As engrenagens das fraudes: como a Braskem forjou estudos para ocultar os riscos da extração de sal-gema em Maceió

Vegetação toma conta de rua no bairro Pinheiro, em Maceió (AL), onde ruas afundaram após décadas de exploração mineral da Braskem – Jonathan Lins/Folhapress 2021 

Por Lúcia Lambranho para “Observatório da Mineração”

Além de esconder laudos técnicos que atestavam os riscos de afundamento do solo em Maceió desde 1988, a Braskem também apresentou estudos e laudos “falsos ou enganosos” no processo minerário conduzido pela Agência Nacional de Mineração (ANM). É o que aponta o Ministério Público Federal (MPF) no detalhamento destas fraudes que começaram, segundo a denúncia, ainda em maio de 2013.

Na primeira manipulação de informações, diz o MPF, a empresa encaminhou duas cópias de uma mesma planta de localização dos poços de sal, datadas de 19 de março daquele ano, mas com valores de leitura captados em março de 2003.

Um laudo técnico da Polícia Federal (PF) atesta que os documentos eram na verdade relatórios de monitoramento topográfico da superfície e não correspondiam aos estudos técnicos de mecânica de rochas, dados que deveriam determinar os limites operacionais da atividade minerária.

Outros dois lados também continham informações falsas, segundo a análise de 2024 da PF. No primeiro deles, a empresa afirmava que nos poços sobre os quais restringia sua aferição (16, 17, 30 e 31) estavam em conformidade com o previsto no seu plano de extração de 1977 e que estabelecia diâmetro máximo de 75 metros.

Mas um laudo realizado e contratado com a Sabine Storage & Operations, Inc., apresentado no licenciamento ambiental, afirma o MPF, todas as cavidades tinham diâmetros acima dos previstos, de aproximadamente 116, 106, 83 e 87 metros respectivamente, informa o MPF.

“Na mesma linha, a Braskem igualmente prestou informações falsas ou enganosas ao DNPM/ANM ao submeter o ‘Relatório de controle de recalque das minas de sal’, assinado pela Stop Serviços Topográficos, no qual constava que, após 10 anos desde a última leitura, não haviam sido identificadas alterações significativas de recalque. Tal informação foi igualmente distorcida pela empresa no ‘Relatório técnico’, em que afirmou que as medições topográficas realizadas não haviam apresentado alteração de recalque“, informa a denúncia sobre a terceira fraude nos documentos apresentados em 2013.

É depois de enviar estas informações que aparece a atuação mais destacada de Adolfo Pereira Sponquiado, engenheiro de Minas que atuou como coordenador de mineração e responsável técnico pela lavra de sal-gema na Braskem.

Como revelou o Observatório da Mineração nesta segunda-feira (22), a denúncia do MPF também pede novas investigações sobre três funcionários da Braskem. Sponquiado é um dos envolvidos que MPF quer ampliar sua apuração em novo inquérito policial específico. A investigação deverá aprofundar o exame sobre a inidoneidade do documento apresentado à ANM em conjunto com cópia adulterada do documento sobre os quatro poços.

Os procuradores afirmam na justificativa para nova apuração que houve fraude relacionada à Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) apresentada à ANM em conjunto com cópia adulterada do documento “Estudo de Estabilidade e Subsidência das Cavernas de Sal 16, 17, 30 e 31”.

Este documento foi enviado pela empresa após a ANM exigir novos documentos em dezembro de 2013, além daqueles sobre os quais a empresa já tinha ocultado a questão do recalque, das dimensões dos poços e da movimentação das rochas. 

Devido a essas trocas de assinaturas na ART e às discrepâncias entre as versões do documento, o MPF determinou que a Polícia Federal realize uma perícia grafotécnica no documento e proceda à oitiva de Sponquiado para esclarecer sua participação direta na inidoneidade da ART e do estudo técnico apresentado.

Infográfico: Folha

 

Estudo apresentado pela Braskem foi montado dentro da empresa e omitiu risco 40 vezes superior ao apresentado

A investigação da Polícia Federal, no bojo da Operação Lágrimas de Sal, revelou que o estudo protocolado pela Braskem em 2013 na ANM era uma versão montada dentro da empresa. O documento original, elaborado na França pela empresa Geostock e traduzido fielmente por Mônica Ballus Armet, foi retalhado antes de chegar às mãos das autoridades reguladoras.

Emails interceptados pela PF mostram que Sponquiado enviou a versão adulterada para outros gerentes alertando que aquela “seria uma versão ‘sintetizada e focada na exigência feita pelo órgão’, consistindo em versão ‘sugerida para protocolo após validação do jurídico”. A versão integral, intitulada “BRA 10-0001-PT”, continha as verdades que a Braskem precisava esconder para manter a extração ativa.

O ponto mais crítico da falsificação, segundo a denúncia, está na escolha deliberada de modelos geomecânicos que subestimavam o impacto na superfície. De acordo com o laudo pericial da PF, a Braskem suprimiu todas as referências ao “modelo de deformação plana”.

E este modelo omitido pela empresa “previa uma subsidência 40 vezes superior àquela estimada pelo cálculo axissimétrico — evidentemente, também suprimido pela BRASKEM no documento apresentado ao DNPM/ANM”.

A análise comparativa feita pelos peritos federais demonstra que a petroquímica não apenas omitiu dados, mas reescreveu justificativas técnicas. Um recorte relevante mostra que a Braskem alterou a premissa geológica do solo: enquanto os cientistas franceses alertavam para a complexidade das camadas de sal, a Braskem inseriu no documento que “os insolúveis existentes na formação de sal correspondem a camadas contínuas e que o sal é homogêneo”, divergindo propositalmente do contexto geológico real para passar uma falsa sensação de estabilidade.

Além disso, situações críticas de proximidade perigosa entre as Minas 16 e 17 foram apagadas. A justificativa técnica da consultoria Flodim para a implementação de modelos 3D nessas minas, devido à criticidade estrutural, foi substituída por uma frase genérica: “devido ao tempo maior que estiveram operando”.

A fraude alcançou o campo da responsabilidade profissional. Para dar “ares de tecnicidade” ao estudo forjado, a Braskem apresentou uma Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) em nome de Vitor José Campos Bourbon. No entanto, em depoimento à CPI da Braskem no Senado, Bourbon “negou peremptoriamente qualquer participação na elaboração ou revisão do sobredito estudo de estabilidade, alegando desconhecer a ART em seu nome e rejeitando como sua a assinatura aposta no documento”.

Bourbon foi além e indicou que a assinatura pertencia a Thiago Araújo Aragão, sócio da empresa Flodim. Aragão também negou ter firmado o documento, afirmando que “quando da suposta emissão da ART, não mais estava na empresa”. Essa “dança das assinaturas” é o que fundamenta o pedido do MPF para que a Polícia Federal instaure um inquérito específico para apurar crimes de falsidade ideológica e uso de documento falso.

Estudo do SGB apontou as mesmas fraudes em análise em 2019

A ampliação da investigação sobre este laudo já poderia ter sido realizada ou iniciada há sete anos. O documento, antes do laudo da PF de 2024, tinha sido analisado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) em seu estudo realizado, ainda em 2019, sobre irregularidades no mesmo documento enviado pela empresa à ANM e que fazem parte de um dos apensos do inquérito da PF aberto em 2020.

A análise da CPRM destacou que o estudo, de “elevada complexidade”, foi elaborado na França por engenheiros da empresa Geostock que sequer vistoriaram o campo de mineração em Maceió, baseando-se apenas em dados fornecidos pela Braskem.

Além disso, a tradução do documento para o português não foi realizada por um tradutor público, o que fere a legislação brasileira vigente. No campo da responsabilidade técnica, que agora será alvo da investigação e com pedido foi acatado pelo juiz do caso na aceitação da denúncia, a CPRM apontou que o estudo foi registrado por um engenheiro de controle e automação, especialidade incompatível com conhecimentos de mecânica das rochas e engenharia de minas exigidos pelo estudo.

Outro ponto crítico apontado em 2019 e que só agora será investigado pela PF foi o local do registro da ART, feito no CREA de Sergipe, ignorando que a atividade era exercida em Alagoas, onde os envolvidos não possuíam registro ou visto. Por fim, a CPRM ressaltou que o documento carecia de assinatura e limita seu escopo a apenas 4 das 35 cavidades existentes, sem justificar a escolha desse grupo específico.

Justiça federal pede apoio para citar engenheiro no exterior

No dia 15 de junho, o juiz responsável pelo caso na Justiça Federal em Alagoas pediu ajuda para citar Sponquiado em Portugal em seu novo endereço ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), órgão vinculado à Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justiça.

A reportagem tentou contato com o engenheiro por meio do telefone citado no documento, mas até o fechamento desta reportagem não conseguiu contato e retorno sobre o pedido de entrevista e posicionamento dele sobre as acusações. O espaço continua aberto para sua manifestação.

A reportagem questionou a Braskem sobre a questões especificadas do laudo e da ART, mas a empresa também não respondeu essa pergunta e enviou apenas uma nota:

“A Braskem reitera seu compromisso com a sociedade alagoana, assim como o respeito e solidariedade para com os moradores afetados. A empresa se pronunciará oportunamente nos autos do processo e ressalta que, desde o início das apurações, contribuiu, assim como seus integrantes, com as informações e esclarecimentos solicitados. A Braskem sempre atuou em conformidade com as leis e regulações do setor, informando e prestando contas regularmente às autoridades competentes. Seguiremos empenhados no cumprimento de todos os compromissos assumidos”, diz o comunicado.


Fonte: Observatório da Mineração

Data centers são alvo crescente de processos judiciais globais relacionados ao clima, revela relatório

Uma análise da LSE destaca litígios relacionados a fontes de energia, consumo de água e poluição do ar

Um centro de dados do Google em Santiago, Chile, onde um projeto foi interrompido com sucesso em 2020 por motivos climáticos. Fotografia: Luis Bustamante/The Guardian

Por Isabella Kaminski

Um relatório constatou que a proliferação de centros de dados e inteligência artificial está cada vez mais na vanguarda dos litígios ambientais em todo o mundo, dos EUA e Reino Unido ao Chile e à Irlanda .

Em uma análise de cerca de 3.600 ações judiciais relacionadas ao clima, ajuizadas desde 2015, a mais recente revisão anual de litígios climáticos realizada pela London School of Economics (LSE) constatou um número crescente de casos que questionam as fontes de energia, o consumo de água e a poluição do ar dos centros de dados, todos com implicações climáticas relacionadas.

Um dos primeiros casos foi registrado em 2020 na capital do Chile, Santiago, onde o Google planejava construir um enorme centro de dados na região de Cerrillos. Um grupo de moradores e a prefeitura local contestaram as licenças concedidas ao Google, levantando preocupações sobre o impacto do empreendimento no abastecimento de água da cidade, que já sofre com a crise climática .

O processo judicial conseguiu interromper o projeto Cerrillos , sob a alegação de que os impactos climáticos não haviam sido devidamente considerados, mas não a explosão mais ampla de centros de dados, que está esgotando os pântanos chilenos já afetados pela seca .

O relatório da LSE identificou a Irlanda como um foco de litígios contra centros de dados. O governo irlandês quer que o setor se expanda , embora já consuma mais de um quinto da eletricidade do país.

Em dezembro, a Comissão Irlandesa para a Regulação dos Serviços Públicos (CRU) afirmou que os “grandes consumidores de energia”, como centros de dados, teriam permissão para operar com combustíveis fósseis pelos próximos seis anos, após os quais deveriam utilizar pelo menos 80% de energias renováveis.

As organizações Amigos do Meio Ambiente Irlandês (FIE), Amigos da Terra Irlanda e ClientEarth estão buscando uma revisão judicial da decisão, argumentando que ela prenderá a Irlanda ao gás fóssil, uma fonte de altas emissões e alto custo, por muitos anos.

A FIE apresentou várias outras queixas relacionadas a centros de dados na Irlanda, incluindo uma contra a Agência de Proteção Ambiental devido à aprovação de um projeto no sul de Dublin.

Nos EUA, também há uma crescente reação legal contra os centros de dados. Na Califórnia, a cidade de Pittsburgh agora exige que um centro de dados utilize energia renovável para geração de energia e água reciclada para resfriar seus servidores. Na Geórgia e na Pensilvânia , há processos judiciais em andamento contra órgãos reguladores estaduais pela aprovação de novas infraestruturas de combustíveis fósseis vinculadas a centros de dados.

Outro caso no Mississippi alega que a xAI, de Elon Musk, está violando a Lei do Ar Limpo ao operar geradores portáteis de gás metano sem as licenças necessárias. O processo, movido pela Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), afirma que esses geradores representam sérios riscos à saúde pública para as comunidades negras e minoritárias próximas. O Departamento de Justiça dos EUA está tentando bloquear o processo , alegando que o trabalho da empresa é essencial para a economia.

No Reino Unido, ativistas entraram com uma ação judicial contra a decisão do governo de aprovar a construção de um centro de dados “hiperescala” em Buckinghamshire. A Foxglove, uma organização sem fins lucrativos de justiça tecnológica, e a Global Action Plan, uma organização ambientalista, representadas pelo escritório de advocacia Leigh Day, afirmaram que a decisão ignorou as demandas de eletricidade e água do projeto e não considerou adequadamente seus impactos climáticos.

O governo reconheceu posteriormente que houve falhas no processo e a ação judicial foi arquivada. A construtora agora admite que as medidas para mitigar o impacto ambiental precisariam ser formalizadas por meio de um contrato com a prefeitura.

O relatório da LSE afirmou que casos nos EUA e no Reino Unido demonstraram como os litígios “podem impulsionar mudanças na tomada de decisões relacionadas ao clima, mesmo na ausência de julgamentos favoráveis”. Isso poderia melhorar a transparência, como no caso do centro de dados de Buckinghamshire, onde a dimensão total dos impactos ambientais “não teria vindo à tona”.

A coautora do relatório, Joana Setzer, professora associada da LSE, afirmou que esses casos não visavam necessariamente impedir o desenvolvimento, mas sim evitar uma maior dependência de combustíveis fósseis. “É uma oportunidade para que esses empreendimentos de alto consumo energético sejam abastecidos por energias renováveis ​​neste momento em que isso é possível”, disse ela.


Fonte: The Guardian

Necropolítica planetária e justiça socioambiental: AMBIENTES publica edição internacional de Geografia e Ecologia Política

A revista AMBIENTES: Revista de Geografia e Ecologia Política acaba de publicar seu Volume 8, Número 1, uma edição especial inteiramente em língua inglesa dedicada ao tema “Planetary Necropolitics: Ecological and Social Challenges and Conflicts Across the World”. O número foi organizado pelos professores Marcelo Lopes de Souza (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Rosie R. Meade (University College Cork, Irlanda).

A publicação representa um passo importante no processo de ampliação do diálogo internacional promovido por AMBIENTES desde sua criação, em 2019. Mais do que uma estratégia de inserção acadêmica convencional, esta edição reafirma uma concepção de internacionalização baseada na construção de intercâmbios horizontais entre pesquisadores, movimentos sociais e diferentes tradições intelectuais, sem abrir mão da autonomia crítica e das agendas de pesquisa produzidas no Sul Global.

A opção pela publicação em inglês decorre do reconhecimento de seu papel como língua franca contemporânea, capaz de ampliar a circulação de reflexões e experiências produzidas na América Latina e em outras regiões do mundo. Trata-se de ocupar um espaço de debate global sem reproduzir relações de subordinação intelectual, fortalecendo a presença de perspectivas críticas comprometidas com a justiça socioambiental.

Os artigos reunidos nesta edição dialogam, em diferentes graus, com a obra do pensador camaronês Achille Mbembe, especialmente com o conceito de necropolítica, explorando seus desdobramentos para a compreensão de conflitos ambientais, injustiças territoriais, racismo ambiental, colonialismo, mudanças climáticas, encarceramento, resistência indígena e disputas em torno do direito ao território e à vida.

O número reúne contribuições de pesquisadores das Américas e da Europa, contemplando estudos sobre colapso climático, desenvolvimento ecocida, indústria nuclear, resistência indígena, territorialidades quilombolas, Amazônia, agronegócio, prisões e teoria da justiça espacial. Entre os artigos publicados destacam-se trabalhos de Simone Lucatello, Nicole Grimaldi, Josefa Maria Stiegler, Elizabeth Kiely, João Gabriel M. M. Reis, Alexandre Gaiser-Fernandes, Rafael Zilio, Allan Rodrigo de Campos Silva e Marcelo Lopes de Souza.

Convidamos pesquisadoras, pesquisadores, estudantes e ativistas a conhecerem esta edição especial e a participarem do diálogo internacional em torno dos desafios socioecológicos que marcam o mundo contemporâneo.

Acesse a revista

Site da revista: https://geografia-socio-ambiental.webnode.com/

Edição completa:
https://e-revista.unioeste.br/index.php/ambientes/issue/view/1662/335

Instagram: https://www.instagram.com/revistaambientes/

Boa leitura!

A Bayer está no banco dos réus. Quem julga a Revolução Verde?

A denúncia relatada por Ana Carolina Bortoleto revela que, por trás de uma corporação específica, existe um modelo agrícola inteiro baseado na socialização dos danos ambientais e sanitários e na privatização dos lucros

O artigo Denúncia contra Bayer expõe falhas globais na responsabilização por agrotóxicos”, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil e assinado por Jaqueline Pereira de Andrade e Daisy Carolina Tavares Ribeiro, oferece uma oportunidade valiosa para refletirmos sobre um problema que vai muito além de uma única empresa. O caso envolvendo a Bayer não deve ser interpretado como uma tentativa de exonerar a multinacional alemã de suas responsabilidades. Ao contrário, ele evidencia tanto o papel desempenhado pelas grandes corporações químicas na consolidação da agricultura dependente de agrotóxicos quanto os limites dos mecanismos institucionais atualmente existentes para controlá-las e responsabilizá-las pelos danos que seus produtos podem causar.

A Bayer ocupa hoje uma posição central no mercado global de insumos agrícolas, especialmente após a aquisição da Monsanto, em 2018. Com essa operação, herdou não apenas ativos estratégicos, mas também uma extensa lista de controvérsias relacionadas ao glifosato e a outros produtos amplamente utilizados na agricultura industrial. A permanência de disputas judiciais em diferentes países demonstra que as dúvidas sobre os impactos sanitários e ambientais desses produtos continuam longe de serem resolvidas. Mais do que isso, revela como a produção do conhecimento científico nessa área ocorre em um ambiente permeado por conflitos de interesse, pressões econômicas e disputas políticas.

Entretanto, limitar a discussão à Bayer seria insuficiente. O verdadeiro problema está no modelo agrícola construído a partir da Revolução Verde. Ao longo das últimas décadas, a produção agrícola passou a depender de um pacote tecnológico baseado na mecanização intensiva, em sementes padronizadas, fertilizantes sintéticos e uso crescente de agrotóxicos. Esse modelo permitiu elevar a produtividade de diversas culturas, mas também gerou uma dependência estrutural de substâncias químicas cujos efeitos cumulativos sobre a saúde humana e os ecossistemas continuam sendo progressivamente revelados pela literatura científica.

É justamente nesse ponto que o caso relatado por Ana Carolina Bortoleto ganha relevância. Mesmo quando surgem evidências científicas consistentes, denúncias bem fundamentadas e mobilização social, os mecanismos de responsabilização frequentemente se mostram lentos, fragmentados e insuficientes diante do poder econômico das corporações transnacionais. Não por acaso, as disputas envolvendo agrotóxicos costumam se arrastar por décadas, enquanto os produtos seguem sendo comercializados e utilizados em larga escala.

O problema torna-se ainda mais complexo porque os impactos dos agrotóxicos raramente se manifestam de forma imediata ou facilmente rastreável. Casos de câncer, distúrbios neurológicos, alterações endócrinas, contaminação de recursos hídricos e perda de biodiversidade costumam resultar de exposições prolongadas e múltiplas. Essa característica favorece estratégias empresariais voltadas a semear dúvidas, contestar evidências e postergar medidas regulatórias, reproduzindo um padrão já observado anteriormente nas indústrias do tabaco, do amianto e dos combustíveis fósseis.

A consequência é que os sistemas de regulação acabam operando em permanente desvantagem. Enquanto as corporações dispõem de recursos financeiros praticamente ilimitados para influenciar pesquisas, contratar especialistas, financiar lobby e sustentar longas batalhas judiciais, os órgãos públicos frequentemente enfrentam restrições orçamentárias, limitações técnicas e pressões políticas. O resultado é um quadro em que a velocidade da expansão dos mercados de agrotóxicos supera em muito a capacidade dos Estados de avaliar, monitorar e controlar seus impactos.

Por isso, o caso da Bayer deve ser entendido como a expressão de uma crise mais profunda. O que está em questão não é apenas a conduta de uma empresa específica, mas a fragilidade dos instrumentos públicos destinados a proteger a saúde coletiva e o meio ambiente diante de um modelo agrícola que continua socializando seus custos e privatizando seus lucros. Enquanto essa assimetria persistir, denúncias como a relatada pelo Le Monde Diplomatique Brasil continuarão surgindo, revelando não apenas os problemas de uma corporação, mas os limites de um sistema regulatório incapaz de acompanhar a escala e a complexidade dos riscos produzidos pela agricultura química contemporânea.

Eduardo Paes conheceu o Porto do Açu. Falta agora conhecer São João da Barra

A visita ao enclave multinacional revelou entusiasmo com os negócios bilionários do empreendimento, mas nenhuma curiosidade sobre os agricultores expropriados, os pescadores prejudicados e as promessas que ficaram pelo caminho

Como ocorreu no passado com o então bilionário Eike Batista, o ex-prefeito do Rio de Janeiro e pré-candidato ao governo estadual, Eduardo Paes (PSD), teve seu dia de “Barão de São João da Barra”, coroado pela concessão de um curioso diploma de cidadão sanjoanense. Tudo indica que esta tenha sido uma de suas poucas visitas ao município. O episódio demonstra que, quando se trata de homenagear grandes investidores ou seus representantes políticos, o Legislativo local parece não conhecer limites na distribuição de honrarias.

Como todo político em pré-campanha, Eduardo Paes participou de uma visita cuidadosamente organizada ao Porto do Açu, acompanhado da ainda deputada estadual e ex-prefeita Carla Machado, personagem que poderia ser considerada, sem exagero, uma das principais madrinhas políticas do empreendimento. Durante o roteiro pelo interior do complexo portuário, Paes reproduziu um discurso já conhecido dos entusiastas do projeto, afirmando que o Porto do Açu não seria apenas “uma joia da coroa do Rio de Janeiro”, mas “a coroa inteira”.

A declaração não surpreende. Ao longo de sua trajetória política, Eduardo Paes construiu uma relação particularmente próxima com grandes grupos empresariais. Em seus mandatos à frente da Prefeitura do Rio de Janeiro, promoveu amplas intervenções urbanas voltadas à valorização imobiliária de determinadas áreas da cidade, mobilizando vultosos recursos públicos para dinamizar territórios posteriormente apropriados pelo mercado como novas fronteiras de valorização econômica.

Também não surpreende que a visita tenha sido conduzida sob a ótica dos números apresentados pela direção do Porto do Açu. Segundo os administradores do empreendimento, o complexo abriga atualmente cerca de 30 empresas, movimenta aproximadamente 7 mil trabalhadores por dia e teria investido mais de R$ 70 milhões em compras e contratações de fornecedores regionais no último ano. O discurso empresarial enfatiza ainda que 75% dos trabalhadores seriam oriundos da região e que a parceria com os municípios vizinhos seria fundamental para sustentar o crescimento do empreendimento.

O problema é que, ao aceitar sem questionamentos essa narrativa corporativa, Eduardo Paes deixou de abordar questões centrais relacionadas à implantação e aos impactos do Porto do Açu. Em nenhum momento explicou como um eventual governo estadual trataria a dívida histórica da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin) com centenas de famílias de agricultores que tiveram suas terras desapropriadas para a criação de um distrito industrial que jamais se materializou nos moldes originalmente anunciados. Parte dessas áreas acabou incorporada à expansão do complexo portuário e hoje gera receitas milionárias por meio da locação de terrenos para empresas instaladas no empreendimento.

O fato incontornável é que a implantação do Porto do Açu ocorreu mediante um amplo processo de expropriação de terras produtivas que garantiam renda e reprodução social para agricultores familiares. Paralelamente, comunidades pesqueiras tradicionais passaram a enfrentar crescentes restrições de acesso a áreas historicamente utilizadas para a pesca artesanal. Em especial, os sistemas lagunares do V Distrito sofreram mudanças que reduziram significativamente as possibilidades de reprodução econômica de dezenas de famílias que dependiam desses ambientes para sobreviver.

Além disso, chama atenção que, passados quase vinte anos desde o anúncio do projeto original, a promessa de um grande distrito industrial diversificado nunca tenha se concretizado. O complexo consolidou-se principalmente como uma plataforma logística voltada ao apoio offshore, à exportação de minério de ferro e às atividades ligadas ao setor de petróleo e gás, mantendo características típicas de um enclave econômico pouco integrado ao território que o abriga.

Por isso, mais do que celebrar sua nova condição de cidadão sanjoanense, seria desejável que Eduardo Paes realizasse uma visita ao V Distrito de São João da Barra. Mas não apenas ao interior do complexo cercado e protegido que lhe foi apresentado. Seria importante percorrer o lado de fora das cercas, conversar com agricultores desapropriados, pescadores artesanais e moradores das comunidades afetadas pela implantação do empreendimento. Somente assim poderá conhecer uma realidade que raramente aparece nos centros de visitantes e nas apresentações institucionais: a de um empreendimento multinacional que extrai enormes riquezas do território, enquanto distribui de forma extremamente desigual os custos sociais e ambientais de sua presença.

Da Amazônia para os jardins da Europa: como a madeira ilegal brasileira continua atravessando oceanos sob o selo da “sustentabilidade”

Investigação da Earthsight revela que madeira oriunda de uma empresa multada, condenada criminalmente e alvo de sucessivas suspensões chegou ao mercado holandês com o respaldo de sistemas de certificação que deveriam impedir justamente esse tipo de fraude

No último Dia Mundial das Florestas Tropicais, a organização investigativa Earthsight publicou uma reportagem que deveria causar constrangimento tanto em Brasília quanto em Bruxelas. O trabalho mostra como milhares de metros cúbicos de madeira extraída na Amazônia brasileira chegaram ao mercado holandês apesar de um histórico de infrações ambientais, multas milionárias, condenações criminais e suspensões administrativas envolvendo a empresa fornecedora. Mais uma vez, a realidade expõe a enorme distância entre os discursos corporativos sobre sustentabilidade e o funcionamento concreto das cadeias globais de commodities.

O foco da investigação é a empresa Samise Indústria, Comércio e Exportação Ltda., uma das maiores exploradoras de madeira da Amazônia brasileira. Segundo a Earthsight, análises de imagens de satélite, documentos oficiais, processos judiciais e registros de transporte revelaram uma longa lista de irregularidades associadas às operações da empresa na Floresta Nacional Saracá-Taquera, no Pará. Entre elas aparecem acusações de fraude, manipulação de identificação de toras, descumprimento de embargos e transporte de madeira durante períodos em que suas atividades estavam oficialmente suspensas pelos órgãos de fiscalização.

O aspecto mais revelador da investigação não é apenas a existência das irregularidades. Afinal, quem acompanha a história recente da Amazônia sabe que a extração ilegal de madeira continua sendo uma das principais portas de entrada para processos mais amplos de degradação ambiental, grilagem de terras públicas e desmatamento. O mais perturbador é que essa madeira conseguiu percorrer toda a cadeia de comercialização internacional e chegar a consumidores europeus ostentando certificados ambientais que, em tese, deveriam funcionar como garantias de legalidade.

Segundo a Earthsight, empresas holandesas adquiriram grandes volumes de angelim-vermelho provenientes da cadeia de fornecimento da Samise. Essa madeira acabou sendo utilizada em decks, passarelas e outras estruturas urbanas na Holanda. Em alguns casos, os compradores declaravam comercializar apenas produtos certificados, reforçando a crença de que a certificação seria suficiente para afastar riscos de ilegalidade. A investigação mostra exatamente o contrário. Mesmo após sucessivas suspensões do certificado FSC da empresa amazônica, a madeira continuou circulando normalmente pelos canais comerciais internacionais.

Esse ponto merece atenção especial porque desmonta uma narrativa que vem sendo repetida há décadas. A certificação florestal foi apresentada como uma solução de mercado capaz de resolver problemas ambientais complexos sem necessidade de ampliar significativamente a capacidade de fiscalização do Estado. A lógica era simples: consumidores conscientes comprariam produtos certificados, empresas seriam recompensadas por boas práticas e o mercado eliminaria gradualmente os infratores. O problema é que essa lógica depende de sistemas de auditoria extremamente rigorosos, independentes e transparentes. Quando esses sistemas falham, a certificação deixa de ser um instrumento de proteção ambiental e passa a funcionar como uma ferramenta de legitimação.

A investigação da Earthsight sugere justamente isso. O FSC, considerado o principal selo de certificação florestal do mundo, manteve válida a certificação da Samise durante grande parte do período em que as acusações e sanções administrativas se acumulavam. O certificado só foi definitivamente cancelado em março de 2026, exatamente quando a Earthsight compartilhava suas conclusões com as entidades responsáveis. A coincidência é, no mínimo, desconfortável.

Mas há uma dimensão ainda mais ampla nessa história. O caso evidencia as limitações da própria governança ambiental internacional. Durante anos, a União Europeia apresentou sua legislação sobre madeira como um modelo global de combate à importação de produtos associados à ilegalidade. Entretanto, a investigação demonstra que a excessiva dependência de certificações privadas abriu brechas significativas para a entrada de madeira de origem duvidosa no mercado europeu. A própria Earthsight argumenta que a nova legislação europeia contra o desmatamento (EUDR) só terá alguma efetividade se as autoridades abandonarem a confiança quase automática nos selos ambientais e realizarem verificações independentes e aprofundadas.

Para nós, brasileiros, o caso oferece uma reflexão adicional. Em um momento em que o governo federal discute a ampliação das concessões florestais na Amazônia, a investigação mostra que a mera existência de planos de manejo e certificações não elimina riscos de fraude, captura institucional e exploração predatória. Pelo contrário. Quando interesses econômicos poderosos se combinam com capacidades limitadas de fiscalização, até mesmo mecanismos concebidos para proteger a floresta podem ser convertidos em instrumentos de sua degradação.

Existe ainda uma ironia difícil de ignorar. Muitos dos países que cobram do Brasil maior responsabilidade ambiental continuam consumindo madeira, minérios, carne e outras commodities oriundas de regiões marcadas por conflitos fundiários, desmatamento e fragilidade institucional. O problema não está apenas na produção. Está também na demanda. Enquanto houver consumidores dispostos a aceitar certificados como substitutos da verificação efetiva da origem dos produtos, o mercado continuará premiando cadeias produtivas que operam nas zonas cinzentas da legalidade.

No final das contas, a investigação da Earthsight reforça uma velha lição da Amazônia: a floresta não é destruída apenas por motosserras. Ela também é destruída por formulários preenchidos de forma conveniente, auditorias complacentes, certificações frágeis e cadeias globais de comércio que transformam a ilegalidade em mercadoria aparentemente legítima. A madeira que hoje compõe elegantes decks e passarelas na Holanda carrega consigo não apenas fibras vegetais amazônicas, mas também as marcas profundas de um sistema internacional que continua encontrando maneiras de lucrar com a destruição da maior floresta tropical do planeta.

Vendendo fumaça em nome da floresta

Estudo internacional mostra que maioria dos projetos de créditos de carbono gera certificados negociáveis para o mercado, mas produz poucos resultados concretos para a conservação da biodiversidade e da integridade dos ecossistemas

O artigo Ecological integrity of avoided deforestation projects, publicado hoje na revista científica Nature Climate Change e assinado por Kelly Ong, Tao Chen, Zhimin Chen, Carlos T. Pérez-Brito e Yiwen Zeng, chega como mais um golpe devastador contra a narrativa cuidadosamente construída pela indústria dos créditos de carbono de que seria possível continuar emitindo gases de efeito estufa enquanto se financia a conservação florestal em outro lugar.

O que torna este estudo particularmente incômodo para os defensores do mercado de carbono é que ele não se limita à velha discussão sobre a validade das toneladas de CO₂ supostamente evitadas. Essa batalha já vinha sendo travada há anos, com sucessivos estudos mostrando problemas de adicionalidade, superestimação de benefícios climáticos e créditos fantasmas. O que Ong e colegas fizeram foi algo ainda mais constrangedor: perguntaram se os projetos de REDD+ e de “desmatamento evitado” estariam ao menos cumprindo a promessa de conservar ecossistemas saudáveis. A resposta, após a análise de 133 projetos distribuídos por vários continentes, é um sonoro e embaraçoso “na maioria das vezes, não”.

Ong e seus colaboradores avaliaram cinco indicadores de integridade ecológica — biodiversidade, integridade da paisagem florestal, fragmentação, altura do dossel e balanço líquido de carbono — comparando áreas dos projetos com áreas-controle cuidadosamente selecionadas. O resultado central é devastador: a maioria dos projetos apresentou impactos mistos, insignificantes ou mesmo negativos em relação às áreas de comparação. Apenas uma fração mínima mostrou ganhos consistentes em todos os indicadores analisados.

Traduzindo para uma linguagem menos diplomática do que a utilizada pelo artigo publicado na Nature Climate Change: grande parte da indústria dos créditos de carbono vende ao mundo a imagem de florestas protegidas, biodiversidade preservada e clima estabilizado, mas os resultados observados no terreno frequentemente não correspondem ao material promocional distribuído em conferências climáticas, relatórios ESG e campanhas corporativas de marketing verde.

Talvez o aspecto mais perturbador do artigo seja a constatação de que cerca de 16% dos projetos avaliados apresentaram condições ecológicas piores do que as áreas florestais vizinhas não protegidas. Em outras palavras, existem projetos que geram créditos de carbono ao mesmo tempo em que fracassam em manter a integridade ecológica que supostamente justificaria sua existência.

Os autores sugerem uma explicação particularmente reveladora: muitos desenvolvedores podem estar escolhendo áreas já degradadas para maximizar a aparência de adicionalidade. Afinal, quanto pior a condição inicial da floresta, mais fácil parece demonstrar melhorias futuras e gerar créditos negociáveis. O problema é que essa lógica transforma a conservação em um exercício contábil, não em uma estratégia ecológica. O que importa deixa de ser a saúde do ecossistema e passa a ser a produção de ativos financeiros negociáveis em bolsas e plataformas especializadas.

Para quem acompanha criticamente o avanço dos mercados ambientais, o estudo confirma algo que muitos pesquisadores da ecologia política vêm denunciando há anos: os créditos de carbono não foram concebidos prioritariamente para proteger florestas, mas para criar mecanismos de compensação que permitam a continuidade das emissões por parte de grandes poluidores. A floresta torna-se uma espécie de certificado de indulgência climática. O poluidor compra créditos, melhora sua imagem corporativa e segue operando dentro de um modelo econômico baseado na expansão contínua da exploração de combustíveis fósseis.

A ironia é difícil de ignorar. Durante décadas, corporações petrolíferas, mineradoras, gigantes do agronegócio e fundos financeiros apresentaram os créditos de carbono como um exemplo de solução baseada no mercado. O argumento era simples: bastaria atribuir um preço à natureza para que o capitalismo resolvesse a crise climática que ele próprio ajudou a criar. O artigo de Ong e colaboradores sugere exatamente o contrário. Quando a conservação passa a ser subordinada à lógica da rentabilidade financeira, a integridade ecológica tende a se tornar uma variável secundária.

Há também uma mensagem especialmente relevante para países do Sul Global, como o Brasil. Grande parte dos projetos de carbono florestal está localizada em territórios habitados por povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores. O estudo mostra que os resultados dependem fortemente de fatores como governança local, segurança fundiária e capacidade regulatória. Em contextos marcados por conflitos fundiários, corrupção ou fragilidade institucional, os projetos frequentemente apresentam desempenho inferior.

Isso deveria soar como um alerta particularmente importante para a Amazônia brasileira. A corrida atual para transformar a floresta em uma gigantesca fábrica de créditos de carbono corre o risco de repetir o mesmo padrão observado em outros ciclos de mercantilização da natureza: abundância de promessas, enorme fluxo de recursos financeiros para intermediários e consultorias, mas benefícios ecológicos e sociais muito mais modestos do que os anunciados.

O mérito deste artigo não está em afirmar que todos os projetos fracassam, pois nele são identificados alguns casos bem-sucedidos. O problema é justamente o oposto: os sucessos são exceções e não a regra. Quando um mecanismo é vendido globalmente como solução climática e seus resultados positivos aparecem apenas de forma esporádica, estamos diante de um sério problema estrutural, não de falhas pontuais.

Ao final da leitura, fica difícil escapar de uma conclusão incômoda. O mercado de carbono continua sendo tratado por governos, corporações e organismos multilaterais como um instrumento central da ação climática. Entretanto, cada novo estudo independente parece remover mais uma camada da maquiagem verde que sustenta essa narrativa. Depois das dúvidas sobre a real redução de emissões, agora surge uma evidência robusta de que muitos projetos também falham em conservar adequadamente os ecossistemas que alegam proteger.

Se o objetivo é enfrentar a emergência climática e a crise da biodiversidade, talvez esteja chegando a hora de abandonar a confortável fantasia de que mercados financeiros podem substituir políticas públicas robustas, fiscalização ambiental efetiva e a redução direta do uso de combustíveis fósseis. O artigo publicado hoje na Nature Climate Change sugere que os créditos de carbono estão cada vez mais parecidos com aquilo que seus críticos vêm denunciando há anos: menos uma solução climática e mais um sofisticado mecanismo de greenwashing global.

El Niño está de volta com força total – e o medo de uma força comparável à de Godzilla pode ser a menor das nossas preocupações

O Programa Mundial de Alimentos da ONU e a agência de agricultura lançam um apelo conjunto por fundos para evitar uma crise global de fome

Por Ajit Niranjan para “The Guardian”

Dugna Woyessa era um menino quando a seca devastou seu país pela primeira vez. No início da década de 1970, enquanto as colheitas fracassavam nas regiões da Etiópia afetadas pela seca, e sua escola transformava uma sala de aula em um depósito de grãos para que os agricultores pudessem enviar ajuda, ele não fazia ideia de que os cientistas estavam começando a conectar a força que ressecava os campos com as mudanças cíclicas nos ventos alísios, que há muito intensificavam os eventos climáticos violentos da América do Sul à Austrália.

O agora notório El Niño – que em espanhol significa “menino”  recebeu esse nome de pescadores do Pacífico no século XIX, mas foi somente na década de 1970 que os cientistas compreenderam sua natureza global e começaram a reconstruir o impacto histórico desse padrão climático natural, caracterizado por anos quentes e extremos brutais.

O El Niño de 1972-73 aqueceu as águas peruanas a níveis que levaram ao colapso da maior pescaria de anchova do mundo – o que levou cientistas a realizarem a primeira previsão sobre o seu estado no ano seguinte – e trouxe uma seca severa para o sul da Ásia, o Sahel e partes da África Oriental, às vésperas de uma crise do petróleo que agravou a fome global. Na Etiópia, os protestos contra a forma como o imperador lidou com a fome contribuíram para um golpe militar que instaurou uma ditadura comunista.

Um homem segura dois tubarões-martelo que pescou em um terminal de pesca.

Dois tubarões-martelo capturados em Lima, em 1997. Peixes de água quente foram atraídos pelas águas peruanas aquecidas pelo El Niño. Fotografia: Ricardo Choy Kifox/AP

“O El Niño é um dos fenômenos climáticos mais desafiadores”, disse Woyessa, que se tornou epidemiologista no Instituto Etíope de Saúde Pública e estudou seus efeitos sobre as epidemias de malária . “A nutrição é fundamental para a capacidade de resistir aos desafios dos seus impactos negativos na saúde humana.”

Com muita frequência, porém, o que o El Niño tira é da nutrição, justamente daqueles que mais precisam. Woyessa estava no ensino médio quando um El Niño mais forte atingiu a região uma década depois, em 1982-83, obrigando alguns de seus colegas a viajar 150 km para ajudar nas colheitas em fazendas estatais. Em seu primeiro ano de universidade, novas quebras de safra e a guerra civil agravaram a fome generalizada, transformando-a em uma crise ainda mais devastadora, que atraiu a atenção mundial por meio do concerto Live Aid . Woyessa e seus colegas se revezavam para ajudar as pessoas em abrigos perto da universidade. “Recebíamos dois pães pela manhã e tínhamos que dividir o café da manhã.”

Uma menina coleta água no rio Shabelle, em Gode, Etiópia, em 2022, quando a seca levou 20 milhões de pessoas à beira da fome. Fotografia: Eduardo Soteras/AFP/Getty Images

Este ano, o El Niño está de volta – e os cientistas temem que ele se assemelhe mais a um adulto do que a um menino. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) afirmou que as condições do El Niño se formaram no Pacífico na semana passada e que há 63% de chance de que ele atinja um pico “muito forte” perto do final do ano. O Departamento de Meteorologia da Austrália seguiu o exemplo na terça-feira, alertando que o fenômeno agravará o calor extremo e os incêndios florestais que assolam o país todos os anos.

Alguns cientistas o apelidaram informalmente de El Niño “super” ou “Godzilla”, com base na magnitude esperada da anomalia de temperatura, que elevará o calor global em um momento em que eventos climáticos extremos, como as recentes ondas de calor e tempestades na Europa , estão testando os limites da capacidade de resposta da sociedade. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) usou uma linguagem mais cautelosa ao nos alertar para a possibilidade de seu retorno no início deste mês, argumentando que a grande dispersão nos resultados dos modelos tornava prematuro prever sua intensidade.

Espectadores do Aberto da França de 2026, em Paris, se refrescam em um posto de pulverização de água durante uma onda de calor. Fotografia: Benoît Tessier/Reuters

Em março, o Fundo Monetário Internacional alertou que cerca de metade dos 68 países mais pobres do mundo enfrentam dificuldades com a dívida ou correm alto risco de enfrentá-las. Além disso, a guerra com o Irã levou a altos preços da energia e à restrição do fornecimento de fertilizantes, o que enfraqueceu as reservas contra choques climáticos. Este mês, a Rede de Sistemas de Alerta Antecipado de Fome projetou que entre 115 e 125 milhões de pessoas precisarão de assistência alimentar urgente até dezembro, com riscos de fome no Sudão, Sudão do Sul e Somália. O corte drástico na ajuda externa dos EUA e a redução dos orçamentos de desenvolvimento europeus significam que menos apoio poderá chegar quando as crises ocorrerem.

Na quinta-feira, a ameaça representada pelo El Niño levou o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a lançarem seu primeiro apelo conjunto por fundos para evitar uma crise antes que ela aconteça. Citando pesquisas que mostram que cada dólar gasto em “ação preventiva” economiza sete dólares em custos de ajuda humanitária, as agências afirmaram que precisavam de US$ 167 milhões dos US$ 202 milhões necessários para ajudar 8,8 milhões de pessoas com sementes resistentes à seca, defesas contra inundações, sistemas de armazenamento de água e transferências de dinheiro.

Mulheres do grupo étnico Murle aguardam na fila para receber distribuição de alimentos.

Mulheres da etnia Murle fazem fila em um centro de distribuição do Programa Mundial de Alimentos em Gumuruk, Sudão do Sul, em 2021, onde o conflito armado agravou a escassez de alimentos. Fotografia: Simon Wohlfahrt/AFP/Getty Images

A boa notícia, se é que existe alguma, é que não se espera que o El Niño leve a piores resultados para as colheitas em escala global, já que os ganhos em algumas regiões normalmente compensam as perdas em outras, mas os perdedores incluirão aqueles com menos condições de lidar com a situação. Muitos dos países africanos e asiáticos mais expostos também foram duramente atingidos por choques nos preços dos fertilizantes e apresentam alguns dos maiores níveis de dependência de importação de alimentos e endividamento, afirmou Anne Jellema, diretora executiva da 350.org, um grupo de campanha climática. “Isso significa que o El Niño elimina o último recurso doméstico para pessoas que não conseguem acessar os mercados, que cada vez mais não conseguem obter ajuda humanitária e que não podem se locomover livremente.”

Os impactos também serão sentidos no mundo desenvolvido, à medida que o El Niño traz ondas de calor mais intensas e uma disseminação mais ampla de algumas doenças transmitidas por vetores. Sua chegada “persistentemente” retarda as melhorias na mortalidade, mesmo em países ricos como os EUA, Austrália, Japão e Coreia do Sul, de acordo com um estudo publicado em janeiro na revista Nature Climate Change.

Um trabalhador lança feixes de mudas de arroz para o ar antes de transplantá-las para um arrozal alagado.

Plantação de arroz em Srinagar, na região de Jammu e Caxemira administrada pela Índia, em 2026, em meio a temores de que a guerra com o Irã eleve os custos de fertilizantes, combustível e transporte. Fotografia: NurPhoto/Getty Images

Em certa medida, os danos causados ​​pelo El Niño foram controlados nas últimas décadas por um certo nível de previsibilidade – mas ele oferece uma amostra dos horrores em cascata que os cientistas climáticos alertam que desestabilizarão as sociedades à medida que o planeta aquece.

Agravados por tensões geopolíticas, preços elevados de energia e fertilizantes e cadeias de abastecimento frágeis, os choques relacionados ao El Niño podem estar “aumentando a probabilidade de impactos sistêmicos compostos e não lineares”, alertou um estudo do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia na segunda-feira, com efeitos em cascata que abrangem todos os setores econômicos ligados ao mundo natural.

“Um possível caminho de transmissão seria desde secas, inundações e estresse térmico afetando a produção agrícola, a produtividade do trabalho, a disponibilidade de água, a geração de energia hidrelétrica e os sistemas de transporte, até preços mais altos de alimentos e energia, pressão inflacionária, estresse fiscal e menor capacidade de pagamento dos mutuários”, escreveram os autores.

Será possível evitar tais calamidades no próximo ano? O El Niño não precisa ser “uma receita para o desastre”, segundo a OMM (Organização Meteorológica Mundial), que afirmou que suas previsões são mais um apelo à ação antes que os riscos se transformem em crises. Sua secretária-geral, Celeste Saulo, instou o mundo a intensificar os esforços para construir sistemas de alerta precoce para múltiplos riscos, já que apenas 128 países relatam possuir tais sistemas.

Enquanto isso, ativistas climáticos têm defendido o cancelamento da dívida do Sul Global e o financiamento de proteções sociais por meio de impostos sobre os lucros extraordinários das empresas de petróleo e gás, em vez de financiar combustíveis fósseis. “Há muitas pesquisas que mostram que a proteção social direcionada é muito mais eficaz do que subsidiar combustíveis fósseis e fertilizantes, porque chega às pessoas que mais precisam”, disse Jellema.

Pessoas aguardam em uma longa fila para comprar gás liquefeito de petróleo.

Em março deste ano, em Calcutá, na Índia, pessoas aguardam para comprar gás liquefeito de petróleo (GLP), em meio a interrupções no fornecimento e controles sobre as importações de gás devido ao conflito no Oriente Médio. Fotografia: Debajyoti Chakraborty/NurPhoto/Shutterstock

António Guterres, cujo mandato como secretário-geral da ONU termina no final deste ano, tem feito apelos igualmente desesperados aos líderes mundiais há anos, implorando-lhes que abandonem a dependência dos combustíveis fósseis, que tem impulsionado o superaquecimento do planeta e a degradação do mundo natural. O mundo aqueceu cerca de 1,3°C desde a Revolução Industrial, e as temperaturas estão subindo tão rapidamente que os piores anos do El Niño no passado recente – como 1997-98 – são muito menos quentes do que os anos atuais, em que o sistema muda para La Niña, seu equivalente mais frio.

Para Woyessa, o aumento das temperaturas e o desmatamento perturbaram os padrões de chuva, mesmo ao redor da aldeia onde cresceu. O rio em que costumava nadar quando menino foi reduzido a um pequeno riacho, e a chuva, da qual as gerações anteriores dependiam para o plantio, tornou-se irregular. Ele acrescentou que, quando telefonava para o falecido pai, perguntar sobre a chuva era uma forma típica de iniciar uma conversa.

“A principal preocupação é a mudança na época das chuvas”, disse ele. “O início delas mudou completamente em comparação com a minha infância.”


Fonte: The Guardian

De Copa do Mundo a uma extrema-direita que vai asfixiando um continente

Por Ismael Machado* 

De tempos em tempos meu organismo passa por uma situação singular. Ele adapta seus horários de forma a acompanhar eventos como Olímpiadas ou Copa do Mundo, de forma intensa, visceral. Gosto, sobretudo, dos jogos pequenos, mas que contêm uma enorme dramaticidade político-social-geográfica. Como as partidas de Cabo Verde, Curaçao, Nova Zelândia, Irã. Há possibilidades de os iranianos enfrentarem os Estados Unidos em outra fase da competição. Com o cenário de guerra entre as duas nações será mais que uma partida de futebol. Aliás, sou dos que defendem a tese de nunca ser apenas um jogo. Futebol é sempre algo além.

Já li textos afirmando que um sucesso de Messi e companhia ajudaria a conter a frustração do povo argentino com seu presidente, o tresloucado Milei. A conferir.

Fato é que, independentemente do que esteja ocorrendo em gramados mexicanos, estadunidenses e canadenses, o mapa político da América do Sul atravessa uma transformação significativa. Depois de quase duas décadas em que a chamada “onda rosa” levou ao poder governos de esquerda e centro-esquerda em grande parte do continente, observa-se hoje um cenário bastante diferente e preocupante a quem sempre almeja uma sociedade menos fratricida. Forças de direita e, em alguns tristes casos, de extrema direita, conquistaram espaço eleitoral e institucional em diversos países. A Argentina de Javier Milei talvez seja o exemplo mais emblemático dessa nova fase, mas não está sozinha. Equador, Paraguai e outros países da região também caminharam para governos mais conservadores ou liberais na economia, enquanto movimentos de extrema direita cresceram de forma expressiva em países onde ainda não chegaram ao poder.

Nesse contexto, o Brasil governado por Lula passou a ocupar uma posição singular. Não se trata exatamente de um isolamento diplomático, já que o país continua sendo a maior economia da América Latina e um ator relevante no sistema internacional, mas de uma relativa dissociação em relação à tendência predominante no continente. Em certo sentido, o Brasil tornou-se uma exceção em uma região que, pelo menos momentaneamente, parece ter deslocado seu centro de gravidade político para a direita. No meu pêndulo democrático, um país tender à direita, embora me avexe internamente, não é um problema insanável, pois faz parte do tabuleiro político. Já a ascensão da extrema-direita que não respeita a democracia em nenhum aspecto, me causa arrepios tremendos.

Essa situação contrasta fortemente com o início do século XXI. Entre os anos 2000 e o início da década de 2010, a América do Sul viveu um dos períodos de maior convergência política de sua história recente. Governos progressistas chegaram ao poder em praticamente todo o continente. Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Néstor Kirchner e depois Cristina Kirchner, além de Lula no Brasil. Embora houvesse diferenças importantes entre esses governos, existia uma percepção compartilhada de que a região deveria ampliar sua autonomia em relação aos Estados Unidos, fortalecer mecanismos de integração regional e utilizar o crescimento econômico para reduzir desigualdades históricas.

Foi nesse ambiente que surgiram iniciativas como a UNASUL, a ampliação do papel do Mercosul e a criação da CELAC. Havia um projeto político regional relativamente claro, o de aumentar a capacidade de negociação internacional da América do Sul atuando de maneira coordenada. Para quem não conhece, a CELAC é a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, um organismo de articulação política criado em 2010 e formalmente constituído em 2011. Ela reúne 33 países da América Latina e do Caribe, abrangendo praticamente todos os Estados independentes da região. Sua principal característica é que não inclui os Estados Unidos nem o Canadá, diferentemente da Organização dos Estados Americanos. Por isso, a CELAC foi concebida por muitos governos como um espaço em que os países latino-americanos e caribenhos poderiam discutir seus interesses de forma mais autônoma, sem a influência direta de Washington, o que eu sempre considerei uma iniciativa incrível.

A mudança que ocorreu posteriormente não pode ser explicada apenas por fatores ideológicos. Tentando ter um pouco a inteligência analítica de meu amigo Bruno Malheiro, penso que o fim do superciclo das commodities reduziu o crescimento econômico, limitando a capacidade dos governos de financiar políticas públicas expansivas. Ao mesmo tempo, escândalos de corrupção (inerentes a governos de todos os matizes ideológicos, à direita e à esquerda), aumento da violência urbana (um subproduto do neoliberalismo mais agudo), crises fiscais e o desgaste natural de grupos políticos que permaneceram muitos anos no poder abriram espaço para alternativas que prometiam ruptura com o sistema estabelecido.

A ascensão da direita e da extrema-direita contemporânea na América do Sul também está ligada a fenômenos globais. O crescimento das redes digitais, a crise de confiança nas instituições tradicionais (causadas por um bem elaborado plano dessa mesma extrema-direita de minar a democracia em todas as suas instâncias), o fortalecimento de discursos nacionalistas (xenófobos e racistas, inclusive) e a emergência de lideranças que se apresentam como antissistema reproduzem tendências observadas em outras partes do mundo. Em muitos aspectos, o que acontece hoje na região dialoga com fenômenos que levaram à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, ao crescimento de partidos nacionalistas na Europa e ao fortalecimento de lideranças conservadoras em diversas democracias.

Entretanto, reduzir o momento atual a uma simples vitória ideológica da direita seria uma simplificação excessiva. A América do Sul continua sendo uma das regiões mais desiguais do planeta, e grande parte do eleitorado alterna suas preferências de acordo com a percepção de desempenho econômico dos governos. A história política recente da região mostra que ondas ideológicas são frequentemente sucedidas por movimentos em sentido contrário. Foi assim após o ciclo neoliberal dos anos 1990, substituído pela ascensão da esquerda nos anos 2000. Pode ocorrer novamente nas próximas décadas. Espero que isso não demore tanto, pois o relógio da destruição avança a cada ciclo mais rapidamente. Pelo menos é a sensação que tenho.

Do ponto de vista geopolítico, a questão mais relevante talvez não seja quem governa cada país, mas a crescente dificuldade de construção de consensos regionais. A integração sul-americana nunca foi plenamente consolidada e, nos últimos anos, tornou-se ainda mais frágil. Mudanças de governo frequentemente levam à paralisação ou abandono de projetos iniciados por administrações anteriores. O resultado é uma região que possui enorme potencial econômico, energético, mineral e ambiental, mas que raramente consegue transformar esse potencial em influência política coletiva.

Essa fragilidade torna-se particularmente importante em um momento de reorganização da ordem mundial. A disputa estratégica entre Estados Unidos e China, a transição energética, a corrida por minerais críticos e o papel crescente da Amazônia no debate climático colocam a América do Sul no centro de questões decisivas para o século XXI. Paradoxalmente, a região possui recursos cada vez mais estratégicos e, ao mesmo tempo, encontra-se politicamente mais fragmentada. E cada vez menos industrializada, é bom lembrar, o que nos torna mais suscetível a um domínio de um governo autoritário como o de Donald Trump, que não tem pejo algum de assumir ser um colonialista branco com espírito de vilão de HQ. Aliás, quem viu a postagem sobre as frases que poderiam ser atribuídas a vilões de histórias em quadrinhos, mas que eram de nomes como Elon Musk, entre outros, percebeu o tamanho do buraco em que nos encontramos.

E volto à minha paixão primeva. Vejo que nesse cenário, o futebol e a Copa do Mundo assumem uma relevância que vai muito além do esporte. Desde o século XX, grandes competições esportivas funcionam como instrumentos de projeção internacional. Elas ajudam a construir imagens nacionais, fortalecer identidades coletivas e ampliar o chamado “soft power” dos Estados-países. Estamos inseridos em um mundo onde a influência de um país também é exercida pela cultura, pelo entretenimento e pela capacidade de atrair atenção global. Nisso, poucos eventos possuem o alcance simbólico de uma Copa do Mundo. E como essa Copa escancarou as entranhas disso de uma forma a demolir os últimos tijolinhos de uma possível inocência sobre esse esporte tão querido mundo afora.

Lá atrás, a América do Sul já havia compreendido isso. O futebol tornou-se uma das linguagens culturais mais poderosas do continente. Brasil, Argentina e Uruguai transformaram suas conquistas esportivas em elementos centrais de suas identidades nacionais e de sua projeção internacional. Não por acaso, o futebol frequentemente produz um reconhecimento global que muitas vezes supera a visibilidade alcançada por iniciativas diplomáticas ou econômicas.

Durante uma Copa do Mundo, bilhões de pessoas voltam seus olhos para os países participantes. As seleções nacionais tornam-se embaixadoras culturais, e suas histórias ajudam a moldar percepções internacionais. Isso é particularmente importante para países do Sul Global, que frequentemente enfrentam dificuldades para ocupar espaço no noticiário mundial fora de momentos de crise.

Há ainda uma dimensão política menos evidente. Em um mundo marcado por divisões ideológicas, o futebol continua sendo um dos raros elementos capazes de atravessar fronteiras políticas. Governos mudam, alianças se desfazem, projetos regionais entram em crise, mas a rivalidade e a admiração mútua entre as grandes seleções permanecem. O esporte funciona como uma espécie de patrimônio simbólico compartilhado da região. Ainda que eu olhe com certo nojo e desprezo para a organização política dessa Copa, a partir desse intragável presidente Gianni Infantino, me comovo com as reações como a de torcidas caboverdianas, emocionadas com o que sua seleção vem fazendo em campo, ou com a primeira vitória de Egito na competição. São os dois lados de uma mesma moeda em meu peito de apaixonado por esportes e mais ainda por futebol.

Por isso, penso que a coincidência entre uma América do Sul politicamente fragmentada e uma nova Copa do Mundo possui um significado interessante. Enquanto os governos seguem caminhos distintos e frequentemente conflitantes, o futebol continua oferecendo uma narrativa continental reconhecida globalmente. No instante em que a região encontra dificuldades para falar com uma só voz na política, ela ainda consegue ser identificada internacionalmente por sua enorme influência cultural e esportiva. É pouco? Não sei. Não tenho respostas adequadas a isso.

Mas avalio que o Brasil ocupa posição central nessa equação. Mesmo diante de um contexto regional menos favorável aos seus projetos diplomáticos, o país continua sendo a principal potência sul-americana em termos demográficos, econômicos, culturais e territoriais. E mesmo os que odeiam Lula deveriam reconhecer o quanto ele pensa política e diplomacia no que essas palavras tem de melhor. Sua capacidade de liderança, porém, depende cada vez menos da afinidade ideológica entre governos vizinhos e cada vez mais da habilidade de construir consensos pragmáticos em áreas estratégicas, como comércio, energia, infraestrutura, meio ambiente e segurança. Não é uma tarefa fácil, como diria a mestra Zélia Amador, quando há um nítido apequenamento do sentido fazer política e diplomacia ao redor.

A questão central para os próximos anos talvez seja justamente saber se a América do Sul continuará presa à lógica dos ciclos ideológicos que reorganizam periodicamente o continente ou se conseguirá construir instituições e projetos suficientemente sólidos para sobreviver às alternâncias políticas. A história recente sugere que a primeira hipótese ainda predomina. Mas os desafios globais do século XXI podem exigir algo diferente. O mundo está mudando de cara e os Estados Unidos, desesperados, já sabem disso melhor que ninguém. Pois nesse cenário marcado pela competição entre grandes potências, regiões capazes de atuar de forma coordenada tendem a ampliar sua influência. Regiões fragmentadas, por outro lado, correm o risco de assistir às transformações globais mais como objeto do que como sujeito da história. Quem está na extrema-direita, na verdade pouco se importa com isso, desde que um cenário racista, misógino, xenófobo, branco etc predomine.

Nesse sentido, penso que o aparente isolamento político que esteja cercando o Brasil não seja apenas uma questão eleitoral ou partidária. Pode estar revelando um problema mais amplo, qual seja a própria dificuldade histórica da América do Sul em transformar proximidade geográfica, identidade cultural e interesses comuns em um projeto geopolítico duradouro. Essa talvez seja a questão mais importante para o futuro do continente. O objetivo trumpista atual está dando certo. Eles sempre querem dividir para conquistar. E raras vezes fugimos dessa ratoeira com queijo envelhecido.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte:  Medium

Quando a dívida vale mais que a educação: a captura do orçamento público pelo rentismo

Estudo de Paulo Lindesay mostra como trilhões de reais são direcionados ao serviço da dívida pública enquanto investimentos em educação e outras políticas sociais permanecem subexecutados no Brasil

Há certas ideias que se repetem tanto no debate público brasileiro que acabam sendo aceitas como verdades incontestáveis. Uma delas é a de que o Estado brasileiro gasta demais com servidores públicos, educação e políticas sociais, razão pela qual não haveria recursos suficientes para garantir serviços públicos de qualidade ou reajustar salários corroídos pela inflação. O trabalho de Paulo Lindesay, diretor da ASSIBGE-SN e coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida no Rio de Janeiro, oferece uma contestação vigorosa a essa narrativa e recoloca no centro da discussão uma questão frequentemente ocultada pelos grandes meios de comunicação: a prioridade absoluta conferida ao pagamento da dívida pública em detrimento das necessidades sociais da população brasileira.

A principal contribuição do estudo é demonstrar que a disputa fundamental não ocorre entre gasto social e responsabilidade fiscal, como frequentemente se pretende fazer crer, mas entre duas formas distintas de utilização do fundo público. De um lado estão os investimentos em educação, saúde, ciência, infraestrutura e remuneração dos servidores. De outro, há a crescente transferência de recursos para os detentores de títulos da dívida pública, alimentando um sistema de rentismo que se reproduz independentemente dos resultados econômicos ou sociais produzidos para a sociedade.

Os números apresentados por Lindesay são bastante eloquentes. Entre 2016 e abril de 2026, os juros nominais pagos pelo setor público consolidado alcançaram aproximadamente R$ 5,9 trilhões. Ao mesmo tempo, Lindesay demonstra que parcelas significativas dos recursos autorizados para a educação jamais chegaram a ser efetivamente executadas. Entre 2016 e maio de 2026, cerca de R$ 275 bilhões autorizados para a área educacional permaneceram sem execução orçamentária. Em outras palavras, o problema não é a falta de dinheiro, mas a forma como ele é distribuído e priorizado.

Essa constatação é particularmente relevante para quem acompanha a situação das universidades públicas brasileiras. No caso das universidades estaduais do Rio de Janeiro, por exemplo, os sucessivos governos têm recorrido sistematicamente ao argumento da escassez fiscal para justificar arrochos salariais, congelamentos de carreira e insuficiência de investimentos. Entretanto, se há recursos para assegurar a remuneração dos rentistas e dos grandes agentes financeiros, é legítimo perguntar por que não existem recursos para garantir condições dignas de funcionamento das instituições responsáveis pela produção de conhecimento, formação profissional e desenvolvimento científico.

Outro aspecto importante do texto é a crítica ao discurso segundo o qual o funcionalismo público seria responsável pelo desequilíbrio das contas governamentais. Lindesay demonstra que os gastos federais com pessoal permaneceram muito abaixo dos limites estabelecidos pela própria Lei de Responsabilidade Fiscal, desmontando um dos principais pilares ideológicos utilizados para justificar políticas de austeridade e reformas administrativas.

O que emerge do estudo é a constatação de que a dívida pública não pode ser analisada apenas como um instrumento financeiro. Ela se converteu em um poderoso mecanismo de orientação das prioridades do estado brasileiro. Quando a maioria do debate econômico se concentra em cortes de gastos sociais enquanto o serviço da dívida permanece praticamente intocável, estamos diante de uma escolha política e não de uma necessidade técnica inevitável.

A consequência desse modelo é visível em todos os níveis da federação. Escolas sem recursos adequados, universidades com orçamentos comprimidos, hospitais públicos enfrentando dificuldades operacionais e servidores com salários corroídos convivem com um sistema que assegura pagamentos bilionários ao setor financeiro. Esta dinâmica ajuda a explicar por que o Brasil continua figurando entre as maiores economias do mundo ao mesmo tempo em que convive com níveis persistentes de desigualdade social, precarização dos serviços públicos e déficits estruturais em áreas essenciais.

Ainda que se possa concordar ou não com todas as interpretações apresentadas por Paulo Lindesay (eu  particularmente assino embaixo), seu trabalho presta um serviço fundamental ao trazer para o debate público uma questão frequentemente tratada como tabu. Afinal, qualquer discussão séria sobre educação, ciência, saúde ou desenvolvimento nacional precisa começar por uma pergunta elementar: quem se beneficia das prioridades inscritas no orçamento público brasileiro?

Enquanto essa questão permanecer fora do centro do debate, continuaremos assistindo à repetição de um roteiro conhecido: faltam recursos para professores, pesquisadores, técnicos administrativos e estudantes, mas não faltam recursos para alimentar a engrenagem do rentismo financeiro.