Jornal francês repercute vídeo com dicas de sobrevivência para negros durante a intervenção militar no Rio de Janeiro

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Li  que o Rádio França Internacional que o jornal francês “20 minutos” havia repercutido um vídeo produzido por três jovens negros do Rio de Janeiro, com dicas de como sobreviver à abordagem indevida de policiais e militares [1].  O título do vídeo já antecipa bem o seu conteúdo: Intervenção do Rio: dicas para sobreviver a uma abordagem indevida (ver vídeo abaixo).

Resolvi dar uma busca no site do jornal francês para ver como o vídeo havia sido repercutido por lá e a manchete já é bem reveladora de como as dicas dadas pelos três moradores da cidade do Rio de Janeiro foram apresentadas aos franceses ( ver imagem abaixo) [2].

20 minutes

Traduzida para o português a manchete fica mais ou menos como “Brasil: três jovens publicam um guia de sobrevivência para os negros que se encontram com as forças da ordem“.

Mesmo sendo a França um país marcado por tensões sociais, o conteúdo do vídeo (produzido por Edu Carvalho, repórter do site Favela da Rocinha, do publicitário e youtuber Spartakus Santiago e de AD Junior, do canal Descolonizando) deverá causar ainda mais embaraços para o governo Temer em face de sua decisão de realizar uma intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro.   É que as dicas dadas fazem muito sentido no Brasil, mas são quase que impensáveis na França onde as forças policiais são vigiadas de perto pelos órgãos de controle do Estado.

O que me parece curioso é que apesar do vídeo já ter viralizado na internet, a mídia corporativa não deu a mesma cobertura a ele que o “20 Minutes” resolveu dar.  E a razão para isso me parece óbvia. É que a mídia corporativa brasileira que, em grande parte, está dando uma cobertura positiva para a intervenção militar no Rio de Janeiro, não está nem um pouco disposta a abordar que os inevitáveis ônus causados pela militarização da segurança pública deverão recair sobre as favelas cujas populações são majoritariamente compostos por pessoas negras e pobres.

E eu adiciono: desgraçado é o país e as elites que o governam onde dicas como as dadas no vídeo acima devem ser tomadas como coisas sérias.


[1] https://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/343092/Jornal-franc%C3%AAs-se-surpreende-com-v%C3%ADdeo-de-conselhos-para-negros-no-Brasil.htm.

[2] https://www.20minutes.fr/monde/2223911-20180220-video-bresil-trois-jeunes-publient-guide-survie-noirs-face-forces-ordre

O que esperar e não esperar de um orientador

Flickr credit: Miyagi by AJ Brustein

Por Adrian Sgarbi*

Prometi a mim mesmo que não escreveria sobre esse assunto. Seria como um tabu. Afinal, o tema do blog é como a tecnologia pode ser útil na pesquisa. Mas recebi um tweet de @odeiomeuorientador perguntando como se faz para “deletar” um orientador. Engasguei com o café que estava bebendo. Realmente eu não tenho um aplicativo para isso. Tentarei de outro modo.

*   *   * 

Já sei. Você gostaria que o seu orientador fosse como Mr. Miyagi, mas em sua opinião ele está mais para Darth Vader. Pelo visto, você não está sozinho. Na última vez em que busquei no Google Brasil pela frase “Eu odeio o meu orientador”, encontrei quase 10.000 entradas. Isso faz alguns dias, mas não creio que essa realidade tenha melhorado.1

Talvez seja ingenuidade. Mas em minha opinião, saber o que é razoável esperar de um orientador e o que não é pode ajudar a melhorar o cenário. E quem sabe? É possível que de 10.000 o número chegue algum dia ao redor de 7.000 casos de puro ódio. Um começo, não?

A relação entre orientador e orientando pode ser disfuncional de muitas formas. Por isso, ao tratar do tema, deixemos de complicá-lo com grandes expectativas. Caso estejamos de acordo nisso, já podemos passar às listas.

O que esperar

Em termos gerais, você tem razão ao querer que o seu orientador:

  • O auxilie na delimitação do tema com conselhos e técnicas de pesquisa;
  • Converse sobre referências bibliográficas importantes;
  • Encontre-o para tratar dos avanços da tese;2
  • Que ele seja tão pontual quanto você nos encontros;3
  • Que ele maneje encontros com o mínimo de interrupções externas;4
  • Opine de forma franca sobre a qualidade de seu trabalho e informe como melhorá-lo;
  • Mantenha respeito recíproco no tratamento;
  • Que ele seja exigente quanto à qualidade de seu trabalho;
  • Estabeleça objetivos e prazos;
  • Que ele explique o ritual de defesa no seu devido tempo;
  • Que ele não esculhambe você no dia de sua defesa.5

O que não esperar

Agora vamos ao que não esperar. Todos os itens abaixo, de um modo ou de outro, apareceram como queixas nos blogs cujo tema é “odeio o meu orientador”. Sinceramente, acho que você tem grandes chances de se decepcionar se você deseja que o seu orientador:

  • Seja o seu terapeuta;6
  • Seja seu amigo;
  • Responda a todas as suas perguntas;7
  • Resolva os seus problemas com algum professor;
  • Tenha a responsabilidade de lembrar a você os prazos que você deve cumprir;8
  • Trabalhe sábado, domingo, feriados ou nas férias na sua tese;
  • Considere uma emergência sua como se fosse uma emergência dele;9
  • Fique satisfeito ao receber seus rascunhos ao invés de textos coerentes;
  • Fique satisfeito ao notar que você não segue suas instruções de pesquisa;
  • Espere por você para os encontros de discussão de tese;
  • Seja o revisor do seu texto.10

Alguns Extras

Antes de terminar, gostaria de dizer uma ou outra coisa sobre algumas situações bastante comuns que podem, ao final, também causar problemas. Considere-as como “extras”.

Meu orientador orientou pouco em sua vida. Veja por esse lado. Isso não é necessariamente um problema. Conheço professores em início de carreira que tiveram um resultado muito bom nas primeiras orientações. Além disso, sempre é possível considerar co-orientações.

Meu orientador não é uma estrela; ele é uma galáxia. Caso o seu orientador seja tão cheio de si que considere que dedicar algum tempo para ler a sua tese é um desperdício para ele, você está encrencado. Neste caso, sugiro uma co-orientação com urgência, caso você não esteja disposto a mudar de orientador por alguma razão.

Meu orientador é famoso. É errado pensar que a fama do seu orientador passará a você. O que você quer? Osmose? O trabalho de escrever e de pesquisar continua sendo seu. Busque apenas manter um bom ritmo de encontros e discussão sobre o seu trabalho. Isso é crucial.

Meu orientador tem zilhões de orientandos. Isso merece uma bandeira vermelha. É ruim para a instituição e também para você. Um orientador com muitos orientandos é um orientador sem tempo. Fuja desses casos.

Eu nunca fiz uma pesquisa antes. Sempre há um começo. Isso valeu para o orientador inexperiente e vale para o pesquisador inexperiente também. Nesse caso, procure um modelo de profissional que você admira, leia os seus estudos e seja sincero com o seu orientador a respeito de suas dificuldades. Lembre-se de que se você já tivesse todas as qualidades prontas de um pesquisador, pouco sentido faria ingressar em um mestrado ou em um doutorado para aprendê-las.11

Assim, @odeiomeuorientador; espero que este post o ajude. E para aqueles que eu já orientei… Bem, vale a leitura da teoria Budista do Karma.


  1. Para surpresa minha há muitos blogs dedicados ao tema. 
  2. Normalmente, um encontro por mês como média. Estágios iniciais da tese podem demandar maior frequência e fase mais adiantada, menos. Portanto, caso ele nunca esteja disponível, isso é ruim. Muito ruim. 
  3. De todo modo, imprevistos acontecem. Mantenha os seus dados atualizados na secretaria do programa de pós-graduação. 
  4. Sem dúvida seu orientador pode ser atarefado mas interrupções constantes atrapalham a orientação. Caso inúmeras interrupções estejam ocorrendo pergunte (sem irritação) ao seu orientador se vocês deveriam marcar outro horário. 
  5. Eu já testemunhei orientadores criticando o trabalho do próprio orientando durante a defesa. Pessoalmente, acho isso descabido e feio. 
  6. Note a diferença: uma coisa é receber a informação – de você – que há alguns problemas externos à universidade que podem comprometer algum prazo anteriormente estabelecido (fato relevante que deve ser compartilhado com o seu orientador); outra é querer que ele escute e opine sobre questões pessoais suas (fato pessoal seu que ele dificilmente aceitará participar). 
  7. Parte do trabalho que você tem como pesquisador é pesquisar. Ademais, um bom sinal quando você está trabalhando em uma tese é tratar de algo que seja novo para o seu orientador e que ele considere interessante a ponto de merecer pesquisa. 
  8. Para isso você deve se informar na secretaria de seu programa e manter um calendário com essas informações. Recomendo que você crie um calendário Google e o deixe sincronizado com o seu telefone celular e computador.  
  9. Portanto, planeje e trabalhe buscando antecipar problemas. 
  10. Embora sejam esperáveis observações sobre estilo e sobre a qualidade de seu texto. 
  11. Mas peça essa ajuda logo no começo. Porque pouco o ajudará dizer ao seu orientador que você não sabe anotar um texto quando faltam seis meses para entregar a sua tese de doutoramento. 

*Adrian Sgarbi é professor pesquisador da PUC-Rio desde 2002 e da Cátedra de Cultura Jurídica da Universitat de Girona (Espanha) desde 2010. Adrian Sgarbi também é diretor da Coleção Filosofia e Direito da Editora Marcial Pons.

Este texto foi publicado originalmente no blog do professor Adrian Sgarbi [Aqui!]

A intervenção no Rio de Janeiro e o avanço do fascismo no Brasil

Na intervenção no Rio de Janeiro, o racismo é elemento inseparável do deslocamento do inimigo público das elites para as classes populares.

Michel Temer assina o decreto de intervenção federal no Rio de Janeiro e promete resposta “dura” ao crime. Foto: Beto Barata/Presidência da República.

Por Carlos Eduardo Martins

A intervenção federal militar na segurança do Rio de Janeiro e sua possível extensão a outros Estados marca uma nova etapa da escalada repressiva que avança no Brasil desde o golpe de 2016, configurando tecnicamente um Estado de Exceção.

Constitucionalmente, são três os níveis de Estado de Exceção: Intervenção Federal, Estado de Defesa e Estado de Sítio. Cumprimos com esta iniciativa o primeiro nível do Estado de Exceção: até o final de 2018, o Congresso terá suas prerrogativas reduzidas e, no Rio de Janeiro, a Justiça Militar substitui em parte a Justiça Civil para assuntos de segurança pública, situação que incidirá basicamente sobre a vida das camadas populares. A intervenção federal realiza-se de maneira açodada e não atende aos requisitos constitucionais substantivos para sua realização: não há grave desordem pública no Rio de Janeiro, como demonstram os indicadores da cidade no rankingda violência no país e os que atestam a redução dos índices de criminalidade deste carnaval em relação ao de 2017.

Os objetivos reais desta operação são outros e selam um novo pacto de aliança entre o monopólio midiático e o governo Temer: trata-se, de um lado, de reorientar a agenda de combate à criminalidade, da busca de criminosos de grande porte, do andar de cima da sociedade, para os oriundos dos extratos populares, de pequeno e médio porte; e de oferecer uma alternativa eleitoral competitiva para aqueles que disputam o controle sobre o golpe de Estado na sociedade brasileira.

A politização do carnaval carioca, a ousadia do desfile da escola de samba Paraíso do Tuiuti, – visto por mais de 2 milhões de pessoas no YouTube e que escancarou para o Brasil e o mundo os atores do golpe de Estado, seus objetivos neocoloniais e desumanos, denunciando a Rede Globo, como manipuladora, e o Presidente da República, como um vampiro neoliberal que se alimenta do sangue do seu povo – e o aumento da popularidade do ex-Presidente Lula revelaram que a percepção popular sobre quem eram os criminosos de grande porte da sociedade brasileira estava se tornando extremamente perigosa para nossas classes dominantes. Tornou-se claro que é preciso pôr fim a esse movimento de insatisfação popular com os de cima, que se iniciou com as Manifestações de Junho de 2013, foi apropriado pelas classes dominantes com o consórcio entre a mídia empresarial e os procuradores e juízes da Operação Lava-Jato, mas reestabeleceu parcialmente sua autonomia com a fortíssima impopularidade do governo Temer e sua base de sustentação. A reorientação da agenda da segurança para baixo pela mídia empresarial pretende encerrar o seu respaldo à Operação Lava-Jato com a prisão de Lula e a cassação de seus direitos políticos e busca, a partir da fabricação de um ambiente de desordem e violência e da espetacularização da intervenção federal, redirecionar o foco das preocupações populares, abortando uma politização que se desenvolvia progressivamente.

Além disso, diante da impopularidade das contrarreformas do Golpe de Estado, da recessão e perspectivas de crescimento rastejante da economia, busca-se uma agenda que fale diretamente ao sentimento de vulnerabilidade de amplas camadas população, cujos direitos sociais garantidos pela Constituição não são minimamente atendidos pelos serviços públicos precários e limitados oferecidos pelo Estado. No mapa da desigualdade do Rio de Janeiro, leva-se de treze a quinze anos para percorrer os poucos quilômetros de distância da Gávea, onde se vivem 80 anos, até a Rocinha ou o Complexo do Alemão, onde se vivem 67 ou 65 anos.

A perspectiva de resolução dos problemas sociais pelo emprego da força máxima de Estado, que seduz as camadas populares diante do desespero em que se encontram face ao atoleiro do desemprego, da carestia e da desigualdade, revela-se ilusória. Entre outras razões, porque dirige-se para reforçá-los em benefício dos mais fortes. Entretanto, propicia combustível suficiente para tomar de Bolsonaro as bandeiras de violência e permitir a Temer sonhar com a reeleição que lhe permitiria fugir da Justiça Comum a partir do respaldo que o uso máquina do Estado e o apoio midiático podem lhe oferecer.

Entretanto, a aprofunda-se a instabilidade social e política brasileira e acumulam-se os traumas sociais. A Nova República entendida como um movimento de redemocratização lenta e gradual do país encerrou-se em 2016 e, em seu lugar, diante das debilidades e falta de autonomia da centro-esquerda petista que liderava o bloco popular, as classes dominantes impuseram uma agenda regressiva e neoconservadora. Esta agenda apresenta forte caráter fascista. O fascismo é essencialmente um regime de terror do grande capital que busca destruir as conquistas populares e impedir pelo uso da violência institucionalizada, com ou sem mobilização de massas pequeno-burguesas, a reorganização autônoma das classes trabalhadora. O fascismo pode evoluir ou não para um regime totalitário. Está para ser publicado em breve, pela editora Insular, Socialismo ou Fascismo: o dilema latino-americano e o novo caráter da dependência, de Theotonio dos Santos, inédito no Brasil, que avança muito no tratamento conceitual do tema e desmistifica as visões que só vinculam o fascismo às suas expressões extremas, negligenciando as formas históricas graduais e diversas que o fenômeno assumiu.

Avança hoje no Brasil, até aqui, um fascismo liberal, que guarda importantes semelhanças com o que se desenvolveu na Itália entre 1922 e 1924. Este fascismo articulou-se com a estrutura liberal, subordinando-a sem eliminá-la formalmente, mas inoculou nela deformações pela imposição de restrições legais, casuísmos e violências que tornavam a competição partidária um simulacro e limitavam o Estado de Direito. Assim, como a Marcha sobre Roma teve como consequência a derrubada do governo e a nomeação, ratificada pelo Parlamento, de Mussolini a Primeiro-Ministro; no Brasil, as marchas sobre a Avenida Atlântica e a Avenida Paulista convocadas e potencializadas pelo monopólio midiático tiveram o mesmo objetivo e consequência: a derrubada do governo eleito pelo Parlamento e o respaldo deste ao governo golpista. Se as eleições de 1924 realizaram-se sob o signo da perseguição aos socialistas e da Lei Acerbo, que dava ao Partido que conseguisse mais de 25% dos votos 2/3 do Parlamento, as eleições de 2018 no Brasil, caso se realizem, o serão sob o contexto de cassação de direitos políticos de Lula, da vigência da PEC 55, que criminaliza as políticas sociais e exige maioria de 2/3 no Parlamento para ser derrubada, da limitação da autonomia do Congresso diante do Executivo e da intervenção militar no Rio de Janeiro.

O irracionalismo que domina a política institucional brasileira – e que, para derrubar um governo eleito, transforma pedaladas fiscais em empréstimos, que para cassar o líder nas pesquisas para a Presidência da  República cria a figura jurídica inexistente da propriedade de fato, e que considera delitos de pequeno porte motivo para impor uma forma de Estado de exceção – evidencia que as versões mil vezes repetidas pelo consenso entre as diversas frações das classes dominantes se impõem sobre as expressões mínimas do estado de direito. Na intervenção no Rio de Janeiro, o racismo é elemento inseparável do deslocamento do inimigo público das elites para as classes populares. As favelas são tratadas como guetos e seus habitantes, majoritariamente pretos, mestiços ou nordestinos, segregados e suspeitos de crime. A eles exige-se subordinação e não se tolera autonomia cultural e política. A censura presidencial a Tuiuti no desfile das campeãs, exigindo a retirada da faixa presidencial do vampiro neoliberal e o esvaziamento das alas que exibiam manifestantes fantoches e carteiras de trabalho rasgada, nos leva a pensar quais retaliações seriam empregadas sobre esta comunidade num contexto de intervenção federal: ocupação militar, detenção no insalubre sistema carcerário brasileiro e genocídio?

Neste contexto de manipulação e intolerância, gerado pelo medo da ascensão econômica, política e cultural das camadas populares que elevaram historicamente seus níveis de educação e informação, o centrismo esvazia-se e são débeis as garantias constitucionais públicas e individuais. O desemprego, a recessão, a financeirização, o bloqueio da competição eleitoral, a intimidação e a violência são as vias das classes dominantes para manter nosso povo sob controle. Denunciar o caráter do regime que vai se institucionalizando e organizar a unidade das forças populares em torno ao restabelecimento da democracia e do desenvolvimento são as tarefas chaves do momento. Este caminho exige confrontação e desobediência civil. Tolerar os caminhos de uma legalidade bloqueada pelas restrições que o fascismo a ela impõe, não permitirá enfrentar a agenda neoliberal e repressiva que se estabelece pelo consenso entre as frações das classes dominantes de que é necessário controlar o povo e violar a soberania popular.

Em entrevista à Globonews, o General Augusto Heleno Ribeiro, defensor do movimento de 1964 e ex-comandante das tropas da Minustah, reivindicou, sem causar perplexidade ou embaraço entre os participantes, não apenas a lei promulgada por Temer, que deslocou para a justiça militar os crimes cometidos pelas forças armadas em operações de garantias de lei e de ordem, mas inclusive que exército tivesse o direito de atuar no Rio de Janeiro como atua na guerra, eliminando qualquer suspeito. A contraposição tímida ou mesmo adesão com que alguns quadros do campo democrático reagiram à intervenção militar no Rio de Janeiro, impactados pelo apoio popular episódico e pela intimidação que emana do pacto entre o monopólio midiático e o aparato estatal, nos faz lembrar, guardadas as diferenças da analogia, o caminho buscado por Theodor Leipart, Presidente da Confederação Geral de Sindicatos de Alemães, em 21 de março de 1933. Diante da repressão inicial dirigida pelos nazistas ao Partido Social Democrata, Leipart afastou dele os sindicatos e escreveu uma carta conciliatória a Hitler propondo a atuação sindical dentro da legalidade do novo regime. No primeiro de maio, na comemoração do dia do trabalhador, os sindicatos marcham junto com as S.A; no dia 2 de maio, as S.A. marcham sobre suas sedes.

Unidade e defesa intransigente da soberania popular são as palavras de ordem do tempo presente para aqueles que se situam dentro do campo popular e democrático.

***

Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Estudos sobre Economia Política Internacional (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe(Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

Publicado originalmente [Aqui!]

JAPAN HOUSE SÃO PAULO abriga atividades da designer japonesa Risa Kojo

Promovido em parceria com o Consulado-Geral do Japão em São Paulo, o evento contempla uma breve exposição, palestra e workshops com a papercut artist. Os eventos são abertos e gratuitos

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Foto divulgação/Risa Kojo

Nos dias 24 e 25 de fevereiro, a JAPAN HOUSE São Paulo realiza em parceria com o Consulado-Geral do Japão em São Paulo, uma série de atividades com a designer gráfica japonesa, Risa Kojo. Com a finalidade de ressaltar o Japão contemporâneo, durante o último final de semana de fevereiro, serão oferecidos palestras, workshops e uma exposição exclusiva. Todas as atividades têm o objetivo de proporcionar vivências com o design nipônico tradicional, porém com nuances vanguardistas. A primeira visita de Risa Kojo ao Brasil é promovida pelo Japan Brand Program, iniciativa do Ministério dos Negócios Estrangeiros do governo do Japão (MOFA).

Com 11 peças únicas, a exposição visa transmitir como o tradicional design japonês e sua respectiva concepção tem sido representado na atualidade. Tal apresentação será realizada por meio de 11 peças, que incluem o universo do quimono, de suas estampas e de moldes usados para seu tingimento; algumas apresentações do kiri-ê, uma espécie de recorte extremamente sofisticado feito no papel; e exemplares de Noren, um tipo de cortina muito presente na entrada dos estabelecimentos japoneses. A mostra conta ainda com painéis explicativos sobre métodos milenares de tingimento usando moldes como ferramenta. Entre elas, a “katazome”, uma técnica feita com o papel washi, uma das poucas que ainda se mantém viva no mundo.

Complementando a série, dia 24, serão realizadas duas atividades com Risa Kojo: às 14h, a designer ministra palestra sobre a singularidade do tradicional design concebida pelas quatro estações do Japão, abordando ainda a forma como os trabalhos manuais são projetados no futuro. Já às 16h, será realizado um workshop de Kiri-ê para ensinar a confecção de cartões comemorativos com o papel base “shibugami”. Esta atividade também será realizada no domingo, dia 25, às 11h e 15h. Os interessados em participar da palestra e workshop deverão retirar senhas na recepção da JAPAN HOUSE São Paulo, uma hora antes de cada evento.

Graduada pela Escola de Artes Visuais (BFA) em 2004, Risa Kojo iniciou sua atuação como designer freelance, em Nova York. Atualmente, vive e trabalha em Tóquio, Japão. Em 2011, ela conheceu os artesãos japoneses, Shiro Nakano, um tintureiro “wasarasa”; Isao Uchida, fabricante de estêncil e o Sr. Masao Aida, o dançarino de kimono “edo-komon”, este acontecimento marcou sua carreira e transformou sua percepção com relação ao design. Atualmente, seus trabalhos envolvem a responsabilidade de transmitir o legado histórico do artesanato para as próximas gerações.

O Japan Brand Program, iniciativa do Ministério dos Negócios Estrangeiros do governo do Japão (MOFA), que visa promover a variedade de encantos do Japão, incluindo tradição, formação cultural e valores únicos que compõem a sociedade japonesa moderna. O programa busca compartilhar valores e experiências por meio de workshops, seminários e palestras de profissionais japoneses com atuações relevantes em vários segmentos, com o objetivo de nutrir o interesse nas atrações do Japão, bem como cultivar uma melhor compreensão da cultura japonesa. Além disso, espera-se que o Japan Brand Program se torne um catalisador para relações internacionais com indivíduos que partilham valores comuns, bem como na promoção de intercâmbio econômico entre países.

Foto de Ryu Kodama

JAPAN HOUSE São Paulo 
Exposição Kojo Risa, Designer gráfica 
24 e 25 de fevereiro

Palestra “A singularidade do tradicional design concebida pelas quatro estações do Japão e a forma como os trabalhos manuais dos artesãos são projetadas ao futuro”, com Risa Kojo
Dia 24 de fevereiro, às 14h

Workshop de Kiri-ê, com Risa Kojo
Dia 24 de fevereiro, às 16h 
Dia 25 de fevereiro, às 11h, 15h

Local: JAPAN HOUSE São Paulo – Avenida Paulista, 52 (1º Andar)
Entrada gratuita
Senhas disponíveis uma hora antes de cada sessão devem ser retiradas na recepção.
Tradução consecutiva
Informações para a imprensa:
JAPAN HOUSE São Paulo
Fernanda Araujo: fernanda.araujo@jhsp.com.br | (11) 94543-2079
Mayumi Orimoto: mayumi.orimoto@jhsp.com.br | (11) 94543-3624

Consulado Geral do Japão em São Paulo
Regina Erika Shiino: cgjcultural2@sp.mofa.go.jp / Ramal 353
Rui Taro Taguchi: cgjcultural1@sp.mofa.go.jp / Ramal 352
Departamento de Assuntos Culturais e de Imprensa 
(11) 3254-0100

Governo Temer flerta com o imponderável ao propor uso de mandados coletivos no RJ

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A decisão mal explicada do presidente “de facto” Michel Temer de intervir militarmente apenas no setor da segurança pública do Rio de Janeiro está rapidamente ganhando contornos de abraço dos afogados. É que passado o primeiro momento do anúncio improvisado, o ministro da defesa, Raul Jungmann veio a público para dizer que as  “operações no Rio vão precisar de mandados de busca e apreensão coletivos” [1].

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A primeira coisa que salta aos olhos é sobre qual seriam os locais cuja “realidade urbanística” ensejam o uso deste instrumento que viola as garantias individuais que constam da Constituição Federal Brasileira. A priori me parece óbvio que o ministro Jungmann está pensando nas favelas,  estejam elas localizadas nos morros ou nos mangues da baía da Guanabara. Aí não fica difícil imaginar como agirão as tropas policiais e militares de posse desses verdadeiros passes livres para a matança. E Jungmann não teve nem receio de ser explícito sobre essa intenção ao afirmar que “em lugar de você dizer, por exemplo, rua tal, número tal, você vai dizer, digamos uma rua inteira, uma área, um bairro. Aquele lugar ali é possível de ter um mandado de busca e apreensão dentro de todos os procedimentos legais“. 

A segunda questão que salta aos olhos é que dificilmente veremos o uso de mandados de busca e apreensão coletivos na Zona Sul do Rio de Janeiro, em que pese o fato de que ali existem mais do que certamente os mesmos tipos de redes ilegais que se diz querer exterminar nas regiões mais pobres da cidade.  Mandado de busca e apreensão coletivos em Ipanema e no Leblon? Dificilmente!

Um terceiro elemento e que parece aproxima o Rio de Janeiro do imponderável é que tendo se revelado com tanta antecedência que estas medidas serão aplicadas, o mais provável é que os eventuais alvos legítimos das futuras operações militares já começaram a enterrar suas armas para se mandar para outras paragens até que a coisa esfria. Assim, sobrarão dentro das comunidades pobres, os que estão sofrendo o ônus mais pesado da crise social, política e econômica que os (des) governos do (P) MDB criaram no Brasil e no Rio de Janeiro.  E muito provavelmente será sobre essa multidão de inocentes que deverá recair o ônus das operações militares.  

Tudo isso me leva a crer que, querendo ou não, o presidente “de facto” Michel Temer está nos lançando à beira do imponderável. Resta saber apenas quando ou que poderá causar a ignição de uma grave convulsão social no Rio de Janeiro. 


[1] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/ministro-da-defesa-diz-que-operacoes-no-rio-vao-precisar-de-mandados-de-busca-e-apreensao-coletivos.ghtml

Elio Gaspari sugere o óbvio: bye, bye Pezão!

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O jornalista Elio Gaspari usou parte da sua coluna desta domingo (18/02) para desancar a intervenção restrita no Rio de Janeiro e, de quebra sugerir o óbvio: que o (des) governo Luiz Fernando Pezão deve sair imediatamente da cadeira que finge ocupar no Palácio Guanabara [1].

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Mas Elio Gaspari vai mais além e aponta que a intervenção militar restrita à segurança tem como resultado objetivo aliviar os correligionários de Michel Temer no (des) governo do Rio de Janeiro e de proteger a máquina (criminosa) montada pelo ex-governador Sérgio Cabral e pelo deputado estadual Jorge Picciani, presidente preso da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Como Elio Gaspari não representa apenas a si mesmo quando escreve suas colunas, o mais provável é que ele esteja repercutindo a visão de grupos políticos influentes que não estão satisfeitos com a manobra arriscada que está sendo realizada pelo presidente “de facto” Michel Temer.

Por outro lado, não é de hoje, e o próprio Elio Gaspari aponta isso, que está mais do que evidente que o sr. Luiz Fernando Pezão perdeu toda a condição de garantir a governabilidade no Rio de Janeiro. Aliás, ele e seu vice-governador, o desaparecido Francisco Dornelles, só estão nos cargos que ocupam por força de medida liminar que impediu a consumação do ato de cassação decidido pelo Tribunal Regional Eleitoral. Aliás, não apenas pela existência de uma liminar, mas também pela completa omissão dos partidos que se dizem de oposição ao (des) governo que eles comandam.

O pior é que, como também alerta Elio Gaspari, a intervenção militar que Michel Temer decretou no Rio de Janeiro tem tudo para ser ‘um exercício de enxugamento de gelo‘, ou algo ainda pior que será “o prosseguimento de uma rotina na qual as forças policiais invadem bairros pobres e proclamam vitória matando ‘suspeitos‘”.

Em função não apenas da falência desse (des) governo na área da segurança pública, mas também na educação, saúde e habitação, é que o (des) governo Pezão precisa ser imediatamente encerrado. Essa medida é essencial para que se chegue a um processo de  reorganização política que dê um mínimo de chance para a possibilidade do Rio de Janeiro sair do caos instalado pelos consecutivos (des) governos do (P) MDB.  Do contrário, o que teremos será o aprofundamento da barbárie com seus altos custos sociais e econômicos.  Simples assim!

Por isso tudo,  é hora de dizer “bye, bye Pezão!


[1] https://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2018/02/pezao-precisa-sair-do-governo-do-rio.shtml

 

 

Especialista em segurança pública fala sobre perspectivas da intervenção militar no RJ

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Há muita propaganda acerca dos ganhos “miraculosos” que a intervenção militar decretada no Rio de Janeiro pelo presidente “de facto” Michel Temer sobre a segurança pública no nosso estado.

Mas a propaganda não resiste a um mínimo de análise séria sobre o que essa intervenção representará de fato no cotidiano do trabalho policial e, pior, na condição de segurança da população, especialmente aquela que reside na áreas mais pobres e violentas do território fluminense.

Essa falta de sustentação para o decreto da intervenção militar ficou mais do que evidente na entrevista dada pela professora Jaqueline Muniz, do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF) à GloboNews e que eu posto logo abaixo.

Ainda que impulso natural de muitas pessoas seja o de apoiar a presença militares nas ruas do Rio de Janeiro, o que a professora Jaqueline Muniz argumenta que essa medida é pior do que trocar seis por meia dúzia.  

Por isso há que se ter muito cuidado para não cair em mais uma promessa de resolução milagrosa do problema da violência urbana no Brasil, sem que se toque nas suas causas estruturais, a começar pela impressionante concentração da renda que divida brasileiros entre cidadãos e não cidadãos. 

Voltando à professora Jaqueline Muniz, a fala dela ajuda a entender também porque as universidades públicas são tão odiadas pelos (des) governantes de plantão. É que ali existem pessoas com capacidade analítica e compromisso com a maioria da nossa sociedade. Mais do que motivo para que haja tanta volúpia em tentar destruir estas instituições públicas.