Enquanto o calor aperta, a poda drástica continua dilapidando a arborização em Campos

A poda drástica da arborização urbana caminha exatamente na direção contrária do que uma cidade deveria fazer para se adaptar às mudanças climáticas

A fotografia abaixo, feita na esquina entre Riachuelo e Sete de Setembro em Campos dos Goytacazes, mostra uma prática que continua sendo tratada como corriqueira: a poda extremamente severa de árvores urbanas, com a retirada de grande parte de suas copas. O problema é que, em tempos de agravamento da crise climática, aquilo que já poderia ser considerado um manejo inadequado da arborização passa a representar também um sério equívoco de política urbana.

Árvores não são meros elementos decorativos das cidades. Suas copas produzem sombra, reduzem o aquecimento de calçadas, ruas e edificações e, por meio da evapotranspiração, contribuem para diminuir a temperatura do ambiente urbano. Além disso, ajudam na retenção da água das chuvas, na captura de carbono e de material particulado e oferecem abrigo e alimento para a fauna. Retirar drasticamente uma copa significa eliminar, justamente nos meses mais quentes, boa parte desses serviços ambientais.

A situação se torna ainda mais contraditória diante da perspectiva de um El Niño muito forte, que poderá contribuir para condições de calor particularmente severas no Brasil no final de 2026 e início de 2027. Para uma cidade quente como Campos dos Goytacazes, preparar-se para temperaturas extremas deveria significar aumentar a cobertura arbórea e preservar árvores adultas, principalmente nas áreas densamente urbanizadas, e não transformar árvores de grande porte em troncos praticamente desprovidos de copa.

Há ainda outro problema: podas excessivamente severas podem provocar estresse, favorecer doenças e produzir brotações estruturalmente frágeis, reduzindo a estabilidade e a longevidade das próprias árvores. Assim, uma intervenção muitas vezes justificada em nome da “segurança” pode, quando tecnicamente inadequada, produzir novos problemas no médio prazo.

A imagem que ilustra esta postagem é, portanto, mais do que o registro de algumas árvores podadas. Ela sintetiza uma contradição que precisa ser enfrentada em Campos: não existe política séria de adaptação ao calor extremo sem uma política igualmente séria de arborização urbana. Em plena emergência climática, retirar indiscriminadamente as copas das árvores significa desmontar uma das poucas infraestruturas naturais de resfriamento que a cidade já possui — e ainda por cima gratuitamente. Por isso, mais do que interromper a prática das podas drásticas, é necessário que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente comece a desenvolver um Plano Diretor Municipal de Arborização, capaz de estabelecer critérios técnicos para plantio, escolha de espécies, manejo, poda, substituição e ampliação da cobertura arbórea. Diante do agravamento da crise climática e da perspectiva de episódios cada vez mais intensos de calor, arborizar Campos deixou de ser uma questão meramente paisagística para se tornar uma política essencial de adaptação climática e de saúde pública.

China começa a disputar mercados com o Brasil, e o frango pode ser apenas o começo

Expansão chinesa na produção de alimentos e investimentos na África mostram que a condição de grande comprador das commodities brasileiras não impede Pequim de construir alternativas — e até novos concorrentes — ao agronegócio brasileiro

Uma matéria publicada pela Folha de S.Paulo neste sábado (05/9), assinada por Roberto Samora, acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça das transformações que estão ocorrendo nas relações econômicas entre Brasil e China. Segundo Chenjun Pan, especialista do Rabobank, a China deverá ampliar sua participação nas exportações globais de carne de frango e poderá se transformar, na próxima década, em concorrente importante do Brasil em mercados como Oriente Médio, Ásia e África. A informação merece atenção porque vai muito além da avicultura: ela ajuda a revelar uma mudança que pode atingir progressivamente diferentes segmentos do chamado agronegócio brasileiro. A China tornou-se exportadora líquida de carne de frango em 2025 e vem aumentando rapidamente sua produção. Ainda existe enorme distância em relação ao Brasil, que permanece como potência exportadora do setor, mas o aspecto relevante não está apenas nos volumes atuais. O que importa é a trajetória. Estamos diante de um país que durante muito tempo ampliou suas importações de alimentos e matérias-primas e que agora procura aumentar a produção doméstica, diversificar fornecedores e, em determinados segmentos, criar excedentes capazes de disputar mercados internacionais.

Essa notícia ganha outra dimensão quando colocada ao lado da crescente presença chinesa na África. Como discuti recentemente neste blog, os investimentos chineses no continente africano não se limitam à aquisição de minerais ou à construção de obras isoladas. Ferrovias, rodovias, portos, energia e infraestrutura logística estão criando condições para ampliar a capacidade africana de produzir e exportar commodities agrícolas e minerais. Para a China, isso representa diversificação das fontes de abastecimento e redução da dependência de fornecedores específicos. Para o Brasil, entretanto, significa a possibilidade de surgimento ou fortalecimento de competidores justamente nos produtos em que nossa economia se tornou crescentemente especializada.

O caso do frango revela que essa transformação pode ocorrer também na direção inversa. A África poderá simultaneamente aumentar sua capacidade de fornecer matérias-primas para a China e tornar-se mercado para produtos chineses. Se o frango brasileiro passar a disputar consumidores africanos, asiáticos e do Oriente Médio com empresas chinesas, estaremos diante de uma mudança qualitativa na relação entre os dois países: a China continuará sendo um dos maiores compradores do Brasil, mas poderá ser também uma concorrente crescente dos produtos brasileiros nos mercados internacionais.

Há ainda uma conexão particularmente importante com a soja. A expansão chinesa da produção de frango não ocorre apenas porque existe demanda por proteína animal. A avicultura apresenta maior eficiência na conversão alimentar do que a suinocultura, utilizando proporcionalmente menos milho e farelo de soja. Se mudanças dessa natureza avançarem na estrutura de produção e consumo chinesa, poderão contribuir para reduzir o ritmo de crescimento da demanda por soja importada. Para um país que estruturou parcela considerável de sua expansão agrícola contando com a aparentemente inesgotável demanda chinesa, isso deveria soar como um sinal de alerta.

O problema torna-se mais sério porque essa transformação acontece num momento em que produtos brasileiros enfrentam dificuldades crescentes em mercados dos Estados Unidos e da União Europeia, seja por barreiras tarifárias, sanitárias, ambientais ou outras exigências regulatórias. Quando um mercado se fecha ou se torna menos acessível, exportadores procuram redirecionar mercadorias para outros destinos. Mas esses mercados alternativos são justamente aqueles onde novos competidores começam a aparecer. O resultado pode ser maior oferta, competição por compradores e pressão para baixo sobre preços e margens.

É por isso que talvez esteja chegando o momento de abandonar uma visão excessivamente confortável da relação Brasil-China. Durante as últimas décadas consolidou-se a percepção de uma complementaridade quase natural: o Brasil possui terra, água, minérios e capacidade de produzir commodities; a China possui população, indústria e enorme demanda por matérias-primas. O problema é imaginar que essa divisão internacional do trabalho permanecerá congelada. Nenhuma potência econômica trabalha para permanecer indefinidamente dependente de poucos fornecedores estrangeiros de alimentos, energia e minerais estratégicos.

A estratégia chinesa parece caminhar precisamente na direção oposta. Pequim amplia sua produção doméstica quando isso é possível, modifica padrões produtivos para reduzir dependências, investe na infraestrutura necessária para criar fornecedores alternativos na África e em outras regiões e, quando alcança escala suficiente, transforma cadeias antes voltadas ao mercado interno em plataformas exportadoras. O frango oferece um exemplo particularmente didático dessa sequência: importar, ampliar a produção doméstica, alcançar maior autossuficiência, gerar excedentes e finalmente exportar.

Nada disso significa que a China deixará de comprar commodities brasileiras no futuro próximo. O tamanho de sua economia torna essa hipótese pouco plausível. A questão estratégica é outra: como já foi observado neste blog, o Brasil poderá continuar sendo importante para a China sem continuar sendo indispensável. E existe uma diferença enorme entre essas duas condições. Essa possibilidade deveria preocupar especialmente um país que nas últimas décadas aprofundou sua dependência da exportação de soja, minério de ferro, petróleo, carnes e celulose enquanto sua indústria perdeu participação relativa na economia. O sucesso recente das exportações de commodities acabou criando uma perigosa sensação de segurança, como se a demanda chinesa fosse uma espécie de garantia permanente para a economia brasileira.

A matéria publicada pela Folha sugere que essa garantia simplesmente não existe. A expansão chinesa na África e o avanço da própria China sobre mercados hoje ocupados pelo Brasil são duas faces de um mesmo movimento de reorganização das cadeias internacionais de produção e abastecimento. O maior comprador das commodities brasileiras pode continuar sendo nosso principal cliente enquanto simultaneamente constrói fornecedores alternativos e se transforma em nosso concorrente. Talvez essa seja a questão mais incômoda colocada pela notícia sobre o frango. O problema não é saber se a China continuará comprando do Brasil nos próximos anos, mas perguntar por quanto tempo o Brasil poderá sustentar um modelo econômico baseado na expectativa de que a China continuará precisando comprar aquilo que produzimos, nas quantidades e nas condições que interessam ao chamado agronegócio brasileiro. O frango pode ser apenas o primeiro aviso de que essa conta está começando a mudar.

Brasil, paraíso do rentismo? Um relatório que merece ser lido

Paulo Lindesay discute como mudanças constitucionais e o funcionamento da dívida pública favoreceram a expansão do poder do capital financeiro sobre o orçamento brasileiro

O relatório produzido por Paulo Lindesay, coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida – Núcleo Rio de Janeiro, merece uma leitura atenta, sobretudo porque coloca no centro do debate uma questão que raramente recebe a atenção correspondente à sua importância: quanto do fundo público brasileiro é mobilizado para sustentar o funcionamento da dívida pública e quem efetivamente se beneficia desse sistema?

Lindesay parte de números impressionantes. Segundo seus cálculos, entre 2000 e agosto de 2026 aproximadamente R$ 27 trilhões teriam sido destinados ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública, sendo mais de R$ 22 trilhões apenas em amortizações. Apesar disso, o estoque da Dívida Bruta do Governo Geral continuou aumentando. É justamente essa aparente contradição que conduz uma parte importante da argumentação apresentada no documento.

Mas o relatório vai além dos números. Paulo Lindesay procura reconstruir a arquitetura política e constitucional que teria permitido ao capital financeiro ampliar sua capacidade de apropriação do fundo público. Nesse percurso, destaca as regras relacionadas ao pagamento da dívida e, principalmente, as transformações introduzidas pela Emenda Constitucional nº 40/2003, originada da PEC 53/1999, que suprimiu os incisos e parágrafos do antigo Artigo 192 da Constituição. Na interpretação do autor, essas mudanças contribuíram para uma verdadeira “desconstitucionalização” do Sistema Financeiro Nacional, reduzindo os obstáculos impostos ao funcionamento do grande capital financeiro.

O documento também registra os argumentos utilizados pelos defensores dessas mudanças, incluindo a necessidade de modernização do sistema financeiro, maior flexibilidade para a política monetária, eliminação do antigo teto constitucional dos juros reais e maior integração do Brasil aos mercados financeiros internacionais. Isso torna sua leitura particularmente interessante, pois permite observar a distância entre as justificativas apresentadas para determinadas reformas e a interpretação que Lindesay faz dos seus resultados históricos.

No fundo, o relatório nos convida a discutir algo muito maior do que juros, dívida ou política monetária. Trata-se de perguntar quem disputa e quem captura o fundo público brasileiro. Enquanto universidades, hospitais, ciência, educação, infraestrutura e políticas sociais são permanentemente confrontados com limites fiscais, contingenciamentos e cortes orçamentários, enormes volumes de recursos continuam circulando pelo sistema da dívida.

Por isso, mais do que reproduzir aqui todos os argumentos apresentados por Paulo Lindesay, convido os leitores do Blog do Pedlowski a lerem o relatório na íntegra. Concorde-se ou não com todas as interpretações do autor, os números e questões que ele apresenta justificam um debate que não deveria permanecer restrito aos especialistas em finanças públicas.

Lindesay termina recuperando uma antiga reivindicação da Auditoria Cidadã da Dívida: a realização da auditoria prevista no Artigo 26 do ADCT, com participação popular. Talvez seja justamente esse o ponto de partida mais importante para a leitura do documento: se estamos falando de trilhões de reais retirados anualmente do fundo público, compreender como esse sistema funciona não deveria ser assunto apenas de economistas, banqueiros ou operadores do mercado financeiro.

Afinal, quando se trata do orçamento público brasileiro, tão importante quanto perguntar quanto o Estado gasta é perguntar quem está na primeira fila para receber.

Quando a paisagem distópica de Matteo Wong chegar ao Açu

Por trás da aparente imaterialidade da inteligência artificial existe uma gigantesca infraestrutura industrial cuja expansão começa a produzir conflitos por energia, água e território

A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma espécie de manifestação máxima da desmaterialização da economia. Falamos em algoritmos, nuvens, modelos e processamento de informações como se tudo isso acontecesse em algum espaço virtual separado do mundo físico. A reportagem de Matteo Wong, publicada pela The Atlantic sob o sugestivo título Inside the Dirty, Dystopian World of AI Data Centers, desmonta essa fantasia ao mostrar que a chamada revolução da inteligência artificial depende de uma infraestrutura extraordinariamente material, formada por gigantescos galpões repletos de servidores, linhas de transmissão, subestações elétricas, sistemas de refrigeração, geradores e, cada vez mais, usinas destinadas a alimentar uma demanda energética que cresce em velocidade impressionante.

O exemplo mais impressionante apresentado por Wong é o Colossus, data center construído pela xAI em Memphis, nos Estados Unidos. Funcionando em sua capacidade máxima durante um ano, o complexo pode consumir eletricidade equivalente à utilizada por cerca de 200 mil residências norte-americanas. Quando outras instalações previstas pela empresa estiverem operacionais, a demanda poderá chegar perto de 2 GW. A dimensão desse processo fica ainda mais evidente quando se observa que a OpenAI anunciou instalações cuja demanda agregada poderá ultrapassar 30 GW, enquanto a Agência Internacional de Energia estima que, já em 2030, os data centers poderão consumir nos Estados Unidos mais eletricidade do que todas as indústrias pesadas do país somadas.

A consequência é que a expansão da inteligência artificial começa a produzir uma corrida paralela pela produção de energia. E aqui surge uma das maiores contradições do discurso que apresenta a digitalização como parte de uma economia supostamente limpa. Para colocar rapidamente o Colossus em operação, a xAI recorreu a dezenas de turbinas movidas a gás natural, enquanto novos projetos de data centers estão estimulando a construção de termelétricas e até prolongando a vida útil de usinas movidas a carvão. Segundo Wong, a própria Agência Internacional de Energia estima que as emissões associadas aos data centers poderão mais que dobrar até 2030.

Mas eletricidade é apenas uma parte do problema. Os chips utilizados nos sistemas de inteligência artificial consomem enormes quantidades de energia e produzem muito calor, o que transforma a refrigeração em uma necessidade permanente. Em muitos casos isso significa também consumir grandes volumes de água. Registros públicos citados pela The Atlantic mostram que o endereço onde funciona o Colossus utilizou mais de 11 milhões de galões de água apenas em setembro, quantidade equivalente ao consumo anual de aproximadamente 150 residências norte-americanas.

O problema ganha outra dimensão quando os data centers começam a se concentrar territorialmente. Loudoun County, na Virgínia, oferece talvez a melhor antecipação do que pode acontecer em outras regiões. Ali já existem 199 data centers em operação e cerca de outros 30 planejados. A concentração foi tão intensa que surgiu uma paisagem conhecida como Data Center Alley, formada não apenas pelos enormes prédios que abrigam servidores, mas por subestações, torres, linhas de transmissão, sistemas de refrigeração e dezenas de geradores de emergência. Em outras palavras, o data center não deve ser compreendido apenas como um empreendimento imobiliário ou tecnológico isolado. Ele cria ao seu redor uma verdadeira ecologia industrial destinada a garantir permanentemente energia, refrigeração, água e conectividade.

Existe ainda uma questão econômica que merece atenção. Apesar das centenas de bilhões de dólares atualmente direcionadas para essa infraestrutura, Wong lembra que permanece aberta a discussão sobre a sustentabilidade econômica desse gigantesco ciclo de investimentos. Caso as expectativas depositadas na inteligência artificial não se confirmem ou avanços tecnológicos reduzam drasticamente a necessidade de processamento, parte da infraestrutura atualmente planejada poderá tornar-se o que o próprio artigo descreve como ruínas de um futuro que não chegou. O problema é que as usinas, linhas de transmissão, alterações territoriais e impactos ambientais necessários para alimentar essa corrida estarão materializados muito antes de sabermos se todas essas apostas econômicas se sustentarão.

E quando a nuvem chegar ao Porto do Açu?

Essa discussão ganha importância imediata para o Norte Fluminense. A empresa britânica Yamna acaba de reservar inicialmente 20 hectares dentro do complexo industrial do Porto do Açu para instalar um campus de data centers de hiperescala preparado para inteligência artificial, com direito preferencial de expansão para outros 20 hectares. Somente a primeira fase prevê 250 MW de capacidade, e a própria empresa informa que o empreendimento foi concebido para poder crescer posteriormente.

É justamente a expressão “250 MW na primeira fase” que deveria acender um sinal de alerta. O que está sendo anunciado não parece ser simplesmente a construção de um data center, mas a abertura de uma nova frente de expansão industrial no interior de um complexo que já reúne termelétricas, instalações de petróleo e gás, terminais de minério e granéis, estruturas logísticas e numerosos projetos industriais. A disponibilidade de cerca de 3 GW de capacidade termelétrica instalada da GNA e de infraestrutura de transmissão de 500 kV é apresentada, inclusive, como uma das vantagens competitivas do Açu para atrair essa nova indústria.

No caso de São João da Barra, porém, há uma questão adicional que não pode ser tratada como detalhe: a água. A instalação de um empreendimento potencialmente intensivo em refrigeração ocorre em uma região costeira onde a disponibilidade e a qualidade dos recursos hídricos já constituem problemas ambientais relevantes. Por isso, antes que o empreendimento seja celebrado como mais uma demonstração da suposta modernidade do Porto do Açu, será indispensável conhecer qual tecnologia de refrigeração será utilizada, qual será a demanda hídrica máxima e média, de onde virá essa água, quais serão os volumes efetivamente consumidos e descartados e, sobretudo, como essa nova demanda será analisada diante das pressões cumulativas já existentes sobre os recursos hídricos regionais.

Esse último aspecto é fundamental porque a discussão ambiental não pode continuar sendo feita empreendimento por empreendimento, como se cada instalação surgisse sobre uma folha em branco. A questão central é compreender os impactos cumulativos e sinergísticos produzidos pela sucessiva concentração de grandes projetos sobre um território costeiro ecologicamente sensível, já submetido à erosão, salinização, transformação de sistemas lagunares, industrialização acelerada e restrições crescentes aos modos tradicionais de utilização do território.

O artigo de Matteo Wong ajuda justamente a retirar os data centers do mundo aparentemente imaterial da “nuvem” e recolocá-los onde efetivamente existem: no território. E talvez seja essa a pergunta que São João da Barra deveria fazer antes que mais um grande empreendimento seja incorporado à paisagem do Açu: quanta energia, quanta água e quanto território serão necessários para sustentar essa nova fronteira industrial e quem ficará com os benefícios e com os custos ambientais dessa transformação?

Porque a nuvem que está chegando ao Porto do Açu não paira no céu. Ela ocupa terra, consome energia e pode beber muita água.

Quantos portos ainda cabem no Açu?

De terminal de minério e petróleo a complexo de termelétricas, siderurgia, fertilizantes, hidrogênio, amônia e data centers, a expansão transnacional do Porto do Açu multiplica pressões sobre um território já ameaçado pela erosão e pela salinização

A expansão transnacional do Porto do Açu acumula data centers, termelétricas, siderurgia, fertilizantes e novos projetos energéticos sobre uma região já pressionada pela erosão, salinização e transformação das formas tradicionais de ocupação

A sucessão de novos empreendimentos anunciados para o emprrendimento criado por Eike Batista exige uma mudança na maneira de discutir seus impactos socioambientais. Já não basta avaliar separadamente uma termelétrica, um terminal portuário, uma siderúrgica, uma fábrica de fertilizantes ou um data center. O que precisa estar no centro da discussão são os efeitos cumulativos e sinérgicos da concentração de todas essas atividades sobre um mesmo território costeiro, ecologicamente sensível e que já apresenta sinais evidentes de estresse ambiental.

O anúncio de que a Yamna assegurou uma área para instalar um campus de data centers com capacidade inicial de 250 MW acrescenta uma atividade intensiva em eletricidade e potencialmente também em água a uma região onde a intrusão salina na foz do Rio Paraíba do Sul já compromete periodicamente o abastecimento de São João da Barra. Antes de celebrar a chegada da economia digital ao Açu, portanto, é indispensável saber quanta água será utilizada, de onde ela virá, qual tecnologia de refrigeração será empregada e o que acontecerá nos períodos de baixa vazão do Paraíba do Sul, quando aumenta o risco de avanço da cunha salina.

O problema torna-se maior quando esse empreendimento é colocado ao lado das atividades existentes e planejadas. O Açu concentra termelétricas e gigantescas operações de petróleo e minério de ferro, enquanto avança sobre siderurgia, hidrogênio, amônia, infraestrutura digital e cadeias vinculadas ao agronegócio. A recente entrada na movimentação de enxofre é ilustrativa: o desembarque inaugural foi de apenas 1,5 mil toneladas, mas a infraestrutura projetada pretende movimentar 300 mil toneladas anuais, além de abastecer uma futura unidade misturadora de fertilizantes. O Terminal Multicargas também já movimenta soja e milho, revelando uma estratégia explícita de abertura de uma nova frente de crescimento ligada ao agronegócio.

Estamos, portanto, diante da transformação progressiva do Açu em um complexo portuário, energético, industrial, agroexportador e digital. Entretanto, o território que recebe todos esses empreendimentos continua sendo o mesmo. O consumo de água se acumula, novas infraestruturas ocupam espaço, emissões se sobrepõem, aumenta a circulação de navios e caminhões e intervenções portuárias passam a coexistir com processos de erosão costeira, salinização e alterações em uma planície formada por lagoas, canais, restingas, praias, áreas úmidas e aquíferos.

A violência lenta de um território em transformação

É nesse ponto que o conceito de “violência lenta”, desenvolvido por Rob Nixon, oferece uma chave particularmente apropriada para compreender o que ocorre no Açu. Diferentemente de uma catástrofe que acontece subitamente, a violência lenta se desenvolve durante anos ou décadas, por meio da acumulação de transformações que progressivamente deterioram as condições ambientais necessárias à reprodução da vida.

No Açu, essa violência não precisa assumir a forma espetacular de um grande desastre. Ela pode aparecer na erosão das praias, na salinização das águas, na transformação de lagoas, na perda de acesso a determinados espaços, na pressão sobre áreas agrícolas e pesqueiras e na substituição progressiva de formas tradicionais de utilização do território por grandes infraestruturas industriais e logísticas.

Essa dimensão torna-se ainda mais relevante diante da crescente transnacionalização do complexo. Corporações privadas e empresas vinculadas a Estados estrangeiros participam de diferentes cadeias instaladas no Açu, fazendo com que decisões capazes de transformar profundamente São João da Barra sejam tomadas em escalas muito distantes das comunidades que experimentarão seus efeitos. O problema não está simplesmente na origem estrangeira do capital, mas na possibilidade de consolidação de uma geografia conhecida: decisões e benefícios internacionalizados enquanto custos e passivos ambientais permanecem territorializados.

Quando permanecer no território deixa de ser possível

É justamente aqui que a violência lenta encontra outra categoria importante: a dos “refugiados do desenvolvimento”. Grandes empreendimentos podem produzir deslocamentos não apenas por desapropriações formais, mas pela deterioração progressiva das condições necessárias à permanência das populações em seus territórios.

Quando agricultores perdem acesso à terra ou à água, pescadores encontram dificuldades crescentes para acessar áreas tradicionalmente utilizadas, sistemas lagunares são modificados ou a salinização compromete determinados usos da água, a expulsão pode ocorrer sem que exista uma ordem formal de remoção. As pessoas acabam saindo porque permanecer se torna econômica, social ou ambientalmente inviável.

Esse risco merece atenção especial no entorno do Porto do Açu. O V Distrito não começou a existir com a chegada do porto. Trata-se de um território historicamente ocupado por agricultores, pescadores e outras comunidades cuja reprodução social depende diretamente da terra, das lagoas, das praias e dos recursos hídricos. Se esses elementos forem progressivamente alterados, o resultado poderá ser uma nova rodada de deslocamentos produzidos não por uma única intervenção, mas pelo efeito acumulado de décadas de transformação territorial.

O que precisa ser avaliado agora é o próprio Açu

Por isso, o licenciamento fragmentado de novos empreendimentos está se tornando insuficiente. Um projeto pode parecer ambientalmente administrável quando estudado sozinho e tornar-se problemático quando colocado ao lado de muitos outros disputando os mesmos recursos e pressionando os mesmos ecossistemas.

O que precisa ser conhecido é a capacidade de suporte do território diante do conjunto dos empreendimentos existentes, licenciados e planejados. Isso significa avaliar conjuntamente disponibilidade hídrica, intrusão salina, erosão costeira, aquíferos, sistemas lagunares, biodiversidade, demanda energética, tráfego, mudanças climáticas e efeitos sobre as comunidades locais.

O Porto do Açu está apostando em ser uma das grandes concentrações portuárias, energéticas e industriais do Brasil, mas justamente sobre uma região costeira altamente sensível. A pergunta, portanto, deixou de ser se cada novo empreendimento consegue individualmente uma licença ambiental. A pergunta que realmente importa é quantos Portos do Açu cabem ambiental e socialmente em São João da Barra.

Continuar avaliando cada projeto como se os demais não existissem poderá fazer com que descubramos tarde demais que o limite não estava em cada empreendimento separadamente, mas na soma e, principalmente, na interação entre todos eles. E, nesse caso, a violência poderá ser lenta, mas seus resultados serão bastante concretos: um território profundamente transformado e comunidades convertidas, pouco a pouco, em refugiados do próprio desenvolvimento que lhes foi apresentado como inevitável.

A China prepara novos concorrentes para as commodities brasileiras na África

Investimentos chineses em infraestrutura, mineração e agricultura podem reduzir a dependência de Pequim em relação ao Brasil, enquanto a concentração brasileira na exportação de produtos primários aumenta nossa vulnerabilidade

Durante as últimas duas décadas, o crescimento econômico da China foi um dos principais responsáveis pela extraordinária expansão das exportações brasileiras de commodities agrícolas e minerais. Soja, minério de ferro, petróleo, carnes e celulose encontraram no mercado chinês uma demanda gigantesca, ajudando a consolidar um modelo de inserção internacional cada vez mais dependente da venda de produtos primários. Entretanto, enquanto no Brasil ainda se comemoram sucessivos recordes de exportação, a China está contribuindo para construir uma nova geografia mundial das commodities, e a África ocupa posição cada vez mais importante nesse processo.

O movimento já é particularmente evidente no setor mineral, onde investimentos chineses em minas, ferrovias, rodovias, energia e portos estão permitindo transformar jazidas africanas anteriormente limitadas por gargalos logísticos em novas fontes competitivas de matérias-primas. O exemplo mais contundente é Simandou, na Guiné, gigantesco complexo de minério de ferro conectado a mais de 600 quilômetros de nova ferrovia e a instalações portuárias, cuja capacidade poderá chegar a aproximadamente 120 milhões de toneladas anuais. Para o Brasil, isso significa que a China não precisa deixar de comprar minério brasileiro para afetar nossa economia: basta aumentar suficientemente a oferta africana para fortalecer sua capacidade de negociação e exercer pressão sobre os preços internacionais.

No caso das commodities agrícolas, o processo ainda se encontra em estágio menos avançado, mas a direção é igualmente importante. A cooperação sino-africana passou a incorporar investimentos em produção agrícola, mecanização, irrigação, processamento, armazenamento e logística, ao mesmo tempo em que Pequim facilita o acesso de produtos africanos ao mercado chinês. Estradas, ferrovias e portos são particularmente importantes porque podem reduzir justamente um dos maiores obstáculos históricos à expansão das exportações agrícolas africanas: o custo de transportar a produção das áreas interiores até os mercados consumidores.

Isso não significa que a África esteja prestes a substituir o Brasil como grande fornecedora de soja, milho, carnes ou outras commodities agrícolas. A questão estratégica é outra: a China não precisa substituir o Brasil, mas apenas reduzir progressivamente sua dependência dele. Se diferentes países africanos ampliarem simultaneamente sua produção de soja, algodão, oleaginosas, açúcar, café, carnes e outros produtos, o efeito agregado poderá aumentar as alternativas disponíveis para Pequim e ampliar seu poder de negociação diante dos grandes fornecedores atuais.

A dependência brasileira possui também uma dimensão política

Há ainda um componente geopolítico que torna essa questão mais importante. Oficialmente, Pequim considera o Brasil um parceiro estratégico de primeira ordem, mas os acontecimentos das últimas décadas demonstram que a orientação internacional brasileira pode sofrer mudanças importantes entre diferentes governos. A experiência do governo Jair Bolsonaro, quando integrantes do próprio governo adotaram uma retórica fortemente hostil à China apesar da enorme dependência comercial brasileira, mostrou que a política externa do país pode oscilar rapidamente conforme muda a correlação política interna.

Isso acrescenta um elemento de risco que Pequim não tem razões para ignorar. Depender excessivamente do Brasil para soja, minério de ferro e outras commodities significa ficar parcialmente exposta não apenas às condições climáticas, produtivas e logísticas brasileiras, mas também às oscilações da política externa do país e à disputa geopolítica entre Washington e Pequim. Diversificar fornecedores na África torna-se, portanto, simultaneamente uma estratégia de segurança alimentar, mineral, comercial e geopolítica.

O risco mineral é imediato; o agrícola é de médio prazo

No curto prazo, o sinal mais evidente para o Brasil está no minério de ferro, justamente porque Simandou transforma em realidade aquilo que durante muitos anos permaneceu como possibilidade. O crescimento da produção guineense acrescentará uma nova fonte importante de minério de alta qualidade ao mercado internacional, reduzindo progressivamente a dependência chinesa dos grandes fornecedores australianos e brasileiros e potencialmente pressionando preços.

Nas commodities agrícolas, o risco é principalmente de médio prazo. A escala, a produtividade e a estrutura empresarial da agricultura brasileira continuam proporcionando vantagens consideráveis, especialmente na soja e no milho. Entretanto, infraestrutura, capital, tecnologia, armazenamento, processamento e acesso facilitado ao mercado chinês podem alterar gradualmente a competitividade de diferentes regiões africanas, sobretudo se esses elementos forem implantados de maneira coordenada.

O efeito sobre o Brasil tampouco precisa assumir a forma dramática de perda completa do mercado chinês. Ele poderá aparecer silenciosamente por meio de menor participação brasileira nas importações chinesas, maior competição entre fornecedores e pressão sobre os preços internacionais. Para uma economia cuja pauta exportadora se tornou fortemente dependente de commodities e para um agronegócio que possui na China seu principal comprador, alterações relativamente pequenas nesses três componentes podem produzir consequências econômicas significativas.

Quando outros mercados também começam a ficar mais difíceis

Essa vulnerabilidade ganha uma dimensão adicional porque a possível diversificação chinesa ocorre num momento em que o Brasil também encontra obstáculos em outros grandes mercados. Os Estados Unidos vêm utilizando instrumentos tarifários que alcançam produtos brasileiros, enquanto a União Europeia amplia exigências sanitárias, ambientais, aduaneiras e de rastreabilidade para diferentes cadeias de commodities. São mecanismos distintos e seria equivocado tratá-los como se fossem uma única política protecionista, mas todos demonstram que o acesso aos grandes mercados consumidores não está garantido apenas porque o Brasil consegue produzir commodities em enorme escala e a preços competitivos.

É justamente essa combinação que deveria preocupar. Enquanto determinados mercados tradicionais tornam o acesso mais condicionado ou oneroso, a China — que absorveu parcela crescente das exportações brasileiras — investe na infraestrutura e na capacidade produtiva de regiões capazes de se transformar em fornecedores alternativos. O problema deixa então de ser apenas comercial e passa a revelar os riscos de uma economia excessivamente especializada na exportação de soja, minério de ferro, petróleo, carnes, celulose e outros produtos primários.

Há nisso uma ironia histórica que merece atenção. A China que nas últimas décadas ajudou a transformar o Brasil numa potência exportadora de commodities está utilizando sua capacidade financeira, tecnológica e empresarial para desenvolver novas regiões produtoras em outras partes do mundo. No setor mineral, essa estratégia já possui um nome bastante concreto: Simandou. Na agricultura africana, Pequim está ajudando a construir as condições materiais — infraestrutura, tecnologia, armazenamento, processamento e acesso ao mercado — para que novos fornecedores possam ganhar importância nos próximos anos.

Por isso, o avanço chinês na África deveria provocar no Brasil uma discussão bem menos triunfalista sobre o futuro do chamado agronegócio e, mais amplamente, sobre nossa dependência de produtos primários. O risco não está em a África substituir repentinamente o Brasil, mas em nossos principais compradores passarem a dispor de alternativas cada vez maiores justamente quando outros mercados impõem novas condições de acesso às commodities brasileiras. Quanto maior o número de fornecedores disponíveis e quanto mais dependente permanecer o Brasil de poucos produtos e poucos mercados, menor será nossa capacidade de determinar preços e condições de comercialização.

A pergunta estratégica, portanto, não é se a China continuará comprando soja, minério de ferro, carne ou celulose do Brasil amanhã. É se daqui a dez ou quinze anos ainda precisará comprá-los de nós nas mesmas quantidades e nas mesmas condições. Se a resposta for negativa, os atuais recordes de exportação poderão estar escondendo uma vulnerabilidade que somente será percebida quando a nova geografia mundial das commodities já estiver consolidada. Nesse cenário, diversificar a estrutura produtiva brasileira, recuperar capacidade industrial e tecnológica e agregar valor ao que produzimos deixam de ser apenas antigas bandeiras desenvolvimentistas e passam a constituir uma necessidade estratégica.

A porta dos fundos dos agrotóxicos: o que quase mil alterações de pós-registro revelam sobre o mercado brasileiro

Atos publicados pelo Ministério da Agricultura em 2026 mostram que produtos já registrados continuam ganhando fabricantes, fornecedores, importadores e novos usos — e revelam uma impressionante predominância da indústria química chinesa

Quando se fala sobre a liberação de agrotóxicos no Brasil, quase toda a atenção costuma se concentrar na quantidade de novos registros concedidos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Essa é uma informação importante, mas a análise que realizei dos atos de pós-registro publicados em 2026 mostra que existe outra parte da engrenagem regulatória que permanece praticamente invisível ao debate público. E o que acontece ali está longe de ser meramente burocrático.

Examinei os Atos nº 21, 24, 27, 37, 46, 48 e 53, mantendo o Ato nº 65, publicado em 30 de dezembro de 2025, apenas como referência imediatamente anterior. Somadas as posições numeradas nesses documentos, estamos diante de algo próximo de 970 itens de pós-registro em menos de cinco meses (ver relatório Aqui!). Esse número não representa 970 alterações líquidas, já que existem retificações, cancelamentos e itens posteriormente tornados sem efeito, mas dá uma ideia da escala de uma atividade regulatória que praticamente não aparece no debate público.

O problema começa justamente pela expressão “pós-registro”. Ela parece sugerir que estamos diante de pequenos ajustes administrativos realizados depois que determinado agrotóxico recebeu autorização. A leitura dos atos mostra outra coisa. Por meio desse mecanismo podem ser adicionados fabricantes e formuladores, autorizados novos importadores, incorporados outros produtos técnicos, transferidos registros entre empresas, criadas ou modificadas marcas comerciais e alteradas recomendações de uso. Em determinadas situações, produtos passam a alcançar novas culturas e organismos-alvo e podem sofrer até modificações de dose. Em outras palavras, um agrotóxico pode mudar bastante depois de ter sido registrado sem que isso apareça nas estatísticas de novos registros.

É nesse emaranhado de centenas de decisões publicadas no Diário Oficial  da União que aparece a descoberta que considero mais impressionante. Minha consolidação preliminar identificou aproximadamente 186 ocorrências envolvendo inclusão de fabricantes, formuladores ou manipuladores. Dentro delas aparecem cerca de 130 referências a unidades industriais chinesas, contra aproximadamente 12 indianas. Entre as inclusões estrangeiras cuja origem foi possível identificar, a participação chinesa fica próxima de 88%.

E não se trata simplesmente de escrever “Made in China” sobre um mercado abstrato. Os endereços publicados pelo próprio MAPA conduzem repetidamente a províncias como Jiangsu, Shandong, Hebei, Anhui, Zhejiang e Hubei, justamente áreas onde estão instalados importantes complexos da indústria química chinesa. No Ato nº 27, por exemplo, aparecem sucessivas alterações envolvendo fabricantes localizados em Jiangxi e Jiangsu. Já o Ato nº 46 registra empresas chinesas e indianas sendo incorporadas às cadeias de produtos comercializados no Brasil.

A Índia aparece num distante segundo plano, mas também apresenta uma geografia bastante definida. Boa parte das fábricas identificadas está localizada no estado de Gujarat, particularmente nos polos industriais de Bharuch, Ankleshwar, Panoli e Dahej. O que emerge desses atos, portanto, é uma verdadeira cartografia internacional da indústria de agrotóxicos que abastece o agronegócio brasileiro.

Há outro aspecto que merece muito mais atenção. Um consumidor conhece eventualmente o nome comercial de um agrotóxico, mas dificilmente sabe quem produziu o ingrediente técnico utilizado em sua fabricação. Entretanto, o pós-registro permite que novos produtos técnicos sejam incorporados posteriormente aos produtos formulados. No Ato nº 46, por exemplo, o Clorantraniliprole Técnico CX foi incluído em uma extensa relação que contém Altacor, Premio, Coragen, Vantacor e diversos outros produtos. Uma única decisão administrativa pode, assim, alterar simultaneamente a cadeia de fornecimento de numerosos produtos encontrados no mercado brasileiro.

O mecanismo também permite ampliar o universo agronômico dos produtos existentes. No Ato nº 27 aparecem inclusões de algodão, feijão, milho e trigo e de grupos inteiros de culturas. Em outro caso, a lista acrescentada inclui desde alface, alho e cebola até brócolis, couves, espinafre, morango, mostarda, repolho e rúcula. O mesmo ato registra situação envolvendo inclusão de cultura e de organismos-alvo acompanhada de aumento de dose.

É preciso registrar que os atos também contêm exclusões e cancelamentos. O Ato nº 53, por exemplo, cancela o registro do Lactofen Técnico Sumitomo e exclui fabricantes anteriormente associados ao Bifenthrin Técnico FMC. Portanto, seria incorreto afirmar que toda decisão de pós-registro amplia automaticamente o mercado. O que os documentos demonstram é a existência de um sistema extremamente dinâmico de entrada, substituição, exclusão e expansão de fornecedores, produtos e possibilidades de utilização.

Mas há aqui uma questão política e regulatória que não deveria ser ignorada. Quando centenas de novos registros são liberados, isso eventualmente chega às manchetes. Já quando centenas de alterações posteriores modificam quem fabrica o produto técnico, quem formula, quem importa e onde determinado veneno poderá ser utilizado, tudo aparece pulverizado em páginas e páginas do Diário Oficial, escrito em linguagem burocrática que praticamente impede qualquer acompanhamento sistemático pela sociedade.

Talvez seja justamente aí que esteja a descoberta mais importante deste levantamento. Para compreender o tamanho real do mercado brasileiro de agrotóxicos, não basta contar quantos novos registros o governo concede. É preciso acompanhar o que acontece com esses registros depois que eles entram no sistema.

E o que os atos de 2026 estão mostrando é particularmente revelador: enquanto os olhos permanecem voltados para a porta da frente dos novos registros, existe uma gigantesca engrenagem funcionando nos bastidores, incorporando novos fabricantes, novos fornecedores técnicos, novos importadores e novos usos. Nessa engrenagem, a indústria química chinesa ocupa uma posição absolutamente dominante.

Por isso, depois de examinar conjuntamente esses documentos, eu resumiria o problema de uma maneira bastante simples: o registro é a porta de entrada, mas o pós-registro parece ser uma das principais engrenagens de expansão e reorganização do mercado brasileiro de agrotóxicos.

E talvez esteja na hora de começarmos a olhar com muito mais atenção para aquilo que está entrando por essa porta quase invisível.

China lança grande operação para combater má conduta acadêmica e pune pesquisadores renomados

A China iniciou sua maior repressão à má conduta acadêmica, demitindo quatro pesquisadores proeminentes e investigando mais de 40 outros após uma revelação nas redes sociais

Por Deepali Samaniya para “Times Now” 

A China lançou a sua maior operação pública de combate à má conduta acadêmica, removendo quatro acadêmicos proeminentes e iniciando investigações contra mais de 40 pesquisadores em universidades e hospitais, conforme relatado pela PTI . A questão, que ganhou repercussão após uma publicação nas redes sociais, desencadeou uma extensa investigação sobre supostas práticas acadêmicas indevidas.

Em 26 de agosto, a Fundação Nacional de Ciências Naturais da China (NFSC) divulgou detalhes sobre uma nova casos de má conduta em universidades e hospitais de todo o país. Os casos, segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, noticiado na quinta-feira, envolveram mais de 40 pesquisadores.

O anúncio da NSFC ocorreu quase dois meses depois de o presidente chinês, Xi Jinping, ter solicitado medidas mais rigorosas contra a má conduta acadêmica.

Segundo o relatório, pelo menos quatro acadêmicos de renome foram demitidos de universidades importantes depois que o estudante “Geng”, um blogueiro influente e ex-aluno de doutorado, os identificou em abril e apontou suas pesquisas por suposta má conduta.

Os acadêmicos foram reconhecidos pelo Fundo Nacional de Ciência para Jovens Pesquisadores de Destaque, um programa de bolsas de pesquisa/incentivo a jovens pesquisadores que fizeram contribuições notáveis ​​para a pesquisa básica, permitindo-lhes escolher suas próprias linhas de pesquisa e se envolver em projetos inovadores. Frequentemente, serve como trampolim para o ingresso nas principais academias de ciência e engenharia da China. Três deles atuaram como decanos ou vice-decanos em suas respectivas faculdades.

A revelação de Geng nas redes sociais motivou a maior investigação já realizada pela NSFC sobre má conduta acadêmica.

Financiamento e títulos revogados por má conduta

A fundação, por meio de um comunicado divulgado em agosto, retirou o financiamento e os títulos dos quatro, e ordenou que devolvessem mais de 10 milhões de yuans (US$ 1,49 milhão) em bolsas concedidas anteriormente, além de proibi-los de solicitar financiamento novamente por um período de três a sete anos.

Segundo reportagem do SCMP, essa mudança é frequentemente considerada uma “sentença de morte” para uma carreira acadêmica na comunidade de pesquisa do país.

Anteriormente, o presidente Xi pediu “padrões mais rigorosos” e “medidas mais concretas” para lidar com má conduta e “promover um ecossistema de pesquisa limpo e íntegro”, durante um discurso em uma reunião conjunta do Prêmio Nacional de Ciência e Tecnologia, da Academia Chinesa de Ciências, da Academia Chinesa de Engenharia e da Associação Chinesa para Ciência e Tecnologia.

A China tem aumentado persistentemente seus investimentos em pesquisa científica. No âmbito do 15º Plano Quinquenal, Pequim estabeleceu como meta que os gastos com pesquisa e desenvolvimento em toda a sociedade cresçam pelo menos sete por cento ao ano, de 2026 a 2030.


Fonte: Times Now

O calor mata mais do que mostram as estatísticas — e o Brasil precisa se preparar para o El Niño de 2026–2027

Estudo da National Public Radio (NPR) dos EUA aponta forte subnotificação das mortes associadas ao calor nos Estados Unidos, enquanto previsões indicam que um El Niño muito forte poderá expor diferentes regiões brasileiras a temperaturas extremas nos próximos meses 

Uma investigação realizada durante dois anos pela NPR, em parceria com pesquisadores da Boston University, oferece um alerta que deveria ser observado com muita atenção no Brasil. Ao desenvolver um modelo estatístico para estimar a mortalidade associada às temperaturas elevadas nos Estados Unidos, os pesquisadores concluíram que o número real de mortes relacionadas ao calor é muito superior ao registrado nas estatísticas oficiais. Entre 2018 e 2025, aproximadamente 9 mil mortes por ano teriam sido influenciadas pelo calor, cerca de cinco vezes a média registrada oficialmente no mesmo período. Em alguns anos, o total estimado ultrapassa 10 mil mortes.

A explicação para tamanha diferença está, em boa medida, na maneira como uma morte provocada ou agravada pelo calor acaba sendo registrada. Uma pessoa idosa ou portadora de doença cardiovascular, renal ou respiratória pode morrer durante uma onda de calor sem que a temperatura apareça na declaração de óbito como causa ou fator contribuinte. O resultado é uma espécie de mortalidade invisível que somente começa a aparecer quando se comparam estatisticamente os óbitos observados durante períodos de temperaturas extremas com aqueles que seriam esperados em condições normais. A investigação norte-americana encontrou diferenças impressionantes: na Flórida, por exemplo, estima aproximadamente 1.900 mortes anuais relacionadas ao calor, número cerca de 40 vezes superior aos registros oficiais.

O problema está longe de ser exclusivamente norte-americano. Na verdade, essas descobertas chegam em momento particularmente preocupante para o Brasil, justamente quando os principais centros de previsão climática indicam a consolidação de um El Niño excepcionalmente intenso. A atualização publicada em 3 de setembro pela Organização Meteorológica Mundial informa que o fenômeno já está firmemente estabelecido, deverá continuar se fortalecendo e apresenta probabilidade próxima de 100% de persistir durante o período de dezembro de 2026 a fevereiro de 2027. A OMM ressalva corretamente que a intensidade de um El Niño não determina automaticamente a magnitude dos seus impactos regionais, mas reconhece que um evento muito forte aumenta substancialmente a possibilidade de grandes alterações nos regimes de temperatura e precipitação.

Os números divulgados pela NOAA tornam o quadro ainda mais digno de atenção. Em seu diagnóstico de agosto, o Climate Prediction Center apontou probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o inverno 2026–2027 do Hemisfério Norte. Mais significativo ainda é que o órgão estimou em 69% a possibilidade de que, entre outubro e dezembro, o evento alcance intensidade superior à dos grandes El Niños registrados desde 1950. Portanto, embora seja necessário evitar o alarmismo e lembrar que previsões sazonais trabalham sempre com probabilidades, tampouco existe justificativa científica para tratar o que está acontecendo no Pacífico como um fenômeno climático corriqueiro.

E o Brasil?

As próprias instituições brasileiras já estão advertindo para esse cenário. O terceiro boletim do Painel El Niño 2026–2027, elaborado por instituições como INPE, INMET, ANA, CEMADEN e Defesa Civil, aponta a possibilidade de anomalias superiores a 2°C nas águas do Pacífico Equatorial entre a primavera e o verão. Para setembro, outubro e novembro, a previsão indica chuvas acima da média em partes da Região Sul e precipitações abaixo da média no centro-norte brasileiro. Os boletins anteriores também chamaram atenção para temperaturas superiores à média, maior ocorrência de ondas de calor e aumento do risco de incêndios florestais.

Isso significa que os impactos não serão espacialmente homogêneos. No Sul, a combinação característica do El Niño envolve aumento da precipitação, com possibilidade de episódios de chuva extrema, inundações e deslizamentos. No centro-norte do Brasil, a redução das chuvas pode ocorrer simultaneamente a temperaturas muito elevadas, aumentando o estresse hídrico, a possibilidade de secas e o risco de incêndios. Já áreas densamente urbanizadas do Sudeste e Centro-Oeste poderão enfrentar um problema particularmente perigoso: ondas de calor incidindo sobre cidades que acumulam enormes ilhas de calor e onde milhões de pessoas vivem em moradias inadequadamente ventiladas, trabalham ao ar livre ou simplesmente não possuem acesso a sistemas eficientes de refrigeração.

É justamente aqui que a investigação da NPR adquire importância para nós. Se países com sistemas relativamente estruturados de informação epidemiológica estão subestimando fortemente a mortalidade causada pelo calor, é razoável perguntar se não estamos fazendo algo semelhante no Brasil. Uma onda de calor não precisa produzir cadáveres nas ruas para representar uma emergência sanitária. Ela pode aparecer silenciosamente como aumento das internações por desidratação, insuficiência renal, problemas cardiovasculares e respiratórios, agravamento de doenças preexistentes e crescimento da mortalidade entre idosos. O calor extremo é, nesse sentido, uma expressão bastante concreta daquilo que Rob Nixon chamou de slow violence: seus efeitos são dispersos no espaço e no tempo e, exatamente por isso, tendem a permanecer politicamente invisíveis.

Preparar-se agora, e não quando os termômetros dispararem

Diante das previsões para o final de 2026 e início de 2027, a resposta governamental não deveria começar quando as primeiras ondas de calor extremo aparecerem nos aplicativos de meteorologia. Estados e municípios precisam identificar desde já populações particularmente vulneráveis, incluindo idosos que vivem sozinhos, crianças pequenas, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores submetidos à exposição direta ao sol, população em situação de rua e moradores de habitações precárias. Hospitais e unidades básicas de saúde precisam incorporar protocolos específicos para períodos prolongados de temperaturas extremas, enquanto sistemas de vigilância epidemiológica deveriam ser capazes de relacionar rapidamente aumentos de internações e mortalidade às condições meteorológicas.

Da mesma forma, escolas, universidades, locais de trabalho e serviços públicos precisam estabelecer limites para atividades realizadas sob calor extremo. Horários de trabalho ao ar livre precisam ser revistos quando determinados níveis de temperatura e umidade forem ultrapassados, enquanto cidades necessitam ampliar áreas sombreadas, arborização, acesso gratuito à água potável e locais públicos climatizados que possam funcionar como refúgios durante ondas de calor. Sistemas elétricos e de abastecimento de água também precisam ser preparados para aumentos excepcionais da demanda justamente nos momentos em que esses serviços se tornam essenciais à sobrevivência.

Há ainda uma questão de desigualdade que não pode ser escondida atrás do termo genérico “adaptação”. Uma temperatura de 40°C não significa a mesma coisa para quem vive em uma residência arborizada e climatizada e para quem mora sob uma cobertura de fibrocimento numa periferia densamente construída. Tampouco significa a mesma coisa para quem pode trabalhar remotamente e para um entregador, trabalhador rural, gari ou operário da construção civil obrigado a permanecer durante horas sob o sol. A vulnerabilidade ao calor é produzida tanto pela atmosfera quanto pela estrutura social.

O alerta deixado pela investigação da NPR é, portanto, muito maior do que uma discussão metodológica sobre estatísticas de mortalidade. Ele mostra que podemos estar convivendo com uma causa crescente de adoecimento e morte sem sequer contabilizá-la adequadamente. E isso ocorre justamente quando a mudança climática antropogênica eleva a temperatura de fundo do planeta sobre a qual fenômenos naturais como o El Niño passam a atuar.

Se as previsões atuais se confirmarem, o Brasil poderá entrar na primavera e no verão de 2026–2027 sob influência de um dos El Niños mais intensos das últimas décadas. Ninguém pode afirmar antecipadamente quais temperaturas serão registradas em cada cidade brasileira, mas já existe informação suficiente para saber que esperar o calor chegar para começar a agir seria uma irresponsabilidade. Quando se trata de temperaturas extremas, preparação, sistemas de alerta e políticas públicas de proteção não são luxo nem alarmismo climático: são medidas elementares de saúde pública.

IFCS/UFRJ: a fabricação de uma vítima perfeita e o estranho silêncio sobre a extrema direita

Enquanto comentaristas transformam estudantes de esquerda em novos “Torquemadas”, provocações da extrema direita, o crescimento do neonazismo e a ofensiva para deslegitimar as universidades públicas permanecem convenientemente fora do enquadramento

O episódio ocorrido no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ está rapidamente adquirindo as características de uma disputa pela construção da narrativa sobre o que efetivamente aconteceu. De um lado, estudantes que estavam no local descrevem uma sequência envolvendo uma camiseta contendo iconografia inspirada naquela utilizada pela SS nazista, provocações, deboches e uma altercação que terminou em violência física. De outro, começa a se consolidar em determinados espaços da imprensa e entre comentaristas políticos uma versão muito mais simples e politicamente conveniente, segundo a qual um estudante teria sido brutalmente atacado por militantes de esquerda simplesmente por causa da roupa que vestia. O problema é que os elementos conhecidos até agora, inclusive registros em vídeo feitos durante o próprio incidente, tornam essa segunda narrativa difícil de sustentar sem eliminar partes importantes daquilo que ocorreu antes do confronto físico.

O estudante Diego Araujo estava usando uma camiseta da banda britânica Death in June contendo uma versão do Totenkopf, símbolo historicamente associado à SS nazista. Ele afirma que não é nazista, identifica-se politicamente com o marxismo e sustenta que a utilização daquela iconografia representaria uma forma de ridicularização do nazismo. Essas afirmações precisam ser consideradas e não existe, neste momento, base suficiente para classificá-lo como integrante de uma organização nazifascista. Entretanto, testemunhas que estavam no IFCS apresentaram uma narrativa bastante diferente daquela na qual Diego aparece apenas como vítima passiva. Segundo esses relatos, depois de ser questionado sobre os símbolos que utilizava, ele teria passado a debochar dos estudantes que o confrontavam. Deivid Lima, estudante de Direito diretamente envolvido no episódio, afirmou ainda que, durante a tentativa de conduzi-lo para fora do prédio, teria recebido uma cotovelada e sido puxado pelos cabelos por Diego. Outra estudante presente confirmou à imprensa que o confronto físico teria começado depois que Diego atingiu um dos estudantes envolvidos na abordagem, versão que ele nega e que deverá ser esclarecida pelas investigações.

Há ainda um elemento que merece atenção especial. Segundo relato de uma estudante de Ciências Sociais que presenciou os acontecimentos, Diego não teria chegado ao IFCS vestindo aquela camiseta, mas teria trocado de roupa no banheiro antes de entrar na sala. Se essa informação for confirmada pela investigação da UFRJ, será perfeitamente legítimo perguntar por que alguém decidiu vestir, já no interior de uma unidade universitária reconhecida por sua intensa vida política, uma camiseta contendo iconografia imediatamente associável à SS nazista. Isso não prova que tenha existido uma provocação deliberadamente planejada, muito menos permite atribuir ao estudante qualquer filiação fascista, mas impede que se descarte a questão da intencionalidade como se ela fosse irrelevante. A resposta pode ser inocente, mas a pergunta precisa ser feita.

Por isso, transformar Diego simplesmente na “vítima” do episódio significa encerrar prematuramente uma discussão que ainda precisa ser esclarecida. Ele foi indiscutivelmente atingido durante uma altercação e as responsabilidades individuais pelo que ocorreu devem ser investigadas. Entretanto, ter sido atingido não transforma automaticamente alguém em personagem inteiramente passivo de tudo aquilo que aconteceu anteriormente, nem autoriza jornalistas e comentaristas a iniciar a história exatamente no momento em que aparecem os primeiros golpes. É precisamente nesse ponto que abordagens como a adotada por Pedro Doria se tornam problemáticas, pois, ao concentrar a indignação na violência atribuída aos estudantes identificados com a esquerda, cria-se um enquadramento no qual a camiseta se transforma apenas em uma peça de roupa, as provocações relatadas por testemunhas praticamente desaparecem e as acusações de que o próprio Diego teria participado ativamente da escalada física do confronto tornam-se detalhes inconvenientes.

Há ainda um componente particularmente revelador nessa disputa narrativa: a atuação de elementos arrivistas de direita existentes no interior das próprias universidades, que se aproveitam de episódios como o ocorrido no IFCS para destilar sua hostilidade contra a esquerda e reforçar a representação dos estudantes antifascistas como intolerantes e autoritários. Em vez de demonstrarem preocupação semelhante diante do crescimento de organizações neonazistas, das provocações promovidas pela extrema direita nos campi ou dos ataques recorrentes à universidade pública, esses personagens encontram em qualquer altercação envolvendo estudantes de esquerda uma oportunidade para reeditar velhos discursos anticomunistas e apresentar-se como defensores da liberdade. A comparação dos estudantes antifascistas com “novos Torquemadas” é particularmente reveladora desse expediente, pois inverte os papéis históricos e transforma aqueles que reagem à presença e à provocação de símbolos associados ao fascismo em representantes contemporâneos da intolerância.

A história, entretanto, recomenda bastante cautela com essa inversão. A Noite dos Cristais, ocorrida na Alemanha em novembro de 1938, não foi promovida pela esquerda, mas constituiu um pogrom antissemita organizado pelo regime nazista, com participação de estruturas do Partido Nazista e de suas organizações paramilitares. Sinagogas foram incendiadas, estabelecimentos pertencentes a judeus foram destruídos, pessoas foram assassinadas e milhares de homens judeus foram enviados a campos de concentração. Portanto, recorrer à figura de Torquemada para caracterizar estudantes antifascistas contemporâneos, enquanto se relativiza o significado de símbolos historicamente associados às organizações que participaram diretamente da perseguição nazista, exige uma inversão histórica bastante conveniente.

No Brasil, aliás, não precisamos atravessar o Atlântico para encontrar antecedentes muito mais pertinentes à discussão. Durante a ditadura militar, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) protagonizou ações violentas contra estudantes, professores, artistas e pessoas identificadas ou simplesmente percebidas como pertencentes à esquerda. A chamada Batalha da Rua Maria Antônia, em outubro de 1968, constitui um dos episódios mais conhecidos dessa história, quando integrantes ligados ao CCC participaram do ataque à antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. A história brasileira deveria, portanto, recomendar alguma prudência antes de transformar estudantes de esquerda nos grandes inquisidores de nosso tempo, especialmente porque possuímos uma tradição bem documentada de organizações de extrema direita perseguindo professores e estudantes precisamente por suas posições políticas.

Essa lembrança é importante porque o paralelismo com o presente não está em afirmar que vivemos uma simples repetição de 1938 ou de 1968, mas em reconhecer a existência histórica de estratégias de intimidação e provocação dirigidas contra ambientes universitários e grupos identificados com o pensamento crítico e a esquerda. Quando a memória histórica é retirada seletivamente da gaveta apenas para comparar estudantes antifascistas a inquisidores, enquanto se guarda silêncio diante do crescimento contemporâneo de grupos neonazistas e das ações provocadoras da extrema direita, não estamos propriamente diante de uma defesa do pluralismo, mas de uma tentativa bastante transparente de reescrever quem historicamente perseguiu quem.

E não estamos falando apenas de fantasmas históricos. O crescimento contemporâneo de organizações neonazistas no Brasil vem sendo documentado há anos. O monitoramento realizado pela antropóloga Adriana Dias identificou um salto de aproximadamente 75 células neonazistas em 2015 para cerca de 530 em 2021, enquanto também aumentaram investigações relacionadas à apologia ao nazismo. A Polícia Federal, por sua vez, já realizou diferentes operações contra pessoas envolvidas na disseminação de propaganda nazista e supremacista, inclusive com apreensão de bandeiras, vestimentas, publicações e outros materiais associados a essas organizações. Em uma operação realizada em 2024, a PF informou ter identificado um investigado apontado como importante distribuidor de materiais relacionados ao nazismo e à supremacia branca no país.

É justamente diante dessa realidade que o silêncio de alguns dos críticos mais indignados com os estudantes do IFCS se torna particularmente revelador. Se o problema é realmente a intolerância política e o risco de extremismo dentro das universidades, por que tamanho interesse por uma altercação envolvendo estudantes de esquerda e tão pouca preocupação com a expansão documentada de organizações neonazistas? Por que não encontramos a mesma profusão de manifestações indignadas diante de grupos que difundem supremacismo branco, antissemitismo e propaganda nazista? E por que as incursões de personagens da extrema direita em universidades como USP e UnB, algumas delas envolvendo provocações, ameaças e confrontos, não provocam a mesma preocupação com a saúde da democracia brasileira?

Esse tipo de enquadramento seria menos problemático se estivéssemos diante de acontecimentos isolados, mas não estamos. Nos últimos anos, universidades públicas brasileiras vêm sendo transformadas em palco de ações de políticos, influenciadores e militantes ligados à extrema direita que perceberam o enorme potencial político das provocações produzidas especificamente para circular nas redes sociais. Na USP, particularmente na FFLCH, já ocorreram incursões de personagens desse campo político acompanhados de assessores, apoiadores e câmeras, algumas delas terminando em confrontos e estudantes feridos. Na Universidade de Brasília também ocorreram episódios envolvendo intimidação de professores e ações organizadas dentro do campus, chegando a circular mensagens convocando pessoas para comparecer à universidade com o objetivo declarado de confrontar fisicamente estudantes identificados como comunistas.

O método empregado nessas ações é especialmente adequado ao ecossistema político produzido pelas redes sociais. Entra-se em um ambiente reconhecido pela presença de movimentos estudantis e organizações de esquerda, provoca-se uma reação, mantém-se uma câmera permanentemente ligada e espera-se pelo momento em que alguém ultrapasse a fronteira entre o confronto verbal e o físico. Depois disso, selecionam-se alguns segundos de imagens e elimina-se tudo aquilo que aconteceu anteriormente. O provocador pode então aparecer como cidadão comum exercendo pacificamente sua liberdade de expressão, enquanto os estudantes são apresentados como uma massa intolerante e violenta. A reação física às provocações representa, por isso, uma armadilha política particularmente eficiente, pois alguns segundos de uma altercação podem circular milhões de vezes completamente separados dos minutos que a antecederam.

Mas existe uma dimensão ainda mais ampla que precisa ser incorporada a essa discussão. A universidade pública não é apenas o cenário acidental dessas operações políticas, pois ela própria constitui um dos alvos. A construção sistemática da imagem dos campi como territórios dominados por militantes radicais, intolerantes e violentos serve a uma ofensiva destinada a deslegitimar as universidades públicas perante a sociedade. Nesse discurso, as instituições deixam de aparecer como espaços de produção científica, formação profissional, pesquisa, extensão e desenvolvimento tecnológico e passam a ser apresentadas como ambientes de doutrinação ideológica sustentados pelo contribuinte. Quanto mais caótica, sectária e violenta for a imagem produzida sobre a universidade pública, mais fácil se torna perguntar por que o Estado deveria continuar financiando essas instituições.

É nesse ponto que as provocações realizadas dentro dos campi encontram uma convergência particularmente perigosa com o discurso pró-privatização do ensino superior. Primeiro constrói-se a universidade pública como instituição disfuncional, ideologizada e incapaz de garantir até mesmo a convivência entre pessoas com posições políticas diferentes. Depois questionam-se seus custos, seus servidores, sua autonomia e o próprio princípio do financiamento público. Finalmente aparecem como soluções aparentemente técnicas aquilo que desde o início constituía um projeto político: redução do financiamento estatal, cobrança de mensalidades, expansão de parcerias privadas, transferência de atividades para empresas, enfraquecimento das carreiras públicas e progressiva mercantilização do ensino superior. Nesse sentido, produzir imagens de estudantes em confrontos dentro de universidades não serve apenas para conquistar seguidores nas redes sociais, mas fornece matéria-prima para uma narrativa destinada a corroer a legitimidade social das instituições públicas.

Isso não significa afirmar que Diego Araujo tenha participado de uma operação organizada dessa natureza. Até que existam provas, estabelecer essa associação seria irresponsável. Significa reconhecer que o episódio ocorreu em um ambiente político no qual a provocação dentro das universidades já integra o repertório de setores da extrema direita e que, por isso, qualquer análise séria precisa reconstruir toda a sequência dos acontecimentos, e não apenas os segundos finais que melhor se adaptam à narrativa pretendida.

Há igualmente uma lição estratégica que os estudantes e organizações de esquerda precisam retirar desses acontecimentos. Independentemente do grau de provocação, entrar em uma altercação física pode significar entregar aos provocadores exatamente as imagens necessárias para alimentar a narrativa que se pretende combater. Diante da utilização de símbolos nazistas ou fascistas ou de comportamentos deliberadamente provocadores, a resposta politicamente mais eficaz é documentar o ocorrido, identificar os responsáveis e exigir ação imediata das autoridades universitárias e, quando necessário, policiais. Além de impedir que estudantes assumam funções que pertencem às instituições, essa postura dificulta que eventuais provocadores sejam posteriormente transformados em mártires da liberdade de expressão.

O que não se pode aceitar é que comentaristas externos e arrivistas de direita instalados no interior das próprias universidades descubram subitamente a violência política nos campi apenas quando ela pode ser atribuída à esquerda. A memória histórica brasileira mostra quem perseguia estudantes e professores durante a ditadura, assim como a história alemã não deixa dúvidas sobre quem organizou a Noite dos Cristais. No presente, pesquisas documentam a expansão de células neonazistas no Brasil, enquanto a Polícia Federal realiza operações relacionadas à disseminação de propaganda nazista e supremacista. Diante disso, transformar estudantes antifascistas em “novos Torquemadas” e simultaneamente manter um silêncio conveniente sobre organizações que reivindicam precisamente ideologias responsáveis por algumas das maiores perseguições políticas e raciais do século XX parece menos uma preocupação universal com a intolerância do que uma escolha bastante seletiva sobre qual intolerância merece ser denunciada.

A altercação ocorrida no IFCS deve ser investigada, as diferentes versões confrontadas e as responsabilidades individualizadas. Mas antes de transformar o episódio em demonstração da suposta barbárie da esquerda universitária, seria recomendável olhar para a história e também para aquilo que está acontecendo hoje no Brasil. Talvez então fique mais difícil sustentar que o grande perigo para nossas universidades esteja nos estudantes que se indignam diante da exibição de símbolos associados ao nazismo, enquanto grupos efetivamente neonazistas crescem, personagens da extrema direita promovem provocações dentro dos campi e setores de direita existentes nas próprias universidades aproveitam esses episódios para destilar seu anticomunismo e contribuir para a desmoralização das instituições em que trabalham. Afinal, transformar a universidade pública em território de intolerância, desordem e radicalismo não é uma narrativa politicamente neutra: ela serve perfeitamente àqueles que desejam enfraquecer sua legitimidade social, reduzir seu financiamento e, no limite, abrir caminho para sua privatização.