Peixes revelam sinais preocupantes sobre a saúde dos rios no Oeste do Paraná

Alterações em órgãos, danos genéticos e indicadores de estresse apontam impactos associados à degradação ambiental e à presença de contaminantes

Com relevância ambiental, econômica e social para o Oeste do Paraná, os rios estudados abastecem atividades essenciais como irrigação agrícola, abastecimento rural e industrial, pesca e manutenção dos ecossistemas aquáticos. Fotos: Denis Ferreira Netto/Acervo Pessoal

Por Jéssica Tokarski para “Ciência UFPR” 

Lesões em brânquias, danos no fígado e alterações genéticas encontradas em peixes acenderam um alerta sobre a situação dos rios do Oeste do Paraná. A baixa qualidade da água nos rios São Camilo, Santa Fé e Pioneiro revela sinais de degradação ambiental associados à ação humana na região.

O cenário, identificado em pesquisa da Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia Ambiental (PPGETA) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), pode comprometer a saúde dos ecossistemas aquáticos, reduzir a biodiversidade, favorecer desequilíbrios ecológicos e limitar os múltiplos usos da água, como o abastecimento, a irrigação, a piscicultura e a garantia de água potável para os animais.

Para avaliar esses parâmetros, Fernando Garrido de Oliveira, orientado pela professora Lilian Dena dos Santos, utilizou, em sua tese de doutorado, métodos de monitoramento, biomonitoramento e ferramentas geotecnológicas.

As análises identificaram aumento de nutrientes, maior turbidez da água, excesso de sedimentos e presença de metais, indicadores associados ao processo de degradação ambiental e relacionados principalmente à atividade agrícola, uso de fertilizantes e agrotóxicos, urbanização e lançamento inadequado de efluentes não tratados.

Pesquisa buscou identificar “sinais invisíveis” de contaminação

Os biomarcadores avaliados funcionam como uma espécie de “termômetro” da saúde dos rios, pois permitem detectar os efeitos da contaminação diretamente nos organismos que vivem nos rios ao longo do tempo, diferentemente das análises químicas, que registram a presença de substâncias em um momento específico da coleta.

Mapas com resultados finais da pesquisa, incluindo as duas estações nas quais foram realizadas coletas de água

Uma das coordenadoras do Laboratório de Qualidade de Água e Limnologia da UFPR Palotina, Lilian dos Santos explica que as alterações fisiológicas, bioquímicas, histológicas e genéticas identificadas nos organismos aquáticos refletem condições ambientais que podem comprometer a sobrevivência, o crescimento e a reprodução das espécies.

“Quando esses efeitos ocorrem de forma contínua, há maior risco de redução das populações, diminuição da diversidade biológica e desaparecimento de espécies mais sensíveis à contaminação. Como consequência, os ecossistemas tendem a se tornar mais simples e menos resilientes, favorecendo a predominância de organismos mais tolerantes à poluição e reduzindo o equilíbrio ecológico dos ambientes aquáticos”, disse à Ciência UFPR.

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O pesquisador Fernando de Oliveira alerta que, embora os principais impactos da degradação ambiental sejam inicialmente observados nos ecossistemas aquáticos, eles também podem representar riscos indiretos à saúde humana.

“A presença de contaminantes em rios e córregos pode comprometer a qualidade da água utilizada para abastecimento, irrigação, atividades produtivas e recreação. Além disso, substâncias como agrotóxicos, metais e outros poluentes podem se acumular nos organismos aquáticos e ser transferidas ao longo da cadeia alimentar, aumentando a exposição de animais e seres humanos. A degradação da qualidade da água também está associada ao aumento do risco de doenças relacionadas à contaminação hídrica e à proliferação de organismos patogênicos”, salienta.

Como o uso do solo influencia os rios

Segundo o estudo, o modelo agrícola predominante no Oeste do Paraná, baseado na sucessão soja-milho e na alta intensidade produtiva, exerce forte influência sobre a qualidade dos recursos hídricos da região.

“A expansão e o manejo dessas culturas estão associados à redução da vegetação ciliar, ao aumento dos processos erosivos e ao assoreamento dos cursos d’água. Além disso, o uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos favorece o transporte de nutrientes, sedimentos e contaminantes para os rios por meio do escoamento superficial. Esse aporte contínuo de poluentes contribui para alterações físico-químicas na água, para processos de eutrofização e para a degradação dos habitats aquáticos”, revelam os pesquisadores.

Os resultados evidenciam a necessidade da adoção de estratégias de manejo sustentável para garantir o desenvolvimento da piscicultura sem comprometer a integridade dos ecossistemas aquáticos.

“A melhoria da qualidade dos rios São Camilo, Santa Fé e Pioneiro depende de ações integradas voltadas à conservação dos recursos hídricos e ao uso sustentável do solo”, pontua Lilian.

Entre as medidas consideradas prioritárias estão a recuperação e a preservação das matas ciliares (fundamentais para reduzir a erosão) e a adoção de métodos para o tratamento dos efluentes oriundos da piscicultura.  Também são essenciais o controle dos processos erosivos e do assoreamento, a ampliação e a eficiência dos sistemas de coleta e tratamento de esgoto e a adoção de práticas agrícolas que reduzam o uso inadequado de fertilizantes e agrotóxicos.

“No setor aquícola, o fortalecimento de estratégias de manejo sustentável pode minimizar o aporte excessivo de nutrientes e de matéria orgânica aos ambientes aquáticos. Além disso, o monitoramento contínuo da qualidade da água, aliado à avaliação de biomarcadores em organismos aquáticos, permite detectar precocemente impactos ambientais”, comenta Oliveira.

O estudo, fomentado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação Araucária, foi indicado como a melhor tese de doutorado de 2025 pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia Ambiental. Um artigo derivado da pesquisa também recebeu prêmio no eixo Saúde e Meio Ambiente do VI Congresso da Sociedade de Análise de Risco Latino-Americana.

➕ Leia a tese Análise integrada da qualidade e saúde dos ecossistemas aquáticos de três rios do oeste paranaense, apresentada ao curso de Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia Ambiental da UFPR Palotina e disponibilizada no Acervo Digital da UFPR; e o artigo Environmental assessment of three southern Brazilian rivers using an integrated biomarker response index in Hypostomus ancistroides applied to GIS, publicado no periódico Environmental Research (acesso aberto; em inglês)


FONTE: CIÊNCIA UFPR

A “live” do El Niño para assistir, distribuir e guardar

Posto abaixo o vídeo da live organizada pela Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF), transmitida ontem pelo canal do GENAT/UFPB no YouTube. A atividade reuniu os pesquisadores Paulo Artaxo (USP), Luciana Gatti (INPE) e Roberto Verdum (UFRGS) para discutir os mecanismos responsáveis pelo El Niño, as possíveis relações desse fenômeno com o aquecimento da atmosfera terrestre e os efeitos diretos dos eventos meteorológicos extremos associados tanto ao El Niño quanto às mudanças climáticas.

As manifestações dos três pesquisadores, todos com sólida produção científica em suas respectivas áreas de atuação, combinaram conhecimento científico com reflexões sobre os impactos do modelo econômico vigente e sobre a maneira como a interação entre esses processos contribui para mudanças profundas no funcionamento dos sistemas naturais do planeta. Uma das consequências mais imediatas dessas transformações aparece nas alterações cada vez mais perceptíveis da dinâmica atmosférica e na intensificação de determinados eventos extremos.

Em conjunto, os três participantes demonstraram especial preocupação com a falta de preparação da sociedade e do poder público para o necessário processo de adaptação aos novos padrões climáticos. Essa preocupação ganha ainda mais relevância diante do atual ciclo do El Niño, que deverá produzir impactos bastante diversos sobre a dinâmica climática, especialmente no território brasileiro. A ciência já oferece informações suficientes sobre os riscos envolvidos; o problema central passa, portanto, pela capacidade de transformar esse conhecimento em planejamento, prevenção e medidas concretas de adaptação.

 

Revista de ciência dos materiais retira dezenas de artigos sob suspeita

Por Retraction Watch 

Uma revista científica de ciência dos materiais já retirou 56 artigos este ano por transgressões que incluem sobreposição de imagens , preocupações com a integridade dos dados e mudanças “suspeitas” na autoria . 

A revista Ceramics International começou a retratar os artigos em julho. Mais de 50 das retratações foram solicitadas por um “especialista imparcial da área, atuando como consultor independente de ética em publicações”, de acordo com os comunicados. 

A maioria dos avisos de retratação – 43 – faz referência a comentários do PubPeer que apontam problemas com o trabalho. Em e-mails que vimos, o investigador científico Mu Yang sinalizou 80 artigos da Ceramics International para a editora da revista, a Elsevier, em 23 de abril de 2025. 

Entre os artigos sinalizados por Yang, vários, como um publicado em julho de 2024, duplicavam dados publicados em outros artigos com autores em comum. Mu disse ao Retraction Watch que considerava artigos como esse “pertencentes à categoria de artigos genéricos, fáceis de publicar e sem esforço”. Yang é diretora do Mouse Neurobehavior Core, um laboratório de testes do Columbia University Medical Center, em Nova York. 

David Bimler, um psicólogo da percepção aposentado da Universidade Massey, na Nova Zelândia, conhecido pelo pseudônimo de Smut Clyde, foi um dos signatários do e-mail enviado à Elsevier em abril de 2025. Bimler nos disse que “a situação na Ceramics International parece bastante confusa no momento”. 

Quatro dias após os investigadores enviarem um e-mail para a revista, receberam uma resposta de Rajendra Bordia, coeditor-chefe, que disse ter alertado a Elsevier e solicitado uma reunião “para discutir o andamento dessas investigações e também as medidas que precisam ser tomadas para desencorajar esse tipo de comportamento”.

Sete das retratações recentes foram referentes a correções em artigos que, segundo os avisos, já haviam sido retratados. No entanto, em seis desses casos, o artigo original ainda não foi retratado, incluindo duas correções para um artigo de 2023 , ambas relacionadas a erros em figuras. 

Um porta-voz da Elsevier nos disse que “não podem discutir quaisquer retratações futuras em potencial”, mas confirmou que as retratações relacionadas às erratas “serão feitas nos próximos dias”. 

Na semana passada, relatamos a limpeza de dados em outro periódico da Elsevier por “[m]antistração sistemática, coordenada e generalizada do processo de revisão por pares” em edições especiais. 

A revista Ceramics International retratou um artigo no ano passado, devido à reutilização de imagens, e 18 em 2024, de acordo com nosso banco de dados. 

A maioria dos pesquisadores que perderam artigos este ano estava afiliada a instituições no Paquistão, Egito, Irã, Índia e Arábia Saudita. Majid Niaz Akhtar , pesquisador de materiais compósitos da Universidade Islâmica de Bahawalpur, no Paquistão, foi um dos autores de quatro dos artigos retratados. Ele não respondeu ao nosso pedido de comentário. 

Bimler apontou um caso em que autores foram adicionados após a aceitação do artigo, o que pode indicar autoria à venda. “No meu modelo de trabalho da indústria de papel e celulose, os serviços oferecidos pelas maiores fábricas de papel incluem ‘aumento da visibilidade da publicação’, bem como ‘conclusão do manuscrito'”, disse ele. Quinze das retratações citaram mudanças na autoria durante o processo de revisão por pares.

No entanto, Bimler também observou que alguns dos artigos parecem ser de autoria dos próprios autores. “Os baixos padrões editoriais não se restringiam às fábricas de papel”, disse ele. 


Fonte: Retraction Watch

Hoje tem debate sobre El Niño, crise climática e os desafios da adaptação no Brasil

Nesta quinta-feira, 20 de agosto, às 15h, participarei como mediador da live “Brasil sob o El Niño: crise climática, impactos socioambientais e urgência da adaptação”, promovida pela Comissão do Ambiente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB).

A conversa reunirá Luciana Gatti (INPE Amazônia), Paulo Artaxo (USP) e Roberto Verdum (UFRGS) para discutir os efeitos do El Niño sobre o território brasileiro, sua relação com a crise climática e, principalmente, a necessidade urgente de políticas de prevenção e adaptação diante de eventos extremos que a ciência já permite antecipar.

A transmissão ocorrerá pelo GENAT UFPB, canal da Geografia Brasileira impulsionado pelo Grupo de Pesquisa e Laboratório de Geomorfologia e Gestão de Riscos Naturais da Universidade Federal da Paraíba.

Hoje, às 15h.

▶️ Acompanhe a transmissão:
https://www.youtube.com/watch?v=5-i7tSO0bsk

Um debate especialmente oportuno diante dos sinais que o atual El Niño já começa a produzir no Brasil.

O El Niño não será o desastre: o desastre será chegar a ele despreparado

Mike Davis e Rob Nixon ajudam a entender por que eventos climáticos extremos se transformam em catástrofes sociais. Com um El Niño potencialmente muito forte avançando sobre um planeta cada vez mais quente, o Brasil já dispõe de conhecimento suficiente sobre o que poderá acontecer; falta transformar esse conhecimento científico em preparação concreta

Estou lendo Late Victorian Holocausts, de Mike Davis, um livro que, apesar de publicado há mais de duas décadas, adquire uma atualidade particularmente incômoda diante do El Niño que começa a se estabelecer sobre um planeta muito mais quente do que aquele do final do século XIX. Nessa obra, Davis analisa, entre outras coisas, as gigantescas fomes associadas aos grandes ciclos de El Niño ocorridos entre as décadas de 1870 e 1890. Sua estimativa mais conhecida situa entre 30 e 50 milhões o número de pessoas que morreram durante aquelas crises. Considerando que a população mundial girava então em torno de 1,5 bilhão de habitantes, estamos falando de algo equivalente a aproximadamente 2% a 3,3% de toda a humanidade. Se transportássemos mecanicamente essa proporção para a população mundial atual, chegaríamos a algo entre 166 e 277 milhões de pessoas.

Evidentemente, não estou sugerindo que o atual El Niño produzirá semelhante mortandade, pois fazer isso seria cientificamente irresponsável e cairia justamente no alarmismo que precisamos evitar. A comparação serve para outra coisa: mostrar a dimensão que eventos climáticos podem assumir quando encontram sociedades profundamente desiguais e despreparadas para enfrentá-los.

Esse é precisamente um dos grandes argumentos de Mike Davis. As dezenas de milhões de pessoas que morreram no final do século XIX não foram simplesmente “mortas pelo El Niño”; o fenômeno climático produziu secas, alterações nas monções e quebras de safras, enquanto a organização política e econômica das sociedades atingidas, particularmente sob o domínio colonial, transformou esses eventos em gigantescas crises de fome. Em outras palavras, o El Niño produziu o perigo; o imperialismo e a desigualdade produziram boa parte da vulnerabilidade que permitiu que esse perigo se convertesse em catástrofe.

É neste ponto que Davis se encontra de maneira particularmente fértil com Rob Nixon e seu conceito de “violência lenta”. Nixon chama nossa atenção para formas de violência que não explodem diante das câmeras, mas se acumulam silenciosamente durante anos ou décadas. A degradação ambiental, a contaminação, o empobrecimento, a destruição dos meios de subsistência e as mudanças climáticas constituem processos que raramente produzem uma imagem espetacular no momento em que estão construindo suas vítimas.

Essa perspectiva nos obriga a reconhecer que um desastre começa muito antes da enchente, da seca ou da onda de calor. A catástrofe começa a tomar forma quando as cidades crescem sobre áreas inundáveis sem infraestrutura adequada; quando trabalhadores ocupam encostas porque não conseguem acessar habitação segura; quando governos deixam sistemas de drenagem durante décadas sem investimentos; quando intervenções urbanas canalizam rios e impermeabilizam suas várzeas; quando populações rurais ficam sem acesso seguro à água; quando governos municipais mantêm sistemas de Defesa Civil sem pessoal, equipamentos e recursos suficientes; e quando alertas meteorológicos existem, mas não chegam a quem precisa deles. Quando finalmente chega a chuva extraordinária, a seca prolongada ou a onda de calor, décadas de escolhas políticas aparecem subitamente sob o conveniente rótulo de “desastre natural”.

Mas o evento físico pode ser natural; a distribuição social de suas consequências não é.

O problema brasileiro é que já sabemos o que está vindo

Essa discussão deixa de ser apenas histórica quando olhamos para o Brasil de agosto de 2026. O El Niño já está estabelecido e deverá ganhar força nos próximos meses; o INMET informa que as condições do fenômeno estão presentes desde junho e que ele deverá persistir até o final do verão austral de 2026/2027. As previsões mais recentes elevaram ainda mais o sinal de preocupação, pois indicam probabilidade igual ou superior a 90% de que o fenômeno alcance intensidade muito forte nos próximos trimestres, com seu período mais crítico podendo ocorrer justamente entre a primavera e o início do verão.

As consequências possíveis para o território brasileiro tampouco constituem mistério. O fenômeno tende a favorecer excesso de precipitação e maior risco de eventos extremos no Sul, enquanto partes do Norte e Nordeste podem enfrentar redução das chuvas, secas e agravamento do risco de incêndios; temperaturas elevadas poderão aumentar ainda mais a pressão sobre ecossistemas, agricultura, recursos hídricos e populações vulneráveis.

Nem precisamos esperar outubro ou dezembro para constatar que eventos extremos constituem uma ameaça concreta. O Sul já enfrentou sucessivos episódios de chuva intensa e tempestades neste inverno, enquanto o Sudeste experimentou grandes oscilações térmicas, calor, baixa umidade e episódios de ventos intensos associados à passagem de sistemas meteorológicos. Não podemos atribuir automaticamente cada um desses eventos ao El Niño; podemos, entretanto, enxergar neles a vulnerabilidade territorial sobre a qual um El Niño muito forte atuará durante os próximos meses.

A agricultura também começa a incorporar esse risco às suas decisões. As estimativas para a safra brasileira de trigo de 2026 já sofreram redução, acompanhadas de preocupação com os possíveis efeitos de um El Niño intensificado sobre uma cultura fortemente concentrada na Região Sul. O país, portanto, não enfrenta uma ameaça desconhecida; temos satélites, modelos climáticos, séries meteorológicas, supercomputadores, universidades, institutos de pesquisa e sistemas de monitoramento que permitem enxergar com meses de antecedência pelo menos parte considerável dos riscos. Essa capacidade científica nos coloca numa situação radicalmente diferente daquela enfrentada pelas populações analisadas por Mike Davis no século XIX; justamente por isso, ela aumenta nossa responsabilidade política diante do que poderá ocorrer.

Monitorar não significa estar preparado

Seria incorreto afirmar que o Estado brasileiro nada está fazendo. O governo federal criou um Painel El Niño 2026–2027 que reúne INMET, INPE, CEMADEN, ANA, Serviço Geológico Brasileiro, Defesa Civil e outras instituições; também iniciou articulações com os estados para enfrentar os riscos associados ao fenômeno. Essas iniciativas representam passos necessários, mas reconhecer o risco, produzir boletins e realizar reuniões não significa que municípios, estados e União tenham preparado o território brasileiro para enfrentá-lo.

A pergunta fundamental precisa ir além do monitoramento: o conhecimento científico disponível já se transformou em planos operacionais, recursos financeiros, pessoal, equipamentos e capacidade de resposta na escala exigida pelo problema?

Essa pergunta abre imediatamente outras. Quantos municípios brasileiros possuem planos atualizados para enfrentar enchentes, deslizamentos, ondas de calor, secas e incêndios? Quantas Defesas Civis municipais possuem equipes e equipamentos compatíveis com os riscos previstos? Quantos governos municipais estão limpando e ampliando preventivamente seus sistemas de drenagem? Quantos hospitais possuem protocolos específicos para ondas de calor? Quais estoques estratégicos de alimentos, água e medicamentos governos municipais, estaduais e federal estão preparando? Quais comunidades vulneráveis conhecem previamente suas rotas de evacuação e seus locais de abrigo? Quais políticas apoiarão agricultores familiares caso a seca ou o excesso de chuva comprometam suas safras?

Governadores, prefeitos, ministérios e candidatos deveriam colocar essas perguntas no centro de suas agendas neste momento; afinal, quando a água entra nas casas, a prevenção já fracassou.

E começou a campanha eleitoral

Talvez um dos aspectos mais preocupantes da conjuntura seja justamente o fato de o Brasil ter entrado oficialmente na campanha eleitoral de 2026 sem que a emergência climática tenha ocupado, até agora, um espaço compatível com sua importância objetiva. Os primeiros movimentos da campanha concentram-se fortemente em segurança pública, economia, soberania e nas disputas políticas tradicionais; embora apareçam referências ambientais nos programas e discursos, ainda não se percebe uma centralidade política equivalente à magnitude de um problema que poderá atingir o país justamente durante os meses decisivos da eleição e da transição para o próximo governo.

Essa ausência ganha contornos ainda mais estranhos quando lembramos que o próximo presidente da República poderá assumir o cargo em janeiro de 2027 ainda sob os efeitos do mesmo El Niño. Mudanças climáticas e adaptação, portanto, não deveriam aparecer como um capítulo protocolar ou decorativo dos programas de governo; elas deveriam atravessar propostas para habitação, agricultura, saúde pública, energia, infraestrutura urbana, transportes, proteção social, planejamento territorial e Defesa Civil.

A ciência já realizou uma parte importante do trabalho ao demonstrar que o El Niño existe, está se fortalecendo e poderá alcançar intensidade excepcional; os cientistas também indicam as regiões mais vulneráveis, identificam os tipos de eventos que apresentam maior probabilidade de ocorrência e oferecem uma janela preciosa de alguns meses para que governos e sociedade se preparem. Se desperdiçarmos essa janela e depois assistirmos autoridades declarando surpresa diante de cidades inundadas, plantações destruídas, rios secos ou florestas queimando, não estaremos diante de uma simples falha de previsão; estaremos diante da transformação consciente de conhecimento disponível em oportunidade perdida.

É justamente aqui que Mike Davis e Rob Nixon têm algo importante a nos ensinar. O evento climático pode ter origem natural; a catástrofe social resulta da maneira como organizamos nossas sociedades, distribuímos recursos, produzimos vulnerabilidades e decidimos quem merece proteção. Não podemos impedir o El Niño, assim como não podemos evitar todos os eventos extremos associados a uma atmosfera profundamente alterada pelo aquecimento global; podemos, contudo, reduzir drasticamente a quantidade de pessoas expostas, diminuir perdas materiais, proteger sistemas alimentares, preparar hospitais, fortalecer Defesas Civis, criar estoques, apoiar agricultores e proteger comunidades vulneráveis.

O Brasil precisa, portanto, abandonar sua conhecida cultura política de agir depois da catástrofe e transformar previsão científica em prevenção material. Governos precisam limpar canais, revisar barragens, preparar abrigos, fortalecer a Defesa Civil, proteger sistemas de abastecimento, organizar brigadas contra incêndios, preparar o SUS, apoiar agricultores e mapear populações vulneráveis agora; quando a água estiver subindo, os reservatórios estiverem secando ou o fogo estiver atravessando florestas e campos, será tarde demais para transformar boletins meteorológicos em políticas públicas.

Mike Davis mostrou como eventos climáticos contribuíram para algumas das maiores tragédias humanas do século XIX quando encontraram sociedades organizadas para proteger mercados e impérios, mas não necessariamente pessoas; Rob Nixon nos ajuda a compreender que as condições que permitem uma catástrofe não surgem no instante em que começa a chover ou deixa de chover, mas resultam de processos de violência lenta que acumulam vulnerabilidades durante anos ou décadas.

O Brasil de 2026 possui uma vantagem extraordinária sobre as sociedades estudadas por Davis: sabemos que o fenômeno está chegando, conhecemos razoavelmente seus possíveis efeitos e dispomos de instrumentos científicos capazes de acompanhar sua evolução quase em tempo real. Ainda existe tempo para escolher outro caminho, mas a ciência já fez o alerta e agora cabe ao poder público transformar informação em prevenção concreta; o conhecimento acumulado também retira de governantes e candidatos qualquer possibilidade legítima de fingir surpresa caso a falta de preparação amplifique as consequências de um El Niño superforte. Se isso ocorrer, ninguém poderá dizer que não sabia o que estava por vir; a questão já não é falta de informação, mas o que aqueles que governam ou pretendem governar o Brasil decidirão fazer com ela.

Charlatães do clima e o preço do silêncio científico

Diante de uma crise climática fartamente documentada, combater a fabricação interessada da dúvida deixou de ser apenas uma disputa científica: tornou-se uma obrigação ética e social da comunidade científica

A crise climática, que hoje nos aproxima perigosamente de situações de colapso, está fartamente documentada pela ciência, que se ampara tanto em dados empíricos — isto é, em medidas verificáveis — quanto em modelagens e outras formas de simulação teórica. Além disso, o próprio senso comum nos mostra que algo dramático está acontecendo com o comportamento do clima em diferentes pontos do planeta. Entretanto, apesar do consenso amplamente majoritário sobre as causas e as consequências do aquecimento da atmosfera terrestre, ainda há espaço para que negacionistas climáticos operem livremente e encontrem audiência, apesar de negarem, basicamente, aquilo que as evidências tornam cada vez mais óbvio.

Recentemente assisti a um vídeo produzido com a participação de um dos mais conhecidos negacionistas climáticos brasileiros, um professor aposentado com uma carreira científica relativamente medíocre e que só alcançou alguma notoriedade em determinados meios porque nega, com argumentos  questionáveis, o consenso científico sobre as mudanças climáticas. Há que se dizer que esse charlatanismo encontra terreno especialmente fértil em círculos que precisam negar o óbvio para continuar praticando atividades econômicas que contribuem para a aceleração do aquecimento global, particularmente naquele setor que se convencionou chamar de agronegócio.

Podemos concluir, portanto, que o charlatão a quem me refiro opera em um meio de cultura previamente preparado para acreditar em suas asneiras e que, muito provavelmente, ainda paga regiamente para que ele continue negando aquilo que a ciência demonstra. Em outras palavras, o charlatão prega para os convertidos, oferecendo uma aparência de legitimidade científica a interesses econômicos que precisam transformar evidências incômodas em supostas controvérsias.

Mas penso que existe outra explicação para que esse e outros charlatães climáticos ainda encontrem público e sejam pagos para disseminar suas mentiras sinistras. Ela decorre, paradoxalmente, de uma característica fundamental do próprio método científico: a ciência trabalha com incertezas, probabilidades e margens de erro. Isso não representa uma fraqueza, mas uma de suas maiores forças, pois significa reconhecer explicitamente os limites do conhecimento disponível. O problema é que os negacionistas exploram justamente essa honestidade epistemológica para fabricar dúvidas onde o conjunto das evidências já permite conclusões extremamente robustas. Transformam margem de erro em ignorância, incerteza quantitativa em controvérsia e debate sobre magnitude em dúvida sobre a própria existência do fenômeno.

Há ainda o problema de que praticamente inexistem mecanismos institucionais eficazes para expor publicamente esse tipo de charlatanismo, especialmente em um país como o Brasil, onde o confronto sistemático de ideias científicas ainda ocorre de maneira bastante periférica. Com isso, conhecimentos sustentados por décadas de pesquisa podem acabar recebendo o mesmo espaço — ou até menos — do que falsificações apresentadas sob uma aparência científica. Desperdiça-se, então, uma quantidade enorme de tempo tentando demonstrar repetidamente aquilo que já se encontra solidamente estabelecido pela ciência. Para os charlatães e seus financiadores, pouco importa quantas evidências sejam apresentadas, pois seu objetivo não é participar de uma controvérsia científica genuína, mas impedir que o conhecimento científico produza consequências políticas, econômicas e sociais.

O problema é que, enquanto o conhecimento charlatanesco não for enfrentado, ocorrerá uma erosão da confiança coletiva naquilo que a ciência efetivamente consegue demonstrar. E isso terá consequências nefastas para nossa capacidade de preparação diante das profundas transformações que a sociedade humana terá de enfrentar nos próximos anos e décadas para continuar vivendo em um planeta cada vez mais quente. O negacionismo, portanto, não constitui apenas uma disputa abstrata no campo das ideias. Ele desarma sociedades diante de riscos concretos, atrasa decisões, protege interesses responsáveis pelo agravamento da crise e aumenta o preço humano, social e ambiental que será cobrado pela continuidade da inação.

Por isso, a comunidade científica não pode adotar uma atitude blasé diante dos negacionistas da ciência. O papel que eles cumprem é profundamente nefasto, pois a difusão sistemática de mentiras travestidas de argumentos científicos ainda causará muito sofrimento, destruição, degradação dos sistemas naturais e perda de vidas humanas. Enfrentar e derrotar o negacionismo científico, nos estudos climáticos e para além deles, deve ser entendido como parte das próprias obrigações da comunidade científica, sob pena de uma perigosa cumplicidade pelo silêncio. Produzir conhecimento rigoroso não basta se permitirmos que ele seja soterrado por falsificações produzidas e financiadas precisamente para neutralizá-lo. A ciência possui a obrigação de investigar, testar, duvidar, corrigir seus próprios erros e reconhecer seus limites, mas possui também a responsabilidade de defender publicamente aquilo que suas melhores evidências permitem afirmar.

Em uma época histórica na qual decisões tomadas hoje determinarão as condições de existência de gerações inteiras, defender o conhecimento científico contra sua falsificação deliberada deixa de ser apenas uma questão acadêmica. Torna-se uma responsabilidade ética e social. Afinal, se a ciência se cala diante daqueles que transformam a mentira em mercadoria e a dúvida fabricada em instrumento de poder, ela corre o risco de abandonar justamente a sociedade que tornou possível a sua existência. E poucas traições à própria razão de ser da ciência poderiam ser maiores do que produzir conhecimento capaz de advertir a humanidade sobre uma catástrofe e, diante daqueles que trabalham para desacreditá-lo, permanecer confortavelmente em silêncio.

O alarme climático está soando

Um helicóptero de combate a incêndios lança água sobre um incêndio florestal no Monte Kithairon, perto de Porto Germeno, a noroeste de Atenas, Grécia, em agosto de 2026. Imagem: Petros Giannakouris / AP Photo / PA Wire. 

Por Steve Trent para “The Ecologist”
‘Incendiar-se… de todas as direções’. Os incêndios devastadores na Europa só irão piorar se não agirmos com firmeza.
Cenas apocalípticas voltaram a ser notícia – desta vez na França e na Espanha. 

Os incêndios que começaram em julho atingiram proporções inimagináveis ​​neste verão, no que Emmanuel Macron, presidente da França, considera a “situação mais grave” para o país desde a Segunda Guerra Mundial.

Estamos em meio a uma guerra, não contra o nosso planeta sofredor, mas contra nós mesmos. 

Violação

Nosso vício em queimar combustíveis fósseis e explorar a Terra até a última gota de seus recursos causou a morte de inúmeras pessoas e a destruição de inúmeros animais e ecossistemas preciosos.

O clima da Terra está mais desequilibrado do que nunca, sendo que o período de 2015 a 2025 foi o mais quente já registrado, de acordo com o relatório Estado do Clima Global 2025 da Organização Meteorológica Mundial .  

Nossas emissões contínuas de carbono são a causa principal indiscutível. O Relatório sobre a Lacuna de Emissões de 2025 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente constatou que as nações estão lamentavelmente longe de atingir a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C, conforme estabelecido no Acordo de Paris. 

As Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) estão no caminho certo para um limite de 2,2°C a 2,5°C, mas as políticas atuais projetam um aumento de 2,8°C. A recente saída dos Estados Unidos, o  segundo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, nos deixa ainda mais para trás.

Já estamos perigosamente perto de ultrapassar o limite de 1,5°C.  2024 foi o ano mais quente já registrado, atingindo 1,55°C, o primeiro ano civil a ultrapassar essa meta. Embora as médias mensais ou anuais acima desse limite não signifiquem que tenhamos falhado, estamos nos aproximando rapidamente dele.

Devastador

Mais de  91% do excesso de calor proveniente de nossas emissões foi absorvido pelo oceano, comprometendo sua capacidade de regulação climática e levando pontos de inflexão críticos à beira do colapso. 

As geleiras, as calotas polares da Antártida e o gelo marinho do Ártico estão derretendo rapidamente, atingindo níveis extremamente baixos nos últimos anos. 

Diversos impactos de importância global estão ocorrendo, como o Super El Niño , que está causando eventos extremamente danosos em vários locais do nosso planeta. 

Ao mesmo tempo, agora está claro que  a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) , que desempenha um papel fundamental na regulação da circulação de calor oceânica, tem diminuído de velocidade. 

Este verão deixou claro: estamos colhendo o que plantamos.

Se fosse completamente interrompido, teria consequências devastadoras para o nosso clima global, um cenário que alguns especialistas dizem estar se tornando cada vez mais possível.

Nuvens de fogo

Este verão deixou claro: estamos colhendo o que plantamos. 

As ondas de calor em todo o mundo têm se intensificado rapidamente, com junho sendo o mês  mais quente já registrado na Europa Ocidental, impulsionado pelas temperaturas da superfície do mar mais altas já registradas para o mês.

Um total de 10.000 mortes em excesso relacionadas ao calor foram  registradas na Europa durante a onda de calor de junho, das quais mais de 9.000 eram de pessoas com 65 anos ou mais. 

A seca resultante e o agravamento das condições de seca criaram as condições ideais para os incêndios na Espanha e na França. 

Em toda a região, esses incêndios perigosos e imprevisíveis têm devastado a terra, espalhando-se rapidamente e gerando condições sem precedentes, incluindo  nuvens pirocumulonimbus , ou “nuvens de fogo”, que criam seu próprio vento e raios.

Vigor

O número de vítimas é enorme. Cerca de 375 mil pessoas na Espanha e na França foram obrigadas a evacuar suas casas. Há previsões de que os incêndios continuarão queimando até  o início de novembro . 

Os impactos – casas destruídas, terras queimadas, economias locais arruinadas, produção agrícola devastada e céus tomados por fumaça tóxica – persistirão muito depois da última chama ser apagada.

Em nenhum outro lugar o nosso futuro está escrito com tanta clareza quanto na política climática atual. As palavras dos líderes mundiais não são um plano de ação. É assim que a força realmente se manifesta:

  • Acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis em um cronograma fixo de curto prazo. Os governos devem publicar cronogramas vinculativos de eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis, começando pelos mais intensivos em carbono, e eliminar a brecha que permite que projetos de gás de “transição” sejam qualificados como investimento verde.
  • Chega de autorizações para novas infraestruturas de combustíveis fósseis. Nada de novas licenças para exploração de petróleo, gás ou carvão — ponto final. Cada novo campo aprovado hoje é uma promessa quebrada amanhã.
  • Ampliar massivamente a produção de energia renovável. Modernizar os sistemas de transmissão de energia locais, nacionais e internacionais, facilitando também a microprodução de energia renovável para que as famílias individuais alcancem uma independência energética muito maior.
  • Financiar a adaptação e a resiliência na escala do risco, não na política. Isso significa financiamento climático específico e com destinação específica para a redução do risco de desastres, sistemas de alerta precoce e apoio a idosos e pessoas vulneráveis ​​durante ondas de calor — e não gastos discricionários que são cortados na primeira rodada de austeridade.
  • Proteger e restaurar os ecossistemas como infraestrutura essencial. Zonas úmidas, florestas e solos saudáveis ​​reduzem simultaneamente o risco de incêndios e inundações. A restauração da natureza deve ser financiada e regulamentada como infraestrutura crítica, e não tratada como um mero “luxo” ao lado de estradas e redes elétricas. E, acima de tudo, proteger e restaurar nossos oceanos — o coração azul pulsante do nosso planeta. 
  • Remova as indústrias poluentes das salas de negociação climática. Os lobistas dos combustíveis fósseis não devem influenciar as políticas destinadas a eliminá-los gradualmente. As regras sobre conflito de interesses nas negociações climáticas já deveriam ter sido implementadas há muito tempo.

 A indústria não pode esperar que os governos a obriguem a agir. Ela deve: 

  • Publique planos de transição confiáveis ​​e baseados na ciência, com metas intermediárias – não apenas promessas de emissões líquidas zero para 2050, mas marcos verificáveis ​​e auditados de forma independente para 2027 e 2030 – e trabalhe arduamente, não para atingir emissões líquidas zero, mas para alcançar emissões líquidas zero reais.
  • Reduzir as emissões em toda a cadeia de suprimentos, não apenas nas operações diretas. Para setores como moda, alimentos e transporte marítimo, isso significa combater as emissões de Escopo 3, ou seja, as emissões indiretas, onde se concentra a maior parte da pegada ambiental.
  • Parem de financiar a expansão dos combustíveis fósseis. Bancos e seguradoras devem encerrar os contratos de financiamento para novos projetos de petróleo e gás e redirecionar o capital para energias renováveis, modernização da rede elétrica e soluções baseadas na natureza. Os retornos já são competitivos:  91% da energia renovável é mais barata que a energia proveniente de combustíveis fósseis.
  • Incorpore o risco climático no planejamento central dos negócios, desde a resiliência da cadeia de suprimentos até a segurança da força de trabalho durante ondas de calor extremas, em vez de tratá-lo como um projeto paralelo da equipe de sustentabilidade.
  • Apoie – e não bloqueie – uma regulamentação ambiciosa. As empresas que levam a sério a transição climática deveriam estar pressionando por políticas climáticas mais rigorosas, e não financiando silenciosamente associações comerciais que se opõem a ela.
  • Invista agora no futuro: invista em energia renovável, na sua produção, distribuição, eficiência e armazenamento. 

Escala

O caminho que estamos trilhando é um desastre absoluto: levará à violência, à fome, à migração forçada em massa, à guerra e à morte. As ações atuais são lentas demais e totalmente inadequadas para a urgência do momento. 

Mas um futuro melhor está ao nosso alcance – ainda não é tarde demais – e os dados econômicos comprovam isso cada vez mais:  as emissões de CO2 da China estão estáveis ​​ou em queda há quase dois anos, impulsionadas pelo crescente investimento em energias renováveis. 

Esta não é uma história sobre sacrifício. Proteger nossos ecossistemas e eliminar gradualmente os combustíveis fósseis é como protegemos nossos meios de subsistência e construímos economias fortes e resilientes, não como os negociamos. Ações climáticas eficazes não representam um “custo”; representariam a maior economia de custos da história da humanidade. 

O aquecimento global que está provocando incêndios devastadores e secas na Europa vai piorar muito, muito mais, a menos que ajamos com a força necessária. 

“O alarme climático está soando em todas as direções”, disse o chefe do clima da ONU, Simon Stiell. Devemos agora exigir que nossos líderes — e as empresas que os financiam e influenciam — ajam com a força, a rapidez e a escala necessárias.

Este autor

Steve Trent é o diretor executivo e fundador da Environmental Justice Foundation.


Fonte: The Ecologist

Ciência ou ficção? Empresas obscuras de publicação científica permitem que você pague para ser publicado como autor – de pesquisas fraudulentas

A atividade das fábricas de papel explodiu nos últimos anos, poluindo o ecossistema científico com dados falsificados e comprometendo a pesquisa médica

Os cientistas estão sob constante pressão para publicar novos artigos de pesquisa. As fábricas de papel oferecem um atalho fraudulento. Imagem composta: Getty Images/Guardian Design

Por Jackson Ryan para “The Guardian”

O telefone de Reese Richardson vibra constantemente com notificações. A especialista em integridade da pesquisa científica tem monitorado organizações obscuras conhecidas como “fábricas de papel”, que lucram oferecendo autoria acadêmica fraudulenta de artigos científicos, registros de propriedade intelectual e outras produções acadêmicas.

Mediante pagamento, as fábricas de papel oferecem-se para listar pessoas como autoras de artigos em revistas científicas, frequentemente de pesquisas falsificadas que contornam o processo de revisão por pares.

Richardson se juntou a dezenas de grupos em aplicativos como Telegram, WhatsApp e Facebook, onde uma variedade de pesquisas fraudulentas e fabricadas é anunciada para centenas de membros. “Basta olhar minhas notificações para ver que recebi umas 20 mensagens de WhatsApp de empresas que vendem papel científico nas últimas 24 horas”, diz ele.

Os cientistas estão sob constante pressão para publicar novos artigos de pesquisa que, em muitas partes do mundo, continuam sendo a moeda corrente do meio acadêmico. Eles geram mais financiamento para pesquisas e reconhecimento, além de fortalecerem o perfil acadêmico. Mas a ciência robusta e de alta qualidade leva tempo, e os artigos podem demorar anos para serem publicados.

As fábricas de papel oferecem um atalho fraudulento, usando mensagens instantâneas e plataformas de mídia social para encontrar potenciais compradores em busca de artigos e patentes para turbinar seus currículos. De acordo com uma análise que Richardson realizou com Anna Abalkina e Spencer Hong, o preço médio para comprar direitos autorais gira em torno de US$ 800 (A$ 1.150).

Em um artigo recente, que ainda não foi revisado por pares, o trio de cientistas liderado por Richardson, anteriormente da Universidade Northwestern, nos EUA, detalhou mais de 18.000 anúncios de sete fábricas de papel em sete países entre 2020 e 2026.

“Queríamos ter uma ideia, em uma ampla variedade de fábricas de papel, países, tópicos e tipos de produtos, de quanto essas coisas realmente custam”, diz ele. “O que reunimos é o maior conjunto de dados já criado sobre anúncios de fábricas de papel.”

Eles encontraram muitos grupos anunciando a autoria de manuscritos científicos no Telegram, Facebook e em diversos sites por apenas US$ 30.

Isso equivale a uma injeção industrializada de dados falsificados, poluindo o ecossistema científico e comprometendo a pesquisa médica, a descoberta de medicamentos e os ensaios clínicos. A escala é enorme: em 2023, a Hindawi, uma marca de periódico agora extinta pertencente à grande editora Wiley, retratou mais de 8.000 artigos . Outras 3.000 retratações ocorreram até o final de 2024.

Richardson afirma que sua pesquisa é um ponto de partida útil para tentar compreender como e onde as fábricas de papel operam e a quem se destinam. Os anúncios são como impressões digitais em uma cena de crime, potenciais evidências de atividades maliciosas. “É possível obter muitas informações a partir dos anúncios”, diz ele. Ele rastreou diretamente alguns deles até artigos fraudulentos na literatura científica.

Desenhos e propriedade intelectual à venda

Outros anúncios dizem respeito a direitos autorais e registros de design, outra área propensa a fraudes, que pode fornecer aos compradores direitos legítimos de propriedade intelectual. Richardson observa que uma das razões para isso é reforçar currículos visando o avanço acadêmico.

Richardson já havia identificado a exploração de sistemas de propriedade intelectual no Reino Unido, encontrando milhares de registros de design. Seu novo trabalho identifica 12 casos em que registros de design foram anunciados por uma fábrica de papel que opera na Índia e atende a acadêmicos indianos.

Os dados de Richardson mostram que esses registros de design estão sendo anunciados como “patentes de design australianas”. As fábricas de papel vendem posições como “proprietários” de registros de design, cobrando entre US$ 95 e US$ 150 por proprietário, para até oito pessoas registradas em um determinado design. Um pedido de registro de design junto ao IP Australia custa US$ 200 no total.

O jornal Guardian Australia identificou casos em que os registros constavam como patentes em currículos.

“Eles estão usando os serviços do governo australiano para fraudar outras pessoas”, diz Richardson. Ele aponta para vários casos incomuns de registros de design.

Um registro de design australiano , para um “biorreator de membrana baseado em IA para tratamento de águas residuais”, pertence a seis pessoas que o Guardian Australia localizou em institutos de pesquisa na Índia. Cinco dos seis foram contatados; nenhum respondeu aos pedidos de comentários.

A empresa “GS Collison” consta como endereço para notificações no registro, assim como em outros 11 registros de desenho industrial. No entanto, não há nenhum registro online da GS Collison como entidade, e o endereço listado para ela – 11º andar de um dos edifícios do Darling Park, em Sydney – corresponde aos escritórios da IAG, uma seguradora. Em resposta a perguntas do Guardian Australia , um porta-voz da IAG observou que o 11º andar é ocupado por uma série de salas de reunião.

Outro exemplo , um “robô humanoide inteligente para aplicações industriais”, inclui o Dr. Nilesh Torwane, pesquisador de pós-doutorado da Universidade de Queensland, como proprietário do projeto. Ao ser contatado pelo Guardian Australia , Torwane afirmou que “não realizou nenhum trabalho de design no produto”, mas foi convidado a ter seu nome incluído no projeto por outras pessoas listadas no registro. Ele também observou que o registro “nunca fez parte de qualquer reivindicação que eu tenha feito para obter avanço profissional ou acadêmico”.

“Informei proativamente a Universidade sobre o assunto e estou tomando medidas para corrigir o registro, incluindo a solicitação de remoção do meu nome do registro”, afirma Torwane. O Guardian Australia não está sugerindo que o registro não seja para um produto legítimo, apenas que Torwane não esteve envolvido em seu desenvolvimento.

Ao ser contatada pelo Guardian Australia , uma porta-voz do IP Australia sugeriu que não tinha conhecimento do artigo de pesquisa de Richardson e seus colegas.

“O IP Australia acolhe com satisfação qualquer informação que possa indicar que o sistema de registo de desenhos industriais não está a ser utilizado para os fins a que se destina, e iremos considerar as implicações levantadas pelo estudo. No entanto, não temos dados que sugiram que exista uma utilização indevida generalizada do sistema australiano de registo de desenhos industriais da forma sugerida.”

Embora o artigo de Richardson contribua para explorar o funcionamento das fábricas de papel, estas continuam sendo “organizações obscuras”, segundo o professor Adrian Barnett, pesquisador de metaciência da Universidade de Tecnologia de Queensland, que já publicou artigos com Richardson.

“Pode ser algum garoto ligado em tecnologia no quarto dele, ou podem ser organizações maiores que até oferecem café da manhã e premiam o funcionário do mês”, diz ele. “Quem sabe? Mas podemos ver que eles estão ganhando uma boa quantia em dinheiro.”

Enquanto Richardson está sendo entrevistado, seu telefone vibra novamente: mais um anúncio em um grupo do WhatsApp. As organizações estão operando em uma escala e velocidade tais que é difícil acompanhar.

“Ainda estamos apenas começando”, diz ele.


Fonte: The Guardian

Observatório dos Agrotóxicos informa: a marcha dos agrotóxicos continua no governo Lula

Ato nº 50 libera mais 44 produtos técnicos, 36 deles fabricados na China, enquanto o governo promete reduzir o uso de agrotóxicos e fortalecer a agroecologia

A publicação do Ato nº 50, de 14 de agosto de 2026, mostra que a marcha dos agrotóxicos continua avançando no terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O documento concedeu registro a 44 produtos técnicos, dos quais 36 têm fabricantes localizados na China. Ou seja, mais de 80% dos novos registros dependem diretamente da indústria química chinesa. A lista inclui ingredientes ativos que já não estão aprovados para uso em produtos fitossanitários na União Europeia, entre eles clorpirifós, picoxistrobina, lufenuron, tiametoxam, propiconazol, ciproconazol e dimetomorfe. Alguns tiveram suas aprovações explicitamente não renovadas pelas autoridades europeias. Ainda assim, continuam recebendo novos registros no Brasil.

É justamente aí que aparece a principal contradição do governo Lula. Durante a campanha de 2022, o programa apresentado ao eleitorado prometeu fortalecer a produção orgânica e agroecológica e incentivar sistemas alimentares sustentáveis. Já no governo, foi criado o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos, o Pronara, cujo objetivo oficial é promover a redução gradual e contínua do uso dessas substâncias, especialmente das mais perigosas, ao mesmo tempo em que se ampliam a agroecologia e a agricultura orgânica.

No papel, portanto, o governo promete reduzir a dependência de agrotóxicos. Na prática, o Ministério da Agricultura continua ampliando o arsenal químico disponível para o agronegócio.  Não se trata de afirmar que Lula e Bolsonaro são iguais. Bolsonaro fez do libera-geral dos agrotóxicos uma política deliberada de governo e desmontou instrumentos ambientais e sociais que Lula voltou a reconstruir. Mas reconhecer essas diferenças não obriga ninguém a ignorar as continuidades.

A questão central é simples: como um governo pode afirmar que pretende reduzir o uso de agrotóxicos enquanto continua concedendo dezenas de novos registros, inclusive para ingredientes ativos que já foram retirados ou deixaram de ser aprovados em mercados regulatoriamente mais restritivos? A forte presença chinesa também desmonta parte da propaganda sobre a suposta autossuficiência tecnológica do agronegócio brasileiro. O Brasil exporta soja, milho, algodão e outras commodities, mas depende fortemente de ingredientes químicos produzidos no exterior para manter esse modelo funcionando. Dos 44 produtos técnicos autorizados no Ato nº 50, 36 estão vinculados a fabricantes chineses. É uma dependência química que raramente aparece nas celebrações da chamada potência agrícola brasileira.

O problema, portanto, não está apenas no número de registros. Está na ausência de sinais claros de que o país esteja efetivamente reduzindo sua dependência dos agrotóxicos. Se o Pronara pretende representar uma mudança real, o governo precisa apresentar metas concretas para retirar do mercado as substâncias mais perigosas, diminuir o consumo total de agrotóxicos e ampliar de forma mensurável os sistemas agroecológicos.  Caso contrário, a agroecologia continuará aparecendo nos discursos enquanto a agricultura químico-dependente permanece intacta no mundo real.

O Ato nº 50 deixa essa contradição bastante clara: enquanto uma parte do governo promete reduzir os agrotóxicos, outra continua autorizando novos produtos. E, nesse ritmo, a marcha dos agrotóxicos não apenas continua. Ela segue encontrando estrada livre.

GESTA completa 25 anos de pesquisa, extensão e compromisso com a justiça ambiental

O Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (GESTA/UFMG) chega aos seus 25 anos celebrando uma trajetória construída não apenas dentro da universidade, mas, sobretudo, em diálogo e colaboração com populações atingidas por barragens, mineração e outros grandes projetos de desenvolvimento que transformam territórios, ameaçam modos de vida e frequentemente atropelam direitos.

Para marcar esse percurso, o GESTA realizará, entre 9 e 11 de setembro de 2026, na FAFICH/UFMG, em Belo Horizonte, o encontro “Conflitos Ambientais, Desastres e Resistências: 25 anos gestando pesquisa e extensão em redes colaborativas”.

Mais do que uma celebração, o evento propõe um balanço crítico de 25 anos de produção de conhecimento, formação acadêmica, extensão universitária e construção de redes comprometidas com a justiça ambiental. Afinal, em um país marcado pela multiplicação dos conflitos territoriais e por desastres socioambientais de enorme magnitude, produzir conhecimento sobre essas realidades significa também disputar interpretações, denunciar desigualdades e contribuir para fortalecer aqueles que resistem nos territórios.

O encontro reunirá pesquisadoras e pesquisadores, docentes, estudantes, egressos, movimentos sociais, coletivos, associações comunitárias, comissões de atingidos e outros interlocutores envolvidos com temas como conflitos ambientais, desastres, justiça ambiental, direitos territoriais, mineração, expansão energética, mudanças climáticas, povos e comunidades tradicionais e extensão universitária.

Os 25 anos do GESTA representam, assim, uma oportunidade para olhar criticamente para o caminho percorrido, mas também para discutir os desafios que se apresentam em um momento no qual a pressão sobre territórios e bens naturais continua avançando, enquanto comunidades atingidas seguem demonstrando que não existe justiça ambiental sem participação social, defesa dos territórios e reconhecimento dos direitos daqueles que pagam os custos do chamado desenvolvimento.

📅 9, 10 e 11 de setembro de 2026
📍 FAFICH/UFMG — Belo Horizonte (MG)

🔗 Inscrições:
https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfFpFZCEGdBTOmjQj_Fura3DZ5xqNgGR83ROwGeXMha8Qcfaw/viewform

As inscrições serão realizadas por mesa. A organização solicita que os participantes cheguem com 15 minutos de antecedência. A emissão de certificados estará condicionada ao registro de presença nos primeiros 30 minutos de cada atividade.