Voltei ao Instagram, mas até quando a Meta quiser: a falsa democratização da informação pelas big techs

Entre denúncias bolsonaristas, labirintos de verificação e exigências de reconhecimento facial, o bloqueio da minha conta expõe o poder arbitrário das plataformas digitais sobre a liberdade de expressão

Na manhã deste sábado (10/10), relatei aqui no Blog do Pedlowski o bloqueio da minha conta oficial no Instagram, que já acumulava 5.128 publicações e 1.997 seguidores. O bloqueio ocorreu após uma onda de ataques e denúncias de apoiadores de Flávio Bolsonaro contra uma publicação em que apresentava propostas e declarações associadas à sua candidatura presidencial. A Meta justificou a restrição alegando estar protegendo minha conta contra uma possível invasão. Não tenho como comprovar que as denúncias tenham provocado diretamente o bloqueio, mas a sequência dos acontecimentos é suficientemente preocupante para merecer atenção.

O primeiro registro público que fiz do problema ocorreu às 8h55. Às 10h55, voltei ao assunto para denunciar o que considerava uma grave ameaça à minha liberdade de expressão. Finalmente, às 12h30, já estava solicitando uma imagem para anunciar o restabelecimento do acesso. Foram, portanto, pelo menos 3 horas e 35 minutos entre meu primeiro relato e a comunicação da recuperação, embora as dificuldades tenham começado antes disso. Nesse intervalo, enfrentei um verdadeiro labirinto digital, sendo empurrado de uma etapa de verificação para outra, entre mensagens de e-mail, códigos de acesso e sucessivas tentativas de reconhecimento facial. Em vez de resolver o problema, os procedimentos frequentemente me devolviam ao ponto de partida, sem qualquer possibilidade efetiva de diálogo com um responsável humano.

A exigência de reconhecimento facial merece atenção especial. Para recuperar uma conta que já era minha, fui levado a fornecer repetidamente informações biométricas extremamente sensíveis. Quem garante que esses dados serão utilizados exclusivamente para verificar minha identidade? A Meta possui políticas declaradas de proteção e exclusão dessas informações, mas isso não equivale a oferecer ao usuário garantias independentes e verificáveis sobre sua destinação final. A própria Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) estabelece proteção especial aos dados biométricos. Não estou afirmando que minhas informações tenham sido utilizadas indevidamente, mas questionando a falta de transparência e a assimetria de poder que permite a uma empresa exigir dados tão sensíveis como condição prática para devolver o acesso a uma conta.

O episódio ganha uma dimensão política ainda mais inquietante diante das denúncias feitas pela campanha de Lula sobre restrições à circulação e ao impulsionamento de seus conteúdos nas plataformas da Meta, em contraste com o alegado favorecimento de Flávio Bolsonaro. A empresa nega qualquer favorecimento eleitoral, e as denúncias ainda precisam ser devidamente apuradas. Entretanto, a combinação entre dificuldades enfrentadas por uma campanha presidencial e episódios como o meu levanta questões legítimas sobre o funcionamento dos mecanismos de moderação e distribuição de conteúdos políticos. Não se trata de afirmar que existe uma conspiração comprovada, mas de exigir transparência sobre processos que podem interferir diretamente na disputa eleitoral.

Há uma ironia particular no meu caso. Não sou um apoiador incondicional de Lula. Ao longo de seu terceiro mandato, publiquei críticas contundentes às suas políticas econômica e ambiental, especialmente à continuidade da expansão petrolífera em plena crise climática. Minha decisão de votar nele no segundo turno resulta de uma avaliação programática e da rejeição às propostas regressivas e ao negacionismo científico associados ao bolsonarismo. Entretanto, aparentemente, para determinados setores da extrema-direita, basta não aderir ao seu projeto político para se tornar alvo de ataques e tentativas de silenciamento. E não deixa de ser curioso que a acusação de fake news seja utilizada por setores políticos cuja ascensão esteve profundamente associada à disseminação de desinformação.

Tudo isso nos remete à grande promessa que acompanhou a expansão das redes sociais: a democratização da informação. Durante anos, as big techs venderam a ideia de que qualquer cidadão poderia produzir conteúdos, alcançar grandes audiências e disputar narrativas antes monopolizadas pelos meios tradicionais de comunicação. O que essa promessa escondia era que os novos espaços públicos digitais seriam controlados por corporações privadas, capazes de decidir unilateralmente quem pode falar, quais conteúdos terão visibilidade e quem será condenado à invisibilidade algorítmica. A concentração do poder comunicacional não desapareceu; apenas mudou de mãos, tornando-se ainda mais opaca e difícil de fiscalizar.

Talvez o problema não seja simplesmente uma promessa comercial não cumprida, mas algo mais profundo: um produto intrinsecamente comprometido por seu próprio modelo de negócios. Afinal, plataformas que transformam nossos dados, nossa atenção e nossas interações em mercadorias dificilmente podem ser consideradas espaços plenamente democráticos. Isso não significa defender redes sociais sem regras, mas exigir mecanismos transparentes de moderação, proteção efetiva dos dados pessoais, direito de contestação e fiscalização pública independente. Sem essas condições, a liberdade de expressão continuará subordinada aos interesses de empresas que não prestam contas democraticamente à sociedade.

Voltei ao Instagram, agora para ficar — até quando a Meta quiser, evidentemente. Afinal, minha permanência na plataforma não depende apenas da minha vontade ou do meu direito constitucional à liberdade de expressão, mas também das decisões de uma corporação privada que pode, a qualquer momento, fechar novamente as portas. Volto ainda mais convencido de que enfrentar o poder desmedido das big techs é uma exigência democrática. Porque, se até o direito de permanecer em uma rede social é uma concessão precária de seus proprietários, talvez a tão prometida democratização da informação não passe de uma liberdade com prazo de validade definido pelos donos da plataforma.

Brasil em Jogo: um site para conhecer o que realmente está em disputa nas eleições presidenciais de 2026

Plataforma reúne dados oficiais, documentos, propostas e comparações entre os governos Lula e Bolsonaro, permitindo que os eleitores conheçam melhor os projetos políticos que disputam o futuro do país

Em um momento em que a disputa eleitoral brasileira é marcada pela circulação de desinformação, pela manipulação de conteúdos nas redes sociais e pela tentativa de substituir o debate programático por ataques pessoais, merece ser conhecida e divulgada a plataforma digital Brasil em Jogo. O site oferece aos eleitores a possibilidade de examinar, com base em documentos e dados públicos, o que foi realizado durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, além de comparar as propostas apresentadas por Lula e Flávio Bolsonaro para o período de 2027 a 2030.

A plataforma organiza seu conteúdo em 12 áreas temáticas, abrangendo economia, emprego, salário mínimo, combate à fome, educação, saúde, segurança pública, meio ambiente, habitação, direitos sociais, impostos, cultura e esporte. Em cada uma dessas áreas, os visitantes encontram informações sobre políticas implementadas, indicadores socioeconômicos e compromissos eleitorais, acompanhados das respectivas fontes documentais. O site também disponibiliza comparações sobre questões particularmente sensíveis para a classe trabalhadora, como poder de compra, geração de empregos, financiamento dos serviços públicos e proteção social.

Um aspecto especialmente relevante é a preocupação declarada pelos responsáveis pela plataforma em distinguir fatos, indicadores e propostas. Os dados são apresentados com referências a instituições como IBGE, Banco Central, Ipea, INPE e Ministério do Trabalho e Emprego, enquanto as promessas eleitorais são identificadas a partir dos documentos programáticos. O site também reconhece que a ocorrência de determinado resultado durante um governo não significa, necessariamente, que ele tenha sido causado por suas políticas. Essa distinção metodológica é importante para evitar simplificações e permitir uma avaliação mais rigorosa das informações apresentadas.
Evidentemente, o Brasil em Jogo apresenta uma perspectiva política identificada com a candidatura de Lula, algo perceptível em sua própria organização. Isso, entretanto, não elimina a utilidade de consultar as informações reunidas, desde que os leitores mantenham uma postura crítica e verifiquem as fontes disponibilizadas. Afinal, assumir uma posição política não é sinônimo de produzir desinformação. O problema começa quando opiniões são apresentadas como fatos, propostas são escondidas dos eleitores ou informações são deliberadamente distorcidas para favorecer determinados interesses.

Em uma eleição na qual estão em disputa questões fundamentais para o futuro da classe trabalhadora, dos serviços públicos, da democracia e do enfrentamento da crise climática, conhecer o conteúdo efetivo dos projetos políticos deveria ser uma exigência elementar. O Brasil precisa de mais debate sobre programas de governo e menos submissão à lógica dos algoritmos, das notícias falsas e dos ataques organizados nas redes sociais.

Por essas razões, recomendo aos leitores do Blog do Pedlowski que visitem o Brasil em Jogo, examinem suas informações, consultem os documentos originais e compartilhem os conteúdos que considerarem relevantes. Em tempos de crescente hostilidade ao conhecimento e ao pensamento crítico, a informação documentada continua sendo uma ferramenta indispensável para o exercício consciente da cidadania.

Acesse: https://obrasilemjogo.com.br/

Porque, muito mais do que escolher quem ocupará a Presidência da República, o que está em jogo é o tipo de sociedade que teremos nos próximos anos.

Quando a extrema-direita transforma denúncias em massa em instrumento de censura nas redes sociais

O bloqueio da conta oficial do Blog do Pedlowski no Instagram, após a publicação de um card crítico a Flávio Bolsonaro, expõe os riscos de transformar os mecanismos de segurança das big techs em instrumentos de silenciamento político

Aparentemente, para determinados setores da extrema-direita brasileira, a liberdade de expressão é um direito reservado àqueles que compartilham suas posições políticas. Quando alguém ousa questionar suas propostas e candidatos, a tão proclamada defesa dessa liberdade parece desaparecer. É o que sugere o episódio que estou enfrentando no Instagram, onde minha conta oficial (@marcospedlowski), com 5.128 publicações e 1.997 seguidores, encontra-se bloqueada pela Meta sob a justificativa de proteção contra uma possível invasão. Curiosamente, o bloqueio ocorreu após a publicação de um card crítico à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, que desencadeou uma onda de ataques de seus apoiadores.

O card reúne críticas às propostas econômicas e sociais associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro, abordando questões como o SUS, o Bolsa Família, a educação pública, o salário mínimo e os direitos trabalhistas. Seu conteúdo foi construído a partir de propostas programáticas e declarações públicas atribuídas ao candidato e a seus assessores. As consequências apontadas constituem interpretações políticas que podem e devem ser debatidas, não fatos já consumados. Discordar dessas interpretações é legítimo; tentar impedir sua circulação é outra coisa. Mais curioso ainda é ver acusações de fake news partindo de setores políticos cuja trajetória inclui episódios documentados de disseminação de desinformação. Parece que não basta disputar a hegemonia política: há quem também pretenda conquistar o monopólio das fake news e da autoridade para definir o que pode circular nas redes sociais.

Depois de sucessivas tentativas de recuperar minha conta pelos mecanismos oferecidos pela Meta, continuo preso a um circuito burocrático digital que não leva a lugar nenhum. A empresa afirma estar me protegendo, mas o resultado concreto é que estou impedido de acessar uma conta construída ao longo de anos. Embora ainda não disponha de provas técnicas de que os ataques tenham provocado diretamente o bloqueio, a sequência dos acontecimentos exige esclarecimentos. Afinal, a própria Meta já reconheceu a existência de operações coordenadas de denúncias em massa destinadas a retirar indevidamente conteúdos e contas de suas plataformas.

O problema é muito maior do que o bloqueio de uma conta. Se grupos políticos organizados conseguirem explorar os mecanismos automatizados das big techs para silenciar adversários, estaremos diante de uma modalidade particularmente eficiente de censura privatizada. Não será necessário fechar jornais, apreender computadores ou enviar policiais às redações. Bastará mobilizar militantes para acionar sistemas de denúncia e deixar que algoritmos opacos façam o restante. E tudo isso sob a conveniente justificativa de proteger os usuários.

A ironia é evidente. Setores da extrema-direita que apresentam qualquer tentativa de regulamentação das plataformas como um atentado à liberdade de expressão parecem não demonstrar o mesmo entusiasmo por essa liberdade quando seus adversários são atingidos. Essa contradição reforça a necessidade de impor regras transparentes às big techs, garantir mecanismos efetivos de contestação e impedir que empresas transnacionais exerçam tamanho poder sobre o debate público sem prestar contas à sociedade.

Por isso, exijo que a Meta esclareça as razões do bloqueio, informe se houve denúncias coordenadas ou tentativas efetivas de invasão e disponibilize um procedimento funcional para recuperar minha conta. Não reivindico privilégios, mas o direito de continuar exercendo minha liberdade de expressão, inclusive para criticar propostas políticas que considero prejudiciais à classe trabalhadora e aos direitos sociais.

Finalmente, fica uma pergunta: é essa a democracia que a extrema-direita pretende oferecer ao Brasil, na qual a discordância política é respondida com intimidação e tentativas de silenciamento? Se esse método se generalizar, especialmente com a complacência ou a incapacidade de reação das big techs, estaremos diante de uma ameaça concreta ao pluralismo político e à própria democracia.

Enquanto isso, continuarei publicando no Blog do Pedlowski. Afinal, bloquear uma conta pode dificultar a circulação das ideias, mas não elimina o pensamento crítico. E, para quem imagina que a democracia pode ser reduzida a um botão de denúncia, fica um lembrete: a liberdade de expressão não é propriedade privada da extrema-direita, e muito menos das big techs.

Quando a Meta diz que protege, mas acaba silenciando: minha conta no Instagram está bloqueada após ataques bolsonaristas

Com 5.128 publicações e 1.997 seguidores, meu perfil está inacessível depois de uma onda de ataques contra uma postagem crítica a Flávio Bolsonaro. A alegada proteção contra invasões se transformou em um bloqueio sem solução

Não é novidade para os leitores do Blog do Pedlowski que minhas posições políticas e minhas análises sobre a realidade brasileira não são formuladas para agradar a todos, muito menos aos que consideram a crítica política uma espécie de ofensa pessoal. Afinal, um dos princípios que orientam minha atuação como professor universitário e editor deste blog é justamente o de que a liberdade de expressão precisa ser exercida, inclusive quando aquilo que se diz contraria interesses políticos e econômicos poderosos. Entretanto, o que estou enfrentando neste momento no Instagram levanta uma questão que ultrapassa minha situação pessoal e alcança um problema central da democracia contemporânea: quem controla o direito de expressão dos cidadãos quando boa parte do debate público está submetida aos algoritmos e aos procedimentos administrativos das chamadas big techs?

Minha conta oficial no Instagram, que já reúne 5.128 publicações e 1.997 seguidores, encontra-se efetivamente bloqueada pela Meta, empresa proprietária da plataforma. O bloqueio ocorreu após uma onda de ataques de eleitores bolsonaristas contra uma publicação que apresentava uma crítica contundente às possíveis consequências sociais e econômicas de um eventual governo de Flávio Bolsonaro. A imagem abordava questões como o financiamento do Sistema Único de Saúde, a continuidade do Bolsa Família, a educação pública, a política de valorização do salário mínimo e os direitos trabalhistas. Tratava-se, portanto, de uma manifestação política sobre temas de interesse público, ainda que expressa em linguagem dura e com conclusões das quais os apoiadores do candidato evidentemente podem discordar.

O mais curioso, para não dizer kafkiano, é que a Meta não informa que minha conta tenha sido bloqueada por violar suas regras de conteúdo. A mensagem apresentada pela plataforma afirma que o bloqueio foi realizado para me proteger de uma possível invasão. Em seguida, oferece alternativas de recuperação por e-mail ou WhatsApp, acompanhadas da advertência de que o contato escolhido substituirá as informações de acesso anteriormente cadastradas. O problema é que já percorri repetidas vezes esses procedimentos, sem conseguir recuperar minha conta. O resultado é um verdadeiro labirinto digital no qual o proprietário legítimo da conta continua do lado de fora, enquanto a empresa responsável pela plataforma insiste em oferecer caminhos que não conduzem a lugar algum.

Não disponho, neste momento, de elementos que permitam afirmar categoricamente que o bloqueio tenha sido provocado por denúncias coordenadas dos eleitores bolsonaristas que atacaram minha publicação. Essa é uma possibilidade que precisa ser esclarecida pela Meta, especialmente diante da proximidade temporal entre os acontecimentos. Também não há, na mensagem recebida, comprovação de que uma tentativa efetiva de invasão tenha ocorrido. O que posso afirmar, porque estou experimentando diretamente suas consequências, é que a conta permanece inacessível e que os mecanismos oferecidos pela empresa não estão resolvendo o problema.

Há uma ironia particularmente amarga nessa situação. Uma empresa que concentra enorme poder sobre a circulação de informações e opiniões políticas afirma estar protegendo minha conta, mas o efeito concreto dessa proteção é impedir que eu continue utilizando um espaço de comunicação construído ao longo de milhares de publicações. Se o objetivo de quem me atacou era reduzir a circulação das minhas críticas, o resultado atual certamente não lhes será desagradável. É o tipo de proteção que, levada às últimas consequências, termina produzindo um resultado muito semelhante ao pretendido por aqueles que desejam calar a voz protegida.

O problema não se restringe ao meu caso. Em junho de 2026, o Ministério Público Federal divulgou a abertura de uma apuração sobre o bloqueio de mais de uma centena de perfis ligados à comunidade LGBTQIA+ no Instagram. Entre os esclarecimentos solicitados à Meta estava justamente a possibilidade de que suspensões tivessem resultado de mecanismos automatizados ou de campanhas coordenadas de denúncias em massa. Evidentemente, não se trata de afirmar que os dois episódios possuem a mesma origem, mas de reconhecer que a opacidade dos procedimentos adotados pelas plataformas digitais constitui um problema suficientemente sério para despertar a atenção dos órgãos responsáveis pela defesa dos direitos fundamentais.

No meu caso, considero especialmente preocupante a possibilidade de que manifestações de hostilidade política sejam acompanhadas de mecanismos de restrição de acesso que o usuário não consegue compreender nem contestar de maneira efetiva. Não reivindico qualquer privilégio, tampouco pretendo que minhas opiniões sejam colocadas acima das regras legitimamente estabelecidas para o funcionamento das redes sociais. O que reivindico é algo muito mais elementar: o direito de saber por que minha conta foi bloqueada, de ter acesso a um procedimento efetivo de recuperação e de não ser privado arbitrariamente de um canal de comunicação em razão de minhas manifestações políticas.

Também é importante registrar que a liberdade de expressão não significa ausência de contraditório. Os eleitores de Flávio Bolsonaro possuem todo o direito de discordar das minhas análises, questionar meus argumentos e apresentar suas próprias interpretações sobre as propostas de seu candidato. O que não se pode aceitar como prática democrática são ataques destinados a intimidar adversários ou eventuais tentativas de utilizar mecanismos de denúncia para retirar suas manifestações de circulação. Discordar é parte da democracia. Procurar silenciar quem discorda é outra coisa.

A situação se torna ainda mais contraditória quando lembramos que as grandes empresas de tecnologia frequentemente apresentam suas plataformas como espaços privilegiados para a livre circulação de ideias. Entretanto, quando um usuário enfrenta um bloqueio e não consegue encontrar um procedimento funcional para contestá-lo, fica evidente a assimetria entre o poder dessas corporações e os direitos daqueles que produzem os conteúdos responsáveis por alimentar suas redes. São milhares de publicações, anos de trabalho e relações estabelecidas com leitores que podem ficar submetidos a decisões automatizadas cujos fundamentos permanecem desconhecidos.

Por isso, faço aqui uma denúncia pública do bloqueio da minha conta e dos ataques políticos que antecederam essa situação, exigindo que a Meta esclareça as razões concretas da restrição e ofereça um mecanismo efetivo para restabelecer meu acesso. Também considero indispensável que a empresa informe se houve denúncias em massa contra meu perfil, tentativas identificadas de acesso não autorizado ou qualquer outro evento que justifique a medida adotada. Essas informações são fundamentais para distinguir um procedimento legítimo de segurança de uma eventual utilização abusiva dos mecanismos de controle da plataforma.

Enquanto isso, o Blog do Pedlowski continuará publicando análises sobre a realidade política, econômica, social e ambiental brasileira. Minha trajetória de atuação acadêmica e de intervenção no debate público não começou com o Instagram e certamente não terminará por causa de um bloqueio imposto pela Meta. O que está em discussão, entretanto, não é apenas a continuidade das minhas publicações, mas a necessidade de impedir que o debate democrático fique subordinado a sistemas privados de controle que não oferecem transparência e mecanismos adequados de responsabilização.

Aos que confundem discordância política com o direito de silenciar seus adversários, deixo uma observação: a democracia não existe apenas para proteger as opiniões com as quais concordamos. E à Meta cabe explicar por que sua alegada proteção está impedindo justamente o exercício do direito que deveria preservar.

Afinal, se para proteger minha liberdade de expressão a solução é me impedir de exercê-la, talvez seja necessário perguntar quem, exatamente, está sendo protegido.

Campos dos Goytacazes: a riqueza do petróleo, a pobreza persistente e as contradições reveladas pelas urnas

Com mais de 200 mil moradores inscritos no Cadastro Único, Campos deu uma vitória expressiva a Flávio Bolsonaro no primeiro turno presidencial. A aproximação da família Garotinho com o bolsonarismo ajuda a compreender esse resultado, mas também levanta uma pergunta incômoda: quem assumiria a responsabilidade por eventuais cortes nas políticas sociais?

A riqueza petrolífera e a persistência da pobreza

Os números do Cadastro Único (CadÚnico) revelam uma das contradições mais marcantes de Campos dos Goytacazes. Em um município historicamente beneficiado pelas receitas da exploração petrolífera, aproximadamente 212 mil moradores estão inscritos no cadastro federal, representando mais de 40% da população. Embora a inscrição no CadÚnico não signifique necessariamente o recebimento do Bolsa Família, esses números evidenciam a dimensão da vulnerabilidade socioeconômica em uma cidade onde a riqueza gerada pela exploração dos recursos naturais continua apresentando uma distribuição profundamente desigual.

A questão central não é a existência de políticas de transferência de renda, que representam instrumentos indispensáveis de proteção social, mas a dificuldade histórica de transformar a riqueza petrolífera em condições dignas de vida para a maioria da população. Enquanto os sinais da concentração de riqueza se multiplicam na paisagem urbana campista, milhares de famílias continuam dependendo de políticas públicas para assegurar suas necessidades básicas. Afinal, de que adianta uma cidade ostentar riqueza se uma parcela tão expressiva de seus habitantes permanece economicamente vulnerável?

O que revelam os resultados eleitorais?

Essa realidade ganha contornos particularmente interessantes quando confrontada com os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Em Campos, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 160.859 votos (59,10% dos válidos), enquanto Lula (PT) obteve 91.105 votos (33,47%). Dos 370.466 eleitores aptos, 80.008 não compareceram às urnas, enquanto 7.954 votaram em branco e 10.340 anularam seus votos. Somadas, as abstenções e os votos brancos e nulos alcançaram 98.302 eleitores, aproximadamente 26,5% do eleitorado municipal.

Esses números revelam uma combinação que merece investigação: uma cidade com elevada vulnerabilidade social, uma vitória expressiva de um candidato identificado com propostas econômicas liberais e um contingente considerável de eleitores que não registraram votos válidos. Evidentemente, não se pode concluir que os beneficiários de programas sociais tenham votado majoritariamente em qualquer candidato. Entretanto, cabe perguntar quais fatores políticos, culturais e econômicos ajudam a explicar essa configuração eleitoral.

A família Garotinho como correia auxiliar do bolsonarismo

Uma parte da resposta pode estar na atuação da família Garotinho, cuja influência política em Campos atravessa décadas. A aproximação de Wladimir Garotinho com Flávio Bolsonaro não foi apenas circunstancial: o ex-prefeito filiou-se ao PL e assumiu papel na coordenação regional da campanha presidencial, colocando sua experiência política e sua inserção territorial a serviço do projeto eleitoral bolsonarista. Anthony Garotinho, apesar de suas divergências com integrantes do PL fluminense, também declarou que votaria em Flávio Bolsonaro em um segundo turno contra Lula.

Nesse sentido, é possível interpretar a atuação de integrantes da família Garotinho como uma espécie de correia auxiliar eleitoral do bolsonarismo em Campos dos Goytacazes. Essa aproximação é especialmente relevante porque a família construiu grande parte de sua trajetória política associando sua imagem ao atendimento das necessidades das camadas populares e à implementação de políticas sociais. A hipótese é que essa transferência de capital político tenha ajudado a aproximar o bolsonarismo de segmentos populares historicamente vinculados aos Garotinho, embora não existam dados suficientes para quantificar esse efeito.

Assim, a aparente contradição entre vulnerabilidade social e preferência eleitoral por Flávio Bolsonaro torna-se menos surpreendente. Afinal, as escolhas eleitorais não decorrem exclusivamente da condição econômica, sendo também mediadas por lideranças locais, relações de confiança e identificações políticas construídas ao longo de muitos anos. A aliança de ocasião entre setores do garotismo e o bolsonarismo oferece, portanto, uma hipótese explicativa relevante para o resultado eleitoral campista.

O Bolsa Família e os riscos para a proteção social

Há, entretanto, uma questão que não deveria ficar ausente desse debate. Durante o governo de Jair Bolsonaro, o Bolsa Família foi extinto como programa específico e substituído pelo Auxílio Brasil, mantendo-se as transferências federais de renda sob outras regras. Em 2023, o governo Lula restabeleceu o Bolsa Família. Essa trajetória demonstra que mudanças de governo podem alterar substancialmente o desenho, os critérios e o financiamento das políticas de proteção social.

Embora Flávio Bolsonaro tenha declarado que pretende manter o Bolsa Família, permanecem questões sobre a compatibilidade entre a preservação dos benefícios e propostas de contenção de despesas públicas. Não seria correto afirmar que sua eleição significaria necessariamente o fim do programa, mas é legítimo exigir esclarecimentos sobre as garantias orçamentárias e institucionais de sua continuidade. Afinal, preservar o nome de uma política pública não significa necessariamente preservar seus valores, sua cobertura e suas condições de acesso.

Nesse contexto, cabe formular uma hipótese: como se comportaria o eleitorado campista se houvesse maior conhecimento sobre os possíveis efeitos das diferentes propostas econômicas para o financiamento das políticas sociais? A resposta não pode ser presumida, mas a pergunta ganha importância diante da quantidade de famílias que dependem direta ou indiretamente dessas políticas.

Quem vai levantar a lebre sobre o futuro do Bolsa Família?

A pergunta ganha especial importância em Campos, onde a vulnerabilidade social convive com uma estrutura política marcada pela influência de lideranças tradicionais. A aproximação de integrantes da família Garotinho com o bolsonarismo acrescenta uma dimensão ao problema: como essas lideranças conciliam sua trajetória de identificação com políticas sociais com o apoio a um candidato cujas propostas de ajuste das despesas públicas precisam ser examinadas quanto aos seus possíveis efeitos sobre a proteção social?

Quem pode levantar essa discussão? A imprensa local, os pesquisadores das universidades públicas, as organizações comunitárias, os movimentos sociais e as próprias famílias beneficiárias têm condições de cobrar respostas verificáveis. A responsabilidade também recai sobre os candidatos e suas lideranças locais, que devem explicar como pretendem conciliar seus compromissos sociais com suas propostas fiscais.

A questão já entrou na disputa nacional. Flávio Bolsonaro reafirmou que pretende manter o Bolsa Família e o Farmácia Popular. Ao mesmo tempo, notícias sobre possíveis mudanças nas despesas obrigatórias suscitaram questionamentos sobre o alcance do ajuste fiscal defendido por sua candidatura. A campanha nega que algumas dessas medidas estejam em seu programa. Por isso, o debate precisa ultrapassar tanto as promessas genéricas quanto as acusações sem comprovação.

E se a conta chegar? Quem vai embalar Mateus?

O caso de Campos dos Goytacazes expõe três questões interligadas: por que décadas de exploração petrolífera não foram suficientes para reduzir de maneira mais expressiva a vulnerabilidade social; como essa realidade se relaciona com as escolhas políticas dos habitantes; e em que medida a influência de lideranças tradicionais, como os Garotinho, contribui para organizar e transferir apoios eleitorais.

Mas há uma última questão, que merece uma pitada de ironia. Imaginemos, por hipótese, que Flávio Bolsonaro seja eleito e, contrariando suas declarações atuais, resolva restringir significativamente ou mesmo extinguir o Bolsa Família. Como se comportariam seus aliados nos governos estadual e municipal? Defenderiam a preservação dos benefícios, buscariam recursos próprios para compensar as perdas ou procurariam justificar as decisões tomadas em Brasília?

A questão não seria apenas política. Uma redução expressiva das transferências federais atingiria diretamente a renda das famílias mais pobres e poderia diminuir a circulação de dinheiro nos bairros populares, afetando pequenos mercados, farmácias, padarias e outros estabelecimentos comerciais. Em uma cidade onde a vulnerabilidade social alcança uma parcela tão significativa da população, os efeitos econômicos e sociais poderiam ultrapassar amplamente o universo dos beneficiários diretos.

E quem assumiria a responsabilidade por essas consequências? É nesse ponto que a sabedoria popular oferece duas expressões particularmente apropriadas: “filho feio não tem pai” e “quem pariu Mateus que o embale”. Em um cenário de redução dos benefícios, seria interessante observar se os três níveis de governo assumiriam suas respectivas responsabilidades ou se começaria uma interminável disputa para descobrir quem deveria embalar Mateus.

Afinal, não seria surpreendente que, diante de uma eventual deterioração das condições sociais, cada esfera de governo apontasse para outra, enquanto as famílias afetadas continuariam esperando por soluções. O governo federal poderia invocar a necessidade de ajuste fiscal; o estadual, suas limitações orçamentárias; e o municipal, a falta de recursos para compensar as perdas. Tudo isso, evidentemente, em nome da responsabilidade administrativa.

No fim das contas, a ironia seria esta: na hora de celebrar a vitória eleitoral, Mateus teria muitos pais; na hora de enfrentar as consequências sociais de eventuais cortes, talvez ninguém quisesse assumir a tarefa de embalá-lo. E há um detalhe particularmente saboroso nessa história: Anthony Garotinho também é Mateus, ao menos no nome. Resta saber se, diante de uma eventual redução do Bolsa Família, o experiente político campista estaria disposto a embalar o Mateus que ajudou a colocar no colo dos eleitores ou se preferiria recorrer à velha máxima de que filho feio não tem pai. Afinal, quando se trata de repartir os dividendos eleitorais, sempre aparecem muitos parentes; quando chega a conta da pobreza, corre-se o risco de descobrir que Mateus ficou órfão nos três níveis de governo.

ADUENF indica voto em Lula: defender a universidade pública exige uma escolha

Decisão aprovada em assembleia parte da defesa dos direitos sociais, da educação pública e da soberania nacional — compromissos que, neste segundo turno, levam ao voto em Lula

A assembleia docente da Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (ADUENF), realizada em 8 de outubro, aprovou, por maioria, o posicionamento público da entidade em apoio a Lula no segundo turno das eleições presidenciais. Conforme o informe divulgado pela associação, a decisão está vinculada à defesa da educação pública, à oposição às privatizações e aos cortes orçamentários, ao enfrentamento da extrema direita e à proteção dos direitos sociais dos trabalhadores. Também integra esse posicionamento a defesa das reservas de terras raras e da soberania nacional. Trata-se, portanto, de uma escolha alicerçada em compromissos programáticos que dizem respeito às condições de existência da universidade pública e ao projeto de sociedade que se pretende defender.

Esse ponto é central porque uma entidade sindical não pode tratar a disputa presidencial como se as alternativas fossem indiferentes aos interesses da categoria e da classe trabalhadora. Quem assume a defesa da educação pública, do financiamento das universidades, dos serviços públicos e dos direitos sociais precisa extrair desses compromissos suas consequências políticas. Dentro desse conjunto de critérios e diante das alternativas colocadas neste segundo turno, a única indicação de voto coerente seria em Lula. Uma posição de neutralidade deixaria sem consequência eleitoral justamente os princípios que orientam a atuação da entidade, como se fosse possível defender a universidade e ignorar as ameaças políticas à sua manutenção.

Isso não significa conceder um cheque em branco a Lula, muito menos suspender as críticas às políticas de seu governo. Apoiar sua candidatura a partir de uma perspectiva programática implica preservar a autonomia sindical e continuar cobrando financiamento adequado para a educação, valorização dos servidores, proteção dos direitos trabalhistas e medidas efetivas em defesa da soberania nacional. O voto não encerra essas disputas, nem substitui a mobilização. Ao contrário, precisa estar associado à disposição de enfrentar qualquer governo quando suas decisões contrariem os interesses dos trabalhadores. A coerência está em combinar a escolha eleitoral com a independência necessária para cobrar o cumprimento dos compromissos que a justificam.

No caso da UENF, essa compreensão ganha uma dimensão concreta. O informe da assembleia registra preocupação com ameaças ao financiamento das universidades, possíveis cortes orçamentários e falta de diálogo com o Governo do Estado, além da necessidade de intensificar a mobilização pela aprovação do PCV. Estas  são questões que demonstram como as escolhas políticas chegam ao cotidiano da universidade, às condições de trabalho e à capacidade de atender à sociedade. A decisão da ADUENF reconhece essa ligação e assume uma responsabilidade que não pode ser terceirizada: se o programa defendido é o da educação pública, dos direitos sociais e da soberania nacional, o voto precisa acompanhar essa defesa. Neste segundo turno, isso significa indicar o voto em Lula e manter a organização da categoria para as lutas que continuarão depois das urnas.

Norte e Noroeste Fluminense: a fabricação histórica da escassez hídrica

A tentativa de classificar o Norte e o Noroeste Fluminense como regiões semiáridas ignora décadas de intervenções que destruíram lagoas e brejos, beneficiaram grandes proprietários de terras e alteraram profundamente a dinâmica hídrica regional

Por Vinicus Lima *

Tentar forçar que as regiões Norte e Noroeste Fluminense sejam classificadas como semiáridas é um erro conceitual de geografia. É bem verdade que um dos critérios para o enquadramento como semiárido diz respeito à precipitação média anual, sendo necessário que esteja próxima de 700 a 800 mm/ano.  A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro disponibiliza uma longa série histórica de dados de precipitação de Campos dos Goytacazes e não é necessário muito esforço para notar que, em muitos anos, choveu acima do limite estabelecido para o enquadramento como semiárido. Os dados mostram que há, contudo, irregularidade quanto à precipitação média anual. Explico o porquê. O processo de uso e ocupação do espaço envolve, em todos os lugares habitados, a substituição de um meio natural por um ambiente artificializado pelas atividades antrópicas.

Nas regiões Norte e Noroeste Fluminense, isso não é diferente, de modo que, desde o século XIX, gestores têm alterado drasticamente a dinâmica da natureza, processo esse que se intensificou ao longo do século XX, notadamente com as medidas estruturais empreendidas pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), com a construção de aproximadamente 1.200 km de canais artificiais pela Baixada Campista. Qual o motivo da construção desses canais?

Na época (regime militar), com um pensamento progressista, realizaram essas obras para evitar as recorrentes inundações que ocorriam e acabar com doenças de veiculação hídrica. Isso foi o que disseram. A verdade? Ampliar áreas agricultáveis e de pastagem para uma minoria que detinha a maior parcela das terras da região. Somam-se a isso as mudanças climáticas em curso, às quais as regiões Norte e Noroeste Fluminense não estão alheias. Com isso, incontáveis lagoas e brejos foram drenados, e a dinâmica das águas superficiais, bem como a disponibilidade hídrica na região, foi completamente alterada. É fundamental que saibamos que esses ambientes possuem importante função ecológica para a região, além de função social, sendo fonte de renda para famílias de pescadores artesanais e garantindo a segurança alimentar de populações de baixa renda.

Agora, esses mesmos proprietários de terras, que seguem nas mãos das mesmas famílias, buscam engordar seus bolsos com o PL do semiárido. Ou seja, reduzem a disponibilidade hídrica em benefício próprio e depois buscam subsídios governamentais para enfrentar uma situação que não estaria ocorrendo caso esses ambientes lênticos estivessem preservados.

Por fim, é necessário que seja estabelecido um diálogo aberto entre o Poder Público, as universidades e a sociedade civil que, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, busque um caminho no qual a dinâmica das sociedades humanas esteja em acordo com a dinâmica da natureza, visando ao correto ordenamento territorial e ambiental.


*Vinícius Lima é Doutor em Geografia (UFF) e atua como pesquisador de pós-doutorado do Laboratório de Ciências Ambientais do Centro de Biociências e Biotecnologia da UENF (LCA/CBB/UENF)

Os estudantes vão às ruas, enquanto os professores se recolhem aos laboratórios

A mobilização estudantil contra Flávio Bolsonaro expõe uma perigosa acomodação entre professores universitários que parecem acreditar que poderão sobreviver impunemente a mais quatro anos de ataques à universidade pública

A primeira semana do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras vem revelando um fenômeno político difícil de ignorar: a saída de multidões de estudantes de escolas e universidades públicas às ruas em defesa da candidatura de Lula. Essa mobilização vem se disseminando pelo território nacional, alcançando inclusive cidades que se transformaram em verdadeiros bastiões eleitorais da extrema-direita. Certamente, não tardarão a aparecer comentaristas da mídia corporativa e professores universitários dispostos a oferecer explicações para esse fenômeno, que aparentemente não foi antecipado nem pela campanha de Flávio Bolsonaro, tampouco pela de Lula. O fato é que, independentemente das interpretações que venham a surgir, estamos diante de uma manifestação de protagonismo político estudantil que parece ter surpreendido tanto os estrategistas eleitorais quanto aqueles que se acostumaram a enxergar a juventude como uma geração politicamente apática e submetida à influência das redes sociais.

Ao mesmo tempo, pelo menos a partir do meu ponto de observação, que é a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), essa onda de mobilização ainda não parece ter alcançado os professores universitários com a mesma intensidade. Essa disparidade produz uma ironia particularmente interessante: talvez os professores não sejam, afinal, os grandes doutrinadores ideológicos que a extrema-direita insiste em denunciar. Ao contrário, tudo indica que poderão acabar sendo empurrados para as ruas pelo ímpeto político demonstrado pelos próprios estudantes, subvertendo completamente a suposta relação entre doutrinadores e doutrinados. Nesse caso, os estudantes não estariam seguindo orientações políticas de seus professores, mas oferecendo a eles uma verdadeira aula prática de participação política.

Entretanto, a questão que me parece mais importante neste momento é compreender as razões dessa disparidade de mobilização no interior das universidades. Acredito que ela possa resultar de diferentes fatores, mas considero que um dos principais seja a percepção desigual dos riscos representados por uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. Os estudantes parecem já ter compreendido que estarão entre os principais perdedores de um governo comandado pela extrema-direita, especialmente diante das perspectivas de aprofundamento dos cortes orçamentários, da precarização das universidades públicas e da redução das oportunidades de formação e inserção profissional. Já uma parcela dos professores talvez esteja fazendo um cálculo diferente, baseado na percepção de que, afinal, atravessamos os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro e aparentemente sobrevivemos para contar a história. Essa experiência anterior poderia estar alimentando uma perigosa sensação de que, mesmo diante de um novo governo da família Bolsonaro, seria possível continuar trabalhando, pesquisando e ensinando como se estivéssemos diante de mais uma alternância convencional de poder.

Se essa hipótese estiver correta, considero que estamos diante de um cálculo político profundamente equivocado. Um eventual governo de Flávio Bolsonaro poderá representar uma versão ainda mais agressiva e organizada do projeto político colocado em prática por seu pai. Para compreender os riscos dessa possibilidade, basta observar o que vem acontecendo nos Estados Unidos sob o segundo mandato de Donald Trump, cuja administração tem aprofundado ataques aos já limitados direitos sociais existentes naquele país e promovido uma verdadeira perseguição aos imigrantes, inclusive aqueles que se encontram em situação migratória regular. As operações conduzidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) têm suscitado graves questionamentos sobre abusos de autoridade e desrespeito às garantias previstas na legislação estadunidense. A experiência norte-americana deveria servir de advertência para aqueles que imaginam que o retorno de forças políticas autoritárias ao governo significa simplesmente a repetição de experiências anteriores. Em determinadas circunstâncias, o segundo mandato pode ser justamente aquele em que os mecanismos de contenção institucional se mostram mais fragilizados e os ataques aos direitos sociais se tornam mais profundos.

No caso brasileiro, há ainda um elemento que deveria preocupar especialmente os professores universitários: a possibilidade de que um novo governo da família Bolsonaro disponha de condições políticas mais favoráveis para aprofundar o desmonte das universidades públicas, comprometendo não apenas seu financiamento, mas também sua autonomia institucional e sua capacidade de produzir conhecimento científico. Não se trata apenas de imaginar novos contingenciamentos orçamentários, mas de reconhecer que a combinação entre austeridade fiscal, hostilidade à ciência e desprezo pela educação pública pode produzir consequências muito mais duradouras do que aquelas experimentadas entre 2019 e 2022. Afinal, laboratórios de pesquisa não funcionam apenas com a dedicação individual de seus coordenadores, mas dependem de financiamento público, infraestrutura, bolsas de estudo, equipes técnicas e da formação contínua de novos pesquisadores. Quando esses elementos são comprometidos, não é apenas a produção científica que sofre: é a própria capacidade das universidades de cumprir suas funções sociais que passa a estar ameaçada.

Diante disso, minha expectativa é que a continuidade e o eventual crescimento das mobilizações estudantis contribuam para despertar aqueles professores que, embora reconheçam que a eleição de Lula representa um cenário muito menos danoso para a universidade pública brasileira, ainda não perceberam a necessidade de transformar essa preferência eleitoral em participação política efetiva. Não se trata de abandonar as atividades acadêmicas ou de subordinar a universidade a interesses partidários, mas de compreender que a defesa das condições institucionais necessárias ao ensino, à pesquisa e à extensão também exige posicionamento público diante de ameaças concretas. Afinal, a neutralidade aparente pode se transformar em uma forma bastante conveniente de acomodação política, especialmente quando se imagina que os efeitos de determinadas escolhas eleitorais recairão sempre sobre os outros.

Por isso, espero que os estudantes continuem oferecendo essa demonstração de protagonismo político e que sua disposição de ocupar as ruas acabe contagiando também os professores universitários. Caso contrário, muitos daqueles que hoje preferem permanecer confortavelmente recolhidos em seus laboratórios, acreditando que poderão atravessar mais quatro anos de bolsonarismo sem maiores consequências, poderão despertar para uma realidade bastante desagradável: a de descobrir que seus laboratórios foram inviabilizados, seus projetos interrompidos e suas condições de trabalho profundamente deterioradas. E talvez descubram, tarde demais, que a defesa da universidade pública não poderia ter sido deixada exclusivamente nas mãos dos estudantes.

Afinal, de pouco adiantará preservar uma suposta neutralidade política se, ao final dos próximos quatro anos, já não houver condições materiais para continuar fazendo ciência, ensinando e formando novos pesquisadores. Nesse cenário, a grande ironia será perceber que os estudantes compreenderam antes de muitos de seus professores algo bastante elementar: não há futuro para a universidade pública quando aqueles que dependem dela se recusam a defendê-la.

Os “bonsais da destruição climática”: em Campos, a motosserra parece ter virado instrumento de paisagismo

Em plena primavera e sob o agravamento da crise climática, árvores são mutiladas e abatidas, enquanto a arborização urbana de Campos dos Goytacazes parece estar sendo submetida a uma curiosa política de redução de copas, sombras e qualidade de vida


Quem circula pelas ruas de Campos dos Goytacazes pode estar testemunhando o surgimento de uma nova escola de paisagismo urbano. Nela, quanto menor a copa de uma árvore, melhor. Se os galhos forem eliminados quase completamente, melhor ainda. E, se a árvore for abatida de uma vez, talvez tenhamos atingido a perfeição estética pretendida pelos adeptos dessa modalidade bastante peculiar de gestão ambiental. Pelas imagens que registrei ontem na Beira Rio, parece que estamos diante de uma verdadeira epidemia de produção dos chamados “bonsais da destruição climática”, uma contribuição tipicamente campista à arte de transformar árvores de grande porte em monumentos à ausência de sombra.

Para quem não sabe, o bonsai é uma técnica de origem chinesa, posteriormente aperfeiçoada e difundida pelos japoneses, que consiste no cultivo de árvores em miniatura, mediante procedimentos cuidadosos de poda, condução de galhos, manejo das raízes e controle do crescimento. Trata-se de uma arte que exige conhecimento, paciência e respeito às características biológicas das espécies cultivadas. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre cultivar um bonsai em um vaso e transformar árvores adultas das vias públicas em caricaturas de si mesmas. Enquanto o bonsai tradicional procura reproduzir, em escala reduzida, a beleza e a complexidade de uma árvore, o bonsai da destruição climática parece empenhado em eliminar justamente aquilo que torna uma árvore indispensável ao ambiente urbano: sua copa, sua sombra e sua capacidade de amenizar as temperaturas.

O problema seria apenas uma manifestação de mau gosto paisagístico se não estivéssemos vivendo um período de agravamento da crise climática global. Em cidades como Campos dos Goytacazes, onde as temperaturas elevadas já constituem uma característica marcante do clima local, a presença de árvores nas ruas, calçadas e praças deveria ser considerada uma infraestrutura ambiental estratégica. Afinal, as copas das árvores reduzem a incidência direta da radiação solar sobre o pavimento, contribuem para amenizar as temperaturas por meio da evapotranspiração, interceptam parte das águas das chuvas e oferecem abrigo para diferentes espécies da fauna urbana. Ao reduzir drasticamente essas copas, estamos eliminando serviços ambientais que não podem ser substituídos por canteiros ornamentais, vasos de concreto ou promessas de futuros plantios.

Mas existe outro aspecto particularmente curioso nessa aparente febre de transformação das árvores campistas em bonsais gigantes: a escolha do mês de outubro para a realização dessas intervenções. Em muitas situações, especialmente para espécies de clima temperado e árvores caducifólias, o período de menor atividade vegetativa, frequentemente situado entre maio e agosto no hemisfério sul, oferece condições mais adequadas para determinadas modalidades de poda. Entretanto, esse calendário não pode ser aplicado indiscriminadamente às espécies tropicais, pois a época correta depende da espécie, de seu ciclo fenológico, das condições climáticas e da finalidade da intervenção. Em Campos, onde predominam condições climáticas quentes, o manejo deveria respeitar essas particularidades. Ainda assim, realizar podas drásticas em plena primavera, quando muitas árvores apresentam intensa brotação e crescimento, levanta questionamentos adicionais sobre os critérios técnicos empregados.

É importante esclarecer que a poda, quando necessária e corretamente executada, constitui uma prática legítima de manejo da arborização urbana. Galhos comprometidos, interferências perigosas com redes elétricas e problemas estruturais efetivamente identificados podem justificar intervenções. Entretanto, existe uma distância considerável entre uma poda tecnicamente fundamentada e a eliminação indiscriminada de grandes porções da copa. Cortes excessivos podem produzir ferimentos extensos, favorecer a entrada de organismos causadores de doenças, estimular brotações estruturalmente frágeis e comprometer a estabilidade futura das árvores. Em determinadas situações, aquilo que é apresentado como uma medida preventiva de segurança pode acabar produzindo exatamente o contrário: árvores mais vulneráveis e potencialmente perigosas.

As fotografias que acompanham esta postagem, registradas em uma via pública de Campos dos Goytacazes, mostram árvores submetidas a intervenções severas, incluindo troncos praticamente desprovidos de copa e cortes recentes em galhos de grande porte. Não é possível determinar apenas pelas imagens quais justificativas técnicas foram apresentadas para cada intervenção, mas o resultado visual é suficientemente preocupante para exigir explicações. Afinal, quem está autorizando essas operações? Existem laudos individuais demonstrando sua necessidade? Quais profissionais estão definindo a intensidade das podas? E, sobretudo, existe algum planejamento municipal capaz de compatibilizar a segurança urbana com a preservação da cobertura arbórea?

Essas perguntas ganham ainda mais importância quando consideramos que pesquisas em andamento no Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente, do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA), vinculado ao Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), já identificaram um quadro preocupante de remoção de árvores no bairro do Flamboyant. Os levantamentos iniciais apontam uma relação de aproximadamente 2,4 árvores removidas para cada muda plantada, além de uma distribuição espacial desigual dos novos plantios. Isso significa que o problema não parece estar restrito à poda de algumas árvores isoladas, mas pode representar uma dinâmica mais ampla de empobrecimento da infraestrutura verde da cidade.

E aqui chegamos ao aspecto mais contraditório dessa história. Enquanto cientistas e organismos internacionais alertam para a necessidade de ampliar a cobertura vegetal das cidades como uma das estratégias de adaptação às mudanças climáticas, em Campos parecem existir setores empenhados em percorrer o caminho inverso. Em vez de ampliar as áreas sombreadas, reduzimos as copas. Em vez de preservar árvores adultas, que levaram décadas para alcançar seu porte atual, permitimos sua mutilação ou remoção. Em vez de tratar a arborização urbana como patrimônio ambiental coletivo, ela parece continuar sendo considerada um obstáculo inconveniente, que pode ser eliminado sempre que surgir alguma dificuldade administrativa.

Talvez os defensores dessa modalidade de paisagismo estejam imaginando que, com menos folhas e galhos, as ruas ficarão mais limpas e os serviços de manutenção serão simplificados. O problema é que as árvores não existem nas cidades apenas para satisfazer preferências estéticas ou facilitar o trabalho das equipes de limpeza. Elas cumprem funções ambientais essenciais, especialmente em um contexto de aquecimento global. E quem paga o preço de sua eliminação são principalmente os pedestres, os ciclistas, os trabalhadores que passam longas horas expostos ao sol e os moradores que não dispõem de recursos para se proteger das temperaturas elevadas.
Por isso, seria interessante que a Prefeitura de Campos dos Goytacazes esclarecesse quais são os critérios técnicos que orientam as podas e os abates atualmente realizados, identificando os responsáveis pelos serviços, os laudos que os fundamentam e as medidas previstas para preservar ou recuperar a cobertura arbórea. A população tem o direito de saber se está diante de uma política de manejo ambiental cientificamente fundamentada ou simplesmente de mais um capítulo da tradicional preferência por soluções rápidas, visualmente impactantes e ambientalmente desastrosas.

Enquanto essas explicações não aparecem, proponho que as árvores mutiladas sejam reconhecidas como representantes de uma nova categoria do paisagismo urbano: os “bonsais da destruição climática”. Diferentemente dos verdadeiros bonsais, que resultam de uma relação cuidadosa entre seres humanos e árvores, esses exemplares são produzidos mediante a supressão de grande parte da estrutura vegetal que deveria ser preservada.

E assim, em uma cidade que deveria estar se preparando para enfrentar temperaturas cada vez mais elevadas, parece que estamos aperfeiçoando a arte de eliminar justamente aquilo que poderia nos oferecer algum alívio.
No ritmo em que as coisas caminham, talvez a próxima inovação do paisagismo campista seja substituir as árvores por postes de concreto. Afinal, estes não produzem folhas, não precisam de podas e, principalmente, não oferecem a inconveniência de fazer sombra.

Campos dos Goytacazes: enquanto a crise climática esquenta a cidade, as árvores continuam sendo exterminadas

Pesquisa da UENF apresentada hoje na UFF Campos revela que, no Flamboyant, foram identificadas 2,4 árvores cortadas para cada muda plantada, expondo a contradição entre a destruição da arborização pública e a necessidade urgente de adaptação à crise climática

Há algum tempo venho chamando a atenção dos leitores do Blog do Pedlowski para um processo que considero particularmente preocupante em Campos dos Goytacazes: a eliminação sistemática de árvores que compõem a arborização pública da cidade. O que poderia parecer, à primeira vista, um conjunto de episódios isolados de cortes e podas radicais começa a adquirir contornos mais graves à medida que avançam os levantamentos científicos sobre a situação da cobertura arbórea urbana. O caso do bairro Flamboyant, que já havia sido objeto de uma postagem anterior neste blog, oferece agora evidências adicionais de que estamos diante de um processo de empobrecimento ambiental que não pode continuar sendo tratado com indiferença pelo poder público municipal.

Os novos dados fazem parte da pesquisa intitulada “Arborização Urbana como Estratégia de Mitigação de Desigualdades Socioambientais e Adaptação Climática”, desenvolvida por Cristian Ferreira Corrêa e por mim, no âmbito do Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente, vinculado ao Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA), do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). O trabalho foi apresentado hoje (8 de outubro), durante a III Semana do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Ambiente e Políticas Públicas (PPGDAP), realizada na UFF Campos. A investigação busca compreender em que medida a arborização urbana está sendo tratada como um instrumento efetivo de adaptação climática em Campos dos Goytacazes, especialmente quando consideradas as profundas desigualdades socioambientais que caracterizam a cidade.

O novo levantamento, realizado com auxílio da plataforma KoboToolbox e de técnicas de geoprocessamento no QGIS, identificou 84 registros de árvores cortadas e apenas 35 de mudas plantadas, totalizando 119 ocorrências nos setores Flamboyant I e II. Em termos proporcionais, isso significa que foram registradas aproximadamente 2,4 árvores removidas para cada muda plantada. O resultado é particularmente preocupante porque o plantio de uma muda não representa a reposição imediata dos serviços ambientais oferecidos por uma árvore adulta, cuja copa pode levar décadas para atingir dimensões equivalentes. Portanto, mesmo que o número de mudas plantadas fosse igual ao de árvores removidas, isso não significaria necessariamente a recuperação da cobertura vegetal perdida.

Esses números ampliam e reforçam a denúncia apresentada anteriormente neste blog, quando trabalhávamos com uma malha de dados inferior àquela agora disponível. Naquela ocasião, já era possível identificar sinais preocupantes de redução da arborização pública do Flamboyant. Com a ampliação do levantamento e a incorporação de novos registros georreferenciados, a situação aparece com maior nitidez: não estamos simplesmente diante de substituições pontuais de árvores, mas de um desequilíbrio expressivo entre remoção e reposição. O mapa produzido pela pesquisa também revela que as ocorrências de corte estão distribuídas por diferentes partes do bairro, o que enfraquece a interpretação de que se trata de um problema restrito a uma única rua ou a um conjunto muito localizado de intervenções.

Há ainda um aspecto histórico que torna esses resultados especialmente reveladores. Pesquisas realizadas na UENF desde o início dos anos 2000, incluindo o trabalho de Victor Andrade Carneiro da Silva (2001) e um artigo científico que publiquei com colaboradores em 2003 na revista Urban Ecosystems, demonstraram que a arborização urbana em Campos dos Goytacazes apresenta uma distribuição profundamente desigual. Naquele momento, o Flamboyant aparecia como um bairro relativamente privilegiado em termos de quantidade e diversidade de árvores, especialmente quando comparado ao Parque Prazeres, onde a cobertura vegetal era significativamente mais escassa. A existência dessa desigualdade estava associada às diferenças de renda, ao valor da terra e às formas de produção e apropriação do espaço urbano.

O que os novos dados sugerem é que até mesmo bairros anteriormente beneficiados por uma cobertura arbórea relativamente expressiva estão passando por um processo de deterioração de suas condições ambientais. Isso não significa que as desigualdades identificadas anteriormente tenham desaparecido, mas que elas podem estar sendo acompanhadas por um processo mais amplo de perda de arborização pública. A situação do Flamboyant, somada às intervenções que vêm sendo observadas em outras áreas de Campos dos Goytacazes, inclusive no Jardim São Benedito, levanta a hipótese de que o problema não esteja restrito a um único bairro, mas corresponda a uma dinâmica disseminada pela cidade. Evidentemente, a confirmação científica dessa hipótese exigirá levantamentos em outras localidades, algo que está previsto nas próximas etapas da pesquisa.

O aspecto mais contraditório desse processo é que ele ocorre justamente quando a crise climática exige das cidades uma transformação profunda de suas políticas de planejamento e gestão ambiental. Em um contexto de elevação das temperaturas, aumento da frequência e da intensidade de episódios de calor extremo e crescente vulnerabilidade das populações urbanas, a preservação e a ampliação da arborização deveriam constituir prioridades absolutas da administração pública. Afinal, as árvores não são meros elementos decorativos da paisagem. Elas proporcionam sombra, contribuem para a regulação das temperaturas, melhoram a qualidade do ar, favorecem a infiltração da água no solo e oferecem condições ambientais que influenciam diretamente a saúde e o bem-estar da população.

No caso de Campos dos Goytacazes, onde as altas temperaturas já representam um componente importante do desconforto ambiental cotidiano, a eliminação de árvores adultas tende a agravar ainda mais as condições térmicas das ruas e dos espaços públicos. A combinação entre superfícies impermeabilizadas, expansão das áreas construídas e redução da cobertura vegetal cria condições favoráveis ao aumento das temperaturas locais, com consequências especialmente severas para pedestres, trabalhadores expostos ao sol, idosos e crianças. Em outras palavras, ao permitir que a cidade perca árvores sem uma reposição ambientalmente adequada, estamos contribuindo para tornar a vida urbana progressivamente mais difícil justamente no momento em que deveríamos investir em mecanismos de adaptação às mudanças climáticas.

Existe também uma questão política que não pode ser ignorada. Quem decide quais árvores serão cortadas? Quais critérios técnicos justificam essas remoções? Onde estão os programas de reposição e de acompanhamento das mudas plantadas? Existe um planejamento municipal capaz de estabelecer metas verificáveis de ampliação da cobertura arbórea? E, sobretudo, de que maneira a população participa das decisões que afetam diretamente as condições ambientais dos bairros onde vive? Essas perguntas são fundamentais porque a arborização pública não pode ficar submetida exclusivamente a decisões administrativas pontuais, tampouco aos interesses particulares de quem eventualmente considera uma árvore um obstáculo à utilização de calçadas, à circulação de veículos ou à valorização imobiliária.

A pesquisa que estamos desenvolvendo no LEEA/CCH/UENF pretende avançar justamente nessa direção, combinando levantamentos georreferenciados, entrevistas com representantes do poder público e consultas à população. A próxima etapa também incluirá o bairro Parque Prazeres, permitindo verificar se as desigualdades socioambientais identificadas há mais de duas décadas persistem e como se manifestam nas atuais práticas de gestão da arborização urbana. Trata-se de uma investigação que procura ultrapassar a simples contagem de árvores para compreender as relações sociais, econômicas e políticas que determinam quem dispõe de melhores condições ambientais e quem permanece mais exposto aos efeitos da degradação urbana.

O que já é possível afirmar, entretanto, é que os resultados obtidos no Flamboyant deveriam servir como um sinal de alerta para o governo municipal. Em uma cidade que enfrenta os desafios da crise climática, não faz sentido continuar tratando a arborização como uma questão secundária, sujeita a intervenções fragmentadas e sem transparência suficiente quanto aos seus efeitos cumulativos. Se a tendência observada no Flamboyant estiver ocorrendo em outros bairros, Campos dos Goytacazes poderá estar comprometendo uma das formas mais acessíveis e eficazes de adaptação ao aumento das temperaturas urbanas. Mais grave ainda é perceber que esse processo parece avançar sem que exista um debate público à altura de suas consequências ambientais e sociais.

A pergunta que fica é bastante simples: em uma cidade que precisa urgentemente de mais sombra, mais árvores e melhores condições ambientais, por que estamos assistindo à destruição justamente da vegetação que poderia ajudar a protegê-la dos efeitos da crise climática? Se o poder público municipal possui uma explicação técnica convincente para esse aparente contrassenso, seria importante que a apresentasse à população. Afinal, a crise climática não espera, e uma árvore adulta eliminada hoje não será substituída, em suas funções ambientais, por uma muda recém-plantada amanhã. Enquanto isso, a conta desse processo de empobrecimento ambiental tende a ser paga por todos os habitantes de Campos dos Goytacazes, especialmente por aqueles que já enfrentam as maiores dificuldades para suportar as temperaturas cada vez mais elevadas.