Enquanto Brasil caminha para “autocontrole”, EUA emite novas regras para aumentar segurança na produção de carne animal

Beef Recall

Aumento de casos de “recall” de carne animal forçam emissão de novas regras de controle de produção pelo Departamento de Agricultura dos EUA.

Enquanto no Brasil sob o governo Bolsonaro a ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS), e seus aliados no agronegócio exportador se prepara para lançar medidas de autocontrole na produção de carne animal, nos EUA o governo Trump está para lançar novas regras em face do aumento dos casos de contaminação.

Segundo matéria assinada pelo jornalista Tom Polansek e publicada pela agência Reuters,  o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) irá orientar “os fabricantes de alimentos para iniciarem investigações internas quando receberem reclamações de clientes e notificarem o governo dentro de 24 horas se houver produtos contaminados no mercado“. Polansek informa ainda que “as diretrizes voluntárias, em andamento há meses, são projetadas para garantir que as empresas atendam aos requisitos regulatórios pré-existentes“. 

Polansek também aponta que a emissão dessas novas regras se deverá essencialmente ao fato de que dados obtidos pelo USDA mostram que “desde o início de 2018, a Tyson Foods, Smithfield Foods e outras empresas lançaram mais de 25 recalls envolvendo milhões de quilos de nuggets de frango, calzones, salsichas e outros alimentos que potencialmente continham materiais perigosos.

Um detalhe a mais na matéria de Polansek é de que os casos de contaminação, que envolvem desde contaminação por bacterias até corpos sólidos de madeira e plástico, estão sendo relacionados ao aumento da automação dentro das plantas industriais de grandes empresas da indústria da carne animal.

A matéria adiciona que foram feitos contatos com representantes da Pilgrim’s Pride, da JBS e da Smithfield Foods, do WH Group, mas que os mesmos não responderam aos pedidos de comentários.  E aí fica a questão para os consumidores brasileiros: se nem nos EUA onde os consumidores possuem grandes associações de defesa de seus direitos, a JBS não dá retorno sobre possíveis casos de contaminação, o que dirá no Brasil comandado pelo governo Bolsonaro e sua ministra da Agricultura?

Suspendam o churrasco! Governo Bolsonaro vai acabar com fiscalização diária nos frigoríficos

Carne

Em 17 de Março de 2017, a Polícia Federal deflagrou a chamada “Operação Carne Fraca” para investigar as maiores empresas da produção de carne animal do Brasil, a JBS, (Seara, Swift, Friboi Vigor) e a BRF (Sadia e Perdigão) por causa da adulteração de carne que era vendida nos mercados interno e externo. O escândalo da carne adulterada no Brasil envolveu mais de trinta empresas alimentícias do país, que foram acusadas de comercializar carne estragada, mudar a data de vencimento, maquiar o aspecto e usar produtos químicos para buscar revenda de carne estragada,  e corromper fiscais governamentais para garantir a liberação destas carnes para comercialização.

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Bloomberg publica matéria sobre a Operação Carne Fraca.

Pois bem, menos de dois anos depois da “Carne Fraca”, o governo Bolsonaro está se preparando para impor um novo modelo de fiscalização que deverá ser realizado pelas próprias empresas, no que está sendo alcunhado de autocontrole sanitário.

Agora, convenhamos, criar um sistema de autocontrole no país da “Operação Carne Fraca” equivale à entrega das chaves do galinheiros para as raposas.  Para alguém como eu que já percorreu boa parte de Goiás e Mato Grosso visitando unidades de abate, não há como não ficar com a sensação de que o caminho mais saudável em termos de alimentação seria adotar uma alimentação vegana. O problema é que com a velocidade recorde de liberação de agrotóxicos altamente tóxicos sob a batuta da ministra Tereza Cristina a salada que chega na mesa dos brasileiros não parece ser tampouco uma alternativa saudável.

Para quem acha que esta ideia estapafúrdia de autocontrole sanitário tem alguma chance de dar certo, lembro o caso recente que ocorreu na União Europeia quando foi descoberto o abate de animais doentes por um frigorífico na Polônia que fica apenas 100 km de Varsóvia.  É que na União Europeia o modelo que está sendo proposto não tem a menor chance de prosperar, e mesmo assim os donos dos frigoríficos se sentem tentados a abater animais doentes para aumentar suas taxas de lucros.  Imaginemos como ficaremos nós nas mãos de empresas que foram flagradas na Operação Carne Fraca. E, pior, num país continental com dezenas de plantas de abate situadas dentro da Amazônia Legal, onde as distâncias tendem a ser grandes por natureza.

Vacas doentes

Animais doentes eram abatidos em frigorífico na Polônia.

A minha expectativa é que os grandes parceiros comerciais do Brasil, a começar pela Rússia e pelos países árabes, dêem um chega para lá nessa proposta, salvando por tabela os consumidores brasileiros. Do contrário, dar um adeus ao consumo de carne será a decisão mais sábia que poderemos adotar.