Tribunal da França manobra e livra indústrias de agrotóxicos de condenação no caso Agente Laranja

Ao se declarar incompetente para julgar, corte francesa favorece indústrias de agrotóxicos que supriram exército dos EUA de armas químicas que até hoje fazem vítimas no Vietnã

agente-laranjaHelicóptero dos Estados Unidos despeja combinação de agrotóxicos altamente tóxicos sobre floresta no Vietnã

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – Um tribunal da França favoreceu indústrias de agrotóxicos ao se declarar incompetente para julgar uma ação na qual eram acusadas de causar diversas danos à saúde de Tran To Nga, uma ativista franco-vietamita de 79 anos. Em decisão anunciada nesta segunda-feira (10), a Justiça de Evry, nos arredores de Paris, declarou não ter competência para julgar a responsabilização da Bayer, dona da Monsanto, a Dow Química e mais uma dezena de fabricantes de herbicidas componentes do Agente Laranja, arma química usada pelos Estados Unidos contra o Vietnã.

O tribunal também se declarou incompetente para julgar ações do governo dos Estados Unidos durante a guerra contra aquele país asiático. Segundo a imprensa local, o argumento foi que “as empresas estavam agindo por ordem do governo dos Estados Unidos, que estava envolvido em um ato soberano”.

Entre 1962 e 1971, aviões e helicópteros das forças estadunidenses despejaram milhares de toneladas de Agente Laranja sobre florestas e lavouras. O objetivo era localizar e atingir soldados vietnamitas, além de quebrar a produção de alimentos do país.

Agrotóxicos na guerra

A ativista, uma ex-jornalista nascida em 1942 na então Indochina francesa, também acusou os fabricantes de agrotóxicos de causar danos graves a outras pessoas. Desde a guerra, mais de 150.000 crianças nasceram com graves deformidades. E muitos casos continuam sendo registrados mesmo após 50 anos do fim da guerra.

Organizações de defesa dos direitos humanos e do meio ambiente estimam que quatro milhões de pessoas no Vietnã, Laos e Camboja foram expostas aos 76 milhões de litros de Agente Laranja pulverizados.

Até agora, apenas veteranos militares dos Estados Unidos e de seus aliados Austrália e Coreia obtiveram indenização pelos efeitos colaterais do produto químico altamente tóxico. Isso inclui deformidades graves em filhos desses soldados.

A gigante química alemã Bayer, dona da Monsanto, e as outras empresas acusadas argumentaram que não podiam ser responsabilizadas pelo uso que os militares americanos fizeram de seu produto.

Tribunal na França

Para o agrônomo Leonardo Melgarejo, coordenador-adjunto do Fórum Gaúcho de Combate aos Agrotóxicos, a decisão do tribunal na França é um “atestado de ausência de culpa, para quem tem culpa. Ou seja, uma espécie de troféu”. “Passa um verniz de inocência e preocupação com a saúde pública, que não é real”, disse à RBA.

Conforme destacou, essas empresas são responsáveis por danos concretos a toda uma gama de direitos humanos. “E gastam milhões na formatação de discursos ilusórios. Com certeza se beneficiarão de todo elemento que contribua para desviar o foco de dramas reais”.

“Isso fica evidente em publicação recente da FIAN, bem como posicionamento do relator especial da ONU sobre produtos tóxicos. Alias, é o terceiro relator da ONU a apontar os mesmos crimes, o que demonstra a longevidade da prática e a fragilidade dos governos quando o assunto é agrotóxicos e os direitos humanos”.

Vietnã no Brasil

Para o geógrafo Marcos Pedlowski, professor e pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) a decisão isenta as corporações produtoras de venenos agrícolas. “Além disso, contribui para a dupla moral dos países sede dessas companhias, que proíbem muitos deles dentro dos seus territórios. Mas liberam para venda no sul global ou permitem o seu uso como arma de guerra”, disse.

Conforme ele, o uso recente de agrotóxicos como armas químicas contra comunidades indígenas e quilombolas no Brasil mostra que a herança da Guerra do Vietnã está muito viva. “O que me parece evidente é que na inexistência de estruturas de contenção do avanço do latifúndio agroexportador sobre territórios ocupados por comunidades tradicionais, o agrotóxico está se tornando mais um instrumento para a sua remoção de áreas alvo para a implantação de monoculturas de exportação.”

“Em outras palavras, está se usando os agrotóxicos na sua função original, já que foi criado para serem armas químicas”, ponderou Pedlowski.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!  ].

O brasileiro e seu prato cheio de venenos: depois do feijão, agora o arroz pode estar contaminado com dioxinas do 2,4-D

Sem fiscalização, agrotóxico usado no arroz , o 2,4-D, pode estar contaminado por agentes danosos à saúde.  Descontrole das impurezas na indústria pode estar deixando dioxinas no 2,4-D em níveis acima do permitido. O agrotóxico está associado ao câncer e seu contaminante a malformações fetais. É um veneno envenenando o outro

rice pesticides

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – Agrotóxico muito usado nas plantações de arroz, soja, milho, trigo, cana e algodão, entre outros, o 2,4-D é classificado pela Agência Internacional do Câncer (Iarc, da sigla em inglês) como possivelmente cancerígeno. E mais: estudos mostram que a substância pode alterar funções reprodutivas, o DNA das células e também afetar o sistema nervoso central, chegando a causar o Mal de Parkinson, além de outras doenças graves.

Mas os problemas não param por aí. Há fortes indícios de que o 2,4-D – pelo menos o fabricado no Brasil – esteja contaminado com dioxinas em níveis muito além do limite máximo tolerável. Essas substâncias são as mais tóxicas entre todas as já conhecidas até o momento.

As chamadas dioxinas são compostos com efeitos comprovadamente teratogênicos (capazes de produzir alterações embrionárias e anomalias no desenvolvimento fetal), carcinogênicos (provocam o aparecimento de diversos tipos de câncer), mutagênicos (que causam alterações permanentes e hereditárias no DNA das células), além de alterações na produção e ação dos hormônios e danos ao aparelho reprodutor. Ou seja, os danos à saúde de um forte veneno estão sendo potencializados por outro, ainda mais perigoso.

Contaminação descontrolada

Essas suspeitas não são por acaso. Como essa contaminação por dioxinas é inerente ao processo de fabricação do 2,4-D e outros compostos, as indústrias do agrotóxico devem purificá-lo. Ou pelo menos reduzir seus níveis ao limite máximo tolerável. Uma Instrução Normativa (IN 2/2008), assinada pela Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura, fixa uma concentração máxima de 0,0001 grama de dioxina em cada quilo de 2,4-D. Quando puro, esse princípio ativo se apresenta como um pó branco e amarelo.

Mas documentos da Anvisa a que a RBA teve acesso indicam que essa observância dos limites máximos estabelecidos pode não estar sendo feita. Tampouco a purificação prevista na legislação. Os fabricantes do chamado produto técnico à base de 2,4-D – substância obtida diretamente de matérias-primas e destinada à fabricação de agrotóxicos prontos para uso – não estariam conseguindo fazer os testes. Em reunião com representantes do Ministério da Agricultura, Anvisa e Ibama em julho de 2015, representantes do sindicato da indústria de agrotóxicos, o Sindiveg, já admitiram o descontrole.

Conforme a ata daquela reunião, um grupo de trabalho criado na época pela entidade para acompanhar o tema afirmou que é até possível fazer as análises dos níveis de impurezas relevantes lote a lote. Porém, isso não é “razoável frente ao número limitado de laboratórios e ao histórico de controle dos processos de produção”. E foi além: “Não há laboratório capacitado para tal análise no Brasil”

Trecho da ata da reunião de grupos de trabalho do governo e dos fabricantes

Questão gravíssima

“É grande o risco de haver dioxinas além do que é permitido por lei em agrotóxicos à base de 2,4-D. Para fazer essa análise é necessário todo um aparato técnico, laboratórios e pessoas treinadas. E o Brasil tem poucos. A maioria desses equipamentos está restrita a algumas empresas e universidades”, disse a professora de Química Sonia Hess, que leciona nos cursos de Engenharia Florestal e Agronomia do campus Curitibanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A questão é gravíssima, segundo a professora. O Brasil não tem ideia do nível de contaminação do segundo agrotóxico mais vendido em todo o país há mais de dez anos.

Outra dificuldade para avaliar a presença de impurezas é justamente o tamanho da produção do agrotóxico para atender um mercado que segue com a demanda. De 2009 a 2017 a fabricação do 2,4-D passou de 12 mil toneladas em 2009 para 19,4 mil toneladas, no ano seguinte. O aumento foi se mantendo até 2015, quando foram comercializados mais de 38 mil toneladas. E nos dois anos seguintes mantiveram o salto.

Em 2015 e 2016, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) liberou comercialmente cinco plantas geneticamente modificadas para resistir a quantidades maiores 2,4-D. Foram duas de soja e três de milho.

Vendas a todo vapor

Dados da Anvisa de 2018 mostram que havia no país 45 produtos técnicos (de 24 empresas) e 71 produtos formulados (de 21 empresas) a base de 2,4-D para uso agrícola no Brasil. Esses números aumentaram desde então. Das mais de 1.030 novas liberações de agrotóxicos desde o início do governo de Jair Bolsonaro, 23 são de produtos à base do 2,4-D.

Com números de produção bem mais modestos, a Europa consegue avaliar os níveis de impurezas relevantes. Estão nesse grupo substâncias que, segundo dados toxicológicos, tragam efeitos teratogênicos, carcinogênicos, mutagênicos ou de alterações hormonais e danos ao aparelho reprodutor.

Outro problema sério é que as dioxinas contaminam por muito tempo o meio ambiente e ainda se acumulam no organismo humano e de animais. Tanto que as dioxinas estão na lista de poluentes orgânicos persistentes (POPs) da Convenção de Estocolmo. Signatário do tratado internacional que visa eliminar de maneira segura todos esses poluentes, o Brasil não sai do lugar.

Convenção de Estocolmo

Em 2009 o país começou a elaborar o Plano Nacional de Implementação da Convenção de Estocolmo, com o lançamento de um projeto de desenvolvimento. Para cumprir sua parte, o país tem de desenvolver estratégias e planos de ação para a redução e eliminação de substâncias químicas listadas nos anexos da Convenção, entre elas o agrotóxico 2,4-D.

E o mais difícil: avaliar a capacidade de infraestrutura e propor opções de gerenciamento, incluindo arranjos institucionais, arcabouço regulatório, e requisitos para a capacitação, conscientização de parceiros, pesquisa e desenvolvimento, para garantir a implementação efetiva e sustentável das estratégias propostas e dos planos de ação e, assim, facilitar a transição do Brasil para a plena implementação da Convenção.

“O Brasil assinou a convenção. Mas como poderá cumprir? Só se as empresas admitirem a produção dessas substâncias perigosas. E como vão comprovar que estão seguindo as regras, que estão monitorando? É obrigação das empresas fazer essa purificação, pois já têm muitos subsídios”, ponderou Sonia Hess.

Perigos negados

Longe de admitir os graves problemas, as empresas fazem de tudo para camuflar ou fugir do debate. Questionado pela reportagem sobre medidas que estão sendo tomadas para a retirada das dioxinas do 2,4-D, o sindicato dos fabricantes de agrotóxicos (Sindiveg) desconversou, respondendo apenas que não se posiciona sobre produtos específicos. Ou seja, se reservam o direito de esconder da população informações que têm tudo a ver com sua vida.

Já uma força-tarefa formada pela Dow AgroSciences, Basf e a antiga Milenia, hoje Adama, produziu uma mini cartilha com respostas para 35 perguntas mais comuns envolvendo o agrotóxico 2,4-D.

Segundo os autores, que negam todos os efeitos danosos do agrotóxico à saúde e meio ambiente, não há relação da dioxina que contaminou o Agente Laranja com o produto que fabricam. Isso porque a dioxina 2,3,7,8 (TCDD) foi produzida por outro herbicida, o 2,4,5-T. No entanto, parece que não é bem assim.

Diretor da Associação de Combate aos Poluentes (ACPO) e pesquisador no Núcleo de Estudos Pesquisas e Extensão em Saúde Socioambiental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Jeffer Castelo Branco também avalia como gravíssimos os riscos aos quais os brasileiros estão expostos. Primeiro porque o 2,4-D, por si só, é muito perigoso. “É da classe química dos organoclorados, que são extremamente tóxicos e persistentes no meio ambiente. Não se degradam na natureza e vão reagindo com outros organoclorados, podendo resultar em inúmeras substâncias ainda desconhecidas, que podem até ser mais tóxicas que as dioxinas.”

A título de comparação, o hexaclorobenzeno, utilizado na produção de agrotóxicos destinados a matar fungos, é muito menos persistente que o 2,4-D. Segundo Castelo Branco, uma pessoa contaminada por doses mínimas desse composto precisaria de 200 a 250 anos para ter seu corpo livre do contaminante.

Hormônios em perigo

E depois, porque o agrotóxico 2,4-D comprovadamente altera o sistema endócrino, que tem uma importante função na produção de hormônios que atuam na regulação de outros órgãos. Segundo o pesquisador, as moléculas do princípio ativo são formadas por átomos de carbono e hidrogênio, com grande atuação biológica.

“Essas substâncias confundem o organismo, que as vê como parte dele . O problema é que essas moléculas têm ainda o cloro, extremamente tóxico, que navega pelo organismo, competindo com os hormônios que têm ação inibida ou bloqueada. São hormônios relacionados a diversas funções, como a de multiplicar células para a formação e desenvolvimento de um embrião sadio.”

“Agora imagine tudo isso contaminado por dioxinas. Para se ter ideia da sua toxicidade, uma quantidade equivalente a uma tampinha de garrafa é suficiente para matar um estádio inteiro de pessoas. E tudo isso ocorre bem debaixo das barbas dos órgãos ambientais e de saúde pública do Brasil. Quem vai ser responsabilizado?”

Veneno maquiado

Até agosto de 2019, o 2,4-D era considerado extremamente tóxico pela Anvisa. Naquele ano, o primeiro do governo de Jair Bolsonaro, a agência criada para a vigilância sanitária no país rebaixou para pouco tóxica a categoria da substância. O passe de mágica do órgão vinculado ao governo federal para facilitar registros e estimular o uso, no entanto, não afetou a sua constituição química.

O ácido diclorofenoxiacético, nome técnico do agrotóxico, continua sendo o mesmo usado na Segunda Guerra no âmbito do programa da guerra química e biológica. E que na guerra do Vietnã foi misturado a outro herbicida, o 2,4,5-T e ao pentaclorofenol, formando assim o terrível Agente Laranja. Entre 1962 e 1973, o Exército dos Estados Unidos despejou sobre as florestas e lavouras vietnamitas mais de 200 milhões de litros dessa mistura contaminada com uma dioxina. Se não fosse realmente perigoso, será que teriam sido usados como arma?

Passados 50 anos do fim da guerra, ainda nascem crianças em “formas que escapam à morfologia genérica da espécie humana”, como disse à RBA o ativista e escritor francês André Bouny, fundador e líder do Comitê Internacional de Apoio às Vítimas Vietnamitas do Agente Laranja.

“Bebês nascem com espinha bífida, às vezes sem cérebro, sem olhos, ou com embriões de braços e pernas, como minúsculas barbatanas. Estes últimos são chamados de ‘crianças focomele’. A lista é cruel e interminável. Nas cidades, geralmente são registradas crianças com deformidades. Nas províncias, às vezes estão escondidos.”

Vitória do agronegócio

Depois de muita pressão, em julho de 2006 a Anvisa anunciou a reavaliação toxicológica do ingrediente ativo devido à suspeita de efeitos tóxicos que impedem o registro desse agrotóxicos no Brasil.

Em 2014, após consultar estudos toxicológicos disponíveis na literatura científica e analisar relatórios de autoridades regulatórias internacionais, semelhantes à própria Anvisa e à CTNBio, a agência “constatou a segurança do produto”. Com base na “força de evidências de estudos disponíveis” foi convencida de que não há características teratogênicas, carcinogênicas ou mutagênicas. Que tampouco o 2,4-D provoca distúrbios hormonais ou danos ao aparelho reprodutor relevantes para seres humanos.

Dois anos depois, colocou o parecer de reavaliação em consulta pública. Dos mais de 5.600 participantes, apenas 14% se manifestaram favoráveis à manutenção do registro por entender a importância agronômica da substância e a necessidade de uso adequado pelos trabalhadores – os mais prejudicados pela exposição aos venenos.

E 86% dos participantes reivindicaram o banimento do agrotóxico 2,4-D justamente pelos riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Esse mesmo grupo apresentou questionamentos sobre a total liberdade dada pela Anvisa às indústrias para continuar produzindo, vendendo e lucrando com produtos sem controle de suas impurezas que podem ser letais em muitos casos.

Mas a agência mais uma vez sucumbiu às pressões dessas indústrias.E manteve o produto no mercado apesar de a maioria das manifestações em consulta pública irem no sentido oposto.

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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Tribunal da França julga caso contra empresas fabricantes do Agente Laranja usado na Guerra do Vietnã

orange agent

Os EUA usaram o Agente Laranja por uma década durante sua guerra no Vietnã, Laos e Camboja.

ÉVRY, França: Um tribunal francês começou a ouvir no dia 25 de janeiro um caso contra mais de uma dúzia de multinacionais, acusadas por uma mulher franco-vietnamita de causar graves danos a ela e a outros ao vender o desfolhante agente laranja (uma mistura de dois herbicidas: o 2,4-D e o 2,4,5-T) ao governo dos EUA, que o usou para causar efeitos devastadores durante a Guerra do Vietnã.

Tran To Nga, nascida em 1942 na então Indochina francesa, trabalhou como jornalista e ativista no Vietnã por volta dos 20 anos.

Ela entrou com a ação em 2014 contra 14 empresas que fabricaram ou venderam o produto químico altamente tóxico, incluindo a Monsanto, agora propriedade da gigante alemã Bayer, e a Dow Chemical.

Apoiada por várias ONGs, ela acusa as empresas de serem responsáveis ​​pelos ferimentos sofridos por ela, seus filhos e inúmeras outras pessoas, bem como pelos danos causados ​​ao meio ambiente.

“O reconhecimento das vítimas civis vietnamitas constituiria um precedente legal”, disse a especialista em direito internacional Valerie Cabanes.

Até agora, apenas veteranos militares – dos EUA, Austrália e Coréia – ganharam compensação pelos efeitos colaterais do produto químico cujas propriedades tóxicas, Cabanes disse serem “absolutamente fenomenais”, cerca de 13 vezes a toxicidade de herbicidas de uso civil como, por exemplo, o Glifosato.

Quatro milhões de pessoas no Vietnã, Laos e Camboja foram expostas ao Agente Laranja, de acordo com ONGs, ao longo de uma década quando os militares dos EUA pulverizaram cerca de 76 milhões de litros (20 milhões de galões) do herbicida e desfolhante químico para deter os avanços do comunista Norte  e privar os combatentes inimigos de fontes de alimento.

O agente laranja destruiu plantas, poluiu o solo e envenenou animais e causou câncer e malformações em humanos, dizem ONGs.

“Não estou lutando por mim mesmo, mas por meus filhos e milhões de vítimas”, disse Tran To Nga, que afirma que o agente laranja ataca o sistema imunológico das pessoas.

Ela mesma estava sofrendo dos efeitos típicos do agente laranja, incluindo diabetes tipo 2 e uma alergia à insulina extremamente rara.

Ela disse que também contraiu tuberculose duas vezes, desenvolveu um câncer e uma de suas filhas morreu de malformação no coração.

Todos os anos, cerca de 6.000 crianças são diagnosticadas com malformações congênitas no Vietnã, disse Cabanes.

As multinacionais argumentaram que não podiam ser responsabilizadas pelo uso que os militares americanos fizeram de seu produto.

Contatada pela AFP, a Bayer disse que o Agente Laranja foi fabricado “sob a gestão exclusiva do governo dos EUA para fins exclusivamente militares”.

A demandante e seus advogados devem argumentar que os fabricantes do Agente Laranja enganaram o governo dos Estados Unidos quanto à sua verdadeira toxicidade.

O julgamento no subúrbio de Evry, no sul de Paris, deveria ter começado em outubro do ano passado, mas seu início foi adiado devido às restrições da COVID-19.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “Bangkok Post” [Aqui!].

Agrotóxico usado na Guerra do Vietnã está destruindo videiras na Campanha Gaúcha

agrotoxico bbcMaior parte dos pesticidas considerados prejudiciais à saúde e ao meio ambiente é vendidos a países pobres ou emergentes. Getty Images

Por Evanildo da Silveira, de Vera Cruz (RS) para a BBC News Brasil

Há cerca de 15 anos, a Campanha gaúcha — a metade sul do Rio Grande do Sul — começou a entrar na lista das regiões produtoras de uvas e vinhos finos do mundo. Entre 2000 e 2015 sua participação no mercado nacional cresceu de 12%, para 20%. Mas a produção de vinho na região está ameaçada. Usado nas plantações de soja, o agrotóxico 2,4-D tem contaminado as videiras vizinhas, causando grandes prejuízo aos vitivinicultores — e levando muitos deles a desistir da atividade.

É o caso de Jacenir Freitas Soares, que tem sete hectares de vinhedo das uvas Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc no munícipio de Lavras do Sul, a 322 km de Porto Alegre. “Antes da chegada da soja na região — e com ela, o 2,4-D — , eu colhia 24 toneladas da primeira e 40 da segunda”, conta. “No ano passado, a queda da produção foi de cerca de 50%. Colhi 13,5 toneladas de Sauvignon e 20,3 de Franc. Assim não vai dar para continuar. Em 2022, vou cortar as parreiras e parar de produzir.”

O agrotóxico, quando aplicado de forma incorreta ou em condições atmosféricas inadequadas, é levado pelo vento (fenômeno chamado de deriva) e pode chegar a 20 ou 30 km de distância do ponto de origem. Com a deriva, ele atinge os vinhedos vizinhos, causando a queda da produção de uvas e, consequentemente, de vinho. Tecnicamente chamado de ácido diclorofenoxiacético, ele é um herbicida hormonal (que mimetiza alguns hormônios das plantas) desenvolvido na década de 1940.

Esse químico se tornou mais conhecido, no entanto, durante a Guerra do Vietnã (1959-1975, com a participação dos Estados Unidos a partir de 1965), quando associado ao 2,4,5-T ou ácido 2,4,5-triclorofenoxiacético. Essa combinação era usada para produzir o famoso agente laranja, empregado pelo Exército americano para desfolhar as matas daquele país e facilitar a localização de soldados inimigos.

Hoje, o 2,4-D é utilizado nas lavouras de soja antes do plantio para eliminar as plantas consideradas pragas para a cultura.

Fumigação de uma plantação de soja no BrasilCRÉDITO,AFP, Grandes culturas de soja e milho transformaram o Brasil no principal comprador de agrotóxicos do mundo

Três fatores em três momentos diferentes deram origem ao problema de contaminação com o 2,4-D, segundo o agrônomo Aldo Merotto Junior, da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

“O primeiro foi a expansão de áreas cultivadas no sistema de plantio direto (um sistema de manejo do solo), no final dos anos 90”, conta. “Até então, o herbicida 2,4-D era usado na cultura do trigo e, no inverno, em áreas cultivadas em plantio direto para aplicações em pré-semeadura, nas regiões que estavam iniciando o uso desta tecnologia (Planalto do Rio Grande do Sul e Sudoeste do Paraná).”

No final da década de 1990, o plantio direto se difundiu para outras áreas da região sul do Brasil, e assim passou a estar próximo de culturas sensíveis ao 2,4-D, como as videiras, quando então os danos passaram a acontecer com mais frequência.

“O segundo fato foi o surgimento de plantas daninhas resistentes ao herbicida glifosato (muito usado nas lavouras de soja) e a necessidade de maior utilização do 2,4-D”, explica Merotto. “Isto ocorreu de forma mais intensa a partir de 2010.”

O terceiro fator, diz, foi a recente e grande expansão da cultura da soja na Campanha gaúcha, a partir de 2015.

De acordo com o agrônomo Norton Victor Sampaio, professor dos cursos de Enologia e Agronegócio da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), os primeiros casos de 2,4-D danificando vinículas foram registrados nas regiões de Napa Valley e Santa Helena, no Estado da Califórnia, nos Estados Unidos.

“Mas aqui na nossa região foi em 2016, 2017 que começaram a aparecer os estragos, e a partir de 2018, ficaram mais intensos e começaram realmente a causar danos seríssimos”, afirma Sampaio

Substitutivo do glifosato

A Cooperativa São José, de Jaguari, a 411 km de Porto Alegre, também tem tido prejuízos desde 2013, afirma o técnico em vitivinicultura (produção de uva e vinho), Alexandre Maia.

A cooperativa tem 58 produtores associados e capacidade de produção e armazenamento de 1,6 milhão de litros de vinho, mas a queda de produtividade desde então chegou a 40% na média — atingindo 70% em algumas propriedades, diz Maia.

O problema começou, afirma, quando a buva, uma erva daninha da soja, adquiriu resistência ao herbicida glifosato. “O 2,4-D foi então integrado ao manejo de pré-plantio da soja para substituit o glifosato, pois seu princípio ativo controla as pragas de folhas largas (como a buva)”, explica.

De acordo com Maia, o 2,4-D atinge o sistema vegetativo das videiras, causando graves danos nas brotações e fazendo com que as plantas parem de se desenvolver. Ele leva ao fechamento nas folhas novas, diminuindo o vigor e assim o potencial produtivo dos vinhedos. Em casos mais graves, causa morte das plantas e sua erradicação. “Os prejuízos vêm aumentando ano a ano”, conta.

GlifosatoCRÉDITO,AFP . O 2,4-D começou a ser usado em substituição ao glifosato

Os pesquisadores da Unipampa calcularam os prejuízos dos produtores em dinheiro. “Para 2019, concluímos que foi de R$ 100 milhões, e em 2020 de R$ 200 milhões, somente na viticultura”, revela Sampaio.

Mas esse número pode aumentar, diz Sampaio, já que não se sabe como vai ser o comportamento futuro dos vinhedos que estão já no terceiro ano seguido de forte impacto do 2,4-D. “Pode ser que até que eles sejam perdidos”, diz. “Já existem vários produtores que estão desistindo, eliminando suas videiras, porque o custo de produção, do trabalho e da mão de obra é bastante alto, e o prejuízo vem se aprofundando cada vez mais.”

Sampaio diz que é preciso levar em conta também que o problema afeta toda uma cadeia produtiva que está se instalando na região. “Há prejuízos não só da produção de uva, mas em toda a cadeia produtiva, como trabalho, mão de obra, a uva que não vai para a vinícola, a vinícola que não produz o vinho, o mercado que não trabalha”, explica Sampaio. “Ou seja, todos os elos da cadeia produtiva somados com certeza contabilizariam bem mais que esses R$ 200 milhões aqui na região da Campanha do Rio Grande do Sul.”

Sem indenização

Para piorar, os produtores de uva e vinho têm dificuldade para conseguir indenização dos prejuízos. É muito difícil identificar a lavoura de soja de onde veio o agrotóxico, explicam. As vinícolas estão rodeadas de lavouras de soja e é impossível determinar de qual delas veio o 2,4-D, que pode viajar pela deriva até 30 km.

“Além disso, há a morosidade da Justiça”, diz Soares. “Há muitas ações pedindo indenização, mas o processo é muito demorado.”

No dia 16 de dezembro do ano passado, a Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha e a Associação Gaúcha dos Produtores de Maçã (Agapomi) (cultura que também vem sendo prejudicada pela deriva do 2,4-D), entraram com uma ação civil pública contra o governo do Rio Grande do Sul, solicitando a suspensão temporária do uso agrotóxico em todo o Estado.

Elas querem que o herbicida fique proibido “até que sejam delimitadas zonas de exclusão, ou seja, implementado o efetivo monitoramento e fiscalização da aplicação do 2,4-D, para evitar a deriva em culturas sensíveis”. Como a ação ainda não foi julgada, os representantes das duas associações, por recomendação de seus advogados, não quiseram dar entrevista à BBC Brasil.

Cacho sem bagas por causa do 2,4-D

CRÉDITO,JACENIR FREITAS SOARES. O 2,4-D causa problemas nas videiras, como aparecimento de cachos sem bagas

Apesar dos problemas, a Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (SEAPDR) do Rio Grande do Sul afirma que “a situação está melhorando”. No final do ano passado, o órgão divulgou um relatório com dados de um levantamento, realizado por seus técnicos de agosto a dezembro, referente à safra de uva de verão 2020/2021. Segundo o documento, houve redução de 25,89% (de 88% para 62,34%) nas amostras de vinhedos contaminadas por 2,4-D, em relação à safra anterior. O número de propriedades atingidas também diminuiu, de 110, em 2019, para 89, em 2020.

De acordo com Rafael Friedrich de Lima, chefe da Divisão de Insumos e Serviços Agropecuários da SEAPDR, a secretaria tem recebido denúncias e coletado material vegetal para verificar quais compostos estão presentes na deriva. “A SEAPDR realiza também a fiscalização do cumprimento das normas legais”, afirma. “Sempre que os fiscais estaduais agropecuários constatam alguma irregularidade é lavrado auto de infração, que vai gerar processo administrativo, podendo acabar em multa.”

O vice-diretor da Associação dos Produtores de Soja do Rio Grande do Sul (Aprosoja-RS), Luís Fernando Marasca Fucks, reconhece que a contaminação das videiras pelo 2,4-D “tem acontecido”. Mas ele afirma que ela aconteceu devido ao manejo incorreto do agrotóxico.

De acordo com ele, nem todos os produtores usam técnicas e equipamentos apropriados e eficientes. “Mesmo os aparelhos mais simples dispõem de tecnologias de bico adequados, de adjuvantes (substâncias que tornam as gotículas do agrotóxico mais pesadas, evitando que elas sejam elevadas pelo vento) e boas práticas de aplicação”, afirma.

“Mas elas (as regras) não são obedecidas por alguns poucos produtores de soja e aplicadores do produto. Então, ocorre a deriva, que é uma situação que acontece com qualquer produto se não forem seguidas as recomendações para a pulverização.”

Ele afirma que, entre as práticas corretas, está a observância das melhores horas do dia para a aplicação: as que têm as menores temperaturas possíveis. O recomendado é pulverizar o herbicida de manhã cedo ou mais à noite, quando as temperaturas são mais baixas a umidade relativa do ar é maior. “Isso evita a deriva e a evaporação das gotículas menores, quando elas não atingem o solo, ficam em suspensão no ar e evaporam. E aí qualquer brisa as leva para áreas vizinhas”, explica Fucks.

Flores de videira queimadas por causa do agrotóxicoO herbicida queima flores de videiras. CRÉDITO,JACENIR FREITAS SOARES

Segundo Domingos Velho Lopes, presidente do Conselho Superior da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), foram organizados cursos de treinamento para capacitar produtores e aplicadores para fazerem a pulverização correta. “Em 2018, foi criado um grupo de trabalho para tratar do problema do 2,4-D, liderado pelo Ministério Público do Estado, junto com a SEAPDR e entidades representativas do setor agropecuário gaúcho”, conta.

O grupo constatou que nos anos de 2018, 2019 e 2020 houve problemas de deriva do herbicida que afetaram algumas propriedades do Rio Grande do Sul com culturas sensíveis, como uva, maçã e noz, por exemplo. “Foi verificado que o problema era o equipamento de pulverização ou fatores climáticos não ideais”, explica Lopes. “Para resolver isso, foram elaboradas as três instruções normativas que estabelecem regras para a aplicação.”

O grupo de trabalho também descobriu que a contaminação de videiras e outras culturas sensíveis ao agrotóxico se concentrava em 24 municípios. “Então foi feito em todos eles um treinamento forte de orientação, não só dos aplicadores, mas também do produtor rural”, assegura Lopes. “Este é o norte, a boa capacitação, para que sejam respeitadas as condições climáticas e as técnicas de boas práticas agronômicas, para que a aplicação seja feita dentro das normas.”

Lopes diz que é um “problema pontual”. “Se pensarmos que temos 6 milhões de litros de 2,4-D aplicados no Estado, numa média de 1 a 1,5 litro por hectare, teremos entre 4 milhões e 5 milhões de hectares com o herbicida”, afirma. “Se temos cerca de 80 resultados positivos de contaminação isso quer dizer que é quase insignificante. Claro que para quem sofreu a deriva isso é um problema gravíssimo. E quem executou mal a aplicação vai ter problema grave, porque não pode desrespeitar as regras de pulverização.”

“(O problema) deve ser muito bem analisado e o que o grupo de trabalho está fazendo está surtindo efeito”, diz. “Tenho certeza que no momento que a vida voltar ao normal e os cursos de treinamento forem intensificados, os resultados vão ser cada vez melhores.”

Soares, o produtor de Lavras do Sul, não está confiante nisso. “Formei o vinhedo em 2000 e 2001, com mudas clonadas compradas na Itália e na África do Sul”, conta. “Investi R$ 68 mil e o vizinho com dois baldes de 2,4-D gastou menos de R$ 500 e derrubou quase todo a carga [produção] das videiras. Eles contabilizam lucros com a soja e eu somo prejuízo na uva.”

Ele diz que na época em que plantou o vinhedo, não havia lavoura de soja na região e seus vizinhos usavam as terras para a pecuária. “Hoje minha propriedade está cercada pela nova cultura — o produtor mais próximo fica a 50 metros”, diz. “Com o vento, a deriva do 2,4-D atinge pelo menos 20 km. Não dá para continuar, pois os custos são altos e o retorno financeiro pequeno.”

“Vou trabalhar nessa safra e na de 2022, porque tenho as minhas dívidas que o agrotóxico me deixou de herança. É com aperto no coração que terei que acabar com as videiras, que tinha plantado para deixar para minha filha e meus netos.”

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Este artigo foi inicialmente publicado pela BBC Brasil [Aqui!  ].

Governo Bolsonaro aprova mais de 150 agrotóxicos novos em seus primeiros cem dias

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Por Sue Branford e Thais Borges para o Mongabay

  • Com a administração do presidente Jair Bolsonaro no poder por apenas 100 dias, ela já aprovou 152 novos agrotóxicos para uso, um recorde em um período tão curto de tempo, enquanto outros 1.300 pedidos de agrotóxicos para autorização de empresas transnacionais aguardam ação. A maioria das solicitações é de empresas americanas, alemãs e chinesas.
  • O Brasil já é o maior usuário de agrotóxicos do mundo e tem um reconhecido problema de envenenamento por agrotóxicos, com 100.000 casos relatados anualmente, provavelmente com muitos mais não relatados. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, nega que o rastreamento rápido de agrotóxicos cause sérios problemas ambientais ou de saúde.
  • Recentes autorizadas este ano são o fungicida mancozeb (principalmente proibido no Canadá), o pesticida sulfoxaflor (associado ao distúrbio do colapso de colônias de abelhas) e o inseticida clorpirifós (banido nos EUA em 2018 e associado a deficiências de desenvolvimento em crianças).
  • O controle dos poderes executivo e legislativo do governo federal brasileiro pelo lobby da agroindústria bancada ruRalista significa que é muito provável que a lei PL 6299/2002 – chamada de “pacote envenenado” pela crítica – seja votada este ano. A legislação desregulamentaria muito o processo de aprovação de agrotóxicos.

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A pulverização aérea comumente usada no Brasil é especialmente perigosa, pois os ventos podem transportar sprays tóxicos longe dos campos para as comunidades e áreas naturais que levam ao envenenamento por pesticidas. Imagem cortesia da EMBRAPA

Com o lobby ruralista agora no controle de setores-chave do governo federal, o Brasil está rapidamente aprovando novos agrotóxicos para uso, alguns dos quais os críticos dizem que são desnecessários ou excessivamente tóxicos. Durante os primeiros 100 dias do governo de Jair Bolsonaro, o Ministério da Agricultura autorizou o registro de 152 agrotóxicos, colocando o Brasil no caminho para autorizar mais agrotóxicos em 2019 do que em qualquer ano anterior. O Brasil já é o maior usuário mundial de agrotóxicos.

O número de agrotóxicos autorizados a cada ano aumentou rapidamente, de 139 em 2015 sob o governo Dilma Rousseff, para 450 em 2018 sob o governo Michel Temer (ver gráfico). Espera-se que um número ainda maior entre no mercado brasileiro neste ano, já que o Ministério da Agricultura considera o registro de aproximadamente outros 1.300 agrotóxicos. A maioria desses pedidos vem de multinacionais estrangeiras, principalmente baseadas nos Estados Unidos, na Alemanha e na China, que está se tornando cada vez mais um importante fornecedor.

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Um funcionário do IBAMA, órgão ambiental do Brasil, analisa um monte de recipientes de agrotóxicos vazios em uma fazenda. Os agrotóxicos usados descuidadamente em grandes quantidades e em combinação podem facilmente poluir aquíferos e cursos de água e envenenar pessoas e animais selvagens. Imagem cortesia do IBAMA

Governo pró-agrotóxicos versus ambientalistas

Apesar do rápido aumento nas autorizações, a ministra da Agricultura do governo Bolsonaro, Tereza Cristina, diz que “não há liberação geral” de novos registros de agrotóxicos. De acordo com o seu ministério, os produtos apenas darão aos agricultores uma maior escolha de agrotóxicos existentes e acesso a novos produtos químicos e não há motivos para preocupação: “O uso de agrotóxicos é completamente seguro, desde que aplicados conforme as instruções, dentro de um contexto de boas práticas agrícolas e com o uso de equipamentos de proteção individual ”, diz o governo.

Fatos ocorrendo no Brasil parecem negar a verdade das alegações de Tereza Cristina. O Brasil tem um maior consumo per capita de agrotóxicos do que qualquer outro país do mundo – 7,3 litros por ano por pessoa – e já está enfrentando um sério problema com o envenenamento por agrotóxicos.

De acordo com Guilherme Franco Netto, Especialista em Meio Ambiente, Saúde e Sustentabilidade da Fundação Oswaldo Cruz, uma das maiores instituições de pesquisa em saúde pública do mundo, cerca de 100 mil casos de envenenamento por agrotóxicos são registrados no Brasil a cada ano. De acordo com Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, esse número subestima seriamente a situação real, já que muitos trabalhadores rurais não relatam intoxicações por agrotóxicos.

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Em julho de 2018, a organização de direitos humanos Human Rights Watch publicou um relatório documentando intoxicações agudas em sete locais no Brasil, incluindo comunidades indígenas, escolas e quilombolas (comunidades de descendentes de escravos fugidos).

“Agrotóxicos pulverizados em grandes plantações intoxicam crianças em salas de aula em muitas partes do Brasil”, explicou Richard Pearshouse, diretor assistente da divisão ambiental e de direitos humanos da Human Rights Watch. Mas o relatório também descobriu que muitos moradores locais estavam com muito medo de falar: em cinco das sete comunidades afetadas, as pessoas disseram que tinham medo de sofrer represálias se elas reclamassem. Em 2010, um agricultor rural foi morto a tiros após pressionar o governo local para proibir a pulverização aérea de agrotóxicos – uma prática comum de aplicação no Brasil, embora permita que os aerossóis tóxicos transportados pelo vento se estabeleçam longe das culturas nas comunidades e áreas naturais.

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Trator e equipamento de pulverização. Foto por Maasaak licenciada sob a licença Creative Commons Atribuição-Compartilha Igual 4.0

Formulações recém-aprovadas geram alarmes

Muitos dos pedidos para 2019 são para novas formulações de agrotóxicos já autorizados. Murilo Souza, da Universidade Estadual de Goiás, explica: “Uma vez que o fabricante inicial perde sua patente, outras empresas começam a solicitar registro para que possam usar os mesmos ingredientes ativos para produzir novos produtos agrícolas”.

Leonardo Melgarejo, vice-presidente da Associação Brasileira de Agroecologia, acredita que essa prática é prejudicial, já que inevitavelmente levará a um grande aumento do consumo em todo o país: “Estamos aprovando diversas variações do mesmo agrotóxico… Estamos caminhando para um situação em que os agricultores poderão se “automedicar”, com duas lojas de agrotóxicos em cada quarteirão. “Poucas pesquisas foram feitas para ver como centenas de vários agrotóxicos poderiam interagir para se tornarem mais prejudiciais.

A avalanche de novas aprovações também está facilitando o acesso dos agricultores brasileiros a agrotóxicos tóxicos com os quais a comunidade global tem sérias preocupações. Um desses casos é o do 2,4D, um ingrediente ativo do polêmico Agente Laranja, usado pelo Exército dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã e cujo uso é cada vez mais controlado em outros países, depois que a Agência Internacional de Pesquisa da Organização Mundial de Saúde. Cancer (IARC) classificou em 2015 como “possivelmente carcinogênico para humanos“.

A última onda de autorizações do Ministério da Agricultura vista em 10 de abril deu permissão a 31 produtos por meio de um decreto federal oficial (Ato 24), incluindo três novas formulações de 2,4-D solicitadas por fabricantes e distribuidores multinacionais de agrotóxicos. Um pedido veio da empresa chinesa Rainbow Defensivos Agrícolas, enquanto os outros dois foram iniciados pela Dow AgroSciences para formulações a serem fabricadas na África do Sul e exportadas para o Brasil.

Essas novas autorizações brasileiras ocorreram em um momento em que o Ministério Público do Rio Grande do Sul, um grupo de litigantes públicos independentes, estava investigando uma alegação feita pelo Instituto Brasileiro do Vinho (IBRAVIN) de que no ano passado o estado perdeu quase terceiro de sua colheita de uva como resultado da pulverização aérea de agrotóxicos contendo 2,4-D. Os agricultores borrifam esse pesticida antes de semearem soja – também uma época em que a uva, a maçã e as oliveiras estão florescendo e quando o spray pode facilmente passar por fazendas vizinhas.

“Os dados da nossa pesquisa [que mostrou uma perda de quase um terço da colheita da uva] são conservadores, pois se baseiam apenas em informações espontaneamente oferecidas pelos agricultores”, disse Helio Marchioro, do IBRAVIN. De fato, os próprios produtores de uva estão pedindo uma proibição de 2,4-D, mesmo quando o governo Bolsonaro aprova novas formulações de 2,4-D.

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Lasso, um herbicida fabricado pela Monsanto deve ser pulverizado em plantações de alimentos com o agricultor usando equipamento de proteção adequado. Foto cedida pelo USDA

Agrotóxicos controversos aprovados para uso brasileiro pela primeira vez

Vários dos agrotóxicos autorizados em 2019 são totalmente novos no Brasil. Porém, aAlguns já foram classificados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil (ANVISA) como “extremamente tóxicos”. Estes incluem: mancozebe, um fungicida de amplo espectro usado na agricultura e horticultura; o fungicida fluazinam; e o inseticida clorpirifos. Em 2018, a Agência Reguladora de Pragas (PMRA) proibiu o uso de mancozeb no Canadá, exceto para o uso foliar em batatas, devido a “riscos inaceitáveis para a saúde humana”. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) proibiu o uso de clorpirifos em 2018 após o seu uso ter sido associado  à deficiências de desenvolvimento de crianças.

Um produto químico recentemente aprovado e particularmente controverso é o sulfoxaflor. Este agrotóxico foi um dos vários que se acredita ter causado um surto no Brasil de desordem do colapso das colmeias – o catastrófico desaparecimento repentino de abelhas operárias de uma colônia de abelhas, levando à morte das colmeias. Segundo um levantamento da Agência Pública e da Repórter Brasil, meio milhão de abelhas foram encontradas mortas em quatro estados brasileiros no primeiro trimestre de 2019 – um dado incrivelmente grande ameaçando a polinização de frutas e hortaliças e a vegetação nativa .

Mas em uma coletiva de imprensa em 9 de abril, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, não sabia que o Brasil já havia autorizado o sulfoxaflor. Ela disse então: “O problema com as abelhas é que um produto chamado sulfoxaflor foi usado. Essa [toxina] não está registrada no Brasil … provavelmente entrou no Brasil ilegalmente e está sendo usada incorretamente e, assim, causou a morte das abelhas. ”De fato, o sulfoxaflor foi autorizado no final do ano passado pela administração de Temer, embora decreto oficial só foi emitido em janeiro deste ano sob o governo Bolsonaro.

O sulfoxaflor é classificado pela ANVISA do Brasil como “medianamente tóxico”, mas essa avaliação é contestada no exterior. A Dow Chemical desenvolveu inicialmente o sulfoxaflor como uma alternativa mais segura aos neonicotinóides, conhecidos por serem prejudiciais às abelhas. Ele foi inicialmente aprovado pela EPA dos EUA em 2013, uma decisão revertida em 2015, quando estudos descobriram que o sulfoxaflor também era perigoso para as abelhas. Hoje o sulfoxaflor ainda pode ser usado nos EUA, mas apenas em circunstâncias restritas.

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Aplicação de agrotóxicos em área rural. O Brasil é o maior usuário de agrotóxicos do mundo.  O uso de agrotóxicos quase certamente aumentará à medida que o país se apresse em aprovar novos produtos químicos. Foto de prodbdf no flickr

Desregulamentação de agrotóxicos em funcionamento

O ativista ambiental Alan Tygel acredita que o rápido aumento no número de autorizações de agrotóxicos está diretamente ligado ao crescente poder do lobby da agroindústria e da bancada ruralista no Congresso brasileiro. Esse lobby, diz ele,  apoiou o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016,  por ser dependente do apoio do governo para medidas pró-agronegócio. “A partir de então, o contrapeso proveniente de setores progressistas, da agricultura familiar e da agroecologia se perdeu, e hoje a agenda ruralista enfrenta menos entraves para ter mais agrotóxicos aprovados e aprovar leis mais permissivas”, diz Tygel. . A campanha presidencial de Bolsonaro beneficiou-se muito do apoio ruralista e ajudou muito a levar o ex-capitão e legislador do Exército à vitória em outubro passado.

O próximo objetivo da agenda ruralista – leis mais permissivas – pode ter um grande impulso este ano com a aprovação do PL 6299/2002 do Congresso, apelidado de “pacote do veneno” pelos seus críticos. A legislação, que desregulamentaria muito os agrotóxicos, foi endossada por uma comissão da Câmara dos Deputados em junho de 2018 e agora aguarda debate em plenário. O governo Temer justificou o projeto, apresentado ao Congresso pelo então ministro da Agricultura e dedicado ruralista, Blairo Maggi, alegando que o país precisava desesperadamente simplificar o complicado processo de obter novos agrotóxicos autorizados para ajudar os agricultores.

Mas Ildeu Castro Moreira, presidente da prestigiosa Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), representando mais de 100 sociedades científicas, discordou fortemente. Ele disse na época que o projeto de lei “poderia ter consequências muito sérias para a saúde da população brasileira e do meio ambiente… Sua aprovação seria um retrocesso, pois segue a lógica da agricultura mecanizada, com altos investimentos em fertilizantes e fertilizantes. agrotóxicos, que é um modo de pensar antiquado, que data do final da Segunda Guerra Mundial ”.

A atual ministra da Agricultura, Tereza Cristina, é uma forte proponente do PL 6299/2002, mas é provável que haja oposição à aprovação do projeto, embora seja difícil para os críticos bloquear a medida. Os ruralistas nunca tiveram um controle mais forte sobre os poderes legislativo e executivo, e parecem determinados a pressionar sua agenda do agronegócio.

O presidente Bolsonaro terminou seus primeiros 100 dias no cargo, e sua popularidade já está caindo rapidamente, com 30 % da população já avaliando sua administração como “muito ruim” e os mercados acreditando que o governo está se tornando instável. No entanto, essa mesma percepção de crescente incerteza parece ter apenas levado aos ruralistas a avançarem com maior  velocidade. Enquanto isso, conservacionistas e especialistas em alimentos continuam a alertar sobre as repercussões nacionais e globais sobre o meio ambiente e a saúde do uso desregulado de agrotóxicos no Brasil – a permissividade provavelmente superará em pouco tempo a observada entre outras grandes nações agrícolas.

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Recipientes vazios de agrotóxicos abandonados em uma área de cultivo. Imagem pela Human Rights Watch

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela plataforma de notícias Mongabay [Aqui!]

2-4,D (Agente Laranja): o herbicida que tem feito agricultores gaúchos desistirem de produzir uva

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Por Felipe Prestes para o Sul 21

Há cerca de cinco anos um fenômeno incompreensível começou a ser notado pelos associados da Cooperativa Agrária São José, que produz vinhos na cidade de Jaguari, região centro-oeste do Estado. Em uma das mais antigas cooperativas gaúchas, fundada em 1932, nada parecido havia acontecido antes. “Começaram a enrugar as folhas dos parreirais, torcer e definhar a produção. Nossos técnicos analisavam e não encontravam doença nenhuma”, conta o presidente da entidade, João Minuzzi.

Embora já existissem suspeitas, só no ano passado é que se comprovou a causa do problema: análises mostraram que o culpado pela queda na produção da cooperativa era a presença do 2-4,D, um herbicida utilizado largamente nos últimos anos por sojicultores. O produto é usado no combate da buva, uma planta tida como “invasora”, que criou resistência ao glifosato.  

“Produzíamos cerca de 18 toneladas de uva e agora cinco, seis”, relata o presidente da cooperativa. A queda na produção tem trazido consequências bastante graves. “Eu comprei neste ano várias toneladas de uva. Não tenho mais matéria-prima para fazer o vinho”, conta. Se, em um futuro próximo, mais de 30% das uvas utilizadas na produção do vinho vierem de não-associados, esta operação pode deixar de ser considerada um ato cooperativo, implicando em uma série de mudanças para a São José, como, por exemplo, o aumento de tributos.  

Mas o problema não fica restrito à Cooperativa São José, muito pelo contrário: se estende por diversas regiões do Estado, como, por exemplo, a região da Campanha. “Faz uns três anos que a gente começou a sentir a pouca produção, mas não se sabia o motivo. Então alguns produtores mais experientes, e que também plantavam soja, perceberam a causa. A perda é gigante em praticamente todas as vinhas da região”, conta a presidente da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha, Clori Peruzzo. 

“O 2,4-D é similar a um hormônio, envia mensagens para a planta, por isto quantidades muito pequenas já causam sintomas, causam uma desregulação”, relata o engenheiro agrônomo e chefe da Divisão de Agrotóxicos da FEPAM, Gianfranco Badin Aliti. “Nas plantas mais sensíveis mesmo que não leve à morte, causa queda de produção, de floração, na safra atual e nas seguintes”, explica. 

Por este efeito duradouro do 2-4,D muitos agricultores têm simplesmente desistido de trabalhar com uva. “O 2-4,D está erradicando os parreirais. Tu plantas e ele não vem mais, sobe uns 50 centímetros, bate o veneno e não cresce mais. Os associados estão largando e plantando fumo no lugar”, lamenta Minuzzi, da cooperativa de Jaguari. 

Na Campanha, a presidente da associação teme que isto também possa acontecer. “Muitas plantas morreram ao longo desses três anos. Então nós temos que replantar. Mas se não pararem de aplicar esse produto, nem vale a pena replantar”, diz Clori Peruzzo.

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Foto: Cooperativa Agrária São José

Prejuízos para diversas cadeias produtivas e para a saúde 

Entre setembro e dezembro do ano passado, a Secretaria Estadual de Agricultura coletou 61 amostras de videiras, em 21 municípios e encontrou 2-4,D em 56 amostras, em 18 municípios. Apesar de a maioria das amostras terem sido coletadas na Região da Campanha, o 2-4,D aparece nos parreirais de municípios de várias regiões do Estado, como São Borja, na Fronteira Oeste; Monte Alegre dos Campos, nos Campos de Cima da Serra; e Sobradinho, na Região Central do Estado. A Secretaria também detectou o 2-4,D em cinco amostras de oliveiras em Candiota e uma em Santana do Livramento. E também em duas amostras de cinamomo, e uma em milho, azevém, campo nativo, pasto e guabiju. 

Os problemas ocorrem devido à deriva, que é quando o agrotóxico aplicado em uma lavoura vai para fora da área de cultivo. A pulverização aérea costuma trazer maiores riscos de deriva, mas o 2-4,D costuma ser aplicado por tratores e mesmo assim tem gerado deriva. Pairam dúvidas sobre que distância o 2-4,D pode atingir. Fala-se em dois a três quilômetros, mas os vitivinicultores dizem ter sido atingidos por aplicações a até dez quilômetros de suas propriedades. 

O Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) projeta prejuízos de R$ 94 milhões, com redução de 32% apenas na colheita atual da uva, sem considerar que os efeitos do 2-4,D vêm sendo notados há alguns anos.  “Nós projetamos de forma muito conservadora os prejuízos”, ressalta Helio Marchioro, conselheiro do Instituto. “Não consideramos custos intangíveis, como o custo de implantação, de parreirais que precisarão ser implantados novamente. Só consideramos o custo da safra e o valor agregado no vinho, com preços conservadores”. 

Mas a deriva do 2-4,D não coloca em perigo apenas atividades econômicas. “Se encontrou 2-4,D até em área urbana de Bagé e ninguém fala na questão da saúde humana, do meio ambiente que está sendo contaminado, dos trabalhadores rurais que aplicam, as crianças, gestantes, idosos todas as crianças que ficam expostas”, ressalta o coordenador do Fórum Gaúcho de Combate ao Impacto dos Agrotóxicos, Rodrigo Valdez de Oliveira. “O Brasil ano passado foi responsável por 20% do consumo mundial de agrotóxicos. Pena que essa situação só tomou relevo por conta do problema entre cadeias econômicas”, lamenta. 

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Foto: Cooperativa Agrária São José

Vitivinicultores cobram a suspensão do uso de 2-4,D 

O Ministério Público Estadual apura os danos causados pelo 2-4,D. Por meio da assessoria de imprensa, o MP informa que em meados de março o promotor responsável pela investigação, Alexandre Saltz, chamou “representantes dos diversos setores atingidos pelo agrotóxico para buscar uma avaliação sobre o impacto do mesmo na economia do estado, já que há indícios de que prejudica culturas de uva, oliva, maçã, produção de vinho, dentre outras”. A assessoria informa ainda que o promotor aguarda “documentações desses produtores e buscando reunir-se com os secretários de Estado da Agricultura, Saúde e Meio Ambiente para ver quais providências serão tomadas”. Por fim, esclarece que, “dependendo das respostas dos secretários, o MP não descarta o ajuizamento de ação para proibir a utilização do 2,4 -D no Estado”. 

Anteriormente, a promotora Anelise Grehs, coordenadora do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais do Ministério Público Estadual, chamou as partes envolvidas para buscar uma solução conjunta, mas não houve acerto. O Governo do Estado também criou um Grupo de Trabalho para discutir a questão com todas partes envolvidas, mas a primeira reunião só foi ocorrer no último dia 17. E os vitivinicultores têm pressa, pois o preparo do plantio de soja e, portanto, a aplicação de 2-4,D, começa em junho. “No mais tardar final de maio temos que ter isto resolvido”, defende Clori Peruzzo.  

O impasse entre os produtores de uva e vinhos e os de soja parece residir na suspensão ou não do uso da substância. Os vitivinicultores com quem o Sul21 conversou são taxativos. “A gente não vê alternativa senão a suspensão pelo menos neste ano para a gente trabalhar mais tranquilo”, afirma Peruzzo. O conselheiro do Ibravin Helio Marchioro concorda: “Não tem outra saída”. 

Em 2017, a Prefeitura de Jaguari propôs e a Câmara de Vereadores aprovou a suspensão do uso de 2-4,D durante o período de 15 de setembro a 15 de março na área de vitivinicultura da cidade. Ainda assim, a utilização do princípio ativo em municípios próximos tem feito com que os parreirais de Jaguari sejam atingidos. “Tem que ter uma lei de nível estadual”, conclui João Minuzzi. 

Para o coordenador do Fórum Gaúcho de Combate ao Impacto dos Agrotóxicos, a solução também seria a suspensão do uso do 2-4,D. “Não há tempo para que o Estado regule esta matéria. O que eu acho que seria acertado seria uma suspensão do uso do 2-4,D para este ano até que sobrevenha uma legislação ou decreto estipulando uma série de medidas para minimizar esses problemas”, afirma. 

Porém, a tendência é que a suspensão não ocorra. A FEPAM, responsável pelo cadastro dos agrotóxicos no Estado, já descartou a hipótese. O órgão encaminhou a questão para a Comissão de Cadastro, que é formada por três integrantes técnicos da Secretaria de Saúde, três da Agricultura e três da FEPAM. “Para suspender tem que ter fundamentação e, neste caso, nós não vimos fundamentação. Eu levei para a Comissão e eles foram bem enfáticos de não haver restrição. Mas faço uma ressalva: isso não significa que ele não seja perigoso”, afirma o engenheiro agrônomo e chefe da Divisão de Agrotóxicos da FEPAM, Gianfranco Badin Aliti. 

O agrônomo ressalta que o produto é largamente utilizado na Europa e nos Estados Unidos e que o problema maior pode estar residindo na má aplicação. “Quanto maior a gota do produto, menos ela fica volátil, gotas pequenas podem atingir distâncias maiores. Isso depende da pressão do equipamento. Um equipamento bem regulado pode diminuir a deriva, embora não se possa garantir que não aconteça”, explica. 

Outro órgão que poderia suspender o uso do 2-4,D seria a Secretaria Estadual de Agricultura, mas o secretário Covatti Filho descarta esta medida. “A suspensão do 2,4-D, por si só, não resolve o problema, considerando que, em nossa visão, os prejuízos registrados em outras culturas foram decorrentes de aplicação incorreta do herbicida. Trocar um produto por outro não é garantia de solução para uma situação que teve como causa, conforme nossa análise preliminar, a aplicação incorreta. Em nosso entendimento, a resolução deste conflito passa por uma discussão profunda com diferentes cadeias produtivas”, afirma. 

“Se proibir o 2,4-D o problema vai se transferir para o glifosato ou para outro produto. É preciso um regramento que force as boas práticas de aplicação”, defende o presidente da Associação dos Produtores de Soja do Rio Grande do Sul (APROSOJA-RS), Luiz Fernando Fucks. Conforme o dirigente, a tecnologia de pulverização existente permite evitar a deriva. Segundo ele, foi feito um mau uso do 2-4,D, especialmente na região da Campanha, onde o vento é muito forte. “Naquela região de fronteira agrícola o pessoal não está muito consciente. Por isso que chegou a necessidade de um regramento”, diz, embora o problema esteja afetando também outras regiões do Estado. 

Fucks afirma que o controle de plantas invasoras, como a buva, é fundamental no plantio de soja. “A buva é muito difícil de controlar, se você não controlar de um ano para outro a população aumenta muito”. Ele explica que, sem o uso de agrotóxicos, seria necessário o revolvimento da terra, o que baixa muito a produtividade. 

O presidente da Cooperativa São José discorda da necessidade do uso de 2-4,D. Segundo ele, a utilização desta substância é uma questão meramente econômica. “Eu também planto soja e não uso o 2-4,D. Todos nós da cooperativa plantamos soja. Não é como estão falando, que não seria possível plantar sem o 2-4,D. Existem várias outras substâncias que podem ser utilizadas. Só sai um pouco mais caro. É pela relação custo-benefício”, afirma. João Minuzzi ressalta ainda que a buva já tem oferecido maior resistência ao 2-4,D, fazendo com que seja necessário utilizar um volume maior do agrotóxico, o que já minimiza mesmo a justificativa econômica  de seu uso. 

O conselheiro do Ibravin Helio Marchioro afirma que, apesar de a soja trazer divisas para o país, privilegiar o cultivo dela em detrimento de outras culturas não traz benefícios econômicos. “Nós queremos apoio de todos para que não haja uma valoração de uma cultura em detrimento de outras. A soja tirou do campo centenas de famílias e botou na cidade, gerando custos para os municípios, como, por exemplo, de saneamento. Mas a soja não agrega valor, os municípios arrecadam muito pouco com ela. E gera pouco emprego. No caso da uva, tem agregação de valor, tem o vinho, o rótulo, a garrafa. Tem mão-de-obra para colher, na indústria, nas vendas, no enoturismo, na hotelaria”, compara.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo site Sul 21 [Aqui!]