A Monsanto está morta? Longa vida à Bayer

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Em meio às incríveis turbulências que afetam o Brasil, uma informação acabou caindo pelas brechas das páginas da mídia corporativa: a compra da estadunidense Monsanto pela alemã Bayer. Essa compra que ocorreu ao preço de 62,5 bilhões de dólares representa um passo a mais no processo de oligopolização das corporações envolvidas na produção de agrotóxicos e sementes geneticamente modificadas [1].

É que apenas nos últimos anos, tivemos a compra da suiça Syngente pela chinesa Chemcom e a fusão das estudanidenses Dow Chemica e DuPont [2]. Há que se lembrar que essas compras e fusões fizeram desaparecer do mercado outras tantas empresas que foram engolidas antes que as gigantes decidissem também juntar seus portfólios e, junto com eles, o controle sobre o sistema de produção de insumos agrícolas e, por extensão, da agricultura mundial.

Todo esse processo de consolidação de uma área tão fundamental para a produção e distribuição de alimentos não sinaliza nada de bom para a adoção de formas sustentáveis de agricultura e, mais ainda, para os esforços em torno da diminuição da injusta distribuição do que é produzido. O mais lógico é esperar que haja um esforço ainda maior para controlar sistemas alternativos de produção agrícola, tal como aqueles que se orientam pela agroecologia, para aumentar ainda mais os lucros já fabulosos que estas corporações experimentam com a venda de Organismos Geneticamente Modificados e venenos agrícolas.

Abaixo um vídeo que foca na compra da Monsanto pela Bayer e que mostra que não há qualquer motivo para alívio pelo fato da empresa estadunidense estar saindo de cena. É que não podemos esquecer que foi na Bayer que começou o desenvolvimento de substâncias inicialmente para guerras e depois para envenenar a nossa comida.

E não nos esqueçamos que o fato do Brasil estar hoje com sua economia fortemente dependente das exportações de commodities agrícolas nos torna presas fáceis do processo de oligopolização em curso na área de insumos agrícolas. Acresça-se a isso o aumento da contaminação ambiental e do desmatamento que acompanham a transformação da agricultura via a Revolução Verde.


[1] https://www.cnbc.com/2018/04/09/justice-department-to-allow-bayers-acquisition-of-monsanto-dj.html
[2] http://fortune.com/2018/04/10/bayer-monsanto-deal-doj-approval/

Estudo mostra que 12% das espécies de pássaros estão sob risco imediato de extinção

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O jornal “The Guardian” divulgou hoje os resultados do relatório “State of the World´s Birds” que preparado pela BirdLife International, uma coalizão de organizações não-governamentais, que aponta para um dado mais do que preocupante: 12% das espécies já identificadas de aves estão sob risco de extinção [1].

estado dos passaros

 Dentre as espécies ameaçadas de extinção em nível global estão as de papagaios, corujas da neve e rolinhas. Mas o relatório informa que esta ameaça se estende a uma em cada espécie de aves, o que representaria uma drástica perda de biodiversidade, a qual poderia ter um imenso efeito dominó sobre toda a fauna, em função do papel chave que estas espécies ocupam na cadeia trófica.

O relatório mostra as principais fontes de ameaça às populações de aves que se encontram mais ameaçadas de extinção, sendo a agricultura a principal delas. Entretanto, existe uma grande gama de ameaças, tais como: exploração madeireira, espécies invasoras, caça, mudanças climáticas, expansão urbana, incêndios e supressão de incêndios, produção de energia e mineração, corredores de transporte, entre outras (ver figura abaixo).

fontes de ameaça passaros

No caso brasileiro, é importante notar que o Brasil concentra não apenas o maior índice de biodiversidade de espécies, mas como aqui estão atuando os principais vetores de extinção das aves. E em meio a esse processo com potencial completamente desestabilizador para os ecossistemas naturais, a bancada ruralista opera de forma diligente para objetivamente extinguir o processo de licenciamento ambiental que ainda oferece freios mínimos para a destruição dos habitats dos quais muitos aves dependem para sua existência.

Quem desejar baixar e ler o relatório “State of the World´s Birds“, basta clicar [Aqui!]


[1] https://www.theguardian.com/environment/2018/apr/23/one-in-eight-birds-is-threatened-with-extinction-global-study-finds

Agricultura orgânica: uma necessidade para as futuras gerações que é negada aos brasileiros todos os dias

Estando em Paris por uns dias, tive hoje a oportunidade de visitar uma das muitas feiras livres que ocorrem na cidade ao longo da semana, onde se vende todo tipo de alimento, inclusive orgânicos. Essa opção pela agricultura orgânica não é apenas um modismo como muitos podem sugerir, pois decorre do aumento da conhecimento científico que é assimilado por parcelas da população de que a agricultura da “Revolução Verde” está criando uma série de doenças com as quais ainda teremos muitas consequências nefastas para as atuais e futuras gerações.20150912_11291420150912_112925

Agora, uma coisa que não se pode deixar de notar é que enquanto nos países centrais há uma claro avanço na demanda por alimentos saudáveis, o Brasil continua aprofundando a opção pelo uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo para sustentar a agricultura ligada ao latifúndio agroexportador.

E no plano regional, não posso deixar de lamentar que haja tão pouco apoio público à agricultura familiar para que essa pudesse se concentrar na construção de uma agricultura que possa produzir alimentos saudáveis. Aliás, se tomarmos o exemplo do tratamento dado aos agricultores do V Distrito, tem governante que acha que comida é algo que surge do nada.

 

Mazelas ambientais: O Diário aborda problema da salinização no entorno do Porto do Açu

Salinização volta a afetar área rural sanjoanense

Divulgação
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Agricultura pode ter sido comprometida por salinização causada pela Porto do Açu

Agricultores de localidades da zona rural de São João da Barra voltaram a sofrer com a salinização. Uma família produtora de hortaliças afirma ter perdido diversos produtos, que apresentavam “queimaduras nas folhas”. O problema foi confirmado pelo professor Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense.

O problema de salinização na água na região rural de SJB havia sido detectado em agosto do ano passado, pelo próprio Marcos Pedlowski. Na época, ele coletou uma amostra da água no entorno do aterro hidráulico construído pela LLX no Porto, e encontrou água salobra. Agora, pouco mais de seis meses depois, o problema voltou. “Agricultores da região alegaram que estavam perdendo plantações e desconfiaram que a água que irriga os alimentos estaria com problema salinização. Estivemos no último final de semana e, após coletas, confirmamos que o nível de salinidade estava acima do aceitável”, afirmou Pedlowski, explicando o que pode estar causando a salinização. “Estamos trabalhando com duas possibilidades. Uma é que com a crise hídrica os poços podem ter chegado à exaustão, já que as pessoas continuam usando, mas não tem água em nível suficiente. A segunda possibilidade é a contaminação do lençol freático por conta dos aterros hidráulicos construídos no Porto do Açu”, apontou o professor.

O agricultor José Almeida, de 50 anos, afirmou que tem perdido produções e está com medo de ser mais prejudicado. “Desde o final de 2014 percebi que as folhas de alface, depois de grande, apresentavam queimadura. Também perdi salsinha e pimentão. Eu não posso afirmar que é salinização, mas tudo indica que sim. Um pessoal veio fazer análise e agora é esperar. Mas estou com medo, pois já perdi algumas plantações e se isso acontecer não vou conseguir vender”, lamentou José Almeida. Sobre o problema, a Prumo, responsável pelas obras no Porto do Açu, informou que não há relação entre a implantação do Porto e a ocorrência de aumento dos índices de salinidade na comunidade. 

A empresa mantém um amplo monitoramento das condições ambientais na área de influência do empreendimento cujos dados são enviados periodicamente ao Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro. Caso em algum momento seja identificada qualquer situação que possa acarretar prejuízos à comunidade em decorrência da implantação do empreendimento, as devidas providências serão tomadas.

FONTE: http://www.odiariodecampos.com.br/salinizacao-volta-a-afetar-area-rural-sanjoanense-19377.html

Primavera silenciosa versão 2.0

Por: Jean Remy Davée Guimarães

Nos anos 1960, foi disparado alerta contra o DDT, que controlava pragas, mas matava insetos que não eram seu alvo e também aves. O problema está de volta – agora com o uso dos neonics, como mostra Jean Remy Guimarães em sua coluna de julho.

Primavera silenciosa versão 2.0

Análise de cientistas filiados à União Internacional para a Conservação da Natureza revela que os inseticidas neonics ameaçam polinizadores como as abelhas, além de outros grupos animais. (foto: William Droops/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Uma análise da literatura das últimas duas décadas sobre os inseticidas neonicotinoides e fipronil confirma que eles são um fator significativo de declínio das abelhas e outros invertebrados úteis, comprometendo serviços ambientais como a polinização e o controle de pragas.

Apesar das eloquentes evidências, estas parecem nunca ser suficientes para deflagrar uma ação regulatória mais enérgica – ou menos anêmica, dependendo do ponto de vista –, visando à limitação do uso dos neonicotinoides.

Mas um pequeno grupo de irredutíveis guerreiros empreendeu uma profunda análise da literatura disponível nos últimos 20 anos e concluiu que já há evidências de sobra para acionar o alarme e ações regulatórias enérgicas para limitar ou suspender o uso de neonicotinoides e fipronil, apelidados de neonics para não enrolar a língua.

O Grupo de Trabalho sobre Pesticidas Sistêmicos, que reúne cientistas independentes filiados à União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), se debruçou sobre 800 trabalhos revisados por pares e publicados em revistas indexadas.

Os resultados da iniciativa, batizada Worldwide Integrated Assessment (algo como Avaliação Global Integrada), serão publicados na revista Environment Science and Pollution Research.

Testemunhamos uma ameaça à produtividade de nosso ambiente natural e agrícola tão grave quanto aquela causada no passado pelos organofosforados e pelo DDT

A meta-análise concluiu que esses compostos são uma séria ameaça às abelhas e a outros polinizadores, como borboletas e zangões, e também a uma vasta gama de invertebrados, como as minhocas, além de vertebrados, inclusive aves. Estamos na fila – e as filas andam.

Segundo Jean-Marc Bonmatin, do Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França, um dos autores do estudo, as evidências são claras: testemunhamos uma ameaça à produtividade de nosso ambiente natural e agrícola tão grave quanto aquela causada no passado pelos organofosforados e pelo DDT.

Não custa lembrar que em 1962 a pesquisadora norte-americana Rachel Carson publicou o seminal Primavera silenciosa, em que descrevia os efeitos imprevistos da aplicação indiscriminada de DDT em cultivos. O pesticida de fato controlava diversas pragas, mas não havia como evitar que pássaros comessem sementes contaminadas e morressem, o que explica o título do livro, considerado fundador da moderna consciência ambiental.

Moderna? Há controvérsias. A espécie humana se destaca por sua capacidade não só de memória, mas também de esquecimento. Tanto que estamos repetindo exatamente o mesmo roteiro de meio século atrás. Os insetos, polinizadores ou não, estão de novo desaparecendo. Desaparecendo os insetos, somem seus predadores, entre os quais as aves são os mais visíveis. E audíveis. Ou ao menos eram, até aqui.

Não é para menos. Os chamados neonics são neurotoxinas com efeitos imediatos e crônicos. Exposições crônicas a baixas doses podem também ser prejudiciais, com efeitos que incluem comprometimento do olfato e da memória, redução da fecundidade, alteração no padrão de voo, maior susceptibilidade a doenças, alteração no padrão de alimentação e forrageio, alteração (em minhocas) no padrão de construção de tocas.

Minhoca
Invertebrados como minhocas e até vertebrados também estão ameaçados quando expostos cronicamente a doses, mesmo baixas, dos neonics. Em minhocas, viu-se mudança no padrão de construção de tocas. (foto: Daniel Kinpara/ Flickr – CC BY-NC 2.0)

Esses são alguns dos efeitos investigados e quantificados. Aguardamos trabalhos sobre os efeitos que ainda não foram investigados ou que ainda não são mensuráveis de forma confiável.

Estamos cercados

Os neonics contaminam espécies não-alvo de forma direta, como é o caso dos insetos que consomem o néctar de plantas tratadas, e atingem áreas anexas às áreas intencionalmente tratadas, o que alguns técnicos chamam pudicamente de “deriva técnica”.

Talvez eles dessem nomes menos pudicos se fossem vítimas desse infortúnio. Mas, mesmo que não frequentemos áreas tratadas com esses prodígios da revolução verde, sua solubilidade garante ampla dispersão para zonas ribeirinhas, estuarinas e costeiras.

Os neonics representam cerca de 40% do mercado global de pesticidas e movimentaram 2,62 bilhões de dólares em 2011

Que chato, pois eles representam cerca de 40% do mercado global de pesticidas e movimentaram 2,62 bilhões de dólares em 2011. Bem, mas isso é problema de quem vive no campo, não meu. Ledo engano, pois os mesmos produtos são usados em fórmulas para combater pulgas em cães e gatos, e cupins em estruturas de madeira. Você está cercado.

Mas convém resistir. Segundo Maarten Bijleveld van Lexmond, que preside o grupo de trabalho da IUCN, os resultados do levantamento são preocupantes, uma vez que evidenciam ameaças graves ao funcionamento dos ecossistemas e ao fornecimento de serviços ambientais como polinização e controle natural de pragas.

Resta explicar por que as entidades que regulam o setor não perceberam o que estava fartamente disponível na literatura. O grupo da IUCN chegou às suas preocupantes conclusões sem sequer levantar da cadeira; bastaram alguns cliques e muitos homens-hora e mulheres-hora de leitura.

As abelhas e seu sumiço são, já há algum tempo, a parte mais visível (sem trocadilho) do problema. Mas nem assim se tomaram medidas para limitar o uso dos neonics, à exceção de tímidas ações da Comissão Europeia.

Ativista do Greenpeace
Ativista do Greenpeace descansa após fixar cartaz em Basileia, na Suíça, pedindo o banimento de neonicotinoides. (foto: Greenpeace Switzerland/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)

Enquanto isso, os fabricantes dos neonics juram que estes não têm culpa no colapso das abelhas e que alegações em contrário são obra da concorrência (qual?) e do poderoso lobby ambientalista internacional, que quer nos levar de volta a uma era de fome e doença.

Aluguel de polinizadores

Para as abelhas, tal era chegou faz algum tempo. Concentrações ambientalmente realistas de neonics afetam seriamente sua capacidade de orientação, aprendizado, coleta de alimento, resistência a doenças, fecundidade e longevidade.

Mesmo quando transferidas para um campo não tratado, cerca de metade das abelhas antes expostas a um campo tratado não consegue retornar à colmeia e acaba morrendo.

Cerca de metade das abelhas expostas a um campo tratado com neonics não consegue retornar à colmeia e acaba morrendo

Mas pare de sofrer. Seus problemas acabaram. A iniciativa privada, sempre atenta às demandas do mercado, já tem solução para os problemas que ela própria causou: o aluguel de polinizadores, com colmeias volantes que são alugadas a agricultores.

Naturalmente, elas são criadas em áreas não tratadas antes de ir para o sacrifício. O serviço é caro, porque há poucas áreas não tratadas à disposição dos apicultores e porque as perdas de abelhas são elevadas, já que boa parte delas perde o rumo de casa após o trabalho – e não é porque pararam nalgum bar…

Não há dúvida, o mercado tem solução para tudo. Mas não para todos. Reserve já sua colmeia para a safra 2015: a demanda é maior que a oferta.

Jean Remy Davée Guimarães, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro

FONTE: http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/primavera-silenciosa-versao-2.0

Agrotóxicos neonicotinóides estão eliminando polinizadores chaves na agricultura mundial

Pesticidas estariam colocando em risco a produção de alimentos

Pesquisadores analisaram mais de 800 estudos realizados nas últimas duas décadas e concluíram que há evidências claras de que pesticidas amplamente utilizados são danosos para espécies polinizadoras, essenciais para a agricultura.

A reportagem é de Fabiano Ávila, publicada pelo Instituto Carbono Brasil, 24-06-2014.

O impacto dos pesticidas sobre os ecossistemas já é estudado há muito tempo, e não são raros os trabalhos científicos que alertam que alguns tipos de químicos são prejudiciais para a saúde humana e animal. Porém, nunca antes um grupo de pesquisadores transmitiu tão forte a mensagem de que o uso de pesticidas está colocando em risco a produção agrícola ao acabar com espécies essenciais para a produção de alimentos.

“A evidência é clara. Estamos testemunhando uma ameaça à produtividade de nossa agricultura e ao meio ambiente equivalente à que foi provocada pelos organofosfatos – DDT. Muito longe de proteger a produção de alimentos, o uso de neocotinoides e do fipronil está ameaçando a própria estrutura que mantém a agricultura, matando polinizadores e outras espécies essenciais”, afirmou Jean-Marc Bonmatin, do Centro Nacional para Pesquisas Científicas da França, um dos autores da análise.

Bonmatin e outros 28 pesquisadores de diversas partes do mundo avaliaram mais de 800 estudos publicados nas últimas duas décadas para buscar entender qual é a visão da comunidade científica sobre o uso de alguns dos pesticidas mais populares mundialmente.

O que observaram é que existem poucas dúvidas de que os neocotinoides e o fipronil são prejudiciais para uma vasta quantidade de espécies, entre elas abelhas, borboletas, alguns tipos de minhocas e pássaros.

Entre os problemas que esses pesticidas causam nos animais estão: perda do olfato e de memória; redução da fecundidade; alteração no padrão alimentar e no senso de direção. Nas abelhas, ainda provocam dificuldades de voo e aumentam a vulnerabilidade a doenças.

“Quando os primeiros estudos apareceram sobre o tema, houve uma forte reação da indústria química e dos próprios agricultores. Assim, o assunto ficou esquecido por muito tempo. Hoje estamos vendo uma situação semelhante aos anos 1950, quando utilizávamos químicos na agricultura que eram terrivelmente nocivos”, reforçou Dave Goulson, daUniversidade de Sussex.

A estimativa mais recente aponta que os agricultores gastam anualmente mais de US$ 2,6 bilhões em neocotinoides.

Para piorar, segundo os pesquisadores, as doses utilizadas desses pesticidas e a sua potência têm sido aumentadas com o passar dos anos, já que as pestes ficam cada vez mais resistentes.

“É semelhante ao que vemos quando um ser humano abusa dos antibióticos para evitar ficar doente: quanto mais se usa, mais resistentes as bactérias ficam. É uma loucura o que estamos fazendo, utilizando esses pesticidas como profiláticos”, disse Goulson.

A análise, intitulada Worldwide Integrated Assessment on Systemic Pesticides – algo como Análise Global Integrada sobre Pesticidas Sistêmicos, será publicada nos próximos dias no periódico Environmental Science and Pollution Research.

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/532653-pesticidas-estariam-colocando-em-risco-a-producao-de-alimentos

Camponeses de Moçambique temem modernização agrícola à brasileira

por AMOS ZACARIAS

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Clipboard013 629x368 Camponeses de Moçambique temem modernização agrícola à brasileira

Nampula, Moçambique, 6/1/2014 – Rodolfo Razão adquiriu, em 2010, o título de Direito de Uso e Aproveitamento de Terra (Duart) de dez hectares, mas só pode explorar sete. Alega que o restante foi ocupado por uma companhia sul-africana que cultiva soja, milho e feijões numa área estimada em dez mil hectares. De nada adiantou queixar-se às autoridades no distrito de Monapo, onde reside, na província de Nampula. Aos 78 anos, pouco pode esperar.

Brígida Mohamad, viúva de 50 anos, sofre por um dos seus sete filhos, cuja terra disse que foi invadida por uma empresa. “Meu filho já não tem onde cultivar, nós não estamos vendendo nossasmachambas” (terreno agrícola), desabafou à IPS em Nacololo, localidade do mesmo distrito de Monapo, onde sempre viveu.

São casos que acentuam o temor com que os camponeses imaginam o Programa de Cooperação Tripartite para o Desenvolvimento Agrícola da Savana Tropical em Moçambique, conhecido como ProSavana e apoiado financeiramente pelas agências de cooperação brasileira (ABC) e japonesa (Jica).

O programa, baseado na tecnologia de agricultura tropical desenvolvida no Brasil, pretende aumentar a produção no corredor de Nacala, uma área de 14,5 milhões de hectares no centro e norte de Moçambique, com potencialidades agronômicas semelhantes às do Cerrado, a savana brasileira. Vivem ali cerca de 4,5 milhões de habitantes, 80% na zona rural, uma alta densidade em comparação com países como o Brasil, que já viveram uma modernização agrícola que promove o êxodo rural.

No entanto, em certos lugares é possível percorrer dois quilômetros sem encontrar uma casa, dada a dispersão e o isolamento das familias dedicadas à agricultura de subsistência em lotes de 1,5 hectares, em média. A mandioca é a principal base alimentar da região. Produzem ainda o milho, abóbora, gergelim, girassol e batata-doce. O algodão, o tabaco e o caju são cultivados para a geração de renda.

A perspectiva de se transformar o corredor em grande celeiro do país, inclusive para a exportação facilitada pelo porto de Nacala, deve intensificar os conflitos pela terra, ao atrair empresas voltadas à produção comercial e ao aumento de produtividade, em extensos estabelecimentos que deslocam populações tradicionais.

A presença dos grandes investidores é uma desgraça, praguejou Brígida Mohamad, ao rejeitar mudanças que não são necessariamente provocadas pelo ProSavana, mas podem acelerar-se por sua influência. Os camponeses não perderão suas terras, o objetivo principal do programa é acolher os agricultores que já estão no terreno e melhorar suas técnicas de produção, garantiu à IPS o coordenador moçambicano do ProSavana, Calisto Bias.

Cotnudo, as comunidades do corredor de Nacala sofrerão uma ruptura na sua forma de viver, porque os grandes investidores trazem novas relações, de empregados e patrões, e as monoculturas põem em xeque o hábito de “produzir um pouco de tudo para sua alimentação”, prevê Sheila Rafi, Oficial de Recursos Naturais da organização não governamental Livaningo.

Gerar emprego por meio de investimentos agrícolas e do estabelecimento de cadeias de valor é de fato uma das “missões” do ProSavana. Outra é modernizar e diversificar a agricultura com vistas a um aumento da produtividade e da produção, informa o site criado pelo Ministério da Agricultura para divulgar o programa (https://www.prosavana.gov.mz/index.php).

Porém, a ameaça mais sentida é a de “usurpação” das terras. Alguns tentam proteger os seus espaços com a obtenção de títulos de Duart, mas não é uma garantia, segundo os depoimentos ouvidos. A lei moçambicana de terras diz que a terra é propriedade do Estado, e não pode ser vendida ou mesmo penhorada. As pessoas, individual ou coletivamente, podem solicitar ao governo o Duart, até um período máximo de 50 anos.

Cerca de 250 camponeses de Nacololo aglomeraram-se, no dia 11 de dezembro, diante da casa do chefe do posto local, exigindo explicações sobre uma alegada usurpação de cerca de 600 hectares pela empresa sul-africana Suni.

O distrito de Malema, a 232 quilômetros da cidade de Nampula, também vive dias turbulentos. No local operam grandes companhias agrícolas como a japonesa Nitori, produtora de algodão, que obteve a concessão de cerca de 20 mil hectares onde vivem algumas famílias a serem reassentadas. Outra é a Agromoz (Agribusiness de Moçambique S.A.), sociedade de capitais brasileiro, moçambicano e português, dedicada ao cultivo de soja em dez mil hectares.

A falta de informações oficiais agrava a incerteza. “Só estamos ouvindo que há um programa chamado ProSavana pelos meios de comunicação e organizações da sociedade civil, o governo ainda não nos falou disto”, afirmou Razão. “Não estamos contra o desenvolvimento, mas queremos políticas que beneficiem o camponês e que nos expliquem o que é isto de ProSavana”, cobrou Costa Estevão, presidente do Núcleo Provincial de Camponeses de Nampula.

O acordo triangular, de aparente complementaridade entre o mercado importador japonês, os conhecimentos brasileiros e as terras de Moçambique, em execução desde 2011, já mostrou seu potencial de controvérsias.

Organizações sociais dos três países se mobilizaram para rejeitar ou reorientar o ProSavana. O Brasil quer “exportar um modelo em conflito”, segundo Fatima Mello, diretora de relações internacionais da organização não governamental brasileira Fase, que participou em agosto da Conferência Triangular dos Povos frente ao ProSavana, em Maputo.

Milhões de camponeses sem terra, êxodo rural, sangrentas disputas de terra, desmatamento e recordes mundiais no uso do agrotóxico são efeitos desse modelo que privilegia o agronegócio, a monocultura para exportãção e as grandes empresas, destacam os ativistas, que defendem a agricultura familiar e a segurança alimentar.

Parte importante na implantação desse modelo foi o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados (Prodecer), idealizado em 1974 e executado a partir de 1978, que inspira o ProSavana. Vem do Brasil a tecnologia a ser transferida aos agricultores do Corredor de Nacala. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) capacita técnicos e gestores do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique no primeiro projeto do ProSavana.

Os outros dois componentes, a elaboração do Plano Diretor que avalia as áreas e culturas com potencialidade no Corredor e o Projeto de Extensão e Modelos (PEM), também têm decisiva participação brasileira.

Faltam “um debate público profundo, amplo, transparente e democrático” com a sociedade  e a avaliação de impacto ambiental exigida legalmente, protestaram 23 organizações e movimentos sociais moçambicanos, apoiados por 42 internacionais, em carta aberta aos governantes do Brasil, Japão e Moçambique, assinada em Maputo no dia 23 de maio do ano passado.

Os signatários reivindicam suspensão imediata das ações do ProSavana, abertura de um diálogo oficial com todos os sectores sociais do país, prioridade para a agricultura camponesa e agroecológica e uma política de soberania alimentar. Todos os recursos destinados ao ProSavana devem ser “realocados na definição e elaboração de um Plano Nacional de Apoio à Agricultura Familiar sustentável”, afirma a carta. Envolverde/IPS

+ProSavana (http://www.gov.mz), em português e inglês

+Instituto de Estudos Sociais e Econômicos (http://www.iese.ac.mz), em português

+Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (http://www.embrapa.br), em português, inglês e espanhol

FONTE: http://www.ipsnoticias.net/portuguese/2014/01/ultimas-noticias/camponeses-de-mocambique-temem-modernizacao-agricola-a-brasileira/