Helcida

Por Ismael Machado

A data vai entrar para a minha memória pessoal. No dia 1º de abril de 2026, durante o lançamento de meu mais recente livro Filhos Dessa Raça: mãe e filhos unidos na luta contra a ditadura, no auditório Benedito Nunes (UFPA), Hecilda Veiga é chamada para ocupar seu lugar no palco do auditório. Auxiliada por João, seu filho mais novo, Hecilda caminha a passos lentos, tomando cuidado nos degraus. É aplaudida de pé por vários minutos. Ali, de meu canto, senti uma lágrima vir tranquila em meus olhos. Nada vai me tirar esse prazer e honra de ser uma das pessoas a tornar real aquela homenagem para o futuro, para a história.

O livro recoloca no centro da memória amazônica duas trajetórias atravessadas pela violência política e pela persistência da luta a favor da ditadura. A de Paulinho Fonteles e sua mãe, Hecilda, que se impõe como uma dessas presenças que, mesmo quando não ocupam os holofotes, sustentam a espinha dorsal da história. O Brasil precisa conhecê-la.

Hecilda não é apenas personagem de um tempo. No meu entendimento e avaliação, ela é síntese de uma geração de mulheres que enfrentaram a ditadura, o latifúndio, a pistolagem e o silêncio institucional no Pará. Sua vida se entrelaça com a de Paulo Fonteles, advogado, deputado estadual e defensor dos trabalhadores rurais, assassinado em 1987. Mas reduzir Hecilda à condição de coadjuvante seria repetir a violência simbólica que tantas vezes apaga o protagonismo feminino na história política brasileira.

O que impressiona em sua trajetória é a travessia. Da militância compartilhada com Paulo e tudo o que isso acarretou, com sequestro, tortura em sua forma mais abjeta e prisão, à resistência cotidiana em favor de um ideal democrático, Hecilda carregou consigo a memória de um projeto político interrompido à bala, no caso do pai de seus três filhos, que era o projeto de uma Amazônia onde a terra tivesse função social e onde trabalhadores rurais não fossem tratados como descartáveis.

Nos anos 1970 e 1980, o Pará era um território marcado por conflitos agrários agudos. A abertura política e redemocratização formal não significaram o fim da violência no campo. Ao contrário, a disputa pela terra se intensificava em meio à expansão de grandes projetos econômicos. Foi nesse cenário que Paulo Fonteles se destacou como advogado da Comissão Pastoral da Terra e como parlamentar comprometido com os camponeses. Foi assassinado, como sabemos.

E foi nesse mesmo cenário que Hecilda precisou aprender a resistir. Enfrentou o desgaste do tempo, a tentativa de esquecimento e a naturalização da violência. Filhos Dessa Raça, esse meu livro que não preenche tudo, tenta apontar para isso, ao fato de que há heranças que não são materiais, mas éticas. Hecilda Veiga representa essa herança.

Hecilda e Jorge Panzera, presidente da IOEPA

Falar de Hecilda Veiga é falar de permanência. De alguém que atravessou o medo e a pressão política sem abrir mão da dignidade. Sua história não é apenas lembrança de um passado de conflito; é interrogação sobre o presente onde a democracia ainda é ameaçada. Hecilda sustentou suas convicções. E, ao sustentar, transformou-se ela própria em símbolo de resistência amazônica, discreta, firme e indispensável. Em uma fala a um repórter de tv local nessa noite de lançamento, Hecilda se disse uma sobrevivente. Quase agradeceu por isso. Lembrou de outros que não tiveram a mesma sorte, como Honestino Guimarães, presidente da UNE, morto sob tortura.

Penso nessa mulher que me parece tão frágil fisicamente e que guarda em si todas as lutas do mundo. Para quem não a conhece, traço um pouco de sua biografia. Hecilda Mary Ferreira Veiga foi uma jovem que gostava de cantar e admirava Che Guevara. Como tantos de sua geração ousou lutar contra o arbítrio e o autoritarismo. Filha de migrantes nordestinos que chegaram ao estado do Pará em busca de uma vida melhor e que em Belém estabeleceram-se no Telégrafo Sem Fio, o antigo bairro São João do Bruno, numa área que abrigava o matadouro de Belém.

Hecilda nasceu em casa, no dia 11 de março de 1947, o segundo pós-guerra. Um parto caseiro, tão comum entre as famílias. Não só ela, como o irmão Daniel, nascido dois anos depois. Quem ‘pegou’ as crianças foi a avó Antônia Miranda. Todo o entorno de Hecilda era repleto de vida operária. E isso calaria fundo na pessoa que ela seria no futuro.

Cursou os primeiros cinco anos escolares, o primário, no Grupo Escolar Augusto Montenegro, no próprio bairro. A simpatia e a desenvoltura estampadas no sorriso aberto sempre faziam ser escolhida Miss Caipira nas quadrilhas juninas. Com gosto, a mãe mandava pregar os enfeites juninos nas roupas da filha miss. Ao todo frequentou, além da Augusto Montenegro, o Paes de Carvalho e o Magalhães Barata. Em todos uma característica: era sempre aplicada, dada a leituras, uma intelectual precoce.

Em 1964 Hecilda foi para a escola com o intuito de ser professora. Terminaria o ginásio na escola Magalhães Barata. Fez vestibular para Ciências Sociais e não demorou a se engajar no movimento estudantil, no efervescente ano de 1968. Cerrando fileiras na Ação Popular e posteriormente no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Hecilda e seu companheiro Paulo Fonteles ganharam codinomes e foram enviados a Brasília para participar do Movimento Estudantil na capital federal.

Ambos foram capturados e torturados nas dependências do Exército Brasileiro. Seu filho mais velho nasceria na prisão e sob tortura. Julgada e condenada pelo governo militar, foi transferida a Belém, acusada de ser terrorista. Após esse período de encarceramento, Hecilda voltou à universidade, não sem antes ser uma das fundadoras da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, uma das primeiras entidades com esse objetivo no Brasil.

Graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Pará em 1983 e concluiria o Mestrado em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido pela Universidade Federal do Pará em 1995, aprofundando-se nas questões do planejamento do desenvolvimento na Amazônia sob orientação de José Marcelino Monteiro da Costa. Passou a integrar o corpo docente da Universidade Federal do Pará.

Seu histórico de luta em prol da democracia fez com que fosse homenageada pelos estudantes de seu curso de origem. O Centro Acadêmico de Ciências Sociais tem o nome de Hecilda Veiga em reconhecimento a quem sempre se dedicou na construção de um país socialmente mais justo.

Sua produção bibliográfica inclui a obra A redemocratização em Belém (1945–1947): os comitês democráticos e a campanha contra a fome, de 1984, estudo que recupera experiências políticas e mobilizações sociais no pós-Estado Novo, e o texto 1968: uma obra aberta, publicado no Jornal Resistência, em que revisita criticamente o legado de 1968. Hecilda também se destacou na formação de novas gerações de cientistas sociais. Orientou e participou de dezenas de bancas de trabalhos de conclusão de curso, especializações e dissertações, abordando temas como sistema partidário, reforma do Estado, MST, impactos socioambientais na Amazônia, imigração árabe no Pará, memória da Guerrilha do Araguaia e políticas públicas. Sua atuação docente sempre esteve associada à reflexão crítica sobre democracia, participação política e direitos sociais.

Reconhecida por sua contribuição intelectual e pública, recebeu a Medalha “Isa Cunha”, concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Pará em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, e a Medalha do Mérito Francisco Caldeira Castelo Branco, da Prefeitura de Belém.

Em tempos em que a memória histórica volta a ser disputada e relativizada, revisitar essa trajetória é também refletir sobre o papel das mulheres na sustentação dos movimentos sociais amazônicos. Muitas vezes invisibilizadas, foram elas que mantiveram redes, arquivos, famílias e comunidades em pé quando a violência tentou dissolver tudo. Hecilda se junta a nomes como Adalgisa Lopes, Luzia Canuto, Maria Oneide, Zélia Amador, Maria Joel Dias, Dorothy Stang, Luzia Miranda, Marga Rothe e tantas mais, que contam uma outra história amazônica e brasileira.

Hecilda sendo homenageada no lançamento do livro

Escrevo e reflito. Há uma emoção difícil de traduzir quando ouvi Hecilda Veiga falar sobre democracia, naquela noite tão simbólica no lançamento do livro, na universidade que ela tanto ama. Não é apenas a força das palavras, mas o que elas carregam, algo como o tempo atravessado, as perdas suportadas, a coragem cotidiana de permanecer. Há uma serenidade firme em sua voz um pouco acelerada, em tom menor, que não fala de teoria, mas de experiência vivida no corpo da história, mesmo que percebamos que sua memória já não tenha a mesma linearidade, o peso dos anos lhe cobrando faturas, a saúde fragilizada. Ainda assim, ela está aqui, caminhando com seus passos miúdos, mas gigantescos, entre nós.

Ter escrito um livro sobre ela me representou muito, ainda que o resultado, claro, me soe incompleto. Foi um aprendizado. Hecilda ensina que democracia é prática insistente, muitas vezes silenciosa, quase invisível e que pode oferecer pouca recompensa pessoal em troca, se a vida é dedicada a ela. Ao organizar um mínimo de sua história, algo também se reorganiza em quem escreve. Entendi que absorver seu pensamento é compreender que a democracia não nasce pronta nem se sustenta sozinha. Ela depende de pessoas como Hecilda, que não desistem, não se dobram e acabam por transformam dor em compromisso. E há uma espécie de gratidão íntima em poder registrar isso. Fico sempre com a sensação de que, ao contar esse tipo de história, também se ajuda a preservar um pedaço do futuro.

E se você quiser saber um pouco mais dessa história e está em Belém, aparece no espaço Ná Figueredo, ali na Gentil, nessa quarta-feira, dia 8 de abril de 2026. É pelo final da tarde. Vamos estar lá com o livro, música e um abraço para ofertar.

Com Hecilda, um registro no lançamento de Araguaianas, livro de seu filho Paulo.


Fonte: Medium

O movimento de Acesso Aberto fez o “Make America Healthy Again”

De conspirações à manipulação comercial de citações, as evidências são convincentes

The OA Movement Made MAHA

Por Kent Anderson para “The Geyser” 

Depois de anos observando e esperando que alguém juntasse as peças, três autores, em uma carta publicada no European Journal of Clinical Nutrition, finalmente fizeram o que foi preciso:

Na área da nutrição, onde alegações pseudocientíficas podem influenciar diretamente as escolhas alimentares e a saúde a longo prazo, os riscos são particularmente elevados. Combater esse fenômeno exige uma ação coordenada entre universidades, agências de fomento, sociedades profissionais e formuladores de políticas públicas para manter padrões editoriais rigorosos e reformar as estruturas econômicas que tornam os pesquisadores vulneráveis ​​a modelos exploratórios de taxas de publicação (APC) e a plataformas predatórias de baixo custo. Apoiar sistemas financeiramente equitativos, como modelos de publicação governados pela comunidade ou sem taxas de publicação (APC), é essencial para reduzir essa vulnerabilidade.

Sim, de fato — os incentivos preveem o resultado, o dinheiro é um incentivo fundamental, e o Acesso Aberto (AA) Ouro(ou Open Access Gold em inglês, OA Gold) não é “apenas mais um modelo de negócios”, mas sim um conjunto diferente de incentivos que criou uma vulnerabilidade por meio de um conflito de interesses — os orçamentos editoriais e as receitas das editoras dependem, parcial ou totalmente, de quantos autores pagam para publicar (e de quão lenientes ou rigorosos são os editores e as editoras). A tentação é reduzir os padrões e aumentar a produção. Os incentivos exigem isso.

Como resultado, vimos que alguns podem ser incrivelmente permissivos em relação aos padrões, quando não totalmente predatórios.

Insatisfeito com tudo, o movimento de AA foi além da “economia de artigos” do AA  Ouro, permitindo a publicação de pré-prints não revisados ​​em todas as áreas, mas principalmente na biomedicina por meio do bioRxiv e do medRxiv — exatamente no ponto ideal movimento Make American Healthy Again (MAHA)..

A vulnerabilidade começou a parecer mais um convite.

Agora, depois de anos de exploração comercial com produtos validados por “pesquisas revisadas por pares” publicadas mediante pagamento em periódicos de acesso aberto, temos o  MAHA, que agora está totalmente impregnado de teorias da conspiração revividas, pseudociência recente e informações falsas.

De onde surgiu? Como ganhou força na literatura científica?

Embora seja uma história mais longa do que temos tempo para contar aqui, o movimento AA e seus desdobramentos em prol da “informação livre” desempenharam um papel fundamental que vale a pena detalhar um pouco:

  • Medicina funcional De Mark Hyman a Casey Means, a ideia de cobrar preços exorbitantes por exames de medicina personalizada inúteis e mal descritos, e pelas palavras tranquilizadoras de charlatães bem pagos — ah, desculpe, quis dizer “medicina funcional” — recebeu sua aprovação por meio de um artigo publicado em 2019 no JAMA Network Open, um periódico de acesso aberto dourado. A maior parte do restante da literatura científica que apoia essa ideia também está em periódicos de acesso aberto pagos.
  • Ivermectina —Um artigo preliminar publicado no Research Square pegou a ideia marginal de que a ivermectina poderia ajudar em algumas doenças humanas e a publicou abertamente. Posteriormente, foi retirado do ar , mas não completamente (três das quatro versões não foram identificadas), e o medicamento ainda é usado em misturas não aprovadas vendidas a pessoas desavisadas.
  • Miocardite causada por vacinas contra Covid-19 — Um artigo preliminar com um erro matemático grave, publicado no medRxiv em 2021 e retirado pouco tempo depois,criou um mito persistente sobre as vacinas contra Covid-19 causarem miocardite. Esse mito tem sido usado para minar as políticas de vacinação do governo dos EUA.
  • Celulares e câncer cerebral Publicado inicialmente como pré-print porque nenhuma revista científica o aceitava, este caro estudo com ratos gerou muita repercussão e controvérsia na mídia quando foi divulgado anos atrás . Persistindo no campo das teorias da conspiração e em discussões sobre cérebros que parecem travar batalhas antigas (como as pirâmides alimentares, por exemplo), o tema foi recentemente ressuscitado por RFK Jr. para propor a proibição de celulares ou simplesmente para assustar as pessoas.
  • AG1 (Athletic Greens) O primeiro suco verde (uma goma verde ainda mais ridícula, com um urso verde de pelúcia falso como mascote, viria a seguir), a AG1 usou inúmeras “edições especiais” e artigos em periódicos como Frontiers e MDPI, todos pagos pela AG1 e “editados” por Jeremy Townsend, o especialista em ciência da AG1.
  • Pó de colostro bovinoMais um golpe barato, 83% das alegações científicas da AMRA foram feitas por autores que pagaram às editoras.
  • Fluoretação e QIJá falamos bastante sobre isso , mas RFK Jr. conseguiu reacender temores não científicos, quase eugênicos e da época da Guerra Fria, sobre o flúor na água potável, graças a uma revisão de acesso aberto publicada no JAMA Pediatrics . Como resultado, dois estados eliminaram a fluoretação da água potável, e é provável que outros sigam o mesmo caminho.
  • Peptídeos A mais recente fraude a ser adotada oficialmente pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), com pressão para aprovação de injetáveis ​​manipulados e sem comprovação científica, além de fornecedores de alto custo com acesso privilegiado ao MAHA (Medicare Advantage Health), uma análise recente mostrou que 64% dos artigos sobre esses peptídeos nos últimos 10 anos foram publicados em  AA  Ouro (mediante pagamento) em periódicos da MDPI (Medicare Methodology and Public Information).
  • Síndrome pós-vacinação Talvez tenhamos conseguido frustrar essa tentativa de preparar o terreno para processos judiciais relacionados à vacinação — pelo menos até agora. Isso tem a ver com pré-publicações próximas à MAHA, um estudo terrível e não cego que usa o grupo de apoio como preparação para litígios e um editor ciberlibertário que deveria saber mais . Mais munição para o grupo antivacina, e tudo isso ainda circula bastante, especialmente depois de um recente decreto de consentimento sem sentido (juridicamente), mas útil (retoricamente e conspiratoriamente), que o grupo “Disinformation Dozen” está comemorando .

Uma breve análise sugere que outros tópicos relacionados à MAHA também estão sendo impulsionados por publicações de acesso aberto dourado (AA Ouro) mediante pagamento, edições especiais e pré-publicações — óleos de sementes , glifosatos , corantes alimentares , parabenos e outros.

Além da forma como esses artigos pagos e pré-prints não revisados ​​se infiltram em serviços de descoberta e indexação como PubMed e PMC, eles também chegam a plataformas de acesso aberto como o OpenEvidence , como já documentamos diversas vezes.

O acesso aberto dourado e os preprints, bem como o movimento “aberto” em geral, parecem ter contribuído para viabilizar, validar e acelerar alegações pseudocientíficas.

AA fez o MAHA?

Sem dúvida, isso adicionou uma generosa camada de pseudociência ao bolo.


Fonte: The Geyser

Metade das pesquisas em Ciências Sociais não é replicável, mostra estudo

Um esforço ambicioso testou se mais de 100 artigos resistiam a múltiplos tipos de testes de “repetibilidade”

Ilustrações de papéis representando prédios, com uma pessoa abrindo um deles como se tivesse uma porta.

Davide Bonazzi/Salzmanart

Por Jeffrey Brainard para “Science”

Um amplo projeto envolvendo centenas de pesquisadores em dezenas de países mostrou que, em todas as ciências sociais, as conclusões de aproximadamente metade dos artigos não podem ser replicadas de forma independente, e não há maneira confiável de prever quais deles apresentarão problemas. Chamado de Sistematização da Confiança em Pesquisa e Evidências Abertas ( SCORE , na sigla em inglês), o projeto investigou mais de 100 artigos publicados em dezenas de periódicos de referência nas áreas de negócios, economia, educação, ciência política, psicologia e sociologia. A taxa de sucesso na replicação — 49% para os 164 artigos avaliados , relatada hoje na revista Nature — é consistente com as conclusões de estudos anteriores em áreas específicas, como a psicologia, sugerindo que o problema é generalizado nas ciências sociais.

O estudo também sugere que não há solução fácil. A equipe do SCORE esperava identificar indicadores-chave que pudessem ser associados à credibilidade de um artigo e, talvez, utilizados para fornecer aos leitores uma métrica de confiança nos resultados apresentados. Mas o esforço atual para encontrar esse denominador comum — que a equipe do SCORE descreveu no início do projeto como “ambicioso” — ficou, em grande parte, aquém do esperado, conforme descrito em um conjunto de artigos da Nature e pré-publicações separadas. “São necessárias muito mais evidências antes que possamos ter confiança em uma solução válida e escalável”, afirma o psicólogo Brian Nosek, líder do projeto SCORE e diretor do Centro de Ciência Aberta (COS) da Universidade da Virgínia.

No entanto, a dimensão e o alcance multidisciplinar do trabalho são sem precedentes, afirmam cientistas sociais não ligados ao projeto. “O nível de esforço colaborativo empregado nisso é incrível”, diz Kathryn Zeiler, economista e jurista da Universidade de Boston. “É um trabalho árduo. O fato de tantos cientistas terem se interessado por [fazer] isso demonstra o progresso que a metaciência [a ciência da ciência] alcançou de forma geral.”

Os investigadores do projeto testaram artigos científicos com base em três critérios que são frequentemente agrupados, mas que refletem facetas distintas do que a equipe do SCORE denomina repetibilidade da pesquisa: replicabilidade, reprodutibilidade e robustez. Um artigo é replicável se uma nova análise de dados diferentes, relevantes para a mesma questão, produzir o mesmo resultado geral; reprodutível quando os mesmos dados e análises utilizados no artigo original produzirem o mesmo resultado nas mãos de outro pesquisador; e robusto quando um método analítico diferente, aplicado aos mesmos dados, fornecer a mesma resposta.

A taxa de sucesso de replicação de 49% é semelhante à relatada pela equipe para reprodutibilidade precisa: 54% de 182 artigos . (Alguns artigos não puderam ser testados quanto à reprodutibilidade e replicação devido à falta de disponibilidade de dados e outras limitações.) Em um critério ligeiramente menos rigoroso, que os autores denominam reprodutibilidade aproximada, o número subiu para 74%. Nos testes de robustez , nos quais pelo menos cinco analistas examinaram cada um dos 100 artigos, pelo menos um analista apoiou a conclusão do artigo original em 74% dos casos. Mas em apenas 34% deles todos os analistas concordaram que o resultado estava correto. (Todos os artigos incluídos no projeto foram publicados até 2018; as taxas atuais poderiam ser maiores, considerando as práticas acadêmicas em evolução e os requisitos das revistas científicas voltados para o aprimoramento do rigor analítico e da transparência.)

“Eles apresentaram diferentes maneiras de considerar a reprodutibilidade, o que eu acho realmente importante”, diz Kelly Cobey, uma metacientista do Instituto do Coração da Universidade de Ottawa que não participou do estudo. “Há uma necessidade constante de os pesquisadores estabelecerem confiança na pesquisa que produzimos, e analisar os métodos que utilizamos para conduzir e analisar nossa pesquisa é um componente fundamental para manter essa confiança.”

Os pesquisadores também coletaram mais de uma dúzia de outras medidas que, em sua opinião, poderiam indicar a credibilidade e o rigor de um estudo — e se as descobertas poderiam ser replicadas. Os potenciais indicadores incluíam se o artigo relatava ressalvas, se seguia os padrões de compartilhamento de dados e o número de vezes que foi citado. Eles tinham motivos para acreditar que a busca por tal indicador poderia dar frutos: anteriormente, pesquisadores relataram algum sucesso usando ferramentas de inteligência artificial (IA) e “mercados de previsão”, nos quais cientistas basicamente apostam em artigos individuais sobre quais poderiam ser replicados — sugerindo que havia algumas semelhanças subjacentes.

No entanto, a investigação não encontrou nenhum marcador que se destacasse como confiável . Apenas um fator apresentou alta correlação com a reprodutibilidade: a disponibilidade de dados. Apenas um terço dos artigos na amostra de reprodutibilidade do SCORE disponibilizaram prontamente os dados e o código computacional que sustentavam as descobertas — e esses artigos apresentaram uma taxa de reprodução muito maior. 

Os modelos de IA também falharam em identificar com precisão quais estudos poderiam ser replicados , mesmo quando os algoritmos foram treinados para imitar previsões humanas precisas. Um projeto subsequente do COS está usando uma competição com prêmios em dinheiro para testar novas formas de IA, e algumas apresentaram melhor desempenho . Se aprimoradas, as previsões de replicabilidade poderiam eventualmente ser usadas para avaliar quais estudos justificam revisões completas por avaliadores independentes, afirmam os autores do SCORE — talvez aqueles com baixos índices de confiança, mas que sejam particularmente importantes para políticas públicas e bem-estar humano. (O SCORE foi financiado inicialmente pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos EUA (DARPA) para estudar técnicas automatizadas que auxiliassem as forças armadas americanas no uso de pesquisas em ciências sociais, que são extensas.)

Segundo Cobey, melhorar a replicabilidade exige reformas nas avaliações profissionais e nas práticas de financiamento para incentivar os pesquisadores a priorizar o rigor e a qualidade em vez da quantidade de artigos publicados. “Responder às questões persistentes sobre a credibilidade da pesquisa exige uma mudança cultural na forma como conduzimos pesquisas.”

Alguns críticos da ciência contemporânea — incluindo funcionários do governo do presidente Donald Trump — afirmam que a dificuldade em replicar alguns estudos indica falhas sistêmicas generalizadas, negligência e fraude por parte dos pesquisadores. Nosek discorda e diz que as razões para essas falhas são complexas; ele espera que o novo estudo incentive mais pesquisas para entender por que elas ocorrem e encontrar novas maneiras de aprimorar o rigor científico. “Uma única falha na replicação não invalida o resultado original”, afirma Nosek. “Trata-se de uma nova evidência, que, por sua vez, suscita novas perguntas, novas investigações e, eventualmente, chegamos a respostas nas quais podemos confiar.”


Fonte: Science

Professor da Universidade Estadual de Goiás lança livro sobre rede global extrativas de terras raras

Recebi e estou compartilhando o livro intitulado “Rede Global Extrativa de Terras Raras: Asfixia Territorial no Brasil” de autoria do professor  Ricardo Assis Gonçalves do Departamento de Geografia da Universidade Estadual de Goiás no campus Cora Coralina em Goiás Velho, e que atualmente realiza pós-doutorado na Universidad Autónoma Metropolitana (UAM,Xochimilco, México). O professor Ricardo Assis também participa da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental (RP-G(S)A),  onde desde 2024 se soma ao acúmulo de pesquisas críticas sobre o modelo de mineração no Brasil. Nesse contexto, Assis mostra nesta obra que a interlocução entre Geografia e Ecologia Política tem possibilitado fortalecer a elaboração teórica acerca das implicações territoriais e ambientais da mineração em Goiás e no Brasil. 

O objetivo central deste livro é compreender a rede global extrativa das terras raras e demonstrar como o Brasil está no centro das disputas por minerais críticos e estratégicos. Isso ainda requer o entendimento das implicações territoriais, ambientais e econômicas da expansão da fronteira extrativa mineral no território brasileiro. Os interesses por minerais críticos como terras raras vem expandindo projetos de mineração, pedidos de pesquisa e lavra que ameaçam territórios, comunidades e ecossistemas locais.

A obra argumenta que o aprofundamento do modelo mineral predatório pode ampliar conflitos, violências, expropriações compulsórias, contaminações ambientais e adoecimentos de trabalhadores, produzindo zonas de sacrifícios nos territórios minerados. Em síntese, resulta disso a asfixia territorial no Brasil.

Quem desejar baixar o livro, basta clicar [Aqui!].

 

Novo estudo avança conhecimento da ciência ao relacionar a exposição a agrotóxicos ao câncer

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Por Carey Gillam para “The New Lede”

Um novo estudo sobre a exposição a agrotóxicos no Peru revela uma associação mecânica entre a exposição e o câncer, e demonstra como “misturas complexas de agrotóxicos” podem contribuir para o desenvolvimento de câncer em pessoas, mesmo em níveis de exposição atualmente considerados seguros.

Os autores do estudo, publicado na Nature Health , afirmaram que as descobertas questionam as abordagens toxicológicas clássicas, baseadas na avaliação de substâncias isoladas e no estabelecimento de limites de segurança, e demonstram a importância de se analisar os impactos de misturas de múltiplos agrotóxicos.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e outras agências reguladoras ao redor do mundo normalmente avaliam os agrotóxicos individualmente e não em combinação, uma prática que tem sido alvo de críticas.

“Há muito tempo presumimos que os riscos dos pesticidas são avaliados individualmente, mas, na realidade, as pessoas estão constantemente expostas a misturas complexas em seu ambiente cotidiano — e nossas descobertas sugerem que essa realidade negligenciada pode ser um componente importante do risco de câncer”, disse o coautor do estudo, Stephane Bertani, diretor de pesquisa em biologia molecular do Instituto Francês de Pesquisa Científica Internacional (IRD).

Além do IRD, a equipe de pesquisa incluiu cientistas do Instituto Pasteur e do Instituto Nacional de Doenças Neoplásicas (INEN).

A equipe afirmou que seu estudo é o primeiro a destacar os mecanismos biológicos pelos quais a exposição a agrotóxicos pode contribuir para o desenvolvimento de certos tipos de câncer.

Os pesquisadores se concentraram no Peru, combinando dados ambientais com informações sobre mais de 150.000 pessoas diagnosticadas com câncer entre 2007 e 2020, contidas em registros nacionais de câncer, e análises biológicas.

O estudo envolveu o mapeamento das áreas do Peru mais expostas à contaminação por agrotóxicos entre 2014 e 2019. Os autores afirmaram ter descoberto que certos tumores, mesmo aqueles que afetam diferentes órgãos, compartilham vulnerabilidades biológicas comuns ligadas à sua origem celular, que podem ser enfraquecidas pela exposição a agrotóxicos.

“Análises moleculares realizadas em tecido hepático, um órgão fundamental no processamento de substâncias químicas e considerado um indicador de exposição ambiental, mostram que os agrotóxicos interferem nos mecanismos que mantêm a identidade celular e o funcionamento normal”, afirma um comunicado de imprensa que acompanha o novo estudo.

“Essas alterações biológicas surgem antes do desenvolvimento do câncer, sugerindo efeitos precoces, cumulativos e silenciosos. Elas podem tornar os tecidos mais vulneráveis ​​a outros fatores, como infecções, inflamações ou fatores ambientais”, afirma o comunicado à imprensa.

Bruce Lanphear, professor de ciências da saúde na Universidade Simon Fraser, afirmou que o estudo representa um passo na “direção certa” em termos de análise de misturas de agrotóxicos, exposições no mundo real e plausibilidade biológica, mas “não chega a demonstrar que os agrotóxicos são a causa dos padrões de câncer observados”.

“O próximo passo é simples, embora não seja fácil: medir a que as pessoas estão realmente expostas e acompanhá-las ao longo do tempo”, disse Lanphear. “Isso significa combinar o biomonitoramento com estudos de coorte ou de caso-controle, levando em consideração outros fatores de risco importantes e relacionando as exposições individuais a alterações biológicas precoces e doenças.”

O estudo incluiu informações sobre a exposição a 31 agrotóxicos diferentes, incluindo atrazina, glifosato e 2,4-D – todos herbicidas de uso comum; bem como clorpirifós, imidaclopride e permetrina – inseticidas de uso comum. Ao todo, 19 inseticidas, 7 fungicidas e 5 herbicidas fizeram parte do estudo. Nenhum deles é atualmente classificado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer como carcinogênico, embora vários sejam classificados como provavelmente ou possivelmente carcinogênicos.

Nos Estados Unidos, dezenas de milhares de pessoas processaram a Monsanto, fabricante do glifosato, e sua proprietária, a Bayer, alegando que a exposição a produtos à base de glifosato causou o desenvolvimento de câncer. A Suprema Corte dos EUA deve analisar, no final de abril, um recurso da Bayer no qual a empresa argumenta que não deve ser responsabilizada por não alertar sobre os riscos de câncer, caso a Agência de Proteção Ambiental (EPA) não tenha exigido tais advertências.

Análises realizadas por dois grupos de saúde pública sem fins lucrativos constataram, no entanto, que a EPA tem um histórico de não exigir avisos sobre o risco de câncer em agrotóxicos, mesmo quando a própria agência determina que os ingredientes de um produto são cancerígenos.

Imagem em destaque por Dibakar Roy  no  Unsplash.


Fonte: The New Lede

Ultraprocessados, e até bebidas alcoólicas, são mais expostos por ambulantes próximo a escolas privadas do país do que alimentos saudáveis

Comida de rua: o que os estudantes estão comendo

Estudantes de escolas particulares de todo o país estão até duas vezes mais expostos a alimentos ultraprocessados e até bebidas alcoólicas, vendidos por ambulantes, do que a opções saudáveis. Na região Nordeste essa diferença pode ser até quatro vezes maior, segundo estudo liderado pela Universidade Federal de Pernambuco, publicado nesta quinta (2) na Revista da Saúde Pública.

Na lista dos itens ultraprocessados mais encontrados à venda por ambulantes nas proximidades das escolas estão refrigerante (46,2%) – predominante em quatro regiões, exceto no Sul – seguido de guloseimas (29,6%) e salgadinho de pacote (21,5%). O Nordeste liderou a venda de bebidas alcóolicas (7,5%) no entorno das instituições educacionais.

Já entre os alimentos considerados saudáveis ou minimamente processados estão a água mineral (55,2%) – majoritária em todas as regiões -, café (12,2%) e o bolo de preparação culinária (11,6%).
A pesquisa, que faz parte do Estudo Comercialização de Alimentos em Escolas Brasileiras (Caeb), realizado de 2022 a 2024, teve como base 2.180 escolas privadas de todas as regiões do país e quase 700 ambulantes.

Além dos dados sobre os tipos de alimentos a que estudantes do ensino fundamental e médio são expostos no comércio de rua, o estudo mostra também o perfil dos vendedores informais: a maioria são homens (57,78%), negros (68,8%) e com ensino médio completo (35,8%). Mostra também que a opção pelo comércio em barracas ou carrinhos – que se mostra como a principal fonte de renda – foi impulsionada pela crise econômica iniciada em 2017 e pela pandemia de covid-19, em 2020. Apenas na região Nordeste, as mulheres são maioria (52,6%). Outro destaque é que quanto maior o porte do comércio, maior é a quantidade de ultraprocessados à venda.

Para a pesquisadora Sabrina Clark (UFPE), e uma das autoras do artigo, o estudo reflete questões estruturais relacionadas à desigualdade social e revela uma problemática com o registro do comércio de bebidas alcóolicas nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste. “Bebidas alcoólicas na proximidade de instituições de ensino aumentam o risco do consumo por parte dos estudantes, apesar da legislação proibitiva para menores de 18 anos. Este é um dos grandes desafios na abordagem ao comércio ambulante que ocupa tanto o ambiente alimentar comunitário quanto o ambiente escolar”, alerta.

Clark destaca ainda que o levantamento mostra a urgência na elaboração de políticas públicas para regular o comércio informal no entorno escolar e que garantam a segurança alimentar de crianças e adolescentes. “Já temos feito uso dessas informações nas ações de advocacy para a proposição e aprovação de dispositivos legais em parceria com entidades como a Unicef e representantes da sociedade civil”, diz. “Importante mencionar também o PL 4.501/2020, em vias de votação no Senado, que representa um importante avanço regulatório do ambiente alimentar escolar ao proibir a comercialização de ultraprocessados, frituras e gordura trans nas cantinas de escolas públicas e privadas. A partir do avanço dessa discussão temos ganhado espaço para abordar também o ambiente alimentar informal.”


Fonte: Agência Bori

Estudo explica por que inflação de alimentos é fenômeno estrutural no Brasil

Comida cara, prato vazio: o preço da desigualdade no Brasil

 

A alta nos preços dos supermercados costuma ser o principal termômetro da economia para a maioria da população. No noticiário, é comum que a culpa pelo encarecimento da comida recaia sobre vilões isolados, como uma seca inesperada, uma geada sazonal ou as oscilações do dólar. No entanto, para além das variações pontuais, o prato do brasileiro tem ficado cronicamente mais caro, dificultando o acesso contínuo a refeições balanceadas e nutritivas.

Um novo estudo brasileiro, publicado pela ACT Promoção da Saúde, revela que a inflação de alimentos no Brasil vai muito além de crises passageiras e se configura como um fenômeno estrutural e sistêmico, que encarece os produtos frescos em detrimento dos ultraprocessados. A pesquisa foi conduzida por Valter Palmieri Júnior, economista e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp, e detalha as engrenagens políticas e econômicas que ditam os preços nas prateleiras.

Para a ACT, o estudo supera análises simplificadas e superficiais ao revelar uma rede de fatores interdependentes, que se influenciam continuamente. De acordo com Marília Albiero, gerente de inovação e estratégia da ACT, “essa abordagem sistêmica amplia a compreensão dos mecanismos que sustentam o problema e qualifica o diagnóstico. Nesse sentido, reforça a importância de dar continuidade e aprimorar as políticas públicas existentes, e ao mesmo tempo chama atenção para a necessidade de soluções inovadoras capazes de responder às demandas atuais da sociedade e do planeta”.

Segundo o pesquisador Valter Palmieri Júnior, a inflação dos alimentos no país está profundamente ligada ao padrão de desenvolvimento focado na exportação, que deixa o abastecimento interno vulnerável e em segundo plano.

“A inflação de alimentos no Brasil decorre de um conjunto de fatores inter-relacionados que ajudam a explicar por que ela tem sido, nas últimas décadas, superior à inflação geral”, afirma Palmieri Júnior. O modelo agroexportador e a forma de inserção internacional do país direcionam recursos produtivos para a exportação, o que afeta, indiretamente, a produção e os custos dos alimentos voltados ao mercado interno, como arroz, feijão, frutas e hortaliças.

Além da prioridade voltada ao mercado externo, a ausência de políticas públicas consistentes para a agricultura familiar e a alta concentração econômica em toda a cadeia produtiva pressionam as margens de lucro e encarecem a comida. Esse cenário altera drasticamente as escolhas nos lares mais pobres, que acabam migrando para opções aparentemente mais baratas, porém prejudiciais à saúde.

“Se uma pessoa destinasse, por exemplo, 5% do salário mínimo para comprar alimentos em 2006, hoje, com essa mesma proporção, ela conseguiria levar mais produtos ultraprocessados e menos alimentos saudáveis. Entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas caiu cerca de 31%”, alerta o autor do estudo. “Alimentos in natura tiveram aumentos superiores à inflação geral, enquanto muitos ultraprocessados ficaram relativamente mais baratos. Esse movimento altera os incentivos econômicos de consumo e tende a piorar a qualidade da dieta.”

Para reverter esse quadro e garantir o direito à alimentação adequada, a pesquisa defende uma reconstrução institucional urgente, dividida em frentes interdependentes. O estudo propõe o fortalecimento da base produtiva nacional com crédito e acesso à terra, o fomento à concorrência para enfrentar a concentração de mercado, além da retomada de estoques públicos para reequilibrar o abastecimento doméstico frente às exportações. Controlar a inflação da comida, portanto, exige tratar a alimentação como um eixo central das políticas de Estado, superando a lógica focada apenas na rentabilidade e no comércio exterior.


Fonte: Agência Bori

Crise no CMMADS de São João da Barra revela tensões entre poder econômico, gestão pública e comunidades afetadas pelo Porto do Açu

Presença de representantes do Porto do Açu no conselho reacende debate sobre captura institucional, impactos socioambientais e a necessidade de mobilização social

Como observador privilegiado da política ambiental em São João da Barra, venho acompanhando a rede de intrigas que se formou no Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMMADS) após a reação — justa e necessária — à ocupação de dois assentos por representantes do Porto do Açu.  A situação já seria, por si só, insólita. Desde sua implantação, o Porto do Açu se consolidou como um relevante agente de alterações ambientais e fonte de poluição no município. A inclusão, no conselho, de uma empresa vinculada ao empreendimento — associada a um processo de desterritorialização que atinge centenas de pescadores dependentes da Lagoa de Iquipari — configurou um gesto considerado acintoso. Na prática, a decisão foi interpretada como um desrespeito direto às populações afetadas, ao atribuir a gestão ambiental a quem carece de isenção para exercê-la.

Diante da repercussão negativa, representantes do governo municipal de São João da Barra — liderados pela secretária de Meio Ambiente, Marcela Toledo, reconhecida por sua proximidade com o Porto do Açu — e integrantes do próprio empreendimento adotaram uma estratégia em duas frentes. Inicialmente, ensaiaram uma retirada parcial, no conhecido movimento de “recuar sem sair”: deixaram a presidência do CMMADS, mas mantiveram assentos no colegiado. Em seguida, articularam a saída do conselheiro considerado mais crítico, por meio da revogação de sua nomeação, anteriormente vinculada ao Rotary Club de São João da Barra.

As medidas, ainda que previsíveis, não devem encerrar os questionamentos legais sobre a presença de um dos principais agentes de impacto ambiental ocupando cadeiras no conselho. O contexto se agrava diante da proposta de transformar parte significativa do V Distrito em uma vitrine ambiental de caráter questionável, conforme previsto no novo Plano Diretor Municipal. O objetivo, segundo a crítica apresentada, seria isolar as comunidades locais e, ao mesmo tempo, obscurecer problemas já evidentes, como a erosão costeira, a salinização de águas continentais e a sobreexploração das reservas hídricas do Aquífero Emborê.

Com base em estudos já desenvolvidos sobre os impactos socioambientais associados ao Porto do Açu, a avaliação é de que São João da Barra, de forma deliberada ou não, tornou-se um caso emblemático. O município se apresenta hoje como um laboratório a céu aberto para a análise dos efeitos dos grandes empreendimentos portuários instalados ao longo da costa brasileira nas últimas duas décadas, voltados sobretudo à exportação de commodities agrícolas e minerais.

Nesse cenário, o episódio do CMMADS revela mais do que uma disputa pontual por assentos: expõe fragilidades institucionais, conflitos de interesse e a crescente assimetria entre atores econômicos e comunidades locais. Ao tensionar os limites da governança ambiental, o caso evidencia o risco de captura de instâncias participativas e reforça a necessidade de mecanismos mais robustos de controle social e transparência na gestão pública. Nesse contexto, torna-se fundamental o aprofundamento da mobilização social como estratégia para impedir a captura corporativa do CMMADS e assegurar que o conselho cumpra, de fato, sua função pública.

Da memória à esperança: títulos de terra são entregues no Assentamento Cícero Guedes nas terras da antiga Usina Cambahyba

A cerimônia realizada hoje no Centro de Convenções da UENF, na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, marcou um momento histórico para as famílias do Assentamento Cícero Guedes: a entrega de 185 títulos de concessão de uso dos lotes nas terras desapropriadas da antiga Usina Cambahyba. O ato reuniu dirigentes universitários, parlamentares, sindicalistas, assentados, movimentos sociais, e apoiadores da reforma agrária, consolidando uma conquista construída ao longo de anos de mobilização e resistência.

Um dos momentos mais emocionantes foi a fala de Mateus Guedes, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e filho de Cícero Guedes, liderança histórica assassinada enquanto apoiava a luta pela criação do assentamento. Em seu discurso, Mateus destacou que a entrega dos títulos simboliza não apenas segurança jurídica para as famílias, mas também a continuidade do legado de seu pai e de tantos trabalhadores que lutaram para transformar terras antes improdutivas em espaços de vida, trabalho e produção.

A formalização das concessões representa um passo decisivo para a consolidação do assentamento, garantindo às famílias condições mais estáveis para investir na produção, acessar políticas públicas e planejar o futuro com maior segurança. Ao mesmo tempo, o evento reafirmou o papel da reforma agrária como política estruturante para o país. Mais do que ampliar a produção de alimentos, a democratização do acesso à terra contribui para gerar trabalho, fortalecer economias locais e reduzir desigualdades históricas na distribuição de renda no Brasil.

Assim, a cerimônia de hoje simboliza uma vitória coletiva: das famílias assentadas, dos movimentos sociais e de todos que defendem um modelo de desenvolvimento rural baseado na justiça social, na produção de alimentos e na construção de um país mais igualitário.

Como nota final, a cerimônia também carregou um forte simbolismo histórico. Os fornos da antiga Usina Cambahyba foram utilizados durante a ditadura militar para incinerar corpos de oposicionistas do regime, um dos capítulos mais sombrios da história recente do país. De forma profundamente irônica e carregada de significado, a entrega dos títulos ocorreu exatamente no 62º aniversário do golpe militar de 1964, transformando um espaço marcado pela violência e pela tentativa de apagar vidas em um território de memória, justiça e reconstrução coletiva. Hoje, o que antes foi cenário de morte torna-se símbolo de vida, dignidade e esperança para centenas de famílias da reforma agrária.

Estudo na UENF mostra que RPPN Caruara causou desterritorialização da pesca lagunar em São João da Barra

Como uma política ambiental corporativa vem restringindo a pesca artesanal e reconfigurando territórios tradicionais no entorno do Porto do Açu

Um estudo recente sobre o entorno do Porto do Açu, no norte fluminense, traz à tona uma contradição cada vez mais presente em contextos de grandes empreendimentos: políticas de proteção ambiental podem estar sendo mobilizadas como instrumentos de exclusão territorial. O foco da análise é a Lagoa de Iquipari, historicamente utilizada por pescadores artesanais do V Distrito de São João da Barra (RJ). A pesquisa em questão é a dissertação de mestrado do geógrafo sanjoanense Jayson Freitas Gomes, desenvolvida  sob minha orientação no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). O trabalho investiga, com base empírica consistente, os impactos do programa de proteção ambiental implementado pelo Porto do Açu sobre comunidades pesqueiras locais.

A inflexão ocorre em 2012, quando a lagoa passa a integrar a RPPN Fazenda Caruara, uma reserva privada vinculada ao complexo portuário. A partir desse momento, o acesso à área passa a ser regulado por uma série de normas restritivas que impactam diretamente a pesca artesanal. Na prática, atividades tradicionais passam a ser limitadas, quando não completamente inviabilizadas. O argumento central do estudo é que esse processo vai além da regulação ambiental: trata-se de uma dinâmica de desterritorialização. Ao serem impedidos de acessar a lagoa, os pescadores não apenas perdem sua principal fonte de renda, mas também são progressivamente desconectados de um território que sustenta modos de vida, saberes e identidades construídas ao longo de gerações.

A dissertação, baseada em revisão bibliográfica, análise documental e trabalho de campo com entrevistas e questionários, evidencia que as restrições impostas não são percebidas como medidas de proteção compartilhada, mas como mecanismos de exclusão. Muitos pescadores relatam a impossibilidade de continuar exercendo sua atividade, o que intensifica quadros de vulnerabilidade socioeconômica já existentes.

Esse cenário se insere em um contexto mais amplo. Em economias periféricas como a brasileira, marcadas por políticas neoliberais e pela expansão do neoextrativismo, grandes corporações têm ampliado seu controle sobre territórios estratégicos. Nesse movimento, programas ambientais frequentemente cumprem uma dupla função: ao mesmo tempo em que contribuem para a valorização simbólica e financeira dos empreendimentos, também ajudam a reorganizar o uso do território em favor do capital.

No caso da Lagoa de Iquipari, isso se traduz em um paradoxo evidente: enquanto a área é formalmente protegida, os grupos que historicamente contribuíram para sua conservação são afastados. A natureza é preservada — mas sem as pessoas que sempre fizeram parte dela.

A questão que emerge é inevitável: quem define o que é proteger — e para quem essa proteção serve? Quando políticas ambientais desconsideram os direitos e os modos de vida de comunidades tradicionais, elas correm o risco de reproduzir, sob novas justificativas, antigas formas de expropriação.

Quem desejar baixar o arquivo contendo a dissertação de Jayson Freitas Gomes, basta clicar [Aqui!].