A Europa em ebulição: jovens e trabalhadores voltam às ruas ao som de A Internacional e Bella Ciao

Enquanto governos europeus enfrentam uma crescente onda de protestos contra as políticas neoliberais e a deterioração das condições de vida, uma nova geração recupera antigas tradições de resistência e recoloca a luta social no centro da política

Enquanto o Brasil concentrava suas atenções na disputa eleitoral entre o presidente Lula e o agora autoexilado Flávio Bolsonaro, a Europa se transformava em palco de gigantescas manifestações populares, reunindo jovens, trabalhadores e idosos em protestos contra as políticas neoliberais e a deterioração das condições de vida. Consideradas em seu conjunto, as diferentes jornadas de mobilização em vários países europeus alcançaram milhões de participantes, revelando uma insatisfação social que ultrapassa fronteiras nacionais. Embora a França tenha se tornado o principal foco das atenções, manifestações expressivas também ocorreram e continuam ocorrendo na Espanha, Alemanha, Itália e em outros países europeus.

O que está acontecendo na Europa revela um confronto cada vez mais aberto entre uma combinação de jovens, trabalhadores e outros segmentos populares e governos que, apesar de suas diferenças políticas, vêm adotando políticas econômicas que transferem para a população os custos das crises. A elevação dos preços dos alimentos e da energia, a dificuldade crescente de acesso à moradia, a precarização do trabalho e a deterioração dos serviços públicos compõem um cenário em que parcelas cada vez maiores da população percebem que suas perspectivas de futuro estão sendo comprometidas. O que está em questão não é apenas a rejeição a medidas econômicas específicas, mas o crescente questionamento de um modelo de sociedade que concentra riqueza enquanto impõe sacrifícios à maioria da população.

Esse confronto tende a ganhar força também em consequência das escolhas geopolíticas dos governos europeus, particularmente de seu envolvimento nos conflitos que ocorrem em diferentes partes do planeta, incluindo a guerra na Ucrânia, o conflito palestino-israelense e a guerra contra o Irã. Ao se alinharem às estratégias dos Estados Unidos e de Israel, esses governos assumiram custos econômicos, políticos e sociais que acabam repercutindo sobre populações já pressionadas pela perda de poder aquisitivo. É verdade que os conflitos internacionais não explicam isoladamente a atual onda de protestos, mas contribuem para aprofundar contradições que já estavam presentes nas sociedades europeias. Afinal, torna-se cada vez mais difícil justificar gastos militares crescentes enquanto escolas, hospitais, salários e aposentadorias sofrem os efeitos das restrições orçamentárias.

Apesar de a mídia corporativa internacional, e mesmo parte da mídia alternativa, não conferir a essas mobilizações a atenção proporcional à sua dimensão política, o que está acontecendo nas ruas europeias parece representar algo mais profundo do que uma sucessão de protestos isolados. Estamos possivelmente diante do início de um ciclo de contestação social generalizada, ainda que suas diferentes expressões nacionais não constituam necessariamente um movimento unificado. A questão central é saber se essa insatisfação encontrará respostas no interior dos sistemas políticos existentes ou se continuará se aprofundando, abrindo espaço para formas mais intensas de enfrentamento social. Em outras palavras, o que hoje se manifesta como uma onda de protestos poderá tanto ser absorvido institucionalmente quanto evoluir para uma crise mais profunda de legitimidade dos governos europeus.

Nesse sentido, novembro poderá oferecer indicações importantes. As eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos e as disputas eleitorais europeias poderão influenciar tanto a orientação dos governos quanto as expectativas dos movimentos que hoje ocupam as ruas. Seus resultados poderão contribuir para amenizar as tensões ou, dependendo das respostas oferecidas pelas forças políticas vitoriosas, aprofundar a insatisfação social. Entretanto, seria precipitado imaginar que uma simples mudança eleitoral será suficiente para resolver contradições econômicas e sociais que vêm se acumulando há anos.

Há, contudo, um aspecto dessas manifestações europeias que considero particularmente significativo: a presença da música como instrumento de mobilização, identidade coletiva e resistência política. Independentemente do país em que os protestos estejam ocorrendo, as multidões recorrem a canções para fortalecer sua disposição de permanecer nas ruas e enfrentar o aparato repressivo do Estado. E duas antigas composições associadas à história das lutas populares reaparecem nesse repertório: A Internacional e Bella Ciao.

Para quem conhece minimamente a trajetória histórica dessas canções, sua recuperação pelas novas gerações possui um significado especial. A Internacional, historicamente associada ao movimento socialista e às lutas da classe trabalhadora, e Bella Ciao, consagrada como símbolo da resistência antifascista italiana, carregam memórias de confrontos políticos que muitos imaginavam definitivamente relegados aos livros de história. O mais surpreendente é que essas músicas não estão restritas às vozes de antigos militantes de partidos de esquerda ou de organizações sindicais. Elas encontram ressonância também entre integrantes da chamada geração Z, da qual, até pouco tempo atrás, muitos esperavam uma participação política limitada às redes sociais.

O protagonismo desses jovens representa, por si só, uma mudança que merece atenção. Uma geração frequentemente descrita como individualista, despolitizada e excessivamente dependente das tecnologias digitais está demonstrando disposição para ocupar as ruas, organizar manifestações e enfrentar estruturas repressivas que, em diferentes países, vêm respondendo aos protestos com detenções, restrições ao direito de manifestação e denúncias de uso excessivo da força policial. A resposta de muitos manifestantes, entretanto, tem sido insistir na mobilização e recuperar símbolos e canções que expressam antigas aspirações de liberdade, igualdade e transformação social. É como se palavras de ordem que pareciam definitivamente enterradas pelo triunfo ideológico do neoliberalismo estivessem recuperando sua capacidade de mobilizar multidões.

Não se trata de afirmar que todos os participantes dessas manifestações compartilham uma mesma ideologia ou que a Europa esteja prestes a experimentar uma revolução socialista. O que chama a atenção é justamente a capacidade de antigas tradições políticas reaparecerem em um contexto histórico profundamente diferente daquele em que foram originalmente construídas. Ao serem entoadas por jovens que enfrentam problemas contemporâneos, essas canções recuperam sua dimensão de instrumentos de contestação e solidariedade coletiva. Mais do que uma manifestação de nostalgia, sua presença sugere que experiências históricas de resistência continuam oferecendo referências para novas gerações que procuram alternativas a um presente marcado pela insegurança econômica e pela ausência de perspectivas.

Como sempre, a roda da história parece pronta a nos surpreender. Quando muitos acreditavam que o neoliberalismo havia conseguido transformar o individualismo e a resignação em valores definitivos, multidões voltam às ruas para questionar a ordem estabelecida. E, ao som de A Internacional e Bella Ciao, antigas sementes de resistência demonstram que continuam capazes de germinar.

Talvez seja justamente essa a principal mensagem que vem das ruas europeias: a história não terminou, as contradições sociais não desapareceram e as novas gerações podem estar redescobrindo que a transformação da realidade exige muito mais do que indignação nas redes sociais. Exige organização, mobilização e disposição para ocupar as ruas.

Afinal, a história tem dessas ironias: quando os defensores da ordem estabelecida imaginam que determinadas ideias foram definitivamente derrotadas, elas reaparecem nas vozes de jovens que sequer haviam nascido quando muitos decretaram seu desaparecimento. E a velha Europa, tantas vezes apresentada como um continente politicamente acomodado, pode estar demonstrando que as sementes da rebeldia continuam vivas, esperando apenas as condições necessárias para voltar a florescer.