Milhares de poços artesianos em São Paulo operam sob risco de contaminação tóxica, alerta estudo

Dois terços dos 14 mil poços privados existentes na Região Metropolitana não estão formalmente cadastrados e muitos foram perfurados em antigas zonas industriais em processo de reconversão imobiliária

Entre os principais contaminantes destacam-se o percloroetileno e o tricloroetileno, utilizados como desengraxantes industriais, na limpeza de peças metálicas (imagem: Wirestock/Magnific)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

Com cerca de 22 milhões de habitantes, a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) consome em média 61,6 metros cúbicos (ou 61.600 litros) de água por segundo. Embora quase todo o abastecimento público provenha de mananciais superficiais, estima-se que aproximadamente 18% do consumo total dependa de aquíferos, por meio de cerca de 14 mil poços privados. O aporte dos aquíferos é de aproximadamente 347 milhões de metros cúbicos por ano.

Mas dois terços desses poços não estão formalmente cadastrados. E muitos deles foram perfurados em antigas zonas industriais, hoje desindustrializadas e em processo de reconversão imobiliária. A contaminação dessas áreas por resíduos industriais, principalmente solventes clorados utilizados na limpeza de máquinas, constitui um risco para o consumo de águas subterrâneas, considerando-se a dificuldade de gerir esse passivo ambiental em escala compatível com a da demanda de recursos hídricos.

Esse é o principal alerta de artigo publicado na revista científica Environmental Earth Sciences. O trabalho, apoiado pela FAPESP e assinado por Daphne Silva Pino e colaboradores, examina o quadro brasileiro, com foco especial na RMSP. “Chamamos a atenção para os riscos potenciais associados ao uso de aquíferos em áreas industriais antigas ou em reurbanização, em um contexto de monitoramento ainda fragmentado”, diz Pino.

Ela é pós-doutoranda no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGC-USP). Seu supervisor, Reginaldo Antonio Bertolo, também assina o artigo.

Bertolo sintetiza a situação: “Para cada três poços que são construídos, dois são irregulares, no sentido de que o poder público não tem ciência da existência deles nem consegue avaliar se a água utilizada oferece risco ao usuário”. Segundo o pesquisador, clubes, condomínios, indústrias e hospitais figuram entre os principais consumidores do recurso subterrâneo.

Desengraxantes industriais

Entre os principais contaminantes, englobados na categoria “solventes clorados”, destacam-se o percloroetileno (CCl) e tricloroetileno (CHCl), utilizados como desengraxantes industriais. “Essas substâncias, bastante empregadas na limpeza de peças metálicas, são altamente tóxicas”, afirma Pino. Ela lembra que o percloroetileno também foi utilizado durante décadas em lavanderias para lavagem a seco e que a atual legislação brasileira ainda permite o uso, apesar de impor diversas restrições e exigências. “Diminuiu bastante o uso, mas esses solventes continuam presentes em ambientes industriais”, pontua.

Embora esses produtos sejam controlados no âmbito industrial, informações públicas sobre quem os utiliza e em que quantidades ainda são escassas. Além disso, há lacunas regulatórias sobre descarte e reciclagem desses solventes.

Do ponto de vista hidrogeológico, o risco não se resume à toxicidade. Bertolo observa que hidrocarbonetos vazados por postos de gasolina tendem a se degradar com maior rapidez. Já os solventes clorados apresentam comportamento mais persistente. “Quando a degradação acontece, formam-se compostos ‘filhos’ que podem ser ainda mais tóxicos do que o composto original”, afirma. Pino acrescenta que, se há poços bombeando em profundidade, isso cria um gradiente hidráulico descendente que facilita o aporte desses contaminantes para níveis mais profundos do aquífero.

Uma das contribuições centrais do estudo é o cruzamento cartográfico entre três camadas de informação: zonas industriais, áreas oficialmente contaminadas por solventes clorados e poços de abastecimento. A análise mostra que, em São Paulo, essas três dimensões frequentemente se sobrepõem.


Área do bairro da Mooca, uma das regiões desindustrializadas da cidade de São Paulo (imagem: Daphne S.Pino)

Pino descreve uma das figuras produzidas pelo estudo, que corresponde a uma área do bairro da Mooca, uma das regiões da cidade de São Paulo que passaram por importante processo de desindustrialização: “Os pontos azuis representam poços de abastecimento conhecidos; os vermelhos, áreas contaminadas; e os polígonos verdes indicam áreas onde não deveria haver captação. O que chama atenção é a proximidade e até mesmo a sobreposição entre poços registrados e áreas contaminadas. O problema torna-se ainda mais grave se considerarmos a predominância de poços irregulares, que, obviamente, não aparecem na figura”.

O que acontece na Mooca ocorre também em outras áreas desindustrializadas da cidade de São Paulo. O processo de desindustrialização, iniciado ainda no final dos anos 1970, consolidou-se a partir da década seguinte e acentuou-se cada vez mais desde então. Por causa dos custos urbanos elevados, muitas empresas transferiram suas fábricas para municípios da Região Metropolitana, para o interior paulista ou até mesmo para outros Estados.

O processo deixou atrás de si um rastro de galpões abandonados e subsolo contaminado. Quando não simplesmente arruinados, antigos distritos fabris passaram a abrigar atividades de serviços, comércio e empreendimentos imobiliários em territórios não preparados para essa reconfiguração econômico-social. Com base na legislação paulista, se existir uma área contaminada em um raio de 500 metros de um poço, o responsável deve apresentar relatórios de qualidade da água ao órgão ambiental. Ao aplicar esse critério aos mapas produzidos no estudo, os autores identificaram 17 aglomerações de áreas contaminadas e poços cujos raios se sobrepõem: em regiões como Jurubatuba, Jaguaré, Mooca e Vila Prudente, na capital; e Diadema, Mauá e Osasco, na RMSP.

“Muitas dessas áreas funcionam como fontes multiponto de contaminação, com plumas que se interceptam. E há poços profundos usados para ingestão humana dentro desses cinturões”, enfatiza Pino. O estudo aponta que a gestão de áreas contaminadas costuma ser conduzida no limite de cada propriedade, enquanto a água subterrânea ignora fronteiras imobiliárias. “Remove-se solo superficial para controlar o risco imediato, impedindo, por exemplo, que vapores tóxicos entrem em edificações. Mas grande parte da massa contaminante permanece em profundidade e continua sendo transportada pela água subterrânea”, descreve Bertolo.

Reabilitação lenta

Até 2020, apenas 18,6% dos locais contaminados por solventes clorados haviam sido classificados como “reabilitados para o uso declarado”. Essa categoria não implica na eliminação completa da massa contaminante, mas em sua redução a níveis considerados aceitáveis do ponto de vista de risco. Ao analisar o cadastro paulista, os pesquisadores identificaram 596 áreas com histórico de solventes clorados. Mais da metade ainda estava em fase de remediação, enquanto 26% permaneciam em investigação.

Bertolo afirma que a contaminação tende a se concentrar nos primeiros metros do aquífero. “Mas, quando se bombeia a 100 metros de profundidade, cria-se um gradiente descendente que faz com que a água contaminada da zona rasa migre lentamente para baixo”, explica. Ele ressalta que camadas geológicas menos permeáveis podem atuar como filtro natural, mas reconhece incertezas importantes sobre a eficácia desse mecanismo ao longo de décadas. A toxicidade dos solventes agrava o quadro. “O limite de potabilidade é da ordem de partes por bilhão”, destaca o pesquisador. “Uma quantidade mínima dissolvida já é suficiente para comprometer volumes enormes de água.”

Jurubatuba, na zona sul paulistana, aparece no artigo como a área mais estudada da RMSP. Ainda assim, três quartos dos sítios ali localizados carecem de informação detalhada nos cadastros ambientais. Metade corresponde a instalações industriais com histórico documentado de uso de solventes clorados. Bertolo vê no monitoramento da região um ensaio do que poderia ser feito em escala maior, alcançando outras manchas industriais, como partes do ABCD paulista, com atuação coordenada entre a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e a Agência de Águas do Estado de São Paulo (SP Águas).

“Hoje, o cenário exige uma ação estratégica, que ultrapasse o caso a caso e direcione a política pública para impedir o uso da água subterrânea em áreas mais amplas. Quando se olha o aquífero, delimitações geométricas rígidas em torno de um imóvel não fazem sentido. É preciso tratar essas regiões como sistemas hidrogeológicos integrados”, acrescenta Pino.

O artigo conclui com um chamado por bases de dados mais robustas, equipes técnicas multidisciplinares e diagnósticos regionais sistemáticos, capazes de dimensionar a extensão real do problema e orientar políticas de longo prazo.

Procurada pela Agência FAPESP, a SP Águas afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, em linha com iniciativas de analisar o território de forma mais ampla e integrada – principalmente relacionando o binômio “águas subterrâneas e áreas contaminadas”, promoveu novos estudos hidrogeológicos para a região de Jurubatuba, por meio da Fundação Agência de Bacia Hidrográfica do Alto Tietê. “O principal objetivo desse trabalho foi aperfeiçoar o modelo de gestão existente na região, propondo o aprimoramento da integração entre os órgãos gestores e ampliando o entendimento sobre o comportamento da água subterrânea e o transporte de contaminantes”, diz a nota. “Como resultado, além da indicação de áreas com maior ou menor restrição de uso das águas, o estudo sinalizou que o modelo de gestão existente deve estabelecer, entre outras medidas, maior integração entre as Políticas Estaduais de Recursos Hídricos e de Gerenciamento de Áreas Contaminadas, especialmente diante da relação de causa e efeito já mencionada no trabalho de Pino”, complementa.

Ainda segundo a SP Águas, nesse contexto, para o sucesso da aplicação do modelo de gestão das águas subterrâneas proposto em Jurubatuba, os órgãos gestores devem considerar, entre outras medidas, a possibilidade de unificação de seus bancos de dados; uma gestão adaptativa que consiga ser aprimorada à medida que resultados de monitoramentos e outros trabalhos técnicos sejam produzidos; e o estabelecimento de comunicação simplificada com a população, visando que a complexidade da região seja traduzida em orientações explicitas e acessíveis ao público.

Também procurada, a Cetesb não se manifestou até a publicação desta reportagem.

O artigo Overview of groundwater management at sites contaminated by chlorinated solvents in Brazil pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s12665-025-12727-x.


Fonte: Agência Fapesp

Níveis inseguros de PFAS contaminam fontes globais de água, segundo estudo

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Por Shanon Kellhero para o “The New Lede”

Uma grande parte das águas superficiais e subterrâneas do mundo contém produtos químicos tóxicos PFAS em níveis superiores aos que os reguladores consideram seguros para água potável, de acordo com uma nova análise de dados de mais de 45.000 amostras de água recolhidas em todo o mundo.

Os dados apontam para a Austrália, China, Europa e América do Norte como pontos críticos de contaminação por substâncias per e polifluoroalquílicas (PFAS), embora os autores sugiram que isto pode ser distorcido devido a níveis mais elevados de amostragem nestas regiões.

As descobertas, publicadas em 8 de abril na revista Nature Geoscience , ocorrem no momento em que os reguladores dos Estados Unidos se preparam para estabelecer os primeiros limites obrigatórios de água potável para certos tipos de PFAS. Muitos estados dos EUA e outros países já estabeleceram regulamentações para PFAS na água potável.

“Fiquei surpreso ao descobrir que a grande fração das fontes de água está acima das recomendações de água potável”, disse Denis O’Carroll, professor de engenharia da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, e autor do estudo, em comunicado à imprensa .

O número de amostras consideradas inseguras foi maior em países que possuem diretrizes e regulamentações mais rígidas para água potável PFAS. No Canadá, que tem uma das recomendações mais rigorosas para PFAS em água potável, 69% das amostras de águas subterrâneas tinham níveis que ultrapassaram o limiar daquele país, enquanto apenas 6% das amostras da União Europeia não cumpriram os seus critérios.

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Notavelmente, o estudo identificou 57 produtos químicos PFAS diferentes em quase 34.000 amostras de águas subterrâneas globais e encontrou altos níveis de contaminação por PFAS em regiões onde uma espuma de combate a incêndios contendo PFAS (espuma aquosa formadora de filme ou AFFF) tinha sido fortemente utilizada, bem como perto de locais onde os produtos químicos são fabricados.

A equipe de pesquisa utilizou medições de PFAS documentadas em relatórios governamentais, bancos de dados e literatura revisada por pares, incluindo 273 estudos ambientais desde 2004, que incluem dados de mais de 12.000 amostras de águas superficiais e 33.900 amostras de águas subterrâneas.

Existem milhares de produtos químicos PFAS, que não se decompõem naturalmente e são utilizados em processos industriais e produtos de consumo que vão desde frigideiras a capas de chuva. A exposição a alguns PFAS tem sido associada a vários problemas de saúde, incluindo cancro.

Embora os cientistas saibam que os PFAS estão difundidos em todo o mundo, a extensão da contaminação por PFAS nas fontes de água globais permanece incerta. Os autores disseram que a futura carga ambiental do PFAS está provavelmente subestimada.

“As atuais práticas de monitorização provavelmente subestimam os PFAS no ambiente, dado o conjunto limitado de PFAS que são normalmente quantificados, mas considerados de preocupação regulamentar”, escrevem os autores.

Dados recentes baseados em um terço do abastecimento público de água sugerem que 70 milhões de pessoas nos EUA têm PFAS na água potável, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA).

Pelo menos um produto químico PFAS está presente em cerca de 45% das amostras de água potável dos EUA, tanto para poços privados como para água da torneira pública, estimou um estudo de 2023, enquanto uma análise do US Geological Survey de riachos e rios em toda a Pensilvânia descobriu que 76% continham PFAS.


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Fonte: The New Lede