Necropolítica planetária e justiça socioambiental: AMBIENTES publica edição internacional de Geografia e Ecologia Política

A revista AMBIENTES: Revista de Geografia e Ecologia Política acaba de publicar seu Volume 8, Número 1, uma edição especial inteiramente em língua inglesa dedicada ao tema “Planetary Necropolitics: Ecological and Social Challenges and Conflicts Across the World”. O número foi organizado pelos professores Marcelo Lopes de Souza (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Rosie R. Meade (University College Cork, Irlanda).

A publicação representa um passo importante no processo de ampliação do diálogo internacional promovido por AMBIENTES desde sua criação, em 2019. Mais do que uma estratégia de inserção acadêmica convencional, esta edição reafirma uma concepção de internacionalização baseada na construção de intercâmbios horizontais entre pesquisadores, movimentos sociais e diferentes tradições intelectuais, sem abrir mão da autonomia crítica e das agendas de pesquisa produzidas no Sul Global.

A opção pela publicação em inglês decorre do reconhecimento de seu papel como língua franca contemporânea, capaz de ampliar a circulação de reflexões e experiências produzidas na América Latina e em outras regiões do mundo. Trata-se de ocupar um espaço de debate global sem reproduzir relações de subordinação intelectual, fortalecendo a presença de perspectivas críticas comprometidas com a justiça socioambiental.

Os artigos reunidos nesta edição dialogam, em diferentes graus, com a obra do pensador camaronês Achille Mbembe, especialmente com o conceito de necropolítica, explorando seus desdobramentos para a compreensão de conflitos ambientais, injustiças territoriais, racismo ambiental, colonialismo, mudanças climáticas, encarceramento, resistência indígena e disputas em torno do direito ao território e à vida.

O número reúne contribuições de pesquisadores das Américas e da Europa, contemplando estudos sobre colapso climático, desenvolvimento ecocida, indústria nuclear, resistência indígena, territorialidades quilombolas, Amazônia, agronegócio, prisões e teoria da justiça espacial. Entre os artigos publicados destacam-se trabalhos de Simone Lucatello, Nicole Grimaldi, Josefa Maria Stiegler, Elizabeth Kiely, João Gabriel M. M. Reis, Alexandre Gaiser-Fernandes, Rafael Zilio, Allan Rodrigo de Campos Silva e Marcelo Lopes de Souza.

Convidamos pesquisadoras, pesquisadores, estudantes e ativistas a conhecerem esta edição especial e a participarem do diálogo internacional em torno dos desafios socioecológicos que marcam o mundo contemporâneo.

Acesse a revista

Site da revista: https://geografia-socio-ambiental.webnode.com/

Edição completa:
https://e-revista.unioeste.br/index.php/ambientes/issue/view/1662/335

Instagram: https://www.instagram.com/revistaambientes/

Boa leitura!

A Bayer está no banco dos réus. Quem julga a Revolução Verde?

A denúncia relatada por Ana Carolina Bortoleto revela que, por trás de uma corporação específica, existe um modelo agrícola inteiro baseado na socialização dos danos ambientais e sanitários e na privatização dos lucros

O artigo Denúncia contra Bayer expõe falhas globais na responsabilização por agrotóxicos”, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil e assinado por Jaqueline Pereira de Andrade e Daisy Carolina Tavares Ribeiro, oferece uma oportunidade valiosa para refletirmos sobre um problema que vai muito além de uma única empresa. O caso envolvendo a Bayer não deve ser interpretado como uma tentativa de exonerar a multinacional alemã de suas responsabilidades. Ao contrário, ele evidencia tanto o papel desempenhado pelas grandes corporações químicas na consolidação da agricultura dependente de agrotóxicos quanto os limites dos mecanismos institucionais atualmente existentes para controlá-las e responsabilizá-las pelos danos que seus produtos podem causar.

A Bayer ocupa hoje uma posição central no mercado global de insumos agrícolas, especialmente após a aquisição da Monsanto, em 2018. Com essa operação, herdou não apenas ativos estratégicos, mas também uma extensa lista de controvérsias relacionadas ao glifosato e a outros produtos amplamente utilizados na agricultura industrial. A permanência de disputas judiciais em diferentes países demonstra que as dúvidas sobre os impactos sanitários e ambientais desses produtos continuam longe de serem resolvidas. Mais do que isso, revela como a produção do conhecimento científico nessa área ocorre em um ambiente permeado por conflitos de interesse, pressões econômicas e disputas políticas.

Entretanto, limitar a discussão à Bayer seria insuficiente. O verdadeiro problema está no modelo agrícola construído a partir da Revolução Verde. Ao longo das últimas décadas, a produção agrícola passou a depender de um pacote tecnológico baseado na mecanização intensiva, em sementes padronizadas, fertilizantes sintéticos e uso crescente de agrotóxicos. Esse modelo permitiu elevar a produtividade de diversas culturas, mas também gerou uma dependência estrutural de substâncias químicas cujos efeitos cumulativos sobre a saúde humana e os ecossistemas continuam sendo progressivamente revelados pela literatura científica.

É justamente nesse ponto que o caso relatado por Ana Carolina Bortoleto ganha relevância. Mesmo quando surgem evidências científicas consistentes, denúncias bem fundamentadas e mobilização social, os mecanismos de responsabilização frequentemente se mostram lentos, fragmentados e insuficientes diante do poder econômico das corporações transnacionais. Não por acaso, as disputas envolvendo agrotóxicos costumam se arrastar por décadas, enquanto os produtos seguem sendo comercializados e utilizados em larga escala.

O problema torna-se ainda mais complexo porque os impactos dos agrotóxicos raramente se manifestam de forma imediata ou facilmente rastreável. Casos de câncer, distúrbios neurológicos, alterações endócrinas, contaminação de recursos hídricos e perda de biodiversidade costumam resultar de exposições prolongadas e múltiplas. Essa característica favorece estratégias empresariais voltadas a semear dúvidas, contestar evidências e postergar medidas regulatórias, reproduzindo um padrão já observado anteriormente nas indústrias do tabaco, do amianto e dos combustíveis fósseis.

A consequência é que os sistemas de regulação acabam operando em permanente desvantagem. Enquanto as corporações dispõem de recursos financeiros praticamente ilimitados para influenciar pesquisas, contratar especialistas, financiar lobby e sustentar longas batalhas judiciais, os órgãos públicos frequentemente enfrentam restrições orçamentárias, limitações técnicas e pressões políticas. O resultado é um quadro em que a velocidade da expansão dos mercados de agrotóxicos supera em muito a capacidade dos Estados de avaliar, monitorar e controlar seus impactos.

Por isso, o caso da Bayer deve ser entendido como a expressão de uma crise mais profunda. O que está em questão não é apenas a conduta de uma empresa específica, mas a fragilidade dos instrumentos públicos destinados a proteger a saúde coletiva e o meio ambiente diante de um modelo agrícola que continua socializando seus custos e privatizando seus lucros. Enquanto essa assimetria persistir, denúncias como a relatada pelo Le Monde Diplomatique Brasil continuarão surgindo, revelando não apenas os problemas de uma corporação, mas os limites de um sistema regulatório incapaz de acompanhar a escala e a complexidade dos riscos produzidos pela agricultura química contemporânea.

Eduardo Paes conheceu o Porto do Açu. Falta agora conhecer São João da Barra

A visita ao enclave multinacional revelou entusiasmo com os negócios bilionários do empreendimento, mas nenhuma curiosidade sobre os agricultores expropriados, os pescadores prejudicados e as promessas que ficaram pelo caminho

Como ocorreu no passado com o então bilionário Eike Batista, o ex-prefeito do Rio de Janeiro e pré-candidato ao governo estadual, Eduardo Paes (PSD), teve seu dia de “Barão de São João da Barra”, coroado pela concessão de um curioso diploma de cidadão sanjoanense. Tudo indica que esta tenha sido uma de suas poucas visitas ao município. O episódio demonstra que, quando se trata de homenagear grandes investidores ou seus representantes políticos, o Legislativo local parece não conhecer limites na distribuição de honrarias.

Como todo político em pré-campanha, Eduardo Paes participou de uma visita cuidadosamente organizada ao Porto do Açu, acompanhado da ainda deputada estadual e ex-prefeita Carla Machado, personagem que poderia ser considerada, sem exagero, uma das principais madrinhas políticas do empreendimento. Durante o roteiro pelo interior do complexo portuário, Paes reproduziu um discurso já conhecido dos entusiastas do projeto, afirmando que o Porto do Açu não seria apenas “uma joia da coroa do Rio de Janeiro”, mas “a coroa inteira”.

A declaração não surpreende. Ao longo de sua trajetória política, Eduardo Paes construiu uma relação particularmente próxima com grandes grupos empresariais. Em seus mandatos à frente da Prefeitura do Rio de Janeiro, promoveu amplas intervenções urbanas voltadas à valorização imobiliária de determinadas áreas da cidade, mobilizando vultosos recursos públicos para dinamizar territórios posteriormente apropriados pelo mercado como novas fronteiras de valorização econômica.

Também não surpreende que a visita tenha sido conduzida sob a ótica dos números apresentados pela direção do Porto do Açu. Segundo os administradores do empreendimento, o complexo abriga atualmente cerca de 30 empresas, movimenta aproximadamente 7 mil trabalhadores por dia e teria investido mais de R$ 70 milhões em compras e contratações de fornecedores regionais no último ano. O discurso empresarial enfatiza ainda que 75% dos trabalhadores seriam oriundos da região e que a parceria com os municípios vizinhos seria fundamental para sustentar o crescimento do empreendimento.

O problema é que, ao aceitar sem questionamentos essa narrativa corporativa, Eduardo Paes deixou de abordar questões centrais relacionadas à implantação e aos impactos do Porto do Açu. Em nenhum momento explicou como um eventual governo estadual trataria a dívida histórica da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin) com centenas de famílias de agricultores que tiveram suas terras desapropriadas para a criação de um distrito industrial que jamais se materializou nos moldes originalmente anunciados. Parte dessas áreas acabou incorporada à expansão do complexo portuário e hoje gera receitas milionárias por meio da locação de terrenos para empresas instaladas no empreendimento.

O fato incontornável é que a implantação do Porto do Açu ocorreu mediante um amplo processo de expropriação de terras produtivas que garantiam renda e reprodução social para agricultores familiares. Paralelamente, comunidades pesqueiras tradicionais passaram a enfrentar crescentes restrições de acesso a áreas historicamente utilizadas para a pesca artesanal. Em especial, os sistemas lagunares do V Distrito sofreram mudanças que reduziram significativamente as possibilidades de reprodução econômica de dezenas de famílias que dependiam desses ambientes para sobreviver.

Além disso, chama atenção que, passados quase vinte anos desde o anúncio do projeto original, a promessa de um grande distrito industrial diversificado nunca tenha se concretizado. O complexo consolidou-se principalmente como uma plataforma logística voltada ao apoio offshore, à exportação de minério de ferro e às atividades ligadas ao setor de petróleo e gás, mantendo características típicas de um enclave econômico pouco integrado ao território que o abriga.

Por isso, mais do que celebrar sua nova condição de cidadão sanjoanense, seria desejável que Eduardo Paes realizasse uma visita ao V Distrito de São João da Barra. Mas não apenas ao interior do complexo cercado e protegido que lhe foi apresentado. Seria importante percorrer o lado de fora das cercas, conversar com agricultores desapropriados, pescadores artesanais e moradores das comunidades afetadas pela implantação do empreendimento. Somente assim poderá conhecer uma realidade que raramente aparece nos centros de visitantes e nas apresentações institucionais: a de um empreendimento multinacional que extrai enormes riquezas do território, enquanto distribui de forma extremamente desigual os custos sociais e ambientais de sua presença.

Da Amazônia para os jardins da Europa: como a madeira ilegal brasileira continua atravessando oceanos sob o selo da “sustentabilidade”

Investigação da Earthsight revela que madeira oriunda de uma empresa multada, condenada criminalmente e alvo de sucessivas suspensões chegou ao mercado holandês com o respaldo de sistemas de certificação que deveriam impedir justamente esse tipo de fraude

No último Dia Mundial das Florestas Tropicais, a organização investigativa Earthsight publicou uma reportagem que deveria causar constrangimento tanto em Brasília quanto em Bruxelas. O trabalho mostra como milhares de metros cúbicos de madeira extraída na Amazônia brasileira chegaram ao mercado holandês apesar de um histórico de infrações ambientais, multas milionárias, condenações criminais e suspensões administrativas envolvendo a empresa fornecedora. Mais uma vez, a realidade expõe a enorme distância entre os discursos corporativos sobre sustentabilidade e o funcionamento concreto das cadeias globais de commodities.

O foco da investigação é a empresa Samise Indústria, Comércio e Exportação Ltda., uma das maiores exploradoras de madeira da Amazônia brasileira. Segundo a Earthsight, análises de imagens de satélite, documentos oficiais, processos judiciais e registros de transporte revelaram uma longa lista de irregularidades associadas às operações da empresa na Floresta Nacional Saracá-Taquera, no Pará. Entre elas aparecem acusações de fraude, manipulação de identificação de toras, descumprimento de embargos e transporte de madeira durante períodos em que suas atividades estavam oficialmente suspensas pelos órgãos de fiscalização.

O aspecto mais revelador da investigação não é apenas a existência das irregularidades. Afinal, quem acompanha a história recente da Amazônia sabe que a extração ilegal de madeira continua sendo uma das principais portas de entrada para processos mais amplos de degradação ambiental, grilagem de terras públicas e desmatamento. O mais perturbador é que essa madeira conseguiu percorrer toda a cadeia de comercialização internacional e chegar a consumidores europeus ostentando certificados ambientais que, em tese, deveriam funcionar como garantias de legalidade.

Segundo a Earthsight, empresas holandesas adquiriram grandes volumes de angelim-vermelho provenientes da cadeia de fornecimento da Samise. Essa madeira acabou sendo utilizada em decks, passarelas e outras estruturas urbanas na Holanda. Em alguns casos, os compradores declaravam comercializar apenas produtos certificados, reforçando a crença de que a certificação seria suficiente para afastar riscos de ilegalidade. A investigação mostra exatamente o contrário. Mesmo após sucessivas suspensões do certificado FSC da empresa amazônica, a madeira continuou circulando normalmente pelos canais comerciais internacionais.

Esse ponto merece atenção especial porque desmonta uma narrativa que vem sendo repetida há décadas. A certificação florestal foi apresentada como uma solução de mercado capaz de resolver problemas ambientais complexos sem necessidade de ampliar significativamente a capacidade de fiscalização do Estado. A lógica era simples: consumidores conscientes comprariam produtos certificados, empresas seriam recompensadas por boas práticas e o mercado eliminaria gradualmente os infratores. O problema é que essa lógica depende de sistemas de auditoria extremamente rigorosos, independentes e transparentes. Quando esses sistemas falham, a certificação deixa de ser um instrumento de proteção ambiental e passa a funcionar como uma ferramenta de legitimação.

A investigação da Earthsight sugere justamente isso. O FSC, considerado o principal selo de certificação florestal do mundo, manteve válida a certificação da Samise durante grande parte do período em que as acusações e sanções administrativas se acumulavam. O certificado só foi definitivamente cancelado em março de 2026, exatamente quando a Earthsight compartilhava suas conclusões com as entidades responsáveis. A coincidência é, no mínimo, desconfortável.

Mas há uma dimensão ainda mais ampla nessa história. O caso evidencia as limitações da própria governança ambiental internacional. Durante anos, a União Europeia apresentou sua legislação sobre madeira como um modelo global de combate à importação de produtos associados à ilegalidade. Entretanto, a investigação demonstra que a excessiva dependência de certificações privadas abriu brechas significativas para a entrada de madeira de origem duvidosa no mercado europeu. A própria Earthsight argumenta que a nova legislação europeia contra o desmatamento (EUDR) só terá alguma efetividade se as autoridades abandonarem a confiança quase automática nos selos ambientais e realizarem verificações independentes e aprofundadas.

Para nós, brasileiros, o caso oferece uma reflexão adicional. Em um momento em que o governo federal discute a ampliação das concessões florestais na Amazônia, a investigação mostra que a mera existência de planos de manejo e certificações não elimina riscos de fraude, captura institucional e exploração predatória. Pelo contrário. Quando interesses econômicos poderosos se combinam com capacidades limitadas de fiscalização, até mesmo mecanismos concebidos para proteger a floresta podem ser convertidos em instrumentos de sua degradação.

Existe ainda uma ironia difícil de ignorar. Muitos dos países que cobram do Brasil maior responsabilidade ambiental continuam consumindo madeira, minérios, carne e outras commodities oriundas de regiões marcadas por conflitos fundiários, desmatamento e fragilidade institucional. O problema não está apenas na produção. Está também na demanda. Enquanto houver consumidores dispostos a aceitar certificados como substitutos da verificação efetiva da origem dos produtos, o mercado continuará premiando cadeias produtivas que operam nas zonas cinzentas da legalidade.

No final das contas, a investigação da Earthsight reforça uma velha lição da Amazônia: a floresta não é destruída apenas por motosserras. Ela também é destruída por formulários preenchidos de forma conveniente, auditorias complacentes, certificações frágeis e cadeias globais de comércio que transformam a ilegalidade em mercadoria aparentemente legítima. A madeira que hoje compõe elegantes decks e passarelas na Holanda carrega consigo não apenas fibras vegetais amazônicas, mas também as marcas profundas de um sistema internacional que continua encontrando maneiras de lucrar com a destruição da maior floresta tropical do planeta.

Vendendo fumaça em nome da floresta

Estudo internacional mostra que maioria dos projetos de créditos de carbono gera certificados negociáveis para o mercado, mas produz poucos resultados concretos para a conservação da biodiversidade e da integridade dos ecossistemas

O artigo Ecological integrity of avoided deforestation projects, publicado hoje na revista científica Nature Climate Change e assinado por Kelly Ong, Tao Chen, Zhimin Chen, Carlos T. Pérez-Brito e Yiwen Zeng, chega como mais um golpe devastador contra a narrativa cuidadosamente construída pela indústria dos créditos de carbono de que seria possível continuar emitindo gases de efeito estufa enquanto se financia a conservação florestal em outro lugar.

O que torna este estudo particularmente incômodo para os defensores do mercado de carbono é que ele não se limita à velha discussão sobre a validade das toneladas de CO₂ supostamente evitadas. Essa batalha já vinha sendo travada há anos, com sucessivos estudos mostrando problemas de adicionalidade, superestimação de benefícios climáticos e créditos fantasmas. O que Ong e colegas fizeram foi algo ainda mais constrangedor: perguntaram se os projetos de REDD+ e de “desmatamento evitado” estariam ao menos cumprindo a promessa de conservar ecossistemas saudáveis. A resposta, após a análise de 133 projetos distribuídos por vários continentes, é um sonoro e embaraçoso “na maioria das vezes, não”.

Ong e seus colaboradores avaliaram cinco indicadores de integridade ecológica — biodiversidade, integridade da paisagem florestal, fragmentação, altura do dossel e balanço líquido de carbono — comparando áreas dos projetos com áreas-controle cuidadosamente selecionadas. O resultado central é devastador: a maioria dos projetos apresentou impactos mistos, insignificantes ou mesmo negativos em relação às áreas de comparação. Apenas uma fração mínima mostrou ganhos consistentes em todos os indicadores analisados.

Traduzindo para uma linguagem menos diplomática do que a utilizada pelo artigo publicado na Nature Climate Change: grande parte da indústria dos créditos de carbono vende ao mundo a imagem de florestas protegidas, biodiversidade preservada e clima estabilizado, mas os resultados observados no terreno frequentemente não correspondem ao material promocional distribuído em conferências climáticas, relatórios ESG e campanhas corporativas de marketing verde.

Talvez o aspecto mais perturbador do artigo seja a constatação de que cerca de 16% dos projetos avaliados apresentaram condições ecológicas piores do que as áreas florestais vizinhas não protegidas. Em outras palavras, existem projetos que geram créditos de carbono ao mesmo tempo em que fracassam em manter a integridade ecológica que supostamente justificaria sua existência.

Os autores sugerem uma explicação particularmente reveladora: muitos desenvolvedores podem estar escolhendo áreas já degradadas para maximizar a aparência de adicionalidade. Afinal, quanto pior a condição inicial da floresta, mais fácil parece demonstrar melhorias futuras e gerar créditos negociáveis. O problema é que essa lógica transforma a conservação em um exercício contábil, não em uma estratégia ecológica. O que importa deixa de ser a saúde do ecossistema e passa a ser a produção de ativos financeiros negociáveis em bolsas e plataformas especializadas.

Para quem acompanha criticamente o avanço dos mercados ambientais, o estudo confirma algo que muitos pesquisadores da ecologia política vêm denunciando há anos: os créditos de carbono não foram concebidos prioritariamente para proteger florestas, mas para criar mecanismos de compensação que permitam a continuidade das emissões por parte de grandes poluidores. A floresta torna-se uma espécie de certificado de indulgência climática. O poluidor compra créditos, melhora sua imagem corporativa e segue operando dentro de um modelo econômico baseado na expansão contínua da exploração de combustíveis fósseis.

A ironia é difícil de ignorar. Durante décadas, corporações petrolíferas, mineradoras, gigantes do agronegócio e fundos financeiros apresentaram os créditos de carbono como um exemplo de solução baseada no mercado. O argumento era simples: bastaria atribuir um preço à natureza para que o capitalismo resolvesse a crise climática que ele próprio ajudou a criar. O artigo de Ong e colaboradores sugere exatamente o contrário. Quando a conservação passa a ser subordinada à lógica da rentabilidade financeira, a integridade ecológica tende a se tornar uma variável secundária.

Há também uma mensagem especialmente relevante para países do Sul Global, como o Brasil. Grande parte dos projetos de carbono florestal está localizada em territórios habitados por povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores. O estudo mostra que os resultados dependem fortemente de fatores como governança local, segurança fundiária e capacidade regulatória. Em contextos marcados por conflitos fundiários, corrupção ou fragilidade institucional, os projetos frequentemente apresentam desempenho inferior.

Isso deveria soar como um alerta particularmente importante para a Amazônia brasileira. A corrida atual para transformar a floresta em uma gigantesca fábrica de créditos de carbono corre o risco de repetir o mesmo padrão observado em outros ciclos de mercantilização da natureza: abundância de promessas, enorme fluxo de recursos financeiros para intermediários e consultorias, mas benefícios ecológicos e sociais muito mais modestos do que os anunciados.

O mérito deste artigo não está em afirmar que todos os projetos fracassam, pois nele são identificados alguns casos bem-sucedidos. O problema é justamente o oposto: os sucessos são exceções e não a regra. Quando um mecanismo é vendido globalmente como solução climática e seus resultados positivos aparecem apenas de forma esporádica, estamos diante de um sério problema estrutural, não de falhas pontuais.

Ao final da leitura, fica difícil escapar de uma conclusão incômoda. O mercado de carbono continua sendo tratado por governos, corporações e organismos multilaterais como um instrumento central da ação climática. Entretanto, cada novo estudo independente parece remover mais uma camada da maquiagem verde que sustenta essa narrativa. Depois das dúvidas sobre a real redução de emissões, agora surge uma evidência robusta de que muitos projetos também falham em conservar adequadamente os ecossistemas que alegam proteger.

Se o objetivo é enfrentar a emergência climática e a crise da biodiversidade, talvez esteja chegando a hora de abandonar a confortável fantasia de que mercados financeiros podem substituir políticas públicas robustas, fiscalização ambiental efetiva e a redução direta do uso de combustíveis fósseis. O artigo publicado hoje na Nature Climate Change sugere que os créditos de carbono estão cada vez mais parecidos com aquilo que seus críticos vêm denunciando há anos: menos uma solução climática e mais um sofisticado mecanismo de greenwashing global.

El Niño está de volta com força total – e o medo de uma força comparável à de Godzilla pode ser a menor das nossas preocupações

O Programa Mundial de Alimentos da ONU e a agência de agricultura lançam um apelo conjunto por fundos para evitar uma crise global de fome

Por Ajit Niranjan para “The Guardian”

Dugna Woyessa era um menino quando a seca devastou seu país pela primeira vez. No início da década de 1970, enquanto as colheitas fracassavam nas regiões da Etiópia afetadas pela seca, e sua escola transformava uma sala de aula em um depósito de grãos para que os agricultores pudessem enviar ajuda, ele não fazia ideia de que os cientistas estavam começando a conectar a força que ressecava os campos com as mudanças cíclicas nos ventos alísios, que há muito intensificavam os eventos climáticos violentos da América do Sul à Austrália.

O agora notório El Niño – que em espanhol significa “menino”  recebeu esse nome de pescadores do Pacífico no século XIX, mas foi somente na década de 1970 que os cientistas compreenderam sua natureza global e começaram a reconstruir o impacto histórico desse padrão climático natural, caracterizado por anos quentes e extremos brutais.

O El Niño de 1972-73 aqueceu as águas peruanas a níveis que levaram ao colapso da maior pescaria de anchova do mundo – o que levou cientistas a realizarem a primeira previsão sobre o seu estado no ano seguinte – e trouxe uma seca severa para o sul da Ásia, o Sahel e partes da África Oriental, às vésperas de uma crise do petróleo que agravou a fome global. Na Etiópia, os protestos contra a forma como o imperador lidou com a fome contribuíram para um golpe militar que instaurou uma ditadura comunista.

Um homem segura dois tubarões-martelo que pescou em um terminal de pesca.

Dois tubarões-martelo capturados em Lima, em 1997. Peixes de água quente foram atraídos pelas águas peruanas aquecidas pelo El Niño. Fotografia: Ricardo Choy Kifox/AP

“O El Niño é um dos fenômenos climáticos mais desafiadores”, disse Woyessa, que se tornou epidemiologista no Instituto Etíope de Saúde Pública e estudou seus efeitos sobre as epidemias de malária . “A nutrição é fundamental para a capacidade de resistir aos desafios dos seus impactos negativos na saúde humana.”

Com muita frequência, porém, o que o El Niño tira é da nutrição, justamente daqueles que mais precisam. Woyessa estava no ensino médio quando um El Niño mais forte atingiu a região uma década depois, em 1982-83, obrigando alguns de seus colegas a viajar 150 km para ajudar nas colheitas em fazendas estatais. Em seu primeiro ano de universidade, novas quebras de safra e a guerra civil agravaram a fome generalizada, transformando-a em uma crise ainda mais devastadora, que atraiu a atenção mundial por meio do concerto Live Aid . Woyessa e seus colegas se revezavam para ajudar as pessoas em abrigos perto da universidade. “Recebíamos dois pães pela manhã e tínhamos que dividir o café da manhã.”

Uma menina coleta água no rio Shabelle, em Gode, Etiópia, em 2022, quando a seca levou 20 milhões de pessoas à beira da fome. Fotografia: Eduardo Soteras/AFP/Getty Images

Este ano, o El Niño está de volta – e os cientistas temem que ele se assemelhe mais a um adulto do que a um menino. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) afirmou que as condições do El Niño se formaram no Pacífico na semana passada e que há 63% de chance de que ele atinja um pico “muito forte” perto do final do ano. O Departamento de Meteorologia da Austrália seguiu o exemplo na terça-feira, alertando que o fenômeno agravará o calor extremo e os incêndios florestais que assolam o país todos os anos.

Alguns cientistas o apelidaram informalmente de El Niño “super” ou “Godzilla”, com base na magnitude esperada da anomalia de temperatura, que elevará o calor global em um momento em que eventos climáticos extremos, como as recentes ondas de calor e tempestades na Europa , estão testando os limites da capacidade de resposta da sociedade. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) usou uma linguagem mais cautelosa ao nos alertar para a possibilidade de seu retorno no início deste mês, argumentando que a grande dispersão nos resultados dos modelos tornava prematuro prever sua intensidade.

Espectadores do Aberto da França de 2026, em Paris, se refrescam em um posto de pulverização de água durante uma onda de calor. Fotografia: Benoît Tessier/Reuters

Em março, o Fundo Monetário Internacional alertou que cerca de metade dos 68 países mais pobres do mundo enfrentam dificuldades com a dívida ou correm alto risco de enfrentá-las. Além disso, a guerra com o Irã levou a altos preços da energia e à restrição do fornecimento de fertilizantes, o que enfraqueceu as reservas contra choques climáticos. Este mês, a Rede de Sistemas de Alerta Antecipado de Fome projetou que entre 115 e 125 milhões de pessoas precisarão de assistência alimentar urgente até dezembro, com riscos de fome no Sudão, Sudão do Sul e Somália. O corte drástico na ajuda externa dos EUA e a redução dos orçamentos de desenvolvimento europeus significam que menos apoio poderá chegar quando as crises ocorrerem.

Na quinta-feira, a ameaça representada pelo El Niño levou o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a lançarem seu primeiro apelo conjunto por fundos para evitar uma crise antes que ela aconteça. Citando pesquisas que mostram que cada dólar gasto em “ação preventiva” economiza sete dólares em custos de ajuda humanitária, as agências afirmaram que precisavam de US$ 167 milhões dos US$ 202 milhões necessários para ajudar 8,8 milhões de pessoas com sementes resistentes à seca, defesas contra inundações, sistemas de armazenamento de água e transferências de dinheiro.

Mulheres do grupo étnico Murle aguardam na fila para receber distribuição de alimentos.

Mulheres da etnia Murle fazem fila em um centro de distribuição do Programa Mundial de Alimentos em Gumuruk, Sudão do Sul, em 2021, onde o conflito armado agravou a escassez de alimentos. Fotografia: Simon Wohlfahrt/AFP/Getty Images

A boa notícia, se é que existe alguma, é que não se espera que o El Niño leve a piores resultados para as colheitas em escala global, já que os ganhos em algumas regiões normalmente compensam as perdas em outras, mas os perdedores incluirão aqueles com menos condições de lidar com a situação. Muitos dos países africanos e asiáticos mais expostos também foram duramente atingidos por choques nos preços dos fertilizantes e apresentam alguns dos maiores níveis de dependência de importação de alimentos e endividamento, afirmou Anne Jellema, diretora executiva da 350.org, um grupo de campanha climática. “Isso significa que o El Niño elimina o último recurso doméstico para pessoas que não conseguem acessar os mercados, que cada vez mais não conseguem obter ajuda humanitária e que não podem se locomover livremente.”

Os impactos também serão sentidos no mundo desenvolvido, à medida que o El Niño traz ondas de calor mais intensas e uma disseminação mais ampla de algumas doenças transmitidas por vetores. Sua chegada “persistentemente” retarda as melhorias na mortalidade, mesmo em países ricos como os EUA, Austrália, Japão e Coreia do Sul, de acordo com um estudo publicado em janeiro na revista Nature Climate Change.

Um trabalhador lança feixes de mudas de arroz para o ar antes de transplantá-las para um arrozal alagado.

Plantação de arroz em Srinagar, na região de Jammu e Caxemira administrada pela Índia, em 2026, em meio a temores de que a guerra com o Irã eleve os custos de fertilizantes, combustível e transporte. Fotografia: NurPhoto/Getty Images

Em certa medida, os danos causados ​​pelo El Niño foram controlados nas últimas décadas por um certo nível de previsibilidade – mas ele oferece uma amostra dos horrores em cascata que os cientistas climáticos alertam que desestabilizarão as sociedades à medida que o planeta aquece.

Agravados por tensões geopolíticas, preços elevados de energia e fertilizantes e cadeias de abastecimento frágeis, os choques relacionados ao El Niño podem estar “aumentando a probabilidade de impactos sistêmicos compostos e não lineares”, alertou um estudo do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia na segunda-feira, com efeitos em cascata que abrangem todos os setores econômicos ligados ao mundo natural.

“Um possível caminho de transmissão seria desde secas, inundações e estresse térmico afetando a produção agrícola, a produtividade do trabalho, a disponibilidade de água, a geração de energia hidrelétrica e os sistemas de transporte, até preços mais altos de alimentos e energia, pressão inflacionária, estresse fiscal e menor capacidade de pagamento dos mutuários”, escreveram os autores.

Será possível evitar tais calamidades no próximo ano? O El Niño não precisa ser “uma receita para o desastre”, segundo a OMM (Organização Meteorológica Mundial), que afirmou que suas previsões são mais um apelo à ação antes que os riscos se transformem em crises. Sua secretária-geral, Celeste Saulo, instou o mundo a intensificar os esforços para construir sistemas de alerta precoce para múltiplos riscos, já que apenas 128 países relatam possuir tais sistemas.

Enquanto isso, ativistas climáticos têm defendido o cancelamento da dívida do Sul Global e o financiamento de proteções sociais por meio de impostos sobre os lucros extraordinários das empresas de petróleo e gás, em vez de financiar combustíveis fósseis. “Há muitas pesquisas que mostram que a proteção social direcionada é muito mais eficaz do que subsidiar combustíveis fósseis e fertilizantes, porque chega às pessoas que mais precisam”, disse Jellema.

Pessoas aguardam em uma longa fila para comprar gás liquefeito de petróleo.

Em março deste ano, em Calcutá, na Índia, pessoas aguardam para comprar gás liquefeito de petróleo (GLP), em meio a interrupções no fornecimento e controles sobre as importações de gás devido ao conflito no Oriente Médio. Fotografia: Debajyoti Chakraborty/NurPhoto/Shutterstock

António Guterres, cujo mandato como secretário-geral da ONU termina no final deste ano, tem feito apelos igualmente desesperados aos líderes mundiais há anos, implorando-lhes que abandonem a dependência dos combustíveis fósseis, que tem impulsionado o superaquecimento do planeta e a degradação do mundo natural. O mundo aqueceu cerca de 1,3°C desde a Revolução Industrial, e as temperaturas estão subindo tão rapidamente que os piores anos do El Niño no passado recente – como 1997-98 – são muito menos quentes do que os anos atuais, em que o sistema muda para La Niña, seu equivalente mais frio.

Para Woyessa, o aumento das temperaturas e o desmatamento perturbaram os padrões de chuva, mesmo ao redor da aldeia onde cresceu. O rio em que costumava nadar quando menino foi reduzido a um pequeno riacho, e a chuva, da qual as gerações anteriores dependiam para o plantio, tornou-se irregular. Ele acrescentou que, quando telefonava para o falecido pai, perguntar sobre a chuva era uma forma típica de iniciar uma conversa.

“A principal preocupação é a mudança na época das chuvas”, disse ele. “O início delas mudou completamente em comparação com a minha infância.”


Fonte: The Guardian

De Copa do Mundo a uma extrema-direita que vai asfixiando um continente

Por Ismael Machado* 

De tempos em tempos meu organismo passa por uma situação singular. Ele adapta seus horários de forma a acompanhar eventos como Olímpiadas ou Copa do Mundo, de forma intensa, visceral. Gosto, sobretudo, dos jogos pequenos, mas que contêm uma enorme dramaticidade político-social-geográfica. Como as partidas de Cabo Verde, Curaçao, Nova Zelândia, Irã. Há possibilidades de os iranianos enfrentarem os Estados Unidos em outra fase da competição. Com o cenário de guerra entre as duas nações será mais que uma partida de futebol. Aliás, sou dos que defendem a tese de nunca ser apenas um jogo. Futebol é sempre algo além.

Já li textos afirmando que um sucesso de Messi e companhia ajudaria a conter a frustração do povo argentino com seu presidente, o tresloucado Milei. A conferir.

Fato é que, independentemente do que esteja ocorrendo em gramados mexicanos, estadunidenses e canadenses, o mapa político da América do Sul atravessa uma transformação significativa. Depois de quase duas décadas em que a chamada “onda rosa” levou ao poder governos de esquerda e centro-esquerda em grande parte do continente, observa-se hoje um cenário bastante diferente e preocupante a quem sempre almeja uma sociedade menos fratricida. Forças de direita e, em alguns tristes casos, de extrema direita, conquistaram espaço eleitoral e institucional em diversos países. A Argentina de Javier Milei talvez seja o exemplo mais emblemático dessa nova fase, mas não está sozinha. Equador, Paraguai e outros países da região também caminharam para governos mais conservadores ou liberais na economia, enquanto movimentos de extrema direita cresceram de forma expressiva em países onde ainda não chegaram ao poder.

Nesse contexto, o Brasil governado por Lula passou a ocupar uma posição singular. Não se trata exatamente de um isolamento diplomático, já que o país continua sendo a maior economia da América Latina e um ator relevante no sistema internacional, mas de uma relativa dissociação em relação à tendência predominante no continente. Em certo sentido, o Brasil tornou-se uma exceção em uma região que, pelo menos momentaneamente, parece ter deslocado seu centro de gravidade político para a direita. No meu pêndulo democrático, um país tender à direita, embora me avexe internamente, não é um problema insanável, pois faz parte do tabuleiro político. Já a ascensão da extrema-direita que não respeita a democracia em nenhum aspecto, me causa arrepios tremendos.

Essa situação contrasta fortemente com o início do século XXI. Entre os anos 2000 e o início da década de 2010, a América do Sul viveu um dos períodos de maior convergência política de sua história recente. Governos progressistas chegaram ao poder em praticamente todo o continente. Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Néstor Kirchner e depois Cristina Kirchner, além de Lula no Brasil. Embora houvesse diferenças importantes entre esses governos, existia uma percepção compartilhada de que a região deveria ampliar sua autonomia em relação aos Estados Unidos, fortalecer mecanismos de integração regional e utilizar o crescimento econômico para reduzir desigualdades históricas.

Foi nesse ambiente que surgiram iniciativas como a UNASUL, a ampliação do papel do Mercosul e a criação da CELAC. Havia um projeto político regional relativamente claro, o de aumentar a capacidade de negociação internacional da América do Sul atuando de maneira coordenada. Para quem não conhece, a CELAC é a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, um organismo de articulação política criado em 2010 e formalmente constituído em 2011. Ela reúne 33 países da América Latina e do Caribe, abrangendo praticamente todos os Estados independentes da região. Sua principal característica é que não inclui os Estados Unidos nem o Canadá, diferentemente da Organização dos Estados Americanos. Por isso, a CELAC foi concebida por muitos governos como um espaço em que os países latino-americanos e caribenhos poderiam discutir seus interesses de forma mais autônoma, sem a influência direta de Washington, o que eu sempre considerei uma iniciativa incrível.

A mudança que ocorreu posteriormente não pode ser explicada apenas por fatores ideológicos. Tentando ter um pouco a inteligência analítica de meu amigo Bruno Malheiro, penso que o fim do superciclo das commodities reduziu o crescimento econômico, limitando a capacidade dos governos de financiar políticas públicas expansivas. Ao mesmo tempo, escândalos de corrupção (inerentes a governos de todos os matizes ideológicos, à direita e à esquerda), aumento da violência urbana (um subproduto do neoliberalismo mais agudo), crises fiscais e o desgaste natural de grupos políticos que permaneceram muitos anos no poder abriram espaço para alternativas que prometiam ruptura com o sistema estabelecido.

A ascensão da direita e da extrema-direita contemporânea na América do Sul também está ligada a fenômenos globais. O crescimento das redes digitais, a crise de confiança nas instituições tradicionais (causadas por um bem elaborado plano dessa mesma extrema-direita de minar a democracia em todas as suas instâncias), o fortalecimento de discursos nacionalistas (xenófobos e racistas, inclusive) e a emergência de lideranças que se apresentam como antissistema reproduzem tendências observadas em outras partes do mundo. Em muitos aspectos, o que acontece hoje na região dialoga com fenômenos que levaram à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, ao crescimento de partidos nacionalistas na Europa e ao fortalecimento de lideranças conservadoras em diversas democracias.

Entretanto, reduzir o momento atual a uma simples vitória ideológica da direita seria uma simplificação excessiva. A América do Sul continua sendo uma das regiões mais desiguais do planeta, e grande parte do eleitorado alterna suas preferências de acordo com a percepção de desempenho econômico dos governos. A história política recente da região mostra que ondas ideológicas são frequentemente sucedidas por movimentos em sentido contrário. Foi assim após o ciclo neoliberal dos anos 1990, substituído pela ascensão da esquerda nos anos 2000. Pode ocorrer novamente nas próximas décadas. Espero que isso não demore tanto, pois o relógio da destruição avança a cada ciclo mais rapidamente. Pelo menos é a sensação que tenho.

Do ponto de vista geopolítico, a questão mais relevante talvez não seja quem governa cada país, mas a crescente dificuldade de construção de consensos regionais. A integração sul-americana nunca foi plenamente consolidada e, nos últimos anos, tornou-se ainda mais frágil. Mudanças de governo frequentemente levam à paralisação ou abandono de projetos iniciados por administrações anteriores. O resultado é uma região que possui enorme potencial econômico, energético, mineral e ambiental, mas que raramente consegue transformar esse potencial em influência política coletiva.

Essa fragilidade torna-se particularmente importante em um momento de reorganização da ordem mundial. A disputa estratégica entre Estados Unidos e China, a transição energética, a corrida por minerais críticos e o papel crescente da Amazônia no debate climático colocam a América do Sul no centro de questões decisivas para o século XXI. Paradoxalmente, a região possui recursos cada vez mais estratégicos e, ao mesmo tempo, encontra-se politicamente mais fragmentada. E cada vez menos industrializada, é bom lembrar, o que nos torna mais suscetível a um domínio de um governo autoritário como o de Donald Trump, que não tem pejo algum de assumir ser um colonialista branco com espírito de vilão de HQ. Aliás, quem viu a postagem sobre as frases que poderiam ser atribuídas a vilões de histórias em quadrinhos, mas que eram de nomes como Elon Musk, entre outros, percebeu o tamanho do buraco em que nos encontramos.

E volto à minha paixão primeva. Vejo que nesse cenário, o futebol e a Copa do Mundo assumem uma relevância que vai muito além do esporte. Desde o século XX, grandes competições esportivas funcionam como instrumentos de projeção internacional. Elas ajudam a construir imagens nacionais, fortalecer identidades coletivas e ampliar o chamado “soft power” dos Estados-países. Estamos inseridos em um mundo onde a influência de um país também é exercida pela cultura, pelo entretenimento e pela capacidade de atrair atenção global. Nisso, poucos eventos possuem o alcance simbólico de uma Copa do Mundo. E como essa Copa escancarou as entranhas disso de uma forma a demolir os últimos tijolinhos de uma possível inocência sobre esse esporte tão querido mundo afora.

Lá atrás, a América do Sul já havia compreendido isso. O futebol tornou-se uma das linguagens culturais mais poderosas do continente. Brasil, Argentina e Uruguai transformaram suas conquistas esportivas em elementos centrais de suas identidades nacionais e de sua projeção internacional. Não por acaso, o futebol frequentemente produz um reconhecimento global que muitas vezes supera a visibilidade alcançada por iniciativas diplomáticas ou econômicas.

Durante uma Copa do Mundo, bilhões de pessoas voltam seus olhos para os países participantes. As seleções nacionais tornam-se embaixadoras culturais, e suas histórias ajudam a moldar percepções internacionais. Isso é particularmente importante para países do Sul Global, que frequentemente enfrentam dificuldades para ocupar espaço no noticiário mundial fora de momentos de crise.

Há ainda uma dimensão política menos evidente. Em um mundo marcado por divisões ideológicas, o futebol continua sendo um dos raros elementos capazes de atravessar fronteiras políticas. Governos mudam, alianças se desfazem, projetos regionais entram em crise, mas a rivalidade e a admiração mútua entre as grandes seleções permanecem. O esporte funciona como uma espécie de patrimônio simbólico compartilhado da região. Ainda que eu olhe com certo nojo e desprezo para a organização política dessa Copa, a partir desse intragável presidente Gianni Infantino, me comovo com as reações como a de torcidas caboverdianas, emocionadas com o que sua seleção vem fazendo em campo, ou com a primeira vitória de Egito na competição. São os dois lados de uma mesma moeda em meu peito de apaixonado por esportes e mais ainda por futebol.

Por isso, penso que a coincidência entre uma América do Sul politicamente fragmentada e uma nova Copa do Mundo possui um significado interessante. Enquanto os governos seguem caminhos distintos e frequentemente conflitantes, o futebol continua oferecendo uma narrativa continental reconhecida globalmente. No instante em que a região encontra dificuldades para falar com uma só voz na política, ela ainda consegue ser identificada internacionalmente por sua enorme influência cultural e esportiva. É pouco? Não sei. Não tenho respostas adequadas a isso.

Mas avalio que o Brasil ocupa posição central nessa equação. Mesmo diante de um contexto regional menos favorável aos seus projetos diplomáticos, o país continua sendo a principal potência sul-americana em termos demográficos, econômicos, culturais e territoriais. E mesmo os que odeiam Lula deveriam reconhecer o quanto ele pensa política e diplomacia no que essas palavras tem de melhor. Sua capacidade de liderança, porém, depende cada vez menos da afinidade ideológica entre governos vizinhos e cada vez mais da habilidade de construir consensos pragmáticos em áreas estratégicas, como comércio, energia, infraestrutura, meio ambiente e segurança. Não é uma tarefa fácil, como diria a mestra Zélia Amador, quando há um nítido apequenamento do sentido fazer política e diplomacia ao redor.

A questão central para os próximos anos talvez seja justamente saber se a América do Sul continuará presa à lógica dos ciclos ideológicos que reorganizam periodicamente o continente ou se conseguirá construir instituições e projetos suficientemente sólidos para sobreviver às alternâncias políticas. A história recente sugere que a primeira hipótese ainda predomina. Mas os desafios globais do século XXI podem exigir algo diferente. O mundo está mudando de cara e os Estados Unidos, desesperados, já sabem disso melhor que ninguém. Pois nesse cenário marcado pela competição entre grandes potências, regiões capazes de atuar de forma coordenada tendem a ampliar sua influência. Regiões fragmentadas, por outro lado, correm o risco de assistir às transformações globais mais como objeto do que como sujeito da história. Quem está na extrema-direita, na verdade pouco se importa com isso, desde que um cenário racista, misógino, xenófobo, branco etc predomine.

Nesse sentido, penso que o aparente isolamento político que esteja cercando o Brasil não seja apenas uma questão eleitoral ou partidária. Pode estar revelando um problema mais amplo, qual seja a própria dificuldade histórica da América do Sul em transformar proximidade geográfica, identidade cultural e interesses comuns em um projeto geopolítico duradouro. Essa talvez seja a questão mais importante para o futuro do continente. O objetivo trumpista atual está dando certo. Eles sempre querem dividir para conquistar. E raras vezes fugimos dessa ratoeira com queijo envelhecido.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte:  Medium

Quando a dívida vale mais que a educação: a captura do orçamento público pelo rentismo

Estudo de Paulo Lindesay mostra como trilhões de reais são direcionados ao serviço da dívida pública enquanto investimentos em educação e outras políticas sociais permanecem subexecutados no Brasil

Há certas ideias que se repetem tanto no debate público brasileiro que acabam sendo aceitas como verdades incontestáveis. Uma delas é a de que o Estado brasileiro gasta demais com servidores públicos, educação e políticas sociais, razão pela qual não haveria recursos suficientes para garantir serviços públicos de qualidade ou reajustar salários corroídos pela inflação. O trabalho de Paulo Lindesay, diretor da ASSIBGE-SN e coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida no Rio de Janeiro, oferece uma contestação vigorosa a essa narrativa e recoloca no centro da discussão uma questão frequentemente ocultada pelos grandes meios de comunicação: a prioridade absoluta conferida ao pagamento da dívida pública em detrimento das necessidades sociais da população brasileira.

A principal contribuição do estudo é demonstrar que a disputa fundamental não ocorre entre gasto social e responsabilidade fiscal, como frequentemente se pretende fazer crer, mas entre duas formas distintas de utilização do fundo público. De um lado estão os investimentos em educação, saúde, ciência, infraestrutura e remuneração dos servidores. De outro, há a crescente transferência de recursos para os detentores de títulos da dívida pública, alimentando um sistema de rentismo que se reproduz independentemente dos resultados econômicos ou sociais produzidos para a sociedade.

Os números apresentados por Lindesay são bastante eloquentes. Entre 2016 e abril de 2026, os juros nominais pagos pelo setor público consolidado alcançaram aproximadamente R$ 5,9 trilhões. Ao mesmo tempo, Lindesay demonstra que parcelas significativas dos recursos autorizados para a educação jamais chegaram a ser efetivamente executadas. Entre 2016 e maio de 2026, cerca de R$ 275 bilhões autorizados para a área educacional permaneceram sem execução orçamentária. Em outras palavras, o problema não é a falta de dinheiro, mas a forma como ele é distribuído e priorizado.

Essa constatação é particularmente relevante para quem acompanha a situação das universidades públicas brasileiras. No caso das universidades estaduais do Rio de Janeiro, por exemplo, os sucessivos governos têm recorrido sistematicamente ao argumento da escassez fiscal para justificar arrochos salariais, congelamentos de carreira e insuficiência de investimentos. Entretanto, se há recursos para assegurar a remuneração dos rentistas e dos grandes agentes financeiros, é legítimo perguntar por que não existem recursos para garantir condições dignas de funcionamento das instituições responsáveis pela produção de conhecimento, formação profissional e desenvolvimento científico.

Outro aspecto importante do texto é a crítica ao discurso segundo o qual o funcionalismo público seria responsável pelo desequilíbrio das contas governamentais. Lindesay demonstra que os gastos federais com pessoal permaneceram muito abaixo dos limites estabelecidos pela própria Lei de Responsabilidade Fiscal, desmontando um dos principais pilares ideológicos utilizados para justificar políticas de austeridade e reformas administrativas.

O que emerge do estudo é a constatação de que a dívida pública não pode ser analisada apenas como um instrumento financeiro. Ela se converteu em um poderoso mecanismo de orientação das prioridades do estado brasileiro. Quando a maioria do debate econômico se concentra em cortes de gastos sociais enquanto o serviço da dívida permanece praticamente intocável, estamos diante de uma escolha política e não de uma necessidade técnica inevitável.

A consequência desse modelo é visível em todos os níveis da federação. Escolas sem recursos adequados, universidades com orçamentos comprimidos, hospitais públicos enfrentando dificuldades operacionais e servidores com salários corroídos convivem com um sistema que assegura pagamentos bilionários ao setor financeiro. Esta dinâmica ajuda a explicar por que o Brasil continua figurando entre as maiores economias do mundo ao mesmo tempo em que convive com níveis persistentes de desigualdade social, precarização dos serviços públicos e déficits estruturais em áreas essenciais.

Ainda que se possa concordar ou não com todas as interpretações apresentadas por Paulo Lindesay (eu  particularmente assino embaixo), seu trabalho presta um serviço fundamental ao trazer para o debate público uma questão frequentemente tratada como tabu. Afinal, qualquer discussão séria sobre educação, ciência, saúde ou desenvolvimento nacional precisa começar por uma pergunta elementar: quem se beneficia das prioridades inscritas no orçamento público brasileiro?

Enquanto essa questão permanecer fora do centro do debate, continuaremos assistindo à repetição de um roteiro conhecido: faltam recursos para professores, pesquisadores, técnicos administrativos e estudantes, mas não faltam recursos para alimentar a engrenagem do rentismo financeiro.

Petrobras azeita sua máquina de propaganda para vender o óleo da Foz do Amazonas

Por TJ Jordan,  Maria Clara Parente e Naira Hofmeister para “The Ecologist”

“O aparelho de ar condicionado, as caixas de som, os computadores, os celulares, as cadeiras”, disse Nãnashaira Medeiros Siqueira, apontando para o ambiente. “O petróleo está presente em muitas áreas do nosso dia a dia.” 

Ela estava ao lado de uma tela de projeção em uma cabana de madeira na Ilha de Marajó, no nordeste do Brasil, e apertou o botão do controle remoto (veja a imagem). O slide dizia: “Produtos feitos com Petrol” (“Coisas feitas com petróleo”).

Siqueira, representante da Petrobras, a empresa petrolífera estatal brasileira, fez uma série de apresentações para comunidades costeiras na bacia da Foz do Amazonas em novembro de 2025.

Em alto-mar

A empresa tinha acabado de iniciar a perfuração de um poço exploratório em águas profundas nessas localidades, aumentando os temores de um vazamento de petróleo que poderia prejudicar os manguezais e recifes de coral dos quais a população local depende.

Desde que assumiu o controle total dos blocos de perfuração na Foz do Amazonas em 2020, a Petrobras intensificou suas atividades de relações públicas: desde a realização de reuniões e a contratação de influenciadores da Geração Z, estrelas de cinema e ícones pop, até a aplicação de sua logomarca verde, branca e amarela em projetos de conservação de manguezais e baleias jubarte, como mostra  uma investigação da DeSmog em parceria com a revista brasileira Piauí,  publicada na quarta-feira, 17 de junho de 2026.

De acordo com informações públicas, a Petrobras quintuplicou seus investimentos em publicidade e patrocínio entre 2020 e 2025. Vídeos criados por influenciadores em nome da empresa acumularam mais de 1,5 bilhão de visualizações em 2024 e 2025 — o equivalente a oito visualizações por pessoa no Brasil, um país com 213 milhões de habitantes.

O IBAMA, órgão regulador ambiental do Brasil, rejeitou repetidamente pedidos de perfuração, alegando riscos para os ecossistemas marinhos.

Apesar disso, a Petrobras iniciou a perfuração de um poço exploratório em águas profundas em Foz do Amazonas em outubro, após vencer uma batalha judicial de cinco anos pela concessão da licença. Isso pode abrir caminho para que o restante da indústria comece a desenvolver petróleo em alto-mar na região.

Licença social

Ativistas, acadêmicos e promotores estaduais acusaram a Petrobras de enganar o público na forma como apresenta o projeto, minimizando os riscos climáticos e ambientais e ocultando a verdadeira dimensão de seus planos das comunidades locais.

A Petrobras triplicou o número de influenciadores de mídia social contratados entre 2022 e 2024, chegando a 72, trabalhando com estrelas das redes sociais que vão desde ativistas LGBTQ+ a biólogos, de acordo com dados da empresa obtidos por meio de pedidos de acesso à informação e compartilhados com o DeSmog pela unidade de investigação Unearthed do Greenpeace. 

A Petrobras também quadruplicou o número de projetos culturais e ambientais que patrocina desde 2020, conforme mostram seus registros públicos. Amanda Mota, influenciadora cultural, por exemplo, dança no festival Choro Jazz, patrocinado pela Petrobras, em Marajó, em um vídeo de 2025 no YouTube que já ultrapassou cinco milhões de visualizações.

Eles entram no setor cultural local para garantir que realmente tenham a licença social para operar.

Gertjan Plets, pesquisador de filantropia no setor de petróleo e gás na Universidade de Utrecht, na Holanda, afirmou: “As empresas de combustíveis fósseis têm muito medo de protestos das comunidades locais, porque isso pode dificultar a atuação das autoridades no terreno. 

“Então eles entram no setor cultural local, nos grupos locais de preservação ecológica, para realmente garantir que tenham a licença social para operar.”

Patrocínio

A gigante petrolífera lançou em julho a campanha “Transição Energética Justa”, que conta com a participação da estrela de cinema Camila Pitanga, explicando como a Petrobras está “adotando novas formas de energia”.

Os críticos questionam se essa campanha reflete a realidade dos negócios da empresa. Os gastos planejados pela Petrobras com exploração e produção de petróleo entre agora e 2030 aumentaram no ano passado e representam 72% de seus investimentos totais, de acordo com o último plano quinquenal da companhia. Isso se compara a 8% destinados a “energia de baixo carbono”, uma queda de 1,7% em relação ao plano anterior.

Agências de publicidade, incluindo a Ogilvy, sediada em Nova York, que possui contratos de cinco anos com a Petrobras no valor de mais de R$ 450 milhões (US$ 87 milhões), segundo informações da Petrobras, desempenham papéis fundamentais em sua estratégia publicitária. A Ogilvy pertence ao conglomerado britânico de publicidade WPP, que tem um longo histórico de trabalho com a indústria de combustíveis fósseis.

Em resposta a perguntas da DeSmog, a Petrobras afirmou que não há “relação causal” entre suas ambições de perfurar na bacia da Foz do Amazonas e o aumento de seus gastos com publicidade, patrocínio e influenciadores. 

Perfuração

A empresa afirmou que os gastos com publicidade foram excepcionalmente baixos em 2019 e 2020 devido à reestruturação, antes de retornarem a “níveis compatíveis com a escala, o alcance e a responsabilidade institucional da maior empresa do Brasil” a partir de 2023, sob nova gestão.

O IBAMA exige que a Petrobras organize “reuniões informativas” como as realizadas em Marajó, como parte de sua licença de exploração. Representantes da Petrobras, incluindo Siqueira, disseram ao público que não havia chance de o petróleo atingir a costa em caso de vazamento — uma avaliação que está sendo contestada judicialmente por um grupo de ONGs.

O local inicial de testes fica a 175 km da costa da cidade brasileira de Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa, e a 500 km de Marajó. Mas o sucesso ali poderá abrir caminho para a perfuração em centenas de outros blocos — muitos dos quais situados diretamente sobre recifes de coral — que se estendem para o sul em direção à ilha.

Os representantes da empresa também afirmaram que a perfuração impulsionaria a economia local, listaram 12 projetos ambientais que a empresa está patrocinando na região e disseram que a Petrobras nunca causou danos ambientais por meio de perfurações em alto-mar. A questão das mudanças climáticas não foi mencionada.

Garantias

Fernanda Pereira, uma estudante de biologia de 23 anos, disse após participar de uma reunião em Soure, no litoral leste de Marajó: “Em Marajó, algumas comunidades não têm essa informação. Ou, quando ela chega, chega de forma completamente distorcida”. Outro participante descreveu a apresentação da Petrobras como “uma ótima performance de relações públicas”.

Em fevereiro, procuradores estaduais do Ministério Público Federal recomendaram a revogação da licença da Petrobras por diversos motivos, incluindo o de que a empresa estava enganando o público nessas apresentações ao não explicar claramente que planejava perfurar mais três poços exploratórios como parte de seus testes.

Pouco mais de um mês após a reunião de Cachoeira do Arari, em novembro, em 4 de janeiro de 2026, 18.000 litros de produtos químicos utilizados na perfuração vazaram do poço de teste para o oceano.

O devastador vazamento de petróleo que muitos temem pode ainda não ter acontecido. Mas aqueles que se opõem ao projeto dizem que o vazamento comprova o que vêm dizendo há anos: que as garantias da Petrobras não são confiáveis.

Autores

TJ Jordan é um repórter investigativo do DeSmog. Seu trabalho visa revelar como as indústrias poluentes — e seus consultores contratados — atrasam as ações climáticas por meio de publicidade, relações públicas e lobby. 

Maria Clara Parente é uma jornalista ambiental e cineasta documentarista brasileira. Desde 2016, ela se dedica à justiça climática, contribuindo para importantes veículos de comunicação e dirigindo projetos documentais premiados.

Naira Hofmeister é uma jornalista investigativa premiada com 18 anos de experiência na cobertura de conflitos socioambientais no Brasil.


Fonte: The Ecologist

Guerra na Amazônia

O candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva se reúne com pesquisadores, cientistas e lideranças indígenas no Museu da Amazônia (MUSA), em Manaus. Imagem: Alberto César Araújo/Amazônia Real/Creative Commons 2.0. 

Por Angela Mendes e  Pricila Cardoso de Aquino para “The Ecologist”

A Amazônia responde por mais da metade de todos os conflitos rurais no Brasil atualmente. Regiões como o Amacró – que engloba partes do Acre, Amazonas e Rondônia – estão emergindo como novos focos de violência, onde a expansão econômica avança lado a lado com a grilagem de terras, o desmatamento e os assassinatos.

LEITURA ADICIONAL: UM ACERTO DE CONTAS NA AMAZÔNIA

No debate público internacional, a guerra e o meio ambiente ainda são tratados, em grande parte, como questões separadas. De um lado, estão os conflitos armados, as crises humanitárias e as disputas geopolíticas. Do outro, o desmatamento, as mudanças climáticas e as ameaças contra os defensores do meio ambiente. 

Essa separação, contudo, já não reflete a realidade. Na Amazônia, essas dimensões se sobrepõem. A destruição ambiental não é mera consequência — faz parte de um processo ativo de disputa territorial, controle econômico e exercício do poder. 

Histórico

Embora alguns territórios não estejam oficialmente em guerra, seus habitantes vivem em condições mais comumente associadas à guerra. A Amazônia é um dos exemplos mais claros desse fenômeno. 

Na região, a violência raramente é isolada: ela é estrutural. A grilagem de terras, o desmatamento, a mineração ilegal, a extração de ouro em larga escala, o tráfico de drogas, a exploração madeireira ilegal e a lavagem de dinheiro não operam em compartimentos separados. 

Pelo contrário, funcionam de forma coordenada, como engrenagens dentro do mesmo sistema que transforma a floresta em um ativo econômico e o território em uma arena de disputa. Nesse contexto, a floresta deixa de ser meramente um patrimônio ambiental e se torna um sítio estratégico.

Controlar a terra significa controlar os recursos naturais, as rotas logísticas, as cadeias produtivas e o poder político local. Os rios tornam-se corredores para o crime. As áreas desmatadas são convertidas em ocupações irregulares. Os territórios fragilizados pela ausência do Estado transformam-se em zonas de vulnerabilidade institucional.

Os dados mais recentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Brasil ajudam a ilustrar a dimensão desse cenário. 

Em seu relatório anual mais recente, a organização registrou mais de 2.000 conflitos rurais no Brasil — o segundo maior número em sua série histórica — com aumentos significativos em práticas como queimadas criminosas (aumento de 113%) e desmatamento ilegal (aumento de 39%). 

Conflitos

A Amazônia concentra a maioria desses casos (1.180 de um total de 2.185 conflitos), consolidando sua posição como o centro da violência relacionada à terra no país.

Esse cenário não é abstrato. Ele se materializa em pessoas, territórios e histórias. Foi na Amazônia que Chico Mendes foi assassinado por defender a floresta e os povos que nela vivem. Sua morte não foi um episódio isolado — fez parte de um processo que continua em curso.

Foi essa guerra que matou Chico Mendes. E é essa mesma guerra que continua matando hoje. 

Décadas depois, líderes continuam sendo ameaçados, criminalizados e assassinados por protegerem seus territórios. Povos indígenas, comunidades quilombolas, populações ribeirinhas, extrativistas e outras comunidades tradicionais frequentemente estão na linha de frente da proteção. 

Esses grupos conscientizam a população sobre invasões, monitoram o desmatamento, preservam modos de vida sustentáveis ​​e mantêm barreiras reais contra a expansão predatória. Por esse motivo, tornam-se alvos de ameaças, intimidação, criminalização e violência letal.

O aumento da violência na região do Amacró ilustra dramaticamente a continuidade desse conflito. A região representa uma das novas fronteiras da expansão econômica na Amazônia, onde o avanço do agronegócio e da ocupação irregular é acompanhado por conflitos fundiários, violência e assassinatos. Somente em 2023, foram registrados oito homicídios ligados a essas disputas. 

Multiplicador

Esses não são casos excepcionais — são indícios de um padrão que acompanha o avanço desordenado pela floresta.

O Acre, estado onde Chico Mendes viveu e morreu, voltou a ganhar destaque, figurando entre os dez estados brasileiros com o maior número de conflitos fundiários. Em 2024, foram registrados 59 conflitos relacionados à terra, envolvendo despejos, destruição de casas, ameaças e ataques contra comunidades. A violência não desapareceu. Ela se reorganizou.

Quando um líder comunitário é assassinado, a reação pública muitas vezes trata o caso como um incidente isolado. Não é. Em muitos contextos, esses assassinatos representam a eliminação de um “obstáculo” à expansão econômica ilegal ou abusiva. O assassinato de defensores do meio ambiente também deve ser compreendido como um mecanismo de controle territorial.

A crise climática intensifica esse processo. A escassez de água, a pressão sobre a terra, a competição por minerais estratégicos, a expansão das fronteiras agrícolas e o crescente valor dos recursos naturais aumentam as disputas locais e regionais. 

O clima deixou de ser apenas um pano de fundo: tornou-se um multiplicador de tensões. Falar de política climática, portanto, é também falar de segurança pública, governança democrática e prevenção de conflitos.

Proteção

Ainda assim, as respostas institucionais permanecem fragmentadas. Crimes ambientais são frequentemente tratados como infrações administrativas ou delitos menores. Violações de direitos humanos seguem vias institucionais distintas. Corrupção, lavagem de dinheiro e crime organizado são tratados em instâncias isoladas. O resultado é previsível: esses problemas, inerentemente interligados, enfrentam respostas compartimentadas.

Existe também uma grave lacuna de responsabilização. Em muitos casos, a lei atinge o operador local: o invasor, o intermediário, o perpetrador direto. Mas raramente atinge os financiadores, os beneficiários econômicos, as cadeias de suprimentos globais e as estruturas corporativas que lucram com a destruição. Os responsabilizados são a periferia visível do problema; o núcleo econômico permanece protegido.

Esse fracasso não é apenas brasileiro. É global. Os mercados internacionais consomem commodities ligadas ao desmatamento. Investidores financiam atividades com alto risco socioambiental. 

As empresas terceirizam os impactos ao longo de toda a cadeia de suprimentos. As instituições financeiras operam longe dos territórios onde os danos se materializam. Enquanto isso, as comunidades locais arcam com os custos humanos, culturais, sociais e ecológicos.

Por essa razão, o direito internacional e os sistemas jurídicos nacionais devem avançar em três caminhos.

A primeira é reconhecer os defensores do meio ambiente como agentes centrais da proteção climática e da democracia territorial. Isso exige mecanismos de proteção reais e uma investigação rápida das ameaças, visto que o Estado prioriza a prevenção da violência. Homenagens póstumas e declarações de condenação não bastam.

Biodiversidade

A segunda medida é o fortalecimento da capacidade forense e da cooperação internacional. O monitoramento por satélite, a rastreabilidade da cadeia de suprimentos, a perícia financeira, a inteligência territorial e a cooperação transnacional são agora ferramentas indispensáveis. Sem provas robustas, a impunidade continuará sendo o combustível mais barato para a destruição.

A terceira é a ampliação da responsabilidade econômica. Isso inclui obrigações de diligência prévia corporativa, transparência na cadeia de suprimentos, controle dos fluxos financeiros e sanções eficazes contra aqueles que se beneficiam de violações socioambientais. 

O crescente debate internacional em torno do ecocídio — embora ainda em desenvolvimento — reflete uma compreensão cada vez maior de que danos ambientais massivos não podem permanecer sem uma resposta proporcional.

No caso do Brasil, a Amazônia deve ocupar um lugar central em qualquer estratégia séria de desenvolvimento, segurança e posicionamento internacional. Não apenas por sua biodiversidade, mas porque concentra alguns dos desafios mais complexos do século XXI: clima, soberania, crime organizado, desigualdade, direitos territoriais e socioambientais e governança institucional.

Destruição

Persistir na ideia de que isso é meramente uma “agenda ambiental” é um erro estratégico. A Amazônia também representa uma agenda econômica, uma agenda democrática e uma agenda de segurança.

O Brasil possui capacidade técnica, instituições e sociedade civil capazes de liderar respostas inovadoras. O que muitas vezes falta é a disposição para abandonar o pensamento setorial e reconhecer a dimensão sistêmica do problema.

A guerra que o mundo imagina é aquela que aparece nas manchetes acompanhada de tanques, fronteiras militarizadas e declarações formais. A guerra que se desenrola em partes da Amazônia é silenciosa, difusa e persistente. Ela se manifesta por meio de motosserras, dragas, pistas de pouso clandestinas, ameaças não relatadas e corpos caídos longe das câmeras.

Foi essa guerra que matou Chico Mendes. E é essa mesma guerra que continua matando hoje. Pode não ter o mesmo nome. Mas ela produz medo, invasão, morte e destruição territorial. E ignorá-la é uma escolha política muito custosa para o Brasil e para o mundo.

Autoras

Angela Mendes é ativista socioambiental e especialista em gestão ambiental. Atualmente, preside o Comitê Chico Mendes, um movimento criado para preservar e disseminar a memória e os ideais do seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988 enquanto lutava pela conservação da Amazônia e das florestas tropicais do mundo. O Comitê Chico Mendes também integra a Conexão Cipó, uma rede formada por dez organizações da sociedade civil do Acre que atuam na defesa dos direitos socioambientais.

Pricila Cardoso de Aquino é doutoranda em direito socioambiental pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e mestre em meio ambiente e desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ela é coordenadora de clima e América Latina no Centro de Defesa do Direito Ambiental (EDLC), que integra a Conexão Cipó, rede formada por dez organizações da sociedade civil do Acre que atuam na defesa dos direitos socioambientais.


Fonte: The Ecologist