A mudança climática atinge os celeiros agrícolas do mundo

De acordo com estudo, a agricultura no Sul Global está se tornando a principal perdedora. Organizações de pequenos produtores estão pedindo mais apoio em Glasgow

agricultorasAgricultores trabalhando nos campos em Nsanje, Malawi: muita coisa está mudando para a agricultura como resultado das mudanças climáticas. Foto: dpa / epa Hrusa

Por Haidy Damm para o Neues Deutschland

O setor agrícola é uma das maiores fontes de gases de efeito estufa prejudiciais ao clima. Quase metade das emissões do setor são liberadas quando as florestas são convertidas em terras aráveis ​​e pastagens, as turfeiras são drenadas e a biomassa é queimada. A outra metade vem da própria agricultura, que não é apenas parte do problema, mas também parte da solução, como enfatizam reiteradamente os representantes das organizações de agricultores.

Mas eles têm que se apressar para continuar a fazer justiça à tarefa de garantir alimentos para o mundo em face da crise climática. Em simulações de computador inovadoras, a NASA e o Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK) previram mudanças profundas nas condições de cultivo e na produção das safras mais importantes nos próximos dez anos – se as tendências atuais no aquecimento global continuarem. “Estamos descobrindo que as novas condições climáticas estão tendo um impacto significativo na produtividade das safras em mais e mais regiões”, explica o autor principal Jonas Jägermeyr, cientista climático do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA e do PIK.

Ao combinar uma série de novas projeções climáticas e vários modelos de safra atualizados, a equipe de pesquisadores calculou o que é atualmente o maior conjunto de projeções futuras de rendimentos agrícolas. As emissões de gases de efeito estufa causadas pelo homem levam a temperaturas mais altas, mudam os padrões de precipitação e mais dióxido de carbono no ar. “Isso tem consequências para o crescimento das plantas. Vemos que em muitos dos maiores celeiros do mundo, anos anormais tornam-se anos normais na próxima década ou logo depois. Para nós, este é o momento em que o sinal de mudança climática abafa claramente todo o ruído histórico ”, diz Jägermeyr. Entre os anos de 2070 e 2100, por exemplo, a safra de milho pode cair quase um quarto globalmente.

Isso significa que os agricultores têm que se adaptar muito mais rapidamente, por exemplo, alterando a época de semeadura ou usando diferentes tipos de plantas. “Desta forma, grandes perdas podem ser evitadas, mas lucros também podem ser obtidos, por exemplo, nas latitudes mais altas”, diz Jägermeyr. Porque, embora as safras de safras importantes como o milho estejam diminuindo, a produtividade do trigo pode aumentar em cerca de 17% em todo o mundo. O grão cresce melhor em climas temperados, como o norte dos Estados Unidos e Canadá, bem como na China. O milho, por outro lado, é cultivado em países subtropicais e tropicais, que serão mais severamente afetados pelo aumento das temperaturas do que regiões mais frias em altas latitudes. Na América do Norte e Central, África Ocidental,

“Nossos dados mostram claramente que os países mais pobres provavelmente verão os maiores declínios na produção de seus alimentos básicos mais importantes. Isso agrava as diferenças já existentes em segurança alimentar e prosperidade «, diz o coautor Christoph Müller, do Instituto Potsdam. Os países pobres e, é claro, os próprios pequenos proprietários afetados muitas vezes não tinham os meios para colocar seus alimentos no mercado mundial. “Embora alguns no norte global provavelmente se beneficiem da mudança fundamental prevista nos padrões de produção agrícola, isso pode se tornar um risco para a segurança alimentar no sul global”, disse Müller.

Representantes de organizações de pequenos produtores africanos e comunidades indígenas pediram, portanto, uma conversão sustentável e favorável ao clima da agricultura na conferência climática da ONU em Glasgow. Elizabeth Nsimadala, presidente da Federação de Agricultores da África Oriental e da Associação Pan-Africana de Agricultores, disse que falou em nome de 80 milhões de agricultores que alimentaram mais de 800 milhões de pessoas. Muitas vezes, porém, os agricultores dificilmente conseguem sobreviver – também porque as secas causadas pelas mudanças climáticas estão cada vez mais secando o solo ou os desastres naturais estão destruindo as colheitas. O sistema agrícola está à beira do colapso, alertou. Para se posicionar contra a agricultura industrializada e sobreviver à crise climática, eles precisariam de apoio internacional.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui! ].

Nature publica estudo mostrando efeito sinergístico entre agrotóxicos e outros estressores na mortalidade de abelhas

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Um estudo realizado por pesquisadores ingleses e estadunidenses  liderados pelo professor Harry Siviter, do Department of Biological Sciences, Royal Holloway University of London, que acaba de ser publicado pela revista Nature, identificou um processo de sinergia (ou seja, ação simultânea) entre agrotóxicos e outros potenciais estressores (e.g., problemas nutricionais e parasitas) na mortalidade de abelhas.  Este estudo aponta ainda que a exposição simultânea a múltiplos agrotóxicos pode aumentar o nível de estresse e os impactos advindos da interação com os outros estressores.

Os resultados deste estudo apontam para a possibilidade de que os esquemas de avaliação de risco ambiental que pressupõem  efeitos aditivos do risco de exposição a agroquímicos podem estar subestimando o efeito interativo de estressores antropogênicos na mortalidade das abelhas, e com isso estão falhando em proteger os polinizadores que fornecem um serviço ecossistêmico fundamental para a agricultura.

Como resultado, os pesquisadores sugerem a realização de observações pós-licenciamento em grande escala como uma etapa final do processo regulatório envolvendo a comercialização de agrotóxicos.  Para justificar esta sugestão, os pesquisadores apontam que ainda que o monitoramento pós-licenciamento, apesar de ser uma característica crítica da liberação de produtos químicos para a saúde pública, não é nem relatado ou, tampouco, realizado de forma sistemática. 

Em conclusão, os autores do artigo afirmam que a forma atual de liberar agrotóxicos  não protege as abelhas das consequências indesejáveis de exposição a agrotóxicos complexos.

Quem desejar baixar o artigo intitulado “Agrochemicals interact synergistically to increase bee mortality“, basta clicar [Aqui!].

Uma tempestade perfeita para a Amazônia

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Por Ima Vieira

A expressão “tempestade perfeita” (do inglês, perfect storm) se refere à situação na qual um evento, em geral não favorável, é drasticamente agravado por uma combinação de circunstâncias, transformando-se em um desastre. Na Amazônia, o aumento descontrolado do desmatamento e das queimadas, a invasão de territórios indígenas e das comunidades tradicionais, a violação da legislação de proteção ambiental e a falta de fiscalização e de repressão adequada dos crimes ambientais, aliados ao agravamento das mudanças climáticas, aceleram a destruição da maior e mais diversa floresta tropical e a aproximam de um cenário fatídico. Com cerca de 800 mil km² de área desmatada (20% do bioma) e mais de 400 mil km2 de florestas degradadas, estamos nos aproximando de um ponto de inflexão a partir do qual, especialmente os ecossistemas na Amazônia oriental, sul e central, podem deixar de ser floresta, passando para um tipo de vegetação aberta, em um processo denominado de “savanização”.  

A floresta amazônica existe há pelo menos 55 milhões de anos e é habitada por comunidades humanas há pelo menos 10.000 mil anos. O manejo da biodiversidade praticado pelas populações tradicionais ao longo dos séculos levou à domesticação de pelo menos 85 espécies de plantas, dentre elas, a seringueira, a castanha-do-Pará e o açaí, e pouco alterou a cobertura florestal. Reconhece-se, no entanto, que desde a década de 1960, passamos de um conjunto de ecossistemas relativamente intocados a um mosaico complexo de diferentes usos da terra, com vários elementos de pressão e de impacto humano sobre a floresta, de tal magnitude que o chamado arco do desmatamento se transformou nos últimos cinco anos em um tridente do desmatamento, atacando o coração da floresta. A expansão econômica na Amazônia foi também um epistemicídio: invisibilizaram e silenciaram as contribuições das populações tradicionais à manutenção da floresta como base de sustentação da vida e à conservação ecológica da região. 

O papel fundamental da Amazônia na ecologia e na economia é bem conhecido. A floresta atua na regulação do clima e da temperatura do planeta e é responsável pelo sistema de chuvas que abastece diversas partes Brasil e da América do Sul. A floresta desempenha função importante na mitigação do aquecimento global, absorvendo e armazenando dióxido de carbono, por meio da fotossíntese. Sem ela, não teremos água e o seu fim trará enorme prejuízo para agricultura e produção de energia e contribuirá para um processo de extinção em massa da biodiversidade.  

O cenário atual de destruição é agravado por uma agenda de desconstrução de importantes marcos institucionais ambientais, que se estabeleceram a partir da Constituição do Brasil de 1988. Sob pressão de invasores politicamente apoiados, de tempos em tempos aparece uma tentativa de mudança de legislação, como a de regularização de terras (PL 2633/2020 e PL 510/2021), de licenciamento ambiental (PL 3729/2004) e de permissão de mineração e atividades agropecuárias em áreas indígenas (PL 191/2020), que contribuem para aumentar a ousadia desses agentes, potencializar os crimes ambientais e acelerar o processo de destruição da floresta. Os principais crimes ambientais praticados na Amazônia são grilagem de terras públicas, desmatamento, queimadas, extração clandestina de madeira e mineração ilegal.  

O resultado desta equação envolvendo eventos não favoráveis e agravamento drástico das ameaças à floresta amazônica tende a ser desastroso e está em jogo a destruição de um imenso patrimônio biológico e cultural. Vamos continuar a permitir que isso aconteça? 

* Ima Célia Guimarães Vieira é agrônoma, Doutora em Ecologia pela Universidade de Stirling, na Escócia, docente em programas de pós-graduação no Pará e pesquisadora titular do Museu Paraense Emílio Goeldi, do qual foi diretora-geral. É membro do Conselho da Cidadania da Prefeitura de Belém, do Conselho Científico da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistemicos e do Global Landscapes Forum – Amazon.
 
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Este artigo foi inicialmente publicado no site Uruá Tapera [Aqui! ].

 

A.B.E.L.H.A quer conscientizar nova geração de profissionais do agro

ONG entra no LinkedIn para disseminar a relevância dos polinizadores para uma agricultura sustentável

A Associação Brasileira de Estudo das Abelhas (A.B.E.L.H.A.) acaba de chegar ao LinkedIn, a maior rede corporativa do mundo. A página da associação está no ar desde o final de agosto e pode ser acessada pelo link: http://www.linkedin.com/company/abelhaorg .

Com o ingresso no LinkedIn, a A.B.E.L.H.A. busca expandir seu público de relacionamento e avançar na sua missão de compartilhar informação científica que leve à conservação das abelhas e outros polinizadores.

“Avaliamos que o LinkedIn é um importante espaço para a conscientização principalmente de profissionais ligados ao agronegócio, incluindo produtores rurais, engenheiros agrônomos, executivos da indústria de insumos agrícolas e autoridades ligadas ao setor”, explica Ana Assad, diretora executiva da A.B.E.L.H.A..

“Queremos levar aos tomadores de decisão a nossa mensagem sobre a relevância dos polinizadores para uma agricultura sustentável. O futuro do agronegócio só será viável em harmonia com a biodiversidade, o que, obrigatoriamente, passa pela conservação dos polinizadores”, conclui Assad.

Novas gerações – Além dos profissionais do agro, a página da A.B.E.L.H.A. no LinkedIn também pretende disseminar o papel das abelhas e polinizadores na conservação da biodiversidade para uma nova geração de profissionais e pesquisadores que estão saindo da universidade rumo ao mercado de trabalho, o que inclui engenheiros agrônomos, biólogos, zoólogos e administradores.

Mas, como explica Assad, a mensagem que a A.B.E.L.H.A. dissemina é relevante para muito além dessas profissões. “As previsões que a ciência aponta para o futuro do planeta, como as mudanças climáticas, atingem toda a humanidade. Qualquer que seja a atividade econômica, todas as decisões daqui em diante devem levar em conta a conservação da biodiversidade. E a melhor maneira de fazer isso é olhando para as abelhas.”

Siga a página corporativa da A.B.E.L.H.A. para entender o papel das abelhas na agricultura a na conservação da biodiversidade: www.linkedin.com/company/abelhaorg .

A A.B.E.L.H.A. já está presente em outras redes sociais: Facebook Twitter , desde 2017, e Instagram , desde 2018.

SOBRE A ABELHA

A Associação Brasileira de Estudos das Abelhas tem o objetivo de liderar a criação de uma rede em prol da conservação de abelhas e outros polinizadores. Sua missão é reunir, produzir e divulgar informações, com base científica, que visem à conservação da biodiversidade brasileira e à convivência harmônica e sustentável da agricultura com as abelhas e outros polinizadores. www.abelha.org.br

Conheça a A.B.E.L.H.A.: www.abelha.org.br

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A Monsanto está morta? Longa vida à Bayer

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Em meio às incríveis turbulências que afetam o Brasil, uma informação acabou caindo pelas brechas das páginas da mídia corporativa: a compra da estadunidense Monsanto pela alemã Bayer. Essa compra que ocorreu ao preço de 62,5 bilhões de dólares representa um passo a mais no processo de oligopolização das corporações envolvidas na produção de agrotóxicos e sementes geneticamente modificadas [1].

É que apenas nos últimos anos, tivemos a compra da suiça Syngente pela chinesa Chemcom e a fusão das estudanidenses Dow Chemica e DuPont [2]. Há que se lembrar que essas compras e fusões fizeram desaparecer do mercado outras tantas empresas que foram engolidas antes que as gigantes decidissem também juntar seus portfólios e, junto com eles, o controle sobre o sistema de produção de insumos agrícolas e, por extensão, da agricultura mundial.

Todo esse processo de consolidação de uma área tão fundamental para a produção e distribuição de alimentos não sinaliza nada de bom para a adoção de formas sustentáveis de agricultura e, mais ainda, para os esforços em torno da diminuição da injusta distribuição do que é produzido. O mais lógico é esperar que haja um esforço ainda maior para controlar sistemas alternativos de produção agrícola, tal como aqueles que se orientam pela agroecologia, para aumentar ainda mais os lucros já fabulosos que estas corporações experimentam com a venda de Organismos Geneticamente Modificados e venenos agrícolas.

Abaixo um vídeo que foca na compra da Monsanto pela Bayer e que mostra que não há qualquer motivo para alívio pelo fato da empresa estadunidense estar saindo de cena. É que não podemos esquecer que foi na Bayer que começou o desenvolvimento de substâncias inicialmente para guerras e depois para envenenar a nossa comida.

E não nos esqueçamos que o fato do Brasil estar hoje com sua economia fortemente dependente das exportações de commodities agrícolas nos torna presas fáceis do processo de oligopolização em curso na área de insumos agrícolas. Acresça-se a isso o aumento da contaminação ambiental e do desmatamento que acompanham a transformação da agricultura via a Revolução Verde.


[1] https://www.cnbc.com/2018/04/09/justice-department-to-allow-bayers-acquisition-of-monsanto-dj.html
[2] http://fortune.com/2018/04/10/bayer-monsanto-deal-doj-approval/

Estudo mostra que 12% das espécies de pássaros estão sob risco imediato de extinção

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O jornal “The Guardian” divulgou hoje os resultados do relatório “State of the World´s Birds” que preparado pela BirdLife International, uma coalizão de organizações não-governamentais, que aponta para um dado mais do que preocupante: 12% das espécies já identificadas de aves estão sob risco de extinção [1].

estado dos passaros

 Dentre as espécies ameaçadas de extinção em nível global estão as de papagaios, corujas da neve e rolinhas. Mas o relatório informa que esta ameaça se estende a uma em cada espécie de aves, o que representaria uma drástica perda de biodiversidade, a qual poderia ter um imenso efeito dominó sobre toda a fauna, em função do papel chave que estas espécies ocupam na cadeia trófica.

O relatório mostra as principais fontes de ameaça às populações de aves que se encontram mais ameaçadas de extinção, sendo a agricultura a principal delas. Entretanto, existe uma grande gama de ameaças, tais como: exploração madeireira, espécies invasoras, caça, mudanças climáticas, expansão urbana, incêndios e supressão de incêndios, produção de energia e mineração, corredores de transporte, entre outras (ver figura abaixo).

fontes de ameaça passaros

No caso brasileiro, é importante notar que o Brasil concentra não apenas o maior índice de biodiversidade de espécies, mas como aqui estão atuando os principais vetores de extinção das aves. E em meio a esse processo com potencial completamente desestabilizador para os ecossistemas naturais, a bancada ruralista opera de forma diligente para objetivamente extinguir o processo de licenciamento ambiental que ainda oferece freios mínimos para a destruição dos habitats dos quais muitos aves dependem para sua existência.

Quem desejar baixar e ler o relatório “State of the World´s Birds“, basta clicar [Aqui!]


[1] https://www.theguardian.com/environment/2018/apr/23/one-in-eight-birds-is-threatened-with-extinction-global-study-finds

Agricultura orgânica: uma necessidade para as futuras gerações que é negada aos brasileiros todos os dias

Estando em Paris por uns dias, tive hoje a oportunidade de visitar uma das muitas feiras livres que ocorrem na cidade ao longo da semana, onde se vende todo tipo de alimento, inclusive orgânicos. Essa opção pela agricultura orgânica não é apenas um modismo como muitos podem sugerir, pois decorre do aumento da conhecimento científico que é assimilado por parcelas da população de que a agricultura da “Revolução Verde” está criando uma série de doenças com as quais ainda teremos muitas consequências nefastas para as atuais e futuras gerações.20150912_11291420150912_112925

Agora, uma coisa que não se pode deixar de notar é que enquanto nos países centrais há uma claro avanço na demanda por alimentos saudáveis, o Brasil continua aprofundando a opção pelo uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo para sustentar a agricultura ligada ao latifúndio agroexportador.

E no plano regional, não posso deixar de lamentar que haja tão pouco apoio público à agricultura familiar para que essa pudesse se concentrar na construção de uma agricultura que possa produzir alimentos saudáveis. Aliás, se tomarmos o exemplo do tratamento dado aos agricultores do V Distrito, tem governante que acha que comida é algo que surge do nada.

 

Mazelas ambientais: O Diário aborda problema da salinização no entorno do Porto do Açu

Salinização volta a afetar área rural sanjoanense

Divulgação
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Agricultura pode ter sido comprometida por salinização causada pela Porto do Açu

Agricultores de localidades da zona rural de São João da Barra voltaram a sofrer com a salinização. Uma família produtora de hortaliças afirma ter perdido diversos produtos, que apresentavam “queimaduras nas folhas”. O problema foi confirmado pelo professor Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense.

O problema de salinização na água na região rural de SJB havia sido detectado em agosto do ano passado, pelo próprio Marcos Pedlowski. Na época, ele coletou uma amostra da água no entorno do aterro hidráulico construído pela LLX no Porto, e encontrou água salobra. Agora, pouco mais de seis meses depois, o problema voltou. “Agricultores da região alegaram que estavam perdendo plantações e desconfiaram que a água que irriga os alimentos estaria com problema salinização. Estivemos no último final de semana e, após coletas, confirmamos que o nível de salinidade estava acima do aceitável”, afirmou Pedlowski, explicando o que pode estar causando a salinização. “Estamos trabalhando com duas possibilidades. Uma é que com a crise hídrica os poços podem ter chegado à exaustão, já que as pessoas continuam usando, mas não tem água em nível suficiente. A segunda possibilidade é a contaminação do lençol freático por conta dos aterros hidráulicos construídos no Porto do Açu”, apontou o professor.

O agricultor José Almeida, de 50 anos, afirmou que tem perdido produções e está com medo de ser mais prejudicado. “Desde o final de 2014 percebi que as folhas de alface, depois de grande, apresentavam queimadura. Também perdi salsinha e pimentão. Eu não posso afirmar que é salinização, mas tudo indica que sim. Um pessoal veio fazer análise e agora é esperar. Mas estou com medo, pois já perdi algumas plantações e se isso acontecer não vou conseguir vender”, lamentou José Almeida. Sobre o problema, a Prumo, responsável pelas obras no Porto do Açu, informou que não há relação entre a implantação do Porto e a ocorrência de aumento dos índices de salinidade na comunidade. 

A empresa mantém um amplo monitoramento das condições ambientais na área de influência do empreendimento cujos dados são enviados periodicamente ao Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro. Caso em algum momento seja identificada qualquer situação que possa acarretar prejuízos à comunidade em decorrência da implantação do empreendimento, as devidas providências serão tomadas.

FONTE: http://www.odiariodecampos.com.br/salinizacao-volta-a-afetar-area-rural-sanjoanense-19377.html

Primavera silenciosa versão 2.0

Por: Jean Remy Davée Guimarães

Nos anos 1960, foi disparado alerta contra o DDT, que controlava pragas, mas matava insetos que não eram seu alvo e também aves. O problema está de volta – agora com o uso dos neonics, como mostra Jean Remy Guimarães em sua coluna de julho.

Primavera silenciosa versão 2.0

Análise de cientistas filiados à União Internacional para a Conservação da Natureza revela que os inseticidas neonics ameaçam polinizadores como as abelhas, além de outros grupos animais. (foto: William Droops/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Uma análise da literatura das últimas duas décadas sobre os inseticidas neonicotinoides e fipronil confirma que eles são um fator significativo de declínio das abelhas e outros invertebrados úteis, comprometendo serviços ambientais como a polinização e o controle de pragas.

Apesar das eloquentes evidências, estas parecem nunca ser suficientes para deflagrar uma ação regulatória mais enérgica – ou menos anêmica, dependendo do ponto de vista –, visando à limitação do uso dos neonicotinoides.

Mas um pequeno grupo de irredutíveis guerreiros empreendeu uma profunda análise da literatura disponível nos últimos 20 anos e concluiu que já há evidências de sobra para acionar o alarme e ações regulatórias enérgicas para limitar ou suspender o uso de neonicotinoides e fipronil, apelidados de neonics para não enrolar a língua.

O Grupo de Trabalho sobre Pesticidas Sistêmicos, que reúne cientistas independentes filiados à União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), se debruçou sobre 800 trabalhos revisados por pares e publicados em revistas indexadas.

Os resultados da iniciativa, batizada Worldwide Integrated Assessment (algo como Avaliação Global Integrada), serão publicados na revista Environment Science and Pollution Research.

Testemunhamos uma ameaça à produtividade de nosso ambiente natural e agrícola tão grave quanto aquela causada no passado pelos organofosforados e pelo DDT

A meta-análise concluiu que esses compostos são uma séria ameaça às abelhas e a outros polinizadores, como borboletas e zangões, e também a uma vasta gama de invertebrados, como as minhocas, além de vertebrados, inclusive aves. Estamos na fila – e as filas andam.

Segundo Jean-Marc Bonmatin, do Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França, um dos autores do estudo, as evidências são claras: testemunhamos uma ameaça à produtividade de nosso ambiente natural e agrícola tão grave quanto aquela causada no passado pelos organofosforados e pelo DDT.

Não custa lembrar que em 1962 a pesquisadora norte-americana Rachel Carson publicou o seminal Primavera silenciosa, em que descrevia os efeitos imprevistos da aplicação indiscriminada de DDT em cultivos. O pesticida de fato controlava diversas pragas, mas não havia como evitar que pássaros comessem sementes contaminadas e morressem, o que explica o título do livro, considerado fundador da moderna consciência ambiental.

Moderna? Há controvérsias. A espécie humana se destaca por sua capacidade não só de memória, mas também de esquecimento. Tanto que estamos repetindo exatamente o mesmo roteiro de meio século atrás. Os insetos, polinizadores ou não, estão de novo desaparecendo. Desaparecendo os insetos, somem seus predadores, entre os quais as aves são os mais visíveis. E audíveis. Ou ao menos eram, até aqui.

Não é para menos. Os chamados neonics são neurotoxinas com efeitos imediatos e crônicos. Exposições crônicas a baixas doses podem também ser prejudiciais, com efeitos que incluem comprometimento do olfato e da memória, redução da fecundidade, alteração no padrão de voo, maior susceptibilidade a doenças, alteração no padrão de alimentação e forrageio, alteração (em minhocas) no padrão de construção de tocas.

Minhoca
Invertebrados como minhocas e até vertebrados também estão ameaçados quando expostos cronicamente a doses, mesmo baixas, dos neonics. Em minhocas, viu-se mudança no padrão de construção de tocas. (foto: Daniel Kinpara/ Flickr – CC BY-NC 2.0)

Esses são alguns dos efeitos investigados e quantificados. Aguardamos trabalhos sobre os efeitos que ainda não foram investigados ou que ainda não são mensuráveis de forma confiável.

Estamos cercados

Os neonics contaminam espécies não-alvo de forma direta, como é o caso dos insetos que consomem o néctar de plantas tratadas, e atingem áreas anexas às áreas intencionalmente tratadas, o que alguns técnicos chamam pudicamente de “deriva técnica”.

Talvez eles dessem nomes menos pudicos se fossem vítimas desse infortúnio. Mas, mesmo que não frequentemos áreas tratadas com esses prodígios da revolução verde, sua solubilidade garante ampla dispersão para zonas ribeirinhas, estuarinas e costeiras.

Os neonics representam cerca de 40% do mercado global de pesticidas e movimentaram 2,62 bilhões de dólares em 2011

Que chato, pois eles representam cerca de 40% do mercado global de pesticidas e movimentaram 2,62 bilhões de dólares em 2011. Bem, mas isso é problema de quem vive no campo, não meu. Ledo engano, pois os mesmos produtos são usados em fórmulas para combater pulgas em cães e gatos, e cupins em estruturas de madeira. Você está cercado.

Mas convém resistir. Segundo Maarten Bijleveld van Lexmond, que preside o grupo de trabalho da IUCN, os resultados do levantamento são preocupantes, uma vez que evidenciam ameaças graves ao funcionamento dos ecossistemas e ao fornecimento de serviços ambientais como polinização e controle natural de pragas.

Resta explicar por que as entidades que regulam o setor não perceberam o que estava fartamente disponível na literatura. O grupo da IUCN chegou às suas preocupantes conclusões sem sequer levantar da cadeira; bastaram alguns cliques e muitos homens-hora e mulheres-hora de leitura.

As abelhas e seu sumiço são, já há algum tempo, a parte mais visível (sem trocadilho) do problema. Mas nem assim se tomaram medidas para limitar o uso dos neonics, à exceção de tímidas ações da Comissão Europeia.

Ativista do Greenpeace
Ativista do Greenpeace descansa após fixar cartaz em Basileia, na Suíça, pedindo o banimento de neonicotinoides. (foto: Greenpeace Switzerland/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)

Enquanto isso, os fabricantes dos neonics juram que estes não têm culpa no colapso das abelhas e que alegações em contrário são obra da concorrência (qual?) e do poderoso lobby ambientalista internacional, que quer nos levar de volta a uma era de fome e doença.

Aluguel de polinizadores

Para as abelhas, tal era chegou faz algum tempo. Concentrações ambientalmente realistas de neonics afetam seriamente sua capacidade de orientação, aprendizado, coleta de alimento, resistência a doenças, fecundidade e longevidade.

Mesmo quando transferidas para um campo não tratado, cerca de metade das abelhas antes expostas a um campo tratado não consegue retornar à colmeia e acaba morrendo.

Cerca de metade das abelhas expostas a um campo tratado com neonics não consegue retornar à colmeia e acaba morrendo

Mas pare de sofrer. Seus problemas acabaram. A iniciativa privada, sempre atenta às demandas do mercado, já tem solução para os problemas que ela própria causou: o aluguel de polinizadores, com colmeias volantes que são alugadas a agricultores.

Naturalmente, elas são criadas em áreas não tratadas antes de ir para o sacrifício. O serviço é caro, porque há poucas áreas não tratadas à disposição dos apicultores e porque as perdas de abelhas são elevadas, já que boa parte delas perde o rumo de casa após o trabalho – e não é porque pararam nalgum bar…

Não há dúvida, o mercado tem solução para tudo. Mas não para todos. Reserve já sua colmeia para a safra 2015: a demanda é maior que a oferta.

Jean Remy Davée Guimarães, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro

FONTE: http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/primavera-silenciosa-versao-2.0

Agrotóxicos neonicotinóides estão eliminando polinizadores chaves na agricultura mundial

Pesticidas estariam colocando em risco a produção de alimentos

Pesquisadores analisaram mais de 800 estudos realizados nas últimas duas décadas e concluíram que há evidências claras de que pesticidas amplamente utilizados são danosos para espécies polinizadoras, essenciais para a agricultura.

A reportagem é de Fabiano Ávila, publicada pelo Instituto Carbono Brasil, 24-06-2014.

O impacto dos pesticidas sobre os ecossistemas já é estudado há muito tempo, e não são raros os trabalhos científicos que alertam que alguns tipos de químicos são prejudiciais para a saúde humana e animal. Porém, nunca antes um grupo de pesquisadores transmitiu tão forte a mensagem de que o uso de pesticidas está colocando em risco a produção agrícola ao acabar com espécies essenciais para a produção de alimentos.

“A evidência é clara. Estamos testemunhando uma ameaça à produtividade de nossa agricultura e ao meio ambiente equivalente à que foi provocada pelos organofosfatos – DDT. Muito longe de proteger a produção de alimentos, o uso de neocotinoides e do fipronil está ameaçando a própria estrutura que mantém a agricultura, matando polinizadores e outras espécies essenciais”, afirmou Jean-Marc Bonmatin, do Centro Nacional para Pesquisas Científicas da França, um dos autores da análise.

Bonmatin e outros 28 pesquisadores de diversas partes do mundo avaliaram mais de 800 estudos publicados nas últimas duas décadas para buscar entender qual é a visão da comunidade científica sobre o uso de alguns dos pesticidas mais populares mundialmente.

O que observaram é que existem poucas dúvidas de que os neocotinoides e o fipronil são prejudiciais para uma vasta quantidade de espécies, entre elas abelhas, borboletas, alguns tipos de minhocas e pássaros.

Entre os problemas que esses pesticidas causam nos animais estão: perda do olfato e de memória; redução da fecundidade; alteração no padrão alimentar e no senso de direção. Nas abelhas, ainda provocam dificuldades de voo e aumentam a vulnerabilidade a doenças.

“Quando os primeiros estudos apareceram sobre o tema, houve uma forte reação da indústria química e dos próprios agricultores. Assim, o assunto ficou esquecido por muito tempo. Hoje estamos vendo uma situação semelhante aos anos 1950, quando utilizávamos químicos na agricultura que eram terrivelmente nocivos”, reforçou Dave Goulson, daUniversidade de Sussex.

A estimativa mais recente aponta que os agricultores gastam anualmente mais de US$ 2,6 bilhões em neocotinoides.

Para piorar, segundo os pesquisadores, as doses utilizadas desses pesticidas e a sua potência têm sido aumentadas com o passar dos anos, já que as pestes ficam cada vez mais resistentes.

“É semelhante ao que vemos quando um ser humano abusa dos antibióticos para evitar ficar doente: quanto mais se usa, mais resistentes as bactérias ficam. É uma loucura o que estamos fazendo, utilizando esses pesticidas como profiláticos”, disse Goulson.

A análise, intitulada Worldwide Integrated Assessment on Systemic Pesticides – algo como Análise Global Integrada sobre Pesticidas Sistêmicos, será publicada nos próximos dias no periódico Environmental Science and Pollution Research.

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/532653-pesticidas-estariam-colocando-em-risco-a-producao-de-alimentos