Com o esgotamento de recursos, processo avança para fase que vai definir os valores de indenização às vítimas; audiência começa em abril de 2027
Foto: Reuters/Ricardo Moraes
Por Leonardo Morais para “Diário do Comércio”
A BHP, uma das acionistas da Samarco, sofreu nesta quarta-feira, (6) mais uma derrota na justiça britânica no Caso Mariana. O Tribunal de Apelação da Inglaterra rejeitou o pedido da mineradora para recorrer da decisão que a responsabilizou pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (Região Central de Minas Gerais) ocorrido em novembro de 2015.
Esta era a última via disponível no sistema jurídico inglês para contestar a condenação. A decisão consolida o entendimento firmado em novembro de 2025, quando o Tribunal Superior reconheceu a BHP como responsável pelo pior desastre ambiental da história do Brasil.
Na época, o tribunal concluiu que a empresa tinha conhecimento dos riscos da barragem antes do colapso e agiu com negligência e imprudência. Ao negar o recurso, o juiz Fraser foi categórico ao destacar que não aceitaria que qualquer dos fundamentos relativos à responsabilidade da BHP pelo rompimento da barragem seja razoavelmente defensável.
O sócio do escritório Pogust Goodhead, representante das vítimas, e líder do Caso Mariana na Inglaterra, Jonathan Wheeler, pontua que o Tribunal de Apelação agora se uniu ao Tribunal Superior ao concluir que os fundamentos de apelação da BHP não têm perspectivas reais de sucesso. “Um resultado enfático e inequívoco. A BHP é responsável pelo pior desastre ambiental da história do Brasil e não terá outra chance para reverter a decisão”, salienta.
Esta é a segunda vez que a BHP fracassa na tentativa de reverter a condenação. Segundo o escritório de advocacia, além da tentativa de reverter a decisão, a BHP estaria agindo para atrasar o processo, que perdura por quase 11 anos.
“Nossos clientes esperaram mais de uma década por justiça, enquanto a BHP buscou todas as vias processuais para evitar a responsabilização. Essas vias agora estão fechadas. Estamos focados em garantir a indenização que centenas de milhares de brasileiros têm direito há muito tempo”, acrescenta Wheeler.
Com o esgotamento das vias ordinárias, a única tentativa agora é a possibilidade de apresentação de um recurso extraordinário. Entretanto, para o escritório, a modalidade não apresenta potencial de reversão, já que possui aplicações restritas, com baixa probabilidade de sucesso nas circunstâncias do caso.
Audiência em 2027 analisará impactos de cada grupo afetado para calcular indenização
O processo avança agora para a Fase 2, com audiência prevista para abril de 2027. A etapa será focada na análise das perdas de cada grupo afetado, como indivíduos, comunidades, empresas e municípios ao longo do Rio Doce, nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.
Em termos de valores, a indenização prevista há três anos girava em torno de 36 bilhões de libras para os 620 mil clientes afetados em 46 municípios. O número, no entanto, deve ser inferior, já que alguns grupos aceitaram propostas no Brasil.
Atualmente, a expectativa é de que a BHP indenize aproximadamente 380 mil pessoas no Caso Mariana, situadas em 31 municípios, o que reforça a projeção de um valor total inferior aos 36 bilhões de libras.
Orompimento da barragem de Fundão, em 5 de novembro de 2015, despejou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de lama tóxica no Rio Doce, matando 19 pessoas, entre elas, uma gestante que perdeu o filho. A enxurrada de rejeitos percorreu centenas de quilômetros, destruindo comunidades ribeirinhas, comprometendo o abastecimento de água e chegando ao Oceano Atlântico. Quase 11 anos depois, os efeitos ambientais e sociais ainda são sentidos ao longo de todo o percurso do rio, nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.
Como o Porto do Açu transforma São João da Barra em um caso emblemático de crescimento econômico sem desenvolvimento social no Norte Fluminense
A análise a seguir resulta da fusão de dois textos publicados no blog do economista José Alves Neto, a quem se deve o crédito tanto pelo levantamento dos dados quanto pelas interpretações iniciais que fundamentam e inspiram o desenvolvimento crítico apresentado aqui. A partir dessa base empírica e analítica, busca-se não apenas integrar os argumentos originais, mas também aprofundar as relações ali sugeridas, evidenciando as dinâmicas estruturais que atravessam a economia da região Norte Fluminense.
Os dois textos convergem para um diagnóstico consistente — e incômodo — sobre a economia regional: a coexistência de alta geração de riqueza com baixa conversão dessa riqueza em bem-estar social. Ao fundi-los e avançar na análise, o que emerge não é apenas a constatação de um “paradoxo”, mas a evidência de um modelo territorial profundamente assimétrico, cuja lógica de funcionamento tende a reproduzir — e até aprofundar — desigualdades.
O caso do município de São João da Barra é o ponto mais agudo dessa contradição. O município ostenta um Produto Interno Bruto per capita extraordinariamente elevado, impulsionado pelo Porto do Açu. No entanto, simultaneamente, apresenta um dos maiores índices de pobreza da região, com cerca de 72% da população inscrita no CadÚnico. Essa dissociação entre produção de riqueza e condições de vida não é um erro estatístico, mas uma expressão clássica do que a literatura denomina economia de enclave: um arranjo produtivo altamente integrado a circuitos globais de capital, mas fracamente articulado com a economia local. Nesse modelo, o valor é gerado no território, mas não permanece nele. A renda se concentra em cadeias empresariais externas, em estruturas fiscais pouco capturadas pelo município e em fluxos financeiros que não se traduzem em emprego local de qualidade nem em políticas públicas robustas. A imagem sugerida pelos textos é bastante precisa: o PIB “nasce no porto e sai pela tubulação”, enquanto a pobreza permanece territorializada.
Quando contrastamos São João da Barra com Macaé, a diferença não está apenas no volume de riqueza, mas na forma como ela circula. Macaé, embora também dependente do petróleo, desenvolveu ao longo do tempo uma base econômica mais diversificada, com serviços especializados, empregos qualificados e uma estrutura tributária mais consolidada. Isso não elimina os problemas sociais, mas atenua seus efeitos, permitindo uma melhor posição no ranking de bem-estar relativo. Campos dos Goytacazes e Rio das Ostras ocupam posições intermediárias, mas revelam outra dimensão do problema: a dependência indireta. Campos, historicamente um polo regional, hoje se sustenta em grande medida pelas rendas do petróleo e, mais recentemente, pelos efeitos indiretos do Porto do Açu, sem uma estratégia clara de reindustrialização ou diversificação produtiva. Rio das Ostras, por sua vez, exemplifica um modelo de “economia satélite”, beneficiando-se das externalidades de Macaé e conseguindo estruturar nichos empresariais, como a Zona Especial de Negócios, mas ainda assim ancorada em dinâmicas externas.
O quadro regional sugere, portanto, que o problema não é a ausência de recursos — pelo contrário, trata-se de uma das regiões com maior volume de royalties per capita do país —, mas sim a forma como esses recursos são apropriados, distribuídos e convertidos em desenvolvimento. A crítica presente nos textos à gestão municipal aponta para um padrão recorrente: a priorização de gastos correntes e expansão da máquina pública em detrimento de investimentos estruturantes capazes de gerar emprego, renda e encadeamentos produtivos locais.
No entanto, é possível avançar um pouco além dessa explicação. A questão não é apenas de “má alocação” por parte dos gestores, mas também de limites estruturais impostos pelo próprio modelo de desenvolvimento baseado em enclaves. Esses empreendimentos são, por natureza, intensivos em capital, pouco demandantes de mão de obra local e altamente conectados a redes globais. Isso reduz o potencial de transbordamento econômico (spillover) para o território, mesmo quando há vontade política de promover redistribuição.
Além disso, há um descompasso entre a escala da riqueza gerada e a capacidade institucional dos municípios de capturá-la e transformá-la em políticas públicas eficazes. Municípios pequenos, como São João da Barra, enfrentam limitações administrativas, técnicas e de planejamento que dificultam a conversão de receitas extraordinárias em desenvolvimento sustentável.
O que se delineia, portanto, é um problema duplo: fiscal-distributivo e estrutural. De um lado, há falhas na gestão e na priorização do gasto público; de outro, há um modelo econômico que, por sua própria lógica, concentra renda e externaliza benefícios. A consequência é a consolidação de um território fragmentado, onde enclaves de alta produtividade coexistem com bolsões de vulnerabilidade social. Não se trata apenas de desigualdade, mas de uma desconexão entre economia e sociedade — um território onde a riqueza não organiza o espaço social, mas o atravessa sem enraizamento.
Superar esse quadro exige mais do que ajustes pontuais. Implica repensar as estratégias de desenvolvimento regional, fortalecer capacidades institucionais locais e, sobretudo, criar mecanismos que ampliem os encadeamentos produtivos e a retenção de valor no território. Caso contrário, o paradoxo tende a se perpetuar: regiões cada vez mais ricas em indicadores econômicos e, simultaneamente, pobres em termos de vida concreta de sua população.
Reestruturação reforça o papel estratégico de quadros técnicos na defesa do interesse público e no cumprimento das condicionantes
A recente reestruturação do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), promovida pelo governador em exercício, traz um elemento que merece destaque e reflexão mais aprofundada: a ocupação de cargos estratégicos exclusivamente por servidores de carreira. Mais do que uma mudança administrativa, trata-se de uma inflexão importante na forma como a gestão ambiental pode (e deve) ser conduzida em contextos marcados por pressões políticas, econômicas e sociais intensas.
Ao substituir todas as posições de liderança por profissionais concursados com trajetória consolidada dentro do próprio órgão, a gestão sinaliza uma valorização concreta do conhecimento técnico acumulado ao longo dos anos. Em instituições como o INEA, responsáveis por decisões que impactam diretamente territórios, ecossistemas e populações inteiras, esse acúmulo não é apenas desejável — é essencial. A análise de processos ambientais, sobretudo aqueles ligados ao licenciamento, exige domínio de metodologias, compreensão sistêmica dos impactos e, acima de tudo, independência técnica.
O licenciamento ambiental é, talvez, o campo onde essa mudança ganha maior relevância. A emissão de licenças não pode ser reduzida a um procedimento burocrático: trata-se de um instrumento de mediação entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental. Nesse contexto, a presença de servidores de carreira em posições-chave tende a fortalecer a consistência das análises, reduzir interferências externas e garantir que critérios técnicos prevaleçam sobre eventuais interesses conjunturais.
Além disso, as condicionantes que acompanham as licenças — frequentemente negligenciadas no debate público — são fundamentais para assegurar que os empreendimentos autorizados cumpram requisitos mínimos de mitigação e compensação ambiental. A efetividade dessas condicionantes depende diretamente da capacidade institucional de monitoramento, fiscalização e, quando necessário, sanção. Servidores experientes, que conhecem os trâmites internos e os desafios práticos da implementação, são peças centrais para que essas exigências não se tornem meras formalidades.
A nova configuração, articulada pela Secretaria de Ambiente e Sustentabilidade e pela presidência do instituto, também chama atenção pela diversidade de áreas contempladas — do planejamento à segurança hídrica, passando por biodiversidade e recuperação ambiental. Isso reforça a ideia de que a gestão ambiental contemporânea é, por natureza, interdisciplinar e demanda lideranças capazes de dialogar com múltiplos campos do conhecimento.
Outro aspecto relevante é a expressiva presença feminina nas posições de liderança. Ainda que a dimensão de gênero não seja o foco principal da medida, ela aponta para transformações importantes na composição do serviço público e na ocupação de espaços decisórios historicamente marcados por desigualdades.
A justificativa oficial enfatiza eficiência administrativa e valorização do funcionalismo. No entanto, o impacto potencial vai além. Em um cenário onde decisões ambientais frequentemente se encontram no centro de disputas políticas e econômicas, fortalecer o papel de servidores de carreira pode representar um passo decisivo na construção de uma governança mais estável, transparente e orientada por evidências.
Em última instância, garantir que quadros técnicos ocupem posições estratégicas no INEA é também uma forma de proteger o interesse público. Trata-se de reconhecer que a gestão ambiental não pode ser refém de ciclos políticos curtos, mas deve se apoiar em instituições sólidas, capazes de sustentar decisões complexas com base em critérios científicos e responsabilidade socioambiental.
No próximo dia 20 de maio será realizado o evento “Beiradeando o IV Simpósio Nacional Geografia, Ambiente e Território (SIMGAT)”, organizado pela Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)ambiental/RP-G(S)A – @rede_pgsa.
O evento ocorrerá no auditório Marcos Gorini, bloco P, 3º andar, do Instituto de Geociências da UFF, campus Praia Vermelha – Niterói.
O Beiradeando é um evento preparatório para o IV SIMGAT, a ser realizado em junho de 2027 na UFF. O Beiradeando tem o objetivo de alinhar temas, mobilizar esforços e promover o debate em direção ao SIMGAT, contando com integrantes da Rede e externos à ela. Em breve, anunciarmos mais informações sobre o IV SIMGAT.
Veja a programação completa logo abaixo.
O evento terá certificação para as/os participantes.
Um caso constrangedor envolvendo o veterano jornalista belga Peter Vandermeersh ilustrou os perigos associados ao uso indiscriminado de ferramentas de inteligência artificial (IA) na produção de conteúdo jornalístico. Chefe das operações irlandesas do Mediahuis, um dos principais grupos de mídia na Europa, ele foi suspenso de suas funções em março após uma investigação interna constatar que incorporou a seus textos falsas declarações entre aspas atribuídas a especialistas, que foram geradas erroneamente por programas como ChatGPT, Perplexity e Google NotebookLM.
Dezenas de declarações presentes em 15 textos publicados por Vandermeersh não correspondiam a fontes verificáveis e sete fontes citadas nos artigos negaram veementemente ter proferido aquelas palavras. “Existem citações que não podem ser encontradas nas publicações das quais Vandermeersch afirma tê-las obtido, como estudos científicos e notícias”, informou o jornal NRC (do qual Vandermeersch já foi editor-chefe), responsável pela investigação. O jornalista reconheceu os equívocos e afirmou ter “caído na armadilha das alucinações”, termo usado para descrever erros gerados por IA, ao confiar excessivamente nas ferramentas sem verificar o conteúdo replicado.
“Perdi muitos minutos do meu tempo procurando onde eu poderia ter dito alguma besteira sobre ‘conhecimento imersivo’”, queixou-se Emily Bell, diretora do Centro Tow de Jornalismo Digital da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, uma das vítimas das alucinações disseminadas por Vandermeersh. Usando ferramentas de IA do Google, Bell encontrou frases muito semelhantes em um discurso feito por outra pessoa. Seu nome também foi mencionado nesse discurso, mas em outro contexto, o que pode ser a origem da alucinação. O episódio evidencia um paradoxo da IA generativa: a tecnologia é capaz de produzir textos verossímeis, mas não há garantia de que sejam verdadeiros. Isso coloca em xeque princípios fundamentais do jornalismo profissional, como a verificação e a precisão dos fatos transmitidos ao público.
O tema tem sido abordado em estudos que investigam como jornalistas que cobrem assuntos científicos estão lidando com a incorporação da IA em suas rotinas de trabalho. Um artigo publicado em dezembro no Sage Journals por seis pesquisadores da área de comunicação, três deles brasileiros (Luisa Massarani e Cleiton Bezerra, da Fundação Oswaldo Cruz, e Luiz Neves, da Universidade Federal de Goiás), evidenciou uma ampla adoção das ferramentas de IA por repórteres especializados em ciência em tarefas corriqueiras, como transcrição de gravações e apoio à escrita. Nas entrevistas com os profissionais de imprensa, também foram relatadas preocupações com a confiabilidade das informações e com a compatibilidade do uso de IA com valores jornalísticos, como responsabilidade e ética. A maioria ainda é cautelosa ao utilizar a tecnologia em tarefas mais sofisticadas, como a análise de dados.
A adoção da inteligência artificial nas redações, segundo a pesquisa, varia entre países. Os autores se debruçaram sobre três deles: Brasil, Índia e Reino Unido. Jornalistas científicos britânicos mostraram certa resistência ao uso avançado das ferramentas, enquanto brasileiros e indianos indicaram ser mais flexíveis. Uma particularidade dos brasileiros é que adotam amplamente as ferramentas para traduzir textos e apoiar a escrita em um segundo idioma. Entre os benefícios propiciados pela IA, os entrevistados destacam o aumento da eficiência e o acesso facilitado à informação e, entre os perigos, a possibilidade de disseminar desinformação e a eliminação de postos de trabalho, que são cada vez mais escassos no jornalismo, incluindo sua vertente de ciência.
Outro estudo, esse publicado no Journal of Science Comunication por pesquisadores das universidades de Mainz e Ludwig Maximillian, de Munique, entrevistou 30 jornalistas científicos alemães sobre as perspectivas abertas pelo uso de IA. Os autores tinham interesse em saber se as novas ferramentas poderiam amenizar ou agravar o que se convencionou chamar de “crise do jornalismo científico”, impulsionada pela crescente digitalização dos meios de comunicação, pela perda de anunciantes e pelas mudanças nos hábitos de consumo de notícias do público. Em um fenômeno ambivalente, pesquisadores e divulgadores científicos criaram canais de comunicação direta com os leitores, por meio de blogs e redes sociais, enquanto os jornalistas profissionais foram impactados por demissões e sobrecarga de trabalho. A maioria dos profissionais entrevistados, contudo, disse não se sentir ameaçada e reconhece que sua atividade caminha pra uma integração cada vez maior com a IA.
Já um estudo da PLOS ONE realizado por duas pesquisadoras da Universidade de Twente, nos Países Baixos, e outro da Universidade de Bolonha, na Itália, analisou a qualidade da cobertura da imprensa sobre IA em quatro nações (Bélgica, Itália, Portugal e Espanha), examinando notícias e entrevistando jornalistas científicos. De forma geral, os entrevistados demonstraram preocupação com a situação do jornalismo científico, incluindo a falta de financiamento, que pode afetar a qualidade das reportagens. Segundo o estudo, novas vertentes, como o jornalismo de engajamento, que prevê a participação da audiência na produção da notícia, e o jornalismo de soluções, que busca evidências capazes de resolver problemas sociais, teriam potencial para contribuir no enfrentamento desses desafios, inclusive nesse momento de transição, com a IA batendo à porta.
Para auxiliar nessa travessia, em 2024 o Centro de Estudos de Ciência, Comunicação e Sociedade da Universidade Pompeu Fabra (SCS-UPF), instituição pública localizada em Barcelona, na Espanha, liderou o desenvolvimento de um guia de ferramentas de inteligência artificial para jornalistas científicos. O manual se divide em três blocos. O primeiro indica plataformas que auxiliam na pesquisa de documentos e imagens, na identificação de pesquisas revisadas por pares, na tradução de textos e na transcrição de áudios. O segundo se detém em recursos para podcasts e o terceiro na organização do fluxo de trabalho. Para selecionar as melhores ferramentas, foi realizado um webinar com profissionais da comunicação científica, que apontaram aquelas que usavam com mais frequência. Todas elas foram testadas em um curso-piloto realizado em Barcelona, para verificar se eram mesmo eficientes e úteis.
Por John Drake, professor da Universidade da Geórgia, para a Forbes
As submissões de artigos para revistas científicas aumentaram desde o lançamento do ChatGPT, sobrecarregando um sistema de revisão por pares construído para a produção em escala humana. Um novo estudo da Organization Science mede o impacto. getty
O termo “IA slop” geralmente descreve as imagens e o texto de baixa qualidade que a mídia social desordena. Chegou agora ao sistema de revisão por pares que governa o que conta como conhecimento científico.
As Submissões à Ciência da Organização, uma das principais revistas em pesquisa de gestão, subiram 42% desde o lançamento do ChatGPT. A escrita piorou.
Umnovo estudo da equipe editorial da revista descobriu que os manuscritos gerados por IA são mais difíceis de ler, mais jargões carregados e mais propensos a serem rejeitados do que aqueles escritos por humanos. Enquanto isso, mais de 30% das avaliações de especialistas que os periódicos rotineiramente usam para decidir o que publicar agora mostram o uso detectável de IA, e os editores relatam que essas revisões são essencialmente pouco informativas. A tecnologia que deveria tornar a ciência mais produtiva está, no momento, tornando mais difícil avaliar. Sem dúvida, este é um instantâneo de um sistema em transição, não um veredicto permanente sobre a IA na pesquisa. Mas o instantâneo vale a pena olhar de perto.
Tenho escritosobre as pressões estruturais sobre a revisão por pares, e sobre o risco de que as ferramentas de IA possamdegradar a qualidade do pensamento científico, mesmo à medida que aceleram a produção. Este artigo, da Força-Tarefa de IA da revista liderada por Sharique Hasan, da Duke, é o primeiro a colocar dados detalhados por trás dessas preocupações em um único periódico.
Esta foto tirada em 23 de janeiro de 2023 em Toulouse, sudoeste da França, mostra telas exibindo os logotipos do OpenAI e do ChatGPT. (Foto de Lionel BONAVENTURE / AFP) (Foto de Lionel BONAVENTURE/AFP via Getty Images)
AFP via Getty Images
A qualidade dessa escrita deteriorou-se. As pontuações de IA e Flesch Reading Ease foram negativamente correlacionadas entre as submissões. Manuscritos com alto conteúdo de IA exigem um nível de nível mais alto para analisar, usar mais nominalizações (palavras como “conceitualização” e “operacionalização”) e carregar mais jargões. Curiosamente, existem algumas dimensões em que o texto de IA teve melhor desempenho: tendia a ser mais específico e menos hedge. Mas o efeito líquido é a prosa que é mais densa e mais difícil de ler. Gartenberg invocou o ensaio de George Orwell “Política e a Língua Inglesa”, com seus exemplos de políticos enterrando significado na abstração. A prosa de IA, disse ela, se lê como esses políticos: densa, vagamente impressionante, difícil de seguir.
The Prompt: Receba as maiores notícias de IA da semana sobre as empresas mais movimentadas e avanços mais ousados, em sua caixa de entrada.
O título do jornal enquadra o problema: “Mais versus melhor”. “A IA, como está sendo usada hoje, está colidindo com incentivos institucionais para criar mais do que uma pesquisa melhor”, disse Gartenberg. “Não é a IA por si só. É IA mais incentivos de publicação ou pereza.”
Quem está usando e por quê
O jornal inclui uma descoberta que deve preocupar qualquer um que pense que isso é apenas sobre alguns maus atores com ChatGPT. As escolas de negócios cujo corpo docente historicamente mais responde aos rankings de contagem de publicações aumentaram desproporcionalmente seus envios de IA depois que o ChatGPT se tornou disponível. O ranking em questão é alista da UTD, mantida pela Universidade do Texas em Dallas, que pontua escolas de negócios por quantos artigos seu corpo docente publica em 24 revistas de topo designadas. É uma das métricas mais amplamente observadas na academia de negócios, e os acadêmicos de escolas que competem nela têm fortes incentivos para maximizar a quantidade.
O efeito é estatisticamente significativo: as escolas que competem no ranking da UTD enviaram mais trabalhos após o ChatGPT, e esses trabalhos adicionais foram desproporcionalmente IA escrita. Isso sugere que o uso pesado de IA em manuscritos não é aleatório, mas rastreia incentivos institucionais. Autores em escolas onde a contagem de publicações mais importa são os que mais se apoiam nas máquinas.
Gartenberg descreveu o que ela vê como sua visão central do projeto: a IA é uma ferramenta agnóstica. Você pode apontá-lo para a qualidade ou você pode apontá-lo para o volume. “Há incentivos de volume tão poderosos agora”, disse ela, “que pode realmente ser destrutivo”.
O lado da revisão
A IA não se limita ao pipeline de submissão. Mais de 30% das avaliações por pares na Organization Science agora mostram o uso detectável de IA, acima de quase zero antes do ChatGPT. Essas revisões seguem o mesmo padrão que os envios: mais difícil de ler, mais nominalização, mais jargões. Eles também mudam a ênfase para a teoria e para longe de dados e métodos empíricos, um estreitamento da faixa avaliativa que, se persistir, poderia remodelar que tipo de ciência é recompensada.
A ética da IA na revisão por pares é instável. Se um especialista usa a IA para informar uma opinião, essa opinião ainda é do especialista? Manuscritos inéditos são compartilhados com revisores em confiança. Enviá-los para os servidores de um chatbot é geralmente visto como inaceitável, uma divulgação para um leitor não autorizado, mesmo que esse leitor seja uma máquina. Mas o cálculo muda se o manuscrito já estiver público em um servidor de pré-impressão? Se a IA é executada em um ambiente com caixa de areia que não retém nada? Se o revisor coloca uma pergunta que nunca compartilha explicitamente o texto? Essas distinções importam, e nenhuma delas está resolvida.
A descoberta mais reveladora é que, na Organization Science, as revisões de IA não parecem informar decisões editoriais. As revisões humanas correlacionam-se com os resultados editoriais. As avaliações de IA não. “Não é como se os editores soubessem que essas são avaliações de IA e estão jogando-as fora”, disse Gartenberg. “Eles estão lendo e não estão informando a recomendação final do editor.” Os editores estão substituindo seu próprio julgamento, o que significa que a revisão, o mecanismo central do controle de qualidade na ciência, está produzindo um texto no qual ninguém age.
Segurando a Linha, por Enquanto
A boa notícia é que o processo editorial da Organization Science ainda está filtrando de forma eficaz. Apenas 3,2% dos manuscritos pontuados em 70% ou mais de uso da IA recebem uma revisão e reenvio, em comparação com 11,9% para papéis de IA baixos. Artigos publicados permanecem predominantemente gerados pelo ser humano. Os editores estão a apanhar o mau trabalho.
No entanto, há um custo humano significativo. A revista dobrou seus editores adjuntos de seis para onze e quase dobrou seus editores seniores de cerca de 30 para 60. Tudo isso é trabalho voluntário, acadêmicos não remunerados doando tempo para manter a qualidade científica. Quando esses acadêmicos estão eliminando o IA slop, eles não estão usando seu tempo para dar aulas, realizar pesquisas ou servir suas profissões.
O economista Scott Cunningham moldou a produção científica como uma função de produção com dois insumos: tempo humano e tempo da máquina. Um pouco de tempo de máquina, combinado com tempo humano substancial, aumenta a qualidade da saída. Mas se os pesquisadores deixarem a máquina substituir seu próprio engajamento, eles entram no que Cunningham chama de “zona de perigo”, uma região onde a qualidade da produção realmente fica abaixo do que eles teriam produzido sem a IA. O mecanismo é simples: o tempo humano não é apenas trabalho. É o processo através do qual a atenção se acumula no conhecimento e no julgamento. Evite as horas e você pule o aprendizado.
Os dados de Gartenberg sugerem que a zona de perigo não é hipotética. Já é visível nas estatísticas de submissão de uma grande revista. “As pessoas pensam como escrevem”, ela me disse, “e por isso, se você não escreve, você não está pensando tão profundamente sobre isso.” Os pesquisadores que enviam manuscritos obtiveram pontuação em 70% ou mais de conteúdo de IA, na estrutura de Cunningham, ultrapassaram esse limiar. Trocaram o pensamento pela produção. Os editores podem dizer.
Um instantâneo, não um veredicto
Essas descobertas merecem contexto. Os dados vão até o início de 2026, mas grande parte da IA que a equipe detectou foi produzida com modelos anteriores, ChatGPT 3.5 e GPT-4, que tinham contagens estilísticas bem conhecidas e uma tendência para a prosa nominal inchada. As ferramentas estão melhorando rapidamente. Não há nada fundamental para impedir que um modelo de linguagem seja treinado ou solicitado a escrever em um nível de leitura alvo, para minimizar o jargão, para passar nos mesmos testes de legibilidade que os editores humanos usam. A lacuna de qualidade deste documento em papel pode ser substancialmente uma função de quão grosseiramente a maioria dos pesquisadores está atualmente implantando as ferramentas. Há tanto a maturidade das próprias ferramentas quanto a maturidade das pessoas que as usam. Ambos estão evoluindo.
Também vale a pena notar o que o papel não mostra. A Ciência da Organização não está perdendo o seu melhor trabalho. Os principais artigos da revista ainda estão passando, e sua taxa geral de rejeição é essencialmente inalterada em todas as categorias de IA. Os envios adicionais são principalmente medíocres e os editores estão filtrando-os. Uma maneira de ler os dados é que o efeito líquido sobre o conhecimento ainda é positivo: toda a boa ciência que estava sendo produzida antes, além de alguma fração de novo trabalho que, embora não mude de campo, registra fatos e descobertas que podem ser úteis para alguém no futuro. A ciência sempre gerou uma longa cauda de trabalho incremental ao lado dos avanços. Se o custo de produção dessa cauda cair, e o processo editorial ainda puder separar o sinal do ruído, a base de conhecimento pode crescer mesmo que a qualidade média dos envios diminua.
Também existe uma possibilidade mais especulativa. Se a IA está aumentando a variação na qualidade de submissão enquanto o processo editorial apara a cauda inferior, os melhores papéis no pipeline poderiam realmente ser melhores do que antes. Pesquisadores que usam bem a IA, como um parceiro de pensamento em vez de um ghostwriter, podem estar produzindo um trabalho mais ambicioso do que poderiam ter conseguido sozinhos. Os dados ainda não podem confirmar isso. Mas eles são consistentes com isso.
Em um ponto de nossa conversa, Gartenberg desenhou uma analogia com o xadrez. A IA pode vencer qualquer jogador humano, mas o xadrez é mais popular agora do que nunca. A pergunta que ela continua entregando: o que se torna o objetivo da ciência quando a IA pode produzir as saídas? Quando falei com Jeff Clune, autor sênior de um artigo recente da Nature sobreautomação de pesquisa de ponta a ponta, ele fez uma observação semelhante sobre escalada em rocha. Alex Honnold pode escalar El Capitan mais rápido e melhor do que Clune jamais vai. Isso não fez Clune desistir de subir. Montanhas e xadrez e ciência não são entretenimento. São coisas que proporcionam significado às pessoas. A ciência pode estar se aproximando de um momento existencial, onde o propósito do trabalho importa mais do que os produtos dele.
Onde a IA pode realmente ajudar
A ironia da situação atual é que a mesma tecnologia que cria problemas no lado da submissão pode ser útil no lado editorial. O gargalo na publicação acadêmica não é produção. É avaliação. Os diários estão se afogando em manuscritos e lutando para encontrar revisores dispostos a lê-los. A IA é adequada exatamente para o tipo de avaliação estruturada que pode aliviar essa pressão.
Considere o que um periódico pode fazer com a IA no pipeline editorial. Antes que qualquer ser humano leia um envio, uma tela automatizada verifica a facilidade de leitura, a densidade do jargão e a complexidade da frase. Trabalhos abaixo de um limiar são devolvidos aos autores com feedback específico. Isso, por si só, filtraria uma parcela substancial dos envios de baixa qualidade que atualmente consomem tempo de editores voluntários.
A IA também pode avaliar dimensões que os editores humanos avaliam de forma intuitiva, mas inconsistente: se as alegações de um artigo são apoiadas por seus métodos, se a revisão da literatura envolve o trabalho anterior relevante, se a abordagem estatística corresponde ao design da pesquisa. Nenhuma dessas avaliações precisaria ser definitiva. Eles precisariam ser informativos o suficiente para ajudar os editores a alocar sua atenção para os manuscritos que merecem isso. O humano fica no circuito. A máquina lida com triagem. No lado da revisão, onde os dados de Gartenberg mostram a inteligência artificial mudando a atenção para a teoria e longe dos dados, um assistente de revisão bem projetado poderia fazer o oposto: levar os revisores a se envolver com alegações empíricas específicas, sinalizando inconsistências entre métodos e resultados, andaime da revisão em vez de substituí-la.
Para mim, a tecnologia não é madura o suficiente para ser implantada de forma confiável em escala. Errar a implementação pode introduzir novos problemas. Mas a restrição de ligação na ciência está mudando da produção para a avaliação, e a IA é a ferramenta mais plausível para abordá-la.
A própria Gartenberg usa Claude e Codex em sua própria pesquisa. Ela não está argumentando que a IA deve ser mantida fora da ciência. Seu artigo é uma medida de onde as coisas estão hoje, não uma previsão de onde elas vão acabar. Como editor de periódicos, reconheço tudo nele: as submissões crescentes, o engajamento do revisor em declínio, o crescente fardo editorial. O sistema está a aguentar. A questão em aberto é se as ferramentas que estão atualmente forçando-o podem ser reaproveitadas para fortalecê-lo.
Entre evidências emergentes e disputas institucionais, o herbicida mais usado do mundo desafia os paradigmas da saúde pública contemporânea
O glifosato tornou-se, nas últimas décadas, um símbolo paradigmático das contradições do modelo agroindustrial contemporâneo. Herbicida mais utilizado no mundo, sua trajetória acompanha a expansão de monoculturas intensivas e o avanço dos organismos geneticamente modificados tolerantes a herbicidas. Mas, à medida que seu uso se intensificou, também se acumularam evidências científicas que apontam para riscos relevantes à saúde humana e ao ambiente — evidências estas que permanecem no centro de uma disputa persistente entre indústria, agências reguladoras e comunidade científica.
Desde sua introdução comercial nos anos 1970 e, sobretudo, após a difusão das culturas “Roundup Ready” nos anos 1990, o glifosato passou de insumo agrícola a contaminante ambiental onipresente. Estudos indicam aumentos expressivos na exposição humana, com detecção frequente em amostras biológicas e alimentos. Esse cenário sugere não apenas um problema ocupacional, restrito a trabalhadores rurais, mas uma exposição difusa, crônica e de baixa dose, característica das sociedades contemporâneas altamente químicas.
A controvérsia central reside na avaliação de seus efeitos à saúde. Enquanto empresas e parte das agências reguladoras sustentam a segurança do produto quando utilizado conforme as recomendações, um corpo crescente de literatura independente aponta para associações com câncer, doenças hepáticas e renais, disfunções endócrinas, alterações reprodutivas e impactos neurológicos. A classificação do glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos” por uma agência internacional de referência marcou um ponto de inflexão nesse debate, ao reconhecer a consistência de evidências experimentais e epidemiológicas, ainda que não conclusivas.
Mais recentemente, estudos têm ampliado a preocupação ao demonstrar efeitos em baixas doses — níveis considerados “seguros” pelos parâmetros regulatórios atuais. Pesquisas toxicológicas e epidemiológicas indicam alterações genéticas, epigenéticas e hormonais, além de impactos no microbioma intestinal e possíveis efeitos intergeracionais. Esse conjunto de achados desafia um dos pilares da toxicologia clássica — a ideia de que “a dose faz o veneno” — ao sugerir que exposições prolongadas e combinadas podem produzir efeitos complexos e cumulativos.
Outro aspecto central da controvérsia diz respeito à própria produção do conhecimento científico. Documentos internos tornados públicos em processos judiciais, assim como análises independentes, revelaram práticas de influência corporativa sobre a literatura científica e sobre processos regulatórios. Estudos financiados pela indústria, frequentemente utilizados por agências governamentais, foram criticados por falhas metodológicas, falta de transparência e inadequação aos padrões científicos contemporâneos. Esse cenário levanta questões estruturais sobre conflitos de interesse e a captura regulatória em áreas de alta complexidade técnica.
A divergência entre avaliações científicas e decisões regulatórias também evidencia limites institucionais. Enquanto algumas agências continuam a afirmar a segurança do glifosato, decisões judiciais e revisões independentes têm questionado essas conclusões, apontando para lacunas nos processos de avaliação de risco. A própria noção de “uso seguro” torna-se problemática quando considerada à luz de exposições ambientais difusas, múltiplas vias de contato e populações vulneráveis, como gestantes e crianças.
Do ponto de vista político-econômico, o caso do glifosato revela a profunda interdependência entre agricultura industrial, mercados globais de commodities e regimes regulatórios nacionais. A dificuldade de restringir ou banir o produto não decorre apenas de incertezas científicas, mas também de sua centralidade nos sistemas produtivos contemporâneos. Nesse sentido, a controvérsia sobre o glifosato não é apenas um debate técnico, mas uma disputa sobre modelos de desenvolvimento, segurança alimentar e sustentabilidade.
Diante desse quadro, cresce entre cientistas e profissionais de saúde a defesa do princípio da precaução. Essa abordagem propõe que, na presença de evidências plausíveis de risco — ainda que não definitivas —, medidas de proteção devem ser adotadas para reduzir a exposição da população. Trata-se de uma inversão importante na lógica regulatória: em vez de exigir prova absoluta de dano, reconhece-se a necessidade de agir diante da incerteza, sobretudo quando os potenciais impactos são amplos e duradouros.
O caso do glifosato, portanto, ultrapassa o debate sobre um único herbicida. Ele expõe as tensões entre ciência, economia e política em um mundo marcado pela dependência de substâncias químicas em larga escala. Mais do que uma controvérsia isolada, trata-se de um laboratório contemporâneo das limitações dos sistemas de regulação frente à complexidade dos riscos ambientais e sanitários do século XXI.
Texto adaptado com base em publicação feita pelo site “U.S. Right to Know” [Aqui!].
A corrida em direção a Brasília, Câmara de Deputados e Senado Federal, e a Alerj já começou e vemos inúmeras situações impostas por interesses pessoais e partidários. Nesse contexto, observamos diversas situações que envolvem interesses coletivos e o papel das instituições públicas sendo confrontados por interesses pessoais que muitas vezes não são transparentes. No entanto, não pretendo abordar questões político-partidárias ou posicionamentos que pouco contribuem para o fortalecimento das tão cobradas universidades públicas.
O ponto que gostaria de destacar é a recorrente afirmação de que a universidade estaria “encastelada” em seus próprios muros. Trata-se de uma visão superficial e atrasada, que acaba por difundir uma ideia distorcida e equivocada sobre o papel e a atuação dessas instituições públicas de ensino. As universidades públicas exercem uma função ampla e contínua na formação de recursos humanos qualificados, na produção de conhecimento científico e tecnológico e na interação permanente com a sociedade. Além disso, enfrentam diariamente o desafio de demonstrar, na prática, que suas portas estão abertas não apenas à comunidade acadêmica, mas também à sociedade em geral e às autoridades constituídas. Reduzir essa atuação complexa à imagem de isolamento institucional desconsidera as inúmeras iniciativas da extensão universitária, das parcerias com diferentes setores e o impacto direto que essas instituições têm no desenvolvimento social, econômico e cultural.
Ao longo da minha atuação em Campos dos Goytacazes, tive inúmeras experiências com diferentes órgãos públicos, o que reforça uma percepção importante, se há um ator que precisa se aproximar mais das universidades públicas, esse ator são os próprios políticos. A lógica dos políticos costuma ser imediatista, condicionada a ciclos de quatro anos, o que contrasta fortemente com o tempo da ciência e das universidades, que operam em horizontes mais longos. Por isso, é fundamental que gestores públicos se comprometam com a construção e a manutenção de políticas de Estado, que sejam duradouras e não reféns de mudanças de governo. Nesse contexto, professores de instituições públicas também têm um papel crucial: compreender e defender a importância dessas políticas estruturantes. No nosso caso específico, temos vivenciado descontinuidades em políticas que, pela sua natureza e relevância, deveriam ser tratadas como políticas de Estado. Essa instabilidade compromete não apenas a continuidade de projetos, mas também a consolidação de avanços científicos e institucionais.
No final da década de 1990, participei, em Campos dos Goytacazes, de uma proposta política totalmente inovadora: a criação do Fundo Municipal de Ciência e Tecnologia (FMCT). A proposta despertou grande interesse. No evento de lançamento, contamos com a presença de membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC), dirigentes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), profissionais de instituições de ensino superior e diversas lideranças políticas. Na ocasião, foi anunciada a liberação de recursos, formamos uma comissão, diversos projetos foram aprovados e realizamos um trabalho consistente na avaliação dessas propostas. E o que aconteceu? Nada. O político que sucedeu aquele que criou o FMCT simplesmente não liberou os recursos. Com isso, foi sacramentado o fim de uma excelente iniciativa, que deveria estar em pleno funcionamento até hoje.
Duas experiências marcantes ocorreram quando fui diretor do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) e chefe do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da UENF. Na primeira, junto a todos os chefes de laboratório do CBB, participei de um encontro com o presidente da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes. Nosso objetivo era apresentar um diagnóstico detalhado da distribuição de hanseníase e tuberculose no município de Campos dos Goytacazes, oferecendo subsídios técnicos relevantes para a formulação de políticas públicas. No entanto, para nossa frustração, não obtivemos qualquer retorno por parte do presidente que, por ironia, era médico. A segunda experiência diz respeito a um trabalho realizado há cerca de 20 anos, quando, em conjunto com professores do LCA entre outros da UENF, elaboramos um diagnóstico da Lagoa de Cima. Esse estudo deveria ter servido de base para a criação de um Plano Diretor da região da Lagoa de Cima. Mais uma vez, porém, a iniciativa não teve continuidade. Hoje, observa-se uma lagoa que poderia ser um dos principais cartões-postais do município sendo ocupada de forma desordenada, além de sofrer com outros usos questionáveis.
Em conclusão, esses são apenas alguns exemplos do engajamento das universidades públicas na formulação e no apoio a políticas de Estado e, como esses, há muitos outros. Diante disso, é preciso evitar o equívoco, recorrente a cada eleição, de afirmar que a universidade deve “sair de seus muros”. Essa ideia desconsidera o papel que essas instituições já desempenham junto à sociedade. Tal visão torna-se ainda mais preocupante quando parte de pessoas vinculadas às próprias instituições públicas de ensino superior difundem essa visão totalmente equivocada.
*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia da Uenf e Bolsista Produtividade 1A do CNPq.
Misturas de agrotóxicos expõem limites da regulação e revelam conexões ocultas com o câncer
Um estudo recente publicado na revista Nature Health — “Mapeamento da relação entre misturas de agrotóxicos e risco de câncer em escala nacional por meio da exposômica espacial”, de Jorge Honles e colaboradores (2026)— propõe uma mudança profunda na forma como compreendemos a relação entre exposição ambiental e câncer. Em vez de analisar substâncias isoladas, como tradicionalmente faz a toxicologia, os autores adotam uma abordagem integrativa e inovadora para investigar os efeitos de misturas de agrotóxicos em condições reais de exposição. Ao combinar modelagem ambiental de alta resolução, inferência bayesiana e dados epidemiológicos abrangentes, o estudo identifica uma associação espacial consistente entre áreas com maior exposição ambiental a agrotóxicos e maior incidência de câncer no Peru, desafiando pressupostos consolidados sobre a não carcinogenicidade dessas substâncias quando avaliadas individualmente.
O ponto de partida do trabalho é um problema conhecido, mas ainda insuficientemente enfrentado: seres humanos não são expostos a compostos químicos de forma isolada, mas sim a combinações complexas que interagem entre si e com o organismo ao longo do tempo. A toxicologia clássica, ao focar em um ingrediente ativo por vez, tende a subestimar os efeitos emergentes dessas misturas, que podem apresentar comportamentos não lineares e sinérgicos. No estudo, foram considerados 31 ingredientes ativos amplamente utilizados na agricultura peruana — nenhum deles classificado como carcinogênico direto para humanos. Ainda assim, quando modelados em conjunto, revelaram padrões espaciais robustos de associação com a incidência de câncer, sugerindo que o risco pode emergir precisamente da combinação dessas substâncias, e não de sua ação isolada.
A sofisticação metodológica do estudo permite avançar significativamente na caracterização desse risco. Os autores desenvolveram um modelo ambiental baseado em processos que simula o transporte, a degradação e a dispersão dos agrotóxicos no ambiente ao longo de seis anos, integrando variáveis como solo, clima e topografia em uma grade espacial de alta resolução. Esse modelo foi então conectado a dados de mais de 150 mil casos de câncer registrados no país, possibilitando a identificação de aglomerados espaciais de incidência elevada. O uso de inferência bayesiana permitiu estimar riscos relativos com base na exposição ambiental modelada, revelando centenas de pontos críticos onde a associação entre agrotóxicos e câncer é estatisticamente significativa.
Mas o estudo vai além da correlação espacial ao incorporar uma dimensão biológica inovadora: a estratificação dos cânceres segundo sua linhagem de desenvolvimento celular. Em vez de agrupar tumores apenas por órgão afetado, os autores os classificam com base em sua origem embrionária, o que permite identificar vulnerabilidades compartilhadas entre diferentes tipos de tecido. Essa abordagem revelou padrões específicos de suscetibilidade que seriam invisíveis em classificações tradicionais, sugerindo que certos programas celulares podem ser particularmente sensíveis à exposição ambiental a agrotóxicos.
Um dos achados mais impactantes emerge da análise molecular de tecidos hepáticos em regiões de alta exposição. O fígado, por sua função central no metabolismo de substâncias químicas, atua como um verdadeiro sentinela biológico. Os pesquisadores identificaram uma assinatura transcriptômica específica associada à exposição a agrotóxicos, caracterizada não por danos diretos ao DNA, mas por perturbações em circuitos regulatórios que mantêm a identidade celular. Trata-se de um mecanismo de carcinogênese não genotóxico, no qual a célula não é “quebrada”, mas progressivamente desorganizada, entrando em um estado instável que pode, sob determinadas condições, evoluir para transformação maligna. Esse processo parece ocorrer de forma precoce, antes mesmo do surgimento de tumores, o que levanta preocupações adicionais sobre exposições crônicas e de longo prazo.
Esses achados são particularmente relevantes no contexto das desigualdades socioambientais. O estudo mostra que os riscos mais elevados estão concentrados em áreas rurais sob intensa pressão agrícola, frequentemente habitadas por populações indígenas e camponesas. Nessas regiões, a exposição a agrotóxicos se combina com outros fatores estruturais, como acesso limitado à saúde e condições socioeconômicas adversas, produzindo um cenário de vulnerabilidade ampliada. Assim, o mapa do risco ambiental também se revela um mapa da desigualdade, evidenciando que os impactos da contaminação não são distribuídos de forma equitativa.
As implicações políticas e regulatórias desse trabalho são profundas. Ao demonstrar que misturas de agrotóxicos podem estar associadas ao risco de câncer mesmo quando seus componentes individuais são considerados seguros, o estudo expõe limitações importantes nos modelos atuais de avaliação de risco. A regulação baseada em substâncias isoladas pode ser insuficiente para capturar os efeitos reais das exposições ambientais, especialmente em contextos de uso intensivo e contínuo. Além disso, a influência de fatores climáticos, como eventos associados ao El Niño, sugere que mudanças ambientais globais podem intensificar ainda mais esses riscos no futuro.
Embora os autores reconheçam limitações — como a ausência de medidas individuais diretas de exposição — a convergência entre evidências geoespaciais, epidemiológicas e moleculares confere robustez aos resultados. Mais do que estabelecer uma causalidade definitiva, o estudo constrói um argumento consistente e biologicamente plausível de que a exposição a misturas de agrotóxicos pode desempenhar um papel relevante na gênese do câncer em contextos reais.
Em última instância, o trabalho aponta para a necessidade de um novo paradigma na ciência da saúde ambiental. Ao integrar diferentes escalas — do território ao tecido, do ambiente à célula — ele redefine o exposoma como uma ferramenta concreta para compreender como múltiplas exposições moldam o risco de doença. Em um mundo marcado pela intensificação agrícola e pelas pressões ambientais crescentes, essa abordagem não apenas amplia nosso entendimento científico, mas também impõe uma questão urgente: estamos preparados para enfrentar riscos que não são visíveis, isoláveis ou simples — mas profundamente entrelaçados com a forma como produzimos, vivemos e ocupamos o espaço?
Em janeiro deste ano, 18 mil litros de fluido de perfuração de um poço de petróleo em alto-mar vazaram para o Oceano Atlântico, na costa norte do Brasil. O incidente paralisou as operações e prejudicou a vida marinha.
Era exatamente o que os povos indígenas que viviam ali temiam. “Todos os nossos medos como comunidade indígena, tudo o que nos preocupava, está se tornando realidade”, disse Luene Karipuna, uma jovem líder do povo Karipuna.
As comunidades indígenas de Oiapoque, no norte da Amazônia brasileira, já haviam manifestado há tempos suas preocupações com o projeto. Em reuniões públicas e em comunicações com políticos locais, alertaram que as fortes marés poderiam causar o transbordamento de efluentes em suas terras e que os helicópteros sobrevoariam a área, perturbando a natureza e seu modo de vida.
No entanto, ao longo do processo que durou anos para obter uma licença para perfuração exploratória, a Petrobras, empresa petrolífera estatal, argumentou que a atividade não teria impacto direto sobre os povos indígenas.
Essas comunidades têm solicitado repetidamente uma consulta adequada sobre a exploração de petróleo na Amazônia, em consonância com os acordos internacionais que o Brasil apoia. De maneira mais ampla, o país, sob o governo do presidente Lula, comprometeu-se com a participação significativa dos povos indígenas nas negociações climáticas e nas políticas públicas.
No entanto, a realidade, nas palavras de Luene, apresenta “uma flagrante contradição”. Analisamos centenas de documentos, atas de reuniões e trocas de mensagens entre o órgão ambiental brasileiro e empresas petrolíferas, incluindo a Petrobras. Descobrimos que repetidos alertas sobre os efeitos da prospecção sobre os povos indígenas foram ignorados e que essas comunidades não foram devidamente consultadas.
Anos de avisos
Durante décadas, as grandes empresas petrolíferas têm cobiçado esta parte da Bacia Amazônica. Ela abriga milhares de espécies da vida selvagem, muitas das quais seriam vulneráveis a um derramamento de petróleo – incluindo a tartaruga-de-couro, a baleia-azul e o peixe-boi-das-antilhas.
A BP solicitou pela primeira vez autorização para licenciar uma parte do leito marinho offshore (conhecida como Bloco 59) em 2014, após vencer leilões em consórcio com a Petrobras no ano anterior. Apesar da presença de territórios indígenas próximos à costa e de outros conectados ao mar por vias navegáveis, o pedido inicial da BP não mencionava os povos indígenas.
A empresa então submeteu estudos ambientais ao Ibama, o órgão regulador ambiental brasileiro. O Ibama identificou diversos problemas, incluindo a falta de dados ambientais de referência, programas de monitoramento e planos de manejo para as aves e mamíferos da área.
Desde então, ocorreram algumas reuniões públicas, mas os representantes indígenas constituíram apenas uma pequena porcentagem dos participantes. Em 2016, a BP se reuniu com líderes indígenas em Oiapoque. A empresa observou as preocupações das comunidades sobre derramamentos de petróleo e combustível, a necessidade de consultas que respeitassem os protocolos indígenas e o potencial aumento de voos que perturbariam a vida selvagem. A BP não comentou para esta reportagem, informando que não possui participação no Bloco 59 desde 2020.
Costa Oiapoque no estado do Amapá, BrasilNelson Almeida / AFP
A tartaruga-de-couro é uma das muitas espécies ameaçadas por derramamentos de petróleo nas proximidades.Philippe Giraud / Corbis via Getty
Quando a Petrobras assumiu o controle total do Bloco 59, a empresa ainda precisava de uma licença ambiental do Ibama para perfuração exploratória – e, para isso, agendou novas audiências públicas. Mas o trabalho na plataforma continuou.
Em uma reunião com a Petrobras no início de 2023, líderes indígenas expressaram novamente preocupação com os helicópteros que sobrevoavam seus territórios. Na ocasião, a Petrobras alegou que havia uma média de apenas dois voos diários sobre suas terras.
Mas o número real foi quase quatro vezes maior. Novos dados de voo que obtivemos mostram que o número de helicópteros da Petrobras sobrevoando os territórios até as plataformas marítimas aumentou de 130 em 2022 para quase 3.000 em 2023. No ano passado, esse número subiu novamente, para mais de 4.000. A Petrobras não respondeu às nossas perguntas para esta reportagem.
Segundo o chefe Edmilson, coordenador do Conselho de Chefes Indígenas da região de Oiapoque, o barulho dos helicópteros espantou os animais. Ele afirmou que os moradores relataram o desaparecimento repentino de um grande número de pássaros. Os peixes nos rios também se tornaram mais escassos, afetando o abastecimento de alimentos. “Este projeto nos tirou a paz”, disse ele.
Perfuração exploratória em um poço que faz parte do projeto Bloco 59.Petrobras
Consulta inadequada
Enquanto a Petrobras prosseguia com o processo de obtenção da licença de perfuração, a atenção dos moradores se voltou para a Convenção 169 da OIT, um tratado internacional vinculativo assinado pelo Brasil. Em audiências públicas realizadas em 2022 e 2023, eles exigiram saber se os povos indígenas seriam consultados, em conformidade com as obrigações da convenção. A convenção exige consultas livres, prévias e informadas aos povos indígenas, com o objetivo de obter seu consentimento para projetos que os afetem.
Luene é uma das muitas líderes indígenas em Oiapoque. Ela trabalhou com outros povos dos povos Karipuna, Palikur, Galibi-Marworno e Galibi Kali’na para criar um protocolo de consulta. Este protocolo dá menos ênfase a reuniões com um ou dois líderes e, em vez disso, incentiva processos coletivos e culturalmente apropriados, nos quais informações claras e oportunas são compartilhadas. O processo também deve proporcionar tempo e espaço suficientes para deliberação dentro dos territórios.
Luene afirmou que isso não aconteceu. Ela disse que existe confusão entre audiências públicas, às quais qualquer pessoa pode comparecer, e reuniões específicas para, digamos, universidades ou povos indígenas. O formato público, disse Luene, “não funciona para os povos indígenas”.
No ano passado, Luene foi uma das 100 pessoas indígenas que entrevistamos antes das negociações climáticas globais no Brasil. Ela nos contou como a exploração de petróleo está transformando sua comunidade de maneira drástica e que os custos de contestá-la são altos. “Quando começamos a nos posicionar e exigir consulta”, disse ela, “começamos a receber inúmeras ameaças”.
Nos três anos desde que começou a se manifestar, Luene disse que houve várias tentativas de silenciá-la, incluindo um arrombamento em sua casa e ameaças online. Agora, ela muda de endereço regularmente na tentativa de proteger a si mesma e à sua família.
Licença para perfuração
Em 2023, o Ibama negou à Petrobras uma licença de perfuração. Um documento oficial citou a alta sensibilidade ambiental do litoral amazônico, o risco de derramamentos de petróleo e as limitações no plano de resposta a emergências da empresa. O documento também observou que o estudo ambiental da Petrobras não havia avaliado adequadamente os impactos dos voos. (A empresa contestou a decisão, alegando ter resolvido a questão com um líder indígena. No entanto, descobriu-se que o representante era do governo local e não representava a comunidade.)
O advogado ambientalista Rodrigo Leitão disse que, quando começou a trabalhar com organizações indígenas em Oiapoque, em 2024, elas tinham recebido pouca ou nenhuma informação concreta sobre os planos de exploração de petróleo da Petrobras. “Ninguém tinha falado com eles ainda”, lembra.
Segundo Leitão, as reuniões realizadas nos anos anteriores não abordaram a questão central da consulta nem os potenciais impactos da exploração. Em vez disso, afirmou, as discussões se concentraram em projetos que a Petrobras alegava beneficiar a comunidade. Tanto o Estado quanto a Petrobras deixaram de cumprir uma obrigação fundamental para com os povos indígenas, disse ele: “Eles não reconhecem o direito à consulta livre, prévia e informada, de boa-fé”.
Uma decisão recente do Tribunal Federal do Amapá determinou que não havia obrigação legal de realizar consulta na fase de prospecção do licenciamento, uma vez que não havia impacto direto e imediato sobre comunidades indígenas ou tradicionais. A decisão, em resposta a uma ação civil movida contra o Ibama e a Petrobras pelo Ministério Público Federal, também afirmou que, embora não tenha havido consulta formal aos povos indígenas, o processo de licenciamento ambiental ofereceu diversas oportunidades de participação.
A Petrobras, empresa petrolífera estatal brasileira, afirmou que seu projeto em alto-mar não afetaria comunidades indígenas.Vanderlei Almeida/AFP via Getty Images
No início do ano passado, o Ibama continuava negando a licença à Petrobras. A questão do aumento dos voos sobre os territórios permanecia sem solução. Os planos de proteção da fauna, embora aprimorados pela Petrobras, continuavam em discussão. Contudo, em maio passado, algo mudou: o órgão regulador ordenou que o processo prosseguisse.
Seis meses depois, em 20 de outubro, o Ibama emitiu uma licença de operação para perfuração exploratória. A Petrobras iniciou a perfuração no mesmo dia.
Ibama informou que a avaliação de impacto ambiental da atividade de perfuração offshore no Bloco 59 foi aprovada dentro dos parâmetros técnicos e legais estabelecidos.
Ibama acrescentou que a licença só foi concedida após a apresentação de um plano de emergência atualizado com um “aumento nos cuidados com a vida selvagem”, e uma avaliação realizada em agosto de 2025 mostrou que isso era viável.
Suely Araújo, ex-presidente do Ibama, nos disse que esse processo expôs mais uma vez deficiências críticas nos procedimentos de consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais.
Embora a Petrobras tenha cumprido uma série de exigências do Ibama – incluindo a apresentação de estudos e a participação em audiências públicas –, essas formalidades não contemplaram as implicações mais amplas do projeto, afirmou Araújo. Ela agora trabalha para o Observatório do Clima, uma rede de ONGs que está movendo uma ação judicial buscando a paralisação imediata de todas as perfurações. Essa é uma das três ações que contestam o licenciamento da exploração de petróleo na região e alegam consultas inadequadas. O Ibama informou que está ciente das ações e que respondeu prontamente a cada uma delas.
O tratado internacional que o Brasil assinou “tem força de lei”, disse Araújo. “Não é uma questão de escolha.”
E agora?
Duas das três ações judiciais que visam impedir a perfuração estão em andamento e iremos monitorá-las. A ação movida pelo Ministério Público Federal, que foi rejeitada, poderá ser objeto de recurso.
O relator especial da ONU para os Povos Indígenas está elaborando um relatório sobre a consulta e o consentimento livre, prévio e informado dos povos indígenas em projetos como a exploração de petróleo, que afetam suas terras. Ele apresentará o relatório na Assembleia Geral da ONU em setembro. Já contribuímos com evidências como parte desse processo.
Imagem de cabeçalho: Luene Karipuna, líder do povo Karipuna
Repórteres: Flávia Milhorance e Grace Murray. Editor de Meio Ambiente: Rob Soutar. Editora Adjunta: Chrissie Giles. Editor: Franz Wild. Editor de Produção: Alex Hess. Verificador de Fatos: Ero Partsakoulaki.
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