A conta do ajuste fiscal: candidatos miram saúde e educação enquanto os juros engordam a dívida

A corrida presidencial recoloca o “ajuste fiscal” no centro do debate, mas quase ninguém explica por que saúde, educação e funcionalismo entram primeiro na conta enquanto os juros da dívida ultrapassam R$ 1 trilhão por ano

À medida que a eleição presidencial se aproxima, uma velha expressão volta a ganhar espaço no discurso dos candidatos e de suas equipes econômicas: “ajuste fiscal”. Com diferentes graus de intensidade, vários candidatos anunciam que o próximo governo precisará conter despesas para impedir o crescimento da dívida pública. O problema não está em discutir a sustentabilidade das contas públicas, algo obviamente necessário, mas em observar quais despesas entram imediatamente na mira do ajuste e quais permanecem praticamente intocadas.

Essa contradição ganha uma dimensão particularmente incômoda no governo Lula. O presidente reivindica corretamente aumentos do salário mínimo, expansão do emprego e programas de transferência de renda como marcas de um governo voltado para a classe trabalhadora. Entretanto, sua equipe econômica opera o chamado novo arcabouço fiscal, que limita o crescimento real das despesas e estabelece uma trajetória de superávits primários. Para 2027, o governo já propôs uma meta de superávit de R$ 73,2 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB, ao mesmo tempo que prepara mecanismos para restringir o crescimento das despesas obrigatórias.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, deixou essa orientação bastante clara. Ele afirmou que o governo Lula realizou um ajuste equivalente a aproximadamente 2% do PIB e que um eventual novo mandato deverá realizar esforço semelhante. Dario Durigan também defendeu a continuidade do arcabouço fiscal e afirmou que será necessário seguir “limitando o gasto obrigatório” para abrir espaço às despesas discricionárias.

Aqui aparece uma contradição política que não deveria ser escondida por argumentos técnicos. Um governo que reivindica representar prioritariamente trabalhadores, aposentados e os setores populares aceita uma arquitetura fiscal que coloca sob pressão justamente as despesas das quais esses grupos mais dependem. Saúde pública, educação, Previdência, universidades, salários do funcionalismo e investimentos públicos aparecem como variáveis que precisam caber dentro do limite fiscal, enquanto o custo financeiro da dívida recebe tratamento muito diferente.

O elefante chamado juros

Os números ajudam a entender o tamanho do problema. Nos doze meses encerrados em junho de 2026, o setor público brasileiro acumulou déficit primário de aproximadamente R$ 157 bilhões, equivalente a 1,19% do PIB. No mesmo período, os juros nominais ultrapassaram R$ 1,16 trilhão, chegando a 8,8% do PIB. Isso significa que, para cada R$ 1 de déficit primário, o setor público contabilizou aproximadamente R$ 7,40 em juros.

A evolução da dívida mostra a mesma coisa. A dívida bruta chegou a aproximadamente R$ 10,8 trilhões em junho. No primeiro semestre de 2026, os juros acrescentaram cerca de 4,9 pontos percentuais do PIB à dívida, enquanto o crescimento nominal da economia atuou na direção contrária e retirou 2,7 pontos.

Portanto, os próprios números oficiais indicam que os juros constituem atualmente um dos principais motores do crescimento da dívida pública brasileira. E aí surge uma pergunta bastante simples: se o diagnóstico aponta para o enorme custo financeiro da dívida, por que o remédio começa pela contenção das despesas primárias?

Lula e a contradição de um ajuste supostamente progressista

Essa questão assume peso especial no governo do presidente Luís Inácio porque não estamos diante de um governo que se apresenta como liberal ou defensor de um Estado mínimo.  Luís Inácio construiu sua trajetória política vinculando sua imagem à defesa dos trabalhadores, do salário mínimo, dos serviços públicos e da redução das desigualdades. Justamente por isso, existe uma contradição maior quando seu governo submete essas mesmas políticas à busca de superávits primários enquanto o custo dos juros permanece extraordinariamente elevado.

O governo já sinaliza concretamente essa direção para 2027.   O ministro da Fazenda também afirma que o crescimento do gasto obrigatório precisa ser controlado e cita explicitamente saúde, funcionalismo e Previdência dentro dessa discussão. Uma das mudanças aprovadas deverá reduzir em mais de R$ 10 bilhões a expansão das despesas obrigatórias em 2027, enquanto o crescimento real das despesas com pessoal poderá ficar limitado a apenas 0,6%.

Não se trata de afirmar que toda despesa pública seja eficiente ou que privilégios existentes no Estado devam permanecer intocados. Supersalários, aposentadorias privilegiadas, gastos tributários sem justificativa e inúmeras distorções precisam entrar na discussão. O problema aparece quando a necessidade de “ajuste” começa a alcançar direitos sociais e serviços públicos antes de provocar um debate igualmente contundente sobre o custo financeiro da dívida.

A contradição fica ainda mais evidente porque o próprio Durigan reconhece que os juros elevados pressionam o endividamento. Ainda assim, o governo propõe responder ao problema fundamentalmente pela obtenção de superávits e pelo controle das despesas obrigatórias.

Saúde e educação não são apenas despesas

Considero que existe ainda outro problema. Educação, saúde, ciência, tecnologia e infraestrutura representam parte essencial da capacidade produtiva de qualquer país. O Brasil não poderá avançar em inteligência artificial, biotecnologia, transição energética, produção de medicamentos, agricultura tecnologicamente avançada ou adaptação às mudanças climáticas comprimindo universidades, institutos de pesquisa e investimentos públicos.

O crescimento econômico também ajuda a controlar a relação dívida/PIB. Os próprios números recentes mostram isso. Portanto, cortar investimentos capazes de aumentar a produtividade e sustentar o crescimento para obter superávit no curto prazo pode produzir um resultado contraditório: o governo melhora temporariamente determinado indicador fiscal enquanto reduz a capacidade futura da economia de sustentar sua própria dívida.

O novo arcabouço fiscal não possui a brutalidade do antigo teto de gastos, que congelava as despesas federais em termos reais. Mas isso não significa que seja neutro. A própria literatura  científica já aponta riscos do novo regime para o financiamento da educação, inclusive porque o crescimento das despesas permanece submetido a limites inferiores ao crescimento potencial de determinadas necessidades sociais.

Afinal, quem será “ajustado” em 2027?

Essa deveria ser uma das perguntas centrais da campanha presidencial. Não basta perguntar aos candidatos se pretendem realizar um ajuste fiscal. Precisamos perguntar quem eles pretendem ajustar.

E Lula não deveria receber uma dispensa dessa pergunta simplesmente porque seu governo possui políticas sociais importantes ou porque seus adversários apresentam propostas potencialmente ainda mais regressivas. Pelo contrário: justamente porque Lula reivindica representar a classe trabalhadora, seu governo precisa explicar a contradição entre esse compromisso político e uma política fiscal que coloca saúde, educação, Previdência, funcionalismo e investimentos públicos sob crescente pressão para produzir superávits primários.

Há uma diferença fundamental entre melhorar as contas públicas retirando privilégios tributários, combatendo supersalários, aumentando a progressividade da tributação e enfrentando o extraordinário custo financeiro da dívida e fazer isso comprimindo despesas que sustentam serviços utilizados majoritariamente pelos trabalhadores.

A discussão sobre 2027 deveria começar exatamente nesse ponto. O Brasil contabiliza mais de R$ 1 trilhão por ano em juros, mas boa parte do debate político continua procurando algumas dezenas de bilhões de reais na saúde, na educação, na Previdência e no funcionalismo.  Se os juros constituem uma das principais forças que impulsionam a dívida, mas o ajuste começa pelos serviços públicos, alguma coisa está fora do lugar.

E para um governo que reivindica falar em nome da classe trabalhadora, essa contradição se torna ainda mais difícil de explicar. Afinal, todo ajuste fiscal tem classe social, mesmo quando seus formuladores preferem apresentá-lo apenas como uma necessidade técnica.

Enquanto a União Europeia fecha o cerco, agronegócio reage à lista de agrotóxicos perigosos

Resistência à proposta do governo expõe dependência de substâncias altamente perigosas justamente quando mercados externos começam a endurecer suas regras

Uma matéria publicada pela Globo Rural informa que o governo federal estuda criar uma lista brasileira de Agrotóxicos Altamente Perigosos (AAP), iniciativa que integra o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara). A proposta deveria parecer bastante elementar para um país que ocupa posição de destaque mundial no consumo dessas substâncias: identificar quais ingredientes ativos apresentam os maiores riscos para a saúde humana e para o ambiente e utilizar essa informação para orientar políticas públicas. Entretanto, representantes do chamado agronegócio reagiram à iniciativa como se o governo estivesse prestes a retirar imediatamente essas substâncias do mercado.

Essa reação revela uma primeira contradição. A inclusão de um ingrediente ativo na lista não significa sua proibição automática, mas setores ligados aos produtores, fabricantes e à bancada ruralista já apresentam estimativas bilionárias de prejuízos que uma eventual retirada dessas substâncias provocaria. Segundo os números apresentados na discussão, uma proibição poderia provocar perdas de R$ 125,5 bilhões somente nas culturas da soja e do milho. O argumento pretende demonstrar a importância econômica desses produtos, mas acaba levantando uma questão muito mais incômoda: se a retirada dos agrotóxicos classificados como altamente perigosos causaria tamanha perda, qual parcela da competitividade da agricultura brasileira depende justamente da utilização dessas substâncias?

A questão ganha importância porque o próprio agronegócio costuma apresentar a agricultura brasileira como uma das mais modernas, eficientes e tecnologicamente avançadas do planeta. Se esse discurso corresponde à realidade, o setor deveria apoiar a identificação dos ingredientes ativos mais problemáticos e investir rapidamente em sua substituição. Uma agricultura tecnologicamente avançada deveria conseguir reduzir sua dependência de substâncias que apresentam elevada toxicidade, persistência ambiental, bioacumulação ou graves impactos sobre organismos não alvo. Resistir até mesmo à elaboração de uma lista sugere uma situação bem diferente daquela apresentada nas campanhas publicitárias que celebram incessantemente a modernidade do campo brasileiro.

O problema se torna ainda mais evidente quando observamos aquilo que ocorre na União Europeia. Como discuti recentemente neste blog, a Comissão Europeia avança na adoção do princípio de reciprocidade para impedir que determinados agrotóxicos proibidos no bloco retornem ao mercado europeu na forma de resíduos presentes nos alimentos importados. Em janeiro de 2026, a Comissão Europeia reafirmou a intenção de fortalecer essa reciprocidade e anunciou medidas para restringir resíduos dos agrotóxicos mais perigosos, além de ampliar em 50% as auditorias realizadas em países de fora da União Europeia e em 33% aquelas realizadas nos postos europeus de controle de fronteira durante 2026 e 2027.

A União Europeia também começa a transformar essa orientação política em mudanças concretas. Um estudo recém-publicado pelo Joint Research Centre da Comissão Europeia identificou 18 substâncias altamente perigosas não aprovadas no bloco que ainda possuem limites máximos de resíduos acima do limite de quantificação e que afetam 235 produtos agrícolas e 86 países exportadores. O estudo concluiu que a redução desses limites poderá diminuir as importações europeias, embora a intensidade desse impacto dependa da capacidade dos países exportadores de adaptar seus sistemas produtivos.

Esse movimento europeu torna a iniciativa do governo federal correta, mas também revela seu caráter tardio e limitado. O Brasil ainda discute se deve elaborar uma lista de substâncias altamente perigosas quando um de seus principais mercados já discute como impedir que alimentos produzidos com algumas dessas moléculas entrem em seu território. A pergunta estratégica, portanto, deixou de ser apenas se a legislação brasileira permite determinado agrotóxico. Os exportadores brasileiros precisarão perguntar cada vez mais se os países compradores continuarão aceitando alimentos que contenham resíduos dessas substâncias.

A própria União Europeia mantém uma contradição que não devemos ignorar. Empresas europeias continuam envolvidas na fabricação e comercialização internacional de substâncias que enfrentam proibições ou fortes restrições dentro do próprio bloco. Assim, a Europa pode permitir que empresas sediadas em seu território obtenham lucros com a venda desses produtos para países como o Brasil e, simultaneamente, restringir a entrada dos alimentos produzidos com eles. Essa prática transfere riscos ambientais e sanitários para países terceiros e depois utiliza padrões regulatórios mais rigorosos para proteger o mercado europeu. A existência dessa contradição europeia, entretanto, não oferece qualquer justificativa para que o Brasil continue dependente dessas substâncias.

Ao contrário, o endurecimento das regras europeias deveria funcionar como um sinal de alerta. O governo brasileiro precisaria ir além da simples elaboração de uma lista e estabelecer um programa consistente de reavaliação dos ingredientes ativos prioritários, substituição gradual das moléculas mais perigosas, pesquisa pública de alternativas, fortalecimento do manejo integrado de pragas e assistência técnica para os agricultores durante a transição. Sem essas medidas, o país poderá descobrir tarde demais que aquilo que hoje aparece como vantagem econômica se transformou amanhã em obstáculo comercial.

O debate também mostra como determinados setores do agronegócio confundem competitividade imediata com estratégia econômica de longo prazo. Manter agrotóxicos baratos e conhecidos pode reduzir custos no presente, mas essa vantagem perde sentido quando os mercados compradores passam a rejeitar seus resíduos. A União Europeia aplica os mesmos limites máximos de resíduos aos produtos europeus e importados e já reforça seus mecanismos de fiscalização das importações.

Por isso, a resistência à criação da lista brasileira  de agrotóxicos altamente perigosos parece particularmente míope. O setor que se apresenta como símbolo da modernidade econômica brasileira deveria liderar a substituição das substâncias mais perigosas, e não combater sua identificação. O governo federal, por sua vez, precisa acelerar uma política que chega atrasada diante das mudanças regulatórias internacionais e não pode limitar sua atuação à produção de mais uma lista.

No final das contas, a reação à proposta  revela mais do que seus críticos gostariam. Se apenas classificar determinados agrotóxicos como altamente perigosos já provoca previsões de perdas bilionárias e intensa mobilização política, temos fortes razões para perguntar até que ponto a proclamada eficiência do agronegócio brasileiro continua sustentada por uma dependência química que poderá cobrar uma conta ambiental, sanitária e, cada vez mais, econômica. Quando mercados importantes começam a mudar suas regras, insistir no modelo anterior deixa de representar defesa da competitividade e passa a simplesmente significar resistência à realidade.

The Lancet pede suspensão da Associação Médica de Israel por apoio à destruição da saúde em Gaza

Palestinos caminham entre as ruínas de edifícios destruídos por ataques aéreos israelenses durante a guerra com o Hamas, na Cidade de Gaza, na segunda-feira, 24 de agosto de 2026.Palestinos caminham entre as ruínas de edifícios destruídos por ataques aéreos israelenses durante a guerra com o Hamas, na Cidade de Gaza, na segunda-feira, 24 de agosto de 2026. Foto: AP

Por Equipe Editorial do “La Jornada” 

A revista médica britânica The Lancet publicou uma petição, liderada por organizações internacionais de profissionais de saúde, que pede a suspensão da Associação Médica de Israel (IMA) da Associação Médica Mundial (AMM), acusando-a de não condenar o genocídio contra a população palestina e a destruição do sistema de saúde em Gaza.

A iniciativa, promovida pela Global Health BDS, Health Workers for Palestine e Doctors for Gaza, argumenta que a IMA endossou a narrativa do exército israelense para justificar ataques a hospitais e profissionais de saúde na Faixa de Gaza.

Em uma carta publicada pela revista The Lancet, o copresidente do Movimento Popular pela Saúde, Wim De Ceukelaire, afirmou que a resposta da IMA foi “autoincriminatória”, reiterando que o Hamas utilizava hospitais como centros militares, um argumento usado por Israel para atacar a infraestrutura de saúde em Gaza.

De Ceukelaire salientou que essa posição ignora a falta de provas que sustentem essas acusações e os relatórios de especialistas da ONU, que afirmam que Israel tem atacado deliberadamente hospitais, profissionais de saúde e serviços médicos no enclave palestino.

Após a publicação, o professor Hagai Levine, presidente da Associação Israelense de Médicos de Saúde Pública, rejeitou o apelo e declarou ao Times of Israel que a solicitação está “errada em todos os sentidos”.

A campanha argumenta que a Associação Médica Mundial não deve manter entre seus membros uma organização que, segundo os promotores da iniciativa, justifica ataques contra o sistema de saúde de Gaza e o assassinato de profissionais da saúde.


Fonte: La Jornada

Fernando Haddad, a Sabesp e o falso tabu da reestatização

Enquanto Paris e Berlim recuperaram o controle público da água, o candidato do PT ao governo de São Paulo prefere enfatizar as dificuldades jurídicas para reverter a privatização da Sabesp

Fernando Haddad colocou uma questão importante no debate eleitoral paulista ao afirmar que existe o risco de a Sabesp privatizada se transformar em uma espécie de “Enel das águas”. O problema é que, ao mesmo tempo em que reconhece esse perigo, Fernando Haddad trata a possibilidade de reestatização como algo extremamente difícil diante dos obstáculos jurídicos e financeiros criados pela privatização promovida pelo governo Tarcísio de Freitas. É verdade que recuperar o controle da Sabesp não seria simples, pois o Estado reduziu fortemente sua participação acionária e perdeu o controle da companhia. Uma eventual reversão exigiria recursos, negociação com investidores e uma estratégia jurídica consistente. Mas existe uma diferença importante entre reconhecer dificuldades e apresentar uma decisão política como praticamente irreversível.

A experiência europeia mostra justamente o contrário. Em Paris, depois de décadas de participação privada na gestão do abastecimento, a prefeitura decidiu recuperar o controle público do sistema e criou, em 2010, uma gestão integrada por meio da Eau de Paris. A mudança permitiu eliminar custos relacionados à remuneração dos operadores privados e gerou uma economia estimada em dezenas de milhões de euros por ano. Mais importante do que isso, Paris decidiu que a água constitui um serviço essencial e que sua gestão deveria responder prioritariamente ao interesse público, e não à necessidade de remunerar acionistas.

O caso de Berlim é ainda mais importante para pensar a Sabesp. Em 1999, quase metade da companhia de água da capital alemã passou para um consórcio privado, sob contratos que protegiam inclusive os interesses econômicos dos investidores. Mesmo diante dessa situação juridicamente complexa, o governo berlinense decidiu recuperar o controle da empresa. Em 2012, recomprou a participação da RWE e, no ano seguinte, adquiriu as ações da Veolia. Houve custos, negociações e dificuldades jurídicas, mas nenhuma dessas barreiras transformou a privatização em uma sentença perpétua. Berlim decidiu recuperar sua companhia de água e construiu os instrumentos políticos, financeiros e jurídicos para fazê-lo.

É justamente por isso que a posição de Fernando Haddad causa estranheza. Se ele próprio reconhece o risco de São Paulo produzir uma “Enel das águas”, parece contraditório iniciar a discussão enfatizando aquilo que um futuro governo não poderia fazer. Paris e Berlim seguiram outra lógica: primeiro decidiram que recuperar o controle público atendia ao interesse coletivo e depois buscaram os meios necessários. Privatizações resultam de decisões políticas e, portanto, podem ser revistas por outras decisões políticas quando seus resultados deixam de atender ao interesse da sociedade.

Essa cautela também precisa ser observada à luz da relação histórica do PT com as privatizações. Embora o partido tenha criticado duramente o programa de desestatização dos anos 1990, seus governos não romperam completamente com a transferência de ativos, infraestruturas e serviços públicos para o setor privado. Os governos Lula e Dilma privatizaram bancos estaduais e ampliaram fortemente as concessões privadas em aeroportos, rodovias, portos e infraestrutura energética. Privatização e concessão não são juridicamente a mesma coisa, mas ambas fazem parte de uma discussão maior sobre até onde o Estado deve transferir ao capital privado a exploração econômica de serviços e infraestruturas estratégicas. Esse histórico talvez ajude a explicar por que Fernando Haddad parece mais confortável em falar de regulação e fiscalização do que em discutir concretamente a recuperação do controle público da Sabesp.

Há também uma assimetria curiosa nesse debate. Quando alguém propõe uma reestatização, surge imediatamente a pergunta sobre quanto custaria recomprar ações e recuperar uma empresa. Esse cálculo precisa ser feito. Entretanto, raramente se calcula com o mesmo rigor o custo de uma privatização ao longo de décadas, incluindo tarifas, dividendos distribuídos aos acionistas, investimentos insuficientes em áreas menos rentáveis e perda da capacidade estatal de controlar uma infraestrutura estratégica. No caso da água, essa questão se torna ainda mais grave porque estamos diante de um monopólio natural. Nenhum paulista poderá escolher entre diferentes redes de abastecimento. A população continuará dependente essencialmente de uma única companhia, com a diferença de que essa empresa passou a responder também às expectativas de rentabilidade de seus acionistas.

Além disso, parece politicamente equivocado ignorar a rejeição manifestada por grande parcela da população paulista à privatização de uma empresa tão estratégica. Essa questão ganhará importância ainda maior nas próximas décadas porque o aprofundamento da crise climática deverá aumentar a irregularidade das chuvas, prolongar períodos de estiagem e ampliar eventos extremos, afetando diretamente a disponibilidade de água para consumo humano. São Paulo já experimentou na crise hídrica de 2014-2015 o que significa aproximar grandes sistemas de abastecimento de seus limites. Num cenário climático mais instável, garantir segurança hídrica exigirá investimentos pesados na proteção de mananciais, redução de perdas, recuperação ambiental e integração dos sistemas de abastecimento.

Esse desafio assume proporções ainda maiores em um estado que concentra gigantescas aglomerações urbanas, começando pela Região Metropolitana de São Paulo e passando por Campinas, Baixada Santista, Sorocaba e Vale do Paraíba. Garantir água para dezenas de milhões de pessoas nessas áreas exigirá forte capacidade estatal de planejamento, investimento e governança das águas. Em momentos de escassez, alguém terá de decidir quais mananciais proteger, onde investir, quais usos priorizar e como impedir que as populações mais pobres sejam as primeiras a sofrer com a falta de água. São decisões políticas que dificilmente podem ficar subordinadas à rentabilidade esperada pelos mercados financeiros.

Paris e Berlim demonstraram que recuperar o controle público da água é possível quando existe decisão política para fazê-lo. Por isso, a questão que Fernando Haddad deveria responder não é apenas por que considera difícil reestatizar a Sabesp, mas se um eventual governo seu estaria disposto a construir as condições para fazê-lo caso a privatização produza os problemas que ele próprio antecipa ao falar em uma “Enel das águas”. Diante da crise climática e dos enormes desafios hídricos que São Paulo enfrentará nas próximas décadas, abrir mão antecipadamente dessa possibilidade parece um erro político e estratégico. A água é importante demais para que seu futuro seja decidido apenas pelos contratos firmados durante uma privatização e pelos interesses de seus acionistas. E é estratégica demais para que a população paulista não seja ouvida sobre quem deve controlá-la.

A Europa vende o veneno, mas não quer comprar a comida contaminada

Relatório da Comissão Europeia expõe o risco de agrotóxicos proibidos no bloco europeu se transformarem em uma nova barreira às exportações agrícolas brasileiras

Um novo relatório produzido pelo Joint Research Centre (JRC) da Comissão Europeia deveria ser lido com atenção em Brasília e pelos setores do agronegócio brasileiro. O documento mostra que continuar utilizando substâncias consideradas perigosas demais para uso na União Europeia pode se transformar em uma ameaça concreta ao acesso dos produtos agrícolas brasileiros a um dos mercados mais importantes do mundo.

O estudo, assinado por Jesus Barreiro-Hurle, Caetano Beber, Estefania Vázquez-Torres, Daniele Bertolozzi-Caredio, Francisco J. Areal e Thomas Fellmann, analisa os efeitos potenciais de reduzir ao limite de quantificação os resíduos permitidos de 18 ingredientes ativos considerados entre os mais perigosos e já proibidos no bloco. Essas substâncias aparecem associadas a 235 produtos agrícolas exportados por 86 países. O princípio europeu é simples: agrotóxicos proibidos por razões ambientais ou sanitárias não deveriam retornar ao continente por meio de alimentos importados.

Para o Brasil, o alerta é importante já que o relatório identifica cinco ingredientes ativos — mancozebe, tiofanato-metílico, glufosinato, benomil e carbendazim — associados a conjuntos de produtos cujas vendas brasileiras ao mercado europeu variam entre aproximadamente US$ 634 milhões e US$ 1,21 bilhão. Dependendo da substância, entre 51% e 66% das exportações brasileiras desses produtos têm como destino a União Europeia. O caso do ciproconazol torna o problema ainda mais concreto. Esse fungicida, proibido na União Europeia e classificado como tóxico para a reprodução, apareceu no monitoramento de importações procedentes do Brasil. O JRC encontrou resíduos em 13% das amostras de café brasileiro e em 6% das de soja analisadas, e o Brasil aparece como fornecedor dominante desses dois produtos entre os países considerados.

Não se trata, portanto, apenas de uma discussão toxicológica, mas de uma possível barreira comercial produzida pelo próprio modelo agrícola brasileiro. Se a União Europeia endurecer os limites, exportadores poderão ter de substituir agrotóxicos, segregar cadeias produtivas destinadas ao mercado europeu ou redirecionar mercadorias para outros compradores. O próprio JRC trabalha com custos adicionais de adaptação entre 5% e 20% e considera que, para café e soja brasileiros, a substituição do ciproconazol pode apresentar custos acima da média.

A cadeia da soja também pode sentir os efeitos. Em um dos cenários intermediários, as exportações brasileiras de farelo de soja para a União Europeia caem 14%. O aumento das vendas de soja em grão não compensa totalmente essa perda, o que mostra como uma mudança nos limites de resíduos pode repercutir sobre toda uma cadeia produtiva.

A contradição europeia, porém, é difícil de ignorar. Enquanto o bloco se prepara para restringir a entrada de alimentos contendo resíduos de determinados agrotóxicos, empresas sediadas na própria Europa continuam participando do comércio internacional dessas substâncias. Investigações recentes mostraram que países europeus continuam autorizando a exportação de agrotóxicos proibidos para uso interno, e o Brasil figura entre os principais destinos. O glufosinato sintetiza bem essa contradição. A União Europeia proibiu seu uso por razões toxicológicas, mas empresas europeias continuaram produzindo a substância para exportação. Agora o relatório do JRC identifica justamente o glufosinato entre os ingredientes ativos capazes de expor centenas de milhões de dólares das exportações brasileiras ao mercado europeu.

Uma cadeia bastante peculiar é formada: a Europa considera determinada substância perigosa demais para seus agricultores, empresas europeias continuam podendo vendê-la para outros países, agricultores brasileiros utilizam esses produtos e, depois, a própria Europa pode recusar os alimentos que retornem contendo seus resíduos. O custo sanitário, ambiental e potencialmente econômico fica concentrado principalmente nos países que recebem esses produtos.

Entretanto,  seria um erro usar essa contradição como justificativa para manter o atual padrão brasileiro de uso de agrotóxicos. O relatório aponta justamente na direção oposta. Se substâncias como mancozebe, glufosinato, carbendazim, benomil e ciproconazol já enfrentam restrições severas em mercados importantes, persistir nessa dependência pode significar produzir hoje uma barreira comercial para amanhã.

Durante décadas, parte do discurso do agronegócio brasileiro sustentou que restringir agrotóxicos reduziria nossa competitividade. O relatório do JRC sugere o contrário: a dependência de agrotóxicos altamente tóxicos pode se tornar uma ameaça à competitividade futura da agricultura brasileira. O Brasil corre o risco de descobrir pela via comercial aquilo que deveria ter aprendido pela via da saúde pública e da proteção ambiental.

Oceanos mais quentes: o sinal de alerta que vem do mar

A reportagem “Com El Niño, dia mais quente em oceanos é registrado pelo Copernicus”, assinada pelo jornalista José Henrique Mariante, chama a atenção para uma dimensão da crise climática que muitas vezes recebe menos destaque do que o aumento da temperatura do ar: o aquecimento persistente dos oceanos. O texto, publicado pelo jornal Folha de São Paulo, informa que os oceanos atingiram uma temperatura média global recorde de 20,96°C, segundo dados do serviço europeu Copernicus, superando o recorde anterior registrado em 2016.

O El Niño ajuda a explicar a intensidade do fenômeno, mas seria um erro atribuir o recorde exclusivamente a ele. Como a própria reportagem destaca, os oceanos acumulam grande parte do excesso de calor produzido pelo desequilíbrio energético provocado pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa. O El Niño atua, portanto, sobre um sistema oceânico que já se encontra progressivamente mais quente em consequência do aquecimento global. Essa combinação ajuda a explicar por que novos recordes vêm sendo alcançados.

A questão merece extrema preocupação porque os oceanos não funcionam apenas como grandes reservatórios de água. Eles constituem um dos principais componentes do sistema climático terrestre, absorvem enorme quantidade de calor e participam ativamente da redistribuição de energia entre as regiões tropicais e as altas latitudes. Quando a temperatura oceânica aumenta de maneira persistente, modifica-se também a interação entre oceano e atmosfera, com consequências sobre evaporação, circulação atmosférica, precipitação e ocorrência de eventos meteorológicos extremos.

Além disso, existe ainda um problema ecológico de enormes proporções. O aumento da temperatura da água submete ecossistemas marinhos a condições que muitas espécies não conseguem tolerar. Ondas de calor marinhas podem provocar branqueamento e mortalidade de corais, deslocamento geográfico de populações de peixes, alterações nas cadeias alimentares e mudanças na produtividade dos ecossistemas. A redução da mistura vertical da coluna d’água também pode dificultar o transporte de nutrientes das águas profundas para as camadas superficiais, justamente onde ocorre grande parte da produção primária dos oceanos.

A verdade é que essa transformação ultrapassa em muito uma discussão sobre conservação da biodiversidade. Bilhões de pessoas dependem direta ou indiretamente de pescados e outros organismos aquáticos como fonte de proteína, micronutrientes, renda e segurança alimentar. O deslocamento ou a redução dos estoques pesqueiros pode atingir de maneira particularmente severa populações costeiras e países nos quais a pesca artesanal desempenha papel fundamental na alimentação. Nesse sentido, o aquecimento oceânico transforma uma questão climática e ecológica também em um problema social e alimentar.

Por outro lado, também há uma retroalimentação preocupante. Durante décadas, os oceanos amorteceram parte importante do aquecimento provocado pelas atividades humanas ao absorverem grande quantidade do excesso de calor do sistema climático e uma parcela significativa do dióxido de carbono emitido para a atmosfera. Esse serviço planetário, entretanto, não possui capacidade ilimitada. Oceanos progressivamente mais quentes podem absorver calor adicional com maior dificuldade em determinadas regiões e circunstâncias, enquanto águas mais quentes também tendem a reter menos gases dissolvidos. Ao mesmo tempo, alterações na circulação, na estratificação e nos ecossistemas marinhos podem modificar a eficiência da chamada bomba biológica de carbono.

Por isso, talvez o aspecto mais inquietante do recorde apresentado por José Henrique Mariante seja justamente aquilo que um único número não consegue mostrar. 20,96°C parece uma diferença pequena quando observada em um termômetro doméstico, mas representa uma quantidade extraordinária de energia adicional quando aplicada à enorme massa de água dos oceanos do planeta. A elevada capacidade térmica da água significa que mudanças aparentemente pequenas na temperatura média oceânica correspondem a gigantescas acumulações de calor.

O recorde registrado pelo Copernicus deve ser entendido, portanto, como muito mais do que uma curiosidade estatística associada ao El Niño. Ele mostra que uma das principais estruturas reguladoras do clima terrestre está acumulando energia em níveis excepcionais. Os efeitos podem aparecer nos recifes de coral, nos estoques pesqueiros, na distribuição das chuvas, na intensidade das ondas de calor marinhas e atmosféricas e, finalmente, na mesa de populações que dependem do mar para obter alimento.

Finalmente, precisamos lembrar que o oceano durante muito tempo funcionou como um enorme amortecedor da crise climática. O problema é que o funcionamento da engrenagem capitalista ancorada no consumo de combustíveis fósseis está aquecendo justamente o amortecedor. E, quanto mais reduzirmos a capacidade oceânica de regular o sistema climático, maior será a quantidade de calor com a qual a atmosfera, os continentes, os ecossistemas e as sociedades humanas terão de conviver.

Braskem em Maceió: violência lenta, espoliação e os refugiados do desenvolvimento

O desastre provocado pela exploração de sal-gema mostra como a riqueza privada pode caminhar ao lado da destruição territorial, da socialização dos prejuízos e da expulsão de milhares de pessoas de seus lugares de vida

A jornalista Raquel Lopes, em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo e distribuída pela Folhapress, trouxe neste domingo (23) um dado que ajuda a dimensionar o desastre provocado pela exploração de sal-gema pela Braskem em Maceió: um laudo da Polícia Federal estima em aproximadamente R$ 40 bilhões os prejuízos causados à União. A cifra impressiona, mas talvez o aspecto mais importante da reportagem seja aquilo que ela permite enxergar para além dos números. O caso da Braskem constitui um exemplo quase didático de como grandes empreendimentos podem produzir riqueza privada enquanto transferem custos ambientais, territoriais e sociais gigantescos para a sociedade.

O desastre tornou-se publicamente evidente em 2018, quando o afundamento do solo atingiu bairros inteiros da capital alagoana e desencadeou um gigantesco processo de deslocamento populacional. A denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal atribui parte dos danos ao que chamou de “lavra ambiciosa” e descreve uma engrenagem na qual irregularidades na exploração mineral teriam convivido durante décadas com uma fiscalização deficiente. Segundo a reportagem de Raquel Lopes, documentos incompletos ou defasados sobre subsidência e estabilidade das cavidades chegaram a ser aceitos pelo órgão regulador, enquanto sinais de deformação do terreno já existiam. A Braskem contesta as acusações, afirma que cumpriu as normas e não reconhece o cálculo dos prejuízos apresentado no laudo.

Uma violência que demorou décadas para aparecer

O caso de Maceió encaixa-se quase perfeitamente no conceito de Slow Violence, formulado por Rob Nixon. Nixon utiliza a expressão para caracterizar formas de violência ambiental que não acontecem necessariamente por meio de um acontecimento único, espetacular e imediatamente reconhecível. Elas se acumulam lentamente, distribuem seus efeitos pelo espaço e pelo tempo e frequentemente permanecem invisíveis até que suas consequências se tornem impossíveis de esconder.

E foi exatamente isso que aconteceu em Maceió. A mineração de sal-gema começou décadas antes de casas racharem, ruas serem interditadas e bairros inteiros precisarem ser evacuados. O terremoto e as rachaduras tornaram visível um processo subterrâneo muito mais antigo. Nesse sentido, o desastre não começou em 2018. O ano de 2018 marcou apenas o momento em que uma violência territorial acumulada durante décadas finalmente apareceu na superfície.

A ideia de violência lenta também ajuda a compreender outra dimensão do problema: seus efeitos não terminaram com a retirada dos moradores. A destruição de um bairro não corresponde simplesmente à perda de casas. Ela destrói redes de vizinhança, pequenos negócios, trajetórias familiares, relações afetivas com o território e formas de sociabilidade construídas durante décadas. Uma indenização pode atribuir determinado preço a um imóvel, mas dificilmente consegue reconstruir aquilo que desaparece quando uma comunidade inteira deixa de existir territorialmente.

Mas existe também acumulação por espoliação

O conceito de acumulação por espoliação, desenvolvido por David Harvey a partir da discussão marxiana da acumulação primitiva, acrescenta outra dimensão ao caso. Se Nixon ajuda a compreender como a violência ambiental se desenvolve e se torna socialmente invisível, Harvey permite perguntar quem se apropria dos benefícios e quem fica com os prejuízos.  Durante décadas, o sal-gema retirado do subsolo de Maceió integrou um circuito de acumulação empresarial. A riqueza mineral transformou-se em matéria-prima, produção industrial, receita e valorização econômica. Entretanto, quando apareceram os custos territoriais dessa exploração, milhares de moradores perderam suas casas e bairros inteiros deixaram de existir, enquanto uma parcela gigantesca dos prejuízos passou a atingir também o poder público e, portanto, a sociedade.

O laudo da Polícia Federal torna essa dimensão especialmente evidente. O valor estimado em R$ 40 bilhões refere-se ao patrimônio mineral da União que teria sido comprometido pelo método de exploração. Segundo o MPF, a chamada “lavra ambiciosa” teria inviabilizado o aproveitamento de uma reserva estimada em 121,9 milhões de toneladas de sal-gema.

A relação entre os dois conceitos torna-se, portanto, bastante clara. A violência lenta descreve a temporalidade socioambiental do desastre; a acumulação por espoliação explica sua economia política. Uma mostra como os danos se acumularam durante décadas; a outra evidencia a assimetria entre a apropriação privada dos benefícios e a socialização posterior dos prejuízos.

Os refugiados do desenvolvimento

Existe ainda uma terceira categoria que considero indispensável para compreender Maceió: a dos refugiados do desenvolvimento. O termo pode não possuir o mesmo estatuto jurídico de “refugiado” estabelecido pelo direito internacional, mas descreve adequadamente populações deslocadas compulsoriamente para permitir ou como consequência de grandes projetos econômicos. Os moradores dos bairros atingidos não decidiram mudar porque encontraram melhores oportunidades em outro lugar. Eles tiveram que abandonar casas, ruas, escolas, igrejas, pequenos estabelecimentos comerciais e relações comunitárias porque o território onde construíram suas vidas tornou-se fisicamente inseguro. Nesse sentido, eles constituem uma população deslocada por um processo de desenvolvimento econômico cuja riqueza foi apropriada de maneira profundamente desigual.

Essa característica aproxima Maceió de inúmeros outros territórios brasileiros afetados por mineração, barragens, portos, hidrelétricas e grandes projetos de infraestrutura. O discurso do desenvolvimento normalmente contabiliza investimentos, empregos, produção e crescimento econômico; raramente sua contabilidade inclui adequadamente as pessoas expulsas, os territórios destruídos e os custos que posteriormente recaem sobre o Estado.

O caso da Braskem torna essa contradição particularmente difícil de esconder porque não estamos falando de uma pequena comunidade distante dos grandes centros urbanos. Estamos falando da transformação de partes significativas de uma capital brasileira em território praticamente inviável para ocupação humana.

Quando o desenvolvimento destrói o próprio território

A reportagem de Raquel Lopes merece atenção justamente porque o número de R$ 40 bilhões permite formular uma pergunta muito maior: quanto realmente custa determinado modelo de desenvolvimento quando incorporamos à conta aquilo que normalmente permanece fora dos balanços empresariais? Maceió reúne, em um mesmo território, três processos complementares. A violência lenta explica a acumulação subterrânea e progressiva do dano; a acumulação por espoliação ajuda a compreender a apropriação econômica do recurso e a distribuição profundamente desigual dos custos; finalmente, o conceito de refugiados do desenvolvimento dá nome às pessoas que perderam o direito de permanecer nos territórios onde construíram suas vidas.

Por isso, talvez seja equivocado tratar o caso Braskem simplesmente como um “desastre ambiental”. Essa expressão corre o risco de transformar um processo histórico e econômico em uma fatalidade. O que aconteceu em Maceió demonstra algo bem mais incômodo: um modelo de desenvolvimento pode produzir riqueza justamente enquanto destrói as condições materiais, territoriais e sociais de existência daqueles que vivem sobre os recursos dos quais essa riqueza é extraída.

E, quando isso acontece, o afundamento do solo representa apenas a parte visível do desastre.

Novo manual de riscos rompe com a ideia de que desastres são fatalidades da natureza

Produzido por especialistas reunidos pelo Ministério das Cidades, novo manual coloca desigualdade urbana, vulnerabilidade social e crise climática no centro da compreensão dos riscos que atingem as cidades brasileiras

Uma publicação lançada em 2026 pelo Ministério das Cidades merece muito mais atenção do que provavelmente receberá. O livro Mapeamento de Riscos: Conceitos e métodos aplicados a processos geológicos e hidrológicos, coordenado por Leonardo Andrade de Souza e Rodolfo Baêsso Moura, da Secretaria Nacional de Periferias, reúne pesquisadores do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, do Serviço Geológico do Brasil e de diversas universidades brasileiras. A obra atualiza profundamente uma metodologia utilizada no Brasil desde 2007 e, mais do que apresentar novas técnicas de mapeamento, promove uma mudança conceitual importante ao rejeitar a ideia de que os desastres constituem simples fatalidades provocadas pela natureza.

Os autores resumem essa mudança por meio de uma formulação direta: Risco = Ameaça × Exposição × Vulnerabilidade. Uma chuva intensa, uma encosta instável ou um rio que transborda representam ameaças, mas a transformação desses fenômenos em desastre também depende de quem ocupa esses territórios e das condições sociais, econômicas, habitacionais e institucionais dessas populações. O manual ressalta que um mesmo fenômeno físico produz riscos muito diferentes em territórios com condições socioeconômicas distintas, porque desigualdade social, capacidade de resposta e investimento público interferem diretamente na produção do risco.

Essa formulação aparentemente técnica possui uma enorme consequência política, pois o manual reconhece que o risco resulta de escolhas sobre onde e como as cidades se expandem, das desigualdades sociais e das assimetrias nos investimentos públicos. Reduzir riscos, portanto, não significa apenas construir muros de contenção ou outras obras de engenharia; significa também reduzir a exposição das populações, melhorar as habitações, criar sistemas de alerta e fortalecer a organização comunitária.

Quando o mapa de risco virou instrumento de expulsão

Talvez o aspecto politicamente mais importante da nova publicação apareça na autocrítica feita à metodologia anterior. No prefácio, Celso Santos Carvalho, responsável pelo programa de gestão de riscos e prevenção de desastres do Ministério das Cidades entre 2003 e 2014, explica que a experiência acumulada desde a publicação do manual de 2007 revelou problemas importantes. Mapeamentos elaborados originalmente para subsidiar o planejamento chegaram a orientar intervenções físicas que exigiriam estudos muito mais detalhados, inclusive análises casa a casa; em algumas situações, setores classificados como de risco alto ou muito alto também acabaram associados diretamente à remoção de todos os moradores.

Essa distorção contrariou o objetivo original da política pública, porque uma metodologia criada para melhorar as condições de vida das populações mais pobres acabou servindo, em alguns casos, para justificar a expulsão de moradores das periferias. O problema se torna ainda mais grave em um país no qual a estrutura fundiária e o mercado imobiliário empurraram historicamente a população pobre para encostas, várzeas, margens de rios e outros espaços pouco valorizados pela urbanização formal.

O novo manual associa explicitamente essa vulnerabilidade ao processo histórico de urbanização excludente brasileiro e menciona a Lei de Terras de 1850 e aquilo que Ermínia Maricato chamou de “nó da terra” para explicar a formação de cidades profundamente desiguais. Nessa perspectiva, a ocupação de áreas frágeis não decorre simplesmente de escolhas equivocadas dos moradores; decorre de um processo histórico que restringiu o acesso à terra urbanizada, à infraestrutura e à moradia adequada para parcelas expressivas da população.

A crise climática muda a escala do problema

A crise climática amplia ainda mais a importância dessa mudança de abordagem. Os formuladores do manual registram que diversos processos físicos vêm aumentando em frequência e magnitude e citam, entre outros exemplos, grandes inundações no Rio Grande do Sul, na Amazônia e no Nordeste, enxurradas, erosão marítima, deslizamentos e corridas de massa no Sudeste.

A atualização, por isso, vai muito além de uma modernização cartográfica. O manual incorpora imagens de alta resolução, drones, informações georreferenciadas e modelagens computacionais ao mesmo tempo que reconhece que as condições ambientais nas quais as cidades brasileiras se expandiram estão mudando. A obra aborda inundações, alagamentos e enxurradas; erosões continentais, costeiras e fluviomarinhas; rastejos, deslizamentos, quedas e rolamentos de blocos; corridas de detritos; subsidências e colapsos. Esse conjunto procura oferecer diagnósticos detalhados capazes de orientar políticas de prevenção, mitigação e adaptação.

Essa mudança ganha ainda mais relevância quando observamos a escala territorial do problema. O Serviço Geológico do Brasil já havia mapeado quase 2 mil municípios até 2026, o que mostra que o país acumulou uma base significativa de conhecimento sobre áreas sujeitas a diferentes tipos de risco. A reportagem da Agência Brasil acrescenta que quase 9 milhões de brasileiros vivem em municípios suscetíveis a deslizamentos, inundações, enxurradas e alagamentos, número que revela o tamanho do desafio colocado diante das políticas urbanas e climáticas brasileiras.

Moradores passam a participar da construção do diagnóstico

Outro avanço importante surge no reconhecimento do conhecimento produzido pelos próprios moradores. A nova metodologia procura combinar conhecimento técnico-científico com conhecimento local, popular e tradicional, evitando que o diagnóstico dependa exclusivamente de especialistas que chegam às comunidades, realizam medições e deixam o território sem incorporar a experiência acumulada por quem vive ali.

Os Planos Municipais de Redução de Riscos passaram a incentivar processos participativos nos diagnósticos e na governança das ações, enquanto os Planos Comunitários de Redução de Riscos e Adaptação Climática procuram ampliar o protagonismo de moradores de favelas e comunidades urbanas na identificação dos riscos, nos procedimentos de emergência e na definição de medidas de adaptação.

Essa participação possui enorme valor prático, porque moradores antigos frequentemente sabem onde a água chegava décadas atrás, onde uma encosta começou a apresentar rachaduras, onde uma nascente desapareceu ou onde uma rua passou a inundar depois de determinada obra. O novo manual não apresenta essa memória territorial como substituta do conhecimento científico; ele a incorpora como complemento indispensável ao trabalho de campo e ao planejamento territorial.

Saber onde está o risco aumenta a responsabilidade dos governos

A legislação brasileira já determina que os municípios conheçam os perigos presentes em seus territórios por meio de cartas de suscetibilidade, cartas de aptidão à urbanização e cartas de setorização de risco. O manual também reconhece, porém, que muitos municípios enfrentam limitações econômicas, técnicas e administrativas, razão pela qual a prevenção depende de articulação entre governos municipais, estaduais e federal.

Essa constatação impede que a política de prevenção se limite à produção de mapas. Os governos precisam transformar o diagnóstico em obras de drenagem, contenção de encostas, melhoria das habitações, sistemas de alerta, planejamento urbano, Soluções Baseadas na Natureza e outras medidas capazes de reduzir exposição e vulnerabilidade. O manual defende, nesse sentido, uma engenharia preventiva integrada às geociências e orientada pela preservação da vida.

Quanto mais detalhado se torna o conhecimento sobre os territórios ameaçados, menor fica o espaço para que governantes aleguem surpresa depois de uma tragédia. Uma chuva excepcional pode constituir um fenômeno natural; uma enchente pode decorrer de processos hidrológicos e um deslizamento pode resultar de processos geomorfológicos conhecidos, mas mortes ocorridas em locais onde o risco já havia sido identificado não podem continuar aparecendo apenas como consequência da “força da natureza”.

O trabalho coordenado por Leonardo Andrade de Souza e Rodolfo Baêsso Moura possui justamente esse mérito político e científico ao transformar o mapa de risco em uma ferramenta capaz de mostrar quem está ameaçado, por que essa população se encontra ameaçada e quais ações o Estado pode adotar antes que um evento extremo produza uma tragédia. Em um Brasil marcado simultaneamente pela urbanização desigual e pela intensificação da crise climática, essa mudança de perspectiva assume importância decisiva, pois, depois que o risco foi identificado, mapeado e comunicado, a ausência de prevenção já não pode ser facilmente atribuída ao desconhecimento; quando uma tragédia anunciada finalmente acontece, a falta de preparação passa a revelar uma falha concreta de prevenção.

Super El Niño de 2026-2027 poderá antecipar em uma década o clima da Terra

Projeções mostram que 2027 pode atingir 1,76°C acima dos níveis pré-industriais e funcionar como uma janela para o clima que, pela tendência atual, seria esperado apenas por volta de 2037

O material mostrado acima e que foi publicado pelo The Washington Post em sua conta no Instagram chama atenção para uma característica particularmente preocupante do atual ciclo do El Niño: sua combinação com o aquecimento global provocado pelas emissões humanas poderá fazer com que o planeta experimente, já em 2027, temperaturas que, seguindo a tendência recente de aquecimento, seriam esperadas apenas por volta de 2037.

A comparação é especialmente didática porque mostra que o El Niño não cria sozinho o aquecimento global. O fenômeno funciona, neste caso, como uma espécie de “máquina do tempo climática”. Durante um El Niño intenso, enormes quantidades de calor acumuladas no Pacífico tropical ocidental deslocam-se para leste. A atividade atmosférica acompanha esse deslocamento e transfere parte do calor armazenado no oceano para a atmosfera; a circulação atmosférica, por sua vez, contribui para redistribuí-lo pelo planeta.

O problema é que esse fenômeno natural ocorre agora sobre um planeta que já foi profundamente aquecido pela ação humana. As concentrações crescentes de gases de efeito estufa, resultantes principalmente da queima de carvão, petróleo e gás natural, elevaram a temperatura média da Terra. O El Niño acrescenta temporariamente mais calor a esse sistema já aquecido.

É justamente essa combinação que torna os números apresentados pelo Washington Post tão significativos. Segundo as projeções reproduzidas pelo jornal, existe cerca de 95% de probabilidade de 2027 se tornar o ano mais quente desde o início dos registros instrumentais, que remontam ao século XIX. A temperatura média global poderia chegar a aproximadamente 1,76°C acima da média pré-industrial.

Isso não significa que o planeta terá atingido definitivamente esse patamar de aquecimento. Com o enfraquecimento do El Niño, 2028 poderá apresentar uma temperatura inferior à de 2027. Entretanto, esse recuo temporário não deve ser confundido com uma reversão do aquecimento global. O cientista climático Zeke Hausfather resume bem essa diferença ao observar que as emissões humanas estão acrescentando ao sistema climático, a cada década, uma quantidade de calor comparável ao efeito de um El Niño.

A imagem da escada talvez seja a melhor forma de compreender o problema. Os grandes episódios de El Niño podem produzir degraus temporários para cima, enquanto as emissões humanas continuam elevando permanentemente o nível da própria escada. Depois que o El Niño desaparece, a temperatura pode recuar parcialmente, mas o planeta não retorna às condições climáticas anteriores.

Há ainda um aspecto político importante nessa discussão. O número de 1,76°C chama atenção porque ultrapassa temporariamente a referência de 1,5°C estabelecida no Acordo de Paris. Um único ano acima desse limite não significa formalmente que a meta tenha sido definitivamente ultrapassada, pois ela se refere ao aquecimento médio de longo prazo. Entretanto, experimentar antecipadamente temperaturas próximas de 1,8°C poderá revelar de maneira bastante concreta como funcionará um planeta permanentemente mais quente.

E é precisamente aí que o atual Super El Niño deve servir de alerta. Ondas de calor, secas, incêndios, chuvas extremas e enchentes não resultarão exclusivamente do El Niño, nem ocorrerão de maneira uniforme em todas as regiões. O fenômeno reorganiza a circulação atmosférica e modifica os padrões de precipitação e temperatura; ao interagir com um clima progressivamente aquecido, porém, aumenta a possibilidade de extremos mais severos em diferentes partes do planeta.

Para o Brasil, essa discussão deveria ocupar posição central no planejamento governamental. O país reúne grandes concentrações populacionais em áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos, extensas regiões sujeitas a secas e incêndios e uma infraestrutura urbana que frequentemente demonstra pouca capacidade de enfrentar eventos meteorológicos extremos. Conhecemos cada vez melhor os riscos, mas seguimos investindo muito menos do que seria necessário em prevenção e adaptação. Talvez essa seja a mensagem mais importante do material publicado pelo Washington Post. O Super El Niño de 2026-2027 não está simplesmente produzindo uma anomalia climática passageira. Ele poderá oferecer uma antecipação das condições que tendem a se tornar normais dentro de pouco mais de uma década se as emissões continuarem crescendo.

Nesse sentido, 2027 poderá funcionar como uma janela aberta para 2037. O que veremos através dela não deverá ser tratado como uma curiosidade meteorológica, mas como uma advertência sobre o mundo que estamos construindo. E, diferentemente do El Niño, que eventualmente termina, o aquecimento provocado pela acumulação de gases de efeito estufa não desaparecerá quando as águas do Pacífico voltarem a esfriar.


Fonte do material gráfico e das informações apresentadas nas imagens: Instagram do The Washington Post, publicação de 13 de agosto de 2026.

A maior termelétrica do Brasil parou no Porto do Açu. E poucos parecem ter notado

Falha na GNA II expõe questões sobre segurança tecnológica, padrões ambientais mais permissivos que os europeus e uma forma de “violência lenta” que permanece quase invisível no debate público

No dia 10 de agosto, a GNA II, instalada no Porto do Açu, em São João da Barra, interrompeu completamente sua operação depois que uma falha no disjuntor da turbina a vapor afetou o transformador elevador da unidade. Não se trata de uma termelétrica qualquer: com cerca de 1,7 GW de capacidade instalada, a GNA II é a maior usina termelétrica do Brasil e havia iniciado sua operação comercial pouco mais de um ano antes, em maio de 2025. Até o momento, a empresa não informou quando a geração será retomada e afirma que equipes técnicas, com a participação do fabricante do equipamento, continuam investigando as causas da falha.

O acontecimento chama atenção não apenas pelo porte da usina, mas também pela juventude do empreendimento e pelo aparato tecnológico mobilizado em sua construção. A GNA II integra, juntamente com a GNA I, um complexo de aproximadamente 3 GW instalado dentro do Porto do Açu e apresentado como o maior parque termelétrico a gás natural da América Latina. A paralisação da maior unidade desse complexo pouco depois de sua entrada em operação inevitavelmente levanta questões sobre a natureza da falha, a confiabilidade dos equipamentos empregados e as responsabilidades envolvidas em sua construção e manutenção.

A dimensão internacional do empreendimento torna essas perguntas ainda mais pertinentes. A GNA reúne empresas de diferentes nacionalidades, entre elas a britânica BP, a alemã Siemens Energy e a SPIC Brasil, vinculada ao grupo estatal chinês SPIC. No caso da GNA II, a participação da Siemens Energy merece atenção especial, pois a empresa teve papel central no fornecimento tecnológico e na implantação da usina. Isso torna particularmente relevante compreender como uma instalação tão nova e apresentada como tecnologicamente avançada pôde sofrer uma falha suficientemente grave para retirar de operação a maior termelétrica do país.

Uma falha pequena em um sistema gigantesco

A GNA II parou porque ocorreu uma falha no disjuntor associado à turbina a vapor, que atingiu também o transformador elevador. Os sistemas de proteção desligaram a instalação, e a empresa afirma que não houve vítimas nem impactos ambientais associados ao evento. Até a divulgação da ocorrência, entretanto, a própria companhia ainda investigava a causa e não apresentava previsão para retomada da operação.

Não existe contradição técnica absoluta entre uma usina equipada com tecnologia alemã avançada e a ocorrência de uma pane.  Afinal de contas, equipamentos de alta tensão trabalham submetidos a correntes enormes, aquecimento, ciclos térmicos, vibrações e transientes elétricos; disjuntores e transformadores podem apresentar defeitos de fabricação, problemas de montagem, falhas de isolamento, problemas de conexão ou falhas associadas às operações de abertura e fechamento. Neste momento, porém, seria especulação atribuir o episódio a qualquer uma dessas causas. O fabricante do equipamento participa da investigação, e não encontrei informação pública identificando sequer o fabricante específico do disjuntor que falhou.

A questão relevante encontra-se em outro lugar: uma instalação relativamente nova, inaugurada comercialmente há pouco mais de um ano, perdeu integralmente 1,7 GW de capacidade por causa de um evento iniciado em um componente elétrico. A companhia gosta de apresentar a GNA II como expressão de “alta tecnologia e eficiência energética”; exatamente por isso, uma falha dessa magnitude deveria produzir investigação pública detalhada, inclusive sobre fabricação, montagem, manutenção preventiva e resultados do comissionamento.

Há ainda um detalhe curioso: a falha ocorreu em 10 de agosto, mas a notícia ganhou circulação nacional somente em 19 de agosto, quando surgiu o fato relevante da companhia. A maior termelétrica brasileira ficou, portanto, indisponível durante nove dias antes de o episódio se transformar em notícia relevante para o público, embora a indisponibilidade já tivesse sido comunicada ao ONS.

O que seria permitido no Brasil e na Alemanha

Aqui aparece talvez a parte mais interessante do problema. O relatório de sustentabilidade da própria GNA informa como parâmetros da Resolução CONAMA nº 382/2006 limites de 50 mg/Nm³ para NOx e 65 mg/Nm³ para monóxido de carbono, declarando que a GNA I apresentava valores médios de aproximadamente 15 mg/Nm³ para ambos. Para a GNA II, a empresa informou que utilizaria monitoramento contínuo de NOx, CO e O₂.

Na Alemanha, uma turbina a gás natural operando em ciclo combinado — precisamente a tecnologia utilizada na GNA II — está submetida atualmente a regras mais complexas. A legislação alemã estabelece, para novas instalações desse tipo, 15 mg/m³ de NOx como média anual, 40 mg/m³ como média diária e até o dobro desse último valor como média de meia hora.

Isso permite fazer uma comparação reveladora, mas com uma ressalva importante. Não podemos simplesmente colocar todos esses números lado a lado como se fossem metodologicamente idênticos, porque existem diferenças de período de média, condições de referência, teor de oxigênio e critérios operacionais. Mesmo assim, fica claro que a Alemanha exige controle do NOx em escala anual muito mais rigoroso que o teto de 50 mg/Nm³ usado pela GNA como referência brasileira. Desta forma, há uma assimetria regulatória interessante: tecnologia produzida e comercializada por uma empresa alemã pode ser instalada no Brasil obedecendo formalmente a limites que não reproduzem integralmente o regime que incidiria sobre uma planta equivalente em território alemão.

Isso não significa que a GNA necessariamente esteja emitindo NOx acima do padrão alemão. Ao contrário, o valor médio de 15 mg/Nm³ informado pela empresa para a GNA I coincide numericamente com o limite anual alemão. O problema político e ambiental está em outra parte: o padrão jurídico brasileiro permite maior margem de emissão que aquela aceita na Alemanha, especialmente quando se observa o NOx. Uma empresa pode operar tecnologicamente melhor do que a lei exige; isso não transforma uma legislação permissiva numa legislação ambientalmente adequada.

A dimensão da “slow violence”

É justamente aí que Rob Nixon ajuda a interpretar o complexo termelétrico do Açu. Para Nixon, slow violence é uma violência ambiental que se acumula lentamente, espalha-se pelo espaço e pelo tempo e dificilmente produz a imagem espetacular que normalmente associamos a um desastre.

A falha do dia 10 de agosto é o contrário disso: ela possui data, equipamento defeituoso e desligamento abrupto. É um acontecimento identificável. Mas o funcionamento normal da termelétrica oferece uma porta muito mais interessante para pensar a violência lenta.

Uma usina a gás não precisa explodir para produzir impactos. Durante anos ela queima combustível, libera CO₂ e óxidos de nitrogênio, participa de uma cadeia de GNL que também envolve emissões de metano, adiciona poluentes à atmosfera e contribui incrementalmente para o aquecimento climático. Cada emissão isolada parece pequena diante da atmosfera; acumuladas durante décadas e somadas às emissões de milhares de outras fontes, elas constituem precisamente o tipo de processo que Nixon procura tornar visível.

A própria eficiência da GNA II não elimina essa questão. A companhia informa eficiência superior a 60%, o que significa menor emissão por unidade de eletricidade do que uma termelétrica antiga. Mas uma termelétrica a gás altamente eficiente continua queimando um combustível fóssil. A eficiência diminui a intensidade da emissão; não elimina sua existência.

E existe uma dimensão territorial adicional. Os benefícios econômicos da eletricidade produzida entram no Sistema Interligado Nacional, enquanto grande parte das externalidades ambientais permanece concentrada no território onde se encontram as usinas, o terminal de GNL, as linhas de transmissão e as demais estruturas industriais. Essa separação espacial entre quem recebe os benefícios e quem convive permanentemente com os riscos é bastante compatível com a leitura de Nixon sobre desigualdade ambiental.

O silêncio talvez seja a parte mais reveladora

Minha busca mostra que a paralisação apareceu em veículos nacionais como G1, Folha de S.Paulo, UOL, Terra e posteriormente CNN Brasil. Mas existe uma característica evidente: a maior parte da cobertura praticamente reproduziu a mesma informação empresarial, sem investigação das causas, sem comparação internacional dos padrões ambientais e sem discussão mais ampla sobre o significado de uma usina de 1,7 GW permanecer fora de operação.

Na busca por cobertura regional, encontrei, por exemplo, uma nota do portal Resumo RJ, mas não encontrei repercussão proporcional ao porte do acontecimento nos principais veículos locais pesquisados. Isso não permite afirmar que nenhuma mídia regional tratou do assunto, mas indica uma cobertura surpreendentemente reduzida para um equipamento situado em São João da Barra e apresentado há pouco mais de um ano como símbolo do desenvolvimento regional.  O que se pode concluir então é que aí existe uma assimetria jornalística interessante. A inauguração da GNA II recebeu cobertura televisiva regional, inclusive com presença do presidente da República e destaque para o fato de se tratar da maior termelétrica a gás do país. Quando a mesma usina ficou paralisada, entretanto, a dimensão espetacular desapareceu rapidamente.

Talvez esteja justamente aí uma segunda conexão com Nixon: nossa cultura política e midiática enxerga com facilidade a inauguração, a obra bilionária, a autoridade cortando a fita e a promessa de empregos; tem muito mais dificuldade para acompanhar aquilo que acontece depois — emissões cotidianas, riscos acumulados, panes técnicas, condicionantes ambientais e consequências territoriais.

No caso da GNA II, a pane deveria suscitar perguntas que ainda permanecem abertas: qual componente efetivamente falhou; quem o fabricou; por que falhou numa planta praticamente nova; houve danos permanentes ao transformador; quando ocorreu a última manutenção; quanto tempo a usina permanecerá indisponível; e quais são os dados atuais do monitoramento contínuo de NOx e CO da GNA II?

Enquanto essas respostas não aparecem, talvez a notícia mais importante não seja apenas que a maior termelétrica brasileira parou. É que ela pôde parar durante nove dias antes que a maior parte da sociedade sequer soubesse que havia parado. E num empreendimento deste porte, construído cercado por discursos sobre tecnologia de ponta, segurança energética e sustentabilidade, esse silêncio também merece investigação.