No dia 28 de setembro publiquei neste Blog o comentário “A vaidade também aceita convites para a academia”, tendo como ponto de partida uma extensa investigação publicada pela revista Nature e assinada pelo jornalista Max Kozlov. Minha intenção naquele texto era bastante clara: discutir como títulos, honrarias, filiações e convites internacionais podem adquirir enorme valor simbólico no ambiente acadêmico antes que alguém faça a pergunta mais elementar de todas: afinal, quem está concedendo aquilo e qual é a efetiva consistência da instituição que oferece a distinção?
Pois bem, a European Academy of Engineering (EAE) resolveu responder. Em mensagem encaminhada ao Blog do Pedlowski, a organização solicita uma revisão editorial das referências feitas à academia, contesta aspectos da cobertura que originou meu comentário e pede que sejam diferenciadas afirmações relacionadas à própria EAE daquelas referentes a outras organizações mencionadas pela Nature. A EAE também afirma operar como uma associação sueca sem fins lucrativos e nega ter criado ou autorizado a imagem alterada de um edifício que aparece entre os elementos examinados pela reportagem.
Tudo isso merece ser registrado, pois direito de resposta não é favor concedido por quem publica, mas parte elementar de qualquer ambiente que pretenda levar a sério o debate público. Por isso, registro aqui a posição apresentada pela EAE e considero correto que os leitores deste Blog tenham conhecimento de que a organização contesta aspectos da reportagem que serviu de ponto de partida para meu comentário.
Entretanto, existe um pequeno elefante sentado no meio da sala: quem realizou a investigação foi a revista Nature. Não foi o Blog do Pedlowski que pesquisou registros suecos, procurou pesquisadores apresentados como integrantes ou dirigentes de organizações, entrou em contato com universidades para verificar vínculos institucionais ou investigou imagens, websites, parcerias e a trajetória das diferentes entidades mencionadas. Quem realizou esse trabalho de apuração foi a Nature, e isso estava informado, sem qualquer disfarce ou ambiguidade, desde o primeiro parágrafo do comentário publicado neste Blog.
Há, portanto, algo peculiar na solicitação agora recebida. A EAE pede ao Blog que identifique as evidências que sustentariam determinadas conclusões específicas sobre a organização, mas o Blog não apresentou essas conclusões como resultado de investigação própria. O que fiz foi comentar uma reportagem publicada pela Nature, identificando explicitamente sua origem e discutindo as implicações mais amplas das informações nela apresentadas para um sistema acadêmico cada vez mais dependente de títulos, rankings, distinções e outras formas de reconhecimento simbólico.
Se a EAE considera que determinadas evidências apresentadas naquela investigação estão erradas, incompletas ou foram interpretadas incorretamente, possui todo o direito de demonstrá-lo. Entretanto, o endereço principal dessa controvérsia parece bastante evidente: é a redação da Nature. Transferir para quem comentou uma investigação o ônus de refazer a apuração realizada pelo veículo que a publicou seria uma inversão curiosa das responsabilidades editoriais.
Aliás, a própria Nature demonstrou que correções são possíveis. Em 30 de setembro, a revista acrescentou uma clarificação à reportagem explicando que uma declaração de Tsu-Jae Liu, presidente da National Academy of Engineering dos Estados Unidos, sobre a necessidade de verificar a respeitabilidade profissional de dirigentes de sociedades científicas não havia sido feita especificamente em referência a Michael Chu. Esse é precisamente o procedimento esperado de uma publicação que pretende manter sua credibilidade: apresenta evidências, recebe contestações, examina os documentos e, quando necessário, corrige publicamente aquilo que publicou.
Mas há um detalhe que não deveria passar despercebido. A clarificação acrescentada pela Nature não retirou a reportagem do ar nem significou uma retratação do conjunto de informações apresentado. A investigação permanece publicada e, portanto, continua disponível para que seus argumentos, fontes e evidências sejam examinados, contestados e, quando for o caso, confrontados com documentação apresentada pela EAE.
Também merece atenção o fato de a própria European Academy of Engineering ter anunciado publicamente que examinaria registros relativos a filiações, consentimento para cargos, parcerias institucionais, história da organização, imagens e outros conteúdos associados à sua presença pública, comprometendo-se a corrigir informações eventualmente consideradas incorretas ou potencialmente enganosas. Esse compromisso é relevante porque indica que existem questões que merecem esclarecimento e que podem ser resolvidas de maneira bastante objetiva mediante a apresentação dos documentos correspondentes.
E aqui chegamos ao ponto essencial. Se existem dúvidas sobre registros, consentimentos, vínculos, parcerias, imagens ou continuidade institucional, o caminho mais simples não é pedir que comentaristas reconstruam uma investigação jornalística realizada pela Nature, mas apresentar a documentação capaz de esclarecer definitivamente essas questões. Documentos possuem uma vantagem extraordinária sobre longas controvérsias epistolares: permitem que qualquer pessoa confronte afirmações com evidências verificáveis.
Por isso, a manifestação da European Academy of Engineering fica registrada neste Blog e considero correto que os leitores conheçam diretamente a posição apresentada pela organização. Se aparecer documentação demonstrando que alguma afirmação factual feita por este Blog está errada, ela será corrigida publicamente, com a mesma visibilidade dada ao texto original e com a indicação da alteração realizada. Não vejo qualquer problema nisso, porque reconhecer e corrigir um erro factual é parte inseparável daquilo que entendo como exercício responsável da crítica pública.
Mas não confundamos as coisas. Corrigir um erro factual é uma coisa; abandonar uma análise crítica porque a instituição mencionada na reportagem que lhe deu origem não gostou das perguntas levantadas é outra bastante diferente. O primeiro procedimento fortalece a credibilidade de quem publica, enquanto o segundo apenas contribuiria para transformar pedidos de esclarecimento em instrumentos de constrangimento editorial.
É justamente aqui que retornamos ao argumento central de “A vaidade também aceita convites para a academia”. O problema não começa nem termina na European Academy of Engineering, pois diz respeito a um ambiente universitário no qual títulos, distinções, prêmios, rankings, memberships, fellowships e convites internacionais podem funcionar como uma espécie de moeda de prestígio, convertendo-se rapidamente em linhas de currículo, notícias institucionais e instrumentos de diferenciação acadêmica. Quanto maior for a disposição para ostentar essas distinções, maior deveria ser também a disposição para verificar cuidadosamente sua procedência.
Assim, se uma academia concede uma honraria, é legítimo perguntar quem é essa academia e quais são seus critérios. Se um pesquisador recebe a honraria, também é legítimo perguntar em que condições ela foi oferecida e aceita. E, se uma universidade transforma a distinção em notícia institucional, parece razoável esperar que tenha previamente verificado sua procedência. Finalmente, se uma reportagem da Nature apresenta evidências que colocam esse circuito de produção e circulação de prestígio sob escrutínio, o caminho intelectualmente mais produtivo é examinar as evidências e confrontá-las com outras evidências.
A EAE tem, portanto, todo o direito de contestar a reportagem, enquanto a Nature possui a responsabilidade de sustentar documentalmente aquilo que publicou e corrigir aquilo que eventualmente não puder sustentar. Da mesma forma, o Blog do Pedlowski continuará exercendo o direito de comentar criticamente informações de interesse público, indicando suas fontes e corrigindo eventuais erros factuais quando eles forem efetivamente demonstrados.
No fim das contas, existe um método bastante antigo e surpreendentemente eficiente para resolver controvérsias dessa natureza: mostrem os documentos. Afinal, prestígio pode até aceitar convite, mas a vaidade, como sabemos, costuma ser bem menos seletiva.
Finalmente, não posso deixar de registrar que me senti muito honrado com o contato feito diretamente pela European Academy of Engineering. Afinal, não é todos os dias que uma organização com pretensões internacionais dedica seu tempo a escrever para este modesto Blog produzido a partir de Campos dos Goytacazes. O episódio parece confirmar algo que talvez eu próprio estivesse subestimando: o Blog do Pedlowski possui uma audiência verdadeiramente global. Evidentemente, alcançar leitores em diferentes partes do mundo não significa necessariamente agradar a todos eles. Mas isso é perfeitamente compreensível e, pensando bem, talvez seja até um sinal de que algumas das perguntas feitas por aqui estão chegando aos lugares certos.









