Pesquisadores da UFPR alertam que nova lei de agrotóxicos pode envenenar o mundo

Para pesquisadores do Observatório de Agrotóxicos da UFPR, o Congresso deveria instituir um programa nacional de redução de agrotóxicos em vez de abrir as portas do Brasil para produtos amplamente proibidos no mundo

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Por Afonso Murata, André Cavalcante, Natali Miller, Laís Carneiro, Larissa Faria e Jean Vitule para o “Ciência UFPR”

 Já aprovado na Câmara dos Deputados, tramita agora no Senado um controverso projeto de lei (PLS 526/1999) que flexibiliza a atual legislação de pesticidas. Sob o argumento de que o registro de novos produtos é um processo muito moroso, este PL propõe mudanças na avaliação e autorização de novos pesticidas, excluindo o Ibama e a Anvisa do processo de decisão final. Algo ainda mais preocupante é que as substâncias previamente banidas poderão ser reavaliadas sob estas novas regras. Ou seja, este PL segue a tendência política de enfraquecer a legislação ambiental, priorizando o setor produtivo em detrimento do meio ambiente e da saúde pública do país.

Só em 2022, foi autorizado o uso de 562 novos agrotóxicos no Brasil, muitos deles importados da Europa e da América do Norte. Vários destes pesticidas têm seu uso proibido nos países onde são produzidos, mas as empresas continuam exportando para lugares com legislação mais permissiva, como o Brasil.

O uso indiscriminado de agrotóxicos sem a devida avaliação é, sobretudo, uma questão de saúde pública. Na última década, intoxicações e mortes relacionadas ao envenenamento por agrotóxicos aumentaram em 94% em nosso país.

Em casos de exposição contínua, os agrotóxicos podem acumular nos organismos, causando inflamações crônicas e doenças autoimunes. Esses compostos também podem passar ao longo da cadeia alimentar e serem encontrados até mesmo no leite materno.

Um dos grandes problemas é que os agrotóxicos são altamente persistentes, ou seja, permanecem na água e solo por muito tempo, além de serem carregados pelo ar, o que aumenta o seu potencial de contaminação. Dados do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, mostram que neste ano foi detectada, em mais de 2,3 mil cidades brasileiras, água “potável” contaminada por agrotóxicos.

São 27 substâncias persistentes ao tratamento convencional da água e quando combinadas atingem 99% do valor máximo tolerado pela legislação brasileira, que é 2.706 vezes o limite dos países europeus, segundo apresentado por pesquisadores e entidades em audiência pública da Fiocruz Brasília em 2019 sobre o tema.

Não podemos esquecer que se a água pós-tratamento está contaminada, aquela presente nos corpos hídricos o está continuamente. E isso compromete a conservação da biodiversidade, o funcionamento de ecossistemas e, consequentemente, a segurança hídrica.

A Associação Brasileira de Limnologia ao apontou isso ao portal de notícias UOL, em maio. A produção de água, de acordo com a bióloga Vivian Cionek, ultrapassa a capacidade da infraestrutura de concreto das estações de tratamento, que, por sua vez, demanda mais que as capacidades de mão de obra técnica e recursos de muitos municípios. Para ela, produzir água potável integra um ciclo biogeoquímico dependente da conservação da bacia hidrográfica com sua vegetação natural e livre de lançamentos de resíduos e efluentes.

O Brasil abriga, respectivamente, 20 % do total de espécies e 13,7 % da água doce disponível do planeta. Recursos nacionais, porém, importantíssimos para o equilíbrio do mundo.

Além disso, o uso indiscriminado dos agrotóxicos pode causar sérios problemas para a biodiversidade, afetando serviços ecossistêmicos essenciais para a vida dos seres humanos. Alguns dos ingredientes ativos dos agrotóxicos são inseticidas fatais para as abelhas. Esses insetos contribuem para a manutenção de populações de plantas nativas que sustentam a existência de diversas espécies e também para a produtividade agrícola.

No Brasil, as abelhas estão associadas a 132 (92%) cultivos diferentes, sendo polinizadores exclusivos de 74 deles.

É estimado que o valor do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no país gira em torno de R$ 43 bilhões anuais (cálculo realizado para 67 plantas, entre elas soja, café, laranja e maçã que representam 80% desta quantia). Por isso, a redução das populações de abelhas, além de ter um impacto negativo para a biodiversidade, também pode levar a prejuízos econômicos para o setor agrícola.

O Brasil é um dos líderes na exportação de culturas agrícolas, como a soja, que é destinada a diversos países, especialmente para a produção animal. Por isso, a possível aprovação deste PL (que agora aguarda avaliação pelo Senado Federal) deveria ser uma preocupação global, uma vez que o uso de insumos produzidos com agrotóxicos na alimentação animal afeta também a qualidade do produto final. Como já avaliado em um relatório da Organização das Nações Unidas em 2017, nós não precisamos de mais agrotóxicos para alimentar o mundo. Existem soluções que já são bem conhecidas para aumentar a produtividade e que não requerem o uso intensivo de agrotóxicos, como a agroecologia.

Inclusive um projeto de lei alternativo (PL 6670/2016) poderia colocar o Brasil em uma direção melhor, iniciando um programa nacional de redução de pesticidas. Porém, esta proposta tem recebido menos atenção e é improvável que se torne lei sob o governo atual. O fortalecimento das agências ambientais e o investimento em ciência e tecnologia, especialmente baseados em espécies e produtos nacionais, são medidas necessárias para atingirmos o desenvolvimento sustentável no agronegócio.

Autores
AFONSO MURATA é professor titular do Departamento de Fitotecnia e Fitossanitarismo e membro do Observatório de Agrotóxicos da UFPR
ANDRÉ CAVALCANTE é engenheiro ambiental e mestrando em Engenharia Ambiental (PPGEA) da UFPR
NATALI MILLER é bióloga, mestre em aquicultura e desenvolvimento sustentável e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFPR
LAÍS CARNEIRO é engenheira ambiental (UNIFEI) e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFPR
LARISSA FARIA é mestre em Ecologia e Conservação pela UFPR
JEAN VITULE é professor no Departamento de Engenharia Ambiental e coordena o Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR
➕ Artigo baseado no comentário “Brazilian pesticides law could poison the world“, publicado na seção de cartas da revista Science em abril.

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Este texto foi originalmente publicado pela Ciência UFPR [Aqui!].

Depois do Carbendazim, neonicotinoides e Fipronil entram na mira da justiça

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Por Leonardo Gottems para o Agrolink

A Justiça brasileira fixou prazo para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) concluir os processos de reavaliação de toxicidade dos ingredientes ativos Tiametoxam, Clotianidina e Fipronil. De acordo com decisão da juíza Clarides Rahmeier, da 9ª Vara Federal, Tiametoxam e Clotianidina devem ser reavaliados em seis meses, enquanto o Fipronil deve ter uma decisão em doze meses.

A procuradoria federal (MPF) ingressou com a ação alegando a demora do trâmite administrativo do Ibama em concluir as análises dos ingredientes ativos. De acordo com a promotoria, há indicativos de que as substâncias causam efeitos danosos às abelhas, conduzindo à mortandade massiva destes insetos polinizadores.

Confira no AGROLINKFITO os produtos que contém esses ingrediente ativos.

Ao analisar o caso, a juíza Clarides Rahmeier justificou o prazo para a conclusão alegando que o procedimento de reavaliação dos ingredientes Tiametoxam e Clotianidina começou em 2014 e do Fipronil ainda nem iniciou.

A magistrada entendeu que este procedimento é de “extrema complexidade, envolvendo a manifestação de órgãos diversos e a realização de diligências, que conduzem a concessão não só de prazos legais para tais manifestações, mas também prazos razoáveis e consentâneos para a perfectibilização das diligências”. 

Mesmo reconhecendo “as dificuldades técnicas, físicas, funcionais ou materiais encontradas pela autarquia ré, há que se considerar que tais circunstâncias não podem ser suscitadas para justificar a violação a mandamento fundamental, sobretudo diante da incidência ao caso do princípio da razoável duração do processo, inclusive em procedimentos administrativos”.

Segundo ela, “a demora excessiva no impulsionamento do processo administrativo causa evidentes prejuízos e insegurança para a tutela do meio ambiente ecologicamente equilibrado, além de violar diversos princípios aplicáveis à Administração Pública, em especial o princípio da razoável duração do processo administrativo”.

A juíza determinou ainda que o Ibama deverá apresentar, em 30 dias, um cronograma de tramitação para cumprir os prazos fixados. Desta decisão cabe recurso no Tribunal Regional Federal da 4ª Região.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo Agrolink [Aqui!].

Brasil é principal destino de agrotóxico banido na Europa e ligado à morte de abelhas

  • Agrotóxico produzido pela Syngenta e que seria exportado pela Bélgica costuma ser aplicado em plantações de soja
  • MPF tenta barrar pulverização com neonicotinóides no Brasil
  • Morte de meio bilhão de abelhas no Brasil esteve relacionada à pesticida do grupo dos neonicotinóides
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Por Rute Pina, Agência Pública/Repórter Brasil

O Brasil é o destino de mais da metade dos registros de exportações da União Europeia de agrotóxicos proibidos na Europa e associados à morte de abelhas. São inseticidas à base de três neonicotinóides: tiametoxam, imidacloprido e clotianidina. Entre setembro e dezembro de 2020, mais de 3,8 mil toneladas dessas substâncias foram registradas para serem exportadas na Agência Europeia das Substâncias Químicas (ECHA) —  o Brasil era o destino de 2,2 mil toneladas, 58% do total.

Os dados inéditos, obtidos com exclusividade pela Agência Pública e a Repórter Brasil, são resultado de um levantamento da Public Eye, organização suíça, em parceria com a Unearthed, braço de jornalismo investigativo do Greenpeace. É a primeira vez que são revelados números sobre a quantidade dos pesticidas neonicotinoides enviados ao exterior por países europeus. As substâncias imidacloprido, clotianidina e tiametoxam foram banidas na União Europeia em 2018. Desde setembro de 2020, empresas de lá são obrigadas a notificar exportações de produtos com esses princípios ativos. As notificações são estimativas emitidas antes de o produto ser despachado. 

Os produtos registrados para serem enviados ao Brasil foram produzidos por duas empresas: Syngenta e Bayer. Ao todo, eles continham 318 toneladas das substâncias ativas proibidas. 

O principal deles foi o Engeo Pleno S, produzido pela Syngenta na Bélgica — a empresa registrou mais de 2,2 milhões de litros do produto para ser enviado para o Brasil. Ele é o mais vendido pela Syngenta no país e costuma ser utilizado principalmente por produtores de soja. O Engeo contém uma mistura do neonicotinóide tiametoxam e do inseticida lambda-cialotrina, também altamente tóxico para as abelhas.

Às organizações, a Syngenta respondeu que “seus produtos são seguros e efetivos quando usados dentro das recomendações” e que “a empresa atua sempre de acordo com a legislação e regulamentação local”. A Syngenta ainda afirmou que “atesta a segurança e a eficácia do tiametoxam” e que, “sem pesticidas, as perdas [na produção agrícola] seriam catastróficas”.

Já a Bayer respondeu que “apesar de aceitar a decisão da União Europeia de cessar a aprovação aos neonicotinoides, a empresa destaca que agências reguladoras por todo o mundo confirmaram o uso seguro desses produtos após revisões cuidadosas.”. A empresa, contudo, confirmou que “a pulverização deve ser estritamente evitada em plantações que atraiam abelhas durante a floração para evitar exposição desses insetos”.

Além do Brasil, outros 59 países estão na lista de destinos dos produtos proibidos na União Europeia. Os principais são a Rússia, Ucrânia, Argentina, Irã, África do Sul, Indonésia, Gana, Mali e Cingapura. Já a lista dos maiores exportadores é encabeçada pela Bélgica, França e Alemanha, seguidos por Espanha, Grécia, Reino Unido, Dinamarca, Áustria e Hungria.

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Morte de meio bilhão de abelhas no Brasil esteve relacionada à pesticida do grupo dos neonicotinóides. Imagem meramente ilustrativa/Instituto Biológico

Os neonicotinóides são quimicamente semelhantes à nicotina e matam insetos atacando seu sistema nervoso central. Eles foram introduzidos na década de 1990 e são os inseticidas mais usados ​​no mundo. Altamente solúveis em água, eles podem ser facilmente transportados para lagos, rios e lençóis freáticos, além de se acumularem no solo.

No Brasil, MPF tenta barrar pulverização com neonicotinóides

Os dados obtidos pela Unearthed e Public Eye foram publicados no momento em que a Comissão Europeia avalia pôr fim à fabricação dos produtos para exportação, um passo adiante após a proibição do uso das substâncias na Europa. 

Em resposta às organizações que realizaram a investigação, a Hungria e o Reino Unido afirmaram que o sistema atual é baseado no consentimento prévio dos países importadores. Bélgica, Dinamarca e França afirmaram apoiar uma proibição local de exportação. Na França, a proibição de exportação de pesticidas proibidos na União Europeia já foi imposta e entrará em vigor em 2022. Esta medida “deve ser adotada e implementada” na região, diz o governo francês, porque “não é aceitável expor o meio ambiente e a saúde em outros países” a estas substâncias. A Espanha também sinalizou proposta nesta direção. Já a Alemanha diz estar “ansiosa” por propostas concretas da Comissão Europeia sobre o tema. 

A Comissão Europeia assumiu o compromisso de acabar com esta prática em outubro de 2020, após um primeiro levantamento da Unearthed e Public Eye revelarem que fabricantes da UE despachavam milhares de toneladas de pesticidas proibidos para países pobres.

No Brasil, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou, em agosto deste ano, uma ação civil pública contra o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para que o órgão ambiental proíba a pulverização aérea de agrotóxicos com as três substâncias neonicotinóides exportadas pela Europa (imidacloprido, clotianidina e tiametoxam), além do pirazol.

O Ibama já havia proibido a pulverização aérea dessas substâncias em 2012. O órgão, no entanto, liberou provisoriamente a aplicação dos pesticidas em lavouras de algodão, arroz, cana-de-açúcar, soja e trigo até que fossem encerrados os processos de reavaliação dos efeitos sobre o meio ambiente — o que até hoje não ocorreu. 

O procurador da República Matheus Baraldi Magnani, autor da ação civil pública, considera o número de mortes de abelhas um caso “extremamente grave, subdimensionado e silencioso” e analisa que a omissão do Ibama consolidou, na prática, a autorização para o uso dos pesticidas. “Tal problema é diariamente agravado pela inconstitucional escolha do Poder Público em priorizar fortes setores econômicos em detrimento do meio ambiente”, argumentou Magnani no documento. “A pulverização aérea de neonicotinóides e pirazol é, numa analogia, uma assassina silenciosa para as abelhas, assim como o monóxido de carbono é para os humanos”, disse. 

Os pedidos do MPF restringem-se à aplicação dos produtos com uso de aviões. Caso a Justiça Federal acolha os requerimentos, ainda será permitida a pulverização terrestre. 

Meio bilhão de abelhas mortas em três meses

Em 2019, um levantamento da Pública e Repórter Brasil mostrou que mais de 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas em quatro estados brasileiros em apenas três meses, entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019. Foram 400 milhões no Rio Grande do Sul, 7 milhões em São Paulo, 50 milhões em Santa Catarina e 45 milhões em Mato Grosso do Sul, segundo estimativas de Associações de apicultura, secretarias de Agricultura e pesquisas realizadas por universidades.

Em Cruz Alta, município de 60 mil habitantes no Rio Grande do Sul, mais de 20% de todas as colmeias foram perdidas apenas entre o Natal de 2018 e o começo de fevereiro de 2019. Cerca de 100 milhões de abelhas apareceram mortas, segundo a Apicultores de Cruz Alta (Apicruz).

O principal causador das mortes das abelhas é o contato com agrotóxicos à base de neonicotinóides e de pirazol, proibido na Europa há mais de uma década. Um estudo de 2018 da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) demonstrou que 67% das mortes em coletas de abelhas analisadas em São Paulo — estado que representa 10% da produção nacional de mel — ocorreram devido ao uso incorreto dos inseticidas. 

As abelhas são as principais polinizadores da maioria dos ecossistemas do planeta e promovem a reprodução de diversas espécies de plantas. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana e produção animal, cerca de 60% dependem em certo grau da polinização deste inseto. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas.

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Sem abelhas, sem alimentos; insetos são responsáveis pela polinização e reprodução de diversas espécies de plantas. Imagem meramente ilustrativa/George Campos/USP

Cada espécie é mais propícia para polinização de determinadas culturas, explica Carmem Pires, pesquisadora da Embrapa e doutora em Ecologia de Insetos. O resultado é que, se as abelhas fossem extintas, deixaríamos de consumir frutas como a mangaba. Ou elas ficariam mais caras, já que o trabalho de polinização para produzi-la teria que ser feito manualmente pelo ser humano.

A estudiosa conta que até em lavouras que não são dependentes da ação direta dos polinizadores, a presença de abelhas aumenta a safra. “Na de soja, por exemplo, é identificado um aumento em 18% da produção. É importante destacar também o efeito em cadeia. As plantas precisam das abelhas para formar suas sementes e frutos, que são alimento de diversas aves, que por sua vez são a dieta alimentar de outros animais. A morte de abelhas afeta toda a cadeia alimentar.”

No Brasil, há mais de 300 espécies de abelhas nativas — entre elas Melipona scutellaris, Melipona quadrifasciata, Melipona fasciculata, Melipona rufiventris, Nannotrigona testaceicornis, Tetragonisca angustula. Em todo país, contando com as estrangeiras, há cerca de 1,6 mil espécies do inseto, segundo relatório do Ibama. Histórias como essa precisam ser conhecidas e debatidas pela sociedade. A gente investiga para que elas não fiquem escondidas por trás de interesses escusos. Se você acredita que o jornalismo de qualidade é necessário para um mundo mais justo, nos ajude nessa missão. Seja nosso Aliado

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Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto, e foi inicialmente publicada [Aqui!].

Apocalipse das abelhas: déficit de polinizadores se torna um problema crítico no sul global

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O Brasil enfrenta a escassez de abelhas, responsáveis ​​pela polinização de uma de suas principais árvores frutíferas, o maracujá, criando condições para seu ninho no entorno das lavouras. Mudanças no uso da terra, gestão da terra e uso de pesticidas são os principais responsáveis ​​pela perda global de polinizadores. Crédito da imagem: Andrei / Flickr , licenciado sob Creative Commons 2.0

Por Claudia Mazzeo para a SciDev

A redução global de animais essenciais para a polinização de plantações e plantas é causada principalmente por mudanças no uso da terra, má gestão da terra e aplicação de pesticidas, especialmente no Sul global, de acordo com uma avaliação global recente.

As conclusões deste trabalho são fundamentais para a adaptação de políticas globais para deter / reverter o declínio dos polinizadores – abelhas, beija-flores, borboletas, moscas e até morcegos, entre outros – essenciais para a reprodução de mais de 75 por cento dos polinizadores. colheitas e flores, com um papel importante na nutrição e também social e economicamente.

De acordo com um estudo global realizado em 2016 , na última década, as safras dependentes de polinizadores aumentaram em volume em mais de 300 por cento, mas seu crescimento de produção foi menor do que o das safras independentes de polinizadores. Embora vários fatores possam desempenhar um papel, estudos mostram que a produção diminui quando os polinizadores diminuem.

Publicado na Nature Ecology & Evolution , o novo estudo foi conduzido por uma equipe internacional de 20 especialistas em polinização, selecionados para cobrir uma ampla gama de perspectivas, incluindo biodiversidade , economia, ciências sociais e conhecimento indígena .

Por meio de pesquisa e análise de literatura e discussão em grupo, a equipe avaliou a importância regional e global de oito fatores no declínio de polinizadores: polinizador, manejo de pragas e patógenos, uso de agrotóxicos, manejo da terra, uso da terra., Espécies exóticas invasoras, organismos geneticamente modificados ( OGM) e mudanças climáticas .

Também incluíram 10 riscos consequentes ao bem-estar humano, agrupados de acordo com seu impacto na diversidade alimentar ou “ biocultural ”, ou seja, a variedade de inter-relações entre as pessoas e a natureza desenvolvidas ao longo do tempo em ecossistemas específicos.

“A América Latina corre um risco substancial de perder os benefícios ambientais dos polinizadores e o apoio à sua incrível diversidade de plantas, bem como os benefícios que eles dão às pessoas ao polinizar as plantações que comem e exportam.”

Tom Breeze, Center for Agro-Ambiental Research – School of Agriculture, Policy and Development, University of Reading, Reino Unido

Enquanto a equipe classificou o manejo da terra como “menos importante” na África, os pesticidas foram classificados como fatores “importantes” ou “muito importantes” para o declínio dos polinizadores em todas as regiões, especialmente na Ásia-Pacífico e na América Latina.

Os efeitos das mudanças climáticas foram considerados ‘desconhecidos’ devido à escassez de dados de longo prazo e os OGMs foram considerados o fator menos importante no geral, exceto na América Latina.

“Um dos maiores desafios na conservação dos polinizadores é saber o que fazer, onde e como isso pode afetar as pessoas. Este estudo nos dá uma primeira indicação de quais são as maiores pressões sobre os polinizadores em diferentes partes do mundo e, mais importante, o risco dos benefícios que obtemos dos polinizadores ”, disse Tom Breeze à SciDev.Net , coautor da pesquisa publicado na Nature Ecology & Evolution.

Chris Rhodes, diretor da Fresh-Lands Environmental Actions, uma consultoria independente de energia e meio ambiente em Berkshire, Inglaterra, que não estava envolvido na pesquisa, acrescentou: “Este estudo fez um progresso significativo na avaliação dos fatores considerados responsáveis. em polinizadores em escala global ”.

Apesar da onipresença dos três principais motores da redução de polinizadores, as ameaças enfrentadas pelas regiões não são as mesmas.

“A América Latina corre um risco substancial de perder os benefícios ambientais dos polinizadores e o apoio à sua incrível diversidade de plantas, bem como os benefícios que eles trazem para as pessoas ao polinizar as plantações que comem e exportam”, disse Breeze.

A diminuição da quantidade e da qualidade das safras de alimentos e biocombustíveis foi considerada um dos maiores riscos para o homem em todas as regiões. Os especialistas classificaram o risco de “instabilidade” na produção agrícola como grave ou alto em dois terços do mundo, da África à América Latina.

Com nuances diferentes, a diminuição dos polinizadores deixa sua marca em todo o planeta. Como exemplifica Leonardo Galetto, especialista argentino e um dos coautores da pesquisa, o cultivo de amêndoas na Califórnia – que representa milhões de dólares por ano – leva produtores a alugar colmeias em outras partes do país durante a época de floração .

Na China, a ausência de polinizadores obriga os agricultores a polinizar manualmente as árvores frutíferas, como cerejas e pêssegos, enquanto em Israel a tarefa é realizada por polinizadores robôs, acrescenta Galetto. O Brasil enfrenta a escassez de abelhas, responsáveis ​​pela polinização de uma de suas principais árvores frutíferas, o maracujá, criando condições para seu ninho no entorno das lavouras.

“Não podemos parar de produzir, mas devemos introduzir mudanças urgentes nos sistemas de produção, parar a poluição, proteger os polinizadores e administrar a terra”, diz Galetto, da Faculdade de Ciências Exatas, Físicas e Naturais da Universidade de Córdoba, Argentina.

Naquele país, um dos principais exportadores de soja do mundo, antes da introdução dessa monocultura havia um grande número de polinizadores. Desde a década de 1990, não apenas os polinizadores nativos diminuíram, mas a saúde das colmeias também foi afetada.

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Este artigo foi escrito inicialmente em Espanhol e publicado pela SciDev [Aqui!].

Nature publica estudo mostrando efeito sinergístico entre agrotóxicos e outros estressores na mortalidade de abelhas

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Um estudo realizado por pesquisadores ingleses e estadunidenses  liderados pelo professor Harry Siviter, do Department of Biological Sciences, Royal Holloway University of London, que acaba de ser publicado pela revista Nature, identificou um processo de sinergia (ou seja, ação simultânea) entre agrotóxicos e outros potenciais estressores (e.g., problemas nutricionais e parasitas) na mortalidade de abelhas.  Este estudo aponta ainda que a exposição simultânea a múltiplos agrotóxicos pode aumentar o nível de estresse e os impactos advindos da interação com os outros estressores.

Os resultados deste estudo apontam para a possibilidade de que os esquemas de avaliação de risco ambiental que pressupõem  efeitos aditivos do risco de exposição a agroquímicos podem estar subestimando o efeito interativo de estressores antropogênicos na mortalidade das abelhas, e com isso estão falhando em proteger os polinizadores que fornecem um serviço ecossistêmico fundamental para a agricultura.

Como resultado, os pesquisadores sugerem a realização de observações pós-licenciamento em grande escala como uma etapa final do processo regulatório envolvendo a comercialização de agrotóxicos.  Para justificar esta sugestão, os pesquisadores apontam que ainda que o monitoramento pós-licenciamento, apesar de ser uma característica crítica da liberação de produtos químicos para a saúde pública, não é nem relatado ou, tampouco, realizado de forma sistemática. 

Em conclusão, os autores do artigo afirmam que a forma atual de liberar agrotóxicos  não protege as abelhas das consequências indesejáveis de exposição a agrotóxicos complexos.

Quem desejar baixar o artigo intitulado “Agrochemicals interact synergistically to increase bee mortality“, basta clicar [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: aproveitando o caos causado pela pandemia, governo Bolsonaro acelera a aprovação de agrotóxicos

Com mais 39 liberações, governo Bolsonaro alcança 1.139 agrotóxicos liberados desde janeiro de 2019

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Em meio ao avanço catastrófico da COVID-19 e toda a agitação política em torno dos supostos malfeitos cometidos pelo presidente Jair Bolsonaro na condução da resposta governamental à pandemia, os braços executivos do governo federal continuam operando com a agilidade conhecida, especialmente em se tratando da liberação de agrotóxicos. Assim é que , em meio à situação caótica imperando no Brasil neste momento, o Ministério da Agricultura fez publicar no Diário Oficial da União do dia de ontem (13/04), o Ato No. 19 de 07 de abril de 2021 por meio do qual foram liberados mais 39 produtos no mercado brasileiro, totalizando 1.139 liberações desde janeiro de 2019.

Esse ritmo de aprovações não possui nenhum paralelo no que foi praticamente anteriormente, pois essas 1.072 liberações feitas em apenas 26 meses representam 35% de todos os produtos disponíveis no mercado (i.e., 3.197), evidenciando um ritmo para lá de frenético na hora de liberar agroquímicos proibidos em outras partes do mundo por causa dos graves danos que causam à saúde humana e ao meio ambiente.

A propensão de aprovar produtos banidos em outras partes do mundo fica evidente quando se verifica que 28% dos produtos liberados  pelo Ato No. 19 de 07 de abril de 2021 estão proibidos na União Europa. Dentre eles se destacam os conhecidos Fipronil, Acefato, Ametrina e Atrazina. Em conjunto, esses grupos já foram confirmados como causadores de diferentes tipos de câncer e também capazes de alterar substancialmente o sistema glandular humano.

Who's killing the bees? New study implicates virtually every facet of  modern farming - ExtremeTech

Além disso, o Fipronil que é conhecido por causar o extermínio de espécies não-alvo e que são essenciais para a agricultura por serem polinizadores (como é o caso das abelhas) teve mais três versões aprovadas, sendo que agora passamos a ter 24 variações do Fipronil liberadas para comercialização direta ou para emprego na formulação de outros produtos. Em outras palavras, o governo Bolsonaro prepara, apenas com as liberações de Fipronil, uma verdadeira hecatombe para as populações de abelhas no Brasil.

Civil Society Calls on the EU to Prohibit Exports of Banned Pesticides -  Slow Food International

E o mais peculiar é que o grosso dos agrotóxicos estão sendo liberados para uso nas grandes monoculturas destinadas a produzir grãos e outras commodities para exportação, como é o caso da soja, do milho, do algodão e da cana-de-açúcar, reforçando o caráter do Brasil de ser um grande latifúndio operando para servir os interesses das grandes cadeias que controlam o mercado global de commodities.

Quem desejar acessar a base de dados relativa ao Ato No. 19 de 07 de Abril de 2021, basta clicar [Aqui!]. Para os que desejarem baixar a base contendo os 1.139 liberados desde o início do governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!].

Pássaros versus abelhas: aqui estão os vencedores e os perdedores na grande troca de agrotóxicos

Honey Bee (Apis mellifera) covered in pollen in pumpkin, Germany

O uso crescente de inseticidas neonicotinóides está prejudicando os polinizadores, como esta abelha em uma flor de abóbora. IMAGENS DE KONRAD WOTHE / MINDEN
Por Erik Stokstad para a Science

As fazendas são campos de batalha, colocando os cultivadores contra pragas vorazes e ervas daninhas agressivas em campanhas caras e sem fim que geralmente envolvem armas químicas. Essas armas, infelizmente, também prejudicam espectadores inocentes, como abelhas, peixes e crustáceos. Agora, um grande estudo mostra mudanças épicas que ocorreram nas últimas décadas, conforme os agricultores dos EUA mudaram seu arsenal de pesticidas. Aves e mamíferos se saíram muito melhor, enquanto polinizadores e invertebrados aquáticos estão sofrendo. O impacto tóxico nas plantas terrestres também disparou, provavelmente porque os agricultores estão usando cada vez mais tipos de produtos químicos para combater ervas daninhas que se tornaram resistentes aos herbicidas comuns.

“Essas tendências mostram mudanças notáveis ​​na toxicidade ao longo do tempo”, diz John Tooker, entomologista da Universidade Estadual da Pensilvânia, University Park, que não participou da nova pesquisa. “A escala do que eles fizeram é realmente impressionante”, acrescenta a ecotoxicologista Helen Poynton, da Universidade de Massachusetts, em Boston.

Nas últimas décadas, a quantidade de inseticidas usados ​​nos Estados Unidos caiu cerca de 40%. Mas, ao mesmo tempo, os ingredientes ativos se tornaram mais poderosos. Por exemplo, os piretróides, inseticidas de ação rápida que afetam o sistema nervoso, são muito tóxicos em concentrações extremamente baixas. Alguns requerem apenas 6 gramas por hectare, em comparação com vários quilos dos pesticidas organofosforados e carbamatos mais antigos. Isso fez Ralf Schulz, um ecotoxicologista da Universidade de Koblenz e Landau, se perguntar se a toxicidade geral do ecossistema havia mudado. Alguns estudos examinaram certos compostos e organismos , mas nada foi feito em escala nacional.

Schulz e colegas começaram com os dados do US Geological Survey sobre o uso autorrelatado de pesticidas por agricultores dos EUA de 1992 a 2016. Eles também coletaram dados de toxicidade aguda da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) sobre esses mesmos compostos – 381 ao todo. Em seguida, eles compararam os níveis de limite regulatório da EPA – o ponto em que uma substância pode prejudicar a vegetação ou a vida selvagem – com a quantidade de cada pesticida aplicado aos campos agrícolas e determinaram uma “toxicidade total aplicada”.

A boa notícia é que a toxicidade total despencou mais de 95% para pássaros e mamíferos de 1992 a 2016, relata a equipe hoje na Science , em grande parte por causa da eliminação de pesticidas mais antigos. A toxicidade para os peixes diminuiu menos – cerca de um terço – porque eles são mais sensíveis aos piretróides. A má notícia: os piretróides causaram o dobro da toxidade para os invertebrados aquáticos, como o plâncton e as larvas de insetos, que são uma parte importante das cadeias alimentares. E outra classe popular de pesticidas, os neonicotinóides, dobrou o risco para polinizadores como as abelhas e os zangões. Essa compensação geral – vertebrados impactaram menos e invertebrados atingiram mais fortemente – também foi observada em um estudo menor.

Para alguns pesticidas e espécies, no entanto, estimar o impacto no mundo real é complicado. Isso ocorre porque muitos fatores afetam se um produto químico prejudicará plantas ou animais, como o clima ou a época do ano. Para ver como os pesticidas afetaram diretamente os crustáceos aquáticos e insetos, os pesquisadores analisaram dados de exposição tóxica revisados ​​por pares em 231 lagos e riachos nos Estados Unidos. Quando compararam os dados com a quantidade de pesticidas aplicados nas proximidades, eles encontraram uma correlação “relativamente forte”.

As plantas também foram impactadas. Desde 2004, a toxicidade total aplicada de herbicidas dobrou em plantas terrestres. Um dos principais herbicidas que contribuem para o aumento é o glifosato, que simplificou a agricultura, melhorou a conservação do solo e permitiu que os agricultores abandonassem os herbicidas mais tóxicos após o advento de plantações geneticamente modificadas para tolerar o glifosato na década de 1990. Mas, desde então, algumas ervas daninhas desenvolveram resistência ao glifosato e os agricultores estão pulverizando outros tipos de herbicidas. Isso ameaça as plantas com flores que crescem nas margens do campo, fornecendo alimento e habitat para outras espécies.

Até mesmo uma espécie de cultivo geneticamente modificada para reduzir o uso de pesticidas – milho contendo uma substância química que mata insetos, chamada Bacillus thuringiensis ( Bt ) – viu sua exposição tóxica aumentar rapidamente. A toxicidade total aplicada no milho Bt tem aumentado tão rapidamente – 8% ao ano na última década – quanto no milho não geneticamente modificado. “Foi um pouco surpreendente”, diz Schulz. “Eu não esperava isso, devo admitir.” O motivo, Schulz suspeita, é que as pragas estão desenvolvendo resistência a produtos químicos que são usados ​​em demasia em ambos os tipos de milho, exigindo aplicações mais frequentes. “Esse é realmente um dos maiores problemas de que a agricultura está sofrendo”.

Schulz espera que os resultados ajudem os formuladores de políticas e outros a pensar de forma mais ampla sobre a complexidade do controle de pragas e ervas daninhas e as compensações para as espécies selvagens, a fim de reduzir os danos não intencionais. Tooker observa que o aumento da toxicidade em plantas e invertebrados aquáticos pode levar a um habitat menos diversificado e recursos alimentares que eventualmente se propagam pelas populações de animais, potencialmente causando perdas. “Os padrões de uso de pesticidas nos Estados Unidos e os dados de toxicidade devem servir de advertência para o resto do mundo, muitos dos quais parecem estar mais inclinados ao uso de pesticidas do que às interações ecológicas para o controle de pragas.”

Em última análise, essas decisões se resumem em como a sociedade valoriza vários grupos de espécies, diz Edward Perry, economista agrícola da Universidade Estadual do Kansas, em Manhattan. Por exemplo, os reguladores poderiam restringir o uso de neonicotinóides, como aconteceu na União Europeia, para beneficiar os polinizadores. Mas os agricultores provavelmente mudariam para outros inseticidas que poderiam representar riscos diferentes para as espécies – ou enfrentariam rendimentos mais baixos e preços mais altos dos alimentos.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela revista Science [Aqui!].

Agrotóxico neonicotinóide Tiametoxam é banido do cultivo de beterraba no Reino Unido por exterminar abelhas

O governo inglês reverteu a proibição de um neonicotinóide no início deste ano – mas diz que o uso produto químico não era mais necessário

AbelhasO Wildlife Trusts ameaçou levar o governo a tribunal, a menos que pudesse provar que agiu legalmente. Fotografia: Odd Andersen / AP

Por Mattha Busby para o The Guardian

Um agrotóxico que reduz as populações de abelhas e que deveria ser usado nos campos de beterraba da Inglaterra este ano não será usado depois que o frio recente matou pulgões transmissores de vírus.

O governo quebrou uma promessa explícita no início deste ano, ao reverter a proibição de um produto contendo o neonicotinóide Tiametoxam, sancionando seu uso emergencial ao ar livre este ano por causa da ameaça representada por um vírus após a pressão da National Farmers ‘Union e da British Sugar.

A decisão gerou protestos e ameaças de uma ação legal contra o governo. Mas o secretário de meio ambiente disse agora que o limite para seu uso não foi atingido depois que a modelagem indicou que apenas 8% da safra de beterraba estava provavelmente infectada com o vírus da doença dos amarelos este ano.

Embora haja uma consciência crescente do papel prejudicial desempenhado pelo açúcar refinado no desenvolvimento de problemas de saúde de longo prazo, a indústria local no Reino Unido continua altamente lucrativa. Mas há uma preocupação crescente com o efeito de agrotóxicos nocivos sobre os polinizadores em um momento de grave declínio dos insetos e dos ecossistemas locais, especialmente porque os produtos químicos podem correr para os rios, em meio à falta de salvaguardas sobre seu uso.

O Dr. Doug Parr, cientista-chefe do Greenpeace no Reino Unido, disse que as evidências do risco que os neonicotinoides representam para os polinizadores continuam a aumentar e que este deve ser o “último caso do governo com esses produtos químicos que matam as abelhas”.

“A agricultura depende completamente do apoio de ecossistemas que os agrotóxicos estão erodindo, e manter nossa capacidade de nos alimentarmos exige que o governo estabeleça uma meta nacional ambiciosa de redução de pesticidas e apoie os agricultores na mudança para alternativas sustentáveis”, acrescentou.

Wildlife Trusts disse que pressionaria por uma revisão judicial, a menos que o governo pudesse “provar que agiu legalmente” sobre a reviravolta na proibição em janeiro. Na terça-feira, congratulou- o anúncio, mas alertou que “a ameaça dos neonicotinóides não desapareceu”.

O secretário do Meio Ambiente (Defra), George Eustice, disse: “A autorização de emergência necessária para um neonicotinóide nos cultivos de beterraba é um grande exemplo da abordagem de precaução em ação.

“A autorização foi concedida com condições estritas, incluindo apenas permitir a aplicação se as condições meteorológicas durante o inverno levaram a um problema com pulgões. No caso, esse limite de praga não foi ultrapassado, então este tratamento de sementes não será usado este ano. ”

O Defra disse que impôs condições estritas à autorização, o que significa que o pesticida só poderia ser usado se a modelagem previsse que o nível de infecção do vírus chegaria a 9% em toda a safra nacional.

Victoria Prentis, ministra do Defra, disse à BBC em janeiro que o uso do Tiametoxam “não era o ideal”, mas ela estava “convencida de que era apropriado”.

O presidente do conselho do açúcar da NFU, Michael Sly, disse: “Os produtores se comprometeram a tratar sementes de beterraba açucareira com neonicotinóides este ano se o risco para a safra for significativo”.

Formalmente, os membros da UE em 2018 baniram a maioria dos neonicotinóides para uso em plantações ao ar livre, para proteger as abelhas, mas 10 países permitiram o uso de emergência.

Quando o Reino Unido prometeu apoiar a proibição da UE de todos os usos externos de Tiametoxam, Michael Gove, então secretário do meio ambiente, disse: “O peso da evidência agora mostra os riscos que os neonicotinoides representam para o nosso meio ambiente, especialmente para as abelhas e outros polinizadores que ocupam um papel tão importante em nossa indústria de alimentos de £ 100 bilhões é maior do que se imaginava … Não podemos nos dar ao luxo de colocar em risco nossas populações de polinizadores. ”

Um pedido de emergência semelhante para a Inglaterra em 2018 foi recusado depois que conselheiros que monitoram o uso de agrotóxicos disseram que “causaria efeitos inaceitáveis ​​para as abelhas nas plantações e nas margens dos campos”.

Acrescentou que prejudicaria “pássaros e mamíferos que comem mudas de sementes tratadas e pássaros que consomem sementes peletizadas” e corre o risco de “impactar adversamente as populações de insetos aquáticos”.

Estudos mostram que os neonicotinóides prejudicam os polinizadores e a vida aquática e podem contribuir para o declínio sério da biodiversidade . A pesquisa também sugere que eles enfraquecem o sistema imunológico das abelhas, prejudicam o desenvolvimento do cérebro das abelhas bebês e podem deixá-las incapazes de voar. Outro estudo encontrou amostras de mel contaminadas por neonicotinóides.

Um artigo publicado recentemente na Scientific Reports descobriu “importantes efeitos subletais da exposição realista em campo a um neonicotinóide aplicado no solo sobre o comportamento das abelhas e o sucesso reprodutivo”.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo ” The Guardian”” [Aqui! ] .

Vida das abelhas é encurtada após exposição a dois agrotóxicos amplamente utilizados

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A vida das abelhas é reduzida – com evidência de estresse fisiológico – quando expostas às taxas de aplicação sugeridas de dois pesticidas comercialmente disponíveis e amplamente utilizados, de acordo com uma nova pesquisa da Oregon State University (OSU). A reportagem é de Chris Branamo, publicada pela OSU e reproduzida por EcoDebate, 24-06-2020. A tradução e a edição são de Henrique Cortez.

Em um estudo publicado na revista PLOS ONE, pesquisadores de abelhas da Faculdade de Ciências Agrícolas da OSU encontraram efeitos prejudiciais em abelhas expostas a Transform e Sivanto, que são registradas para uso nos Estados Unidos e foram desenvolvidas para serem mais compatíveis com a saúde das abelhas.

abelha é o principal polinizador de frutas, nozes, vegetais e sementes, que dependem da polinização para obter alta qualidade e rendimento.

Juntamente com outros estressores, como os ácaros, vírus e má nutrição, os efeitos desses pesticidas podem tornar as abelhas incapazes de executar suas tarefas sem problemas. Apicultores e alguns grupos ambientais têm levantado preocupações nos últimos anos sobre esses inseticidas e possíveis efeitos negativos sobre as abelhas.

Segundo os pesquisadores, este é o primeiro estudo a investigar os efeitos “sub-letais” do sulfoxaflor, o ingrediente ativo do Transform, e da flupiradifurona, o ingrediente ativo do Sivanto. Efeitos sub-letais significam que as abelhas não morrem imediatamente, mas sofrem estresse fisiológico, resultando em vida útil mais curta.

No caso de Transform, a vida das abelhas foi severamente reduzida. A maioria das abelhas expostas ao Transform morreu dentro de seis horas após a exposição, confirmando a toxicidade severa do pesticida para as abelhas quando expostas diretamente às taxas de aplicação em campo recomendadas no rótulo, disseram os pesquisadores.

O principal autor do estudo, Priyadarshini Chakrabarti Basu, associado de pesquisa de pós-doutorado no Honey Bee Lab da Faculdade de Ciências Agrícolas da OSU, enfatizou que os pesquisadores não estão pedindo que o Sivanto ou o Transform sejam retirados do mercado.

“Sugerimos que mais informações sejam colocadas nos rótulos desses produtos e que mais estudos precisam ser realizados para entender os efeitos subletais da exposição crônica”, disse Basu.

Sivanto e Transform são usados nas lavouras para matar pulgões, funis de folhas e moscas-brancas, entre outras pragas. Muitas dessas mesmas culturas atraem abelhas para a polinização. Existem algumas restrições ao seu uso. Por exemplo, a transformação não pode ser aplicada a culturas em flor, por exemplo.

As abelhas podem ser expostas indiretamente através da deriva de pesticidas, disse o co-autor do estudo Ramesh Sagili, professor associado de apicultura e especialista em extensão de abelhas da Faculdade de Ciências Agrícolas da OSU.

“O tempo médio de vida de uma abelha operária é de cinco a seis semanas na primavera e no verão; portanto, se você estiver reduzindo sua vida útil em cinco a 10 dias, isso será um grande problema”, disse Sagili. “A longevidade reduzida resultante do estresse oxidativo pode afetar negativamente a população de colônias e, finalmente, comprometer a aptidão das colônias.”

Para o estudo, os pesquisadores realizaram dois experimentos de exposição por contato: um estudo de seis horas e um estudo de 10 dias em maio de 2019. As abelhas foram obtidas de seis colônias saudáveis nos apiários da OSU. Em cada experimento, grupos de 150 abelhas foram colocados em três gaiolas. Um grupo foi exposto ao Transform, um segundo ao Sivanto e o terceiro foi um grupo controle que não foi exposto a nenhum desses pesticidas.

A mortalidade das abelhas, xarope de açúcar e consumo de água e respostas fisiológicas foram avaliadas em abelhas expostas ao Sivanto e Transform e comparadas às abelhas do grupo controle. A mortalidade em cada gaiola foi registrada a cada hora para o experimento de seis horas e diariamente para o experimento de 10 dias.

Embora o Sivanto não tenha sido diretamente letal para as abelhas após a exposição ao contato, os resultados de sobrevida em 10 dias revelaram que as taxas de aplicação de campo do Sivanto reduziram a sobrevida do adulto e causaram maior estresse oxidativo e apoptose nos tecidos das abelhas. Isso sugere que, embora o Sivanto seja aparentemente menos tóxico que o Transform, ele também pode reduzir a longevidade das abelhas e transmitir estresse fisiológico, de acordo com os autores do estudo.

Os co-autores do estudo incluíram a estudante Emily Carlson e a assistente de pesquisa da faculdade Hannah Lucas, que realizam pesquisas no Honey Bee Lab; e Andony Melathopoulos, professor assistente e especialista em Extensão em Saúde de Polinizadores.

Referência:

Priyadarshini Chakrabarti, Emily A. Carlson, Hannah M. Lucas, Andony P. Melathopoulos, Ramesh R. Sagili. Field rates of Sivanto™ (flupyradifurone) and Transform® (sulfoxaflor) increase oxidative stress and induce apoptosis in honey bees (Apis mellifera L.). PLOS ONE, 2020; 15 (5): e0233033. Disponível aqui.

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Este artigo foi publicado pela Instituto Humanitas da UNISINOS [Aqui!].

Relatório do Greenpeace/Alemanha aponta que Acordo EU/Mercosul aumenta as ameaças à biodiversidade

As duas dimensões dos venenos agrícolas: como as empresas da UE e da Alemanha se beneficiam do comércio de pesticidas perigosos para a biodiversidade

 

greenpeace pestizides

O Governo alemão não impede as empresas europeias de exportarem para o Brasil e distribuírem  ingredientes ativos de agrotóxicos altamente venenosos para as abelhas, e que estão proibidos na União Europeia (UE).  Estes fatos são apresentados em um estudo produzido pelo Greenpeace, que foi lançado no Dia Mundial da Biodiversidade que foi celebrado este ano no dia 22 de maio. Os agrotóxicos são uma parte essencial da agricultura industrializada, que, por sua vez, é parcialmente responsável pela perda da biodiversidade.

Segundo a análise apresentada no relatório do Greenpeace/Alemanha, por  exemplo, muito mais de metade dos ingredientes ativos comercializados pela Bayer e pela BASF no Brasil estão classificados como agrotóxicos altamente perigosos, e alguns deles estão proiboidos na UE.  Exemplo disso são os ingredientes ativos do fipronil, imidaclopride e clorpirifos, que são altamente perigosos para as abelhas (para mais informações ver (Aqui!).

“Estes agrotóxicos são venenosos para a biodiversidade”, diz Jürgen Knirsch, especialista do Greenpeace em questões comerciais. “É por isso que já não estão no mercado europeu. Mas a UE está fazendo um jogo duplo: O que é demasiado perigoso aqui ainda pode obviamente vir para o campo no Brasil – o principal é que o lucro está certo”.  O Brasil é de imensa importância para a biodiversidade, mas ao mesmo tempo é um dos maiores consumidores de pesticidas do mundo. E está a crescer rapidamente. “O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, não quer saber da preservação da biodiversidade, da proteção do clima ou da saúde humana”. Por conseguinte, a Greenpeace apela no sentido da aplicação de uma política comercial sustentável com regras vinculativas em  matéria de protecção do clima e das espécies, de proteção dos direitos humanos, e de normas laborais fundamentais.

Acordo UE-Mercosul: mais venenos para a biodiversidade

A UE negociou um acordo comercial com os Estados do Mercosul – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – que agravaria muitos problemas sociais e ambientais nos seus países-membros. O acordo, atualmente em processo de ratificação, permitirá aos países do Mercosul exportar grandes quantidades de carne bovina e de frango para a UE em condições pautais favoráveis. Isto aumentaria a procura de soja forrageira – que é cultivada com agrotóxicos altamente tóxicos, como o clorpirifos e o fipronil.  Os agrotóxicos, por sua vez,  serão exportados por empresas europeias para a América do Sul, embora já não sejam mais permitidas na Europa.  Espera-se também que o acordo elimine as tarifas existentes sobre a importação de agrotóxicos, o que provavelmente irá aumentar ainda mais as vendas.

A biodiversidade já está sob enorme pressão; por exemplo, só em Janeiro de 2019, morreram 500 milhões de abelhas no estado brasileiro de Santa Catarina devido aos
agrotóxicos utilizados no cultivo da soja.  Na Europa, a resistência ao acordo do Mercosul está aumentando. Mas enquanto países como a Áustria e  a França pedem melhorias nos termos do acordo,  a Alemanha, entre todos os países, está exercendo pressão no sentido de uma ratificação rápida. “Se a Alemanha não puser termo ao acordo na sua forma atual, será uma recompensa e uma confirmação para  as políticas de Bolsonaro, que está a espezinhar a proteção ambiental”, resume Knirsch. “Como vai ocupar a Presidência do Conselho da UE no segundo semestre de 2020, o governo alemão tem os meios para agir”.

Para baixar o relatório do Greenpeace da Alemanha, basta clicar [Aqui!]

Os interessados em obter maiores informações sobre este relatório devem contactar Jürgen Knirsch, Tel. 0171 8780 816 ou a assessora de imprensa Agneta Melzer, Tel. 0171
7249543.