Bolsogate: quando até Rachel Sheherazade bate, a coisa está mesmo feia

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O imbróglio envolvendo o senador eleito pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, e seu dublê de motorista Fabrício Queiróz está provocando um forte desgaste na imagem não apenas do presidente Jair Bolsonaro, mas também do “superministro da Justiça”, o ex-juiz federal Sérgio Moro.

Uma prova disso foi a contribuição da jornalista Rachel Sheherazade que desde a Austrália adicionou um comentário no “tread” do quase ex-senador Christovam Buarque quando este afirmou que “o mito Bolsonaro está destruindo o mito Moro” (ver imagem abaixo).

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Sheherazade, que é conhecida por suas posições ultra conservadoras, foi implacável ao afirmar que os mitos políticos nem precisam de ciência para desmitificá-los, pois o “encanto se desfaz quando confortados (acho que ela quis dizer “confrontados) com os fatos.

Como Rachel Sheherazade possui cerca de 14 milhões de seguidores apenas na rede social Twitter, não é preciso nem ser um Einstein para saber que o inferno astral da família Bolsonaro ainda nem começou e o que estamos assistindo nos primeiros dias de 2019 são apenas os primeiros salvos na direção de um presidente que foi eleito com a expectativa de que acabaria com a corrupção no Brasil. 

E o Bolsogate está apenas esquentando!

Reinações de Flávio e Fabrício criam cenário de terra arrasada para Jair Bolsonaro

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A situação do filho primogênito de Jair Bolsonaro, o senador eleito pelo Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro, que já andava complicada saiu da CTI para a UTI com a revelação de que ele teria feito um pagamento de um título de mais de R$ 1 milhão para um beneficiário ainda não identificado [1].

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Além disso, agora se sabe que o ex-motorista (e guarda-costas) de Flávio Bolsonaro gificativ não “meros” R$ 1,2 milhão em sua conta bancária, mas mais significativos, assim por dizer, R$ 7 milhões entre 2014 e 2017 [2].  Nas palavras do jornalista Lauro Jardim, “haja rolo” para explicar tanto dinheiro nas contas bancárias de quem seria um mero assessor parlamentar cuja residência oficial numa viela no bairro da Taquara , no mínimo, relativamente modesta .

Como disse ontem, a situação de Flávio Bolsonaro fica pior na medida em que ele e sua família utilizaram o combate à corrupção como sua principal bandeira, tendo se destacado e alcançado os cargos que ocupam ou ocuparão justamente por causa disso Assim, ao ser pego em uma situação que fica cada vez mais complicado, Flávio Bolsonaro coloca em risco também  a estabilidade do governo federal, na medida que Fabrício Queiróz também foi assessor de Jair Bolsonaro, além de ser amigo de pescarias e ter feito um depositado polpudo na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Com isso tudo, os setores mais pragmáticos que cercam Jair Bolsonaro em seu ministério devem estar totalmente arrependidos de terem permitido o ataque furioso que realizou contra a mídia corporativa brasileira em seus primeiros dias de governo (e em especial às Organizações Globo). É que após meros 20 dias de duração, o cenário criado com a apuração de apenas um de seus filhos já criou um cenário de terra arrasada. 

Imginemos o que acontecerá quando o governo realmente começar a tentar se consolidar no terreno após o Carnaval. Bom, parece que até as cinzas esfriarem ainda teremos muitas emoções. Enquanto isso, as panelas da classe média continuam silenciosas. Vamos ver por quanto tempo.

 

Bolsogate é objeto de artigo na revista Der Spiegel, maior revista alemã

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Qualquer esperança de que o “Bolsogate” ficasse contido dentro dos limites do território brasileiro está dando rapidamente lugar ao fato objetivo de que o assunto envolvendo Flávio Bolsonaro se tornou objeto de matérias nos principais veículos da mídia internacional.

Neste sábado, a revista Der Spiegel, maior revista da Alemanha, publicou uma matéria sobre os problemas envolvendo Flávio Bolsonaro e seu “ex-motorista e guarda-costas” Fabrício Queiróz (abaixo segue a reportagem na íntegra em português).

Assim, a imagem de Jair Bolsonaro que já não era boa na Europa poderá ter uma perda adicional de credibilidade se o caso envolvendo Flávio Bolsonaro não for resolvido rapidamente. É que o governo Bolsonaro terá grave dificuldades de interlocução se tiver que arriar logo de cara o que era uma das suas principais bandeiras (i.e.,  o combate à corrupção).

É que mais do que nunca valerá o ditado que diz que “À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”.  No caso em tela, o filho, o motorista e a mulher de Jair.

 

Reportagem aborda fluxos de caixa duvidosos na conta de Flávio Bolsonaro

Mas começou seu mandato e Jair Bolsonaro é objeto de problemas ameaçadores: entre junho e julho de 2017 foram feitos 48 depósitos na conta bancária do seu filho num total de R$ 96 mil.

FILE PHOTO: Flavio Bolsonaro, son of Brazil's President Jair Bolsonaro is seen behind him at the transition government building in Brasilia

Flávio e Jair Bolsonaro.

As autoridades brasileiras estão investigando uma série de pagamentos em dinheiro duvidosos a Flávio Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro. Como o noticiário de TV “Jornal Nacional” informou, foram depositados na conta de Bolsonaro Junior um total de 96.000 reais (cerca de 22.500 euros). Há 48 pagamentos individuais efetuados entre junho e julho de 2017. Naquela época Flávio Bolsonaro era deputado no estado do Rio de Janeiro.

A reportagem da TV Globo baseou-se em um documento da Autoridade Nacional de Combate ao Crime Financeiro (COAF) que afirmou que que não estava claro quem havia pago o dinheiro. O processo é suspeito porque 48 vezes o mesmo montante  foi depositado em um caixa automático localizado no interior da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Não é a primeira vez que são notadas transferências suspeitas a familiares do presidente brasileiro. No ano passado, os investigadores financeiros encontraram “transações atípicas”  no relatório do ex-motorista e guarda-costas de Flávio Bolsonaro.

“Transações atípicas” do guarda-costas

O COAF apurou que em  2016 e 2017 foram depositados mais de R$ 1,2 milhão para o filho e  para a esposa do atual presidente. A soma excedeu claramente a renda do ex-motorista. No entanto,  o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu na última sexta-feira pela suspensão preliminar da investigação. Para o presidente em exercício desde o começo do mês, o processo é desagradável. O político ultra-direitista venceu a eleição presidencial em outubro contra seu colega Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), e anunciou uma dura luta contra a corrupção e o crime. No ano passado, mais de 63 mil pessoas foram mortas no Brasil.


Aqui!Artigo publicado originalmente em alemão [Aqui!]

Bolsogate: imprensa portuguesa repercute imbróglio dos depósitos de Flávio Bolsonaro

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Ao contrário da mídia corporativa brasileira que continua em sua maioria avassaladora “mordendo e assoprando” o ainda a ser empossado Flávio Bolsonaro no escândalo envolvendo depósitos suspeitos que foram feitos em sua conta bancária, em Portugal o nome dado ao caso é bem revelador… Bolsogate.

Em matéria assinada pelo jornalista João Almeida Moreira do “Diário de Notícias”  a repercussão aos 48 depósitos de R$ 2.000,00 feitos na conta de Flávio Bolsonaro em um mesmo mês (santa coincidência de valores!) , cita explicitamente que se trata de um “Bolsogate” na medida em que o problema também envolve a primeira dama Michelle Bolsonaro e o próprio pai e presidente da república, Jair Bolsonaro [1].

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A matéria cita ainda que “fontes do governo (Bolsonaro) citadas anonimamente na imprensa admitem que o caso, mesmo envolvendo dois membros do clá Bolsonaro, Flávio e Michelle, que não fazem parte do executivo, causam desgaste ao presidente da República recentemente empossado.”

E eu complemento.. isso é tanto verdade que um governo que nem completou um mês de vida já dá todos os sinais de ter esclerosado precocemente.

Um salve para Marcelo Yuka

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Após uma longa batalha com diferentes sequelas dos tiros que recebeu em 2000 ao tentar interromper um assalto no bairro da Tijuca faleceu na última 6a. feira o músico, letrista e ativista Marcelo Fontes do Nascimento Viana de Santa Ana, mais popularmente conhecido como Marcelo Yuka.
A morte de Marcelo Yuka é especialmente lamentável na atual conjuntura política brasileira, pois ele sempre manteve posições firmes na defesa de uma sociedade menos desigual e socialmente injusta. Aliás, a principal marca de sua reação ao ato que o vitimou foi oferecer reflexões sobre as causas estruturais da violência no Brasil. Algo que, convenhamos, só pessoas mais despojadas de suas próprias necessidades pessoais são capazes de fazer.
Para celebrar a vida e o legado de Marcelo Yuka, nada melhor do que ouvir um dos clássicos que ele criou. É assim que viveremos e contribuíremos para o seu legado. Então lá vai…. “A paz que eu não quero”.


O caso de Marcelo Yuka não é daqueles para se simplesmente lamentar a sua morte, mas antes de tudo celebrar a vida. E que sua postura frente às mudanças que se fazem necessárias no Brasil seja sempre uma lembrança de como precisamos todos nos comportar, especialmente em uma conjuntura histórica tão complexa e difícil.

Leonardo DiCaprio usa “10 Years Challenge” do Instagram para denunciar avanço do desmatamento em Rondônia

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Um dos muitos modismos que apareceram nas redes sociais nos últimos tempos é o chamado “10 Years Challenge” onde celebridades e pessoas anônimas mostram fotos pessoais mostram suas mudanças fisionômicas nos últimos dez anos [1].

Pois bem, uma celebridade resolveu usar  hoje (18 de janeiro) sua página oficial na rede Instagram para mostrar duas imagens mostrando mudanças radicais não em sua aparência, mas de um estado da Amazônia brasileira. A celebridade no caso é o ator Leonardo DiCaprio e o estado é Rondônia (ver imagem abaixo).

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Di Caprio duas imagens do satélite Landsat para mostrar o avanço do desmatamento em Rondônia entre 2006 e 2018 no que ele classificou corretamente de sendo uma das regiões que mais perderam cobertura florestal na Amazônia brasileira. E ainda que alguém ache que DiCaprio errou o tamanho do estado de Rondônia, é preciso lembrar que “over” no sentido usado por ele é de “mais de”.  E a área total de Rondônia é de 237,576 km², a maioria coberta por florestas até meados da década de 1970 quando o regime militar começou a expansão da frente pioneira na Amazônia ocidental brasileira.

Esse posicionamento de Leonardo DiCaprio é mais um revés para o governo Bolsonaro e sua política de “libera geral” para o desmatamento e para a degradação dos ecossistemas naturais existentes dentro da porção brasileira da Amazônia. 

É que apenas no Instagram, DiCaprio possui cerca de 25 milhões de seguidores. Deste universo. Em função, em menos de uma hora após a realização da postagem mais de 100 mil de seus seguidores já haviam dado um “like” no momento em que visualizei a imagem que havia recebido 1.425 comentários. Em outras palavras, uma simples postagem de Leonardo DiCaprio já teve uma forte repercussão mundial.

Mas há que se lembrar que o ator estadunidense também criou uma fundação comprometida com a conservação ambiental em escala global, a Leonardo DiCaprio Foundation (LDF).  Criada em 1998, a fundação impulsionada por DiCaprio diz já ter desembolsado US$ 100 milhões para financiar mais de 200 projetos distribuídos em 50 países [2].

Quem examinar a página oficial da LDF poderá verificar que entre as suas linhas mestras de ação estão a proteção das florestas e o esforço para  minimizar os impactos das mudanças climáticas, dois tabus para o governo Bolsonaro.

Assim, ao apontar diretamente para o desmatamento em Rondônia, Leonardo DiCaprio se soma a outras personalidades mundiais (incluindo Gisele Bündchen) que decidiram não deixar barato as anunciadas mudanças para facilitar a expansão da degradação na Amazônia.  No caso de DiCaprio, ele não só é famoso, mas como tem uma ferramenta institucional para influenciar indivíduos e governos. Em suma, o posicionamento público de DiCaprio terá consequências para o Brasil e o governo antifloresta que foi instalado em Brasília no dia 01 de janeiro de 2019.

O mistério do glifosato (cancerígena ou não?) mais próximo de ser resolvido

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A Environmental Protection Agency dos EUA (EPA) considera o agrotóxico glifosato como “pouco provável de ser carcinogênico para seres humanos”.  Enquanto isso, a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC), uma entidade intergovernamental que faz parte da Organização Mundial da Saúde das Nações da Unidas, classificou o glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos (Grupo 2A)”.  Por um lado, a EPA afirma que não há evidência de que “o glifosato induz mutações in vivo por via oral”, enquanto por outro, a IARC concluiu que há “forte evidência” de que a exposição ao glifosato é genotóxica através de pelo menos dois mecanismos conhecidos por carcinógenos humanos (danos no DNA, estresse oxidativo).  

Intrigado com esta discrepância, ex-professor do Centro de Sustentação da Agricultura e Recursos Naturais da Washington State University, Charles M. Benbrook, decidiu averiguar porque e como a EPA e a IARC chegaram a conclusões tão diferentes sobre um mesmo principio ativo.

Um primeiro aspecto notado por Benbrook no artigo que acaba de ser publicado pela revista “Environmental Sciences Europe” foi que de um total de 52 ensaios de genotoxicidade realizados por registrantes (ou seja os fabricantes de agrotóxicos associados ao glifosato) foram citados pela EPA em sua avaliação de 2016 do glifosato técnico, e outros 52 ensaios apareceram na literatura científica. Destes, um ensaio regulador (2%) e 35 ensaios publicados (67%) relataram evidência positiva de uma resposta genotóxica. No caso de herbicidas formulados à base de glifosato (GBHs), 43 ensaios reguladores foram citados pela EPA, além de 65 ensaios publicados em revistas científicas que utilizam o “peer review” (revisão por pares). Destes, nenhum dos ensaios reguladores e 49 publicados (75%) relataram evidência de uma resposta genotóxica após a exposição a um GBH. Por outro lado, Benbrook apurou que a IARC considerou um total de 118 ensaios de genotoxicidade em seis tabelas principais sobre técnicas de glifosato, GBHs e ácido aminometilfosfônico (AMPA), o principal metabólito do glifosato.  

Assim, enquanto a análise da EPA englobou 51 destes 118 ensaios (43%). o IARC analisou outros 81 ensaios explorando outros possíveis mecanismos genotóxicos (principalmente relacionados a hormônios sexuais e estresse oxidativo), dos quais 62 (77%) relataram resultados positivos. Desta forma, a IARC colocou um peso considerável em três estudos positivos de GBH em populações humanas expostas, enquanto a EPA colocou pouco ou nenhum peso nelas.

Benbrook concluiu que a EPA e a IARC chegaram a conclusões diametralmente opostas sobre a genotoxicidade do glifosato por três razões principais: (1) nas tabelas principais compiladas pela EPA e IARC para produzir suas conclusões, a EPA baseou-se principalmente em estudos regulatórios não publicados e com registro, 99% dos quais foram negativos enquanto o IARC se baseou principalmente em estudos revisados  por outros pesquisadores no chamado sistema de “peer review”, dos quais 70% eram positivos (83 de 118).

Além disso, a avaliação da EPA baseou-se amplamente em dados de estudos sobre o glifosato técnico, enquanto a revisão da IARC atribuiu grande peso aos resultados dos ensaios formulados de GBH e AMPA. Finalmente, a avaliação da EPA foi focada em exposições dietéticas típicas da população em geral, assumindo usos legais em alimentos, e não levaram em conta, nem abordaram riscos e exposições ocupacionais geralmente mais altas. Por sua vez, a avaliação da IARC englobou dados de cenários típicos de exposição dietética, ocupacional e elevada.

Em conclusão, Benbrook apontou para a necessidade da realização de mais pesquisas sobre exposições do mundo real aos produtos químicos dentro dos GBHs formulados e o destino biológico e consequências de tais exposições.

Quem desejar ler o artigo de Charles Benbrook na íntegra, basta clicar [Aqui!]