relatório produzido por Paulo Lindesay, coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida – Núcleo Rio de Janeiro, merece uma leitura atenta, sobretudo porque coloca no centro do debate uma questão que raramente recebe a atenção correspondente à sua importância: quanto do fundo público brasileiro é mobilizado para sustentar o funcionamento da dívida pública e quem efetivamente se beneficia desse sistema?

Lindesay parte de números impressionantes. Segundo seus cálculos, entre 2000 e agosto de 2026 aproximadamente R$ 27 trilhões teriam sido destinados ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública, sendo mais de R$ 22 trilhões apenas em amortizações. Apesar disso, o estoque da Dívida Bruta do Governo Geral continuou aumentando. É justamente essa aparente contradição que conduz uma parte importante da argumentação apresentada no documento.

Mas o relatório vai além dos números. Paulo Lindesay procura reconstruir a arquitetura política e constitucional que teria permitido ao capital financeiro ampliar sua capacidade de apropriação do fundo público. Nesse percurso, destaca as regras relacionadas ao pagamento da dívida e, principalmente, as transformações introduzidas pela Emenda Constitucional nº 40/2003, originada da PEC 53/1999, que suprimiu os incisos e parágrafos do antigo Artigo 192 da Constituição. Na interpretação do autor, essas mudanças contribuíram para uma verdadeira “desconstitucionalização” do Sistema Financeiro Nacional, reduzindo os obstáculos impostos ao funcionamento do grande capital financeiro.

O documento também registra os argumentos utilizados pelos defensores dessas mudanças, incluindo a necessidade de modernização do sistema financeiro, maior flexibilidade para a política monetária, eliminação do antigo teto constitucional dos juros reais e maior integração do Brasil aos mercados financeiros internacionais. Isso torna sua leitura particularmente interessante, pois permite observar a distância entre as justificativas apresentadas para determinadas reformas e a interpretação que Lindesay faz dos seus resultados históricos.

No fundo, o relatório nos convida a discutir algo muito maior do que juros, dívida ou política monetária. Trata-se de perguntar quem disputa e quem captura o fundo público brasileiro. Enquanto universidades, hospitais, ciência, educação, infraestrutura e políticas sociais são permanentemente confrontados com limites fiscais, contingenciamentos e cortes orçamentários, enormes volumes de recursos continuam circulando pelo sistema da dívida.

Por isso, mais do que reproduzir aqui todos os argumentos apresentados por Paulo Lindesay, convido os leitores do Blog do Pedlowski a lerem o relatório na íntegra. Concorde-se ou não com todas as interpretações do autor, os números e questões que ele apresenta justificam um debate que não deveria permanecer restrito aos especialistas em finanças públicas.

Lindesay termina recuperando uma antiga reivindicação da Auditoria Cidadã da Dívida: a realização da auditoria prevista no Artigo 26 do ADCT, com participação popular. Talvez seja justamente esse o ponto de partida mais importante para a leitura do documento: se estamos falando de trilhões de reais retirados anualmente do fundo público, compreender como esse sistema funciona não deveria ser assunto apenas de economistas, banqueiros ou operadores do mercado financeiro.

Afinal, quando se trata do orçamento público brasileiro, tão importante quanto perguntar quanto o Estado gasta é perguntar quem está na primeira fila para receber.

Quando a paisagem distópica de Matteo Wong chegar ao Açu

Por trás da aparente imaterialidade da inteligência artificial existe uma gigantesca infraestrutura industrial cuja expansão começa a produzir conflitos por energia, água e território

A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma espécie de manifestação máxima da desmaterialização da economia. Falamos em algoritmos, nuvens, modelos e processamento de informações como se tudo isso acontecesse em algum espaço virtual separado do mundo físico. A reportagem de Matteo Wong, publicada pela The Atlantic sob o sugestivo título Inside the Dirty, Dystopian World of AI Data Centers, desmonta essa fantasia ao mostrar que a chamada revolução da inteligência artificial depende de uma infraestrutura extraordinariamente material, formada por gigantescos galpões repletos de servidores, linhas de transmissão, subestações elétricas, sistemas de refrigeração, geradores e, cada vez mais, usinas destinadas a alimentar uma demanda energética que cresce em velocidade impressionante.

O exemplo mais impressionante apresentado por Wong é o Colossus, data center construído pela xAI em Memphis, nos Estados Unidos. Funcionando em sua capacidade máxima durante um ano, o complexo pode consumir eletricidade equivalente à utilizada por cerca de 200 mil residências norte-americanas. Quando outras instalações previstas pela empresa estiverem operacionais, a demanda poderá chegar perto de 2 GW. A dimensão desse processo fica ainda mais evidente quando se observa que a OpenAI anunciou instalações cuja demanda agregada poderá ultrapassar 30 GW, enquanto a Agência Internacional de Energia estima que, já em 2030, os data centers poderão consumir nos Estados Unidos mais eletricidade do que todas as indústrias pesadas do país somadas.

A consequência é que a expansão da inteligência artificial começa a produzir uma corrida paralela pela produção de energia. E aqui surge uma das maiores contradições do discurso que apresenta a digitalização como parte de uma economia supostamente limpa. Para colocar rapidamente o Colossus em operação, a xAI recorreu a dezenas de turbinas movidas a gás natural, enquanto novos projetos de data centers estão estimulando a construção de termelétricas e até prolongando a vida útil de usinas movidas a carvão. Segundo Wong, a própria Agência Internacional de Energia estima que as emissões associadas aos data centers poderão mais que dobrar até 2030.

Mas eletricidade é apenas uma parte do problema. Os chips utilizados nos sistemas de inteligência artificial consomem enormes quantidades de energia e produzem muito calor, o que transforma a refrigeração em uma necessidade permanente. Em muitos casos isso significa também consumir grandes volumes de água. Registros públicos citados pela The Atlantic mostram que o endereço onde funciona o Colossus utilizou mais de 11 milhões de galões de água apenas em setembro, quantidade equivalente ao consumo anual de aproximadamente 150 residências norte-americanas.

O problema ganha outra dimensão quando os data centers começam a se concentrar territorialmente. Loudoun County, na Virgínia, oferece talvez a melhor antecipação do que pode acontecer em outras regiões. Ali já existem 199 data centers em operação e cerca de outros 30 planejados. A concentração foi tão intensa que surgiu uma paisagem conhecida como Data Center Alley, formada não apenas pelos enormes prédios que abrigam servidores, mas por subestações, torres, linhas de transmissão, sistemas de refrigeração e dezenas de geradores de emergência. Em outras palavras, o data center não deve ser compreendido apenas como um empreendimento imobiliário ou tecnológico isolado. Ele cria ao seu redor uma verdadeira ecologia industrial destinada a garantir permanentemente energia, refrigeração, água e conectividade.

Existe ainda uma questão econômica que merece atenção. Apesar das centenas de bilhões de dólares atualmente direcionadas para essa infraestrutura, Wong lembra que permanece aberta a discussão sobre a sustentabilidade econômica desse gigantesco ciclo de investimentos. Caso as expectativas depositadas na inteligência artificial não se confirmem ou avanços tecnológicos reduzam drasticamente a necessidade de processamento, parte da infraestrutura atualmente planejada poderá tornar-se o que o próprio artigo descreve como ruínas de um futuro que não chegou. O problema é que as usinas, linhas de transmissão, alterações territoriais e impactos ambientais necessários para alimentar essa corrida estarão materializados muito antes de sabermos se todas essas apostas econômicas se sustentarão.

E quando a nuvem chegar ao Porto do Açu?

Essa discussão ganha importância imediata para o Norte Fluminense. A empresa britânica Yamna acaba de reservar inicialmente 20 hectares dentro do complexo industrial do Porto do Açu para instalar um campus de data centers de hiperescala preparado para inteligência artificial, com direito preferencial de expansão para outros 20 hectares. Somente a primeira fase prevê 250 MW de capacidade, e a própria empresa informa que o empreendimento foi concebido para poder crescer posteriormente.

É justamente a expressão “250 MW na primeira fase” que deveria acender um sinal de alerta. O que está sendo anunciado não parece ser simplesmente a construção de um data center, mas a abertura de uma nova frente de expansão industrial no interior de um complexo que já reúne termelétricas, instalações de petróleo e gás, terminais de minério e granéis, estruturas logísticas e numerosos projetos industriais. A disponibilidade de cerca de 3 GW de capacidade termelétrica instalada da GNA e de infraestrutura de transmissão de 500 kV é apresentada, inclusive, como uma das vantagens competitivas do Açu para atrair essa nova indústria.

No caso de São João da Barra, porém, há uma questão adicional que não pode ser tratada como detalhe: a água. A instalação de um empreendimento potencialmente intensivo em refrigeração ocorre em uma região costeira onde a disponibilidade e a qualidade dos recursos hídricos já constituem problemas ambientais relevantes. Por isso, antes que o empreendimento seja celebrado como mais uma demonstração da suposta modernidade do Porto do Açu, será indispensável conhecer qual tecnologia de refrigeração será utilizada, qual será a demanda hídrica máxima e média, de onde virá essa água, quais serão os volumes efetivamente consumidos e descartados e, sobretudo, como essa nova demanda será analisada diante das pressões cumulativas já existentes sobre os recursos hídricos regionais.

Esse último aspecto é fundamental porque a discussão ambiental não pode continuar sendo feita empreendimento por empreendimento, como se cada instalação surgisse sobre uma folha em branco. A questão central é compreender os impactos cumulativos e sinergísticos produzidos pela sucessiva concentração de grandes projetos sobre um território costeiro ecologicamente sensível, já submetido à erosão, salinização, transformação de sistemas lagunares, industrialização acelerada e restrições crescentes aos modos tradicionais de utilização do território.

O artigo de Matteo Wong ajuda justamente a retirar os data centers do mundo aparentemente imaterial da “nuvem” e recolocá-los onde efetivamente existem: no território. E talvez seja essa a pergunta que São João da Barra deveria fazer antes que mais um grande empreendimento seja incorporado à paisagem do Açu: quanta energia, quanta água e quanto território serão necessários para sustentar essa nova fronteira industrial e quem ficará com os benefícios e com os custos ambientais dessa transformação?

Porque a nuvem que está chegando ao Porto do Açu não paira no céu. Ela ocupa terra, consome energia e pode beber muita água.

Quantos portos ainda cabem no Açu?

De terminal de minério e petróleo a complexo de termelétricas, siderurgia, fertilizantes, hidrogênio, amônia e data centers, a expansão transnacional do Porto do Açu multiplica pressões sobre um território já ameaçado pela erosão e pela salinização

A expansão transnacional do Porto do Açu acumula data centers, termelétricas, siderurgia, fertilizantes e novos projetos energéticos sobre uma região já pressionada pela erosão, salinização e transformação das formas tradicionais de ocupação

A sucessão de novos empreendimentos anunciados para o emprrendimento criado por Eike Batista exige uma mudança na maneira de discutir seus impactos socioambientais. Já não basta avaliar separadamente uma termelétrica, um terminal portuário, uma siderúrgica, uma fábrica de fertilizantes ou um data center. O que precisa estar no centro da discussão são os efeitos cumulativos e sinérgicos da concentração de todas essas atividades sobre um mesmo território costeiro, ecologicamente sensível e que já apresenta sinais evidentes de estresse ambiental.

O anúncio de que a Yamna assegurou uma área para instalar um campus de data centers com capacidade inicial de 250 MW acrescenta uma atividade intensiva em eletricidade e potencialmente também em água a uma região onde a intrusão salina na foz do Rio Paraíba do Sul já compromete periodicamente o abastecimento de São João da Barra. Antes de celebrar a chegada da economia digital ao Açu, portanto, é indispensável saber quanta água será utilizada, de onde ela virá, qual tecnologia de refrigeração será empregada e o que acontecerá nos períodos de baixa vazão do Paraíba do Sul, quando aumenta o risco de avanço da cunha salina.

O problema torna-se maior quando esse empreendimento é colocado ao lado das atividades existentes e planejadas. O Açu concentra termelétricas e gigantescas operações de petróleo e minério de ferro, enquanto avança sobre siderurgia, hidrogênio, amônia, infraestrutura digital e cadeias vinculadas ao agronegócio. A recente entrada na movimentação de enxofre é ilustrativa: o desembarque inaugural foi de apenas 1,5 mil toneladas, mas a infraestrutura projetada pretende movimentar 300 mil toneladas anuais, além de abastecer uma futura unidade misturadora de fertilizantes. O Terminal Multicargas também já movimenta soja e milho, revelando uma estratégia explícita de abertura de uma nova frente de crescimento ligada ao agronegócio.

Estamos, portanto, diante da transformação progressiva do Açu em um complexo portuário, energético, industrial, agroexportador e digital. Entretanto, o território que recebe todos esses empreendimentos continua sendo o mesmo. O consumo de água se acumula, novas infraestruturas ocupam espaço, emissões se sobrepõem, aumenta a circulação de navios e caminhões e intervenções portuárias passam a coexistir com processos de erosão costeira, salinização e alterações em uma planície formada por lagoas, canais, restingas, praias, áreas úmidas e aquíferos.

A violência lenta de um território em transformação

É nesse ponto que o conceito de “violência lenta”, desenvolvido por Rob Nixon, oferece uma chave particularmente apropriada para compreender o que ocorre no Açu. Diferentemente de uma catástrofe que acontece subitamente, a violência lenta se desenvolve durante anos ou décadas, por meio da acumulação de transformações que progressivamente deterioram as condições ambientais necessárias à reprodução da vida.

No Açu, essa violência não precisa assumir a forma espetacular de um grande desastre. Ela pode aparecer na erosão das praias, na salinização das águas, na transformação de lagoas, na perda de acesso a determinados espaços, na pressão sobre áreas agrícolas e pesqueiras e na substituição progressiva de formas tradicionais de utilização do território por grandes infraestruturas industriais e logísticas.

Essa dimensão torna-se ainda mais relevante diante da crescente transnacionalização do complexo. Corporações privadas e empresas vinculadas a Estados estrangeiros participam de diferentes cadeias instaladas no Açu, fazendo com que decisões capazes de transformar profundamente São João da Barra sejam tomadas em escalas muito distantes das comunidades que experimentarão seus efeitos. O problema não está simplesmente na origem estrangeira do capital, mas na possibilidade de consolidação de uma geografia conhecida: decisões e benefícios internacionalizados enquanto custos e passivos ambientais permanecem territorializados.

Quando permanecer no território deixa de ser possível

É justamente aqui que a violência lenta encontra outra categoria importante: a dos “refugiados do desenvolvimento”. Grandes empreendimentos podem produzir deslocamentos não apenas por desapropriações formais, mas pela deterioração progressiva das condições necessárias à permanência das populações em seus territórios.

Quando agricultores perdem acesso à terra ou à água, pescadores encontram dificuldades crescentes para acessar áreas tradicionalmente utilizadas, sistemas lagunares são modificados ou a salinização compromete determinados usos da água, a expulsão pode ocorrer sem que exista uma ordem formal de remoção. As pessoas acabam saindo porque permanecer se torna econômica, social ou ambientalmente inviável.

Esse risco merece atenção especial no entorno do Porto do Açu. O V Distrito não começou a existir com a chegada do porto. Trata-se de um território historicamente ocupado por agricultores, pescadores e outras comunidades cuja reprodução social depende diretamente da terra, das lagoas, das praias e dos recursos hídricos. Se esses elementos forem progressivamente alterados, o resultado poderá ser uma nova rodada de deslocamentos produzidos não por uma única intervenção, mas pelo efeito acumulado de décadas de transformação territorial.

O que precisa ser avaliado agora é o próprio Açu

Por isso, o licenciamento fragmentado de novos empreendimentos está se tornando insuficiente. Um projeto pode parecer ambientalmente administrável quando estudado sozinho e tornar-se problemático quando colocado ao lado de muitos outros disputando os mesmos recursos e pressionando os mesmos ecossistemas.

O que precisa ser conhecido é a capacidade de suporte do território diante do conjunto dos empreendimentos existentes, licenciados e planejados. Isso significa avaliar conjuntamente disponibilidade hídrica, intrusão salina, erosão costeira, aquíferos, sistemas lagunares, biodiversidade, demanda energética, tráfego, mudanças climáticas e efeitos sobre as comunidades locais.

O Porto do Açu está apostando em ser uma das grandes concentrações portuárias, energéticas e industriais do Brasil, mas justamente sobre uma região costeira altamente sensível. A pergunta, portanto, deixou de ser se cada novo empreendimento consegue individualmente uma licença ambiental. A pergunta que realmente importa é quantos Portos do Açu cabem ambiental e socialmente em São João da Barra.

Continuar avaliando cada projeto como se os demais não existissem poderá fazer com que descubramos tarde demais que o limite não estava em cada empreendimento separadamente, mas na soma e, principalmente, na interação entre todos eles. E, nesse caso, a violência poderá ser lenta, mas seus resultados serão bastante concretos: um território profundamente transformado e comunidades convertidas, pouco a pouco, em refugiados do próprio desenvolvimento que lhes foi apresentado como inevitável.