Flupyradifurone: o agrotóxico “seguro para abelhas” que pode não ser tão seguro quanto anunciado

honeybee, New Mexico

Por Aristos Georgiou para a NewsWeek

Nos últimos anos, tem crescido a preocupação sobre os efeitos dos pesticidas agrícolas na saúde das abelhas, com grande parte da atenção voltada para os chamados “neonicotinóides” ou “neonics”.

A medida que o uso dos neocotinóides se torna mais restrito, outros agrotóxicos considerados “seguros para abelhas” estão sendo desenvolvidos. No entanto, uma dessas substâncias, a flupiradifurona (FPF) – vendida sob o nome Sivanto – pode causar danos às abelhas quando um conhecido fungicida também está presente. Isso é de acordo com um estudo publicado na revista Proceedings da Royal Society B: Biological Sciences.

O FPF funciona de maneira semelhante ao neonics. No entanto, por estar marcado como “seguro para abelhas”, ele pode ser usado enquanto os insetos estão se alimentando ativamente.

“O processo que leva à definição da segurança de um pesticida leva em consideração uma série de testes específicos, cujo objetivo é testar os efeitos do produto químico nas abelhas”, disse Simone Tosi, principal autora do estudo da Universidade da Califórnia, San Francisco. Diego, disse à Newsweek. “Os resultados desses testes levarão à aprovação ou não deste pesticida para certos usos no campo.”

Os autores do estudo dizem que suas novas descobertas colocam em questão a segurança dos pesticidas aprovados porque as avaliações de risco não levam em consideração como a toxicidade é influenciada pelas combinações entre os diferentes produtos químicos.

As abelhas podem ser expostas a vários agrotóxicos que podem interagir sinergicamente, amplificando seus efeitos colaterais”, escreveram os autores no artigo.

Até o momento, os impactos da FPF não foram minuciosamente investigados. Assim, para seu estudo, os pesquisadores decidiram testar os efeitos tóxicos letais e subletais do produto químico nas abelhas em diferentes estações do ano e para diferentes tipos de trabalhadores, bem como as interações da substância com um fungicida comum conhecido como propiconazol (PRO). Eles usaram doses de FPF projetadas para imitar as quantidades às quais os insetos são expostos em situações da vida real.

“Percebemos que há uma lacuna de dados importante sobre o que é testado para avaliar o risco de agrotóxicos e os efeitos reais que os pesticidas podem representar: por um longo tempo, subestimamos a extensão dos efeitos de pesticidas nas abelhas”, disse Tosi. “Assim, decidimos explorar o papel dos agrotóxicos na saúde das abelhas mais profundamente, avaliando seus efeitos com uma abordagem mais holística que leva em consideração como a toxicidade dos agrotóxicos muda em relação ao complexo meio ambiente em que as abelhas vivem”.

Os pesquisadores descobriram que as abelhas expostas ao FPF, em combinação com o fungicida, demonstraram má coordenação, hiperatividade e apatia, potencialmente afetando suas chances de sobrevivência.

Além disso, eles descobriram que esses efeitos foram significativamente influenciados pelo tipo de abelha e pela estação do ano: as abelhas forrageiras foram quatro vezes mais afetadas do que as abelhas in-hive, e ambos os grupos foram mais afetados nos meses de verão em comparação com a primavera. Estes resultados são preocupantes, uma vez que ambos os produtos químicos são freqüentemente encontrados juntos no meio ambiente, dizem os pesquisadores.

“Embora o rótulo do produto proíba que a flupiradifurona seja misturada em um tanque de aplicação com certos fungicidas, incluindo PRO, as abelhas podem ser simultaneamente expostas à FPF e a outros produtos químicos – formando coquetéis de pesticidas – que são comumente usados ​​em lavouras adjacentes ou que persistem ao longo do tempo, “Tosi disse. “FPF e PRO poderiam ser usados ​​nas mesmas culturas e plantas ornamentais, incluindo frutas, sementes oleaginosas e cereais.”

“Esses pesticidas também podem ser usados ​​várias vezes ao longo de um ano – e em diferentes épocas – e aplicados de várias maneiras”, disse Tosi. “Além disso, as abelhas também podem ser expostas a pesticidas que derivam de diferentes culturas ou são armazenados na mesma colmeia. FPF e PRO são facilmente absorvidos pelas plantas e, assim, o solo e a água contaminados podem levar a absorção não intencional. Isso pode resultar em prolongada contaminação plurianual “.

O gráfico abaixo, fornecido pela Statista, ilustra o declínio global de diferentes populações de insetos.

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Os autores dizem que suas descobertas mais recentes podem ter implicações significativas sobre como certos a são agrotóxicos são aprovados para uso.

“Este trabalho é um passo em direção a uma melhor compreensão dos riscos que os agrotóxicos podem representar para as abelhas e para o meio ambiente”, disse Tosi. “Nós fornecemos a primeira demonstração de que a combinação de dois agrotóxicos pode aumentar sinergicamente a frequência de polinizadores com comportamentos anormais e sugerir metodologias que poderiam ser implementadas para avaliar os riscos causados pelos pesticidas”.

“Nossos resultados destacam a importância de avaliar os efeitos dos agrotóxicos no comportamento dos animais e demonstram que a sinergia, a sazonalidade e a idade das abelhas são fatores-chave que alteram sutilmente a toxicidade dos pesticidas”, disse ele.

Embora a pesquisa sobre o FPF ainda seja limitada, um estudo anterior descobriu que o produto químico prejudicava o gosto e a cognição da abelha quando expostas a doses altas, que não eram realistas em condições de campo. Outro artigo descobriu que a exposição crônica teve um impacto no sistema olfativo dos animais.

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela NewsWeek [Aqui!]

Enquanto Tereza Cristina falava “mangas”, governo Bolsonaro autorizava comercialização de mais 31 agrotóxicos

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Ministra Tereza Cristina recomenda manga para matar a fome dos brasileiros, enquanto libera quantidade recorde de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo.

Enquanto a ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/ES), tecia suas peculiares considerações sobre o papel da manga na erradicação da fome no Brasil, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento publicava na edição de ontem do Diário Oficial da União o ATO N° 24, DE 9 DE ABRIL DE 2019 com o resumo dos pleitos de registro concedidos para a comercialização de mais 31 agrotóxicos.

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Apesar de estar difícil de contar do número total de agrotóxicos aprovados desde o dia 9 de janeiro de 2019 quando foi publicado o Ato N°1 que autorizou 28 compostos, as minhas contas indicam que desde então foram autorizados o astronômico total de 152 agrotóxicos nos famosos primeiros 100 dias do governo Bolsonaro.

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Agrotóxico Sulfoxaflor que é relacionado ao extermínio de meio bilhão de abelhas só no Rio Grande do Sul foi liberado para comercialização no Brasil no dia 09 de janeiro de 2019.

A velocidade das aprovações parece estar confundindo a própria Tereza Cristina que na audiência de ontem que o Sulfoxaflor que está sendo associado ao extermínio de meio bilhão de abelhas no Rio Grande do Sul possa ser comercializado legalmente, quando o mesmo teve sua publicação aprovada por meio do Ato N°1 de 9 de janeiro de 2019 (ver imagem abaixo). Em outras palavras, temos diante de nós duas situações: ou a ministra autorizou sem saber ou autorizando sabendo e fingiu amnésia na audiência!

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Diante desse recorde de aprovações “fast track” de agrotóxicos, muitos deles banidos nos principais mercados consumidores das commodities brasileiras, o que está se plantando é o isolamento do Brasil em face dos riscos crescentes em consumir o que é produzido com tantos venenos agrícolas.

Mas nada disso parecer importunar a ministra Tereza Cristina, provavelmente pela crença de que se tudo der errado, ainda poderemos saciar nossa fome consumindo mangas.

União Europeia vai banir fungicida vendido no Brasil por causar danos genéticos e declínio das abelhas

UE proíbe agrotóxico mais usado no Reino Unido sobre receios de saúde e meio ambiente

Autoridades dizem que o clorotalonil apresenta alto risco para a vida selvagem e pode prejudicar os seres humanos

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Por Damian Carrington para o jornal “The Guardian”

Um dos pesticidas mais comuns do mundo será proibido em breve pela União Européia, depois que autoridades de segurança relataram preocupações com a saúde humana e com o meio ambiente.

O clorotalonil, um fungicida que previne o mofo e o bolor nas colheitas, é o pesticida mais usado no Reino Unido, aplicado em milhões de hectares de campos, e é o fungicida mais popular nos EUA. Os agricultores chamaram a proibição de “excessivamente cautelosa”.

Mas os países da UE votaram a favor de uma proibição após uma revisão da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) foi incapaz de excluir a possibilidade de que produtos de decomposição do produto químico causem danos à DNA. A EFSA também disse que “um alto risco para anfíbios e peixes foi identificado para todos os usos representativos”. Uma pesquisa recente identificou o clorotalonil e outros fungicidas como o fator mais forte ligado ao declínio acentuado de abelhas.

Reguladores de todo o mundo têm falsamente assumido que é seguro usar pesticidas em escala industrial entre paisagens, de acordo com o consultor científico chefe do governo do Reino Unido. Outras pesquisas em 2017 mostraram que os agricultores poderiam reduzir o uso de pesticidas sem perdas, enquanto um relatório da ONU denunciava o “mito” de que os pesticidas são necessários para alimentar o mundo.

Uma porta-voz da Comissão Europeia disse: “A [proibição do clorotalonil] baseia-se na avaliação científica da EFSA, que concluiu que os critérios de aprovação não parecem ser satisfeitos por uma ampla gama de razões. Grandes preocupações são levantadas em relação à contaminação das águas subterrâneas por metabólitos da substância. ”

O clorotalonil tem sido usado em todo o mundo desde 1964 na cevada e trigo, bem como batatas, ervilhas e feijões. A proibição será aprovada formalmente no final de abril ou início de maio e entrará em vigor três semanas depois, informou a porta-voz da comissão.

A ligação entre as perdas de clorotalonil e as abelhas do gênero Bombus (conhecidas como mamangavas) revelou-se em dezembro de 2017 na pesquisa que surpreendeu cientistas. Como os fungicidas prejudicam as abelhas ainda está sendo estudado, mas o clorotalonil, em particular, provavelmente os tornará mais suscetíveis ao parasita nasal do nariz, matando os micróbios benéficos do intestino.

Matt Shardlow, executivo-chefe da organização de conservação Buglife, disse que o fato de a ligação com os abelhões não ter levado a testes de segurança mostrou que a inadequação do sistema regulatório da UE: “O processo da UE não aplicou a orientação da EFSA. na avaliação de risco para as abelhas, portanto, não havia testes de segurança de abelha. Quando os reguladores vão aprender as lições, parem de se submeter às exigências dos fabricantes de pesticidas e comecem a aplicar a orientação da EFSA que foi finalizada em 2013? ”

A perda generalizada de insetos polinizadores nas últimas décadas foi revelada na terça-feira pela primeira pesquisa nacional na Grã-Bretanha. A análise de 353 espécies de abelhas selvagens e hoverfly descobriu que os insetos foram perdidos em um quarto dos lugares em 1980.

No entanto, Chris Hartfield, do National Farmers Union do Reino Unido, disse que o clorotalonil desempenhou um papel vital no controle de doenças fúngicas: “Sentimos que a Comissão Européia tem sido excessivamente cautelosa ao tomar essa decisão e não considerou a importância particular desse pesticida. o controle de doenças fúngicas críticas e no controle da resistência a doenças. Como resultado, acreditamos que setores da produção agrícola e hortícola do Reino Unido serão colocados em risco significativo ”.


Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!]

Deutsche Welle faz matéria sobre o massacre das abelhas no Brasil

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Por que o Brasil deveria se importar com a morte de abelhas

País enfrenta mortandade de colmeias em vários estados. Diminuição das espécies tem impactos na agricultura, meio ambiente e economia. Mas tema ainda é negligenciado.

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A morte de abelhas não é um fenômeno recente: é observada por pesquisadores ao menos desde a década passada. No entanto, nos últimos meses a mortandade alcançou números alarmantes no Brasil.

“A morte de abelhas não é só um risco para o Brasil, mas para o mundo todo. Quando se pensa em abelhas, se pensa em mel. O principal produtos delas, porém, é a polinização”, afirma Fábia Pereira, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na área de Apicultura.

Apenas nos últimos três meses, 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas por apicultores no país, segundo um levantamento feito pela ONG Repórter Brasil em parceria com a Agência Pública. A grande maioria dos casos foi registrada no Rio Grande Sul, seguido por Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

Além da morte em massa de colmeias em apiários, cinco espécies nativas de abelhas estão ameaçadas de extinção – três delas habitam a Mata Atlântica, uma o Cerrado e outra o pampa gaúcho. Não há dados, porém, sobre a mortandade em comunidades selvagens.

As abelhas são responsáveis pela polinização de cerca de 70% das plantas cultivadas para alimentação, principalmente frutas e verduras. Sua morte coloca em risco a agricultura e, consequentemente, a própria a segurança alimentar. Sem elas, o ser humano enfrentaria uma mudança drástica na sua dieta, que ficaria restrita apenas a culturas autopolinizáveis, como feijão, arroz, soja, milho, batata e espécies de cereais.

Além da agricultura, as abelhas são ainda agentes fundamentais para a polinização de florestas nativas. Seu desaparecimento poderia desencadear a morte de ecossistemas inteiros. “Se o homem parasse de fazer qualquer outra intervenção ambiental, e as abelhas apenas sumissem, haveria um desaparecimento da mata correspondente a entre 30% e 90% do que temos hoje, provocando um processo de extinção em cadeia até chegar em nós que estamos no topo”, ressalta Pereira.

Essa mortandade tem ainda potencial para impactar a economia brasileira. O país é o oitavo produtor mundial de mel e, em 2017, as exportações totalizaram 121 milhões de dólares. A diminuição na produção diante da redução do número de colmeias resultaria numa queda nas vendas. Além disso, em caso de mortes causadas por agrotóxicos, resíduos destas substâncias possivelmente poderiam ser encontrados no mel, o que levaria compradores estrangeiros a rejeitarem o produto brasileiro.

“A exportação para a Europa é muito exigente, e qualquer resíduo é detectado. O mel que foi produzido nos últimos meses está contaminado. No exterior, ninguém vai querê-lo, e não há um mercado interno suficiente para a quantidade produzida. Isso vai desestimular a apicultura”, afirma o engenheiro agrônomo Aroni Sattler, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Números alarmantes

A morte de abelhas começou a chamar a atenção mundial a partir da identificação do Distúrbio do Colapso das Colônias (CCD), em 2006 nos Estados Unidos, quando um forte surto dizimou milhares de colmeias. Na Europa, fenômenos semelhantes estão sendo observados desde o fim da década de 1990. Pesquisadores descobriram que, além das doenças e da redução do habitat das espécies, os agrotóxicos são um dos fatores que desencadeia essa mortandade.

Além da toxidade elevada de alguns defensivos agrícolas, contribui para esse cenário o uso incorreto destas substâncias. Elas são aplicadas durante o dia, quando as abelhas estão fora das colmeias, sem seguir parâmetros de segurança e sem comunicar apicultores para que possam deixar as caixas fechadas.

No atual caso brasileiro, pesticidas à base de neonicotinoiedes e de fipronil foram os principais agentes causadores das mortes. “O histórico da mortandades agudas que temos constatado deixa muito claro a sua relação com o uso de agrotóxicos”, ressalta Sattler, especialista em apicultura.

No Rio Grande do Sul, onde mais de 400 milhões de abelhas morreram só no primeiro trimestre, 80% das mortes foi causada pelo fipronil, inseticida usado amplamente em lavouras de monoculturas, mas também em pequenas propriedades rurais. A substancia é ainda muito popular no extermínio de formigas e em remédios veterinários para controle de insetos, como pulgas. Em Santa Catarina, resquícios do pesticida foram detectados em colmeias mortas entre o fim do ano passado e início deste.

“Precisamos começar a questionar o modelo agrícola atual. Os efeitos da expansão do monocultivo baseados em agrotóxicos estão comprovados. Os Estados Unidos tinham 6 milhões de colmeias na década de 1940, e hoje estão com cerca de 2,5 milhões”, destaca Sattler.

Pressão popular

Na Europa, a morte abelhas é há alguns anos um tema presente na mídia e na política. Em 2017, um estudo chamou atenção da opinião pública alemã ao revelar que as populações de insetos voadores haviam recuado 75% ao longo de 25 anos no país. A pesquisa desencadeou um debate sobre a questão.

Atualmente na Alemanha, a iniciativa popular “Salvem as abelhas” que forçar o governo da Baviera a buscar soluções para a diminuição da biodiversidade. A proposta prevê o incentivo à agricultura orgânica, proteção de matas ciliares, a ampliação da ligação de habitats naturais e o banimento de agrotóxicos.

A pressão popular e de ativistas ambientais foi fundamental para a União Europeia (UE) aprovar no ano passado a proibição de três substâncias neonicotinoides – clotianidina, imidacloprida e tiametoxam, que danificam o sistema nervoso central de insetos, incluindo as abelhas. Já a França foi mais além e baniu cinco inseticidas desta categoria de derivados da nicotina.

Já o fipronil teve seu uso restrito na Europa. Proibida completamente na França desde 2004 e, posteriormente, em vários países europeus, a aplicação do pesticida na União Europeia foi limitada em 2013 a cultivos em estufas e de alho-poró, cebola, cebolinha e couve. A substância também é banida da indústria alimentícia do bloco, podendo ser usada apenas para combater pulgas, piolhos e carrapatos de animais domésticos.

A Europa patina, porém, ainda no banimento do glifosato, outro defensivo agrícola que, segundo uma pesquisa divulgada no ano passado, é prejudicial às abelhas.

Enquanto países europeus estão reavaliando e restringindo o uso de agrotóxicos, o Brasil nos últimos meses tem incentivado a liberação de defensivos agrícolas. Em relação às abelhas, o tema ainda é negligenciado, ainda mais diante do impacto que a extinção destas espécies pode ter.

“Apesar de todos os esforços, ainda não conseguimos sensibilizar suficientemente o público em geral e o próprio governo sobre a importância de trabalharmos na proteção das abelhas. Já foram realizados eventos sobre o assunto, reuniões explicando a importância das abelhas e com sugestões de políticas públicas, mas ainda precisamos avançar nas ações efetivas”, ressalta Pereira.

Satller tem opinião semelhante. “A situação é bastante grave, mas ainda dá para reverter”, afirma o pesquisador, que defende o questionamento do atual modelo do agronegócio no país e a restrição do uso indiscriminado de agrotóxicos

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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas

Esta matéria foi publicada originalmente publicada pela Deustche Welle [ Aqui!]

Embargo sanitário contra o Brasil por causa do excesso de agrotóxicos é uma questão de tempo

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A agência Publica vem publicando uma série de reportagens sobre os efeitos avassaladores que o amplo uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo, está causando na cadeia agrícola brasileira.  No  dia 07 de julho, uma reportagem assinada por Pedro Grigori mostra o extermínio de algo em torno de 0,5 bilhão de abelhas apenas em quatro estados brasileiros (RS, SC, MS e SP) por causa do contato com agrotóxicos à base de neonicotinoides e de Fipronil, produto proibido na Europa há mais de uma década

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Mas nem a mortandade de abelhas ou as crescentes evidências de que os brasileiros estão sendo paulatinamente envenenados por resíduos de agrotóxicos que estão contaminados até o lençol freático em áreas agrícolas com menor intensidade de uso destes venenos agrícolas estão servindo para conter  a sede por novos venenos por parte do latifúndio agro-exportador que tem hoje na soja a sua principal fonte de renda.

Isto fica evidente numa reportagem assinada pela jornalista Natália Cancian para a Folha de São Paulo onde são apresentados dados oficiais sobre a velocidade de aprovação para a comercialização de agrotóxicos altamente tóxicos para a saúde humana e o ambiente (ver infográfico abaixo).

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Fonte: Folha de São Paulo

Apenas para que se tenha uma ideia da amplitude do crescimento exponencial de venenos agrícolas disponíveis no mercado brasileiro, em 2012 publiquei um artigo científico na revista Crop Protection dando conta que estavam disponveis 1.079 produtos formulados registrados no Brasil, o que representaria um crescimento de 197% em apenas 7 anos.  E o pior é constatar que apenas nos primeiros dois meses de governo Bolsonaro foram aprovados 74 novos agrotóxicos, a maioria nas faixas consideradas mais perigosas para a saúde humana e o meio ambiente.

A verdade é que em vez de se buscar um maior aperfeiçoamento nos sistemas de manejo de culturas agrícolas que contemplasse a diminuição no uso de fertilizantes sintéticos e agrotóxicos, os latifundiários optaram pelo caminho aparentemente mais fácil de aumentar a quantidade do uso destes insumos altamente poluentes.

O problema é que esse modelo viciado em venenos cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde) vai ter sua compra barrada em outras partes do mundo onde a tolerância à quantidade existente de resíduos de venenos agrícolas na produção agrícola é menor, a começar pela União Europeia, mas certamente isto não ficará restrito a este bloco comercial, como ficou bem claro na ameaça feita pela Federação Russa de barrar a compra de soja brasileira em função do alto nível de resíduos de herbicidas produzidos a partir do glifosato.

Mas enquanto o inevitável não chega, há que se discutir como impedir o avanço da Tsunami de venenos que está sendo desencadeada pelo governo Bolsonaro sob pena de termos uma catástrofe humana e ambiental no Brasil. Os sinais de alerta já estão claros, e será de bom senso não desprezá-los. Simple assim!

Polinização é ameaçada por desmatamento e agrotóxicos no Brasil

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Declínio desse serviço ambiental, estimado em R$ 43 bilhões em 2018, põe em risco a produção de alimentos e a conservação da biodiversidade brasileira, alertam autores do primeiro relatório sobre o tema no país (fotos: Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP))

Por Elton Alisson | Agência FAPESP

 Das 191 plantas cultivadas ou silvestres utilizadas para a produção de alimentos no Brasil, com processo de polinização conhecido, 114 (60%) dependem da visita de polinizadores, como as abelhas, para se reproduzir. Entre esses cultivos estão alguns de grande importância para a agricultura brasileira, como a soja (Glycine max), o café (Coffea), o feijão (Phaseolus vulgaris L.) e a laranja (Citrus sinensis).

Esse serviço ambiental (ecossistêmico), estimado em R$ 43 bilhões anuais, fundamental para garantir a segurança alimentar da população e a renda dos agricultores brasileiros, tem sido ameaçado por fatores como o desmatamento, as mudanças climáticas e o uso de agrotóxicos. A fim de combater essas ameaças, que colocam em risco a produção de alimentos e a conservação da biodiversidade brasileira, são necessárias políticas públicas que integrem ações em diversas áreas, como a do meio ambiente, da agricultura e da ciência e tecnologia.

O alerta foi feito por um grupo de pesquisadores autores do 1º Relatório Temático de Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil e de seu respectivo “Sumário para Tomadores de Decisão”, lançados quarta-feira (06/02), durante evento na FAPESP.

Resultado de uma parceria entre a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, da sigla em inglês), apoiada pelo Programa BIOTA-FAPESP, e a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP), o relatório foi elaborado nos últimos dois anos por um grupo de 12 pesquisadores e revisado por 11 especialistas.

O grupo de pesquisadores fez uma revisão sistemática de mais de 400 publicações de modo a sintetizar o conhecimento atual e os fatores de risco que afetam a polinização, os polinizadores e a produção de alimentos no Brasil, e apontar medidas para preservá-los.

“O relatório aponta que o serviço ecossistêmico de polinização tem uma importância não só do ponto de vista biológico, da conservação das espécies em si, como também econômica. É essa mensagem que pretendemos fazer chegar a quem toma decisões no agronegócio, no que se refere ao uso de substâncias de controle de pragas ou de uso da terra no país”, disse Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do programa BIOTA-FAPESP e membro da coordenação da BPBES, durante o evento.

O relatório indica que a lista de “visitantes” das culturas agrícolas supera 600 animais, dos quais, no mínimo, 250 têm potencial de polinizador. Entre eles estão borboletas, vespas, morcegos, percevejos e lagartos.

As abelhas predominam, participando da polinização de 91 (80%) das 114 culturas agrícolas que dependem da visita de polinizadores e são responsáveis pela polinização exclusiva de 74 (65%) delas.

Algumas plantas cultivadas ou silvestres dependem, contudo, exclusivamente ou primordialmente de outros animais para a realização desse serviço, como é o caso da polinização de flores de bacuri (Platonia insignis) por aves. Outros exemplos são da polinização de flores de pinha (Annona squamosa) e araticum (Annona montana) por besouros, de flores de mangaba (Hancornia speciosa) por mariposas e de flores de cacau (Theobroma cacao) por moscas.

“As plantas cultivadas ou silvestres visitadas por esses animais polinizadores enriquecem a nossa dieta ao prover frutas e vegetais que fornecem uma série de nutrientes importantes”, disse Marina Wolowski, professora da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) e coordenadora do relatório. “Outras plantas cultivadas pelo vento, como o trigo e o arroz, por exemplo, estão mais na base da dieta”, comparou.

Os pesquisadores avaliaram o grau de dependência da polinização por animais de 91 plantas para a produção de frutas, hortaliças, legumes, grãos, oleaginosas e de outras partes dos cultivos usadas para consumo humano, como o palmito (Euterpe edulis) e a erva-mate (Ilex paraguariensis)

As análises revelaram que, para 76% delas (69), a ação desses polinizadores aumenta a quantidade ou a qualidade da produção agrícola. Nesse grupo de plantas, a dependência da polinização é essencial para 35% (32), alta para 24% (22), modesta para 10% (9) e pouca para 7% (6).

A partir das taxas de dependência de polinização dessas 69 plantas, os pesquisadores estimaram o valor econômico do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no Brasil. O cálculo foi feito por meio da multiplicação da taxa de dependência de polinização por animais pela produção anual do cultivo.

Os resultados indicaram que o valor do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no país girou em torno de R$ 43 bilhões em 2018. Cerca de 80% desse valor está relacionado a quatro cultivos de grande importância agrícola: a soja, o café, a laranja e a maçã (Malus domestica).

“Esse valor ainda está subestimado, uma vez que esses 69 cultivos representam apenas 30% das plantas cultivadas ou silvestres usadas para produção de alimentos no Brasil”, ressaltou Wolowski.

Fatores de risco

O relatório também destaca que o serviço ecossistêmico de polinização no Brasil tem sido ameaçado por diversos fatores, tais como desmatamento, mudanças climáticas, poluição ambiental, agrotóxicos, espécies invasoras, doenças e patógenos.

O desmatamento leva à perda e à substituição de hábitats naturais por áreas urbanas. Essas alterações diminuem a oferta de locais para a construção de ninhos e reduzem os recursos alimentares utilizados por polinizadores.

Já as mudanças climáticas podem modificar o padrão de distribuição das espécies, a época de floração e o comportamento dos polinizadores. Também são capazes de ocasionar alterações nas interações, invasões biológicas, declínio e extinção de espécies de plantas das quais os polinizadores dependem como fonte alimentar e para construção de ninhos, e o surgimento de doenças e patógenos.

Por sua vez, a aplicação de agrotóxicos para controle de pragas e patógenos, com alta toxicidade para polinizadores e sem observar seus padrões e horários de visitas, pode provocar a morte, atuar como repelente e também causar efeitos tóxicos subletais, como desorientação do voo e redução na produção de prole. Além disso, o uso de pesticidas tende a suprimir ou encolher a produção de néctar e pólen em algumas plantas, restringindo a oferta de alimentos para polinizadores, ressaltam os autores do relatório.

“Como esses fatores de risco que ameaçam os polinizadores não ocorrem de maneira isolada é difícil atribuir o peso de cada um deles separadamente na questão da redução das populações de polinizadores que tem sido observada no mundo”, disse Wolowski.

Na avaliação dos pesquisadores, apesar do cenário adverso, há diversas oportunidades disponíveis para melhorar o serviço ecossistêmico de polinização, diminuir as ameaças aos polinizadores e aumentar o valor agregado dos produtos agrícolas associados a eles no Brasil.

Entre as ações voltadas à conservação e ao manejo do serviço ecossistêmico de polinização estão a intensificação ecológica da paisagem agrícola, formas alternativas de controle e manejo integrado de pragas e doenças, redução do deslocamento de agrotóxicos para fora das plantações, produção orgânica e certificação ambiental.

Uma política pública destinada aos polinizadores, à polinização e à produção de alimentos beneficiaria a conservação desse serviço ecossistêmico e promoveria a agricultura sustentável no país, estimam os pesquisadores.

“Esperamos que o relatório ajude a estabelecer planos estratégicos e políticas públicas voltadas à polinização, polinizadores e produção de alimentos em diferentes regiões do país”, afirmou Kayna Agostini, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e também coordenadora do estudo.

Na avaliação de Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, o relatório incorpora várias atividades que o programa BIOTA tem feito ao longo dos seus 20 anos de existência. Entre elas, a de fornecer subsídios para políticas públicas.

“O BIOTA-FAPESP participa ativamente da vida do Estado de São Paulo e do país ao fornecer subsídios científicos para as decisões governamentais e, ao mesmo tempo, realizar atividade de pesquisa da maior qualidade em uma área vital”, disse Zago na abertura do evento.

Também esteve presente na abertura do evento Fernando Dias Menezes de Almeida, diretor administrativo da FAPESP. 

 

Publicado originalmente pela Revista da Fapesp [Aqui!]

Governo liberou registros de agrotóxicos altamente tóxicos

Entre eles está o Sulfoxaflor, liberado nos últimos dias do ano passado, que já foi acusado de exterminar as abelhas nos EUA

publica 0Por Pedro Grigori, Agência Pública

Quarenta novos produtos comerciais com agrotóxicos receberam permissão para chegar ao mercado nos próximos dias. O Ministério da Agricultura publicou no Diário Oficial da União de 10 de janeiro o registro de 28 agrotóxicos e princípios ativos. Entre eles um aditivo inédito, o Sulfoxaflor, que já causa polêmica nos Estados Unidos. Os outros são velhos conhecidos do agricultor brasileiro, mas que agora passam a ser produzidos por mais empresas e até utilizados em novas culturas, entre elas a de alimentos.

Na edição desta sexta-feira (18/1) do Diário Oficial, a Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins do Ministério Agricultura publicou lista com mais 131 pedidos de registro de agrotóxicos solicitados nos últimos três meses de 2018. Eles ainda passarão por avaliações técnicas de três órgãos do governo.

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam uma aceleração na permissão de novos registros, que estaria em “nível desenfreado”.

As autorizações publicadas em 10 de janeiro foram aprovadas no ano passado, ainda durante o governo de Michel Temer (MDB). Nas duas primeiras semanas do governo Bolsonaro, mais 12 produtos receberam registro para serem comercializados, segundo apuraram a Agência Pública e a Repórter Brasil. A aprovação sairá no Diário Oficial nos próximos dias, diz o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

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Nas duas primeiras semanas do governo Bolsonaro, já foram aprovados 12 agrotóxicos e princípios ativos no Brasil

Dos 28 produtos já publicados, um é considerado extremamente tóxico, o Metomil, ingrediente ativo usado em agrotóxicos indicados para culturas como algodão, batata, soja, couve e milho. Além dele, quatro foram classificados como altamente tóxicos. Quase todos são perigosos para o meio ambiente, segundo a classificação oficial. Quatorze são “muito perigosos” ao meio ambiente, e 12, considerados “perigosos”.

Os mais tóxicos são o Metomil e o Imazetapir, o qual foi emitido registro para quatro empresas. Eles são princípios ativos, ou seja, ingredientes para a produção de agrotóxicos que serão vendidos aos produtores rurais.

Apenas três fazem parte do grupo de baixa toxicidade, o menor nível da classificação toxicológica: o Bio-Imune, Paclobutrazol 250 e o Excellence Mig-66, indicados para culturas de manga e até mesmo para a agricultura orgânica.

Segundo o Ministério da Agricultura, os produtos não trazem riscos se usados corretamente. “Desde que utilizado de acordo com as recomendações da bula, dentro das boas práticas agrícolas e com o equipamento de proteção individual, a utilização é completamente segura”, afirmou a assessoria de imprensa do órgão.

Dos 28 produtos com o registro publicado na última semana, 18 são princípios ativos e serão usados na produção de outros defensivos agrícolas. Vinte e um deles são fabricados na China, país que vem se consolidando como um dos maiores produtores, exportadores e usuários de agrotóxicos do mundo.

No ano passado, 450 agrotóxicos foram registrados no Brasil, um recorde histórico. Destes, apenas 52 são de baixa toxicidade.

 

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Total de Agrotóxicos registrados por Ano

Sulfoxaflor ligado ao extermínio de abelhas

Um produto polêmico fora do país é o Sulfoxaflor, aprovado nos últimos dias do governo Temer, em 28 de dezembro, o único novo químico entre os 40 que tiveram o registro publicado.

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Antonio Cruz/Agência Brasil

Nos últimos dias do governo Temer, foram aprovados 28 agrotóxicos e princípios ativos
O responsável pelo registro é a Dow AgroSciences, que faz parte da gigante americana Dow Chemical Company. O produto entrou em circulação nos EUA em 2013. Dois anos depois, organizações defensoras de polinizadores levaram ao Tribunal de Apelações de São Francisco a denúncia de que o uso do pesticida estaria ligado ao extermínio de abelhas. Eles solicitaram revisão da permissão de comercialização.

“O tribunal considerou que o registro não era apoiado por evidências que demonstrassem que o produto não era prejudicial às abelhas, e por isso retiraram o registro”, relata a decisão da Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA). Em setembro daquele ano, o registro de todos os produtos à base de Sulfoxaflor nos Estados Unidos foram cancelados devido ao potencial extermínio de abelhas.

No ano seguinte, a agência americana deferiu uma nova licença para o produto, mas com ressalvas. “O Sulfoxaflor terá agora menos usos e requisitos adicionais que protegerão as abelhas. A EPA tomou essa decisão após uma análise cuidadosa dos comentários do público e do apoio científico”, informou a agência. A partir daí, o produto passou a ser proibido para culturas de sementes e só pode ser utilizado em plantações que atraem abelhas após a época do florescimento. Entre elas estão uva, tomate, pimenta, batata, feijão e cranberry.

As avaliações da Anvisa e do Ibama classificaram o Sulfoxaflor como medianamente tóxico e perigoso ao Meio Ambiente. É usado como ativo para agrotóxicos eficazes contra pragas de insetos que se alimentam de seiva da planta. Foi indicado para culturas de algodão, soja, citros, nozes, uvas, batatas, legumes e morangos.

A Dow AgroSciences abriu a solicitação de registro em 28 de junho de 2013, mas a aprovação do projeto só se apressou no fim de 2018. “A Anvisa convocou consulta pública para o produto no fim de novembro, que durou curtíssimo tempo. Com isso, debateu-se pouco um ativo que nos Estados Unidos chegou a ser proibido por um tempo”, explica Karen Friedrich, membro do grupo temático de saúde e meio ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

A Anvisa abriu a consulta pública durante 30 dias em 23 de novembro de 2018. O deferimento do registro pelos três órgãos ocorreu 35 dias depois.

Proibidos fora do país

Dos 40 registros aprovados no Brasil, 11 não são permitidos na União Europeia. Um deles é o Fipronil, inseticida que age nas células nervosas dos insetos e, além de utilizado contra pragas em culturas de maçã e girassol, é usado até mesmo em coleiras antipulgas de animais domésticos. O produto é proibido em países europeus como a França, desde 2004, também acusado de dizimar enxames de abelhas. É permitido no Brasil e, segundo o registro publicado no Diário Oficial, classificado como medianamente tóxico e muito perigoso ao meio ambiente. Ele é legalizado e indicado para culturas de algodão, arroz, cevada, feijão, milho, pastagens, soja e trigo.

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Pixabay

A substância Sulfoxaflor causou polêmicas e chegou a ser proibida nos Estados Unidos
A importância da preservação das abelhas é a relação direta entre a vida dos insetos e da humanidade. Na busca por pólen, elas polinizam plantações de frutas, legumes e grãos. “Na França, os apiários registravam morte de cerca de 40% das abelhas, a partir daí países da Europa começaram a proibir o Fipronil, que continua permitido no Brasil mesmo após sofrermos impactos semelhantes”, explica Murilo Souza, professor de recursos naturais do Cerrado na Universidade Estadual de Goiás.

Produtos à base de Imazetapir, herbicida aplicado por pulverização em culturas como a da soja, também são proibidos na União Europeia desde 2004. Quatro deles tiveram registro deferido por aqui. O Diquate, que está entre os ativos aprovados no Brasil na última semana, teve registro cassado na União Europeia no fim de 2018 após comissão de avaliação ter identificado alto risco para trabalhadores e residentes de áreas próximas à aplicação do produto, além de risco para aves.

O Sulfentrazona foi banido em toda a União Europeia em 2009 e nunca chegou às mesas do continente. Já no Brasil, o registro foi deferido no fim do ano para as empresas brasileiras Tradecorp, Rotam e da Nortox – todas têm indústrias na China como endereço de fabricante. E neste ano, mais três permissões, agora para as empresas brasileiras Ihara, Allierbrasil e Helm.

Pressão para aprovar rápido

Antes de chegar ao mercado, a substância precisa passar por avaliação do Ministério da Agricultura, Ibama e da Anvisa. Os órgãos fazem diversos testes para medir, por exemplo, o grau toxicológico e o potencial de periculosidade ambiental.

O prazo de avaliação de registro pode chegar a cinco anos, mas vem se tornando mais rápido. De acordo com o Ibama, a diminuição dos períodos de avaliação ocorre “devido ao aperfeiçoamento de procedimentos e incorporação de novos recursos de tecnologia de informação”, segundo a assessoria do órgão.

Já no Ministério da Agricultura, a aprovação mais rápida se deve a uma nova política que prioriza os produtos de baixa toxicidade, que contêm organismos biológicos, microbiológicos, bioquímicos, semioquímicos ou extratos vegetais. Para estes, o tempo médio total entre o pedido de registro e a conclusão do processo varia de três a seis meses. O que explica a rápida aprovação do Bio-Imune e do Excellence Mig-66.

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Antonio Cruz/ Agência Brasil

A nova ministra da Agricultura, Tereza Cristina, recebeu o apelido de “musa do veneno”
O longo prazo de avaliação do registro é uma das principais críticas dos ruralistas, que apostam no Projeto de Lei 6.299/2002 para acelerar a liberação das substâncias. Conhecido pelos opositores como “PL do Veneno”, uma das medidas previstas pelo texto é que, caso o período de análise do químico passe de dois anos, o produto ganha o registro automaticamente.

No momento, o Ministério da Agricultura, a Anvisa e o Ibama estão avaliando o pedido de registro de mais 1.345 agrotóxicos e ingredientes ativos. Grande parte das empresas que querem vender esses produtos no Brasil é do exterior, como Estados Unidos, Alemanha e, principalmente, a China.

Como “farmácias em cada quadra”

Dos 40 produtos autorizados, 39 são ingredientes ativos ou pesticidas já permitidos no país. O pedido de registro de um produto anteriormente liberado é comum, segundo quatro especialistas consultados pela reportagem. “A partir do momento que as empresas produtoras iniciais perdem a patente, as demais começam a solicitar registro para usar esses ingredientes ativos e produzir novos produtos agrícolas”, explica Murilo Souza, da Universidade Estadual de Goiás.

Para Leonardo Melgarejo, vice-presidente da regional sul da Associação Brasileira de Agroecologia, a aprovação dos registros está em ritmo “desenfreado”. “Temos aprovadas variações sobre o mesmo item. Não precisamos de todos os produtos comerciais para uma mesma finalidade. Estamos chegando perto do lance da ‘automedicação’, com duas farmácias em cada quadra, todas vendendo variantes das mesmas drogas”, afirma.

Para o professor Murilo Souza, é surpreendente a rapidez com que as aprovações vêm ocorrendo. Ele critica também o fato de que produtos originalmente aprovados para determinada cultura sejam liberados para outras. “A maioria dos produtos são testados apenas em plantações de grande escala, como soja, algodão e cana de açúcar. Poucas pesquisas são feitas para entender os impactos nas culturas menores”, explica.

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

A reportagem foi originalmente publicada pela Agência Pública [Aqui!]