As mortes em Manaus devem ser um alerta para o mundo

Não por causa da imunidade do rebanho: Na metrópole brasileira de Manaus, o sistema de saúde entrou em colapso devido à COVID-19. De acordo com uma teoria, a mutação P.1 é parcialmente responsável

lucas silva © LUCAS SILVA / DPA / PICTURE ALLIANCE 

Por Christian Heinrich para a Spektrum*

Foi dito que a cidade brasileira de Manaus alcançou imunidade de rebanho. Dizia-se que o coronavírus estava sob controle ali. Agora não há apenas dúvidas sobre o estudo de imunidade, mas pior: as unidades de terapia intensiva dos hospitais da metrópole estão superlotadas, o oxigênio está quase esgotado. Ouvimos de hospitais que as pessoas sufocam porque os médicos não conseguem ventilá-las adequadamente. O sistema de saúde entrou em colapso.

O que está acontecendo em Manaus hoje em dia pode ter consequências em todo o mundo. Uma nova variante do coronavírus está circulando na cidade Alguns pesquisadores interpretam suas propriedades como o primeiro sinal de que a luta contra a Covid-19 pode levar a um sério revés na luta contra a pandemia nas próximas semanas e meses.

A situação em Manaus é tão dramática quanto trágica. As clínicas há muito não conseguem aceitar centenas de pacientes da COVID-19 que estão realmente em tratamento intensivo, enquanto enfermeiras e médicos não podem mais cuidar de seus pacientes nas enfermarias. Devido ao grande número de pacientes COVID-19 em unidades de terapia intensiva que requerem ventilação, a necessidade de oxigênio para ventilação artificial aumentou enormemente e a equipe do hospital tem que ventilar os pacientes em alguns locais com bombas manuais. Uma pessoa pode fazer isso por 20 minutos – então outra pessoa tem que ajudar. A solução provisória da solução provisória: voluntários que vêm aos hospitais para salvar vidas.

As autoridades e o governo brasileiro são responsáveis ​​por esta situação. O número de doentes aumentou rapidamente na segunda metade de dezembro, depois que as regras para conter a pandemia foram recentemente relaxadas; incluindo a proibição de reuniões maiores e regras à distância. Isso permitiu que o vírus se propagasse mais amplamente, especialmente durante o Natal e as comemorações de final de ano. O populista de direita presidente brasileiro Jair Bolsonaro fez sua parte minimizando publicamente o perigo do vírus e semeando dúvidas sobre a segurança e eficácia das vacinas: “Não assumimos responsabilidade”, disse ele. “Se você se tornar um crocodilo, o problema é seu.”

Em segundo lugar, existem sinais preocupantes de que os problemas se devem não apenas ao modo como o Brasil está lidando com a crise, mas também a mudanças no coronavírus.

A imunidade do rebanho provavelmente nunca foi alcançada em Manaus

Manaus já era uma cidade com um número particularmente alto de infectados em abril de 2020, durante a primeira onda da pandemia. Naquela época, valas comuns tinham que ser cavadas para os mortos. Como o vírus se espalhou tão rapidamente, os pesquisadores suspeitaram que a maioria das pessoas carregava o patógeno em um curto período de tempo. Já em outubro de 2020, 76% da população de Manaus deveria estar infectada com o Sars-CoV-2, de acordo com a renomada revista científica “Science”. Como resultado, a cidade poderia ter obtido imunidade coletiva de acordo com os critérios oficiais O que também significa: não deveria ter havido um surto tão flagrante como está ocorrendo atualmente em Manaus.

tubos oxigenio© EDMAR BARROS / ASSOCIATED PRESS / PICTURE ALLIANCE (EXCERTO)Carência de oxigênio em Manaus | Os familiares de pacientes da Covid-19 que estão no hospital ficam na frente de uma empresa com garrafas de oxigênio vazias para recarregá-las.

Como pode ser?

Talvez o cálculo esteja errado, ou pelo menos a conclusão que alguns tiraram dele. O estudo da “Ciência” agora é controverso. Os pesquisadores calcularam o número de pessoas que provavelmente seriam protegidas do Sars-CoV-2 examinando amostras de sangue em busca de anticorpos usando métodos estatísticos. No entanto, os dados vêm de doadores de sangue que receberam um teste gratuito para anticorpos Covid-19 como um incentivo. Isso poderia ter atraído os doadores em particular, que suspeitaram de terem sido infectados no passado.

Esse viés estatístico ainda seria o melhor caso. Pelo menos quando você considera a outra opção.

A variante P.1 do coronavírus no estado do Amazonas causa preocupação

Os pesquisadores temem que as mudanças em partes cruciais do vírus sejam a causa. Pelas mutações, daí a preocupação, essa variante do Sars-CoV-2 poderia atacar uma segunda vez mesmo aqueles que já carregavam o vírus ou deveriam ser protegidos por uma vacina – o sistema imunológico não reconhece o patógeno. Essa seria uma notícia desastrosa para a luta global contra a pandemia, na qual a imunidade é laboriosamente construída com a ajuda de vacinas .

Na verdade, uma nova mutação do Sars-CoV-2 pode ser detectada na região amazônica: P.1. A variante foi descoberta pela primeira vez quando já estava no exterior: no Japão, funcionários do laboratório encontraram a mutação em quatro viajantes da região amazônica. Uma análise de P.1 mostrou que ele tinha mutações semelhantes a duas outras variantes de vírus altamente consideradas, B.1.1.7 da Grã-Bretanha e 501Y.V2 da África do Sul . Com esses dois, estudos iniciais mostraram que, embora não levem a cursos de doença mais graves, são mais contagiosos do que os Sars-CoV-2 anteriores.

Jesse Bloom, um biólogo evolucionário do Fred Hutchinson Cancer Research Center em Seattle, acha que isso é preocupante: “Cada vez que as mesmas mutações aparecem e se propagam independentemente, é uma forte indicação de que essas mutações estão ganhando uma vantagem evolutiva significativa. «

Além disso, P.1 da América do Sul já mostra que a extensão das mutações é maior. Portanto, pode ser que esse patógeno modificado tenha outras novas propriedades significativas. Os primeiros pacientes individuais recém-infectados também foram encontrados. “O fato de a variante ter aparecido aqui, entre todos os lugares, pode ser um sinal de que ela está ganhando espaço onde grande parte da população já é supostamente imune”, diz Bloom.

Fernando Spilki, virologista da Universidade Feevale, na região metropolitana de Porto Alegre, Brasil, vê outro sinal disso ao examinar mais de perto as mutações do vírus: “A variante de Manaus altera certa parte de uma proteína que pelo menos foi detectada em testes de laboratório que pode neutralizar anticorpos dirigidos contra Sars-CoV-2. “

Mas tudo isso ainda são apenas indicações iniciais. Não é nada certo que a nova variante do vírus contorne a defesa imunológica do corpo treinada em Sars-CoV-2. Pode ser que, nos casos individuais em que ocorreu uma segunda infecção, a causa não seja um patógeno alterado, mas o sistema imunológico do paciente. O sistema pode ter esquecido como se defender do Sars-CoV-2 nos últimos meses.

Também não está claro como o vírus modificado reagirá às vacinas COVID-19 existentes. Ainda não há evidências de resistência. No entanto, alguns pesquisadores interpretam o fato de que o patógeno mudou rapidamente várias vezes em pontos cruciais como um sinal de que Sars-CoV-2 poderia se adaptar rapidamente às vacinas.

Muito ainda é incerto no momento. O certo é que é comum que os vírus mudemMas quanto mais variantes questionáveis ​​estiverem em circulação, menor será a probabilidade de se conseguir conter a pandemia em tempo hábil. Só no Brasil já existem três linhas Sars-CoV-2, diz Spilki: “A variante de Manaus, uma no Rio de Janeiro e outra no sul do país, no Rio Grande do Sul”.

ambulanciasTransporte de ambulâncias | Profissionais de saúde e militares se preparam no Aeroporto de Ponta Pelada, em Manaus, para colocar um paciente Covid-19 em um avião da Força Aérea para ser levado a um hospital fora da cidade.

Experimentos com animais devem revelar mais sobre a variante sul-americana

Para os pacientes de Manaus, as causas são secundárias. O mais importante é cuidar dos enfermos. O Brasil está fazendo tudo o que pode para ajudá-los e colocar a situação sob controle. Por exemplo, helicópteros militares entregaram oxigênio à cidade nos últimos dias e várias centenas de pacientes foram transferidos para hospitais da região.

Enquanto isso, os cientistas estão trabalhando para investigar as propriedades do P.1 com mais detalhes. Em experimentos com animais com hamsters, por exemplo, é testado se animais considerados imunes ficarão doentes novamente após uma infecção inicial, se o vírus mutante pode ser transmitido mais rapidamente e quais características especiais a variante ainda possui. Os primeiros resultados podem ser esperados nas próximas semanas.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pela revista Spektrum [Aqui! ].

Dados do SUS embasam pesquisa sobre os efeitos da COVID-19 nas cinco regiões brasileiras

2-UPA-Jose-Rodrigues_foto-Marcio-James-Amazonia-Real_internaDe janeiro a agosto de 2020, o índice de mortalidade entre o pacientes com Covid-19 internados em UTIs na região Norte estava em 79% (Foto: Marcio James / Amazônia Real)

Por Paula Guatimosim o Boletim da Faperj

Coordenada pelo pesquisador Fernando Augusto Bozza, chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica em Medicina Intensiva do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz (INI/Fiocruz), em uma colaboração com pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), a pesquisa, que utilizou dados do Sistema Único de Saúde (SUS) coletados nas cinco regiões brasileiras, revela dados alarmantes. Do universo de 254.288 pacientes hospitalizados que testaram positivo para a COVID-19, 38% (87.515) faleceram; dos 79.687 pacientes que foram internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), 59% (47.002) não sobreviveram, e nada menos que 80% (36.046) dos 45.205 doentes que precisaram de auxílio de respiradores morreram. E para quem ainda acha que a doença só afeta idosos, os dados mostram que 1/3 dos pacientes hospitalizados tinha menos que 50 anos e 47% menos de 60 anos.

Publicado em 15 de janeiro, o artigo “Caracterização das primeiras 250 mil internações hospitalares por COVID-19 no Brasil: uma análise retrospectiva de dados nacionais” (Aqui!) também mostra como a epidemia atingiu  populações das diferentes cinco regiões brasileiras (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul) de forma desigual. Os maiores impactos foram observados nas regiões em que a renda per capita é mais baixa e os sistemas de saúde mais precários, como por exemplo no recente colapso no estado do Amazonas, onde apenas na capital, Manaus, há UTIs

grafico1_fioO gráfico mostra o número de pacientes com Covid-19 hospitalizados, os que necessitaram de UTI, os que foram ventilados artificialmente em todas as regiões do País, bem como o percentual de óbitos nas diversas faixas etárias (Fonte: The Lancet)

A análise abrangeu retrospectivamente os dados de pacientes internados com COVID-19 durante os primeiros cinco meses da pandemia no Brasil, usando um banco de dados de âmbito nacional que cobre cada macrorregião. Foram avaliados doentes com registro no Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Influenza (Sivep-Gripe), usado desde 2012 pelo Ministério da Saúde para monitorar infecções respiratórias agudas graves no Brasil, entre os dias 16 de fevereiro e 15 de agosto de 2020. Neste período, a região Norte já apresentava 79% de mortalidade de pacientes em UTI, contra 49% no Sudeste. Os números mostram uma alta mortalidade hospitalar, mesmo entre pacientes jovens, e diferenças regionais substanciais em termos de recursos disponíveis e desfechos da doença. Do total de pacientes avaliados, 16% não tinham comorbidades e 72% receberam algum suporte respiratório (invasivo ou não invasivo). A mortalidade hospitalar em pacientes com menos de 60 anos foi de 31% no Nordeste contra 15% na região Sul. O Sivep-Gripe registra os casos e mortes devido à doença lançados por todas as unidades de saúde dos municípios, confirmados pelo teste RT-PCR, que é considerado o mais eficaz, ou padrão de referência, já que identifica o vírus e confirma a COVID-19 por meio da detecção do RNA do vírus.  

Bozza, que recebe apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas por meio do programa Cientista do Nosso Estado (CNE) e da chamada Apoio a Projetos Temáticos, diz que o estudo ganhou grande repercussão, tanto dentro da comunidade científica quanto da população em geral. “Um dos objetivos da equipe foi informar os resultados da pesquisa por meio de uma linguagem acessível e em que os dados falassem por si”. Os pesquisadores foram motivados pela extrema pressão que a pandemia de COVID-19 provocou nos sistemas de saúde em todo o mundo, em especial devido ao aumento de internações hospitalares e o crescimento da demanda por leitos de UTI, suporte respiratório avançado e profissionais de saúde treinados. Para Fernando Bozza, o fato de o artigo ter “viralizado” nos diversos grupos de médicos nas redes sociais e tido boa repercussão na mídia mostra a importância da reflexão social e política sobre a epidemia e esse momento dramático para a humanidade e para o País.

No artigo, os pesquisadores chamam a atenção para o fato de o Brasil ter uma população de 210 milhões de habitantes distribuídos em uma extensa área territorial, com grande heterogeneidade entre suas cinco macrorregiões, incluindo disparidade socioeconômica, que se reflete na qualidade dos serviços regionais de saúde. “A COVID-19 afeta as populações e os sistemas de saúde de forma desigual, colapsando primeiro os sistemas de saúde mais frágeis e provocando desfechos piores sobre as populações mais vulneráveis, tanto econômica quanto biologicamente”, afirma o médico intensivista. A proporção geral de mortes hospitalares foi maior entre pacientes analfabetos (63%), negros ou pardos (43%) ou indígenas (42%). 

Fernando-BozzaBozza: para o pesquisador, País precisa usar os dados disponíveis para planejar políticas pública e tornar o sistema de saúde um sistema inteligente  

“Embora a pesquisa confirme o impacto negativo da pandemia sobre o sistema de saúde e sobre a população brasileira, também mostra a importância do Sistema Único de Saúde (SUS), onde foram gerados e disponibilizados os dados para a pesquisa”, ressalta Bozza. Ele diz que o principal objetivo do trabalho foi mostrar que a COVID-19 é realmente uma doença grave, com um índice de mortalidade muito alto e que atinge todas as faixas etárias, até mesmo os jovens. E que os dados estatísticos apresentados deveriam servir para nortear políticas públicas e ações para o enfrentamento da segunda e demais ondas que a doença possa provocar. “O País tem os dados, tem a competência para analisar os dados, mas precisa usar os dados e informações para planejar ações, elaborar políticas públicas e tornar o sistema de saúde um sistema inteligente. É triste saber que apesar da disponibilidade dos dados, a mortalidade no País não caiu”, alerta o médico. 

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo Boletim da Faperj  [Aqui!].

Webinar discute meios de frear extinção em massa de animais

Evento debaterá formas de recuperação de espécie em risco de extinção para manutenção da riqueza e equilíbrio dos ecossistemas

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No dia 26 de janeiro, às 10h, a CEO do Parque das Aves, Carmel Croukamp, participará do webinar Changing the outcome for threatened species (“Mudando o resultado para espécies ameaçadas”, em português) juntamente com Bruno Oberle, diretor geral da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), e Jon Paul Rodriguez, presidente da Comissão de Sobrevivência de Espécies da UICN (UICN CSE). 

A União Internacional para a Conservação da Natureza é a maior organização internacional e intergovernamental de conservação de biodiversidade mundial, aliada às Nações Unidas (ONU) e reconhecida como a autoridade global sobre a situação do mundo natural e as medidas necessárias para sua conservação.

O objetivo do evento é promover uma discussão entre as principais autoridades sobre o processo de extinção em massa de espécies. Para entender as implicações disso e formas de reverter esse processo de degradação ambiental, o webinar visa apontar meios efetivos de inverter o processo de extinção.

A Dra. Carmel Croukamp foi convidada para participar como representante da Associação Mundial de Zoológicos e Aquários, e como cofundadora do Centro de Sobrevivência de Espécies Brasil, cujo lançamento será abordado no evento.

O evento será online via Zoom com limite de 500 participantes e em inglês. E será aberto ao público interessado, jornalistas, empresários, pesquisadores, tomadores de decisão e formadores de opinião. As inscrições são gratuitas e serão realizadas pelo link https://smithsonian.zoom.us/webinar/register/WN_Xe0DJkWjSjuQrkYPssu-rQ.

Carmel acredita que o webinar servirá como uma troca de experiências que deram certo de autoridades de instituições renomadas no mundo e que muitas delas podem ser replicadas em território nacional. A executiva lembra que o ano de 2020 será lembrado pela pandemia da Covid-19, mas também como de grandes catástrofes ambientais que afetam diretamente as espécies.

“O Brasil é um país megadiverso e possui um patrimônio genético incomparável nos seus mais ricos ecossistemas. Uma de suas principais características é estar relacionado aos expressivos níveis de endemismos e à grande diversidade de habitats e à extensão territorial do país. No entanto, nos últimos anos tivemos muitas perdas na área ambiental e é preciso debater formas efetivas de reverter isso”.

Brasil no centro das atenções

Durante sua fala, Carmel pretende tratar especificamente da recuperação ambiental de aves da Mata Atlântica a partir da divulgação e conscientização pública, conservação de remanescentes da fauna e da flora, proteção da biodiversidade e recuperação ambiental de áreas degradadas.

Ela abordará com os participantes sobre o Centro de Sobrevivência de Espécies Brasil, cuja sede fica no Parque das Aves. Esse hub permanente da UICN CSE foi fundado em 2019 e trabalha para apoiar avaliações, planejamentos estratégicos e ações para salvar espécies nativas brasileiras da extinção, em aliança e no apoio multidisciplinar de profissionais brasileiros que já fazem um excelente trabalho para esse fim.

“Precisamos desacelerar a pressão sobre os ecossistemas. Uma das formas é compartilhando essa nossa experiência positiva vivenciada no Centro de Sobrevivência de Espécies Brasil e também conhecendo outros métodos e vivências positivas que acontecem em vários lugares do mundo”, afirma.

O UICN CSE Centro de Sobrevivência de Espécies Brasil é uma parceria entre a Comissão de Sobrevivência de Espécies, o Grupo Especialista em Planejamento para Conservação (CPSG) e o Parque das Aves.

Serviço

O quê: webinar Changing the outcome for threatened species (“Mudando o resultado para espécies ameaçadas”, em português)

Quando: dia 26 de janeiro, às 10h, via Zoom

Inscrições em: https://smithsonian.zoom.us/webinar/register/WN_Xe0DJkWjSjuQrkYPssu-rQ

OBS: Interessados também poderão acompanhar diretamente do Facebook em https://www.facebook.com/events/1054242941720904/

Os necrocomercadores da pandemia e sua insensibilidade social

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Assisto relativamente de longe a pendenga estabelecida entre os donos de estabelecimentos comerciais e a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes acerca das necessárias medidas de isolamento social que foram adotadas para frear o agravamento da pandemia da COVID-19.  Se não estivéssemos vivenciando um forte agravamento de contaminações e mortes causadas pelo coronavírus, a discussão sobre abre e fecha o comércio seria meramente escolástica.

O problema é que estamos em meio a uma situação em que vídeos emitidos por médicos atuando na linha de frente do combate à pandemia da COVID-19 em Campos dos Goytacazes apontam, até de forma desesperada, para uma situação crítica em que inexistem leitos de Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs), e que muitos pacientes já não têm sequer como serem acolhidos nos hospitais da cidade.

Dessa forma, pressionar para manter estabelecimentos comerciais abertos é um convite a um agravamento ainda maior do que já está grave. Lamentavelmente, como no caso de Rafael Diniz, o prefeito Wladimir Garotinho aparentemente está escolhendo o caminho da espinha curvada, em vez de se posicionar como o líder que o município também precisa em um momento gravíssimo de nossa História.

Ao analisar os parcos argumentos oferecidos em prol da abertura de estabelecimentos que, em sua maioria, continuarão às moscas por falta de clientes, não posso deixar de observar que é falacioso afirmar que os estabelecimentos comerciais não são fonte de contaminação.  Qualquer um que percorrer a área comercial do centro de Campos dos Goytacazes verá que o máximo que se faz é oferecer álcool gel e medir a temperatura corporal dos clientes,  medida necessárias que estão longe de impedir a expansão do processo de contaminação.

Mas a grande questão é que para se chegar a um estabelecimento qualquer, o eventual cliente terá que usar transportes públicos precários e circular por ruas em que a maioria não porta máscaras. Assim, a pessoa pode até não se contaminar dentro de uma dada loja, mas isso não quer dizer que o funcionamento de atividades não essenciais não contribua para que haja um agravamento da pandemia. Isto sem falar nos próprios trabalhadores do comércio que, em sua maioria, é obrigada a usar transporte público para chegar ao trabalho.

Já está mais do que claro que as próximas semanas serão marcadas pelo agravamento dos casos de contaminação, o que ampliará ainda mais a pressão sobre unidades hospitalares já sobrecarregadas. Mas nada disso parece sensibilizar os necromercadores da pandemia.   Legal seria se quando a vacinação realmente chegasse, eles se recusassem a entrar na fila para dar lugar aos seus empregados. Mas já sabemos que isto dificilmente ocorrerá.

Em carta à Controladoria Geral da União (CGU), Observatório do Código Florestal pede maior efetividade na Política de Dados Abertos do Governo Federal

Após diversos estudos detectarem falhas de transparência na área ambiental, grupo que reúne dezenas de organizações do setor sugere medidas que podem melhorar sua implementação

São Paulo, 21 de janeiro de 2020 – Após dois anos de intensa análise e produção de estudos sobre o status da transparência e abertura de dados da área ambiental do Governo Federal, o Observatório do Código Florestal (OCF) produziu uma carta destinada à Coordenação Geral de Governo Aberto e Transparência da Diretoria de Transparência e Controle Social da Controladoria Geral da União (CGU), órgão responsável pela gestão e monitoramento da Política de Dados Abertos do Executivo Federal. A carta será entregue nesta terça-feira, 19 de janeiro, e traz uma série de recomendações para aprimorar a transparência e abertura de dados ambientais dos diversos órgãos federais.

O Observatório do Código Florestal é uma rede formada por 30 instituições que monitora a implantação da nova Lei Florestal (Lei Federal nº 12.651, de 25 de maio de 2012), com a intenção de gerar dados e massa crítica que colaborem com a potencialização dos aspectos positivos e a mitigação dos aspectos negativos da nova Lei Florestal e evitar novos retrocessos. A carta tem como propósito contribuir para o aprimoramento da Política de Dados Abertos do Governo Federal, essencial para avançar com a implementação da Lei Florestal. A Secretária Executiva do Observatório do Código Florestal, Roberta del Giudice explica essa relação: “A transparência e o acesso aos dados socioambientais são objetivos a serem perseguidos, como meios para a implantação do Código Florestal. Com os dados em mãos é possível, por exemplo, acelerar a adequação e regularização ambiental junto aos produtores rurais e promover compras sustentáveis, possibilitando a identificação e acompanhamento de cadeias de produtos agrícolas”.

Por outro lado, Roberta alerta que, em um momento que a Lei deveria estar avançando, a carta sinaliza um cenário preocupante de retrocessos. “Após quase 10 anos da publicação do novo Código Florestal e com o fim do longo prazo de inscrições do Cadastro Ambiental Rural (CAR), o esperado seria que se observasse um progresso no acesso aos dados que viabilizam a implementação da lei. Contudo, o que verificamos foi a redução expressiva, nos últimos anos, dos órgãos que possuem Planos de Dados Abertos (PDAs) vigentes e a defasagem de bases de dados socioambientais, como a base do CAR, que não é atualizada há quase um ano”. A expectativa do Observatório é que a carta irá estreitar ainda mais o diálogo do Observatório com a Controladoria Geral da União. Para Roberta, “o que as organizações que fazem parte do Observatório esperam é que possam contribuir com o papel da CGU na melhoria da transparência na gestão e na defesa do patrimônio público”.

As sugestões são focadas em três frentes: as lacunas no cumprimento de requisitos dos Planos de Dados Abertos (PDAs); a redução do número de PDAs de órgãos relevantes para a política ambiental vigentes em 2020; e a não consideração dos processos participativos da sociedade, como consultas públicas, para a escolha das bases de dados a serem abertas. Entre as oportunidades de melhorias na qualidade dos Planos de Dados Abertos, está a definição de critérios específicos para a realização de consultas públicas a serem cumpridos pelos órgãos federais, padronizando assim a metodologia das consultas e seus prazos, além do formato da apresentação dos resultados obtidos das consultas. Outra sugestão é que haja uma unificação de entendimentos entre os órgãos federais sobre a responsabilidade pela formulação de cronograma com mecanismos de promoção e fomento das bases de dados, cumprindo assim o aspecto de transparência ativa que guia a política de dados abertos.

A carta também sugere que se produza e compartilhe entre os órgãos federais um glossário com as nomenclaturas corretas a serem utilizadas nos PDAs. Com isso, as terminologias utilizadas nos PDAs, no Portal Brasileiro de Dados Abertos e no Painel de Monitoramento de Dados Abertos da CGU seriam sempre as mesmas, permitindo um melhor fluxo de buscas e compreensão por parte de pesquisadores e público em geral. Por último, no campo da qualidade dos PDAs, o OCF sugere que sejam criadas ações que garantam a sincronização entre as bases de dados disponibilizadas no Portal da CGU e nos sites dos órgãos gestores, evitando informações discrepantes como ocorre em alguns casos atualmente.

Já em relação à redução no número de PDAs vigentes em 2020 verificada pelas análises das organizações, a carta reforça a importância da criação de mecanismos que possam reduzir as defasagens na disponibilização dos PDAs e garantir o cumprimento da Política de Dados Abertos, como a criação de cronogramas de atualização dos PDAs, com o envio de versões preliminares para a conferência da CGU, e a aplicação de sanções aos órgãos que descumprirem as normas definidas pela Infraestrutura Nacional de Dados Abertos (INDA).

CAR e GTA – atrasos e descumprimentos

Como exemplo prático da defasagem da produção e disponibilização de PDAs, a carta cita o Cadastro Ambiental Rural (CAR): o PDA mais recente que trata dessa base de dados é o do Ministério do Meio Ambiente de 2017/2018 (atualmente, a base está a cargo do Ministério da Agricultura e Pecuária). O PDA não apresenta a periodicidade de atualização da base, impedindo que se possa cobrar os órgãos responsáveis pela defasagem na base de dados, atualizada pela última vez em abril de 2020. “O CAR é o principal banco de dados da distribuição de terras no Brasil, impactando em diversas políticas públicas de uso da terra e monitoramento de atividades ilegais e predatórias, como o desmatamento e queimadas. A falta de dados atualizados compromete essas iniciativas, favorecendo desvios que culminam em imensas perdas de ordem ambiental”, explica Bruno Vello, analista de políticas públicas do Imaflora, que esteve envolvido em muitos dos estudos que subsidiaram as conclusões e demandas contidas na carta à CGU.

Por último, em relação ao descumprimento dos cronogramas do PDA e da falta de efetividade das consultas públicas do Sistema de Controle de Guias de Trânsito Animal (PGA_GTA), também identificados nas análises das organizações do OCF, a carta recomenda que a CGU, como órgão responsável pela gestão da Política de Dados Abertos, acione o Ministério da Agricultura para que ele adote as devidas providências para cumprir o que estava definido em seu PDA. A carta ressalta que “a impossibilidade de acessar dados de cada GTA e, portanto, o acesso às transações individuais de transporte de animais, reduz significativamente o potencial de uso da base para o controle social e a transparência das cadeias pecuárias, incluindo os seus impactos socioambientais”. Isso se traduz nas diversas acusações à cadeia da pecuária na Amazônia, a qual é atribuído envolvimento com queimadas e desmatamento, o que gerou movimentos de pressão e até boicote por parte de mercados internacionais no ano passado.

“É com transparência e com participação social que se implementa a Lei Florestal. É com acesso aos dados que podemos fazer análises, gerar conhecimento e informar a sociedade. É assim que as pessoas podem participar mais ativamente da implantação das políticas públicas socioambientais e podem fomentar um mercado socialmente justo e que preserve o meio ambiente”, conclui Roberta.

Sobre o Observatório do Código Florestal

O Observatório do Código Florestal (OCF) é uma rede composta por 31 organizações da sociedade civil que defendem a implementação transparente, democrática, eficaz e qualificada do Código Florestal. As organizações mais proeminentes, que trabalham para o avanço efetivo da lei, são membros do OCF. Juntas, elas fortalecem o papel da sociedade civil na defesa da vegetação nativa brasileira e unem esforços para monitorar a implementação bem-sucedida da Lei Florestal. Desde 2013, o Observatório atua em diferentes frentes: gera conhecimento técnico e científico; exerce pressão política; busca soluções com o setor privado; e mobiliza a sociedade, buscando alinhar a conservação dos recursos naturais com modos de vida de produção sustentável. Saiba mais em: https://www.observatorioflorestal.org.br

Pantanal: busca pelo termo cresce mais de 1500% no país

Panorama levantado pela SEMrush analisa o crescimento na busca por questões ambientais; queimadas e animais são alguns dos mais pesquisados

pantanal

São Paulo, novembro de 2020 – O ano de 2020 trouxe consigo muitos desafios. Um dos que chama atenção em nível nacional e internacional são as questões ambientais que tem tomado grandes proporções na mídia. Um ano marcado por queimadas no Pantanal, aumento do desmatamento e morte de muitos animais em seu habitat natural fizeram com que a SEMrush, líder global em marketing digital, realizasse um levantamento para compreender se os brasileiros vêm buscando mais sobre o assunto na internet. E sim: os dados apontam que, de janeiro de 2020 a setembro do mesmo ano, a busca pela palavra ‘Pantanal’ teve um aumento de 1561%, com 673 mil buscas apenas em setembro.

Com isso, os brasileiros também aumentaram seu interesse por outras questões ambientais durante o mês de setembro de 2020. Como por exemplo a busca por queimadas, que somam 74 mil acessos no mês. Outro desdobramento desse interesse foi a pesquisa por animais queimados, com 1,9 mil buscas, e até mais específicos como onça pintada, com 2,9 mil. Os biomas nacionais mais afetados também despertaram mais interesses, e Cerrado e Mata Atlântica totalizam 135 mil e 90,5 mil, respectivamente, incluindo um aumento médio nas buscas por desmatamento, de 60,5 mil.

Veja abaixo os termos com maior crescimento nas buscas:

1) Animais do pantanal: aumento de 1976%
2) Onça do pantanal: aumento de 1605%
3) Pantanal: 1561 %
4) Queimadas: aumento de 1021%
5) Animais queimados: aumento de 804%
6) Desmatamento: 646%
7) Conservação Ambiental: aumento de 519%
8) Poluição: aumento de 401%
9) Mata Atlântica: aumento de 400%
10) Cerrado: aumento de 398%
*média mensal de janeiro de 2020 a setembro de 2020

Outras preocupações ambientais também foram alvo do interesse dos brasileiros em suas pesquisas. O levantamento apontou um aumento de 401,5% na busca pela palavra poluição, seguida de um aumento de 516% por poluição da água. Outra pesquisa relevante que aumentou nesse período foi a pergunta “o que é meio ambiente?” que se desdobrou para a pergunta “o que é aquecimento global?”, ambas com um aumento de 516% e 825%, respectivamente. Todo esse contexto para saber mais sobre as questões ambientais presentes no Brasil também fizeram com que o interesse dos brasileiros aumentasse em 519% sobre a conservação ambiental.

“A preocupação com o que acontece com o meio ambiente não é mais uma questão que as pessoas estão deixando de lado. O aumento da busca por informação relevante é uma tendência que vai crescer com o passar dos anos, e quem quer se posicionar como um provedor de conteúdo de qualidade deve se focar no perfil dos comportamentos de buscas. Importante salientarmos que dados estratégicos são um aliado importante para quem quer ajudar e fazer a sua parte frente a questões sensíveis como o meio-ambiente”, conclui Fernando Angulo, Head of Communications da SEMrush.

“Você sabe com quem está falando?” em tempos de pandemia

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Coube ao antropólogo Roberto DaMatta sintetizar a lógica autoritária com que os poderosos e mais abastados exercem suas prioridades sobre o resto da população brasileira sob a frase “Você sabe com quem está falando”?  DaMatta, aliás, acaba de lançar um livro com este título, onde ele promete explicar aspectos complementares do autoritarismo vigente na sociedade brasileira pela editora Rocco.

Apesar de ainda não ter tido a oportunidade de adquirir o livro de DaMatta, eu já me antecipo e indico que uma forma especialmente arrogante de exercício do “Você sabe com quem está falando?” está ocorrendo na furação de filas para ser vacinado contra a COVID-19. Um primeiro exemplo veio justamente de Manaus, onde duas irmãs gêmeas, jovens médicas e milionárias, foram nomeadas para a Secretaria Municipal de Saúde, aparentemente para furarem a fila da vacina. A situação acabou oferecendo ainda mais combustível para a a situação socialmente que foi gerada pela incompetência dos diferentes níveis de governo de impedir dezenas de mortes por asfixia por falta de oxigênio na capital do estado do Amazonas.

Engana-se que a aplicação do “Você sabe com quem está falando?” se resumiu às gêmeas milionárias de Manaus, pois fui informado que um apadrinhado de um político local recebeu tratamento, digamos, especial em pleno Hospital Geral de Guarus, foi vacinado antes dos profissionais daquele unidade de saúde. Lamentavelmente não me foi fornecida nem a identidade do furador de fila ou imagens do momento em que a furação de fila ocorreu.  Entretanto, a fonte que me passou a informação é bastante confiável, e, por isso, não tenho dúvidas de que o fato ocorreu.

O que podemos dizer para indivíduos, a maioria bem educada e capaz de comprar uma passagem para se vacinar em países que estão fazendo isso com os turistas que desafiam o medo da pandemia para viajar, que não se hesitam em passar na frente e deixar aqueles que deveriam ser vacinados primeiro para trás? Provavelmente que eles expressam o que há de mais arcaico e autoritário em uma sociedade que prima por tratar os pobres como bucha de canhão, especialmente em um momento em que um vírus letal ameaça solapar toda o planeta.

Mas esses que exercem o “Você sabe com quem está falando?” em meio a uma pandemia estão pouco se importando com os seus semelhantes, especialmente os mais pobres. Por isso, é que nos cabe publicizar todos os casos comprovados de furadores de fila, pois esse comportamento não pode ser tolerado sob pena da instalação da mais completa forma de barbárie social.

Um infeliz aniversário: desapropriações do Açu completam 10 anos e centenas de agricultores continuam abandonados

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Poucos devem lembrar, mas um muito (in) feliz aniversário foi completado no dia 15 de dezembro de 2020, afetando as vidas de centenas de agricultores familiares que viviam e produziam nas terras tomadas pelo (des) governo de Sérgio Cabral para a implantação de um natimorto distrito industrial em São João da Barra. As terras tomadas por Sérgio Cabral e entregues ao ex-bilionário Eike Batista estão hoje sob controle da Prumo Logística Global que aufere milhões anualmente em troca do aluguéis salgados.

Fonte: Blog do professor Roberto Moraes

A persistente injustiça contra os agricultores familiares que hoje vivem em condições difíceis em áreas espalhadas pelas localidades de Água Preta, Mato Escuro e Barra do Açu é evidenciada pela completa paralisia em que se encontram centenas de processos de desapropriações firmados pela Companhia de Desenvolvimento Industrial (Codin) que reconhecidamente não possui sequer o orçamento para pagar as indenizações devidas a quem teve as terras tomadas.  A Codin só não sofre mais porque os processos estão em sua ampla maioria acumulando poeira na sede do fórum de São João da Barra.

Advogados familiarizados com o drama dos agricultores se sentem impotentes para dar o devido e necessário apoio aos que permanecem sem qualquer perspectiva de avanço no processo de pagamento das indenizações que o estado do Rio de Janeiro, na figura da Codin, deveria já ter pago, visto que uma década já transcorreu desde que o drama dos agricultores foi mostrado até pela grande mídia internacional.

O interessante é que no âmbito do governo municipal de São João da Barra permanece um silêncio sepulcral, em que pese a prefeita Carla Machado (PP) ter sido uma parceria preferencial, tanto de Sérgio Cabral quanto de Eike Batista na ágil remoção dos agricultores de terras que ocupavam há várias gerações.  Ninguém pode se esquecer da famosa cerimônia de entrega da Medalha Barão de São João da Barra por Carla Machado a Eike Batista, enquanto famílias inteiras eram tocadas para fora de suas pequenas propriedades por uma combinação de forças policiais regulares e seguranças privados do Grupo EBX.

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Cerimônia de entrega da “Medalha Barão de São João da Barra” realizada pela prefeita Carla Machado para “paparicar” o ex-bilionário Eike Batista

Por essa situação toda é que não se pode deixar de frisar que essa década foi perdida também para o município de São João da Barra que perdeu boa parte de seu celeiro agrícola para uma empreitada que não tem nenhuma cara que sairá das lâminas de Powerpoint que Eike Batista adorava projetar para políticos parceiros e investidores incautos.

Como fiz amizades com muitos agricultores que viveram a experiência de serem ejetados à força de suas terras, e lembrando que vários deles morreram sem receber as indenizações devidas, considero que é um completo ultraje o estado de profunda paralisia em que se encontra a tramitação dos processos referentes às desapropriações.  Minha expectativa é que cedo ou tarde (mais cedo do que tarde) tenhamos a devida mobilização para fazer justiça aos agricultores do V Distrito de São João da Barra.

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 32 agrotóxicos, governo Bolsonaro fez de 2020 um ano recorde de aprovações

Nem a pandemia da COVID-19 serviu para brecar o ímpeto pró-venenos agrícolas, e o total liberado em 2020 chegou a 530 agrotóxicos. Em dois anos, a liberação foi de 1033 agrotóxicos, 34% de todos os produtos em circulação no Brasil

tereza cristinaSob a batuta da ministra Tereza Cristina (DEM/Ms), governo Bolsonaro liberou quantidade recorde de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo

Ainda que estejamos em meados de janeiro de 2021, o governo Bolsonaro continuou com sua enxurrada de agrotóxicos aprovados em 2020. É que em no dia 14 o Diário Oficial da União trouxe a publicação do Ato No. 71 de 28 de Dezembro onde foram liberados mais 32 agrotóxicos, todos produtos técnicos, o que totaliza para 2020 o valor de 530 agrotóxicos liberados, elevando para 1033 agrotóxicos liberados em dois anos de governo Bolsonaro.

Essa verdadeira tsunami de aprovações acontece em meio à mudanças feitas pelo governo Bolsonaro não apenas para agilizar o processo de aprovação, mas também para relaxar os critérios de definição de risco para a saúde humana, o que se reflete em uma curiosa contradição entre as definições de toxicidade ambiental e sobre a saúde humana, visto que os produtos via de regra tiveram seu risco humano baixado, sendo o de ambiental normalmente mais elevado.

A geopolítica da vacina e dos agrotóxicos

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Um detalhe que saltas aos olhos quando se analisa a origem dos agrotóxicos aprovados é que China e Índia, justamente os países que estão no cerne das dificuldades para o Brasil produzir vacinas contra a COVID-19, são os principais fornecedores de agrotóxicos com que o latifúndio agroexportador está se refastelando em seu esforço de auferir cada vez mais lucros com a exportação de commodities agrícolas.

O caso dos agrotóxicos produzidos por empresas chinesas em território chinês é o mais gritante, visto que eles representam 61% de todos os agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro. Já as empresas da Índia participam com 8%, à frente de países tradicionalmente no mercado internacional de agrotóxicos como EUA (6%), Japão (3%) e Alemanha (2%) (ver gráfico abaixo).

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Essa mudança de origem dos produtos sendo aprovados pelo governo Bolsonaro reflete um movimento mais geral da indústria de produção de venenos agrícolas, e que curiosamente aparece no Brasil (que participa do “bolo” com 13% dos produtos aprovados) que é a mudança em curso para o combate biológico das ditas pragas agrícolas.

Mas no frigir dos ovos, o que fica claro é que se o governo Bolsonaro fez todo um teatro para frear a aprovação e uso da Coronavac, produzida pela empresa chinesa Sinovac, o tratamento dispensado às empresas chinesas produtoras de agrotóxicos é de um verdadeiro “mar de almirante”.

Por outro lado, o fato que China e Índia continuam vendendo agrotóxicos para o Brasil sem se importarem com as desfeitas do presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Assim, a alegada “vendetta” que a mídia corporativa vem divulgando em relação ao envio de vacinas e dos insumos básicos para sua produção em solo brasileiro, se real, deve ter outros motivos.

Em vez da modernização prometida, agrotóxicos banidos por serem perigosos demais

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Um dos pontos basilares da política de aprovação de agrotóxicos do governo Bolsonaro seria o abandono de produtos teoricamente ultrapassados por outros mais modernos. Mas um rápido exame dos 1033 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro mostra que em média 30% estão banidos na União Europeia por causarem danos ao meio ambiente e a saúde humana.  Dentre os produtos aprovados e banidos pela UE (UE) podem ser citados a Acefato, a Ametrina, a Atrazina, o Fipronil, o Glufosinato e o Tiametoxam, entre tantos outros.

O fato é que esse uso amplo, e que deve se estar se ampliando em face das aprovações, está gerando um desastre sanitário de grandes proporções no Brasil, e que não está sendo identificado em função do desastre corrente que é o da pandemia da COVID-19.

Não há como negar que ao autorizar a ampliação do uso de agrotóxicos com reconhecida capacidade de causar graves danos à saúde humana, e apenas para apoiar o latifúndio agroexportador, o governo Bolsonaro está gerando um legado de envenenamento com o qual o Brasil terá dificuldades de se confrontar em um futuro não muito distante.

A coisa é tão descabido é que segundo “Robotox“, projeto conjunto da Agência Pública e da ONG Repórter Brasil, o mercado brasileiro possui atualmente com 3064 agrotóxicos em circulação, o que torna o governo Bolsonaro responsável por cerca de 34% dos agrotóxicos liberados pelo uso no Brasil, e isto em apenas dois anos de governo.

Acesso às bases de dados do “Observatório dos Agrotóxicos”

Um primeiro elemento das planilhas que o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski vem divulgando é que todos os dados foram adquiridos a partir da extração manual das informações contidas em cada ato oficial de liberação.  Com isso, pode ser que outras fontes mostrem valores ligeiramente diferentes para o governo Bolsonaro, mas considero que os valores aqui apresentados estão corretos.

Ao longo de 2021, o “Observatório dos Agrotóxicos” continuará fornecendo informações sobre novos atos e apresentando as planilhas respectivas.  Como no caso do Ato No. 71, os interessados em verificar as informações dos agrotóxicos aprovados, basta clicar [Aqui!]. Já os interessados em verificar todos os 1.033 agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro em 2019-2020, basta clicar [Aqui!].

Início da vacinação no Brasil é duplo desastre de relações públicas para o presidente Bolsonaro

Jair Bolsonaro espera em vão pelas entregas da AstraZeneca da Índia. Seu arquiinimigo político, o governador do estado de São Paulo, entretanto, inicia a vacinação com uma vacina chinesa

posePose de vitória após a vacinação: A enfermeira Mônica Calazans, 54, do estado de São Paulo, é a primeira pessoa no Brasil a ser vacinada contra o coronavírus. O governador do estado comemora a vacinação com uma vacina chinesa. Carla Carniel / AP

Por Thomas Spleen, Rio de Janeiro, para o Neue Zürcher Zeitung

Mônica Calazans, 54, é a primeira pessoa no Brasil a ser vacinada contra o coronavírus. A enfermeira de uma unidade de terapia intensiva da COVID-19 do maior estado de São Paulo recebeu a vacina CoronaVac no domingo, poucos minutos após a aprovação emergencial pela autoridade da Anvisa. O governador do estado, João Doria, foi festejado na ocasião. Com os dedos estendidos para marcar a vitória, ele falou de um “dia V” histórico como “vacina, vitória, verdade, vida” – “vacinação, vitória, verdade e vida”. Doria planeja concorrer contra o presidente Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2022. As fotos do sucesso do início da vacinação são úteis para ele.

Doria fazia campanha para o instituto de vacinas do Butantan, em São Paulo, para colaborar com a fabricante chinesa Sinovac desde meados do ano passado. Desde o final de novembro, já chegam a São Paulo transportes com latas do produto CoronaVac da Sinovac, onde já estão armazenados seis milhões de vacinas e a matéria-prima para a produção de mais cinco milhões delas. No entanto, a agência federal Anvisa atrasou a aprovação da vacina. Para pressionar a autoridade, Doria anunciou em dezembro que iniciaria a vacinação em São Paulo em janeiro.

Desde o início, o presidente Bolsonaro sabotou os esforços de Doria, seu mais feroz adversário político. Bolsonaro tentou jogar tacos burocráticos entre as pernas de Doria para atrasar o início da vacinação em São Paulo com o CoronaVac. No final do ano passado, o ex-militar anunciou que em hipótese alguma a população do Brasil seria vacinada com a vacina chinesa. Bolsonaro ordenou ao ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que rescindisse o contrato já fechado com São Paulo para a entrega de 46 milhões de doses do CoronaVac para os postos de vacinação estaduais. Em hipótese alguma quis conceder a Doria e aos chineses, a quem acusava de causadores da pandemia, o triunfo da imunização da população brasileira com o CoronaVac

Bolsonaro apostou com AstraZeneca

Em vez disso, o governo federal do Brasil assinou um contrato com a fabricante anglo-sueca AstraZeneca e a Oxford University para a entrega de milhões de doses e transferência de tecnologia para futura produção da vacina no Brasil. O governo rejeitou as ofertas da Pfizer/Biontech por razões de custo. Mas Bolsonaro apostou fora. Porque as entregas prometidas da AstraZeneca para o Brasil continuam atrasadas. A tentativa desesperada de coletar rapidamente dois milhões de doses da vacina AstraZeneca na Índia no sábado falhou. Precisamos das doses de vacinação para nossa própria população, foi o motivo alegado pelas autoridades indianas.

Desastre de relações públicas do Bolsonaro

Bolsonaro e seu ministro da saúde Eduardo Pazuello, um general rígido e de aparência hostil que organizou a logística para os Jogos Olímpicos de Verão no Rio de Janeiro em 2016, mas não tem experiência no setor de saúde, teve que assistir a primeira vacinação  de João Doria Brasil no domingo. Além do CoronaVac, a Anvisa também emitiu a vacina AstraZeneca com aprovação emergencial neste domingo. Mas como não é certo quando a vacina britânica pode ser esperada, o governo central terá que iniciar sua campanha de vacinação nacional com o CoronaVac.

Em frente à imprensa no domingo, um ministro da Saúde visivelmente irritado, Pazuello, pediu ao governo de São Paulo que entregasse todas as seis milhões de doses do CoronaVac ao governo central. Isso vai distribuir as vacinas em todo o país na segunda-feira, para que as vacinações em massa possam começar simultaneamente em todas as regiões na quarta-feira. A vacinação em massa só pode ser realizada no Brasil pelo sistema público de saúde SUS, que é subordinado ao Ministério da Saúde, e os estados individuais não podem fazer isso sozinhos, disse Pazuello. Todas as doses de vacinas fabricadas ou armazenadas no Brasil teriam que ser entregues exclusivamente ao governo central.

No entanto, João Doria não pensa em fazer isso. Já nesta segunda-feira, ele quer iniciar as vacinações em massa sob sua direção nos hospitais de São Paulo. De acordo com a proporção da população de São Paulo em relação à população total do Brasil, 20% das vacinas CoronaVac serão retidas. Os restantes 80 por cento serão colocados à disposição do Ministério da Saúde em solidariedade. O ministro da Saúde, Pazuello, já anunciou que entrará com ações judiciais contra a suspensão das vacinas, se necessário.

Bolsonaro nega os perigos da Covid-19

O presidente Bolsonaro tem que aceitar outro revés. No início da pandemia, ele disse que a Covid-19 era uma gripe menor e se manifestou contra as restrições e bloqueios. Ele se recusou a usar uma máscara ou seguir as regras de distância. Ele também afirmou que não queria ser vacinado. Você não poderia saber se isso o transformaria em um crocodilo. Nesse ínterim, cerca de 210.000 pessoas morreram de Covid-19 no Brasil. Somente nos Estados Unidos há mais mortes por pandemia. É crescente o descontentamento da população com a passividade do governo no combate à pandemia.

A situação é atualmente particularmente crítica na metrópole amazônica de Manaus. Os hospitais de lá estão sem oxigênio para os ventiladores há uma semana. Além disso, centenas de leitos de terapia intensiva estão desaparecidos e muitas pessoas morrem sem chance de atendimento médico em casa. Bolsonaro colocou a culpa pelo caos no governo local. No entanto, disse que já havia pedido ajuda ao governo central e a outros Estados membros semanas atrás

Hidroxicloroquina em vez de oxigênio

O ministro da Saúde, Pazuello, havia visitado Manaus apenas no início da semana passada. No entanto, sua visita não era para fornecer o oxigênio urgentemente necessário. Em vez disso, Pazuello promoveu o uso do medicamento contra a malária, a hidroxicloroquina. Bolsonaro havia anunciado a droga como uma “arma milagrosa divina” na luta contra a COVID-19. Embora cientistas de todo o mundo duvidem da eficácia do medicamento contra a COVID-19, Pazuello insiste que os médicos em hospitais públicos tratem os pacientes com o medicamento. Enquanto há falta de oxigênio em Manaus, milhares de embalagens do medicamento antimalária produzida pelos militares estão armazenadas sem uso.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal suíço Neue Zürcher Zeitung [Aqui! ].