Gigantes dos agrotóxicos são principais financiadores de Congresso Brasileiro do Agronegócio

Bayer e FMC patrocinam evento que terá a presença dos ministros da Agricultura, da Infraestrutura e do presidente do BC; pesquisa da ONG suíça Public Eye e do Greenpeace mostra Brasil como principal consumidor de produtos altamente tóxicos no campo

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Por Leonardo Fuhrmann para o “De olho nos ruralistas”

Grandes empresas produtoras de agrotóxicos e uma organização ligada a elas estão entre os principais financiadores da 19ª edição do Congresso Brasileiro do Agronegócio, encontro organizado pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e pela B3, que será transmitido online, em razão da pandemia de Covid-19, na manhã desta segunda-feira (03). Estão previstas as participações dos ministros da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

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Ministra da Agricultura, Tereza Cristina no congresso de 2019; em 2020, de volta. (Foto: Twitter)

As produtoras de agrotóxicos Bayer, que adquiriu a Monsanto, e FMC Agrícola estão entre os patrocinadores master. Fazem parte dessa lista a fabricante de sementes transgênicas Agroceres, a Mosaic Fertilizantes, a empresa de crédito Sicredi, o BB Seguros, a Empresa Maranhense de Administração Portuária (Porto do Itaqui) e a organização Croplife Brasil — que, por sua vez, representa empresas ligadas a agrotóxicos e transgênicos.

Entre os demais patrocinadores estão outras empresas do agronegócio, como as gigantes Cargill, New Holland e Case IH, a Yara, a Cooxupé, o Grupo Jacto e o Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev). O Inpev reúne dezenas de empresas do agronegócio e algumas de agrotóxicos, como Adama, Basf, Dow, Bayer e Croplife. A lista de patrocinadores é completada por empresas do setor financeiro: Bradesco, Itaú BBA, Rabobank e CME Group, a Bolsa de Chicago.

Os ministros Tereza Cristina e Tarcísio Freitas participam da mesa de abertura, logo às 9 horas, ao lado do presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Alceu Moreira (MDB-RS), e de representantes da Abag, da B3 e do secretário da Agricultura e do Abastecimento do Estado de São Paulo, Gustavo Junqueira. O primeiro painel de debates, às 9h45 terá, entre outros, o presidente da Cargill no Brasil, Paulo Sousa. O segundo, às 11 horas, terá um depoimento do presidente do Banco Central, com comentários do diretor de Agronegócios do Itaú BBA.

Alceu Moreira esteve entre os parlamentares que pressionaram, nos últimos meses, pela liberação do paraquat, um agrotóxico proibido na União Europeia: “Veja como estes líderes ruralistas pressionaram por liberação de agrotóxico banido“.

Croplife faz lobby mundial para empresas do setor 

Croplife Brasil foi criada em outubro do ano passado e é presidida por Christian Lohbauer, ex-vice-presidente de Assuntos Corporativos da Bayer Brasil. Fundador do Partido Novo, Lohbauer foi vice na chapa de João Amoedo na eleição presidencial de 2018 e é um nome especulado pelo partido para a disputa da eleição municipal da capital paulista neste ano.

Lohbauer também foi, segundo seu currículo oficial, gerente de Relações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), diretor executivo da Associação Brasileira dos Exportadores de Frangos (Abef) e presidente executivo da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR). Atualmente, é diretor do Conselho de Agricultura da Fiesp (Cosag/Fiesp) e sócio da Lohbauer Consultoria Internacional.

A Bayer e a FMC participam da Croplife Brasil, assim como a Syngenta, a Basf, e outras trinta empresas ligadas à produção e comercialização de produtos químicos e transgênicos para a agropecuária. A filial brasileira é associada da Croplife International, uma organização conhecida mundialmente por fazer lobby para as grandes empresas do setor.

Basf, Bayer, Corteva (do grupo DowDuPont), FMC, Sumitomo Chemical e Syngenta são as empresas que fazem parte da Croplife, a matriz, que reúne também organizações empresariais regionais e é coordenada por um executivo da Bayer. A Croplife Brasil e a Associação das Empresas de Biotecnologia na Agricultura e Agroindústria (AgroBio) fazem parte da organização estrangeira.

Croplife Latin America representa a Bayer CropScience, a FMC, a Syngenta, a Basf e a Sumitomo Chemical. Ela é presidida por José Perdomo, que trabalhou durante 28 anos na Dupont. A primeira prioridade da organização é “promover e apoiar as leis que, com critérios científicos, regulem os marcos legais que forneçam respeito pela propriedade intelectual, os quais devem ter relação com os acordos internacionais para a proteção das culturas, a biotecnologia, produtos biológicos e novas tecnologias”.

Syngenta, Bayer, Basf, Corteva e FMC vendem 80% dos venenos


Protesto da Public Eye em Berna, na Suíça. (Foto: Divulgação/Public Eye)

O interesse dos grandes produtores globais de agrotóxicos pelo encontro brasileiro não é por acaso. Uma investigação feita pela Unearthed, divisão de jornalismo investigativo do Greenpeace britânico, e pela ONG suíça Public Eye mostrou que o Brasil é o maior consumidor de pesticidas classificados como seriamente perigosos para a saúde ou o ambiente.

O estudo, divulgado em fevereiro, levou em conta as vendas no mercado global desses produtos em 2018, antes mesmo do governo Bolsonaro, que tem adotado uma política agressiva de liberação de agrotóxicos e de redução de barreiras a sua aplicação. Dois terços desse total foram adquiridos para a monocultura de soja, principal commodity brasileira no mercado internacional, em boa parte utilizada para a produção de ração animal.

As ONGs fizeram sua investigação a partir de dados da Phillips McDougall, uma das principais empresas globais de inteligência que atuam no setor de agropecuária. A empresa identificou que o mercado dos  agrotóxicos altamente perigosos movimentou US$ 9,9 bilhões naquele ano. Deste total, US$ 2,2 bilhões foram adquiridos pelo mercado brasileiro. Destacam que o consumo do agronegócio brasileiro deve ser ainda maior, pois a empresa conseguiu monitorar apenas metade do mercado nacional de agrotóxicos.

Ainda segundo a pesquisa, apenas cinco empresas foram responsáveis por 80% das vendas de agrotóxicos no país e 75% das vendas dos altamente tóxicos. São elas as cinco gigantes do setor: Syngenta, Bayer, Basf, Corteva e FMC. Todas integrantes da Croplife international e de sua filial brasileira. Destaca ainda que muitos desses agrotóxicos altamente perigosos têm o uso proibido no país de origem dessas empresas, mesmo que seja produzido lá.

A geógrafa Larissa Mies Bombardi, autora da publicação Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, afirma que, apesar de ter uma política rigorosa para o uso de agrotóxicos em seu território, a União Europeia não controla os produtos fabricados por empresas de seus países, como mostrou um estudo recente do Greenpeace da Alemanha.

Os agrotóxicos proibidos chegam a ser produzidos em território europeu e exportados para países com legislação mais permissiva, caso do Brasil. Nas regiões em que são utilizados, esses venenos causam danos à saúde das pessoas, contaminação da água e do solo e desequilíbrio ambiental, como a mortandade de abelhas no Rio Grande do Sul.

Gigantes da imprensa brasileira apoiam evento

O Congresso Brasileiro do Agronegócio tem o apoio institucional de 32 publicações da imprensa especializada, entre elas dois veículos ligados aos maiores grupos empresarias do Brasil: o Valor Econômico, das Organizações Globo, e o terraviva, da Rede Bandeirantes.

O jornalista William Waack será o moderador dos três painéis do encontro. Ele já havia participado do congresso em anos anteriores. Atualmente na CNN Brasil, Waack foi demitido da Rede Globo em 2017, depois da divulgação de um vídeo em que ele faz um comentário racista a um entrevistado em uma conversa fora do ar.

Leonardo Fuhrmann é repórter do De Olho nos Ruralistas |

Foto principal (Nacho Lemus/Telesur): protesto do MST na sede da Bayer, em São Paulo, em 2019

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Este texto foi inicialmente publicado pelo “De olho nos ruralistas” [Aqui!].

Bayer apresenta posição oficial sobre Dicamba e Acordo sobre o Roundup™

bayer 1Sede da multinacional Bayer em Leverkusen

O blog recebeu hoje da Assessoria de Imprensa da Bayer, o posicionamento da empresa sobre dois tópicos que têm sido tratados neste espaço: a aprovação pelo Ministério da Agricultura do herbicida Dicamba, e as negociações em torno das reparações demandadas pelos usuários do herbicida Roundup™.

Posto abaixo o inteiro teor da posição oficial da Bayer sobre as duas questões para a devida reflexão dos leitores do blog.

Posição Oficial da Bayer

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Aprovação dicamba

A Bayer informa que a aprovação realizada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e publicada no Diário Oficial da União na última quinta-feira (9) é referente ao registro de produto técnico (ingrediente ativo) de dicamba. Não se trata de concessão de registro da formulação para fins comerciais.

Bayer continua comprometida com o acordo sobre o Roundup™

Leverkusen, 8 de julho de 2020 - A Bayer anunciou hoje que está de acordo com a consultoria jurídica que representa a proposta de liquidação coletiva relacionada ao Roundup em sua decisão de suspender a moção em curso para aprovação preliminar do acordo coletivo na questão das partes. A suspensão permitirá que as partes abordem de maneira mais ampla as questões recentemente levantadas pelo juiz do tribunal federal do distrito Vince Chhabria, do Distrito Norte da Califórnia, que preside o litígio federal sobre o Roundup.

A Bayer continua fortemente comprometida com uma resolução que aborde simultaneamente tanto o litígio em curso em termos razoáveis como uma solução viável para conduzir e resolver possíveis litígios futuros. Acordos para liquidação de uma ação civil pública como essa são complexos e podem exigir alguns ajustes ao longo do processo, mas a empresa continua a acreditar que uma liquidação em termos adequados é do maior interesse da Bayer e de todas as partes interessadas.

O Brasil permite o uso do Dicamba, o polêmico herbicida da Bayer

Nos Estados Unidos, o Dicamba é considerado altamente perigoso.  No entanto, as autoridades brasileiras aprovaram o uso herbicida da Bayer Monsanto

Bauern freuen sich über WetterTrator aspergindo agrotóxicos para erradicar ervas daninhas.  Muitos desses produtos são considerados assassinos de insetos.

O Ministério da Agricultura do Brasil aprovou seis agrotóxicos que usam o herbicida Dicamba. São produtos da subsidiária da Bayer Monsanto e de várias pequenas empresas brasileiras. Isso fica claro no Diário Oficial da União. Nele, os agrotóxicos são classificados como “muito perigosos para o meio ambiente “. 

O uso do Dicamba é controverso. O agrotóxico é pulverizado sobre soja e algodão geneticamente modificados. No entanto, se for soprado nos campos de cultivo próximos que não são resistentes, poderá danificar as plantas ali presentes. Um tribunal dos EUA proibiu a venda e o uso deste herbicida em junho, alegando que os riscos associados ao Dicamba foram subestimados. Depois disso, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) determinou que os agricultores dos EUA podem ficar sem estoques de herbicidas até 31 de julho.

De acordo com o Escritório Federal de Proteção ao Consumidor e Segurança Alimentar, o Dicamba também é aprovado na Alemanha. O ingrediente ativo está contido em alguns fertilizantes de gramados.

A empresa controladora da Monsanto, a multinacional alemã Bayer , sofreu um revés no início desta semana na disputa pelo controverso herbicida Glifosato . Vince Chhabria, um juiz federal da Califórnia, disse em um documento do tribunal que estava “cético” sobre a “adequação e justiça” do acordo alcançado duas semanas atrás. Portanto, ele tende a não aprovar o acordo por enquanto.

Chhabria está preocupada com a parte do acordo que pede a criação de um painel de cientistas para esclarecer se o agente que a Monsanto vende sob a marca “Roundup” pode causar câncer. Ele perguntou por que os possíveis demandantes deveriam abster-se de ter um painel do júri no tribunal decidindo sobre o possível vínculo entre o uso do Roundup e o câncer.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pela Der Spiegel [Aqui!].

Bayer aceita pagar 10,9 bilhões de dólares às vítimas do herbicida Roundup

Gigante alemã encerra definitivamente dezenas de milhares de processos pelo pesticida da Monsanto, após passar anos negando que ele cause câncer

round upO herbicida Roundup em um supermercado da Califórnia, em 2017.MIKE BLAKE / REUTERS

Por Pablo Ximénez de Sandoval, de Los Angeles, para o El País

Bayer, gigante alemão do setor químico, aceitou um acordo para pagar 10,9 bilhões de dólares (58 bilhões de reais) para arquivar dezenas de milhares de ações judiciais relativas a casos de câncer supostamente provocados por um de seus pesticidas. A empresa calcula que o acordo afeta 75% dos atuais queixosos, estimados em 125.000, e 95% dos casos que chegariam a julgamento. Em apenas dois anos, as ações contra o herbicida Roundup deixaram de ser uma mera curiosidade em um tribunal de San Francisco para se tornar uma confusão jurídica que ameaçava derrubar o valor de mercado da Bayer.

Nesse período, foram se acumulando precedentes que indicavam um risco importante para a Bayer caso ela insistisse em continuar lutando para defender a segurança de seus pesticidas. No centro do caso se encontra o glifosato, o princípio ativo dos pesticidas Roundup e Ranger Pro. O primeiro é o pesticida de uso comum mais vendido do mundo.

O glifosato foi desenvolvido pela Monsanto na década de 1970. Não existem provas definitivas de que esse herbicida provoque câncer ―autoridades reguladoras dos EUA e Europa consideram que o produto é seguro, tal como está etiquetado. Entretanto, em 2015 a Organização Mundial da Saúde concluiu que era “provavelmente cancerígeno”. Os júris que já condenaram a Monsanto têm acatado a premissa de que a empresa ocultou os riscos do produto, embora não esteja totalmente provada sua relação direta com o câncer.

O acordo se divide em duas partes. Entre 8,8 e 9,6 bilhões de dólares servirão para indenizar a casos que estão em aberto, e outros 1,25 bilhão para potenciais novos casos. Em um comunicado citado pela Reuters, a empresa afirma que o acordo não inclui nenhuma exigência de rotular o Roundup como cancerígeno. O mediador judicial Kenneth Feinberg afirmou à Reuters que 25.000 casos ficaram de fora do acordo, mas que espera que se incorporem nos próximos meses. Segundo Feinberg, o pacto assegura que não haverá novos julgamentos e que todos os principais advogados envolvidos assinaram o pacto.

A primeira sentença a favor de um demandante foi a de Dewayne Johnson, um jardineiro que utilizou durante anos o herbicida em seu trabalho no subúrbio de San Francisco. Johnson foi diagnosticado com um linfoma não-Hodgkins, e em 10 de agosto de 2018 uma juíza condenou a Monsanto a lhe pagar 289 milhões de dólares, uma quantidade descomunal para esse tipo de ação. O júri considerou que a relação entre o glifosato e o câncer estava provada e que, além disso, a empresa tinha conspirado para ocultá-la. Aquela indenização foi depois reduzida a 78 milhões, mas abriu a porta a dezenas de processos, que depois se tornaram milhares.

Em março do ano passado, um segundo júri chegou à mesma conclusão no caso de Edwin Hardeman, de 70 anos, outro morador de San Francisco com linfoma não-Hodgkins, que atribuía ao uso contínuo do Roundup. Àquela altura, havia 11.000 ações em todo o país. Em maio, outro júri voltou a pôr a Monsanto contra as cordas ao ditar uma indenização de dois bilhões de dólares para um casal que utilizou o Roundup durante décadas em seu jardim e, aos 70 anos, ambos padeciam de linfoma não-Hodgkins. A empresa continuou mantendo que seu produto estava corretamente etiquetado, mas nesse momento já era evidente que os júris estavam dispostos a acreditar nos autores das ações, e que o glifosato era um problema jurídico muito maior do que a Bayer havia previsto.

A empresa alemã herdou o problema quando absorveu a Monsanto, em meados de 2018, por 63 bilhões de dólares. A firma argumentava que o Roundup era seguro e que as ações apresentadas até então não representavam qualquer risco. Pouco depois, decidiu eliminar a marca Monsanto porque o nome estava tão desprestigiado que se tornara comercialmente prejudicial. 

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Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal El País [Aqui].

Multinacionais são financiadoras ocultas da Frente Parlamentar da Agropecuária

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Empresas como Bayer, Basf, BRF, JBS, Bunge, Syngenta e Cargill compõem as associações do agronegócio cujos recursos custeiam o Instituto Pensar Agro (IPA), por sua vez o motor logístico da FPA, o principal braço da bancada ruralista

Por Priscilla Arroyo para o “De olho nos ruralistas”

O Instituto Pensar Agropecuária (IPA) é praticamente invisível. Não tem site oficial e há poucas informações públicas sobre as atividades que mantém. O IPA se apresenta como uma instituição que presta suporte técnico à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), grupo de associações e empresas do setor que reúne 257 deputados e senadores. É o braço institucional mais conhecido da bancada ruralista, a maior do Congresso.

Na presidência da FPA está o deputado Alceu Moreira (MDB-RS). Ele assumiu o cargo em fevereiro, sucedendo Tereza Cristina, atual ministra da Agricultura. Na prática, o IPA e a FPA se confundem: as instituições têm o mesmo e-mail para contato e o mesmo endereço – uma casa no Lago Sul, em Brasília, onde os parlamentares se reúnem todas as terças-feiras.
As verbas do IPA são direcionadas para a FPA. Até aí, fato conhecido – e relatado pelos próprios congressistas. Fato menos conhecido: esses recursos são oriundos da contribuição de 38 associações mantenedoras do IPA, que pagam uma mensalidade de pelo menos R$ 20 mil cada uma. Isso significa R$ 760 mil no caixa por mês. E quem mantém as associações? Multinacionais. Grandes empresas brasileiras do setor. Bancos.

De Olho nos Ruralistas identificou as empresas ligadas a doze dessas associações e listou as que têm mais relevância na economia. Dessa lista, fazem parte 22 das 50 maiores companhias do agronegócio no Brasil, de acordo com a revista Forbes. Bayer, Basf, BRF, JBS, Syngenta, Bunge e Cargill são algumas delas.

Confira a lista:

FPA-financiamento

Líder mundial em sementes e pesticidas, a alemã Bayer lidera também o levantamento ao apoiar cinco entidades que financiam o Instituto Pensar Agropecuária. Entre elas estão a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan). A Monsanto, que pertence à Bayer desde o ano passado, contribui com três mantenedoras do IPA. A empresa produz o Roundup, um dos pesticidas mais usados no mundo e alvo de milhares de processos judiciais nos Estados Unidos por conta das suspeitas de causar câncer.

A produtora de químicos Basf dá suporte a quatro entidades, entre as quais o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg). A Cargill, que processa e exporta grãos e está presente em 17 estados e em 191 municípios do Brasil, está entre as empresas que compõem a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) – ambos apoiadores do IPA.

A lista de mantenedores indiretos da bancada ruralista inclui duas grandes multinacionais do tabaco, a Souza Cruz e a Philip Morris, ambas fiadoras da Associação Brasileira da Indústria do Fumo. Corporações como Nestlé, Aurora e Danone, da Viva Lácteos. Ou o grupo André Maggi, capitaneado pelo ministro da Agricultura do governo Temer, Blairo Maggi. A empresa ajuda a bancar a Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (Aprass) – uma das associações que têm mais influência na FPA, ao lado da Aprosoja.

“Tem dinheiro da Cargill? Tem”, diz o principal executivo 

O IPA, ou Instituto Pensar Agro, como também é conhecido, foi criado em 2011 e se apresenta como uma entidade representativa do setor que “debate estratégias para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro”. Possui cerca de dez funcionários, a maioria técnicos, que produzem material de apoio para a formulação de projetos de lei e discussões protagonizadas pelos 225 deputados da Frente Parlamentar da Agropecuária, ou 44% do total de votos da Casa. No Senado, o grupo ocupa 32 das 81 cadeiras.

 

mourão terezaTereza Cristina, Hamilton Mourão, Bolsonaro e Alceu Moreira: aliança. (Foto: Reprodução)

Os votos da FPA mostraram-se decisivos para a derrubada da presidente Dilma Rousseff, em 2016, com 50% dos votos, e manutenção do presidente Temer no poder, em 2017, com 55% dos votos. Esse braço da bancada ruralista – que se reúne também em organizações temáticas mais específicas, como o setor sucroalcooleiro e a silvicultura – foi também um dos fiadores da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República.

A relação entre os técnicos do IPA e os parlamentares da FPA é cultivada por meio de almoços semanais, nos quais são definidas as pautas a serem discutidas no Congresso. A imprensa é convidada a participar desses almoços, no saguão, à espera dos deputados e senadores que se reúnem em local fechado.

Na reunião desta terça-feira (21/05), por exemplo, foi convidado o secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Luiz Antônio Nabhan Garcia, a face remanescente da União Democrática Ruralista (UDR). Entre as pautas estão o Código Florestal e o licenciamento ambiental – a bancada ruralista defende um licenciamento mais “flexível”.

Foi em um desses encontros semanais no Lago Sul, em 2016, que a equipe do De Olho nos Ruralistas foi expulsa pelo principal executivo do IPA, João Henrique Hummel. Intitulando-se “dono da casa“, ele disse que os repórteres – que haviam acabado de entrevistar Alceu Moreira e o gaúcho Luís Carlos Heinze (PP-RS) – não podiam estar ali, por se tratar de lugar privado. Após o episódio, a assessoria de imprensa da FPA confirmou que o acesso era público, sem restrições a este ou aquele veículo.

Notem no vídeo que Hummel carregava uma pasta da Aprosoja, uma das associações que mantêm o IPA:

Em “Uma análise sobre a Frente Parlamentar da Agropecuária”, trabalho de graduação de Andressa Gonçalves Ferreira na Universidade de Brasília, a pesquisadora diz que “cabe também ao IPA, em conjunto com as entidades mantenedoras, custear as ações e estudos fornecidos à FPA”. Ela dedicou a monografia a colegas de trabalho nas duas instituições.

O próprio João Henrique Hummel explicou em junho, em entrevista que a Agência Pública definiu como “conversa com um lobista”, a origem dos recursos do Instituto Pensar Agro. “Tem dinheiro da Cargill? Tem”, disse ele ao repórter Vasconcelo Quadros. “Ela contribui com as associações, e as associações pagam aqui”.

Múltis e bancos se apresentam como sustentáveis

Além das gigantes do agronegócio, há importantes representantes do setor financeiro entre os integrantes da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), como Banco do Brasil, Santander e Itaú BBA –  divisão de atacado da maior instituição financeira do país. Fazem parte ainda dessa lista o Sicredi, a B3 (antiga Bovespa, bolsa de valores do Brasil) e o banco holandês Rabobank.

Entre as companhias que têm capital aberto e figuram na lista de apoiadoras das associações mantenedoras do IPA, algumas  fazem parte também do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, uma relação das empresas que têm alto nível de eficiência econômica, equilíbrio ambiental e justiça social de acordo com métricas da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Nessa lista, além de Banco do Brasil e Santander, estão a Duratex, uma das maiores produtoras de painéis de madeira do Brasil, e a Klabin, uma das mais relevantes produtoras e exportadoras de papéis. Ambas estão associadas à Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), uma das mantenedoras do Instituto Pensar Agro.

A lista de empresas que financiam indiretamente a Frente Parlamentar da Agropecuária é maior do que a reunida pelo De Olho nos Ruralistas – que não conseguiu identificar os financiadores de 26 das 38 associações que compõem o IPA. Entre elas está uma das principais, a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja).

Mas há pistas. Em setembro, a Aprosoja-MT  aprovou em assembleia a criação de um fundo para construir a Ferrogrão, ferrovia entre Sinop (MT) e Miritituba (PA). A obra orçada em R$ 12,7 bilhões foi uma ideia de cinco grandes multinacionais: Amaggi, ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company.

A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) – uma associação sem fins lucrativos – apoia 74 entidades filantrópicas no estado, entre elas a Santa Casa de Cuiabá e o Hospital do Câncer.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pelo site do Observatório do Agronegócio no Brasil, o “De olho nos ruralistas” [Aqui!].

Agrotóxicos, câncer, padrões duplos, e o que a Bayer tem a ver com os incêndios na floresta amazônica

AVIÃOFoto: Rafi Bablan, CC BY 2.5

Por Christian Russau, ativista de Direitos Humanos e membro do conselho da Ethical Shareholders da Alemanha

Como a Bayer se aproveita das novas leis de participação acionária alemãs em tempos de distanciamento social da Corona, para nós, que somos ativistas de direitos humanos, este ano não é possível participar ativamente da AGM da Bayer para criticar a diretoria da Bayer  diretamente como fizemos nas últimas décadas. Mas, no entanto, a nossa crítica é mais importante do que nunca. Então, aqui vamos nós.

A Bayer vende agrotóxicos no Brasil que são proibidos na União Europeia (UE). Fiz duas investigações, uma em 2016 e a segunda em 2019.

A investigação em 2016 mostrou que a Bayer estava vendendo oito substâncias ativas de agrotóxicos no Brasil em 2016 que não são autorizadas a nível da UE, como afirma o Banco de Dados de Agrotóxicos da UE. Em 2016, as substâncias proibidas na UE que eram vendidas no Brasil eram as seguintes:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Dissulfotom
  • Etiprol
  • Etoxissulfuron
  • Ioxinil
  • Thidiazuron
  • Tiodicarbe

Mas em 2019, o número havia aumentado para 12, como uma nova investigação em 2019 mostrou:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Etiprol
  • Etoxissulfuron
  • Fenamidona
  • Indaziflam
  • Ioxinil
  • Oxadiazam
  • Propinebe
  • Thidiazuron
  • Tiodicarbe
  • Tirame

Isso significa que, entre 2016 e 2019, houve um aumento de 50% nas vendas de produtos agroquímicos da Bayer no Brasil, proibidas na UE.

Isso me lembrou do ano de 1988, quando o então CEO da Bayer, Hermann J. Strenger, se recusou a admitir que a Bayer estava usando padrões duplos. Strenger disse na época: “Nós fazemos os mesmos requisitos de nossos investimentos no Brasil ou na Índia, nos EUA ou no Japão, como [na Alemanha].” Mas ele admitiu: “De fato, no Brasil, por exemplo, não tem leis como na República Federal da Alemanha”.

Então, 32 anos depois, a Bayer ainda vende no Brasil alguns herbicidas, inseticidas e fungicidas com ingredientes ativos que são proibidos na Europa. Então, como seria possível não falar de padrões duplos?

Por que estamos focando no Brasil?

Por que colocamos nosso foco no Brasil? Porque o Brasil está no centro do interesse de crescimento da Bayer. O CEO da Bayer, Werner Baumann, disse na Assembleia Geral Anual de 2018 que o interesse da Bayer em adquirir a Monsanto seria no setor de sementes e no crescimento desse setor: vamos analisar mais de perto esse tipo de crescimento da empresa. O tipo de semente da Bayer (e agora também a antiga Monsanto ”) geralmente é geneticamente modificado, e isso acompanha o crescimento de venenos agrícolas. Se juntarmos essas três variáveis ​​- sementes geneticamente modificadas, venenos agrícolas e crescimento – juntas, apenas um denominador comum pode ser encontrado em todo o mundo: o Brasil. Essa ainda é a triste realidade, e com um governo de extrema direita como o de Jair Bolsonaro está ficando cada vez pior. Somente em 2019, em um ano de governo, o governo de direita em Brasília liberou mais 503 agrotóxicos

Nos EUA, vemos os processos legais em andamento contra a Bayer/Monsanto, na Europa as pessoas estão cada vez mais querendo se livrar da Glyphosate & Co, na Índia, mais e mais estados estão se declarando “livres de agrotóxicos”, e a China está mostrando preocupação com a contaminação por agrotóxicos. Então: para a Bayer, só resta o Brasil. E há uma razão para isso: “503 novos agrotóxicos, o que significa – como um cientista conhecido  da FIOCRUZ colocou: “O Brasil se tornará um paraíso para os venenos agrícolas”. Já é.

E a Bayer continuará participando, talvez mais do que nunca, na venda e distribuição de agroquímicos altamente tóxicos no Brasil. Pode ser algum tipo de tática de sobrevivência suicida diante da aquisição de vários bilhões de dólares da Monsanto, mas a Bayer buscará crescimento a qualquer preço. Qualquer veneno que possa ser vendido será vendido.

O Brasil é o inferno dos agrotóxicos na Terra

O Brasil é o inferno dos agrotóxicos na Terra. Vejamos os fatos: o Brasil é o líder mundial no uso de venenos agrícolas. 7,3 litros de veneno agrícola por cidadão brasileiro por ano representam a média nacional. A província transgênica de Mato Grosso detém o recorde mundial: no estado brasileiro de Mato Grosso são aplicados 13,3% (140 milhões de litros) de todos os agrotóxicos usados ​​no Brasil.  Apenas no pequeno município de Sapezal, no estado de Mato Grosso, em 2012, nove milhões de litros de venenos agrícolas foram utilizados.  Em Sapezal, o uso de per capita de agrotóxicos é de 393 litros, 52 vezes superior à média nacional de 7,3 litros.

Um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso constatou que houve 1.442 casos de câncer gástrico, esofágico e pancreático em 13 municípios (64.746 habitantes de acordo com o último censo de 2015), nos quais foram cultivados soja, milho e algodão entre 1992 e 2014. Em comparação, nos 13 municípios comparáveis ​​(219.801 habitantes de acordo com o último censo de 2015), onde o turismo predominou em vez da agricultura, o número de casos de câncer foi de apenas 53. Isso resulta em uma taxa de câncer de 223,65 por 100.000 habitantes em municípios predominantemente agrícolas, enquanto em municípios predominantemente turísticos, há uma taxa de câncer de 24,11 por 100.000 habitantes. Assim, em municípios onde os agrotóxicos são fortemente pulverizados, a taxa de câncer é estatisticamente maior em um fator de 8.

No ano passado, perguntei ao CEO da Bayer Baumann: quanto remédio anticâncer (volume e vendas) sua empresa farmacêutica enviou ao estado de Mato Grosso em 2016 e 2017? Infelizmente, não recebi uma resposta.

Incêndios florestais da Amazônia na floresta tropical

O mundo teve que testemunhar em 2019 uma temporada de incêndios na floresta amazônica com um enorme aumento ano a ano nos incêndios ocorridos na floresta amazônica. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil registrou um aumento de 77% ano a ano. No final de agosto, o céu acima da cidade de São Paulo escureceu durante o dia, apesar de estar a milhares de quilômetros da Amazônia. O governo de Bolsonaro fez sua parte no jogo horrível. Mas e a Bayer?

Em setembro de 2019, a Bayer declarou participar da chamada “Coalizão Brasileira de Clima, Floresta e Agricultura”.  A Bayer declarou então: “Estamos adotando uma posição clara para exigir a aplicação de leis de proteção florestal e impulsionar a intensificação sustentável da agricultura”. A Bayer argumenta que o princípio a ser adotado seria: “Quanto mais bem-sucedidos formos em intensificação sustentável, menor pressão sobre novas extensão do uso da terra”. Traduzindo isso para o discurso do mundo real: mais agrotóxicos da Bayer em terras usadas agrícola e, em seguida, a Amazônia seria salva.

Curiosamente, é preciso lembrar que os municípios da Amazônia brasileira com as maiores taxas de desmatamento ilegal são os mesmos com o maior aumento no uso de venenos agrícolas.

Então, Bayer, pare de espalhar besteiras, como uma empresa de ciências como você deveria saber muito melhor … Ou é mais uma decisão estratégica?

No Paraguai, o movimento anti-agrotóxicos e as comunidades indígenas têm um slogan popular: Ñamosêke Monsanto! – É a língua guarani e traduz para “Fora Monsanto!” O mesmo se aplica naturalmente à Bayer.

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Este artigo foi inicialmente publicado em inglês pela Association of Ethical Shareholders [Aqui].

Observatório dos Agrotóxicos: Governo Bolsonaro autoriza mais 16 produtos e chega a 163 liberações em 2020

Tractor spraying young crops in field

Em uma prova de que, apesar de todo o caos aparente,  o governo Bolsonaro continua sendo eficiente naquilo que se propôs, o Ministério da Agricultura (ainda comandado pela “musa do veneno”, Tereza Cristina (DEM/MS) publicou hoje o Ato 28 de 22 de Abril onde são liberados mais 16 agrotóxicos, todos eles definidos como “produtos técnicos”.

A estratégia de liberar agrotóxicos na forma de “produtos técnicos” parece visar a facilitação de criação de novos agrotóxicos genéricos, pois a totalidade dos agrotóxicos liberados a partir do Ato 28 já estavam autorizados por atos anteriores.

A característica predominante dos produtos serem fabricados na China foi mantida no Ato 28, visto que 11 dos produtos serão fornecidos por empresas chinesas. O interessante neste caso é a contribuição da Índia que fornecerá os 5 agrotóxicos restantes da lista de aprovados. Mais uma vez fica evidente que toda a grita de setores mais estridentes dos apoiadores do governo Bolsonaro não tem qualquer impacto sobre as relações comerciais com a China, que continuará sendo a principal fornecedora de agrotóxicos para o latifúndio agro-exportador no Brasil.

Apesar de ter tido apenas 2 produtos aprovados, a “estrela” do Ato 28 é o herbicida Dicamba cuja aprovação em 2019 foi alvo de um ofício conjunto que foi enviado ao Ministério da Agricultura  pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja)  que manifestaram “preocupação com o futuro de toda a agricultura brasileira” devido aos efeitos negativos que este produto causaria, entre outras, à diversas e importantes culturas agrícolas, tais como soja, algodão, batata, café, cítricos, feijão, leguminosas, tomate, uva e milho.

dicambaDicamba destruiu plantações de soja nos EUA – Foto: Reprodução

Aparentemente os interesses das corporações multinacionais que fabricam o Dicamba, incluindo a Bayer, a Basf e DowDupont falou mais alto, e agora os riscos causados pelo Dicamba deverão ser ainda maiores. 

Interessante notar que o Dicamba que antes era classificado com sendo da classe  toxicológica “I” (extremamente tóxico para seres humanos), agora apareceu sem sequer ser classificado, sob a desculpa de que a classificação atende ao produto técnico equivalente, sem que se indique qual seria.

Para quem desejar acessar a lista de agrotóxicos aprovados pelo Ato 28, basta clicar Aqui! , e a lista de 163 agrotóxicos liberados em 2020 Aqui!.

 

Fundação Rosa Luxemburgo lança relatório sobre comércio global de agrotóxicos perigosos por multinacionais alemãs

Agrotóxicos perigosos da Bayer e da BASF: um comércio global com padrões duplos

agrotóxicos cover

As duas empresas agroquímicas alemãs são responsáveis ​​por sérios problemas de saúde entre trabalhadores agrícolas na África do Sul e grupos indígenas no Brasil.

Os gigantes agroquímicos alemães Bayer e BASF estão entre os quatro maiores produtores de ingredientes ativos do mundo. Em um novo estudo internacional, a Rosa-Luxemburg-Stiftung, INKOTA-netzwerk e MISEREOR, juntamente com a rede brasileira Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e a organização sul-africana Khanyisa, documentam como as duas empresas comercializam um grande número de ingredientes ativos na África do Sul e no Brasil com suas próprias marcas, bem como em produtos de fabricantes nacionais que não são aprovados na UE. A Bayer possui pelo menos sete ingredientes ativos que não são aprovados na África do Sul e a BASF em pelo menos quatro. No Brasil, as duas empresas agroquímicas comercializam pelo menos 12 ingredientes ativos que não são aprovados na UE. Sete dos ingredientes ativos no mercado nos dois países foram explicitamente proibidos na UE devido a riscos ambientais e à saúde. Trata-se de um negócio perverso, com padrões duplos, que deve ser claramente rejeitado da perspectiva dos direitos humanos.

O estudo examina os casos em que a aplicação de pesticidas da Bayer e da BASF levou a envenenamentos graves e outras doenças entre trabalhadores agrícolas na África do Sul e grupos indígenas no Brasil. Nas fazendas de citros na África do Sul, o envenenamento durante a pulverização resultou em hospitalização dos trabalhadores. No Brasil, vilas inteiras são fortemente envenenadas pela aspersão de agrotóxicos por aviões, e um grande número de ingredientes de agrotóxicos é liberado nas águas subterrâneas. No caso de uma comunidade indígena em Tey Jusu, um tribunal brasileiro confirmou que os habitantes foram envenenados por um avião pulverizando um produto da Bayer.

Entre outras descobertas, os autores do estudo concluíram que o governo alemão deveria proibir a exportação de ingredientes ativos que não são aprovados na UE. Os governos da África do Sul e do Brasil, por sua vez, devem aprovar uma lei que proíba a importação de ingredientes ativos e agrotóxicos que não são aprovados na UE ou em outros países.

Quem desejar baixar o relatório completo sobre os agrotóxicos perigososo da Bayer e da Basf, basta clicar Aqui!.

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Este texto foi originalmente publicado em inglês pela Rosa Luxemburg Stiftung [Aqui!].

Contaminação do Roundup é “inevitável”, mostra a primeira pesquisa mundial sobre glifosato

mapa global roundup

Este mapa, criado por cientistas australianos, mostra onde os solos estão contaminados pelo Glifosato. Fonte: Universidade de Sydney.

Por Jane McNaughton para o ABC

O Glifosato é o ingrediente ativo do herbicida Roundup, produzido originalmente pela Monsanto – uma empresa de alcance global agora pertencente à Bayer.

O mapa identifica a análise de risco ambiental e os determinantes de que as regiões mais afetadas da Austrália são o sudeste de Nova Gales do Sul e o centro-oeste de Nova Gales do Sul que continuam no noroeste de Queensland.

A região ocidental da Austrália também mostra várias regiões com risco médio, bem como partes do sul da Austrália e  da província de Vitória.

O principal autor do artigo, o professor associado do Instituto de Agricultura de Sydney, Federico Maggi, diz que o mapa se baseia em pesquisas complementadas por anos de estudo realizados em escala global.

“A razão pela qual produzimos o banco de dados é porque há uma falta de entendimento das moléculas usadas e da distribuição geográfica dos usuários”, disseram eles.

Isso ocorre quando as agências internacionais discutem o futuro do herbicida.

“A Comissão Européia está investigando se deve ou não estender a licença do Roundup, suspender ou proibí-la”, disse Maggi.

Na Austrália e no exterior, existem várias ações legais em andamento contra uma empresa de produtos químicos agrícolas por causa das alegações de que o Roundup causa câncer.

Mas Maggi disse que o júri ainda não decidiu se a substância é realmente um risco à saúde.

“A literatura científica é muito dividida entre aqueles que trazem evidências de que o Glifosato pode ter efeitos negativos, e aqueles que afirmam que não existem efeitos visíveis na saúde humana”, disse Maggi.

‘Está em todo lugar’

A pesquisa descobriu que o glifosato e subprodutos associados a este produto químico foram detectados na maioria do solo da Terra.

“Ele é encontrado em quase todos os lugares do mundo e é inevitável, porque encontramos ambientes que não foram expostos a essa molécula antes de ter uma capacidade muito baixa de degradá-la”, disse Maggi.

“Todas as terras cultivadas são atualmente afetadas globalmente por essas substâncias; mas a intensidade no uso deste produto químico é variável”, disse ele.

Mas o Dr. Maggi disse que alguns países têm contaminação em um nível muito mais perigoso.

round up 1O Tribunal Federal de São Francisco concluiu que o herbicida contendo glifosato era um fator importante no câncer de homem na Califórnia. (AP: Haven Daley)

“O que chamamos de ‘hotspots’ são Europa, China, Sudeste Asiático, América do Norte, um pouco na América do Sul e Austrália”, disseram eles.

Maggi disse que o subproduto do glifosato, o ácido aminometilfosfônico (AMPA), pode representar um risco maior, pois não parece se decompor, e seus efeitos na saúde humana e ambiental são desconhecidos.

“É venenoso para as plantas, pelo menos, e não sabemos muito sobre essa molécula”, disseram eles.

Maggie disse que a prevalência do produto químico foi encontrada principalmente em pastagens de soja e milho.

“Dada a quantidade de glifosato usada globalmente, é muito provável que encontremos a molécula do subproduto de forma ampla no ambiente”, disse ele.

O diretor do Instituto de Agricultura de Sydney, professor Alex McBratney,  disse que há algum tempo existem dados localizados e evidências anedóticas de contaminação por glifosato.

“Frequentemente ouvimos declarações gerais sobre quanto está sendo usado, mas esse [mapa] nos permite ver exatamente onde as coisas estão sendo usadas”, disse McBratney.

“Embora pensemos que o glifosato seja ecológico, existem alguns resíduos que estão se acumulando no solo – e não temos certeza se [esses resíduos] têm algum tipo de consequência ambiental.

round up 2Contaminação por glifosato na Austrália. (Fornecido: Universidade de Sydney)

“Eu certamente estou preocupado com o fato de que haja efeitos do uso de grandes quantidades de glifosato, e que desenvolvemos nosso sistema alimentar para usar grandes quantidades de glifosato”.

A “crescente resistência ao Roundup”

O Dr. McBratney disse que a indústria agrícola australiana precisa aumentar seus esforços para implementar táticas alternativas de controle de ervas daninhas.

“Estamos preocupados com isso, de um ponto de vista puramente ecológico, ter o suprimento de alimentos do mundo dependente do uso desse herbicida é uma rota bastante perigosa a seguir”, disseram eles.

“Precisamos de três ou quatro alternativas diferentes ao glifosato, não porque ele seja necessariamente inseguro para o meio ambiente, mas porque há um aumento na resistência a herbicidas.

“As culturas podem realmente tolerar o glifosato como uma forma de manejo de plantas daninhas que incentiva o uso excessivo do herbicida quando temos outras tecnologias disponíveis”.

round up 3As primeiras populações mundiais de rabanete resistente ao glifosato foram confirmadas pelo pesquisador da Australian Herbicide Resistance Initiative, Mike Ashworth. (Fornecido por: Grains Research and Development Corporation)

Mas o Dr. McBratney disse que, embora as ‘bandeiras vermelhas’ estivessem começando a surgir, o preço e a facilidade de aplicação relativamente barata dificultava  a transição do produto.

“É um pouco precário confiar em um único herbicida, e quanto mais cedo pudermos ter alternativas no campo para melhor”, disseram eles.

“A ironia é que  o Glifosato nos permite fazer agricultura que nos esforçamos para fazer, de preservar água e carbono, mas, ao fazer isso, nos colocamos em outro perigo – mais ecológico.

“Acho que as pessoas fizeram isso pelas razões certas – econômica e ambientalmente – mas as conseqüências podem não ser a que esperamos se não diversificarmos em breve”.

A aceitação dos consumidores está diminuindo

À medida que os clientes ficavam cada vez mais conscientes dos alimentos que consumiam, McBratney disse que os agricultores precisam se afastar de agrotóxicos.

“O maior perigo é a perda da confiança do público em usá-lo para a produção de alimentos”, disse ele.

“A licença social para o uso de agrotóxicos está desaparecendo e precisamos procurar alternativas.

“Eu apenas sinto que o meio ambiente e as disputas [em andamento] farão com que o Glifosato eventualmente não seja mais usado”.

round up 4Manifestantes participam de uma marcha de protesto contra a Monsanto em Paris em 2015 (Reuters: Mal Langsdon)

McBratney  afirmou ainda que a resposta provavelmente está em máquinas de alta tecnologia e no uso de inteligência artificial. “Há várias pessoas trabalhando nisso na Austrália, e vejo essas alternativas como o futuro para lidar com ervas daninhas em nossa agricultura”, disse ele.  “Modificando as próprias culturas ou usando mais tecnologias baseadas em informações para detectar ervas daninhas. “Depois de detectar a erva, você pode eletrocutá-la, cozinhá-la no vapor ou retirá-la, para que haja outras maneiras de lidar com esse problema”.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo jornal ABC da Austrália [Aqui!].

Por nove anos, multinacionais como Shell e Bayer financiaram um importante negacionista climático

Os arquivos pessoais do proeminente negacionista climático holandês Frits Böttcher (que morreu em 2008) revelam que ele recebeu mais de um milhão de florins – quase meio milhão de euros – da Shell e de outras multinacionais holandesas durante os anos de 1990. O objetivo explícito: questionar a responsabilidade humana pelo aquecimento global.

flow shell

Por BAS VAN BEEK, ALEXANDER BEUNDER, JILLES MAST e MEREL DE BUCK para o “Follow the money”

Este artigo em breves linhas:

  • Entre 1989 e 1998, as multinacionais holandesas pagaram mais de um milhão de florins (quase meio milhão de euros) ao proeminente cético climático Frits Böttcher (1915-2008), com o objetivo explícito de semear desejos sobre as mudanças climáticas e o papel da humanidade.
  • Böttcher usou o dinheiro para montar uma rede internacional de céticos climáticos. Ele produziu vários relatórios, livros e artigos de opinião. Nestas, ele escreveu, por exemplo, que o efeito estufa existe e que o CO2 não é perigoso, pelo contrário: ‘bom para as plantas’.
  • A dúvida criada levou, entre outras coisas, à falta de apoio político a medidas regulatórias relacionadas à redução de CO2 durante os anos 90.
  • O financiamento para o “projeto de CO2” de Böttcher finalmente acabou em 1998. Seus 24 patrocinadores estavam preocupados com a opinião pública e o lobby do ceticismo climático se mostrou incapaz de impedir a assinatura do Protocolo de Kyoto em 1997.
  • Esta pesquisa faz parte do Shell Papers, um projeto de pesquisa conjunto conduzido pela Platform Authentieke Journalistiek e Follow the Money, sobre os laços entre o governo holandês e a gigante do petróleo.

Este artigo foi publicado em inglês em 3 de março de 2020. Leia o artigo original em holandês aqui.

Frits Böttcher mais tarde se referiria a ele como um ‘momento histórico’. Em 21 de dezembro de 1989, o professor de química aposentado visitou a sede da Shell em Amsterdã. Naquele dia, o diretor de supervisão da Shell, Jan Choufoer, o apresentaria ao chefe da empresa,  o diretor-gerente Huub van Engelshoven.

Böttcher era altamente considerado na Holanda. Leciona na Universidade de Leiden há décadas e atua em vários conselhos de supervisão: Pakhoed, Hoogovens, editores da Elsevier Scientific e 11 outros. Ele era um membro ativo do VVD e – de 1966 a 1974 – foi o Presidente do Raad van Advies voor het Wetenschapsbeleid [do conselho consultivo do governo em política científica] e de 1973 a 1976 foi um membro do Wetenschappelijke Raad voor het Regeringsbeleid [conselho científico de política governamental]. Choufoer e Böttcher se conheceram quando o professor de química atuou como um dos consultores permanentes do departamento de pesquisa da Shell.

Para o público em geral, Böttcher era conhecido principalmente como co-fundador e ex-presidente da filial holandesa do Clube de Roma. Essa associação informal, fundada em 1968 por líderes políticos, acadêmicos e empresariais, emitiu um alarme retumbante sobre o crescimento econômico e populacional desenfreado, bem como a natureza finita dos combustíveis fósseis em seu relatório de 1971, The Limits to Growth.

Mas, de acordo com Böttcher, as conclusões preocupantes do Clube de Roma significavam que todo o sistema precisava ser revertido. Pelo contrário, ele discordou do apelo dos movimentos ambientais de esquerda por uma intervenção governamental de longo alcance. Por exemplo, no outono de 1989, Bötcher publicou dois artigos de opinião no NRC Handelsblad, nos quais resistia à “caça às bruxas” do CO2 – um produto químico “no qual toda a cadeia alimentar do planeta se baseia”. O título de sua primeira peça: ‘Nosso planeta não é uma estufa’.

Para alegria de Böttcher, essa mensagem também foi adotada pela sala de reuniões da Shell. “Eu me permiti ser persuadido por vários contatos – geralmente dos círculos da Shell – a assumir um projeto de efeito estufa / CO2”, escreveu ele em uma das inúmeras cartas que deixou para a posteridade, que agora estão armazenadas no Noord- Hollands Archief [Arquivo da Holanda do Norte] e qual plataforma a Authentieke Journalistiek foi capaz de ler. Em outra nota, ele escreveu sobre sua primeira reunião com Van Engelshoven: ‘No final da reunião, Huub afirmou que a Shell queria disponibilizar 80.000 florins para o meu projeto’.

Conta bancária separada

Van Engelshoven estabeleceu uma condição prévia importante para o apoio financeiro ao projeto de CO2: Böttcher precisou convencer pelo menos três outras empresas a co-patrociná-lo. Uma tarefa fácil para Böttcher, que ocupou mais de uma dúzia de posições no conselho de supervisão e, portanto, foi adequadamente integrado às várias redes da empresa. Ele logo convenceu a AkzoNobel, a Hoogovens e a ANWB. “Eu cuidei disso em menos de uma semana”, ele escreveu mais tarde com um pouco de alegria. Em 1990, Samenwerkende Elektriciteits-Productiebedrijven (SEP), DSM, KLM e Pakhoed também se uniram.

Os documentos arquivados revelaram outras 15 empresas e organizações que apoiaram o projeto de CO2, incluindo NAM, Gasunie, Texaco, Schiphol e a gigante química alemã Bayer. Por exemplo, em 2 de maio de 1996, Willem Lindenhovius, chefe de Assuntos Públicos do NAM, escreveu a Böttcher: ‘Em nome do [diretor do NAM] Jan Oele, temos o prazer de confirmar que o NAM está disposto a doar US $ 12.500 este ano. e o próximo, especificamente para as atividades de efeito estufa do CO2. ‘

Na Hoogovens, tanto o presidente do conselho de 1988-1993, Olivier van Royen, quanto seu sucessor, Maarten van Veen, patrocinaram alegremente Böttcher. Além disso, o arquivo do professor de química contém cartas do membro do conselho da DSM, Ruud Selman, e do presidente do conselho da Gasunie, George Verberg, prometendo patrociná-lo. Böttcher entrou em contato com o Samenwerkende Elektriciteits-Productiebedrijven (SEP), via presidente do conselho Niek Ketting, que era – como Böttcher – também um membro ativo do VVD. Ian Christmas, presidente da Indústria Internacional de Ferro e Aço (IISI), pessoalmente garantiu que essa associação comercial internacional também fornecesse financiamento.

Na opinião de Böttcher, no entanto, nenhum apoio foi tão importante quanto o da Shell. Ele escreveu que a companhia de petróleo é o “padrinho do projeto”, e por assim dizer, e era o patrocinador “número um”. Em um documento datado de 1995, Böttcher lista seus apoiadores ‘leais’ no ‘canto da Shell’: ‘Em ordem alfabética: Harry Beckers, Jan Choufoer, Peter van Duursen, Huub van Engelshoven, Hein Hooykaas, Henny de Ruiter, Karel Swart, Gerrit Wagner, Ernst Werner. ”Em 1997 e 1998, os dois últimos anos do projeto, John Jennings, Peter Langcake e mais tarde CEO Jeroen van der Veer, estiveram envolvidos no patrocínio em nome da Shell.

Os pagamentos são roteados pelo Instituto Global da Böttcher para o estudo de recursos naturais. Böttcher também abriu uma conta bancária separada, ‘conta separada de CO2’, para doações de empresas. Ao todo, ele recebeu mais de um milhão de florins em doações para o projeto de CO2.

Böttcher não gastou o dinheiro sozinho: a maior parte era usada para pagar dois assistentes que marcavam reuniões, mantinham minutos e digitavam cartas para o professor. Os fundos restantes foram gastos em despesas de viagem, incluindo várias viagens aos Estados Unidos, Alemanha e Bruxelas, bem como em vários almoços e jantares com seus muitos contatos. O próprio professor de química trabalhou pro bono, convencido pela necessidade de lutar contra ‘a caça às bruxas com CO2’.

A motivação pessoal de Böttcher para participar do debate climático, no entanto, significa que ele foi influenciado pelos desejos de seus financiadores. Desde o início, as empresas participantes pedem que ele internacionalize o projeto de CO2; ele responde entrando em contato com renomados céticos climáticos nos EUA. Quando o gerente da Shell, Van Engelshoven, pede um artigo combativo na publicação comercial De Ingenieur [The Engineer], Böttcher entrega: ele intitula a peça ‘Mudança climática e o mito do CO2’ e ataca políticos que ‘promovem objetivos irrealistas’.

Na mídia, Böttcher insistia que o IPCC é politicamente motivado, que o CO2 não contribui para o aumento da temperatura, que o nível do mar diminuirá, não aumentará e que, levando em consideração o crescimento da população e as demandas de energia, é uma ilusão acreditar que tratado climático poderia levar a uma redução de CO2. E, finalmente, seu cavalo favorito: o CO2 é bom para o crescimento das plantas.

Em uma entrevista de 1995 com o 2Vandaag, um programa público de TV, ele afirmou que “as plantas desejam mais CO2 na atmosfera. [..] O aumento atual, de 0,028 para 0,035 por cento, é apenas o primeiro passo na direção certa para o mundo das plantas. Vamos enfatizar o positivo, em vez de insistir no CO2. ‘

O homem do Clube de Roma

O projeto de CO2 da Böttcher é um exemplo holandês de uma estratégia aplicada globalmente pela indústria de combustíveis fósseis, descrita extensivamente em livros como Doubtby Merchants de Naomi Oreskes e Erik Conway e De Twijfelbrigade de Jan-Paul van Soest. A estratégia se resume a isso: encontre um cientista de renome, financie-o para semear dúvidas sobre as consequências danosas do seu produto e, posteriormente, construa seu lobby contra a regulamentação do governo sobre essa base.

Não por mero acidente que as multinacionais holandesas disputam com Böttcher no final dos anos 80, quando a mudança climática entra no debate público. Por exemplo, o IPCC do Painel Climático da ONU foi fundado em 1988 e, durante a campanha eleitoral geral de 1989, o primeiro-ministro holandês Ruud Lubbers (democratas-cristãos) revelou a intenção de seu partido de reduzir as emissões de CO2 em 2% ao ano na Holanda. Seis semanas antes do encontro de Böttcher com Van Engelshoven, em novembro de 1989, líderes globais reunidos em Noordwijk (NL), quase concordaram com um tratado internacional para regulamentar as emissões de gases de efeito estufa.

Na Frits Böttcher, a indústria de combustíveis fósseis encontrou um parceiro que era um queridinho da mídia. É importante que ele tenha um cientista climático, mas um professor de química. “Acho que ele se importava com a ciência real por trás disso”, diz o ex-climatologista Wieger Fransen, que iniciou sua carreira no Instituto Global de Böttcher e, posteriormente, trabalhou no departamento científico do Instituto Real de Meteorologia da Holanda (KNMI). ‘Böttcher luta com publicações científicas sobre o clima’, lembra Fransen. Ele recebeu suas informações de jornais ou revistas como a New Scientist. Todas as publicações secundárias e nenhum artigo revisado por pares.

Böttcher tinha plena consciência de sua imagem como um acadêmico socialmente engajado. De suas anotações em uma reunião que teve em 1994 com Van Engelshoven da Shell: “Huub enfatizou novamente que, como cientista, eu era percebido como mais neutro do que as pessoas da comunidade empresarial.” Seu papel no Clube de Roma era adequado: “O Clube de Roma e particularmente minhas ações como parte deste último são um mito”, escreveu ele em dezembro de 1996. “Deve ser mantido vivo.”

“Escolhendo as cerejas”

Nos EUA, na década de 1980, a indústria de combustíveis fósseis conseguiu atrair grandes cientistas dispostos a dispersar dúvidas sobre as mudanças climáticas. Entre eles estavam Frederick Seitz e Fred Singer, dois físicos com impressionantes carreiras acadêmicas que estavam, entre outras coisas, envolvidos no desenvolvimento da bomba atômica.

Seitz, Singer e alguns outros cientistas americanos se envolveram profundamente no debate climático. Algumas vezes eles se pronunciaram pessoalmente, outras em nome de organizações como o Science & Environmental Policy Project (SEPP) e o George C. Marshall Institute, que foram ambos co-financiados pelo setor. “Eles usaram suas credenciais científicas para se apresentarem como autoridades e tentaram desacreditar qualquer ciência que desejassem”, escreveram Oreskes e Conway, resumindo a abordagem desses cientistas.

Os interesses da indústria eram enormes, mas essa era sua única motivação, explica Van Soest: ‘Esse tipo de financiamento está correlacionado com uma certa convicção ideológica; conservador e convencido das bênçãos do livre mercado. Eles também estavam tentando se justificar.

Em 1989, Frederick Seitz publicou o relatório Aquecimento Global: O que a Ciência Nos Diz? em nome do Instituto Marshall. Oreskes e Conway descrevem como Seitz e seu pessoal ‘selecionaram os dados’ de forma cerejeira, a fim de distorcer a avaliação das causas do aumento observado da temperatura. “A estratégia inicial deles é negar o fato do aquecimento global, mas culpar o sol”, escreveram Oreskes e Conway, deixando a impressão de que o CO2 é importante.

Embora tenha recebido uma enxurrada de críticas, o que a ciência nos diz se mostrou incrivelmente influente. John Sununu, chefe de gabinete do então presidente dos EUA, George Bush Senior, estava segurando-o “como uma cruz para um vampiro, combatendo o aquecimento do efeito estufa”, de acordo com alguém presente na conferência climática de Noordwijk em 1989. Sununu subseqüentemente tocaria um ‘papel de liderança’ na frustração dos objetivos desta conferência.

Frits Böttcher ficou profundamente impressionado com o relatório do Instituto Marshall. Ele o encaminhou ao editor de ciências da Elsevier, Simon Rozendaal, que o usou em seu primeiro artigo como cético climático, publicado em fevereiro de 1990: ‘Hoezo broeikas?’ [‘Greenhouse? Que estufa? ‘].

Enquanto isso, Böttcher havia desenvolvido laços estreitos com o autor do relatório, Seitz. Ele também fez amizade com Fred Singer e Donald Pearlman – conhecido como o “Sumo Sacerdote do Clube do Carbono“, por seu trabalho na indústria de combustíveis fósseis e deliberadamente inviabilizando várias conferências climáticas. Böttcher consultou os três de maneira substantiva e estratégica sobre como combater o IPCC e a ‘caça às bruxas do clima’.

Em 5 de julho de 1992, Böttcher recebe um convite de Fred Singer. Também um sinal de agradecimento: ‘Espero que você concorde em se juntar ao conselho consultivo do SEPP. Seus conselhos e compromisso são importantes para nós.

Encorajado por Huub van Engelshoven, Böttcher tentou criar uma organização irmã européia para o Instituto George C. Marshall. Inicialmente, ele falha: a organização deseja manter um controle rígido sobre as atividades que ocorrem em seu nome. No entanto, o conselho expressa sua esperança de que Böttcher encontre outra maneira de perseverar. Eventualmente, em 1994, ele faz. Com os britânicos John Emsley e Roger Bate, Böttcher fundou o Fórum Europeu de Ciência e Meio Ambiente (ESEF), uma rede européia de cientistas céticos sobre o clima. Em meados dos anos 90, a ESEF publica dois livros céticos sobre o clima. A ESEF seria posteriormente absorvida pelo Heidelberg Appeal Nederland e, posteriormente, pelo Groene Rekenkamer [Green Accounting Office], que ainda está ativo.

Nas salas de diretoria

Enquanto a narrativa simplista, porém clara e nítida de Böttcher, sobre o “mito do CO2”, teve um bom desempenho na mídia, a maior parte de seu trabalho ocorreu a portas fechadas. Em 2 de fevereiro de 1994, ele escreveu ao membro do conselho da DSM, Ruud Selman, que seu objetivo era fornecer ‘munição’ aos oponentes da política climática e ‘ajudá-los a evitar todos os tipos de harpas sendo empurrados’.

Os materiais arquivados revelam que a estratégia de Böttcher era muito semelhante à de seus colegas americanos. Ele escreveria um livro ou artigo cético sobre o clima, e seus contatos e patrocinadores dentro da comunidade empresarial o disseminariam entre colegas, políticos, jornalistas e, claro, o IPCC.

E funcionou. Por exemplo, o World Coal Institute, a federação global de empresas de carvão, copiou partes do panfleto de Böttcher Science ou fiction (1992) em seu boletim. Posteriormente, o instituto entregou esse boletim durante a conferência ambiental do Rio, com grande satisfação, e depois o entregou aos grupos de trabalho do IPCC que preparariam a primeira conferência climática de todos os tempos. Ian Christmas, presidente da Indústria Internacional de Ferro e Aço (IISI), garantiu que os livros de Böttcher fossem divulgados a todos os membros do conselho da siderúrgica em todo o mundo. E Lois Johnston, porta-voz da Texaco, fez o mesmo, abordando todos os seus colegas da indústria do petróleo e seus contatos com a mídia.

Böttcher também conseguiu transmitir sua mensagem a líderes empresariais e políticos em seu país de origem. “Ele era altamente estimado pela elite intelectual, principalmente por causa de sua formação no Clube de Roma”, explica Pier Vellinga, co-fundador do IPCC e, no início dos anos 90, o primeiro professor de mudança climática na Holanda. Ele dava palestras em eventos onde a elite holandesa se encontrava. Como suas histórias de negação climática infundiram política e política.

Vellinga dava regularmente palestras sobre seu trabalho para o IPPC nos mesmos eventos. “Normalmente, um silêncio ensurdecedor seguiria minha fala”, diz ele. – Ou os simpatizantes de Böttcher me atacariam, alegando que – como formado na TU Delft – eu não tinha o conhecimento adequado em meteorologia.

Rede complexa

Böttcher tinha uma rede impressionante. Foi assim que o ex-CEO da KLM, Jan de Soet, descreveu Böttcher em seu aniversário de 80 anos, em outubro de 1995: ‘Ao longo de sua vida, ele ocupou cargos em uma ampla gama de círculos, faculdades, guildas e inúmeras associações e empresas . Ele opera em uma rede mística e intrincada que abrange quase todos os movimentos espirituais e sociais em nossa sociedade. O conjunto com o qual os outrora tão formidáveis ​​’200 van Mertens’ só podiam sonhar.

O professor de química era membro de duas associações informais que admitiam apenas o topo absoluto da elite política e econômica holandesa: o Tafelronde e o De 8CHT. Ele fundou o último em 1972; o grupo se reúne aproximadamente seis vezes por ano. Outros membros incluíam Allerd Stikker (DSM), Jan de Soet (KLM), André Spoor, Hans Wiegel (VVD), Nout Wellink, Henny de Ruiter (conselho consultivo da Shell), Karel Vuursteen (presidente do conselho da Heineken) e Hans Wijers .

“Ele visitava regularmente o departamento de energia do [Departamento de] Assuntos Econômicos”, diz Frans W. Saris, diretor do Centro de Pesquisa Energética (ECN) de 1996 a 2002. Stan Dessens, chefe da divisão de Energia no Departamento de Assuntos Econômicos, entre 1988 e 1999, ele admite ter apoiado Böttcher: ‘Eu pensava que, como porta-voz de uma posição de compensação, ele deveria receber uma plataforma adequada. Afinal, ele tinha uma reputação acadêmica e uma ótima reputação, e alguém que você não esperava ser politicamente oportunista.

Os arquivos parlamentares mostram que, especialmente, o VVD acolheu a cetro de Böttcher. Jan te Veldhuis, que foi seu porta-voz ambiental entre 1982 e 2003, se referiu a Böttcher quando ele pediu uma “política realista de CO2” em 1992. Te Veldhuis continuaria a enfatizar disputas e dúvidas científicas nos anos seguintes.

SOBRE OS PAPÉIS SHELL

Este artigo é parte do Shell Papers, um projeto de pesquisa conjunto conduzido pela Platform Authentieke Journalistiek e Follow the Money, sobre os laços entre o governo holandês e a gigante do petróleo. Em abril de 2019, registramos um total de 17 pedidos FOIA, exigindo cópias de todos os documentos relacionados à Shell de nove ministérios, três províncias e cinco municípios.

Em março de 2020, os procedimentos FOIA ainda estão em andamento. Você pode acompanhar o progresso deles aqui:

Em uma entrevista, Te Veldhuis nos informou que ele e Ad Lansink (CDA) ‘pressionaram’ pelo convite de Böttcher para falar perante a comissão climática do Parlamento em 1995. Durante essa conversa, Böttcher começou a trabalhar: ‘O único fato é que o CO2 na atmosfera está aumentando […] e isso é benéfico para as plantas. Tudo o resto é hipotético.

Sua mordida chegou ao noticiário da noite. “Fui o único orador naquela reunião que apareceu na TV”, escreveu Böttcher depois a Dirk Hudig, um lobista da Imperial Chemical Industries. ‘Eu estava no oito’ ou no relógio e entendi bem meu ponto.

O financiamento seca

“Cheguei gradualmente ao ponto em que, no meu país, sou visto como o líder da oposição em relação ao assunto”, escreve Böttcher para Ian Christmas, do IISI, no início de 1996. Seu status não era páreo para o Zeitgeist. Até então, o professor de química esperava há meses que a Shell retomasse seu apoio ao projeto de CO2. A Shell não queria mais financiar diretamente os céticos climáticos, ‘temendo a opinião pública’, escreve Böttcher.

Finalmente, em setembro de 1996, Henny de Ruiter telefona. De Ruiter é membro do conselho consultivo da Shell e, naquele momento, uma das pessoas mais influentes da Holanda. Ele tinha más notícias para comunicar, escreve Böttcher ‘[De Ruiter] falou com [John] Jennings [diretor da Shell Trading em Londres, eds.], que reconheceu que hesitava em me apoiar porque a Shell já havia cometido outros erros, como os de Brent Spar e da Nigéria.

Mas uma lasca de esperança. Böttcher – cujas anotações, aliás, não mostram ira sobre os eventos nefastos com os quais seu trabalho aparentemente está concentrado – recebe uma oportunidade. [Jennings] se deixou persuadir ‘, escreve Böttcher. “Eu posso entrar e defender meu caso.”

A nova estratégia de Böttchers é revelada em suas extensas anotações sobre a conversa com Jennings na sede da Shell em Londres. Se a Shell tem medo de financiar os céticos climáticos, a empresa deveria financiar o novo projeto de Böttcher: ‘energia e desenvolvimento sustentável’.

Böttcher explica a seus interlocutores que este novo projeto é sobre o “papel dominante da energia na sociedade” e servirá para “alertar políticos e economistas que são insolentes sobre a implementação de impostos drásticos sobre a energia e intervenções comparáveis”.

O assunto é eminentemente importante para a Shell. A empresa sabe que os chefes de Estado estão prestes a tomar medidas destinadas a reduzir as emissões de CO2 na próxima cúpula de Kyoto em 1997. E o conceito de um imposto europeu sobre energia ou CO2 já foi levantado por ministros do meio ambiente, como Angela Merkel (Alemanha) e Margreeth de Boer (Holanda).

Jennings está entusiasmado com a proposta de Böttcher: “[Jennings] basicamente decidiu no local”, escreve Böttcher “, e me disse que Peter Langcake cuidaria do acordo e da supervisão que se seguiu”.

Em uma carta ao diretor da Bovag, Joop Hoekzema, Böttcher escreve mais tarde: ‘Por um lado, [Jennings] não estava mais disposto a apoiar um projeto que contraria a opinião popular. Por outro lado, ele estava tão entusiasmado com o meu novo projeto “energia e desenvolvimento sustentável”, que decidiu dentro de uma hora que a Shell International forneceria a soma total necessária para esse projeto em 1997: f 80.000. Ele me deu reinado livre.

O apoio da Shell ao projeto ‘energia e desenvolvimento sustentável’ acabaria sendo de vida relativamente curta. Em 1998, a Shell prometeu apoio uma última vez – a Böttcher receberia 30.000 florins finais por concluir ‘atividades com vistas ao CO2 e à energia sustentável’ – e isso seria o fim.

A Texaco e outros patrocinadores do projeto de CO2 também se retiraram naquele ano. No ano anterior, Böttcher já havia notado que a empresa americana parecia estar ficando nervosa: Texaco havia lhe pedido para ‘continuar’ o projeto de CO2, mas ‘parecia estar trabalhando em outra coisa’. Para esse fim, Böttcher renomeou sua ‘Conta Separada de CO2’ para ‘DS’, para Desenvolvimento Sustentável.

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Um dos livros publicados pelo Global Institute for the Study of Natural Resources. Melissa Houbden

A DSM tinha um motivo diferente para interromper seu financiamento: ‘[a decisão] é baseada em nossa impressão de que o impacto do seu lobby está diminuindo’ ‘, informa a empresa. O contexto indicado na carta do DSM: o Protocolo de Kyoto demonstrou amplamente que o mundo prestava mais atenção ao IPCC do que a um punhado de céticos.

Böttcher, que nunca foi menosprezado, persistiu e até sua morte em 2008, continuou a fazer lobby, criar redes e fornecer conselhos ambientais a seus amigos e contatos na comunidade empresarial. Apenas alguns meses após o encerramento do projeto de CO2, ele disse a Ian Christmas, do IISI, como estava feliz com “a liberdade” que agora tinha para eleger seus próprios súditos. A partir de agora, ele poderia desconsiderar a questão da ‘sustentabilidade’: ‘Continuaremos a batalha que travamos há anos’.

Fundações do ceticismo climático

Então, o que Böttcher conseguiu com seus esforços?  Aqui é onde as opiniões divergem. O seu principal feito parece ser o fato de ele ter desencadeado um debate sobre se as mudanças climáticas existem e, se existirem, se foram causadas pela intervenção humana. Em setembro de 1996, eu disse a Clement Malin e Jaap Meinema, da Texaco, que, embora “poucos relatórios e livros sejam realmente lidos”, eles têm um efeito: “As pessoas percebem que a oposição está crescendo”.

Além disso, Böttcher divulgou as conclusões do ceticismo climático holandês, um movimento que ainda chama muita atenção por organizações como Clintel e partidos políticos de direita, como o PVV e o Forum voor Democratie, que costumam abordar os mesmos pontos que Böttcher falou. sobre na década de 1990.

Pier Vellinga, professor de clima, descreve Böttcher como “instrumental” para adiar a política climática na Holanda nos anos de 1990. “Suas publicações chegaram até o Departamento de Assuntos Econômicos e foram usadas para argumentar que as coisas não eram tão ruins e que havia muitas perguntas sem resposta.” Vellinga acredita que essa seja uma das razões pelas quais a Holanda e outros que a Alemanha, nunca implementou nenhuma política eficaz de redução de CO2.

Margreeth de Boer (PvdA / Trabalho) foi ministra da Habitação, Planejamento e Meio Ambiente de 1994 a 1998. Negociou o Protocolo de Kyoto em nome da Holanda. Quando ela apresentou os resultados – uma intenção de reduzir as emissões de CO2 em 6% em 2012, em relação a 1990 – ela ficou com o ombro frio. De fato: “as pessoas ficaram completamente infelizes”. A meta nunca foi alcançada: entre 1990 e 2012, as emissões holandesas de CO2 conseguiram aumentar 1,2%.

De acordo com De Boer, medidas compulsórias como uma taxa de CO2 estavam ‘sobre a mesa de vez em quando’, mas nunca havia apoio suficiente para elas. Quando conversamos com ela, ela explicou que foi principalmente o Departamento de Assuntos Econômicos quem frustrou essas medidas: ‘Hans Wijers estava definitivamente convencido de que isso seria ruim para a economia e para as empresas. Sempre devemos nos antecipar, afirmou ele, e esse também era o ponto de vista do VVD.

Wijers, atualmente no conselho consultivo do ING, qualifica a afirmação de De Boer: ‘Minha posição era que definitivamente tínhamos que levar a sério as mudanças climáticas, mas também precisávamos garantir que não fecharíamos as usinas a gás mais eficientes da Holanda enquanto A Alemanha ainda estava abastecendo suas usinas de energia com linhito. ‘Wijers afirma que isso não estava no topo da lista de prioridades do departamento de De Boer:’ Eles eram um pouco mais visionários e pensaram: “descobriremos o resto mais tarde”.

Em retrospecto, Wijers reconhece que a Holanda poderia e deveria ter feito mais na época. Mas faltava apoio, afirma ele, tanto na sociedade quanto no gabinete. “Nosso país tende a assumir um papel visionário, enquanto na verdade está na retaguarda.” Atualmente, a Holanda está balançando em algum lugar no fundo quando se considera a parcela de energia sustentável na produção total de energia.

Mas esse é o “mérito” de Böttcher? O ex-presidente do De Nederlandsche Bank Nout Wellink era membro do De 8CHT de Böttcher e discutiu o clima com ele lá. Segundo Wellink, Böttcher era um ‘cientista de primeira classe’, mas, quando questionado sobre o impacto de seu trabalho nas políticas políticas, a resposta foi resolvida: ‘Nenhum, pelo menos não na medida em que observei. E ele definitivamente era o tipo de homem que se gabaria desse tipo de coisa.

Hans Wiegel discorda. “É claro que ele foi influente”, afirma o membro proeminente do VVD e do De 8ACHT. ‘Ele estava em todo lugar, todo mundo o conhecia. Mas ele próprio nunca admitiria isso. Ele não era vaidoso.

O próprio Wiegel definitivamente parece ter sido influenciado pelas idéias de Böttcher. Em um artigo de opinião de 2015 no NRC Handelsblad, ele escreveu: ‘Estou hesitante em escrever isso, mas anos atrás o único membro holandês do Clube de Roma, o falecido professor Frits Böttcher, disse que todas essas histórias alarmantes sobre mudanças climáticas são infundadas. “

RESPOSTAS DAS EMPRESAS E ORGANIZAÇÕES QUE APOIAM O PROJETO CO2

  1. O projeto de CO2 foi financiado pelas seguintes empresas e organizações: AkzoNobel, Amoco, ANWB, Bayer, Bovag, DSM, Fluor Daniel, Fundação BBMB, Gasunie, Hoogovens / Tata Steel, IISI, ING, KLM, Lions Clube, Mabanaft, NAM, Pakhoed (Vopak), Schiphol, SEP, Shell, Texaco, ThyssenKrupp e VNA.
  2. A AkzoNobel afirmou que era “difícil” responder porque isso tinha ocorrido “há tanto tempo”. A empresa nos informou que seu objetivo é reduzir suas emissões de CO2 em 50% até 2030 em comparação a 2018.
  3. A ANWB [Royal Dutch Touring Club] confirmou que a organização financiou Böttcher. Na época, de acordo com o porta-voz Ad Vonk, a ANWB queria informações científicas objetivas sobre o que o problema climático implicava e, devido à “excelente reputação científica” de Bottcher, ele foi selecionado para esse fim. Após críticas internas do departamento de meio ambiente pela falta de fundamentação científica de Böttcher em sua publicação ‘Science or Fiction’, o departamento instou o então diretor Nouwen a parar de financiar o último. Não está claro se isso foi realmente feito, diz Vonk. A ANWB sublinhou a necessidade de “reverter o aumento das emissões de CO2” já em 1990 em um “ponto de vista preliminar”.
  4. A Bayer nos informou que era “difícil” responder à pergunta se eles forneciam apoio financeiro à Böttcher porque as pessoas envolvidas não estavam mais empregadas. A empresa alemã não conseguiu encontrar o nome Böttcher ou Instituto Global em seus arquivos. A Bayer afirmou que deseja fabricar de maneira neutra em carbono até 2030.
  5. A Bovag admitiu que patrocinou Böttcher: “Há pouco a ser encontrado sobre o assunto, mas temos indicações – e assumimos – de que elas estão certas”, afirmou um porta-voz. No entanto: ‘BOVAG na década de 1990 era uma organização diferente da BOVAG em 2020’. A empresa é membro da Fórmula E (corridas de carros elétricos), diz apoiar os objetivos climáticos de Paris e está convencida de que as emissões de CO2 devem ser reduzidas.
  6. O DSM disse que é “improvável” que apóie pesquisas que visam minar as descobertas científicas. A empresa química também afirmou que já havia celebrado um pacto com o governo holandês em 1993 com o objetivo de economizar energia e que, desde a década de 1990, declarou explicitamente a importância de reduzir as emissões de CO2.
  7. O Gasunie foi dividido em GasTerra e Gasunie em 2005. O arquivo para os anos anteriores a 2005 é apresentado na GasTerra. Quando questionada, a empresa indicou que não conseguiu encontrar nada sobre o financiamento da Böttcher.
  8. O ING declarou: ‘Infelizmente, não podemos mais saber se essa doação limitada ocorreu 25 anos atrás, nem por que isso teria sido feito ou a pedido de quem’. Para o banco, é “bastante claro” que existe uma crise climática e diz que faz o possível para alinhar sua carteira de empréstimos ao acordo climático de Paris.
  9. A KLM afirma que ‘não há indicação alguma’ de que a companhia aérea tenha efetuado um pagamento à Frits Bottcher há 30 anos. A KLM se esforça ‘para criar um futuro sustentável para viagens aéreas’ e ressalta que começou a implementar medidas de sustentabilidade nos anos 90.
  10. A NAM, de propriedade da ExxonMobil e da Shell, nos informou que: ‘É correto que durante esse período a NAM tenha fornecido uma pequena contribuição financeira ao trabalho do professor Böttcher. Não podemos mais determinar corretamente que tipo de trabalho isso interessa exatamente.
  11. Schiphol ‘Não pode confirmar quem se valeu dos serviços do Sr. Böttcher de nenhuma maneira no passado.’
  12. O assessor de imprensa da Shell respondeu em nome do CEO Marjan van Loon da seguinte forma: ‘Isso foi há 25 a 30 anos e não podemos especular sobre o que exatamente aconteceu e em que contexto. Nós vamos analisar isso. Penso que é importante ter em mente que a ciência conduz uma grande quantidade de pesquisas sobre a questão climática há décadas. Isso tornou a transição energética cada vez mais relevante socialmente. A Shell tem sido muito clara sobre sua posição sobre as mudanças climáticas e o papel do CO2 há muito tempo. Temos reportado isso em nossos relatórios anuais e relatórios de sustentabilidade há mais de duas décadas. ”Segundo Van Loon, é importante que a sociedade se concentre em alcançar os objetivos do Acordo Climático de Paris. A Shell apoia totalmente esses objetivos. Apoiamos as várias iniciativas que acelerarão a transição energética, incluindo o Nederlandse Klimaatakkoord [Acordo Nacional do Clima] e a meta da União Europeia de não haver emissões líquidas de CO2 até 2050. É nisso que nossa estratégia se concentra. ‘

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Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pelo “Follow the Money” [Aqui!].