ADUENF indica voto em Lula: defender a universidade pública exige uma escolha

Decisão aprovada em assembleia parte da defesa dos direitos sociais, da educação pública e da soberania nacional — compromissos que, neste segundo turno, levam ao voto em Lula

A assembleia docente da Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (ADUENF), realizada em 8 de outubro, aprovou, por maioria, o posicionamento público da entidade em apoio a Lula no segundo turno das eleições presidenciais. Conforme o informe divulgado pela associação, a decisão está vinculada à defesa da educação pública, à oposição às privatizações e aos cortes orçamentários, ao enfrentamento da extrema direita e à proteção dos direitos sociais dos trabalhadores. Também integra esse posicionamento a defesa das reservas de terras raras e da soberania nacional. Trata-se, portanto, de uma escolha alicerçada em compromissos programáticos que dizem respeito às condições de existência da universidade pública e ao projeto de sociedade que se pretende defender.

Esse ponto é central porque uma entidade sindical não pode tratar a disputa presidencial como se as alternativas fossem indiferentes aos interesses da categoria e da classe trabalhadora. Quem assume a defesa da educação pública, do financiamento das universidades, dos serviços públicos e dos direitos sociais precisa extrair desses compromissos suas consequências políticas. Dentro desse conjunto de critérios e diante das alternativas colocadas neste segundo turno, a única indicação de voto coerente seria em Lula. Uma posição de neutralidade deixaria sem consequência eleitoral justamente os princípios que orientam a atuação da entidade, como se fosse possível defender a universidade e ignorar as ameaças políticas à sua manutenção.

Isso não significa conceder um cheque em branco a Lula, muito menos suspender as críticas às políticas de seu governo. Apoiar sua candidatura a partir de uma perspectiva programática implica preservar a autonomia sindical e continuar cobrando financiamento adequado para a educação, valorização dos servidores, proteção dos direitos trabalhistas e medidas efetivas em defesa da soberania nacional. O voto não encerra essas disputas, nem substitui a mobilização. Ao contrário, precisa estar associado à disposição de enfrentar qualquer governo quando suas decisões contrariem os interesses dos trabalhadores. A coerência está em combinar a escolha eleitoral com a independência necessária para cobrar o cumprimento dos compromissos que a justificam.

No caso da UENF, essa compreensão ganha uma dimensão concreta. O informe da assembleia registra preocupação com ameaças ao financiamento das universidades, possíveis cortes orçamentários e falta de diálogo com o Governo do Estado, além da necessidade de intensificar a mobilização pela aprovação do PCV. Estas  são questões que demonstram como as escolhas políticas chegam ao cotidiano da universidade, às condições de trabalho e à capacidade de atender à sociedade. A decisão da ADUENF reconhece essa ligação e assume uma responsabilidade que não pode ser terceirizada: se o programa defendido é o da educação pública, dos direitos sociais e da soberania nacional, o voto precisa acompanhar essa defesa. Neste segundo turno, isso significa indicar o voto em Lula e manter a organização da categoria para as lutas que continuarão depois das urnas.

Norte e Noroeste Fluminense: a fabricação histórica da escassez hídrica

A tentativa de classificar o Norte e o Noroeste Fluminense como regiões semiáridas ignora décadas de intervenções que destruíram lagoas e brejos, beneficiaram grandes proprietários de terras e alteraram profundamente a dinâmica hídrica regional

Por Vinicus Lima *

Tentar forçar que as regiões Norte e Noroeste Fluminense sejam classificadas como semiáridas é um erro conceitual de geografia. É bem verdade que um dos critérios para o enquadramento como semiárido diz respeito à precipitação média anual, sendo necessário que esteja próxima de 700 a 800 mm/ano.  A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro disponibiliza uma longa série histórica de dados de precipitação de Campos dos Goytacazes e não é necessário muito esforço para notar que, em muitos anos, choveu acima do limite estabelecido para o enquadramento como semiárido. Os dados mostram que há, contudo, irregularidade quanto à precipitação média anual. Explico o porquê. O processo de uso e ocupação do espaço envolve, em todos os lugares habitados, a substituição de um meio natural por um ambiente artificializado pelas atividades antrópicas.

Nas regiões Norte e Noroeste Fluminense, isso não é diferente, de modo que, desde o século XIX, gestores têm alterado drasticamente a dinâmica da natureza, processo esse que se intensificou ao longo do século XX, notadamente com as medidas estruturais empreendidas pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), com a construção de aproximadamente 1.200 km de canais artificiais pela Baixada Campista. Qual o motivo da construção desses canais?

Na época (regime militar), com um pensamento progressista, realizaram essas obras para evitar as recorrentes inundações que ocorriam e acabar com doenças de veiculação hídrica. Isso foi o que disseram. A verdade? Ampliar áreas agricultáveis e de pastagem para uma minoria que detinha a maior parcela das terras da região. Somam-se a isso as mudanças climáticas em curso, às quais as regiões Norte e Noroeste Fluminense não estão alheias. Com isso, incontáveis lagoas e brejos foram drenados, e a dinâmica das águas superficiais, bem como a disponibilidade hídrica na região, foi completamente alterada. É fundamental que saibamos que esses ambientes possuem importante função ecológica para a região, além de função social, sendo fonte de renda para famílias de pescadores artesanais e garantindo a segurança alimentar de populações de baixa renda.

Agora, esses mesmos proprietários de terras, que seguem nas mãos das mesmas famílias, buscam engordar seus bolsos com o PL do semiárido. Ou seja, reduzem a disponibilidade hídrica em benefício próprio e depois buscam subsídios governamentais para enfrentar uma situação que não estaria ocorrendo caso esses ambientes lênticos estivessem preservados.

Por fim, é necessário que seja estabelecido um diálogo aberto entre o Poder Público, as universidades e a sociedade civil que, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, busque um caminho no qual a dinâmica das sociedades humanas esteja em acordo com a dinâmica da natureza, visando ao correto ordenamento territorial e ambiental.


*Vinícius Lima é Doutor em Geografia (UFF) e atua como pesquisador de pós-doutorado do Laboratório de Ciências Ambientais do Centro de Biociências e Biotecnologia da UENF (LCA/CBB/UENF)

Os estudantes vão às ruas, enquanto os professores se recolhem aos laboratórios

A mobilização estudantil contra Flávio Bolsonaro expõe uma perigosa acomodação entre professores universitários que parecem acreditar que poderão sobreviver impunemente a mais quatro anos de ataques à universidade pública

A primeira semana do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras vem revelando um fenômeno político difícil de ignorar: a saída de multidões de estudantes de escolas e universidades públicas às ruas em defesa da candidatura de Lula. Essa mobilização vem se disseminando pelo território nacional, alcançando inclusive cidades que se transformaram em verdadeiros bastiões eleitorais da extrema-direita. Certamente, não tardarão a aparecer comentaristas da mídia corporativa e professores universitários dispostos a oferecer explicações para esse fenômeno, que aparentemente não foi antecipado nem pela campanha de Flávio Bolsonaro, tampouco pela de Lula. O fato é que, independentemente das interpretações que venham a surgir, estamos diante de uma manifestação de protagonismo político estudantil que parece ter surpreendido tanto os estrategistas eleitorais quanto aqueles que se acostumaram a enxergar a juventude como uma geração politicamente apática e submetida à influência das redes sociais.

Ao mesmo tempo, pelo menos a partir do meu ponto de observação, que é a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), essa onda de mobilização ainda não parece ter alcançado os professores universitários com a mesma intensidade. Essa disparidade produz uma ironia particularmente interessante: talvez os professores não sejam, afinal, os grandes doutrinadores ideológicos que a extrema-direita insiste em denunciar. Ao contrário, tudo indica que poderão acabar sendo empurrados para as ruas pelo ímpeto político demonstrado pelos próprios estudantes, subvertendo completamente a suposta relação entre doutrinadores e doutrinados. Nesse caso, os estudantes não estariam seguindo orientações políticas de seus professores, mas oferecendo a eles uma verdadeira aula prática de participação política.

Entretanto, a questão que me parece mais importante neste momento é compreender as razões dessa disparidade de mobilização no interior das universidades. Acredito que ela possa resultar de diferentes fatores, mas considero que um dos principais seja a percepção desigual dos riscos representados por uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. Os estudantes parecem já ter compreendido que estarão entre os principais perdedores de um governo comandado pela extrema-direita, especialmente diante das perspectivas de aprofundamento dos cortes orçamentários, da precarização das universidades públicas e da redução das oportunidades de formação e inserção profissional. Já uma parcela dos professores talvez esteja fazendo um cálculo diferente, baseado na percepção de que, afinal, atravessamos os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro e aparentemente sobrevivemos para contar a história. Essa experiência anterior poderia estar alimentando uma perigosa sensação de que, mesmo diante de um novo governo da família Bolsonaro, seria possível continuar trabalhando, pesquisando e ensinando como se estivéssemos diante de mais uma alternância convencional de poder.

Se essa hipótese estiver correta, considero que estamos diante de um cálculo político profundamente equivocado. Um eventual governo de Flávio Bolsonaro poderá representar uma versão ainda mais agressiva e organizada do projeto político colocado em prática por seu pai. Para compreender os riscos dessa possibilidade, basta observar o que vem acontecendo nos Estados Unidos sob o segundo mandato de Donald Trump, cuja administração tem aprofundado ataques aos já limitados direitos sociais existentes naquele país e promovido uma verdadeira perseguição aos imigrantes, inclusive aqueles que se encontram em situação migratória regular. As operações conduzidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) têm suscitado graves questionamentos sobre abusos de autoridade e desrespeito às garantias previstas na legislação estadunidense. A experiência norte-americana deveria servir de advertência para aqueles que imaginam que o retorno de forças políticas autoritárias ao governo significa simplesmente a repetição de experiências anteriores. Em determinadas circunstâncias, o segundo mandato pode ser justamente aquele em que os mecanismos de contenção institucional se mostram mais fragilizados e os ataques aos direitos sociais se tornam mais profundos.

No caso brasileiro, há ainda um elemento que deveria preocupar especialmente os professores universitários: a possibilidade de que um novo governo da família Bolsonaro disponha de condições políticas mais favoráveis para aprofundar o desmonte das universidades públicas, comprometendo não apenas seu financiamento, mas também sua autonomia institucional e sua capacidade de produzir conhecimento científico. Não se trata apenas de imaginar novos contingenciamentos orçamentários, mas de reconhecer que a combinação entre austeridade fiscal, hostilidade à ciência e desprezo pela educação pública pode produzir consequências muito mais duradouras do que aquelas experimentadas entre 2019 e 2022. Afinal, laboratórios de pesquisa não funcionam apenas com a dedicação individual de seus coordenadores, mas dependem de financiamento público, infraestrutura, bolsas de estudo, equipes técnicas e da formação contínua de novos pesquisadores. Quando esses elementos são comprometidos, não é apenas a produção científica que sofre: é a própria capacidade das universidades de cumprir suas funções sociais que passa a estar ameaçada.

Diante disso, minha expectativa é que a continuidade e o eventual crescimento das mobilizações estudantis contribuam para despertar aqueles professores que, embora reconheçam que a eleição de Lula representa um cenário muito menos danoso para a universidade pública brasileira, ainda não perceberam a necessidade de transformar essa preferência eleitoral em participação política efetiva. Não se trata de abandonar as atividades acadêmicas ou de subordinar a universidade a interesses partidários, mas de compreender que a defesa das condições institucionais necessárias ao ensino, à pesquisa e à extensão também exige posicionamento público diante de ameaças concretas. Afinal, a neutralidade aparente pode se transformar em uma forma bastante conveniente de acomodação política, especialmente quando se imagina que os efeitos de determinadas escolhas eleitorais recairão sempre sobre os outros.

Por isso, espero que os estudantes continuem oferecendo essa demonstração de protagonismo político e que sua disposição de ocupar as ruas acabe contagiando também os professores universitários. Caso contrário, muitos daqueles que hoje preferem permanecer confortavelmente recolhidos em seus laboratórios, acreditando que poderão atravessar mais quatro anos de bolsonarismo sem maiores consequências, poderão despertar para uma realidade bastante desagradável: a de descobrir que seus laboratórios foram inviabilizados, seus projetos interrompidos e suas condições de trabalho profundamente deterioradas. E talvez descubram, tarde demais, que a defesa da universidade pública não poderia ter sido deixada exclusivamente nas mãos dos estudantes.

Afinal, de pouco adiantará preservar uma suposta neutralidade política se, ao final dos próximos quatro anos, já não houver condições materiais para continuar fazendo ciência, ensinando e formando novos pesquisadores. Nesse cenário, a grande ironia será perceber que os estudantes compreenderam antes de muitos de seus professores algo bastante elementar: não há futuro para a universidade pública quando aqueles que dependem dela se recusam a defendê-la.

Os “bonsais da destruição climática”: em Campos, a motosserra parece ter virado instrumento de paisagismo

Em plena primavera e sob o agravamento da crise climática, árvores são mutiladas e abatidas, enquanto a arborização urbana de Campos dos Goytacazes parece estar sendo submetida a uma curiosa política de redução de copas, sombras e qualidade de vida


Quem circula pelas ruas de Campos dos Goytacazes pode estar testemunhando o surgimento de uma nova escola de paisagismo urbano. Nela, quanto menor a copa de uma árvore, melhor. Se os galhos forem eliminados quase completamente, melhor ainda. E, se a árvore for abatida de uma vez, talvez tenhamos atingido a perfeição estética pretendida pelos adeptos dessa modalidade bastante peculiar de gestão ambiental. Pelas imagens que registrei ontem na Beira Rio, parece que estamos diante de uma verdadeira epidemia de produção dos chamados “bonsais da destruição climática”, uma contribuição tipicamente campista à arte de transformar árvores de grande porte em monumentos à ausência de sombra.

Para quem não sabe, o bonsai é uma técnica de origem chinesa, posteriormente aperfeiçoada e difundida pelos japoneses, que consiste no cultivo de árvores em miniatura, mediante procedimentos cuidadosos de poda, condução de galhos, manejo das raízes e controle do crescimento. Trata-se de uma arte que exige conhecimento, paciência e respeito às características biológicas das espécies cultivadas. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre cultivar um bonsai em um vaso e transformar árvores adultas das vias públicas em caricaturas de si mesmas. Enquanto o bonsai tradicional procura reproduzir, em escala reduzida, a beleza e a complexidade de uma árvore, o bonsai da destruição climática parece empenhado em eliminar justamente aquilo que torna uma árvore indispensável ao ambiente urbano: sua copa, sua sombra e sua capacidade de amenizar as temperaturas.

O problema seria apenas uma manifestação de mau gosto paisagístico se não estivéssemos vivendo um período de agravamento da crise climática global. Em cidades como Campos dos Goytacazes, onde as temperaturas elevadas já constituem uma característica marcante do clima local, a presença de árvores nas ruas, calçadas e praças deveria ser considerada uma infraestrutura ambiental estratégica. Afinal, as copas das árvores reduzem a incidência direta da radiação solar sobre o pavimento, contribuem para amenizar as temperaturas por meio da evapotranspiração, interceptam parte das águas das chuvas e oferecem abrigo para diferentes espécies da fauna urbana. Ao reduzir drasticamente essas copas, estamos eliminando serviços ambientais que não podem ser substituídos por canteiros ornamentais, vasos de concreto ou promessas de futuros plantios.

Mas existe outro aspecto particularmente curioso nessa aparente febre de transformação das árvores campistas em bonsais gigantes: a escolha do mês de outubro para a realização dessas intervenções. Em muitas situações, especialmente para espécies de clima temperado e árvores caducifólias, o período de menor atividade vegetativa, frequentemente situado entre maio e agosto no hemisfério sul, oferece condições mais adequadas para determinadas modalidades de poda. Entretanto, esse calendário não pode ser aplicado indiscriminadamente às espécies tropicais, pois a época correta depende da espécie, de seu ciclo fenológico, das condições climáticas e da finalidade da intervenção. Em Campos, onde predominam condições climáticas quentes, o manejo deveria respeitar essas particularidades. Ainda assim, realizar podas drásticas em plena primavera, quando muitas árvores apresentam intensa brotação e crescimento, levanta questionamentos adicionais sobre os critérios técnicos empregados.

É importante esclarecer que a poda, quando necessária e corretamente executada, constitui uma prática legítima de manejo da arborização urbana. Galhos comprometidos, interferências perigosas com redes elétricas e problemas estruturais efetivamente identificados podem justificar intervenções. Entretanto, existe uma distância considerável entre uma poda tecnicamente fundamentada e a eliminação indiscriminada de grandes porções da copa. Cortes excessivos podem produzir ferimentos extensos, favorecer a entrada de organismos causadores de doenças, estimular brotações estruturalmente frágeis e comprometer a estabilidade futura das árvores. Em determinadas situações, aquilo que é apresentado como uma medida preventiva de segurança pode acabar produzindo exatamente o contrário: árvores mais vulneráveis e potencialmente perigosas.

As fotografias que acompanham esta postagem, registradas em uma via pública de Campos dos Goytacazes, mostram árvores submetidas a intervenções severas, incluindo troncos praticamente desprovidos de copa e cortes recentes em galhos de grande porte. Não é possível determinar apenas pelas imagens quais justificativas técnicas foram apresentadas para cada intervenção, mas o resultado visual é suficientemente preocupante para exigir explicações. Afinal, quem está autorizando essas operações? Existem laudos individuais demonstrando sua necessidade? Quais profissionais estão definindo a intensidade das podas? E, sobretudo, existe algum planejamento municipal capaz de compatibilizar a segurança urbana com a preservação da cobertura arbórea?

Essas perguntas ganham ainda mais importância quando consideramos que pesquisas em andamento no Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente, do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA), vinculado ao Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), já identificaram um quadro preocupante de remoção de árvores no bairro do Flamboyant. Os levantamentos iniciais apontam uma relação de aproximadamente 2,4 árvores removidas para cada muda plantada, além de uma distribuição espacial desigual dos novos plantios. Isso significa que o problema não parece estar restrito à poda de algumas árvores isoladas, mas pode representar uma dinâmica mais ampla de empobrecimento da infraestrutura verde da cidade.

E aqui chegamos ao aspecto mais contraditório dessa história. Enquanto cientistas e organismos internacionais alertam para a necessidade de ampliar a cobertura vegetal das cidades como uma das estratégias de adaptação às mudanças climáticas, em Campos parecem existir setores empenhados em percorrer o caminho inverso. Em vez de ampliar as áreas sombreadas, reduzimos as copas. Em vez de preservar árvores adultas, que levaram décadas para alcançar seu porte atual, permitimos sua mutilação ou remoção. Em vez de tratar a arborização urbana como patrimônio ambiental coletivo, ela parece continuar sendo considerada um obstáculo inconveniente, que pode ser eliminado sempre que surgir alguma dificuldade administrativa.

Talvez os defensores dessa modalidade de paisagismo estejam imaginando que, com menos folhas e galhos, as ruas ficarão mais limpas e os serviços de manutenção serão simplificados. O problema é que as árvores não existem nas cidades apenas para satisfazer preferências estéticas ou facilitar o trabalho das equipes de limpeza. Elas cumprem funções ambientais essenciais, especialmente em um contexto de aquecimento global. E quem paga o preço de sua eliminação são principalmente os pedestres, os ciclistas, os trabalhadores que passam longas horas expostos ao sol e os moradores que não dispõem de recursos para se proteger das temperaturas elevadas.
Por isso, seria interessante que a Prefeitura de Campos dos Goytacazes esclarecesse quais são os critérios técnicos que orientam as podas e os abates atualmente realizados, identificando os responsáveis pelos serviços, os laudos que os fundamentam e as medidas previstas para preservar ou recuperar a cobertura arbórea. A população tem o direito de saber se está diante de uma política de manejo ambiental cientificamente fundamentada ou simplesmente de mais um capítulo da tradicional preferência por soluções rápidas, visualmente impactantes e ambientalmente desastrosas.

Enquanto essas explicações não aparecem, proponho que as árvores mutiladas sejam reconhecidas como representantes de uma nova categoria do paisagismo urbano: os “bonsais da destruição climática”. Diferentemente dos verdadeiros bonsais, que resultam de uma relação cuidadosa entre seres humanos e árvores, esses exemplares são produzidos mediante a supressão de grande parte da estrutura vegetal que deveria ser preservada.

E assim, em uma cidade que deveria estar se preparando para enfrentar temperaturas cada vez mais elevadas, parece que estamos aperfeiçoando a arte de eliminar justamente aquilo que poderia nos oferecer algum alívio.
No ritmo em que as coisas caminham, talvez a próxima inovação do paisagismo campista seja substituir as árvores por postes de concreto. Afinal, estes não produzem folhas, não precisam de podas e, principalmente, não oferecem a inconveniência de fazer sombra.

Campos dos Goytacazes: enquanto a crise climática esquenta a cidade, as árvores continuam sendo exterminadas

Pesquisa da UENF apresentada hoje na UFF Campos revela que, no Flamboyant, foram identificadas 2,4 árvores cortadas para cada muda plantada, expondo a contradição entre a destruição da arborização pública e a necessidade urgente de adaptação à crise climática

Há algum tempo venho chamando a atenção dos leitores do Blog do Pedlowski para um processo que considero particularmente preocupante em Campos dos Goytacazes: a eliminação sistemática de árvores que compõem a arborização pública da cidade. O que poderia parecer, à primeira vista, um conjunto de episódios isolados de cortes e podas radicais começa a adquirir contornos mais graves à medida que avançam os levantamentos científicos sobre a situação da cobertura arbórea urbana. O caso do bairro Flamboyant, que já havia sido objeto de uma postagem anterior neste blog, oferece agora evidências adicionais de que estamos diante de um processo de empobrecimento ambiental que não pode continuar sendo tratado com indiferença pelo poder público municipal.

Os novos dados fazem parte da pesquisa intitulada “Arborização Urbana como Estratégia de Mitigação de Desigualdades Socioambientais e Adaptação Climática”, desenvolvida por Cristian Ferreira Corrêa e por mim, no âmbito do Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente, vinculado ao Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA), do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). O trabalho foi apresentado hoje (8 de outubro), durante a III Semana do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Ambiente e Políticas Públicas (PPGDAP), realizada na UFF Campos. A investigação busca compreender em que medida a arborização urbana está sendo tratada como um instrumento efetivo de adaptação climática em Campos dos Goytacazes, especialmente quando consideradas as profundas desigualdades socioambientais que caracterizam a cidade.

O novo levantamento, realizado com auxílio da plataforma KoboToolbox e de técnicas de geoprocessamento no QGIS, identificou 84 registros de árvores cortadas e apenas 35 de mudas plantadas, totalizando 119 ocorrências nos setores Flamboyant I e II. Em termos proporcionais, isso significa que foram registradas aproximadamente 2,4 árvores removidas para cada muda plantada. O resultado é particularmente preocupante porque o plantio de uma muda não representa a reposição imediata dos serviços ambientais oferecidos por uma árvore adulta, cuja copa pode levar décadas para atingir dimensões equivalentes. Portanto, mesmo que o número de mudas plantadas fosse igual ao de árvores removidas, isso não significaria necessariamente a recuperação da cobertura vegetal perdida.

Esses números ampliam e reforçam a denúncia apresentada anteriormente neste blog, quando trabalhávamos com uma malha de dados inferior àquela agora disponível. Naquela ocasião, já era possível identificar sinais preocupantes de redução da arborização pública do Flamboyant. Com a ampliação do levantamento e a incorporação de novos registros georreferenciados, a situação aparece com maior nitidez: não estamos simplesmente diante de substituições pontuais de árvores, mas de um desequilíbrio expressivo entre remoção e reposição. O mapa produzido pela pesquisa também revela que as ocorrências de corte estão distribuídas por diferentes partes do bairro, o que enfraquece a interpretação de que se trata de um problema restrito a uma única rua ou a um conjunto muito localizado de intervenções.

Há ainda um aspecto histórico que torna esses resultados especialmente reveladores. Pesquisas realizadas na UENF desde o início dos anos 2000, incluindo o trabalho de Victor Andrade Carneiro da Silva (2001) e um artigo científico que publiquei com colaboradores em 2003 na revista Urban Ecosystems, demonstraram que a arborização urbana em Campos dos Goytacazes apresenta uma distribuição profundamente desigual. Naquele momento, o Flamboyant aparecia como um bairro relativamente privilegiado em termos de quantidade e diversidade de árvores, especialmente quando comparado ao Parque Prazeres, onde a cobertura vegetal era significativamente mais escassa. A existência dessa desigualdade estava associada às diferenças de renda, ao valor da terra e às formas de produção e apropriação do espaço urbano.

O que os novos dados sugerem é que até mesmo bairros anteriormente beneficiados por uma cobertura arbórea relativamente expressiva estão passando por um processo de deterioração de suas condições ambientais. Isso não significa que as desigualdades identificadas anteriormente tenham desaparecido, mas que elas podem estar sendo acompanhadas por um processo mais amplo de perda de arborização pública. A situação do Flamboyant, somada às intervenções que vêm sendo observadas em outras áreas de Campos dos Goytacazes, inclusive no Jardim São Benedito, levanta a hipótese de que o problema não esteja restrito a um único bairro, mas corresponda a uma dinâmica disseminada pela cidade. Evidentemente, a confirmação científica dessa hipótese exigirá levantamentos em outras localidades, algo que está previsto nas próximas etapas da pesquisa.

O aspecto mais contraditório desse processo é que ele ocorre justamente quando a crise climática exige das cidades uma transformação profunda de suas políticas de planejamento e gestão ambiental. Em um contexto de elevação das temperaturas, aumento da frequência e da intensidade de episódios de calor extremo e crescente vulnerabilidade das populações urbanas, a preservação e a ampliação da arborização deveriam constituir prioridades absolutas da administração pública. Afinal, as árvores não são meros elementos decorativos da paisagem. Elas proporcionam sombra, contribuem para a regulação das temperaturas, melhoram a qualidade do ar, favorecem a infiltração da água no solo e oferecem condições ambientais que influenciam diretamente a saúde e o bem-estar da população.

No caso de Campos dos Goytacazes, onde as altas temperaturas já representam um componente importante do desconforto ambiental cotidiano, a eliminação de árvores adultas tende a agravar ainda mais as condições térmicas das ruas e dos espaços públicos. A combinação entre superfícies impermeabilizadas, expansão das áreas construídas e redução da cobertura vegetal cria condições favoráveis ao aumento das temperaturas locais, com consequências especialmente severas para pedestres, trabalhadores expostos ao sol, idosos e crianças. Em outras palavras, ao permitir que a cidade perca árvores sem uma reposição ambientalmente adequada, estamos contribuindo para tornar a vida urbana progressivamente mais difícil justamente no momento em que deveríamos investir em mecanismos de adaptação às mudanças climáticas.

Existe também uma questão política que não pode ser ignorada. Quem decide quais árvores serão cortadas? Quais critérios técnicos justificam essas remoções? Onde estão os programas de reposição e de acompanhamento das mudas plantadas? Existe um planejamento municipal capaz de estabelecer metas verificáveis de ampliação da cobertura arbórea? E, sobretudo, de que maneira a população participa das decisões que afetam diretamente as condições ambientais dos bairros onde vive? Essas perguntas são fundamentais porque a arborização pública não pode ficar submetida exclusivamente a decisões administrativas pontuais, tampouco aos interesses particulares de quem eventualmente considera uma árvore um obstáculo à utilização de calçadas, à circulação de veículos ou à valorização imobiliária.

A pesquisa que estamos desenvolvendo no LEEA/CCH/UENF pretende avançar justamente nessa direção, combinando levantamentos georreferenciados, entrevistas com representantes do poder público e consultas à população. A próxima etapa também incluirá o bairro Parque Prazeres, permitindo verificar se as desigualdades socioambientais identificadas há mais de duas décadas persistem e como se manifestam nas atuais práticas de gestão da arborização urbana. Trata-se de uma investigação que procura ultrapassar a simples contagem de árvores para compreender as relações sociais, econômicas e políticas que determinam quem dispõe de melhores condições ambientais e quem permanece mais exposto aos efeitos da degradação urbana.

O que já é possível afirmar, entretanto, é que os resultados obtidos no Flamboyant deveriam servir como um sinal de alerta para o governo municipal. Em uma cidade que enfrenta os desafios da crise climática, não faz sentido continuar tratando a arborização como uma questão secundária, sujeita a intervenções fragmentadas e sem transparência suficiente quanto aos seus efeitos cumulativos. Se a tendência observada no Flamboyant estiver ocorrendo em outros bairros, Campos dos Goytacazes poderá estar comprometendo uma das formas mais acessíveis e eficazes de adaptação ao aumento das temperaturas urbanas. Mais grave ainda é perceber que esse processo parece avançar sem que exista um debate público à altura de suas consequências ambientais e sociais.

A pergunta que fica é bastante simples: em uma cidade que precisa urgentemente de mais sombra, mais árvores e melhores condições ambientais, por que estamos assistindo à destruição justamente da vegetação que poderia ajudar a protegê-la dos efeitos da crise climática? Se o poder público municipal possui uma explicação técnica convincente para esse aparente contrassenso, seria importante que a apresentasse à população. Afinal, a crise climática não espera, e uma árvore adulta eliminada hoje não será substituída, em suas funções ambientais, por uma muda recém-plantada amanhã. Enquanto isso, a conta desse processo de empobrecimento ambiental tende a ser paga por todos os habitantes de Campos dos Goytacazes, especialmente por aqueles que já enfrentam as maiores dificuldades para suportar as temperaturas cada vez mais elevadas.

Anthony Garotinho: quando a esperteza política encontra o caminho do Irajá

Depois de chegar ao Palácio Guanabara e conquistar 15 milhões de votos na disputa presidencial, o ex-governador parece ter encontrado seu limite não na força dos adversários, mas na incapacidade de avaliar a própria conjuntura

Como moro em Campos dos Goytacazes desde janeiro de 1998, não tenho como ignorar a trajetória política de um dos seus filhos mais famosos e controversos: Anthony Garotinho. Além disso, como professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) e diretor da nossa associação de docentes, tive a oportunidade de estar pessoalmente com Garotinho em duas ocasiões, ambas para realizar negociações políticas. Desses contatos e da observação que venho fazendo de sua trajetória ao longo dos anos, formei uma opinião que pode parecer surpreendente para muitos dos seus opositores, especialmente aqueles situados à esquerda do espectro político. É que considero Garotinho uma pessoa inteligente, criativa e particularmente hábil na comunicação social. Em outras palavras, Anthony Garotinho não tem nada de bobo. Muito pelo contrário.

Uma demonstração dessa inteligência e habilidade política foi sua eleição para o governo do Rio de Janeiro, em 1998, quando tinha apenas 38 anos e conseguiu sair de uma cidade do interior fluminense para ocupar o Palácio Guanabara. Além disso, antes de concluir um mandato relativamente exitoso, Garotinho decidiu abandonar o cargo para disputar a Presidência da República, eleição da qual saiu com expressivos 15 milhões de votos. Posteriormente, foi eleito deputado federal em 2010, além de ter ocupado diferentes cargos públicos, incluindo a espinhosa Secretaria de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro.

Toda essa trajetória deveria ter consolidado Garotinho como uma liderança política de primeira linha no cenário nacional, mas não foi o que aconteceu. Envolvido em uma sucessão de controvérsias e casos mal explicados, tanto em Campos dos Goytacazes quanto no governo estadual, Garotinho acabou seguindo um caminho de progressiva perda de protagonismo político. Se não desapareceu completamente do cenário, isso se deve, em boa medida, à capacidade de sua esposa, Rosangela (Rosinha) Matheus, e de dois de seus filhos, Clarissa e Wladimir, de aproveitar o capital político acumulado por Anthony para manter viva e influente a franquia familiar.

Os problemas políticos e judiciais de Garotinho, que ele atribui à perseguição de seus numerosos inimigos políticos — cuja existência não ignoro —, também acompanharam uma transformação ideológica que o levou para muito longe de suas posições originais. Afinal, Garotinho transitou de uma trajetória vinculada à esquerda petista para posições cada vez mais próximas da extrema-direita bolsonarista. Ele procura justificar essa metamorfose com o argumento de que não se deve aprisionar as pessoas em rótulos rígidos de esquerda e direita. Entretanto, por mais que essa justificativa possa parecer conveniente, ela não altera o fato de que suas posições políticas passaram a convergir de maneira inequívoca com o bolsonarismo. Essa aproximação se manifesta não apenas em sua relação com a família Bolsonaro, mas também na trajetória de seu filho Wladimir, que acaba de ser eleito pelo PL e mantém estreita proximidade política com Flávio Bolsonaro.

Entretanto, toda essa trajetória parece ter chegado agora a um ponto de não retorno. Depois de se candidatar ao governo do Rio de Janeiro e disputar uma eleição marcada pela judicialização de sua candidatura, Garotinho realizou um movimento político surpreendentemente rápido que, na prática, favoreceu a vitória do candidato bolsonarista Douglas Ruas. Com isso, acabou jogando na lata de lixo da história o capital político representado pelos mais de 274 mil votos que recebeu nas urnas. Independentemente das justificativas que venha a apresentar, minha avaliação é que Garotinho pode ter acabado de assinar a sentença de morte de sua própria carreira política.

O mais surpreendente é que essa decisão parece ter sido motivada por um açodamento absolutamente incompatível com a experiência acumulada por alguém que já governou o Rio de Janeiro e disputou a Presidência da República. Afinal, Garotinho poderia simplesmente ter aguardado uma decisão definitiva do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cujo desfecho, ao que tudo indica, tende a favorecer Douglas Ruas. Ao antecipar seus movimentos, acabou demonstrando uma leitura particularmente pobre da conjuntura política e, sobretudo, uma incapacidade de compreender o peso de suas próprias decisões. Para alguém cuja principal virtude sempre foi a habilidade de identificar oportunidades e explorar contradições políticas, trata-se de um erro tão elementar quanto potencialmente fatal.

Minha impressão é que Anthony Garotinho acaba de atravessar uma fronteira da qual dificilmente conseguirá retornar. E o mais irônico é que não terá sido necessariamente derrotado por seus numerosos adversários, mas por uma decisão que ele próprio tomou. Um desfecho melancólico para uma trajetória que, independentemente das críticas que merece, já esteve muito próxima de alcançar o primeiro escalão da política brasileira. É só esperar para ver.

Quem diria: Anthony Garotinho, tal como Greta Garbo, acabou no Irajá.

As ruas despertaram, os estudantes entraram em cena e o bolsonarismo já arreganha os dentes

Enquanto mobilizações estudantis desafiam o domínio dos algoritmos sobre a política, ameaças contra universidades revelam a dificuldade de setores bolsonaristas em conviver com a democracia

A repentina aparição de milhares de estudantes nas ruas brasileiras em defesa da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve estar surpreendendo os dois lados da disputa presidencial. Afinal, parece que finalmente temos uma campanha eleitoral que ganhou as vias públicas e começou a escapar dos grotões das redes sociais, onde o debate político tem sido crescentemente condicionado pelos algoritmos e pelos interesses econômicos das chamadas big techs. O que estamos assistindo pode representar uma inflexão importante no processo eleitoral, na medida em que a política deixa de ser exercida exclusivamente por meio de telas e mensagens eletrônicas e volta a ocupar um dos seus espaços históricos mais importantes: as ruas, as praças e os ambientes de convivência coletiva.

Duas coisas me chamam particularmente a atenção nesse processo. A primeira é uma pergunta que vale vários milhões de dólares: por que raios isso só aconteceu agora, e não ao longo do primeiro turno, que mais pareceu um velório da democracia brasileira do que uma disputa entre dois projetos aparentemente antagônicos de gestão do Estado brasileiro? A segunda se refere à rápida reação de setores do bolsonarismo, que já recorreram à manjada tática de ameaçar para constranger, inclusive mediante referências à violência física e à utilização de explosivos. Essa reação é especialmente preocupante porque sugere que determinados grupos continuam considerando a intimidação como um instrumento legítimo de intervenção política, especialmente quando percebem que estão perdendo o monopólio da mobilização e da ocupação dos espaços públicos.

A propósito dessa retomada das ruas, chamou-me a atenção uma coluna publicada por Josias de Souza no UOL, em 7 de outubro, sob o título “Na era do algoritmo, Lula ainda aposta em adesivos e panfletos”. O jornalista questiona a estratégia de comunicação da campanha de Lula, contrapondo a utilização de materiais tradicionais de propaganda eleitoral à crescente importância das plataformas digitais. Reconheço que os algoritmos possuem uma força extraordinária na formação das percepções e preferências eleitorais, mas discordo da ideia de que a eficácia de uma campanha possa ser medida prioritariamente pela quantidade de dinheiro despejada nos cofres das big techs. Os algoritmos se tornam particularmente decisivos quando a política abandona as ruas, as praças, os locais de trabalho e as universidades, deixando que a formação da opinião pública seja crescentemente monopolizada por empresas privadas cujos interesses nem sempre coincidem com os da democracia.

Aliás, talvez esteja justamente aí uma das lições mais importantes dessas mobilizações estudantis. Os algoritmos podem ampliar o alcance de mensagens, mas não substituem a experiência política construída no contato direto entre as pessoas. Um panfleto entregue durante uma conversa, uma assembleia estudantil ou uma manifestação de rua podem produzir algo que milhões de visualizações não necessariamente conseguem: o estabelecimento de vínculos sociais e políticos que não dependem da mediação de uma plataforma digital. Não se trata de defender o abandono das redes sociais, mas de compreender que a comunicação digital deve servir como instrumento de ampliação da mobilização popular, e não como substituta da organização coletiva. Talvez o verdadeiro atraso político não esteja em distribuir panfletos na era dos algoritmos, mas em imaginar que a democracia pode ser exercida exclusivamente por meio de curtidas, compartilhamentos e conteúdos patrocinados.

Mesmo na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), que não possui uma cultura estudantil marcada por disputas políticas particularmente virulentas, já tivemos relatos de ameaças de bombas e de morte atribuídas a um grupo que se identificou como “Campistas por Bolsonaro” (o campista aqui se relaciona ao fato de que o campus principal da Uenf está localizado na cidade de Campos dos Goytacazes). Como professor da Uenf há quase 30 anos, esse episódio me chamou particularmente a atenção, pois não imaginava que algo dessa gravidade pudesse ocorrer logo na primeira semana do segundo turno presidencial. Evidentemente, a autoria dessas ameaças precisa ser investigada, mas sua ocorrência já representa um fato suficientemente grave para exigir uma resposta institucional firme em defesa da segurança da comunidade universitária e da liberdade de manifestação.

O caso da Uenf é particularmente revelador das contradições históricas e políticas de seus próprios estudantes bolsonaristas. A universidade foi criada por Leonel Brizola, teve seu desenho institucional formulado por Darcy Ribeiro e a estrutura arquitetônica do seu principal campus projetada por Oscar Niemeyer. Estamos falando, portanto, de uma instituição cuja própria existência está profundamente associada a personagens históricos situados no campo oposto à tradição ideológica reivindicada pelo bolsonarismo. Se fosse para levar essa contradição às últimas consequências, um bolsonarista raiz deveria fugir da Uenf como o diabo foge da cruz. Entretanto, a universidade não apenas possui professores alinhados ao bolsonarismo, como também abriga estudantes que compartilham dessas posições, o que, por si só, não constitui qualquer problema. O problema começa quando a divergência política deixa de ser expressa por meio de argumentos e passa a assumir a forma de ameaças destinadas a impedir que outros integrantes da comunidade universitária exerçam seus direitos de manifestação.

De toda forma, penso que é muito melhor termos um ambiente politicamente contraditório e agitado no segundo turno do que aquilo que se viu na primeira rodada da eleição presidencial. Pelo menos agora começa a existir alguma possibilidade de discussão pública sobre as propostas dos candidatos e suas consequências concretas para a população brasileira. No caso das universidades públicas, esse debate é ainda mais necessário, pois estamos falando de instituições responsáveis pela parcela predominante da produção científica nacional e pela formação de profissionais e pesquisadores indispensáveis ao funcionamento do país. O futuro dessas instituições não pode ficar subordinado a slogans eleitorais ou a campanhas de desinformação. É preciso discutir financiamento, autonomia universitária, valorização dos servidores, políticas de permanência estudantil e o papel estratégico da ciência e da tecnologia na construção de um projeto nacional.

Entretanto, há um sinal de alerta que merece especial atenção e que foi reforçado pelo incêndio no prédio que abrigava a Diretoria de Inovação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O episódio, que deverá ser investigado com todo o rigor, ocorreu em um contexto de relatos de ameaças atribuídas a grupos bolsonaristas descontentes com manifestações favoráveis à candidatura de Lula naquela instituição. Até que as investigações sejam concluídas, não é possível afirmar que exista uma relação causal entre as ameaças e o incêndio. Entretanto, o ambiente de intimidação relatado justifica preocupação e exige esclarecimentos transparentes. É fundamental que as administrações universitárias, os órgãos de segurança pública e a Justiça Eleitoral atuem para assegurar que o segundo turno transcorra em um ambiente de liberdade e segurança, sem que ameaças sejam utilizadas para afastar estudantes e professores dos espaços de participação política.

Há, finalmente, uma dimensão especialmente promissora nesse despertar estudantil. Uma geração que participa diretamente de mobilizações políticas tem a oportunidade de experimentar algo que nenhuma plataforma digital consegue substituir integralmente: o encontro com pessoas reais, portadoras de opiniões, experiências e interesses distintos. É nas ruas, nas assembleias e nos debates presenciais que se aprende que a política não se resume a compartilhar conteúdos com aqueles que já concordam conosco. A experiência democrática exige ouvir argumentos contrários, defender posições publicamente e reconhecer que o conflito de ideias é legítimo, desde que não seja substituído pela violência. Por isso, espero que a movimentação estudantil não seja apenas um fenômeno passageiro, destinado a desaparecer assim que forem contabilizados os votos do segundo turno.

Se o primeiro turno pareceu um velório da democracia, talvez o segundo esteja oferecendo sinais de que ainda há disposição social para ressuscitar a política como atividade coletiva. Isso, por si só, já seria uma excelente notícia. Afinal, os algoritmos podem influenciar eleições, manipular percepções e até produzir resultados eleitorais surpreendentes, mas seu poder não é absoluto. Quando as pessoas recuperam as ruas e a disposição de conversar olho no olho, a política deixa de ser apenas uma mercadoria comercializada pelas big techs e volta a ser uma atividade exercida diretamente pelos cidadãos. E talvez seja justamente essa possibilidade de devolver a política às pessoas, e não aos algoritmos, que esteja provocando tanto desconforto entre aqueles que preferem uma sociedade silenciosa, intimidada e confinada às telas dos celulares.

Estudo relaciona neonicotinóides à menor concentração de espermatozoides em homens

Por Júlio Zenderoudi para “The New Lede”

Uma maior exposição a inseticidas de uso comum foi associada a uma menor qualidade do esperma em homens, de acordo com um novo estudo que se soma a um crescente conjunto de evidências sobre os riscos dos pesticidas para a saúde reprodutiva. 

O estudo, publicado na revista Frontiers in Endocrinology, analisou amostras de sêmen e urina de 179 homens que frequentavam uma clínica de reprodução assistida em Jinan, na China, e descobriu que níveis mais elevados de neonicotinoides no sêmen estavam associados a uma queda de 27% na concentração de espermatozoides.

O estudo surge num momento em que as taxas de fertilidade globais diminuíram mais de metade em comparação com 50 anos atrás e a contagem global de espermatozoides caiu 62% nas últimas cinco décadas. Os pesquisadores afirmam que provavelmente existem diversos fatores para a queda na contagem de espermatozoides, mas apontam cada vez mais para a exposição a substâncias químicas como os principais responsáveis.

Os neonicotinoides são a classe de inseticidas mais utilizada no mundo e são frequentemente usados ​​em misturas para combater diversas pragas. São comumente aplicados como revestimento em sementes plantadas por agricultores, e resíduos desses produtos químicos podem persistir em alimentos e água .

Embora os órgãos reguladores de segurança geralmente avaliem os pesticidas individualmente, o estudo analisou misturas específicas de múltiplos inseticidas presentes no sêmen humano. Os pesquisadores avaliaram uma mistura de inseticidas neonicotinoides primários (incluindo imidaclopride, acetamipride, clotianidina e tiametoxam) e seus produtos de degradação.

Ao comparar homens no quantil de maior exposição (os 25% superiores) com aqueles no quantil de menor exposição, os pesquisadores descobriram uma queda de 27% na concentração de espermatozoides. O desnitro-imidaclopride, um produto específico da degradação do imidaclopride, mostrou ser o ingrediente mais prejudicial na mistura, sendo responsável por mais de 40% dessa queda.

Embora os testes de segurança padrão geralmente se baseiem na urina, os pesquisadores descobriram que as amostras de urina não fornecem um quadro completo, já que os produtos da decomposição de pesticidas foram encontrados em níveis mais elevados no sêmen do que na urina.

Os autores do estudo concluíram que os métodos de medição modernos são insuficientes e que o monitoramento padrão da urina não capta totalmente a extensão da exposição, defendendo a necessidade de pesquisas de longo prazo para fundamentar os limites regulatórios para os neonicotinoides. 

“Este estudo adiciona dados em humanos a um crescente conjunto de evidências científicas de que os inseticidas neonicotinoides podem afetar negativamente a saúde reprodutiva masculina”, disse John Meeker, professor de ciências da saúde ambiental na Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan. Ele acrescentou que estudos adicionais devem ser conduzidos para suprir algumas das limitações deste estudo.

Uma das limitações, segundo Meeker, foi que as amostras de urina e sêmen foram coletadas simultaneamente, mas representam diferentes períodos de exposição. Por um lado, a urina reflete a exposição recente, enquanto as alterações na qualidade do sêmen podem refletir a exposição cumulativa ao longo de semanas ou meses. 

“Um estudo que consiga coletar múltiplas amostras de urina antes da coleta da amostra de sêmen pode estar mais bem equipado para detectar associações devido aos desafios de medir concentrações muito baixas no sêmen”, disse Meeker.

A diminuição da contagem de espermatozoides preocupa os pesquisadores porque, além de afetar a fertilidade, também pode ser um indicador importante da saúde geral. Um estudo de 2016 descobriu que homens diagnosticados com infertilidade masculina apresentavam um risco significativamente maior de problemas de saúde, incluindo doenças cardiovasculares e metabólicas, nos anos seguintes à avaliação de infertilidade. 

Meeker afirmou que, embora uma queda de 27% na contagem de espermatozoides possa não afetar a fertilidade de um indivíduo saudável, a exposição generalizada a neonicotinoides, que reduz a contagem de espermatozoides em uma grande população, “provavelmente resultaria em muitas pessoas com baixa ou limítrofe qualidade do sêmen passando para a faixa de subfertilidade ou possivelmente até mesmo infertilidade, especialmente considerando o que sabemos sobre outros agentes tóxicos reprodutivos aos quais as pessoas também são comumente expostas simultaneamente”.

Estudos anteriores associaram a exposição a substâncias químicas à diminuição da contagem de espermatozoides. 

“Essa é uma queda substancial”, disse a epidemiologista Shanna Swan sobre a queda de 27% na concentração de espermatozoides. Swan é professora adjunta de obstetrícia e ginecologia na Universidade da Califórnia, em São Francisco.

Em 2017, ela publicou um estudo marcante que constatou uma redução de 52% na concentração de espermatozoides em homens de países ocidentais ao longo de quatro décadas. Sua pesquisa apontou substâncias químicas sintéticas como ftalatos, PFAS (também conhecidas como “químicos eternos”) e pesticidas agrícolas como os principais culpados.

Swan afirmou que, embora o estudo atual tenha analisado a qualidade do sêmen em vez da fertilidade como desfecho, ela acredita que ele levanta questões importantes, dada “a extensa exposição de humanos (e animais) a esses pesticidas”, acrescentando que os efeitos na reprodução feminina e a exposição dos casais devem ser examinados mais a fundo ao se considerar a infertilidade.

Autora

Julie Zenderoudi é estagiária editorial do The New Lede. Ela é jornalista científica e reside no Brooklyn, além de ser mestranda no Programa de Reportagem Científica, de Saúde e Ambiental (SHERP) da Universidade de Nova York (NYU). Anteriormente, trabalhou para a emissora pública canadense CBC News, produzindo segmentos de entrevistas para transmissões nacionais e vídeos explicativos. Seus trabalhos foram publicados em veículos como Slate, Offrange, Prism, The Brooklyn Paper e outros.


FONTE:  THE NEW LEDE

Epistemofobia: quando a preguiça de pensar posa de amor ao povo

Acusar a esquerda de demofobia exige pouco esforço quando se dispensa a obrigação de demonstrar o que se afirma

Há uma modalidade de comentário político que resolve a complexidade brasileira com uma coleção de frases pinçadas das redes sociais e uma conclusão previamente encomendada: a esquerda despreza o povo e, portanto, merece perder eleições. O expediente oferece ao comentarista duas vantagens: dispensa a investigação e permite posar de defensor dos trabalhadores sem examinar as condições em que trabalham, vivem e formam suas escolhas políticas. Basta reunir expressões desagradáveis, atribuí-las indistintamente a milhões de pessoas e anunciar que o resultado eleitoral está explicado. A conclusão chega de limousine; as evidências ficaram esperando o ônibus.

Insultar eleitores é um erro político, e ninguém precisa defender esse comportamento para reconhecer a indigência da explicação. Entre demonstrar que determinados militantes adotam uma linguagem arrogante e provar que essa linguagem produziu um resultado eleitoral existe uma distância que nenhuma palavra de origem grega consegue encurtar. Seria necessário investigar quem recebeu essas mensagens, como as interpretou, qual importância lhes atribuiu e como elas se combinaram com outras experiências e influências. Sem isso, temos uma hipótese apresentada como sentença. A expressão “demofobia” pode impressionar, mas o verniz conceitual não transforma uma impressão pessoal em conhecimento.

É precisamente aí que cabe falar em epistemofobia, entendida aqui como metáfora da aversão ao conhecimento que perturba certezas confortáveis. Quem pretende explicar o comportamento popular, mas foge das perguntas necessárias para compreendê-lo, oferece uma demonstração bastante eloquente desse problema. O povo aparece como personagem de uma história escrita de antemão: vota para dar uma lição na esquerda, confirma a sabedoria do comentarista e sai de cena antes que alguém lhe pergunte sobre salário, jornada 6 x 1, endividamento, serviços públicos ou expectativas de futuro. Curiosa homenagem à autonomia popular essa que concede ao povo apenas a fala conveniente ao roteiro.

O truque fica ainda mais evidente quando a diversidade dos trabalhadores é comprimida em uma única reação de ressentimento. Um entregador, uma trabalhadora doméstica, um pequeno comerciante e um aposentado podem compartilhar dificuldades e fazer escolhas distintas, por razões igualmente distintas. Compreender essas diferenças exige trabalho. Transformá-los em um bloco que simplesmente devolveu uma ofensa exige apenas disposição para generalizar. Quem tanto denuncia o paternalismo da esquerda deveria perceber o paternalismo embutido nessa representação de eleitores cuja ação política se resumiria a reagir ao desaforo alheio. O povo merece mais do que ser convocado como testemunha imaginária da superioridade de quem escreve.

Também é perfeitamente democrático discutir as consequências de uma escolha eleitoral. Respeitar o direito ao voto não obriga ninguém a suspender o juízo sobre projetos políticos, nem transforma a vitória nas urnas em certificado de justiça social. Uma proposta pode receber apoio popular e continuar merecendo crítica pelos efeitos que poderá produzir sobre os próprios trabalhadores. Confundir essa crítica com desprezo pelo eleitor serve para interditar o debate justamente onde ele deveria começar: nos interesses em disputa e nas consequências materiais das políticas propostas. A urna decide quem vence; não concede imunidade ao exame crítico.

A epistemofobia pode cumprir, assim, uma função política bastante conveniente: esconder, sob uma suposta defesa do povo, uma adesão tão arraigada a propostas que aprofundam sua alienação e seu empobrecimento que chega a parecer inata. O trabalhador é celebrado quando seu voto pode ser usado contra a esquerda, mas suas condições de vida desaparecem quando chega a hora de discutir quem pagará a conta das políticas defendidas. A preocupação com o povo termina precisamente onde começa a defesa de seus direitos. E como é fácil romantizar as escolhas feitas sob a pressão da precariedade quando se pode contemplá-las de uma posição confortável, com as coisas entregues de bandeja para usufruto diletante. Para quem desfruta dessa comodidade, a regressão social pode ser apenas assunto de conversa; para a classe trabalhadora, significa uma vida ainda mais difícil. Esse amor retórico ao povo sai barato: quem o proclama não se oferece para pagar a conta.

A esquerda tem erros, contradições e derrotas que precisam ser enfrentados com seriedade. Merece críticas melhores do que uma psicologia de botequim enfeitada com vocabulário grego. Quem pretende lhe cobrar autocrítica deve começar demonstrando capacidade de submeter as próprias explicações ao confronto com evidências e de explicitar os interesses das propostas que defende. Do contrário, a denúncia de demofobia acaba funcionando como um biombo para a epistemofobia: fala-se muito em respeito ao povo para evitar o trabalho de conhecê-lo e o desconforto de discutir o que se pretende fazer com seus direitos. E a ignorância, promovida a intérprete da vontade popular, ainda espera aplausos pela profundidade da análise que tem a fundura uma poça de água esquecida em alguma rua localizada na beira do Rio Paraíba do Sul.

Mais poços, mais royalties e a velha promessa de desenvolvimento

A expansão petrolífera avança em plena crise climática, mas a experiência campista mostra que royalties, concentração de riqueza e desigualdade podem caminhar juntos

Há algo profundamente contraditório — para não dizer insustentável — em responder ao aprofundamento da crise climática procurando novos lugares para extrair petróleo e gás. É justamente para essa contradição que chama a atenção a Campanha Antipetroleira Nem Um Poço A Mais!, que divulgou uma carta de repúdio contra a expansão da exploração de combustíveis fósseis no Brasil e contra os novos ciclos de leilões promovidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Manifesto aqui minha concordância com a posição expressa pelo movimento, sobretudo porque a carta não se limita a discutir quantos blocos serão oferecidos ou quais empresas poderão adquiri-los, mas coloca uma questão anterior e muito mais importante: faz sentido continuar expandindo as fronteiras de exploração de petróleo e gás quando os efeitos da crise climática se tornam cada vez mais evidentes, intensos e socialmente desiguais? Minha resposta é não, especialmente porque já não estamos discutindo um problema climático localizado em algum futuro distante. O aumento das temperaturas, a intensificação de eventos extremos, as secas, as chuvas excepcionais e as inundações mostram que a adaptação climática deixou de ser uma agenda para as próximas décadas e deveria estar no centro das decisões econômicas e territoriais tomadas agora. 

É precisamente nesse momento que o Brasil continua abrindo novas possibilidades de expansão da indústria de petróleo e gás. A carta denuncia esse movimento e chama atenção para o fato de que novas fronteiras exploratórias estão sendo empurradas para territórios já vulnerabilizados, enquanto essa expansão é apresentada sob o conveniente guarda-chuva discursivo da chamada “transição energética”. Há aqui uma pergunta incômoda que precisa ser feita: que transição é essa em que continuamos ampliando justamente a infraestrutura econômica que deveria progressivamente perder importância? O problema, além disso, não é apenas climático. Um mérito importante da carta da Campanha Antipetroleira Nem Um Poço A Mais! é lembrar que a expansão petroleira possui também uma geografia social, pois os benefícios econômicos e os custos ambientais não são distribuídos igualmente. Comunidades pesqueiras, quilombolas, ribeirinhas e outras populações tradicionais frequentemente aparecem na linha de frente dos impactos provocados pela instalação e expansão desses empreendimentos.

É nesse ponto que a carta toca em uma questão que deveria interessar particularmente a quem vive em Campos dos Goytacazes. O documento cita Campos e Macaé como exemplos dos limites de um modelo baseado na dependência das rendas petrolíferas e, no caso campista, essa questão merece uma reflexão ainda mais profunda. Poucas cidades brasileiras receberam durante tanto tempo volumes tão expressivos de royalties e participações especiais e, ainda assim, convivem com pobreza, desigualdade social e uma parcela numericamente expressiva da população dependendo de políticas públicas de transferência de renda e proteção social para garantir condições elementares de reprodução da vida. Dados divulgados pelo governo federal para 2024 registravam 58,8 mil famílias campistas recebendo Bolsa Família, além de 28,3 mil famílias beneficiárias do Auxílio Gás e 93,7 mil benefícios previdenciários e do BPC. Evidentemente, essas categorias não podem ser simplesmente somadas, pois existe sobreposição entre seus beneficiários, mas os números ajudam a dimensionar a importância das políticas sociais federais para uma parcela considerável da população do município.

A esse quadro somam-se as próprias políticas estaduais e municipais de assistência e transferência de renda, algumas delas financiadas direta ou indiretamente pelos recursos extraordinários provenientes do petróleo. Isso não diminui a importância dessas políticas, que são indispensáveis diante das condições concretas de pobreza e vulnerabilidade existentes no município. A questão que precisa ser colocada é exatamente a inversa: como explicar que décadas de apropriação de uma renda extraordinária proveniente do petróleo não tenham produzido uma transformação estrutural capaz de reduzir substancialmente essas desigualdades? Se uma parcela tão significativa da população continua dependendo das diferentes redes de proteção social para garantir condições básicas de sobrevivência, então a quantidade de dinheiro que circulou pelos cofres públicos ao longo das últimas décadas não pode ser confundida automaticamente com desenvolvimento social.

A outra face dessa economia pode ser percebida sem consultar qualquer planilha orçamentária, pois está inscrita na própria paisagem urbana de Campos dos Goytacazes. Enquanto uma parcela expressiva da população depende do Bolsa Família, do BPC, de benefícios previdenciários, do Cartão Goitacá, do aluguel social e de outros mecanismos de proteção social, tornam-se cada vez mais visíveis determinadas formas de consumo e ocupação do espaço associadas aos estratos de renda mais elevada: condomínios fechados, edifícios residenciais de alto padrão, veículos de luxo, grandes empreendimentos comerciais e uma diferenciação socioespacial cada vez mais evidente. Evidentemente, não se pode afirmar que cada apartamento de luxo, cada condomínio ou cada automóvel importado seja produto direto da renda petrolífera, mas seria igualmente equivocado analisar essas transformações abstraindo o fato de que a economia regional foi profundamente atravessada, durante décadas, pelos fluxos de riqueza associados ao petróleo.

É justamente aí que a paisagem urbana revela uma das grandes contradições campistas. A riqueza do petróleo existe e circula, mas não se distribui uniformemente pelo território nem entre as classes sociais. De um lado, temos espaços urbanos nos quais a acumulação privada de riqueza se materializa de maneira cada vez mais ostensiva; de outro, permanece uma cidade popular cuja reprodução cotidiana continua fortemente amparada por políticas públicas de transferência de renda, assistência e previdência. Essa coexistência talvez seja mais reveladora do que qualquer discurso sobre a suposta prosperidade produzida pelos royalties, pois Campos não é simplesmente uma cidade que recebeu muito dinheiro do petróleo, mas uma cidade na qual a abundância da renda petrolífera conviveu com a permanência de profundas desigualdades sociais e espaciais. A questão central, portanto, não é apenas saber quanto petróleo foi produzido ou quantos bilhões entraram nos cofres públicos, mas perguntar quem efetivamente se apropriou dos benefícios dessa riqueza, quais grupos sociais foram beneficiados por sua circulação e que tipo de cidade foi produzido a partir dela.

Por isso, a experiência campista deveria servir como advertência quando novos leilões são apresentados como sinônimo automático de desenvolvimento. O petróleo pode produzir receitas públicas gigantescas e favorecer processos privados de acumulação sem necessariamente produzir uma sociedade menos desigual. A própria carta da Campanha Antipetroleira Nem Um Poço A Mais! chama atenção para essa contradição ao mencionar Campos e Macaé entre os exemplos dos limites da petrodependência. Mais do que uma discussão abstrata sobre matriz energética, portanto, o debate proposto pelo movimento social nos obriga a perguntar quais territórios são sacrificados, quem se apropria da riqueza produzida e o que permanece para a maioria da população quando os ciclos de abundância diminuem.

Existe ainda uma dimensão política mais profunda. Cada nova área aberta à exploração, cada novo investimento realizado e cada nova infraestrutura construída produzem interesses econômicos que posteriormente pressionarão pela continuidade de sua utilização. Não se trata apenas do petróleo que poderá ser extraído amanhã, mas de aprofundar hoje uma trajetória de dependência dos combustíveis fósseis que poderá dificultar ainda mais a transição energética no futuro. É justamente por isso que considero importante reconhecer o trabalho político realizado pela Campanha Antipetroleira Nem Um Poço A Mais!. Movimentos sociais e comunidades atingidas cumprem um papel indispensável quando obrigam a sociedade a enxergar aquilo que a linguagem burocrática dos leilões, blocos exploratórios, concessões e investimentos costuma esconder: atrás de cada decisão sobre energia existem territórios, ecossistemas, formas de trabalho, comunidades e interesses econômicos concretos.

Pode-se discutir como realizar a transição energética, qual deve ser sua velocidade e, principalmente, como impedir que seus custos sejam transferidos para os trabalhadores e para as populações mais pobres. O que se torna cada vez mais difícil de sustentar é a ideia de que poderemos enfrentar seriamente a crise climática enquanto continuamos expandindo indefinidamente a fronteira petroleira. O Brasil possui condições extraordinárias para construir outra matriz energética e, sobretudo, outra política de desenvolvimento, mas uma transição energética digna desse nome não pode significar simplesmente acrescentar fontes renováveis enquanto petróleo e gás continuam avançando sobre novas áreas. Adicionar energia renovável sem reduzir a dependência dos combustíveis fósseis não é transição; é expansão da oferta energética com maquiagem verde.

Nesse sentido, a advertência feita pela Campanha Antipetroleira Nem Um Poço A Mais! merece ser ouvida. Em um planeta que aquece rapidamente, continuar procurando novos lugares para perfurar significa prolongar um modelo energético que está no centro do problema que afirmamos querer resolver. E há uma ironia especialmente amarga nisso para quem vive em Campos dos Goytacazes: depois de décadas de royalties e de riqueza petrolífera circulando pela economia local, continuamos convivendo com uma cidade profundamente desigual, na qual a concentração da riqueza se torna cada vez mais visível na paisagem enquanto uma parcela expressiva da população depende das políticas sociais para garantir sua sobrevivência cotidiana. Se essa experiência não for suficiente para colocar em dúvida a velha promessa de que mais petróleo produzirá automaticamente mais desenvolvimento, será difícil imaginar que quantidade adicional de evidências ainda será necessária.

A conta climática e social dessa escolha não desaparecerá. Apenas continuará sendo cobrada — e, como quase sempre ocorre, chegará primeiro e mais pesada para aqueles que menos se beneficiaram da riqueza produzida pelo petróleo.