A face verde da desterritorialização no Porto do Açu

Artigo publicado na Geografares mostra como uma ação apresentada como proteção da natureza pode transferir para comunidades tradicionais os custos socioambientais de um grande empreendimento portuário

Acaba de ser publicado pela revista Geografares o artigo “O papel das intervenções ambientais no deslocamento de pescadores artesanais por grandes empreendimentos portuários: o caso do Porto do Açu, em São João da Barra, Brasil”, de Jayson Freitas Gomes, Carlos Abraão Moura Valpassos e eu. O trabalho parte de uma questão que deveria interessar profundamente a quem discute desenvolvimento econômico, conservação ambiental e justiça social: o que acontece quando medidas apresentadas como destinadas à proteção da natureza acabam retirando de populações tradicionais o acesso aos territórios dos quais dependem para produzir renda, alimento e reproduzir seus modos de vida?

O caso analisado é particularmente revelador. A pesquisa mostra que a criação e a gestão da RPPN Fazenda Caruara, vinculada ao Porto do Açu, modificaram profundamente as condições de acesso dos pescadores artesanais à Lagoa de Iquipari. O artigo sustenta que programas corporativos de proteção ambiental podem funcionar não apenas como instrumentos de conservação, mas também como mecanismos de mercantilização da natureza e de desterritorialização de comunidades tradicionais.

Não se trata, evidentemente, de negar a necessidade de conservar ecossistemas de restinga ou lagoas costeiras. O problema aparece quando a conservação é realizada sem aqueles que historicamente utilizam esses territórios e, pior ainda, contra eles. No caso da Caruara, as unidades de conservação atingiram áreas historicamente utilizadas por cerca de 33 comunidades rurais, enquanto a Lagoa de Iquipari constituía importante fonte de renda e alimentação para os pescadores artesanais. O estudo aponta ainda a ausência de diálogo adequado com as populações afetadas durante esse processo.

A dimensão territorial do problema é bastante concreta. Foram instalados 32 quilômetros de cercas, portarias, sistemas de vigilância, cadastros e autorizações, enquanto antigos acessos à Lagoa de Iquipari foram progressivamente restringidos. Com o fechamento das entradas pelo V Distrito, os pescadores passaram a depender de um acesso localizado em Grussaí, o que pode representar um deslocamento adicional de aproximadamente 40 quilômetros para chegar à área de pesca.

Os resultados da pesquisa são ainda mais eloquentes: dos 19 pescadores entrevistados, dez deixaram de pescar na Lagoa de Iquipari e os outros nove reduziram consideravelmente a atividade naquele ambiente. Isso ocorreu justamente em uma lagoa reconhecida pela elevada produtividade e diversidade de espécies de interesse comercial. Há inclusive uma consequência ambiental contraditória: impedidos de alternar a pesca entre Iquipari e outros ambientes, os pescadores passaram a concentrar maior esforço sobre a Lagoa do Açu, aumentando potencialmente a pressão sobre seus estoques.

É nesse ponto que o artigo discute aquilo que denomina “economia de reparação” e “ambientalismo de resultados”. A proteção de uma parcela do território pode funcionar como compensação e como elemento de legitimação para impactos produzidos em outras áreas. A natureza passa então a ser administrada como ativo ambiental corporativo, enquanto as relações sociais historicamente estabelecidas naquele território ficam em segundo plano.

As conclusões são contundentes: a implantação do Porto do Açu produziu processos de desterritorialização e injustiça socioambiental no V Distrito ao transformar recursos naturais historicamente utilizados pelas comunidades em ativos submetidos ao controle corporativo. Nesse arranjo, parte dos custos sociais da conservação foi transferida justamente para populações dependentes daqueles recursos para a pesca, a agricultura e o extrativismo. Por isso, políticas de conservação não podem ser avaliadas apenas pelo número de hectares protegidos, mudas plantadas ou espécies catalogadas. É preciso perguntar quem passou a controlar o território, quem perdeu acesso a ele e quem está pagando a conta da proteção ambiental.

Talvez seja justamente esse tipo de pesquisa que não se encaixe confortavelmente numa concepção de ciência excessivamente subordinada às demandas imediatas do mercado, como aquela que vem sendo defendida pelo desembargador Ricardo Couto e por outros atores envolvidos na discussão sobre os rumos da ciência fluminense. Uma comunidade de pescadores artesanais dificilmente aparecerá como grande “demandante de inovação” numa planilha empresarial. Da mesma forma, a perda de acesso a uma lagoa, a ruptura de redes comunitárias ou o desaparecimento progressivo de um modo de vida dificilmente aparecem nos indicadores utilizados para medir retorno econômico de investimentos em ciência e tecnologia.

Mas é precisamente aí que reside a importância da universidade pública e de um sistema público de ciência. Desenvolvimento não pode ser confundido com aumento da rentabilidade das corporações instaladas num território. Ele precisa envolver distribuição de benefícios e custos, reprodução social das populações existentes, participação nas decisões sobre o território e preservação das bases naturais das quais essas populações dependem. Uma ciência que só pergunta aquilo que interessa ao mercado corre o risco de oferecer respostas tecnicamente sofisticadas para perguntas excessivamente estreitas.

Outro aspecto importante é que este trabalho foi produzido no âmbito das pesquisas associadas ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF, demonstrando a contribuição das Ciências Humanas e Sociais para a compreensão dos grandes processos de transformação territorial. A pesquisa envolveu revisão bibliográfica, análise documental, entrevistas e questionários aplicados a 19 dos 105 pescadores cadastrados no V Distrito.  Esta é, portanto,  uma investigação empírica destinada justamente a revelar dimensões do desenvolvimento que indicadores como PIB, volume de investimentos ou toneladas movimentadas pelos portos simplesmente não captam.

Finalmente, seria um erro considerar Iquipari uma excepcionalidade. O artigo demonstra empiricamente o caso do Porto do Açu e não permite afirmar automaticamente que os mesmos mecanismos estejam operando em todos os portos brasileiros. Entretanto, seus resultados oferecem uma hipótese de pesquisa poderosa para complexos como Suape, Pecém e Porto Sudeste, igualmente inseridos em territórios historicamente utilizados por pescadores e outras comunidades tradicionais. Investigar comparativamente quem ganhou e quem perdeu acesso aos territórios costeiros, quais compensações ambientais foram implementadas e de que maneira elas reorganizaram as relações de poder constitui uma agenda científica que merece ser ampliada.

Talvez esteja justamente aí uma boa resposta à pergunta sobre para que serve a ciência produzida numa universidade pública. Ela não deve servir apenas para ajudar empresas a produzir mais, transportar mais cargas ou ampliar sua competitividade. A ciência deve também permitir enxergar aqueles que costumam desaparecer das fotografias oficiais do “desenvolvimento”. No caso da Lagoa de Iquipari, quando se olha para além das cercas da RPPN Caruara e das narrativas corporativas de sustentabilidade, aparecem os pescadores. E aquilo que eles têm a dizer muda substancialmente a história normalmente contada sobre o Porto do Açu.

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A cadeia alimentar das revistas predatórias

Por Theo Ruprecht para “Revista Pesquisa Fapesp”

Na  hora de submeter para publicação um artigo que fazia parte do seu mestrado, o engenheiro de computação Fábio Lobato foi atraído por um convite de um periódico científico de suposta relevância (era classificado como B4 pelo sistema QUALIS). No final de 2017, seu trabalho foi publicado. Mas, depois de cerca de um ano, veio o alerta de um colega de fora do país: aquela era uma revista predatória. Foi seu primeiro contato com esse termo, conforme me contou por telefone. “Conversando com colegas sobre o assunto, surgiu uma curiosidade científica de compreender as vulnerabilidades dos pesquisadores brasileiros”, conta.

Desse interesse nasceu, possivelmente, o mais amplo estudo nacional sobre percepções dos cientistas a respeito das revistas predatórias. Foram mais de 3 mil entrevistados, dos quais 1.065 possuíam artigos publicados e, portanto, tiveram suas respostas incluídas em um paper que saiu em abril no periódico Scientometrics — esse, claro, legítimo.

A partir da análise de 36 questões, ficou estabelecido que Lobato não foi o único acadêmico a não enxergar o predador. Entre os fatores associados a publicações predatórias, um dos mais mencionados é a falta de conhecimento. “Para não cairmos em um golpe, precisamos reconhecê-lo”, resumiu o professor, recém chegado ao Instituto de Ciências Matemáticas e Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo, em São Carlos. E-mails e convites insistentes e valores abaixo da média para publicação também estavam entre os pontos mais destacados pelos participantes.

Se esses resultados eram esperados, outros surpreenderam em um primeiro momento. Por exemplo: acadêmicos experientes demonstraram maior preocupação com os custos de publicação em comparação com os em início de carreira, o que poderia torná-los especialmente suscetíveis aos preços atraentes das revistas predatórias. O artigo destaca que “isso possivelmente reflete a estrutura de financiamento de pesquisa no Brasil, onde pesquisadores sêniores são tipicamente responsáveis por gerenciar os orçamentos e pagar as taxas de processamento de artigos”.

Por trás de tudo isso, a pesquisa confirmou uma associação entre a pressão por publicar e a experiência prévia com um periódico predatório. Do seu lado, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tem adotado métricas que priorizam a qualidade dos estudos, em detrimento da quantidade, e o impacto na sociedade. Já o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que concede bolsas e financia pesquisas, criou em março deste ano a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq. Entre as diretrizes, temos: “abster-se de submeter trabalhos a periódicos, eventos ou editais reconhecidamente predatórios, ou participar de práticas editoriais fraudulentas”.

Ainda assim, essas publicações estão longe da extinção. Ao perguntar a Lobato sobre os destaques de sua pesquisa recente, ouvi que ele se surpreendeu com a sinceridade dos entrevistados. “Recebemos respostas detalhadas com um teor de ‘eu escolho um periódico porque meu orientador mandou’”, exemplifica. Nesses casos, além da confiança, é importante valorizar o pensamento crítico.

Cardápio de tramoias

Talvez você queira ser creditado como o criador de um “biorreator de membrana baseado em inteligência artificial para tratamento de esgoto”. Ou, quem sabe, de um “robô humanoide com aplicações industriais”. Pois se de um lado temos revistas predatórias que aceitam artigos sem muitos critérios, do outro há fábricas de artigos científicos (as paper mills) prolíficas e com um portfólio de falcatruas cada vez mais extenso. Uma reportagem do The Guardian publicada em agosto divulgou o trabalho do matemático Reese Richardson, que localizou, entre 2020 e 2026, mais de 18 mil anúncios em redes como WhatsApp, Telegram e Facebook com propostas para inflar o currículo de cientistas.

Foram identificadas 14 diferentes categorias de produtos, que vão das conhecidas ofertas para inserir artificialmente nomes em estudos falsos até a possibilidade de entrar como detentor de uma patente — a propósito, os exemplos acima são verdadeiros. A IP Australia, órgão do governo australiano onde essas patentes foram depositadas, afirmou que está aberta a analisar suspeitas de desvios, mas que não existem evidências de que a organização vem sendo usada em larga escala para esse tipo de fraude.

O caso, no entanto, indica como as paper mills adotam um modelo de negócios ao mesmo tempo obscuro e agressivo, inclusive manipulando estruturas públicas vinculadas à ciência para abrir atalhos na carreira acadêmicaUma estimativa de Richardson reportada na mesma matéria do The Guardian sugere que a quantidade de “produtos” desse mercado vem dobrando a cada 18 meses. Em seus estudos, ele abriu o bueiro do esgoto digital e entrou em dezenas de grupos nos quais as paper mills disponibilizam seus serviços a cientistas pressionados pela lógica do publicar ou perecer. Seu celular, pelo visto, não para de apitar: “Posso simplesmente olhar minhas notificações e ver que recebi 20 mensagens de WhatsApp de paper mills nas últimas 24 horas”.

Um escândalo anacrônico
Quem viu a clássica série Plantão Médico (ER na versão original) sabe: pagers faziam parte do cotidiano dos profissionais de saúde. Popular nas décadas de 1980 e 1990, esse equipamento recebia — só recebia — mensagens curtas, o que, para um médico ou enfermeiro que atuou na Era Pré-Popularização do Celular, funcionava como um alerta ou chamado para atender um caso urgente, por exemplo. Eis que os pagers, ou bips, como os apelidamos por aqui, estão de volta. Uma investigação da BBC mostrou que o NHS Blood and Transplant, órgão do Reino Unido responsável por serviços de transplante, enviou informações confidenciais, como nomes completos de pacientes e tipos de órgãos necessários, de forma não encriptada para pagers de equipes de hospitais. Detalhe: esses dispositivos operam por radiofrequência, então qualquer um poderia receber as mensagens se estivesse “no canal” correto.

Havia um pedido para que os pagers fossem aposentados até 2021 no sistema de saúde de lá, porém alguns elos da cadeia de transplantes não incorporaram a recomendação. O NHS Blood and Transplant, que é obrigado a proteger dados dos pacientes, confirmou a falha e afirmou que a prática foi interrompida. Será que, depois de um atentado na primeira temporada e um ataque hacker na segunda, a série The Pitt prestará homenagem à sua musa inspiradora com um escândalo envolvendo um aparelhinho arqueológico?


Fonte: Revista Pesquisa Fapesp

Flávio Bolsonaro e o negacionismo climático tosco em versão eleitoral

Ao tratar o aquecimento global como resultado de supostos ciclos naturais, candidato ignora uma das conclusões mais sólidas da ciência contemporânea

A resposta dada por Flávio Bolsonaro na sua entrevista ao Jornal Nacional sobre o aquecimento global merece atenção não apenas porque revela o que o candidato pensa sobre a crise climática, mas principalmente porque mostra como uma velha estratégia do negacionismo climático continua sendo utilizada no debate político brasileiro. Questionado diretamente sobre o tema, Flávio afirmou que existem eventos climáticos extremos e que há épocas cíclicas em que faz mais calor, mais frio ou chove mais, acrescentando que não acredita que o aquecimento global tenha relação direta apenas com a influência humana. O problema é que, apresentada dessa maneira, a afirmação mistura uma verdade elementar com uma conclusão cientificamente equivocada.

É evidente que o clima da Terra possui variabilidade natural e que ao longo da história do planeta ocorreram períodos mais quentes e mais frios. A ciência climática nunca negou isso. Existem oscilações relacionadas à atividade solar, erupções vulcânicas, circulação oceânica e atmosférica e, em escalas muito mais longas, alterações orbitais. O que Flávio Bolsonaro deixa de explicar é justamente o ponto decisivo: esses mecanismos naturais não explicam o rápido aquecimento observado desde a Revolução Industrial, especialmente aquele ocorrido nas últimas décadas.

Sobre isso, o IPCC utiliza uma linguagem incomumente categórica para documentos científicos: é inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, os oceanos e os continentes. A melhor estimativa do aquecimento provocado pelas atividades humanas entre 1850–1900 e 2010–2019 é de aproximadamente 1,07 °C, enquanto a contribuição estimada dos fatores naturais, como variações solares e vulcanismo, ficou próxima de ±0,1 °C. Em outras palavras, reconhecer que existem ciclos naturais não constitui argumento contra a origem antropogênica do aquecimento atual. Os cientistas conhecem esses ciclos, medem seus efeitos e justamente por isso conseguem demonstrar que eles são insuficientes para explicar o que está acontecendo.

Há ainda outro problema na resposta do candidato. Flávio Bolsonaro reconhece a existência de eventos extremos — calor, chuva e seca —, mas procura separá-los do processo de aquecimento global. Essa separação também não encontra respaldo na literatura científica. O IPCC conclui que a mudança climática provocada pelas atividades humanas já está afetando eventos meteorológicos e climáticos extremos em todas as regiões do planeta. Ondas de calor tornaram-se mais frequentes e intensas na maior parte das áreas continentais desde a década de 1950, enquanto há evidências crescentes da influência humana sobre chuvas extremas e determinados tipos de seca. Isso não significa, evidentemente, que cada enchente, seca ou onda de calor tenha como causa exclusiva o aquecimento global, mas significa que estamos alterando as condições de fundo sobre as quais esses fenômenos acontecem, modificando sua probabilidade e, em muitos casos, sua intensidade.

Esse detalhe é particularmente importante quando quem oferece esse tipo de resposta pretende ocupar a Presidência da República de um país como o Brasil. Estamos falando de uma nação altamente vulnerável a secas, ondas de calor, incêndios florestais, chuvas extremas, enchentes e deslizamentos, ao mesmo tempo em que possui cidades pouco preparadas para enfrentar esses fenômenos. Um presidente que parte de um diagnóstico errado sobre as causas da crise climática dificilmente terá condições de formular políticas adequadas de mitigação e adaptação.

Por isso, a resposta de Flávio Bolsonaro não deveria ser tratada simplesmente como uma opinião pessoal sobre um assunto em que cientistas ainda estariam divididos. Essa divisão praticamente não existe sobre a questão fundamental. Podemos e devemos discutir quais políticas adotar, quem deve pagar pela transição energética, como proteger populações vulneráveis, qual deve ser o papel dos combustíveis fósseis e como compatibilizar desenvolvimento econômico e redução das emissões. Mas continuar discutindo em 2026 se a humanidade é ou não responsável pelo atual aquecimento global equivale a deslocar o debate político para uma questão que a ciência já respondeu.

E talvez aí esteja o aspecto mais preocupante da declaração. Diante de uma crise que exigirá do próximo governo brasileiro investimentos pesados em adaptação climática, prevenção de desastres, infraestrutura urbana, proteção das florestas e transformação da matriz energética, um candidato à Presidência da República oferece como diagnóstico a velha explicação de que o clima sempre mudou. Sim, sempre mudou. A diferença é que agora sabemos muito bem por que ele está mudando tão rapidamente — e também sabemos quem está colocando mais gases de efeito estufa na atmosfera.

Para quem quiser entender melhor sobre o assunto que o candidato Flávio Bolsonaro preferiu negar de forma tosca, sugiro assistir a live que foi realizada pela Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física com os pesquisadores Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Roberto Verdum e que está disponível no canal do Youtube do GENAT/UFPB (Aqui!)

 

Será que o impacto ambiental dos centros de dados está finalmente sendo compreendido?

O sentimento anti-data centers está crescendo em todo o espectro político nos EUA – e o público só agora está descobrindo os potenciais efeitos em suas contas de energia

O centro de dados Meta El Paso, agosto de 2026. Fotografia: Brandon Bell/Getty Images

Por Dharna Noor para “The Guardian”

O sentimento anti-data centers está crescendo em todo o espectro político nos EUA.

Mais de uma dúzia de estados consideraram moratórias para centros de dados. Nova York tornou-se o primeiro estado americano a promulgar uma proibição temporária no mês passado. Os progressistas senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez propuseram uma moratória nacional . E até mesmo Greg Abbott, o governador de extrema-direita do Texas, defendeu a proibição do desenvolvimento de centros de dados em áreas rurais de seu estado.

A preocupação com os centros de dados é alimentada por questões ambientais relacionadas ao uso da água e à contaminação tóxica, bem como por receios sobre o tipo de sociedade que as tecnologias de inteligência artificial impulsionadas pelos novos centros de dados estão criando.

Outra das objeções mais relevantes politicamente atinge um ponto diretamente relacionado ao bolso: os centros de dados exigem quantidades enormes de eletricidade, e esse aumento na demanda pode elevar as contas de energia.

Manifestantes participam de um protesto nacional contra centros de dados na Virgínia, em julho de 2026.

Manifestantes participam de um protesto nacional contra centros de dados na Virgínia, em julho de 2026. Fotografia: Evelyn Hockstein/Grupo de moradores de Larbert.

O compromisso exige que desenvolvedores de data centers e empresas de inteligência artificial concordem em cobrir os custos da eletricidade que consomem e da nova infraestrutura necessária para conectar suas instalações à rede elétrica. O problema, segundo os críticos, é que o compromisso não tem força legal. Não é juridicamente vinculativo e não há consequências claras para as empresas que não o cumprirem.

Os grupos ambientalistas não ficaram particularmente impressionados : Patrick Drupp, diretor de políticas climáticas do Sierra Club, chamou a medida, no mês passado, de um “compromisso superficial” para famílias com dificuldades para pagar as contas, e Lena Moffitt, diretora executiva da organização sem fins lucrativos Evergreen Action, descreveu o anúncio como uma mera “oportunidade para fotos com as grandes empresas de tecnologia”.

Os legisladores e os desenvolvedores apresentaram outras ideias sobre como garantir que os consumidores não arquem com o peso do crescimento da inteligência artificial em suas contas de serviços públicos, desde a implementação de tarifas para centros de dados até a simples proibição da construção dessas instalações até que novas regulamentações – inclusive sobre o consumo de energia – possam ser implementadas.

Em junho, os preços dos serviços públicos nos EUA subiram 4% em relação ao ano anterior, segundo dados federais, superando a inflação. A preocupação não mostra sinais de arrefecimento.


Fonte: The Guardian

Recriar a Secretaria de Ciência e Tecnologia é positivo, mas o RJ precisa fazer muito mais do que isso

Governo corrige o erro de extinguir a pasta, mas os números mostram que a segunda maior economia do país destina proporcionalmente menos recursos à sua fundação de pesquisa do que estados economicamente menores

A decisão do governador em exercício Ricardo Couto de recriar a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), tendo à frente Antonio Claudio Lucas da Nóbrega, atual reitor da Universidade Federal Fluminense (UFF), deve ser recebida como uma notícia positiva, mas sem qualquer euforia. Afinal, o governo estadual está essencialmente corrigindo um erro que ele próprio havia cometido poucas semanas antes, quando extinguiu a SECTI e incorporou suas atribuições à estrutura da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. A reação da comunidade científica fluminense foi rápida e suficientemente forte para obrigar o governo a recuar, o que mostra, aliás, que a mobilização das universidades e instituições de pesquisa teve um papel importante na reversão de uma decisão que jamais deveria ter sido tomada.

A recriação da SECTI devolve à Ciência, Tecnologia e Inovação um espaço próprio dentro da estrutura administrativa estadual, mas criar ou recriar uma secretaria é certamente a parte mais fácil do problema. A questão realmente importante será saber se a nova pasta terá condições políticas e, principalmente, orçamentárias para formular uma política de CT&I compatível com a importância econômica e científica do Rio de Janeiro. É justamente nesse ponto que os números disponíveis permitem colocar o anúncio de Ricardo Couto em uma perspectiva menos celebratória e mais realista.

Tomando os orçamentos aprovados das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa em 2024 e relacionando-os ao último PIB estadual oficial disponível nas Contas Regionais do IBGE, referente a 2023, encontramos diferenças importantes. A FAPESP dispôs de aproximadamente R$ 2,83 bilhões, enquanto a FAPERJ contou com R$ 647,7 milhões. Entre os demais estados selecionados para comparação aparecem a FAPERGS, com R$ 591,5 milhões, a FAPEMIG, com R$ 552,1 milhões, a FAPESC, com R$ 305,9 milhões, e a FUNCAP cearense, com cerca de R$ 49,9 milhões. Em termos absolutos, portanto, o Rio de Janeiro ocupa uma posição importante, já que entre esses seis estados apenas São Paulo possui uma fundação com orçamento superior ao da FAPERJ.

Entretanto, o quadro muda de forma bastante significativa quando relacionamos esses recursos ao tamanho das respectivas economias estaduais. O Rio Grande do Sul, cujo PIB de R$ 650,1 bilhões corresponde a pouco mais da metade do PIB fluminense, apresenta uma relação entre orçamento da FAPERGS e PIB de aproximadamente 0,091%. Em São Paulo essa relação é de 0,082%, em Santa Catarina chega a 0,060% e em Minas Gerais fica em 0,057%. Já no Rio de Janeiro o orçamento da FAPERJ corresponde a apenas 0,055% do PIB estadual, ficando, entre os seis estados analisados, à frente apenas do Ceará, onde a relação é de aproximadamente 0,021%.

É justamente aí que aparece uma das principais contradições da situação fluminense. Segundo os dados oficiais do IBGE, o Rio de Janeiro possui um PIB de aproximadamente R$ 1,173 trilhão, sendo a segunda maior economia estadual brasileira, atrás apenas de São Paulo. Minas Gerais ocupa a terceira posição, o Rio Grande do Sul a quinta, Santa Catarina a sexta e o Ceará a décima terceira. Apesar disso, quando relacionamos os recursos disponíveis para a principal agência estadual de financiamento à pesquisa ao tamanho da economia, o Rio aparece apenas na quinta posição entre os seis estados comparados, ficando proporcionalmente atrás não apenas de São Paulo, mas também de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais, cujas economias são menores.

A comparação com o Rio Grande do Sul talvez seja a que melhor explicita o problema. A economia gaúcha equivale a aproximadamente 55% do tamanho da economia fluminense, enquanto o orçamento da FAPERGS alcança mais de 90% daquele destinado à FAPERJ. Como resultado, quando relacionado ao PIB, o orçamento da fundação gaúcha representa cerca de 0,091%, contra apenas 0,055% no Rio de Janeiro. Em outras palavras, proporcionalmente ao tamanho das respectivas economias, a relação observada no Rio Grande do Sul é aproximadamente 65% superior à fluminense, algo que deveria servir pelo menos para iniciar uma discussão séria sobre qual importância estratégica o governo do Rio pretende efetivamente atribuir à produção científica.

Essa discussão se torna ainda mais necessária quando consideramos a extraordinária capacidade científica instalada no território fluminense. Estamos falando de um estado que abriga UFRJ, UFF, UFRRJ, UERJ, UENF, Fiocruz, CBPF, IMPA e diversas outras instituições de ensino e pesquisa, além de uma forte concentração de programas de pós-graduação, laboratórios e pesquisadores altamente qualificados. Poucos estados brasileiros dispõem de uma estrutura científica semelhante, razão pela qual o problema do Rio de Janeiro certamente não está na falta de capacidade para produzir ciência, mas na dificuldade histórica de transformar essa capacidade instalada em elemento estratégico de uma política estadual de desenvolvimento de longo prazo.

É nesse contexto que também considero preocupante a insistência de Ricardo Couto em apresentar a aproximação entre a produção científica e as demandas do setor produtivo como um dos elementos centrais da nova estrutura. Não há nada de errado em aproximar universidades, institutos de pesquisa, governo e empresas, pois essa articulação pode ser extremamente importante para resolver problemas tecnológicos, ambientais, sanitários e econômicos. O problema começa quando essa aproximação é apresentada de uma forma que sugere que a relevância da pesquisa científica deveria ser medida principalmente pela sua capacidade de responder às demandas imediatas do mercado, como se existisse uma relação simples e linear entre pesquisa, inovação e crescimento econômico.

A história da ciência demonstra exatamente o contrário, já que boa parte das tecnologias que hoje movimentam a economia mundial surgiu de pesquisas que, no momento em que foram realizadas, não possuíam qualquer aplicação comercial imediatamente previsível. A física quântica não nasceu para produzir semicondutores, da mesma forma que as pesquisas fundamentais em biologia molecular não começaram porque alguma empresa pretendia comercializar determinado medicamento. Entre uma descoberta científica e sua transformação em inovação tecnológica podem transcorrer décadas, envolvendo caminhos inesperados, fracassos, novas perguntas e descobertas que não estavam sequer imaginadas quando a investigação original começou. Por isso foi particularmente importante que Antonio Claudio da Nóbrega tenha lembrado, ao ser anunciado como futuro secretário, uma verdade elementar que muitas vezes desaparece no discurso empresarial sobre inovação: não existe ciência aplicada sem ciência básica.

Se essa ideia prevalecer, a nova SECTI poderá ter um papel muito mais interessante do que simplesmente funcionar como uma espécie de ponte entre universidades e empresas. O Rio de Janeiro precisa de uma política capaz de articular ciência básica, pesquisa aplicada, inovação tecnológica, formação de pesquisadores, políticas públicas e desenvolvimento econômico e social, o que implica fortalecer a FAPERJ, assegurar financiamento adequado às universidades estaduais, recuperar e ampliar laboratórios e infraestrutura científica, formar novos pesquisadores e técnicos e criar mecanismos inteligentes de cooperação com o setor produtivo. Tudo isso pode e deve ser feito sem transformar universidades públicas em departamentos terceirizados de pesquisa e desenvolvimento de empresas privadas.

Por isso, a recriação da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação merece ser saudada, mas não deveria ser confundida com a solução do problema. Ricardo Couto está, antes de tudo, corrigindo parcialmente o erro de ter extinguido uma estrutura que jamais deveria ter sido extinta, e a mobilização da comunidade científica certamente teve papel decisivo nessa mudança de rumo. A questão agora é saber se teremos simplesmente uma nova placa colocada na porta e mais uma secretaria no organograma estadual ou se o governo pretende construir uma verdadeira política de Estado para Ciência, Tecnologia e Inovação, algo que inevitavelmente terá de aparecer de forma concreta nos próximos orçamentos.

Afinal, ciência não se faz apenas com discursos sobre inovação, reuniões com empresários ou solenidades para anunciar secretarias. Ela exige universidades fortes, pesquisadores qualificados, liberdade de investigação, laboratórios bem equipados, planejamento de longo prazo e financiamento público estável. O Rio de Janeiro já possui uma extraordinária capacidade de produzir conhecimento e continua sendo um dos principais centros científicos brasileiros; o que o governo estadual ainda precisa demonstrar é se está disposto a investir nessa capacidade à altura da grandeza de sua própria economia, pois recriar a secretaria para depois deixar o cofre vazio significará apenas substituir um erro por outro.

Estudo mostra como o peso dos microplásticos determina sua dispersão no mar

A estabilidade dos resíduos depositados no fundo do mar sofre alterações durante fenômenos climáticos extremos. Foto: Naja Bertolt Jensen / Unsplash

Cerca de 80% do plástico que entra no ambiente marinho vem de fontes terrestres. Quando esse material se fragmenta em partículas invisíveis a olho nu, a contenção se torna um desafio crônico, pois o microplástico consegue escapar até mesmo das estações de tratamento de esgoto convencionais. Para rastrear o destino exato dessa contaminação, pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveram um modelo computacional capaz de simular a rota do resíduo microscópico ao longo do litoral fluminense. Os resultados do estudo, publicados na Revista Brasileira de Recursos Hídricos no último dia 21, revelam que o peso da partícula é o fator decisivo para ditar quais regiões do oceano sofrerão maior impacto ambiental.

A ferramenta, que reúne dados de correntes oceânicas, marés, ventos e pontos de lançamento de efluentes, mostra que partículas leves flutuam e são transportadas pelas correntes de superfície impulsionadas pela força dos ventos. Essa dinâmica permite que o material viaje longas distâncias e alcance áreas oceânicas mais afastadas da costa, como as Ilhas Cagarras. Já as partículas de peso neutro se espalham junto à linha litorânea e acabam confinadas na circulação de baías fechadas, como a Baía de Sepetiba. Por sua vez, o plástico denso afunda e se deposita no leito marinho, principalmente nas áreas de deságue de efluentes e de drenagem urbana.

A estabilidade dos resíduos depositados no fundo do mar sofre alterações durante fenômenos climáticos extremos. A passagem de frentes frias e a ocorrência de ressacas fortes geram ondas que revolvem o leito marinho. Esse impacto mecânico levanta os microplásticos pesados de volta à coluna de água, reacendendo o ciclo de poluição e transportando o material para novas áreas do oceano através das correntes costeiras.

O acúmulo contínuo traz impactos à fauna local. Animais que habitam o leito marinho, como crustáceos, frequentemente ingerem o material particulado depositado na areia. Esse processo insere o microplástico de forma direta na base da cadeia alimentar do ecossistema costeiro.

Rodrigo Amado Garcia Silva, pesquisador da UFF e um dos autores do estudo, explica que a principal diferença dos microplásticos para outros poluentes é a sua persistência no ambiente e a presença até mesmo no esgoto tratado. “A liberação de microplástico no ambiente é um problema global que só agora ganha luz. Ou a tecnologia de tratamento evolui para captar esse material, ou a própria indústria precisará mudar a composição de produtos que liberam essas partículas diariamente, como roupas e cosméticos”, alerta o cientista.

Segundo a equipe, o impacto do plástico no ambiente aquático não se restringe apenas ao microplástico, e o poder público precisa bloquear a chegada dos resíduos de maior tamanho, como as garrafas e tampinhas, aos rios e praias. A contenção desses itens é mais facilitada que a do microplástico e, nesse sentido, a instalação de ecobarreiras, a expansão da coleta de resíduos e a aplicação da logística reversa formam a linha de frente de defesa para garantir que o material descartado não se transforme em microplásticos que contaminarão o ambiente.


Fonte: Agência Bori

Estudo projeta secas extremas e alerta para risco de crise hídrica no Sudeste

Secas mais longas e severas podem ameaçar a segurança hídrica de milhões de pessoas no Sudeste. Foto: Roosevelt Cassio / Wikimedia Commons

Mais de 20 milhões de pessoas dependem das águas do rio Paraíba do Sul, o motor hídrico e econômico das regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro, e esse contingente populacional deve enfrentar períodos de escassez mais longos nas próximas décadas. Um estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos no último dia  21, revela que as secas na bacia ocorrerão com menor frequência, mas ganharão força suficiente para durar até o triplo em algumas sub-bacias e ter índices de severidade até sete vezes maiores em outras, em comparação com os registros históricos da região.

A mudança no comportamento do clima atinge o coração do abastecimento de forma dupla, afetando o tempo de duração e a gravidade da falta de água. Na porção alta da bacia, no estado de São Paulo, onde operam os reservatórios de Paraibuna e Santa Branca, as estiagens que costumavam durar entre oito e nove meses no passado devem se estender por quase dois anos contínuos até o final do século — um salto que, segundo o estudo, é mais acentuado no cenário intermediário de emissões (SSP2-4,5) do que no cenário mais pessimista (SSP5-8,5) para essa sub-bacia específica.

O maior salto de severidade, no entanto, envolve a sub-bacia de Santa Cecília, localizada no município fluminense de Barra do Piraí. A estação é o ponto central de transferência de água para o Rio de Janeiro e registrará um salto extremo na escala que avalia a força das secas: a média histórica, que ficava na casa dos 7,9 pontos, vai disparar para um índice superior a 58 no cenário climático mais pessimista (SSP5-8,5). Esse índice combina duração e intensidade acumulada da seca — não é uma medida direta de volume de água perdido, mas indica que os episódios futuros tendem a ser muito mais severos do que qualquer um já registrado no sistema.

“O desafio do futuro não será necessariamente conviver com mais eventos de secas, mas com secas potencialmente mais difíceis de enfrentar”, explica Lucas Pereira de Almeida, um dos autores do estudo. O pesquisador compara a dinâmica climática a um paciente que adoece menos vezes, mas enfrenta infecções muito mais graves e debilitantes. “A recuperação entre um evento crítico e outro pode levar mais tempo. Para quem vive nas regiões abastecidas pelo Paraíba do Sul, a principal mensagem é que precisamos olhar não apenas para as emergências, mas também para a preparação”.

A garantia de que o Sudeste enfrentará esse cenário exigiu uma matemática refinada. A equipe aplicou o Índice de Representação de Seca (DRIP), para filtrar os modelos climáticos. A ferramenta separou apenas os sistemas que conseguiam reproduzir o comportamento real das secas no passado da bacia, reduzindo a margem de erro da projeção em até 70% na média. Com resultados exatos, fica evidente o efeito cascata de uma crise prolongada.

“A porção alta da bacia funciona como a caixa d’água que temos em casa. Quando uma seca atinge essa área, é como se essa caixa demorasse muito mais para ser reabastecida. Aos poucos, os impactos se espalham para outras partes da bacia, afetando o abastecimento das cidades e a geração de energia”, detalha o autor do estudo.

A falsa sensação de segurança durante os anos chuvosos, fenômeno conhecido como ciclo hidrológico, é apontada pelo estudo como um risco relevante para a gestão pública: o longo intervalo entre eventos climáticos extremos tende a apagar a memória coletiva sobre os impactos das secas, aumentando o risco de respostas atrasadas ou insuficientes por parte dos governos.

A adaptação a essa nova realidade exige que os governos abandonem a inércia e aproveitem os momentos atuais de abundância hídrica para agir. Os gestores públicos precisarão investir em regras operacionais sazonais para os reservatórios, estabelecer gatilhos de contingência e criar mecanismos setoriais de gestão de demanda. O fortalecimento estrutural do sistema e o planejamento preventivo serão essenciais para reforçar a segurança hídrica do Sudeste durante as grandes secas do futuro, segundo os autores.


Fonte: Agência Bori

Julgamento criminal do caso de Mariana vai ser retomado no dia 03/09

Desembargadores vão continuar julgamento de recursos do MPF e das vítimas que contestam a absolvição dos réus; até hoje ninguém foi punido criminalmente pelo rompimento que devastou o rio Doce e matou 19 pessoas1

No dia 03 de setembro, às 14h, o TRF6 retomará, em sessão presencial, o julgamento do caso criminal do rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em Mariana. Será a continuidade da sessão de 11 de março, quando os desembargadores começaram o julgamento de dois recursos de apelação: um do Ministério Público Federal, e o outro impetrado por quatro mulheres (três familiares de vítimas fatais e uma moradora de Bento Rodrigues, comunidade soterrada pela lama do rompimento da barragem da Samarco/Vale/BHP Billiton), que atuam como assistentes de acusação.

Mais de 100 pessoas atingidas de diversos municípios se deslocarão até Belo Horizonte para acompanhar presencialmente a sessão.

As apelações questionam a absolvição dos 10 réus remanescentes (o caso começou com 26 réus), depois da decisão da juíza federal de Ponte Nova, Patrícia Alencar Teixeira de Carvalho, que em novembro de 2024, absolveu os réus de todas as acusações.

Indignadas com a absolvição, Mônica dos Santos (moradora de Bento Rodrigues), Alinne Ferreira Ribeiro (viúva de Samuel Vieira Albino, operador de máquina de sondagem, que perdeu a vida aos 34 anos), Ana Paula Auxiliadora Alexandre (viúva de Edinaldo Oliveira de Assis, operador de escavadeira, que morreu aos 40 anos) e Giovanna Aparecida Rodrigues da Silva (mãe da vítima fatal Thiago Damasceno Santos, uma criança de 7 anos) procuraram a equipe de Litígio e Direitos Humanos do Instituto Cordilheira em busca de informações sobre como poderiam atuar formalmente no processo, tal como as vítimas do caso de Brumadinho vêm fazendo (saiba mais sobre o caso aqui). Com a assessoria jurídica estabelecida, elas foram habilitadas no processo como assistentes de acusação e interpuseram recurso de apelação.

“Foram 19 vidas perdidas, além da destruição completa de comunidades como Bento Rodrigues. Não foi um acidente imprevisível, existiam alertas, riscos conhecidos e decisões tomadas pelas empresas antes do rompimento. Nossa expectativa é que a justiça reveja a absolvição e reconheça a gravidade do que aconteceu. Esperamos que o processo criminal volte a tratar o rompimento da barragem como ele realmente foi: um crime com responsáveis”, afirma Mônica dos Santos, que perdeu sua casa e muito de sua história naquele 5 de novembro de 2015.

Danilo Chammas, um dos advogados que assessora as vítimas, junto com Pablo Martins e Guilherme Souza, lembra que conheceu as quatro mulheres em algum dos momentos de troca entre as vítimas do caso de Brumadinho e as de Mariana. “Entramos no processo em uma fase avançada, mas mantivemos um diálogo constante. Esperamos que a impunidade não prevaleça. Porém, independentemente do resultado do julgamento, o fundamental deste trabalho é fazer com que as pessoas façam valer o seu direito de participar desses processos e de serem informadas sobre tudo o que acontece”, afirma.

O que vai ser julgado dia 03

O MPF e as assistentes de acusação pedem que seja revista a decisão que inocentou os réus, com argumentos sobre a omissão criminosa das mineradoras e da certificadora, que resultou no rompimento. Em sua sustentação oral de março, o advogado Chammas reforçou o pedido de nulidade da sentença, visto que a juíza federal expressou opiniões de caráter ideológico em sua decisão.

Nas palavras da juíza: “Impor ao Direito Penal um papel central na gestão de riscos extremos nem sempre é útil, adequado e racional. Quando um risco se concretiza em uma catástrofe colossal, os esforços da investigação deveriam ser prioritariamente dirigidos a descortinar as razões de ordem técnico-científicas que determinaram o evento, para que ele jamais volte a ocorrer”.

Chammas critica essa visão da magistrada que, em sua avaliação, nega o fundamento do direito penal nesse preâmbulo. “São ponderações sobre a pertinência de se aplicar ou não a lei penal aos graves fatos descritos neste processo, e que no nosso Direito constituem crimes. Se ela acredita de antemão que o direito penal não deve ser aplicado no caso de Mariana, ela não poderia julgar o caso”, defende o advogado.

Segundo o advogado Pablo Martins, que também assessora as vítimas: “estamos pleiteando a revisão da sentença pois ainda remanescem provas contundentes de que, desde 2009, os riscos de falha crítica no processo de operação de barragens e falha crítica no processo de implementação de barragens e pilhas de estéril já tinham sido identificados, porém nada foi feito para redução deste risco, o que permitiu a tragédia que todos vimos. Com estas provas nos autos, entendemos que deve ser revisada a eventual responsabilidade das empresas e dos réus, caso seja comprovado que tendo conhecimento e poderes para agir estes se omitiram quando deveriam agir para salvar vidas e preservar o ecossistema.”

Quem está sendo julgado

Estão em julgamento seis pessoas físicas, entre elas o presidente da Samarco na época, e quatro pessoas jurídicas: as empresas Samarco, Vale, VogBR e BHP Billiton.

Em 2016, a denúncia original era contra as quatro empresas e 22 pessoas, que foram denunciadas por homicídio qualificado, inundação, desabamento, lesões corporais graves e crimes ambientais, e apresentação de laudo ambiental falso (no caso da certificadora). No entanto, em 2019, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou o trancamento da ação em relação às acusações de homicídio e de lesão corporal para diversos réus.

Assim, os crimes de homicídio foram retirados do processo. A Justiça Federal entendeu que os réus deveriam responder por inundação com resultado morte. Ao longo desses anos, diversos crimes ambientais prescreveram.

No dia 03, será a continuidade do julgamento iniciado em 11 de março, dia em que o MPF e ao advogado das vítimas fizeram suas sustentações, assim como os advogados de defesa dos réus. O desembargador relator será o primeiro a apresentar o voto, e os outros dois podem votar no mesmo dia ou pedir vistas, ou seja, solicitar mais tempo, e uma nova sessão pode, então, ser marcada.

“A punição criminal é importante porque crimes dessa dimensão não podem ser tratados apenas como questão financeira. Nenhuma indenização substitui vidas perdidas nem repara totalmente o sofrimento causado. Quando empresas e pessoas físicas são responsabilizadas criminalmente, a sociedade recebe uma mensagem de que vidas humanas importam e que grandes corporações também devem responder pelos seus atos. Sem responsabilização, o risco é que crimes como esse continuem acontecendo. Se tivesse tido punição, não teria rompido a barragem da Vale em Brumadinho três anos depois”, acredita Mônica, que mais uma vez vai sair de sua cidade para acompanhar presencialmente o julgamento no TRF-6, em Belo Horizonte. Além de Mônica, outras 115 pessoas viajarão de Bento Rodrigues, Mariana, Governador Valadares, Quilombo de Gesteira e Barra Longa, para assistir a sessão presencialmente, exercendo seu direito de participação.

 Punição e não repetição

O advogado Danilo Chammas concorda com a avaliação de Mônica dos Santos sobre a importância da punição criminal para a não repetição de crimes. Ele, que também está atuando nas audiências de instrução do caso criminal de Brumadinho, reforça que é a aplicação da lei penal que pode estabelecer consequências concretas e proporcionais para condutas que violam direitos humanos ou causam danos coletivos. “Quando a resposta estatal se limita a sanções em dinheiro, corre-se o risco de que empresas ou indivíduos passem a considerar tais multas apenas como custos operacionais, sem que isso produza uma mudança real de comportamento. A responsabilização criminal, por outro lado, reforça a gravidade da conduta e sinaliza que certas práticas não são toleráveis em uma sociedade democrática, criando um efeito pedagógico e preventivo mais efetivo”, completa.

 Serviço

Data: 03 de setembro, quinta-feira Horário: 14h

Local: TRF-6 – Av. Álvares Cabral, nº 1805 – Santo Agostinho – Belo Horizonte – MG

Processo n. 0002725-15.2016.4.01.3822

Apelantes: Alinne Ferreira Ribeiro, Ana Paula Auxiliadora Alexandre, Gelvana Aparecida Rodrigues da Silva e Monica dos Santos

Apelante: Ministério Público Federal

Apelados: Samarco Mineração S.A., Vale S.A., BHP Billiton Brasil, VogBR, Ricardo Vescovi, Kleber Terra, Germano Lopes, Wagner Alves, Daviéli Silva e Samuel Loures

Os desembargadores que participarão do julgamento são Pedro Felipe Santos (Relator), Luciana Pinheiro Costa e Klaus Kuschel.


A tragédia de Mariana deixou 19 mortos, mas uma das vítimas pede o reconhecimento do bebê que carregava no ventre como a 20ª vítima fatal, enquanto a Samarco nega responsabilidade pela morte do feto. Ver SENRA, Ricardo. A mãe que sofreu aborto na lama e luta para incluir feto entre vítimas de Mariana. BBC Brasil, São Paulo, 4 nov. 2016. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-37829548.

A deriva de agrotóxicos e a ficção de que o veneno fica onde foi aplicado

Um artigo recém-publicado por Saeed S. Albaseer, Gertrud E. Morlock, Benedikt Ringbeck, Leonard Böhm e Henner Hollert na revista científica Journal of Hazardous Materials Advances traz elementos importantes para uma discussão que ainda recebe atenção insuficiente no Brasil: a de que os agrotóxicos não necessariamente permanecem dentro da propriedade onde são aplicados. A deriva atmosférica pode ocorrer pelo deslocamento das gotas durante a pulverização, pela volatilização posterior dos produtos e pelo transporte de partículas contaminadas, levando resíduos para áreas que não utilizaram essas substâncias, inclusive propriedades orgânicas.

O ponto central do trabalho é simples e poderoso: o vento não respeita cerca, matrícula de imóvel ou limite de propriedade. Condições de vento, temperatura, umidade, estabilidade atmosférica, tipo de aplicação e características do próprio ingrediente ativo podem fazer com que o agrotóxico viaje além da área tratada. Em determinadas situações, portanto, a contaminação de lavouras vizinhas não é um acidente excepcional, mas uma consequência previsível do sistema de produção adotado.

O que vem acontecendo no Rio Grande do Sul mostra que esse risco está longe de ser abstrato. Produtores de uva vêm registrando danos em parreirais associados à deriva de herbicidas hormonais usados em áreas de soja, especialmente o 2,4-D. Videiras são extremamente sensíveis a esse tipo de composto e podem sofrer deformações, perda de produtividade e comprometimento da qualidade da uva mesmo quando o produto não foi aplicado diretamente sobre elas. O problema chegou a tal dimensão que o próprio governo gaúcho passou a estabelecer zonas de restrição ao uso do 2,4-D em áreas vitivinícolas.

Esse caso oferece uma tradução concreta do argumento apresentado por Albaseer e seus colegas. Um agricultor pode cumprir rigorosamente as regras da produção orgânica ou simplesmente optar por uma cultura sensível aos herbicidas usados pelo vizinho e, ainda assim, sofrer perdas porque a contaminação veio de fora de sua propriedade. O artigo mostra que esse problema não é apenas agronômico ou químico, mas também econômico e de justiça ambiental, pois quem não utilizou o agrotóxico pode acabar arcando com o prejuízo provocado por quem o utilizou.

É justamente aí que o debate precisa mudar de lugar. Não faz sentido exigir que o produtor orgânico construa barreiras, altere sua produção ou arque com custos adicionais para se proteger de uma substância que ele não decidiu utilizar. A responsabilidade principal deve recair sobre a fonte da contaminação. Os próprios autores defendem uma regulação mais orientada para quem aplica os agrotóxicos, com restrições de uso, tecnologias obrigatórias de redução de deriva e mecanismos de responsabilização pelos danos causados fora da área tratada.

No caso brasileiro, isso é particularmente relevante diante da expansão das monoculturas de soja sobre paisagens onde coexistem viticultura, horticultura, fruticultura, produção agroecológica e sistemas orgânicos. O direito de produzir soja não pode incluir o direito de inviabilizar o parreiral, a horta ou a fazenda orgânica do vizinho. Quando um sistema produtivo passa a impor perdas econômicas e contaminação química a outro, já não estamos diante de uma escolha privada, mas de um problema de regulação pública.

O artigo de Albaseer e seus colegas oferece, portanto, um argumento forte para que o uso de agrotóxicos com alto potencial de deriva seja contido de forma muito mais rigorosa, especialmente em regiões onde outras culturas e sistemas orgânicos estão expostos. Uma vez lançado no ambiente, o veneno deixa de obedecer à vontade de quem o aplicou. E talvez esse seja o ponto que o modelo agrícola dominante mais prefere ignorar.

Quando as geleiras desabam: a crise climática chega ao Himalaia

O colapso ocorrido na fronteira entre o Nepal e a China mostra como o aquecimento da atmosfera pode ampliar a instabilidade das geleiras e transformar regiões de alta montanha em áreas de risco crescente

O que aconteceu ontem (26/8) na região de fronteira entre o Nepal e o Tibete, na China, oferece mais um alerta sobre os riscos associados ao rápido aquecimento do planeta. As primeiras análises indicam que uma grande porção de uma geleira se desprendeu a cerca de 5.200 metros de altitude e despencou aproximadamente 1.200 metros, produzindo uma avalanche de gelo e rochas que bloqueou temporariamente um rio. O rompimento dessa barreira lançou, em seguida, uma enorme massa de água, lama, rochas e sedimentos pelos vales, destruindo comunidades e infraestrutura. A hipótese inicial de um terremoto como causa do desastre perdeu força depois que o USGS concluiu que o sinal sísmico registrado resultou do próprio colapso da geleira.

Ainda será necessário investigar em detalhe o papel do aquecimento global neste evento específico, e essa cautela é importante. Entretanto, o contexto climático é inequívoco: as geleiras do Himalaia estão perdendo massa rapidamente, e temperaturas mais elevadas favorecem o derretimento do gelo, a perda de estabilidade das geleiras e do permafrost e a formação de condições capazes de desencadear avalanches, deslizamentos e inundações repentinas. No caso de ontem, imagens de satélite chegaram a indicar uma forte redução da cobertura de neve nas horas anteriores ao colapso, possivelmente associada a temperaturas elevadas.

Disponibilizo abaixo um vídeo que mostra a impressionante violência do evento. As imagens ajudam a compreender por que aquilo que ocorre nas altas montanhas do Himalaia não deve ser visto como um fenômeno distante da crise climática global.

O fato é que à medida que o funcionamento do capitalismo aquece a atmosfera terrestre,  há uma alteração da estabilidade de geleiras, encostas, solos congelados e sistemas hidrológicos. O resultado é um planeta no qual eventos capazes de produzir grandes desastres podem surgir de forma cada vez mais abrupta e atingir populações que dispõem de poucos minutos — ou mesmo segundos — para reagir.