Flávio Bolsonaro, o duas caras: vota pelo fim da escala 6×1 enquanto seus aliados preparam o salário por hora trabalhada

O voto favorável à redução da jornada contrasta com a defesa de contratos por hora trabalhada, que podem transferir riscos econômicos das empresas para os empregados

A aprovação pelo Senado Federal, nesta quarta-feira (14), da proposta que estabelece a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso remunerado e sem diminuição dos salários, representou um avanço importante no debate sobre os direitos trabalhistas no Brasil. A proposta recebeu 75 votos favoráveis e apenas um contrário. Entre os votos favoráveis estava o do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, que até poucos dias antes criticava a iniciativa.  Entretanto, uma reportagem publicada hoje pelo ICL Notícias, complementada por informações da Folha de S.Paulo, aponta uma contradição que merece atenção. Embora tenha votado favoravelmente ao fim da escala 6×1, Flávio Bolsonaro mantém seu apoio a propostas de flexibilização das relações trabalhistas. Segundo as reportagens, integrantes de sua campanha discutem alternativas para modificar as regras aprovadas caso ele seja eleito presidente.

O elemento central dessa discussão é a proposta de remuneração por horas trabalhadas, defendida pelo senador Rogério Marinho e por outros integrantes do PL. Seus defensores apresentam a modalidade como uma ampliação da liberdade de escolha dos trabalhadores, permitindo contratos diferentes daqueles tradicionalmente regidos pela CLT. O problema é que essa suposta liberdade precisa ser examinada à luz da profunda desigualdade de poder existente entre patrões e empregados.

Afinal, até que ponto um trabalhador que depende de seu salário para alimentar a família possui liberdade efetiva para recusar as condições impostas por uma empresa? Em um mercado de trabalho marcado pela informalidade e pela desigualdade, a negociação individual pode significar, na prática, a transferência dos riscos econômicos do empregador para o empregado.

A diferença entre as duas propostas é substantiva. A redução da jornada com manutenção dos salários assegura ao trabalhador mais tempo de descanso sem perda de rendimento. Já um contrato cuja remuneração seja proporcional às horas efetivamente trabalhadas pode produzir o efeito inverso: menos horas disponíveis significariam menos dinheiro no final do mês.

Tomemos um exemplo simples. Um trabalhador que recebe R$ 2.200 por uma jornada de 44 horas semanais, caso fosse submetido a uma remuneração estritamente proporcional, passaria a receber R$ 2.000 por 40 horas ou apenas R$ 1.000 por 20 horas semanais, considerando o mesmo valor da hora. Evidentemente, esses valores são ilustrativos, mas demonstram por que a manutenção dos salários constitui um elemento fundamental da proposta aprovada no Senado.

Outro aspecto preocupante envolve os direitos associados ao contrato de trabalho. Na modalidade flexível descrita na PEC 12/2026, férias, 13º salário e FGTS seriam calculados proporcionalmente. Isso não significa necessariamente sua extinção formal, mas pode representar uma redução dos valores efetivamente recebidos pelos trabalhadores. A proposta também prevê maior prevalência da negociação individual sobre instrumentos coletivos, diminuindo a participação sindical na definição das condições de contratação. Em um país marcado pelas relações autoritárias entre patrões e empregados, este não é um aspecto secundário.

Os defensores da flexibilização argumentam que ela poderia ampliar oportunidades de emprego, facilitar contratações e reduzir a informalidade.  Estes são argumentos que precisam ser considerados, mas que não eliminam a necessidade de demonstrar como a nova modalidade preservaria a renda, a previsibilidade financeira e os direitos dos trabalhadores. Sem essas garantias, a flexibilidade oferecida às empresas pode se transformar em insegurança para quem depende de seus salários para sobreviver.

A dimensão social dessa discussão é expressiva. Segundo levantamento do Dieese divulgado pela Agência Brasil, a redução da jornada poderá beneficiar aproximadamente 26,8 milhões de trabalhadores, entre empregados formais e informais. Trata-se, portanto, de uma mudança com efeitos potenciais sobre a renda, o descanso e a organização da vida familiar de milhões de brasileiros.  É importante observar que a aprovação da PEC no Senado não significa que suas garantias possam ser automaticamente desfeitas por um futuro presidente. Alterações constitucionais dependeriam de novas deliberações do Congresso, com os quóruns exigidos. Ainda assim, as propostas defendidas pelos integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro indicam que o modelo de contratação e remuneração continuará em disputa.

O episódio evidencia, sobretudo, que o debate sobre o fim da escala 6×1 não pode ser reduzido à quantidade de dias trabalhados. A questão decisiva é saber se a diminuição da jornada virá acompanhada da preservação dos salários e dos direitos ou se abrirá espaço para modalidades de contratação que subordinem ainda mais a renda dos trabalhadores às necessidades das empresas.  O voto de Flávio Bolsonaro favorável à redução da jornada é um fato. Mas a  sua participação na formulação de uma proposta alternativa de remuneração proporcional também é. É justamente a coexistência dessas duas posições que exige esclarecimentos públicos sobre o que efetivamente seria implementado em um eventual governo seu. Porque, para quem vive do próprio trabalho, a diferença entre descansar mais sem perder salário e trabalhar menos recebendo proporcionalmente menos não é uma questão de retórica eleitoral.  Esta é uma diferença que aparece diretamente no orçamento doméstico, na capacidade de pagar as contas e nas condições concretas de sobrevivência.

Meta, algoritmos e eleições: a democracia brasileira não pode ficar refém de Zuckerberg

Testes revelam tratamento desigual da inteligência artificial entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto denúncias de interferência eleitoral chegam ao TSE e a organismos internacionais. Mas a resposta decisiva ao poder das big techs terá de vir das ruas

As denúncias de interferência da Meta nas eleições presidenciais brasileiras ganharam uma dimensão particularmente grave nesta quarta-feira (14). Testes realizados pela Folha de S.Paulo, pela Veja e pelo Brasil de Fato demonstraram que a inteligência artificial da empresa, integrada ao WhatsApp, aceitava produzir peças eleitorais favoráveis a Flávio Bolsonaro, mas recusava solicitações equivalentes envolvendo o presidente Lula. A situação torna ainda mais preocupante o poder concentrado nas mãos da corporação de Mark Zuckerberg, que controla Instagram, Facebook e WhatsApp.

Não estamos mais diante apenas de reclamações sobre redução de alcance, bloqueios de contas ou dificuldades para compartilhar conteúdos políticos. Os testes jornalísticos identificaram uma assimetria concreta no funcionamento da Meta AI, justamente durante o segundo turno de uma eleição presidencial. A empresa reconheceu problemas técnicos e afirmou ter adotado medidas corretivas, mas negou qualquer favorecimento deliberado. A distinção é importante: o tratamento desigual foi documentado, enquanto a existência de uma estratégia intencional de manipulação eleitoral ainda precisa ser demonstrada.

A gravidade da situação já levou o Tribunal Superior Eleitoral a exigir explicações da Meta sobre as restrições denunciadas pela campanha de Lula. Entre os questionamentos estão possíveis limitações à distribuição de publicações, dificuldades no impulsionamento de conteúdos e a existência de centenas de perfis falsos que teriam produzido milhões de visualizações com ataques ao presidente e à primeira-dama. A campanha petista também anunciou que levará suas denúncias à Agência Nacional de Proteção de Dados, à Organização dos Estados Americanos e a observadores internacionais.

Outro elemento que torna esse cenário ainda mais inquietante envolve o argentino Fernando Cerimedo, conhecido por sua atuação no universo da comunicação política da extrema-direita latino-americana e pela disseminação de questionamentos infundados sobre o sistema eleitoral brasileiro. Reportagens recentes trouxeram denúncias de sua ex-companheira, Nadia Beller, sobre supostas atividades políticas transnacionais e sua disposição de atuar em favor de Flávio Bolsonaro. Também surgiram alegações sobre possíveis conexões privilegiadas com integrantes da Meta. Essas últimas acusações, entretanto, ainda carecem de comprovação independente e não permitem afirmar que Cerimedo tenha organizado uma operação interna da empresa para interferir nas eleições brasileiras.

O que já está suficientemente claro, porém, é que a concentração da infraestrutura de comunicação nas mãos de uma única corporação representa um problema estrutural para a democracia. Quando uma empresa estrangeira pode alterar unilateralmente a visibilidade de conteúdos, bloquear canais de comunicação e definir critérios opacos de funcionamento de sua inteligência artificial, a igualdade de condições na disputa eleitoral fica perigosamente dependente de decisões privadas.  Não se trata de exigir que as plataformas favoreçam Lula ou qualquer outro candidato. Trata-se de exigir que não favoreçam ninguém, que seus critérios sejam transparentes e que eventuais irregularidades sejam investigadas e corrigidas. A alegação genérica de problemas técnicos não pode funcionar como salvo-conduto permanente para uma empresa cujo poder de interferência na circulação de informações alcança dezenas de milhões de brasileiros.

Mas há uma conclusão política que considero ainda mais importante. A esquerda brasileira não pode continuar depositando nos algoritmos das big techs a esperança de derrotar a extrema-direita. Uma campanha que depende excessivamente de visualizações, curtidas e compartilhamentos entrega parte de sua capacidade de comunicação justamente às corporações cujo poder precisa ser enfrentado.  É por isso que venho insistindo na necessidade de aprofundar a conexão entre redes e ruas. As manifestações populares, a organização sindical, os movimentos sociais, as universidades e o trabalho político nos bairros e locais de trabalho possuem uma capacidade que os algoritmos não conseguem controlar integralmente: produzir encontros reais, debates diretos e vínculos coletivos que ultrapassam as bolhas digitais.

A mobilização nas ruas não elimina a influência das plataformas, tampouco dispensa a exigência de fiscalização rigorosa da Meta e das demais big techs. Mas pode reduzir a dependência política em relação a elas, disputar a narrativa pública fora dos ambientes digitais e transformar indignação em força social organizada.  A experiência histórica demonstra que transformações políticas profundas não resultam apenas da circulação de mensagens, mas da capacidade de milhões de pessoas se organizarem e agirem coletivamente. As redes podem potencializar essa organização, mas jamais deveriam substituí-la.

Se Zuckerberg e seus algoritmos possuem o poder de limitar o alcance de uma postagem, não possuem o mesmo poder sobre uma avenida ocupada por milhares de pessoas. É precisamente nessa diferença que reside a possibilidade de conter e até reverter o poder político acumulado pelas big techs.

A democracia brasileira não será defendida apenas com reclamações dirigidas à Meta. Será defendida com investigação, transparência, responsabilização e, sobretudo, mobilização popular.  Afinal, os algoritmos podem até controlar as telas. Mas as ruas, quando efetivamente mobilizadas, continuam sendo território da política e da ação coletiva.

O El Niño pode ser histórico, e a falta de preparação pode tornar seus efeitos ainda piores

Uma reportagem publicada pelo portal Compre Rural, em 13 de outubro, traz um alerta que deveria estar ocupando o centro das preocupações dos governantes brasileiros: o chamado “El Niño Godzilla” está ganhando intensidade e apresenta 83% de probabilidade de atingir uma magnitude sem precedentes nos registros iniciados em 1950. A informação tem como origem a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que prevê a persistência de condições fortes a muito fortes até o primeiro trimestre de 2027.

O percentual de 83% não representa a probabilidade de ocorrência de uma catástrofe específica, mas de o fenômeno atingir ou superar uma anomalia de +2,5 °C no Índice Oceânico Niño Relativo (RONI), na média do trimestre outubro-dezembro. Essa distinção é importante porque, embora um El Niño excepcionalmente intenso aumente a possibilidade de anomalias climáticas, seus efeitos não serão uniformes em todas as regiões.

Para o Brasil, as projeções apontam para um cenário particularmente preocupante: chuvas acima da média no Sul e em partes do Sudeste, condições mais secas em extensas áreas do Norte e em partes do Centro-Oeste e Nordeste, além de temperaturas superiores às médias históricas em grande parte do território nacional. A combinação desses fatores poderá comprometer a produção agrícola, o abastecimento de água, a geração de energia e a segurança das populações expostas a enchentes, secas e ondas de calor. Entretanto, há uma questão que considero ainda mais importante do que a intensidade do fenômeno. O El Niño é um componente natural da variabilidade climática, mas seus efeitos estão ocorrendo em um planeta já aquecido pelas emissões humanas de gases de efeito estufa. Não se pode atribuir automaticamente cada desastre ao El Niño ou ao aquecimento global, mas tampouco é possível ignorar que a elevação das temperaturas amplia determinados riscos climáticos e torna ainda mais urgente a preparação das sociedades.

No caso brasileiro, essa preparação continua marcada por profundas desigualdades sociais e territoriais. Enquanto grandes empresas agrícolas dispõem de instrumentos tecnológicos, seguros e recursos financeiros para reduzir parte de suas perdas, agricultores familiares, trabalhadores rurais e moradores das periferias urbanas frequentemente enfrentam os eventos extremos sem infraestrutura adequada, reservas financeiras ou proteção institucional suficiente. O fenômeno climático pode ser natural, mas a distribuição dos seus prejuízos é profundamente social.

Essa discussão também precisa chegar ao Norte Fluminense, particularmente a Campos dos Goytacazes, onde a combinação de temperaturas elevadas, impermeabilização do solo, redução da cobertura arbórea e ocupação de áreas vulneráveis amplia a exposição da população aos extremos climáticos. Isso não significa prever uma enchente ou uma seca específica para a região, mas reconhecer que a ausência de políticas consistentes de adaptação poderá transformar anomalias meteorológicas em graves problemas sociais.

O mais preocupante é que, apesar da crescente precisão dos sistemas de monitoramento climático, o Brasil continua demonstrando dificuldades para converter conhecimento científico em planejamento territorial, infraestrutura preventiva e proteção das populações vulneráveis. Ainda prevalece uma lógica de atuação posterior aos desastres, quando os prejuízos humanos e materiais já se acumularam.

A reportagem do Compre Rural enfatiza, compreensivelmente, os riscos para a produção agropecuária. Entretanto, seria um erro reduzir a discussão às perdas nas safras de soja, milho ou trigo. A questão central envolve também a segurança alimentar, a disponibilidade de água, as condições de trabalho, a saúde pública e a capacidade das cidades de enfrentar temperaturas e precipitações extremas.

Se existe uma conclusão a retirar desse novo alerta da NOAA, é que não podemos continuar tratando a adaptação climática como um assunto secundário ou uma despesa dispensável. O Brasil precisa abandonar a improvisação e estabelecer políticas permanentes de prevenção, especialmente voltadas à classe trabalhadora e às populações mais vulneráveis. Afinal, o verdadeiro problema não é o apelido cinematográfico dado ao El Niño. É a possibilidade de enfrentarmos um fenômeno climático histórico com a mesma e velha combinação de negligência governamental, desigualdade social e ausência de planejamento.

Salário por hora trabalhada: a falácia que ameaça os direitos dos trabalhadores

A proposta de introduzir no Brasil contratos de trabalho com remuneração baseada exclusivamente nas horas trabalhadas, defendida por Flávio Bolsonaro e seus apoiadores, está sendo apresentada como uma forma de modernização das relações trabalhistas. Mas o que se esconde por trás dessa suposta inovação?

Em meu novo vídeo, explico por que essa proposta representa uma ameaça aos direitos históricos da classe trabalhadora brasileira. Afinal, se a remuneração passar a depender exclusivamente das horas efetivamente trabalhadas, direitos como férias remuneradas e 13º salário, nos moldes atualmente praticados, poderão ser profundamente comprometidos ou mesmo eliminados.

Também questiono a tentativa de apresentar os Estados Unidos como exemplo de estabilidade e proteção aos trabalhadores. Afinal, o modelo estadunidense não assegura diversos direitos garantidos pela legislação brasileira, tampouco oferece um sistema público e universal de saúde comparável ao SUS.

O que está sendo vendido como modernização pode representar, na prática, uma gigantesca transferência de riscos e custos dos empregadores para os trabalhadores. No vídeo abaixo , explico por que essa proposta merece ser conhecida e debatida antes que seus defensores consigam transformar a retirada de direitos em promessa eleitoral.

 

Kássio desliga o canal, mas não pode desligar as ruas

Kássio Nunes Marques voltou a suspender o canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones, agora invocando, entre outros fundamentos, a ausência de comunicação formal de seu endereço à Justiça Eleitoral. A decisão sucede um relatório técnico que não encontrou os conteúdos denunciados no período examinado, embora tenha identificado lacunas decorrentes de mensagens apagadas ou editadas. Isso não equivale a uma absolvição de toda publicação, mas tampouco autoriza transformar suspeitas em comprovação de uma estrutura de desinformação.

O problema político é imediato: interromper um canal com milhões de seguidores na reta final do segundo turno reduz a capacidade de circulação de informações e de mobilização em favor de Lula. Sem precisar atribuir ao ministro uma intenção que não podemos demonstrar, é possível reconhecer que o efeito favorece seu adversário. Uma exigência administrativa pode ser corrigida; o tempo eleitoral perdido não pode ser devolvido. Cabe cobrar a proporcionalidade da medida e a aplicação dos mesmos critérios a todas as candidaturas.

Esse episódio reforça a necessidade de aprofundar a conexão entre redes e ruas. Uma campanha dependente de plataformas privadas e de canais sujeitos a interrupções permanece vulnerável justamente quando mais precisa alcançar a população. A comunicação digital precisa alimentar conversas presenciais, debates públicos e organização coletiva, enquanto a experiência das ruas deve fornecer conteúdo e perguntas às redes. Defender a liberdade de comunicação também significa construir meios de exercê-la para além da autorização de uma empresa ou de uma decisão individual.

E há matéria concreta para esse debate, começando pelo pagamento por horas trabalhadas defendido por Flávio Bolsonaro e sua base política. Conforme reportagem de Carlos Juliano Barros, no UOL, a proposta de Rogério Marinho prevê direitos proporcionais, mas especialistas alertam para a ausência de garantia de renda mensal e para dúvidas sobre o descanso semanal remunerado. O risco é transferir ao trabalhador a oscilação da demanda empresarial: menos horas oferecidas podem significar menos salário, mesmo quando suas despesas permanecem intactas.

Não é necessário inventar o fim automático das férias ou do 13º para expor a gravidade desse projeto. Basta perguntar quem decidirá quantas horas serão contratadas e quem suportará os períodos de menor movimento. O aluguel não diminui porque o patrão ofereceu menos trabalho; a alimentação dos filhos também não pode esperar a próxima convocação. A suposta liberdade de negociar individualmente ganha outro significado quando uma das partes controla o emprego e a outra precisa dele para sobreviver.

É esse conteúdo que precisa circular, com documentos, exemplos compreensíveis e debate público. A disputa eleitoral não pode ficar aprisionada ao vaivém de liminares enquanto propostas de precarização passam embaladas em slogans. Se Kássio interrompe o canal, a resposta precisa ampliar a presença nas ruas e a circulação de informação verificada. Porque o trabalhador tem o direito de saber, antes de votar, o que acontece quando seu salário vira variável e suas contas continuam fixas.

Lixo tóxico na Europa, lucro no Brasil

Ato nº 62 amplia cadeias de fabricação e comercialização de agrotóxicos, incluindo substâncias rejeitadas no mercado europeu, com participação de empresas brasileiras, chinesas e indianas

Publicado no Diário Oficial da União de 13 de outubro de 2026, o Ato nº 62 do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) oferece mais uma demonstração das contradições da política brasileira de agrotóxicos. Em suas 21 páginas, o documento apresenta uma extensa relação de alterações pós-registro, incluindo a autorização de novos fabricantes, formuladores e importadores de produtos que já possuem registros no Brasil. Entre eles estão substâncias que não têm autorização para uso agrícola na União Europeia.  É importante esclarecer que o ato não representa necessariamente a liberação de novos agrotóxicos. O que ele faz, em grande medida, é ampliar ou modificar as cadeias de produção e fornecimento de produtos já registrados. Entretanto, isso não torna suas consequências menos relevantes, pois a inclusão de novos fabricantes e formuladores pode aumentar a capacidade de abastecimento do mercado brasileiro.

Entre os ingredientes ativos identificados no documento estão atrazina, clorotalonil, tiofanato-metílico e picoxistrobina, todos sem aprovação para utilização em produtos fitossanitários na União Europeia. O caso do tiofanato-metílico é particularmente preocupante, pois sua aprovação europeia não foi renovada em meio a questionamentos científicos envolvendo riscos genotóxicos e propriedades de desregulação endócrina. Já a atrazina foi retirada do mercado europeu há mais de duas décadas, em razão de preocupações relacionadas à contaminação das águas subterrâneas.

Outro aspecto revelador é a presença de empresas como Nortox, Adama Brasil, Rainbow Agro, Shandong Weifang Rainbow Chemical e Jiangsu Sevencontinent Green Chemical, entre outras. O documento evidencia a importância das cadeias internacionais de fabricação de agrotóxicos, especialmente aquelas que envolvem empresas chinesas, ao lado de companhias instaladas no Brasil. A participação dessas empresas ocorre em diferentes etapas, desde a fabricação dos ingredientes técnicos até a formulação dos produtos comerciais.

Em relação às culturas agrícolas, o ato contém referências expressas a soja, algodão, cana-de-açúcar e citros em alterações de recomendações de uso. Entretanto, como a maior parte das autorizações envolve mudanças de fabricantes ou formuladores, o documento não permite estabelecer uma correspondência direta entre todas essas culturas e os ingredientes ativos sem aprovação europeia. Para isso, seria necessário consultar individualmente as bulas dos produtos registrados no MAPA.

O que chama a atenção é a persistência de uma assimetria regulatória internacional: substâncias que não podem ser utilizadas na agricultura europeia continuam tendo suas cadeias produtivas e comerciais autorizadas ou modificadas no Brasil. Embora a ausência de aprovação na União Europeia não signifique, em todos os casos, uma proibição expressa por motivos toxicológicos, essa diferença deveria estimular avaliações públicas rigorosas sobre os riscos ambientais e sanitários associados à manutenção desses produtos no mercado brasileiro.

Há ainda uma contradição econômica e política que merece destaque. Enquanto o Brasil continua oferecendo mercado para ingredientes ativos rejeitados pela regulação europeia, trabalhadores rurais, comunidades próximas às áreas agrícolas e ecossistemas brasileiros permanecem sujeitos aos riscos decorrentes de seu uso. Os benefícios econômicos da comercialização são apropriados pelas empresas integrantes dessas cadeias, enquanto os possíveis custos sanitários e ambientais podem ser transferidos à sociedade.  O Ato nº 62 mostra, portanto, que a política brasileira de agrotóxicos não pode ser avaliada apenas pela contagem de novos registros. Também é necessário acompanhar as autorizações pós-registro, pois elas permitem compreender como se reorganizam e se expandem as estruturas industriais e comerciais responsáveis pelo abastecimento do agronegócio.

A pergunta que permanece é bastante simples: se determinadas substâncias já não são consideradas aceitáveis para uso agrícola na União Europeia, por que o Brasil continua autorizando a ampliação ou a reorganização de suas cadeias de fornecimento? Até quando o país aceitará conviver com padrões de proteção ambiental e sanitária menos restritivos para substâncias que outros mercados decidiram deixar de utilizar?

O Ato nº 62 não responde a essas perguntas. Mas oferece motivos suficientes para que elas sejam feitas, sobretudo em um país que continua figurando entre os maiores mercados consumidores de agrotóxicos do planeta.

Nunes Marques censura canal pró-Lula, e bolsonaristas esquecem a liberdade de expressão

Editorial da Folha de S.Paulo denuncia censura pró-Flávio e expõe os riscos da interferência judicial e das big techs na disputa presidencial

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, manteve a derrubada de um canal de WhatsApp associado à mobilização eleitoral em favor de Lula, que reunia milhões de participantes. A decisão, justificada por alegações de irregularidades na divulgação de pesquisas e conteúdos eleitorais, foi duramente criticada em editorial da Folha de S.Paulo, intitulado “Nunes Marques insiste em censura pró-Flávio”. Para o jornal, a Justiça Eleitoral está extrapolando suas atribuições e assumindo um perigoso papel de tutora da informação política.  É evidente que a Justiça Eleitoral deve combater fraudes e ilícitos eleitorais. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre responsabilizar autores de infrações comprovadas e eliminar um canal inteiro de comunicação em plena campanha presidencial. Nesse segundo caso, a intervenção pode comprometer a igualdade de condições entre os candidatos, especialmente quando atinge instrumentos de mobilização com milhões de participantes.

A situação se torna ainda mais preocupante quando associada à atuação das grandes plataformas digitais. Tenho relatado no Blog do Pedlowski os problemas que enfrentei com a Meta, incluindo o bloqueio temporário de minha conta no Instagram após uma onda de ataques contra uma publicação crítica às propostas associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro. Também recebi relatos de restrições ao compartilhamento de conteúdos políticos pelo WhatsApp. Embora esses episódios não comprovem uma operação coordenada, levantam dúvidas legítimas sobre a transparência e a aplicação uniforme das regras dessas empresas.

O que estamos presenciando é uma combinação potencialmente perigosa: de um lado, decisões judiciais que restringem canais de mobilização eleitoral; de outro, corporações privadas que controlam, por mecanismos pouco transparentes, a circulação de informações políticas. Não é necessário demonstrar uma conspiração entre magistrados e big techs para reconhecer que os efeitos dessas intervenções podem convergir e favorecer determinados interesses eleitorais.

Também chama atenção a aparente tranquilidade de setores da extrema-direita que denunciam uma suposta ditadura judicial sempre que suas próprias redes são atingidas, mas parecem perfeitamente confortáveis quando restrições semelhantes prejudicam seus adversários. Afinal, a liberdade de expressão não pode ser um direito absoluto para os aliados e dispensável para os adversários.

O editorial da Folha merece destaque justamente por colocar em discussão um princípio democrático fundamental: a Justiça Eleitoral deve garantir a legalidade do processo eleitoral, não substituir a capacidade dos cidadãos de avaliar criticamente as informações que recebem. Em um país onde a comunicação já é fortemente concentrada nas mãos de grandes grupos econômicos, acrescentar uma tutela judicial excessiva sobre a informação amplia os riscos de manipulação da disputa política.

A pergunta que fica é inevitável: se a extrema-direita considera censura qualquer restrição à sua comunicação política, por que o mesmo princípio não deveria valer quando o prejudicado é Lula?  Uma democracia não pode conviver com uma liberdade de expressão de mão única. Muito menos quando o acesso dos eleitores à informação passa a depender, simultaneamente, de decisões judiciais e dos algoritmos de empresas privadas. Caso contrário, continuaremos realizando eleições formalmente livres, mas sob condições de circulação da informação cada vez menos democráticas.

A Amazônia diante do futuro climático: a ciência tenta descobrir até onde a floresta poderá resistir

Experimento apresentado pela revista Nature procura compreender como o aumento do dióxido de carbono na atmosfera afetará a maior floresta tropical do planeta, enquanto o aquecimento global e o desmatamento ameaçam sua capacidade de recuperação

Uma reportagem publicada em 9 de outubro de 2026 pela revista científica Nature apresenta, por meio de uma narrativa fotográfica, o trabalho do pesquisador David Lapola, que procura responder a uma das questões mais importantes e ainda insuficientemente esclarecidas pela ciência climática: como a floresta amazônica reagirá ao aumento contínuo da concentração de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera? 

A pergunta parece simples, mas suas implicações são enormes. Afinal, a Amazônia não é apenas um gigantesco reservatório de biodiversidade. Ela desempenha um papel fundamental na regulação do clima, no armazenamento de carbono e na circulação de umidade que influencia os regimes de precipitação em extensas áreas da América do Sul. Alterações em seu funcionamento ecológico poderão, portanto, produzir consequências que ultrapassam amplamente os limites geográficos da própria floresta.

Um dos aspectos mais relevantes dessa investigação é a tentativa de compreender se o aumento da disponibilidade de CO₂ poderá estimular o crescimento das árvores, por meio do chamado efeito de fertilização por carbono.

Em princípio, concentrações mais elevadas desse gás podem favorecer a fotossíntese. Entretanto, transformar essa possibilidade em uma previsão de maior crescimento florestal seria uma simplificação perigosa. A disponibilidade de nutrientes no solo, especialmente fósforo, as limitações hídricas, as temperaturas elevadas e a intensificação dos eventos climáticos extremos podem restringir ou até anular eventuais benefícios.

É justamente aí que reside uma das grandes contradições do atual momento histórico. Enquanto pesquisadores procuram compreender os limites fisiológicos e ecológicos da resistência da Amazônia, as atividades humanas continuam submetendo a floresta a pressões que comprometem sua integridade. O desmatamento, a degradação florestal, a expansão da mineração, as queimadas e a conversão de áreas naturais em espaços destinados à produção de commodities agrícolas constituem ameaças concretas, cujos efeitos podem ser agravados pelo aquecimento global.

Há também uma dimensão política que não pode ser ignorada. Os conhecimentos produzidos por pesquisas dessa natureza deveriam orientar políticas públicas capazes de reduzir emissões de gases de efeito estufa e proteger os ecossistemas tropicais. Entretanto, persiste uma distância considerável entre o conhecimento científico acumulado e as decisões tomadas por governos e grandes corporações econômicas. Em muitos casos, a floresta continua sendo tratada prioritariamente como uma reserva de terras e recursos naturais a serem incorporados aos circuitos de acumulação de capital.

Outro aspecto que merece atenção é o risco de que resultados eventualmente positivos sobre a capacidade de absorção de carbono pelas árvores sejam apropriados por discursos que procuram minimizar a urgência da redução das emissões. Mesmo que determinadas espécies apresentem respostas favoráveis a concentrações mais elevadas de CO₂, isso não significa que a Amazônia, como ecossistema, esteja protegida das consequências das mudanças climáticas. Muito menos que a floresta possa compensar indefinidamente as emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis.

O mérito da investigação apresentada pela Nature está justamente em enfrentar uma incerteza científica fundamental, em vez de oferecer respostas simplistas sobre o futuro da Amazônia. Entretanto, a existência de incertezas sobre a magnitude das respostas ecológicas não deveria servir como justificativa para a inação política. Pelo contrário, quanto maiores forem as incertezas sobre a capacidade de resistência da floresta, mais prudente será evitar a intensificação das pressões que ameaçam seu funcionamento.

A questão central, portanto, não é apenas descobrir como será a Amazônia em uma atmosfera enriquecida por dióxido de carbono. É compreender se estaremos dispostos a modificar os processos econômicos e políticos que contribuem para tornar seu futuro cada vez mais incerto.

Afinal, de pouco adiantará a ciência descobrir os limites de resistência da Amazônia se continuarmos politicamente empenhados em ultrapassá-los.

Das redes às ruas: a juventude mostra o caminho, mas a campanha de Lula precisa agir

A campanha do presidente Lula neste segundo turno está diante de uma oportunidade política que não pode ser desperdiçada. As mobilizações que vêm ocorrendo em diferentes partes do país, muitas delas impulsionadas espontaneamente pela juventude, demonstram uma disposição de participação política que ultrapassa as estruturas partidárias tradicionais. Os jovens não estão apenas comparecendo aos atos: estão ajudando a convocá-los, organizá-los e dar-lhes uma linguagem própria.

Esse protagonismo precisa ser reconhecido pela direção do PT e pela coordenação da campanha de Lula. O pior caminho seria tentar enquadrar essa energia espontânea nas  estruturas partidárias, transformando jovens mobilizadores em figurantes de eventos organizados de cima para baixo. A juventude não está pedindo autorização para participar da política. Ela já está mostrando sua capacidade de organização.

Entretanto, é fundamental construir uma verdadeira simbiose entre redes e ruas, especialmente diante do enorme poder das big techs sobre a circulação de informações. A comunicação digital não pode ser o único meio de acesso às propostas em disputa nesta eleição.  É nesse ponto que cabe cobrar uma ação concreta da direção nacional do PT e da coordenação da campanha: produzir e disponibilizar imediatamente materiais impressos, com linguagem acessível, informações verificáveis e referências às propostas efetivamente apresentadas pelos candidatos. Esses materiais devem permitir que a população conheça e compare as consequências das diferentes propostas sobre remuneração por hora trabalhada, direitos previdenciários, proteção social, educação e condições de trabalho.

Para isso, não basta anunciar uma campanha de comunicação. É necessário estabelecer um calendário público de produção e entrega dos materiais, disponibilizar arquivos para impressão local, garantir recursos às estruturas regionais e criar canais pelos quais coletivos juvenis e organizações sociais possam solicitar apoio logístico. Tudo isso com transparência e respeito à autonomia dos participantes.

A juventude não pode ser tratada apenas como força auxiliar para carregar bandeiras e preencher fotografias de manifestações. Seu protagonismo precisa ser reconhecido também na definição das formas de participação e organização, sem submissão automática às estruturas partidárias.  O segundo turno exige mais do que grandes atos, discursos e disputas de audiência nas plataformas digitais. Exige condições materiais para que o debate político ultrapasse as telas e alcance os espaços públicos, com informações claras e possibilidades reais de participação.

A juventude já demonstrou capacidade de transformar indignação em mobilização. Cabe agora à direção do PT demonstrar que consegue oferecer apoio concreto sem sufocar essa autonomia. Afinal, seria um desperdício político monumental ver a juventude ocupando as ruas enquanto a direção da campanha permanece ocupada apenas em administrar agendas, discursos e fotografias.

A tarefa é simples de enunciar: imprimir, disponibilizar, organizar e prestar contas. Porque algoritmo nenhum substitui organização popular.

Meta, eleições e os misteriosos problemas técnicos que parecem ter lado

Enquanto a campanha de Lula denuncia restrições ao alcance de suas publicações, até o compartilhamento de informações entre cidadãos passa a enfrentar bloqueios. A questão é saber quem controla a circulação das informações e quem fiscaliza esse poder

Há algo de particularmente preocupante acontecendo nas eleições presidenciais brasileiras de 2026. A Meta, conglomerado proprietário do Facebook, Instagram e WhatsApp, está sendo questionada por uma sucessão de episódios que, segundo denúncias da campanha do presidente Lula, estariam prejudicando a circulação de conteúdos favoráveis à sua candidatura. A empresa reconheceu a ocorrência de problemas técnicos, mas negou qualquer favorecimento eleitoral, alegando que as falhas também atingiram outros usuários e mercados. A controvérsia chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que concedeu prazo de 48 horas para a empresa prestar esclarecimentos sobre as restrições denunciadas.

O curioso é que esses misteriosos problemas técnicos parecem ter adquirido uma capacidade bastante inconveniente de aparecer justamente quando a circulação de informações políticas se torna particularmente relevante. A campanha de Lula relata interrupções no registro de visualizações, dificuldades de impulsionamento e quedas de alcance. Nada disso comprova, isoladamente, uma interferência deliberada, mas tampouco pode ser resolvido com a explicação genérica de que houve uma falha técnica. Afinal, quando uma empresa privada controla parte significativa da infraestrutura de comunicação política de um país, não basta informar que seus computadores tiveram um dia ruim. É preciso demonstrar o que aconteceu, quem foi afetado e quais providências foram tomadas para corrigir os problemas.

Hoje recebi um relato que torna essa situação ainda mais inquietante.

Um amigo, professor universitário de reconhecida probidade, informou que foi impedido de continuar compartilhando pelo WhatsApp um material sobre a proposta de adoção do salário por hora trabalhada, sob a alegação de distribuição em massa. O detalhe quase cômico, não fosse a gravidade do assunto, é que ele não havia encaminhado o material sequer para uma centena de pessoas. Evidentemente, esse episódio individual não permite concluir que houve discriminação política, até porque o WhatsApp possui regras contra disparos automatizados e mensagens consideradas indesejadas. Entretanto, o caso exige uma pergunta bastante simples: quais critérios transformam o compartilhamento de informações sobre direitos trabalhistas em uma atividade passível de bloqueio?

O problema se torna ainda mais sério quando lembramos que as big techs passaram anos vendendo a fantasia de que suas plataformas representariam uma democratização sem precedentes da comunicação. Agora descobrimos que essa suposta praça pública funciona em terreno privado, onde os proprietários podem alterar algoritmos, reduzir a visibilidade de conteúdos e restringir a comunicação entre usuários mediante critérios cuja aplicação concreta permanece pouco transparente. A liberdade de expressão, nesse ambiente, corre o risco de se transformar em uma espécie de concessão corporativa, exercida enquanto os sistemas automatizados e os interesses comerciais das plataformas assim permitirem.

É evidente que combater spam, fraudes e campanhas coordenadas de desinformação constitui uma necessidade. O que não se pode admitir é que mecanismos criados para essa finalidade terminem restringindo manifestações políticas legítimas sem justificativas verificáveis e possibilidades efetivas de contestação. Quando isso acontece em pleno segundo turno de uma eleição presidencial, os efeitos potenciais ultrapassam os direitos individuais dos usuários e alcançam as próprias condições de igualdade da disputa eleitoral. Não é necessário demonstrar que Mark Zuckerberg tenha pessoalmente decidido prejudicar Lula para reconhecer que restrições injustificadas à circulação de conteúdos políticos podem produzir consequências eleitorais concretas.

A questão central, portanto, não é apenas saber se a Meta está deliberadamente interferindo nas eleições brasileiras em benefício de Flávio Bolsonaro, como suspeita a campanha de Lula. É também determinar se a concentração privada do controle sobre a comunicação digital permite que decisões empresariais, inclusive aquelas apresentadas como simples problemas técnicos, afetem desigualmente o debate público. A primeira hipótese exige investigação e provas; a segunda já constitui um problema estrutural que não pode continuar sendo ignorado.

No fim das contas, talvez estejamos descobrindo que a tão celebrada liberdade oferecida pelas big techs possui uma cláusula que raramente aparece na propaganda: todos podem falar, desde que os donos das plataformas continuem decidindo quem será ouvido. E, quando surgem questionamentos sobre essa distribuição desigual da visibilidade, a resposta parece convenientemente pronta: foi apenas um problema técnico.

A democracia brasileira merece explicações melhores do que essa. E o TSE precisa exigir que elas sejam acompanhadas de dados verificáveis, não apenas de declarações corporativas de boas intenções.