Organizações sociais alertam governo Lula para riscos de um “super El Niño” e cobram políticas de adaptação climática

Carta aponta necessidade urgente de proteção às populações vulneráveis diante do aumento de eventos extremos associados às mudanças climáticas

Em meio ao aumento das preocupações internacionais com a possível formação de um episódio muito intenso do fenômeno El Niño entre o final de 2026 e o início de 2027, organizações da sociedade civil brasileira divulgaram uma carta pública alertando o governo federal sobre a necessidade urgente de fortalecer políticas de adaptação climática e prevenção de desastres.

Segundo a reportagem publicada pelo Poder360, o documento foi elaborado pela Rede por Adaptação Antirracista em parceria com o Observatório do Clima, reunindo dezenas de entidades socioambientais e de direitos humanos. Entre os signatários estão Greenpeace Brasil, Oxfam Brasil, WWF-Brasil, SOS Mata Atlântica, Instituto Pólis, Instituto Ethos, Conectas Direitos Humanos, Coalizão Negra por Direitos e Transparência Brasil.

O alerta ocorre após estimativas divulgadas pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que apontam 82% de probabilidade de formação do El Niño ainda em 2026 e cerca de 37% de chance de que o fenômeno atinja intensidade “muito forte”.

Embora o termo “super El Niño” não seja oficialmente utilizado pela NOAA, ele costuma designar episódios excepcionalmente intensos, capazes de provocar impactos severos em diferentes regiões do planeta. No caso brasileiro, especialistas alertam para a possibilidade de secas mais severas no Norte e Nordeste, além de chuvas extremas no Sul do país.

Na carta, as organizações destacam que os impactos climáticos não atingem todos da mesma maneira. Populações negras, indígenas, quilombolas, periféricas e moradores de áreas de risco estariam entre os grupos mais expostos aos efeitos de enchentes, deslizamentos, ondas de calor, secas e incêndios florestais.

O documento também critica a postura recorrente de governos que atuam apenas após as tragédias. As entidades defendem políticas permanentes de prevenção, planejamento urbano, monitoramento climático e preparação comunitária. Entre as medidas propostas estão a instalação de sirenes e sistemas de alerta, criação de centros de monitoramento, elaboração participativa de planos de fuga e atualização do Plano Nacional de Adaptação.

As organizações lembram ainda que os desastres recentes no Brasil já evidenciam os custos humanos da emergência climática. O texto menciona as chuvas catastróficas em Petrópolis e os episódios extremos registrados no litoral norte paulista, reforçando que a combinação entre mudanças climáticas, desigualdade social e ausência de infraestrutura amplia drasticamente os riscos.

O debate também ganhou repercussão nas redes sociais, onde muitos usuários defenderam a importância dos alertas preventivos diante da repetição de tragédias climáticas no país. Em discussões online, diversos comentários criticaram a falta de preparação estrutural do poder público diante de eventos extremos cada vez mais previsíveis.

A íntegra da reportagem original pode ser acessada no Poder360.

Feijão envenenado e Estado lento: o retrato cruel da falência da fiscalização da contaminação alimentar por agrotóxicos no Brasil

Quando um alimento básico da mesa brasileira circula com níveis absurdos de contaminação, o problema deixa de ser um “desvio” e passa a revelar o funcionamento normal de um modelo agrícola e regulatório profundamente adoecido

A reportagem publicada pela Repórter Brasil e assinada pela jornalista Hélen Freitas expõe um caso que deveria provocar indignação nacional imediata: lotes de feijão com resíduos de agrotóxicos até 355 vezes acima do limite permitido permaneceram por mais de um ano sem recolhimento por parte do Estado brasileiro.

O dado é chocante por si só. Mas o mais grave talvez seja aquilo que ele revela sobre a lógica estrutural que rege o sistema de fiscalização de alimentos no Brasil. O problema não é apenas a presença de resíduos tóxicos em um dos principais itens da alimentação popular brasileira. O problema é que a contaminação foi identificada oficialmente pelo próprio Ministério da Agricultura, e ainda assim o mecanismo estatal de resposta operou numa velocidade incompatível com qualquer noção séria de proteção sanitária.

Segundo a reportagem, análises laboratoriais encontraram 17,73 mg/kg de glifosato em amostras de feijão-fradinho da marca Dona Dê, quando o limite permitido pela Anvisa é de apenas 0,05 mg/kg. O produto já estava embalado e pronto para distribuição em supermercados. Quando o recolhimento finalmente foi determinado, o lote já havia perdido a validade. Ou seja: o Estado brasileiro conseguiu transformar um procedimento de proteção sanitária em mera formalidade burocrática posterior ao consumo potencial do alimento contaminado.

A matéria mostra ainda que não se trata de um caso isolado. Autos de infração e laudos do Ministério da Agricultura apontam reincidência entre 2020 e 2025 envolvendo a empresa NJF Indústria e Comércio, responsável pelo empacotamento de marcas amplamente conhecidas no mercado nacional. Foram registradas autuações em vários estados por excesso de resíduos de glifosato, glufosinato, tiametoxam e até presença de substâncias não autorizadas para a cultura do feijão.

Esse episódio desmonta um dos discursos preferidos do agronegócio brasileiro: o de que o país possui um dos sistemas de controle sanitário “mais rigorosos do mundo”. Se o rigor existe, ele claramente não se traduz em proteção efetiva da população. Afinal, de que serve detectar contaminações extremas se os alimentos continuam circulando normalmente até desaparecerem das prateleiras pelo vencimento natural?

Mas existe um aspecto ainda mais grave e frequentemente ocultado no debate público brasileiro: os processos de avaliação toxicológica continuam sendo feitos, em grande medida, de forma isolada para cada princípio ativo. Em outras palavras, os limites de segurança são estabelecidos considerando os impactos individuais de cada agrotóxico, como se a população estivesse exposta separadamente a uma única substância por vez. O problema é que a realidade da alimentação contemporânea é completamente diferente.

Sempre que análises laboratoriais mais abrangentes são realizadas em alimentos no Brasil, o que aparece é a presença simultânea de múltiplos resíduos químicos diferentes. O consumidor brasileiro não está ingerindo apenas glifosato, apenas glufosinato ou apenas tiametoxam. Está sendo exposto diariamente a verdadeiros coquetéis de agrotóxicos, cujas interações sinérgicas permanecem insuficientemente estudadas e praticamente ignoradas pelos marcos regulatórios oficiais.

Isso significa que o sistema brasileiro de controle sanitário opera sobre uma ficção científica regulatória: a de que os compostos químicos agem isoladamente dentro do organismo humano. Entretanto, há crescente preocupação na literatura científica internacional com os chamados “efeitos combinados” ou “efeitos coquetel”, nos quais diferentes substâncias podem potencializar mutuamente seus impactos tóxicos, inclusive em doses consideradas “aceitáveis” individualmente.

O caso do feijão contaminado é particularmente simbólico porque envolve um alimento central na dieta brasileira, consumido diariamente por milhões de famílias pobres e trabalhadoras. Diferentemente de produtos de nicho ou mercadorias de exportação, o feijão atravessa todas as classes sociais e regiões do país. Isso significa que a exposição aos agrotóxicos não é um problema periférico ou restrito ao campo: ela se converteu em componente estrutural da alimentação cotidiana brasileira.

O glifosato, encontrado em níveis exorbitantes nas amostras analisadas, permanece cercado de controvérsias científicas internacionais. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da OMS classificou o composto como “provavelmente cancerígeno para humanos”. Ainda assim, o Brasil continua sendo um dos maiores consumidores globais dessa substância, em um ambiente regulatório marcado por pressão política do agronegócio, fragilidade institucional e sistemática flexibilização das regras de controle.

O drama é ampliado pela conhecida insuficiência estrutural dos órgãos de fiscalização. O país expandiu de forma exponencial o uso de agrotóxicos nas últimas décadas, mas não construiu capacidade proporcional de monitoramento laboratorial, rastreabilidade e vigilância sanitária. O resultado é um modelo em que a fiscalização frequentemente atua apenas depois da circulação comercial dos produtos contaminados — quando atua.

Nesse contexto, a lentidão dos órgãos de controle deixa de parecer mera incompetência administrativa e passa a assumir contornos de cumplicidade estrutural. Afinal, enquanto os procedimentos burocráticos se arrastam, milhões de brasileiros seguem consumindo alimentos contaminados e sendo submetidos diariamente a exposições químicas múltiplas cujos impactos acumulados permanecem largamente desconhecidos.

Existe ainda um componente político que raramente aparece de forma explícita no debate público: o Estado brasileiro trata a contaminação por agrotóxicos como um problema secundário porque sua prioridade real é garantir fluidez ao modelo agroexportador. Nesse contexto, a proteção da saúde coletiva tende a ser subordinada à necessidade de evitar “entraves” à circulação de commodities agrícolas e alimentos industrializados.

O caso revelado pela Repórter Brasil deveria servir como alerta máximo para o fato de que o debate sobre agrotóxicos no Brasil não diz respeito apenas à produção agrícola, mas à própria capacidade do Estado de garantir segurança alimentar mínima à sua população.

A pergunta central passa então a ser inevitável: quantos outros alimentos contaminados continuam circulando normalmente enquanto a burocracia estatal se move em câmera lenta e os órgãos de controle fingem não enxergar o experimento químico involuntário ao qual a população brasileira está sendo submetida diariamente?

Grupo GLOBO descobre o desastre do EAD que ajudou a legitimar

Ao denunciar a deterioração da formação docente no Brasil, o Jornal O GLOBO expõe uma crise real — mas silencia sobre o papel histórico da grande mídia na promoção da mercantilização da educação, da expansão descontrolada do ensino à distância e do desfinanciamento das universidades públicas

O editorial do Jornal O GLOBO dia 22 de maio expõe um problema real e grave da educação brasileira: a deterioração da formação docente, especialmente nas licenciaturas ofertadas em modalidade Ensino À Distância (EAD). Os dados citados são efetivamente alarmantes: estudantes de pedagogia, letras e matemática apresentam desempenho abaixo do mínimo esperado, e o texto corretamente associa isso à expansão desenfreada de cursos de baixa qualidade orientados mais pela lógica de mercado do que pela formação pedagógica consistente. Mas há uma contradição importante (e profundamente reveladora) no posicionamento adotado pelo próprio Jornal O GLOBO.

O mesmo Jornal  O GLOBO que publica um editorial denunciando os efeitos da massificação precária do ensino à distância também participa, direta e indiretamente, do ecossistema econômico e ideológico que impulsionou a mercantilização da educação no Brasil. Ao longo das últimas décadas, empresas de mídia ligadas ao grupo produziram conteúdos educacionais, plataformas digitais, telecursos e materiais voltados justamente à expansão do ensino remoto e híbrido. Além disso, a grande mídia brasileira — incluindo o próprio Jornal O GLOBO — historicamente apoiou agendas de austeridade fiscal, privatização e flexibilização regulatória que enfraqueceram o investimento público nas universidades presenciais e abriram espaço para o crescimento explosivo dos conglomerados privados de EAD.

O problema, portanto, não é simplesmente “o EAD” em abstrato. O que o editorial evita discutir é o modelo de EAD que foi consolidado no Brasil: um sistema industrializado, financeirizado e ultrabarato, baseado em polos precários, tutoria mínima, sobrecarga docente e padronização extrema do ensino. Um modelo que interessa enormemente ao capital educacional porque reduz custos operacionais e amplia margens de lucro.

Há ainda uma dimensão ideológica importante. Durante anos, vendeu-se a narrativa de que tecnologia e plataformas digitais democratizariam automaticamente o acesso e resolveriam os problemas estruturais da educação brasileira. Essa visão tecnocrática — frequentemente celebrada pelos grandes grupos de mídia — ajudou a naturalizar a substituição da formação universitária presencial por modelos massificados de certificação em larga escala.

Agora que os indicadores mostram o colapso da qualidade formativa, parte da imprensa parece descobrir tardiamente algo que pesquisadores da educação já denunciavam há mais de uma década: não existe “atalho tecnológico” para formar professores. Formação docente exige convivência acadêmica, prática supervisionada robusta, debate crítico, inserção institucional e acompanhamento pedagógico permanente.

Outro aspecto pouco explorado pelo editorial é que o avanço do EAD não ocorreu por demanda espontânea dos estudantes, mas por um processo político deliberado de desfinanciamento das universidades públicas e incentivo agressivo aos conglomerados privados. Hoje, mais de 70% das vagas de licenciatura são ofertadas a distância porque esse modelo se tornou altamente rentável para o setor empresarial educacional.

Assim, o texto do Jornal O GLOBO acerta ao diagnosticar a crise, mas silencia sobre sua própria inserção histórica no ambiente político, econômico e comunicacional que ajudou a produzir essa mesma crise. Trata-se de uma contradição típica do capitalismo educacional contemporâneo: denuncia-se o desastre apenas depois que ele já se tornou socialmente incontornável — sem questionar profundamente os interesses econômicos que o alimentaram.

Se o Brasil pretende efetivamente enfrentar a crise da formação docente, não bastará impor limites ao EAD precário ou endurecer mecanismos de avaliação. Será indispensável reverter décadas de desfinanciamento das universidades públicas e reconstruir uma política nacional robusta de formação presencial de professores. Isso implica ampliar investimentos em licenciaturas presenciais, fortalecer infraestrutura acadêmica, laboratórios, bibliotecas e programas de residência pedagógica, além de garantir políticas permanentes de assistência estudantil que assegurem condições materiais para que jovens de baixa renda possam permanecer nos cursos de formação docente. Afinal, não se forma bons professores em massa por meio de plataformas padronizadas e tutoria precarizada, mas através de processos densos de convivência intelectual, prática supervisionada e inserção universitária crítica. Ao mesmo tempo, torna-se urgente enfrentar a crescente precarização da profissão docente em todos os níveis de ensino. Salários corroídos, sobrecarga de trabalho, perda de prestígio social, adoecimento laboral e ausência de perspectivas de carreira têm afastado especialmente os mais jovens do magistério. Sem recompor a atratividade econômica e simbólica da profissão, o país continuará produzindo um círculo vicioso: menos interesse pela docência, formação mais precária e deterioração contínua da qualidade da educação pública brasileira.

Entre drones, agrotóxicos e monoculturas: a escalada da guerra química contra os camponeses no Maranhão

O avanço do agronegócio no Matopiba e a disseminação da pulverização aérea intensificam disputas territoriais, ampliam riscos ambientais e expõem os limites da regulação sobre o uso de agrotóxicos em comunidades rurais, quilombolas e indígenas

O Maranhão tornou-se, nos últimos anos, um dos principais laboratórios da expansão acelerada do agronegócio no Matopiba — fronteira agrícola que abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Nesse processo, a incorporação de novas áreas para monoculturas de soja, milho e eucalipto vem sendo acompanhada por um aumento expressivo do uso de agrotóxicos e da pulverização aérea, incluindo a utilização crescente de drones agrícolas. O que antes era apresentado como símbolo de modernização tecnológica passou a suscitar um debate mais amplo sobre seus impactos sociais, ambientais e sanitários, especialmente em regiões ocupadas por comunidades rurais, quilombolas, indígenas e assentamentos da reforma agrária.

Dados recentemente divulgados pela Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), por meio do chamado “Mapa do Veneno”, indicam que somente nos quatro primeiros meses de 2026 foram registradas 239 ocorrências de pulverização aérea de agrotóxicos em 31 municípios maranhenses. Segundo o levantamento, aproximadamente 200 comunidades teriam sido afetadas por episódios envolvendo deriva de produtos químicos, contaminação de fontes de água, danos a plantações de subsistência e relatos de intoxicação humana. Ainda que os números dependam de investigação detalhada pelos órgãos públicos competentes, eles ajudam a revelar a dimensão territorial do conflito em torno do atual modelo agrícola em expansão no estado.

O caso do município de Duque Bacelar tornou-se emblemático. Moradores do povoado Santo Antônio relataram que um drone agrícola realizou pulverização próxima às residências, atingindo áreas de uso comunitário, cacimbões e pequenas lavouras familiares. O episódio ganhou maior repercussão porque o município possuía legislação restritiva ao uso desse tipo de pulverização em determinadas áreas, posteriormente revogada pela administração municipal. O episódio expõe como a rápida incorporação de novas tecnologias agrícolas frequentemente ocorre antes da consolidação de mecanismos robustos de fiscalização, monitoramento ambiental e proteção das populações potencialmente expostas.

Situação semelhante vem sendo denunciada em comunidades de Vila Nova dos Martírios, onde moradores associam o avanço das plantações de eucalipto aos episódios de pulverização aérea e à alteração da qualidade da água e dos ecossistemas locais. Empresas do setor florestal argumentam, por outro lado, que suas atividades seguem os parâmetros legais e técnicos estabelecidos pelos órgãos reguladores. Ainda assim, os relatos de mortandade de peixes, adoecimento de moradores e perda de roças tradicionais revelam um cenário de crescente tensão socioambiental em áreas onde a presença do agronegócio avança sobre territórios historicamente ocupados por populações camponesas.

Outro aspecto importante destacado pelo levantamento da RAMA é a recorrência dos episódios. Segundo os dados divulgados, ao menos 36 comunidades teriam sido atingidas mais de uma vez em poucos meses. Essa repetição indica que não se trata apenas de eventos isolados, mas da consolidação de uma dinâmica territorial marcada pela convivência conflituosa entre grandes empreendimentos agroindustriais e modos de vida tradicionais. A expansão das monoculturas intensivas em agrotóxicos tende a aumentar a proximidade física entre áreas de produção empresarial e comunidades vulneráveis, ampliando o risco de deriva química e de contaminação ambiental.

Ao mesmo tempo, a disseminação do uso de drones agrícolas inaugura um novo desafio regulatório. Embora frequentemente apresentados como alternativa mais precisa e eficiente em comparação à pulverização aérea convencional, os drones ainda operam em um contexto de fiscalização limitada e de ausência de protocolos amplamente consolidados para áreas próximas a moradias, escolas rurais, rios e territórios coletivos. A velocidade da adoção tecnológica parece superar a capacidade do Estado de construir mecanismos efetivos de controle e responsabilização.

O debate em torno da pulverização aérea no Maranhão ultrapassa, portanto, a questão técnica do uso de agrotóxicos. Ele remete a um modelo de desenvolvimento rural baseado na expansão contínua de commodities agrícolas voltadas ao mercado internacional, frequentemente em regiões marcadas por elevada vulnerabilidade social e baixa capacidade institucional de monitoramento ambiental. Nesse contexto, a disputa em torno do território passa também pelo controle da água, da terra e das condições mínimas de permanência das populações tradicionais em seus espaços históricos.

Mais do que um conflito localizado, o que ocorre no Maranhão oferece um retrato das contradições presentes na atual expansão do agronegócio brasileiro. De um lado, um setor altamente mecanizado, financeirizado e dependente de pacotes químicos e tecnológicos cada vez mais sofisticados. De outro, comunidades que reivindicam proteção ambiental, segurança sanitária e reconhecimento territorial. Entre esses dois polos, permanece em aberto a questão central: quais são os limites sociais, ambientais e políticos aceitáveis para a continuidade desse modelo de expansão agrícola?

Divulgação! Coletânea Brasileira de Arborização Urbana

Coletânea Brasileira de Arborização Urbana é resultado de um esforço coletivo que reúne diversas pessoas e instituições. Organizada em cinco volumes, um para cada região do país (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul), a publicação apresenta um panorama abrangente da gestão da arborização urbana no Brasil, incluindo aspectos relacionados à biodiversidade e aos serviços ecossistêmicos. Destacam-se, entre seus conteúdos, listas de espécies nativas recomendadas para a arborização urbana, subsídios à implementação de políticas públicas nos níveis federal, estadual e municipal.

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Em breve, serão disponibilizadas versões em formato adequado para impressão.

capa coletanea

Esta publicação foi produzida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) no contexto do Programa Cidades Verdes Resilientes (PCVR), com recursos do Termo de Execução Descentralizada nº 001927/2024-0010 com a Universidade Federal do Alagoas (UFAL) para o fortalecimento de ações para a ampliação da Arborização Urbana no Brasil, e faz parte das entregas do Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU).


Fonte: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima

GT Ecologia Política da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental lança nota sobre desmonte da política ambiental brasileira

Por GT  Ecolutas

Temos visto, nos últimos tempos, um avanço alarmante de sucessivos desmontes da política ambiental brasileira. Seja nos municípios, nos estados ou na esfera federal, a extrema-direita (organizada nos parlamentos, engajada nas redes e apoiada e financiada por empresários do capital financeiro, latifundiários do agronegócio e setores conservadores da sociedade) têm feito passar sua agenda de ataques aos já insuficientes (e ambíguos) instrumentos de proteção, controle e gestão ambiental.

Tivemos, no ano passado, a “desmontagem” do sistema de licenciamento ambiental, que estava longe de ser ótimo, mas ao menos era resultado de décadas de acúmulo, com alguns avanços e recuos, como apontou nosso documento analisando à época da aprovação do chamado ‘PL do Licenciamento’ (Aqui!). Agora, o que temos são absurdos como o “autolicenciamento”, que passa longe de ser algo próximo a um efetivo licenciamento.

Alguns dias atrás, contudo, os deputados aprovaram mais uma ‘bomba ambiental’: o sensoriamento remoto não deverá mais ser empregado para subsidiar a fiscalização de infrações ambientais, como o desmatamento ilegal. Como lembrou o MapBiomas em seu repúdio a mais esse descalabro, “o uso de imagens de satélite permite a observação contínua de grandes áreas, oferecendo evidências objetivas para o suporte à decisão pública. O Projeto de Lei (PL) 2564/2025 (…) estabelece novas diretrizes para a aplicação de embargos e medidas cautelares, exigindo vistoria presencial e notificação prévia como requisitos para a sanção administrativa baseada em monitoramento remoto.” E prossegue: “[d]o ponto de vista técnico, a restrição ao uso de evidências obtidas por sensoriamento remoto impacta a capacidade operacional dos órgãos de controle. A tecnologia de monitoramento desempenha, na gestão pública, papel análogo ao de radares de tráfego na segurança viária ou de sensores meteorológicos na prevenção de desastres: são ferramentas que proporcionam escala, precisão e resposta rápida a eventos que, sem o suporte tecnológico, seriam tecnicamente inviáveis de gerenciar com a mesma eficácia.”

Ora, proibir os “embargos remotos” pelo Ibama só serve para uma coisa: beneficiar infratores. A tecnologia de monitoramento com base em teledetecção é o principal instrumento para conter o desmatamento ilegal. O uso das imagens de satélite permite agir antes que o dano florestal se torne dramaticamente irreversível. E o que significa, pois, requerer “vistoria presencial” e “notificação prévia”? Para nós, isso vai acabar com o ‘efeito surpresa’, facilitando enormemente a vida de desmatadores ilegais e outros infratores graúdos. Como o MapBiomas e toda a comunidade científica sabem, o sensoriamento remoto é preciso e eficaz. Ele é reconhecido até por tribunais superiores, como o STJ e o STF, quando se trata da emissão de provas e autos de infração. Lembremos que fazendas embargadas pelo Ibama e outros órgãos não podem mais obter crédito… Daí a importância, para o voraz agronegócio, da proibição do embargo remoto, medida que facilitará a obtenção de financiamentos por tais infratores. Este PL 2564/2025, depois de aprovado na Câmara, seguiu para o Senado, mas não temos dúvidas de sua aprovação também naquela casa.

Outro exemplo, aprovado a toque de caixa no mesmo dia 20 de maio: o PL 2486/2026. Ele desafeta parte da Floresta Nacional (FLONA) do Jamanxim, no Pará, transformando 40% da unidade em Área de Proteção Ambiental (APA), categoria ainda menos restritiva, que vai facilitar a implementação da ferrovia Ferrogrão, ligando o Mato Grosso ao porto de escoamento de grãos no Pará. E aí cabe relembrar alguns aspectos simbólicos: Helder Barbalho, o governador “anfitrião da COP 30”, foi um dos grandes apoiadores de tudo o que gira em torno da Ferrogrão, inclusive do PL 2486/2026; e, como segundo aspecto com grande simbolismo, vale notar que nenhuma área protegida, de nenhum tipo, está a salvo da lógica predatória do agronegócio e do grande capital.

Se já não bastasse todo esse desmantelamento da legislação e dos órgãos ambientais, que avança em sucessivas ondas rumo a um desmonte quase completo da política ambiental brasileira (por si só, ambígua e contraditória em alguns casos), o que vemos é um governo refém do seu presidencialismo de coalizão, onde a extrema-direita é vista como um operador válido do aparato estatal e do qual o chamado ‘Centrão’ (e sua eterna sanha por poder e dinheiro público) dita o ritmo das negociações (e negociatas) que, ao fim das contas, faz passar a agenda neofascista liberal e ao mesmo tempo conservadora, que aplicada ao contexto ambiental, têm provocado um conjunto de retrocessos jurídico-políticos e profundos impactos em áreas protegidas e nos territórios de povos originários e comunidades tradicionais, com inúmeras violações de direitos humanos, ameaças e crimes de toda ordem, além de perseguições a ativistas e a servidores de órgãos ambientais.

Nesse contexto de desmonte da política ambiental brasileira, a tentativa de acelerar a pavimentação da BR-319 tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos da lógica de terra arrasada impulsionada por setores do agronegócio, da grilagem, da mineração e do capital financeiro, mas também operacionalizada pelo próprio aparato estatal em nome de uma suposta agenda de “desenvolvimento” e “integração nacional”. O que está em curso não é apenas a recuperação de uma rodovia, mas a abertura definitiva do último grande bloco contínuo de floresta preservada da Amazônia brasileira à expansão do desmatamento, da degradação florestal, da violência territorial e da especulação fundiária. Para isso, avança uma espécie de licenciamento ambiental “fast food”, marcado pela pressão política sobre órgãos ambientais, pela flexibilização de instrumentos de controle e pela tentativa de tratar garantias territoriais e avaliações técnicas como simples entraves burocráticos. Ao mesmo tempo em que o governo federal busca projetar uma imagem internacional de liderança climática, internamente avança uma agenda que ignora os impactos cumulativos da pavimentação sobre unidades de conservação, territórios indígenas e comunidades tradicionais, frequentemente sem consulta livre, prévia e informada, em afronta direta à Convenção 169 da OIT. Como já demonstraram outros grandes eixos rodoviários amazônicos, a BR-319 tende a funcionar como vetor estruturante da expansão predatória da fronteira econômica, consolidando mais um ciclo planejado de devastação da floresta amazônica e de seus povos.

Por esse motivo, entendemos que uma reflexão mais profunda sobre o contexto político não pode se limitar ao receio de a extrema-direita ‘chegar ao poder’ em 2027, pois mesmo num governo supostamente de centro-esquerda (conjunturalmente fraco e politicamente ambíguo – mais centrista e neo-populista do que propriamente de esquerda), ela segue mandando e desmandando, de modo que a questão ambiental é, se não o melhor exemplo, um dos melhores exemplos do resultado dessa contradição inerente ao sistema político vigente.

Isso ajuda a comprovar que a disputa do executivo nacional não encerra a necessidade de apoio à organização das lutas em prol dos movimentos, povos e comunidades que, continuamente, r-existem a todo esse arcabouço de terra arrasada.

Nesse sentido, é muito importante destacar a vitoriosa mobilização que uniu dezenas de povos indígenas na ocupação do Porto da Cargill em Santarém (PA), no começo deste ano. A resistência indígena obrigou o Governo Federal a voltar atrás e revogar o Decreto 12600/2025, que incluía os rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização.

Da mesma forma, os vários processos de autodemarcação e retomadas indígenas indicam que os povos seguem, apesar de todos os ataques e ameaças, pautando seu destino para além da esfera governamental. A título de exemplo, em 2024, na região da Serra Gaúcha, duas retomadas indígenas em Unidades de Conservação federais (Florestas Nacionais) resultaram na construção de acordos de convivência que permitem sua permanência e encaminharam a constituição de Grupos Técnicos para Identificação e Delimitação das Terras Indígenas, garantindo um passo inédito no caminho da ‘Dupla Proteção’ em áreas sensíveis e ameaçadas, tanto pelo avanço do agronegócio e sua lógica de expropriação, como pelo capital financeiro e sua dinâmica de gentrificação e elitização de espaços conservados (as duas unidades haviam sido concedidas para exploração turística de alto padrão, mas as retomadas fizeram o processo ser paralisado). Além disso, várias comunidades tradicionais têm reivindicado sua ancestralidade e vem afirmando seus modos de vida e lógicas próprias de organização comunitária nos territórios, muitos deles sobrepostos por UC’s, abrindo caminhos para a permanência e a vida digna, ainda que com muitos desafios.

Poderíamos citar inúmeros exemplos de coletivos e movimentos sociais, organizações indígenas, comunidades quilombolas e povos tradicionais que têm feito uma dura luta contra essas ondas de ataques geradas ou potencializadas pela extrema-direita, mas que a seu modo e mesmo com muitos limites e algumas contradições, têm conseguido avanços importantes, que por sua vez têm servido de farol e horizonte para outros movimentos, povos e comunidades e a quem este grupo, não por acaso denominado ‘ECOlutas’, se soma e apoia, independente de governos ou coalizões.

GT ECOlutas, 23 de maio de 2025


Fonte:   RPG(S)A

Relatório mostra o que controla o valor de 13 dólares por um quilo de camisetas

Hoje, as grandes marcas de moda pagam praticamente o mesmo por uma camiseta de algodão que pagavam há 20 anos. Ajustado pela inflação, o preço de fornecimento caiu – na UE, por exemplo, em até 30%. A erosão contínua do valor de fornecimento em termos reais prejudica a resiliência econômica dos fornecedores, pressiona os salários para baixo e coloca em dúvida a credibilidade das alegações da indústria sobre sustentabilidade e uma transição justa.

Por Public Eye 

Atualmente, muitos compradores ainda adquirem camisetas de algodão padrão por cerca de US$ 2 a US$ 3 a unidade, com preços unitários abaixo de US$ 1 persistindo em algumas partes do mercado.  

No novo relatório “Squeezed Dry” (Exaustos até a Seca), a Public Eye e a Clean Clothes Campaign analisam dados que abrangem mais de duas décadas. Em conjunto, as evidências mostram que os preços de fornecimento persistentemente baixos não são uma falha de mercado, mas sim um princípio organizador central da indústria de vestuário atual, moldando as geografias de fornecimento, o comportamento do comprador e perpetuando estruturalmente salários de miséria e condições de trabalho precárias.

Leia  o relatório Squeezed Dry

Os preços reais de fornecimento estão diminuindo

De forma geral, os preços permaneceram muito baixos. Em 2025, o preço médio de importação da União Europeia (UE) era de apenas US$ 16 (EUR 14,15) por kg. Os preços de importação de Bangladesh, o principal fornecedor da UE, eram ainda mais baixos, em torno de US$ 13 por kg. Isso equivale a aproximadamente EUR 11 por quilo de camisetas novas – um preço surpreendentemente baixo. 

Para efeito de comparação, os preços mais baixos de uma camiseta básica nas principais lojas de moda da Suíça variam de cerca de CHF 9 a CHF 17 (EUR 10-19). Em outras palavras, a receita da venda de uma única camiseta no varejo pode ser suficiente para que grandes marcas comprem cerca de um quilo delas diretamente da fábrica. 

Entre 2001 e 2025, a economia mundial cresceu em média cerca de 3% ao ano, e a inflação global fez com que o custo de vida médio das famílias mais que dobrasse. Em contraste, os dados de longo prazo sobre as importações de camisetas na UE mostram um modesto aumento nominal do preço de compra de apenas 0,9% ao ano durante o mesmo período. Ajustando-se à inflação da UE, esse desenvolvimento se traduz em uma erosão real de preços de -1,4% ao ano. 

Nominalmente, os compradores da UE pagam hoje cerca de um quarto a mais por camisetas de algodão importadas do que pagavam há 25 anos. Mas, em termos reais, estão pagando 30% menos. 

Ajustando-se à inflação global, a queda nos preços reais de fornecimento se aprofunda para -3,1% ao ano, o que significa que os preços médios de fornecimento caíram aproximadamente pela metade em termos reais. Isso reflete uma dependência competitiva deliberada de preços ultrabaixos no mercado de vestuário de massa. Não se trata de uma anomalia estatística. Reflete um modelo de negócios construído em torno de preços persistentemente baixos no mercado de vestuário de massa. 

A busca pela agulha mais barata

O padrão geográfico do comércio ilustra como os compradores têm direcionado suas fontes de produção para locais que oferecem os preços mais baixos em larga escala. Na UE – o maior mercado importador de camisetas do mundo – Bangladesh tornou-se o país de origem dominante, refletindo seu papel como um centro global para malhas de grande volume e baixo preço. Em 2025, 61% das camisetas importadas pela UE foram produzidas em Bangladesh. Isso não é diversificação. Trata-se de uma concentração cada vez maior em torno da base de produção de menor custo, reforçando a dependência de ambos os lados da relação. 

As práticas de precificação dos principais compradores

A Public Eye teve acesso a dados comerciais específicos das empresas. Esses dados revelam que os preços de compra entre as maiores empresas de moda estão agrupados em uma faixa relativamente limitada – e sobretudo baixa –, apesar das diferenças notáveis ​​no posicionamento de mercado.

Mesmo entre empresas que pagam preços mais altos – como a Fast Retailing (Uniqlo) ou a Bestseller, com marcas como Jack & Jones e Vero Moda – os preços de aquisição em Bangladesh raramente ultrapassam US$ 18 por kg (cerca de US$ 3 por peça). Na outra ponta, encontram-se lojas de desconto como a Primark e o grupo polonês LPP, que adquirem matéria-prima a preços substancialmente mais baixos, em torno de US$ 10 por kg, enquanto a Inditex e a H&M ficam em uma posição intermediária.

Os dados de preços específicos de cada empresa foram compartilhados com os principais compradores. Em resposta, algumas empresas questionaram os números, argumentando que as métricas de preço médio ignoram fatores importantes como mix de produtos, ganhos de eficiência e direcionadores de custos, enquanto nenhuma delas forneceu dados alternativos de preços.

Leia as respostas das principais marcas.

É importante destacar a elasticidade seletiva dos preços no mercado. Quando os preços das matérias-primas disparam, os preços de aquisição podem subir temporariamente e os compradores podem absorver esses aumentos. No entanto, os aumentos salariais não têm um peso comparável. Mesmo ajustes significativos no salário mínimo em Bangladesh não se traduziram em aumentos sustentados nos preços de exportação. Os choques energéticos tiveram um impacto parcial durante 2022, mas esse impacto diminuiu à medida que as condições das commodities se normalizaram. 

O padrão é claro: os fornecedores podem, por vezes, repassar os custos mais elevados dos materiais, e os compradores estão dispostos a absorvê-los. Os custos de mão de obra, contudo, não têm peso comparável. Além disso, os fornecedores não conseguem sustentar níveis de preços elevados além da duração da alta dos preços das commodities subjacentes. 

O jogo de poder das negociações de preços

Entrevistas com comerciantes, gerentes de produção e especialistas de empresas compradoras em Bangladesh revelam como a pressão sobre os preços é exercida nas negociações do dia a dia. Muitos entrevistados descrevem um processo no qual os compradores iniciam as discussões com preços-alvo fixos e esperam que os fornecedores os igualem, independentemente do aumento dos custos ou das exigências de conformidade. Os fornecedores relatam uma comparação sistemática com a opção mais baixa disponível em diferentes países, pouca margem para negociação e táticas recorrentes, como concessões de última hora ou tentativas de renegociar preços mesmo após o início da produção. 

As margens de lucro em camisetas básicas são descritas como extremamente pequenas e cada vez mais instáveis. Para evitar linhas de produção ociosas, manter os funcionários e proteger o fluxo de caixa, muitas fábricas aceitam encomendas a preços iguais ou inferiores ao custo – principalmente nos meses de menor movimento. 

Com a estagnação dos preços nominais e o aumento de outros custos, os fornecedores são sistematicamente pressionados a recorrer à alavanca mais “flexível” que lhes resta: a mão de obra. Isso se traduz em trabalho intensificado, jornadas de trabalho prolongadas e supressão salarial contínua. Os preços ultrabaixos, portanto, perpetuam salários de miséria, enfraquecem a capacidade das fábricas de absorver choques e impedem o investimento em melhorias sociais e ambientais. 

Precificação de baixo para cima em vez de pressão de cima para baixo

Duas décadas de normas voluntárias, códigos de conduta e iniciativas multissetoriais não corrigiram a subvalorização estrutural inerente ao fornecimento de vestuário. A precificação deve se tornar um elemento central das compras responsáveis ​​e da devida diligência em direitos humanos. Uma mudança de paradigma, de uma abordagem de precificação de cima para baixo para uma abordagem de baixo para cima, é fundamental para isso. Os preços devem ser construídos a partir dos custos reais de uma produção em conformidade com as normas, que respeite os direitos humanos e seja ambientalmente responsável, em vez de serem negociados com base em metas de varejo e expectativas de margem. 

Com base nisso, o relatório explora metas de preço mínimo como orientação normativa para negociações e como instrumento prático para ancorar compras responsáveis ​​na prática empresarial. Para camisetas de algodão, um preço de referência provisório poderia ajudar a elevar os preços mais baixos para níveis médios de mercado e desacelerar a dinâmica prejudicial de realocação. Uma proposta preliminar de preço de referência na ordem de US$ 30 por kg (aproximadamente US$ 5 para uma camiseta de 165 g) ilustra a magnitude da mudança necessária para criar espaço para salários dignos, organização do trabalho segura e sem estresse e desempenho ambiental confiável.


Fonte: Public Eye

Supermercados brasileiros na mira: quem está protegendo a população de comida contaminada por agrotóxicos?

Transparência, responsabilidade e segurança alimentar: é hora de cobrar das grandes redes varejistas brasileiras os mesmos padrões ambientais e sanitários exigidos na Europa

O recente ranking produzido pela Pesticide Action Network UK (PAN UK) expôs algo que deveria envergonhar profundamente o setor supermercadista brasileiro: enquanto redes britânicas vêm sendo pressionadas a reduzir resíduos de agrotóxicos, eliminar agrotóxicos altamente perigosos e criar mecanismos públicos de transparência alimentar, no Brasil praticamente inexiste qualquer iniciativa robusta de monitoramento independente conduzida pelas grandes cadeias varejistas.

Mais grave ainda é o fato de que parte das empresas que operam no Brasil pertence justamente a conglomerados europeus que, em seus países de origem, são obrigados a responder a consumidores, ONGs e regulações muito mais rigorosas. O caso específico do Carrefour Brasil é emblemático. Enquanto a matriz europeia do grupo busca associar sua imagem a compromissos ambientais e cadeias sustentáveis, sua operação brasileira limita-se a protocolos vagos de rastreabilidade e conformidade formal, sem estabelecer metas transparentes de redução de resíduos de agrotóxicos, publicação periódica de resultados laboratoriais independentes ou exclusão sistemática de agrotóxicos altamente perigosos. O grupo afirma aderir ao programa RAMA da ABRAS e realizar análises de resíduos, mas os dados permanecem fragmentados, pouco inteligíveis ao consumidor comum e muito distantes do padrão de transparência exigido por organizações independentes europeias.

Essa duplicidade de padrões revela uma forma particularmente perversa de colonialismo ambiental corporativo. Em seus países-sede, essas empresas precisam aparentar responsabilidade socioambiental para atender consumidores mais organizados e regulações mais rigorosas. No Brasil, porém, operam em um ambiente político dominado pelo lobby do agronegócio e por uma fiscalização sanitária estruturalmente fragilizada, permitindo que vendam alimentos produzidos sob padrões que dificilmente seriam tolerados no mercado europeu.

O contraste torna-se ainda mais chocante quando se observa que algumas redes britânicas e europeias já adotaram medidas concretas há anos. O caso da The Co-operative Group é particularmente ilustrativo: a rede implementou políticas restritivas contra agrotóxicos desde o início dos anos 2000, proibiu neonicotinoides antes mesmo de muitos governos europeus e passou a divulgar resultados públicos de monitoramento de resíduos químicos em alimentos. Enquanto isso, supermercados brasileiros continuam tratando o tema da contaminação alimentar como assunto marginal, apesar do crescente número de estudos associando agrotóxicos a cânceres, distúrbios endócrinos, problemas neurológicos e degradação ambiental em larga escala.

O mais revelador é que os supermercados brasileiros não são apenas intermediários passivos nessa cadeia tóxica. Ao privilegiarem fornecedores vinculados ao modelo agrícola altamente dependente de monoculturas químico-intensivas, essas redes ajudam a consolidar uma lógica de produção baseada em contaminação ambiental, degradação dos solos, intoxicação ocupacional e insegurança alimentar crônica. A ausência de rankings independentes, auditorias públicas acessíveis e metas verificáveis de redução de resíduos acaba funcionando como uma blindagem reputacional para um sistema alimentar estruturalmente contaminado.

Se existe hoje um debate público consistente na Europa sobre resíduos de agrotóxicos nos alimentos, isso se deve à pressão contínua de organizações independentes e consumidores organizados. No Brasil, a criação de um ranking nacional de supermercados baseado em critérios de transparência, rastreabilidade, redução de resíduos, exclusão de agrotóxicos altamente perigosos e monitoramento independente seria um passo decisivo para expor quais redes realmente se preocupam com a saúde pública — e quais apenas praticam greenwashing tropicalizado enquanto lucram sobre uma cadeia alimentar profundamente intoxicada.

União Europeia e BR-319: a hipocrisia verde na estrada para o colapso da Amazônia

Sob o falso discurso do “desenvolvimento sustentável”, a pavimentação da BR-319 e a mineração de potássio em Autazes ameaçam destruir o último grande bloco preservado da floresta amazônica, acelerar a degradação florestal, empurrar o bioma para um ponto de não retorno climático e expor a hipocrisia ambiental da União Europeia

A reunião entre representantes do governo do Amazonas e embaixadores da União Europeia para discutir a pavimentação da BR-319 e a exploração de potássio em Autazes expõe uma das contradições mais brutais do capitalismo verde contemporâneo: a tentativa de apresentar como “desenvolvimento sustentável” um projeto que pode acelerar o colapso ecológico da maior floresta tropical do planeta.

O discurso oficial é cuidadosamente construído. A BR-319 aparece como símbolo de integração nacional, soberania e progresso econômico. O projeto de mineração de potássio em Autazes é vendido como solução estratégica para reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados. Na superfície, a narrativa parece racional e pragmática. Mas basta observar a história recente da Amazônia para perceber que o que está em curso é algo muito mais grave: a abertura definitiva do último grande bloco relativamente preservado da floresta amazônica brasileira para uma explosão de desmatamento, degradação florestal, grilagem de terras, mineração, expansão pecuária e conflitos fundiários.

A falácia central do discurso pseudo-pró-desenvolvimento consiste em fingir que a pavimentação da BR-319 pode ocorrer sem reproduzir exatamente o modelo predatório que historicamente acompanha toda expansão rodoviária na Amazônia. Estradas nunca funcionaram apenas como corredores de transporte. Elas operam como vetores de ocupação descontrolada. A vasta maioria do desmatamento amazônico ocorreu historicamente ao longo de eixos rodoviários. A BR-163, a Transamazônica e a própria expansão do chamado “arco do desmatamento” comprovam isso de forma inequívoca.

No caso da BR-319, os efeitos destrutivos já começaram mesmo antes da pavimentação integral. A simples retomada de manutenção e melhoria da estrada coincidiu com o crescimento acelerado de ramais clandestinos, avanço da grilagem, aumento de focos de incêndio e expansão do desmatamento em sua área de influência. A ideia de que o Estado brasileiro teria capacidade de controlar esse processo é uma ficção política conveniente. Os próprios órgãos ambientais vêm sendo sistematicamente enfraquecidos há anos, enquanto redes ilegais de ocupação territorial se expandem com enorme capacidade operacional e apoio político local.

Mas existe um aspecto ainda mais grave — e frequentemente invisibilizado — no debate sobre a BR-319: a aceleração massiva da degradação florestal. O estudo conduzido por Eraldo Matricardi e colaboradores e publicado na revista Science em 2020 demonstrou que, entre 1992 e 2014, a área de floresta degradada na Amazônia brasileira superou a área completamente desmatada. Foram cerca de 337 mil km² de florestas degradadas, contra aproximadamente 308 mil km² efetivamente desmatados. Vale destacar que participei diretamente como um dos colaboradores desse trabalho científico, o que permite afirmar com ainda maior convicção que os impactos indiretos da expansão rodoviária sobre a integridade ecológica amazônica continuam amplamente subestimados no debate público e governamental.

Essa descoberta desmonta outra manipulação central do discurso oficial. A destruição amazônica não ocorre apenas quando a floresta desaparece totalmente do mapa. Ela também acontece quando a floresta permanece aparentemente “em pé”, mas perde progressivamente sua integridade ecológica. Estradas como a BR-319 aceleram precisamente esse processo por meio da fragmentação florestal, da extração seletiva de madeira, da abertura de ramais ilegais, das queimadas recorrentes e dos incêndios de sub-bosque.

O resultado é uma Amazônia biologicamente empobrecida, climaticamente fragilizada e muito mais vulnerável ao fogo e às secas extremas. Uma floresta degradada ainda pode aparecer verde em imagens de satélite convencionais, mas sua biomassa diminui, sua biodiversidade colapsa e sua capacidade de armazenar carbono e reciclar umidade é profundamente reduzida.

Esse processo é particularmente perverso porque cria um ciclo de retroalimentação da destruição. Florestas degradadas tornam-se mais secas e inflamáveis. Isso favorece incêndios mais intensos, que ampliam ainda mais a degradação. Em um contexto de aquecimento global acelerado, o sistema pode entrar em espiral de colapso.

É precisamente nesse ponto que o debate sobre o chamado “ponto de não retorno” da Amazônia assume centralidade. Cientistas alertam há anos que a combinação entre desmatamento, degradação florestal e mudanças climáticas pode empurrar o bioma para uma transição irreversível em direção a uma savanização parcial. A floresta amazônica depende criticamente de sua própria umidade reciclada para sustentar os regimes de chuva da América do Sul. Quando a floresta perde densidade e continuidade, reduz-se também sua capacidade de gerar os chamados “rios voadores”, comprometendo o equilíbrio climático regional.

A BR-319 corta justamente uma das regiões ainda mais intactas da Amazônia brasileira. Sua pavimentação tende a conectar novas frentes de destruição ao arco do desmatamento, abrindo caminho para a interiorização definitiva do colapso ecológico amazônico. Em outras palavras: trata-se de uma intervenção potencialmente capaz de romper a última grande barreira geográfica contra a expansão da devastação em larga escala.

Tudo isso ocorre num momento de extrema vulnerabilidade climática. A Amazônia já enfrenta secas históricas, rios em níveis criticamente baixos, aumento da mortalidade de árvores e incêndios florestais sem precedentes. Há ainda crescente preocupação científica em torno da possibilidade de um novo super El Niño  em 2026, capaz de produzir efeitos devastadores sobre a capacidade hídrica da floresta. Em um cenário de secas extremas prolongadas, a degradação induzida pela BR-319 pode atuar como catalisador de uma crise ecológica de dimensões continentais.

É nesse contexto que a postura da União Europeia se revela particularmente hipócrita. Bruxelas gosta de se apresentar internacionalmente como liderança global na defesa da sustentabilidade, da transição ecológica e do combate às mudanças climáticas. No entanto, quando entram em cena interesses estratégicos ligados a fertilizantes, mineração e cadeias globais de commodities, os princípios ambientais rapidamente tornam-se flexíveis.

A disposição europeia de dialogar e potencialmente apoiar projetos associados à pavimentação da BR-319 e à mineração em Autazes revela uma velha lógica colonial reciclada em linguagem verde: preservação ambiental no discurso diplomático; flexibilização ambiental na prática quando estão em jogo interesses econômicos e geopolíticos.

A mineração de potássio em Autazes sintetiza perfeitamente essa contradição. O projeto avança sobre uma região ambientalmente sensível e envolve impactos severos sobre territórios indígenas, particularmente do povo Mura, cujos direitos vêm sendo progressivamente relativizados em nome de uma suposta urgência econômica. O que se apresenta como “transição sustentável” revela-se, na realidade, mais um capítulo do extrativismo predatório que transforma a Amazônia em zona de sacrifício para abastecer mercados globais.

Há ainda um elemento profundamente autoritário na retórica oficial: a tentativa de desqualificar qualquer crítica à BR-319 como sendo “anti-desenvolvimento”. Trata-se de uma armadilha ideológica clássica. Questionar a pavimentação da rodovia não significa defender isolamento ou pobreza. Significa reconhecer que repetir, em pleno colapso climático global, o mesmo modelo destrutivo das décadas de 1970 e 1980 representa uma aposta deliberada na intensificação da crise ecológica.

A pergunta central continua sendo: desenvolvimento para quem? Para as populações amazônicas, que enfrentarão secas mais severas, incêndios florestais, conflitos fundiários e perda de segurança hídrica? Ou para grupos minerários, cadeias agroexportadoras e interesses geopolíticos internacionais?

A Amazônia já envia sinais claros de exaustão ecológica. Persistir na pavimentação da BR-319 em meio ao agravamento da emergência climática global não é um projeto de desenvolvimento. É a institucionalização da destruição em larga escala travestida de modernização. E talvez a tragédia maior seja justamente esta: a devastação da floresta deixou de ser clandestina. Agora ela é discutida em reuniões diplomáticas, celebrada em discursos oficiais e legitimada por governos e atores internacionais que continuam falando em sustentabilidade enquanto ajudam a empurrar a Amazônia para o abismo.

Financiada por Daniel Vorcaro, a mina da Jangada será tema de audiência pública na Assembleia de MG

Moradores de Brumadinho pedem socorro à Assembleia Legislativa de Minas. A mina da Jangada faz parte do complexo minerário de Córrego do Feijão, epicentro do rompimento da barragem da Vale, que causou 272 mortes e devastou a bacia do Rio Paraopeba

A comunidade denuncia que a retomada das operações da mina pode acarretar sérios danos para a população do entorno, afetando o abastecimento de água da região. A audiência, convocada pela deputada estadual Bella Gonçalves (PT), pretende debater os riscos e as irregularidades relacionados à expansão das operações no Complexo Jangada-Córrego do Feijão, da Vale/Itaminas, em Brumadinho, que seguem adiante apesar da tragédia-crime em 2019. 

A mesa será composta por representantes do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Ministério Público Federal (MPF), Agência Nacional de Mineração (ANM), Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad), Prefeituras de Brumadinho e Sarzedo, Vale S.A. e Itaminas Comércio de Minérios S.A., Associação Comunitária da Jangada e Instituto Cordilheira

Contexto

O mapa acima mostra a proximidade da cava de exploração (Jangada) com a comunidade homônima e, também, com a barragem que causou a morte de 272 pessoas em 2019. Fonte: Mongabay

Desde agosto de 2025, a Itaminas passou a explorar a cava da Jangada, arrendada da Vale e localizada ao lado da cava do Córrego do Feijão, no Complexo Paraopeba, em Brumadinho. A  principal preocupação da comunidade é o risco de rebaixamento do lençol freático e contaminação das nascentes que abastecem as casas. Moradores e lideranças locais afirmam que, apesar da tragédia de 2019, o modelo de exploração mineral e a relação entre as mineradoras e o poder público permanecem os mesmos, sem garantias suficientes de segurança hídrica e ambiental.

A comunidade cobra estudos hidrogeológicos independentes, maior transparência sobre a qualidade da água e respostas sobre o licenciamento ambiental. O caso também ganhou novos contornos após investigações da Polícia Federal sobre suspeitas de corrupção em licenciamentos ambientais em Minas Gerais e questionamentos sobre possível conflito de interesses envolvendo o atual presidente da Feam, que já prestou serviços à Itaminas.

A Repórter Brasil mostra os riscos envolvidos com a retomada da mineração na região. Na reportagem, é citado como a Itaminas, fundada em 1959, mantém operações e planta industrial em Sarzedo, que fica ao lado de Brumadinho. Em 1986, uma barragem de mineração em Itabirito operada pela Itaminas se rompeu e gerou sete mortes. No ano passado, a companhia mudou de dono. Foi vendida por Bernardo Paz, fundador do museu Inhotim, para três sócios: Rodrigo Gontijo (da AVG Mineração), Argeu Geo e Daniel Vorcaro, preso após fraude milionária com o Banco Master. Este último deixou a sociedade recentemente. (Leia na íntegra (Aqui!) )

Assista ao curta documentário produzido pelo Instituto Cordilheira e entenda mais sobre o caso.

Reportagens sobre o caso:

Serviço

Data: 26 de maio, terça-feira Horário: 16h

Local: Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) – Rua Rua Rodrigues Caldas, 79 Santo Agostinho, Belo Horizonte