Repressão parcial e tardia ao garimpo ilegal no Rio Madeira é o retrato mais fiel do governo Bolsonaro

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Força tarefa conjunta está queimando balsas e dragas usadas no garimpo ilegal de ouro no Rio Madeira

Ao longo da semana passada o Brasil e o mundo assistiram à formação de uma monumental formação de de dragas e balsas que reviravam o leito do Rio Madeira (um dos mais importantes tributários do Rio Amazonas) em busca de ouro, usando técnicas totalmente nocivas ao ambiente e à saúde humana. A mídia corporativa brasileira, mais uma vez, foi superada na cobertura desse episódio pelas redes sociais e por veículos da mídia internacional (especialmente o jornal inglês “The Guardian”). Se não fosse por essa ampla cobertura dos fatos que ocorriam no Madeira é bem provável que a “fofoca” formada por centenas de garimpeiros ainda estivesse lá usando técnicas rudimentais e altamente poluentes (ver vídeo abaixo).

Mas depois que a “fofoca” se tornou conhecida mundialmente, o governo federal (cujo presidente é abertamente pró-garimpeiros) está realizando uma tardia e parcial repressão aos garimpeiros ilegais, e as informações já circulando dão conta que ao menos 30 dragas e 69 balsas já foram destruídas por uma combinação de forças da Polícia Federal e do Ibama (ver vídeo abaixo).

A repressão tardia e parcial é uma marca registrada de diferentes administrações federais, mas ganhou marcas mais explícitas no governo Bolsonaro, na medida em que seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão, que vem a ser o coordenador do chamado Conselho da Amazônia Legal, ficou claramente postergando o início do processo repressivo, permitindo a fuga da maioria dos garimpeiros que agiam ao arrepio da lei no interior do Rio Madeira.

É importante que fique clara que a ação dos garimpeiros de ouro não é fruto apenas de um grupo de trabalhadores pobres que decidem partir para ações ilegais em busca de sustento financeiro para si e para suas famílias. A garimpagem ilegal de ouro na Amazônia é parte de uma ampla indústria clandestina que é capaz de movimentar maquinários, toneladas de mercúrio (um metal pesado que causa graves danos ambientais e à saúde humana). Essa indústria é controlada pelos mesmos atores que se beneficiam do desmatamento ilegal em terras públicas e que movimentam grandes volumes de recursos financeiros, sendo ainda um elo clandestino entre a exploração insustentável da Amazônia e grandes agentes da economia globalizada.

Por isso, não há como cair no conto da pirita (o ouro dos tolos) de que a repressão parcial e tardia que se faz momentaneamente vá dar conta do grave problema que o garimpo ilegal representa para a Amazônia.

Carga perigosa: o degelo de solos permafrost na região do Himalaia intensifica os processos de erosão

himalaiaÁgua derretida e remanescentes da geleira Gangjiaquba aterrissam no Yangtze. Foto: Yinjun Zhou

Por Thomas Berger para o Neues Deutschland 

O sistema duplo de rios do Ganges e Brahmaputra, que serpenteia pelo Nepal e norte da Índia até Bangladesh, o poderoso Mekong com seus inúmeros países que fazem fronteira com a China no sudeste da Ásia ao sul do Vietnã, dentro da China o rio Amarelo (Huang He) e o Yangtze e o Tarim é o maior rio da Ásia Central, mais o Indo, no oeste – há vários cursos de água poderosos que se originam do extenso Himalaia. Por centenas, até milhares de anos, as pessoas se adaptaram à quantidade de água que esses rios transportam, muitas vezes com estações diferentes. Mas não se trata apenas de água pura: sedimentos dos mais variados tipos também seguem seu caminho – alguns deles apenas do tamanho de partículas de poeira (a chamada carga suspensa) até pequenos seixos, outros podem ser descritos como escombros. Às vezes, eles cobrem vários milhares de quilômetros: a Baía de Bengala, para a qual fluem os deltas do Ganges e do Brahmaputra, é considerada o maior depósito de sedimentos do mundo. Este material tem como ponto de partida o “teto do mundo”. E embora a carga original nas terras altas do Tibete seja relativamente idêntica em tamanho de grão,

Um estudo que foi publicado na revista científica “Science” (DOI: 10.1126 / science.abi9649) tem como alvo o aumento notável do escoamento de sedimentos. Estes já estão aumentando consideravelmente na meta de 1,5 grau, que também está sendo definida como o nível mais alto na conferência climática mundial COP-26 que ocorreu em Glasgow, Escócia. Pode ser ainda mais perigoso se o aumento da temperatura no final do século estiver próximo de 3 graus. Os cientistas da Universidade Nacional de Cingapura, da Universidade de Colorado Boulder, da Universidade de Potsdam e do Instituto de Pesquisa Científica do Rio Changjiang estão soando o alarme com as descobertas coletadas.  

Atualmente, de acordo com os dados do estudo, são transportados cerca de 1,94 gigatoneladas de sedimentos por ano para jusante. A faixa de flutuação relativamente alta deste valor (± 0,8 gigatoneladas) ilustra como é difícil resumir o fenômeno em números razoavelmente sólidos. No entanto, a tendência ameaçadora é clara: no cenário de 3 graus, as previsões chegam a um aumento para 5,18 gigatoneladas por ano, ou seja, mais de duas vezes e meia. Mesmo os leigos podem entender que isso não pode ficar sem consequências graves.

Descongelamentos mais frequentes devido às mudanças climáticas causa o aumento de distúrbios no solo permafrost e aumento da erosão. Resultado: as massas de água lavam cada vez mais sedimentos das regiões montanhosas. Depois de avaliar os dados dos últimos 60 anos, a equipe chegou à conclusão de que um aquecimento de 1 grau Celsius resulta em um escoamento de sedimentos 32 % maior (± 10%). Por outro lado, porém, quanto mais intacta a cobertura glaciar de uma área de origem, menor será sua suscetibilidade aos processos de erosão. Além disso, não é de forma alguma apenas material inofensivo que está cada vez mais sendo lavado da área central das altas montanhas: Fósforo e metais pesados ​​como cromo, arsênico ou chumbo podem colocar em risco a qualidade da água mais a jusante – um risco para humanos, bem como a agricultura e os ecossistemas aquáticos, é avisado.

Embora dependa da composição específica, em outros casos, o principal problema é  o aumento da massa dos sedimentos. Eles são depositados em reservatórios, por exemplo, reduzindo sua capacidade de armazenamento. Como o fundo devido aos depósitos sobe muito mais rápido do que o normal e planejado durante a construção, a quantidade de água armazenada diminui ao contrário. “O potencial hidrelétrico no Nepal e no Butão atualmente excede seu consumo de eletricidade”, diz o estudo – que pode mudar rapidamente com os depósitos. Isso já pode ser observado com mais clareza do que no sul do Himalaia, no rio Yangtze, a região mais importante da China para o uso de energia hidrelétrica. »O aumento do escoamento de sedimentos terá um efeito negativo nos projetos hidrelétricos existentes e planejados,

Até agora pouco explorado e, portanto, um tópico importante para pesquisas futuras, é o aumento da liberação de carbono orgânico dos solos permafrost nas altas montanhas. Supondo uma parcela de um a três por cento carregada na água, essa quantidade de material poderia somar 50 a 150 megatons por ano em 2050 abaixo do aquecimento máximo observado. E com a deposição de cada vez mais sedimentos nos vales dos rios, havia a ameaça de mais quebra de margens e, mais a jusante, inundações muito mais incalculáveis, segundo outro sinal de alarme.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Fundação Amazônia Sustentável repudia garimpo no Rio Madeira

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A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é contra quaisquer ações ilegais e que promovam degradação ambiental, má gestão dos recursos naturais ou impactos sociais negativos. As atividades de garimpo ocorridas no Rio Madeira, que se intensificaram após a chegada de balsas e dragas para extração de ouro, geram danos à saúde e ameaçam os territórios e modos de vida das populações ribeirinhas e indígenas. Além disso, são criminosas e devem ser devidamente combatidas pelo governo federal.

É notório que toda atividade extrativista gera impactos potencialmente negativos. Mais de 10 milhões de pessoas vivem e dependem diretamente da floresta e, por vezes, também são cooptadas a trabalhar em atividades ilegais por falta de alternativas viáveis. A FAS, portanto, defende que é preciso investir em ciência e tecnologia para avaliar objetivamente a aplicação de alternativas econômicas de desenvolvimento sustentável. É necessário oferecer incentivos positivos para que as populações amazônicas prosperem dignamente, mantendo a floresta em pé e os rios limpos.

Até 2021, a FAS investiu R$ 500 milhões em ações voltadas para projetos relacionados à bioeconomia, empreendedorismo, inclusão social, educação relevante, monitoramento ambiental e outros temas alinhados com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Como resultado, o desmatamento nas áreas atendidas pela FAS apresentou queda de 53% durante o período de 2009 a 2020, ao mesmo tempo em que a renda média familiar ribeirinha aumentou em 202% (2008-2019).

Balsas de garimpo ilegal se deslocam em retirada no rio Madeira

Anúncio de operação liderada pela Polícia Federal, Exército e Força Nacional alerta e dispersa balsas garimpeiras na região de Autazes (AM)

balsas madeira 1Balsas de garimpo ilegal se dispersando no rio Madeira, no Amazonas

São Paulo, 26 de novembro de 2021 – Na última terça-feira, um sobrevoo do Greenpeace Brasil flagrou centenas de balsas de garimpo ilegal alocadas no rio Madeira, em Autazes (AM). Após intensa repercussão, o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, anunciaram a preparação de uma ação contra a atividade dentro dos próximos dias, envolvendo a Polícia Federal, o Exército e a Força Nacional. Imagens captadas durante novo sobrevoo realizado pelo Greenpeace Brasil nesta sexta-feira (26) mostram que ao menos metade da flotilha se dividiu em pequenos grupos entre os municípios de Autazes e Borba. A dispersão tem o claro objetivo de dificultar a operação do governo que, todavia, ainda não foi iniciada.

Veja aqui as imagens capturadas no sobrevoo em 26/11/2021.

O anúncio da operação por parte do governo aconteceu sem que houvesse uma ação organizada, dando aos infratores tempo suficiente para evitar o flagrante do evidente crime ambiental. A fuga desfez as flotilhas de balsas que estavam alojadas a cerca de duas semanas no trecho do rio Madeira localizado a 110 quilômetros de Manaus.

Ao que tudo indica, as balsas deverão seguir seu destino sem serem incomodadas pelas autoridades e continuarão a degradar um dos rios mais importantes da bacia amazônica, tal como vinham fazendo há pelo menos duas semanas”, declara Danicley Aguiar, porta-voz da campanha Amazônia do Greenpeace.

O crescente aumento do garimpo na região amazônica escancara ainda mais a urgência do fortalecimento de ações de fiscalização e de inteligência, ambas necessárias para que a rede de financiamento dessa atividade predatória tenha um fim.

Resta agora saber se o governo Bolsonaro irá replanejar sua operação de modo a flagrar as balsas em seu destino final, ou se suspenderá a execução prometida. “Se deixar o dito pelo não dito, Bolsonaro mais uma vez enviará ao mundo a mensagem de que a ‘economia da destruição’ seguirá no centro de sua estratégia de desenvolvimento, aprofundando o isolamento do Brasil na comunidade internacional”, finaliza Danicley.

Pós-Graduação brasileira sob ataque: parlamentares e entidades divulgam carta aberta em defesa da avaliação da qualidade da pós-graduação da Capes

“Os signatários e signatárias desta carta vêm expressar a defesa das condições necessárias à continuidade qualificada da oferta da pós-graduação no Brasil, ao tempo em que se coloca em consonância com esforços para sua consolidação”, afirmam em documento

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Em carta aberta divulgada nesta sexta-feira (26), parlamentares, na sua maioria da Comissão de Educação, e entidades acadêmicas e científicas, entre elas a SBPC, se manifestam em defesa da avaliação da qualidade da pós-graduação pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Essa manifestação acontece após audiência pública e reunião com a presidente da Capes. Para subscrever a carta, seja como associação ou como pesquisador/a, acesse o formulário de adesão em https://forms.gle/UQGa2Hf98zFc6hGY9

Veja o documento abaixo:

CARTA ABERTA EM DEFESA DA AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DA PÓS-GRADUAÇÃO PELA COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR (CAPES)

A comunidade científica brasileira acompanha atônita a situação na qual se encontram as políticas de educação, ciência e tecnologia. Não bastasse o cumulativo processo de desfinanciamento com redução de recursos de toda ordem, notadamente o fomento à pesquisa científica, chega-se em tempos recentes ao desmonte do conjunto de políticas, instâncias e agências que mobilizam e executam a própria política pública nacional, como no caso do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)

A política de indução da pós-graduação historicamente tem amparado o financiamento e, portanto, a sua existência nos processos avaliativos internacionalmente reconhecidos, operados pela Capes. Ao longo dos últimos 70 anos, a avaliação realizada pela Capes impulsionou os cursos de pós-graduação do país aos elevados patamares atuais, representando uma forte Política de Estado comprometida com a consolidação de bases institucionais adequadas para a formação de pesquisadores e pesquisadoras no Brasil. Recentemente, essa política vinha inclusive enfrentando fortes desigualdades regionais historicamente presentes em diferentes áreas do conhecimento, fortalecendo o direito mais equânime ao acesso ao ensino pós-graduado de qualidade de maneira republicana.

A ação indutora da Capes por meio da avaliação permite manter credenciados aqueles cursos que atingem os altos critérios de qualidade definidos a partir de um mecanismo que incorpora grande parcela da comunidade científica em dinâmica/metodologia que inclui consulta, elaboração e constante alimentação dos processos e instrumentos pelos sujeitos que vivenciam a formação de mestres e doutores nas diferentes áreas existentes.

Neste ano de 2021, em que a Capes realiza essa avaliação, questões externas e resultantes de contextos políticos e históricos anteriores acabaram por subsidiar ações do Ministério Público Federal e da Justiça Federal que vieram a judicializar a avaliação, sem antes ouvir as partes mais sensíveis ao processo de avaliação, em especial aqueles que compõem os Programas de Pós-graduação no país. Uma estranha situação, já que essas ações pretendem defender os direitos desses mesmos Programas.

A avaliação da pós-graduação pela Capes se veste de importância singular para os PPG na medida em que a avaliação por pares, realizada pelos pareceristas Ad Hoc e os Conselho Técnico Científico (CTC), resulta num relatório externo e complementar à autoavaliação realizada no âmbito de cada PPG, em suas instituições. Com isso, os PPG redefinem seus planejamentos estratégicos e promovem as melhorias que são necessárias para atender ainda mais às demandas da sociedade por formação pós-graduada. Assim, os PPG estão à espera da divulgação dos resultados da avaliação para tomarem decisões internas de extrema relevância.

Obstar abruptamente a avaliação da pós-graduação neste ponto do processo não serve para seu aprimoramento, afetando especialmente os PPG menos consolidados e apoiados. A ciência de ponta no Brasil se faz em instituições sérias e comprometidas, onde estão os pesquisadores e pesquisadoras de grande dedicação à atividade acadêmica e científica, respeitados em suas áreas. A Capes, neste momento, está sendo impedida de refletir a própria qualidade da pós-graduação no Brasil e devolver aos pesquisadores e instituições o resultado da avaliação por pares. Isso não interessa à comunidade científica, muito menos aos brasileiros e brasileiras.

É salutar destacar que a Coordenação de cada Área na Capes e o CTC realizaram, durante o quadriênio de 2017-2020 e também em 2021, quando do fechamento dos relatórios finais, vários eventos de formação (seminários, webinários, palestras, reuniões) presenciais e remotas, ocasiões em que foram explicitados todos os critérios que compõem a ficha de avaliação, conforme respectivo Documento de Área. Especialmente foram realizadas na sede da Capes os chamados Seminário de Meio Termo, quando foram apresentadas as avaliações parciais, as quais cumpriram importante função de revelar a situação de cada PPG referente à primeira metade do quadriênio e, ao mesmo tempo, indicar potenciais mudanças que cada PPG precisaria proceder ao longo do restante do tempo do período de avaliação em tela (2017-2020). Nesse sentido, há que se registrar que o processo, apesar de extenuante, também foi muito formativo. Os coordenadores de PPG de todas as Áreas tiveram muitas oportunidades para conhecer o processo, tirar dúvidas relativas à concepção dos indicadores, quesitos e itens.

Os signatários e signatárias desta carta vêm expressar a defesa das condições necessárias à continuidade qualificada da oferta da pós-graduação no Brasil, ao tempo em que se coloca em consonância com esforços para sua consolidação. Além disso, defendemos a continuidade da avaliação referente ao quadriênio 2017-2020, cujos relatórios foram duramente produzidos pelos PPG e entregues à Capes, por meio da Plataforma Sucupira, nos prazos definidos em cronograma amplamente divulgado. Defendemos a necessidade de prorrogação dos mandatos dos coordenadores eleitos para condução da avaliação quadrienal de 2017-2020, pois é essencial que aqueles que estiveram à frente do processo ao longo dos quatro anos, conduzam sua conclusão. Defendemos, ainda, a definição do Plano Nacional de Pós-Graduação para 2021-2030 bem como a organização do quadriênio atual, com a construção e publicação das regras/normas para o tempo presente e não para o tempo passado.

Estamos certos de que a comunidade científica, toda a sociedade brasileira, bem como seus representantes não permitirão tamanho retrocesso à pesquisa e ciência no Brasil. Contamos com vocês. Ninguém solta a mão da Ciência! Ninguém solta a mão da Educação!

SÃO SIGNITÁRIOS DESTA CARTA

Associação Acadêmica de Propriedade Intelectual – API

Associação Brasileira da Rede Unida

Associação Brasileira de Alfabetização – Abalf

Associação Brasileira de Antropologia – ABA

Associação Brasileira de Cerâmicas – ABCeram

Associação Brasileira de Ciência política – ABCP

Associação Brasileira de Enfermagem – ABEn

Associação Brasileira de Engenharia Química – ABEQ

Associação Brasileira de Ensino de Biologia – SBEnBio

Associação Brasileira de Estatística – ABE

Associação Brasileira de Linguística – ABRALIN

Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências – ABRAPEC

Associação Brasileira de Polímeros – ABPol

Associação Brasileira de Saúde Coletiva – ABRASCO

Associação Nacional de História – ANPUH

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia – ANPEPP

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação – ANCIB

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação- ANPEd

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação Interdisciplinar em Sociais e

Humanidades – Aninter SH

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais – ANPOCS

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade – ANPPAS

Associação Nacional de Pós-Graduandas/os – ANPG

Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Comunicação – COMPOS

Deputada Federal Alice Portugal

Deputada Federal Érika Kokay

Deputada Federal Lídice da Mata

Deputada Federal Maria do Rosário

Deputada Federal Natália Bonavides

Deputada Federal Professora Dorinha Seabra

Deputada Federal Professora Rosa Neide

Deputada Federal Waldenor Pereira

Deputado Federal Alencar Santana

Deputado Federal Alexandre Padilha

Deputado Federal Célio Moura

Deputado Federal Helder Salomão

Deputado Federal Idilvan Alencar

Deputado Federal Ivan Valente

Deputado Federal Maria do Rosário

Deputado Federal Pedro Uczai

Deputado Federal Reginaldo Lopes

Deputado Federal Rogério Correia

Fórum das Instituições Públicas de Ensino Superior de Minas Gerais – FORIPES

Fórum Nacional dos Coordenadores Institucionais do PARFOR – FORPARFOR Nacional

Fórum Nacional dos Coordenadores Institucionais do PIBID e do Residência Pedagógica – FORPIBID-RP

Fórum Nacional de Pró-reitores de Pesquisa e Pós-graduação das Instituições de Ensino Superior Brasileiras – FOPROP

Instituto Cultiva

Observatório do Conhecimento

Senador Humberto Costa

Sociedade Brasileira de Automática – SBA

Sociedade Brasileira de Computação – SBC

Sociedade Brasileira de Educação Matemática – SBEM

Sociedade Brasileira de Ensino de Química SBEnQ

Sociedade Brasileira de Eletromagnetismo – SBMag

Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional – SBMAC

Sociedade Brasileira de Microeletrônica – SBMICRO

Sociedade Brasileira de Micro-ondas e Optoeletronica – SBMO

Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais – SBPMat

Sociedade Brasileira de Química – SBQ

Sociedade Brasileira de Sociologia – SBS

Sociedade Brasileira de Telecomunicações – SBrT

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC

União Nacional dos Estudantes – UNE

Veja a nota em PDF.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Jornal da Ciência da SBPC [Aqui!].

Oitenta artigos científicos de instituição indiana são identificados como potencialmente fraudulentos

Os artigos foram identificados por um comentarista anônimo na plataforma online PubPeer, onde os cientistas podem levantar questões sobre artigos de pesquisa que já foram revisados ​​por pares e publicados.

Imagem representativa |  Sede DRDO em Delhi |  Commons

Imagem representativa | Sede DRDO em Delhi | Commons

Por Mohana Basu para o “The Print”

Nova Delhi: Pelo menos 80 artigos científicos de laboratórios afiliados ou trabalhando em colaboração com a instituição indiana Organização de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa (DRDO) foram sinalizados por indivíduos não identificados por supostamente transportarem imagens alteradas ou manipuladas digitalmente, levantando questões sobre a integridade da pesquisa entre cientistas do governo.

Os artigos foram identificados na plataforma online PubPeer, onde os cientistas podem levantar questões sobre artigos de pesquisa que já foram revisados ​​por pares e publicados.

Enquanto os cientistas do DRDO confirmaram que as preocupações serão analisadas, outro cientista cujo trabalho foi sinalizado por problemas semelhantes relacionados à imagem, disse que ele e sua equipe estavam enfrentando desafios técnicos para acessar arquivos de dados brutos usados ​​no artigo, uma vez que datam de vários anos, e desde então o software usado no computador utilizado na pesquisa foi atualizado.

Embora tenha confirmado que as alegações serão investigadas assim que conseguirem acessar a imagem bruta, o referido cientista insistiu que o erro, se houver, foi mínimo e não alteraria a conclusão do artigo.

Ao longo dos anos, houve numerosos casos de avaliação por pares que não conseguiram detectar casos de má conduta de pesquisa. O incidente maisrecenteveio à tona no Centro Nacional de Ciências Biológicas de Bengaluru no ano passado, onde um artigo de pesquisa revisado por pares revelou ter imagens alteradas digitalmente, levando a uma conclusão falsa. O papel foi então recolhido.

Alegações de duplicação de imagens, alterações digitais

Nas últimas duas semanas, pelo menos 80 artigos de pesquisa, alguns datando de 2007, foram sinalizados por um comentarista anônimo “Actinopolyspora Biskrensis” no PubPeer por questões relacionadas a imagens.

O comentarista, que também atende pelo nome de ‘Cheshire’ no Twitter, tem trabalhado ativamente para sinalizar tais questões em jornais publicados em todo o mundo.

Por exemplo, um trabalho de pesquisa publicadoem abril deste ano pelo Instituto de Medicina Nuclear e Ciências Aliadas do DRDO tem três conjuntos de imagens que, de acordo com o comentador referido acima, parecemestar duplicados ou parcialmente duplicados, com uma alteração na ampliação.

Uma vez que todas as imagens pertencem a experimentos diferentes, não deve haver imagem que se repita.

As imagens duplicadas.  |  Por arranjo especial
As imagens duplicadas. | Por arranjo especial

O The Print chegou a Amit Tyagi, autor correspondente do artigo de pesquisa, por e-mail em 15 de novembro, mas não recebeu resposta até a publicação deste relatório.

Da mesma forma, em umartigo de 2015 , a imagem a seguir foi sinalizada porque parece ter seções com características idênticas e repetidas, que não deveriam aparecer em uma imagem que mostre células.

Imagem com características idênticas.  |  Por arranjo especial
Imagem com características idênticas. | Por arranjo especial

O The Print se comunicou como o autor correspondente do estudo, Gurudutta Gangenahalli, também pesquisador do Instituto de Medicina Nuclear e Ciências Aliadas, por e-mail em 16 de novembro, mas não recebeu resposta até o momento da publicação deste relatório.

Até cinco artigos em que Gangenahalli é coautor foram identificados por problemas relacionados a imagens.

Gangenahalli não é o único pesquisador, no entanto, que tem vários artigos sinalizados. Pelo menos 20 artigos em co-autoria do Dr. Shashi Bala Singh, atualmente diretor do Instituto Nacional de Educação e Pesquisa Farmacêutica (NIPER) em Hyderabad, foramsinalizados no site. The Print  entrou em contato com Singh por e-mail em 12 de novembro, mas não obteve resposta. Em 17 de novembro, ela respondeu a uma ligação do The Print para comentar e disse que voltaria, mas não o fez. Os e-mails e ligações subsequentes para ela ficaram sem resposta até o momento da publicação deste relatório.

Além disso, Cheshire apontou em um tópico do Twitter que uma imagem experimental foi reutilizada em trabalhos de pesquisa ao longo de vários anos. Isso é incomum porque cada artigo de pesquisa deve, idealmente, ter conjuntos completamente diferentes de imagens experimentais. Se um grupo está reutilizando uma imagem antiga em seu novo trabalho de pesquisa, a equipe precisa mencionar isso.

Embora todos os artigos sinalizados incluam pesquisadores do DRDO como autores, há vários em que o trabalho experimental foi realizado por instituições colaboradoras.

Por exemplo, um artigo publicadoem outubro de 2020 tem a seguinte imagem, que dá sinais claros de ter sido editado digitalmente.

Imagem contendo sinais de edição digital.  |  Por arranjo especial
Imagem contendo sinais de edição digital. | Por arranjo especial

VR Panse, um professor assistente no Late Bhaskarrao Shingane Arts, Prof. Narayanrao Gawande Science e Ashalata Gawande Commerce College em Maharashtra, que foi um dos autores deste artigo, disse ao ThePrint que a equipe solicitou que a revista retirasse este artigo após preocupações foram levantadas no PubPeer.

Panse acrescentou que o trabalho experimental foi feito em seu laboratório por um aluno.

“Assim que fui informado disso, repreendi o aluno e escrevi à revista para retirar o artigo. Também foi meu erro não verificar as imagens pessoalmente ”, disse ele.

“O autor do DRDO não teve contribuição neste artigo. Melhoramos nossas chances de conseguir fundos de organizações governamentais se mostrarmos algum trabalho colaborativo (com instituições governamentais), por isso a pessoa foi incluída no jornal ”, disse ele ao The Print.

Má conduta científica ou erro humano?

Nem todos os problemas sinalizados podem ser evidências de má conduta científica. Alguns podem ter resultado de um erro humano honesto de ter carregado a mesma imagem duas vezes, disse Cheshire.

No entanto, Elizabeth Bik, uma microbiologista holandesa conhecida por seu trabalho na detecção de manipulação de imagens em trabalhos de pesquisa, disse ao The Print que muito do que foi sinalizado no PubPeer não pode ser explicado como um erro honesto.

Em uma postagem no blog de 2019 , Bik explicou que existem três tipos de duplicações de imagens que podem ser detectadas em trabalhos de pesquisa.

A primeira categoria, onde duas imagens parecem idênticas, pode ser o resultado de um erro honesto, onde a mesma foto foi inserida duas vezes por acidente.

A segunda categoria é quando as imagens são giradas, invertidas, deslocadas, etc. “Isso tem menos probabilidade de ocorrer como resultado de um erro honesto e mais probabilidade de ser feito intencionalmente do que a Categoria I”, escreveu ela em sua postagem.

Bik descreve as duplicações da Categoria III como aquelas em que elementos, como células, faixas ou grupos de pontos, aparecem várias vezes na mesma foto ou em uma foto diferente.

“A maioria deles é muito difícil de explicar por erro honesto e é mais provável que seja o resultado de uma alteração intencional de uma foto do que duplicações da categoria I ou II”, disse ela.

Cientistas do DRDO disseram ao The Print que as preocupações sinalizadas no PubPeer serão analisadas.

“O DRDO segue procedimentos rígidos de revisão interna para publicação de dados. No entanto, as preocupações levantadas serão analisadas com a devida diligência ”, disse um porta-voz da sede da DRDO em Delhi ao ThePrint.

Enquanto isso, outro cientista sênior do DRDO disse que essas preocupações estão sendo investigadas.

“O processo pode levar algum tempo, pois alguns autores (envolvidos nos trabalhos) se aposentaram”, acrescentou.

Golime RamaRao, um cientista do Estabelecimento de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa em Gwalior e autor de um dos artigos sinalizados por possível manipulação de imagem, disse que a equipe estava enfrentando problemas para abrir arquivos de dados brutos de 2012-2013, pois o software do computador foi atualizado desde então.

“Achamos que o erro sinalizado é apenas um pequeno erro e não afeta substancialmente os resultados do estudo”, acrescentou.

“Assim que conseguirmos abrir nossas imagens brutas sem falhas, responderemos a você e trataremos dessa questão com a redação para tomar outras providências, caso uma micrografia errada tenha sido usada devido a erro humano honesto”, acrescentou.

(Editado por Poulomi Banerjee)

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Este artigo foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Print”   [Aqui!].

Atlas da Questão Agrária do Paraná mostra a resistência camponesa em meio ao avanço das monoculturas de exportação

Como paranaense vindo da região dos “Campos Gerais” tive contato já na minha infância com a dura realidade agrária que tem historicamente marcado a disputa entre grandes latifundiários com agricultores familiares, quilombolas e povos indígenas.  Aliás, sou originário de uma região onde a perseguição aos povos indígenas, principalmente os da etnia Kaingang, é parte de uma história que naturalizou o extermínio como forma de controle do território em prol da implantação da economia capitalista. Por conhecer parte desta história altamente conflituosa que marca a evolução histórica do Paraná, acho sempre curioso que quem não conhece o meu estado, possa se deixar levar tão facilmente pela imagem comercial de Curitiba como exemplo de modernidade e compromisso ecológico com seus citadinos.

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Por essa razão é que vejo com entusiasmo o lançamento do “Atlas da Questão Agrária do Paraná”, produto de um trabalho coletivo realizado pelo “Observatório da Questão Agrária no Paraná“, cuja composição editorial traz uma série de capítulos que revelam as disputas que marcam a realidade agrária paranaense. Por ter um conteúdo que passa ao largo do endeusamento das monoculturas que transformaram a realidade paranaense para pior, penso ser obrigatória a leitura desse atlas por todos os que se interessam por estudar a persistência da questão agrária no Brasil. É que, de certa forma, o Paraná é uma espécie de ponto de encontro de todos os aspectos que marcam a existência de um dos sistemas mais desiguais de propriedade da terra no planeta, trazendo consigo todos os elementos nocivos que decorrem disso.

Além disso, a leitura do “Atlas da Questão Agrária do Paraná” revelará aos leitores a existência de um vigoroso grupo de pesquisadores que está se debruçando para estudar criticamente a realidade agrária paranaense, a ponto de nos oferecer um documento tão bem acabado, e que certamente servirá de ferramenta de aprendizagem para todos os que se interessam por entender como o latifundio agro-exportador se apodera das terras para transformá-las em meras plataformas de acumulação de riqueza e não de produção de alimentos como sua propaganda tanto apregoa.

Quem desejar baixar o “Atlas da Questão Agrária do Paraná” na íntegra, basta clicar [Aqui! ].

BlackRock, o gigante devorando a colheita

A maior gestora de fundos do mundo lidera a tomada dos sistemas alimentares por parte do capital internacional, à revelia do que preveem suas próprias iniciativas “verdes”

black rock

Diego Sartorato, especial para O Joio

Em 1988, o Brasil acompanhava atentamente a concepção de uma nova Constituição Federal, que estabeleceria o Estado de Direito da redemocratização. A Carta é considerada uma das mais ambiciosas do mundo em garantias de direitos humanos e proteção do meio ambiente, uma reação ao retrogosto amargo deixado por décadas de violências cometidas pela ditadura civil-militar (1964-1985).

Naquele mesmo ano, nos Estados Unidos, o executivo Larry Fink fundava a empresa de gestão de fundos BlackRock, pioneira entre transnacionais dedicadas a criar instrumentos de redução de risco para investimentos financeiros, os chamados hedge funds (ou fundos de cobertura). Foi sua própria volta por cima. Hoje, a BlackRock gerencia US$ 9 trilhões (valor equivalente a sete vezes o PIB brasileiro) no mercado financeiro, Fink tem uma fortuna pessoal estimada em US$ 1 bilhão e foi considerado a 28ª pessoa mais poderosa do mundo pela revista Forbes em 2018. 

Mas tudo começou com um grande prejuízo. Fink ganhou proeminência no mercado financeiro como um dos executivos que ajudou a criar o sistema de títulos hipotecários, um instrumento financeiro que utiliza pagamentos de empréstimos imobiliários para garantir o retorno de operações arriscadas no mercado de ações, mas acabou desligado do First Boston Corporation, onde iniciou sua carreira nos anos 1970, após esse mesmo instrumento causar perdas de US$ 100 milhões ao banco em 1986.

Três décadas mais tarde, a má gestão de títulos hipotecários provocaria a crise financeira de 2008-2009, que causou mais de US$ 3 trilhões em perdas globais e deixou 10 milhões de famílias norte-americanas sem teto, mas, a essa altura, Fink e a BlackRock já haviam transferido o foco de suas operações de hedge para outro setor da economia. Hoje, o investimento em papéis ligados às commodities, sobretudo agrícolas, é um dos principais instrumentos de redução de risco utilizado pela BlackRock.

“As commodities alimentares são interessantes para o investidor financeiro porque é uma forma de se proteger contra a inflação, especialmente quando os preços estão altos e voláteis”, explica a professora canadense Jennifer Clapp, pesquisadora de segurança alimentar e sustentabilidade da Universidade de Waterloo e integrante do Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Sustentáveis de Alimentação (IPES-Food, na sigla em inglês). Isso se dá porque os alimentos são um elemento central na definição do índice de inflação, e, portanto, os valores dos contratos desses produtos se reajustam em paralelo ao aumento geral de preços.

Retorno de 30% em cinco anos

No portfólio de investimentos na América Latina que a BlackRock oferece a seus clientes, gigantes do setor de alimentação como AmBev, Marfrig, Walmart e Femsa, além de empresas que negociam commodities não-agrícolas, como Vale do Rio Doce e Suzano Papel e Celulose, dividem espaço com empresas de energia, telecomunicações, logística, construtoras, farmacológicas e bancos (como Itaú, Santander e Bradesco, que, por sua vez, possuem seus próprios investimentos no agronegócio). O retorno prometido pela BlackRock é de até 30% anuais em um período de cinco anos, ou seja, cada US$ 10 mil investidos nesse portfólio podem se transformar em US$ 25 mil após esse período. Como instrumento de hedge, os alimentos são centrais para garantir essa margem de lucro.

projections

Para que esse sistema funcione, porém, é necessário que os gestores de fundo possam prever com grande precisão as variações de preços em um futuro próximo, e a melhor forma de fazê-lo é ampliar o controle do capital financeiro sobre todas as etapas da produção e distribuição de alimentos, e até sobre a propriedade de terras. A BlackRock é uma das principais acionistas de empresas como PepsiCo, Kellogg, Toro, Bunge, Monsanto e Syngenta, além da brasileira JBS, por exemplo. 

O mesmo modelo é seguido por outras grandes gestoras de fundos, configurando uma teia de monopólios globais que é excelente para os especuladores de mercados futuros, mas potencialmente catastrófica para produtores e consumidores, além das comunidades que vivem nas regiões de expansão da fronteira agrícola e do meio ambiente como um todo.

black rock companies

“Na última década, os money managers [gestores de fundos] não estiveram interessados apenas nos investimentos financeiros em commodities. Também percebemos um aumento no modelo de ‘propriedade compartilhada’, em que grandes empresas de gestão de capital como Black Rock, Vanguard e State Street investem em empresas do agronegócio de forma ampla em todos os setores, levando a uma situação em que as cinco maiores empresas de gestão de fundos geralmente são donas de uma grande parte dos lucros das maiores empresas. A perpetuação desse modelo pode, por exemplo, levar a aumentos dos preços dos alimentos e aumentar a pressão por mais fusões e aquisições entre as grandes empresas que dominam o setor, reforçando seu controle do mercado”, explica Jennifer.

“Esse tipo de investimento financeiro é intimamente associado com a expansão da produção agrícola em terras anteriormente não cultivadas na forma de monoculturas, o que significa desmatamento, degradação do solo e perda de biodiversidade”, complementa a professora. É nesse ponto que as atividades da BlackRock colidem com os valores de sua contemporânea brasileira, a Constituição Federal.

Entre as empresas que mais causam desmatamento

Em 2019, a ONG norte-americana Amazon Watch realizou um estudo sobre o investimento da BlackRock em cadeias produtivas danosas ao meio ambiente, e constatou que a empresa está entre as 10 maiores acionistas das 50 empresas que mais causam deflorestamento no mundo, controlando mais de US$ 1,8 bilhão em capital de empresas desmatadoras em 2018. Naquele ano, o advogado indígena Luiz Eloy Terena, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), foi à assembleia da BlackRock em Nova York para falar sobre os impactos dos investimentos da gestora na Amazônia.

“A pressão por novas áreas para a expansão agropecuária e a retirada ilegal de madeira provocaram a derrubada de aproximadamente 150 milhões de árvores”, disse o advogado, citando os investimentos da BlackRock na JBS e na Bunge, a maior compradora de soja do país. “Em razão desse tipo de destruição em nossos territórios e modos de vida, viemos aqui alertar sobre os riscos que este tipo de investimento implica.”

Assista a mensagem de Luiz Eloy Terena para Larry Fink, CEO da BlackRock:

Um segundo relatório elaborado pela Amazon Watch em parceria com a APIB, “Cumplicidade na Destruição”, quantifica em US$ 8,2 bilhões o investimento da BlackRock em empreendimentos de agronegócio associados à invasão de terras indígenas entre 2017 e 2020 – atrás apenas do BNDES, que investiu US$ 8,5 bi (equivalente a R$ 46 bilhões) nesse tipo de empreendimento no mesmo período. Juntos, BlackRock e BNDES foram responsáveis por um quarto de todo o investimento em empresas que ameaçam a integridade de terras indígenas naquele triênio.

“A PERPETUAÇÃO DESSE MODELO PODE LEVAR A AUMENTOS DOS PREÇOS DOS ALIMENTOS E AUMENTAR A PRESSÃO POR MAIS FUSÕES E AQUISIÇÕES ENTRE AS GRANDES EMPRESAS QUE DOMINAM O SETOR, REFORÇANDO SEU CONTROLE DO MERCADO”

A reportagem procurou a BlackRock Brasil para comentar os dados apurados, mas não recebeu retorno dos recados deixados por telefone e formulário digital. Em uma carta a seus clientes, de 2020, a empresa reconhece que as mudanças climáticas podem “afetar o crescimento econômico, os valores dos ativos e os mercados financeiros como um todo”, e se compromete a promover carteiras sustentáveis a seus clientes por meio de ETFs (exchange-traded fund, é um fundo de investimento negociado na Bolsa de Valores como se fosse uma ação).

blue compass

Este texto foi inicialmente publicado pelo site “O Joio e o Trigo” [Aqui!].

Txai e Almir Surui estarão no Roda Viva na segunda-feira (29/11)

Lideranças indígenas na luta pela amazônia participam do programa, ao vivo, na tv cultura, a partir das 22h

Txai AlmirFoto Divulgação TV Cultura

Txai e Almir Surui, duas das mais importantes lideranças na luta em defesa da Amazônia, serão os entrevistados do Roda Viva, na próxima segunda-feira (29/11). Comandado por Vera Magalhães, o programa vai ao ar ao vivo, às 22h, na TV Cultura, site da emissora, Twitter, Facebook, YouTube LinkedIn.

Filha de Almir Surui, Txai foi a primeira indígena a discursar numa Conferência do Clima da ONU, ao participar da COP-26, realizada neste mês, em Glasgow, na Escócia, quando alertou para os riscos do aquecimento global: “O clima está aquecendo, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo e nossas plantas não florescem como antes. A Terra está falando e ela nos diz que não temos mais tempo”, declarou, ao exigir providências urgentes contra a destruição da floresta, invadida por garimpeiros, madeireiros e outros grupos que atuam ilegalmente na Amazônia.

Coordenadora do Movimento da Juventude Indígena, Txai conclui, neste ano, o curso de Direito da Universidade Federal de Rondônia. Antes mesmo de concluir sua formação, trabalha na assessoria jurídica da Associação de Defesa Etnoambiental, uma ONG que atua em defesa dos direitos dos indígenas.

O Movimento da Juventude Indígena de Rondônia, que ela fundou e dirige, promove ações em defesa da demarcação de terras e da garantia de direitos aos povos originários. Desde que tinha seis anos de idade, seu pai, Almir, já previa que ela iria se tornar uma grande líder de seu povo.

Wladimir Garotinho, mais um político vestindo “as cores” do Porto do Açu

De tempos em tempos, algum político da região Norte Fluminense (ou até fora dela) é atraído pela atual controladora do Porto do Açu, a Prumo Logística Global, a dar um passeio no interior do empreendimento, convenientemente uniformizado com colete e capacete. O mais recente foi o prefeito do município de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho (ver imagens abaixo pelo fotógrafo César Ferreira) que recebeu dar o ar da graça no Porto do Açu, supostamente em troca de parcerias com os controladores do empreendimento.

Segundo informado pelo fotógrafo César Ferreira em sua página na rede Linkedin, Wladimir Garotinho teria aproveitado a visita para apresentar “projetos da Prefeitura ao CEO do Porto do Açu Operações, José Firmo (Jose Firmo) ao diretor de Administração Portuária, Vinícius Patel (Vinicius Patel) ; e ao gerente de Relações Institucionais, Caio Cunha ( Caio Cunha ); em busca de novas parcerias. Entre os projetos, o da criação de um Centro de Queimados no Hospital Ferreira Machado (HFM), para o qual a empresa já vem prestando apoio, e da Rota Litorânea, que prevê melhorias para a estrutura rodoviária da região.”

Se eu bem me lembro, antes de alçar voos na política, Wladimir Garotinho atuou empresarialmente no interior do Porto do Açu na área de revenda de quentinhas para os trabalhadores envolvidos na construção do empreendimento.  Assim, se a minha memória não estiver falhando, o certo é que o jovem prefeito campista já sabe que (usando uma citação bíblica que cai bem aos modos da atual gestão municipal) é “mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha” (Mateus 19:24)”,  do que o Porto do Açu investir em parcerias em que tenham que desembolsar um mísero centavo na melhoria das áreas fora do seu enclave portuário. Aliás, se fosse para investir que fosse na mudança na rota dos mega caminhões que hoje atravessam áreas residências campistas como se estivessem em uma pista de alta velocidade!

Por último, eu só lembraria ao prefeito de Campos dos Goytacazes que a maioria dos políticos que passaram pelo Porto do Açu e vestiram colete e capacete acabaram vendo suas carreiras afundarem. Assim, melhor seria se depois dessa visita, Wladimir encomendasse uma boa reza e uma sessão de descarrego. Afinal, é melhor prevenir do que remediar.