O Rio Paraíba do Sul demonstra que a escassez de água não será superada apenas com novas obras de represamento. A recuperação da cobertura florestal, a proteção das áreas de recarga, a gestão integrada dos recursos hídricos e a adaptação às mudanças climáticas são condições indispensáveis para restabelecer o equilíbrio da bacia e reduzir a vulnerabilidade da zona costeira
Por Carlos Eduardo de Rezende*
A bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, com múltiplos usos da água, vem apresentando, ao longo de décadas, redução de suas vazões em decorrência da intensificação das captações e dos efeitos das mudanças climáticas. Eu sempre repito que o Rio Paraíba do Sul representa um sistema em desequilíbrio, cuja solução dificilmente será encontrada na construção de novas barragens, e reafirmo que esse é um modelo de pior hipótese para outras bacias. Os reservatórios regulam as vazões e o armazenamento de água durante períodos chuvosos; eles não aumentam a disponibilidade hídrica da bacia, mas apenas redistribuem no tempo um volume de água que já existe. Se a quantidade de água que entra na bacia está diminuindo e a demanda continua aumentando, novas barragens ampliam conflitos entre os diferentes usuários e aumentam as perdas por evaporação, especialmente em regiões de clima quente.
Outro aspecto frequentemente negligenciado nas discussões sobre segurança hídrica é a profunda alteração da cobertura vegetal original da bacia. A supressão de grande parte da Mata Atlântica ao longo dos últimos séculos comprometeu significativamente processos hidrológicos essenciais, como a interceptação da chuva, a infiltração, o tempo de residência da água no solo e a recarga dos aquíferos. A substituição da floresta por áreas agrícolas, pastagens e superfícies urbanizadas favoreceu o aumento do escoamento superficial, reduziu a recarga das águas subterrâneas e tornou as vazões dos rios mais dependentes das chuvas sazonais, que estão substancialmente alteradas. Além disso, observamos o aumento dos períodos de estiagem, que geram outros problemas de ordem sanitária e de desequilíbrio ecológico, como o crescimento de algas.
Um ponto que observamos é que existe uma forte diferença no monitoramento desse recurso hídrico, pois essa bacia está inserida em três estados, e as agências ambientais deveriam ter maior harmonia no monitoramento quanto ao número de parâmetros e à frequência. Assim, qualquer proposta voltada à ampliação da disponibilidade de água na bacia deve necessariamente incorporar ações de restauração florestal, especialmente nas áreas de recarga, nas nascentes e ao longo das matas ciliares. Ignorar esse componente significa desconsiderar um dos principais processos naturais responsáveis pela recuperação hídrica da bacia em longo prazo. E não adianta pensar em reflorestamento econômico com eucaliptos.
Esse cenário torna-se ainda mais preocupante quando chegamos à região costeira. As barragens retêm grande parte dos sedimentos transportados pelos rios, reduzindo o aporte sedimentar aos estuários, deltas e praias. Como consequência, o litoral perde sua principal fonte natural de reposição de sedimentos, tornando-se mais vulnerável à ação das ondas, das correntes e à elevação do nível do mar, fatores que já vêm sendo intensificados pelas mudanças climáticas. Assim, a implantação sucessiva de barragens pode contribuir para agravar a erosão costeira (ex.: região de Atafona), comprometendo ecossistemas, infraestrutura e atividades econômicas dependentes da faixa litorânea.
Nesse contexto, o problema da escassez de água deve ser analisado com cautela e fundamentado em estudos hidrológicos, climáticos e sedimentológicos. É indispensável avaliar se a redução das vazões decorre predominantemente do aumento das demandas, das alterações climáticas ou da combinação desses fatores. Portanto, quantificar os impactos cumulativos dos empreendimentos já existentes e daqueles previstos para a bacia torna-se fundamental, pois precisamos nos adaptar às alterações climáticas impostas pelo Antropoceno, que tem aumentado as incertezas e gerado eventos extremos de precipitação e secas prolongadas.
Assim, a gestão integrada dos recursos hídricos, baseada na redução das perdas, no aumento da eficiência do uso da água, na recuperação das áreas de recarga, na proteção das matas ciliares, no reuso da água e na operação otimizada dos reservatórios existentes, produz resultados mais sustentáveis do que a simples ampliação da infraestrutura de represamento. Em outras palavras, reservatórios são instrumentos de gestão, mas não substituem a necessidade de garantir que a disponibilidade natural de água e de sedimentos seja compatível com as demandas da sociedade e com a manutenção dos processos ecológicos que sustentam a própria bacia e sua zona costeira.
*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia da Uenf e Bolsista Produtividade 1A do CNPq.

Açude Armando Ribeiro Gonçalves, um dos principais reservatórios da bacia do Piancó-Piranhas-Açu, no semiárido potiguar. 


