Revista “Ponta de Lança” lança dossiê sobre a produção do imaginário social sobre o campo

A revista Ponta de Lança: Revista Eletrônica de História, Memória & Cultura lança dossiê sobre a produção do imaginário social sobre o campo. O Dossiê tem por objetivo reunir artigos acerca dos processos de produção, circulação e disputa do imaginário social do campo, problematizando a hegemonia do “agro” como projeto econômico, político e cultural.

À luz da teoria crítica e em diálogo com os movimentos sociais busca-se fomentar estudos que evidenciem contradições, mecanismos de dominação e formas de resistência que atravessam as representações do campo nas Ciências Humanas e Sociais.

Serão acolhidos estudos que abordem imagem, imaginário e imaginação como categorias social e historicamente constituídas, examinando seus impactos na reprodução ou contestação das desigualdades, bem como o protagonismo de sujeitos coletivos e as intersecções entre classe, raça, etnia, gênero e territorialidade na construção de horizontes de emancipação.

Organizadores: Dra. Monique Lima de Oliveira (UFS) e Dr. Lucas Parreira Álvares (UFRPE)

Mais informações pelo link
https://periodicos.ufs.br/pontadelanca/

Os agrotóxicos não estão apenas nos deixando doentes, eles estão cozinhando o planeta

Por Lee Evslin para “The New Lede”

Escrevo isto como pediatra que passou mais de uma década documentando como os agrotóxicos afetam direta e negativamente a saúde das crianças. Mas há uma segunda história escondida dentro daquela que costumo contar, e ela raramente entra no debate: o mesmo sistema de agricultura industrial baseado em agrotóxicos sintéticos e fertilizantes nitrogenados também está silenciosamente destruindo o planeta.

O recente aquecimento recorde do Oceano Pacífico, as mortes causadas pelo calor na Europa, os incêndios florestais em todo o mundo e a onda de calor que assola os EUA criam uma necessidade urgente de compreender todos os principais fatores que impulsionam as mudanças climáticas, incluindo aqueles sobre os quais normalmente não falamos.

Descobriu-se que os sistemas alimentares globais produzem  16 bilhões de toneladas métricas  de CO2 equivalente por ano, ou aproximadamente  um terço  de todas as emissões de gases de efeito estufa causadas pela atividade humana. Dois insumos agrícolas em particular, os agrotóxicos e os fertilizantes nitrogenados sintéticos, merecem muito mais atenção do que geralmente recebem nas discussões sobre saúde ou clima.

Os agrotóxicos e as mudanças climáticas representam um ciclo vicioso  Pesquisadores descreveram recentemente um padrão com consequências perigosamente abrangentes. 

  1. Os agrotóxicos são produzidos a partir de combustíveis fósseis, e sua produção consome muita energia. A fabricação de um quilograma de ingrediente ativo de  agrotóxico requer, em média, cerca de dez vezes mais energia do que a fabricação de um quilograma de fertilizante nitrogenado.
  2. Os agrotóxicos continuam a emitir substâncias mesmo após a aplicação. Muitos volatilizam-se para o ar como compostos que contribuem para a formação de ozono, e os fumigantes de solo amplamente utilizados  aumentam drasticamente as emissões de óxido nitroso do soloOs agrotóxicos também perturbam as comunidades microbianas do solo. Isto  degrada um dos sistemas naturais de remoção de carbono mais importantes da agricultura .
  3. O agravamento das mudanças climáticas enfraquece as plantações e pode gerar mais insetos e ervas daninhas mais resistentes. Essa combinação exige ainda mais agrotóxicos e fertilizantes.
  4. Resultado final: mudanças climáticas cada vez piores e um número crescente de substâncias químicas perigosas em nossos alimentos, nossa água e em todos os nossos corpos.

Os fertilizantes nitrogenados atuam como superpoluentes  Quando o uso intensivo de agrotóxicos degrada o solo, o uso abundante de fertilizantes torna-se vital apenas para manter o crescimento das plantações. O fertilizante nitrogenado sintético é fabricado combinando nitrogênio atmosférico com hidrogênio proveniente do gás natural sob calor e pressão extremos, um processo que, por si só, responde por cerca de  39%  da pegada climática do fertilizante.

Mas, assim como acontece com os agrotóxicos, o problema maior surge depois que o produto chega ao campo. Os micróbios do solo convertem o nitrogênio aplicado em óxido nitroso, um gás com um poder de aquecimento cerca de  273 vezes maior que o do dióxido de carbono. Uma avaliação recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente constatou que as emissões de óxido nitroso provenientes da agricultura aumentaram 40% entre 1980 e 2020 , e o classificou como um “superpoluente” devido ao seu papel duplo no aquecimento global e na destruição da camada de ozônio.

Além disso, os agricultores aplicam rotineiramente  muito mais nitrogênio do que as culturas conseguem utilizar , chegando a 5,8 milhões de toneladas métricas em excesso somente em 2023 no cinturão do milho e da soja, produzindo emissões equivalentes à circulação de 8 a 14 milhões de carros a gasolina adicionais. O nitrogênio não utilizado não desaparece simplesmente. Ele se infiltra no lençol freático e chega aos cursos d’água, alimentando a  proliferação de algas e a eutrofização  , que geram ainda mais gases de efeito estufa.

O problema do solo  Um solo saudável é um dos maiores reservatórios de carbono do planeta, mas a agricultura intensiva em produtos químicos esgota esse reservatório em vez de o aumentar. O contraste na captura de carbono entre a agricultura convencional atual e a agricultura orgânica/regenerativa é dramático. Os sistemas orgânicos  sequestram carbono do solo a uma taxa aproximadamente quatorze vezes maior do  que a agricultura convencional. Práticas regenerativas, quando aplicadas corretamente, poderiam  sequestrar até 23 gigatoneladas de CO2 até 2050 , e  o plantio direto, por si só, já foi associado a reduções de CO2 de até 47% .

As empresas de sementes químicas frequentemente afirmam que as culturas transgênicas Roundup Ready também facilitam e tornam mais comum o plantio direto, permitindo que os agricultores eliminem ervas daninhas com produtos químicos em vez de arar. Mas até mesmo essa solução está se desfazendo. Com a disseminação de ervas daninhas resistentes ao glifosato,  a intensidade do preparo do solo aumentou novamente desde 2008 , e uma análise amplamente citada constatou que a alegação subjacente de redução de carbono pelo plantio direto com base em produtos químicos pode ser  um artefato de amostragem superficial do solo  , em vez de um ganho líquido real. A solução para o solo pode ser menos duradoura do que a indústria alega e vem acompanhada da própria dependência química que impulsiona a crise de saúde.

E a crise de saúde não é hipotética  Um  estudo de 2025 do Centro Médico da Universidade de Nebraska  descobriu que um aumento de 10% na exposição a misturas de agrotóxicos estava associado a um aumento de 36% nos casos de câncer cerebral e do sistema nervoso central em crianças e a um aumento de 23% nos casos de leucemia. Um  relatório de Iowa de 2026  relacionou a taxa de câncer do estado, agora a segunda mais alta do país, em parte à exposição a agrotóxicos. Não se trata dos mesmos produtos químicos aparecendo por coincidência em duas notícias ruins diferentes. Trata-se do mesmo modelo de negócios.

A argumentação climática contra esse sistema não é especulativa. Ela se baseia em um crescente corpo de pesquisas sobre o ciclo de vida e emissões em campo, abrangendo fabricação, aplicação e efeitos subsequentes nos ecossistemas. Como essas emissões são difusas, espalhadas por milhões de fazendas em vez de concentradas em algumas chaminés, elas escaparam do escrutínio regulatório que aplicamos a usinas de energia e frotas de veículos. Isso está começando a mudar à medida que os pesquisadores constroem um levantamento mais completo da cadeia de suprimentos de agroquímicos. As políticas públicas, porém, ainda não acompanharam essa mudança.

Não estamos obrigados a escolher entre alimentar as pessoas e manter o planeta e as pessoas que nele habitam saudáveis.

Reduzir a aplicação desnecessária de nitrogênio, intensificar a fiscalização de agrotóxicos e investir em práticas regenerativas nos ajudará a reconstruir o carbono do solo e a reduzir a dependência de agrotóxicos e fertilizantes. As duas lutas, saúde e clima, nunca foram separadas. Já passou da hora de começarmos a tratá-las como tal.

(Os artigos de opinião publicados no The New Lede representam os pontos de vista dos autores e não necessariamente a perspectiva dos editores do TNL.)

Lee A. Evslin, MD, FAAP, é pediatra certificado e ex-CEO de hospital. Foi membro da Força-Tarefa de  Agrotóxicos patrocinada pelo estado do Havaí e recebeu reconhecimento especial da Academia Americana de Pediatria por seu trabalho legislativo, que ajudou a tornar o Havaí o primeiro estado a proibir o clorpirifós. É autor do livro ”  Café da Manhã na Monsanto: O Roundup em nossos alimentos está nos deixando mais doentes, mais gordos e mais tristes?”  e foi palestrante principal na Cúpula de Ciência da Assembleia Geral da ONU de 2022, sobre o tema da toxicidade do glifosato.


Fonte: The New Lede

O fim da Moratória da Soja abrirá as portas para um novo ciclo de devastação na Amazônia

A reportagem da jornalista Camila Souza Ramos, publicada no Valor Econômico, traz um dado que deveria soar como um alerta para toda a sociedade brasileira: o eventual fim da Moratória da Soja poderá provocar perdas estimadas em US$ 8,2 bilhões em serviços ecossistêmicos ao longo da próxima década.  Um artigo publicado na revista Nature Communications Earth & Environment, demonstra que o desmatamento adicional poderá comprometer funções essenciais da floresta amazônica, como a formação de chuvas, a manutenção da biodiversidade, o armazenamento de carbono e a geração de energia hidrelétrica.

Embora os números econômicos impressionem, o aspecto mais preocupante talvez seja outro. A Moratória da Soja nunca foi um instrumento perfeito. Desde sua criação, em 2006, ela contribuiu para reduzir a expansão direta da soja sobre áreas recentemente desmatadas na Amazônia, mas não impediu outros vetores de destruição florestal. A pecuária continuou avançando sobre vastas áreas, a grilagem de terras públicas permaneceu ativa e a degradação causada pela exploração madeireira, pelos incêndios e pela abertura de estradas seguiu corroendo a integridade da floresta. Em outras palavras, mesmo com a moratória em vigor, o quadro sempre esteve longe de ser satisfatório.

É justamente por isso que sua eventual extinção representa um risco muito maior do que o simples desaparecimento de um acordo setorial. A retirada desse importante mecanismo de controle poderá transmitir ao mercado um sinal de flexibilização das regras ambientais, estimulando uma nova corrida pela conversão da floresta em áreas agrícolas. Num contexto em que a fiscalização ambiental continua sofrendo com restrições orçamentárias e operacionais, essa mudança tende a acelerar tanto o desmatamento quanto a degradação florestal, tornando muito mais difícil conter o avanço da fronteira agrícola sobre a Amazônia.

Os efeitos dessa dinâmica não se restringem à Amazônia. A perda da cobertura florestal reduz a reciclagem de umidade responsável pela formação dos chamados “rios voadores”, afetando a disponibilidade de água e a regularidade das chuvas em boa parte da América do Sul. O prejuízo alcança diretamente a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento urbano, comprometendo atividades econômicas muito além da região amazônica. Diversos estudos científicos já demonstraram que a continuidade do desmatamento e da degradação florestal aproxima a Amazônia de um ponto de inflexão ecológica, cujas consequências atingirão de forma particularmente severa a própria produção agropecuária na Amazônia e no Cerrado.

Outro mérito da reportagem é mostrar que os custos da destruição da floresta não podem ser medidos apenas pelo valor da madeira ou da terra convertida em lavoura. Os serviços ambientais prestados pela Amazônia sustentam processos ecológicos que permitem o funcionamento da própria economia brasileira. Quando esses serviços desaparecem, toda a sociedade paga a conta, ainda que ela não apareça imediatamente nos indicadores econômicos tradicionais.

O debate sobre o futuro da Moratória da Soja, portanto, vai muito além dos interesses imediatos do setor exportador.  O que está em jogo é se o Brasil continuará preservando um dos poucos mecanismos que, mesmo com limitações, ajudou a conter parte da expansão da fronteira agrícola sobre a Amazônia, ou se aceitará o risco de entrar em um novo ciclo de devastação. Se com a moratória a situação já era precária, sua eliminação poderá tornar o desmatamento e a degradação florestal praticamente incontroláveis, aprofundando uma crise ambiental que ameaça o equilíbrio climático, a segurança hídrica e o próprio futuro da produção agrícola brasileira.

Há, porém, um aspecto que torna esse debate ainda mais inquietante. Não é mais possível esperar racionalidade de um segmento do agronegócio que insiste em agir de forma profundamente irracional, mesmo diante do acúmulo de evidências científicas sobre os impactos econômicos do desmatamento e da degradação florestal. Pesquisas científicas  realizadas por instituições brasileiras e internacionais demonstram de maneira consistente que a destruição da Amazônia compromete o regime de chuvas, intensifica secas e ondas de calor, reduz a disponibilidade hídrica e ameaça a produtividade agropecuária tanto na Amazônia quanto no Cerrado. Ainda assim, parcelas influentes desse setor continuam pressionando pelo enfraquecimento dos instrumentos de proteção ambiental em nome de ganhos imediatos, ignorando que essa estratégia destrói justamente as bases ecológicas que sustentam sua própria atividade econômica.

Defender o fim da Moratória da Soja, portanto, não representa apenas um retrocesso ambiental. Representa também uma aposta temerária contra a ciência e contra o futuro da agricultura brasileira. A ironia é evidente: em nome de ampliar a produção no presente, esses setores trabalham para inviabilizar as condições climáticas que permitirão produzir no futuro. É difícil imaginar uma demonstração mais clara de irracionalidade econômica e ambiental.

Política ambiental e climática no Brasil: estudo mostra avanços importantes e desafios persistentes em meio a pressões políticas

Um novo estudo acaba de ser publicado na revista Opinião Pública e traz um raio-x detalhado da política ambiental e climática do governo Lula III. O artigo “A reconstrução de capacidades estatais: um estudo da política ambiental e climática brasileira” investiga em que medida o governo Lula III tem conseguido reconstruir a política ambiental brasileira após um período de desmonte institucional. A pesquisa analisa se a retomada da agenda ambiental foi acompanhada pelo fortalecimento das capacidades do Estado para formular e implementar políticas públicas, além de identificar os fatores políticos que impulsionam ou limitam esse processo.

O que a pesquisa revelou? 

Para a coordenadora da pesquisa, Dra. Ana Karine Pereira do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB, os resultados revelam que a reconstrução da política ambiental está em andamento, porém ocorre de forma desigual e sob permanente disputa política:  “O governo Lula III retomou políticas, espaços participativos e estruturas institucionais que haviam sido enfraquecidos nos anos anteriores. Essa reconstrução, contudo, permanece incompleta e bastante vulnerável à mudanças políticas. A resistência do Congresso, as divergências dentro da coalizão governamental e a influência de setores econômicos sobre a agenda ambiental estão limitando o alcance das mudanças e ajudam a explicar as contradições observadas na atual gestão”.

Para Wallace Lopes, Analista Ambiental do Ibama e um dos autores, aos dados do artigo demonstram que a desvalorização da carreira compromete diretamente a capacidade de implementação do Estado: “O artigo demonstra, com base em evidências empíricas, que a perda de quadros, a descontinuidade institucional e a desvalorização da carreira impactam negativamente a implementação das políticas públicas. O fortalecimento da Carreira de Especialista em Meio Ambiente deve ser encarado como uma condição estrutural para que o Estado brasileiro mantenha capacidade de implementar políticas ambientais de forma técnica, efetiva e duradoura”.

Assinam também o artigo os pesquisadores Gustavo Apollo, Yasmin Oliveira Targino, Luiza de Moraes Tavares de Lima, Mariana Mota e Daniela Rosim.

Leia o artigo na íntegra [Aqui!]

O metano e a mentira organizada: novos documentos reforçam a responsabilidade histórica das petrolíferas pela crise climática

O metano e a mentira organizada: novos documentos reforçam a responsabilidade histórica das petrolíferas pela crise climática

A reportagem da jornalista Hiroko Tabuchi, publicada originalmente no The New York Times e reproduzida no Brasil pela Folha de S.Paulo, traz novas evidências de um dos capítulos mais graves da história recente da crise climática: as grandes empresas de petróleo e gás sabiam, desde pelo menos a década de 1960, que suas operações liberavam quantidades muito superiores de metano às oficialmente divulgadas e que esse gás teria um papel decisivo no aquecimento global.

O material analisado pelo Center for Climate Integrity reúne documentos internos produzidos por associações empresariais e pelas próprias companhias petrolíferas. Esses documentos mostram que a indústria possuía conhecimento técnico detalhado sobre o problema muito antes de o tema se tornar objeto de debate público. Em vez de alertar governos, reguladores e a sociedade, o setor escolheu minimizar os riscos e investiu em campanhas de relações públicas destinadas a consolidar a imagem do gás natural como uma fonte de energia ambientalmente amigável.

O aspecto mais importante dessa revelação não reside apenas na constatação de que o metano é um gás de efeito estufa extremamente potente — cerca de 80 vezes mais eficiente do que o dióxido de carbono em reter calor ao longo de vinte anos. Esse dado já é amplamente reconhecido pela literatura científica. O elemento verdadeiramente explosivo consiste na demonstração de que as empresas possuíam informações privilegiadas sobre a dimensão real de suas emissões e, ainda assim, permitiram que governos, investidores e consumidores continuassem tomando decisões baseadas em dados incompletos ou deliberadamente distorcidos.

Essa conduta aproxima o caso das petrolíferas de outros grandes escândalos corporativos. A indústria do tabaco ocultou durante décadas evidências sobre a relação entre cigarro e câncer. Empresas químicas esconderam informações sobre a toxicidade de diversos compostos. Fabricantes de agrotóxicos financiaram campanhas para desacreditar pesquisas independentes que apontavam riscos ambientais e sanitários. Em todos esses episódios, o problema não se limitou ao dano causado pelos produtos comercializados. A fraude também consistiu na supressão deliberada de informações essenciais para que a sociedade pudesse avaliar corretamente os riscos envolvidos.

No caso das mudanças climáticas, entretanto, a dimensão do dano é incomparavelmente maior. A omissão de informações sobre o metano contribuiu para retardar políticas públicas, enfraquecer regulações ambientais e prolongar um modelo energético baseado na expansão contínua dos combustíveis fósseis. Cada década perdida representou maior concentração de gases de efeito estufa, temperaturas mais elevadas, eventos climáticos extremos mais frequentes e custos humanos e econômicos cada vez mais elevados.

Por essa razão, cresce em diversos países o movimento que busca responsabilizar financeiramente as empresas petrolíferas pelos prejuízos decorrentes das mudanças climáticas. A divulgação desses documentos fortalece esse esforço porque demonstra um elemento jurídico fundamental: não se trata apenas de discutir emissões inevitáveis decorrentes da atividade econômica, mas de avaliar a responsabilidade de empresas que possuíam conhecimento técnico sobre os riscos, esconderam essas informações do público e adotaram estratégias de comunicação destinadas a preservar seus mercados.

Essa distinção é decisiva. Empresas podem cometer erros de avaliação científica. O que os documentos revelam, contudo, sugere algo muito diferente: uma estratégia consciente de administrar a percepção pública do problema enquanto continuavam expandindo seus negócios.

Essa discussão interessa diretamente ao Brasil. O país amplia investimentos na exploração de petróleo e gás, discute novas fronteiras de exploração na Margem Equatorial e mantém forte dependência econômica da exportação de combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, apresenta-se internacionalmente como liderança climática. Essas duas posições tornam-se cada vez mais difíceis de conciliar quando novas evidências mostram que parte da indústria conhecia os impactos ambientais de suas operações muito antes de qualquer obrigação regulatória.

As revelações apresentadas por Hiroko Tabuchi reforçam uma conclusão que se torna cada vez mais difícil de contestar: a crise climática não resulta apenas da queima de combustíveis fósseis. Ela também decorre de décadas de ocultação de informações, manipulação da opinião pública e adiamento deliberado de medidas capazes de reduzir emissões. Em outras palavras, a responsabilidade das grandes petrolíferas não se limita ao carbono que emitiram para a atmosfera. Ela inclui também o conhecimento que decidiram esconder da sociedade.

Estudo defende proteção legal para áreas ao redor de terras indígenas na Amazônia

Desmatamento no entorno do Vale do Javari, que abriga a maior concentração mundial de povos indígenas isolados, foi 187,5 vezes maior que dentro da TI em 2022

Para os autores, a criação de proteção legal para as zonas de amortecimento deve ser acompanhada do fortalecimento da fiscalização. Foto: Gabriel de Oliveira & Erin Koster / Acervo Pesquisadores 

A Terra Indígena (TI) Vale do Javari evidencia uma dinâmica preocupante na Amazônia: enquanto a floresta permanece preservada dentro do território demarcado, o desmatamento avança rapidamente em seu entorno. Em 2022, a perda florestal na zona de amortecimento (uma faixa de 200 km ao redor da TI) foi 187,5 vezes maior do que o observado dentro da TI.

Ainda que o desmatamento anual tenha diminuído no entorno do Vale do Javari em 2023 e 2024, os níveis ainda são superiores aos das décadas anteriores. Por isso, a proteção legal para zonas de amortecimento, aplicada para limitar as atividades humanas nas proximidades das unidades de conservação em geral — como os parques nacionais e reservas extrativistas — deve ser estendida também às terras indígenas.

A análise está em publicação na revista Nature Sustainability, assinada por pesquisadores de instituições nacionais, como INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e internacionais, além do líder indígena Beto Marubo. Os autores reúnem dados de desmatamento do PRODES/INPE (Programa de Cálculo do Desmatamento na Amazônia Legal) e de cobertura florestal e mudanças de uso da terra a partir da plataforma MapBiomas.

O artigo observa que mudanças na legislação e a invasão de territórios para atividades como mineração, tráfico de animais silvestres e exploração ilegal de madeira e pesca ameaçam a integridade dos povos indígenas e seus modos de vida. Porém, mesmo com essas ameaças, as TIs da Amazônia prestam serviços ecossistêmicos e garantem a subsistência tanto de povos que interagem com grupos externos como daqueles que decidiram viver isolados em suas comunidades.

Localizada em 8.544.482 hectares no oeste do Amazonas, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, a TI Vale do Javari é a segunda maior do Brasil. É lar de cinco povos que mantêm contato com a sociedade ao redor — Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina –, dois de contato recente — Korubo e Tsohóm-Djapá –, além de pelo menos 14 grupos em isolamento voluntário, a maior concentração mundial de povos isolados. Demarcada em 2001, ganhou atenção internacional em 2022 por conta do assassinato do jornalista inglês Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira.

Para os autores, a criação de proteção legal para as zonas de amortecimento deve ser acompanhada do fortalecimento da fiscalização e do combate à ocupação irregular de terras públicas, especialmente nas áreas vizinhas às terras indígenas. No Vale do Javari, a prioridade, afirmam, é conter novas ocupações e atividades ilegais, como caça comercial e pesca predatória.

“Coibir a ocupação irregular, inclusive removendo os ocupantes ilegais, é importante em toda a Amazônia brasileira. Como há limitações de orçamento, pessoal e capacidade de fiscalização, essa atuação deve ter prioridade nas áreas próximas às terras indígenas”, afirma Philip Fearnside, pesquisador do INPA e um dos autores do estudo, liderado por Gabriel de Oliveira, da Universidade do Sul do Alabama (EUA). Essa proteção, observam, é ainda mais importante para os povos isolados, que não conseguem acionar autoridades, organizações da sociedade civil ou a imprensa quando seus territórios são invadidos.


Fonte: Agência Bori

Comissão do Ambiente da ABGF promove live sobre El Niño, crise climática e adaptação no Brasil

A Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF) realizará, no próximo dia 20 de agosto, às 15h, a live “Brasil sob o El Niño: crise climática, impactos socioambientais e urgência da adaptação”, reunindo alguns dos mais destacados pesquisadores brasileiros dedicados ao estudo das mudanças climáticas e de seus efeitos sobre o território nacional.

A atividade acontece em um momento particularmente oportuno. As projeções mais recentes indicam o fortalecimento de um novo ciclo do El Niño, fenômeno que tende a intensificar eventos climáticos extremos em diferentes regiões do Brasil. A combinação entre o aquecimento anômalo do Oceano Pacífico, o aquecimento persistente do Atlântico Tropical e o avanço da crise climática global amplia os riscos de secas severas, queimadas, ondas de calor, escassez hídrica e episódios de chuvas intensas, com impactos diretos sobre a agricultura, os ecossistemas, a infraestrutura e a saúde pública.

Diante desse cenário, a Comissão do Ambiente da ABGF propõe um debate que articula ciência de excelência e compromisso com a sociedade. A live reunirá pesquisadores que vêm produzindo algumas das contribuições mais relevantes para a compreensão das transformações ambientais em curso no país.

Participarão como palestrantes a Dra. Luciana Gatti (INPE), reconhecida internacionalmente por seus estudos sobre o balanço de carbono da Amazônia e os efeitos do desmatamento sobre o clima; o Prof. Dr. Paulo Artaxo (USP), uma das principais referências brasileiras em física da atmosfera, mudanças climáticas e aerossóis; e o Prof. Dr. Roberto Verdum (UFRGS), pesquisador com ampla trajetória nos estudos sobre geografia física, vulnerabilidade ambiental e ordenamento territorial. A mediação ficará a cargo do Prof. Dr. Marcos Pedlowski (UENF), pesquisador da área de geografia política e ambiental, que conduzirá o diálogo entre os convidados e o público.

Mais do que discutir previsões meteorológicas, o encontro buscará analisar os desafios que o Brasil enfrenta para construir políticas efetivas de adaptação climática, reduzir vulnerabilidades socioambientais e fortalecer a capacidade de resposta das instituições públicas diante da intensificação dos eventos extremos.

A transmissão ocorrerá pelo canal GENATUFPB no YouTube e representa uma oportunidade para estudantes, pesquisadores, profissionais, gestores públicos e todos os interessados em compreender como o conhecimento científico pode contribuir para enfrentar um dos maiores desafios do século XXI.

Serviço

Live: Brasil sob o El Niño: crise climática, impactos socioambientais e urgência da adaptação
Data: 20 de agosto
Horário: 15h

É urgente tomar medidas imediatas em face do El Niño e de eventos extremos

O El Niño, que está se intensificando rapidamente, pode ser um dos mais intensos desde 1950

Enquanto algumas regiões do mundo enfrentarão secas extremas, outras experimentarão chuvas intensas como resultado do El Niño global. Alguns países até mesmo vivenciarão uma combinação de ambos os fenômenos. Crédito da imagem: jcomp / Magnific .

SciDev.Net ] Os governos devem agir rapidamente para se prepararem para um fenômeno El Niño em aceleração, que trará condições climáticas extremas para várias regiões do mundo, exacerbando crises existentes que ameaçam a segurança alimentar e a vida humana, alertam especialistas em clima.

Na América do Sul, “Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai serão afetados por secas enormes associadas ao fenômeno, enquanto países mais próximos da costa do Pacífico, como Peru, Equador, Chile, mas também o Brasil, que está do outro lado, serão afetados por ondas de calor de altíssima intensidade”, disse Patricio Valderrama, especialista em geociências e gestão de riscos de desastres do Peru , ao SciDev.Net .

Organização Meteorológica Mundial (OMM) observou que as condições do El Niño, já presentes no Oceano Pacífico, irão se intensificar rapidamente nos próximos meses, aumentando o risco de ondas de calor , inundações e secas em todo o mundo.

As ondas de calor, que já eram mais frequentes e severas, irão se intensificar devido ao fenômeno global El Niño. Crédito da imagem: PxHere , imagem de domínio público.

 O calor extremo , as secas e as inundações voltarão a devastar comunidades na América Latina, no leste e sul da África, na Ásia e no Pacífico”, alertou Tom Fletcher, Subsecretário-Geral da ONU para Assuntos Humanitários e Coordenador de Ajuda de Emergência, em um comunicado (13 de julho).

Segundo Fletcher, as previsões mostram que este El Niño “parece ainda pior” do que o anterior, que deixou dezenas de milhões de pessoas sem alimentos, nutrição , água, saneamento, cuidados de saúde, apoio agrícola e proteção em 2023-2024.

“O calor extremo, as secas e as inundações devastarão mais uma vez comunidades na América Latina, no leste e sul da África, na Ásia e no Pacífico.”

Tom Fletcher, Subsecretário-Geral das Nações Unidas para Assuntos Humanitários e Coordenador de Ajuda de Emergência.

Impactos na América Latina

El Niño é um fenômeno climático natural que ocorre a cada dois a sete anos, quando as temperaturas da superfície aumentam no leste do Oceano Pacífico tropical. Ele pode alterar os padrões climáticos em todo o mundo, causando tanto condições mais quentes e secas quanto chuvas intensas e inundações.

Valderrama, que foi diretor de vários centros nacionais de pesquisa meteorológica, hidrológica e geológica no Peru, e é autor de diversas investigações sobre deslizamentos de terra, fenômenos eruptivos e geodinâmicos, afirma que os dados obtidos no Pacífico central, onde o fenômeno se origina, são “conclusivos”.

“Em certos momentos, essas são as medições mais fortes que tivemos na história moderna”, portanto, já existe uma “certeza matemática” de que teremos um fenômeno global El Niño “que durará ao longo de 2026 e provavelmente até o primeiro trimestre de 2027”.

Seção longitudinal das anomalias de temperatura (0°C) na camada superior do Oceano Pacífico equatorial (C0-300 m), centrada no pentante de 2 de julho de 2026. As anomalias divergem das médias do pentante de 1991-2020. Crédito: NOAA . Imagem em domínio público.

Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) observa que este episódio pode estar entre os mais intensos desde que os registros começaram em 1950.

Em sua atualização de 15 de junho , a NOAA indicou que as previsões estimam uma probabilidade de 63% de que a temperatura da superfície do Oceano Pacífico oriental exceda a média em 2°C, o que constituiria um episódio de El Niño “muito forte”, frequentemente referido como “Super Niño”.

“Mas não se trata apenas do aquecimento causado pelo El Niño; regiões que historicamente não deveriam ser afetadas pelo fenômeno estão apresentando anomalias de temperatura de 1 ou 2 graus acima do normal em regiões onde o mar costuma ser frio, como o sul do Chile, a costa japonesa ou o Mar Báltico”, explica Valderrama.

A principal diferença entre este episódio e os anteriores é que ele está ocorrendo em um mundo que já aqueceu quase 1,5°C, observa Mat Collins, chefe do departamento de Matemática e Estatística da Universidade de Exeter (Reino Unido). “É por isso que as regiões mais vulneráveis ​​estão sofrendo o duplo impacto do aquecimento global e do El Niño”, explica ele.

“Isso agrava os conflitos generalizados, o número crescente de deslocados internos e a alta dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos, que afetam as famílias mais vulneráveis, enquanto o sistema humanitário enfrenta cortes profundos”, destaca Fletcher.

O especialista observou que o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários está preparado para desembolsar US$ 100 milhões em fundos de emergência, dos quais US$ 20 milhões já foram alocados para medidas de “ação antecipatória” em seis países.

As famílias mais vulneráveis ​​são prejudicadas por fenômenos como o Super Niño, pois já sofrem com diversas privações que são agravadas pela emergência climática. Crédito da imagem: John Reyes/Diario La República.

Sem dúvida, 2026 e 2027 serão anos de desafios climáticos que nos mostrarão como devemos nos preparar para esse tipo de emergência e, como temos vivenciado ano após ano por quase uma década, essas emergências se tornarão cada vez mais recorrentes, enfatiza Valderrama, indicando que isso não afetará apenas os seres humanos.

Peru, muito atingido

“O aumento da temperatura dos oceanos afetará muito a vida marinha ; por exemplo, alguns governos já emitiram alertas de extinção para algumas espécies”, acrescenta.

Entre esses governos está o do Peru. A anchova, seu principal recurso pesqueiro de exportação, está migrando para outros países devido ao aquecimento das águas.

Além de deixar mais de 250 mil pessoas que dependem direta ou indiretamente desse recurso extremamente vulneráveis , sua ausência já está causando a morte por inanição de diversas espécies marinhas, como aves produtoras de guano, leões-marinhos e o icônico pinguim-de-humboldt. Numerosos espécimes mortos de espécies marinhas estão sendo encontrados nas praias, e outros vagam erraticamente pelos terminais de pesca ao longo da costa.

A anchova é o principal insumo da indústria pesqueira peruana, mas sua captura está agora em risco devido ao aquecimento das águas do Pacífico causado pelo El Niño. Crédito da imagem: Ministério da Produção (Produce-Peru). Imagem em domínio público.

Além da pesca, que contribui com 0,6% para o PIB nacional , outros produtos agrícolas de exportação serão afetados pelo fenômeno, como café, cacau e diversas frutas.

“As perspectivas sobre a ocorrência de um Super Niño na América do Sul têm se concentrado nos impactos na costa do Pacífico, havendo pouca referência ao seu impacto em outras regiões”, lamenta Lorenzo Castillo, gerente do Conselho Nacional do Café.

“No caso do Peru — e também em outros países andinos-amazônicos, como Colômbia e Equador — os impactos são diversos. Na Amazônia, o estresse hídrico terá um forte impacto nas colheitas deste ano e do próximo, e seus efeitos serão sentidos até 2028”, afirma, com base em dados dos primeiros meses do ano referentes à área plantada. “Prevemos uma queda de 20% na colheita de café este ano, e o próximo ano será ainda pior”, observa.

O pinguim-de-Humboldt vive no litoral do Peru e do Chile. É uma espécie vulnerável que está perdendo sua fonte de alimento devido ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico, onde habita. Crédito da imagem: TimVickers/Wikimedia Commons , imagem de domínio público.

Uma situação semelhante ocorrerá nas regiões andinas de altitude, afetando particularmente as culturas de grãos e tubérculos, geralmente plantadas em altitudes acima de 3.000 metros e que constituem a principal dieta dessas populações. Devido ao fenômeno Super Niño, essas culturas estarão sujeitas a fortes chuvas, tempestades de granizo severas e geadas.

Em declarações à imprensa, a Convenção Nacional Agropecuária do Peru afirmou que o fenômeno global El Niño causará perdas de mais de US$ 3 bilhões no setor rural e que a produção de alimentos cairá em até 50%. O novo governo — liderado pela política de direita Keiko Fujimori, que assumirá o cargo em 28 de julho — ainda não apresentou um plano de contingência ou mitigação para lidar com os impactos previstos.

Brasil se prepara para El Niño

No Brasil, o governo buscou antecipar os potenciais impactos do El Niño criando uma Sala de Situação Interministerial para preparar e coordenar a resposta a possíveis desastres associados ao fenômeno. O objetivo é coordenar as ações dos governos federal, estaduais e municipais, juntamente com agências nacionais, para facilitar a rápida mobilização de recursos emergenciais.

Em 30 de junho, o Ministério da Saúde lançou um pacote de medidas destinadas a preparar o sistema nacional de saúde para os impactos do El Niño. Entre elas, está um Painel Nacional de Risco de Calor, que emitirá alertas de altas temperaturas com até cinco dias de antecedência para ajudar as autoridades a antecipar riscos e organizar os serviços de saúde antes de uma onda de calor.

O plano inclui investimentos de R$ 9,8 bilhões (aproximadamente US$ 1,92 bilhão) até 2035 para fortalecer a capacidade do sistema de saúde de responder a eventos climáticos extremos.

Os incêndios florestais podem se tornar mais frequentes na Amazônia devido à falta de chuvas causada pelo fenômeno. Crédito: Serfor/Peru, imagem em domínio público.

Mas o climatologista Lincoln Muniz Alves, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, acredita que o país ainda precisa passar de um modelo focado na resposta a desastres para uma cultura de prevenção, resiliência e adaptação às mudanças climáticas .

“A ação proativa e o preparo para desastres são nossas melhores ferramentas para lidar com esse fenômeno”, afirma ele.

Paulo Artaxo, professor de física ambiental da Universidade de São Paulo, alerta que a diminuição das chuvas no norte do Brasil “pode tornar a Amazônia mais vulnerável a incêndios florestais”.

“O fenômeno também pode reduzir os níveis dos rios, como aconteceu em 2023 e 2024 , afetando o transporte e limitando o acesso das comunidades ribeirinhas, que dependem das vias navegáveis ​​como principal meio de transporte e fornecimento de insumos essenciais”, explica ele.

Entretanto, prevê-se precipitação acima da média na parte sul do continente.

Em 13 de julho, o governo chileno declarou estado de emergência em dez regiões, prevendo fortes chuvas e ventos intensos na região centro-sul do país. No norte, entretanto, espera-se uma seca prolongada. Dois dias depois, uma forte tempestade — que persiste até hoje — começou a causar inundações nas regiões centro-norte do país, tradicionalmente secas.

A tempestade que vem atingindo diversas regiões tradicionalmente secas do Chile desde 1º de julho causou mortes, feridos e deixou milhares de pessoas desabrigadas. Crédito da imagem: Marinha do Chile/Directemar.

Segundo Alicia Cebrián, diretora do Serviço Estadual de Emergências, até o meio-dia de 21 de julho , havia dez mortes, 16 feridos, 2.286 pessoas afetadas, mais de mil pessoas em abrigos e 104.200 pessoas isoladas nas regiões de Atacama e Coquimbo. Também houve um número considerável de casas destruídas ou danificadas, além de cortes de energia e água em algumas áreas.

Por sua vez, a meteorologista Matilde Rusticucci alerta o SciDev.Net que as fortes chuvas também podem causar inundações na região da Mesopotâmia argentina.

“O setor pecuário seria seriamente afetado, […] a agricultura enfrentaria dificuldades na colheita e as pessoas que vivem em áreas baixas poderiam ser forçadas a se mudar”, afirma Rusticucci, professora emérita da Universidade de Buenos Aires e pesquisadora principal do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (CONICET).

Ele enfatiza que a preparação para o El Niño é essencial, embora observe que ainda não viu “medidas concretas” tomadas na Argentina.

África se prepara para inundações e secas

Historicamente, o El Niño causou secas no Sahel e no sul da África, além de provocar inundações no leste do continente. Caso esse cenário se repita, especialistas alertam que a insegurança alimentar será agravada, os meios de subsistência serão afetados e haverá um aumento na incidência de doenças em todo o continente

Muitos países africanos são altamente vulneráveis ​​a eventos climáticos extremos, como o Super Niño. Crédito da imagem: Cortesia da OMM (Organização Meteorológica Mundial).

Obed Ogega, cientista climático e gerente de programa do Instituto Internacional para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED), com sede em Nairóbi, argumenta que os governos têm muito pouco tempo para se preparar.

“Os governos africanos devem disponibilizar os recursos necessários para lidar com a crise iminente”, disse ele à SciDev.Net .

Em março, inundações repentinas em Nairóbi mataram mais de 30 pessoas e causaram prejuízos de milhões de dólares, evidenciando a vulnerabilidade de muitos países africanos a eventos climáticos extremos.

Ogega afirma que os governos devem fortalecer os sistemas de drenagem, as estradas e outras infraestruturas para melhor resistir a eventos como esses. Ele explica que, nas inundações de Nairóbi, muitas mortes foram causadas pelo colapso de estradas e sistemas de drenagem pluvial sob a pressão das chuvas torrenciais.

O documento também insta os governos a investirem em sistemas de alerta precoce e a trabalharem em conjunto com as comunidades em risco.

“As comunidades devem deixar de ser meras beneficiárias ou vítimas e tornarem-se protagonistas e impulsionadoras de ações locais eficazes para se adaptarem às mudanças climáticas e fortalecerem a resiliência”, acrescenta.

Peter Ofware, diretor da organização sem fins lucrativos Helen Keller International no Quênia, destaca que a desnutrição infantil será um dos principais problemas, “o que exigirá esforços coordenados entre várias instituições e agências para implementar as intervenções necessárias”.

A desnutrição infantil, um flagelo que já assola muitas regiões da África, poderá agravar-se nas comunidades em risco de sofrer os efeitos do Super Niño. Crédito da imagem: ACNUR/H. Dicko .

O Oriente Médio enfrenta uma potencial “falência hídrica”

Por outro lado, o Oriente Médio e o Norte da África podem enfrentar uma combinação de pressões climáticas, alimentares e econômicas caso o El Niño se desenvolva conforme previsto.

A região apresenta a maior dependência per capita do mundo em relação à importação de grãos . Ao mesmo tempo, as constantes interrupções na navegação pelo Estreito de Ormuz têm pressionado as cadeias de suprimento de energia e fertilizantes.

Caso o El Niño afete a produção agrícola nos principais países exportadores, é provável que os preços internacionais dos cereais permaneçam sob pressão, aumentando ainda mais a fatura de importação de alimentos em toda a região.

O especialista iraniano em recursos hídricos, Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, afirma que muitos países da região já estão enfrentando uma “falência hídrica”, na qual a extração de água excede sistematicamente a recarga natural, causando danos duradouros aos ecossistemas e reduzindo a capacidade de adaptação à variabilidade climática.

“Quando os pântanos secam no Iraque, na Síria ou na Turquia devido à seca, os países vizinhos também sofrem as consequências”, explica Madani, destacando a natureza interligada dos impactos das mudanças climáticas.

“Construímos nossas cidades , definimos a capacidade de nossos reservatórios e a altura de nossas barragens partindo do pressuposto de que o sistema climático era estável. E não é, e é por isso que não estamos preparados”, acrescenta.

“Precisamos tanto de infraestrutura física – como barragens – quanto de infraestrutura institucional, ou seja, políticas públicas, além de uma coordenação eficaz entre os sistemas de alerta precoce e de evacuação, com base em boa governança e infraestrutura adequada”, explica ele.

“Redes de segurança” para a Ásia

De Singapura, Paul Teng, pesquisador visitante sênior especializado em mudanças climáticas no Instituto ISEAS–Yusof Ishak, indica que grande parte dos gastos públicos foi desviada para lidar com a crise de combustíveis desencadeada pelo conflito no Oriente Médio.

“A maior ameaça que o previsto ‘Super Niño’ representa para a agricultura no Sudeste Asiático vem das interrupções esperadas na disponibilidade de água e dos picos de temperatura”, observa ele.

O arroz é uma cultura de subsistência e de rendimento muito importante na Ásia, portanto, a redução prevista na produção devido aos efeitos do Super Niño causará maior inflação em muitos países desse continente. Crédito da imagem: Ranak Martin/CGIAR , sob licença Creative Commons CC BY-NC-SA 2.0 Deed .

O texto acrescenta que a Indonésia, as Filipinas, a Tailândia e o Vietname preveem uma redução na produção de arroz na próxima época, o que provavelmente levará a aumentos de preços e a uma maior inflação alimentar.

Para Teng, “o problema não é apenas o clima”. “Estamos enfrentando uma crise multifacetada que se aproxima de uma tempestade perfeita devido aos eventos do ano passado”, diz ele, referindo-se ao aumento do preço dos fertilizantes e seu impacto nas economias rurais.

Portanto, ele argumenta que os governos do Sudeste Asiático devem preparar “redes de proteção social mais amplas para atenuar o impacto da insegurança alimentar nas famílias afetadas”.

BL Madhavan, físico e pesquisador atmosférico do Laboratório Nacional de Pesquisa Atmosférica da Índia, acredita que os sistemas de alerta precoce devem adotar uma “abordagem multirriscos”, pois o El Niño influencia fenômenos como calor extremo, qualidade do ar, risco de incêndios florestais, disponibilidade de água, preços dos alimentos e saúde pública.


Fonte: SciDev.Net 

A Universidade do Terceiro Milênio ou a universidade neoliberal?

A discussão sobre a Taxonomia de Bloom revela um dilema muito mais profundo: a Uenf permanecerá fiel ao projeto universitário concebido por Darcy Ribeiro ou adotará, de forma crescente, a lógica gerencial que transforma professores em executores de protocolos e indicadores?

Recentemente, li com atenção o tutorial Elaboração e Cadastro de Disciplinas no Sistema Acadêmico, elaborado pela Pró-Reitoria de Graduação (ProGrad) da Universidade Estaudla do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). O documento busca orientar os docentes na elaboração dos programas analíticos das disciplinas e oferece contribuições importantes para organizar ementas, conteúdos programáticos, bibliografias e procedimentos administrativos. À primeira vista se trata de um esforço legítimo de qualificação da gestão acadêmica. Mas foi justamente essa leitura que despertou uma reflexão que extrapola o próprio documento. Ao estabelecer que os objetivos das disciplinas devem ser formulados utilizando verbos da Taxonomia de Bloom, o tutorial transforma uma ferramenta pedagógica em referência normativa para a elaboração dos programas das disciplinas.

Faço questão de deixar claro que esta reflexão não constitui uma crítica à Taxonomia de Bloom. Ao contrário, ela permanece uma das contribuições mais importantes para o planejamento pedagógico produzidas no século XX e continua sendo extremamente útil para milhares de professores em todo o mundo. O problema começa quando uma ferramenta de apoio deixa de ser uma possibilidade metodológica entre várias existentes e passa a funcionar como linguagem institucional obrigatória. Nesse momento, a discussão deixa de ser exclusivamente pedagógica e passa a envolver a própria concepção de universidade que estamos construindo.

A universidade pública sempre se caracterizou pelo pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas. Professores organizam suas disciplinas a partir de referenciais distintos, formulam objetivos educacionais de maneiras diferentes e constroem estratégias de ensino compatíveis com suas áreas de conhecimento. Essa diversidade não representa uma deficiência administrativa; ela constitui uma das expressões concretas da liberdade de cátedra assegurada pela Constituição Federal e uma condição indispensável para a produção de conhecimento crítico.

Entretanto, essa autonomia passou a conviver, nas últimas décadas, com uma lógica institucional bastante diferente. Desde os anos 1990, universidades em praticamente todo o mundo passaram por reformas inspiradas na chamada Nova Gestão Pública (New Public Management). Inicialmente apresentadas como mecanismos para aumentar a eficiência do setor público, essas reformas introduziram nas universidades princípios oriundos da administração empresarial, como indicadores de desempenho, metas, competências, auditorias, plataformas digitais e procedimentos padronizados.

Nenhum desses instrumentos parece problemático quando considerado isoladamente. O problema surge quando eles passam a reorganizar o cotidiano universitário. A atividade docente começa a ser mediada por novos formulários, novos indicadores, novos protocolos, novos sistemas digitais e novos critérios de avaliação. Cada uma dessas mudanças pode parecer tecnicamente justificável. Em conjunto, porém, elas alteram profundamente a cultura institucional. O tempo dedicado ao planejamento pedagógico, à reflexão científica e ao acompanhamento dos estudantes passa a disputar espaço com o preenchimento de plataformas digitais, a produção permanente de registros administrativos e a necessidade de demonstrar conformidade com protocolos institucionais. A atividade intelectual vai sendo reorganizada segundo critérios administrativos.

Foi exatamente esse processo que Marilena Chauí descreveu ao formular a ideia da universidade operacional. Segundo a filósofa, a universidade deixa gradualmente de se orientar pela produção crítica do conhecimento e passa a organizar suas atividades segundo critérios de eficiência, produtividade e desempenho.  Já Stephen Ball identifica movimento semelhante ao analisar aquilo que denomina cultura da performatividade, na qual a confiança na autonomia profissional dos docentes cede lugar a indicadores destinados a medir, comparar e auditar continuamente seu desempenho. O centro da atividade universitária desloca-se do conteúdo do trabalho acadêmico para a produção de evidências documentais de que esse trabalho atende aos padrões previamente estabelecidos.

É justamente nesse contexto que a Taxonomia de Bloom muda de função. Benjamin Bloom jamais concebeu sua taxonomia como mecanismo de controle institucional.  A intenção de Bloom era oferecer aos professores um instrumento para refletir sobre diferentes níveis de aprendizagem. No ambiente da universidade gerencializada, porém, essa ferramenta passa a facilitar a padronização dos programas das disciplinas, a produção de documentos comparáveis e a redução da diversidade de linguagens pedagógicas.  Com isso, Bloom deixa de ser apenas uma ferramenta didática para integrar uma tecnologia de gestão.

Não creio que esse tenha sido o objetivo da ProGrad ao elaborar seu tutorial. Ao contrário, o documento demonstra uma preocupação legítima com a qualidade dos programas das disciplinas e com a organização institucional. O problema reside no fato de que essa racionalidade gerencial tornou-se tão naturalizada nas universidades que frequentemente deixa de ser percebida como uma escolha política. Como argumentam Pierre Dardot e Christian Laval em A Nova Razão do Mundo, o neoliberalismo não constitui apenas um conjunto de políticas econômicas. Ele representa uma racionalidade que reorganiza instituições inteiras segundo princípios de competição, mensuração, desempenho e controle, apresentando essas transformações como se fossem meramente técnicas e inevitáveis.

Uma universidade pública precisa, evidentemente, de organização institucional. Precisa de programas consistentes, ementas claras, bibliografias atualizadas e critérios transparentes de avaliação. Mas organização não deve significar uniformização pedagógica. Talvez bastasse uma pequena alteração na redação do tutorial para preservar esse equilíbrio. Em vez de afirmar que os objetivos das disciplinas devem utilizar a Taxonomia de Bloom, seria suficiente reconhecê-la como uma referência pedagógica recomendada, entre outras igualmente legítimas.

Ao final dessa reflexão, contudo, permanece uma questão que ultrapassa em muito a redação dos objetivos de uma disciplina. Ela nos remete ao próprio projeto de universidade que desejamos construir. Darcy Ribeiro imaginou a Uenf como a Universidade do Terceiro Milênio: uma instituição inovadora, interdisciplinar, voltada para a produção de conhecimento de fronteira e comprometida com a transformação da realidade brasileira. Nada indica que Darcy rejeitasse planejamento, organização administrativa ou mecanismos de avaliação.  A trajetória de Darcy demonstra exatamente o contrário. O que parece muito menos compatível com seu pensamento é a substituição gradual da confiança na autonomia intelectual de seus professores por uma cultura baseada em protocolos, indicadores, plataformas digitais, métricas de desempenho e padronizações administrativas. Essa talvez seja uma das manifestações mais discretas — e justamente por isso mais eficazes — da racionalidade neoliberal nas universidades públicas. Ela não elimina formalmente a liberdade de cátedra, mas tende a restringi-la por meio da normalização das práticas acadêmicas.

Desta forma, se a Uenf pretende permanecer fiel ao projeto concebido por Darcy Ribeiro, precisará perguntar continuamente se cada nova norma, cada novo protocolo e cada novo sistema fortalecem a criatividade científica e a liberdade intelectual ou se aproximam a instituição dos cânones da universidade neoliberal. Essa talvez seja a pergunta mais importante que a comunidade universitária precisa enfrentar, porque dela depende não apenas a preservação da liberdade de cátedra, mas também a capacidade da Uenf de continuar sendo, no sentido mais profundo imaginado por Darcy Ribeiro, uma verdadeira Universidade do Terceiro Milênio.

Expansão portuária reduz território da pesca artesanal; estudo propõe incluir pescadores em decisões sobre novos projetos

Artigo propõe governança participativa do território como caminho para reduzir conflitos entre atividade portuária e pesca artesanalSegundo o estudo, a dinâmica de ocupação e uso do território marítimo ocorre em uma lógica de espoliação do direito de povos tradicionais. Foto: Mayra Jankowsky / Acervo Pesquisadores.

A expansão da área Portuária de Santos impacta diretamente a rotina de pescadores artesanais no litoral paulista. Uma das principais transformações é a redução dos territórios utilizados pela pesca, causando perda de lucratividade e ameaçando o sustento das comunidades. Há também aumento na poluição ambiental na região, com riscos associados a desastres, como colisões entre navios, vazamentos de carga e incêndios. Para minimizar conflitos entre a operação portuária e os modos de vida tradicionais, um novo estudo publicado na revista internacional Anthropocene Coasts na terça (28) propõe um Plano de Ação baseado no reconhecimento das comunidades pesqueiras locais e sua participação permanente na discussão e no licenciamento ambiental de novos projetos.

Para elaborar uma proposta de governança no território que contemplasse os interesses de diversos setores, as pesquisadoras Ingrid Cabral Machado, do Instituto de Pesca de São Paulo, e Mayra Jankowsky, da Universidade NOVA de Lisboa, realizaram diferentes etapas de coletas de dados. Primeiramente, organizaram grupos focais com 40 pescadores para entender a experiência desses trabalhadores com as atividades portuárias em Santos e a linha do tempo de impactos identificados. Eles destacaram que a autoridade portuária hoje cuida somente da parte operacional do Porto, sem atribuição de administrar o território como um todo. Os participantes também relataram ter participação limitada em espaços de decisão.

Em seguida, as pesquisadoras entrevistaram atores estratégicos — como a autoridade portuária, o gestor de uma área protegida adjacente, promotores estaduais e federais e representantes dos órgãos de licenciamento estaduais e federais. O próximo passo foi reunir esses atores institucionais e os pescadores em um workshop para discutir os cenários futuros e definir estratégias e prioridades para conciliar a gestão portuária com a produtividade, segurança e sustentabilidade da pesca artesanal.

O processo participativo resultou então na proposta de ações concretas em quatro eixos: a criação de um fórum permanente para o diálogo contínuo entre os atores; a revisão do processo de licenciamento ambiental considerando as áreas ocupadas, dinâmicas e saberes próprios das 24 comunidades pesqueiras da região; a participação dos pescadores em todas as etapas de instalação de novos projetos, com formação de comitê permanente; e a regulação das atividades portuárias, planejando atividades como dragagens em períodos que causem menor impacto à pesca.

A equipe de pesquisa tinha a expectativa de que os desastres fossem a categoria de impactos mais crítica para os pescadores. “Fomos surpreendidas pela grande preocupação dos pescadores com a instalação de infraestrutura portuária que provocam perdas territoriais permanentes e cumulativas, incluindo berçários, áreas de pesca e rotas de navegação”, observa Ingrid Machado. Ela também cita impactos invisibilizados, como a violência e a marginalização das comunidades, associadas às perdas econômicas e ao adoecimento mental e físico.

A autora explica que a dinâmica de ocupação e uso do território ocorre em uma lógica de espoliação do direito de povos tradicionais. Isso parte de uma percepção predominante de que a região é prioritariamente portuária, enquanto o território pesqueiro, apesar da função histórica, é visto como menos importante. “Como os impactos do Porto não são novidade, é mais conveniente, frente ao grande desafio da gestão, considerar o território em sobreposição como zona de sacrifício, sob a alegação de que outras áreas seriam poupadas e que caberia aos pescadores e pescadoras se adaptarem por conta própria”, pontua.

Para Machado, a governança participativa é o principal caminho para transformar esse cenário e evitar que a expansão portuária inviabilize a pesca artesanal. O Plano de Ação elaborado pela pesquisa representa o início desse processo, mas depende do engajamento dos atores institucionais, do fortalecimento da participação das 24 comunidades pesqueiras reconhecidas pelo estudo e do suporte à continuidade das pesquisas na região.


Fonte: Agência Bori