FAO faz evento no Dia Mundial das Abelhas com participação de cientista brasileiro

‘Bee Engaged: celebrando a diversidade das abelhas e os sistemas de criação” será realizado na sexta-feira, 20 de maio; Cristiano Menezes, da Embrapa e da A.B.E.L.H.A. fará palestra

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São Paulo, 18 de maio de 2022 – A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) vai celebrar o Dia Mundial das Abelhas (20 de maio) com um evento virtual neste ano: ‘Bee Engaged: celebrando a diversidade das abelhas e os sistemas de criação”.

A celebração, que será aberta com uma mensagem do diretor-geral da FAO, QU Dongyu, pretende ampliar a conscientização sobre a importância da grande diversidade de abelhas e sistemas de criação sustentáveis, as ameaças e os desafios que enfrentam e sua contribuição para os meios de subsistência e sistemas alimentares.

O programa contará com palestras de especialistas em abelhas e polinizadores de todo o mundo, e vai trazer um representante do Brasil: o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Cristiano Menezes, membro do Comitê Científico da A.B.E.L.H.A., vai mostrar como a criação das abelhas sem ferrão está promovendo mudanças nos hábitos de vida das pessoas no Brasil, seja por meio da atividade diretamente, seja pelos que estão criando como animais de estimação ou por lazer.

“Esse evento da FAO é uma grande oportunidade de mostrar para o mundo o trabalho maravilhoso que o Brasil está fazendo com a meliponicultura e o seu potencial para o futuro. A presença das abelhas no entorno das plantações, como já está acontecendo no café, no morango e no açaí, é a maior prova de que é possível conciliar a agricultura com a conservação da nossa biodiversidade. Esse é um símbolo de sustentabilidade que ainda irá agregar muito valor à nossa produção”, afirma Cristiano.

A criação de abelhas é uma atividade generalizada e global, com milhões de apicultores e meliponicultores dependendo das abelhas para sua subsistência e seu bem-estar. Juntamente com outros polinizadores selvagens, as abelhas manejadas desempenham um papel importante na manutenção da biodiversidade, garantindo a sobrevivência e a reprodução de muitas plantas, apoiando a regeneração florestal, promovendo a sustentabilidade e a adaptação às alterações climáticas, melhorando a quantidade e a qualidade das produções agrícolas.

Serviço

Evento virtual da FAO em celebração ao Dia Mundial das Abelhas
 
20 de maio de 2022

8h (horário de Brasília)

Disponível em inglês, francês, espanhol, árabe, chinês e russo.

Link para inscrição: aqui

Mais informações no site da FAO: aqui

Pegada de mineração ilegal aumenta quase 500% dentro dos territórios indígenas do Brasil

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Por Laís Modelli para o Mongabay

A área ocupada pelo garimpo  cresceu 495% em Terras Indígenas e 301% em unidades de conservação no Brasil entre 2010 a 2020, de acordo com levantamento da rede de pesquisadores MapBiomas publicado na semana passada.

“São dados absurdos. Ainda que o garimpo em Terras Indígenas não seja coisa recente, estamos vendo a sua expansão a passos muito largos de 2017 em diante”, comenta o geólogo Cesar Diniz, coordenador técnico do mapeamento de mineração do MapBiomas.

Um relatório elaborado pela Hutukara Associação Yanomami, publicado este mês, mostrou que o garimpo na TI Yanomami, no Amazonas e Roraima, quase triplicou nos últimos três anos e que 56% dos 27 mil habitantes da reserva — ela é a maior do Brasil —, são afetados diretamente pelo garimpo.

Já um documento do Instituto Socioambiental (ISA) de 2021 estima que o garimpo cresceu 363% em apenas dois anos na TI Munduruku, no Pará.

Tanto a TI Yanomami quanto a TI Munduruku também aparecem no levantamento do MapBiomas. Enquanto a reserva Yanomami é apontada como a terceira Terra Indígena com a maior área de garimpo no Brasil, com 414 hectares ocupados, a Munduruku é a segunda, com 1.592 hectares. A mais afetada é a TI Kayapó, no Pará, com 7.602 hectares invadidos.

O Pará também lidera em área de garimpo em Unidades de Conservação. Segundo o levantamento, as três com maior atividade garimpeira são a APA do Tapajós (34.740 hectares), a Floresta Nacional do Amaná (4.150 hectares) e o Parque Nacional do Rio Novo (1.752 hectares).

“Terras Indígenas e Unidades de Conservação têm florestas intocadas, igual o seu solo. Quanto mais virgem for o solo, maior a probabilidade de se encontrar ouro. É por isso que os garimpeiros procuram regiões protegidas e intactas”, explica Diniz.

Preço do ouro e ineficácia da fiscalização

O professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Luiz Jardim Wanderley, afirma que três fatores econômicos ajudam a explicar a explosão dos garimpos ilegais na Amazônia nos últimos anos.

“A partir de 2017, temos o aumento do preço das commodities no mercado internacional que estão sendo exploradas em Terras Indígenas, que é ouro, estanho e manganês”, explica Wanderley.

Além disso, a atividade garimpeira ilegal, apesar de cada vez mais mecanizada com pás escavadeiras e demais maquinários industriais, ainda demanda muita mão-de-obra.

“Com o agravamento da pobreza no Brasil, aumento do desemprego e a crise econômica dos últimos anos, o trabalho informal, precarizado e, algumas vezes, até análogo à escravidão nos garimpos se beneficia, atraindo mais mão-de-obra”, afirma o professor da UFF.

Corrutela de garimpo no Rio Uraricoera, Terra Indígena Yanomami. Foto: Bruno Kelly/HAY

Diniz alerta para a falta de punição aos envolvidos no garimpo ilegal: “São terras conhecidas há tempos por terem problemas com atividade garimpeira, mas, antes, víamos um ou dois garimpos dentro ou próximos a esses territórios. Com a fragilização da fiscalização do governo e a incapacidade de punir o garimpo ilegal, se tornou cada vez mais vantajoso adentrar TIs e UCs onde já se conhecia a existência de ouro”.

O presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY), Júnior Hekurari Yanomami, afirma que vem denunciando invasões e conflitos entre garimpeiros e indígenas na reserva Yanomami desde 2018, mas que as denúncias não resultam em ações efetivas.

“O Governo Federal não se preocupa com a nossa segurança. Fazemos denúncias sempre, o governo sabe o que acontece. O presidente Bolsonaro incentiva a invasão do garimpo nas nossas terras. E a Funai, ela está morta. Nós, indígenas, não sabemos porque a Funai ainda existe”, diz Júnior Hekurari.

Em nota, a Fundação Nacional do Índio (Funai) afirma que tem atuado efetivamente com medidas práticas de apoio à população indígena e que a fiscalização em Terras Indígenas de todo o território nacional é uma das prioridades na atuação do órgão.

Expansão da fronteira do garimpo

O crescimento do garimpo de quase 500% em TIs e mais de 300% em UCs representa a expansão da antiga fronteira do garimpo na Amazônia.

“Os garimpos que vemos hoje são, mais ou menos, os mesmos de 1950. Eles são frequentemente reutilizados e expandidos em sua borda. Quase nunca vemos garimpo surgindo em áreas que nunca foram mineradas antes. Quase sempre é uma expansão da fronteira garimpeira que já se conhece há décadas”, explica Diniz.

O pesquisador do MapBiomas descreve que a principal característica do garimpo ilegal é o rastro de destruição deixado no leito do rio e a capacidade de mudar de local com rapidez para driblar a fiscalização.

“Mas os buracos abertos no leito do rio não são fechados. Ali fica água parada e contaminada. Quando os garimpeiros voltam para a região, eles aumentam esses buracos, aumentando o desmatamento e a fragilidade do solo”, descreve o geólogo.

Se as áreas de garimpo fossem abandonadas e não houvesse nenhuma interferência humana, Diniz estima que levaria um mínimo de duas décadas para o local se recuperar naturalmente. “E não com o mesmo solo nem com a mesma biodiversidade”, diz.

A Constituição Federal de 1988 proíbe o garimpo e a mineração tanto em Terras Indígenas como em Unidades de Conservação. A atividade garimpeira, contudo, não é ilegal. Segundo o Estatuto do Garimpeiro, de 2008 (Lei nº 11.685), a atividade pode ser feita mediante permissão do governo, com baixo impacto ambiental e em pequeno volume (em áreas menores que 50 hectares).

Porém, em fevereiro de 2020, o presidente Jair Bolsonaro assinou o Projeto de Lei nº191/2020, que libera a mineração de ouro e vários outros minerais em territórios indígenas.

“O problema não é a atividade garimpeira, uma vez que a garimpagem está prevista em lei no Brasil. O problema é que o garimpo na Amazônia quase sempre opera sem licença, com mercúrio, dentro de Terras Indígenas e Unidades de Conservação e sem recuperar os danos ambientais causados”, afirma Diniz.

Avanço do desmatamento

O levantamento do MapBiomas também mostra que a perda geral de vegetação nativa no Brasil nos últimos 30 anos foi de 1,1 milhão de hectares. Enquanto as propriedades privadas foram responsáveis por 68,4% dessa perda geral, apenas 1,6% ocorreu em Terras Indígenas.

Apesar de as reservas indígenas serem as áreas mais preservadas e as responsáveis por manterem a floresta em pé, o levantamento alerta que o desmatamento nas TIs vem se acelerando. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) analisados pelo MapBiomas mostram que a devastação entre 2019 e 2021 se multiplicou por 1,7 em comparação com a média de 2016 a 2018.

Imagem do banner: Garimpo ilegal de ouro na Terra Indígena Kayapó. Foto: Felipe Werneck/Ibama


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Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay [Aqui!].

Montadoras estão sabotando meta climática de 1,5°C, mostra nova pesquisa

Fabricantes de automóveis fazem lobby contra a políticas alinhadas ao Acordo de Paris e não planejam produzir veículos elétricos no sul global

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Toyota tem o pior nível de engajamento no cumprimento das metas climáticas

As maiores montadoras do mundo estão minando as metas climáticas globais ao não conseguirem atingir metas para a fabricação de veículos elétricos. Para isso, as empresas estariam fazendo lobby para prolongar a vida útil do motor de combustão interna, indica uma nova pesquisa do think tank InfluenceMap.

A pesquisa mostra ainda que as principais montadoras estão planejando descarregar a produção de veículos movidos a combustão interna em países pobres, principalmente na América do Sul. As empresas planejam produzir apenas 3% de veículos elétricos a bateria na América do Sul até 2029, sendo 8% na África e 9% na Índia. Mesmo as fabricantes mais ambiciosas da Europa, como a Volkswagen, estão preparadas para produzir muito poucos veículos elétricos nesses mercados emergentes chave.

As conclusões partiram de uma avaliação do engajamento climático de doze montadoras comparado aos indicadores de produção futura dessas empresas reunidos pela consultoria IHS Markit até 2029. Esse desempenho foi analisado em relação ao cenário de 1,5°C indicado pela Agência Internacional de Energia (AIE) para descarbonizar o setor de transportes.

Todas as doze empresas analisadas para esta pesquisa declararam publicamente seu apoio ao Acordo de Paris, mas apenas uma – Tesla – está engajada com uma política alinhada com os objetivos do acordo. Apenas duas – Tesla (100%) e Mercedes-Benz (56%) – estão executando uma transição para veículos elétricos a bateria (BEV) com a rapidez necessária para atender ao caminho de 1,5°C da AIE até 2029.

Ao analisar as previsões de produção de veículos, o relatório identifica uma ligação clara entre o engajamento das montadoras na política climática e as estratégias de produção. A Toyota, por exemplo, tem o engajamento mais negativo da política climática de todas as doze montadoras analisadas. Ela também tem o nível mais baixo de produção prevista de BEV.

“Esta pesquisa mostra que os mais atrasados são também os mais negativos quando se trata de defesa da política climática”, avalia Ben Youriev, analista sênior da InfluenceMap. “Quase todas as montadoras estão falhando em acompanhar a transição para emissões zero.”

Enormes diferenças regionais

Na União Européia, que tem algumas das políticas mais ambiciosas para descarbonizar o setor de transportes, os dados da IHS Markit mostram que 59% da produção local está prevista para ser veículos elétricos a bateria até 2029. Ainda assim, algumas montadoras como a BMW ainda lideram os esforços contra uma meta de emissões zero até 2035 proposta pela UE.

Os resultados dos Estados Unidos são quase uma completa inversão do cenário da União Europeia. Apenas duas montadoras de automóveis – Tesla (100%) e Volkswagen (57%) – planejam produzir veículos elétricos a bateria suficientes nos EUA para atingir a meta da AIE. Embora haja uma mudança limitada de veículos com motor de combustão interna para veículos elétricos, 65% dos veículos leves produzidos nos EUA ainda serão movidos por motores de combustão até 2029.

Por exemplo, 49% da frota da Toyota produzida na UE será de veículos elétricos a bateria até 2029, enquanto nos Estados Unidos é de apenas 4%. Ford (36%) e General Motors (28%) devem permanecer atrás das exigências do cenário de 1,5°C da AIE em sua produção mundial para veículos elétricos a bateria. Entretanto, a produção da Ford baseada na UE está prevista para 65% até 2029.

O que explica essas diferenças de atuação, segundo o estudo, é uma forte correlação entre a política governamental de eliminar gradualmente os veículos de passageiros com motor a combustão e a produção local de carros elétricos a bateria. Nos países onde a legislação está mais adiantada, haverá mais veículos elétricos. Ao mesmo tempo, a maioria dos fabricantes de automóveis está engajada negativamente na política climática.

8 das 12 montadoras analisadas pontuaram um ‘D+’ ou abaixo no sistema de medição A-to-F do InfluenceMap em relação ao compromisso com as metas do Acordo de Paris. Segundo o estudo, essas montadoras se opuseram estrategicamente às políticas projetadas para regular e/ou eliminar progressivamente os veículos a combustão.

A Toyota é a montadora com a menor pontuação. Tesla (B) é o único fabricante de automóveis considerado como amplamente favorável à política climática alinhada com Paris, representando o claro líder do setor. As três empresas restantes – Volkswagen (C), Ford (C-) e General Motors(C-) – mostram um engajamento de política climática mista.

As associações industriais que representam montadoras nas principais regiões (EUA, UE, Alemanha, Japão e Reino Unido) têm um engajamento altamente negativo na política climática e são estrategicamente empregadas pelas montadoras para liderar esforços globais negativos de defesa contra a legislação climática.

“O último relatório do IPCC é claro que uma rápida ampliação dos veículos elétricos a bateria é fundamental para atingir as metas globais de mudança climática. No entanto, esta pesquisa destaca como os principais fabricantes de automóveis continuam entre os maiores opositores da política climática global.”, conclui Youriev.

Articulação Agro é Fogo realiza Audiência Pública para denunciar a devastação dos incêndios no Cerrado, Amazônia e Pantanal

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Lutar pelo futuro passa por barrar o avanço dos incêndios e toda a devastação do agronegócio que atinge, principalmente, os povos e comunidades tradicionais. Essa pauta será debatida durante a Audiência Pública da Articulação Agro é Fogo e da Comissão Externa de Queimadas em Biomas Brasileiros, coordenado pela Deputada Professora Rosa Neide, na Câmara dos deputados, no próximo dia 19 de maio às 14h (horário de Brasília). O momento será no formato híbrido, presencialmente no Anexo II — Plenário 7 da Câmara dos deputados, pelo zoom e com transmissão ao vivo pelo Youtube da TV Câmara. 

Em favor da manutenção da sociobiodiversidade da Amazônia, Cerrado e Pantanal, será apresentado, junto a representantes das comunidades, a nota técnica, elaborada em parceria com o Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (OLMA), pautado nos casos apresentados no Dossiê Agro é Fogo

Já temos a presença confirmada de Claudia Sala de Pinho, da Rede de comunidades tradicionais Pantaneiras (MS); Leonida Aires, Liderança da Comunidade Barra de São Lourenço (MS); Davi Krahô, Liderança Indígena do povo Krahô (TO); Leandro dos Santos, Liderança da comunidade quilombola Cocalinho (MA); Isolete Wichinieski, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Eliane Martins, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). 

O fogo continua 

Estamos chegando na estiagem com grande quantidade de focos de incêndios e isso requer atenção do poder público. Conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), até a metade de maio deste ano mais de 4 mil focos de incêndios foram contabilizados só no Cerrado, isso significa 20% a mais do que o mesmo período ano passado; Na Amazônia, já a são mais de 3.500 focos e no Pantanal os focos já são maiores do que toda a quantidade do ano passado.

O Dossiê Agro é Fogo, que se encaminha para sua terceira fase, afirma que os problemas e descontrole de incêndios no campo são orquestrados para o avanço do agronegócio. O documento reúne discussões e relatos de conflitos que denunciam um processo sistemático de avanço do agronegócio e suas interfaces, por incêndios, intimidação, destruição de propriedades, bens ou recursos dos modos de sobrevivência e de produção das comunidades, permeando a grilagem, garimpo, agrotóxicos e desmatamento.

Além disso, entre outras graves consequências desse processo de devastação, que impacta tanto o campo quanto a cidade, também é fruto dessa violência o aumento da fome, da insegurança alimentar, frente às commodities de monocultura que cresceram nos últimos dois anos de pandemia, como bem expõe o artigo do pesquisador Sílvio Isoppo Porto e da pesquisadora Diana Aguiar.

Por outro lado, o Dossiê Agro é Fogo ressalta os anúncios dos povos e comunidades tradicionais que, apesar de tudo, resistem para permanecer, com vida digna, em seus territórios. Nesse sentido, brigadas indígenas junto a Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) são uma das formas de organização coletiva para combate e, principalmente, realizar a prevenção do fogo.

Com a sabedoria ancestral a respeito do fogo, as brigadas funcionam promovendo a educação ambiental, treinamento e conscientização para a comunidade em situações de incêndios. Importante ressaltar que são brigadas formadas também por mulheres indígenas que, aliadas ao treinamento da PrevFogo, “acalmam” o fogo e evitam o avanço da morte sobre suas comunidades.

De acordo com investigação realizada pelo Ministério Público Federal (MPF) e publicação do El País, incêndios e desmatamento na Amazônia podem ser estratégia para negócios milionários. Uma área de mil hectares incendiada vale um milhão de reais no mercado ilegal. A devastação de 2019, no chamado Dia do Fogo, na Amazônia e no Pantanal, está calculada em vinte milhões de reais que, pelo que apontam os indícios, tem a participação de grupos criminosos.

Além disso, conforme matéria do Repórter Brasil, um dos locais mais atingidos no Dia do Fogo, foi o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Terra Nossa onde, devido a invasão de fazendeiros e inoperância do Estado, atualmente são áreas repletas de monocultura. Tal cultivo contraria a finalidade da terra destinada à reforma agrária e que ainda está em processo de regulamentação pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Um ano depois do evento, apenas 5% dos responsáveis pelo ocorrido foram punidos, segundo levantamento do Greenpeace Brasil.

Guardar a sociobiodiversidade é manter as comunidades em seus territórios 

“Tem muita gente aqui com problema respiratório, teve gente que desmaiou, eu mesma estou com problema, até hoje tenho uma coceira no corpo, outras pessoas também têm, não sei o que pode ser. E já a gente tem que fazer exames pra saber e teve gente que ficou ruim, várias pessoas desmaiaram devido à fumaça, à cinza”, relata Leonida Aires, da Comunidade Pantaneira Barra de São Lourenço. 

Um dos casos a ser apresentado na Audiência Pública será o da Comunidade Pantaneira Barra de São Lourenço, que sofreu e sofre as consequências intensas dos incêndios do agronegócio. O caso foi relatado no DOSSIÊ AGRO É FOGO por Claudia Sala de Pinho, coordenadora regional da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneiras. 

Os incêndios florestais no Pantanal brasileiro já vinham fazendo estragos em anos anteriores a 2020 e suas cicatrizes não cessaram depois desse ano trágico. A comunidade, que perdeu uma criança durante tais acontecimentos, ainda reúne forças para sobreviver ao desmatamento, aos agrotóxicos, à falta de qualidade da água, a falta de saúde física e mental, e até de direito à terra, pois é um território em processo de demarcação para ser reconhecido como Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS). 

Segundo levantamento, os conflitos por terra envolvendo o fogo (2021) concentram 47% nas áreas do Cerrado e suas transições, na Amazônia contabilizam 25% e no Pantanal 6% do total. Somado a isso, no ano de 2021, foram 37 mil famílias afetadas pelo uso do fogo como arma nos conflitos no campo. Além disso, os incêndios destroem não só o componente material, mas, principalmente, afeta o sagrado e os saberes dos povos, isso se mostra em relação às casas de reza, violência que já envolveu quase 6 mil famílias no Brasil. 

Dados da Agro é Fogo e CEDOC-CPT, reafirmam a relação dos incêndios quando o assunto são os conflitos por terra. É possível perceber que as regiões que sofrem com desmatamento, grilagem e o sistema agro-minerador são as mesmas atingidas, de alguma forma, pelo fogo criminoso, que ameaça a sociobiodiversidade, a vida, e avança violentamente devastando por onde passa. 

Ouça o alerta que vem dos povos!

Serviço

Dia 19 de maio

Horário: 14h (horário de Brasília)

Local: Anexo II — Plenário 7 — Câmara dos deputados

Youtube: TV Câmara

Entrar na reunião Zoom 

O Departamento de Comissões está convidando você para uma reunião Zoom agendada.

ID da reunião: 878 7004 0824

Senha de acesso: 907272

Agrotóxico comum no Brasil pode colocar em risco espécies nativas de abelhas, aponta estudo

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Macho da espécie solitária Centris analis sendo exposta oralmente ao agrotóxico em condições de laboratório (foto: Rafaela Tadei/Unesp)

Por Julia Moióli  para  a Agência FAPESP

Um dos agrotóxicos mais comuns no Brasil, o neonicotinoide imidacloprido, pode estar colocando em risco as abelhas nativas, sugere estudo publicado recentemente na revista Environmental Research. Porém, por não contar com um protocolo de avaliação de risco específico para essas espécies, os cientistas brasileiros desconhecem as reais dimensões do problema.

O alerta vem de resultados preliminares de estudos que estão sendo conduzidos na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) com o objetivo de entender qual é a sensibilidade específica das abelhas nativas sociais (Melipona scutellaris e Scaptotrigona postica) e solitárias (Tetrapedia diversipes e Centris analis) a esses compostos.

A investigação conta com apoio da FAPESP por meio de dois projetos (17/21097-3 e 19/27863-5).

Nos testes realizados em laboratório, as abelhas são expostas ao agrotóxico, usado em culturas de algodão, batata, cana-de-açúcar, feijão e tomate, entre outras. Diluído em concentração relevante ambientalmente, ou seja, semelhante à que seria encontrada na natureza, o químico é aplicado por via oral (simulando a coleta de recursos alimentares como pólen, néctar, óleos florais e resinas) e por contato (como acontece em nuvens de pulverização durante a aplicação do produto nas lavouras).

Em seguida, são avaliados fatores como o comportamento dos insetos (por exemplo, a capacidade de realizar caminhos habituais, resposta à luz e nível de desorientação), marcadores celulares e mortalidade.

No caso das abelhas solitárias, dizem os autores, os estudos são ainda mais incipientes e incluem o desafio extra da falta de conhecimento sobre a biologia do animal.

“Ainda sabemos pouco sobre seu ciclo de vida e seus hábitos e, por isso, é necessário primeiro criar as espécies em laboratório para depois propor um protocolo adequado”, explica Osmar Malaspina, professor do Instituto de Biociências da Unesp em Rio Claro.

Resultados preliminares dos estudos com abelhas solitárias vêm indicando que elas podem ser afetadas por agrotóxicos mesmo em baixas concentrações. “Já podemos observar efeitos preocupantes de envenenamento, como tremores e incapacidade de voo”, conta Rafaela Tadei, doutoranda em ciências biológicas na Unesp sob a orientação de Malaspina e coautora do artigo. “Se a abelha estivesse na natureza e não no laboratório, seria predada e morreria.”

Avaliações feitas no corpo gorduroso dessas abelhas solitárias, parte responsável pela desintoxicação e que também serve como reserva de nutrientes, indicam que essa estrutura está sendo afetada, o que pode comprometer funções fisiológicas.

Falta de protocolo

Hoje, no mundo todo, a avaliação de risco de agrotóxicos para abelhas utiliza como referência uma das espécies mais comuns no mundo, a produtora de mel Apis mellifera. No Brasil, onde há cerca de 3 mil espécies nativas, para as quais inexistem modelos específicos, o padrão internacional é extrapolado com um fator de segurança de dez, que também é baseado em espécies não brasileiras. Porém, de acordo com os estudos da Unesp e da UFSCar, nem essa medida extra de cautela parece ser suficiente para garantir a proteção dos insetos, o que reforça a necessidade de protocolos específicos e melhorias na regulamentação.

“Quando utilizamos uma espécie-modelo menos sensível como padrão, supomos que as abelhas estão seguras quando, na verdade, elas podem não estar”, explica a pesquisadora. “E, embora ainda sejam necessários mais estudos para sabermos o quanto os agrotóxicos afetam a reprodução das abelhas brasileiras e o serviço de polinização realizado por elas, sabemos que a diminuição da população de polinizadores se refletirá na redução da diversidade de alimentos, afetando o sistema econômico e, consequentemente, a sociedade”, diz Tadei.

“Estudar os efeitos dos agrotóxicos nas abelhas nos permite buscar meios de preservar a nossa biodiversidade e identificar o que está acontecendo com essas populações para que não fique tarde demais para recuperá-las e passemos a depender da polinização manual ou de outros meios que vão encarecer muito nosso recurso alimentar.”

Segundo Tadei, o passo seguinte aos estudos será a inclusão de três esferas nesse debate: a sociedade civil, para que entenda a necessidade da pesquisa e da proteção ao meio ambiente; os órgãos governamentais, para que melhorem a regulamentação com base em dados cientificamente comprovados; e a comunidade científica, para que trabalhe em conjunto e obtenha as melhores respostas para o meio ambiente.

O artigo Are native bees in Brazil at risk from the exposure to the neonicotinoid imidacloprid? pode ser lido  [Aqui!]


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui!].

Legado de Brumadinho clama por justiça e fim da negligência

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Por Alexandra Andrade

É preciso combater o risco do esquecimento que confina tragédias-crimes a dolorosa lembrança dos familiares das vítimas sem que o país adote políticas vigorosas de proteção à vida dos que trabalham e ao meio ambiente. É preciso reforçar para a sociedade que medidas de prevenção devem ser tomadas hoje, porque amanhã pode ser tarde. Este alerta adquire ainda mais urgência quando lembramos que o rompimento da barragem em Brumadinho aconteceu cerca de 3 anos após Mariana, matando 272 pessoas, o que é imperdoável.

Cair no esquecimento, seja pela morosidade dos processos judiciais — onde os acusados usam todas as brechas para a protelação — tem sido o destino de outros desastres e rompimentos. As lições do passado precisam ser aprendidas.

Há mais de 50 anos, 64 trabalhadores que erguiam o pavilhão de exposições do Parque da Gameleira, em Belo Horizonte, morreram soterrados. Era quinta-feira, 4 de fevereiro de 1971, quando por volta do meio-dia, a estrutura em obras desmoronou e toneladas de concreto e ferragem esmagaram os operários. O desabamento provocou ainda dezenas de feridos, alguns incapacitados de forma permanente.

Seis anos atrás, cerca de 55 milhões de m³ de lama foram despejados sobre trabalhadores e comunidades vizinhas da Barragem do Fundão, em Mariana. O saldo foi a morte de 19 operários e contaminação do solo e dos rios num raio de 80 km, causando prejuízos a 40 municípios de Minas e Espírito Santo, com impacto na vida de 1,2 milhão de pessoas.

Há três anos, o país, perplexo, assistiu ao rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão. Considerado o maior desastre humanitário do Brasil, o colapso da barragem aconteceu em um dia normal de trabalho, sem que nenhuma sirene desse o alarme. A fúria de 12 milhões de m³ de rejeitos de mineração ceifou 272 vidas e impactou dolorosamente milhares de famílias de Brumadinho e região.

Tais episódios evocam a repetição de um padrão de negligência, omissão e irresponsabilidade que tornam o trabalho inseguro no país. É o que atestam as estatísticas: o Brasil é 2º país do G-20 em mortalidade por acidentes no trabalho e registrou, de 2002 a 2020, 6 óbitos a cada 100 mil empregos formais, de acordo com relatório do Ministério Público do Trabalho e da Organização Internacional do Trabalho.

Uma consulta aos autos dos processos permite perceber a existência de falhas por parte das empresas, seja pelo fato de não investirem maciçamente na proteção da vida, seja por adaptações e soluções do tipo “remendos” para manter o ritmo da produção. Os processos narram, ainda, as ações e providências de órgãos públicos apontando falhas graves na gestão de riscos, ou mesmo a política de menosprezar os avisos e sinais visíveis de insegurança.

Não aprender com tragédias tem custado caro para o país. Para que o futuro não se repita com as marcas do passado, a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (AVABRUM) fez uma escolha que honra a memória das 272 vidas ceifadas pela negligência. Na virada do mês de abril, dedicado à prevenção de doenças e de acidentes dos trabalhadores, e com o simbolismo marcante do Primeiro de Maio, lançamos o Projeto Legado de Brumadinho, criado por familiares das vítimas da maior tragédia trabalhista do país — o rompimento da Barragem da Vale em Brumadinho.

Queremos deixar claro para a opinião pública que as vítimas de Brumadinho e de tantos outros desastres e rompimentos estão relacionadas à negligência, omissão e violação de normas pelas empresas quanto aos riscos durante a atividade profissional. A necessidade de fortalecer a fiscalização do poder público também está na agenda. O Brasil é um dos países com mais acidentes de trabalho em todo o mundo e, no caso de rompimento de barragens, Minas Gerais é o estado que mais mata no país.

A proposta é chamar a atenção para o aprimoramento da segurança nas empresas, tornando a vida humana e a proteção ambiental prioridades inegociáveis. O tema requer engajamento das instituições de justiça, governantes, parlamentares, organizações não governamentais, especialistas, movimentos sociais e os investidores — que precisam comprar papéis de empresas que fazem da responsabilidade socioambiental uma obrigação e não autoelogio para os holofotes sem vestígios de verdade.

Nós, com a dor da perda de nossos entes queridos, queremos contribuir para uma cultura preventiva e responsável dos empregadores. Esperamos ainda que a Justiça faça o seu papel e puna responsáveis por acidentes de trabalho, afinal, precedentes de impunidade abrem portas para novas atitudes temerárias.

Fixar a agenda do trabalho seguro no Brasil, de modo a se tornar um valor absoluto, celebrando a vida humana em primeiro lugar, é um objetivo social que envolve responsabilidade de todos.

A segurança no ambiente de trabalho não cabe apenas aos empregados do chão de fábrica. Nas tragédias lembradas acima, capacetes, botas, luvas, ou saber os mandamentos de segurança, não foram suficientes, pois conselhos de administração, corpo diretivo e executivos responsáveis por investimentos e medidas preventivas de segurança não fizeram a sua parte.

Leis que garantem a segurança no trabalho também precisam ser cobradas pelo poder público. Em Minas Gerais, a Lei Mar de Lama Nunca Mais, que previa prazo de três anos para o descomissionamento de barragens à montante, como eram Mariana e Brumadinho, era um exemplo promissor, mas sofreu grave retrocesso. Os prazos foram revistos e a data original para o descomissionamento não será cumprida. Os riscos continuam.

O que Gameleira, Mariana e Brumadinho ensinam é a necessidade de que não devem ser adiados investimentos para segurança dos locais de trabalho. Vidas estão em jogo. A boa prática recomenda ser diligente, romper com a omissão e adotar soluções concretas e eficazes para conter riscos. O custo financeiro do investimento em segurança pode ser recuperado. A vida humana, não.
 


* Alexandra Andrade é presidente da AVABRUM (Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão) — Biênio 2021/2023.

Observatório dos Agrotóxicos: uso e custos estão aumentando em velocidade maior do que a produção agrícola brasileira

Charge do Junião_agrotóxicos no Brasil

Dados disponibilizados pelo  Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) na última 5a. feira (12/05) mostram que entre 2017 e 2021 a área que recebeu a aplicação de agrotóxicos aumentou 36,6% (o equivalente a adicionais 505 milhões de hectares) em função do aumento da presença de pragas, doenças e ervas daninhas de difícil controle (ver figura abaixo)

.O resultado financeiro desse aumento foi que o valor de mercado dos agrotóxicos utilizados pelos agricultores aumentou 17,4%, em 2021, passando de US$ 12,485 bilhões (2020) para US$ 14,655 bilhões (2021).  Dentre as culturas que precisaram do uso de agrotóxicos, o Sindiveg afirmou que a soja representou 53% do valor total, com US$ 7,779 bilhões, enquanto o milho participou com 13% e a cana, com 9%. Em outras palavras, estas três culturas de exportação representaram juntas 75% de todos os agrotóxicos utilizados no Brasil no ano passado, confirmando uma tendência de que esse tipo de monocultura está fortemente apegada ao uso intensivo de venenos agrícolas.

Além disso, há que se notar que no tocante ao volume de agrotóxicos utilizados, houve um crescimento anual de 9,4%, passando de 1,081 milhão de toneladas para 1,183 milhão t. Se levarmos em conta que pelo menos 30% dos agrotóxicos usados no Brasil estão banidos pela União Europeia em função dos seus danos à saúde humana e ao meio ambiente, é possível afirmar que as razões para preocupação com os efeitos devastadores desses venenos agrícolas também aumentaram consideravelmente.

Perda de safra considerável, apesar do uso intenso de venenos agrícolas

Um dado apresentado de forma mais ligeira pelo Sindiveg se refere ao fato de que apesar de todo o crescimento na área aspergida com agrotóxicos, “os problemas fitossanitários podem representar quebra de até 40% na produção agrícola brasileira, que equivale a cerca de 100 milhões de toneladas por ano“. Em outras palavras, apesar dos seus altos custos e dos fortes que causam sobre seres humanos e ecossistemas naturais, os agrotóxicos não evitam fortes perdas em termos de produção, as quais se somam em forma de custos aos elevados desembolsos associados à aquisição destes venenos agrícolas.

Como o Sindiveg também informou que os fabricantes de agrotóxicos também enfrentaram “sérios problemas relacionados a aumento do câmbio, desabastecimento de algumas matérias-primas vindas da China, atraso nas entregas, elevação dos custos dos fretes marítimos”, fatores estes que estão se agravando em 2022, algo que deve ser esperado é um aumento ainda maior nos custos relacionados à compra de agroquímicos. Tal fato reforça as evidências de que os custos com a manutenção de monocultivos de larga extensão vão muito além do que os eventuais ganhos com a produção obtida.  A verdade é que estamos todos pagando de forma subliminar o direta para que os operadores do latifúndio agro-exportador possam manter suas margens de lucros.

Investigação liga cadeias de fornecimento de frango na Europa a abusos contra povos indígenas no Mato Grosso

soja indios

Campo de soja adjacente à floresta de transição amazônica no estado de Mato Grosso, Brasil Rhett A. Butler / Mongabay

Por Laurel Sutherland para o Mongabay

Na década de 1950, um grupo de índios Guarani Kaiowá que vivia na comunidade de Takuara, no estado brasileiro de Mato Grosso do Sul, foi despejado à força da terra que eles chamavam de lar por séculos para preparar o caminho para o desenvolvimento agrícola.

Hoje, Takuara é conhecida como Brasília do Sul, uma fazenda de 5.700 hectares que se tornou sinônimo de abusos dos direitos indígenas no Brasil.

De acordo com uma nova pesquisa publicada nesta quarta-feira pela Earthsight, Brasília do Sul é hoje uma grande produtora de soja que é vendida para grandes cooperativas e comerciantes, incluindo a Lar Cooperativa Agroindustrial, uma das maiores produtoras de aves do Brasil.

A investigação foi realizada pela Earthsight, grupo ambientalista sediado em Londres, e pelo “De Olho nos Ruralistas”, que monitora o agronegócio no Brasil.

A Westbridge Foods, sediada no Reino Unido, foi identificada como uma das maiores compradoras de frango congelado e marinado da Lar e é fornecedora de produtos avícolas para KFC, Sainsbury’s, Asda, Aldi e Islândia, entre outras.

Entre 2018 e 2021, a Westbridge supostamente importou mais de 37.000 toneladas de frango congelado e marinado da Lar – cerca de um terço do frango que a empresa brasileira enviou para a UE e o Reino Unido no período.

Em resposta às perguntas dos investigadores sobre as conclusões do relatório, tanto Aldi quanto Asda negaram que o frango fornecido à Westbridge tenha qualquer ligação com Brasília do Sul, enquanto o Sainsbury’s afirmou que o frango fornecido a eles não vem do Lar. A Sainsbury’s e a Aldi disseram que investigariam o assunto com a Westbridge, acrescentando que estão comprometidas em respeitar os direitos humanos em todas as suas cadeias de fornecimento e adquirir soja sustentável.

Mas as empresas do Reino Unido não são as únicas vinculadas a Brasília do Sul. Registros obtidos pela Earthsight e De Olho nos Ruralist mostram que o único grande cliente europeu de produtos de frango para ração animal da Lar é a Paulsen Food, com sede em Hamburgo, que comprou cerca de 14.000 toneladas entre 2017 e 2021. A Paulsen Food é fornecedora de produtos avícolas para Saturn Petcare e Animonda Petcare, que fornecem alimentos para animais de estimação para alguns dos maiores varejistas da Alemanha.

A Mongabay entrou em contato com Westbridge e Paulsen para comentar, mas não recebeu uma resposta até o momento da publicação.

“Essas descobertas reforçam a necessidade de legislação secundária futura da Lei do Meio Ambiente do Reino Unido para incluir, na maior extensão possível, a proteção dos direitos indígenas à terra e para cobrir as principais commodities, incluindo soja e frango alimentado com soja”, diz Rubens Carvalho, chefe de pesquisa de desmatamento da Earthsight.

Em novembro passado, a Lei do Meio Ambiente do Reino Unido foi aprovada pelo Parlamento. A intenção era banir o uso de commodities ligadas ao desmatamento nas atividades comerciais do Reino Unido assim que entrar em vigor nos próximos cinco anos, mas não aborda diretamente as violações de direitos humanos associadas.

Foto cortesia de Earthsight e De Olho nos Ruralistas

Uma catástrofe ecológica 

A Comissão Europeia também apresentou uma proposta de um novo regulamento para conter o desmatamento e a degradação. No entanto, embora a proposta inclua a soja, ela não inclui o frango, permitindo que os importadores fiquem isentos da obrigação de monitoramento.

“O caso dos Guarani Kaiowá revelado por este relatório ilustra tristemente por que precisamos urgentemente de regras da UE contra o desmatamento importado, não apenas para a natureza, mas também para as pessoas. A apropriação de terras e as violações dos direitos de propriedade da terra, especialmente dos povos indígenas, são práticas comuns para obter terras para a produção agrícola – também para os mercados europeus”, disse Delara Burkhardt, relatora-sombra do Grupo Socialista e Democrata no Parlamento Europeu, à Mongabay.

“É uma catástrofe ecológica e uma tragédia humana.”

Suprimido

Burkhardt pediu que o direito internacionalmente reconhecido ao consentimento livre, prévio e informado para usar e converter a terra seja parte integrante da próxima estrutura de desmatamento da UE.

Após a aquisição de Takuara pelo barão do gado Jacintho Honório da Silva Filho em 1966, os Guarani Kaiowá fizeram inúmeras tentativas de recuperar o acesso à sua terra ancestral sem sucesso.

“As tentativas dos Guarani Kaiowá de recuperar o acesso às suas terras ancestrais foram brutalmente reprimidas, inclusive por meio de despejos violentos e o uso agressivo da justiça para impedi-los”, diz o relatório.

Em 2003, o líder Kaiowá Marcos Veron foi espancado até a morte quando trabalhadores armados de Brasília do Sul e pistoleiros contratados atacaram o acampamento que os indígenas haviam montado no território disputado. No entanto, enquanto três pessoas foram condenadas pelo ataque, ninguém foi condenado por seu assassinato.

“Os direitos constitucionais dos Guarani Kaiowá continuam sendo suprimidos por um governo hostil, desigualdade no sistema de justiça e poderosos interesses agrícolas”, disse Earthsight.

O incidente de 2003 não foi o último ataque violento que o povo Guarani Kaiowá enfrentaria. Segundo o relatório, o grupo ampliou a área que ocupava em Takuara de 300 para mais de 1.500 hectares. Isso resultou em seis noites consecutivas de ataques armados e um “cerco implacável por homens armados”, em fevereiro do mesmo ano. Enquanto um juiz federal ordenou a remoção da comunidade, o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria Geral do Brasil decidiram contra o despejo dos Kaiowá para evitar derramamento de sangue.

O povo Kaiowá de Takuara ainda aguarda a resolução final do caso.

“O destino final da comunidade depende se o governo federal cumprirá seu mandato constitucional e concederá aos Kaiowá direitos exclusivos sobre suas terras ancestrais”, observa o relatório.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo site “Mongabay News” [Aqui!].

Brasil: saídas às arapucas do agronegócio

Ex-pesquisador do Ipea aponta: ciclo de alta das commodities em breve se esgotará. Para sair da crise, país terá que enfrentar os privilégios dos ruralistas – e apostar na transição energética e na agroecologia, a partir de nova estrutura fundiária

agro

Por O Joio e o Trigo

A hegemonia do agronegócio no Brasil, nos últimos 20 anos, criou uma “arapuca macroeconômica” com consequências desastrosas e de longo prazo sobre a economia brasileira. E é o que está por trás da inflação descontrolada dos alimentos e do agravamento da crise, na avaliação do economista Guilherme Delgado. 

Doutor em Economia pela Unicamp, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) por mais de 30 anos e autor de diversas publicações sobre o tema, Delgado é um crítico feroz do processo que, novamente, fez o Brasil voltar ao destino histórico de país exportador de commodities e minérios às custas da atrofia de outros setores da economia, como indústria e serviços, e a privatização de setores-chave da infraestrutura do país. 

Em entrevista ao Joio, o pesquisador alerta: o ciclo de alta das commodities está próximo de se esgotar não apenas sob o ponto de vista econômico, mas principalmente ambiental. Delgado defende que o Brasil não sairá do buraco sem mexer nos privilégios do agronegócio, um tema que considera “interditado” na grande mídia e também entre os presidenciáveis nas eleições deste ano. 

Atual diretor da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), o economista defende que o país adote uma transição ecológica a partir de uma nova estrutura fundiária no campo que incentive atividades de menor impacto ambiental não apenas na produção de alimentos, mas de energia limpa também. Uma discussão que avança no mundo e deve pressionar o atual sistema de produção do agronegócio brasileiro, “hoje responsável por 73% das emissões de gases do efeito estufa no país”. Leia a seguir a entrevista com Guilherme Delgado na íntegra. 

O que está acontecendo com a inflação dos alimentos no Brasil?

São dois problemas conexos, mas distintos. Existe um problema conjuntural externo e um problema estrutural brasileiro na própria relação do Brasil com o mundo.  

Do ponto de vista conjuntural, a chamada volatilidade dos preços agrícolas não é nenhuma novidade, isso sempre houve. Dessa forma, às vezes ocorrem conjunturas ou ciclos de ascensão dos preços externos e, depois, ciclos descencionais. O problema brasileiro é que, há pouco mais de duas décadas, o país ingressou em um chamado movimento de primarização do seu comércio exterior. Esse é o nó da questão. O conjunto do sistema econômico passa a depender de um setor peculiar. É como se toda a economia industrial, toda a economia de serviços, toda a infraestrutura passasse a depender exclusivamente dos saldos comerciais do setor primário. 

Nenhum desses setores que mencionei é excedentário do ponto de vista de exportações. Eles são estruturalmente deficitários. E esse déficit aumenta à medida que você vai internacionalizando setores de infraestrutura que não são produtores de commodities. Quando você internacionaliza o sistema elétrico, ele não exporta 1 kw de energia. Mas o país paga royalties, juros, etc. Sistema telefônico, a mesma coisa. Quando você internacionaliza o mercado de terras, os compradores de terras em mercados organizados querem a monetização em moeda estrangeira, e não em real. 

Esse movimento de internacionalização, aparentemente gracioso e apresentado como a solução da pátria, é parte do problema.Isso porque você estressa o sistema econômico para que ele gere a qualquer custo, pelo setor primário via exportação de commodities, saldos comerciais que não vão servir ao país, mas vão dar liquidez ao movimento de pagamentos de renda de capital ao capital internacional aqui instalado.

Como esse quadro agrava a inflação dos alimentos?  

O sistema econômico está sendo planejado para crescer a ritmos desiguais.Uma parte do sistema que produz commodities tem um estímulo macroeconômico exacerbado. E setores que não produzem commodities ficam atrofiados. Essa dupla balança – uma catapultada, outra atrofiada – leva a que quanto mais eficiente for esse processo de ajuste, entre aspas, das contas externas, maior será a defasagem de crescimento entre o setor produtor de commodities e de não commodities e, portanto, dos produtos para abastecimento interno. 

Há um desequilíbrio inerente a esse sistema que, em determinados momentos, aparece com maior força. Não é que essa força se deva à conjuntura, ela reflete um movimento estrutural. 

Nos anos de 2020 e 2021 – e tudo indica que 2022 também –, tivemos um crescimento dos preços dos produtos da cesta básica alimentar, que é uma parte importante da chamada cesta básica salarial geral. Foi mais que o dobro da inflação geral, que já foi alta, o que provavelmente se repetirá este ano. Isso não é uma novidade brasileira. Em geral, o sistema submetido a esse estresse macroeconômico contém essas implicações do ponto vista dos produtos da alimentação. 

Só para citar um exemplo histórico, entre 1960 e 1964 o índice de preços de produtos agrícolas cresceu muito acima do índice geral de preços. Portanto, ele é pró-inflacionário. Todo o sistema era movido pela valorização cafeeira, a exportação do café a qualquer custo. E tudo mais que não fosse café não era prioridade. Hoje não é mais café, é meia dúzia de commodities, mas as implicações são parecidas.

Como reduzir  pressão inflacionária sobre os alimentos? 

Há um desequilíbrio estrutural, e nas fases de aumento dos preços externos de commodities essa situação se agrava. Porém, quando os preços externos caem, isso não resolve o problema. Planejada a gerar saldo a qualquer custo, a política macroeconômica é realinhada através, por exemplo, da desvalorização cambial para tornar competitiva a exportação de commodities. Portanto, do ponto de vista interno, também não tem alívio. 

Temos uma arapuca macroeconômica vendida em prosa e verso como a salvação da pátria. Não tem pátria nenhuma, à exceção da pátria financeira. Esse sistema está planejado para prover liquidez, ou seja, ter divisas para pagar os serviços deficitários já que não há excedentes comerciais em outros setores. Temos um desequilíbrio maior que se reflete no abastecimento alimentar, mas em outros setores muito mais gravemente, por exemplo, no setor industrial. A indústria não exporta mais, ela vira importadora. Agora, inventaram de internacionalizar o mercado de terras, que nunca foi uma parte do problema macroeconômico – mas passa a ser também. Esse é o quadro que nós estamos, se não enfrentar o problema estrutural, não resolve. 

Muita gente discute a questão do abastecimento, das políticas emergenciais para resolver a pressão inflacionária, mas não quer mexer na equação externa do agro. E essa é a parte essencial do problema. Não podemos resolver pela via primária exportadora não só esse problema dos alimentos, mas também o da competitividade externa da indústria, o problema das relações menos dependentes da economia como um todo e, principalmente, o problema ecológico. Esse sistema é produtor líquido de gases de efeito estufa em escala gigantesca. Hoje não é mais a indústria, nem o comércio, nem os serviços: é o setor rural produtor de commodities, seja na forma legal ou ilegal, que representa 73% das emissões totais de gases do efeito estufa do conjunto da economia e da sociedade brasileira.  

O senhor poderia explicar as origens desse processo? 

Nos anos 2000, desde a crise cambial do primeiro governo FHC [Fernando Henrique Cardoso] até a crise externa de 2008, o país realizou um ajuste das contas externas pelo lado de exportações de commodities. Um ajuste conjunturalmente exitoso, entre aspas. Houve uma pressão relativamente pequena sobre os preços macroeconômicos e uma relativa folga no superávit comercial, de forma que o superávit do setor primário fosse suficiente para suprir o déficit dos demais setores e ainda sobrar recursos. Então, aparentemente se havia alcançado o nirvana macroeconômico com o agronegócio. Esse é o grande engano que a própria história econômica recente acabou de demonstrar. 

Uma coisa é promover ajustes conjunturais pelo setor primário, isso sempre foi feito. Outra é especializar a economia externa no setor primário. A aparente sensação de sucesso nos primeiros anos levou o sistema a se especializar e a gerar conjunto de incentivos macroeconômicos de caráter cambial, tecnológico, financeiro, fundiário, etc.

Dessa forma, vem a crise de 2008 e há um movimento exacerbado (e isso ninguém comenta) de pressão sobre a balança de serviços – que era deficitária na faixa dos 20 bilhões de dólares/ano, um pouco mais do que isso até aquele momento, passa a ser uma balança deficitária de 50, 60, 80 bilhões de dólares ao ano. Por quê? O movimento de capital e as necessidades de pagamentos pelos seus serviços se exacerba e passa a exigir mais do setor primário. A solução brasileira é continuar o mesmo movimento, ou seja, exportar commodities a qualquer custo. 

São vários componentes de política macroeconômica que protegem a margem de lucro do setor de commodities, mas não os outros setores. Neste momento, você tem uma maior dependência do setor industrial em relação às importações e expulsa o setor industrial da pauta de exportações. Esse movimento estrutural de 2008 para frente é equivocado, passado pela grande mídia como um movimento de salvação da pátria. E essa eficiência do setor primário está se dando pela atrofia dos demais setores e pela superestimulação da política macroeconômica, e não pela eficiência privada como eles tentam vender.  

A partir de um certo ponto, as vantagens comparativas naturais são erodidas. Precisaria recalibrar o sistema econômico para que dependesse menos da vantagem comparativa natural, que é um argumento muito primário para sustentar um país deste tamanho. Esse debate não foi feito e continua não sendo feito. O assunto está interditado. Falar com a grande mídia sobre uma reforma estrutural que mexa com privilégios do agronegócio é impensável e, portanto, impublicável. É como se os bandidos fossem salvar os mocinhos. 

Guilherme Delgado. Foto: acervo pessoal.

Exportar alimentos é necessariamente ruim?

O agronegócio tem que exportar, e não há nada contra. Mas o que ele não tem é que ser o setor especializado em exportação numa economia deste tamanho, com 220 milhões de brasileiros que precisam comer todo dia. E que tem um conjunto de atividades econômicas que não são apenas primárias e precisam comparecer também no setor externo. 

O ciclo de valorização externa das commodities e da aparente eficiência do manejo interno das exportações primárias se extinguiu lá atrás. Só que não nos demos conta, continuamos correndo atrás do esforço de Sísifo. Sobe a montanha com o balde cheio d’água e chega lá não tem água nenhuma, porque o cesto está todo furado.  

A partir da crise cambial de 1999, o ciclo de ajuste na balança comercial via exportação de agro e minérios passa a ser o único recurso para o enfrentamento da situação externa. São forçados a mudar a política macroeconômica, o Brasil fica sem recursos, e a crise cambial sem reservas é uma coisa dinamitadora. É na passagem de 1999 para 2000, que é a transição do primeiro para o segundo governo FHC, que começa a se desenhar o pacto do agronegócio da forma como é hoje. Inicialmente era um pacto conjuntural, era explorar os setores com maior capacidade competitiva para tirar a economia do buraco. E isso foi feito com programas de crédito, frota, investimento em infraestrutura portuária, enfim, tudo calibrado no sentido de melhorar a competitividade externa dos serviços. A Embrapa foi cacifada para isso. 

Esse era um movimento relativamente repetitivo do nosso sistema econômico. Já tinha acontecido antes, nos anos 1980, período do Delfim Netto. Mesmo o regime militar, quando praticava políticas de incentivo à exportação de commodities, não tirava o pé dos programas estratégicos de substituição de importações. Quando se passa a confiar cegamente no movimento do capital internacional, que é um pouco a tese do primeiro governo FHC, cria-se uma ilusão idolátrica. É como se o capital tivesse preocupação com o ponto de vista de um estado nacional e suas necessidades. A resultante é uma situação deficitária externa em todos os setores. 

O segundo governo FHC foi diferente do primeiro, porque teve que fazer um ajuste forçado. Do ajuste macroeconômico forçado à primarização do sistema comercial externo há um certo movimento de regressão da indústria brasileira. E um embarque na tese das privatizações de infraestrutura, privatizar elétrica, telefônica, transporte, etc. Isso passou a ser a salvação da pátria. Esses setores não são commodities, não são exportadores, mas são gerados de pagamentos de dívidas ao exterior.  

Uma coisa e outra vão se combinando. Isso leva o governo do PT a acreditar nessa solução mágica como salvação da pátria. De forma que o governo mais pró-agronegócio desse período todo foi o do PT.  

A economia do agro e da mineração foram as duas apostas como um boom de exportação externa que resolveria o problema. Não resolveu e nem pode resolver. Mas quem olha o ciclo de 2000 a 2008 acha que não resolveu. 

E é aquela história, não vamos mexer num assunto que vai tirar voto. Se falo que vou mexer com o agro, vem a Rede Globo, a revista Veja, vem toda aquela banda de música, “ah, estão querendo acabar com o agro”. Cumpriu uma função conjuntural, mas na medida em que foi transformada em situação estrutural, abriu outras frentes de sérios problemas, inclusive o desabastecimento, além da superexploração dos recursos naturais, gerando um problema ecológico insustentável.  

A transição ecológica é uma opção ou uma necessidade? 

Essa discussão da política agrícola de transição ecológica é presente na política agrícola da União Europeia há vários anos e depois da pandemia foi muito cacifada. Inclusive nos EUA, que o agro brasileiro tanto imita, já há programas dessa natureza em alguns estados. E nós estamos tateando. O Brasil é um país de luminosidade solar altamente favorável à transição ecológica, o dobro ou mais que os países escandinavos ou da América do Norte, que a adotam há muito tempo. E Portugal está muito mais avançado em transição ecológica do que o Brasil. 

A questão ecológica é fundamental. Na produção rural é essencial. Ora, se o agro é autônomo e autossuficiente, gerido a mercado, etc., deixa ele funcionar sozinho, apenas colocando restrições onde há criminalidade ambiental. Que se concedam os  incentivos macroeconômicos, que hoje vão todos para o agro, para outras atividades. Pode até ser  a transição do agro para uma atividade exportadora, mas que tenha relativa contribuição à economia ecológica. 

Sugiro o uso de três indicadores: não está produzindo exacerbadamente gases do efeito estufa, não está dissipando exageradamente a água – um bem que o agro exporta gratuitamente e que faz falta na situação de escassez hídrica que nós vivemos – e as contaminações pelos agrotóxicos.

Seriam critérios mesorregionais para conceder incentivos que teriam ranking de A até E, sendo que A, B e C teriam incentivos; o D, ou seja, no limite, não teria incentivo nenhum. E para os que estão passando desse limite, aplica-se a regra constitucional de desapropriação. Esse seria um modelo de zoneamento agro-hidro ecológico que prepararia as bases de uma transição de uma economia primária exportadora para economia de transição ecológica. Não somente agroecológica, porque no agro se pode produzir energia também. 

Vamos olhar para o mundo e não ficar apenas olhando para commodities. É como se só houvesse soja, milho e ração para se explorar, e essa é uma vantagem comparativa, entre outras. Esse padrão de consumo global também está em fase de mudança. E mesmo que não estivesse, temos que ver o conjunto da economia e da sociedade, e não um setor peculiar que, por um determinado momento, foi exitoso.  

É como aquele mito “decifra-me ou te devoro”. Ou muda o padrão, ou vai ser devorado. As evidências de contaminação dos gases de efeito estufa e seus efeitos não são de longo prazo, são quase imediatos. E forçarão o sistema econômico global a pressionar cada vez mais o sistema brasileiro. Isso está evidente.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo site “Outras Palavras” [Aqui!].

Sabesp não divulga testes que comprovam contaminação da água em 132 cidades brasileiras

Em São Paulo, Diadema, Santos e no Guarujá, testes apontaram substâncias químicas fora do limite em três anos seguidos

água contaminada

Por Hélen Freitas · Ana Aranha | Agência Pública/Repórter Brasil

O estado de São Paulo tem uma das maiores empresas de abastecimento do mundo, com 28,6 milhões de pessoas atendidas, e a que mais realiza testes para medir a qualidade da água no Brasil. A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) tem a missão de ser “referência mundial na prestação de serviços de saneamento”. Em suas ações de comunicação, porém, a empresa omite problemas na qualidade da água que deveriam ser divulgados aos consumidores. 

Entre 2018 e 2020, contaminantes foram encontrados na água que saiu da torneira de 132 cidades paulistas abastecidas pela Sabesp. As substâncias químicas excederam o valor máximo permitido pelo Ministério da Saúde, órgão que define um parâmetro de controle, acima do qual há risco à saúde humana.

No período analisado, a empresa paulista fez 235 mil testes para medir a qualidade da sua água, dos quais 759 encontraram substâncias fora do padrão. Isso representa 0,3% de todos os testes feitos pela empresa no Estado.

Apesar do percentual geral em São Paulo ser baixo, para avaliar o risco é preciso olhar para as cidades onde houve violação, em especial para os locais onde a população bebeu água com contaminantes repetidamente. Na capital, substâncias foram identificadas acima do limite 13 vezes nos sistemas Guarapiranga, Cantareira, Alto Tietê e Rio Claro — que, juntos, abastecem cerca de 17 milhões de pessoas. 

As substâncias acima do limite na cidade foram os ácidos haloacéticos, os trihalometanos e o antimônio, todas elas classificadas como “possivelmente cancerígenas” pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os resultados foram acessados pela Repórter Brasil no Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), banco de dados gerido pelo Ministério da Saúde. As informações fazem parte do Mapa da Água, ferramenta de jornalismo de dados que permite consultar substâncias acima do limite em cada cidade do país entre 2018 e 2020. O mapa traz ainda as classificações internacionais de risco para cada produto.

A Sabesp afirma que os testes revelados pelo Mapa da Água sobre a cidade de São Paulo são “casos pontuais” e como tal não indicam um problema. “O histórico das medições aponta a conformidade com os padrões de potabilidade e a qualidade da água fornecida pela Sabesp”. Dessa forma, “nenhum tratamento adicional se torna necessário no momento” além de “não demandar medidas corretivas nem alertas para a população”. Leia as respostas da Sabesp na íntegra.

Contaminação contínua

Os casos em que a mesma substância violou o padrão ao menos uma vez nos três anos analisados ocorreu em 36 cidades paulistas, entre elas Diadema, Santos, Ubatuba, Guarujá e Lorena. Em todo o país, a contaminação contínua foi identificada na água de 82 cidades, e a Sabesp é responsável pelo abastecimento de água em 45% delas.

Especialistas alertam que o consumo durante meses ou anos caracteriza a maior chance de risco para a população. “Três anos seguidos tomando água acima do padrão indica que a população está exposta à substância carcinogênica além do limite de risco ‘aceitável’”, afirma Fábio Kummrow, professor de toxicologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Kummrow explica que, como o consumo acontece em pequenas doses e de modo gradual, não há sintomas imediatos. Ou seja, não há como a origem da doença ser identificada pelos serviços de saúde. 

O maior problema nas águas da Sabesp começa no tratamento, quando o cloro ou outros desinfetantes se misturam com substâncias que já estão na água, como algas e esgoto, gerando os “subprodutos da desinfecção”.

O maior número de testes acima do limite na capital se deu justamente em reservatório que recebe despejo de esgoto sem tratamento: a represa Guarapiranga, responsável pelo abastecimento de cerca de 4,8 milhões de moradores da região metropolitana. As áreas de preservação ambiental que margeiam a represa são palco de ocupações irregulares onde não há coleta ou tratamento.

Esgotos clandestinos e o descarte impróprio ficam mais visíveis no meio do ano, quando as chuvas diminuem e os níveis do reservatório ficam baixos. Quando a temperatura aumenta, ocorre ainda a proliferação de algas. Esses elementos levam à formação dos subprodutos no tratamento.

Cercada de moradias sem coleta de esgoto, o sistema de tratamento da represa Guarapiranga registrou o maior número de casos acima do limite permitido da capital paulista (Foto: Sabesp/Divulgação)

Oito testes realizados no sistema Guarapiranga, entre 2018 e 2020, apontaram a presença de dois subprodutos acima do limite. Os ácidos haloacéticos e os trihalometanos apareceram fora do padrão em 17% dos testes realizados nesse sistema. Ambos são classificados como “possivelmente cancerígenos” pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, órgão da OMS. Outros possíveis efeitos a longo prazo são problemas nos rins, fígado e sistema nervoso. 

Desde os anos 1970, cientistas conhecem os riscos dos subprodutos. Segundo artigo publicado na revista Environmental Pollution, há dois métodos para evitá-los: remover da água as substâncias que podem reagir com o cloro ou trocar o cloro por tratamento com radiação UV ou ozônio, entre outros métodos alternativos. Mas ambas as mudanças trazem custos adicionais. 

O problema é um desafio importante para a cidade de São Paulo, onde os dados do Atlas Esgotos, elaborado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, mostram que 32% do esgoto não tratado é jogado diretamente em rios e represas – alguns desses são os mesmos de onde sai a água que será tratada para consumo. 

Falta de transparência

Questionada pela reportagem se a empresa faz esse trabalho de separar o esgoto da água antes do tratamento, a Sabesp respondeu de forma genérica: “cada manancial possui características diferentes e, assim, cada estação de tratamento de água é projetada para ser capaz de tratar a água de seu respectivo manancial”. 

A empresa nega a importância dos testes acima do limite ao afirmar que monitora a qualidade da água com base no histórico, usando uma “média móvel” dos resultados. 

Por meio de nota, o Ministério da Saúde confirma o uso do histórico como um dos critérios para avaliação, contudo afirma que “violações ao padrão devem ser interpretadas como um evento perigoso e desencadear uma investigação”. Nesses casos, a empresa deve “comunicar imediatamente à autoridade de saúde pública municipal e informar à população abastecida, em linguagem clara e acessível, a detecção de situações de risco à saúde ocasionadas por anomalia operacional ou por não conformidade na qualidade da água, bem como as medidas adotadas”.

Questionada pela reportagem, a Sabesp não informou quais medidas foram tomadas para corrigir os problemas nos casos em que os testes detectaram substâncias acima do limite na capital. A empresa também não respondeu aos pedidos para a reportagem acessar os dados completos do histórico e o cálculo da “média móvel”, ferramentas citadas pela empresa. “Não temos como precisar a partir de que ano adotamos a média móvel para essa avaliação interna e não temos como disponibilizar as médias móveis dos anos solicitados [2018, 2019 e 2020] pois esse critério não era formalmente estabelecido antes da publicação da nova portaria [de 2021]”, afirmou a companhia por meio de nota. 

Pirapora do Bom Jesus: água poluída com arsênio

Os esgotos não tratados da capital prejudicam ainda outros municípios. O caso mais famoso é o da cidade de Pirapora do Bom Jesus, cortada pelo Rio Tietê, que recebe toda a água poluída pelo esgoto e indústrias de São Paulo. Há mais de 30 anos, imagens de espumas de até 3 metros vindas do rio ganharam a imprensa. 

Contudo, não é só com as espumas gigantes que a população de Pirapora sofre. Dados do Sisagua mostram a presença de urânio, ácidos haloacéticos, chumbo e arsênio acima do limite, sendo que esse último aparece por 3 anos consecutivos. A substância é classificada como cancerígena pela OMS, e seu consumo prolongado na água aumenta o risco para câncer de pele, pulmão, bexiga e rins.

Para a Sabesp, todos os casos de violação na água da cidade são pontuais, não tendo a necessidade de informar a população. Sobre a presença contínua do arsênio, a empresa diz que o problema “resulta da mistura de 90% de água recebida do Sistema Integrado Metropolitano com 10% proveniente de poços, que têm a presença natural de Arsênio, fruto da dissolução de rochas e minérios no lençol freático. Essa diluição garante a potabilidade, de modo que a presença desse parâmetro na água se mantenha dentro dos limites da Portaria de Potabilidade”. Em nota, a empresa conclui que “a água fornecida ao município de Pirapora de Bom Jesus atende à legislação, não havendo necessidade de informes à população local”.

A Vigilância Sanitária da cidade também afirmou que os testes apontados pelo Mapa da Água “referem-se a casos pontuais em 2018, não apresentando novas ocorrências no monitoramento até a presente data.” E complementou, usando as mesmas palavras que a Sabesp, para responder sobre a contaminação contínua por arsênio.

Confira na íntegra as respostas da Vigilância de Pirapora e do Ministério da Saúde.

Secretaria de saúde de São Paulo minimiza casos

A responsabilidade por fiscalizar as empresas de abastecimento é das secretarias municipais de saúde. Na capital, não é diferente. A secretaria paulistana confirma que a companhia usa o histórico de dados para avaliar a qualidade da água, mas a pasta afirma que “não teve acesso” ao cálculo. Ou seja, o órgão fiscalizador não tem informação suficiente para realizar o seu trabalho.

Sobre os testes fora do padrão, a secretaria de saúde minimizou o problema: “alguns foram encontrados ligeiramente acima do valor máximo permitido”. Nesses casos, segundo a pasta, a Vigilância acionou a empresa e o problema foi resolvido. O órgão também disse que os valores que excedem o máximo permitido “são extremamente pequenos e não representam riscos à saúde”.

Questionada sobre qual o critério usado para definir o que considerou “ligeiramente acima” ou “extremamente pequeno”, a pasta respondeu que “todos os valores apresentados com algarismos na ordem de centésimos, milésimos ou menores são arredondados e apresentam-se como satisfatórios”.

Essa tolerância para arredondar casas decimais não está prevista na regulação brasileira, afirma o professor do departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade de São Paulo Luiz Daniel. “Se definiram o valor máximo permitido, tem que ser sempre atendido”.

O problema da água contaminada com substâncias químicas acima do limite e da falta de transparência na comunicação aos consumidores atinge todo o Brasil. Em termos proporcionais, as empresas de abastecimento que mais tiveram problema com a qualidade da água foram a Cesan no Espírito Santo (6,8%) e a Cagece no Ceará (5,1%). 

Após a publicação, o chefe de divisão de tratamento da Cesan André Lima procurou a reportagem e afirmou que houve um “equívoco no lançamento dos dados” em alguns municípios do Espírito Santo. Ele negou problemas com metais pesados, mas reconheceu subprodutos do tratamento acima do limite. Lima afirmou que a empresa substituiu o cloro por outro oxidante.

Em nota enviada pela Cagece, a empresa do Ceará também informou que vem realizando estudos para substituir as substâncias químicas utilizadas no tratamento da água, mas minimizou o risco das substâncias detectadas. “Há uma sugestão, mas não há provas de que tais compostos possam contribuir na incidência de certos tipos de câncer”, afirma a nota da empresa. (Leia as respostas na íntegra da Cagece).

Empresas que fizeram menos de mil testes nos três anos analisados não entraram na arte. Baixe aqui os dados completos de todas as empresas.


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Este texto foi inicialmente publicado no site “Por Trás do Alimento” [Aqui!].