
Por Ismael Machado
Brasil, 17 de abril de 2032.
Escrevo esta carta sem saber se alguém poderá lê-la. Há cinco anos, escrever determinadas palavras tornou-se perigoso. Algumas desapareceram dos meios de comunicação, outras dos livros escolares. Democracia é uma delas. Ditadura também. Fascismo, então, é palavra proibida. O governo chama isso de pacificação nacional.
Não houve um golpe como aqueles que conhecemos nos livros de história. Não apareceram tanques nas ruas na primeira manhã. Não fecharam o Congresso. Pelo contrário. O Congresso continuou funcionando, votando leis, aprovando decretos, legitimando cada nova violência. Os ministros do Supremo foram substituídos aos poucos. Os que permaneceram aprenderam a concordar. A Constituição continua existindo, embora ninguém saiba exatamente para que serve.
O presidente governa cercado de generais, pastores, empresários e homens que, antes, apareciam nas páginas policiais. Alguns deles agora são ministros. Outros controlam territórios inteiros. As milícias administram bairros, distribuem gás, cobram pela água, controlam o transporte, escolhem os comerciantes autorizados a trabalhar. Nas periferias, o Estado aparece apenas para confirmar as decisões tomadas por esses homens. A televisão chama isso de segurança comunitária.
Os cultos religiosos tornaram-se cerimônias oficiais. O presidente aparece ajoelhado diante de pastores que determinam o que as crianças devem aprender, quais livros podem circular, que comportamentos serão tolerados. Nas escolas públicas, as aulas começam com orações obrigatórias. Professores de história foram afastados por insistirem em falar sobre escravidão, ditadura militar, movimentos sociais. A palavra diversidade foi retirada dos currículos.
A universidade pública praticamente desapareceu. Algumas foram privatizadas. Outras transformadas em centros de formação técnica administrados por organizações religiosas e grandes empresas. Filosofia, sociologia, artes e literatura passaram a ser consideradas disciplinas inconvenientes. A pesquisa científica depende de autorização governamental. Há laboratórios fechados, bibliotecas abandonadas, pesquisadores trabalhando no exterior. Os filhos dos ricos continuam estudando. Os outros aprendem a obedecer.
O Sistema Único de Saúde foi desmontado em etapas. Primeiro vieram os cortes orçamentários. Depois, a transferência de hospitais para organizações privadas. Em seguida, a cobrança por procedimentos que antes eram gratuitos. O governo anunciou que a população teria liberdade para escolher seus serviços de saúde. Hoje, milhões de brasileiros não conseguem pagar por uma consulta. Medicamentos para doenças crônicas desapareceram das farmácias populares. A vacinação deixou de ser prioridade nacional.
Os hospitais públicos ainda possuem fachadas. Alguns mantêm placas com o antigo símbolo do SUS. Dentro deles, corredores vazios, equipamentos quebrados, profissionais exaustos. Quem precisa de atendimento depende da caridade de instituições religiosas, de campanhas na internet ou da sorte.
O Bolsa Família foi extinto. Em seu lugar, surgiu um programa de assistência administrado por entidades conveniadas, muitas delas ligadas a igrejas que apoiam o governo. A distribuição de alimentos depende de cadastros, entrevistas e declarações de conduta moral. A fome voltou a ocupar as ruas. O governo proibiu a divulgação dos números.
O IBGE foi reorganizado. Seus dirigentes são escolhidos diretamente pelo presidente. As estatísticas oficiais mostram um país em permanente crescimento, com desemprego reduzido e pobreza em queda. Entretanto, há famílias inteiras vivendo em construções improvisadas, crianças trabalhando, idosos vendendo pequenos objetos nos sinais de trânsito. O salário mínimo perdeu boa parte de seu poder de compra. A jornada de trabalho foi ampliada sob o argumento de estimular a economia.
Os sindicatos foram enfraquecidos por sucessivas leis. Greves em serviços considerados essenciais passaram a ser tratadas como ameaças à segurança nacional. E quase tudo foi declarado essencial.
Na Amazônia, a situação é ainda pior. O Ministério do Meio Ambiente existe apenas formalmente. O Ibama perdeu sua capacidade de fiscalização. O ICMBio foi reduzido a uma repartição burocrática. Terras indígenas foram abertas à mineração, à exploração madeireira e à pecuária. Grandes extensões de floresta desapareceram. Rios foram contaminados. Comunidades inteiras abandonaram seus territórios.
O calor tornou-se quase insuportável durante boa parte do ano. Há bairros onde falta água por vários dias. As ilhas próximas à cidade enfrentam a contaminação dos rios e o avanço de empreendimentos privados. Peixes que antes eram comuns tornaram-se raros e caros.
Os povos indígenas resistiram enquanto puderam. Suas organizações foram classificadas como instrumentos de interferência estrangeira. Lideranças foram perseguidas, territórios invadidos. Os movimentos de trabalhadores rurais receberam tratamento semelhante. Assentamentos foram desfeitos. Escolas do campo fecharam. A reforma agrária tornou-se expressão de um passado que o governo deseja apagar.
O país rompeu compromissos internacionais de proteção ambiental e direitos humanos. A diplomacia brasileira passou a seguir as orientações de governos estrangeiros aliados ao presidente. Empresas multinacionais receberam concessões sobre áreas estratégicas. A soberania nacional é celebrada em discursos oficiais enquanto terras, minerais, energia e infraestrutura são entregues em contratos que a população não pode conhecer.
As mulheres perderam direitos conquistados ao longo de décadas. Políticas de proteção foram desmontadas. Organizações feministas passaram a ser investigadas por suposta promoção da desordem social. A violência doméstica cresceu, mas os dados oficiais deixaram de ser publicados. Pastores ocupam programas de televisão para explicar que a família brasileira precisa recuperar sua antiga hierarquia.
Pessoas LGBT vivem sob permanente ameaça. Leis municipais e estaduais restringem manifestações públicas, eventos culturais e conteúdos escolares. O governo federal afirma que não existe perseguição, apenas proteção dos valores familiares.
O racismo também encontrou novas formas de legitimação. As políticas de igualdade racial foram abandonadas. Quilombolas enfrentam expulsões e disputas fundiárias. A violência policial concentra-se nas mesmas populações de sempre, agora sob uma legislação que amplia a proteção jurídica dos agentes de segurança.
As emissoras de televisão pertencem a empresários associados ao governo ou dependem de verbas públicas distribuídas segundo critérios políticos. Jornalistas independentes enfrentam processos, bloqueios financeiros e ameaças. Alguns deixaram o país. Outros abandonaram a profissão.
Na internet, cada cidadão possui um registro de confiabilidade. Publicações consideradas ofensivas às instituições podem impedir o acesso a empregos públicos, bolsas de estudo e determinados serviços. A Polícia Federal foi transformada em instrumento de vigilância política. A agência de inteligência acompanha professores, artistas, sindicalistas, estudantes e antigos militantes de movimentos populares.
Os militares ocupam cargos na administração civil. Os pastores definem os limites da moral. Os empresários estabelecem as prioridades econômicas. As milícias executam aquilo que as instituições preferem não assumir. A população foi sendo acostumada a tudo isso.
Primeiro, aceitaram a perseguição aos adversários políticos. Depois, o fechamento de organizações sociais. Em seguida, as restrições à imprensa, às universidades, às manifestações. Cada medida era anunciada como necessária, temporária, destinada a proteger as famílias e salvar a nação de inimigos internos.
Havia sempre um inimigo novo. Comunistas. Professores. Indígenas. Ambientalistas. Artistas. Jornalistas. Feministas. Sindicalistas. Qualquer pessoa que discordasse poderia receber um desses nomes.
As eleições continuam acontecendo. Os candidatos de oposição precisam obter certificados de compromisso com a ordem constitucional, emitidos por um conselho controlado pelo governo. Partidos foram extintos por decisões judiciais. Outros sobreviveram renunciando a qualquer possibilidade real de confronto. A propaganda oficial apresenta cada eleição como uma demonstração da vitalidade democrática brasileira. O presidente vence todas.
Há uma fotografia antiga guardada na gaveta da minha escrivaninha. Mostra uma multidão ocupando uma praça, bandeiras vermelhas, rostos sorridentes, gente de todas as idades. Foi tirada quando ainda se podia acreditar que a história avançava, mesmo com suas interrupções e derrotas. Olho para ela algumas vezes, sobretudo quando falta energia e a casa fica silenciosa.
Penso nas pessoas que disseram que nada disso poderia acontecer. Nas que acreditaram que as instituições seriam suficientemente fortes. Nas que preferiram se abster porque todos os políticos lhes pareciam iguais. Nas que aceitaram pequenas violências porque não eram suas as vidas atingidas. Nas que fizeram concessões sucessivas, convencidas de que haveria tempo para reagir. Penso também naqueles que sabiam exatamente o que estavam fazendo.
Não posso afirmar que ninguém resistiu. Houve manifestações, greves, ocupações, denúncias, campanhas. Houve gente que perdeu o emprego, a liberdade, o direito de viver em sua própria terra. Ainda existem pequenos grupos organizados. Há professores ensinando história em casas particulares. Há médicos atendendo gratuitamente nas periferias. Há indígenas protegendo o que resta de suas florestas. Há jornalistas produzindo boletins clandestinos.
Esta carta talvez chegue a algum deles.
Hoje é 17 de abril. A data ainda me faz lembrar os trabalhadores rurais assassinados em Eldorado dos Carajás, em 1996. O massacre desapareceu dos livros didáticos. O governo diz que episódios dessa natureza estimulam divisões entre brasileiros. No lugar da memória, instituiu uma celebração nacional da ordem e da propriedade. Trinta e seis anos depois, a história oficial conseguiu transformar vítimas em criminosos e criminosos em exemplos de patriotismo.
Escrevo porque tenho medo de que, daqui a alguns anos, ninguém consiga explicar como chegamos até aqui. E porque me lembro de uma coisa que os novos livros de história não ensinam. Nada disso começou em 2027. O projeto já estava anunciado. Seus defensores falavam abertamente sobre o que pretendiam fazer com os direitos trabalhistas, com a educação, com os povos indígenas, com as mulheres, com o meio ambiente, com a Justiça e com a própria democracia.
Não esconderam suas intenções. Foram eleitos apesar delas. Esta é a parte da história que mais me atormenta. Se esta carta conseguir atravessar o tempo, se chegar a alguém que ainda viva naquele Brasil anterior, quando tudo isso era apenas uma possibilidade, peço que não a leia como uma profecia. Leia como um documento de ficção escrito por alguém que ainda conhecia a liberdade e imaginou o que seria perdê-la. Talvez o futuro possa ser diferente. Talvez, no tempo de vocês, ainda seja possível impedir que esta carta venha a ser escrita.
Assinado: um brasileiro que se lembra.
Fonte: Medium