Flávio Bolsonaro: a presidência escapou, os passaportes também. E agora?

Apenas quatro dias depois de o Blog do Pedlowski apontar o dilema entre a Presidência e uma eventual prisão, a derrota eleitoral e uma decisão do STF colocam o senador diante de uma situação ainda mais complicada

No dia 22 de outubro, publiquei aqui no Blog do Pedlowski um artigo intitulado “Presidiário ou presidente? Essas são as duas opções que Flávio Bolsonaro tem diante de si”. Na ocasião, utilizei a expressão inglesa Catch-22 para caracterizar a situação paradoxal em que se encontrava o senador, então candidato à Presidência da República. Minha avaliação era de que Flávio Bolsonaro enfrentava uma situação particularmente delicada: precisava vencer uma eleição presidencial enquanto se acumulavam revelações jornalísticas e investigações envolvendo seu nome e pessoas de seu círculo mais próximo. 

Quatro dias depois, o cenário político mudou radicalmente. Flávio Bolsonaro perdeu a eleição para Luiz Inácio Lula da Silva, que conquistou 51,79% dos votos válidos contra 48,21% do candidato do PL. Mas a derrota nas urnas não foi a única notícia desagradável para o primogênito de Jair Bolsonaro. Nesta segunda-feira (26), a Polícia Federal o intimou a entregar seus passaportes comum e diplomático, em cumprimento a uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo reportagem publicada pelo UOL, Flávio terá 24 horas para entregar os documentos e também está proibido de manter contato com o advogado Willer Tomaz, personagem central de algumas das investigações que já havíamos mencionado no artigo de 22 de outubro. A decisão representa um agravamento concreto de sua situação jurídica, embora não constitua condenação nem signifique que uma prisão seja inevitável.

O aspecto mais significativo dessa nova situação é que ela recoloca no centro das atenções justamente a relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz. Como já destacamos anteriormente, o advogado teve seu nome associado a investigações sobre movimentações financeiras suspeitas, incluindo a descoberta, pela Polícia Federal, de um compartimento oculto em um hangar utilizado por empresas de aviação ligadas a ele, onde foi encontrada uma máquina de contar dinheiro. Também foram noticiadas suspeitas envolvendo operações financeiras e empresas de apostas, inclusive a Best Bet. Essas suspeitas continuam dependendo de investigação e comprovação, e as defesas dos envolvidos negam irregularidades.

A reportagem do UOL acrescenta agora um elemento relevante: segundo a Polícia Federal, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz compartilhavam uma conta bancária no Santander. A proibição de contato entre ambos sugere que as autoridades consideram necessário preservar as investigações de possíveis interferências. Isso não comprova os crimes investigados, mas demonstra que as relações financeiras e pessoais entre o senador e o advogado estão longe de ser uma questão encerrada.

Há ainda um componente político particularmente revelador. Segundo o próprio Flávio Bolsonaro, a decisão de apreender seus passaportes também estaria relacionada a declarações de seu irmão Eduardo Bolsonaro, que defendeu publicamente que ele deixasse o Brasil caso fosse derrotado nas eleições. Flávio nega ter considerado essa possibilidade e classificou a medida judicial como uma tentativa de intimidação. A legalidade, a necessidade e a proporcionalidade das restrições poderão ser questionadas pela defesa, como deve ocorrer em qualquer Estado democrático de direito.

Entretanto, o fato político permanece: menos de 24 horas depois de perder a disputa presidencial, Flávio Bolsonaro passou a enfrentar restrições judiciais à sua liberdade de deslocamento internacional. Ao mesmo tempo, em vez de reconhecer a derrota, anunciou que pretende buscar a cassação da chapa vencedora, recorrendo a questionamentos sobre a prorrogação do horário de votação em algumas localidades. Ocorre que os aproximadamente 34 mil votos registrados depois das 17 horas representam uma fração insignificante diante da vantagem superior a quatro milhões de votos obtida por Lula.

É nesse ponto que a hipótese apresentada no Blog do Pedlowski em 22 de outubro ganha nova atualidade. Naquele momento, sugerimos que a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro estava atravessada por uma contradição fundamental: enquanto buscava alcançar o posto político mais importante do país, o senador acumulava problemas que poderiam comprometer seu futuro político e jurídico. A vitória eleitoral poderia representar um extraordinário fortalecimento de sua posição política. A derrota, por outro lado, deixaria exposta uma trajetória marcada por controvérsias e investigações ainda não concluídas.

Não se trata de afirmar que a perda da eleição tenha causado a decisão judicial, tampouco que a apreensão dos passaportes antecipe uma condenação criminal. Trata-se de reconhecer que a sequência dos acontecimentos tornou muito mais visível a vulnerabilidade política e jurídica que apontávamos antes da votação.

A ironia histórica é difícil de ignorar. Flávio Bolsonaro entrou na disputa presidencial carregando o sobrenome de um ex-presidente condenado e submetido à prisão domiciliar. Agora, derrotado nas urnas, vê-se obrigado a entregar seus documentos de viagem enquanto prosseguem investigações que poderão ter consequências importantes para seu futuro.

O Catch-22 que identificamos no dia 22 de outubro parece, portanto, ter entrado em uma nova fase. A alternativa da Presidência foi afastada pela vontade popular, mas a possibilidade de consequências judiciais mais graves permanece em aberto. Entre a derrota política consumada e o desfecho ainda incerto das investigações, Flávio Bolsonaro terá de enfrentar uma realidade que nenhuma campanha eleitoral poderá resolver por ele.

A pergunta que fizemos quatro dias atrás continua pertinente, mas agora precisa ser reformulada: sem a Presidência e com os passaportes sob determinação de entrega à Polícia Federal, qual será o próximo capítulo da trajetória de Flávio Bolsonaro?

A resposta dependerá das provas reunidas, do exercício do direito de defesa e das decisões da Justiça. Mas uma coisa já podemos afirmar: o cenário de vulnerabilidade que apontamos antes da eleição não desapareceu com a abertura das urnas. Pelo contrário, os acontecimentos desta segunda-feira indicam que ele pode estar apenas começando.   E, para quem pretendia chegar ao Palácio do Planalto, terminar a eleição tendo de entregar os passaportes à Polícia Federal está longe de ser um desfecho trivial.

Brasil continua abrindo as portas para agrotóxicos rejeitados na Europa: dois atos do Ministério da Agricultura revelam a dimensão do problema

Publicações de 26 de outubro expõem a expansão do mercado brasileiro de agrotóxicos, a dependência de fabricantes estrangeiros e a permanência de ingredientes ativos sem aprovação para uso agrícola na União Europeia

Enquanto o debate público brasileiro se concentra nos resultados das eleições presidenciais, a máquina administrativa responsável pela regulamentação dos agrotóxicos continua funcionando. A edição de 26 de outubro de 2026 do Diário Oficial da União trouxe dois atos da Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins, vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que ajudam a compreender a dimensão de um problema estrutural: a continuidade da expansão do mercado brasileiro de substâncias químicas destinadas à agricultura, inclusive de ingredientes ativos que não possuem aprovação vigente para utilização fitossanitária na União Europeia.

Os Atos nº 65 e nº 66, relacionados a procedimentos de registro de agrotóxicos, oferecem um retrato revelador das prioridades que orientam a política brasileira para o setor. O primeiro apresenta 72 registros de produtos técnicos, enquanto o segundo reúne 27 pedidos de registro, sendo 25 referentes a produtos técnicos equivalentes e dois a produtos técnicos novos. Embora representem etapas administrativas distintas, os documentos demonstram a intensidade com que empresas nacionais e estrangeiras buscam ampliar sua participação no mercado brasileiro.

É importante observar que os 99 procedimentos identificados não representam 99 novos ingredientes ativos nem 99 produtos comerciais imediatamente disponíveis para aplicação nas lavouras. Há registros repetidos de uma mesma substância, pedidos ainda sujeitos à análise e produtos técnicos destinados à formulação de agrotóxicos. Essa distinção, entretanto, não diminui a relevância dos atos. Ao contrário, permite identificar como se organiza a ampliação da oferta de ingredientes ativos no país.

O que a Europa não aprova continua encontrando espaço no Brasil

Um dos aspectos mais preocupantes dos dois atos é a presença de substâncias que não possuem aprovação vigente para uso fitossanitário na União Europeia. No Ato nº 65 aparecem, entre outros, atrazina, clorotalonil, clotianidina, propiconazol, picoxistrobina, diuron, etiprole e ciproconazol. No Ato nº 66, a análise dos pedidos também identificou ciproconazol, espiromesifeno e espinetoram entre os ingredientes sem aprovação europeia vigente.

As razões para essas situações não são necessariamente iguais. Algumas substâncias tiveram suas aprovações não renovadas após avaliações regulatórias; outras deixaram de ser aprovadas em decorrência da retirada de pedidos pelas empresas interessadas. Há ainda ingredientes submetidos a restrições específicas de utilização. Por isso, seria incorreto tratar todas essas situações como se fossem proibições fundamentadas exatamente nos mesmos riscos.

Mas a diversidade dos procedimentos administrativos não elimina a contradição central: substâncias que não podem ser regularmente utilizadas como agrotóxicos na agricultura europeia continuam integrando processos de registro e comercialização no Brasil.

A atrazina é um exemplo emblemático. Esse herbicida deixou de ser aprovado na União Europeia em 2004, em meio a preocupações com a contaminação das águas subterrâneas. Mais de duas décadas depois, continua aparecendo em registros brasileiros, como demonstra o Ato nº 65.

O clorotalonil, fungicida cuja aprovação europeia não foi renovada em 2019, também está presente no documento. A clotianidina, inseticida neonicotinoide associado a preocupações com os impactos sobre abelhas e outros polinizadores, aparece em dois registros. Já o propiconazol e a picoxistrobina integram a relação de fungicidas que perderam aprovação para uso fitossanitário na União Europeia.

O caso do ciproconazol merece uma ressalva. A substância aparece nos dois atos, mas sua situação europeia não deve ser apresentada simplesmente como resultado de uma proibição decorrente de comprovação definitiva de danos. Sua aprovação deixou de vigorar após a retirada ou não continuidade do pedido de renovação. O resultado prático é a ausência de autorização fitossanitária vigente na União Europeia, mas a precisão sobre o procedimento regulatório é necessária para compreender o caso.

A pergunta que permanece é por que o Brasil continua incorporando ao seu mercado ingredientes ativos que deixaram de atender às condições necessárias para sua utilização agrícola em outras jurisdições.

A indústria asiática fornece, as empresas brasileiras registram

Outro elemento que atravessa os dois atos é a presença expressiva de fabricantes estrangeiros, especialmente chineses e indianos, nas cadeias de fornecimento de ingredientes ativos destinados ao mercado brasileiro.

Entre as empresas identificadas no Ato nº 65 aparecem fabricantes como Ningxia Yifan Biotechnology, Shandong Weifang Rainbow Chemical, Anhui Guangxin Agrochemical, Hebei Veyong Bio-Chemical e Jiangsu Flag Chemical. Do lado brasileiro, empresas como Solagro Soluções Agrícolas, Rainbow Defensivos Agrícolas, Nortox, Cropchem e Agrolianza figuram como titulares de diferentes registros.

O Ato nº 66 reforça essa estrutura, com a presença de empresas como Rainbow, Biorisk, Lemma, Nortox, Solagro, Bioagri e Hemani entre os requerentes.

Esse padrão revela uma característica importante do modelo brasileiro: parte significativa do mercado é abastecida por ingredientes ativos fabricados no exterior, enquanto empresas instaladas no país atuam como titulares de registros, importadoras ou participantes das cadeias de formulação e distribuição.

Não se trata de afirmar que a origem chinesa ou indiana de uma substância seja, por si só, um indicador de perigo. O problema é a combinação entre dependência externa, ampliação da oferta de produtos químicos e diferenças nos padrões regulatórios adotados pelos países consumidores.

O Brasil, que possui uma das maiores agriculturas comerciais do planeta, continua ocupando uma posição estratégica para fabricantes internacionais de agrotóxicos. E essa posição precisa ser examinada também sob a perspectiva dos custos ambientais e sanitários associados ao modelo de produção agrícola predominante.

Os riscos ambientais não desaparecem com a multiplicação dos registros

A classificação ambiental dos produtos incluídos no Ato nº 65 acrescenta outra dimensão ao problema. O documento apresenta substâncias enquadradas nas Classes I, II, III e IV de periculosidade ambiental, incluindo produtos considerados altamente perigosos ou muito perigosos ao meio ambiente.

Entre os exemplos está o Lambda-Cyhalothrin Técnico CG, classificado na Classe I — Produto Altamente Perigoso ao Meio Ambiente. Essa classificação é particularmente relevante porque demonstra que a ampliação dos registros não envolve apenas produtos de baixo potencial de impacto ambiental.

No Ato nº 66, a presença de ingredientes como sulfoxaflor e fenazaquina também merece atenção. O sulfoxaflor possui restrições de utilização na União Europeia, enquanto a fenazaquina está submetida a condições regulatórias específicas. Portanto, mesmo quando uma substância mantém aprovação europeia, isso não significa que seu uso esteja autorizado sem limitações.

O problema se torna ainda mais complexo quando se considera que os impactos dos agrotóxicos não se restringem aos organismos que se pretende controlar. Dependendo das propriedades das substâncias, das condições de aplicação e dos níveis de exposição, podem ocorrer efeitos sobre organismos não alvo, recursos hídricos, solos e biodiversidade.

Além disso, a avaliação de cada ingrediente ativo isoladamente não resolve a questão dos impactos cumulativos e das exposições simultâneas a diferentes substâncias químicas. Esse é um desafio particularmente importante em regiões agrícolas caracterizadas pela utilização intensiva de agrotóxicos.

Quem fica com os lucros e quem assume os riscos?

A leitura conjunta dos Atos nº 65 e nº 66 permite formular uma questão que ultrapassa o campo estritamente regulatório. A expansão do mercado brasileiro de agrotóxicos está inserida em uma estrutura econômica na qual fabricantes internacionais, empresas registrantes, distribuidores e grandes produtores agrícolas ocupam posições diferentes das populações potencialmente expostas aos efeitos dessas substâncias.

Os benefícios econômicos da comercialização de agrotóxicos são apropriados pelas empresas que participam das cadeias produtivas e comerciais. Já os custos associados à contaminação ambiental, à exposição ocupacional e aos possíveis danos à saúde podem alcançar trabalhadores rurais, comunidades agrícolas e populações que não participam diretamente das decisões sobre sua utilização.

Trata-se de uma distribuição desigual de benefícios e riscos que precisa ocupar o centro do debate sobre o modelo agrícola brasileiro.

Nesse contexto, o conceito de violência lenta, desenvolvido pelo pesquisador Rob Nixon, oferece uma chave importante de interpretação. Diferentemente dos desastres ambientais que produzem imagens imediatas de destruição, a contaminação por substâncias químicas pode ocorrer de maneira gradual, dispersa e frequentemente pouco visível. Seus efeitos podem se acumular no tempo, enquanto os mecanismos responsáveis por sua produção permanecem distantes do cotidiano das populações atingidas.

Isso não significa atribuir automaticamente danos específicos aos produtos relacionados nos dois atos, mas reconhecer que a avaliação dos riscos precisa considerar processos de exposição prolongada e suas possíveis consequências sociais e ambientais.

O Brasil precisa discutir o modelo agrícola que sustenta essa expansão

Os Atos nº 65 e nº 66 demonstram que a política brasileira de agrotóxicos não pode ser compreendida apenas pela contagem de registros ou pela velocidade dos procedimentos administrativos. É necessário discutir quais ingredientes ativos estão sendo incorporados ao mercado, por que determinadas substâncias continuam sendo utilizadas no Brasil depois de perderem aprovação em outros países e quais mecanismos efetivamente protegem a saúde humana e o meio ambiente.

Também é preciso evitar uma interpretação simplista das diferenças entre os sistemas regulatórios. A ausência de aprovação europeia não significa necessariamente que uma substância tenha sido proibida após comprovação definitiva de danos. Entretanto, decisões de não renovação, restrições de uso e preocupações identificadas em avaliações científicas constituem informações relevantes que não deveriam ser ignoradas pelas autoridades brasileiras.

A comparação internacional não substitui a avaliação científica realizada no Brasil, mas deveria servir como instrumento de transparência e de aperfeiçoamento das decisões regulatórias.

A questão central é saber se o país está utilizando sua capacidade institucional para reduzir riscos ou se continua priorizando a ampliação da oferta de insumos químicos para atender às demandas de um modelo agrícola fortemente dependente de agrotóxicos.

Os dois atos publicados em 26 de outubro mostram que, enquanto parte do mundo restringe ou abandona determinados ingredientes ativos, o Brasil continua oferecendo espaço para sua circulação comercial. E, diante desse quadro, a pergunta mais importante não é quantos registros o Ministério da Agricultura consegue processar, mas quem se beneficia dessa expansão e quem poderá pagar sua conta ambiental e sanitária.

Afinal, quando os lucros são concentrados e os riscos potencialmente distribuídos por toda a sociedade, a discussão sobre agrotóxicos deixa de ser apenas uma questão de produtividade agrícola. Torna-se uma questão de saúde pública, justiça ambiental e escolha política sobre o futuro da agricultura brasileira.

Lula venceu nas urnas, mas foi o povo nas ruas que derrotou Flávio Bolsonaro

A mobilização histórica que uniu jovens, trabalhadores e idosos reverteu a vitória da extrema-direita no primeiro turno e mostrou a força da combinação entre redes sociais e ruas. Agora, o desafio é manter essa energia popular para transformar a vitória eleitoral em conquistas sociais e impedir novos retrocessos

Eu poderia me concentrar, neste momento, na atitude de mau perdedor que Flávio Bolsonaro demonstrou em seu pronunciamento após a derrota. Mas entendo que isso não apenas seria gastar vela com mau defunto, como também significaria passar ao largo do que me parece essencial neste momento. Prefiro destacar a impressionante mobilização da parcela da população que votou em Lula, incluindo até pessoas centenárias. Foi essa mobilização, iniciada no dia 5 de outubro por estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ), que rapidamente se estendeu por todas as partes do Brasil, desde as grandes áreas metropolitanas até os mais distantes rincões do país, que desempenhou um papel decisivo na vitória eleitoral.

É importante notar que essa mobilização, que uniu a juventude e os segmentos mais idosos da nossa população, ocorreu porque as pessoas compreenderam a gravidade da vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e as profundas repercussões institucionais, políticas e econômicas que sua eventual confirmação no segundo turno poderia produzir a partir de sua posse, em janeiro de 2027. Aqui, é fundamental apontar que, pelo que veio a público, as medidas que seriam adotadas por Flávio Bolsonaro reproduziriam o mesmo modelo arrasa-quarteirão implementado por Javier Milei na Argentina, que acabou empurrando uma parcela significativa da classe média argentina para a pobreza. Caso Flávio vencesse, havia indicações de que seriam publicados pelo menos 200 decretos que afetariam diretamente direitos trabalhistas, pensões e aposentadorias.

Foi o espectro desse imenso ataque à classe trabalhadora que impulsionou mobilizações inéditas, não apenas nas capitais, mas também em pequenas cidades espalhadas por todas as regiões brasileiras. Essas mobilizações se refletem agora nos resultados eleitorais, que mostram que Lula avançou sobre Flávio na maioria das cidades brasileiras, revertendo derrotas ou ampliando suas margens de vitória. Dois casos particularmente emblemáticos foram as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, onde Lula venceu, rompendo um ciclo de derrotas que provocava não apenas desconforto numérico, mas também político, na medida em que a extrema-direita parecia ter conquistado um controle praticamente permanente das urnas.

Há ainda que se frisar que também ontem foi derrotado o líder direitista da Sérvia, Aleksandar Vučić, por uma coligação liderada pela juventude, que se levantou contra a percepção de corrupção estrutural nas instituições daquela nação dos Bálcãs. A mobilização na Sérvia não pode ser analisada isoladamente do que ocorreu nas eleições brasileiras, pois ambas as situações parecem conectadas a outros grandes levantes populares em curso na Índia, Espanha e França. Na raiz desses movimentos, que começam a produzir repercussões eleitorais, encontra-se a crise do capitalismo, agravada pelo esgotamento das políticas neoliberais difundidas a partir do chamado Consenso de Washington. Aliás, as eleições de meio de mandato que ocorrerão nos Estados Unidos, no próximo dia 3 de novembro, poderão ser tão impactantes quanto a vitória de Lula, pois também estão inseridas nesse mesmo contexto de insatisfação social e contestação política.

Também é necessário observar que a vitória de Lula terá repercussões imediatas sobre toda a América Latina, na medida em que interrompe uma sequência de derrotas eleitorais impostas pela extrema-direita, frequentemente impulsionada pelas chamadas big techs. Cabe lembrar que, apenas nos últimos 12 meses, a extrema-direita venceu eleições na Bolívia, no Chile, na Colômbia e no Peru, sempre com o uso ostensivo das redes sociais. Com a vitória de Lula, esse ciclo não apenas é interrompido, como também parece ter surgido um poderoso antídoto contra essa ofensiva: a combinação entre a mobilização nas redes sociais e a ocupação das ruas.

Finalmente, que ninguém imagine que todos os problemas do Brasil estejam resolvidos com a vitória de Lula. O que evitamos foi a consolidação da hegemonia da extrema-direita bolsonarista sobre os três Poderes constituídos. Agora, é preciso lembrar que o que garantiu esse resultado foi uma mobilização política que rompeu com a inércia da direção do PT e do comando da campanha de Lula. Manter essa mobilização será fundamental não apenas para impedir quaisquer estripulias da extrema-direita, mas também para garantir que a vitória eleitoral se traduza em melhorias efetivas nas condições de trabalho e de vida dos trabalhadores e da juventude.

O resto, me permitam dizer, já faz parte da história.

Lula faz história: a virada nas urnas e a mobilização popular marcam a eleição de 2026

Depois de perder o primeiro turno para Flávio Bolsonaro, Lula conquista um quarto mandato inédito. A mobilização da juventude, dos movimentos sociais e de eleitores de diferentes gerações marca uma eleição também atravessada por denúncias de restrições ao transporte público e pela atuação controversa da Justiça Eleitoral

O Brasil acaba de assistir a um acontecimento sem precedentes em sua história eleitoral recente. Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República neste domingo, 25 de outubro, depois de protagonizar uma virada que nenhum outro candidato havia conseguido realizar nas eleições presidenciais desde a redemocratização: terminar o primeiro turno atrás do adversário e conquistar a vitória no segundo. O resultado assegura a Lula um quarto mandato presidencial, outro marco histórico, e encerra uma campanha que parecia encaminhar-se em direção bastante diferente após a votação de 4 de outubro.

Naquele primeiro turno, Flávio Bolsonaro havia conquistado 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, abrindo uma vantagem superior a 2,2 milhões de votos. Três semanas depois, o quadro eleitoral estava invertido. Com mais de 98% das seções totalizadas, Lula já havia ultrapassado 63 milhões de votos, alcançando 51,75% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro registrava 48,25%. A diferença superior a 4,2 milhões de votos tornou matematicamente irreversível o resultado e confirmou uma reviravolta que merece ser examinada para além dos números.

Um dos elementos mais relevantes dessa transformação foi a mobilização social ocorrida entre os dois turnos. As manifestações estudantis que começaram logo depois do primeiro turno, as mobilizações organizadas por movimentos sociais e a intensificação da disputa política nas ruas e nas redes digitais contribuíram para modificar o ambiente de uma campanha inicialmente marcada por dificuldades de organização e comunicação. A juventude teve uma presença particularmente visível nesse processo, ocupando espaços públicos e participando de manifestações que recolocaram o debate sobre o futuro do país no centro da disputa eleitoral.

Seria precipitado atribuir a vitória exclusivamente a um segmento do eleitorado, mas seria igualmente inadequado ignorar a importância política dessa mobilização. A campanha do segundo turno não ficou restrita aos programas eleitorais e às estruturas partidárias tradicionais. Ela passou a envolver organizações estudantis, movimentos sociais, sindicatos, coletivos culturais e redes de participação política que buscaram ampliar o engajamento popular. A relação exata entre essas mobilizações e a transferência de votos ainda deverá ser investigada, mas sua presença na dinâmica eleitoral foi evidente.

Outro aspecto que merece atenção é a participação dos eleitores mais idosos. A campanha de Lula procurou estimular o comparecimento desse segmento, inclusive daqueles com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo. A mobilização intergeracional é uma dimensão importante da eleição de 2026, embora seja necessário aguardar os dados de comparecimento por faixa etária para determinar se houve efetivamente uma participação excepcional dos idosos. O encontro político entre diferentes gerações poderá ser uma das chaves para compreender a mudança observada entre os dois turnos.

Entretanto, a vitória de Lula também ocorreu em meio a uma controvérsia que não pode ser relegada ao esquecimento. As denúncias de restrições ao transporte público em cidades como Salvador e São Paulo levantaram questionamentos sobre as condições oferecidas aos eleitores que dependem dos ônibus para chegar às seções eleitorais. Em uma sociedade profundamente desigual, qualquer redução deliberada do transporte em dia de eleição pode atingir desproporcionalmente os trabalhadores e os moradores das periferias urbanas.

A gravidade dessas denúncias levou o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, a determinar a prorrogação da votação até as 19 horas. Entretanto, a decisão foi tomada praticamente no momento previsto para o encerramento das urnas, produzindo uma situação de difícil administração. Sob a presidência de Kassio Nunes Marques, o Tribunal Superior Eleitoral orientou que a votação prosseguisse apenas nas seções que ainda permaneciam abertas. Em consequência, a extensão do horário não pôde beneficiar uniformemente todos os eleitores potencialmente prejudicados.

A questão exige uma investigação rigorosa. Caso seja comprovado que autoridades ou gestores de transporte restringiram deliberadamente a circulação de ônibus para dificultar o comparecimento de eleitores, estaremos diante de uma interferência grave no exercício dos direitos políticos. O eventual caráter intencional dessas restrições, suas responsabilidades e seus efeitos concretos ainda precisam ser demonstrados. A vitória de Lula não elimina a necessidade de apuração, assim como as denúncias não constituem, por si mesmas, prova de que o resultado tenha sido alterado.

É nesse sentido que o segundo turno de 2026 apresenta duas dimensões inseparáveis. De um lado, uma virada eleitoral histórica, construída em um ambiente de intensa mobilização política e participação social. De outro, a necessidade de esclarecer episódios que colocaram em discussão a capacidade das instituições de assegurar condições iguais de participação aos cidadãos.

A reeleição de Lula também não significa o desaparecimento das profundas divisões políticas reveladas pelas urnas. A votação expressiva recebida por Flávio Bolsonaro demonstra que o novo mandato começará em um país politicamente dividido, com disputas importantes sobre políticas sociais, direitos trabalhistas, serviços públicos, economia e o papel do Estado. A dimensão histórica da vitória não elimina os desafios que estarão colocados a partir de janeiro de 2027.

Ainda assim, há uma conclusão política importante a extrair deste domingo: os resultados eleitorais não são determinados antecipadamente pelas vantagens obtidas em uma primeira votação. A reorganização das campanhas, a participação popular e a capacidade de mobilizar diferentes setores da sociedade podem modificar profundamente uma disputa em poucas semanas.

A eleição de 2026 ficará registrada como aquela em que Lula conseguiu transformar uma derrota no primeiro turno em uma vitória no segundo. Também deverá ser lembrada pela mobilização social que marcou as semanas finais da campanha e pelas controvérsias institucionais que exigirão esclarecimentos.

O desafio que permanece é fazer com que a vitória eleitoral conviva com a defesa intransigente das garantias democráticas. Afinal, o direito de votar precisa estar assegurado tanto para quem apoia o vencedor quanto para quem escolheu o candidato derrotado. A legitimidade da democracia depende dessa garantia, e não apenas do resultado apresentado pelas urnas.

Eleição sob suspeita: o caos no transporte e a confusão judicial colocam em risco a legitimidade do segundo turno

Denúncias de boicote ao transporte público, intervenção tardia da Justiça Eleitoral e fechamento desigual das urnas lançam dúvidas sobre a legitimidade do resultado, independentemente de quem vença a disputa presidencial

O segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, realizado neste domingo (25), poderá ficar marcado não apenas pela disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, mas também por uma crise institucional cujas consequências ainda estão longe de ser conhecidas. As denúncias de restrições deliberadas ao transporte público em municípios estratégicos, somadas à intervenção emergencial do Supremo Tribunal Federal (STF) e à aplicação desigual da prorrogação do horário de votação, criaram uma situação que poderá alimentar questionamentos sobre a legitimidade do resultado, independentemente de quem seja declarado vencedor.

O problema começou com denúncias de redução da oferta de transporte coletivo em cidades como Salvador e São Paulo, além de outros municípios brasileiros. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, a disponibilidade de transporte público não constitui uma questão secundária no processo eleitoral. Para milhões de trabalhadores, moradores das periferias urbanas e cidadãos de baixa renda, o ônibus representa a principal, quando não a única, possibilidade de chegar ao local de votação. Portanto, qualquer restrição deliberada à circulação dos veículos no dia da eleição pode representar uma interferência direta no exercício da soberania popular.

A gravidade das denúncias levou o ministro Cristiano Zanin, do STF, a determinar a prorrogação da votação até as 19 horas. Entretanto, a decisão chegou no momento em que o horário regulamentar de votação estava terminando e diversas seções eleitorais já haviam encerrado suas atividades. A posterior orientação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, estabeleceu que a prorrogação seria aplicada apenas às seções cujas urnas ainda não haviam sido fechadas. Com isso, a solução emergencial destinada a assegurar o direito de voto acabou produzindo uma situação institucionalmente problemática: eleitores submetidos às mesmas dificuldades de deslocamento poderiam encontrar condições diferentes para votar, dependendo de a seção eleitoral ter permanecido aberta ou não.

É justamente nesse ponto que emerge o problema central da legitimidade. Uma eleição democrática não depende exclusivamente da contagem correta dos votos depositados nas urnas. Sua legitimidade também exige que os cidadãos tenham condições efetivas e equivalentes de participar do processo. Se houver comprovação de que decisões administrativas restringiram deliberadamente o acesso de determinados grupos sociais às seções eleitorais, estaremos diante de algo muito mais grave do que uma falha operacional. Estaremos diante de uma possível violação do princípio da igualdade política, segundo o qual cada cidadão deve dispor de condições reais para exercer seu direito ao voto.

A situação torna-se ainda mais delicada porque a prorrogação parcial não necessariamente repara o prejuízo causado aos eleitores que não conseguiram chegar às urnas. Uma pessoa que tenha desistido de votar diante da ausência de transporte não recupera automaticamente essa oportunidade porque uma decisão judicial foi anunciada no final da tarde. Tampouco a manutenção de algumas seções abertas resolve o problema daqueles que encontraram seus locais de votação definitivamente encerrados. A extensão efetiva desse prejuízo ainda precisará ser demonstrada, mas a dificuldade de mensurá-lo já constitui um desafio para a Justiça Eleitoral.

Há também uma questão que não pode ser ignorada: a necessidade de examinar a atuação das instituições responsáveis pela organização do pleito. Será fundamental esclarecer quando o TSE tomou conhecimento das denúncias, quais providências foram adotadas, por que a controvérsia chegou ao STF tão perto do encerramento da votação e se existiam medidas preventivas capazes de evitar o impasse. Essas perguntas não pressupõem responsabilidade previamente estabelecida de qualquer autoridade, mas exigem respostas públicas, documentadas e verificáveis.

O risco político é evidente: qualquer que seja o vencedor, o candidato derrotado poderá utilizar as irregularidades denunciadas para questionar o processo eleitoral. Isso não significa que tais questionamentos tenham necessariamente fundamento jurídico para modificar o resultado. Significa, porém, que a ausência de esclarecimentos convincentes poderá alimentar uma crise de confiança nas instituições eleitorais, especialmente em um ambiente político já marcado por intensa polarização.

Também é indispensável evitar uma conclusão precipitada: a existência de problemas no transporte e de dificuldades na aplicação da decisão judicial não demonstra, por si só, que o resultado nacional tenha sido alterado. Para sustentar uma afirmação dessa natureza, será necessário investigar a extensão territorial das irregularidades, identificar os eleitores potencialmente prejudicados, verificar as responsabilidades administrativas e avaliar a relevância eleitoral dos fatos à luz da legislação. A gravidade das denúncias exige investigação rigorosa, não a substituição das provas por especulações.

O episódio revela, entretanto, uma fragilidade que merece atenção para além da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. A democracia não se realiza apenas quando os votos são contabilizados corretamente. Ela depende igualmente de condições materiais que permitam à população participar das decisões coletivas. Quando o acesso ao transporte público se transforma em objeto de disputa eleitoral, fica evidente como as desigualdades sociais podem comprometer o exercício de um direito formalmente universal.

Por isso, a resposta institucional ao que ocorreu neste domingo não poderá se limitar à proclamação do vencedor. Será necessário apresentar um balanço transparente das ocorrências, investigar as denúncias de descumprimento das obrigações relativas ao transporte eleitoral e esclarecer os critérios que determinaram a manutenção ou o encerramento da votação em diferentes localidades. Caso sejam comprovadas condutas deliberadas para impedir o comparecimento de eleitores, seus responsáveis deverão responder nos termos da lei.

O Brasil precisa saber não apenas quem recebeu mais votos, mas também se todos os cidadãos tiveram uma oportunidade efetiva de votar. Essa é a questão fundamental que emerge do segundo turno de 2026. Independentemente do resultado, a credibilidade da eleição dependerá da capacidade das instituições de demonstrar que as irregularidades foram investigadas, que eventuais responsabilidades foram apuradas e que os direitos políticos dos cidadãos foram tratados com a seriedade que a democracia exige.

Afinal, uma democracia não pode se contentar apenas em contar os votos de quem conseguiu chegar às urnas. Precisa também se preocupar com aqueles que, por razões alheias à sua vontade, podem ter sido impedidos de chegar até elas.

Flávio Bolsonaro até tentou parecer preparado, mas o debate da Globo mostrou os limites do personagem

Entre respostas ensaiadas, improvisos desastrosos e promessas contraditórias, Flávio Bolsonaro expôs suas fragilidades no último debate. Agora, a disputa será decidida nas ruas, nas redes e nas urnas

Não sei quantos leitores deste blog acompanharam integralmente o debate presidencial de ontem na TV Globo. Eu consegui, apesar de considerar esses eventos frequentemente entediantes e, por vezes, um verdadeiro teste de resistência diante da televisão.

Minha impressão inicial foi de que Lula começou frio, enquanto Flávio Bolsonaro conseguiu marcar alguns pontos no primeiro bloco. Diferentemente do que ocorreu no debate da Band, o candidato bolsonarista chegou mais bem preparado e, sobretudo, consciente de que repetir o comportamento grosseiro e quase infantil adotado anteriormente, aparentemente sob orientação de Pablo Marçal, poderia ser fatal às suas pretensões eleitorais.

O problema para Flávio é que o debate não terminou no primeiro bloco. À medida que as discussões avançaram, começaram a aparecer as limitações de um candidato que, apesar de ocupar uma cadeira no Senado da República, demonstrou desconhecimento sobre questões que deveria dominar. Quando precisou abandonar o roteiro preparado por seus assessores, as escorregadas se multiplicaram. Uma delas foi a referência aos nove dedos de Lula, provocação que o presidente soube devolver com dureza.

Houve também momentos que beiraram o ridículo, como a declaração de que seria o mais nordestino dos cariocas caso fosse eleito, ou as confusas referências a pagamentos em dólares envolvendo uma ferrovia nordestina. Em vez de demonstrar compromisso com o Nordeste, região que vem experimentando importantes transformações econômicas e educacionais, Flávio pareceu recorrer a frases ensaiadas e desconectadas da realidade.

Igualmente infeliz foi sua referência ao mau cheiro em Belém, justamente uma cidade que vem recebendo investimentos em saneamento destinados a enfrentar problemas históricos de infraestrutura urbana. A tentativa de desqualificar a cidade acabou revelando mais sobre a superficialidade de sua abordagem do que sobre os problemas reais da capital paraense.

Mas houve um momento particularmente constrangedor: quando Flávio precisou explicar sua posição diante do assassinato de Ana Clara Gomes Machado, uma criança de apenas cinco anos, morta em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói. A situação ganhou contornos ainda mais dramáticos quando ele se dirigiu à mãe da vítima, presente no debate, utilizando o nome da filha assassinada. Sua tentativa de relativizar a responsabilidade pelo crime, em vez de demonstrar sensibilidade diante da tragédia, transmitiu uma impressão de crueldade absolutamente desnecessária.

Entretanto, o aspecto que mais me chamou a atenção foi outro: a estratégia de prometer aquilo a que Flávio Bolsonaro já se opôs ou que integrantes de sua própria campanha indicaram pretender fazer exatamente ao contrário, caso cheguem ao governo. Essa contradição pode ser especialmente prejudicial entre os eleitores que acompanharam o debate buscando decidir seu voto.

Para mim, foi aí que Flávio mais perdeu. Porque uma coisa é decorar respostas e reproduzir promessas cuidadosamente preparadas por marqueteiros. Outra, muito diferente, é transmitir convicção e compromisso com aquilo que se está dizendo. E, independentemente das críticas que possam ser feitas a Lula, essa é uma qualidade política que o atual presidente possui e que seu adversário não conseguiu demonstrar.

Mas o debate decidirá a eleição de amanhã?

Minha resposta é não. A esta altura, dificilmente um único debate será capaz de determinar o resultado de uma disputa tão apertada. O que poderá fazer a diferença é a capacidade de mobilização das duas campanhas, tanto nas ruas quanto nas redes sociais.  E é justamente aí que a eleição permanece completamente aberta.

Para quem chegou até este ponto do texto e pretende votar em Lula, a conclusão é simples: não basta torcer pela vitória. É preciso buscar votos, conversar com os indecisos e transformar apoio político em participação efetiva nas urnas. Afinal, seria difícil imaginar, logo após o primeiro turno, que chegaríamos à véspera da eleição em uma situação de tamanha incerteza.

Por outro lado, as manifestações que tomaram as ruas de inúmeras cidades brasileiras e a mobilização digital impulsionada por André Janones e seu chamado Exército de Lula mostram que ainda existe capacidade de reação. Uma virada histórica continua possível, mas dependerá muito mais da disposição dos eleitores do que de qualquer desempenho televisivo.

Por isso, adaptando o espírito de uma das palavras de ordem da Revolução Francesa, deixo aqui minha convocação:

ÀS REDES E ÀS RUAS, CIDADÃOS!

Afinal, o Brasil não merece um segundo governo Bolsonaro.

 

Mais de 50 mil mortos pelo calor na Europa: a crise climática já está cobrando vidas, e o Brasil pode ser o próximo a pagar uma conta ainda maior

Pesquisa revela que o aquecimento global provocado pelas atividades humanas responde por aproximadamente dois terços das mortes associadas ao calor no verão europeu de 2026. Os resultados reforçam alertas já publicados no Blog do Pedlowski sobre a mortalidade invisível e a falta de preparação do Brasil para enfrentar temperaturas extremas

Uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira (23/10) pela London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM), em parceria com o Imperial College London, apresenta números que deveriam provocar uma reação imediata dos governos de todo o planeta. Durante o verão europeu de 2026, mais de 50 mil pessoas teriam morrido em consequência do calor extremo em áreas urbanas, sendo que aproximadamente dois terços dessas mortes foram atribuídos ao aquecimento global provocado pelas atividades humanas. Estamos falando de mais de 33 mil mortes que, segundo as estimativas científicas, não teriam ocorrido nas mesmas condições em um planeta sem o aquecimento causado pela humanidade. 

O estudo, publicado na revista científica Nature Health, analisou 854 áreas urbanas distribuídas por 30 países europeus, abrangendo aproximadamente 40% da população desses países. O resultado é particularmente perturbador porque o verão de 2026 apresentou a maior mortalidade estimada relacionada ao calor desde 2000, superando amplamente os registros estimados para os verões de 2003 e 2022, quando aproximadamente 28 mil e 29 mil pessoas, respectivamente, morreram em consequência das temperaturas elevadas nas mesmas áreas analisadas.

Esses números não representam uma contagem direta de atestados de óbito, mas estimativas epidemiológicas construídas a partir da relação entre temperatura e mortalidade. Ainda assim, revelam uma realidade que se torna cada vez mais difícil de esconder: o aquecimento global deixou de ser uma ameaça projetada para as próximas décadas e já constitui um fator concreto de adoecimento e morte em larga escala.

A mortalidade invisível que já havíamos apontado

Os resultados europeus confirmam uma preocupação apresentada no Blog do Pedlowski em 4 de setembro, no texto intitulado “O calor mata mais do que mostram as estatísticas — e o Brasil precisa se preparar para o El Niño de 2026–2027″.

Naquela ocasião, destaquei uma investigação da National Public Radio (NPR), realizada em parceria com pesquisadores da Boston University, indicando que as mortes relacionadas ao calor nos Estados Unidos poderiam ser aproximadamente cinco vezes superiores aos números oficialmente registrados. O problema é que o calor frequentemente atua como fator desencadeador ou agravante de doenças cardiovasculares, respiratórias e renais, sem aparecer nas declarações de óbito.

A nova pesquisa europeia reforça essa constatação. Ao recorrer a modelos epidemiológicos, os pesquisadores conseguem identificar uma parcela da mortalidade que permanece escondida nas estatísticas convencionais. É justamente essa invisibilidade que permite que governos continuem tratando ondas de calor como simples desconfortos meteorológicos, quando deveriam reconhecê-las como emergências de saúde pública.

Há aqui uma manifestação daquilo que o pesquisador Rob Nixon denominou violência lenta: processos de destruição que não necessariamente produzem imagens espetaculares, mas que acumulam vítimas de maneira progressiva, frequentemente longe da atenção da mídia e das prioridades dos governos.

O calor não escolhe suas vítimas de maneira socialmente neutra

Outro aspecto importante do estudo europeu é que a mortalidade não ficou restrita às regiões tradicionalmente mais quentes. Países do norte e do oeste europeu, historicamente acostumados a verões mais amenos, também registraram impactos expressivos. Somente nas 135 áreas urbanas analisadas no Reino Unido, os pesquisadores estimaram aproximadamente 4.500 mortes relacionadas ao calor.

Embora os idosos tenham sido os mais atingidos, aproximadamente 6 mil mortes estimadas ocorreram entre pessoas com menos de 65 anos. Isso demonstra que a exposição ao calor extremo não constitui um problema exclusivo do envelhecimento populacional.  Entretanto, existe uma dimensão que precisa ser incorporada à interpretação desses resultados: a capacidade de escapar do calor depende profundamente das condições materiais de existência.

Uma pessoa que vive em uma residência bem ventilada, arborizada e climatizada enfrenta riscos muito diferentes daqueles suportados por trabalhadores obrigados a permanecer ao ar livre ou por famílias que habitam casas pequenas, com coberturas que absorvem e retêm calor, em bairros com pouca vegetação.

Portanto, embora o aquecimento global afete o conjunto da sociedade, suas consequências são profundamente desiguais. A crise climática também é uma crise de classe, porque a exposição aos seus efeitos e a capacidade de proteção são distribuídas de maneira desigual.

E o Brasil, que se prepara para enfrentar um El Niño excepcional?

A divulgação desses resultados ocorre em um momento especialmente preocupante para o Brasil. Em setembro, publiquei no Blog do Pedlowski o texto “El Niño, 13 mil mortes e o silêncio da política brasileira diante da crise climática”, discutindo projeções internacionais que colocavam o Brasil entre os países potencialmente mais afetados pela mortalidade adicional associada ao calor durante o atual episódio de El Niño.

Mais recentemente, em 23 de outubro, voltei ao tema no texto “El Niño fora da escala: o planeta se prepara para um choque climático, mas quem vai pagar a conta?“.

O ponto central dessas análises é que o El Niño não atua isoladamente. Seus efeitos se manifestam sobre um planeta já aquecido pela emissão acumulada de gases de efeito estufa, principalmente aqueles associados à queima de combustíveis fósseis. Isso significa que alterações naturais da circulação atmosférica e oceânica podem produzir consequências mais severas em um sistema climático cuja temperatura média já foi significativamente elevada.

É importante observar que as projeções de mortalidade para o Brasil não constituem previsões de óbitos inevitáveis. São estimativas condicionadas a cenários climáticos e modelos de exposição. Mas justamente por isso deveriam servir para orientar políticas preventivas, e não para justificar a inação.  O que ocorreu na Europa durante o verão de 2026 oferece uma demonstração contundente de que mesmo sociedades com sistemas de saúde relativamente estruturados estão encontrando dificuldades para proteger suas populações contra temperaturas extremas. Se isso acontece no continente europeu, quais serão as consequências em um país marcado por profundas desigualdades habitacionais, precarização do trabalho e insuficiência de infraestrutura urbana?

Quando o calor chega às cidades brasileiras, a desigualdade amplia seus efeitos

Em cidades como Campos dos Goytacazes, onde o aumento das temperaturas se combina com a redução da cobertura vegetal em determinadas áreas, a impermeabilização do solo e a expansão de espaços construídos pouco adaptados às condições climáticas, os riscos não podem ser tratados como abstrações.

É necessário perguntar quantas escolas públicas possuem condições adequadas de ventilação, quantas unidades de saúde estão preparadas para atender a um aumento de casos associados ao estresse térmico e quantos trabalhadores precisam permanecer expostos ao sol durante os períodos mais quentes do dia. A ausência de respostas para essas perguntas demonstra que a vulnerabilidade climática não decorre apenas das condições atmosféricas. Ela também resulta de decisões políticas sobre planejamento urbano, habitação, serviços públicos e proteção social. 

Nesse sentido, os resultados europeus deveriam funcionar como um alerta para prefeitos, governadores e autoridades federais. Não basta emitir comunicados recomendando hidratação e evitar exposição ao sol. É preciso estabelecer sistemas de vigilância epidemiológica, protocolos de proteção para trabalhadores, planos de contingência para escolas e hospitais e investimentos em arborização, sombreamento e infraestrutura urbana.  Também será necessário enfrentar a questão estrutural que alimenta a crise: a continuidade de um modelo econômico fortemente dependente de combustíveis fósseis, cuja expansão frequentemente é apresentada como sinônimo de desenvolvimento, mesmo quando seus custos ambientais e sanitários são transferidos para a população.

A crise climática já tem um custo humano. A questão é quem continuará pagando

O aspecto mais inquietante da pesquisa divulgada pela LSHTM talvez seja sua demonstração de que aproximadamente dois terços das mortes estimadas durante o verão europeu de 2026 estão associados ao aquecimento provocado pelas atividades humanas. Trata-se de uma evidência científica de que decisões econômicas e políticas tomadas ao longo de décadas possuem consequências diretas sobre a sobrevivência das populações.

Não estamos diante de uma fatalidade natural inevitável. Estamos diante de riscos agravados por um modelo de desenvolvimento que continua elevando as emissões de gases de efeito estufa, ao mesmo tempo em que os investimentos necessários à proteção das populações permanecem insuficientes.

A Europa acaba de oferecer mais uma demonstração de que o calor extremo pode matar dezenas de milhares de pessoas em poucos meses. O Brasil, por sua vez, aproxima-se de um verão potencialmente agravado por um El Niño de intensidade excepcional.  A pergunta que precisa ser feita não é apenas quantos recordes de temperatura serão quebrados, mas quantas vidas poderiam ser preservadas caso os governos tratassem a emergência climática com a seriedade que ela exige.

Afinal, quando mais de 50 mil pessoas morrem em um único verão europeu em decorrência do calor, continuar tratando a crise climática como um problema secundário deixa de ser apenas um erro de avaliação. Passa a ser uma escolha política cujas consequências podem ser medidas em vidas humanas.

El Niño fora da escala: o planeta se prepara para um choque climático, mas quem vai pagar a conta?

Organização Meteorológica Mundial alerta para um fenômeno de intensidade sem precedentes no final de 2026. A combinação entre aquecimento global, eventos extremos e desigualdade social ameaça transformar uma crise climática em uma tragédia humanitária

A notícia publicada nesta sexta-feira (23/10) pela MetSul Meteorologia, com base em informações da agência AFP, deveria estar ocupando as manchetes dos principais veículos de comunicação do planeta. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o El Niño que se desenvolve no Oceano Pacífico poderá atingir, no final de 2026, uma intensidade nunca antes registrada, com anomalias de temperatura da superfície do mar chegando a impressionantes 3,8°C acima da média. A própria OMM admite que estamos diante de um fenômeno que poderá ultrapassar os limites das séries históricas utilizadas para monitorar esse tipo de evento climático.

É importante esclarecer que esses 3,8°C não representam um aumento da temperatura média de todo o planeta, mas uma anomalia projetada para as águas superficiais de uma região específica do Pacífico Equatorial. Ainda assim, trata-se de um indicador extraordinário da intensidade potencial do fenômeno, capaz de alterar profundamente os padrões de circulação atmosférica e distribuição das chuvas em diferentes continentes.

O aspecto mais preocupante é que esse El Niño excepcional ocorre em um planeta já submetido ao aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa. Estamos, portanto, diante da sobreposição de dois processos distintos, mas interligados: a variabilidade natural do sistema climático e o aquecimento antropogênico, que amplia os riscos associados a temperaturas extremas, secas e precipitações intensas.

O Brasil diante de um cenário de extremos

Para o Brasil, as perspectivas são particularmente preocupantes. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) já havia divulgado, no início de outubro, uma probabilidade de 95% de que o El Niño atingisse intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026. As projeções apontam para chuvas acima da média no Sul, com riscos de inundações, enquanto partes das regiões Norte e Nordeste poderão enfrentar redução das precipitações, agravamento das secas e maior ocorrência de incêndios florestais.

Na Amazônia, onde o desmatamento e a degradação florestal já comprometem a capacidade dos ecossistemas de resistir às alterações climáticas, um período prolongado de estiagem poderá produzir consequências especialmente graves. No Sul, a possibilidade de novas enchentes recoloca a questão da vulnerabilidade das cidades e da insuficiência dos investimentos em prevenção e adaptação.

É preciso reconhecer que as projeções sazonais não permitem antecipar com precisão a ocorrência de desastres em municípios específicos. Entretanto, elas oferecem informações suficientes para exigir que os governos abandonem a postura de agir apenas depois que as tragédias já aconteceram.

A crise climática não atinge todos da mesma maneira

Há uma dimensão política e social que não pode ser ignorada. Embora os fenômenos climáticos sejam processos físicos, suas consequências são profundamente condicionadas pela organização da sociedade. Uma chuva extrema não produz os mesmos efeitos em um condomínio de alto padrão e em uma comunidade construída sobre uma planície de inundação sem infraestrutura adequada. Da mesma forma, uma seca prolongada não afeta igualmente grandes empresas agrícolas capitalizadas e pequenos agricultores familiares que dependem diretamente das chuvas para sobreviver.

O alerta da OMM deve ser compreendido também como uma advertência sobre o aprofundamento das desigualdades sociais. Os grupos que menos contribuíram para o aquecimento global frequentemente estão entre aqueles que dispõem de menos recursos para enfrentar suas consequências. Nesse contexto, cortes em políticas sociais, saúde pública, habitação, saneamento e defesa civil não representam apenas escolhas orçamentárias: podem aumentar diretamente a exposição de milhões de pessoas aos desastres climáticos.

A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, destacou que ainda existe uma janela de oportunidade para medidas preventivas. A questão central, entretanto, é saber se os governos estarão dispostos a mobilizar recursos públicos antes que os danos se materializem, em vez de continuar tratando cada catástrofe como uma surpresa inevitável.

O verdadeiro desastre será insistir na ausência de prevenção

O possível El Niño recorde de 2026–2027 deveria servir como um divisor de águas no debate sobre políticas climáticas. Não basta reconhecer que eventos extremos estão se tornando mais perigosos. É necessário fortalecer sistemas de monitoramento, investir em infraestrutura resiliente, proteger populações vulneráveis e enfrentar as atividades econômicas responsáveis pela degradação ambiental e pelas emissões de gases de efeito estufa. 

No Brasil, onde ainda prevalece uma lógica de ocupação territorial marcada pela desigualdade, pela expansão desordenada das cidades e pela destruição de ecossistemas, os riscos associados ao El Niño expõem os limites de um modelo de desenvolvimento que frequentemente trata a proteção ambiental e social como obstáculos ao crescimento econômico.

A ciência está cumprindo seu papel ao produzir alertas cada vez mais precisos. O problema é que conhecimento científico, por si só, não salva vidas quando falta decisão política para transformá-lo em prevenção. Se as previsões da OMM se confirmarem, o final de 2026 poderá entrar para a história como um dos momentos mais extremos já registrados no sistema climático. Mas a dimensão da tragédia humana não será determinada apenas pela temperatura das águas do Pacífico. Ela dependerá também das decisões que os governos tomarem — ou deixarem de tomar — enquanto ainda existe tempo para agir.

E talvez essa seja a principal conclusão: o El Niño é um fenômeno natural, mas transformar seus impactos em catástrofes sociais não é uma fatalidade da natureza. É também resultado de escolhas políticas.

Não sou petista nem lulista, mas sei o que está em jogo

Esta é a manifestação de alguém que não é petista nem lulista, mas considera fundamental derrotar o projeto político representado por Flávio Bolsonaro. Minha posição parte da avaliação de que esse projeto traz o risco de graves retrocessos nos direitos dos trabalhadores e nas políticas sociais das quais dependem os mais pobres.

Não é preciso ter filiação partidária ou adesão pessoal a Lula para reconhecer a necessidade de impedir esses retrocessos. Meu posicionamento preserva a independência crítica e assume um compromisso: defender direitos, serviços públicos e condições dignas de vida para a maioria da população.

Meta, a dona dos algoritmos e das regras que ninguém consegue questionar

A charge satiriza a postura da Meta diante das publicações políticas do Blog do Pedlowski. Enquanto a multinacional comunica a rejeição de dois anúncios e recomenda que o responsável adapte seus conteúdos às regras da plataforma, permanece a questão fundamental: quais critérios justificam impedir a ampliação da circulação de charges baseadas em reportagens jornalísticas?

A imagem contrapõe a tranquilidade de uma empresa que controla os mecanismos de distribuição de informações à perplexidade de quem vê seu trabalho submetido a decisões pouco transparentes. O problema não é apenas o impedimento do impulsionamento, mas a concentração de poder nas mãos de uma corporação capaz de influenciar a visibilidade do debate político.

Afinal, quem controla os controladores dos algoritmos?