A lógica das guerras assimétricas em ação no Golfo Pérsico

Por que o conflito com o Irã pode se transformar em um pesadelo estratégico para Washington

No dia 4 de março publiquei aqui no blog um texto em que listava vários elementos capazes de transformar a incursão militar da aliança EUA–Israel contra o Irã em algo semelhante a um novo Vietnã para os Estados Unidos.

Passados alguns dias, vários daqueles pontos começam a se confirmar. O primeiro deles é a própria duração do conflito, que já desmente a expectativa de uma operação rápida capaz de forçar uma mudança política interna em Teerã. A ideia de que os iranianos seriam facilmente empurrados para uma solução “à la Venezuela”, baseada em pressão externa e colapso político interno, simplesmente não se materializou.

Mesmo após intensos bombardeios sobre o território iraniano — com milhares de alvos militares atingidos segundo autoridades norte-americanas — não há sinais claros de que os objetivos estratégicos iniciais estejam próximos de ser alcançados, especialmente a chamada “decapitação” da liderança política iraniana.

O problema de muitas análises iniciais é que elas partiram de uma premissa equivocada: imaginaram que a enorme disparidade militar entre os envolvidos seria suficiente para definir rapidamente o resultado da guerra. Se isso fosse verdade, o conflito já teria terminado há muito tempo. O que estamos assistindo, na realidade, é um caso clássico de guerra assimétrica.

Nesse tipo de conflito, o lado mais fraco não tenta competir diretamente no mesmo plano militar do adversário. Ao contrário: ele se prepara exatamente para explorar a desigualdade de forças, transformando-a em instrumento estratégico. A lógica não é vencer batalhas convencionais, mas aumentar os custos políticos, econômicos e logísticos da guerra para o adversário mais poderoso.  É exatamente isso que começa a aparecer no teatro de operações.

Embora os Estados Unidos e Israel mantenham ampla superioridade tecnológica e aérea, o Irã vem respondendo de forma indireta, atingindo pontos sensíveis da presença militar e energética ocidental no Golfo. Ataques a navios e instalações energéticas, além de ações no Estreito de Hormuz, têm provocado enorme tensão no comércio global de petróleo.

Esse detalhe é fundamental. O estreito é uma das rotas marítimas mais importantes do planeta, responsável por cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo. Qualquer interrupção significativa ali tem efeitos imediatos sobre os preços internacionais da energia e sobre a estabilidade econômica global. Em outras palavras: o Irã pode não ter condições de derrotar militarmente a coalizão adversária em campo aberto, mas possui capacidade suficiente para desorganizar o sistema energético que sustenta a economia mundial. É exatamente aí que a assimetria se transforma em vantagem estratégica.

Ao deslocar o campo do confronto para infraestrutura, logística e mercados energéticos, Teerã cria um cenário em que cada dia adicional de guerra passa a gerar efeitos colaterais globais. O preço do petróleo já disparou e os custos de transporte e seguro marítimo aumentaram dramaticamente. O resultado é que o conflito deixa de ser apenas militar e passa a ser também econômico e geopolítico.E esse é justamente o tipo de guerra que as grandes potências têm enorme dificuldade de vencer rapidamente.

Por isso, o desfecho permanece altamente imprevisível. O mundo já atravessava um período de desaceleração econômica antes mesmo dessa crise, e o prolongamento do conflito tende a ampliar pressões inflacionárias, perturbações logísticas e incertezas nos mercados energéticos.

Para países como o Brasil, os efeitos podem aparecer de forma indireta, mas significativa. Nossa economia depende fortemente do agronegócio exportador, cuja estrutura produtiva é intensiva em fertilizantes, insumos químicos e combustíveis. Um choque prolongado nos preços da energia e no transporte internacional tende a elevar custos de produção e pressionar preços internos.

Em outras palavras: mesmo que a guerra ocorra a milhares de quilômetros de distância, seus impactos podem chegar rapidamente à economia brasileira.  E há um agravante político.

Se o conflito continuar ao longo dos próximos meses, não é impossível que o Brasil enfrente pressões inflacionárias justamente no segundo semestre — período que coincide com o calendário eleitoral. O risco, nesse cenário, seria a combinação clássica de baixo crescimento econômico com aumento de preços, algo muito próximo de um quadro de estagflação. 

No final das contas, a grande ironia desse conflito é que ele começou sob a promessa de ser uma operação rápida e decisiva. Mas, como tantas vezes na história, guerras iniciadas com a expectativa de vitória fácil podem acabar se transformando em armadilhas estratégicas de longo prazo.  E é exatamente isso que começa a aparecer no horizonte.

A cratera da Sete de Setembro: um problema antigo que volta a colocar motoristas em risco

Dez anos depois de uma obra inaugurada às pressas, o mesmo ponto da avenida volta a ceder — agora com acidentes e sinalização precária

Uma obra que parecia não ter fim

Quem mora na Avenida Sete de Setembro ou circula com frequência pela região provavelmente ainda se lembra do ano de 2012. Naquele período, uma obra que parecia interminável transformou a rotina dos moradores em um verdadeiro teste de paciência. Meses de transtornos, poeira, barulho e intervenções mal coordenadas fizeram parte do cotidiano de quem vive ou trabalha nas proximidades da avenida.

Ao final, a obra foi inaugurada às pressas, claramente com o objetivo de dar fôlego à campanha de reeleição de Rosinha Garotinho. A tentativa de capitalizar politicamente a entrega da obra não teve impacto eleitoral, mas deixou como herança um problema que nunca foi plenamente resolvido.

Um defeito que insiste em reaparecer

Desde a conclusão daquela intervenção, um ponto específico da avenida passou a apresentar um comportamento recorrente: o asfalto cede. Sempre que isso ocorre, a solução adotada parece ser a mesma. Realiza-se um reparo pontual, o trecho é remendado e, por algum tempo, a situação parece estabilizada. No entanto, não demora muito para que o problema retorne exatamente no mesmo lugar.

Esse padrão sugere algo bastante evidente. Não se trata apenas de um defeito superficial no pavimento, mas possivelmente de um problema estrutural mais profundo, relacionado à base da via, à drenagem ou mesmo à forma como a obra foi executada originalmente. Enquanto a causa real não for enfrentada de maneira definitiva, a tendência é que o ciclo de afundamentos e remendos continue se repetindo.

Março de 2026: a cratera volta a abrir

Foi exatamente isso que voltou a acontecer agora, em março de 2026. Uma grande cratera abriu-se novamente na Avenida Sete de Setembro, evidenciando que o problema permanece ativo e sem solução duradoura.

O que já seria preocupante por si só tornou-se ainda mais grave pela maneira como a situação foi tratada ao longo deste sábado, 14 de março. A cratera permaneceu no local com uma sinalização claramente precária e, mais grave ainda, sem qualquer iluminação que permitisse sua identificação adequada durante a noite.

Quando o risco vira acidente

Diante desse cenário, o que aconteceu era praticamente previsível. Pelo menos dois veículos se envolveram em acidentes ao atingir a cratera ao longo do dia. A situação torna-se ainda mais preocupante quando se considera o padrão de circulação na própria avenida.

A Sete de Setembro é uma via onde muitos motoristas trafegam em velocidades elevadas, especialmente no período noturno. Sem mecanismos eficazes de controle de velocidade e diante de uma sinalização improvisada, o risco de novos acidentes permanece alto. Na prática, a cratera transforma-se em um obstáculo inesperado no meio da pista, capaz de surpreender condutores que só percebem o problema quando já é tarde demais.

Um problema que exige ação imediata

Diante de uma situação como essa, o mínimo que se espera do poder público é uma resposta rápida e eficaz. A cratera precisa ser devidamente sinalizada, iluminada e isolada de maneira adequada para evitar novos acidentes. Mais do que isso, é necessário enfrentar o problema de forma definitiva, investigando suas causas e realizando uma intervenção estrutural que impeça a repetição do problema.

A responsabilidade por garantir a segurança viária na cidade envolve diretamente o Instituto Municipal de Trânsito e Transporte de Campos, que deveria atuar de forma preventiva diante de riscos tão evidentes.

A cratera da Sete de Setembro não é apenas um buraco no asfalto. Ela é o retrato de um problema antigo, de soluções improvisadas e de uma negligência que pode transformar transtornos em tragédias. Quando acidentes começam a acontecer, o alerta já foi dado. Resta saber se alguém no poder público está disposto a ouvi-lo antes que algo mais grave aconteça.

Alô IMTT, cadê você? 🚧🚗⚠️

A indústria dos certificados e o surgimento dos “acumuladores de diplomas”

O crescimento da certificação em massa e seus efeitos sobre a qualidade da formação profissional e da pós-graduação no Brasil 

A expansão acelerada do ensino à distância, especialmente quando impulsionada por políticas públicas que priorizam quantidade em vez de qualidade, vem produzindo um fenômeno cada vez mais visível: o surgimento de uma nova categoria de usuários que pode ser chamada de “acumuladores de certificados”.

São pessoas que percorrem sucessivos cursos on-line — muitas vezes de curta duração, com avaliações superficiais e monitoramento praticamente inexistente — com um objetivo central: colecionar certificados. O foco deixa de ser a aquisição real de conhecimento e passa a ser a multiplicação de credenciais formais.

A facilidade de acesso a esses cursos, combinada com a fragilidade dos mecanismos de controle utilizados por diversas plataformas educacionais e programas governamentais, permite que uma mesma pessoa reúna dezenas de certificados de graduação, extensão e especialização. No papel, o resultado pode parecer impressionante: um currículo que atravessa múltiplas áreas do conhecimento e sugere uma formação intelectual extraordinariamente ampla. Mas a aparência engana.

A aprendizagem real exige tempo, aprofundamento e prática. É impossível atravessar múltiplos campos do conhecimento em poucos meses apenas acumulando certificados digitais. Na prática, o que se observa muitas vezes é a formação de currículos inflados por documentos que pouco dizem sobre as competências efetivas de quem os apresenta.

Para muitos desses acumuladores, a frustração surge quando a pilha de certificados não se traduz em oportunidades reais de trabalho. Isso ocorre porque, fora do universo burocrático que emite esses documentos, o mercado de trabalho tende a valorizar competências verificáveis, experiência concreta e formação consistente.

Assim, grande parte desses certificados acaba tendo valor bastante limitado. Em muitos casos, são apenas registros formais de participação em cursos cuja exigência acadêmica é mínima — quando não resultam de processos marcados por avaliações simbólicas ou aprovação praticamente automática.

Nos últimos anos, esse fenômeno passou a assumir uma dimensão ainda mais preocupante. Muitos desses acumuladores de certificados começaram a direcionar seus esforços para o ingresso em universidades públicas, buscando ampliar ainda mais seu repertório de credenciais por meio de programas de mestrado e doutorado. A lógica permanece a mesma: aumentar o número de títulos.

O problema é que, ao entrar na pós-graduação, esses indivíduos passam a acessar recursos públicos significativos, principalmente por meio de bolsas financiadas pelo Estado. Bolsas que deveriam apoiar pesquisadores promissores e projetos capazes de gerar conhecimento relevante acabam, em alguns casos, financiando trajetórias acadêmicas frágeis.

Parte desse problema decorre do fato de que muitas universidades públicas não possuem mecanismos institucionais eficazes para identificar esse tipo de trajetória. Em outros casos, a dificuldade não é apenas técnica, mas também política: falta disposição institucional para enfrentar um fenômeno que expõe fragilidades do próprio sistema de avaliação acadêmica.

O resultado é um paradoxo preocupante. Recursos escassos — especialmente em países que já investem pouco em ciência e educação superior — acabam sendo desperdiçados. Ao mesmo tempo, indivíduos pouco preparados continuam acumulando credenciais, inflacionando ainda mais o valor simbólico dos diplomas. Quando títulos acadêmicos passam a circular em grande quantidade sem correspondência com formação real, o próprio sistema educacional perde credibilidade.

Para países como o Brasil, esse processo pode ter consequências particularmente graves. O desenvolvimento econômico e tecnológico depende da existência de profissionais altamente qualificados, capazes de inovar, produzir conhecimento e enfrentar problemas complexos. Isso exige sistemas educacionais rigorosos, exigentes e comprometidos com padrões acadêmicos elevados.

Quando a lógica dominante passa a ser a da certificação em massa, o resultado tende a ser o oposto do desejado: um ambiente educacional repleto de títulos, mas pobre em formação substantiva.

Por isso, torna-se urgente discutir os limites da atual expansão do ensino à distância. O problema não está na modalidade em si — que pode, quando bem estruturada, ampliar o acesso ao conhecimento. O problema está na forma como ela vem sendo utilizada em muitos contextos: com baixa exigência acadêmica, pouca supervisão e forte incentivo à produção rápida de certificados.

Se nada for feito, continuará a crescer uma geração de acumuladores de diplomas que, apesar da aparência de formação extensa, permanece distante das competências reais que um país precisa para se desenvolver. Conter essa indústria de certificados é, portanto, mais do que uma questão educacional. É uma questão de responsabilidade com o futuro do próprio sistema de ensino e com o desenvolvimento do Brasil.

Terceirização, equipamentos e cadeiras novas na Uenf… mas o processo do novo PCV continua parado

Quem folheou o Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro (DOERJ) desta sexta-feira encontrou uma pequena coleção de editais de licitação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) que, somados, chegam à respeitável cifra de R$ 6.097.834,43. Uma bagatela, claro — especialmente quando distribuída entre necessidades aparentemente urgentes como cadeiras novas (R$ 1.022.473,50), serviços de condutores de veículos (R$ 4.660.306,20), recarga e manutenção de extintores de incêndio (R$ 204.897,83), computadores de alta performance para produção audiovisual (R$ 680.516,00) e projetos executivos de combate a incêndio e proteção contra descargas atmosféricas (R$ 552.114,40). Há de tudo um pouco, como em um catálogo administrativo: da terceirização do transporte institucional a sofisticadas máquinas destinadas a impulsionar a produção audiovisual da universidade.

Naturalmente, cada uma dessas despesas pode ter sua justificativa técnica. Afinal, cadeiras são úteis, extintores precisam funcionar e raios costumam cair sem pedir autorização prévia. Ainda assim, é difícil não levantar uma sobrancelha diante do entusiasmo administrativo quando o assunto é abrir licitações para novas aquisições, ao mesmo tempo em que permanece curiosamente imóvel a promessa de entrega do novo Plano de Cargos e Vencimentos da Uenf (PCV) — uma pauta que, ao que tudo indica, segue aguardando em alguma gaveta menos iluminada do governador Cláudio Castro (PL).

A curiosidade também se estende a alguns detalhes pitorescos. Quem exatamente será contemplado com esses computadores de “alta performance” destinados à produção audiovisual? Que volume de conteúdo está prestes a ser produzido para justificar tal investimento? E, sobretudo, por que determinadas áreas da gestão parecem operar em ritmo acelerado enquanto outras seguem presas a um prolongado estado de contemplação administrativa?

De todo modo, justiça seja feita: a reitoria da Uenf claramente tem prioridades. Talvez o PCV não esteja entre elas — ao menos por enquanto. Mas há uma boa notícia para todos: se nada mudar, cada servidor da universidade criada por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola poderá ao menos refletir sobre essas prioridades sentado em uma cadeira novinha em folha. Afinal, conforto institucional também é política pública, especialmente em uma instituição cujos salários estão corroídos pela inflação em mais de 50%.

Crise? Que Crise? O Porto do Açu e a Operação ‘Sorria para a Foto

Tudo indica que a equipe responsável pelo controle de mídia do Porto do Açu recebeu uma orientação bastante clara: iniciar uma ofensiva midiática para tentar conter os danos causados pela revelação de que a empresa assumiu o controle do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMMADS) de São João da Barra — façanha viabilizada por um assento garantido por sua subsidiária, a discretamente conveniente “RPPN Fazenda Caruara”.

Digo isso porque, nos últimos dias, voltamos a assistir àquele velho roteiro: visitas às redações da mídia corporativa local, acompanhadas de fotos sorridentes em que representantes do porto aparecem lado a lado com os proprietários dos veículos de comunicação. Talvez cientes de que a mídia corporativa já não tem o mesmo poder de moldar percepções como antes, observa-se também a mobilização de uma tropa auxiliar bastante útil: os chamados influencers, agora empenhados em “vender o peixe” do Porto do Açu — ainda que, ao que tudo indica, o odor do produto não seja exatamente dos mais agradáveis (vide a imagem abaixo como exemplo).

No que diz respeito ao item destacado na imagem — os supostos “projetos voltados para a comunidade” — vale sugerir uma leitura menos publicitária e mais instrutiva: a dissertação da agora mestre em Políticas Sociais pela UENF, Jesa Mariano. No trabalho, os chamados projetos sociais do empreendimento são analisados com o tipo de rigor analítico que, curiosamente, costuma faltar nas peças promocionais distribuídas pelo próprio porto.

Há, no entanto, um fato que nenhuma estratégia de comunicação consegue disfarçar: a ascensão do Porto do Açu à chefia do CMMADS de São João da Barra constitui um descalabro difícil de qualificar sem recorrer a uma boa dose de ironia. A notícia provocou um misto de incredulidade e indignação entre muitos sanjoanenses, que seguem aguardando — talvez com uma paciência já digna de estudo científico — algum retorno positivo capaz de compensar os elevados custos socioambientais que o empreendimento vem impondo ao município.

Resíduos de PFAS oriundos de agrotóxicos estão presentes em produtos agrícolas da Califórnia

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Por Shannon Kelleher para “The New Lede”

A agricultura da Califórnia enfrenta um problema com PFAS, com traços de “químicos eternos” provenientes de agrotóxicos encontrados em 37% de quase mil amostras de produtos agrícolas cultivados convencionalmente no estado, de acordo com uma nova análise de dados de 2023 do Departamento de Regulamentação de Pesticidas da Califórnia (CDPR).

análise , publicada em 11 de março pelo Environment Working Group (EWG), encontrou resíduos de substâncias per e polifluoroalquiladas (PFAS) em 40 tipos de frutas e vegetais. Os produtos individuais frequentemente continham múltiplos tipos de substâncias químicas PFAS, com resíduos de 10 PFAS diferentes encontrados em morangos, e mais de 90% dos nectarinas, ameixas e pêssegos testados para fludioxonil, um pesticida PFAS considerado um disruptor endócrino pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos. 

Os autores descobriram que, anualmente, 2,5 milhões de libras de agrotóxicos  contendo PFAS são aplicadas em terras agrícolas da Califórnia, contaminando potencialmente o solo e a água locais. Quase metade dos vegetais e mais de três quartos das frutas e nozes consumidas nos Estados Unidos são cultivadas na Califórnia.

“Estamos ingerindo PFAS, bebendo PFAS, respirando PFAS”, disse Sakereh Maskal, Líder de Políticas e Defesa da Rede de Ação contra Pesticidas e Agroecologia. “A ganância insaciável da indústria química transformou nossos corpos em zonas de sacrifício em nome do lucro.”

Os compostos PFAS são prevalentes no meio ambiente em todo o mundo, onde permanecem por anos sem se decompor, e também nos corpos de humanos e animais, com estudos encontrando-os no sangue de cerca de 98% dos americanos. Alguns PFAS foram associados a certos tipos de câncer, colesterol alto, diminuição da eficácia de vacinas e outros problemas de saúde.

“Num momento em que os americanos exigem um sistema alimentar mais saudável, descobrimos que os principais alimentos básicos de uma dieta saudável estão contaminados com substâncias químicas associadas a sérios danos à saúde”, disse Bernadette Del Chiaro, vice-presidente sênior do EWG para a Califórnia, em um comunicado .

As conclusões surgem num momento em que as ações regulatórias da administração Trump sobre agrotóxicos se tornam cada vez mais contrárias ao movimento Make America Healthy Again (MAHA). No mês passado, a administração citou razões de segurança nacional para justificar o pedido de aumento da produção do controverso herbicida glifosato, vendido como Roundup, uma medida que enfureceu os membros do movimento MAHA .

A análise do EWG surge na sequência da publicação, em dezembro de 2025, do relatório mais recente do Departamento de Agricultura dos EUA sobre agrotóxicos , baseado em dados de 2024. O relatório encontrou resíduos de pelo menos um agrotóxico em mais de 57% das quase 10.000 amostras de alimentos testadas, com menos de 1% dos produtos contendo resíduos acima do limite legal estabelecido pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). O grupo Beyond Pesticides criticou as tolerâncias da EPA por não considerarem adequadamente populações vulneráveis, como trabalhadores rurais e crianças, e a exposição a misturas de produtos químicos.

Aumento do uso de pesticidas contendo PFAS

Cientistas e especialistas afirmam que os agrotóxicos  contendo PFAS representam uma área de crescente preocupação, com pesquisas recentes encontrando PFAS no sangue de peixes em águas próximas a áreas agrícolas e florestais. Um estudo de 2024 constatou que os PFAS são adicionados cada vez mais a pesticidas, representando agora 14% de todos os ingredientes ativos desses produtos químicos.

Resultados de testes independentes, divulgados em uma análise separada esta semana pelo grupo Public Employees for Environmental Responsibility (PEER), encontraram múltiplos produtos químicos PFAS no herbicida Indaziflam (vendido como Rejuvra), aplicado em plantações para controlar gramíneas invasoras. O produto está sendo pulverizado ou seu uso está sendo considerado em milhões de hectares de terras federais. 

“A descoberta de substâncias químicas tóxicas em um produto destinado ao uso em áreas de grande escala deveria soar o alarme”, disse Chandra Rosenthal, defensora de terras públicas da PEER, em um comunicado . “Nossas terras públicas não devem ser expostas a substâncias químicas cujos impactos permanecem desconhecidos.”

A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) está atualmente analisando pedidos dos departamentos de agricultura do Arkansas e do Missouri para conceder uma isenção emergencial ao pesticida PFAS tetflupirolimet, que não foi registrado pela EPA – uma medida que permitiria a aplicação do produto químico no solo com menos rigor regulatório . Os estados propõem usar o herbicida para controlar a grama-arroz invasora, que reduz drasticamente a produtividade das lavouras e se tornou resistente a diversos outros herbicidas. Se concedida, a isenção permitiria o tratamento de até 546.000 acres de arrozais no Arkansas e 100.000 acres no Missouri. 

“Esta não é uma situação de emergência”, disse Sarah Alexander, diretora executiva da Associação de Agricultores e Jardineiros Orgânicos do Maine, observando que a resistência a herbicidas é um problema comum e previsível na agricultura convencional e que existem alternativas na agricultura orgânica.

“Acho que usar isenções emergenciais para aprovações de pesticidas PFAS é um precedente muito perigoso”, disse ela.

A EPA afirmou que ainda não foi tomada nenhuma decisão sobre os pedidos de isenção emergencial dos estados. 

“Todas as ações tomadas pela EPA de Trump são guiadas pelo Estado de Direito, pela Ciência de Alto Padrão e pela Transparência Radical”, disse um porta-voz da agência.


Fonte: The New Lede

Verra suspendeu o projeto REDD Pacajai em setembro de 2023. Desde então, as empresas retiraram mais de 2 milhões de créditos de carbono do projeto

Incluindo Mastercard, BlackRock e Philip Morris

Crédito da foto: Em outubro de 2023, um mês após a Verra suspender o projeto, a empresa química alemã Kluthe anunciou seu apoio ao projeto REDD Pacajaí, no Brasil.

Por Chris Lang para “REDD-Monitor”

Em setembro de 2023,  a Verra suspendeu o projeto REDD+ do Pacajaíno Brasil, enquanto investigava sua validade. Isso não impediu que Mastercard, BlackRock e Philip Morris International retirassem créditos de carbono do projeto para compensar suas emissões de gases de efeito estufa.

Uma investigação publicada esta semana pelo jornalista Yusuf Khan no Wall Street Journal revela que mais de 140 empresas retiraram seus créditos de carbono do projeto Pacajai depois que a Verra suspendeu o projeto. A investigação da Verra ainda está em andamento. O Wall Street Journal informa que “a Verra não forneceu um cronograma de quando sua revisão será concluída”.

“O projeto REDD+ Pacajai foi suspenso após preocupações das partes interessadas de que estivesse sendo implementado em terras públicas”, disse a Verra ao Wall Street Journal. Em seu comunicado de suspensão, Verra explica que relatórios do estado do Pará “indicam que certos projetos de carbono do setor privado podem se sobrepor a terras públicas, especificamente áreas florestais estaduais, onde as autoridades locais não emitiram as licenças necessárias”.

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Este é um projeto com uma história bizarra . O diretor da empresa que o administra é filho de Kenneth Noye, gangster da Brink’s-Mat. Seu outro filho, Brett, também está envolvido — e tem um histórico com empresas fraudulentas no Reino Unido.

O escritório da Defensoria Pública local está processando quatro projetos REDD, incluindo o de Pacajai. A ação busca uma indenização de US$ 4 milhões para as comunidades locais na área dos quatro projetos. Os compradores de créditos de carbono não estão envolvidos no processo.

A reportagem do Wall Street Journal baseia-se, em parte, em uma pesquisa realizada pela ONG Corporate Accountability sobre créditos de carbono problemáticos no Brasil . Este post se concentra no projeto Pacajaí. Analisarei o relatório da Corporate Accountability em um post futuro.

Entre janeiro de 2024 e julho de 2025, mais de 2 milhões de créditos de carbono do projeto Pacajaí foram retirados de circulação. Em 2024, o projeto era o sétimo maior projeto de compensação de carbono do mundo em termos de créditos retirados. Além das 140 empresas listadas no cadastro da Verra como tendo retirado créditos de carbono do projeto Pacajaí, muitas outras empresas optaram por retirar créditos de carbono anonimamente.

Após a Verra suspender o projeto, a Philip Morris cancelou 25.000 créditos, a Mastercard cancelou mais de 11.000 e a BlackRock cancelou 5.000.

No total, foram emitidos 10,06 milhões de créditos de carbono do projeto Pacajai, dos quais 7,3 milhões já foram retirados de circulação. O Wall Street Journal relata que “empresas compraram créditos de Pacajai que foram vendidos por menos de US$ 2 a tonelada”.

Em sua avaliação do projeto, a agência de classificação de créditos de carbono BeZero afirmou que o projeto apresenta um risco “significativo” de sobre-crédito e vazamento. Também apresenta um risco “notável” de não permanência e uma adicionalidade “fraca”.

Wall Street Journal relata que “tanto a BeZero quanto a Sylvera afirmaram que o projeto Pacajai provavelmente não terá nenhum impacto positivo na redução das emissões líquidas de carbono”.

MasterCard

Em seu Relatório de Impacto de 2024, a Mastercard afirma que, desde 2020, suas operações globais são “neutras em carbono”. Isso é alcançado, em parte, pela compra de créditos de carbono. A Mastercard declara que,

Utilizamos créditos de carbono de alta integridade, verificados segundo padrões reconhecidos, e apenas em conjunto com reduções reais nas emissões de carbono. Buscamos selecionar créditos com características de desempenho e os obtemos de diversas regiões geográficas. Os tipos de projetos incluem silvicultura, fogões limpos, energia renovável e destruição de refrigerantes.

A Mastercard informou ao Wall Street Journal que seus créditos de carbono foram retirados de circulação pela 3degrees, uma empresa que afirma vender “créditos de carbono de alta integridade que geram um impacto climático significativo”. A 3degrees comprou os créditos de Pacajai em 2021 e os vendeu para a Mastercard em outubro de 2023, um mês depois de a Verra suspender o projeto. A 3degrees retirou os créditos de circulação para a Mastercard em dezembro de 2024.

A 3degrees informou ao Wall Street Journal que não tinha conhecimento da suspensão do projeto quando vendeu os créditos para a Mastercard.

BlackRock

Em seu Relatório Climático de 2024, a BlackRock afirma o seguinte:

Como parte dos esforços da BlackRock para lidar com as emissões fora de sua cadeia de valor, a empresa adquire créditos de remoção de carbono que considera de alta qualidade para investir em projetos com maior impacto climático, impulsionar a implementação de tecnologias de remoção de carbono e compensar as emissões de suas operações que atualmente não podem ser evitadas ou reduzidas. Com base nos critérios de seleção e no processo de due diligence estabelecidos pela BlackRock em 2023, a empresa aprimorou seu portfólio de créditos de carbono em 2024, investindo em todos os vetores tecnológicos de remoção de carbono baseados em fontes naturais, híbridas e de engenharia, com maior durabilidade.

A BlackRock informou ao Wall Street Journal que os créditos de carbono de Pacajai foram comprados por um fundo de pensão que a BlackRock assumiu em maio de 2021. A BlackRock não optou por comprar os créditos de Pacajai diretamente. Os créditos deveriam “compensar” as emissões de um projeto industrial que o fundo de pensão estava financiando. E os créditos foram comprados e cancelados por uma empresa que os administrava para o fundo de pensão.

Philip Morris

A Philip Morris escreve em seu Relatório Integrado de 2024 que,

Nossos investimentos em PCI [Portfólio de Investimentos Climáticos] oferecem uma abordagem padronizada e tecnicamente robusta para a compensação, garantindo um conjunto de créditos de carbono de alta qualidade que geram impactos tanto ambientais quanto sociais.

A empresa aplica um processo de due diligence desenvolvido em conjunto com a Clarmondial, sua consultora em financiamento de carbono, para “avaliar a qualidade e o impacto do investimento”.

A Philip Morris declarou ao Wall Street Journal que os créditos foram utilizados como parte do programa de “neutralidade de carbono” da empresa. A baixa dos créditos de carbono foi “simplesmente a conclusão esperada do processo de compensação — e não um indício de qualquer problema”, afirmou a Philip Morris. A empresa adquiriu os créditos antes da suspensão do projeto.

Evertree

A Evertreen é outra empresa que comprou créditos de carbono do projeto Pacajai. O REDD-Monitor escreveu sobre a empresa em dezembro de 2025. A Evertreen vende créditos de carbono que, segundo ela, são provenientes de suas operações de plantio de árvores. No entanto, a empresa não é transparente sobre onde o plantio de árvores realmente ocorre, nem sobre como calcula exatamente quanto carbono é armazenado nas árvores.

A Evertree também compra créditos de carbono de vários outros projetos REDD que a Verra suspendeu.

Em maio de 2025, a Evertreen retirou um crédito de carbono do projeto Pacajai referente a “deslocamento de funcionários”. Em novembro de 2025, a Evertreen retirou 3.192 créditos do Pacajai referentes a “usuários finais da Evertreen”. Em dezembro de 2025, a Evertreen retirou 1.000 créditos do Pacajai. E em janeiro de 2026, a Evertreen retirou mais 500 créditos do Pacajai.

Uma “falha estrutural profunda” no sistema de Verra

Wall Street Journal destaca que “Mastercard, BlackRock e Philip Morris não foram acusadas de infringir nenhuma regra”. De acordo com as regras de Verra, os créditos de carbono emitidos antes da suspensão do projeto continuam válidos. Nenhum novo crédito de carbono será emitido, mas o projeto ainda pode vender os créditos de carbono emitidos antes da suspensão.

Mas o projeto REDD Pacajai destaca o que a CarbonPlan chama de “falha estrutural profunda”, que é o fato de a Verra não saber como lidar com projetos em seu cadastro que exageraram enormemente o número de créditos de carbono gerados pelo projeto.

Em outubro de 2025, a Verra concluiu uma revisão do projeto REDD de Kariba e constatou que havia emitido 15,2 milhões de “créditos excedentes” para o projeto. A Verra solicitou indenização da desenvolvedora do projeto, a Carbon Green Investments.

Mas as chances de a Carbon Green Investments pagar são extremamente pequenas. A Carbon Green Investments retirou o projeto do registro da Verra. A Carbon Green Investments “acumulou sua dívida e sumiu”, escreve a CarbonPlan .

Por coincidência, a empresa responsável pelo desenvolvimento do projeto Pacajaí estava inicialmente registrada no mesmo endereço da Carbon Green Investments, no paraíso fiscal e de sigilo de Guernsey. Quando o projeto começou, a empresa responsável pelo desenvolvimento era a Avoided Deforestation Project (Manaus) Limited e o projeto era chamado de ADPML Portel Pará REDD Project. Em agosto de 2020, uma empresa chamada Amazon Forest People Ltd foi constituída no Reino Unido — com o mesmo diretor, Kevin Tremain, filho de Kenneth Noye.

Em outubro de 2023, o jornal The Mirror noticiou que Noye estava morando na sede da organização Amazon Forest People em Sevenoaks.

Tanto a Carbon Green Investments quanto a Avoided Deforestation Project (Manaus) Limited foram registradas nos escritórios da Oak Directors Limited, parte do Oak Group :

Entre o progresso e o declínio: A dualidade na produção científica na era do acesso aberto e da inteligência artificial

As transformações que vêm ocorrendo na produção e disseminação da ciência — ou, em muitos casos, da pseudociência — constituem uma combinação paradoxal de oportunidades e riscos para o avanço do conhecimento científico. Tais transformações ganharam impulso particularmente acelerado com o surgimento de duas ferramentas poderosas: o modelo de publicações de acesso aberto e o desenvolvimento recente da inteligência artificial. É necessário reconhecer que ambas possuem potencial significativo para democratizar a produção e a difusão do conhecimento científico. Contudo, também ampliam as condições para a proliferação do que se poderia denominar anti-ciência ou não-ciência, por meio da circulação de produtos que apenas simulam os atributos formais da produção científica, mas que, na prática, não passam de construções frágeis que adicionam ruído ao debate público em vez de oferecer explicações empírica e toericamente fundamentadas.

Um dos problemas centrais reside no fato de que o sistema de avaliação e premiação dos cientistas foi, há bastante tempo, capturado por uma lógica quantitativista segundo a qual o elemento determinante para o reconhecimento acadêmico é a velocidade e o volume de publicações — dinâmica amplamente conhecida pela expressão inglesa publish or perish. Como consequência, os sistemas de financiamento à pesquisa, que em grande medida dependem de recursos públicos, passaram a privilegiar pesquisadores capazes de sustentar ritmos elevados de publicação, ainda que isso ocorra frequentemente em detrimento da qualidade científica. Esse arranjo institucional tende a estimular mecanismos de competição distorcidos, promovendo a concentração de recursos em pesquisadores aparentemente prolíficos, cuja produção frequentemente se caracteriza pela repetição incremental de conteúdos já amplamente disseminados.

A esse problema soma-se um segundo elemento estruturante: a crescente utilização de indicadores estatísticos simplificados como instrumentos de aferição da qualidade científica, entre os quais se destaca o chamado fator de impacto das revistas. A centralidade atribuída a esse tipo de métrica contribuiu para a consolidação de um ecossistema editorial altamente problemático, no qual emergiram não apenas as chamadas fábricas de artigos científicos (paper mills), mas também uma indústria voltada à produção e disseminação de material acadêmico de baixa qualidade travestido de ciência legítima. Nesse contexto, práticas anteriormente criticadas, como a chamada salami science, parecem hoje quase triviais diante da complexidade dos mecanismos atualmente observados. Entre eles incluem-se a compra e venda de artigos, a comercialização de autorias e a formação de redes sistemáticas de autocitação destinadas a inflar artificialmente indicadores bibliométricos. Como resultado desse processo, surgiram os chamados “pesquisadores hiperprolíficos”, cuja produtividade aparente não corresponde necessariamente à geração de conhecimento científico substantivo, mas muitas vezes à multiplicação de material de valor científico questionável.

As implicações desse cenário ultrapassam o âmbito de disciplinas específicas e colocam em risco o próprio funcionamento do empreendimento científico. Dada a velocidade com que material de baixa qualidade pode ser produzido e disseminado, existe o risco concreto de que a parcela da produção acadêmica que efetivamente atende aos critérios de rigor metodológico, consistência teórica e verificabilidade empírica se torne progressivamente minoritária. A expansão do chamado “lixo científico” não apenas compromete a credibilidade da ciência enquanto instituição social, mas também enfraquece sua capacidade de orientar políticas públicas, inovação tecnológica e processos de tomada de decisão baseados em evidências.

Diante desse quadro, torna-se imperativa uma reconfiguração profunda dos mecanismos institucionais de avaliação, financiamento e reconhecimento da produção científica. Tal reconfiguração deve necessariamente envolver uma revisão crítica dos critérios atualmente utilizados por agências de fomento, universidades e sistemas de avaliação acadêmica, deslocando o foco da mera contagem de publicações para a análise substantiva da qualidade, originalidade e relevância do conhecimento produzido. Além disso, torna-se fundamental desenvolver instrumentos mais robustos de avaliação da produção científica, capazes de distinguir de forma mais eficaz entre contribuições efetivas ao avanço do conhecimento e produtos que apenas reproduzem a aparência formal da ciência. Caso tais transformações não sejam implementadas de maneira decisiva, o sistema científico corre o risco de aprofundar uma dinâmica de degradação institucional na qual a produção massiva de material de baixa qualidade passe a dominar o ecossistema acadêmico, comprometendo seriamente a capacidade da ciência de cumprir sua função social fundamental: produzir conhecimento confiável sobre o mundo.

Salários corroídos, dívida elevada e risco de cassação: a crise do governo Castro

O governador do estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), enfrenta o claro risco de ter seu mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em razão de um processo que investiga irregularidades ocorridas durante a campanha eleitoral de 2022, na qual foi reeleito. A ação examina a hipótese de que tenha havido abuso de poder político e econômico por meio do uso da estrutura administrativa do governo estadual para favorecer sua candidatura.

O ponto central das acusações envolve contratações em grande escala realizadas por órgãos vinculados ao governo do estado, especialmente a Fundação Ceperj (Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro). Segundo as investigações, programas administrados pela fundação teriam promovido a contratação de um número muito elevado de pessoas durante o período eleitoral. Parte dessas admissões teria ocorrido por meio de procedimentos pouco transparentes e, em alguns casos, com pagamentos realizados em espécie, circunstância que levantou suspeitas de que os recursos públicos estariam sendo utilizados para sustentar uma rede informal de apoiadores políticos e cabos eleitorais.

A acusação sustenta que essas contratações teriam servido não apenas para executar projetos administrativos, mas também para mobilizar apoio eleitoral à candidatura do governador, configurando uma utilização indevida da máquina pública. Na legislação eleitoral brasileira, o uso de recursos estatais ou da estrutura administrativa para beneficiar candidatos constitui uma forma de abuso de poder, capaz de comprometer a igualdade de condições entre os concorrentes e, por isso, pode levar à cassação do mandato obtido nas urnas.

A ação judicial que levou o caso ao TSE foi proposta por adversários políticos, entre eles o então candidato ao governo do estado Marcelo Freixo. O processo já havia sido analisado pela Justiça Eleitoral regional, mas acabou chegando ao tribunal superior por meio de recursos. No TSE, o julgamento ganhou grande repercussão política, pois envolve o chefe do Executivo de um dos principais estados do país.

Durante a análise do caso, a relatora do processo, Maria Isabel Gallotti, apresentou voto no sentido de reconhecer a ocorrência de abuso de poder político e econômico, defendendo a cassação do mandato e a declaração de inelegibilidade do governador por oito anos. Outros ministros começaram a apresentar seus votos, e o julgamento passou a ser acompanhado com atenção por observadores políticos e jurídicos, uma vez que sua conclusão poderá produzir efeitos relevantes na política fluminense.

Caso o tribunal forme maioria pela condenação, o governador poderá perder o mandato e ficar impedido de disputar eleições por um período determinado pela legislação. Dependendo da interpretação jurídica aplicada ao caso e do momento em que a decisão se tornar definitiva, o resultado também poderá implicar a realização de novas eleições para o governo do estado. Dessa forma, o processo em curso no Tribunal Superior Eleitoral tornou-se um dos episódios judiciais mais relevantes da política recente do Rio de Janeiro, ao colocar sob exame a legalidade das práticas administrativas adotadas durante o período eleitoral.

A situação política enfrentada por Cláudio Castro ocorre em um contexto mais amplo de fragilidade fiscal do estado do Rio de Janeiro, cuja dívida pública continua entre as mais elevadas do país. Nas últimas décadas, o estado acumulou um pesado passivo financeiro, resultado de sucessivas crises fiscais, queda de receitas em determinados períodos e compromissos estruturais de gasto. A gestão atual frequentemente justifica a contenção de despesas com pessoal como parte de uma estratégia de ajuste fiscal e de cumprimento de compromissos assumidos em acordos de recuperação das contas públicas firmados com a União.  

Essa postura, porém, é alvo de críticas cada vez mais duras por parte de servidores e analistas das finanças públicas. Para esses setores, a recusa em conceder sequer a reposição inflacionária equivale, na prática, a impor uma política deliberada de corrosão salarial ao funcionalismo estadual, transferindo para os trabalhadores do serviço público o custo do ajuste fiscal. Na visão desses críticos, o argumento da austeridade perde força quando confrontado com episódios que sugerem uso pouco criterioso de recursos públicos e expansão de estruturas administrativas marcadas por baixa transparência. Nesse contexto, o processo que envolve o governador no Tribunal Superior Eleitoral acaba reforçando a percepção de um contraste incômodo: enquanto o governo invoca limites fiscais para negar recomposição salarial a professores, policiais e outros servidores, a gestão pública permanece cercada por controvérsias que colocam em dúvida as prioridades efetivas da administração estadual liderada por Cláudio Castro. e que, em última instância, poderão resultar em sua cassação pelo TSE.

Agrotóxico banido, metais e aditivo para plásticos: boias encontram três tipos de poluentes no Dilúvio e no Guaíba

Projeto-piloto foi desenvolvido em parceria da prefeitura de Porto Alegre com a iniciativa privada

Camila Hermes / Agencia RBS

Caravela que ficava localizada próximo à foz do DilúvioCamila Hermes / Agencia RBS

Por Marcelo Gonzatto para a “Gaúcha ZH” 

Um relatório que deverá ser entregue nesta semana à prefeitura de Porto Alegre detalha o nível de poluentes presentes no Arroio Dilúvio e no Guaíba — manancial de onde é captada água que, após tratada, é servida à população. O estudo é fruto de um projeto inovador desenvolvido pela empresa paulista Infinito Mare em parceria com a prefeitura e a Heineken, pelo qual foram instaladas grandes boias azuis em três pontos da Capital.

A análise das algas que se desenvolveram nas chamadas “caravelas” revelou a presença de metais em concentrações muito acima do tolerado, de aditivos usados em plásticos e até de um agrotóxico banido do Brasil desde 2009 por sua periculosidade, o dicloro-difenil-tricloroetano (DDT) (veja detalhes abaixo).

A iniciativa conjunta foi realizada ao longo de três meses no final do ano passado em um ponto do Dilúvio e dois no Guaíba, nas proximidades do Parque do Pontal — a empresa decidiu manter as duas boias localizadas mais ao Sul. A Heineken ajudou a financiar o projeto, que se baseia em uma estrutura inovadora desenvolvida pela Infinito Mare.

As boias circulares têm, na parte inferior, uma espécie de tela na qual naturalmente se desenvolvem algas. Esses vegetais realizam uma dupla função: ajudam a “filtrar” a água, removendo impurezas, e acabam incorporando em sua estrutura partes desses elementos. Assim, ao analisar as algas de forma periódica, é possível fazer um mapeamento de poluentes que passaram pelo local em algum momento. Foram filtrados 330 mil litros de água ao longo do período. As algas captam gás carbônico do ar, ao mesmo tempo em que oxigenam o líquido.

— As algas retiram os elementos da natureza, da água, para crescer e, quando crescem, têm como característica reter vários elementos de forma química e de forma física. Quanto mais crescem, mais acumulam esses elementos. Então, o nosso período (de análise) foi para entender exatamente qual era esse potencial de acúmulo — explica o CEO da Infinito Mare, Bruno Libardoni.

Os poluentes encontrados

De forma preliminar, foram encontrados três tipos principais de poluentes por meio de amostras enviadas à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS):

  • DDT: agrotóxico associado a danos no sistema nervoso. Usado para combater mosquito transmissor da malária e para conter pragas em plantações, teve o uso agrícola proibido ainda nos anos 1980. No final dos anos 1990, deixou de ser usado para o controle de mosquitos. A proibição total em solo brasileiro (fabricação, importação, venda ou armazenamento) ocorreu em 2009.
  • Metais: ferro, manganês, alumínio e cobre em concentrações, em alguns casos, milhares de vezes acima do que a legislação tolera. As presenças de manganês e alumínio, que podem causar impacto neurológico, estavam 5 mil e 139 mil vezes acima do permitido, respectivamente. Além dos metais, também foi registrada alta concentração de fósforo, nutriente que pode multiplicar o número de micro-organismos e comprometer a qualidade da água. Essas substâncias são encontradas em efluentes urbanos e industriais.
  • Ftalatos: elementos químicos encontrados em plásticos flexíveis, embalagens, cosméticos e outros produtos, com impacto sobre o sistema hormonal humano. Podem se desprender desses materiais e contaminar os cursos d’água em caso de descarte irregular.
Camila Hermes / Agencia RBS
Envolvidos discutem continuidade do programa para monitoramento de mais longo prazoCamila Hermes / Agencia RBS

A engenheira química Cristiane Oliveira, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e líder do Grupo de Pesquisa do Laboratório de Poluição Ambiental (Lapam/UFCSPA), afirma que agrotóxicos como o DDT voltaram a aparecer em amostras de água da Capital nos últimos anos. Uma hipótese para isso é que a enchente de 2024 teria lavado solos onde esses contaminantes estavam armazenados há muito tempo e os conduzido até córregos, rios e lagos.

— O DDT é um poluente orgânico persistente, ou seja, permanece no ambiente por vários anos porque é muito estável. Então, pode ser um DDT lançado antes de 2009, mas que estava naqueles sedimentos. Como tivemos muita transposição de solos durante a enchente, pode voltar a aparecer — avalia Cristiane.

Por meio de nota, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informa que “a água distribuída à população de Porto Alegre passa por rigoroso controle de qualidade em todas as etapas do abastecimento, desde o manancial até a rede de distribuição”, e que “são realizadas análises frequentes da água bruta e da água tratada, incluindo monitoramento contínuo nas Estações de Tratamento e em mais de 350 pontos da rede de distribuição em toda a cidade. Todos os resultados obtidos pelo Dmae atendem aos limites estabelecidos na legislação de potabilidade, garantindo que a água distribuída é própria para consumo” (leia a íntegra ao final da reportagem).

Cristiane Oliveira afirma que os métodos de depuração existentes hoje são capazes de eliminar esses contaminantes, mas é preciso seguir monitorando a qualidade da água bruta com atenção.

— A gente tem hoje um tratamento que ainda segura (os poluentes), mas a nossa preocupação é com o futuro. Caso esses poluentes orgânicos comecem a ficar muito elevados, a estação (de tratamento) vai precisar incluir uma operação mais avançada — analisa a especialista da UFCSPA.

Conforme o CEO da Infinito Mare, ainda está em discussão com a prefeitura a continuidade do programa para monitoramento de mais longo prazo. A empresa já desenvolveu uma iniciativa semelhante em Belo Horizonte, vem atuando no Rio de Janeiro e tem planos para a região metropolitana de Curitiba e Santos, entre outras ações. Recentemente, o projeto da caravela recebeu prêmios como o Design For a Better World, no Brasil, e o IF Design Award, na Alemanha.

— O projeto visa a servir como uma ferramenta para aumentar o potencial de inteligência do monitoramento ecológico, e a gente promover serviços ambientais enquanto realiza esse monitoramento. O objetivo é “ouvir” a natureza e trazer soluções para o futuro próximo — complementa Libardoni.

O que diz a nota do Dmae

“O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informa que a água distribuída à população de Porto Alegre passa por rigoroso controle de qualidade em todas as etapas do abastecimento, desde o manancial até a rede de distribuição. O monitoramento segue as diretrizes da Portaria de Consolidação nº 5/2017 _ Anexo XX do Ministério da Saúde, atualizada pela Portaria GM/MS nº 888/2021, além da Portaria SES/RS nº 320/2014.

São realizadas análises frequentes da água bruta e da água tratada, incluindo monitoramento contínuo nas Estações de Tratamento e em mais de 350 pontos da rede de distribuição em toda a cidade. Todos os resultados obtidos pelo Dmae atendem aos limites estabelecidos na legislação de potabilidade, garantindo que a água distribuída é própria para consumo.

Em relação ao projeto-piloto conduzido pela empresa Infinito Mare, a Prefeitura ainda não recebeu o relatório final do estudo. Quando o documento for encaminhado oficialmente, os dados serão analisados e comparados com o monitoramento realizado pelo Dmae no mesmo período e local. O Departamento também realiza monitoramento permanente das águas do Arroio Dilúvio em 11 pontos. De forma preliminar, qualquer interpretação dos resultados do estudo exige avaliação detalhada da metodologia empregada, incluindo critérios de amostragem e forma de expressão dos dados.”


Fonte: Gaúcha ZH