Transição energética ou nova corrida extrativista? Webinar gratuito debate o futuro dos minerais críticos no Brasil

A disputa global pelos chamados minerais críticos, como o lítio e as terras raras, vem redesenhando a geopolítica mundial e colocando o Brasil no centro de interesses econômicos e estratégicos. Apresentados como fundamentais para a transição energética, esses recursos também abastecem setores como a indústria de alta tecnologia, a infraestrutura digital e a indústria bélica, diante desse cenário, a Floresta Ativista está com inscrições abertas para o webinar “Minerais críticos: oportunidade ou armadilha para o Brasil?”, que acontece no dia 6 de agosto, às 19h, de forma online e gratuita. As inscrições podem ser realizadas na aba “Oportunidades” do site da Floresta Ativista, onde também estão disponíveis todas as informações sobre o encontro.  

Embora sejam frequentemente apresentados como elementos indispensáveis para enfrentar a crise climática, os minerais críticos também levantam questionamentos sobre a expansão da mineração, os impactos socioambientais da atividade e a permanência de um modelo econômico baseado no extrativismo. O webinar convida o público a compreender como a crescente demanda internacional por esses recursos influencia políticas públicas, disputas geopolíticas e projetos de desenvolvimento, especialmente em países com grande disponibilidade mineral, como o Brasil.

Inscreva-se aqui!

Para aprofundar esse debate, o encontro reúne dois especialistas que acompanham o tema sob diferentes perspectivas. O pesquisador Bruno Milanez, engenheiro de produção, doutor em Política Ambiental e professor do Departamento de Engenharia de Produção e do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), Milanez é uma das principais referências brasileiras nos estudos sobre mineração, conflitos socioambientais e políticas minerais.

Também participa a jornalista Isabel Harari, da Repórter Brasil, atua na cobertura de meio ambiente e direitos humanos e, em 2025, foi bolsista da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center, desenvolvendo uma investigação sobre minerais críticos e seus impactos socioambientais.

A mediação será conduzida por Laila Zaid, atriz, ativista climática e fundadora da Cuíca, agência dedicada à comunicação sobre sustentabilidade e mudanças climáticas. Especialista pelo Climate Reality Leadership Corps e em Saúde e Crise Climática por Harvard, Laila atua na tradução de temas ambientais para diferentes públicos, aproximando o debate climático do cotidiano das pessoas.

Voltado a estudantes, pesquisadores, jornalistas, comunicadores, ativistas e todas as pessoas interessadas em compreender os desafios da transição energética, o webinar pretende ampliar o debate sobre quem se beneficia da exploração dos chamados minerais críticos, quais são seus impactos sobre comunidades e territórios e quais caminhos podem conciliar justiça climática, soberania nacional e proteção socioambiental. Após se inscrever pelo site da floresta ativista, os participantes receberam o link de acesso da aula por e-mail.

O Aulão é uma realização da Mídia NINJA, por meio de sua editoria de Clima e Cultura, Clímax, em parceria com o Pulitzer Center. A iniciativa busca ampliar o debate público sobre as mudanças climáticas e seus desdobramentos sociais, econômicos e ambientais, fortalecendo o jornalismo como ferramenta essencial para compreender e enfrentar os desafios que definirão o futuro. 

Serviço

Data: 6 de agosto (quarta-feira)

Horário: 19h

Participantes: Bruno Milanez (UFJF/PoEMAS) e Isabel Harari (Repórter Brasil/Pulitzer Center)

Mediação: Laila Zaid

Inscrições: https://rede.florestaativista.org/oportunidade/848/ 

PL do Homeschooling ameaça o direito de crianças e adolescentes à convivência escolar

O Senado Federal abriu uma consulta pública sobre o Projeto de Lei nº 1.338/2022, que propõe autorizar a oferta de educação domiciliar (homeschooling) na educação básica, alterando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Mais do que um espaço de aprendizagem, a escola é um lugar de convivência, socialização, construção da cidadania e desenvolvimento humano. É nela que crianças e adolescentes aprendem a viver em comunidade, estabelecem amizades, convivem com as diferenças, participam de atividades coletivas e têm acesso a direitos fundamentais, como a alimentação escolar, o acompanhamento pedagógico e a proteção proporcionada pela comunidade escolar.

A possibilidade de substituir a escola pelo ensino exclusivamente domiciliar levanta preocupações sobre o direito das crianças e dos adolescentes a uma formação integral, que vai muito além da transmissão de conteúdos.

Se você considera que lugar de criança e adolescente é na escola, participe da consulta pública do Senado e manifeste sua posição.

Vote NÃO ao PL nº 1.338/2022.

Participe da consulta pública:
https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=153194

Lugar de estudar é na escola!

Se desejar, posso preparar uma versão mais incisiva para mobilização nas redes sociais ou outra em tom mais institucional, voltada para educadores e entidades da área da educação.

A reinvenção do gado

A maior indústria bovina do mundo pode se tornar sustentável – ou a própria sustentabilidade está sendo redefinida?

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Florestas não foram perdidas apenas por motosserras e fogo. Por trás de cada hectare desmatado havia um modelo econômico que recompensava a conversão de florestas vivas em riqueza privada. Estradas abriram regiões remotas, a madeira financiou a primeira onda de desmatamento, o fogo consumiu o que restou, e o gado transformou terras desmatadas em um ativo que podia ser comprado, vendido, hipotecado e defendido. Dentro desse sistema, uma floresta em pé tinha pouco valor financeiro.

Hoje, o gado está sendo reestruturado. À medida que governos, investidores e agroempresas buscam formas de reduzir as emissões agrícolas, a pecuária não é mais apresentada apenas como um motor do declínio ambiental. Atualmente, está sendo promovido como parte da solução climática por meio da criação “regenerativa”, carne bovina “de baixo carbono”, rastreabilidade digital e financiamento verde.

Essa mudança vai além das práticas agrícolas. Reflete mudanças na governança ambiental, onde política climática, mercados financeiros e conservação estão se tornando cada vez mais interligados. A questão não é mais apenas como reduzir o custo ambiental da produção bovina, mas se a indústria pode continuar se expandindo enquanto afirma operar dentro dos limites ecológicos.

Como essa mudança está acontecendo, quem a está conduzindo e o que isso significa para o futuro da Amazônia? A reinvenção do gado representa uma verdadeira transição ambiental ou um modelo financeiro que permite que uma das indústrias mais poderosas do Brasil continue crescendo sob a linguagem da sustentabilidade?

Gado, desmatamento e uma narrativa em constante mudança

Cerca de 80% das terras desmatadas na Amazônia foram convertidas em pastagens. No vizinho Cerrado, um dos biomas mais biodiversos do mundo, a pecuária e a agricultura de mercadorias em grande escala substituíram os ecossistemas nativos em uma área imensa.

Décadas de monitoramento por satélite, pesquisas científicas e investigações governamentais chegam à mesma conclusão: o pasto é o uso dominante da terra estabelecido após o desmatamento amazônico, e a pecuária continua sendo seu principal motor direto. Nem todo hectare foi desmatado exclusivamente para a produção de carne bovina. O gado também serviu para ocupar terras disputadas, consolidar reivindicações especulativas e preparar propriedades para revenda ou conversão para outros usos agrícolas.

As consequências vão muito além da perda de florestas. A limpeza e queima liberam carbono acumulado ao longo de décadas ou séculos. O gado emite metano por digestão, enquanto o manejo de esterco e pastagem gera gases de efeito estufa adicionais. Substituir florestas e savanas nativas por pastagens também degrada os solos, altera sistemas fluviais, fragmenta habitats e acelera a perda de biodiversidade.

Em partes da Amazônia, a expansão do gado permaneceu intimamente ligada à apropriação de terras, reivindicações fraudulentas de propriedade e à ocupação ilegal de terras públicas, protegidas e indígenas. Promotores, jornalistas e organizações de direitos humanos documentaram repetidamente fazendas associadas ao trabalho forçado, intimidação violência contra povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos proprietários. Esses abusos não caracterizam todos os produtores, mas permanecem uma característica persistente e bem documentada da história da indústria.

Dados do Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil, compilados pela Repórter Brasil, revelaram que 65.600 trabalhadores foram resgatados de condições semelhantes à escravidão entre 1995 e 2024. Mais de 17.300 trabalhavam na criação de animais, tornando-se o setor com o maior número de casos registrados. Como observou um trabalhador resgatado: “Aqui, o gado é tratado melhor do que os trabalhadores”.

Por anos, o debate internacional enquadrou a expansão do gado e a conservação florestal como forças opostas. O desafio era limitar os danos ambientais causados por uma indústria cujo crescimento havia se tornado inseparável do avanço da fronteira agrícola.

Na última década, esse debate mudou. Governos, pesquisadores, agências de desenvolvimento, organizações ambientais, bancos, instituições filantrópicas e empresas de carne passaram de questionar se a produção bovina deveria mudar para se perguntar como ela pode ser alinhada com a política climática.

A mudança começou com a linguagem. Relatórios antes focados no desmatamento agora promovem a produção “bovina de baixo carbono”, a criação “regenerativa”, a produção “positiva para a natureza” e “sustentável”. Práticas como restauração de pastagens degradadas, melhoria da nutrição animal, redução da idade do abate e aumento da produtividade são apresentadas junto com financiamento climático, monitoramento via satélite, rastreabilidade digital e investimento ambiental.

Muitas dessas propostas oferecem benefícios ambientais reais. Restaurar pastagens degradadas é preferível a desmatar novas florestas. A rastreabilidade eficaz pode expor abusos que há muito tempo permanecem ocultos nas cadeias de suprimentos. Agências ambientais mais fortes, registros de terras confiáveis e melhor suporte técnico poderiam fortalecer produtores responsáveis, excluindo aqueles que lucram com o desmatamento ilegal.

Maior eficiência, no entanto, não necessariamente reduz o impacto ambiental. Produzir carne bovina com menos emissões por quilograma não reduz automaticamente as emissões totais, o uso da terra ou a pressão ecológica. Os animais podem atingir o peso de abate mais cedo, reduzindo a intensidade do metano, enquanto as emissões gerais continuam aumentando se o tamanho dos rebanhos e a produção continuarem crescendo.

Essa distinção é importante em um país com cerca de 238 milhões de gado, mais do que sua população humana, e a maior indústria de exportação de carne bovina do mundo. O Brasil persegue duas ambições ao mesmo tempo: apresentar a pecuária como parte de sua estratégia climática, ao mesmo tempo em que expande a escala e a competitividade de seu setor bovino.

Por trás dos relatórios, fundos de investimento e parcerias institucionais, outra história começa a surgir. A reinvenção do gado não se trata mais apenas de florestas, pastagens ou metano. Também diz respeito a crédito, dados ambientais, produtos financeiros e o mercado em rápida expansão para investimentos descritos como verdes, alinhados ao clima ou positivos para a natureza.

As organizações envolvidas não compartilham todos os mesmos objetivos, nem isso diminui o trabalho de cientistas, funcionários públicos e profissionais que passaram décadas protegendo florestas e melhorando os meios de subsistência rurais. A questão mais importante é se o gado sustentável representa uma verdadeira transformação da produção pecuária ou um modelo financeiro e tecnológico que permita à indústria continuar se expandindo.

Reescrevendo a linguagem da sustentabilidade

A transformação da indústria pecuária brasileira não começou nos ranchos. Começou com uma mudança de idioma.

Por décadas, o debate sobre a pecuária brasileira centrou no desmatamento, perda de biodiversidade, emissões de gases de efeito estufa, ocupação ilegal de terras e abusos trabalhistas embutidos nas cadeias de suprimentos de carne bovina. O objetivo, mesmo que politicamente difícil, era claro: reduzir os danos ambientais causados por uma das maiores indústrias pecuárias do mundo. Mas essa não é mais a conversa dominante.

Em vez de questionar se a produção pecuária deve continuar se expandindo, a política agora assume em grande parte que o gado continuará sendo central para a economia brasileira. O desafio passou a ser tornar a indústria mais produtiva, mais transparente, mais tecnologicamente sofisticada e mais atraente para investidores conscientes do clima.

A distinção é sutil, mas significativa. Se o problema for a escala da indústria pecuária, as respostas políticas podem incluir limitar a produção em regiões ecologicamente vulneráveis, desencorajar a expansão das fronteiras e reduzir a pressão para o crescimento contínuo. Se o problema for a ineficiência, as soluções passam a ser melhor genética, pastagem restaurada, monitoramento digital, crescimento animal mais rápido e novas formas de crédito rural.

A linguagem importa porque molda políticas. Ela influencia o que os governos medem, onde as instituições financeiras investem e o que conta como progresso ambiental. Termos como carne bovina “de baixo carbono”, pecuária “regenerativa”, produção “positiva para a natureza” e produção “sustentável” fazem mais do que descrever práticas agrícolas; Eles redefinem o próprio problema.

Essa mudança se reflete em pesquisas produzidas por meio da Amazônia 2030, uma colaboração entre o Instituto Amazônico do Homem e do Meio Ambiente (Imazon) e a Iniciativa de Política Climática (CPI). Seu trabalho reconhece o papel que a extensa pecuária, o pasto degradado e o desmatamento desempenharam na transformação da Amazônia, ao mesmo tempo em que argumenta que os investimentos futuros devem se concentrar em áreas de produção existentes, e não em novas fronteiras agrícolas.

As recomendações são práticas: redirecionar o crédito rural para ganhos mensuráveis de produtividade, expandir a assistência técnica, restaurar pastagens degradadas, fortalecer o monitoramento georreferenciado e esclarecer o status legal das florestas públicas vulneráveis à ocupação especulativa. O argumento subjacente é que o Brasil pode produzir mais carne bovina em terras já desmatadas, reduzindo o incentivo para destruir mais florestas.

A lógica é convincente. Se o pasto degradado sustenta apenas um pequeno número de gado, restaurá-lo deve aumentar a produção sem exigir novas terras. Em teoria, maior produtividade poderia poupar terras para conservação ou restauração ecológica. Se isso acontecer depende menos da produtividade do que da governança.

Rendimentos mais altos reduzem a pressão sobre as florestas apenas quando as proteções ambientais impedem a expansão e a terra restaurada é realmente conservada. Quando a fiscalização é fraca, maior eficiência pode ter o efeito oposto, tornando a produção de gado mais lucrativa, atraindo novos investimentos e aumentando a pressão para expandir.

A história não oferece uma resposta simples. A intensificação agrícola reduziu a pressão sobre a terra em algumas regiões enquanto acelerou a expansão em outras. Os resultados dependem da demanda, infraestrutura, crédito, aplicação da lei e se lucros maiores são canalizados para restaurar terras existentes ou adquirir novas propriedades.

Uma estatística ilustra esse ponto. Pesquisas citadas pela Amazônia 2030 sugerem que cada hectare de pastagem restaurada entre 2000 e 2023 coincidiu com aproximadamente 2,35 hectares de novo desmatamento. A figura descreve uma associação histórica em vez de provar que a restauração causou perda florestal, mas desafia a suposição de que ganhos de produtividade automaticamente deslocam a expansão da fronteira.

A questão central, então, não é se a pastagem pode ser tornada mais produtiva. Pode. A questão é se esses ganhos vêm acompanhados de salvaguardas que impedem que lucros maiores financiem um desmatamento adicional.

A mesma tensão permeia a linguagem mais ampla do gado “baixo carbono”.

A IDH, Iniciativa de Comércio Sustentável, promove programas que combinam restauração de pastagens, assistência técnica, financiamento e acesso ao mercado para apoiar a produção de gado de menor emissão. Suas parcerias no Brasil reúnem organizações ambientais, agronegócios, instituições financeiras e agências de desenvolvimento em torno de um objetivo comum: transformar a pecuária por meio do investimento, e não da contração.

Parceiros estratégicos da IDH no Brasil. Fonte: https://idh.org/contact/brazil 

Uma abordagem semelhante aparece no livro do Instituto de Recursos Mundiais para a Nova Economia para a Amazônia brasileira, onde a reforma pecuária faz parte de um programa mais amplo que liga universidades, ONGs, empresas e organizações de políticas públicas em torno do desenvolvimento econômico compatível com o clima.

A Nova Economia para a liderança brasileira da Amazonia. Fonte: https://www.wri.org/research/new-economy-brazil-amazon 

Outras iniciativas seguem o mesmo padrão. A Coalizão Financeira de Restauração e Bioeconomia do Brasil (BRBFC) reúne bancos comerciais, instituições de desenvolvimento, fundações filantrópicas e organizações ambientais para apoiar investimentos em grande escala em empresas de restauração e baseadas na natureza.

Essas organizações diferem em governança, prioridades e perspectiva política, e não devem ser vistas como um único projeto coordenado. Mas seus programas compartilham um vocabulário surpreendentemente semelhante: produtividade, resiliência, restauração, rastreabilidade, impacto mensurável, serviços ambientais e finanças mistas.

Juntas, essas iniciativas revelam uma mudança mais ampla na governança ambiental. A pecuária não é mais enquadrada apenas como uma responsabilidade ambiental que exige uma regulamentação mais rigorosa. Também é apresentado como uma oportunidade para investimento climático, dados ambientais e participação em mercados emergentes para carbono, biodiversidade e serviços ecossistêmicos.

As implicações vão além da pecuária. Florestas, biodiversidade e paisagens restauradas são tratadas como ativos econômicos mensuráveis. Instituições financeiras estão desenvolvendo produtos que recompensam o desempenho ambiental, enquanto as tecnologias digitais geram os dados necessários para verificar e negociar esses ativos.

O Brasil está no centro dessa mudança. Ele contém a maior floresta tropical do mundo, o vasto Cerrado, e milhões de hectares de pastagens degradadas que poderiam ser restauradas ou intensificadas. Essa combinação torna o país não apenas uma prioridade ambiental, mas também um dos maiores mercados potenciais do mundo para investimento climático.

Como o gado ocupa grande parte das terras do Brasil, ele está no centro dessa oportunidade. A pastagem pode ser apresentada simultaneamente como um problema climático, uma oportunidade de restauração e um ativo financeiro aguardando uso mais produtivo.

A reinvenção do gado, então, é muito mais do que reduzir as emissões de metano. Trata-se de reposicionar um dos maiores setores econômicos do Brasil dentro de um mercado de financiamento climático em rápida expansão.

Se isso coloca limites ecológicos acima da expansão econômica permanece a questão definidora.

mercado brasileiro de restauração florestal pode oferecer uma oportunidade de US$ 141 bilhões para empresas e investidores, segundo um relatório da Orbitas.

Seguindo o dinheiro

A reinvenção do gado não está sendo impulsionada apenas pela política ambiental. Também é moldada por uma arquitetura financeira crescente que liga metas climáticas, produção agrícola e investimento global.

Programas que promovem pecuária de baixo carbono raramente operam isoladamente. Em vez disso, elas surgem de parcerias entre governos, agências de desenvolvimento, fundações filantrópicas, bancos comerciais, gestores de investimentos, empresas de carne e organizações ambientais.

Juntos, esses atores estão redefinindo não apenas como a sustentabilidade é financiada, mas também como ela é medida.

Tal cooperação não é incomum nem inerentemente problemática. Restaurar pastagens degradadas, melhorar as cadeias de suprimentos e apoiar produtores responsáveis exigem investimentos de longo prazo que apenas o financiamento público provavelmente não proporcionará. A questão mais significativa é como essas parcerias influenciam a própria definição de sustentabilidade.

Quando os programas ambientais são projetados em torno das expectativas dos mercados financeiros, o sucesso tende a ser medido por meio de retornos de investimento, redução de riscos, escalabilidade e resultados quantificáveis. Valores que resistem a uma simples medição, como sobrevivência cultural, direitos territoriais, biodiversidade ou o valor intrínseco das florestas, podem se tornar mais difíceis de acomodar.

A IDH, Iniciativa de Comércio Sustentável, ilustra esse cenário em transformação. Estabelecida em 2008 por meio da colaboração entre o governo holandês, a sociedade civil e o setor privado, a IDH atua em cadeias globais de suprimentos de commodities, incluindo cacau, café, algodão, óleo de palma, soja e carne bovina. No Brasil, apoia a restauração de pastagens, assistência técnica e mecanismos financeiros projetados para acelerar a produção pecuária de menor carbono.

O financiamento do IDH reflete a amplitude da economia sustentável atual. Junto com o apoio do Ministério das Relações Exteriores da Holanda e da Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos da Suíça (SECO), o financiamento estratégico veio do Ministério das Relações Exteriores da Dinamarca (DANIDA), do Ministério do Meio Ambiente da Noruega (NORAD), da União Europeia, da Fundação Bill & Melinda Gates, da Fundação Laudes, da Fundação Mastercard, da Fundação IKEA e do Escritório de Relações Exteriores, Commonwealth e Desenvolvimento do Reino Unido (FCDO).

Isso ilustra uma mudança mais ampla na governança ambiental. A política não é mais moldada apenas por governos e reguladores. Ela surge cada vez mais por meio de parcerias nas quais instituições públicas, filantropia, organizações financeiras e interesses comerciais trabalham juntos para influenciar os resultados ambientais.

Um dos exemplos mais claros é o Fundo Cria da IDHDesenvolvido com a gestora de investimentos Violet, parte do Grupo VERT, o fundo tem como objetivo ampliar o acesso ao financiamento para pequenos e médios produtores de gado em toda a Amazônia brasileira. Combina crédito rural com assistência técnica digital e acesso ao mercado, reunindo terra, dados e capital.

Até 2030, o fundo visa mobilizar US$50 milhões, apoiar 1.000 produtores e cobrir 150.000 hectares sob práticas classificadas como sustentáveis. Um investimento inicial de US$ 10 milhões está previsto para alcançar 250 agricultores que administram aproximadamente 12.000 hectares.

Para muitos produtores, o acesso a financiamento acessível continua sendo uma barreira real. Restaurar pastagens, comprar equipamentos e adotar novos sistemas de produção exigem capital que o crédito rural convencional muitas vezes não consegue fornecer.

Fundo Cria também ilustra uma mudança mais ampla. O desempenho ambiental está se tornando inseparável da participação nos sistemas financeiros. As decisões de empréstimo dependem cada vez mais de dados de produção, monitoramento geoespacial e assistência técnica digital. O acesso ao capital está ligado não apenas às práticas agrícolas, mas também à capacidade de gerar e verificar informações ambientais.

Para os produtores, isso poderia melhorar o acesso aos mercados premium, ao mesmo tempo em que recompensa um melhor desempenho ambiental. Também levanta questões importantes. Quem é o dono dos dados gerados por esses programas? Como essas informações podem influenciar futuras decisões de empréstimo? Quem determina quais sistemas de produção se qualificam como regenerativos? E o que acontece com os produtores que não podem arcar com a tecnologia necessária ou cuja documentação de terra permanece sem solução?

Esses não são argumentos contra dados ambientais ou crédito rural. Em vez disso, mostram como a inclusão financeira pode criar novas formas de dependência junto com novas oportunidades.

A escolha de Violet como parceira de investimento do fundo destaca outra tendência significativa. Empresas especializadas em finanças estruturadas e mercados de capitais estão se tornando atores centrais na política ambiental. Questões antes abordadas principalmente por meio de serviços de extensão agrícola e regulação pública são cada vez mais gerenciadas por meio de finanças mistas, investimento privado e produtos financeiros projetados para atrair capital institucional.

Essa evolução ficou evidente durante a Semana de Ação Climática de Londres 2026, quando IDH, CPI, representantes do Foreign, Commonwealth and Development Office (FCDO) do Reino Unido, investidores e instituições financeiras focaram menos nas florestas em si e mais nos mecanismos financeiros necessários para tornar a pecuária regenerativa comercialmente viável.

A mesma lógica vai além do gado. Lançada durante a Cúpula do G20 em 2024, a Coalizão Financeira para a Restauração e Bioeconomia do Brasil (BRBFCreúne bancos públicos, instituições financeiras privadas, organizações de conservação e agências internacionais de desenvolvimento, com o objetivo de mobilizar pelo menos US$ 10 bilhões para projetos de restauração e bioeconomia até 2030.

Seus membros incluem Banco do Brasil, BNDES, BTG Pactual, Conservation International, IDB Invest, Instituto Arapyaú, Instituto Clima e Sociedade, Mombak, The Nature Conservancy (TNC), re.green, WWF Brasil, o Grupo Banco Mundial, o Fórum Econômico Mundial, entre outros.

Lista de membros do BRB. Fonte: https://brbfc.org/about-us/ 

Em julho de 2025, os membros da coalizão relataram compromissos de US$ 2,6 bilhões. Eles também visam restaurar ou proteger cinco milhões de hectares, enquanto direcionam US$ 500 milhões para projetos envolvendo povos indígenas e comunidades locais.

A ambição é substituir a economia de fronteira por uma que gere valor por meio da restauração, e não do desmatamento. As florestas tornam-se ativos investidos, em vez de obstáculos ao crescimento econômico.

Essa visão tem um potencial genuíno. A restauração de longo prazo exige capital de longo prazo, e organizações indígenas e grupos comunitários frequentemente têm dificuldade em acessar o financiamento convencional.

Mas restauração e bioeconomia continuam sendo conceitos amplos. Elas podem apoiar a recuperação de ecossistemas nativos, mas também podem incluir silvicultura comercial, mercados de carbono e sistemas agrícolas com resultados ecológicos e sociais muito diferentes.

Embora o BRBFC não seja um programa pecuário, ele opera em uma paisagem dominada por gado. Decisões sobre restaurar, intensificar ou reaproveitar pastagens inevitavelmente moldam o futuro do maior setor agrícola do Brasil.

Juntas, essas iniciativas apontam para algo maior do que projetos individuais. A governança ambiental está se tornando mais integrada às finanças globais. Florestas, biodiversidade, pastagens e serviços ecossistêmicos estão sendo convertidos em ativos que podem ser medidos, valorizados e incorporados em estratégias de investimento.

Na maioria dos programas analisados, o futuro proposto não envolve produzir menos carne bovina. Em vez disso, trata-se de produzir carne bovina de forma mais eficiente, monitorá-la mais de perto e conectá-la a novos fluxos de capital.

Nessa visão, a sustentabilidade não substitui o crescimento. Torna-se o mecanismo pelo qual se espera que o crescimento continue.

A rastreabilidade pode entregar resultados?

Se uma ideia se tornou central para a promessa de produção sustentável de gado, é a rastreabilidade. Documentos de política, relatórios de sustentabilidade corporativa e estratégias de investimento apresentam isso como a solução para um dos problemas mais antigos da indústria pecuária: saber onde um animal passou sua vida.

Em teoria, cada animal seria identificado desde o nascimento, cada movimento entre fazendas registrado e cada propriedade verificada contra imagens de satélite, embargos ambientais, territórios indígenas e violações trabalhistas. Reguladores, investidores e consumidores poderiam então verificar se a carne vendida em São Paulo, Bruxelas ou Xangai veio de uma cadeia de suprimentos legal e livre de desmatamento.

Sem rastreabilidade confiável, no entanto, as alegações de carne bovina de baixo carbono ou livre de desmatamento continuam difíceis de verificar. O Brasil fez avanços significativos no monitoramento da produção pecuária, mas os sistemas dos quais depende a rastreabilidade permanecem fragmentados, implementados de forma desigual e, em alguns casos, vulneráveis à manipulação.

Três mecanismos formam o quadro atual: o Registro Ambiental Rural (CAR), o Guia de Trânsito Animal (GTA) e acordos entre promotores federais e abatedouros conhecidos como Acordo de Ajuste de Conduta da Indústria Carnívora (TAC da Carne). Juntos, eles representam um avanço importante na transparência, mas também expõem as fraquezas que continuam a limitar a supervisão eficaz.

Criado sob o Código Florestal do Brasil, o CAR é um registro digital no qual os proprietários declaram limites de propriedades, áreas de vegetação nativa, reservas legais e terras agrícolas. Essas declarações podem ser comparadas com imagens de satélite, áreas protegidas e embargos ambientais, tornando a RCA uma ferramenta essencial para a governança ambiental. Sua principal fraqueza é que a informação é inicialmente autodeclarada e só se torna confiável após verificação pelas autoridades ambientais estaduais. Esse processo avançou lentamente, deixando um acúmulo de milhões de registros aguardando validação.

As consequências vão muito além da regulamentação ambiental. Bancos consultam a CAR antes de aprovar crédito rural, empresas de carne a usam para triar fornecedores e investidores dependem dela para avaliar riscos ambientais. Se a informação subjacente for incompleta ou imprecisa, toda decisão baseada nela se torna menos confiável.

Pesquisas do Centro de Análise de Crimes Climáticos, reportadas pelo Repórter Brasil, destacam o problema. Entre 2019 e 2024, 14.223 propriedades na Amazônia Legal alteraram seus registros CAR de formas que removeram áreas ambientalmente restritas. Em meio a essas mudanças, cerca de 4,9 milhões de hectares desapareceram dos limites declarados da propriedade. Tais alterações não provam por si só irregularidades, mas a escala das mudanças, e a remoção, em alguns casos, de embargos ambientais e sobreposições com territórios indígenas, levanta sérias preocupações sobre a integridade do sistema.

Rastrear o território é apenas parte do desafio. Reconstruir a vida de um animal individual é mais complexo porque a indústria bovina do Brasil atua em várias fazendas. Uma propriedade pode criar bezerros; outro os cria e um terceiro os prepara para o massacre. O Animal Transit Guide registra esses movimentos, mas foi criado principalmente para controlar doenças do rebanho, e não para reconstruir a história ambiental de um animal.

Essa distinção tem consequências importantes. Os matadouros tradicionalmente monitoram apenas seus fornecedores diretos, sendo as fazendas que vendem animais imediatamente antes do abate, enquanto as fases iniciais da cadeia de produção frequentemente permanecem fora do sistema. Portanto, um animal pode passar grande parte de sua vida em terras desmatadas ilegalmente antes de ser transferido para uma propriedade conforme pouco antes do abate. A transação final parece legal, mesmo que grande parte da história ambiental do animal permaneça oculta.

A prática, comumente descrita como lavagem de gado, não se baseia necessariamente em documentos falsificados. Em vez disso, explora as lacunas entre sistemas que registram diferentes estágios da cadeia de suprimentos sem se comunicar efetivamente entre si. A fazenda que abastece o matadouro pode cumprir verificações ambientais, enquanto as propriedades onde o animal já viveu permanecem praticamente invisíveis.

Identificação eletrônica, bancos de dados integrados, monitoramento por satélite e análise automatizada de riscos podem ajudar a fechar parte dessa lacuna, tornando muito mais difícil apagar o histórico de um animal. Essas tecnologias representam avanços genuínos em relação aos sistemas fragmentados atualmente em vigor, mas não podem substituir uma governança eficaz. Etiquetas eletrônicas não podem resolver reivindicações fraudulentas de terras, imagens de satélite não podem aplicar a lei ambiental, e plataformas digitais não podem verificar declarações de propriedade imprecisas ou compensar instituições fracas e fiscalização inadequada.

Em última análise, a rastreabilidade é menos um desafio tecnológico do que uma questão de governança. Sua credibilidade depende de registros públicos confiáveis, verificação independente, informações transparentes, reguladores eficazes e consequências significativas para aqueles que violam a lei ambiental.

Os sistemas de monitoramento do Brasil estão se tornando cada vez mais sofisticados, mas sofisticação não deve ser confundida com certeza. Até que o gado possa ser rastreado de forma confiável desde o nascimento até o abate, e cada etapa da cadeia de suprimentos esteja sujeita a uma supervisão eficaz, as alegações de que a carne bovina está livre de desmatamento permanecerão tão fortes quanto o elo mais fraco da cadeia.

Quem define bovino sustentável?

Essa pergunta atravessa todas as etapas do debate.

O termo gado “sustentável” aparece em estratégias governamentais, prospectos de investimento e relatórios corporativos. A carne bovina é descrita como “de baixo carbono”, a pecuária torna-se “regenerativa” e as cadeias de suprimentos são rotuladas como “positivas para a natureza”. A linguagem sugere uma conclusão definitiva, mas o significado de sustentabilidade permanece contestado.

Não existe uma definição científica única que determine se a produção industrial de gado na Amazônia e no Cerrado pode ser considerada sustentável. Uma fazenda pode atender a um padrão porque não desmatou florestas recentemente e falha em outro porque seus animais vieram de fornecedores não monitorados. Pode reduzir as emissões por quilograma de carne bovina enquanto aumenta a produção geral e pode restaurar uma área enquanto sua cadeia de suprimentos se expande para outra.

Grande parte do argumento para o gado “baixo carbono” baseia-se na distinção entre intensidade de emissões e emissões absolutas. Melhor manejo do pasto, nutrição aprimorada, seleção e abate mais precoce podem reduzir as emissões de gases de efeito estufa por quilograma de carne bovina ao reduzir o tempo que o gado gasta emitindo metano. Esses ganhos são significativos, mas a atmosfera responde às emissões totais, e não à eficiência produtiva.

Se as emissões por quilograma caírem enquanto o tamanho dos rebanhos permanece estável ou diminui, as emissões gerais podem diminuir. Se a produtividade melhorar enquanto o número de gado e a produção de gado continuarem crescendo, as emissões totais podem permanecer inalteradas ou até mesmo aumentar. Para um país com o maior rebanho comercial de gado do mundo, essa distinção é fundamental.

O metano torna a questão particularmente significativa. A fermentação entérica continua sendo a maior fonte de metano agrícola no mundo. Embora o metano persista na atmosfera por um período menor do que o dióxido de carbono, seu efeito de aquecimento é especialmente forte nas décadas imediatamente após sua liberação. Reduzir as emissões de metano pode, portanto, desacelerar o aquecimento a curto prazo, mas isso continua sendo politicamente desafiador, pois o gado é central para uma das indústrias exportadoras mais importantes do Brasil.

O debate sobre a contabilidade do metano ilustra o quão controversas essas questões se tornaram. Alguns pesquisadores e grupos industriais apoiam métricas alternativas, incluindo a Global Warming Potential Star (GWP*), argumentando que a contabilidade convencional superestima o efeito de aquecimento a longo prazo de rebanhos estáveis ao tratar o metano como gases de efeito estufa de longa duração. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), no entanto, continua a aconselhar contra o uso do GWP* para a contabilidade nacional de emissões, pois ele não captura totalmente a contribuição para o aquecimento de cada emissão de metano. O debate é técnico, mas suas implicações são políticas porque influenciam como as emissões do gado são interpretadas e, em última análise, como a própria sustentabilidade é medida.

A tecnologia ocupa um lugar igualmente proeminente na reinvenção do gado. Sistemas de satélite detectam desmatamento, etiquetas eletrônicas acompanham os movimentos dos animais, inteligência artificial analisa riscos da cadeia de suprimentos e plataformas digitais integram dados ambientais, financeiros e de produção. Juntas, essas ferramentas transformaram a capacidade de monitorar a produção pecuária em um país do tamanho do Brasil, fornecendo informações que seriam inimagináveis há apenas uma geração.

A tecnologia, no entanto, não pode resolver as questões políticas no cerne do debate. Imagens de satélite podem revelar onde as florestas foram desmatadas, mas não podem processar os responsáveis. Registros digitais podem identificar sobreposições com territórios indígenas, mas não podem garantir que as autoridades irão intervir. As plataformas financeiras podem medir a conformidade com indicadores selecionados, mas não podem determinar se a expansão contínua da produção bovina é compatível com os limites ecológicos.

Um padrão mais amplo emerge. Desafios políticos e sociais são repetidamente reformulados como técnicos, a ocupação ilegal se torna um problema de qualidade dos dados, a fraca aplicação da lei passa a ser uma questão de monitoramento, e os limites ecológicos se tornam questões de eficiência e otimização. Uma tecnologia melhor, sem dúvida, melhora a supervisão, mas não pode substituir uma governança eficaz.

O mesmo padrão ajuda a explicar por que as finanças se tornaram tão entrelaçadas com a política ambiental. Antes que a sustentabilidade possa ser recompensada pelos investidores, ela deve primeiro ser traduzida em dados mensuráveis. Uma vez quantificado, o desempenho ambiental pode ser verificado, precificado e incorporado às decisões financeiras. Nesse processo, a sustentabilidade torna-se não apenas um objetivo ecológico, mas também uma categoria financeira.

Nada disso diminui o valor de restaurar pastagens degradadas, melhorar a rastreabilidade ou apoiar produtores que desejam adotar melhores práticas. Também não sugere que as organizações aqui discutidas compartilhem motivações idênticas. Bancos públicos de desenvolvimento, organizações ambientais, produtores e fundos de investimento frequentemente participam das mesmas iniciativas por razões muito diferentes.

As evidências sugerem, no entanto, que a autoridade para definir sustentabilidade está mudando gradualmente. Ecologistas podem julgar a produção bovina pelo impacto que tem nas florestas, biodiversidade e clima. Os povos indígenas podem julgá-la pela permanência de seus territórios, culturas e direitos intactos. Os agricultores podem julgá-la pela capacidade de manter meios de subsistência viáveis sem perder o controle de suas terras ou se tornar dependentes de novos sistemas financeiros e tecnológicos. Os investidores, por outro lado, tendem a priorizar indicadores mensuráveis, relatórios padronizados e riscos quantificáveis.

A questão não é se uma perspectiva é inerentemente mais legítima que outra. É quem, em última instância, tem autoridade para decidir qual definição molda a política.

Isso importa porque a linguagem orienta a regulação, a regulação direciona investimentos e o investimento remodela o cenário. O sucesso não pode ser medido apenas pelo número de gado equipado com etiquetas eletrônicas, hectares restaurados ou bilhões de dólares comprometidos com financiamento verde.

O teste mais significativo é se as florestas permanecem de pé, as emissões de metano caem em termos absolutos, os povos indígenas mantêm o controle de seus territórios e a prosperidade rural não depende mais de empurrar a fronteira agrícola para ecossistemas naturais.

Se a reinvenção do gado se mostrará uma transição ambiental genuína ou uma justificativa mais sofisticada para o funcionamento do negócio como de costume, não será julgado pela linguagem da sustentabilidade, mas por esses resultados.


Fonte: YourVoiz

A geografia da desigualdade transforma o El Niño em uma tragédia social anunciada no Brasil

A cada novo ciclo do El Niño, a atenção da imprensa e dos governos se concentra, quase sempre, nas alterações dos padrões de temperatura e precipitação provocadas pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico. No Brasil, os modelos climáticos apontam para uma combinação particularmente preocupante de secas severas em parte da Amazônia, do Nordeste e do Centro-Oeste, ao mesmo tempo em que aumentam a probabilidade de chuvas extremas no Sul e em parcelas do Sudeste. Esses impactos decorrem da própria diversidade climática de um país de dimensões continentais.

No entanto, existe uma questão muito menos debatida, embora talvez seja a mais importante para compreender as consequências concretas do El Niño sobre a população brasileira: a geografia da desigualdade. O mesmo fenômeno atmosférico produz efeitos profundamente distintos porque incide sobre um território marcado por enormes disparidades econômicas, sociais e espaciais. Em outras palavras, não é apenas o clima que determina a dimensão dos impactos, mas a forma profundamente desigual como a sociedade brasileira produz e organiza seu território.

A primeira dimensão dessa desigualdade é física. O Brasil abriga diferentes biomas, regimes hidrológicos e paisagens naturais que respondem de maneiras distintas às alterações da circulação atmosférica. Enquanto algumas regiões enfrentam enchentes recorrentes, outras convivem com secas prolongadas, incêndios florestais e escassez hídrica. Essa distribuição desigual dos impactos decorre das próprias características naturais do território brasileiro.  Entretanto, essa geografia física apenas estabelece o palco sobre o qual se desenrola uma segunda geografia, construída historicamente pelas relações sociais e econômicas. Como ensinou Milton Santos, o espaço geográfico nunca constitui um simples suporte das atividades humanas. Ele representa uma construção social produzida por relações de poder, investimentos seletivos e diferentes capacidades de acesso aos recursos públicos. Dessa forma, também os riscos ambientais se distribuem de maneira profundamente desigual.

Décadas de urbanização acelerada, concentração fundiária, especulação imobiliária e políticas habitacionais insuficientes empurraram milhões de brasileiros para encostas instáveis, margens de rios, áreas de baixada sujeitas a inundações e periferias carentes de infraestrutura. Essas populações convivem diariamente com condições que amplificam qualquer evento climático extremo. A chuva intensa, portanto, não cria sozinha a tragédia. Ela encontra cidades previamente organizadas para produzir desigualdades.

Henri Acselrad demonstra que os chamados desastres naturais dificilmente podem ser compreendidos como fenômenos exclusivamente naturais. Eles expressam processos de injustiça ambiental, nos quais determinados grupos sociais concentram sistematicamente os maiores riscos enquanto outros desfrutam das melhores condições de proteção. No Brasil, essa lógica aparece de forma cristalina. Bairros valorizados contam com sistemas eficientes de drenagem, abastecimento de água, coleta de resíduos, redes de saúde, áreas verdes e infraestrutura capaz de reduzir os danos provocados por eventos extremos. Nas periferias urbanas, a realidade costuma ser exatamente a oposta.

David Harvey e Neil Smith ajudam a compreender por que essa desigualdade territorial não ocorre por acaso. Ambos demonstram que a produção capitalista do espaço direciona investimentos para áreas capazes de gerar maior valorização imobiliária, enquanto territórios ocupados pelas populações de menor renda permanecem historicamente subinvestidos. O resultado é uma distribuição profundamente desigual da infraestrutura urbana, da proteção ambiental e da própria capacidade de adaptação às mudanças climáticas.  Mike Davis mostrou, em seus estudos sobre as megacidades contemporâneas, que a expansão das periferias urbanas transforma milhões de pessoas em habitantes permanentes do risco. Não se trata apenas da ausência de renda, mas da combinação entre pobreza, localização territorial e fragilidade institucional. Essa descrição ajusta-se de maneira quase perfeita a inúmeras cidades brasileiras, onde enchentes, deslizamentos, ondas de calor e problemas sanitários atingem de forma recorrente exatamente os mesmos grupos sociais.

Essa realidade revela que os eventos extremos associados ao El Niño jamais atingem uma sociedade homogênea. Ao contrário, eles atravessam um território profundamente fragmentado por desigualdades históricas. Enquanto parte da população dispõe de seguros, moradias de alta qualidade, sistemas privados de abastecimento, climatização e acesso rápido aos serviços de saúde, outra parcela enfrenta os mesmos fenômenos vivendo em habitações precárias, frequentemente construídas sem assistência técnica, em áreas ambientalmente vulneráveis e com reduzida presença do Estado.

Essa geografia da desigualdade também possui forte expressão regional. Municípios amazônicos enfrentam secas históricas sem infraestrutura logística adequada para atender populações isoladas. Comunidades do Semiárido convivem com sucessivos déficits de investimento em adaptação hídrica. Grandes regiões metropolitanas concentram milhões de habitantes em áreas suscetíveis a enchentes e deslizamentos. Ao mesmo tempo, municípios mais ricos dispõem de maior capacidade financeira para investir em drenagem, contenção de encostas, sistemas de alerta precoce e reconstrução da infraestrutura danificada.

O quadro torna-se ainda mais preocupante diante das restrições fiscais impostas ao Estado brasileiro nas últimas décadas. A redução da capacidade de investimento público compromete justamente as políticas capazes de diminuir a vulnerabilidade da população, como habitação social, saneamento básico, defesa civil, monitoramento climático e adaptação às mudanças climáticas. Em um cenário de intensificação dos eventos extremos, essa combinação entre austeridade fiscal e desigualdade territorial amplia o potencial destrutivo de fenômenos como o El Niño.

Deste modo, discutir o El Niño no Brasil exige, portanto, ir muito além das previsões meteorológicas. Exige compreender que o risco climático não nasce apenas das anomalias atmosféricas. Ele resulta da interação entre processos naturais e uma estrutura social profundamente desigual. A atmosfera fornece o fenômeno físico; a sociedade determina quem perderá a casa, quem ficará sem água, quem verá sua renda desaparecer e, em muitos casos, quem sobreviverá.

É preciso reconhecer essa geografia da desigualdade constitui uma condição indispensável para que o Brasil construa políticas eficazes de adaptação às mudanças climáticas e aos eventos extremos associados ao El Niño. Isso significa abandonar a ideia de que o risco climático se distribui de forma homogênea pelo território nacional e reconhecer que diferentes regiões, cidades, bairros e grupos sociais apresentam níveis muito distintos de exposição, vulnerabilidade e capacidade de resposta. Políticas públicas orientadas por uma lógica meramente isonômica tendem, na prática, a perpetuar desigualdades históricas, pois distribuem recursos de maneira uniforme para realidades profundamente desiguais.

O Estado brasileiro precisa inverter essa lógica: quanto maior a vulnerabilidade socioambiental de um território, maior deve ser a prioridade dos investimentos em habitação, saneamento, drenagem urbana, sistemas de alerta, defesa civil, infraestrutura e proteção social. Dessa forma, a adaptação climática deixará de reproduzir desigualdades históricas e passará a enfrentá-las de maneira explícita, reconhecendo que justiça climática e justiça social constituem dimensões inseparáveis de um mesmo projeto de desenvolvimento. Somente uma política de adaptação construída a partir da geografia da desigualdade brasileira poderá reduzir os impactos humanos e materiais dos eventos climáticos extremos que, segundo todas as evidências científicas, tendem a se tornar cada vez mais frequentes e intensos nas próximas décadas.

Diquate mostra as duas faces da mesma política: a Europa proíbe, mas continua exportando veneno para o Sul Global

A reportagem “Intoxicações por agrotóxico banido na Europa crescem 1.100% em 8 anos no Brasil”, assinada pela jornalista Naira Hofmeister e publicada pela Repórter Brasil, revela um aspecto particularmente perverso do modelo agrícola dominante. O levantamento mostra que os casos de intoxicação por diquate aumentaram onze vezes entre 2018 e 2025, alcançando 250 registros e ao menos 40 mortes. O crescimento acompanha a rápida expansão do uso desse herbicida após a proibição do paraquate no Brasil, evidenciando que a substituição de uma substância altamente tóxica por outra da mesma família química dificilmente representa um avanço em termos de proteção à saúde pública.

O trabalho jornalístico também expõe uma contradição que há muito tempo deveria provocar indignação internacional. O diquate encontra-se proibido na União Europeia em razão dos riscos identificados para trabalhadores rurais, moradores vizinhos às áreas agrícolas e ao meio ambiente. Ainda assim, empresas sediadas em países europeus continuam fabricando esse produto e exportando grandes volumes para países como o Brasil. A própria investigação mostra que parte significativa do Reglone, principal formulação comercial do diquate, chega ao mercado brasileiro a partir de unidades produtivas da Syngenta localizadas na Inglaterra e na China.

Essa prática revela uma hipocrisia difícil de justificar. Se uma substância é considerada perigosa demais para agricultores e consumidores europeus, sob qual princípio ético ela se torna aceitável para trabalhadores rurais, comunidades e consumidores brasileiros? Na prática, cria-se uma geografia da toxicidade em que vidas humanas recebem valores diferentes conforme o país onde vivem. A União Europeia protege sua população por meio de critérios regulatórios mais rigorosos, mas tolera que suas empresas transformem o Sul Global em mercado consumidor de produtos que ela própria rejeitou. Trata-se de uma manifestação contemporânea do chamado colonialismo químico, no qual riscos sanitários e ambientais são externalizados para países com menor capacidade regulatória e maior influência política do agronegócio.

No caso brasileiro, esse cenário tornou-se ainda mais preocupante com a consolidação do chamado Pacote do Veneno”. A nova legislação flexibilizou procedimentos de registro, fortaleceu o papel do Ministério da Agricultura nas decisões regulatórias e reduziu salvaguardas historicamente associadas à proteção da saúde e do meio ambiente. Embora o diquate já estivesse autorizado anteriormente, o novo marco legal aprofundou um ambiente político e institucional claramente favorável à expansão do mercado de agrotóxicos, facilitando a permanência e a introdução de substâncias cuja segurança permanece alvo de intenso debate científico.

Os números apresentados pela Repórter Brasil sugerem que essa flexibilização possui consequências concretas. O aumento de mais de 1.100% nas intoxicações por diquate não representa apenas uma estatística preocupante. Ele indica que a ampliação da disponibilidade desses produtos inevitavelmente aumenta a exposição de trabalhadores rurais, comunidades vizinhas às áreas agrícolas e do próprio sistema público de saúde aos custos humanos desse modelo produtivo. Como a própria Repórter Brasil já havia mostrado em investigação anterior, 2025 registrou o maior número de intoxicações por agrotóxicos da última década no Brasil, reforçando a associação entre expansão do mercado desses produtos e crescimento das contaminações.

O caso do diquate também desmonta um argumento frequentemente utilizado por fabricantes e setores do agronegócio: o de que a aprovação regulatória equivaleria automaticamente à segurança do produto. A história recente dos agrotóxicos demonstra exatamente o contrário. Diversas substâncias foram consideradas aceitáveis durante anos antes de novas evidências científicas levarem ao seu banimento. O paraquate constitui um exemplo emblemático desse processo, e não há razão para supor que a trajetória do diquate será diferente caso novas evidências continuem acumulando riscos à saúde humana e aos ecossistemas.

Enquanto isso, o Brasil segue consolidando sua posição como destino preferencial para substâncias rejeitadas em outras partes do mundo. Essa condição não decorre da ausência de conhecimento científico, mas de escolhas políticas que colocam interesses econômicos acima da proteção da saúde coletiva. Ao mesmo tempo em que a União Europeia preserva seus cidadãos dos riscos desses compostos, aceita que empresas instaladas em seu território lucrem com sua comercialização em países periféricos. Essa combinação entre desregulação doméstica e exportação internacional de riscos sanitários talvez constitua uma das expressões mais explícitas das profundas desigualdades que continuam estruturando o sistema agroalimentar global.

Revista “Ponta de Lança” lança dossiê sobre a produção do imaginário social sobre o campo

A revista Ponta de Lança: Revista Eletrônica de História, Memória & Cultura lança dossiê sobre a produção do imaginário social sobre o campo. O Dossiê tem por objetivo reunir artigos acerca dos processos de produção, circulação e disputa do imaginário social do campo, problematizando a hegemonia do “agro” como projeto econômico, político e cultural.

À luz da teoria crítica e em diálogo com os movimentos sociais busca-se fomentar estudos que evidenciem contradições, mecanismos de dominação e formas de resistência que atravessam as representações do campo nas Ciências Humanas e Sociais.

Serão acolhidos estudos que abordem imagem, imaginário e imaginação como categorias social e historicamente constituídas, examinando seus impactos na reprodução ou contestação das desigualdades, bem como o protagonismo de sujeitos coletivos e as intersecções entre classe, raça, etnia, gênero e territorialidade na construção de horizontes de emancipação.

Organizadores: Dra. Monique Lima de Oliveira (UFS) e Dr. Lucas Parreira Álvares (UFRPE)

Mais informações pelo link
https://periodicos.ufs.br/pontadelanca/

Os agrotóxicos não estão apenas nos deixando doentes, eles estão cozinhando o planeta

Por Lee Evslin para “The New Lede”

Escrevo isto como pediatra que passou mais de uma década documentando como os agrotóxicos afetam direta e negativamente a saúde das crianças. Mas há uma segunda história escondida dentro daquela que costumo contar, e ela raramente entra no debate: o mesmo sistema de agricultura industrial baseado em agrotóxicos sintéticos e fertilizantes nitrogenados também está silenciosamente destruindo o planeta.

O recente aquecimento recorde do Oceano Pacífico, as mortes causadas pelo calor na Europa, os incêndios florestais em todo o mundo e a onda de calor que assola os EUA criam uma necessidade urgente de compreender todos os principais fatores que impulsionam as mudanças climáticas, incluindo aqueles sobre os quais normalmente não falamos.

Descobriu-se que os sistemas alimentares globais produzem  16 bilhões de toneladas métricas  de CO2 equivalente por ano, ou aproximadamente  um terço  de todas as emissões de gases de efeito estufa causadas pela atividade humana. Dois insumos agrícolas em particular, os agrotóxicos e os fertilizantes nitrogenados sintéticos, merecem muito mais atenção do que geralmente recebem nas discussões sobre saúde ou clima.

Os agrotóxicos e as mudanças climáticas representam um ciclo vicioso  Pesquisadores descreveram recentemente um padrão com consequências perigosamente abrangentes. 

  1. Os agrotóxicos são produzidos a partir de combustíveis fósseis, e sua produção consome muita energia. A fabricação de um quilograma de ingrediente ativo de  agrotóxico requer, em média, cerca de dez vezes mais energia do que a fabricação de um quilograma de fertilizante nitrogenado.
  2. Os agrotóxicos continuam a emitir substâncias mesmo após a aplicação. Muitos volatilizam-se para o ar como compostos que contribuem para a formação de ozono, e os fumigantes de solo amplamente utilizados  aumentam drasticamente as emissões de óxido nitroso do soloOs agrotóxicos também perturbam as comunidades microbianas do solo. Isto  degrada um dos sistemas naturais de remoção de carbono mais importantes da agricultura .
  3. O agravamento das mudanças climáticas enfraquece as plantações e pode gerar mais insetos e ervas daninhas mais resistentes. Essa combinação exige ainda mais agrotóxicos e fertilizantes.
  4. Resultado final: mudanças climáticas cada vez piores e um número crescente de substâncias químicas perigosas em nossos alimentos, nossa água e em todos os nossos corpos.

Os fertilizantes nitrogenados atuam como superpoluentes  Quando o uso intensivo de agrotóxicos degrada o solo, o uso abundante de fertilizantes torna-se vital apenas para manter o crescimento das plantações. O fertilizante nitrogenado sintético é fabricado combinando nitrogênio atmosférico com hidrogênio proveniente do gás natural sob calor e pressão extremos, um processo que, por si só, responde por cerca de  39%  da pegada climática do fertilizante.

Mas, assim como acontece com os agrotóxicos, o problema maior surge depois que o produto chega ao campo. Os micróbios do solo convertem o nitrogênio aplicado em óxido nitroso, um gás com um poder de aquecimento cerca de  273 vezes maior que o do dióxido de carbono. Uma avaliação recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente constatou que as emissões de óxido nitroso provenientes da agricultura aumentaram 40% entre 1980 e 2020 , e o classificou como um “superpoluente” devido ao seu papel duplo no aquecimento global e na destruição da camada de ozônio.

Além disso, os agricultores aplicam rotineiramente  muito mais nitrogênio do que as culturas conseguem utilizar , chegando a 5,8 milhões de toneladas métricas em excesso somente em 2023 no cinturão do milho e da soja, produzindo emissões equivalentes à circulação de 8 a 14 milhões de carros a gasolina adicionais. O nitrogênio não utilizado não desaparece simplesmente. Ele se infiltra no lençol freático e chega aos cursos d’água, alimentando a  proliferação de algas e a eutrofização  , que geram ainda mais gases de efeito estufa.

O problema do solo  Um solo saudável é um dos maiores reservatórios de carbono do planeta, mas a agricultura intensiva em produtos químicos esgota esse reservatório em vez de o aumentar. O contraste na captura de carbono entre a agricultura convencional atual e a agricultura orgânica/regenerativa é dramático. Os sistemas orgânicos  sequestram carbono do solo a uma taxa aproximadamente quatorze vezes maior do  que a agricultura convencional. Práticas regenerativas, quando aplicadas corretamente, poderiam  sequestrar até 23 gigatoneladas de CO2 até 2050 , e  o plantio direto, por si só, já foi associado a reduções de CO2 de até 47% .

As empresas de sementes químicas frequentemente afirmam que as culturas transgênicas Roundup Ready também facilitam e tornam mais comum o plantio direto, permitindo que os agricultores eliminem ervas daninhas com produtos químicos em vez de arar. Mas até mesmo essa solução está se desfazendo. Com a disseminação de ervas daninhas resistentes ao glifosato,  a intensidade do preparo do solo aumentou novamente desde 2008 , e uma análise amplamente citada constatou que a alegação subjacente de redução de carbono pelo plantio direto com base em produtos químicos pode ser  um artefato de amostragem superficial do solo  , em vez de um ganho líquido real. A solução para o solo pode ser menos duradoura do que a indústria alega e vem acompanhada da própria dependência química que impulsiona a crise de saúde.

E a crise de saúde não é hipotética  Um  estudo de 2025 do Centro Médico da Universidade de Nebraska  descobriu que um aumento de 10% na exposição a misturas de agrotóxicos estava associado a um aumento de 36% nos casos de câncer cerebral e do sistema nervoso central em crianças e a um aumento de 23% nos casos de leucemia. Um  relatório de Iowa de 2026  relacionou a taxa de câncer do estado, agora a segunda mais alta do país, em parte à exposição a agrotóxicos. Não se trata dos mesmos produtos químicos aparecendo por coincidência em duas notícias ruins diferentes. Trata-se do mesmo modelo de negócios.

A argumentação climática contra esse sistema não é especulativa. Ela se baseia em um crescente corpo de pesquisas sobre o ciclo de vida e emissões em campo, abrangendo fabricação, aplicação e efeitos subsequentes nos ecossistemas. Como essas emissões são difusas, espalhadas por milhões de fazendas em vez de concentradas em algumas chaminés, elas escaparam do escrutínio regulatório que aplicamos a usinas de energia e frotas de veículos. Isso está começando a mudar à medida que os pesquisadores constroem um levantamento mais completo da cadeia de suprimentos de agroquímicos. As políticas públicas, porém, ainda não acompanharam essa mudança.

Não estamos obrigados a escolher entre alimentar as pessoas e manter o planeta e as pessoas que nele habitam saudáveis.

Reduzir a aplicação desnecessária de nitrogênio, intensificar a fiscalização de agrotóxicos e investir em práticas regenerativas nos ajudará a reconstruir o carbono do solo e a reduzir a dependência de agrotóxicos e fertilizantes. As duas lutas, saúde e clima, nunca foram separadas. Já passou da hora de começarmos a tratá-las como tal.

(Os artigos de opinião publicados no The New Lede representam os pontos de vista dos autores e não necessariamente a perspectiva dos editores do TNL.)

Lee A. Evslin, MD, FAAP, é pediatra certificado e ex-CEO de hospital. Foi membro da Força-Tarefa de  Agrotóxicos patrocinada pelo estado do Havaí e recebeu reconhecimento especial da Academia Americana de Pediatria por seu trabalho legislativo, que ajudou a tornar o Havaí o primeiro estado a proibir o clorpirifós. É autor do livro ”  Café da Manhã na Monsanto: O Roundup em nossos alimentos está nos deixando mais doentes, mais gordos e mais tristes?”  e foi palestrante principal na Cúpula de Ciência da Assembleia Geral da ONU de 2022, sobre o tema da toxicidade do glifosato.


Fonte: The New Lede

O fim da Moratória da Soja abrirá as portas para um novo ciclo de devastação na Amazônia

A reportagem da jornalista Camila Souza Ramos, publicada no Valor Econômico, traz um dado que deveria soar como um alerta para toda a sociedade brasileira: o eventual fim da Moratória da Soja poderá provocar perdas estimadas em US$ 8,2 bilhões em serviços ecossistêmicos ao longo da próxima década.  Um artigo publicado na revista Nature Communications Earth & Environment, demonstra que o desmatamento adicional poderá comprometer funções essenciais da floresta amazônica, como a formação de chuvas, a manutenção da biodiversidade, o armazenamento de carbono e a geração de energia hidrelétrica.

Embora os números econômicos impressionem, o aspecto mais preocupante talvez seja outro. A Moratória da Soja nunca foi um instrumento perfeito. Desde sua criação, em 2006, ela contribuiu para reduzir a expansão direta da soja sobre áreas recentemente desmatadas na Amazônia, mas não impediu outros vetores de destruição florestal. A pecuária continuou avançando sobre vastas áreas, a grilagem de terras públicas permaneceu ativa e a degradação causada pela exploração madeireira, pelos incêndios e pela abertura de estradas seguiu corroendo a integridade da floresta. Em outras palavras, mesmo com a moratória em vigor, o quadro sempre esteve longe de ser satisfatório.

É justamente por isso que sua eventual extinção representa um risco muito maior do que o simples desaparecimento de um acordo setorial. A retirada desse importante mecanismo de controle poderá transmitir ao mercado um sinal de flexibilização das regras ambientais, estimulando uma nova corrida pela conversão da floresta em áreas agrícolas. Num contexto em que a fiscalização ambiental continua sofrendo com restrições orçamentárias e operacionais, essa mudança tende a acelerar tanto o desmatamento quanto a degradação florestal, tornando muito mais difícil conter o avanço da fronteira agrícola sobre a Amazônia.

Os efeitos dessa dinâmica não se restringem à Amazônia. A perda da cobertura florestal reduz a reciclagem de umidade responsável pela formação dos chamados “rios voadores”, afetando a disponibilidade de água e a regularidade das chuvas em boa parte da América do Sul. O prejuízo alcança diretamente a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento urbano, comprometendo atividades econômicas muito além da região amazônica. Diversos estudos científicos já demonstraram que a continuidade do desmatamento e da degradação florestal aproxima a Amazônia de um ponto de inflexão ecológica, cujas consequências atingirão de forma particularmente severa a própria produção agropecuária na Amazônia e no Cerrado.

Outro mérito da reportagem é mostrar que os custos da destruição da floresta não podem ser medidos apenas pelo valor da madeira ou da terra convertida em lavoura. Os serviços ambientais prestados pela Amazônia sustentam processos ecológicos que permitem o funcionamento da própria economia brasileira. Quando esses serviços desaparecem, toda a sociedade paga a conta, ainda que ela não apareça imediatamente nos indicadores econômicos tradicionais.

O debate sobre o futuro da Moratória da Soja, portanto, vai muito além dos interesses imediatos do setor exportador.  O que está em jogo é se o Brasil continuará preservando um dos poucos mecanismos que, mesmo com limitações, ajudou a conter parte da expansão da fronteira agrícola sobre a Amazônia, ou se aceitará o risco de entrar em um novo ciclo de devastação. Se com a moratória a situação já era precária, sua eliminação poderá tornar o desmatamento e a degradação florestal praticamente incontroláveis, aprofundando uma crise ambiental que ameaça o equilíbrio climático, a segurança hídrica e o próprio futuro da produção agrícola brasileira.

Há, porém, um aspecto que torna esse debate ainda mais inquietante. Não é mais possível esperar racionalidade de um segmento do agronegócio que insiste em agir de forma profundamente irracional, mesmo diante do acúmulo de evidências científicas sobre os impactos econômicos do desmatamento e da degradação florestal. Pesquisas científicas  realizadas por instituições brasileiras e internacionais demonstram de maneira consistente que a destruição da Amazônia compromete o regime de chuvas, intensifica secas e ondas de calor, reduz a disponibilidade hídrica e ameaça a produtividade agropecuária tanto na Amazônia quanto no Cerrado. Ainda assim, parcelas influentes desse setor continuam pressionando pelo enfraquecimento dos instrumentos de proteção ambiental em nome de ganhos imediatos, ignorando que essa estratégia destrói justamente as bases ecológicas que sustentam sua própria atividade econômica.

Defender o fim da Moratória da Soja, portanto, não representa apenas um retrocesso ambiental. Representa também uma aposta temerária contra a ciência e contra o futuro da agricultura brasileira. A ironia é evidente: em nome de ampliar a produção no presente, esses setores trabalham para inviabilizar as condições climáticas que permitirão produzir no futuro. É difícil imaginar uma demonstração mais clara de irracionalidade econômica e ambiental.

Política ambiental e climática no Brasil: estudo mostra avanços importantes e desafios persistentes em meio a pressões políticas

Um novo estudo acaba de ser publicado na revista Opinião Pública e traz um raio-x detalhado da política ambiental e climática do governo Lula III. O artigo “A reconstrução de capacidades estatais: um estudo da política ambiental e climática brasileira” investiga em que medida o governo Lula III tem conseguido reconstruir a política ambiental brasileira após um período de desmonte institucional. A pesquisa analisa se a retomada da agenda ambiental foi acompanhada pelo fortalecimento das capacidades do Estado para formular e implementar políticas públicas, além de identificar os fatores políticos que impulsionam ou limitam esse processo.

O que a pesquisa revelou? 

Para a coordenadora da pesquisa, Dra. Ana Karine Pereira do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB, os resultados revelam que a reconstrução da política ambiental está em andamento, porém ocorre de forma desigual e sob permanente disputa política:  “O governo Lula III retomou políticas, espaços participativos e estruturas institucionais que haviam sido enfraquecidos nos anos anteriores. Essa reconstrução, contudo, permanece incompleta e bastante vulnerável à mudanças políticas. A resistência do Congresso, as divergências dentro da coalizão governamental e a influência de setores econômicos sobre a agenda ambiental estão limitando o alcance das mudanças e ajudam a explicar as contradições observadas na atual gestão”.

Para Wallace Lopes, Analista Ambiental do Ibama e um dos autores, aos dados do artigo demonstram que a desvalorização da carreira compromete diretamente a capacidade de implementação do Estado: “O artigo demonstra, com base em evidências empíricas, que a perda de quadros, a descontinuidade institucional e a desvalorização da carreira impactam negativamente a implementação das políticas públicas. O fortalecimento da Carreira de Especialista em Meio Ambiente deve ser encarado como uma condição estrutural para que o Estado brasileiro mantenha capacidade de implementar políticas ambientais de forma técnica, efetiva e duradoura”.

Assinam também o artigo os pesquisadores Gustavo Apollo, Yasmin Oliveira Targino, Luiza de Moraes Tavares de Lima, Mariana Mota e Daniela Rosim.

Leia o artigo na íntegra [Aqui!]

O metano e a mentira organizada: novos documentos reforçam a responsabilidade histórica das petrolíferas pela crise climática

O metano e a mentira organizada: novos documentos reforçam a responsabilidade histórica das petrolíferas pela crise climática

A reportagem da jornalista Hiroko Tabuchi, publicada originalmente no The New York Times e reproduzida no Brasil pela Folha de S.Paulo, traz novas evidências de um dos capítulos mais graves da história recente da crise climática: as grandes empresas de petróleo e gás sabiam, desde pelo menos a década de 1960, que suas operações liberavam quantidades muito superiores de metano às oficialmente divulgadas e que esse gás teria um papel decisivo no aquecimento global.

O material analisado pelo Center for Climate Integrity reúne documentos internos produzidos por associações empresariais e pelas próprias companhias petrolíferas. Esses documentos mostram que a indústria possuía conhecimento técnico detalhado sobre o problema muito antes de o tema se tornar objeto de debate público. Em vez de alertar governos, reguladores e a sociedade, o setor escolheu minimizar os riscos e investiu em campanhas de relações públicas destinadas a consolidar a imagem do gás natural como uma fonte de energia ambientalmente amigável.

O aspecto mais importante dessa revelação não reside apenas na constatação de que o metano é um gás de efeito estufa extremamente potente — cerca de 80 vezes mais eficiente do que o dióxido de carbono em reter calor ao longo de vinte anos. Esse dado já é amplamente reconhecido pela literatura científica. O elemento verdadeiramente explosivo consiste na demonstração de que as empresas possuíam informações privilegiadas sobre a dimensão real de suas emissões e, ainda assim, permitiram que governos, investidores e consumidores continuassem tomando decisões baseadas em dados incompletos ou deliberadamente distorcidos.

Essa conduta aproxima o caso das petrolíferas de outros grandes escândalos corporativos. A indústria do tabaco ocultou durante décadas evidências sobre a relação entre cigarro e câncer. Empresas químicas esconderam informações sobre a toxicidade de diversos compostos. Fabricantes de agrotóxicos financiaram campanhas para desacreditar pesquisas independentes que apontavam riscos ambientais e sanitários. Em todos esses episódios, o problema não se limitou ao dano causado pelos produtos comercializados. A fraude também consistiu na supressão deliberada de informações essenciais para que a sociedade pudesse avaliar corretamente os riscos envolvidos.

No caso das mudanças climáticas, entretanto, a dimensão do dano é incomparavelmente maior. A omissão de informações sobre o metano contribuiu para retardar políticas públicas, enfraquecer regulações ambientais e prolongar um modelo energético baseado na expansão contínua dos combustíveis fósseis. Cada década perdida representou maior concentração de gases de efeito estufa, temperaturas mais elevadas, eventos climáticos extremos mais frequentes e custos humanos e econômicos cada vez mais elevados.

Por essa razão, cresce em diversos países o movimento que busca responsabilizar financeiramente as empresas petrolíferas pelos prejuízos decorrentes das mudanças climáticas. A divulgação desses documentos fortalece esse esforço porque demonstra um elemento jurídico fundamental: não se trata apenas de discutir emissões inevitáveis decorrentes da atividade econômica, mas de avaliar a responsabilidade de empresas que possuíam conhecimento técnico sobre os riscos, esconderam essas informações do público e adotaram estratégias de comunicação destinadas a preservar seus mercados.

Essa distinção é decisiva. Empresas podem cometer erros de avaliação científica. O que os documentos revelam, contudo, sugere algo muito diferente: uma estratégia consciente de administrar a percepção pública do problema enquanto continuavam expandindo seus negócios.

Essa discussão interessa diretamente ao Brasil. O país amplia investimentos na exploração de petróleo e gás, discute novas fronteiras de exploração na Margem Equatorial e mantém forte dependência econômica da exportação de combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, apresenta-se internacionalmente como liderança climática. Essas duas posições tornam-se cada vez mais difíceis de conciliar quando novas evidências mostram que parte da indústria conhecia os impactos ambientais de suas operações muito antes de qualquer obrigação regulatória.

As revelações apresentadas por Hiroko Tabuchi reforçam uma conclusão que se torna cada vez mais difícil de contestar: a crise climática não resulta apenas da queima de combustíveis fósseis. Ela também decorre de décadas de ocultação de informações, manipulação da opinião pública e adiamento deliberado de medidas capazes de reduzir emissões. Em outras palavras, a responsabilidade das grandes petrolíferas não se limita ao carbono que emitiram para a atmosfera. Ela inclui também o conhecimento que decidiram esconder da sociedade.