Startups, inovação e muito otimismo: uma análise necessária sobre o futuro imaginado para a UENF

A aproximação entre universidades e empresas sempre fez parte do projeto concebido por Darcy Ribeiro para a UENF. O problema começa quando a inovação deixa de ser um instrumento de transformação social e passa a ocupar o lugar do próprio projeto de universidade

Uma entrevista recentemente publicada no portal da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) reacende uma discussão que acompanha a instituição desde sua criação, ainda que hoje apareça envolvida por uma linguagem mais contemporânea, marcada por expressões como inovação, empreendedorismo, propriedade intelectual, incubação e startups de base tecnológica. A entrevista deve ser entendida apenas como um ponto de partida, pois a visão nela expressa não é exclusiva de seu interlocutor nem da própria Uenf, mas representa uma concepção que ganhou crescente centralidade nas universidades brasileiras, nos organismos de fomento e nos governos, segundo a qual a aproximação com empresas e a capacidade de gerar novos negócios constituiriam indicadores privilegiados de modernização institucional e de impacto social. O verdadeiro tema, portanto, não é uma declaração específica, mas o significado progressivamente atribuído à inovação e o lugar que ela passou a ocupar no imaginário da universidade pública.

Não há razão para negar a importância dessa agenda, pois universidades públicas não devem permanecer isoladas da estrutura produtiva, indiferentes à aplicação do conhecimento ou satisfeitas com uma circulação acadêmica que raramente ultrapassa os limites dos congressos, periódicos e grupos especializados. A produção de tecnologias, a transferência de conhecimento, a proteção da propriedade intelectual e a formação de empresas capazes de transformar pesquisa científica em produtos e serviços socialmente úteis são objetivos legítimos, sobretudo em um país que historicamente investiu pouco na articulação entre ciência, indústria e desenvolvimento econômico. O problema começa quando esses instrumentos, por mais relevantes que sejam, deixam de ser apresentados como partes de uma missão mais ampla e passam a ocupar o lugar do próprio projeto universitário, adquirindo o estatuto de uma narrativa redentora capaz de resolver, quase por efeito cumulativo, o desemprego de mestres e doutores, a baixa intensidade tecnológica da economia brasileira, a fragilidade do desenvolvimento regional e talvez, com algum esforço adicional de publicidade institucional, quase todas as limitações históricas da universidade pública.

As universidades também produzem suas modas institucionais e, ao longo das últimas décadas, diferentes expressões foram apresentadas, cada uma a seu tempo, como chaves capazes de destravar problemas acumulados durante gerações. Houve o tempo da excelência, da internacionalização, da interdisciplinaridade, da sustentabilidade, da governança, da transformação digital e, mais recentemente, das startups e dos ecossistemas de inovação. Nenhuma dessas agendas é irrelevante, e muitas delas deixaram contribuições importantes, mas o inconveniente surge quando uma formulação legítima se transforma em explicação universal, dispensando a necessidade de examinar as condições históricas, econômicas e políticas que permitem ou impedem que seus objetivos sejam efetivamente alcançados. A realidade, como se sabe, costuma demonstrar menos entusiasmo do que os textos institucionais e geralmente exige mais do que a inauguração de incubadoras, a realização de eventos de empreendedorismo ou a contabilização de empresas nascentes.

A experiência internacional mostra que os grandes polos de inovação não surgiram simplesmente porque universidades decidiram criar startups em escala crescente. Regiões como o Vale do Silício, Boston, Cambridge ou os complexos tecnológicos asiáticos foram construídas por meio de longos processos que combinaram universidades fortes, financiamento público duradouro, empresas dispostas a investir em pesquisa e desenvolvimento, políticas industriais, compras governamentais, infraestrutura, capital de risco e uma estrutura produtiva capaz de incorporar conhecimento científico. As startups apareceram como resultado desse ecossistema, ainda que posteriormente também tenham contribuído para sua expansão. Imaginar o processo de forma inversa, como se a multiplicação de empresas nascentes produzisse automaticamente as condições estruturais que lhes deram origem em outros contextos, equivale a tomar o efeito pela causa e a esperar que o símbolo de um processo substitua o processo propriamente dito.

No caso brasileiro, o contraste é particularmente evidente, pois o país ampliou sua capacidade de formar mestres e doutores, consolidou grupos de pesquisa competitivos internacionalmente e desenvolveu instituições científicas de reconhecida qualidade, ao mesmo tempo que permaneceu marcado pela baixa intensidade tecnológica de parte expressiva de sua estrutura produtiva, pelo reduzido investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento e por um processo de desindustrialização que limitou a demanda por profissionais altamente qualificados. A dificuldade de absorção de pesquisadores fora das universidades não decorre, portanto, apenas da ausência de cultura empreendedora entre os egressos ou de uma insuficiência de incubadoras, mas de uma economia que historicamente incorporou pouco conhecimento científico aos seus processos de produção. As startups podem criar oportunidades, gerar soluções relevantes e abrir novos caminhos profissionais, mas dificilmente absorverão o contingente de mestres e doutores formado anualmente ou compensarão, por iniciativa própria, décadas de fragilidade na política industrial, científica e tecnológica brasileira.

É justamente nesse ponto que a trajetória da Uenf oferece um contraponto especialmente fecundo, pois sua concepção original não nasceu da rejeição à inovação tecnológica ou à aproximação entre universidade e setor produtivo. Antes de definir a arquitetura institucional da nova universidade, Darcy Ribeiro visitou instituições de excelência científica, incluindo o California Institute of Technology, procurando compreender de que maneira pesquisa avançada, formação de alto nível, produção tecnológica e interação com empresas poderiam ser articuladas em um modelo universitário adequado às necessidades brasileiras.  A opção de Darcy de organizar a Uenf em torno de laboratórios de pesquisa, em vez de reproduzir integralmente a estrutura departamental tradicional, não constituiu simples escolha administrativa, mas refletiu a tentativa de construir uma instituição capaz de abordar problemas complexos por meio de formas igualmente complexas de organização do conhecimento.

Essa lembrança é importante porque impede que a crítica ao reducionismo contemporâneo seja confundida com uma defesa de uma universidade fechada em si mesma, hostil ao setor produtivo ou indiferente ao desenvolvimento tecnológico. Darcy Ribeiro reconhecia a necessidade de articular ciência, produção e desenvolvimento econômico, mas inseria essa articulação em um horizonte muito mais amplo, no qual a universidade deveria contribuir para a transformação do país, para a redução das desigualdades e para a formação de profissionais dotados não apenas de competência técnica, mas também de consciência cidadã. Na concepção da Universidade do Terceiro Milênio, inovação, excelência científica e aproximação com empresas eram componentes de um projeto histórico, e não substitutos desse projeto.

Também não há qualquer razão para transformar Darcy Ribeiro em uma espécie de deidade institucional ou em um fundador infalível cuja palavra devesse encerrar debates contemporâneos. O próprio Darcy provavelmente rejeitaria esse papel com a irreverência que marcou sua trajetória, até porque tinha plena consciência de suas contradições, de seus excessos e dos limites de suas próprias escolhas.  A relevância de Darcy Ribeiro para este debate não decorre de uma suposta perfeição pessoal, mas da escala das perguntas que formulava e da nitidez de seu compromisso com a justiça social, com o desenvolvimento do Brasil e com a construção de instituições capazes de enfrentar desigualdades historicamente produzidas. O que permanece atual em seu pensamento não é a pretensão de oferecer respostas definitivas, mas a recusa em reduzir a universidade a uma única função ou a um conjunto de instrumentos de gestão.

Darcy não pensava a universidade a partir das ferramentas que ela utilizava, mas da sociedade que desejava ajudar a construir. Essa distinção permite compreender por que a ligação com empresas, a inovação tecnológica e a produção de conhecimento aplicável eram desejáveis, sem jamais se converterem em fins autônomos. Startups, patentes, incubadoras, parques tecnológicos e acordos de cooperação são instrumentos, e instrumentos somente adquirem sentido quando subordinados a um projeto social, econômico e político mais amplo. O problema não está em utilizá-los, mas em permitir que sua visibilidade, sua capacidade de gerar indicadores e sua aderência à linguagem contemporânea da inovação acabem substituindo a discussão sobre os objetivos que deveriam orientar a universidade pública.

Essa questão assume importância ainda maior quando se considera o território para o qual a Uenf foi concebida.  A região Norte Fluminense não era, e continua não sendo, uma região desprovida de riqueza econômica, mas uma região historicamente incapaz de converter ciclos de prosperidade em desenvolvimento socialmente distribuído. A concentração fundiária, o predomínio secular da economia açucareira, a decadência de atividades tradicionais, a dependência das receitas petrolíferas, a implantação de grandes empreendimentos e a persistência de desigualdades profundas demonstram que produzir riqueza jamais foi suficiente. O desafio sempre consistiu em transformar recursos econômicos em capacidades sociais, diversificação produtiva, cidadania, educação, ciência e melhoria duradoura das condições de vida.

Foi para intervir nesse contexto que a Uenf foi criada. A instituição deveria formar quadros altamente qualificados, produzir ciência de excelência, contribuir para a modernização produtiva e oferecer à região Norte Fluminense uma base intelectual e tecnológica capaz de sustentar um processo de desenvolvimento menos desigual. A inovação fazia parte desse projeto, mas sua finalidade não se limitava ao aumento do número de empresas ou à ampliação da competitividade de determinados setores econômicos. Sua medida deveria ser também a capacidade de responder aos problemas concretos da região, fortalecendo políticas públicas, atividades produtivas socialmente inclusivas, serviços essenciais, sustentabilidade ambiental e mecanismos de redução das desigualdades.

É nesse sentido que a entrevista utilizada como ganchopara esta reflexão se torna reveladora menos pelo que afirma do que pelo que deixa de incluir em seu horizonte. A ênfase recai sobre empreendedorismo, empresas de base tecnológica, propriedade intelectual, incubação e aproximação com o mercado, enquanto temas como desenvolvimento regional, redução das desigualdades, formação cidadã e compromisso social aparecem ausentes ou, no mínimo, muito distantes do centro da narrativa. Não se trata de exigir que uma única entrevista contenha a totalidade do projeto universitário, mas de reconhecer que as escolhas discursivas revelam prioridades e que a repetição dessas escolhas pode indicar um estreitamento mais profundo na forma de conceber a inovação e o próprio papel da Uenf.

Esse estreitamento também pode ser observado na tendência de reconhecer como inovação, prioritariamente, aquilo que pode ser convertido em patente, empresa, produto ou modelo de negócios. Uma tecnologia voltada para fortalecer a agricultura familiar, um protocolo capaz de aperfeiçoar políticas de saúde, uma metodologia de recuperação ambiental, um sistema de gestão pública ou uma estratégia educacional podem transformar profundamente a vida social sem jamais produzir uma startup. Quando essas contribuições passam a ocupar um lugar secundário porque não se ajustam facilmente aos indicadores tradicionais da inovação mercadológica, não é a inovação que se torna maior, mas a universidade que corre o risco de ficar menor.

O uso de indicadores reforça essa mudança, pois é relativamente simples contar empresas incubadas, depósitos de patentes, contratos firmados e eventos realizados, embora seja muito mais difícil medir a contribuição de uma universidade para a redução das desigualdades, para a qualificação das políticas públicas, para o fortalecimento da cidadania ou para a construção de um projeto regional de desenvolvimento. Essa dificuldade não deveria servir de justificativa para abandonar objetivos mais amplos em favor daqueles que produzem números mais imediatos. Toda redução conceitual tende a gerar eficiência, facilitar a prestação de contas e tornar mais atraente a comunicação institucional, mas também pode produzir uma forma de cegueira quando transforma aquilo que é mais facilmente mensurável na única dimensão considerada relevante.

A aproximação com o setor produtivo, portanto, deve ser defendida, mas dentro de uma concepção na qual empresas sejam interlocutoras de uma universidade comprometida com a sociedade como um todo, e não destinatárias privilegiadas de sua missão. Uma universidade pública também dialoga com escolas, hospitais, agricultores, pescadores, servidores públicos, organizações comunitárias e grupos socialmente vulneráveis, pois seu papel não consiste apenas em converter conhecimento em riqueza, mas em transformá-lo em capacidade pública, qualidade de vida, justiça social e desenvolvimento humano. Essa amplitude não enfraquece a inovação, mas a retira de uma definição excessivamente estreita e a devolve ao terreno dos problemas concretos que justificam sua existência.

A Uenf não trai seu projeto original quando produz startups, protege tecnologias ou amplia sua interação com empresas, pois tudo isso pode contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento regional e para a criação de novas oportunidades. Ela corre o risco de se afastar desse projeto quando passa a acreditar que produzir startups resume sua razão de existir, substituindo uma concepção ampla de transformação social por um conjunto de instrumentos cuja relevância depende justamente dos objetivos aos quais estão subordinados. O desafio não consiste em escolher entre inovação e compromisso social, entre pesquisa básica e aplicação tecnológica ou entre universidade e setor produtivo, mas em recuperar a hierarquia que permite a essas dimensões coexistirem sem que uma delas ocupe o lugar de todas as demais.

A entrevista publicada pela Uenf talvez tenha produzido, assim, um efeito involuntariamente positivo ao recolocar em circulação uma pergunta que ultrapassa incubadoras, patentes, empresas nascentes e indicadores de desempenho. O verdadeiro debate diz respeito ao significado da universidade pública em uma sociedade profundamente desigual e ao papel que uma instituição concebida por Darcy Ribeiro deve desempenhar em uma região marcada por sucessivos ciclos de riqueza concentrada e desenvolvimento incompleto.

A aproximação com empresas e o estímulo à inovação tecnológica continuarão sendo componentes indispensáveis dessa missão, mas somente manterão seu sentido quando articulados ao compromisso com a justiça social, com a formação cidadã e com a construção de um projeto regional e nacional de desenvolvimento. A grande questão, portanto, não é saber se a Uenf deve produzir startups, mas se ela pode se dar ao luxo de esquecer por que e para quê foi criada.

Excesso de burocracia prejudica o desenvolvimento da ciência latino-americana

Existem poucas iniciativas na América Latina para reduzir os procedimentos burocráticos

ciência da burocraciaDevido à enorme quantidade de burocracia administrativa que precisam lidar, os pesquisadores muitas vezes acabam se tornando gerentes de logística, o que lhes rouba o tempo que deveriam dedicar à pesquisa. Crédito da imagem: cottobro studio/Pexels .

“A questão não reside necessariamente na existência de mecanismos de controle. Muitos deles desempenham funções essenciais para garantir a segurança dos experimentos, a transparência e o uso adequado dos recursos públicos”, disse Max Chavarría, pesquisador da Universidade da Costa Rica, ao SciDev.Net .

“Nosso argumento é que esses mecanismos muitas vezes acabam sendo excessivos, redundantes ou desproporcionais em relação aos riscos que buscam prevenir, gerando altos custos em tempo e esforço sem proporcionar benefícios equivalentes”, acrescenta.

Chavarría é um dos autores de um editorial publicado na revista Microbial Biotechnology que analisa como o excesso de burocracia afeta a produtividade científica e o avanço do conhecimento.

O excesso de burocracia na ciência é um problema global. Um estudo que entrevistou mais de 6.000 pesquisadores nos Estados Unidos constatou que os responsáveis ​​por projetos financiados pelo governo federal gastavam, em média, 42% do seu tempo de trabalho em tarefas administrativas relacionadas aos seus projetos.

Em outro estudo , conduzido pela editora holandesa Elsevier, entre mais de cem cientistas do Brasil, China, Alemanha e Índia, apenas 45% dos entrevistados disseram ter tempo suficiente para se dedicar à pesquisa.

Mas para os países em desenvolvimento, cujos sistemas científicos têm menos recursos, infraestrutura limitada e fontes de financiamento mais instáveis , o problema é maior.

“Cada hora gasta em procedimentos administrativos é uma hora que o pesquisador não dedica à inovação”, confirma José Seade, presidente da Academia Mexicana de Ciências (AMC) , à SciDev.Net .

“Se eu precisar de um reagente, tenho que preencher vários formulários, procurar fornecedores e solicitar orçamentos. Depois vem o processo de compra e o acompanhamento, que pode levar meses. Enquanto isso, um concorrente na Alemanha recebe o reagente em um dia”, disse o biólogo Daniel Martins-de-Souza, da Universidade Estadual de Campinas, Brasil, ao SciDev.Net .

[O excesso de burocracia] “dificulta a capacidade dos pesquisadores de responderem rapidamente às oportunidades científicas que exigem decisões ágeis e mecanismos flexíveis, um fator que limita nossa competitividade científica no cenário internacional ”.

José Seade, presidente da Academia Mexicana de Ciências (AMC).

Crédito da imagem: Nataliya Vaitkevich/Pexels .

O químico Aldo Zarbin, da Universidade Federal do Paraná, Brasil, relata que, para importar equipamentos para um de seus projetos, precisou apresentar 117 documentos, incluindo três orçamentos com traduções juramentadas e uma justificativa detalhada da necessidade dos equipamentos. Além disso, para finalizar o pagamento, teve que ir pessoalmente ao banco e repetir o processo até quatro vezes devido aos limites diários de transferência.

“Em meio a esse processo, eu ainda precisava encontrar tempo para fazer ciência inovadora, dar aulas, orientar alunos de pós-graduação e avaliar artigos científicos , disse ele ao SciDev.Net .

María Quintana, diretora do Departamento de Engenharia Física da Universidade Nacional de Engenharia do Peru, relata que em seu país a carga administrativa pode representar entre 30 e 50 por cento, “e até mais”, do tempo disponível do pesquisador principal de projetos experimentais que envolvem a compra de reagentes, equipamentos, gases especiais, manutenção, importações ou adaptações de laboratório.

“É um custo invisível muito alto que impacta diretamente a pesquisa”, disse ele ao SciDev.Net .

Silvana Ravía, coordenadora-geral da Secretaria Nacional de Ciência e Valorização do Conhecimento do Uruguai, explica que o tempo gasto nessas tarefas não só impacta diretamente na redução das horas dedicadas à criação de conhecimento e à produção de novas publicações, como também na motivação, “porque são tarefas que desmotivam e tiram o foco”.

“O excesso de burocracia dificulta a capacidade dos pesquisadores de responderem rapidamente às oportunidades científicas que exigem decisões ágeis e mecanismos flexíveis, um fator que limita nossa competitividade científica no cenário internacional”, acrescenta Seade, da AMC.

Para Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a burocracia também pode influenciar o tipo de pesquisa que é realizada.

“Diante das dificuldades em adquirir equipamentos e da sobrecarga de tarefas administrativas, muitos especialistas acabam modificando suas linhas de pesquisa, geralmente para tópicos menos complexos e ambiciosos”, disse ele ao SciDev.Net .

“Isso é muito sério, porque leva o sistema a optar por pesquisas mais simples ou de menor risco, quando a inovação exige justamente o enfrentamento de desafios técnicos mais complexos”, acrescenta Quintana.

No Brasil, havia a expectativa de que o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) — aprovado em 2016 e regulamentado por decreto em 2018 — ajudaria a reduzir a burocracia nas atividades de pesquisa e inovação no país. No entanto, Garcia argumenta que seus efeitos ainda são limitados.

“O Brasil, assim como outros países da América Latina, ainda não conseguiu superar a chamada ‘cultura do risco zero’”, observa ele, referindo-se à tendência das instituições públicas e dos órgãos de controle de priorizar a eliminação de qualquer possibilidade de erro administrativo, mesmo quando isso dificulta ou atrasa a pesquisa científica.

“A busca por segurança e transparência absolutas no uso de recursos, especialmente em atividades de apoio à pesquisa, entra em conflito com a própria natureza da ciência, uma atividade baseada em experimentação, incerteza e erro. Além disso, força os pesquisadores a se envolverem em tarefas que pouco têm a ver com seu trabalho”, disse ele ao SciDev.Net .

Seade acrescenta: “Os procedimentos administrativos são geralmente concebidos mais como mecanismos de supervisão do que como instrumentos de apoio à pesquisa.”

Quintana explica que tais procedimentos foram construídos dentro de um sistema em que o pesquisador deve demonstrar constantemente conformidade, mesmo quando já existem relatórios, cronogramas, entregas, orçamentos aprovados e mecanismos institucionais de prestação de contas.

“Em alguns projetos, o monitoramento pode se tornar um fardo adicional que não necessariamente melhora a qualidade científica do trabalho”, disse ele ao SciDev.Net .

“Seria mais inteligente avaliar o sucesso de um projeto não pela forma como o pesquisador gerenciou os recursos alocados para apoiar as atividades, mas sim se ele alcançou os objetivos e resultados previstos na proposta original”, argumenta Garcia.

Para Anabel Fernández, presidente da Investiga.Uy, que reúne mais de 1.200 pesquisadores uruguaios pertencentes a instituições públicas e privadas, “é essencial promover uma mudança estrutural para evitar que recursos humanos altamente qualificados acabem absorvidos por tarefas que deveriam ser da responsabilidade de profissionais especializados em gestão”.

“Esse sistema que força os pesquisadores a serem multifuncionais causa uma profunda ineficiência na execução dos projetos”, explica ele ao SciDev.Net .

Quintana defende a profissionalização da gestão de projetos científicos. “Universidades e centros de pesquisa devem ter unidades especializadas em aquisição de recursos científicos, importações, procedimentos alfandegários, gestão financeira e monitoramento administrativo de projetos. Os pesquisadores devem liderar a vertente científica, e não se tornarem gestores de logística.”

Além disso, sugere-se a adoção de procedimentos mais simplificados para bens científicos, fornecedores únicos ou altamente especializados e aquisições urgentes justificadas pela natureza dos experimentos.

“As universidades e os centros de pesquisa devem ter unidades especializadas em aquisição de recursos científicos, importações, procedimentos alfandegários, gestão financeira e acompanhamento administrativo de projetos. O pesquisador deve liderar o lado científico, e não se tornar um gestor de logística.”

María Quintana, diretora do Departamento de Engenharia Física da Universidade Nacional de Engenharia do Peru

No Uruguai, a Secretaria Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SENCI) tem colaborado com outras partes interessadas no projeto da Lei da Competitividade do Ministério da Economia e Finanças, com foco em questões relacionadas à ciência, tecnologia e inovação (CTI). Ravía informou à SciDev.Net que a Secretaria está atualmente desenvolvendo o novo Plano Estratégico Nacional para CTI, que incluirá um estudo dos procedimentos burocráticos que precisam ser revistos para fortalecer o sistema.

“A burocracia é um obstáculo para que a ciência latino-americana alcance maior destaque internacional e deixe de ocupar uma posição subordinada nas principais redes de pesquisa”, argumenta Garcia.

“Precisamos mudar essa realidade se quisermos nos integrar a essas redes como líderes na definição de agendas científicas, e não apenas como fornecedores de dados ou implementadores de projetos concebidos em outros países”, conclui ele.


Fonte:  SciDev.Net

TCE dá cinco dias para Rioprevidência explicar investimentos de R$ 118 milhões em instituições sem credenciamento

Sede do Rioprevidência — Foto: Agência Brasil

Por Gabriele Maia para “Tempo Real”
O Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) deu cinco dias para o Rioprevidência explicar investimentos de R$ 118 milhões realizados no fim de dezembro de 2025. A Corte apura se os recursos foram aplicados em três fundos administrados por instituições financeiras que, segundo representação encaminhada ao tribunal, ainda não estavam devidamente credenciadas para operar com a autarquia.

A decisão monocrática do conselheiro José Gomes Graciosa, assinada em 2 de julho e divulgada nesta quarta-feira (15), reúne uma representação apresentada pelo Conselho Fiscal do Rioprevidência e uma denúncia protocolada pelo deputado estadual Luiz Paulo (PSD).

O presidente do Conselho Fiscal, Vinicius Zanata, afirmou que as aplicações investigadas só vieram à tona porque o colegiado revisou toda a documentação dos investimentos após a crise envolvendo o Banco Master.

“Ao analisar os relatórios, identificamos algumas aplicações vultosas realizadas antes do devido credenciamento das instituições. Já havia muitas suspeitas sobre a gestão do órgão à época e, ao encontrar novas irregularidades, pedimos esclarecimentos e encaminhamos cópia ao TCE-RJ”, explicou.

Segundo a representação, os R$ 118 milhões foram aplicados entre 24 e 29 de dezembro de 2025 em três fundos de investimento. O Conselho Fiscal do Rioprevidência afirma que, no momento dos aportes, as instituições envolvidas na gestão e administração desses fundos ainda não tinham o credenciamento obrigatório para receber recursos da autarquia.

Entre os pontos levantados está o fato de que o credenciamento da gestora R Capital Asset Management, responsável pelos três fundos, só teria sido concluído em 13 de janeiro de 2026, semanas após as aplicações. A representação também questiona a situação da Inter DTVM e da Qore DTVM, esta última descrita como uma instituição criada em 2024 e com histórico operacional ainda limitado.

Fundo de investimento Valor do aporte Data da aplicação
Linea Fundo de Investimento Financeiro Renda Fixa Longo Prazo R$ 8,2 milhões 24/12/2025
R CAP – Alocação Fundo de Investimento Financeiro Renda Fixa Longo Prazo R$ 80 milhões 26/12/2025
R CAP Soberano FIF Renda Fixa Longo Prazo R$ 29,8 milhões 29/12/2025
Total R$ 118 milhões 24 a 29 de dezembro de 2025

Na decisão, o conselheiro Graciosa afirma que o credenciamento não é uma mera formalidade administrativa, mas um mecanismo previsto nas normas do Conselho Monetário Nacional para avaliar a capacidade técnica, financeira e reputacional das instituições antes que recebam recursos dos regimes próprios de previdência.

Porém, apesar de reconhecer a necessidade de aprofundar a apuração, o TCE ainda não analisou o mérito das acusações. A Corte determinou apenas que o atual presidente do Rioprevidência apresente explicações e a documentação pertinente antes da manifestação da área técnica e do Ministério Público de Contas.

Aportes de R$ 118 milhões aconteceram depois de investimentos no Banco Master

Os aportes passaram a ser questionados poucos meses depois do caso Banco Master, que já havia colocado o Rioprevidência sob investigação. Inicialmente estimados em R$ 970 milhões, os investimentos da autarquia ligados ao banco chegaram a quase R$ 3 bilhões, segundo investigações da Polícia Federal.

O TCE-RJ já havia alertado para os riscos dessas operações e determinado que o fundo deixasse de realizar novos aportes em ativos administrados pela instituição.

Foi nesse contexto que o deputado Luiz Paulo apresentou uma denúncia ao Tribunal de Contas questionando os novos investimentos.

“Desde o caso do Banco Master eu vinha alertando para o uso inadequado dos recursos do Rioprevidência. Quando surgiram essas novas informações, resolvi levar o caso ao Tribunal de Contas para que tudo fosse apurado”, explicou.

O parlamentar explicou que, durante a tramitação do processo originado a partir de sua denúncia no TCE, o governador em exercício Ricardo Couto adotou uma série de medidas para endurecer as regras para a gestão dos recursos da autarquia.

“O governo publicou um decreto restringindo aplicações apenas em bancos S1 e, mais recentemente, outro reforçando a profissionalização da gestão do Rioprevidência. São medidas importantes, mas elas não impedem que os fatos já ocorridos sejam examinados sob o aspecto da legalidade”, afirmou.

MP pediu afastamento de presidente interino do Rioprevidência após aportes

Os mesmos investimentos também são alvo de uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público (MPRJ). O órgão pediu o afastamento de Nicholas Cardoso, que ocupava a presidência interina do Rioprevidência quando a ação foi ajuizada, além do bloqueio de R$ 1,088 bilhão em bens dele, do ex-presidente Deivis Marcon Antunes, do Banco Master e da empresa PKL One.

Segundo o MP, os R$ 118 milhões foram aplicados quando Nicholas ainda era diretor de Investimentos da autarquia. Assim como o TCE, a Promotoria sustenta que os aportes ocorreram sem o credenciamento prévio das instituições financeiras responsáveis pelos fundos, em desacordo com as normas do Conselho Monetário Nacional.

Quatro dias após o pedido de afastamento, Nicholas foi exonerado da presidência interina do Rioprevidência. O governo do estado nomeou Luana Abreu dos Santos Lourenço para a Diretoria de Administração e Finanças da autarquia, passando a responder pelo órgão.


Fonte: Tempo Real

O lamentável abandono do Jardim São Benedito

jardim são benedito

Há poucos dias recebi a visita de familiares, incluindo uma sobrinha neta de 5 anos.  Como não queríamos que ela ficasse trancada em casa, tentamos acessar vários aparelhos públicos, incluindo o conhecido Jardim São Benedito. O resultado foi muito decepcionante, pois o que encontramos foi o retrato do completo abandono de um dos principais cartões postais da cidade de Campos dos Goytacazes.

Que o prefeito Wladimir Garotinho não tinha o cuidado de nossas praças e jardins como foco da sua administração isto já era notório.  Mas esse descaso também continua na gestão do novo prefeito (ou seria antigo) Frederico Paes, o que apenas reforça o fato de que o atual grupo governante não entende a importância de termos espaços públicos bem cuidados e disponíveis para uso da população.

Não é à toa que o campus universitário Leonel Brizola da Uenf se tornou a área verde mais frequentado pela população nos finais de semana. Acontece que a Uenf é um espaço estadual, o que causa uma curiosa situação em que uma cidade de mais de 500 mil habitantes tem como principal área de lazer e recreação um espaço cuidado pelo governo estadual e não pela prefeitura do município.

Eis uma coisa que Leonel Brizola e Darcy Ribeiro não devem ter antecipado quando decidiram implantar o campus da Uenf em um terreno baldio que servia como área de despejo de lixo. A ironia é que quem começou a transformação operada no que hoje é o campus Leonel Brizola foi o então prefeito Anthony Garotino. Aparentemente,  o pai sempre entendeu melhor a cidade do que o filho.

Pesquisadores de câncer da Harvard University tem artigo despublicado por duplicação de imagens

Por Retraction Watch

Um grupo de pesquisadores do Brigham and Women’s Hospital e da Harvard Medical School, em Boston, perdeu um artigo científico por duplicação de imagens após uma investigação conjunta das duas instituições. 

O artigo , publicado em setembro de 2019 no Journal of Experimental Medicine , descreveu um tratamento para tumores causados ​​por uma doença chamada esclerose tuberosa. Vários dos 12 autores do artigo são afiliados à divisão de Medicina Pulmonar e de Cuidados Intensivos do Brigham and Women’s Hospital. O autor correspondente, David Kwiatkowski, é oncologista no Brigham and Women’s Hospital e no Dana-Farber Cancer Institute, e professor na Harvard Medical School. 

A pesquisa foi parcialmente financiada por duas bolsas do Departamento de Defesa dos EUA e uma bolsa dos Institutos Nacionais de Saúde, esta última concedida a Kwiatkowski. 

De acordo com o comunicado de retratação (despublicação) de 12 de junho , os autores solicitaram a retratação após uma investigação conjunta do Brigham and Women’s Hospital e da Harvard Medical School. Quatro imagens no artigo “foram consideradas não confiáveis ​​devido à duplicação de imagens”, diz o comunicado, e os dados em uma das figuras “não representam com precisão os dados de origem”.

“Os autores perderam a confiança nos dados e acreditam que a atitude mais responsável é retratar o artigo”, segundo o comunicado. 

Kristin Bittinger, diretora de integridade do corpo docente e de pesquisa da Faculdade de Medicina de Harvard, recusou nosso pedido de informações sobre a investigação. 

“Qualquer preocupação que nos seja apresentada é analisada minuciosamente, de acordo com nossas políticas institucionais e regulamentos aplicáveis”, disse ela. 

Os autores alertaram o Journal of Experimental Medicine sobre a investigação institucional, disse-nos Rory Williams, diretor de comunicação da Rockefeller University Press, editora da revista. Ele afirmou que não podia divulgar informações sobre a investigação, de acordo com as políticas da editora. 

O artigo foi citado 21 vezes, de acordo com o Web of Science da Clarivate. 

Esta é a primeira retratação de qualquer um dos autores, de acordo com nosso banco de dados. Sete outros artigos de Kwiatkowski foram sinalizados no PubPeer . O comentário mais recente, feito em fevereiro , sinaliza imagens em um artigo de 2014 publicado na PLOS One como “muito mais semelhantes do que o esperado”. 

Em 2020, alguns comentaristas apontaram semelhanças entre três imagens de um artigo de 2002 do qual Kwiatkowski era coautor. Os autores publicaram uma correção em 2021, explicando que repetiram experimentos relacionados a duas das imagens, pois não tinham acesso aos dados de 18 anos atrás. Pouco depois, um comentarista respondeu no PubPeer que a correção “não aborda as imagens muito semelhantes” na terceira figura.

Kwiatkowski recusou nosso pedido de comentário sobre a duplicação de imagens no artigo agora retratado e se algum de seus outros artigos estava sendo investigado.  

Outros coautores incluem Elizabeth Henske , diretora do Centro de Pesquisa e Assistência Clínica da LAM e codiretora do Centro de Genética Pulmonar, ambos no Brigham and Women’s Hospital, e John Asara , diretor de Espectrometria de Massa no Beth Israel Deaconess Medical Center em Boston. Ambos também são professores da Faculdade de Medicina de Harvard. Nenhum deles respondeu ao nosso pedido de comentário. 

Um artigo de 2014 no Journal of Experimental Medicine, coescrito por Kwiatkowski e Henske, contém comentários no PubPeer que apontam semelhanças entre diversas imagens presentes no artigo. Williams não respondeu à nossa pergunta sobre se a revista também estava investigando esse artigo. 


Fonte: Retraction Watch

SBPC realiza sua 78ª Reunião Anual entre 26 de julho a 01 de agosto na UFF

 

De 26 de julho a 1º de agosto, a Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, sediará a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o maior evento científico da América Latina.

Com o tema “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”, a programação reúne centenas de atividades gratuitas, entre conferências, mesas-redondas, minicursos, exposições, oficinas e atrações culturais, abordando temas como inteligência artificial, mudanças climáticas, saúde, educação, inovação, democracia, biodiversidade e desenvolvimento sustentável.

A Reunião Anual também contará com a SBPC Jovem, ExpoT&C, SBPC Cultural, SBPC Gênero, Diversidade e Equidade e o tradicional Dia da Família na Ciência, no sábado (1º de agosto).

A participação é gratuita e aberta a toda a sociedade. Basta fazer sua inscrição e escolher as atividades de interesse.

📅 26 de julho a 1º de agosto de 2026
📍 Campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF) – Niterói (RJ)

👉 Inscreva-se gratuitamente e consulte a programação completa:
https://ra.sbpcnet.org.br/78RA/

Esperamos você na maior celebração da ciência brasileira!

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

A globalização do “precariado acadêmico”: os efeitos da “adjuntificação” e da “indigência intelectual” na educação superior

Os contratos estão deixando os acadêmicos “intelectualmente sem lar”

Por Min Bahadur Bista   para “University World News”

Há alguns anos, um professor da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) – uma das universidades públicas mais prestigiadas dos Estados Unidos – revelou que estava em situação de rua.

Apesar de possuir um doutorado e lecionar em uma instituição associada à excelência acadêmica e à ascensão social, ele não tinha condições de arcar com o custo de uma moradia na cidade onde trabalhava. Reportagens descreveram como ele dormia em seu carro, tomava banho em uma academia e continuava dando aulas enquanto enfrentava a realidade de viver em situação de rua.

A história atraiu grande atenção porque desafiou uma das suposições mais arraigadas da sociedade sobre o ensino superior: a de que professores universitários desfrutam de vidas estáveis, seguras e de classe média. No entanto, o caso não foi uma anomalia isolada.

Pesquisas da Federação Americana de Professores documentaram insegurança alimentar, insegurança habitacional e dificuldades financeiras entre professores contratados em todo os Estados Unidos.

Muitos professores adjuntos complementam sua renda lecionando em diversas instituições, tendo um segundo emprego ou dependendo do apoio familiar. O professor em situação de rua representa mais do que uma tragédia individual. Ele simboliza uma profunda transformação em curso nas universidades ao redor do mundo. Instituições antes organizadas em torno de comunidades estáveis ​​de acadêmicos dependem cada vez mais de mão de obra acadêmica temporária, em tempo parcial e por contrato.

O professor tradicional, protegido pela estabilidade no emprego e integrado à vida intelectual da universidade, está sendo gradualmente substituído por uma força de trabalho cujas condições de emprego se assemelham cada vez mais às da economia gig.

Esse fenômeno – comumente conhecido como precarização ou precarização do trabalho acadêmico – tornou-se uma das características definidoras do ensino superior contemporâneo. Embora a terminologia varie entre os países, a tendência é notavelmente semelhante.

Em todos os continentes, as universidades testemunham o surgimento de um novo precariado acadêmico. A UNESCO considera a precarização do trabalho acadêmico um problema sistêmico e global que mina a segurança no emprego, a liberdade acadêmica e a atratividade da carreira.

De acadêmico a trabalhador da economia gig

A universidade moderna foi construída sobre um princípio simples, porém poderoso: os acadêmicos precisam de um certo grau de segurança para buscar a verdade. A instituição da estabilidade no emprego surgiu não como um privilégio profissional, mas como uma salvaguarda para a liberdade acadêmica. As universidades reconheceram que os acadêmicos devem poder desafiar as premissas vigentes, investigar questões controversas e desenvolver projetos intelectuais de longo prazo sem o receio de perder seus meios de subsistência.

O sistema de estabilidade no emprego desenvolveu-se no início do século XX em resposta a preocupações com interferência política, pressão religiosa e influência de doadores. As universidades passaram a aceitar cada vez mais que a produção acadêmica só poderia florescer quando a investigação intelectual estivesse protegida de coerção externa. Com o tempo, a estabilidade no emprego tornou-se uma característica definidora do emprego acadêmico e influenciou gradualmente a organização dos sistemas universitários internacionalmente.

As décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial representaram o auge desse modelo.

A expansão do investimento público, o aumento das matrículas e o crescimento econômico sustentado permitiram que as universidades criassem um grande número de cargos acadêmicos permanentes. Esperava-se que os membros do corpo docente não apenas lecionassem, mas também realizassem pesquisas, orientassem alunos, participassem da governança e contribuíssem para a vida pública. As universidades passaram a se ver cada vez mais como comunidades de acadêmicos, em vez de prestadoras de serviços educacionais.

No entanto, a partir das décadas de 1970 e 1980, esse modelo começou a ser pressionado.

Os governos enfrentaram restrições orçamentárias, o financiamento público não acompanhou o crescimento das matrículas e as universidades se depararam com demandas crescentes por prestação de contas, eficiência e resultados mensuráveis. O que emergiu foi um novo modelo de governança do ensino superior, no qual a flexibilidade e o controle de custos frequentemente substituíram a segurança e a colegialidade como princípios organizadores.

As universidades dependem cada vez mais de docentes temporários – instrutores adjuntos, palestrantes, acadêmicos temporários, monitores e pesquisadores com contrato por prazo determinado. O que começou como um mecanismo para atender a necessidades temporárias de ensino evoluiu gradualmente para uma estratégia de força de trabalho permanente.

Essa mudança é particularmente visível nos Estados Unidos. De acordo com a Associação Americana de Professores Universitários (AAUP), aproximadamente 68% das nomeações de docentes agora estão fora do sistema de titularidade, deixando apenas cerca de um terço do corpo docente em cargos com titularidade ou em vias de titularidade.

Em 1987, em contraste, cerca de 53% do corpo docente ocupava cargos com titularidade ou em vias de titularidade, demonstrando uma mudança de longo prazo de uma força de trabalho predominantemente com titularidade para uma predominantemente temporária.

Padrões semelhantes, embora variando em forma e intensidade, podem ser observados em todo o mundo anglófono e, cada vez mais, na Europa e em outras regiões.

O resultado tem sido o surgimento do que muitos observadores descrevem como o precariado acadêmico: profissionais altamente qualificados que realizam trabalho acadêmico essencial em condições de insegurança crônica.

Onde a flexibilidade gera insegurança

O surgimento do trabalho acadêmico temporário não ocorreu por acaso. Surgiu de mudanças mais amplas no financiamento e na governança do ensino superior.

Desde o final do século XX, as universidades em muitos países têm sido cada vez mais influenciadas por reformas orientadas para o mercado, enfatizando a competição, a eficiência, a responsabilidade e a redução dos gastos públicos. À medida que os governos limitavam ou reduziam o financiamento público, as instituições buscavam fontes alternativas de receita por meio de mensalidades, recrutamento de estudantes internacionais, parcerias comerciais e atividades empreendedoras.

A contratação de professores adjuntos está intimamente ligada à massificação do ensino superior. Durante a segunda metade do século XX, a participação universitária expandiu-se drasticamente em grande parte do mundo. Instituições originalmente concebidas para educar as elites sociais foram transformadas em sistemas de massa que atendiam a populações cada vez mais diversas.

Essa expansão gerou novas pressões financeiras. Os governos frequentemente incentivavam o crescimento sem fornecer aumentos proporcionais no financiamento público. As universidades, portanto, buscaram maneiras de acomodar um número maior de estudantes, controlando os custos.

O trabalho temporário ofereceu uma solução atraente. Professores adjuntos podiam ser contratados sob demanda, receber grandes cargas horárias de ensino e serem dispensados ​​quando os padrões de matrícula mudassem. Ao contrário dos professores permanentes, eles geravam poucas obrigações financeiras de longo prazo relacionadas a aposentadorias, licenças sabáticas, sistemas de promoção ou apoio à pesquisa.

Ao mesmo tempo, muitas universidades experimentaram um crescimento administrativo significativo. Surgiram novos departamentos para gerenciar conformidade, marketing, recrutamento de alunos, rankings, planejamento estratégico, garantia de qualidade, captação de recursos e transformação digital. Embora algumas dessas funções respondessem a necessidades institucionais genuínas, críticos argumentam que a expansão administrativa frequentemente ocorreu em paralelo à redução do quadro permanente de professores.

O resultado foi uma realocação gradual de recursos institucionais. As universidades investiram cada vez mais em sistemas de gestão, infraestrutura, branding e posicionamento de mercado, enquanto dependiam de professores contratados para ministrar uma parcela crescente do ensino.

A linguagem usada para justificar esses desenvolvimentos é reveladora. As universidades falam de agilidade, inovação, capacidade de resposta e eficiência. No entanto, a flexibilidade não é vivenciada igualmente. Para as instituições, flexibilidade significa adaptabilidade organizacional. Para os professores contratados, muitas vezes significa renda incerta, contratos de curto prazo e carreiras interrompidas. A flexibilidade da universidade depende cada vez mais da insegurança de terceiros.

A precarização do trabalho se globaliza

Embora a precarização do trabalho acadêmico seja frequentemente discutida como um problema americano, ela se tornou um fenômeno global.

Nos Estados Unidos, a escala da transformação é especialmente impressionante. Faculdades comunitárias e universidades regionais dependem fortemente de professores adjuntos (quase três quartos), enquanto até mesmo instituições de pesquisa de elite utilizam cada vez mais docentes sem vínculo permanente para as principais funções de ensino. Muitos professores adjuntos são pagos por disciplina, recebem poucos benefícios e permanecem amplamente excluídos da governança, apesar de lecionarem para um número substancial de alunos.

O Reino Unido ilustra como reformas orientadas para o mercado podem remodelar o trabalho acadêmico. Após a introdução e subsequente expansão das taxas de matrícula, as universidades passaram a operar cada vez mais em um ambiente competitivo, onde o recrutamento de alunos tornou-se intimamente ligado à receita institucional. A precarização do trabalho aumentou consequentemente.

Universidades com foco em pesquisa frequentemente dependem muito de pesquisadores com contratos por prazo determinado, cujo emprego está atrelado aos ciclos de financiamento, enquanto professores remunerados por hora assumem responsabilidades substanciais de ensino.

O Sindicato de Universidades e Faculdades (UCU) tem repetidamente colocado a precarização do trabalho no centro das ações trabalhistas nacionais, argumentando que a insegurança no emprego se tornou uma das características definidoras do ensino superior britânico.

O sistema de ensino superior da Austrália tornou-se um dos mais precarizados do mundo. As universidades tornaram-se cada vez mais dependentes da receita proveniente de estudantes internacionais, particularmente nas décadas que antecederam a pandemia de COVID-19. Isso criou incentivos para modelos de contratação capazes de se expandir e contrair rapidamente em resposta às flutuações de matrículas.

Professores temporários se tornaram essenciais para as atividades de ensino. Em 2023, os funcionários temporários representavam 64,7% da força de trabalho equivalente a tempo integral em funções voltadas para o ensino, de acordo com dados do Departamento de Educação de 2024.

Embora as reformas trabalhistas e as campanhas sindicais tenham incentivado algumas instituições a converter funcionários temporários de longa data em cargos permanentes, o emprego precário permanece profundamente enraizado no setor.

A Europa continental apresenta um cenário um tanto diferente. O desafio da Alemanha não é tanto a precarização do ensino de graduação, mas sim a precariedade do pós-doutorado. De acordo com a Lei de Contratos Temporários de Pesquisa (WissZeitVG) , os pesquisadores frequentemente transitam por uma sucessão de contratos temporários enquanto competem por um número limitado de cátedras permanentes.

Os críticos argumentam que o gargalo resultante atrasa a estabilidade na carreira e incentiva a saída de pesquisadores talentosos da academia.

Na França, Itália, Espanha e Holanda, a expansão do ensino superior no pós-guerra, combinada com restrições fiscais e a massificação a partir da década de 1980, produziu uma mudança estrutural em direção a contratos temporários, com prazo determinado e sem vínculo permanente para pesquisadores em início de carreira. Esse padrão é amplamente reconhecido em relatórios da Comissão Europeia e em estudos nacionais sobre o mercado de trabalho no ensino superior.

Na América Latina, a rápida expansão do ensino superior frequentemente superou o investimento em pessoal permanente, forçando muitas instituições a depender de instrutores horistas que se deslocam entre os campi ao longo do dia em busca de uma renda suficiente para sobreviver.

Em países como Chile, Colômbia, México e Peru, esses educadores são frequentemente chamados de “professores-táxi”, termo que reflete uma condição estrutural em que um professor precisa dar aulas pela manhã em uma instituição, atravessar a cidade para outro campus à tarde e encerrar o dia com aulas à noite em outro lugar.

Em muitos países africanos, as universidades gerenciam recursos limitados e o rápido crescimento das matrículas por meio de contratos temporários, reforçando um ciclo de precariedade que impulsiona uma fuga contínua de cérebros de acadêmicos altamente qualificados que migram para o exterior em busca de empregos estáveis.

Na África do Sul, por exemplo, os dados indicam que quase dois terços do corpo docente acadêmico ocupam cargos temporários, uma vulnerabilidade que impacta desproporcionalmente cerca de 90% dos acadêmicos com menos de 30 anos.

Da mesma forma, em países como o Quênia, a rápida expansão institucional criou uma forte dependência de professores adjuntos horistas mal remunerados, que frequentemente enfrentam longos atrasos salariais, além de cargas de ensino excessivas. Sem a estabilidade institucional, o apoio à pesquisa e os benefícios necessários para construir carreiras locais sustentáveis, uma massa crítica de doutores e professores titulares altamente qualificados opta pela migração em vez da estagnação.

No Nepal, a rápida expansão do ensino superior, das faculdades particulares e dos campi afiliados produziu a figura do “professor capacete”. O termo se refere a professores que passam os dias se deslocando entre os campi em motocicletas, chegando momentos antes do início da aula e partindo imediatamente depois para cumprir outra tarefa de ensino em outro lugar. Seus capacetes permanecem na cabeça até o último momento possível, porque cada minuto conta.

Como poucas instituições oferecem salários suficientes ou contratos estáveis, muitos acadêmicos precisam lecionar simultaneamente em várias faculdades para obter renda, transformando o trabalho acadêmico em trabalho educacional por peça, onde o acadêmico se torna um transitário entre instituições em vez de um membro ativo de uma comunidade acadêmica.

Os mecanismos estruturais diferem. Alguns sistemas são moldados pela competição de mercado, outros pela regulamentação estatal, restrições de financiamento ou gargalos de pós-doutorado. No entanto, o resultado é notavelmente semelhante. Em todos os continentes, as universidades dependem cada vez mais de trabalhadores que lecionam, orientam e sustentam a vida institucional, mas que carecem de muitas das proteções tradicionalmente associadas ao emprego acadêmico.

Excluídos da comunidade acadêmica

as estatísticas revelam a escala da precarização do ensino, mas os números por si só não conseguem capturar a sensação de habitar a universidade contemporânea como um acadêmico temporário.

Uma das tentativas mais impactantes de descrever essa condição vem do pesquisador Ashraf Hazeyen , que usa a expressão “desabrigo intelectual” para descrever educadores que lecionam em universidades, mas permanecem excluídos de muitas das estruturas que proporcionam pertencimento, continuidade e reconhecimento.

Sua análise destaca as consequências humanas da precariedade acadêmica, que vão além das questões de salário ou vínculo empregatício. Sua percepção aponta para uma condição mais ampla que poderia ser descrita como deslocamento acadêmico.

A questão não se resume a baixos salários, contratos temporários ou à ausência de benefícios. Trata-se da separação gradual dos acadêmicos dos lugares, comunidades, estruturas de governança e horizontes de longo prazo que tradicionalmente ancoravam a vida acadêmica.

Esse deslocamento opera de diversas maneiras. Primeiro, há o deslocamento do espaço físico. Muitos acadêmicos temporários não possuem escritórios ou espaços de trabalho permanentes. Eles transitam entre campi e salas de aula, encontrando-se com alunos em bibliotecas, corredores ou cafeterias. Trabalham dentro da universidade, mas possuem pouco vínculo físico com ela.

Segundo, há o deslocamento do tempo. O trabalho acadêmico depende da continuidade. As agendas de pesquisa se desenvolvem ao longo de anos, as relações de mentoria se desenvolvem gradualmente e os projetos intelectuais exigem comprometimento constante. O emprego precário fragmenta esse horizonte temporal. Os contratos geralmente duram apenas um semestre ou um ano, dificultando o planejamento a longo prazo.

Terceiro, há o deslocamento da governança. Historicamente, as universidades se distinguiram por meio de tradições de governança compartilhada, mas o corpo docente temporário muitas vezes permanece excluído das estruturas pelas quais as instituições tomam decisões. Eles lecionam para um grande número de alunos, mas têm pouca voz na definição das prioridades institucionais.

Finalmente, há o deslocamento da própria comunidade intelectual. As universidades se sustentam não apenas por estruturas formais, mas também por conversas, colaborações, seminários e relações de mentoria. A carga horária intensa de ensino e a constante mudança entre instituições muitas vezes deixam os professores contratados com pouco tempo ou oportunidade para participar plenamente dessas comunidades.

As perdas são frequentemente invisíveis: livros nunca escritos, projetos abandonados, colaborações não concretizadas, acadêmicos promissores que abandonam a academia por completo.

O deslocamento acadêmico, portanto, representa mais do que insegurança no emprego. Reflete uma transformação mais profunda na relação entre os acadêmicos e as instituições que servem.

Impactos da abordagem do trabalho temporário

Os efeitos da precarização do ensino vão muito além das condições de trabalho. Os alunos estão entre os primeiros a sentir os impactos. Professores temporários são frequentemente dedicados e talentosos, mas a carga horária pesada e a constante mudança entre instituições limitam sua capacidade de oferecer mentoria, feedback detalhado e engajamento contínuo. A questão não é o comprometimento, mas sim o tempo.

A liberdade acadêmica também pode ficar sob pressão. A estabilidade no emprego foi concebida para proteger a independência intelectual. Professores temporários que operam sob a possibilidade de não renovação de contrato podem pensar cuidadosamente antes de desafiar as políticas institucionais, atribuir materiais controversos ou participar de debates públicos impopulares. O resultado raramente é a censura explícita. Mais frequentemente, é a autocensura.

A pesquisa também sofre. Projetos acadêmicos de longo prazo exigem estabilidade. A carga horária pesada de ensino e os contratos temporários tornam a pesquisa contínua cada vez mais difícil. Os custos são medidos não apenas pelo que os acadêmicos produzem, mas também pelo que são impedidos de produzir.

Há também implicações mais amplas para a própria produção de conhecimento. As universidades servem como as principais instituições da sociedade para preservar, transmitir e gerar conhecimento. Sua eficácia depende não apenas da infraestrutura e da tecnologia, mas também da estabilidade das comunidades que produzem conhecimento.

Pesquisas mostram consistentemente que a inovação floresce em ambientes caracterizados por confiança, colaboração, apoio institucional e investimento a longo prazo. Quando grandes segmentos da força de trabalho acadêmica operam em condições de incerteza, as universidades correm o risco de minar justamente as condições que tornam possível a criatividade acadêmica.

As próprias instituições perdem a continuidade. Departamentos caracterizados por constante rotatividade lutam para manter a memória institucional, as tradições e o conhecimento coletivo. A governança se distancia cada vez mais daqueles que executam grande parte da missão de ensino da instituição.

Mais fundamentalmente, a precarização do trabalho acadêmico altera o caráter da universidade. Os docentes se tornam cada vez mais prestadores de serviços em vez de membros de uma comunidade acadêmica. O trabalho acadêmico se fragmenta em tarefas discretas e resultados mensuráveis. A linguagem da cidadania, da responsabilidade e da colegialidade dá lugar à linguagem dos contratos, dos indicadores de desempenho e da eficiência.

O perigo não é que as universidades desapareçam. O perigo é que elas sobrevivam, tornando-se algo fundamentalmente diferente: menos uma comunidade de acadêmicos e mais uma corporação educacional organizada em torno da prestação de serviços.

Ações políticas para empregadores

O Relatório sobre os ODS da UNESCO atribui responsabilidades complementares aos governos e às instituições de ensino superior no combate à precariedade e na melhoria das condições de trabalho acadêmicas.

Espera-se que os governos criem as condições estruturais para o trabalho decente, garantindo financiamento público previsível e adequado, regulamentando o uso de contratos temporários e estabelecendo regras claras sobre a duração dos contratos, limites de renovação e caminhos para a efetivação.

Eles também são responsáveis ​​por definir normas nacionais de trabalho, atualizar as tabelas salariais para acadêmicos do setor público, reconhecer qualificações estrangeiras e simplificar os procedimentos administrativos para a contratação de acadêmicos migrantes e refugiados. Além disso, os governos devem garantir o direito à sindicalização e estender a cobertura da negociação coletiva a todas as categorias de trabalhadores do ensino superior.

As universidades, como empregadoras diretas, têm a tarefa de traduzir esses marcos em práticas de emprego justas e transparentes. O relatório da UNESCO enfatiza que as instituições devem restringir contratos temporários e de meio período a necessidades genuinamente de curto prazo, aumentar a proporção de cargos permanentes ou com possibilidade de efetivação e garantir salários dignos e progressão de carreira equitativa para estagiários, pesquisadores juniores e professores em tempo parcial.

As universidades também são responsáveis ​​por criar ambientes de trabalho favoráveis, equilibrando as expectativas de desempenho entre ensino, pesquisa e extensão; salvaguardando o equilíbrio entre vida profissional e pessoal; e oferecendo apoio em cuidados infantis e saúde mental sempre que possível.

Como empregadoras, devem aplicar protocolos robustos de combate à discriminação e ao assédio, monitorar as condições de trabalho de funcionários terceirizados e garantir que todos os trabalhadores – independentemente do tipo de contrato – tenham acesso à representação e voz institucional.

Juntas, essas ações delineiam um modelo de governança compartilhada no qual os governos fornecem as bases regulatórias e financeiras para o trabalho decente, enquanto as universidades defendem esses padrões em suas práticas de emprego cotidianas.

Quem pertence à universidade?

A imagem de um professor dormindo em seu carro captura uma contradição no cerne do ensino superior contemporâneo. As universidades nunca possuíram tantos recursos físicos. Eles constroem polos de inovação, campus digitais, centros de pesquisa e instalações de última geração. Seus planos estratégicos celebram a excelência, o impacto, a competitividade e a transformação.

Contudo, em meio a essas conquistas, uma questão mais simples exige atenção: quem pertence à universidade? O aumento da precarização do ensino sugere que um número crescente de educadores ocupa uma posição ambígua. Eles lecionam na universidade sem fazerem parte dela integralmente.

Sustentam sua missão, mas permanecem excluídos de sua segurança. Contribuem para seu sucesso, porém arcam com riscos desproporcionais.

Uma universidade pode sobreviver com uma força de trabalho dominada por contratos temporários. Pode continuar produzindo diplomas, subindo em rankings e produzindo pesquisas. Mas sobrevivência e prosperidade não são a mesma coisa.

As maiores conquistas da universidade nunca foram seus prédios, orçamentos, tecnologias ou rankings. Foram as comunidades de acadêmicos que dedicaram suas vidas à investigação, ao ensino, à descoberta e à mentoria.

O professor sem-teto que abriu este artigo não é simplesmente uma exceção infeliz. Ele é um alerta. Ele nos lembra que as universidades podem continuar expandindo seus campi, subindo em rankings globais e celebrando a inovação, mas ainda assim falhar em uma tarefa mais fundamental: proporcionar um lar intelectual duradouro para aqueles que criam e transmitem conhecimento.

O futuro do ensino superior pode depender, em última análise, de as universidades continuarem a tratar o trabalho acadêmico como um custo descartável ou de voltarem a reconhecer os acadêmicos como a base da própria instituição.

Min Bahadur Bista é ex-professor de educação da Universidade Tribhuvan, no Nepal, e ex-especialista em educação da UNESCO, com experiência na região da Ásia-Pacífico e em outras regiões. Atualmente, trabalha como consultor independente em educação, especializado em políticas, governança e reforma educacional, e escreve sobre questões globais da educação.

Este artigo é um comentário. Artigos de opinião expressam o ponto de vista do autor e não refletem necessariamente a visão do University World News.


Fonte: University World News

Ecocídio no Pantanal

Por Luiz Marques*

O Pantanal, “o reino das águas”, Patrimônio Nacional (Constituição de 1988) e Patrimônio da Humanidade e Reserva da Biosfera (ONU, 2000), é tradicionalmente considerado a maior planície alagada do mundo. Esse bioma transfronteiriço se estende por três países: Bolívia (53.320 km2), Paraguai (8.520 km2) e Brasil (151.134 km², segundo o IBGE 2017).[1] Com cerca de 65% desse bioma em território brasileiro no Mato Grosso do Sul e o restante no estado do Mato Grosso, apenas 5,2% do Pantanal brasileiro está protegido em Unidades de Conservação,[2] embora possua uma densidade sem par de biodiversidade descrita: 124 espécies de mamíferos, sendo duas endêmicas, 325 espécies de peixes, 41 espécies de anfíbios, 113 espécies de répteis, 463 espécies de aves e cerca de 3.500 espécies de plantas, muitas com enorme potencial medicinal.[3] Essa riqueza singular de vida está ameaçada, pois o Pantanal é um dos principais teatros do ecocídio perpetrado pelo agronegócio em nosso país desde a ditadura militar. Entre agosto de 2000 e julho de 2025, o agronegócio foi o principal vetor da supressão de 16.470 km2 da vegetação nativa pantaneira, como mostra a Tabela 1.

Perda de vegetação nativa no Pantanal (2001-2025) em km2

Fonte: Inpe, TerraBrasilis, Prodes, Desmatamento.  <https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/app/dashboard/deforestation/biomes/pantanal/increments>.  

Como se vê, mais de 10% da cobertura vegetal nativa do Pantanal brasileiro foi completamente suprimida apenas no primeiro quarto do século XXI.

  Extensão do território devastado por incêndios criminosos no Pantanal

Isso posto, muito maior ainda que a área da supressão dessa cobertura foi a da destruição do Pantanal pelo fogo, sobretudo para a expansão da pecuária. Apenas entre janeiro e agosto de 2020, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou um total de 10.153 focos de incêndio no Pantanal, um número superior à soma dos focos de incêndios dos seis anos anteriores, de 2014 a 2019 (10.048).[4] A perícia apurou que o objetivo dos incêndios em ao menos duas áreas pantaneiras foi “a criação de área de pasto para gado”.[5] Além disso, a Polícia Federal reuniu provas suficientes para indiciar quatro fazendeiros em cujas propriedades o fogo iniciara simultaneamente no dia 20 de junho de 2020. De resto, “segundo testemunhas, dias antes de mandar seus funcionários colocar fogo nas propriedades, os fazendeiros providenciaram a retirada de todo o gado”.[6] Os incêndios de 2020 atingiram cerca de um terço de toda a extensão do Pantanal. Eis a estimativa da área queimada no Pantanal apenas nesse ano:[7]

“Os resultados mostraram uma precisão geral de 95,9% e uma estimativa de 44.998 km2 queimados na porção brasileira do Pantanal, resultando em grave destruição do ecossistema e perda de biodiversidade nesse bioma. A área queimada estimada neste trabalho foi superior aos resultados estimados pelos MCD64A1 (35.837 km2), Fire_cci (36.017 km2), GABAM (14.307 km2) e MapBiomas Fogo (23.372 km2), que apresentaram precisões inferiores”.

Quanto aos ecossistemas atingidos nesse ano, “cerca de 31% dos incêndios ocorreram em áreas cobertas por florestas, 32% em pastagens e 28% em áreas úmidas, totalizando 91% de todas as deteções de incêndios”.[8] A mortandade animal causada por esse crime hediondo foi imensa, pois os incêndios de 2020 mataram ao menos 17 milhões de animais. A cada km2, foram calcinados em média mais de 217 vertebrados, em um dos maiores crimes de ecocídio em toda a história do Brasil.[9] Em setembro de 2020, durante uma reunião de Bolsonaro com seus ministros, a pergunta de uma menina sobre os incêndios no Pantanal provocou uma gargalhada geral, tal como dá testemunho um vídeo vazado.[10] Esses incêndios 2020 foram, em grande parte, o resultado do desmonte das políticas ambientais por Bolsonaro, conforme denúncia da Associação Nacional dos Servidores de Meio Ambiente (Ascema Nacional), através do relatório “Cronologia de um Desastre Anunciado”, que reúne evidências a respeito.[11]

Os incêndios pantaneiros continuaram nos anos sucessivos. Segundo o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA/UFRJ), em 2021 o Pantanal teve 1.945.150 hectares, pouco mais de 19 mil km2, consumidos pelas chamas.[12] Em 2022, sempre segundo o LASA, a área queimada foi de quase 3,2 mil km2, mas em 2023, ela saltou para quase 9,5 mil km2, levando o governo do Mato Grosso a decretar emergência ambiental.[13] Entre 1985 e 2023, os incêndios queimaram 89 mil km2 do Pantanal. Desse total, 72 mil km2 sofreram pelo menos dois incêndios nesse período. E no primeiro semestre de 2024, a área queimada nesse bioma atingiu mais 468.547 hectares, ou quase 4,7 mil km2, em um total de 93 mil km2 ou 62% da área do Pantanal no Brasil.[14] Após uma queda espetacular da área queimada em 2025, o Pantanal deve sofrer outro surto de incêndios em 2026 com o advento do El Niño.

O Pantanal está secando

Eis o diagnóstico de Eduardo Rosa, do MapBiomas (coleção 9, 2024):[15]

“O Pantanal já experimentou períodos secos prolongados, como nas décadas de 1960 a 1970, mas atualmente outra realidade, de uso agropecuário intensivo e de substituição de vegetação natural por áreas de pastagem e agricultura, principalmente no planalto da Bacia do Alto Paraguai, altera a dinâmica da água na bacia hidrográfica.”

Essa advertência foi referendada por um estudo recente,[16] repercutido no Jornal da Unesp, com o título: “Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos”.[17] Os dois mapas da Figura 1 mostram a redução da superfície de água do outrora “reino das águas”.

Figura 1 – Mapas mostrando a superfície das águas superficiais no Pantanal em 1985 e em 2023.

Fonte: Carolina Fioratti, “Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos, mostra estudo da Unesp”, Jornal da Unesp, 1º julho 2026.

Em setembro de 2024, Marina Silva alertou: “O diagnóstico é de que poderemos perder o Pantanal até o final do século”.[18] A avaliação de Carlos Nobre é ainda pior: mantido o ritmo atual de sua destruição e de sua desidratação, o Pantanal pode desaparecer até 2070, posto que já perdeu 30% de sua área.[19] O diagnóstico de Sérvio Justino, primeiro autor do trabalho acima citado, reitera o de Carlos Nobre: “Uma área que antes seria alagável, hoje é uma área de pastagem. (…) Se continuarmos nesse ritmo, infelizmente não teremos mais o bioma daqui 40 ou 50 anos”.[20]

Substituir a Bancada do Boi pela Bancada do Bio

A destruição dos nossos biomas é o projeto do agronegócio para o Brasil. Em 17 de junho de 2026, fazendeiros obstruíram a consulta pública para a criação do Refúgio de Vida Silvestre Delta do Salobra, em Mato Grosso do Sul. Ocuparam o Auditório da Prefeitura de Bodoquena, gritando “Fora!” aos funcionários do ICMBio, de modo a travar qualquer possibilidade de avanço na proteção do que resta do Pantanal.[21] Se a sociedade brasileira não reagir em outubro, de modo a substituir a Bancada do Boi pela Bancada do Bio, será muito em breve tarde demais. Não haverá quase nada a conservar de um das mais preciosos e insubstituíveis tesouros do patrimônio natural do Brasil.

Notas de referência

[1] Cf. Edvaldo Cesar Moretti & Karoline Batista Gonçalves, “Pantanal Transfronteiriço (Bolívia-Brasil- Paraguai) e as áreas protegidas: desafios da gestão diferenciada na zona de fronteira”. Confins, 47, 2020.

[2] Cf. Cristiane Prizibisczki, “Governo amplia áreas protegidas no Pantanal e fortalece proteção do bioma”, ((o)) eco, 22 março 2026.

[3] Cf. ICMBio, Pantanal, baseado em Cadastro Nacional de UCs, Geoprocessamento ICMBio.  <https://www.icmbio.gov.br/portal/unidadesdeconservacao/biomas-brasileiros/pantanal>.

[4] Cf. André Borges, “Volume de queimadas no Pantanal em 2020 equivale a à destruição dos últimos 6 anos”. UOL, 8 set. 2020.

[5] Cf. “Perícia afirma que incêndio no Pantanal mato-grossense foi intencional”. Agência Brasil,5 set. 2020.

[6] Cf. “PF já tem provas para indiciar fazendeiro de MS por queimadas no Pantanal”. UOL, 25 set. 2020.

[7] Cf. Yosio Edemir Shimabukuro et al., “Assessment of Burned Areas during the Pantanal Fire Crisis in 2020 Using Sentinel-2 Images”. Fire, 6(7), 277, 2023.

[8] Cf. Mikhaela A.J.S. Pletsch et al., “The 2020 Brazilian Pantanal fires”. Letter to the editor. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 93(3), 2021.

[9] Cf. Walfrido Moraes Tomas & Christian Niel Berlinck et al., “Distance sampling surveys reveal 17 million vertebrates directly killed by the 2020’s wildfires in the Pantanal, Brazil”. Nature. Scientific Reports, 16 dez. 2021.

[10] Cf. “Ao ser perguntado se Pantanal pega fogo, Bolsonaro ri (vídeo)”. Brasil 247, 8 set. 2020.

[11] Cf. “Servidores divulgam relatório de ações do governo Bolsonaro contra o meio ambiente”. Brasil de Fato”, 5 set. 2020.

[12] Cf. “Comparando os incêndios de 2020 com 2021 no Pantanal: O que mudou?”. SOS Pantanal, 27 dez. 2021.

[13] Cf. “Pantanal em chamas: bioma registra um milhão de hectares queimados em 2023”. G1, 15 nov. 2023.

[14] Cf. Eduardo Rosa et al., Seca extrema e Incêndios no Pantanal em 2024. MapBiomas, 2024.

[15] Cf. “Redução de superfície de água no Pantanal favorece incêndios”. MapBiomas Pantanal Coleção 9, 12 nov. 2024.

[16] Cf. Sérvio Tulio Pereira Justino et al., “Assessment of spatiotemporal variability in surface water and drought variability across the Brazilian Pantanal”. Advances in Space Research, 78, 3, 1 agosto 2026, pp. 2374-2399.

[17] Cf. Carolina Fioratti, “Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos, mostra estudo da Unesp”, Jornal da Unesp, 1º julho 2026.

[18] Cf. “Queimadas e seca histórica: Pantanal pode desaparecer até o fim do século, alerta Marina Silva”. Jornal Nacional, 4 set. 2024.

[19] Cf. “Crise climática está mais rápida. Até 2070, o Pantanal acaba”. O Estado de São Paulo, 11 set. 2024.

[20] Citado por Carolina Fioratti, cit. Jornal da Unesp, 1º julho 2026.

[21] Cf. Duda Menegassi, “Produtores rurais impedem audiência pública sobre criação de UC no Pantanal”. ((o)) eco,  19 junho 2026.


*Luiz Marques (Luiz Cesar Marques Filho) é historiador e professor livre-docente aposentado do Departamento de História da Unicamp. Ele é um dos maiores especialistas brasileiros em história da arte italiana e autor de livros premiados sobre crises socioambientais, como “Capitalismo e Colapso Ambiental

Bilionários, greenwashing e a grande farsa da transição verde

Artigo de Chris Lang mostra como parte das maiores fortunas do planeta utiliza a agenda climática para fortalecer sua legitimidade pública sem questionar o modelo econômico que alimenta a crise ambiental

Há algo profundamente revelador no fato de que alguns dos homens mais ricos do planeta tenham se tornado, aos olhos de parte da opinião pública, os supostos salvadores da humanidade diante da emergência climática. Em vez de serem questionados sobre o papel que a concentração extrema de riqueza, o modelo econômico que os produziu e seus próprios investimentos desempenham na aceleração da crise ambiental, muitos passaram a ser celebrados como líderes da chamada transição verde. Essa inversão de papéis não ocorreu por acaso. Ela resulta de um sofisticado processo de construção de narrativas que procura transformar protagonistas de um sistema ambientalmente insustentável em seus principais reformadores.

É justamente essa operação que Chris Lang analisa em artigo publicado na newsletter Redd Monitor. O autor demonstra que a crescente presença de bilionários no financiamento de projetos classificados como sustentáveis não representa necessariamente uma ruptura com o modelo econômico responsável pelas mudanças climáticas. Ao contrário, esses investimentos frequentemente funcionam como instrumentos de legitimação política e reputacional, permitindo que grandes fortunas associem suas imagens à proteção ambiental sem que isso implique mudanças significativas nas estruturas econômicas que continuam impulsionando a degradação dos ecossistemas e o aumento das emissões de gases de efeito estufa.

Essa estratégia se apoia em um discurso sedutor. Em vez de discutir a necessidade de reduzir a exploração de recursos naturais, limitar o consumo excessivo ou impor controles mais rigorosos sobre atividades altamente poluentes, desloca-se o debate para soluções tecnológicas, mecanismos de mercado e iniciativas voluntárias conduzidas pelo grande capital. A crise climática deixa de ser apresentada como consequência de um modelo de desenvolvimento baseado na acumulação permanente e passa a ser tratada como uma oportunidade de negócios capaz de gerar novos mercados, novos produtos financeiros e novas formas de valorização do capital.

Não é difícil compreender por que essa narrativa encontra tantos defensores. Ela oferece uma promessa confortável: a de que seria possível enfrentar o aquecimento global sem alterar profundamente as relações de poder que ajudaram a produzi-lo. Nesse cenário, os mesmos agentes econômicos que acumularam fortunas extraordinárias durante décadas de expansão da economia fóssil reaparecem como investidores visionários de uma economia supostamente sustentável. A mensagem implícita é simples e extremamente conveniente: não seria necessário transformar o sistema; bastaria confiar na capacidade inovadora dos mercados e na boa vontade daqueles que concentram parcelas crescentes da riqueza mundial.

O problema é que essa lógica frequentemente desemboca no que hoje conhecemos como greenwashing. Empresas, fundos de investimento e grandes patrimônios incorporam a linguagem da sustentabilidade, multiplicam compromissos climáticos, divulgam metas de neutralidade de carbono e anunciam investimentos ambientais, enquanto continuam apoiando cadeias produtivas cuja dinâmica permanece incompatível com os limites ecológicos do planeta. A sustentabilidade transforma-se, assim, menos em um compromisso efetivo com a redução dos impactos ambientais e mais em um ativo reputacional capaz de proteger marcas, atrair investidores e ampliar oportunidades de negócios.

O texto de Chris Lang também chama atenção para outro aspecto frequentemente negligenciado: a crescente privatização do próprio debate ambiental. À medida que bilionários e grandes fundações passam a exercer influência cada vez maior sobre a definição das agendas climáticas, questões fundamentais deixam de ser objeto de deliberação democrática para se tornarem decisões condicionadas pelas prioridades de atores privados. Mesmo quando motivadas por intenções aparentemente nobres, essas iniciativas transferem poder político para indivíduos cuja capacidade de influência deriva não de processos democráticos, mas da extraordinária concentração de riqueza que caracteriza o capitalismo contemporâneo.

Essa discussão é particularmente importante porque evidencia que a crise climática não constitui apenas um desafio tecnológico ou científico. Trata-se, antes de tudo, de uma questão política. O aquecimento global resulta de escolhas históricas sobre produção, consumo, distribuição de riqueza e apropriação dos recursos naturais. Pretender resolvê-lo sem enfrentar essas dimensões estruturais equivale a tratar apenas os sintomas, preservando intactas as causas do problema.

Talvez por isso seja cada vez mais necessário olhar com cautela para discursos que apresentam grandes fortunas como protagonistas da salvação ambiental. A filantropia climática, os investimentos verdes e os anúncios de inovação tecnológica podem produzir resultados relevantes em situações específicas, mas dificilmente substituirão políticas públicas robustas, regulação ambiental efetiva e mecanismos democráticos de controle sobre atividades econômicas de alto impacto. Em última análise, a transição ecológica dependerá menos da generosidade de alguns bilionários do que da capacidade das sociedades de limitar o poder econômico, fortalecer as instituições públicas e recolocar o interesse coletivo acima da lógica da acumulação privada.

A inteligência artificial ameaça soterrar a ciência

Os problemas revelados no arXiv mostram que a crise atual não decorre apenas da velocidade com que produzimos artigos científicos, mas da crescente dificuldade de separar conhecimento original de conteúdo gerado em escala por algoritmo

O arXiv representa uma das maiores conquistas da ciência aberta. Desde sua criação, em 1991, democratizou o acesso ao conhecimento, acelerou a circulação de resultados científicos e reduziu a dependência dos periódicos tradicionais como único meio de divulgação da pesquisa. Para inúmeras áreas, especialmente Física, Matemática e Ciência da Computação, tornou-se uma infraestrutura essencial da ciência contemporânea.

Entretanto, duas publicações recentes chamam atenção para problemas que podem comprometer esse patrimônio coletivo.  A primeira, publicada na Nature, revela que milhões de preprints depositados no arXiv contêm informações que jamais deveriam ter sido disponibilizadas publicamente. Senhas, coordenadas geográficas de locais sensíveis, conversas privadas, nomes de arquivos internos e outros metadados permanecem embutidos nos documentos submetidos, expondo pesquisadores e instituições a riscos desnecessários. O problema não está apenas no texto principal dos artigos, mas nos arquivos-fonte e nos metadados que acompanham as submissões. A segunda reflexão, publicada pelo portal The Geyser, levanta uma questão ainda mais inquietante: estaria o arXiv deixando de ser um repositório de preprints produzidos por pesquisadores para se transformar em uma espécie de “AIXiv”, inundado por manuscritos produzidos ou fortemente assistidos por inteligência artificial (IA)?

Embora o título do The Geyser seja provocativo, ele aponta para uma transformação real. Nunca foi tão fácil produzir artigos científicos. Modelos de linguagem conseguem elaborar revisões bibliográficas, estruturar argumentos, gerar códigos, criar gráficos e até redigir manuscritos inteiros em poucas horas. Se antes o principal gargalo da ciência era produzir conhecimento, hoje um dos gargalos passa a ser distinguir produção científica relevante de uma avalanche de textos tecnicamente bem escritos, mas intelectualmente pouco originais.

Esse fenômeno produz uma contradição importante. A IA pode ampliar enormemente a produtividade científica, permitindo que pesquisadores dediquem mais tempo às perguntas relevantes e menos às tarefas mecânicas. Contudo, ela também reduz drasticamente o custo de produzir artigos medianos. Quando o custo de escrever cai quase a zero, o incentivo passa a ser publicar cada vez mais, independentemente da contribuição efetiva.

A consequência pode ser uma inflação científica. Não necessariamente de conhecimento, mas de documentos.  Nesse contexto, o arXiv ocupa uma posição particularmente delicada. Sua missão nunca foi funcionar como um filtro editorial, mas como um mecanismo rápido de disseminação do conhecimento. Essa filosofia foi extremamente bem-sucedida durante mais de três décadas. Entretanto, a escala atual da produção científica — potencializada pela IA generativa — pode exigir novos mecanismos de verificação e controle de qualidade que preservem o espírito da ciência aberta sem permitir que ela seja soterrada por uma avalanche de conteúdo automatizado. O próprio debate em torno da independência institucional recentemente adquirida pelo arXiv já reconhece o desafio de enfrentar o chamado AI slop, isto é, o excesso de conteúdo gerado por IA de baixa qualidade.

Existe ainda uma questão menos discutida, mas igualmente importante. A ciência não é apenas um produto final; ela é um processo social de construção do conhecimento. Hipóteses são refinadas, erros são identificados, argumentos amadurecem por meio da crítica entre pares. Se a produção de artigos passar a ocorrer em ritmo muito superior à capacidade humana de leitura, avaliação e reprodução dos resultados, cria-se um desequilíbrio perigoso entre a velocidade da produção e a velocidade da validação científica. Alguns estudos já alertam que as ferramentas de IA estão acelerando a escrita muito mais rapidamente do que a capacidade do sistema de revisão por pares de acompanhar esse crescimento.  O risco, portanto, não reside na inteligência artificial em si. O problema está na combinação entre incentivos acadêmicos baseados em quantidade de publicações, facilidade extrema de geração de manuscritos e limitações humanas para avaliar esse volume crescente de informação.

Paradoxalmente, a IA pode tanto fortalecer quanto enfraquecer a ciência aberta. Ela amplia o acesso ao conhecimento, mas também pode obscurecê-lo sob uma montanha de textos redundantes, superficiais ou insuficientemente verificados.

Talvez a pergunta mais importante já não seja se a IA escreverá artigos científicos — isso já está acontecendo e aparentemente em quantidades massivas. A verdadeira questão é se conseguiremos preservar os princípios fundamentais da atividade científica: originalidade, transparência, verificabilidade e honestidade intelectual.  É que no fim das contas, a ciência nunca se mediu pelo número de PDFs produzidos, mas pela capacidade de gerar conhecimento confiável capaz de transformar nossa compreensão do mundo e produzir transformações tangíveis no entendemos ser conhecimento científico.