10 anos após a morte de Cícero Guedes, a Quiprocó Filmes anuncia novo documentário sobre a vida do líder do MST brutalmente assassinado em Campos

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No ano em que se completam 10 anos do emblemático assassinato do agricultor rural e ex-líder do MST em Campos, Cícero Guedes, a Quiprocó Filmes anuncia a produção, em parceria com o MST-Rio, do documentário “Brava Gente”, com direção e roteiro de Fernando Sousa e Gabriel Barbosa, que abordará por meio de depoimentos e imagens de arquivo, a luta do trabalhador rural pela conquista da terra, pela defesa da educação e da universidade pública, além do seu legado e o pioneirismo no desenvolvimento de técnicas agroecológicas de produção no Norte Fluminense. 

Cícero Guedes foi brutalmente executado com tiros na cabeça e nas costas, numa estrada rural perto do Assentamento Oziel Alves, em Campos dos Goytacazes. Em 2019, em um julgamento relâmpago, o principal suspeito por ser o mandante do crime foi inocentado por um júri composto em sua maioria por estudantes da Faculdade de Direito de Campos por 4 a 2 votos. A morte completará dez anos no dia 26 de janeiro de 2023.

Fernando Sousa, produtor executivo do projeto, foi amigo pessoal do líder agrário e atuou em diferentes frentes de luta com Cícero Guedes, entre 2005 e 2010. Ele o encontrou pela última vez em dezembro de 2012, pouco antes da execução. 

“Cícero Guedes tinha uma enorme capacidade de articulação e mobilização política. Foi uma das principais lideranças do MST no Estado do Rio de Janeiro, influenciou e foi fundamental na formação de estudantes em nível de graduação e pós graduação da UENF e UFF, em Campos dos Goytacazes. Particularmente, destacaria a sua contribuição com o movimento estudantil na luta pela universidade pública e pela construção do Restaurante Universitário, o Bandejão da UENF, que hoje leva seu nome”, diz o cineasta.

Já a deputada estadual Marina do MST, eleita recentemente pelo PT-RJ e dirigente nacional do MST, diz que um documentário sobre o líder é uma forma de manter vivo o seu legado. “Nesse ano, se completam 10 anos do assassinato do companheiro Cícero Guedes. Um documentário que  resgate e registre o legado de Cícero é muito importante,  pois é a maior referência para a juventude e conjunto da  militância, de lutas, mística e  compromisso com o projeto do MST e da Reforma Agrária Popular”, afirma.

A Quiprocó Filmes já produziu documentários premiados como “Entroncamentos”, sobre a ascensão e queda das ferrovias do Sul-Fluminense; “Nosso Sagrado” e “Respeita Nosso Sagrado”, sobre o Acervo de 523 peças sagradas da umbanda e do candomblé que ficou mais de cem anos em poder da Polícia do Rio de Janeiro; e “Nossos Mortos Têm Voz”, com mães e familiares vítimas da violência do Estado na Baixada Fluminense.

Mais sobre Cícero Guedes

Cícero Guedes foi pioneiro na criação de feiras de distribuição e venda dos produtos da reforma agrária, à exemplo da Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes, batizada com o nome do agricultor após o seu assassinato. Natural do interior de Alagoas, ainda criança, Cícero foi submetido ao trabalho análogo à escravidão em monoculturas de cana de açucar. À exemplo de outros milhares de trabalhadores negros e pobres da região, resolveu migrar para o Sudeste e tentar a vida com esposa e filhos. Em Campos dos Goytacazes, voltaria a trabalhar no plantio e colheita de cana no começo da década de 90, em uma maldita profecia que parecia teimar em lhe perseguir. 

O trabalhador rural que chegou ao Rio de Janeiro sem alfabetização formal, acabou tendo contato com a ocupação da reforma agrária Zumbi dos Palmares, nas terras da falida Usina São João, cuja desapropriação e emissão de posse aconteceu em 1997. A trajetória de vida e a leitura de mundo adquirida na luta pela terra forjaram Cícero Guedes como uma das principais lideranças políticas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Norte Fluminense. Cícero também trabalhou como operário nas obras da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, onde mais tarde contribuiria de forma pioneira no desenvolvimento de pesquisas e técnicas agroecológicas. Sua sensibilidade no manejo da terra, tornaria seu sítio uma referência nacional na produção agroecológica, no uso de técnicas sustentáveis de cultivo sem o uso de agrotóxicos. 

Mesmo com a conquista do lote conhecido como Brava Gente, Cícero Guedes continuou contribuindo de forma efetiva na luta pela terra na região, fundou o Comitê Popular de Combate e Erradicação do Trabalho Escravo, engrossou as fileiras do movimento estudantil na defesa da universidade pública e esteve na luta e conquista do restaurante universitário da UENF, batizado com seu nome após a sua execução, no dia 26 de janeiro de 2013.

Sufocado por agrotóxicos perigosos, Brasil tem de avançar na transição agroecológica

País que já era líder no consumo desses produtos recebeu de Bolsonaro a liberação de mais 2.030, 34% proibidos na Europa. Para pequenos agricultores, agroecologia é a salvação, mas requer investimentos

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A maioria dos 2030 “novos” agrotóxicos são destinados ao agronegócio exportador, que lucra e deixa o passivo ambiental, doenças e mortes

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – Líder no consumo de agrotóxicos, o Brasil tem como um dos legados de Jair Bolsonaro (PL) a liberação de 2.030 “novos” produtos. Segundo os ruralistas, que têm interesse econômico nesse processo e que por isso o apoia, trata-se de insumos mais modernos. E que a agricultura brasileira depende deles para ser ainda mais produtiva e dar conta e “alimentar o mundo”.

No entanto, esses agrotóxicos não têm nada de novo nem de moderno. São moléculas antigas, muitas delas lançadas há mais de 40 anos, e que nos países da União Europeia nem sequer chegaram a ser liberados. E os que foram, acabaram banidos depois, justamente pela alta toxicidade à saúde e ao meio ambiente.

São substâncias capazes de causar diversos tipos de câncer, malformações fetais, alterações no sistema endocrinológico que, por sua vez, causam outros problemas sérios no organismo. Há ainda mudanças até no sistema reprodutivo, adiantando a fase reprodutiva, segundo estudos. Sem contar as intoxicações agudas e crônicas, que afetam sobretudo os trabalhadores rurais. E populações expostas às nuvens de veneno das pulverizações aéreas que se espalham por quilômetros a partir da aplicação.

Observatório dos agrotóxicos

O professor e pesquisador Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), acompanha essas liberações desde 2019, no início do governo Bolsonaro. Até o final de 2022, sempre sob a batuta da então ministra da Agricultura e Pecuária, Tereza Cristina, a “musa do veneno”. Seu atento trabalho de monitoramento resultou no Observatório dos Agrotóxicos. Clique aqui para acessar a base completa.

Pedlowski compilou dados sobre as formulações, fabricantes, aplicação e posição quanto à liberação em outros países. Além disso, o observatório organiza os atos promulgados pela pasta de Tereza Cristina. Tudo para informar a população e pesquisadores da economia política dos agrotóxicos em nível global e no Brasil. E principalmente, de seus efeitos sobre a saúde humana e o meio ambiente.

Segundo o observatório, 34% desse total de produtos liberados são proibidos na União Europeia. Ou seja, 705 não têm registro ou foram banidos. Há ainda 58 “novos” agrotóxicos compostos por um mix de substâncias, em que parte são autorizadas pelos europeus e parte não, o que elevaria esse percentual.

Classificação da toxicidade é obscura no Brasil

Na avaliação de Pedlowski, esse quesito é de suma importância. E não só porque tal fato se tornaria um problema para a agricultura brasileira. É um tiro no pé dos próprios ruralistas, já que certamente será um entrave futuro para muitas exportações para esses e outros países, já que em sua ampla maioria, os mais de 2 mil venenos aprovados são destinados ao latifúndio exportador de soja e milho, entre outras commodities. Mas há a questão do perigo à saúde e meio ambiente. E isso está camuflado segundo os dados oficiais nos quais o pesquisador se baseou.

Para entender melhor: pela tabela do observatório, a partir de dados oficiais, 141 seriam classificados como “extremamente tóxicos” e 93 como “altamente tóxico”. Na classe “moderadamente tóxico” estariam 279. Entre os “pouco tóxico”, 282. E entre os “improváveis de causar danos”, 554. O restante, segundo o observatórios, seriam aqueles sem classificação ou com o chamado perfil equivalente ao produto de referência.

“Embora a União Europeia também sofra pressões da indústria, a aprovação dos produtos por lá ainda é um parâmetro para analisar as liberações de Bolsonaro, das quais mais de 30% são proibidos lá. Seria um critério mais correto para ter uma ideia da toxicidade do que avaliar pela classificação que a Anvisa passou a adotar. A toxicidade mesmo deixou de ser lida por esse padrão da legislação brasileira, adotada de forma errada em relação ao padrão que dizem que estão adotando”, diz Marcos Pedlowski à RBA, referindo-se à medida do governo brasileiro que, na lei, “rebaixou” a periculosidade dos venenos agrícolas. Ou seja, a “passada de pano” para a lucrativa indústria do setor.

Critérios para periculosidade foram afrouxados

Segundo o professor da Uenf, após a flexibilização da legislação, a classificação ficou ainda mais obscura, o que explicaria a grande quantidade de produtos aprovados na categoria “não classificados”. “Nela eles incluem os produtos que consideram pouco tóxico. Não quer dizer que não tenha sido analisado. Além disso há informações incompletas, como “equivalente ao produto técnico de referência”. Mas qual é esse produto? Não aparece. Qual é a toxicidade do produto de referencia? O que eles fizeram foi uma esperteza contra a população, para não sabermos afinal qual a toxicidade desses produtos técnicos”, critica.

Enquanto o Brasil afrouxa os níveis de exigência para os critérios de toxicidade de um produto usado na produção de alimentos, e capaz de contaminar rios e aquíferos, a União Europeia vai no sentido oposto. Conforme Pedlowski, os órgãos reguladores europeus estão constantemente ajustando padrões de segurança e observando datas limites de permissão de determinados agrotóxicos. Isso significa que alguns habilitados para o uso poderão ser proibidos.

“O agronegócio exportador fica com os lucros e benesses. Agrotóxicos são isentos de agrotóxicos. Na exportação, há incentivos, sem pagamento de impostos devido à Lei Kandir. Para a população fica a contaminação da comida, da água, do meio ambiente, do solo, a intoxicação pela exposição e doenças crônicas”, observa.

Embora haja entre as liberações 292 produtos para controle biológico, ele avalia como insuficiente. “Não modifica o modelo. Para resolver a grave situação é preciso implementar o modelo agroecológico, com reforma agrária. Sem isso é só mudar um pouco a ‘cara da química’ usada no país.”

Mudança requer soluções além das palavras de ordem

A transição do atual modelo de produção agrícola brasileiro para a agroecologia, aliás, é uma das estratégias para desenvenenar o Brasil defendidas pelo Movimento do Pequenos Agricultores (MPA). Para a agricultura familiar, que verdadeiramente coloca a comida no prato do brasileiro, é preciso acabar com a monocultura em latifúndio banhada em agrotóxicos. Mas isso depende de mudanças além de discursos e palavras de ordem.

O coordenador do MPA Frei Sérgio Görgen diz que são três as estratégias básicas: promover políticas para a transição agroecológica, aprovar e implementar legislação que controle o uso de agrotóxicos em todo o país e estimular os bioinsumos. “O agronegócio enfrenta problemas sérios com os agrotóxicos. Há resistência dos insetos, das plantas, enfim, de todos os alvos desses produtos. As fábricas não conseguem novas moléculas. Por isso estão trazendo de volta muitos produtos, para usar em outras culturas, com outras finalidades. É o caso do 2-4, D, um dos mais antigos”, disse Frei Sérgio, referindo-se ao produto que entrava na composição de uma arma química chamada “agente laranja”, usada na Guerra do Vietnã. E que hoje tem indicação para plantações de arroz, cana de açúcar, milho, café e pastagens entre outras.

Ingrediente de arma química do Vietnã agora em lavouras

Esse “agente laranja” constitui um veneno considerado o pior existente, a dioxina TCDD. De grande atividade biológica, é reconhecidamente cancerígeno para humanos conforme a Agência Internacional de Pesquisas do Câncer (IARC, da sigla em inglês International Agency for Research on Cancer) e pelo Departamento de Saúde dos Estados Unidos.

Além disso, é teratogênico, capaz de produzir alterações embrionárias e anomalias no desenvolvimento fetal. E também mutagênico, podendo danificar o DNA das células, o que não é reparado no momento da replicação celular e é transmitido para as próximas gerações. Para complicar, é de difícil degradação ambiental. Pode persistir no ambiente por mais de 100 anos.

Conforme a liderança, por princípio a agricultura familiar é contrária ao uso dos agroquímicos. Mas se vê no dilema de, em muitas situações, necessitar de algum insumo agrícola. E não ter à disposição alternativas biológicas.

Embrapa e universidades têm de criar alternativas limpas

“Então como pedir para o pequeno produtor não usar nada se ainda não temos uma alternativa biológica? A Embrapa e as universidades têm de intensificar estudos para avançar nessa tecnologia e ampliar o acesso a ela. Já existem alguns, mas não em escala suficiente para todos. Só a denúncia não resolve. É preciso apresentar alternativas de soluções”, afirma Frei Sérgio.

Segundo ele, uma delas está no Projeto de Lei (PL) 3.668/2021, apresentado pelo senador Jaques Wagner (PT-BA). Estabelece regras para a produção, o registro, comercialização, uso, destino final dos resíduos e embalagens, o registro, inspeção e fiscalização, a pesquisa e experimentação, e incentivos à produção de bioinsumos para a agricultura.

Estão na categoria dos bioinsumos todo produto, processo ou tecnologia de origem vegetal, animal ou microbiana destinados ao uso na produção, no armazenamento e no beneficiamento de produtos agropecuários, nos sistemas de produção agrícolas, pecuários, aquícolas e florestais, que interfiram positivamente no crescimento, no desenvolvimento e no mecanismo de resposta de animais, plantas, microrganismos e de substâncias derivadas.

Veneno chega na frente

Entre eles, promotores de crescimento de plantas, biofertilizantes, produtos para nutrição vegetal e animal, extratos vegetais, defensivos produzidos a partir de microrganismos benéficos para o controle de pragas, parasitas e doenças, entre outros.

O coordenador do MPA critica o fato de que medidas em prol da redução do uso de agrotóxicos se arrastem. É o caso da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pnara), cujo PL 6.670/2016 está pronto para votação desde 2018. E que outras, em sentido oposto, caminhem em passos mais largos, como o Pacote do Veneno. Aprovado no final do ano em comissão especial no Senado, está pronto para votação em plenário.

Para ele, as forças do agronegócio no Ministério da Agricultura deverão pressionar pela aprovação, embora o próprio presidente Luiz Inácio Lula a Silva seja contrário. E haverá pressão do Congresso, ainda mais conservador que antes. “Não dá para aceitar que sejam aprovados agrotóxicos sem a tríplice avaliação. A aprovação não é uma simples questão agronômica, para que somente o Ministério da Agricultura decida sozinha. Com tantas implicações, a Anvisa e o Ibama não podem ficar de fora, como pretende o texto do Pacote do Veneno.”


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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

O Porto do Açu como eterna miragem

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O jornal Terceira Via traz hoje uma matéria assinada pelo competente Ocinei Trindade cujo mote é apresentar o Porto do Açu como uma espécie de Eldorado para empresas localizadas em Campos dos Goytacazes. Pelo que pude notar nas diferentes falas elencadas na matéria, o Eldorado ainda não chegou porque os empresários campistas ainda não se prepararam suficientemente. Para superar isso, fomos informados que haverá um evento no campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) no próximo dia 8.

O problema para o cumprimento do chegada ao Eldorado é que, por sua natureza de enclave multinacional, o Porto do Açu não necessita da capilaridade que poderia beneficiar os negócios de base local. Basta ver o que a matéria lista como sendo as necessidades listadas no Plano de Desenvolvimento do Porto do Açu.  Nessa lista se vê coisas como “materiais elétricos e para obras em geral; equipamentos de proteção individual e coletiva; serviços de manutenção industrial e reparos; locação de equipamentos; fornecimento de uniformes; serviços de frete, logística e administrativos; materiais de escritório; serviços gráficos e de alimentação“.

Como morador da cidade há 25 anos e consumidor de parte dos itens listados enquanto professor do maior empreendimento de educação da região Norte Fluminense, sei que hoje é muito mais barato comprar fora daqui e, por vezes, com maior qualidade do que é oferecido. E isso não se dá por um problema de incompetência do empresariado local, mas porque a economia de escala dita isso, especialmente para produtos que portem ou requeiram maior agregação de tecnologia na sua produção.

O fato é que Porto do Açu não precisa nem pode depender de fornecedores locais para alcançar o nível de eficiência que seus porta-vozes dizem pretender. A capilarização que se enuncia para até 30 anos é só uma forma de vender o Porto do Açu como algo além de um enclave que, convenhamos, no plano só causou degradação ambiental e prejuízos sociais. Essa manobra de se parecer importante para o desenvolvimento local é uma das muitas facetas da chamada “governança social corporativa” (GSC) que tem sido utilizada para dar uma fachada de responsabilidade às práticas empresariais de corporações financeiras como é o caso do fundo que detém a propriedade do Porto do Açu, o EIG Global Partners. Para quem quiser saber mais sobre a GSC sugiro a leitura do livro Racionalidade Coreográfica“.

Trocado em miúdos, a ideia do Porto do Açu seria uma espécie de Eldorado parece ser mais uma daquelas que estão sendo vendidas desde 2009 quando Eike Batista convenceu o ex-governador Sérgio Cabral a comprar as ideias que ele vendia em suas famosas apresentações de Powerpoint.  O problema é que o Porto do Açu, ao menos para quem acredita que é possível existir um modelo de desenvolvimento local, não passa de uma imensa miragem onde há sempre muito mais espuma do que chope.

Finalmente, sob pena de parecer cansativo, bom seria se o Porto do Açu resolvesse pagar (e pelo o preço correto de mercado) os agricultores do V Distrito de São João da Barra que tiveram suas terras tomadas por Sérgio Cabral e entregues a Eike Batista que as repassou de graça quando o Grupo EBX foi a pique.

Gentrificação é o teu nome: para que serve separar o velho do histórico em Campos dos Goytacazes

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A última “novidade” envolvendo o centro histórico de Campos dos Goytacazes envolveu uma curiosa e misteriosa diferenciação entre “velho” e “histórico”, e sem surpresa nenhuma a sugestão de que se mude o gabarito do bairro para permitir a construção de prédios mais altos e modernos. Em outras palavras, o que se quer é “pelincaizar” (um neologismo meu para  criar uma Nova Pelinca”) o centro histórico, de preferência com muita injeção de dinheiro público.

O objetivo óbvio desse tipo de pressão nada mais é do que  impor um modelo de gentrificação a um bairro que contém valioso patrimônio arquitetônico que está sendo lentamente destruído por seus proprietários que têm reservado os espaços abertos com sua transformação temporária em estacionamentos.

A questão que se põe é a seguinte: por que deveria a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes investir dinheiro em uma área que nem seus donos estão a preservar? A verdade é que caminha pelo centro histórico e por seus arredores mais próximos verá belíssimos edifícios literalmente abandonados e deixados ao relento para apodrecer, sem que haja por parte dos proprietários o mínimo de visão sobre o retorno econômico que sua proteção e recuperação trariam para si mesmos e para cidade como um todo.

Neste momento, existem demandas muito mais urgentes para serem resolvidas, em vez de colocar dinheiro para alimentar um processo de gentrificação que apenas deixará os burgueses desta cidade rica com população pobre ainda mais ricos. As prioriedades neste momento são claramente outras, a começar pela retomada da construção de conjuntos habitacionais para os pobres, bem como pela recuperação e ampliação dos serviços públicos de saúde, educação e transporte.

Ah sim, do prefeito Wladimir Garotinho, ainda espero ações rápidas para impedir a completa deterioração do casarão histórico que abriga o Museu Olavo Cardoso, um próprio municipal que hoje enfrenta uma condição terrível por causa do abandono a que está submetido pelo governo municipal.

As veias abertas do Peru

Grande riqueza em recursos naturais são o pano de fundo da queda do presidente Castillo

peru golpeTerra devastada: recursos minerais são extraídos no Peru sem consideração e sem benefício para a população em geral (mina de ouro Yanacocha)

Por Thorben Austen para o “JungeWelt”

Em artigo do portal de internet geopoliticaeconomica.com o jornalista Benjamin Norton lança luz sobre os possíveis antecedentes econômicos do golpe no Peru e o papel desempenhado pelos EUA. Segundo o artigo publicado em espanhol e inglês em 20 de janeiro, a embaixadora dos Estados Unidos no Peru, Lisa S. Dougherty Kenna, já havia se reunido com o então secretário de Defesa um dia antes do impeachment e prisão do presidente Pedro Castillo no Parlamento, em 1º de dezembro. 7 Conheci Emílio Gustavo Bobbio. Bobbio foi o sexto secretário de Defesa de Pedro Castillo desde que assumiu o cargo em 28 de julho de 2021 e foi nomeado apenas um dia antes de Kenna se encontrar. No dia seguinte, ele desempenhou um papel duvidoso nos acontecimentos que levaram à destituição do chefe de Estado de esquerda.

Castillo queria dissolver o parlamento e convocar novas eleições em resposta ao quinto processo de impeachment contra ele. Mauro Valderrama, do Partido Comunista do Peru (PCP), expressou a suspeita em uma entrevista ao jW em dezembro de que Castillo havia sido “manipulado pelas forças armadas ao tomar essa decisão”. Assim que foi anunciada a dissolução do parlamento, seus ministros começaram a renunciar e Bobbio voltou o exército contra o presidente.

Depois que Castillo foi preso e a vice-presidente anterior Dina Boluarte foi nomeada chefe de Estado, o embaixador Kenna – segundo informações da imprensa também funcionário do Serviço Secreto dos EUA da CIA por nove anos – se reuniu em 18 de janeiro com Óscar Vera Gargurevich, que após o  golpe parlamentar foi nomeado Ministro de Energia e Minas em 10 de dezembro, bem como vice-ministros de vários departamentos. Um “diálogo institucional de alto nível” ocorreu entre “o Peru e os Estados Unidos”, twittou o ministério peruano no mesmo dia, que “discutiu questões de desenvolvimento da mineração”.

O artigo de Norton explica: “O Peru é um país rico em recursos naturais, especialmente minerais. Os colonialistas espanhóis exploraram as reservas significativas de prata e ouro da nação sul-americana, e hoje o Peru é visto como um centro de recursos altamente lucrativo por corporações transnacionais. Segundo um estudo da privada “Universidad del Pacifico” em Lima, o Peru é “um dos principais exportadores mundiais de cobre, chumbo, zinco, estanho, prata e ouro (…). Nos últimos anos, a mineração contribuiu com cerca de 13% do produto interno bruto do Peru e foi responsável por mais de 70% das exportações. Essa atividade é tema central de discussão na política nacional e uma das causas recorrentes de conflitos sociais”, diz o texto publicado em 2021. No ano passado, no contexto da guerra econômica ocidental contra a Rússia, aumentou a importância da exportação de gás liquefeito para a Europa. Eles aumentaram 85% nos primeiros oito meses de 2022 em comparação com o ano anterior. Em abril de 2022, por exemplo, o gás liquefeito peruano era exportado apenas para a Europa, sendo a Espanha e a Grã-Bretanha os principais compradores por lá. Antes de 2022, a maior parte do gás liquefeito do Peru era enviada para o Japão, Coreia do Sul e China, escreve Os principais compradores são a Espanha e a Grã-Bretanha. Antes de 2022, a maior parte do gás liquefeito do Peru era enviada para o Japão, Coreia do Sul e China, escreve Os principais compradores são a Espanha e a Grã-Bretanha. Antes de 2022, a maior parte do gás liquefeito do Peru era enviada para o Japão, Coreia do Sul e China.

O professor do ensino fundamental e sindicalista Pedro Castillo surpreendentemente venceu o segundo turno das eleições em 2021 com a atual presidente de fato Dina Boluarte como representante por uma margem muito pequena sobre a candidata de extrema direita Keiko Fujimori. Apesar da turbulência interna, várias remodelações de gabinete e processos de impeachment movidos pela maioria parlamentar de direita, Castillo lutou para colocar em prática o slogan do Peru Libre de seu partido, “Sem pobreza em um país rico”.

Castillo orientou-se pelos programas clássicos dos governos de esquerda do continente nos últimos vinte anos. Lucros maiores por meio de novos contratos de concessão e aumento da tributação sobre a exploração dos recursos minerais devem financiar os programas sociais. Para romper com o papel da América Latina como fornecedora de matérias-primas no longo prazo, uma indústria separada deveria ser construída. Após o golpe parlamentar de 7 de dezembro, Esse plano parece ter falhado, por enquanto.


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Este artigo escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [ Aqui!].

Reestatizar a água e esgoto, barateia o custo: o exemplo de Setúbal em Portugal

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Os consumidores cativos da concessionária Águas do Paraiba estão sendo premiados com uma conta extra neste início de fevereiro por conta de uma derrota na justiça que decidiu dar mais um brinde a uma empresa que hoje fatura milhões e entrega serviços de baixa qualidade.  E notem que a empresa do grupo Águas do Brasil acaba de ter mais um relatório reprovado pela Câmara Municipal de Vereadores por simplesmente não cumprir obrigações e continuar impondo custos altíssimos aos campistas.

A impressão que muita gente tem é que essa condição de consumidor cativo é uma espécie de prisão de onde não se pode escapar, mas isto não é nem próximo da verdade. Bastaria apenas que o prefeito Wladimir Garotinho e o agora presidente da Câmara de Vereador Marquinho Bacelar decidissem colocar o interesse da população em primeiro lugar e realizassem a imediata reestatização desse serviço público.

água privada

Alguns diriam que estou falando besteira, mas se fizessem isso o fariam apenas por ignorãncia. É que dezenas de cidades e capitais europeias já reestatizaram os serviços de água e esgoto, já que a iniciativa privada se mostrou incapaz de não só baixar o custo do consumidor, mas também de oferecer serviçso de qualidade.

Um exemplo recente de uma cidade que reestatizou os seus serviços de água e esgoto, e agora espera diminuir o custo das contas em algo próximo de 20% foi Setúbal que fica localizada a cerca de 49 km de Lisboa. Lá como em outras cidades europeias, os serviços deficientes e o custo alto fizeram com que a prefeitura não renovasse o contrato de concessão e retomasse o oferecimento direto dos mesmos. Mas é importante dizer que outrs 500 cidades no mundo, a maioria na Europa já tinham feito antes, aquilo que Setúbal fez agora.

Desta forma, é preciso que se inicie imediatamente a discussão para que a consequência da última reprovação do relatório da Águas do Paraíba pela Câmara de Vereadores seja a suspensão do contrato e a imediata criação de uma empresa municipal que passe a gerir os serviços de água e esgoto. É que já passou da hora de dar um basta a todos os desmandos que a Águas do Paraíba realiza nesta cidade tão rica, mas com um povo tão pobre.

União Europeia reduz limite de resíduos de neonicotinóides em alimentos e medida deve afetar o Brasil

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Arquivo: apicultores seguram placas onde está escrito “inseticidas assassinos de abelhas, não é não”, em um protesto contra a reintrodução de sementes cobertas com neonicotinoides, em frente aos Inválidos, em Paris, em setembro de 2020. AFP – THOMAS COEX

Por RFI

A Comissão Europeia adotou nesta quinta-feira (2) regras que reduzem os limites autorizados para a presença residual em alimentos, inclusive importados, de dois neonicotinoides, agrotóxicos que aceleram o declínio das colônias de abelhas e cuja pulverização já é proibida na UE. Estes dois agrotóxicos são amplamente utilizados no Brasil. 

“As novas regras reduzirão os limites máximos de resíduos (LMRs) de dois neonicotinoides, clotianidina e tiametoxam (…) ao nível mais baixo que pode ser medido com a mais recente tecnologia disponível”, disse o executivo da UE em comunicado.

Esses limites serão aplicados a todos os alimentos produzidos na UE, mas também às importações de alimentos e ração animal. A medida será imposta aos produtos importados a partir de 2026, de forma a dar tempo aos países terceiros para se adequarem às novas regras.

A União Europeia (UE) é criticada por ter proibido os neonicotinoides em seu território, mas continuar exportando para outros países. O Brasil é o principal destino de mais da metade dos registros de exportações desses agrotóxicos da UE de acordo com registros da Agência Europeia das Substâncias Químicas. 

Limites de resíduos

Surgidos na década de 1990, neonicotinoides como a clotianidina e o tiametoxam são amplamente usados no Brasil em culturas de soja, fumo, algodão, arroz, feijão, trigo, abacaxi, entre outras, produtos exportados para os países da União Europeia.

De acordo com a Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos, este tipo de agrotóxico foi o mais encontrado, em um levantamento feito em 2019, em frutas e verduras no Brasil. 

Ao matar abelhas, os neonicotinoides prejudicam também a produção das lavouras. Isso porque elas são os principais polinizadores da maioria dos ecossistemas, promovendo a reprodução de diversas espécies. 

De acordo com o Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, da pesquisadora Larissa Bombardi, os LMRs de agrotóxicos no Brasil são muito superiores aos da Europa. Para alguns inseticidas como o Acafato, usado na soja, eles são 3,3 vezes maiores e no caso dos citros, até 20 vezes superiores.

Na Europa, os neonicotinoides são defendidos sobretudo pelo lobby dos produtores de beterraba, onde é usado para proteger o legume da icterícia, transmitida por pulgões verdes. Ele ataca o sistema nervoso dos insetos, incluindo os polinizadores, como abelhas e zangões.

Agrotóxico exterminador de abelhas

Os neonicotinoides são acusados ​​de contribuir para o declínio global desses insetos. Mesmo em doses baixas, eles perturbam o senso de orientação de abelhas e zangões, que não conseguem mais encontrar sua colmeia, e alteram o esperma dos machos.

Desde 2018, a UE proibiu a pulverização em campos abertos de três neonicotinoides (clotianidina, tiametoxam e imidaclopride), e o Tribunal de Justiça da UE declarou ilegais em meados de janeiro as derrogaçõesadotadas por uma dúzia de estados membros para continuar permitindo aos produtores de beterraba usar neonicotinoides no recobrimento de sementes como medida preventiva.

As novas regras fazem parte da estratégia alimentar “Farm to Fork” da UE e do “Green Deal” da UE, que visam “levar em conta os aspectos ambientais” nas diretrizes das importações que contêm vestígios de pesticidas proibidos na UE.


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Este texto foi originalmente publicado pela Rede França Internacional [Aqui!].

Comportamento dos elementos climáticos da Amazônia ao Tibete mostra que há um processo drástico de mudança em curso

Os pontos de inflexão no sistema climático afetam uns aos outros ao longo de milhares de quilômetros e alguns podem ser superados em breve

groenlandiaA camada de gelo o da Groenlândia, com um quilômetros de altura, também está está descongelando.  Por isso, o estado da camada de gelo da Groenlândia é um dos elementos decisivos no sistema climático. Foto: dpa/Sepp Kipfstuhl/AWI

Por Ingrid Wenzl para o “Neues Deutschland”

Se a floresta amazônica secar, isso terá consequências para todo o planeta. Não só desempenha um papel crucial no ciclo global do carbono, como também é caracterizado por uma imensa diversidade de espécies. Assim como os mantos de gelo da Groenlândia e da Antártica Ocidental, a Circulação de Revitalização do Atlântico (AMOC), que também inclui a Corrente do Golfo , e os recifes de corais tropicais, é um dos 16 principais elementos de inclinação no sistema climático. Em algum lugar entre 1,5 e dois graus de aquecimento global médio em relação aos tempos pré-industriais, os primeiros atingem o chamado ponto de inflexão: a partir daí, os processos utilizados não podem mais ser interrompidos. Desta forma  “os pulmões verdes da terra” são transformados em uma espécie de savana, e as camadas de gelo estão derretendo irrevogavelmente. É possível que já tenhamos ultrapassado os primeiros pontos de inflexão, por exemplo, no caso de recifes de corais tropicais moribundos.

Como mostra um estudo publicado recentemente na revista “Nature Climate Change” , mesmo os elementos que estão geograficamente distantes estão mais interconectados do que se pensava anteriormente. Fala-se das chamadas teleconexões. Milhares de quilômetros se estendem entre a bacia amazônica e o planalto tibetano e, no entanto, eles se influenciam. “Se esquentar na Amazônia, esquentará no Tibete. Há, portanto, uma interação positiva para as temperaturas. É diferente com a precipitação. Se chover mais na região amazônica, menos neve cairá no Tibete”, diz o coautor Jürgen Kurths, do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK), resumindo a descoberta surpreendente.

Os pesquisadores descobriram que campos de fluxo de grande escala transportam campos de temperatura e precipitação para o Tibete: fortes correntes de vento estimuladas por anticiclones sul-americanos – certos tipos de áreas de alta pressão – os transportam para a África do Sul, e o sistema de monções africano os leva de lá para o Oriente Médio e ventos de oeste na região do Himalaia.

Os cientistas também descobriram que o planalto tibetano vem perdendo estabilidade desde 2008 e está se aproximando de um ponto crítico. “Isso foi negligenciado até agora”, diz Kurths. Ao contrário dos depósitos de gelo de lá, havia uma longa falta de dados confiáveis ​​sobre a cobertura de neve do planalto. Até agora, o foco da ciência tem sido principalmente o derretimento dos pólos, o AMOC e a Amazônia. “O derretimento das geleiras no Tibete tem efeitos enormes em todo o sistema de monções da Índia”, explica o pesquisador de complexidade do PIK. Apesar de sua localização remota, o planalto tibetano é de grande importância como reservatório de água para a vida de muitas pessoas.

“Quando os pólos derretem, sabe-se que eles desencadeiam uma reação em cadeia”, diz Kurths. A alta entrada de água doce no oceano circundante leva a mais estratificação porque é menos densa que a água salgada. Normalmente, grandes quantidades de água superficial fortemente resfriada afundam nas profundezas da Groenlândia porque são mais pesadas que a água abaixo e, a partir daí, fluem de volta para o equador como fundo rico em oxigênio ou águas profundas. A entrada de água doce inibe esse processo e, portanto, enfraquece o AMOC. No entanto, o conhecimento de que a Bacia Amazônica e o Tibete estão ligados climaticamente é novo. Pesquisas intensivas estão sendo realizadas atualmente sobre como os elementos de tombamento influenciam uns aos outros. Quando aumentam, como neste caso, significa que a Humanidade caminha para uma catástrofe ainda mais rápido do que se pensava.

O relatório especial de 1,5 grau do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de 2019 adverte urgentemente contra ultrapassar a marca de temperatura de 1,5 grau. “Qualquer aquecimento adicional, especialmente acima de 1,5 graus, aumenta o risco de mudanças duradouras ou irreversíveis, como a perda de ecossistemas”, citou o pesquisador climático do “Die Zeit” e membro do IPCC, Hans-Otto Pörtner.

Mesmo ultrapassando temporariamente 1,5 ou 2 graus aumenta o risco de vários elementos do sistema terrestre tombarem em mais de 70% em comparação com um cenário em que as temperaturas permaneçam abaixo desse limite. Esta é a conclusão de Nico Wunderling da PIK e colegas em uma análise de risco publicada na revista Nature Climate Change em dezembro . “Mesmo que conseguíssemos limitar o aquecimento global a 1,5 grau depois de ultrapassar dois graus, isso não seria suficiente, pois o risco de desencadear um ou mais pontos de inflexão global ainda seria superior a 50%”, disse Wunderling.

A equipe de pesquisa usou vários cenários em que a temperatura média global era temporariamente dois a quatro graus mais alta do que antes da industrialização. Isso o aplicou a quatro elementos de inclinação interativos: as camadas de gelo da Groenlândia e da Antártica Ocidental, o AMOC e a floresta amazônica. As camadas de gelo provaram ser particularmente vulneráveis. “Embora demore muito para que a perda de gelo se desenvolva completamente, os níveis de temperatura nos quais essas mudanças são desencadeadas podem ser alcançados em breve”, diz a coautora Ricarda Winkelmann, também do PIK. “Portanto, nossas ações nos próximos anos podem determinar o desenvolvimento futuro das camadas de gelo por séculos ou mesmo milênios.”

De fato, no caso da camada de gelo da Groenlândia, isso é mais avançado do que o esperado: Maria Hörhold, do Alfred Wegener Institute, Helmholtz Center for Polar and Marine Research (AWI) e sua equipe mostram em um estudo publicado na “Nature” em no início do ano, que no norte e centro da Groenlândia foi mais quente na primeira década do século 21 do que nos últimos 1000 anos. »O aquecimento na fase entre 2001 e 2011 difere claramente das flutuações naturais dos últimos 1000 anos. Temíamos isso em vista do aquecimento global, mas a clareza e a concisão são inesperadas”, diz o glaciologista.

A camada de gelo da Groenlândia , com mais de 3.000 metros de altura e um volume de cerca de três milhões de quilômetros cúbicos, desempenha um papel central no sistema climático global. Se continuarmos a emitir tantos gases de efeito estufa quanto emitimos hoje, seu derretimento poderá elevar o nível do mar em 50 centímetros até o final do século.

A destruição da floresta amazônica também está progredindo rapidamente. Em um estudo recente na Science, David Lapola, da Universidade Estadual de Campinas, e sua equipe chegaram à conclusão de que 2,5 milhões de quilômetros quadrados já foram degradados por incêndios, mudanças no uso da terra, desmatamento ou seca extrema. As áreas afetadas agora estão mais secas e, portanto, mais inflamáveis ​​e vulneráveis ​​do que antes, alertam os autores. De sua parte, Kurths vê como principal perigo para a Amazônia sua fragmentação. “Isso significa que toda a floresta tropical está ameaçada”, diz ele.

No entanto, ele está particularmente preocupado com os pontos de inflexão social resultantes das mudanças climáticas: o aumento do nível do mar pode levar milhões de pessoas nas cidades costeiras a fugir. É urgente uma mudança imediata de rumo por parte da política, dos negócios e da sociedade.


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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Lista Qualis e a duvidosa qualidade dos critérios de qualidade

Critérios adotados para o sistema de avaliação de publicações científicas promovem distorções cujos impactos alcançam inclusive outras instâncias, como classificação de artigos de candidatos a concursos. Indicador deve ser visto como um meio, não um fim em si mesmo

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Por Marcelo Takeshi Yamashita para o “Jornal da Unesp”

A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC), tem, entre outras responsabilidades, a de zelar pela qualidade dos programas de pós-graduação brasileiros, o que implica a produção, ainda que de forma implícita, de juízos de valor sobre a qualidade da produção acadêmica e científica do país. Os rankings de pós-graduação publicados periodicamente pela Capes são aguardados com ansiedade, celebrados (e até temidos) por instituições públicas e privadas.

Os processos de avaliação utilizados valem-se de indicadores quantitativos e qualitativos que buscam trazer objetividade – números verificáveis e critérios bem-definidos – que, em tese, deixam de fora os preconceitos e favoritismos peculiares das pessoas físicas envolvidas na execução do processo. Um desses critérios é a lista Qualis, um ranking de classificação das revistas indexadas onde pesquisadores de instituições com pós-graduação publicam seus artigos.

No fim de 2022, a Capes anunciou que começaria a adotar uma nova lista, baseada na avaliação quadrienal 2017-2020. A despeito de os critérios de classificação terem mudado ao longo do tempo, não é de hoje que esse ranking de revistas científicas é alvo de críticas. Desta vez, a nova lista gerou reações negativas de pesquisadores de diversas áreas e a criação de um abaixo-assinado.

De acordo com a Capes, a lista Qualis é utilizada exclusivamente para avaliação dos programas de pós-graduação, sendo que o ordenamento das revistas é feito através da aferição das suas qualidades. O ranking classifica os periódicos científicos nos seguintes grupos (do melhor para o pior): A1, A2, A3, A4, B1, B2, B3, B4 e C. Artigos publicados em veículos que não constam da lista, ou em revistas do grupo C, são desconsiderados.

Um sistema que vincula a qualidade de um artigo científico unicamente ao local onde está publicado é bem questionável. O Clay Mathematics Institute é uma fundação privada de fomento a atividades que promovam a matemática. Dentre as suas ações está o pagamento de um prêmio de um milhão de dólares por cada solução de qualquer um dos “Problemas do Millenium”. Esses problemas, um total de sete, envolvem questões complicadíssimas relacionadas à matemática pura, alguns deles sem solução há mais de 100 anos.

Um dos problemas do milênio, a conjectura de Poincaré, foi resolvido em 2002 pelo matemático russo Grigori Perelman. O artigo, com a assinatura de Grisha Perelman, foi publicado no arxiv.org, uma base de acesso aberto onde pesquisadores publicam artigos ainda “crus”, para torná-los públicos antes de submetê-los a algum periódico científico. A complexidade da solução do problema fez com que levasse alguns anos para que a demonstração fosse reconhecida como válida pela comunidade de matemáticos. Mas, afinal, em qual revista Perelman publicou o artigo?

A resposta é: nenhuma. Grisha não somente não quis publicar em periódicos – preferiu compartilhar o conhecimento em uma plataforma de acesso aberto – como recusou prêmios do calibre da Medalha Fields (análogo ao Nobel concedido para a área de matemática). Este exemplo de Perelman (e existem outros) mostra que não há conexão intrínseca entre a qualidade de um artigo e o local de publicação.

Indicadores usados na definição e implementação de políticas públicas precisam (e isto deveria ser óbvio) ter validade – isto é, realmente medir o que se pressupõe que está sendo medido. Uma régua não é um instrumento válido para medir pressão atmosférica, por exemplo. Para o ranqueamento de revistas, porém, algumas comissões que elaboraram o ranking Qualis utilizaram o chamado Fator de Impacto (FI) – um parâmetro que não está relacionado à qualidade da revista.

O FI é um indicador bibliométrico que atribui um número ao periódico com base na quantidade de citações dos artigos publicados. O cálculo é feito tomando-se o total de citações, em determinado ano, dos artigos publicados nos dois anos anteriores, dividido pelo número de artigos publicados nesse mesmo período. Por exemplo:

A = Total de citações em 2020

B = Citações, em 2020, dos artigos publicados em 2019 e 2018 (subgrupo de A)

C = Artigos publicados em 2019 e 2018

D = B/C = Fator de impacto de 2020

O FI de uma revista pode ser definido por apenas uns poucos artigos que recebam muitas citações. Quando se assume o fator de impacto como representativo da qualidade de uma revista (pressupondo, por um momento, que o número de citações seja um indicador válido de qualidade, algo em si discutível) incorre-se em erro, pois boa parte dos artigos publicados naquele periódico sequer recebeu uma única citação.

Adotar o FI, ou outro fator estritamente numérico, pode gerar anomalias como a apontada pelo físico Silvio Salinas no Boletim da Sociedade Brasileira de Física, em 2009, no texto “Quo Vadis, Qualis?, do qual reproduzo alguns trechos a seguir:

“Francamente, acho que atingimos um limite perigoso, que coloca em risco o próprio conceito de avaliação. Por exemplo, o que significa classificar Physical Review D como A2 e Physical Review B como B1? Por acaso os particuleiros são melhores do que os solidistas? […] Acho que está na hora de refletir sobre essa numerologia, que pouco a pouco se acentua em todas as áreas, impulsionada pelas facilidades da informática e por uma vaga ideia de globalização”.

Apesar de as avaliações não utilizarem unicamente o FI para composição do Qualis, ele continua tendo um papel relevante na classificação dos periódicos. Ainda que haja a utilização de outros indicadores para o estabelecimento desse ranking, a avaliação qualitativa permanece comprometida. O problema de uma mesma revista ser classificada em estratos de Qualis diferentes, como apontado lá em 2009, ainda persiste (por exemplo, Physics Letters A é A3 e Physics Letters B é A2).

Poderíamos descrever longamente aqui os critérios Qualis das diferentes áreas de conhecimento – cada área tem os seus, e todos são passíveis de alguma crítica. Talvez isso mostre que existe um problema inerente ao modelo, que busca objetividade e pragmatismo em uma avaliação que deveria ser o oposto disso. Os indicadores deveriam ser utilizados como meio, e não fim. A avaliação da qualidade de um artigo vai muito além do local onde está publicado e demanda leitura atenta de alguém que tenha algum conhecimento da área de pesquisa.

Outro efeito colateral negativo da canonização de um ranking de revistas por um órgão como a Capes é a utilização dessa lista por outras instâncias e para finalidades para as quais ela não foi pensada. Utilizar o Qualis para avaliações individuais como, por exemplo, a classificação de artigos publicados por candidatos a concursos, atribuindo uma pontuação maior para uma publicação em Qualis A1 do que A3, pode acabar influenciando o direcionamento das pesquisas para periódicos mais bem avaliados, quando o que deveria ser levado em conta pelo pesquisador é a pertinência do artigo à revista.

Antes que a proposta de tornar as avaliações mais qualitativas seja vista como uma utopia, é importante lembrar que a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) solicita que em todos os pedidos de auxílio seja anexada uma súmula curricular do pesquisador. Neste documento deve-se constar uma lista de até cinco resultados de pesquisa mais relevantes e de maior impacto.

Uma iniciativa semelhante à da Fapesp poderia ser adotada para todas as avaliações, inclusive a dos programas de pós-graduação. Isso tornaria o trabalho dos avaliadores menos árduo e seria possível realmente avaliar a qualidade do que é submetido, reduzindo inclusive a dependência de indicadores externos – muitos deles, gerados por empresas que cobram para fornecer os números.

Recentemente, tomando como exemplo o modelo atual de orientação de alunos de doutorado, a Nature publicou um editorial defendendo a necessidade dos pesquisadores e das universidades se adaptarem às expectativas da sociedade. Sobre o Qualis, remeto novamente ao texto do professor Salinas: “Entretanto, nos dez anos de uso ele tem sido mudado para não mudar… Ou seja, o ‘sarrafo’ muda de posição, mas a lógica da avaliação continua a mesma, exacerbando a importância de um dos aspectos da pós-graduação e subjugando a relevância sob indicadores erigidos em critérios finais e únicos”. Isso foi lá em 2009. Será que estamos muito diferentes em 2023?

Marcelo Takeshi Yamashitaé assessor-chefe da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp. Foi diretor do Instituto de Física Teórica (IFT) no período de 2017 a 2021.


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Este texto foi originalmente publicado pelo “Jornal da UNESP” [Aqui! ].

Marcos do Val e sua verdade inconveniente: a trama de Jair Bolsonaro e seu entorno para impedir a posse de Lula

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Língua afiada de Marcos do Val se mostra mais perigosa do que a “arminha” do dedo em riste e coloca Jair Bolsonaro em mãos lençóis

De ontem para hoje o senador Marcos do Val (Podemos-ES) adiantou uma bomba que agora aparece na capa da revista Veja: uma suposta trama para a realização de um golpe de estado envolvendo diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro e hoje retornado ao cárcere, o ex-deputado Daniel Silveira (PL/RJ) (ver imagem abaixo).

proposta indecente

Eis que lendo os detalhes presente na matéria produzida pela Veja a partir das denúncias feitas por Marcos do Val (que frisemos sempre foi da base legislativa do governo Bolsonaro), fica ainda mais confirmado que existiram ações para anular o resultado das eleições presidenciais, impedir a posse do presidente Lula, e manter Jair Bolsonaro no cargo (e, sim, realizar a prisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) presidente do Tribunal Superior Eleitoral).

Em qualquer país com instituições funcionando minimamente, me parece óbvio que Jair Bolsonaro e os demais participantes  (os quais precisam ser identificados e nomeados) dessa trama rocambolesca já estariam sendo presos para impedir qualquer intenção similar no futuro. É que mais essa indiscrição feita por alguém do entorno de Jair Bolsonaro mostra o que já era mais ou menos sabido, qual seja, que havia efetivamente não apenas o desejo, mas também tratativas para a realização de um golpe de estado no Brasil.

E, pior, que esse golpe de estado visava permitir, entre outras coisas, que fosse continuado o genocídio que estava sendo cometido contra os povos indígenas, a começar pelo mais caso mais notório que é o do povo Yanomami. 

Agora vamos como se comportam os chefes dos três poderes em relação a essa situação. Se passar pano ou vão tomar o tipo de atitude que este caso requer.