A adoção acrítica da IA ​​na ciência é alarmante — precisamos urgentemente de mecanismos de controle

A inteligência artificial está acelerando rapidamente a produção científica, mas corre o risco de restringir a investigação, enfraquecer o discernimento e prejudicar a formação dos cientistas

A automação computadorizada pode dificultar a aquisição de habilidades e conhecimentos especializados. Crédito: Westend61/Getty

Por  Lisa Messeri e  MJ Crockett para “Nature”

A comunidade científica está adotando ferramentas de inteligência artificial, especialmente grandes modelos de linguagem (LLMs), a uma velocidade surpreendente. A escrita de artigos com auxílio de LLMs aumentou drasticamente nos últimos três anos e os pesquisadores têm buscado incorporar agentes semiautônomos em seus fluxos de trabalho . No entanto, a adoção rápida e acrítica da Inteligência Artificial (IA) ​​na ciência acarreta riscos significativos. Vários problemas já são evidentes: artigos que utilizam ferramentas de IA se concentram em um conjunto mais restrito de questões de pesquisa estabelecidas e , em alguns casos, foram avaliados como tendo menor mérito científico do que estudos que não dependem de IA.

Além disso, à medida que a IA automatiza tarefas científicas rotineiras, as preocupações com a erosão das oportunidades de formação para investigadores em início de carreira permanecem em grande parte sem solução e muitas vezes ignoradas. Convencionalmente, a formação científica tem combinado instrução formal em factos e métodos com a aquisição gradual de conhecimento tácito através de trabalho prático de nível inicial. Os académicos em estudos de ciência e tecnologia têm demonstrado repetidamente que os textos científicos, por si só, não comunicam totalmente o conhecimento; em vez disso, o saber-fazer crucial está incorporado nas comunidades de investigação e é transmitido através da aprendizagem e da prática .

Esse conhecimento tácito — por exemplo, sobre o que constitui dados “razoáveis”, ou os detalhes de uma técnica que são difíceis de articular em uma seção de métodos, ou se um resultado é consistente com a literatura existente — é essencial para que um pesquisador supervisione fluxos de trabalho assistidos por IA de forma eficaz no futuro. Se os sistemas de IA substituírem cada vez mais o trabalho científico de nível inicial, os estagiários podem nunca desenvolver essas habilidades, deixando potencialmente a próxima geração de cientistas mal preparada para supervisionar pesquisas orientadas por IA de forma responsável.

Essas tendências exigem que os cientistas reflitam sobre o propósito das instituições científicas. Nosso objetivo é simplesmente construir uma coleção de fatos científicos ou também cultivar uma comunidade viva e em constante evolução de cientistas? Se as ferramentas de IA aceleram o primeiro objetivo, mas ameaçam o segundo, como os cientistas devem proceder? Com ​​base em evidências emergentes sobre os efeitos da IA ​​na prática científica, destacamos aqui os principais riscos e delineamos possíveis soluções.

Mais produção, menos compreensão

A indústria de IA tem comercializado agressivamente produtos LLM para cientistas como tecnologias para aumentar a produtividade. Alguns pesquisadores abraçaram essa promessa, destacando a capacidade desses produtos de “turbinar” sua escrita acadêmica.

Se considerarmos a produtividade como a produção de artigos científicos, os produtos de IA sem dúvida cumpriram a promessa  , com efeitos de longo alcance. Repositórios online de pré-publicações , como o SocArXiv e o PsyArXiv, impuseram moratórias temporárias a artigos de IA ou atualizaram suas políticas de revisão; o arXiv mudou sua política e não aceita mais artigos de opinião em ciência da computação (que são relativamente fáceis de produzir para mestrados em direito), e os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA começaram a limitar as propostas de financiamento a seis por ano por pesquisador principal.

Além do aumento da produtividade, há evidências de que cientistas que utilizam ferramentas de IA em seu trabalho recebem mais citações e progridem mais rapidamente para cargos de pesquisador principal do que aqueles que não autilizam, sendo que pessoas com inglês como primeira língua se beneficiam de forma desproporcional.Vale ressaltar, no entanto, que os benefícios de carreira proporcionados por produtos de IA são mais evidentes em métricas quantitativas, como número de publicações e citações. Tais medidas não conseguem determinar se esses benefícios decorrem da contribuição científica ou de conexões com uma área em alta. Seria, portanto, um erro considerar essas métricas como representativas de uma vitória para a ciência, sem analisar mais atentamente a qualidade desse aumento de produtividade.

Mais nem sempre é melhor, e há cada vez mais evidências de que o aumento da produtividade científica impulsionado pelo aprendizado de máquina muitas vezes tem um custo. O mais óbvio é a introdução de “lixo de IA” na literatura, incluindo imagens sem sentido geradas por IA e citações alucinadas.

Diversos estudos documentaram tendências preocupantes em artigos que dependem fortemente da assistência de especialistas em redação (LLM, na sigla em inglês) na escrita. O periódico Organization Science auditou todas as 6.957 submissões recebidas entre janeiro de 2021 e janeiro de 2026 e observou que os artigos com assistência de especialistas em redação apresentavam qualidade científica inferior (medida pela probabilidade de serem aceitos pelo periódico). Outro estudo , com 264.125 artigos coletados em uma conferência de IA de 2024 e submissões publicadas em três servidores de pré-impressão (arXiv, bioRxiv e SSRN) entre 2023 e 2024, constatou que, em artigos com assistência de especialistas em redação, a boa escrita deixou de ser um indicador preciso de qualidade científica (medida pelo resultado da publicação e pelas notas da revisão por pares).

As ferramentas de IA implementadas em toda a cadeia de pesquisa também estão limitando a compreensão científica de maneiras mais sutis, por exemplo, reduzindo o conjunto de preocupações que os pesquisadores exploram. Uma análise de 41,3 milhões de artigos científicos abrangendo biologia, medicina, química, física, ciência dos materiais e geologia mostra que a adoção da IA ​​parece “induzir os autores a convergirem para as mesmas soluções para problemas conhecidos, em vez de criarem novas”. Este é um alerta precoce da probabilidade de a IA ter impactos em cascata no ecossistema do conhecimento .

Ameaça de desqualificação

As visões mais ambiciosas da IA ​​para a ciência envolvem ‘cientistas de IA’ semiautônomos ou totalmente autônomos, e protótipos recentes dessa visão têm recebidogrande alarde tanto na ciência quanto na indústria. Os desenvolvedores de cientistas de IA fazem questão de assegurar que sua intenção “não é substituir cientistas humanos, mas sim complementar e acelerar seu trabalho” . Esses produtos, portanto, devem ser supervisionados por um cientista qualificado que possa direcionar e verificar, de forma responsável, os resultados da IA.

Questionamos se essa visão pode se concretizar sem uma definição clara de como o cientista responsável pode desenvolver a expertise necessária para distinguir entre resultados bons e ruins da IA. Grande parte do entusiasmo pelas ferramentas de IA em toda a cadeia científica vem da promessa de aliviar a carga de trabalho. Mas muitas tarefas consideradas “pouco qualificadas” têm sido tradicionalmente pontos de partida importantes para cientistas em formação.

A limpeza de dados brutos ajuda os estagiários a compreender a diversidade e a qualidade dos dados; a pesquisa, a leitura e o resumo da literatura científica desenvolvem a percepção de quais áreas de pesquisa são densamente povoadas versus quais são escassas, e quais tipos de descobertas são comuns versus raras. Os cientistas seniores de hoje encontram-se na posição singular de terem sido treinados antes da ampla disponibilidade de ferramentas de IA, beneficiando-se, assim, de décadas de experiência prática que os estagiários atuais talvez nunca venham a desenvolver. Parte ou mesmo todo esse trabalho árduo pode não ser necessário para o desenvolvimento da expertise que os cientistas seniores de hoje possuem. Mas é uma aposta arriscada presumir, de antemão, que esse será o caso.

Um caminho a seguir

Para lidar com esses riscos, defendemos políticas e práticas que apoiem a autoavaliação contínua nas comunidades científicas, de forma análoga à maneira como os ecologistas monitoram os ecossistemas em busca de sinais de danos.

Uma intervenção simples seria que editoras e financiadores exigissem mais transparência. Nos últimos anos, cientistas desenvolveram uma norma de divulgação do uso de IA em seus trabalhos. Este é um primeiro passo importante, mas a divulgação por si só obscurece a diversidade de razões para o uso de ferramentas de IA. Um pesquisador que não tem o inglês como língua materna pode usar um modelo de aprendizado de máquina para aprimorar a versão final de um artigo. Outro pode depender de modelos de aprendizado de máquina para trabalhar com grandes conjuntos de dados que seriam inviáveis ​​de analisar sem automação, ou mesmo para gerar uma revisão bibliográfica do zero dentro de um prazo apertado. Tratar todos esses usos como equivalentes obscurece suas diferentes implicações para o trabalho científico, o julgamento e a responsabilidade.

Exigimos mais transparência não apenas no uso de ferramentas de IA na ciência, mas também nas razões por trás de seu uso. Assim como não podemos confiar em descobertas científicas sem métodos descritos de forma transparente e justificativas para esses métodos, não podemos confiar em ferramentas de IA na ciência sem mais informações sobre como e por que elas estão sendo usadas. Como ocorre com outras novas técnicas e tecnologias, o diálogo entre revisores e autores estabelecerá novas normas.

Essa troca só pode ocorrer com explicações e justificativas mais explícitas, além da mera divulgação. Tais informações poderiam, em última análise, servir como fonte de dados para projetos de metaciência que avaliam a conexão entre as diversas justificativas para o uso de IA e a robustez das descobertas resultantes. Se os cientistas que utilizam produtos de IA em seu trabalho desejam conectar os ganhos de produtividade aos ganhos de compreensão, a divulgação com explicações pode ser um primeiro passo para atingir esse objetivo.

Um conjunto mais complexo de questões diz respeito a como devemos treinar os futuros cientistas e certificar sua competência em cada etapa. Os pesquisadores principais precisam considerar o quanto podem confiar que seus orientandos usarão ferramentas de IA de forma responsável, e os programas de pós-graduação precisam discutir políticas para o uso de mestrados em direito (LLM) em exames de qualificação e dissertações.

Quais habilidades elementares pesquisadores em início de carreira devem adquirir para garantir que se tornem cientistas responsáveis, independentemente dos futuros desenvolvimentos tecnológicos? A resposta a essa pergunta varia de acordo com a disciplina. Por exemplo, alguns pesquisadores das ciências humanas estão entusiasmados com o uso de modelos de aprendizagem baseados em linguagem (LLMs) para automatizar entrevistas e a análise de dados qualitativos, enquanto outros argumentam que a leitura e a análise desses dados são cruciais para a compreensão das experiências dos participantes humanos, indo além de resumos quantitativos. Os cientistas devem promover debates abrangentes sobre o assunto agora, em vez de presumir, sem evidências, que a automatização do trabalho inicial não influenciará a expertise de futuros colegas.

Ao navegarmos por esta nova fase da produção de conhecimento, devemos lembrar que os objetivos da indústria não são os mesmos da ciência. A ciência acadêmica não se resume à produtividade; ela também busca a compreensão profunda, a exploração de soluções criativas e a formação de pensadores críticos para serem a próxima geração de pesquisadores. Chegou a hora de a comunidade científica avaliar se os produtos de IA auxiliam ou dificultam esses esforços.

Nature 653 , 675-676 (2026)

doi: https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.1038/d41586-026-01557-x


Fonte: Nature

Pequenos fragmentos florestais isolados são importantes para a preservação das populações de aves

florestas isoladas 1Pequenos remanescentes florestais são frequentemente considerados marginais, mas seu valor pode aumentar se as paisagens circundantes forem menos áridas e a cobertura arbórea próxima for mantida ou restaurada. Crédito da imagem: Alexandre C. Lees.

Por  Rodrigo de Oliveira Andrade para “scidev.net” 

[SÃO PAULO, SciDev.Net] Os pequenos fragmentos florestais que restam após a exploração madeireira e o avanço da agricultura ou a criação de reservatórios hidrelétricos podem ajudar a proteger mais espécies de aves do que se imagina, especialmente quando seu ambiente imediato é menos hostil e abundante em cobertura arbórea.

A conclusão desafia uma premissa ecológica amplamente aceita: a de que remanescentes florestais menores e mais isolados tendem a abrigar poucas espécies e geralmente são considerados de baixo valor para a conservação da biodiversidade. Ela deriva de um estudo publicado recentemente na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Além disso, a pesquisa se destaca porque “fornece evidências convincentes de que o valor ecológico de um remanescente florestal não pode ser compreendido apenas por sua área de superfície”, disse o ecologista Juan Pablo Ramírez-Delgado, pesquisador da Universidade do Norte da Colúmbia Britânica, Canadá, em um comentário sobre o estudo publicado na mesma revista em 11 de maio.

O trabalho original combinou dados de pesquisas sobre aves em escala de paisagem em regiões tropicais e subtropicais da América Latina, África e Ásia com imagens de satélite da cobertura arbórea ao redor de fragmentos florestais para medir até que ponto um ambiente com maior cobertura florestal pode atenuar o risco de extinção de espécies locais.

Realizada por 58 cientistas de 19 países, a pesquisa comparou dois tipos de remanescentes florestais: ilhas florestais criadas por reservatórios hidrelétricos — consideradas uma das formas mais extremas de fragmentação de habitat — e fragmentos florestais terrestres, geralmente formados por desmatamento e cercados por áreas agrícolas.

Ilhas florestais são uma das formas mais extremas de fragmentação de habitat. Crédito da imagem: Anderson Saldanha Bueno.

“Como as ilhas representam o cenário mais extremo de isolamento, pudemos avaliar como a melhoria da paisagem circundante influencia o número de espécies de aves em fragmentos florestais”, disse ao SciDev.Net o biólogo Anderson Saldanha Bueno, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, Rio Grande do Sul, Brasil, e principal autor do estudo publicado na PNAS .

No total, foram analisados ​​mais de 1.000 remanescentes florestais — 336 ilhas florestais e 669 fragmentos terrestres — e cerca de 2.000 espécies de aves. Entre elas, cinco espécies estão criticamente em perigo, 12 em perigo, 44 ​​vulneráveis, 83 quase ameaçadas e 1.810 classificadas como de menor preocupação.

A pesquisa descobriu que o que acontece fora do fragmento — na chamada paisagem circundante — pode influenciar decisivamente a persistência e o número de espécies de aves que o habitam.

Em particular, fragmentos florestais rodeados por áreas agrícolas apresentam taxas de extinção de aves mais baixas em comparação com fragmentos do mesmo tamanho localizados em ilhas formadas por barragens ou reservatórios.

“O número de espécies de aves em remanescentes florestais de até um hectare pode mais que dobrar quando o ambiente imediato é composto por áreas terrestres com um número maior de árvores.”

Anderson Saldanha Bueno, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, Rio Grande do Sul, Brasil

E as perdas de espécies associadas à redução da área — um indicador conhecido pelos ecologistas como relação espécie-área — foram menores tanto em ilhas quanto em fragmentos terrestres quando outros fragmentos florestais estavam próximos, em um raio de até 300 metros.

“O número de espécies de aves em remanescentes florestais de até um hectare pode mais que dobrar quando o ambiente imediato é composto por áreas terrestres com um número maior de árvores”, acrescentou Bueno.

“Em outras palavras, aumentar o número de árvores em apenas 300 metros ao redor de um fragmento reduz significativamente a taxa de extinções locais, especialmente entre as aves dependentes da floresta”, explicou ele.

Segundo Bueno, o número de aves pode duplicar quando o ambiente imediato consiste em áreas terrestres com maior número de árvores. Crédito da imagem: Luis Fábio Silveira.

Segundo o pesquisador, isso ocorre porque as árvores próximas facilitam a movimentação das aves entre os fragmentos e oferecem alimento e abrigo, reduzindo o isolamento das populações.

“A proteção de florestas extensas e intactas continua sendo essencial, mas as descobertas indicam que os esforços de conservação devem ir além”, observou Ramírez-Delgado em seu comentário na PNAS .

“Medidas como o reflorestamento em áreas próximas aos remanescentes, o plantio ou a preservação de árvores dispersas e a promoção de mosaicos agrícolas mais complexos podem contribuir para reduzir o risco de extinção local”, acrescentou.

“O que distingue este estudo é a força, a escala e a clareza da comparação. Em vez de se concentrarem em ilhas oceânicas, os autores usam ilhas de reservatório como um raro experimento natural para explorar como o contexto da paisagem influencia a biodiversidade após a fragmentação”, acrescentou.

Para a bióloga Eliana Cazetta, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz, Bahia, Brasil, que não participou do estudo publicado na PNAS , a conclusão é importante para a conservação. “Nem todas as soluções dependem da expansão de áreas protegidas”, disse ela à SciDev.Net . “A melhoria do ambiente imediato de fragmentos florestais existentes também pode contribuir para a redução da perda de biodiversidade.”

Segundo ela, isso pode ser alcançado por meio do plantio de árvores, da restauração da vegetação degradada e da conexão de fragmentos florestais, como reservas legais e áreas de preservação permanente. “Dessa forma, é possível aumentar substancialmente o número de espécies sem expandir a área total de floresta remanescente.”

“Em vez de ignorarmos os pequenos fragmentos florestais, precisamos reconhecê-los como peças-chave para a conservação da biodiversidade”, conclui Bueno.


Fonte:  SciDev.Net

Os “Doze Sujos” e a geopolítica do veneno: como o sistema alimentar global normalizou a contaminação cotidiana

Novo relatório sobre resíduos de agrotóxicos revela mais do que um problema sanitário: expõe um modelo agrícola dependente de químicos, cadeias globais de exportação e a captura corporativa da alimentação 

Durante décadas, o capitalismo agrícola vendeu ao mundo a promessa de abundância. A chamada “revolução verde” transformou sementes em mercadorias patenteadas, fertilizantes em instrumentos de dependência econômica e agrotóxicos em condição estrutural da produção em larga escala. Agora, um novo relatório divulgado nos EUA reacende uma pergunta incômoda: o que exatamente estamos colocando no prato?

O levantamento anual conhecido como Dirty Dozen (“Doze Sujos”), produzido a partir de dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e divulgado pelo Environmental Working Group (EWG), identificou níveis elevados de resíduos de agrotóxicos em alimentos consumidos diariamente, mesmo após lavagem doméstica. Espinafre, morango e uva lideram a lista de produtos com maior contaminação química detectada em 2026. 

Mais de 54 mil amostras de frutas e legumes foram analisadas. O resultado impressiona não apenas pela escala, mas pela persistência dos contaminantes: 264 agrotóxicos diferentes foram encontrados nos alimentos avaliados. Em muitos casos, quatro ou mais substâncias químicas apareciam simultaneamente na mesma amostra.  

O dado mais perturbador talvez seja outro: os resíduos permaneceram presentes mesmo após processos de higienização semelhantes aos realizados em cozinhas domésticas. Isso significa que a contaminação não está apenas na superfície dos alimentos. Ela penetra o próprio sistema alimentar industrializado. A lista dos “Doze Sujos” inclui ainda nectarinas, pêssegos, cerejas, maçãs, amoras, peras, batatas e mirtilos. Muitos desses produtos possuem cascas finas ou elevada sensibilidade a fungos e insetos, o que leva ao uso intensivo de agrotóxicos durante o cultivo.  

Mas o debate não pode ser reduzido a uma simples recomendação individual de “lavar melhor os alimentos” ou “consumir orgânicos”. O que está em jogo é um modelo agrícola profundamente subordinado às grandes corporações químicas e ao imperativo da produtividade permanente.

Desde os anos 1990, a agricultura global passou por um processo radical de financeirização e concentração empresarial. Poucas multinacionais controlam sementes, agrotóxicos, fertilizantes e sistemas logísticos. Nesse arranjo, o agricultor torna-se dependente de pacotes tecnológicos completos — frequentemente incompatíveis com práticas agroecológicas ou sistemas biodiversos. O resultado é uma agricultura que produz commodities em escala planetária, mas também produz contaminação difusa, degradação ambiental e exposição química permanente.

Os impactos sobre a saúde humana já não pertencem apenas ao campo das hipóteses. Estudos anteriores relacionaram a exposição prolongada a agrotóxicos a problemas hormonais, infertilidade masculina, alterações neurológicas, cânceres e doenças cardiovasculares. Crianças e fetos aparecem entre os grupos mais vulneráveis. A própria American Academy of Pediatrics alerta para riscos como baixo peso ao nascer, dificuldades de aprendizagem e problemas de desenvolvimento cognitivo.  

O relatório também menciona a presença de PFAS — os chamados “químicos eternos” — substâncias extremamente persistentes no ambiente e associadas a múltiplos efeitos tóxicos.  

No Sul Global, entretanto, o problema ganha contornos ainda mais dramáticos. Países exportadores de commodities agrícolas frequentemente flexibilizam regulações ambientais para manter competitividade nos mercados internacionais. O Brasil tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos dessa dinâmica. Nos últimos anos, o nosso país ampliou autorizações para novos agrotóxicos e consolidou uma das maiores dependências químicas do planeta. Enquanto o agronegócio se apresenta como símbolo de modernização econômica, amplia-se silenciosamente a exposição populacional a substâncias potencialmente perigosas — especialmente entre trabalhadores rurais, populações periféricas e consumidores de baixa renda, que raramente têm acesso regular a alimentos orgânicos.

Nas redes sociais e fóruns online, cresce a percepção de que o atual modelo agroexportador produz riqueza concentrada, mas socializa riscos ambientais e sanitários. Em discussões públicas recentes, usuários brasileiros relacionam diretamente a expansão do agronegócio à intensificação do uso de agrotóxicos e à fragilidade dos mecanismos de controle estatal. 

Existe, portanto, uma dimensão política central nesse debate. O problema dos agrotóxicos não decorre apenas de “falhas” regulatórias. Ele nasce da lógica estrutural de um sistema alimentar organizado para maximizar produtividade, padronização e lucro corporativo, mesmo às custas da saúde coletiva e da integridade ecológica.

A retórica dominante insiste em apresentar os agrotóxicos como um “mal necessário” para alimentar o mundo. Contudo, essa narrativa omite que boa parte da produção agrícola global não se destina diretamente à alimentação humana, mas à exportação de commodities, produção de ração animal e cadeias industriais altamente concentradas.

Os “Doze Sujos” revelam, assim, algo maior que uma lista de alimentos contaminados. Eles expõem o paradoxo central da agricultura contemporânea: um sistema capaz de produzir abundância material sem garantir segurança alimentar real.

No centro desse modelo, a comida deixa de ser direito e transforma-se em plataforma de acumulação financeira. O alimento torna-se mercadoria química. E o consumidor, um sujeito permanentemente exposto a riscos invisíveis normalizados pela rotina.

Talvez a pergunta mais importante não seja quais frutas possuem mais agrotóxicos. A questão decisiva é por que aceitamos como inevitável um sistema alimentar baseado em contaminação crônica, dependência química e degradação ambiental em larga escala.

A China muda de rumo — e o Brasil insiste no atraso

Enquanto Pequim investe em soberania alimentar, biotecnologia e proteínas alternativas, o Brasil aprofunda sua dependência da exportação de commodities agrícolas

Durante décadas, a relação econômica entre Brasil e China foi apresentada como uma parceria estratégica quase perfeita. O Brasil exportaria commodities agrícolas e minerais; a China compraria em volumes crescentes para alimentar sua industrialização, urbanização e ascensão de sua classe média. A soja tornou-se o símbolo máximo desse pacto silencioso. Mas um artigo escrito pelo professor da USP, Ricardo Abramovay, publicado pelo Valor Econômico, chama atenção para uma mudança estrutural que pode redefinir profundamente essa relação: Pequim está buscando reduzir sua dependência externa de proteínas vegetais — especialmente aquelas produzidas nas Américas.

O alerta é sério porque toca justamente no coração do modelo agroexportador brasileiro. Desde os anos 2000, boa parte da expansão da fronteira agrícola brasileira foi impulsionada pela demanda chinesa por soja destinada à alimentação animal, sobretudo de suínos e aves. O crescimento do agronegócio brasileiro passou então a depender não apenas da produtividade agrícola, mas também da continuidade quase infinita do apetite chinês por ração animal.

Agora, porém, a lógica começa a mudar.  A China vem investindo pesadamente em novas tecnologias alimentares, biotecnologia, fermentação de precisão, proteínas alternativas e substituição parcial de insumos importados. O objetivo é estratégico: ampliar sua segurança alimentar e reduzir vulnerabilidades externas num cenário internacional marcado por guerras comerciais, instabilidade geopolítica e crise climática. Essa transição não significa que Pequim deixará de importar soja amanhã. Mas significa algo talvez mais importante: o atual padrão de crescimento das exportações brasileiras pode ter chegado ao seu teto histórico.

O grande problema é que o Brasil parece continuar apostando exatamente no modelo que a China tenta superar. Enquanto Pequim direciona recursos para inovação científica, agregação tecnológica e sistemas alimentares mais sofisticados, o Brasil segue aprofundando sua especialização em commodities primárias de baixo valor agregado. A consequência é um risco crescente de descompasso estrutural entre os dois países.

Ricardo Abramavoy sugere em seu artigo que a grande ameaça para o Brasil não é simplesmente econômica, mas civilizatória. O país continua expandindo áreas agrícolas, pressionando biomas estratégicos como Cerrado e Amazônia, enquanto o mercado internacional começa lentamente a questionar os custos ambientais desse modelo. Ao mesmo tempo, os setores mais dinâmicos da economia global caminham para produtos intensivos em conhecimento, inovação biológica e sustentabilidade.

Há uma ironia importante nesse processo. O Brasil possui algumas das maiores capacidades científicas do mundo tropical: biodiversidade incomparável, centros avançados de pesquisa agropecuária, universidades públicas relevantes e condições excepcionais para liderar uma nova economia da bioinovação. No entanto, insiste em ocupar um papel subordinado na divisão internacional do trabalho, exportando matéria-prima e importando tecnologia.

A mudança chinesa deveria funcionar como um sinal de alerta estratégico. Se o principal comprador global de proteínas vegetais começa a buscar autonomia tecnológica e alimentar, países altamente dependentes desse mercado precisam rever urgentemente suas estratégias de desenvolvimento.

A questão central não é apenas “quanto soja o Brasil conseguirá vender no futuro”, mas qual será o lugar do país numa economia global cada vez mais baseada em ciência, inovação e sustentabilidade.

Datacenters estão se tornando o mais novo vilão político nos EUA

Novas pesquisas projetam que os custos de eletricidade no atacado nos EUA podem subir até 29% até o final da década, alimentando uma crise política crescente para o setor

Por Cris Tolomia para “Quartz” 

A frustração dos estadunidenses com a inteligência artificial está se transformando em oposição política organizada, impulsionada em grande parte pela raiva em relação aos custos de eletricidade ligados à rápida expansão de centros de dados em todo o país.

Uma pesquisa da Gallup divulgada na semana passada revelou que aproximadamente 70% dos estadunidesnes se oporiam à construção de um centro de dados de Inteligência Artificial (IA) em suas comunidades, citando preocupações com a sobrecarga nos recursos energéticos locais e a possibilidade de contas de luz mais altas como suas principais objeções. Uma pesquisa da YouGov e da Economist, realizada no mesmo período, mostrou que a maioria dos americanos acredita que o ritmo do desenvolvimento da IA ​​está ultrapassando a capacidade da sociedade de gerenciá-lo e que a tecnologia não trará benefícios econômicos significativos para as pessoas comuns.

A reação negativa já está remodelando a política local. A oposição da comunidade paralisou ou interrompeu 48 projetos, representando mais de US$ 156 bilhões em construções planejadas somente no ano passado, de acordo com dados da Data Center Watch citados pela Fortune .

Por trás dessa resistência, existe uma preocupação financeira concreta. Novas descobertas publicadas na revista Environmental Research Letters mostraram que a participação dos data centers na demanda nacional de energia mais que dobrou, passando de 1,9% para 4,4%, no período de cinco anos que termina em 2023. Dependendo da trajetória de crescimento dos data centers, essa mesma pesquisa estima que os preços da eletricidade no atacado em todo o país podem aumentar de 6% a 29% até o final da década. Na Virgínia, um polo de construção de data centers, os custos de geração podem subir até 57%.

Jeremiah Johnson, professor associado de engenharia civil e ambiental da Universidade Estadual da Carolina do Norte e principal autor do estudo, afirmou que a escala do crescimento da demanda não tem precedentes recentes no setor de energia. “O desafio aqui é que a magnitude dessa demanda de que estamos falando é realmente grande. Ela está em uma escala que supera em muito algumas das outras mudanças que vivenciamos no setor de energia nos últimos anos”, disse Johnson à Fortune.

A modelagem do estudo indica que os fornecedores de energia dependeriam substancialmente do gás natural, ao mesmo tempo que reativariam instalações de carvão ociosas, uma combinação que, segundo estimativas dos pesquisadores, poderia aumentar as emissões de dióxido de carbono do setor elétrico em até 28% antes do final da década. Sem subsídios federais para energia limpa na escala daqueles fornecidos pela Lei de Redução da Inflação — incentivos que o Congresso revogou em grande parte este ano —, o estudo constatou que o gás natural absorveria cerca de 70% do aumento da carga de geração, com o carvão, a energia eólica e a solar respondendo pelo restante.

As consequências políticas do aumento das contas de luz já tiveram um grande impacto no resultado de uma eleição . O democrata John McAuliff, ex-conselheiro climático da Casa Branca, derrotou um deputado republicano na Assembleia Legislativa da Virgínia no ano passado, atribuindo sua vitória apertada, em parte, à frustração dos eleitores com os custos de energia elétrica, ligados à concentração de data centers no Condado de Loudoun. Os legisladores da Virgínia agora estão analisando um projeto de lei que transferiria certos custos de conexão à rede elétrica de clientes residenciais para usuários de alto consumo, como data centers.

A viabilidade econômica dos data centers também tem sido questionada. A Virgínia deixou de arrecadar mais de US$ 1,6 bilhão em impostos no ano fiscal de 2025 devido às isenções fiscais para data centers, enquanto o setor gerou 1.610 empregos no mesmo período — um custo de cerca de US$ 1,2 milhão por novo emprego, segundo a VPM.

A indústria está respondendo com investimentos. Empresas de IA, incluindo Anthropic, OpenAI e Meta $META-1,41% Estão destinando pelo menos US$ 150 milhões para eleições estaduais e federais este ano por meio de organizações políticas e prometeram absorver uma parcela maior de seus custos com eletricidade, a pedido do presidente Donald Trump.


Fonte: Quartz

A incorporação sem projeto: os riscos da absorção do Antônio Sarlo pela Uenf

Enquanto docentes acumulam sobrecarga e perdas salariais históricas, a Uenf assume novas funções sem apresentar um projeto claro de integração do Antônio Sarlo nem definir quem conduzirá a transição institucional 

O anúncio de que a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) assumirá a gestão do Colégio Técnico Estadual Antônio Sarlo foi apresentado pela reitoria como um “marco histórico” para a educação do Norte Fluminense. Mas, por trás da retórica triunfalista da notícia oficial, permanecem questões fundamentais sem resposta — e justamente as mais importantes para o futuro da própria Uenf e da escola incorporada.

A primeira delas é a ausência de um projeto institucional claro. O texto publicado pela universidade celebra a incorporação como um fim em si mesmo, mas praticamente não explica como essa absorção será operacionalizada nem de que maneira o Antônio Sarlo será integrado às atividades já desenvolvidas pela Uenf. Isso é especialmente grave porque a universidade possui uma estrutura fortemente baseada na articulação entre ensino, pesquisa e extensão, sobretudo através do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA).

A questão central, portanto, não é simplesmente “assumir” uma escola agrícola, mas definir qual será sua função dentro do projeto universitário. O Antônio Sarlo será apenas um colégio técnico administrado burocraticamente pela Uenf? Ou será transformado em escola de aplicação, espaço de formação integrada, laboratório de inovação agroecológica e extensão rural, articulado aos cursos de Agronomia, Zootecnia, Veterinária e licenciaturas? O silêncio da administração universitária sobre isso é eloquente.

Esse vazio estratégico chama ainda mais atenção porque o debate sobre a incorporação já se arrasta há muitos anos. Desde pelo menos 2011 discutia-se a possibilidade de anexar o Antônio Sarlo à estrutura universitária, inclusive com expectativas de transformá-lo em uma escola de aplicação vinculada à Uenf. No entanto, mais de uma década depois, continua nebuloso qual modelo acadêmico e administrativo efetivamente se pretende construir.

Outro aspecto preocupante é a forma pouco democrática com que o processo vem sendo conduzido. Uma decisão dessa magnitude deveria passar por amplo debate interno envolvendo centros, colegiados, sindicatos, técnicos, estudantes e docentes. Afinal, incorporar uma instituição de ensino básico e técnico modifica profundamente a natureza administrativa, pedagógica e financeira da universidade. Porém,  essa discussão foi restrita a pequenos círculos decisórios, sem a construção de um consenso real dentro da comunidade universitária.  Lembro ainda que quando esta questão foi discutida no Conselho Universitário, fui um dos poucos a problematizar as consequências dessa assimilação.

Isso produz uma sensação perigosa de fato consumado. A universidade é chamada a absorver novas responsabilidades sem que se saiba claramente quais serão os impactos orçamentários, administrativos e acadêmicos dessa decisão. Quem coordenará a transição? Qual estrutura administrativa será criada? Haverá orçamento adicional? Haverá contratação de professores doutores para realizar a transição? Quais setores assumirão as demandas pedagógicas e burocráticas? O texto oficial praticamente ignora essas perguntas.

A indefinição é particularmente séria porque a Uenf já enfrenta um quadro estrutural de sobrecarga funcional. Ao longo dos últimos anos, a universidade viu reduzir seu quadro técnico e docente sem reposição adequada, enquanto as exigências institucionais cresceram continuamente. Os professores acumulam ensino, orientação, pesquisa, extensão, administração e captação de recursos em condições cada vez mais precárias. Nesse contexto, a incorporação de uma nova estrutura educacional exige planejamento robusto — algo que não aparece no discurso institucional.

Além disso, há o problema da corrosão salarial. Os docentes da Uenf convivem há anos com perdas inflacionárias massivas,  estimadas pelo DIEESE como estando em torno de 60% até  o início deste mês, o que produz desmotivação, evasão de quadros qualificados e deterioração das condições de trabalho. Nesse cenário, soa contraditório que o governo estadual e a  reitoria da Uenf apresentem a expansão de responsabilidades como sinal de fortalecimento institucional, enquanto a própria universidade  continua sem um novo Plano de Cargos de Vencimentos e pagando salários baixos.

Existe aí uma contradição típica das políticas públicas contemporâneas: amplia-se a missão institucional sem ampliar proporcionalmente os meios materiais para executá-la. A expansão aparece como símbolo político de dinamismo administrativo, mas pode acabar aprofundando a precarização cotidiana dos trabalhadores responsáveis por sustentar a universidade.

Isso não significa negar a importância histórica do Antônio Sarlo. Ao contrário. A escola possui enorme relevância regional, trajetória histórica consolidada e potencial extraordinário para fortalecer a formação agrícola e tecnológica do Norte Fluminense. O problema é que esse potencial somente poderá ser realizado se houver um verdadeiro projeto acadêmico e social de integração, e não apenas uma transferência administrativa.

Uma incorporação conduzida sem planejamento, sem participação democrática e sem recomposição estrutural da universidade corre o risco de produzir um resultado perverso: fragilizar simultaneamente o Antônio Sarlo e a própria Uenf. Em vez de criar um polo articulado de formação técnica, pesquisa aplicada e extensão rural, pode-se acabar construindo apenas mais uma estrutura precarizada sustentada pelo voluntarismo e pela sobrecarga de servidores já exaustos.

No fundo, a questão central talvez seja esta: a incorporação do Antônio Sarlo servirá para fortalecer o projeto original de universidade concebido por Darcy Ribeiro — integrado ao desenvolvimento regional e à transformação social — ou será apenas mais um movimento administrativo improvisado em meio à crise permanente do ensino público fluminense? Hoje, infelizmente, os sinais apontam mais para a segunda hipótese do que para a primeira.

MPF reúne moradores, movimentos sociais e autoridades em audiência sobre o projeto Praça Onze Maravilha no Rio

Debate sobre projeto de lei que requalifica área central da cidade expõe preocupações com gentrificação e falta de participação social nas mudanças urbanísticas previstas

Foto mostra o auditório cheio de pessoas acompanhando a audiência. Ao fundo a mesa de debatedores

Fonte: MPF 

Por Procuradoria da República no Rio de Janeiro

O Ministério Público Federal (MPF) realizou, nesta segunda-feira (18), uma audiência pública para discutir o Projeto de Lei Complementar (PLC) nº 92/2025, conhecido como Praça Onze Maravilha ou Reviver Centro 2. O projeto prevê a criação da Área de Especial Interesse Urbanístico (AEIU) da Praça XI, no centro do Rio de Janeiro.

O encontro reuniu representantes da Defensoria Pública, Câmara Municipal, prefeitura, movimentos sociais, moradores e especialistas para debater os impactos urbanísticos, sociais, culturais e habitacionais da proposta.

Organizada pelo MPF, a audiência ocorreu em meio à tramitação do projeto na Câmara Municipal, já aprovado em primeiro turno e atualmente em fase de discussão de emendas. Após as exposições da mesa, mais de 20 pessoas da sociedade civil fizeram intervenções, entre moradores, representantes de ocupações, coletivos culturais e movimentos urbanos.

Na abertura do encontro, o procurador regional dos Direitos do Cidadão adjunto Julio Araujo afirmou que o MPF decidiu promover o debate diante das preocupações relacionadas à falta de participação popular e aos possíveis impactos sociais da proposta. “Intervenções urbanas dessa magnitude exigem transparência, gestão democrática e ampla participação popular”, afirmou. Segundo ele, o órgão identificou “problemas no projeto a partir de uma leitura inicial, sobretudo a falta de participação na sua elaboração e também na condução do processo legislativo”.

Julio Araujo também ressaltou que o prefeito do Rio, Eduardo Cavalieri, foi convidado, mas não respondeu ao convite. Já o presidente da Câmara Municipal, Carlos Caiado, informou que não poderia comparecer e indicou a vereadora Tainá de Paula para representar a Mesa Diretora.

Requalificação urbana

 Subsecretário de Planejamento Urbano, Wanderson Corrêa apresentou os principais eixos do projeto de lei complementar. Segundo ele, a proposta busca requalificar a região da Praça Onze e integrar melhor o Sambódromo ao entorno urbano, além de estimular novos usos residenciais, culturais e econômicos na área.

Entre as intervenções previstas estão a demolição do elevado 31 de Março, a criação de novas habitações, implantação da chamada Biblioteca dos Saberes e flexibilizações urbanísticas voltadas à atração de investimentos imobiliários. O subsecretário afirmou que o projeto prevê mecanismos semelhantes aos utilizados no Reviver Centro e no Porto Maravilha, incluindo operações interligadas, incentivos fiscais e utilização de potencial construtivo adicional.

Wanderson Corrêa afirmou ainda que a prefeitura pretende destinar 3% dos recursos arrecadados para preservação do patrimônio histórico da região. “Esse é um processo que vem ocorrendo desde 2025”, declarou, ao citar audiências públicas e reuniões técnicas realizadas ao longo da tramitação do projeto.

Já o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Gustavo Guerrante, comparou o projeto à experiência do Porto Maravilha e defendeu que a revitalização pode trazer novos usos e valorização histórica à região. “A preocupação é legítima, evidentemente, mas a gente já tem uma escola”, afirmou. Segundo ele, a operação urbana na região portuária mostrou que grandes intervenções podem recuperar áreas degradadas e ampliar o uso cultural e residencial do território.

Guerrante também afirmou que o projeto não prevê desapropriações para criação de novos terrenos e negou que haja intenção de promover remoções. “Em momento algum a operação contou com áreas desapropriadas”, declarou.

Risco de ilegalidades

A coordenadora do Núcleo de Terras e Habitação (NUTH) da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, defensora Marília Farias, fez duras críticas ao texto do projeto e afirmou que a proposta apresenta incompatibilidades com o Estatuto da Cidade e com o plano diretor do município.

Segundo ela, o PLC ignora as Áreas de Especial Interesse Social (Aeis) existentes no território e não prevê mecanismos concretos de habitação de interesse social para garantir a permanência da população de baixa renda na região. “Quem vai permanecer no território? Não sabemos”, afirmou.

Marília Farias destacou que a região possui cerca de 19 Aeis e quase 100 ocupações acompanhadas pela Defensoria. “Estamos falando de mais de 2 mil famílias estabelecidas naquela poligonal”, declarou.

A defensora também criticou a ausência de estudos de impacto urbanístico e social relacionados à derrubada do elevado 31 de Março e às intervenções previstas. Segundo ela, o projeto ainda propõe alterações e revogações de dispositivos do Plano Diretor sem o mesmo nível de participação popular observado durante a revisão da legislação urbanística da cidade. “Está faltando transparência nesse processo legislativo”, afirmou.

Permanência da população

As vereadoras Tainá de Paula e Maíra do MST, ambas do PT, afirmaram que o projeto ainda está “em disputa” na Câmara Municipal e defenderam mudanças profundas no texto original.
Tainá de Paula afirmou que uma das principais preocupações é garantir que os recursos gerados pela valorização imobiliária sejam revertidos em habitação social, urbanização de favelas e infraestrutura verde. “A discussão da habitação de interesse social é algo que grita neste território”, afirmou.

Ela também alertou para o risco de bloqueio da paisagem urbana e criticou o excesso de potencial construtivo previsto no projeto. “É importante que a gente reduza o gabarito geral, que a gente abaixe literalmente o tom desse tanto de potencial construtivo”, declarou.

A vereadora defendeu ainda a criação de mecanismos permanentes de financiamento local para moradia popular. “O município do Rio de Janeiro precisa aprender a fazer moradia para pobre sem depender exclusivamente do governo federal”, afirmou.

Para além da moradia e dos equipamentos culturais como a Biblioteca dos Saberes, o debate técnico enfatizou a necessidade de diretrizes claras para a infraestrutura verde na região. A vereadora Tainá de Paula defendeu que parte dos recursos da valorização imobiliária seja obrigatoriamente destinada à criação de jardins de chuva e arborização, visando mitigar o impacto climático em uma área densamente pavimentada.

Complementarmente, a Defensoria Pública e representantes da Câmara questionaram a viabilidade da demolição do elevado 31 de Março sem a apresentação pública de um Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) detalhado e de simulações de tráfego, apontando que a ausência desses estudos técnicos compromete a transparência e a segurança urbanística do projeto.

Já a vereadora Maíra do MST afirmou que o debate sobre o projeto precisa considerar o histórico de remoções e apagamentos sofridos pela população negra da região da Pequena África. “Não é possível falar sobre revitalização porque o próprio termo acaba apagando a história, a memória e a vida de um território onde existe moradia pulsante”, disse.
Segundo ela, o projeto precisa ser tratado também como uma política de reparação histórica. “Quando a gente fala das pessoas, elas têm cor, têm classe social, têm CPF, têm gênero”, afirmou.

A parlamentar destacou que, em audiência anterior realizada no território, 19 das 23 falas da população abordaram o tema da moradia e da permanência. “O debate da moradia se tornou central para o projeto”, afirmou.

Falta de participação popular

Representando o Conselho Nacional das Cidades e a Central de Movimentos Populares (CMP), Marcelo Edmundo criticou a condução dos grandes projetos urbanos na cidade e afirmou que a participação popular tem sido tratada apenas como formalidade.

“Você fala, fala, se emociona, chora, e depois percebe que nada do que você falou ali foi encaminhado”, declarou. Para ele, projetos como o Porto Maravilha e o próprio PLC 92/2025 reproduzem uma lógica de exclusão da população pobre das áreas centrais da cidade.

Marcelo Edmundo também afirmou que a Praça XI representa um território fundamental da memória cultural e negra do Rio de Janeiro e criticou o histórico de intervenções urbanas sem participação efetiva da população local. “Qualquer debate sobre a Praça XI é um debate sobre sua história, sua cultura e sua importância para a cidade”, afirmou.

Atuação

 A audiência pública ocorreu poucos dias após o MPF divulgar análise técnica apontando irregularidades e omissões no PLC nº 92/2025. Em manifestação encaminhada à Câmara Municipal e à Secretaria de Patrimônio da União (SPU), o órgão alertou para riscos de gentrificação – a expulsão indireta de moradores vulneráveis – e ausência de mecanismos de controle social.

O MPF também demonstrou preocupação com os impactos do projeto sobre a região da Pequena África, considerada um dos principais territórios de memória da população negra no Rio de Janeiro. Segundo o órgão, qualquer intervenção urbanística na área deve respeitar o direito à reparação histórica e evitar novas formas de apagamento cultural. Ao final, o MPF informou que encaminhará uma síntese da audiência à Presidência da Câmara Municipal do Rio.

Assista à íntegra da audiência 


Fonte: Assessoria de Comunicação Social da Procuradoria da República no Rio de Janeiro

Quando o licenciamento ambiental falha: a ciência revela espécies ignoradas por estudo de mineração em Ouro Preto

Pesquisa científica encontrou dezenas de espécies vegetais ausentes no Estudo de Impacto Ambiental de um projeto minerário em Minas Gerais, incluindo plantas ameaçadas de extinção e microendêmicas dos Campos Rupestres

O artigo publicado por Livia Echternacht e colaboradores lança luz sobre um dos problemas mais graves — e menos debatidos — do licenciamento ambiental brasileiro: a baixa qualidade técnica dos levantamentos de biodiversidade que servem de base para autorizar grandes empreendimentos minerários. A pesquisa analisou o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) de um projeto de mineração de ferro na Serra de Ouro Preto, em Minas Gerais, e realizou uma espécie de “contraprova científica” independente para verificar se o inventário florístico apresentado pela consultoria ambiental realmente refletia a biodiversidade existente na área afetada.

Os resultados são alarmantes. Em apenas um único dia de trabalho de campo, os pesquisadores registraram 79 espécies vegetais nos Campos Rupestres da Serra de Ouro Preto, além de outras 14 espécies identificadas em coleções de herbários virtuais. Destas, 56 espécies — incluindo plantas ameaçadas de extinção e espécies microendêmicas — não apareciam no EIA apresentado no processo de licenciamento. Entre as espécies ignoradas estavam plantas classificadas como ameaçadas, além de uma espécie ainda em processo de formalização científica e restrita à região de Ouro Preto.

O estudo demonstra que as falhas não são apenas pontuais, mas estruturais. Embora a legislação brasileira exija a identificação de espécies raras, ameaçadas ou de valor científico e econômico, ela não estabelece protocolos metodológicos rigorosos para os levantamentos florísticos. Isso faz com que boa parte dos estudos ambientais seja conduzida com amostragem insuficiente, pouca profundidade taxonômica e, frequentemente, sem coleta adequada de espécimes para verificação posterior em herbários científicos. No caso analisado, os autores apontam que muitas identificações foram feitas apenas em campo ou por fotografias, sem a produção de material botânico testemunho, o que inviabiliza auditorias independentes e futuras revisões taxonômicas.

A pesquisa chama atenção especialmente para a fragilidade dos estudos realizados nos Campos Rupestres ferruginosos, ecossistemas extremamente biodiversos e ricos em espécies endêmicas, mas diretamente ameaçados pela expansão da mineração de ferro. Embora ocupem uma parcela muito pequena do território brasileiro, esses ambientes concentram uma parcela desproporcional da flora nacional e funcionam como verdadeiros laboratórios evolutivos naturais. A destruição dessas áreas implica não apenas perda de vegetação, mas também desaparecimento potencial de espécies únicas no planeta.

Os autores também criticam o uso de metodologias estatísticas que, embora apresentadas como tecnicamente sofisticadas, acabam mascarando a baixa representatividade das amostragens. No caso do EIA analisado, a área efetivamente estudada representava cerca de apenas 0,1% dos Campos Rupestres impactados pelo empreendimento. Para os pesquisadores, isso produz diagnósticos superficiais que privilegiam espécies comuns e subestimam justamente aquelas mais raras e vulneráveis aos impactos ambientais.

Mais do que uma crítica a um estudo específico, o artigo revela como o atual modelo de licenciamento ambiental frequentemente transforma a biodiversidade em mera formalidade burocrática. Sem fiscalização técnica robusta por parte do Estado e sob crescente pressão para acelerar aprovações de grandes projetos, estudos ambientais passam a funcionar mais como instrumentos de viabilização administrativa do que como mecanismos efetivos de proteção ecológica.

Nesse contexto, a pesquisa alerta que as recentes mudanças na legislação ambiental brasileira, especialmente a flexibilização das exigências para o licenciamento, tendem a aprofundar ainda mais esse quadro. Menos exigência de estudos detalhados significa maior risco de subnotificação de espécies ameaçadas, perda de conhecimento científico e destruição silenciosa de ecossistemas únicos. O caso da Serra de Ouro Preto mostra que, muitas vezes, a primeira etapa da degradação ambiental não começa com as máquinas sobre o território, mas com a produção incompleta — ou insuficiente — do conhecimento científico usado para autorizar sua destruição.

Greenwashing no prato: como a indústria global da carne e do leite usa promessas climáticas para maquiar sua pegada ambiental

Estudo internacional revela que gigantes globais da carne e dos laticínios multiplicam promessas climáticas vagas, metas sem comprovação científica e estratégias de marketing ambiental enquanto seguem ampliando suas emissões e operações

Um novo estudo publicado na revista científica PLOS Climate lança luz sobre uma prática cada vez mais sofisticada da indústria global da carne e dos laticínios: o uso massivo de discursos “verdes” para suavizar sua responsabilidade pela crise climática. A pesquisa assinada por Maya Bach e colaboradores analisou relatórios de sustentabilidade e sites das 33 maiores empresas do setor entre 2021 e 2024 e concluiu que a esmagadora maioria das alegações ambientais feitas por essas corporações pode ser classificada como greenwashing, ou seja, propaganda ambiental enganosa.

O estudo parte de um dado alarmante: a agropecuária animal responde por pelo menos 16,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, sendo uma das atividades humanas mais intensivas em carbono e metano. Ainda assim, as gigantes da carne e do leite vêm se apresentando como protagonistas da “transição sustentável”, apostando em metas climáticas ambiciosas, linguagem ecológica e compromissos de neutralidade de carbono.

Os pesquisadores identificaram 1.233 alegações ambientais feitas pelas empresas analisadas. Destas, 68% estavam relacionadas ao clima. Porém, o aspecto mais impressionante da pesquisa é outro: 98% dessas alegações continham indicadores de greenwashing.

Entre os exemplos encontrados estão promessas como “atingir neutralidade de carbono até 2030”, “restaurar bilhões de litros de água” ou “produzir leite climaticamente neutro até 2050”. O problema, segundo os autores, é que essas metas geralmente não vêm acompanhadas de planos concretos, cronogramas verificáveis ou evidências científicas robustas que comprovem sua viabilidade.

Das 1.233 alegações ambientais catalogadas, apenas 29% apresentavam algum tipo de evidência de suporte. E somente três alegações em todo o universo analisado estavam respaldadas por literatura científica revisada por pares. Isso significa que grande parte da narrativa ambiental do setor repousa sobre promessas vagas, estudos internos, projetos-piloto de pequena escala ou simples declarações institucionais.

O estudo mostra ainda que as empresas vêm adotando uma estratégia semelhante à utilizada historicamente pela indústria dos combustíveis fósseis: prometer metas futuras grandiosas enquanto continuam expandindo suas operações no presente.

Um dos casos mais emblemáticos é o da empresa brasileira JBS, maior empresa de carnes do mundo. A companhia anunciou que alcançaria “net zero” até 2040, mas foi alvo de um processo movido pela procuradora-geral de Nova York, que acusou a empresa de enganar consumidores ao divulgar uma meta sem apresentar um plano realista para cumpri-la.

Segundo os pesquisadores, muitas dessas metas dependem fortemente de compensações de carbono  (os chamados offsets) em vez de redução efetiva das emissões. Na prática, as empresas continuam operando modelos produtivos altamente poluentes enquanto apostam em mecanismos externos de compensação para justificar seus compromissos climáticos.

Outro ponto destacado pela pesquisa é o uso recorrente de iniciativas pontuais para construir uma imagem sustentável. Empresas divulgam instalação de painéis solares em uma única unidade, substituição de equipamentos mais eficientes ou pequenos projetos de agricultura regenerativa como se essas ações fossem capazes de transformar estruturalmente a cadeia produtiva.

O estudo cita, por exemplo, a Arla Foods, que promoveu um projeto-piloto de agricultura regenerativa em apenas 24 fazendas — uma fração ínfima de suas operações globais. Também são mencionadas iniciativas experimentais envolvendo vacas de “baixo metano” e aditivos alimentares para reduzir emissões, tecnologias ainda longe de aplicação em larga escala.

Na avaliação dos autores, esse tipo de comunicação cria a ilusão de progresso climático sem alterar o núcleo do problema: a própria expansão da produção industrial de carne e leite. Enquanto anunciam compromissos ambientais, empresas seguem ampliando frigoríficos, plantas industriais e mercados consumidores.

O artigo também chama atenção para o papel estratégico dos relatórios de sustentabilidade na manutenção da legitimidade social e financeira dessas corporações. Ao se apresentarem como agentes responsáveis e comprometidos com o clima, as empresas preservam apoio de investidores, consumidores e governos. Em alguns casos, essas promessas verdes ajudam inclusive na captação de recursos financeiros vinculados a metas ESG.

Para os pesquisadores, o greenwashing da indústria da carne representa um risco particularmente grave porque se trata de um dos setores mais poluentes do sistema alimentar global. Ao transmitir a ideia de que mudanças significativas já estão em curso, essas empresas podem atrasar políticas públicas mais rigorosas, desmobilizar pressão social e dificultar transformações profundas no sistema alimentar.

A principal conclusão do estudo é direta: a mudança climática tornou-se o principal eixo narrativo das estratégias de sustentabilidade da indústria da carne e dos laticínios, mas grande parte dessas promessas carece de transparência, comprovação científica e capacidade real de implementação. Em vez de enfrentar estruturalmente suas emissões, muitas corporações parecem investir prioritariamente em gestão de imagem ambiental.

Conflitos no campo e um punhado de histórias a lembrar

Em um acampamento rural, ouvindo histórias de resistência 

Por Ismael Machado para “Medium”

Há alguns dias a Comissão Pastoral da Terra (CPT), convocou a imprensa, como de hábito, para apresentar o relatório Conflitos no Campo Brasil. Fora de uma redação oficial há alguns meses, até me planejei a ir à sede da CNBB, aqui em Belém, mas outras demandas se impuseram. Ainda assim, passados alguns dias, debrucei-me sobre o material. Ele sempre é um documento precioso sobre os passos para onde o Brasil caminha em relação ao seu território campesino. Essa tarefa, uma das mais importantes vinculadas à Igreja no país vem de longe.

Desde 1985, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) sistematiza e publica anualmente o relatório, consolidando o que considero um dos mais importantes acervos sobre violência agrária e resistência no país. O balanço de 2025, embora aponte uma redução de 28% no número geral de conflitos em relação a 2024 (1.593 ocorrências), revela que a Amazônia permanece como um dos principais epicentros da violência no campo, concentrando disputas territoriais, conflitos pela água, trabalho escravo e assassinatos. Ou seja, num geral, talvez até possamos olhar o copo meio cheio, mas há muitos motivos para enxergar o copo meio vazio também.

O eixo Terra continua predominante, representando 75% das ocorrências. Maranhão, Pará e Rondônia, estados que integram total ou parcialmente a Amazônia Legal, figuram entre os que mais registraram violências. O Pará aparece como segundo estado com maior número de conflitos por terra (142 registros) e lidera os conflitos pela água (21 ocorrências), evidenciando a centralidade amazônica nas disputas envolvendo grilagem, invasões, contaminação por agrotóxicos e atuação de pistoleiros. Ainda que alguns indicadores tenham apresentado queda, o relatório alerta para possíveis subnotificações e para o refinamento das estratégias de intimidação por parte do agronegócio e de empreendimentos ligados ao agro-hidro-minero-negócio.

A Amazônia também se destaca no perfil das vítimas. Povos indígenas foram a categoria que mais sofreu violências no ‘eixo terra’ (258 ocorrências) e também lideram os conflitos pela água (42 registros). Quilombolas, ribeirinhos e posseiros, grupos historicamente vinculados aos territórios amazônicos, aparecem entre os mais atingidos. Há, certamente, o impacto do garimpo ilegal e da contaminação por mercúrio nos rios amazônicos, afetando inclusive a saúde de mulheres e crianças. O que sabemos aponta não apenas a devastação ambiental, mas a ruptura de modos de vida estruturados em torno das águas e florestas.

No campo da violência letal, a Amazônia Legal concentrou 16 dos 26 assassinatos registrados em 2025. Pará e Rondônia lideraram os casos, incluindo dois massacres ocorridos nesses estados. O dado evidencia que, apesar da redução global de conflitos, a letalidade aumentou, indicando maior intensidade e brutalidade nas disputas territoriais amazônicas. Já morei em Rondônia. Sei como funciona o pensamento local sobre o território e sobre a floresta. Ele não entusiasma quem acredita em outra maneira de pensar desenvolvimento. Não à toa, apesar das vozes e ações resistentes, é um dos estados que mais apoia o pensamento destrutivo de quem esteve no comando do país entre 2019 e 2022.

Os conflitos pela água, ainda que tenham diminuído numericamente (148 ocorrências), continuam fortemente associados à realidade amazônica. A atuação de mineradoras, garimpeiros e usinas hidrelétricas impacta diretamente rios e lençóis freáticos, comprometendo o acesso à água por comunidades tradicionais. Na Amazônia, onde o território é indissociável dos cursos d’água, esses conflitos assumem dimensão estrutural, envolvendo tanto a poluição quanto a apropriação privada dos bens comuns.

O relatório também registra crescimento nas violências por omissão e conivência do poder público (224 ocorrências), muitas relacionadas à não demarcação de terras indígenas e à não titulação de territórios quilombolas, impasses que incidem fortemente sobre a região amazônica, onde a regularização fundiária é historicamente marcada por conflitos, grilagem e sobreposição de interesses econômicos.

No que se refere ao trabalho escravo rural, embora os maiores números absolutos apareçam em estados como Mato Grosso e Minas Gerais, atividades predominantes na região Norte, como pecuária e mineração, continuam figurando entre os setores com trabalhadores resgatados. Isso reforça a ligação entre expansão predatória da fronteira econômica amazônica e degradação das condições de trabalho.

Por fim, o relatório destaca que, paralelamente à violência, persistem ações de resistência. Povos indígenas amazônicos tiveram presença expressiva nas mobilizações contra o chamado “PL da Devastação”, contra o Marco Temporal e diante de grandes empreendimentos de infraestrutura e energia. A fala de lideranças do Pará sintetiza o sentido político da publicação. Ao registrar conflitos se rompe o silêncio histórico imposto às populações da floresta e afirmamos a memória dos que tombaram.

Assim, mesmo diante da redução estatística geral, o panorama de 2025 confirma que a Amazônia permanece como território estratégico e tensionado, onde se cruzam interesses do agronegócio, mineração, grandes obras e políticas fundiárias, em confronto direto com povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e trabalhadores rurais. O relatório da CPT evidencia que a questão amazônica não é periférica no cenário dos conflitos agrários brasileiros. Na verdade, ela constitui seu núcleo mais sensível e explosivo, onde se articulam devastação ambiental, violência estrutural e resistência coletiva.

Particularmente, o tema sempre me foi transversal. Como repórter de campo, testemunhei fatos correlacionados, ouvi histórias de quem foi atravessado por essa violência e tentei transformar estatística em relatos de carne e osso.

Anos atrás, percorri, primeiro como correspondente de O Globo e depois como repórter especial do Diário do Pará, as estradas do Sul e Sudeste paraense para contar histórias de assassinatos que, embora noticiados como casos isolados, revelavam uma engrenagem persistente de pistolagem, disputas fundiárias e silenciamento. Atravessei trechos de chão batido e estradas mal pavimentadas entre Rio Maria, Xinguara, Marabá, Parauapebas, Itupiranga, Bom Jesus do Tocantins, Nova Ipixuna e São Félix do Xingu, por exemplo. O que encontrei não foi apenas uma sucessão de mortes por encomenda, mas um mapa de ausências e, sobretudo, a permanência das mulheres que ficaram. Esse era um ponto central nisso tudo. Não à toa, uma série de reportagens minha numa parceria entre a Agência Pública e o Diário do Pará se tornou a primeira a dar um prêmio jornalístico à Pública. Chamava-se ‘Marcadas para morrer’. Não ganhou o Esso porque os avaliadores não souberam como classificá-la entre impresso e online, como eram divididas as categorias antes. Isso foi explicado pela coordenação do prêmio à Marina Amaral e Natália Viana, as fundadoras da Pública.

Naquele período (antes e depois), ouvi o pessoal da Comissão Pastoral da Terra, professoras, viúvas, filhas e netas de gente assassinada. Essas vozes relatavam como, depois da emboscada fatal, não restava apenas o luto, mas também a reorganização forçada da vida material, a exposição a novas ameaças e a travessia solitária pelos corredores das delegacias, fóruns e tribunais em busca de justiça. A cada entrevista, eu percebia que a violência nunca terminava no disparo. Ela se prolongava na burocracia inerte, nas investigações incompletas e na naturalização do medo. O advogado da CPT, João Batista Afonso, sempre me lembrava ser a impunidade o traço principal da maioria desses crimes. O elo a unir essas histórias.

Em Rio Maria, reconstituí anos depois a trajetória da família de João Canuto, assassinado em 1985, quando presidia o sindicato local. Ao conversar com Luzia Canuto, sua filha, numa tarde quente, mas suavizada com um suco de caju, compreendi como o crime ultrapassara a dimensão individual e se tornara um divisor na história política da região. A casa simples, de madeira, era também arquivo e trincheira. Luzia narrava a perseguição ao pai, a continuidade da militância pelos filhos e os sequestros e assassinatos que se seguiram. Minha presença ali era a de quem anotava uma memória que se recusava a ser apaziguada.

Nos arredores de Marabá, ouvi Luciene Costa rememorar o assassinato do marido, coordenador de acampamentos em Bom Jesus do Tocantins. Ela me mostrou fotografias, recortes de jornal, datas guardadas com exatidão. Percorri o trecho onde ele fora morto, entre Nova Ipixuna e Bom Jesus. Luciene relatava as ameaças, a frase dita na última manhã. Ao registrar sua fala, eu tinha a nítida percepção de que o jornalismo, naquele contexto, funcionava como uma das poucas formas de inscrição pública contra o esquecimento.

Em outra viagem a Rio Maria, conheci Patrícia da Silva Rosa, neta de Elça Gonçalves da Silva. A chácara ficava a poucos quilômetros do centro. Reconstituí com ela o percurso de um suposto agiota, as ameaças, o boletim de ocorrência, o disparo ouvido do banheiro. O inquérito fora reduzido a latrocínio, apesar das contradições. Eu saí dali com a sensação de que a versão oficial, muitas vezes, era mais um mecanismo de encerramento precoce para as investigações.

Em Itupiranga, sentei-me na varanda de Antônia Alves para falar sobre o assassinato do sindicalista Pedro André. O executor fora condenado, mas as suspeitas sobre mandantes permaneciam difusas. Antônia descrevia disputas internas no sindicato e possíveis desvios de recursos. Seu filho, ainda criança à época, ouvira ameaças veladas dias antes do crime.

Também estive com Dulcinéia Zuqueto, viúva de Domingos Santos da Silva, morto diante de casa. Ela descreveu o homem que sondara a venda de terras, o volume do revólver sob a camisa, os tiros ouvidos enquanto ainda montava na moto. Falava do trauma que persistia nos estampidos de fogos de artifício. Ali, compreendi que o medo não se dissolvia com o tempo. Ele se reconfigurava como estado permanente de vigilância e perda.

Em Parauapebas, acompanhei a dor de Maria Alves, viúva de Soares da Costa Filho. As investigações apontaram mandante, intermediário e executores. Parte respondia em liberdade. Maria descrevia a dificuldade de sustentar a casa e criar a criança que haviam acolhido pouco antes do assassinato. Ao ouvir sua narrativa, percebi como a expressão “preço da encomenda”, R$ 12 mil para aquele crime, condensava uma lógica brutal de equivalências, com vidas convertidas em cifras modestas.

No acampamento Zumbi dos Palmares, próximo a Marabá, conversei com Kátia Cilene, viúva de Pedro Laurindo da Silva. O pistoleiro fora preso alegando dívida irrisória. O barraco de palha, a estrada quase intransitável, as famílias assentadas, compunham o cenário de uma luta cotidiana pela terra. Kátia tentava reorganizar a vida entre a maternidade, a gravidez e a busca por um recomeçar. Ao deixar o acampamento, a precariedade material contrastava com a clareza política que me vinha, entendendo que o conflito fundiário não era episódico, mas estrutural.

Era exatamente assim que eu iniciava a reportagem sobre essa mulher negra:

Kátia Cilene Pereira dos Santos tem 24 anos, quatro filhos e uma lágrima que teima em cair sempre que, por um motivo ou outro, precisa vasculhar a memória para falar do marido, Pedro Laurindo da Silva, assassinado no dia 17 de novembro de 2005, com dois tiros, às 19h30, a cerca de 200 metros de distância da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Marabá. O crime foi encomendado possivelmente por um fazendeiro da região. Quem executou o sindicalista foi o pistoleiro Valdemir Coelho Pereira, que até duas semanas atrás estava em liberdade, mas que acabou sendo detido novamente por porte ilegal de arma, enquanto supostamente fazia uma tocaia num local conhecido como “Ponte do Bugrinho”, na estrada que liga Marabá a Rio Preto. Kátia Cilene vive no acampamento Zumbi dos Palmares, distante cerca de 50 km do centro de Marabá. No meio da mata pouco preservada, 79 famílias de sem-terra aguardam há cinco anos a regularização das terras. No mesmo local, há poucas semanas, Valdemir foi visto rondando as barracas de palha. Dois meses atrás teria ameaçado de morte João Batista Braga, o atual coordenador do acampamento. Valdemir já foi vaqueiro da fazenda ocupada pelos sem-terra.

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Kátia Cilene, relembrando a dor (foto: Ismael Machado)

Relembrando esses trabalhos, reconheço o quanto eles foram importantes para me situar como cidadão também. As estradas paraenses não eram apenas vias de acesso. Faziam parte da narrativa. Nelas se cruzavam fazendeiros, sindicalistas, jagunços, policiais, advogados, padres, professoras. Nelas também se delineava um padrão. A execução de lideranças, a intimidação da família, a investigação fragmentada, a prisão eventual do executor, a rarefação de condenações aos mandantes.

Ao transformar aquelas entrevistas em reportagem, percebia como, após cada assassinato, eram as mulheres que reorganizavam a sobrevivência. Tanto econômica, como afetiva e política. Elas assumiam a condução da casa, enfrentavam audiências, mantinham viva a memória dos mortos e, em alguns casos, davam continuidade à militância. Minha vivência pelas estradas do Pará revelou que para além de casos criminais, o que se descortinava à minha frente era um processo histórico em curso, no qual a disputa pela terra e pelo poder local produzia, na maioria das vezes, viúvas, órfãos e uma sensação recorrente de justiça interrompida. Esse percurso moldou minha compreensão do jornalismo como prática de presença. Ao rememorar essas reportagens, que ainda guardo em meus arquivos, sinto que cada quilômetro percorrido foi também uma tentativa de inscrever, no espaço público que me foi permitido, vozes que insistiam em não se calar, mesmo quando tudo ao redor sugeria silêncio. E é em um silêncio respeitoso que as lembro.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte: Medium