Governo Bolsonaro libera mais 63 agrotóxicos; 15 extremamente tóxicos

A lista inclui 10 altamente tóxicos e 22 com toxicidade mediana; sete são inéditos no país que já liberou 353 venenos em menos de nove meses

mais-agrotoxicoEntre os agrotóxicos liberados estão aqueles proibidos até por parceiros comerciais do Brasil

Por Cida Oliveira para a RBA

São Paulo – A Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento publicou hoje (17) no Diário Oficial da União nova remessa com 63 agrotóxicos liberados para venda no país. Agora são 353 em menos de nove meses, os venenos autorizados desde o início do governo de Jair Bolsonaro (PSL). O país líder mundial no consumo desses produtos vai se tornando também o paraíso para fabricantes, importadores e exportadores.

Da lista publicada hoje, sete substâncias classificadas como extremamente tóxicas são princípio-ativo de 15 produtos liberados. Entre eles estão o sulfoxaflor e imazapir, um dos responsáveis pela mortandade de abelhas no Brasil e em todo o mundo.

Há quatro princípios altamente tóxicos em 10 novas liberações, como o clorfenapir, banido no Reino Unido, e o Fipronil, que não foi aprovado nem nos Estados Unidos nem pelos britânicos. O produto está entre os mais nocivos às abelhas, tanto que o Ministério Público do Rio Grande do Sul pediu à Justiça a sua suspensão do cadastro estadual de agrotóxicos.

E sete substâncias medianamente tóxicas compõem 22 novos itens do portfólio cada vez mais variado da indústria de agrotóxicos. Entre eles o clorpirifós. Proibido em diversos países, como Arábia Saudita, que anunciou hoje acordo de importação de frutas e castanhas do Brasil, é muito usado em lavouras de frutas cítricas.

Segundo o Ministério da Agricultura, a ampla maioria dos produtos registrados já tiveram a patente expirada.  E esses genéricos “aumentam a concorrência no mercado e diminuem o preço, caindo o custo de produção”. Problema é quanto mais barato, maior o consumo. Além disso, as maiores lavouras – soja, milho, algodão, eucalipto – são à base de plantas geneticamente modificadas para resistir a maiores doses de venenos agrícolas.

A farra dos agrotóxicos no Brasil tem motivado diversas ações de boicote aos produtos brasileiros. É o caso de supermercadistas da Suécia. Em janeiro, a Rússia havia imposto ao Ministério da Agricultura uma condição para continuar comprando a soja brasileira: reduzir o uso desses produtos.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

MP gaúcho quer suspensão de agrotóxico que levou ao extermínio de abelhas

Proibido na Europa justamente por ser letal aos polinizadores, o fipronil obteve três novos registros junto ao governo Bolsonaro

 

abelha-mortaEntre outubro passado e março deste ano foram mortas 400 milhões de abelhas em 32 municípios gaúchos

Por Cida Oliveira para a Rede Brasil Atual

São Paulo – A Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre pediu nesta quarta-feira (14) que o governo do Rio Grande do Sul suspenda o fipronil do Cadastro Estadual de Registro de Agrotóxicos. O ofício enviado à Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (Fepam) e às secretarias da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural e de Meio Ambiente e Infraestrutura é desdobramento do inquérito civil instaurado para apurar as causas do extermínio de abelhas no estado.

Entre outubro passado e março deste ano foram exterminadas 400 milhões em colmeias de 32 municípios gaúchos.  De acordo com o promotor de Justiça Alexandre Saltz, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, “a necessidade é de prevenir novos danos ambientais irrecuperáveis derivados da aplicação do produto”.

Não bastasse a crueldade contra os insetos, o extermínio põe em risco a produção de alimentos. Segundo a organização Bee or not to Be?, idealizada pelo professor titular aposentado da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto Lionel Segui Gonçalves, as abelhas são os maiores polinizadores do planeta. Atuam diretamente na reprodução de mais de 85% das plantas com flores das matas, florestas e áreas verdes, conferindo importante equilíbrio aos ecossistemas. E de mais de 70% das culturas agrícolas, garantindo a ampliação da produtividade no campo e a melhoria na qualidade de frutos e sementes. Na busca por alimento, coletam também o pólen produzido pelo órgão masculino da flor e o carregam para a parte feminina. É nesse processo de polinização que a planta se reproduz.

Banido

O fipronil que está na mira do MP gaúcho foi banido da União Europeia em 2017. Pesquisas realizadas pela Universidade de Exeter, no Reino Unido, constataram que a substância matou milhares de abelhas na França entre 1994 e 1998. E que as mortes ocorreram logo que o produto foi lançado.

A devastação de colmeias inteiras de apicultores gaúchos, porém, não parece preocupar o Ministério da Agricultura do governo de Jair Bolsonaro (PSL). Desde o início da gestão foi concedido registro – que permite a produção e venda – para mais 290 produtos. Desse total, dois são para a substância pura e outros dois para misturas com o acetamiprido, da classe dos neonicotinoides.

Das novas liberações, pelo menos 21 são nocivas às abelhas. São 12 da classe dos neonicotinoides, três da fenilpirazol e seis sulfoxaminas. “Os piores são o fipronil, do segunda classe, e o sulfoxaflor, da terceira, estes todos produzidos pela Dow Chemical. Aparentemente são mais perigosos que os neonicotinoides. Embora não haja mocinhos nessa película, é bom lembrar que alguns neonicotinoides estão liberados na União Europeia, enquanto os dois outros grupos estão proibidos. O fipronil está praticamente banido até nos Estados Unidos, onde é usado apenas em casos extremos”, avalia o professor e pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Marcos Pedlowski, que monitora as liberações de agrotóxicos.

Seja como for, a classe dos neonicotinoides está diretamente associado ao extermínio de abelhas em todo o mundo. Estudo financiado por 28 países da União Europeia concluiu que tais inseticidas representam grande risco para diferentes tipos de abelhas. Tanto que esses países proibiram o imidaclopride e a clotianidina, da Bayer, que comprou a Monsanto, e o tiametoxam, da Syngenta. Porém, coerente com a via de sentido contrário que escolheu para trafegar, o Brasil deu sinal verde também para seis pedidos para fabricar imidaclopride e dois para tiametoxam.

Com sequela

No último dia 6, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina (DEM-MS), a “musa do veneno”, juntou o diretor da Anvisa, Renato Porto, e a diretora do Ibama, Carolina Mariani, entre outros, para tentar explicar à imprensa as principais questões envolvendo os agrotóxicos no país.

Os gestores foram enfáticos na defesa da tese de que o Brasil aparece na 44ª posição em um ranking do Fundo das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) sobre uso de defensivos agrícolas. E não na primeira. Na perspectiva adotada pelo governo, o consumo foi de 4,31 quilos de agrotóxicos por hectare cultivado em 2016. E que entre os países europeus que utilizam mais defensivos que o Brasil aparecem a Holanda (9,38 kg/ha), Bélgica (6,89 kg/ha), Itália (6,66 kg/ha), Montenegro (6,43 kg/ha), Irlanda (5,78 kg/ha), Portugal (5,63 kg/ha), Suíça (5,07 kg/ha) e Eslovênia (4,86 kg/ha).

Uma tese contestada pela pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da USP. Conforme explicou no final de junho à Agência Pública, quando se divide o consumo brasileiro de agrotóxico pela área plantada há diluição desse volume gigantesco. Isso porque é considerada área cultivada regiões como pastos, que são terras improdutivas. “Uma conta faz com que o Brasil fique lá embaixo no ranking”.

O esforço da equipe da musa do veneno veio da pressão dos próprios ruralistas diante da repercussão negativa de uma paródia apresentada no programa Zorra, na noite de 3 de agosto. Na esquete em formato de desenho animado, o ruralista pulveriza agrotóxico na goiaba em um sítio em que os agrotóxicos e os transgênicos alteraram profundamente a vida e a saúde das pessoas. A inconsequente – e prevista – farra dos agrotóxicos no governo Bolsonaro foi criticada em horário nobre, pouco depois da venda de imagem pop do agro.

Confira a crítica aos agrotóxicos em O Sítio do Pica Pau com Sequela:

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Sulfoxaflor,fipronil, acefato e malationa são as “estrelas” do último pacote letal do governo Bolsonaro

agrotóxicos 1Com 290 agrotóxicos aprovados apenas em 7 meses, governo Bolsonaro se torna o mais pró-veneno da história.

Por estar atarefado demorei um pouco mais para introduzir na base de dados que comecei a construir em janeiro para documentar o avanço da liberação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, mas hoje finalmente consegui concluir a tarefa de juntar os 51 agrotóxicos liberados no dia 18 de junho e publicados no Diário Oficial da União apenas no dia 22 de julho de 2019.

E os dados mostram que as abelhas que polinizam os campos brasileiros estão agora sob um risco ainda maior, pois apenas do composto Sulfoxaflor foram aprovados 6 produtos, todos produzidas pela multinacional estadunidense Dow Chemical Company. Mas se ainda sobrar abelhas depois do envenenamento por Sulfoxaflor, as sobreviventes ainda terão de se defrontar com um produto que contém outro inimigo poderoso, o Fipronil, esse fabricado pela brasileira Iharabras S.A. Indústrias Químicas.

abelhas-mortas2Uso de agrotóxicos como o Sulfoxaflor e o Fipronil estão sendo associados ao extermínio de quase 1 bilhão de abelhas no Brasil apenas em 2019.

Mas para os humanos também sobraram produtos como o Acefato que é banido pela União Europeia por suas conhecidas relações com a infertilidade, danos genéticos e, é claro, o câncer.  De quebra, ainda foram aprovadas formulações contendo a Ametrina e a Atrazina, produtos ativos também banidos pela União Europeia, e que também têm sido associados a enfermidades graves em seres humanos.

Outro produto aprovado que embora ainda seja vendido legalmente na União Europeia foi a Malationa, um inseticida e acaracida organofosforado, que é conhecida por causar danos irreversíveis na vida aquática. 

A nova lista de aprovações traz 14 produtos que são totalmente ou parcialmente compostas por princípios ativos banidos pela União Europeia, elevando o total dentro das 290 substâncias liberadas pelo governo Bolsonaro com essa “peculiaridade” para 95 (o equivalente 33% do total). Tal fato quando conhecido pelos importadores europeus tenderá a aumentar a pressão sobre as commodities agrícolas brasileiras, dado o exemplo já conhecido da rede sueca Paradiset que baniu todos os produtos não orgânicos brasileiros quando o total de agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro era ainda menor. 

De toda forma, essa marcha do veneno que não perdoa nem abelhas ou humanos é um sinal de completo atraso de mentalidade dos ruralistas que hoje efetivamente controlam o Ministério da Agricultura sob o comando da “princesa do veneno” Tereza Cristina (DEM/ES). Reagir a essa tsunami de venenos agrícolas está se tornando cada vez mais um das questões centrais da democracia brasileira. Afinal, a maioria dos brasileiros e de nossos ecossistemas naturais não podem ser sacrificados em nome do aumento da taxa de lucros de uma minoria que está pouco se lixando para as consequências de um modelo agrícola totalmente ancorado no veneno e no desmatamento.

Quem tiver interesse em conhecer todos os agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!].

Monocultura contribui para sumiço de abelhas

 

Tetrapedia_sp-600x447Tetrapedia sp, uma das espécies de abelha solitária identificada no levantamento

Vida de insetos polinizadores depende de quantidade suficiente de floresta e de uso diversificado do solo

Estudo realizado em fazendas do Corredor Ecológico Cantareira-Mantiqueira, região norte da cidade de São Paulo, revelou boa notícia sobre a vida de abelhas e vespas, insetos que andam desaparecendo da natureza. Naquele local, eles ainda são abundantes, apesar da ocupação urbana.

Para os pesquisadores do Laboratório de Ecologia e Evolução de Abelhas e Vespas, do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, a quantidade de floresta nativa (mais de 50% da área) e a utilização diversificada das terras entre os fragmentos de Mata Atlântica são os principais fatores da preservação das espécies de insetos.

A ecóloga Paula Carolina Montagnana, responsável pela pesquisa, explica que se a região fosse dominada por monocultura (como a observada em diversos outros locais do estado de São Paulo, por exemplo), essas abelhas e vespas não teriam a mesma sorte para encontrar alimentos ou construir seus ninhos. “As abelhas e vespas solitárias têm autonomia de voo de cerca de 600 metros”, conta. O que vale dizer que precisam encontrar fontes de alimentação e condições de procriação dentro de uma área tal que não ultrapasse esse limite.    

Na região estudada, a pesquisadora diz ter encontrado condições que favoreceram o maior número de espécies e quantidades de abelhas e vespas encontrado. Explica que numa escala de 1 km (linha reta de 1 km de comprimento traçada a partir do local de um ninho-armadilha) “haverá maior diversidade desses insetos se ao longo dessa reta houver locais com pastagem, floresta, agricultura, vilas rurais, entre outros tipos de uso da terra”. Mas também afirma ser igualmente importante a porcentagem de floresta que existe dentro de paisagens com 5 km de raio, que deve superar 50% dessa área.

Para as regiões em que grande parte da vegetação nativa já tenha sido retirada e a atividade humana é intensa, a ecóloga afirma que ainda assim é possível preservar algumas espécies. A recomendação é “que haja uma diversificação no uso da terra, principalmente com atividades de menor impacto como agroflorestas, locais de recuperação da vegetação nativa, agricultura orgânica, mas que também sejam preservados os locais de vegetação nativa já existentes”. Paula garante que essa diversidade é muito melhor para a vida de abelhas e vespas que paisagens onde há apenas um uso da terra, “como por exemplo, as áreas dominadas por grandes monoculturas de cana-de-açúcar, se pensarmos na região de Ribeirão Preto, ou nos plantios de soja, algodão e milho presentes no Centro-Oeste”.

paisagemVista da região de monitoramento das abelhas e vespas solitárias

Abelhas e vespas solitárias são “ótimos indicadores ambientais”

suporte-ninhosUm dos suportes com ninhos-armadilha instalados na região da Cantareira em São Paulo-SP

As conclusões sobre como preservar a vida das abelhas e vespas vieram de informações coletadas ao longo de pesquisa de campo, realizada entre 2014 e 2018, e que deram origem à tese de doutorado que Paula apresentou recentemente à FFCLRP, com orientação do professor Carlos Alberto Garófalo. Ela conta que queria verificar a influência das diferentes formas de utilização do solo na vida de abelhas e vespas solitárias. Assim, confeccionou e instalou, em 29 pontos da região da Cantareira, ninhos-armadilha (pequenos tubos de cartolina preta e gomos de bambus) que ficaram disponíveis para essas espécies construírem seus ninhos.

A escolha pelas espécies solitárias, conta a pesquisadora, se deve ao fato da presença delas na natureza ser “ótimo indicador ambiental que pode ser extrapolado para as demais espécies de abelhas e vespas”. As abelhas são insetos polinizadores e as vespas, agentes de controle biológico. São chamadas solitárias pois, ao contrário dos insetos que formam colônias, elas utilizam cavidades preexistentes na natureza para fazer seu ninhos. Assim, entre os meses de setembro e março – os mais chuvosos e quentes do ano no estado de São Paulo e período de maior atividade e diversidades de insetos, Paula coletou todos os ninhos-armadilhas ocupados e os levou para o Laboratório de Ecologia e Evolução de Abelhas e Vespas, na USP em Ribeirão Preto.

Após monitoramento dos ninhos e identificação das espécies, encontrou 24 espécies de abelhas e 21, de vespas, comprovando a condição ecológica favorável do Corredor Cantareira-Mantiqueira. Mas, o destaque do estudo ficou por conta da constatação da importância do uso diversificado da terra e da quantidade suficiente de mata nativa (mais de 50% de preservação) para a sobrevivência desses insetos.

Mais informações: paula-eco@hotmail.com

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Este artigo foi originalmente pela USP de Ribeirão Preto [Aqui].

 

Combinação de agrotóxicos encurta a vida e modifica comportamento de abelhas

abelhas fapesp

Peter Moon  |  Agência FAPESP – Um novo estudo realizado por biólogos brasileiros sugere que o efeito dos agrotóxicos sobre as abelhas pode ser maior do que se imagina. Mesmo quando usado em doses consideradas não letais, um inseticida encurtou o tempo de vida dos insetos em até 50%. Além disso, os pesquisadores observaram que uma substância fungicida considerada inofensiva para abelhas alterou o comportamento das operárias, tornando-as letárgicas – fato que pode comprometer o funcionamento de toda a colônia.

Resultados da pesquisa foram publicados na revista Scientific Reports, do grupo Nature. O trabalho foi coordenado por Elaine Cristina Mathias da Silva Zacarin, professora na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus Sorocaba. Também participaram pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).

A FAPESP apoiou a investigação por meio do Projeto Temático “Interações abelha-agricultura: perspectivas para a utilização sustentável“, coordenado pelo professor Osmar Malaspina, da Unesp de Rio Claro. Também houve financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Cooperativa dos Apicultores de Sorocaba e Região (Coapis).

É um fato conhecido que diversas espécies de abelhas estão desaparecendo em todo o mundo. Na Europa e nos Estados Unidos, o fenômeno tem sido observado desde o ano 2000. No Brasil, desde pelo menos 2005.

No Rio Grande do Sul, entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019, foi registrada a perda de aproximadamente 5 mil colmeias – algo equivalente a 400 milhões de abelhas.

E não estão desaparecendo apenas os indivíduos da espécie Apis mellifera, abelha de origem europeia e principal responsável pela produção comercial de mel. Nas matas brasileiras, há centenas de espécies selvagens possivelmente afetadas. O impacto econômico previsto é imenso, pois grande parte da agricultura depende do trabalho de polinização realizado por esses insetos. É o caso, por exemplo, de todas as frutas comestíveis.

A causa do sumiço repentino em massa também já é conhecida: a aplicação indevida e indiscriminada de defensivos agrícolas. Compostos químicos como inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas contaminam as abelhas que saem da colônia em busca de pólen e acabam atingindo toda a colmeia. Uma vez dentro da colônia, tais compostos são ingeridos pelas larvas, comprometendo sua longevidade e o funcionamento da colônia como um todo.

“No Brasil, as monoculturas de soja, milho e cana dependem do uso intensivo de inseticidas. A contaminação das colônias de abelhas ocorre quando, por exemplo, os agricultores não respeitam uma margem de segurança mínima (são recomendados 250 metros) na aplicação de defensivos agrícolas entre as lavouras e as áreas florestais que as margeiam. Tem gente que aplica produtos químicos até o limite da floresta”, disse Malaspina.

“Na Europa e nos Estados Unidos, as colônias de abelhas morrem aos poucos. Desde a constatação inicial da morte das primeiras abelhas até a morte da colônia pode levar um mês ou até cinco meses. No Brasil não é assim. Aqui, as colmeias desaparecem em apenas 24 ou 48 horas. Não existe nenhuma doença capaz de matar uma colmeia inteira em 24 horas. Só inseticidas podem provocar isso”, disse.

Malaspina destaca que há mais de 600 tipos de ingredientes ativos em inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas usados no Brasil.

“É impossível testar em laboratório a ação de cada um deles. Não há dinheiro para isso”, disse.

No Projeto Colmeia Viva, entre os anos de 2014 e 2017, foi realizado um estudo para identificar, dentre os 44 ingredientes ativos mais usados na agricultura paulista, quais poderiam estar relacionados à mortalidade das abelhas. Foram detectados oito ingredientes com ação comprovadamente letal para os apiários.

A equipe do projeto coletou material em 78 municípios paulistas. Trabalhando com os apicultores, os agricultores e a indústria de defensivos, os pesquisadores recomendaram uma série de ações para proteger apiários, como a observação de margens de mínima segurança na aplicação de agrotóxicos e de boas práticas agrícolas.

Uso associado de defensivos

Segundo os cientistas, os efeitos benéficos do Projeto Colmeia Viva podem estar começando a surgir. No mesmo período em que sumiram as 5 mil colônias de abelhas no Rio Grandes do Sul, as perdas foram menores nos estados de Santa Catarina e Paraná – entre os apicultores paulistas o impacto foi ainda mais reduzido.

“Mas isso não quer dizer que as abelhas de São Paulo estão a salvo dos defensivos agrícolas. Longe disso. Estamos começando a testar quais são os efeitos sobre as abelhas melíferas do uso associado de inseticidas com fungicidas. E já descobrimos que um determinado tipo de fungicida, que quando aplicado de modo isolado no campo é inofensivo às colmeias, ao ser associado a um determinado inseticida se torna nocivo. Não chega a matar as abelhas como os inseticidas, mas altera o comportamento dos insetos, comprometendo a colônia”, disse Zacarin.

Os ingredientes ativos investigados foram a clotianidina, inseticida usado para controle de pragas nas culturas de algodão, feijão, milho e soja, e o fungicida piraclostrobina, aplicado nas folhas da maioria das culturas de grãos, frutas, legumes e vegetais.

“Realizamos ensaios de toxicidade de agrotóxicos em larvas de abelhas e em concentrações ambientais relevantes, ou seja, concentrações realistas, como as encontradas residualmente no pólen das flores”, disse Zacarin.

A observação é importante. Qualquer agrotóxico em grandes concentrações dizima colmeias quase imediatamente. Mas o que os pesquisadores estudam são os efeitos sutis e de médio a longo prazo sobre as colmeias. “O que nos interessa é descobrir a ação residual dos agrotóxicos, mesmo em concentrações baixíssimas, sobre esses insetos”, disse Zacarin.

Mudança de comportamento

Os testes foram todos feitos in vitro, com insetos confinados dentro de laboratórios para não ocorrer contaminação ambiental. Nessas condições, larvas de Apis mellifera foram separadas em grupos diferentes e alimentadas entre o terceiro e o sexto dia de vida com uma dieta composta de açúcar e geleia real. O que variou foi o tipo de ingrediente tóxico presente no alimento, sempre em concentrações diminutas, na faixa de nanogramas (bilionésimos de grama).

A dieta do grupo controle não continha agrotóxico. No segundo grupo, a dieta foi contaminada com o inseticida clotianidina. No terceiro grupo, a contaminação foi por fungicida (piraclostrobina). E, no quarto grupo, havia uma associação do inseticida com o fungicida.

“Depois do sexto dia de vida, as larvas se tornam pupas e entram em metamorfose, de onde emergem como operárias adultas. No campo, uma abelha operária vive em média 45 dias. Em laboratório, confinada, vive menos. Mas os insetos alimentados com a dieta contaminada pelo inseticida clotianidina em baixíssima concentração apresentaram tempo de vida drasticamente menor, de até 50%”, disse Zacarin.

Já entre as larvas alimentadas com a dieta contaminada apenas pelo fungicida piraclostrobina não se observou nenhum efeito sobre o tempo de vida das operárias.

“Com base apenas nesse resultado, poderíamos imaginar que o fungicida em baixa concentração é inofensivo às abelhas. Infelizmente, não é o que ocorre”, disse a pesquisadora.

Nenhuma abelha morreu na fase de larva e de pupa. Porém, verificou-se que, na fase adulta, as operárias sofreram modificação em seu comportamento. Elas se tornaram mais lentas do que os insetos do grupo controle.

“As operárias jovens fazem inspeções diárias na colmeia, o que as leva a percorrer certa distância. Elas se movimentam bastante dentro da colônia. Verificamos que, no caso das abelhas contaminadas tanto pelo fungicida sozinho ou associado ao inseticida, a distância percorrida e a velocidade foram muito menores”, disse Zacarin.

Caso o mesmo ocorra no meio ambiente com parte considerável das operárias de uma colmeia, tal alteração de comportamento acabaria por prejudicar o funcionamento de toda a colônia. Essa pode ser uma das razões da extinção em massa de abelhas.

Ainda não se sabe de que forma o fungicida age para comprometer o comportamento das abelhas. “Nossa hipótese é que a piraclostrobina, quando associada a um inseticida, diminuiria o metabolismo energético das abelhas. Novos estudos em andamento podem vir a elucidar esse mecanismo”, disse Zacarin.

O artigo Late effect of larval co-exposure to the insecticide clothianidin and fungicide pyraclostrobin in Africanized Apis mellifera (doi: https://doi.org/10.1038/s41598-019-39383-z), de Rafaela Tadei, Caio E. C. Domingues, José Bruno Malaquias, Erasnilson Vieira Camilo, Osmar Malaspina e Elaine C. M. Silva-Zacarin, está publicado em: www.nature.com/articles/s41598-019-39383-z.

 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Flupyradifurone: o agrotóxico “seguro para abelhas” que pode não ser tão seguro quanto anunciado

honeybee, New Mexico

Por Aristos Georgiou para a NewsWeek

Nos últimos anos, tem crescido a preocupação sobre os efeitos dos pesticidas agrícolas na saúde das abelhas, com grande parte da atenção voltada para os chamados “neonicotinóides” ou “neonics”.

A medida que o uso dos neocotinóides se torna mais restrito, outros agrotóxicos considerados “seguros para abelhas” estão sendo desenvolvidos. No entanto, uma dessas substâncias, a flupiradifurona (FPF) – vendida sob o nome Sivanto – pode causar danos às abelhas quando um conhecido fungicida também está presente. Isso é de acordo com um estudo publicado na revista Proceedings da Royal Society B: Biological Sciences.

O FPF funciona de maneira semelhante ao neonics. No entanto, por estar marcado como “seguro para abelhas”, ele pode ser usado enquanto os insetos estão se alimentando ativamente.

“O processo que leva à definição da segurança de um pesticida leva em consideração uma série de testes específicos, cujo objetivo é testar os efeitos do produto químico nas abelhas”, disse Simone Tosi, principal autora do estudo da Universidade da Califórnia, San Francisco. Diego, disse à Newsweek. “Os resultados desses testes levarão à aprovação ou não deste pesticida para certos usos no campo.”

Os autores do estudo dizem que suas novas descobertas colocam em questão a segurança dos pesticidas aprovados porque as avaliações de risco não levam em consideração como a toxicidade é influenciada pelas combinações entre os diferentes produtos químicos.

As abelhas podem ser expostas a vários agrotóxicos que podem interagir sinergicamente, amplificando seus efeitos colaterais”, escreveram os autores no artigo.

Até o momento, os impactos da FPF não foram minuciosamente investigados. Assim, para seu estudo, os pesquisadores decidiram testar os efeitos tóxicos letais e subletais do produto químico nas abelhas em diferentes estações do ano e para diferentes tipos de trabalhadores, bem como as interações da substância com um fungicida comum conhecido como propiconazol (PRO). Eles usaram doses de FPF projetadas para imitar as quantidades às quais os insetos são expostos em situações da vida real.

“Percebemos que há uma lacuna de dados importante sobre o que é testado para avaliar o risco de agrotóxicos e os efeitos reais que os pesticidas podem representar: por um longo tempo, subestimamos a extensão dos efeitos de pesticidas nas abelhas”, disse Tosi. “Assim, decidimos explorar o papel dos agrotóxicos na saúde das abelhas mais profundamente, avaliando seus efeitos com uma abordagem mais holística que leva em consideração como a toxicidade dos agrotóxicos muda em relação ao complexo meio ambiente em que as abelhas vivem”.

Os pesquisadores descobriram que as abelhas expostas ao FPF, em combinação com o fungicida, demonstraram má coordenação, hiperatividade e apatia, potencialmente afetando suas chances de sobrevivência.

Além disso, eles descobriram que esses efeitos foram significativamente influenciados pelo tipo de abelha e pela estação do ano: as abelhas forrageiras foram quatro vezes mais afetadas do que as abelhas in-hive, e ambos os grupos foram mais afetados nos meses de verão em comparação com a primavera. Estes resultados são preocupantes, uma vez que ambos os produtos químicos são freqüentemente encontrados juntos no meio ambiente, dizem os pesquisadores.

“Embora o rótulo do produto proíba que a flupiradifurona seja misturada em um tanque de aplicação com certos fungicidas, incluindo PRO, as abelhas podem ser simultaneamente expostas à FPF e a outros produtos químicos – formando coquetéis de pesticidas – que são comumente usados ​​em lavouras adjacentes ou que persistem ao longo do tempo, “Tosi disse. “FPF e PRO poderiam ser usados ​​nas mesmas culturas e plantas ornamentais, incluindo frutas, sementes oleaginosas e cereais.”

“Esses pesticidas também podem ser usados ​​várias vezes ao longo de um ano – e em diferentes épocas – e aplicados de várias maneiras”, disse Tosi. “Além disso, as abelhas também podem ser expostas a pesticidas que derivam de diferentes culturas ou são armazenados na mesma colmeia. FPF e PRO são facilmente absorvidos pelas plantas e, assim, o solo e a água contaminados podem levar a absorção não intencional. Isso pode resultar em prolongada contaminação plurianual “.

O gráfico abaixo, fornecido pela Statista, ilustra o declínio global de diferentes populações de insetos.

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Os autores dizem que suas descobertas mais recentes podem ter implicações significativas sobre como certos a são agrotóxicos são aprovados para uso.

“Este trabalho é um passo em direção a uma melhor compreensão dos riscos que os agrotóxicos podem representar para as abelhas e para o meio ambiente”, disse Tosi. “Nós fornecemos a primeira demonstração de que a combinação de dois agrotóxicos pode aumentar sinergicamente a frequência de polinizadores com comportamentos anormais e sugerir metodologias que poderiam ser implementadas para avaliar os riscos causados pelos pesticidas”.

“Nossos resultados destacam a importância de avaliar os efeitos dos agrotóxicos no comportamento dos animais e demonstram que a sinergia, a sazonalidade e a idade das abelhas são fatores-chave que alteram sutilmente a toxicidade dos pesticidas”, disse ele.

Embora a pesquisa sobre o FPF ainda seja limitada, um estudo anterior descobriu que o produto químico prejudicava o gosto e a cognição da abelha quando expostas a doses altas, que não eram realistas em condições de campo. Outro artigo descobriu que a exposição crônica teve um impacto no sistema olfativo dos animais.

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela NewsWeek [Aqui!]

Enquanto Tereza Cristina falava “mangas”, governo Bolsonaro autorizava comercialização de mais 31 agrotóxicos

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Ministra Tereza Cristina recomenda manga para matar a fome dos brasileiros, enquanto libera quantidade recorde de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo.

Enquanto a ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/ES), tecia suas peculiares considerações sobre o papel da manga na erradicação da fome no Brasil, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento publicava na edição de ontem do Diário Oficial da União o ATO N° 24, DE 9 DE ABRIL DE 2019 com o resumo dos pleitos de registro concedidos para a comercialização de mais 31 agrotóxicos.

ato 24

Apesar de estar difícil de contar do número total de agrotóxicos aprovados desde o dia 9 de janeiro de 2019 quando foi publicado o Ato N°1 que autorizou 28 compostos, as minhas contas indicam que desde então foram autorizados o astronômico total de 152 agrotóxicos nos famosos primeiros 100 dias do governo Bolsonaro.

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Agrotóxico Sulfoxaflor que é relacionado ao extermínio de meio bilhão de abelhas só no Rio Grande do Sul foi liberado para comercialização no Brasil no dia 09 de janeiro de 2019.

A velocidade das aprovações parece estar confundindo a própria Tereza Cristina que na audiência de ontem que o Sulfoxaflor que está sendo associado ao extermínio de meio bilhão de abelhas no Rio Grande do Sul possa ser comercializado legalmente, quando o mesmo teve sua publicação aprovada por meio do Ato N°1 de 9 de janeiro de 2019 (ver imagem abaixo). Em outras palavras, temos diante de nós duas situações: ou a ministra autorizou sem saber ou autorizando sabendo e fingiu amnésia na audiência!

sulfoxaflor

Diante desse recorde de aprovações “fast track” de agrotóxicos, muitos deles banidos nos principais mercados consumidores das commodities brasileiras, o que está se plantando é o isolamento do Brasil em face dos riscos crescentes em consumir o que é produzido com tantos venenos agrícolas.

Mas nada disso parecer importunar a ministra Tereza Cristina, provavelmente pela crença de que se tudo der errado, ainda poderemos saciar nossa fome consumindo mangas.