O indicador conhecido como “Produto Interno Bruto” foi desenvolvido na década de 1930 pelo economista russo-americano Simon Kuznets, em resposta à necessidade de medir a produção econômica durante a Grande Depressão. Já a ferramenta para calcular o PIB foi formalmente desenvolvida em 1937 e aprimorada na década de 40 por Richard Stone, ganhando destaque internacional após a conferência de Bretton Woods em 1944.
Na prática, o crescimento do valor do PIB se dá pelo avanço das formas predatórias de produção e reprodução do capitalismo. No entanto, governos nacionais tendem a festejar o crescimento do PIB e dar de ombros para a óbvia realidade que isso se dá, invariavelmente, às custas dos sistemas naturais da Terra e da exploração dos trabalhadores.
Mas há algo mais candente ainda em tempos de colapso climático: o aumento do PIB, ou a perseguição dele, está na raiz da crise climática. É que quanto mais crescimento se tem, mais destruição está ocorrendo e mais gases estufa estão sendo emitidos para aquecer ainda mais a atmosfera.
Economia solidária? Capitalismo verde? Essas são fórmulas nas quais não se abre mão do crescimento do PIB, ou seja, não alteram em nada o ritmo de destruição imposto pelas formas concretas pelas quais o capitalismo opera. Quando muito, essas variantes servem para dar um “greenwashing” no capitalismo, nada mais do que isso.
O fato inescapável é que só poderemos falar com um mínimo de credibilidade em lutar pelo controle do colapso climático que se avizinha se a noção de crescimento do PIB for a única aceita para se medir o grau de êxito de sociedades inteiras. Na prática, a única notícia que poderá ser considerada boa virá com a queda acentuada do PIB global. Qualquer coisa diferente disso, será inútil para se tatar do problema climático.
Caso recente em Bacabal deixou família intoxicada e roça destruída. Organizações apontam escalada da pulverização por drones sobre comunidades tradicionais no estado
Por Yuri Almeida para “Atual 7”
A Rama(Rede de Agroecologia do Maranhão) denunciou ao Ministério Público estadual e federal, ao CNDH (Conselho Nacional de Direitos Humanos) e à ONU (Organização das Nações Unidas) a contaminação por agrotóxicos de 141 comunidades no estado, identificadas somente em janeiro de 2026. O Atual7 teve acesso aos documentos que compõem o conjunto das denúncias.
Entre os casos documentados está o de Joacy Oliveira Marinho, agricultor familiar do povoado Pau D’Arco do Igapó, zona rural de Bacabal. Conforme a denúncia enviada ao procurador-geral de Justiça Danilo de Castro, no dia 22 de janeiro último, um drone teria partido da propriedade de Marilene Henrique Santana, vizinha do terreno da família, e pulverizado defensivo agrícola para além dos limites do próprio imóvel, atingindo os dois hectares onde Joacy, sua esposa Maria Lecy Martins dos Santos e a filha Ariele dos Santos Marinho de Mesquita cultivam o sustento da família.
Laudo técnico do engenheiro agrônomo Jerffson Leite Santos constatou fitotoxicidade severa, termo usado pelos especialistas quando confirmado o envenenamento das plantas por agrotóxicos, com amarelecimento de folhas, morte de tecidos vegetais, murcha, abortamento de flores e frutos e perda total de plantios. Os prejuízos diretos foram estimados em mais de R$ 33,5 mil.
Na denúncia, a Rama enquadra a conduta no artigo 54 da Lei nº 9.605/98, que classifica como crime causar poluição que resulte ou possa resultar em danos à saúde humana ou destruição significativa da flora, com pena de reclusão de um a cinco anos quando o lançamento de substância ocorre em desacordo com a legislação.
Em vídeo divulgado pela entidade nas redes sociais, Joacy relata que o veneno caiu sobre seu corpo enquanto trabalhava. “O veneno pegou em mim aqui, eu senti aquele mau cheiro do veneno e foi na hora que eu chamei minha filha: ‘tão jogando é veneno aqui’”, conta. Ele diz que passou dias com queimação nos braços.
Ainda na gravação, aos prantos, o trabalhador rural mostra plantas que cultivava havia uma década. “Eu cuido do quê? Há dez anos uma planta dessa. Dez anos. Aí vê uma coisa dessa que aconteceu. É um absurdo”, desabafa.
Maria Lecy, esposa de Joacy, aparece no registro mostrando as plantas destruídas e diz que a produção abastecia também a comunidade escolar local. “A gente entrega isso aqui pro colégio, [agora] a gente não tem o que entregar mais”, lamenta.
De acordo com a Rama, a pulverização atingiu ainda espécies nativas como palmeiras de coco babaçu e colocou em risco um igarapé próximo à propriedade.
Até a última quinta-feira (12), data da denúncia, nenhuma das três vítimas da contaminação por agrotóxicos havia recebido assistência médica ou acompanhamento toxicológico. O estado sequer dispõe de um Plano de Vigilância e Atenção à Saúde de Populações Expostas aos Agrotóxicos, segundo apontou o advogado Diogo Cabral, da Rama, em publicação nas redes sociais no sábado (14).
Bacabal já tem histórico de ocorrências graves envolvendo agrotóxicos. O balanço anual da Rama, publicado em janeiro de 2026, registra que dez comunidades do município foram atingidas por pulverização somente em 2025, entre elas Barreirinhas, Catucá, Fundamento e Piratininga. Em novembro de 2022, Cabral denunciou a morte de milhares de peixes no povoado Alto Bonito, no mesmo município, após agrotóxico lançado por um fazendeiro atingir um rio.
A Constituição Federal, no artigo 225, assegura a todos o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e impõe ao poder público o dever de defendê-lo. A Lei nº 11.326/2006, que estabelece as diretrizes da Política Nacional da Agricultura Familiar, garante proteção aos agricultores contra práticas que comprometam sua atividade produtiva. No plano internacional, o direito à alimentação adequada, reconhecido no Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, do qual o Brasil é parte, está diretamente ameaçado quando uma família perde a totalidade da sua produção por contaminação química.
O caso de Pau D’Arco não é isolado. Na denúncia enviada à ONU em 5 de fevereiro, a Rama detalha o perfil das 141 comunidades maranhenses atingidas no mês passado pela pulverização de agrotóxicos. Segundo a organização, 120 são comunidades tradicionais e povoados, o que representa 85,1% do total. O monitoramento também identificou sete aldeias da Terra Indígena Bacurizinho sob o que a rede descreve como pressão química constante, além de cinco territórios quilombolas e nove assentamentos de reforma agrária. Os municípios de Brejo e Milagres do Maranhão concentram 41 comunidades afetadas. São Benedito do Rio Preto registra 27. Em Anapurus, a Rama aponta contaminação no nascimento do rio Preguiça.
O documento pede à ONU um chamamento urgente ao Estado brasileiro, visita oficial para ouvir vítimas e suspensão imediata da pulverização aérea e por drones nas cercanias de territórios protegidos. A Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), ratificada pelo Brasil, obriga o Estado a proteger a integridade territorial e ambiental de povos indígenas e tribais.
Em 2024, levantamento da Rama, Fetaema (Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão) e Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia da Universidade Federal do Maranhão (LEPENG/UFMA) já havia registrado 228 comunidades contaminadas por pesticidas em 35 municípios do estado, com 94% dos casos atribuídos a drones,segundo a Repórter Brasil. Em 2025,o balanço consolidado da Ramaaponta 110 comunidades atingidas em 29 municípios. A rede interpreta a queda como resultado de subnotificação agravada por intimidação e pelo uso de “drones fantasmas”, equipamentos sem registro que operam à noite ou nos fins de semana para dificultar flagrantes. As 141 comunidades identificadas somente em janeiro de 2026 superam, em um único mês, o total de todo o ano anterior.
Já a CPT (Comissão Pastoral da Terra),em dados publicados pelo Brasil de Fato, registrou que, apenas no primeiro semestre de 2024 de um total de 182 casos de contaminação por agrotóxico em todo o Brasil, 156 ocorreram no Maranhão, o que representa quase dez vezes mais que no mesmo período do ano anterior.
Os registros de drones para pulverização na Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), responsável por regular e fiscalizar a aviação civil no país, inclusive a operação de aeronaves não tripuladas, saltaram de 674 para mais de 7,3 mil no país entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025. No Maranhão, foram de 1 para 104, de acordo com levantamento da DW.
O próprio MPF reconhece que o sistema de fiscalização não funciona. Em novembro de 2025, o procurador da República Alexandre Silva Soares constatou que as fiscalizações isoladas ou tardias dos órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental e agropecuária no estado vinham produzindo laudos “inconclusivos” porque, entre a denúncia e a chegada das equipes, as provas se dissipavam.
Como forma de enfrentar o problema, recomendou o estabelecimento de uma operação conjunta de fiscalização para o período entre dezembro de 2025 e março de 2026, quando a pulverização é mais intensa no estado. O documento foi enviado à Superintendência Federal de Agricultura do Mapa, à Sema (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais) e a Aged (Agência Estadual de Defesa Agropecuária), autarquia vinculada à Sagrima (Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Pesca).
A competência para essa fiscalização é compartilhada entre União e estado, nos termos da Lei nº 14.785/2024, cabendo ao Mapa a aviação agrícola, à Sema os impactos ambientais e à Aged a regularidade dos produtos e receituários. Os órgãos tinham 30 dias para responder se acatariam a recomendação. O caso de Pau D’Arco ocorreu em 22 de janeiro, em pleno período crítico.
Mapa produzido pela Rama, Fetaema e Lepeng/UFMA mostra os 110 territórios atingidos por pulverização de agrotóxicos no Maranhão em 2025Reprodução/Rama
Em outubro do ano passado,a Justiça Federal no Maranhão reafirmou a legitimidade das proibições municipais à pulverização aérea. A 6ª Vara Federal indeferiu pedido da Faema (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Maranhão) e do Sindag (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola), que tentavam suspender a recomendação conjunta do MPF e do MP-MA sobre o tema. O juiz Jorge Ferraz de Oliveira Junior reconheceu a autonomia dos municípios para legislar sobre saúde pública e meio ambiente, com base nos artigos 23 e 24 da Constituição e na ADI 6137 do STF (Supremo Tribunal Federal). A decisão fortalece as dez leis municipais que já proíbem a pulverização aérea no Maranhão, aprovadas desde o lançamento da campanha Chega de Agrotóxicos, articulada pela Rama em 2023.
Entre os documentos aos quais o Atual7 teve acesso na denúncia à ONU está também uma análise técnica que dimensiona o problema por outro ângulo. Segundo o Parecer Técnico nº 01/2025, da professora Sônia Hess, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), 228 dos 429 ingredientes ativos de agrotóxicos autorizados no Brasil (53,1%) não possuem autorização na União Europeia, banidos por riscos como câncer, desregulação endócrina, neurotoxicidade e danos reprodutivos.
Vários desses ingredientes constam na lista de produtos cadastrados pela Aged no Maranhão, incluindo dezenas de formulações à base de 2,4-D, herbicida associado a forte deriva, contaminação de águas e doenças graves; e substâncias como atrazina, clorpirifós e neonicotinoides. Em 2025, o Brasil bateu novo recorde ao liberar 912 agrotóxicos, aumento de 37% em relação ao ano anterior, segundo o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária). Uma nota técnica conjunta do Ministério da Saúde registra mais de 63 mil notificações de intoxicação por agrotóxicos nos últimos cinco anos e alerta que a deriva da pulverização aérea pode alcançar até 32 quilômetros da área-alvo.
Segundo Cabral, que representou a Rama em audiência na ONU em Genebra em setembro de 2025, o Maranhão registrou aumento de 191% no consumo de agrotóxicos e é o estado com o maior número de comunidades contaminadas do país. O avanço do monocultivo de soja e milho sobre áreas de Cerrado e transição amazônica é o motor dessa escalada, pressionando territórios historicamente ocupados por comunidades tradicionais. Grande parte dessas territórios está na Amazônia Legal e no Matopiba, a região de expansão agrícola que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Na denúncia ao Ministério Público, a Rama pede, entre outras providências, a instauração de inquérito civil e de ação penal sobre o caso de Bacabal, audiência pública sobre os impactos da pulverização aérea em comunidades de agricultores familiares e atendimento médico especializado para os atingidos. Na denúncia à ONU, por sua vez, pede que o relator especial sobre substâncias tóxicas e direitos humanos, Marcos Orellana, inste o Estado brasileiro a suspender a pulverização nas proximidades de territórios indígenas, quilombolas e de agricultura familiar.
O Atual7 enviou e-mail com pedido de posicionamento à Sema, à Aged, à Superintendência Federal de Agricultura no Maranhão e à Prefeitura de Bacabal sobre os fatos relatados na denúncia da Rama, e aguarda retorno. Não foi possível localizar contato da proprietária do imóvel de onde, segundo a denúncia, teria partido o drone. O espaço permanece aberto para manifestações.
Levantamento global analisou impacto de onda de calor marinha entre 2014 e 2017 em mais de 15 mil amostragens em todos os oceanos
No Brasil, o terceiro evento global (2014- 2017) teve impactos menores, mas deixou os recifes mais vulneráveis a episódios posteriores
Um levantamento global sobre o terceiro evento de branqueamento em massa de corais, ocorrido entre 2014 e 2017, revela que 80% dos recifes do planeta apresentaram branqueamento moderado ou mais severo, e que 35% sofreram mortalidade também moderada ou elevada.
O estudo analisou mais de 15 mil levantamentos de recifes ao redor do mundo e foipublicado na revista Nature Communications na terça (10). Com abrangência geográfica inédita, a pesquisa envolve quase 200 coautores de 143 instituições e 41 países, incluindo cientistas brasileiros das universidades federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Bahia (UFBA) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O branqueamento ocorre quando o aumento da temperatura do oceano rompe a associação entre os corais e as microalgas que vivem em seus tecidos e fornecem energia para sua sobrevivência. Sem essas algas, os corais perdem a coloração, reduzem crescimento e reprodução e, em casos mais intensos ou prolongados, podem morrer.
Para estimar a extensão dos danos, a equipe internacional combinou dados de satélite sobre temperatura da superfície do mar, produzidos pelo sistema Coral Reef Watch, com observações diretas em campo e levantamentos aéreos realizados em dezenas de países. A calibração entre estresse térmico e danos observados permitiu extrapolar os impactos também para áreas não amostradas diretamente, chegando a uma estimativa de que mais da metade dos recifes do mundo sofreu branqueamento significativo.
Os resultados mostram que o impacto desse terceiro evento global foi o mais extenso já documentado até então, superando episódios anteriores. Além das perdas ecológicas, a degradação dos recifes ameaça serviços ecossistêmicos essenciais, como pesca, turismo, proteção costeira e segurança alimentar, com reflexos diretos em economias locais e regionais.
No caso do Brasil, o terceiro evento global, entre 2014 e 2017, teve impactos relativamente menores, mas deixou os recifes mais vulneráveis a episódios posteriores, explica Guilherme Longo, pesquisador da UFRN e um dos autores brasileiros do estudo. Ele observa que em 2019 e 2020 houve um branqueamento forte no país, em decorrência de uma das mais intensas ondas de calor marinhas documentadas no Brasil, mas com poucos registros em outros lugares do mundo devido à pandemia, e que abriu caminho para perdas maiores no quarto branqueamento em massa, ocorrido em 2024.
“Os branqueamentos sucessivos de 2014-2017, seguido do episódio de 2020 foram determinantes para a mortalidade ainda maior observada no quarto branqueamento, em 2024, com perdas de até 80%. Os corais ficaram muito vulneráveis e não tiveram tempo de se recuperar. Para algumas espécies isso está significando extinção local”, aponta Longo. Segundo o pesquisador, o diferencial do estudo agora publicado é mostrar, em escala global e comparativa sem precedentes, como esses impactos se acumulam ao longo do tempo e ajudam a explicar a gravidade documentada nos eventos mais recentes.
Uma maior presença de mulheres cientistas nem sempre se traduz em maior gualdade. Muitas enfrentam redes de poder abusivas que dificultam ou encerram suas carreiras. Crédito da imagem: Concytec Peru. Imagem em domínio público.
Por Aleida Rueda para “SciDev”
[CIDADE DO MÉXICO, SciDev.Net ] Apesar de haver mais mulheres em organizações científicas em comparação com 10 anos atrás, ainda persistem redes de poder que contribuem para a discriminação e para a persistente falta de participação em cargos de liderança, segundo um novo relatório internacional divulgado no último dia 11 de fevereiro, Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência.
Publicado pelo Conselho Internacional de Ciência ( ISC ), pela Associação InterAcademia e pelo Comitê Permanente sobre Igualdade de Gênero na Ciência ( SCGES ), o relatório analisa dados de 136 organizações científicas em todo o mundo e 600 entrevistas com cientistas.
Segundo suas descobertas, em 2015 as mulheres representavam 12% das academias nacionais de ciências, enquanto em 2025 esse número subiu para apenas 19%. Apenas uma em cada cinco era presidida por uma mulher, e quase metade não tinha vice-presidentes mulheres, demonstrando que a presença feminina não se traduz necessariamente em maior igualdade.
As organizações não têm restrições explícitas à participação das mulheres; pelo contrário, declaram-se abertas e com procedimentos de seleção baseados no mérito acadêmico; no entanto, o relatório indica que persistem processos e redes de poder informais que determinam quem é um candidato legítimo e quem não é.
Percentagem de mulheres entre os membros das academias nacionais de ciências nos anos de 2015, 2020 e 2025. Fonte: Conselho Internacional de Ciência, Parceria Interacadêmica e Comitê Permanente para a Igualdade de Gênero na Ciência (fevereiro de 2026). Rumo à igualdade de gênero nas organizações científicas: avaliação e recomendações. DOI: 10.24948/2026.03
Além disso, o relatório afirma que “as mulheres têm 2,5 vezes mais probabilidade do que os homens de relatar experiências de discriminação ou assédio em organizações científicas e demonstram menos confiança nos mecanismos organizacionais para lidar com condutas impróprias”.
Da mesma forma, um estudorecente baseado em entrevistas com mais de 100 cientistas mulheres do México, Argentina, Colômbia e Peru confirma a existência de redes de poder em instituições científicas que apoiam e legitimam comportamentos como assédio sexual, assédio psicológico, exclusão institucional, apropriação do trabalho alheio e punição da maternidade.
“A violência vai além de um ato interpessoal: o comentário misógino do professor ou a decisão de reduzir as horas de aula de um colega. Esses atos de violência são possíveis porque existem redes de abuso de poder no meio acadêmico.”
Carolina Espinosa Luna, pesquisadora do Centro Regional de Pesquisa Multidisciplinar da Universidade Nacional Autônoma do México
A autora do estudo, Carolina Espinosa Luna, do Centro Regional de Pesquisa Multidisciplinar da Universidade Nacional Autônoma do México, define essas formas de violência como “economias abusivas de legitimidade”: relações de troca desiguais — materiais, simbólicas ou afetivas — inseridas em redes de poder dentro de instituições acadêmicas e socialmente validadas.
“A violência vai além de um ato interpessoal: um comentário misógino de um professor ou a decisão de reduzir as horas de aula de um colega. Esses atos de violência são possíveis porque existem redes de abuso de poder na academia”, disse Espinosa à SciDev.Net .
Segundo a pesquisadora, o poder dos chefes de laboratório, orientadores de teses, editores de periódicos ou cientistas premiados é sustentado por administradores e colegas. “Essas relações de poder não servem apenas paragerar conhecimentoou treinar pessoal, mas também para proteger os perpetradores”, acrescenta ela.
Embora as instituições possuam protocolos para prevenir a violência de gênero , Espinosa constatou que as denúncias das mulheres não têm consequências para os agressores, pois é mais custoso para a instituição desmantelar as redes de poder do que defender as vítimas.
O peso do silêncio
Para a antropóloga Menara Guizardi, pesquisadora associada do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica e da Universidade Nacional de San Martín, na Argentina, que lidera um projetoexplorando as desigualdades entre mulheres cientistas sociais na América Latina, outro fator que legitima situações de discriminação é o silêncio da comunidade e das vítimas.
“Em nosso projeto, encontramos dezenas de mulheres se culpando. E não, não é um problema individual, é um problema social”, diz ela.
Isso inclui violência simbólica. “Por que os médicos homens são chamados pelo sobrenome e as médicas pelo primeiro nome?”, questiona María Loreto Mora Olate, pesquisadora de pós-doutorado chilena na Universidade do Chile. “Podem parecer detalhes insignificantes, mas tornam nossos méritos acadêmicos invisíveis”, argumenta.
“Quando eu falava, todos olhavam para seus celulares como se minha palavra não tivesse importância”, recorda a antropóloga Francisca Márquez, ex-reitora de uma universidade chilena, sobre suas reuniões com outros reitores homens.
Guizardi afirma que essas situações “aconteceram mais do que imaginamos, e se não falarmos sobre elas, nos isolamos, pensando: ‘Eu sou o louco, o problema é comigo’”. Portanto, ela ressalta, “precisamos quebrar o tabu em torno desses assuntos”.
Distribuição de cientistas em alguns países do mundo. Fonte: Conselho Internacional de Ciência, Parceria Interacadêmica e Comitê Permanente para a Igualdade de Gênero na Ciência (fevereiro de 2026). Rumo à igualdade de gênero nas organizações científicas: avaliação e recomendações. DOI: 10.24948/2026.03
Os dados são insuficientes
Existem dados que confirmam essas disparidades. Um estudo publicado na PLOS Biology analisou mais de 36 milhões de artigos biomédicos e de ciências da vida e descobriu que os artigos escritos por mulheres tiveram tempos de revisão entre 7,4% e 14,6% maiores do que os escritos por autores do sexo masculino.
Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências, argumenta que, embora existam alguns dados, as desigualdades na ciênciaprecisam ser estudadas em profundidade.
“Na América Latina, as mulheres representam cerca de 50% dos estudantes universitários. No entanto, à medida que progridem em suas carreiras, tornam-se minoria. Por quê? Não faz sentido”, questiona ela.
E isso precisa ser investigado porque a região sofre com a falta de dados sistemáticos. “Os dados são insuficientes, dispersos e não conseguimos avaliar se o problema está evoluindo ou não”, afirma Guizardi. E sem uma perspectiva sistêmica, é muito difícil desenvolver políticas públicas, acrescenta.
Os protocolos
Apenas 4 das 10 principais universidades da América Latina possuem protocolos contra assédio e violência de gênero. Em instituições acadêmicas e sindicatos científicos, entre 62% e 64%, respectivamente, possuem essas políticas, segundo o relatório do ISC.
Os especialistas enfatizam que, mesmo onde esses programas existem, o problema persiste devido à implementação, avaliação e financiamento insuficientes. O mesmo relatório indica que menos de 10% das instituições acadêmicas e apenas 30% das associações científicas possuem um orçamento específico para a igualdade de gênero.
Para Nader, a falta de transparência é crucial. “No Brasil, muitos colegas denunciam todos os tipos de violência: assédio, assédio sexual ou abuso psicológico, mas não se sabe como essas investigações terminam. É preciso haver transparência sobre os motivos pelos quais uma pessoa é condenada ou absolvida.”
Espinosa é mais radical: “Enquanto as redes de poder não forem desmanteladas, enquanto houver impunidade para os agressores devido à posição que ocupam e enquanto as universidades priorizarem a estabilidade institucional em detrimento das vítimas, os protocolos permanecerão simbólicos.”
Mas para Guizardi há esperança: o Chile é o único país da região que transformou protocolos institucionais em política estatal por meio da Lei 21.369 , que obriga todas as instituições de ensino superior a prevenir e punir o assédio sexual e a discriminação de gênero.
O acadêmico reconhece que, embora sua eficácia esteja sendo avaliada, a cobertura formal está próxima de 100%.
“Precisamos promover esse tipo de lei nacional”, conclui Guizardi. “O Estado deveria exigir que as universidades mensurassem esses fenômenos para elaborar políticas públicas com diagnósticos confiáveis, quantitativos e qualitativos.”
Comunidade Grinalda do Ouro sofre com pacote da devastação imposto por invasores no município de Gilbués (PI), a 830 quilômetros de Teresina
Por Bruno Santiago para “Lemonde Diplomatique”
Já imaginou acordar pela manhã, em sua própria casa, onde você vive com sua família, com o barulho de tratores e árvores sendo derrubadas?
Ao correr para a janela, você percebe máquinas enormes destruindo a mata a poucos metros do seu quintal – o mesmo lugar em que você cresceu e que seus filhos e netos brincam. Aquela árvore que você conhece desde pequena ou pequeno, que abrigou ninhos de passarinhos e da qual você colheu frutos para saciar a fome tantas vezes, já não está mais lá. Foi derrubada por invasores que nunca pisaram naquele território onde sua família vive há gerações, desde o tempo dos bisavós.
Desde o início de fevereiro, a comunidade sofre com a ação ilegal de grileiros que estão desmatando a vegetação nativa do território com o uso de tratores de esteira para a produção agrícola e para a construção de piscinões de captação de água para irrigação. Parte das famílias acordou, na última quarta-feira (11/02), com o barulho de árvores sendo derrubadas e das máquinas operando a poucos metros de suas casas.
Crédito: Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí
“Já tem tempo que eles estão desmatando aqui dentro, muita árvore já foi derrubada, mas essa semana foi quase no quintal de casa. Eu tomei um susto com o barulho do trator e corri para ver o que era”, relata uma das moradoras da comunidade que prefere não se identificar por motivos de segurança.
Uma das lideranças da comunidade, que está gestante, tentou dialogar com os invasores para impedir a destruição, mas não obteve sucesso. “Disseram que só vão parar com uma liminar da justiça”, explica a moradora.
“Ele me disse que mandava nisso tudo, que se ele quisesse ele derrubava até a nossa roça e que o trator ia passar por cima se eu entrasse na frente”, conta a liderança comunitária, que explicou que esse tipo de intimidação faz parte do diálogo com os funcionários da Fazenda.
O empreendimento responsável pela ação é a Fazenda Ouro, de Pedro Lustosa do Amaral Hidasi. A empresa possui licença de operação concedida pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH) do Estado do Piauí para o desmatamento, produção agrícola e outorga para captação subterrânea de água.
Ilegalidade da ação
Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Coletivo de Comunidades Tradicionais do Cerrado no Piauí e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, entidades que acompanham o caso, no entanto, a existência da licença ambiental não afasta a ilegalidade da ação. As organizações afirmam que a invasão e o desmatamento ameaçam diretamente a vida de mais de vinte famílias que vivem tradicionalmente no território há gerações e que não foram consultadas ou sequer notificadas sobre a intervenção.
Emrequerimentoenviado para o Instituto de Terras do Piauí (Interpi) em outubro de 2025, as entidades afirmam que “as intervenções em curso vêm sendo realizadas com licenças concedidas pela SEMARH sem o preenchimento dos mais básicos requisitos legais, comprometendo gravemente a segurança jurídica, o ecossistema local e o modo de vida tradicional da comunidade”.
Segundo a argumentação jurídica apresentada pela comunidade e por entidades que acompanham o caso, a autorização ambiental não supre exigências previstas na legislação fundiária estadual. Para as organizações, ao autorizar o desmatamento em área ocupada secularmente e tradicionalmente por mais de vinte famílias, o Estado teria ignorado requisitos legais básicos, colocando em xeque a própria validade do procedimento e ampliando o risco de danos socioambientais irreversíveis.
“A Lei Estadual nº 7.294/2019 determina que a destinação de terras públicas deve priorizar a regularização de territórios tradicionais. O texto é explícito ao estabelecer que áreas públicas e devolutas ocupadas coletivamente por comunidades tradicionais devem ser destinadas a esses grupos e que, em caso de conflito entre comunidades locais e particulares, o Estado deve priorizar a regularização em favor das comunidades”, explica Mauricio Correia, pesquisador e advogado da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.
A mesma norma reconhece como povos e comunidades tradicionais aqueles que ocupam e utilizam seus territórios como condição de reprodução cultural, social e econômica – exatamente a situação descrita na Grinalda do Ouro. Ainda assim, segundo a denúncia, não houve mediação do conflito fundiário antes da liberação da atividade.
Segundo a assessoria jurídica da comunidade, a Fazenda Ouro apresentou a órgãos públicos uma documentação de registro de posse da área datada de cerca de sessenta anos. No entanto, esse documento não consta nos registros oficiais do patrimônio público, o que pode indicar que não haja comprovação de que tenha sido emitido por um órgão competente nem de que a área tenha sido regularmente destacada de terras públicas para uso privado – requisito fundamental para a validade jurídica de títulos fundiários no Brasil.
Essa ausência de origem pública nos registros suscita em uma contradição com a memória histórica da própria comunidade. A pessoa mais velha viva na Grinalda do Ouro tem mais de 70 anos, e tanto ela quanto seus pais nasceram e viveram naquele território desde sempre – muito antes, portanto, de qualquer suposto título datado de sessenta anos atrás. Esse desencontro entre a presença secular da comunidade e a suposta data de registro da área levanta dúvidas sobre a legitimidade do documento apresentado pela Fazenda.
“A Lei Complementar nº 244/2019 estabelece critérios objetivos para que o Estado reconheça domínio privado sobre imóveis rurais cuja cadeia dominial não comprove o destaque regular do patrimônio público para o privado. Entre as exigências estão a comprovação de boa-fé, a inexistência de disputa judicial e, de forma expressa, que o imóvel não se sobreponha a territórios tradicionais”, afirma Mauricio.
Em novembro de 2025, o próprio Interpi publicou despacho favorável à denúncia apresentada pela comunidade. No documento, a Diretoria de Povos e Comunidades Tradicionais reconhece que o processo tramitou sem a devida consideração da sobreposição com o território tradicional da Comunidade Grinalda do Ouro e opinou pela suspensão da Certidão de Regularidade Dominial emitida com base no Decreto nº 23.692/2025. “O despacho aponta que a certidão não levou em conta a área do território tradicional indicado em processo específico, comprometendo sua validade e exigindo reanálise imediata para registro formal da sobreposição existente”, ressalta o advogado.
Para Correia, a existência de sobreposição e conflito fundiário ativo tornaria incompatível o reconhecimento pleno do domínio particular e, consequentemente, fragilizaria qualquer autorização ou licença baseada nesse título.
Diante disso, as entidades defendem a intervenção imediata do Interpi para apurar a situação fundiária e evitar que a devastação avance sobre um território cuja regularização deveria, por lei, ser prioridade do próprio Estado.
Roubo das águas
Outra ameaça iminente provocada pelos invasores diz respeito à preservação dos rios, nascentes e cachoeiras presentes no território da comunidade e adjacências. Com piscinões sendo construídos às margens da BR 335, dentro do perímetro da comunidade, o objetivo da Fazenda Ouro é a captação de água para irrigação de sua produção agrícola.
Apesar das irregularidades legais e da fragilidade da situação fundiária do empreendimento, a SEMARH concedeu outorgas para perfuração de poço e captação em níveis subterrâneos e superficiais do curso de água. “O ponto de captação da água, de acordo com a lei, precisa estar dentro da propriedade do fazendeiro, não no território da comunidade, como está acontecendo”, destaca Maurício.
A captação afeta diretamente as bacias dos Rios Alto Parnaíba e Uruçuí Preto, ambas situadas no Cerrado, que cumprem importante função para a subsistência da comunidade Grinalda do Ouro e de tantos outros territórios de populações ribeirinhas e tradicionais da região, além de abastecer o sistema hídrico de municípios do sul do estado, chegando até Teresina.
Para Altamiran Ribeiro, agente da CPT no Piauí, a captação das águas em comunidades tradicionais é uma prática sistemática do agronegócio da região. “Já aconteceu isso na comunidade de Melancias, também em Gilbués, onde tentaram fechar o rio Uruçuí Preto com uma barragem, mas a comunidade se mobilizou e impediu a ação do empreendimento naquele período”.
“Grinalda do Ouro é conhecida por ser um paraíso natural, numa região de brejo, pois se encontra entres as nascentes dos rios Uruçuí Preto e Uruçuí Vermelho, além de estar muito próxima da nascente do Rio Parnaíba, que são fundamentais para a vida da comunidade, para o Piauí, e agora estão em risco”, conta o agente da Pastoral.
Crédito: Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí
Vidas envenenadas
Além do desmatamento, das intimidações e do roubo deliberado das águas do território tradicional, a comunidade sofre, há anos, com o uso abusivo de agrotóxicos nos monocultivos da região, especialmente a soja.
“A gente sabe que as águas de nossos brejos não estão mais puras, não podemos mais beber, como fazíamos antes. Tem gente que adoeceu, que passou mal, mas tem muitas famílias que não têm alternativa, que só têm aquela água contaminada para beber”, relata uma das moradoras da comunidade.
Com o avanço do desmatamento e a licença para a produção agrícola, a comunidade sabe que os monocultivos poderão ser produzidos a poucos metros de distância de suas casas, afetando ainda mais a saúde das famílias de Grinalda do Ouro. “Temos crianças, idosos, mulheres grávidas. Como vamos ficar se o veneno for despejado em cima de nossas cabeças?”, enfatiza a liderança comunitária.
Reivindicações
A SEMARH foi procurada pela reportagem para se posicionar a respeito das licenças e outorga expedidas, mas alegou que questões fundiárias são de responsabilidade do Interpi. Insistimos com o pedido de posicionamento por se tratar de licenças concedidas pela Secretaria e não por outro órgão, mas até o fechamento da reportagem não obtivemos retorno.
Em entrevista para a Rádio Jornal Teresina, o secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí, Feliphe Araújo, informou que o governo do estado irá deslocar equipes de fiscalização ao território da Comunidade Grinalda do Ouro para apurar as denúncias e verificar o cumprimento das condicionantes da licença concedida à Fazenda Ouro.
Enquanto aguardam a atuação dos órgãos estaduais, as famílias da comunidade e as entidades que acompanham o caso reivindicam a suspensão imediata e a anulação permanente das licenças concedidas para o desmatamento na área, além da revisão da situação fundiária e do reconhecimento formal da sobreposição com território tradicional.
Também cobram a intervenção do Interpi para garantir a regularização do território em favor da comunidade, a paralisação definitiva das atividades que impactam a área e o respeito ao direito à consulta prévia, livre e informada.
Para as famílias da comunidade, mais do que uma disputa jurídica, trata-se da defesa de suas vidas, de seu território, das águas e da própria permanência das famílias na terra onde vivem há gerações.
Até o momento da publicação deste texto as máquinas seguem trabalhando na comunidade, derrubando árvores, perfurando a terra e devastando vidas.
Bruno Santiago é pesquisador e coordenador de comunicação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.
Imagem ao microscópio mostra esquizontes de Plasmodium vivax, fase de multiplicação dentro das células sanguíneas. Foto: Stefan Walkowski / Wikimedia Commons
Em regiões de fronteira na Amazônia, a febre é quase sinônimo automático de malária para a população e até para os serviços de saúde. No entanto, por trás dessa “certeza” podem estar escondidos vírus como os da dengue, da chikungunya e do parvovírus B19, que exigem cuidados médicos completamente diferentes. Esse cenário de incerteza diagnóstica é a realidade no Oiapoque, na divisa entre o Brasil e a Guiana Francesa.
Um novo estudo,publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), revela que a circulação simultânea do parasito Plasmodium vivax (principal agente causador da malária no Brasil) e de diversos vírus representa um desafio crítico de saúde pública. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Amapá (Unifap), alerta que o predomínio histórico da malária na fronteira acaba ofuscando outras infecções potencialmente graves.
“A circulação simultânea é um grande desafio porque malária e arboviroses causam sintomas muito parecidos. Em regiões como Oiapoque, existe uma tendência natural de associar toda febre à malária. Isso faz com que dengue e chikungunya passem despercebidas”, afirmam o doutorando Marcelo Cerilo e o professor Ricardo Machado, da UFF, que orientou a pesquisa.
Essa confusão gera um risco direto ao paciente. Enquanto a malária exige medicação específica para eliminar o parasito, como a associação de cloroquina e primaquina, viroses como a dengue demandam monitoramento clínico cuidadoso para evitar complicações, como sangramentos. Outra preocupação dos cientistas é o parvovírus B19, com febre e manchas avermelhadas na pele), mas que pode ter efeitos graves em adultos.
“A coinfecção com o parvovírus é crítica porque ele ataca a medula óssea e interfere na produção de células do sangue. Se o paciente já está anêmico por causa da malária, isso pode levar a uma anemia severa súbita, que muitas vezes não é investigada porque o foco está apenas no parasita”, alerta Machado.
O problema é agravado pelo contexto local. O intenso fluxo de pessoas na fronteira e a presença de áreas de garimpo criam um ambiente propício para a sobreposição dessas doenças, aumentando a pressão sobre os serviços de saúde.
“Em regiões com grande circulação de pessoas, as doenças tendem a circular com mais frequência e os serviços de saúde ficam sobrecarregados. Nosso estudo mostra que nem toda febre é apenas malária”, reforça Cerilo.
A análise laboratorial indicou que uma parcela significativa da população local já teve contato prévio com os vírus da dengue e da chikungunya, evidenciando que esses microrganismos circulam ativamente na região. Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a adoção de protocolos de atendimento integrados na fronteira franco-brasileira. Reforçam ainda, que os serviços de saúde devem considerar a investigação não apenas de malária, mas também de arboviroses, a fim de garantir diagnóstico correto e tratamento adequado à população.
Daniel Cara alerta que setor pressiona editoras a substituir ‘agrotóxico’ por ‘defensivo agrícola’ e omitir impactos
Por José Bernardes e Tabitha Ramalho para “Jornal Brasil de Fato”
As salas de aula enfrentam uma nova batalha silenciosa, segundo o professor Daniel Cara, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Ele revela que editoras de livros didáticos estão sendo pressionadas por lobistas do agronegócio a substituir termos científicos consolidados, como “agrotóxico”, por eufemismos como “defensivo agrícola”. A investida, que já acontecia no Congresso Nacional, agora foca diretamente no mercado editorial.
“É uma situação alarmante. O consenso científico estabelecido — tão sólido quanto a teoria da evolução — está sendo desconstruído perante o mercado editorial brasileiro, porque o agronegócio precisa defender a absurda ideia de que agrotóxico faz bem”, denuncia Cara no Conexão BdFda rádio Brasil de Fato, que foi relator de um relatório do Ministério da Educação sobre ataques às escolas e coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.
A denúncia foi originalmente sistematizada pelas professoras Andressa Pellanda e Marcele Frossá, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, e revela uma escalada na estratégia do setor. “Esse lobby pulou o Poder Executivo e chegou diretamente à pressão empresarial. É a pressão dosempresários do agronegócio sobre os empresários das editoras”, explica.
Cara lembra que, em 2024, esteve na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, ao lado de comunidades quilombolas, doMovimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), denunciando o lançamento de agrotóxicos sobre escolas no campo. “Uma crítica como essa não vai poder estar retratada num livro de geografia, biologia ou história? Isso demonstra o espaço e o poder que a extrema direita nunca deixou de disputar”, afirmou.
O professor critica o que chama de “concessões inadequadas” do Ministério da Educação (MEC) ao agronegócio durante o atual governo Lula. “Pelo peso que o setor tem na economia brasileira, existe uma concessão que considero inadequada e precisa ser revista. Agora eles atuam diretamente nas empresas.”
Para Cara, o ataque à escola e o ataque ao conhecimento científico são faces da mesma moeda. “A escola é o principal espaço de sociabilidade dos jovens. É lá que se aprende a conviver com a diferença, a questionar, a duvidar. Por isso é o alvo preferencial.”
Ele adverte que, se a esquerda muitas vezes abandona a disputa pedagógica, a extrema direita nunca a negligencia. “O livro didático é o material curricular efetivo da maioria das escolas brasileiras, graças ao gigante Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Controlá-lo é controlar o que se ensina.”
O professor conclui com um chamado à vigilância. “Vivemos sob alto uso de agrotóxicos e baixíssima soberania alimentar. O que existe de positivo se deve aos movimentos sociais. O consenso científico não é pacífico, precisa ser disputado todos os dias. E a escola é o território central dessa disputa.”
Ocorreu ontem, no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Uenf, a defesa da dissertação de mestrado de meu orientando Jayson Freitas Gomes, intitulada “Empreendimentos portuários e o uso de intervenções ambientais como ferramentas de desterritorialização de pescadores artesanais: o caso do Porto do Açu em São João da Barra (RJ)”. A banca, formada pelos professores Raquel Giffoni Pinto (UFF-Niterói), Felipe Silva Machado (IFF Itaperuna) e Leonardo Bis dos Santos (IFES Vitória), realizou uma análise criteriosa do estudo, que se concentrou nos impactos decorrentes da criação de unidades de conservação no entorno do Porto do Açu sobre a pesca artesanal lagunar historicamente praticada no V Distrito de São João da Barra.
Um dos casos examinados foi o da RPPN Fazenda Caruara, especialmente os impactos do fechamento dos acessos à Lagoa de Iquipari sob o argumento de proteção ambiental desse importante ecossistema costeiro. Além disso, a pesquisa buscou identificar os efeitos dessa medida sobre as atividades de pesca em outras lagoas, incluindo a Lagoa do Açu.
O estudo verificou não apenas a intensidade da atuação dos pescadores artesanais no ecossistema lagunar, mas sobretudo o papel do fechamento dos acessos na continuidade da pesca artesanal diante das fortes restrições impostas pelo Porto do Açu aos pescadores que historicamente exerciam suas atividades nas lagoas do V Distrito.
Nesse contexto, a pesquisa evidenciou que as intervenções ambientais corporativas do Porto do Açu atingiram principalmente os pescadores artesanais locais, que foram desterritorializados da Lagoa de Iquipari — espaço historicamente utilizado como área de uso comum dos recursos naturais. Embora atualmente inserida na RPPN Fazenda Caruara, a lagoa foi, ao longo de décadas, fundamental para a geração de renda, a subsistência familiar e a reprodução social dos pescadores do V Distrito. Após o açambarcamento fundiário promovido pelo Porto do Açu e a criação da RPPN, os pescadores passaram a enfrentar novos regimes normativos de acesso e uso da lagoa, materializados no cercamento, na vigilância, na restrição de acessos e na redefinição das práticas tradicionais consideradas legítimas. O reordenamento territorial implementado pelo empreendimento subalternizou o direito dos pescadores artesanais ao território de pesca, contribuindo para a desarticulação dos sistemas econômicos, sociais e culturais das comunidades pesqueiras locais. A exclusão de acesso à Lagoa de Iquipari pelo V Distrito constituiu o principal mecanismo de controle espacial adotado pelo empreendimento, que, ao ser implementado sem a devida consideração das dinâmicas socioeconômicas locais, tende a aprofundar o processo de vulnerabilidade identificado na pesquisa.
Informo que a dissertação será disponibilizada após o agora mestre em Políticas Sociais, Jayson Freitas Gomes, concluir os ajustes sugeridos pela banca. Considero fundamental ampliar a visibilidade sobre o que ocorreu com os pescadores artesanais do V Distrito após a implantação do Porto do Açu.
Por Heitor Scalambrini Costa* e Zoraide Vilasboas**
“Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos”. Immanuel Kant (Filosofo alemão, fundador da “Filosofia Critica”)
O consumo de eletricidade cresce em ritmo acelerado no mundo inteiro. Segundo a Agência Internacional de Energia, a demanda elétrica avança duas vezes mais rápido do que o consumo total de energia, impulsionada por carros elétricos, data centers, refrigeração e digitalização de serviços. No Brasil, o consumo total de energia elétrica foi 531.872 GigaWatts-hora (GWh), em 2023; 561.600 (GWh), em 2024 e 562.659 (GWh), em 2025. O crescimento vem da oferta, principalmente de energias renováveis, que, por sua vez, apresentam dificuldades crescentes e desafios urgentes em relação aos impactos técnicos e socioambientais causados por políticas públicas insustentáveis.
Na matriz elétrica o país se sobressai em relação a outros países pela grande participação das fontes renováveis de energia, que em 2024 correspondeu a 88,2% do total da matriz. Segundo dados oficiais a geração hidráulica atendeu 56,1% da energia elétrica consumida em 2024, enquanto as demais fontes energéticas 43,9%. A contribuição da energia nuclear foi pouco mais de 2%, e caso Angra 3 fosse concluída até 2033, chegaria próximo a 3,5%. O que é ainda um quantitativo irrisório para bravatear a conquista da independência energética do país com Angra
Estas informações importam diante das últimas declarações de setores lobistas que defendem a insanidade de terminar a construção de Angra 3, cujo início das obras ocorreu em 1984. A pressão exercida sobre o governo federal é grande principalmente pelos representantes dos interesses econômicos e geopolíticos envolvidos com a nuclearização do país, com Angra 3, com a expansão da mineração de urânio e de novas usinas atômicas.
Vale mencionar inicialmente a declaração do presidente da Aben (Associação Brasileira de Energia Nuclear, Carlos Henrique Silva Seixas) que considera “inacreditável” que ainda não se decidiu pela construção de Angra 3. Considera que caso a obra não seja concluída, o país terá um grande desperdício de 21 bilhões de reais que já foram gastos, “jogando no lixo 11.000 equipamentos já comprados”. Afirma que 23 bilhões seriam os recursos necessários para finalizar a obra. E como bom brasileiro, patriota, demonstrou sua indignação em relação aos gastos anuais com a usina inacabada, da ordem de 1 bilhão, sendo 800 milhões para pagar empréstimos contraídos com a Caixa Econômica Federal e com o BNDES. E outros 200 milhões gastos com o armazenamento, vigilância e manutenção dos equipamentos já adquiridos, desde o final dos anos 80 do século passado.
Ao citar estes valores, ele omite que o custo da energia elétrica nuclear é bem mais caro (segundo BNDES, R$ 778,86/MegaWattshora – R$ 817,27/MWh) que a das fontes renováveis, 4 a 6 vezes maior, o que levaria o repasse do custo extra nas tarifas, afetando todos consumidores, cidadãos e a economia nacional. O presidente da Aben nada falou sobre a possibilidade de readequar/reaproveitar os equipamentos, para outros usos, mais nobre que o lixo. Também de redirecionar o pessoal, cuja excelente formação técnica e científica, facilitaria a adaptação e o envolvimento com outras atividades do setor energético.
Por sua vez a Eletronuclear, subsidiária da Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBPar) operadora das usinas nucleares de Angra 1 e 2, e responsável por Angra 3, enfrenta uma situação financeira crítica no início de 2026, como declarou o Diretor Presidente Interino, Alexandre Caporal, pressionando o governo sobre o estado atual do “colapso operacional e financeiro” da estatal, com um caixa insuficiente para honrar seus compromissos financeiros, e risco de falência. Chegou a comparar a estatal à situação de insolvência dos Correios.
No atual contexto, a situação de Angra 3 chegou a um momento crítico de descrédito e inoperância administrativa que somente uma decisão responsável e corajosa será possível, a interrupção deste sumidouro do dinheiro público, que se tornou esta obra. Não se pode mais “empurrar com a barriga” a decisão sobre Angra 3.
Não existe nenhum indício, ou indicação técnica-econômica que aponte a nucleoeletricidade como necessária e imprescindível ao país para garantir a segurança energética, a sustentabilidade da matriz elétrica diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, e atingir a modicidade tarifária. Ao contrário, é uma fonte energética “suja”, cara e perigosa.
“Em memória do prof. Célio Bermann: gratidão e lembranças”
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* Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix – Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de Energia Atômica (CEA)-França.
As notícias veiculadas pela mídia corporativa sobre o regime de chuvas neste início de 2026 revelam um quadro preocupante para o estado do Rio de Janeiro. O ano começou com volumes elevados de precipitação, provocando enchentes, inundações e deslizamentos de terra em diversas regiões. A Baixada Fluminense e o Noroeste do estado concentram alguns dos episódios mais graves, com impactos significativos sobre moradias, infraestrutura e mobilidade urbana.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam para um dado menos visível: parte expressiva dessas chuvas não tem ocorrido nas cabeceiras dos rios que abastecem os principais reservatórios do estado. Após um 2025 marcado por estiagem prolongada e níveis críticos de armazenamento, os reservatórios registraram alguma recuperação recente, mas ainda permanecem abaixo do ideal para garantir segurança hídrica plena.
A coexistência de chuvas intensas em áreas urbanas vulneráveis e a persistência de déficits hídricos em sistemas de abastecimento refletem um padrão cada vez mais associado às mudanças climáticas. Eventos extremos — tanto de excesso quanto de escassez — tendem a se tornar mais frequentes e intensos, conforme indicam estudos científicos consolidados nas últimas décadas.
O cenário expõe fragilidades históricas no planejamento urbano e na gestão de riscos. Muitas cidades fluminenses seguem pouco preparadas para absorver grandes volumes de água em curtos períodos, especialmente em áreas de ocupação precária. Ao mesmo tempo, políticas estruturantes de adaptação climática avançam de forma lenta, apesar dos alertas recorrentes da comunidade científica.
Diante desse contexto, especialistas defendem que a agenda pública incorpore de maneira prioritária medidas de adaptação climática, incluindo investimentos em drenagem urbana, proteção de encostas, recuperação de bacias hidrográficas e planejamento territorial. Sem uma mudança consistente de prioridades, a tendência é de agravamento dos impactos sociais, ambientais e econômicos provocados pela combinação de chuvas extremas e secas prolongadas.