Observatório dos Agrotóxicos: novo ato do MAPA revela a engrenagem quase invisível que mantém o mercado brasileiro em permanente expansão

Ato nº 55 confirma o peso dos pós-registros, corrige decisões tomadas dias antes e mostra que acompanhar um agrotóxico no Brasil exige seguir uma longa cadeia de alterações administrativas

Há pouco tempo analisei aqui no Blog do Pedlowski o Ato nº 53, de 1º de setembro de 2026, da Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Naquela ocasião, o que mais chamou minha atenção não foi simplesmente a quantidade de decisões publicadas, mas a natureza delas. Dos 199 itens que examinei, aproximadamente 70% poderiam ser classificados como expansivos, pois envolviam inclusão de fabricantes, formuladores, importadores, produtos técnicos, marcas, culturas ou organismos-alvo. A conclusão era relativamente simples: contar novos registros oferece apenas uma visão parcial da expansão do mercado brasileiro de agrotóxicos, porque existe uma enorme engrenagem de modificações posteriores ao registro que normalmente passa praticamente despercebida.

Pois bem, o MAPA acaba de oferecer uma nova demonstração de como essa engrenagem funciona. O Ato nº 55, de 10 de setembro de 2026, volta a apresentar uma extensa sucessão de alterações envolvendo produtos já inseridos no sistema regulatório brasileiro. O documento contém 113 itens antes de entrar em uma igualmente significativa seção de retificações, embora seja preciso fazer uma ressalva importante: o arquivo publicado reproduz posteriormente parte substancial do próprio ato, razão pela qual uma contagem mecânica das ocorrências produziria duplicações.

Ainda assim, a direção geral das decisões é bastante clara. Novamente aparecem inclusões de fabricantes e formuladores, autorização de importadores, incorporação de produtos técnicos a produtos formulados, alterações de marcas comerciais e mudanças nas recomendações de uso. Em determinados casos são incluídos organismos-alvo ou modificadas doses, demonstrando que o pós-registro não altera apenas a cadeia empresarial situada atrás de determinado agrotóxico, mas pode modificar também as condições concretas em que ele chegará às lavouras brasileiras.

O primeiro aspecto que merece atenção, portanto, é a confirmação do fenômeno observado no Ato nº 53. O registro de um agrotóxico está longe de representar o ponto final de sua trajetória regulatória. Depois de registrado, um produto pode receber novos fornecedores de ingredientes técnicos, ser produzido ou formulado em outras fábricas, passar a ser importado por novas empresas, ganhar outras marcas comerciais e ter suas recomendações agronômicas modificadas. Em outras palavras, existe uma espécie de segunda vida regulatória dos agrotóxicos, muito menos visível do que o momento da concessão do registro, mas potencialmente tão importante quanto ele para determinar a dimensão efetiva do mercado.

Outro elemento que novamente salta aos olhos é a presença das cadeias internacionais de produção. Ao longo do Ato nº 55 sucedem-se fabricantes e formuladores instalados particularmente na China, incluindo empresas localizadas em Shandong, Jiangsu, Zhejiang, Hebei, Anhui e outras importantes regiões da indústria química chinesa. Empresas indianas e de outros países também aparecem, mas a presença chinesa é particularmente marcante. Isso ajuda a desmontar uma imagem excessivamente simplificada do mercado brasileiro de agrotóxicos, no qual frequentemente enxergamos apenas a empresa que aparece como titular de determinado registro. Atrás dela pode existir uma extensa cadeia transnacional de fabricação de ingredientes ativos, formulação e importação.

É verdade que o Ato nº 55 também contém cancelamentos. Aparecem, por exemplo, cancelamentos de pleitos ou registros relacionados a Clotodim Técnico Sinon, Abamectina Técnico Adama, MTR-01 e Chlorothalonil Técnico UPL, além de outros casos. Mas aqui é preciso resistir à tentação de transformar qualquer cancelamento administrativo em sinônimo de retirada de determinado agrotóxico do mercado. Um registro pode desaparecer enquanto outros produtos contendo o mesmo ingrediente ativo permanecem disponíveis, assim como uma empresa pode deixar determinada cadeia enquanto outras passam a ocupá-la. Para medir efetivamente a expansão ou retração do mercado seria necessário acompanhar simultaneamente registros, produtos formulados e ingredientes ativos.

Quando o Ato 55 começa a desfazer o Ato 53

Entretanto, há algo no novo documento que considero ainda mais revelador. Apenas nove dias separam os atos nº 53 e nº 55, mas o segundo já precisa retornar ao primeiro para desfazer decisões que haviam acabado de ser publicadas. O Ato nº 55 declara expressamente sem efeito os itens 47, 48, 146 e 184 do Ato nº 53. Esse pequeno detalhe administrativo possui uma consequência metodológica importante. Quem tivesse contabilizado aqueles quatro itens no dia da publicação do Ato nº 53 estaria correto naquele momento, mas parte daquela fotografia regulatória já teria mudado nove dias depois. O mercado de agrotóxicos, portanto, não pode ser compreendido simplesmente somando os registros e modificações publicados pelo MAPA. É necessário acompanhar aquilo que acontece posteriormente com cada decisão.

O problema se torna ainda mais interessante quando se observa que vários produtos, ingredientes ativos e empresas que apareciam no ato anterior voltam a surgir no novo documento. Entre as substâncias ou famílias de produtos que reaparecem estão clorantraniliprole, picloram, clorpirifós, glufosinato, 2,4-D, atrazina, dicamba e fipronil, entre outras. Em alguns casos estamos diante de novas modificações; em outros, de correções, substituições ou republicações. Assim, Ato nº 53 e Ato nº 55 não devem ser tratados simplesmente como dois pacotes independentes de decisões administrativas, mas como partes de um mesmo fluxo regulatório.

Uma máquina de alterar que também precisa de uma máquina de corrigir

Talvez o aspecto mais revelador do Ato nº 55 esteja justamente nas últimas páginas. Depois da longa sequência de decisões de pós-registro aparece uma seção intitulada “RETIFICAÇÕES”. Ali são corrigidas publicações anteriores referentes a titulares, fabricantes, formuladores, endereços, marcas comerciais, culturas, organismos-alvo e transferências de titularidade.

O resultado chega a ser paradoxal. O sistema brasileiro possui uma grande engrenagem administrativa destinada a modificar registros já concedidos, mas essa própria engrenagem produz uma quantidade suficiente de alterações, substituições e inconsistências para exigir outra engrenagem destinada a corrigir aquilo que foi publicado anteriormente. O Ato nº 55 não apenas altera registros: ele corrige alterações, torna decisões sem efeito e republica informações.

Isso torna bastante difícil responder a uma pergunta aparentemente simples: qual é, hoje, a situação regulatória de determinado agrotóxico no Brasil? A resposta pode exigir localizar o registro original e depois reconstruir sua trajetória através de atos posteriores, procurando inclusões de fabricantes e formuladores, alterações de titularidade, novas marcas, mudanças de recomendações de uso, cancelamentos e retificações. O que existe, na prática, é uma espécie de genealogia administrativa de cada registro.

E aqui aparece um problema de transparência que merece atenção. Para empresas especializadas, departamentos jurídicos e consultorias regulatórias, acompanhar essa sucessão de atos faz parte da rotina empresarial. Para agricultores, trabalhadores rurais, pesquisadores, profissionais da saúde, movimentos sociais e mesmo órgãos públicos que não estejam diretamente inseridos nessa engrenagem, reconstruir essa história pode ser uma tarefa consideravelmente mais difícil.

O registro é apenas a porta de entrada

O Ato nº 53 já havia mostrado que a maior parte das decisões analisadas não dizia respeito à criação de registros completamente novos, mas à ampliação e reorganização daqueles existentes. O Ato nº 55 reforça essa conclusão e acrescenta algo novo: o pós-registro não é apenas expansivo; ele é permanentemente mutável.

Isso muda inclusive a maneira como deveríamos acompanhar as políticas brasileiras para agrotóxicos. A divulgação periódica do número de novos produtos registrados é importante, mas insuficiente. Seria necessário acompanhar também quantos fabricantes foram adicionados aos registros existentes, quantos novos formuladores passaram a produzi-los, quantos importadores foram autorizados, quantas fontes de produtos técnicos foram acrescentadas, quais culturas e organismos-alvo foram incorporados e quantas decisões anteriores foram posteriormente modificadas, canceladas ou retificadas.

Somente então teríamos uma medida mais próxima da verdadeira dimensão da expansão do mercado.  O Ato nº 55 possui 25 páginas e mistura novas autorizações, inclusões, alterações, cancelamentos, decisões tornadas sem efeito e retificações. Visto isoladamente, cada item pode parecer apenas mais uma decisão burocrática perdida no Diário Oficial da União. Vistos em conjunto e, sobretudo, colocados ao lado do Ato nº 53 publicado apenas nove dias antes, esses movimentos revelam outra coisa: o mercado brasileiro de agrotóxicos não cresce apenas quando um novo produto recebe registro. Ele também se amplia e se reorganiza continuamente depois que o registro já foi concedido. É por isso que talvez esteja na hora de deixar de perguntar apenas “quantos novos agrotóxicos foram registrados?” e começar a fazer uma pergunta mais incômoda: “o que acontece com esses registros depois que ninguém mais está olhando?”

O Ato nº 55 oferece uma resposta pouco tranquilizadora: acontece muita coisa. E quase tudo acontece longe dos olhos da sociedade.

Na Europa é “simplificação”, no Brasil é “modernização”: o lobby dos agrotóxicos muda o nome, mas preserva o método

Investigação sobre o cerco ao Green Deal europeu revela estratégias que atravessam o Atlântico: pressão política, fabricação de urgências econômicas e uma guerra permanente contra as regras que limitam o mercado de agrotóxicos

Uma excelente investigação publicada pelo GRILLED, assinada pelo jornalista Zach Boren, oferece uma rara oportunidade para observar por dentro como funciona o lobby do grande agronegócio europeu. A partir de dezenas de documentos internos da Copa-Cogeca, poderosa organização que reúne sindicatos agrícolas e cooperativas da União Europeia, a reportagem mostra que o enfraquecimento das políticas ambientais europeias não ocorreu simplesmente porque governos concluíram que elas seriam inviáveis.  A invesitgaçã demonstra que houve uma estratégia organizada para atrasar, modificar e, quando possível, inviabilizar medidas consideradas incômodas aos interesses do agronegócio industrial.

Um dos casos mais reveladores envolve justamente os agrotóxicos. A estratégia Farm to Fork, lançada como parte do Green Deal europeu, previa reduzir pela metade o uso e o risco dos agrotóxicos até 2030. Os documentos obtidos pelo GRILLED mostram que dirigentes da Copa-Cogeca discutiram explicitamente a conveniência de retardar a regulamentação até as eleições europeias de 2024, apostando que uma mudança na composição política do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia criaria condições mais favoráveis para enterrar a proposta, algo que acabou efetivamente acontecendo quando a regulamentação sobre o uso sustentável de agrotóxicos foi retirada pela Comissão Europeia em fevereiro de 2024.

O aspecto mais interessante da investigação, entretanto, não é apenas o resultado alcançado, mas o método utilizado para produzi-lo. A reportagem do Grilled mostra uma combinação de acesso privilegiado aos formuladores das políticas públicas, pressão direta sobre governos nacionais, aproximação com comissários europeus, produção de estudos privados de impacto econômico, construção de narrativas sobre supostas ameaças à produção de alimentos e exploração de conjunturas políticas favoráveis. Até a guerra na Ucrânia foi mobilizada como argumento para sustentar que as metas ambientais europeias deveriam ser revistas em nome da segurança alimentar. Diante de uma regulamentação inconveniente, portanto, o primeiro movimento não consistiu necessariamente em demonstrar cientificamente que ela está errada, mas em produzir dúvidas sobre seus custos, pedir novos estudos, reclamar dos prazos e empurrar a decisão para um momento político mais favorável.

É justamente nesse ponto que a história europeia começa a ficar estranhamente familiar para quem acompanha a questão dos agrotóxicos no Brasil, pois a CropLife Brasil, braço nacional de uma estrutura internacional que representa algumas das principais empresas produtoras de agrotóxicos, sementes e biotecnologia agrícola, adotou ao longo da tramitação do chamado “Pacote do Veneno” uma narrativa surpreendentemente semelhante. O enfraquecimento da legislação brasileira raramente foi apresentado publicamente como redução de controles ambientais ou sanitários, preferindo-se um vocabulário muito mais palatável composto por expressões como “modernização”, “segurança jurídica”, “inovação”, “competitividade” e “harmonização regulatória”. A própria CropLife Brasil comemorou a conclusão da tramitação da Lei nº 14.785/2023 apresentando o novo marco como instrumento de modernização e maior segurança jurídica para o setor.

A diferença de vocabulário não deveria esconder a semelhança política existente entre os dois processos, pois, tanto na Europa quanto no Brasil, regulações destinadas originalmente a limitar riscos ambientais e sanitários passam a ser apresentadas como obstáculos burocráticos à produção agrícola. Na Europa, fala-se cada vez mais em “simplificação” das regras; no Brasil, falou-se durante anos em “modernização” da Lei dos Agrotóxicos. As palavras mudam conforme o ambiente político, mas o resultado pretendido permanece essencialmente o mesmo: flexibilizar os mecanismos estatais de controle.

Outra semelhança importante está relacionada à tentativa de deslocar progressivamente o centro da decisão regulatória. Quanto mais uma decisão sobre agrotóxicos permanece submetida a instituições de saúde pública e proteção ambiental, maior tende a ser o peso do princípio da precaução; quanto mais ela passa a ser tratada como questão de produtividade, competitividade agrícola ou eficiência administrativa, maior tende a ser o peso dos interesses econômicos associados ao agronegócio. No Brasil, a nova legislação ampliou a centralidade administrativa do Ministério da Agricultura no processo de registro, enquanto Anvisa e Ibama permaneceram responsáveis pelas avaliações toxicológica e ambiental, uma mudança institucional que merece atenção precisamente porque modifica o terreno no qual os conflitos regulatórios passam a ocorrer.

Além disso, o lobby não terminou com a aprovação da nova legislação brasileira. A CropLife Brasil continua participando das discussões sobre sua regulamentação e implementação, inclusive em espaços que reúnem empresas, órgãos fiscalizadores e representantes do Ministério da Agricultura. Em junho de 2026, por exemplo, a própria organização destacou sua participação na Conferência Nacional de Defesa Agropecuária, onde estavam sendo discutidas competências, procedimentos e normas decorrentes da Lei nº 14.785/2023, demonstrando que a disputa regulatória prossegue mesmo depois de encerrada a votação parlamentar.

Do outro lado do Atlântico, a CropLife Europe também permanece fortemente presente no processo decisório europeu. Registros públicos de lobby mostram dezenas de reuniões com parlamentares europeus e uma agenda concentrada justamente em temas como regulamentação de produtos fitossanitários, redução de exigências regulatórias e aquilo que agora aparece sob a aparentemente inocente expressão de “simplificação regulatória”. Dados compilados a partir do registro europeu apontavam, em agosto de 2026, 69 reuniões declaradas com 42 eurodeputados e gastos de aproximadamente € 1,2 milhão anuais em atividades de lobby, dimensão que ajuda a compreender a assimetria de recursos existente entre os interesses econômicos envolvidos e aqueles que defendem controles ambientais e sanitários mais rigorosos.

O que aparece dos dois lados do Atlântico é, portanto, algo maior do que duas batalhas legislativas independentes, aproximando-se de uma espécie de manual transnacional de desregulamentação. Primeiro, uma norma ambiental ou sanitária é apresentada como excessivamente burocrática; depois, seus custos econômicos são enfatizados enquanto seus benefícios ambientais e sanitários são relativizados. Em seguida surgem pedidos de novos estudos, avaliações de impacto e períodos de transição, enquanto paralelamente se intensificam reuniões com parlamentares, ministros e órgãos reguladores. Quando aparece uma crise — inflação dos alimentos, guerra, dificuldades econômicas ou protestos agrícolas —, ela pode ser mobilizada para reforçar a ideia de que a regulamentação ameaça a segurança alimentar. Finalmente, quando o ambiente político se torna favorável, aquilo que começou como pedido de “ajuste” pode terminar como redução efetiva das salvaguardas regulatórias.

A investigação do GRILLED possui justamente o mérito de mostrar que esse processo não depende de nenhuma conspiração escondida em uma sala escura, pois boa parte dele ocorre à luz do dia por meio de reuniões, consultas públicas, estudos econômicos, eventos empresariais e acesso privilegiado aos centros de decisão. O problema democrático não está na simples existência do lobby, mas na enorme assimetria de recursos e acesso entre corporações interessadas em ampliar seus mercados e populações que posteriormente podem arcar com os custos ambientais e sanitários associados ao uso intensivo de substâncias químicas na agricultura.

Há ainda uma ironia particularmente incômoda para nós brasileiros. Enquanto o lobby agroindustrial trabalha para impedir que a União Europeia retire determinados agrotóxicos de seu mercado, empresas sediadas na própria Europa continuam participando de um mercado internacional no qual substâncias proibidas ou severamente restringidas em território europeu encontram compradores em países como o Brasil. A flexibilização regulatória europeia e a brasileira, portanto, não deveriam ser compreendidas como fenômenos inteiramente separados, mas como componentes de uma mesma geografia internacional da indústria química, na qual capitais, produtos e estratégias de lobby atravessam fronteiras com muito mais facilidade do que as normas destinadas a proteger trabalhadores, consumidores e ecossistemas.

A diferença talvez esteja principalmente no ponto de partida. Na União Europeia, o lobby trabalha para desmontar partes de uma arquitetura regulatória historicamente mais restritiva, enquanto no Brasil, depois de décadas de pressão política culminando na Lei nº 14.785/2023, uma parcela importante desse trabalho de flexibilização já foi incorporada ao próprio marco legal. Não deixa de ser revelador que aquilo que organizações ambientais e pesquisadores identificaram como enfraquecimento das salvaguardas regulatórias seja apresentado pela CropLife Brasil sob a linguagem muito mais confortável da “modernização”.

Por isso, a reportagem do GRILLED deveria ser lida com bastante atenção deste lado do Atlântico, pois mostra como expressões aparentemente neutras como “redução da burocracia”, “modernização”, “segurança jurídica” e “simplificação regulatória” podem funcionar como embalagens politicamente mais aceitáveis para um processo muito mais concreto: diminuir os obstáculos impostos pelo Estado à produção, comercialização e utilização de substâncias químicas potencialmente perigosas. Europa e Brasil possuem instituições, histórias e legislações diferentes, mas as estratégias utilizadas para pressioná-las guardam semelhanças difíceis de ignorar, especialmente quando os mesmos interesses econômicos operam simultaneamente nos dois mercados.

Talvez esteja aí a principal lição oferecida pelos documentos revelados pelo GRILLED. Enquanto agricultores, trabalhadores rurais, consumidores e populações expostas continuam submetidos às fronteiras nacionais e dependentes da capacidade regulatória de seus respectivos Estados, a indústria dos agrotóxicos já opera há muito tempo em escala transnacional, inclusive na construção das estratégias destinadas a reduzir justamente os controles que esses Estados procuram impor sobre ela. Quando o produto é o mesmo e os interesses econômicos também, aparentemente basta adaptar a embalagem política: em Bruxelas vende-se “simplificação”; em Brasília, “modernização”.

Porto do Açu: bilhões e promessas avançam sobre um território que já acumula muitos passivos

A matéria publicada por O Dia sobre o papel do Porto do Açu no desenvolvimento regional oferece uma boa oportunidade para examinar não apenas o crescimento efetivamente alcançado pelo complexo industrial-portuário, mas também a distância que ainda separa sua realidade presente de boa parte do futuro que vem sendo anunciado para São João da Barra e para o Norte Fluminense. Há, entretanto, uma dimensão praticamente ausente dessa narrativa que considero indispensável para qualquer avaliação sobre o significado do empreendimento: o Porto do Açu não chega ao futuro anunciado partindo de uma folha em branco, mas carregando um passivo socioambiental acumulado desde sua implantação, ao qual poderão ser acrescentados novos e potencialmente maiores impactos caso a extensa carteira de empreendimentos anunciados venha efetivamente a se materializar.

Não há dúvida de que o Porto do Açu se tornou uma estrutura econômica de grande porte. Os 89 milhões de toneladas movimentados em 2025, os cerca de R$ 20 bilhões já investidos, a presença das duas termelétricas da GNA, que juntas ultrapassam 3 GW de capacidade instalada, e a participação crescente do complexo nas exportações brasileiras de petróleo demonstram que não estamos mais diante daquele projeto cuja viabilidade ainda era motivo de especulação há pouco mais de uma década. O Porto existe, cresceu e ocupa hoje uma posição relevante nas cadeias brasileiras de petróleo, minério de ferro, gás natural e serviços offshore.

Também existem novos investimentos e projetos capazes de ampliar significativamente essa importância. A matéria menciona mais R$ 22 bilhões em investimentos previstos até 2033, além de iniciativas relacionadas ao hidrogênio e à amônia verdes, combustíveis de baixo carbono, data centers e à futura integração ferroviária por meio da EF-118. É justamente nesse ponto que se torna necessário separar aquilo que já está efetivamente instalado daquilo que permanece no terreno dos contratos preliminares, do licenciamento, do planejamento ou das expectativas empresariais. Essa distinção é fundamental não apenas para evitar que o futuro seja apresentado como presente, mas também para que se possa discutir antecipadamente quais serão as consequências territoriais desse futuro caso ele realmente aconteça.

O caso dos data centers é ilustrativo. A Yamna reservou inicialmente uma área de 20 hectares no Porto do Açu e anunciou um projeto cuja primeira fase poderá alcançar 250 MW. Trata-se de uma iniciativa relevante e que merece ser acompanhada, mas reservar uma área e desenvolver um projeto não equivale a possuir um campus de data centers instalado e funcionando. Entre uma coisa e outra existem licenciamento, financiamento, contratação de capacidade, infraestrutura elétrica, disponibilidade hídrica e uma série de decisões empresariais que ainda precisarão ser tomadas. Mais importante ainda, se um empreendimento dessa escala efetivamente sair do papel, será necessário discutir de onde virão a energia e a água necessárias ao seu funcionamento e quais pressões adicionais serão produzidas sobre um território que já abriga um dos maiores complexos industriais e energéticos do estado do Rio de Janeiro.

O mesmo cuidado deve ser adotado em relação ao chamado hub de hidrogênio verde, pois existem projetos, áreas reservadas e processos de licenciamento em andamento, enquanto parte importante dessa infraestrutura permanece projetada para o final desta década ou para a seguinte. Assim, parece mais preciso afirmar que o Porto do Açu procura construir uma posição estratégica na futura economia de baixo carbono do que tratar essa transformação como realidade consumada. Além disso, classificar uma atividade como “verde” não elimina automaticamente seus impactos territoriais. Produzir hidrogênio e amônia em grande escala exige energia, água, instalações industriais, sistemas de armazenamento, estruturas de transporte e áreas de segurança, de modo que a questão ambiental não pode ser resolvida simplesmente pela utilização do adjetivo que acompanha a tecnologia.

Essa distinção torna-se ainda mais necessária porque a estrutura econômica atualmente consolidada no Porto continua fortemente associada aos combustíveis fósseis. Petróleo e gás natural ocupam posição central, enquanto as duas grandes termelétricas da GNA funcionam a gás. Surge daí uma contradição que merece ser examinada com atenção: ao mesmo tempo que procura posicionar-se como plataforma da transição energética, o Açu amplia sua importância como infraestrutura logística e energética diretamente associada ao petróleo e ao gás. A chamada economia verde constitui, portanto, uma possibilidade importante de diversificação futura, enquanto a economia fóssil permanece como um dos pilares concretos do empreendimento no presente.

Mas existe uma questão anterior que não deveria desaparecer diante da sucessão de novos anúncios. A implantação e expansão do Porto do Açu produziram profundas transformações territoriais em São João da Barra, especialmente no V Distrito. A constituição do complexo envolveu desapropriações, alteração do uso da terra, restrições de acesso a áreas anteriormente utilizadas por populações locais e mudanças nas condições de reprodução social de agricultores e pescadores artesanais. Ao mesmo tempo, a industrialização de uma extensa faixa costeira modificou relações históricas entre comunidades, lagoas, áreas de pesca, restinga e demais ecossistemas associados à planície costeira.

No caso da pesca artesanal, esse processo merece atenção particular porque os impactos não se resumem à perda física de determinado ponto de pesca. A criação de áreas industriais, cercamentos, restrições de circulação e alterações no acesso a ambientes costeiros e lagunares interfere em práticas construídas ao longo de gerações. A transformação do território pode aumentar distâncias, modificar rotas, reduzir alternativas de acesso e concentrar a atividade pesqueira em áreas menores. São impactos que dificilmente aparecem quando o sucesso do empreendimento é medido exclusivamente em toneladas movimentadas, bilhões investidos ou hectares ocupados por novas empresas.

Há ainda efeitos ambientais que precisam ser compreendidos em escala territorial. A presença simultânea de estruturas portuárias, termelétricas, atividades de movimentação de minério e petróleo, tráfego pesado e sucessivas instalações industriais cria pressões sobre qualidade do ar, recursos hídricos, ecossistemas costeiros e lagunares e sobre a própria dinâmica de ocupação do território. Em outras palavras, existe um passivo socioambiental associado à implantação e ao funcionamento do complexo que não desaparece quando um novo empreendimento é anunciado. Ele permanece no território e passa a constituir a base sobre a qual as novas atividades serão acrescentadas.

Essa constatação torna ainda mais importante observar a infraestrutura necessária para sustentar a expansão anunciada. A direção do próprio Porto reconhece que os acessos terrestres constituem um problema relevante. Centenas de caminhões circulam diariamente pelas estradas da região, existem trechos rodoviários problemáticos e obras importantes, como o chamado Arco Sul, dependem de centenas de milhões de reais em investimentos. Um complexo que anuncia dezenas de bilhões de reais em novos investimentos privados necessita, portanto, de investimentos públicos consideráveis para resolver gargalos externos ao seu perímetro. Isso não constitui uma peculiaridade do Açu, pois grandes infraestruturas portuárias normalmente dependem de investimentos públicos em acessos rodoviários e ferroviários, mas essa dependência precisa entrar na conta quando se fala em desenvolvimento regional.

A EF-118 representa outro exemplo da diferença entre presente e futuro. A ligação ferroviária do Porto do Açu com a malha nacional poderá modificar profundamente sua logística e reduzir a atual dependência do transporte rodoviário, mas essa ferrovia ainda não existe e sua concessão permanece em desenvolvimento. A própria expectativa apresentada pela direção do Porto situa sua operação em um horizonte que pode alcançar aproximadamente uma década, criando uma ironia difícil de ignorar: a locomotiva econômica utilizada como metáfora para descrever o Porto do Açu ainda depende, literalmente, da construção dos trilhos que poderão sustentar parte importante de sua expansão futura.

Entretanto, talvez o maior problema de olhar separadamente para cada novo anúncio seja perder de vista aquilo que poderá acontecer caso todos, ou mesmo uma parcela significativa deles, efetivamente saiam do papel. Petróleo, minério, gás natural, duas grandes termelétricas, novas instalações industriais, fertilizantes, combustíveis de baixo carbono, hidrogênio, amônia, data centers e uma ferrovia não ocuparão territórios diferentes e independentes. Todos estarão concentrados no mesmo complexo e utilizarão, em diferentes proporções, o mesmo território, os mesmos sistemas viários, a mesma região costeira, recursos hídricos regionais e uma infraestrutura energética que precisará continuar sendo ampliada.

É justamente aí que a discussão sobre impactos cumulativos e sinérgicos se torna incontornável. O impacto de dez grandes empreendimentos instalados no mesmo território não corresponde necessariamente à simples soma dos impactos individuais calculados em dez processos separados de licenciamento. Uma atividade pode ampliar os efeitos produzidos por outra, enquanto novas demandas por água, energia, transporte e território podem produzir pressões que somente aparecem quando o conjunto é considerado. O tráfego de caminhões, por exemplo, não depende apenas da movimentação atual, mas poderá crescer com novas cargas; a demanda energética dos data centers terá de coexistir com outras atividades eletrointensivas; novas instalações industriais poderão aumentar simultaneamente as pressões sobre recursos hídricos, infraestrutura e ecossistemas.

Esse problema assume importância ainda maior diante das características ambientais da região onde o complexo foi instalado. O Porto do Açu não está situado em um vazio territorial esperando pela chegada do desenvolvimento, mas em uma planície costeira ocupada por comunidades e marcada pela presença de lagoas, áreas úmidas, restingas, ambientes agrícolas e pesqueiros e por uma dinâmica hidrológica particularmente sensível. Qualquer expansão industrial dessa magnitude deveria ser examinada não apenas empreendimento por empreendimento, mas também a partir da capacidade do território de absorver o conjunto das transformações projetadas.

Há, portanto, duas contas que precisam ser feitas simultaneamente. A primeira olha para trás e pergunta qual foi o custo socioambiental necessário para produzir o Porto do Açu que existe hoje, quem perdeu terras, acessos e possibilidades econômicas e quais transformações ambientais já foram acumuladas desde o início da implantação do complexo. A segunda olha para frente e pergunta o que poderá acontecer se os R$ 22 bilhões anunciados, os projetos de hidrogênio e amônia, os data centers, os novos terminais, a ferrovia e outras iniciativas efetivamente forem implantados. Discutir apenas os benefícios econômicos futuros sem colocar essas duas contas na mesma equação produz inevitavelmente uma visão incompleta do significado territorial do empreendimento.

É nesse ponto que também se torna necessário separar crescimento portuário de desenvolvimento regional. Para demonstrar que o crescimento do Porto está efetivamente produzindo desenvolvimento seria necessário acompanhar não apenas toneladas movimentadas, investimentos anunciados e número de empresas instaladas, mas também renda, salários, qualidade e estabilidade dos empregos, encadeamentos com empresas locais, arrecadação municipal, distribuição territorial dos benefícios, pressão sobre serviços públicos e os custos ambientais e sociais associados à expansão.

Essa distinção é particularmente importante porque o complexo apresenta características típicas de um enclave de recursos, conectando diretamente um território específico às grandes redes nacionais e internacionais de circulação de petróleo, minério, gás e outras commodities. A capacidade de movimentar volumes cada vez maiores e atrair novos investimentos demonstra o sucesso econômico do empreendimento, mas não comprova que uma parcela equivalente dessa riqueza esteja sendo internalizada na economia regional. É justamente nesse intervalo entre riqueza movimentada e riqueza territorializada que deveria estar uma parte importante da discussão sobre o significado do Porto do Açu para o Norte Fluminense.

Por isso, a sucessiva incorporação de novas atividades exige que o debate deixe de considerar cada empreendimento como uma peça isolada. O território não experimenta separadamente o terminal de petróleo numa segunda-feira, as termelétricas na terça, o minério na quarta, o futuro data center na quinta e o hidrogênio verde na sexta-feira. As populações e os ecossistemas recebem tudo ao mesmo tempo, e é dessa simultaneidade que emergem os impactos cumulativos, as disputas pelo uso dos recursos e as transformações territoriais que dificilmente aparecem quando cada projeto é analisado exclusivamente dentro de seus próprios limites.

Nesse sentido, a matéria de O Dia permite perceber o tamanho da aposta que está sendo feita no Porto do Açu, mas também evidencia a necessidade de ampliar o campo de perguntas. Há uma estrutura portuária efetivamente consolidada e poderosa, uma segunda camada de investimentos em expansão e uma terceira composta por projetos que poderão transformar profundamente o complexo nas próximas décadas. O cuidado necessário está em não colocar essas três dimensões no mesmo tempo verbal e, sobretudo, em não projetar o futuro como se o território sobre o qual ele será construído não carregasse uma história anterior de transformações, conflitos e impactos.

O Porto do Açu do presente continua sendo fundamentalmente um grande corredor de petróleo, minério, gás e serviços offshore, acompanhado por um enorme parque termelétrico, enquanto o Porto projetado para o futuro pretende incorporar hidrogênio verde, amônia, combustíveis de baixo carbono, data centers e uma conexão ferroviária capaz de alterar sua inserção logística. Esse futuro pode efetivamente ocorrer, mas ainda terá de ser construído, financiado, licenciado e, em muitos casos, apoiado por investimentos públicos de grande porte. Se ele se concretizar, não substituirá automaticamente o Porto atual por outro mais “verde”; ao contrário, tenderá a acrescentar novas camadas industriais e tecnológicas à infraestrutura fóssil, mineral e logística que já existe.

É justamente enquanto esse futuro está sendo construído que o Norte Fluminense deveria ampliar o debate sobre o significado do Porto do Açu. A questão decisiva não deveria ser apenas quanto o complexo poderá crescer ou quantos bilhões de reais poderão ser investidos dentro de seus limites, mas quanto desse crescimento será convertido em desenvolvimento territorial, quem ficará com os benefícios, quem absorverá os custos, quais passivos já foram acumulados e qual será a capacidade da região de suportar as pressões adicionais caso o futuro atualmente anunciado realmente se transforme em presente. Afinal, um porto pode crescer extraordinariamente como elo de cadeias globais de commodities enquanto o território que o abriga acumula custos que não aparecem nas toneladas movimentadas, nos bilhões anunciados nem nas imagens cuidadosamente construídas de um futuro que ainda está por chegar.

Quando até o Estadão desconfia: Flávio Bolsonaro e o peso do cavalo chamado Master

Editorial de O Estado de S. Paulo afirma que o candidato do PL está “sob suspeita” e expõe uma contradição cada vez mais difícil de esconder entre o discurso anticorrupção do bolsonarismo e suas relações com Daniel Vorcaro

Há momentos em que uma posição política ganha significado adicional não apenas pelo que é dito, mas por quem resolveu dizê-lo. É justamente isso que torna especialmente relevante o editorial publicado por O Estado de S. Paulo no sábado, 12 de setembro, sob o título nada ambíguo “Flávio é um candidato sob suspeita”. Não estamos diante de um jornal que possa ser acusado seriamente de possuir simpatias históricas pela esquerda brasileira. Quando o Estadão chega à conclusão de que Flávio Bolsonaro enfrenta um problema de natureza ética para apresentar-se como candidato à Presidência da República, alguma coisa importante mudou de lugar.

O editorial parte de um fato que se tornou impossível contornar: Flávio Bolsonaro está formalmente sob investigação da Polícia Federal por causa de sua participação na busca de recursos junto a Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. O próprio Flávio Bolsonaro já reconheceu que procurou Vorcaro em busca de dinheiro, embora sustente que tudo não passou de uma operação entre particulares, sem qualquer contrapartida política. A dimensão financeira da empreitada, entretanto, está muito longe da imagem inocente de um filho passando o chapéu para produzir um filme sobre o pai: a negociação chegou à casa dos R$ 134 milhões, enquanto documentos divulgados pela imprensa indicam que aproximadamente R$ 61 milhões chegaram efetivamente a ser transferidos.

É justamente aí que a história do Dark Horse deixa de ser uma curiosidade cinematográfica e passa a integrar o enredo muito mais amplo do Banco Master. A Polícia Federal reconstruiu contatos e encontros entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, inclusive a partir do material apreendido no celular do banqueiro. Há ainda registros da proximidade entre ambos, inclusive mensagens em que Flávio Bolsonaro tratava Vorcaro como “irmão”.

A defesa apresentada pelo candidato — a de que se tratava de “dinheiro privado” destinado a um “filme privado” — tampouco encerra a questão. O problema não é simplesmente saber se havia uma rubrica orçamentária do governo federal pagando diretamente a produção cinematográfica. A pergunta relevante é de onde saía o dinheiro, por quais estruturas financeiras ele circulava, quais interesses cercavam seus financiadores e que tipo de relação se estabeleceu entre um banqueiro e membros de uma família que ocupa posição central na política brasileira. Chamar o dinheiro de “privado” não funciona como água benta capaz de purificar automaticamente sua origem.

E aqui surge uma ironia especialmente indigesta. O Banco Master não aparece nessa história como uma empresa qualquer distribuindo patrocínios culturais. O colapso do banco colocou no centro do debate justamente a natureza de suas operações financeiras e os prejuízos potenciais associados a elas. Por isso, investigar o caminho percorrido pelo dinheiro que saiu do universo empresarial de Vorcaro em direção ao projeto cinematográfico dos Bolsonaro não representa criminalizar relações privadas. Representa fazer uma pergunta elementar sobre a circulação de recursos em torno de agentes econômicos e políticos poderosos.

Há ainda outro aspecto que torna o editorial do Estadão particularmente significativo. Durante anos, o bolsonarismo construiu parte substancial de sua identidade política apresentando-se como força destinada a limpar os estábulos da República. A corrupção seria sempre praticada pelos outros; seus próprios integrantes representariam a ruptura moral com a velha política. O caso Master produz uma inversão quase perfeita dessa narrativa. Agora são justamente personagens centrais do bolsonarismo que precisam explicar relações financeiras milionárias com Daniel Vorcaro.

É por isso que talvez a frase mais importante do editorial não esteja propriamente nas acusações que enumera, mas na conclusão política que extrai delas. O Estadão afirma que as suspeitas colocam em questão as próprias condições morais de Flávio Bolsonaro para disputar cargos eletivos. Trata-se de uma declaração extraordinariamente dura vinda de um jornal cuja história editorial dificilmente pode ser confundida com militância progressista.

Convém, naturalmente, preservar uma distinção fundamental: estar sendo investigado não equivale a estar condenado. Flávio Bolsonaro tem direito à defesa, e caberá às instituições determinar se houve crime e estabelecer eventuais responsabilidades. Mas esse princípio jurídico não obriga ninguém a suspender o julgamento político. Um candidato à Presidência da República pode perfeitamente não ter sido condenado criminalmente e, ainda assim, ter de explicar ao eleitorado por que estava envolvido numa operação financeira milionária com um banqueiro situado no centro de um dos maiores escândalos financeiros recentes do país.

Talvez seja justamente esse o significado político mais profundo do editorial. Quando um jornal como O Estado de S. Paulo precisa recordar que existe diferença entre interesse público e interesse privado, entre dinheiro lícito e dinheiro cuja origem precisa ser esclarecida e entre responsabilidade criminal e responsabilidade política, é porque a deterioração do debate já foi longe demais.

E existe uma ironia final difícil de ignorar. O filme que deveria transformar Jair Bolsonaro em personagem épico chama-se Dark Horse. Em português, o termo designa aquele competidor inesperado que surge de fora para surpreender os favoritos. Só que, a esta altura, o cavalo realmente escuro dessa história talvez não seja o personagem que o filme pretendia glorificar.

Banco Master: no Rio governado pelo PL, até o dinheiro dos aposentados entrou na roda de Daniel Vorcaro

Rioprevidência liderou a exposição previdenciária ao Master, enquanto a PF investiga as relações entre o ex-governador fluminense e Daniel Vorcaro

A reportagem publicada neste domingo pelo Poder360 sobre os institutos de previdência que colocaram dinheiro no Banco Master permite compreender uma dimensão particularmente incômoda do escândalo: entre os fundos públicos alcançados pelas investigações da Polícia Federal, o caso de maior impacto é justamente o do Rio de Janeiro.

Não estamos falando de alguns milhões de reais utilizados por algum pequeno fundo municipal seduzido pelas taxas oferecidas pelo banco de Daniel Vorcaro. O Rioprevidência, responsável pelo pagamento das aposentadorias e pensões dos servidores públicos fluminenses, tornou-se protagonista dessa história. Primeiro apareceram R$ 970 milhões aplicados em letras financeiras do Master entre outubro de 2023 e julho de 2024. Depois vieram outros R$ 2,01 bilhões aplicados em fundos relacionados ao banco. A conta investigada pela Polícia Federal chegou, assim, à casa dos R$ 3 bilhões.

A dimensão financeira já seria suficientemente escandalosa. Afinal, estamos falando de recursos destinados a garantir aposentadorias e pensões, e parte importante das aplicações ocorreu em instrumentos financeiros sem a proteção do Fundo Garantidor de Créditos. Mas seria um erro reduzir o episódio a uma discussão técnica sobre política de investimentos, rentabilidade ou avaliação inadequada de risco.

No caso fluminense existe uma questão política muito mais incômoda. A Polícia Federal avançou sobre as relações entre o então governador Cláudio Castro do PL e Daniel Vorcaro e descreveu, segundo documentos da investigação divulgados pela imprensa, a existência de um vínculo pessoal estreito entre ambos. Encontros privados foram identificados pela PF  até no exterior, além de coincidências temporais entre encontros de Castro com Vorcaro e posteriores aportes realizados pelo Rioprevidência. Em um dos episódios já tornados públicos, R$ 80 milhões foram aplicados no Master no dia seguinte a um encontro entre os dois.  Portanto, quando se observa o mapa nacional dos institutos previdenciários envolvidos com o Banco Master, o Rio de Janeiro não aparece simplesmente como mais um pontinho. O estado governado por Cláudio Castro aparece no centro do problema.

E existe ainda uma dimensão política que não deveria ser tratada como mero detalhe. Cláudio Castro construiu sua trajetória recente dentro do campo político bolsonarista, governou o Rio pelo PL e manteve relações políticas próximas com a família Bolsonaro. Isso, por si só, evidentemente não demonstra participação da família Bolsonaro nos investimentos do Rioprevidência e seria irresponsável sugerir uma relação causal sem provas. Mas constitui contexto político relevante quando o escândalo do Banco Master passa a revelar sucessivas conexões com personagens e estruturas de poder que circularam pelo mesmo campo político. O que torna o caso fluminense especialmente grave é justamente a combinação dessas duas dimensões. De um lado estão bilhões de reais pertencentes a uma instituição cuja função deveria ser proteger aposentados e pensionistas. Do outro estão relações políticas e pessoais que a Polícia Federal decidiu investigar para saber se tiveram influência sobre a decisão de colocar tamanha quantidade de dinheiro público nas mãos do Banco Master.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas quanto o Rioprevidência poderá recuperar. Antes disso, será necessário esclarecer por que o fundo previdenciário dos servidores do Rio de Janeiro assumiu tamanho protagonismo na compra dos papéis e fundos ligados ao Master e quem, dentro e fora do governo estadual, participou efetivamente das decisões que permitiram essa exposição.  Os aposentados e pensionistas fluminenses certamente merecem essa resposta. Afinal, enquanto determinados personagens circulavam pelos ambientes do poder e das altas finanças, era o dinheiro destinado a garantir a aposentadoria dos servidores públicos que estava sendo colocado sobre a mesa.

Porto do Açu: gigante para o mundo, gargalo no território

Gargalos logísticos revelam os limites de um enclave de recursos que cresce mais rápido do que o território consegue — ou deve — suportar

A matéria de Jenifer Ribeiro publicada pela CNN Brasil sobre os gargalos logísticos enfrentados pelo Porto do Açu merece ser lida para além da aparente discussão sobre estradas. O que está sendo revelado é uma contradição estrutural que acompanha o empreendimento desde sua implantação: construído para conectar rapidamente recursos naturais, energia e mercadorias aos circuitos nacionais e internacionais de acumulação, o Porto do Açu permanece precariamente articulado ao território que o abriga.

Os números apresentados pela reportagem são particularmente reveladores. Cerca de 600 caminhões circulam diariamente pela região, enquanto aproximadamente 12 quilômetros da RJ-238 encontram-se em condições precárias. Para resolver parte do problema, projeta-se o chamado Arco Sul, incluindo uma nova ligação de aproximadamente 27 quilômetros, além da recuperação da Estrada dos Ceramistas. A conta estimada chega a R$ 379 milhões. O objetivo declarado é melhorar o acesso ao porto e, simultaneamente, retirar parte do trânsito pesado das áreas urbanas de Campos dos Goytacazes.

Aqui aparece uma questão fundamental: quem paga pela infraestrutura necessária para sustentar a expansão de um gigantesco complexo portuário privado? A Prumo financiou os estudos das intervenções, mas a realização das obras depende essencialmente do poder público. E justamente aí surgiu o impasse: a crise financeira do Estado do Rio de Janeiro levou à suspensão de licitações e contratos do DER-RJ e das secretarias envolvidas. Diante disso, representantes do Porto do Açu passaram a conversar com candidatos ao governo estadual sobre uma solução para os acessos terrestres.

Essa situação ajuda a compreender por que considero apropriado analisar o Porto do Açu como um enclave de recursos. Enclaves desse tipo não devem ser entendidos simplesmente como empreendimentos geograficamente isolados. Ao contrário, podem possuir conexões extremamente sofisticadas com mercados internacionais, empresas transnacionais e cadeias globais de commodities. O isolamento relevante é outro: existe uma enorme assimetria entre a capacidade de conexão do empreendimento com o exterior e sua integração econômica, social e infraestrutural com o território imediatamente circundante.

No Açu essa assimetria é especialmente evidente. Pelo complexo passam petróleo, minério de ferro e outros produtos destinados a circuitos econômicos de grande escala, enquanto novos projetos relacionados ao agronegócio, fertilizantes, energia, data centers e outras atividades industriais continuam sendo anunciados. A própria CNN Brasil informa, em outra reportagem publicada simultaneamente, que um terminal de grãos previsto para começar a operar em 2028 deverá movimentar inicialmente 1 milhão de toneladas anuais, podendo chegar posteriormente a 2,5 milhões, e foi projetado para receber inicialmente 100% das cargas por rodovia.

Temos então uma situação quase paradoxal: um empreendimento que se apresenta como um dos maiores complexos portuários privados da América Latina, destacando sua capacidade de movimentar volumes crescentes de petróleo, minério de ferro e outras commodities e de atrair sucessivamente novos investimentos, continua dependendo de estradas estaduais deterioradas para estabelecer suas conexões terrestres mais elementares com o restante do território.

A contradição é ainda mais significativa porque a grandiosidade reivindicada pelo Porto do Açu contrasta com a fragilidade da infraestrutura regional que precisa sustentá-la. Quanto mais o complexo anuncia novos terminais, indústrias e atividades logísticas, mais evidente se torna a distância entre a escala global de suas ambições e as condições concretas do território no qual foi implantado.

Mais interessante ainda é observar que a tão anunciada integração ferroviária continua distante. Segundo a reportagem, a EF-118 somente deverá entrar em operação em aproximadamente dez anos. Até lá, a expansão do complexo continuará dependendo fundamentalmente do transporte rodoviário. Isso significa mais caminhões, maior pressão sobre a infraestrutura regional, maiores riscos de acidentes, emissões, ruído e congestionamentos e uma crescente necessidade de investimentos públicos destinados a tornar possível a expansão das atividades privadas instaladas no porto.

É justamente aqui que a categoria de enclave ganha força explicativa. O Porto do Açu não está desconectado. Está seletivamente conectado. Sua infraestrutura interna e marítima permite estabelecer relações diretas com mercados situados a milhares de quilômetros, enquanto as conexões terrestres com Campos dos Goytacazes, São João da Barra e outras partes da região permanecem insuficientes. Em outras palavras, o território funciona extraordinariamente bem quando considerado como plataforma de exportação e circulação de recursos, mas muito menos eficientemente quando observado como espaço cotidiano das populações que nele vivem.

Há ainda uma segunda contradição. À medida que o enclave cresce, ele começa a exigir que o território ao redor seja progressivamente reorganizado segundo suas próprias necessidades. Estradas precisam ser reconstruídas, contornos urbanos precisam ser abertos, novas conexões ferroviárias precisam ser implantadas e parcelas crescentes do espaço regional passam a ser subordinadas às exigências logísticas do complexo. Nesse processo, os custos da expansão deixam de permanecer circunscritos ao empreendimento e passam a ser distribuídos territorialmente, inclusive por meio da mobilização de recursos públicos.  Isso significa que os impactos do Porto do Açu já não podem ser analisados apenas dentro dos limites físicos do empreendimento. Eles se propagam pelas rodovias, cidades, áreas rurais, lagoas, unidades de conservação e comunidades do Norte Fluminense. Quanto maior o porto, maior a infraestrutura territorial necessária para sustentá-lo — e maior também a área sobre a qual seus custos sociais, ambientais e econômicos tendem a se espalhar.

Esse é um aspecto particularmente importante quando novos empreendimentos continuam sendo incorporados ao complexo antes que gargalos estruturais anteriores tenham sido solucionados. Se um novo terminal de grãos nasce prevendo inicialmente a chegada de toda a sua carga por caminhões, não estamos diante apenas de uma deficiência logística herdada da implantação do porto. Estamos diante da reprodução ampliada do próprio problema: acrescentam-se novos fluxos de mercadorias e novas demandas sobre uma infraestrutura regional que já demonstra sinais evidentes de saturação.  A matéria da CNN Brasil, portanto, acaba revelando algo que talvez não fosse sua intenção principal demonstrar. O gargalo rodoviário não constitui simplesmente um problema técnico a ser solucionado para aumentar a eficiência do Porto do Açu. Ele expõe a própria lógica territorial sobre a qual o empreendimento foi construído.

Criou-se primeiro uma enorme plataforma destinada a inserir o Norte Fluminense nos circuitos globais de petróleo, minério, energia e commodities. Agora se descobre que o território real — com suas cidades, estradas, comunidades, ecossistemas e limitações ambientais — não possui a mesma capacidade de expansão aparentemente ilimitada imaginada pelos planejadores do complexo.  Talvez estejamos, portanto, diante de uma inversão reveladora. Em vez de o Porto do Açu adaptar-se às características e aos limites do território onde foi instalado, é o território que passa a ser continuamente convocado a adaptar-se às necessidades de expansão do porto. E, quando essa adaptação exige centenas de milhões de reais em obras públicas para garantir a circulação associada aos novos negócios privados, torna-se inevitável perguntar não apenas quem captura os benefícios desse modelo, mas também quem fica com a conta e com os impactos de sua expansão.

E talvez seja justamente por isso que a pergunta que venho fazendo se torne cada vez mais pertinente: quantos Portos do Açu cabem no Açu?

Pequenas empresas, grandes coincidências: Flávio Bolsonaro e o Careca do INSS na mesma sala

Reportagem do ICL Notícias revela que empresa da família Bolsonaro compartilha endereço e serviços contábeis com uma rede de empresas ligada a Antonio Carlos Camilo Antunes, personagem central do escândalo dos descontos sobre aposentadorias

Há coincidências que podem ser apenas coincidências. E há aquelas que, pelo número de personagens, endereços e relações cruzadas, merecem pelo menos uma boa lupa. A reportagem de Alice Maciel, publicada nesta sexta-feira (11) pelo ICL Notícias, coloca nesta segunda categoria a descoberta de que a Bravo Grafeno, empresa de capacetes da qual Flávio Bolsonaro é sócio, está registrada na Sala 2601 do Edifício Connect Towers, em Águas Claras, Brasília, exatamente o mesmo endereço utilizado por pelo menos 16 empresas vinculadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, o chamado Careca do INSS.

O dado isoladamente não demonstra participação de Flávio Bolsonaro nas fraudes investigadas no INSS, e a própria reportagem registra que ele já negou envolvimento no escândalo. O problema começa quando se descobre que a proximidade aparentemente não se limita ao CEP. Segundo o ICL, a Bravo Grafeno utilizou também serviços da mesma estrutura contábil associada às empresas do Careca do INSS. A Voga Serviços Contábeis pertence a Alexandre Caetano dos Reis, ex-sócio de Antunes em uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas e responsável também pela contabilidade do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Alexandre está preso e aparece nas investigações como contador de diferentes empresas relacionadas ao Careca do INSS.

A Sala 2601 torna-se ainda mais interessante quando se olha quem passou por ela. O ICL encontrou pelo menos 16 empresas ligadas ao Careca do INSS registradas naquele endereço, atuando em ramos tão variados quanto consultoria, construção, incorporação, comércio, locação de veículos e call center. Entre elas está a Prospect Consultoria Empresarial, apontada pela reportagem, com base no relatório final da CPMI, como receptora de R$ 204,2 milhões de nove entidades investigadas. O endereço cadastral da Prospect? A mesma Sala 2601.

É nesse ambiente empresarial extraordinariamente povoado que aparece a Bravo Grafeno, aberta pela família Bolsonaro em junho de 2024, com capital social de R$ 100 mil. Além de Flávio Bolsonaro, a reportagem identifica Carlos Bolsonaro e outros três sócios na empresa, enquanto Jair Bolsonaro já participou da sociedade e aparece como garoto-propaganda dos capacetes. Mais interessante ainda é que alguns personagens associados à empresa reaparecem em outros episódios envolvendo Flávio Bolsonaro: um dos sócios teve ligação empresarial com Marcello de Oliveira Lopes, que, segundo a reportagem, enviou R$ 1 milhão à produtora do filme Dark Horse em dezembro de 2025.

Eis o ponto politicamente mais relevante. Não se trata de transformar endereço compartilhado em prova criminal, coisa que ele evidentemente não é. Trata-se de perceber que, à medida que diferentes investigações avançam, começa a aparecer uma geografia bastante concentrada de pessoas, empresas, contadores, escritórios, endereços e negócios. Os personagens mudam, mas os círculos parecem surpreendentemente próximos. Quando se puxa um fio relacionado ao INSS, aparecem relações que alcançam estruturas empresariais ligadas à família Bolsonaro; quando se puxa outro relacionado ao Banco Master e ao financiamento de Dark Horse, alguns personagens e conexões empresariais voltam a surgir.

Por isso, talvez a charge que acompanha este texto não seja tão exagerada quanto parece. A faixa “Pequenas empresas, grandes negócios” funciona como ironia justamente porque a questão deixou de ser o tamanho formal das empresas envolvidas. O que importa é compreender a dimensão das redes econômicas e políticas que podem circular por trás de CNPJs aparentemente modestos, escritórios de contabilidade, salas de coworking e sociedades empresariais que, vistas separadamente, parecem banais.

A reportagem do ICL não prova que Flávio Bolsonaro tenha participado do esquema atribuído ao Careca do INSS. Mas revela uma proximidade empresarial suficientemente concreta para exigir explicações muito melhores do que a palavra “coincidência”. Afinal, quando uma única sala de Brasília consegue acomodar tantas empresas, tantos personagens e tanto dinheiro, talvez o problema já não seja saber quantos metros quadrados ela possui. O mais interessante é descobrir quantos negócios cabem dentro dela.

Flávio Bolsonaro e Luis Inácio: duas faces da mesma moeda fiscal

Enquanto as campanhas disputam o campeonato de arremesso de lama, ambas escondem do eleitor o arrocho preparado para começar em 2027

A estas alturas do campeonato, parece estar ficando claro que o torneio de arremesso de lama entre as campanhas de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio  beneficia ambos, ainda que abra algum espaço para um crescimento não pactuado dos votos em Augusto Cury.

Além desse ganho comum, a fixação nos supostos poderes demoníacos das duas candidaturas majoritárias serve apenas para esconder que, na pauta comportamental, uma delas é essencialmente a versão piorada da outra. O que permanece obscurecido em meio à trama das acusações recíprocas de corrupção é que ambas carregam programas de arrocho fiscal prontos para entrar em vigor já no primeiro dia de 2027. Sob o ruído cuidadosamente alimentado da polarização, Flávio Bolsonaro e Luis Inácio aparecem, assim, como faces distintas de uma mesma moeda fiscal.

O desconhecimento dessa convergência pela maioria dos eleitores acaba contribuindo para o avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas. Além de enfrentar o desgaste inerente a quem governa, o governo de Luis Inácio vem tornando cada vez mais difícil que milhões de brasileiros consigam se proteger debaixo do cobertor, já curto, dos programas sociais que deveriam minimizar seu sofrimento. Essa é uma das principais razões para a aproximação de Flávio Bolsonaro. Embora os planos do primogênito de Jair Bolsonaro apontem para encurtar ainda mais esse cobertor, a maioria vive as urgências do presente e dispõe de poucos elementos para avaliar um futuro que se anuncia cinzento, seja qual for o candidato escolhido.

Por isso, a tentativa de Luis Inácio de chegar a um quarto mandato somente se tornará viável se ele disser com clareza o que pretende fazer, objetivamente, para melhorar a vida daqueles que mais vêm perdendo sob sua batuta. Não bastará afirmar que Flávio Bolsonaro representa algo pior, sobretudo quando o presente oferecido pelo governo Lula já se mostra ruim para quem vive do próprio trabalho e não participa das festinhas animadas do andar de cima. É justamente aí que a porca torce o rabo: quando chega a hora de abandonar o campeonato de lama e apresentar uma alternativa concreta ao arrocho fiscal, as diferenças entre as duas principais candidaturas começam a parecer bem menores do que seus marqueteiros gostariam que o eleitor percebesse.

Daniel Vorcaro, médico-legista do Brasil do andar de cima

Entre whisky caro, cifras milionárias, ministros, parlamentares e um estranho Cavalo de Troia chamado Dark Horse, o caso Master expõe as entranhas de um poder que cobra moralidade dos pobres enquanto festeja longe deles

Os últimos acontecimentos envolvendo Daniel Vorcaro são reveladores da forma como funciona o Brasil do andar de cima. As revelações envolvem não apenas ministros do STF, mas alcançam também membros estrelados do Congresso Nacional. As cifras arroladas são consideráveis, e a mistura de personagens é de impressionar até quem observa o que acontece nos palácios e tribunais com um mínimo de distanciamento crítico.

Entre as coisas que saltam aos olhos, o que mais me chama a atenção é que todos os purismos e reservas cobrados dos pobres em termos de etiqueta e comportamento não são absolutamente seguidos por quem pode participar de festas luxuosas, regadas a whisky caro e frequentadas por jovens mulheres que certamente sabem o tipo de entretenimento que se espera delas.

O que realmente importa é que muitas das relações e decisões que agora deixam ministros do STF em um emaranhado de situações embaraçosas para quem diz prezar o decoro público eram mais do que conhecidas pela classe política que, não raras vezes, era copartícipe das festinhas — vamos chamá-las assim — que Daniel Vorcaro promovia para atrair os incautos, que depois se tornavam parceiros, tal como moscas são parceiras das aranhas enquanto balançam presas em suas teias.

Mas o que realmente importa para mim é que todos esses acontecimentos burlescos nos ajudam a entender como certas decisões claramente danosas para o país e para a maioria da população são aprovadas pelo Congresso Nacional e depois mantidas pelos tribunais superiores. É muita convergência de interesses para que haja algum desvio do percurso que começa a ser traçado em festas para as quais o povo jamais é chamado a participar.

Uma nota especial deve ser reservada para a situação cada vez mais inexplicável que cerca o filme Dark Horse, que vai se mostrando um verdadeiro Cavalo de Troia para Flávio Bolsonaro. Uma pergunta que tenho visto poucos fazerem é por que Daniel Vorcaro teria interesse em investir pelo menos R$ 61 milhões em um filme cuja marca maior seria trazer para dentro do projeto um ator cuja carreira já vinha em declínio, marcado por suas ligações com a extrema-direita e por escolhas ruins de casting. O que parece transparecer é que Vorcaro não estaria simplesmente apostando no retorno comercial de uma produção cinematográfica, mas mirando o futuro político, principalmente um futuro em que a família Bolsonaro voltasse a comandar o país. Diante do que já veio à tona, essa é a hipótese que me parece mais plausível a esta altura do campeonato.

Por outro lado, toda essa exposição do que agora aparece como as entranhas do poder político confere a Daniel Vorcaro um papel que ele provavelmente jamais almejou: o de uma espécie de médico-legista de um sistema político que está morto em pé. Quanto mais aparecem as relações construídas nos salões reservados, nas festas privadas e nos encontros entre personagens dos poderes político, econômico e judiciário, mais difícil fica sustentar a ficção de que determinadas decisões públicas são tomadas em ambientes impermeáveis aos interesses privados.

O problema agora é reconhecer que já passou da hora de ficarmos escolhendo entre o mal menor. É preciso assumir uma postura ativa em defesa da construção de uma nova ordem política em que esse tipo de festa de arromba se torne impossível, não por alguma súbita conversão moral daqueles que frequentam o andar de cima, mas pela postura ativa da maioria pobre e trabalhadora que, afinal, é quem produz a riqueza que torna este país um dos mais ricos do planeta.

Do Nepal ao Brasil: a adaptação climática deixou de ser escolha e virou questão de sobrevivência

Em artigo publicado nesta quinta-feira (10/09), na seção Tendências/Debates da Folha de S.Paulo, os pesquisadores Paulo Artaxo, Augusto Getirana e Pedro Henrique de Christo fazem um alerta que deveria ocupar lugar central no debate público brasileiro: diante do avanço da crise climática, antecipar os impactos já não é apenas desejável; tornou-se condição para reduzir mortes, perdas econômicas e destruição de infraestrutura.

Intitulado “Do Nepal ao Brasil, antecipação é decisiva para a adaptação climática”, o texto parte do recente colapso glacial ocorrido na região de Langtang Lirung, no Nepal. O evento produziu uma violenta enxurrada associada ao derretimento de gelo, capaz de destruir estradas, pontes, instalações e comunidades em poucos minutos. O ponto importante levantado pelos autores é que tais acontecimentos deixaram de poder ser tratados simplesmente como “desastres naturais”. O aquecimento do clima está alterando rapidamente as condições que controlam geleiras, chuvas extremas, secas, enchentes e deslizamentos, enquanto boa parte das sociedades continua planejando o território com base em um clima que já não existe.

Há ainda uma dimensão de justiça climática que merece destaque. Como observam Artaxo, Getirana e de Christo, o Nepal contribuiu muito pouco para a crise climática global, mas figura entre os países mais vulneráveis aos seus efeitos. Essa assimetria recoloca no centro do debate a responsabilidade histórica das grandes economias emissoras e a necessidade de financiamento, transferência tecnológica e cooperação internacional para adaptação. Não basta reconhecer que certos países e populações são vulneráveis; é necessário criar condições materiais para que possam se proteger.

Para o Brasil, o alerta ganha uma dimensão adicional diante do Super El Niño de 2026-2027, mencionado pelos autores como potencial amplificador de extremos climáticos. Ondas de calor, secas na Amazônia e no Nordeste, enchentes, tempestades e deslizamentos no Sul e em áreas costeiras poderão testar duramente sistemas urbanos e infraestruturas que já demonstram fragilidades mesmo sob condições menos extremas. O problema torna-se particularmente grave porque nossas cidades cresceram, em grande medida, ignorando rios, encostas, áreas inundáveis e limites ambientais.

Um aspecto especialmente relevante do artigo é a defesa da antecipação. Isso significa abandonar a lógica predominante segundo a qual governos esperam o desastre ocorrer para então mobilizar Defesa Civil, decretar emergência e contabilizar prejuízos. Os autores defendem o fortalecimento de sistemas de monitoramento e alerta, modelos climáticos e hidrológicos de maior resolução, protocolos de segurança, intervenções de urbanismo climático e novas formas de governança capazes de transformar previsões científicas em medidas concretas de proteção.

Essa discussão é particularmente pertinente no Brasil, onde existe conhecimento técnico suficiente para identificar muitas das áreas que sofrerão com enchentes, deslizamentos, secas ou calor extremo, mas frequentemente falta transformar esse conhecimento em planejamento territorial, investimento público e políticas preventivas permanentes. A tragédia, portanto, muitas vezes começa bem antes da chuva, da enchente ou da onda de calor: começa quando alertas científicos são ignorados, obras de prevenção são adiadas e a ocupação de áreas vulneráveis continua sendo tolerada.

O artigo de Paulo Artaxo, Augusto Getirana e Pedro Henrique de Christo, publicado pela Folha de S.Paulo, traz assim uma mensagem simples, mas incômoda: não podemos impedir todos os eventos extremos que já foram colocados em movimento pela mudança climática, mas podemos decidir quantas pessoas estarão expostas a eles e quão devastadores serão seus efeitos. Em tempos de Super El Niño e aquecimento global acelerado, esperar o desastre para agir não constitui falta de previsão. É uma escolha política.