Grilagem S.A.: como a privatização ilegal de terras públicas alimenta a destruição da Amazônia

Artigo publicado na revista Environmental Science & Policy mostra que a grilagem funciona como uma engrenagem organizada que conecta especulação fundiária, desmatamento, violência e captura do Estado, transformando a floresta em ativo financeiro

O artigo “Forms of land grabbing in the Amazon: From land deals to illegal land appropriation, assinado por Rayane Pacheco, Natalia Valdivieso Kastner e Amy Penfield e publicado na revista Environmental Science & Policy (Elsevier, 2026), oferece uma das sínteses mais abrangentes já produzidas sobre um dos principais motores da devastação amazônica: a apropriação privada de terras públicas,  popularmente conhecida  como grilagem.

Mais do que uma revisão bibliográfica, o trabalho demonstra que a disputa pela terra na Amazônia não pode ser reduzida à simples expansão da fronteira agrícola ou a conflitos fundiários isolados. Trata-se de um sistema complexo de acumulação de riqueza baseado na privatização ilegal de bens públicos, na expulsão de populações tradicionais e na transformação da floresta em ativo financeiro.

Um dos maiores méritos do artigo é mostrar que o conceito de land grabbing (“apropriação de terras”) precisa ser ampliado para abarcar diferentes modalidades de controle territorial. As autoras identificam duas grandes categorias: os land deals, que envolvem grandes aquisições ou concessões de terras por governos e corporações, e os land seizures ou encroachments, que correspondem à ocupação e apropriação ilegal de terras públicas ou privadas por grupos privados.

Essa distinção é particularmente importante para compreender a realidade brasileira. Enquanto boa parte da literatura internacional associa o land grabbing à compra de grandes extensões por investidores estrangeiros, na Amazônia o fenômeno assume predominantemente a forma da grilagem de terras públicas, realizada por agentes nacionais ligados ao agronegócio, à mineração, à exploração madeireira e à especulação fundiária.

Os dados reunidos pelas autoras são eloquentes. A revisão analisou 219 publicações produzidas entre 1982 e 2026 e constatou que 83% dos estudos concentram-se no Brasil. Entre eles, 44,5% tratam especificamente da apropriação ou ocupação ilegal de terras, sendo a forma mais recorrente a privatização de áreas públicas por atores privados.

O artigo desmonta ainda um dos mitos mais difundidos sobre a ocupação da Amazônia: o de que a destruição da floresta seria resultado da ação espontânea de pequenos agricultores ou posseiros. Pelo contrário, as autoras mostram que a grilagem moderna funciona como uma verdadeira cadeia empresarial.

Existe uma divisão organizada de funções. Há financiadores que aportam capital, gestores responsáveis pela falsificação documental e pela coordenação das operações, pistoleiros encarregados da expulsão violenta de moradores e comunidades tradicionais, “laranjas” utilizados para registrar propriedades fictícias e colaboradores instalados dentro do próprio aparelho estatal, incluindo cartórios, órgãos públicos e agentes políticos.

Essa descrição aproxima-se muito do conceito de máfia da terra, utilizado por diversos pesquisadores brasileiros e estrangeiros e citado pelas autoras. Não se trata de criminalidade difusa, mas de uma estrutura organizada que conecta interesses econômicos, violência privada e fragilidades institucionais.

Outro aspecto extremamente relevante é a descrição da sequência operacional da grilagem.  Primeiro ocorre a ocupação da área pública. Em seguida vem a extração seletiva de madeira de alto valor comercial. Depois realiza-se a derrubada e a queima da floresta, convertendo-a em pastagem. A presença de gado, por sua vez, funciona como demonstração de “uso produtivo” da terra, aumentando seu valor de mercado e fortalecendo futuras reivindicações de regularização fundiária. Finalmente, a área é registrada, subdividida e revendida para grandes empreendimentos agropecuários ou investidores.  Essa sequência revela uma constatação incômoda: o desmatamento não é um efeito colateral da ocupação territorial; ele é parte integrante da estratégia de apropriação da terra.

Nesse sentido, o artigo dialoga diretamente com uma vasta literatura brasileira que identifica a especulação fundiária como um dos principais motores da devastação amazônica. Derrubar a floresta significa produzir uma “benfeitoria” que valoriza economicamente o imóvel e aumenta suas chances de futura regularização.

As autoras também oferecem uma análise particularmente interessante sobre o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Criado originalmente como instrumento de monitoramento ambiental, o sistema passou a ser utilizado por grileiros como uma espécie de comprovação informal de posse.

Por ser um cadastro autodeclaratório, o CAR permite que ocupantes ilegais registrem áreas públicas em seu nome, criando uma aparência de legalidade que posteriormente pode servir como argumento para obtenção de títulos definitivos ou acesso a crédito rural. O resultado é um paradoxo institucional: um mecanismo concebido para proteger a floresta acaba sendo apropriado como ferramenta de expansão da grilagem.

O texto também destaca como mudanças legislativas, anistias sucessivas e discursos políticos favoráveis à flexibilização ambiental contribuem para alimentar expectativas de impunidade. Quando invasões passadas são posteriormente regularizadas, cria-se um incentivo permanente para novas ocupações ilegais.

Talvez a principal contribuição do artigo seja demonstrar que a grilagem não pode ser interpretada apenas como um problema fundiário ou ambiental. Ela representa um mecanismo de acumulação de capital baseado na privatização de patrimônio público, articulando especulação imobiliária, expansão do agronegócio, exploração madeireira, mineração, lavagem de dinheiro e violência contra povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores.

As recomendações apresentadas pelas autoras são claras: destinar imediatamente as florestas públicas ainda não designadas para unidades de conservação ou territórios indígenas; fortalecer os sistemas de regularização fundiária sem premiar ocupações ilegais; integrar cadastros ambientais e registros de propriedade; interromper sucessivas mudanças legais que enfraquecem a proteção territorial; e investigar os esquemas financeiros que sustentam a grilagem e a lavagem de dinheiro.

O trabalho de Pacheco, Kastner e Penfield é particularmente oportuno porque evidencia que a Amazônia continua sendo tratada como uma fronteira aberta para a acumulação privada, onde o patrimônio coletivo é convertido em riqueza particular por meio da violência, da fraude documental e da captura das instituições públicas.

No fim das contas, a grilagem não é apenas uma disputa pela terra. É uma disputa pelo futuro da Amazônia. Enquanto a apropriação privada de terras públicas permanecer sendo um negócio altamente lucrativo e politicamente tolerado, o avanço do desmatamento continuará sendo menos um problema ambiental do que uma consequência previsível de um modelo de desenvolvimento baseado na mercantilização da floresta e na expulsão daqueles que historicamente a preservaram.

Inteligência Artificial: a nova corrida do ouro que pode nos deixar sem água

Enquanto grandes corporações acumulam fortunas com a expansão acelerada da IA, pouco se discute sobre seus custos ambientais, a substituição do trabalho humano e a crescente captura do próprio fazer científico

O uso disseminado da chamada Inteligência Artificial (IA) é a principal transformação que vem ocorrendo no mundo científico, afetando, por assim dizer, o conjunto da obra. Não se trata mais de usar a IA para realizar correções linguísticas pontuais, mas até mesmo para escrever textos inteiros, incluindo o desenvolvimento de hipóteses e questões de pesquisa.

Os defensores da IA veem esse processo de captura do fazer científico como uma espécie de chegada de uma nova pedra filosofal, pois haveria um ganho não apenas de tempo, mas também na complexidade dos desafios que se poderiam enfrentar na realização da empreitada científica. É como se, do nada, estivéssemos entrando em uma nova idade de ouro da ciência.

A questão que esses apologistas da IA não fazem, nem querem que se faça, é a seguinte: quem ganha — e aí eu digo economicamente — com toda essa aceleração? Claramente, as grandes corporações econômicas que hoje monopolizam a produção dos algoritmos que impulsionam as diferentes ferramentas que cabem sob a sombrinha da IA. São essas corporações que estão especulando com a IA e, por enquanto, amealhando grandes fortunas com a sensação de que temos ganhos produtivos decorrentes dessa corrida.

Por outro lado, quem perde e o que se perde? Os perdedores são, essencialmente, os trabalhadores que estão vendo suas oportunidades de trabalho serem diminuídas pelo uso da IA. Mas pouco se fala sobre os custos ambientais trazidos pelo boom da IA, a começar pelo consumo exagerado de água, em um momento em que as reservas planetárias já estão se escasseando, inclusive no Brasil.

Como em qualquer onda gerada pela máquina capitalista, existe uma certa euforia em torno da IA. E é justamente por isso que precisamos ter um olhar crítico, e não um de mero deslumbre, sobre as ferramentas de IA. Ainda que não se possam ignorar os ganhos pontuais que se obtêm com a IA, o que não se pode esquecer é que o desenvolvimento intelectual humano ainda possui grande potencial de crescimento, e não há sequer necessidade de uma substituição sistemática da capacidade crítica que os seres humanos possuem.

Por isso, como em muitas outras situações atravessadas pela hegemonia capitalista, esse boom da IA precisa ser compreendido pelo que é e pelos custos que carrega. Do contrário, daqui a pouco não teremos água nem para o cafezinho, enquanto os donos das corporações de IA se afogam em suas fortunas.

Por outro lado, a inteligência humana sempre avançou porque aprendeu a construir ferramentas. O problema nunca foram as ferramentas, mas quem as controla, quem se apropria de seus benefícios e quem é obrigado a suportar seus custos socioambientais. A IA pode ampliar a capacidade humana de produzir conhecimento ou acelerar sua captura pelo capital. A diferença entre um caminho e outro não será decidida pelos algoritmos, mas pela  luta política e pelas decisões que sejam tomadas em sociedade.

Festival das Águas ou Festival do Greenwashing?

Patrocinado pelo Porto do Açu, Ferroport, Vast e Sinopec e financiado também com recursos públicos da Lei Rouanet, o FASA expõe a contradição de celebrar os saberes das águas enquanto silencia os impactos sofridos por agricultores familiares e pescadores artesanais de São João da Barra

Há algo profundamente contraditório na realização do FASA – Festival de Artes e Saberes das Águas Um evento que se apresenta como espaço de valorização da cultura das águas, dos saberes tradicionais e da preservação ambiental escolheu como principais patrocinadores justamente algumas das empresas que mais transformaram – e em muitos aspectos degradaram – as relações históricas entre a população local e seu território.

Entre os patrocinadores aparecem o Porto do Açu, a Ferroport  e a Vast , corporações cuja presença está diretamente associada à implantação de um dos maiores complexos portuário-industriais do país. Trata-se do mesmo empreendimento que provocou a desapropriação de milhares de hectares de terras agrícolas, atingiu centenas de famílias de agricultores familiares e alterou profundamente as condições de vida e trabalho de pescadores artesanais que dependiam das lagoas, canais e do litoral de São João da Barra.

É impossível celebrar os “saberes das águas” ignorando aqueles que construíram esses saberes ao longo de gerações e que tiveram seu modo de vida profundamente afetado pela expansão industrial. A cultura das águas não existe dissociada dos pescadores, marisqueiras, agricultores e comunidades tradicionais que fazem desse território um espaço vivo. Transformá-la em espetáculo patrocinado por grandes corporações significa esvaziar seu conteúdo social e político.

A contradição torna-se ainda mais evidente quando se observa que o festival também conta com recursos da Lei Rouanet e com o apoio institucional do Ministério da Cultura e do Governo Federal. Em vez de fortalecer iniciativas verdadeiramente enraizadas nas comunidades atingidas, recursos públicos acabam conferindo legitimidade a uma operação de marketing institucional que beneficia empresas interessadas em melhorar sua imagem perante investidores nacionais e estrangeiros.

Não se trata de negar a importância da arte, da música ou da valorização da cultura local. Pelo contrário. O problema é permitir que um discurso de sustentabilidade e valorização das águas seja utilizado como instrumento de “greenwashing” e de limpeza reputacional por grupos econômicos cuja trajetória em São João da Barra é marcada por conflitos territoriais, expropriações e pela precarização de modos de vida tradicionais.

Se o objetivo é celebrar as águas, talvez o primeiro passo fosse ouvir aqueles que perderam o acesso às suas lagoas, aos seus campos, aos seus caminhos e às suas áreas de pesca. Afinal, a memória das águas também carrega as marcas das cercas, das desapropriações e dos processos de desterritorialização que ainda hoje moldam a realidade do município.

Um festival dedicado às águas deveria ser um espaço de memória, justiça e reparação. Quando se transforma em vitrine para grandes corporações, corre o risco de substituir a voz das comunidades pelo marketing empresarial, convertendo cultura em ativo reputacional e patrimônio coletivo em estratégia de relações públicas.

Pesquisa da UFSCar aponta que peixes invasores estão reconfigurando ecossistemas aquáticos globais

Estudo de pós-doutorado analisou comunidades de peixes em 402 lagos de regiões tropicais, subtropicais e temperadas

(Foto: Magnific)

Espécies invasoras estão alterando profundamente a estrutura de comunidades aquáticas ao redor do mundo, modificando a proporção entre peixes de diferentes tamanhos e reduzindo a biomassa de espécies nativas, sobretudo as menores e juvenis. É o que aponta um estudo desenvolvido na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no âmbito de um pós-doutorado financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).  

A pesquisa analisou 667 comunidades de peixes em 402 lagos distribuídos por regiões tropicais, subtropicais e temperadas do mundo e identificou que os impactos das invasões biológicas variam conforme a temperatura dos ambientes e o nível trófico das espécies invasoras.

A base de dados foi construída a partir de levantamentos em estudos já existentes e do contato com especialistas e grupos de pesquisa nacionais e internacionais. Ao todo, foram compiladas informações sobre o tamanho e peso corporal de quase 637 mil peixes.

“A diferença entre o número de comunidades e o de lagos ocorre porque alguns lagos puderam ser amostrados em diferentes anos. Assim, cada amostragem representa uma comunidade distinta, ou seja, um retrato da estrutura da comunidade, com organismos nativos coexistindo com espécies invasoras em um momento específico. Essa dependência entre amostras do mesmo lago foi posteriormente considerada nas análises estatísticas”, contextualiza Barbbara da Silva Rocha, pesquisadora de pós-doutorado vinculada ao Departamento de Ciências Ambientais (DCAm) da UFSCar, sob supervisão de Victor Saito, docente do DCAm.

Segundo Rocha, para garantir comparabilidade entre os ecossistemas, foram selecionados apenas trabalhos que utilizaram métodos semelhantes de coleta. “Variáveis ambientais, como profundidade, área, temperatura e concentração de nutrientes no lago, também foram incorporadas às análises”, explica a pesquisadora.

O estudo identificou que comunidades submetidas a maior pressão de invasão apresentam uma estrutura de tamanho mais “plana”. Na prática, isso significa que a diferença entre a quantidade de peixes pequenos e grandes diminui. 

“Em ecossistemas saudáveis, normalmente há muitos peixes pequenos e poucos peixes grandes. O que observamos é que as espécies invasoras alteram esse padrão, aumentando proporcionalmente a abundância de peixes grandes ou reduzindo a de peixes nativos menores. Com isso, o número de indivíduos passa a diminuir de forma menos pronunciada à medida que o tamanho dos peixes aumenta, resultando em uma configuração mais ‘plana’ da estrutura de tamanho da comunidade”, detalha Rocha.

Ecologicamente, esse resultado é importante porque o tamanho corporal dos peixes está diretamente relacionado ao funcionamento desses ecossistemas. “Mudanças na distribuição dos tamanhos dos peixes na comunidade podem alterar a intensidade das relações tróficas, a transferência de energia no ambiente e, consequentemente, a estabilidade das comunidades aquáticas”.

A pesquisadora observou que todas as espécies invasoras avaliadas causam impactos negativos sobre as comunidades nativas, mas de maneiras distintas. “Em geral, as invasões tornam a estrutura de tamanho das comunidades mais ‘plana’ e reduzem a biomassa das espécies nativas. No entanto, a intensidade desses efeitos varia conforme o tipo de invasor e a temperatura do ambiente”, relata.

Nos lagos mais quentes, o impacto dos peixes predadores (piscívoros) sobre a estrutura das comunidades foi mais intenso. Já em ambientes frios e menos produtivos, invasores de níveis mais baixos da cadeia alimentar – como herbívoros (que se alimentam de plantas aquáticas), onívoros (que se alimentam principalmente de ambos plantas e pequenos invertebrados) e detritívoros (que consomem matéria orgânica em decomposição) – provocaram reduções mais severas na biomassa das espécies nativas, principalmente por competirem pelos recursos disponíveis.

Segundo Rocha, o aumento da temperatura acelera o metabolismo dos peixes predadores invasores, elevando sua necessidade de alimento e intensificando a pressão sobre as espécies nativas menores. “Como os pequenos peixes nativos são alvos mais abundantes e fáceis de capturar, a pressão de predação se concentra desproporcionalmente sobre eles”, descreve.

Nos ambientes mais frios, por outro lado, o problema parece estar menos relacionado à predação e mais à competição. Como a disponibilidade de recursos na base da cadeia alimentar tende a ser menor, espécies invasoras herbívoras, onívoras e detritívoras conseguem superar os peixes nativos na disputa por alimento, reduzindo significativamente sua biomassa. 

Esse conjunto de impactos afeta principalmente os peixes menores e os indivíduos juvenis das espécies nativas, criando o que os pesquisadores descrevem como uma possível “zona de exclusão ecológica” para essas classes de tamanho. Segundo Rocha, o processo pode interromper a renovação natural das populações ao impedir que indivíduos jovens alcancem a fase reprodutiva, além de ameaçar espécies endêmicas. 

“A perda desses peixes menores pode afetar diretamente a qualidade da água, além de comprometer estoques pesqueiros importantes para a alimentação e subsistência humana”, aponta a pesquisadora.

Para os autores, os dados reforçam a necessidade de estratégias de conservação e manejo que considerem simultaneamente o contexto climático e o papel ecológico das espécies invasoras. 

“Os resultados mostram que estratégias de monitoramento e controle precisam levar em conta tanto as características do ambiente quanto o tipo de invasor presente. Compreender essa interação permite direcionar esforços de conservação de forma mais eficiente e antecipar riscos à biodiversidade antes que os impactos se tornem irreversíveis”, finaliza Rocha. 

O estudo deu origem ao artigo intitulado “Invasive fishes interact with temperature to reshape community size structure across climatic zones“, publicado na revista Global Change Biology, em colaboração com pesquisadores de instituições do Brasil, Espanha, Canadá, Reino Unido e França. O acesso pode ser feito em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1111/gcb.70884, onde também estão disponíveis informações completas sobre os demais autores.

Procurador-Geral do Texas está investigando a Bayer e a PepsiCo por contaminação de produtos alimentícios por glifosato

Por Sustainable Pulse 

O procurador-geral do Texas, Ken Paxton, anunciou uma investigação abrangente para combater o grave problema dos resíduos de glifosato nos alimentos, que, segundo seu gabinete, “coloca a saúde dos americanos e das crianças em risco”.

Este anúncio surge após o gabinete do Procurador-Geral Ken Paxton ter emitido Mandados de Investigação Civil (“CIDs”) a importantes fabricantes de agrotóxicos e alimentos, incluindo a Bayer e a PepsiCo.

O glifosato é o principal ingrediente do herbicida Roundup. É um herbicida amplamente utilizado em culturas geneticamente modificadas. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer determinou que o glifosato é um provável carcinógeno humano. Desde então, extensas pesquisas em humanos e animais demonstraram que o glifosato contribui para disfunções endócrinas, infertilidade, doenças renais e doenças autoimunes, além de suas propriedades cancerígenas.

Mais de 250 milhões de libras de glifosato são pulverizadas nos Estados Unidos a cada ano. Pesquisas constataram que mais de 70% dos adultos americanos apresentam traços detectáveis ​​de glifosato em seus corpos, em comparação com apenas 12% em 1993.

Os cientistas atribuem grande parte desse aumento drástico ao uso generalizado do glifosato como dessecante. A dessecação é a prática de aplicar herbicidas como o Roundup nas plantações pouco antes da colheita, para que sequem uniformemente. Essa prática contribui com mais de 90% do glifosato encontrado nos alimentos, principalmente em produtos alimentícios que contêm aveia, trigo, girassol e leguminosas.

Embora a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) proíba o uso de glifosato como dessecante em aveia nos Estados Unidos, o uso não autorizado ocorre e grandes empresas alimentícias também obtêm seus ingredientes de países estrangeiros onde essa prática é amplamente difundida.

A aveia é um alimento comum em cereais, barras de cereais e biscoitos, o que torna as crianças particularmente vulneráveis ​​aos malefícios do glifosato. De fato, estudos mostram que certos produtos alimentícios comercializados para crianças estão entre os mais contaminados por glifosato nos Estados Unidos. Outros produtos são comercializados como “saudáveis” quando os fabricantes sabem que estão contaminados com níveis perigosamente altos de glifosato. Pesquisas indicam ainda que crianças entre um e dois anos de idade têm a maior exposição alimentar ao glifosato em comparação com qualquer outra faixa etária.

“Se alguma empresa estiver usando brechas na legislação para envenenar nossas crianças com glifosato, nós descobriremos e buscaremos justiça”, disse Paxton.

“Meu gabinete também está investigando se as principais empresas alimentícias estão cumprindo a lei do Texas e se os consumidores, especialmente os pais, foram enganados sobre os benefícios para a saúde de produtos alimentícios comuns comercializados para suas famílias. Nenhuma corporação está acima da lei e nenhuma ação ilegal ficará impune”, concluiu ele.


Fonte: Sustainable Pulse

A sede da inteligência artificial: a revolução digital pode consumir água suficiente para abastecer 1,3 bilhão de pessoas

Relatório da Universidade das Nações Unidas alerta que a expansão acelerada da IA depende de enormes volumes de água para resfriar centros de dados e produzir eletricidade, expondo um custo ambiental praticamente ausente do debate público sobre o futuro da tecnologia

Antes de mais nada, é preciso desfazer uma das ilusões mais difundidas sobre a  inteligência artificial: a de que ela pertence a um universo puramente digital, etéreo e praticamente sem impactos materiais. A popularização de ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e análises complexas em questão de segundos criou a percepção de que estamos diante de uma tecnologia “limpa”, cuja principal matéria-prima seria apenas informação. Entretanto, um relatório recentemente publicado pelo United Nations University Institute for Water, Environment and Health (UNU-INWEH), intitulado The Environmental Cost of AI’s Energy Use: Carbon, Water and Land Footprints, demonstra que essa percepção está profundamente equivocada. Por trás da aparente simplicidade de uma pergunta feita a um chatbot existe uma infraestrutura gigantesca composta por centros de dados, redes elétricas, sistemas de refrigeração, cadeias globais de mineração e uma crescente demanda por terras e recursos naturais.

O relatório chega em um momento particularmente oportuno, quando governos e grandes empresas anunciam investimentos bilionários em inteligência artificial como se esta fosse a solução para praticamente todos os desafios contemporâneos. A narrativa dominante enfatiza ganhos de produtividade, inovação e crescimento econômico, mas dedica pouca atenção aos custos ambientais associados a essa expansão acelerada. Ao contrário do discurso corporativo, os pesquisadores da Universidade das Nações Unidas lembram que a inteligência artificial possui uma materialidade muito concreta: ela consome eletricidade, utiliza enormes volumes de água para resfriar servidores, depende da extração de minerais estratégicos e ocupa áreas cada vez maiores destinadas à construção de centros de processamento de dados.

Uma das principais contribuições do estudo é justamente ampliar o conceito de impacto ambiental. Em vez de limitar a discussão às emissões de carbono, o relatório demonstra que cada unidade de energia consumida pela inteligência artificial produz simultaneamente três tipos de pegadas ecológicas: a pegada de carbono, associada às emissões de gases de efeito estufa; a pegada hídrica, relacionada ao consumo direto e indireto de água; e a pegada territorial, que corresponde à ocupação de áreas necessárias para geração de energia, construção de infraestrutura e extração de matérias-primas. Essa abordagem integrada revela que uma fonte energética considerada “limpa” do ponto de vista climático pode continuar exercendo enorme pressão sobre recursos hídricos ou sobre a disponibilidade de terras, mostrando que a simples substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis está longe de resolver todos os problemas.

Os números apresentados pelo relatório impressionam. Mantido o ritmo atual de expansão, os centros de dados dedicados à inteligência artificial poderão consumir cerca de 945 terawatts-hora de eletricidade por ano até 2030, valor equivalente ao consumo anual de diversos países industrializados. Trata-se de uma demanda energética colossal, impulsionada não apenas pelo treinamento de grandes modelos de linguagem, mas principalmente pela utilização cotidiana dessas ferramentas por centenas de milhões de pessoas. Cada consulta aparentemente trivial realizada em um sistema de IA representa um pequeno consumo de energia que, multiplicado bilhões de vezes diariamente, transforma-se em um dos mais importantes vetores de crescimento da demanda mundial por eletricidade.

Ainda mais preocupante é a questão da água, frequentemente ignorada nas discussões sobre tecnologia digital. Os supercomputadores responsáveis pelo funcionamento dos modelos de inteligência artificial produzem enormes quantidades de calor e necessitam de sofisticados sistemas de refrigeração, muitos deles baseados em água. Além disso, a própria geração da eletricidade utilizada por esses centros de dados também depende, em grande medida, de recursos hídricos. O relatório estima que, até o final da década, a infraestrutura global de inteligência artificial poderá consumir um volume de água suficiente para atender aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas por um ano inteiro. Em um contexto marcado pela intensificação das mudanças climáticas, pela ocorrência de secas prolongadas e pelo aumento dos conflitos em torno da disponibilidade hídrica, esse dado assume proporções alarmantes.

Outro aspecto importante destacado pelos autores é a crescente demanda por minerais estratégicos necessários à fabricação de processadores de alto desempenho. A expansão da inteligência artificial significa também uma expansão da mineração de lítio, cobalto, níquel e terras raras, atividades frequentemente associadas a elevados impactos ambientais e sociais. Mais uma vez, observa-se uma divisão internacional dos custos e benefícios: enquanto os ganhos econômicos da revolução digital tendem a se concentrar nos grandes centros tecnológicos e financeiros, a degradação ambiental, a contaminação de ecossistemas e os conflitos sociais decorrentes da mineração recaem, em grande medida, sobre países periféricos da África, América Latina e Ásia.

Essa constatação conduz talvez à reflexão mais importante do relatório: a inteligência artificial também deve ser analisada sob a perspectiva da justiça ambiental. Os benefícios produzidos pela nova economia digital são distribuídos globalmente entre grandes empresas, investidores e consumidores de alta renda, mas seus impactos recaem de maneira desigual sobre comunidades locais que enfrentam aumento da demanda por água, pressão sobre sistemas elétricos, expansão da mineração, geração crescente de resíduos eletrônicos e ocupação intensiva do território. Em outras palavras, a inteligência artificial reproduz um padrão já conhecido de outras cadeias produtivas globais, no qual a riqueza é apropriada por poucos enquanto os passivos ambientais são socializados.

No caso brasileiro, as implicações desse cenário merecem atenção especial. O país reúne algumas das condições consideradas ideais para a instalação de grandes centros de dados, como relativa disponibilidade de energia renovável, abundância hídrica em determinadas regiões e potencial para expansão da infraestrutura elétrica. Ao mesmo tempo, é um dos principais fornecedores mundiais de minerais estratégicos e abriga biomas extremamente sensíveis, como a Amazônia e o Cerrado, que já sofrem forte pressão decorrente da mineração, do desmatamento e da expansão do agronegócio. Sem mecanismos robustos de regulação ambiental e planejamento territorial, a corrida global pela inteligência artificial pode aprofundar processos históricos de exploração de recursos naturais, concentrando benefícios econômicos e distribuindo impactos ambientais sobre populações vulneráveis.

O mérito do relatório do United Nations University Institute for Water, Environment and Health está justamente em retirar a inteligência artificial do campo da abstração tecnológica e recolocá-la no mundo material. Por trás de cada resposta produzida por um algoritmo existem cabos, concreto, aço, cobre, água, eletricidade, mineração, transporte e ocupação do território. Em um momento em que a inovação tecnológica é frequentemente apresentada como sinônimo automático de sustentabilidade, esse documento lembra que nenhuma revolução digital é capaz de escapar das leis da física nem das limitações ecológicas do planeta. A verdadeira discussão sobre inteligência artificial, portanto, não deve restringir-se à velocidade dos algoritmos ou aos ganhos de produtividade, mas precisa incorporar uma pergunta muito mais fundamental: quem suporta os custos ambientais dessa transformação e quem efetivamente se beneficia dela? Essa é uma questão que não pode continuar ausente do debate público, especialmente em países como o Brasil, onde a exploração intensiva dos recursos naturais já produz profundas desigualdades sociais e territoriais.

A dívida que nunca termina: a construção histórica do endividamento permanente no Brasil

Em estudo da Auditoria Cidadã da Dívida, Paulo Lindesay reconstrói mais de dois séculos de endividamento público e questiona um modelo que parece produzir dívidas eternas enquanto restringe investimentos sociais e o desenvolvimento nacional

Poucos temas permanecem tão ausentes do debate público brasileiro quanto a dívida pública. Embora ela consuma anualmente uma parcela gigantesca do orçamento nacional, seu funcionamento continua envolto em uma linguagem técnica que dificulta a compreensão por parte da maioria da população. É justamente contra essa opacidade que Paulo Lindesay se insurge em seu  provocativo ensaio sobre a evolução histórica da dívida pública brasileira.

O mérito central do trabalho está em mostrar que a dívida pública não pode ser entendida apenas como resultado de gastos excessivos do Estado. Ao contrário, Lindesay reconstrói historicamente os mecanismos que transformaram o endividamento em um elemento estrutural da formação econômica brasileira, desde o período imperial até os atuais regimes fiscais. Sua tese é contundente: ao longo de mais de dois séculos, consolidou-se um sistema que produz endividamento de forma contínua e crescente, transferindo recursos públicos para o setor financeiro enquanto restringe investimentos sociais e produtivos.

A narrativa histórica apresentada pelo autor revela que o nascimento da dívida brasileira está ligado ao próprio processo de independência. O novo Estado assumiu compromissos financeiros herdados de Portugal e passou a recorrer sistematicamente a empréstimos externos. Desde então, sucessivas crises, renegociações e refinanciamentos criaram uma dinâmica em que a dívida nunca é efetivamente liquidada, apenas transformada em novos passivos.

Um dos pontos mais relevantes do texto é a distinção entre dívida contraída para financiar investimentos produtivos e dívida que cresce em função dos próprios encargos financeiros. Segundo Lindesay, especialmente a partir das décadas finais do século XX, o crescimento do endividamento brasileiro passou a estar fortemente associado à política monetária baseada em juros elevados e aos mecanismos de refinanciamento permanente dos títulos públicos. Essa interpretação converge com análises anteriores da própria Auditoria Cidadã da Dívida, que questionam a contabilização de parcelas significativas dos juros como amortização ou rolagem da dívida.

A consequência desse processo seria a construção de uma espécie de “dívida impagável”. Não porque o Estado brasileiro seja incapaz de gerar receitas, mas porque o próprio desenho institucional faz com que a dívida se reproduza continuamente. Em outras palavras, paga-se muito, mas a dívida continua crescendo. A cada renegociação surgem novas obrigações; a cada refinanciamento ampliam-se os compromissos futuros. O resultado é um sistema que exige crescentes transferências de recursos públicos para o setor financeiro sem que isso represente uma redução significativa do estoque da dívida.

Essa lógica torna-se ainda mais evidente quando observamos os estados brasileiros. O caso do Rio de Janeiro, frequentemente analisado por Lindesay em outros trabalhos, é emblemático. Diversos estados já pagaram várias vezes o valor originalmente contratado junto à União e aos credores financeiros, mas permanecem presos a contratos que continuam produzindo saldos devedores elevados. O fenômeno lembra uma esteira rolante: quanto mais se caminha, mais distante parece ficar o destino final.

O artigo também oferece uma interpretação crítica dos mecanismos fiscais recentes, incluindo o teto de gastos, os regimes de recuperação fiscal e os novos modelos de renegociação das dívidas estaduais. Segundo a perspectiva defendida pela Auditoria Cidadã da Dívida, essas iniciativas compartilham um traço comum: priorizam a garantia dos pagamentos financeiros enquanto comprimem despesas sociais, investimentos públicos e políticas de desenvolvimento.

Tal diagnóstico conduz a uma questão política fundamental: por que a sociedade brasileira aceita discutir exaustivamente os gastos com saúde, educação, previdência ou funcionalismo público, mas raramente debate os mecanismos que determinam o crescimento da dívida? Para Lindesay, essa assimetria não é acidental. Ela faz parte de um modelo de gestão econômica em que a dívida se converte em instrumento privilegiado de transferência de riqueza.

Independentemente de concordar integralmente ou não com as conclusões da Auditoria Cidadã da Dívida, o trabalho de Paulo Lindesay cumpre uma função essencial: retirar a dívida pública do terreno da tecnocracia e recolocá-la no centro do debate democrático. Afinal, quando mais de uma geração de brasileiros vive sob a justificativa permanente da escassez de recursos para direitos sociais, mas observa simultaneamente o crescimento contínuo dos pagamentos financeiros, torna-se legítimo perguntar se estamos diante de um problema de falta de dinheiro ou de prioridades políticas.

A principal contribuição do artigo reside justamente nessa provocação. Ao reconstruir dois séculos de história do endividamento brasileiro, Lindesay sugere que a questão central não é apenas quanto devemos, mas sobretudo como essa dívida foi construída, quem se beneficia de sua reprodução permanente e por que ela continua sendo tratada como uma verdade incontestável. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, essas perguntas estão longe de serem meramente contábeis. Elas dizem respeito ao próprio modelo de Estado e ao futuro da democracia brasileira

Poucos temas permanecem tão ausentes do debate público brasileiro quanto a dívida pública. Embora ela consuma anualmente uma parcela gigantesca do orçamento nacional, seu funcionamento continua envolto em uma linguagem técnica que dificulta a compreensão por parte da maioria da população. É justamente contra essa opacidade que Paulo Lindesay se insurge em seu extenso e provocativo ensaio sobre a evolução histórica da dívida pública brasileira.

O mérito central do trabalho está em mostrar que a dívida pública não pode ser entendida apenas como resultado de gastos excessivos do Estado. Ao contrário, Lindesay reconstrói historicamente os mecanismos que transformaram o endividamento em um elemento estrutural da formação econômica brasileira, desde o período imperial até os atuais regimes fiscais. Sua tese é contundente: ao longo de mais de dois séculos, consolidou-se um sistema que produz endividamento de forma contínua e crescente, transferindo recursos públicos para o setor financeiro enquanto restringe investimentos sociais e produtivos.

A narrativa histórica apresentada pelo autor revela que o nascimento da dívida brasileira está ligado ao próprio processo de independência. O novo Estado assumiu compromissos financeiros herdados de Portugal e passou a recorrer sistematicamente a empréstimos externos. Desde então, sucessivas crises, renegociações e refinanciamentos criaram uma dinâmica em que a dívida nunca é efetivamente liquidada, apenas transformada em novos passivos.

Um dos pontos mais relevantes do texto é a distinção entre dívida contraída para financiar investimentos produtivos e dívida que cresce em função dos próprios encargos financeiros. Segundo Lindesay, especialmente a partir das décadas finais do século XX, o crescimento do endividamento brasileiro passou a estar fortemente associado à política monetária baseada em juros elevados e aos mecanismos de refinanciamento permanente dos títulos públicos. Essa interpretação converge com análises anteriores da própria Auditoria Cidadã da Dívida, que questionam a contabilização de parcelas significativas dos juros como amortização ou rolagem da dívida.

A consequência desse processo seria a construção de uma espécie de “dívida impagável”. Não porque o Estado brasileiro seja incapaz de gerar receitas, mas porque o próprio desenho institucional faz com que a dívida se reproduza continuamente. Em outras palavras, paga-se muito, mas a dívida continua crescendo. A cada renegociação surgem novas obrigações; a cada refinanciamento ampliam-se os compromissos futuros. O resultado é um sistema que exige crescentes transferências de recursos públicos para o setor financeiro sem que isso represente uma redução significativa do estoque da dívida.

Essa lógica torna-se ainda mais evidente quando observamos os estados brasileiros. O caso do Rio de Janeiro, frequentemente analisado por Lindesay em outros trabalhos, é emblemático. Diversos estados já pagaram várias vezes o valor originalmente contratado junto à União e aos credores financeiros, mas permanecem presos a contratos que continuam produzindo saldos devedores elevados. O fenômeno lembra uma esteira rolante: quanto mais se caminha, mais distante parece ficar o destino final.

O artigo também oferece uma interpretação crítica dos mecanismos fiscais recentes, incluindo o teto de gastos, os regimes de recuperação fiscal e os novos modelos de renegociação das dívidas estaduais. Segundo a perspectiva defendida pela Auditoria Cidadã da Dívida, essas iniciativas compartilham um traço comum: priorizam a garantia dos pagamentos financeiros enquanto comprimem despesas sociais, investimentos públicos e políticas de desenvolvimento.

Tal diagnóstico conduz a uma questão política fundamental: por que a sociedade brasileira aceita discutir exaustivamente os gastos com saúde, educação, previdência ou funcionalismo público, mas raramente debate os mecanismos que determinam o crescimento da dívida? Para Lindesay, essa assimetria não é acidental. Ela faz parte de um modelo de gestão econômica em que a dívida se converte em instrumento privilegiado de transferência de riqueza.

Independentemente de concordar integralmente ou não com as conclusões da Auditoria Cidadã da Dívida, o trabalho de Paulo Lindesay cumpre uma função essencial: retirar a dívida pública do terreno da tecnocracia e recolocá-la no centro do debate democrático. Afinal, quando mais de uma geração de brasileiros vive sob a justificativa permanente da escassez de recursos para direitos sociais, mas observa simultaneamente o crescimento contínuo dos pagamentos financeiros, torna-se legítimo perguntar se estamos diante de um problema de falta de dinheiro ou de prioridades políticas.

A principal contribuição do artigo reside justamente nessa provocação. Ao reconstruir dois séculos de história do endividamento brasileiro, Lindesay sugere que a questão central não é apenas quanto devemos, mas sobretudo como essa dívida foi construída, quem se beneficia de sua reprodução permanente e por que ela continua sendo tratada como uma verdade incontestável. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, essas perguntas estão longe de serem meramente contábeis. Elas dizem respeito ao próprio modelo de Estado e ao futuro da democracia brasileira.

Água subterrânea do Brasil sob pressão

Sob as florestas, fazendas e cidades do Brasil, uma reserva hídrica vital mostra sinais de tensão. Um novo estudo indica que os níveis de água subterrânea em partes do país estão caindo em taxas comparáveis às observadas em alguns dos sistemas de aquíferos mais explorados do mundo.

Parintins, Brasil, setembro de 2023. Barcos ficam à beira de um rio cujo nível de água caiu devido à seca. Crédito: Aguilar Abecassis/dpa/Alamy Live News

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

A água sempre foi central para a identidade do Brasil, moldando suas paisagens, economia e ecossistemas. Dos rios do Amazonas às enchentes sazonais que transformam o Pantanal em um dos maiores pântanos do mundo, a água ajudou a definir tanto a geografia do país quanto seu desenvolvimento.

Um estudo liderado por Augusto Getirana, cientista do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, no Laboratório de Ciências Hidrológicas, examinou mais de duas décadas de dinâmica do lençol freático no Brasil usando observações de satélite, ferramentas de inteligência artificial e sistemas de monitoramento de águas subterrâneas.

Os resultados revelam um cenário misto. Enquanto alguns aquíferos continuam a se recuperar naturalmente após períodos de seca, outros apresentam quedas persistentes ligadas à expansão agrícola, atividade mineradora, variabilidade climática e crescente demanda por água.

Segundo os pesquisadores, o declínio da água subterrânea observado em alguns aquíferos brasileiros se assemelha a padrões documentados em sistemas de água subterrânea fortemente estressados em Bangladesh, Índia, Irã e EUA, revelam pesquisadores.

estudo avaliou as condições das águas subterrâneas nas 12 principais bacias hidrográficas do Brasil e examinou vários sistemas aquíferos importantes, incluindo Alter do Chão, Urucuia, Bauru-Caiuá, Guarani, Pantanal, Solimões e Parecis.

A água subterrânea fornece aproximadamente 55% da demanda hídrica do Brasil e sustenta mais da metade dos municípios do país. Em muitas regiões, ela fornece um amortecedor crítico durante secas e ajuda a manter o abastecimento de água quando os reservatórios superficiais diminuem.

Apesar de sua importância, o monitoramento das águas subterrâneas continua limitado. Em um território de aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil opera apenas cerca de 500 poços federais de monitoramento de águas subterrâneas, deixando grandes áreas insuficientemente observadas.

Sobre a questão de saber se a abundância histórica de água do Brasil pode ter incentivado a complacência, Getirana disse:

Eu não diria que o Brasil confundiu abundância com segurança. O que mudou é que as suposições que funcionaram no passado podem não ser suficientes para o futuro.

Nas últimas décadas, o Brasil enfrentou uma série de grandes crises de água, incluindo a crise do racionamento de eletricidade em 2001, as severas secas de 2014–2015 e a escassez de água que afetaram várias regiões em 2021. Ao mesmo tempo, o crescimento populacional e a expansão econômica aumentaram a demanda por água.

A água subterrânea tem se tornado cada vez mais parte da solução. O que me surpreendeu neste estudo foi ver evidências de que o uso de água subterrânea para irrigação e abastecimento público de água aumentou o suficiente para deixar uma pegada detectável no armazenamento de água subterrânea.

O Brasil não enfrenta insegurança hídrica em todo o país atualmente, mas esses achados sugerem que a confiança tradicional do país em recursos hídricos abundantes pode precisar ser reconsiderada em um clima em mudança e sob demanda crescente.

Pressão sob o Cerrado

Alguns dos sinais mais fortes de declínio da água subterrânea ocorrem no centro do Brasil, especialmente em partes do Cerrado e nas bacias de São Francisco e Paraná. Essas regiões também passaram por extensa expansão agrícola.

Frequentemente ofuscado pela Amazônia, o Cerrado é considerado por hidrólogos como uma das paisagens mais importantes produtoras de água da América do Sul. Grandes sistemas fluviais têm origem ali, incluindo rios que contribuem para as bacias da Amazônia, Paraná e São Francisco.

A vegetação nativa desempenha um papel crucial na regulação do movimento da água, permitindo que a chuva se infiltre gradualmente no solo, reabastecendo os aquíferos e sustentando o fluxo dos rios além da estação chuvosa.

Nas últimas décadas, milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos em plantações de soja, pastagens para gado e agricultura irrigada.

O estudo encontrou evidências de que alguns aquíferos passaram por anos em que pouca ou nenhuma recarga de água subterrânea ocorria. Naqueles anos, a chuva não conseguiu repor as reservas subterrâneas em taxas históricas. Pesquisadores identificaram esses padrões em partes do Aquífero Urucuia, na zona de recarga do Aquífero Guarani e em outros sistemas de água subterrânea muito utilizados.

Muitas dessas áreas sustentam a economia agrícola do Brasil. Se as taxas de recarga continuarem a enfraquecer, a extração de água subterrânea pode se tornar cada vez mais difícil de sustentar durante secas prolongadas.

A bacia de São Francisco emergiu como uma das regiões que experimentaram as maiores perdas de água subterrânea no Brasil, impulsionadas pelo uso intensivo de água, seca, mudanças na cobertura do solo e mudanças nos padrões de chuva.

Como observado por Getirana, a água subterrânea pode mitigar os impactos da seca, embora sua confiabilidade esteja diminuindo em muitas regiões:

Durante secas prolongadas, rios, lagos e reservatórios são tipicamente as primeiras fontes de água a diminuir. As florestas ajudam a sustentar os recursos hídricos promovendo a infiltração no solo e nos aquíferos, além de influenciar a circulação atmosférica regional e os padrões de chuva. Aquíferos frequentemente servem como reserva de longo prazo, a conta de poupança do sistema hidrológico.

Nossos resultados sugerem que os sistemas de água subterrânea estão se tornando menos confiáveis em regiões onde a demanda por água é maior. As quedas mais fortes no armazenamento ocorrem em regiões densamente povoadas e economicamente ativas, indicando que algumas dessas redes naturais de segurança estão sendo pressionadas por um aumento crescente.

A Amazônia

A Amazônia abriga algumas das maiores reservas de água doce do mundo. Embora os pesquisadores tenham encontrado evidências de que os sistemas de água subterrânea em partes da região estão se tornando mais variáveis, as mudanças não são uniformes em toda a bacia.

Getirana e colegas descobriram que grandes porções da Amazônia mantiveram condições estáveis de água subterrânea durante o período do estudo, e algumas regiões até experimentaram ganhos no armazenamento de água subterrânea. Esses achados sugerem que certos sistemas de água subterrânea permanecem resilientes sob condições ambientais favoráveis.

Perto de Manaus, os níveis de água subterrânea flutuam em resposta à subida e descida sazonal dos rios Negro e Solimões. No entanto, eventos climáticos extremos parecem estar afetando esses ciclos naturais.

O evento El Niño de 2015-2016 pode ter representado uma mudança significativa no comportamento das águas subterrâneas em várias áreas, com alguns aquíferos passando de condições relativamente estáveis para declínios mais persistentes.

Secas recentes levaram os rios Amazonas a níveis historicamente baixos, interrompendo o transporte, isolando comunidades e afetando os ecossistemas em toda a bacia.

Ao mesmo tempo, o sul do Brasil sofreu inundações severas. Os pesquisadores observam que as condições da água subterrânea podem influenciar o risco de enchentes porque sistemas subterrâneos saturados perdem a capacidade de absorver chuva adicional, aumentando o escoamento.

Em conjunto, esses achados sugerem que os desafios hídricos do Brasil envolvem cada vez mais variabilidade e extremos, em vez de simples questões de abundância ou escassez de água.

Refletindo sobre a importância mais ampla das descobertas, Getirana disse:

Acho que uma das lições mais amplas é que abundância e sustentabilidade não são a mesma coisa. O Brasil possui alguns dos maiores recursos de água doce do mundo, mas nossos resultados mostram que os sistemas de água subterrânea ainda podem sofrer perdas persistentes quando a variabilidade climática, a mudança no uso do solo e o aumento da demanda por água atuam juntos.

Muitas sociedades historicamente trataram os recursos naturais como efetivamente inesgotáveis porque pareciam abundantes em relação às necessidades humanas. O que as observações modernas e registros de satélite mostram cada vez mais é que mesmo sistemas muito grandes têm limites.

A água subterrânea é particularmente importante porque é em grande parte invisível. Ao contrário de rios ou reservatórios, mudanças no subsolo podem passar despercebidas por anos ou até décadas. Estudos como este ajudam a tornar essas mudanças ocultas visíveis antes que se tornem problemas maiores.

Incêndio, mineração e extração de água subterrânea

O Pantanal, o maior pântano tropical do mundo, também está enfrentando pressão crescente.

Os pesquisadores identificaram a diminuição da recarga de água subterrânea em partes da região, uma tendência associada à seca, mudanças no uso do solo e temporadas de incêndios cada vez mais severas.

Incêndios podem ter efeitos duradouros nos sistemas hídricos, destruindo vegetação, alterando a estrutura do solo, reduzindo a infiltração e dificultando a recarga dos aquíferos após períodos secos.

A atividade de mineração também contribui para pressão adicional em algumas áreas. Em partes do estado de Minas Gerais, a água subterrânea é bombeada de sistemas subterrâneos para apoiar as operações de mineração. Isso pode reduzir o nível da água subterrânea, alterar o fluxo dos rios e afetar as comunidades vizinhas.

Exemplos de outras partes do mundo demonstram como pode ser difícil reverter as mudanças depois que a extração em grande escala alterou os sistemas de água.

Ao redor do Mar Morto, décadas de desvio de rios, extração mineral e superexploração do lençol freático contribuíram para uma queda dramática nos níveis da água, acelerando o recuo da linha costeira e formando milhares de dolinas.

Preocupações semelhantes estão surgindo na Amazônia brasileira. Em Autazes, um grande projeto de potássio desenvolvido pela empresa canadense Potássio do Brasil levantou alertas de pesquisadores, organizações indígenas e comunidades locais sobre possíveis impactos nos lençóis freáticos, áreas úmidas e sistemas conectados de água doce.

Avaliações ambientais e revisões independentes destacaram riscos como aumento do escoamento de sedimentos, maior turbidez da água e pressão sobre os ecossistemas ligados ao Rio Madeira, uma das vias navegáveis mais importantes da Bacia Amazônica. Embora as consequências de longo prazo permaneçam incertas, esses casos ilustram como a mineração pode alterar sistemas hídricos muito além dos limites do próprio local de extração.

Um desafio emergente

O Brasil não está ficando sem água, mas recursos abundantes não eliminam vulnerabilidades.

O estudo constatou que apenas uma fração da chuva chega, em última análise, alcança e repõe as reservas de água subterrânea. Em algumas regiões, a recarga permanece robusta, mas em outras, parece estar enfraquecendo.

O Brasil enfrentou grandes crises hídricas em 2000-2001, 2014-2017 e 2021. Esses eventos muitas vezes são vistos principalmente como escassez de chuva.

As novas descobertas sugerem que mudanças mais profundas também podem estar afetando os sistemas hídricos do país. À medida que as mudanças climáticas aceleram e a pressão sobre os recursos de terra e água aumenta, é provável que a água subterrânea se torne um componente cada vez mais importante da segurança hídrica de longo prazo do Brasil.

Apesar dos desafios identificados no estudo, Getirana permanece otimista quanto ao crescente conscientização pública sobre questões de segurança hídrica:

Estudos sobre disponibilidade de água, seca, água subterrânea e impactos climáticos estão cada vez mais alcançando a grande mídia e o debate público. O conhecimento científico sozinho não muda políticas ou práticas de gestão. A verdadeira mudança acontece quando governos, instituições e a sociedade reconhecem o problema e agem com base nas evidências.

O fato de que a segurança das águas subterrâneas e da água estão se tornando temas de conversa nacional no Brasil é animador. Quando a ciência alcança o público e informa a tomada de decisões, cria oportunidades para melhorar o monitoramento, o planejamento e a gestão da água a longo prazo.

Quando questionado sobre o que as pessoas poderiam ver, daqui a décadas, como a primeira indicação de que os sistemas de água subterrânea do Brasil estavam sob pressão, Getirana disse:

O desafio hoje não é a ausência de sinais de alerta. O desafio é garantir que essas informações façam parte do processo de tomada de decisão. Daqui a cinquenta anos, suspeito que as pessoas olharão para trás e dirão que os primeiros sinais de alerta vieram da combinação de observações de satélite, estudos científicos e crises hídricas recorrentes que revelaram vulnerabilidades que antes passavam despercebidas.

Por décadas, o Brasil baseou-se na suposição de que recursos hídricos abundantes compensariam a crescente demanda e as pressões ambientais. As evidências apresentadas neste estudo sugerem que proteger as águas subterrâneas pode se tornar tão importante quanto proteger rios, florestas e áreas úmidas nas próximas décadas.


Fonte: YourVoiz

ANM sob suspeita: quando pareceres técnicos cedem espaço às redes de influência

Reportagem do Observatório da Mineração expõe conexões entre empresas, agentes políticos e dirigentes da Agência Nacional de Mineração, reacendendo o debate sobre captura regulatória e conflitos de interesse no setor mineral brasileiro

Sede da ANM / Divulgação

A Agência Nacional de Mineração (ANM) voltou ao centro de uma controvérsia que lança dúvidas sobre a independência das instituições responsáveis por regular um dos setores mais poderosos da economia brasileira. Reportagem investigativa publicada pelo Observatório da Mineração revela que a diretoria da agência teria revertido um parecer técnico para beneficiar interesses empresariais ligados a personagens com conexões políticas relevantes junto ao Ministério de Minas e Energia (MME), atualmente comandado por Alexandre Silveira.

O caso chama atenção não apenas pela alteração de um entendimento técnico produzido por servidores especializados da própria ANM, mas principalmente pelo emaranhado de relações empresariais, políticas e pessoais que circundam os envolvidos. Segundo a investigação, a decisão beneficiou empresas associadas a grupos econômicos que mantêm vínculos com financiadores e aliados do PSD, partido que controla o Ministério de Minas e Energia.

Embora a ANM sustente formalmente sua autonomia técnica e administrativa, a sucessão de episódios relatados pela imprensa especializada e por órgãos de investigação tem produzido uma narrativa preocupante. Nos últimos anos, diferentes reportagens revelaram situações em que agentes da agência teriam atuado de forma favorável a interesses privados específicos, inclusive contrariando pareceres técnicos internos e recomendações jurídicas.

Um dos aspectos mais intrigantes do caso é a presença indireta do banqueiro Daniel Vorcaro no conjunto de relações descritas pela reportagem. Embora seu nome não apareça como protagonista do processo administrativo analisado, a recorrência de conexões entre grupos empresariais, operadores financeiros e círculos de influência política associados ao setor mineral reforça uma percepção que vem se tornando cada vez mais difícil de ignorar: a de que determinadas redes de poder conseguem transitar simultaneamente pelos mundos das finanças, da política e da regulação estatal.

No caso de Vorcaro, cuja trajetória recente tem sido marcada por sucessivas controvérsias envolvendo o crescimento acelerado do Banco Master, operações financeiras de alto risco e relações próximas com figuras influentes da política nacional, a simples recorrência de seu nome em ambientes onde também surgem questionamentos sobre conflitos de interesse deveria ser suficiente para despertar a atenção dos órgãos de controle. O problema não reside necessariamente na existência de relações empresariais ou políticas em si, mas na opacidade com que elas frequentemente se apresentam ao público. Quando decisões regulatórias potencialmente bilionárias passam a ocorrer em ambientes permeados por relações pessoais e políticas pouco transparentes, instala-se um ambiente de desconfiança institucional que compromete a credibilidade do Estado.

A reportagem do Observatório da Mineração também se soma a uma sequência de denúncias envolvendo o entorno político do ministro Alexandre Silveira. Em 2025, outra investigação jornalística mostrou como familiares, sócios e aliados políticos do ministro passaram a atuar em empreendimentos minerários após sua chegada ao comando do Ministério de Minas e Energia, órgão ao qual a ANM está vinculada. Embora tanto o ministério quanto a agência neguem qualquer interferência política nas decisões técnicas, a coincidência de interesses continua levantando questionamentos legítimos.

O episódio revela um problema estrutural da governança mineral brasileira. Em teoria, agências reguladoras existem justamente para criar uma barreira institucional entre interesses econômicos privados e decisões de interesse público. Quando pareceres técnicos podem ser revertidos por decisões políticas ou administrativas cuja motivação permanece obscura, essa barreira começa a ruir. O resultado é a erosão da confiança social nas instituições e a ampliação da percepção de captura regulatória.

Num país marcado por tragédias como Mariana e Brumadinho, seria razoável esperar que os órgãos responsáveis pela regulação mineral operassem sob os mais elevados padrões de transparência e independência. Em vez disso, multiplicam-se relatos de conexões cruzadas entre empresários, políticos, dirigentes públicos e operadores financeiros. O caso revelado pelo Observatório da Mineração não deve ser visto como um episódio isolado, mas como mais um sintoma de um modelo de governança que continua excessivamente permeável aos interesses dos grupos economicamente mais poderosos.

A questão central permanece sem resposta: quem efetivamente controla as decisões estratégicas do setor mineral brasileiro? Enquanto essa pergunta continuar cercada por redes de influência pouco transparentes, a sociedade terá motivos de sobra para desconfiar que o subsolo brasileiro continua sendo administrado muito mais em benefício de grupos privados do que do interesse público.


Fonte: Observatório da Mineração

Mudanças climáticas e resistência bacteriana: uma combinação explosiva para a saúde global

Nova pesquisa indica que o avanço das mudanças climáticas pode acelerar a resistência da Salmonella aos antibióticos, evidenciando mais uma face oculta da crise ambiental global

A crise climática costuma ser apresentada como uma ameaça aos sistemas naturais, à produção de alimentos ou à disponibilidade de água. Menos frequente é a discussão sobre seus impactos na saúde pública por vias indiretas, mas potencialmente devastadoras. É justamente esse aspecto que a jornalista científica Aleida Rueda destaca em reportagem publicada pelo SciDev.Net América Latina, ao abordar uma pesquisa que relaciona mudanças climáticas ao aumento da resistência da bactéria Salmonella aos antibióticos.

O estudo analisou quase meio milhão de genomas de Salmonella coletados em 139 países ao longo de mais de oito décadas. Os resultados sugerem que as alterações de temperatura e precipitação associadas às mudanças climáticas contribuíram para um aumento global de aproximadamente 10% nos genes de resistência antimicrobiana. Embora o uso excessivo e inadequado de antibióticos continue sendo o principal fator responsável pelo surgimento de bactérias resistentes, a pesquisa indica que a crise climática funciona como um poderoso acelerador desse processo. Em outras palavras, o aquecimento global não cria a resistência bacteriana, mas amplia as condições ambientais que favorecem sua disseminação.

Trata-se de uma constatação preocupante. Afinal, a resistência antimicrobiana já é considerada uma das maiores ameaças sanitárias do século XXI. Estima-se que milhões de pessoas sejam afetadas anualmente por infecções causadas por bactérias resistentes, reduzindo a eficácia de tratamentos que durante décadas foram considerados rotineiros. O risco é que procedimentos médicos relativamente simples — de cirurgias a tratamentos oncológicos — se tornem progressivamente mais perigosos diante da perda de eficácia dos antibióticos disponíveis.

O estudo também ajuda a desmontar uma visão excessivamente compartimentalizada dos problemas ambientais e sanitários. Ao mostrar que mudanças climáticas e resistência antimicrobiana estão interligadas, reforça-se a importância da abordagem conhecida como “Uma Só Saúde” (One Health), que reconhece a conexão entre saúde humana, saúde animal e integridade dos ecossistemas. Não por acaso, organismos internacionais vêm alertando que eventos extremos, secas prolongadas, enchentes e alterações nos ecossistemas podem facilitar a circulação de patógenos e acelerar processos evolutivos que favorecem a resistência bacteriana.

Há ainda uma dimensão política que merece atenção. Os mesmos governos que frequentemente tratam as mudanças climáticas como uma questão secundária acabam ignorando seus impactos sobre áreas consideradas prioritárias, como a saúde pública. A resistência antimicrobiana costuma ser abordada apenas sob a ótica do uso racional de medicamentos. Embora essa dimensão seja fundamental, a nova evidência científica sugere que o enfrentamento do problema exigirá também políticas robustas de mitigação climática.

Para países como o Brasil, essa discussão assume contornos ainda mais relevantes. Além de enfrentar eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, o país mantém um modelo agropecuário altamente dependente do uso de antibióticos na produção animal e de um sistema de saneamento ainda insuficiente em grande parte do território. A combinação desses fatores cria condições particularmente favoráveis para a expansão de microrganismos resistentes.

A principal mensagem da reportagem do SciDev.Net é clara: a crise climática não ameaça apenas geleiras, florestas ou recifes de coral. Ela também pode comprometer uma das maiores conquistas da medicina moderna — a capacidade de controlar infecções bacterianas por meio dos antibióticos. Ignorar essa conexão significa subestimar um dos riscos mais silenciosos e potencialmente mais perigosos do aquecimento global.