A dívida que nunca termina: a construção histórica do endividamento permanente no Brasil

Em estudo da Auditoria Cidadã da Dívida, Paulo Lindesay reconstrói mais de dois séculos de endividamento público e questiona um modelo que parece produzir dívidas eternas enquanto restringe investimentos sociais e o desenvolvimento nacional

Poucos temas permanecem tão ausentes do debate público brasileiro quanto a dívida pública. Embora ela consuma anualmente uma parcela gigantesca do orçamento nacional, seu funcionamento continua envolto em uma linguagem técnica que dificulta a compreensão por parte da maioria da população. É justamente contra essa opacidade que Paulo Lindesay se insurge em seu  provocativo ensaio sobre a evolução histórica da dívida pública brasileira.

O mérito central do trabalho está em mostrar que a dívida pública não pode ser entendida apenas como resultado de gastos excessivos do Estado. Ao contrário, Lindesay reconstrói historicamente os mecanismos que transformaram o endividamento em um elemento estrutural da formação econômica brasileira, desde o período imperial até os atuais regimes fiscais. Sua tese é contundente: ao longo de mais de dois séculos, consolidou-se um sistema que produz endividamento de forma contínua e crescente, transferindo recursos públicos para o setor financeiro enquanto restringe investimentos sociais e produtivos.

A narrativa histórica apresentada pelo autor revela que o nascimento da dívida brasileira está ligado ao próprio processo de independência. O novo Estado assumiu compromissos financeiros herdados de Portugal e passou a recorrer sistematicamente a empréstimos externos. Desde então, sucessivas crises, renegociações e refinanciamentos criaram uma dinâmica em que a dívida nunca é efetivamente liquidada, apenas transformada em novos passivos.

Um dos pontos mais relevantes do texto é a distinção entre dívida contraída para financiar investimentos produtivos e dívida que cresce em função dos próprios encargos financeiros. Segundo Lindesay, especialmente a partir das décadas finais do século XX, o crescimento do endividamento brasileiro passou a estar fortemente associado à política monetária baseada em juros elevados e aos mecanismos de refinanciamento permanente dos títulos públicos. Essa interpretação converge com análises anteriores da própria Auditoria Cidadã da Dívida, que questionam a contabilização de parcelas significativas dos juros como amortização ou rolagem da dívida.

A consequência desse processo seria a construção de uma espécie de “dívida impagável”. Não porque o Estado brasileiro seja incapaz de gerar receitas, mas porque o próprio desenho institucional faz com que a dívida se reproduza continuamente. Em outras palavras, paga-se muito, mas a dívida continua crescendo. A cada renegociação surgem novas obrigações; a cada refinanciamento ampliam-se os compromissos futuros. O resultado é um sistema que exige crescentes transferências de recursos públicos para o setor financeiro sem que isso represente uma redução significativa do estoque da dívida.

Essa lógica torna-se ainda mais evidente quando observamos os estados brasileiros. O caso do Rio de Janeiro, frequentemente analisado por Lindesay em outros trabalhos, é emblemático. Diversos estados já pagaram várias vezes o valor originalmente contratado junto à União e aos credores financeiros, mas permanecem presos a contratos que continuam produzindo saldos devedores elevados. O fenômeno lembra uma esteira rolante: quanto mais se caminha, mais distante parece ficar o destino final.

O artigo também oferece uma interpretação crítica dos mecanismos fiscais recentes, incluindo o teto de gastos, os regimes de recuperação fiscal e os novos modelos de renegociação das dívidas estaduais. Segundo a perspectiva defendida pela Auditoria Cidadã da Dívida, essas iniciativas compartilham um traço comum: priorizam a garantia dos pagamentos financeiros enquanto comprimem despesas sociais, investimentos públicos e políticas de desenvolvimento.

Tal diagnóstico conduz a uma questão política fundamental: por que a sociedade brasileira aceita discutir exaustivamente os gastos com saúde, educação, previdência ou funcionalismo público, mas raramente debate os mecanismos que determinam o crescimento da dívida? Para Lindesay, essa assimetria não é acidental. Ela faz parte de um modelo de gestão econômica em que a dívida se converte em instrumento privilegiado de transferência de riqueza.

Independentemente de concordar integralmente ou não com as conclusões da Auditoria Cidadã da Dívida, o trabalho de Paulo Lindesay cumpre uma função essencial: retirar a dívida pública do terreno da tecnocracia e recolocá-la no centro do debate democrático. Afinal, quando mais de uma geração de brasileiros vive sob a justificativa permanente da escassez de recursos para direitos sociais, mas observa simultaneamente o crescimento contínuo dos pagamentos financeiros, torna-se legítimo perguntar se estamos diante de um problema de falta de dinheiro ou de prioridades políticas.

A principal contribuição do artigo reside justamente nessa provocação. Ao reconstruir dois séculos de história do endividamento brasileiro, Lindesay sugere que a questão central não é apenas quanto devemos, mas sobretudo como essa dívida foi construída, quem se beneficia de sua reprodução permanente e por que ela continua sendo tratada como uma verdade incontestável. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, essas perguntas estão longe de serem meramente contábeis. Elas dizem respeito ao próprio modelo de Estado e ao futuro da democracia brasileira

Poucos temas permanecem tão ausentes do debate público brasileiro quanto a dívida pública. Embora ela consuma anualmente uma parcela gigantesca do orçamento nacional, seu funcionamento continua envolto em uma linguagem técnica que dificulta a compreensão por parte da maioria da população. É justamente contra essa opacidade que Paulo Lindesay se insurge em seu extenso e provocativo ensaio sobre a evolução histórica da dívida pública brasileira.

O mérito central do trabalho está em mostrar que a dívida pública não pode ser entendida apenas como resultado de gastos excessivos do Estado. Ao contrário, Lindesay reconstrói historicamente os mecanismos que transformaram o endividamento em um elemento estrutural da formação econômica brasileira, desde o período imperial até os atuais regimes fiscais. Sua tese é contundente: ao longo de mais de dois séculos, consolidou-se um sistema que produz endividamento de forma contínua e crescente, transferindo recursos públicos para o setor financeiro enquanto restringe investimentos sociais e produtivos.

A narrativa histórica apresentada pelo autor revela que o nascimento da dívida brasileira está ligado ao próprio processo de independência. O novo Estado assumiu compromissos financeiros herdados de Portugal e passou a recorrer sistematicamente a empréstimos externos. Desde então, sucessivas crises, renegociações e refinanciamentos criaram uma dinâmica em que a dívida nunca é efetivamente liquidada, apenas transformada em novos passivos.

Um dos pontos mais relevantes do texto é a distinção entre dívida contraída para financiar investimentos produtivos e dívida que cresce em função dos próprios encargos financeiros. Segundo Lindesay, especialmente a partir das décadas finais do século XX, o crescimento do endividamento brasileiro passou a estar fortemente associado à política monetária baseada em juros elevados e aos mecanismos de refinanciamento permanente dos títulos públicos. Essa interpretação converge com análises anteriores da própria Auditoria Cidadã da Dívida, que questionam a contabilização de parcelas significativas dos juros como amortização ou rolagem da dívida.

A consequência desse processo seria a construção de uma espécie de “dívida impagável”. Não porque o Estado brasileiro seja incapaz de gerar receitas, mas porque o próprio desenho institucional faz com que a dívida se reproduza continuamente. Em outras palavras, paga-se muito, mas a dívida continua crescendo. A cada renegociação surgem novas obrigações; a cada refinanciamento ampliam-se os compromissos futuros. O resultado é um sistema que exige crescentes transferências de recursos públicos para o setor financeiro sem que isso represente uma redução significativa do estoque da dívida.

Essa lógica torna-se ainda mais evidente quando observamos os estados brasileiros. O caso do Rio de Janeiro, frequentemente analisado por Lindesay em outros trabalhos, é emblemático. Diversos estados já pagaram várias vezes o valor originalmente contratado junto à União e aos credores financeiros, mas permanecem presos a contratos que continuam produzindo saldos devedores elevados. O fenômeno lembra uma esteira rolante: quanto mais se caminha, mais distante parece ficar o destino final.

O artigo também oferece uma interpretação crítica dos mecanismos fiscais recentes, incluindo o teto de gastos, os regimes de recuperação fiscal e os novos modelos de renegociação das dívidas estaduais. Segundo a perspectiva defendida pela Auditoria Cidadã da Dívida, essas iniciativas compartilham um traço comum: priorizam a garantia dos pagamentos financeiros enquanto comprimem despesas sociais, investimentos públicos e políticas de desenvolvimento.

Tal diagnóstico conduz a uma questão política fundamental: por que a sociedade brasileira aceita discutir exaustivamente os gastos com saúde, educação, previdência ou funcionalismo público, mas raramente debate os mecanismos que determinam o crescimento da dívida? Para Lindesay, essa assimetria não é acidental. Ela faz parte de um modelo de gestão econômica em que a dívida se converte em instrumento privilegiado de transferência de riqueza.

Independentemente de concordar integralmente ou não com as conclusões da Auditoria Cidadã da Dívida, o trabalho de Paulo Lindesay cumpre uma função essencial: retirar a dívida pública do terreno da tecnocracia e recolocá-la no centro do debate democrático. Afinal, quando mais de uma geração de brasileiros vive sob a justificativa permanente da escassez de recursos para direitos sociais, mas observa simultaneamente o crescimento contínuo dos pagamentos financeiros, torna-se legítimo perguntar se estamos diante de um problema de falta de dinheiro ou de prioridades políticas.

A principal contribuição do artigo reside justamente nessa provocação. Ao reconstruir dois séculos de história do endividamento brasileiro, Lindesay sugere que a questão central não é apenas quanto devemos, mas sobretudo como essa dívida foi construída, quem se beneficia de sua reprodução permanente e por que ela continua sendo tratada como uma verdade incontestável. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, essas perguntas estão longe de serem meramente contábeis. Elas dizem respeito ao próprio modelo de Estado e ao futuro da democracia brasileira.

PROPAG: a nova camisa de força fiscal que ameaça a autonomia do Rio de Janeiro

Estudo de Paulo Lindesay, da Auditoria Cidadã da Dívida, aponta riscos de privatizações, congelamento de investimentos sociais e perda de autonomia federativa

Em meio ao debate sobre o endividamento dos estados brasileiros, uma análise produzida por Paulo Lindesay, coordenador do Núcleo Rio de Janeiro da Auditoria Cidadã da Dívida e diretor da ASSIBGE-SN, lança um olhar crítico sobre o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (PROPAG), instituído pela Lei Complementar nº 212/2025. Segundo Lindesay, o programa está sendo apresentado pelo governo federal como uma solução para a crise fiscal dos estados, mas seus efeitos concretos podem representar um profundo ataque à autonomia administrativa, financeira e patrimonial do Estado do Rio de Janeiro.

A principal crítica da Auditoria Cidadã da Dívida é que o PROPAG não enfrenta a origem do problema do endividamento estadual. Ao contrário, parte da aceitação integral dos valores cobrados pela União, sem qualquer auditoria prévia sobre a legalidade dos contratos, dos juros acumulados ou da prática de anatocismo — a cobrança de juros sobre juros. Para Lindesay, trata-se da consolidação de uma dívida cuja legitimidade jamais foi devidamente investigada.

O caso do Rio de Janeiro é particularmente emblemático. Dados citados no estudo indicam que a dívida consolidada do estado junto à União alcança aproximadamente R$ 205,4 bilhões, resultado da soma dos contratos vinculados à Lei 9.496/97 e ao Regime de Recuperação Fiscal. O aspecto mais impressionante é que, embora o estado tenha refinanciado cerca de R$ 15,2 bilhões em 1999 e já tenha pago mais de R$ 31,8 bilhões ao longo das últimas décadas, o saldo devedor continua crescendo, ultrapassando atualmente R$ 108 bilhões apenas no contrato original. Para Lindesay, isso se trata da demonstração cabal de um modelo que produz uma dívida virtualmente impagável.

Mas é no campo da autonomia federativa que surgem as consequências mais graves. Segundo Lindesay, o PROPAG cria mecanismos que transformam os governadores em meros administradores de um passivo permanente, submetidos às diretrizes fiscais definidas pela União. A adesão ao programa implica abrir mão de parcelas significativas do patrimônio público estadual e comprometer receitas futuras estratégicas.

Entre os ativos potencialmente colocados na mesa estão imóveis públicos, participações societárias e empresas estatais consideradas estratégicas. O estudo menciona inclusive a possibilidade de transferência de ativos ligados à CEDAE, à CEHAB e ao PRODERJ, além de imóveis valorizados localizados em áreas nobres do estado. O Complexo do Maracanã e a área da Aldeia Maracanã aparecem entre os bens citados nos levantamentos realizados pelo governo estadual.

Outra dimensão preocupante é a autorização para antecipação de receitas futuras de royalties do petróleo. Para Lindesay, utilizar recursos provenientes da exploração de petróleo e gás para amortizar dívidas antigas significa comprometer o futuro do estado e retirar verbas que poderiam financiar educação, saúde, infraestrutura e uma eventual transição energética.

Ainda mais alarmante é o comprometimento integral das futuras receitas do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR), criado pela Reforma Tributária. A análise aponta que o Rio de Janeiro poderá hipotecar 100% dos recursos que receberia desse fundo nas próximas décadas para obter condições mais favoráveis no refinanciamento da dívida. Em outras palavras, recursos concebidos para promover desenvolvimento regional poderão ser desviados para alimentar o pagamento de uma dívida cuja legitimidade permanece controversa.

O PROPAG também impõe severas restrições ao gasto público. O artigo 7º da lei estabelece um novo teto de gastos para os estados, limitando a expansão das despesas à inflação medida pelo IPCA. Mesmo quando houver crescimento da arrecadação, parte significativa do ganho será retida para assegurar os compromissos do programa. Segundo a análise da Auditoria Cidadã da Dívida, isso significa que o Rio de Janeiro poderá arrecadar mais, mas continuará impedido de transformar essa arrecadação adicional em melhores serviços públicos ou valorização dos servidores.

Os impactos para o funcionalismo público são especialmente severos. O estudo destaca que os recursos economizados com a redução dos juros não poderão ser utilizados para contratação de pessoal nem para valorização salarial. A consequência prática é a ampliação da sobrecarga de trabalho, o aumento da terceirização e a deterioração das condições de funcionamento dos serviços públicos. O caso da educação é particularmente simbólico: o PROPAG permite construir escolas e comprar equipamentos, mas impede a contratação dos profissionais necessários para fazê-las funcionar adequadamente.

Para Paulo Lindesay, o resultado final é a constituição de um sistema que combina privatização de ativos, congelamento de gastos sociais, restrições à autonomia estadual e fortalecimento dos mecanismos de financeirização da gestão pública. Em vez de resolver o problema da dívida, o PROPAG aprofundaria a dependência financeira dos estados perante a União e consolidaria uma lógica em que a prioridade absoluta é garantir o fluxo de pagamentos aos credores.

Diante desse cenário, a Auditoria Cidadã da Dívida defende a realização de uma auditoria completa da dívida pública fluminense, com participação popular, antes da consolidação definitiva dos débitos. Também propõe a revisão dos mecanismos de cálculo da dívida, o combate à capitalização composta dos juros e a rejeição das restrições que impedem investimentos em pessoal e serviços públicos essenciais.

O debate sobre o PROPAG ultrapassa, portanto, a mera discussão contábil. O que está em jogo é a capacidade futura do estado do Rio de Janeiro de decidir autonomamente sobre seu patrimônio, seus investimentos e suas políticas públicas. Se a análise de Paulo Lindesay estiver correta, o programa representa não apenas uma renegociação da dívida, mas uma profunda reconfiguração das relações federativas brasileiras, com potencial para reduzir drasticamente a margem de decisão dos governos estaduais durante as próximas décadas.

Quem desejar ler a íntegra feita por Paulo Lindesay, basta clicar [Aqui!]. E quem quiser ouvir mais sobre essa contundente análise, Lindesay estará hoje falando sobre o PROPAG na Sala de Multimídia do Centro de Ciências do Homem da Uenf a partir das 14:00 horas. 

Juros altos do BC custaram R$ 410 bilhões a mais para o Tesouro em 2021 e 2022

maringoni-1-600x594

Por Jeferson Miola

Como explica o economista André Lara Resende em artigo no jornal Valor de 26/12/2022, “os juros, outra vez, ameaçam a retomada do desenvolvimento” do Brasil.

De fevereiro de 2021 a dezembro de 2022, o Banco Central [BC] elevou em 11 pontos percentuais a taxa básica de juros, que passou de 2,75% ao ano para os atuais 13,75%.

Importante lembrar que este surto altista coincide com a aprovação, pelo Congresso Nacional, da Lei Complementar nº 179, de 24/2/2021, que estabeleceu a autonomia do BC e fixou mandatos para o presidente e diretores da instituição.

Lara Resende salienta que o aumento da taxa básica de juros pelo BC representou um custo adicional, para o Tesouro, de 1,75% do PIB em 2021 e 3,65% do PIB em 2022, o que equivale a R$ 136 bilhões a mais em 2021 e R$ 274 bilhões a mais em 2022 em comparação com 2020 – um acréscimo de R$ 410 bilhões desta despesa somente nos dois últimos anos do governo fascista-militar, conforme marcação em azul na tabela:

gastos com juros1

O economista recorda que a PEC da Transição, jocosamente chamada de ‘PEC da gastança’ pela Folha de São Paulo e de ‘PEC do estouro’ pela CNN, “autorizou gastos acima do teto num valor de até R$ 169 bilhões” para 2023.

Enquanto os R$ 169 bilhões serão direcionados para quase 30 milhões de beneficiários do bolsa-família e, ainda, para a recomposição dos orçamentos da saúde, educação, cultura, ciência e tecnologia, os R$ 410 bilhões dos juros pagos a mais pelo Tesouro foram apropriados por um restrito grupo de rentistas: instituições financeiras e fundos de investimentos abocanham 53,6%, fundos de previdência ficam com 22,7%, seguradoras com 4%, governo com 4,3% e não residentes ficam com 9,2%.

Lara Resende destaca que o Brasil está dentre os países “que mais agressivamente subiram as taxas de juros depois da pandemia”, mas que ainda assim “tiveram um desaquecimento da economia em relação aos demais países”. Apesar disso, “a inflação média continuou teimosamente alta”.

A equivocada política de juros altos do Banco Central faz do Brasil o paraíso dos rentistas. Com a taxa Selic de 13,75% ante uma inflação anual de 5,79%, “o Brasil tem hoje a taxa básica de juros real mais alta do mundo” – de 8% – que “é mais do dobro da [taxa] do segundo colocado neste triste concurso, o Chile”.

O Banco Central do Brasil está na contramão das principais economias do mundo, cujas taxas reais de juros são negativas; ou seja, os respectivos Tesouros Nacionais oferecem taxas de juros inferiores às taxas inflacionárias, conforme tabela:
comparação taxas de juros e inflação“No mundo hoje, só o Brasil garante aos rentistas uma taxa real perto de 8% ao ano sem risco e com liquidez imediata”. Para Lara Resende, trata-se de “uma excrescência que inviabiliza o investimento”.

Ele sustenta ainda que “o pagamento de juros sobre a dívida é um gasto público como qualquer outro”. A única diferença em relação aos demais gastos públicos é que o pagamento de juros não é contabilizado como despesa primária, e por isso não é computado no teto de gastos, embora os juros “expandem a demanda agregada e podem vir a pressionar a inflação”.

Para Lara Resende, “a manutenção das absurdas taxas de juros do Banco Central desafia a lógica”. Ele denuncia os “profetas do abismo fiscal”, para quem “o gasto primário, para atender necessidades básicas da população carente, seria inflacionário, mas o gasto com o serviço da dívida, com o bolsa rentistas, não”.

Cada ponto percentual de juros equivale a um gasto de aproximadamente R$ 19 bilhões para pagar a dívida de curto prazo. Isso significa, portanto, que os 8% de juros acima da inflação correspondem a cerca de R$ 160 bilhões desviados do orçamento anual diretamente para o rentismo.

A decisão do Banco Central de manter as altas taxas de juros em que pese a mudança de governo em 1º de janeiro e os novos rumos da economia nacional, é injustificável.

A política de juros altos do Banco Central, lesiva às finanças e aos interesses nacionais, legitima a desconfiança do presidente Lula em relação às intenções de Roberto Campos Neto, o presidente bolsonarista da instituição.

É legítimo se suspeitar, portanto, se por trás da política de juros elevados não se esconde um plano de sabotagem do país – além, claro, de significar um esquema de rapinagem monumental do orçamento brasileiro.

* charge: Maringoni


compass black

Este texto foi inicialmente no blog do jornalista Jeferson Miola [Aqui!].