Desastre continuado em Brumadinho: pesquisa mostra potencial toxicogenético na água e sedimentos do Rio Paraopeba após rompimento de barragem da Vale

brumadinho

Um estudo realizado por uma equipe de pesquisadores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) acaba de ter publicado um artigo na revista  “Science of the Total Environment “  onde são apresentados os resultados de um estudo que avaliou o potencial toxicogenético da água e sedimento do rio Paraopeba, cinco dias após o rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Vale em Brumadinho (MG) em janeiro de 2019, pelo teste Allium cepa.

Amostras de água coletadas em locais mais próximos à barragem desmoronada causaram uma frequência maior de danos genéticos e menor taxa de divisão celular em comparação com o local a montante. Nos sedimentos foi observada uma diminuição da taxa de divisão celular e a ocorrência de danos genéticos nos pontos de coleta mais próximos à barragem.

figura 3

A frequência de aberrações e o índice mitótico em células de A. cepa expostas a sedimentos foram negativamente associados aos níveis da maioria dos elementos nas frações total e biodisponível.  Além disso, também foi observada uma associação negativa entre algumas concentrações de metais na água total e dissolvida com o índice mitótico.  Já os efeitos genotóxicos foram positivamente correlacionados com as concentrações da maioria dos metais.

Em geral, os resultados desse estudo demonstram o potencial dos rejeitos que escaparam da barragem rompida em Brumadinho para causar efeitos citogenotóxicos devido às maiores concentrações de metais liberados na coluna d’água e nos sedimentos.

Resultados reforçam necessidade de monitoramento de longo prazo na bacia do Rio Paraopeba

Segundo o professor Carlos Eduardo de Rezende, professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da Uenf, este artigo é o primeiro estudo que demonstra o potencial toxicogenético dos rejeitos lançados no Rio Paraopeba. O Prof. Rezende aponta que estes resultados reforçam a necessidade de um monitoramento de longo prazo da bacia hidrográfica do Rio Paraopeba devido ao avanço da pluma de rejeitos que está ocorrendo ao longo do tempo.

Estudo do ‘mundo real’ em Israel mostra que a vacina contra o coronavírus da Pfizer é 94% eficaz

PFIZERUm profissional de saúde prepara uma dose da vacina contra o coronavírus Pfizer-BioNtech Covid-19 em uma clínica móvel em Israel. Foto: AFP

O estudo israelense, publicado no New England Journal of Medicine , também mostrou que há provavelmente um forte benefício protetor contra infecções, um elemento crucial para interromper a transmissão progressiva.

As curvas de incidência cumulativa (1 menos o risco de Kaplan-Meier) para os vários desfechos são mostradas, começando no dia da administração da primeira dose da vacina. As áreas sombreadas representam intervalos de confiança de 95%. O número em risco em cada momento e o número cumulativo de eventos também são mostrados para cada resultado

“Esta é a primeira evidência revisada por pares em grande escala da eficácia de uma vacina em condições do mundo real”, disse Ben Reis, pesquisador da Harvard Medical School e um dos autores do artigo.

Envolveu quase 600.000 pessoas que receberam as vacinas e um número igual que não as receberam, mas foram parecidas com suas contrapartes vacinadas por idade, sexo, geografia, médicos e outras características.

A eficácia contra o COVID-19 sintomático foi de 94 % sete ou mais dias após a segunda dose – muito próxima dos 95% alcançados durante os ensaios clínicos de Fase 3.

Na Inglaterra, pesquisadores disseram na quinta-feira que as pessoas que receberam duas doses da vacina Pfizer estão gerando fortes respostas de anticorpos à medida que a injeção é aplicada.

Uma pesquisa do Imperial College London mostrou que 87,9% das pessoas com mais de 80 anos testaram positivo para anticorpos após duas doses da vacina Pfizer-BioNTech, aumentando para 95,5 % para aqueles com menos de 60 anos e 100 por cento para aqueles com menos de 30

“Embora haja alguma queda na positividade com a idade, em todas as idades, obtemos uma resposta muito boa a duas doses da vacina”, disse Paul Elliott, presidente de Epidemiologia e Medicina de Saúde Pública do Imperial College London, a jornalistas.

Os níveis de anticorpos são apenas uma parte do quadro de imunidade, com vacinas também demonstrando gerar forte proteção de células T.

Quase 95% dos menores de 30 anos testaram positivo para anticorpos 21 dias após uma dose, mas isso diminuiu nos grupos mais velhos.

A pesquisa descobriu que 34,7% dos 80 anos ou mais geraram respostas de anticorpos a partir de uma dose da vacina Pfizer, mas o Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização (JCVI) da Grã-Bretanha encontrou anteriormente alta proteção da vacina Pfizer após uma dose, mesmo quando os níveis de anticorpos são mais baixos.

A Grã-Bretanha estendeu o intervalo entre as doses para 12 semanas, embora a Pfizer tenha alertado que só tem dados de eficácia clínica com um intervalo de três semanas entre as vacinas.

Mais de 154.000 participantes participaram do estudo de vigilância domiciliar do Imperial para anticorpos COVID-19, que monitora os níveis de anticorpos de infecções naturais e também entre os vacinados, entre 26 de janeiro e 8 de fevereiro.

A pesquisa também analisou a confiança nas vacinas e mostrou que era alta, com 92% tendo aceitado ou planejando aceitar uma oferta de vacina, embora a confiança fosse menor entre os negros, caindo para 72,5%.

Mais de 217 milhões de doses de vacinas foram administradas globalmente, embora a grande maioria tenha sido administrada em países de alta renda.

Há grandes esperanças de que as inoculações permitam que o mundo finalmente saia de uma pandemia que matou mais de 2,4 milhões, infectou 112 milhões e atingiu a economia global.

Mas especialistas em saúde advertiram que, a menos que o mundo inteiro tenha acesso às vacinas, a pandemia não terá fim.

Isso ocorreu quando Gana se tornou o primeiro país a receber injeções sob o esquema global Covax Facility, abrindo caminho para que as nações mais pobres alcancem as partes mais ricas do mundo. As 600 mil doses são da Oxford-AstraZeneca e serão administradas em várias cidades de Gana a partir de terça-feira.

Dados mais otimistas, entretanto, surgiram sobre a vacina de injeção única da Johnson & Johnson, que se mostrou altamente eficaz contra os casos graves de COVID-19, incluindo variantes mais recentes, em dados detalhados divulgados pelo regulador dos EUA. A vacina provavelmente será autorizada em breve, tornando-se a terceira disponível no país mais afetado.

A empresa americana de biotecnologia Moderna também anunciou que sua nova vacina candidata contra a COVID-19, voltada para a perigosa variante do coronavírus sul-africano, foi enviada a laboratórios governamentais para teste.

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Este artigo foi inicialmente escrito em inglês e publicado pelo “South China Morning Post”  [Aqui!].

Coronel do Exército exonerado por Ricardo Salles no MS diz que ministro criou situação sórdida ao aparelhar e paralisar o IBAMA

SALLES IBAMA

O contexto [da exoneração] é o seguinte: o ministro Ricardo Salles organizou o Ibama, o ICMbio e o próprio ministério com base nos coronéis da PM de São Paulo. Tenho profundo respeito pela corporação, são pessoas, não é porque é PM não… Mas sei o seguinte, está equivocada essa política, está mal administrada. O Ibama está paralisado. O meio ambiente está mal”, disse o ex-superintendente. Marchetti afirmou que foi nomeado no Ibama, em 2019, por indicação de um general do Exército “com o aval do presidente da República”, Jair Bolsonaro.

salles sordido

O coronel disse, em entrevista nesta terça-feira (23) divulgada pelo site de notícias Campograndenews, que é “sórdido o que está acontecendo” e que o ministro “mobiliou todo o Ibama”. Segundo ele, mobiliar é um termo usado por militares para designar a ocupação de cargos. Ao UOL, Marchetti confirmou as declarações e deu mais detalhes.

Veja matéria completa do UOL sobre as declarações do coronel Luiz Marchetti [Aqui!].

Até tú, Ted? Por que a desregulamentação falhou

Até o senador Ted Cruz (Republicano/Texas) percebeu que os quilowatts-hora não são como abacates
 
Texas Power Grid Run by ERCOT Set Up the State for Disaster - The New York  Times
Por Paul Krugman para o “The New York Time”
 
Ninguém está totalmente preparado para desastres naturais. Quando furacões, nevascas ou tsunamis acontecem, eles sempre revelam fraquezas – falha no planejamento, falha no investimento em precauções.
 
O desastre no Texas, entretanto, foi diferente. O colapso da rede elétrica do Texas não revelou apenas algumas deficiências. Ele mostrou que toda a filosofia por trás da política energética do estado está errada. E também mostrou que o estado é governado por pessoas que recorrem a mentiras flagrantes em vez de admitir seus erros.
 
O Texas não é o único estado com um mercado de eletricidade amplamente desregulamentado. No entanto, levou a desregulamentação mais longe do que qualquer outra pessoa. Há um limite máximo para os preços da eletricidade no atacado, mas é estratosférico alto. E essencialmente não há regulamentação prudencial – nenhuma exigência de que as concessionárias mantenham a capacidade de reserva ou invistam em coisas como isolamento para limitar os efeitos do clima extremo.
 
A teoria era que tal regulamentação não era necessária, porque a magia do mercado cuidaria de tudo. Afinal, um aumento na demanda ou uma interrupção no fornecimento – ambos ocorridos no congelamento profundo – levarão a preços altos e, portanto, a grandes lucros para qualquer fornecedor de energia que consiga continuar operando. Portanto, deve haver incentivos para investir em sistemas robustos, justamente para aproveitar eventos como os que o Texas acaba de vivenciar.
 
A política energética do Texas foi baseada na ideia de que você pode tratar a eletricidade como abacates. As pessoas se lembram da grande escassez de abacates em 2019? O aumento da demanda e uma safra ruim na Califórnia levaram à alta dos preços; mas ninguém pediu um inquérito especial e novas regulamentações para os produtores de abacate.
 
Na verdade, algumas pessoas não veem nada de errado com o que aconteceu no Texas na semana passada. William Hogan, o professor de Harvard amplamente considerado o arquiteto do sistema do Texas, afirmou que aumentos drásticos de preços, embora “não convenientes”, eram como o sistema deveria funcionar.
 
Mas os quilowatts-hora não são abacates, e há pelo menos três grandes razões para fingir que sim é uma receita para o desastre.
 
Primeiro, a eletricidade é essencial para a vida moderna de uma forma que poucas outras mercadorias podem se comparar. Ter que ficar sem torradas de abacate não vai te matar; ter que ficar sem eletricidade, especialmente quando sua casa depende dela para aquecimento, pode.
 
E é extremamente duvidoso que mesmo a perspectiva de lucros altíssimos durante uma escassez ofereça aos fornecedores de energia incentivo suficiente para levar em conta os enormes custos humanos e econômicos de uma queda prolongada de energia.
 
Em segundo lugar, a eletricidade é fornecida por um sistema – e o investimento preventivo por um jogador no sistema não adianta se os outros participantes não fizerem o mesmo. Mesmo que o proprietário de uma usina termoelétrica a gás isole e proteja suas turbinas para o inverno, ele não pode funcionar se o gasoduto que fornece seu combustível ou a cabeça do poço que fornece o gás congelarem.
 
Então, o livre mercado garante que todo o sistema funcione sob pressão? Provavelmente não.
 
Por último, mas não menos importante, um sistema que depende dos incentivos oferecidos por preços extremamente altos em tempos de crise não é viável, prática ou politicamente.
 
No início, os texanos que não perderam o poder no grande congelamento se consideraram sortudos. Mas então as contas chegaram – e algumas famílias se viram sendo cobradas em milhares de dólares por alguns dias de eletricidade.
 
Muitas famílias provavelmente não têm dinheiro para pagar essas contas, então estamos potencialmente diante de uma onda de falências pessoais. E mesmo aqueles que não enfrentam a ruína ficam, previsivelmente, indignados.
 
Possivelmente, a observação mais reveladora da crise do Texas até agora foi um tweet de, entre todas as pessoas, o senador Ted Cruz (R-Cancún), que fumegou que “nenhuma empresa de energia deveria receber lucros inesperados por causa de um desastre natural” e apelou “ reguladores estaduais e locais ”para“ prevenir esta injustiça ”.
 
O senador, que não é conhecido pela autoconsciência, pode não perceber o que fez ali. Mas se mesmo Ted Cruz – Ted Cruz! – acredita que os reguladores devem evitar que as empresas de energia obtenham lucros inesperados em um desastre, o que elimina qualquer incentivo financeiro do setor privado para se preparar para tal desastre. E isso, por sua vez, destrói toda a premissa por trás da desregulamentação radical.
 
Assim, os republicanos que ocupam todos os cargos estaduais do Texas aprenderão com esse desastre e repensarão toda a sua abordagem à política energética? Claro que não. A reação imediata deles foi culpar falsamente a energia eólica pela crise e atacar os defensores de um New Deal Verde – embora algo como um New Deal Verde, isto é, investimento público em infraestrutura energética, seja exatamente o que o Texas precisa.
 
E uma coisa que definitivamente aprendemos nos últimos meses é que, uma vez que os políticos se comprometam com uma Grande Mentira, seja ela epidemiologia, economia ou resultados eleitorais, não há como voltar atrás.
 
Mas enquanto o complexo da mídia política de direita não pode e não vai aprender nada com a derrocada do poder no Texas, o resto de nós pode. Acabamos de receber uma visão clara do lado escuro (e frio) do fundamentalismo de livre mercado. E essa é uma lição que não devemos esquecer.
 
*Paul Krugman é colunista de opinião desde 2000 e também professor ilustre do Centro de Pós-Graduação da City University of New York. Ele ganhou o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2008 por seu trabalho sobre comércio internacional e geografia econômica. @PaulKrugman
 
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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The New York Times” [Aqui!] .

Inseticidas amplamente utilizados também podem ser uma ameaça a mamíferos

Os neonicotinoides já são acusados de contribuir para o declínio generalizado de insetos. Mas há evidências de que também possam ser nocivos a coelhos, aves e cervos.

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Estas sementes de milho foram tratadas com clotianidina, um agrotóxico neonicotinoide. Resíduos de neonicotinoides, associados ao declínio de insetos, também estão sendo encontrados em animais maiores, como aves e cervos. FOTO DE ANAND VARMA, NAT GEO IMAGE COLLECTION

Por Elizabeth Royte para a National Geographic 

Em um dia nublado de janeiro em Estelline, Dakota do Sul, nos EUA, Jonathan Lundgren fecha o zíper de sua jaqueta acolchoada sobre um casaco de lã, puxa para baixo o gorro e caminha pela neve na propriedade rural Blue Dasher Farm até seu celeiro, um galpão de ordenha equipado por ele como um laboratório bioquímico.

Lundgren é um tipo incomum: metade proprietário rural interessado em reinventar sua profissão e metade cientista, ex-entomologista do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (“USDA”, na sigla em inglês) que ainda conduz análises químicas. Cercado pela parafernália habitual de laboratórios — um espectrofotômetro, uma máquina de PCR, uma centrífuga — Lundgren olha pela janela as ovelhas aglomeradas no pasto e  um grande bando de gansos, galinhas, perus e patos. Então ele se volta aos baços de cervo à sua frente. Durante meses, ele analisou os baços em busca de traços de inseticidas denominados neonicotinoides.

Com proximidade química à nicotina, os neonicotinoides foram desenvolvidos na década de 1990 como uma alternativa mais segura a produtos químicos agrícolas mais tóxicos e duradouros. Atualmente são os agrotóxicos mais utilizados no mundo, eficazes contra pulgões e cigarrinhas e uma ampla variedade de nematoides, besouros e brocas. Distribuídos na forma de sementes tratadas destinadas a lavouras que cobrem mais de 60 milhões de hectares nos Estados Unidos, os neonicotinoides são absorvidos por todas as estruturas vegetais: raízes, caules, folhas, frutas, pólen e néctar. Os insetos mastigam ou sugam sua parte predileta, depois se enrolam e morrem.

A história revela que esse tipo de agrotóxico de amplo espectro pode ter consequências indesejadas, e numerosos estudos sugerem que os neonicotinoides, juntamente com as mudanças climáticas e a destruição de habitats, estão contribuindo com o declínio incessante nas populações de insetos na América do Norte e na Europa. As abelhas, essenciais à polinização das lavouras, foram bastante atingidas.

As evidências de toxicidade são tão convincentes que a União Europeia proibiu o uso externo de três neonicotinoides populares. E embora os Estados Unidos ainda não tenham tomado essa mesma medida decisiva, está cada vez mais evidente que as abelhas e outros insetos úteis não são os únicos animais em risco.

Nos últimos anos, os cientistas constataram que apenas cerca de 5% da cobertura das sementes tratadas com neonicotinoides são absorvidos pelas plantas. O restante é lixiviado ou lavado das sementes. Os produtos químicos se acumulam nos solos e cursos d’água, onde uma ampla variedade de animais silvestres fica exposta a eles. Há cada vez mais evidências de que compostos desenvolvidos especificamente para eliminar invertebrados também podem ser nocivos a mamíferos, aves e peixes.

Em seu celeiro, neste início de ano, Lundgren vem compilando algumas das evidências mais recentes: dados que sugerem que uma quantidade significativa de cervos selvagens no norte do Meio Oeste dos Estados Unidos apresenta neonicotinoides em seus baços.

Um experimento único

Um dos primeiros sinais de que os neonicotinoides podem afetar animais grandes veio de outro estudo de que Lundgren participou, também envolvendo cervos — mas em cativeiro.

Em 2015, uma equipe de cientistas da Universidade Estadual da Dakota do Sul decidiu determinar como um neonicotinóide chamado imidacloprida — utilizado no milho, soja, trigo e algodão — pode afetar grandes herbívoros. Os cientistas realizaram um experimento inédito em um grupo de veados-galheiros mantidos em cativeiro, formados por 21 fêmeas adultas e 63 filhotes nascidos dessas fêmeas no decorrer do experimento. Elise Hughes Berheim, pós-graduanda, e Jonathan Jenks, ecologista de animais silvestres, misturaram imidacloprida em diferentes doses na água dos animais.

Quando o grupo foi submetido à eutanásia após dois anos, os pesquisadores verificaram que os animais com níveis mais elevados do agrotóxico em seus baços apresentavam maxilares mais curtos, peso corporal mais leve e órgãos menores, incluindo genitais. Mais de um terço dos filhotes morreram prematuramente, e o teor de imidacloprida no baço desses filhotes era muito mais alto do que nos sobreviventes. Tanto os filhotes quanto os adultos com níveis maiores da substância eram menos ativos enquanto vivos — o que os deixaria mais vulneráveis a predadores na natureza.

Veado-galheiro se alimenta ao lado de carvalho próximo a Ocala, Flórida. Na Dakota do Norte e ...Veado-galheiro se alimenta ao lado de carvalho próximo a Ocala, Flórida. Na Dakota do Norte e em Minnesota, foram encontrados cervos com neonicotinoides em seus tecidos, provavelmente consumidos ao se alimentar ou consumir água. FOTO DE MARK EMERY, NAT GEO IMAGE COLLECTION

Alguns dos cervos continham doses de imidacloprida muito maiores do que qualquer outra já constatada em riachos naturais ou pântanos. Mas a equipe também examinou baços coletados de cervos selvagens, ao longo de um período de oito anos, por oficiais de caça da Dakota do Norte. Jenks ficou surpreso ao constatar que continham três vezes mais imidacloprida do que aqueles que apresentaram anomalias em seu grupo mantido em cativeiro. Ele supôs que os animais selvagens haviam sido contaminados ao se alimentar ou consumir água.

Publicados no periódicScientific Reports em março de 2019, os resultados eram desconhecidos por administradores ou caçadores de propriedades rurais e por qualquer pessoa preocupada com os efeitos dos produtos químicos agrícolas sobre animais silvestres. Afinal, animais com mandíbulas malformadas e órgãos reprodutivos subdimensionados podem ter dificuldade para se alimentar ou se reproduzir. “Os neonicotinoides podem ter um efeito catastrófico nas populações de veados-galheiros”, alerta Jennifer Sass, cientista sênior do Conselho de Defesa de Recursos Naturais, um grupo ambientalista.

Cinco fabricantes na Europa, Estados Unidos e Japão dominam o mercado de neonicotinoides. A Bayer CropScience, formada quando a empresa farmacêutica alemã adquiriu a Monsanto, é uma das maiores fabricantes mundiais de neonicotinoides e é a principal fabricante de imidacloprida. Alexander Hennig, porta-voz da Bayer, considerou o estudo dos veados-galheiros na Dakota do Sul “não confiável”.

“Nenhum dos efeitos citados foi relatado em populações de cervos na natureza”, escreveu Hennig por e-mail. “Muitos usos veterinários são aprovados, o que permite a aplicação direta de neonicotinoides em animais de estimação e gado para protegê-los de pulgas e carrapatos, o que não seria possível se nossa empresa ou órgãos reguladores determinassem que existem riscos para os vertebrados”.

Segundo Hennig, uma das razões pelas quais os neonicotinoides foram desenvolvidos como inseticidas é justamente o fato de que não afetam os vertebrados da mesma maneira: eles se ligam a receptores na superfície celular muito menos prevalentes em vertebrados.

Evidências crescentes

Os cervos não são as únicas espécies que consomem neonicotinoides inadvertidamente. Charlotte Roy, bióloga do Departamento de Recursos Naturais de Minnesota, verificou que muitos animais não hesitam em consumir sementes tratadas com neonicotinoides se tiverem a chance — como é comum acontecer durante o plantio no segundo trimestre do ano.

Em um estudo em 2019, Roy montou armadilhas fotográficas em campos agrícolas onde havia distribuído deliberadamente sementes tratadas. Suas câmeras acionadas por movimento registraram mais de uma dezena de espécies de aves (incluindo faisões-comuns, gansos e perus), além de ursos, guaxinins, roedores, coelhos, raposas e gambás, todos se alimentando das sementes tratadas.

Segundo Roy, é comum a queda acidental de sementes das máquinas de semeadura. Os proprietários rurais são instruídos por empresas de sementes a lavá-las, mas pequenos montes de grãos, contendo milhares de sementes, são comuns. Roy e seus colegas estimam que essas quedas acidentais de sementes ocorram milhares de vezes a cada ano em Minnesota.

Permanece uma questão em aberto como exatamente as sementes tratadas com neonicotinoides afetam o crescimento, o desenvolvimento e a função orgânica dos vertebrados. Mas as evidências de toxicidade estão se acumulando.

Faisões-comuns e outros animais foram observados ingerindo sementes tratadas com neonicotinoides após caírem acidentalmente nos campos.
Faisões-comuns e outros animais foram observados ingerindo sementes tratadas com neonicotinoides após caírem acidentalmente nos campos.  FOTO DE ROBBIE GEORGE, NAT GEO IMAGE COLLECTION

Pesquisadores no Canadá demonstraram que consumir apenaquatro sementes de canola tratadas com imidacloprida durante três dias pode interferir na capacidade de migração de um pardal. Um pós-graduando da Universidade Estadual da Dakota do Sul no ano passado demonstrou que os faisões-comuns — o animal mais caçado nas Dakotas — apresentaram redução de peso, fraqueza e letargia maior quanto mais sementes de milho tratadas fossem consumidas (de acordo com o pesquisador, as aves foram alimentadas com menos sementes tratadas do que seu consumo observado na natureza). As aves que consumiam doses mais elevadas também botaram menos ovos, tardaram uma semana para fazer seus ninhos e houve um declínio de 20% na sobrevivência de seus descendentes.

Estudos em laboratório apresentaram uma série de evidências de que a exposição a neonicotinoides é nociva a animais vertebrados. Reduz a produção de esperma e aumenta o índice de abortos e anomalias esqueléticas em ratos; suprime a resposta imune de camundongos e a função sexual de machos de lagartixas-dos-muros na Itália; prejudica a mobilidade de girinos; aumenta os abortos espontâneos e o nascimento de prematuros em coelhos; e reduz a sobrevivência de perdizes-vermelhas, tanto de adultos quanto de filhotes.

No Japão, os cientistas relacionaram o colapso de uma lucrativa indústria de pesca à aplicação generalizada de imidacloprida em arrozais e campos agrícolas próximos.

No ano passado, Eric Michel, cientista pesquisador de ungulados do Departamento de Recursos Naturais de Minnesota (e coautor do artigo sobre veados-galheiros), fez um pedido para receber baços de cervos caçados. Seu objetivo era saber mais sobre a presença ou ausência de neonicotinoides nos animais de Minnesota, para ajudar a estabelecer limites às licenças de caça de fêmeas. “Buscamos qualquer informação que afete a dinâmica populacional”, conta ele.

No fim, quase 800 baços foram entregues a Lundgren para análises químicas. Os resultados preliminares sugeriram que mais de 50% dos baços testaram positivo para neonicotinoides; Lundgren atualmente está repetindo as análises nessas amostras para conferir mais uma vez seus resultados.

Como estudo complementar, Lundgren também está analisando o baço de 100 lontras-norte-americanas, linces e martas-pescadoras — os principais predadores capturados legalmente em armadilhas na Dakota do Norte. Seus resultados preliminares sugerem que os neonicotinoides contaminaram entre 15% e 30% das amostras. Os animais podem ter consumido os agrotóxicos em plantas contaminadas, ao se alimentar de presas ou na água, conta ele.

Os resultados do estudo de Lundgren não o surpreendem em nada; ele está convencido de que os agrotóxicos produzem um efeito expressivo na biodiversidade global. “Já faz algum tempo em que é observada uma deterioração das comunidades biológicas. É evidente que não são totalmente compreendidas as implicações desses agrotóxicos.”

Após pedidos de resposta aos estudos que sugerem que neonicotinoides podem ser nocivos a vertebrados, a CropLife America, associação comercial que representa os fabricantes e distribuidores de agrotóxicos, declarou: “com base em diversos estudos conclusivos realizados em todo o mundo, os neonicotinoides são comprovadamente eficazes no controle de insetos nocivos em ambientes agrícolas e não agrícolas, sem efeitos adversos não razoáveis em organismos que não sejam seu alvo, quando usados de acordo com as instruções do rótulo”.

E quanto aos humanos?

É evidente que os humanos também estão expostos aos neonicotinoides. Inalamos acidentalmente a substância ou tocamos as superfícies tratadas em propriedades rurais, jardins e quando aplicamos tratamentos contra pulgas e carrapatos em nossos animais de estimação. Durante a última década, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (“EPA”, na sigla em inglês) registrou mais de 1,6 mil casos de envenenamento humano por imidacloprida. Alguns sintomas são erupções cutâneas, dores de cabeça, respiração ofegante, perda de memória e insuficiência renal.

Mas as pessoas também consomem neonicotinoides nos alimentos. Os agrotóxicos são aplicados rotineiramente — geralmente pulverizados nas folhas ou no solo — em plantações de couve-flor, espinafre, maçã, uva, abóbora, melão, tomate e em outros produtos agrícolas e grãos. Quase 100% do milho nos Estados Unidos é tratado com neonicotinoides. Um estudo conduzido em 2015 pela organização sem fins lucrativos American Bird Conservancy e pela Faculdade de Saúde Pública TH Chan da Universidade de Harvard encontrou resíduos de neonicotinoides — embora em níveis considerados aceitáveis pela EPA — em quase todos os pratos servidos em cafeterias em prédios do Congresso dos Estados Unidos. Um estudo conduzido em 2019 pelos Institutos Nacionais da Saúde dos Estados Unidos encontrou neonicotinoides em 49,1% de mais de 3 mil amostras de urina humana.

Não há evidências diretas até o momento de que a exposição alimentar aos neonicotinoides seja prejudicial à saúde humana.

A EPA está atualmente analisando os registros de cinco neonicotinoides, incluindo o imidacloprida. Organizações ambientais e especialistas em saúde humana alegam que as análises em andamento da agência têm constantemente subestimado os males do uso de neonicotinoides e superestimado seus benefícios. Esses grupos pediram que a EPA cancelasse ou restringisse severamente muitos usos de neonicotinoides e proibisse sua presença em alimentos, o que, na prática, impediria seu uso em lavouras de alimentos (produtores orgânicos não utilizam neonicotinoides). Após estudos adicionais, a EPA poderia apresentar níveis de tolerância mais rígidos, o que permitiria certo uso agrícola.

Tratores juntam um monte enorme de milho em uma propriedade rural perto de Imperial, Nebraska, antes ...Tratores juntam um monte enorme de milho em uma propriedade rural perto de Imperial, Nebraska, antes que se formem nuvens de tempestade. Quase 100% do milho nos Estados Unidos é tratado com neonicotinoides.

FOTO DE RANDY OLSON, NAT GEO IMAGE COLLECTION

É evidente que são necessárias mais pesquisas sobre os possíveis efeitos dos neonicotinoides sobre os vertebrados. Mas estudos de campo com animais são cada vez mais raros porque demandam muito tempo, esforço e dinheiro. Nos Estados Unidos, são poucos os estados que financiam esse tipo de pesquisa da mesma forma que Minnesota e Dakota do Sul. Dados empíricos são difíceis de obter. Pierre Mineau, toxicologista ambiental e ex-cientista sênior do Environment Canada, órgão ambiental canadense, escreve que os animais silvestres que demonstram sinais de envenenamento, “correm um alto risco de predação ou morte”, ou seja, morrem sem deixar vestígios. É comum reabilitadores de animais silvestres e guardas florestais encontrarem animais com malformações, mas eles carecem de recursos para estudá-los cientificamente.

Por outro lado, sementes tratadas com neonicotinoides representam um mercado global de US$ 1,5 bilhão que a indústria tem grande interesse em proteger. Após a publicação do artigo revisado por pares sobre os veados-galheiros, de acordo com Lundgren, uma empresa de sementes anônima (para ele) acusou a equipe de pesquisa de má conduta e falsificação de dados. Uma investigação conduzida pela Universidade Estadual de Dakota do Sul concluiu que a acusação não tinha fundamento.

“Acredito que a intenção era nos atacar”, afirma Lundgren. “No entanto foi perturbador à nossa pesquisa, e nossa credibilidade é muito importante para nós.”

Os neonicotinoides são muito eficazes em exterminar pragas agrícolas, mas estudos revelaram que não aumentam necessariamente a produção desojaou milho e podem até reduzir os lucros dos produtores rurais por aumentarem seus custos. A União Europeia proibiu todo uso externo de três importantes neonicotinoides, incluindo o imidacloprida, para proteger os polinizadores (embora os produtores rurais continuem solicitando “isenções de emergência” durante surtos de pragas). O Canadá está cogitando proibição semelhante, e dezenas de projetos de lei para coibir ou vedar o uso de neonicotinoides foram apresentados nas câmaras estaduais dos Estados Unidos apenas nos últimos dois anos.

Projetos de lei federais para limitar esses compostos foram paralisados nos últimos anos, e ativistas ambientais duvidam que o governo Biden priorize a regulamentação de neonicotinoides (embora planeje rever a aprovação do clorpirifós, pesticida não neonicotinoide altamente tóxico). O novo secretário de Agricultura dos Estados Unidos, Tom Vilsack, também liderou o USDA durante o governo Obama; durante esse período, houve um aumento no uso de neonicotinoides pelos produtores rurais.

Se o USDA continuar a promover o sistema atual de sementes geneticamente modificadas tratadas com herbicidas, segundo Willa Childress, organizadora da Pesticide Action Network North America,coalizão internacional de ONGs, “continuará a aumentar o uso de neonicotinoides, a menos que a EPA intervenha e proíba.”

Uma abordagem mais holística

Lundgren, na Dakota do Sul, evita o cenário regulatório débil para se concentrar em questões mais importantes. Além de estudar tecidos animais e a composição química do solo, sua Blue Dasher Farmtambém desenvolve, avalia e ensina práticas agrícolas ecológicas — e lucrativas — a agricultores e pecuaristas em todo o país.

Essas práticas são consideradas “agricultura regenerativa” porque seu objetivo é restaurar o solo degradado a um estado natural, saudável e não contaminado. Para Lundgren, os neonicotinoides são um sintoma de um problema maior: a dependência generalizada, por parte da agroindústria, de insumos químicos que contaminam os cursos d’água e reduzem a saúde e a biodiversidade do solo.

“Proibir neonicotinoides não resolverá os problemas existentes no sistema de produção de alimentos”, afirma ele. “Nosso trabalho em sistemas regenerativos na agropecuária”, que inclui o plantio direto, o cultivo de plantas de cobertura e a promoção de insetos úteis e rotações de culturas mais diversas, “está mostrando que os inseticidas não são de fato necessários”.

“A mudança não partirá do governo”, prossegue Lundgren, “e sim da sociedade. A agricultura regenerativa está ganhando força a um ritmo surpreendente. Considero isso um grande sinal de esperança.”

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Este texto foi originalmente publicado pela National  Geographic [Aqui! ].

Dossiê revela série de violações socioambientais das operações da Hidrovias do Brasil no Pará

Documento publicado pelo Inesc, elaborado com base em denúncias de moradores, revela que a empresa não cumpre com as medidas para mitigar os impactos negativos de suas operações na região de Itaituba. Hidrovias tem dentre seus principais investidores a IFC, braço de investimentos do Banco Mundial para o setor privado.

Estação de transbordo e carregamento de barcaças - HBSA - Estrutural Zortea

Enquanto a soja passa: impactos da empresa Hidrovias do Brasil em Itaituba – revela que a empresa de logística Hidrovias do Brasil tem descumprido sistematicamente uma série de medidas que deveriam ser adotadas para mitigação dos impactos negativos de suas operações na região de Itaituba, no Pará, que se transformou nos últimos anos em um importante centro de transporte da cadeia global de fornecimento de commodities ao ligar a rodovia BR-163 com o Rio Tapajós, é que conclui um estudo divulgado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) publicado nesta terça-feira , 23/02.

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Durante a alta safra da soja, cerca de 1500 caminhões transitam diariamente em Miritituba, distrito de Itaituba, onde vivem 15 mil pessoas. O território é peça fundamental na reestruturação da Amazônia brasileira como caminho para a exportação de grãos do Mato Grosso para o Atlântico, com destino para a China, União Europeia e outros países. Atualmente, pelo menos 41 novos portos estão planejados ou em construção para os principais rios da região.

Na região, já foram construídos diversos empreendimentos, como hidrelétricas, hidrovias, garimpos e minas. Desde 2013, pelo menos 10 portos industriais – a maioria ligados ao agronegócio – foram construídos ao redor da cidade de Itaituba. Em Miritituba existem cinco Estações de Transbordo de Carga (ETC), instalações portuárias privadas que escoam os grãos pelos rios Tapajós e Amazonas até os portos Pará e do Amapá. O dossiê analisa os efeitos dos portos na região, com foco na empresa de logística Hidrovias do Brasil (HDB).

A instituição tem entre seus acionistas a Corporação Financeira Internacional (International Finance Corporation – IFC), braço de investimentos do Banco Mundial para o setor privado. A IFC, que é um banco multilateral de desenvolvimento, exigiu que a Hidrovias do Brasil, para receber o investimento, cumprisse com os Padrões de Desempenho sobre Sustentabilidade Socioambiental (PDs), um conjunto de medidas necessárias para impedir, diminuir ou mitigar os efeitos socioambientais negativos da sua atuação na região. 

No entanto, o dossiê do Inesc evidencia que a política socioambiental, aparentemente rigorosa da IFC, não está sendo cumprida pela Hidrovias do Brasil. O relatório produzido por meio de denúncias de moradores de Itaituba e Miritituba, representantes de movimentos sociais, lideranças indígenas, entre outros, analisa detalhadamente cada meta de sustentabilidade que deveria estar sendo executada pela Hidrovias do Brasil e aponta falhas na vistoria da instituição financeira investidora. 

“A Hidrovias do Brasil foi financiada por um banco que tem uma política socioambiental, à princípio, robusta, que envolve um monitoramento da empresa para ter certeza que, se estão previstos impactos negativos, deverão ser mitigados ou compensados. Existem instâncias que podemos apelar ao banco, para que monitore a empresa e faça estas políticas de fato serem cumpridas. Portanto, este dossiê é um primeiro passo para que a IFC retome o monitoramento da Hidrovias do Brasil e a faça cumprir a política socioambiental da própria instituição”, afirma Livi Gerbase, assessora política do Inesc e autora do estudo.

Um exemplo é a construção do desvio para que os caminhões contornem Miritituba ao invés de cortá-la, obra prometida pela Hidrovias do Brasil ao Banco e que não saiu do papel. Para além do trânsito e do aumento do número de acidentes, os 1500 caminhões geram poluição no ar e deixam parte da soja espalhada por toda a cidade, causando graves danos à saúde da população e interferência na fauna e na flora local. Um morador de Miritituba resume a sensação de viver entre o tráfego intenso: “aqui a gente disputa com as carretas, e o menor é quem tem que correr”. 

O aumento dos índices de violência, comércio ilegal de drogas e prostituição, trazidos com a multidão de caminhoneiros que chega diariamente, são outros impactos sofridos pela população local e ainda pouco mapeados pelos órgãos competentes. 

Moradores de Miritituba revelam, ainda, outras violações da parte da Hidrovias do Brasil e outras empresas portuárias na região, como a proibição da pesca em lugares tradicionalmente acessados pelos pescadores devido a utilização de cordões de isolamento como medidas de segurança por cinco portos instalados lado a lado. Além disso, pescadores também denunciam que a soja que cai nos rios, ao serem transportadas pelas barcaças, está sendo encontrada na barriga dos peixes. 

Indígenas do povo Munduruku também sofrem com as operações da Hidrovias na região que alegou, em seu relatório à IFC, não haver comunidades indígenas e tradicionais afetadas pela construção da sua ETC. A realidade é outra. Duas aldeias urbanas nas margens do Tapajós convivem diariamente com os portos e seus efeitos: Praia do Índio e Praia do Mangue. Para os Munduruku, porém, toda a população indígena do Médio Tapajós sente os efeitos do projeto, pois os impactos se espalham pela rede de parentesco que liga essas comunidades, afetando outros territórios indígenas da região, que possui 868 habitantes indígenas, de acordo com dados oficiais em 2019. Apesar disso, não houve consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas, tanto da Hidrovias do Brasil quanto dos outros portos instalados na região, uma clara violação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, um acordo do qual o Brasil é signatário. 

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Por fim, outra reclamação grave dos moradores é quanto à participação dos mesmos nos espaços de diálogos com a empresa. Eles relatam que reuniões acontecem em caráter meramente formal com os impactados, onde eles não são de fato ouvidos. “Ouvir a população é só com audiência pública de carta marcada. Na verdade, da população eles só querem a assinatura na ata ali, e o projeto todo já está sendo pronto e  implementado”, explica Josenaldo Luna de Castro, membro do Conselho Gestor de Fiscalização dos Empreendimentos e Investimentos no Distrito de Miritituba (CONGEFIMI). O conselho foi criado em 2018 para ser uma ferramenta de monitoramento da atuação de empresas como a Hidrovias do Brasil na região. 

Enquanto viola os direitos da população local e comunidades tradicionais, a Hidrovias do Brasil, com o sucesso de seus investimentos na Amazônia, completou em 2020 uma oferta pública inicial (IPO) de ações, arrecadando 600 milhões de dólares. Conforme reportagem publicada pelo site Mongabay, em novembro do ano passado, em um prospecto fornecido no seu IPO, a Hidrovias do Brasil descreveu seu porto de Itaituba, que não teve consulta dos Munduruku, como um ativo chave da empresa. A empresa também advertiu aos investidores que as regulamentações ambientais poderiam restringir severamente sua capacidade de fazer negócios e que suas operações logísticas poderiam “resultar em danos ao meio ambiente e a comunidades indígenas e quilombolas, cuja extensão e custos de reparação não são possíveis de estimar”.

COVID-19: Sleeping Giants Brasil questiona Globo e Folha SP por publicação de anúncio negacionista

O pessoal do “Sleeping Giants Brasil” usou hoje a página do movimento na rede social Twitter para questionar a incrível publicação de um anúncio por uma associação de médicos que propugna o uso do protocolo de drogas não reconhecidas como eficazes contra a COVID-19, o chamado “tratamento precoce” (ver imagens das postagens abaixo).

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Apesar de concordar inteiramente com as cobranças feitas pelo “Sleeping Giants Brasil” em relação à publicação desse anúncio, eu vejo essa ação comercial como uma rara explicitação da efetiva linha editorial desses dois grupos que controlam boa parte da informação que circula no Brasil.  Vivêssemos ainda sob os auspícios de um governo controlado pelo PT, eu não tenho dúvidas que o tratamento praticamente adocicado que a pandemia da COVID-19 vem recebendo por parte da mídia corporativa brasileira seria bem muito diferente do que está sendo.

A verdade é que apesar de publicamente discordarem dos supostos excessos discursivos do presidente Jair Bolsonaro, os donos dos veículos de mídia controlados pelas organizações Globo e pela Folha de São Paulo estão completamente alinhados com o seu projeto de desmantelamento do Estado brasileiro. 

Assim, é bastante coerente que publiquem um anúncio negacionista, em que pesem os mais de 248 mil mortos pela COVID-19 no Brasil. Afinal de contas, business is always business…..

Pesquisa da FGV revela que novo auxílio emergencial de R$ 200 não compensará a renda dos informais diante da atual pandemia no Brasil

auxilio emergencial

São Paulo, fevereiro 2021 – O governo federal estuda um novo auxílio emergencial com parcelas de R$ 200 ou R$ 250. Segundo estudo do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGVCemif), se o auxílio for no valor de R$ 200 e os números da pandemia continuarem ruins ou piorarem, as perdas dos trabalhadores “invisíveis informais” não serão compensadas pelo auxílio. Da mesma forma, em um recorte por estado, um valor de R$ 200 não compensará as perdas “invisíveis informais dos estados mais ricos, tais como São Paulo e Rio de Janeiro. Se o valor for de R$ 250, as perdas são repostas, com pequenos ganhos em relação à renda antes da pandemia.

O estudo foi elaborado a partir dos dados da PNAD-COVID, com o objetivo de simular os efeitos do auxílio emergencial reduzido (R$ 200 ou R$ 250) sobre a renda dos invisíveis e informais em diferentes cenários otimista e pessimista – conforme as prováveis perdas decorrentes da pandemia. O pessimista se baseia nos dados da PNAD COVID-19 divulgadas em julho (IBGE, 2020) e o otimista, em dezembro (IBGE, 2020). Dentro de cada um dos cenários foram feitas simulações considerando um novo auxílio emergencial de R$ 200 ou R$ 250, sempre comparando a renda durante a pandemia com a renda usual pré-pandemia.

Utilizando os cenários anteriormente definidos, as três figuras seguintes mostram diversos recortes para um AE de R﹩ 200 – cenário pessimista (PNAD-COVID- julho 2020 – IBGE)
 
 
Fonte: FGVcemif a partir de dados do IBGE
 
Fonte: FGVcemif a partir de dados do IBGE
 
 
No caso dos invisíveis (Figura 1), ao levar em consideração o auxílio emergencial, o ganho para homens é de 5% e, para as mulheres, de 11%, sempre comparado à renda usual pré-pandemia. Ao analisar especificamente os invisíveis informais, mesmo com o pagamento de um novo benefício, há uma perda de 2% para homens e um ganho de apenas 2% para mulheres. Ainda no caso de homens e mulheres invisíveis informais (Figura 2), sem o auxílio as perdas de renda são de 30% e 37%, respectivamente, o que denota uma posição de maior vulnerabilidade aos efeitos da crise.

A Figura 3 apresenta os dados sobre a perda/ganho de renda para invisíveis informais por Unidade Federativa (UF). Mesmo com o pagamento de um AE de R﹩ 200, 7 estados (todos localizados no centro-sul do país) e o Distrito Federal (DF) ainda registrariam perdas de renda. Por outro lado, 17 estados apresentam ganhos, quase todos no Norte e Nordeste do país. Portanto, há evidências de que um AE de R﹩ 200, em um cenário de maiores perdas por conta do recrudescimento da pandemia, é insuficiente para compensar as perdas de renda de grupos mais vulneráveis.
 
Fonte: FGVcemif a partir de dados do IBGE
 
“O auxílio emergencial é fundamental nesse momento em que a evolução da pandemia é desfavorável, com a configuração de uma segunda onda, e ainda diante da lentidão na implementação de plano nacional de imunização, sobretudo pela escassez de vacinas. Neste cenário, as políticas públicas são fundamentais para mitigar os efeitos da crise para a população mais vulnerável”, explica Lauro Gonzalez, coordenador do FGVcemif e autor do estudo.

Auxílio Emergencial de R$ 250

As três próximas figuras seguem a mesma lógica de análise das figuras anteriores, ajustando o valor do auxílio emergencial para R$ 250.
 
 
Fonte: FGVcemif a partir de dados do IBGE
 
A Figura 4 mostra um ganho de 10% para homens e 17% para mulheres com o AE. Ao analisar especificamente os invisíveis informais (Figura 5), o ganho é de 4% para os homens e de 10% para as mulheres. Já a Figura 6 mostra que, mesmo com um AE de R﹩ 250, 6 estados e o DF registrariam perdas de renda.
 
Cenário otimista (PNAD-COVID em dezembro)

Seguindo a mesma lógica, as 3 figuras abaixo mostram a perda/ganho de renda dos invisíveis e dos invisíveis informais por gênero, considerando o pagamento de um valor fixo mensal de R﹩ 200, com a diferença de que o cenário reflete o momento mais favorável da pandemia.

A Figura 7 mostra que, no caso dos invisíveis, o ganho para homens é de 13% e, para as mulheres, de 18%. Lembrando que as perdas e ganhos são calculadas sempre em relação à renda usual pré-pandemia. Ao analisar especificamente os invisíveis informais, na Figura 8, o ganho dos homens diminui para 12%, ao passo que o ganho das mulheres permanece inalterado.

 A Figura 9, abaixo, mostra a perda/ganho de renda para invisíveis informais por UF, considerando um benefício de R﹩ 200. Como esperado, os maiores ganhos ocorreriam nas regiões Norte e Nordeste, reflexo da desigualdade regional no país.
 
 
Por fim, as três próximas figuras apresentam os dados do cenário otimista, considerando um auxílio emergencial de R﹩ 250.
 
 
 
 
 
No caso dos invisíveis (Figura 10), tanto para homens quanto para mulheres, o ganho de renda é 5% maior se o AE for de R﹩ 250, ao invés de R﹩ 200. A Figura 12 traz a análise de perda/ganho de renda para invisíveis informais por UF. Todos os estados e o DF apresentariam ganhos, especialmente aqueles das regiões Norte e Nordeste do país.
 
 
 
Sobre a FGV

Criada em 1944, a Fundação Getulio Vargas nasceu com o objetivo de promover o desenvolvimento socioeconômico do Brasil por meio da formação de administradores qualificados, nas áreas pública e privada.

Ao longo do tempo, a FGV ampliou a sua atuação para outras áreas do conhecimento, como Ciências Sociais, Direito, Economia, História, Matemática Aplicada e, mais recentemente, Relações Internacionais, sendo sempre reconhecida pela qualidade e excelência ao produzir e difundir conhecimento.

Atualmente, a FGV possui parceria com mais de 200 instituições estrangeiras de ensino superior e ocupa o 3º lugar entre os melhores Think Tanks do mundo, segundo o Global Go To Think Tank Index Report.

Operação “Xeque mate”: Bolsonaro deveria aproveitar ataque especulativo e comprar o máximo de ações da Petrobras

Após intervenção de Bolsonaro, Petrobras tem 2ª maior perda de valor de  mercado em um dia | Revista Fórum

Tendo observado todas as reações de pressão que estão sendo realizadas pelos barões da especulação financeira contra a Petrobras à luz da decisão de antecipar o fim do mandato do privatista Roberto Castello Branco, o presidente Jair Bolsonaro (que está sendo acusado de ser tão comunista quanto o PT), poderia tomar uma simples decisão de mercado: comprar o máximo que puder das ações da Petrobras que estão sendo desvalorizadas nesse ataque especulativo reverso, e isso gastando menos do que teria que gastar há um semana atrás.

Depois disso, Jair Bolsonaro poderia determinar que nenhuma refinaria seja privatizada, para depois colocá-las em sua capacidade máxima de refino, o que não só aumentaria o grau de controle sobre a produção nacional de gasolina e diesel, como causaria uma baixa rápida nos preços escorchantes que a política adotada no governo Temer por Pedro Parente criou.

Essas são medidas que poderiam ter sido adotadas durante os governos do PT quando ataques especulativos semelhantes ocorreram, mas não foram. O resultado é o que temos agora com os preços dolarizados dos combustíveis e uma perda acentuada do controle nacional sobre o petróleo e seus derivados.

Um risco para o Brasil se Jair Bolsonaro fizer o que estou sugerindo é que ele aumentará bastante suas chances de reeleição.  Já  risco para Bolsonaro é que ele seja derrubada via um golpe parlamentar como aquele em que ele citou a memória do Coronel Brilhante Ustra. 

Inevitável dizer que tudo isso seria no xadrez aquele momento em que um xeque mate se avizinha. O problema é que qualquer um dos lados pode ser o que dará ou levará o xeque mate. 

Relatório de ONG Finlandesa acusa Vale de danos ambientais na Amazônia

Pesquisador considera que a Vale é “verdadeiramente irresponsável” . Markus Kröger acredita que o governo da Finlândia deve examinar de perto a cadeia de produção da Outokumpu devido ao risco de reputação

xikrim

Bep Krokroti Xikrin é um dos representantes dos xikrin entrevistados no relatório da Finnwatch. Repórter Brasil / Finnwatch

Por Mika Mäkeläinen para a Yle

De acordo com o relatório da Finnwatch, a Outokumpu importa matéria-prima da mina da Vale, o que tem causado danos ao meio ambiente e problemas para os povos indígenas que vivem perto da mina.

Segundo a entidade, a mina Onça Puma, no Pará, envenenou o rio Cateté, que corta a área indígena Xikrin, e foram medidas concentrações anormais de metais pesados ​​nos moradores.

No mapa está a mina Onça Puma no Brasil e na região amazônica.Harri Vähäkangas / Yle

A Outokumpu compra uma mistura de ferro e níquel chamada ferroníquel da mina da Vale. É usado para fazer aço inoxidável. A Vale é a maior produtora mundial de minério de ferro e níquel, e uma empresa muitas vezes maior do que a Outokumpu.

A Outokumpu não contesta as compras, mas considera o controle de seus subcontratados abrangente. A Vale, por sua vez, negou que a mina seja a causa da poluição do rio.

Com seu recém-lançado relatório de pessoas envenenadas, a Finnwatch quer mostrar que tipo de efeitos a cadeia de suprimentos da empresa finlandesa teve na região amazônica.

relatório finwatch

As compras da Outokumpu junto à Vale foram levantadas no relatório, por exemplo, no uso dos recursos naturais da Amazônia, que afetam o meio ambiente e o modo de vida dos povos indígenas.

Devido à indústria de mineração e à produção de outras matérias-primas, o desmatamento na área de floresta tropical aumentou. Nos últimos dois anos, sob o presidente Jair Bolsonaro , cerca de 10.000 km2 de floresta tropical foram desmatados no Brasil a cada ano .

A responsabilidade corporativa dos assinantes estrangeiros depende da seriedade com que seus parceiros brasileiros levam o desmatamento e outros problemas ambientais.

Vale é uma importante subcontratada da Outokumpu

Segundo a Finnwatch, que estuda os efeitos das operações internacionais das empresas, a Outokumpu compra uma quantidade significativa de ferroníquel da Vale.

Em 2016–2019, a Outokumpu e suas subsidiárias estrangeiras adquiriram um total de mais de 33.000 toneladas de ferroníquel da mina Onça Puma. Menos de um décimo disso foi para a usina de aço Tornio e o restante para as subsidiárias da Outokumpu nos Estados Unidos e na Suécia. 

Vista aérea de um efluente de mina de ouro perto de Castelo dos Sonhos, no BrasilA mineração é uma das causas do desmatamento na Amazônia.  Mika Mäkeläinen / General

Outokumpu não quer falar nada sobre sua relação com a gigante mineradora brasileira Vale.

Por exemplo, a Vale não foi mencionada no Relatório Anual da Outokumpu, e a Outokumpu não quis comentar sobre quaisquer assuntos relacionados à Vale para a Yle. De acordo com Outokumpu, o valor do comércio com subcontratados é um segredo comercial.

De acordo com o relatório da Finnwatch, um total de mais de EUR 178 milhões em ferroníquel foi importado para a Finlândia em 2019 e menos de EUR 100 milhões no ano passado. De acordo com Juha Erkkilä , diretor de sustentabilidade da Outokumpu , a maior parte são importações da Outokumpu, mas Erkkilä não divulga as fontes de ferroníquel.

Erkkilä enfatiza que a quantidade de ferroníquel diminuiu à medida que a Outokumpu aumentou o uso de material reciclado.

A Outokumpu preparou uma resposta ao relatório da Finnwatch, segundo o qual seu aço inoxidável é feito com mais de 90% de material reciclado. No entanto, a declaração não contesta os números ou outras informações relevantes do relatório da Finnwatch.

A Finnwatch realizou um trabalho de campo relacionado ao estudo em conjunto com a Repórter Brasil na área do povo indígena xikrin no estado do Pará em dezembro de 2020.

Pesquisador: Vale é considerada a pior empresa

Segundo um pesquisador finlandês, a negociação da Outokumpu com a Vale é um erro que pode gerar uma reputação e até consequências jurídicas.

– A Vale é uma empresa da qual não valeria a pena comprar minerais, afirma Markus Kröger, Professor Assistente de Estudos de Desenvolvimento da Universidade de Helsinque .

Kröger já pesquisou as operações da Vale no Brasil e publicou um livro para download gratuito sobre mineração. Ele revisou o relatório de Finnwatch a pedido de Yle.

A Vale Mining Company está sediada no Rio de Janeiro.A Vale tem sido criticada de forma excepcionalmente forte por seus danos ambientais. Antonio Lacerda / EPA

Kröger justifica ignorar a Vale com as ações e reputação da empresa, que é uma das piores do mundo. Por exemplo, em 2012, a Vale foi eleita a empresa mais destrutiva do mundo em termos de meio ambiente e direitos humanos(você muda para outro serviço).

– É uma empresa que se concentra na maximização total dos lucros, contornando todas as leis possíveis, e é por isso que foi listada como a pior empresa, Kröger disse a Yle.

De acordo com Kröger, o estado brasileiro tem apoiado generosamente a Valea, e a empresa tem obtido grandes lucros nos últimos anos, mas disse que negligenciou a proteção ambiental e os direitos humanos.

A Valea também é parcialmente responsável por dois acidentes nos últimos anos, nos quais barragens em embalagens de lixo extrativista foram rompidas e mataram cerca de 300 pessoas no Brasil.

Vista aérea de um deslizamento de terra em Brumadinho, Brasil

A Vale foi condenada por romper a barragem por bilhões de indenização. Antonio Lacerda / EPA

No início de fevereiro, a Vale foi condenada a cerca de seis bilhões de euros por danos devido a um grande acidente na barragem. O valor ainda pode aumentar. Além disso, parte da liderança da Vale recebe denúncias de homicídios.

–  Estamos falando de uma empresa realmente irresponsável, resume Kröger.

De acordo com Kröger, a mina de níquel Onça Puma, que foi culpa da Finnwatch, é muito problemática em muitos aspectos. Os povos indígenas tiveram que ceder parcialmente à mineração e às pastagens vizinhas.

A mina fica na parte alta do rio, utilizada pelos indígenas, de forma que os resíduos da mineração que vão para o rio poluem as águas a jusante.

Processos judiciais estão pendentes contra a Vale no Brasil, mas a empresa tem um acordo provisório com o povo xikrin. Segundo ele, a empresa apóia financeiramente os povos indígenas e investiga mais detalhadamente os problemas ambientais.

A Vale não respondeu às perguntas de Yle sobre o relatório de Finnwatch.

Outokumpu: os fornecedores devem seguir nossas diretrizes

De acordo com Juha Erkkilä, vice-presidente de Sustentabilidade da Outokumpu, os requisitos da Outokumpu para a responsabilidade dos subcontratados são “muito abrangentes”.

– Todos os jornalistas são obrigados a cumprir nosso código de conduta, no qual, entre outras coisas, os direitos humanos são destacados, diz Erkkilä.

No entanto, ele não quer avaliar a responsabilidade da Vale ou de outros fornecedores individuais.

Segundo Erkkilä, os próprios fornecedores não encontraram riscos em termos de responsabilidade corporativa em suas operações.

A visão de Finnwatch é diferente. De acordo com seu relatório, o controle de responsabilidade corporativa da Outokumpu é fragmentado e seus critérios vagos.

Vista aérea de uma aldeia indígenaA aldeia de Xikrim junto ao rio Cateté. Repórter Brasil / Finnwatch

Segundo o pesquisador, o controle do Outokumpu é retrógrado

Finnwatch acusa Outokumpu de ocultar compras no Brasil. O pesquisador também acha que as operações da Outokumpu parecem secretas e frouxas em termos de controle.

“Parece que nada está sendo controlado em Outokumpu”, diz Kröger.

Kröger está surpreso que Outokumpu não quis fornecer à Finnwatch as informações comerciais solicitadas, mas a ONG teve que buscar as informações em outro lugar.

– A Outokumpu parece não se importar de onde vem (ferroníquel). Se ainda houver uma tentativa de esconder dessa forma, é bastante alarmante, diz Kröger.

Se a empresa não quer ser mais transparente, Kröger acredita que o dono deve exigir. Outokumpu é uma empresa listada em que o estado finlandês tem o maior proprietário individual de pouco mais de um quinto.

Kröger argumenta que a estatal Solidium teria que examinar cuidadosamente as cadeias produtivas da Outokumpu e de outras empresas de sua propriedade para que não se enredassem em transações com empresas como a Vale.

Kröger aponta que não se trata apenas de risco de reputação e comportamento antiético. Segundo ele, grandes empresas internacionais estão cada vez mais sendo processadas, sendo acusadas de envolvimento em abusos aos direitos humanos e desastres naturais.

De acordo com Kröger, o estado deve investigar adequadamente as atividades das empresas que possui, e não deixar a tarefa para ONGs de poucos recursos – como é o caso agora da Finnwatch.

fecho

Este texto foi originalmente escrito em finlandês e publicada pela Yle [Aqui!].