Estudo mostra como o peso dos microplásticos determina sua dispersão no mar

A estabilidade dos resíduos depositados no fundo do mar sofre alterações durante fenômenos climáticos extremos. Foto: Naja Bertolt Jensen / Unsplash

Cerca de 80% do plástico que entra no ambiente marinho vem de fontes terrestres. Quando esse material se fragmenta em partículas invisíveis a olho nu, a contenção se torna um desafio crônico, pois o microplástico consegue escapar até mesmo das estações de tratamento de esgoto convencionais. Para rastrear o destino exato dessa contaminação, pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveram um modelo computacional capaz de simular a rota do resíduo microscópico ao longo do litoral fluminense. Os resultados do estudo, publicados na Revista Brasileira de Recursos Hídricos no último dia 21, revelam que o peso da partícula é o fator decisivo para ditar quais regiões do oceano sofrerão maior impacto ambiental.

A ferramenta, que reúne dados de correntes oceânicas, marés, ventos e pontos de lançamento de efluentes, mostra que partículas leves flutuam e são transportadas pelas correntes de superfície impulsionadas pela força dos ventos. Essa dinâmica permite que o material viaje longas distâncias e alcance áreas oceânicas mais afastadas da costa, como as Ilhas Cagarras. Já as partículas de peso neutro se espalham junto à linha litorânea e acabam confinadas na circulação de baías fechadas, como a Baía de Sepetiba. Por sua vez, o plástico denso afunda e se deposita no leito marinho, principalmente nas áreas de deságue de efluentes e de drenagem urbana.

A estabilidade dos resíduos depositados no fundo do mar sofre alterações durante fenômenos climáticos extremos. A passagem de frentes frias e a ocorrência de ressacas fortes geram ondas que revolvem o leito marinho. Esse impacto mecânico levanta os microplásticos pesados de volta à coluna de água, reacendendo o ciclo de poluição e transportando o material para novas áreas do oceano através das correntes costeiras.

O acúmulo contínuo traz impactos à fauna local. Animais que habitam o leito marinho, como crustáceos, frequentemente ingerem o material particulado depositado na areia. Esse processo insere o microplástico de forma direta na base da cadeia alimentar do ecossistema costeiro.

Rodrigo Amado Garcia Silva, pesquisador da UFF e um dos autores do estudo, explica que a principal diferença dos microplásticos para outros poluentes é a sua persistência no ambiente e a presença até mesmo no esgoto tratado. “A liberação de microplástico no ambiente é um problema global que só agora ganha luz. Ou a tecnologia de tratamento evolui para captar esse material, ou a própria indústria precisará mudar a composição de produtos que liberam essas partículas diariamente, como roupas e cosméticos”, alerta o cientista.

Segundo a equipe, o impacto do plástico no ambiente aquático não se restringe apenas ao microplástico, e o poder público precisa bloquear a chegada dos resíduos de maior tamanho, como as garrafas e tampinhas, aos rios e praias. A contenção desses itens é mais facilitada que a do microplástico e, nesse sentido, a instalação de ecobarreiras, a expansão da coleta de resíduos e a aplicação da logística reversa formam a linha de frente de defesa para garantir que o material descartado não se transforme em microplásticos que contaminarão o ambiente.


Fonte: Agência Bori

Estudo projeta secas extremas e alerta para risco de crise hídrica no Sudeste

Secas mais longas e severas podem ameaçar a segurança hídrica de milhões de pessoas no Sudeste. Foto: Roosevelt Cassio / Wikimedia Commons

Mais de 20 milhões de pessoas dependem das águas do rio Paraíba do Sul, o motor hídrico e econômico das regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro, e esse contingente populacional deve enfrentar períodos de escassez mais longos nas próximas décadas. Um estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos no último dia  21, revela que as secas na bacia ocorrerão com menor frequência, mas ganharão força suficiente para durar até o triplo em algumas sub-bacias e ter índices de severidade até sete vezes maiores em outras, em comparação com os registros históricos da região.

A mudança no comportamento do clima atinge o coração do abastecimento de forma dupla, afetando o tempo de duração e a gravidade da falta de água. Na porção alta da bacia, no estado de São Paulo, onde operam os reservatórios de Paraibuna e Santa Branca, as estiagens que costumavam durar entre oito e nove meses no passado devem se estender por quase dois anos contínuos até o final do século — um salto que, segundo o estudo, é mais acentuado no cenário intermediário de emissões (SSP2-4,5) do que no cenário mais pessimista (SSP5-8,5) para essa sub-bacia específica.

O maior salto de severidade, no entanto, envolve a sub-bacia de Santa Cecília, localizada no município fluminense de Barra do Piraí. A estação é o ponto central de transferência de água para o Rio de Janeiro e registrará um salto extremo na escala que avalia a força das secas: a média histórica, que ficava na casa dos 7,9 pontos, vai disparar para um índice superior a 58 no cenário climático mais pessimista (SSP5-8,5). Esse índice combina duração e intensidade acumulada da seca — não é uma medida direta de volume de água perdido, mas indica que os episódios futuros tendem a ser muito mais severos do que qualquer um já registrado no sistema.

“O desafio do futuro não será necessariamente conviver com mais eventos de secas, mas com secas potencialmente mais difíceis de enfrentar”, explica Lucas Pereira de Almeida, um dos autores do estudo. O pesquisador compara a dinâmica climática a um paciente que adoece menos vezes, mas enfrenta infecções muito mais graves e debilitantes. “A recuperação entre um evento crítico e outro pode levar mais tempo. Para quem vive nas regiões abastecidas pelo Paraíba do Sul, a principal mensagem é que precisamos olhar não apenas para as emergências, mas também para a preparação”.

A garantia de que o Sudeste enfrentará esse cenário exigiu uma matemática refinada. A equipe aplicou o Índice de Representação de Seca (DRIP), para filtrar os modelos climáticos. A ferramenta separou apenas os sistemas que conseguiam reproduzir o comportamento real das secas no passado da bacia, reduzindo a margem de erro da projeção em até 70% na média. Com resultados exatos, fica evidente o efeito cascata de uma crise prolongada.

“A porção alta da bacia funciona como a caixa d’água que temos em casa. Quando uma seca atinge essa área, é como se essa caixa demorasse muito mais para ser reabastecida. Aos poucos, os impactos se espalham para outras partes da bacia, afetando o abastecimento das cidades e a geração de energia”, detalha o autor do estudo.

A falsa sensação de segurança durante os anos chuvosos, fenômeno conhecido como ciclo hidrológico, é apontada pelo estudo como um risco relevante para a gestão pública: o longo intervalo entre eventos climáticos extremos tende a apagar a memória coletiva sobre os impactos das secas, aumentando o risco de respostas atrasadas ou insuficientes por parte dos governos.

A adaptação a essa nova realidade exige que os governos abandonem a inércia e aproveitem os momentos atuais de abundância hídrica para agir. Os gestores públicos precisarão investir em regras operacionais sazonais para os reservatórios, estabelecer gatilhos de contingência e criar mecanismos setoriais de gestão de demanda. O fortalecimento estrutural do sistema e o planejamento preventivo serão essenciais para reforçar a segurança hídrica do Sudeste durante as grandes secas do futuro, segundo os autores.


Fonte: Agência Bori

Julgamento criminal do caso de Mariana vai ser retomado no dia 03/09

Desembargadores vão continuar julgamento de recursos do MPF e das vítimas que contestam a absolvição dos réus; até hoje ninguém foi punido criminalmente pelo rompimento que devastou o rio Doce e matou 19 pessoas1

No dia 03 de setembro, às 14h, o TRF6 retomará, em sessão presencial, o julgamento do caso criminal do rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em Mariana. Será a continuidade da sessão de 11 de março, quando os desembargadores começaram o julgamento de dois recursos de apelação: um do Ministério Público Federal, e o outro impetrado por quatro mulheres (três familiares de vítimas fatais e uma moradora de Bento Rodrigues, comunidade soterrada pela lama do rompimento da barragem da Samarco/Vale/BHP Billiton), que atuam como assistentes de acusação.

Mais de 100 pessoas atingidas de diversos municípios se deslocarão até Belo Horizonte para acompanhar presencialmente a sessão.

As apelações questionam a absolvição dos 10 réus remanescentes (o caso começou com 26 réus), depois da decisão da juíza federal de Ponte Nova, Patrícia Alencar Teixeira de Carvalho, que em novembro de 2024, absolveu os réus de todas as acusações.

Indignadas com a absolvição, Mônica dos Santos (moradora de Bento Rodrigues), Alinne Ferreira Ribeiro (viúva de Samuel Vieira Albino, operador de máquina de sondagem, que perdeu a vida aos 34 anos), Ana Paula Auxiliadora Alexandre (viúva de Edinaldo Oliveira de Assis, operador de escavadeira, que morreu aos 40 anos) e Giovanna Aparecida Rodrigues da Silva (mãe da vítima fatal Thiago Damasceno Santos, uma criança de 7 anos) procuraram a equipe de Litígio e Direitos Humanos do Instituto Cordilheira em busca de informações sobre como poderiam atuar formalmente no processo, tal como as vítimas do caso de Brumadinho vêm fazendo (saiba mais sobre o caso aqui). Com a assessoria jurídica estabelecida, elas foram habilitadas no processo como assistentes de acusação e interpuseram recurso de apelação.

“Foram 19 vidas perdidas, além da destruição completa de comunidades como Bento Rodrigues. Não foi um acidente imprevisível, existiam alertas, riscos conhecidos e decisões tomadas pelas empresas antes do rompimento. Nossa expectativa é que a justiça reveja a absolvição e reconheça a gravidade do que aconteceu. Esperamos que o processo criminal volte a tratar o rompimento da barragem como ele realmente foi: um crime com responsáveis”, afirma Mônica dos Santos, que perdeu sua casa e muito de sua história naquele 5 de novembro de 2015.

Danilo Chammas, um dos advogados que assessora as vítimas, junto com Pablo Martins e Guilherme Souza, lembra que conheceu as quatro mulheres em algum dos momentos de troca entre as vítimas do caso de Brumadinho e as de Mariana. “Entramos no processo em uma fase avançada, mas mantivemos um diálogo constante. Esperamos que a impunidade não prevaleça. Porém, independentemente do resultado do julgamento, o fundamental deste trabalho é fazer com que as pessoas façam valer o seu direito de participar desses processos e de serem informadas sobre tudo o que acontece”, afirma.

O que vai ser julgado dia 03

O MPF e as assistentes de acusação pedem que seja revista a decisão que inocentou os réus, com argumentos sobre a omissão criminosa das mineradoras e da certificadora, que resultou no rompimento. Em sua sustentação oral de março, o advogado Chammas reforçou o pedido de nulidade da sentença, visto que a juíza federal expressou opiniões de caráter ideológico em sua decisão.

Nas palavras da juíza: “Impor ao Direito Penal um papel central na gestão de riscos extremos nem sempre é útil, adequado e racional. Quando um risco se concretiza em uma catástrofe colossal, os esforços da investigação deveriam ser prioritariamente dirigidos a descortinar as razões de ordem técnico-científicas que determinaram o evento, para que ele jamais volte a ocorrer”.

Chammas critica essa visão da magistrada que, em sua avaliação, nega o fundamento do direito penal nesse preâmbulo. “São ponderações sobre a pertinência de se aplicar ou não a lei penal aos graves fatos descritos neste processo, e que no nosso Direito constituem crimes. Se ela acredita de antemão que o direito penal não deve ser aplicado no caso de Mariana, ela não poderia julgar o caso”, defende o advogado.

Segundo o advogado Pablo Martins, que também assessora as vítimas: “estamos pleiteando a revisão da sentença pois ainda remanescem provas contundentes de que, desde 2009, os riscos de falha crítica no processo de operação de barragens e falha crítica no processo de implementação de barragens e pilhas de estéril já tinham sido identificados, porém nada foi feito para redução deste risco, o que permitiu a tragédia que todos vimos. Com estas provas nos autos, entendemos que deve ser revisada a eventual responsabilidade das empresas e dos réus, caso seja comprovado que tendo conhecimento e poderes para agir estes se omitiram quando deveriam agir para salvar vidas e preservar o ecossistema.”

Quem está sendo julgado

Estão em julgamento seis pessoas físicas, entre elas o presidente da Samarco na época, e quatro pessoas jurídicas: as empresas Samarco, Vale, VogBR e BHP Billiton.

Em 2016, a denúncia original era contra as quatro empresas e 22 pessoas, que foram denunciadas por homicídio qualificado, inundação, desabamento, lesões corporais graves e crimes ambientais, e apresentação de laudo ambiental falso (no caso da certificadora). No entanto, em 2019, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou o trancamento da ação em relação às acusações de homicídio e de lesão corporal para diversos réus.

Assim, os crimes de homicídio foram retirados do processo. A Justiça Federal entendeu que os réus deveriam responder por inundação com resultado morte. Ao longo desses anos, diversos crimes ambientais prescreveram.

No dia 03, será a continuidade do julgamento iniciado em 11 de março, dia em que o MPF e ao advogado das vítimas fizeram suas sustentações, assim como os advogados de defesa dos réus. O desembargador relator será o primeiro a apresentar o voto, e os outros dois podem votar no mesmo dia ou pedir vistas, ou seja, solicitar mais tempo, e uma nova sessão pode, então, ser marcada.

“A punição criminal é importante porque crimes dessa dimensão não podem ser tratados apenas como questão financeira. Nenhuma indenização substitui vidas perdidas nem repara totalmente o sofrimento causado. Quando empresas e pessoas físicas são responsabilizadas criminalmente, a sociedade recebe uma mensagem de que vidas humanas importam e que grandes corporações também devem responder pelos seus atos. Sem responsabilização, o risco é que crimes como esse continuem acontecendo. Se tivesse tido punição, não teria rompido a barragem da Vale em Brumadinho três anos depois”, acredita Mônica, que mais uma vez vai sair de sua cidade para acompanhar presencialmente o julgamento no TRF-6, em Belo Horizonte. Além de Mônica, outras 115 pessoas viajarão de Bento Rodrigues, Mariana, Governador Valadares, Quilombo de Gesteira e Barra Longa, para assistir a sessão presencialmente, exercendo seu direito de participação.

 Punição e não repetição

O advogado Danilo Chammas concorda com a avaliação de Mônica dos Santos sobre a importância da punição criminal para a não repetição de crimes. Ele, que também está atuando nas audiências de instrução do caso criminal de Brumadinho, reforça que é a aplicação da lei penal que pode estabelecer consequências concretas e proporcionais para condutas que violam direitos humanos ou causam danos coletivos. “Quando a resposta estatal se limita a sanções em dinheiro, corre-se o risco de que empresas ou indivíduos passem a considerar tais multas apenas como custos operacionais, sem que isso produza uma mudança real de comportamento. A responsabilização criminal, por outro lado, reforça a gravidade da conduta e sinaliza que certas práticas não são toleráveis em uma sociedade democrática, criando um efeito pedagógico e preventivo mais efetivo”, completa.

 Serviço

Data: 03 de setembro, quinta-feira Horário: 14h

Local: TRF-6 – Av. Álvares Cabral, nº 1805 – Santo Agostinho – Belo Horizonte – MG

Processo n. 0002725-15.2016.4.01.3822

Apelantes: Alinne Ferreira Ribeiro, Ana Paula Auxiliadora Alexandre, Gelvana Aparecida Rodrigues da Silva e Monica dos Santos

Apelante: Ministério Público Federal

Apelados: Samarco Mineração S.A., Vale S.A., BHP Billiton Brasil, VogBR, Ricardo Vescovi, Kleber Terra, Germano Lopes, Wagner Alves, Daviéli Silva e Samuel Loures

Os desembargadores que participarão do julgamento são Pedro Felipe Santos (Relator), Luciana Pinheiro Costa e Klaus Kuschel.


A tragédia de Mariana deixou 19 mortos, mas uma das vítimas pede o reconhecimento do bebê que carregava no ventre como a 20ª vítima fatal, enquanto a Samarco nega responsabilidade pela morte do feto. Ver SENRA, Ricardo. A mãe que sofreu aborto na lama e luta para incluir feto entre vítimas de Mariana. BBC Brasil, São Paulo, 4 nov. 2016. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-37829548.

A deriva de agrotóxicos e a ficção de que o veneno fica onde foi aplicado

Um artigo recém-publicado por Saeed S. Albaseer, Gertrud E. Morlock, Benedikt Ringbeck, Leonard Böhm e Henner Hollert na revista científica Journal of Hazardous Materials Advances traz elementos importantes para uma discussão que ainda recebe atenção insuficiente no Brasil: a de que os agrotóxicos não necessariamente permanecem dentro da propriedade onde são aplicados. A deriva atmosférica pode ocorrer pelo deslocamento das gotas durante a pulverização, pela volatilização posterior dos produtos e pelo transporte de partículas contaminadas, levando resíduos para áreas que não utilizaram essas substâncias, inclusive propriedades orgânicas.

O ponto central do trabalho é simples e poderoso: o vento não respeita cerca, matrícula de imóvel ou limite de propriedade. Condições de vento, temperatura, umidade, estabilidade atmosférica, tipo de aplicação e características do próprio ingrediente ativo podem fazer com que o agrotóxico viaje além da área tratada. Em determinadas situações, portanto, a contaminação de lavouras vizinhas não é um acidente excepcional, mas uma consequência previsível do sistema de produção adotado.

O que vem acontecendo no Rio Grande do Sul mostra que esse risco está longe de ser abstrato. Produtores de uva vêm registrando danos em parreirais associados à deriva de herbicidas hormonais usados em áreas de soja, especialmente o 2,4-D. Videiras são extremamente sensíveis a esse tipo de composto e podem sofrer deformações, perda de produtividade e comprometimento da qualidade da uva mesmo quando o produto não foi aplicado diretamente sobre elas. O problema chegou a tal dimensão que o próprio governo gaúcho passou a estabelecer zonas de restrição ao uso do 2,4-D em áreas vitivinícolas.

Esse caso oferece uma tradução concreta do argumento apresentado por Albaseer e seus colegas. Um agricultor pode cumprir rigorosamente as regras da produção orgânica ou simplesmente optar por uma cultura sensível aos herbicidas usados pelo vizinho e, ainda assim, sofrer perdas porque a contaminação veio de fora de sua propriedade. O artigo mostra que esse problema não é apenas agronômico ou químico, mas também econômico e de justiça ambiental, pois quem não utilizou o agrotóxico pode acabar arcando com o prejuízo provocado por quem o utilizou.

É justamente aí que o debate precisa mudar de lugar. Não faz sentido exigir que o produtor orgânico construa barreiras, altere sua produção ou arque com custos adicionais para se proteger de uma substância que ele não decidiu utilizar. A responsabilidade principal deve recair sobre a fonte da contaminação. Os próprios autores defendem uma regulação mais orientada para quem aplica os agrotóxicos, com restrições de uso, tecnologias obrigatórias de redução de deriva e mecanismos de responsabilização pelos danos causados fora da área tratada.

No caso brasileiro, isso é particularmente relevante diante da expansão das monoculturas de soja sobre paisagens onde coexistem viticultura, horticultura, fruticultura, produção agroecológica e sistemas orgânicos. O direito de produzir soja não pode incluir o direito de inviabilizar o parreiral, a horta ou a fazenda orgânica do vizinho. Quando um sistema produtivo passa a impor perdas econômicas e contaminação química a outro, já não estamos diante de uma escolha privada, mas de um problema de regulação pública.

O artigo de Albaseer e seus colegas oferece, portanto, um argumento forte para que o uso de agrotóxicos com alto potencial de deriva seja contido de forma muito mais rigorosa, especialmente em regiões onde outras culturas e sistemas orgânicos estão expostos. Uma vez lançado no ambiente, o veneno deixa de obedecer à vontade de quem o aplicou. E talvez esse seja o ponto que o modelo agrícola dominante mais prefere ignorar.

Quando as geleiras desabam: a crise climática chega ao Himalaia

O colapso ocorrido na fronteira entre o Nepal e a China mostra como o aquecimento da atmosfera pode ampliar a instabilidade das geleiras e transformar regiões de alta montanha em áreas de risco crescente

O que aconteceu ontem (26/8) na região de fronteira entre o Nepal e o Tibete, na China, oferece mais um alerta sobre os riscos associados ao rápido aquecimento do planeta. As primeiras análises indicam que uma grande porção de uma geleira se desprendeu a cerca de 5.200 metros de altitude e despencou aproximadamente 1.200 metros, produzindo uma avalanche de gelo e rochas que bloqueou temporariamente um rio. O rompimento dessa barreira lançou, em seguida, uma enorme massa de água, lama, rochas e sedimentos pelos vales, destruindo comunidades e infraestrutura. A hipótese inicial de um terremoto como causa do desastre perdeu força depois que o USGS concluiu que o sinal sísmico registrado resultou do próprio colapso da geleira.

Ainda será necessário investigar em detalhe o papel do aquecimento global neste evento específico, e essa cautela é importante. Entretanto, o contexto climático é inequívoco: as geleiras do Himalaia estão perdendo massa rapidamente, e temperaturas mais elevadas favorecem o derretimento do gelo, a perda de estabilidade das geleiras e do permafrost e a formação de condições capazes de desencadear avalanches, deslizamentos e inundações repentinas. No caso de ontem, imagens de satélite chegaram a indicar uma forte redução da cobertura de neve nas horas anteriores ao colapso, possivelmente associada a temperaturas elevadas.

Disponibilizo abaixo um vídeo que mostra a impressionante violência do evento. As imagens ajudam a compreender por que aquilo que ocorre nas altas montanhas do Himalaia não deve ser visto como um fenômeno distante da crise climática global.

O fato é que à medida que o funcionamento do capitalismo aquece a atmosfera terrestre,  há uma alteração da estabilidade de geleiras, encostas, solos congelados e sistemas hidrológicos. O resultado é um planeta no qual eventos capazes de produzir grandes desastres podem surgir de forma cada vez mais abrupta e atingir populações que dispõem de poucos minutos — ou mesmo segundos — para reagir.

 

Elsevier demora mais de um ano para investigar dois artigos de Macchiarini com pedido de retratação

Por Retraction Watch 

A Elsevier afirma que começará a investigar dois artigos coescritos pelo cirurgião desonrado Paolo Macchiarini “em breve”, mais de um ano depois de dois críticos de seu trabalho terem solicitado formalmente à editora a retratação dos artigos — e quase uma década depois de duas instituições o terem considerado culpado de má conduta por trabalhos relacionados. 

Os artigos, publicados na revista Biomaterials em 2009 e 2010 , incluem descrições de um transplante de traqueia realizado em 2008 em Barcelona por Macchiarini — descrito na revista The Lancet naquele mesmo ano, bem como em um acompanhamento de cinco anos publicado em 2013. Ambos os artigos da Lancet relataram uma cirurgia bem-sucedida e que a paciente tinha uma “vida social e profissional normal”. Na realidade, ela precisou de stents, sua função pulmonar não melhorou e, eventualmente, um pulmão foi removido. 

O paciente de Barcelona sobreviveu, mas pelo menos outros três que se submeteram a transplantes de traqueia sintética realizados por Macchiarini acabaram falecendo. Em 2023, um tribunal sueco condenou Macchiarini a 2 anos e meio de prisão por agressão grave relacionada aos seus transplantes malsucedidos. Até o momento, ele acumula 13 retratações 

Macchiarini disse ao Retraction Watch que nossas perguntas foram a primeira vez que ouviu falar de uma tentativa de retratar os dois artigos da Biomaterials , e que nem a revista nem a Elsevier o haviam contatado sobre eles, quando o alcançamos por meio de sua conta no Substack .

“O artigo de 2008 publicado na Lancet foi retratado, e os motivos apresentados para essa decisão são de domínio público”, disse Macchiarini, observando que ele não é o primeiro nem o último autor dos dois artigos da revista Biomaterials em questão. “Esse fato, por si só, não me permite determinar se todas as alegações que estão sendo feitas a respeito de duas publicações distintas na revista Biomaterials têm fundamento científico ou factual.”

Em 2017, um comitê de ética em pesquisa na Suécia solicitou a retratação de seis artigos após constatar que Macchiarini e vários coautores haviam cometido irregularidades. Um ano depois, o Instituto Karolinska, onde Macchiarini trabalhou até sua demissão em 2016 , divulgou conclusões semelhantes e também solicitou a retratação dos seis artigos. Entre eles, estavam outros dois artigos publicados na revista Biomaterials . O Instituto Karolinska afirmou que os autores haviam “fabricado e distorcido” descrições dos pacientes e seus resultados cirúrgicos. 

A revista The Lancet retratou os dois artigos que relatavam o transplante em Barcelona em 2023, cinco anos depois de o comitê de ética sueco e o Instituto Karolinska terem considerado Macchiarini culpado de má conduta. Essas retratações ocorreram depois que outra autoridade sueca — o Conselho Nacional de Avaliação de Má Conduta em Pesquisa — considerou Macchiarini culpado de má conduta por suas descrições falsificadas da cirurgia de 2008.

Os dois artigos da revista Biomaterials afirmavam que, um ano após a operação de 2008, o enxerto e o paciente estavam saudáveis ​​e que o enxerto estava funcionando bem. Declararam que o paciente estava “totalmente ativo e bem” e levando uma “vida quase normal”. 

Peter Wilmshurst, um cardiologista aposentado do Reino Unido conhecido por expor pesquisas médicas falhas , e Patricia Murray, bióloga de células-tronco da Universidade de Liverpool, vêm buscando a retratação do trabalho de Macchiarini há anos. Eles solicitaram a retratação de ambos os artigos em uma carta a Kam Leong , editor-chefe da revista Biomaterials , em julho do ano passado. 

Os dois artigos faziam parte de um esforço para “apoiar as mentiras originais”, escreveram Murray e Wilmshurst em sua carta. Os autores “tentam dar credibilidade científica indevida ao artigo falso original de 2008 publicado no Lancet, sugerindo que passaram um longo período em desenvolvimentos científicos incrementais”, escreveram eles. 

O artigo de 2009 descrevia um “plano de trabalho passo a passo” que incluía testes em animais antes da primeira operação em humanos. “Eles não fizeram nenhum teste em animais antes de implantarem esses implantes em pessoas”, disse Wilmshurst ao Retraction Watch. “E alegaram que isso era fruto de anos de pesquisa, quando sabemos que, na verdade, tudo foi planejado em algumas semanas.” 

Em sua carta de julho de 2025 para Leong, Wilmshurst e Murray também apontaram inconsistências nos dados entre os artigos. Duas imagens histológicas no artigo de 2009 foram descritas como biópsias coletadas após o transplante. Mas no artigo de 2010, as mesmas imagens são descritas como biópsias coletadas antes do procedimento. Treze dos 14 autores do artigo de 2009 também foram autores do artigo original publicado no The Lancet que descrevia o transplante, incluindo Philipp Jungebluth, também considerado culpado de má conduta científica pelo Instituto Karolinska em 2018. Em uma postagem recente em seu blog , Wilmshurst e Murray também criticam outros autores por seu papel em prejudicar pacientes. 

Loredana De Bartolo, diretora de pesquisa em um instituto de tecnologia de membranas na Itália e coautora do artigo de 2010 na revista Biomaterials , mencionado por Wilmshurst, disse que não havia recebido nenhum contato da Elsevier ou da revista sobre o artigo. Ela afirmou que o trabalho identificou limitações em vez de apoiar os transplantes e que os cálculos foram baseados na literatura científica, e não nos estudos de Macchiarini. 

Em relação às imagens histológicas inconsistentes, ela afirmou que Macchiarini forneceu os dados, que foram incorporados “de boa fé” e “poderiam ser omitidos sem comprometer de forma alguma a base científica, a validade ou as conclusões do estudo”.

“Por essas razões, não acredito que o conteúdo do artigo forneça qualquer justificativa para retratação”, disse ela. Sara Mantero, da Universidade Politécnica de Milão e autora correspondente do outro artigo da revista Biomaterials , não respondeu aos pedidos de comentários. 

Em julho do ano passado, após enviar um e-mail para Leong, que nunca respondeu à carta, Wilmshurst trocou correspondências com funcionários da Elsevier, que lhe informaram que suas preocupações haviam sido encaminhadas ao editor-chefe e ao editor para revisão, de acordo com e-mails que tivemos acesso. “No início de 2018, os editores do Lancet estavam cientes de que o artigo de Macchiarini et al. era falso, mas o Lancet levou mais de 5 anos para retratá-lo”, escreveu Wilmshurst em resposta. “Estamos preocupados que isso seja uma medida da rapidez com que os periódicos da Elsevier lidam com fraudes em pesquisa.”

Após um contato de acompanhamento em setembro de 2025, a equipe operacional da editora informou a Wilmshurst que suas preocupações estavam sendo investigadas e que ele deveria aguardar atualizações. 

Dois dias depois, Wilmshurst entrou em contato novamente: “Se a Biomaterials não estiver disposta a agir rapidamente, teremos poucas alternativas além de publicar nossa carta online para a Biomaterials.” 

No dia seguinte, Emma Xu, editora da revista Biomaterials , disse ao jornal Wilmshurst que o caso de Macchiarini era “sério” e estava sendo analisado por uma equipe central de ética. Ela afirmou que a Biomaterials já havia retratado vários artigos de Macchiarini. “Obviamente, há mais artigos publicados por Macchiarini” na revista, “e precisamos investigar cada um individualmente antes de tomar qualquer medida”, disse ela. 

“Espero que possamos ter as soluções em breve”, acrescentou Xu. Wilmshurst entrou em contato pela última vez no final de julho e disse que ainda não recebeu resposta. “Inicialmente, disseram que estavam analisando o caso”, disse Wilmshurst. “Simplesmente pararam de responder.” Xu e Leong não responderam ao nosso pedido de comentário. 

A Elsevier informou ao Retraction Watch que retratou nove artigos de Macchiarini nos últimos anos. Rebecca Clear, porta-voz da empresa, disse que “investigará em breve os dois artigos” mencionados por Wilmshurst, apesar de ter informado a ele em setembro passado que já estava analisando esses documentos.

“Se os editores da revista considerarem apropriado, os artigos serão corrigidos”, disse Clear . Ela não pôde confirmar se a Elsevier havia iniciado alguma investigação sobre os artigos, nem se a empresa se limitaria a correções, e não a retratações. 

“Alguém pode olhar para isso e pensar, daqui a alguns anos, que esse [transplante] realmente funcionou”, disse Wilmshurst. “Eles podem simplesmente olhar para este artigo e pensar: ‘Nossa, isso funciona, vamos tentar’, sem consultar o artigo de 2008 publicado no Lancet e ver que ele foi retratado.” 

“Tudo o que é falso precisa ser desmentido, não é?”


Fonte: Retraction Watch

A conta do ajuste fiscal: candidatos miram saúde e educação enquanto os juros engordam a dívida

A corrida presidencial recoloca o “ajuste fiscal” no centro do debate, mas quase ninguém explica por que saúde, educação e funcionalismo entram primeiro na conta enquanto os juros da dívida ultrapassam R$ 1 trilhão por ano

À medida que a eleição presidencial se aproxima, uma velha expressão volta a ganhar espaço no discurso dos candidatos e de suas equipes econômicas: “ajuste fiscal”. Com diferentes graus de intensidade, vários candidatos anunciam que o próximo governo precisará conter despesas para impedir o crescimento da dívida pública. O problema não está em discutir a sustentabilidade das contas públicas, algo obviamente necessário, mas em observar quais despesas entram imediatamente na mira do ajuste e quais permanecem praticamente intocadas.

Essa contradição ganha uma dimensão particularmente incômoda no governo Lula. O presidente reivindica corretamente aumentos do salário mínimo, expansão do emprego e programas de transferência de renda como marcas de um governo voltado para a classe trabalhadora. Entretanto, sua equipe econômica opera o chamado novo arcabouço fiscal, que limita o crescimento real das despesas e estabelece uma trajetória de superávits primários. Para 2027, o governo já propôs uma meta de superávit de R$ 73,2 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB, ao mesmo tempo que prepara mecanismos para restringir o crescimento das despesas obrigatórias.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, deixou essa orientação bastante clara. Ele afirmou que o governo Lula realizou um ajuste equivalente a aproximadamente 2% do PIB e que um eventual novo mandato deverá realizar esforço semelhante. Dario Durigan também defendeu a continuidade do arcabouço fiscal e afirmou que será necessário seguir “limitando o gasto obrigatório” para abrir espaço às despesas discricionárias.

Aqui aparece uma contradição política que não deveria ser escondida por argumentos técnicos. Um governo que reivindica representar prioritariamente trabalhadores, aposentados e os setores populares aceita uma arquitetura fiscal que coloca sob pressão justamente as despesas das quais esses grupos mais dependem. Saúde pública, educação, Previdência, universidades, salários do funcionalismo e investimentos públicos aparecem como variáveis que precisam caber dentro do limite fiscal, enquanto o custo financeiro da dívida recebe tratamento muito diferente.

O elefante chamado juros

Os números ajudam a entender o tamanho do problema. Nos doze meses encerrados em junho de 2026, o setor público brasileiro acumulou déficit primário de aproximadamente R$ 157 bilhões, equivalente a 1,19% do PIB. No mesmo período, os juros nominais ultrapassaram R$ 1,16 trilhão, chegando a 8,8% do PIB. Isso significa que, para cada R$ 1 de déficit primário, o setor público contabilizou aproximadamente R$ 7,40 em juros.

A evolução da dívida mostra a mesma coisa. A dívida bruta chegou a aproximadamente R$ 10,8 trilhões em junho. No primeiro semestre de 2026, os juros acrescentaram cerca de 4,9 pontos percentuais do PIB à dívida, enquanto o crescimento nominal da economia atuou na direção contrária e retirou 2,7 pontos.

Portanto, os próprios números oficiais indicam que os juros constituem atualmente um dos principais motores do crescimento da dívida pública brasileira. E aí surge uma pergunta bastante simples: se o diagnóstico aponta para o enorme custo financeiro da dívida, por que o remédio começa pela contenção das despesas primárias?

Lula e a contradição de um ajuste supostamente progressista

Essa questão assume peso especial no governo do presidente Luís Inácio porque não estamos diante de um governo que se apresenta como liberal ou defensor de um Estado mínimo.  Luís Inácio construiu sua trajetória política vinculando sua imagem à defesa dos trabalhadores, do salário mínimo, dos serviços públicos e da redução das desigualdades. Justamente por isso, existe uma contradição maior quando seu governo submete essas mesmas políticas à busca de superávits primários enquanto o custo dos juros permanece extraordinariamente elevado.

O governo já sinaliza concretamente essa direção para 2027.   O ministro da Fazenda também afirma que o crescimento do gasto obrigatório precisa ser controlado e cita explicitamente saúde, funcionalismo e Previdência dentro dessa discussão. Uma das mudanças aprovadas deverá reduzir em mais de R$ 10 bilhões a expansão das despesas obrigatórias em 2027, enquanto o crescimento real das despesas com pessoal poderá ficar limitado a apenas 0,6%.

Não se trata de afirmar que toda despesa pública seja eficiente ou que privilégios existentes no Estado devam permanecer intocados. Supersalários, aposentadorias privilegiadas, gastos tributários sem justificativa e inúmeras distorções precisam entrar na discussão. O problema aparece quando a necessidade de “ajuste” começa a alcançar direitos sociais e serviços públicos antes de provocar um debate igualmente contundente sobre o custo financeiro da dívida.

A contradição fica ainda mais evidente porque o próprio Durigan reconhece que os juros elevados pressionam o endividamento. Ainda assim, o governo propõe responder ao problema fundamentalmente pela obtenção de superávits e pelo controle das despesas obrigatórias.

Saúde e educação não são apenas despesas

Considero que existe ainda outro problema. Educação, saúde, ciência, tecnologia e infraestrutura representam parte essencial da capacidade produtiva de qualquer país. O Brasil não poderá avançar em inteligência artificial, biotecnologia, transição energética, produção de medicamentos, agricultura tecnologicamente avançada ou adaptação às mudanças climáticas comprimindo universidades, institutos de pesquisa e investimentos públicos.

O crescimento econômico também ajuda a controlar a relação dívida/PIB. Os próprios números recentes mostram isso. Portanto, cortar investimentos capazes de aumentar a produtividade e sustentar o crescimento para obter superávit no curto prazo pode produzir um resultado contraditório: o governo melhora temporariamente determinado indicador fiscal enquanto reduz a capacidade futura da economia de sustentar sua própria dívida.

O novo arcabouço fiscal não possui a brutalidade do antigo teto de gastos, que congelava as despesas federais em termos reais. Mas isso não significa que seja neutro. A própria literatura  científica já aponta riscos do novo regime para o financiamento da educação, inclusive porque o crescimento das despesas permanece submetido a limites inferiores ao crescimento potencial de determinadas necessidades sociais.

Afinal, quem será “ajustado” em 2027?

Essa deveria ser uma das perguntas centrais da campanha presidencial. Não basta perguntar aos candidatos se pretendem realizar um ajuste fiscal. Precisamos perguntar quem eles pretendem ajustar.

E Lula não deveria receber uma dispensa dessa pergunta simplesmente porque seu governo possui políticas sociais importantes ou porque seus adversários apresentam propostas potencialmente ainda mais regressivas. Pelo contrário: justamente porque Lula reivindica representar a classe trabalhadora, seu governo precisa explicar a contradição entre esse compromisso político e uma política fiscal que coloca saúde, educação, Previdência, funcionalismo e investimentos públicos sob crescente pressão para produzir superávits primários.

Há uma diferença fundamental entre melhorar as contas públicas retirando privilégios tributários, combatendo supersalários, aumentando a progressividade da tributação e enfrentando o extraordinário custo financeiro da dívida e fazer isso comprimindo despesas que sustentam serviços utilizados majoritariamente pelos trabalhadores.

A discussão sobre 2027 deveria começar exatamente nesse ponto. O Brasil contabiliza mais de R$ 1 trilhão por ano em juros, mas boa parte do debate político continua procurando algumas dezenas de bilhões de reais na saúde, na educação, na Previdência e no funcionalismo.  Se os juros constituem uma das principais forças que impulsionam a dívida, mas o ajuste começa pelos serviços públicos, alguma coisa está fora do lugar.

E para um governo que reivindica falar em nome da classe trabalhadora, essa contradição se torna ainda mais difícil de explicar. Afinal, todo ajuste fiscal tem classe social, mesmo quando seus formuladores preferem apresentá-lo apenas como uma necessidade técnica.

Enquanto a União Europeia fecha o cerco, agronegócio reage à lista de agrotóxicos perigosos

Resistência à proposta do governo expõe dependência de substâncias altamente perigosas justamente quando mercados externos começam a endurecer suas regras

Uma matéria publicada pela Globo Rural informa que o governo federal estuda criar uma lista brasileira de Agrotóxicos Altamente Perigosos (AAP), iniciativa que integra o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara). A proposta deveria parecer bastante elementar para um país que ocupa posição de destaque mundial no consumo dessas substâncias: identificar quais ingredientes ativos apresentam os maiores riscos para a saúde humana e para o ambiente e utilizar essa informação para orientar políticas públicas. Entretanto, representantes do chamado agronegócio reagiram à iniciativa como se o governo estivesse prestes a retirar imediatamente essas substâncias do mercado.

Essa reação revela uma primeira contradição. A inclusão de um ingrediente ativo na lista não significa sua proibição automática, mas setores ligados aos produtores, fabricantes e à bancada ruralista já apresentam estimativas bilionárias de prejuízos que uma eventual retirada dessas substâncias provocaria. Segundo os números apresentados na discussão, uma proibição poderia provocar perdas de R$ 125,5 bilhões somente nas culturas da soja e do milho. O argumento pretende demonstrar a importância econômica desses produtos, mas acaba levantando uma questão muito mais incômoda: se a retirada dos agrotóxicos classificados como altamente perigosos causaria tamanha perda, qual parcela da competitividade da agricultura brasileira depende justamente da utilização dessas substâncias?

A questão ganha importância porque o próprio agronegócio costuma apresentar a agricultura brasileira como uma das mais modernas, eficientes e tecnologicamente avançadas do planeta. Se esse discurso corresponde à realidade, o setor deveria apoiar a identificação dos ingredientes ativos mais problemáticos e investir rapidamente em sua substituição. Uma agricultura tecnologicamente avançada deveria conseguir reduzir sua dependência de substâncias que apresentam elevada toxicidade, persistência ambiental, bioacumulação ou graves impactos sobre organismos não alvo. Resistir até mesmo à elaboração de uma lista sugere uma situação bem diferente daquela apresentada nas campanhas publicitárias que celebram incessantemente a modernidade do campo brasileiro.

O problema se torna ainda mais evidente quando observamos aquilo que ocorre na União Europeia. Como discuti recentemente neste blog, a Comissão Europeia avança na adoção do princípio de reciprocidade para impedir que determinados agrotóxicos proibidos no bloco retornem ao mercado europeu na forma de resíduos presentes nos alimentos importados. Em janeiro de 2026, a Comissão Europeia reafirmou a intenção de fortalecer essa reciprocidade e anunciou medidas para restringir resíduos dos agrotóxicos mais perigosos, além de ampliar em 50% as auditorias realizadas em países de fora da União Europeia e em 33% aquelas realizadas nos postos europeus de controle de fronteira durante 2026 e 2027.

A União Europeia também começa a transformar essa orientação política em mudanças concretas. Um estudo recém-publicado pelo Joint Research Centre da Comissão Europeia identificou 18 substâncias altamente perigosas não aprovadas no bloco que ainda possuem limites máximos de resíduos acima do limite de quantificação e que afetam 235 produtos agrícolas e 86 países exportadores. O estudo concluiu que a redução desses limites poderá diminuir as importações europeias, embora a intensidade desse impacto dependa da capacidade dos países exportadores de adaptar seus sistemas produtivos.

Esse movimento europeu torna a iniciativa do governo federal correta, mas também revela seu caráter tardio e limitado. O Brasil ainda discute se deve elaborar uma lista de substâncias altamente perigosas quando um de seus principais mercados já discute como impedir que alimentos produzidos com algumas dessas moléculas entrem em seu território. A pergunta estratégica, portanto, deixou de ser apenas se a legislação brasileira permite determinado agrotóxico. Os exportadores brasileiros precisarão perguntar cada vez mais se os países compradores continuarão aceitando alimentos que contenham resíduos dessas substâncias.

A própria União Europeia mantém uma contradição que não devemos ignorar. Empresas europeias continuam envolvidas na fabricação e comercialização internacional de substâncias que enfrentam proibições ou fortes restrições dentro do próprio bloco. Assim, a Europa pode permitir que empresas sediadas em seu território obtenham lucros com a venda desses produtos para países como o Brasil e, simultaneamente, restringir a entrada dos alimentos produzidos com eles. Essa prática transfere riscos ambientais e sanitários para países terceiros e depois utiliza padrões regulatórios mais rigorosos para proteger o mercado europeu. A existência dessa contradição europeia, entretanto, não oferece qualquer justificativa para que o Brasil continue dependente dessas substâncias.

Ao contrário, o endurecimento das regras europeias deveria funcionar como um sinal de alerta. O governo brasileiro precisaria ir além da simples elaboração de uma lista e estabelecer um programa consistente de reavaliação dos ingredientes ativos prioritários, substituição gradual das moléculas mais perigosas, pesquisa pública de alternativas, fortalecimento do manejo integrado de pragas e assistência técnica para os agricultores durante a transição. Sem essas medidas, o país poderá descobrir tarde demais que aquilo que hoje aparece como vantagem econômica se transformou amanhã em obstáculo comercial.

O debate também mostra como determinados setores do agronegócio confundem competitividade imediata com estratégia econômica de longo prazo. Manter agrotóxicos baratos e conhecidos pode reduzir custos no presente, mas essa vantagem perde sentido quando os mercados compradores passam a rejeitar seus resíduos. A União Europeia aplica os mesmos limites máximos de resíduos aos produtos europeus e importados e já reforça seus mecanismos de fiscalização das importações.

Por isso, a resistência à criação da lista brasileira  de agrotóxicos altamente perigosos parece particularmente míope. O setor que se apresenta como símbolo da modernidade econômica brasileira deveria liderar a substituição das substâncias mais perigosas, e não combater sua identificação. O governo federal, por sua vez, precisa acelerar uma política que chega atrasada diante das mudanças regulatórias internacionais e não pode limitar sua atuação à produção de mais uma lista.

No final das contas, a reação à proposta  revela mais do que seus críticos gostariam. Se apenas classificar determinados agrotóxicos como altamente perigosos já provoca previsões de perdas bilionárias e intensa mobilização política, temos fortes razões para perguntar até que ponto a proclamada eficiência do agronegócio brasileiro continua sustentada por uma dependência química que poderá cobrar uma conta ambiental, sanitária e, cada vez mais, econômica. Quando mercados importantes começam a mudar suas regras, insistir no modelo anterior deixa de representar defesa da competitividade e passa a simplesmente significar resistência à realidade.

The Lancet pede suspensão da Associação Médica de Israel por apoio à destruição da saúde em Gaza

Palestinos caminham entre as ruínas de edifícios destruídos por ataques aéreos israelenses durante a guerra com o Hamas, na Cidade de Gaza, na segunda-feira, 24 de agosto de 2026.Palestinos caminham entre as ruínas de edifícios destruídos por ataques aéreos israelenses durante a guerra com o Hamas, na Cidade de Gaza, na segunda-feira, 24 de agosto de 2026. Foto: AP

Por Equipe Editorial do “La Jornada” 

A revista médica britânica The Lancet publicou uma petição, liderada por organizações internacionais de profissionais de saúde, que pede a suspensão da Associação Médica de Israel (IMA) da Associação Médica Mundial (AMM), acusando-a de não condenar o genocídio contra a população palestina e a destruição do sistema de saúde em Gaza.

A iniciativa, promovida pela Global Health BDS, Health Workers for Palestine e Doctors for Gaza, argumenta que a IMA endossou a narrativa do exército israelense para justificar ataques a hospitais e profissionais de saúde na Faixa de Gaza.

Em uma carta publicada pela revista The Lancet, o copresidente do Movimento Popular pela Saúde, Wim De Ceukelaire, afirmou que a resposta da IMA foi “autoincriminatória”, reiterando que o Hamas utilizava hospitais como centros militares, um argumento usado por Israel para atacar a infraestrutura de saúde em Gaza.

De Ceukelaire salientou que essa posição ignora a falta de provas que sustentem essas acusações e os relatórios de especialistas da ONU, que afirmam que Israel tem atacado deliberadamente hospitais, profissionais de saúde e serviços médicos no enclave palestino.

Após a publicação, o professor Hagai Levine, presidente da Associação Israelense de Médicos de Saúde Pública, rejeitou o apelo e declarou ao Times of Israel que a solicitação está “errada em todos os sentidos”.

A campanha argumenta que a Associação Médica Mundial não deve manter entre seus membros uma organização que, segundo os promotores da iniciativa, justifica ataques contra o sistema de saúde de Gaza e o assassinato de profissionais da saúde.


Fonte: La Jornada

Fernando Haddad, a Sabesp e o falso tabu da reestatização

Enquanto Paris e Berlim recuperaram o controle público da água, o candidato do PT ao governo de São Paulo prefere enfatizar as dificuldades jurídicas para reverter a privatização da Sabesp

Fernando Haddad colocou uma questão importante no debate eleitoral paulista ao afirmar que existe o risco de a Sabesp privatizada se transformar em uma espécie de “Enel das águas”. O problema é que, ao mesmo tempo em que reconhece esse perigo, Fernando Haddad trata a possibilidade de reestatização como algo extremamente difícil diante dos obstáculos jurídicos e financeiros criados pela privatização promovida pelo governo Tarcísio de Freitas. É verdade que recuperar o controle da Sabesp não seria simples, pois o Estado reduziu fortemente sua participação acionária e perdeu o controle da companhia. Uma eventual reversão exigiria recursos, negociação com investidores e uma estratégia jurídica consistente. Mas existe uma diferença importante entre reconhecer dificuldades e apresentar uma decisão política como praticamente irreversível.

A experiência europeia mostra justamente o contrário. Em Paris, depois de décadas de participação privada na gestão do abastecimento, a prefeitura decidiu recuperar o controle público do sistema e criou, em 2010, uma gestão integrada por meio da Eau de Paris. A mudança permitiu eliminar custos relacionados à remuneração dos operadores privados e gerou uma economia estimada em dezenas de milhões de euros por ano. Mais importante do que isso, Paris decidiu que a água constitui um serviço essencial e que sua gestão deveria responder prioritariamente ao interesse público, e não à necessidade de remunerar acionistas.

O caso de Berlim é ainda mais importante para pensar a Sabesp. Em 1999, quase metade da companhia de água da capital alemã passou para um consórcio privado, sob contratos que protegiam inclusive os interesses econômicos dos investidores. Mesmo diante dessa situação juridicamente complexa, o governo berlinense decidiu recuperar o controle da empresa. Em 2012, recomprou a participação da RWE e, no ano seguinte, adquiriu as ações da Veolia. Houve custos, negociações e dificuldades jurídicas, mas nenhuma dessas barreiras transformou a privatização em uma sentença perpétua. Berlim decidiu recuperar sua companhia de água e construiu os instrumentos políticos, financeiros e jurídicos para fazê-lo.

É justamente por isso que a posição de Fernando Haddad causa estranheza. Se ele próprio reconhece o risco de São Paulo produzir uma “Enel das águas”, parece contraditório iniciar a discussão enfatizando aquilo que um futuro governo não poderia fazer. Paris e Berlim seguiram outra lógica: primeiro decidiram que recuperar o controle público atendia ao interesse coletivo e depois buscaram os meios necessários. Privatizações resultam de decisões políticas e, portanto, podem ser revistas por outras decisões políticas quando seus resultados deixam de atender ao interesse da sociedade.

Essa cautela também precisa ser observada à luz da relação histórica do PT com as privatizações. Embora o partido tenha criticado duramente o programa de desestatização dos anos 1990, seus governos não romperam completamente com a transferência de ativos, infraestruturas e serviços públicos para o setor privado. Os governos Lula e Dilma privatizaram bancos estaduais e ampliaram fortemente as concessões privadas em aeroportos, rodovias, portos e infraestrutura energética. Privatização e concessão não são juridicamente a mesma coisa, mas ambas fazem parte de uma discussão maior sobre até onde o Estado deve transferir ao capital privado a exploração econômica de serviços e infraestruturas estratégicas. Esse histórico talvez ajude a explicar por que Fernando Haddad parece mais confortável em falar de regulação e fiscalização do que em discutir concretamente a recuperação do controle público da Sabesp.

Há também uma assimetria curiosa nesse debate. Quando alguém propõe uma reestatização, surge imediatamente a pergunta sobre quanto custaria recomprar ações e recuperar uma empresa. Esse cálculo precisa ser feito. Entretanto, raramente se calcula com o mesmo rigor o custo de uma privatização ao longo de décadas, incluindo tarifas, dividendos distribuídos aos acionistas, investimentos insuficientes em áreas menos rentáveis e perda da capacidade estatal de controlar uma infraestrutura estratégica. No caso da água, essa questão se torna ainda mais grave porque estamos diante de um monopólio natural. Nenhum paulista poderá escolher entre diferentes redes de abastecimento. A população continuará dependente essencialmente de uma única companhia, com a diferença de que essa empresa passou a responder também às expectativas de rentabilidade de seus acionistas.

Além disso, parece politicamente equivocado ignorar a rejeição manifestada por grande parcela da população paulista à privatização de uma empresa tão estratégica. Essa questão ganhará importância ainda maior nas próximas décadas porque o aprofundamento da crise climática deverá aumentar a irregularidade das chuvas, prolongar períodos de estiagem e ampliar eventos extremos, afetando diretamente a disponibilidade de água para consumo humano. São Paulo já experimentou na crise hídrica de 2014-2015 o que significa aproximar grandes sistemas de abastecimento de seus limites. Num cenário climático mais instável, garantir segurança hídrica exigirá investimentos pesados na proteção de mananciais, redução de perdas, recuperação ambiental e integração dos sistemas de abastecimento.

Esse desafio assume proporções ainda maiores em um estado que concentra gigantescas aglomerações urbanas, começando pela Região Metropolitana de São Paulo e passando por Campinas, Baixada Santista, Sorocaba e Vale do Paraíba. Garantir água para dezenas de milhões de pessoas nessas áreas exigirá forte capacidade estatal de planejamento, investimento e governança das águas. Em momentos de escassez, alguém terá de decidir quais mananciais proteger, onde investir, quais usos priorizar e como impedir que as populações mais pobres sejam as primeiras a sofrer com a falta de água. São decisões políticas que dificilmente podem ficar subordinadas à rentabilidade esperada pelos mercados financeiros.

Paris e Berlim demonstraram que recuperar o controle público da água é possível quando existe decisão política para fazê-lo. Por isso, a questão que Fernando Haddad deveria responder não é apenas por que considera difícil reestatizar a Sabesp, mas se um eventual governo seu estaria disposto a construir as condições para fazê-lo caso a privatização produza os problemas que ele próprio antecipa ao falar em uma “Enel das águas”. Diante da crise climática e dos enormes desafios hídricos que São Paulo enfrentará nas próximas décadas, abrir mão antecipadamente dessa possibilidade parece um erro político e estratégico. A água é importante demais para que seu futuro seja decidido apenas pelos contratos firmados durante uma privatização e pelos interesses de seus acionistas. E é estratégica demais para que a população paulista não seja ouvida sobre quem deve controlá-la.