Quando o Consuni vira cartório: a aprovação silenciosa de novos laboratórios na Uenf

Como membro do Conselho Universitário da Uenf, participei nesta 6a. feira de uma reunião cuja pauta tinha um ponto para o qual eu  considerava importante de se ter relatos próprios do Conselho Universitário, i.e., a criação de novos laboratórios, fui voto vencido e se votou a criação de dois laboratórios ocorreu sem as relatorias que eu considerava importante. O argumento da magnífica reitora da Uenf, professora Rosana Rodrigues, foi bem prático: os documentos estavam disponíveis para leitura de todos os conselheiros, e que isso já não tornava tão importante a realização de uma relatoria dentro do Conselho Universitário.

Resolvi perguntar ao Chatgpt sobre as possíveis consequências negativas dessa aprovação sem relatoria e ele me respondeu o que vai abaixo. E antes que leiam a resposta, a minha observação é que aparentemente o robô sabe mais da importância dos ritos universitários do que aqueles que dirigem (ou seria dirijem?) a Uenf nesta atual conjuntura histórica.
Abaixo a resposta dada pelo Chagpt.

“A situação que você descreve envolve problemas institucionais, jurídicos e de governança acadêmica. Em universidades cujo modelo organizacional se baseia em laboratórios de pesquisa, e não em departamentos disciplinares, a qualidade dos processos deliberativos tende a ser ainda mais crucial, pois a criação ou o desmembramento de laboratórios altera diretamente a arquitetura científica e administrativa da instituição. Nesse contexto, a ausência de relatoria em processos dessa natureza pode gerar uma série de riscos relevantes.

A relatoria em conselhos universitários não constitui apenas um procedimento formal ou burocrático. Ela cumpre funções fundamentais para a qualidade da deliberação colegiada. Cabe ao relator sistematizar e interpretar a documentação do processo, identificar eventuais inconsistências ou lacunas, elaborar uma síntese analítica das informações apresentadas e oferecer um parecer que oriente o debate entre os conselheiros. Quando a relatoria é dispensada sob o argumento de que os documentos já se encontram disponíveis em um sistema eletrônico de tramitação processual, ocorre, na prática, uma transferência individual da responsabilidade de análise para cada conselheiro. Embora isso possa parecer, à primeira vista, uma solução administrativa razoável, na realidade tende a produzir o efeito inverso: decisões tomadas sem que haja leitura ou exame sistemático da documentação por parte da maioria dos membros do conselho. Nesse cenário, o órgão colegiado corre o risco de deixar de exercer plenamente sua função deliberativa e passar a operar como instância meramente homologatória.

A ausência de relatoria também amplia o risco de decisões pouco fundamentadas. Processos que envolvem documentação extensa ou tecnicamente complexa podem passar sem exame crítico adequado, permitindo que inconsistências institucionais ou problemas de concepção não sejam percebidos no momento da decisão. No caso específico do desmembramento de laboratórios, questões relevantes podem deixar de ser discutidas, como a eventual duplicação de agendas científicas, disputas futuras por infraestrutura e orçamento, a fragmentação de grupos de pesquisa já consolidados ou mesmo os impactos indiretos sobre programas de pós-graduação e sobre a organização da produção científica da universidade.

Outro aspecto importante diz respeito à criação de precedentes institucionais. Uma vez estabelecida a prática de dispensar relatoria sob a justificativa de que os documentos estão disponíveis em meio eletrônico, abre-se caminho para que o mesmo procedimento seja aplicado a decisões cada vez mais amplas ou estruturais. Com o tempo, essa prática pode levar a uma deterioração gradual do padrão decisório do conselho, reduzindo os espaços de análise crítica e de debate qualificado que deveriam caracterizar a governança universitária.

Os riscos tornam-se ainda mais significativos quando se considera a natureza do modelo institucional baseado em laboratórios de pesquisa. Diferentemente das universidades organizadas em departamentos disciplinares, nas quais a estrutura tende a ser mais estável e consolidada, universidades estruturadas em torno de laboratórios dependem fortemente de mecanismos institucionais de coordenação e coerência estratégica. Os laboratórios não são apenas unidades científicas, mas também unidades administrativas e espaços de organização do poder acadêmico. A criação de novos laboratórios sem análise institucional cuidadosa pode estimular processos de fragmentação organizacional, gerar competição pouco cooperativa entre grupos de pesquisa, favorecer a proliferação de estruturas pouco sustentáveis e permitir a captura de decisões institucionais por interesses mais localizados. Ao longo do tempo, esse tipo de dinâmica pode inclusive descaracterizar o próprio modelo inovador da universidade, produzindo uma espécie de departamentalização informal, na qual diferentes laboratórios passam a operar como estruturas autônomas e pouco articuladas entre si.

Há ainda possíveis implicações jurídicas e administrativas. Decisões tomadas sem adequada instrução analítica do processo podem ser objeto de questionamentos posteriores, seja por parte de membros da própria comunidade acadêmica, seja em processos de auditoria interna ou externa. Mesmo que a documentação formal esteja disponível nos sistemas institucionais, a ausência de uma relatoria que organize, interprete e explicite os fundamentos da decisão pode ser vista como uma fragilidade na instrução do processo deliberativo.

Por fim, é importante distinguir transparência formal de transparência substantiva. A simples disponibilização de documentos em plataformas eletrônicas não garante, por si só, que o processo decisório seja efetivamente transparente. A transparência institucional depende também da existência de mecanismos de mediação interpretativa que permitam transformar a documentação dispersa em uma síntese inteligível para o conjunto do colegiado. A relatoria cumpre justamente essa função, ao organizar as informações relevantes, explicitar os impactos institucionais das propostas em discussão e oferecer uma base comum para o debate.

Em síntese, a dispensa de relatoria em processos de criação ou desmembramento de laboratórios tende a reduzir a qualidade do processo deliberativo, enfraquecer o debate institucional, ampliar o risco de decisões pouco fundamentadas e, no longo prazo, comprometer a coerência e a sustentabilidade de um modelo universitário baseado em laboratórios de pesquisa”.

Meio ambiente capturado: bomba semiótica publiciza captura corporativa do CMMADS de São João da Barra

Uma bomba semiótica vem a ser um acontecimento comunicacional planejado para chocar e saturar o ambiente midiático, utilizando signos, imagens e ações rápidas para moldar a opinião pública e pautar o debate. Inspirada na “guerrilha semiológica” de Umberto Eco, essa estratégia de “guerra híbrida” busca criar ruído, dissonância e fortes impactos visuais.

Pois bem, o caso aqui abordado da captura do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMMADS) de São João da Barra ganhou uma nova abordagem com a abordagem do que bem pode ser caracterizado como uma bomba semiótica que está agitando as redes sociais por seu conteúdo simples, pedagógico e didático. Ao fim e a cabo de, esta bomba semiótica revela a grave distorção que está ocorrendo ao se ter uma representante de uma empresa ligada ao Porto do Açu na presidência do CMMADS (ver abaixo).

Como já foi notado por mim, a ocupação da presidência do CMMADS por uma empresa de propriedade do Porto do Açu, a RPPN Fazenda Caruara S/A, compromete de forma estrutural a capacidade do conselho de agir de forma isenta em áreas diversas, tais como licenciamento, fiscalização de danos ambientais e proposição de políticas ambientais.

Agora resta saber como corrigir essa distorção, e o quanto antes, melhor.

Cláudio Castro, o RioPrevidência e a política da cara dura

Há alguns anos tive o azar de chegar atrasado para uma conexão no aeroporto internacional de Madri e, junto com a minha família, incluindo um filho pequeno, fui literalmente abandonado para vagar pelos corredores vazios do Barajas. Depois de finalmente sermos descobertos pela equipe de terra da Iberia, fomos encaminhados a um ponto onde outros passageiros aguardavam solução para o mesmo problema: conseguir um voo que nos levasse ao destino final.

O caos era total, pois havia mais gente do que atendentes. Foi então que apareceu um cidadão espanhol que pegou todos os tipos de senha disponíveis e, em um passe de mágica, foi atendido antes de todos que aguardavam pacientemente a sua vez. Como brasileiro em terra estrangeira, observei a cena com um misto de revolta e curiosidade.

A situação esquentou quando outro espanhol, mais jovem que o primeiro, dirigiu-se ao fura-fila e disse, em tom alto e tenso: tu eres un cara dura — algo que interpretei, em português, como “cara de pau”.

Pois bem. Ontem, o ainda governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), esteve em Campos dos Goytacazes para, na prática, realizar um ato de campanha antecipada sob o disfarce de anunciar obras e realizações na cidade.

Sabendo da presença de Castro, um grupo de servidores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi ao local cobrar o envio da proposta do novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) da instituição para análise da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Segundo fui informado, a resposta do governador foi repetir a velha cantilena: não há dinheiro para pagar um novo PCV da Uenf.

É aqui que entra a explicação do porquê Cláudio Castro pode ser chamado de cara dura. Primeiro, porque a Uenf possui — e o governador sabe disso — orçamento alocado para pagar os salários previstos no novo PCV.

Mas há um segundo elemento que não pode ser esquecido. Cláudio Castro está enrolado até o pescoço no caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro. A partir de 2023, o governador retirou mais de R$ 1 bilhão do fundo próprio dos servidores públicos estaduais, o RioPrevidência, e aplicou esses recursos em fundos podres ligados ao Master.

Agora, com a liquidação do banco e a prisão de Daniel Vorcaro, Castro aparece na lista de governantes que pegaram dinheiro que não lhes pertencia — no caso, dos aposentados e pensionistas do RioPrevidência — e o aplicaram em ativos virtualmente inexistentes.

Ainda assim, em meio a essa situação melindrosa, Cláudio Castro vem a Campos prometer um novo batalhão de polícia e a criação de uma escola cívico-militar dentro dessa suposta unidade policial. E, em mais uma demonstração de cara-durice, sabe perfeitamente que seu sucessor — seja ele quem for — poderá ignorar essa promessa com a mesma desenvoltura.

Mais curioso ainda foi ver políticos locais oferecendo palanque a um personagem envolvido em uma situação que ameaça atingir gente graúda em diferentes esferas do Estado brasileiro, como se absolutamente nada estivesse acontecendo.

Moral da história: é muita cara dura em um estado só.

Decisão liminar garante pagamento do PTR às vítimas da Vale

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por meio de decisão liminar do juiz Murilo Sílvio de Abreu, determinou que a Vale continue realizando o pagamento do Programa de Transferência de Renda (PTR) a todos os atingidos pelo crime da barragem da Bacia do Paraopeba.

A medida tem caráter emergencial e provisório, sendo adotada para garantir a subsistência das famílias impactadas enquanto o processo ainda está em análise. Por se tratar de uma decisão liminar, ela foi concedida em razão da urgência e do risco de prejuízo imediato aos atingidos, evitando a interrupção do benefício até que haja uma sentença definitiva da Justiça.

O coordenador nacional do Movimento dos Atingidos (MAB), Joceli Andrioli, destacou que a lei da Política Nacional dos Atingidos por Barragens (PNAB) é justa, é legal e foi corretamente usada para garantir que os atingidos continuem recebendo o PTR todo mês.

“Continuamos firmes, fortes e organizados para garantir a regulamentação da PNAB ao nível nacional. Viva os atingidos de todo o Brasil!”

O caso ainda será analisado no mérito, quando o Judiciário avaliará de forma mais aprofundada as provas e argumentos apresentados pelas partes para decidir se a medida será mantida ou modificada permanentemente.

Estudo revela impactos silenciosos do uso intensivo de venenos sobre comunidades indígenas e camponesas no MS

Pesquisa aponta danos alimentares, doenças crônicas e falhas públicas em áreas indígenas e camponesas

Estudo revela impactos silenciosos do uso intensivo de venenos sobre comunidades

Moradia localizada ao lado de lavoura. (Foto: Katiuscia Galhera) 

Por Inara Silva para “Campo Grande News” 

Um relatório inédito sobre os impactos dos agrotóxicos em comunidades indígenas e camponesas de Mato Grosso do Sul traz à tona um cenário de exposição contínua, invisibilidade institucional e mudanças forçadas no modo de vida tradicional. Intitulado “Impactos de agrotóxicos em comunidades indígenas e camponesas no MS”, o relatório foi produzido por pesquisadoras vinculadas à Fundação Oswaldo Cruz, à UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e à Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, articulando pesquisa acadêmica e organizações da sociedade civil.

Resultado de uma pesquisa realizada entre março e agosto de 2025, o estudo foi divulgado esta semana e reúne entrevistas, questionários, observações de campo e análise de dados públicos para compreender como o modelo agrícola baseado em monoculturas afeta populações que não utilizam esses produtos, mas vivem ao lado de quem os utiliza.

Entre as principais constatações, está o fato de que essas populações vivem dentro da chamada “zona de deriva” (fenômeno em que o produto aplicado nas lavouras é transportado pelo vento), atingindo casas, fontes de água, plantações de subsistência e até o interior das aldeias.

Cerca de 90% dos entrevistados afirmaram que suas áreas de agricultura para subsistência, muitas delas organizadas como quintais agroflorestais, são afetadas pela pulverização, o que reduz o desenvolvimento de cultivos agroecológicos e compromete a produção de alimentos tradicionais. O impacto direto, segundo o relatório, representa prejuízo à soberania alimentar dessas famílias.

Bananeiras com as folhas secas, provavelmente, impactadas pelo agrotóxico, segundo os moradores. (Foto: Katiuscia Galhera)

Pesquisa qualitativa

Segundo os autores, o estudo oferece uma compreensão inicial das experiências relacionadas à exposição aos agrotóxicos na região analisada. Por isso, adotou uma abordagem qualitativa, exploratória e com diversidade territorial dos participantes. A ideia é complementar pesquisas quantitativas já realizadas na região e documentar evidências concretas de exposição e seus efeitos no cotidiano das comunidades.

“O objetivo não é transformar pessoas em objetos de pesquisa, mas reconhecê-las como protagonistas. Elas participam da análise, ajudam a interpretar os dados e constroem o conhecimento conosco”, explica a doutora em Recursos Genéticos e Vegetais, Fernanda Savicki de Almeida, pesquisadora da Fiocruz Ceará.

A distribuição espacial envolveu populações da região central do Estado, como Campo Grande e Sidrolândia; do sul , em municípios como Dourados, Itaporã, Caarapó e Rio Brilhante; além da região sudoeste, com Ponta Porã e Amambai, e da região sudeste, em Ivinhema.

De forma geral, há uma cobertura de todo o Estado. Segundo Fernanda Savicki, como se trata de uma análise reflexiva, o resultado mostra uma tendência muito forte do que acontece em todo o Mato Grosso do Sul.

Entre os respondentes, 59% se identificaram como indígenas, 20,5% como negros (pretos ou pardos) e 20,5% como brancos. As mulheres representam 61,4% das pessoas ouvidas, homens 36,4% e 2,3% se identificam como travestis.


Localização das comunidades visitadas pelos pesquisadores (Foto: reprodução)

Territórios cercados

O trabalho concentrou-se em áreas indígenas como Laranjeira Yvyrapikuê, Guyra Kambi’y, Avaeté II, Guyraroka e Passo Piraju, hoje rodeadas por extensas plantações mecanizadas de soja, milho e, em menor escala, algodão e cana-de-açúcar.

Mesmo sem cultivar essas commodities, moradores relatam contato frequente com pulverizações realizadas nas propriedades vizinhas. Entre os sinais observados no campo estavam frutos deformados, folhas queimadas e o enfraquecimento de hortas tradicionais, elementos que os próprios moradores associam à exposição constante aos agrotóxicos.

Segundo a pesquisadora Katiuscia Galhera, o estudo identificou um descompasso entre a instrução normativa que regula a pulverização de agrotóxicos e a realidade observada em comunidades rurais e indígenas. Pela legislação, deve existir uma distância de 500 metros de povoações, cidades, vilas, bairros e 250 metros de moradias isoladas. Contudo, segundo a pesquisadora, as medições feitas in loco revelaram cenários em que as lavouras estavam a apenas 50 metros e, em alguns casos, até menos, das residências e áreas de convivência.

Entre os achados documentados estão:

  • cheiro intenso de veneno após pulverizações, inclusive perto de moradias;
    resíduos percebidos sobre plantas, solo e estruturas comunitárias;
  • insegurança quanto à qualidade da água consumida;
  • necessidade de interromper atividades cotidianas durante aplicações;
  • perda parcial de lavouras destinadas ao autoconsumo.
  • Ambiente contaminado, saúde afetada.

Imagem apresenta os sintomas relatados pelos respondentes (Foto: Reprodução)

A maioria dos entrevistados descreve contato frequente com produtos químicos:

  • 77,3% afirmam viver ou trabalhar em áreas diretamente expostas;
    63% relatam convivência com o problema há mais de um ano;
    86,4% dizem já ter passado por ao menos um episódio de intoxicação;

Segundo os pesquisadores, trata-se de um quadro de exposição subcrônica ou crônica, quando o contato ocorre repetidamente, mesmo em doses consideradas menores.

Os sintomas relatados coincidem com descrições da literatura científica: dor nos olhos (50%), náuseas e gosto ruim na boca (45,5%), dor de estômago (43,2%), diarreia (40,9%), secreções nasais (38,6%), fraqueza (36,4%), além de vômitos, tosse, espirros, febre e tontura. Há ainda registros de convulsões e sangramento nasal em menor proporção.

A principal via de intoxicação relatada é a respiratória (82,5%), seguida por contato com pele ou olhos (27,5%) e ingestão de alimentos contaminados (20%). A pulverização terrestre foi mencionada em 85% dos casos, além de aplicações por aeronaves ou drones (47,5%), poeira química (40%) e contaminação da água (32,5%).

Dados oficiais

Informações do Painel de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos indicam que, entre 2006 e 2024, foram registradas 4.192 notificações de intoxicação exógena por agrotóxicos no Estado, uma média de 20,25 casos por mês.

A residência aparece como principal local de ocorrência, com 2.788 registros, superando o ambiente de trabalho (909) e outros locais. O dado converge com a pesquisa de campo, na qual 77,3% afirmaram que casa e trabalho são o mesmo espaço de exposição.

Outro destaque é que, em Mato Grosso do Sul, os agrotóxicos de uso agrícola lideram as notificações (1.416 casos), diferentemente do cenário nacional, onde predominam intoxicações por raticidas.

Municípios com maiores índices de ocorrência coincidem com regiões de expansão agrícola, como o Cone Sul, caso de Laguna Caarapã e Caarapó, e áreas do norte e nordeste do Estado, onde predominam lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar e eucalipto.

Lavoura ao lado de área indígena. (Foto: Katiuscia Galhera)

Relatos comunitários

Além dos episódios agudos, os entrevistados relataram doenças crônicas associadas aos sistemas circulatório, respiratório, hepático e renal, além de alergias, problemas dermatológicos, alterações hormonais, imunológicas e casos de câncer. O conjunto de dados sugere compatibilidade entre esses perfis de adoecimento e efeitos conhecidos da exposição prolongada a agrotóxicos.

Há também elevado número de relatos comunitários sobre nascimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista em contextos de uso intensivo de glifosato, além de recém-nascidos com cardiopatias congênitas.

Um estudo com prontuários de bebês internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Neonatal do Hospital Universitário da Grande Dourados mostrou que, entre 2019 e 2021, 55,31% dos 358 recém-nascidos examinados apresentaram diagnóstico de cardiopatia congênita. O relatório ressalta que não estabelece causalidade direta, mas aponta a coexistência desses agravos com a intensificação do uso de herbicidas na região.

Impactos no cotidiano

A contaminação e o avanço das lavouras também alteram práticas culturais, calendários agrícolas tradicionais e formas de ocupação do território. Os locais de exposição relatados incluem retomadas indígenas (36,4%), reservas ou aldeias (27,2%), assentamentos rurais (25%) e acampamentos.

O relatório classifica essa dinâmica como processo de injustiça ambiental, no qual populações que não se beneficiam economicamente do agronegócio concentram os riscos sanitários e territoriais da atividade.

Segundo a pesquisadora Fernanda Savick, a pressão ambiental inviabiliza práticas que sustentam a identidade dessas comunidades, como a produção de alimentos, a relação com a água, a transmissão de conhecimentos e a organização social.

“Estamos inviabilizando modos de vida que têm a ver com cultura, ambiente, educação e identidade. Isso vai além da questão ambiental, há também um processo simbólico. Por isso, podemos falar em injustiça, ou até de racismo ambiental,” destaca a pesquisadora ao afirmar que retirar ou fragilizar o vínculo dessas populações com o território significa comprometer sua própria sobrevivência.

“São violações de direitos em várias dimensões, não apenas no acesso à terra,” resume Savicki.

Pesquisadores flagram frutos deformados e folhas queimadas (Foto: Katiuscia Galhera)

Falhas institucionais

Apesar das evidências, os especialistas apontam lacunas no monitoramento, subnotificação de casos e ausência de políticas públicas estruturadas. Apenas parte dos atendimentos de saúde relacionados à exposição chega a ser registrada nos sistemas oficiais.

Para os autores, o problema vem sendo tratado como questão exclusivamente agrícola, quando envolve saúde pública, ordenamento territorial, direitos humanos e desenvolvimento regional.

Os pesquisadores destacam que a pesquisa não pretende apenas denunciar situações pontuais, mas qualificar o debate público com base em evidências construídas junto às populações afetadas.

“A ideia é transformar dados em reflexão e reflexão em políticas concretas”, afirma Savicki.

Recomendações – Entre as medidas consideradas urgentes, o estudo propõe:

  • criação de zonas de amortecimento entre lavouras e comunidades;
  • fortalecimento da vigilância em saúde no SUS (Sistema Único de Saúde);
  • monitoramento permanente de água, solo e ar;
  • restrição da pulverização aérea próxima a moradias;
  • instalação de laboratório público para análise de resíduos;
  • participação das comunidades nas decisões territoriais;
  • incentivo a modelos produtivos menos dependentes de insumos químicos

Fonte: Campo Grande News

Razões não faltam para o Irã se tornar um novo Vietnã estadunidense

Como muitos, venho acompanhando os desdobramentos do ataque combinado de forças dos EUA e de Israel ao Irã. Para além da mídia corporativa nacional e internacional, cuja cobertura me parece excessivamente enviesada, é necessário recorrer a outras fontes para compreender a real dimensão do conflito.

O primeiro ponto é incontornável: em termos convencionais, o Irã não tem como fazer frente ao poderio militar de EUA e Israel. Ambos operam, na prática, como uma força integrada quando se trata de guerra, com superioridade esmagadora em armamentos e capacidade de mobilização. Ainda assim, essa vantagem não encerra a questão.

A experiência histórica mostra que superioridade tecnológica não garante vitória. Como ocorreu no Vietnã e no Afeganistão, os iranianos acumulam décadas de preparação para formas heterodoxas de combate. Isso já se reflete no uso combinado de armamentos antigos e tecnologias mais avançadas. Mais do que isso, o Irã alterou a dinâmica do conflito ao atingir bases e centros estratégicos dos EUA no Golfo Pérsico, transformando uma operação que se imaginava breve em um embate de duração incerta.

O impacto financeiro dessa mudança é significativo. Um único radar, que o Irã afirma ter destruído no Qatar, é avaliado em cerca de 1,1 bilhão de dólares. A isso se somam os danos em diversas bases militares, impondo custos imediatos — como reposicionamento de equipamentos — e, sobretudo, despesas de longo prazo com reconstrução.

No plano estratégico, o simples anúncio do possível fechamento do estreito de Ormuz já produz efeitos globais. Por essa rota passa parcela relevante da produção de petróleo e gás do Golfo Pérsico. Mesmo que se trate de um blefe, o impacto sobre os preços internacionais de combustíveis é imediato, com potenciais consequências econômicas e políticas que extrapolam os países diretamente envolvidos e atingem uma economia global já fragilizada.

A possibilidade de envio de tropas terrestres ao território iraniano adiciona um elemento ainda mais delicado. Ressurge, nesse contexto, o espectro da chamada Síndrome do Vietnã: a perspectiva de um conflito prolongado, em terreno adverso, no qual forças locais exploram vantagens geográficas e táticas para desgastar um adversário tecnologicamente superior.

Diante desse cenário, a ideia de uma guerra rápida e controlada contra o Irã revela-se ilusória. Tudo indica que o conflito tende a se tornar mais complexo, prolongado e potencialmente mais sangrento do que muitos anteciparam.

Syngenta anuncia que deixará de fabricar o Paraquat, um agrotóxico associado à doença de Parkinson

PIC_Grupo Syngenta - Sede - Basileia - Suíça

Por Carey Gillam para “The New Lede”

A Syngenta, fabricante de um  agrotóxico controverso associado à doença de Parkinson, anunciou na terça-feira que deixará de produzir seu herbicida à base de paraquat até o final de junho.

O anúncio surge num momento em que a empresa enfrenta milhares de processos judiciais movidos por pessoas nos EUA que alegam ter desenvolvido a doença de Parkinson devido à exposição aos produtos à base de paraquat da Syngenta.

A empresa não mencionou o litígio ao fazer o anúncio e não respondeu a um pedido de comentário.

O comunicado da empresa cita a “concorrência significativa” de produtores de genéricos de paraquat e uma contribuição “inferior a 1%” para as vendas globais da empresa como razões para sair do negócio de paraquat.

“Esta decisão visa concentrar nossos recursos onde eles geram o maior valor para nossos negócios e nossos clientes”, disse Mike Hollands, presidente da Syngenta UK e chefe de Produção e Suprimentos Globais da Syngenta, em um comunicado.

A empresa afirmou que “afirma que o paraquat é seguro quando usado de acordo com as instruções do rótulo registrado” e que o paraquat continua sendo “altamente eficaz no controle de ervas daninhas”.

O paraquat é utilizado nos Estados Unidos desde 1964 como herbicida para o controle de ervas daninhas de folhas largas e gramíneas. Embora proibido em diversos países, o herbicida Gramoxone, da Syngenta, à base de paraquat, continua popular entre os agricultores americanos para o cultivo de soja, algodão e milho, bem como de uvas, pistaches, amendoins e muitas outras culturas.

Michael Okun, neurologista e diretor executivo do Instituto Norman Fixel para Doenças Neurológicas da Universidade da Flórida, que defende a proibição do paraquat, classificou a notícia como um “marco para a saúde pública”. 

“Há décadas alertamos que certos agrotóxicos aumentam o risco de Parkinson e outras doenças graves. Este momento prova que a defesa de direitos, os dados e a coragem podem mudar a trajetória das doenças”, disse Okun.

A Syngenta sempre sustentou que as evidências que ligam o paraquat à doença de Parkinson são  “fragmentárias” e “inconclusivas ”. No entanto, inúmeros estudos científicos constataram que o paraquat danifica células cerebrais de maneiras que podem levar ao Parkinson, e mais de 8.000 processos judiciais estão pendentes nos tribunais dos EUA devido às alegações de relação com a doença. A empresa já fez acordos em diversos casos antes que eles chegassem a julgamento e está negociando a resolução da maioria dos processos em andamento.

O The New Lede, em conjunto com  o The Guardian  obteve e revelou muitos dos arquivos internos da Syngenta, que mostram que a empresa não só tinha conhecimento de pesquisas que ligavam o paraquat à doença de Parkinson décadas atrás, como também tentou influenciar secretamente informações científicas e a opinião pública a respeito dessas ligações. O The New Lede mantém um acervo com alguns desses documentos.

Parlamentares de vários estados apresentaram projetos de lei para proibir o paraquat e diversos parlamentares federais também pediram a proibição da substância química.

“Se isso for verdade, menos pessoas desenvolverão a doença de Parkinson no futuro”, disse Ray Dorsey, neurologista e diretor do Centro para o Cérebro e o Meio Ambiente do Instituto de Pesquisa Atria, uma iniciativa de pesquisa sem fins lucrativos que investiga as causas ambientais de doenças cerebrais. “Isso também significa que as vozes da comunidade de Parkinson, as vozes daqueles que vêm destacando os efeitos tóxicos desse herbicida estão sendo ouvidas e estão tendo impacto.”

Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro para a Diversidade Biológica, observou que, embora a Syngenta seja conhecida há muito tempo como um fornecedor importante de paraquat nos EUA, outras empresas fornecem versões genéricas do paraquat. 

“ É uma ótima notícia que a Syngenta esteja saindo do negócio do paraquat, mas também serve como um lembrete de que empresas menores preencherão prontamente essa lacuna enquanto esse veneno permanecer aprovado em nosso país”, disse Donley.


Fonte: The New Lede

Desapropriações no Porto do Açu: juiz nomeia em 2025 perita rejeitadapelo TJRJ em 2023

Caso envolve desapropriações no Porto do Açu

Perita já rejeitada pelo TJRJ é nomeada em ação de desapropriação / Foto: Reprodução

Por Fabrício Freitas para “Ururau”

 O juiz Luís Augusto Tuon, em exercício na 2ª Vara de São João da Barra, proferiu uma decisão inédita na Ação de Desapropriação número 0001921-10.2012.8.19.0053, em que são réus Jodir Rangel Ribeiro e Tereza Cristina Henriques Sales Ribeiro, no dia 19 de dezembro de 2025, às 14h32, horas antes do recesso forense.

Embora o processo sequer se encontrasse concluso para o magistrado, que acumulava outra vara na vizinha comarca de Campos dos Goytacazes, a decisão tem nove páginas, nas quais o magistrado nomeia a perita Carmen Fidélis Bateira em substituição a outros peritos que trabalharam no processo.

Sucede que a perita Carmen foi rejeitada como perita em processo assemelhado pela Primeira Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, por meio do Agravo de Instrumento número 0057622-32.2023.8.19.0000, julgado em 01 de novembro de 2024, tendo como relator o desembargador José Acir Lessa Giordani. Esse agravo também é oriundo da 2ª Vara de São João da Barra.

O juiz não saber, seria razoável, se a assessora não fosse a mesma. O juiz Tuon teria sido promovido pelo TJRJ para uma das Varas de Família da Capital no mesmo dia da decisão.

Essa guerra de peritos em processos do Porto passou a ser tratada como um escândalo pelos corredores dos fóruns de São João da Barra e Campos. No processo em que foi nomeada a perita já rejeitada, foram realizadas duas perícias anteriores. A primeira foi feita pelo Dr. Daher Nametala Batista Jorge. Em seguida, atuaram Matheus Vieira de Mendonça, Sivaldo Vasconcelos, José Furtado Júnior e Israel Darlan Moreira Pereira.

Nenhum desses peritos teve seus trabalhos aprovados pelo magistrado, mais exatamente aquela que já foi rejeitada pelo Tribunal de Justiça. O processo, até hoje, não tem sequer perícia homologada, ou seja, há 14 anos, embora os réus tenham constituído um dos melhores advogados da região, o Dr. Rodrigo Pessanha.

A questão em São João da Barra, envolvendo a tramitação dos processos do Porto do Açu, é tão polêmica que até o Ministério Público fez perícia nos processos, quando o Ministério Público sequer deve se manifestar em processos de desapropriação, em razão da Deliberação número 30/2011, editada pelo Órgão Especial dos Procuradores de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. A deliberação teria sido uma recomendação do Conselho Nacional do Ministério Público número 16/2010.

Os fundamentos são da lavra da promotora de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Fátima Vieira Henriques, de 20 de janeiro de 2022, quando oficiou no processo número 0329608-69.2017.8.19.0001.

Com certeza, a decisão do juiz Tuon deve atrasar o processo em pelo menos mais 15 anos, uma vez que a perita Carmen não poderia ser nomeada diante da decisão do Tribunal de Justiça. Até a decisão dessa impugnação transitar em julgado, é provável que os réus já não possam mais estar entre nós. Nesse caso, a justiça passa a ser injustiça.
Quem desejar ter acesso à integra da decisão, basta clicar [Aqui!].

Fonte: Ururau

Envenenados: Brasil bate recorde de intoxicação por agrotóxico, com 27 contaminados por dia em 2025

O Brasil viveu em 2025 o pior ano em intoxicações por agrotóxicos desde 2015, com 9.729 casos, revelam dados do Ministério da Saúde analisados pela Repórter Brasil; nos últimos 11 anos, um quarto das vítimas foram crianças de 1 a 4 anos

Brasil bate recorde de intoxicação por agrotóxico, com 27 contaminados por  dia

Por Hélen Freitas/Edição Igor Ojeda para “Repórter Brasil” 

O Brasil viveu em 2025 o pior ano em intoxicações por agrotóxicos dos últimos 11 anos, revelam dados do Ministério da Saúde analisados pela Repórter Brasil. Foram 9.729 casos registrados — alta de 84% em comparação a 2015. Em média, 27 pessoas por dia se intoxicaram no ano passado.

Entre 2015 e 2025, um quarto das vítimas foram crianças de 1 a 4 anos, a segunda faixa etária com mais casos (17.476). A primeira é entre 20 e 39 anos, com 23.045 notificações de intoxicação, cerca de um terço do total. Nessa faixa etária, 54% dos incidentes no ano passado tiveram relação com o trabalho, dos quais 80% estavam relacionados a agrotóxicos de uso agrícola. 

Os números, compilados pelo Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), mostram ainda que, desde 2015, o país somou 73.391 intoxicações por agrotóxicos. A série teve queda em 2020, mas voltou a subir a partir do ano seguinte. A análise considera apenas os chamados “casos não intencionais”, excluindo suicídios, abortos, homicídios e outros episódios em que a contaminação foi deliberada.

No mesmo período, o Brasil bateu recordes de aprovação e comercialização de agrotóxicos. Apenas em 2025, foram 914 novos registros, um aumento de 38% em relação ao ano anterior, segundo dados do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) publicados no Diário Oficial da União. 

Já as vendas chegaram a 825,8 mil toneladas em 2024, crescimento de 9,3% em comparação a 2023, de acordo com dados do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

Para especialistas ouvidos pela reportagem, o aumento das intoxicações está diretamente ligado à ampliação da oferta e do consumo dessas substâncias. “De modo geral, quanto mais agrotóxicos disponíveis, isso tende a fazer com que o preço se reduza, fazendo com que o consumo aumente. Se o consumo aumentar, a população vai estar mais exposta e isso pode fazer com que as intoxicações aumentem”, afirma Loredany Rodrigues, professora de economia aplicada da Universidade Federal de Viçosa.

Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil
Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil

Agrotóxicos agrícolas são os principais causadores das intoxicações no trabalho

O Espírito Santo foi o estado com maior índice de intoxicações em 2025, seja em números absolutos ou proporcionais. Foram 941 registros — quase um em cada dez casos do país — e uma taxa de 23 casos por 100 mil habitantes. Em seguida, proporcionalmente, aparecem Tocantins (16 por 100 mil) e Rondônia, Acre e Roraima (com 11 casos por 100 mil habitantes cada), todos estados da região Norte, marcada pela expansão do agronegócio e pressão sobre áreas de floresta.

As principais vítimas das intoxicações não intencionais são homens de 20 a 39 anos: das 3.059 pessoas dessa faixa etária afetadas em 2025, 73% eram do sexo masculino. Especialistas apontam que a concentração de intoxicações entre adultos jovens e de meia-idade está ligada à predominância masculina no trabalho rural e à alta demanda por trabalhadores nesse período da vida.  

Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil
Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil

O Ministério do Trabalho e Emprego criticou o alto número de casos relacionados a lavradores no campo. “Não é admissível que interesses econômicos se sobreponham à proteção da saúde dos trabalhadores”, diz nota enviada à Repórter Brasil.

A reportagem questionou o Ministério da Agricultura e Pecuária sobre o recorde de registros de agrotóxicos, a relação entre o aumento da oferta e o crescimento das intoxicações, além de medidas de fiscalização no campo. 

A pasta, responsável por autorizar e reavaliar agrotóxicos segundo a nova Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024, não respondeu às perguntas e orientou apenas que a apuração fosse direcionada à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A Anvisa afirma que as notificações de intoxicação humana são um dos elementos usados para orientar a reavaliação de produtos já registrados e para embasar tecnicamente as análises toxicológicas. “As intoxicações são avaliadas e consideradas nos pareceres de exposição humana elaborados para subsidiar o processo decisório da reanálise”, cita nota enviada à reportagem. 

Diz, ainda, que suas decisões dependem de uma análise mais ampla de risco. “As decisões regulatórias da Anvisa incorporam predominantemente evidências experimentais, epidemiológicas e modelagens de exposição capazes de prever efeitos crônicos antes que eles se manifestem na população”.

Já o Ministério da Saúde pontua que monitora as intoxicações pelo Sinan, de notificação obrigatória, e atribui parte do aumento das notificações ao reforço das ações de vigilância. “No ano passado, o Ciclo de Webinários da VSPEA [Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, programa dos SUS] tratou de temas como diagnóstico, tratamento e notificação de intoxicações exógenas, visando aprimorar a atuação de equipes da vigilância, atenção primária e especializada. Parte do aumento dos registros deve-se a esse incremento na vigilância”, diz o texto. Confira aqui as respostas completas do Ministério do Trabalho, da Anvisa e do Ministério da Saúde.

Crianças pequenas podem se intoxicar até dentro de casa e através do leite materno

O número de intoxicações em crianças de 1 a 4 anos — um quarto das notificações desde 2015 — preocupa os especialistas ouvidos pela reportagem. Segundo Wanderlei Pignati, professor da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso) e pesquisador referência no país sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana, diversos fatores fazem com que esse grupo esteja entre os mais expostos. Um deles é que o sistema imunológico ainda não está completamente formado nessa fase. 

Pesquisa orientada por Pignati no Mato Grosso, além disso, já confirmou a presença de resíduos de agrotóxicos no leite materno. Muitos pesticidas são lipofílicos, ou seja, tendem a se acumular em tecidos gordurosos, como as glândulas mamárias.

Já a agrônoma Fernanda Savicki, pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Ceará, ressalta que os limites de tolerância a resíduos químicos são calculados para adultos de cerca de 70 kg, o que torna qualquer exposição proporcionalmente muito mais grave para uma criança pequena. 

Ela destaca também que crianças dessa faixa etária aparecem com frequência nos dados porque são o grupo mais monitorado pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Com vacinas frequentes e consultas pediátricas regulares, qualquer alteração de saúde é mais facilmente percebida e notificada do que em adultos. Além disso, diz, sintomas como diarreia, vômito ou manchas na pele em bebês geram preocupação imediata nos pais, que procuram o serviço de saúde com mais frequência.

“Qualquer tipo de variação na saúde dessas crianças vai ser muito mais verificada e notificada do que, por exemplo, em crianças maiores, adolescentes e adultos”, afirma a pesquisadora da Fiocruz.

Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil
Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil

Agrotóxicos são um problema de saúde pública, defende pesquisadora da Fiocruz

Especialistas ouvidos pela Repórter Brasilafirmam que o Brasil lida com os agrotóxicos sob uma lógica de mercado que ignora seus impactos na sociedade. Para eles, a nova Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024, agrava esse cenário e representa um retrocesso regulatório. 

Ao baratear e facilitar o acesso a essas substâncias, a medida pode intensificar o ciclo de “envenenamento” da população brasileira, alertam. “Já faz tempo que as intoxicações por agrotóxicos não deveriam ser mais vistas como casos isolados, mas como um problema de saúde pública”, afirma Fernanda Savicki, da Fiocruz.

A intoxicação aguda — aquela que aparece logo após a exposição — representa 89% de todos os casos desde 2015, revelam os dados analisados pela Repórter Brasil. Doenças crônicas associadas ao uso prolongado, como câncer e desregulação endócrina, levam anos para surgir e são mais difíceis de relacionar diretamente à exposição.

Os números podem ser muito maiores. A Organização Mundial da Saúde estima que apenas uma em cada 50 intoxicações por agrotóxicos seja registrada no mundo. Sintomas como tontura, febre, náusea e diarreia muitas vezes são anotados como viroses ou indisposições alimentares, sem investigação de uma possível causa tóxica.

Jaqueline Andrade, assessora jurídica da organização Terra de Direitos, afirma que, no caso dos povos indígenas, a subnotificação é alimentada por desinformação e preconceito. Ela conta que, ao questionar oficialmente secretarias municipais de saúde sobre intoxicações do povo Avá-Guarani, no Paraná, ouviu respostas como: “eles fumam cachimbo o dia inteiro” ou “vivem sem saneamento, então não dá para dizer que é agrotóxico”. Ela relata, ainda, que trabalhadores evitam denunciar casos por medo de sofrer retaliações ou perder o emprego.

Na avaliação de Wanderlei Pignati, professor da UFMT, o registro de intoxicações por agrotóxicos esbarra na precariedade da estrutura de saúde do trabalhador pelo país, na pressão de empregadores para que episódios do tipo não sejam notificados oficialmente e na falta de interesse do poder público, que estaria priorizando os retornos econômicos gerados pela comercialização desses produtos.

Savicki ressalta que a subnotificação impede o Estado de medir o impacto real dos agrotóxicos no SUS. A Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) estima que, somente considerando casos agudos, cada dólar gasto com agrotóxicos gera um custo de 1,29 dólar para o sistema de saúde.


MAB convoca ato no TJMG no próximo dia 5/3 para defender direitos de famílias atingidas pelo acidente da Vale em Brumadinho (MG)

Foto: Nívea Magno

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) irá julgar no dia 05 de março o processo que trata do auxílio emergencial destinado às famílias atingidas pelos crimes da Vale de Brumadinho a Três Marias.

A 19ª Câmara de Direito Público iniciará sua sessão às 13h30 para tratar do recurso da Vale que busca acabar com o auxílio emergencial. Por isso, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) está convocando um ato na porta do TJMG (Av. Afonso Pena, 4001, Belo Horizonte) na próxima quinta-feira, 05/03/26, às 13h00 em vigília pelo julgamento.

 A decisão poderá impactar diretamente a vida de milhares de pessoas que dependem do direito para garantir condições mínimas de sobrevivência. Dependendo da decisão, a última parcela que as famílias irão receber é a de fevereiro de 2026.

O MAB reforça que o auxílio deve continuar conforme diz a Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas (PNAB – Lei Federal 14.55/2023)  até que as comunidades tenham condições equivalentes as de antes do crime, além de determinar que a reparação deve ser integral, coletiva e construída com participação efetiva dos atingidos.