Do lote à feira. Artigo discute gargalos que afetam a comercialização da produção agrícola dos assentamentos de reforma agrária em Campos

Em abril de 2024, a minha orientanda Mariana Batista de Souza defendeu com sucesso a sua dissertação “Investigando os canais e os gargalos do processo de comercialização dos alimentos produzidos pela reforma agrária em Campos dos Goytacazes/RJ” que apresentava os resultados de um estudo sobre a dinâmica que regula e dificulta a chegada da produção obtida pelos assentados da reforma agrária à população via as chamadas feiras livres.


Eis que agora praticamente 2 anos depois, a revista Coloquio- Revista do Desenvolvimento Regional acaba de publicar um filhote daquela dissertação sob o título de “Do lote às feiras. Desvelando os gargalos que dificultam a comercialização coletiva da produção dos assentamentos der reforma agrária em Campos dos Goytacazes (RJ)”.  Este artigo é resulta de um trabalho conjunto que também envolveu o professor Marcelo de Souza do Laboratório de Engenharia Agrícola (LEAG) do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA) da Uenf.

Mais do que uma diferença semântica em termos de título, o artigo traz reflexões que avançam sobre o que foi alcançado na dissertação, especialmente no tocante ao papel do governo municipal não apenas como indutor, mas como agente ativo na organização dos mercados.

O artigo mostra também que a ausência de suporte institucional consistente compromete a autonomia econômica dos assentados da reforma agraria.  Por outro lado, em termos teóricos, os resultados reforçam a centralidade das mediações comerciais na reprodução das desigualdade o que restou demonstrado é que, sem intervenção pública efetiva e sem fortalecimento organizativo interno, os espaços das feiras livres tendem a reproduzir as assimetrias que estruturam os circuitos convencionais de comercialização.

Quem desejar baixar a íntegra do artigo, basta clicar [Aqui!].

A sabotagem de um projeto revolucionário: o desmonte silencioso da Universidade do Terceiro Milênio

Como a Uenf se afastou do projeto transformador de Darcy Ribeiro em meio à captura das riquezas do interior fluminense e à erosão de seu modelo original

O levantamento realizado pela diretoria da Associação de Docentes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Asduerj), que divulguei neste blog, constitui uma evidência contundente de um processo de sabotagem do projeto da chamada “Universidade do Terceiro Milênio”, concebido por demanda da população campista sob a liderança de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro.

Fundada a partir de um modelo inovador, a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) introduziu mudanças estruturais decisivas. Em primeiro lugar, abandonou o modelo departamental clássico, adotando os laboratórios de pesquisa como eixo organizador de sua estrutura institucional. Em segundo, estabeleceu a pós-graduação como fundamento do seu modelo acadêmico, ancorado na produção científica, o que permitiu um início ágil e altamente qualificado. Por fim, definiu como princípio a contratação exclusiva de docentes com título de doutorado, em regime de dedicação exclusiva. Com esses pilares, a Uenf avançou de forma rápida e notável, tornando-se uma espécie de laboratório vivo de um novo modelo universitário no Brasil.

Esse projeto, contudo, estava intrinsecamente ligado a uma condição essencial: a valorização material de seu corpo de servidores, por meio dos melhores salários do país. Para Darcy Ribeiro, esse não era um detalhe, mas um elemento estruturante. Afinal, tratava-se de implantar uma universidade de excelência fora dos grandes centros metropolitanos, em uma região marcada por desigualdades profundas e estagnação econômica — um desafio que exigia medidas igualmente extraordinárias.

Passados quase 33 anos de sua fundação, a Uenf encontra-se distante do modelo originalmente idealizado. A própria expressão “Universidade do Terceiro Milênio” desapareceu dos documentos institucionais recentes, como se o projeto tivesse sido silenciosamente abandonado. O que se observa hoje é uma adaptação resignada ao possível, em contraste com o horizonte transformador que orientava a concepção original.

Ainda que nem todos os problemas tenham origem externa, é difícil ignorar que parte significativa do esvaziamento da Uenf resulta de decisões estratégicas que limitaram seu potencial como polo dinâmico no interior fluminense. Caso esse projeto tivesse sido plenamente desenvolvido, é plausível supor que certas dinâmicas regressivas observadas no estado do Rio de Janeiro encontrariam maior resistência. Ao inviabilizar a consolidação desse modelo inovador, evitou-se também o “mau exemplo” de uma ciência de excelência florescendo fora dos circuitos tradicionais de poder e riqueza.

Nesse contexto, é impossível dissociar esse processo da forma como as rendas petrolíferas foram apropriadas no interior do estado, transformando a região em uma espécie de “Oriente Médio brasileiro”. Bilhões foram gerados, mas amplamente capturados por interesses privados, sem promover transformações estruturais significativas. Ao contrário, reforçou-se um modelo social e economicamente excludente. Enfraquecer a Uenf — retirando-lhe capacidade crítica e potência transformadora — acabou sendo funcional a esse arranjo.

Ainda assim, instituições atravessam ciclos, e não há destino irreversível, sobretudo no caso de uma universidade com o DNA da Uenf. No entanto, se os fatores externos foram determinantes para sua inflexão, a retomada de seu projeto original dependerá, em primeiro lugar, de uma transformação interna. Será necessário romper com a paralisia e a anemia intelectual que se escondem sob o verniz de um empreendedorismo superficial — muitas vezes apenas um rebaixamento de expectativas travestido de inovação. O desafio colocado é recuperar a capacidade de pensar e agir à altura do momento histórico, honrando o legado de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.

Grandes empresas petrolíferas investem bilhões em novos locais de perfuração para escapar da turbulência no Golfo Pérsico

Uma instalação de produção de petróleo ao largo da costa da África Ocidental em 2015.© George Osodi/Bloomberg News

Por Collin Eaton para “Wall Street Journal” 

A Exxon Mobil, a Chevron e outras empresas de energia estão acelerando suas buscas por novas oportunidades de exploração de petróleo e gás, bem longe dos perigos da guerra no Oriente Médio.

A Exxon delineou recentemente um plano potencial para investir até US$ 24 bilhões nos campos de petróleo em águas profundas da Nigéria, enquanto a Chevron expandiu sua presença na Venezuela. A BP adquiriu participações em blocos de petróleo na costa da Namíbia e a TotalEnergies assinou um acordo de exploração com a Turquia. As principais empresas petrolíferas poderão, juntas, gerar US$ 120 bilhões em valor com seus empreendimentos de exploração nos próximos anos, estimou na quinta-feira a empresa de pesquisa e consultoria energética Wood Mackenzie.

Os contratos futuros de petróleo dos EUA estão sendo negociados perto de US$ 88 o barril, acima da faixa de US$ 65 em que oscilavam antes da guerra. Os preços despencaram na sexta-feira depois que o presidente Trump e autoridades iranianas disseram que o Estreito de Ormuz havia sido reaberto. O Irã posteriormente afirmou que o estreito havia sido fechado novamente.

As empresas petrolíferas querem maximizar a sua produção para tirar proveito dos preços mais altos, mas dentro dos limites dos seus orçamentos atuais e sem assumir os custos adicionais de grandes investimentos, disseram pessoas familiarizadas com o assunto.

De acordo com a Wood Mackenzie, as principais companhias petrolíferas, em conjunto, gastaram em média US$ 19 bilhões por ano em exploração global entre 2021 e 2025.

Executivos do setor energético também estão focados em uma missão de longo prazo: encontrar petróleo e gás suficientes para sustentar seus lucros até a década de 2030, disseram algumas fontes. O fechamento do Estreito de Ormuz, um ponto de estrangulamento crucial para o petróleo e o gás entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, reteve 20% do consumo diário mundial de petróleo e gás natural liquefeito.

Os ataques do Irã à infraestrutura energética e o gargalo na navegação na região do Golfo Pérsico desencadearam uma corrida global pelo petróleo e reduziram em bilhões de dólares a receita de algumas empresas petrolíferas ocidentais . No entanto, a alta nos preços da energia está proporcionando à indústria petrolífera uma entrada inesperada de capital, que deverá ajudá-la a explorar territórios antes inacessíveis ou abandonados há anos. Esse influxo de capital ocorre após muitas empresas de perfuração reduzirem os gastos com exploração para retornar mais dinheiro aos acionistas.

“Nunca subestime o entusiasmo das pessoas que trabalham na exploração e produção de petróleo e gás ao enxergarem oportunidades. Elas dizem: ‘Nossa, não seria ótimo se pudéssemos fazer isso ou aquilo?’”, disse Edward Chow, pesquisador sênior não residente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais e ex-executivo da Chevron. “Agora, você tem o dinheiro para fazer isso.”

Durante uma teleconferência na quinta-feira com executivos da Exxon, Chevron e outras companhias petrolíferas, o Secretário de Energia, Chris Wright, e o Secretário do Interior, Doug Burgum, os instaram a continuarem aumentando a produção de petróleo para conter a alta dos preços diante de uma iminente escassez de oferta.

Algumas empresas petrolíferas ocidentais com operações no Oriente Médio sofreram perdas significativas. A Exxon afirmou que a guerra reduziu sua produção global de petróleo e gás em 6% no primeiro trimestre. A empresa prevê uma perda de receita de cerca de US$ 5 bilhões por ano, após danos sofridos em instalações de gás natural no Catar. Sua parceira, a Qatar Energy, estimou que os reparos podem levar até cinco anos.

Por ora, espera-se que o setor de petróleo e gás desvie sua atenção do Golfo Pérsico. Poucos dias antes do início da guerra, a Chevron anunciou que estava iniciando negociações exclusivas com a Basra Oil, do Iraque, para adquirir uma participação em um dos maiores campos de petróleo terrestres do mundo, o West Qurna 2. No entanto, analistas afirmam ser improvável que as empresas petrolíferas ocidentais fechem grandes negócios no Oriente Médio até que o conflito esteja totalmente resolvido.

O campo petrolífero de West Qurna 2, no Iraque, em 2014.© Essam Al-Sudani/Reuters

Em vez disso, as consequências econômicas da guerra estão levando as empresas a diversificar seus portfólios e a distribuir o risco de interrupções pelo mundo. As empresas de energia também estão tentando aumentar suas reservas. Os produtores mundiais de petróleo precisam encontrar recursos suficientes para adicionar 300 bilhões de barris às suas reservas coletivas para atender à demanda global até 2050, de acordo com a Wood Mackenzie.

Exxon, Chevron, Shell, BP e TotalEnergies estão analisando atentamente novas oportunidades de perfuração na África, América do Sul e Mediterrâneo Oriental, que poderiam reabastecer suas reservas para a próxima década.

Na semana passada, a Exxon deu um passo importante rumo à perfuração na costa da Grécia. Nos últimos meses, a empresa assinou acordos preliminares de exploração com o Iraque, a Turquia e o Gabão. Em Trinidad e Tobago, a empresa está realizando estudos sísmicos para encontrar petróleo e gás nas águas profundas do país. Os investimentos internacionais da Exxon totalizaram cerca de US$ 9 bilhões no ano passado, incluindo seus projetos em andamento.

Enquanto isso, a Chevron reforçou sua equipe de exploração, inclusive por meio da aquisição da Hess no ano passado, por US$ 53 bilhões. A empresa contratou Kevin McLachlan, ex-executivo da TotalEnergies, para o cargo de vice-presidente de exploração. A Chevron destinou US$ 7 bilhões para investimentos em projetos offshore em todo o mundo neste ano.

Na Venezuela, onde a Chevron é o maior investidor estrangeiro , a empresa concordou na semana passada com um acordo de troca de ativos que fortalecerá sua posição em regiões ricas em petróleo pesado e viscoso, preferido pelas refinarias americanas. A estatal Petróleos de Venezuela vendeu à Chevron uma participação adicional de 13% em uma de suas joint ventures na Venezuela. Outro projeto, no qual a Chevron detém 30% de participação, recebeu direitos de desenvolvimento para uma área vizinha.

Bombas de extração de petróleo perto do Lago Maracaibo, na Venezuela.© Leonardo Fernández Viloria/Reuters

Em uma conferência sobre energia realizada em Houston no mês passado, o CEO da Chevron, Mike Wirth, afirmou que a recente mudança nas leis que regem os contratos de combustíveis fósseis no país é um bom primeiro passo.

“Ainda há coisas que acredito que precisam acontecer para incentivar o investimento na escala que as pessoas gostariam de ver”, disse Wirth. Ele acrescentou que as operadoras na Venezuela precisam de uma resolução de disputas mais duradoura e previsível, entre outras preocupações.

A Casa Branca está pressionando para que mais empresas petrolíferas americanas invistam no setor petrolífero venezuelano, que se encontra em situação precária. A maioria das empresas de perfuração se mostra cautelosa em investir no país após anos de má gestão.

A Chevron planeja realizar trabalhos de exploração ainda este ano no Egito, onde detém 9 milhões de acres líquidos no Mar Mediterrâneo, e confirmou recentemente descobertas substanciais de petróleo no Golfo do México. No início deste ano, a empresa conquistou quatro concessões offshore perto da Grécia, além de um bloco petrolífero na Líbia.

Prevê-se que os preços do petróleo permaneçam elevados nos próximos meses, mesmo que o gargalo no Estreito de Ormuz seja resolvido.

“Preços elevados e sustentados do petróleo são os melhores aliados da exploração”, disse Schreiner Parker, analista da Rystad Energy, uma empresa de pesquisa e consultoria. “A médio e longo prazo, haverá um prêmio de risco atrelado a cada barril extraído do Golfo Pérsico, o que incentivará a exploração em novas áreas.”

Escreva para Collin Eaton em collin.eaton@wsj.com


Fonte: msn.com

Permitir a presença de resíduos de agrotóxicos proibidos em alimentos importados pode infringir a legislação da UE, conclui novo parecer jurídico

Um novo parecer jurídico independente, encomendado pela PAN Europe, foodwatch e pelo Instituto Veblen, questiona a legalidade da prática da Comissão Europeia de permitir resíduos de agrotóxicos proibidos em alimentos importados para a União Europeia (UE). As conclusões não deixam dúvidas: a Comissão tem o poder de pôr fim a esta prática hoje e deve fazê-lo para todos os 88 pesticidas proibidos cujos resíduos ainda são permitidos em alimentos importados.  Em vez disso, a proposta Omnibus oferece medidas paliativas burocráticas que apenas abordariam alguns deles

Por Pan Europe

Resíduos de pelo menos 88 substâncias perigosas, incluindo carcinógenos, desreguladores hormonais e “químicos eternos”, cujo uso é proibido nas explorações agrícolas europeias, são permitidos em produtos alimentares de uso diário vendidos no mercado europeu [2]. Chegam aos pratos dos cidadãos através de importações de países onde ainda são vendidos e utilizados. [3] Durante anos, a Comissão defendeu esta prática, alegando que não tem outra opção ao abrigo da legislação da UE. 

Um novo parecer jurídico independente, encomendado pela PAN Europe, foodwatch e pelo Instituto Veblen, expõe esse argumento pelo que ele é: uma desculpa. O parecer jurídico conclui que a Comissão já tem o poder de proibir resíduos de agrotóxicos proibidos em alimentos importados e que, ao não o fazer, provavelmente está violando suas obrigações legais perante a legislação da UE. Isso é particularmente relevante para substâncias que foram proibidas devido a preocupações com a saúde.

Em vez de usar os poderes que já detém, a Comissão optou por apresentar uma nova proposta legal: o Regulamento Ómnibus sobre Segurança Alimentar e de Rações. Mas a proposta mal arranha a superfície do problema, ao mesmo tempo que acrescenta camadas de burocracia. Abrange apenas um subconjunto restrito de cerca de 22% das substâncias proibidas na UE [4], introduz considerações socioeconômicas no que deveria ser uma decisão baseada na saúde e trata a obrigação da Comissão de agir como opcional. A grande maioria dos agrotóxicos proibidos continuaria a chegar aos pratos europeus. Entretanto, a causa principal, o comércio contínuo de  agrotóxicos proibidos na UE para países terceiros, apesar da promessa da Comissão em 2020 de o pôr fim, permanece totalmente sem solução. [5]

“ Este parecer jurídico elimina qualquer desculpa para a inação da Comissão. É cristalino que a Comissão tem o poder de impedir a entrada de resíduos de agrotóxicos altamente tóxicos proibidos na UE. Exigimos a proibição imediata de resíduos de quaisquer agrotóxicos proibidos ”, afirmou Salomé Roynel, responsável política da PAN Europe.

“ Quem compra alimentos na Europa tem todos os motivos para esperar que eles atendam aos nossos padrões de segurança. Em vez disso, a Comissão Europeia tem permitido silenciosamente que resíduos de substâncias químicas cancerígenas e disruptoras endócrinas cheguem aos nossos pratos por meio de importações. Isso é inaceitável, e a Lei Omnibus, da forma como está, não resolverá o problema ”, acrescentou Natacha Cingotti, Líder de Estratégias de Campanhas da foodwatch. 

“ Este duplo padrão não afeta apenas os consumidores europeus. Exporta danos aos trabalhadores agrícolas, às comunidades e aos ecossistemas nos países onde estas substâncias proibidas ainda são utilizadas, muitas vezes por empresas sediadas na UE. Uma resposta coerente da UE deve abordar tanto as importações como as exportações ”, concluiu Stéphanie Kpenou, responsável pela política comercial do Instituto Veblen.

A PAN Europe, a foodwatch e o Instituto Veblen apelam ao Parlamento Europeu e ao Conselho para que não cedam às propostas incluídas no Regulamento Omnibus. Em vez disso, devem usar o seu poder de controlo para introduzir uma obrigação clara e automática de proibir resíduos de qualquer agrotóxico não aprovado na UE.

Link para o Resumo da Política

Contatos

  • PAN Europe, Salomé Roynel, Responsável de Políticas, salome@pan-europe.info , +32 (0) 2 318 62 55
  • foodwatch, Natacha Cingotti, Líder de Estratégia de Campanhas, natacha.cingotti@foodwatch.org ou Andreas Winkler, media@foodwatch.org , +49 (0) 1 74 / 3 75 16 89
  • Instituto Veblen, Stéphanie Kpenou, Diretora de Política Comercial, kpenou@veblen-institute.org , +33 (0) 7 86 43 92 99

Notas

[1] Link para  estudo jurídico

[2] Lista baseada em substâncias ativas proibidas e restritas incluídas no Regulamento de Consentimento Prévio Informado (PIC) | PAN Europa

[3] Relatório da União Europeia de 2023 sobre resíduos de agrotóxicos nos alimentos; Relatório: Agrotóxicos proibidos no abastecimento alimentar da Europa

[4] A proposta abrangente engloba substâncias ativas que são carcinogénicas, mutagénicas e tóxicas para a reprodução (CMR) das categorias 1A/1B, desreguladores endócrinos para humanos ou organismos não-alvo, poluentes orgânicos persistentes (POP), substâncias persistentes, bioacumulativas e tóxicas (PBT) ou muito persistentes e muito bioacumulativas (vPvB). Calculámos, com base nos dados disponíveis, que 20 das 88 substâncias cumprem estes critérios. Embora existam listas oficiais para substâncias CMR e desreguladores endócrinos, não foi estabelecida nenhuma lista oficial equivalente de substâncias PBT/vPvB a nível da UE. Este número deve, portanto, ser considerado uma estimativa. 

[5] Estratégia química para a sustentabilidade, ONGs e sindicatos exigem o fim da produção, exportação e importação de agrotóxicos proibidos pela UE.


Fonte: Pan Europe

A EPA ignorou pedido para endurecer as restrições ao Glifosato, alega ação judicial

providence-doucet-5za6niH4qpw-unsplash

Por Shannon Kelleher para “The New Lede”  

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) está colocando a saúde pública em risco ao continuar permitindo que os agricultores pulverizem glifosato, um herbicida associado ao câncer, diretamente sobre a aveia antes da colheita, uma prática que geralmente resulta em resíduos do agrotóxicos em alimentos populares feitos com aveia, de acordo com um novo processo judicial.

O processo , apresentado em 20 de abril pelo Environmental Working Group (EWG), pede ao Tribunal de Apelações dos EUA para o Circuito do Distrito de Columbia que obrigue a EPA a responder a uma petição de 2018 que solicita à EPA a proibição do uso de glifosato para secar plantações antes da colheita e a redução do nível de resíduos de glifosato permitido na aveia de 30 partes por milhão (ppm) para apenas 0,1 ppm. A EPA nunca respondeu à petição, que foi apresentada pelo EWG e um grupo de empresas alimentícias e supermercados.

O processo judicial centra-se no atual “limite máximo de resíduos” (LMR) da EPA para o glifosato na aveia, que é amplamente consumida por crianças em cereais, biscoitos e outros produtos, e alega que os limites não protegem adequadamente a saúde das crianças.

Testes realizados pelo EWG e outras entidades encontraram resíduos de glifosato em diversos alimentos populares, incluindo cereais e snacks à base de aveia, concluindo que a aveia é uma das principais fontes de exposição ao glifosato para bebês e crianças pequenas.

“A EPA tem o claro dever legal de agir em relação a esta petição, e simplesmente se recusou a fazê-lo”, disse Caroline Leary, conselheira jurídica da EWG, em um comunicado .

“Esse tipo de atraso tem consequências reais para as famílias que dependem da agência para garantir que as crianças não sejam expostas a resíduos tóxicos de produtos químicos agrícolas, como o glifosato”, disse Leary.

“Esse tipo de atraso tem consequências reais para as famílias que dependem da agência para garantir que as crianças não sejam expostas a resíduos tóxicos de agrotóxicos, como o glifosato.” — Caroline Leary, EWG

Os limites máximos de resíduos (LMRs, na sigla em inglês), também conhecidos como níveis de tolerância, para o glifosato em culturas alimentares têm sido alvo de controvérsia há muito tempo. Enquanto o LMR para aveia era de 0,1 ppm em 1993, ele foi elevado para 20 ppm em 1997 e novamente para 30 ppm em 2008. Os LMRs da EPA frequentemente permitem que mais resíduos de glifosato permaneçam nos alimentos nos EUA do que em muitos outros países , incluindo os da União Europeia.

Em 2013, a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) emitiu uma nova regulamentação que elevou os níveis de glifosato em oleaginosas, incluindo linhaça, gergelim e soja, de 20 ppm para 40 ppm, além de aumentar drasticamente os níveis permitidos em batata-doce e cenoura. A EPA aumentou os níveis de tolerância em resposta a pedidos da Monsanto .

A EPA está reavaliando o registro do glifosato sob a Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas (FIFRA), após ter revogado uma decisão provisória de registro em setembro de 2022. A expectativa é que a agência emita uma decisão final sobre a revisão do registro ainda este ano.

Na página da agência sobre glifosato , a EPA afirma que a presença de resíduos detectáveis ​​de agrotóxicos em alimentos não significa que esses resíduos estejam presentes em níveis inseguros.

“Devido ao seu uso generalizado, traços de resíduos de glifosato podem ser encontrados em diversas frutas frescas, vegetais, cereais e outros produtos alimentícios e bebidas. No entanto, esses traços não representam motivo de preocupação para o consumidor”, afirma a EPA em seu site.

Em sua petição de 2019, o EWG escreveu que a EPA “rejeitou indevidamente” muitos estudos científicos que ligaram o glifosato ao câncer, uma medida que “permitiu a aprovação contínua de níveis de tolerância cada vez mais altos de glifosato como resíduo em alimentos comuns”.

O processo da EWG surge no momento em que a Monsanto, fabricante do Roundup, um herbicida popular que tem o glifosato como ingrediente ativo, se prepara para uma batalha judicial em 27 de abril na Suprema Corte , na qual o tribunal deverá determinar se a lei federal prevalece sobre as exigências estaduais de rotulagem para produtos que possam prejudicar os consumidores.

Os documentos legais que apoiam a Monsanto, empresa pertencente ao conglomerado alemão Bayer, sugerem que os EUA podem enfrentar uma “devastação” agrícola e outras dificuldades caso o tribunal decida contra a empresa, enquanto os documentos contrários alertam que apoiar a Monsanto pode isentar as empresas de responsabilidade, privando os consumidores do direito de processá-las caso adoeçam gravemente após a exposição a produtos químicos perigosos.

O glifosato é usado nos EUA desde a década de 1970 e atualmente é o herbicida mais utilizado no mundo. Em um “simpósio sobre glifosato” realizado em Seattle no mês passado, cientistas de todo o mundo se reuniram para instar os órgãos reguladores dos EUA e da Europa a fortalecerem as regulamentações sobre o glifosato. Os pesquisadores examinaram estudos conduzidos na última década, concluindo que as evidências que demonstram que os herbicidas à base de glifosato podem prejudicar a saúde humana “são agora tão robustas que nenhum atraso adicional na regulamentação do glifosato pode ser justificado”.

Um grupo internacional de pesquisa sobre câncer determinou, há mais de uma década, que a substância química é “provavelmente” cancerígena para seres humanos.

Em dezembro, um artigo publicado no ano 2000, que havia sido usado como principal argumento da Monsanto na alegação de que o glifosato não causa câncer, foi retratado , com o editor da revista citando “sérias preocupações éticas”.

Imagem em destaque: Providence Doucet / Unsplash


Fonte: The New Lede

Hierarquias invertidas: salário docente e a economia política do abandono no Rio de Janeiro

Últimos lugares em salários docentes não são acaso, mas resultado de uma política que fragiliza Uerj e Uenf e compromete o desenvolvimento científico

Quem observa à distância pode até supor que a realidade salarial dos professores das universidades estaduais do Rio de Janeiro reflete um padrão nacional — especialmente quando se trata de estados que concentram o grosso da riqueza produzida no país. Essa leitura, no entanto, não resiste ao confronto com os dados.

Um levantamento recente da diretoria da Associação de Docentes da Uerj (Asduerj) desmonta essa ilusão com contundência. No ranking dos salários iniciais para professores doutores em regime de Dedicação Exclusiva, o contraste é gritante: o Pará, apenas o 12º maior PIB estadual, lidera a remuneração, enquanto Rio de Janeiro e Minas Gerais — segunda e terceira maiores economias do país — amargam as últimas posições. Não se trata de uma distorção pontual, mas de um sintoma claro de uma política sistemática de desvalorização ( ver abaixo).

No caso do Rio de Janeiro, a situação é ainda mais alarmante. O salário inicial pago na Uerj é  igual ao da Uenf, o que escancara uma dupla precarização dentro do próprio estado. Em termos concretos, isso significa que docentes altamente qualificados recebem menos do que seus pares em estados com economias significativamente menores — muitas vezes enfrentando, ainda, custos de vida mais elevados e piores condições de trabalho. É uma equação insustentável que empurra as universidades para um processo silencioso de esvaziamento.

Os dados não deixam margem para dúvidas: o que está em curso é um rebaixamento deliberado do investimento em ciência, tecnologia e formação de alto nível. O salário docente funciona, nesse sentido, como um verdadeiro “canário na mina” — um indicador sensível de um colapso mais amplo. Quando se avilta a remuneração dos professores, o que está sendo corroído é a própria capacidade do estado de produzir conhecimento, inovação e desenvolvimento. 

Diante desse quadro, não há espaço para neutralidade ou espera. É urgente intensificar o apoio à luta salarial nas universidades estaduais do Rio de Janeiro e ampliar a solidariedade à greve na Uerj, que não é apenas legítima — é necessária. No caso da Uenf, o momento exige fortalecer a mobilização em curso, elevando o nível de pressão até que o governo estadual seja efetivamente constrangido a negociar. Isso implica não apenas recompor perdas acumuladas, mas também destravar, sem mais protelações, o Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) e encaminhá-lo à Assembleia Legislativa.

A situação deixou de ser apenas preocupante — tornou-se vexatória. E, pior, tende a se agravar se não houver resposta à altura. O que está em jogo não é apenas o salário de uma categoria, mas o futuro das universidades públicas estaduais e o papel que o Rio de Janeiro pretende — ou abdica — de desempenhar no cenário científico e educacional brasileiro.

A pesquisa ambiental e seus inimigos: negacionismo, produtivismo & Cia, um debate urgente

Na última segunda-feira (20/4) tive a oportunidade de participar de um debate organizado pela Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF) que teve como título “A pesquisa ambiental e seus inimigos: negacionismo, produtivismo & Cia“. Participei desta mesa/debate com meus colegas geógrafos Marcelo Lopes de Souza (UFRJ) e Carlos Bordalo (UFPA).

Apesar da duração do debate ter extrapolado as duas horas previstas, isto ocorreu em função dos elementos que foram discutidos, mas que revolveram em torno dos impactos nefastos que o produtivismo acadêmico e o crescimento exponencial da produção de artigos que estão sendo publicados por revistas predatórias ou ainda por por “paper mills” que têm se infiltrado até em revistas científicas tradicionais.

Como Marcelo Lopes de Souza bem demonstrou a combinação de produtivismo acadêmico e a disseminação de artefatos que possuem baixa ou nenhuma qualidade científica está agravando os ataques de inimigos da ciência que se utilizam de argumentos não-científicos para avançar suas agendas anti-ambientais.  

Eu me ative a abordar o crescente problema representado pela privatização da ciência a partir da participação de grandes corporações na definição do que deve ser pesquisado, em combinação com a disseminação da pseudo-ciência que se serve das pressões impostas pelo sistema do “publicar ou perecer” que coloca mais peso na quantidade do que na qualidade das publicações científicas.

Quem desejar assistir a mesa/debate em sua integridade ou mesmo parcialmente, o vídeo completo segue abaixo.  De minha parte, considero que essa questão deverá merecer muitas outras mesas e debates, pois corremos o risco de que a empreitada científica seja desmantelada em função da quantidade de lixo que está sendo publicado como se resultassem de investigações e pesquisas que passem pelos crivos da boa ciência.

 

Após recomendação do MPF, Assentamento Campo Alegre é reconhecido no Rio de Janeiro

Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro formalizou reconhecimento, que permite acesso a políticas da reforma agrária

Foto mostra um pasto com uma cerca de arame

Foto ilustrativa: Canva

Por ASCOM/ MPF RJ 

O Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro (Iterj) acatou recomendação do Ministério Público Federal (MPF) e publicou a Portaria nº 363, que reconhece formalmente o Assentamento Campo Alegre como assentamento rural. A atuação do MPF buscou solucionar uma demanda histórica que perdurava por aproximadamente 40 anos.

A ocupação da área, localizada entre os municípios de Nova Iguaçu e Queimados, teve início em 1984, quando cerca de 600 famílias de lavradores e trabalhadores urbanos ocuparam a região em busca de moradia e trabalho. Apesar de tentativas anteriores de desapropriação pelo estado, a falta de pagamento de indenizações e a revogação de decretos impediram a formalização da área por décadas.

Na recomendação, assinada pelo procurador regional dos Direitos do Cidadão adjunto Julio Araujo, o MPF destacou que a ausência de reconhecimento formal impedia os produtores de acessar políticas públicas federais, como créditos agrícolas. O documento ressalta que a regularização é essencial para a segurança jurídica das famílias e para a pacificação de conflitos no campo, citando inclusive condenações do Estado brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos por violência rural.

O reconhecimento oficial, publicado no Diário Oficial da União, nesta sexta-feira (17), abrange uma área composta por 308 parcelas, onde residem cerca de 340 famílias de pequenos produtores. Segundo o Iterj, esses agricultores já desenvolvem atividades de subsistência e comercialização no local de forma mansa e pacífica, contando com assistência técnica e insumos fornecidos pelo órgão estadual.

Com a edição da portaria, o assentamento passa a ser tecnicamente apto a integrar a Política Nacional de Reforma Agrária. O ato administrativo determina especificamente que o reconhecimento visa possibilitar a participação dos produtores rurais de Campo Alegre como beneficiários no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

O processo de regularização foi impulsionado pelas tratativas no âmbito do Fórum da Terra, conduzido pelo MPF. O espaço de diálogo reuniu órgãos como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), o próprio Iterj e representantes das prefeituras envolvidas, além das lideranças dos assentados, para destravar as pendências administrativas que se arrastavam desde 1999.

A partir de agora, as unidades técnicas do Iterj deverão supervisionar o processo junto aos Cartórios de Registro de Imóveis competentes e órgãos municipais. Além disso, a Gerência de Assentamentos do instituto buscará junto ao Incra o registro das informações no sistema nacional, garantindo que as famílias aptas possam efetivamente contratar os créditos fundiários necessários para o desenvolvimento de suas produções.

Íntegra da portaria


Fonte:  Assessoria de Comunicação Social da Procuradoria da República no Rio de Janeiro

Plano Safra 2026/2027: entraves dificultam o acesso de povos e comunidades tradicionais ao crédito rural

Rede ÓSocioBio e Conexsus apontam que ao menos 40% dos agricultores familiares atendidos pela Rede de Ativadores de Crédito Socioambiental não conseguem acessar a documentação exigida para obter crédito. Recursos seguem concentrados na pecuária, enquanto uma parcela reduzida alcança as cadeias da sociobioeconomia

 

O acesso ao crédito rural no Brasil ainda enfrenta distorções que limitam a inclusão de agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Apesar de ser a principal política pública de financiamento do setor, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) segue concentrado em poucas atividades e regiões, deixando de alcançar cadeias produtivas ligadas à sociobioeconomia, como extrativismo, sistemas agroflorestais e pesca artesanal. 

Na prática, o crédito rural não chega de forma efetiva a uma parcela significativa dos produtores que atuam em sistemas produtivos sustentáveis, sobretudo em territórios mais isolados ou com menor presença de serviços financeiros.

Esse cenário está diretamente ligado a entraves burocráticos e operacionais que dificultam a inclusão dessas populações nas políticas públicas. Entre os principais desafios estão a exigência de documentação que muitas famílias não possuem ou têm dificuldade de atualizar, como o Cadastro da Agricultura Familiar (CAF), além da baixa oferta e baixa remuneração de assistência técnica para elaboração dos projetos de financiamento.

Em territórios mais remotos, as dificuldades são ainda maiores. Na fase pós crédito, há casos em que produtores não conseguem comprovar despesas por falta de nota fiscal — comum em regiões onde insumos são adquiridos em pequenos comércios locais ou de forma informal. Também há limitações logísticas, como longas distâncias até agências bancárias, acesso precário à internet e falta de orientação técnica contínua, o que acaba afastando parte das famílias das linhas de crédito disponíveis.

O CAF é um documento indispensável para o acesso a linhas de financiamento voltadas à agricultura familiar, como o Pronaf, permitindo acesso a recursos para produção, infraestrutura e comercialização, além de viabilizar a participação em programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Apesar dos avanços recentes, os dados mostram que o financiamento rural ainda apresenta forte concentração produtiva e regional. Atualmente, cerca de 70% dos recursos do Pronaf estão concentrados na região Sul e Sudeste, enquanto mais de 85% das operações seguem vinculadas à pecuária, evidenciando um descompasso entre a política de crédito e a diversidade produtiva dos territórios brasileiros.

“O excesso de exigências burocráticas seguem excluindo povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares das políticas públicas que deveriam fortalecê-los. É urgente adequar o Pronaf à realidade dos territórios, ampliando o acesso ao financiamento para as cadeias da sociobioeconomia. Garantir esse acesso é fundamental para gerar renda, valorizar os modos de vida e manter a floresta em pé como estratégia de desenvolvimento para o país”, afirma Laura Souza, secretária executiva do ÓSocioBio.

Na região Norte por exemplo, 85,4% do volume de recursos do Pronaf em 2025 foi destinado à pecuária, enquanto menos de 8% chegaram às cadeias da sociobioeconomia, como cacau, açaí, castanha-do-Brasil, óleos vegetais, pesca artesanal e sistemas agroflorestais. Apesar do aumento do percentual de operações para os produtos da sociobiodiversidade quando comparado ao ano 2024, as operações dessa categoria concentram-se em 53% na cadeia do cacau. Esse movimento está associado ao aumento expressivo do preço do cacau, e consequentemente, o interesse de famílias em operações de crédito para essa cadeia produtiva.

Esse cenário reforça a necessidade de ajustes estruturais no Plano Safra 2026/2027 para garantir maior equilíbrio na distribuição do crédito rural e ampliar o acesso às atividades ligadas ao uso sustentável da biodiversidade e de outros produtos da sociobiodiversidade ainda pouco financiados.

“A sociobioeconomia representa uma oportunidade estratégica para o Brasil. São cadeias produtivas de alto valor que geram renda, fortalecem comunidades rurais e contribuem para manter a floresta em pé. Ampliar o acesso ao crédito para essas atividades significa transformar a biodiversidade em desenvolvimento sustentável”, afirma Fernando Moretti, diretor de Políticas da Sociobioeconomia da Conexsus.

Segundo ele, ainda há um desalinhamento entre o desenho do crédito rural e a realidade produtiva de muitas comunidades. “Superar essas barreiras é essencial para que agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais possam ampliar sua produção e fortalecer suas economias locais”, diz.

Além da concentração de recursos, outro desafio central é o acesso à documentação. Estimativas da Conexsus, com uma base de dados de mais de 5 mil famílias de agricultores familiares, principalmente povos e comunidades tradicionais, indicam que cerca de 40% das famílias da sociobioeconomia declararam não possuir CAF ativo, o que limita o acesso ao crédito rural e a outras políticas públicas. Esse percentual é semelhante ao identificado em diagnósticos recentes sobre a bioeconomia amazônica. Estudos da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia, NatureFinance e WRI Brasil apontam que aproximadamente 40% das famílias envolvidas nas cadeias da sociobiodiversidade na Amazônia ainda não possuem CAF ativo, o que limita o acesso ao crédito rural e a políticas públicas voltadas à agricultura familiar e à sociobiodiversidade.

Diante desse cenário, especialistas e organizações que atuam no tema apontam que o Plano Safra 2026/2027 será decisivo para reorientar o crédito rural e ampliar o acesso às cadeias produtivas sustentáveis.

Entre as principais expectativas para este ano estão a ampliação do número de operações de crédito voltadas à sociobioeconomia, com crescimento em todas as regiões do país, além da adoção de critérios que garantam maior participação dessas atividades na destinação dos recursos.

Também está no radar a expansão e descentralização da emissão do Cadastro da Agricultura Familiar (CAF), considerada essencial para ampliar o acesso ao financiamento, e o fortalecimento da assistência técnica, com maior cobertura e remuneração adequada aos profissionais que atuam diretamente nos territórios.

Outro ponto considerado estratégico é a criação de mecanismos de garantia que facilitem o acesso ao crédito por cooperativas e negócios comunitários, além de incentivos para que instituições financeiras ampliem a oferta de financiamento para essas cadeias produtivas.

Para especialistas do setor, a adoção dessas medidas pode transformar o Pronaf em um instrumento mais eficiente de desenvolvimento sustentável, ao alinhar geração de renda, inclusão produtiva e conservação ambiental.

“Quando essas economias ganham escala, os impactos são múltiplos: geração de renda, valorização dos territórios e conservação dos ecossistemas”, afirma Moretti.

Mais do que ampliar recursos, o desafio central está em reorientar o crédito rural, tornando-o mais acessível, inclusivo e alinhado às demandas da agricultura familiar e das economias da floresta.

Tecnologia tenta aproximar comunidades do crédito

Uma das iniciativas recentes para facilitar o acesso ao crédito rural é um aplicativo desenvolvido pela Conexsus para conectar cooperativas e negócios comunitários às linhas de financiamento do Pronaf para seus associados.

A ferramenta funciona como uma plataforma digital de apoio para cadastro e elaboração de projetos de crédito, organizar documentos e facilitar a interlocução entre comunidades, negócios comunitários e instituições financeiras.

Além de facilitar o acesso ao crédito, a iniciativa contribui para estruturar cadeias produtivas da sociobioeconomia e fortalecer Negócios Comunitários que atuam em territórios da sociobioeconomia.

Sobre a Conexus

O Instituto Conexões Sustentáveis – Conexsus atua na promoção da conexão dos negócios comunitários com os mercados, sejam locais, regionais, nacionais ou internacionais, disponibilizando acesso a investimentos financeiros customizados, aliados à orientação técnica voltada a melhoria da maturidade organizacional e o desenvolvimento de sua base de associados.

Sobre o Ósociobio

O Observatório das Economias da Sociobiodiversidade é uma rede que nasceu em meio ao contexto político-eleitoral, em junho de 2022, para demarcar um espaço em defesa das economias dos povos e seus territórios, e se tornar um interlocutor necessário na construção e fortalecimento de políticas públicas orientadas para a sociobiodiversidade, agregando experiências, conhecimentos, habilidades e capacidades de nossos membros, parceiros e colaboradores.

Incêndios, secas e tempestades de vento tornam vegetação da Amazônia menos diversa, mostra estudo publicado na PNAS

Estudo liderado por brasileiros mostra substituição de espécies por generalistas, sem tendência de savanização; porém, áreas recuperadas são mais vulneráveis

Pesquisa foi realizada com base em 20 anos de monitoramento de campo (foto: Paulo Brando).

Por Luciana Constantino  para “Agência FAPESP” 

Mesmo após incêndios, secas severas e tempestades de ventos, a vegetação de florestas degradadas na Amazônia demonstra alta capacidade de regeneração, incluindo espécies arbóreas. A recuperação, no entanto, ocorre sob novas condições ecológicas, com perda de diversidade e aumento de vulnerabilidade a novos distúrbios.

Pesquisa publicada na segunda-feira (20/04) na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), uma das revistas científicas mais citadas no mundo, mostra que há substituição de espécies vulneráveis por outras generalistas, mais resistentes. Indica, assim, segundo os autores, a formação de florestas homogêneas, mas não uma tendência à savanização, como parte da literatura científica vinha apontando. Esse processo reforça a resiliência do bioma.

Por outro lado, o estudo, realizado com base em 20 anos de monitoramento de campo e liderado por brasileiros, destaca que as áreas recuperadas são mais vulneráveis a eventos extremos cada vez mais frequentes no bioma e aos impactos do desmatamento e das mudanças climáticas. Além de intensificar secas e incêndios, o aquecimento global prejudica os serviços ecossistêmicos, como a regulação de água e a captura de carbono.


O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010) (foto: Paulo Brando)

De acordo com os pesquisadores, essa compreensão é fundamental para orientar a conservação florestal e as estratégias de mitigação, especialmente frente a eventos como o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial que provoca alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.

“A principal mensagem do nosso estudo é que, mesmo altamente degradadas, as florestas conseguem se recuperar. No entanto, estão muito vulneráveis a novos distúrbios. Elas são resilientes, mas, mesmo assim, é preciso preservar. No sítio experimental, temos o controle e o fogo não ocorre mais na área, o que não é possível fazer na Amazônia toda”, pondera à Agência FAPESP o biólogo Leandro Maracahipes, primeiro autor do artigo juntamente com o engenheiro florestal Paulo Brando.

O trabalho é resultado do pós-doutorado de Maracahipes no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp). Atualmente, ele é pesquisador na Yale School of the Environment (Estados Unidos) e também colaborador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). O biológo e Brando têm apoio da FAPESP, respectivamente, por meio de Bolsa de Pós-Doutorado e Projeto Temático.

Acompanhamento

O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010). Cada uma delas está próxima a áreas agrícolas, que eram utilizadas como pastagem com gramíneas exóticas.

“A escolha do lugar é chave, já que modelos climáticos consideram que a região de transição da Amazônia para o Cerrado será a primeira a sofrer mudanças com os impactos do aquecimento global. Essa pesquisa é inovadora porque integra múltiplos fatores estressantes, como fogo, vento forte e seca, e mostra que a floresta sofreu, se degradou e depois voltou. Mais empobrecida de espécies, porém ainda com características de floresta”, explica o ecólogo e professor do IB-Unicamp Rafael Silva Oliveira.


Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, as gramíneas reduziram drasticamente. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana (foto: Paulo Brando)

Também autor do artigo e então supervisor de Maracahipes no pós-doutorado, Oliveira complementa: “Outro ponto importante é que as árvores cresceram e as gramíneas saíram, sem evidência de savanização. Os modelos criados pelos climatólogos foram úteis para alertar sobre os riscos à Amazônia, mas simplificaram os ecossistemas tropicais, reduzindo-os à floresta ou à savana. Isso ajudou a fortalecer a ideia de um ‘ponto de não retorno’, ainda pouco sustentada por dados de campo. Na prática, a Amazônia é muito mais diversa, com diferentes tipos de florestas e vulnerabilidades. Ao incorporar esse olhar biológico, mostramos uma Amazônia menos previsível e mais resiliente em algumas regiões do que os modelos sugerem”.

Oliveira também teve apoio da FAPESP por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).

Passo a passo

Os resultados mostraram que, com a suspensão das queimadas, a recuperação da estrutura e do funcionamento da floresta foi rápida em seu interior, com diversidade de espécies relativamente estável.

Já nas áreas de borda o processo foi mais lento, com riqueza de espécies caindo de 20% a 46%, entre 2004 e 2024. O efeito de borda é uma alteração ecológica que ocorre nas margens de áreas desmatadas, onde a floresta passa a ter contato direto com ambientes abertos, como pastagens, estradas ou lavouras, alterando o clima e a biodiversidade.

Apesar da recuperação de alguns serviços ecossistêmicos, como fluxos de carbono e de água, com o crescimento de vegetação após os incêndios a composição de espécies mudou. Passou a ter mais generalistas, com características de tolerância à seca, mas que estão operando em limiares perigosos. A composição original de espécies não retornou mesmo após 14 anos, principalmente das consideradas especialistas de floresta.

As gramíneas foram fator-chave para promover fogos de alta intensidade e impediram a regeneração de árvores, tendo inicialmente se expandido ao longo das bordas. Foram observadas espécies ligadas a áreas de pastagens, como Aristida longifolia e Imperata sp, de origem africana. Após incêndios de alta severidade, gramíneas invasoras, especialmente Andropogon gayanus, entraram nas bordas, atingindo o pico em 2012.

Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, elas foram reduzidas drasticamente, ficando apenas manchas de gramíneas tolerantes à sombra. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana.

“Olhando para a parte biológica, quando analisamos a composição de espécies de gramíneas na floresta que passou por distúrbios, vemos que são espécies utilizadas em pastagem, como braquiária e andropogon. Se o aumento fosse de espécies nativas, poderíamos dizer que o componente graminoso seria um fator importante na recuperação de florestas degradadas. Além disso, não há chegada de espécies lenhosas de savana. Nosso sítio experimental está a cinco quilômetros de áreas de savana do Cerrado, podendo ter fonte de propagação, e mesmo assim não registramos essa savanização”, complementa Maracahipes, que fez análise da composição das espécies ao longo dos anos no local.

A pesquisa mostrou ainda que a vulnerabilidade da floresta ao fogo aumenta por causa da casca fina das árvores; enquanto a baixa densidade da madeira prejudica mais em tempestades de vento. Nas secas severas algumas espécies operam próximo ao potencial de perda da condutividade hidráulica.

Um ponto que se mostrou importante na regeneração florestal foi a presença de fauna local, sendo mamíferos (como antas e macacos) e aves agentes-chave para promover o reaparecimento de árvores consideradas “especialistas de florestas”, ou seja, com alta densidade de madeira e de vida longa.

Cenário

Mesmo com uma queda significativa do desmatamento na Amazônia principalmente nos últimos dois anos, o bioma vem sofrendo com degradações constantes. O fogo tem sido o principal fator. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo.

Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, o desmatamento na Amazônia Legal afetou uma área de 1.324 quilômetros quadrados (km²), com uma redução de 35% em comparação ao ciclo anterior (agosto de 2024 a janeiro de 2025). Já a degradação florestal atingiu uma área de 2.923 km² no período.

Nos primeiros três meses de 2026, foi registrado o segundo menor nível para o primeiro trimestre do ano – 399,59 km², o que representa queda de cerca de 7% em relação a 2025. Os dados são do Deter, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de alerta de desmatamento em tempo real.

Para este ano, outra preocupação é com a possibilidade de um “super El Niño” a partir do segundo semestre até 2027. Novas projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo apontam para a possibilidade de um fenômeno com potencial para ser o mais intenso em 140 anos. Em 2024, a seca que afetou a Amazônia foi provocada pelo El Niño e seus efeitos vêm sendo estudados até hoje.

“Apesar da resiliência da floresta, a preservação ainda é o caminho que precisamos buscar”, conclui Maracahipes.

O artigo Forest recovery pathways after fire, drought and windstorms in southeast Amazonia pode ser lido em: pnas.org/doi/10.1073/pnas.2532833123.


Fonte: Agência Fapesp