Quando a paisagem distópica de Matteo Wong chegar ao Açu

Por trás da aparente imaterialidade da inteligência artificial existe uma gigantesca infraestrutura industrial cuja expansão começa a produzir conflitos por energia, água e território

A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma espécie de manifestação máxima da desmaterialização da economia. Falamos em algoritmos, nuvens, modelos e processamento de informações como se tudo isso acontecesse em algum espaço virtual separado do mundo físico. A reportagem de Matteo Wong, publicada pela The Atlantic sob o sugestivo título Inside the Dirty, Dystopian World of AI Data Centers, desmonta essa fantasia ao mostrar que a chamada revolução da inteligência artificial depende de uma infraestrutura extraordinariamente material, formada por gigantescos galpões repletos de servidores, linhas de transmissão, subestações elétricas, sistemas de refrigeração, geradores e, cada vez mais, usinas destinadas a alimentar uma demanda energética que cresce em velocidade impressionante.

O exemplo mais impressionante apresentado por Wong é o Colossus, data center construído pela xAI em Memphis, nos Estados Unidos. Funcionando em sua capacidade máxima durante um ano, o complexo pode consumir eletricidade equivalente à utilizada por cerca de 200 mil residências norte-americanas. Quando outras instalações previstas pela empresa estiverem operacionais, a demanda poderá chegar perto de 2 GW. A dimensão desse processo fica ainda mais evidente quando se observa que a OpenAI anunciou instalações cuja demanda agregada poderá ultrapassar 30 GW, enquanto a Agência Internacional de Energia estima que, já em 2030, os data centers poderão consumir nos Estados Unidos mais eletricidade do que todas as indústrias pesadas do país somadas.

A consequência é que a expansão da inteligência artificial começa a produzir uma corrida paralela pela produção de energia. E aqui surge uma das maiores contradições do discurso que apresenta a digitalização como parte de uma economia supostamente limpa. Para colocar rapidamente o Colossus em operação, a xAI recorreu a dezenas de turbinas movidas a gás natural, enquanto novos projetos de data centers estão estimulando a construção de termelétricas e até prolongando a vida útil de usinas movidas a carvão. Segundo Wong, a própria Agência Internacional de Energia estima que as emissões associadas aos data centers poderão mais que dobrar até 2030.

Mas eletricidade é apenas uma parte do problema. Os chips utilizados nos sistemas de inteligência artificial consomem enormes quantidades de energia e produzem muito calor, o que transforma a refrigeração em uma necessidade permanente. Em muitos casos isso significa também consumir grandes volumes de água. Registros públicos citados pela The Atlantic mostram que o endereço onde funciona o Colossus utilizou mais de 11 milhões de galões de água apenas em setembro, quantidade equivalente ao consumo anual de aproximadamente 150 residências norte-americanas.

O problema ganha outra dimensão quando os data centers começam a se concentrar territorialmente. Loudoun County, na Virgínia, oferece talvez a melhor antecipação do que pode acontecer em outras regiões. Ali já existem 199 data centers em operação e cerca de outros 30 planejados. A concentração foi tão intensa que surgiu uma paisagem conhecida como Data Center Alley, formada não apenas pelos enormes prédios que abrigam servidores, mas por subestações, torres, linhas de transmissão, sistemas de refrigeração e dezenas de geradores de emergência. Em outras palavras, o data center não deve ser compreendido apenas como um empreendimento imobiliário ou tecnológico isolado. Ele cria ao seu redor uma verdadeira ecologia industrial destinada a garantir permanentemente energia, refrigeração, água e conectividade.

Existe ainda uma questão econômica que merece atenção. Apesar das centenas de bilhões de dólares atualmente direcionadas para essa infraestrutura, Wong lembra que permanece aberta a discussão sobre a sustentabilidade econômica desse gigantesco ciclo de investimentos. Caso as expectativas depositadas na inteligência artificial não se confirmem ou avanços tecnológicos reduzam drasticamente a necessidade de processamento, parte da infraestrutura atualmente planejada poderá tornar-se o que o próprio artigo descreve como ruínas de um futuro que não chegou. O problema é que as usinas, linhas de transmissão, alterações territoriais e impactos ambientais necessários para alimentar essa corrida estarão materializados muito antes de sabermos se todas essas apostas econômicas se sustentarão.

E quando a nuvem chegar ao Porto do Açu?

Essa discussão ganha importância imediata para o Norte Fluminense. A empresa britânica Yamna acaba de reservar inicialmente 20 hectares dentro do complexo industrial do Porto do Açu para instalar um campus de data centers de hiperescala preparado para inteligência artificial, com direito preferencial de expansão para outros 20 hectares. Somente a primeira fase prevê 250 MW de capacidade, e a própria empresa informa que o empreendimento foi concebido para poder crescer posteriormente.

É justamente a expressão “250 MW na primeira fase” que deveria acender um sinal de alerta. O que está sendo anunciado não parece ser simplesmente a construção de um data center, mas a abertura de uma nova frente de expansão industrial no interior de um complexo que já reúne termelétricas, instalações de petróleo e gás, terminais de minério e granéis, estruturas logísticas e numerosos projetos industriais. A disponibilidade de cerca de 3 GW de capacidade termelétrica instalada da GNA e de infraestrutura de transmissão de 500 kV é apresentada, inclusive, como uma das vantagens competitivas do Açu para atrair essa nova indústria.

No caso de São João da Barra, porém, há uma questão adicional que não pode ser tratada como detalhe: a água. A instalação de um empreendimento potencialmente intensivo em refrigeração ocorre em uma região costeira onde a disponibilidade e a qualidade dos recursos hídricos já constituem problemas ambientais relevantes. Por isso, antes que o empreendimento seja celebrado como mais uma demonstração da suposta modernidade do Porto do Açu, será indispensável conhecer qual tecnologia de refrigeração será utilizada, qual será a demanda hídrica máxima e média, de onde virá essa água, quais serão os volumes efetivamente consumidos e descartados e, sobretudo, como essa nova demanda será analisada diante das pressões cumulativas já existentes sobre os recursos hídricos regionais.

Esse último aspecto é fundamental porque a discussão ambiental não pode continuar sendo feita empreendimento por empreendimento, como se cada instalação surgisse sobre uma folha em branco. A questão central é compreender os impactos cumulativos e sinergísticos produzidos pela sucessiva concentração de grandes projetos sobre um território costeiro ecologicamente sensível, já submetido à erosão, salinização, transformação de sistemas lagunares, industrialização acelerada e restrições crescentes aos modos tradicionais de utilização do território.

O artigo de Matteo Wong ajuda justamente a retirar os data centers do mundo aparentemente imaterial da “nuvem” e recolocá-los onde efetivamente existem: no território. E talvez seja essa a pergunta que São João da Barra deveria fazer antes que mais um grande empreendimento seja incorporado à paisagem do Açu: quanta energia, quanta água e quanto território serão necessários para sustentar essa nova fronteira industrial e quem ficará com os benefícios e com os custos ambientais dessa transformação?

Porque a nuvem que está chegando ao Porto do Açu não paira no céu. Ela ocupa terra, consome energia e pode beber muita água.

Quantos portos ainda cabem no Açu?

De terminal de minério e petróleo a complexo de termelétricas, siderurgia, fertilizantes, hidrogênio, amônia e data centers, a expansão transnacional do Porto do Açu multiplica pressões sobre um território já ameaçado pela erosão e pela salinização

A expansão transnacional do Porto do Açu acumula data centers, termelétricas, siderurgia, fertilizantes e novos projetos energéticos sobre uma região já pressionada pela erosão, salinização e transformação das formas tradicionais de ocupação

A sucessão de novos empreendimentos anunciados para o emprrendimento criado por Eike Batista exige uma mudança na maneira de discutir seus impactos socioambientais. Já não basta avaliar separadamente uma termelétrica, um terminal portuário, uma siderúrgica, uma fábrica de fertilizantes ou um data center. O que precisa estar no centro da discussão são os efeitos cumulativos e sinérgicos da concentração de todas essas atividades sobre um mesmo território costeiro, ecologicamente sensível e que já apresenta sinais evidentes de estresse ambiental.

O anúncio de que a Yamna assegurou uma área para instalar um campus de data centers com capacidade inicial de 250 MW acrescenta uma atividade intensiva em eletricidade e potencialmente também em água a uma região onde a intrusão salina na foz do Rio Paraíba do Sul já compromete periodicamente o abastecimento de São João da Barra. Antes de celebrar a chegada da economia digital ao Açu, portanto, é indispensável saber quanta água será utilizada, de onde ela virá, qual tecnologia de refrigeração será empregada e o que acontecerá nos períodos de baixa vazão do Paraíba do Sul, quando aumenta o risco de avanço da cunha salina.

O problema torna-se maior quando esse empreendimento é colocado ao lado das atividades existentes e planejadas. O Açu concentra termelétricas e gigantescas operações de petróleo e minério de ferro, enquanto avança sobre siderurgia, hidrogênio, amônia, infraestrutura digital e cadeias vinculadas ao agronegócio. A recente entrada na movimentação de enxofre é ilustrativa: o desembarque inaugural foi de apenas 1,5 mil toneladas, mas a infraestrutura projetada pretende movimentar 300 mil toneladas anuais, além de abastecer uma futura unidade misturadora de fertilizantes. O Terminal Multicargas também já movimenta soja e milho, revelando uma estratégia explícita de abertura de uma nova frente de crescimento ligada ao agronegócio.

Estamos, portanto, diante da transformação progressiva do Açu em um complexo portuário, energético, industrial, agroexportador e digital. Entretanto, o território que recebe todos esses empreendimentos continua sendo o mesmo. O consumo de água se acumula, novas infraestruturas ocupam espaço, emissões se sobrepõem, aumenta a circulação de navios e caminhões e intervenções portuárias passam a coexistir com processos de erosão costeira, salinização e alterações em uma planície formada por lagoas, canais, restingas, praias, áreas úmidas e aquíferos.

A violência lenta de um território em transformação

É nesse ponto que o conceito de “violência lenta”, desenvolvido por Rob Nixon, oferece uma chave particularmente apropriada para compreender o que ocorre no Açu. Diferentemente de uma catástrofe que acontece subitamente, a violência lenta se desenvolve durante anos ou décadas, por meio da acumulação de transformações que progressivamente deterioram as condições ambientais necessárias à reprodução da vida.

No Açu, essa violência não precisa assumir a forma espetacular de um grande desastre. Ela pode aparecer na erosão das praias, na salinização das águas, na transformação de lagoas, na perda de acesso a determinados espaços, na pressão sobre áreas agrícolas e pesqueiras e na substituição progressiva de formas tradicionais de utilização do território por grandes infraestruturas industriais e logísticas.

Essa dimensão torna-se ainda mais relevante diante da crescente transnacionalização do complexo. Corporações privadas e empresas vinculadas a Estados estrangeiros participam de diferentes cadeias instaladas no Açu, fazendo com que decisões capazes de transformar profundamente São João da Barra sejam tomadas em escalas muito distantes das comunidades que experimentarão seus efeitos. O problema não está simplesmente na origem estrangeira do capital, mas na possibilidade de consolidação de uma geografia conhecida: decisões e benefícios internacionalizados enquanto custos e passivos ambientais permanecem territorializados.

Quando permanecer no território deixa de ser possível

É justamente aqui que a violência lenta encontra outra categoria importante: a dos “refugiados do desenvolvimento”. Grandes empreendimentos podem produzir deslocamentos não apenas por desapropriações formais, mas pela deterioração progressiva das condições necessárias à permanência das populações em seus territórios.

Quando agricultores perdem acesso à terra ou à água, pescadores encontram dificuldades crescentes para acessar áreas tradicionalmente utilizadas, sistemas lagunares são modificados ou a salinização compromete determinados usos da água, a expulsão pode ocorrer sem que exista uma ordem formal de remoção. As pessoas acabam saindo porque permanecer se torna econômica, social ou ambientalmente inviável.

Esse risco merece atenção especial no entorno do Porto do Açu. O V Distrito não começou a existir com a chegada do porto. Trata-se de um território historicamente ocupado por agricultores, pescadores e outras comunidades cuja reprodução social depende diretamente da terra, das lagoas, das praias e dos recursos hídricos. Se esses elementos forem progressivamente alterados, o resultado poderá ser uma nova rodada de deslocamentos produzidos não por uma única intervenção, mas pelo efeito acumulado de décadas de transformação territorial.

O que precisa ser avaliado agora é o próprio Açu

Por isso, o licenciamento fragmentado de novos empreendimentos está se tornando insuficiente. Um projeto pode parecer ambientalmente administrável quando estudado sozinho e tornar-se problemático quando colocado ao lado de muitos outros disputando os mesmos recursos e pressionando os mesmos ecossistemas.

O que precisa ser conhecido é a capacidade de suporte do território diante do conjunto dos empreendimentos existentes, licenciados e planejados. Isso significa avaliar conjuntamente disponibilidade hídrica, intrusão salina, erosão costeira, aquíferos, sistemas lagunares, biodiversidade, demanda energética, tráfego, mudanças climáticas e efeitos sobre as comunidades locais.

O Porto do Açu está apostando em ser uma das grandes concentrações portuárias, energéticas e industriais do Brasil, mas justamente sobre uma região costeira altamente sensível. A pergunta, portanto, deixou de ser se cada novo empreendimento consegue individualmente uma licença ambiental. A pergunta que realmente importa é quantos Portos do Açu cabem ambiental e socialmente em São João da Barra.

Continuar avaliando cada projeto como se os demais não existissem poderá fazer com que descubramos tarde demais que o limite não estava em cada empreendimento separadamente, mas na soma e, principalmente, na interação entre todos eles. E, nesse caso, a violência poderá ser lenta, mas seus resultados serão bastante concretos: um território profundamente transformado e comunidades convertidas, pouco a pouco, em refugiados do próprio desenvolvimento que lhes foi apresentado como inevitável.

A China prepara novos concorrentes para as commodities brasileiras na África

Investimentos chineses em infraestrutura, mineração e agricultura podem reduzir a dependência de Pequim em relação ao Brasil, enquanto a concentração brasileira na exportação de produtos primários aumenta nossa vulnerabilidade

Durante as últimas duas décadas, o crescimento econômico da China foi um dos principais responsáveis pela extraordinária expansão das exportações brasileiras de commodities agrícolas e minerais. Soja, minério de ferro, petróleo, carnes e celulose encontraram no mercado chinês uma demanda gigantesca, ajudando a consolidar um modelo de inserção internacional cada vez mais dependente da venda de produtos primários. Entretanto, enquanto no Brasil ainda se comemoram sucessivos recordes de exportação, a China está contribuindo para construir uma nova geografia mundial das commodities, e a África ocupa posição cada vez mais importante nesse processo.

O movimento já é particularmente evidente no setor mineral, onde investimentos chineses em minas, ferrovias, rodovias, energia e portos estão permitindo transformar jazidas africanas anteriormente limitadas por gargalos logísticos em novas fontes competitivas de matérias-primas. O exemplo mais contundente é Simandou, na Guiné, gigantesco complexo de minério de ferro conectado a mais de 600 quilômetros de nova ferrovia e a instalações portuárias, cuja capacidade poderá chegar a aproximadamente 120 milhões de toneladas anuais. Para o Brasil, isso significa que a China não precisa deixar de comprar minério brasileiro para afetar nossa economia: basta aumentar suficientemente a oferta africana para fortalecer sua capacidade de negociação e exercer pressão sobre os preços internacionais.

No caso das commodities agrícolas, o processo ainda se encontra em estágio menos avançado, mas a direção é igualmente importante. A cooperação sino-africana passou a incorporar investimentos em produção agrícola, mecanização, irrigação, processamento, armazenamento e logística, ao mesmo tempo em que Pequim facilita o acesso de produtos africanos ao mercado chinês. Estradas, ferrovias e portos são particularmente importantes porque podem reduzir justamente um dos maiores obstáculos históricos à expansão das exportações agrícolas africanas: o custo de transportar a produção das áreas interiores até os mercados consumidores.

Isso não significa que a África esteja prestes a substituir o Brasil como grande fornecedora de soja, milho, carnes ou outras commodities agrícolas. A questão estratégica é outra: a China não precisa substituir o Brasil, mas apenas reduzir progressivamente sua dependência dele. Se diferentes países africanos ampliarem simultaneamente sua produção de soja, algodão, oleaginosas, açúcar, café, carnes e outros produtos, o efeito agregado poderá aumentar as alternativas disponíveis para Pequim e ampliar seu poder de negociação diante dos grandes fornecedores atuais.

A dependência brasileira possui também uma dimensão política

Há ainda um componente geopolítico que torna essa questão mais importante. Oficialmente, Pequim considera o Brasil um parceiro estratégico de primeira ordem, mas os acontecimentos das últimas décadas demonstram que a orientação internacional brasileira pode sofrer mudanças importantes entre diferentes governos. A experiência do governo Jair Bolsonaro, quando integrantes do próprio governo adotaram uma retórica fortemente hostil à China apesar da enorme dependência comercial brasileira, mostrou que a política externa do país pode oscilar rapidamente conforme muda a correlação política interna.

Isso acrescenta um elemento de risco que Pequim não tem razões para ignorar. Depender excessivamente do Brasil para soja, minério de ferro e outras commodities significa ficar parcialmente exposta não apenas às condições climáticas, produtivas e logísticas brasileiras, mas também às oscilações da política externa do país e à disputa geopolítica entre Washington e Pequim. Diversificar fornecedores na África torna-se, portanto, simultaneamente uma estratégia de segurança alimentar, mineral, comercial e geopolítica.

O risco mineral é imediato; o agrícola é de médio prazo

No curto prazo, o sinal mais evidente para o Brasil está no minério de ferro, justamente porque Simandou transforma em realidade aquilo que durante muitos anos permaneceu como possibilidade. O crescimento da produção guineense acrescentará uma nova fonte importante de minério de alta qualidade ao mercado internacional, reduzindo progressivamente a dependência chinesa dos grandes fornecedores australianos e brasileiros e potencialmente pressionando preços.

Nas commodities agrícolas, o risco é principalmente de médio prazo. A escala, a produtividade e a estrutura empresarial da agricultura brasileira continuam proporcionando vantagens consideráveis, especialmente na soja e no milho. Entretanto, infraestrutura, capital, tecnologia, armazenamento, processamento e acesso facilitado ao mercado chinês podem alterar gradualmente a competitividade de diferentes regiões africanas, sobretudo se esses elementos forem implantados de maneira coordenada.

O efeito sobre o Brasil tampouco precisa assumir a forma dramática de perda completa do mercado chinês. Ele poderá aparecer silenciosamente por meio de menor participação brasileira nas importações chinesas, maior competição entre fornecedores e pressão sobre os preços internacionais. Para uma economia cuja pauta exportadora se tornou fortemente dependente de commodities e para um agronegócio que possui na China seu principal comprador, alterações relativamente pequenas nesses três componentes podem produzir consequências econômicas significativas.

Quando outros mercados também começam a ficar mais difíceis

Essa vulnerabilidade ganha uma dimensão adicional porque a possível diversificação chinesa ocorre num momento em que o Brasil também encontra obstáculos em outros grandes mercados. Os Estados Unidos vêm utilizando instrumentos tarifários que alcançam produtos brasileiros, enquanto a União Europeia amplia exigências sanitárias, ambientais, aduaneiras e de rastreabilidade para diferentes cadeias de commodities. São mecanismos distintos e seria equivocado tratá-los como se fossem uma única política protecionista, mas todos demonstram que o acesso aos grandes mercados consumidores não está garantido apenas porque o Brasil consegue produzir commodities em enorme escala e a preços competitivos.

É justamente essa combinação que deveria preocupar. Enquanto determinados mercados tradicionais tornam o acesso mais condicionado ou oneroso, a China — que absorveu parcela crescente das exportações brasileiras — investe na infraestrutura e na capacidade produtiva de regiões capazes de se transformar em fornecedores alternativos. O problema deixa então de ser apenas comercial e passa a revelar os riscos de uma economia excessivamente especializada na exportação de soja, minério de ferro, petróleo, carnes, celulose e outros produtos primários.

Há nisso uma ironia histórica que merece atenção. A China que nas últimas décadas ajudou a transformar o Brasil numa potência exportadora de commodities está utilizando sua capacidade financeira, tecnológica e empresarial para desenvolver novas regiões produtoras em outras partes do mundo. No setor mineral, essa estratégia já possui um nome bastante concreto: Simandou. Na agricultura africana, Pequim está ajudando a construir as condições materiais — infraestrutura, tecnologia, armazenamento, processamento e acesso ao mercado — para que novos fornecedores possam ganhar importância nos próximos anos.

Por isso, o avanço chinês na África deveria provocar no Brasil uma discussão bem menos triunfalista sobre o futuro do chamado agronegócio e, mais amplamente, sobre nossa dependência de produtos primários. O risco não está em a África substituir repentinamente o Brasil, mas em nossos principais compradores passarem a dispor de alternativas cada vez maiores justamente quando outros mercados impõem novas condições de acesso às commodities brasileiras. Quanto maior o número de fornecedores disponíveis e quanto mais dependente permanecer o Brasil de poucos produtos e poucos mercados, menor será nossa capacidade de determinar preços e condições de comercialização.

A pergunta estratégica, portanto, não é se a China continuará comprando soja, minério de ferro, carne ou celulose do Brasil amanhã. É se daqui a dez ou quinze anos ainda precisará comprá-los de nós nas mesmas quantidades e nas mesmas condições. Se a resposta for negativa, os atuais recordes de exportação poderão estar escondendo uma vulnerabilidade que somente será percebida quando a nova geografia mundial das commodities já estiver consolidada. Nesse cenário, diversificar a estrutura produtiva brasileira, recuperar capacidade industrial e tecnológica e agregar valor ao que produzimos deixam de ser apenas antigas bandeiras desenvolvimentistas e passam a constituir uma necessidade estratégica.

A porta dos fundos dos agrotóxicos: o que quase mil alterações de pós-registro revelam sobre o mercado brasileiro

Atos publicados pelo Ministério da Agricultura em 2026 mostram que produtos já registrados continuam ganhando fabricantes, fornecedores, importadores e novos usos — e revelam uma impressionante predominância da indústria química chinesa

Quando se fala sobre a liberação de agrotóxicos no Brasil, quase toda a atenção costuma se concentrar na quantidade de novos registros concedidos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Essa é uma informação importante, mas a análise que realizei dos atos de pós-registro publicados em 2026 mostra que existe outra parte da engrenagem regulatória que permanece praticamente invisível ao debate público. E o que acontece ali está longe de ser meramente burocrático.

Examinei os Atos nº 21, 24, 27, 37, 46, 48 e 53, mantendo o Ato nº 65, publicado em 30 de dezembro de 2025, apenas como referência imediatamente anterior. Somadas as posições numeradas nesses documentos, estamos diante de algo próximo de 970 itens de pós-registro em menos de cinco meses (ver relatório Aqui!). Esse número não representa 970 alterações líquidas, já que existem retificações, cancelamentos e itens posteriormente tornados sem efeito, mas dá uma ideia da escala de uma atividade regulatória que praticamente não aparece no debate público.

O problema começa justamente pela expressão “pós-registro”. Ela parece sugerir que estamos diante de pequenos ajustes administrativos realizados depois que determinado agrotóxico recebeu autorização. A leitura dos atos mostra outra coisa. Por meio desse mecanismo podem ser adicionados fabricantes e formuladores, autorizados novos importadores, incorporados outros produtos técnicos, transferidos registros entre empresas, criadas ou modificadas marcas comerciais e alteradas recomendações de uso. Em determinadas situações, produtos passam a alcançar novas culturas e organismos-alvo e podem sofrer até modificações de dose. Em outras palavras, um agrotóxico pode mudar bastante depois de ter sido registrado sem que isso apareça nas estatísticas de novos registros.

É nesse emaranhado de centenas de decisões publicadas no Diário Oficial  da União que aparece a descoberta que considero mais impressionante. Minha consolidação preliminar identificou aproximadamente 186 ocorrências envolvendo inclusão de fabricantes, formuladores ou manipuladores. Dentro delas aparecem cerca de 130 referências a unidades industriais chinesas, contra aproximadamente 12 indianas. Entre as inclusões estrangeiras cuja origem foi possível identificar, a participação chinesa fica próxima de 88%.

E não se trata simplesmente de escrever “Made in China” sobre um mercado abstrato. Os endereços publicados pelo próprio MAPA conduzem repetidamente a províncias como Jiangsu, Shandong, Hebei, Anhui, Zhejiang e Hubei, justamente áreas onde estão instalados importantes complexos da indústria química chinesa. No Ato nº 27, por exemplo, aparecem sucessivas alterações envolvendo fabricantes localizados em Jiangxi e Jiangsu. Já o Ato nº 46 registra empresas chinesas e indianas sendo incorporadas às cadeias de produtos comercializados no Brasil.

A Índia aparece num distante segundo plano, mas também apresenta uma geografia bastante definida. Boa parte das fábricas identificadas está localizada no estado de Gujarat, particularmente nos polos industriais de Bharuch, Ankleshwar, Panoli e Dahej. O que emerge desses atos, portanto, é uma verdadeira cartografia internacional da indústria de agrotóxicos que abastece o agronegócio brasileiro.

Há outro aspecto que merece muito mais atenção. Um consumidor conhece eventualmente o nome comercial de um agrotóxico, mas dificilmente sabe quem produziu o ingrediente técnico utilizado em sua fabricação. Entretanto, o pós-registro permite que novos produtos técnicos sejam incorporados posteriormente aos produtos formulados. No Ato nº 46, por exemplo, o Clorantraniliprole Técnico CX foi incluído em uma extensa relação que contém Altacor, Premio, Coragen, Vantacor e diversos outros produtos. Uma única decisão administrativa pode, assim, alterar simultaneamente a cadeia de fornecimento de numerosos produtos encontrados no mercado brasileiro.

O mecanismo também permite ampliar o universo agronômico dos produtos existentes. No Ato nº 27 aparecem inclusões de algodão, feijão, milho e trigo e de grupos inteiros de culturas. Em outro caso, a lista acrescentada inclui desde alface, alho e cebola até brócolis, couves, espinafre, morango, mostarda, repolho e rúcula. O mesmo ato registra situação envolvendo inclusão de cultura e de organismos-alvo acompanhada de aumento de dose.

É preciso registrar que os atos também contêm exclusões e cancelamentos. O Ato nº 53, por exemplo, cancela o registro do Lactofen Técnico Sumitomo e exclui fabricantes anteriormente associados ao Bifenthrin Técnico FMC. Portanto, seria incorreto afirmar que toda decisão de pós-registro amplia automaticamente o mercado. O que os documentos demonstram é a existência de um sistema extremamente dinâmico de entrada, substituição, exclusão e expansão de fornecedores, produtos e possibilidades de utilização.

Mas há aqui uma questão política e regulatória que não deveria ser ignorada. Quando centenas de novos registros são liberados, isso eventualmente chega às manchetes. Já quando centenas de alterações posteriores modificam quem fabrica o produto técnico, quem formula, quem importa e onde determinado veneno poderá ser utilizado, tudo aparece pulverizado em páginas e páginas do Diário Oficial, escrito em linguagem burocrática que praticamente impede qualquer acompanhamento sistemático pela sociedade.

Talvez seja justamente aí que esteja a descoberta mais importante deste levantamento. Para compreender o tamanho real do mercado brasileiro de agrotóxicos, não basta contar quantos novos registros o governo concede. É preciso acompanhar o que acontece com esses registros depois que eles entram no sistema.

E o que os atos de 2026 estão mostrando é particularmente revelador: enquanto os olhos permanecem voltados para a porta da frente dos novos registros, existe uma gigantesca engrenagem funcionando nos bastidores, incorporando novos fabricantes, novos fornecedores técnicos, novos importadores e novos usos. Nessa engrenagem, a indústria química chinesa ocupa uma posição absolutamente dominante.

Por isso, depois de examinar conjuntamente esses documentos, eu resumiria o problema de uma maneira bastante simples: o registro é a porta de entrada, mas o pós-registro parece ser uma das principais engrenagens de expansão e reorganização do mercado brasileiro de agrotóxicos.

E talvez esteja na hora de começarmos a olhar com muito mais atenção para aquilo que está entrando por essa porta quase invisível.

China lança grande operação para combater má conduta acadêmica e pune pesquisadores renomados

A China iniciou sua maior repressão à má conduta acadêmica, demitindo quatro pesquisadores proeminentes e investigando mais de 40 outros após uma revelação nas redes sociais

Por Deepali Samaniya para “Times Now” 

A China lançou a sua maior operação pública de combate à má conduta acadêmica, removendo quatro acadêmicos proeminentes e iniciando investigações contra mais de 40 pesquisadores em universidades e hospitais, conforme relatado pela PTI . A questão, que ganhou repercussão após uma publicação nas redes sociais, desencadeou uma extensa investigação sobre supostas práticas acadêmicas indevidas.

Em 26 de agosto, a Fundação Nacional de Ciências Naturais da China (NFSC) divulgou detalhes sobre uma nova casos de má conduta em universidades e hospitais de todo o país. Os casos, segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, noticiado na quinta-feira, envolveram mais de 40 pesquisadores.

O anúncio da NSFC ocorreu quase dois meses depois de o presidente chinês, Xi Jinping, ter solicitado medidas mais rigorosas contra a má conduta acadêmica.

Segundo o relatório, pelo menos quatro acadêmicos de renome foram demitidos de universidades importantes depois que o estudante “Geng”, um blogueiro influente e ex-aluno de doutorado, os identificou em abril e apontou suas pesquisas por suposta má conduta.

Os acadêmicos foram reconhecidos pelo Fundo Nacional de Ciência para Jovens Pesquisadores de Destaque, um programa de bolsas de pesquisa/incentivo a jovens pesquisadores que fizeram contribuições notáveis ​​para a pesquisa básica, permitindo-lhes escolher suas próprias linhas de pesquisa e se envolver em projetos inovadores. Frequentemente, serve como trampolim para o ingresso nas principais academias de ciência e engenharia da China. Três deles atuaram como decanos ou vice-decanos em suas respectivas faculdades.

A revelação de Geng nas redes sociais motivou a maior investigação já realizada pela NSFC sobre má conduta acadêmica.

Financiamento e títulos revogados por má conduta

A fundação, por meio de um comunicado divulgado em agosto, retirou o financiamento e os títulos dos quatro, e ordenou que devolvessem mais de 10 milhões de yuans (US$ 1,49 milhão) em bolsas concedidas anteriormente, além de proibi-los de solicitar financiamento novamente por um período de três a sete anos.

Segundo reportagem do SCMP, essa mudança é frequentemente considerada uma “sentença de morte” para uma carreira acadêmica na comunidade de pesquisa do país.

Anteriormente, o presidente Xi pediu “padrões mais rigorosos” e “medidas mais concretas” para lidar com má conduta e “promover um ecossistema de pesquisa limpo e íntegro”, durante um discurso em uma reunião conjunta do Prêmio Nacional de Ciência e Tecnologia, da Academia Chinesa de Ciências, da Academia Chinesa de Engenharia e da Associação Chinesa para Ciência e Tecnologia.

A China tem aumentado persistentemente seus investimentos em pesquisa científica. No âmbito do 15º Plano Quinquenal, Pequim estabeleceu como meta que os gastos com pesquisa e desenvolvimento em toda a sociedade cresçam pelo menos sete por cento ao ano, de 2026 a 2030.


Fonte: Times Now

O calor mata mais do que mostram as estatísticas — e o Brasil precisa se preparar para o El Niño de 2026–2027

Estudo da National Public Radio (NPR) dos EUA aponta forte subnotificação das mortes associadas ao calor nos Estados Unidos, enquanto previsões indicam que um El Niño muito forte poderá expor diferentes regiões brasileiras a temperaturas extremas nos próximos meses 

Uma investigação realizada durante dois anos pela NPR, em parceria com pesquisadores da Boston University, oferece um alerta que deveria ser observado com muita atenção no Brasil. Ao desenvolver um modelo estatístico para estimar a mortalidade associada às temperaturas elevadas nos Estados Unidos, os pesquisadores concluíram que o número real de mortes relacionadas ao calor é muito superior ao registrado nas estatísticas oficiais. Entre 2018 e 2025, aproximadamente 9 mil mortes por ano teriam sido influenciadas pelo calor, cerca de cinco vezes a média registrada oficialmente no mesmo período. Em alguns anos, o total estimado ultrapassa 10 mil mortes.

A explicação para tamanha diferença está, em boa medida, na maneira como uma morte provocada ou agravada pelo calor acaba sendo registrada. Uma pessoa idosa ou portadora de doença cardiovascular, renal ou respiratória pode morrer durante uma onda de calor sem que a temperatura apareça na declaração de óbito como causa ou fator contribuinte. O resultado é uma espécie de mortalidade invisível que somente começa a aparecer quando se comparam estatisticamente os óbitos observados durante períodos de temperaturas extremas com aqueles que seriam esperados em condições normais. A investigação norte-americana encontrou diferenças impressionantes: na Flórida, por exemplo, estima aproximadamente 1.900 mortes anuais relacionadas ao calor, número cerca de 40 vezes superior aos registros oficiais.

O problema está longe de ser exclusivamente norte-americano. Na verdade, essas descobertas chegam em momento particularmente preocupante para o Brasil, justamente quando os principais centros de previsão climática indicam a consolidação de um El Niño excepcionalmente intenso. A atualização publicada em 3 de setembro pela Organização Meteorológica Mundial informa que o fenômeno já está firmemente estabelecido, deverá continuar se fortalecendo e apresenta probabilidade próxima de 100% de persistir durante o período de dezembro de 2026 a fevereiro de 2027. A OMM ressalva corretamente que a intensidade de um El Niño não determina automaticamente a magnitude dos seus impactos regionais, mas reconhece que um evento muito forte aumenta substancialmente a possibilidade de grandes alterações nos regimes de temperatura e precipitação.

Os números divulgados pela NOAA tornam o quadro ainda mais digno de atenção. Em seu diagnóstico de agosto, o Climate Prediction Center apontou probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o inverno 2026–2027 do Hemisfério Norte. Mais significativo ainda é que o órgão estimou em 69% a possibilidade de que, entre outubro e dezembro, o evento alcance intensidade superior à dos grandes El Niños registrados desde 1950. Portanto, embora seja necessário evitar o alarmismo e lembrar que previsões sazonais trabalham sempre com probabilidades, tampouco existe justificativa científica para tratar o que está acontecendo no Pacífico como um fenômeno climático corriqueiro.

E o Brasil?

As próprias instituições brasileiras já estão advertindo para esse cenário. O terceiro boletim do Painel El Niño 2026–2027, elaborado por instituições como INPE, INMET, ANA, CEMADEN e Defesa Civil, aponta a possibilidade de anomalias superiores a 2°C nas águas do Pacífico Equatorial entre a primavera e o verão. Para setembro, outubro e novembro, a previsão indica chuvas acima da média em partes da Região Sul e precipitações abaixo da média no centro-norte brasileiro. Os boletins anteriores também chamaram atenção para temperaturas superiores à média, maior ocorrência de ondas de calor e aumento do risco de incêndios florestais.

Isso significa que os impactos não serão espacialmente homogêneos. No Sul, a combinação característica do El Niño envolve aumento da precipitação, com possibilidade de episódios de chuva extrema, inundações e deslizamentos. No centro-norte do Brasil, a redução das chuvas pode ocorrer simultaneamente a temperaturas muito elevadas, aumentando o estresse hídrico, a possibilidade de secas e o risco de incêndios. Já áreas densamente urbanizadas do Sudeste e Centro-Oeste poderão enfrentar um problema particularmente perigoso: ondas de calor incidindo sobre cidades que acumulam enormes ilhas de calor e onde milhões de pessoas vivem em moradias inadequadamente ventiladas, trabalham ao ar livre ou simplesmente não possuem acesso a sistemas eficientes de refrigeração.

É justamente aqui que a investigação da NPR adquire importância para nós. Se países com sistemas relativamente estruturados de informação epidemiológica estão subestimando fortemente a mortalidade causada pelo calor, é razoável perguntar se não estamos fazendo algo semelhante no Brasil. Uma onda de calor não precisa produzir cadáveres nas ruas para representar uma emergência sanitária. Ela pode aparecer silenciosamente como aumento das internações por desidratação, insuficiência renal, problemas cardiovasculares e respiratórios, agravamento de doenças preexistentes e crescimento da mortalidade entre idosos. O calor extremo é, nesse sentido, uma expressão bastante concreta daquilo que Rob Nixon chamou de slow violence: seus efeitos são dispersos no espaço e no tempo e, exatamente por isso, tendem a permanecer politicamente invisíveis.

Preparar-se agora, e não quando os termômetros dispararem

Diante das previsões para o final de 2026 e início de 2027, a resposta governamental não deveria começar quando as primeiras ondas de calor extremo aparecerem nos aplicativos de meteorologia. Estados e municípios precisam identificar desde já populações particularmente vulneráveis, incluindo idosos que vivem sozinhos, crianças pequenas, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores submetidos à exposição direta ao sol, população em situação de rua e moradores de habitações precárias. Hospitais e unidades básicas de saúde precisam incorporar protocolos específicos para períodos prolongados de temperaturas extremas, enquanto sistemas de vigilância epidemiológica deveriam ser capazes de relacionar rapidamente aumentos de internações e mortalidade às condições meteorológicas.

Da mesma forma, escolas, universidades, locais de trabalho e serviços públicos precisam estabelecer limites para atividades realizadas sob calor extremo. Horários de trabalho ao ar livre precisam ser revistos quando determinados níveis de temperatura e umidade forem ultrapassados, enquanto cidades necessitam ampliar áreas sombreadas, arborização, acesso gratuito à água potável e locais públicos climatizados que possam funcionar como refúgios durante ondas de calor. Sistemas elétricos e de abastecimento de água também precisam ser preparados para aumentos excepcionais da demanda justamente nos momentos em que esses serviços se tornam essenciais à sobrevivência.

Há ainda uma questão de desigualdade que não pode ser escondida atrás do termo genérico “adaptação”. Uma temperatura de 40°C não significa a mesma coisa para quem vive em uma residência arborizada e climatizada e para quem mora sob uma cobertura de fibrocimento numa periferia densamente construída. Tampouco significa a mesma coisa para quem pode trabalhar remotamente e para um entregador, trabalhador rural, gari ou operário da construção civil obrigado a permanecer durante horas sob o sol. A vulnerabilidade ao calor é produzida tanto pela atmosfera quanto pela estrutura social.

O alerta deixado pela investigação da NPR é, portanto, muito maior do que uma discussão metodológica sobre estatísticas de mortalidade. Ele mostra que podemos estar convivendo com uma causa crescente de adoecimento e morte sem sequer contabilizá-la adequadamente. E isso ocorre justamente quando a mudança climática antropogênica eleva a temperatura de fundo do planeta sobre a qual fenômenos naturais como o El Niño passam a atuar.

Se as previsões atuais se confirmarem, o Brasil poderá entrar na primavera e no verão de 2026–2027 sob influência de um dos El Niños mais intensos das últimas décadas. Ninguém pode afirmar antecipadamente quais temperaturas serão registradas em cada cidade brasileira, mas já existe informação suficiente para saber que esperar o calor chegar para começar a agir seria uma irresponsabilidade. Quando se trata de temperaturas extremas, preparação, sistemas de alerta e políticas públicas de proteção não são luxo nem alarmismo climático: são medidas elementares de saúde pública.

IFCS/UFRJ: a fabricação de uma vítima perfeita e o estranho silêncio sobre a extrema direita

Enquanto comentaristas transformam estudantes de esquerda em novos “Torquemadas”, provocações da extrema direita, o crescimento do neonazismo e a ofensiva para deslegitimar as universidades públicas permanecem convenientemente fora do enquadramento

O episódio ocorrido no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ está rapidamente adquirindo as características de uma disputa pela construção da narrativa sobre o que efetivamente aconteceu. De um lado, estudantes que estavam no local descrevem uma sequência envolvendo uma camiseta contendo iconografia inspirada naquela utilizada pela SS nazista, provocações, deboches e uma altercação que terminou em violência física. De outro, começa a se consolidar em determinados espaços da imprensa e entre comentaristas políticos uma versão muito mais simples e politicamente conveniente, segundo a qual um estudante teria sido brutalmente atacado por militantes de esquerda simplesmente por causa da roupa que vestia. O problema é que os elementos conhecidos até agora, inclusive registros em vídeo feitos durante o próprio incidente, tornam essa segunda narrativa difícil de sustentar sem eliminar partes importantes daquilo que ocorreu antes do confronto físico.

O estudante Diego Araujo estava usando uma camiseta da banda britânica Death in June contendo uma versão do Totenkopf, símbolo historicamente associado à SS nazista. Ele afirma que não é nazista, identifica-se politicamente com o marxismo e sustenta que a utilização daquela iconografia representaria uma forma de ridicularização do nazismo. Essas afirmações precisam ser consideradas e não existe, neste momento, base suficiente para classificá-lo como integrante de uma organização nazifascista. Entretanto, testemunhas que estavam no IFCS apresentaram uma narrativa bastante diferente daquela na qual Diego aparece apenas como vítima passiva. Segundo esses relatos, depois de ser questionado sobre os símbolos que utilizava, ele teria passado a debochar dos estudantes que o confrontavam. Deivid Lima, estudante de Direito diretamente envolvido no episódio, afirmou ainda que, durante a tentativa de conduzi-lo para fora do prédio, teria recebido uma cotovelada e sido puxado pelos cabelos por Diego. Outra estudante presente confirmou à imprensa que o confronto físico teria começado depois que Diego atingiu um dos estudantes envolvidos na abordagem, versão que ele nega e que deverá ser esclarecida pelas investigações.

Há ainda um elemento que merece atenção especial. Segundo relato de uma estudante de Ciências Sociais que presenciou os acontecimentos, Diego não teria chegado ao IFCS vestindo aquela camiseta, mas teria trocado de roupa no banheiro antes de entrar na sala. Se essa informação for confirmada pela investigação da UFRJ, será perfeitamente legítimo perguntar por que alguém decidiu vestir, já no interior de uma unidade universitária reconhecida por sua intensa vida política, uma camiseta contendo iconografia imediatamente associável à SS nazista. Isso não prova que tenha existido uma provocação deliberadamente planejada, muito menos permite atribuir ao estudante qualquer filiação fascista, mas impede que se descarte a questão da intencionalidade como se ela fosse irrelevante. A resposta pode ser inocente, mas a pergunta precisa ser feita.

Por isso, transformar Diego simplesmente na “vítima” do episódio significa encerrar prematuramente uma discussão que ainda precisa ser esclarecida. Ele foi indiscutivelmente atingido durante uma altercação e as responsabilidades individuais pelo que ocorreu devem ser investigadas. Entretanto, ter sido atingido não transforma automaticamente alguém em personagem inteiramente passivo de tudo aquilo que aconteceu anteriormente, nem autoriza jornalistas e comentaristas a iniciar a história exatamente no momento em que aparecem os primeiros golpes. É precisamente nesse ponto que abordagens como a adotada por Pedro Doria se tornam problemáticas, pois, ao concentrar a indignação na violência atribuída aos estudantes identificados com a esquerda, cria-se um enquadramento no qual a camiseta se transforma apenas em uma peça de roupa, as provocações relatadas por testemunhas praticamente desaparecem e as acusações de que o próprio Diego teria participado ativamente da escalada física do confronto tornam-se detalhes inconvenientes.

Há ainda um componente particularmente revelador nessa disputa narrativa: a atuação de elementos arrivistas de direita existentes no interior das próprias universidades, que se aproveitam de episódios como o ocorrido no IFCS para destilar sua hostilidade contra a esquerda e reforçar a representação dos estudantes antifascistas como intolerantes e autoritários. Em vez de demonstrarem preocupação semelhante diante do crescimento de organizações neonazistas, das provocações promovidas pela extrema direita nos campi ou dos ataques recorrentes à universidade pública, esses personagens encontram em qualquer altercação envolvendo estudantes de esquerda uma oportunidade para reeditar velhos discursos anticomunistas e apresentar-se como defensores da liberdade. A comparação dos estudantes antifascistas com “novos Torquemadas” é particularmente reveladora desse expediente, pois inverte os papéis históricos e transforma aqueles que reagem à presença e à provocação de símbolos associados ao fascismo em representantes contemporâneos da intolerância.

A história, entretanto, recomenda bastante cautela com essa inversão. A Noite dos Cristais, ocorrida na Alemanha em novembro de 1938, não foi promovida pela esquerda, mas constituiu um pogrom antissemita organizado pelo regime nazista, com participação de estruturas do Partido Nazista e de suas organizações paramilitares. Sinagogas foram incendiadas, estabelecimentos pertencentes a judeus foram destruídos, pessoas foram assassinadas e milhares de homens judeus foram enviados a campos de concentração. Portanto, recorrer à figura de Torquemada para caracterizar estudantes antifascistas contemporâneos, enquanto se relativiza o significado de símbolos historicamente associados às organizações que participaram diretamente da perseguição nazista, exige uma inversão histórica bastante conveniente.

No Brasil, aliás, não precisamos atravessar o Atlântico para encontrar antecedentes muito mais pertinentes à discussão. Durante a ditadura militar, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) protagonizou ações violentas contra estudantes, professores, artistas e pessoas identificadas ou simplesmente percebidas como pertencentes à esquerda. A chamada Batalha da Rua Maria Antônia, em outubro de 1968, constitui um dos episódios mais conhecidos dessa história, quando integrantes ligados ao CCC participaram do ataque à antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. A história brasileira deveria, portanto, recomendar alguma prudência antes de transformar estudantes de esquerda nos grandes inquisidores de nosso tempo, especialmente porque possuímos uma tradição bem documentada de organizações de extrema direita perseguindo professores e estudantes precisamente por suas posições políticas.

Essa lembrança é importante porque o paralelismo com o presente não está em afirmar que vivemos uma simples repetição de 1938 ou de 1968, mas em reconhecer a existência histórica de estratégias de intimidação e provocação dirigidas contra ambientes universitários e grupos identificados com o pensamento crítico e a esquerda. Quando a memória histórica é retirada seletivamente da gaveta apenas para comparar estudantes antifascistas a inquisidores, enquanto se guarda silêncio diante do crescimento contemporâneo de grupos neonazistas e das ações provocadoras da extrema direita, não estamos propriamente diante de uma defesa do pluralismo, mas de uma tentativa bastante transparente de reescrever quem historicamente perseguiu quem.

E não estamos falando apenas de fantasmas históricos. O crescimento contemporâneo de organizações neonazistas no Brasil vem sendo documentado há anos. O monitoramento realizado pela antropóloga Adriana Dias identificou um salto de aproximadamente 75 células neonazistas em 2015 para cerca de 530 em 2021, enquanto também aumentaram investigações relacionadas à apologia ao nazismo. A Polícia Federal, por sua vez, já realizou diferentes operações contra pessoas envolvidas na disseminação de propaganda nazista e supremacista, inclusive com apreensão de bandeiras, vestimentas, publicações e outros materiais associados a essas organizações. Em uma operação realizada em 2024, a PF informou ter identificado um investigado apontado como importante distribuidor de materiais relacionados ao nazismo e à supremacia branca no país.

É justamente diante dessa realidade que o silêncio de alguns dos críticos mais indignados com os estudantes do IFCS se torna particularmente revelador. Se o problema é realmente a intolerância política e o risco de extremismo dentro das universidades, por que tamanho interesse por uma altercação envolvendo estudantes de esquerda e tão pouca preocupação com a expansão documentada de organizações neonazistas? Por que não encontramos a mesma profusão de manifestações indignadas diante de grupos que difundem supremacismo branco, antissemitismo e propaganda nazista? E por que as incursões de personagens da extrema direita em universidades como USP e UnB, algumas delas envolvendo provocações, ameaças e confrontos, não provocam a mesma preocupação com a saúde da democracia brasileira?

Esse tipo de enquadramento seria menos problemático se estivéssemos diante de acontecimentos isolados, mas não estamos. Nos últimos anos, universidades públicas brasileiras vêm sendo transformadas em palco de ações de políticos, influenciadores e militantes ligados à extrema direita que perceberam o enorme potencial político das provocações produzidas especificamente para circular nas redes sociais. Na USP, particularmente na FFLCH, já ocorreram incursões de personagens desse campo político acompanhados de assessores, apoiadores e câmeras, algumas delas terminando em confrontos e estudantes feridos. Na Universidade de Brasília também ocorreram episódios envolvendo intimidação de professores e ações organizadas dentro do campus, chegando a circular mensagens convocando pessoas para comparecer à universidade com o objetivo declarado de confrontar fisicamente estudantes identificados como comunistas.

O método empregado nessas ações é especialmente adequado ao ecossistema político produzido pelas redes sociais. Entra-se em um ambiente reconhecido pela presença de movimentos estudantis e organizações de esquerda, provoca-se uma reação, mantém-se uma câmera permanentemente ligada e espera-se pelo momento em que alguém ultrapasse a fronteira entre o confronto verbal e o físico. Depois disso, selecionam-se alguns segundos de imagens e elimina-se tudo aquilo que aconteceu anteriormente. O provocador pode então aparecer como cidadão comum exercendo pacificamente sua liberdade de expressão, enquanto os estudantes são apresentados como uma massa intolerante e violenta. A reação física às provocações representa, por isso, uma armadilha política particularmente eficiente, pois alguns segundos de uma altercação podem circular milhões de vezes completamente separados dos minutos que a antecederam.

Mas existe uma dimensão ainda mais ampla que precisa ser incorporada a essa discussão. A universidade pública não é apenas o cenário acidental dessas operações políticas, pois ela própria constitui um dos alvos. A construção sistemática da imagem dos campi como territórios dominados por militantes radicais, intolerantes e violentos serve a uma ofensiva destinada a deslegitimar as universidades públicas perante a sociedade. Nesse discurso, as instituições deixam de aparecer como espaços de produção científica, formação profissional, pesquisa, extensão e desenvolvimento tecnológico e passam a ser apresentadas como ambientes de doutrinação ideológica sustentados pelo contribuinte. Quanto mais caótica, sectária e violenta for a imagem produzida sobre a universidade pública, mais fácil se torna perguntar por que o Estado deveria continuar financiando essas instituições.

É nesse ponto que as provocações realizadas dentro dos campi encontram uma convergência particularmente perigosa com o discurso pró-privatização do ensino superior. Primeiro constrói-se a universidade pública como instituição disfuncional, ideologizada e incapaz de garantir até mesmo a convivência entre pessoas com posições políticas diferentes. Depois questionam-se seus custos, seus servidores, sua autonomia e o próprio princípio do financiamento público. Finalmente aparecem como soluções aparentemente técnicas aquilo que desde o início constituía um projeto político: redução do financiamento estatal, cobrança de mensalidades, expansão de parcerias privadas, transferência de atividades para empresas, enfraquecimento das carreiras públicas e progressiva mercantilização do ensino superior. Nesse sentido, produzir imagens de estudantes em confrontos dentro de universidades não serve apenas para conquistar seguidores nas redes sociais, mas fornece matéria-prima para uma narrativa destinada a corroer a legitimidade social das instituições públicas.

Isso não significa afirmar que Diego Araujo tenha participado de uma operação organizada dessa natureza. Até que existam provas, estabelecer essa associação seria irresponsável. Significa reconhecer que o episódio ocorreu em um ambiente político no qual a provocação dentro das universidades já integra o repertório de setores da extrema direita e que, por isso, qualquer análise séria precisa reconstruir toda a sequência dos acontecimentos, e não apenas os segundos finais que melhor se adaptam à narrativa pretendida.

Há igualmente uma lição estratégica que os estudantes e organizações de esquerda precisam retirar desses acontecimentos. Independentemente do grau de provocação, entrar em uma altercação física pode significar entregar aos provocadores exatamente as imagens necessárias para alimentar a narrativa que se pretende combater. Diante da utilização de símbolos nazistas ou fascistas ou de comportamentos deliberadamente provocadores, a resposta politicamente mais eficaz é documentar o ocorrido, identificar os responsáveis e exigir ação imediata das autoridades universitárias e, quando necessário, policiais. Além de impedir que estudantes assumam funções que pertencem às instituições, essa postura dificulta que eventuais provocadores sejam posteriormente transformados em mártires da liberdade de expressão.

O que não se pode aceitar é que comentaristas externos e arrivistas de direita instalados no interior das próprias universidades descubram subitamente a violência política nos campi apenas quando ela pode ser atribuída à esquerda. A memória histórica brasileira mostra quem perseguia estudantes e professores durante a ditadura, assim como a história alemã não deixa dúvidas sobre quem organizou a Noite dos Cristais. No presente, pesquisas documentam a expansão de células neonazistas no Brasil, enquanto a Polícia Federal realiza operações relacionadas à disseminação de propaganda nazista e supremacista. Diante disso, transformar estudantes antifascistas em “novos Torquemadas” e simultaneamente manter um silêncio conveniente sobre organizações que reivindicam precisamente ideologias responsáveis por algumas das maiores perseguições políticas e raciais do século XX parece menos uma preocupação universal com a intolerância do que uma escolha bastante seletiva sobre qual intolerância merece ser denunciada.

A altercação ocorrida no IFCS deve ser investigada, as diferentes versões confrontadas e as responsabilidades individualizadas. Mas antes de transformar o episódio em demonstração da suposta barbárie da esquerda universitária, seria recomendável olhar para a história e também para aquilo que está acontecendo hoje no Brasil. Talvez então fique mais difícil sustentar que o grande perigo para nossas universidades esteja nos estudantes que se indignam diante da exibição de símbolos associados ao nazismo, enquanto grupos efetivamente neonazistas crescem, personagens da extrema direita promovem provocações dentro dos campi e setores de direita existentes nas próprias universidades aproveitam esses episódios para destilar seu anticomunismo e contribuir para a desmoralização das instituições em que trabalham. Afinal, transformar a universidade pública em território de intolerância, desordem e radicalismo não é uma narrativa politicamente neutra: ela serve perfeitamente àqueles que desejam enfraquecer sua legitimidade social, reduzir seu financiamento e, no limite, abrir caminho para sua privatização.

Campos dos Goytacazes: a anti-cidade?

Por Luciane Soares da Silva*

Em 2026 a maior parte da população reside em cidades. A urbanização torna-se um desafio cotidiano. Não apenas a criminalidade urbana mas problemas de trânsito, coleta de lixo, mobilidade, poluição, acesso aos espaços comuns de parques e praças. Como coordenar a vida compartilhando a cidade com milhares de pessoas? Nossas utopias de um futuro mais rápido foram soterradas por problemas não resolvidos durante o século XX. A desigualdade, a segregação, o racismo ambiental, a contaminação de rios e afluentes são alguns dos problemas. E qual a agência da população diante destes desafios?

Saio de casa as 8:00 horas de uma manhã chuvosa de agosto. Uma caminhada curta até a avenida Gilberto Cardoso e a paisagem apresenta lixo. Na rua, embalagens de quentinhas que não foram  recolhidas na noite passada. Na esquina, restos de plástico, comida, fraldas e outros objetos depositados em lugar inadequado. Próximo ao valão, um lixão a céu aberto sempre frequentado por urubus que usam os postes para tomar sol ao longo da avenida Alberto Lamego. Após o valão, garrafas de cerveja, sacos plásticos e aviso de proibição em relação ao lixo e carros na calçada. Pensando a produção de um dossiê sobre espaço, questão urbana e periferia, questiono o que faz a cidade de Campos tão diferente de periferias globais, no Rio de Janeiro ou na Índia? Sim, a comparação é necessária para avaliarmos as cidades no século XXI e suas periferias.

Após 20 anos pesquisando as favelas do Rio de Janeiro posso afirmar que caçambas de lixo são retiradas diariamente da Rocinha, da Maré, do Alemão. E ainda assim, sempre há uma luta inglória contra a capacidade de produção de lixo. A quantidade de latas, garrafas e materiais que permanecerão anos na natureza, iguala sociedades que ainda não resolveram esta questão central para qualidade de vida de seus habitantes. E aqui reside uma compreensão que pode ser estendida para questões como combate ao mosquito da dengue, o uso de máscaras e outras medidas que só funcionam coletivamente: como lidar com a atual situação ultra privatizada do espaço público? Condomínios de luxo não realizam um trabalho de manutenção das calçadas (porque esta é a sociedade do carro), não cortam a grama (o que impacta o controle de mosquitos se considerarmos pequenas formações de poças) e vivem em áreas de limpeza privada ignorando a restante da cidade. O mesmo ocorre em áreas nobres: a coleta nunca atinge o nível ótimo, o que em minha avaliação, revela que estamos produzindo mais lixo e descartando de forma absolutamente caótica. Como pensar o direito à cidade, a partir de Henri Lefebvre sem pensar o comum?

O parque abandonado na Artur Bernardes, apenas com um pórtico. A cidade não utiliza o espaço que literalmente torna-se um elefante na paisagem. A praça São Salvador, revitalizada a contragosto da população, já foi lugar prazeroso para sentar embaixo de árvores. Que modernidade é esta, na qual árvores têm de ceder espaço para carros, estacionamentos, igrejas e mármore? Que modernidade é esta, na qual a verticalização de prédios ao longo da avenida Pelinca, transforma dez minutos de chuva em horas de alagamento?

As relações na cidade se expressam no trânsito e neste caso, subimos pela Saldanha Marinho, descemos pela Formosa. Anda-se pela Beira Valão como em São Paulo. Mas a cidade, em sua zona central de circulação não deveria viver sob um caos completo, de costas para o Rio Paraíba.

Caos que se repete no rodoviária Roberto Silveira. Ali não apenas caos, mas sujeira, espera, perigo e desânimo. Descaso com os mais pobres que precisam chegar aos distritos da cidade. Na outra ponta, o Shopping Estrada apresenta uma infestação de pombos e andorinhas. O asco do cidadão comum só não é maior que a espera por transformações jamais vistas. Bancos não podem ser usados, e um teto metálico de 30 anos, mostra sinais do tempo, tomado por ferrugem. E esta é a rodoviária que liga a cidade a região nordeste, São Paulo, Vitória, Rio, Belo Horizonte. Difícil lembrar de algo parecido em outras cidades.

A cidade pós pandemia segue sua rotina sem coleta seletiva de lixo em todos os bairros, sem melhoria de transporte, sem acesso aos parques. O equipamento do CEPOP passa o ano fechado, usado raras vezes para alguma feira de carros, as bienais e o feriados oficais. É a expressão máxima da ausência de vida pulsante e eventos abertos.

A cidade cresce mas os hospitais não dão conta da complexidade representada pelo envelhecimento da população. Além disto, não há acessibilidade para pessoas com dificuldades de locomoção que precisem atravessar uma das pontes em Campos. Pontes que separam dois mundos. O preconceito do campista em relação a Guarus é uma das formas de racismo ambiental mais explícito que já presenciei. Lá estão a cidade de Palha, Santa Rosa,  Novo Horizonte, Santa Helena. Mas hoje, Guarus apresenta aquecimento do setor imobiliário. Ainda assim, ao pesquisar imagens, encontramos carros da PM, corpos furados à bala e quando discutimos de Guarus é um gueto, não há como esquecer a recusa de carros de aplicativo em levar passageiros aos bairros após as oito da noite (problema igual vive a Penha).

É curioso perceber como a região que abriga o Porto do Açu, a Bacia de Campos, grandes Universidades, uma rede extensão de escolas e terras para plantio, ocupe posições tão lamentáveis em indicadores de educação como o IDEB. Tecnologia de ponta e escassez de associação. A recepção dos royalties não altera a vida das famílias na Portelinha e na Tira Gosto. Acreditar que a pobreza é resultado de escolhas individuais colabora para que nada mude, é adesão à ideologia escravocrata da cana e obviamente, a neo escravização pelo petróleo. Mentalidade extrativista decadente. Nem para espoliação de trabalho servem aqueles que nunca tiveram carteira assinada. A renda que não circula, não produz melhores condições.

A cidade é vivida como estranhamento, negação e vergonha. Nos escandalizamos com a compra de votos como motor de uma política do “meu pirão primeiro”. Mas mesmo diante de denúncias, nenhuma fiscalização surte efeito. São em pequenas mesas que o poder legislativo encontra o judiciário e os empresários e coronéis. Talvez alguns pastores atualmente.

Como mover a vida, o urbano, a cidade, na direção do futuro? Como resistir a degradação social, fruto de segregação?

Que utopia ainda ocupa nossa imaginação nas cidades do século XXI?

É preciso pensar este com urgência sobre o lixo, a violência, a ausência de praças e escolas no campo, o uso de terra, o lugar do Rio Paraíba.

É preciso pensar a cidade.

*Luciane Soares da Silva é professora associada do Laboratório de Estudo da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) do Centro de Ciências do Homem da Uenf.

A expansão silenciosa dos agrotóxicos: o que 199 decisões de pós-registro do Ministério da Agricultura revelam

Ato publicado pelo Ministério da Agricultura mostra que a expansão do mercado de agrotóxicos não ocorre apenas pela concessão de novos registros: quase 70% das decisões analisadas ampliaram importadores, formuladores, fontes técnicas, marcas ou possibilidades de uso de produtos já existentes 

Quem acompanha o debate sobre os agrotóxicos no Brasil provavelmente já se acostumou com uma espécie de contabilidade macabra: a cada ano se anuncia quantos novos produtos foram registrados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), e a partir daí se tenta dimensionar o ritmo com que o mercado brasileiro continua sendo abastecido por novas formulações e marcas comerciais. O problema é que o Ato nº 53, de 1º de setembro de 2026, publicado no dia de hoje pela Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins, mostra que olhar apenas para os novos registros permite enxergar somente uma parte da história.

O documento, publicado no Diário Oficial da União, reúne nada menos que 199 decisões de pós-registro de agrotóxicos e afins. É importante esclarecer desde logo que isso não significa a liberação de 199 novos agrotóxicos. O que o documento revela é algo mais complexo e, em certos aspectos, ainda mais interessante: depois que um agrotóxico recebe seu registro, sua trajetória regulatória não termina. Ao contrário, o produto pode continuar adquirindo novos importadores, formuladores, fabricantes, fontes de produto técnico, marcas comerciais e até novas possibilidades de utilização. É justamente essa movimentação posterior ao registro que aparece quase invisível no debate público sobre a expansão dos agrotóxicos no Brasil.

Uma classificação que realizei dos 199 itens publicados no Ato nº 53 mostra a dimensão desse fenômeno. Dos 199 procedimentos, 139, ou aproximadamente 69,8%, representam alguma forma de expansão da estrutura regulatória associada aos produtos, enquanto 38 correspondem a movimentos de retração, como exclusões, cancelamentos ou restrições, e outros 22 possuem natureza predominantemente administrativa ou neutra. Evidentemente, esse saldo não mede toneladas comercializadas, faturamento das empresas ou risco toxicológico. Mas mostra de maneira bastante clara para qual direção se movimentou a maioria das decisões publicadas naquele ato.

O dado mais impressionante aparece quando se observa a composição das decisões classificadas como expansivas. Foram identificadas 53 autorizações de novos importadores, 35 inclusões de formuladores e 31 inclusões de produtos técnicos, além de inclusões de fabricantes, manipuladores, marcas comerciais e ampliações das recomendações de uso. Isso significa que mais de uma centena das decisões publicadas naquele único ato está diretamente relacionada à ampliação de algum componente da cadeia que permite produzir, formular, importar ou disponibilizar produtos no mercado brasileiro.

Um dos exemplos mais didáticos está no item 63, no qual a empresa Agrofito é autorizada a importar uma extensa relação de produtos que inclui formulações de 2,4-D, atrazina, clorotalonil, diquate, flumioxazina, glifosato e glufosinato, entre outras. Mais adiante, a mesma empresa recebe novas autorizações envolvendo produtos contendo 2,4-D e a combinação 2,4-D + picloram.

Há ainda uma peculiaridade importante: um único procedimento administrativo pode produzir efeitos sobre diversos produtos comerciais. No item 147, por exemplo, o MAPA aprovou a inclusão do Picloram Técnico RF como fonte técnica para produtos comercializados sob nomes como Torban, Canchim, Torban Plus, Kaboclo, Limpeza, Canchim Plus, Temicab XTRA, Chapon Plus e Wrangler. Portanto, contar esse procedimento simplesmente como “uma alteração” também subestima sua dimensão material.

É justamente aqui que aparece uma das principais peculiaridades do sistema. Imaginemos um agrotóxico registrado há alguns anos. Na estatística histórica ele continuará aparecendo como um registro. Entretanto, depois da concessão original podem ser incorporados um novo fabricante, dois novos formuladores, três importadores, uma nova fonte de produto técnico e outras marcas comerciais. Formalmente continuamos diante daquele registro original, mas economicamente sua infraestrutura de produção e abastecimento pode ter se tornado muito maior. Em outras palavras, o número de registros permanece parado enquanto a estrutura comercial por trás deles continua crescendo.

A forte presença da indústria chinesa

Outro aspecto que chama atenção no Ato nº 53 é a presença da indústria química chinesa. Em 22 dos 199 itens aparece referência explícita à China, sendo que 18 deles correspondem a movimentos classificados como expansivos. Esse número não deve ser confundido com 22 empresas diferentes nem permite concluir que todos os ingredientes ativos envolvidos sejam produzidos naquele país, mas evidencia a importância da China na cadeia industrial que abastece o mercado brasileiro de agrotóxicos.

O documento registra, por exemplo, sucessivas inclusões de empresas chinesas como formuladoras de produtos comercializados no Brasil. Um caso particularmente revelador envolve a Jiangsu Flag Chemical Industry Co. Ltd., que aparece sendo acrescentada como formuladora de vários produtos em decisões consecutivas. O padrão sugere que a análise do mercado brasileiro de agrotóxicos precisa considerar não apenas as empresas titulares dos registros no Brasil, mas também a geografia internacional da fabricação dos produtos técnicos e das formulações.

O pós-registro também pode ampliar onde e como o veneno é usado

Outro aspecto peculiar é que o mecanismo não atua apenas sobre a cadeia empresarial. O pós-registro pode modificar as próprias condições de utilização de um agrotóxico.

No item 167, por exemplo, o MAPA aprovou a inclusão da modalidade de aplicação aérea nas culturas de batata e tomate para o produto Consento. Nos itens seguintes aparecem inclusões de novas culturas nas recomendações de outros produtos, como a carinata. Assim, o mesmo instrumento administrativo que acrescenta importadores ou formuladores também pode aumentar as situações nas quais determinado produto poderá ser utilizado.

Isso torna o conceito de pós-registro particularmente importante para quem acompanha os impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos. Não estamos falando apenas de mudanças no endereço de uma empresa ou na titularidade de um registro. Em determinados casos, estamos diante de decisões capazes de alterar concretamente a maneira como o produto chega ao mercado ou é utilizado no território.

Produtos proibidos na União Europeia continuam circulando pela engrenagem brasileira

O cruzamento dos ingredientes explicitamente mencionados no Ato nº 53 com sua situação regulatória na União Europeia oferece outro elemento importante, mas exige alguma cautela. Não seria correto afirmar que todos os produtos encontrados no documento estão proibidos no mercado europeu. Glifosato, 2,4-D, picloram, tebuconazol, lambda-cialotrina e cletodim, por exemplo, permanecem aprovados para usos fitossanitários na União Europeia, ainda que sujeitos a diferentes condições e processos regulatórios.

Entretanto, aparecem no ato brasileiro moléculas cuja situação europeia é radicalmente diferente.

Uma delas é o clorpirifós, cuja aprovação não foi renovada pela União Europeia em 2020. No Ato nº 53 brasileiro, entretanto, aparece uma autorização de importação envolvendo produto à base dessa substância. Outra é o propiconazol, cuja aprovação europeia não foi renovada em 2018. No Brasil, o item 67 do Ato nº 53 autoriza a inclusão do Propiconazol Técnico Cropchem II como nova fonte técnica para o produto Maragato 500 EC.

O caso do fipronil mostra, por outro lado, por que é preciso analisar cada procedimento individualmente. A substância deixou de ser aprovada para produtos fitofarmacêuticos na União Europeia, mas a decisão encontrada no Ato nº 53 não representa expansão de uso. Ao contrário, o MAPA determinou a exclusão da cultura do milho das recomendações do Fipronil 80 WG Gharda.

Esse exemplo é importante porque demonstra que uma crítica consistente ao sistema brasileiro não precisa transformar toda decisão administrativa em flexibilização. O próprio documento contém restrições e cancelamentos. O problema é que, quando o conjunto das decisões é contabilizado, a balança pende fortemente para o lado da expansão.

O pós-registro como uma espécie de segunda vida comercial

Talvez esta seja a principal conclusão que se possa retirar do Ato nº 53. O sistema de registro de agrotóxicos não funciona simplesmente como uma porta que se abre uma única vez. Depois de atravessá-la, determinados produtos continuam acumulando alterações capazes de ampliar sua infraestrutura industrial e comercial.

Isso significa que o debate brasileiro sobre a quantidade de agrotóxicos liberados anualmente precisa incorporar uma segunda variável. Além de perguntar quantos novos registros foram concedidos, seria necessário perguntar quantas expansões foram posteriormente autorizadas sobre o estoque de registros já existente.

Essa diferença não é meramente semântica. Um produto registrado uma única vez pode, ao longo dos anos, passar a contar com novos fornecedores de ingrediente técnico, novos formuladores internacionais, novos importadores brasileiros, novas marcas e novas recomendações de utilização. Nenhuma dessas mudanças necessariamente aparecerá como um “novo agrotóxico” nas manchetes sobre o número anual de registros.  Por isso, o Ato nº 53 permite enxergar algo que permanece quase sempre fora do radar: existe uma expansão silenciosa dos agrotóxicos que ocorre depois do registro.

E talvez seja justamente por permanecer enterrada em centenas de itens burocráticos publicados no Diário Oficial que essa dimensão do problema receba tão pouca atenção. Enquanto a discussão pública se concentra na quantidade de novos produtos liberados, a máquina regulatória continua trabalhando sobre os produtos antigos, acrescentando importadores, formuladores, fontes técnicas e possibilidades de utilização. O registro, portanto, não representa necessariamente o ponto final da autorização de um agrotóxico. Em muitos casos, ele parece funcionar como o início de uma trajetória regulatória que permite sucessivas ampliações posteriores.

Se quisermos compreender a verdadeira dimensão da dependência brasileira dos agrotóxicos, talvez seja hora de parar de contar apenas quantos entram pela porta da frente e começar a observar o quanto continuam crescendo depois que já estão dentro da casa.

‘Aumento exponencial diante dos nossos olhos’: ONU alerta para a aproximação de um El Niño recorde

Um arrozal afetado pela seca em Darul Imarah, Indonésia. O fenômeno El Niño pode levar 50 milhões de pessoas à fome aguda, segundo uma agência da ONU. Fotografia: Hotli Simanjuntak/EPA

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente, para “The Guardian” 

O fenômeno climático El Niño está “aumentando de tamanho diante de nossos olhos”, afirmou a ONU. De acordo com as últimas previsões, é quase certo que o evento quebrará recordes de temperatura.

O El Niño provavelmente será o maior em pelo menos 1.000 anos e adicionará calor extra a uma atmosfera onde as temperaturas já estão subindo rapidamente devido ao aquecimento global. Essa combinação significa que 2027 está prestes a quebrar todos os recordes e se tornar o ano mais quente já registrado .

O aumento da temperatura causado pelo El Niño já está tendo impactos, desde o agravamento dos incêndios florestais na Indonésia até o enfraquecimento das vitais chuvas de monção na Índia . Os impactos se espalharão globalmente, desde um maior risco de incêndios na Austrália até inundações mais intensas na América do Sul. O Programa Mundial de Alimentos afirmou em agosto que o El Niño provavelmente levaria cerca de 50 milhões de pessoas à fome aguda .

A crise climática, causada pela poluição proveniente de combustíveis fósseis, já está intensificando eventos climáticos extremos e causando mortes , com a onda de calor mais extrema já registrada atingindo a Europa neste verão e resultando em pelo menos 35.000 mortes . O El Niño agravará ainda mais os impactos, com a escala do evento tendo sido descrita como “ verdadeiramente impressionante ” e um evento de “ nível Godzilla “.

O El Niño é um ciclo climático natural em que mudanças nos ventos sobre o Pacífico levam ao aumento da temperatura do oceano e à transferência de enormes quantidades de calor para a atmosfera. Os dados mais recentes, de segunda-feira, mostram que a temperatura do oceano no epicentro do El Niño está 2,6°C acima da média dos últimos 30 anos. Isso já se aproxima da maior anomalia já registrada na era dos dados de satélite, de 3,1°C em 2015, e ainda faltam meses para o pico ser atingido.

A previsão é de que esse pico atinja cerca de 4°C em novembro, de acordo com a média de 14 modelos diferentes. Dados de análises de corais, anéis de árvores e documentos históricos sugerem que nenhum El Niño atingiu esse nível no último milênio, afirmou Zeke Hausfather, analista climático. Qualquer anomalia de temperatura acima de 0,5°C é classificada como El Niño.

“O El Niño está se intensificando diante dos nossos olhos”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres. “A ciência não deixa dúvidas: o planeta está navegando em águas desconhecidas, e essas águas estão aquecendo. O mundo está na zona de perigo de eventos climáticos extremos. A corrida agora é entre os riscos crescentes e o nosso compromisso de agir contra as mudanças climáticas e proteger as pessoas. Precisamos vencer essa corrida.”

“O El Niño tem o potencial de causar um impacto devastador em comunidades e economias em todo o mundo”, disse Celeste Saulo, Secretária-Geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM) da ONU. “Já estamos vendo transtornos e devastação causados ​​por secas e inundações, e esperamos que esses impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifica.”

“Nunca antes, nos 50 anos de história da OMM, lançamos uma mobilização tão grande com os serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais, que estão na linha de frente da prestação de previsões e serviços para salvar vidas e meios de subsistência. Não temos tempo a perder.”

As atualizações da OMM sobre o El Niño são as previsões mais confiáveis ​​do mundo e baseiam-se em um consenso de modelos de centros de previsão climática de todo o planeta. A atualização mais recente, publicada na quinta-feira, afirma que o El Niño está firmemente estabelecido e se intensificará, tornando-se um evento “muito forte” nos próximos meses, com “grandes impactos”, incluindo inundações, secas e ondas de calor extremas, que persistirão até 2027.

Em algumas áreas, as temperaturas subsuperficiais do oceano registraram valores extraordinariamente 8°C acima da média durante julho e início de agosto.

Chris Jaccarini, da Unidade de Inteligência de Energia e Clima do Reino Unido, disse: “Eventos climáticos extremos em todo o mundo elevaram os preços dos alimentos, afetando os mais pobres com mais força. Isso não se aplica apenas aos alimentos que importamos, mas também aos que cultivamos em casa.

“Após cinco ondas de calor e uma seca generalizada, os agricultores britânicos que cultivam lavouras enfrentam agora a pior colheita de sempre em 2026. No entanto, sem medidas concretas, estes poderão ser os anos bons. A menos que reduzamos rapidamente as emissões e reforcemos a resiliência, o impacto das alterações climáticas continuará a agravar-se, com o El Niño a intensificar esta tendência a cada poucos anos.”


Fonte: The Guardian