Do Flamboyant ao Jardim São Benedito: o massacre da serra elétrica continua

A postagem sobre o “massacre da serra elétrica” no Flamboyant mostrou como a retirada ou a mutilação de árvores urbanas converte bairros em espaços mais expostos ao sol e ao calor. As imagens feitas nesta quarta-feira, 30 de setembro, no Jardim São Benedito, indicam que aquele episódio pode não ser um caso isolado: a sequência de cortes registrada no entorno da Praça Nilo Peçanha dá a impressão de um massacre da serra elétrica continuado. 

As fotografias mostram ramos estruturais cortados, copas visivelmente reduzidas em algumas árvores e grande quantidade de galhos removidos acumulados junto à calçada. Em certos registros, a intensidade dos cortes permite falar, ao menos em termos visuais, em poda severa ou drástica. A avaliação definitiva da técnica e dos danos exige inspeção presencial por profissional habilitado, mas as imagens já levantam uma questão incontornável: que planejamento orienta a intervenção e como se pretende preservar a cobertura arbórea de um espaço público central?

Há ainda a questão do tratamento dos cortes. As imagens não permitem verificar se foi aplicada calda bordalesa ou outro produto; portanto, não cabe afirmar que houve omissão. Cabe, isso sim, cobrar que a Prefeitura informe quais procedimentos foram adotados, qual foi o critério para cada corte e se houve acompanhamento técnico. A poda urbana não deveria ser uma operação opaca, executada sem explicação pública sobre seus objetivos e efeitos.

O Jardim São Benedito é uma área de convivência e um refúgio de sombra em meio ao tecido urbano. Reduzir copas de forma intensa significa diminuir serviços ambientais que levam anos para se recompor: sombra, conforto térmico, abrigo para a fauna e qualidade da paisagem. Essa intervenção também prejudica a adaptação climática da cidade, justamente quando Campos dos Goytacazes precisa ampliar e preservar sua arborização para enfrentar o calor crescente. E há um agravante simbólico: depredar o estoque arbóreo de uma das poucas áreas verdes da cidade transmite à população o péssimo exemplo de que árvores públicas são descartáveis. Quando episódios como o do Flamboyant se repetem no Jardim São Benedito, a pergunta deixa de ser apenas se uma poda foi bem executada. Passa a ser se existe uma política de manejo que proteja as árvores ou se a motosserra virou, na prática, o principal instrumento de gestão da arborização urbana.

Rolex de R$ 305 mil, festas e suspeita de lobby: as revelações do ex-sócio de Flávio Bolsonaro

Reportagem do PlatôBR reúne relatos sobre festas com garotas de programa, um Rolex de R$ 305 mil, despesas pessoais pagas por terceiros e uma possível intermediação junto ao ministro Kassio Nunes Marques

A reportagem publicada pelo PlatôBR em 29 de setembro reúne mensagens, documentos e relatos de Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio Bolsonaro. Segundo o veículo, esse material aponta que o senador teria participado de festas com garotas de programa, recebido presentes e despesas de alto valor pagos por pessoas próximas e atuado para aproximar interesses de um cliente do ex-sócio do ministro Kassio Nunes Marques, do STF. Entre os itens citados estão um Rolex avaliado em R$ 305 mil e equipamentos de academia que teriam custado mais de R$ 90 mil. São alegações que exigem apuração rigorosa, contraditório e respostas dos envolvidos — não conclusões antecipadas sobre responsabilidade criminal.

Flávio Bolsonaro não respondeu às perguntas relatadas pelo UOL e, questionado por jornalistas, evitou comentar o caso. A assessoria de Nunes Marques afirmou que o ministro recebe parlamentares de todos os partidos e que isso não compromete sua imparcialidade; essa resposta, porém, não esclarece por si só as circunstâncias específicas mencionadas na reportagem.

O aspecto que merece atenção para além do conteúdo da denúncia é a dimensão dada a ela pelos grandes veículos. Há uma diferença entre publicar uma matéria e incorporá-la de fato à agenda pública: acompanhar os desdobramentos, cobrar explicações, contextualizar as relações políticas e manter o assunto visível. Uma cobertura concentrada em notas breves, ou que rapidamente desaparece das manchetes, pode reduzir o peso público de revelações relevantes justamente quando o personagem envolvido disputa a Presidência.

Não é correto afirmar que toda a mídia corporativa ignorou o caso: UOL e Folha, por exemplo, publicaram matérias sobre a reportagem, e outros veículos também repercutiram seus elementos. A questão, portanto, não é uma ausência absoluta, mas a intensidade, a continuidade e o destaque concedidos. É aí que a comparação com a cobertura de notícias envolvendo Lula e sua família se torna pertinente: quando denúncias atingem o presidente ou seus parentes, elas frequentemente ocupam o centro do noticiário por dias, com sucessivas entrevistas, análises e cobranças. Se revelações sobre Flávio Bolsonaro recebem tratamento mais discreto ou episódico, a assimetria precisa ser exposta e discutida.

Essa diferença de tratamento não prova, por si só, uma coordenação editorial para favorecer uma candidatura. Mas seus efeitos são políticos, ainda que não haja uma ordem explícita: o que ganha destaque se torna assunto nacional; o que recebe pouca atenção corre o risco de ser tratado como ruído. Em uma eleição presidencial, a seleção e a hierarquização das notícias influenciam o que os eleitores conseguem conhecer e comparar.

O caso também não pode ser reduzido à vida privada do filho primogênito de  Jair  Bolsonaro. O interesse público está nas perguntas sobre presentes de alto valor, despesas pessoais pagas por terceiros e possíveis intermediações em favor de interesses privados junto a um ministro do STF. Se confirmadas, essas circunstâncias levantarão questões éticas, políticas e, dependendo das provas e do enquadramento jurídico, legais. Desta forma, cabe à mídia corporativa esclarecer o que os documentos comprovam, o que permanece como alegação e quais respostas ainda faltam.

A mídia corporativa tem a obrigação de tratar todos os candidatos com os mesmos critérios. Mas, quando reserva manchetes, comentários e cobranças insistentes para Lula e sua família e oferece a Flávio Bolsonaro um noticiário mais contido diante de revelações  claramente graves, deixa de apenas selecionar notícias: pratica dois pesos e duas medidas com consequências eleitorais. Depois, será difícil invocar com credibilidade o direito à liberdade de expressão para se apresentar como vítima de censura, se esse direito tiver sido usado seletivamente para favorecer uma candidatura e poupar seus candidatos de um escrutínio público proporcional. O silêncio também comunica — e, neste caso, pode funcionar como peça de campanha.

Massacre da serra elétrica no Flamboyant: para cada cinco árvores removidas, uma muda plantada

Levantamento preliminar no bairro encontrou uma reposição muito inferior ao número de árvores removidas. A pesquisa agora precisa verificar se esse padrão se repete em outras áreas da cidade

Uma das primeiras pesquisas que realizei como professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) teve como objeto a arborização urbana em Campos dos Goytacazes. O estudo resultou na primeira dissertação concluída sob minha orientação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF, no já distante ano de 2001.

Uma das principais descobertas foi que a arborização dos bairros estudados acompanhava um critério de renda. O Flamboyant se destacou por ter mais árvores e maior diversidade de espécies. Outro dado importante: ali, o plantio havia ocorrido por iniciativa dos próprios moradores, e não do poder público municipal. Na época, o estudo registrou uma proporção de quatro vezes mais árvores no Flamboyant, em comparação com os bairros periféricos que foram analisados em uma mesma quantidade de metros quadrados.

Voltei recentemente a estudar a arborização urbana de Campos, motivado pela necessidade de compreender como a cidade está enfrentando o agravamento das mudanças climáticas, entre cujos efeitos está o aumento das temperaturas. Também pesou nessa decisão uma constatação empírica: vivemos um período de remoção acelerada de árvores, em parte associado às prioridades impostas pela ocupação das vias públicas por redes aéreas, inclusive as da concessionária de energia elétrica.

A ciência mostra que as árvores podem ajudar a reduzir o calor urbano por dois mecanismos principais. A copa intercepta parte da radiação solar, sombreando o solo, as calçadas e os edifícios; além disso, a evapotranspiração transfere energia para a evaporação da água, em vez de deixá-la aquecer as superfícies e o ar ao redor. A vegetação também pode melhorar o conforto térmico de quem caminha ou permanece nas ruas. A intensidade desses efeitos varia conforme as espécies, o tamanho e a densidade das copas, a disponibilidade de água, o desenho das ruas e a forma como os edifícios influenciam a circulação do ar. Por isso, arborizar exige planejamento, continuidade e escolha adequada das espécies, além de proteger as árvores já adultas, cujo porte oferece sombra que uma muda recém-plantada ainda não pode proporcionar. 

As árvores também podem reter parte do material particulado em suas folhas e reduzir a exposição direta ao sol. Mas os efeitos sobre a qualidade do ar dependem do local e do desenho urbano: copas muito densas em ruas estreitas, por exemplo, podem alterar a circulação do ar e dificultar a dispersão de poluentes. A vegetação ainda pode contribuir para atenuar ruídos, embora esse efeito dependa da largura e da densidade da barreira vegetal. Portanto, a arborização favorece a saúde e o conforto urbano, mas não substitui medidas de controle das fontes de poluição, do ruído e do calor. 

Um dos primeiros dados que estamos levantando em uma investigação de campo diz respeito ao número de árvores removidas das vias públicas e de mudas plantadas para, em tese, repor o estoque arbóreo. Decidimos começar pelo Flamboyant, que há 25 anos apareceu como o bairro mais arborizado e com maior diversidade de espécies entre os locais estudados.

Os números preliminares são reveladores de um verdadeiro massacre da serra elétrica acontecendo sob nossos narizes. Somente no Flamboyant, identificamos uma desproporção entre árvores removidas e plantadas de 5,2 para 1. Em outras palavras, para cada cinco árvores removidas, apenas uma foi reposta (ver a figura abaixo).

A perda de árvores pode significar menos sombra, maior exposição das superfícies à radiação solar e menor capacidade de resfriamento por evapotranspiração. Isso tende a agravar o desconforto térmico nas ruas e pode aumentar a necessidade de refrigeração em residências e estabelecimentos. A redução da vegetação também pode diminuir a retenção de partículas e a atenuação do ruído, embora a dimensão desses efeitos precise ser verificada por medições locais. A questão, portanto, vai muito além da estética: envolve conforto, saúde pública e desigualdade no acesso a condições ambientais mais seguras. Estudos de saúde pública associam os espaços verdes à redução da exposição ao calor excessivo, à poluição do ar e ao ruído, mas a intensidade dos benefícios depende do contexto urbano e da distribuição dessas áreas. 

Se o Flamboyant ainda conserva uma cobertura arbórea superior à de muitos bairros periféricos, é razoável investigar se a situação nesses bairros é ainda mais grave. A hipótese de que a remoção de árvores não se restringe ao Flamboyant precisa ser testada com dados, mas o que observo cotidianamente torna essa investigação urgente.

Graças aos avanços no sensoriamento remoto e aos métodos de avaliação das árvores em campo, a pesquisa que estamos iniciando deverá alcançar outros bairros e incluir medições de diferentes variáveis relacionadas ao estoque arbóreo das vias públicas. Isso permitirá comparar não apenas a quantidade de árvores, mas também sua distribuição, a cobertura das copas, a diversidade de espécies e as condições em que as árvores estão crescendo.

Uma coisa é certa: se o padrão encontrado no Flamboyant se repetir em outras áreas, estaremos diante de um problema grave de preparação para a adaptação climática. Em Campos, essa necessidade parece estar sendo empurrada para as calendas. As árvores não substituem políticas mais amplas de adaptação, mas sua distribuição e conservação são parte concreta da resposta ao calor urbano — e precisam ser tratadas como infraestrutura pública, não como ornamento descartável.

O custo social da perda dessa infraestrutura pode ficar ainda mais evidente nos próximos meses, caso se confirmem as previsões de altas temperaturas e escassez de chuvas associadas ao El Niño. A cidade não pode esperar que o calor extremo torne impossível ignorar aquilo que a remoção das árvores já está anunciando.

São João da Barra: o PIB atravessa o porto, a riqueza não cruza a cerca

Uma reportagem publicada nesta terça-feira (29) pelo Tempo Real RJ expõe uma contradição que deveria constranger os defensores da ideia de que um grande empreendimento, por si só, produz desenvolvimento: São João da Barra aparece com o terceiro maior PIB do estado do Rio de Janeiro, enquanto mais de 70% de sua população está inscrita no Cadastro Único. O número exige uma leitura cuidadosa: estar no CadÚnico não significa que todas essas pessoas vivam na pobreza ou recebam Bolsa Família. Ainda assim, o contraste entre a dimensão da economia municipal e a quantidade de moradores que recorrem ao cadastro social é eloquente.

O PIB per capita de São João da Barra chegou a R$ 382.417,42 em 2023, segundo o IBGE. Mas essa cifra resulta da divisão de tudo o que é produzido no município pelo número de habitantes; não representa a renda recebida por cada morador. No caso de uma economia marcada por grandes operações portuárias, energéticas e petrolíferas, confundir as duas coisas é especialmente conveniente para quem prefere celebrar indicadores a examinar a distribuição da riqueza.

O Porto do Açu ajuda a explicar essa distância entre produção e condições de vida. A Prumo, responsável pelo desenvolvimento do complexo, é controlada pela EIG Global Energy Partners, gestora internacional de investimentos em energia e infraestrutura. A própria empresa identifica a EIG como sua controladora. Assim, decisões centrais sobre o uso de uma extensa área do território sanjoanense estão ligadas a uma estratégia de valorização de ativos que ultrapassa, em muito, as necessidades do município.

Chamar o Porto do Açu de enclave de recursos é uma interpretação política e territorial dessa estrutura. Terra, acesso marítimo, infraestrutura, energia e água são organizados para atender cadeias de negócios de grande escala. O complexo movimenta atividades que entram na contabilidade local, mas sua presença não garante, automaticamente, renda bem distribuída, serviços públicos proporcionais ou poder de decisão para as comunidades vizinhas. O dado trazido pelo Tempo Real RJ é um motivo concreto para cobrar essa prestação de contas.

O peso das estatais no negócio privado

Há ainda uma ironia pouco discutida: a consolidação desse empreendimento sob controle privado internacional conta com a participação de empresas estatais. A SPIC Brasil, ligada à estatal chinesa State Power Investment Corporation, adquiriu 33% dos projetos termelétricos GNA I e GNA II. No mesmo anúncio, a Prumo informou que a GNA II havia firmado financiamento de US$ 737 milhões com o BNDES. São formas distintas de participação, mas ambas mostram que a expansão do complexo depende também de capital e capacidade institucional associados ao Estado. A SPIC é sócia dos projetos de geração de energia; isso não significa que controle o Porto do Açu. 

O resultado é uma combinação que merece escrutínio público: uma gestora internacional controla a empresa que desenvolve o porto; uma estatal chinesa participa de negócios estratégicos dentro dele; e financiamento público brasileiro integra a construção de parte dessa infraestrutura. Enquanto isso, os moradores de São João da Barra precisam demonstrar sua condição socioeconômica para acessar políticas sociais. A pergunta não é se o porto produz riqueza. Os números indicam que produz. A pergunta é quem a controla, quem se apropria dos seus resultados e quanto dela chega à população que vive no território.

A reportagem do Tempo Real RJ oferece um ponto de partida para essa discussão. Se o PIB bilionário continuar sendo apresentado como prova suficiente de sucesso, o desenvolvimento de São João da Barra permanecerá preso à fotografia tirada do lado de dentro da cerca. Do lado de fora, vivem as pessoas que também deveriam aparecer no balanço.

Ato do MAPA expõe a engrenagem do mercado de agrotóxicos — e o avanço do colonialismo químico Sul-Sul

A publicação de mais um ato de pós-registro pelo Ministério da Agricultura oferece uma oportunidade para olhar além da lista de autorizações e alterações administrativas. O Ato nº 60, de 22 de setembro de 2026, reúne decisões sobre importação, inclusão de fabricantes e produtos técnicos e mudanças nas recomendações de uso de agrotóxicos já registrados. Ao compará-lo com atos anteriores, reaparece uma questão que merece atenção: como a expansão do mercado brasileiro se articula à crescente presença de fornecedores chineses e às desigualdades que podem caracterizar um colonialismo químico também entre países do Sul Global?

O registro não encerra a expansão

O Ato nº 60 confirma um padrão identificado em outros atos de pós-registro analisados pelo Blog do Pedlowski: depois que um agrotóxico recebe registro, sua cadeia de fornecimento continua sendo reorganizada. O MAPA autoriza novos importadores, inclui fabricantes e formuladores, acrescenta produtos técnicos a formulações já registradas e altera recomendações de uso.

O registro, portanto, não encerra o processo. Ele também funciona como base para ampliar as fontes de abastecimento, as marcas disponíveis e, em alguns casos, as possibilidades de uso dos produtos. O Ato nº 60 contém 200 itens, mas esse número não corresponde necessariamente a 200 decisões substantivamente distintas: há itens que repetem informações, retificam decisões anteriores ou tratam de vários produtos no mesmo processo.

O que o Ato nº 60 acrescenta

Entre as mudanças estão inclusões de produtos técnicos — como tebuconazol, glifosato, diquat, triclopir e clorantraniliprole — em formulações já registradas. Há também autorizações para diversas empresas importarem produtos registrados e inclusões de novos formuladores, inclusive empresas com endereços na China.

Essas decisões precisam ser distinguidas. Autorizar uma empresa a importar não comprova que o produto foi efetivamente importado ou vendido. Incluir um produto técnico ou um formulador também não significa, por si só, que o uso agrícola foi ampliado. Mas as decisões mostram como se diversificam as fontes de fornecimento e se reorganiza a circulação comercial dos produtos registrados.

O ato contém, além disso, alterações de recomendações de uso: inclusão de culturas e alvos biológicos, autorização de aplicação aérea do Sevin 480 SC em batata e inclusão de uso em dessecação de manejo para produtos à base de glifosato. No caso do Acehero, uma das alterações para uso em algodão registra aumento de dose. Estas são mudanças que justificam atenção especial, pois podem alterar as condições previstas para a aplicação dos produtos.

A presença chinesa na cadeia

A presença de empresas chinesas não é um episódio isolado. Nos atos anteriores analisados pelo Blog, foram identificadas numerosas inclusões de unidades industriais localizadas na China, especialmente como fabricantes e formuladores. O Ato nº 60 mantém essa tendência ao incorporar empresas chinesas à cadeia produtiva de produtos já registrados e ao registrar produtos técnicos associados a fornecedores estrangeiros.

Isso aponta para a importância crescente da indústria química chinesa no abastecimento de agrotóxicos ao Brasil. Mas o ato, isoladamente, não permite calcular a participação chinesa no mercado, medir volumes importados ou atribuir origem chinesa a todos os produtos mencionados. Para isso, é necessário cruzar os registros com dados de importação, produção, formulação e comercialização.

O próprio MAPA exige o envio de dados anuais sobre essas quantidades. A questão, portanto, pode e deve ser investigada: em que medida a ampliação das fontes industriais mencionadas nos atos se converte em dependência material do Brasil em relação a determinados polos de produção?

Genéricos, produtos banidos e cautela regulatória

A presença chinesa e a condição de “agrotóxico banido” são questões diferentes. O país onde está localizada uma fábrica não determina a situação regulatória do ingrediente ativo no Brasil, na União Europeia ou em outro país. Da mesma forma, “genérico” não significa automaticamente produto proibido ou de menor qualidade; o termo costuma designar produtos equivalentes que utilizam ingredientes ativos já conhecidos e registrados.

O Ato nº 60 autoriza, por exemplo, a importação do Clorpirifós Sabero 480 EC. A União Europeia não renovou a aprovação do clorpirifós para uso em produtos fitossanitários em 2020. Isso não torna automaticamente irregular sua autorização no Brasil: são jurisdições distintas, com regras e decisões próprias. Mas evidencia a coexistência de padrões regulatórios diferentes e reforça a necessidade de informar quais substâncias entram no mercado brasileiro, por quais empresas e para quais usos. A situação de cada ingrediente precisa ser verificada individualmente; não se deve presumir que todo produto à base de diquat ou glifosato, por exemplo, esteja banido na União Europeia.

O balanço divulgado pelo MAPA informa que, em 2025, foram registrados 101 produtos equivalentes ou genéricos, além de um produto químico com ingrediente ativo inédito. Esse dado não prova que os produtos equivalentes sejam de origem chinesa ou que estejam banidos em outros países. Mas, junto com as inclusões de fornecedores e formuladores nos atos de pós-registro, mostra que a oferta pode se expandir sem depender apenas da aprovação de novas moléculas.

Colonialismo químico Sul-Sul

É nesse contexto que cabe acrescentar a ideia de colonialismo químico Sul-Sul. O conceito chama atenção para relações desiguais que também podem ocorrer entre países do Sul Global: a transferência de produtos, riscos e custos ambientais e sanitários de economias mais industrializadas para países que mantêm mercados amplos para substâncias rejeitadas ou não renovadas em outros lugares.

Isso não significa equiparar automaticamente China e Brasil, nem atribuir a uma única origem nacional toda a responsabilidade pelo modelo. Empresas europeias, norte-americanas, chinesas e de outros países participam do mercado brasileiro. O problema está na posição ocupada pelo país nessa divisão internacional: o Brasil pode se tornar destino de produtos e substâncias que enfrentam restrições em certas jurisdições, enquanto sua produção agrícola se integra às cadeias globais de commodities e sua população e seus territórios absorvem parte dos riscos.

A dimensão Sul-Sul torna a discussão mais complexa. A China é uma potência industrial e grande fornecedora de insumos químicos; o Brasil é uma potência agroexportadora e um dos maiores mercados consumidores de agrotóxicos. A relação entre ambos pode ampliar a oferta de produtos equivalentes e reduzir custos para o agronegócio brasileiro, mas também pode consolidar uma dependência de insumos externos e reproduzir uma geografia desigual de riscos. A origem sulista do fornecedor não elimina a possibilidade de relações assimétricas ou de transferência de danos.

O que o ato permite concluir

O Ato nº 60 confirma a continuidade de uma infraestrutura de expansão e reorganização do mercado: incorpora novas fontes industriais, autoriza importadores e altera recomendações de uso. Também contém cancelamentos e exclusões, mostrando que o pós-registro pode retirar ou restringir componentes dessa estrutura.

O documento, sozinho, não demonstra a escala da hegemonia chinesa nem o volume de produtos proibidos em outros países que chega ao Brasil. Permite, porém, identificar uma agenda de investigação: cruzar cada ingrediente ativo com sua situação regulatória internacional e relacionar os registros a dados de importação e comercialização.

Como essas decisões aparecem dispersas em longas listas técnicas, o pós-registro não pode ser tratado como mera burocracia cadastral. É uma parte central da política que organiza quem fornece os agrotóxicos, como eles circulam e sob quais condições são usados. O escrutínio público precisa acompanhar essa engrenagem — inclusive quando as assimetrias se estabelecem entre países do próprio Sul Global.

A vaidade também aceita convites para a academia

Há golpes que prometem dinheiro fácil.  O investigado pelo jornalista Max Kozlov, em reportagem publicada pela Nature, oferece algo talvez ainda mais sedutor para quem vive no mundo acadêmico: distinção. Segundo a investigação, uma rede de organizações apresentadas como sociedades científicas prestigiosas vem atraindo pesquisadores de destaque por meio de práticas enganosas. A reportagem começa com o caso de Julia Hirschberg, que acreditou ter sido eleita para a European Academy of Engineering, instituição que se anuncia como uma das mais importantes de sua área.

O mecanismo é tão simples quanto constrangedor. Basta oferecer a um cientista a perspectiva de acrescentar mais uma honraria ao currículo. O nome da entidade soa respeitável, o convite parece exclusivo e a promessa de reconhecimento faz o resto. É preciso cobrar explicações de quem constrói essas fachadas de prestígio; também é preciso admitir que elas encontram terreno fértil numa academia cada vez mais obcecada por títulos, rankings e sinais exteriores de excelência.

Isso não significa culpar quem recebeu um convite enganoso. Significa perguntar por que uma eleição para uma entidade pouco conhecida pode ser recebida como consagração antes mesmo de se examinar quem a dirige, como escolhe seus membros e o que efetivamente faz. Quando a aparência de prestígio passa a valer tanto quanto o trabalho científico, alguém acaba descobrindo que há mercado para fabricar aparências.

A investigação da Nature merece atenção justamente por expor essa vulnerabilidade. A ciência depende de reconhecimento entre pares, mas esse reconhecimento perde o sentido quando pode ser encenado por organizações de fachada e incorporado, sem escrutínio, à vitrine dos currículos. No fim, a frase do Diabo interpretado por Al Pacino em Advogado do Diabo parece menos uma fala de cinema do que um diagnóstico da armadilha: “Vaidade, meu pecado favorito.”

Da censura ao exílio: a perseguição a quem pesquisa agrotóxicos

Em “Virginia Aparicio: Ciencia pública, persecución del INTA y un mensaje aleccionador”, publicado por Naturaleza.ar em 20 de setembro de 2026, Fernando Cabaleiro apresenta o caso da pesquisadora do INTA e do CONICET como parte de uma história de pressões e perseguições contra cientistas cujas pesquisas produzem evidências incômodas para os interesses do agronegócio. Seu argumento central é que a punição de uma pesquisadora não atinge apenas sua carreira: ameaça também a continuidade de linhas de pesquisa e o direito das comunidades afetadas de conhecer os resultados.

Aparicio dedicou cerca de 25 anos a estudar o destino dos plaguicidas no ambiente: sua persistência e degradação, os deslocamentos pelo solo, pela água e pelo ar, e sua presença nos organismos. Cabaleiro destaca a importância desse trabalho para os povos fumigados, cujas denúncias sobre contaminação, sintomas e exposição precisavam ser acompanhadas por evidências capazes de ser examinadas por órgãos públicos e tribunais.

O caso de Pergamino mostra como essa produção científica pode ter consequências concretas. Segundo o artigo, Aparicio atuou como perita numa investigação sobre contaminação ambiental relacionada à aplicação de agrotóxicos. As análises encontraram diversos princípios ativos na água consumida pela população. A metodologia foi examinada no processo judicial, e o tribunal a considerou cientificamente respaldada. Para Cabaleiro, esse trabalho ajudou a aproximar o conhecimento produzido em laboratório das demandas das comunidades e da busca por justiça.

O autor relaciona a situação de Aparicio à de Andrés Carrasco, pesquisador do CONICET e professor da Universidade de Buenos Aires. Depois de divulgar, em 2009, resultados de seus estudos sobre os efeitos do glifosato no desenvolvimento embrionário, Carrasco enfrentou questionamentos, pressões e tentativas de isolamento. Cabaleiro relata que o próprio pesquisador interpretava a negativa de sua promoção a pesquisador superior como parte de um processo de ostracismo ligado à sua decisão de investigar e comunicar resultados que questionavam a segurança de um herbicida amplamente utilizado.

O texto também percorre casos internacionais. Árpád Pusztai, pesquisador do Rowett Research Institute, foi suspenso dois dias depois de comunicar resultados preliminares de experimentos com batatas geneticamente modificadas. David Quist e Ignacio Chapela, autores de um estudo sobre a presença de sequências transgênicas em variedades tradicionais de milho de Oaxaca, viram seu trabalho cercado por controvérsias científicas e institucionais. Gilles-Éric Séralini enfrentou críticas metodológicas e a retratação de um estudo sobre milho transgênico e Roundup. Tyrone Hayes, que pesquisou os efeitos da atrazina em anfíbios, denunciou obstáculos à divulgação de resultados e ações para abalar sua credibilidade. Shiv Chopra, cientista regulador canadense, sofreu sanções e foi demitido após questionar a segurança de produtos destinados à cadeia alimentar.

Cabaleiro aproxima ainda o caso da geógrafa Larissa Mies Bombardi, pprofessora da USP que estudou o uso de agrotóxicos no país e suas relações comerciais com a União Europeia. Depois de publicar seu atlas, Bombardi recebeu intimidações profissionais e pessoais, campanhas de desqualificação e ameaças de morte. A pressão a levou a deixar o Brasil e continuar sua atividade científica na Europa.

As situações descritas não são iguais, e o próprio artigo reconhece que cada uma deve ser analisada de acordo com as particularidades da pesquisa e das disputas envolvidas. O traço comum que Cabaleiro identifica é o risco de a controvérsia deixar de ser enfrentada por meio de crítica, revisão, novas medições e acesso aos dados, e passar a atingir as condições de trabalho, a reputação, a carreira e a vida pessoal de quem pesquisa.

É nesse sentido que a situação de Aparicio transmite, segundo Cabaleiro, uma mensagem que ultrapassa seu caso individual. Quando uma cientista que produziu conhecimento relevante para comunidades expostas enfrenta um processo que pode resultar em sua exoneração, outros pesquisadores podem entender que certas perguntas põem em risco sua própria trajetória. Defender Aparicio significa, portanto, defender a liberdade de investigar e comunicar resultados, a independência da ciência pública e o direito dos povos fumigados de contar com conhecimento científico sobre aquilo que afeta suas vidas.

Flávio Bolsonaro, a padroeira e o lobo: credibilidade não se recupera por decreto

A reportagem de Marina Verenicz, publicada pelo InfoMoney em 24 de agosto, registra uma declaração que ajuda a compreender o embaraço de Flávio Bolsonaro na polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Ao anunciar que um de seus primeiros atos como presidente seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, o candidato fez um aceno explícito ao eleitorado evangélico e colocou a autoridade presidencial a serviço de uma afirmação religiosa. Agora, essa mesma declaração dificulta sua tentativa de convencer o público de que não pretende transportar para o governo a instrumentalização da fé que pratica na campanha.

É preciso distinguir, contudo, a declaração documentada da intenção que lhe foi atribuída. A promessa de Flávio Bolsonaro não comprova que ele pretenda retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Como explicou Filipe Pereira, da CNN Brasil, conteúdos nas redes associaram sua fala a um projeto antigo, arquivado em 2008. A notícia do InfoMoney, portanto, não desmente seu desmentido, mas ajuda a compreender por que ele encontra dificuldades para encerrar a controvérsia: foi o próprio candidato quem prometeu usar a Presidência para decretar o pertencimento religioso do país.

Também seria equivocado tratar uma referência a Jesus Cristo como necessariamente hostil aos católicos, cuja fé é cristã. O problema está no uso eleitoral dessa linguagem e na expectativa que ela produz sobre o exercício do poder. Ao apresentar uma declaração religiosa como providência inaugural de governo, Flávio Bolsonaro oferece motivos para questionar como lidaria com a diversidade de crenças da sociedade brasileira. Depois disso, torna-se politicamente mais difícil assegurar que suas promessas confessionais não terão consequências para quem está fora do segmento que busca mobilizar.

Essa dificuldade se agrava pelo histórico de suas próprias negativas. Em reportagem publicada na Folha de S.Paulo em 13 de maio, Raphael Di Cunto mostrou que Flávio Bolsonaro havia negado qualquer contato com Daniel Vorcaro dois meses antes de admitir que conhecia o banqueiro e que lhe pedira financiamento para o filme sobre Jair Bolsonaro. Nesse episódio, a contradição não depende de interpretação adversária: a versão inicial foi desmentida pelo reconhecimento posterior do próprio senador. É um antecedente que compromete a força de sua palavra quando surge uma nova controvérsia.

Cabe aqui a comparação com a fábula de “Pedro e o Lobo”: depois de anunciar repetidamente um perigo inexistente, Pedro perde a confiança dos moradores e acaba sozinho quando o lobo finalmente aparece. A analogia com Flávio Bolsonaro está no mecanismo de desgaste da credibilidade. Quem já apresentou uma negativa incompatível com os fatos pode encontrar resistência quando precisa ser acreditado, inclusive numa ocasião em que esteja dizendo a verdade. Isso não torna verdadeiro o boato sobre Nossa Senhora Aparecida, mas explica por que seu enfrentamento exige mais do que uma declaração indignada.

Flávio Bolsonaro se vê, assim, diante de uma dificuldade produzida pela combinação entre sua retórica religiosa e a confiança que ele próprio ajudou a corroer. A promessa registrada pelo InfoMoney oferece combustível à controvérsia, enquanto a contradição no caso Vorcaro enfraquece sua capacidade de apagá-la. O candidato pode negar uma intenção que não foi demonstrada, mas não pode exigir que o eleitorado esqueça suas palavras anteriores. Para quem prometeu decretar a quem pertence o Brasil, fica uma lição inconveniente: credibilidade não se recupera por decreto.

A esquerda depois de Lula: ou construímos alternativas agora ou chegaremos atrasados ao futuro

ortalecer os partidos da esquerda autônoma não é apenas uma questão eleitoral em 2026, mas uma necessidade estratégica para formar novas lideranças, ampliar a disputa programática e preparar as forças que enfrentarão os embates sociais, políticos e ambientais de um Brasil que não poderá permanecer indefinidamente organizado em torno de Lula

As eleições presidenciais de 2026 estão ocorrendo com uma pluralidade política que aparece muito menos no debate público do que deveria. Além das duas candidaturas que concentram a maior parte da cobertura — Lula e Flávio Bolsonaro —, existem partidos de esquerda que disputam as eleições fora do arco político organizado em torno do PT. PCB, PCO, PSTU e UP apresentam candidaturas presidenciais próprias, além de candidatos aos demais cargos, e colocam em circulação programas e interpretações sobre o Brasil que mereceriam ser conhecidos e debatidos.

O problema não está apenas no tamanho eleitoral dessas candidaturas. Está no fato de que, quando elas praticamente desaparecem da cobertura jornalística e do debate político cotidiano, desaparecem também determinadas questões que dificilmente ocuparão posição central numa disputa reduzida a Lula versus Flávio Bolsonaro. O resultado é uma eleição apresentada como escolha quase binária, embora o primeiro turno exista justamente para permitir uma expressão mais ampla das diferenças existentes na sociedade.

O primeiro turno não deve ser transformado antecipadamente em segundo turno

Nas últimas semanas tenho acompanhado apelos para que eleitores identificados com a esquerda concentrem seus votos em Lula já no primeiro turno, sob o argumento de que seria necessário encerrar imediatamente a disputa e impedir qualquer possibilidade de vitória da extrema-direita.

Compreendo perfeitamente a preocupação que sustenta esse argumento. Entretanto, não considero que ela elimine uma questão política anterior: se todas as eleições forem tratadas desde o primeiro turno como uma escolha defensiva entre o PT e a direita, quando haverá espaço para construir alternativas de esquerda ao próprio PT?

Nesse aspecto, considero pertinente a reflexão feita pelo ex-vereador Renato Cinco em suas redes sociais. A existência de dois turnos permite que o primeiro seja também um momento de apresentação de programas, afirmação de diferenças e construção de forças políticas. Transformá-lo antecipadamente em segundo turno significa reduzir justamente o espaço institucional no qual alternativas minoritárias podem apresentar suas propostas à sociedade.

O problema não é apenas eleitoral

Há uma questão ainda mais profunda. PCB, PCO, PSTU e UP não precisam apenas de votos. Precisam conquistar maior presença social, capacidade organizativa, inserção sindical e popular, produção intelectual, comunicação própria e formação de novas lideranças.

Uma esquerda que somente aparece durante as eleições continuará condenada à marginalidade. Mas uma esquerda que transforma a eleição em instrumento para ampliar sua organização pode acumular forças mesmo quando seus resultados eleitorais imediatos forem modestos.

Esse ponto me parece especialmente importante porque parte significativa da esquerda brasileira passou décadas gravitando em torno do PT e, sobretudo, em torno da liderança de Lula. Essa centralidade possui razões históricas evidentes: Lula é uma das mais importantes lideranças políticas surgidas no Brasil contemporâneo. Mas justamente por isso a dependência prolongada de uma única liderança produz um problema que a esquerda brasileira terá inevitavelmente de enfrentar.

O Brasil precisa pensar a esquerda depois de Lula

Lula tem 80 anos e, independentemente do resultado de 2026, a esquerda brasileira precisa discutir seriamente sua renovação geracional e programática. O problema não é desejar ou antecipar sua saída da política, mas reconhecer algo elementar: nenhuma força política pode organizar seu futuro indefinidamente em torno de uma única liderança.

Dentro do PT e dos partidos que compõem seu campo de alianças, a enorme centralidade política e eleitoral de Lula dificulta o aparecimento de lideranças com autonomia comparável. Isso cria uma contradição: quanto mais indispensável Lula se torna para manter esse campo político unido e eleitoralmente competitivo, mais difícil parece preparar uma estrutura política capaz de funcionar sem ele.

Por isso, fortalecer partidos de esquerda que existem fora dessa órbita não significa necessariamente enfraquecer a resistência à extrema-direita. Pode significar justamente ampliar o número de organizações, lideranças e projetos políticos capazes de enfrentá-la no futuro.

Uma esquerda autônoma também amplia os limites do debate

Há ainda outra razão para defender a presença dessas forças. Uma esquerda politicamente relevante fora do PT pode deslocar o próprio centro do debate nacional.

Questões como redução da jornada de trabalho, direitos previdenciários, tributação das grandes fortunas, reestatização de setores estratégicos, enfrentamento da financeirização, reforma agrária, proteção dos povos tradicionais, crise climática, poder das corporações e limites impostos pelo capital financeiro às políticas públicas ganham outra dimensão quando existem organizações capazes de defendê-las sem depender das necessidades de composição de um governo.

A Previdência é um exemplo particularmente importante. Existem atualmente propostas sendo discutidas por economistas que envolvem mudanças profundas no sistema, incluindo aumento da idade mínima e alterações nas formas de financiamento. A equipe econômica da campanha de Lula afirma que uma nova reforma não está atualmente em discussão, embora não descarte um debate futuro; do lado de Flávio Bolsonaro, integrantes da campanha já defenderam revisitar a Previdência, ainda que o candidato posteriormente tenha declarado que não pretende promover nova reforma. O episódio mostra precisamente por que é importante que existam forças políticas capazes de colocar os interesses dos trabalhadores no centro dessa discussão antes — e não depois — de eventuais mudanças.

Votar também significa construir

É por isso que não considero contraditório alguém rejeitar uma eventual volta do bolsonarismo e, ao mesmo tempo, decidir votar no primeiro turno em uma candidatura situada à esquerda do PT.

O voto no primeiro turno pode cumprir também uma função de construção política. Pode fortalecer partidos, ampliar sua visibilidade, ajudar a eleger parlamentares, formar novas lideranças e demonstrar que existe uma parcela da sociedade que deseja políticas que ultrapassem os limites atualmente estabelecidos pelo campo político dominante.

No segundo turno, caso ele ocorra, haverá outra conjuntura e outra decisão a ser tomada. Mas antecipar essa decisão para o primeiro turno significa abrir mão de uma das poucas oportunidades institucionais existentes para medir, apresentar e fortalecer alternativas políticas.

A questão fundamental, portanto, ultrapassa 2026. A emergência climática, a precarização do trabalho, a concentração de riqueza, a financeirização da economia e o avanço internacional da extrema-direita não oferecem à esquerda brasileira o luxo de esperar indefinidamente pelo aparecimento espontâneo de uma liderança pós-Lula.

Novas lideranças não surgem por decreto nem aparecem quando a antiga liderança deixa o palco. Elas são produzidas por organizações políticas, lutas sociais, formação de quadros, presença territorial e disputa de ideias.

Se a esquerda brasileira quiser continuar existindo como força transformadora depois de Lula, precisa começar a construir esse futuro enquanto Lula ainda está presente. E isso passa necessariamente pelo fortalecimento de organizações de esquerda capazes de caminhar com as próprias pernas, formular seus próprios programas e disputar a sociedade sem permanecer permanentemente subordinadas à órbita política do PT.

Com Vorcaro, Flávio mentiu pelos cotovelos e passou liso; com Nossa Senhora, o buraco parece ser mais embaixo

O imbróglio envolvendo Nossa Senhora Aparecida continua dando tração e, a cada tentativa de encerrá-lo, parece ganhar uma nova camada. O que começou com a atribuição incorreta a Flávio Bolsonaro de um antigo projeto destinado a alterar o título de Padroeira do Brasil rapidamente deixou de ser apenas uma controvérsia sobre erro jornalístico. A reação da campanha, as decisões do ministro do TSE André Mendonça, o pedido de prisão de um servidor da Presidência, o tratamento dispensado à jornalista Maria Cristina Fernandes e a explosão das buscas pelo assunto transformaram o episódio numa questão política muito maior.

As reportagens publicadas pelo ICL Notícias, UOL e Jornal GGN, somadas ao artigo de Renato Rovai na Revista Fórum, permitem observar essa mudança de escala. O ponto central já não é apenas saber quem apresentou o projeto original — questão facilmente verificável —, mas entender por que Nossa Senhora Aparecida entrou com tamanha força na campanha presidencial de 2026 e por que as tentativas de retirar o assunto da circulação parecem contribuir para mantê-lo vivo.

De um erro factual a um problema político

É preciso começar pelo que está documentado. Flávio Bolsonaro não apresentou projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil e nega defender essa proposta. O projeto que efetivamente existiu foi o PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Victório Galli, que pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta acabou arquivada em 2008.

A correção desse erro, entretanto, não encerrou a história. Nossa Senhora Aparecida entrou definitivamente na campanha, provocando milhões de interações nas redes sociais, forte crescimento das buscas no Google e uma sucessão de iniciativas políticas e judiciais que continuam alimentando o assunto.

O fantasma de Victório Galli

Há um detalhe importante que impede que o projeto seja tratado simplesmente como uma curiosidade legislativa de quase vinte anos atrás. Victório Galli não é uma personagem desconectada do bolsonarismo. Depois de apoiar Jair Bolsonaro, foi assessor especial da Presidência da República durante seu governo, trabalhando na articulação com a Câmara dos Deputados.

Mais importante para a controvérsia atual, Galli está novamente nas urnas em 2026, concorrendo a deputado federal pelo PP em Mato Grosso, e declarou-se aliado de Flávio Bolsonaro. Isso significa que, embora seja incorreto atribuir ao candidato presidencial o projeto de 2007, também não existe razão institucional para considerar impossível que uma proposição semelhante volte ao Congresso.

Caso Galli seja eleito, poderá apresentar novamente uma proposta com conteúdo semelhante. Não há evidência de que tenha anunciado que fará isso, tampouco de que Flávio Bolsonaro apoiaria tal iniciativa. Mas uma eventual presença simultânea de Galli na Câmara dos Deputados e de Flávio Bolsonaro na Presidência da República certamente daria ao velho projeto um contexto político inteiramente diferente daquele existente quando foi arquivado.

Quando o desmentido produz mais notícia

A reação da campanha contribuiu para ampliar a controvérsia. A pedido de Flávio Bolsonaro, o ministro do TSE André Mendonça determinou a retirada de publicações que atribuíssem ao candidato ou à sua família a intenção de retirar o título de Nossa Senhora Aparecida. Segundo reportagem de Juliana Dal Piva para o ICL Notícias, a decisão alcançou uma extensa relação de publicações e estabeleceu mecanismo para remoção de conteúdos futuros considerados substancialmente equivalentes.

A discussão passou então do conteúdo originalmente falso para uma questão institucional bem mais delicada: até onde pode ir a Justiça Eleitoral no combate à desinformação sem produzir restrições excessivamente amplas ao debate político?

O assunto ganhou outra dimensão quando a campanha de Flávio Bolsonaro pediu ao Ministério Público Eleitoral a prisão preventiva de George Marques, servidor da Presidência que havia compartilhado uma publicação relacionada ao episódio. Segundo reportagem de Letícia Casado e Julia Affonso no UOL, foram solicitadas também busca e apreensão de equipamentos, suspensão do exercício da função pública e restrições ao uso das redes sociais.

Assim, uma controvérsia que poderia talvez ter terminado com uma correção jornalística passou a produzir decisões judiciais, pedidos de prisão, discussões sobre liberdade de expressão e, inevitavelmente, novas manchetes.

Maria Cristina Fernandes e a liberdade de imprensa

O artigo de Renato Rovai publicado na Revista Fórum acrescenta outra dimensão ao episódio ao discutir o tratamento dispensado à jornalista Maria Cristina Fernandes após a divulgação da informação incorreta.

Erro jornalístico precisa ser corrigido, como efetivamente ocorreu. Mas uma democracia também precisa preservar a diferença entre erro jornalístico, interpretação política, desinformação deliberada e atividade criminosa. Quando essas fronteiras começam a desaparecer, a questão deixa de envolver apenas determinado jornalista e passa a alcançar o próprio ambiente em que a imprensa exerce sua função durante uma campanha eleitoral.

E existe aqui uma questão adicional: corrigir uma informação não significa decretar o desaparecimento do assunto que ela colocou em circulação. Jornalistas continuam tendo o direito — e, dependendo do caso, o dever — de investigar as relações políticas, religiosas e institucionais que emergiram da controvérsia.

Nossa Senhora viralizou

Talvez o maior problema para a campanha de Flávio Bolsonaro esteja justamente onde decisões judiciais possuem alcance limitado: o assunto ganhou vida própria. O levantamento divulgado pelo Jornal GGN, com base em dados da Casa Galileia, registrou 7.712 ocorrências e 6,32 milhões de interações relacionadas à controvérsia. No Google, combinações de buscas envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida tiveram crescimento excepcional, enquanto a procura por “Nossa Senhora Aparecida Padroeira” cresceu fortemente. Esses indicadores não demonstram quantas pessoas aderiram a determinada interpretação, mas mostram inequivocamente a dimensão do interesse despertado pelo episódio.

Pode-se remover uma publicação, corrigir uma reportagem e contestar judicialmente uma informação falsa. O que não se consegue apagar com a mesma facilidade são as perguntas que milhões de pessoas passaram a fazer depois que a história entrou na esfera pública.

E Nossa Senhora começa a cobrar a conta

É justamente aqui que aparece um possível custo político para Flávio Bolsonaro. Tudo isso ocorre num momento particularmente importante da campanha presidencial. Cada entrevista destinada a explicar o episódio, cada petição judicial, cada reação a uma postagem, cada pedido de remoção e cada nova manchete sobre Nossa Senhora Aparecida consomem tempo, energia política e recursos que poderiam estar sendo empregados em outras frentes da campanha.

Há ainda uma ironia particularmente incômoda. Levantamento publicado pela agência de checagem Aos Fatos identificou ao menos 43 declarações consideradas enganosas de Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Daniel Vorcaro e o caso Banco Master, apontando sucessivas mudanças de versão à medida que novas informações vieram a público.

É justamente um candidato enfrentando questionamentos dessa natureza sobre sua própria credibilidade que agora precisa convencer o eleitorado de que, no caso de Nossa Senhora Aparecida, a informação divulgada sobre ele é falsa. Uma coisa evidentemente não transforma a outra em verdade: o fato de alguém ter sido acusado de fazer afirmações enganosas sobre determinado assunto não autoriza que se atribua a essa pessoa algo que ela não fez. Mas a ironia política permanece difícil de ignorar.

Depois das controvérsias envolvendo Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro encontra-se agora na posição de exigir que sua palavra seja prontamente aceita justamente quando afirma estar sendo vítima de uma informação falsa. E credibilidade política, depois de desgastada, não é algo que possa ser recomposto por decisão judicial.

Talvez esteja aí o maior problema produzido por esse imbróglio. Nossa Senhora Aparecida não é candidata a nada, mas conseguiu ocupar um espaço considerável na campanha presidencial de 2026. E, num momento particularmente chave da disputa, cada dia dedicado a tentar retirar a santa da eleição significa energia, tempo e recursos que Flávio Bolsonaro deixa de utilizar para tentar colocar a si próprio na Presidência.