Glifosato deixa de ser considerado “extremamente tóxico” após mudança da Anvisa

Levantamento inédito mostra que 93 produtos com glifosato tiveram classificação reduzida pelo governo Bolsonaro – ao mesmo tempo que o cerco ao pesticida se fecha no mundo

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Pedro Grigori | Agência Pública/Repórter Brasil

O cenário mundial não está favorável aos fabricantes de glifosato. O herbicida enfrenta vetos em países europeus e mais de 18 mil ações nos tribunais nos Estados Unidos que relacionam o seu uso a doenças como o câncer.

Mas, no Brasil, o agrotóxico mais vendido no mundo não só teve a licença de comercialização renovada como também, oficialmente, tornou-se menos perigoso aos olhos do governo brasileiro.

Isso porque, após a reclassificação de toxicidade aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 93 produtos formulados à base de glifosato tiveram a classificação de toxicidade reduzida, segundo um levantamento inédito realizado pela Agência Pública e Repórter Brasil com base na publicação no Diário Oficial.

Antes, 24 produtos à base do herbicida eram considerados “Extremamente Tóxico”. Agora não há nenhum produto enquadrado na categoria máxima de toxicidade.

O levantamento mostrou ainda que três produtos se mantiveram na mesma classe toxicológica.

“Esse alerta vai sair da embalagem do glifosato, um produto que pode corroer a córnea. A embalagem agora será igual a de qualquer produto de uso doméstico. Estamos seguindo contra todos os alertas que o mundo está abrindo para o glifosato”, afirma Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Fiocruz.

A portaria que diminuiu a classificação toxicológica dos produtos à base de glifosato foi publicada em julho deste ano. Agora, só receberá o alerta máximo os pesticidas que causarem morte ao serem ingeridos ou entrarem em contato com os olhos ou pele. Especialistas acreditam que as mudanças vão afetar mais aqueles que manuseiam os produtos, porque o símbolo de perigo, a caveira, passará a ser usado apenas no rótulo de produtos que causem a morte ao serem ingeridos ou entrar em contato com olhos e pele. Os demais agrotóxicos terão apenas um símbolo de atenção.

Veja as mudanças na tabela:

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No Brasil e no mundo

Há mais de 40 anos no mercado mundial, o glifosato é líder de vendas no Brasil e no mundo.

No Brasil, existem hoje 102 produtos técnicos, duas pré-misturas e 123 produtos formulados à base do ingrediente ativo glifosato. São usados para o controle de mais de 150 plantas infestantes em variados cultivos – de soja e café até feijão, maçã e uva. Em 2017, 173 mil toneladas de glifosato foram vendidas no Brasil, segundo o Ibama.

Porém, estudos acenderam o alerta sobre a segurança, correlacionando o uso do pesticida com o aparecimento de doenças como depressão, autismo, infertilidade, Alzheimer, Parkinson e câncer em diversas partes do corpo. Em 2015, após análise de diversos estudos a Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (Iarc) da Organização Mundial de Saúde concluiu que o glifosato era “provavelmente cancerígeno” para humanos.

Em fevereiro deste ano, a Anvisa concluiu a reavaliação do glifosato, que durou 11 anos, e entendeu que o produto não se enquadra nos critérios proibitivos previstos na legislação brasileiras: não é classificado como mutagênico, carcinogênico, tóxico para a reprodução e teratogênico (que causa malformação fetal).

“A principal conclusão da reavaliação é que o glifosato apresenta maior risco para os trabalhadores que atuam em lavouras e para as pessoas que vivem próximas a estas áreas”, informou a agência.

Agora, não há previsão de uma nova avaliação por parte do governo, já que a legislação não estipula um novo prazo, diferentemente do que acontece na União Europeia e nos Estados Unidos.

Gerente-geral de toxicidade agência regulatória na época do começo da ação, Luiz Cláudio Meirelles conta que o produto entrou em reavaliação devido às suspeitas de doenças crônicas, como câncer e autismo. “Uma das maiores preocupações eram os efeitos crônicos, aqueles que apareceriam anos depois, após a pessoa ter exposição contínua ao produto”, explica

Hoje, Luiz Cláudio entende que o caminho a ser tomado deveria ser o da proibição. “Hoje a situação do glifosato é um caminho sem volta. Tudo que começa a ser apontado como problemático na saúde e no meio ambiente, a ciência guia para uma condenação”, explica.

O glifosato é defendido pela Bayer, dona da Monsanto. A reportagem questionou a empresa sobre a reavaliação da Anvisa, a queda na classe toxicológica, os processos nos Estados Unidos e o banimento na Europa. No entanto, a Bayer limitou-se em comentar os dois últimos pontos. Por nota, a empresa informou que se solidariza com os demandantes e suas famílias, mas que “o glifosato não foi a causa de suas doenças”.

“Há um extenso trabalho de pesquisas sobre o glifosato e os herbicidas à base do mesmo, incluindo mais de 800 estudos analisados pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), por agências europeias e outros reguladores no momento do registro dessa molécula. Todas as agências regulatórias que analisaram estes estudos chegaram à mesma conclusão: produtos à base de glifosato são seguros quando usados conforme as instruções”, disse em nota.

Confira na íntegra os questionamentos e a nota divulgada pela Bayer.

Segundo Ricardo Carmona, professor de Produção Vegetal na Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília (UnB), ainda não há no mercado um herbicida capaz de substituir o glifosato. “Se o glifosato fosse proibido, não teríamos outro herbicida de ação tão ampla que sozinho pudesse substituí-lo. Teríamos que aplicar pelo menos dois, para controlar tipos diferentes de ervas daninhas, que possivelmente seriam mais tóxicos, e aumentaria o uso dos agrotóxicos e causaria consequências a saúde e ao meio ambiente”, diz.

glifosato 3O herbicida Roundup é feito à base de glifosato. Nos Estados Unidos, trabalhador exposto ao produto desenvolveu câncer

Cerco ao glifosato pelo mundo

Nos estados Unidos, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) avaliou, em 2017, que o glifosato é “provavelmente não cancerígeno para humanos”. No entanto, a Justiça americana tem decidido de maneira oposta.

A Bayer — dona da Monsanto, primeira empresa a vender agrotóxicos à base de glifosato — responde a mais de 18 mil ações contra o glifosato, sendo que 5 mil dessas foram registradas apenas em abril deste ano.

Em agosto e 2018 a Monsanto perdeu uma ação na Júri da Califórnia e foi condenada a pagar US$ 289 milhões ao jardineiro Dewayne Johnson. A vítima enfrenta um linfoma. Segundo a defesa, ele teria desenvolvido a doença por utilizar nos jardins de uma escola na Califórnia os herbicidas Roundup e RangerPro, feito à base de glifosato.

Em março deste ano, o Júri Federal de São Francisco entendeu que a exposição ao glifosato foi um fator significativo para que o aposentado Edwin Hardeman desenvolvesse câncer, e determinou que a Bayer pague mais de R$ 80 milhões em indenização a vítima. Edwin enfrenta um linfoma não-Hodgkin, um tipo de câncer que tem origem nas células do sistema linfático. Durante 20 anos ele utilizou o herbicida Roundup, à base de glifosato,em sua propriedade. O produto é da empresa Bayer/Monsanto.

Na Europa, o debate ocorre no sentido de retirar o glifosato do mercado. Em julho deste ano, o Parlamento da Áustria baniu o uso de glifosato no país, o tornando o primeiro membro da União Europeia a tomar a medida.

Em 2017, o presidente da França, Emmanuel Macron, prometeu proibir o glifosato no país até o fim de 2020. Porém, no começo deste ano, afirmou que não seria possível banir o produto do mercado dentro do prazo estipulado. Até o momento o herbicida já está fora de 20 municípios franceses devido a leis municipais.

Na Alemanha, o governo se comprometeu a retirar o glifosato do mercado até 31 de dezembro de 2023, como parte de um programa de proteção de insetos lançado neste ano.

Ações no Brasil Em agosto deste ano, o Ministério Público do Trabalho (MPT-MT), Ministério Público Federal (MPF-MT) e o Ministério Público Estadual (MP-MT) do Mato Grosso iniciaram uma ação civil pública para proibir a utilização de qualquer agrotóxico à base de glifosato no estado. O Mato Grosso é o maior exportador de soja do Brasil, com mais de 16,2 milhões de toneladas apenas entre janeiro e julho deste ano. As culturas do grão são as que mais usam herbicidas à base de glifosato. Segundo o MPT, a ação tem como enfoque defender a saúde dos produtores rurais e o direito à vida. Os promotores justificam que as condições climáticas do Mato Grosso não são adequadas à bula de alguns dos principais produtos à base de glifosato, que tem como especificações, por exemplo, que a aplicação seja feita com a umidade relativa do ar mínima de 55% e com temperatura máxima de 28Cº, condições que não coincidem com o clima do estado em grande parte do ano. A próxima audiência da ação está marcada para 13 de novembro.

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Esta reportagem foi inicialmente publicada no site Por Detrás do Alimento [Aqui!].

Salles deixa Alemanha sem obter concessões do governo Merkel

Berlim diz a ministro que só vai rever suspensão de repasse milionário para projetos na Amazônia quando tiver garantia de “que o dinheiro será bem investido”. Em agosto, Bolsonaro disse que “não precisava” do valor.

salles germanySalles disse que foi à Alemanha para “desmistificar” um “sensacionalismo” sobre a situação ambiental brasileira

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deixou a Alemanha nesta quarta-feira (02/10) sem conseguir qualquer concessão do governo da chanceler federal, Angela Merkel, na questão da suspensão de uma verba de 155 milhões de reais para projetos de conservação florestal no Brasil. 

Em agosto, em meio à crise das queimadas, Svenja Schulze, a ministra do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear da Alemanha, anunciou o congelamento da verba, argumentando que a política do governo de Jair Bolsonaro em relação à Amazônia “deixa dúvidas se ainda persegue uma redução consequente das taxas de desmatamento”.

 À época, a suspensão da verba gerou uma reação furiosa de Bolsonaro. Na ocasião, o presidente brasileiro sugeriu que Merkel “pegasse essa grana” para “reflorestar a Alemanha” e afirmou que o Brasil “não precisa disso”, referindo-se ao dinheiro.

Mas, em sua viagem à Alemanha, Salles tentou minimizar as falas de Bolsonaro com o objetivo de reaver a verba. Em entrevista publicada na terça-feira pelo jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), o ministro disse que o Brasil está, sim, interessado no financiamento alemão e que a fala do presidente foi apenas uma reação “a uma manifestação da Europa”. “Não vamos misturar política com questões técnicas”, afirmou.

No mesmo dia ele se encontrou com a ministra Schulze. A reunião não rendeu fotos ou a divulgação de uma declaração conjunta, como ocorre normalmente em reuniões com altos representantes estrangeiros. Ao final, Salles foi embora sem reaver o financiamento.

Segundo declarou um porta-voz do ministério alemão nesta quarta-feira, a pasta não pretende rever sua posição em relação à suspensão da verba até que “tenhamos uma impressão bem fundamentada de que o dinheiro será bem investido”.

De acordo com o porta-voz, o encontro entre Salles e Schulze consistiu mais em uma troca de pontos de vista do que uma reunião com efeitos práticos. “A ministra Svenja Schulze deixou sua posição muito clara e pediu a proteção da Amazônia.”

Ainda na terça-feira, Salles se reuniu com o ministro Gerd Müller, da pasta para Cooperação e Desenvolvimento da Alemanha. O governo brasileiro também vem travando uma queda de braço com esse ministério, desta vez relacionada ao futuro do Fundo Amazônia, o programa bilionário de proteção à floresta que conta com recursos da Noruega e da Alemanha.

Mas, por enquanto, a pasta de Müller vem evitando seguir o exemplo do Ministério do Meio Ambiente alemão e ainda não suspendeu qualquer repasse para o fundo. Por outro lado, os alemães e noruegueses não escondem sua insatisfação com as mudanças unilaterais promovidas por Salles na gestão do programa, como a extinção de dois comitês, que ocorreu sem qualquer acordo com os europeus.

Os dois países europeus também se posicionaram contra uma proposta do ministro brasileiro de usar recursos do fundo para indenizar fazendeiros que ocupam áreas de proteção ambiental, e rechaçaram publicamente insinuações de Salles sobre supostas fraudes na gestão do programa. Em agosto, diante das mudanças promovidas pelo Brasil, a Noruega suspendeu um novo repasse de 133 milhões de reais ao fundo.

Em sua entrevista ao jornal alemão FAZ, Salles tentou mais uma vez se apresentar de maneira conciliadora, em contraste com as críticas que fez ao Fundo Amazônia nos últimos meses. “O objetivo é que o fundo possa distribuir dinheiro novamente”, disse.

Segundo fontes do governo alemão, o ministro brasileiro queria convencer a Alemanha a mediar uma solução com os noruegueses. Mas um porta-voz da pasta de Müller indicou que Salles aparentemente não teve sucesso em seu pedido. “Estamos esperando para ver como as negociações entre o Brasil e a Noruega vão se desenrolar”, disse o porta-voz.

Na terça-feira, Angela Merkel também falou sobre a forma como seu governo vem abordando a questão das verbas para projetos ambientais no Brasil. Evitando fazer críticas aos brasileiros, ela disse que “há necessidade de discussão”. “Se uma boa solução for encontrada, certamente os fundos bilaterais poderão voltar a ser canalizados”, afirmou a chefe de governo. 

Seção alemã do Greenpeace organizou dois protestos contra Ricardo Salles em BerlimSeção alemã do Greenpeace organizou dois protestos contra Ricardo Salles em Berlim

 

Protestos

Salles passou três dias na Alemanha. Ele chegou ao país europeu no domingo, com o objetivo, segundo ele, de “desmistificar” um “sensacionalismo” de informações que “não são corretas” sobre a situação ambiental brasileira. Antes de desembarcar na Alemanha, ele também cumpriu etapas nos Estados Unidos e na França.

Na Alemanha, ele foi recebido com um protesto em seu primeiro dia de compromissos. Na segunda-feira, dezenas de ativistas do braço alemão do Greenpeace organizaram uma manifestação em frente à sede da Confederação Alemã das Câmaras de Indústria e Comércio (DIHK), no centro da capital alemã, contra a visita do brasileiro.

Inicialmente, uma agenda de Salles – que havia sido vazada na semana passada pelo Greenpeace – indicava que o ministro se reuniria no local com representantes de grandes indústrias alemãs, entre elas as gigantes do setor químico Basf e Bayer, conhecidas pela produção de agrotóxicos.

Na terça-feira, ele voltou a ser alvo de um protesto, desta vez em frente ao Ministério de Cooperação e Desenvolvimento da Alemanha.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Exclusivo: a agenda de Ricardo Salles com os destruidores do planeta

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Ricardo Salles, o improbo ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, tem sua agenda secreta na Europa divulgada pelo “The Intercept Brasil”

Ricardo “Yale” Salles não para.

Mesmo condenado por adulterar um mapa ambiental para a festa de mineradoras, Mr. Yale segue em seu cargo no Ministério do Meio Ambiente com uma agenda que, se for levada a sério, pode acabar com a necessidade da existência do próprio ministério (porque não teremos mais meio ambiente, de todo modo).

O funcionário público Salles – que deveria estar viajando o mundo para valorizar os ativos naturais do país – está, neste momento, cumprindo uma agenda secreta no exterior. No site do ministério, sua agenda está assim:

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Então vamos a um exercício de transparência forçada, já que atuar nas sombras é uma prática do poder. A editora aqui do TIB Paula Bianchi conseguiu com o pessoal do Unearthed, a unidade de jornalismo investigativo do Greenpeace, a via nada sacra de Salles pelo exterior.

E por que o ministro esconde sua agenda da população? Porque, para um ministro do Meio Ambiente, ela mais parece o calendário de compromissos de um ruralista ou de um garimpeiro da Serra Pelada.

Alemanha, segunda-feira: ele vai se encontrar com a farmacêutica Bayer, condenada em maio desse ano a indenizar em 2 bilhões de dólares um casal dos EUA por causa do glifosato, uma das maiores bombas químicas legalizadas do mundo, proibida em muitos países, mas largamente utilizada no Brasil (leiam nossa reportagem sobre a cidade em que o agrotóxico glifosato contamina o leite materno e mata até quem ainda nem nasceu).

Talvez Mr. Yalle estará lá para cobrar que a Bayer respeite nosso meio ambiente e pare de pressionar o país para aprovação de venenos. Vindo do governo que já aprovou mais de 260 (!) produtos só esse ano, nem por milagre. O encontro tem cara de beija-mão.

Outros encontros na segunda-feira: mais uma empresa de agrotóxicos (a Basf), além da montadora Volkswagen. Será que Mr. Yale vai conversar sobre a fraude global que a Volks produziu ao mentir que seus carros eram verdes enquanto emitiam gases altamente tóxicos?

Salles viaja para a Inglaterra na quinta. Lá, sua agenda secreta marca compromissos com – essas aspas são da agenda que conseguimos – “investidores ingleses (mineração, farmacêutica, energia, petróleo e gás e setor financeiro)”. Quem são eles? Quais os objetivos desses encontros? Nada na agenda, ninguém sabe. O ministério de Salles opera como um aparato clandestino de lobby privado.

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Antes de viajar para a Europa, Yale boy  nos EUA. Seu histórico é um desastre. Em agosto, nossa editora senior Tatiana Dias expôs o método de trabalho da secretaria comandada por ele no governo de São Paulo. “A justiça reconheceu que a Fundação Florestal – então sob o comando de Salles – coagiu funcionários a cometerem ilegalidades, perseguindo os que não queriam se envolver na adulteração dos mapas ordenada pelo secretário.”

Mr. Yale anda mais discreto, mas não menos destrutivo. Seus encontros estão fora da agenda pública. Nós pagamos seu salário mas não podemos saber com quem conversa. O que ele anda aprontando em segredo? Vamos descobrir.

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Esta reportagem foi produzida pelo “The Intercept Brasil”

Agrotóxicos deixam um rastro de doenças e mortes pelo Brasil

Diversos agrotóxicos proibidos em outras partes do mundo, inclusive países de origem dos fabricantes, foram liberados pelo governo Bolsonaro. Pesquisas apontam que o consumo de agrotóxicos gira em torno de cinco litros por pessoa/ano e que 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por esses agentes.

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Imagem por Agência Brasil

Por  Frederico Rochaferreira para o LeMonde Diplomatique Brasil

O governo Bolsonaro liberou 197 agrotóxicos em cinco meses. Neste pacote estão produtos considerados cancerígenos, como o paraquat, da Syngenta (nome comercial Gramoxone 200) e o glifosato, da Monsanto/Bayer.

O paraquat – proibido em mais de 50 países e em todo território europeu desde 2007, inclusive em seu país de origem, a Suíça –  é um agrotóxico associado não só a casos de câncer, mas também ao mal de Parkinson, fibrose pulmonar e danos genéticos, sendo um dos agentes químicos mais vendidos no Brasil.

Em setembro de 2017, a Anvisa proibiu o uso do paraquat. Mas, dois meses depois, voltou atrás, ante a pressão dos ruralistas e do lobby da fabricante Syngenta. A empresa levou políticos para uma viagem à Suíça para “conhecer aspectos da capacidade de inovação suíça” e fazer uma visita à multinacional. Uma das  convidadas da empresa foi a então deputada Teresa Cristina, hoje ministra da Agricultura.

O veneno suíço continua liberado por aqui, contaminando o arroz, a banana, a batata, o café, a cana-de-açúcar, o feijão, a maçã, o milho, a soja, a maçã e o trigo, para citar alguns. Mas a Syngenta não é a única fabricante de agrotóxico que tem seu produto proibido à venda no próprio país. Nesse rol, encontra-se também a norte-americana FMC Corp., a dinamarquesa Cheminova A/S e a Helm AG, da Alemanha, cujos agentes químicos não são permitidos em seus mercados domésticos, mas são livremente comercializados no Brasil.

Outro produto utilizado em larga escala pela indústria agrícola brasileira é o glifosato, um composto químico desenvolvido pela Monsanto, também, considerado cancerígeno. Recentemente a Bayer, que absorveu a Monsanto, sofreu uma pesada derrota na justiça federal dos EUA, em um processo envolvendo a utilização do glifosato. O fato abriu precedente para milhares de processos semelhantes de pessoas que alegam que o uso do herbicida lhes causou câncer. No total, são 11.200 ações em todo o país.

No Brasil não há um estudo definitivo que aponte para o número de doenças e mortes em função do consumo de alimentos contaminados. Temos conhecimento de que o consumo de agrotóxicos gira em torno de cinco litros por pessoa/ano  e que 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por esses agentes. Além disso, pesquisas como as desenvolvidas pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e Fundação Oswaldo Cruz relacionam diversas doenças com o consumo de agrotóxicos. Entre elas, o mal de Parkinson, distúrbios de comportamento, problemas na produção de hormônios sexuais, infertilidade, má formação fetal, aborto, endometriose e câncer de diversos tipos, além de estatística de mortes em uma determinada região.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, o câncer passou a ser a primeira causa de morte em 140 municípios. Isso ocorreu logo depois que as lavouras do Estado receberam cerca de 100 mil toneladas de veneno, entre os anos de 2012 e 2014. Na região Noroeste do país, a média é de dez agricultores diagnosticados com câncer por dia. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 80% dos casos de câncer no mundo, vem da exposição aos agentes químicos. Por outro lado, a intoxicação pelo uso de agrotóxicos no território brasileiro tem dados consistentes, como é possível ver nos mapas produzidos pela pesquisadora da USP, Larissa Mies Bombardi.

Em uma sequência cartográfica, Larissa Mies mostra que mais de 25 mil intoxicações causadas por agrotóxicos foram registradas no período de 2007 a 2014. O que dá 3.125 casos de intoxicações por ano ou oito casos por dia, com 1.186 mortes, sendo 343 bebês. Isto é, uma morte a cada dois dias e meio. Contudo, os números podem ser bem maiores. Segundo pesquisadores, para cada caso registrado,  outros 50 não são notificados, mesmo entendimento de especialistas em saúde pública, que aponta ser o número de mortes relacionadas ao envenenamento por agrotóxicos maior que o registrado, em função do rastreamento ser incompleto.

A dura realidade é que o Brasil se tornou o celeiro de pesticidas proibidos ou eliminados em países desenvolvidos  e de forma irresponsável, vem permitindo sua utilização e o envenenamento da agricultura, do trabalhador rural em particular e da população.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo LeMonde Diplomatique Brasil [Aqui!].

Agência de Proteção Ambiental dos EUA bane 12 agrotóxicos por serem considerados prejudiciais para as abelhas

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Um voluntário examina colmeias de abelhas para atividades de rainha como parte de uma colaboração entre o Zoológico de Cincinnati e a TwoHoneys Bee Co., em Mason, Ohio. (AP Photo / John Minchillo, Arquivo)

Por Dino Grandoni para o “The Washington Post”

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) está retirando do mercado estadunidense 12 produtos contendo agrotóxicos conhecidos como sendo tóxicos para um animal chave para o sistema alimentar norte-americano – a abelha.

A agência anunciou na segunda-feira (20/05) que cancelou os registros de 12 produtos que matam pragas com compostos pertencentes a uma classe de substâncias químicas conhecidas como neonicotinóides, como parte de um acordo legal.

Durante anos, os apicultores e conversadores da vida silvestre expressaram preocupação de que o uso difundido de neonicotinóides, como os produtos químicos são comumente chamados, está pondo em perigo as abelhas selvagens e domesticadas cruciais para a polinização das plantações comerciais de frutas, nozes e vegetais.

A ação do governo Trump foi uma boa notícia para alguns ambientalistas. “Certamente, temos um caminho a percorrer”, disse George Kimbrell, diretor jurídico do grupo de defesa sem fins lucrativos Center for Food Safety, cujo processo provocou a ação da EPA. “Mas é um primeiro passo importante para reconhecer o dano que causam.”

A EPA retirou outros neonicotinóides do mercado antes, disse o porta-voz da agência, John Konkus, em um e-mail. Mas observadores próximos da agência dizem que tais ações são raras.

“Para a EPA retirar do mercado um agrotóxico previamente registrado é um passo muito importante”, disse Mark Winston, professor de apicultura e insetos sociais da Simon Fraser University em Vancouver, B.C. “Não é algo que eles fazem com muita frequência.”.

A decisão segue cinco anos de litígio em que os apicultores e ambientalistas pressionaram a EPA para montar uma resposta ao uso de neonicotinóides como reguladores na Europa e no Canadá tomaram medidas para proibir os produtos químicos.

Finalmente, no final de 2018, três empresas do agronegócio – Bayer, Syngenta e Valentconcordaram em permitir que a EPA retirasse das prateleiras os 12 agrotóxicos usados ​​pelos produtores, desde grandes empresas agrícolas até jardineiros domésticos. O acordo legal também obriga a EPA a analisar os impactos de toda a classe de neonicotinóides sobre espécies ameaçadas de extinção.

Dois dos fabricantes de agrotóxicos, Bayer e Valent, dizem que seus produtos são testados e seguros para uso, observando que os ambientalistas e apicultores ganharam seu argumento com base no argumento técnico de que a EPA não seguiu os passos certos sob a Lei de Espécies Ameaçadas.  

“Os neonicotinóides são rigorosamente testados antes de chegar ao mercado para garantir que possam ser usados ​​com segurança e eficácia”, disse Steve Tatum, porta-voz da Valent, que fabrica quatro dos produtos excluídos da lista.

A Bayer observou que seus dois produtos visados ​​pela ação da EPA não são vendidos nos Estados Unidos. Mas o porta-voz Darren Wallis acrescentou: “Os produtores confiam nessas ferramentas críticas de manejo de pragas por causa de seu desempenho contra pragas destrutivas, assim como seu perfil de segurança humano e ambiental favorável”.

A preocupação com os neonicotinóides cresceu desde 2006, quando os apicultores começaram a testemunhar o súbito e misterioso colapso das colmeias de abelhas em todo o país.

Pesquisadores mostraram que os compostos são prejudiciais para as abelhas em testes de laboratório. Mas eles tiveram menos sorte em reduzir os efeitos dos agrotóxicos nas colônias de apicultores quando trabalham polinizando pomares de maçã e outras fazendas.

Em seu segundo mandato, Barack Obama, que havia aprovado a instalação de uma colmeia no gramado sul da Casa Branca, lançou uma iniciativa para promover a saúde das abelhas e outros polinizadores.

Mas Rebecca Riley, diretora jurídica do programa de natureza do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, disse que a agência falhou no passado em considerar adequadamente o impacto potencial de suas aprovações de agrotóxicos em animais em extinção – algo que toda agência federal deveria fazer.

“EPA há anos tem ignorado este requisito da lei”, disse ela.

Isso levou a uma série de ações judiciais, como uma que a NRDC apresentou em 2017, pedindo a um tribunal federal para desocupar os registros de quase 100 produtos que contêm um dos vários inseticidas que são prejudiciais a várias abelhas, borboletas, pássaros e insetos. Esse caso continua sem solução, mesmo quando o caso separado do Centro de Segurança Alimentar levou a EPA a retirar alguns agrotóxicos do mercado.

“Esta é uma vitória tanto para o estado de direito quanto para abelhas, pássaros e outros animais selvagens impactados por esses agrotóxicos”, disse Riley sobre o último caso. “Mas a realidade é que existem centenas de agrotóxicos no mercado. Então, isso é importante… mas não se livra do perigo”.

Brady Dennis contribuiu para este relatório.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo “The Washington Post” [Aqui!]

Governo da Alemanha quer banir agrotóxico neonicotinóide da Bayer por causa danos em fetos

A ministra da Agricultura da Alemanha, Julia  Klöckner, anunciou  que está lutando contra a liberação de um inseticida da Bayer AG na UE à base de Thiacloprid

Landwirtschaftsministerin auf Garten-Expo in Peking 

A ministra da Agricultura da Alemanha, Julia Klöckner, que quer banir agrotóxico da Bayer por causar danos em fetos.

A ministra da Agricultura da Alemanha, Julia Klöckner, quer que a União Europeia (UE)  proíba o agrotóxico Thiacloprid, que provavelmente causa problemas de malformação congênita e perda de fertilidade. “A partir de conhecimento ingrediente ativo Thiacloprid é considerado científico e técnico recente como sendo prejudicial à saúde humana e ao meio ambiente, incluindo os polinizadores”, disse a política da CDU.

Portanto, o governo alemão trabalhará para garantir que a substância produzida pela Bayer AG, que é do grupo de agrotóxicos neonicotinóides, não receba mais aprovação pela UE. A Comissão da UE também propõe não renovar a aprovação que expira em abril de 2020. Isto é claro na agenda da reunião do comitê de peritos responsáveis ​​dos representantes dos Estados-Membros da UE e da Comissão na segunda-feira passada.

O  Taz havia informado em 29 de março,  citando uma carta da Comissão Europeia, que as autoridades alemãs queriam reintegrar o inseticida naquela época. Por outro lado, protestaram contra essa reintegração, por exemplo, a organização de campanhas na internet, SumofUs, e os deputados do Partido Verde, Martin Häusling e Harald Ebner.

A Comissão Europeia classificou o Thiacloprid como “provavelmente tóxico para a reprodução” porque o mesmo interfere claramente na reprodução de animais em experimentos, e parece causar o mesmo efeito em seres humanos. Essas substâncias devem deixar de ser permitidas ao abrigo do Regulamento da UE sobre agrotóxicos- a menos que não entrem em contato com seres humanos, ou seja, absolutamente necessárias para a agricultura.

A Bayer AG baseia-se precisamente nessas exceções. Sem agrotóxicos à base Thiacloprid como a “Calypso” poderia ser difícil combater na Alemanha, por exemplo, uma das pragas mais importantes em pomares, à mariposa codling. A Autoridade de Segurança Alimentar da UE, no entanto, concluiu que existem alternativas, e também forneceu evidências de que o Thiacloprid entra em contato com os seres humanos, por exemplo, nas fábricas de sementes.

“Suspeita-se que Klöckner sempre quando uma decisão não pode ser interrompida, se converte rapidamente de bloqueadora a pioneira”, disse Ebner ao Taz, membro dos Verdes no congresso alemão. Ainda no final do ano passado, a ministra havia votado a favor de uma extensão adicional do Thiacloprid até abril de 2020. Klöckner só se posicionou publicamente contra o inseticida quando a reviravolta da Comissão da UE se tornou conhecida. Anteriormente, ela havia declarado que a avaliação científica do remédio não havia sido concluída, embora todos os fatos já estivessem sobre a mesa.

“Aparentemente, a UE proibirá o Thiacloprid”, diz a ambientalista Franziska Achterberg, do Greenpeace. Porque a Alemanha tem grande peso no voto decisivo dos países da UE. A França já proibiu agrotóxicos contendo Thiacloprid.

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Este artigo foi publicado originalmente em alemão pelo “Die Tageszeitung” (Taz) [Aqui!]

Venda de agrotóxicos no Brasil: A dupla moral da Bayer e da BASF

campanha

Campanha Contra os Agrotóxicos

bayer dupla moral

O número de agrotóxicos proibidos, mas vendidos abertamente no Brasil pela Bayer, aumentou em 50% de 2016 para 2019 / Reprodução

Por Christian Russau*

Consta que na famosa Semana da Arte Moderna de 1922 o bibliotecário, jornalista, poeta, compositor e publicitário Bastos Tigre inventou o slogan “Se é Bayer, é bom”, que se tornou um dos mais conhecidos na história da América Latina. Perguntamos: “Se é Bayer, é bom mesmo?”

Um olhar mais atento à carteira de produtos da Bayer no Brasil revela algumas surpresas. Em sua página na internet, a empresa apresenta os agrotóxicos que oferece ao mercado brasileiro e esclarece sua composição. Nós cruzamos a lista das substâncias químicas que a Bayer afirma utilizar em seus produtos com a lista de substâncias químicas proibidas pela União Europeia (UE), como consta no banco de dados de pesticidas da UE. Fizemos este procedimento em 2016 e repetimos em 2019.

O resultado é que a Bayer não só continua vendendo herbicidas, inseticidas e reguladores do crescimento no Brasil, cuja composição se encontram substâncias proibidas nos países europeus, senão o número de agrotóxicos proibidos, mas vendidos abertamente no Brasil pela Bayer, aumentou de 2016 para 2019 em 50%. 

Constavam em 2016 no portfólio de agrotóxicos da Bayer no Brasil oito ingredientes proibidos na União Europeia (Carbendazim, Ciclanilida, Dissulfotão, Etiprole, Ethoxysulfuron, Ioxinil, Thidiazuron, Tiodicarbe), em 2019 este número subiu para 12 ingredientes (Carbendazim, Ciclanilida, Etiprole, Ethoxysulfuron, Fenamidona, Indaziflam, Ioxinil, Oxadiazona, Propinebe, Thidiazuron, Tiodicarbe, Thiram), um aumento numérico de 50%.

Em 2016 obtive uma resposta por escrito da Bayer: “A lista disponibilizada pelo senhor contém substâncias que são a base de defensivos agrícolas utilizados em importantes lavouras como café, arroz e cana-de-açúcar — plantas que não são nativas da Europa, onde são cultivadas em escala muito reduzida. Por isso, a Bayer — também por motivos econômicos — não solicitou a autorização para uso dessas substâncias em países europeus.” 

Esta argumentação da Bayer, bastante astuta — para não chamá-la de folgada, por omitir que entre os ingredientes há alguns que já foram liberados no passado na UE e depois proibidos por serem nocivos ao meio ambiente ou perigoso demais para contato com seres humanos e animais — a empresa repetiu quase palavra por palavra em 2019, quando perguntávamos a eles na assembleia de acionistas da Bayer.

Fizemos o mesmo procedimento com a Basf. Resultado: Em 2016 a Basf vendia no Brasil 9 ingredientes que eram banidos na UE (Clorfenapir, Cianamida, Flufenoxuron, Imazapic, Imazapir, Imazethapyr, Saflufenacil, Sethoxydim, Tepraloxidim). Em 2019 esse número já subiu para 13 (Clorfenapir, Clotianidina, Cianamida, Fipronil, Flocoumafen, Flufenoxuron, Glufosinato, Imazapic, Imazapir, Imazethapyr, Quinclorac, Saflufenacil, Sethoxydim). Um aumento de 44%.

A Bayer e a Basf vendem no Brasil esses ingredientes banidos na UE e fazem do Brasil um dos seus maiores mercados mundiais na área de agrotóxicos. Enquanto isso, esse governo tem um interesse explícito em agradar os lucros do agronegócio brasileiro, campeão mundial dos agrotóxicos.

Se olharmos o estado de Mato Grosso, começamos a entender o panorama geral. Um estudo realizado pela Universidade Federal de Mato Grosso constatou que, em 13 municípios (644.746 habitantes segundo o último censo de 2015) onde foram cultivados soja, milho e algodão entre 1992 e 2014, houve 1.442 casos de câncer gástrico, esofágico e pancreático.  Nos 13 municípios comparativos (219.801 habitantes, segundo o último censo de 2015), onde em vez de uso agrícola houve uso predominantemente turístico, o número de casos de câncer foi de 53. 

Isso resulta em uma taxa de câncer de 223,65 por 100.000 habitantes em municípios utilizados para fins agrícolas e uma taxa de câncer de 24,11 por 100.000 habitantes em municípios utilizados principalmente para turismo. Assim, nos municípios onde os pesticidas são avidamente pulverizados, a taxa de câncer é estatisticamente maior por um fator de 8.

Portanto, tive que perguntar na assembleia de acionistas da Bayer quantos medicamentos contra o câncer a Bayer vendeu nos anos 2016, 2017 e 2018 no Estado de Mato Grosso? A diretoria da Bayer não quis responder esta pergunta. “Se é Bayer, é bom mesmo?” Não me convencem.

* Christian Russau é membro da diretoria da Rede de Acionistas Críticos da Alemanha e autor do livro Empresas Alemãs no Brasil

Edição: Daniela Stefano

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Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!]