Neoliberalismo está na raiz da produção continuada de desastres climáticos urbanos

A informação divulgada pelo jornal O Globo de que o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (PL), reduziu de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões a verba destinada à prevenção de impactos das chuvas entre 2023 e 2025 repercutiu de forma explosiva diante da situação trágica enfrentada por diversas cidades da Zona da Mata mineira após eventos meteorológicos extremos.

Por mais controversa que seja a gestão de Romeu Zema e sua orientação fiscal, ele não constitui um caso isolado no uso da tesoura orçamentária que retira recursos da prevenção e, sobretudo, da adaptação climática urbana. Em 2022, quando chuvas extremas provocaram mais de 100 mortes em Petrópolis (RJ), verificou-se que havia mais recursos destinados a eventos artísticos do que a ações preventivas. O problema, portanto, transcende indivíduos e revela uma lógica política mais ampla.

A prevalência de políticas fiscais de perfil neoliberal tende a enquadrar investimentos em prevenção e adaptação climática como despesas secundárias ou indesejáveis. O resultado é que justamente as áreas que exigiriam ampliação de financiamento — diante das evidências de um novo padrão de chuvas intensas, com volumes concentrados em curtos intervalos e alto potencial destrutivo em áreas urbanas vulneráveis — permanecem subfinanciadas. A recorrência dos desastres não decorre apenas da força dos eventos, mas da sistemática despriorização orçamentária da adaptação.

As políticas de estabilização fiscal implementadas à custa do investimento urbano estão, assim, na raiz da ampliação dos desastres observados no Brasil e no mundo nos últimos anos. A magnitude crescente dos eventos extremos expõe a inadequação de orçamentos comprimidos e estruturas precárias de prevenção. A resposta posterior, frequentemente marcada por gestos simbólicos e visitas oficiais, não substitui a ausência de planejamento estrutural.

O Brasil não está apenas atrasado na agenda de adaptação climática; encontra-se estruturalmente despreparado do ponto de vista orçamentário. Estados e municípios, em sua maioria, carecem de sistemas mínimos de monitoramento e de capacidade de resposta rápida. Soma-se a isso o fato de que a prometida “Autoridade Climática Nacional”, anunciada no programa eleitoral do então candidato Lula, não se concretizou, em grande medida por ausência de previsão orçamentária no âmbito federal. O descompasso entre discurso e financiamento reforça a vulnerabilidade institucional.

Enquanto persistir a adesão a políticas que comprimem o investimento público estratégico, as cidades brasileiras permanecerão expostas a um padrão climático cada vez mais instável. O que se observa em Juiz de Fora e Ubá tende a se repetir — possivelmente de forma mais intensa — nos próximos meses e anos. Não se trata de exercício de previsão alarmista, mas da constatação empírica de duas tendências convergentes: a intensificação dos eventos extremos e a insuficiência estrutural das políticas de adaptação.

Luiz Marinho, um ministro do trabalho que parece não gostar de trabalhador

Proteger a JBS Aves inicia o desmonte ao combate ao trabalho análogo à  escravidão - Le Monde Diplomatique

Há muita gente que não gosta que se explicite os problemas óbvios que cercam as práticas do governo de frente ampla do presidente Luís Inácio Lula da Silva, visto que isto é apresentado como uma colocação de azeitona na empada da extrema-direita. Pessoalmente acho esse tipo de argumento um desserviço ao próprio presidente da república, na medida em que a crítica correta, e pela esquerda, pode sim ajudar na correção de rumos (mesmo que isso seja parcial e temporário).

Mas a reportagem publicada pela Repórter Brasil traz informações no sentido de que o ministro do trabalho Luís Marinho agiu diretamente para remover a empresa JBS  Aves da lista do trabalho escravo e também anulou os autos de infração que responsabilizavam essa empresa do grupo JBS, por condições análogas às de escravo em granjas fornecedoras da empresa em Passo Fundo (RS).

Como a própria reportagem assinada por Daniela Penha, Igor Ojeda e Leonardo Sakamoto aponta, essas medidas representam um tremendo retrocesso no combate ao problema disseminado e persistente do trabalho escravo no Brasil, o qual se concentra nas operações ligadas a diferentes setores do que se convenciona chamar de “agronegócio”. É que, ao agir em prol dos acusados de trabalho escravo,  Luiz Marinho dificulta o trabalho dos auditores do trabalho e dá uma tremenda passada de pano para acusados de cometer crimes contra trabalhadores indefesos.

Um governo verdadeiramente comprometido com os trabalhadores não deixaria que situações comprovadas de trabalho fossem colocadas para debaixo do tapete, pois não há algo mais abominável do que fazer alguém trabalhar duro, tolher sua liberdade, e ainda estabelecer mecanismos que impeçam a devida cobrança dos direitos assegurados pela legislação.

Mas essa não parece ser a disposição de Luiz Marinho, restando saber o que pensa o presidente da república a respeito dessa situação toda. 

Fim da moratória da soja ameaça aumentar o desmatamento no Brasil

Os comerciantes de soja veem a moratória como um obstáculo ao crescimento. Organizações ambientais estão protestando. As relações com a Europa e a China podem ser tensas

O cultivo de soja ameaça a floresta amazônica brasileira
O cultivo de soja ameaça a floresta amazônica brasileira. Fonte:Conselho Unido de Soja.  Licença:CC BY 2.0
 Por Ulricke Bickel para “Amerika21” 

 A Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (ABIOVE), que inclui os principais comerciantes de soja do mundo ADM, Bunge, Cargill, Cofco e Louis Dreyfus, retirou-se da moratória da soja em 15 de fevereiro. Isso pode aumentar o desmatamento na Amazônia em até 30% até 2045 e emitir milhões de toneladas de carbono, além disso, colocar em risco o alcance das metas climáticas do Brasil.

Em 2006, quase todos os grandes produtores e exportadores brasileiros haviam se comprometido a parar o comércio de soja cultivada nas áreas recém-desmatadas da floresta tropical. Essa chamada moratória da soja da Amazon veio após uma intensa campanha internacional do Greenpeace e de outras organizações ambientais apoiadas por compradores europeus.

A ABIOVE justificou a medida dizendo que a moratória não está sendo aplicada com a mesma severidade em outros biomas, como a savana do Cerrado, onde a expansão do cultivo de soja também está destruindo milhões de hectares. Os controles aumentaram os custos e limitaram a expansão da competição global.

As organizações ambientais Greenpeace, WWF e Imaflora, por outro lado, descreveram a retirada das empresas em uma declaração conjunta como um “passo sério para trás para o meio ambiente” e apontaram que isso poderia levar à destruição de 9,2 milhões de hectares de floresta.

O cultivo de soja é um dos setores econômicos mais importantes do Brasil, representando 15% de todas as exportações. As grandes empresas comerciais, por sua vez, controlam cerca de 70% do comércio global de grãos. A decisão deles de abandonar os compromissos ambientais é um sinal para os mercados financeiros, fundos de investimento e produtores agrícolas.

Além de milhões de hectares de floresta tropical, bilhões de dólares americanos em comércio exterior, investimentos e financiamentos de acordo com os chamados critérios ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa) para a consideração de questões ambientais, de sustentabilidade e sociais na governança corporativa e investimentos públicos também estão em risco.

A moratória mostrou que as condições podem levar a melhorias na proteção ambiental. Em 2004, o Brasil viveu um pico de destruição florestal; a Amazônia perdeu quase 27.700 km². Como resultado dos controles governamentais e da pressão do mercado, o desmatamento caiu drasticamente nos dez anos seguintes, atingindo um nível historicamente baixo de cerca de 4.500 km² por ano. O monitoramento da região amazônica com a ajuda de satélites desempenhou um papel fundamental nisso. Segundo o Greenpeace, a destruição florestal nas regiões monitoradas caiu quase 70%.

Nos últimos 20 anos, entretanto, a área de cultivo de soja no Brasil aumentou de cerca de 22 milhões para mais de 44 milhões de hectares. Isso se deve, por um lado, à conversão de áreas já desmatadas na floresta tropical, por exemplo pastagens, e por outro lado à expansão das áreas de cultivo fora da floresta amazônica, em detrimento de savanas biodiversas como o Cerrado. Cada hectare de soja produz entre $1.000 e $1.500 por ciclo; O incentivo econômico é enorme. A soja é particularmente procurada como ração para a indústria da carne.

A Amazônia brasileira cobre mais de quatro milhões de km² e (ainda) armazena cerca de 100 bilhões de toneladas de carbono. Cada área desmatada não só destrói a biodiversidade, como também libera enormes quantidades de CO₂. A Amazon funciona como uma bomba que recicla a umidade. O aumento do desmatamento também piora o regime de precipitação na América do Sul. O cultivo de soja, que impulsiona o desmatamento, depende paradoxalmente do equilíbrio climático que a floresta garante.

A Amazônia está em um “ponto crítico sem retorno” (relatado pelo amerika21). Segundo a ciência, o ecossistema pode se transformar em uma savana degradada se o desmatamento ultrapassar 20 a 25% do bioma. Cerca de 17% da área florestal original já foi perdida.


Fonte: Amerika21

Agricultura por algoritmo e seus muitos riscos

À medida que a inteligência artificial e as plataformas de nuvem avançam para os campos, uma nova aliança entre as grandes empresas de tecnologia e o agronegócio está transformando quem controla os alimentos e quem assume os riscos.

Por Monica Piccinini para “YourVoiz” 

O IPES-Food, o Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis, divulgou o seu relatório

As conclusões do relatório são preocupantes. A rápida implantação de inteligência artificial, computação em nuvem e plataformas de agricultura de precisão não está focada nas prioridades dos agricultores. Em vez disso, a tecnologia agrícola está aumentando o controle corporativo sobre a produção de alimentos, aprofundando a dependência dos agricultores e acelerando os danos ambientais.

Uma nova aliança

Em várias regiões, grandes empresas de tecnologia, incluindo Amazon, Microsoft, Google e Alibaba, uniram forças com gigantes do agronegócio nas indústrias de sementes, agroquímicos e máquinas agrícolas. O resultado é uma infraestrutura digital cada vez mais integrada que alcança todas as camadas da agricultura industrial.

Esta figura ilustra algumas das principais colaborações entre empresas líderes de tecnologia e corporações agroindustriais e/ou instituições públicas importantes. A lista não é exaustiva, pois atores das grandes tecnológicas também estão atuando com uma gama mais ampla de organizações públicas, privadas e sem fins lucrativos. Imagem: IPES-Food.

Satélites escaneiam os campos, sensores remotos medem os níveis de umidade e nutrientes do solo, e tratores automáticos coletam dados à medida que se movem. Essas informações são enviadas para plataformas baseadas em nuvem onde algoritmos proprietários produzem recomendações, como qual variedade de sementes plantar, quando pulverizar as culturas e quanto fertilizante usar. Esses dados são usados para refinar produtos, influenciar mercados e gerar lucro.

Decisões sobre o que se qualifica como “inovação” e quais tecnologias recebem apoio do governo são frequentemente políticas. Essas decisões influenciam quem detém o poder no sistema alimentar.

Lim Li Ching, co-presidente da IPES-Food, descreve essa mudança em termos contundentes. Ela disse:

Estamos testemunhando uma tomada silenciosa da agricultura pelas Big Techs. Mas a agricultura por algoritmo não é o futuro que os agricultores pediram.

Sob a bandeira da inovação, gigantes da tecnologia estão consolidando o controle sobre a agricultura e o patrimônio biológico, deixando de lado os agricultores que já cultivam nossos alimentos de forma sustentável e resiliente.

Podemos escolher um caminho diferente. Precisamos reinventar e governar a inovação de forma diferente. É hora de resgatar a inovação para as pessoas e para o planeta.

Desigualdade

Sistemas digitais de agricultura são caros. Tecnologias de precisão exigem máquinas especializadas, software por assinatura, internet confiável de alta velocidade, treinamento técnico e contratos contínuos de suporte técnico. Para grandes operações industriais, essas despesas podem ser absorvidas como investimento de capital, mas para pequenos e médios agricultores, isso significa novos empréstimos e dívidas.

O relatório mostra como essas tecnologias criam dependência, descrita como lock-in tecnológico. Uma vez que um agricultor investe em uma máquina específica ou sistema digital, a troca se torna complexa e cara.

Maquinários, sementes e insumos químicos são frequentemente projetados para funcionar juntos dentro de plataformas proprietárias. Os dados podem ser armazenados em formatos não transferíveis, vinculando os agricultores a um único fornecedor e pressionando por atualizações contínuas para permanecerem competitivos comercialmente.

Pat Mooney, especialista em IPES-Food, alertou que essa concentração de poder ocorre em um momento perigoso. Ele disse:

A segurança alimentar mundial está mais incerta do que em décadas, em meio a crises globais crescentes.

Ainda assim, Big Tech e Big Ag estão avançando conjuntamente IA proprietária, plataformas de dados e biotecnologias que reduzem a diversidade quando precisamos de mais delas, alongam cadeias de suprimentos que deveriam ser encurtadas e concentram informações que deveriam ser compartilhadas entre os agricultores.

Mas nosso estudo mostra que inovações de baixo para cima, baseadas no ecossistema e lideradas pelos agricultores já estão respondendo às crises alimentares atuais – apesar das barreiras políticas e do investimento público limitado.

Em vez de mudar os problemas de raiz da agricultura industrial, as plataformas digitais frequentemente os fortalecem. Eles aumentam o uso de produtos químicos em grandes fazendas de monocultura em vez de reduzi-los. E, em vez de apoiar os sistemas alimentares locais, eles tornam as cadeias de suprimentos globais ainda maiores.

É como ficar preso na esteira. Os agricultores podem ver melhorias de curto prazo em eficiência ou produtividade, mas os preços logo caem e eles sentem pressão para investir novamente em novas tecnologias. Aqueles que não conseguem acompanhar, muitas vezes pequenos agricultores, são expulsos, levando a menos fazendas e ao declínio das comunidades rurais.

Em vez de tornar a agricultura mais igualitária, a agricultura digital poderia aumentar ainda mais a diferença entre grandes fazendas industriais e pequenos produtores comunitários.

Dados de 2002-2023 obtidos de Strömberg, L. & Howard, P., 2023. Imagem: IPES-Food.

Controle

Se a terra foi a fonte definidora dos antigos impérios agrícolas, os dados estão rapidamente se tornando a nova fronteira.

Os agricultores não possuem os dados gerados em suas próprias terras e, em muitos casos, não conseguem acessar os algoritmos que os transformam em orientação. Eles têm supervisão limitada sobre como seus dados são usados.

Nettie Wiebe, agricultora e especialista em IPES-Food, reflete sobre o que isso significa na prática. Ele disse:

Estamos recebendo uma visão de agricultura conduzida por IA e robôs. Mas a agricultura é construída com base no julgamento desenvolvido ao longo dos anos no campo. Quando os agricultores perdem o controle sobre nossos dados e decisões, perdemos o controle sobre nossas fazendas. Esse é um caminho perigoso.

A verdadeira inovação não vem do Vale do Silício – vem de agricultores, trabalhadores rurais e povos indígenas trabalhando com a terra e entre si.

Ao redor do mundo, agricultores estão desenvolvendo ferramentas, restaurando a fertilidade do solo, melhorando culturas para um clima em mudança e gerenciando pragas de forma ecológica. Isso é inovação de verdade. Isso constrói resiliência sem nos prender a dívidas ou dependências.

As ferramentas digitais focam mais em números e dados do que em experiências vividas. Povos indígenas e comunidades locais, cujo conhecimento agrícola protege a biodiversidade há séculos, muitas vezes são deixados de fora desses sistemas.

A pegada escondida

A agricultura digital é frequentemente apresentada como ambientalmente progressista, mas a infraestrutura por trás dela é intensiva em materiais e energia.

Os data centers consomem grandes quantidades de eletricidade e água. Servidores e dispositivos dependem de minerais extraídos de paisagens já sob estresse. Tecnologias de precisão podem reduzir ligeiramente o uso de produtos químicos, mas geralmente reforçam métodos agrícolas que prejudicam o solo e a biodiversidade ao longo do tempo.

A “nuvem” não é invisível, ela deixa uma pegada ambiental real.

Enquanto isso, alternativas lideradas pelos agricultores, melhoramento participativo, agroecologia e conservação comunitária de sementes recebem pouco apoio. Esses métodos constroem resiliência por meio da diversidade, conhecimento compartilhado e gestão de ecossistemas naturais, em vez de depender de tecnologia proprietária e cara.

Yiching Song, especialista em IPES-Food, destaca sua importância. Ela disse:

Nossa pesquisa mostra que sistemas de sementes liderados pelo agricultor e melhoramento participativo estão entre as respostas mais eficazes às mudanças climáticas e à perda de biodiversidade.

Essas inovações integram o conhecimento científico e dos agricultores, fortalecendo tanto os ecossistemas quanto os meios de subsistência. Se levamos a sério a ação climática, políticas e investimentos devem reconhecer e apoiar ativamente esses sistemas, não deixá-los de lado.

Política

O debate sobre a agricultura digital é, em última análise, sobre governança e poder.

Quem decide quais tecnologias são desenvolvidas e escaladas? Quem é o dono dos dados? Quem assume os riscos e quem se beneficia?

Em um momento de múltiplas crises, incluindo colapso climático, colapso da biodiversidade e instabilidade geopolítica, a segurança alimentar já é frágil. Concentrar o controle sobre seeds, dados e tomada de decisão em um punhado de corporações só adiciona mais uma camada de vulnerabilidade.

A IPES-Food está pedindo a governos e financiadores que criem regras mais rigorosas para que novas ideias e tecnologias sejam justas e responsáveis. Eles também querem que mais recursos sejam destinados a projetos locais, liderados pela comunidade, que focam na sustentabilidade. Além disso, estão defendendo limites ao poder das grandes empresas de tecnologia e agricultura, e uma mudança na forma como as pessoas pensam e falam sobre inovação.

Como o relatório Head in the Cloud aponta, a questão não é se a agricultura deve inovar, mas se a inovação servirá às grandes empresas ou às pessoas e ecossistemas dos quais os sistemas alimentares dependem.

Imagem em destaque: IPES-Food.


Fonte: YourVoiz

Dilúvio, adaptação climática negligenciada e neoliberalismo: quem paga o preço são os pobres

Ao longo desta terça-feira, ficou mais claro o tamanho da tragédia que se abateu sobre as cidades de Juiz de Fora e Ubá, ambas localizadas na Zona da Mata de Minas Gerais. Afora o número incerto de mortos, as imagens evidenciaram um processo de destruição de grande magnitude nas duas cidades. Fatores naturais, como relevo e orientação geográfica, contribuíram para exponencializar os problemas decorrentes de grandes volumes de precipitação em curtos períodos de tempo. 

Mas o que se viu em termos de destruição é apenas uma pequena amostra do que deverá ocorrer em grandes partes do território brasileiro nos próximos anos e décadas, caso medidas urgentes de adaptação urbana não sejam adotadas para tornar as cidades minimamente ajustadas ao novo padrão climático, caracterizado por eventos meteorológicos cada vez mais extremos, como o observado ontem em Juiz de Fora e Ubá.

O problema é que o Brasil vive hoje sob uma combinação mortífera que mistura negacionismo climático com regras orçamentárias de viés neoliberal. Essa combinação é particularmente grave na medida em que, em todos os níveis de governo (federal, estadual e municipal), há um desprezo pelo conhecimento científico e uma adesão aos cânones neoliberais que implicam pouca ou nenhuma destinação de recursos para pesquisa científica e adaptação climática.

Se essa combinação não for drasticamente revertida, os próximos anos e décadas serão dramáticos nas cidades brasileiras, sobretudo nas regiões habitadas pelos segmentos mais pobres da população. Isso porque, no momento de melhorar a infraestrutura urbana — mesmo nas formas ultrapassadas que continuam sendo adotadas —, são as áreas mais ricas as principais beneficiadas. Para agravar a situação, aos mais pobres são destinadas as áreas rejeitadas pela especulação imobiliária.

É preciso, mais do que nunca, retomar a discussão sobre a reforma do solo urbano, de modo a democratizar o acesso à terra — condição básica para que as cidades deixem de ser tão segregadas. É fundamental alterar a estrutura da propriedade urbana, pois somente assim será possível iniciar a formulação e a execução de políticas de adaptação que sejam justas para todos, e não restritas aos segmentos que hoje hegemonizam os escassos recursos destinados ao aprimoramento das estruturas urbanas.

Diante desse quadro, não se trata apenas de reconhecer a gravidade dos eventos recentes, mas de romper com a inércia política que os transforma em rotina. É imperativo recolocar o planejamento urbano, a ciência e a justiça socioespacial no centro das decisões públicas, com investimentos consistentes em adaptação climática, revisão das prioridades orçamentárias e enfrentamento direto das desigualdades no acesso à terra. Sem isso, cada nova tragédia deixará de ser exceção para se consolidar como regra — não por fatalidade natural, mas por escolha política.

Enquanto as duas Carlas acenam preocupação, a Barra do Açu se vê condenada ao desaparecimento

As imagens abaixo foram produzidas por mim nesta 3a. feira (24/02) como parte de uma visita técnica que realizei à localidade de Barra do Açu que fica localizada no entorno imediato do porto homônimo, aquele famoso empreendimento iniciado pelo ex-bilionário Eike Batista com a ajuda generosa do governo do Rio de Janeiro, então liderado pelo ex (des) governador Sérgio Cabral Filho.

Como acompanho o processo erosivo que está literalmente apagando a Barra do Açu desde que ele foi inicialmente detectado pelos habitantes da localidade, posso dizer que considero expressivo o avanço da destruição desde a minha última visita há quase 2 anos.  Do desenho original com a avenida principal que acompanhava a faixa de praia nada restou.

E segundo informações oferecidas por um morador de longa data, a última proteção natural, que era a duna central da Praia do Açu, foi destruída completamente pelo avanço recente do mar. Com isso, o que teremos é a provável entrada das águas ocêanicas dentro do que ainda resta da Barra do Açu em momentos de forte ressaca. 

A situação dos moradores da faixa mais costeira da Barra do Açu é objetivamente uma de catástrofe, visto que edificações que já alguns anos estavam a mais de 100 metros da praia, agora estão praticamente encostados na linha da praia. Com isso, os poucos comércios que ainda resistem deverão ter que mudar de lugar em um futuro que talvez não seja assim tão distante.

Toda a situação que estou descrevendo torna o teatro encenado recentemente pela prefeita Carla Caputi e pela sua madrinha política, a deputada Carla Machado (PT), uma espécie de peça tragicômica. É que a estas alturas do campeonato aparecer na Barra do Açu para anunciar estudo técnico e aparentar preocupação é muito aquém do necessário.  O risco é que quando finalmente se decidir por alguma medida concreta, como a construção de um dique submarino, não haja mais nada para ser protegido na Barra do Açu.

Enquanto isso, os gestores do enclave conhecido como Porto do Açu continuam livres, leves e soltos para continuar tocando os barcos que chegam em seus terminais. E o V Distrito e seus habitantes? Esses vão ter que se virar sozinhos porque estão literalmente deixados ao Deus dará.

Tragédia em Juiz de Fora (MG) reforça necessidade de medidas urgentes de adaptação climática

Alerta grave da Defesa Civil: chuva na noite desta segunda-feira provoca  deslizamentos e deixa vias alagadas em JF; confira as áreas atingidas

A cidade de Juiz de Fora está experimentando os efeitos dramáticos da combinação entre chuvas intensas, relevo acidentado e urbanização segregada. Com incríveis 586 mm de chuva acumulados apenas no mês de fevereiro, valor que é quase a metade da precipitação média anual, apenas na noite de ontem pelo menos 14 pessoas morreram em função da combinação entre alagamentos e desmoronamentos após uma chuva de pelo menos 200 mm. 

A questão é que o cenário que agora assola Juiz de Fora e outras cidades da chamada Zona da Mata mineira não é mais exceção, mas parte de uma tendência que adiciona efeitos dramáticos e mortais a eventos meteorológicos extremos, muito em função da forma pelas quais as cidades brasileiras estão estruturadas.

Adaptação climática é, com certeza, um conceito que a maioria das pessoas não consegue assimilar facilmente, pois até a comunidade científica ainda está engatinhando nas discussões sobre como organizar a sociedade humana para viver sob um regime climático que se caracteriza por situações extremas em curtos períodos de tempo. 

Mas adaptar é preciso, pois, do contrário, cenas que estão se repetindo cada vez com maior frequência, ainda vão custar muitas vidas, especialmente dentro das camadas mais pobres da população que são empurradas para regiões ecologicamente mais sensíveis e desprovidas de infraestrutura urbana.

Água na Amazônia: abundância em disputa

Saneamento precário, contaminação, conflitos agrários e o futuro de uma das maiores reservas da Terra

Fot0: Ismael Machado 

Por Ismael Machado*

Em 2010, numa viagem de reportagem ao arquipélago do Marajó para o jornal Diário do Pará, vivi uma das experiências que mais moldaram minha percepção sobre a água na Amazônia. A matéria tinha um título simples e certeiro, bolado pelo editor e parceiro Lázaro Magalhães — Breves pede água boa — mas o que encontramos estava longe de ser simples. Ao lado do saudoso repórter fotográfico Thiago Araújo, percorri comunidades em Breves, onde a vida cotidiana era atravessada por uma contradição brutal: gente cercada por rios e igarapés imensos, mas sem acesso à água potável.

No mesmo ano, produzi outra reportagem sobre a ausência quase total de saneamento na Região Metropolitana. Lembro especialmente de um personagem: Denilson Santos, conhecido como Manel, morador de uma área chamada Livramento, numa zona de fronteira entre Ananindeua, Marituba e Belém. Ele tinha vergonha de mostrar onde a família fazia suas necessidades fisiológicas — um buraco raso cercado por três troncos de açaizeiro. Não havia fossa, não havia banheiro, não havia dignidade mínima garantida pelo poder público. Na mesma reportagem, Maria Gorete Cardoso, à época com 47 anos, informava que apanhava água de uma cacimba comunitária no Curuçambá, em Ananindeua. Ela enchia latas e latas de água, botava numa canoa e voltava remando para sua casa na ilha do Jacineuma.

Naquele período, dados do Instituto Trata Brasil indicavam que a renda média de moradores da Grande Belém poderia aumentar cerca de 12% com acesso adequado à água e saneamento. Passados mais de quinze anos, não é possível afirmar que a transformação tenha ocorrido na escala prometida.

Dois anos depois dessas reportagens, escrevi uma série especial para o mesmo jornal em alusão ao Dia Mundial da Água, com a colaboração do ex-aluno Eraldo Paulino. O trabalho recebeu o primeiro (e único) Prêmio de Jornalismo Científico, iniciativa conjunta do governo estadual e da Universidade Federal do Pará. Entre os dados levantados, havia números alarmantes: cerca de 900 mil pessoas consumindo água contaminada em condomínios da região metropolitana e perdas de quase metade da água tratada devido à precariedade das tubulações. Vejo em meus arquivos as fotos de Thiago Araújo no print em PDF das reportagens e lamento nossa situação atávica.

Em Barcarena, o município industrial, o problema era a contaminação das fontes por conta da atividade das grandes empresas ali instaladas. A série jornalística mostrava que os conflitos pela posse da água já eram grandes no Pará, ladeando a luta pela posse da terra, mas encerrava mostrando iniciativas de recuperação de nascentes em algumas localidades. Uma gota de esperança num rio de problemas.

Revisitar essas memórias jornalísticas hoje é perceber como a crise hídrica e sanitária amazônica não é nova. É estrutural.

A Amazônia ocupa um lugar singular no planeta. A região concentra a maior bacia hidrográfica do mundo, cerca de um quinto da água doce superficial disponível na Terra. Rios de dimensões continentais atravessam a região, incluindo o próprio Amazonas, cuja vazão supera a soma de vários grandes rios globais. Em teoria, seria o território menos provável para enfrentar problemas relacionados à água.

Na prática, porém, a Amazônia tornou-se um dos exemplos mais contundentes de como abundância natural não garante acesso seguro, nem justiça social, nem estabilidade ambiental. A crise da água amazônica não é uma crise de disponibilidade. É de distribuição, qualidade, poder e modelo de desenvolvimento.

O paradoxo do copo vazio às margens do maior rio do mundo

Milhões de pessoas vivem próximas a rios imensos e, ainda assim, dependem de água sem tratamento — igarapés, poços rasos ou captação direta de rios contaminados. Comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas, assentamentos rurais e periferias urbanas convivem com doenças de veiculação hídrica que seriam evitáveis com infraestrutura básica.

Essa realidade revela uma das maiores dívidas históricas do Estado brasileiro na região: saneamento básico. A cobertura de coleta e tratamento de esgoto permanece entre as mais baixas do país, e a ausência de infraestrutura transforma a própria água disponível em vetor de doença. O problema não é apenas técnico. É estrutural e político.

Capitais regionais como Belém, Manaus e Porto Velho, para ficar apenas nessas três, mas entendendo que o problema é mais amplo, repetem o padrão: crescimento acelerado sem expansão equivalente das redes de saneamento. O avanço urbano não foi acompanhado por redes de água e esgoto na mesma velocidade. O resultado é uma geografia urbana desigual, onde bairros centrais têm abastecimento relativamente regular enquanto periferias dependem de soluções individuais, com poços improvisados ou ligações clandestinas, transferindo para o indivíduo uma responsabilidade que deveria ser pública.

A abundância natural, nesse contexto, não elimina a escassez socialmente construída.

Se a falta de infraestrutura compromete o acesso, a contaminação compromete a qualidade. A Amazônia enfrenta múltiplas fontes de degradação hídrica simultâneas.

O garimpo de ouro, especialmente o ilegal, libera mercúrio nos rios, contaminando peixes e populações humanas ao longo das cadeias alimentares. Estudos científicos têm identificado níveis preocupantes da substância em comunidades indígenas e ribeirinhas, com impactos neurológicos, cognitivos e gestacionais.

Ao mesmo tempo, o desmatamento altera o regime hidrológico, aumenta a erosão e o assoreamento dos cursos d’água, enquanto o esgoto urbano não tratado despejado diretamente nos rios agrava a deterioração ambiental. A água, símbolo histórico de pureza amazônica, torna-se vetor de risco sanitário.

Água como eixo de conflitos agrários

No campo amazônico, a água se transformou de recurso natural a elemento central de disputas territoriais. O avanço da fronteira agropecuária, da mineração, da exploração madeireira e da grilagem modificou e ainda modifica paisagens hidrológicas inteiras. Nascentes são degradadas, cursos d’água desviados e áreas úmidas drenadas para expansão dita produtiva.

Marabá, por exemplo, é alvo de um projeto polêmico. Pedral do Lourenço é um conflito socioambiental e econômico de longa data, centrado na remoção de formações rochosas no Rio Tocantins para viabilizar a navegação de grandes embarcações durante o ano todo, inclusive no período de seca. As obras, planejadas há anos, visam criar uma hidrovia que beneficia o escoamento da soja, por exemplo, mas enfrentam resistência de comunidades tradicionais e órgãos ambientais por conta de impactos à pesca e biodiversidade. O Governo Federal defende a obra como fundamental para o escoamento de soja e minérios e o sempre propalado desenvolvimento regional. A que custo?

Ao longo do tempo, hidrelétricas, portos, hidrovias, mineração e expansão agrícola são frequentemente apresentados como motores de desenvolvimento regional. No entanto, esses empreendimentos alteram regimes naturais de rios, impactam comunidades e geram novos conflitos socioambientais. Barragens modificam fluxos, afetam a pesca e alteram ecossistemas aquáticos. Estradas aumentam o desmatamento e mudam padrões de drenagem. Projetos de grande escala frequentemente redistribuem poucos benefícios econômicos enquanto concentram impactos sociais e ambientais em populações locais.

A disputa pela água, nesse sentido, é também disputa por modelos de desenvolvimento. O Rio Xingu nunca se recuperou totalmente do impacto do complexo hidrelétrico de Belo Monte. Eu sei porque vi. Estive lá em Altamira por oito vezes fazendo reportagens durante a construção da hidrelétrica. Havia locais do rio que eram únicos na vivência de peixes chamados ornamentais. Famílias como a de Genilson Gomes da Silva, então com 30 anos, viviam dessa atividade. Não mais. Foi lá que aprendi com Antônia Melo e Dom Erwin Krautler como é complicado lutar contra toda a força do capital e mesmo assim manter a dignidade.

O fato é que comunidades tradicionais frequentemente se veem diante da perda de acesso a fontes que garantiam sua sobrevivência por gerações. Controlar a terra significa também controlar a água e, portanto, controlar modos de vida. Poucas violências são tão simbólicas como essa.

Conflitos socioambientais envolvendo rios, barragens, irrigação e contaminação tornaram-se mais frequentes nas últimas décadas, revelando que a disputa pela água na Amazônia já é uma realidade concreta.

Eventos climáticos extremos recentes mostram que a Amazônia também não está imune a crises hidrológicas. Secas históricas reduziram drasticamente níveis de rios, isolaram comunidades, comprometeram o transporte fluvial e afetaram sistemas de abastecimento. Em outros momentos, cheias intensas provocaram contaminação de poços, colapso de estruturas sanitárias precárias e disseminação de doenças. Também acabo lembrando outra reportagem que fiz, dessa feita para o jornal O Globo, sobre a seca no rio Solimões, em Manacapuru. À época, 2003 ou 2004, se não me falha a memória, essas secas ainda eram relativamente uma novidade vistas com espanto. Deixaram de ser.

A alternância entre extremos — seca e inundação — aumenta a vulnerabilidade de populações que já vivem com infraestrutura limitada. Além disso, o desmatamento regional pode estar alterando o próprio ciclo hidrológico amazônico, reduzindo a capacidade da floresta de reciclar umidade e influenciando padrões de chuva em escala continental.

A água amazônica, essencial para o equilíbrio climático global, também depende da própria floresta para existir.

E aí vem a palavra que soa como doce na boca de políticos e governos. Privatização. Nos últimos anos, mudanças no marco regulatório do saneamento abriram espaço para maior participação privada no setor. Defensores argumentam que investimentos serão ampliados e a universalização acelerada. Críticos alertam para o risco de aprofundamento das desigualdades, especialmente em regiões onde o retorno financeiro é menor e os custos logísticos são mais altos como na Amazônia. E vamos ser sinceros? Talvez se conte nos dedos da mão a efetivação das promessas alardeadas pelos privatistas em qualquer setor.

No caso da água a questão central permanece quase sempre esquecida. Afinal, ela é mercadoria ou direito? A resposta define prioridades políticas.

A importância estratégica da água amazônica ultrapassa fronteiras nacionais. Em um mundo onde crises hídricas se tornam mais frequentes, reservas abundantes ganham relevância geopolítica crescente, a região passa a ser vista não apenas como patrimônio ambiental, mas como ativo estratégico global. Essa dimensão internacional aumenta pressões econômicas e políticas sobre o território, tornando ainda mais complexa a governança dos recursos. E em tempos de Trump, isso sempre nos deve deixar com todos os sentidos em alerta.

O panorama amazônico demonstra que a escassez pode existir mesmo em territórios de abundância. Falta de saneamento, contaminação, conflitos agrários, mudanças climáticas e modelos de desenvolvimento predatórios convergem para produzir vulnerabilidades múltiplas.

Mas não nos esqueçamos. A crise da água na Amazônia não é natural. É resultado de decisões humanas, históricas e políticas. Garantir acesso universal à água potável na região exige proteção ambiental, reconhecimento de direitos territoriais, planejamento urbano, investimento público consistente e governança que priorize populações locais.

Na Amazônia, a água tornou-se, simultaneamente, riqueza, risco e campo de disputa sobre o futuro. O medo é nos afogarmos no mar da ignorância e, numa rima pobre, da ganância.


*Ismael Machado é jornalista com longa experiência na cobertura de assuntos relativos à Amazônia brasileira. 

Agrotóxicos estão mais tóxicos em todo o mundo, aponta estudo publicado pela Science

Brasil é um dos países longe da meta estabelecida pela ONU

Por Rafael Cardoso para “Agência Brasil” 

O grau de toxicidade dos pesticidas aumentou em todo o mundo de 2013 e 2019, com o Brasil entre os países líderes. A conclusão está em um estudo publicado este mês na revista Science e contraria a meta de redução de riscos dos pesticidas até 2030, estabelecida na 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP15).

Pesquisadores alemães da universidade de Kaiserslautern-Landau avaliaram 625 agrotóxicos em 201 países. Eles utilizaram o indicador de Toxicidade Total Aplicada (TAT), que considera o volume usado e o grau de toxicidade de cada substância.

Seis de oito grupos de espécies estão mais vulneráveis aos níveis crescentes de toxicidade. São eles: artrópodes terrestres (como insetos, aracnídeos e lacraias), cuja toxicidade aumentou 6,4% ao ano; organismos do solo (4,6%), peixes (4,4%); invertebrados aquáticos (2,9%), polinizadores (2,3%) e plantas terrestres (1,9%).

O TAT global diminuiu apenas para plantas aquáticas (−1,7%) e vertebrados terrestres (−0,5% ao ano). Humanos fazem parte desse último grupo.

“O aumento das tendências globais de TAT representa um desafio para o alcance da meta de redução de risco de agrotóxicos da ONU e demonstra a presença de ameaças à biodiversidade em nível global”, diz um dos trechos do estudo.

Brasil em destaque

O Brasil aparece como um dos principais protagonistas desse cenário. O estudo identifica o país como detentor de uma das maiores intensidades de toxicidade por área agrícola em todo o planeta, ao lado de China, Argentina, Estados Unidos e Ucrânia.

Além disso, Brasil, China, Estados Unidos e Índia respondem juntos por 53% a 68% da toxicidade total aplicada no mundo.

A relevância brasileira está diretamente ligada ao peso do agronegócio, especialmente de culturas extensivas. Embora cereais tradicionais e frutas ocupem grandes áreas, a toxicidade associada a culturas como soja, algodão e milho exerce impacto significativamente maior em relação à extensão cultivada.

Tipos de agrotóxicos

Um dos achados mais relevantes do estudo indica que o problema é altamente concentrado: em média, apenas 20 agrotóxicos por país respondem por mais de 90% da toxicidade total aplicada.

O levantamento aponta que diferentes classes químicas dominam os impactos. Classes de inseticidas, como piretroides e organofosforados, contribuíram com mais de 80% do TAT de invertebrados aquáticos, peixes e artrópodes terrestres. Neonicotinoides, organofosforados e lactonas representaram mais de 80% do TAT de polinizadores.

Organofosforados, juntamente com outras classes de inseticidas, foram os que mais contribuíram para os TATs de vertebrados terrestres. Herbicidas acetamida e bipiridil contribuíram com mais de 80% para o TAT das plantas aquáticas, enquanto uma mistura mais ampla de herbicidas (incluindo acetamida, sulfonilureia e outros) definiu o TAT das plantas terrestres. Herbicidas de alto volume, como acetoclor, paraquat e glifosato, pertencem a essas classes e têm sido associados a riscos ambientais e à saúde humana.

Fungicidas conazol e benzimidazol, juntamente com os inseticidas neonicotinoides, ​​aplicados no revestimento de sementes, contribuíram principalmente para o TAT dos organismos do solo.

Meta global distante

O estudo também avaliou a trajetória de 65 países. O diagnóstico é de que, sem mudanças estruturais, apenas um país (Chile) atingirá a meta da ONU de redução de 50% da toxicidade dos pesticidas até 2030.

Segundo os pesquisadores, China, Japão e Venezuela estão no caminho para atingir a meta e apresentam tendências de queda em todos os indicadores. Mas precisam de uma aceleração nas mudanças de uso de agrotóxicos.

Tailândia, Dinamarca, Equador e Guatemala estão se afastando da meta, com pelo menos um indicador dobrando nos últimos 15 anos. Eles precisam reverter as tendências de rápido aumento para voltar a trajetória anterior.

Todos os outros países do estudo, o que inclui o Brasil, precisam retornar os riscos de agrotóxicos aos níveis de mais de 15 anos atrás. O que significa reverter padrões de uso das substâncias consolidadas há décadas, em termos de volume e toxicidade das misturas.

Os pesquisadores indicam três frentes principais para conter a escalada dos riscos: substituição de agrotóxicos altamente tóxicos, expansão da agricultura orgânica e adoção de alternativas não químicas. Tecnologias de controle biológico, diversificação agrícola e manejo mais preciso são apontadas como estratégias capazes de reduzir impactos sem comprometer produtividade.


Fonte: Agência Brasil

Glifosato, condenado nos EUA por relação com câncer, é o agrotóxico mais presente em ultraprocessados no Brasil

De acordo com o Idec, metade dos produtos apresentam substância, que foi detectada em quase um terço das amostras no último relatório do instituto

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Pulverização de agrotóxicos em área agrícola. O glifosato é o herbicida mais utilizado no Brasil e no mundo. Foto: Pexels/Arjun MJ

Por Forum 

A Bayer apresentou nos Estados Unidos uma proposta de acordo que pode chegar a US$ 7,25 bilhões (cerca de R$ 37 bilhões) para encerrar processos judiciais relacionados ao herbicida Roundup. O produto é alvo de milhares de ações movidas por pessoas e é considerado um provável carcinógeno pela Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O plano foi protocolado em um tribunal estadual do Missouri e prevê a criação de um fundo de indenização, com pagamentos distribuídos ao longo de até 21 anos. Para que o acordo seja validado, é necessária a adesão de um número mínimo de autores das ações. Caso a participação seja considerada insuficiente, a empresa poderá retirar a proposta.

No Brasil, o glifosato se tornou ao longo dos anos o herbicida mais usado nas lavouras, principalmente em cultivos de soja transgênica, e o consumo de herbicidas no país mais que dobrou na última década, impulsionado pela expansão agrícola e pela resistência de plantas daninhas, o que consolidou a substância como base da agricultura química nacional.

Entre os anos de 2010 e 2020, o volume de herbicidas ativos comercializados saltou de 157,5 mil para 329,7 mil toneladas por ano, um crescimento de 128%, segundo um estudo realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), realizado em parceria com a Universidade de Rio Verde e publicado na revista científica Agriculture.

Estudos indicam o surgimento de impactos ambientais e potenciais riscos à saúde em áreas de aplicação intensiva, como aumento de mortalidade infantil em localidades próximas a lavouras, e debates sobre limites mais permissivos de resíduos em água potável em comparação com países europeus. No governo de Jair Bolsonaro, a política agrícola foi marcada pela aprovação acelerada de agrotóxicos, e também do glifosato, favorável a sua base eleitoral, o agronegócio, com autoridades defendendo a liberação técnica do uso desses químicos e registrando recordes de novos pesticidas autorizados em poucos anos, muitos dos quais são proibidos ou restritos em outras regiões.

Glifosato em ultraprocessados e água

Resíduos de glifosato foram identificados em alimentos ultraprocessados no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).  Foi identificada na pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote” a presença de agrotóxicos em metade das amostras: das 24 avaliadas, 12 apresentaram resíduos dessas substâncias, sendo o glifosato o mais recorrente, detectado em 7 produtos.

O estudo também apontou que a farinha de trigo, ingrediente comum em itens como empanados, biscoitos e macarrão instantâneo. continua sendo uma das principais fontes de contaminação. Entre as categorias analisadas, apenas os produtos do tipo petit suisse não apresentaram resíduos de agrotóxicos em nenhuma das amostras testadas.

Além disso, o Brasil detém a maior reserva de água doce superficial do mundo, representando aproximadamente 12% do total global. Além disso, abriga a maior floresta úmida, a Amazônia, e vastas extensões de áreas continentais alagadas, como o Pantanal e o Araguaia, e extensas bacias hidrográficas espalhadas pelo território. O país figura entre os principais consumidores globais de agrotóxicos.

Isso aponta para o risco de contaminação das principais reservas hídricas do país e um impacto significativo na diversidade biológica. Segundo estatísticas mais recentes, a agricultura irrigada responde por 66,1% do total de águas superficiais e subterrâneas utilizadas no Brasil, totalizando 83 bilhões de litros diários. Considerando também o consumo voltado para a pecuária, a proporção se eleva para 77,7%.

De acordo com um estudo publicado pelo Atlas dos Agrotóxicos em dezembro de 2023, na contaminação das águas, “as substâncias tóxicas podem impactar tanto as águas superficiais quanto as subterrâneas por meio da lixiviação, um processo de ‘lavagem’ do solo no qual nutrientes e elementos químicos são transportados para os corpos hídricos. Além disso, a percolação, que é o movimento da água através do solo, contribui para o fluxo dessas substâncias em direção aos reservatórios subterrâneos”, destaca estudo.

A presença de contaminação é influenciada também por características como o tipo de solo, clima, padrões de uso e ocupação do solo, e as propriedades físico-químicas dos compostos utilizados. Os agrotóxicos podem percorrer  extensas distâncias por meio de processos como a evapotranspiração, que é a conversão da água em vapor da superfície terrestre para a atmosfera, e pela ação dos ventos. A água evaporada é transportada pelos ventos, alimentando as precipitações em diversas regiões, fenômeno conhecido como “rios voadores”.

Apesar do Brasil dispor do Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiágua), responsável por investigar a presença de agrotóxicos e outros parâmetros nos municípios do país, a pesquisa ressalta que há uma escassez de estudos analíticos sobre a presença de contaminantes agrotóxicos nas águas, principalmente por dificuldades financeiras e logísticas.

Combinações de agrotóxicos são comumente detectadas em pesquisas científicas e análises do Vigiágua, mas os efeitos da exposição a essas misturas ainda são pouco explorados e inadequadamente incorporados às legislações que estabelecem os parâmetros para o monitoramento de agrotóxicos na água no país. “Além disso, há limitações normativas quanto ao monitoramento de agrotóxicos em água. Uma delas refere-se ao baixo número de parâmetros de agrotóxicos previstos para serem monitorados pelos Ministérios da Saúde (MS) e do Meio Ambiente”, diz trecho do documento.

Entre 2018 e 2021, a análise de 41.780 amostras revelou que em menos de 10% das detecções os resultados ultrapassaram o limite de quantificação. A atrazina, metolacloro, glifosato e 2,4-D foram os agrotóxicos mais frequentemente quantificados. Contudo, um percentual significativamente maior de agrotóxicos foi identificado em níveis não quantificáveis, sugerindo a possibilidade de limitações nas técnicas analíticas em uso, sem necessariamente indicar a ausência de riscos.

Outra pesquisa, realizada pelo Pesticide Atlas em 2022, fez uma comparação da concentração de glifosato em águas potáveis brasileiras e europeias. A substância da Bayer defendida pelos agricultores é de alto risco e foi liberada pelo governo Bolsonaro ainda na pandemia, em 2020, permanecendo em uso por quatro anos.

No estudo, foi constatado que o Brasil permite quantidades de glifosato maiores na água em relação à União Europeia. Enquanto aqui são permitidos 500 microgramas por litro, nos países europeus, por litro, é liberado apenas 0,1 micrograma, o que revela uma quantidade 5 mil vezes maior de autorização da substância tóxica no Brasil.

Quando surgiu o glifosato?

O herbicida foi desenvolvido na década de 1970 pela Monsanto, multinacional norte-americana que se tornou uma das principais referências globais na produção de insumos agrícolas. Antes, a substância foi descoberta em 1950 pelo químico suíço Henri Martin e, inicialmente, era usada como produto de limpeza de metais. A empresa também esteve envolvida na fabricação de produtos químicos militares décadas antes, como na Guerra do Vietña, o que contribuiu para os impactos da indústria química. Com o sucesso comercial do glifosato após sua associação a sementes geneticamente modificadas, o produto se tornou o herbicida mais utilizado no mundo, tamanho que a empresa lançou o produto Roundup.

Em 2018, a Bayer, conglomerado alemão do setor farmacêutico e químico, concluiu a compra da Monsanto por US$ 63 bilhões. Desde então, o glifosato passou a integrar o portfólio da Bayer, que mantém a comercialização do herbicida em diversos países. Ao mesmo tempo, a empresa enfrenta disputas judiciais e pressão de organizações de saúde e ambientais. Parte dessas preocupações decorre de estudos científicos que apontam associação entre a exposição prolongada ao glifosato e maior risco de determinados tipos de câncer, embora o debate científico não seja unânime e haja divergências entre agências regulatórias sobre o grau de risco e a relação causal direta. Além do setor agrícola, o grupo Bayer também atua na produção de medicamentos, incluindo tratamentos oncológicos, fato citado por críticos como exemplo das contradições presentes no modelo de negócios de grandes conglomerados químicos e farmacêuticos.


Fonte: Forum