
Por Ismael Machado*
O calor era pesado naquele agosto de 1995, em Corumbiara, Rondônia. O maior conflito agrário já registrado em Rondônia até então e um dos mais brutais da história do estado deixaram como rastro dez mortos e dezenas de feridos. As imagens e relatos dos crimes cometidos em Corumbiara chocaram o mundo, diante da brutalidade perpetrada pela polícia militar de Rondônia contra as cerca de 600 famílias que estavam acampadas na Fazenda Santa Elina. Cobri esse massacre como repórter de uma TV em Porto Velho.
Anos depois, acompanhando o julgamento do Massacre de Eldorado dos Carajás, o ar parecia ainda mais denso — não apenas pela temperatura, mas pelo acúmulo de tudo o que não se resolveu ali. Corpos tombados que voltavam como memória em relatos no tribunal, vozes interrompidas que insistiam em atravessar o tempo. Em outro momento, no interior do Pará, o enterro de Dorothy Stang se deu sob um silêncio irregular, um grito sufocado vindo de dentro da floresta.
Mais tarde, já no audiovisual, ao dirigir um documentário atravessando áreas de mineração no sudeste do Pará, onde a presença da Vale redefine paisagens, ritmos e destinos, a sensação era outra, mas não menos intensa: comunidades inteiras reorganizadas em função de um projeto que chega com escala global e impacto local imediato. Em todos esses momentos, separados no tempo e na linguagem testemunhadas por mim, havia um elemento comum: a Amazônia não se deixa reduzir a uma narrativa única. O que se revela é um território feito de camadas simultâneas, onde conflito, permanência e reinvenção coexistem. E foi com essa e tantas outras memórias acumuladas que ano passado acompanhei as discussões sobre a COP-30.
Quando a Conferência chegou a Belém, projetou sobre a Amazônia uma expectativa rara, a de que, finalmente, o centro das decisões globais coincidiria com o território mais decisivo para o equilíbrio climático do planeta. Para quem acompanha essa realidade há décadas, havia ali menos surpresa do que reconhecimento. A promessa de convergência entre discurso global e realidade local já apareceu antes, com outros nomes, outras agendas e outros protagonistas.
Passado o evento, o contraste entre promessa e realidade se torna mais nítido. A floresta permaneceu onde sempre esteve, ou seja, atravessada por pressões econômicas, conflitos fundiários, experiências de resistência e formas de vida que não cabem facilmente nos modelos dominantes de desenvolvimento. Ao longo dessas décadas, o que se observa não é exatamente uma transformação estrutural, mas uma sucessão de camadas que se sobrepõem. São velhas práticas que não desaparecem, apenas se reconfiguram para caber nos discursos do presente. Nos últimos dias tivemos a notícia de que uma equipe do Ibama foi recebida a tiros em uma área de garimpo clandestino. Fato isolado? Nunca.
Para além de respostas definitivas, o legado da conferência deixou perguntas incômodas. Houve avanços institucionais, compromissos reafirmados e um volume de recursos anunciados. Ainda assim, a dinâmica concreta da região não se altera por declarações. A Amazônia segue sendo tratada, em grande medida, como espaço de exploração, ainda que sob novos discursos. A linguagem da sustentabilidade ganhou centralidade, mas sua tradução prática continua em aberto. Vista em perspectiva, essa recorrência revela um padrão persistente.
A noção de bioeconomia, amplamente mobilizada durante e após a COP, exemplifica bem essa ambiguidade. Em alguns casos, tem servido como base para iniciativas que valorizam cadeias produtivas locais, respeitam o ritmo dos ecossistemas e garantem renda para comunidades. Em outros, aparece como uma reedição de práticas antigas, agora revestidas de termos mais aceitáveis no cenário internacional. Ao longo do tempo, diferentes conceitos ocuparam esse lugar de promessa — desenvolvimento sustentável, economia verde, inovação florestal — , quase sempre carregando a mesma questão de fundo, que se resume numa sentença para mim: o problema nunca esteve apenas na ideia, mas nas condições concretas de sua implementação. Em outras palavras, quem define as regras, quem controla os processos e quem se beneficia dos resultados.
Essa disputa ganha ainda mais nitidez quando observada sob a lente econômica. O Banco Mundial calcula que a floresta amazônica em pé teria um valor de US$ 317 bilhões por ano. Ainda assim, o que se verifica na prática revela uma inversão profunda de prioridades. Em 2024, o Pará, que exportou US$ 23 bilhões, eliminou 6,7 milhões de árvores da floresta e obteve um faturamento diminuto de apenas US$ 500 milhões com as madeiras da Amazônia. A discrepância entre o valor potencial da floresta preservada e o retorno efetivo da sua exploração predatória expõe, de forma quase didática, o descompasso entre discurso e prática.
No plano territorial, a situação continua marcada por assimetrias profundas. A expansão de atividades ilegais, como o garimpo e a grilagem, convive com políticas de proteção frequentemente frágeis ou descontinuadas. Ao mesmo tempo, povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas e camponesas mantêm formas de ocupação e uso da terra que demonstram, na prática, outras possibilidades de relação com o ambiente. Essas experiências não são residuais; constituem parte significativa da realidade amazônica e, em muitos casos, são justamente o que impede que a devastação avance ainda mais rapidamente. Ao longo de anos de cobertura, elas aparecem como uma possibilidade de futuro, ainda que constantemente ameaçadas.

No livro Arrabalde, de João Moreira Salles, ele descreve uma frase de um antigo madeireiro que também já ouvi diversas vezes. O depoimento, sincero, de “quando cheguei aqui não tinha nada”. Esse nada era a floresta. O inimigo a vencer, como amplamente divulgado na propaganda oficial do governo militar, por intermédio de órgãos como Sudam e Basa, por exemplo.
Há outras formas de ver a Amazônia, no entanto. Tenho pensado nisso a partir do contato com diversas pessoas que buscam formas diferentes de viver. A cultura ocupa um lugar central nesse cenário, embora nem sempre seja reconhecida como tal. Na música, nas artes visuais, no audiovisual, na gastronomia e na moda, para ficar em exemplos simples, a Amazônia contemporânea vem produzindo linguagens que articulam tradição e experimentação. Essas produções não apenas representam o território, mas participam ativamente de sua construção simbólica e política. Ao mesmo tempo, enfrentam o risco constante de apropriação externa, que transforma referências locais em mercadoria global sem retorno proporcional para seus criadores — um processo que se repete com impressionante regularidade.
Essa diversidade de possibilidades produtivas também se expressa na própria floresta. Cientistas brasileiros já descreveram, na Amazônia, plantas capazes de produzir fibras, celulose, corantes, óleos essenciais, óleos vegetais fixos, alimentos e substâncias medicinais, com potencial para gerar cadeias econômicas nos setores de alimentos, cosméticos e farmacêutico. Nesse último caso, o contraste também chama atenção: o mercado farmacêutico brasileiro conta com 411 empresas, sendo 295 de capital nacional e 116 internacionais, movimentando cerca de US$ 36 bilhões, enquanto a biodiversidade amazônica, uma de suas maiores bases potenciais, segue subaproveitada ou capturada de forma desigual.
O tema da alimentação também sintetiza muitas dessas tensões vividas atualmente. Sistemas agroflorestais, manejo tradicional e agricultura familiar convivem com a expansão de monoculturas voltadas à exportação, como a soja, no exemplo mais forte atualmente. Cada modelo implica formas distintas de uso do solo e da água, de distribuição de renda e de impacto ambiental. Nesse contexto, a discussão sobre a terra permanece central. A concentração fundiária e a insegurança jurídica alimentam conflitos e dificultam a consolidação de alternativas sustentáveis. O geógrafo Bruno Malheiro tem pesquisas aprofundadas que mostram como a questão da Amazônia como exportadora de soja é um projeto federal. Como diria aquele personagem do Chapolin Colorado: “e agora, quem irá nos ajudar?”.
Converso com Pablo Neri, uma jovem liderança do MST e ele me aponta, categórico, que a reforma agrária, adaptada às especificidades amazônicas e orientada por princípios agroecológicos, precisa voltar a aparecer como elemento estratégico fundamental, ainda que enfrente resistências políticas e econômicas significativas. Quem se aprofunda mais nessa luta corre o risco de sempre ser recebido com violência. Essa é uma constante histórica, registrada de forma contundente por José Batista Afonso e Aírton Pereira no indispensável livro “Assassinatos e Impunidade no campo e no Pará — 1980 a 2024” e também algo que, ao longo de décadas de jornalismo na região, sei que não são apenas dados ou estatísticas, mas um modelo de enfrentamento que se tornou quase um padrão que atravessa gerações.
Leio um texto do jornalista Paulo Silber e vejo esse padrão se repetindo. Ele informa sobre um protesto na Terra Indígena Mãe Maria que paralisou trens da Estrada de Ferro Carajás, reacendendo ações do MPF que questionam licenciamento ambiental e consulta às comunidades. A comunidade indígena mira a Vale, em protesto contra os impactos ambientais atribuídos às obras de duplicação da ferrovia, que já tinha sido alvo de outros protestos recentes. O bloqueio ocorreu no município de Bom Jesus do Tocantins e foi organizado por lideranças de povos que vivem na Terra Indígena Mãe Maria, território com cerca de 62 mil hectares e população aproximada de 1,3 mil pessoas. A área é habitada por povos Gavião, entre eles Parkatêjê, Kyikatêjê e Akrãtikatêjê.
Esse filme já vimos antes. Ainda veremos essa repetição. É fato.
Há caminhos. Iniciativas organizadas por mulheres, jovens, produtores culturais e trabalhadores do campo vêm construindo soluções que articulam geração de renda, preservação ambiental e fortalecimento comunitário. Essas experiências operam em escalas diversas e, muitas vezes, com recursos limitados, mas apresentam um grau elevado de inovação social. O desafio está em ampliar seu alcance sem comprometer sua autonomia e também em conseguirem ser enxergadas de forma completa por quem tem a caneta decisória, algo que historicamente nem sempre acontece.

No plano internacional, a Amazônia permanece no centro de disputas geopolíticas. Interesses ligados a mercados de carbono, biodiversidade e recursos naturais continuam a se intensificar. A pressão externa, que ao longo do tempo já assumiu diferentes justificativas, encontra agora novas formas de se expressar no contexto da transição energética e da economia verde. Ao mesmo tempo, persistem movimentos estratégicos de grandes potências atentos aos recursos minerais da região. Esse cenário exige cuidado para que novas formas de dependência não se estabeleçam sob o argumento da sustentabilidade. A participação efetiva de atores locais nos processos decisórios se torna, nesse sentido, um ponto sensível. Trump sinaliza isso claramente, cobiçando as “terras raras”. A classificação de terrorismo ao PCC e ao Comando Vermelho acende uma luzinha amarela a quem consegue pensar um pouquinho nesse tabuleiro de xadrez do futuro.
Estamos preparados? Gostaria de dizer sim sem pestanejar. Mas entendo que a produção de conhecimento também precisa aparecer como dimensão estratégica. Universidades e centros de pesquisa da região desempenham papel fundamental na construção de alternativas, mas ainda enfrentam limitações estruturais. O fortalecimento dessas instituições, aliado ao reconhecimento dos saberes tradicionais, pode contribuir para a formulação de políticas mais ajustadas à realidade amazônica. Ainda assim, o que se vê, com frequência, é uma distância persistente entre o conhecimento produzido e sua incorporação efetiva nas decisões.
O período posterior à COP-30 não indica um desfecho, mas uma continuidade marcada por tensões e possibilidades. A sustentabilidade, frequentemente apresentada como consenso, revela-se, na prática, um campo de disputas. Diferentes projetos para a Amazônia seguem em confronto, cada um com suas prioridades, seus métodos e suas consequências.
A floresta, por sua vez, permanece como elemento central dessa equação, não apenas por sua importância ecológica, mas por concentrar modos de vida que desafiam padrões dominantes. O que está em jogo não se limita à preservação de um bioma, mas envolve a forma como sociedades organizam suas relações com o território, com o trabalho e com o futuro.

Independentemente de conferências, reuniões ou agendas governamentais, o que permanece é a necessidade de transformar compromissos em práticas consistentes, capazes de dialogar com a complexidade amazônica. E talvez o que a experiência acumulada ao longo de décadas permita afirmar, com alguma cautela, é que a Amazônia não muda no ritmo dos anúncios. Ela se transforma lentamente, de forma desigual e quase sempre em disputa, no entrelaçamento contínuo entre forças que tentam redefini-la em termos puramente econômicos e outras que insistem em mantê-la viva.













