Agronegócio faz pressão para manter no mercado brasileiro agrotóxico que é proibido na China e na União Europeia

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Lobby usa pesquisa não concluída para pressionar Anvisa sobre agrotóxico proibido

Produtores de soja e de agrotóxicos financiam pesquisas sobre o paraquate e tentam reverter a proibição antes mesmo de apresentar os resultados. Reportagem levantou intensa agenda de reuniões na Anvisa

Por Ana Aranha e Hélen Freitas – Repórter Brasil/Agência Pública

Na reta final para a proibição de um dos agrotóxicos mais letais do mundo, o paraquate, a indústria aumentou para a potência máxima o lobby em sua defesa no Brasil. Ele passa a ser banido em setembro deste ano, segundo resolução da Anvisa publicada em 2017 e ancorada em evidências de que a exposição ao produto pode gerar mutações genéticas e a doença de Parkinson. 

Agrotóxico largamente utilizado nas plantações de soja, basta um gole para tirar a vida. Foi criado pela Syngenta, empresa de origem suíça recentemente comprada por um grupo chinês, mas está banido em toda a União Europeia e na China, onde é produzido apenas para exportação.

A artilharia em defesa do produto é robusta. Desde sua proibição em 2017, foram mais de vinte reuniões na Anvisa com as maiores multinacionais do setor, como a Syngenta, e representantes dos maiores exportadores do Brasil, como a Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja). A agenda, compilada pela Repórter Brasil e Agência Pública, revela a coincidência entre as reuniões e algumas das principais decisões da agência reguladora. A frente financia pesquisas, ações na justiça, faz lobby nos ministérios e Congresso. 

Neste momento, os atores estão alinhados em torno de um argumento central: a proibição deve ser adiada até que novos estudos fiquem prontos. Estudos financiados pela indústria que fabrica e lucra com o paraquate.

Ligado a mutações genéticas e a doença de Parkinson, o paraquate será banido em setembro deste ano no Brasil, segundo resolução da Anvisa, publicada em 2017 (Foto: Alam Ramírez Zelaya)

“Você já foi para o Mato Grosso? Lá é o Brasil que deu certo, é impressionante a pujança do agro brasileiro”, afirma Angelo Trapé, responsável pela pesquisa paga pela Aprosoja. Professor aposentado da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, ele é transparente em relação ao seu entusiasmo pela segurança do paraquate. “O contato do trabalhador que faz a pulverização é nulo. É tudo mecanizado, trator fechado, vedado”. 

Os pesquisadores coletaram amostras de urina de trabalhadores antes, durante e três dias depois da aplicação do produto. “Vamos testar se o trabalhador da soja, aquele que usa tecnologia e proteção, tem algum resíduo de paraquate na urina. Se não tiver, como podemos explicar a decisão da Anvisa que vai proibir o produto?”, questiona o pesquisador. 

Trapé garante que o interesse do financiador não influenciará nos resultados da pesquisa, que está sendo conduzida em laboratório da Unicamp com o aval do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade. Questionado pela reportagem, o comitê informou que “em relação ao conflito de interesse, foi apresentada uma declaração do patrocinador atestando não haver conflito de interesses na execução desta pesquisa”.

O comitê de ética da universidade, porém, não dá aval para a metodologia da pesquisa como um todo, ele avalia apenas o risco envolvido na participação dos trabalhadores, afirma João Ernesto de Carvalho, diretor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp, onde fica o laboratório em que a pesquisa está sendo realizada. “É complicado quando o financiador tem interesse no resultado, você precisa controlar as condições em que o estudo é realizado, não é o caso dessa pesquisa”, questiona.

Produtores da soja defendem que a proibição do paraquate deve ser adiada até que novos estudos financiados por eles fiquem prontos (Foto: Pedro Biondi/Repórter Brasil)

O estudo também é criticado por testar apenas situações que seguem o protocolo ideal de segurança. “Não somos inocentes para acreditar que todos os produtores de soja têm tratores de cabine fechada, não é essa a realidade de todo o campo brasileiro”, afirma o procurador federal Marco Antônio Delfino de Almeida, que atua no Mato Grosso do Sul e teve acesso às informações preliminares sobre a pesquisa.

O procurador foi o responsável por detectar movimentação dentro da Anvisa em março deste ano, quando o pedido da indústria para adiar a proibição foi colocado em pauta em uma reunião da diretoria da agência. 

Ele conseguiu umliminar na justiça proibindo a Anvisa de fazer mudanças na data de proibição antes da conclusão das pesquisas. “Não podemos aceitar esse argumento do ‘aprova aí e depois eu apresento’. Não é assim que funciona”, afirma o procurador.

reunião aconteceu no dia 31 de março, mas apenas para discutir outros assuntos, já que a Anvisa estava impedida de deliberar sobre o banimento do paraquate.

Procurada pela reportagem e com dez dias para responder às questões enviadas, a Anvisa não retornou. Em nota técnica enviada à justiça sobre o caso, a agência argumentou que a sua resolução sobre a proibição deixara aberta a possibilidade de serem apresentadas novas evidências. E que a indústria manteve a agência sempre informada sobre os atrasos nas pesquisas. “Entende-se, pelo princípio da razoabilidade, que esta Agência deveria avaliar a concessão de prazo adicional solicitada”, conclui a nota (leia na íntegra).

Procurada pela reportagem, a Aprosoja, financiadora da pesquisa, afirmou que “não está se manifestando sobre o processo envolvendo a liberação do paraquate”. 

Atraso providencial

Anvisa começou a reavaliação do paraquate em 2008. Em 2015 o órgão promoveu uma consulta pública sobre a proibição, quando recebeu milhares de contribuições. Por que, então, os estudos não foram feitos antes?

Assim como os produtores de soja, as fabricantes de agrotóxicos também estão financiando uma nova pesquisa sobre o paraquate e ela também está atrasada. O estudo vai testar a sua capacidade de provocar mutação nos genes de ratos de laboratório no Covance Laboratory, na Inglaterra. Os resultados só devem ficar prontos depois de setembro, data da proibição no Brasil. 

Em ambos os casos, o atraso das pesquisas é usado como principal argumento para adiar a data do banimento.

Desde a resolução que anunciava a proibição do paraquate no Brasil, multinacionais e representantes dos maiores exportadores de soja se reuniram com a Anvisa (Foto: Cindy Cornett Seigle)

“Sim, houve um atraso, mas é preciso entender a sazonalidade da cultura da soja”, afirma Elaine Lopes Silva, vice-coordenadora da chamada “Força-Tarefa Paraquate”, grupo formado por 12 empresas fabricantes de agrotóxicos, entre elas as multinacionais Syngenta e a Adama. É essa força-tarefa que está financiando a pesquisa na Inglaterra.

Segundo Silva, a demora se deve às dificuldades em definir o formato que o estudo deveria ser feito, achar um laboratório capaz e conciliar a agenda da pesquisa com o tempo da safra da soja. “No primeiro momento em que vimos que esse atraso aconteceria, nós comunicamos e a Anvisa se mostrou bastante aberta”, afirma. “Ela se comprometeu a levar isso [adiamento] para discussão”.

A reportagem teve acesso a quatro pedidos oficiais feitos pela indústria para adiar o prazo de proibição. O mais ousado deles foi feito ainda em 2019, quando a força-tarefa tentou ganhar mais dois anos de vendas no Brasil. Em vez de setembro de 2020, eles solicitaram empurrar o prazo da proibição para novembro de 2022. 

Como o pedido não foi concedido, novas solicitações foram feitas para adiar para julho de 2021. Todas protocoladas na Anvisa antes de qualquer atraso provocado pela pandemia.

Indústria vai à Anvisa

Meses antes da reunião do dia 31 de março (quando a Anvisa pretendia deliberar sobre  adiar a proibição, mas foi impedida pela justiça), estava intensa a agenda de encontros com representantes da indústria e outros atores do processo. A reportagem detectou seis reuniões na agenda oficial dos diretores da agência sanitária com o tema específico do paraquate só em outubro e novembro de 2019. 

Apenas nestes dois meses, há quatro encontros na Anvisa com a Syngenta e sua força-tarefa, três deles para tratar do paraquate. 

Procurada pela reportagem, a Syngenta enviou nota afirmando que “reconhece a autonomia e seriedade da Anvisa para regular o uso dos defensivos agrícolas”. E que a sua força-tarefa “valoriza e apoia os esforços da Anvisa em conduzir uma avaliação abrangente, que sempre deve considerar a importância agronômica e econômica do paraquate para a agricultura brasileira, sem prejuízo da segurança e saúde dos agricultores e consumidores” (leia aqui a nota na íntegra).

Veja a íntegra do levantamento sobre a agenda da Anvisa.

A sequência de reuniões em outubro e novembro culmina com um encontro entre o diretor Renato Porto, então responsável pelas decisões sobre a proibição do agrotóxico, com a bancada ruralista e representante da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) no dia 5 de novembro. Na pauta, o paraquate.

O comitê de Ética da Unicamp deu seu aval à pesquisa pouco mais de um mês depois, no dia 11 de dezembro. Embora ele tenha autonomia da comissão nacional, a reportagem procurou a Conep para entender porque o seu coordenador geral se deslocou até a Anvisa para falar sobre o paraquate justamente neste período. A instituição afirmou apenas que “não aprovou protocolo de pesquisa envolvendo o paraquate” e não respondeu sobre o que foi discutido nas reuniões.

Segundo a nota técnica da Anvisa, a agência afirma que a “aprovação pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa” foi uma das dificuldades encontradas pela indústria que contribuíram para atrasar as pesquisas. “No caso da Conep, vale salientar que a própria Anvisa procurou auxiliar o processo, realizando interlocução com aquela Comissão, com vistas a esclarecer o propósito do estudo de biomonitoramento”, diz o documento, em referência direta à pesquisa conduzida na Unicamp.

Apesar do conflito de interesse, a associação de produtores de soja financia pesquisa para avaliar os riscos do produto na saúde do trabalhador (Foto: Pedro Biondi/Repórter Brasil)

Os encontros da indústria na agência voltaram a acontecer neste ano, com reuniões específicas sobre o paraquate com a Syngenta e a bancada ruralista em fevereiro e março. No final de março, a revisão do prazo de banimento entrou na pauta da reunião da diretoria colegiada da Anvisa, soando o alerta do Ministério Público Federal.

Depois que o MPF entrou na história, a agência teve de se manifestar dentro do processo. Os documentos enviados, aos quais a reportagem teve acesso, sugerem que a agência estava inclinada a ceder aos pedidos da indústria.

A Advocacia-Geral da União entrou no processo para defender o direito da Anvisa em debater o assunto. Mas acabou fazendo uma longa argumentação sobre o mérito, deixando claro uma posição favorável ao adiamento. O “efeito indesejado, gravíssimo e imediato” da proibição, lê-se na manifestação, “significará perda de competitividade internacional do produto brasileiro frente aos demais players do mercado de grãos” (leia o documento completo).

Lobby no Congresso

Depois que o MPF amarrou as mãos da Anvisa, o lobby parece ter tomado uma ação desesperada no Congresso. Na mesma semana no início de julho, um deputado e um senador da bancada ruralista entraram com projetos pedindo a total suspensão da resolução da Anvisa, o que teria o efeito de liberar o paraquate no país.

Por meio de Projetos de Decreto Legislativo com redação idêntica na Câmara e no Senado, afirmam que a decisão de banir o agrotóxico “fundamentou-se a partir de viés político e não de uma decisão científica”.

O avanço no Congresso também ocorreu em sintonia com a agenda de reuniões na Anvisa. Uma delas foi em 29 de junho, um dia antes do projeto ser protocolado na Câmara pelo deputado Luiz Nishimori (PL/PR). Uma semana depois, foi a vez do senador Luis Carlos Heinze (PP/RS)  propor um projeto de igual teor.

Depois de diversas reuniões na Anvisa, bancada ruralista lança projetos na Câmara e no Senado que propõe a liberação do paraquate (Foto: Câmara dos Deputados/Divulgação)

Em 8 de julho, mesmo dia em que representante da bancada ruralista se reunia com a Anvisa para tratar da “modernização do processo de reavaliação dos pesticidas pela Anvisa”, um grupo de deputados da bancada entrou com requerimento de urgência para votar o projeto de Nishimori, argumentando pelo “risco de desabastecimento e de graves impactos na economia do País”.

Economia vs. Vidas

Assim como ocorre com a pandemia, o debate sobre agrotóxicos cai na “polarização” vida versus economia. 

Segundo um experiente lobista do agronegócio, o seguinte argumento será martelado em defesa do paraquate nos próximos meses: “Num momento em que a economia está fragilizada, será uma irresponsabilidade tirar uma tecnologia fundamental para a produtividade da agricultura brasileira”. Alguns dos números divulgados pela bancada ruralista são aterrorizadores. Segundo estudos apresentados por eles, a proibição do paraquate eliminaria dois milhões de empregos, reduzindo R$ 25 bilhões em geração de renda e R$ 4,7 bilhões em arrecadação de impostos. 

Esses números estão superestimados na opinião do agrônomo e professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Antonio Alberto da Silva. Segundo ele, já existem agrotóxicos para substituir o paraquate sem inviabilizar a produção. “É um produto importante, mas não vai causar prejuízo tão grande. Há alternativas”.

Ele argumenta que há uma lista de opções com preços distintos e eficiência um pouco inferior. O principal é o Diquat, que pode ser encontrado no Rio Grande do Sul a R$ 32 por hectare, mesmo preço do paraquate no estado.

A informação é contestada pela vice-presidente da “força-tarefa” em defesa do paraquate. Segundo Elaine Silva, o produto só pode ser substituído por uma combinação de até três agrotóxicos diferentes, o que encarece o tratamento. Ela argumenta ainda que a nova mistura de substâncias pode ser pior para o trabalhador, pois ainda não se conhece os seus efeitos.

O maior diferencial do paraquate é combater plantas daninhas que já adquiriram resistência a outros agrotóxicos. Além de seu uso no processo chamado de “dessecagem”, quando o agrotóxico é usado para antecipar a colheita da soja e padronizar a maturação dos grãos.

Quando usado na dessecagem, o paraquate fica na vagem e, se não for respeitado o momento certo da aplicação, pode chegar ao grão que será consumido (Foto: Aqua.Mech)

Este é uso mais comum e o que oferece maior risco para a contaminação humana. Se não for respeitado o momento certo da aplicação, assim como o intervalo entre a aplicação e a colheita, o agrotóxico fica na vagem e pode deixar resíduos até no grão – que será consumido por homens e animais.

“Seguindo todas as recomendações técnicas, o produto não chega no grão, mas ele fica na vagem”, afirma o agrônomo Silva da UFV. “Durante a colheita, a poeira que sai libera o paraquate”. 

Os especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que os protocolos de segurança para uso da substância são complexos e de difícil execução. As roupas de proteção, extremamente quentes, são um dos exemplos de como algumas medidas são impraticáveis no centro-oeste do Brasil, afirma o procurador Leomar Daroncho, do Ministério Público do Trabalho em Goiás.

O paraquate tem a mais alta classificação toxicológica no país: extremamente tóxico. A ingestão ou inalação causa necrose nos rins e em artéria do pulmão e danos às células do fígado. Durante o debate para a sua proibição na Europa, o agrotóxico foi investigado durante 9 anos pelo Centro de Controle de Intoxicações em Marselha, na França. Os estudos investigaram 15 mortes, sendo que 10 ocorreram nas primeiras 48 horas após a ingestão. A rapidez se deve à falência de múltiplos órgãos, entre outras complicações. 

Mas os efeitos da intoxicação, na maioria dos casos, não são imediatos. São doenças que só vão se manifestar ao longo do tempo. Assim, a maioria dos trabalhadores não associa as consequências da contaminação ao produto, alerta o procurador do trabalho Daroncho. Por isso, ele diz, quase não existem casos de condenação de empresas por intoxicação. 

Estoque para uso ilegal?

Mesmo com a chegada da proibição do agrotóxico para setembro, os produtores rurais continuaram comprando o paraquate para uso na safra do ano que vem. Essa informação está na manifestação da AGU na ação movida pelo MPF. A advocacia afirma que os agricultores anteciparam as compras do paraquate devido à alta do dólar. Assim, a AGU argumenta pelo adiamento da proibição para evitar prejuízo: “os agricultores que já estão com produtos a base de paraquate nas fazendas para uso na próxima safra deverão trocar os produtos ou mesmo poderão perder os herbicidas, aumentando o custo de produção”.

O argumento soou estranho o agrônomo e professor da UFV. “Fizeram uma compra muito antecipada de um produto que há três anos já sabiam que ia sair do mercado a partir de setembro”, afirma Silva.

Sinal preocupante de que os produtores não pretendem parar de utilizá-lo mesmo depois da proibição é o aumento no volume de importação. Em 2017, quando a Anvisa decidiu pela proibição, eram 35 mil toneladas de paraquate entrando no Brasil. Depois da decisão, o volume de importação subiu para 50 mil em 2018 e 65 mil em 2019. Os dados são do Ministério da Economia, Indústria, Comércio Exterior e Serviços no portal Comex Stat. O aumento segue a tendência do mercado no Brasil.

Se o lobby vai surtir efeito e conseguir adiar ou até derrubar a proibição, a vice-coordenadora da “Força-Tarefa Paraquate” diz ainda não ter resposta. E brinca: “essa é a pergunta de um bilhão de dólares”.

fecho

Esta reportagem foi produzida pela parceria entre a Repórter Brasil e a Agência Pública [Aqui!] e [Aqui!].

Brasil: gado bovino criado ilegalmente na Amazônia é encontrado na cadeia de fornecimento da JBS, líder do setor de carne bovina

  • Dados do governo indicam forte aumento da pecuária bovina comercial ilegal em áreas protegidas da Amazônia brasileira
  • • Pecuária comercial ilegal impulsiona apropriações de terras, violência e ameaças contra povos indígenas e moradores tradicionais de reservas extrativistas
  • • JBS é instada a implementar sistema de monitoramento efetivo até o final de 2020

capa-do-relatorio-substituirCriação de gado em propriedade rural dentro da Reserva Rio Ouro Preto em Rondônia – Julho 2019

Gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas da floresta amazônica brasileira entrou na cadeia de fornecimento da maior produtora de carne bovina do mundo, a JBS, disse a Anistia Internacional hoje em relatório de 72 páginas, Da Floresta à Fazenda .

relatório anistia

Ao não monitorar efetivamente a entrada de gado bovino em sua cadeia indireta de fornecimento, a JBS falha na adoção de um processo adequado de devida diligência como estabelecido nos Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos . De acordo com os Princípios Orientadores da ONU, a JBS contribui para abusos de direitos humanos dos povos indígenas e comunidades tradicionais residentes em reservas extrativistas ao participar nos incentivos econômicos para o gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas, afirma a Anistia Internacional.

“Desde pelo menos 2009 a JBS tem conhecimento dos riscos de gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas entrar em sua cadeia de fornecimento”, disse Richard Pearshouse, diretor de Crises e Meio Ambiente da Anistia Internacional.

“A JBS deixou de implementar um sistema de monitoramento efetivo em sua cadeia de fornecimento, inclusive de seus fornecedores indiretos. Ela precisa reparar os danos causados e imediatamente implementar sistemas para evitar que isso volte a ocorrer”.

Ainda que a Anistia Internacional não tenha encontrado evidências de envolvimento direto da JBS em abusos de direitos humanos nos três locais investigados, pôde constatar que gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas ingressou na cadeia de fornecimento da empresa. A organização exorta a JBS a adotar medidas até o final de 2020 para reparar essa situação.

Maior exportadora mundial de carne bovina

O Brasil tem cerca de 214 milhões de bovinos, mais que qualquer outro país. Sua indústria de carne bovina movimenta R﹩ 618 bilhões (US﹩ 124 bilhões), sendo responsável por 8% do PIB nacional .

Cerca de três quartos da carne bovina brasileira é consumida no país, mas o quarto remanescente entra na cadeia de fornecimento global em quantidades suficientes para fazer do país o maior exportador mundial de carne bovina. Os principais destinos da carne brasileira incluem China, Hong Kong, Egito, Chile, União Europeia, Emirados Árabes Unidos e Rússia.

A região amazônica vem assistindo a maior expansão da indústria brasileira da pecuária bovina. Desde 1988 o número de bovinos na região quase quadruplicou, chegando a 86 milhões em 2018 – 40% do total nacional. Parte dessa expansão vem destruindo grandes áreas de floresta protegida situada em terras indígenas e reservas extrativistas.

Ao todo, 63% da área desmatada entre 1988 e 2014 virou pastagem para gado bovino – uma superfície cinco vezes a de Portugal. A Anistia Internacional documentou esse processo com detalhes em um briefing em novembro de 2019.

De acordo com dados governamentais, as terras indígenas na Amazônia perderam 497km² de floresta entre agosto de 2018 e julho de 2019 – um aumento de 91% em relação ao período anterior.

Abusos de direitos humanos em três áreas protegidas

A Anistia Internacional visitou três locais em sua investigação: a Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau e as reservas extrativistas Rio Jacy-Paraná e Rio Ouro Preto, todas no estado de Rondônia.

A organização não encontrou qualquer evidência que indicasse envolvimento direto da JBS em abusos de direitos humanos nos três locais investigados.

Contudo, em todas as três áreas, recentes apropriações ilegais de terras levaram a uma perda de terras tradicionais, protegidas pela legislação brasileira. Os direitos dos povos indígenas às suas terras são protegidos sob o direito internacional dos direitos humanos. A pecuária bovina comercial é proibida por lei nos três locais.

Ameaças, intimidações e violência frequentemente acompanham essas apropriações ilegais de terras, que ocorrem em um contexto mais amplo de violência no campo. Segundo uma estimativa, em 2019 houve sete assassinatos, sete tentativas de assassinato e 27 ameaças de morte contra indígenas na região amazônica brasileira.

Em dezembro de 2019, alguns indígenas Ueu-Eu-Wau-Wau, enquanto patrulhavam seu território, encontraram uma área de cerca de 200 hectares desmatada e queimada recentemente. Araruna, um Uru-Eu-Wau-Wau de cerca de 20 anos, disse à Anistia Internacional:

“Nos últimos meses estamos preocupados com as invasões que vêm aumentando cada vez mais e chegando mais perto das aldeias. Vimos uma grande derrubada, imensa, recente. Vimos um helicóptero semeando capim para que eles possam colocar gado futuramente”.

Em janeiro de 2019, outro grupo de Uru-Eu-Wau-Wau se deparou com cerca de 40 invasores armados, provavelmente grileiros, na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, a apenas dois quilômetros de uma aldeia indígena. Outros descreveram anteriormente que ouviram tiros durante a noite ou que receberam ameaças de morte às suas crianças.

Em outros lugares, comunidades inteiras foram expulsas da terra e temem a morte, caso voltem. A maioria dos moradores da Reserva Extrativista do Rio Jacy-Paraná foi expulsa nas duas últimas décadas para dar lugar a fazendas de gado bovino. Segundo uma antiga moradora, restam apenas três pessoas entre as cerca de 60 famílias que antes habitavam a reserva.

“Virou tudo fazenda”, contou Sara, antiga moradora da reserva que foi expulsa de sua terra em 2017, à Anistia Internacional.

Imagens de satélite analisadas pela Anistia Internacional corroboram os depoimentos dos antigos moradores: gado bovino e bebedouros de água agora são visíveis em terras que antes estavam cobertas por florestas.

Os dados não mentem

A lei brasileira exige que agências estaduais coletem dados detalhados sobre a pecuária bovina. Esses dados incluem informações sobre a localização das fazendas de gado bovino, inclusive das que se situam em áreas protegidas; o número, faixa etária e sexo dos bovinos do rebanho, e as movimentações de animais entre fazendas. Apesar desses dados serem de interesse público, eles não estão atualmente disponíveis ao público.

A Anistia Internacional registrou junto à IDARON, a agência de defesa sanitária animal de Rondônia, sete pedidos de informação com base na Lei de Acesso à Informação.

Os dados fornecidos pela IDARON indicam uma expansão forte da pecuária bovina comercial em áreas protegidas em que a atividade é ilegal. Entre novembro de 2018 e abril de 2020, o número de bovinos subiu 22%, de 125.560 para 153.566 animais.

Dados da IDARON também mostram que ao longo de 2019 foram transferidos 89.406 bovinos de fazendas situadas em áreas protegidas em que a pecuária bovina comercial é ilegal. A grande maioria desses animais é enviada para outras fazendas antes de ir para o abate. Isso significa que mesmo o gado bovino de fazendas em situação legal pode ter sido criado anteriormente de modo ilegal em áreas protegidas.

A Anistia Internacional considera que agências estaduais de defesa sanitária animal como a IDARON efetivamente facilitam a pecuária bovina comercial ilegal. Elas facilitam ao registrar fazendas comerciais de gado bovino e emitir documentos para movimentações de gado bovino apesar das fazendas estarem situadas em uma reserva extrativista ou terra indígena.

“Os dados que acessamos e analisamos – fornecidos pelos próprios órgãos governamentais – fazem soar o alarme”, disse Richard Pearshouse “Essa informação não deve ficar escondida do olhar público”.

“Como acabar com a criação ilegal de gado bovino na Amazônia brasileira? Um bom ponto de partida seria parar oficialmente de registrar fazendas comerciais em áreas protegidas e parar de emitir guias de trânsito para o gado bovino oriundo dessas fazendas”.

A cadeia de fornecimento contaminada da JBS

O gado bovino brasileiro frequentemente é transferido entre diferentes fazendas. As fazendas que vendem gado aos frigoríficos são chamadas de fornecedores diretos, e outras fazendas em que o gado pastou antes disso são conhecidas como fornecedores indiretos. Pesquisadores estimam que até 91%-95% das fazendas compram gado de fornecedores indiretos.

A Anistia Internacional, em colaboração com a ONG Repórter Brasil, analisou documentos oficiais de controle de saúde animal que revelam que a JBS comprou gado bovino diretamente de uma fazenda situada na Reserva Extrativista do Rio Ouro Preto em duas ocasiões em 2019.

Além disso, em 2019 a JBS comprou gado bovino várias vezes de dois fazendeiros que operam tanto fazendas ilegais em áreas protegidas, quanto fazendas legais fora dessas áreas. Um dos fazendeiros cria gado ilegalmente na Reserva Extrativista do Rio Jacy-Paraná e o outro na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau.

Em ambos os casos, os fazendeiros registraram movimentações de gado bovino de uma fazenda no interior de uma das áreas protegidas para uma fazenda fora da área protegida e, em seguida, registraram movimentações separadas de gado bovino da fazenda legal para a JBS.

Em duas ocasiões, a segunda movimentação foi registrada apenas minutos após a primeira. As duas movimentações envolveram um número idêntico de animais, da mesma faixa etária e do mesmo sexo. Os animais tinham mais de 36 meses de idade, uma faixa etária comum do gado bovino que é levado para o abate. De acordo com especialistas entrevistados pela Anistia Internacional, isso pode ser indício da prática de lavagem de gado.

A lavagem de gado – transferir gado entre fazendas intermediárias para dar uma aparência de legalidade aos animais – burla os sistemas de monitoramento existentes.

A Anistia Internacional buscou informações específicas da JBS para saber se em 2019 a empresa processou animais vindos de fazendas situadas nas três áreas protegidas. A empresa respondeu: “Não compramos gado bovino de qualquer fazenda envolvida na pecuária ilegal em áreas protegidas” e disse ainda que a empresa adota uma “abordagem inequívoca de desmatamento zero em toda sua cadeia de fornecimento”.

Ela também afirmou: “A JBS monitora de perto seus fornecedores para verificar o cumprimento de todos os aspectos de nossa Política de Compra Responsável e não identificou previamente quaisquer problemas relacionados a abusos de direitos humanos de comunidades indígenas ou outros grupos protegidos”.

A JBS não respondeu a uma pergunta sobre o monitoramento de seus fornecedores indiretos, destacando em lugar disso que “a rastreabilidade de toda a cadeia de fornecimento é um desafio de toda a indústria e uma tarefa complexa”.

A JBS tem conhecimento dos riscos de que gado bovino ilegal entre em sua cadeia de fornecimento – em 2009 a empresa assinou dois acordos contra o desmatamento com o Ministério Público Federal e, em separado, com o Greenpeace –, mas tomou medidas insuficientes para resolver o problema. Auditorias externas observaram que a JBS não monitora seus fornecedores indiretos.

A Anistia Internacional exorta a JBS a adotar prontamente um sistema de monitoramento efetivo, inclusive de seus fornecedores indiretos, e a garantir que gado bovino criado ilegalmente em áreas protegidas durante alguma etapa de sua vida não entre na cadeia de fornecimento da empresa. No mais tardar, esse sistema deve ser implementado até o final de 2020.

Um procurador federal no Pará concluiu em 2019 que: “Hoje nenhuma empresa que compra da Amazônia pode afirmar que não tem gado de desmatamento em sua atividade produtiva (…) Nenhuma empresa frigorífica e nenhum supermercado também”.

“Com o desmatamento na Amazônia no nível mais alto em uma década, cabe agora à JBS e outros frigoríficos no Brasil adotar processos de diligência devida para garantir que seus fornecedores diretos e indiretos não estejam contribuindo para abusos de direitos humanos contra povos indígenas e moradores tradicionais da Amazônia”, disse Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil.

 

No The New York Times, Felipe Neto mostra porque Bolsonaro é pior que Trump no combate à COVID-19

felipe neto

O youtuber Felipe Neto declarou no jornal estadunidense  The New York Times, em vídeo publicado nesta quarta-feira (15), que “os presidentes Trump e Bolsonaro há muito admiram os estilos cáusticos de governança. Portanto, não deve ser surpresa que os Estados Unidos e o Brasil sejam os únicos dois países do mundo com mais de um milhão de casos confirmados de COVID-19″ (ver vídeo abaixo).

Dada a amplitude da audiência do “The New York Times” e o fato que Felipe Neto usou bem a língua inglesa para passar sua mensagem, o mais provável que ele tenha conseguido alienar os apoiadores de Donald Trump e Jair Bolsonaro na mesma proporção.

Mas como o próprio Felipe Neto disse no vídeo, “quando o palhaço tem que falar sério, o circo provavelmente está pegando fogo”.  Uma excelente definição para o que está acontecendo lá e cá.

Livro lança luz sobre a crescente transformação global de terras em ativos financeiros

A Cornell University Press acaba de lançar um livro que promete lançar muita luz sobre as intrincadas relações  entre  a apropriação global de terras e sua inserção no mercado finaceiro global.  O livro intitulado “Fields of Gold: Financing the Global Land Rush” (ou em português “Campos de ouro: financiando a corrida global da terra”, de autoria de Madeleine Fairbairn, professora do Departamento de Estudos Ambientais da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, examina criticamente a história, idéias e lutas políticas em torno da financeirização de terras agrícolas que ocorre atualmente em nível planetário.

fields of gold

Em particular, Madeleine Fairbairn se concentra seu esforço analítico nos desenvolvimentos em dois dos locais de investimento mais populares do mundo, os EUA e o Brasil, onde ela analisa as implicações da aquisição de terras pelos por grandes investidores e o controle sobre os recursos disponíveis para meios de subsistência e justiça econômica para os habitantes das áreas rurais

No coração do “Fields of Gold” há uma tensão entre os esforços para transformar terras agrícolas em uma nova classe de ativos financeiros e as propriedades físicas e sociais da terra, que freqüentemente obstruem essa transformação.

O que torna este livro singular no crescente corpo literatura científica sobre a apropriação global de terras é o interesse da Fairbairn naqueles que adquirem terras, em vez daqueles afetados pelas aquisições de terras. O trabalho de Fairbairn lança luz etnográfica sobre os atores e relacionamentos – de Iowa a Manhattan e São Paulo – que ajudaram a transformar a terra em uma atraente classe de ativos financeiros.

Quem desejar baixar gratuitamente, a versão pdf do “Fields of Gold”, basta clicar [Aqui!].

Calor prolongado na Sibéria é quase impossível sem mudanças climáticas

Alteração no clima aumentou em 600 vezes chance de verão intenso na região, diz análise

fogo siberiaDistritos em seis regiões russas, incluindo a república de Sakha, introduziram estados de emergência em conexão com os incêndios.Yevgeny Sofroneyev / TASS

O recente calor prolongado na Sibéria, de janeiro a junho de 2020, seria quase impossível sem a influência das mudanças climáticas causadas pelo homem. É o que indica um estudo do tipo “análise rápida de atribuição” conduzido por alguns dos principais cientistas do clima. As mudanças climáticas aumentaram as chances de calor sustentado na região em pelo menos 600 vezes. Esse é um dos resultados mais contundentes de qualquer estudo de atribuição realizado até o momento.

Participaram da avaliação pesquisadores de universidades e de serviços meteorológicos de diferentes países, incluindo o Instituto P.P.Shirshov de Oceanologia e a Academia Russa de Ciências. Eles descobriram que as temperaturas estão 2°C mais quentes do que ocorreria sem a influência dos gases de efeito estufa provenientes de atividades humanas.

“Este estudo mostra que não só a magnitude da temperatura foi extremamente rara, mas também os padrões climáticos que a causaram”, afirma a professora Olga Zolina, do P.P.Shirshov Institute of Oceanology, em Moscou, e do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), em Grenoble, na França. “Continuamos a estudar como os incêndios florestais que queimaram milhares de hectares também podem afetar o clima, à medida que as chamas bombeiam fumaça e cinzas na atmosfera”, conclui a pesquisadora, que integra o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

As temperaturas na Sibéria estão bem acima da média desde o início do ano. Uma nova temperatura recorde para o Ártico — 38°C — foi registrada na cidade russa de Verkhoyansk em 20 de junho, enquanto as temperaturas gerais da Sibéria ficaram mais de 5°C acima da média de janeiro a junho.

Para medir o efeito das mudanças climáticas sobre as temperaturas observadas na Sibéria, os cientistas fizeram simulações computacionais e compararam o clima atual, com cerca de 1°C de aquecimento global, com o clima que existiria sem a influência humana. A análise mostrou que o calor prolongado que a região experimentou este ano aconteceria menos de uma vez a cada 80 mil anos se não houvesse interferência antrópica.

Os cientistas observaram que, mesmo no clima atual, o calor prolongado ainda era improvável: condições extremas podem ocorrer menos de uma vez a cada 130 anos. Mas sem cortes rápidos nas emissões de gases de efeito estufa, esses eventos correm o risco de se tornar frequentes até o final do século.

Consequências

O calor na Sibéria provocou incêndios generalizados, com 1,15 milhão de hectares queimados no final de junho e uma liberação de cerca de 56 milhões de toneladas de dióxido de carbono — mais do que as emissões anuais de alguns países industrializados, como Suíça e Noruega.

Esse cenário também acelerou o derretimento do pergelissolo (ou permafrost, como é chamado em inglês), que é o tipo de solo característico da região do Ártico. Um tanque de óleo construído sobre o pergelissolo entrou em colapso em maio, levando a um dos piores derramamentos de óleo da região.

Os gases liberados pelos incêndios, o derretimento desse solo congelado e a diminuição da refletividade do planeta devido à perda de neve e gelo vão aquecer ainda mais o planeta. O calor também foi associado a um surto de mariposas de seda, cujas larvas comem árvores coníferas.

Sonia Seneviratne, professora do Departamento de Ciência de Sistemas Ambientais da ETH (Swiss Federal Institute of Technology) de Zurich, na Suíça, destaca que esses resultados mostram que o planeta já está vivendo eventos extremos que quase não teriam chance de acontecer sem a pegada humana no sistema climático. “Temos pouco tempo para estabilizar o aquecimento global em níveis em que as mudanças climáticas permaneceriam dentro dos limites do Acordo de Paris. Para uma estabilização a 1,5°C do aquecimento global, o que ainda implicaria mais riscos de eventos extremos de calor, precisamos reduzir nossas emissões de CO2 em pelo menos metade até 2030”, afirma a pesquisadora, que também integra o IPCC.

Sobre análises rápidas de atribuição

Mais de 350 estudos desse tipo, rápidos e revisados ​​por pares, examinaram se as mudanças climáticas tornaram mais prováveis​​eventos climáticos extremos. Pesquisas anteriores do grupo World Weather Attribution descobriram que as mudanças climáticas tornaram mais prováveis os incêndios australianos deste ano e as ondas de calor recorde em junho na França. Outro levantamento desse tipo identificou que a tempestade tropical Imelda, que atingiu o Texas em setembro de 2019, se tornou mais provável ​​e intensa devido às mudanças climáticas.

Cada rebanho escolhe sua imunidade: Qual será a nossa?

rebanho

Por Marcio Sommer Bittencourt e  Otavio Ranzani para a bori

Depois de meses trancados, estamos exaustos. Quase a desistir, tivemos um possível alento quando disseram que a imunidade de rebanho, também chamada de imunidade coletiva, pode estar mais perto do que imaginávamos. Com o rebanho imune, poderíamos voltar ao normal?

O conceito de imunidade de rebanho é usado em programas de vacinação para definir um valor acima do qual os não vacinados têm proteção indireta levando ao controle da doença, mesmo não sendo possível vacinar a todos. Embora reservado para doenças com vacina efetiva, atingir este limiar foi proposto como possível saída no combate à COVID-19. No início da pandemia alguns autores sugeriram que ao redor de 70% da população seria infectada para termos o rebanho protegido. Com uma estimativa conservadora de letalidade de 0,5%, perderíamos mais de 700 mil vidas no Brasil, algo que poucos considerariam razoável.

Porém estudo recente sugere que a imunidade coletiva ocorreria após 30% a 50% de infectados. Como em algumas cidades temos anticorpos em 20% da população, a luz no fim do túnel estaria mais próxima. Esta redução no limiar é conhecida por quem pesquisa doenças infecciosas, e acontece pois a população é heterogênea. Algumas pessoas têm maior chance de pegar o vírus enquanto outros tem maior capacidade de transmissão. Depois que os mais susceptíveis forem infectados e os que mais transmitem não tiverem tantos contatos próximos susceptíveis, fica mais difícil para o vírus infectar outros indivíduos, atingindo a imunidade coletiva antes que em populações homogêneas.

Infelizmente esta realidade não é tão dourada. Primeiro, poucos lugares do Brasil tem níveis de anticorpos tão altos. A maioria das cidades tem menos de 10% de infectados depois de três meses de pandemia. Mesmo com olhar otimista, nos faltariam 20%. Como já morreram mais de 70 mil brasileiros e brasileiras, perderíamos ainda outros 140 a 280 mil até a imunidade. E vale lembrar que nem certeza temos de que os números são corretos, pois os autores destacam a incerteza dos cálculos por não conhecermos o suficiente a doença. Nem mesmo considerando imunidade celular, que não medimos na população, a ideia de rebanho faria sentido.

Outro argumento de quem vê imunidade de rebanho como saída é a ideia de que ela é um número fixo definido pelo vírus. Sendo imutável, o mesmo número de pessoas irá se infectar e morrer e todo o esforço e custo do distanciamento e mesmo lockdown seriam inúteis. Se perderemos 300 mil brasileiros de qualquer forma, por que ficar em casa? Esta visão determinista da pandemia é tão errada quanto a ideia de que a imunidade de rebanho é definida por um número fixo. Ela é mais complexa, pois depende da taxa de transmissão do vírus, e esta não depende apenas do vírus, mas também de nós. Ela depende de como interagimos entre nós, quantas pessoas encontramos, quanto tempo passamos juntos, a que distancia, se usamos máscaras ou lavamos as mãos com frequência. Mantendo estas medidas de distanciamento físico e bloqueio de transmissão do vírus, a taxa de transmissão se reduz e o efeito de imunidade coletiva chega mais cedo.

Ainda assim, atingir a imunidade de rebanho não significa vencer a guerra. Como ela está ligada à taxa de transmissão, se revertermos as mudanças feitas para conter o vírus, a transmissão volta a subir e os níveis para atingi-la voltam a ficar mais distantes. Por isso, apesar de imaginarmos que lugares com queda importante da transmissão, como Manaus e Rio de Janeiro, já tenham atingido o limiar de rebanho, este pode ser temporário e dependente de um controle estrito das medidas de distanciamento e bloqueio. Uma reabertura descontrolada pode tornar esta imunidade apenas um sonho passageiro e a imunidade coletiva vira mais uma vez um objetivo distante.

A imunidade de rebanho real é uma escolha da sociedade e depende do comportamento de cada um. Se escolhermos a mudança de hábitos persistente, venceremos o vírus com um rebanho com menos vítimas e mais protegido. Se preferirmos deixar tudo à própria sorte, a epidemia não terminará mais cedo, mas custará mais vidas. Cada vez que você escolhe lavar as mãos, usar máscara, ficar mais distante ou sair menos de casa, você escolhe proteger toda a sociedade. No final, com essas ações escolheremos o rebanho em que vivemos, e por consequência escolhemos a nossa imunidade coletiva.

Sobre esse artigo

Marcio Sommer Bittencourt é médico, doutor em Cardiologia pela USP, pesquisador do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP e professor da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

Otavio Ranzani é médico, doutor em Pneumologia pela USP, e pesquisador na USP e no Instituto de Saúde Global de Barcelona.

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Este artigo foi originalmente publicada pela Agência Bori [Aqui!].

Relatório mostra alta contaminação de alimentos por agrotóxicos na Espanha, líder europeu no consumo de venenos agrícolas

  • Ecologistas en Ación apresentou o relatório ‘Direto para seus hormônios. Guia de alimentos disruptivos ‘, um estudo que mede a presença de agrotóxicos e agrotóxicos desreguladores endócrinos encontrados em produtos alimentares comercializados no Estado espanhol.
  • Os resultados mostram que a população espanhola está exposta a um grande número de agrotóxicos através dos alimentos que consome. Foram encontrados resíduos de pesticidas em 34% das amostras de alimentos (927 de um total de 2.711 amostras). Esse percentual aumenta para 41,69% no caso de frutas e legumes.
  • Pimentões e maçã estão no topo da lista dos alimentos mais tóxicos, tendo encontrado até 33 e 31 agrotóxicos diferentes em cada um deles.

A Espanha é o maior consumidor de agrotóxicos da Europa. Isso é apoiado pelos dados mais recentes publicados pelo Eurostat para o ano de 2017, que mais uma vez coloca a Espanha como líder europeu na comercialização de 71.987 toneladas de agrotóxicos. A partir desses dados, o relatório ‘Direto aos seus hormônios‘  foi escrito.

direito aos seus hormonios

Pelo terceiro ano consecutivo, a Ecologistas en Acción analisa os resultados publicados pela Agência Espanhola de Segurança e Nutrição Alimentar (AESAN) com base nos dados disponíveis do programa de resíduos de agrotóxicos em alimentos para o ano de 2018. Os objetivos do relatório são oferecer à população informações transparentes e de qualidade sobre os alimentos consumidos, mostrando alternativas para um consumo mais seguro e exigindo que todas as administrações públicas tomem medidas mais ambiciosas para proteger a saúde das pessoas.

O relatório oferece informações sobre as análises realizadas, as listas dos alimentos com mais agrotóxicos e os  agrotóxicos mais utilizados. Também estão incluídos requisitos para as administrações encerrarem o uso dessas toxinas e recomendações aos cidadãos para evitá-las.

Durante 2018, 467.443 análises de agrotóxicos foram realizadas Espanha em 2.711 amostras de alimentos. Um número que o coloca nas últimas posições da classificação européia, especificamente no penúltimo lugar, com 5,6 amostras para cada 100.000 habitantes, enquanto a média europeia sobe para 17,6.

O número total de agrotóxicos testados em 2018 foi de 700. As análises incluem substâncias autorizadas para uso e também um alto número de pesticidas não autorizados (como DDT, lindano ou endossulfan). No entanto, nem todas essas substâncias foram analisadas em todas as amostras.

Os resultados da análise de agrotóxicos em alimentos em 2018 mostram que o percentual de não conformidade da Espanha, ou seja, de amostras com resíduos acima dos limites máximos de resíduos (LMRs), foi de 2018 em 2,1% em 2018. Portanto, era uma porcentagem superior a 1,8% em 2017. Os dados da UE foram significativamente maiores, com um padrão de 4,1% em 2017 e 4,5% em 2018.

Pelo menos 62% da quantidade em quilos de agrotóxicos para os quais existem dados públicos não estavam sujeitos aos resíduos de agrotóxicos no programa de controle de alimentos.

Frutas e vegetais contaminados

Nossos alimentos contêm pelo menos 36 agrotóxicos com a capacidade de alterar o sistema hormonal de acordo com os critérios da Pesticide Action Network Europe ou 72 agrotóxicos EDC (desregulação endócrina) se levarmos em conta os critérios do documento de trabalho da Comissão Europeia. Se também incluirmos duas das substâncias proibidas detectadas (DDT e endossulfão), os valores serão 38 e 74, respectivamente.

Além disso, os programas de controle de resíduos de agrotóxicos nos alimentos não analisam todas as substâncias em uso e apenas um número limitado de  agrotóxicos é analisado em cada alimento. Portanto, alguns alimentos podem conter mais resíduos de agrotóxicos diferentes do que os dados mostram.

Produtos No. de agrotóxicos EDC Número totais de agrotóxicos  
Pimentões 13 33
Maçãs 11 31
Uvas de mesa 9 41
Tangerinas 9 33
Peras 9 32
Limões 8 23
Pomelos 8 22
Laranjas 7 27
Tomates 7 27
Alface 7 14

Por todas essas razões, mais uma vez a Ecologistas en Acción exigiu que todas as administrações públicas adotassem medidas urgentes para proibir esses  agrotóxicos e proteger o direito à saúde dos cidadãos. Suas demandas são especificadas em três pontos:

1. Aplique os regulamentos. Que as administrações públicas proíbem o mais rápido possível agrotóxicos com a capacidade de alterar o sistema endócrino, conforme estabelecido no Regulamento 1107/2009 sobre pesticidas.

2. Transforme o sistema agrário industrializado dependente de agrotóxicos em um sistema agroecológico.

3. Facilitar a produção, distribuição e acesso a produtos agroecológicos e livres de agrotóxicos.

O relatório ‘ Direto aos seus hormônios‘ inclui recomendações direcionadas aos cidadãos para que eles possam evitar esses agrotóxicos em sua dieta e ter uma dieta saudável: consumir frutas e vegetais diariamente, escolher alimentos sem pesticidas, locais e sazonais ; escolha alimentos com menos agrotóxicos; lave e descasque as frutas e legumes; alimentar bebês com produtos naturais sem agrotóxicos. Se isso não for possível, é preferível não usar frutas e legumes da agricultura industrial e optar por produtos infantis processados.

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Este material foi inicialmente publicado em Espanhol pela Ecologistas en Ación [Aqui!].

Entrevista ao Programa Faixa Livre: a questão ambiental no governo Bolsonaro

salles bolsonaro

O geógrafo e professor associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Marcos Pedlowski explicou o paradoxo criado pela gestão de Jair Bolsonaro, que deixou de lado a preservação do meio ambiente, provocando a saída de investimentos estrangeiros do país, e comentou as reações a essa política de destruição da biodiversidade.

Ouça a entrevista de Marcos Pedlowski

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Este material foi inicialmente publicado no site do Programa Faixa Livre [Aqui!].

Indústria de hedge funds prefere ativos que incorporam fatores de sustentabilidade

Um número cada vez maior de investidores está exigindo que os gestores de hedge funds incorporem fatores de sustentabilidade como os ambientais, sociais e de governança às atividades de investimento. Tais executivos agora veem esses três aspectos como algo que atende aos interesses do grupo a longo prazo, assim como os da sociedade. Essas são as principais constatações do novo relatório da KPMG intitulado “Investimento sustentável: acelerando sua evolução” (do original em inglês, Sustainable investing: fast forwarding its evolution).

kpmg

A pesquisa foi realizada com 135 investidores institucionais, gerentes de hedge fund e gerentes de investimentos em títulos de longo prazo, de 13 países, e que juntos totalizam 6,25 trilhões de dólares em ativos. O estudo mostrou que esses investidores esperam que os gestores de ativos proporcionem retornos financeiros atraentes e, ao mesmo, tempo considerem os riscos ambientais e sociais associados aos investimentos.

“A forma tradicional de investimento que leva em conta apenas o risco e o retorno está sendo reformulada para incluir os fatores ambientais, sociais e de governança. Na indústria de hedge fund, esses aspectos deixaram de ser algo interessante para ser uma obrigação”, afirmou o sócio-líder de gerenciamento de ativos da KPMG no Brasil, Lino Júnior.

O relatório apontou também que 45% dos investidores institucionais agora alocam os investimentos em hedge funds que consideram fatores ambientais, sociais e de governança porque acreditam que eles oferecem oportunidades de geração de grandes retornos e, ao mesmo tempo, uma carteira mais defensiva que enxerga além dos mercados que não priorizam a precificação dos riscos relacionados aos fatores ambientais, sociais e de governança.

Empresas de hedge funds estão avançando

Já os gestores de hedge funds disseram na pesquisa que estão avançando no ciclo de adoção normal dos fatores ambientais, sociais e de governança. Atualmente, 15% deles afirmaram que as empresas que presidem estão no estágio “maduro”, no qual os fatores ambientais, sociais e de governança estão sendo incorporados por meio de políticas, comitês, pesquisas e dados apropriados. Outros 44% estão no estágio de “em andamento”, ao passo que 31% ainda estão no estágio de “aumento da conscientização”; sendo que os 10% restantes estão no estágio de “nenhuma adoção até o momento”.

Nesse processo, três etapas principais foram implantadas pelos gerentes de hedge fund ouvidos na pesquisa: a incorporação dos fatores ambientais, sociais e de governança no processo de investimento (52%), exclusão de títulos que não se coadunam com os valores pessoais dos investidores (50%) e a participação do acionista (31%).

“A sustentabilidade irá remodelar o ecossistema dos mercados de capital e o comportamento dos participantes. Ela exige que haja uma mudança na forma pela qual os investimentos têm sido feitos historicamente”, afirmou o sócio-líder de serviços financeiros da KPMG na América do Sul, Ricardo Anhesini.

Sobre a KPMG

A KPMG é uma rede global de firmas independentes que prestam serviços profissionais de Audit, Tax e Advisory. Estamos presentes em 154 países e territórios, com 200.000 profissionais atuando em firmas-membro em todo o mundo. No Brasil, são aproximadamente 4.000 profissionais, distribuídos em 22 cidades localizadas em 13 Estados e Distrito Federal.

Orientada pelo seu propósito de empoderar a mudança, a KPMG tornou-se uma empresa referência no segmento em que atua. Compartilhamos valor e inspiramos confiança no mercado de capitais e nas comunidades há mais de 100 anos, transformando pessoas e empresas e gerando impactos positivos que contribuem para a realização de mudanças sustentáveis em nossos clientes, governos e sociedade civil.

Twitter: http://www.twitter.com/@kpmgbrasil

Site: kpmg.com.br

Linkedin: www.linkedin.com/company/kpmg-brasil

Diário de Pandemia

democracia

Por Douglas da Mata

O mito ocidental da democracia (e sua impossibilidade de convívio com os sistemas capitalistas).

Boa parte de nossa ciência social, destacando a sociologia brasileira, e certamente parte considerável da latino-americana, padece de um erro conceitual que deriva diretamente da mentalidade colonizada.

Na verdade, esta submissão não é deletéria às nossas ciências e cientistas sociais, mas a constatação de um fato histórico, ou seja, assim como o capitalismo subordina as relações sociais dentre as classes sociais de uma nação, ele o faz quando se trata de sociedades localizadas em países de diferentes posições relativas, aquilo que Adam Smith chamou de divisão internacional (do trabalho).

Claro que devemos afastar o risco economicista que ronda tais análises, mas não é errado supor que parte do que a ciência social produz aqui repercute uma anterioridade científica como referência, seja para criar novos olhares sobre as teses produzidas no chamado “mundo anterior” (principalmente a Europa), seja para confirmar outras teses.

O capitalismo subordina seus atores, e com boa chance de acerto, subordina também as narrativas elaboradas por estes.

Neste sentido, a ciência social brasileira nunca questionou a existência da Democracia e sua convivência com o sistema capitalista que se hegemonizou a partir da Era Moderna.

No mínimo, sempre teve um grande receio de abordar com profundidade a possibilidade que a Democracia seja incompatível com o capitalismo.

Democracia aqui mal definida como um sistema de representação (direta e/ou indireta) que proporcione a supremacia de um projeto majoritário, sem aniquilação de minorias, fortalecimento de impessoalidade e isonomia (cada qual na medida de sua capacidade, responsabilidade, necessidade) na aplicação de recursos públicos e tributação, e que via de regra, dê chance para que as classes que se opõem no capitalismo se alternem no poder!

Certamente alguns sociólogos mais precipitados correrão a recitar o chavão: Democracia é um processo em construção!

Pois bem, mas para aceitar este sofisma temos que enxergar algum aspecto de progressividade, ou de avanço do empoderamento das classes subalternas.

A pergunta que se deve fazer, além dos parâmetros econométricos (IDH, PIB, longevidade, mortalidade infantil, etc) ou dos parâmetros institucionais formais (direito a voto, funcionamento das chamadas instituições, com imprensa e judiciário) é se, de fato, os “processos democráticos” permitiram alguma forma real de alternância de PODER.

Há pergunta anterior?

Sim, há:

É possível, dentro dos limites da ordem capitalista, que haja tal alternância?

Pensamos que não, e pensamos ainda que o chamado “processo democrático” nos trouxe a lugares bem distantes desta necessidade democrática de alternância, sem a qual, a etimologia da palavra democracia perde sentido ou utilidade.

Não me refiro aos dias atuais, onde esta distância parece óbvia, seja no chamado berço democrático (Europa, GBR), seja nos “campeões da democracia”, os EUA.

Falo de toda a história do capitalismo, que excetuando a rasa análise das agregações formais e econométricas que já citamos, sempre foi um vai e vem, de um passo a frente e vinte atrás, no quesito dos controles sociais dedicados a conservar as estruturas de subordinação!

Na verdade, toda a gama de “direitos” conquistada ao longo deste processo nunca teve sua permanência garantida, e “coincidentemente” (não é coincidência, mas causa e efeito recíproco), a cada volta da espiral de refluxo e fluxo da acumulação capitalista (agora pós capitalista, no rentismo) foi cassada parte considerável destas conquistas, trazendo as lutas para estágios anteriores aos que foram estabelecidos.

Enquanto isto, as estruturas de dominação nunca foram alteradas e/ou ameaçadas, ao contrário, a cada “direito” conquistado, criaram-se outros tantos freios ao avanço das sociedades, diluindo tais conquistas em uma equação de resultado (-1).

Por isto não nos espanta que os sistemas militares globais tenham estabelecido suas agendas como concorrentes a expansão rentista, monitorando e tutelando, direta ou indiretamente, os governos e entidades.

O medo da nossa ciência social de falar em alto e bom som que não existe e nem existirá democracia alguma em um sistema capitalista, é explicável.

Deriva do truque semiótico imposto pelos detentores do capital, imputando a pecha de autoritários a todos àqueles que desejam romper esta ordem pseudo-democrática.

Aproveitando o que nos diz Robert Kürz, este erro grave leva a outro, que é a construção de uma práxis “revolucionária” que só macaqueia e reproduz os erros de uma sociedade baseada nos mesmos pilares capitalistas, sem romper com esta ordem, sem oferecer a mesma dinâmica do consumo (prazerosa) e deixando apenas a parte autoritária das experiências planificadoras estatais, no chamado capitalismo planejado de estado, que tem seu maior expoente a China!

Só existirá Democracia ou processo democrático na luta anti-capital, e na extinção completa de suas formas de organização da sociedade.

Robert Kürz chama tudo isso de totalitarismo democrático, porque no capitalismo todas as escolhas já estão pré-determinadas, e o capital sempre sabe o resultado.

Algo como o alegado livre-arbítrio religioso, frente a um deus onisciente que sabe o que você escolherá!

É isso que a ciência social precisa dizer, e é isto que devemos ouvir:

Capitalismo e democracia são incompatíveis!