Sem luta não há conquista: o exemplo da Uerj e o desafio da Uenf

Baixos salários, excesso de controle e sucessivos adiamentos do PCV colocam em risco a capacidade da universidade de atrair talentos, sustentar empregos e cumprir seu papel estratégico para o Norte Fluminense

Os servidores em greve na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) vêm conseguindo se reunir com o governador em exercício do estado, Ricardo Couto, e já obtiveram sinalizações positivas para parte de seus pleitos, entre elas a majoração do auxílio-alimentação para R$ 1.500 e a promessa de pagamento de uma recomposição salarial de pelo menos 11,56%, a ser quitada em duas parcelas. Outros pontos continuam sendo discutidos, e uma nova reunião já está marcada para a última semana de maio.

Enquanto isso, na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), onde o auxílio-alimentação permanece em apenas R$ 600, os professores seguem mobilizados e em estado de greve desde novembro de 2025. A mais recente iniciativa do movimento foi a instalação de outdoors em diferentes pontos de Campos dos Goytacazes, numa tentativa de tornar público um processo que, até então, vinha ocorrendo quase exclusivamente no plano interno da universidade.

A situação da Uenf é particularmente precária, na medida em que o salário inicial dos professores doutores em regime de dedicação exclusiva é o segundo pior entre as 12 principais economias estaduais brasileiras, ficando à frente apenas do que é pago na Universidade do Estado de Minas Gerais. A precarização salarial dos docentes em início de carreira é agravada pelo fim do adicional por tempo de serviço — o chamado triênio — e pela imposição de um teto previdenciário equivalente ao do INSS. O resultado é um quadro crescente de desestímulo à carreira acadêmica e de baixa atratividade dos concursos públicos, muitos deles já registrando dificuldades para atrair candidatos qualificados.

Um dos fatores que poderia ter contribuído para reverter esse cenário seria a implantação do novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV), encaminhado ao governo do estado ainda em 2021. Entretanto, sua tramitação foi paralisada por uma combinação de procrastinação política durante o governo de Cláudio Castro e das ações restritivas impostas pelo Conselho de Supervisão do Regime de Recuperação Fiscal (CSRRF), conhecido entre os servidores como “Comissarf”, órgão responsável pelo monitoramento do Plano de Recuperação Fiscal do Rio de Janeiro. A postura excessivamente acomodada da reitoria da Uenf também contribuiu para empurrar a aprovação do PCV para um horizonte indefinido.

No caso da reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), é importante destacar ainda a adoção de medidas que, ao mesmo tempo, ampliaram a sobrecarga funcional dos docentes e técnicos e criaram mecanismos indiretos de desestímulo à mobilização sindical. Essas medidas acabaram se alinhando de forma bastante conveniente à lógica de contenção de gastos e disciplinamento funcional estimulada pelo governo de Cláudio Castro, reforçando internamente uma cultura de intensificação do trabalho e de ampliação dos mecanismos de controle sobre servidores já submetidos a perdas salariais históricas. Sob o argumento de justificar adicionais concedidos pela administração universitária, professores e técnicos passaram a conviver com maiores exigências burocráticas, metas difusas, aumento de encargos administrativos e monitoramento mais rígido de suas atividades laborais. Na prática, consolidou-se um ambiente de crescente estresse ocupacional, no qual os servidores passaram a trabalhar mais, sob maior pressão e vigilância, sem que houvesse a correspondente valorização salarial ou melhoria efetiva das condições de trabalho. Além disso, o acesso continuado a determinados benefícios concedidos pela administração universitária passou a depender da manutenção das condições normais de funcionamento da instituição — algo claramente incompatível com processos legítimos de paralisação e greve voltados à reivindicação de direitos salariais e estruturais.

A greve dos professores e servidores técnicos da Uerj demonstra, contudo, que dificilmente haverá avanços concretos sem mobilização coletiva organizada. Não por acaso, a última greve dos docentes da Uenf ocorreu em 2017, e desde então as perdas salariais acumuladas já ultrapassaram 50%, corroendo de forma contínua o poder de compra, a permanência de profissionais qualificados e a própria capacidade institucional da universidade.

Com o exemplo positivo da greve da Uerj, cresce a percepção de que a comunidade universitária da Uenf precisará ampliar seu nível de organização e pressão política caso queira romper o ciclo de estagnação imposto pelo governo estadual e pela passividade administrativa interna. A continuidade da deterioração salarial, somada ao adiamento indefinido do novo PCV, já ameaça não apenas as condições de vida dos servidores, mas o próprio futuro da universidade como projeto estratégico de desenvolvimento científico para o Norte Fluminense. Sem uma mobilização mais ampla, visível e persistente, o risco é que a Uenf caminhe para um processo silencioso de esvaziamento acadêmico, perda de quadros qualificados e enfraquecimento institucional cujas consequências poderão ser irreversíveis.

É importante lembrar, ainda, que a valorização salarial dos professores e servidores da Uenf não constitui nenhum tipo de privilégio ou favor estatal, mas uma necessidade concreta para a manutenção da dinâmica econômica e social de Campos dos Goytacazes e de toda a região Norte Fluminense. Os salários pagos pela universidade circulam no comércio local, sustentam serviços, movimentam o setor imobiliário e garantem renda para inúmeras famílias que dependem direta ou indiretamente da presença da Uenf. Quando se precariza a remuneração dos docentes e técnicos, não é apenas a universidade que perde: perde também a economia regional, que depende fortemente da capacidade da instituição de atrair, fixar e manter profissionais qualificados. Defender salários dignos na Uenf, portanto, é também defender empregos, desenvolvimento regional e o futuro econômico de Campos dos Goytacazes para além dos muros universitários.

Contaminação passiva por agrotóxicos em agricultores continua sem solução

Estudo da Faculdade de Saúde Pública mostra que contradições institucionais, econômicas e políticas contribuem para a permanência do problema

Por Jornal USP no Ar 

Uma tese da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo investiga a contaminação passiva por agrotóxicos que afeta agricultores em assentamentos rurais no Pontal do Paranapanema e demonstra que contradições institucionais, econômicas e políticas contribuem para a permanência do problema.  

A linha de pesquisa do responsável pelo estudo, Fábio Nogueira de Vasconcelos, estuda a saúde do trabalhador. Ele detalha que o interesse da pesquisa partiu da recorrência de casos de contaminação em assentamentos rurais e da necessidade de entender por que esse problema persiste, apesar das denúncias e das tentativas de intervenção. A região do Pontal do Paranapanema fica no oeste do Estado de São Paulo. Historicamente, a região passa por problemas de disputa agrária, desmatamento e conflitos sociais.

Vasconcelos detalha que o objetivo da pesquisa era tentar entender quem eram os envolvidos, como a contaminação ocorria e os impactos na vida dos agricultores. Para isso, foram feitas entrevistas com órgãos públicos, moradores e uma tentativa de incluir uma usina que atua na região. Entretanto, a empresa se recusou a participar da pesquisa e, por isso, o estudo teve de mudar o foco do que estava gerando o problema para como os trabalhadores estão resistindo a essa contaminação.

Estratégias de resistência

Os agricultores da região tentam se adaptar da maneira que podem. Através de mudanças no que é plantado, uso de sombrite para proteger as hortaliças e até mesmo uma ação judicial contra a usina, que comprovou a contaminação. O especialista detalha que a empresa tem forte influência na região, emprega muitas pessoas e por isso há uma forte chantagem econômica e omissão de informações.

Vasconcelos relata que o poder público, mesmo sem agir diretamente em favor da usina, aparece inerte diante do conflito. A fiscalização é ineficiente e há pouca efetividade das medidas institucionais. Para a tese, essa inércia acaba contribuindo para a manutenção do problema.

Intervenções para educar

Uma forma de mudar a realidade daquelas pessoas, segundo a pesquisa, é através do aprendizado.  “O que esse agricultor pode aprender e pode desenvolver como ferramenta para si, para ele saber manusear um químico, ou então o que a pessoa que não quer usar químico, o que ela precisa fazer para não utilizar o químico. Então, de fato, as intervenções vêm para educar e para gerar reflexão crítica”, explicou.

Para Vasconcelos, também seria importante tentar promover um diálogo com a empresa citada, contudo, isso pode ser difícil. “O fator diálogo em si  já é ameaçador para essa usina, porque ela entende muito como uma ameaça, como uma ameaça de gerar evidências de que o que ela está gerando, o produto que ela gera, é um problema. É um problema social”, comentou o entrevistado.

O trabalho propõe olhar para a contaminação não apenas como questão técnica (tipo de produto, forma de aplicação, toxicidade), mas como uma rede de relações sociais, econômicas e políticas. 


Fonte: Jornal da USP

Citações zumbis devastam o mundo da Ciência

Uma entrevista com um acadêmica que testemunhou de perto o impacto da inflação de citações por IA

Como alguém de fora do meio acadêmico em sua totalidade, devo admitir que não tenho muita experiência com a publicação acadêmica/literatura revisada por pares.

Mas mesmo assim, eu sei quando algo está errado, e claramente o que ficou conhecido como “Frankencitações” — referências em artigos acadêmicos a literatura inexistente, inventadas por meio do uso do LLM — está errado. Elas ridicularizam todo o empreendimento e me parecem uma espécie de crise.

Ben Williamson, da Universidade de Edimburgo, tem acompanhado o fenômeno devido a uma experiência muito pessoal com as Frankencitations. Fiz-lhe algumas perguntas sobre o que está acontecendo e o que ele acha que devemos fazer a respeito.

JW: Vamos começar com uma apresentação para que as pessoas entendam suas credenciais.

BW: Sou professora sênior no Centro de Pesquisa em Educação Digital da Universidade de Edimburgo e editora do periódico Learning, Media and Technology . Minha pesquisa se concentra em tecnologia digital e dados no setor educacional, com trabalhos recentes e em andamento voltados para investidores em tecnologia educacional, a ascensão das ciências biológicas da aprendizagem com uso intensivo de dados e políticas educacionais relacionadas à IA.

P: O que é uma “Frankencitação” e por que devemos nos preocupar com elas?

R: Nos últimos dois ou três anos, muitos de nós que trabalhamos em universidades começamos a notar essas estranhas referências a artigos de periódicos acadêmicos ou livros que não existem. As referências são fabricadas por inteligência artificial generativa quando um autor, por exemplo, instrui um modelo de linguagem complexo a ajudá-lo a escrever um artigo ou adiciona referências para fundamentar uma revisão bibliográfica. Acho que todos já sabemos que os modelos de linguagem complexos rotineiramente inventam material. É isso que está acontecendo aqui. Os modelos de linguagem complexos estão criando referências acadêmicas porque pesquisadores acadêmicos os utilizam para produzir trabalhos de pesquisa, como artigos, capítulos ou livros.

Já ouvi vários nomes diferentes para isso: referências fantasmas, citações zumbis, referências espectrais ou Frankencitações. O que todos esses termos querem dizer é que as referências falsas geradas por IA não são reais, como um corpo humano vivo, mas têm uma espécie de meia-vida. “Frankencitações” funciona bem como nome porque elas são como o monstro — costuradas a partir de dados em um modelo de linguagem e, em seguida, animadas quando alguém usa um chatbot como o ChatGPT para fazer o trabalho por elas. E então, essas citações fabricadas podem causar todo tipo de problema quando se espalham pelo mundo ao serem incluídas em artigos acadêmicos.

P: Isso me parece muito ruim. Uma verdadeira onda de conteúdo falso infectando pesquisas acadêmicas e citações.

R: O grande problema que enfrentamos agora é que essas citações Frankenstein estão acabando em manuscritos enviados para revisão por pares. Isso está sobrecarregando editores e revisores, pois agora precisamos fiscalizar os manuscritos em busca de informações falsas nas listas de referências. Algumas dessas citações Frankenstein estão até mesmo sendo publicadas em periódicos acadêmicos. Elas simplesmente não estão sendo detectadas em nenhuma etapa do processo de publicação acadêmica — nem por editores, nem por revisores, nem mesmo durante a revisão, a correção de provas e a produção da publicação final.

Usar IA para produzir publicações acadêmicas com essas inserções falsas é uma forma de poluição do conhecimento, como deixar toxinas se infiltrarem em um rio e alterarem todo o ecossistema que ele alimenta. Também interfere na integridade acadêmica e quebra as cadeias de citação que sinalizam a relação de um autor com sua área de estudo. Isso representa o perigo real de que indivíduos sejam creditados por ideias que nunca tiveram ou que lhes sejam atribuídas afirmações que nunca fizeram. É por isso que a ideia de que essas referências falsas têm uma espécie de meia-vida me parece correta: elas estão circulando, deixando sua marca no mundo acadêmico e causando enormes problemas para editores, revisores e leitores de periódicos, apesar de não terem a substância de uma publicação real.

P: Você tem uma história interessante sobre como se deparou com o fenômeno pela primeira vez. Gostaria que você nos contasse essa história, mas também gostaria de saber o que você estava pensando/sentindo enquanto tudo acontecia. Qual foi a jornada intelectual/emocional de descobrir que você havia sido tão extensivamente Frankenificado?

R: Sou editora de periódico e isso envolve verificar novos manuscritos submetidos para decidir se são adequados para revisão por pares. Recentemente, meus coeditores e eu começamos a encontrar referências em novos manuscritos a artigos nos quais um ou mais de nós éramos creditados como autores, mas soubemos imediatamente que esses artigos não deviam ser reais, pois não os escrevemos!

Nossa hipótese é que alguns autores que submetem artigos à nossa revista estejam solicitando aos editores que incluam referências a artigos dos próprios editores, na esperança de que isso aumente as chances de seus manuscritos serem aprovados na revisão inicial. O problema é que eles estão inserindo erros crassos que detectamos imediatamente. Assim, nesses casos, os editores se tornam não apenas os primeiros leitores, mas também os últimos, já que somos obrigados a rejeitá-los de imediato. Isso configura uma conduta acadêmica inadequada, segundo os padrões de publicação científica, visto que os autores são absolutamente responsáveis ​​pela precisão das referências em seus próprios manuscritos.

Recentemente, porém, decidi fazer uma busca na internet por uma dessas falsas referências a mim, puramente por curiosidade para ver se ela aparecia em algum outro lugar. Tinha o título “Governança e datificação da educação”. É um título bem genérico, mas já publiquei sobre os temas “educação”, “governança” e “datificação”, então essas são palavras-chave plausíveis para associar ao meu nome. Mas quando pesquisei “Governança e datificação da educação”, percebi rapidamente que essa citação Frankenstein em particular teve uma vida útil bastante agitada. Pelo que pude apurar, esse texto, “Governança e datificação da educação”, foi citado cerca de 70 vezes. Você mesmo pode conferir — basta acessar o Google Acadêmico, pesquisar “Governança e datificação da educação” e encontrará páginas e páginas de publicações que me citam por algo que eu nunca escrevi.

O que me intriga ainda mais é que, entre todos esses artigos, o subtítulo “Governança educacional e datificação” muda constantemente. Ele é citado em diversos periódicos diferentes. Às vezes, é um livro inteiro. Na maioria das vezes, tem um coautor nomeado — alguém com quem já colaborei —, mas às vezes não. E esse não-artigo continua a circular, ainda recebendo novas citações.

P: Sua reputação acadêmica explodiu!

R: Uma publicação inexistente tornou-se rapidamente uma das minhas mais citadas. É um pouco frustrante, porque de fato dediquei anos de trabalho relevante, mas dezenas de autores preferem citar algo em que eu nunca trabalhei.

O que realmente me preocupa é não saber pelo que estou sendo creditado. A maioria desses artigos é da minha área. Alguns foram publicados por editoras predatórias de qualidade muito baixa e podem ser ignorados sem problemas. Mas nem todos. Há casos em que acadêmicos renomados, que publicam em periódicos de alto impacto, estão citando meu trabalho. O que eles estão dizendo que eu escrevi ou reivindiquei? Também fiquei sabendo por um colega de outra instituição que minha citação falsa apareceu em um trabalho de um aluno. Portanto, a produção e reprodução dessas referências falsas também coloca os alunos em risco.

É uma situação realmente ridícula. Sou mais reconhecido por algo que não escrevi do que pelos artigos que de fato escrevi sobre o tema de educação, dados e governança!

P: Mesmo achando que entendo o fenômeno em um nível básico, não tenho certeza de como e por que essas coisas se proliferam tão rapidamente. Você fez um estudo para verificar quantas vezes havia sido alvo de Frankencitações e, algum tempo depois, outra pessoa fez um acompanhamento e o número de Frankencitações havia aumentado significativamente. Qual é o mecanismo? Qual a dimensão do fenômeno?

R: Sim, depois que publiquei algo online sobre minha descoberta, um cientista da computação chamado Dirk HR Spennemann investigou o assunto de forma completamente independente. Ele usou isso como exemplo para examinar como os LLMs produzem referências fabricadas — ele acabou de publicar um preprint no arXiv que detalha os aspectos técnicos. Então, ele fez uma busca muito mais minuciosa no Google Acadêmico do que eu consegui. O que ele descobriu foi que o artigo inexistente havia sido citado quase 140 vezes. E ele queria entender, em um nível técnico, como os LLMs geram essas referências. A conclusão dele foi que existem padrões distintos na forma como o genAI as cria. Aqui está o que ele escreveu no artigo:

“As referências acadêmicas alucinadas criadas pelo ChatGPT não são erros aleatórios, mas sim artefatos previsíveis e orientados por padrões, que refletem a forma como os modelos de IA geram texto. Essas referências são reconstruções sistemáticas construídas a partir de autores, periódicos e palavras-chave relevantes reais. Como os modelos de IA se baseiam no reconhecimento de padrões em vez da verificação factual, eles produzem citações que são estruturalmente corretas e contextualmente plausíveis, porém inexistentes. Essas alucinações podem ser geradas repetidamente, levando à duplicação e consistência em diferentes textos, o que pode aumentar sua legitimidade percebida.”

Certo, então, “Governança educacional e datificação” é uma combinação de um autor real (eu), periódicos reais (alguns dos quais publiquei) e palavras-chave relevantes (como eu disse, trabalho na área da educação e estudo dados e governança). Como também existe no Google Acadêmico, considerado um índice de referência da produção acadêmica mundial, um modelo de linguagem que busca informações na web — em vez de apenas gerar texto a partir de seus dados de treinamento — acaba confirmando a existência e a legitimidade do artigo, apesar de ele não existir. Spennemann também realizou um pequeno experimento no qual instruiu o ChatGPT a gerar ensaios sobre o tema de governança educacional e dados. Ele citou o artigo inexistente, é claro.

Como explicou Aaron Tay, especialista em sistemas de bibliotecas , o que temos é um conjunto dinâmico de processos que envolvem tanto o Google Acadêmico quanto a IA generativa. O Google Acadêmico estabeleceu “Governança e datificação da educação” como uma citação referenciada por outras 140 publicações, e os LLMs (mestrados em direito) estão amplificando sua existência ao executar processos de geração aumentada por recuperação (RAG) que tratam o Google Acadêmico como uma fonte autorizada de verdade citacional. O Google Acadêmico o trata como real e os chatbots o reproduzem como tal assim que alguém escreve uma proposta para uma redação ou artigo sobre o mesmo tema.

Uma coisa que tem sido difícil de descobrir completamente é se “Governança educacional e datificação” surgiu inicialmente como uma referência totalmente gerada por IA, ou se originou de um erro humano, que a genAI apenas amplificou massivamente desde então.

P: Creio que seja óbvio para todos por que proliferar citações falsas sobre uma fonte inexistente é simplesmente errado e ruim, mas o que há além disso? O que podemos esperar se permitirmos que essas coisas continuem a se proliferar?

R: Obviamente, já tivemos problemas com citações incorretas e pesquisas falsificadas no passado. O uso atual de IA generativa está industrializando problemas antigos na academia e nos colocando sob muito mais pressão quando se trata de publicação acadêmica. Para mim, isso é uma questão de confiança. Como confiar no registro acadêmico se ele está poluído com material sintético que não se refere mais com precisão a pesquisas anteriores? Quero dizer, toda pesquisa deveria ser um processo de construção sobre o conhecimento prévio para gerar novas ideias e fazer contribuições originais para a compreensão. Não é o caso com as Frankencitações. De forma mais prosaica, por que eu deveria confiar em um autor que submeteu algo à nossa revista que viola a integridade acadêmica?

É também uma questão de trabalho acadêmico. Uma pessoa que tenta economizar tempo ou ser mais produtiva com IA tem efeitos subsequentes sobre aqueles que supervisionam os manuscritos acadêmicos durante a revisão e publicação. Isso está começando a causar um sofrimento intolerável para editores e revisores de periódicos. Já estamos tendo que trabalhar muito mais para acompanhar o aumento exponencial das taxas de submissão, e agora muitas pessoas estão dizendo que também deveríamos verificar cada referência em um artigo — uma tarefa praticamente impossível.

O problema realmente abrangente é o que alguns agora chamam de “desleixo acadêmico”. Enciclopédias Frankenstein podem ser um bom indicador de um artigo gerado por IA. Estamos falando de lixo de IA na academia. Não se trata apenas de referências falsificadas com IA, mas de artigos e livros inteiros. O problema é que grande parte disso é difícil de detectar. Alguns pesquisadores acreditam que deveríamos trabalhar mais com IA e sugerem que é natural que, com o tempo, cada vez mais registros acadêmicos sejam aumentados com a ajuda da IA ​​— seja pelo uso da IA ​​na produção e análise de dados ou como coautora e parceira na produção de conhecimento. Isso pode ser verdade para alguns, em projetos específicos, para fins específicos. Mas o que temos aqui é a produção massiva e mecânica de material acadêmico que pode ou não corresponder a algo real no mundo. Se um artigo não corresponde nem mesmo à literatura anterior em sua própria área, como podemos confiar que ele nos diga algo sobre seus próprios sujeitos e objetos de análise?

P: A curto prazo, existe algo que nós (leitores, pesquisadores, instituições, publicações, etc.) possamos fazer para impedir essa proliferação?

R: Um dos motivos pelos quais temos nos manifestado bastante sobre isso em nossa revista é justamente para tentar persuadir autores acadêmicos de que é uma má ideia se desvalorizarem como pesquisadores e nos insultarem como editores e revisores, submetendo manuscritos com material falso. Quer dizer, se você nos cita e nós não escrevemos o artigo, sabemos o que você fez, e isso diz muito sobre seus padrões acadêmicos. Mas, é claro, essas referências falsas nem sempre são fáceis de detectar, e lidar com isso exigirá esforços muito mais sistêmicos. As editoras já estão testando soluções tecnológicas que supostamente detectam referências geradas por IA. Mas isso aparentemente é muito mais complexo tecnicamente do que se imagina. Já sabemos que os detectores de escrita por IA geram muitos falsos positivos, e é por isso que não são confiáveis ​​para uso em revistas acadêmicas ou para a revisão de trabalhos de estudantes. Os detectores de citação por IA podem apenas amplificar os mesmos problemas, levando a ondas de falsas acusações, rejeições de artigos e animosidade acadêmica.

Acho que precisamos deixar claro que as editoras acadêmicas e as empresas de tecnologia precisam, sem dúvida, se unir e nos ajudar nessa questão. Afinal, as editoras têm parcerias multimilionárias com as grandes empresas de IA para alugar nossos artigos existentes como dados de treinamento para novos modelos. Elas fazem parte do problema do conteúdo acadêmico produzido por IA e precisam trabalhar com editores, autores, bibliotecas e instituições para resolvê-lo.

Aqui no Reino Unido, muitas bibliotecas acadêmicas já estão cancelando contratos com editoras devido ao aumento vertiginoso dos custos. E se nossas bibliotecas e as associações que as representam fossem até as editoras e as grandes empresas de tecnologia com as quais têm parceria e exigissem providências? Sem dúvida, há muito mais força em alianças desse tipo do que em alguns editores gritando em suas redes sociais (como tenho feito ultimamente).

P: E a longo prazo? Quais são as mudanças estruturais/sistêmicas necessárias para evitar que sejamos inundados por esse tipo de lixo de IA?

R:  Precisamos de algum tipo de conjunto de acordos consensuais em todo o setor quando se trata de publicação acadêmica. É claro que as violações da integridade acadêmica não começaram com a IA generativa. Editoras predatórias existem há muito tempo. As fábricas de papel também conseguem produzir manuscritos sob demanda há anos. Algumas pesquisas científicas são ruins e nunca deveriam ser publicadas.

A IA está agora amplificando todos esses problemas existentes. Não os está atenuando. E no atual contexto político de muitos países, a ciência já está sob ataque. Não é difícil imaginar publicações “científicas” geradas por IA que sirvam a fins políticos mais explícitos, especialmente porque certas revistas acadêmicas já foram tomadas e se voltaram contra acadêmicos liberais. A IA também tem o potencial de acelerar ainda mais a produção de artigos científicos, agravando o dilúvio de manuscritos que já inunda as revistas. Esta não é a utopia da IA ​​para a transformação da publicação acadêmica que nos foi prometida quando as editoras se aliaram à OpenAI, ao Google e à Microsoft.

Então, que tipos de regras e normas precisamos reforçar para nos proteger de tudo isso? Precisamos de acordos setoriais sobre como lidar com violações da integridade acadêmica? Na academia e no mercado editorial, temos diversos conjuntos de princípios, padrões e regras. Então, por que não para a IA também?

Não tenho respostas ou soluções completas para esses problemas. Assim como muitos outros editores, revisores, autores e bibliotecários universitários, tenho lutado para manter uma certa esperança acadêmica, visto que a IA foi simplesmente liberada em todos os nossos sistemas de conhecimento. É claro que o sistema já apresentava sérios problemas, mas me parece evidente que o experimento descontrolado com IA dos últimos anos tem sido um desastre para a produção e publicação do conhecimento acadêmico.

Os editores da revista Organization Science acabaram de realizar um estudo detalhado sobre isso , concluindo que o uso acadêmico da IA ​​levou a mais pesquisas, mas não a pesquisas de melhor qualidade, e causou uma crise na revisão por pares. Precisaremos de esforços conjuntos de instituições, editoras e até mesmo das próprias empresas de tecnologia para resolver essa situação. Caso contrário, corremos o risco de o público perder ainda mais a confiança no setor como fonte confiável de conhecimento importante. Ou, para sermos mais otimistas, talvez possamos aproveitar este momento para definir qual tipo de sistema de publicação acadêmica realmente funcionaria melhor no futuro.


Fonte:  Inside Higher Ed

A Amazônia está secando: o desmatamento empurra a floresta para o ponto de ruptura

Novo estudo publicado na Nature revela que a destruição da floresta reduz a reciclagem de umidade, intensifica secas e pode provocar um colapso climático em larga escala ainda neste século

A Amazônia está mais perto do ponto de ruptura do que imaginávamos.  Um novo estudo publicado na revista científica Nature alerta que o desmatamento está reduzindo drasticamente a capacidade da floresta de produzir sua própria chuva — e isso pode empurrar o maior bioma tropical do planeta para uma transição ecológica irreversível ainda neste século.

Segundo os pesquisadores, o problema não é apenas o aquecimento global isoladamente. O verdadeiro perigo surge da combinação entre mudanças climáticas, secas extremas e avanço do desmatamento. Juntos, esses fatores enfraquecem o mecanismo que mantém a floresta viva: a reciclagem de umidade atmosférica.

A floresta que fabrica chuva

A Amazônia funciona como uma gigantesca bomba de umidade. As árvores absorvem água do solo e a devolvem à atmosfera por meio da transpiração. Esse vapor forma nuvens e gera novas chuvas, criando um ciclo essencial para a própria sobrevivência da floresta.

Os cientistas estimam que até metade da chuva que cai sobre a Amazônia é produzida pela própria floresta. Sem essa reciclagem, o sistema perde estabilidade.

E há um detalhe decisivo: o desmatamento rompe justamente esse mecanismo.

Quando áreas florestais são derrubadas, menos água evapora para a atmosfera. O ar se torna mais seco, as estações secas ficam mais longas e a floresta remanescente passa a sofrer um estresse hídrico crescente. O resultado é um efeito dominó: regiões desmatadas reduzem as chuvas em áreas vizinhas, que também começam a secar.

O risco das “transições em cascata”

O estudo mostra que o maior perigo não está apenas na perda local da vegetação, mas nas chamadas “transições em cascata”.

Na prática, isso significa que o colapso de uma área pode desencadear o colapso de outras regiões a centenas ou até milhares de quilômetros de distância. Como a umidade circula pela atmosfera, a degradação da floresta se espalha pela rede climática amazônica.

Os pesquisadores descobriram que essas cascatas respondem pela imensa maioria das transições simuladas.

Ou seja: a Amazônia não entra em colapso apenas porque fica mais quente. Ela entra em colapso porque deixa de conseguir produzir e distribuir chuva para si mesma.

Um limite perigoso já pode estar próximo

Sem considerar o desmatamento, o estudo estima que a Amazônia enfrentaria um risco crítico de instabilidade em níveis de aquecimento global entre 3,7 °C e 4 °C.

Mas quando o desmatamento entra na conta, o cenário muda radicalmente.

Os pesquisadores concluíram que uma transição sistêmica pode ocorrer com um aquecimento muito menor — entre 1,5 °C e 1,9 °C — combinado a níveis de desmatamento entre 22% e 28% da floresta.

Hoje, o desmatamento acumulado da Amazônia já ultrapassa 15% do bioma.

Isso significa que o sistema pode estar perigosamente próximo de um limiar crítico.

O oeste amazônico pode ser o mais vulnerável

Um dos resultados mais preocupantes do estudo é a identificação das regiões oeste e sudoeste da Amazônia como particularmente vulneráveis.

Essas áreas dependem fortemente da umidade transportada por outras partes da floresta. Quando o desmatamento avança no sul e no leste — especialmente no chamado “arco do desmatamento” — a umidade deixa de chegar às regiões interiores.

A consequência pode ser devastadora: secas mais intensas, aumento de incêndios, perda de biodiversidade e transformação gradual da floresta em ecossistemas degradados, mais semelhantes a savanas secas.

Impactos muito além da Amazônia

Os efeitos não ficariam restritos ao Norte do Brasil.

A Amazônia influencia diretamente os chamados “rios voadores”, correntes atmosféricas que transportam umidade para outras regiões da América do Sul. O enfraquecimento desse sistema ameaça a disponibilidade hídrica e a produtividade agrícola em áreas fundamentais para a economia continental.

Os pesquisadores alertam que regiões agrícolas do sul do Brasil, Bolívia, Paraguai e da bacia do Rio da Prata podem sofrer impactos severos.

Isso significa risco para a produção de alimentos, geração de energia hidrelétrica e abastecimento urbano.

Um alerta global

O estudo reforça algo que cientistas vêm dizendo há décadas: proteger a Amazônia não é apenas uma questão ambiental regional. Trata-se de um tema central para a estabilidade climática do planeta.

A floresta amazônica é um dos maiores reguladores climáticos da Terra e desempenha papel decisivo no armazenamento de carbono, na circulação atmosférica e no equilíbrio hidrológico sul-americano.

Se a floresta perder sua capacidade de se autorregular, o mundo inteiro sentirá as consequências.

Ainda há tempo — mas a janela está se fechando

Apesar do cenário alarmante, os pesquisadores afirmam que a transição não é inevitável.

O estudo aponta que interromper o desmatamento e restaurar áreas degradadas pode fortalecer novamente a reciclagem de umidade e aumentar a resiliência da floresta.

Projetos de restauração ecológica, especialmente nas áreas mais degradadas do arco do desmatamento, podem funcionar como barreiras contra o avanço do colapso climático.

Mas o tempo é curto.

Cada hectare derrubado não representa apenas a perda de árvores. Representa também menos chuva, mais calor, mais seca e uma floresta progressivamente incapaz de sustentar a si mesma.

A Amazônia não está apenas sendo destruída. Ela está sendo desconectada do sistema climático que a mantém viva.

Ativistas se mobilizam pela proibição do uso do glifosato no Reino Unido

Ativistas pedem a proibição do uso do herbicida glifosato na época da colheita

Guy Singh-Watson, de Riverford: “O uso de glifosato em nosso sistema alimentar é um veneno à vista de todos.” Atribuições de mídia de Jas Lehal / PA Wire

Por Josie Clarke para “The Ecologist”

Ativistas estão pedindo ao governo britânico que proíba a pulverização de glifosato nas plantações durante a colheita, após estudos que o associam ao câncer e outras doenças.

O glifosato – conhecido por ser o ingrediente ativo do produto Roundup – é usado por alguns agricultores para combater ervas daninhas, mas também é frequentemente pulverizado nas plantações para secá-las na época da colheita.

A Soil Association alertou que isso deixou resíduos em alimentos como pão, cereais matinais e cerveja, com quase metade das amostras de colheitas testadas na Grã-Bretanha, incluindo trigo, cevada e aveia, contendo a substância química.

Herbicidas

O uso de glifosato como agente de secagem pré-colheita foi proibido na UE em 2023, e ativistas estão pedindo ao governo que faça o mesmo.

Em dezembro, o Farmers Weekly noticiou que a renovação da licença do glifosato na Grã-Bretanha estava entrando em uma “fase crítica”, com a Agência Executiva de Saúde e Segurança (HSE, na sigla em inglês) prestes a lançar uma grande consulta pública antes da decisão final de aprovação ainda este ano.

A consulta permitirá que agricultores, a indústria e organizações agrícolas comentem o extenso dossiê científico apresentado pelo Grupo de Renovação do Glifosato (GRG, na sigla em inglês), uma coalizão que inclui a Bayer, a Syngenta, a Nufarm e outras cinco empresas que buscam a renovação do princípio ativo.

O glifosato continua aprovado para uso na Grã-Bretanha até 15 de dezembro de 2026, após os ministros terem prorrogado sua autorização para dar tempo aos órgãos reguladores de analisarem novos dados.

A revista Farmers Weekly afirmou que as organizações agrícolas estavam se preparando para defender o acesso contínuo a herbicidas à base de glifosato – inclusive como dessecante pré-colheita, ou absorvedor de umidade – em cereais e colza, o que, segundo elas, é essencial para a segurança alimentar, as metas climáticas e a viabilidade das fazendas.

Pulverizado

O glifosato foi classificado como provável carcinógeno pela Organização Mundial da Saúde em 2015 e, em março deste ano, um grupo de cientistas internacionais se reuniu para analisar novas pesquisas publicadas na última década.

A declaração de especialistas emitida após o Simpósio sobre Glifosato em Seattle afirmou que o glifosato e os herbicidas à base de glifosato (GBHs) prejudicam a saúde humana e podem causar câncer.

O comunicado acrescentou: “As evidências de que o glifosato e os herbicidas à base de glifosato prejudicam a saúde humana nos níveis de uso atuais são agora tão fortes que não se justificam mais atrasos na regulamentação do glifosato.”

Em uma carta aberta, a Soil Association, a Nature Friendly Farming Network, o Greenpeace, a Riverford, a The Wildlife Trusts e outros grupos ambientais e de saúde apelaram ao Governo para que aproveite a oportunidade para acabar com a dessecação pré-colheita no Reino Unido.

Se implementada, essa medida poderia impedir a pulverização anual de glifosato em plantações que abrangem até 780.000 hectares – uma área cinco vezes maior que Londres –, segundo estimativas da Soil Association.

Alimentos

A organização beneficente também lançou uma petição, e os ativistas estão pedindo apoio urgente aos agricultores para garantir que seus negócios “possam continuar prosperando” enquanto mudam suas práticas, juntamente com pesquisas sobre alternativas.

Ninguém quer uma substância química associada ao câncer em seus sanduíches ou cereais matinais.

Cathy Cliff, coordenadora de campanhas da Soil Association, disse: “Ninguém quer um produto químico associado ao câncer em seus sanduíches ou cereais matinais.”

“O Reino Unido já está ficando para trás em relação à Europa, que adota uma postura muito mais rigorosa em relação aos pesticidas que representam um risco para a saúde humana.

“O governo deve agir para proteger a saúde pública, impedindo que esse produto químico tóxico seja pulverizado em nossos alimentos durante a colheita.

“Muitos agricultores já estão reduzindo o uso de pesticidas nocivos, e o Governo precisa se esforçar mais para apoiar esses esforços.

“Nosso governo precisa fazer a coisa certa e remover o glifosato de nossos alimentos, ao mesmo tempo que apoia os agricultores na busca por alternativas que protejam a natureza e a saúde pública.”

Saúde

A Dra. May van Schalkwyk, do Centro de Prevenção do Suicídio por Pesticidas e da Unidade de Políticas Globais de Saúde da Universidade de Edimburgo, afirmou: “Há um crescente conjunto de evidências independentes sobre os danos causados ​​à saúde das pessoas e ao meio ambiente pelos pesticidas à base de glifosato.

“Já passou da hora de o governo tomar medidas.”

Guy Singh-Watson, fundador da empresa de cestas de vegetais orgânicos Riverford, disse: “O uso de glifosato em nosso sistema alimentar é um veneno à vista de todos.

“Pulverizar as plantações com um produto químico classificado como ‘provavelmente cancerígeno’, muitas vezes poucos dias antes da colheita, cria uma rota direta do campo para o prato que deveria preocupar a todos nós.”

“Esta não é apenas uma questão de saúde pública, mas também uma questão agrícola.

Integrado

“Muitos agricultores estão presos ao uso desses produtos químicos por um sistema que lhes deixa poucas alternativas comercialmente viáveis.

“O governo tem a responsabilidade de garantir que nossos alimentos sejam produzidos sem comprometer a saúde das pessoas ou do planeta.

“A proibição do glifosato como dessecante pré-colheita é um primeiro passo sensato, e os agricultores devem ser apoiados na transição para uma economia menos dependente de produtos químicos.”

Um porta-voz do governo trabalhista afirmou: “O glifosato está sujeito a regulamentação rigorosa na Grã-Bretanha. Nosso Plano Nacional de Ação para Pesticidas no Reino Unido apoia as iniciativas de agricultores, produtores e outros gestores de terras para minimizar o uso de pesticidas e aumentar o manejo integrado de pragas.”

Este autor

Josie Clarke é correspondente de assuntos do consumidor da Press Association. 


Fonte: The Ecologist

Royalties do petróleo e desenvolvimento bloqueado no Norte Fluminense

A disputa em torno da Lei 12.734/2012 revela os limites de um modelo de distribuição de renda petrolífera que concentrou riqueza sem produzir transformação estrutural.

Os governantes dos estados produtores de petróleo — incluindo os da região Norte Fluminense — acompanham com enorme apreensão o julgamento que o Supremo Tribunal Federal (STF) realiza acerca da Lei 12.734, de 2012, aprovada pelo Congresso Nacional para alterar a distribuição das receitas petrolíferas entre União, estados e municípios. Caso seja plenamente aplicada, a legislação promoverá uma mudança radical na forma como royalties e participações especiais são distribuídos no país.

O principal argumento mobilizado pelos defensores da atual estrutura de distribuição é o de que esses recursos funcionariam como uma compensação financeira para estados e municípios que concentram as atividades petrolíferas e, portanto, arcariam com os impactos ambientais, urbanos e sociais decorrentes da exploração do petróleo. Segundo essa lógica, não seria justo que outras regiões do Brasil fossem beneficiadas sem experimentar os ônus produzidos por essa atividade econômica.

Na prática, porém, a eventual aplicação da Lei 12.734/2012 é apresentada por muitos agentes políticos como uma espécie de “último prego no caixão” do Rio de Janeiro, estado responsável por cerca de 90% da produção nacional de petróleo e gás. O problema é que, apesar da extraordinária quantidade de recursos transferidos para os cofres estaduais e municipais ao longo das últimas décadas, o fluxo de dinheiro oriundo do petróleo não produziu transformações estruturais capazes de reduzir as históricas desigualdades sociais existentes antes mesmo da chamada Lei do Petróleo. Em muitos aspectos, especialmente no caso fluminense, o que se observou foi justamente o aprofundamento de velhos problemas históricos.

O exemplo de Campos dos Goytacazes é emblemático. Após décadas recebendo volumosas receitas petrolíferas, o município segue socialmente frágil, dependente e profundamente desigual. Seus sucessivos governantes demonstraram pouco interesse em promover mudanças efetivas na estrutura social herdada do período colonial, marcada pela extrema concentração de riqueza e pela exclusão social. O resultado é que quase metade da população depende hoje de políticas sociais federais para garantir condições mínimas de sobrevivência.

Depois de quase 30 anos de abundância de recursos petrolíferos, Campos dos Goytacazes continua marcada por profundas desigualdades socioespaciais e por níveis alarmantes de precariedade nos serviços públicos, especialmente nas áreas de educação, saúde, habitação e transporte. A ausência de um sistema público de transporte minimamente eficiente talvez seja o exemplo mais eloquente de como uma riqueza extraordinária foi incapaz de melhorar aspectos básicos da vida cotidiana da população. Em certos casos, a situação atual parece até pior do que antes do ciclo de expansão petrolífera.

Além disso, como demonstram diversos estudos realizados por meu grupo de pesquisa na Uenf, Campos dos Goytacazes encontra-se completamente despreparada para enfrentar as mudanças climáticas já em curso. Não existe sequer um conjunto mínimo de políticas públicas que sinalize o início de um processo consistente de adaptação, sobretudo para as áreas mais pobres da cidade, que serão as primeiras e mais intensamente atingidas pelos eventos extremos. Até hoje, por exemplo, o município não possui um plano diretor de arborização urbana — tema que foi objeto da primeira dissertação que orientei no Programa de Políticas Sociais da Uenf, ainda em 2001. Enquanto isso, segue a destruição sistemática da pouca vegetação urbana remanescente, ao mesmo tempo em que árvores abandonadas adoecem sem qualquer manejo adequado, como se “erva-de-passarinho” fosse mero detalhe paisagístico e não uma sentença de morte.

O fato é que grande parte do clamor em defesa da atual estrutura de distribuição dos royalties busca preservar privilégios de grupos políticos e econômicos que efetivamente se beneficiaram da renda petrolífera, enquanto a maior parte da população permaneceu à margem desse processo. O mais grave é perceber que, após décadas de receitas bilionárias e de uma oportunidade histórica talvez irrepetível, cidades como Campos dos Goytacazes continuam sem infraestrutura adequada, sem diversificação econômica, sem políticas robustas de redução das desigualdades e sem preparação para os desafios ambientais do século XXI.

Trata-se de um desperdício monumental de recursos públicos e da dilapidação histórica de uma riqueza finita, consumida sem produzir bases sólidas para o futuro. Quando o petróleo perder centralidade econômica ou se esgotar, permanecerão os mesmos problemas estruturais, agravados por décadas de omissão, clientelismo e ausência de planejamento. A tragédia maior é justamente esta: ter recebido uma riqueza extraordinária e, ainda assim, não conseguir transformá-la em bem-estar coletivo, justiça social e desenvolvimento duradouro.

Estudo mapeia risco de derramamento de petróleo na Margem Equatorial brasileira

Maior risco acumulado está em áreas no CE e RN, que devem ser priorizadas no monitoramento e nos planos de contigência. Foto: Jan-Rune Smenes Reite / Pexels

Um novo estudo publicado na revista Conservation Letters na quinta (30) mapeia os riscos de impactos por derramamento de petróleo em áreas da Margem Equatorial brasileira, porção do território marítimo que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte. As costas cearense e potiguar, que já contam com produção iniciada, concentram maior probabilidade de danos a bancos de pradarias marinhas, manguezais, recifes de corais e bancos de rodolitos – que reúnem algas calcárias. Já na área entre Pará e Amapá, com expansão projetada de atividade petroleira, os ambientes mais expostos a risco são os recifes mesofóticos – localizados entre 30 e 150 metros de profundidade.

O estudo avaliou os riscos de impactos cumulativos de derramamento de óleo na região a partir de simulações da trajetória do contaminante, informações científicas e governamentais sobre a distribuição dos habitats marinhos e costeiros, além dos diferentes níveis de sensibilidade à contaminação dessas áreas por óleo. Assim, a equipe estimou a probabilidade de exposição ao contaminante em todas as bacias que compõem a região: Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar.

Para uma avaliação abrangente, o estudo considerou os 15 blocos já em produção na bacia Potiguar, além de 34 blocos com possibilidade de exploração e 75 blocos de possível oferta, sujeitos a mudanças que dependem de fatores como o interesse das empresas e os processos de licitação e de licenciamento ambiental.

Com autoria de pesquisadores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Universidade do Porto em Portugal, e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o trabalho também indica ações prioritárias de acordo com o nível de risco ecológico de cada área. As áreas mais expostas estão concentradas na Bacia Potiguar, entre o litoral do Ceará e do Rio Grande do Norte. Conforme o trabalho, elas devem ser priorizadas para o monitoramento ecológico, a elaboração de planos de contingência e o fortalecimento da capacitação estatal de resposta rápida a acidentes.

De forma complementar, o estudo identifica regiões com maior integridade ecológica e menor exposição ao petróleo, que se mostram adequadas para o estabelecimento de novas áreas marinhas protegidas, com o objetivo de mitigar possíveis impactos da atividade. Além disso, essa estratégia de conservação desempenha um papel importante no fortalecimento da governança ao ampliar o processo de participação social nos processos de tomada de decisão. Áreas com essas características se situam principalmente na Bacia da Foz do Amazonas, entre o Pará e o Amapá. Trata-se de uma região única, do ponto de vista oceanográfico, e ainda pouco estudada, conforme explica Rafael Magris, autor principal do artigo. “As áreas em frente à foz, onde estão os recifes mais profundos, funcionam como corredores de habitats para espécies que possam coexistir no Caribe e na Província Brasileira”, detalha. 

O artigo destaca que o derramamento de óleo na costa do Nordeste, entre os anos de 2019 e 2020, mostrou a vulnerabilidade dos ecossistemas costeiros, trazendo também graves consequências às comunidades locais. Embora tenham origens distintas – já que o evento que atingiu o Nordeste esteve provavelmente associado ao transporte de óleo e não ao processo de exploração e produção – a comparação traz lições importantes. A principal delas é que todo cuidado é pouco, de acordo com Rafael Magris.

“As consequências de episódios de derramamento são frequentemente difíceis de serem mensuradas, tanto pelo conhecimento ainda limitado sobre muitos ecossistemas quanto pela vulnerabilidade socioambiental das regiões costeiras, onde diversas comunidades dependem da pesca artesanal e do turismo”, aponta o autor. “Mesmo quando os derrames ocorrem em áreas de alto mar, seus impactos podem atingir ecossistemas costeiros e comunidades tradicionais que dependem diretamente desses recursos”, finaliza Magris.


Fonte: Agência Bori

O oceano do amanhã: Por que o equilíbrio do planeta depende dos mares

 

Por Luiz Drude de Lacerda & Edmo Campos,  Academia Brasileira de Ciências

Em meados da Década da Ciência Oceânica (2021-2030), a humanidade enfrenta um ponto crítico. O bem-estar das gerações futuras e a própria integridade do ecossistema terrestre dependem de decisões urgentes sobre como gerimos o Oceano. Atualmente, operamos perigosamente perto de limites que, se ultrapassados, podem comprometer seriamente a humanidade.

O Gigante que Regula a Vida

O Oceano cobre 63% da superfície global e é o grande regulador do clima e dos ciclos biogeoquímicos. Ele atua como um escudo contra o aquecimento global, absorvendo:

  • 30% do CO2 emitido por atividades humanas.
  • 90% do excesso de calor gerado por essas emissões.

No entanto, essa proteção tem um preço alto. O aumento da temperatura da água está alterando correntes marinhas, intensificando ondas de calor e provocando a perda de oxigênio e o aumento da acidez.

As Ameaças em Curso

  1. Correntes e Clima em Risco

Sensores instalados em grande profundidade indicam que a circulação de revolvimento meridional do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC, está enfraquecendo e corre o risco de sofrer uma mudança abrupta. Se atingir um “ponto de não retorno”, as consequências serão severas para o clima do planeta. Por exemplo, o Hemisfério Norte ficaria mais frio e o Sul mais quente, impactando drasticamente a biodiversidade marinha e terrestre, a agricultura, a saúde e a vida social nessas regiões.

  1. Ondas de Calor e Perda de Biodiversidade

Em decorrência da absorção do excesso de calor, o oceano está se aquecendo. Esse aquecimento oceânico já causa mortalidade em massa em ecossistemas e fazendas de aquacultura. Recifes de coral sofrem com o branqueamento, sendo substituídos por espécies oportunistas e perdendo sua abundância em áreas rasas, o que ameaça a segurança alimentar de 40% da população mundial que depende do mar.

  1. Desoxigenação e Acidificação

O excesso de nutrientes (eutrofização) e o aquecimento global estão criando zonas de baixo oxigênio. Isso altera a distribuição de grandes peixes, como atuns, e modifica toda a cadeia alimentar. Paralelamente, a acidificação — mais severa no Oceano Austral — impacta a base da rede alimentar, afetando a qualidade e quantidade de alimento disponível no mar.

  4. O Legado da Poluição

A mudança climática está amplificando a escala da poluição local para o nível global. Poluentes persistentes, como mercúrio e microplásticos, estão se tornando mais reativos e biodisponíveis, aumentando os riscos de exposição para as populações humanas.

O Mar Profundo e a Nova Governança

O leito oceânico, abaixo de 200 metros, é vital para o sequestro de carbono e o ciclo de nutrientes. Embora fosse considerado “mar de ninguém”, a entrada em vigor do Tratado de Alto Mar (BBNJ) em janeiro deste ano marca um avanço na governança global. Contudo, atividades como mineração profunda e exploração de petróleo ainda carecem de avaliações ambientais rigorosas.

Conclusão

O Oceano não é apenas uma fonte de recursos, fármacos e energia; é a infraestrutura que mantém o planeta habitável. Compreender seu funcionamento dinâmico através de ciência transdisciplinar e ações multilaterais não é mais uma opção, mas uma necessidade urgente para estabelecer políticas públicas que garantam o nosso amanhã.

Ormuz: o gargalo energético do capitalismo global

O gráfico que segue logo abaixo que mostra o ritmo do tráfego de navios petroleiros no Estreito de Ormuz revela um cenário de forte deterioração logística após a intensificação das tensões militares envolvendo Irã, Israel e os Estados Unidos. Observa-se uma queda abrupta no fluxo de navios petroleiros logo após o episódio destacado no gráfico, indicando um movimento de retração do transporte marítimo em uma das rotas energéticas mais estratégicas do planeta. Cerca de 20% do petróleo consumido globalmente passa diariamente pelo estreito, o que transforma qualquer instabilidade regional em um problema de escala mundial.

A redução do tráfego sugere que armadores, seguradoras e grandes operadores logísticos já estão reagindo ao aumento do risco geopolítico. Mesmo sem um bloqueio formal do estreito, o simples aumento da percepção de insegurança vem sendo suficiente para elevar os custos de seguro marítimo, reduzir a circulação de embarcações e provocar atrasos no abastecimento internacional. Isso tende a gerar forte volatilidade no preço do barril de petróleo, pressionando inflação, cadeias produtivas e custos de transporte em praticamente todas as economias dependentes de combustíveis fósseis.

Os impactos sobre a economia mundial serão profundos nos próximos meses. O primeiro efeito esperado é o aumento do preço da energia, afetando diretamente transporte marítimo, aviação, geração elétrica e indústria petroquímica. Em seguida, ocorre uma propagação inflacionária global: combustíveis mais caros elevam custos logísticos, pressionam alimentos, manufaturas e bens industriais. Países importadores líquidos de petróleo, especialmente na Europa e na Ásia, podem enfrentar desaceleração econômica combinada com inflação persistente, fenômeno semelhante a processos de estagflação observados em crises energéticas anteriores.

Outro ponto crítico é que o gráfico mostra não apenas uma oscilação pontual, mas uma quebra estrutural do fluxo regular de petroleiros após fevereiro. Isso indica que o mercado passou a incorporar o risco de conflito prolongado no Golfo Pérsico. Em um contexto de estoques globais apertados e recuperação desigual da produção em diferentes regiões produtoras, qualquer interrupção adicional pode desencadear choques ainda mais severos sobre o mercado energético.

No caso brasileiro, os efeitos podem ser particularmente graves para a agricultura de exportação. Embora o Brasil seja produtor relevante de petróleo, o país mantém forte dependência externa de fertilizantes nitrogenados, potássicos e fosfatados, muitos deles associados direta ou indiretamente à dinâmica energética global. A produção de fertilizantes nitrogenados depende intensamente do gás natural — cujo preço tende a subir junto com o petróleo — enquanto fertilizantes potássicos importados possuem cadeias logísticas altamente sensíveis ao custo do transporte marítimo.

Esse cenário pode provocar desabastecimento parcial e aumento expressivo no custo dos insumos agrícolas, afetando especialmente commodities exportadoras como soja, milho, algodão, café e cana-de-açúcar. O agronegócio brasileiro opera em larga escala e com elevada dependência de fertilização intensiva. Caso ocorram atrasos logísticos ou encarecimento prolongado dos fertilizantes, produtores poderão reduzir aplicação de nutrientes, comprometendo produtividade, margens de lucro e competitividade internacional.

Além disso, os impactos tendem a ser desiguais regionalmente. Grandes grupos exportadores podem conseguir absorver parte dos custos ou antecipar compras, enquanto médios e pequenos produtores ficam mais vulneráveis à volatilidade internacional. Isso pode ampliar processos de concentração econômica no campo e pressionar cadeias alimentares internas, elevando preços domésticos de alimentos.

A crise também evidencia uma fragilidade estrutural da economia brasileira: a dependência externa de insumos estratégicos mesmo em um país com enorme peso agrícola e energético. O risco geopolítico no Oriente Médio acaba revelando como a segurança alimentar global permanece profundamente conectada à estabilidade das rotas internacionais de petróleo e gás. Em outras palavras, uma crise militar no Golfo Pérsico pode rapidamente se transformar em inflação agrícola, insegurança alimentar e desaceleração econômica em países distantes como o Brasil.

Tudo isso posto junto revela o quanto foi precipitada e mal calculada a aventura militar comandada pelos EUA e por Israel contra o Irã. Como eu já havia escrito logo no início do conflito, a situação tinha tudo para dar errado. E deu.

Entre a ciência e o palanque: o desvio político da Faperj no Rio de Janeiro

Enquanto pesquisadores enfrentam abandono institucional e o hub de inovação da Faperj se deteriora no Catete, milhões destinados à ciência foram direcionados ao Segurança Presente sob influência de deputados da Alerj e interesses eleitorais

Um relatório interno do governo do estado do Rio de Janeiro revelou que a expansão do programa Segurança Presente, financiada parcialmente com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, teria sido conduzida por interesses políticos vinculados a deputados da bancada do PL na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, e não por critérios técnicos relacionados à incidência criminal. O convênio previa o repasse de R$ 20 milhões para a abertura de dez novas bases do programa, enquanto a Faperj estava sob influência política do então secretário estadual de Ciência e Tecnologia, o deputado Anderson Moraes.

Os documentos apontam que diferentes bases do Segurança Presente foram associadas diretamente a interesses eleitorais de parlamentares. Além de Anderson Moraes, aparecem envolvidos o presidente da Alerj, Douglas Ruas, e os deputados Thiago Gagliasso, Índia Armelau e Filippe Poubel, cada um ligado à instalação de bases em áreas de interesse político-eleitoral. O processo também registra a utilização de emendas parlamentares para financiar unidades em municípios do interior fluminense.

O episódio evidencia uma profunda contradição institucional: recursos de uma fundação cuja finalidade legal é fomentar ciência, tecnologia e pesquisa científica passaram a financiar um programa de segurança pública, área que deveria possuir orçamento próprio e planejamento técnico específico. A utilização de verbas da Faperj para sustentar ações policiais revela não apenas um desvio de finalidade administrativa, mas também uma inversão de prioridades em um estado marcado pelo sucateamento das universidades públicas, pela precarização da pesquisa e pela redução de investimentos científicos.

Essa contradição torna-se ainda mais simbólica quando se observa a situação do prédio histórico que abriga o hub de inovação da Faperj, no bairro do Catete. O imóvel segue sem receber reformas estruturais adequadas, incluindo a recuperação e pintura de sua fachada externa, apesar de representar institucionalmente a política estadual de ciência e inovação. A deterioração física do espaço amplia a percepção de desconexão entre a missão original da fundação e a forma como seus recursos vêm sendo direcionados. Enquanto laboratórios, pesquisadores e universidades enfrentam dificuldades para obtenção de financiamento e manutenção de infraestrutura científica básica, recursos milionários são deslocados para programas de segurança pública associados a disputas político-eleitorais. O contraste entre o abandono de um patrimônio ligado à produção do conhecimento e a priorização de iniciativas alheias à pesquisa explicita uma crise de identidade institucional da própria Faperj.

A situação fica ainda mais delicada diante das evidências de ingerência política sobre a definição territorial do programa. Em vez de obedecer a estudos técnicos, indicadores de violência ou diagnósticos de segurança pública, a expansão das bases teria seguido interesses de parlamentares em seus redutos eleitorais, convertendo um programa estatal em instrumento de capital político. O caso expõe a fragilidade dos mecanismos de controle sobre fundos públicos destinados à ciência e reforça o debate sobre a instrumentalização de estruturas do Estado para fins eleitorais e de fortalecimento de grupos políticos.

Diante das denúncias, o governo estadual anunciou a transferência do Segurança Presente para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e a realização de auditoria no programa. A promessa é que futuras expansões sejam orientadas por mapas de incidência criminal e critérios técnicos, buscando reduzir o peso das articulações políticas na condução da política de segurança pública.