Razões não faltam para o Irã se tornar um novo Vietnã estadunidense

Como muitos, venho acompanhando os desdobramentos do ataque combinado de forças dos EUA e de Israel ao Irã. Para além da mídia corporativa nacional e internacional, cuja cobertura me parece excessivamente enviesada, é necessário recorrer a outras fontes para compreender a real dimensão do conflito.

O primeiro ponto é incontornável: em termos convencionais, o Irã não tem como fazer frente ao poderio militar de EUA e Israel. Ambos operam, na prática, como uma força integrada quando se trata de guerra, com superioridade esmagadora em armamentos e capacidade de mobilização. Ainda assim, essa vantagem não encerra a questão.

A experiência histórica mostra que superioridade tecnológica não garante vitória. Como ocorreu no Vietnã e no Afeganistão, os iranianos acumulam décadas de preparação para formas heterodoxas de combate. Isso já se reflete no uso combinado de armamentos antigos e tecnologias mais avançadas. Mais do que isso, o Irã alterou a dinâmica do conflito ao atingir bases e centros estratégicos dos EUA no Golfo Pérsico, transformando uma operação que se imaginava breve em um embate de duração incerta.

O impacto financeiro dessa mudança é significativo. Um único radar, que o Irã afirma ter destruído no Qatar, é avaliado em cerca de 1,1 bilhão de dólares. A isso se somam os danos em diversas bases militares, impondo custos imediatos — como reposicionamento de equipamentos — e, sobretudo, despesas de longo prazo com reconstrução.

No plano estratégico, o simples anúncio do possível fechamento do estreito de Ormuz já produz efeitos globais. Por essa rota passa parcela relevante da produção de petróleo e gás do Golfo Pérsico. Mesmo que se trate de um blefe, o impacto sobre os preços internacionais de combustíveis é imediato, com potenciais consequências econômicas e políticas que extrapolam os países diretamente envolvidos e atingem uma economia global já fragilizada.

A possibilidade de envio de tropas terrestres ao território iraniano adiciona um elemento ainda mais delicado. Ressurge, nesse contexto, o espectro da chamada Síndrome do Vietnã: a perspectiva de um conflito prolongado, em terreno adverso, no qual forças locais exploram vantagens geográficas e táticas para desgastar um adversário tecnologicamente superior.

Diante desse cenário, a ideia de uma guerra rápida e controlada contra o Irã revela-se ilusória. Tudo indica que o conflito tende a se tornar mais complexo, prolongado e potencialmente mais sangrento do que muitos anteciparam.

Syngenta anuncia que deixará de fabricar o Paraquat, um agrotóxico associado à doença de Parkinson

PIC_Grupo Syngenta - Sede - Basileia - Suíça

Por Carey Gillam para “The New Lede”

A Syngenta, fabricante de um  agrotóxico controverso associado à doença de Parkinson, anunciou na terça-feira que deixará de produzir seu herbicida à base de paraquat até o final de junho.

O anúncio surge num momento em que a empresa enfrenta milhares de processos judiciais movidos por pessoas nos EUA que alegam ter desenvolvido a doença de Parkinson devido à exposição aos produtos à base de paraquat da Syngenta.

A empresa não mencionou o litígio ao fazer o anúncio e não respondeu a um pedido de comentário.

O comunicado da empresa cita a “concorrência significativa” de produtores de genéricos de paraquat e uma contribuição “inferior a 1%” para as vendas globais da empresa como razões para sair do negócio de paraquat.

“Esta decisão visa concentrar nossos recursos onde eles geram o maior valor para nossos negócios e nossos clientes”, disse Mike Hollands, presidente da Syngenta UK e chefe de Produção e Suprimentos Globais da Syngenta, em um comunicado.

A empresa afirmou que “afirma que o paraquat é seguro quando usado de acordo com as instruções do rótulo registrado” e que o paraquat continua sendo “altamente eficaz no controle de ervas daninhas”.

O paraquat é utilizado nos Estados Unidos desde 1964 como herbicida para o controle de ervas daninhas de folhas largas e gramíneas. Embora proibido em diversos países, o herbicida Gramoxone, da Syngenta, à base de paraquat, continua popular entre os agricultores americanos para o cultivo de soja, algodão e milho, bem como de uvas, pistaches, amendoins e muitas outras culturas.

Michael Okun, neurologista e diretor executivo do Instituto Norman Fixel para Doenças Neurológicas da Universidade da Flórida, que defende a proibição do paraquat, classificou a notícia como um “marco para a saúde pública”. 

“Há décadas alertamos que certos agrotóxicos aumentam o risco de Parkinson e outras doenças graves. Este momento prova que a defesa de direitos, os dados e a coragem podem mudar a trajetória das doenças”, disse Okun.

A Syngenta sempre sustentou que as evidências que ligam o paraquat à doença de Parkinson são  “fragmentárias” e “inconclusivas ”. No entanto, inúmeros estudos científicos constataram que o paraquat danifica células cerebrais de maneiras que podem levar ao Parkinson, e mais de 8.000 processos judiciais estão pendentes nos tribunais dos EUA devido às alegações de relação com a doença. A empresa já fez acordos em diversos casos antes que eles chegassem a julgamento e está negociando a resolução da maioria dos processos em andamento.

O The New Lede, em conjunto com  o The Guardian  obteve e revelou muitos dos arquivos internos da Syngenta, que mostram que a empresa não só tinha conhecimento de pesquisas que ligavam o paraquat à doença de Parkinson décadas atrás, como também tentou influenciar secretamente informações científicas e a opinião pública a respeito dessas ligações. O The New Lede mantém um acervo com alguns desses documentos.

Parlamentares de vários estados apresentaram projetos de lei para proibir o paraquat e diversos parlamentares federais também pediram a proibição da substância química.

“Se isso for verdade, menos pessoas desenvolverão a doença de Parkinson no futuro”, disse Ray Dorsey, neurologista e diretor do Centro para o Cérebro e o Meio Ambiente do Instituto de Pesquisa Atria, uma iniciativa de pesquisa sem fins lucrativos que investiga as causas ambientais de doenças cerebrais. “Isso também significa que as vozes da comunidade de Parkinson, as vozes daqueles que vêm destacando os efeitos tóxicos desse herbicida estão sendo ouvidas e estão tendo impacto.”

Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro para a Diversidade Biológica, observou que, embora a Syngenta seja conhecida há muito tempo como um fornecedor importante de paraquat nos EUA, outras empresas fornecem versões genéricas do paraquat. 

“ É uma ótima notícia que a Syngenta esteja saindo do negócio do paraquat, mas também serve como um lembrete de que empresas menores preencherão prontamente essa lacuna enquanto esse veneno permanecer aprovado em nosso país”, disse Donley.


Fonte: The New Lede

Desapropriações no Porto do Açu: juiz nomeia em 2025 perita rejeitadapelo TJRJ em 2023

Caso envolve desapropriações no Porto do Açu

Perita já rejeitada pelo TJRJ é nomeada em ação de desapropriação / Foto: Reprodução

Por Fabrício Freitas para “Ururau”

 O juiz Luís Augusto Tuon, em exercício na 2ª Vara de São João da Barra, proferiu uma decisão inédita na Ação de Desapropriação número 0001921-10.2012.8.19.0053, em que são réus Jodir Rangel Ribeiro e Tereza Cristina Henriques Sales Ribeiro, no dia 19 de dezembro de 2025, às 14h32, horas antes do recesso forense.

Embora o processo sequer se encontrasse concluso para o magistrado, que acumulava outra vara na vizinha comarca de Campos dos Goytacazes, a decisão tem nove páginas, nas quais o magistrado nomeia a perita Carmen Fidélis Bateira em substituição a outros peritos que trabalharam no processo.

Sucede que a perita Carmen foi rejeitada como perita em processo assemelhado pela Primeira Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, por meio do Agravo de Instrumento número 0057622-32.2023.8.19.0000, julgado em 01 de novembro de 2024, tendo como relator o desembargador José Acir Lessa Giordani. Esse agravo também é oriundo da 2ª Vara de São João da Barra.

O juiz não saber, seria razoável, se a assessora não fosse a mesma. O juiz Tuon teria sido promovido pelo TJRJ para uma das Varas de Família da Capital no mesmo dia da decisão.

Essa guerra de peritos em processos do Porto passou a ser tratada como um escândalo pelos corredores dos fóruns de São João da Barra e Campos. No processo em que foi nomeada a perita já rejeitada, foram realizadas duas perícias anteriores. A primeira foi feita pelo Dr. Daher Nametala Batista Jorge. Em seguida, atuaram Matheus Vieira de Mendonça, Sivaldo Vasconcelos, José Furtado Júnior e Israel Darlan Moreira Pereira.

Nenhum desses peritos teve seus trabalhos aprovados pelo magistrado, mais exatamente aquela que já foi rejeitada pelo Tribunal de Justiça. O processo, até hoje, não tem sequer perícia homologada, ou seja, há 14 anos, embora os réus tenham constituído um dos melhores advogados da região, o Dr. Rodrigo Pessanha.

A questão em São João da Barra, envolvendo a tramitação dos processos do Porto do Açu, é tão polêmica que até o Ministério Público fez perícia nos processos, quando o Ministério Público sequer deve se manifestar em processos de desapropriação, em razão da Deliberação número 30/2011, editada pelo Órgão Especial dos Procuradores de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. A deliberação teria sido uma recomendação do Conselho Nacional do Ministério Público número 16/2010.

Os fundamentos são da lavra da promotora de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Fátima Vieira Henriques, de 20 de janeiro de 2022, quando oficiou no processo número 0329608-69.2017.8.19.0001.

Com certeza, a decisão do juiz Tuon deve atrasar o processo em pelo menos mais 15 anos, uma vez que a perita Carmen não poderia ser nomeada diante da decisão do Tribunal de Justiça. Até a decisão dessa impugnação transitar em julgado, é provável que os réus já não possam mais estar entre nós. Nesse caso, a justiça passa a ser injustiça.
Quem desejar ter acesso à integra da decisão, basta clicar [Aqui!].

Fonte: Ururau

Envenenados: Brasil bate recorde de intoxicação por agrotóxico, com 27 contaminados por dia em 2025

O Brasil viveu em 2025 o pior ano em intoxicações por agrotóxicos desde 2015, com 9.729 casos, revelam dados do Ministério da Saúde analisados pela Repórter Brasil; nos últimos 11 anos, um quarto das vítimas foram crianças de 1 a 4 anos

Brasil bate recorde de intoxicação por agrotóxico, com 27 contaminados por  dia

Por Hélen Freitas/Edição Igor Ojeda para “Repórter Brasil” 

O Brasil viveu em 2025 o pior ano em intoxicações por agrotóxicos dos últimos 11 anos, revelam dados do Ministério da Saúde analisados pela Repórter Brasil. Foram 9.729 casos registrados — alta de 84% em comparação a 2015. Em média, 27 pessoas por dia se intoxicaram no ano passado.

Entre 2015 e 2025, um quarto das vítimas foram crianças de 1 a 4 anos, a segunda faixa etária com mais casos (17.476). A primeira é entre 20 e 39 anos, com 23.045 notificações de intoxicação, cerca de um terço do total. Nessa faixa etária, 54% dos incidentes no ano passado tiveram relação com o trabalho, dos quais 80% estavam relacionados a agrotóxicos de uso agrícola. 

Os números, compilados pelo Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), mostram ainda que, desde 2015, o país somou 73.391 intoxicações por agrotóxicos. A série teve queda em 2020, mas voltou a subir a partir do ano seguinte. A análise considera apenas os chamados “casos não intencionais”, excluindo suicídios, abortos, homicídios e outros episódios em que a contaminação foi deliberada.

No mesmo período, o Brasil bateu recordes de aprovação e comercialização de agrotóxicos. Apenas em 2025, foram 914 novos registros, um aumento de 38% em relação ao ano anterior, segundo dados do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) publicados no Diário Oficial da União. 

Já as vendas chegaram a 825,8 mil toneladas em 2024, crescimento de 9,3% em comparação a 2023, de acordo com dados do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

Para especialistas ouvidos pela reportagem, o aumento das intoxicações está diretamente ligado à ampliação da oferta e do consumo dessas substâncias. “De modo geral, quanto mais agrotóxicos disponíveis, isso tende a fazer com que o preço se reduza, fazendo com que o consumo aumente. Se o consumo aumentar, a população vai estar mais exposta e isso pode fazer com que as intoxicações aumentem”, afirma Loredany Rodrigues, professora de economia aplicada da Universidade Federal de Viçosa.

Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil
Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil

Agrotóxicos agrícolas são os principais causadores das intoxicações no trabalho

O Espírito Santo foi o estado com maior índice de intoxicações em 2025, seja em números absolutos ou proporcionais. Foram 941 registros — quase um em cada dez casos do país — e uma taxa de 23 casos por 100 mil habitantes. Em seguida, proporcionalmente, aparecem Tocantins (16 por 100 mil) e Rondônia, Acre e Roraima (com 11 casos por 100 mil habitantes cada), todos estados da região Norte, marcada pela expansão do agronegócio e pressão sobre áreas de floresta.

As principais vítimas das intoxicações não intencionais são homens de 20 a 39 anos: das 3.059 pessoas dessa faixa etária afetadas em 2025, 73% eram do sexo masculino. Especialistas apontam que a concentração de intoxicações entre adultos jovens e de meia-idade está ligada à predominância masculina no trabalho rural e à alta demanda por trabalhadores nesse período da vida.  

Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil
Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil

O Ministério do Trabalho e Emprego criticou o alto número de casos relacionados a lavradores no campo. “Não é admissível que interesses econômicos se sobreponham à proteção da saúde dos trabalhadores”, diz nota enviada à Repórter Brasil.

A reportagem questionou o Ministério da Agricultura e Pecuária sobre o recorde de registros de agrotóxicos, a relação entre o aumento da oferta e o crescimento das intoxicações, além de medidas de fiscalização no campo. 

A pasta, responsável por autorizar e reavaliar agrotóxicos segundo a nova Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024, não respondeu às perguntas e orientou apenas que a apuração fosse direcionada à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A Anvisa afirma que as notificações de intoxicação humana são um dos elementos usados para orientar a reavaliação de produtos já registrados e para embasar tecnicamente as análises toxicológicas. “As intoxicações são avaliadas e consideradas nos pareceres de exposição humana elaborados para subsidiar o processo decisório da reanálise”, cita nota enviada à reportagem. 

Diz, ainda, que suas decisões dependem de uma análise mais ampla de risco. “As decisões regulatórias da Anvisa incorporam predominantemente evidências experimentais, epidemiológicas e modelagens de exposição capazes de prever efeitos crônicos antes que eles se manifestem na população”.

Já o Ministério da Saúde pontua que monitora as intoxicações pelo Sinan, de notificação obrigatória, e atribui parte do aumento das notificações ao reforço das ações de vigilância. “No ano passado, o Ciclo de Webinários da VSPEA [Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, programa dos SUS] tratou de temas como diagnóstico, tratamento e notificação de intoxicações exógenas, visando aprimorar a atuação de equipes da vigilância, atenção primária e especializada. Parte do aumento dos registros deve-se a esse incremento na vigilância”, diz o texto. Confira aqui as respostas completas do Ministério do Trabalho, da Anvisa e do Ministério da Saúde.

Crianças pequenas podem se intoxicar até dentro de casa e através do leite materno

O número de intoxicações em crianças de 1 a 4 anos — um quarto das notificações desde 2015 — preocupa os especialistas ouvidos pela reportagem. Segundo Wanderlei Pignati, professor da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso) e pesquisador referência no país sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana, diversos fatores fazem com que esse grupo esteja entre os mais expostos. Um deles é que o sistema imunológico ainda não está completamente formado nessa fase. 

Pesquisa orientada por Pignati no Mato Grosso, além disso, já confirmou a presença de resíduos de agrotóxicos no leite materno. Muitos pesticidas são lipofílicos, ou seja, tendem a se acumular em tecidos gordurosos, como as glândulas mamárias.

Já a agrônoma Fernanda Savicki, pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Ceará, ressalta que os limites de tolerância a resíduos químicos são calculados para adultos de cerca de 70 kg, o que torna qualquer exposição proporcionalmente muito mais grave para uma criança pequena. 

Ela destaca também que crianças dessa faixa etária aparecem com frequência nos dados porque são o grupo mais monitorado pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Com vacinas frequentes e consultas pediátricas regulares, qualquer alteração de saúde é mais facilmente percebida e notificada do que em adultos. Além disso, diz, sintomas como diarreia, vômito ou manchas na pele em bebês geram preocupação imediata nos pais, que procuram o serviço de saúde com mais frequência.

“Qualquer tipo de variação na saúde dessas crianças vai ser muito mais verificada e notificada do que, por exemplo, em crianças maiores, adolescentes e adultos”, afirma a pesquisadora da Fiocruz.

Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil
Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil

Agrotóxicos são um problema de saúde pública, defende pesquisadora da Fiocruz

Especialistas ouvidos pela Repórter Brasilafirmam que o Brasil lida com os agrotóxicos sob uma lógica de mercado que ignora seus impactos na sociedade. Para eles, a nova Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024, agrava esse cenário e representa um retrocesso regulatório. 

Ao baratear e facilitar o acesso a essas substâncias, a medida pode intensificar o ciclo de “envenenamento” da população brasileira, alertam. “Já faz tempo que as intoxicações por agrotóxicos não deveriam ser mais vistas como casos isolados, mas como um problema de saúde pública”, afirma Fernanda Savicki, da Fiocruz.

A intoxicação aguda — aquela que aparece logo após a exposição — representa 89% de todos os casos desde 2015, revelam os dados analisados pela Repórter Brasil. Doenças crônicas associadas ao uso prolongado, como câncer e desregulação endócrina, levam anos para surgir e são mais difíceis de relacionar diretamente à exposição.

Os números podem ser muito maiores. A Organização Mundial da Saúde estima que apenas uma em cada 50 intoxicações por agrotóxicos seja registrada no mundo. Sintomas como tontura, febre, náusea e diarreia muitas vezes são anotados como viroses ou indisposições alimentares, sem investigação de uma possível causa tóxica.

Jaqueline Andrade, assessora jurídica da organização Terra de Direitos, afirma que, no caso dos povos indígenas, a subnotificação é alimentada por desinformação e preconceito. Ela conta que, ao questionar oficialmente secretarias municipais de saúde sobre intoxicações do povo Avá-Guarani, no Paraná, ouviu respostas como: “eles fumam cachimbo o dia inteiro” ou “vivem sem saneamento, então não dá para dizer que é agrotóxico”. Ela relata, ainda, que trabalhadores evitam denunciar casos por medo de sofrer retaliações ou perder o emprego.

Na avaliação de Wanderlei Pignati, professor da UFMT, o registro de intoxicações por agrotóxicos esbarra na precariedade da estrutura de saúde do trabalhador pelo país, na pressão de empregadores para que episódios do tipo não sejam notificados oficialmente e na falta de interesse do poder público, que estaria priorizando os retornos econômicos gerados pela comercialização desses produtos.

Savicki ressalta que a subnotificação impede o Estado de medir o impacto real dos agrotóxicos no SUS. A Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) estima que, somente considerando casos agudos, cada dólar gasto com agrotóxicos gera um custo de 1,29 dólar para o sistema de saúde.


MAB convoca ato no TJMG no próximo dia 5/3 para defender direitos de famílias atingidas pelo acidente da Vale em Brumadinho (MG)

Foto: Nívea Magno

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) irá julgar no dia 05 de março o processo que trata do auxílio emergencial destinado às famílias atingidas pelos crimes da Vale de Brumadinho a Três Marias.

A 19ª Câmara de Direito Público iniciará sua sessão às 13h30 para tratar do recurso da Vale que busca acabar com o auxílio emergencial. Por isso, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) está convocando um ato na porta do TJMG (Av. Afonso Pena, 4001, Belo Horizonte) na próxima quinta-feira, 05/03/26, às 13h00 em vigília pelo julgamento.

 A decisão poderá impactar diretamente a vida de milhares de pessoas que dependem do direito para garantir condições mínimas de sobrevivência. Dependendo da decisão, a última parcela que as famílias irão receber é a de fevereiro de 2026.

O MAB reforça que o auxílio deve continuar conforme diz a Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas (PNAB – Lei Federal 14.55/2023)  até que as comunidades tenham condições equivalentes as de antes do crime, além de determinar que a reparação deve ser integral, coletiva e construída com participação efetiva dos atingidos.

Fim da pausa: Câmara de Vereadores marca audiência para discutir novo Plano Diretor de São João da Barra

Pode ser coincidência, já que publiquei no último sábado, um texto neste blog dando conta da “pausa” em que se encontrava o novo Plano Diretor Municipal (PDM) de São João da Barra, mas hoje me chega a informação de que a Câmara Municipal de São João da Barra comunicou ao Presidente do Núcleo Gestor de Acompanhamento do novo PPDM de São João da Barra, o Aristeu de Oliveira Netto, que, está agendada uma Audiência Pública para debater o documento no dia 20/03/26, às 14h, nas suas dependências

Também me foi passada a informação que o texto da Minuta final do novo PDM está disponível para consulta pública na página digital da Prefeitura Municipal de São João da Barra em um link que dá entrada direta a uma pasta de acesso livre.  Esse link é o seguinte:
https://drive.google.com/drive/folders/1CT5bvsVOgnUx0dKnnVJ6dB_Xf7xyjJbU?usp=sharing

Como já indiquei, a participação da população no debate sobre o novo PDM, na medida em que muitas vidas poderão ser afetadas pelas mudanças que poderão advir com sua aprovação.

 

Em denúncia à DPU, pescadores relatam ameaças aos seus modos de vida devido às obras do Porto Piauí

Por  Luan Matheus Santana, com informações do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP/PI) | Edição: Tânia Martins 

Na última quarta-feira (25/02), a Defensoria Pública da União (DPU) esteve na comunidade Porto do Buraco do Dandão, em Luís Correia, para averiguar o conflito que se estabeleceu no território após as obras do Terminal Pesqueiro, ligado ao complexo portuário da cidade. Antes da visita da DPU, no dia 15 de janeiro, o Ministério Público Federal (MPF) e Defensoria Píublica do Estado do Piauí (DPE) também visitaram a comunidade, que está no centro desse conflito, já que a empresa Porto Piauí quer retirar as embarcações e os pescadores do local para viabilizar a obra. Os pescadores, porém, resistem e lutam para permanecer no Porto do Buraco do Dandão, onde guardam suas memórias e garantem seu sustento. Além do impacto social, há também preocupação ambiental: o próprio Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do Porto Piauí aponta que o ecossistema do Delta do Parnaíba pode estar em risco com a implantação do projeto.

Porto de Luís Correia é uma das obras prioritárias do governador Rafael Fonteles (PT). Foi iniciado nos anos 70 e retomada agora com a promessa de trazer desenvolvimento para o Estado. Na vida real das centenas de pescadores que estão envolvidos no maior conflito de sobrevivência de suas vidas, a situação é de desespero.  “Estão tomando o porto devagarzinho. E ninguém faz nada. Vai acontecer que vão dispensar todo mundo. E ninguém chega aqui para dar uma satisfação aos pescadores. Só ficam falando em indenização. Ninguém quer indenização, não. Nós queremos o porto dos pescadores aqui, as canoas aqui”, desabafa um dos pescadores durante visita da DPU. 

O pescador, que optamos por não identificar nesta reportagem, nasceu e cresceu dentro das canoas do Porto do Buraco do Dandão. “Eu já tenho 40 anos e esse porto já existia. Meu pai hoje está aposentado, tem 75 anos e pescou aqui nessas canoas. E agora, de repente, querem tomar o porto dos pescadores. Querem mandar não sei para onde. Não tem condição, não. Isso não entra na cabeça do pescador. Nós queremos o porto dos pescadores aqui”, afirma.

Pescadores do Porto do Buraco do Dandão. Foto: CPP/PI

Reunidos durante a visita da DPU, os pescadores informaram que a direção do Porto Piauí determinou a retirada das embarcações e dos pescadores do porto Buraco do Dandão para a execução da obra, no entanto, eles decidiram resistir por considerar que é um direito lutar para permanecerem onde exercem a profissão há mais de 50 anos, e de onde tiram o sustento de suas famílias.

Esse local é muito mais que um simples porto. É um espaço de vida, identidade, trabalho e de encontro entre pescadores e pescadoras. Também é ali que eles guardam e conservam suas embarcações. “Aqui é do meu filho e nós vivemos da pesca, né? Há muitas gerações esse povo existe aqui. É aqui que os pescadores tiram o seu sustento, cuidam dos seus filhos, levam alimento para sua mesa e sustentam suas famílias. Todos os pescadores já sentiram o impacto ambiental por conta desse porto que está sendo construído. Nós não estamos aqui para julgar, mas temos sofrido as consequências”, afirma uma pescadora que utiliza o Porto do Buraco do Dandão. E ela tem um medo que, também é o medo de todos que vivem na comunidade: “se nos tirarem daqui, como é que a gente vai sobreviver?”

Diante desse cenário, moradores e trabalhadores da pesca avaliam que o modelo de “desenvolvimento” adotado pelo Governo do Piauí é excludente, pois limita a participação social, ignora as vocações do território e suas características socioambientais, além de colocar em risco os modos de vida das comunidades e o meio ambiente. Trata-se, segundo as críticas apresentadas, de um tipo de projeto que prioriza grandes empresas, muitas vezes associadas à degradação ambiental.

Porto do Buraco do Dandão. Foto: CPP/PI

Os impactos já chegaram

Desde as primeiras chuvas deste ano a comunidade Porto do Buraco do Dandão foi obrigada a conviver com alagamentos e o medo de perder tudo o que construíram. Ainda em janeiro, quando as chuvas começaram a cair no litoral, casas ficaram debaixo d’água, moradores perderam móveis, eletrodomésticos e outros bens, e o medo voltou a fazer parte da rotina de quem vive no local. 

Um vídeo gravado por um dos moradores mostra a situação depois da chuva. Nas imagens, a casa de Dona Maria aparece completamente alagada. A água tomou conta dos cômodos e causou muitos prejuízos. “Olha o prejuízo que eles deram para Dona Maria. colocaram piçarra mais alto do que a rua. E só quem é prejudicado são os moradores. Já vieram aqui, já mediram a quadra 3, não deram previsão. Até agora não fizeram nada pela gente. A gente ainda está aguardando e não tem nem previsão”, denuncia morador da comunidade, em vídeo gravado e compartilhado nas redes sociais. 

Segundo os moradores, esse problema não existia na comunidade até o início das obras da Porto Piauí. Para a construção do empreendimento do Terminal Pesqueiro foram erguidos aterros ao redor da comunidade, que deixaram o solo mais alto do que as ruas. Com isso, a água da chuva não consegue mais escoar para o rio. Ela fica represada e acaba entrando nas casas.

Comunidade existe há mais de 50 anos

O Porto do Buraco do Dandão foi criado há cerca de 50 anos pelo senhor Dandão, hoje aposentado. Desde então, o local se tornou um ponto importante para a pesca artesanal na região. Hoje, cerca de 60 embarcações usam o porto durante o ano. Aproximadamente 150 pescadores dependem diretamente desse espaço para morar, trabalhar e sustentar suas famílias.

Em alguns períodos, pescadores de Bitupitá, no Ceará, também utilizam o local como apoio, principalmente quando há ventos fortes no mar.

Para os moradores, o porto não é apenas um lugar de trabalho. Ele faz parte da história da comunidade, da cultura e da identidade das famílias que vivem ali.

Foto: CPP/PI

Poeira, prejuízo e dificuldade para trabalhar

Além dos alagamentos, os moradores convivem com outro problema: a poeira causada pelos caminhões que transportam terra para os aterros. Essa poeira suja as casas, as ruas e, principalmente, as redes de pesca. Os pescadores precisam gastar muito tempo limpando o material antes de ir para o mar. Isso significa menos tempo para pescar e menos renda no fim do mês. Muitos relatam também problemas respiratórios, principalmente em crianças e idosos, por causa da poeira constante.

Alerta foi feito antes das chuvas

Em dezembro de 2025, um relatório do Observador do Processo de Consulta Porto do Piauí, da Universidade Federal do Delta do Parnaíba, já havia alertado sobre o risco de alagamentos. O documento explicou que o aterro das áreas ao redor do porto estava bloqueando o caminho natural da água da chuva. Também alertou que, sem obras de drenagem, as casas seriam atingidas no período chuvoso.

Mesmo com esse aviso, nenhuma medida foi tomada para proteger a comunidade. Agora, o que estava previsto acabou acontecendo.


Fonte: Ocorre Diário

Do porto ao poder: sinais de tecnofeudalismo em São João da Barra

Reconheço que há muitas questões urgentes acontecendo no mundo, mas não resisto a continuar apreciando as últimas novidades vindas da bucólica e simpática São João da Barra, onde os gestores do Porto do Açu aparentemente se cansaram de intermediários e optaram por gerir eles mesmos partes fundamentais da governança municipal. 

Salvo engano, em nenhum outro lugar do Brasil — e olhem que existem empresas estratégicas que são a única fonte de empregos e impostos em muitos municípios — ocorre algo como o que se observa em São João da Barra, com a captura objetiva do Conselho Municipal de Meio Ambiente.

Aliás, se não fosse por vozes que, solitariamente, informam o que acontece em São João da Barra, jamais saberíamos que o Porto do Açu assumiu a presidência do conselho que deveria monitorar seus danos ambientais, os quais, entre outras coisas, ameaçam riscar do mapa uma localidade hipertradicional como a Barra do Açu.

Como o próximo Plano Diretor Municipal terá, obrigatoriamente, dispositivos relacionados ao meio ambiente, o Porto do Açu acabará tendo a primeira e a última palavra sobre o que constará nesse capítulo. Eu diria que os moradores de São João da Barra, principalmente aqueles que vivem no V Distrito, deveriam começar a buscar apoio para compreender o que está sendo proposto nesse documento, sobretudo nos mapas que o acompanharão.

Venho acompanhando e conduzindo estudos sobre o Porto do Açu desde praticamente o lançamento de sua pedra fundamental, em 2006. Agora, porém, vejo que a ingerência direta e explícita no funcionamento da governança sanjoanense abre caminho para que eu possa estudar aquilo que um observador astuto da situação em formação em São João da Barra rotulou como a criação de um “tecnofeudo logístico”, em alusão à teoria desenvolvida pelo economista grego Yanis Varoufakis, que argumenta que o desenvolvimento do capitalismo resulta em uma nova forma de feudalismo, na qual os proprietários de grandes empresas de tecnologia são vistos como uma versão moderna de senhores feudais.

Costumo dizer que a ciência prospera a partir de situações drásticas que demandam o uso criterioso do método científico, para que não fiquemos apenas na superfície dos fenômenos. O que, sinceramente, não esperava era ter a oportunidade de verificar in loco a efetividade dos postulados de Varoufakis.

Porto do Açu lidera Conselho Ambiental enquanto erosão é estudada: conflito de interesses?

Eleição ocorre enquanto a Prefeitura Municipal de São João da Barra licita EVTEA para analisar impactos costeiros em área de influência direta do complexo portuário

Por Abdo Gavinho*

São João da Barra (RJ) – A eleição da Reserva Ambiental Fazenda Caruara S.A. para a Presidência do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMMADS) tem gerado forte repercussão institucional e social.

A entidade é uma sociedade anônima fechada controlada em aproximadamente 99,7% pelo grupo do Porto do Açu, com participação minoritária da Prumo Logística.

A controvérsia ocorre em momento considerado sensível: o Município está licitando um EVTEA (Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental) para analisar a erosão costeira na Praia do Açu — área diretamente inserida na zona de influência do complexo portuário.

Erosão costeira no centro do debate

A Praia do Açu enfrenta processos de alteração morfológica costeira que impactam:

  • Moradores;
  • Pescadores artesanais;
  • Infraestrutura local;
  • Dinâmica ambiental da região.

O próprio EIA/RIMA do Porto do Açu registra análises relacionadas à dinâmica sedimentar e possíveis interferências costeiras associadas ao empreendimento.

Diante desse contexto, o fato de uma subsidiária do grupo econômico controlador do Porto assumir a Presidência do Conselho Ambiental levanta questionamentos sobre governança e independência institucional.

Poder de agenda e influência institucional

A Presidência do CMMADS não é função meramente protocolar. Compete ao presidente:

  • Definir e organizar pautas;
  • Convocar reuniões;
  • Conduzir debates;
  • Coordenar deliberações.

Com o EVTEA em curso, o Conselho poderá discutir:

  • Resultados técnicos do estudo;
  • Encaminhamentos administrativos;
  • Recomendações ambientais;
  • Eventuais medidas mitigadoras.

Especialistas em Direito Administrativo apontam que, em situações envolvendo empreendimentos de grande impacto ambiental, a governança pública exige máxima cautela para evitar conflitos estruturais de interesse.

Estrutura societária e dever fiduciário

Como sociedade anônima fechada, a Reserva Caruara possui dever legal de alinhamento aos interesses de seus acionistas controladores. Em estruturas de controle societário quase integral, decisões estratégicas devem observar os interesses do grupo econômico.

Esse aspecto reforça o debate sobre a necessidade de preservar independência decisória no âmbito do órgão ambiental municipal.

Estranhamento institucional

A coincidência temporal entre: a) A eleição da subsidiária do Porto para presidir o Conselho e b) A licitação do estudo sobre erosão costeira em sua área de influência direta tem sido apontada como fator de preocupação por representantes da sociedade civil.

O questionamento central não é sobre a presença do setor produtivo no Conselho — prevista nos modelos participativos — mas sobre a concentração de poder de agenda em momento de análise de tema sensível ao próprio grupo econômico.

Próximos desdobramentos

O caso está sendo analisado juridicamente por representantes da sociedade civil, que avaliam medidas administrativas e institucionais para assegurar:

  • Transparência na condução do EVTEA;
  • Garantia de imparcialidade nas deliberações;
  • Preservação da credibilidade do Conselho Ambiental.

A erosão costeira na Praia do Açu permanece como tema de alta relevância social e ambiental no município.


*Abdo Gavinho é membro do CMMADS

Plano Diretor “pausado” e território em jogo: a expansão do Porto do Açu no centro do impasse

Em uma prova de que novidade não falta em São João da Barra, um leitor do blog, após ler o texto sobre a esdrúxula nova composição do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável — agora capitaneado por um representante do Porto do Açu —, escreveu-me para registrar sua estranheza diante da repentina pausa que parece ter se abatido sobre a preparação do novo Plano Diretor Municipal (PDM).

Segundo esse leitor, o processo vinha avançando de vento em popa, em meio às pressões do Porto do Açu (mas que surpresa!) para que o novo PDM incorporasse diretrizes favoráveis à expansão do empreendimento, até a última reunião do chamado Núcleo Gestor, realizada em novembro de 2025. Ainda de acordo com ele, desde então instaurou-se uma paralisação que interrompeu os trabalhos do PDM, ao menos em São João da Barra.

Como já analisei neste blog as nuances da aprovação do atual PDM de São João da Barra, em 2015 — já fortemente influenciado pelas pressões oriundas do Porto do Açu —, uma análise consistente de instrumentos dessa natureza deve começar pelos mapas que os acompanham. Afinal, é na leitura cartográfica que se revela, com maior nitidez, o que se pretende fazer com o uso do solo, seja urbano ou rural. Nesse sentido, uma das possíveis razões para a atual pausa pode residir justamente nas disputas em torno da nova configuração territorial do município, uma vez que diferentes atores certamente buscam influenciar o que poderá ser feito — e onde. Em outras palavras, a disputa pelo controle e pelo destino do território pode estar travando o avanço do novo PDM.

Diante do exposto, parece evidente que esse processo não pode transcorrer sem acompanhamento atento e crítico por parte da sociedade. As notícias que vinham sendo divulgadas na mídia corporativa sanjoanense e campista, muitas vezes marcadas por um tom excessivamente complacente, precisam ser revisitadas com maior rigor analítico, sobretudo por aqueles que têm razões concretas para temer seus desdobramentos. A experiência recente demonstra que decisões tomadas no âmbito do planejamento territorial podem resultar em consequências profundamente desiguais, como evidenciado pelo destino imposto a agricultores familiares e pescadores lagunares do município.

Nesse contexto, é fundamental reconhecer que o novo PDM tende a se constituir não apenas como um instrumento técnico de ordenamento territorial, mas como uma peça central na redefinição das relações de poder sobre o território. Ao oferecer base legal para intervenções mais intensas, ele poderá viabilizar novas ondas de deslocamento e exclusão de populações historicamente enraizadas em determinadas áreas. O distrito de Barcelos, já mencionado em reportagens que tratavam do trâmite do novo PDM— inclusive em razão da possibilidade de instalação de uma nova unidade prisional —, desponta como um dos espaços onde essas tensões poderão se materializar de forma mais aguda.

Dessa forma, mais do que nunca, impõe-se a necessidade de vigilância social, transparência nos processos decisórios e participação efetiva das comunidades potencialmente afetadas. Afinal, quando o planejamento urbano e territorial se dissocia do interesse público e passa a responder prioritariamente a pressões econômicas específicas, os custos sociais tendem a ser elevados — e, muitas vezes, irreversíveis. Nesses cenários, o velho ditado permanece atual: cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Mas, talvez, seja preciso ir além da cautela — e apostar também na organização e na ação coletiva como formas de evitar que decisões cruciais sejam tomadas à revelia daqueles que mais sofrerão seus impactos.