A cerimônia realizada hoje no Centro de Convenções da UENF, na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, marcou um momento histórico para as famílias do Assentamento Cícero Guedes: a entrega de 168 títulos de concessão de uso dos lotes nas terras desapropriadas da antiga Usina Cambahyba. O ato reuniu dirigentes universitários, parlamentares, sindicalistas, assentados, movimentos sociais, e apoiadores da reforma agrária, consolidando uma conquista construída ao longo de anos de mobilização e resistência.
Um dos momentos mais emocionantes foi a fala de Mateus Guedes, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e filho de Cícero Guedes, liderança histórica assassinada enquanto apoiava a luta pela criação do assentamento. Em seu discurso, Mateus destacou que a entrega dos títulos simboliza não apenas segurança jurídica para as famílias, mas também a continuidade do legado de seu pai e de tantos trabalhadores que lutaram para transformar terras antes improdutivas em espaços de vida, trabalho e produção.
A formalização das concessões representa um passo decisivo para a consolidação do assentamento, garantindo às famílias condições mais estáveis para investir na produção, acessar políticas públicas e planejar o futuro com maior segurança. Ao mesmo tempo, o evento reafirmou o papel da reforma agrária como política estruturante para o país. Mais do que ampliar a produção de alimentos, a democratização do acesso à terra contribui para gerar trabalho, fortalecer economias locais e reduzir desigualdades históricas na distribuição de renda no Brasil.
Assim, a cerimônia de hoje simboliza uma vitória coletiva: das famílias assentadas, dos movimentos sociais e de todos que defendem um modelo de desenvolvimento rural baseado na justiça social, na produção de alimentos e na construção de um país mais igualitário.
Como nota final, a cerimônia também carregou um forte simbolismo histórico. Os fornos da antiga Usina Cambahyba foram utilizados durante a ditadura militar para incinerar corpos de oposicionistas do regime, um dos capítulos mais sombrios da história recente do país. De forma profundamente irônica e carregada de significado, a entrega dos títulos ocorreu exatamente no 62º aniversário do golpe militar de 1964, transformando um espaço marcado pela violência e pela tentativa de apagar vidas em um território de memória, justiça e reconstrução coletiva. Hoje, o que antes foi cenário de morte torna-se símbolo de vida, dignidade e esperança para centenas de famílias da reforma agrária.
Como uma política ambiental corporativa vem restringindo a pesca artesanal e reconfigurando territórios tradicionais no entorno do Porto do Açu
Um estudo recente sobre o entorno do Porto do Açu, no norte fluminense, traz à tona uma contradição cada vez mais presente em contextos de grandes empreendimentos: políticas de proteção ambiental podem estar sendo mobilizadas como instrumentos de exclusão territorial. O foco da análise é a Lagoa de Iquipari, historicamente utilizada por pescadores artesanais do V Distrito de São João da Barra (RJ). A pesquisa em questão é a dissertação de mestrado do geógrafo sanjoanense Jayson Freitas Gomes, desenvolvida sob minha orientação no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). O trabalho investiga, com base empírica consistente, os impactos do programa de proteção ambiental implementado pelo Porto do Açu sobre comunidades pesqueiras locais.
A inflexão ocorre em 2012, quando a lagoa passa a integrar a RPPN Fazenda Caruara, uma reserva privada vinculada ao complexo portuário. A partir desse momento, o acesso à área passa a ser regulado por uma série de normas restritivas que impactam diretamente a pesca artesanal. Na prática, atividades tradicionais passam a ser limitadas, quando não completamente inviabilizadas. O argumento central do estudo é que esse processo vai além da regulação ambiental: trata-se de uma dinâmica de desterritorialização. Ao serem impedidos de acessar a lagoa, os pescadores não apenas perdem sua principal fonte de renda, mas também são progressivamente desconectados de um território que sustenta modos de vida, saberes e identidades construídas ao longo de gerações.
A dissertação, baseada em revisão bibliográfica, análise documental e trabalho de campo com entrevistas e questionários, evidencia que as restrições impostas não são percebidas como medidas de proteção compartilhada, mas como mecanismos de exclusão. Muitos pescadores relatam a impossibilidade de continuar exercendo sua atividade, o que intensifica quadros de vulnerabilidade socioeconômica já existentes.
Esse cenário se insere em um contexto mais amplo. Em economias periféricas como a brasileira, marcadas por políticas neoliberais e pela expansão do neoextrativismo, grandes corporações têm ampliado seu controle sobre territórios estratégicos. Nesse movimento, programas ambientais frequentemente cumprem uma dupla função: ao mesmo tempo em que contribuem para a valorização simbólica e financeira dos empreendimentos, também ajudam a reorganizar o uso do território em favor do capital.
No caso da Lagoa de Iquipari, isso se traduz em um paradoxo evidente: enquanto a área é formalmente protegida, os grupos que historicamente contribuíram para sua conservação são afastados. A natureza é preservada — mas sem as pessoas que sempre fizeram parte dela.
A questão que emerge é inevitável: quem define o que é proteger — e para quem essa proteção serve? Quando políticas ambientais desconsideram os direitos e os modos de vida de comunidades tradicionais, elas correm o risco de reproduzir, sob novas justificativas, antigas formas de expropriação.
Quem desejar baixar o arquivo contendo a dissertação de Jayson Freitas Gomes, basta clicar [Aqui!].
O governo Lula continua em sua marcha firme para quebrar todos os recordes de aprovação de agrotóxicos na história, no melhor estilo do “nunca antes na história desse país”. É que hoje (31/03) o Diário Oficial da União publicou o Ato Nº 16, de 27 de março 2026 liberando mais 48 agrotóxicos do tipo “Produto Técnico”. Com isso, o governo Lula superou o número de aprovações de agrotóxicos realizadas durante o mandato de Jair Bolsonaro.
Em um rápido exame dos produtos aprovados, o que temos é um museu de velhas novidades, a maioria produzida por empresas chinesas, fato que confirma uma trajetória de trocas de desiguais com o principal comprador de soja brasileira. Há que se lembrar que a cultura da soja consome sozinha quase 60% dos agrotóxicos consumidos no Brasil, sendo o principal vetor de contaminação ambiental da agricultura brasileira.
Curiosamente a publicação do Ato Nº 16 se dá no mesmo dia do golpe militar de 1964, o que confirma a continuidade da herança química do regime militar que adotou diversas medidas para garantir o crescimento do consumo de agrotóxicos no Brasil que até aquele período era insignificante. Com isso, temos uma continuidade do legado químico da ditadura militar sob a batuta de um governo que se pretende de esquerda.
Eventos climáticos severos estão atingindo com mais força as populações vulneráveis, comprometendo o progresso na nutrição infantil. A foto mostra vítimas das enchentes em um abrigo no norte do Peru. Crédito da imagem: Rosa Quincho, Urpi/Diario La República
Por Luiz Felipe Fernandes para SciDev
[RIO DE JANEIRO, BRASIL, SciDev.Net] Altas temperaturas aumentam o risco de desnutrição infantil, segundo estudo realizado no Brasil.
A análise, publicada na revista The Lancet Planetary Health, revelou que cada aumento de 1°C acima da temperatura média de 26°C está associado a um aumento de aproximadamente 10% na probabilidade de uma pessoa estar abaixo do peso para a idade e a um aumento de 8% no risco de estar abaixo do peso para a altura e ter baixa estatura para a idade.
A pesquisa foi baseada em dados de um período de 10 anos e de 6,5 milhões de crianças de 1 a 5 anos de idade de todas as regiões do Brasil.
“Infraestruturas precárias, insegurança alimentar crônica e acesso limitado a serviços de saúde […] reduzem a capacidade de adaptação às variações de temperatura, transformando o estresse climático em um resultado biológico mensurável e expondo uma situação de injustiça ambiental.”
Priscila Ribas, pesquisadora do Núcleo de Integração de Dados e Conhecimentos em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professora da Universidade Federal da Bahia, Brasil.
Diferentemente de outros estudos focados em eventos extremos isolados, os autores analisaram a temperatura média ao longo de todo o período e calcularam seu impacto cumulativo até 52 semanas após a exposição. Isso permitiu captar seus efeitos progressivos, visto que o impacto do calor nanutrição infantilgeralmente se manifesta gradualmente.
“O estudo mostra que a exposição ao calor não só gera impactos imediatos, como também contribui para processos de desnutrição crônica que comprometem o desenvolvimento humano a longo prazo”, explicou a nutricionista Priscila Ribas, pesquisadora do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma das autoras do estudo, à SciDev.Net .
De acordo com os resultados, a associação entre o aumento da temperatura e a piora dos indicadores nutricionais foi mais intensa nas regiões Norte e Nordeste – que concentram os maiores índices de pobreza no Brasil – em áreas rurais e entre os filhos de mães indígenas .
Para Ribas, isso representa um “efeito multiplicador sobre vulnerabilidades preexistentes”.
“A infraestrutura precária,a insegurança alimentar crônicae o acesso limitado aos serviços de saúde nessas áreas e grupos reduzem a capacidade de adaptação às variações de temperatura, transformando o estresse climático em um resultado biológico mensurável e expondo uma situação de injustiça ambiental”, destacou Ribas, que também é professor da Universidade Federal da Bahia.
Segundo a pediatra Alicia Matijasevich Manitto, professora da Universidade de São Paulo e não envolvida no estudo, os resultados são consistentes com o que tem sido observado em outras partes do mundo, especialmente na África subsaariana e em outras regiões tropicais.
Na opinião deles, o fato de os efeitos serem mais acentuados nos contextos mais vulneráveis reforça a evidência de que as mudanças climáticas “podem agravar as desigualdades sociais em saúde”.
Efeitos diretos e indiretos
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 559 milhões de crianças e adolescentes estão expostos a ondas de calor frequentes, definidas como períodos de pelo menos três dias com temperaturas máximas 10% acima da média histórica local. Nesse cenário, o UNICEF estima que, até 2050, todas as crianças e adolescentes do mundo estarão expostos a ondas de calor.
No Brasil, segundo dadosdo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, 5% das crianças entre 0 e 4 anos sofriam de desnutrição em 2025. Na América Latina e no Caribe, a desnutrição crônica nessa faixa etária era de 11,5% em 2022, de acordo com umrelatórioda Organização dos Estados Ibero-Americanos publicado no ano passado.
Os pesquisadores concordaram que crianças entre 0 e 11 anos têm características fisiológicas e metabólicas diferentes dos adultos, o que as torna mais vulneráveis.
“As altas temperaturas podem reduzir o apetite, aumentar o risco de desidratação e causar episódios de diarreia e infecções, afetando a absorção de nutrientes e causando perda de peso”, explicou Matijasevich Manitto.
Ribas acrescentou que as altas temperaturas favorecem a proliferação de patógenos e vetores de doenças , fazendo com que os bebês consumam menos calorias e percam nutrientes em um ritmo acelerado.
A nutrição infantil também pode ser afetada indiretamente, por meio dos efeitos das mudanças climáticas nos sistemas alimentares .
“ O calor extremoe os eventos climáticos adversos prejudicam a produtividade agrícola, reduzem a disponibilidade de alimentos e aumentam os preços, afetando o consumo nutricional das famílias mais pobres”, disse ele.
Danos futuros
O estudo alerta que as mudanças climáticaspodem reverter os recentes avanços na nutrição infantil, alcançados graças ao desenvolvimento socioeconômico, à expansão da atenção primária à saúde e à redução das desigualdades.
Matijasevich Manitto explicou que diversos estudosmostram que a desnutrição infantil está associada a menor nível de escolaridade, menor produtividade econômica e menor renda ao longo da vida. “Uma nutrição adequada nos primeiros anos de vida é fundamental para o desenvolvimento cerebral e para as funções cognitivas e socioemocionais”, enfatizou.
Reduzir a pobreza é uma medida eficaz para a adaptação às mudanças climáticas. Crédito da imagem: cortesia do jornal La República.
Os pesquisadores concordam que proteger as crianças do estresse térmico exige uma combinação de prevenção, preparação e uma resposta coordenada entre governos e sistemas de saúde . No entanto, a longo prazo, as soluções devem ser estruturais.
“Reduzir a pobreza não é apenas uma estratégia de justiça social, mas também pode servir como uma medida eficaz de adaptação às mudanças climáticas”, concluem os autores do artigo publicado na revista The Lancet Planetary Health .
Dados municipais revelam baixa efetividade do Plano Nacional de Resíduos Sólidos de 2022, que tem foco em tratamento de resíduos em vez de prevenção. Uso pouco eficiente de recursos públicos e crescimento da geração de lixo acima do populacional têm sido reflexos dessa abordagem, aponta professora e pesquisadora da UFPR
Meta do Planares era a extinção dos lixões até 2024, mas um ano depois disso pelo menos 1,6 mil municípios continuaram utilizando despejos de resíduos urbanos a céu aberto, sem tratamento. Na foto, lixão com 250 mil toneladas em Padre Bernardo (GO) que desabou duas vezes em 2025. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Por Camille Bropp para “Ciência UFPR”
Pensado para um “horizonte de 20 anos”, o Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares), instituído por decreto presidencial em abril de 2022, tinha uma meta emergencial: abolir, em dois anos, o uso de lixões para despejo de resíduos sólidos nas cidades. Lixão é o nome que se dá a depósitos de lixo exposto, sem previsão de tratamento dos resíduos e nem de proteção do solo. Passado o prazo, os lixões continuam realidade nos municípios.
De acordo com olevantamento mais recente do Ministério das Cidades (MCID), baseado na declaração das prefeituras, o Brasil iniciou 2025 com pelo menos 1.492 municípios (quase 27% do total e 31% dos respondentes) ainda operando vazadouros a céu aberto. O dado sugere uma estagnação em relação a 2020, ano em que se baseou o artigo de avaliação das expectativas sobre o Planares publicado pela professora Andréa Ryba Lenzi, do Departamento de Transportes da Universidade Federal do Paraná (UFPR), com outros dois autores, na revista Cuadernos de Educación y Desarrollo (CED).
“A partir dos dados [base de 2024], pode-se observar que a maioria dos estados ainda usa lixão ou aterro controlado, que são formas inadequadas. Isso gera custos ambientais, sociais e econômicos enormes. Contaminação do solo, da água, problemas de saúde pública, enfim, passivos, que depois vão sair muito mais caros de remediar”, avalia a professora, em entrevista à Ciência UFPR.
Publicado em 2024, o estudo aponta que, apesar de a justificativa dos municípios para continuarem dependentes de lixões centrar na falta de recursos financeiros, dinheiro poderia ser mais bem utilizado. Recursos escorrem com a manutenção do passivo ambiental — multas e demais problemas decorrentes dessas unidades impróprias — e com contratos onerosos de planejamento e execução, que rendem planos municipais sem requisitos básicos, não incluem parcerias sociais com cooperativas de catadores e negligenciam a coleta seletiva.
Nesse contexto, a exclusão dos catadores de contratos formais com o poder público tem ainda o efeito de manter precário um trabalho desempenhado principalmente por mulheres. Segundo o estudo que saiu na revista CED, elas representam em torno de 56% dos catadores.
“Muitas ainda permanecem na informalidade. Ficam sem direitos trabalhistas, sem previdência, sem estabilidade, com renda incerta e ainda acumulam o trabalho doméstico e a criação dos filhos. Sem formalização, os trabalhadores da reciclagem continuam vulneráveis. E, quando a gente fala em cooperativas, ter contrato com órgão público ou privado faz toda a diferença para garantir dignidade e direitos trabalhistas”, avalia Andréa.
Foco em tratamento não estanca geração de lixo; decreto de 2025 busca solução para plásticos
Na base dos problemas de resíduos sólidos no Brasil, existe também a tendência de que a geração de resíduos cresça a uma taxa superior ao crescimento populacional. O estudo publicado em 2024 indica isso: enquanto a população cresceu 0,76% entre 2019 e 2020, a quantidade de lixo coletado aumentou 2,3%. Ou seja, o crescimento populacional não é a única explicação para o aumento do lixo.
“Isso implica que cada pessoa, em média, está gerando mais resíduos. Mas este é só um exemplo. Não é só porque tem mais gente; é porque a gente está consumindo mais, produzindo mais embalagens, mais descartáveis. O padrão de consumo da sociedade só aumenta, e esta é uma interpretação baseada nos números”, diz Andréa Lenzi.
O quadro levanta questões sobre lacunas nas políticas públicas de orientação e estímulo à população para a redução do lixo na fonte — o que também implica apoio de setores econômicos. Em suma, políticas de redução da geração. Segundo a professora, esse é outra questão do Planares. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)precisa ser reavaliada no que diz respeito à logística reversa e à responsabilidade compartilhada entre setor público e privado.
“Sobre a questão da ‘não geração’, devemos levar em consideração principalmente o número reduzido de políticas públicas efetivas de educação ambiental”, avalia a professora.
“O próprio Planares não estabelece meta clara para a redução, então fica difícil cobrar ou monitorar. Na prática, a política acaba focando no que fazer com o lixo depois que ele já foi gerado, e não tanto em evitar que ele apareça. Ou seja, é muito mais uma questão de remediação do que antecipação ao problema”.
Atrás da matéria orgânica (44% do total apurado pelo MDCI), a segunda maior parcela de lixo no Brasil é de lixo plástico (cerca de 17%). Para reduzir esse tipo de lixo, odecreto federal 12.688, de outubro de 2025, é um instrumento normativo recente que define metas obrigatórias para a reciclagem de embalagens plásticas, regulamentando a lei da PNRS para tentar tirar do papel a logística reversa já prevista há mais de 15 anos.
Para Andréa Lenzi, em tese o decreto pode ajudar em “uma das grandes necessidades” do cenário, que é a de políticas públicas mais assertivas quanto às metas para as partes envolvidas.
“Se o decreto realmente impõe metas claras e passíveis de fiscalização, isso pode dar um empurrão na logística reversa de que a gente tanto precisa. O problema é que, sem estrutura e sem fiscalização, pode acabar virando mais uma meta no papel”.
Lixões e aterros controlados ameaçam meio ambiente, saúde e segurança
O lixão é uma unidade irregular de processamento de resíduos sólidos, por isso a extinção é considerada urgente.
Existe, porém, outra forma de disposição inadequada que é a terceira mais utilizada por municípios, o aterro controlado. Trata-se de um estágio intermediário entre os lixões e os aterros sanitários, que são a estrutura ideal. No aterro controlado o lixo não fica exposto — é coberto por terra — e existe algum controle de acesso, mas permanecem os riscos causados por ausência de impermeabilização do solo e falta de tratamento de efluentes e gases, que em geral impedem licenciamento ambiental.
O Centro-Oeste é uma das regiões com maiores percentuais de uso de unidades inadequadas por prefeituras, o que indica que os dados espelham a desigualdade regional do país. Enquanto Norte, Centro-Oeste e Nordeste têm alta dependência de lixões e aterros controlados, Sudeste está em situação intermediária e Sul usa bem menos esses destinos. Nenhuma região, porém, registra zero lixões.
“Isso mostra que a política nacional não consegue ser aplicada de forma igual. Tem estados que avançaram, mas outros ficaram para trás. Então qualquer solução tem que considerar essas desigualdades, senão a gente vai continuar tendo um Brasil desigual na gestão dos resíduos”, diz Andréa Lenzi.
Integridade dos dados é desafio para pesquisadores
Segundo a PNRS, os municípios têm a responsabilidade pela gestão integrada dos resíduos sólidos gerados em seu território. Portanto, são as prefeituras que se encarregam de coletar, transportar, tratar e dar destinação final adequada aos resíduos urbanos — soma do lixo doméstico e o da limpeza urbana. Também compete a elas elaborarem um Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, que é o requisito mínimo para que possam acessar verbas públicas.
Os governos estaduais e federal devem monitorar a situação e propor diretrizes e programas de enfrentamento ao problema.
O levantamento do MCID, chamado de Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico — a sigla foi alterada de SNI para Sinisa em 2023 —, é feito por meio da participação dos municípios. Isso faz com que a qualidade dos dados dependa tanto da cobertura quanto da segurança das informações prestadas.
A participação em 2024 foi de 4.854 municípios de um total de 5.570 (87,1%), um acréscimo em relação a 2013, por exemplo, quando o número de municípios era o mesmo e 3.765 participaram (67,6%).
Andréa Lenzi reforça a importância de melhoria contínua dos dados, acrescentando a eles verificação e validação, também como forma de melhorar a eficácia das políticas. “É um círculo vicioso. Sem dados, não tem política eficaz. Sem política eficaz, os dados continuam ruins. E quem sofre as consequências é quem está na ponta, o cidadão e o meio ambiente”.
A Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF) promove, no dia 20 de abril, um debate sobre o tema “A pesquisa ambiental e seus inimigos: negacionismo, produtivismo & Cia.”. A atividade propõe discutir os desafios enfrentados pela produção científica na área ambiental em um contexto marcado por pressões institucionais, disputas políticas e questionamentos ao papel da ciência na compreensão e enfrentamento das crises ambientais contemporâneas.
O encontro contará com a minha participação e a do professor Marcelo Lopes de Souza (UFRJ). A mediação será realizada pelo professor Carlos Bordalo (UFPA), que conduzirá a conversa buscando aprofundar as reflexões sobre o papel da pesquisa ambiental e da Geografia Física diante dos desafios atuais.
A atividade será realizada das 14h30 às 16h30, com transmissão pelo canal do GENAT/UFPB no YouTube. A ABGF convida pesquisadores, estudantes e todos os interessados na temática ambiental a participarem do debate, que pretende ampliar o diálogo sobre a importância da ciência crítica e comprometida com a compreensão e a defesa dos sistemas socioambientais.
Imagens de algumas reportagens que fiz sobre Altamira e Belo Monte
Por Ismael Machado*
Ando revendo, até por conta desse novo espaço criado, algumas das histórias que relatei nesses 35 anos de trajetória profissional. Algumas coisas testemunhadas nessa Amazônia repleta de complexidades. Belo Monte, por exemplo. Durante cerca de seis anos, entre idas e vindas à região do Rio Xingu, por volta de 2008 a 2013, acompanhei, como repórter, a construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte. Não foi uma cobertura contínua, mas uma sequência de retornos — e isso fez diferença. Porque, a cada viagem feita, o que antes era anúncio de desmazelos começava a ganhar forma concreta e o que era dúvida passava a ter consequência direta entre a população local.
O que mais ficou dessas viagens não foram os números do empreendimento, sempre grandiloquentes, mas as vozes de quem seria diretamente afetado por essa obra sonhada desde o regime militar e levada a cabo definitivamente na gestão federal do PT.
Rememoro essas vozes pouco ouvidas. Celso Albertino da Silva, morador de um travessão da Transamazônica, dizia que não se prende um rio como se prende um boi. Não havia ironia na frase. Era uma leitura direta de quem conhecia o comportamento da água. Ele explicava que, ao desviar o curso, o rio encontraria outro caminho. O lugar onde vivia, segundo o projeto, se transformaria numa espécie de cuia — as partes altas permanecendo, o resto submerso.
Em Paratizão, Émerson Nascimento Pessoa não falava de engenharia nem de impacto ambiental. Falava de permanência. “Não tenho vontade de sair daqui.” Tinha três filhos pequenos e uma casa à beira do rio. Ao lado, Silmara Mendes Costa, a Caçulinha, dizia o que talvez fosse mais preciso: sair dali seria uma tristeza. Não havia cálculo nisso.
Os pais de Émerson já tinham ido embora. Deslocados não para outro projeto de vida, mas para não assistir ao que consideravam inevitável. “Saíram antes pra não ver isso aqui perdido”, constatava Émerson. Em vários pontos do Xingu, a decisão de sair antecipadamente aparecia como forma de evitar o testemunho da própria perda.
Mais acima, em Arroz Cru, Francélia Nogueira da Costa insistia numa pergunta que se repetia em diferentes comunidades: o que significava, de fato, a tal “indenização”? Falava-se em assegurar isso às famílias, mas sem clareza sobre como se traduziria na vida concreta de quem sempre viveu da roça e da pesca. Nunca esqueci um casal formado por uma bióloga e um técnico agrícola lá no meio de uma propriedade num travessão da Transamazônica. No meio do almoço que ela fez questão de preparar a mim, ao motorista e ao repórter fotográfico, me endereçou essa resposta quando questionei sobre a indenização da pequena propriedade agroflorestal que eles mantinham há uns dez anos. “Quanto custa o nosso sonho? Qual o valor monetário dele?”. Essa fala me acompanha sempre quando alguma discussão nesse sentido entra em pauta em rodas de conversa.
Ao mesmo tempo, a ativista Antônia Melo denunciava a forma como as negociações eram conduzidas — fragmentadas, diretas, com promessas que circulavam de maneira desigual entre comunidades. Para ela, havia um esforço claro de dissolver resistências.
Na Prelazia do Xingu, Dom Erwin Krautler dizia que o ponto decisivo era impedir a primeira barragem. A leitura era simples: uma vez iniciada, a lógica do empreendimento seguiria adiante.
Enquanto essas falas se acumulavam, Altamira mudava rapidamente.
A cidade recebia trabalhadores, o comércio se movimentava, a promessa de crescimento ganhava corpo. Mas a estrutura não acompanhava. Ali por volta de 2013, o Hospital Municipal São Rafael passou de cerca de 200 atendimentos diários para uma média de 500 em poucos meses. Filas se formavam onde antes havia margem.
Lembro de Elismar Carvalho, dona de hotel, percorrendo hospitais em busca de atendimento e não conseguindo, mesmo com plano de saúde. O relato se repetia em diferentes versões. A cidade crescia mais rápido do que conseguia absorver esse crescimento.
O aumento populacional trouxe também pressão sobre segurança, educação, serviços básicos. A própria Associação Comercial de Altamira, inicialmente favorável à obra, passou a falar em cobranças, em acordos não cumpridos, em falta de planejamento.
No rio, as mudanças começavam a aparecer antes mesmo da conclusão da usina.
Na Volta Grande do Xingu, Manoel Juruna dizia não haver compensação possível para a destruição do modo de vida. A preocupação com a redução da água e com a pesca era constante. E não era apenas projeção.
Entre ribeirinhos, a incerteza e o medo eram regras.
Manoel Neves de Araújo sabia que a decisão não passava por ele. “Não é com muita vontade que a gente vai sair daqui.” Albino Pessoa dos Santos, o Fininho, também estava cadastrado para indenização, mas deixava claro: preferia não sair. Manoel Matos da Cruz e Laura de Souza, já idosos, sequer sabiam para onde iriam.
As perguntas estavam todas colocadas ali. Mas as respostas, como na canção de Bob Dylan, ficavam soprando no ar.
Hoje, passados anos da entrada em operação de Belo Monte, é possível olhar para trás e perceber que muitas dessas questões não foram resolvidas, apenas arquivadas no tempo.
A Volta Grande do Xingu convive com redução significativa de vazão em determinados períodos. A pesca, base alimentar e econômica de comunidades indígenas e ribeirinhas, foi profundamente afetada. Espécies diminuíram, rotas migratórias foram alteradas, e a regularidade que organizava a vida ao redor do rio deixou de existir como antes.
Os reassentamentos urbanos, apresentados como solução, trouxeram novos problemas. Muitas famílias deslocadas passaram a viver em áreas com infraestrutura padronizada, distante do rio e das atividades que garantiam sua subsistência. O custo de vida aumentou, a dependência de renda monetária se intensificou, e a promessa de melhoria não se realizou de forma homogênea.
Em Altamira, o ciclo da obra deixou marcas conhecidas. O crescimento acelerado durante a construção, seguido por retração econômica. Parte dos empregos desapareceu com o fim das obras. A pressão sobre serviços públicos não recuou na mesma proporção.
No campo energético, a usina opera, mas as limitações apontadas ainda durante a construção permanecem relevantes. A dependência do regime de chuvas do Xingu faz com que a geração efetiva varie bastante ao longo do ano, distante da potência instalada anunciada.
A energia produzida segue majoritariamente destinada a setores industriais de grande consumo. A relação direta entre o impacto local e o benefício para a população da região continua sendo uma questão aberta.
Nada disso é exatamente novo. Estava, de alguma forma, anunciado nas falas recolhidas ao longo daqueles anos. O que mudou foi o tempo, pois o que era previsão tornou-se condição. E é a partir dessa condição que se projeta o que vem pela frente.
Belo Monte nunca foi um caso isolado. Ela se insere numa lógica mais ampla de ocupação e uso dos rios amazônicos como base para grandes projetos energéticos. Outros rios da região — como o Rio Tapajós, o Rio Madeira e o Rio Tocantins — já foram ou continuam sendo, alvo de propostas semelhantes, em diferentes estágios.
A experiência do Xingu funciona, nesse sentido, como referência concreta.
Ela mostra que os impactos não se encerram com a conclusão da obra. O deslocamento nunca é apenas geográfico. E as compensações financeiras não substituem modos de vida. O que se percebeu é que sistemas urbanos locais dificilmente acompanham o ritmo imposto por grandes empreendimentos. E que os efeitos ambientais se estendem no tempo, muitas vezes de forma irreversível.
Há uma dimensão de Belo Monte não medida em megawatts, cronogramas ou cifras bilionárias. Ela aparece como lembrança incômoda nos alertas que, ainda no período de implantação da usina, foram feitos por pesquisadores, lideranças locais e órgãos públicos, muitos deles ignorados ou relativizados no calor da decisão política.
“Não há na história nenhum registro de construção de barragem que não tenha gerado consequências sérias e irreversíveis para as populações locais”, advertia a antropóloga Sônia Magalhães. Sua afirmação não era retórica. Ela sintetizava um conjunto de incertezas que, à época, cercavam o projeto, sobretudo pela ausência de estudos aprofundados em áreas consideradas sensíveis.
Do ponto de vista ecológico, os dados disponíveis já indicavam um cenário de excepcionalidade. Um estudo conduzido pelo biólogo Hermes Ferreira apontava que a diversidade de peixes na área diretamente afetada pela barragem superava a de todo o continente europeu. Tratava-se de um ecossistema singular, moldado por barreiras naturais como as cachoeiras da Volta Grande do Xingu, que funcionavam como zonas de isolamento e evolução de espécies. Ainda assim, como reconheciam os próprios especialistas, era uma área insuficientemente estudada, o que ampliava o grau de risco. “De qualquer perspectiva que se olhe, social ou ambiental, não se sabe o custo de Belo Monte”, resumia Sônia Magalhães.
Enquanto isso, o consórcio responsável pela obra, a Norte Energia, um grupo formado por diversas empresas estatais e privadas envolvidas na construção de Belo Monte, sustentava que os impactos estavam sendo mitigados dentro do previsto. Em notas oficiais, destacava investimentos em infraestrutura urbana, como a ampliação do saneamento básico em Altamira — onde, até então, apenas 18% da população tinha acesso à água tratada e não havia rede de esgoto estruturada. A empresa também citava ações vinculadas ao Projeto Básico Ambiental (PBA) e ao Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRS-X), que prometia destinar centenas de milhões de reais à região.
Essa narrativa institucional, no entanto, convivia com uma realidade mais desordenada no território. O avanço das obras trouxe consigo um crescimento populacional acelerado, pressões sobre serviços públicos e transformações sociais abruptas. Próximo aos canteiros, surgiam estruturas improvisadas que evidenciavam esse novo contexto — como a chamada “Boate Xingu”, instalada à margem da floresta, símbolo de uma economia paralela que acompanha grandes empreendimentos. Nossa equipe retornava de uma aldeia quando deparamos com essa ‘boate’ armada à margem da floresta, anunciando ‘modelos’ vindas de São Paulo para a inauguração. Mais ‘Bye Bye Brasil’ impossível.
Para as populações diretamente afetadas, o futuro aparecia como uma violenta ruptura. Povos indígenas da Volta Grande do Xingu temiam a redução drástica da vazão do rio, com impactos diretos sobre a pesca, a navegação e os modos de vida tradicionais. “Tampando o rio, como é que nós vamos ficar?”, questionava José Arara, liderança indígena, ao apontar o leito pedregoso que poderia secar. Entre os Juruna da aldeia Paquiçamba, a desconfiança em relação às compensações oferecidas era evidente. “Prometeram muito e cumpriram pouco”, dizia o cacique Manoel Juruna, reforçando a percepção de que não havia equivalência possível entre indenização financeira e perda territorial.
Entre ribeirinhos, o dilema assumia outra forma com o deslocamento compulsório. Comunidades inteiras seriam inundadas, e a indenização oferecida não garantia a reconstrução das condições de vida. “Poder é poder”, resumia Manoel Neves de Araújo, morador do Paratizinho, ao expressar a sensação de impotência diante da obra.
No campo jurídico, as controvérsias eram igualmente intensas. A Advocacia-Geral da União buscava no Supremo Tribunal Federal reverter decisões que haviam suspendido as obras, enquanto a Procuradoria-Geral da República sustentava que não havia base para tal intervenção. No centro da disputa estava um ponto crucial: o direito à consulta prévia, livre e informada dos povos indígenas, conforme previsto na Convenção 169 da OIT. Para o Ministério Público, consultas realizadas após decisões já tomadas eram “mera forma sem substância”, incompatíveis com o princípio da autodeterminação.
As críticas não se restringiam ao campo social ou jurídico. Especialistas em energia também questionavam a lógica econômica do empreendimento. O pesquisador Célio Bermann argumentava que Belo Monte não se justificava pela eficiência energética, mas pelo volume de recursos mobilizados durante sua construção. Segundo ele, a rentabilidade para grandes empreiteiras estava concentrada na execução da obra, não na geração de energia em si.
Os números reforçavam a desconfiança. O custo estimado do projeto saltou de R$ 4,5 bilhões, em 2006, para mais de R$ 26 bilhões — com projeções que ultrapassavam R$ 30 bilhões. Ao mesmo tempo, estudos indicavam que a usina operaria em plena capacidade por apenas alguns meses ao ano, devido ao regime hidrológico do rio Xingu. Durante a estiagem, a produção poderia cair a cerca de um décimo da capacidade instalada.
No campo ambiental, os riscos eram descritos com precisão técnica. Relatórios apontavam para a possibilidade de eutrofização dos reservatórios, com impactos na qualidade da água e na saúde pública. A eutrofização, para os menos afeitos a termos tão técnicos, é o enriquecimento excessivo de nutrientes (especialmente nitrogênio e fósforo em corpos d’água), causando o crescimento descontrolado de algas e cianobactérias. Esse processo, geralmente provocado por esgoto ou fertilizantes, reduz o oxigênio da água, causando a morte de peixes e a degradação do ecossistema.
A redução de até 80% da vazão na Volta Grande do Xingu ameaçava extinguir espécies endêmicas, enquanto a perda de igarapés, fundamentais para a reprodução de peixes, poderia comprometer mais da metade das espécies aquáticas da região. Era um cenário apocalíptico que lentamente foi se desenhando real.
Os próprios técnicos do IBAMA reconheciam limitações nos estudos de impacto ambiental. Em parecer interno, admitiam que análises não haviam sido concluídas com a profundidade necessária, especialmente em relação às populações indígenas e aos efeitos do crescimento populacional. Havia, segundo o documento, um “grau de incerteza elevado” em aspectos essenciais, como a qualidade da água.
Paralelamente, indicadores já mostravam efeitos indiretos do empreendimento. Dados do Imazon apontavam que Altamira liderava o desmatamento na Amazônia naquele período, um sinal claro da pressão territorial associada à obra.
É bom enfatizar, fazendo um extenso parêntesis, que desde pelo menos 2021, vários estudos científicos e análises de indicadores socioambientais mostram que os municípios da Amazônia (e do Brasil como um todo) que mais desmatam tendem a apresentar piores indicadores de qualidade de vida, desenvolvimento social e renda do que aqueles com menor desmatamento. Pesquisas baseadas no Índice de Progresso Social (IPS) — um indicador internacional que considera aspectos como moradia, acesso à educação, inclusão social e bem-estar — revelam que, na Amazônia Legal, os municípios com maiores áreas de floresta derrubada têm pontuações médias significativamente mais baixas no IPS do que tanto a média do Brasil quanto a média regional. Esse padrão sugere que o modelo de desenvolvimento baseado na remoção da floresta não tem trazido melhorias substanciais nas condições de vida das populações locais e pode estar associado à pobreza, exclusão social e baixo progresso social.
Um exemplo emblemático dessa relação é o caso de Altamira, tema principal desse texto, que por muitos anos foi apontado como um dos municípios brasileiros com maiores áreas desmatadas na Amazônia. A intensa pressão sobre a floresta local, historicamente impulsionada por atividades como pecuária e agricultura de corte e queima, se refletiu em desafios sociais e econômicos persistentes e em indicadores de progresso social abaixo da média nacional, conforme levantamentos do Imazon e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O legado de desmatamento intenso ilustra como a simples remoção de floresta dificilmente se traduz em qualidade de vida mais elevada ou desenvolvimento sustentável para as comunidades amazônicas.
E retorno a Belo Monte. O conjunto desses elementos compunha, já naquele momento, um quadro de alertas consistentes. Ainda assim, a resposta institucional frequentemente se apoiava na promessa de que falhas seriam corrigidas em projetos futuros. Como admitiu o então ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, havia problemas no processo, mas a expectativa era de que “o próximo seria diferente”.
Na Amazônia, essa lógica recorrente — de reconhecer erros apenas depois de consumados — revela uma constante histórica. Decisões estruturais são tomadas sob incerteza, enquanto os custos sociais e ambientais se tornam evidentes apenas no decorrer do tempo. Belo Monte, naquele contexto, já carregava todos os sinais de um projeto cujo impacto ultrapassaria, em muito, as previsões oficiais.
Celso Albertino, do alto de sua experiência ribeirinha, dizia que a água não se segura.
O que se tentou fazer em Belo Monte foi reorganizar o curso do rio dentro de um desenho técnico. O resultado não foi um rio contido, mas um sistema em permanente ajuste, com consequências distribuídas ao longo dos anos.
O Rio Xingu continua correndo.
E sofrendo novas ameaças. De algo que também já havia sido alertado anos atrás. A exploração de ouro, minério detectado quando da construção de Belo Monte.
E voltamos ao mesmo ciclo, já que a tentativa da mineradora canadense Belo Sun Mining Corp. de instalar o projeto Volta Grande, destinado à exploração de ouro na região de Altamira e de Senador José Porfírio, recoloca a Volta Grande do Xingu no centro de uma nova disputa socioambiental. Após idas e vindas judiciais, decisões recentes restabeleceram etapas do licenciamento do empreendimento, permitindo que a empresa avance no processo de instalação da mina. No entanto, a controvérsia está longe de encerrada. O Ministério Público Federal, organizações da sociedade civil e lideranças indígenas seguem questionando a validade dos estudos ambientais apresentados e, sobretudo, a ausência de consulta prévia, livre e informada às populações potencialmente afetadas, algo que, vale repetir, é um direito assegurado pela Convenção 169 da OIT e pela Constituição brasileira.
A proposta da Belo Sun prevê a implantação de uma das maiores minas de ouro a céu aberto do país justamente em uma área já profundamente impactada pela Usina de Belo Monte. A instalação de uma mineração em larga escala, com uso de substâncias químicas como cianeto no processamento do minério, amplia o risco de contaminação da água, do solo e da cadeia alimentar. Para povos que já enfrentam a diminuição da pesca e mudanças no regime do rio, a perspectiva de mais um grande empreendimento representa a sobreposição de impactos em um território fragilizado. O histórico amazônico mostra que a promessa de desenvolvimento raramente se traduz em melhoria estrutural da qualidade de vida da maioria da população local. Insisto nessa tecla, pois como repórter sempre ouvi a frase chantagista ‘ou é isso ou determinado município vai estagnar na miséria eterna’. Sempre foi uma coisa ou outra, no discurso de quem defende sempre os avanços em prol da palavra da moda (progresso, desenvolvimento etc).
A situação em Altamira evidencia, portanto, uma encruzilhada. De um lado, a lógica capitalista de expansão mineral como vetor de crescimento econômico; de outro, a defesa de direitos territoriais, da integridade ecológica e da precaução em uma região já marcada por desequilíbrios produzidos por Belo Monte. A insistência em avançar com um novo megaprojeto na Volta Grande do Xingu, sem que as incertezas acumuladas tenham sido plenamente enfrentadas, reforça a percepção de que a Amazônia continua sendo tratada como fronteira de exploração, e não como território de direitos.
É um filme gasto e repetido. Nas telas outrora verdes hoje cor de terra seca, um bangue-bangue estrelado por John Wayne onde infelizmente os vilões nunca são punidos ao final.
Postagem em protesto contra a exploração de ouro pela Belo Sun.
Tecnologias como monitoramento por satélite certificam soja “sustentável”, mas podem ocultar outros impactos ambientais
A soja “livre de desmatamento” é uma resposta do setor agrícola às pressões por maior responsabilidade ambiental. Porém, as corporações não seguem uma definição consensual sobre qual tipo de desmatamento é ou não aceitável na produção. Além disso, o selo pode estar contribuindo para novas dinâmicas de poder, em que ciência e tecnologia legitimam uma simplificação dos problemas ambientais causados pelo setor – desconsiderando, por exemplo, o uso intensivo de agrotóxicos e o desrespeito a direitos humanos e territoriais. As conclusões foram publicadas no Dossiê Agronegócio, Ciência e Tecnologia da revista Sociologias por pesquisadoras das universidades federais do Pará (UFPA) e do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O artigocompara as experiências de soja “livre de desmatamento” ou “responsável” dos principais sistemas de compliance ambiental, analisando protocolos públicos, políticas de fornecimento e relatórios ESG (Social, Ambiental e Governança) das seis principais corporações brasileiras que agregam a produção das fazendas e negociam a safra com mercados externos, as chamadas traders de soja. As pesquisadoras investigaram o que exatamente é considerado desmatamento para cada empresa, além de qual tipo seria ou não aceitável e as áreas definidas como prioritárias para conservação ambiental.
O estudo evidencia que o surgimento de uma soja “livre de desmatamento” acaba por simplificar impactos complexos, que envolvem também outros pontos da cadeia de produção. Além disso, as pesquisadoras destacam o conceito de tecnopoder, em que ciência e tecnologia ajudam a legitimar posicionamentos de atores sociais – no caso, as corporações da cadeia de soja, que passam a, em teoria, atender às demandas do mercado. Recursos tecnológicos como imagens de satélite e classificações de risco são mensurações que podem conferir aparência de objetividade às alegações das sojicultoras, mas podem também gerar dados desprovidos de contexto, invisibilizando efeitos locais da exploração ambiental.
“Argumentamos que as métricas, critérios e formas de monitoramento de problemas ambientais não são definições e tecnologias neutras. Elas não apenas medem a conformidade ambiental, mas ajudam a defini-la de forma conveniente para o setor”, explica a pesquisadora Ângela Camana, autora principal do artigo. Um exemplo está na própria definição de desmatamento a que as corporações se referem. “Algumas interditam apenas a compra de soja oriunda de áreas de desmatamento ilegal, enquanto outras abarcam também o desmatamento legal, assim como há diferentes recortes temporais para considerar quando o desmatamento na cadeia passa a ser inaceitável. Isso significa que uma mesma soja pode ser enquadrada como ‘livre de desmatamento’ por uma trader, mas não por outra”.
Camana também destaca o crescente poder de consultorias e assessorias que executam a definição destas normas e determinam as formas adequadas de medir os fenômenos. “O estudo mostra que a disputa sobre como medir e monitorar a ocorrência de problemas ambientais tornou-se uma estratégia importante para o setor responder a críticas e demonstrar responsabilidade ambiental, apoiando-se na autoridade da ciência e no uso de dados, que resultam de critérios específicos sobre o que conta como evidência de sustentabilidade, para legitimar suas práticas”, comenta a autora.
O artigo recomenda a continuidade das pesquisas sobre o posicionamento do agronegócio brasileiro diante da demanda crescente por conformidade ambiental do setor. Segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa, quase metade das emissões brasileiras são vinculadas às mudanças de uso da terra, que envolvem desmatamento e conversão das áreas de vegetação nativa para atividades como plantio e pastagens.
A publicação da coleção completa da correspondência entre Charles Darwin, autor de A Origem das Espécies, e seu principal colaborador no Brasil, Johann Friedrich Theodor Müller (Fritz Müller), será o destaque das comemorações do aniversário de nascimento do naturalista catarinense, em 31 de março. Após oito anos de intensa pesquisa, a historiadora e escritora Ana Maria Ludwig Moraes lança a obra “Cartas entre Fritz Müller e Charles Darwin”. O material, organizado originalmente pelo Darwin Correspondence Project (DCP), da Biblioteca da Universidade de Cambridge (Inglaterra), reúne 110 cartas, muitas das quais nunca haviam sido traduzidas para o português. O projeto contou com o apoio do Instituto Histórico de Blumenau (IHB) e do Cônsul Honorário do Reino Unido em Santa Catarina, Michael Delaney.
Riqueza de detalhes e rigor científico
Com 400 páginas, o livro apresenta os textos originais em inglês e suas respectivas traduções. A troca de mensagens entre os dois naturalistas estendeu-se por 17 anos, de 1865 até a morte de Darwin, em 1882.
O prefácio, assinado pela Universidade de Cambridge, ressalta a importância de Müller entre as mais de 15 mil cartas catalogadas pelo projeto britânico em meio século de buscas. A correspondência com o brasileiro é considerada uma das mais ricas para a compreensão do pensamento evolucionista.
Um dos destaques da obra é a comprovação documental do título “Príncipe dos Observadores”, como Darwin carinhosamente se referia a Müller. Ana Maria localizou uma carta endereçada ao botânico alemão Ernst Krause, em 1880, conservada na Biblioteca Huntington, na Califórnia (EUA). Cópia dessa carta foi adquirida pelo IHB e doada ao Arquivo Histórico José Ferreira da Silva.
Um inventário da biodiversidade brasileira
Além do valor histórico, o livro funciona como um catálogo científico. A pesquisa identificou cerca de 900 espécies citadas ou descritas nas cartas. Uma equipe de especialistas elaborou um inventário detalhado, dividido em:
Fauna marinha: revisão de Harry Boos Júnior;
Botânica: revisão de Juliana Paula-Souza;
Entomologia e Aracnídeos: revisão de Isabelli Grothe Mees.
“O conteúdo das cartas é uma fonte primária fundamental para o estudo da história da ciência no século XIX. Elas mostram os caminhos, as dificuldades e os avanços que fundamentam o que conhecemos hoje”, explica a autora. Ana Maria ressalta ainda que os dados sobre a Mata Atlântica fornecem elementos preciosos para as ações contemporâneas de preservação do bioma.
Programação de Lançamento
Os lançamentos estão previstos para o mês de março em três universidades, além de eventos promovidos pela Biblioteca Municipal Fritz Müller e pelo IHB.
O início da colaboração entre Fritz e Darwin:
Em 24 de novembro de 1859, Charles Darwin publicava a primeira edição do livro “A Origem das Espécies“ (On the Origin of Species), uma obra que revolucionaria a ciência a partir do pensamento evolucionista e da teoria da seleção natural.
Um exemplar da obra foi recebido por Fritz Müller em 1861. A publicação do pensador inglês impulsionou as investigações de Fritz a partir dos crustáceos coletados na Praia de Fora, em Florianópolis (Desterro à época) resultando no seu primeiro e único livro –Für Darwin (Para Darwin) – em 1864. Historiadores afirmam que Darwin remunerou uma governanta alemã para que lesse a obra, traduzida para o inglês, já que esta estava escrita em alemão, o que teria acontecido na primavera e verão de 1865, no hemisfério norte.
Assim que terminou a leitura do livro, Darwin escreveu a primeira carta a Fritz Müller, datada de agosto de 1865, elogiando seu trabalho e iniciando um rico intercâmbio de informações científicas que durou 17 anos (1865 a 1882). A teoria, agora, tinha evidência sólida, graças às experiências de campo relatadas no livro de Fritz. Por iniciativa de Darwin, a obra foi traduzida para o inglês em 1869, com o título “Fatos e Argumentos para Darwin”. Esta obra, com a aprovação de Darwin, posicionou Fritz Müller como pesquisador no meio científico alemão, muito embora já possuísse um considerável leque de correspondentes. A discussão entre Müller e Darwin sobre os bastidores da publicação, custos e seu impacto nos meios científicos europeus, constam nas cartas e, é curiosa a observação do cientista inglês de que “essas obras de cunho científico” não despertam muito interesse no público leitor da Inglaterra, àquela época.
As 110 cartas em poder da Biblioteca da Universidade de Cambridge (Inglaterra), foram coletadas ao longo de 50 anos pelo Darwin Correspondence Project (DCP), instituição responsável pelo prefácio do livro de Ana Maria Ludwig Moraes, assinado pelos coordenadores do projeto encerrado em 2022, Shelley Innes e Alison Pearn.
Linha do Tempo: A Conexão Darwin-Müller
1859 (24 de novembro): Charles Darwin publica em Londres a primeira edição de A Origem das Espécies.
1861: O naturalista alemão Fritz Müller, vivendo em Santa Catarina, recebe um exemplar da obra e compara a teoria às suas observações de campo no litoral catarinense.
1864: Como resposta e defesa das teses de Darwin, Müller publica na Alemanha o livro Für Darwin (Para Darwin).
1865 (Junho/Julho): Darwin, que não falava alemão, contrata a governanta de seus filhos para ler e traduzir para ele, a obra de Müller. O conteúdo apresenta evidências biológicas encontradas no Brasil, o que comprova a teoria da seleção natural.
1865 (Agosto): Darwin escreve a primeira carta para Fritz Müller. Inicia-se um intercâmbio científico que transformaria a colaboração em uma amizade intelectual profunda.
1869: Por influência direta de Darwin, o livro de Fritz Müller é traduzido para o inglês como Facts and Arguments for Darwin (Fatos e Argumentos para Darwin).
1865 – 1882: Durante 17 anos, os dois cientistas trocam informações, amostras e observações. Müller envia dados cruciais sobre crustáceos e a flora da Mata Atlântica que validam a Seleção Natural.
1882 (19 de abril): Morte de Charles Darwin.
Século XX/XXI: O Darwin Correspondence Project (Universidade de Cambridge) dedica mais de 50 anos para localizar e catalogar as mais de 15 mil cartas de Darwin ao redor do mundo.
2018 – 2026: A historiadora Ana Maria Ludwig Moraes dedica oito anos à pesquisa, tradução e atualização da nomenclatura científica da totalidade das 110 cartas trocadas entre os dois naturalistas, contando com uma equipe de tradutores, revisores e especialistas nas áreas de botânica, fauna marinha e entomologia, no Brasil e exterior, que resultou em importante inventário das espécies mencionadas nas cartas.
2026 (Março): Lançamento oficial da obra “Cartas entre Fritz Müller e Charles Darwin”, revelando segredos e detalhes inéditos desse diálogo histórico.
Sobre a autora:
Ana Maria Ludwig Moraes
Historiadora e Pesquisadora Membro do Instituto Histórico de Blumenau (IHB)
Pesquisadora Independente e Colaboradora Institucional: Atuação em projetos de salvaguarda e difusão para instituições tais como Arquivo Histórico José Ferreira da Silva (Blumenau SC), Museu Koenig da Universidade de Bonn (Alemanha), Universidade de São Paulo (USP), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Institutos Federais de SC, Ministério Público de SC.