Estudo revela que agrotóxicos de uso corrente danificam o DNA das células intestinais humanas — mesmo em doses muito baixas

Por Sustainable Pulse

Cientistas do projeto SPRINT, na União Europeia, testaram dez agrotóxicos amplamente utilizados em fazendas europeias — incluindo o herbicida glifosato, diversos inseticidas e alguns fungicidas — para verificar se eles danificam o DNA em células intestinais humanas cultivadas em laboratório. Eles também testaram dois “coquetéis” realistas, feitos combinando vários desses agrotóxicos, já que, na vida real, as pessoas raramente são expostas a apenas um produto químico por vez.

Os resultados, revisados ​​por pares, comprovaram que a maioria dos agrotóxicos causou danos ao DNA, e alguns o fizeram em concentrações muito menores do que as relatadas anteriormente — em alguns casos, próximas aos níveis que os órgãos reguladores consideram atualmente “seguros” para exposição diária.

“As conclusões do projeto SPRINT destacaram a presença ubíqua e os efeitos tóxicos das misturas de agrotóxicos, mesmo em baixas doses”, afirmou o Dr. Daniele Mandrioli, Investigador Principal e Líder do Grupo de Trabalho de Toxicologia do SPRINT.

Por que este estudo foi realizado

Em todo o mundo, são aplicados agrotóxicos em plantações para afastar insetos, ervas daninhas e fungos. Como parte de um amplo projeto de pesquisa europeu chamado SPRINT, pesquisadores já haviam descoberto que resíduos de múltiplos agrotóxicos estão praticamente em todos os lugares nas regiões agrícolas — no solo, na água, nas plantações, na poeira doméstica e até mesmo no ar dentro das casas dos agricultores. O que não estava claro era se esses produtos químicos, sozinhos ou misturados, poderiam de fato prejudicar as células humanas nos níveis aos quais as pessoas estão realisticamente expostas.

Um importante sinal de alerta para o perigo a longo prazo de um produto químico é se ele é “genotóxico” — ou seja, se danifica ou altera o DNA. Danos ao DNA são uma das vias bem estabelecidas que podem levar ao câncer e outras doenças crônicas ao longo do tempo. Portanto, testar a genotoxicidade de agrotóxicos é uma etapa padrão e importante para determinar se eles são seguros para uso.

Como funciona o teste

Os pesquisadores utilizaram um teste laboratorial consagrado e reconhecido internacionalmente, chamado ensaio de micronúcleos . Eis a ideia básica, em termos simples:

  • Células intestinais humanas (de uma linhagem celular chamada Caco-2, comumente usada como modelo para o revestimento intestinal) foram cultivadas em placas de Petri e brevemente expostas a um agrotóxico.
  • Em seguida, as células foram deixadas dividir-se uma vez e, posteriormente, adicionou-se uma substância química que as impedia de se dividirem em duas células separadas (para que os cientistas pudessem ter certeza de que cada célula realmente tentou se dividir).
  • Ao microscópio, os técnicos procuravam minúsculos aglomerados extras de material genético fora do núcleo principal, chamados micronúcleos . Eles se formam quando os cromossomos de uma célula são danificados ou dispersos durante a divisão celular — são basicamente um sinal visível de que algo deu errado com o DNA.
  • Mais micronúcleos = mais danos ao DNA causados ​​pela substância testada.

A equipe também verificou se as doses utilizadas não estavam simplesmente matando um grande número de células (o que tornaria os resultados não confiáveis) — uma etapa fundamental de controle de qualidade exigida pelas diretrizes internacionais de testes.

O que eles testaram

Dez agrotóxicos foram testados individualmente, cada um em cinco doses que variaram de muito baixa (0,01 miligramas por litro) até uma dose alta (100 mg/L):

  • Inseticidas: lambda-cialotrina, cipermetrina, deltametrina, acetamiprida
  • Fungicidas: tebuconazol, ciprodinil, fluopiram, imazalil
  • Herbicida: glifosato
  • Sinergista/coformulante: butóxido de piperonila (um ingrediente adicionado a alguns inseticidas para melhorar a eficácia do princípio ativo)

Eles também testaram duas misturas realistas: uma combinação de 3 agrotóxicos (acetamiprida + glifosato + tebuconazol) e uma combinação de 8 agrotóxicos (adicionando cipermetrina, ciprodinil, deltametrina, lambda-cialotrina e butóxido de piperonila à mistura).

O que eles descobriram

A maioria dos agrotóxicos danificou o DNA. Nove das dez substâncias causaram um aumento significativo de micronúcleos em uma ou mais doses. Apenas o imazalil não pôde ser avaliado adequadamente, pois era muito tóxico para as células mesmo em baixas doses, o que tornou a medição do dano ao DNA não confiável.

O glifosato destacou-se como o mais prejudicial. Causou danos ao DNA em todas as doses testadas, incluindo a mais baixa (0,01 mg/L) — uma concentração bem abaixo dos níveis que demonstraram causar danos em outros tipos de células, como as sanguíneas. Na dose mais alta, o glifosato causou ainda mais danos ao DNA do que o composto químico de “controle positivo” (um composto já conhecido por ser altamente prejudicial, usado para confirmar o funcionamento correto do teste). Isso é notável, visto que a segurança do glifosato tem sido debatida publicamente há anos — a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer o classificou como um provável carcinógeno humano em 2015, uma conclusão contestada por alguns órgãos reguladores.

Alguns agrotóxicos causaram danos que não aumentaram de forma constante com a dose — a cipermetrina, o acetamiprido e o ciprodinil apresentaram danos em algumas doses (frequentemente as mais baixas), mas não em um padrão crescente constante. Os pesquisadores observam que esses resultados merecem confirmação em estudos de acompanhamento.

Três substâncias foram recentemente identificadas como prejudiciais, contradizendo suposições anteriores:

  • O butóxido de piperonila — um aditivo usado em muitos inseticidas piretroides — nunca havia demonstrado causar danos às células humanas, apesar de ser considerado não genotóxico.
  • Anteriormente, acreditava-se que o ciprodinil e a deltametrina não danificavam o DNA, com base em estudos mais antigos em células sanguíneas, mas demonstraram danos claros nessas células intestinais.

As misturas de agrotóxicos também causaram danos.  A mistura de três agrotóxicos causou danos significativos ao DNA mesmo na dose mais baixa, mais do que qualquer um de seus ingredientes isoladamente nessa dose — sugerindo que os efeitos individuais dos produtos químicos se somam.

Por que as baixas doses são importantes?

Uma característica fundamental deste estudo é que ele testou concentrações mais baixas do que a maioria das pesquisas anteriores — chegando perto dos níveis oficiais de “ingestão diária aceitável” (IDA), as doses que os órgãos reguladores consideram atualmente seguras para consumo ao longo da vida. A detecção de danos ao DNA nesses níveis ou próximos a eles é significativa, pois sugere que os limites de segurança atuais para algumas dessas substâncias químicas podem precisar ser revistos.

Esta pesquisa soma-se a um crescente conjunto de evidências de que agrotóxicos agrícolas comuns — incluindo alguns que há muito se supõem seguros do ponto de vista de danos ao DNA — podem prejudicar as células humanas em concentrações surpreendentemente baixas, às vezes próximas aos níveis de exposição atualmente permitidos.


Fonte: Sustainable Pulse

Amplo estudo realizado em Nova York reforça a evidência que associa o glifosato ao risco de parto prematuro

Por Julie Zenderoudi para “The New Lede”

Mulheres grávidas expostas ao glifosato, o herbicida mais  amplamente utilizado no mundo, podem enfrentar um risco maior de partos prematuros, de acordo com um dos maiores estudos já realizados sobre essa relação. 

O estudo, liderado pelo New York University (NYU) Langone Health e publicado na revista Environmental Pollution , mostrou que mulheres grávidas com maior exposição ao glifosato, o ingrediente ativo do herbicida Roundup, apresentaram um risco significativamente maior de entrar em trabalho de parto espontâneo prematuro. Embora pesquisas anteriores já tivessem associado a exposição ao glifosato a gestações mais curtas, o estudo da NYU é um dos maiores a examinar a exposição durante a gravidez e o parto prematuro em humanos.

“Este estudo reforça a ideia de que a exposição ao glifosato durante a gravidez é generalizada e pode estar ligada ao risco de parto prematuro. Mesmo associações modestas são importantes porque a gravidez é um período sensível, e pequenos riscos podem se traduzir em grandes impactos populacionais”, disse Jessie Buckley, professora de epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, em um e-mail.

“A gravidez é um período sensível, e pequenos riscos podem se traduzir em grandes impactos populacionais.” — Jessie Buckley, Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill

Pesquisadores coletaram amostras de urina de 1.450 mulheres que deram à luz entre 2016 e 2019 e descobriram que aquelas com níveis mais altos de glifosato durante o meio da gravidez tinham maior probabilidade de entrar em trabalho de parto espontâneo — ou seja, entrar em trabalho de parto naturalmente antes de 37 semanas, em vez de ter o parto induzido medicamente — em comparação com aquelas com níveis mais baixos.

O parto prematuro é uma das principais causas de doenças e morte em recém-nascidos. Bebês prematuros podem enfrentar uma série de problemas de saúde, incluindo infecções e dificuldades de aprendizagem e desenvolvimento a longo prazo.

As participantes planejavam dar à luz em hospitais da cidade de Nova York, longe de áreas agrícolas, o que sugere que a exposição provavelmente ocorreu por meio dos alimentos. “Não é como se estivessem em populações agrícolas onde há pulverização em larga escala e dispersão de resíduos de herbicidas pelo ar”, disse o Dr. Leonardo Trasande, autor sênior do estudo e professor de pediatria na Escola de Medicina Grossman da NYU.

Buckley observou que a exposição ao glifosato não é algo que as pessoas possam necessariamente evitar. “A exposição ao glifosato é fundamentalmente um problema sistêmico. Reduções reais exigem decisões políticas sobre como e onde o glifosato é usado”, disse Buckley. “Embora a dieta possa influenciar a exposição pessoal, mudanças como a escolha de alimentos orgânicos não estão igualmente disponíveis para todos. Escolhas individuais não podem substituir ações preventivas que eliminem o risco de exposição em primeiro lugar.”

O estudo surge um mês depois de o Supremo Tribunal ter decidido a favor da Monsanto, agora propriedade da Bayer, limitando os processos judiciais de consumidores contra empresas de pesticidas. A decisão no caso Monsanto v. Durnell determinou que as empresas de pesticidas não podem ser responsabilizadas por omitirem avisos sobre o risco de cancro, desde que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) tenha considerado esses avisos desnecessários.

Em fevereiro, o governo Trump assinou uma ordem executiva protegendo a produção de glifosato. A ordem foi amplamente criticada por grupos de saúde pública e ambientalistas.

Um porta-voz da Ruveon, subsidiária da Bayer que administra seus produtos à base de glifosato, afirmou que estão analisando a publicação. “O glifosato tem sido usado com segurança há 50 anos e está entre os produtos de sua categoria mais extensivamente estudados”, diz o comunicado, acrescentando que “nenhuma autoridade regulatória no mundo determinou que o glifosato cause danos reprodutivos ou ao desenvolvimento”.

Trasande acredita que os resultados apresentados no estudo destacam a necessidade de regulamentações mais rigorosas para proteger a saúde de gestantes e bebês, dois grupos especialmente vulneráveis ​​a substâncias químicas no meio ambiente. “Certamente, isso reforça ainda mais a necessidade de mudanças, tanto individuais quanto sociais, em relação ao que comemos e como produzimos [alimentos].”

Imagem em destaque por Eduardo Ramos no Unsplash


Fonte: The New Lede

Uberização não é, nem nunca será, um projeto nacional de desenvolvimento

A “escuta” dos trabalhadores pode orientar políticas sociais, mas não pode substituir uma estratégia baseada em ciência, tecnologia, reindustrialização e empregos de alta produtividade.

O artigo publicado no dia de ontem (23/7) pela Folha de São Paulo e assinado pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, em defesa das medidas anunciadas pelo governo do presidente Luís Inácio para motoristas e entregadores de aplicativos parte de um diagnóstico correto. A classe trabalhadora brasileira mudou profundamente nas últimas décadas. A desindustrialização, a financeirização da economia e o avanço das plataformas digitais empurraram milhões de brasileiros para formas extremamente precárias de inserção no mercado de trabalho. Entretanto, o texto revela uma limitação importante ao apresentar como estratégia de desenvolvimento aquilo que, na realidade, constitui apenas uma política de administração da precarização.

Segundo Guilherme Boulos, as medidas anunciadas pelo governo resultaram de um amplo processo de “escuta” dos trabalhadores. É perfeitamente plausível que isso tenha ocorrido, pois quem passa doze ou quatorze horas por dia dirigindo um automóvel ou uma motocicleta para conseguir pagar combustível, alimentação e a prestação do veículo dificilmente reivindicará uma política nacional de reindustrialização ou um programa de desenvolvimento tecnológico. O trabalhador pede aquilo que lhe permita continuar trabalhando no dia seguinte, mas um governo não pode limitar seu horizonte às urgências impostas pela sobrevivência cotidiana. Entretanto, governar exige responder às necessidades imediatas da população, mas também criar condições para que essas necessidades deixem de definir o futuro do país.

Esse é precisamente o ponto em que a proposta do governo do presidente Luís Inácio revela suas limitações. Quando a estratégia econômica passa a ser construída exclusivamente a partir das necessidades produzidas pela pobreza, pela informalidade e pela precarização do trabalho, o resultado não é a superação da dependência, mas sua administração. A política pública melhora marginalmente as condições de vida de milhões de trabalhadores, mas não altera os mecanismos econômicos que produziram sua inserção precária no mercado de trabalho.

O Brasil vive esse processo há pelo menos quatro décadas. A indústria perde participação na economia nacional, a pauta de exportações torna-se cada vez mais concentrada em commodities agrícolas e minerais, o conteúdo tecnológico da produção diminui e os empregos industriais de maior qualificação desaparecem. Em sentido inverso, cresce continuamente o número de brasileiros cuja única alternativa de renda consiste em trabalhar para plataformas digitais que não controlam, utilizando veículos próprios, assumindo todos os custos da atividade e permanecendo submetidos a algoritmos sobre os quais não exercem qualquer influência.

Essa realidade confirma, de maneira quase exemplar, a interpretação formulada por Ruy Mauro Marini acerca da superexploração da força de trabalho nas economias dependentes. Em vez de elevar a produtividade por meio da incorporação de ciência, tecnologia e inovação, essas economias preservam sua competitividade comprimindo salários e transferindo para os trabalhadores uma parcela crescente dos custos da produção. No trabalho por aplicativos, o motorista financia o veículo, paga combustível, manutenção, pneus, seguro e depreciação, enquanto a plataforma controla os preços, distribui as corridas e apropria-se de parcela significativa da renda gerada.

A partir dessa perspectiva, a política anunciada pelo governo do presidente Luís Inácio reduz alguns custos enfrentados pelos trabalhadores, mas não modifica a lógica econômica da qual decorre sua precarização. O crédito subsidiado para aquisição de automóveis e motocicletas facilita o acesso ao trabalho, mas também amplia a capacidade de reprodução de um modelo baseado justamente na transferência dos riscos e dos custos da atividade para o próprio trabalhador. Em outras palavras, melhora-se a forma de funcionamento da engrenagem sem questionar a natureza da máquina.

Essa análise torna-se ainda mais preocupante quando se observa aquilo que o artigo de Guilherme Boulos simplesmente deixa de mencionar. Não há qualquer referência à reindustrialização do país, à necessidade de reconstruir cadeias produtivas nacionais, ao fortalecimento da pesquisa científica ou ao desenvolvimento tecnológico. A ausência desses temas revela uma mudança importante na forma como parte da esquerda brasileira passou a pensar o desenvolvimento. Se durante grande parte do século XX a preocupação central consistia em construir capacidade industrial, infraestrutura, universidades, empresas nacionais e autonomia tecnológica, hoje o debate parece restringir-se às formas de tornar menos precária uma economia crescentemente marcada pela informalidade.

Esse deslocamento ajuda a compreender a atualidade das formulações de André Gunder Frank sobre o desenvolvimento do subdesenvolvimento. A economia de plataformas representa uma nova expressão da inserção dependente do Brasil na divisão internacional do trabalho. O país fornece trabalhadores, consumidores, infraestrutura urbana e uma enorme massa de dados produzidos diariamente pelos usuários, enquanto os algoritmos, a inteligência artificial, a propriedade intelectual, os sistemas financeiros e o comando empresarial permanecem concentrados nas economias centrais. Exportamos trabalho barato e importamos tecnologia sofisticada, reproduzindo uma dinâmica histórica que transfere riqueza para fora do país ao mesmo tempo que limita nossa capacidade de inovação.

O aspecto mais inquietante dessa estratégia reside justamente na naturalização desse processo. O artigo de Guilherme Boulos transmite a impressão de que a economia de plataformas constitui um dado permanente da realidade, cabendo ao Estado apenas reduzir seus efeitos mais perversos. Entretanto, a expansão da uberização não resulta de uma escolha espontânea dos trabalhadores, mas do esvaziamento da capacidade produtiva brasileira. Milhões de pessoas passaram a depender dos aplicativos porque desapareceram empregos industriais, reduziram-se oportunidades de trabalho qualificado e o país abandonou qualquer estratégia consistente de transformação estrutural da economia.

Esse diagnóstico torna ainda mais paradoxal a posição brasileira. Poucos países reúnem condições tão favoráveis para reconstruir uma política nacional de desenvolvimento baseada em ciência, tecnologia e inovação. O Brasil dispõe de universidades públicas de excelência, centros de pesquisa reconhecidos internacionalmente, empresas estatais estratégicas, abundância de recursos naturais, enorme biodiversidade, crescente capacidade energética e um dos maiores mercados consumidores do planeta. Essas vantagens permitiriam estruturar cadeias produtivas em áreas como inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, indústria farmacêutica, equipamentos médicos, transição energética e mobilidade elétrica, gerando empregos de alta produtividade e reduzindo a dependência tecnológica externa.

Entretanto, o debate público parece conformado com um horizonte muito menos ambicioso. Em vez de discutir como reconstruir uma economia intensiva em conhecimento, inovação e produção industrial, o governo do presidente Luís Inácio age para facilitar o financiamento da motocicleta ou do automóvel que permitirá ao trabalhador continuar prestando serviços para plataformas controladas por empresas cujo centro decisório permanece localizado fora do  Brasil. Essa inversão de prioridades talvez constitua a evidência mais clara da pobreza estratégica que passou a marcar o debate sobre desenvolvimento  nacional.

Ouvir os trabalhadores constitui uma obrigação elementar de qualquer governo democrático. Contudo, um projeto nacional de desenvolvimento não pode ficar restrito às expectativas produzidas pela própria precarização do trabalho. A responsabilidade do Estado consiste precisamente em ampliar essas expectativas e criar condições para que as futuras gerações encontrem oportunidades de inserção produtiva baseadas em conhecimento, inovação tecnológica e empregos de elevada produtividade. Enquanto essa mudança de horizonte não ocorrer, continuaremos confundindo políticas sociais necessárias e legítimas com uma estratégia de desenvolvimento que, na prática, apenas administra a dependência e consolida a posição periférica do Brasil na economia mundial.

Bloqueio judicial no Rioprevidência expõe os riscos da captura financeira da previdência dos servidores fluminenses

Decisão da Justiça reacende o debate sobre investimentos de alto risco e reforça críticas ao uso dos recursos previdenciários pelo governo Cláudio Castro para financiar o pagamento da dívida pública, ampliando a insegurança de aposentados e pensionistas

A decisão da Justiça do Rio de Janeiro de bloquear R$ 135,1 milhões em contas e bens de empresas e executivos envolvidos em operações financeiras com recursos do Rioprevidência representa mais um capítulo de uma história marcada por sucessivas apostas de alto risco com o patrimônio previdenciário dos servidores estaduais. A medida decorre de uma ação proposta pelo próprio Governo do Estado e pelo Rioprevidência para tentar recuperar recursos perdidos após um investimento de R$ 150 milhões no fundo Texas I FIA, cuja carteira estava fortemente concentrada em ações da Ambipar e sofreu uma desvalorização superior a 90%.

Embora o bloqueio de bens possa representar um primeiro passo na tentativa de recuperar parte do prejuízo, ele não elimina a questão central: como um fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de centenas de milhares de servidores públicos foi exposto a operações financeiras de tamanho risco? A resposta exige uma investigação profunda sobre os critérios adotados para essas aplicações, os mecanismos de fiscalização existentes e as responsabilidades administrativas e políticas de quem autorizou tais investimentos.

O caso também reforça a necessidade de examinar a condução da política previdenciária durante o governo Cláudio Castro. Nos últimos anos, os recursos do Rioprevidência deixaram de cumprir exclusivamente sua finalidade previdenciária e passaram a servir, reiteradamente, como instrumento para atender às necessidades fiscais do governo estadual, inclusive por meio de operações destinadas ao pagamento da dívida pública com a União. Essa utilização recorrente do patrimônio previdenciário como mecanismo de ajuste das contas estaduais fragilizou ainda mais a sustentabilidade financeira do fundo e ampliou a insegurança de aposentados e pensionistas, justamente aqueles que dependem desses recursos para sua sobrevivência.

O episódio atual evidencia que o problema não se resume a um investimento malsucedido. Ele revela um modelo de gestão que transformou um fundo previdenciário em instrumento de engenharia financeira e de administração da crise fiscal do Estado. Quando isso ocorre, os riscos deixam de recair apenas sobre operadores do mercado e passam a ameaçar diretamente a renda de milhares de servidores que contribuíram durante décadas para garantir uma aposentadoria digna.

Por isso, a recuperação dos recursos eventualmente desviados ou perdidos constitui apenas uma parte da solução. O Estado precisa identificar e responsabilizar civil, administrativa e criminalmente todos aqueles que contribuíram para expor o patrimônio previdenciário a riscos incompatíveis com sua finalidade. Da mesma forma, torna-se indispensável impedir que futuros governos continuem tratando o Rioprevidência como uma reserva financeira disponível para solucionar problemas de caixa ou honrar compromissos fiscais de curto prazo. Um fundo de previdência existe para garantir segurança aos aposentados e pensionistas, não para financiar aventuras financeiras nem servir como colchão para políticas fiscais equivocadas.

Diante desse histórico, os servidores ativos, aposentados e pensionistas não podem permanecer como espectadores. Sindicatos e associações  ligados aos servidores precisam ampliar a pressão política e institucional para impedir que novos investimentos temerários coloquem em risco o patrimônio do Rioprevidência. Da mesma forma, essas entidades devem exigir o fim da utilização recorrente dos recursos do fundo para viabilizar o pagamento da dívida pública do Estado com a União, prática que desvirtua a finalidade da previdência e compromete sua sustentabilidade de longo prazo. È preciso lembrar que defender o Rioprevidência significa defender o direito dos servidores de receber, com segurança, os benefícios que financiaram ao longo de toda a sua vida como servidores públicos do Rio de Janeiro.

Quando a fumaça domina o horizonte, o problema já deixou de ser apenas ambiental

As imagens desta 5a. feira (23/7) em Campos dos Goytacazes mostram um horizonte praticamente encoberto por uma espessa camada de fumaça. O cenário impressiona pela perda de visibilidade, mas o que realmente preocupa é o que essa fumaça representa. Ela não é apenas um episódio passageiro de poluição atmosférica. Ela revela o acúmulo de problemas estruturais que o município ignorou durante décadas e que agora se tornam cada vez mais evidentes.

O primeiro desses problemas é o modelo de ocupação da paisagem. Campos dos Goytacazes transformou grande parte de seu território em uma vasta monocultura de cana-de-açúcar. Ao longo do tempo, esse processo eliminou praticamente toda a Mata Atlântica que originalmente cobria a região. Restaram apenas pequenos fragmentos florestais, incapazes de exercer plenamente suas funções ecológicas de regulação do clima, retenção de umidade e redução da propagação do fogo.

A simplificação extrema da paisagem tornou o município muito mais vulnerável às queimadas. Grandes extensões contínuas de vegetação seca, associadas ao inverno mais seco e às temperaturas cada vez mais elevadas, criam condições ideais para que pequenos focos de incêndio se transformem rapidamente em grandes queimadas. Quando isso ocorre, a fumaça não permanece restrita às áreas rurais. Ela invade bairros, avenidas, escolas, hospitais e residências, afetando diretamente a qualidade de vida da população.

As mudanças climáticas agravam ainda mais esse quadro. Períodos prolongados de estiagem, ondas de calor mais intensas e redução da umidade relativa do ar ampliam o risco de incêndios. O que antes poderia ser tratado como um evento excepcional passou a fazer parte de uma nova realidade climática, exigindo respostas completamente diferentes das adotadas até hoje.

Entretanto, o clima não explica tudo. A fumaça que hoje cobre Campos dos Goytacazes também evidencia a insuficiente preparação do poder público para prevenir e combater queimadas. A prevenção exige monitoramento permanente das áreas de risco, abertura e manutenção de aceiros, planejamento territorial, fiscalização rigorosa, campanhas educativas e equipes treinadas para atuar antes que os incêndios saiam do controle. Esperar que o fogo comece para então mobilizar recursos significa atuar quando boa parte do dano ambiental e sanitário já ocorreu.

As consequências recaem principalmente sobre a saúde pública. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias sofrem imediatamente com o aumento das partículas finas em suspensão. Crescem os casos de irritação nos olhos, crises de asma, bronquite e outros problemas cardiovasculares e pulmonares. Ao mesmo tempo, a fumaça reduz a visibilidade nas rodovias, aumenta o risco de acidentes e compromete as atividades econômicas.

O horizonte tomado pela fumaça deve servir como um alerta. Campos dos Goytacazes precisa abandonar a lógica de apenas reagir às emergências e construir uma política permanente de gestão da paisagem. Isso passa pela recuperação da Mata Atlântica, pela proteção das áreas úmidas, pela diversificação do uso do solo, pelo fortalecimento da prevenção e pelo investimento em estruturas de combate aos incêndios. Enquanto essas mudanças não ocorrerem, a fumaça continuará retornando a cada período seco, lembrando que a degradação ambiental não permanece confinada ao campo: ela invade a cidade, entra nas casas e chega aos pulmões de toda a população.

Livro sobre exposição humana a agrotóxicos é semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico

Por Karen Moraes para o “Portal da Faculdade de Ciêncas Médicas”

A obra Exposição humana a agrotóxicos: problema de saúde coletiva e atuação do SUS, de autoria de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, professor do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, foi indicada como semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026. O título concorre na categoria Enfermagem, Farmácia, Saúde Coletiva e Serviço Social.

A indicação foi anunciada em 15 de julho pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Publicado pela Pontes Editores em 2025, o livro está disponível em versão impressa e também como e-book gratuito. Os cinco finalistas serão divulgados em 27 de julho, durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), com anúncio simultâneo no site oficial do prêmio. A cerimônia de premiação ocorrerá em 11 de agosto.

Lançada em 2025 durante o Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, o Simpósio Internacional de Pesquisa em Enfermagem e um evento na Associação de Docentes da Unicamp (ADunicamp), a publicação reúne resultados de pesquisas, atividades de ensino e ações de extensão desenvolvidas pelo autor. “Os capítulos foram pensados para compor uma obra didática, mas também com nível técnico, voltada a profissionais da saúde e estudantes de graduação e pós-graduação”, afirmou Alonzo.

Exemplares empilhados do livro "Exposição Humana a Agrotóxicos: Problema de Saúde Coletiva e Atuação do SUS", de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, expostos sobre uma mesa.Exemplar impresso de obra indicada ao Jabuti Acadêmico

No capítulo central, Alonzo desenvolve a principal tese do livro: a de que o contato com essas substâncias deve ser compreendido como um problema de saúde coletiva. Segundo o autor, o crescimento do número de formulações e produtos comerciais disponíveis no mercado amplia os riscos para a população. “Quanto maior a utilização, aumentam a exposição, os danos ambientais, a presença de resíduos e o acesso da população a esses agrotóxicos, que também são usados em tentativas de suicídio.”

Alonzo explica que os impactos à saúde podem ser imediatos ou surgir anos após o contato com essas substâncias. “Há efeitos agudos e crônicos. Algumas pessoas adoecem, sofrem intoxicações e podem morrer. Outras, em decorrência da exposição prolongada aos resíduos, desenvolvem danos em diferentes órgãos e sistemas, como o nervoso (central e periférico), respiratório, cardiovascular, gastrointestinal, imunológico e endócrino, além do fígado, dos rins, da pele, das mucosas e de diversos tipos de câncer.”

Também podem ocorrer danos à saúde reprodutiva, como abortos, alterações na qualidade dos óvulos e do sêmen, malformações congênitas e baixo peso ao nascer. Em crianças e adolescentes, o pesquisador relaciona o contato com as substâncias a prejuízos cognitivos e de aprendizagem, além do aumento do risco de alguns tipos de câncer infantil, especialmente tumores cerebrais e leucemias, associados tanto à exposição dos pais quanto dos próprios filhos.

Um homem de barba e camisa listrada gesticula enquanto conversa com uma mulher de blazer vermelho e broche contra agrotóxicos, cercados por outras pessoas em uma feira ou evento.Lançamento do livro no Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em Brasília

A disponibilização gratuita do e-book, segundo Alonzo, busca ampliar o acesso de estudantes e profissionais de saúde a um material didático ainda escasso sobre o tema. “A literatura disponível hoje sobre intoxicações é voltada principalmente para situações agudas e de pronto-socorro. O livro propõe uma abordagem diferente, com estratégias direcionadas aos profissionais da atenção primária.”

A estrutura da obra acompanha uma sequência didática. Os primeiros capítulos apresentam conceitos básicos e a classificação dos agrotóxicos; na sequência, são abordadas formas de identificar pessoas expostas na rotina dos serviços de saúde; por fim, o livro reúne orientações para a investigação clínica e o manejo desses casos.

“No primeiro capítulo, o livro explica de forma simples como os agrotóxicos são classificados e agrupados. Mais adiante, apresenta estratégias para que os profissionais de saúde identifiquem pessoas expostas na rotina das unidades. O último capítulo mostra como realizar a história clínica e a anamnese, além de abordar o diagnóstico, as orientações e as condutas para esses pacientes.”

Homem de camisa listrada e barba grisalha discursa com microfone ao lado de uma projeção do livro "Exposição Humana a Agrotóxicos", de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, com QR codes para acesso.

Herling Alonzo apresenta livro em sessão

 

Para Alonzo, a principal contribuição da publicação é oferecer um material voltado especificamente aos profissionais da atenção primária e aos estudantes da área da saúde, preenchendo uma lacuna na formação sobre os impactos da exposição aos agrotóxicos e o atendimento às pessoas expostas.

O autor e o prêmio

Formado em Medicina e Cirurgia pela Universidad Nacional Autónoma de Honduras, Alonzo fez pós-graduações em Toxicologia Clínica e Ambiental no Uruguai e em Saúde Ocupacional em Israel, antes de consolidar, no Brasil, sua carreira acadêmica na área de Saúde Coletiva.

Criado em 2024 com apoio da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da SBPC, e com participação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) a partir deste ano, o Prêmio Jabuti Acadêmico é uma iniciativa da CBL para reconhecer livros acadêmicos, científicos, técnicos, profissionais e didáticos nacionais. 


Fonte: Portal da Faculdade de Ciências Médicas

Data centers e o novo extrativismo digital: quando a inteligência artificial redefine a geografia da espoliação

Durante anos, a economia digital foi apresentada como uma alternativa limpa às atividades extrativas tradicionais. A imagem de uma “nuvem” imaterial ajudou a consolidar a percepção de que serviços digitais, inteligência artificial e computação em larga escala dependeriam muito mais de algoritmos do que de recursos naturais. Essa narrativa, contudo, começa a ruir à medida que a corrida global pela inteligência artificial exige uma expansão sem precedentes da infraestrutura física necessária para sustentar o processamento de dados.

O artigo de Lucas Zinet que foi publicado no Blog da Boitempo oferece uma contribuição importante para compreender esse fenômeno ao propor que os data centers constituem uma nova fronteira do extrativismo latino-americano. A analogia é particularmente pertinente porque revela que a economia digital não elimina a dependência de recursos naturais. Ao contrário, ela cria novas formas de apropriação intensiva de energia, água, terras e infraestrutura pública, frequentemente concentradas em países periféricos que assumem os custos ambientais enquanto capturam apenas uma parcela limitada dos benefícios econômicos.

Essa interpretação merece especial atenção no caso brasileiro. O país reúne exatamente os atributos mais cobiçados pelas grandes empresas globais de tecnologia: disponibilidade crescente de energia renovável, abundância relativa de água doce, extensas áreas para implantação de infraestrutura e uma posição geográfica estratégica para conexões internacionais por cabos submarinos. Não surpreende, portanto, que estados como Ceará, Bahia e Rio Grande do Sul disputem investimentos bilionários para atrair grandes centros de processamento de dados.

O problema reside na natureza dessa disputa. Os governos oferecem incentivos fiscais, infraestrutura energética subsidiada e facilidades regulatórias sob a promessa de geração de empregos e desenvolvimento regional. Entretanto, uma vez concluída a fase de construção, os data centers operam com um contingente relativamente pequeno de trabalhadores altamente especializados. Em outras palavras, trata-se de empreendimentos intensivos em capital, consumo energético e uso de recursos naturais, mas pouco intensivos em emprego.

Essa dinâmica guarda impressionantes semelhanças com outros enclaves de exportação que marcaram a história econômica latino-americana. Minas, monoculturas de exportação, grandes complexos portuários e agora data centers compartilham uma característica fundamental: organizam o território segundo as necessidades das cadeias globais de acumulação, deslocando para as populações locais os custos ambientais e sociais da atividade econômica.

No Brasil, essa lógica já pode ser observada na associação entre grandes projetos portuários, expansão da geração elétrica e instalação de infraestrutura digital. Não se trata apenas da construção de edifícios repletos de servidores, mas da reorganização de sistemas elétricos, redes de transmissão, disponibilidade hídrica e políticas públicas voltadas prioritariamente para atender às demandas das grandes plataformas digitais.

Outro aspecto particularmente relevante consiste no consumo crescente de água e eletricidade. Embora as empresas enfatizem avanços tecnológicos em eficiência energética e sistemas modernos de resfriamento, a expansão simultânea da inteligência artificial faz com que o consumo absoluto continue aumentando. Em regiões já sujeitas à insegurança hídrica ou à pressão sobre os sistemas elétricos, essa demanda adicional pode intensificar conflitos pelo acesso aos recursos naturais.

Há ainda uma dimensão geopolítica frequentemente negligenciada. Os dados tornaram-se um ativo estratégico comparável ao petróleo no século XX. Entretanto, enquanto muitos países latino-americanos fornecem energia, água e território para a instalação dessa infraestrutura, o controle das plataformas, dos algoritmos, da propriedade intelectual e da renda permanece concentrado nas grandes corporações sediadas nos Estados Unidos e na China. Assim, a promessa de inserção na economia digital pode reproduzir uma velha condição periférica: exportam-se recursos naturais e importam-se tecnologias e dependência.

Essa constatação não implica rejeitar a expansão da infraestrutura digital nem ignorar sua importância econômica. O desafio consiste em impedir que a transição para a economia da inteligência artificial repita os mesmos padrões históricos de espoliação que caracterizaram sucessivos ciclos extrativos na América Latina. Isso exige políticas públicas capazes de estabelecer contrapartidas efetivas, assegurar transparência sobre os custos ambientais, proteger os recursos hídricos, garantir tarifas energéticas socialmente justas e ampliar a apropriação local do conhecimento produzido.

O artigo publicado no Blog da Boitempo cumpre um papel importante justamente por deslocar o debate para além do fascínio tecnológico. Os data centers não representam apenas infraestrutura digital. Eles materializam uma nova etapa da disputa global por energia, água, território e soberania tecnológica. Em um momento em que governos disputam investimentos das gigantes da inteligência artificial, torna-se indispensável perguntar quem controlará essa infraestrutura, quem ficará com seus lucros e quem suportará seus custos ambientais e sociais.

Responder a essas perguntas talvez seja uma das tarefas mais urgentes para aqueles que pretendem construir uma economia digital que não reproduza, sob novas formas, as antigas veias abertas do extrativismo latino-americano.

Publicação reúne exemplos de políticas públicas que unem ciência e conservação do oceano

Persistem barreiras na participação de comunidades pesqueiras, ribeirinhas e tradicionais em espaços de decisão.

As políticas públicas são um instrumento essencial para transformar a relação da sociedade brasileira com o oceano – e as evidências científicas participam de todas as etapas de construção dessas políticas, desde a identificação dos problemas que exigem intervenção do Estado até o planejamento e a execução de ações que beneficiem a natureza e a população local. Para que o processo seja inclusivo e eficiente, é fundamental que o poder público assegure, ainda, a participação das comunidades impactadas na tomada de decisões. 

Exemplos dessa dinâmica são o Pagamento por Serviços Ambientais e o seguro-defeso. O primeiro instrumento remunera pessoas e grupos por ações de conservação e recuperação ambiental, incentivando a continuidade de modos de vida sustentáveis, sobretudo entre povos e comunidades tradicionais. Já o segundo é um benefício pago a pescadores durante períodos de restrição à atividade, definidos com base em dados científicos como épocas de desova, padrões de migração e importância ecológica das espécies.

Essa análise integra a publicação “Uma introdução às políticas públicas para o oceano no Brasil”, lançada na quarta (22) por pesquisadores da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano e do Programa de Políticas Públicas do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. O livro explica diferentes tipos de políticas públicas, principais atores envolvidos na sua implementação e exemplos de iniciativas voltadas à proteção do oceano no Brasil.

Segundo a oceanógrafa e pesquisadora Monique Torres Queiroz, uma das organizadoras, trata-se de um material didático pensado inicialmente para aproximar estudantes de graduação e pós-graduação em Oceanografia no Brasil de conceitos sobre gestão marinha. “Embora o curso seja tradicionalmente estruturado em quatro grandes áreas, biologia, física, geologia e química, sentimos falta de conteúdos que expliquem como o oceano e a zona costeira são governados e como as decisões sobre esses ambientes são tomadas”, contextualiza. Ao apresentar essa discussão em uma linguagem simplificada, porém, a equipe avalia que a publicação pode alcançar outros atores interessados no tema – de cientistas a gestores públicos.

Com um litoral de mais de 10 mil quilômetros e muitas atividades econômicas vinculadas ao mar, como turismo, pesca e transporte, o país ainda vê barreiras na participação de comunidades pesqueiras, ribeirinhas e tradicionais em espaços de decisão – ocupados por setores com maior capacidade de organização, recursos e influência, segundo avalia Torres.

Para a pesquisadora, é necessário ampliar o acesso à informação, além de incluir e empoderar esses grupos na implementação das políticas públicas. “São justamente essas populações que convivem diariamente com o ambiente costeiro e acumulam conhecimentos fundamentais para a construção de políticas públicas mais justas e eficazes, porque conhecem as problemáticas e sentem as consequências das políticas tomadas”, observa.

A publicação dialoga com a Década do Oceano, iniciativa da ONU realizada até 2030 para conscientizar a sociedade sobre a contribuição da ciência oceânica nas ações de desenvolvimento sustentável.

Torres explica que as políticas apresentadas no material já contam com participação consolidada da comunidade científica desde o diagnóstico de problemas até a avaliação dos resultados, passando pela elaboração e implementação. “Ainda assim, existe espaço para ampliar a incorporação do conhecimento científico, especialmente por meio de sistemas de monitoramento contínuo, indicadores socioambientais e da integração entre ciência e conhecimentos locais. Quando pesquisadores, gestores e comunidades trabalham de forma articulada, as políticas públicas tendem a ser mais bem fundamentadas e adaptativas”, finaliza a pesquisadora.


Fonte: Agência Bori

A tragédia silenciosa no sistema de saúde brasileiro

A saúde de milhares de brasileiros já não depende apenas de prescrições médicas, mas de decisões judiciais. Em A Judicialização da Saúde – Um Caos à Vista, livro a ser lançado brevemente, o advogado José Octávio Montesanti mostra que, além da própria doença, pacientes enfrentam um segundo sofrimento: a batalha na Justiça para conseguir tratamentos a que já têm direito

(São Paulo, 21/07/2026) – Conseguir uma cirurgia, um medicamento ou um tratamento deveria representar esperança. Para milhares de brasileiros, porém, esse é apenas o começo de mais sofrimento. Depois da primeira fila, no sistema de saúde, vem uma segunda fila: a batalha nos tribunais, onde uma decisão judicial pode definir o acesso ao tratamento prescrito pelo médico.

Essa realidade é o ponto de partida de A Judicialização da Saúde – Um Caos à Vista, livro do advogado José Octávio Montesanti, especialista em Direito da Saúde, que será lançado brevemente pela Editora Appris. Ao longo de treze capítulos, o autor sustenta uma tese contundente: a judicialização não é a causa da crise da saúde brasileira. É o sintoma mais evidente de um sistema que, cada vez mais, deixa de responder às necessidades da população.

“A saúde é um direito fundamental garantido pela Constituição. Ainda assim, milhões de brasileiros são obrigados a recorrer ao Poder Judiciário para conseguir consultas, medicamentos, cirurgias e tratamentos que deveriam estar disponíveis pelo SUS ou pelos planos de saúde”, afirma Montesanti.

Para o autor, cada ação judicial representa muito mais que um processo. Representa uma pessoa que não encontrou resposta no sistema de saúde. São pacientes que aguardam meses por uma cirurgia, famílias que enfrentam negativas de cobertura, pessoas obrigadas a interromper tratamentos ou recorrer a empréstimos para custear medicamentos enquanto aguardam uma decisão judicial.

O livro reúne dados que ajudam a dimensionar essa realidade. Atualmente, cerca de 160 milhões de brasileiros dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde, que enfrenta escassez de recursos, longas filas e dificuldades operacionais. Em pelo menos 16 Estados e no Distrito Federal, aproximadamente 500 mil pessoas aguardam por cirurgias eletivas, enquanto o prazo médio para uma consulta especializada chega a 50 dias.

Ao mesmo tempo, mais de 52 milhões de brasileiros mantêm planos de saúde privados na expectativa de obter atendimento mais rápido e maior segurança assistencial. Entretanto, o livro mostra que a realidade também preocupa na saúde suplementar. Em 2024, as operadoras registraram lucro líquido superior a R$ 10 bilhões, crescimento de 429% em relação ao ano anterior. No mesmo período, aproximadamente 300 mil ações judiciais foram movidas contra planos de saúde em razão de negativas de atendimento, cobertura ou procedimentos.

Para Montesanti, além de priorizar o lucro em detrimento da saúde de seus segurados, “as seguradoras cometem fraude ao classificar como planos coletivos, em vez de familiares, empresas com poucos participantes da mesma família”.

Para ele, esse contraste sintetiza uma das maiores contradições do sistema: “Quando milhares de pacientes precisam recorrer à Justiça para conseguir tratamentos garantidos por lei ou por contrato, o problema deixou de ser jurídico. Passou a ser uma questão de saúde pública.”

Ao longo da obra, o autor procura mostrar que a judicialização não pode ser compreendida apenas pela ótica do Direito. Ela revela um conjunto de falhas estruturais que envolve o SUS, operadoras de planos de saúde, órgãos reguladores, hospitais e políticas públicas.

Entre os temas abordados estão as negativas de cobertura para tratamentos oncológicos, medicamentos de alto custo, exames, internações e procedimentos cirúrgicos; a utilização de planos coletivos como alternativa para impor reajustes elevados; o impacto da judicialização sobre a gestão do SUS; o crescimento das ações por erro médico; e a necessidade de reformas capazes de reduzir os conflitos entre pacientes, operadoras e poder público.

Outro tema que recebe destaque é o aumento expressivo dos processos por erro médico. Segundo dados citados pelo autor, as ações judiciais cresceram 506%, revelando uma combinação preocupante de sobrecarga dos serviços, escassez de profissionais, falhas assistenciais e maior conscientização da população sobre seus direitos.

Mais do que analisar decisões judiciais, A Judicialização da Saúde – Um Caos à Vista convida a sociedade a refletir sobre um sistema que obriga pacientes a percorrer um caminho cada vez mais longo entre o diagnóstico e o tratamento. Um percurso que começa no consultório médico, passa pelas filas do sistema de saúde e, muitas vezes, termina nos tribunais.

Sobre o autor

José Octávio Montesanti é advogado, fundador do escritório Moraes Montesanti Advogados Associados e atua na advocacia há mais de seis décadas. Doutor e professor aposentado de Direito Comercial, construiu uma sólida trajetória nas áreas Empresarial, Civil, Comercial, Tributária e, mais recentemente, Direito da Saúde. Também é autor do livro Rumo aos 120 Anos de Idade (ou mais), dedicado aos temas da saúde e da longevidade. Em A Judicialização da Saúde – Um Caos à Vista, reúne a experiência acumulada ao longo de décadas de atuação profissional para analisar um dos fenômenos mais relevantes e desafiadores da saúde brasileira.

Quando a inteligência artificial encontra resistência: a revolta popular contra os data centers chega ao coração dos EUA

Durante muito tempo, as grandes empresas de tecnologia conseguiram vender a expansão da inteligência artificial como um processo inevitável, sinônimo de progresso, inovação e desenvolvimento econômico. Entretanto, uma reportagem de Pamela Ferdinand, publicada pelo The New Lede, mostra que essa narrativa começa a encontrar um obstáculo inesperado: a resistência organizada das populações locais que serão obrigadas a conviver com a infraestrutura física necessária para sustentar a chamada revolução da IA.

O caso descrito na reportagem ocorre no estado do Kansas, onde moradores passaram a questionar a instalação de enormes centros de processamento de dados (data centers) destinados principalmente ao treinamento e funcionamento de sistemas de inteligência artificial. Embora frequentemente apresentados como empreendimentos de alta tecnologia e baixo impacto ambiental, esses complexos exigem enormes quantidades de eletricidade e água, além de provocar ruído permanente, ocupar extensas áreas de terra e demandar novas linhas de transmissão elétrica. O que parecia uma infraestrutura invisível revela, na prática, uma pesada pegada territorial.

O aspecto mais interessante da reportagem talvez seja mostrar que a oposição não decorre de um movimento ideológico tradicional. Agricultores, moradores rurais, conservadores, ambientalistas e representantes de diferentes espectros políticos começam a compartilhar preocupações semelhantes. A questão deixa de ser simplesmente tecnológica para assumir uma dimensão profundamente territorial: quem suporta os custos ambientais e sociais da economia digital?

Esse fenômeno merece atenção especial no Brasil. Existe uma tendência recorrente de imaginar que a economia digital ocupa apenas o “mundo virtual”. Na realidade, a inteligência artificial depende de uma infraestrutura extremamente material: minas para extração de minerais estratégicos, fábricas de semicondutores, grandes sistemas de geração elétrica, redes de transmissão, cabos submarinos e gigantescos centros de dados funcionando ininterruptamente. Em outras palavras, o aparente caráter imaterial da IA repousa sobre uma base física que consome recursos naturais em escala crescente.

É justamente essa materialidade que começa a alimentar conflitos socioambientais. Nos Estados Unidos, comunidades locais passaram a perguntar por que deveriam aceitar aumentos na demanda por energia, maior consumo de água e alterações na paisagem para atender empresas globais cujos lucros dificilmente permanecerão no território. A promessa de geração de empregos também perde força quando se observa que, após a fase de construção, os data centers operam com um número relativamente reduzido de trabalhadores altamente especializados.

Essa situação lembra, em muitos aspectos, os conflitos provocados por grandes projetos extrativos e de infraestrutura observados há décadas em diferentes partes do mundo. Muda a mercadoria, muda a tecnologia, mas permanece a mesma lógica de concentração dos benefícios econômicos e distribuição desigual dos custos ambientais. Em vez de minas de carvão ou grandes barragens, surgem agora verdadeiras “fábricas digitais” cujo funcionamento depende de um fluxo contínuo de energia, água e capital.

Não por acaso, a resistência também cresce rapidamente em outros estados norte-americanos. Protestos simultâneos ocorreram recentemente em dezenas de estados, enquanto diversos projetos foram suspensos, adiados ou rejeitados por governos locais em razão da pressão popular. A expansão da infraestrutura da inteligência artificial começa, assim, a enfrentar um problema que seus promotores não anteciparam: a perda de sua licença social para operar.

No Brasil, esse debate ainda engatinha. Entretanto, seria um erro imaginar que permaneceremos à margem dessa corrida global. A crescente demanda por eletricidade, água e minerais estratégicos tende a ampliar a pressão sobre nossos sistemas ambientais, especialmente em regiões já marcadas pela expansão do agronegócio, da mineração e dos grandes projetos energéticos. Se nada mudar, a inteligência artificial poderá acrescentar uma nova camada à já extensa lista de conflitos territoriais produzidos pelo capitalismo contemporâneo.

Talvez a principal contribuição da reportagem de Pamela Ferdinand seja justamente desfazer uma ilusão bastante difundida: a de que a inteligência artificial habita apenas a nuvem. Na realidade, essa “nuvem” possui endereço, ocupa território, consome recursos naturais e produz impactos ambientais concretos. E, como demonstra o caso do Kansas, as comunidades diretamente afetadas começam a dizer que não pretendem pagar essa conta em silêncio.