Um acerto de contas na Amazônia

Líderes indígenas, comunidades tradicionais e pesquisadores estão resistindo ao desenvolvimento na floresta amazônica, que poderia levar seus ecossistemas a ultrapassar pontos de inflexão irreversíveis

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, durante visita às instalações da Regap, no Distrito Industrial Paulo Camilo Sul. Imagem: Ricardo Stuckert /  / Creative Commons 4.0.

Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Fumaça paira sobre o sul da Amazônia, onde apenas algumas semanas atrás havia floresta. Ao longo de novas rodovias, caminhões de gado passam por rios com níveis de água baixos, e no vasto Cerrado vizinho, a soja se estende em direção a um horizonte antes coberto por vegetação nativa. O que está acontecendo não é um surto isolado de desmatamento, mas um momento decisivo para o modelo econômico que molda o Brasil moderno. 

Da carne bovina aos biocombustíveis, passando por créditos de carbono, blocos de petróleo e mega-represas, esta edição especial traça como práticas extrativistas familiares estão sendo reformuladas na linguagem do crescimento verde. Projetos de infraestrutura como a rodovia BR-319, a expansão das fronteiras dos combustíveis fósseis e o enfraquecimento das salvaguardas ambientais expõem um abismo crescente entre as promessas climáticas e a realidade. Esta não é apenas uma história de perdas, mas também de resistência. 

Líderes indígenas, comunidades tradicionais e pesquisadores resistem a um caminho que pode levar esses ecossistemas a pontos de inflexão irreversíveis. As consequências vão muito além das fronteiras do Brasil. O que acontecer lá terá repercussões nos sistemas alimentares globais, nos ciclos da água e no próprio clima.

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O que está em jogo

O desmatamento e a degradação florestal deixaram de ser fenômenos distantes em grande parte da Amazônia meridional brasileira. Fazem parte do cotidiano. Caminhões transportam gado por estradas recém-abertas; nuvens de fumaça se elevam de campos onde, poucas semanas antes, havia floresta. Durante a estação seca, os rios começam a secar, o horizonte se torna uma linha cinza opaca e o cheiro de madeira queimada se espalha por quilômetros, às vezes por dias. Em conjunto, essas histórias revelam não uma crise isolada, mas uma complexa teia de pressões ecológicas, políticas e econômicas que irão remodelar a Amazônia e o Cerrado nas próximas décadas. Isso não é obra de alguns poucos indivíduos isolados. É o resultado de decisões tomadas em escritórios e salas de negociação distantes, em Brasília, São Paulo, Pequim e capitais europeias. A demanda global, acordos políticos, novas rodovias e pacotes de financiamento convergem aqui, na orla da floresta. 

Na Amazônia e no Cerrado vizinho, forças poderosas colidem. O agronegócio avança cada vez mais em terras intocadas, enquanto projetos de petróleo e gás progridem, barragens são construídas e rodovias como a BR-319 atravessam regiões remotas. Ao mesmo tempo, batalhas por direitos territoriais indígenas e proteção ambiental se desenrolam silenciosamente no Congresso e nos tribunais, muitas vezes longe dos olhos do público, mas com consequências duradouras no terreno. Paralelamente a essa expansão, surge uma nova promessa: um futuro “verde” baseado em  biocombustíveis ,  mercados de carbono e a chamada  bioeconomia . Essas ideias são vendidas como soluções climáticas. Elas atraem investidores e aplausos. Mas muitas comunidades indígenas e tradicionais fazem uma pergunta simples: isso realmente manterá a floresta de pé, ou é extração disfarçada de discurso mais ameno?

As escolhas feitas agora moldarão essas paisagens e as vidas a elas ligadas, por gerações.

As consequências vão muito além do Brasil. A Amazônia e o Cerrado regulam  as chuvas em toda a América do Sul e ajudam a estabilizar o clima global, armazenando imensas quantidades de carbono. Só a Amazônia abriga mais da metade das florestas tropicais remanescentes do mundo e uma parcela extraordinária de sua vida selvagem. Se ela entrar em colapso a ponto de não se recuperar, as consequências serão sentidas nas colheitas, no abastecimento de água, na saúde pública e nas economias em todos os continentes. O que está acontecendo não é uma crise isolada, mas uma complexa teia de pressões políticas, econômicas e ecológicas. As escolhas feitas agora moldarão essas paisagens e as vidas a elas ligadas, por gerações.

Carne bovina e soja

O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de carne bovina, abastecendo os mercados da China, Europa, Oriente Médio, Reino Unido e outros países. No entanto, a pecuária continua sendo o principal  fator de desmatamento e degradação na Amazônia brasileira. Vastos trechos de floresta são desmatados, muitas vezes ilegalmente, e convertidos em pastagens, uma transformação que pode levar semanas, mas cujos efeitos perduram por gerações. Pesquisadores que monitoram os padrões de desmatamento estimam que cerca de 80% das terras desmatadas na Amazônia acabam sendo convertidas em pastagens para gado. As implicações para os gases de efeito estufa são profundas: as emissões provenientes do desmatamento, incêndios,  metano e degradação do solo fazem do setor pecuário um dos maiores passivos climáticos do Brasil.

Os territórios indígenas estão cada vez mais cercados por pastagens. Incêndios provocados para limpar a terra frequentemente se alastram para as bordas das florestas, degradando ecossistemas que evoluíram sem queimadas regulares. Em anos de seca, esses incêndios podem ficar fora de controle. A fumaça não respeita as fronteiras demarcadas nos mapas. Para as comunidades que vivem na floresta, as consequências são imediatas. Os rios ficam obstruídos por sedimentos, os estoques de peixes diminuem e a fumaça aumenta as doenças respiratórias entre crianças e idosos. 

Luciana Gatti, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), afirmou: “Houve um aumento enorme nas exportações de madeira, carne bovina, soja, milho e minerais. Este é um projeto baseado na destruição da natureza para a venda de commodities primárias.  Os sistemas hídricos são prejudicados por esses modelos de desenvolvimento, com graves consequências para os ecossistemas e para a população brasileira, ao mesmo tempo que concentram riqueza e poder nas mãos de grandes latifundiários.”

Embora a pecuária seja a principal causa do desmatamento e da degradação na Amazônia,  a soja transformou o Cerrado, uma região de pastagens, florestas e savanas que abrange mais de 2 milhões de quilômetros quadrados e alimenta as nascentes de oito das doze principais bacias hidrográficas do Brasil. Nas últimas cinco décadas, metade do Cerrado foi destruída. A soja industrial, grande parte destinada à alimentação animal para abastecer a China, a Europa, o Reino Unido e outros países, continua a se expandir e a destruir as áreas remanescentes. Diferentemente da Amazônia, o Cerrado possui menos proteções legais e menos fiscalização internacional. Com o endurecimento das leis em algumas partes da Amazônia, o agronegócio migrou para o Cerrado, onde a governança é muito mais frágil. Cássio Cardoso Pereira, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirmou: 

“Ao contrário da Amazônia, a maior parte do desmatamento no Cerrado ainda é legalmente permitida, o que protege as corporações e as cadeias de suprimentos da fiscalização. A responsabilização internacional falhou porque as estruturas globais de clima e biodiversidade negligenciam amplamente os campos e savanas, tratando-os como paisagens descartáveis ​​em vez de ecossistemas críticos.”

O sistema hídrico do Brasil  depende de uma delicada parceria entre a floresta amazônica e o Cerrado. Juntos, eles formam um vasto sistema hidrológico que transporta umidade pela atmosfera, armazena água subterrânea e estabiliza as bacias hidrográficas em grande parte da América do Sul. A bacia amazônica é o maior sistema de água doce do planeta, e o Cerrado abriga cerca de 80% das bacias hidrográficas do Brasil. Apesar dessa abundância, o Brasil está entrando em uma crise hídrica. Com o desaparecimento da vegetação nativa, os aquíferos recarregam mais lentamente e os rios que alimentam as grandes bacias hidrográficas do continente estão ficando mais secos. Os padrões de chuva se enfraquecem, as secas se prolongam e as ondas de calor se intensificam. O que começa como desmatamento se transforma em algo muito maior: uma lenta desestabilização do ciclo da água. Segundo Gatti, 2024 marcou o maior índice de emissões de carbono já registrado na Amazônia, impulsionado principalmente por incêndios. No entanto, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) do Brasil classifica as emissões dos incêndios na Amazônia como líquidas zero em sua metodologia oficial de contabilização, embora os incêndios sejam agora a maior fonte individual de emissões de carbono da região. 

Augusto Getirana, cientista pesquisador do Laboratório de Ciências Hidrológicas do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, falando a título pessoal, disse: “Uma crise hídrica no Brasil que resulta em interrupção da produção nacional de alimentos rapidamente se transforma em uma crise global. Vimos isso em 2021, quando os preços dessas commodities aumentaram substancialmente em todo o mundo.”

Comunidades relatam redução na disponibilidade de água e contaminação por agrotóxicos.

As comunidades tradicionais  de geraizeiros (comunidades tradicionais do Cerrado) e  quilombolas (comunidades formadas por afro-brasileiros fugitivos ou libertos da escravidão), muitas sem títulos de propriedade oficiais, encontram-se cercadas por monoculturas. A transformação não é apenas física, mas também cultural. Não se trata apenas de carne bovina ou soja, mas de um modelo de crescimento que desmata mais rápido do que a terra consegue se recuperar. Os lucros vão para o exterior, enquanto os danos permanecem, visíveis em rios esgotados, solos degradados e comunidades marginalizadas. Se isso continuar, o Brasil corre o risco de enfraquecer os próprios sistemas que sustentam seu povo e sua economia.

A rodovia BR-319

Poucos projetos simbolizam a encruzilhada da Amazônia de forma tão marcante quanto a  BR-319 . A BR-319 é ​​uma rodovia federal de 885 quilômetros que liga Manaus, capital do Amazonas, a Porto Velho, no extremo sul da floresta. Construída na década de 1970, durante a ditadura militar brasileira, e abandonada no final da década de 1980 devido à dificuldade de manutenção, a rodovia tornou-se o centro de um debate acirrado sobre o futuro da Amazônia. Ela corta uma das áreas mais intocadas da região. Os planos atuais do governo para reconstruí-la e asfaltá-la são apresentados como um impulso para o desenvolvimento regional e a conectividade com o restante do país, mas críticos alertam que a BR-319 pode acarretar consequências ambientais, sociais e de saúde de grande escala. Philip Fearnside, professor pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA),  explicou: “Pavimentar a rodovia BR-319 conectaria a Amazônia central, relativamente preservada, à região da AMACRO – um ponto crítico de desmatamento que recebeu o nome dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Embora a AMACRO seja promovida como uma zona de desenvolvimento sustentável (ZDS), tornou-se um dos principais motores do desmatamento na floresta amazônica.”

Um líder indígena do povo Mura, da região do Lago Capanã Grande, compartilhou suas preocupações sobre o impacto da rodovia em sua aldeia. (Seu nome foi omitido para garantir sua segurança.) Ele  disse : “Gostaria de expressar minha indignação perante todos em relação ao impacto da rodovia BR-319 nas terras indígenas do Lago Capanã. Isso nos traz problemas, manipulação de direitos, violação de nossas áreas tradicionais, ocupação por grileiros, poluição de nossos rios, destruição de nossa natureza. E isso está causando grandes problemas no fluxo de nossos rios. Córregos estão sendo soterrados. Aqui, usamos a água do rio. O resultado dessa estrada será uma porta aberta para a entrada de criminosos, traficantes de drogas e todos os tipos de drogas, como já acontece. A população indígena vive de alimentos da natureza; a população indígena não vive da pecuária. Os povos indígenas vivem de seus objetos tradicionais. Eles vivem da subsistência da natureza e extraem da natureza para sua sobrevivência e para proteger sua própria natureza. Sou contra essa pavimentação.”

A reconstrução da rodovia BR-319 é ​​particularmente perigosa porque incentiva a expansão para além da via principal. Uma rede de estradas secundárias não autorizadas já se ramifica do corredor, abertas por madeireiros, mineradores e grileiros. Assim que a rodovia principal estiver totalmente transitável durante todo o ano, espera-se que essas estradas secundárias cresçam rapidamente em um padrão em “espinha de peixe”, penetrando cada vez mais fundo em florestas que permaneceram praticamente intocadas. Os planos oficiais também incluem rodovias estaduais como a AM-366, AM-360, AM-343 e AM-356, projetadas para conectar a BR-319 a áreas florestais remotas como a região de Trans-Purus, abrindo ainda mais áreas que até agora foram amplamente protegidas da atividade humana em larga escala. Comunidades indígenas e tradicionais estão na linha de frente dessas ameaças. Existem 69 territórios indígenas e dezoito mil indígenas ao longo do trajeto da rodovia. Essas comunidades não foram devidamente consultadas, em violação à Convenção 169 da OIT, que exige o consentimento livre, prévio e informado antes que projetos que afetem terras indígenas sejam iniciados. Para essas comunidades, a rodovia não é apenas um projeto de desenvolvimento: ela ameaça seus meios de subsistência, rios, florestas e sobrevivência cultural.

As consequências ambientais seriam enormes. A Amazônia armazena vastas quantidades de carbono e gera os fluxos de umidade conhecidos como “rios voadores”, que sustentam as chuvas em todo o Brasil e além. A construção de uma rodovia pavimentada e a abertura das estradas secundárias planejadas acelerariam o desmatamento, fragmentariam habitats e liberariam grandes quantidades de carbono, comprometendo a capacidade da floresta de funcionar como um ecossistema estável. Cientistas alertam que a infraestrutura combinada poderia levar a Amazônia a um ponto de inflexão climático irreversível.  Os riscos à saúde já são evidentes e provavelmente aumentarão. A fragmentação da floresta e o aumento da atividade humana ao longo da BR-319 têm sido associados ao aumento de casos de malária, enquanto doenças como a febre de Oropouche têm apresentado surtos na região. A expansão para habitats naturais anteriormente intocados aproxima humanos e animais, aumentando o risco de transmissões zoonóticas, quando patógenos passam de animais para humanos, e criando condições para potenciais novas pandemias. “O desmatamento na floresta amazônica e em outras regiões tropicais aumenta o risco de surgimento de novas doenças humanas, intensificando o contato entre a fauna silvestre da floresta e a população humana e seus animais domésticos. Também contribui para as mudanças climáticas, que podem criar condições favoráveis ​​ao surgimento de infecções parasitárias, fúngicas, virais e bacterianas”, explicou Fearnside.

A BR-319 também atrai o crime organizado, que já está em crescimento na região. A grilagem de terras, a extração ilegal de madeira e a mineração prosperam onde a fiscalização é fraca, e uma rodovia pavimentada com múltiplas estradas secundárias tornaria essas atividades mais fáceis e lucrativas. Em vez de trazer benefícios às comunidades locais, a rodovia corre o risco de disseminar deslocamentos populacionais, violência e destruição ambiental. As decisões tomadas em relação à BR-319 e sua rede de estradas secundárias moldarão não apenas o futuro da Amazônia, mas também a estabilidade climática, a biodiversidade e a saúde humana em todo o Brasil, América do Sul e no resto do planeta nas próximas décadas.

Biocombustíveis

O Brasil há muito se posiciona como pioneiro em biocombustíveis. O etanol de cana-de-açúcar e o biodiesel de soja são apresentados como alternativas de baixo carbono aos combustíveis fósseis. Mudanças recentes nas políticas públicas aceleraram a obrigatoriedade da mistura de combustíveis fósseis e incentivaram a produção, mas por trás dos slogans reside uma realidade complexa. O cultivo em larga escala de cana-de-açúcar, palma de óleo, soja e milho, culturas essenciais para a  produção de biocombustíveis , continua a se expandir para áreas ecologicamente sensíveis. Projetos rotulados como “verdes” ou “limpos” muitas vezes replicam a mesma lógica extrativista que definiu as ondas passadas de crescimento agrícola.

Jorge Ernesto Rodriguez Morales, professor e pesquisador do Departamento de História Econômica e Relações Internacionais da Universidade de Estocolmo,  alerta : “Apesar do seu sucesso, a indústria de biocombustíveis no Brasil se desenvolveu dentro de objetivos mais amplos de desenvolvimento e segurança territorial, muitas vezes exercendo pressão significativa sobre ecossistemas e comunidades em um ambiente institucional que geralmente negligenciava as preocupações socioambientais”. Ele acrescentou: “Essa coevolução insustentável de trajetórias de desenvolvimento e bioenergia – marcada pelo desmatamento, pela colonização de terras e pela expansão agrícola – limitou o espaço de adaptação na agricultura”.

Morales explicou que, assim como a produção de alimentos, o etanol requer terra, água e nutrientes, o que significa que uma expansão em larga escala poderia intensificar os efeitos colaterais negativos do crescimento agrícola. Esses efeitos incluem desafios socioambientais significativos relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como o desmatamento (ODS 15), as emissões de CO2 decorrentes da mudança no uso da terra (ODS 13), as perdas de nitrogênio (ODS 13, 14 e 15), a extração insustentável de água (ODS 14) e os riscos à segurança alimentar (ODS 2), entre outros. Nesse contexto, o boom dos biocombustíveis se assemelha menos a uma solução climática e mais a uma intensificação de conflitos fundiários de longa data e da pressão ecológica. Embora o Brasil produza bilhões de litros de etanol e biodiesel anualmente, a contabilização completa dos impactos climáticos, incluindo as emissões decorrentes da mudança no uso da terra e a intensidade energética do cultivo, mina a alegação de que os biocombustíveis são inerentemente “verdes”.

Créditos de carbono

Créditos de carbono florestais são promovidos para financiar a conservação, permitindo que as empresas compensem as emissões residuais. Projetos de carbono florestal, incluindo os esquemas REDD+ (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), multiplicaram-se na Amazônia. Em teoria, os créditos de carbono poderiam canalizar recursos para a proteção das florestas, criando incentivos econômicos para a manutenção da integridade ecológica. Na prática, a realidade muitas vezes fica aquém do esperado. Críticos argumentam que o sistema atual concede aos poluidores o que equivale a um passe livre para continuar emitindo, enquanto os direitos à terra, a governança e a fiscalização são negligenciados.

A ideia de que a compra  de créditos de carbono permite que uma empresa compense sua poluição enquanto as florestas globais permanecem intactas parece simplista, mas é contestada por acadêmicos, que revelam uma realidade muito mais complexa. Projetos que antes conquistaram reconhecimento internacional, como a iniciativa de conservação liderada pelos indígenas Suruí, ruíram sob a pressão da mineração ilegal e da expansão da pecuária, demonstrando que mesmo compensações bem elaboradas são vulneráveis ​​em ambientes legais e de fiscalização frágeis. Além disso, a permanência do carbono florestal é cada vez mais incerta em um mundo em aquecimento. Secas, incêndios e extração ilegal de madeira ameaçam a integridade dos estoques de carbono que sustentam os esquemas de compensação. Thales AP West, professor assistente titular do Instituto de Estudos Ambientais (IVM) da Universidade Livre de Amsterdã e uma das principais vozes entre os pesquisadores que analisam os mecanismos do mercado de carbono, alertou que, a menos que ocorra uma reforma sistêmica, a negociação de carbono continuará priorizando a conveniência em detrimento da integridade climática. Ele  afirmou : “A menos que haja uma mudança de atitude entre empresas, governos e organizações como a ONU, é provável que o mercado continue priorizando a conveniência em detrimento da integridade.”

Para as comunidades indígenas, os mercados de carbono também podem mercantilizar territórios há muito governados por relações culturais e espirituais. As florestas tornam-se unidades de medida e de comércio, enquanto as questões de direitos territoriais e poder permanecem sem solução.

Bioeconomia

O Brasil promove a  bioeconomia como um caminho para o crescimento sem desmatamento. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva descreveu um futuro em que a Amazônia se torna um centro de negócios sustentáveis, utilizando recursos renováveis ​​em vez de desmatar. Essa ideia se tornou um elemento-chave da estratégia climática do governo, atraindo grandes promessas de investimento e atenção internacional. Mas existe uma crescente discrepância entre o discurso otimista e a realidade. O termo “bioeconomia” tem sido usado para descrever tudo, desde pesquisa biotecnológica e mercados de carbono até grandes plantações de biocombustíveis e mineração, sem regras claras sobre proteção ambiental ou direitos das comunidades locais. Enquanto organizações como a Eco Invest Brasil captam bilhões para projetos “verdes”, críticos temem que a fragilidade das salvaguardas possa permitir que grandes empresas avancem sem a devida participação ou fiscalização local.

Ossi Ollinaho, professor da Universidade de Helsinque, alertou que a promessa de produtos verdes pode ser facilmente subvertida quando os incentivos econômicos ainda favorecem grandes monoculturas em detrimento da biodiversidade. Ele  advertiu : “A extensão desse conceito [de bioeconomia] à Amazônia e a contextos semelhantes de alta sociobiodiversidade acarreta o risco inerente de que ela acabe sendo transformada em celulose e vendida para obter lucro”. Em outras palavras, sem um planejamento cuidadoso, a bioeconomia pode acabar prejudicando as próprias florestas e comunidades que alega proteger.

Uma das questões é que o termo “bioeconomia” está sendo usado de forma ampla para abranger coisas muito diferentes. Colocar plantações industriais e produtos florestais de pequena escala na mesma categoria esconde o fato de que seus impactos são muito distintos. Culturas como soja, óleo de palma, milho e cana-de-açúcar, mesmo quando chamadas de “bioeconômicas”, ainda podem impulsionar mudanças no uso da terra, deslocar pequenos produtores e prejudicar a biodiversidade. O açaí é o exemplo mais conhecido. Antes um alimento básico local, agora é um produto global que vale mais de US$ 1 bilhão. Muitas vezes é usado como prova de que a bioeconomia funciona, mas a crescente demanda mudou a forma como é cultivado e colhido, remodelando partes da floresta e criando novas pressões sobre as pessoas que vivem ali há gerações. O que antes era visto como trabalho sustentável e comunitário agora faz parte de um sistema comercial maior que nem sempre beneficia aqueles que dependem da floresta.

Líderes indígenas e comunidades locais apontam que sempre viveram em harmonia com os recursos da floresta e dependeram deles. Castanha-do-pará, açaí e outros produtos fazem parte de suas economias há séculos. O que mudou foi a escala e o tipo de dinheiro externo que chega à região. Grandes iniciativas como a Amazônia 4.0, promovidas como caminhos de alta tecnologia para uma bioeconomia moderna, correm o risco de repetir os mesmos padrões de extração e desigualdade que há muito caracterizam a região.

Sem direitos fundiários seguros e poder de decisão para as populações locais, existe um temor real de biopirataria: empresas utilizando conhecimentos tradicionais e recursos genéticos sem justa compensação. O Brasil tem a oportunidade de modelar um tipo de crescimento econômico que realmente apoie tanto as pessoas quanto a natureza. Mas se as políticas permanecerem vagas e as salvaguardas forem frágeis, a bioeconomia poderá acabar sendo pouco mais do que um novo rótulo para padrões de extração já conhecidos. 

Petróleo e gás

Embora o Brasil se posicione como líder climático no cenário global, o país continua expandindo a exploração de petróleo e gás em um ritmo alarmante. Em junho de 2025, pouco antes da COP30, a Agência Nacional do Petróleo e Gás Natural (ANP) anunciou um leilão para direitos de exploração de 172 blocos de petróleo e gás, a maioria em alto-mar, incluindo 47 blocos na bacia amazônica. Essa medida evidencia uma crescente tensão entre os compromissos climáticos e o desenvolvimento contínuo de combustíveis fósseis. A Petrobras já perfura poços na margem equatorial da Amazônia, a apenas 500 km do rio Amazonas. Trata-se de um ecossistema extremamente sensível, lar de recifes de coral e manguezais. Já foram relatados vazamentos de petróleo na região. 

Segundo a Amazônia Real, a exploração planejada na foz do rio ameaça afetar diretamente diversas comunidades indígenas no estado do Amapá. Entre as mais vulneráveis ​​estão os povos Karipuna, Palikur-Arukwayene, Galibi Marworno e Galibi Kali’na, que vivem em três territórios indígenas oficialmente reconhecidos: Uaçá, Juminã e Galibi. Juntos, esses territórios abrangem aproximadamente 518.454 hectares e abrigam cerca de 13.000 pessoas em 56 aldeias, uma região que depende fortemente da floresta e dos cursos d’água para sobreviver.

Mais a oeste, na Amazônia, a Rosneft, empresa estatal russa de petróleo e gás, detém direitos de perfuração em vários blocos na bacia sedimentar do Solimões, perto do rio Purus, trajeto da futura rodovia BR-319. Essa área remota e em grande parte intacta da floresta tropical permanece notavelmente preservada, com ecossistemas e comunidades locais altamente dependentes das terras e rios circundantes. As preocupações ambientais são urgentes, pois novas estradas e infraestrutura podem abrir essas áreas isoladas para atividades industriais, pressionando a floresta por meio do desmatamento, da fragmentação do habitat e da extração de combustíveis fósseis em uma das regiões ecologicamente mais sensíveis da Amazônia.

Em 2025, o Brasil avançou ainda mais na expansão da produção de combustíveis fósseis, com uma produção diária de petróleo e gás natural de pouco menos de 4,9 milhões de barris de óleo equivalente, representando um aumento de 13,3% em relação ao ano anterior. A produção de petróleo, por si só, responde por cerca de 3,7 milhões de barris por dia, dos quais mais da metade é exportada, vinculando a expansão brasileira diretamente à demanda global de energia. As consequências são claras e urgentes. O aumento  da produção de combustíveis fósseis eleva as emissões, intensificando os impactos climáticos já visíveis por meio de tempestades mais fortes, ondas de calor, inundações e perda de ecossistemas. Cada atraso na redução da dependência de combustíveis fósseis agrava os riscos futuros, e a janela para evitar os desfechos mais catastróficos está se fechando rapidamente.

Energia hidrelétrica

A energia hidrelétrica fornece mais de 50% da eletricidade do Brasil e é frequentemente celebrada como uma conquista nacional. Grandes barragens são promovidas como uma fonte de energia limpa, mas os custos sociais e ecológicos contam uma história muito mais dura. Em toda a bacia amazônica,  barragens inundaram vastas áreas de floresta, deslocaram milhares de comunidades indígenas e ribeirinhas e interromperam o fluxo dos rios dos quais essas comunidades dependem para obter alimentos como peixes. Elas desencadearam desmatamento e poluição generalizados e, ironicamente, contribuíram para as emissões de gases de efeito estufa, incluindo metano e dióxido de carbono. A chegada de trabalhadores aos canteiros de obras das barragens muitas vezes impulsiona a urbanização acelerada, sobrecarregando a infraestrutura local e alimentando o aumento da violência, da criminalidade e dos problemas de saúde física e mental. Os efeitos deixam cicatrizes profundas e duradouras em comunidades que já lutam para sobreviver.

Um exemplo marcante é o  complexo hidrelétrico de Belo Monte, no estado do Pará. Sua construção deslocou à força cerca de 40 mil pessoas, incluindo comunidades ribeirinhas e um quarto da população de Altamira, realocando-as para assentamentos remotos na periferia da cidade. Igor Cavallini Johansen, professor do Departamento de Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), explicou: “Precisamos lidar com as persistentes desigualdades criadas pelas grandes barragens hidrelétricas – tanto na região de Altamira quanto em toda a bacia amazônica. Esse legado de desenvolvimento desigual, em que as comunidades locais arcam com os custos ambientais e sociais enquanto centros urbanos distantes colhem os benefícios energéticos, exige uma reparação urgente.”

Para Maria Francineide Ferreira dos Santos, Belo Monte levou mais do que sua casa. Levou seu paraíso. Morando em Paratizinho, ela se manifestou contra a destruição, apenas para ser forçada a ir para a cidade. Mesmo assim, ela nunca parou de lutar. Hoje, ela vive na Volta Grande do Xingu, não apenas como sobrevivente, mas como uma ferrenha protetora do rio e de seu povo. Ela  disse : “Todos os impactos que sofremos são irreparáveis. O primeiro impacto foi o maior crime que Belo Monte cometeu no Xingu, a morte dos peixes e o deslocamento de seu povo, que nasceu e cresceu nesta região, que vivia nas ilhas, sem direitos, sem ser ouvido, sem respeito, tendo suas casas arrancadas e queimadas, violando nossos direitos.”

Outro impacto foi ver nosso povo, que não entendia nada, perder suas casas, sendo transferido para a cidade onde os preços dos terrenos eram exorbitantes, sem nos dar as condições para sobreviver. O governo faz o que quer. Esta tem sido uma luta perdida. Nenhuma justiça foi feita.” Rodolfo Salm, ecologista, ativista e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), que mora em Altamira, descreveu as consequências mais amplas do projeto: “O projeto hidrelétrico de Belo Monte é um claro exemplo de fracasso ambiental, social e econômico. Longe de trazer prosperidade, o projeto deixou a região economicamente fragilizada e ambientalmente danificada. A produção de energia em Belo Monte é instável, com o Rio Xingu apresentando níveis muito baixos durante a maior parte do ano, uma falha que já era conhecida antes mesmo do início da construção.”

Johansen destacou os danos irreversíveis causados ​​por barragens hidrelétricas em áreas de alta biodiversidade como a Amazônia: “Em primeiro lugar, esses projetos causam danos ecológicos irreversíveis – inundando vastas áreas de floresta tropical intocada, destruindo habitats únicos e potencialmente levando à extinção de espécies. Igualmente preocupante é o padrão consistente de violações dos direitos humanos. Comunidades indígenas e tradicionais enfrentam repetidamente o deslocamento sem consulta adequada ou compensação justa, como demonstrado de forma contundente pelo projeto Belo Monte. O cálculo climático para barragens tropicais também se mostrou falho. Em vez de serem soluções de energia limpa, seus reservatórios se tornam fábricas de metano à medida que a vegetação submersa se decompõe. Isso questiona a própria lógica de priorizar a energia hidrelétrica em regiões de floresta tropical. Talvez a lição mais crucial seja que não podemos mais justificar o sacrifício da riqueza ecológica e cultural da Amazônia por ganhos energéticos questionáveis. As evidências mostram claramente que, em áreas de alta biodiversidade, os custos de grandes barragens quase sempre superam os benefícios – uma realidade que exige uma mudança fundamental na política energética.” Apesar disso, as propostas para novas barragens continuam, frequentemente defendidas como essenciais para a segurança energética e o desenvolvimento industrial.

O campo de batalha legislativo

A expansão da infraestrutura e do agronegócio cresce nas regiões da Amazônia e do Cerrado, em paralelo a  propostas legislativas controversas . O controverso  Marco Temporal , um argumento jurídico que afirma que os povos indígenas têm direito apenas às terras que ocupavam fisicamente em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição brasileira, tem sido alvo de intenso debate. Organizações indígenas argumentam que isso ignora os deslocamentos forçados ocorridos durante a ditadura e períodos anteriores. Essa lei poderia prejudicar as reivindicações de territórios não formalmente demarcados até 1988, abrindo-os para exploração. Os territórios indígenas permanecem entre as barreiras mais eficazes contra o desmatamento e a degradação florestal. Estudos demonstram consistentemente menores taxas de perda florestal dentro de terras indígenas demarcadas em comparação com as áreas circundantes.

Enquanto isso, a Lei de Devastação (15.190/2025), que entrou em vigor em fevereiro deste ano, introduz um sistema de autolicenciamento. As empresas agora podem obter licenças ambientais preenchendo formulários online, dispensando os estudos de impacto ambiental. Anteriormente, o licenciamento podia levar de cinco a sete anos, mas agora pode ser concluído em apenas 12 meses. Isso facilitará projetos de infraestrutura de grande escala, como a reconstrução da rodovia BR-319, mineração, petróleo e gás e barragens. Essa lei também isenta de licenciamento 13 categorias de atividades, que vão desde a manutenção de estradas até o agronegócio. Especialistas em direito ambiental alertam que o enfraquecimento do licenciamento em um momento de expansão da infraestrutura pode exacerbar o desmatamento e a degradação, além de aumentar a poluição e os conflitos sociais. É fundamental destacar que pelo menos 40% das terras indígenas reconhecidas pelo Estado brasileiro estarão expostas ao desenvolvimento industrial, ao desmatamento e à mineração ilegal.

Para piorar a situação, a Moratória da Soja na Amazônia (MSA), de 2006, que impediu empresas de comprarem soja cultivada em áreas recém-desmatadas da Amazônia, está sendo enfraquecida à medida que as principais associações do setor de soja no Brasil, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE) e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC), retiram seu apoio à medida. Essas associações representam grandes empresas globais do setor, como Cargill, Bunge, ADM, Louis Dreyfus e COFCO, cujas decisões de compra influenciam fortemente a proteção das florestas. Grupos ambientalistas alertam que, se o acordo ruir, poderá levar a mais desmatamento e violação dos direitos indígenas, enquanto alguns supermercados do Reino Unido e da Europa, incluindo Tesco, Sainsbury’s, Asda, Lidl, Audi, Ocado e Waitrose, pressionam as empresas a manterem regras rígidas de fornecimento sem desmatamento.

Ação coletiva

O Brasil se encontra em um momento decisivo. De um lado, promessas de acabar com o desmatamento ilegal, de proteger o que resta da floresta, de agir em nome do clima. Do outro, poderosos interesses pressionam por mais gado, mais soja, mais mineração, mais estradas que cortam terras ancestrais. A linguagem da proteção é forte, mas a máquina da expansão é ainda mais. O que acontece em Brasília não ficará em Brasília. A fumaça que sobe da Amazônia não para nas fronteiras nacionais: torna-se parte do mesmo ar que todos respiramos. A pressão para desmatar não começa com uma motosserra: começa com a demanda global. O bife servido em Xangai, a soja usada para alimentar o gado na Europa, os minerais dentro dos celulares na Califórnia, a madeira usada para construir hotéis de luxo nos EUA, tudo está ligado de alguma forma ao que acontece nessas florestas. Empréstimos assinados em centros financeiros distantes da orla da floresta. Podemos viver a milhares de quilômetros de distância, mas nossas economias e nosso consumo estão intimamente ligados ao mesmo tecido. A floresta não está caindo isoladamente. Está sendo desmantelado por um sistema global que recompensa a extração e chama isso de progresso. Mas essa história ainda não terminou.

Existem escolhas que poderiam desviar a trajetória da destruição. Proteções mais rigorosas para a soja, compromissos reais de desmatamento zero que signifiquem algo na prática, e não apenas no papel. Projetos de infraestrutura recusados ​​quando ameaçam florestas intactas, leis ambientais aplicadas com a devida seriedade, porque de fato importam. Territórios indígenas reconhecidos e protegidos, não atrasados ​​ou contestados. Inúmeras vezes, as evidências mostram que onde os povos indígenas têm direitos territoriais seguros, a floresta permanece. Mas nem mesmo as melhores políticas nacionais, sozinhas, conseguirão deter o aquecimento global. A menos que o uso de combustíveis fósseis diminua drasticamente e rapidamente, a seca e os incêndios se intensificarão, e a Amazônia e o Cerrado secarão de dentro para fora. Há um ponto de inflexão além do qual a floresta não poderá se recuperar e, uma vez ultrapassado, nenhuma promessa ou cúpula a trará de volta.

A Amazônia e o Cerrado não são “recursos”. São sistemas vivos e pulsantes, vastas comunidades de água, solo, plantas, animais e pessoas, interligadas de maneiras que só agora começamos a compreender. Armazenam carbono, sim, mas também guardam histórias, línguas, remédios, canções. Regulam as chuvas que alimentam as plantações em toda a América do Sul, refrescam um planeta que está em crise. Protegê-los exige mais do que discursos eloquentes. Exige coragem política, ciência que seja ouvida e um profundo respeito pelas comunidades indígenas e tradicionais que defendem essas terras há gerações, muitas vezes correndo grandes riscos pessoais. Exige confrontar a incômoda verdade de que a expansão econômica desenfreada em um planeta finito é uma contradição.

Se falharmos, as consequências serão sentidas em colheitas perdidas e aumento dos preços dos alimentos, na escassez de água, em migrações forçadas, em conflitos por recursos cada vez mais escassos, em culturas e espécies perdidas para sempre. O desmantelamento desses ecossistemas não seria uma tragédia apenas do Brasil. Seria um acerto de contas global. No fim das contas, a Amazônia e o Cerrado são mais do que debates políticos ou slogans de campanha: são uma medida de quem escolhemos ser. Continuaremos trilhando um caminho onde o lucro a curto prazo se sobrepõe aos direitos humanos e à sanidade ecológica? Ou trilharemos um caminho diferente, moldado pela cooperação, justiça e humildade perante o mundo vivo? A janela está se fechando. As decisões tomadas agora reverberarão por gerações. E um dia, a história perguntará se defendemos a floresta quando ainda tínhamos a chance, ou se assistimos à sua queima e a consideramos inevitável.

 

Monica é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para  o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma,  YourVoiz.org .


Fonte: The Ecologist

Secas mais longas e mudanças nas chuvas já ocorrem na Amazônia, apontam pesquisas

Liderados por cientistas do Inpe, estudos recém-publicados indicam prolongamento de quatro para até seis meses da estação seca, com aumento de déficit hídrico em mais de 150 milímetros; trabalhos são alerta para 2026 e 2027, quando há previsão de “super El Niño”

Por Luciana Constantino para Agência FAPESP 

A Amazônia brasileira já começa a registrar cenários até então projetados para as próximas décadas, com estações secas mais longas e alteração no padrão de chuvas, apontam dois estudos recém-publicados liderados por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O quadro pode se intensificar rapidamente, elevando riscos à biodiversidade, ao reabastecimento de reservatórios naturais de água e ao funcionamento da floresta se não houver políticas integradas e iniciativas de combate às mudanças climáticas.

Os trabalhos, baseados em modelos climáticos que incorporam a dinâmica regional, também funcionam como um alerta para este ano e o próximo, quando há a possibilidade de um “super El Niño”. Caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial, o fenômeno pode, em sua versão mais intensa, elevar a temperatura em mais de 2 °C acima da média, provocando grandes alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.

O resultado de uma das pesquisas indica prolongamento da estação seca na Amazônia de quatro para até seis meses, com aumento de déficit hídrico superando -150 milímetros (mm) no período. Publicado no International Journal of Climatology, o artigo aponta maior instabilidade climática e mais eventos extremos fora do padrão sazonal, além de crescimento da degradação da floresta associada ao fogo.

outro trabalho, que está na edição de março da Perspectives in Ecology and Conservation, analisa a seca registrada entre 2023 e 2024 na Amazônia, período em que o Brasil também foi fortemente afetado pelo El Niño. Os achados mostram um crescimento médio de 9% nas áreas queimadas e 19% nos alertas de degradação florestal, com até 4,2 milhões de hectares impactados por fogo no pico da seca. Evidenciam, assim, que o ciclo seca-fogo-degradação está se fortalecendo, reduzindo a capacidade do ecossistema de se restabelecer.

“Há alguns anos, quando começamos a discutir cenários climáticos para a Amazônia, muitas vezes esse futuro era visto como algo distante nas conjunturas mais pessimistas. Porém, estamos observando que os extremos de anomalia mais pessimistas estão acontecendo no presente. Quando comparamos os dados de hoje com as projeções, vemos o quão crítica vai ficando essa situação à medida que incluímos cenários pessimistas na análise climática”, resume a engenheira ambiental e sanitarista Débora Dutra, doutoranda em sensoriamento remoto no Inpe e primeira autora dos dois artigos.

A bióloga Liana Anderson, orientadora de Dutra e pesquisadora no Inpe, destaca o papel dos cientistas diante da dissonância entre as evidências científicas dos impactos das mudanças climáticas nos ecossistemas e as respostas para a sua mitigação e contenção.

“Estamos em um momento crucial, com metas nacionais e internacionais a cumprir até 2030. Se colocarmos os esforços nessa direção, temos condição de atingi-las. É preciso pensar na conexão entre meio ambiente, desenvolvimento e economia como uma tríade indissociável, seja pelo lado da exploração ou pelo preço a ser pago pela reconstrução após os impactos. Acho que essa crise climática abre oportunidade de repensarmos caminhos e como acelerar iniciativas sustentáveis, que busquem qualidade de vida, justiça social e ambiental. Existe mobilização da comunidade científica para contribuir e mostrar alternativas. A questão é quem está disposto a escutar o que vem sendo estudado ao longo das últimas décadas”, complementa Anderson, que lidera o laboratório TREES (sigla para TRopical Ecosystems and Environmental Sciences) ao lado do pesquisador Luiz Aragão, também um dos autores dos artigos.

Construindo modelos

Na pesquisa publicada no International Journal of Climatology, os cientistas utilizaram uma métrica que vem sendo trabalhada por Aragão desde 2007 – o máximo déficit hídrico acumulado (MCWD, na sigla em inglês), considerado um indicador-chave de estresse hídrico nos ecossistemas tropicais –, aliada a dados da fase seis do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, que fornece uma estrutura padronizada para a modelagem climática alinhada às avaliações dos Caminhos Socioeconômicos Compartilhados (SSPs) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas.

O estudo foi conduzido no sudoeste da Amazônia, abrangendo o Acre e parte dos Estados do Amazonas e de Rondônia. Abrigando áreas com mais de 90% de cobertura florestal, a região está sob forte pressão de desmatamento.

Os resultados mostram que, em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, há uma intensificação dos déficits hídricos durante a estação seca na Amazônia, sobretudo na porção sudoeste da floresta. As projeções indicam estações secas mais longas e intensas, com aumento do estresse hídrico entre junho e setembro e déficits que podem ultrapassar -21 mm/mês até o fim do século no cenário mais pessimista.

Esse agravamento tende a produzir impactos diretos sobre a floresta, com maior mortalidade de árvores, degradação florestal e perda de biodiversidade, além da redução da capacidade da Amazônia de atuar como sumidouro de carbono, reforçando um ciclo de retroalimentação entre degradação e aquecimento global.

Para aprimorar as projeções futuras e as avaliações de risco climático na região, os pesquisadores sugerem, entre outros pontos, a adoção de análises integradas que incorporem mudanças no uso da terra, anomalias na circulação atmosférica e interações entre incêndios e secas.

Na pesquisa que analisou a seca extrema de 2023 e 2024, o grupo mapeou e quantificou o estresse hídrico, a degradação florestal e a dinâmica do fogo, identificando implicações para a gestão ambiental. O estudo chegou à conclusão de que a seca intensificou a interação entre déficit hídrico, incêndios e degradação, com o fogo cada vez mais associado à debilitação da floresta em pé, e não apenas ao desmatamento. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo.

De acordo com o trabalho, os resultados destacam a necessidade de uma governança integrada do fogo, reunindo indicadores climáticos aos sistemas de alerta, fortalecendo a coordenação institucional e incorporando a degradação florestal nas estratégias de mitigação e adaptação.

Costurando ciência e iniciativas práticas

Sob a coordenação de Anderson, Dutra vem estudando há alguns anos os impactos do fogo na floresta amazônica e publicou um artigo sobre queimadas no município de Boca do Acre, no Amazonas (leia mais em: agencia.fapesp.br/40757).

Desde o ano passado, as pesquisadoras integram a iniciativa “Fogo em Foco”, uma parceria entre forças operacionais de combate e prevenção de fogo (como o Corpo de Bombeiros Militar de diversos Estados) e instituições de pesquisa. Para marcar o lançamento do programa, o laboratório TREES, a Rede Brasa de pesquisa e a Liga dos Corpos de Bombeiros Militares realizaram um evento em outubro com a divulgação do relatório “Fogo em Foco 2024-2025” e do artigo internacional “State of Wildfires 2024-2025”.

Segundo Anderson, em abril foi autorizada a continuidade desse trabalho conjunto com os bombeiros para 2026. “Essa aproximação é uma forma de aliar o que a ciência consegue entregar com a realidade de quem atua na ponta, tanto em estratégias de prevenção quanto de combate. Tentamos costurar ciência e ações na sociedade. Mas ainda há um ponto em que precisamos avançar, que é a magnitude do impacto econômico e o quanto isso significa para o desenvolvimento do país”, diz a pesquisadora.

Por isso, Dutra decidiu mergulhar no tema e vai trabalhar em sua tese de doutorado com dados sobre o potencial das perdas econômicas derivadas do fogo, discutindo não só questões florestais, mas também saúde e impactos sociais.

Ela recebe bolsa da FAPESP, que também apoiou os dois artigos por meio de outros cinco projetos – 21/04019-4, 20/08916-8, 25/28244-8 e 25/07124-4, incluindo o Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI).

Os artigos Dry-season water deficits in the Southwestern Amazon under high emissions e Intensification of drought-associated wildfires challenges actions for Amazonia’s sustainable development podem ser lidos, respectivamente, em: rmets.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/joc.70331 e sciencedirect.com/science/article/pii/S2530064426000295.


Fonte: Agência Fapesp
 

AMOC tem uma probabilidade significativamente maior de colapsar do que se pensava e ameaça o clima da Terra

Cientistas afirmam que a descoberta é “muito preocupante”, pois um colapso seria catastrófico para a Europa, África e Américas

A circulação meridional de inversão do Atlântico é uma parte fundamental do sistema climático global e sabe-se que está no seu ponto mais fraco em 1.600 anos como resultado da crise climática. Fotografia: Henrik Egede-Lassen/Zoomedia/PA

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente, para  “The Guardian” 

O sistema crítico de correntes do Atlântico parece estar significativamente mais propenso a colapsar do que se pensava anteriormente, após uma nova pesquisa constatar que os modelos climáticos que preveem a maior desaceleração são os mais realistas. Os cientistas classificaram a nova descoberta como “muito preocupante”, pois um colapso teria consequências catastróficas para a Europa, África e Américas.

A Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (Amoc) é uma parte fundamental do sistema climático global e já se sabia que estava em seu ponto mais fraco em 1.600 anos como resultado da crise climática. Cientistas detectaram sinais de alerta de um ponto de inflexão em 2021 e sabem que a Amoc já entrou em colapso no passado da Terra.

Os cientistas do clima utilizam dezenas de modelos computacionais diferentes para avaliar o clima futuro. No entanto, para o complexo sistema AmOC, esses modelos produzem resultados bastante variáveis, desde alguns que indicam que não haverá desaceleração adicional até 2100 até outros que sugerem uma enorme desaceleração de cerca de 65%, mesmo quando as emissões de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis forem gradualmente reduzidas a zero.

A pesquisa combinou observações oceânicas do mundo real com modelos para determinar o mais confiável, o que reduziu enormemente a dispersão da incerteza. Eles encontraram uma desaceleração estimada de 42% a 58% em 1100, um nível que quase certamente levará ao colapso.

A Corrente de Midlands (AMOC) é uma parte fundamental do sistema climático global, transportando água tropical aquecida pelo sol para a Europa e o Ártico, onde ela esfria e afunda, formando uma profunda corrente de retorno. Um colapso dessa corrente alteraria a faixa de chuvas tropicais da qual milhões de pessoas dependem para cultivar seus alimentos, mergulharia a Europa Ocidental em invernos extremamente frios e secas de verão, e aumentaria o nível do mar em 50 a 100 cm no Atlântico.

O Dr. Valentin Portmann, do Centro de Pesquisa Inria Bordeaux Sud-Ouest, na França, e que liderou a nova pesquisa, disse: “Descobrimos que a AMOC vai diminuir mais do que o esperado em comparação com a média de todos os modelos climáticos. Isso significa que temos uma AMOC mais próxima de um ponto de inflexão.”

O professor Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha, afirmou: “Este é um resultado importante e muito preocupante. Ele demonstra que os modelos ‘pessimistas’, que preveem um forte enfraquecimento da AMOC até 2100, são, infelizmente, os mais realistas, pois concordam melhor com os dados observacionais.”

Ele acrescentou: “Estou cada vez mais preocupado com a possibilidade de ultrapassarmos o ponto de inflexão do encerramento da Amoc, que se torna inevitável, em meados deste século, o que está bastante próximo.”

Rahmstorf, que estuda a AMOC há 35 anos, afirmou que um colapso deve ser evitado “a todo custo” . “Eu defendi isso quando pensávamos que a chance de um colapso da AMOC era de talvez 5%, e mesmo assim dizíamos que esse risco era muito alto, dados os impactos massivos. Agora parece que é mais de 50%. As mudanças climáticas mais dramáticas e drásticas que vimos nos últimos 100.000 anos da história da Terra ocorreram quando a AMOC mudou de estado.”

A Circulação Meridional de Revolvimento do Ártico (AMOC) está desacelerando porque as temperaturas do ar estão subindo rapidamente no Ártico devido ao aquecimento global. Isso significa que o oceano esfria mais lentamente nessa região. A água mais quente é menos densa e, portanto, afunda mais lentamente nas profundezas. Essa desaceleração permite que mais água da chuva se acumule nas águas superficiais salgadas, tornando-as também menos densas e retardando ainda mais o afundamento, formando um ciclo de retroalimentação da AMOC.

O sistema Amoc é extremamente complexo e sujeito a variações naturais aleatórias, o que torna impossíveis previsões precisas. No entanto, os cientistas preveem agora um enfraquecimento significativo, o que por si só poderá ter impactos graves nas próximas décadas.

A nova pesquisa, publicada na revista Science Advances , explorou quatro maneiras diferentes de usar observações do mundo real para avaliar os modelos. Os pesquisadores descobriram que um método chamado regressão de crista, pouco utilizado na ciência climática até então, apresentou os melhores resultados.

A Amoc é difícil de modelar porque é regida por diferenças sutis na densidade da água causadas por mudanças na salinidade em todo o Atlântico. A redução da incerteza na nova análise resulta da identificação dos modelos que melhor refletem a salinidade da superfície no Atlântico Sul, algo que os cientistas já sabiam ser importante. Isso torna o trabalho “muito confiável”, disse Rahmstorf.

Rahmstorf afirmou que a desaceleração da Amoc em 2100 pode ser ainda maior do que na nova avaliação pessimista. Isso ocorre porque os modelos computacionais não incluem a água do degelo da calota polar da Groenlândia , que também está contribuindo para o aumento da salinidade das águas oceânicas: “Esse é um fator adicional que significa que a realidade provavelmente é ainda pior.”


Fonte: The Guardian

Autoria, Responsabilidade e a Erosão das Publicações Científicas

Personagens de fantasia, incluindo uma bruxa, um pirata, um robô, um fantasma, um goblin e um zumbi, reunidos em torno de uma mesa assinando documentos em um estande de inscrição de autores de artigos científicos.

Por Tim Hardman para “Niche Science&Technology” 

Comecei minha carreira como cientista júnior na década de 1980, no que poderia ser chamado de crepúsculo da era da ciência cavalheiresca, onde a investigação acadêmica era menos uma ocupação formal do que uma identidade social, enraizada em privilégio, curiosidade e um senso de dever intelectual. A pesquisa era mais lenta, mais manual e, muitas vezes, profundamente pessoal em sua apropriação intelectual. A autoria em publicações não refletia a contribuição. Meu papel era gerar dados, repetir experimentos e lidar com as falhas. O reconhecimento acadêmico (ou seja, a autoria) era reservado para aqueles que estavam em posições mais elevadas na hierarquia acadêmica.

À medida que fui progredindo em funções de coordenação de pesquisa laboratorial, a dinâmica tornou-se mais complexa em vez de mais equitativa. A colaboração era incentivada, mas vinha acompanhada de expectativas implícitas. Figuras clínicas seniores, por vezes com envolvimento apenas marginal, eram rotineiramente incluídas como autoras. A sua presença nos manuscritos refletia influência e posição na rede tanto quanto contribuição intelectual. Este padrão não era anómalo; era estrutural.

Meu trabalho subsequente em comunicação médica revelou uma camada adicional. A prática de escrever manuscritos em nome de terceiros evidenciou como alguns médicos podiam se tornar autores hiperprolíficos, com taxas de publicação implausíveis (sem apoio substancial e invisível). Isso ocorreu antes da ampla adoção de estruturas de transparência, como as promovidas pelas Boas Práticas de Publicação (Good Publication Practice ). A divulgação era limitada e a distinção entre quem escrevia e quem recebia os créditos era frequentemente obscura.

Olhando para trás, essas experiências refletem não práticas isoladas, mas uma manifestação inicial de uma mudança mais ampla, da ciência artesanal e individualmente atribuível para um modelo de produção de conhecimento mais distribuído e industrial.

Ciência Industrial e a Inflação da Autoria

A transição para o que poderíamos chamar de “ciência industrial” foi impulsionada pela digitalização, pela colaboração global e pela intensificação da competição. As pesquisas de ponta agora são conduzidas em redes, em vez de em laboratórios isolados. Embora isso tenha possibilitado avanços notáveis, também alterou fundamentalmente o significado de autoria.

Evidências empíricas demonstram um aumento consistente no número de autores por artigo em diversas disciplinas. Análises mostraram que a pesquisa em equipe passou a dominar a produção de conhecimento, com o trabalho colaborativo associado a resultados de maior impacto [1]. Observamos uma expansão constante do tamanho das equipes e sua correlação com o impacto das citações em diversas áreas [2]. Esse crescimento não se restringe a domínios específicos, mas é generalizado em toda a ciência moderna.

Os manuscritos também se tornaram mais longos, citando cada vez mais referências e apresentando resumos cada vez mais elaborados — características que podem sinalizar complexidade, mas não necessariamente clareza ou originalidade. Em resposta, o  Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas  tentou definir a autoria citando qualificações como contribuição intelectual substancial e responsabilidade. No entanto, a aplicação prática desses critérios é frequentemente inconsistente.

Os principais fatores que impulsionam a inflação da autoria incluem:

  • Especialização crescente que exige conhecimentos diversificados.
  • Pressão para incluir figuras importantes em troca de financiamento ou prestígio.
  • Colaborações globais onde a contribuição é difícil de quantificar.
  • Preferências de periódicos para submissões com múltiplos autores e múltiplas instituições

O aumento da autoria hiperprolífica complica ainda mais o cenário. Observadores identificaram um subconjunto de pesquisadores produzindo artigos em taxas extraordinárias, às vezes ultrapassando uma publicação a cada poucos dias [3]. Tal produtividade, em nenhum mundo sensato, reflete um envolvimento profundo com projetos individuais, mas sim aponta para um sistema no qual a autoria pode ser distribuída estrategicamente entre múltiplas colaborações.

A autoria de cortesia, em que indivíduos são incluídos apesar de sua contribuição limitada, continua sendo um problema persistente. Uma análise de dados de seis periódicos médicos de alto impacto revelou que 21% dos artigos continham autores honorários, enquanto 11% tinham autores fantasmas [4]. Outros autores relataram números semelhantes, observando que muitos autores honorários não revisaram o manuscrito final nem assumiram a responsabilidade por seu conteúdo [5]. Essas práticas não são meramente lapsos éticos, mas adaptações a um ambiente em que a autoria funciona tanto como moeda de troca quanto como credencial.

Um caso notório

O escândalo Merck/Vioxx (2008) revelou que a gigante farmacêutica havia redigido dezenas de estudos de pesquisa e artigos de revisão, recrutando em seguida médicos acadêmicos renomados para incluírem seus nomes como autores. Documentos internos mostraram um rascunho com o campo do autor principal marcado como “Autor externo?” — um espaço reservado para um pesquisador proeminente ainda não recrutado. Essa prática de autoria fantasma enganou os leitores e ocultou conflitos de interesse por anos.

Métricas, esforço e os limites do sistema de publicação

A inflação da autoria tem implicações significativas para a forma como a contribuição científica é medida e valorizada. Bibliometrias como o índice h e o impacto de citação ponderado por área dependem da autoria como um indicador da contribuição intelectual [6]. Quando a autoria se torna diluída, essas métricas correm o risco de representar de forma distorcida tanto a produtividade quanto a influência.

Essa distorção é particularmente problemática na avaliação da contribuição acadêmica, onde as decisões de contratação, promoção e financiamento estão intimamente ligadas aos registros de publicação. Moher et al. (2018) argumentaram que as práticas de avaliação atuais enfatizam excessivamente as métricas quantitativas em detrimento da avaliação qualitativa da contribuição [7]. Nesses casos, o incentivo não é apenas publicar, mas ser visto como alguém que publica, de preferência com frequência e em grande escala.

No entanto, a realidade vivida do trabalho científico permanece teimosamente resistente a tal simplificação. A experimentação continua lenta, iterativa e frequentemente malsucedida. Envolve extensa leitura prévia, experimentação repetida e o acúmulo de dados que podem nunca ser publicados. O caminho do conceito ao manuscrito raramente é linear e muitas vezes se estende muito além do horário de trabalho formal e dos esforços dos autores principais.

Diante dessas demandas, alguns pesquisadores adotam uma estratégia de engajamento distribuído, participando minimamente de múltiplos projetos para garantir um fluxo contínuo de publicações. Embora racional dentro do sistema atual, essa abordagem enfraquece ainda mais o vínculo entre esforço e autoria. Agora temos o movimento de ‘contribuição’ (taxonomia CRediT; [8]), mas não há como definir onde se encontra o limite para inclusão em projetos individuais (veja nosso recente Insider’s Insight sobre as regras de autoria: [9]).

O sistema de periódicos agrava esses desafios. A revisão por pares, embora fundamental para a garantia da qualidade, é altamente variável. Os revisores diferem em especialização, rigor e intenção. Alguns oferecem orientação construtiva; outros se concentram em identificar motivos para rejeição. Atrasos são comuns, com manuscritos frequentemente levando meses ou anos para serem publicados.

Frustrações comuns com o sistema atual:

  • Resenhistas que rejeitam sem apresentar uma crítica substancial
  • Atrasos de 6 a 12 meses entre a submissão e a decisão.
  • Conservadorismo que privilegia a ciência incremental em detrimento da ciência inovadora.
  • Falta de reconhecimento dos próprios revisores pares [10]

Existe também um conservadorismo generalizado dentro do sistema. Trabalhos inovadores ou especulativos podem ter dificuldades em obter aceitação, uma vez que revisores e editores privilegiam avanços incrementais que se alinhem com paradigmas estabelecidos. Alguns argumentam que certos aspectos do ecossistema de pesquisa podem ser fundamentalmente falhos, com vieses sistêmicos que afetam o que é publicado e como é avaliado [11]. Para os autores, o processo pode parecer menos um caminho para a disseminação e mais uma negociação prolongada com um sistema opaco e, por vezes, resistente.

Reflexão e Futuro: Propriedade, Significado e o Ponto de Inflexão da IA

Em sua essência, a questão da autoria não é meramente processual, mas filosófica. Na era da ciência artesanal, a autoria implicava propriedade — uma clara associação entre o intelecto individual e a obra publicada. Na era da ciência industrial, essa associação tornou-se difusa. O conhecimento é produzido coletivamente, frequentemente por equipes grandes e geograficamente dispersas. A autoria, nesse contexto, pode refletir participação em vez de propriedade.

Isso levanta questões fundamentais. A quem pertence o conhecimento gerado por grandes colaborações? A autoria ainda significa contribuição intelectual ou tornou-se uma forma de moeda acadêmica? Se for a segunda opção, a erosão de seu significado tem implicações não apenas para as carreiras individuais, mas também para a integridade do próprio registro científico.

O que mudou em 40 anos

  • Antes:  2 a 4 autores por artigo;  agora:  10 a mais de 50 autores.
  • Antes:  a autoria implicava propriedade;  agora:  muitas vezes sinaliza participação.
  • Antes:  a escrita era manual e individual;  agora:  é assistida por IA e colaborativa.
  • Antes:  Autores seniores revisavam cada versão;  agora:  podem não ler a versão final.

Superficialmente, muita coisa mudou desde a década de 1980: mais autores, mais referências, mais produção. No entanto, as tensões subjacentes entre contribuição e reconhecimento, esforço e crédito, permanecem sem solução. Aliás, elas se intensificaram. Isso impactou minha própria abordagem à narrativa científica. Recentemente, meu foco mudou de periódicos acadêmicos para o blog no site da nossa empresa. Enquanto antes eu levava 40 anos para publicar mais de 120 artigos, cujo conteúdo era sufocado pelo establishment, agora posso expressar minha própria opinião mais de 120 vezes por ano, e o conteúdo não está bloqueado por paywalls de periódicos.

O surgimento da inteligência artificial introduz uma camada adicional de incerteza. Ferramentas como o ChatGPT já estão remodelando a forma como os manuscritos são redigidos e aprimorados. Embora ofereçam eficiência, também correm o risco de distanciar ainda mais o autor do texto [9][12]. A linguagem pode se tornar mais padronizada, as vozes mais homogeneizadas e a fronteira entre a contribuição humana e a da máquina cada vez mais tênue.

Principais questões que a IA levanta para a autoria:

  • Uma ferramenta de IA pode ser listada como coautora? (Consenso atual do ICMJE, Nature, Elsevier e JAMA: Não)
  • Quem é responsável pelos erros ou alucinações gerados pela IA [13]?
  • O uso de IA para redação exige divulgação [14]?
  • Será que a IA irá homogeneizar os estilos de escrita científica?

Existe também o risco de que os sistemas de IA, treinados com base na literatura existente, reforcem normas e preconceitos prevalecentes, dificultando o surgimento de ideias não convencionais. Nesse sentido, a adoção da IA ​​pode não resolver as ambiguidades da autoria, mas sim aprofundá-las.

Assim como a transição do artesanato para a ciência industrial transformou a escala e a estrutura da autoria, a integração da IA ​​pode redefini-la mais uma vez. Se essa transformação irá aprimorar a clareza e a responsabilidade, ou corroê-las ainda mais, permanece incerto. A trajetória até agora oferece pouca segurança. O que está claro é que, sem uma reforma sistêmica, a adoção de modelos de contribuição, a aplicação da transparência e a reformulação de como avaliamos os pesquisadores, o sinal em nossa literatura científica continuará se perdendo em meio ao ruído.

Referências

  1. Wuchty S, Jones BF, Uzzi B. O crescente domínio das equipes na produção de conhecimento. Science . 2007;316(5827):1036–1039 .
  2. Larivière V, Gingras Y, Sugimoto CR, Tsou A. O tamanho da equipe importa: colaboração e impacto científico. J Assoc Inf Sci Technol . 2015;66(7):1323–1332 .
  3. Ioannidis JPA, Klavans R, Boyack KW. Milhares de cientistas publicam um artigo a cada cinco dias. Nature . 2018;561:167–169 .
  4. Wislar JS, Flanagin A, Fontanarosa PB, DeAngelis CD. Autoria honorária e fantasma em periódicos biomédicos de alto impacto: um estudo transversal. BMJ . 2011;343:d6128 .
  5. Flanagin A, Carey LA, Fontanarosa PB, et al. Prevalência de artigos com autores honorários e autores fantasmas em periódicos médicos revisados ​​por pares.  JAMA . 1998;280(3):222–224 .
  6. Niche Science & Technology Ltd (2021). Análise Bibliométrica: Uma Visão Interna
  7. Moher D, Naudet F, Cristea IA, Miedema F, Ioannidis JPA, Goodman SN. Avaliando cientistas para contratação, promoção e estabilidade. PLoS Biol . 2018;16(3):e2004089 .
  8. Niche Science & Technology Ltd (2026). Uma visão privilegiada sobre autoria científica.
  9. Horton R. Offline: O que é o 5 sigma da medicina? Lancet . 2015;385(9976):1380 .
  10. Hardman TC (2026). Figuras geradas por IA em publicações acadêmicas.
  11. Allen L, Scott J, Brand A, Hlava M, Altman M. Publicação: Crédito onde o crédito é devido.  Nature . 2019;571(7763):29–31 .
  12. Smith R. Revisão por pares: um processo falho no coração da ciência e dos periódicos.  JR Soc Med . 2006;99(4):178–182 .
  13. Alkaissi H, McFarlane SI. Alucinações artificiais no ChatGPT: implicações na escrita científica.  Cureus . 2023;15(2):e35179 .
  14. Flanagin A, et al. “Autores” não humanos e implicações para a integridade da publicação científica e do conhecimento médico.  JAMA . 2023;329(8):637–639 .

Fonte: Niche Science&Technology

O alerta da rã-cachorro sobre agrotóxicos à base de glifosato

Estudo experimental sugere que agrotóxico pode alterar crescimento, desenvolvimento e provocar deformidades em girinos, com possíveis impactos em ecossistemas inteiros.

🌎 O alerta da rã-cachorro sobre agrotóxicos à base de glifosato Estudo experimental sugere que agrotóxico pode alterar crescimento, desenvolvimento e provocar deformidades em girinos, com possíveis impactos em ecossistemas inteiros. Texto de Edson Antonio Tanhoffer, Luana Wunsche, Marta Margarete Cestari e Mauricio Moura
Anfíbios anuros são mais vulneráveis a poluentes por terem fase aquática e outra terrestre, o que aumenta risco de contaminação. Na foto, subespécies de rã Physalaemus cuvieri. Fotos: Herpto.org/Reprodução
Por Edson Antonio Tanhoffer, Luana Wunsche, Marta Margarete Cestari e Mauricio Moura para Ciência UFPR 

 Há questões na vida que são falsas dicotomias. Um exemplo é a ideia de que se não aumentarmos a área plantada, não haverá alimentos para todos. Ou ainda, a de que se não se usar agrotóxico, não há como produzir alimentos em grande quantidade. São polêmicas infundadas porque é possível ter uma área plantada grande, diversificada e saudável, com uso de menos insumos. Mas isso implicaria a mudança da lógica dominante de plantio, a lógica do agronegócio.

Esse modelo, que recebe fartos incentivos fiscais, privilegia a produção de commodities, produtos de origem primária, de baixo valor agregado e voltados para exportação, além do aumento do capital privado em vez da preservação da natureza e da segurança e soberania alimentar das populações.

A questão dos agrotóxicos é particularmente sensível porque afeta o sistema de produção em todos os níveis e tem um peso econômico gigante com diversos interesses associados. O uso dos agrotóxicos também tem impacto na saúde humana e de uma diversidade de outros organismos. Então, a equação não é simples.

Os organismos vivos são bastante complexos e o grande desafio da química, de fármacos ou agrotóxicos é ser preciso quanto ao alvo de atuação de seus produtos. A indústria dos agrotóxicos desenvolve produtos tóxicos e que potencialmente envolvem riscos aos organismos vivos e aos ambientes ao quais estão associados.

O alto incentivo ao aumento do uso de agrotóxicos denota que essa indústria pouco considera tais efeitos nocivos. Estudos que avaliam a segurança dos agrotóxicos são de responsabilidade das próprias empresas desenvolvedoras, o que abre espaço para ações que garantam seus interesses, como o acúmulo de capital.

Uma forma de evitar esse conflito de interesse seria um processo de controle externo, acompanhado e determinado pelo Estado. Entretanto, no Brasil, os grandes latifundiários e as multinacionais do agronegócio possuem um forte poder político, tornando o país permissivo aos interesses desse setor.

É claro que um exame do comportamento ecotoxicológico das substâncias sob todas as combinações possíveis de fatores influentes é praticamente impossível e certamente inviável. Fato que demonstra que os estudos utilizados nos processos de avaliação de risco e liberação de uso são insuficientes, especialmente quando se tratam de substâncias utilizadas de maneira difusa, em grande escala.

Mas, dentro desse contexto, o princípio da precaução deveria prevalecer. Esse é um princípio moral e político que determina que, se há dúvidas sobre uma ação que pode originar um dano socioambiental severo, é recomendável que ela não ocorra. Nesse sentido, é necessário mostrar os efeitos nocivos em diversos grupos de organismos e de ecossistemas, forçando uma discussão ampla.

Rãs-cachorro são vulneráveis à contaminação da água

Como os organismos usualmente encontrados nos cultivos não se queixam, esse artigo tem por finalidade buscar ouvir as queixas de um deles, a rã-cachorro (Physalaemus cuvieri), sobre as ações de um herbicida com base de glifosato.

Esse anfíbio está amplamente distribuído pela América do Sul e muito embora tenham populações grandes e estáveis, encontra-se localmente ameaçado na Argentina, especialmente devido à perda e contaminação de áreas de ocorrência desta espécie pelo agronegócio.

Os anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas) são organismos com características bem particulares. O grupo recebe esse nome por possuir duas fases em seu ciclo de vida, uma aquática e outra terrestre. Os anfíbios foram os primeiros animais vertebrados terrestres e sobreviveram às grandes extinções, incluindo aquela que extinguiu os dinossauros.

Mesmo com essa história de sucesso, hoje é o grupo de vertebrados com mais risco de desaparecer, com aproximadamente 41% das espécies ameaçadas.

As atividades antropogênicas (aquelas derivadas das atividades humanas) são responsáveis por uma grande parcela do desaparecimento populacional. E, dentre estas atividades, o agronegócio tem grande importância, tanto pela expansão da fronteira agrícola (redução e fragmentação das paisagens naturais) quanto pela utilização do controle químico nos plantios (contaminação).

A contaminação por agrotóxicos talvez seja a mais agravante, uma vez que essas substâncias são formuladas para eliminar formas de vida e causam efeitos nocivos, que, nesse caso específico, podem passar despercebidos a grande parte das pessoas.

Os anfíbios anuros são particularmente susceptíveis, justamente por possuírem uma fase aquática e outra terrestre, o que aumenta a probabilidade de contaminação. Além disso, possuem a pele altamente permeável, o que facilita a absorção de diversas substâncias, incluindo os agrotóxicos.

Considerando que as poças dentro de cultivos ou no seu entorno têm pouco volume de água, os girinos nesses ambientes podem ser expostos a doses muito altas de agrotóxicos,  que são prontamente absorvidas, como o observado no caso do glifosato. Uma vez absorvido, o glifosato e produtos formulados possuem como efeito final para os girinos, o aumento da mortalidade, distúrbios no desenvolvimento, ou mesmo indução de malformações, o que levará a um menor sucesso reprodutivo do indivíduo adulto.

Esses efeitos só ocorrem se o agrotóxico interferir nos processos naturais de formação e manutenção do funcionamento do corpo dos organismos. Independentemente do efeito, a mensagem é direta: um produto químico pode alterar vias metabólicas de um organismo de maneira danosa.

Glifo o quê?

O glifosato é o agrotóxico mais utilizado no Brasil e no mundo, e um dos mais controversos com relação às suas propriedades toxicológicas e ecotoxicológicas. O volume de glifosato aplicado em campo tem aumentado expressivamente e assimetricamente em relação à área plantada nos últimos anos, principalmente após o desenvolvimento de cultivos transgênicos resistentes a esse herbicida.

Até o momento, os dados não demonstraram haver uma correlação positiva entre o uso desse herbicida e o aumento da produtividade agrícola. Pelo contrário, em um período de 12 anos, o uso do glifosato por hectares aumentou 124%, enquanto a produtividade cresceu 9,5%.

Existem ainda correlações positivas significativas em estudos epidemiológicos de casos de malformação e abortos em humanos que estão próximos a áreas de aplicação de herbicidas a base de glifosato. Em adição, estudos experimentais têm demonstrado efeitos de disrupção endócrina, tumores em mamas e danos nos rins e fígado.

O glifosato não é utilizado de forma isolada. Existem mais de 750 formulações comerciais, mas usamos no estudo o mais consumido em nível mundial. Embora alguns desses efeitos tóxicológicos sejam exclusivos do princípio ativo (o glifosato), ingredientes contidos nas formulações muitas vezes possuem também a sua própria toxicidade.

Desse modo, os estudos que avaliam exclusivamente o glifosato não garantem a segurança dos seus produtos formulados, como realizado muitas vezes pelas agências reguladoras. Resíduos de glifosato já foram encontrados em amostras do ar, da água da chuva e do abastecimento público, nos alimentos, no sangue, urina e leite humano, em várias regiões do mundo, incluindo o Brasil.

Embora os resultados na literatura científica independente (não vinculados à indústria de venenos) e da ciência regulatória (oficial) sejam muitas vezes controversos, crescem as evidências dos efeitos adversos do glifosato e seus produtos formulados sobre a saúde humana e de muitos outros organismos.

Com base nessas evidências, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), órgão da Organização Mundial da Saúde (OMS), reclassificou o glifosato como provável carcinógeno em humanos. No Brasil, no entanto, após ter permanecido ao longo de dez anos em reavaliação, o glifosato teve sua manutenção no mercado brasileiro mantida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em 2019.

Portanto, dada a escassez de estudos e as incertezas dos impactos desses pacotes tecnológicos sobre o conjunto de seres vivos e do ambiente ao qual estão associados, torna-se necessário ampliar nossos conhecimentos sobre os efeitos destas substâncias. Com isso, espera-se fortalecer os debates e decisões em torno da liberação de uso destas substâncias, com base em novas evidências. Para abordar essa questão, pretendemos determinar o efeito do agrotóxico sobre atributos da história de vida e incidência de malformações em girinos de rã-cachorro.

Como fizemos nosso estudo?

Foi realizado um experimento de 12 dias, com o intuito de avaliar efeitos que possam aparecer ao longo do desenvolvimento das rãs, como malformações e alterações da forma. Nesse experimento, repetido 5 vezes, foram utilizados três aquários de vidro contendo as seguintes concentrações de glifosato:

T1 = 0.28mg.L-1;
T 2 = 2.8mg.L-1;
T 3= 4mg.L-1.

Além de um grupo controle negativo (CN), sem a exposição ao agrotóxico, que possibilita analisar os possíveis desvios da normalidade. Essas dosagens representam concentrações ambientalmente relevantes, ou seja, possíveis de serem encontradas nos ambientes que esses organismos ocupam e onde se reproduzem.

Para o estudo de malformações e desenvolvimento, um total de 80 indivíduos foram analisados através da utilização de uma lupa e paquímetro (instrumento utilizado para medições). Em cada girino, foram avaliados quatro parâmetros:

1) Desenvolvimento;
2) Crescimento;
3) Morfologia do disco oral;
4) Pigmentação.

Esse parâmetros foram escolhidos por possuírem impacto na sobrevivência dos girinos e no sucesso reprodutivo dos adultos.

O que descobrimos?

O agrotóxico foi capaz de afetar igualmente as taxas de desenvolvimento e crescimento dos girinos, de forma que, quanto maior a dose, menor e mais novo era o girino. Ou seja, maior era o efeito do agrotóxico sobre essas características. Ainda, observamos um aumento na incidência de deformidades no disco oral, como dequeratinização, fusão de lábios ou ausência de lábios, dentículos e papilas.

Da mesma forma, foram notadas diferenças na pigmentação da pele dos girinos. Essas diferenças estão relacionadas ao tamanho, morfologia e desenvolvimento das expansões ramificadas (processos dendríticos) das células pigmentares.

Mas o que dizem esses resultados?

Indicam que o agrotóxico foi capaz de alterar as taxas de crescimento, desenvolvimento e produzir deformidades em girinos de rã-cachorro. E como o agrotóxico afeta o crescimento e o desenvolvimento? Uma possibilidade são os custos da detoxificação e reparação de tecidos, pois os danos causados pelo agrotóxico nos tecidos, como brânquias, fígado e rins, têm como consequência um deslocamento energético para a reparação desses danos.

Este processo leva a uma grande redução das reservas energéticas, que podem trazer prejuízos para outros processos fisiológicos importantes, processos esses que envolvem o funcionamento e a manutenção da vida, como o crescimento e o desenvolvimento.

Outra possibilidade é a quebra das vias neuro-endócrinas, já que o glifosato é considerado um desregulador endócrino. Essas vias bioquímicas regulam diversos processos que estão também relacionados, dentre outras funções, ao crescimento e desenvolvimento.

E, com relação às alterações nas células pigmentares e malformação do aparato bucal? As alterações nas células pigmentares encontradas estão relacionadas a danos provocados pelo Roundup no citoesqueleto, o que prejudica a formação das expansões dendríticas e consequentemente o transporte dos pigmentos no interior das células. Dessa forma há uma redução da cobertura pigmentar.

E qual seria o impacto? A pigmentação tem função ecológica sob diversos aspectos, como a camuflagem. Alterações no padrão de pigmentação podem alterar interações ecológicas, como a predação e a seleção sexual. Já as malformações no aparato bucal impactam tanto a alimentação quanto funções sensoriais. Portanto, quebras nos padrões biológicos encontrados podem levar a mudanças de alto significado ecológico para os indivíduos, com implicações na sobrevivência dos girinos e no sucesso reprodutivo dos adultos e assim afetar a dinâmica populacional. Esses impactos podem também interferir em outros níveis da hierarquia ecológica, como as comunidades e os ecossistemas.

Independentemente se é possível ou não relacionar os mecanismos bioquímicos e fisiológicos de atuação do agrotóxico sobre as alterações morfológicas e de crescimento encontradas, o fato é que existe um efeito nocivo potencial do agrotóxico da marca testada nos girinos.

Isso demonstra que organismos não alvo podem ser afetados pelo agrotóxico. Embora não contemplados na maioria das legislações mundiais, os anuros podem ser um grupo importante a ser avaliado, especialmente devido às suas características particulares e seu grau de vulnerabilidade.

A cada conhecimento adicional relacionado aos fatores que afetam a sobrevivência e reprodução dos indivíduos desse grupo que sofre taxas alarmantes de extinção, são importantes em uma abordagem da preservação das espécies e ambientes associados. Além disso, como são componentes fundamentais dos ambientes aquáticos, possuem potencial para serem utilizados como bioindicadores da saúde desses sistemas.

Autores

EDSON ANTONIO TANHOFFER é docente no Departamento de Anatomia da UFPR

LUANA WUNSCHE DE ALMEIDA é bióloga e mestra em Ecologia e Conservação pela UFPR

MARTA MARGARETE CESTARI é professora titular no Departamento de Genética da UFPR, onde coordena o Laboratório de Citogenética Animal e Mutagênese Ambiental (Labmuta)

MAURICIO MOURA é professor no Departamento de Zoologia da UFPR e coordenador do Laboratório de Dinâmicas Ecológicas

Edição: Lívia Inácio

➕ Leia detalhes na dissertação Efeito do Roundup sobre as variações morfológicas de girinos de rã-cachorro (Physalaemus cuvieri Fitzinger, 1826), defendida por Luana Wunsche de Almeida no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação (PPGEco) da UFPR


📌 Conteúdo elaborado na disciplina de divulgação científica do PPGEco/UFPR

🌎 A Ponte com a Ciência é a editoria especializada em divulgação científica da Ciência UFPR. Nela, cientistas da UFPR puxam conversas sobre temas de seus estudos. Textos e argumentações são próprias dos autores. Saiba como enviar seu texto 


Fonte: Ciência UFPR

A neoliberalização das universidades federais

A universidade federal não foi privatizada, mas neoliberalizada: o orçamento encolheu, a competição por emendas e parcerias cresceu, e o mimetismo da gestão privada corroeu a colaboração e a excelência, sem que um debate público sobre esse destino fosse travado

Por Nuno Teles para “A Terra é Redonda”

As universidades federais encontram-se em uma encruzilhada. Fruto de um processo lento, mas inexorável, de degradação, a missão e funções da universidade estão sendo paulatinamente transformadas sem qualquer debate e deliberação públicos e políticos. No entanto, a discussão política na sua gestão pode parecer difusa, senão mesmo artificial e forçada, sobretudo em ano eleitoral. Afinal, dentro da universidade são poucas as vozes que defendem o fim do seu caráter público e da sua gratuitidade.

As discussões e disputas políticas sobre modelos de gestão universitária, sobretudo no que toca ao seu financiamento e funcionamento, podem parecer meras variações de um consenso na defesa do caráter público do ensino superior. Não são. Estas são disputas sobre o significado, presente e futuro, de universidade federal na sociedade brasileira.

Como tem sido reiteradamente apontado pelos estudos sobre neoliberalismo, a questão primordial não é, nem nunca foi, a do espantalho do laissez-faire, isto é, de “menos Estado” face à propriedade privada, coordenada pelo mercado. Os últimos quarenta anos mostram que o peso da despesa pública na economia, medida enquanto produto interno bruto, não se alterou significativamente. O que, de fato, mudou foi o funcionamento do Estado no seu esforço de privatizar os ativos apetecíveis ao capital e, sobretudo, na construção de novos mercados, da saúde à educação.

De forma mais perversa, impôs-se no seu próprio seio um mimetismo do funcionamento do mercado e da administração privada — entendida como mais eficiente —, denominado “Nova Gestão Pública“. Estas diversas dimensões, em sua forma mais despudorada, foram apresentadas para a universidade federal por meio do programa “Future-se“, em 2019.

Graças à mobilização das universidades, o “Future-se” foi derrotado. Porém, a derrota política esteve longe de ser uma derrota ideológica. O neoliberalismo não é um programa político estático. Ele é um projeto de sociedade que, corroendo as bases não mercantis de provisão, tem a necessária plasticidade adaptada às condições políticas de cada momento. Assumindo o caráter eternamente inacabado do neoliberalismo, é mais frutuoso entender a evolução recente do ensino superior brasileiro como processo de neoliberalização em curso, contraditório, com avanços e recuos, mas com sentido único.

2.

Os avanços e recuos da neoliberalização do ensino superior no Brasil estiveram bem patentes na forma como a dinamização da oferta pública de ensino superior coincidiu com a criação e explosão de um mercado de educação superior, onde o apoio financeiro do Estado foi, e continua sendo, vital. A oferta pública conseguiu democratizar não só o acesso ao ensino superior, mas a própria universidade federal.

É certo que a universidade deixou de ser o ponto focal da hegemonia ideológica das elites desde a luta contra a ditadura, promovendo o pluralismo intelectual crítico. Todavia, foi a sua expansão e as ações afirmativas que realmente democratizaram a universidade federal ao integrar no seu corpo discente as classes populares como público majoritário. Infelizmente, face a um crescimento exponencial do ensino privado, esta expansão não se refletiu numa apropriação popular e política deste instrumento de emancipação social.

Hoje, mais de 70% dos estudantes estão no ensino privado. A lógica do mercado privado de ensino, onde a educação é um mero diploma com valor no mercado de trabalho e o estudante um “consumidor”, prevaleceu na sociedade como um todo, privando a universidade pública de apoio político.

Concomitantemente, um quadro de austeridade orçamentária permanente, inscrito em lei pela lógica econômica neoliberal — seja no “teto de gastos”, seja no “arcabouço fiscal” —, impediu que a expansão do ensino público fosse acompanhada por níveis de investimento adequados nas diversas missões que lhe são atribuídas no ensino, na pesquisa e na extensão.

A degradação das estruturas físicas, do apoio social à permanência dos estudantes e das carreiras dos seus servidores criam uma profunda descrença e cinismo em relação à promessa da universidade democrática e um clima de competição por recursos cada vez mais escassos entre docentes, discentes e técnicos. Crescentemente afastados ficam os princípios da estabilidade, da reciprocidade e do trabalho colaborativo que devem reger a provisão de educação. Nunca foi por meio de incentivos pecuniários que se atingiu a excelência acadêmica.

O neoliberalismo da competição de mercado por recursos e a rentabilização de ativos como princípios de organização da provisão de ensino superior semeiam as condições para a desigualdade e mediocridade no ensino superior, mesmo em um quadro por enquanto de propriedade pública e acesso gratuito.

A mesma lógica é observada na “captação” de recursos de empresas junto do mercado. Abdicando da colaboração com o setor privado, onde o Estado age como disciplinador e organizador do capital privado em prol do bem comum, assistimos à predação do conhecimento das universidades que, devido à sua penúria, se colocam numa posição de necessidade e subordinação.

É verdade que as alterações na economia contemporânea tornam o conhecimento e a acreditação da qualificação dos trabalhadores, crescentemente mercadorizados, ativos apetitosos para as empresas. Contudo, a pesquisa fundamental, a pesquisa em campos de conhecimento dificilmente mercadorizados, como as artes e humanidades, fica desvalorizada neste quadro, criando novas desigualdades entre e dentro das universidades.

3.

A mercadorização da pesquisa e do ensino é exacerbada pela vulnerabilidade dos estudantes sem adequado apoio social. Com uma crescente percentagem de estudantes obrigados a trabalhar por um salário, é inevitável que as suas demandas estejam concentradas naquilo que são os imperativos do mercado de trabalho, na sinalização da sua qualificação, agindo como consumidores de “ensino”. A formação voltada para as competências gerais e cidadania, úteis ao longo da vida, é substituída pela preferência por formações profissionais, úteis no curto prazo, mas que se tornarão rapidamente obsoletas na voragem do mercado.

Finalmente, o mimetismo de mercado não é só visível na competição e na alocação de recursos, mas também na administração cada vez mais parecida à de uma grande empresa. No quadro acima descrito, as burocracias tornam-se cada vez mais necessárias e poderosas — muitas vezes em sua forma parapública, como nas fundações — na captação e gestão de recursos. Por outro lado, exige-se que reitores e pró-reitores se comportem como CEOs, concentrando funções de corte de custos, de negociação de contratos e de atração de financiamento.

A universidade passou a gestora de ativos, intangíveis — quando falamos de conhecimento e diplomas —, e também de ativos tangíveis, quando falamos do enorme patrimônio imobiliário que boa parte das universidades federais detém. Esta confusão de princípios administrativos, onde o público e o privado se misturam, dá necessariamente azo à desorientação e ineficiência, refletida nos graves problemas administrativos com que docentes, discentes e técnicos se confrontam diariamente.

Nenhuma destas lógicas mercantis que vão permeando a universidade brasileira é nova no panorama internacional. A neoliberalização das universidades, obedecendo às especificidades históricas e institucionais de cada país, é uma realidade facilmente identificável na Europa e, na sua forma mais avançada, nos EUA.

Conseguimos vislumbrar o nosso provável futuro nos problemas vividos pelas universidades destes países: desigualdades crescentes entre universidades — medidas em rankings de proveniência duvidosa —; incrustamento dos interesses privados na sua administração; precarização de boa parte do corpo docente; desvalorização do ensino; dependência financeira de investimentos no mercado financeiro, entre outros.

Por outro lado, ainda que a autonomia universitária se tenha esboroado face ao mercado, as recentes notícias mostram que tal reconfiguração universitária não se traduz em qualquer perda de poder do Estado. Recentemente, algumas das mais bem-sucedidas universidades norte-americanas — Harvard ou Columbia, com conselhos de administração repletos de bilionários — rapidamente abdicaram da sua autonomia perante as demandas e a chantagem financeira da administração de Donald Trump.

Com os olhos no que se passa em outros países, a trajetória recente da universidade federal convoca, pois, os seus docentes, discentes, servidores técnicos e funcionários terceirizados para uma reflexão profunda em relação aos caminhos futuros da universidade. A encruzilhada é real. Universalidade e gratuitidade têm que estar aliadas a uma cultura de rigor e excelência no ensino, na pesquisa e na extensão. Este desiderato só é atingível com recursos públicos que obedeçam a um projeto claro e transparente de universidade, enquanto projeto coletivo de toda a sociedade brasileira.

Nuno Teles é professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA).


Fonte: A Terra é Redonda

Sobre os 30 anos do massacre de Eldorado dos Carajás

Estamos no mês de abril. E com ele, a lembrança dos 30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás. Uma importante marcha promovida pelo MST no mesmo local, homenageia o triste episódio. Não cobri o massacre em si, morava em Rondônia à época, mas atuei como repórter em todo o julgamento do caso. É uma lembrança reflexiva que faço agora

Por Ismael Machado*

Conflitos de terra (e água) no Pará são comuns e quase sempre os principais motivos para crimes hediondos no chamado interior do Estado. O massacre de Eldorado dos Carajás é um desses capítulos sangrentos da história de violência pela Reforma Agrária. Cobri as diversas sessões de julgamento do episódio no período. Eu era correspondente do Jornal do Brasil em Belém e repórter de O Liberal. Antes disso, eu havia feito a cobertura do massacre de Corumbiara em Rondônia, como repórter televisivo. Eu trabalhava na TV Rondônia, afiliada da Rede Globo.

Corumbiara chamou a atenção nacional, mas alguns meses depois seria suplantada por Eldorado dos Carajás. Fiz essa reportagem (sobre a chacina em Rondônia) junto ao cinegrafista Laelho Barbosa e ao operador de VT Gideone Barroso. Lembro do depoimento de uma menina de 12 anos, descrevendo o terror vivido por ela, tendo de correr pela própria vida e vendo pessoas morrendo ao redor. Em determinado trecho da reportagem, eu afirmava que geralmente crianças de seis, oito anos, costumam brincar, andar em segurança com os pais. Na passagem de vídeo, eu complementava: ‘pois na semana passada, crianças de seis, oito anos, tiveram que correr como nunca, se embrenhar na mata e esquecer que eram crianças para tentar uma coisa básica. Sobreviver’. Ao fundo, um menino sobrevivente, com um caminhão de brinquedo nas mãos.

Quando ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás, eu ainda morava em Porto Velho. Li as reportagens sobre o assunto. Vi as matérias na televisão. No ano seguinte (1997) eu voltaria a Belém. Dois anos depois, já como repórter de O Liberal e correspondente do JB, eu cobriria o julgamento dos militares envolvidos no caso.

No Liberal o assunto era tratado com muito cuidado político. Com tendência conservadora, o jornal não podia fugir do assunto, já que não dava para simplesmente ignorar, mas buscava não ferir suscetibilidades, principalmente a do então governador Almir Gabriel, do PSDB que, para muitos, deveria sentar no banco dos réus. O governador tinha o apoio do matutino, que mantinha rivalidade comercial e política com o Diário do Pará, da família Barbalho, ligada ao (P)MDB.

Às vésperas do julgamento, Paulo Silber, o editor de Cidades/Atualidades, incumbiu-me de produzir uma página sobre o tema. Na edição, fizemos um pequeno perfil dos promotores e dos advogados de defesa. Reproduzimos o que seria o Tribunal de Júri para dar ao leitor uma ideia de como era o ambiente de julgamento. Explicamos como se daria, com a escolha dos jurados, os primeiros dias de sessão etc. Todo esse cuidado tinha razão de ser. Eldorado dos Carajás mobilizara entidades de defesa dos direitos humanos do mundo inteiro, além de atrair a atenção da imprensa mundial, sendo chamado de ‘O Julgamento do Século’. Além disso, o leitor do jornal não estava familiarizado com julgamentos desse porte em Belém. Fomos quase didáticos na apresentação.

Silber destacou três repórteres para a cobertura. Eu, Tatiana Ferreira e Carlos Mendes. Assim como eu, Mendes também produziria matérias para fora, no caso a Agência Estado. Tatiana era uma das mais competentes e esforçadas repórteres da editoria, o que justificava sua escolha também.

A cobertura jornalística foi um aprendizado. Cheguei a dar um furo no meu concorrente externo, O Globo, que havia escalado o repórter Rodrigo Taves para cobrir o julgamento. Talvez graças a isso, três anos depois Taves lembraria meu nome para indicar como correspondente do jornal para a Amazônia. Permaneci de 2002 a 2007 nessa função.

Logo de início conheci e estabeleci uma parceria de informações com a repórter Mariluz Coelho, que fazia a cobertura para o SBT local e nacional. Fechamos acordo de passar informações novas que um obtivesse e o outro não. Assim, ao contrário dos outros repórteres, era como se estivéssemos em dois lugares ao mesmo tempo. Trocávamos ideias, comparávamos o que tínhamos e analisávamos os fatos apurados.

No primeiro dia de julgamento, eu e Carlos Mendes entrevistamos Américo Leal, um dos advogados de defesa, e ele nos profetizara: “o julgamento estava no papo”. Essa declaração foi reproduzida depois na edição especial da revista Caros Amigos sobre o massacre.

Uma das curiosidades a respeito do julgamento de Eldorado foi a palavra ‘massacre’, sempre suprimida no Liberal. Ninguém chegou aos repórteres informando ou determinando que essa palavra não pudesse ser usada. Usávamos, mas no dia seguinte, ela sempre estava substituída por conflito ou confronto.

A palavra é o que nos distingue. Segundo Mayra Rodrigues Gomes, autora do livro “Jornalismo e Ciências da Linguagem”, “há algo negligenciado nas reflexões sobre jornalismo. Antes de registrar ou informar, antes de ser discutido por meio de categorias como universalidade, atualidade ou difusão, o jornalismo é ele próprio um fato de língua”. Ou seja, quando a palavra “massacre” desaparecia de nossos textos e era substituída por palavras mais amenas, como conflito, havia um posicionamento ideológico por parte do jornal. Segundo o dicionário Aurélio, conflito é ‘luta, combate/ guerra/ desavença, discórdia’. Já confronto é algo semelhante a paralelo e comparação/ briga. No mesmo dicionário, massacre é ‘morticínio cruel’.

Há diferenças gritantes entre esses conceitos. Tanto conflito como confronto pressupõem ter havido um equilíbrio de forças entre os trabalhadores rurais e os policiais militares. O saldo final de mortos e feridos mostra o contrário. E o fato de grande parte dos agricultores ter sido executada com tiros na nuca também é sintomático de que Eldorado dos Carajás foi algo mais que uma luta, combate ou briga. Era dessa forma sutil que o jornal marcava sua posição em relação a Eldorado. De nossa parte, repórteres, garanto não termos praticado em nenhum momento a autocensura. Escrevíamos ‘massacre’ diariamente. E diariamente líamos conflito/confronto.

foto: João Roberto Ripper

Mas o fato é que trinta anos passaram e a estrada continua lá. A curva do ‘S’ segue no mesmo lugar, cortando o sudeste do Pará como se nada tivesse acontecido. O Brasil, não. O país mudou. Lembro, com certo asco, que no meio da campanha presidencial de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro foi até o local e defendeu entusiasticamente que mais pessoas deveriam ter sido assassinadas naquele fatídico dia. Foi aplaudido pela claque presente.

Era e é um sinal dos tempos. Em 1996, quando a Polícia Militar abriu fogo contra os militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em Eldorado dos Carajás, a disputa política existia e era áspera. Havia rejeição ao movimento, como sempre houve, críticas às ocupações, um medo alimentado por proprietários e seus porta-vozes, os mesmos que agora lutam contra a escala 6×1. Mesmo assim, o que se viu no asfalto da rodovia ultrapassou a trincheira ideológica. A execução de camponeses praticamente desarmados produziu repulsa que não cabia na retórica da ordem. O país discutiu a ação policial e não comemorou explicitamente, pelo menos, o resultado.

A televisão repetia as imagens. Os jornais impressos estampavam corpos no chão. Não havia como fingir que se tratava de confronto equilibrado. O excesso era visível. A violência tinha nome e o Estado foi cobrado. Ainda que a justiça tenha caminhado de forma lenta e incompleta, houve constrangimento público. Ninguém disputava a narrativa para transformar mortos em ameaça neutralizada.

 

Manchetes como essa, mostram que casos desse tipo ainda ensejavam repúdio. Hoje, talvez não.

Nos dias atuais, quando conflitos agrários terminam em sangue, a reação costuma nascer fracionada. Antes da compaixão vem a filtragem. A vítima é submetida a julgamento sumário nas redes. Se militava, se ocupava, se protestava. A biografia vira sentença. A morte deixa de ser tragédia compartilhada e passa a ser episódio útil para alimentar bolhas nas redes digitais. É só lembrar o que tentaram fazer com a imagem de Marielle Franco e é só pesquisar as frases do deputado e ex-delegado Éder Mauro quando da Chacina de Pau d’Arco, em 24 de maio de 2017, em que dez trabalhadores rurais– nove homens e uma mulher — tiveram suas vidas brutalmente interrompidas em uma ação criminosa praticada por policiais militares e civis do estado do Pará. Mesmo com evidências claras e inequívocas de chacina, o deputado da extrema-direita chamou o relatório sobre o episódio de ‘fantasioso’. Quase sai aos tapas com o deputado Carlos Bordalo, do PT, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) por conta de divergências sobre o conteúdo do relatório. O documento concluiu que a polícia violou direitos humanos, desobedeceu a protocolos legais e descaracterizou a cena de crime. Ou seja, repetia Eldorado dos Carajás.

A questão atual, ou uma delas, é que o ambiente digital reorganizou a sensibilidade coletiva. A indignação tornou-se segmentada. A timeline entrega versões moldadas ao gosto do usuário. O que não confirma crenças pessoais é descartado. Nesse circuito, a violência pode ser enquadrada como correção necessária. Comentários celebratórios aparecem sem pudor. O linchamento simbólico antecede qualquer apuração.

Não se trata apenas de avanço eleitoral da extrema direita, embora ele pese. O que se consolidou foi uma cultura política que transforma adversário em inimigo interno, algo que se formos buscar com cuidado, já aparece na época da ditadura militar com a Doutrina de Segurança Nacional. O campo, sempre território de conflito, converteu-se também em palco de demonstração de força discursiva. Morrer vira prova de que o Estado agiu. A linguagem militariza o debate. E nem precisamos ir ao campo, à zona rural. O governador Cláudio Castro, afastado por corrupção no Rio de Janeiro, fez de uma ação policial com mais de uma centena de mortos, uma vitrine eleitoreira. São Paulo e Bahia também seguem o mesmo diapasão, com direita e esquerda apertando as mãos no gatilho nessas horas.

Há trinta anos, a crítica preconceituosa ao MST convivia com a percepção de que a polícia cruzara um limite. Hoje, essa crítica muitas vezes se mistura ao aplauso da repressão. A fronteira moral foi deslocada à direita. A ideia de direitos humanos perdeu centralidade em parte do imaginário social. Em seu lugar entrou a lógica do merecimento. Quem merece viver. Quem provocou a própria morte (que o digam as mulheres vitimadas pela violência nesse país). Quem estava do lado errado da cerca. Na minha concepção de pensamento, também devemos isso aos programas policialescos na televisão, com seus bordões de ‘bandido bom é bandido morto’, ‘CFPs cancelados’ etc. O próprio delegado Éder Mauro ganhou notoriedade junto a um tal coronel Neil a partir de uma parceria estranha com um desses programas, onde até uma minicâmera era colocada nas metralhadoras e fuzis desses ‘guardiões da segurança’. Edição sim, outra também, os dois eram elogiados na tela pelo apresentador como se fossem paladinos da justiça. Ambos se elegeram parlamentares.

A memória do Massacre de Eldorado dos Carajás expõe essa mudança menos pelo passado e mais pelo contraste atual. Em 1996, houve quem atacasse o movimento e, ainda assim, reconhecesse a violência. Hoje, há quem veja cenas semelhantes e procure justificativa imediata. A diferença não está só na política institucional. Está na forma como a sociedade reage ao sofrimento que não é seu.

Quando, por conta desse projeto, voltei às minhas próprias matérias sobre o julgamento do Massacre de Eldorado dos Carajás, o que mais me chamou atenção não foram as frases ditas, mas os silêncios, o que não estava exposto. Eu escrevia para esses dois veículos, como disse antes. O registro era sóbrio. Havia a obrigação de narrar o que acontecia dentro e fora do plenário. Eu evitava adjetivos, por óbvio. Deixava as contradições falarem.

Lembro de abrir no meu primeiro texto com cartazes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra espalhados por Belém. Não comecei pelo rito formal do júri. Comecei pelo clima. Era uma maneira de situar o leitor no ambiente político que cercava o julgamento. A cidade estava marcada pelo caso. Foi montado acampamento de militantes na Praça Eneida de Moraes, próxima ao local onde se daria o tribunal do júri. Havia tensão na porta da Unama, a universidade particular que cedera seu auditório para o julgamento. Havia expectativa de o país estar olhando. E estava. O Brasil acompanhava a tudo sob o filtro de seus principais telejornais.

Dentro do auditório, os oficiais se diziam inocentes. O coronel Mário Pantoja afirmava não ter visto cadáver algum. O major José Maria Oliveira dizia ter visto seis corpos. Um dizia ter ordenado socorro. O outro afirmava o mesmo. Nenhum assumia disparos. Pelos depoimentos dos cerca de 150 soldados, ouvidos de forma uniforme, ninguém atirou. Aliás, todos atiraram, mas para cima. Ainda assim, pelo menos dezenove trabalhadores foram mortos na curva da estrada em Eldorado dos Carajás. Um promotor chegou a ironizar, afirmando que talvez por isso houvesse tantos tiros na nuca. As balas, em sua trajetória descendente, atingiam as cabeças dos sem-terra. Só isso explicaria a façanha de termos praticamente duas dezenas de mortos e nenhum atirador.

Eu relatava as contradições de forma quase protocolar. Um oficial desmentia o outro. A defesa recusava juradas mulheres. O promotor ironizava a versão dos comandantes. O governador aparecia apenas como testemunha, sendo ouvido em sua residência oficial, uma aprazível chácara numa zona periférica do município de Ananindeua. Tudo estava ali, na superfície dos fatos. O leitor podia perceber o desalinho entre discurso e realidade sem ser preciso sublinhar. Pelo menos essa era a minha ilusão. Na verdade, percebi que entre o que eu pensava ser justo e o que era enxergado dessa forma, havia uma distância imensa. Acompanhando uma passeata dos sem-terra iniciada em São Braz, atravessando a cidade e encerrando na pracinha em frente ao Tribunal de Justiça, testemunhei duas pessoas funcionárias do TJE, um homem e uma mulher, bem vestidos, na varanda do prédio, fazendo o conhecido gesto ‘top top’, aquele indicando que uma pessoa se ferrou (não é essa a palavra, mas vocês entenderam). Eu estava com o saudoso fotógrafo Ary Souza e comentei o fato de ver pessoas do TJ assumindo essa postura. Era um sinal claro para que lado a Justiça bambeia suas pernas na maioria das vezes.

Dias depois, quando o julgamento foi suspenso por mais um recurso, abri a matéria destacando ter a sessão durado dez minutos. A frustração estava no dado objetivo. O reinício que não recomeçava. O promotor arguindo suspeição do juiz. Acusações de parcialidade. A presidência do Tribunal sugerindo que o julgamento do século ficaria para o século seguinte. A plateia diminuindo. O acampamento esvaziando. A cidade já menos mobilizada.

Naquele momento eu ainda escrevia como repórter que observa. Registrava o embate jurídico, a troca de acusações, o rumor de suborno envolvendo um jurado. A narrativa era contida. O que estava em jogo era a condução processual. O centro da cobertura era o tribunal e seus holofotes. Lembro o então deputado Babá, oriundo da militância na Convergência Socialista, adentrando a plenária do júri e xingando o então juiz do caso, Ronaldo Valle, causando um alvoroço e saindo em seguida, deixando todo mundo atônito no local. Lembro também a postura estranhíssima do jurado Sílvio Queiroz Mendonça, seja em alguns rumores (não comprovados) de ter oferecido suborno a outros jurados, seja na postura adotada durante o julgamento, quase afirmando a tese de legítima defesa dos policiais. Tudo isso esteve ali, naqueles dias.

Anos depois, quando a revista Cadernos do Terceiro Mundo me pediu um texto interpretativo, a chave mudou. Já não bastava relatar o acontecido no plenário. Era preciso ligar as sessões ao desfecho político. O título “Massacre Impune” não deixava margem para neutralidade. A absolvição em massa, a liberdade concedida aos condenados e o esvaziamento da mobilização nacional compunham um quadro mais amplo.

Ali eu articulei o que, na cobertura diária, aparecia em fragmentos. A seleção de jurados com vínculos com o Estado. O acesso restrito ao tribunal. A repetição mecânica da pergunta aos policiais e a resposta idêntica. Ninguém atirou. Ninguém viu. As fotos dos mortos não alteraram o veredito. O julgamento caminhou para uma absolvição coletiva que produziu sensação de encenação.

Hoje, relendo esse material, percebo que a mudança maior está na atmosfera pública que cercava o caso. Em 1999, quando o julgamento teve início, houve presença de lideranças nacionais. Nomes graúdos da esquerda, como o próprio Lula. Houve debate sobre direitos humanos e receio de condenação internacional. A própria ideia de que o Brasil poderia ser responsabilizado fora de suas fronteiras tinha peso simbólico.

Quando o interesse arrefeceu e o plenário ficou quase vazio na leitura final da sentença, escrevi sobre o anticlímax. Era um modo de registrar o desgaste da memória. O massacre que mobilizara o país tornava-se assunto restrito a poucas pessoas, militantes e alguns jornalistas. Ainda assim, a palavra impunidade carregava sentido coletivo. Havia certo constrangimento.

Três décadas depois do massacre, sinto ter mudado o modo como a sociedade reage a episódios de violência no campo e nas cidades. Naquela época, mesmo com críticas ao MST, a execução de trabalhadores produziu comoção ampla. O julgamento era acompanhado como teste institucional. Hoje, conflitos agrários muitas vezes são consumidos como mais um item na disputa ideológica diária. A morte pode ser relativizada conforme o alinhamento político da vítima.

A cobertura do julgamento me ensinou que detalhes aparentemente pequenos revelam estruturas maiores. A recusa de juradas mulheres era um sinal disso. Segundo um advogado de defesa, mulheres seriam mais suscetíveis a olhar o lado humano da questão. O quesito da insuficiência de provas foi mantido apesar das contestações. A repetição de versões incompatíveis entre si. Esses elementos, vistos em sequência, desenhavam um sistema que se protegia.

Se eu escrevesse aquelas matérias agora, talvez tivesse de lidar com outro tipo de pressão. A disputa não ocorreria apenas no tribunal, mas nas redes. Trechos isolados seriam recortados para confirmar crenças prévias. A própria ideia de massacre seria contestada por versões paralelas. O campo jurídico dividiria espaço com o tribunal permanente da internet.

Essa semana voltei a esses textos, que um dia cheguei a pensar como um livro, como quem retorna a uma sala de audiência vazia, buscando entender o que ficou dele e se ainda me fazia sentido. O texto analítico que produzi à época assumia posição crítica, alinhada ao campo progressista que cobrava responsabilização. Havia ali a convicção de ter o Estado falhado duplamente. Primeiro ao matar. Depois ao não punir. Essa leitura dialogava com o ambiente político de então, quando ainda se acreditava que expor a falha institucional produziria constrangimento suficiente para gerar mudança.

Trinta anos depois, a releitura me provoca outra inquietação. Não apenas sobre o julgamento, mas sobre a recepção social de casos semelhantes. Em 1996, as imagens dos corpos na estrada causaram indignação ampla. Em 1999 e 2002, o debate sobre impunidade mobilizou partidos, organizações, juristas. Hoje, conflitos no campo muitas vezes são absorvidos pelo ruído digital antes de se transformarem em questão pública. De certa forma, avalio, retrocedemos.

A diferença, penso eu, não está só na tecnologia, usada para pulverizar debates democráticos, é bem verdade, mas também num certo olhar coletivo que mudou. Durante a cobertura, mesmo críticos do MST admitiam que o uso da força fora desmedido. A morte não era celebrada como restauração da ordem. Havia disputa sobre responsabilidades, não aplauso à eliminação do adversário. Havia hipocrisia? Claro, mas pelo menos tínhamos um verniz de civilidade. Atualmente, ao integrar essas lembranças a uma reflexão mais ampla, percebo que Eldorado dos Carajás vai além da violência no campo. É um episódio que fala da relação entre memória e poder, algo ao qual tenho me aprofundado por conta de minha tese de doutorado que liga essas duas questões, mas relacionadas à Guerrilha do Araguaia.

Quando a sociedade pressiona, o Estado reage, ainda que de modo imperfeito, mas quando a pressão se dissolve, prevalece a lógica interna das corporações. O massacre produziu comoção suficiente para gerar um julgamento histórico em tamanho. Não produziu, ao final, responsabilização proporcional ao crime.

Não tenho, talvez, a mesma crença de antes nesse país, quando tinha pouco mais de 30 anos de vida. Sei que a estrada de luta permanece, mas processos como esse viram arquivos. As matérias escritas registram o momento em que o país ainda se sentia interpelado por aquelas mortes. Reorganizá-las hoje é um exercício de comparação. Não apenas entre passado e presente, mas entre duas atitudes coletivas diante da violência. Uma que se constrangia. Outra que, em certos setores, já não vê problema em justificar. Ao contrário, até incentiva mais e mais sangue.

A cobertura me ensinou também que nenhum detalhe é neutro. Tudo compõe um quadro maior. Na época, eu anotava. Hoje, compreendo melhor o desenho que se formava.

O Massacre de Eldorado não se encerrou na sentença quase inócua. Terminou, para muitos, no cansaço. Pode ser, penso, essa a herança mais difícil de enfrentar. Não a lembrança do massacre em si, mas a erosão da capacidade de sustentar a cobrança por justiça ao longo do tempo. É nessa erosão, nesses fiapos históricos, que o passado encontra o presente. Conheci muitos sobreviventes desse massacre, os entrevistei, ouvi suas histórias. Li pesquisas sobre o tema, como o de Walmir Brelaz, que o estudou em seu mestrado e produziu um livro importante sobre o assunto. Leio as contundentes análises do incansável advogado da CPT José Batista Afonso sobre essa terra manchada de sangue. E vejo também o brilho nos olhos de novos e velhos militantes renovando esperanças de luta. Dirigi um documentário sobre uma ocupação do MST, alcançada pouco tempo depois do massacre e testemunhei o orgulho pelas lutas travadas. Ainda assim, há algo que me soa desalentador no contexto geral. Talvez seja realmente esse cansaço de estarmos sempre num eterno recomeço.

A Curva do S permanece como marca física. O que se alterou foi o entorno simbólico. O país que um dia se constrangeu diante de (oficialmente) dezenove corpos não me parece mais disposto a discutir a humanidade. Esse deslocamento talvez seja o dado mais duro dessas três décadas. Não porque conflitos sobre a terra e a água tenham desaparecido, muito pelo contrário, mas porque a capacidade de sentir e se solidarizar foi corroída no caminho. Como testemunhas cada vez mais solitárias, ali ainda resistem as 19 árvores calcinadas fincadas como memória, à margem de uma estrada, numa curva que redefiniu o país. O que elas dizem e o que elas representam, está aos poucos desaparecendo entre sol, chuva e poeira no sudeste de um estado chamado Pará.

Ismael Machado é jornalista*


Fonte: Medium 

A produção agrícola é a principal causa de incêndios destrutivos nas florestas tropicais secas da América do Sul

Uma equipe de pesquisa internacional liderada pela HU usou imagens de satélite para reconstruir a história do incêndio do Gran Chaco, uma das maiores regiões de floresta seca do mundo

Agricultural production is the main cause of destructive fires in South  America's tropical dry forests - News - Technology Park Berlin Adlershof

Por Humboldt-University Berlin 

Todos os anos, vastas áreas de floresta queimam no Chaco Sul-Americano, uma região de floresta tropical seca que se estende pela Argentina, Bolívia, e o Paraguai forma a segunda maior região florestal do continente, depois da Amazônia. Até agora, os incêndios crescentes nas florestas secas da América do Sul eram frequentemente atribuídos às mudanças climáticas e às secas mais frequentes e extremas que elas trazem. No entanto, um estudo publicado na revista Nature Sustainability, conduzido por investigadores da Humboldt-University Berlin (HU) em colaboração com parceiros na Bolívia e na Argentina, desafia agora esta suposição.

Reconstrução do histórico de incêndios usando imagens de satélite

Usando cerca de 175.000 imagens de satélite, os investigadores reconstruíram a história dos incêndios na região do Chaco e descobriram que ocorreram incêndios pelo menos uma vez desde 1985 em dois terços da área de 1,1 milhões de quilómetros quadrados. Nos anos de seca, a floresta queima com mais frequência, mas o estudo mostra uma forte conexão entre incêndios e produção agrícola: em anos mais secos, áreas de floresta particularmente grandes são desmatadas para o cultivo de soja e a expansão da pecuária industrializada, e o uso subsequente dessas terras muitas vezes leva à eclosão de incêndios durante os períodos de seca. Estes resultados são importantes porque os incêndios libertam enormes quantidades de gases com efeito de estufa e ameaçam tanto a biodiversidade como os meios de subsistência das comunidades indígenas locais.

Esses insights também ganham importância à luz da nova regulamentação da UE para cadeias de suprimentos livres de desmatamento (EUDR), que será aplicada a grandes empresas a partir de 30 de dezembro de 2026. O EUDR exige requisitos de devida diligência para sete matérias-primas e produtos delas derivados. De acordo com o regulamento, matérias-primas como soja e carne bovina podem não ser produzidas em terras que foram desmatadas após 31 de dezembro de 2020.

Dado que o Chaco é um hotspot global para a produção de bens de exportação, como soja e carne bovina, o estudo fornece a base científica para monitorar o cumprimento de tais regulamentações. Mostra que proibições mais rigorosas de desflorestação e uma melhor gestão dos incêndios são essenciais para limitar os custos ecológicos da expansão agrícola.

A dinâmica do fogo no Chaco não é um fenômeno natural

“Quando você olha para as imagens de satélite, você não vê um fenômeno natural, mas sim dinâmicas de fogo que estão intimamente ligadas à transformação da paisagem,” explica o Dr. Matthias Baumann, autor principal do estudo e Cientista Sênior do Departamento de Geografia da Humboldt-University Berlin. “Nossos dados mostram claramente que os períodos de seca são frequentemente usados como janelas favoráveis para limpar a terra de forma barata com fogo. O fogo aqui não é uma perturbação natural ou um acidente, mas uma ferramenta do agronegócio.”

O Prof. Tobias Kümmerle, Professor do Departamento de Geografia, e líder do projeto SystemShift, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC) no qual o estudo foi conduzido, acrescenta: “A ideia de que a floresta simplesmente pega fogo porque fica mais seca é insuficiente. A mudança climática e o uso da terra agem juntos: no Chaco, ocorrem incêndios onde os seres humanos estão empurrando para trás a floresta para produzir soja e carne bovina. Alguns destes produtos chegam até nós na Europa.”
“Isso também nos dá esperança,” diz Oswaldo Maillard, coautor do estudo que trabalha para a fundação boliviana Fundación para la Conservación del Bosque Chiquitano. “Se os pecuaristas e agricultores utilizarem os incêndios de forma mais responsável e gerirmos o uso da terra de forma mais eficaz através de instrumentos como o EUDR, temos uma alavanca direta para impedir estes incêndios desastrosos.” O estudo mostra claramente que os incêndios no Chaco não são um destino climático inevitável, mas podem ser novamente restringidos através de políticas inteligentes e de uma gestão sustentável.

O estudo foi apoiado por o projeto SystemShift, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC). 

Mais informações

O estudo “Dinâmica de incêndios no Chaco sul-americano e sua ligação com a agricultura e a seca” por M. Baumann, O. Maillard, I. Gasparri, J. Burton, G. Gavier Pizarro e T. Kuemmerle foram publicados na Nature Sustainability.


Fonte: Humboldt-University Berlin

Governança sob influência: o avanço do Porto do Açu

Atuação do Porto do Açu em instâncias estratégicas expõe assimetrias e fragiliza o controle democrático em São João da Barra

Este blog vem acompanhando com interesse as evidências crescentes de que o Porto do Açu já não se contenta em manter apenas interlocutores dentro do governo municipal de São João da Barra, passando a se fazer representar diretamente em instâncias de governança e grupos de trabalho relacionados à gestão territorial e ambiental do município. Isso ficou evidente no recente imbróglio envolvendo a presidência do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, e tudo indica que essa participação direta está longe de ser um episódio isolado.

Ontem, recebi um material visual sobre uma reunião de trabalho da equipe responsável pela elaboração do novo Plano de Mobilidade Urbana de São João da Barra. Uma imagem chamou particularmente a atenção: nela aparece o gerente de Relacionamento com a Comunidade do Porto do Açu, Wanderson Primo de Sousa, segurando um mapa do município.

Como geógrafo e doutor em Planejamento Territorial, costumo afirmar que quem controla os mapas controla o território. A ideia, na verdade, remete ao geógrafo francês Yves Lacoste, em sua obra “A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra”, na qual distingue entre uma geografia escolar, que frequentemente obscurece a compreensão da realidade, e uma geografia estratégica, utilizada por centros de poder para consolidar seu domínio sobre os territórios. É nesse ponto que a situação se torna particularmente sensível: a presença de um ente privado, com interesses diretos, em espaços de formulação e planejamento estratégico.

Argumenta-se que o Porto do Açu, por ser o principal empreendimento econômico local, teria legitimidade para participar dessas discussões. No entanto, essa suposta legitimidade não se traduz em igualdade de condições para o conjunto da população sanjoanense, que também será diretamente afetada pelas decisões tomadas. Em uma democracia substantiva, tal assimetria exigiria mecanismos robustos de controle, transparência e contraposição de interesses — o que, na prática, não se verifica.

Mais do que uma simples participação, o que se observa é um processo de ocupação progressiva dos espaços de decisão por um agente privado com capacidade desproporcional de influência. Isso coloca em xeque a própria ideia de governança pública, ao deslocar o centro das decisões para fora do campo democrático. Diante disso, a pergunta que permanece é incômoda, mas inevitável: estamos diante de um modelo de desenvolvimento que distribui benefícios ou de um arranjo que concentra poder, captura instituições e naturaliza a subordinação do interesse coletivo às estratégias corporativas?

A guerra contra o Irã é o momento “Canal de Suez” dos EUA?

Um cessar-fogo está estabelecido, mas a guerra continua. A nova ordem mundial dos EUA caracteriza-se sobretudo pelo caos

Manifestação em frente à embaixada dos EUA nas Filipinas.

Manifestação em frente à embaixada dos EUA nas Filipinas. Foto: AFP/JAM STA ROSA
Por Raul Zelik para “Neues Deutschland” 

Enquanto a Alemanha reclama dos preços dos combustíveis e Israel bombardeia o Líbano apesar do cessar-fogo, o debate internacional gira principalmente em torno da convulsão geopolítica desencadeada pela guerra com o Irã: apesar da esmagadora superioridade militar, os EUA e Israel não conseguiram remodelar o Oriente Médio de acordo com sua própria visão. Em vez de mudança de regime ou fragmentação permanente do Irã, o ataque americano, surpreendentemente, fortaleceu a posição do país no Oriente Médio.

O caso iraniano é semelhante, pois o fechamento do Estreito de Ormuz desencadeou uma reação em cadeia na qual os preços da gasolina na Alemanha representam um problema relativamente marginal. O bloqueio do Estreito de Ormuz tem potencial para ser uma catástrofe econômica: alimentos, medicamentos, semicondutores – tudo é afetado pela interrupção das rotas de abastecimento. Graças a Donald Trump, o Irã percebeu que pode arrastar a economia global consigo.

A posição da política externa da China está agora mais alinhada ao direito internacional do que as políticas dos EUA, de Israel e de seus aliados europeus.

É improvável que o Irã conquiste um poder tão significativo. Internamente, o governo permanece sob imensa pressão. E milhares de ataques dos EUA causaram enormes danos. Mesmo assim, continua sendo verdade que os racistas na Casa Branca erraram gravemente nos cálculos.

Aslı Bâli, especialista em direito internacional da Faculdade de Direito de Yale, descreve o desenvolvimento da seguinte forma: Donald Trump acreditava que poderia orquestrar uma “tomada de poder hostil” no Irã, como é prática comum no mundo dos negócios. No entanto, devido às interconexões globais de produção, uma reação em cadeia foi desencadeada, surpreendendo completamente a liderança dos EUA. Bâli continua: “Agora está ficando claro que os conceitos de ordem não podem ser mantidos a longo prazo apenas pela força. Quanto mais os EUA tentam impor sua vontade por meio da coerção, mais diminuem seu poder como potência líder.”

Na União Europeia, que depende da continuidade dos lucros com a exploração e a desigualdade globais dentro do sistema transatlântico de pilhagem, essa constatação talvez ainda não tenha sido totalmente assimilada. Mas está se tornando cada vez mais claro: mesmo para as elites nacionais corruptas, há cada vez menos razões para se aliarem ao Ocidente. Mesmo que o regime de segurança interna chinês claramente não esteja em conformidade com a Carta dos Direitos Humanos, a posição da política externa da China hoje está mais próxima do direito internacional do que as políticas dos EUA, de Israel e de seus aliados europeus, que se tornaram cúmplices dos crimes de guerra da última semana.

Está cada vez mais claro que o rearme da Europa irá alimentar ainda mais a espiral global de violência. O “Ocidente esclarecido”, com sua arrogância, é em si uma das maiores ameaças à paz mundial. Qualquer pessoa que queira deter senhores da guerra como Trump deve fortalecer os sistemas multilaterais de segurança, em vez de copiar seu frenesi militar.


Fonte: Neues Deutschland