Rio Doce, tem mais uma morte anunciada

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Desde o dia o8 de fevereiro, quando se anunciou que a barragem (ou barragens) do complexo de Gongo Seco está em condição de rompimento, uma sirene (não as da Vale) deveria ter soado nos governos estaduais e municipais de Minas Gerais e Espírito Santo. Mas tanto os governadores Romeu Zema (MG) e Renato Casagrande (ES) preferiram gastar tempo precioso com as articulações pró-contrarreforma da previdência proposta pelo ministro Paulo Guedes, e nenhuma medida de urgência aparentemente foi tomada para impedir mais um assassinato do Rio Doce.

É que em meio às declarações da mineradora Vale sobre não haver razões para pânico já que os moradores dos arredores imediatos foram removidos de suas residências, essa aparentemente calma serve apenas para acalmar os ânimos dos detentores de suas ações.

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A verdade é que não motivo algum para calma caso a barragem (ou barragens) de rejeito da mina Gongo Soco, pois ali estão estocados algo em torno de 10 milhões de metros cúbicos do mesmo tipo de rejeito que escapou em Mariana e Brumadinho, e equivalente ao que escapou da mina do Córrego do Feijão. E mais, como no caso de Mariana, não se trata de atingir uns poucos moradores dos arredores, mas cidades inteiras que estarão no rastro da lama que deverá escapar de Gongo Soco, sendo que a primeira cidade a ser atingida será Barão de Cocais (ver primeira imagem abaixo).

Congo Soco - caminho da lama

Mas Barão de Cocais será a primeira de uma série de cidades vizinhas que receberão o grosso do impacto de uma eventual onda de lama (Tsulama, como eu já batizei) já que logo abaixo estão as cidades de Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo (ver imagem abaixo).

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Mas o detalhe que deveria estar incomodando tanto os governadores Romeu Zema e Renato Casagrande como dezenas de prefeitos de cidades que estão localizadas à jusante da barragem que ameaça romper em Gongo Soco é o fato de que um eventual Tsulama em Gongo Soco irá desembocar novamente no Rio Doce que ainda nem começou a se recuperar dos impactos causados pelo rompimento da barragem de Fundão em Mariana (ver imagem abaixo).

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E mais ainda, como Gongo Soco é apenas umas das muitas minas em condição de estabilidade duvidosa cujo rompimento enviaria novas ondas de lama para o Rio Doce, a verdade é que não há motivo para que se minimize o que está acontecendo neste momento em Barão de Cocais. A verdade é que estamos assistindo a mais uma morte anunciada do Rio Doce, enquanto as autoridades constituídas permitem mais uma vez que a Vale dite a narrativa dos acontecimentos e estabeleça um controle do território que dificultará qualquer acompanhamento independente dos impactos de mais essa tragédia anunciada.

O interessante é que há vários meses o arquiteto Frederico Lopes Freire, que traçou nas imagens acima o trajeto dos rejeitos que podem escapar de Gongo Soco, vem tentando alertar autoridades e representantes de empresas sobre os graves riscos que pairam sobre o Rio Doce em cujas margens ele vive. Até agora, os alertas de Lopes Freire caíram em ouvidos mocos e insensíveis.  Vamos ver como ficarão aqueles que se fingiram de surdos quando ele tentou avisar se o pior acontecer.

Rompimento é iminente na barragem de rejeitos da Vale em Barão de Cocais

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Sirene da barragem de Barão de Cocais é acionada e alerta sobe para nível mais crítico

Redação, Rádio Itatiaia

Foto: Reprodução/TV Globo

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A sirene da barragem da mina de Gongo Soco, localizada em Barão de Cocais, na Região Central do estado, tocou na noite desta sexta-feira. De acordo com a Defesa Civil de Minas, o nível de segurança da estrutura, que pertence à Vale, passou de 2 para 3, quando já há o risco iminente de rompimento.

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Barragem Sul Superior recebe rejeitos da mina de Gongo Soco da mineradora Vale em Barão de Cocais (MG).

No entanto, não será necessário fazer a evacuação do entorno da área, já que cerca de 500 moradores da região já foram retirados de casa no dia 8 de fevereiro, quando foi acionado o nível 2 da barragem. Na ocasião, foi esvaziada as áreas das comunidades de Socorro, Tabuleiro e Piteiras por determinação da Agência Nacional de Mineração (ANM), após uma consultoria avaliar que a barragem não era estável.

A Defesa Civil estadual marcou uma entrevista coletiva para as 23h desta sexta-feira, em Belo Horizonte, para dar mais detalhes da situação da barragem em Barão de Cocais.


Esta matéria foi originalmente publicada pela Rádio Itatiaia [ Aqui!]

 

Água que chega às torneiras tem resquícios de agrotóxicos em 22 cidades de SC

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Foto: Salmo Duarte

Por Por Dagmara Spautz

Uma análise de amostras da água que é consumida em 100 cidades catarinenses, feita a pedido do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), mostrou que 22 municípios do Estado recebem nas torneiras água com resquícios de agrotóxicos. Entre as substâncias encontradas, há produtos que estão proibidos em outros países no mundo, suspeitos de causarem danos à saúde, e outros que não têm parâmetros estabelecidos pelo governo brasileiro – o que impede avaliar se podem provocar algum dano.

As amostras foram coletadas entre março e novembro de 2018, em um programa do Centro de Apoio ao Consumidor do MPSC, em parceria com a Agência Reguladora Intermunicipal de Saneamento (Aris) e a Agência de Regulação de Serviços Públicos de Santa Catarina (Aresc). As cidades foram escolhidas com base na relação entre população, cultivo de alimentos e venda de pesticidas. Foram incluídos municípios na Grande Florianópolis, Oeste, Sul, Vale do Itajaí, Norte e Serra.

Os resultados obtidos nas amostras foram analisados pela engenheira química Sonia Corina Hess, pós-doutora em Química e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que presta consultoria técnica nas áreas de saúde e meio ambiente para o MPSC – e a avaliação mostrou um cenário preocupante.

Em 13, das 22 cidades onde foram encontrados resquícios de agrotóxicos na água, havia mais de um princípio ativo presente. O município com maior variedade de pesticidas na água foi Rio do Sul, no Alto Vale, com sete substâncias diferentes. Itapema, no Litoral Norte, teve seis.

O MPSC pediu análise de 204 ingredientes ativos de agrotóxicos que são usados nas lavouras em Santa Catarina. O Ministério da Saúde estabelece, hoje, parâmetros para 27 dessas substâncias. Por isso, muitos dos agrotóxicos identificados não têm valores máximos definidos para a água de abastecimento no Brasil.

Entre os que têm parâmetro estabelecido, o limite não foi ultrapassado. O que não torna a situação menos grave, segundo a análise do MPSC. “Essa contaminação repercute em riscos à saúde dos consumidores, uma vez que possivelmente há outros agrotóxicos e poluentes presentes (…), com efeitos imprevisíveis sobre a saúde da população exposta”, avalia a pesquisadora Sonia Hess.

Parâmetros serão revistos

Os parâmetros são alvo de discussão em um grupo de trabalho no Ministério da Saúde. O catarinense José Francsico Mora, biólogo da Aris, faz parte dessa comissão.

As discussões são para revisar a portaria que estabelece todos os parâmetros que definem se a água é potável, própria para consumo. Os agrotóxicos serão debatidos no próximo encontro do grupo em Brasília, em maio, e o levantamento feito em Santa Catarina deve subsidiar a avaliação.

– É difícil discutir parâmetros aceitáveis de agrotóxicos (na água). Uma das limitações que enfrentamos é falta de literatura brasileira para embasar a discussão em valores máximos – comenta.

A maioria das pesquisas são internacionais, o que dificulta a análise dos especialistas, já que as condições climáticas são diferentes.

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Aplicação de Agrotóxico(Foto: Felipe Carneiro)

Veja quais são as cidades onde os resquícios foram encontrados, e quantas substâncias havia na água em cada uma delas:

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6 – Itapema

5 – Mafra e Itaiópolis

4 – Rio Negrinho

3 – Coronel Freitas

2 – Ibirama, Ituporanga, Porto União, Joinville, Schroeder, Orleans, Gravatal

1 – Taió, Massaranduba, Balneário Gaivota, Tubarão, Balneário Rincão, Jaguaruna, Balneário Camboriú, Balneário Piçarras e Ilhota.

Contaminação chegou a águas subterrâneas

Uma das análises, em especial, chamou atenção da pesquisadora Sonia Hess. Em Coronel Freitas, no Oeste, a contaminação atingiu água que é retirada de manancial subterrâneo – o que alerta para as diferentes maneiras como defensivos usados na agricultura chegam à água.

Além de serem levados diretamente aos rios com a água da chuva, os agrotóxicos podem atingir a água pela pulverização aérea, ou serem absorvidos pelo solo e contaminarem o lençol freático. O manejo correto do solo, com a manutenção de cobertura na superfície, é uma das formas de ajudar a evitar esse tipo de contaminação.

Balneário Camboriú, por exemplo, tem apenas plantação de arroz nas proximidades da captação de água. Mas a análise apresentou uma substância que é proibida no cultivo das arrozeiras, o que levanta a hipótese de uma aplicação equivocada.

A Secretaria de Estado de Agricultura e Pesca não quis comentar se a presença de agrotóxicos na água é uma preocupação, ou sobre o que está sendo feito para prevenir que ela ocorra.

A assessoria de comunicação da Secretaria informou que o órgão se manifestará após ter acesso formal à análise encomendada pelo MPSC.

Pesticidas são questão delicada no Brasil

As questões que envolvem os agrotóxicos enfrentam o dilema entre os ganhos comprovados dos pesticidas na produtividade e na rentabilidade das lavouras, e as consequências que essas substâncias podem trazer à saúde. No Brasil, terceiro maior exportador mundial de alimentos, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), o assunto ganha contornos ainda mais delicados.

Especialistas afirmam que há segurança no uso dos defensivos, se forem seguidas as regras de aplicação. Por outro lado, países europeus baniram uma série de produtos de suas lavouras – e do que importam – com base em estudos que demonstram haver relação entre algumas substâncias e casos de câncer, depressão, autismo e infertilidade.

Esta semana, um júri em San Francisco, nos EUA, decidiu que o agrotóxico glifosato, amplamente usado no Brasil, foi um fator importante no desenvolvimento de câncer em um homem, que acionou o fabricante na Justiça. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) manifestou-se por manter a liberação do produto no Brasil, por entender não haver comprovação científica de danos à saúde.

O glifosato, a propósito, não apareceu nas análises de água em Santa Catarina. Mas a pesquisadora Sonia Hess chamou atenção para o fato de a legislação brasileira estabelecer dosagens muito altas do produto como aceitáveis. Ela sugere novas análises, com parâmetros mais restritivos, para avaliar com precisão a presença do produto.

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Plantação orgânica (Foto: Felipe Carneiro)

MPSC quer estender análises

A promotora de Justiça Greicia Malheiros da Rosa Souza, responsável pelo Centro de Apoio Operacional do Consumidor, que solicitou as análises, diz que o laudo merece atenção. O MPSC já atua, no Estado, com o monitoramento de alimentos, que trazem um panorama da presença de defensivos na mesa dos catarinenses. Hoje, 70% das amostras de frutas, legumes e verduras analisadas têm resquícios de agrotóxicos, e 20% delas apresentam produtos proibidos ou que estão acima do limite permitido.

– A água é problema ainda maior do que os alimentos, porque não podemos parar o abastecimento. Por isso, precisamos trabalhar na prevenção – afirma.

A promotora chegou a enviar os dados ao Ministério da Saúde, no fim do ano passado, para que fossem analisados. Mas não obteve resposta. Foi quando recorreu à pesquisadora catarinense Sonia Hess.

O objetivo do MPSC, agora, é estender o monitoramento para todas as cidades do Estado. A promotora pretende encaminhar o levantamento para as promotorias dos municípios que apresentaram problemas, para que se reúnam com outros órgãos e identifiquem por que a água tem chegado contaminada ao consumidor.

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Arte DC (Foto: Arte DC)


Esta reportagem foi originalmente publicada pelo site de notícias NSC Total [Aqui!]

A guerra dos robôs bolsonaristas contra a previdência social

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Enquanto manifestações (umas grandes e outras nem tanto) aconteciam pelo Brasil para protestar contra a reforma da previdência proposta pelo governo ultraneoliberal de Jair Bolsonaro, uma verdadeira guerra acontecia nas redes sociais entre os apoiadores e adversários do pacote previdenciário.

O que muitos dos oponentes não sabiam é que estavam tomando parte de uma luta internacional contra um exército de robôs que foram contratados provavelmente por aqueles que têm mais a ganhar com a quebra do modelo de previdência pública e solidária que existe no Brasil para que seja implantada um que será sustentado por contribuições independentes e não solidárias, seguindo o modelo imposto no Chile pela ditadura militar de Augusto Pinochet.

Evidências da participação dessa armada internacional de robôs na defesa do modelo de previdência de capitalização (que só capitaliza realmente as instituições financeiras que vendem pacotes dessa modalidade de especulação financeira) foram divulgadas na rede social Twitter na página dos “Jornalistas Livres” que identificaram países como Bielorússia, Vietnã e Israel como os locais de onde a defesa da chamada “novaprevidência” aparecia no topo dos assuntos mais abordados, os famosos “trending topics” (ver imagem abaixo).

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Interessante seria verificar se esses países também sediaram as armadas de robôs que disseminaram tópicos como “kit gay” e “mamadeira de piroca” que tiveram grande impacto nas escolhas feitas pelo eleitorado em 2018.

É bem provável que os países que hoje se notabilizaram por sediar as armadas de robôs pró-reforma da previdência tenham sido também palco das “fake news” que turbinaram os votos em Jair Bolsonaro.

O importante aqui é notar que com a criação da internet e dos espaços que possibilitam a atuação desses robôs cibernéticos, não há país ou assunto que estejam imunes à modalidade de guerra híbrida em que nada realmente é o que parece ser. Muito menos apoios misteriosos a um pacote de reformas que destruirá a solidariedade intergeracional entre os brasileiros, apenas para aumentar ainda mais os lucros já estratosféricos que os bancos auferem às custas do suor e do sacrifício dos trabalhadores brasileiros.

O Olavo do mercado

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Por Luís Felipe Miguel*

Nas eleições do ano passado, diante da inviabilidade eleitoral de seus candidatos, os grupos dominantes do Brasil se viram frente a uma encruzilhada. Podiam reabrir um caminho de negociações com o PT, que lançara um candidato presidencial mais do que palatável, Fernando Haddad, e assinalava com clareza sua disposição para pactuar um lulismo 2.0, adequado às condições adversas do pós-golpe de 2016. Esse caminho implicava restabelecer algum grau de vigência da Carta de 1988 e alguma moderação no frenesi pela destrutiva de direitos e de políticas de proteção social. A outra opção era apoiar um candidato destemperado e despreparado, notabilizado por seu discurso histriônico de apologia à violência e com notórias ligações suspeitas com grupos criminosos. A burguesia, as elites políticas tradicionais, a imprensa e as classes médias não titubearam e escolheram a segunda opção.

Com Bolsonaro na presidência batendo o recorde mundial de vexames por minuto, muitos desses setores estão preferindo guardar distância de seu eleito. Da goiabeira ao golden shower, passando por Queiroz e pelos laranjais, são muitos os motivos para evitar associação com o novo governo, que agora apanha até em editoriais do Estadão. Mesmo o ex-juiz Sérgio Moro, o herói da cruzada para salvar o Brasil do petismo, desmoralizou-se rapidamente. Sobra apenas um pilar do bolsonarismo no poder, o tsar da economia, Paulo Guedes, avalista do apoio do capital ao ex-capitão, até então visto com desconfiança, como um estatista autoritário – o problema, claro, residia no “estatista”, não no “autoritário”.

A cobertura da imprensa é significativa. Guedes é tratado como alguém que sabe o que faz e um dos problemas centrais de Bolsonaro seria não priorizar, na presidência, a defesa das “reformas” prometidas por seu ministro. Mas a competência e a sensatez de Paulo Guedes podem entrar na conta das fake news.

“Paulo Guedes é o arauto de uma forma de fundamentalismo de mercado que bem pode ser descrita como uma espécie de terraplanismo econômico.”

 

Não se trata só da ignorância absoluta sobre a gestão do ministério, ilustrada pelo episódio da célebre conversa com o então presidente do Senado, Eunício Oliveira, em que Guedes desdenhou a aprovação do orçamento da União dizendo “o orçamento eu faço depois”, ou pela exoneração sumária de todos os funcionários com cargo de confiança que haviam trabalhado nos governos petistas, paralisando as atividades por longo período – não era possível nomear outros para seus lugares, porque até os funcionários que sabiam como fazer as nomeações tinham sido afastados… Nem é apenas a incapacidade de discutir e negociar, com grupos sociais ou com o parlamento, adotando sempre um tom de ameaça.

Mais do que isso, Paulo Guedes é o arauto de uma forma de fundamentalismo de mercado que bem pode ser descrita como uma espécie de terraplanismo econômico. Todas as evidências mostram que a brutal desregulamentação que ele advoga não leva ao crescimento, mas somente à concentração da riqueza e à pauperização da população. A privatização ensandecida de Guedes e de seu assessor Salim Mattar não equilibrará as contas públicas e privará o Estado brasileiro de receitas e de instrumentos de ação. Sua fúria contra o funcionalismo público, que o leva a aventar o fechamento de instituições como o IBGE, só pode ser classificada de irracional: não é possível imaginar um Estado moderno, mesmo mínimo, que se prive dos instrumentos básicos de aferição da situação da sociedade que ele quer comandar.

Guedes gosta de reciclar o velho dito de que a esquerda tem coração e a direita tem cérebro, mas parece que a ele faltam ambos. Ele é imune ao raciocínio lógico, ao aprendizado com a experiência histórica e à realidade factual. A reforma da Previdência, prioridade máxima dele e do capital hoje, serve de exemplo. O modelo pinochetista, que ele deseja implantar no Brasil, é um perfeito caso de fracasso – exceto para os especuladores que roubaram a poupança da classe trabalhadora. Mesmo com ajustes que foram feitos para minorar a situação (com intervenção, vejam só, do Estado!), os aposentados recebem em média menos da metade do que lhes havia sido prometido. Mais de 90% deles ganham cerca de metade do salário mínimo. Os jornais noticiam uma onda de suicídios de idosos, o que talvez seja mesmo a solução ideal para Guedes.

“Guedes gosta de reciclar o velho dito de que a esquerda tem coração e a direita tem cérebro, mas parece que a ele faltam ambos.”

A insensibilidade das nossas elites para com a situação da classe trabalhadora é notável e se manifesta com especial virulência no debate sobre a previdência. Guedes não tem o monopólio dela. Rodrigo Maia, por exemplo, interveio para dizer que “todo mundo consegue trabalhar até os 80 anos” (como a expectativa de vida está em 75 anos, percebe-se que muitos vão ter que procurar emprego na condição de almas penadas). Mas essa cegueira de classe, ainda que comum, é indesculpável naqueles que deveriam governar a totalidade dos brasileiros. Para Maia, como para Guedes, aposentadoria é o que se dá à mão de obra tornada inservível e o aposentado não conta como um ser humano que ainda tem uma vida a viver. Para o trabalhador e a trabalhadora, ao contrário, a aposentadoria é a ansiada alforria. O momento em que eles podem alcançar um pouco da liberdade existencial de que os burgueses desfrutam. Para isso, é preciso que tenham duas coisas: alguma tranquilidade material e suficiente saúde.

Essa perspectiva é silenciada sistematicamente no debate brasileiro sobre a reforma da Previdência. Um debate limitado, enviesado, com dogmas que, justamente por serem tão frágeis, não podem sofrer questionamentos. Esses dogmas incluem o enquadramento da questão exclusivamente sob o ângulo contábil e a “bomba relógio” do “indiscutível” desequilíbrio estrutural. Outro dogma é a ideia de que trabalhador existe para trabalhar, isto é, para gerar mais-valor, enquanto tiver um sopro de energia no corpo.

Guedes é, hoje, o repetidor-mor desse discurso dogmático. Seu papel é enunciar certezas e impedir o debate sobre elas. A mídia gosta de diferenciar os olavetes e fanáticos religiosos, que formariam a “ala psiquiátrica” do governo, de seu homem no Ministério da Economia. Mas Paulo Guedes não é tão diferente do guru de Richmond, em seu apego a teorias sem fundamento e em sua arrogância e truculência na discussão pública. Faltam o charuto, o licor de laranja e o tapete com a pele do pobre urso bebê, mas, a seu modo, ele é o Olavo do mercado.

*Luis Felipe Miguel é professor de Ciência Política da UNB, e autor de Democracia e resistência: desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018) e, em conjunto com Flávia Biroli, Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014), entre outros. Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.


Este artigo foi originalmente publicado pelo blog da Boitempo [Aqui!]

Brasileiros não sabem quais agrotóxicos estão na água que consomem

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Estudos científicos apontam para crescente contaminação da água usada para consumo humano por resíduos de agrotóxicos.

Por Nadine Nascimento para o jornal Brasil de Fato

A produção agrícola responde por nada menos do que 70% do consumo mundial de água. Mas, ao mesmo tempo que depende desse recurso vital, a atividade também contribui para sua degradação. A poluição hídrica causada por práticas agrícolas insustentáveis, marcadas pelo abuso de​ agrotóxicos que escoam para rios, lagos e reservas subterrâneas, é um problema crescente em todo o mundo.

O Brasil, uma potência em agricultura industrial, é um dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo. Só em 2017, cerca de 540 mil toneladas de ingredientes ativos desses produtos foram consumidas.

Hoje (22) é Dia Mundial da Água. Água potável segura é um direito humano, o que inclui o direito de as pessoas saberem o que tem na água que estão bebendo. A legislação brasileira define que os fornecedores de água – sejam eles empresas estatais, privadas ou governos municipais – são responsáveis por testar 27 agrotóxicos específicos, a cada seis meses, nos sistemas que gerenciam e devem relatar esses resultados ao governo federal.

Para a professora da Faculdade de Tecnologia da Unicamp, Gisela de Aragão Umbuzeiro, “a quantidade de agrotóxicos que hoje consta nesta portaria é pequena e não é representativa dos agrotóxicos que estão sendo usados no Brasil e poderiam causar algum efeito adverso”, levando em conta que o número de ingredientes ativos registrados no Brasil, 306, é 11 vezes maior do que os 27 analisados na água para consumo.

Outro ponto importante é a periodicidade dessas análises que ocorrem semestralmente, “elas são feitas muitas vezes fora ou distante da época do uso do agrotóxico na cultura, isso pode contribuir para que os resultados encontrados não correspondam à real situação da presença de agrotóxico na água”, acredita a médica sanitarista Telma Nery.

atrazina está banida da União Europeia desde 2004, mas aqui é o sexto pesticida mais comercializado com quase 29 mil toneladas, apenas em 2017. Ela também é o contaminador mais comumente encontrado na água. “A atrazina tem um importante efeito no sistema hormonal do ser humano, como também nos sistemas endócrino, reprodutor e neurológico. Quando em uma exposição crônica, ela pode trazer efeitos [negativos] nesses sistemas”, diz Nery.

Resistência

Um desafio complexo como a poluição hídrica pela agricultura requer múltiplas respostas. Segundo a FAO, organização ligada a Nações Unidas, em sua publicação “Mais pessoas, mais alimentos, água pior?”, a maneira mais eficaz de reduzir a pressão sobre ecossistemas aquáticos é atenuar a poluição na fonte.

São apontadas políticas de instrumentos regulatórios tradicionais, como padrões de qualidade da água, licenças de descarga de poluição, avaliações de impacto ambiental para certas atividades agrícolas e limites à comercialização e venda de produtos perigosos, entre outras intervenções.

“As grandes corporações são as que mais consomem água. Todo mundo sabe que quase 70% de toda a água disponível é usada para o agronegócio, e a contrapartida do ponto de vista de geração de emprego, de garantia de alimentos saudáveis é inversamente proporcional”, comenta Edson Aparecido da Silva, secretário executivo do Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS) e assessor de Saneamento da Fundação Nacional dos Urbanitários (FNU).

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Uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos potencializa contaminação de corpos aquáticos e do lençol freatico.

Silva esteve presente no Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), criado em 2018, que reuniu organizações e movimentos sociais que lutam mundialmente em defesa da água como direito elementar à vida. Este Fórum se contrapõe ao autodenominado Fórum Mundial da Água (FMA), um encontro promovido pelos grandes grupos econômicos que defendem a privatização das fontes naturais e dos serviços públicos de água. Entre as corporações interessadas na apropriação desse recurso e que patrocinaram o evento, estavam Ambev, Nestlé e Coca-Cola.

“Esse modelo de desenvolvimento da lógica do capital se sobrepõe a lógica da garantia dos direitos humanos e da preservação dos bens comuns. As articulações dos movimentos populares dos atingidos por grandes empreendimentos, como o caso do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), ou da luta do Movimentos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que garantem uma produção sustentável sem agrotóxico e que dá condições dignas de vida para a população do campo, têm que ser cada vez mais fortalecidos”, afirmou Aparecido da Silva.


Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!]

Amazônia perdeu ‘1 Equador’ em florestas apenas neste século

MapBiomas produz mapeamento inédito das mudanças de cobertura vegetal nos nove países do bioma e vê redução de 29,5 milhões de hectares entre 2000 e 2017

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Mapa da Pan Amazônia feito pelo MapBiomas

A Amazônia perdeu 29,5 milhões de hectares de floresta neste século, o equivalente ao território do Equador. Os dados são de uma nova ferramenta de mapeamento, lançada nesta quinta-feira (21) em Lima, que permite monitorar mudanças de uso do solo nos nove países que abrigam o bioma e acompanhar as pressões sobre suas florestas.

Batizada MapBiomas Amazônia, a plataforma é resultado de uma parceria entre a rede MapBiomas, da qual o OC faz parte, e a Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG), que busca contribuir para o conhecimento e análises da região amazônica de forma integral.

O produto inaugural do MapBiomas Amazônia é a Primeira Coleção de Mapas Anuais de Cobertura e Uso do Solo da Pan-Amazônia (2000-2017), um território de mais de 7 milhões de quilômetros quadrados que abrange Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Foram feitos mapas anuais de toda a região, elaborados pelas equipes técnicas de cada país.

O mapeamento inédito incorpora toda a bacia e floresta amazônica, desde os Andes passando pela planície amazônica chegando até as transições com Cerrado e Pantanal. Os resultados obtidos indicam que, apesar da perda, a região ainda conserva 85% de suas florestas. Nesse mesmo período houve um acréscimo de 41% da área de agropecuária.

Beto Ricardo, coordenador da RAISG, afirma que este é um passo importante para o objetivo de “construir e promover uma visão integral da Amazônia, considerando aspectos políticos de uma região compartilhada entre nove países, bem como aspectos socioambientais de grande significado: a presença de cerca de 400 povos indígenas, bacias hidrográficas compartilhadas, conectividade entre unidades de conservação, e processos de alteração de uso do solo -desmatamento-, entre outras pressões e ameaças que pairam sobre a maior floresta tropical do planeta”.

Para Tasso Azevedo, coordenadot técnico do Observatório so Clima e coordenador geral do MapBiomas, o lançamento da Coleção 1 do MapBiomas Amazônia é um passo importante para garantir o mapeamento de toda a América do Sul com um grau de detalhe espacial e temporal sem precedentes para outros continentes.

“Com o lançamento da Coleção 3 do MapBiomas Brasil, a Coleção 1 do MapBiomas Amazônia e a primeira coleção de MapBiomas Chaco, que será apresentada nos próximos meses, vamos cobrir quase 90% do território da América do Sul. Esta base de dados é inestimável para a compreensão da dinâmica de uso dos recursos naturais na região além de contribuir para a modelagem climática e o cálculo de emissões e remoções de gases de efeito estufa por mudança e uso solo na região”.

As informações contidas na ferramenta de mapeamento são compatíveis e padronizadas para todos os países da região e revelam o estado da cobertura da vegetação, bem como as tendências em uma unidade territorial qualquer. Também identifica mudanças no uso do solo em um determinado período (um ano, cinco anos, etc.) entre 2000 e 2017. Por exemplo, você pode identificar as áreas onde houve mudanças significativas, como a substituição floresta para agricultura ou pastagem.

É uma novidade ter esta informação para a região Pan-Amazônica com uma resolução espacial de 30 metros, com o detalhe e precisão de análise que permite a ferramenta desenvolvida pela MapBiomas Amazonia. Da mesma forma, alguns dos países amazônicos têm esse tipo de informação e análise pela primeira vez.

Todo o processamento de dados é feito usando algoritmos de classificação automática através da computação em nuvem na plataforma do Google Earth Engine.

A plataforma de acesso público é interativa e permite obter figuras e gráficos. O público em geral pode visualizar mapas da região amazônica, países, áreas protegidas e territórios indígenas. Para cada país é possível visualizar as informações em diferentes unidades territoriais: estado, municípios, bem como para áreas protegidas e territórios indígenas.

Para a elaboração dos mapas, o trabalho é feito em rede pela RAISG, aproveitando a expertise das organizações membros em seus respectivos países. Desta forma, o conhecimento existente a nível local permitiu melhorar a ferramenta e refinar a interpretação dos dados. A informação de cada um dos países é compatível com a do resto dos países, permitindo uma visão abrangente da região amazônica. Da mesma forma, o método utilizado permitiu padronizar os biomas incluídos na análise: os nove países amazônicos compartilham o bioma Amazônico, enquanto Peru, Equador e Bolívia compartilham o bioma dos Andes.

Inicialmente, a ferramenta de mapeamento do uso do solo foi desenvolvido pelo MapBiomas para ser aplicado no Brasil, e deverá ser melhorada com a entrada de organizações membros da RAISG para ajustar os resultados e análises da geografia de cada país amazonense. Em particular, foi necessário levar em conta as variações altitudinais típicas da Amazônia andina. Atualmente, a ferramenta de mapeamento inclui 13 classes, seis biomas – Amazônia, Cerrado, Pantanal, Andes, Chaco-Chiquitano e Tucumano Boliviano, variando de geleiras andinas para as formações florestais tropicais da planície amazônica. Aperfeiçoar a ferramenta exigiu um trabalho intenso, que se concretizou em apenas um ano e meio depois de estabelecer o consórcio RAISG – MapBiomas.

SOBRE RAISG

A RAISG é a Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada, um consórcio de organizações da sociedade civil dos países amazônicos voltada para a sustentabilidade socioambiental da Amazônia, com o apoio da cooperação internacional. A RAISG gera e dissemina conhecimento, dados estatísticos e informações socioambientais geoespaciais da Amazônia, elaborados com protocolos comuns para todos os países da região. Os produtos da RAISG permitem visualizar a Amazônia como um todo, bem como as ameaças e pressões que pairam sobre ela.

https://www.amazoniasocioambiental.org/es/

SOBRE MAPBIOMAS

O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional que reúne universidades, ONGs e empresas de tecnologia que se uniram para contribuir para o entendimento das transformações do território brasileiro a partir do mapeamento anual da cobertura e uso da terra de todo o país. Em agosto de 2018, a Coleção 3 do MapBiomas foi publicada com mapas de cobertura e uso da terra no Brasil de 1985 a 2017.

http://mapbiomas.org/

Para conhecer os parceiros que compõem o MapBiomas Amazonia, veja a seção Quem somos: http://amazonia.mapbiomas.org

Para mais informações, entre em contato:

PERU: María Rosa Montes: mrmontes@ibcperu.org Celular. +51 992780172


Este artigo foi publicado originalmente no site do Observatório do Clima [Aqui!]