Anthony Garotinho: quando a esperteza política encontra o caminho do Irajá

Depois de chegar ao Palácio Guanabara e conquistar 15 milhões de votos na disputa presidencial, o ex-governador parece ter encontrado seu limite não na força dos adversários, mas na incapacidade de avaliar a própria conjuntura

Como moro em Campos dos Goytacazes desde janeiro de 1998, não tenho como ignorar a trajetória política de um dos seus filhos mais famosos e controversos: Anthony Garotinho. Além disso, como professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) e diretor da nossa associação de docentes, tive a oportunidade de estar pessoalmente com Garotinho em duas ocasiões, ambas para realizar negociações políticas. Desses contatos e da observação que venho fazendo de sua trajetória ao longo dos anos, formei uma opinião que pode parecer surpreendente para muitos dos seus opositores, especialmente aqueles situados à esquerda do espectro político. É que considero Garotinho uma pessoa inteligente, criativa e particularmente hábil na comunicação social. Em outras palavras, Anthony Garotinho não tem nada de bobo. Muito pelo contrário.

Uma demonstração dessa inteligência e habilidade política foi sua eleição para o governo do Rio de Janeiro, em 1998, quando tinha apenas 38 anos e conseguiu sair de uma cidade do interior fluminense para ocupar o Palácio Guanabara. Além disso, antes de concluir um mandato relativamente exitoso, Garotinho decidiu abandonar o cargo para disputar a Presidência da República, eleição da qual saiu com expressivos 15 milhões de votos. Posteriormente, foi eleito deputado federal em 2010, além de ter ocupado diferentes cargos públicos, incluindo a espinhosa Secretaria de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro.

Toda essa trajetória deveria ter consolidado Garotinho como uma liderança política de primeira linha no cenário nacional, mas não foi o que aconteceu. Envolvido em uma sucessão de controvérsias e casos mal explicados, tanto em Campos dos Goytacazes quanto no governo estadual, Garotinho acabou seguindo um caminho de progressiva perda de protagonismo político. Se não desapareceu completamente do cenário, isso se deve, em boa medida, à capacidade de sua esposa, Rosangela (Rosinha) Matheus, e de dois de seus filhos, Clarissa e Wladimir, de aproveitar o capital político acumulado por Anthony para manter viva e influente a franquia familiar.

Os problemas políticos e judiciais de Garotinho, que ele atribui à perseguição de seus numerosos inimigos políticos — cuja existência não ignoro —, também acompanharam uma transformação ideológica que o levou para muito longe de suas posições originais. Afinal, Garotinho transitou de uma trajetória vinculada à esquerda petista para posições cada vez mais próximas da extrema-direita bolsonarista. Ele procura justificar essa metamorfose com o argumento de que não se deve aprisionar as pessoas em rótulos rígidos de esquerda e direita. Entretanto, por mais que essa justificativa possa parecer conveniente, ela não altera o fato de que suas posições políticas passaram a convergir de maneira inequívoca com o bolsonarismo. Essa aproximação se manifesta não apenas em sua relação com a família Bolsonaro, mas também na trajetória de seu filho Wladimir, que acaba de ser eleito pelo PL e mantém estreita proximidade política com Flávio Bolsonaro.

Entretanto, toda essa trajetória parece ter chegado agora a um ponto de não retorno. Depois de se candidatar ao governo do Rio de Janeiro e disputar uma eleição marcada pela judicialização de sua candidatura, Garotinho realizou um movimento político surpreendentemente rápido que, na prática, favoreceu a vitória do candidato bolsonarista Douglas Ruas. Com isso, acabou jogando na lata de lixo da história o capital político representado pelos mais de 274 mil votos que recebeu nas urnas. Independentemente das justificativas que venha a apresentar, minha avaliação é que Garotinho pode ter acabado de assinar a sentença de morte de sua própria carreira política.

O mais surpreendente é que essa decisão parece ter sido motivada por um açodamento absolutamente incompatível com a experiência acumulada por alguém que já governou o Rio de Janeiro e disputou a Presidência da República. Afinal, Garotinho poderia simplesmente ter aguardado uma decisão definitiva do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cujo desfecho, ao que tudo indica, tende a favorecer Douglas Ruas. Ao antecipar seus movimentos, acabou demonstrando uma leitura particularmente pobre da conjuntura política e, sobretudo, uma incapacidade de compreender o peso de suas próprias decisões. Para alguém cuja principal virtude sempre foi a habilidade de identificar oportunidades e explorar contradições políticas, trata-se de um erro tão elementar quanto potencialmente fatal.

Minha impressão é que Anthony Garotinho acaba de atravessar uma fronteira da qual dificilmente conseguirá retornar. E o mais irônico é que não terá sido necessariamente derrotado por seus numerosos adversários, mas por uma decisão que ele próprio tomou. Um desfecho melancólico para uma trajetória que, independentemente das críticas que merece, já esteve muito próxima de alcançar o primeiro escalão da política brasileira. É só esperar para ver.

Quem diria: Anthony Garotinho, tal como Greta Garbo, acabou no Irajá.

As ruas despertaram, os estudantes entraram em cena e o bolsonarismo já arreganha os dentes

Enquanto mobilizações estudantis desafiam o domínio dos algoritmos sobre a política, ameaças contra universidades revelam a dificuldade de setores bolsonaristas em conviver com a democracia

A repentina aparição de milhares de estudantes nas ruas brasileiras em defesa da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve estar surpreendendo os dois lados da disputa presidencial. Afinal, parece que finalmente temos uma campanha eleitoral que ganhou as vias públicas e começou a escapar dos grotões das redes sociais, onde o debate político tem sido crescentemente condicionado pelos algoritmos e pelos interesses econômicos das chamadas big techs. O que estamos assistindo pode representar uma inflexão importante no processo eleitoral, na medida em que a política deixa de ser exercida exclusivamente por meio de telas e mensagens eletrônicas e volta a ocupar um dos seus espaços históricos mais importantes: as ruas, as praças e os ambientes de convivência coletiva.

Duas coisas me chamam particularmente a atenção nesse processo. A primeira é uma pergunta que vale vários milhões de dólares: por que raios isso só aconteceu agora, e não ao longo do primeiro turno, que mais pareceu um velório da democracia brasileira do que uma disputa entre dois projetos aparentemente antagônicos de gestão do Estado brasileiro? A segunda se refere à rápida reação de setores do bolsonarismo, que já recorreram à manjada tática de ameaçar para constranger, inclusive mediante referências à violência física e à utilização de explosivos. Essa reação é especialmente preocupante porque sugere que determinados grupos continuam considerando a intimidação como um instrumento legítimo de intervenção política, especialmente quando percebem que estão perdendo o monopólio da mobilização e da ocupação dos espaços públicos.

A propósito dessa retomada das ruas, chamou-me a atenção uma coluna publicada por Josias de Souza no UOL, em 7 de outubro, sob o título “Na era do algoritmo, Lula ainda aposta em adesivos e panfletos”. O jornalista questiona a estratégia de comunicação da campanha de Lula, contrapondo a utilização de materiais tradicionais de propaganda eleitoral à crescente importância das plataformas digitais. Reconheço que os algoritmos possuem uma força extraordinária na formação das percepções e preferências eleitorais, mas discordo da ideia de que a eficácia de uma campanha possa ser medida prioritariamente pela quantidade de dinheiro despejada nos cofres das big techs. Os algoritmos se tornam particularmente decisivos quando a política abandona as ruas, as praças, os locais de trabalho e as universidades, deixando que a formação da opinião pública seja crescentemente monopolizada por empresas privadas cujos interesses nem sempre coincidem com os da democracia.

Aliás, talvez esteja justamente aí uma das lições mais importantes dessas mobilizações estudantis. Os algoritmos podem ampliar o alcance de mensagens, mas não substituem a experiência política construída no contato direto entre as pessoas. Um panfleto entregue durante uma conversa, uma assembleia estudantil ou uma manifestação de rua podem produzir algo que milhões de visualizações não necessariamente conseguem: o estabelecimento de vínculos sociais e políticos que não dependem da mediação de uma plataforma digital. Não se trata de defender o abandono das redes sociais, mas de compreender que a comunicação digital deve servir como instrumento de ampliação da mobilização popular, e não como substituta da organização coletiva. Talvez o verdadeiro atraso político não esteja em distribuir panfletos na era dos algoritmos, mas em imaginar que a democracia pode ser exercida exclusivamente por meio de curtidas, compartilhamentos e conteúdos patrocinados.

Mesmo na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), que não possui uma cultura estudantil marcada por disputas políticas particularmente virulentas, já tivemos relatos de ameaças de bombas e de morte atribuídas a um grupo que se identificou como “Campistas por Bolsonaro” (o campista aqui se relaciona ao fato de que o campus principal da Uenf está localizado na cidade de Campos dos Goytacazes). Como professor da Uenf há quase 30 anos, esse episódio me chamou particularmente a atenção, pois não imaginava que algo dessa gravidade pudesse ocorrer logo na primeira semana do segundo turno presidencial. Evidentemente, a autoria dessas ameaças precisa ser investigada, mas sua ocorrência já representa um fato suficientemente grave para exigir uma resposta institucional firme em defesa da segurança da comunidade universitária e da liberdade de manifestação.

O caso da Uenf é particularmente revelador das contradições históricas e políticas de seus próprios estudantes bolsonaristas. A universidade foi criada por Leonel Brizola, teve seu desenho institucional formulado por Darcy Ribeiro e a estrutura arquitetônica do seu principal campus projetada por Oscar Niemeyer. Estamos falando, portanto, de uma instituição cuja própria existência está profundamente associada a personagens históricos situados no campo oposto à tradição ideológica reivindicada pelo bolsonarismo. Se fosse para levar essa contradição às últimas consequências, um bolsonarista raiz deveria fugir da Uenf como o diabo foge da cruz. Entretanto, a universidade não apenas possui professores alinhados ao bolsonarismo, como também abriga estudantes que compartilham dessas posições, o que, por si só, não constitui qualquer problema. O problema começa quando a divergência política deixa de ser expressa por meio de argumentos e passa a assumir a forma de ameaças destinadas a impedir que outros integrantes da comunidade universitária exerçam seus direitos de manifestação.

De toda forma, penso que é muito melhor termos um ambiente politicamente contraditório e agitado no segundo turno do que aquilo que se viu na primeira rodada da eleição presidencial. Pelo menos agora começa a existir alguma possibilidade de discussão pública sobre as propostas dos candidatos e suas consequências concretas para a população brasileira. No caso das universidades públicas, esse debate é ainda mais necessário, pois estamos falando de instituições responsáveis pela parcela predominante da produção científica nacional e pela formação de profissionais e pesquisadores indispensáveis ao funcionamento do país. O futuro dessas instituições não pode ficar subordinado a slogans eleitorais ou a campanhas de desinformação. É preciso discutir financiamento, autonomia universitária, valorização dos servidores, políticas de permanência estudantil e o papel estratégico da ciência e da tecnologia na construção de um projeto nacional.

Entretanto, há um sinal de alerta que merece especial atenção e que foi reforçado pelo incêndio no prédio que abrigava a Diretoria de Inovação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O episódio, que deverá ser investigado com todo o rigor, ocorreu em um contexto de relatos de ameaças atribuídas a grupos bolsonaristas descontentes com manifestações favoráveis à candidatura de Lula naquela instituição. Até que as investigações sejam concluídas, não é possível afirmar que exista uma relação causal entre as ameaças e o incêndio. Entretanto, o ambiente de intimidação relatado justifica preocupação e exige esclarecimentos transparentes. É fundamental que as administrações universitárias, os órgãos de segurança pública e a Justiça Eleitoral atuem para assegurar que o segundo turno transcorra em um ambiente de liberdade e segurança, sem que ameaças sejam utilizadas para afastar estudantes e professores dos espaços de participação política.

Há, finalmente, uma dimensão especialmente promissora nesse despertar estudantil. Uma geração que participa diretamente de mobilizações políticas tem a oportunidade de experimentar algo que nenhuma plataforma digital consegue substituir integralmente: o encontro com pessoas reais, portadoras de opiniões, experiências e interesses distintos. É nas ruas, nas assembleias e nos debates presenciais que se aprende que a política não se resume a compartilhar conteúdos com aqueles que já concordam conosco. A experiência democrática exige ouvir argumentos contrários, defender posições publicamente e reconhecer que o conflito de ideias é legítimo, desde que não seja substituído pela violência. Por isso, espero que a movimentação estudantil não seja apenas um fenômeno passageiro, destinado a desaparecer assim que forem contabilizados os votos do segundo turno.

Se o primeiro turno pareceu um velório da democracia, talvez o segundo esteja oferecendo sinais de que ainda há disposição social para ressuscitar a política como atividade coletiva. Isso, por si só, já seria uma excelente notícia. Afinal, os algoritmos podem influenciar eleições, manipular percepções e até produzir resultados eleitorais surpreendentes, mas seu poder não é absoluto. Quando as pessoas recuperam as ruas e a disposição de conversar olho no olho, a política deixa de ser apenas uma mercadoria comercializada pelas big techs e volta a ser uma atividade exercida diretamente pelos cidadãos. E talvez seja justamente essa possibilidade de devolver a política às pessoas, e não aos algoritmos, que esteja provocando tanto desconforto entre aqueles que preferem uma sociedade silenciosa, intimidada e confinada às telas dos celulares.

Estudo relaciona neonicotinóides à menor concentração de espermatozoides em homens

Por Júlio Zenderoudi para “The New Lede”

Uma maior exposição a inseticidas de uso comum foi associada a uma menor qualidade do esperma em homens, de acordo com um novo estudo que se soma a um crescente conjunto de evidências sobre os riscos dos pesticidas para a saúde reprodutiva. 

O estudo, publicado na revista Frontiers in Endocrinology, analisou amostras de sêmen e urina de 179 homens que frequentavam uma clínica de reprodução assistida em Jinan, na China, e descobriu que níveis mais elevados de neonicotinoides no sêmen estavam associados a uma queda de 27% na concentração de espermatozoides.

O estudo surge num momento em que as taxas de fertilidade globais diminuíram mais de metade em comparação com 50 anos atrás e a contagem global de espermatozoides caiu 62% nas últimas cinco décadas. Os pesquisadores afirmam que provavelmente existem diversos fatores para a queda na contagem de espermatozoides, mas apontam cada vez mais para a exposição a substâncias químicas como os principais responsáveis.

Os neonicotinoides são a classe de inseticidas mais utilizada no mundo e são frequentemente usados ​​em misturas para combater diversas pragas. São comumente aplicados como revestimento em sementes plantadas por agricultores, e resíduos desses produtos químicos podem persistir em alimentos e água .

Embora os órgãos reguladores de segurança geralmente avaliem os pesticidas individualmente, o estudo analisou misturas específicas de múltiplos inseticidas presentes no sêmen humano. Os pesquisadores avaliaram uma mistura de inseticidas neonicotinoides primários (incluindo imidaclopride, acetamipride, clotianidina e tiametoxam) e seus produtos de degradação.

Ao comparar homens no quantil de maior exposição (os 25% superiores) com aqueles no quantil de menor exposição, os pesquisadores descobriram uma queda de 27% na concentração de espermatozoides. O desnitro-imidaclopride, um produto específico da degradação do imidaclopride, mostrou ser o ingrediente mais prejudicial na mistura, sendo responsável por mais de 40% dessa queda.

Embora os testes de segurança padrão geralmente se baseiem na urina, os pesquisadores descobriram que as amostras de urina não fornecem um quadro completo, já que os produtos da decomposição de pesticidas foram encontrados em níveis mais elevados no sêmen do que na urina.

Os autores do estudo concluíram que os métodos de medição modernos são insuficientes e que o monitoramento padrão da urina não capta totalmente a extensão da exposição, defendendo a necessidade de pesquisas de longo prazo para fundamentar os limites regulatórios para os neonicotinoides. 

“Este estudo adiciona dados em humanos a um crescente conjunto de evidências científicas de que os inseticidas neonicotinoides podem afetar negativamente a saúde reprodutiva masculina”, disse John Meeker, professor de ciências da saúde ambiental na Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan. Ele acrescentou que estudos adicionais devem ser conduzidos para suprir algumas das limitações deste estudo.

Uma das limitações, segundo Meeker, foi que as amostras de urina e sêmen foram coletadas simultaneamente, mas representam diferentes períodos de exposição. Por um lado, a urina reflete a exposição recente, enquanto as alterações na qualidade do sêmen podem refletir a exposição cumulativa ao longo de semanas ou meses. 

“Um estudo que consiga coletar múltiplas amostras de urina antes da coleta da amostra de sêmen pode estar mais bem equipado para detectar associações devido aos desafios de medir concentrações muito baixas no sêmen”, disse Meeker.

A diminuição da contagem de espermatozoides preocupa os pesquisadores porque, além de afetar a fertilidade, também pode ser um indicador importante da saúde geral. Um estudo de 2016 descobriu que homens diagnosticados com infertilidade masculina apresentavam um risco significativamente maior de problemas de saúde, incluindo doenças cardiovasculares e metabólicas, nos anos seguintes à avaliação de infertilidade. 

Meeker afirmou que, embora uma queda de 27% na contagem de espermatozoides possa não afetar a fertilidade de um indivíduo saudável, a exposição generalizada a neonicotinoides, que reduz a contagem de espermatozoides em uma grande população, “provavelmente resultaria em muitas pessoas com baixa ou limítrofe qualidade do sêmen passando para a faixa de subfertilidade ou possivelmente até mesmo infertilidade, especialmente considerando o que sabemos sobre outros agentes tóxicos reprodutivos aos quais as pessoas também são comumente expostas simultaneamente”.

Estudos anteriores associaram a exposição a substâncias químicas à diminuição da contagem de espermatozoides. 

“Essa é uma queda substancial”, disse a epidemiologista Shanna Swan sobre a queda de 27% na concentração de espermatozoides. Swan é professora adjunta de obstetrícia e ginecologia na Universidade da Califórnia, em São Francisco.

Em 2017, ela publicou um estudo marcante que constatou uma redução de 52% na concentração de espermatozoides em homens de países ocidentais ao longo de quatro décadas. Sua pesquisa apontou substâncias químicas sintéticas como ftalatos, PFAS (também conhecidas como “químicos eternos”) e pesticidas agrícolas como os principais culpados.

Swan afirmou que, embora o estudo atual tenha analisado a qualidade do sêmen em vez da fertilidade como desfecho, ela acredita que ele levanta questões importantes, dada “a extensa exposição de humanos (e animais) a esses pesticidas”, acrescentando que os efeitos na reprodução feminina e a exposição dos casais devem ser examinados mais a fundo ao se considerar a infertilidade.

Autora

Julie Zenderoudi é estagiária editorial do The New Lede. Ela é jornalista científica e reside no Brooklyn, além de ser mestranda no Programa de Reportagem Científica, de Saúde e Ambiental (SHERP) da Universidade de Nova York (NYU). Anteriormente, trabalhou para a emissora pública canadense CBC News, produzindo segmentos de entrevistas para transmissões nacionais e vídeos explicativos. Seus trabalhos foram publicados em veículos como Slate, Offrange, Prism, The Brooklyn Paper e outros.


FONTE:  THE NEW LEDE

Epistemofobia: quando a preguiça de pensar posa de amor ao povo

Acusar a esquerda de demofobia exige pouco esforço quando se dispensa a obrigação de demonstrar o que se afirma

Há uma modalidade de comentário político que resolve a complexidade brasileira com uma coleção de frases pinçadas das redes sociais e uma conclusão previamente encomendada: a esquerda despreza o povo e, portanto, merece perder eleições. O expediente oferece ao comentarista duas vantagens: dispensa a investigação e permite posar de defensor dos trabalhadores sem examinar as condições em que trabalham, vivem e formam suas escolhas políticas. Basta reunir expressões desagradáveis, atribuí-las indistintamente a milhões de pessoas e anunciar que o resultado eleitoral está explicado. A conclusão chega de limousine; as evidências ficaram esperando o ônibus.

Insultar eleitores é um erro político, e ninguém precisa defender esse comportamento para reconhecer a indigência da explicação. Entre demonstrar que determinados militantes adotam uma linguagem arrogante e provar que essa linguagem produziu um resultado eleitoral existe uma distância que nenhuma palavra de origem grega consegue encurtar. Seria necessário investigar quem recebeu essas mensagens, como as interpretou, qual importância lhes atribuiu e como elas se combinaram com outras experiências e influências. Sem isso, temos uma hipótese apresentada como sentença. A expressão “demofobia” pode impressionar, mas o verniz conceitual não transforma uma impressão pessoal em conhecimento.

É precisamente aí que cabe falar em epistemofobia, entendida aqui como metáfora da aversão ao conhecimento que perturba certezas confortáveis. Quem pretende explicar o comportamento popular, mas foge das perguntas necessárias para compreendê-lo, oferece uma demonstração bastante eloquente desse problema. O povo aparece como personagem de uma história escrita de antemão: vota para dar uma lição na esquerda, confirma a sabedoria do comentarista e sai de cena antes que alguém lhe pergunte sobre salário, jornada 6 x 1, endividamento, serviços públicos ou expectativas de futuro. Curiosa homenagem à autonomia popular essa que concede ao povo apenas a fala conveniente ao roteiro.

O truque fica ainda mais evidente quando a diversidade dos trabalhadores é comprimida em uma única reação de ressentimento. Um entregador, uma trabalhadora doméstica, um pequeno comerciante e um aposentado podem compartilhar dificuldades e fazer escolhas distintas, por razões igualmente distintas. Compreender essas diferenças exige trabalho. Transformá-los em um bloco que simplesmente devolveu uma ofensa exige apenas disposição para generalizar. Quem tanto denuncia o paternalismo da esquerda deveria perceber o paternalismo embutido nessa representação de eleitores cuja ação política se resumiria a reagir ao desaforo alheio. O povo merece mais do que ser convocado como testemunha imaginária da superioridade de quem escreve.

Também é perfeitamente democrático discutir as consequências de uma escolha eleitoral. Respeitar o direito ao voto não obriga ninguém a suspender o juízo sobre projetos políticos, nem transforma a vitória nas urnas em certificado de justiça social. Uma proposta pode receber apoio popular e continuar merecendo crítica pelos efeitos que poderá produzir sobre os próprios trabalhadores. Confundir essa crítica com desprezo pelo eleitor serve para interditar o debate justamente onde ele deveria começar: nos interesses em disputa e nas consequências materiais das políticas propostas. A urna decide quem vence; não concede imunidade ao exame crítico.

A epistemofobia pode cumprir, assim, uma função política bastante conveniente: esconder, sob uma suposta defesa do povo, uma adesão tão arraigada a propostas que aprofundam sua alienação e seu empobrecimento que chega a parecer inata. O trabalhador é celebrado quando seu voto pode ser usado contra a esquerda, mas suas condições de vida desaparecem quando chega a hora de discutir quem pagará a conta das políticas defendidas. A preocupação com o povo termina precisamente onde começa a defesa de seus direitos. E como é fácil romantizar as escolhas feitas sob a pressão da precariedade quando se pode contemplá-las de uma posição confortável, com as coisas entregues de bandeja para usufruto diletante. Para quem desfruta dessa comodidade, a regressão social pode ser apenas assunto de conversa; para a classe trabalhadora, significa uma vida ainda mais difícil. Esse amor retórico ao povo sai barato: quem o proclama não se oferece para pagar a conta.

A esquerda tem erros, contradições e derrotas que precisam ser enfrentados com seriedade. Merece críticas melhores do que uma psicologia de botequim enfeitada com vocabulário grego. Quem pretende lhe cobrar autocrítica deve começar demonstrando capacidade de submeter as próprias explicações ao confronto com evidências e de explicitar os interesses das propostas que defende. Do contrário, a denúncia de demofobia acaba funcionando como um biombo para a epistemofobia: fala-se muito em respeito ao povo para evitar o trabalho de conhecê-lo e o desconforto de discutir o que se pretende fazer com seus direitos. E a ignorância, promovida a intérprete da vontade popular, ainda espera aplausos pela profundidade da análise que tem a fundura uma poça de água esquecida em alguma rua localizada na beira do Rio Paraíba do Sul.

Mais poços, mais royalties e a velha promessa de desenvolvimento

A expansão petrolífera avança em plena crise climática, mas a experiência campista mostra que royalties, concentração de riqueza e desigualdade podem caminhar juntos

Há algo profundamente contraditório — para não dizer insustentável — em responder ao aprofundamento da crise climática procurando novos lugares para extrair petróleo e gás. É justamente para essa contradição que chama a atenção a Campanha Antipetroleira Nem Um Poço A Mais!, que divulgou uma carta de repúdio contra a expansão da exploração de combustíveis fósseis no Brasil e contra os novos ciclos de leilões promovidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Manifesto aqui minha concordância com a posição expressa pelo movimento, sobretudo porque a carta não se limita a discutir quantos blocos serão oferecidos ou quais empresas poderão adquiri-los, mas coloca uma questão anterior e muito mais importante: faz sentido continuar expandindo as fronteiras de exploração de petróleo e gás quando os efeitos da crise climática se tornam cada vez mais evidentes, intensos e socialmente desiguais? Minha resposta é não, especialmente porque já não estamos discutindo um problema climático localizado em algum futuro distante. O aumento das temperaturas, a intensificação de eventos extremos, as secas, as chuvas excepcionais e as inundações mostram que a adaptação climática deixou de ser uma agenda para as próximas décadas e deveria estar no centro das decisões econômicas e territoriais tomadas agora. 

É precisamente nesse momento que o Brasil continua abrindo novas possibilidades de expansão da indústria de petróleo e gás. A carta denuncia esse movimento e chama atenção para o fato de que novas fronteiras exploratórias estão sendo empurradas para territórios já vulnerabilizados, enquanto essa expansão é apresentada sob o conveniente guarda-chuva discursivo da chamada “transição energética”. Há aqui uma pergunta incômoda que precisa ser feita: que transição é essa em que continuamos ampliando justamente a infraestrutura econômica que deveria progressivamente perder importância? O problema, além disso, não é apenas climático. Um mérito importante da carta da Campanha Antipetroleira Nem Um Poço A Mais! é lembrar que a expansão petroleira possui também uma geografia social, pois os benefícios econômicos e os custos ambientais não são distribuídos igualmente. Comunidades pesqueiras, quilombolas, ribeirinhas e outras populações tradicionais frequentemente aparecem na linha de frente dos impactos provocados pela instalação e expansão desses empreendimentos.

É nesse ponto que a carta toca em uma questão que deveria interessar particularmente a quem vive em Campos dos Goytacazes. O documento cita Campos e Macaé como exemplos dos limites de um modelo baseado na dependência das rendas petrolíferas e, no caso campista, essa questão merece uma reflexão ainda mais profunda. Poucas cidades brasileiras receberam durante tanto tempo volumes tão expressivos de royalties e participações especiais e, ainda assim, convivem com pobreza, desigualdade social e uma parcela numericamente expressiva da população dependendo de políticas públicas de transferência de renda e proteção social para garantir condições elementares de reprodução da vida. Dados divulgados pelo governo federal para 2024 registravam 58,8 mil famílias campistas recebendo Bolsa Família, além de 28,3 mil famílias beneficiárias do Auxílio Gás e 93,7 mil benefícios previdenciários e do BPC. Evidentemente, essas categorias não podem ser simplesmente somadas, pois existe sobreposição entre seus beneficiários, mas os números ajudam a dimensionar a importância das políticas sociais federais para uma parcela considerável da população do município.

A esse quadro somam-se as próprias políticas estaduais e municipais de assistência e transferência de renda, algumas delas financiadas direta ou indiretamente pelos recursos extraordinários provenientes do petróleo. Isso não diminui a importância dessas políticas, que são indispensáveis diante das condições concretas de pobreza e vulnerabilidade existentes no município. A questão que precisa ser colocada é exatamente a inversa: como explicar que décadas de apropriação de uma renda extraordinária proveniente do petróleo não tenham produzido uma transformação estrutural capaz de reduzir substancialmente essas desigualdades? Se uma parcela tão significativa da população continua dependendo das diferentes redes de proteção social para garantir condições básicas de sobrevivência, então a quantidade de dinheiro que circulou pelos cofres públicos ao longo das últimas décadas não pode ser confundida automaticamente com desenvolvimento social.

A outra face dessa economia pode ser percebida sem consultar qualquer planilha orçamentária, pois está inscrita na própria paisagem urbana de Campos dos Goytacazes. Enquanto uma parcela expressiva da população depende do Bolsa Família, do BPC, de benefícios previdenciários, do Cartão Goitacá, do aluguel social e de outros mecanismos de proteção social, tornam-se cada vez mais visíveis determinadas formas de consumo e ocupação do espaço associadas aos estratos de renda mais elevada: condomínios fechados, edifícios residenciais de alto padrão, veículos de luxo, grandes empreendimentos comerciais e uma diferenciação socioespacial cada vez mais evidente. Evidentemente, não se pode afirmar que cada apartamento de luxo, cada condomínio ou cada automóvel importado seja produto direto da renda petrolífera, mas seria igualmente equivocado analisar essas transformações abstraindo o fato de que a economia regional foi profundamente atravessada, durante décadas, pelos fluxos de riqueza associados ao petróleo.

É justamente aí que a paisagem urbana revela uma das grandes contradições campistas. A riqueza do petróleo existe e circula, mas não se distribui uniformemente pelo território nem entre as classes sociais. De um lado, temos espaços urbanos nos quais a acumulação privada de riqueza se materializa de maneira cada vez mais ostensiva; de outro, permanece uma cidade popular cuja reprodução cotidiana continua fortemente amparada por políticas públicas de transferência de renda, assistência e previdência. Essa coexistência talvez seja mais reveladora do que qualquer discurso sobre a suposta prosperidade produzida pelos royalties, pois Campos não é simplesmente uma cidade que recebeu muito dinheiro do petróleo, mas uma cidade na qual a abundância da renda petrolífera conviveu com a permanência de profundas desigualdades sociais e espaciais. A questão central, portanto, não é apenas saber quanto petróleo foi produzido ou quantos bilhões entraram nos cofres públicos, mas perguntar quem efetivamente se apropriou dos benefícios dessa riqueza, quais grupos sociais foram beneficiados por sua circulação e que tipo de cidade foi produzido a partir dela.

Por isso, a experiência campista deveria servir como advertência quando novos leilões são apresentados como sinônimo automático de desenvolvimento. O petróleo pode produzir receitas públicas gigantescas e favorecer processos privados de acumulação sem necessariamente produzir uma sociedade menos desigual. A própria carta da Campanha Antipetroleira Nem Um Poço A Mais! chama atenção para essa contradição ao mencionar Campos e Macaé entre os exemplos dos limites da petrodependência. Mais do que uma discussão abstrata sobre matriz energética, portanto, o debate proposto pelo movimento social nos obriga a perguntar quais territórios são sacrificados, quem se apropria da riqueza produzida e o que permanece para a maioria da população quando os ciclos de abundância diminuem.

Existe ainda uma dimensão política mais profunda. Cada nova área aberta à exploração, cada novo investimento realizado e cada nova infraestrutura construída produzem interesses econômicos que posteriormente pressionarão pela continuidade de sua utilização. Não se trata apenas do petróleo que poderá ser extraído amanhã, mas de aprofundar hoje uma trajetória de dependência dos combustíveis fósseis que poderá dificultar ainda mais a transição energética no futuro. É justamente por isso que considero importante reconhecer o trabalho político realizado pela Campanha Antipetroleira Nem Um Poço A Mais!. Movimentos sociais e comunidades atingidas cumprem um papel indispensável quando obrigam a sociedade a enxergar aquilo que a linguagem burocrática dos leilões, blocos exploratórios, concessões e investimentos costuma esconder: atrás de cada decisão sobre energia existem territórios, ecossistemas, formas de trabalho, comunidades e interesses econômicos concretos.

Pode-se discutir como realizar a transição energética, qual deve ser sua velocidade e, principalmente, como impedir que seus custos sejam transferidos para os trabalhadores e para as populações mais pobres. O que se torna cada vez mais difícil de sustentar é a ideia de que poderemos enfrentar seriamente a crise climática enquanto continuamos expandindo indefinidamente a fronteira petroleira. O Brasil possui condições extraordinárias para construir outra matriz energética e, sobretudo, outra política de desenvolvimento, mas uma transição energética digna desse nome não pode significar simplesmente acrescentar fontes renováveis enquanto petróleo e gás continuam avançando sobre novas áreas. Adicionar energia renovável sem reduzir a dependência dos combustíveis fósseis não é transição; é expansão da oferta energética com maquiagem verde.

Nesse sentido, a advertência feita pela Campanha Antipetroleira Nem Um Poço A Mais! merece ser ouvida. Em um planeta que aquece rapidamente, continuar procurando novos lugares para perfurar significa prolongar um modelo energético que está no centro do problema que afirmamos querer resolver. E há uma ironia especialmente amarga nisso para quem vive em Campos dos Goytacazes: depois de décadas de royalties e de riqueza petrolífera circulando pela economia local, continuamos convivendo com uma cidade profundamente desigual, na qual a concentração da riqueza se torna cada vez mais visível na paisagem enquanto uma parcela expressiva da população depende das políticas sociais para garantir sua sobrevivência cotidiana. Se essa experiência não for suficiente para colocar em dúvida a velha promessa de que mais petróleo produzirá automaticamente mais desenvolvimento, será difícil imaginar que quantidade adicional de evidências ainda será necessária.

A conta climática e social dessa escolha não desaparecerá. Apenas continuará sendo cobrada — e, como quase sempre ocorre, chegará primeiro e mais pesada para aqueles que menos se beneficiaram da riqueza produzida pelo petróleo.

Quando os antibióticos param de funcionar

Por Monica Piccinini para “The Ecologist”

Infecções resistentes a medicamentos já estão matando mais de um milhão de pessoas diretamente a cada ano. 

À medida que a agricultura intensiva impulsiona o uso de antibióticos, a contaminação ambiental e as mudanças climáticas aumentam as pressões que contribuem para a disseminação da resistência. Enquanto isso, alguns dos medicamentos dos quais dependemos estão perdendo sua eficácia.

A maioria de nós não pensa muito em antibióticos até que realmente precisemos deles.

Mortes

Uma ferida infectada, pneumonia, tratamento de câncer, transplante de órgãos ou mesmo uma cirurgia relativamente simples podem torná-los essenciais. 

Tomamos o remédio e esperamos melhorar. Essa expectativa está tão arraigada na medicina moderna que a alternativa pode ser difícil de contemplar.

Mas imagine ir ao hospital para uma cirurgia, desenvolver uma infecção bacteriana ou fúngica e descobrir que os medicamentos que os médicos normalmente usariam simplesmente não funcionam.

A resistência antimicrobiana, ou RAM , ameaça não apenas nossa capacidade de tratar infecções causadas por bactérias, fungos, vírus e parasitas, mas também a segurança de grande parte da medicina moderna, incluindo a cirurgia.

Esta não é uma previsão para um futuro distante. Em 2021, estima-se que 4,95 milhões de mortes em todo o mundo estejam associadas à resistência bacteriana a antimicrobianos. 

Doenças

Pesquisadores estimam que, em 2019, pelo menos 1,27 milhão de mortes foram causadas diretamente por essa doença. Algumas projeções sugerem que o número de mortes por ano poderá chegar a 10 milhões até 2050. 

Os números são difíceis de assimilar. Mas a resistência já está sendo encontrada em infecções que estão longe de ser incomuns.

Em 2023, aproximadamente uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório, causadoras de doenças comuns em todo o mundo, era resistente ao tratamento com antibióticos. 

Entre 2018 e 2023, a resistência aumentou em mais de 40% das combinações patógeno-antibiótico monitoradas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com aumentos médios anuais entre cinco e 15 por cento. 

Esses não são simplesmente organismos raros que encontramos em enfermarias especializadas de hospitais. Eles incluem bactérias responsáveis ​​por doenças que as pessoas desenvolvem todos os dias.

Inadequado

Um importante estudo publicado na revista The Lancet estima que a resistência antimicrobiana bacteriana poderá causar diretamente 39,1 milhões de mortes entre 2025 e 2050.

Há algo particularmente perturbador nesta crise porque o alerta surgiu quase ao mesmo tempo que os próprios antibióticos.

Além disso, há o enorme custo financeiro. A OMS estima que, sem medidas mais enérgicas, o tratamento de infecções bacterianas resistentes poderá custar aos sistemas de saúde a impressionante quantia de 412 bilhões de dólares por ano até 2035, com outros 443 bilhões de dólares perdidos anualmente devido à redução da produtividade.

Infecções resistentes também significam internações hospitalares mais longas, exames adicionais e medicamentos de segunda ou terceira linha, que podem custar mais e causar efeitos colaterais mais graves.

Há algo particularmente perturbador nesta crise porque o alerta surgiu quase ao mesmo tempo que os próprios antibióticos.

Alexander Fleming, o médico e microbiologista escocês que descobriu a penicilina, já alertava sobre a resistência bacteriana em 1945. Ele compreendia o que poderia acontecer se as bactérias fossem expostas a quantidades insuficientes do medicamento. 

Resistente

O alerta pouco fez para impedir que os antibióticos se espalhassem muito além do tratamento de doenças.

No início da década de 1950, eles já eram usados ​​na alimentação animal para acelerar o crescimento do gado. A Europa acabou por proibir os promotores de crescimento antibióticos em 2006, mas o uso de antibióticos na agricultura continua sendo uma parte importante do problema mais amplo da resistência bacteriana. 

Os antibióticos em si não são o inimigo. São medicamentos vitais e os animais doentes, assim como as pessoas doentes, precisam de tratamento. O problema surge quando o seu uso se torna rotineiro, excessivo ou desnecessário. 

A OMS identifica o uso indevido e excessivo de antimicrobianos como os principais fatores que impulsionam a resistência.

Quando as bactérias são expostas repetidamente a antibióticos, algumas morrem, enquanto as bactérias resistentes sobrevivem e se multiplicam. Os genes de resistência também podem ser transferidos entre bactérias. 

Incurável

Gradualmente, um medicamento que antes funcionava bem pode se tornar menos eficaz ou até mesmo deixar de funcionar completamente. É aí que a agricultura se torna particularmente importante.

A Aliança para Salvar Nossos Antibióticos estima que cerca de 70% dos antibióticos usados ​​globalmente são em animais de criação, e não em pessoas. 

Segundo um estudo recente publicado na PNAS Nexus , em alguns países, até 80% dos antibióticos são usados ​​na pecuária para promover o crescimento ou como prevenção de doenças, em vez de serem usados ​​para o tratamento de animais doentes. 

O que fica claro é que a pecuária representa uma parcela substancial do consumo global de antibióticos, e que historicamente os antibióticos têm sido usados ​​em grupos de animais saudáveis, em vez de serem reservados para animais doentes.

Certos tipos de antibióticos usados ​​na criação de animais levaram ao aumento e à disseminação de cepas de MRSA ( Staphylococcus aureus ) e Clostridioides difficile ( C-diff ) associadas ao gado. 

Os antibióticos utilizados na agricultura também contribuíram para o aumento de um tipo de E. coli  intratável e de infecções como Salmonella e Campylobacter .

Aves

Cóilín Nunan, gerente de políticas e ciência da Aliança para Salvar Nossos Antibióticos, mencionou que o progresso alcançado pela agricultura britânica na última década é significativo, mas argumentou que ainda há muito a ser feito. 

Ele disse: “O uso de antibióticos em fazendas no Reino Unido caiu cerca de 57%, e o uso dos antibióticos de prioridade máxima e importância crítica caiu 84%. Essas são reduções muito significativas, e contribuíram para níveis mais baixos de resistência a antibióticos em bactérias encontradas em animais de fazenda.

“Mas o uso de antibióticos ainda é significativamente maior do que deveria ser. Em países como a Noruega e a Suécia, onde os padrões de criação de animais tendem a ser mais elevados, há menos problemas de doenças e menos necessidade de antibióticos.

“No Reino Unido, o uso de antibióticos na indústria suína é mais de quatro vezes maior por porco do que na Suécia. Quando analisamos a criação orgânica de suínos, a diferença pode ser ainda maior, com o uso de antibióticos cerca de 20 vezes menor do que na criação convencional.”

A avicultura apresenta um problema específico. Embora o uso de antibióticos de importância médica tenha diminuído substancialmente, a produção intensiva de frangos continua dependendo fortemente de ionóforos, antibióticos que não são usados ​​na medicina humana, mas são utilizados para controlar a coccidiose.

Escala

Nunan explicou que as condições em que as galinhas são criadas em regime intensivo ajudam a explicar essa dependência. 

Ele disse: “A coccidiose é, de longe, o maior problema de doenças na criação intensiva de galinhas, e só ocorre quando as galinhas ingerem matéria fecal. 

“A realidade é que as galinhas criadas em granjas intensivas são mantidas em condições nas quais o consumo de matéria fecal é inevitável. Sem ionóforos, muitas dessas galinhas adoeceriam.”

Há também uma crescente preocupação com a suposição de que os antibióticos não utilizados na medicina humana representam pouco risco para a saúde humana. Pesquisas sobre co-seleção sugerem que seu uso pode contribuir para a resistência a antibióticos de importância médica.

A escala de utilização dos ionóforos torna isso particularmente importante. 

Excretado

Nunan explicou: “O uso de antibióticos de importância médica na avicultura diminuiu substancialmente. Mas o uso de ionóforos é enorme – cerca de 17 vezes maior do que o uso de antibióticos de importância médica na avicultura. 

“As pesquisas científicas mais recentes mostram que esses medicamentos podem contribuir, por meio da co-seleção, para a resistência a antibióticos de importância médica.”

Mas a resistência não é a única preocupação. Nunan também apontou para o que acontece com esses medicamentos depois de serem administrados aos animais. 

Como os ionóforos são muito tóxicos para serem usados ​​na medicina humana, ele afirmou que seus potenciais efeitos sobre os animais e o meio ambiente em geral, incluindo o solo e os organismos aquáticos, também precisam ser considerados. 

Ele disse: “A maioria desses antibióticos é excretada pelos animais, muitas vezes ainda em forma ativa. Portanto, também devemos nos perguntar o que acontece quando grandes quantidades desses medicamentos chegam ao meio ambiente. 

Rastreabilidade

“Existem preocupações sobre seus efeitos no solo e nos organismos aquáticos, bem como evidências crescentes de que eles podem contribuir para a resistência a antibióticos importantes para a medicina.”

É por isso que a resistência antimicrobiana (RAM) é cada vez mais abordada como um problema de Saúde Única . A saúde humana, a saúde animal e a saúde do nosso meio ambiente estão interligadas. As bactérias não reconhecem as fronteiras entre fazendas, pessoas e meio ambiente.

O comércio pode complicar ainda mais o cenário. Reduzir o uso de antibióticos nas fazendas britânicas não resolve necessariamente os riscos associados à carne importada produzida segundo padrões diferentes.

Em 2026, o governo do Reino Unido decidiu continuar permitindo a importação de carne brasileira, apesar das preocupações com o uso de antibióticos na produção pecuária brasileira, enquanto a UE e a Noruega se mobilizaram para proibir a importação de produtos de origem animal produzidos com o uso de antibióticos para promoção de crescimento. 

O Brasil proibiu alguns promotores de crescimento antibióticos, mas outros continuam permitidos, e também foram levantadas preocupações sobre o acesso a antibióticos de importância crítica e fragilidades na rastreabilidade.

Gado

Isso levanta uma questão difícil para a política comercial. Se os agricultores britânicos forem obrigados a cumprir normas cada vez mais rigorosas quanto ao uso de antibióticos, os acordos comerciais e as regras de importação deveriam permitir alimentos produzidos com práticas que não seriam permitidas aqui?

Nunan alertou que a questão vai além da competição entre agricultores britânicos e produtores estrangeiros. 

Ele disse: “O Reino Unido ainda importa carne do Brasil, mesmo que a UE tenha proibido recentemente as importações de carne brasileira devido ao uso de promotores de crescimento antibióticos pelo país. O Brasil agora está buscando outros mercados, então existe a possibilidade de mais carne brasileira entrar no Reino Unido.”

“Isso preocupa os agricultores britânicos, mas também existe uma preocupação com a saúde humana, porque as bactérias resistentes a antibióticos podem se espalhar pela cadeia alimentar”.

As mudanças climáticas adicionam mais uma camada a um problema já complexo. Uma revisão científica identificou diversas maneiras pelas quais as mudanças climáticas podem contribuir para a resistência antimicrobiana em sistemas de produção animal. 

Rebanho

Temperaturas elevadas podem comprometer a imunidade dos animais, aumentando sua suscetibilidade a doenças e potencialmente levando a um maior uso de antimicrobianos. Temperaturas mais altas também podem facilitar a transferência de genes de resistência entre bactérias.

Alterações nos padrões de precipitação e umidade podem afetar a sobrevivência de patógenos e a movimentação de bactérias resistentes e resíduos antimicrobianos do esterco para o solo e a água.

Inundações e secas complicam ainda mais a situação. A água das enchentes pode dispersar bactérias resistentes e genes de resistência pelo ambiente, enquanto a seca pode concentrá-los em fontes de água cada vez menores e em outros locais onde possam sobreviver. Isso pode criar rotas de transmissão entre o gado, a vida selvagem, os ecossistemas e as pessoas.

Ainda existem lacunas importantes na pesquisa, principalmente no que diz respeito à confirmação, no mundo real, do que os cientistas observaram em estudos de laboratório. Mesmo assim, as evidências sugerem que as mudanças climáticas e a resistência antimicrobiana não podem ser consideradas problemas separados.

Para os agricultores, a ligação é ainda mais imediata. Animais submetidos a estresse térmico podem tornar-se mais vulneráveis ​​a doenças. Mais doenças podem gerar maior pressão para o uso de antibióticos, principalmente em locais onde um grande número de animais é mantido junto e a infecção pode se espalhar rapidamente pelo rebanho. Se isso levar a um maior uso de antibióticos, as bactérias resistentes terão mais oportunidades de sobreviver e se disseminar.

Patógeno

As mudanças climáticas não estão criando resistência a antibióticos do nada. O que elas podem fazer é tornar algumas das condições em que a resistência se desenvolve e se espalha mais favoráveis. 

Um estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health sugere que as mudanças climáticas podem estar agravando a resistência a antibióticos, inclusive em bactérias como a Salmonella , que pode se espalhar entre animais e pessoas.

Entre 1940 e 2023, a resistência aos antibióticos na bactéria Salmonella aumentou 38% em todo o mundo. Os pesquisadores descobriram que as mudanças climáticas estavam ligadas a um aumento de cerca de 10% na resistência, com aumentos observados em 82 dos 100 países estudados.

Não se trata apenas de bactérias. O aumento nos casos de Candida auris , um fungo resistente a múltiplos medicamentos associado a infecções hospitalares, pode ser causado por temperaturas mais altas resultantes das mudanças climáticas. 

Esse patógeno afeta pacientes gravemente enfermos, incluindo adultos e crianças, em hospitais de todo o mundo.

Prescrição

Joel Henrique Ellwanger, biólogo e pesquisador do departamento de genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no Brasil, explicou como as mudanças climáticas podem ter desempenhado um papel no aumento da Candida auris . 

Ele disse: “As mudanças climáticas podem influenciar a evolução dos patógenos. Certos microrganismos, antes incapazes de infectar humanos por estarem acostumados a temperaturas mais baixas, agora estão se adaptando a condições mais quentes que imitam o calor do corpo humano. 

“Essa adaptação cria a possibilidade de esses microrganismos, normalmente presentes no solo e em ambientes semelhantes, infectarem humanos e causarem doenças. Acredita-se que esse fenômeno tenha ocorrido com a Candida auris .”

Os cientistas estão até mesmo examinando outra possível rota: a fumaça de incêndios florestais. Um artigo publicado na revista Ambio argumenta que partículas finas liberadas durante incêndios podem potencialmente transportar microrganismos resistentes e genes de resistência antimicrobiana pelo ar.

Doenças respiratórias relacionadas a incêndios florestais também podem aumentar a demanda por serviços de saúde e, potencialmente, a prescrição de antimicrobianos. No entanto, as evidências nesse sentido ainda estão sendo coletadas.

Proibir

Mas quem sofre mais? A resistência antimicrobiana pode afetar qualquer pessoa, mas a OMS afirma que as populações vulneráveis ​​e as pessoas em contextos de poucos recursos são as mais afetadas. 

Onde o acesso à água potável, saneamento básico, diagnósticos, controle de infecções e medicamentos eficazes é limitado, prevenir e tratar infecções resistentes torna-se muito mais difícil. Organismos resistentes podem cruzar fronteiras e nossa capacidade de nos protegermos deles é distribuída de forma desigual.

No Reino Unido, as vendas de antibióticos veterinários para animais destinados à produção de alimentos, ajustadas à população animal, caíram 57% entre 2014 e 2024. No entanto, houve muito menos progresso na redução do uso de antibióticos e das infecções resistentes a medicamentos em humanos. 

Entre 2019 e 2024, o uso de antibióticos caiu apenas 2%, bem abaixo da meta de redução de 15%. Ao mesmo tempo, o número de infecções resistentes a medicamentos aumentou 13%.

Novas regulamentações sobre medicamentos veterinários entraram em vigor na Grã-Bretanha em 17 de maio de 2024. Elas proíbem o uso rotineiro de antibióticos ou sua utilização como forma de compensar higiene precária, manejo inadequado de animais ou má gestão agrícola.

Tratamentos

Mas o uso preventivo é restrito, e não completamente proibido. Um veterinário pode prescrever antibióticos preventivamente em circunstâncias excepcionais, quando o risco de infecção é muito alto e as prováveis ​​consequências são graves. 

Nunan argumenta que mudar as regras é apenas parte da solução se as próprias práticas agrícolas não mudarem. 

Ele disse: “A UE e o Reino Unido proibiram nominalmente o uso rotineiro de antibióticos, bem como o uso de antibióticos para compensar a higiene precária ou a criação inadequada de animais. Mas, na prática, os padrões de criação não melhoraram o suficiente. 

“Na minha opinião, a lei não tem sido aplicada corretamente porque os antibióticos ainda estão sendo usados ​​para compensar problemas criados pela forma como os animais são criados.”

“A UE proibiu tratamentos coletivos puramente preventivos, nos quais nenhum dos animais foi diagnosticado com a doença. O tratamento coletivo ainda é permitido quando a doença está efetivamente presente e há risco de propagação. O Reino Unido recusou-se a introduzir uma regra semelhante e ainda permite tratamentos coletivos profiláticos.”

Bem-estar

Para Nunan, as diferenças entre os sistemas agrícolas mostram o quanto mais reduções poderiam ser alcançadas alterando as condições em que os animais são criados. 

Ele explicou: “Sabemos que melhorar significativamente a criação de animais e os padrões de higiene pode reduzir drasticamente o uso de antibióticos. 

“Dar mais espaço aos animais, criá-los ao ar livre, usar raças mais resistentes e acabar com práticas como o desmame muito precoce e o corte rotineiro da cauda podem fazer uma diferença substancial.” 

“Se avançarmos em direção a padrões de bem-estar animal mais elevados, podemos alcançar reduções realmente significativas no uso de antibióticos na agricultura.”

Criação de animais

A Aliança para Salvar Nossos Antibióticos aponta para o baixo uso de antibióticos em países como Noruega, Islândia, Suécia e Finlândia e argumenta que práticas como o desmame, dietas melhores e melhores condições de vida ajudaram a reduzir a dependência de tratamentos em grupo.

A ideia por trás disso não é complicada: manter os animais saudáveis ​​o suficiente para que os antibióticos não sejam necessários rotineiramente, em vez de usar os medicamentos para tratar doenças posteriormente.

Mas Nunan argumenta que existe uma contrapartida. Criar animais em sistemas menos intensivos pode custar mais, o que potencialmente desafia a expectativa de que a carne deva estar disponível a baixo custo e em grandes quantidades. 

Ele disse: “Fazer grandes melhorias na criação de animais pode resultar no aumento do preço da carne. Isso, no entanto, tem o benefício de diminuir o risco de resistência a antibióticos, o que representa um custo significativo para a medicina.” 

Evoluir

“Além disso, quando a carne fica mais cara, as pessoas tendem a comer menos. Portanto, existe uma relação entre padrões de criação mais elevados e menor consumo de carne.”

Isso levanta uma questão maior sobre se reduzir nossa dependência de antibióticos também significa reconsiderar a quantidade e o tipo de carne que consumimos.

Como afirma Nunan: “Precisamos repensar nossas dietas como parte dessa discussão. Caminhar em direção a uma produção de carne menor, porém melhor, faz parte da solução para a resistência a antibióticos, bem como para os problemas ambientais mais amplos associados à produção industrial de carne.”

E não podemos simplesmente presumir que a ciência continuará produzindo substitutos para os medicamentos que deixam de funcionar. O desenvolvimento de novos antibióticos é cientificamente difícil e comercialmente desafiador, enquanto as bactérias continuam a evoluir. 

Proteger

Preservar os medicamentos que já temos é tão importante quanto descobrir novos. Isso significa reduzir o uso desnecessário em pessoas e animais, prevenir infecções, melhorar o saneamento básico e a vacinação, monitorar a resistência bacteriana, investir em novos tratamentos e diagnósticos e lidar com os efeitos do aquecimento global. 

Convivemos com antibióticos eficazes por tanto tempo que é fácil considerar sua utilidade como permanente. 

Mas a perda de antibióticos dificilmente se manifestará como uma catástrofe isolada. Uma operação bem-sucedida pode ser seguida por uma infecção difícil de tratar. Um medicamento conhecido pode deixar de funcionar tão bem quanto antes. Os médicos experimentam outro antibiótico, e depois outro.

A resistência se acumula silenciosamente: bactéria por bactéria, paciente por paciente, fazenda por fazenda, prescrição por prescrição. 

Ainda temos tempo para proteger esses medicamentos. A questão é de quanta evidência adicional precisamos antes de decidirmos agir.

Este autor

Monica Piccinini é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma,  YourVoiz.org .


Fonte: The Ecologist

O apito para cachorro de Flávio Bolsonaro: barulho contra o STF, silêncio sobre o ataque planejado aos direitos dos trabalhadores

Flávio Bolsonaro e o comando de sua campanha continuam investindo nas promessas de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Segundo informações divulgadas pelo UOL, o afastamento de integrantes da Corte já é apresentado por membros da campanha como um marco de um eventual governo. Enquanto isso, Rogério Marinho, coordenador da candidatura, defende uma mudança nas regras do Senado para facilitar o encaminhamento desses pedidos. O confronto institucional ocupa, assim, o lugar que deveria ser destinado à explicação de como pretendem governar o país.

Considero que essa insistência funciona como um “apito para cachorro”: uma mensagem que mobiliza a base bolsonarista, reativa ressentimentos e transforma o STF no inimigo em torno do qual todos devem cerrar fileiras. O conflito também cumpre uma função eleitoral conveniente: desvia a atenção das consequências materiais do programa econômico. A Folha de S.Paulo noticiou justamente que a campanha explora a crise do Supremo enquanto evita detalhar suas propostas econômicas. Minha leitura é que o barulho ajuda a dispensar explicações sobre quem pagará a conta do ajuste prometido.

É nesse terreno que os trabalhadores precisam concentrar sua atenção. A desvinculação dos reajustes das aposentadorias dos aumentos reais do salário mínimo foi atribuída a integrantes da campanha em publicação da CUT. Posteriormente, Adolfo Sachsida afirmou, conforme noticiou a Reuters, que a vinculação seria preservada. Essa negativa precisa ser registrada, mas também confrontada com compromissos claros: quais despesas serão cortadas, quais direitos serão preservados e como pretendem realizar o ajuste fiscal anunciado? O eleitor merece conhecer essas respostas antes de entregar seu voto.

O mesmo cuidado vale para a Previdência. Rogério Marinho sinalizou a intenção de promover outra revisão do sistema, mas os parâmetros dessa mudança permanecem sem esclarecimento suficiente. Não há confirmação sólida, nas fontes consultadas, de que aposentadorias aos 65 anos para mulheres e aos 70 para homens constituam uma proposta oficial da candidatura. Há, contudo, motivo para cobrar uma resposta inequívoca sobre o aumento das idades e o endurecimento das condições de acesso ao benefício. Deixar esse debate para depois da eleição significa pedir autorização para governar sem apresentar previamente o tamanho do sacrifício exigido.

Retirar dos benefícios os ganhos reais associados à valorização do salário mínimo significaria excluir aposentados dessa melhoria de renda. Elevar a idade de aposentadoria, por sua vez, imporia mais anos de trabalho a pessoas que já enfrentam desgaste físico, desemprego e dificuldade de permanecer no mercado formal. Para as mulheres, seria preciso considerar ainda a sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidado. Aquilo que aparece nas planilhas como contenção de despesas se traduz, na vida cotidiana, em menos proteção e mais insegurança.

Por isso, a resposta ao apito precisa trazer a discussão de volta ao salário, à aposentadoria, à jornada e aos serviços públicos. O STF deve estar sujeito ao escrutínio público, como qualquer instituição, mas transformar o impeachment de seus ministros em promessa central de campanha favorece uma eleição movida pelo ressentimento e esvazia o debate sobre direitos. Enquanto Flávio Bolsonaro aponta para o Supremo, cabe aos trabalhadores conferir o que seu grupo pretende fazer com o bolso e com o futuro de quem vive do próprio trabalho. O entusiasmo com a revanche pode acabar servindo de autorização para um novo ataque às condições de vida da maioria.

O Brasil não sobreviverá a mais quatro anos de negacionismo: no segundo turno, voto em Lula

Os leitores deste blog sabem que mantive uma posição crítica em relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao longo de todo o seu terceiro mandato. Na maioria das minhas manifestações, o centro dessa crítica esteve naquilo que considero uma postura de negacionismo sutil diante de questões fundamentais, a começar pelas mudanças climáticas, mas não apenas. O atual governo tem se caracterizado por práticas de meio-termo, tentando conciliar preocupações sociais com a manutenção de uma política de controle fiscal que, objetivamente, impede o enfrentamento dos problemas produzidos pela profunda desigualdade econômica existente na sociedade brasileira.

Por outro lado, fui um crítico ainda mais contundente do governo de Jair Bolsonaro, especialmente no que se refere às questões ambientais e, mais ainda, à condução da pandemia de COVID-19. Além disso, sempre me pareceu evidente que uma das principais propostas de Jair Bolsonaro era desmantelar as concessões mínimas asseguradas a partir da Constituição Federal de 1988. Ao fazer isso, Bolsonaro pai acabou desmontando até mesmo medidas adotadas durante o regime civil-militar instaurado em 1964. Com essa postura, e de forma até coerente com seu projeto político, Jair Bolsonaro mostrou-se, em diversos aspectos, mais regressivo do que o próprio regime dos generais.

Agora, temos a possibilidade concreta do retorno do bolsonarismo ao governo federal, desta vez na figura do primogênito de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro. Tendo vencido o primeiro turno sem falar muito sobre seus planos de governo, Flávio certamente tentará evitar fazê-lo também durante o segundo turno. A razão é simples: aquilo que já se conhece de suas propostas aponta para a implantação no Brasil de uma versão igual ou ainda mais radical daquela adotada por Javier Milei na Argentina, envolvendo a privatização de empresas estatais estratégicas, o desmonte de políticas sociais que funcionam como anteparo mínimo contra a pobreza extrema e a adoção de políticas antiambientais que poderão fazer o Brasil retornar a taxas elevadas de desmatamento na Amazônia.

Há ainda um componente particularmente preocupante nesse projeto: a permanência da postura anticiência e do negacionismo que marcaram o governo de Jair Bolsonaro. Durante a pandemia de COVID-19, vimos até onde pode chegar um governo que despreza evidências científicas, transforma questões técnicas em batalhas ideológicas e trata o conhecimento produzido pelas universidades e instituições de pesquisa como um obstáculo a ser removido. O resultado dessa combinação de obscurantismo, improvisação e ideologia ficou dramaticamente exposto durante a crise sanitária.

Flávio Bolsonaro dá sinais de que essa postura não desapareceu com o pai. Um exemplo particularmente revelador ocorreu quando, questionado sobre o enfrentamento das mudanças climáticas, respondeu apontando o saneamento básico como uma das respostas para o problema. Evidentemente, ampliar o saneamento básico é uma necessidade urgente em um país no qual milhões de pessoas ainda vivem sem acesso adequado à água tratada e à coleta e tratamento de esgoto. Mas apresentar o saneamento como resposta ao aquecimento global revela uma incompreensão preocupante sobre a natureza e a escala da crise climática. Uma coisa é defender políticas de saneamento, inclusive como componente da adaptação e da redução da vulnerabilidade social; outra, completamente diferente, é apresentá-las como substitutas de políticas destinadas à redução das emissões de gases de efeito estufa, ao combate ao desmatamento, à transição energética e à adaptação dos territórios às mudanças climáticas já em curso.

E é justamente aí que o caráter tosco desse negacionismo se torna particularmente perigoso. O Brasil não enfrentará a crise climática com frases de efeito ou soluções improvisadas em palanques eleitorais. Enfrentará — ou deixará de enfrentar — um processo que já se manifesta por meio de secas, enchentes, ondas de calor, incêndios florestais, alterações nos regimes de chuvas e crescente pressão sobre os sistemas urbanos, agrícolas e energéticos. Colocar novamente o governo federal nas mãos de forças políticas que tratam a ciência como adversária significaria perder anos decisivos justamente quando as condições climáticas estão se deteriorando rapidamente.

O problema tampouco termina nas fronteiras brasileiras. O Brasil abriga a maior parcela da Amazônia, possui uma das maiores biodiversidades do planeta e ocupa posição central nas disputas internacionais sobre clima, energia, florestas e uso da terra. Um eventual governo Flávio Bolsonaro que retomasse o negacionismo climático, estimulasse o desmatamento e enfraquecesse novamente os organismos de fiscalização ambiental não produziria consequências apenas para os brasileiros. Em um momento em que limitar o aquecimento global exige redução acelerada das emissões, transformar novamente o Brasil em vetor de retrocesso ambiental seria desastroso para o país e contribuiria para agravar uma crise que é planetária.

Essa receita ainda inclui a entrega das reservas brasileiras de minerais estratégicos a empresas dos Estados Unidos, sob a justificativa de estabelecer um alinhamento estratégico com o governo de Donald Trump e, simultaneamente, criar uma espécie de contraposição à China, que ocupa posição dominante nas cadeias globais de terras raras. Além disso, esse alinhamento poderia se estender ao combate ao narcotráfico, inclusive com a possível presença de tropas estadunidenses em território brasileiro, o que representaria uma ameaça particularmente grave à soberania nacional.

Como ocorreu com seu pai, Flávio Bolsonaro, caso eleito, provavelmente chegaria ao governo acompanhado por quadros escolhidos mais pela fidelidade ideológica do que pela competência técnica. Isso tenderia a ampliar o grau de confusão e truculência governamental, sobretudo porque boa parte das medidas anunciadas ou insinuadas teria caráter profundamente antipopular, atingindo inclusive parcelas significativas da própria base eleitoral bolsonarista. Quando a fidelidade ideológica se combina com o desprezo pelo conhecimento científico, os resultados podem ser ainda mais graves, como a experiência recente do próprio Brasil já demonstrou.

Por isso, a escolha colocada neste segundo turno não diz respeito apenas à política econômica, ao destino das empresas estatais ou às políticas sociais. Ela envolve também decidir se o Brasil continuará, ainda que com todas as insuficiências e contradições do atual governo, reconhecendo a ciência e as mudanças climáticas como elementos que devem orientar políticas públicas, ou se retornará ao obscurantismo que caracterizou os anos de Jair Bolsonaro. Depois do que ocorreu durante a pandemia e diante do que já estamos experimentando com a crise climática, alegar desconhecimento sobre as consequências dessa escolha não será mais possível.

Todo esse cenário me leva a apontar, sem qualquer contradição com as críticas que fiz e continuarei fazendo ao atual governo, para a necessidade do voto em Lula no segundo turno. A situação social brasileira já é grave o suficiente para que nos arrisquemos a experimentar uma versão brasileira do programa de Javier Milei, aplicada a frio sobre uma sociedade marcada por níveis extremos de desigualdade. Acrescente-se a isso a possibilidade de retorno do negacionismo científico ao centro das decisões governamentais e teremos uma combinação potencialmente explosiva de regressão social, destruição ambiental e obscurantismo.

Mas, para derrotar Flávio Bolsonaro, será necessário ampliar o diálogo principalmente com aqueles que não foram votar no domingo passado. A disputa pelo eleitorado que compareceu às urnas será inevitavelmente difícil, ainda que exista alguma possibilidade de deslocamento de votos entre as duas candidaturas. Por isso, a ampliação da participação eleitoral e a disputa política daqueles que se abstiveram assumem importância decisiva.

E isso exige abandonar qualquer soberba e, sobretudo, qualquer depreciação da capacidade de escolha dos brasileiros e brasileiras. Quem pretende conquistar votos precisa primeiro compreender as razões pelas quais milhões de pessoas se afastaram das urnas ou deixaram de enxergar na atual alternativa governista uma resposta suficiente para seus problemas cotidianos. Tratar essas pessoas como ignorantes ou politicamente incapazes seria não apenas um erro político, mas talvez o caminho mais curto para entregá-las definitivamente ao bolsonarismo.

Não há, portanto, tempo a perder. É preciso começar desde já a trabalhar pela vitória de Lula no segundo turno, sem abandonar a crítica às limitações de seu governo e sem transformar o voto contra Flávio Bolsonaro em um cheque em branco para os próximos quatro anos. Derrotar o bolsonarismo nas urnas é a tarefa imediata. Enfrentar as políticas econômicas, sociais e ambientais que produziram o terreno no qual ele prospera continuará sendo uma tarefa para o dia seguinte.

E há uma diferença fundamental entre fazer oposição a um governo cujas políticas consideramos insuficientes e ter de enfrentar novamente um governo que transforma a própria realidade objetiva em inimiga. A experiência da pandemia deveria ter ensinado definitivamente o preço que uma sociedade pode pagar quando o negacionismo deixa de ser apenas discurso e passa a orientar políticas de Estado.

Por isso, no segundo turno, meu voto será em Lula. Sem cheque em branco, sem abandonar as críticas e sem qualquer ilusão de que uma vitória eleitoral resolverá as contradições profundas da sociedade brasileira. Mas com a convicção de que permitir o retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto, agora sob o comando de Flávio Bolsonaro, seria um risco que o Brasil simplesmente não precisa — e talvez não possa — correr.

Como se diz atualmente nas manifestações que percorrem as ruas da Europa: às ruas, cidadãos!

Quando a Bolsa comemora, convém perguntar quem pagará a conta

A mídia corporativa noticiou nesta segunda-feira (5) com indisfarçável entusiasmo a reação do chamado “mercado” ao resultado do primeiro turno da eleição presidencial. E, de fato, os números foram espetaculares: o Ibovespa subiu 7,70%, ultrapassou os 206 mil pontos e estabeleceu novo recorde histórico, enquanto o dólar caiu mais de 4% e fechou praticamente em R$ 5,00. O volume negociado na B3 chegou a R$ 79,3 bilhões, cerca de três vezes o registrado em uma sessão normal. 

Não existe, entretanto, nada de politicamente neutro nessa euforia. A própria cobertura econômica associa a disparada dos ativos ao resultado eleitoral, no qual Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, e à expectativa de que uma eventual mudança de governo resulte em maior contenção dos gastos públicos, redução de impostos, privatizações e outras medidas consideradas favoráveis pelos investidores.  E aqui está a pergunta que deveria acompanhar todas as manchetes sobre a “felicidade do mercado”: felicidade para quem?

O programa apresentado por Flávio Bolsonaro propõe um novo teto de gastos, redução da estrutura ministerial e um amplo corte de despesas que sua própria campanha batizou de “tesouraço”. Integrantes de sua equipe econômica chegaram a mencionar um ajuste fiscal equivalente a 1,5% do PIB, embora permaneça pouco claro de onde sairia todo esse dinheiro. Durante a campanha também foram noticiadas discussões sobre alterações nas vinculações de recursos para saúde e educação e sobre mudanças na política de valorização dos benefícios previdenciários.

É precisamente aí que a comemoração dos operadores financeiros merece ser examinada com maior cuidado. Para quem possui ações, títulos e outros ativos financeiros, a expectativa de contenção fiscal pode significar valorização patrimonial e aumento da rentabilidade esperada. Para quem depende diretamente da escola pública, do SUS, das universidades federais, da Previdência e das demais políticas financiadas pelo Estado, entretanto, o significado concreto de um ajuste dependerá fundamentalmente de onde serão realizados os cortes.

É por isso que expressões aparentemente técnicas como “ajuste fiscal”, “controle das despesas”, “redução do tamanho do Estado” ou “melhora da percepção de risco” nunca deveriam aparecer desacompanhadas dessa pergunta elementar. Afinal, despesas públicas não são simplesmente números em uma planilha. Elas financiam hospitais, escolas, universidades, aposentadorias, fiscalização ambiental, ciência, infraestrutura e uma infinidade de serviços dos quais depende principalmente a parcela da população que não dispõe de recursos para comprá-los no mercado.

Também é necessário olhar para o outro lado do orçamento. Considerando juros, amortizações e rolagem da dívida, cerca de 44% do orçamento federal de 2026 estão associados ao serviço e ao refinanciamento da dívida pública. É importante esclarecer que esse percentual não representa integralmente dinheiro transferido aos credores, pois uma parcela expressiva corresponde à rolagem de títulos que vencem por meio da emissão de novos títulos. Ainda assim, a dimensão desses valores evidencia o peso extraordinário ocupado pela dívida pública e por seu financiamento nas contas da União. Assim, o que aconteceu nesta segunda-feira não demonstra que “o Brasil melhorou” algumas horas depois da abertura das urnas. Demonstra algo bem mais específico: os detentores de ativos financeiros reavaliaram rapidamente suas expectativas e passaram a atribuir maior valor aos ativos brasileiros diante do novo cenário eleitoral.

A reação também mostra que uma parcela relevante dos investidores recebeu favoravelmente o resultado do primeiro turno e as expectativas de mudança na orientação econômica a partir de 2027. Isso não significa que todos os investidores tenham a mesma preferência eleitoral, nem permite transformar o movimento da Bolsa numa espécie de plebiscito político. Mas revela quais expectativas econômicas foram inicialmente valorizadas pelos mercados.

Portanto, em vez de simplesmente celebrar que “a Bolsa bateu recorde” e “o dólar caiu”, talvez fosse mais esclarecedor perguntar quem espera ganhar com as políticas que produziram tamanha euforia e, principalmente, quem poderá pagar a conta caso o prometido “tesouraço” alcance os serviços públicos e as políticas sociais.  Porque Bolsa em alta é uma informação econômica. Transformá-la automaticamente em sinônimo de país melhor é uma escolha política.

A derrota foi de Lula, mas a conta será da classe trabalhadora

O avanço da extrema-direita expressa uma crise que vai muito além das urnas. Impedir a repetição do cenário argentino exige, agora, derrotar Flávio Bolsonaro no segundo turno

Postei aqui um comentário sobre a guinada que os institutos de pesquisa tiveram de sexta-feira para sábado e deixei as respostas para as urnas. Pois bem, passada a apuração, pode-se dizer que o movimento dos institutos pode ter sido uma correção de previsões que já se mostravam antecipadamente erradas, e seus proprietários resolveram fazer ajustes no último minuto para não saírem ainda mais desacreditados.

Analisando os resultados eleitorais — e muitos estão fazendo isso neste momento —, quero deixar clara a minha posição de que esta foi uma pesada derrota para a classe trabalhadora, e não simplesmente para o governo Lula. Ainda que parcelas importantes dessa mesma classe sejam artífices da derrota ao votarem em candidatos que prometem acabar com a parca estrutura de direitos criada principalmente a partir da Constituição de 1988, é preciso dizer que vivemos um período de retrocesso em escala global, basicamente em função do que se convencionou chamar de crise sistêmica do capitalismo.

A identificação dessa crise pelas classes dominantes dos países centrais tem tido como consequência o encurtamento de direitos e a ascensão de agrupamentos políticos dispostos a barganhar certa ascensão política e econômica em troca de desempenhar o papel de algozes da classe trabalhadora. E me parece que é justamente isso que está posto não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina.

Uma questão inegável é que parcelas significativas da população não se sentem — e nem poderiam se sentir — contempladas por uma estrutura de direitos e privilégios reservada às elites que controlam a riqueza e a estrutura do Estado. É a partir desse estranhamento que ocorre a ascensão da extrema-direita, que, curiosamente, não propõe democratizar esse controle, mas apenas passar a participar dele, sem que isso implique necessariamente ampliar o acesso a direitos para os seus próprios eleitores.

Além disso, no caso brasileiro, há que se ressaltar o fato de que o PT e seus partidos satélites passaram a ocupar o papel de defensores da ordem democrática burguesa, que tem se mostrado insuficiente para atender às necessidades e demandas da parcela da população que hoje prefere apostar na extrema-direita. Com isso, o PT termina associado aos erros e aos limites dessa mesma ordem, atraindo de forma crescente o ressentimento que vem se manifestando nos processos eleitorais recentes.

O horizonte imediato, caso a vitória de Flávio Bolsonaro se confirme no segundo turno, é o de termos algo muito parecido com o que aconteceu na Argentina sob a presidência de Javier Milei, com um amplo desmonte das estruturas que hoje amortecem, mas não resolvem, a miséria que atinge grandes parcelas da população. E, se isso realmente acontecer, é provável que as consequências sociais sejam ainda piores no Brasil.

A questão será, então, como responder a esse processo. Neste momento, entretanto, a quem não deseja assistir à repetição do cenário argentino no Brasil, sugiro que comece a trabalhar hoje para reverter a derrota de Lula e permitir que ele vença o segundo turno, que ocorrerá no dia 25 de outubro.

Simples assim.