Quando o regulado passa a influenciar o regulador: as lições de um estudo internacional para compreender a crescente centralidade do Porto do Açu na governança ambiental de São João da Barra
Um dos maiores desafios da governança ambiental contemporânea não é apenas a degradação dos ecossistemas, mas a crescente capacidade das grandes corporações de influenciar – e, em alguns casos, moldar – as instituições responsáveis por regulá-las. Essa é a principal reflexão desenvolvida por Alex T. Ford e um amplo grupo internacional de pesquisadores no artigo “Corporate Capture Strategies Impacting Human and Ecosystem Health“, publicado na revista Environmental Science & Technology Letter. O trabalho sistematiza as principais estratégias utilizadas por corporações para ampliar sua influência sobre governos, agências reguladoras, instituições científicas e espaços de participação social, produzindo impactos diretos sobre a saúde humana e dos ecossistemas.
Embora o artigo apresente uma análise de alcance global, suas conclusões parecem especialmente relevantes para países e regiões onde as instituições estatais são relativamente frágeis, a sociedade civil dispõe de poucos recursos para disputar os processos decisórios e os mecanismos de participação democrática funcionam de maneira limitada ou profundamente assimétrica. Nesses contextos, a captura institucional deixa de ser um fenômeno pontual e passa a constituir um modo de governança, no qual interesses privados acabam ocupando espaços tradicionalmente destinados à defesa do interesse público.
Segundo Ford e seus colaboradores, a captura corporativa não ocorre apenas por meio do lobby tradicional ou do financiamento de campanhas políticas. Ela envolve estratégias muito mais sofisticadas, como a produção de conhecimento técnico, a ocupação de fóruns consultivos, a construção de parcerias com órgãos públicos, o financiamento de pesquisas, a influência sobre processos regulatórios e a apropriação do discurso da sustentabilidade. Em vez de confrontar diretamente o Estado, grandes empresas passam a atuar dentro das próprias estruturas institucionais que deveriam exercer sua fiscalização.
Essa discussão dialoga de maneira particularmente interessante com o que vem ocorrendo em São João da Barra, município profundamente transformado pela implantação do Porto do Açu. Ao longo dos últimos anos, o empreendimento consolidou uma posição econômica dominante, tornando-se um dos principais agentes privados do território. Em paralelo a essa centralidade econômica, observa-se uma ampliação de sua presença em espaços de formulação de políticas públicas, incluindo a ocupação da presidência do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e sua participação ativa na elaboração do novo Plano Diretor Municipal.
É importante destacar que não há qualquer impedimento para que representantes do setor produtivo participem desses espaços. Ao contrário, a pluralidade de atores é um princípio importante da governança democrática. O problema surge quando o principal empreendimento econômico do município, dotado de recursos financeiros, jurídicos, técnicos e comunicacionais incomparavelmente superiores aos dos demais segmentos sociais, passa a exercer uma influência desproporcional sobre as instâncias responsáveis por definir justamente as regras que disciplinarão sua própria expansão.
Essa situação produz um evidente conflito estrutural de interesses. O Conselho Municipal de Meio Ambiente deveria funcionar como espaço de controle social, mediação de conflitos e defesa do patrimônio ambiental coletivo. Da mesma forma, o Plano Diretor constitui o principal instrumento de ordenamento territorial, definindo o uso do solo, as áreas de expansão urbana, os espaços destinados à proteção ambiental e as diretrizes para o desenvolvimento futuro do município. Quando o maior interessado nos resultados dessas decisões ocupa posição privilegiada nesses processos, a distinção entre regulador e regulado tende a tornar-se cada vez mais tênue.
O caso torna-se ainda mais significativo quando analisado à luz do conceito de enclave econômico. O Porto do Açu já representa um empreendimento altamente integrado aos fluxos globais do comércio internacional, mas relativamente pouco conectado à dinâmica econômica local. O risco que agora se apresenta é a transformação desse enclave econômico em um enclave institucional, capaz de exercer influência direta sobre a arquitetura da governança ambiental e do planejamento territorial do município.
Ford e seus coautores alertam que uma das principais consequências das estratégias de captura corporativa é justamente a redução da capacidade crítica das instituições públicas. As decisões deixam de refletir um equilíbrio entre diferentes interesses sociais e passam a ser orientadas por uma visão tecnocrática na qual crescimento econômico, eficiência logística e atração de investimentos aparecem como prioridades incontestáveis, enquanto conflitos ambientais, modos tradicionais de vida, pesca artesanal, agricultura familiar e direitos territoriais tendem a ocupar posições secundárias.
Essa reflexão é particularmente pertinente para São João da Barra, onde pescadores artesanais, agricultores e comunidades tradicionais convivem há anos com processos de desterritorialização, restrições de acesso a áreas tradicionalmente utilizadas e profundas transformações socioambientais decorrentes da expansão do complexo portuário-industrial. A participação direta do empreendimento nos principais espaços de governança ambiental levanta uma questão fundamental para a democracia local: quem está efetivamente definindo o futuro do território?
Talvez essa seja a principal contribuição do artigo de Alex T. Ford e seus colaboradores. Mais do que denunciar estratégias corporativas de influência, os autores lembram que a proteção ambiental depende da existência de instituições públicas independentes, processos decisórios transparentes e mecanismos efetivos de participação social. Quando essas condições se enfraquecem, a governança ambiental corre o risco de deixar de representar o interesse coletivo para tornar-se uma extensão dos interesses econômicos dominantes.
No caso de São João da Barra, essa discussão está longe de ser abstrata. Ela diz respeito ao direito das comunidades locais de participar das decisões sobre seu próprio território e à capacidade do poder público de exercer sua função constitucional de proteger o meio ambiente e promover um desenvolvimento verdadeiramente democrático. Afinal, quando o principal agente econômico passa a ocupar posições centrais na definição das políticas que o regulam, a pergunta que permanece é simples, mas decisiva: estamos diante de um processo de participação plural ou de uma sofisticada forma de captura da governança pública?
O editor demitiu-se depois que o sistema de inteligência artificial da editora anulou sua seleção de revisores para um manuscrito. Sua atitude motivou uma revisão interna do sistema
Configurações automáticas: Os recursos automatizados utilizados na Frontiers, editora com sede na Suíça, ajudam os editores a identificar e convidar revisores por pares. Fotograzia / Getty Images
Por Dalmeet Singh Chawla, Escritor colaborador, para “The Transmitter”
Um editor associado da Frontiers in Systems Neuroscience renunciou ao cargo em protesto contra o sistema de inteligência artificial (IA) da editora, argumentando que seu uso indevido está comprometendo a integridade acadêmica da revista.
Michael Okun , professor associado de neurociência da Universidade de Nottingham, anunciou sua renúncia nas redes sociaisem 10 de junho, depois que funcionários da revista científica lhe disseram que não podiam desativar as ferramentas de inteligência artificial que encontram automaticamente potenciais revisores por pares.
Em entrevista ao The Transmitter , Okun explicou que, no início de maio, recebeu um pedido da revista para revisar um manuscrito sobre a dinâmica de redes neuronais. Ele o enviou para cerca de meia dúzia de potenciais revisores, mas antes que qualquer um deles aceitasse seu pedido, a AIRA começou a enviar seus próprios pedidos de revisão para outros pesquisadores , conta Okun. Dois revisores contatados pela AIRA — que não tinham experiência relevante, segundo Okun — aceitaram os pedidos.
Isso levou Okun a alertar a Frontiers sobre o problema. Okun afirma que lhe disseram para ignorar os pedidos enviados pela AIRA e continuar buscando revisores por conta própria. Mas quando ele fez isso e um dos especialistas convidados aceitou o convite, a AIRA revogou todos os outros convites. “É simplesmente inconcebível que um convite feito manualmente a alguém que é de fato um especialista na área seja revogado poucas horas depois de enviado”, diz Okun.
Isso foi um fator decisivo para Okun. “A revista quer publicar o máximo de artigos possível e não se importa muito com a qualidade”, diz ele. “Esses não são bugs, mas sim recursos intencionais, projetados para eliminar ao máximo a intervenção dos editores humanos.”
Em um comunicado enviado ao The Transmitter , Frederick Fenter , editor-chefe executivo da Frontiers em Lausanne, Suíça, afirma que cada recurso desenvolvido pela Frontiers visa economizar tempo para os cientistas, permitindo que eles se concentrem em suas pesquisas. “Lamentamos que o Dr. Okun tenha tido uma experiência negativa, e meu convite para discutir suas preocupações diretamente permanece em aberto.”
Fenter observa que os editores têm a capacidade de suspender os convites para revisores a qualquer momento, algo que não ficou claro no caso de Okun. Portanto, a Frontiers está conduzindo uma revisão interna, diz Fenter, para apurar onde ocorreu a falha de comunicação e garantir que incidentes semelhantes não se repitam no futuro.
O jornal The Transmission entrou em contato com dezenas de editores listados no site da Frontiers in Systems Neuroscience .
Um deles, Shuzo Sakata , professor de neurociência de sistemas na Universidade de Strathclyde, diz ter tido uma experiência semelhante com o sistema automatizado da revista. ” Mesmo depois de eu ter decidido rejeitar um manuscrito, o sistema convidou outro revisor sem a minha permissão”, lembra Sakata.
Sakata afirma que não aceita mais os pedidos da revista para supervisionar a edição. ” A automação é importante e muitas vezes útil, mas o sistema deles ultrapassou os limites.”
Vários outros editores consultados pelo The Transmitter disseram não ter enfrentado os mesmos problemas com a AIRA que Okun destacou, alguns observando que não editaram muitos artigos para a revista.
Outros pesquisadores observaram que a AIRA os contata com solicitações incomuns. “A Frontiers está constantemente me enviando pedidos de revisão ou edição que não têm nada a ver com minha área de especialização”, diz Earl K. Miller , professor de neurociência da Cátedra Picower no Instituto de Tecnologia de Massachusetts.
“Recebo pedidos frequentes para atuar como editor, mas em 97% dos casos o manuscrito em questão não se relaciona com minha área de especialização”, acrescenta Mathew Diamond , que lidera o Laboratório de Explorações das Bases Neuronais da Experiência Sensorial na Escola Internacional de Estudos Avançados.
De acordo com Fenter, a Frontiers utiliza IA desde 2018 para ajudar seus editores a identificar e convidar revisores.
Mas o julgamento humano é fundamental para o processo, afirma ele. “Os editores mantêm total discricionariedade sobre o uso de sugestões automatizadas; eles podem revisar todas as recomendações antes do envio de qualquer convite, decidir quem será convidado e em que ordem, e podem adicionar, remover ou reatribuir revisores a qualquer momento”, acrescenta Fenter. “As decisões de aceitar ou rejeitar sempre cabem a um editor humano, sem exceção.”
Quanto ao uso de IA para auxiliar os editores, Fenter afirma que isso traz benefícios claros: o tempo médio para encontrar revisores dispostos a realizar o trabalho caiu 30% na Frontiers no último ano. Os dados da Frontiers sugerem que 80% dos editores responsáveis pela gestão dos artigos consideram a automação útil e que ela agiliza a atribuição de revisores, diz Fenter, e 94% dos autores classificam sua experiência de revisão por pares como boa ou excelente.
“Os editores também contam com o apoio de uma Equipe de Integridade em Pesquisa dedicada, que supervisiona as verificações automatizadas de qualidade em todas as etapas do nosso processo editorial”, escreve Fenter. “Continuamos comprometidos em manter a expertise humana no centro da revisão por pares e em contribuir abertamente para o debate mais amplo sobre o uso responsável da IA na publicação acadêmica.”
Okun afirma que a ideia de usar grandes modelos de linguagem para encontrar especialistas externos é boa. “Sou totalmente a favor, desde que o editor humano seja consultado”, diz ele.
Por outro lado, Okun afirma que também não vê problema em um sistema totalmente automatizado, desde que as editoras divulguem que toda a edição foi feita por IA. “Desde que seja honesto e não se coloque simplesmente o nome de alguém, isso também é perfeitamente aceitável”, diz ele.
A mecanização da produção de cana-de-açúcar trouxe não só a redução de empregos no campo como diminuiu o acesso a direitos e favoreceu a concentração fundiária
Desde a década de 1960, o avanço da monocultura canavieira transformou a paisagem rural em Araraquara, substituindo áreas antes ocupadas por lavouras de subsistência e pomares da laranja por extensas plantações de cana destinadas à produção de açúcar e etanol – Foto: Anderson Santos
Por Ivanir Ferreira, Arte: Livia Bortoletto, para “Jornal da USP”
Uma pesquisa da USP faz uma análise crítica sobre como a expansão do agronegócio sucroenergético vem alterando as relações de trabalho e a dinâmica social no campo na região de Araraquara, interior de São Paulo. Desde a década de 1960, o avanço da monocultura canavieira transformou a paisagem rural regional, substituindo áreas antes ocupadas por lavouras de subsistência e pomares de laranja por extensas plantações de cana destinadas à produção de açúcar e etanol.
Segundo o autor da pesquisa, o geógrafo Anderson Santos, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, nas últimas décadas, “o crescimento da produção de commodities agrícolas para o mercado internacional impulsionou a economia em Araraquara, mas também trouxe consequências sociais negativas para a população, como a redução de empregos no campo, a precarização das relações de trabalho, a concentração fundiária e o enfraquecimento dos vínculos da população com a terra”. Muitos proprietários passaram a arrendar suas propriedades para usinas e a depender de trabalhos urbanos; o trabalho ficou mais precarizado e sem vínculo empregatício formal, levando os trabalhadores a fazerem longos deslocamentos diários para garantir sua renda.
Anderson Santos – Foto: Arquivo pessoal
A tese Da crise do capital à crise da sociedade do trabalho: espaço, trabalho e reprodução social no campo – a região de Araraquara, São Paulo foi apresentada ao Departamento de Geografia da FFLCH em abril de 2026, sob orientação do professor Anselmo Alfredo. A pesquisa reúne relatos de pequenos proprietários de terra e produtores, colhedores de laranja e trabalhadores do setor sucroenergético afetados pelas mudanças no campo.
Araraquara, polo do agronegócio sucroenergético
Nas últimas décadas, a região de Araraquara tornou-se um dos principais polos da produção de cana-de-açúcar do País a partir de uma combinação de fatores econômicos, políticos e territoriais. Desde a década de 1960, políticas públicas voltadas à modernização da agricultura estimularam a expansão de grandes monoculturas, com acesso facilitado ao crédito rural, incentivos fiscais, mecanização e infraestrutura para o escoamento da produção.
A pesquisa aponta que o agronegócio ganhou força durante o regime militar (1964-1985), quando o governo federal passou a priorizar a produção agrícola em larga escala voltada ao mercado nacional e internacional. Na região de Araraquara, a oferta ampla de crédito rural e as condições favoráveis de solo, relevo e clima facilitaram a expansão da cana-de-açúcar sobre áreas antes ocupadas por lavouras diversificadas, pastagens e pomares de laranja.
Outro marco importante citado pelo geógrafo foi a criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool) em 1975. A iniciativa incentivou a produção de etanol como alternativa ao petróleo, impulsionando a instalação e a ampliação de usinas sucroalcooleiras no interior paulista. Com isso, a cana passou a ocupar parcelas cada vez maiores do território regional, consolidando Araraquara como um centro estratégico da indústria sucroenergética.
Santos explica que a expansão da cana-de-açúcar em São Paulo ganhou ainda mais força a partir dos anos 1990. A abertura da economia brasileira, o aumento da demanda internacional por açúcar e etanol e a ampliação da comercialização de commodities em bolsas de mercadorias e futuros impulsionaram o crescimento do agronegócio canavieiro. Além disso, novos mecanismos de financiamento, como a comercialização antecipada da safra e a emissão de títulos de crédito rural (CPRs) facilitaram a captação de recursos pelos produtores. Com isso, grandes grupos empresariais ampliaram suas áreas de cultivo por meio da compra e do arrendamento de terras, intensificando a especialização produtiva da região e consolidando o predomínio da cana-de-açúcar na economia local.
Produção canavieira – Foto: Anderson Santos
Contradições do agronegócio
A expansão do agronegócio gerou contradições no interior paulista. Nascido na região de Araraquara, o pesquisador afirma que acompanhou de perto as transformações provocadas pelo avanço da produção agrícola canavieira em larga escala, antes de se graduar em Geografia e seguir na área como pesquisador na USP. De acordo com Santos, “embora a região tenha se tornado mais integrada ao mercado global por meio da produção de commodities, os trabalhadores do campo passaram a enfrentar maior vulnerabilidade social, desemprego e exclusão econômica”
Para Alfredo, orientador do trabalho, a pesquisa de Santos amplia o debate sobre os impactos sociais da expansão do agronegócio no Brasil. “A tese vai além da análise de indicadores econômicos e investiga os efeitos desse modelo de desenvolvimento sobre a vida dos trabalhadores rurais”, diz.
O trabalho aborda temas como a transformação da relação da população com a terra, propondo uma reflexão crítica sobre as consequências da modernização agrícola no País, particularmente nas últimas décadas.
“O crescimento da produção e dos lucros não se traduziu necessariamente em melhoria das condições de vida para todos os grupos sociais envolvidos no processo” – Anderson Santos
Anselmo Alfredo – Foto: Arquivo pessoal
Deslocamentos mais longos e jornadas mais desgastantes
De acordo com o estudo, a redução das áreas cultivadas com laranja e a concentração da produção nas mãos de grandes agroindústrias citrícolas transformaram a rotina dos trabalhadores rurais da região de Araraquara. Nas poucas áreas citrícolas remanescentes, onde a colheita ainda é realizada manualmente, a oferta de emprego tornou-se mais escassa, obrigando muitos trabalhadores a buscar trabalho em municípios cada vez mais distantes.
Enquanto a mecanização avançou sobre praticamente todas as etapas da produção de cana-de-açúcar — principal atividade agrícola da região —, a citricultura continuou demandando mão de obra manual. Com menos oportunidades disponíveis, os catadores de laranja passaram a depender de empreiteiros que recrutam e transportam equipes para frentes de trabalho nas fazendas espalhadas por diferentes cidades.
Segundo Santos, a rotina desses trabalhadores passou a ser marcada por longos deslocamentos diários em ônibus fretados. Em muitos casos, o tempo gasto na viagem se soma à jornada no campo, aumentando o desgaste físico e reduzindo o tempo destinado ao convívio familiar e comunitário. Para ele, o aumento das distâncias percorridas pelos trabalhadores tornou-se uma das principais consequências da modernização da produção agrícola no campo.
“O trabalho é muito cansativo, e ainda tem o deslocamento. Eu tenho uma irmã que trabalha numa agroindústria. Tem vez que ela viaja duas horas e meia de ônibus pra chegar lá. (…) Pra você levantar quatro horas da manhã e ter que sair, que nem ela sai, cinco e meia de casa, e ficar duas horas e meia pra você chegar no trabalho, eu acho assim muito cansativo”, relatou uma trabalhadora em depoimento ao pesquisador.
Santos explica que a fala da trabalhadora evidencia como a busca por emprego passou a exigir não apenas mais tempo, mas também maior desgaste físico dos trabalhadores rurais. Sem registro em carteira e acesso a direitos trabalhistas, muitos enfrentam dificuldades para se afastar do trabalho mesmo quando adoecem ou precisam de tratamento médico.
Longos deslocamentos são fatores de desgaste dos trabalhadores. Na imagem, ônibus que os transporta para grandes fazendas produtoras de cana-de-açúcar – Foto: Anderson Santos
Informalidade agrava vulnerabilidade dos trabalhadores
Outra trabalhadora entrevistada relatou que precisou passar por uma cirurgia no pulso direito e, posteriormente, ficou afastada devido à covid-19. Sem vínculo formal de trabalho, ela não teve garantia de renda durante o período de recuperação. A preocupação com a perda do salário e o pagamento das despesas provocou ansiedade e sofrimento emocional. “Você começa a ficar perturbada porque não está recebendo”, afirmou.
Segundo Santos, a ausência de direitos como auxílio-doença e remuneração durante afastamentos médicos cria uma pressão constante para que os trabalhadores permaneçam em atividade, mesmo quando sua condição de saúde exige repouso. Além das perdas financeiras, essa situação contribui para o aumento do estresse, da insegurança e do desgaste psicológico, agravando as condições de vida da população rural.
Para o professor Alfredo, o caso de Araraquara revela as contradições de um modelo de modernização agrícola que combina aumento da produtividade e integração aos mercados globais com a redução de empregos, a precarização do trabalho e a concentração da terra. O orientador sugere que a análise dos impactos sociais da modernização do campo é essencial para compreender os desafios do desenvolvimento rural no Brasil.
A tese Da crise do capital à crise da sociedade do trabalho: espaço, trabalho e reprodução social no campo – a região de Araraquara, São Paulo foi defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanadas e será publicada em breve na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.
Mais informações: Anderson Pereira Santos (autor da pesquisa), anderson.pereira.santos@usp.br, (11)98440-8978 e Anselmo Alfredo (orientador), ansfredo@usp.br
Familiares das vítimas, acompanhadas por seu advogado, foram até acapital federal para a sessão de julgamento nesta terça-feira (16). Adefesa dos réus foi derrotada em mais uma tentativa de prejudicar oandamento das ações penais
A Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu por unanimidade, em julgamento nesta terça-feira (16/06), rejeitar o habeas corpus de três engenheiros da Tüv Süd, André Jum Yassuda, Makoto Namba e Marlísio Oliveira Cecílio Júnior e negar o recurso da defesa do engenheiro da Vale Felipe Figueiredo Rocha. Esta mesma turma já julgouimprocedenteo pedido de habeas corpus do ex-presidente da Vale, Fabio Schvartsman. As defesas dos réus pediam o trancamento da ação penal em andamento na justiça federal de Minas Gerais, isto é, que todo o processo fosse invalidado. Segundo eles, um laudo pericial, produzido em 2021, sobre o gatilho que provocou o rompimento da barragem, teria alterado a versão dos fatos, fazendo com que a acusação ficasse incompatível com as imputações originalmente formuladas em 2020.
Jacira Francisca, Iracema Oliveira, Nayara Porto, familiares de vítimas fatais, representantes da AVABRUM e o advogado Danilo Chammas acompanharam a votação em Brasília
O relator do caso, ministro Sebastião Reis Júnior, argumentou que a denúncia atende aos requisitos legais e o trancamento da ação penal não se justifica. “Sua anulação implicaria retrocesso injustificado, afronta à razoável duração do processo e à economicidade, além do risco de alcance imprevisível decorrente de uma decisão tomada sem acesso integral ao quadro fático e a todo o contexto envolvido”, afirmou.
Os advogados da equipe de Litígio em Direitos Humanos do Instituto Cordilheira, Danilo Chammas e Pablo Martins, que atuam como assistentes daacusação, representando a AVABRUM, consideraram uma boa decisão. “Estamos satisfeitos com o resultado do julgamento. Entendemos que o voto do ministro relator acolheu as melhores razões de direito ao determinar que não existem fundamentos aptos a justificar o trancamento das ações penais e que a denúncia mantém sua justa causa. Entendemos que o processo deve seguir sem novos contratempos. Após a instrução e análise de todo o acervo probatório, a juíza do caso definirá, em sua sentença, qual é a responsabilidade de cada um dos réus, pessoas físicas e jurídicas, sendo sempre garantido a todos eles o direito à ampla defesa e ao devido processo legal”, analisa Pablo.
Jacira Francisca, Iracema Oliveira, Nayara Porto, familiares de vítimas fatais, representantes da AVABRUM e o advogado Danilo Chammas acompanharam a votação em Brasília
A presidente da AVABRUM, Nayara Porto, comemora a conquista. “É um momento de grande alegria para nós. Temos lutado arduamente por justiça desde o dia 25 de janeiro de 2019. Não vamos nos render, seja por cansaço ou por qualquer outro desafio. Vamos continuar monitorando tudo de perto até que a justiça seja feita”
Jacira Francisca, que perdeu seu filho Thiago Matheus Costa no rompimento da barragem, também acompanhou o julgamento presencialmente. Segundo ela, “o processo precisa continuar sem mais obstáculos, nenhum dos réus pode fugir do banco dos réus”.
Audiências de instrução continuam no TRF-6
Desde 23 de fevereiro de 2026, o processo criminal está em um momento crucial: todas as segundas e sextas estão acontecendo as audiências de instrução, sob a condução da juíza federal Raquel Vasconcelos de Lima. Até o momento já foram ouvidas mais de 40 pessoas, entre familiares de vítimas fatais, trabalhadores sobreviventes, moradores das comunidades atingidas, especialistas em geotecnia, funcionários da Vale, entre outros.
Sobre o Observatório
O Observatório das Ações Penais sobre a Tragédia de Brumadinho nasceu da necessidade de uma ferramenta que facilitasse aos familiares das 272 vítimas e outros interessados a compreensão sobre os processos judiciais e procedimentos administrativos que tramitam no Brasil e na Alemanha com o objetivo de revelar a verdade e aplicar a justiça penal a todos os responsáveis pelos crimes pelos homicídios e demais delitos relacionados ao rompimento da barragem da Vale S.A Vale S.A. em Brumadinho. É, portanto, uma iniciativa em benefício de todos os que anseiam por justiça, pela dignificação das vítimas, pela valorização da memória histórica, por um sistema de justiça mais acessível às pessoas, pelo fim da impunidade e para que fatos como esse nunca mais aconteçam.
Evento gratuito propõe uma roda de conversa sobre bioeconomia, territórios e identidades a partir da cultura alimentar e da museologia local
crédito: Renato Mangolin
No dia 19 de junho (sexta-feira), às 16h, na sala multiuso do Museu do Jardim Botânico, acontece uma edição especial do evento Vivências do MAZ, realizado em parceria com o Museu das Amazônias. Com o tema “Vivências Amazônicas: Saberes, Territórios e Futuro”, o encontro promove um diálogo essencial sobre a bioeconomia e a valorização das populações tradicionais e seus modos de vida na construção do desenvolvimento sustentável.
Gratuito e aberto ao público, o encontro reúne a chef paraense Adriana Veloso, do restaurante Pescados na Brasa, e a museóloga Gabriele Martins, coordenadora de programação do Museu das Amazônias, para compartilhar conhecimentos e experiências que cruzam cultura, ciência, biodiversidade e os saberes dos territórios amazônicos.
A atividade conecta-se diretamente à exposição temporária BioOCAnomia Amazônica, em cartaz no Museu do Jardim Botânico. Ao articular pesquisa, prática gastronômica e os conhecimentos de comunidades tradicionais, a roda de conversa convida o público a compreender a cultura alimentar como uma dimensão central dos modos de vida amazônicos, das relações com o território e da preservação da sociobiodiversidade.
Em diálogo com o campo da botânica e com a própria proposta da exposição, o encontro amplia as formas de compreender a floresta em pé, valorizando as narrativas construídas por quem vive e transforma a Amazônia cotidianamente. Ao final das apresentações, o público presente será convidado a participar de um bate-papo aberto.
Sobre as convidadas
Adriana Veloso é chef paraense radicada no Rio de Janeiro e cofundadora do restaurante Pescados na Brasa, onde promove a culinária amazônica como ferramenta de preservação cultural e fortalecimento de identidades através dos saberes gastronômicos tradicionais.
Gabriele Martins é museóloga, especialista em Educação Ambiental e Sustentabilidade pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e coordenadora de programação do Museu das Amazônias, atuando na valorização de narrativas locais, memórias e futuros possíveis da região.
O Museu do Jardim Botânico conta com patrocínio master da Shell Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e gestão do idg – Instituto de Desenvolvimento e Gestão. Inaugurado em março de 2024, o espaço apresenta ao público, por meio de exposições, conteúdos interativos e programação cultural, o trabalho pioneiro do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro para o conhecimento e a conservação da flora brasileira.
SERVIÇO
Vivências do MAZ no MJB
Vivências Amazônicas: Saberes, Territórios e Futuro
Data: sexta-feira, 19 de junho
Horário: 16h às 18h
Local: Sala multiuso do Museu do Jardim Botânico – 1º pavimento
O caso revelado em Minas Gerais ajuda a compreender como grandes empreendimentos utilizam organizações ambientais para ampliar sua influência sobre os espaços públicos de decisão, fenômeno que também pode ser observado na presença da Fazenda Caruara S.A. no Conselho Municipal de Meio Ambiente de São João da Barra
A reportagem publicada pela Reporter Brasil sobre a eleição de uma ONG ligada ao grupo empresarial do banqueiro Daniel Vorcaropara um conselho ambiental em Minas Gerais lança luz sobre um processo que vem se tornando cada vez mais comum no Brasil: a ocupação dos espaços de participação democrática por organizações que, embora formalmente apresentadas como integrantes da sociedade civil, mantêm vínculos diretos com grandes corporações interessadas nas decisões tomadas por esses mesmos colegiados. Trata-se de um fenômeno conhecido na literatura de políticas públicas como captura da governança, quando instituições criadas para proteger o interesse coletivo passam a ser influenciadas ou mesmo controladas pelos interesses dos agentes econômicos que deveriam ser objeto de regulação.
Esse processo raramente ocorre por meio de práticas abertamente ilegais. Ao contrário, desenvolve-se através de mecanismos sofisticados de construção de legitimidade, incluindo investimentos em projetos socioambientais, ações de responsabilidade corporativa, financiamento de iniciativas culturais e participação em conselhos e fóruns públicos. O resultado é que empresas deixam de ser apenas reguladas pelo Estado para assumir um papel ativo na definição das políticas e normas que condicionam sua própria atuação.
Esse caso encontra um paralelo extremamente pertinente em São João da Barra. O Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável conta com a participação da Reserva Ambiental Fazenda Caruara S.A., empresa diretamente vinculada ao complexo empresarial do Porto do Açu. Em princípio, poderia parecer natural que uma organização dedicada à conservação ambiental integrasse um espaço voltado à formulação de políticas ambientais. Entretanto, essa presença precisa ser analisada à luz do contexto territorial em que se insere.
Há ainda um aspecto particularmente simbólico nessa comparação. O Porto do Açu não é apenas um complexo portuário e energético. Ele constitui o ponto terminal do Minas-Rio, o maior mineroduto do mundo, responsável por transportar minério de ferro por mais de 500 quilômetros entre Minas Gerais e o litoral fluminense. Além disso, o empreendimento mantém participação na mineradora Ferroport, joint venture estabelecida em parceria com a gigante sul-africana Anglo American, uma das maiores empresas de mineração do planeta. Em outras palavras, o elo entre mineração, infraestrutura logística e ocupação dos espaços institucionais de governança ambiental não é apenas conceitual: ele também é concreto e materializa-se na própria estrutura empresarial que opera no Porto do Açu.
O Porto do Açu é responsável por um dos mais profundos processos de transformação socioespacial ocorridos no litoral fluminense nas últimas décadas. Sua implantação implicou desapropriações em larga escala, desterritorialização de agricultores familiares, restrições ao acesso de pescadores artesanais a áreas tradicionalmente utilizadas, intensificação da industrialização costeira e uma série de conflitos sociais e ambientais que permanecem sem solução definitiva. Nesse cenário, a participação de uma empresa ligada ao empreendimento no principal órgão consultivo da política ambiental municipal suscita questionamentos inevitáveis sobre a autonomia das decisões públicas e sobre o equilíbrio entre os diferentes interesses representados.
Mais do que uma iniciativa de conservação, a Fazenda Caruara passa a desempenhar também uma função política. A manutenção de uma reserva ambiental privada confere ao grupo empresarial um importante ativo simbólico, capaz de reforçar sua imagem de responsabilidade socioambiental e ampliar sua influência institucional. Trata-se de uma estratégia que pode ser compreendida como uma forma de greenwashing institucional, na qual ações efetivas de preservação convivem com impactos sociais e ambientais de grande magnitude, produzindo uma narrativa que tende a minimizar ou invisibilizar os conflitos gerados pelo empreendimento.
O problema não reside simplesmente na participação empresarial em conselhos públicos, mas na profunda assimetria existente entre os atores que disputam esses espaços. Grandes corporações dispõem de recursos financeiros, equipes técnicas, assessorias jurídicas e capacidade permanente de articulação política, enquanto agricultores familiares, pescadores artesanais, associações comunitárias e movimentos sociais frequentemente enfrentam enormes dificuldades para garantir uma participação contínua e qualificada. Assim, uma estrutura concebida para ampliar a democracia pode acabar reproduzindo e legitimando relações profundamente desiguais de poder.
O episódio relatado pela Reporter Brasil e a situação observada em São João da Barra revelam uma tendência preocupante de privatização dos espaços de formulação das políticas públicas. O fato de um conselho ambiental mineiro incorporar uma entidade ligada ao setor mineral e, simultaneamente, um conselho municipal fluminense contar com a participação de uma empresa vinculada a um complexo portuário que é a principal saída logística do maior mineroduto do mundo e parceiro direto de uma das maiores mineradoras globais evidencia que não se trata de casos isolados, mas de uma estratégia mais ampla de ocupação dos espaços de governança por grandes corporações.
No caso do Porto do Açu, essa discussão ganha um significado ainda mais profundo. Afinal, milhares de agricultores familiares e pescadores artesanais continuam convivendo diariamente com os impactos produzidos pelo empreendimento, enquanto empresas a ele vinculadas ampliam sua presença nos espaços institucionais destinados justamente a proteger o patrimônio ambiental e os interesses coletivos do município. A pergunta que emerge dessa realidade é inevitável: quem está efetivamente governando o território? A sociedade representada em sua pluralidade ou os próprios agentes econômicos que deveriam estar submetidos ao controle democrático do poder público?
Talvez a maior ironia dessa história seja justamente que a conexão entre o caso mineiro e São João da Barra não seja apenas uma analogia política. Ela é literalmente construída por centenas de quilômetros de um mineroduto que liga as minas de ferro de Minas Gerais ao Porto do Açu, conectando a extração mineral, a logística de exportação e, ao que tudo indica, formas cada vez mais sofisticadas de influência corporativa sobre os espaços públicos de decisão ambiental.
O debate sobre o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados revela que a questão central talvez não seja apenas pagar a dívida, mas discutir quem paga a conta e quais interesses são preservados
O extenso estudo elaborado por Paulo Lindesay, diretor da Executiva Nacional da ASSIBGE-SN, coordenador do Núcleo Sindical Canabarro e coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida – Núcleo RJ, constitui uma importante contribuição para um debate que, embora tenha enorme impacto sobre o futuro do Estado do Rio de Janeiro, permanece praticamente ausente do espaço público: os efeitos da adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (PROPAG), instituído pela Lei Complementar nº 212/2025.
A principal virtude do texto é deslocar a discussão do plano meramente técnico para o plano político. Em vez de tratar a dívida pública como um fato consumado, Lindesay questiona a própria legitimidade do estoque da dívida, argumentando que sua consolidação significa o reconhecimento definitivo de valores que jamais foram submetidos a uma auditoria pública e independente. Nesse sentido, o autor recupera uma reivindicação histórica da Auditoria Cidadã da Dívida: antes de vender patrimônio público ou impor novas rodadas de austeridade, seria necessário verificar a origem, a legalidade e a legitimidade dos passivos financeiros acumulados ao longo das últimas décadas.
Outro aspecto relevante é a crítica à lógica patrimonialista do PROPAG. O programa apresenta a alienação de imóveis, empresas estatais, receitas futuras de royalties do petróleo e créditos da dívida ativa como mecanismos para reduzir encargos financeiros. Entretanto, essa estratégia pode significar a substituição de um problema conjuntural por uma perda permanente da capacidade de intervenção do Estado na economia e na oferta de serviços públicos. Em outras palavras, vende-se patrimônio que gera receita para aliviar temporariamente um fluxo financeiro que continuará existindo por décadas.
No caso específico do Rio de Janeiro, essa discussão assume um caráter ainda mais dramático. O estado é um dos maiores produtores de petróleo do país, e seus royalties representam uma das principais fontes de financiamento de políticas públicas. Vincular essas receitas futuras ao pagamento da dívida significa limitar a capacidade de investimento justamente em um momento em que o estado precisará enfrentar desafios como adaptação às mudanças climáticas, diversificação econômica e recuperação de sua infraestrutura social.
O texto também chama atenção para um aspecto frequentemente negligenciado: a relação entre política fiscal e qualidade do serviço público. Os limites impostos ao crescimento das despesas primárias tendem a restringir concursos públicos, dificultar recomposições salariais e congelar planos de carreira, mesmo em cenários de aumento da arrecadação. O resultado pode ser um processo contínuo de precarização do Estado, no qual escolas, universidades, hospitais e órgãos de pesquisa passam a operar permanentemente abaixo de sua capacidade.
Essa preocupação é especialmente pertinente para as universidades estaduais fluminenses. Instituições como a UENF, a UERJ, e a FAETEC já convivem há anos com restrições orçamentárias, perdas salariais acumuladas e dificuldades para renovar seus quadros. Um novo regime fiscal excessivamente rígido pode comprometer ainda mais sua capacidade de produzir conhecimento, formar profissionais qualificados e responder às demandas da sociedade.
Há, evidentemente, espaço para divergências quanto a algumas interpretações jurídicas e econômicas apresentadas por Lindesay, especialmente no que diz respeito à aplicação da Súmula 121 do STF e à discussão sobre anatocismo em contratos públicos e operações financeiras modernas. Contudo, essas divergências não diminuem a relevância da questão central levantada pelo autor: a naturalização da dívida pública como um compromisso absoluto, acima de qualquer consideração sobre direitos sociais, desenvolvimento regional ou autonomia federativa.
Talvez seja exatamente esse o maior mérito do trabalho. Em vez de aceitar o PROPAG como uma solução técnica inevitável, Paulo Lindesay convida o leitor a perguntar quem ganha e quem perde com esse modelo de renegociação. A resposta sugerida pelo texto é inquietante: enquanto o mercado financeiro obtém maior previsibilidade e segurança para o recebimento dos créditos, o patrimônio público, a autonomia dos estados e os direitos dos servidores tornam-se as principais variáveis de ajuste.
Independentemente da posição que se adote sobre o PROPAG, uma conclusão parece inevitável: uma decisão capaz de comprometer receitas, empresas públicas e políticas sociais por várias décadas não pode ser tratada apenas como uma operação financeira. Trata-se de uma escolha profundamente política, que deveria ser precedida de amplo debate público, transparência absoluta e efetiva participação da sociedade fluminense.
Paulo Lindesay também disponibilizou uma apresentação para tornar ainda mais claras as questões que ele levantou em sua análise técnica [Aqui!].
As acusações virais de manipulação de dados em periódicos da Nature , feitas por um videoblogger , desencadearam um intenso debate e investigações institucionais céleres
Os vídeos de Geng Hongwei provocaram um intenso debate nas redes sociais chinesas. Crédito: Tom Houghton/ Nature
Por Xiaoying You para “Nature”
Quatro acadêmicos chineses de alto escalão foram disciplinados depois que um blogueiro e ex-aluno de doutorado apontou anomalias nos dados de seus artigos publicados, o que viralizou.
Um blogueiro conhecido como Student Geng, cujo nome verdadeiro é Geng Hongwei, questionou a autenticidade dos dados em cinco artigos e nomeou cinco pesquisadores renomados de quatro universidades chinesas que foram coautores das publicações. Os artigos foram publicados na Nature e em três periódicos vinculados à Nature .Um dospesquisadores acusados está sendo investigado em sua universidade — os outros enfrentaram consequências severas após as investigações de suas instituições.
Manipulação de dados
Em uma série de vídeos publicados nas redes sociais chinesas em abril e maio, cada um com duração de cerca de cinco minutos e visualizado quase dez milhões de vezes até o momento, Geng explica como analisou padrões nos dados e concluiu que os números poderiam ter sido fabricados.
Por exemplo, ele analisou uma planilha nos dados de origem de um artigo publicado na Nature em novembro de 2024, que estudava como uma enzima no corpo humano poderia regular o dano ao DNA. . Dos 280 pontos de dados na planilha, 76% terminavam com o número cinco, enquanto apenas 6% terminavam com o número seis, o segundo dígito final mais comum. Geng explicou que esse padrão é extremamente improvável do ponto de vista estatístico.
Geng interpretou isso como evidência de manipulação de dados: “Vocês estão me dizendo que esses números são autênticos?”, perguntou ele em um vídeo. Depois de dar mais exemplos de números terminados em cinco no mesmo artigo, ele zombou: “Essas tabelas mostram o amor dos autores pelo número cinco.”
Em abril, uma nota do editor foi publicada no jornal, alertando os leitores sobre preocupações com a confiabilidade dos dados e informando que uma investigação estava em andamento. Notas do editor foram adicionadas aos outros quatro jornais em maio e junho.
Em outra planilha, de um artigo publicado na Nature Cancer6 em janeiro de 2024, que propôs uma maneira de combater cânceres difíceis de tratar, os dois dígitos após a vírgula de cada um dos seus 64 números são idênticos aos dos números localizados na célula na mesma posição na planilha seguinte, sugerindo que eles podem ter sido fabricados, diz Geng.
“Essas duas tabelas mostram que os autores não se importam com seus leitores e desprezam a autoridade da pesquisa científica”, comentou Geng em tom de brincadeira.
Geng também alegou em seus vídeos que outros quatro artigos do portfólio da Nature continham irregularidades em seus dados, mas não nomeou os autores desses artigos e suas instituições não anunciaram investigações.
Após ser contatada para comentar o assunto, Erika Pastrana, vice-presidente de periódicos de pesquisa e revisão da Nature na Springer Nature, disse: “Todos os artigos estão sendo cuidadosamente investigados pelo Grupo de Integridade em Pesquisa da SN, juntamente com avaliações editoriais das preocupações levantadas, contato com os autores e, quando apropriado, consulta a especialistas independentes e instituições relevantes.”
“Levamos as preocupações com a integridade da pesquisa muito a sério e temos diversas ferramentas e processos implementados para identificar possíveis problemas. Os periódicos do Nature Portfolio têm um compromisso de longa data com a transparência, o rigor e a inovação na revisão por pares. Nossas políticas de dados e relatórios estão entre as mais abrangentes no setor de publicações seletivas, apoiando tanto a avaliação editorial quanto a análise pós-publicação. Esse nível de transparência também significa que os problemas são identificados e examinados mais facilmente após a publicação, o que é uma parte importante da manutenção de um registro científico robusto e autocorretivo”, disse Pastrana. As equipes de carreiras e notícias da Nature são independentes da seção de pesquisa da Nature e de sua editora, a Springer Nature.
Ação institucional
As quatro universidades divulgaram comunicados logo após a publicação dos vídeos de Geng, informando o público sobre a abertura de investigações. Três delas — a Universidade Tongji em Xangai, a Universidade Nankai em Tianjin e a Universidade Sun Yat-sen em Guangzhou — já disciplinaram os acadêmicos acusados e prometeram reforçar a supervisão de alunos e professores no futuro. Ainda não se sabe se essas universidades divulgarão mais detalhes das investigações.
Wang Ping, ex-reitor da Faculdade de Ciências da Vida e Tecnologia da Universidade de Tongji, foi o primeiro a ser penalizado. Ele foi destituído do cargo de reitor, rebaixado em dois níveis hierárquicos e teve diversos direitos, como responsabilidades de contratação e aumentos salariais, suspenso por 24 meses, segundo comunicado divulgado pela universidade em 6 de maio.
A Universidade Tongji afirmou que, durante a investigação de um artigo suspeito, descobriu que Wang não havia cumprido seu dever como orientador e autor correspondente de garantir a autenticidade dos dados e a qualidade do artigo. Segundo a universidade, o primeiro autor, Jin Jiali, conduziu os experimentos e forneceu os dados para as 14 tabelas em questão. A investigação constatou “má conduta acadêmica” na produção de dez das tabelas, “registro não padronizado” em uma e “uso indevido” nas três restantes. Jin, pesquisador da universidade, foi demitido, de acordo com o comunicado.
Chen Quan, ex-reitor da Faculdade de Ciências da Vida da Universidade de Nankai, também foi afastado do cargo e rebaixado após uma investigação sobre um artigo suspeito. A investigação concluiu que o primeiro autor do artigo, Zheng Hao, havia cometido má conduta acadêmica, segundo um comunicado da Universidade de Nankai divulgado em 30 de maio. A universidade afirmou que Chen, um dos autores correspondentes, não manteve a qualidade do trabalho — assim como outro autor correspondente, que recebeu uma advertência. Zheng, um estudante de pós-doutorado, também foi demitido.
Os outros dois acadêmicos trabalham na Universidade Sun Yat-sen, que anunciou os resultados de sua investigação em um comunicado divulgado em 30 de maio. Um deles, Kang Tiebang, foi destituído de dois de seus cargos: vice-diretor do Laboratório Estatal de Oncologia do Sul da China e vice-diretor do departamento de pesquisa experimental do Centro de Câncer da Universidade Sun Yat-sen. O outro, Kuang Dongming, foi destituído do cargo de vice-reitor da Faculdade de Ciências da Vida da universidade. As investigações sobre seus artigos constataram “falta de rigor acadêmico e má conduta acadêmica”, afirmou o comunicado.
“Não tenho mais comentários a fazer neste momento”, disse Kuang Dongming quando contatado para comentar. “Acredito que qualquer avaliação dos resultados e conclusões do artigo só deve ser feita após uma verificação cuidadosa dos dados brutos”, afirmou.
Os demais pesquisadores foram contatados, mas não haviam respondido até o momento da publicação deste artigo.
O que é “impressionante” em Geng é seu enorme sucesso em levar adiante essas investigações de má conduta, afirma Elisabeth Bik, microbiologista e pesquisadora independente de integridade científica em São Francisco, Califórnia. Além disso, algumas das investigações já resultaram em constatações de má conduta — o que, segundo Bik, aconteceu de forma excepcionalmente rápida.
Geng tem se concentrado em revistas científicas da marca Nature em seus vídeos investigativos. Crédito: Masanori Inagaki/AP via Alamy
Esta é provavelmente a primeira vez na China que alguém com uma formação “popular” fora do sistema acadêmico formal recebe apoio da mídia estatal após fazer alegações sobre a integridade da pesquisa, afirma Shaoxiong Brian Xu, linguista aplicado da Universidade Normal de Huanggang, na China, que pesquisa retratações de artigos acadêmicos em todo o mundo.
O fato de suas acusações se concentrarem em pesquisadores de alto nível que trabalham em universidades de renome e publicam em periódicos de grande prestígio provavelmente contribuiu para atrair a atenção, diz Xu. “Além disso, suas acusações apontam para fabricação de dados”, acrescenta Xu. Esta é “uma das formas mais graves de violação da integridade da pesquisa”.
Viralizou
Geng conta que se tornou videoblogger em 2022, enquanto cursava doutorado em engenharia biomédica em uma universidade de Pequim. Ele afirma que, no ano passado, abandonou o programa no quinto ano por se sentir incapaz de realizar a pesquisa pela qual era apaixonado em um ambiente que o pressionava a publicar muitos artigos.
“Um motivo ainda mais importante foi que eu não conseguia enxergar uma trajetória de carreira viável para mim como pesquisador no sistema atual”, diz ele. Geng publica comentários em vídeo sobre novas descobertas científicas, notícias do meio acadêmico e suspeitas de má conduta acadêmica. Ele afirma que recebe informações de seus seguidores e de outros usuários da internet sobre artigos potencialmente fraudulentos antes de verificar as alegações por conta própria.
Já havia preocupações levantadas sobre alguns dos artigos no PubPeer, um site que permite que cientistas e o público comentem pesquisas publicadas, antes de Geng compartilhar suas análises em plataformas de mídia social, como o Bilibili, um site de vídeos semelhante ao YouTube na China, e o Douyin, a versão chinesa do TikTok. Geng afirma que, para a maioria dos artigos que sinalizou, ele havia enviado solicitações formais de investigação aos financiadores dos projetos e às universidades envolvidas antes de publicar online.
Impacto
O canal de Geng no Bilbili atraiu cerca de 2,2 milhões de seguidores. “Parabéns pela coragem da blogueira”, escreveu um fã na plataforma.
Em maio, um editorial publicado pela Xinhua, agência de notícias estatal chinesa, dizia: “Como blogueiro científico, o estudante Geng, sozinho, desencadeou investigações acadêmicas por diversas instituições. Isso não só demonstra que os verdadeiros mestres vêm das massas, como também expõe os problemas gritantes do sistema de supervisão acadêmica nacional.”
O estudante Geng, cujo nome verdadeiro é Geng Hongwei, afirma que se tornou vlogger em 2022 e posteriormente abandonou seu programa de doutorado. Crédito: Cortesia de Geng Hongwei
Geng afirma que espera que seus vídeos possam mostrar às autoridades chinesas que a má conduta acadêmica no país é um problema sério que precisa ser resolvido.
Mas as ações de Geng também atraíram críticas. “Alguns alunos temem que seu combate à má conduta acadêmica possa resultar na punição de um ou dois pesquisadores de alto nível, mas, no fim das contas, a responsabilidade e a carga de trabalho recairão sobre os alunos comuns se houver uma repressão aos artigos”, diz Jiang Rui, mestrando em ciência e engenharia de materiais em Hefei, na China.
Um espectador preocupado deixou um comentário nos vídeos de Geng, dizendo: “Só quero me formar sem problemas para poder encontrar um emprego… Quanto mais acusações surgirem, maior a probabilidade de as universidades aumentarem a supervisão dos trabalhos. Os mais afetados serão os estudantes.”
Jiang afirma que ele, seus colegas e amigos discutiram os vídeos virais de Geng e que as opiniões estão divididas. “Mas o fato de ele ter abandonado o doutorado, e não ser um pesquisador consagrado, torna ele e suas ações mais identificáveis para nós”, diz Jiang.
Questões mais profundas
A viralização de Geng expôs alguns desafios enfrentados pelo sistema acadêmico chinês, afirmam os entrevistados. Um desses problemas é a qualidade de algumas publicações de pesquisa, dizem eles.
“É impressionante o rápido progresso da ciência chinesa, que partiu de um patamar muito baixo há apenas 26 anos”, afirma Rao Yi, neurologista da Universidade de Pequim e crítico proeminente da má conduta acadêmica no país. Mas Rao acrescenta que também está “entristecido tanto pelo número quanto pela proporção de artigos contendo informações falsas provenientes da China”.
Com o rápido crescimento do número de artigos publicados por autores sediados na China, o número de retratações também aumentou. Em 2023, mais da metade das 50.002 publicações retratadas em todo o mundo envolviam pelo menos uma instituição de pesquisa chinesa — mais de cinco vezes o número de publicações dos Estados Unidos, segundo uma análise de Xu e seu colega . Cerca de 20% das retratações de pesquisadores chineses foram causadas pelo uso de “fábricas de papel”, empresas que produzem manuscritos fraudulentos ou de baixa qualidade sob demanda; o plágio representou 4,3% e a fabricação ou falsificação, 2,8%, de acordo com a análise. (As retratações são frequentemente usadas como um indicador de má conduta científica na ausência de uma métrica alternativa, o que por si só já causou controvérsia: algumas editoras argumentam que as retratações muitas vezes demonstram um compromisso com práticas responsáveis.)
A má conduta científica ocorre em todo o mundo, mas a China é “muito propensa” a ela devido ao grande volume de artigos publicados por seus pesquisadores, “portanto, o número absoluto será alto”, diz Bik.
Veículos de comunicação estatais e alguns pesquisadores entrevistados pela Nature também apontam para a urgência de aprimorar o sistema de avaliação acadêmica da China, que normalmente prioriza métricas quantitativas, particularmente o número de artigos que um indivíduo ou universidade publicou em periódicos de alto impacto. O sistema já foi criticado no passado por seu efeito negativo sobre a integridade da pesquisa, ao priorizar a quantidade em detrimento da qualidade, afirma Johannes Knops, ecologista aposentado da Universidade de Nebraska-Lincoln, que trabalhou na China e acompanhou casos de má conduta acadêmica nos últimos seis anos.
A China tem tentado se afastar do sistema por meio de uma grande reforma de avaliação lançada em 2020. Mas vários casos de má conduta de alto nível nos últimos anos mostram que “ainda existem pessoas que querem obter sucesso rápido no meio acadêmico e os canais normais de supervisão estão de certa forma bloqueados”, escreveu Tian Chenxu, colunista do Banyuetan , publicação afiliada à agência de notícias Xinhua, em um comentário sobre Geng em 21 de maio.
Embora o governo chinês tenha proibido as universidades de usar o número de publicações como a única forma de avaliar o desempenho do corpo docente, na realidade, essa métrica ainda está “profundamente ligada” ao ranking dos departamentos e à promoção de funcionários, escreveu Tian.
Geng afirma que seu plano agora é dar visibilidade aos pesquisadores que dedicam tempo e esforço a pesquisas rigorosas, em vez de publicarem artigos às pressas.
“Quero encontrar alguns exemplos da vida real para mostrar que, mesmo publicando menos artigos do que seus colegas, eles também podem receber reconhecimento pelo seu trabalho”, diz ele.
Familiares de vítimas fatais viajarão até a capital federal para mais uma sessão de julgamento que pode invalidar as ações penais que tratam dos crimes de homicídios dolosos e outras infrações penais relacionadas ao rompimento da barragem I na mina do Córrego do Feijão.
A Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), formada pelos ministros Carlos Pires Brandão, Rogerio Schietti Cruz, Sebastião Reis Júnior, Og Fernandes e pela Desembargadora convocada Nilsoni de Freitas, iniciará nesta terça (16/06) o julgamento de dois recursos impetrados pelas defesas de quatro réus do processo que apura a responsabilidade criminal de pessoas físicas e jurídicas do rompimento da barragem da Vale S.A. em Brumadinho. Esta mesma turma já julgouimprocedente o pedido de habeascorpus do ex-presidente da Vale, Fabio Schvartsman.
Um desses recursos tem como impetrantes os advogados do engenheiro da Vale Felipe Figueiredo Rocha, enquanto o outro foi impetrado em nome de três engenheiros da Tüv Süd: André Jum Yassuda, Makoto Namba e Marlísio Oliveira Cecílio Júnior.
As defesas pedem o trancamento da ação penal, isto é, que todo o processo seja invalidado porque, segundo eles, um laudo pericial, produzido em 2021, sobre o gatilho que provocou o rompimento da barragem, teria alterado a versão dos fatos, fazendo com que a acusação ficasse incompatível com as imputações originalmente formuladas em 2020. O Ministério Público Federal, titular da acusação, refuta essa alegação, defendendo que há inquestionável justa causa para continuidade do processo, fundamentada nos seguidos atos comissivos e omissivos dos acusados, relacionados a declarações inidôneas de estabilidade da barragem e ao não cumprimento do dever de agir para evitar o colapso ou assegurar meios de salvação a todas as vítimas.
Em 11 de março de 2026, a Segunda Turma do Tribunal Regional Federal da 6a Região (TRF6), formada pela desembargadora Luciana Pinheiro Costa, contando também com os desembargadores federais Flávio Boson Gambogi, Klaus Kuschel e Pedro Felipe de Oliveira Santos, julgou esses mesmos pedidosimprocedentes, por unanimidade. Foi contra essa decisão que as defesas recorreram ao STJ.
A AVABRUM, que atua como assistente de acusação nos processos criminais, em nome de 463 familiares diretos de vítimas fatais, estará representada durante o julgamento. Segundo os advogados Danilo Chammas e Pablo Martins, “a revelação sobre o gatilho não contradiz a acusação. Pelo contrário, a reforça. Não existe razão jurídica apta a sustentar o encerramento prematuro da persecução penal”. Para Jacira Francisca, que perdeu seu filho Thiago Matheus Costa, de 32 anos, no rompimento da barragem, “o processo precisa continuar até que a justiça seja feita, nenhum dos réus pode fugir do banco dos réus”.
Desde 23 de fevereiro de 2026, o processo criminal está em momento crucial: todas as segundas e sextas estão acontecendo as audiências de instrução, sob a condução da juíza federal Raquel Vasconcelos de Lima. Até o momento já foram ouvidas mais de 40 pessoas, entre familiares de vítimas fatais, trabalhadores sobreviventes, moradores das comunidades atingidas, especialistas em geotecnia, funcionários da Vale, entre outros.
Caso o STJ julgue procedentes esses recursos, todos os atos do processo criminal realizados desde janeiro de 2023 serão invalidados, o que significará um enorme prejuízo para aqueles que trabalham e anseiam por justiça.
Pesquisa internacional evidencia que a exposição aos agrotóxicos é uma característica estrutural do modelo agrícola da Revolução Verde e reforça que a redução do uso de venenos é uma condição para a promoção da saúde, da justiça ambiental e da soberania alimentar
O artigo de Anouk Petitpierre, Aggrey Atuhaire, Christian H. Lindh, Ana M. Mora, Martin Röösli, Philipp Staudacher e Samuel Fuhrimann, publicado na revista The Lancet Planetary Health, traz uma contribuição importante para um tema que costuma permanecer invisível: a exposição cotidiana de pequenos agricultores aos agrotóxicos em países tropicais de baixa e média renda. Em vez de confiar apenas em questionários ou relatos dos trabalhadores, os autores analisaram biomarcadores presentes na urina de mais de 600 agricultores da Costa Rica e de Uganda, oferecendo um retrato objetivo da contaminação ocupacional.
O primeiro resultado impressiona pela contundência: todos os sete biomarcadores pesquisados foram encontrados em praticamente todos os participantes do estudo, confirmando que a exposição aos agrotóxicos é ampla e sistemática entre agricultores familiares, independentemente do país analisado. Essa constatação desmonta a ideia frequentemente difundida de que o problema estaria restrito ao uso inadequado de equipamentos de proteção ou a comportamentos individuais. A contaminação aparece como uma característica estrutural do atual modelo agrícola.
Outro aspecto relevante é a comparação entre agricultores convencionais e orgânicos. Os pesquisadores verificaram que aqueles que trabalham exclusivamente com práticas orgânicas apresentam concentrações significativamente menores de diversos biomarcadores, com reduções que chegam a 68% em alguns casos. Também foi observado que agricultores que receberam treinamento sobre segurança no manejo de agrotóxicos exibiam níveis inferiores de exposição, embora essa redução tenha sido relativamente modesta quando comparada aos benefícios proporcionados pela adoção da agricultura orgânica.
Há, entretanto, um resultado particularmente provocador. O estudo não encontrou evidências de que o simples uso de equipamentos de proteção individual seja suficiente para reduzir a exposição. Em alguns casos, como no uso de luvas durante a aplicação de determinados inseticidas, a concentração dos biomarcadores foi até maior. Os autores sugerem que o problema decorre do uso inadequado dos equipamentos, da reutilização de luvas contaminadas e da ausência de procedimentos básicos de higiene, demonstrando que distribuir EPIs sem treinamento adequado pode produzir uma falsa sensação de segurança.
Embora o artigo tenha sido desenvolvido na Costa Rica e em Uganda, suas conclusões dialogam diretamente com a realidade brasileira. O Brasil ocupa há anos uma posição de destaque no consumo mundial de agrotóxicos e vem ampliando continuamente o registro de novos produtos, muitos deles contendo ingredientes ativos proibidos na União Europeia. Nesse contexto, a demonstração científica de que pequenos agricultores permanecem cronicamente expostos a múltiplos compostos químicos reforça a necessidade de superar uma visão centrada exclusivamente no “uso seguro” dos venenos agrícolas.
Os dados apresentados também dialogam com o conceito de injustiça ambiental. São justamente agricultores familiares, trabalhadores rurais e comunidades de menor renda que assumem os maiores riscos sanitários para sustentar um modelo agrícola altamente dependente de insumos químicos, enquanto os benefícios econômicos concentram-se nas grandes corporações que controlam o mercado global de sementes, fertilizantes e agrotóxicos. O estudo evidencia que essa desigualdade não é apenas econômica, mas também biológica: ela pode ser medida diretamente no organismo das pessoas.
Nesse sentido, a principal contribuição do trabalho vai além da demonstração de que a agricultura orgânica reduz a exposição aos agrotóxicos. O artigo aponta que uma transição para sistemas produtivos menos dependentes de insumos químicos exige políticas públicas robustas, apoio financeiro aos agricultores, programas permanentes de capacitação e investimentos em pesquisa sobre métodos alternativos de controle de pragas. Os próprios autores defendem que essa transformação depende de subsídios, assistência técnica e mecanismos que permitam aos pequenos produtores migrar para práticas agroecológicas sem sofrer perdas econômicas.
Em um momento em que o debate público frequentemente opõe produtividade e sustentabilidade como se fossem objetivos incompatíveis, o estudo publicado na The Lancet Planetary Health oferece uma evidência importante: reduzir a dependência dos agrotóxicos não é apenas uma questão ambiental, mas uma medida urgente de saúde pública, justiça social e proteção dos trabalhadores rurais que garantem a produção de alimentos.