É urgente tomar medidas imediatas em face do El Niño e de eventos extremos

O El Niño, que está se intensificando rapidamente, pode ser um dos mais intensos desde 1950

Enquanto algumas regiões do mundo enfrentarão secas extremas, outras experimentarão chuvas intensas como resultado do El Niño global. Alguns países até mesmo vivenciarão uma combinação de ambos os fenômenos. Crédito da imagem: jcomp / Magnific .

SciDev.Net ] Os governos devem agir rapidamente para se prepararem para um fenômeno El Niño em aceleração, que trará condições climáticas extremas para várias regiões do mundo, exacerbando crises existentes que ameaçam a segurança alimentar e a vida humana, alertam especialistas em clima.

Na América do Sul, “Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai serão afetados por secas enormes associadas ao fenômeno, enquanto países mais próximos da costa do Pacífico, como Peru, Equador, Chile, mas também o Brasil, que está do outro lado, serão afetados por ondas de calor de altíssima intensidade”, disse Patricio Valderrama, especialista em geociências e gestão de riscos de desastres do Peru , ao SciDev.Net .

Organização Meteorológica Mundial (OMM) observou que as condições do El Niño, já presentes no Oceano Pacífico, irão se intensificar rapidamente nos próximos meses, aumentando o risco de ondas de calor , inundações e secas em todo o mundo.

As ondas de calor, que já eram mais frequentes e severas, irão se intensificar devido ao fenômeno global El Niño. Crédito da imagem: PxHere , imagem de domínio público.

 O calor extremo , as secas e as inundações voltarão a devastar comunidades na América Latina, no leste e sul da África, na Ásia e no Pacífico”, alertou Tom Fletcher, Subsecretário-Geral da ONU para Assuntos Humanitários e Coordenador de Ajuda de Emergência, em um comunicado (13 de julho).

Segundo Fletcher, as previsões mostram que este El Niño “parece ainda pior” do que o anterior, que deixou dezenas de milhões de pessoas sem alimentos, nutrição , água, saneamento, cuidados de saúde, apoio agrícola e proteção em 2023-2024.

“O calor extremo, as secas e as inundações devastarão mais uma vez comunidades na América Latina, no leste e sul da África, na Ásia e no Pacífico.”

Tom Fletcher, Subsecretário-Geral das Nações Unidas para Assuntos Humanitários e Coordenador de Ajuda de Emergência.

Impactos na América Latina

El Niño é um fenômeno climático natural que ocorre a cada dois a sete anos, quando as temperaturas da superfície aumentam no leste do Oceano Pacífico tropical. Ele pode alterar os padrões climáticos em todo o mundo, causando tanto condições mais quentes e secas quanto chuvas intensas e inundações.

Valderrama, que foi diretor de vários centros nacionais de pesquisa meteorológica, hidrológica e geológica no Peru, e é autor de diversas investigações sobre deslizamentos de terra, fenômenos eruptivos e geodinâmicos, afirma que os dados obtidos no Pacífico central, onde o fenômeno se origina, são “conclusivos”.

“Em certos momentos, essas são as medições mais fortes que tivemos na história moderna”, portanto, já existe uma “certeza matemática” de que teremos um fenômeno global El Niño “que durará ao longo de 2026 e provavelmente até o primeiro trimestre de 2027”.

Seção longitudinal das anomalias de temperatura (0°C) na camada superior do Oceano Pacífico equatorial (C0-300 m), centrada no pentante de 2 de julho de 2026. As anomalias divergem das médias do pentante de 1991-2020. Crédito: NOAA . Imagem em domínio público.

Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) observa que este episódio pode estar entre os mais intensos desde que os registros começaram em 1950.

Em sua atualização de 15 de junho , a NOAA indicou que as previsões estimam uma probabilidade de 63% de que a temperatura da superfície do Oceano Pacífico oriental exceda a média em 2°C, o que constituiria um episódio de El Niño “muito forte”, frequentemente referido como “Super Niño”.

“Mas não se trata apenas do aquecimento causado pelo El Niño; regiões que historicamente não deveriam ser afetadas pelo fenômeno estão apresentando anomalias de temperatura de 1 ou 2 graus acima do normal em regiões onde o mar costuma ser frio, como o sul do Chile, a costa japonesa ou o Mar Báltico”, explica Valderrama.

A principal diferença entre este episódio e os anteriores é que ele está ocorrendo em um mundo que já aqueceu quase 1,5°C, observa Mat Collins, chefe do departamento de Matemática e Estatística da Universidade de Exeter (Reino Unido). “É por isso que as regiões mais vulneráveis ​​estão sofrendo o duplo impacto do aquecimento global e do El Niño”, explica ele.

“Isso agrava os conflitos generalizados, o número crescente de deslocados internos e a alta dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos, que afetam as famílias mais vulneráveis, enquanto o sistema humanitário enfrenta cortes profundos”, destaca Fletcher.

O especialista observou que o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários está preparado para desembolsar US$ 100 milhões em fundos de emergência, dos quais US$ 20 milhões já foram alocados para medidas de “ação antecipatória” em seis países.

As famílias mais vulneráveis ​​são prejudicadas por fenômenos como o Super Niño, pois já sofrem com diversas privações que são agravadas pela emergência climática. Crédito da imagem: John Reyes/Diario La República.

Sem dúvida, 2026 e 2027 serão anos de desafios climáticos que nos mostrarão como devemos nos preparar para esse tipo de emergência e, como temos vivenciado ano após ano por quase uma década, essas emergências se tornarão cada vez mais recorrentes, enfatiza Valderrama, indicando que isso não afetará apenas os seres humanos.

Peru, muito atingido

“O aumento da temperatura dos oceanos afetará muito a vida marinha ; por exemplo, alguns governos já emitiram alertas de extinção para algumas espécies”, acrescenta.

Entre esses governos está o do Peru. A anchova, seu principal recurso pesqueiro de exportação, está migrando para outros países devido ao aquecimento das águas.

Além de deixar mais de 250 mil pessoas que dependem direta ou indiretamente desse recurso extremamente vulneráveis , sua ausência já está causando a morte por inanição de diversas espécies marinhas, como aves produtoras de guano, leões-marinhos e o icônico pinguim-de-humboldt. Numerosos espécimes mortos de espécies marinhas estão sendo encontrados nas praias, e outros vagam erraticamente pelos terminais de pesca ao longo da costa.

A anchova é o principal insumo da indústria pesqueira peruana, mas sua captura está agora em risco devido ao aquecimento das águas do Pacífico causado pelo El Niño. Crédito da imagem: Ministério da Produção (Produce-Peru). Imagem em domínio público.

Além da pesca, que contribui com 0,6% para o PIB nacional , outros produtos agrícolas de exportação serão afetados pelo fenômeno, como café, cacau e diversas frutas.

“As perspectivas sobre a ocorrência de um Super Niño na América do Sul têm se concentrado nos impactos na costa do Pacífico, havendo pouca referência ao seu impacto em outras regiões”, lamenta Lorenzo Castillo, gerente do Conselho Nacional do Café.

“No caso do Peru — e também em outros países andinos-amazônicos, como Colômbia e Equador — os impactos são diversos. Na Amazônia, o estresse hídrico terá um forte impacto nas colheitas deste ano e do próximo, e seus efeitos serão sentidos até 2028”, afirma, com base em dados dos primeiros meses do ano referentes à área plantada. “Prevemos uma queda de 20% na colheita de café este ano, e o próximo ano será ainda pior”, observa.

O pinguim-de-Humboldt vive no litoral do Peru e do Chile. É uma espécie vulnerável que está perdendo sua fonte de alimento devido ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico, onde habita. Crédito da imagem: TimVickers/Wikimedia Commons , imagem de domínio público.

Uma situação semelhante ocorrerá nas regiões andinas de altitude, afetando particularmente as culturas de grãos e tubérculos, geralmente plantadas em altitudes acima de 3.000 metros e que constituem a principal dieta dessas populações. Devido ao fenômeno Super Niño, essas culturas estarão sujeitas a fortes chuvas, tempestades de granizo severas e geadas.

Em declarações à imprensa, a Convenção Nacional Agropecuária do Peru afirmou que o fenômeno global El Niño causará perdas de mais de US$ 3 bilhões no setor rural e que a produção de alimentos cairá em até 50%. O novo governo — liderado pela política de direita Keiko Fujimori, que assumirá o cargo em 28 de julho — ainda não apresentou um plano de contingência ou mitigação para lidar com os impactos previstos.

Brasil se prepara para El Niño

No Brasil, o governo buscou antecipar os potenciais impactos do El Niño criando uma Sala de Situação Interministerial para preparar e coordenar a resposta a possíveis desastres associados ao fenômeno. O objetivo é coordenar as ações dos governos federal, estaduais e municipais, juntamente com agências nacionais, para facilitar a rápida mobilização de recursos emergenciais.

Em 30 de junho, o Ministério da Saúde lançou um pacote de medidas destinadas a preparar o sistema nacional de saúde para os impactos do El Niño. Entre elas, está um Painel Nacional de Risco de Calor, que emitirá alertas de altas temperaturas com até cinco dias de antecedência para ajudar as autoridades a antecipar riscos e organizar os serviços de saúde antes de uma onda de calor.

O plano inclui investimentos de R$ 9,8 bilhões (aproximadamente US$ 1,92 bilhão) até 2035 para fortalecer a capacidade do sistema de saúde de responder a eventos climáticos extremos.

Os incêndios florestais podem se tornar mais frequentes na Amazônia devido à falta de chuvas causada pelo fenômeno. Crédito: Serfor/Peru, imagem em domínio público.

Mas o climatologista Lincoln Muniz Alves, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, acredita que o país ainda precisa passar de um modelo focado na resposta a desastres para uma cultura de prevenção, resiliência e adaptação às mudanças climáticas .

“A ação proativa e o preparo para desastres são nossas melhores ferramentas para lidar com esse fenômeno”, afirma ele.

Paulo Artaxo, professor de física ambiental da Universidade de São Paulo, alerta que a diminuição das chuvas no norte do Brasil “pode tornar a Amazônia mais vulnerável a incêndios florestais”.

“O fenômeno também pode reduzir os níveis dos rios, como aconteceu em 2023 e 2024 , afetando o transporte e limitando o acesso das comunidades ribeirinhas, que dependem das vias navegáveis ​​como principal meio de transporte e fornecimento de insumos essenciais”, explica ele.

Entretanto, prevê-se precipitação acima da média na parte sul do continente.

Em 13 de julho, o governo chileno declarou estado de emergência em dez regiões, prevendo fortes chuvas e ventos intensos na região centro-sul do país. No norte, entretanto, espera-se uma seca prolongada. Dois dias depois, uma forte tempestade — que persiste até hoje — começou a causar inundações nas regiões centro-norte do país, tradicionalmente secas.

A tempestade que vem atingindo diversas regiões tradicionalmente secas do Chile desde 1º de julho causou mortes, feridos e deixou milhares de pessoas desabrigadas. Crédito da imagem: Marinha do Chile/Directemar.

Segundo Alicia Cebrián, diretora do Serviço Estadual de Emergências, até o meio-dia de 21 de julho , havia dez mortes, 16 feridos, 2.286 pessoas afetadas, mais de mil pessoas em abrigos e 104.200 pessoas isoladas nas regiões de Atacama e Coquimbo. Também houve um número considerável de casas destruídas ou danificadas, além de cortes de energia e água em algumas áreas.

Por sua vez, a meteorologista Matilde Rusticucci alerta o SciDev.Net que as fortes chuvas também podem causar inundações na região da Mesopotâmia argentina.

“O setor pecuário seria seriamente afetado, […] a agricultura enfrentaria dificuldades na colheita e as pessoas que vivem em áreas baixas poderiam ser forçadas a se mudar”, afirma Rusticucci, professora emérita da Universidade de Buenos Aires e pesquisadora principal do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (CONICET).

Ele enfatiza que a preparação para o El Niño é essencial, embora observe que ainda não viu “medidas concretas” tomadas na Argentina.

África se prepara para inundações e secas

Historicamente, o El Niño causou secas no Sahel e no sul da África, além de provocar inundações no leste do continente. Caso esse cenário se repita, especialistas alertam que a insegurança alimentar será agravada, os meios de subsistência serão afetados e haverá um aumento na incidência de doenças em todo o continente

Muitos países africanos são altamente vulneráveis ​​a eventos climáticos extremos, como o Super Niño. Crédito da imagem: Cortesia da OMM (Organização Meteorológica Mundial).

Obed Ogega, cientista climático e gerente de programa do Instituto Internacional para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED), com sede em Nairóbi, argumenta que os governos têm muito pouco tempo para se preparar.

“Os governos africanos devem disponibilizar os recursos necessários para lidar com a crise iminente”, disse ele à SciDev.Net .

Em março, inundações repentinas em Nairóbi mataram mais de 30 pessoas e causaram prejuízos de milhões de dólares, evidenciando a vulnerabilidade de muitos países africanos a eventos climáticos extremos.

Ogega afirma que os governos devem fortalecer os sistemas de drenagem, as estradas e outras infraestruturas para melhor resistir a eventos como esses. Ele explica que, nas inundações de Nairóbi, muitas mortes foram causadas pelo colapso de estradas e sistemas de drenagem pluvial sob a pressão das chuvas torrenciais.

O documento também insta os governos a investirem em sistemas de alerta precoce e a trabalharem em conjunto com as comunidades em risco.

“As comunidades devem deixar de ser meras beneficiárias ou vítimas e tornarem-se protagonistas e impulsionadoras de ações locais eficazes para se adaptarem às mudanças climáticas e fortalecerem a resiliência”, acrescenta.

Peter Ofware, diretor da organização sem fins lucrativos Helen Keller International no Quênia, destaca que a desnutrição infantil será um dos principais problemas, “o que exigirá esforços coordenados entre várias instituições e agências para implementar as intervenções necessárias”.

A desnutrição infantil, um flagelo que já assola muitas regiões da África, poderá agravar-se nas comunidades em risco de sofrer os efeitos do Super Niño. Crédito da imagem: ACNUR/H. Dicko .

O Oriente Médio enfrenta uma potencial “falência hídrica”

Por outro lado, o Oriente Médio e o Norte da África podem enfrentar uma combinação de pressões climáticas, alimentares e econômicas caso o El Niño se desenvolva conforme previsto.

A região apresenta a maior dependência per capita do mundo em relação à importação de grãos . Ao mesmo tempo, as constantes interrupções na navegação pelo Estreito de Ormuz têm pressionado as cadeias de suprimento de energia e fertilizantes.

Caso o El Niño afete a produção agrícola nos principais países exportadores, é provável que os preços internacionais dos cereais permaneçam sob pressão, aumentando ainda mais a fatura de importação de alimentos em toda a região.

O especialista iraniano em recursos hídricos, Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, afirma que muitos países da região já estão enfrentando uma “falência hídrica”, na qual a extração de água excede sistematicamente a recarga natural, causando danos duradouros aos ecossistemas e reduzindo a capacidade de adaptação à variabilidade climática.

“Quando os pântanos secam no Iraque, na Síria ou na Turquia devido à seca, os países vizinhos também sofrem as consequências”, explica Madani, destacando a natureza interligada dos impactos das mudanças climáticas.

“Construímos nossas cidades , definimos a capacidade de nossos reservatórios e a altura de nossas barragens partindo do pressuposto de que o sistema climático era estável. E não é, e é por isso que não estamos preparados”, acrescenta.

“Precisamos tanto de infraestrutura física – como barragens – quanto de infraestrutura institucional, ou seja, políticas públicas, além de uma coordenação eficaz entre os sistemas de alerta precoce e de evacuação, com base em boa governança e infraestrutura adequada”, explica ele.

“Redes de segurança” para a Ásia

De Singapura, Paul Teng, pesquisador visitante sênior especializado em mudanças climáticas no Instituto ISEAS–Yusof Ishak, indica que grande parte dos gastos públicos foi desviada para lidar com a crise de combustíveis desencadeada pelo conflito no Oriente Médio.

“A maior ameaça que o previsto ‘Super Niño’ representa para a agricultura no Sudeste Asiático vem das interrupções esperadas na disponibilidade de água e dos picos de temperatura”, observa ele.

O arroz é uma cultura de subsistência e de rendimento muito importante na Ásia, portanto, a redução prevista na produção devido aos efeitos do Super Niño causará maior inflação em muitos países desse continente. Crédito da imagem: Ranak Martin/CGIAR , sob licença Creative Commons CC BY-NC-SA 2.0 Deed .

O texto acrescenta que a Indonésia, as Filipinas, a Tailândia e o Vietname preveem uma redução na produção de arroz na próxima época, o que provavelmente levará a aumentos de preços e a uma maior inflação alimentar.

Para Teng, “o problema não é apenas o clima”. “Estamos enfrentando uma crise multifacetada que se aproxima de uma tempestade perfeita devido aos eventos do ano passado”, diz ele, referindo-se ao aumento do preço dos fertilizantes e seu impacto nas economias rurais.

Portanto, ele argumenta que os governos do Sudeste Asiático devem preparar “redes de proteção social mais amplas para atenuar o impacto da insegurança alimentar nas famílias afetadas”.

BL Madhavan, físico e pesquisador atmosférico do Laboratório Nacional de Pesquisa Atmosférica da Índia, acredita que os sistemas de alerta precoce devem adotar uma “abordagem multirriscos”, pois o El Niño influencia fenômenos como calor extremo, qualidade do ar, risco de incêndios florestais, disponibilidade de água, preços dos alimentos e saúde pública.


Fonte: SciDev.Net 

A Universidade do Terceiro Milênio ou a universidade neoliberal?

A discussão sobre a Taxonomia de Bloom revela um dilema muito mais profundo: a Uenf permanecerá fiel ao projeto universitário concebido por Darcy Ribeiro ou adotará, de forma crescente, a lógica gerencial que transforma professores em executores de protocolos e indicadores?

Recentemente, li com atenção o tutorial Elaboração e Cadastro de Disciplinas no Sistema Acadêmico, elaborado pela Pró-Reitoria de Graduação (ProGrad) da Universidade Estaudla do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). O documento busca orientar os docentes na elaboração dos programas analíticos das disciplinas e oferece contribuições importantes para organizar ementas, conteúdos programáticos, bibliografias e procedimentos administrativos. À primeira vista se trata de um esforço legítimo de qualificação da gestão acadêmica. Mas foi justamente essa leitura que despertou uma reflexão que extrapola o próprio documento. Ao estabelecer que os objetivos das disciplinas devem ser formulados utilizando verbos da Taxonomia de Bloom, o tutorial transforma uma ferramenta pedagógica em referência normativa para a elaboração dos programas das disciplinas.

Faço questão de deixar claro que esta reflexão não constitui uma crítica à Taxonomia de Bloom. Ao contrário, ela permanece uma das contribuições mais importantes para o planejamento pedagógico produzidas no século XX e continua sendo extremamente útil para milhares de professores em todo o mundo. O problema começa quando uma ferramenta de apoio deixa de ser uma possibilidade metodológica entre várias existentes e passa a funcionar como linguagem institucional obrigatória. Nesse momento, a discussão deixa de ser exclusivamente pedagógica e passa a envolver a própria concepção de universidade que estamos construindo.

A universidade pública sempre se caracterizou pelo pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas. Professores organizam suas disciplinas a partir de referenciais distintos, formulam objetivos educacionais de maneiras diferentes e constroem estratégias de ensino compatíveis com suas áreas de conhecimento. Essa diversidade não representa uma deficiência administrativa; ela constitui uma das expressões concretas da liberdade de cátedra assegurada pela Constituição Federal e uma condição indispensável para a produção de conhecimento crítico.

Entretanto, essa autonomia passou a conviver, nas últimas décadas, com uma lógica institucional bastante diferente. Desde os anos 1990, universidades em praticamente todo o mundo passaram por reformas inspiradas na chamada Nova Gestão Pública (New Public Management). Inicialmente apresentadas como mecanismos para aumentar a eficiência do setor público, essas reformas introduziram nas universidades princípios oriundos da administração empresarial, como indicadores de desempenho, metas, competências, auditorias, plataformas digitais e procedimentos padronizados.

Nenhum desses instrumentos parece problemático quando considerado isoladamente. O problema surge quando eles passam a reorganizar o cotidiano universitário. A atividade docente começa a ser mediada por novos formulários, novos indicadores, novos protocolos, novos sistemas digitais e novos critérios de avaliação. Cada uma dessas mudanças pode parecer tecnicamente justificável. Em conjunto, porém, elas alteram profundamente a cultura institucional. O tempo dedicado ao planejamento pedagógico, à reflexão científica e ao acompanhamento dos estudantes passa a disputar espaço com o preenchimento de plataformas digitais, a produção permanente de registros administrativos e a necessidade de demonstrar conformidade com protocolos institucionais. A atividade intelectual vai sendo reorganizada segundo critérios administrativos.

Foi exatamente esse processo que Marilena Chauí descreveu ao formular a ideia da universidade operacional. Segundo a filósofa, a universidade deixa gradualmente de se orientar pela produção crítica do conhecimento e passa a organizar suas atividades segundo critérios de eficiência, produtividade e desempenho.  Já Stephen Ball identifica movimento semelhante ao analisar aquilo que denomina cultura da performatividade, na qual a confiança na autonomia profissional dos docentes cede lugar a indicadores destinados a medir, comparar e auditar continuamente seu desempenho. O centro da atividade universitária desloca-se do conteúdo do trabalho acadêmico para a produção de evidências documentais de que esse trabalho atende aos padrões previamente estabelecidos.

É justamente nesse contexto que a Taxonomia de Bloom muda de função. Benjamin Bloom jamais concebeu sua taxonomia como mecanismo de controle institucional.  A intenção de Bloom era oferecer aos professores um instrumento para refletir sobre diferentes níveis de aprendizagem. No ambiente da universidade gerencializada, porém, essa ferramenta passa a facilitar a padronização dos programas das disciplinas, a produção de documentos comparáveis e a redução da diversidade de linguagens pedagógicas.  Com isso, Bloom deixa de ser apenas uma ferramenta didática para integrar uma tecnologia de gestão.

Não creio que esse tenha sido o objetivo da ProGrad ao elaborar seu tutorial. Ao contrário, o documento demonstra uma preocupação legítima com a qualidade dos programas das disciplinas e com a organização institucional. O problema reside no fato de que essa racionalidade gerencial tornou-se tão naturalizada nas universidades que frequentemente deixa de ser percebida como uma escolha política. Como argumentam Pierre Dardot e Christian Laval em A Nova Razão do Mundo, o neoliberalismo não constitui apenas um conjunto de políticas econômicas. Ele representa uma racionalidade que reorganiza instituições inteiras segundo princípios de competição, mensuração, desempenho e controle, apresentando essas transformações como se fossem meramente técnicas e inevitáveis.

Uma universidade pública precisa, evidentemente, de organização institucional. Precisa de programas consistentes, ementas claras, bibliografias atualizadas e critérios transparentes de avaliação. Mas organização não deve significar uniformização pedagógica. Talvez bastasse uma pequena alteração na redação do tutorial para preservar esse equilíbrio. Em vez de afirmar que os objetivos das disciplinas devem utilizar a Taxonomia de Bloom, seria suficiente reconhecê-la como uma referência pedagógica recomendada, entre outras igualmente legítimas.

Ao final dessa reflexão, contudo, permanece uma questão que ultrapassa em muito a redação dos objetivos de uma disciplina. Ela nos remete ao próprio projeto de universidade que desejamos construir. Darcy Ribeiro imaginou a Uenf como a Universidade do Terceiro Milênio: uma instituição inovadora, interdisciplinar, voltada para a produção de conhecimento de fronteira e comprometida com a transformação da realidade brasileira. Nada indica que Darcy rejeitasse planejamento, organização administrativa ou mecanismos de avaliação.  A trajetória de Darcy demonstra exatamente o contrário. O que parece muito menos compatível com seu pensamento é a substituição gradual da confiança na autonomia intelectual de seus professores por uma cultura baseada em protocolos, indicadores, plataformas digitais, métricas de desempenho e padronizações administrativas. Essa talvez seja uma das manifestações mais discretas — e justamente por isso mais eficazes — da racionalidade neoliberal nas universidades públicas. Ela não elimina formalmente a liberdade de cátedra, mas tende a restringi-la por meio da normalização das práticas acadêmicas.

Desta forma, se a Uenf pretende permanecer fiel ao projeto concebido por Darcy Ribeiro, precisará perguntar continuamente se cada nova norma, cada novo protocolo e cada novo sistema fortalecem a criatividade científica e a liberdade intelectual ou se aproximam a instituição dos cânones da universidade neoliberal. Essa talvez seja a pergunta mais importante que a comunidade universitária precisa enfrentar, porque dela depende não apenas a preservação da liberdade de cátedra, mas também a capacidade da Uenf de continuar sendo, no sentido mais profundo imaginado por Darcy Ribeiro, uma verdadeira Universidade do Terceiro Milênio.

Expansão portuária reduz território da pesca artesanal; estudo propõe incluir pescadores em decisões sobre novos projetos

Artigo propõe governança participativa do território como caminho para reduzir conflitos entre atividade portuária e pesca artesanalSegundo o estudo, a dinâmica de ocupação e uso do território marítimo ocorre em uma lógica de espoliação do direito de povos tradicionais. Foto: Mayra Jankowsky / Acervo Pesquisadores.

A expansão da área Portuária de Santos impacta diretamente a rotina de pescadores artesanais no litoral paulista. Uma das principais transformações é a redução dos territórios utilizados pela pesca, causando perda de lucratividade e ameaçando o sustento das comunidades. Há também aumento na poluição ambiental na região, com riscos associados a desastres, como colisões entre navios, vazamentos de carga e incêndios. Para minimizar conflitos entre a operação portuária e os modos de vida tradicionais, um novo estudo publicado na revista internacional Anthropocene Coasts na terça (28) propõe um Plano de Ação baseado no reconhecimento das comunidades pesqueiras locais e sua participação permanente na discussão e no licenciamento ambiental de novos projetos.

Para elaborar uma proposta de governança no território que contemplasse os interesses de diversos setores, as pesquisadoras Ingrid Cabral Machado, do Instituto de Pesca de São Paulo, e Mayra Jankowsky, da Universidade NOVA de Lisboa, realizaram diferentes etapas de coletas de dados. Primeiramente, organizaram grupos focais com 40 pescadores para entender a experiência desses trabalhadores com as atividades portuárias em Santos e a linha do tempo de impactos identificados. Eles destacaram que a autoridade portuária hoje cuida somente da parte operacional do Porto, sem atribuição de administrar o território como um todo. Os participantes também relataram ter participação limitada em espaços de decisão.

Em seguida, as pesquisadoras entrevistaram atores estratégicos — como a autoridade portuária, o gestor de uma área protegida adjacente, promotores estaduais e federais e representantes dos órgãos de licenciamento estaduais e federais. O próximo passo foi reunir esses atores institucionais e os pescadores em um workshop para discutir os cenários futuros e definir estratégias e prioridades para conciliar a gestão portuária com a produtividade, segurança e sustentabilidade da pesca artesanal.

O processo participativo resultou então na proposta de ações concretas em quatro eixos: a criação de um fórum permanente para o diálogo contínuo entre os atores; a revisão do processo de licenciamento ambiental considerando as áreas ocupadas, dinâmicas e saberes próprios das 24 comunidades pesqueiras da região; a participação dos pescadores em todas as etapas de instalação de novos projetos, com formação de comitê permanente; e a regulação das atividades portuárias, planejando atividades como dragagens em períodos que causem menor impacto à pesca.

A equipe de pesquisa tinha a expectativa de que os desastres fossem a categoria de impactos mais crítica para os pescadores. “Fomos surpreendidas pela grande preocupação dos pescadores com a instalação de infraestrutura portuária que provocam perdas territoriais permanentes e cumulativas, incluindo berçários, áreas de pesca e rotas de navegação”, observa Ingrid Machado. Ela também cita impactos invisibilizados, como a violência e a marginalização das comunidades, associadas às perdas econômicas e ao adoecimento mental e físico.

A autora explica que a dinâmica de ocupação e uso do território ocorre em uma lógica de espoliação do direito de povos tradicionais. Isso parte de uma percepção predominante de que a região é prioritariamente portuária, enquanto o território pesqueiro, apesar da função histórica, é visto como menos importante. “Como os impactos do Porto não são novidade, é mais conveniente, frente ao grande desafio da gestão, considerar o território em sobreposição como zona de sacrifício, sob a alegação de que outras áreas seriam poupadas e que caberia aos pescadores e pescadoras se adaptarem por conta própria”, pontua.

Para Machado, a governança participativa é o principal caminho para transformar esse cenário e evitar que a expansão portuária inviabilize a pesca artesanal. O Plano de Ação elaborado pela pesquisa representa o início desse processo, mas depende do engajamento dos atores institucionais, do fortalecimento da participação das 24 comunidades pesqueiras reconhecidas pelo estudo e do suporte à continuidade das pesquisas na região.


Fonte: Agência Bori

Águas subterrâneas do Brasil sob pressão

Sob as florestas, fazendas e cidades do Brasil, uma reserva hídrica vital está mostrando sinais de sobrecarga
Projeções visuais impactantes na Madison Avenue, em Nova York, EUA, convocam os bancos de Wall Street a tomarem medidas urgentes para proteger a floresta amazônica. Abril de 2026. Imagem: Michael Nigro / The Illuminator Project / Creative Commons 4.0.
Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Um novo estudo alerta que os níveis de água subterrânea em algumas regiões do Brasil estão diminuindo a taxas comparáveis ​​às observadas em alguns dos sistemas aquíferos mais explorados do mundo  .

A água sempre foi fundamental para a identidade do Brasil, moldando suas paisagens, economia e ecossistemas. 

Dos rios da Amazônia às cheias sazonais que transformam o Pantanal em uma das maiores áreas úmidas do mundo, a água ajudou a definir tanto a geografia do país quanto seu desenvolvimento.

Observado

Durante gerações, essa abundância criou a crença de que o Brasil jamais enfrentaria uma grave escassez de água. 

No entanto, as evidências que emergem do subsolo sugerem que algumas reservas de água subterrânea estão se tornando cada vez mais vulneráveis ​​às pressões ambientais e humanas.

Um estudo liderado por Augusto Getirana, cientista do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, no Laboratório de Ciências Hidrológicas, examinou mais de duas décadas da dinâmica das águas subterrâneas no Brasil, utilizando observações de satélite, ferramentas de inteligência artificial e sistemas de monitoramento de águas subterrâneas.

Os resultados revelam um panorama misto. Enquanto alguns aquíferos continuam a se recuperar naturalmente após períodos de seca, outros apresentam declínios persistentes ligados à expansão agrícola, à atividade de mineração, à variabilidade climática e à crescente demanda por água.

De acordo com os pesquisadores, o declínio das águas subterrâneas observado em alguns aquíferos brasileiros assemelha-se a padrões documentados em sistemas de águas subterrâneas altamente sobrecarregados em Bangladesh, Índia, Irã e Estados Unidos.

Pressupostos

O estudo avaliou as condições das águas subterrâneas nas 12 principais bacias hidrográficas do Brasil e examinou vários sistemas aquíferos importantes, incluindo Alter do Chão, Urucuia, Bauru-Caiuá, Guarani, Pantanal, Solimões e Parecis. 

As águas subterrâneas suprem aproximadamente 55% da demanda hídrica do Brasil e abastecem mais da metade dos municípios do país. Em muitas regiões, elas representam uma importante reserva durante períodos de seca e ajudam a manter o abastecimento de água quando os reservatórios superficiais estão em níveis baixos.  

Apesar de sua importância, o monitoramento de águas subterrâneas permanece limitado. Em um território de aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil opera apenas cerca de 500 poços federais de monitoramento de águas subterrâneas, deixando grandes áreas insuficientemente observadas.

“Eu não diria que o Brasil confundiu abundância com segurança”, disse Getirana em resposta à pergunta sobre se a abundância histórica de água no Brasil pode ter fomentado a complacência.

“O que mudou é que as premissas que funcionavam no passado podem não ser suficientes para o futuro.” 

Agrícola

“Nas últimas décadas, o Brasil passou por uma série de grandes crises hídricas, incluindo a crise de racionamento de energia elétrica de 2001, as severas secas de 2014-2015 e a escassez de água que afetou diversas regiões em 2021. 

As hipóteses que funcionaram no passado podem não ser suficientes para o futuro. 

“Ao mesmo tempo, o crescimento populacional e a expansão econômica aumentaram a demanda por água. As águas subterrâneas têm se tornado cada vez mais parte da solução.” 

Ele acrescentou: “O que me surpreendeu neste estudo foi ver evidências de que o uso de água subterrânea para irrigação e abastecimento público de água se expandiu o suficiente para deixar uma marca detectável no armazenamento de água subterrânea.” 

“O Brasil não enfrenta hoje uma insegurança hídrica em âmbito nacional, mas esses resultados sugerem que a confiança tradicional do país na abundância de recursos hídricos pode precisar ser repensada em um contexto de mudanças climáticas e demanda crescente.”

Alguns dos sinais mais fortes de declínio das águas subterrâneas estão ocorrendo no centro do Brasil, particularmente em partes do Cerrado e nas bacias dos rios São Francisco e Paraná. Essas regiões também passaram por uma extensa expansão agrícola. 

Enfraquecer

Frequentemente ofuscado pela Amazônia, o Cerrado é considerado pelos hidrólogos como uma das paisagens mais importantes da América do Sul em termos de produção de água. Grandes sistemas fluviais nascem ali, incluindo rios que contribuem para as bacias do Amazonas, Paraná e São Francisco. 

A vegetação nativa desempenha um papel crucial na regulação do movimento da água, permitindo que a chuva se infiltre gradualmente no solo, reabastecendo os aquíferos e sustentando o fluxo dos rios além da estação chuvosa.

Nas últimas décadas, milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos em plantações de soja, pastagens para gado e agricultura irrigada. 

O estudo encontrou evidências de que alguns aquíferos sofreram anos com pouca ou nenhuma recarga de água subterrânea. Nesses anos, a precipitação não conseguiu repor as reservas subterrâneas nas taxas históricas. Os pesquisadores identificaram esses padrões em partes do Aquífero Urucuia, na zona de recarga do Aquífero Guarani e em outros sistemas de água subterrânea intensamente utilizados. 

Muitas dessas áreas sustentam a economia agrícola do Brasil. Se as taxas de recarga continuarem a diminuir, a extração de água subterrânea poderá se tornar cada vez mais difícil de manter durante períodos prolongados de seca. 

Variável

A bacia do São Francisco emergiu como uma das regiões que sofrem as perdas mais severas de água subterrânea no Brasil, impulsionadas pelo uso intensivo da água, seca, mudanças na cobertura do solo e alterações nos padrões de chuva. 

Conforme observado por Getirana, as águas subterrâneas podem mitigar os impactos da seca, embora sua confiabilidade esteja diminuindo em muitas regiões. “Durante secas prolongadas, rios, lagos e reservatórios são normalmente as primeiras fontes de água a diminuir”, disse ele.

“As florestas ajudam a manter os recursos hídricos, promovendo a infiltração no solo e nos aquíferos, além de influenciarem a circulação atmosférica regional e os padrões de precipitação. Os aquíferos, por sua vez, frequentemente funcionam como reserva de longo prazo, a poupança do sistema hidrológico.”

“Nossos resultados sugerem que os sistemas de águas subterrâneas estão se tornando menos confiáveis ​​em regiões onde a demanda por água é maior. Os maiores declínios nos estoques ocorrem em regiões densamente povoadas e economicamente ativas, indicando que algumas dessas redes de segurança naturais estão sob crescente pressão.”

A Amazônia abriga algumas das maiores reservas de água doce do mundo. Embora pesquisadores tenham encontrado evidências de que os sistemas de água subterrânea em partes da região estão se tornando mais variáveis , as mudanças não são uniformes em toda a bacia. 

Saturado

Getirana e seus colegas descobriram que grandes porções da Amazônia mantiveram condições estáveis ​​de água subterrânea durante o período do estudo, e algumas regiões até apresentaram aumento no armazenamento de água subterrânea. Essas descobertas sugerem que certos sistemas de água subterrânea permanecem resilientes em condições ambientais favoráveis.

Próximo a Manaus, os níveis de água subterrânea flutuam em resposta à subida e descida sazonal dos rios Negro e Solimões. No entanto, eventos climáticos extremos parecem estar afetando esses ciclos naturais. 

O evento El Niño de 2015-2016 pode ter representado uma mudança significativa no comportamento das águas subterrâneas em diversas áreas, com alguns aquíferos passando de condições relativamente estáveis ​​para declínios mais persistentes.

As secas recentes levaram os rios da Amazônia a níveis historicamente baixos, interrompendo o transporte, isolando comunidades e afetando ecossistemas em toda a bacia.

Ao mesmo tempo, o sul do Brasil sofreu graves inundações. Os pesquisadores observam que as condições das águas subterrâneas podem influenciar o risco de inundações, pois os sistemas subterrâneos saturados perdem a capacidade de absorver chuvas adicionais, aumentando o escoamento superficial.

Fogo

Em conjunto, esses resultados sugerem que os desafios hídricos do Brasil envolvem cada vez mais variabilidade e extremos, em vez de simples questões de abundância ou escassez de água.

Getirana afirmou: “Acho que uma das lições mais importantes é que abundância e sustentabilidade não são a mesma coisa. O Brasil possui alguns dos maiores recursos de água doce do planeta, mas nossos resultados mostram que os sistemas de águas subterrâneas ainda podem sofrer perdas persistentes quando a variabilidade climática, as mudanças no uso da terra e a crescente demanda por água atuam em conjunto.

“Historicamente, muitas sociedades trataram os recursos naturais como praticamente inesgotáveis, por parecerem abundantes em relação às necessidades humanas. O que as observações modernas e os registros de satélite mostram cada vez mais é que mesmo sistemas muito grandes têm limites.”

“As águas subterrâneas são particularmente importantes porque são em grande parte invisíveis. Ao contrário dos rios ou reservatórios, as mudanças subterrâneas podem passar despercebidas durante anos ou mesmo décadas. Estudos como este ajudam a tornar visíveis essas mudanças ocultas antes que se tornem problemas maiores.”

O Pantanal, a maior área úmida tropical do mundo, também está sofrendo pressão crescente. Os pesquisadores identificaram a diminuição da recarga de água subterrânea em partes da região, uma tendência associada à seca, mudanças no uso da terra e temporadas de incêndios cada vez mais severas.

Água doce

Os incêndios podem ter efeitos duradouros nos sistemas hídricos, destruindo a vegetação, alterando a estrutura do solo, reduzindo a infiltração e dificultando a recarga dos aquíferos após períodos de seca.

A atividade de mineração também contribui para o aumento da pressão em algumas áreas. Em partes do estado de Minas Gerais, a água subterrânea é bombeada de sistemas subterrâneos para abastecer as operações de mineração. Isso pode reduzir os níveis dos lençóis freáticos, alterar o fluxo dos rios e afetar as comunidades vizinhas.

Exemplos de outras partes do mundo demonstram como pode ser difícil reverter as mudanças depois que a extração em larga escala altera os sistemas hídricos. 

Ao redor do Mar Morto , décadas de desvio de rios, extração mineral e superexploração de águas subterrâneas contribuíram para uma queda drástica nos níveis de água, acelerando o recuo da linha costeira e a formação de milhares de dolinas. 

Preocupações semelhantes estão surgindo na Amazônia brasileira. Em Autazes, um grande projeto de potássio desenvolvido pela empresa canadense Potássio do Brasil gerou alertas de pesquisadores, organizações indígenas e comunidades locais sobre possíveis impactos nas águas subterrâneas, áreas úmidas e sistemas hídricos interligados. 

Escassez

Avaliações ambientais e revisões independentes destacaram riscos como o aumento do escoamento de sedimentos, maior turbidez da água e pressão sobre os ecossistemas ligados ao rio Madeira, uma das vias navegáveis ​​mais importantes da bacia amazônica. 

Embora as consequências a longo prazo permaneçam incertas, esses casos ilustram como a mineração pode alterar os sistemas hídricos muito além dos limites do próprio local de extração.

O Brasil não está ficando sem água, mas a abundância de recursos não elimina a vulnerabilidade.

O estudo constatou que apenas uma fração da precipitação atinge e reabastece os aquíferos. Em algumas regiões, a recarga permanece robusta, mas em outras, parece estar diminuindo. 

O Brasil enfrentou grandes crises hídricas em 2000-2001, 2014-2017 e 2021. Esses eventos foram frequentemente vistos principalmente como consequência da escassez de chuvas. 

Secas

As novas descobertas sugerem que mudanças mais profundas também podem estar afetando os sistemas hídricos do país. À medida que as mudanças climáticas se aceleram e a pressão sobre os recursos hídricos e terrestres aumenta, as águas subterrâneas provavelmente se tornarão um componente cada vez mais importante da segurança hídrica de longo prazo do Brasil. 

Apesar dos desafios identificados no estudo, Getirana permanece otimista quanto à crescente conscientização pública sobre as questões de segurança hídrica.

Ele disse: “Estudos sobre disponibilidade de água, seca, águas subterrâneas e impactos climáticos estão cada vez mais presentes na mídia convencional e no debate público. O conhecimento científico por si só não muda políticas ou práticas de gestão. A verdadeira mudança acontece quando governos, instituições e a sociedade reconhecem o problema e agem com base nas evidências.”

“O fato de as águas subterrâneas e a segurança hídrica estarem se tornando temas de debate nacional no Brasil é encorajador. Quando a ciência chega ao público e influencia a tomada de decisões, cria oportunidades para aprimorar o monitoramento, o planejamento e a gestão hídrica a longo prazo.”

Ele acrescentou: “Na última década, um número crescente de estudos documentou o declínio das águas subterrâneas e do armazenamento de água em partes do Brasil, particularmente durante grandes secas.

Salvaguarda

“O desafio hoje não é a ausência de sinais de alerta. O desafio é garantir que essa informação faça parte do processo de tomada de decisão.” 

“Daqui a cinquenta anos, suspeito que as pessoas olharão para trás e dirão que os primeiros sinais de alerta surgiram da combinação de observações por satélite, estudos científicos e crises hídricas recorrentes que revelaram vulnerabilidades que antes passavam despercebidas.”

Durante décadas, o Brasil confiou na premissa de que os abundantes recursos hídricos compensariam a crescente demanda e as pressões ambientais. 

As evidências apresentadas neste estudo sugerem que a proteção das águas subterrâneas poderá se tornar tão importante quanto a proteção de rios, florestas e zonas úmidas nas próximas décadas.

Este autor

Monica Piccinini é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma,  YourVoiz.org .


Fonte: The Ecologist

Enquanto a ciência climática toca a sirene, os governos apertam o botão da soneca

O alerta de Eliot Jacobson converge com o diagnóstico do IPCC e com os trabalhos de Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Carlos Nobre sobre a gravidade da crise climática

O professor Eliot Jacobson escolheu um título deliberadamente brutal para seu artigo mais recente, publicado no boletim The Climate Casino: “More Fucked Today than Yesterday”, algo como “estamos mais ferrados hoje do que ontem”. A linguagem rompe com a cautela habitual dos relatórios científicos, mas o diagnóstico central encontra respaldo nas principais instituições que monitoram o clima da Terra. O sistema climático global continua se deteriorando, enquanto governos, empresas e sociedades agem como se ainda dispusessem de tempo abundante para enfrentar a crise.

Jacobson examina indicadores como a temperatura média global, o aquecimento dos oceanos, o desequilíbrio energético da Terra, a redução do albedo e a perda de gelo polar. Esses dados não pertencem a um campo marginal da ciência. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NASA, o programa europeu Copernicus, a Organização Meteorológica Mundial e o IPCC trabalham com as mesmas variáveis para avaliar o estado do sistema climático.

A principal diferença entre Jacobson e os grandes organismos científicos não está nos dados, mas na linguagem e no ritmo da análise. O IPCC reúne milhares de estudos, constrói consensos e organiza suas conclusões por níveis de confiança e probabilidade. Esse processo assegura enorme robustez científica, mas também produz documentos que muitas vezes chegam ao público depois que novos recordes já alteraram o quadro observado. Jacobson acompanha séries atualizadas e procura transmitir a velocidade com que os limites anteriores vêm sendo superados.

Por isso, seu discurso pode parecer mais alarmante do que os relatórios do IPCC. No entanto, ambos apontam para a mesma direção. O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC afirma de forma inequívoca que as atividades humanas provocaram o aquecimento global e já produziram mudanças rápidas e generalizadas na atmosfera, nos oceanos, na criosfera e na biosfera. Essas transformações aumentam a frequência e a intensidade de eventos extremos e atingem com maior severidade as populações que menos contribuíram para a crise climática.

Jacobson dedica atenção especial ao aquecimento dos oceanos. As águas absorvem a maior parte do excesso de energia retido pelos gases de efeito estufa. Esse acúmulo favorece ondas de calor marinhas, branqueamento de corais, deslocamento de populações de peixes, proliferação de algas tóxicas e alterações nas cadeias alimentares. O calor oceânico também pode fornecer mais energia para tempestades tropicais e ampliar o potencial destrutivo de eventos extremos.

O desequilíbrio energético da Terra constitui outro eixo de sua análise. O planeta absorve atualmente mais energia do que devolve ao espaço. Os gases de efeito estufa dificultam a saída da radiação infravermelha, enquanto mudanças nas nuvens, nos aerossóis, no gelo e na neve alteram a quantidade de energia solar refletida. Enquanto esse desequilíbrio persistir, o sistema climático continuará acumulando calor.

A redução do albedo amplia ainda mais o problema. Superfícies claras, como gelo e neve, refletem grande parte da radiação solar, enquanto oceanos e solos escuros absorvem mais energia. Quando o gelo derrete, superfícies mais escuras ficam expostas, acumulam calor adicional e aceleram o próprio derretimento. Jacobson chama esse processo de “grande escurecimento” do planeta, expressão que sintetiza a perda progressiva da capacidade terrestre de refletir a energia solar.

A ciência ainda investiga o peso relativo de cada um desses mecanismos, e algumas projeções apresentadas por Jacobson carregam incertezas importantes. A comunidade científica ainda precisa determinar se os recordes registrados desde 2023 indicam uma aceleração estrutural do aquecimento ou se resultam de uma combinação entre mudança climática, El Niño, redução de aerossóis e outras formas de variabilidade natural.

Essa incerteza, porém, não justifica complacência. Em situações que envolvem consequências potencialmente catastróficas, a incerteza deveria reforçar o princípio da precaução. O IPCC afirma que cada fração adicional de grau amplia riscos, perdas e danos. A diferença entre 1,5 °C, 2 °C ou mais de aquecimento não constitui uma abstração estatística, pois representa maior pressão sobre ecossistemas, sistemas agrícolas, infraestrutura, saúde pública e disponibilidade de água.

O IPCC também adverte que existe uma janela de oportunidade que se fecha rapidamente para garantir um futuro habitável. Reduções profundas, rápidas e sustentadas das emissões ainda poderiam desacelerar perceptivelmente o aquecimento nas próximas décadas. Portanto, o clima futuro não está completamente determinado. A humanidade ainda pode limitar parte dos danos, mas cada ano de atraso reduz o orçamento de carbono restante e exige transformações futuras ainda mais abruptas.

O principal obstáculo já não é a falta de conhecimento. A ciência demonstrou a origem humana do aquecimento, identificou seus mecanismos e descreveu grande parte de suas consequências. A dificuldade encontra-se nas instituições políticas e econômicas que continuam protegendo a expansão do petróleo, do carvão, do gás natural, do desmatamento e de padrões de consumo incompatíveis com a estabilidade climática.

O próprio IPCC reconhece a distância entre as metas anunciadas e as políticas efetivamente adotadas. Os compromissos nacionais continuam insuficientes para limitar o aquecimento a 1,5 °C, enquanto os investimentos em mitigação e adaptação permanecem muito abaixo do necessário. Ao mesmo tempo, governos seguem aprovando infraestruturas fósseis que permanecerão em operação durante décadas.

Jacobson torna essa contradição impossível de ignorar. Os organismos científicos descrevem uma emergência, mas os governos tratam a crise climática como apenas mais uma agenda administrativa. As conferências internacionais se repetem, as metas se acumulam e as emissões globais continuam incompatíveis com os objetivos oficialmente anunciados.

Essa dissociação entre ciência e decisão política aparece com clareza no Brasil. O país procura se apresentar como liderança ambiental, mas amplia a produção de petróleo, defende novas fronteiras de exploração, incentiva grandes projetos de mineração e autoriza empreendimentos com elevado consumo de energia, água e infraestrutura. A expansão dos datacenters, por exemplo, avança sem que o debate público examine adequadamente seus impactos cumulativos sobre os territórios, os recursos hídricos e os sistemas elétricos.

Ao mesmo tempo, o Brasil possui uma das comunidades científicas mais qualificadas do mundo para analisar a crise climática. Os trabalhos do físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e participante das avaliações do IPCC, demonstram as relações entre a floresta amazônica, os aerossóis, a formação de nuvens, os ciclos hidrológicos e o clima regional e global. Artaxo alerta há anos que o desmatamento, as queimadas e o aquecimento global enfraquecem os mecanismos ecológicos que permitem à Amazônia regular o clima e transportar umidade para outras regiões da América do Sul.

As pesquisas coordenadas por Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, acrescentaram evidências decisivas a esse diagnóstico. A partir de medições atmosféricas realizadas com aeronaves, Gatti e seus colaboradores demonstraram que áreas do leste e do sudeste da Amazônia perderam parte de sua capacidade de absorver carbono. Nessas regiões, as emissões associadas às queimadas, ao desmatamento e à degradação florestal já podem superar a absorção realizada pela vegetação.

Esses resultados mostram que a crise amazônica não pertence apenas ao futuro. As áreas mais desmatadas registram temperaturas mais elevadas, estações secas mais longas e maior vulnerabilidade ao fogo. O desmatamento reduz a evapotranspiração, diminui a formação de chuvas e cria condições que favorecem novas perdas florestais. A degradação passa, assim, a alimentar sua própria continuidade.

As evidências produzidas por Artaxo e Gatti convergem com os reiterados alertas públicos do climatologista Carlos Nobre. Há décadas, Nobre chama atenção para o risco de a Amazônia alcançar um ponto de inflexão, a partir do qual a perda florestal e o aquecimento poderiam desencadear uma transformação extensa e potencialmente irreversível do ecossistema. O prolongamento das estações secas, o aumento das temperaturas, os incêndios recorrentes e a redução da capacidade de reciclar umidade constituem sinais coerentes com esse risco.

Carlos Nobre também destaca que a preservação da Amazônia interessa a todo o continente. A floresta influencia a distribuição das chuvas, sustenta grande parte da biodiversidade planetária e armazena enormes quantidades de carbono. Sua degradação ameaça a produção agrícola, a geração hidrelétrica, o abastecimento urbano e a estabilidade climática muito além das fronteiras do bioma.

Os três cientistas brasileiros analisam dimensões complementares do mesmo processo. Paulo Artaxo investiga as relações entre floresta, partículas atmosféricas, nuvens e clima. Luciana Gatti mede diretamente as mudanças no balanço de carbono. Carlos Nobre integra essas evidências em um diagnóstico sistêmico sobre o risco de ruptura do equilíbrio ecológico e climático da Amazônia.

Esses trabalhos demonstram que o Brasil não pode alegar desconhecimento. O país possui dados, instituições e capacidade técnica para compreender os riscos que enfrenta. Apesar disso, as decisões estratégicas do Estado frequentemente subordinam o conhecimento científico aos interesses imediatos das cadeias petrolíferas, minerais, agropecuárias e financeiras.

A contradição se torna ainda mais grave porque o Brasil combina enorme vulnerabilidade climática com elevado potencial de mitigação. O controle do desmatamento poderia produzir resultados rápidos, enquanto a restauração florestal, a transformação dos sistemas alimentares, o fortalecimento do transporte coletivo e a expansão planejada das energias renováveis poderiam reduzir emissões e desigualdades ao mesmo tempo.

No entanto, o Brasil continua tratando a proteção ambiental como obstáculo ao crescimento e o licenciamento como uma formalidade a ser flexibilizada. A mesma lógica aparece na adaptação. Secas, enchentes, deslizamentos, ondas de calor, incêndios e erosão costeira já afetam milhões de brasileiros, mas os governos continuam investindo menos na prevenção do que nas respostas emergenciais posteriores aos desastres.

O mérito do texto de Eliot Jacobson reside em recusar a transformação dos recordes climáticos em uma nova normalidade. Uma temperatura oceânica sem precedentes não representa apenas mais um ponto em um gráfico. Uma temporada excepcional de incêndios não constitui apenas uma anomalia anual. A repetição desses eventos altera as condições de existência das sociedades e dos ecossistemas.

Jacobson também identifica um fracasso da comunicação. A imprensa noticia recordes durante alguns dias e depois retorna à rotina como se o problema tivesse desaparecido. Governos anunciam metas para 2030 ou 2050, mas aprovam hoje projetos que ampliarão as emissões durante décadas. Empresas divulgam compromissos de neutralidade climática enquanto expandem a exploração de combustíveis fósseis.

A linguagem contundente de The Climate Casino procura romper essa normalização. Ela não substitui o rigor científico do IPCC nem dispensa a necessidade de distinguir observações, projeções e hipóteses. No entanto, expõe uma questão que os documentos institucionais nem sempre conseguem comunicar: a distância entre a gravidade das evidências e a lentidão da resposta política tornou-se uma fonte adicional de risco.

Jacobson não anuncia simplesmente um apocalipse inevitável. Ele mostra que cada novo recorde reduz o tempo e as condições disponíveis para agir. O IPCC chega à mesma conclusão ao afirmar que a janela de oportunidade para garantir um futuro habitável se fecha rapidamente.

A leitura conjunta dessas duas formas de comunicação produz uma conclusão incômoda. A humanidade não enfrenta a crise climática por falta de informação. Ela enfrenta a crise porque os interesses que lucram com a destruição ambiental ainda controlam grande parte das decisões econômicas e políticas.

Os trabalhos de Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Carlos Nobre reforçam esse diagnóstico no contexto brasileiro. A Amazônia já emite sinais claros de alteração funcional, partes da floresta perderam capacidade de absorver carbono e o risco de cruzar limiares críticos cresce com a continuidade do desmatamento e do aquecimento global. O Estado brasileiro não pode celebrar sua ciência no exterior enquanto ignora suas conclusões dentro do país.

Estamos em uma situação pior do que ontem não porque o colapso total aconteça de um dia para o outro, mas porque cada dia de emissões adicionais acumula energia no sistema climático, amplia os riscos e reduz as possibilidades de evitar mudanças irreversíveis. Amanhã poderá ser ainda pior caso a sociedade continue confundindo prudência científica com autorização para a inércia.

A crise climática exige redução imediata das emissões, interrupção do desmatamento, proteção e restauração dos ecossistemas, abandono da expansão das fronteiras fósseis e investimentos públicos maciços em adaptação. A ciência internacional e brasileira já cumpriu sua tarefa de formular o alerta. Resta saber se as sociedades conseguirão construir força política suficiente para transformar esse conhecimento em ação antes que as advertências atuais se convertam em descrições tardias de oportunidades definitivamente perdidas.

Ecological Economics investiga aparente discrepância de dados em estudo climático

Por Retraction Watch

Uma importante revista de economia ambiental está investigando alegações de que um estudo de 2025, que relaciona inovação nacional à redução das emissões de carbono, contém dados que não correspondem à sua fonte, após um especialista na área ter solicitado a retratação do artigo. 

O artigo foi publicado na revista Ecological Economics , da Sociedade Internacional de Economia Ecológica, pela editora Elsevier. Os autores, três pesquisadores da ESSCA School of Management em Lyon, afirmaram ter utilizado dados de 229 países entre 2013 e 2020 e relataram uma relação negativa entre o nível de inovação de um país e suas emissões de dióxido de carbono per capita. O artigo foi citado cinco vezes, segundo o Web of Science da Clarivate. 

Mas três meses após a publicação, em outubro de 2025, a revista começou a investigar anomalias no conjunto de dados, embora os autores afirmem que nada foi fabricado. Em uma carta aos editores da revista solicitando uma retratação em outubro passado, vista pelo Retraction Watch, um acadêmico com experiência na área que revisou o conjunto de dados disse que o artigo apresentava “sérias preocupações com a integridade dos dados” e descreveu um “claro caso de má conduta na pesquisa”. 

Essas alegações derivam dos dados do estudo, que utiliza o Índice Global de Inovação (GII, na sigla em inglês), um ranking anual do desempenho em inovação de países ao redor do mundo. Os autores afirmaram que sua análise incluiu 229 países. No entanto, nos anos utilizados na análise do estudo, de 2013 a 2020, os relatórios do GII disponíveis online mostram o desempenho de apenas 126 a 143 economias globais. 

Cerca de 80 registros adicionais não correspondem aos dados subjacentes do GII, apesar de não haver divulgação do uso desses dados adicionais — acréscimos que inflacionam a amostra em cerca de 60% e distorcem os resultados estatísticos do estudo, segundo a denúncia. 

Muitas dessas inscrições usaram pontuações de inovação idênticas dentro de um mesmo ano. “A uniformidade desses valores demonstra manipulação intencional, e não erro”, segundo o e-mail. 

Os autores negaram a alegação em um e-mail enviado ao Retraction Watch. “Nenhum dado foi fabricado, conforme demonstrado pela documentação fornecida ao editor”, escreveu Naciba Chassagnon, economista da ESSCA School of Management, em nome dos três autores. Ela afirmou que a equipe respondeu prontamente às perguntas da revista e não “desejava antecipar a análise do editor sobre o assunto”. Chassagnon se recusou a explicar por que o conjunto de dados diferia do material original. 

Stefan Baumgärtner, coeditor-chefe da revista e economista da Universidade de Freiburg, afirmou que a revista abriu uma “investigação minuciosa e detalhada” e que tomará medidas dependendo do resultado, em resposta à denúncia inicial. Ele disse que os autores enviaram uma “resposta detalhada” que está sendo analisada pelos editores. 

“Preferimos não comentar mais sobre a questão do conjunto de dados nesta fase, por respeito ao processo editorial em andamento”, disse-nos por e-mail Christoph Weber, economista da ESSCA School of Management e autor responsável pela curadoria dos dados, de acordo com a declaração da CRediT sobre o artigo. “Nenhum dado foi fabricado.” 

Apesar de inicialmente concordarem em explicar a discrepância, os autores recusaram-se a fornecer mais informações depois de descobrirem que a revista estava investigando o caso. 

“Quando respondi à sua mensagem inicial, fiz isso de boa fé e com a disposição de estar disponível para esclarecimentos”, escreveu Chassagnon. “No entanto, desde então, fui informado de que a revista está atualmente revisando o assunto e que a avaliação editorial está em andamento.”

Ele disse que iriam “reconsiderar se uma conversa seria apropriada”, assim que as decisões editoriais estivessem mais claras. 


Fonte: Retraction Watch

O asfalto contra a maré

O mangue como fonte de vida (Ismael Machado)

Por Ismael Machado para “Medium”

A Marcha dos Manguezais Amazônicos, realizada em Belém semana passada, foi apresentada como um ato em defesa do meio ambiente. É uma leitura confortável, mas insuficiente. O que caminhou entre o Cais do Porto e o Ver-o-Peso foi a contestação de uma forma de produzir território que, há décadas, orienta principalmente o nordeste paraense, mas que ainda continua quase invisível aos olhares menos atentos.

O cimento e o asfalto são nossos deuses. Não, não estou exagerando. Existe uma ideia persistente de desenvolvimento segundo a qual rios devem ser canalizados, áreas alagáveis precisam ser aterradas e manguezais representam um vazio econômico à espera de investimentos. Essa lógica não nasceu agora. Ela acompanha a urbanização da Amazônia desde o século XX e continua orientando decisões públicas e privadas em municípios costeiros como Bragança, Salinópolis, Curuçá, Marapanim, Vigia, São Caetano de Odivelas, Augusto Corrêa e Quatipuru, para ficar apenas nesses. Nenhum desses lugares existe apesar da água. Eles existem por causa dela. E não paramos um segundo sequer pensando nisso. Seja quando brincamos carnaval nos cobrindo de lama do mangue de Curuçá ou fazendo campeonatos de pesca em São Caetano de Odivelas.

A economia pesqueira, a circulação entre comunidades, os ciclos do extrativismo, a fertilidade dos estuários e até a configuração das cidades dependem de uma dinâmica que nunca foi estática. A costa amazônica não oferece terreno firme como condição permanente. Ela oferece movimento. A maré altera margens, redistribui sedimentos, redefine canais. O manguezal é parte desse mecanismo, não um acidente geográfico esperando correção ou um progresso urbano calcado em empreendimentos imobiliários para poucos. Recentemente fui a Outeiro, uma ilha que habita minhas memórias infantis e constatei essa questão de condomínios que privatizam a área costeira de forma implacável. Li recentemente que pretendem fazer algo assim nos Lençóis Maranhenses.

Insistimos em aplicar à região um modelo de urbanização concebido para territórios onde a água deve permanecer confinada. Quando essa lógica chega ao litoral amazônico, ela produz um paradoxo, pois tenta estabilizar um ambiente cuja principal característica é justamente a transformação contínua. Os efeitos aparecem rapidamente. Aterros interrompem a circulação das águas, loteamentos ocupam áreas naturalmente inundáveis, obras de contenção deslocam processos erosivos para outras localidades e bairros inteiros passam a depender de soluções de drenagem cada vez mais caras e menos eficientes. Depois, quando a maré invade ruas ou a chuva encontra caminhos bloqueados, o fenômeno recebe o nome de desastre natural. A única coisa natural aqui, porém, é a maré. E artificial é a expectativa de que ela respeite projetos elaborados sem considerar o funcionamento do território.

Essa insistência não decorre de desconhecimento técnico. Há décadas nossas principais universidades e centros de pesquisa descrevem o papel dos manguezais na proteção costeira, na estabilidade dos estuários, na manutenção da biodiversidade e no armazenamento de carbono. O problema, portanto, não é ausência de informação. É a escolha política sobre quais conhecimentos merecem orientar o planejamento urbano.

Essa escolha costuma privilegiar indicadores de curto prazo. Um aterro amplia a oferta de terrenos. Um condomínio eleva o valor imobiliário da vizinhança. Uma avenida construída sobre áreas úmidas produz a sensação imediata de progresso. Os custos, entretanto, não aparecem na mesma planilha. Eles surgem anos depois, distribuídos entre pescadores que perdem áreas de captura, comunidades que convivem com inundações mais frequentes e administrações municipais obrigadas a investir continuamente em obras para corrigir problemas que elas próprias ajudaram a criar.

No nordeste paraense, essa conta tende a se tornar ainda mais elevada. A elevação do nível do mar, as alterações no regime de chuvas e o aumento da intensidade de eventos extremos ampliam a importância dos manguezais como infraestrutura natural. Destruí-los significa reduzir justamente a capacidade de adaptação de uma região cuja relação com a água sempre definiu sua existência. E fico sempre a refletir o quanto a Amazônia urbana de águas e marés não cabe nos gabinetes de planejamento que tratam o ecossistema costeiro como mero espaço vazio à espera de concreto, onde o manguezal tratado como um estorvo geográfico que precisa ser drenado, aterrado e loteado.

Essa ânsia por transformar ‘lama’ em metro quadrado ignora a física mais básica do território. O solo do mangue é esponjoso, dinâmico e cumpre uma função estrutural de escoamento e amortecimento das marés. Quando o capital imobiliário avança sobre essas áreas com o aval de um zoneamento urbano míope, o resultado é a supressão de braços de rio e a impermeabilização forçada do solo.

O preço dessa conta não demora a chegar, mas nunca é pago pelos idealizadores dos loteamentos. Ele recai sobre as comunidades tradicionais que são escorraçadas de seus territórios ancestrais e sobre os bairros periféricos que submergem a cada temporal ou oscilação forte da maré. A especulação imobiliária em áreas de mangue vende uma falsa segurança que se desmancha na primeira chuva forte combinada com a lua cheia.

Não custa lembrar que o manguezal é a primeira e mais sólida linha de defesa contra eventos climáticos extremos, como a elevação do nível do mar e a intensificação das ressacas. Destruir o mangue é um contrassenso econômico e ecológico catastrófico. É cavar a própria ruína sob a justificativa de “desenvolvimento”. O problema é que acumulamos erros e erros e nunca aprendemos. E quando se fala de erros, não é uma prerrogativa paraense. É uma democrática distribuição de sandices na Amazônia inteira.


Fonte: Medium

A corrida global por minerais críticos alimenta a militarização, a inteligência artificial e um novo ciclo de extrativismo

Novo relatório do Oakland Institute revela que inteligência artificial, indústria militar e grandes corporações impulsionam a nova onda extrativista mundial

Um novo relatório do Oakland Institute desmonta uma das narrativas mais repetidas nos últimos anos: a de que a expansão acelerada da mineração de minerais críticos ocorre principalmente para viabilizar a transição energética. O estudo “RUSH: Global Scramble for Minerals Wages War on People and Planet” argumenta que essa explicação se tornou insuficiente e, em muitos casos, serve para ocultar os verdadeiros motores da atual corrida global por cobre, lítio, níquel, cobalto e terras raras. Segundo os autores, a expansão da inteligência artificial, dos data centers, da indústria militar e das disputas geopolíticas entre Estados Unidos e China passou a exercer um papel decisivo na demanda por esses recursos.

O tema foi analisado em um artigo publicado por Chris Lang na newsletter REDD-Monitor (Substack), que apresenta uma excelente síntese das principais conclusões do relatório e as insere no contexto mais amplo da economia política contemporânea da mineração. Lang chama atenção para um dado particularmente revelador: mais de 70% da demanda atual por minerais críticos não está vinculada diretamente à transição energética, mas sim a setores como indústria automotiva convencional, comunicações, aeroespacial, tecnologia digital, inteligência artificial e complexo militar-industrial.

Essa constatação possui enorme relevância política. Durante anos, governos, organismos multilaterais e empresas mineradoras justificaram a abertura de centenas de novas minas com o argumento de que o combate às mudanças climáticas exigiria uma expansão sem precedentes da oferta de minerais. O relatório do Oakland Institute mostra que essa narrativa omite deliberadamente a explosão da demanda proveniente da militarização crescente das relações internacionais e da corrida tecnológica associada à inteligência artificial.

O documento identifica um processo de convergência entre gigantes da tecnologia, empresas de defesa, fundos de investimento e governos nacionais interessados em assegurar cadeias de suprimento consideradas estratégicas. Empresas como KoBold Metals, financiada por Bill Gates e outros investidores do setor tecnológico, aparecem como exemplos dessa nova geração de companhias que utilizam inteligência artificial para localizar jazidas minerais ao mesmo tempo em que buscam atender às necessidades futuras dos próprios data centers, da computação em larga escala e da indústria bélica.

Esse aspecto merece atenção especial no Brasil. Nos últimos meses, tenho chamado atenção para a rápida expansão dos projetos de data centers no país e para a ausência de um debate público consistente sobre seus impactos territoriais. A instalação dessas infraestruturas costuma ser apresentada como símbolo da economia digital, da inovação tecnológica e da modernização produtiva. No entanto, raramente se discute que toda essa infraestrutura depende de uma cadeia global extremamente intensiva em mineração, consumo de energia, uso de água e produção de resíduos eletrônicos.

A relação entre data centers e mineração crítica torna-se ainda mais evidente quando observamos o crescimento explosivo da inteligência artificial generativa. Cada nova geração de chips, servidores e equipamentos exige volumes crescentes de cobre, lítio, cobalto, níquel e terras raras. Dessa forma, a expansão da infraestrutura digital produz uma pressão indireta, mas extremamente poderosa, sobre territórios minerários localizados principalmente na América Latina, na África e em partes da Ásia.

Outro mérito importante do relatório consiste em recolocar a questão geopolítica no centro da discussão. A disputa entre Estados Unidos e China pelo controle das cadeias globais de minerais críticos passou a influenciar acordos internacionais, políticas de financiamento, estratégias militares e iniciativas diplomáticas. Em vez de representar apenas uma questão ambiental ou econômica, os minerais críticos tornaram-se elementos centrais da segurança nacional das grandes potências.

Enquanto isso, os custos sociais continuam recaindo sobre populações indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e trabalhadores da mineração. O relatório alerta que a abertura acelerada de centenas de novas minas tende a ampliar conflitos fundiários, deslocamentos compulsórios, contaminação por rejeitos tóxicos, perda de biodiversidade e destruição de modos de vida em uma escala ainda maior do que aquela observada nas últimas décadas.

Esse diagnóstico dialoga diretamente com inúmeros conflitos que já conhecemos no Brasil. A expansão da mineração na Amazônia, o avanço sobre terras indígenas, a crescente pressão sobre aquíferos e a multiplicação de grandes projetos de infraestrutura revelam que o país ocupa posição estratégica nessa nova divisão internacional dos recursos naturais. Caso o governo brasileiro continue tratando a mineração apenas como uma oportunidade econômica, sem fortalecer os mecanismos de controle ambiental, consulta às populações afetadas e planejamento territorial, o país poderá aprofundar um modelo primário-exportador baseado na intensificação do extrativismo e na exportação de impactos ambientais.

A principal contribuição do Oakland Institute talvez seja justamente desfazer a falsa oposição entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental. O problema não reside simplesmente na extração de minerais necessários à descarbonização, mas no fato de que a atual corrida mineral atende, em grande medida, aos interesses da militarização global, da financeirização da economia e da expansão acelerada da inteligência artificial corporativa. Sob esse prisma, a chamada “transição verde” deixa de ser o principal motor do processo e passa a funcionar como uma narrativa legitimadora de um novo ciclo de acumulação baseado na intensificação do extrativismo.

Para países como o Brasil, a mensagem é clara. Não basta discutir quantas minas serão abertas ou quanto investimento estrangeiro será atraído. É indispensável perguntar quem controlará esses recursos, quem capturará seus benefícios econômicos e, sobretudo, quem suportará os custos sociais e ambientais dessa nova corrida global pelos minerais críticos.

Para baixar o relatório  “RUSH: Global Scramble for Minerals Wages War on People and Planet”, basta clicar [Aqui! ].

Virgínia mostra o caminho: por que o Brasil precisa estudar antes de entregar sua água aos data centers

Relatório de 144 páginas demonstra que decisões sobre data centers devem partir de pesquisa científica, monitoramento permanente e regulação pública, enquanto o Brasil corre o risco de transformar seu território em uma zona livre para esses empreendimentos

A corrida global pela instalação de data centers costuma aparecer no discurso de governos e empresas como uma oportunidade incontestável de desenvolvimento econômico, modernização tecnológica e atração de investimentos. Governos estaduais e municipais disputam esses empreendimentos, oferecem incentivos fiscais e prometem acesso à energia, à água e à infraestrutura territorial, mas raramente apresentam estudos capazes de demonstrar se os territórios escolhidos podem suportar as demandas ambientais desses projetos. No Brasil, essa expansão assume contornos ainda mais preocupantes porque ocorre em um contexto marcado pela fragilidade da regulação, pela escassez de informações hidrológicas integradas e pela crescente pressão política para acelerar os licenciamentos ambientais.

Um relatório publicado em julho de 2026 pelo Departamento de Qualidade Ambiental do estado de Virginia , nos EUA, demonstra que outro caminho não apenas é possível, mas também necessário. A Assembleia Legislativa estadual determinou a realização do estudo para avaliar a disponibilidade das águas subterrâneas na porção oriental do estado, uma região que concentra diversos usos industriais e enfrenta a rápida expansão dos data centers. O documento possui 144 páginas e procura responder a uma pergunta básica que deveria anteceder qualquer autorização de novos empreendimentos: quanto de água subterrânea permanece efetivamente disponível para sustentar novas atividades industriais sem comprometer os usos existentes e a integridade dos aquíferos?

O estudo representa décadas de pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Qualidade Ambiental da Virgínia em cooperação com o Serviço Geológico dos Estados Unidos. Os pesquisadores utilizaram modelos hidrogeológicos, séries históricas de captação, análises da qualidade da água, estimativas demográficas e simulações de cenários futuros. Uma rede formada por mais de 440 poços de observação fornece dados sobre os níveis e a qualidade das águas subterrâneas, permitindo que o órgão ambiental acompanhe as alterações dos aquíferos e utilize informações concretas nas decisões regulatórias. O relatório, portanto, não se apoia nas expectativas das empresas interessadas em instalar novos projetos, mas em um sistema público e permanente de produção de conhecimento.

As conclusões mostram que décadas de bombeamento intensivo transformaram profundamente a dinâmica das águas subterrâneas na Planície Costeira da Virgínia. Grandes captações industriais reduziram os níveis da água para cotas inferiores às do mar em determinadas áreas, alteraram os fluxos naturais dos aquíferos e criaram condições favoráveis à subsidência do terreno e à intrusão de água salgada. O relatório também identificou aumentos locais nas concentrações de cloreto e projetou que, mantidas as condições atuais, os níveis do Aquífero Potomac poderão entrar novamente em uma trajetória generalizada de queda nos próximos cinco a dez anos.

A análise ganha especial importância quando examina a capacidade regional para suportar novas indústrias, entre elas os data centers. Os pesquisadores simularam retiradas de 3 milhões de galões de água por dia em diferentes pontos da região, uma demanda compatível com grandes instalações que adotam sistemas de resfriamento evaporativo. Nenhuma das retiradas hipotéticas atenderia aos critérios técnicos necessários para receber uma licença ambiental, pois os aquíferos não apresentaram capacidade suficiente para absorver uma pressão adicional dessa magnitude. As estimativas indicaram uma disponibilidade máxima de 360 mil galões diários na área mais favorável e volumes inferiores a 30 mil galões por dia em regiões próximas ao corredor da rodovia interestadual I-95, onde se concentra a infraestrutura que atrai os novos projetos.

Esses resultados demonstram que o interesse de empresas e governos não cria disponibilidade hídrica onde ela não existe. A presença de linhas de transmissão, redes de fibra óptica, incentivos fiscais e terrenos disponíveis pode tornar uma região economicamente atraente, mas nenhum desses elementos altera os limites físicos dos aquíferos. O relatório do estado da Virgínia parte justamente desse reconhecimento e subordina a autorização dos empreendimentos à capacidade real dos sistemas ambientais, em vez de adaptar os critérios ambientais às necessidades previamente definidas pelos investidores.

O documento também apresenta recomendações que reforçam a responsabilidade do poder público na gestão das águas subterrâneas. O Departamento de Qualidade Ambiental propõe ampliar sua capacidade para negar novas licenças, especialmente quando existem fontes alternativas de abastecimento, incorporar a disponibilidade hídrica aos planos territoriais dos governos locais, contratar mais técnicos, melhorar os modelos hidrogeológicos, instalar equipamentos de monitoramento em tempo real e assegurar recursos permanentes para a fiscalização. O estudo recomenda ainda que o planejamento urbano limite o crescimento em áreas onde a disponibilidade de água subterrânea não consegue sustentar novas demandas.

O contraste com o Brasil dificilmente poderia ser maior, pois estados e municípios brasileiros disputam data centers utilizando como argumento a suposta abundância de água e energia, embora frequentemente não apresentem estudos regionais capazes de estimar os impactos cumulativos dos empreendimentos. A inexistência de redes extensas e permanentes de monitoramento, a fragmentação institucional e a dependência das informações fornecidas pelos próprios interessados comprometem a capacidade do Estado de avaliar os impactos sobre os aquíferos, os rios e o abastecimento das populações.

A ausência de estudos independentes cria uma situação na qual o licenciamento ambiental corre o risco de se transformar em um procedimento destinado apenas a legitimar decisões já tomadas. Cada empreendimento pode apresentar sua demanda como administrável quando analisada isoladamente, mas a instalação sucessiva de vários data centers em uma mesma bacia hidrográfica pode produzir efeitos cumulativos que nenhum estudo individual consegue captar adequadamente. O poder público precisa conhecer a disponibilidade hídrica regional, os usos existentes, as projeções climáticas, a velocidade de recarga dos aquíferos e os impactos combinados das novas captações antes de autorizar qualquer polo de infraestrutura digital.

O caso da Virgínia demonstra que o desenvolvimento tecnológico e a prudência ambiental não constituem objetivos incompatíveis. Quanto maior a demanda potencial de uma atividade econômica sobre os recursos naturais, maior deve ser o investimento público em pesquisa, monitoramento, planejamento e regulação. O relatório também mostra que o conhecimento científico somente produz efeitos quando o Estado possui autoridade institucional para impedir empreendimentos incompatíveis com os limites ambientais do território.

O Brasil possui universidades, institutos de pesquisa, serviços geológicos e órgãos técnicos capazes de produzir estudos tão completos quanto o realizado no estado da Virgínia. O principal obstáculo não reside na ausência de capacidade científica, mas na falta de uma decisão política que coloque a ciência no centro do planejamento territorial e da gestão dos recursos hídricos. O país precisa construir redes públicas de monitoramento, desenvolver modelos regionais, divulgar os dados e avaliar os impactos cumulativos dos empreendimentos antes de comprometer água, energia e território com projetos de longa duração.

Sem esse esforço, o Brasil poderá repetir um padrão conhecido de inserção dependente na economia mundial, no qual grandes corporações recebem incentivos, infraestrutura e acesso privilegiado aos recursos naturais, enquanto a sociedade assume os custos ambientais e sociais. A expansão desregulada dos data centers poderá transformar determinadas regiões em enclaves tecnológicos controlados por empresas transnacionais, com poucos encadeamentos econômicos locais e uma enorme apropriação de água e energia. O Brasil precisa urgentemente produzir conhecimento independente e impor limites claros para evitar que seu território se converta em um espaço livre e desregulado para uma indústria que se apresenta como imaterial, mas depende de volumes muito concretos de água, eletricidade e terra.

Um dia depois, a fumaça continua e um silêncio sepulcral envolve os responsáveis por combatê-la

As imagens registradas nesta sexta-feira (24) mostram que as queimadas seguem consumindo áreas de Campos dos Goytacazes e mantêm uma espessa camada de fumaça sobre a cidade. A repetição do problema apenas um dia após a informação publicada neste blog revela a incapacidade — ou a falta de disposição — dos órgãos públicos para enfrentar uma situação que já ultrapassou os limites de uma questão ambiental e assumiu contornos evidentes de uma crise de saúde pública

Ontem publiquei neste espaço o texto Quando a fumaça domina o horizonte, o problema já deixou de ser apenas ambiental com o objetivo de chamar atenção para um fenômeno que se repete todos os anos, mas que em 2026 atingiu uma intensidade particularmente preocupante. As fotografias divulgadas naquele momento mostravam grandes colunas de fumaça cercando Campos dos Goytacazes e indicavam que a população estava submetida a uma deterioração significativa da qualidade do ar. A expectativa mais modesta seria que a ampla visibilidade do problema estimulasse uma resposta rápida dos órgãos encarregados da fiscalização e da proteção ambiental.

As imagens registradas nesta sexta-feira demonstram, entretanto, que praticamente nada mudou. Novos focos de queimadas continuam ativos em diferentes pontos do município, enquanto extensas massas de fumaça permanecem cobrindo o horizonte e reduzindo a visibilidade em diversos bairros. A população continua respirando material particulado e outros poluentes produzidos pela combustão da vegetação, situação que aumenta os riscos para crianças, idosos e pessoas acometidas por doenças respiratórias e cardiovasculares, ao mesmo tempo em que compromete a qualidade de vida de todos os moradores. 

A persistência desse cenário evidencia que o problema não decorre apenas das condições climáticas típicas do inverno no Norte Fluminense, caracterizadas por baixa umidade relativa do ar, vegetação ressecada e ventos que favorecem a propagação do fogo. Esses fatores são conhecidos há décadas e deveriam orientar ações preventivas permanentes por parte do poder público. Quando as queimadas continuam ocorrendo sucessivamente e a fumaça permanece encobrindo a cidade por vários dias,  é inevitável concluir que as medidas de prevenção, monitoramento e fiscalização têm sido insuficientes para impedir que a situação se agrave.

Também não faz sentido restringir essa responsabilidade a um único órgão. A proteção da população exige atuação coordenada da administração municipal, do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), do IBAMA, do Corpo de Bombeiros e das demais instituições responsáveis pela fiscalização ambiental e pela repressão aos responsáveis pelas queimadas. Diante da gravidade do quadro, a população tem o direito de conhecer quais operações foram realizadas, quantos autos de infração foram lavrados, quantos responsáveis foram identificados e quais providências concretas estão sendo adotadas para interromper uma sequência de eventos que já não pode mais ser considerada excepcional.

As fotografias obtidas hoje reforçam ainda mais a gravidade da situação porque documentam uma realidade impossível de ocultar. A fumaça permanece visível a grandes distâncias, altera completamente a paisagem urbana e demonstra que a poluição atmosférica deixou de ser um problema localizado para atingir uma parcela expressiva do território municipal. Trata-se de uma evidência objetiva de que milhares de pessoas continuam expostas diariamente a um ambiente degradado, enquanto as respostas institucionais permanecem praticamente invisíveis.

Nesse contexto, é razoável esperar que o Ministério Público e a Defensoria Pública já estejam adotando as medidas cabíveis para apurar responsabilidades e exigir providências imediatas dos órgãos competentes. Os danos produzidos pelas queimadas ultrapassam claramente a esfera ambiental e atingem direitos difusos relacionados à saúde pública, ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e à qualidade de vida da população. As imagens produzidas ao longo de dois dias consecutivos constituem um registro eloquente dessa realidade e oferecem elementos suficientes para justificar a abertura de procedimentos destinados a identificar tanto os responsáveis pelos incêndios quanto eventuais omissões do poder público.

Infelizmente, a sucessão de fotografias produzidas ontem e hoje transmite uma mensagem que nenhuma cidade deveria aceitar com naturalidade. Enquanto a fumaça continua dominando o horizonte de Campos dos Goytacazes, cresce a percepção de que os órgãos responsáveis pela proteção ambiental e pela defesa da saúde coletiva permanecem incapazes de oferecer uma resposta compatível com a gravidade do problema. A população já fez sua parte ao denunciar aquilo que qualquer pessoa pode ver a olho nu; agora cabe às instituições demonstrar que ainda são capazes de cumprir a missão para a qual foram criadas.