A armadilha das alucinações

Harold M. Lambert / Getty Images

Por Mônica Manir pafa “Revista Fapesp”

Um caso constrangedor envolvendo o veterano jornalista belga Peter Vandermeersh ilustrou os perigos associados ao uso indiscriminado de ferramentas de inteligência artificial (IA) na produção de conteúdo jornalístico. Chefe das operações irlandesas do Mediahuis, um dos principais grupos de mídia na Europa, ele foi suspenso de suas funções em março após uma investigação interna constatar que incorporou a seus textos falsas declarações entre aspas atribuídas a especialistas, que foram geradas erroneamente por programas como ChatGPT, Perplexity e Google NotebookLM.

Dezenas de declarações presentes em 15 textos publicados por Vandermeersh não correspondiam a fontes verificáveis e sete fontes citadas nos artigos negaram veementemente ter proferido aquelas palavras. “Existem citações que não podem ser encontradas nas publicações das quais Vandermeersch afirma tê-las obtido, como estudos científicos e notícias”, informou o jornal NRC (do qual Vandermeersch já foi editor-chefe), responsável pela investigação. O jornalista reconheceu os equívocos e afirmou ter “caído na armadilha das alucinações”, termo usado para descrever erros gerados por IA, ao confiar excessivamente nas ferramentas sem verificar o conteúdo replicado.

“Perdi muitos minutos do meu tempo procurando onde eu poderia ter dito alguma besteira sobre ‘conhecimento imersivo’”, queixou-se Emily Bell, diretora do Centro Tow de Jornalismo Digital da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, uma das vítimas das alucinações disseminadas por Vandermeersh. Usando ferramentas de IA do Google, Bell encontrou frases muito semelhantes em um discurso feito por outra pessoa. Seu nome também foi mencionado nesse discurso, mas em outro contexto, o que pode ser a origem da alucinação. O episódio evidencia um paradoxo da IA generativa: a tecnologia é capaz de produzir textos verossímeis, mas não há garantia de que sejam verdadeiros. Isso coloca em xeque princípios fundamentais do jornalismo profissional, como a verificação e a precisão dos fatos transmitidos ao público.

O tema tem sido abordado em estudos que investigam como jornalistas que cobrem assuntos científicos estão lidando com a incorporação da IA em suas rotinas de trabalho. Um artigo publicado em dezembro no Sage Journals por seis pesquisadores da área de comunicação, três deles brasileiros (Luisa Massarani e Cleiton Bezerra, da Fundação Oswaldo Cruz, e Luiz Neves, da Universidade Federal de Goiás), evidenciou uma ampla adoção das ferramentas de IA por repórteres especializados em ciência em tarefas corriqueiras, como transcrição de gravações e apoio à escrita. Nas entrevistas com os profissionais de imprensa, também foram relatadas preocupações com a confiabilidade das informações e com a compatibilidade do uso de IA com valores jornalísticos, como responsabilidade e ética. A maioria ainda é cautelosa ao utilizar a tecnologia em tarefas mais sofisticadas, como a análise de dados.

A adoção da inteligência artificial nas redações, segundo a pesquisa, varia entre países. Os autores se debruçaram sobre três deles: Brasil, Índia e Reino Unido. Jornalistas científicos britânicos mostraram certa resistência ao uso avançado das ferramentas, enquanto brasileiros e indianos indicaram ser mais flexíveis. Uma particularidade dos brasileiros é que adotam amplamente as ferramentas para traduzir textos e apoiar a escrita em um segundo idioma. Entre os benefícios propiciados pela IA, os entrevistados destacam o aumento da eficiência e o acesso facilitado à informação e, entre os perigos, a possibilidade de disseminar desinformação e a eliminação de postos de trabalho, que são cada vez mais escassos no jornalismo, incluindo sua vertente de ciência.

Outro estudo, esse publicado no Journal of Science Comunication por pesquisadores das universidades de Mainz e Ludwig Maximillian, de Munique, entrevistou 30 jornalistas científicos alemães sobre as perspectivas abertas pelo uso de IA. Os autores tinham interesse em saber se as novas ferramentas poderiam amenizar ou agravar o que se convencionou chamar de “crise do jornalismo científico”, impulsionada pela crescente digitalização dos meios de comunicação, pela perda de anunciantes e pelas mudanças nos hábitos de consumo de notícias do público. Em um fenômeno ambivalente, pesquisadores e divulgadores científicos criaram canais de comunicação direta com os leitores, por meio de blogs e redes sociais, enquanto os jornalistas profissionais foram impactados por demissões e sobrecarga de trabalho. A maioria dos profissionais entrevistados, contudo, disse não se sentir ameaçada e reconhece que sua atividade caminha pra uma integração cada vez maior com a IA.

Já um estudo da PLOS ONE realizado por duas pesquisadoras da Universidade de Twente, nos Países Baixos, e outro da Universidade de Bolonha, na Itália, analisou a qualidade da cobertura da imprensa sobre IA em quatro nações (Bélgica, Itália, Portugal e Espanha), examinando notícias e entrevistando jornalistas científicos. De forma geral, os entrevistados demonstraram preocupação com a situação do jornalismo científico, incluindo a falta de financiamento, que pode afetar a qualidade das reportagens. Segundo o estudo, novas vertentes, como o jornalismo de engajamento, que prevê a participação da audiência na produção da notícia, e o jornalismo de soluções, que busca evidências capazes de resolver problemas sociais, teriam potencial para contribuir no enfrentamento desses desafios, inclusive nesse momento de transição, com a IA batendo à porta.

Para auxiliar nessa travessia, em 2024 o Centro de Estudos de Ciência, Comunicação e Sociedade da Universidade Pompeu Fabra (SCS-UPF), instituição pública localizada em Barcelona, na Espanha, liderou o desenvolvimento de um guia de ferramentas de inteligência artificial para jornalistas científicos. O manual se divide em três blocos. O primeiro indica plataformas que auxiliam na pesquisa de documentos e imagens, na identificação de pesquisas revisadas por pares, na tradução de textos e na transcrição de áudios. O segundo se detém em recursos para podcasts e o terceiro na organização do fluxo de trabalho. Para selecionar as melhores ferramentas, foi realizado um webinar com profissionais da comunicação científica, que apontaram aquelas que usavam com mais frequência. Todas elas foram testadas em um curso-piloto realizado em Barcelona, para verificar se eram mesmo eficientes e úteis.


Fonte: Revista Fapesp

A IA está inundando as revistas acadêmicas com material ruim. Uma revista mediu a dimensão dessa avalanche

 

Submissions to academic journals have surged since the release of ChatGPT, straining a peer review system built for human-scale production. A new study from Organization Science measures the impact.

Por John Drake, professor da Universidade da Geórgia, para a Forbes  

O termo “IA slop” geralmente descreve as imagens e o texto de baixa qualidade que a mídia social desordena. Chegou agora ao sistema de revisão por pares que governa o que conta como conhecimento científico.

As Submissões à Ciência da Organização, uma das principais revistas em pesquisa de gestão, subiram 42% desde o lançamento do ChatGPT. A escrita piorou.

Um novo estudo da equipe editorial da revista descobriu que os manuscritos gerados por IA são mais difíceis de ler, mais jargões carregados e mais propensos a serem rejeitados do que aqueles escritos por humanos. Enquanto isso, mais de 30% das avaliações de especialistas que os periódicos rotineiramente usam para decidir o que publicar agora mostram o uso detectável de IA, e os editores relatam que essas revisões são essencialmente pouco informativas. A tecnologia que deveria tornar a ciência mais produtiva está, no momento, tornando mais difícil avaliar. Sem dúvida, este é um instantâneo de um sistema em transição, não um veredicto permanente sobre a IA na pesquisa. Mas o instantâneo vale a pena olhar de perto.

Tenho escrito sobre as pressões estruturais sobre a revisão por pares, e sobre o risco de que as ferramentas de IA possam degradar a qualidade do pensamento científico, mesmo à medida que aceleram a produção. Este artigo, da Força-Tarefa de IA da revista liderada por Sharique Hasan, da Duke, é o primeiro a colocar dados detalhados por trás dessas preocupações em um único periódico.

A qualidade dessa escrita deteriorou-se. As pontuações de IA e Flesch Reading Ease foram negativamente correlacionadas entre as submissões. Manuscritos com alto conteúdo de IA exigem um nível de nível mais alto para analisar, usar mais nominalizações (palavras como “conceitualização” e “operacionalização”) e carregar mais jargões. Curiosamente, existem algumas dimensões em que o texto de IA teve melhor desempenho: tendia a ser mais específico e menos hedge. Mas o efeito líquido é a prosa que é mais densa e mais difícil de ler. Gartenberg invocou o ensaio de George Orwell “Política e a Língua Inglesa”, com seus exemplos de políticos enterrando significado na abstração. A prosa de IA, disse ela, se lê como esses políticos: densa, vagamente impressionante, difícil de seguir.

O título do jornal enquadra o problema: “Mais versus melhor”. “A IA, como está sendo usada hoje, está colidindo com incentivos institucionais para criar mais do que uma pesquisa melhor”, disse Gartenberg. “Não é a IA por si só. É IA mais incentivos de publicação ou pereza.”

Quem está usando e por quê

O jornal inclui uma descoberta que deve preocupar qualquer um que pense que isso é apenas sobre alguns maus atores com ChatGPT. As escolas de negócios cujo corpo docente historicamente mais responde aos rankings de contagem de publicações aumentaram desproporcionalmente seus envios de IA depois que o ChatGPT se tornou disponível. O ranking em questão é a lista da UTD, mantida pela Universidade do Texas em Dallas, que pontua escolas de negócios por quantos artigos seu corpo docente publica em 24 revistas de topo designadas. É uma das métricas mais amplamente observadas na academia de negócios, e os acadêmicos de escolas que competem nela têm fortes incentivos para maximizar a quantidade.

O efeito é estatisticamente significativo: as escolas que competem no ranking da UTD enviaram mais trabalhos após o ChatGPT, e esses trabalhos adicionais foram desproporcionalmente IA escrita. Isso sugere que o uso pesado de IA em manuscritos não é aleatório, mas rastreia incentivos institucionais. Autores em escolas onde a contagem de publicações mais importa são os que mais se apoiam nas máquinas.

Gartenberg descreveu o que ela vê como sua visão central do projeto: a IA é uma ferramenta agnóstica. Você pode apontá-lo para a qualidade ou você pode apontá-lo para o volume. “Há incentivos de volume tão poderosos agora”, disse ela, “que pode realmente ser destrutivo”.

O lado da revisão

A IA não se limita ao pipeline de submissão. Mais de 30% das avaliações por pares na Organization Science agora mostram o uso detectável de IA, acima de quase zero antes do ChatGPT. Essas revisões seguem o mesmo padrão que os envios: mais difícil de ler, mais nominalização, mais jargões. Eles também mudam a ênfase para a teoria e para longe de dados e métodos empíricos, um estreitamento da faixa avaliativa que, se persistir, poderia remodelar que tipo de ciência é recompensada.

A ética da IA na revisão por pares é instável. Se um especialista usa a IA para informar uma opinião, essa opinião ainda é do especialista? Manuscritos inéditos são compartilhados com revisores em confiança. Enviá-los para os servidores de um chatbot é geralmente visto como inaceitável, uma divulgação para um leitor não autorizado, mesmo que esse leitor seja uma máquina. Mas o cálculo muda se o manuscrito já estiver público em um servidor de pré-impressão? Se a IA é executada em um ambiente com caixa de areia que não retém nada? Se o revisor coloca uma pergunta que nunca compartilha explicitamente o texto? Essas distinções importam, e nenhuma delas está resolvida.

A descoberta mais reveladora é que, na Organization Science, as revisões de IA não parecem informar decisões editoriais. As revisões humanas correlacionam-se com os resultados editoriais. As avaliações de IA não. “Não é como se os editores soubessem que essas são avaliações de IA e estão jogando-as fora”, disse Gartenberg. “Eles estão lendo e não estão informando a recomendação final do editor.” Os editores estão substituindo seu próprio julgamento, o que significa que a revisão, o mecanismo central do controle de qualidade na ciência, está produzindo um texto no qual ninguém age.

Segurando a Linha, por Enquanto

A boa notícia é que o processo editorial da Organization Science ainda está filtrando de forma eficaz. Apenas 3,2% dos manuscritos pontuados em 70% ou mais de uso da IA recebem uma revisão e reenvio, em comparação com 11,9% para papéis de IA baixos. Artigos publicados permanecem predominantemente gerados pelo ser humano. Os editores estão a apanhar o mau trabalho.

No entanto, há um custo humano significativo. A revista dobrou seus editores adjuntos de seis para onze e quase dobrou seus editores seniores de cerca de 30 para 60. Tudo isso é trabalho voluntário, acadêmicos não remunerados doando tempo para manter a qualidade científica. Quando esses acadêmicos estão eliminando o IA slop, eles não estão usando seu tempo para dar aulas, realizar pesquisas ou servir suas profissões.

O economista Scott Cunningham moldou a produção científica como uma função de produção com dois insumos: tempo humano e tempo da máquina. Um pouco de tempo de máquina, combinado com tempo humano substancial, aumenta a qualidade da saída. Mas se os pesquisadores deixarem a máquina substituir seu próprio engajamento, eles entram no que Cunningham chama de “zona de perigo”, uma região onde a qualidade da produção realmente fica abaixo do que eles teriam produzido sem a IA. O mecanismo é simples: o tempo humano não é apenas trabalho. É o processo através do qual a atenção se acumula no conhecimento e no julgamento. Evite as horas e você pule o aprendizado.

Os dados de Gartenberg sugerem que a zona de perigo não é hipotética. Já é visível nas estatísticas de submissão de uma grande revista. “As pessoas pensam como escrevem”, ela me disse, “e por isso, se você não escreve, você não está pensando tão profundamente sobre isso.” Os pesquisadores que enviam manuscritos obtiveram pontuação em 70% ou mais de conteúdo de IA, na estrutura de Cunningham, ultrapassaram esse limiar. Trocaram o pensamento pela produção. Os editores podem dizer.

Um instantâneo, não um veredicto

Essas descobertas merecem contexto. Os dados vão até o início de 2026, mas grande parte da IA que a equipe detectou foi produzida com modelos anteriores, ChatGPT 3.5 e GPT-4, que tinham contagens estilísticas bem conhecidas e uma tendência para a prosa nominal inchada. As ferramentas estão melhorando rapidamente. Não há nada fundamental para impedir que um modelo de linguagem seja treinado ou solicitado a escrever em um nível de leitura alvo, para minimizar o jargão, para passar nos mesmos testes de legibilidade que os editores humanos usam. A lacuna de qualidade deste documento em papel pode ser substancialmente uma função de quão grosseiramente a maioria dos pesquisadores está atualmente implantando as ferramentas. Há tanto a maturidade das próprias ferramentas quanto a maturidade das pessoas que as usam. Ambos estão evoluindo.

Também vale a pena notar o que o papel não mostra. A Ciência da Organização não está perdendo o seu melhor trabalho. Os principais artigos da revista ainda estão passando, e sua taxa geral de rejeição é essencialmente inalterada em todas as categorias de IA. Os envios adicionais são principalmente medíocres e os editores estão filtrando-os. Uma maneira de ler os dados é que o efeito líquido sobre o conhecimento ainda é positivo: toda a boa ciência que estava sendo produzida antes, além de alguma fração de novo trabalho que, embora não mude de campo, registra fatos e descobertas que podem ser úteis para alguém no futuro. A ciência sempre gerou uma longa cauda de trabalho incremental ao lado dos avanços. Se o custo de produção dessa cauda cair, e o processo editorial ainda puder separar o sinal do ruído, a base de conhecimento pode crescer mesmo que a qualidade média dos envios diminua.

Também existe uma possibilidade mais especulativa. Se a IA está aumentando a variação na qualidade de submissão enquanto o processo editorial apara a cauda inferior, os melhores papéis no pipeline poderiam realmente ser melhores do que antes. Pesquisadores que usam bem a IA, como um parceiro de pensamento em vez de um ghostwriter, podem estar produzindo um trabalho mais ambicioso do que poderiam ter conseguido sozinhos. Os dados ainda não podem confirmar isso. Mas eles são consistentes com isso.

Em um ponto de nossa conversa, Gartenberg desenhou uma analogia com o xadrez. A IA pode vencer qualquer jogador humano, mas o xadrez é mais popular agora do que nunca. A pergunta que ela continua entregando: o que se torna o objetivo da ciência quando a IA pode produzir as saídas? Quando falei com Jeff Clune, autor sênior de um artigo recente da Nature sobre automação de pesquisa de ponta a ponta, ele fez uma observação semelhante sobre escalada em rocha. Alex Honnold pode escalar El Capitan mais rápido e melhor do que Clune jamais vai. Isso não fez Clune desistir de subir. Montanhas e xadrez e ciência não são entretenimento. São coisas que proporcionam significado às pessoas. A ciência pode estar se aproximando de um momento existencial, onde o propósito do trabalho importa mais do que os produtos dele.

Onde a IA pode realmente ajudar

A ironia da situação atual é que a mesma tecnologia que cria problemas no lado da submissão pode ser útil no lado editorial. O gargalo na publicação acadêmica não é produção. É avaliação. Os diários estão se afogando em manuscritos e lutando para encontrar revisores dispostos a lê-los. A IA é adequada exatamente para o tipo de avaliação estruturada que pode aliviar essa pressão.

Considere o que um periódico pode fazer com a IA no pipeline editorial. Antes que qualquer ser humano leia um envio, uma tela automatizada verifica a facilidade de leitura, a densidade do jargão e a complexidade da frase. Trabalhos abaixo de um limiar são devolvidos aos autores com feedback específico. Isso, por si só, filtraria uma parcela substancial dos envios de baixa qualidade que atualmente consomem tempo de editores voluntários.

A IA também pode avaliar dimensões que os editores humanos avaliam de forma intuitiva, mas inconsistente: se as alegações de um artigo são apoiadas por seus métodos, se a revisão da literatura envolve o trabalho anterior relevante, se a abordagem estatística corresponde ao design da pesquisa. Nenhuma dessas avaliações precisaria ser definitiva. Eles precisariam ser informativos o suficiente para ajudar os editores a alocar sua atenção para os manuscritos que merecem isso. O humano fica no circuito. A máquina lida com triagem. No lado da revisão, onde os dados de Gartenberg mostram a inteligência artificial mudando a atenção para a teoria e longe dos dados, um assistente de revisão bem projetado poderia fazer o oposto: levar os revisores a se envolver com alegações empíricas específicas, sinalizando inconsistências entre métodos e resultados, andaime da revisão em vez de substituí-la.

Para mim, a tecnologia não é madura o suficiente para ser implantada de forma confiável em escala. Errar a implementação pode introduzir novos problemas. Mas a restrição de ligação na ciência está mudando da produção para a avaliação, e a IA é a ferramenta mais plausível para abordá-la.

A própria Gartenberg usa Claude e Codex em sua própria pesquisa. Ela não está argumentando que a IA deve ser mantida fora da ciência. Seu artigo é uma medida de onde as coisas estão hoje, não uma previsão de onde elas vão acabar. Como editor de periódicos, reconheço tudo nele: as submissões crescentes, o engajamento do revisor em declínio, o crescente fardo editorial. O sistema está a aguentar. A questão em aberto é se as ferramentas que estão atualmente forçando-o podem ser reaproveitadas para fortalecê-lo.


Fonte: Forbes

Glifosato: ciência em disputa, exposição massiva e os limites da regulação

Entre evidências emergentes e disputas institucionais, o herbicida mais usado do mundo desafia os paradigmas da saúde pública contemporânea

O glifosato tornou-se, nas últimas décadas, um símbolo paradigmático das contradições do modelo agroindustrial contemporâneo. Herbicida mais utilizado no mundo, sua trajetória acompanha a expansão de monoculturas intensivas e o avanço dos organismos geneticamente modificados tolerantes a herbicidas. Mas, à medida que seu uso se intensificou, também se acumularam evidências científicas que apontam para riscos relevantes à saúde humana e ao ambiente — evidências estas que permanecem no centro de uma disputa persistente entre indústria, agências reguladoras e comunidade científica.

Desde sua introdução comercial nos anos 1970 e, sobretudo, após a difusão das culturas “Roundup Ready” nos anos 1990, o glifosato passou de insumo agrícola a contaminante ambiental onipresente. Estudos indicam aumentos expressivos na exposição humana, com detecção frequente em amostras biológicas e alimentos. Esse cenário sugere não apenas um problema ocupacional, restrito a trabalhadores rurais, mas uma exposição difusa, crônica e de baixa dose, característica das sociedades contemporâneas altamente químicas.

A controvérsia central reside na avaliação de seus efeitos à saúde. Enquanto empresas e parte das agências reguladoras sustentam a segurança do produto quando utilizado conforme as recomendações, um corpo crescente de literatura independente aponta para associações com câncer, doenças hepáticas e renais, disfunções endócrinas, alterações reprodutivas e impactos neurológicos. A classificação do glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos” por uma agência internacional de referência marcou um ponto de inflexão nesse debate, ao reconhecer a consistência de evidências experimentais e epidemiológicas, ainda que não conclusivas.

Mais recentemente, estudos têm ampliado a preocupação ao demonstrar efeitos em baixas doses — níveis considerados “seguros” pelos parâmetros regulatórios atuais. Pesquisas toxicológicas e epidemiológicas indicam alterações genéticas, epigenéticas e hormonais, além de impactos no microbioma intestinal e possíveis efeitos intergeracionais. Esse conjunto de achados desafia um dos pilares da toxicologia clássica — a ideia de que “a dose faz o veneno” — ao sugerir que exposições prolongadas e combinadas podem produzir efeitos complexos e cumulativos.

Outro aspecto central da controvérsia diz respeito à própria produção do conhecimento científico. Documentos internos tornados públicos em processos judiciais, assim como análises independentes, revelaram práticas de influência corporativa sobre a literatura científica e sobre processos regulatórios. Estudos financiados pela indústria, frequentemente utilizados por agências governamentais, foram criticados por falhas metodológicas, falta de transparência e inadequação aos padrões científicos contemporâneos. Esse cenário levanta questões estruturais sobre conflitos de interesse e a captura regulatória em áreas de alta complexidade técnica.

A divergência entre avaliações científicas e decisões regulatórias também evidencia limites institucionais. Enquanto algumas agências continuam a afirmar a segurança do glifosato, decisões judiciais e revisões independentes têm questionado essas conclusões, apontando para lacunas nos processos de avaliação de risco. A própria noção de “uso seguro” torna-se problemática quando considerada à luz de exposições ambientais difusas, múltiplas vias de contato e populações vulneráveis, como gestantes e crianças.

Do ponto de vista político-econômico, o caso do glifosato revela a profunda interdependência entre agricultura industrial, mercados globais de commodities e regimes regulatórios nacionais. A dificuldade de restringir ou banir o produto não decorre apenas de incertezas científicas, mas também de sua centralidade nos sistemas produtivos contemporâneos. Nesse sentido, a controvérsia sobre o glifosato não é apenas um debate técnico, mas uma disputa sobre modelos de desenvolvimento, segurança alimentar e sustentabilidade.

Diante desse quadro, cresce entre cientistas e profissionais de saúde a defesa do princípio da precaução. Essa abordagem propõe que, na presença de evidências plausíveis de risco — ainda que não definitivas —, medidas de proteção devem ser adotadas para reduzir a exposição da população. Trata-se de uma inversão importante na lógica regulatória: em vez de exigir prova absoluta de dano, reconhece-se a necessidade de agir diante da incerteza, sobretudo quando os potenciais impactos são amplos e duradouros.

O caso do glifosato, portanto, ultrapassa o debate sobre um único herbicida. Ele expõe as tensões entre ciência, economia e política em um mundo marcado pela dependência de substâncias químicas em larga escala. Mais do que uma controvérsia isolada, trata-se de um laboratório contemporâneo das limitações dos sistemas de regulação frente à complexidade dos riscos ambientais e sanitários do século XXI.


Texto adaptado com base em publicação feita pelo site “U.S. Right to Know” [Aqui! ].

A falácia do encastelamento e o papel real das universidades públicas no desenvolvimento

Por Carlos Eduardo de Rezende

A corrida em direção a Brasília, Câmara de Deputados e Senado Federal, e a Alerj já começou e vemos inúmeras situações impostas por interesses pessoais e partidários. Nesse contexto, observamos diversas situações que envolvem interesses coletivos e o papel das instituições públicas sendo confrontados por interesses pessoais que muitas vezes não são transparentes. No entanto, não pretendo abordar questões político-partidárias ou posicionamentos que pouco contribuem para o fortalecimento das tão cobradas universidades públicas.

O ponto que gostaria de destacar é a recorrente afirmação de que a universidade estaria “encastelada” em seus próprios muros. Trata-se de uma visão superficial e atrasada, que acaba por difundir uma ideia distorcida e equivocada sobre o papel e a atuação dessas instituições públicas de ensino. As universidades públicas exercem uma função ampla e contínua na formação de recursos humanos qualificados, na produção de conhecimento científico e tecnológico e na interação permanente com a sociedade. Além disso, enfrentam diariamente o desafio de demonstrar, na prática, que suas portas estão abertas não apenas à comunidade acadêmica, mas também à sociedade em geral e às autoridades constituídas. Reduzir essa atuação complexa à imagem de isolamento institucional desconsidera as inúmeras iniciativas da extensão universitária, das parcerias com diferentes setores e o impacto direto que essas instituições têm no desenvolvimento social, econômico e cultural.

Ao longo da minha atuação em Campos dos Goytacazes, tive inúmeras experiências com diferentes órgãos públicos, o que reforça uma percepção importante, se há um ator que precisa se aproximar mais das universidades públicas, esse ator são os próprios políticos. A lógica dos políticos costuma ser imediatista, condicionada a ciclos de quatro anos, o que contrasta fortemente com o tempo da ciência e das universidades, que operam em horizontes mais longos. Por isso, é fundamental que gestores públicos se comprometam com a construção e a manutenção de políticas de Estado, que sejam duradouras e não reféns de mudanças de governo. Nesse contexto, professores de instituições públicas também têm um papel crucial: compreender e defender a importância dessas políticas estruturantes. No nosso caso específico, temos vivenciado descontinuidades em políticas que, pela sua natureza e relevância, deveriam ser tratadas como políticas de Estado. Essa instabilidade compromete não apenas a continuidade de projetos, mas também a consolidação de avanços científicos e institucionais.

No final da década de 1990, participei, em Campos dos Goytacazes, de uma proposta política totalmente inovadora: a criação do Fundo Municipal de Ciência e Tecnologia (FMCT). A proposta despertou grande interesse. No evento de lançamento, contamos com a presença de membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC), dirigentes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), profissionais de instituições de ensino superior e diversas lideranças políticas. Na ocasião, foi anunciada a liberação de recursos, formamos uma comissão, diversos projetos foram aprovados e realizamos um trabalho consistente na avaliação dessas propostas. E o que aconteceu? Nada. O político que sucedeu aquele que criou o FMCT simplesmente não liberou os recursos. Com isso, foi sacramentado o fim de uma excelente iniciativa, que deveria estar em pleno funcionamento até hoje.

Duas experiências marcantes ocorreram quando fui diretor do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) e chefe do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da UENF. Na primeira, junto a todos os chefes de laboratório do CBB, participei de um encontro com o presidente da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes. Nosso objetivo era apresentar um diagnóstico detalhado da distribuição de hanseníase e tuberculose no município de Campos dos Goytacazes, oferecendo subsídios técnicos relevantes para a formulação de políticas públicas. No entanto, para nossa frustração, não obtivemos qualquer retorno por parte do presidente que, por ironia, era médico. A segunda experiência diz respeito a um trabalho realizado há cerca de 20 anos, quando, em conjunto com professores do LCA entre outros da UENF, elaboramos um diagnóstico da Lagoa de Cima. Esse estudo deveria ter servido de base para a criação de um Plano Diretor da região da Lagoa de Cima. Mais uma vez, porém, a iniciativa não teve continuidade. Hoje, observa-se uma lagoa que poderia ser um dos principais cartões-postais do município sendo ocupada de forma desordenada, além de sofrer com outros usos questionáveis.

Em conclusão, esses são apenas alguns exemplos do engajamento das universidades públicas na formulação e no apoio a políticas de Estado e, como esses, há muitos outros. Diante disso, é preciso evitar o equívoco, recorrente a cada eleição, de afirmar que a universidade deve “sair de seus muros”. Essa ideia desconsidera o papel que essas instituições já desempenham junto à sociedade. Tal visão torna-se ainda mais preocupante quando parte de pessoas vinculadas às próprias instituições públicas de ensino superior difundem essa visão totalmente equivocada.

 

*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia da Uenf e Bolsista Produtividade 1A do CNPq.

Entre moléculas e doenças: estuda revela o efeito oculto das misturas de agrotóxicos

Misturas de agrotóxicos expõem limites da regulação e revelam conexões ocultas com o câncer 

Um estudo recente publicado na revista Nature Health — “Mapeamento da relação entre misturas de agrotóxicos e risco de câncer em escala nacional por meio da exposômica espacial”, de Jorge Honles e colaboradores (2026) propõe uma mudança profunda na forma como compreendemos a relação entre exposição ambiental e câncer. Em vez de analisar substâncias isoladas, como tradicionalmente faz a toxicologia, os autores adotam uma abordagem integrativa e inovadora para investigar os efeitos de misturas de agrotóxicos em condições reais de exposição. Ao combinar modelagem ambiental de alta resolução, inferência bayesiana e dados epidemiológicos abrangentes, o estudo identifica uma associação espacial consistente entre áreas com maior exposição ambiental a agrotóxicos e maior incidência de câncer no Peru, desafiando pressupostos consolidados sobre a não carcinogenicidade dessas substâncias quando avaliadas individualmente.

O ponto de partida do trabalho é um problema conhecido, mas ainda insuficientemente enfrentado: seres humanos não são expostos a compostos químicos de forma isolada, mas sim a combinações complexas que interagem entre si e com o organismo ao longo do tempo. A toxicologia clássica, ao focar em um ingrediente ativo por vez, tende a subestimar os efeitos emergentes dessas misturas, que podem apresentar comportamentos não lineares e sinérgicos. No estudo, foram considerados 31 ingredientes ativos amplamente utilizados na agricultura peruana — nenhum deles classificado como carcinogênico direto para humanos. Ainda assim, quando modelados em conjunto, revelaram padrões espaciais robustos de associação com a incidência de câncer, sugerindo que o risco pode emergir precisamente da combinação dessas substâncias, e não de sua ação isolada.

A sofisticação metodológica do estudo permite avançar significativamente na caracterização desse risco. Os autores desenvolveram um modelo ambiental baseado em processos que simula o transporte, a degradação e a dispersão dos agrotóxicos no ambiente ao longo de seis anos, integrando variáveis como solo, clima e topografia em uma grade espacial de alta resolução. Esse modelo foi então conectado a dados de mais de 150 mil casos de câncer registrados no país, possibilitando a identificação de aglomerados espaciais de incidência elevada. O uso de inferência bayesiana permitiu estimar riscos relativos com base na exposição ambiental modelada, revelando centenas de pontos críticos onde a associação entre agrotóxicos e câncer é estatisticamente significativa.

Mas o estudo vai além da correlação espacial ao incorporar uma dimensão biológica inovadora: a estratificação dos cânceres segundo sua linhagem de desenvolvimento celular. Em vez de agrupar tumores apenas por órgão afetado, os autores os classificam com base em sua origem embrionária, o que permite identificar vulnerabilidades compartilhadas entre diferentes tipos de tecido. Essa abordagem revelou padrões específicos de suscetibilidade que seriam invisíveis em classificações tradicionais, sugerindo que certos programas celulares podem ser particularmente sensíveis à exposição ambiental a agrotóxicos.

Um dos achados mais impactantes emerge da análise molecular de tecidos hepáticos em regiões de alta exposição. O fígado, por sua função central no metabolismo de substâncias químicas, atua como um verdadeiro sentinela biológico. Os pesquisadores identificaram uma assinatura transcriptômica específica associada à exposição a agrotóxicos, caracterizada não por danos diretos ao DNA, mas por perturbações em circuitos regulatórios que mantêm a identidade celular. Trata-se de um mecanismo de carcinogênese não genotóxico, no qual a célula não é “quebrada”, mas progressivamente desorganizada, entrando em um estado instável que pode, sob determinadas condições, evoluir para transformação maligna. Esse processo parece ocorrer de forma precoce, antes mesmo do surgimento de tumores, o que levanta preocupações adicionais sobre exposições crônicas e de longo prazo.

Esses achados são particularmente relevantes no contexto das desigualdades socioambientais. O estudo mostra que os riscos mais elevados estão concentrados em áreas rurais sob intensa pressão agrícola, frequentemente habitadas por populações indígenas e camponesas. Nessas regiões, a exposição a agrotóxicos se combina com outros fatores estruturais, como acesso limitado à saúde e condições socioeconômicas adversas, produzindo um cenário de vulnerabilidade ampliada. Assim, o mapa do risco ambiental também se revela um mapa da desigualdade, evidenciando que os impactos da contaminação não são distribuídos de forma equitativa.

As implicações políticas e regulatórias desse trabalho são profundas. Ao demonstrar que misturas de agrotóxicos podem estar associadas ao risco de câncer mesmo quando seus componentes individuais são considerados seguros, o estudo expõe limitações importantes nos modelos atuais de avaliação de risco. A regulação baseada em substâncias isoladas pode ser insuficiente para capturar os efeitos reais das exposições ambientais, especialmente em contextos de uso intensivo e contínuo. Além disso, a influência de fatores climáticos, como eventos associados ao El Niño, sugere que mudanças ambientais globais podem intensificar ainda mais esses riscos no futuro.

Embora os autores reconheçam limitações — como a ausência de medidas individuais diretas de exposição — a convergência entre evidências geoespaciais, epidemiológicas e moleculares confere robustez aos resultados. Mais do que estabelecer uma causalidade definitiva, o estudo constrói um argumento consistente e biologicamente plausível de que a exposição a misturas de agrotóxicos pode desempenhar um papel relevante na gênese do câncer em contextos reais.

Em última instância, o trabalho aponta para a necessidade de um novo paradigma na ciência da saúde ambiental. Ao integrar diferentes escalas — do território ao tecido, do ambiente à célula — ele redefine o exposoma como uma ferramenta concreta para compreender como múltiplas exposições moldam o risco de doença. Em um mundo marcado pela intensificação agrícola e pelas pressões ambientais crescentes, essa abordagem não apenas amplia nosso entendimento científico, mas também impõe uma questão urgente: estamos preparados para enfrentar riscos que não são visíveis, isoláveis ou simples — mas profundamente entrelaçados com a forma como produzimos, vivemos e ocupamos o espaço?

‘Nossos medos estão se tornando realidade’: Povos indígenas enfrentam a realidade da perfuração de petróleo na foz do Amazonas

Amazon Indigenous communities face harsh reality of oil… | TBIJ

Por Flávia Milhorance e  Grace Murray para “TBIJ” 

Em janeiro deste ano, 18 mil litros de fluido de perfuração de um poço de petróleo em alto-mar vazaram para o Oceano Atlântico, na costa norte do Brasil. O incidente paralisou as operações e prejudicou a vida marinha.

Era exatamente o que os povos indígenas que viviam ali temiam. “Todos os nossos medos como comunidade indígena, tudo o que nos preocupava, está se tornando realidade”, disse Luene Karipuna, uma jovem líder do povo Karipuna.

As comunidades indígenas de Oiapoque, no norte da Amazônia brasileira, já haviam manifestado há tempos suas preocupações com o projeto. Em reuniões públicas e em comunicações com políticos locais, alertaram que as fortes marés poderiam causar o transbordamento de efluentes em suas terras e que os helicópteros sobrevoariam a área, perturbando a natureza e seu modo de vida.

No entanto, ao longo do processo que durou anos para obter uma licença para perfuração exploratória, a Petrobras, empresa petrolífera estatal, argumentou que a atividade não teria impacto direto sobre os povos indígenas.

Essas comunidades têm solicitado repetidamente uma consulta adequada sobre a exploração de petróleo na Amazônia, em consonância com os acordos internacionais que o Brasil apoia. De maneira mais ampla, o país, sob o governo do presidente Lula, comprometeu-se com a participação significativa dos povos indígenas nas negociações climáticas e nas políticas públicas.

No entanto, a realidade, nas palavras de Luene, apresenta “uma flagrante contradição”. Analisamos centenas de documentos, atas de reuniões e trocas de mensagens entre o órgão ambiental brasileiro e empresas petrolíferas, incluindo a Petrobras. Descobrimos que repetidos alertas sobre os efeitos da prospecção sobre os povos indígenas foram ignorados e que essas comunidades não foram devidamente consultadas.

Anos de avisos

Durante décadas, as grandes empresas petrolíferas têm cobiçado esta parte da Bacia Amazônica. Ela abriga milhares de espécies da vida selvagem, muitas das quais seriam vulneráveis ​​a um derramamento de petróleo – incluindo a tartaruga-de-couro, a baleia-azul e o peixe-boi-das-antilhas.

A BP solicitou pela primeira vez autorização para licenciar uma parte do leito marinho offshore (conhecida como Bloco 59) em 2014, após vencer leilões em consórcio com a Petrobras no ano anterior. Apesar da presença de territórios indígenas próximos à costa e de outros conectados ao mar por vias navegáveis, o pedido inicial da BP não mencionava os povos indígenas.

A empresa então submeteu estudos ambientais ao Ibama, o órgão regulador ambiental brasileiro. O Ibama identificou diversos problemas, incluindo a falta de dados ambientais de referência, programas de monitoramento e planos de manejo para as aves e mamíferos da área.

Desde então, ocorreram algumas reuniões públicas, mas os representantes indígenas constituíram apenas uma pequena porcentagem dos participantes. Em 2016, a BP se reuniu com líderes indígenas em Oiapoque. A empresa observou as preocupações das comunidades sobre derramamentos de petróleo e combustível, a necessidade de consultas que respeitassem os protocolos indígenas e o potencial aumento de voos que perturbariam a vida selvagem. A BP não comentou para esta reportagem, informando que não possui participação no Bloco 59 desde 2020.

Costa Oiapoque no estado do Amapá, BrasilNelson Almeida / AFP

A tartaruga-de-couro é uma das muitas espécies ameaçadas por derramamentos de petróleo nas proximidades.Philippe Giraud / Corbis via Getty

Quando a Petrobras assumiu o controle total do Bloco 59, a empresa ainda precisava de uma licença ambiental do Ibama para perfuração exploratória – e, para isso, agendou novas audiências públicas. Mas o trabalho na plataforma continuou.

Em uma reunião com a Petrobras no início de 2023, líderes indígenas expressaram novamente preocupação com os helicópteros que sobrevoavam seus territórios. Na ocasião, a Petrobras alegou que havia uma média de apenas dois voos diários sobre suas terras.

Mas o número real foi quase quatro vezes maior. Novos dados de voo que obtivemos mostram que o número de helicópteros da Petrobras sobrevoando os territórios até as plataformas marítimas aumentou de 130 em 2022 para quase 3.000 em 2023. No ano passado, esse número subiu novamente, para mais de 4.000. A Petrobras não respondeu às nossas perguntas para esta reportagem.

Segundo o chefe Edmilson, coordenador do Conselho de Chefes Indígenas da região de Oiapoque, o barulho dos helicópteros espantou os animais. Ele afirmou que os moradores relataram o desaparecimento repentino de um grande número de pássaros. Os peixes nos rios também se tornaram mais escassos, afetando o abastecimento de alimentos. “Este projeto nos tirou a paz”, disse ele.

Perfuração exploratória em um poço que faz parte do projeto Bloco 59.Petrobras

Consulta inadequada

Enquanto a Petrobras prosseguia com o processo de obtenção da licença de perfuração, a atenção dos moradores se voltou para a Convenção 169 da OIT, um tratado internacional vinculativo assinado pelo Brasil. Em audiências públicas realizadas em 2022 e 2023, eles exigiram saber se os povos indígenas seriam consultados, em conformidade com as obrigações da convenção. A convenção exige consultas livres, prévias e informadas aos povos indígenas, com o objetivo de obter seu consentimento para projetos que os afetem.

Luene é uma das muitas líderes indígenas em Oiapoque. Ela trabalhou com outros povos dos povos Karipuna, Palikur, Galibi-Marworno e Galibi Kali’na para criar um protocolo de consulta. Este protocolo dá menos ênfase a reuniões com um ou dois líderes e, em vez disso, incentiva processos coletivos e culturalmente apropriados, nos quais informações claras e oportunas são compartilhadas. O processo também deve proporcionar tempo e espaço suficientes para deliberação dentro dos territórios.

Luene afirmou que isso não aconteceu. Ela disse que existe confusão entre audiências públicas, às quais qualquer pessoa pode comparecer, e reuniões específicas para, digamos, universidades ou povos indígenas. O formato público, disse Luene, “não funciona para os povos indígenas”.

No ano passado, Luene foi uma das 100 pessoas indígenas que entrevistamos antes das negociações climáticas globais no Brasil. Ela nos contou como a exploração de petróleo está transformando sua comunidade de maneira drástica e que os custos de contestá-la são altos. “Quando começamos a nos posicionar e exigir consulta”, disse ela, “começamos a receber inúmeras ameaças”.

Nos três anos desde que começou a se manifestar, Luene disse que houve várias tentativas de silenciá-la, incluindo um arrombamento em sua casa e ameaças online. Agora, ela muda de endereço regularmente na tentativa de proteger a si mesma e à sua família.

Licença para perfuração

Em 2023, o Ibama negou à Petrobras uma licença de perfuração. Um documento oficial citou a alta sensibilidade ambiental do litoral amazônico, o risco de derramamentos de petróleo e as limitações no plano de resposta a emergências da empresa. O documento também observou que o estudo ambiental da Petrobras não havia avaliado adequadamente os impactos dos voos. (A empresa contestou a decisão, alegando ter resolvido a questão com um líder indígena. No entanto, descobriu-se que o representante era do governo local e não representava a comunidade.)

O advogado ambientalista Rodrigo Leitão disse que, quando começou a trabalhar com organizações indígenas em Oiapoque, em 2024, elas tinham recebido pouca ou nenhuma informação concreta sobre os planos de exploração de petróleo da Petrobras. “Ninguém tinha falado com eles ainda”, lembra.

Segundo Leitão, as reuniões realizadas nos anos anteriores não abordaram a questão central da consulta nem os potenciais impactos da exploração. Em vez disso, afirmou, as discussões se concentraram em projetos que a Petrobras alegava beneficiar a comunidade. Tanto o Estado quanto a Petrobras deixaram de cumprir uma obrigação fundamental para com os povos indígenas, disse ele: “Eles não reconhecem o direito à consulta livre, prévia e informada, de boa-fé”.

Uma decisão recente do Tribunal Federal do Amapá determinou que não havia obrigação legal de realizar consulta na fase de prospecção do licenciamento, uma vez que não havia impacto direto e imediato sobre comunidades indígenas ou tradicionais. A decisão, em resposta a uma ação civil movida contra o Ibama e a Petrobras pelo Ministério Público Federal, também afirmou que, embora não tenha havido consulta formal aos povos indígenas, o processo de licenciamento ambiental ofereceu diversas oportunidades de participação.

A Petrobras, empresa petrolífera estatal brasileira, afirmou que seu projeto em alto-mar não afetaria comunidades indígenas.Vanderlei Almeida/AFP via Getty Images

No início do ano passado, o Ibama continuava negando a licença à Petrobras. A questão do aumento dos voos sobre os territórios permanecia sem solução. Os planos de proteção da fauna, embora aprimorados pela Petrobras, continuavam em discussão. Contudo, em maio passado, algo mudou: o órgão regulador ordenou que o processo prosseguisse.

Seis meses depois, em 20 de outubro, o Ibama emitiu uma licença de operação para perfuração exploratória. A Petrobras iniciou a perfuração no mesmo dia.

Ibama informou que a avaliação de impacto ambiental da atividade de perfuração offshore no Bloco 59 foi aprovada dentro dos parâmetros técnicos e legais estabelecidos.

Ibama acrescentou que a licença só foi concedida após a apresentação de um plano de emergência atualizado com um “aumento nos cuidados com a vida selvagem”, e uma avaliação realizada em agosto de 2025 mostrou que isso era viável.

Suely Araújo, ex-presidente do Ibama, nos disse que esse processo expôs mais uma vez deficiências críticas nos procedimentos de consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais.

Embora a Petrobras tenha cumprido uma série de exigências do Ibama – incluindo a apresentação de estudos e a participação em audiências públicas –, essas formalidades não contemplaram as implicações mais amplas do projeto, afirmou Araújo. Ela agora trabalha para o Observatório do Clima, uma rede de ONGs que está movendo uma ação judicial buscando a paralisação imediata de todas as perfurações. Essa é uma das três ações que contestam o licenciamento da exploração de petróleo na região e alegam consultas inadequadas. O Ibama informou que está ciente das ações e que respondeu prontamente a cada uma delas.

O tratado internacional que o Brasil assinou “tem força de lei”, disse Araújo. “Não é uma questão de escolha.”

E agora?

Duas das três ações judiciais que visam impedir a perfuração estão em andamento e iremos monitorá-las. A ação movida pelo Ministério Público Federal, que foi rejeitada, poderá ser objeto de recurso.

O relator especial da ONU para os Povos Indígenas está elaborando um relatório sobre a consulta e o consentimento livre, prévio e informado dos povos indígenas em projetos como a exploração de petróleo, que afetam suas terras. Ele apresentará o relatório na Assembleia Geral da ONU em setembro. Já contribuímos com evidências como parte desse processo.

Imagem de cabeçalho: Luene Karipuna, líder do povo Karipuna

Repórteres: Flávia Milhorance e Grace Murray.
Editor de Meio Ambiente: Rob Soutar.
Editora Adjunta: Chrissie Giles.
Editor: Franz Wild.
Editor de Produção: Alex Hess.
Verificador de Fatos: Ero Partsakoulaki.

O Bureau conta com diversos financiadores, cuja lista completa pode ser encontrada aqui. Nenhum dos nossos financiadores exerce qualquer influência sobre as decisões editoriais ou o conteúdo produzido.


Fonte:  TBIJ

A raposa no comando do galinheiro: a captura corporativa da conservação ambiental

Escondidas sob o discurso da proteção da biodiversidade, grandes empresas avançam sobre territórios de uso comum, convertem a natureza em ativo e desterritorializam comunidades tradicionais

Uma nota publicada no “Portal Portuário” anuncia a criação da Rede Brasileira de Reservas Privadas (RBRP), uma iniciativa que, à primeira vista, se insere em uma agenda amplamente legitimada — a conservação ambiental e o cumprimento de metas globais de biodiversidade. No entanto, em uma rápida leitura crítica encontramos fortes tensões entre essa agenda e os modos de vida de comunidades tradicionais, especialmente quando a proteção ambiental é apropriada por grandes corporações como instrumento de reorganização territorial. 

Desta forma, a criação da rede liderada por empresas como Vale, Suzano e Reservas Votorantim deve ser situada no contexto mais amplo da financeirização da natureza e da crescente centralidade dos chamados “serviços ecossistêmicos”. Nesse quadro, a conservação deixa de ser apenas um imperativo ético ou ecológico e passa a ser também um ativo estratégico, com valor econômico, reputacional e geopolítico. O problema não está necessariamente na conservação em si, mas na forma como ela é territorializada e governada, muitas vezes seguindo a lógica corporativa.

Historicamente, processos de criação de áreas protegidas — inclusive públicas — já foram associados à expulsão ou marginalização de populações locais. O que se observa agora é uma reconfiguração desse fenômeno: a privatização da conservação. Quando grandes empresas passam a gerir extensas áreas “protegidas”, frequentemente em regiões onde há ou houve usos comunitários, abre-se espaço para processos de desterritorialização mais sutis, porém igualmente impactantes. Comunidades que dependem desses territórios para práticas como pesca artesanal, extrativismo ou agricultura de subsistência podem ser excluídas em nome de uma racionalidade ambiental que não reconhece seus modos de vida como compatíveis com a conservação. Coincidentemente ou não, isso é o que assistimos nas disputas envolvendo o acesso e uso dos recursos pesqueiros na Lagoa de Iquipari que foi sutilmente incorporada à fazenda particular que o Grupo EBX comprou para transformar na RPPN Caruara.

Esse ponto é crucial: muitas comunidades tradicionais são, historicamente, agentes de conservação dado que seus sistemas de uso comum (baseados em regras consuetudinárias e conhecimentos locais) frequentemente garantem a manutenção da biodiversidade. No entanto, a lógica corporativa tende a deslegitimar esses saberes, substituindo-os por modelos técnicos e gerenciais que privilegiam métricas, certificações e padrões internacionais. Assim, o que se apresenta como “proteção da natureza” pode, na prática, significar a substituição de um regime de uso coletivo por um regime de controle privado.

Além disso, há uma dimensão política importante. Empresas com histórico de impactos socioambientais significativos passam a ocupar um lugar de protagonismo na governança ambiental. Isso na prática funciona como estratégia de “greenwashing”, e também como mecanismo de reconfiguração de poder: ao se posicionarem como guardiãs da biodiversidade, essas corporações ampliam sua legitimidade pública e sua capacidade de influenciar políticas ambientais. A governança “colaborativa” mencionada no texto pode, nesse sentido, mascarar assimetrias profundas entre atores corporativos e comunidades locais.

Outro elemento relevante é a articulação com agendas globais, como o Marco Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal. Embora essas metas sejam importantes, sua implementação pode reforçar dinâmicas de cima para baixo, em que compromissos internacionais são traduzidos em intervenções territoriais sem a devida participação das populações afetadas. A padronização de práticas de conservação em escala global tende a ignorar especificidades locais, favorecendo soluções que são mais facilmente mensuráveis e reportáveis — algo que se alinha bem com a lógica corporativa, mas nem sempre com a justiça socioambiental.

Portanto, a iniciativa da criação da RBRP deve ser analisada a partir de uma tensão central: entre conservação e justiça territorial. A proteção ambiental não é neutra; ela envolve disputas sobre quem decide, quem se beneficia e quem arca com os custos. Quando a conservação é apropriada por grandes empresas, sem mecanismos robustos de participação e reconhecimento dos direitos das comunidades tradicionais, há o risco de que ela se torne mais um vetor de expropriação.

Uma abordagem mais equilibrada exigiria, no mínimo, o reconhecimento dos territórios de uso comum, a garantia de consulta prévia, livre e informada, e a incorporação efetiva dos conhecimentos tradicionais na gestão ambiental. Sem isso, iniciativas como a RBRP podem acabar reforçando uma lógica em que a natureza é protegida, mas à custa da exclusão daqueles que historicamente a preservaram.

Em última instância, há um risco evidente — e difícil de ignorar — de que estejamos diante de uma situação em que a “raposa passa a tomar conta do galinheiro”. Quando corporações com histórico de forte impacto ambiental e territorial assumem o protagonismo na definição, gestão e legitimação de áreas de conservação, cria-se um cenário de potencial conflito de interesses estrutural. A mesma racionalidade que orienta a expansão de empreendimentos extrativos ou monoculturas em larga escala passa a moldar os critérios de proteção ambiental, o que pode resultar em formas seletivas e estratégicas de conservação — aquelas que não confrontam, e por vezes até compensam, os danos gerados em outros territórios. Nesse arranjo, a conservação corre o risco de deixar de ser um fim em si mesma e tornar-se um instrumento de gestão de imagem, compensação ambiental e controle territorial, frequentemente à revelia — ou em detrimento — das comunidades que historicamente cuidaram desses espaços.

1º de maio: dia de luta pelo fim da escala 6 x 1

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As inovações tecnológicas trouxeram um aumento da riqueza social, que não foi apropriado pela classe trabalhadora | Crédito: divulgação

A luta pelo fim da escala 6×1 nos provoca a defender o direito ao tempo

Por Geraldo Márcio Alves dos Santos, Charles Moreira Cunha e Sania Barcelos Reis 

1º de maio de 2026: qual bandeira de luta dignificaria essa data? Trazemos e defendemos o fim da expropriadora escala que impõe seis dias de trabalho e apenas um dia de “descanso”. A pauta atual e quase generalizada sobre a jornada de trabalho cresce em tamanho e qualidade, e traz um mote que unifica, fortalece e conscientiza à luta milhares de trabalhadoras e trabalhadores de diferentes setores da economia brasileira.

Houve um tempo em que o galo, em seu canto da alvorada, anunciava a hora de começar a trabalhar. Já o fim da jornada diária poderia ser anunciado pelo crepúsculo, por outra referência da natureza, pelo fim de uma determinada tarefa ou pela completa exaustão humana.

Thompson, em “Tempo, disciplina de trabalho e o capitalismo industrial”, fala em como a difusão e imposição do relógio mecânico, a partir da Revolução Industrial, desfazem de antigos hábitos sobre a jornada de trabalho. Essa extorsão do tempo foi mais cruel com as mulheres, uma vez que, em uma sociedade patriarcal, recai sobre elas o trabalho doméstico e o cuidado com os filhos, transformando o único dia de folga em trabalho invisível e não remunerado.

Nas últimas décadas, o trabalho humano e as inovações tecnológicas trouxeram um extraordinário aumento quantitativo da riqueza social. No entanto, por coerência do próprio sistema econômico, político e social, não há um justo acesso aos bens e serviços que resultam dessa riqueza e, tampouco, uma diminuição das horas extensivas para o descanso ou para a fruição da vida e, quando muito, apenas uma flexibilização dos intervalos dessa jornada, ou as duplas jornadas e, com efeito, o crescimento dos chamados “bicos”, “entregadores por aplicativos”, “diaristas”, etc.

Essa equação injusta ficou mais complexa e perversa com a resignificação dos espaços-tempo de trabalho e de exploração. Há uma regulação do trabalho que continua capturando as relações entre tempo de trabalho, agora mediadas pelas tecnologias digitais, especialmente uma que se tornou muito íntima e praticamente insuprimível entre nós: o telefone celular.

Marx, ao explicar a maquinaria, diz que essa subverte a ferramenta do artesão, enquanto extensão de seu próprio corpo, e passou a ditar o ritmo do trabalho. Por isso, é importante refletir: o telefone celular, essa tecnologia de comunicação, controle e minerador de dados, é uma ferramenta de extensão da vontade humana, ou já dita o ritmo do nosso trabalho e de nossas vidas?

Entretanto, se isso já está dado, e como parcela da sociedade ideologicamente reproduz, se a CLT está derrotada, se o mundo do trabalho é radicalmente novo, então, como diria Carlinhos Jardel: “qual será a razão de tanto barulho contra o fim da escala 6×1?”.

A luta pelo fim dessa escala despertou a centralidade do trabalho em nossas vidas e nos provoca a defender o direito ao tempo ou tempos da fruição pelo tamanho da riqueza social das vidas de toda a classe social trabalhadora. E, neles, os tempos e espaços das vidas confluem todos os sentidos do trabalho, quais sejam, melhorar todas as vidas humanas no presente e no futuro. Nesse sentido, essa é a melhor bandeira social dos últimos tempos no Brasil. Por uma vida digna, diversa, democrática e justa, que venha o fim da escala 6×1.

Geraldo Márcio Alves dos Santos, Charles Moreira Cunha e Sania Barcelos Reis são membros do Coletivo da Experiência do Núcleo de Estudos sobre Trabalho e Educação, da Faculdade de Educação (FaE) da UFMG.


Fonte: Brasil de Fato

Estudo alegava que o ChatGPT melhorava o processo de aprendizagem causou grande impacto. Agora, ele foi despublicado

O artigo de pesquisa recomendava a integração do ChatGPT no ensino e teve ampla circulação. Graças a dois pesquisadores noruegueses, ele foi despublicado

O aplicativo ChatGPT da OpenAI em exibição na App Store da Apple em um smartphone.

Segundo os críticos, o estudo não mediu realmente se o uso do ChatGPT ajudou os alunos a aprenderem mais, mas sim a qualidade do que eles produziram usando o ChatGPT. São duas coisas bem diferentes. Foto: Matt Rourke /AP / NTB

Por JorgenSvarstad para “Krono”

Em um artigo de pesquisa publicado na revista Humanities and Social Sciences Communications em maio passado , dois pesquisadores chineses afirmaram que o uso do ChatGPT tem um grande efeito positivo na aprendizagem dos alunos.

Tratava-se de uma meta-análise que revisou 51 quase-experimentos sobre inteligência artificial (IA) e ChatGPT.

“Para obter os melhores resultados, o ChatGPT deve ser integrado ativamente ao ensino, de preferência ao longo de várias semanas e com suporte dentro de uma estrutura pedagógica clara”, recomendaram os autores.

O artigo recebeu muita atenção e foi destaque em diversos veículos de comunicação noruegueses, como  Khrono ,  NRK   Aftenposten 

Segundo a Altmetric, o artigo foi lido mais de 470.000 vezes e citado mais de 250 vezes em outras pesquisas .

Dois pesquisadores da UIT criticaram 

Mas também foi alvo de críticas. Dois funcionários de universidades norueguesas, o pesquisador Magnus Ingebrigtsen e o professor sênior Marko Lukic, da UiT – Universidade Ártica da Noruega, foram os primeiros a criticá-la. 

Eles acompanharam o caso de perto, e suas críticas foram decisivas para a decisão da revista esta semana de retratar o artigo.

O aviso de retirada de obra da editora é relativamente enigmático. Ele afirma:

“O editor decidiu retratar este artigo devido a preocupações relacionadas a discrepâncias na meta-análise. Essas questões, em última análise, comprometem a confiança que o editor pode ter na validade da análise e nas conclusões dela derivadas.”

O texto afirma ainda que os autores não responderam aos questionamentos sobre a retratação.

A Khrono também tentou entrar em contato com os autores para obter comentários, mas não recebeu resposta.

Você acha que isso não mede os resultados da aprendizagem? 

Algumas semanas após a publicação do artigo no ano passado, Ingebrigtsen e Lukic escreveram em uma coluna na Khrono que “Não, esta meta-análise não mostra melhor aprendizado com o ChatGPT.”

Eles escreveram ainda que a meta-análise não mediu principalmente a aprendizagem, mas sim os “resultados da aprendizagem”, ou seja, a qualidade do código ou dos textos acadêmicos produzidos com a ajuda do ChatGPT. 

Magnus Ingebrigtsen (à esquerda) e Marko Lukic duvidaram da conclusão do estudo.  Universidade de Tecnologia

Além disso, apontaram diversos erros graves: números incorretos de participantes, tamanhos de efeito calculados incorretamente, uso acrítico de estudos originais fracos e casos em que variáveis ​​que não foram medidas nos estudos originais foram, no entanto, utilizadas na análise.

“Os erros são tão significativos que o artigo jamais deveria ter passado pela revisão por pares e justificam uma revisão completa, ou mesmo uma retratação”, escreveram eles. 

Os dois entraram em contato diretamente com os autores, que é o que as diretrizes da editora Springer Nature indicam ser a primeira coisa que os críticos devem fazer.

A resposta dos pesquisadores

Magnus Ingebrigtsen diz:

– Eles nos responderam imediatamente. Enviaram-nos bastante material. Entre outras coisas, um arquivo chamado data.xlsx, mas que na verdade não continha nenhum dado, apenas a bibliografia. Depois, enviaram-nos um gráfico com uma resolução tão ruim que mal dava para ler os valores. Em seguida, responderam a todos os nossos pontos e admitiram muitos dos erros, mas atribuíram-nos a erros de formatação ocorridos durante o processo de composição tipográfica.

Em seguida, os dois pesquisadores noruegueses enviaram à revista um artigo intitulado “Questões Emergentes”, que consiste em um comentário científico sobre o artigo. 

Lá, eles solicitaram formalmente a retratação do artigo devido a erros. Apontaram, entre outras coisas, que o estudo individual com maior peso na meta-análise já havia sido retratado antes da publicação do controverso estudo ChatGPT. 

O segundo estudo com maior peso não mediu o desempenho de aprendizagem, mas sim a autoconfiança e a aceitação da tecnologia.

Finalmente foi despublicado

O editor respondeu que iriam investigar o assunto. Passaram-se meses sem que nada acontecesse. 

Em abril, os pesquisadores noruegueses encaminharam o caso ao grupo de integridade científica da editora Springer Nature. Apenas cinco dias depois, receberam a notícia de que o artigo havia sido retratado. 

O editor também escreveu que foi o artigo “Assuntos Emergentes” que desencadeou a investigação.

– É fantástico que tenha sido despublicado , mas demorou muito tempo, diz Ingebrigtsen.

Grande impacto 

Ele acredita que muitos danos foram causados ​​nos dez meses desde a publicação do artigo.

O vídeo recebeu quase meio milhão de visualizações e várias centenas de citações científicas.

Segundo Ingebrigtsen, um projeto educacional financiado pela União Europeia utilizou o estudo como argumento de que a IA tem um grande impacto positivo na aprendizagem. 

Ingebrigtsen afirma que as empresas de tecnologia educacional (edtech) usam isso em seu marketing.

Pesquisadores da área da educação na Noruega já discutiram o assunto.

— E se você perguntar a qualquer modelo de linguagem, ChatGPT, Gemini ou Claude, se existem bons estudos que mostram que o ChatGPT proporciona um aprendizado melhor, eles citarão este. Portanto, uma consequência disso é que potencialmente muitas pessoas se referem a este estudo — afirma ele.

– Por que você insistiu tanto nisso?

— Esta é a minha área de especialização. Estou escrevendo uma tese de doutorado sobre como aprendemos melhor e com mais eficácia. Me irrita que descobertas imprecisas e pouco confiáveis ​​como essa influenciem decisões importantes sobre escolas e educação — afirma ele.

 Acredito que a IA pode ter efeitos positivos na aprendizagem, mas também efeitos negativos significativos. Tudo depende de como a utilizamos. A literatura atual é caracterizada por “exageros”, e muitos artigos são publicados sobre IA e educação. No entanto, muitos deles apresentam fragilidades metodológicas e, ainda assim, chegam a conclusões extremamente positivas.


Fonte: Krono

UENF em luta: O significado do 1º de Maio no Rio de Janeiro

O 1º de Maio, mais do que uma data comemorativa, permanece como um marco histórico de  luta e afirmação coletiva. No Brasil — e de forma particularmente aguda no estado do Rio de Janeiro — o dia de hoje ganha contornos ainda mais urgentes: não se trata apenas de celebrar o trabalho ou os trabalhadores, mas de defender as condições mínimas para que se possa trabalhar com dignidade.

A imagem que inspira este texto traduz com força essa realidade. O campus Leonel Brizola, visto de cima, deixa de ser apenas um espaço físico e passa a simbolizar um território em disputa. Ali, onde deveriam florescer ensino, pesquisa e extensão, também é marcado pela resistência. A universidade pública, gratuita e de qualidade não é um dado garantido — é uma construção permanente, sustentada pelo trabalho cotidiano de professores, servidores técnicos e estudantes. 

No Rio de Janeiro, essa luta assume um peso particular. Décadas de instabilidade fiscal, má gestão, escândalos de corrupção e políticas de austeridade corroeram as bases do serviço público. As universidades estaduais, como a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, tornaram-se alvos recorrentes de corrosão salarial, cortes orçamentários e desvalorização institucional. O resultado é um cenário em que produzir conhecimento, formar profissionais e manter projetos de impacto social exige não apenas competência, mas resistência.

É nesse contexto que o 1º de Maio se reinventa como dia de denúncia e mobilização. As palavras de ordem que ecoam — por recomposição salarial, pela adoção do novo PCV, por investimento, por respeito à educação — não são retóricas vazias. Elas expressam a necessidade concreta de recompor condições de trabalho e de existência. Falar em valorização docente é, em última instância, falar sobre o futuro da própria sociedade.

 Defender a universidade pública no Rio de Janeiro hoje é também enfrentar um ambiente mais amplo de precarização social, marcado pela violência cotidiana e pela erosão da confiança nas instituições políticas. Nesse cenário, as universidades estaduais (Uenf e Uerj) se mantém como um espaços capazes de produzir conhecimento crítico, formar cidadania e oferecer alternativas para o desenvolvimento social.

Por isso, o 1º de Maio, neste contexto, não pode ser reduzido a uma celebração vazia. Ele é, antes de tudo, um chamado  à organização, à solidariedade e à ação coletiva. Um lembrete de que direitos não são concessões, mas conquistas — e que, como tal, precisam ser defendidos continuamente.

Celebrar o Dia do Trabalhador, portanto, é reafirmar um compromisso: com a educação pública e gratuita de qualidade, com os trabalhadores da educação e com a construção de um futuro que não seja refém do atraso, da negligência e da desigualdade. É preciso reconhecer que, enquanto houver luta, haverá também a possibilidade de transformação.