Intoxicação por agrotóxicos mata um brasileiro a cada 2 dias

Relatório afirma que empresas agroquímicas europeias já gastaram cerca de 2 milhões de euros em apoio ao lobby do agronegócio no Brasil. Aliança deu frutos: uso de agrotóxicos no país se multiplicou por seis em 20 anos

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A cada dois dias, uma pessoa morre por intoxicação de agrotóxicos no Brasil – cerca de 20% dessas vítimas são crianças e adolescentes de até 19 anos. O dado consta num relatório publicado nesta quinta-feira (28/04) pela rede ambientalista Friends of the Earth Europe.

A pesquisa da entidade europeia, que reúne uma série de organizações, mapeia a aliança entre empresas agroquímicas europeias – como Bayer e Basf – e o lobby do agronegócio brasileiro.

Segundo o texto, os esforços conjuntos desses dois atores para promover o livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) “causaram danos significativos à saúde das pessoas e ao meio ambiente no Brasil”.

“Corporações europeias como Bayer e Basf, que são os principais fabricantes europeus de agrotóxicos, têm promovido o acordo comercial UE-Mercosul por meio de grupos de lobby. Seu lobby tem procurado aumentar o acesso ao mercado de alguns de seus agrotóxicos mais nocivos ao unir forças com associações do agronegócio brasileiro. Ao fazer isso, eles apoiam uma agenda legislativa que visa minar os direitos dos indígenas, remover salvaguardas ambientais e legitimar o desmatamento”, diz a Friends of the Earth Europe no documento.

Segundo o relatório, grupos que representam a Bayer, a Basf e a Syngenta já gastaram cerca de 2 milhões de euros para apoiar o lobby do agronegócio no Brasil.

E esse lobby financiado por empresas europeias deu frutos: o uso de agrotóxicos em território brasileiro se multiplicou por seis nos últimos 20 anos, afirma o relatório.

Somente em 2021, foram aprovados 499 novos  agrotóxicos no país, um número recorde. Além disso, a Bayer e a Basf tiveram, juntas, 45 novos agrotóxicos aprovados no Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro, sendo que 19 deles contêm substâncias proibidas na UE.

“Como se bastasse manchar os pratos europeus com glifosato, a Bayer vem operando uma ofensiva agressiva de lobby no Brasil para promover agrotóxicos que são mortais demais para a União Europeia”, afirma Audrey Changoe, especialista em comércio da Friends of the Earth Europe e uma das autoras do estudo, ao lado da brasileira Larissa Bombardi, professora da USP e especialista em agrotóxicos no Brasil.

“Licença para envenenar”

O relatório assinado pelas duas especialistas afirma que grandes corporações europeias fabricantes de agrotóxicos se beneficiam das “regulações ambientais fracas do Brasil” e, além disso, também trabalham com o agronegócio brasileiro para moldar como essas leis são escritas.

Segundo o texto, a agenda do agronegócio se reflete no Congresso brasileiro por meio da bancada ruralista, “notória por pressionar para enfraquecer a legislação ambiental e de pesticidas e desmantelar órgãos governamentais responsáveis pela proteção do meio ambiente”. “As empresas da UE estão apoiando esse bloco e, por sua vez, facilitando sua agenda”, diz o relatório.

“Nossas descobertas são alarmantes: uma legislação ainda mais fraca no Brasil dará à Bayer uma licença para envenenar a natureza e as comunidades rurais que já sofrem com a agricultura intensiva de pesticidas”, completa Changoe.

O documento lembra que a bancada ruralista é aliada próxima do governo Bolsonaro e endossou sua candidatura em 2018. A organização também acusa o atual governo de criminalizar a sociedade civil e os movimentos sociais que lutam contra o uso de agrotóxicos – o que faz aumentar ainda mais o poder político de grandes corporações europeias.

Acordo UE-Mercosul

O relatório se posiciona de forma contrária à ratificação do acordo comercial UE-Mercosul – fechado após duas décadas de negociações –, que aumentaria as exportações de produtos agrícolas para a Europa e as importações de agroquímicos para os países do Mercosul – especialmente para o Brasil, que é o maior exportador mundial de soja.

“Embora o acordo traga oportunidades para as empresas agroquímicas que operam na UE, incluindo a Bayer e a Basf, também corre o risco de exacerbar os danos devastadores causados à natureza e às comunidades locais, incluindo os povos indígenas, cujo modo de vida e os direitos à terra são atacados pelo agronegócio brasileiro”, diz o texto.

Segundo o relatório, o acordo vem num momento em que “os sinais da perda dramática da biodiversidade global relacionada ao uso de pesticidas se tornam cada vez mais evidentes”.

A organização ressalta que, se o pacto comercial for ratificado, as tarifas sobre agroquímicas serão reduzidas em até 90%, levando a um provável aumento da exportação de pesticidas perigosos da UE aos países do Mercosul, incluindo alguns proibidos na Europa devido ao risco que representam à saúde humana e ao meio ambiente.

Segundo o texto, o acordo também deve impulsionar as exportações de produtos como soja, cana-de-açúcar e etanol derivado da cana, que dependem fortemente de agrotóxicos, bem como de carne bovina e aviária, que dependem da soja como ração animal, aumentando ainda mais o uso de pesticidas. “Esses produtos agrícolas também estão ligados ao desmatamento e à destruição da biodiversidade, bem como à violação dos direitos indígenas”, reitera o relatório.

A Friends of the Earth Europe afirma, assim, que o comércio promovido pelo pacto está “fundamentalmente em desacordo” com outras metas ambientais do bloco europeu, e pede que os Estados-membros da UE rejeitem o acordo com o Mercosul, “se afastem de promover o modelo de monocultura com uso intensivo de agrotóxcios” e “apoiem abordagens de agricultura mais sustentáveis, amigas da natureza e centradas em pessoas”.

O relatório pede ainda que a União Europeia introduza uma proibição imediata das importações de itens com resíduos de produtos químicos que já são proibidos na própria UE.

“A União Europeia tem a responsabilidade de parar o comércio tóxico UE-Mercosul agora”, conclui Audrey Changoe, uma das autoras do relatório.

ek (ots)


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Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle Brasil [Aqui!].

Bayer anuncia suspensão de investimentos na Rússia, mas agrotóxicos e remédios ficam isentos

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A multinacional alemã Bayer aparentemente criou uma espécie de moral seletiva (a do tipo que eu chamo de duplo padrão) ao anunciar a suspensão parcial de seus negócios na Rússia e na Bielo Rússia por causa do conflito militar em andamento na Ucrânia (ver declaração completa Aqui!]. 

Curiosamente (se é que se pode chamar assim), a Bayer anunciou que provisoriamente essa suspensão de atividades na Rússia não atingirá a venda de remédios e insumos agrícolas. Nesse sentido, a Bayer declarou que “como uma empresa de Ciências da Vida, temos uma obrigação ética – em todos os países em que operamos. Reter produtos essenciais de saúde e agricultura das populações civis – como câncer ou tratamentos cardiovasculares, produtos de saúde para mulheres grávidas e crianças, bem como sementes para o cultivo de alimentos – apenas multiplicaria o custo contínuo da guerra na vida humana“.

Ainda que agrotóxicos tenham sido omitidos das exceções “éticas” apontadas pela Bayer, presumo que um mercado tão atraente quanto o russo não será abastecido apenas com sementes, e a multinacional alemã não se furtará a continuar fornecendo seus venenos agrícolas que provavelmente são considerados também como sendo tão essenciais para o cultivo de alimentos como são as sementes.

Um toque adicional de duplicidade moral ocorre quando a Bayer cita que as posições anunciadas hoje serão revistas em 2023, dependendo do curso do conflito bélico em andamento na Ucrânia. A questão que me parece óbvia é que dado o andamento das coisas, em 2023 o atual conflito já terá se encerrado, ainda que não se saiba ao certo o seu resultado.

Mas quem ainda se surpreende com esse tipo de moral seletiva quando se trata dos interesses das corporações multinacionais, ainda que camuflada sob o discurso da luta contra a fome e as doenças, em face de escolhas que possam colocar seus lucros em xeque?

Bayer segue lucrando muito, graças à alta demanda por glifosato

Novo balanço anual do Grupo Bayer: aumento de vendas, bilhões em lucros com produtos tóxicos e prejudiciais ao clima

bayerConsequências fatais para o meio ambiente: o herbicida da Bayer é um verdadeiro matador de abelhas. Foto: Steffen Schellhorn/epd/imago

Por Jan Pehrke para o “JungeWelt”

“O ano financeiro de 2021 foi operacional e estrategicamente bem-sucedido”, anunciou o Bayer Group na terça-feira. As vendas aumentaram 8,9% para 44 bilhões de euros. No entanto, em onze bilhões de euros, um pouco menos do que no ano anterior permaneceu. A empresa culpou “custos de produção mais altos e efeitos cambiais negativos significativos”.

No setor farmacêutico, o anticoagulante Xarelto, que representou mais de dez por cento das vendas totais de 4,7 bilhões de euros, e o medicamento para os olhos Eylea garantiram que as caixas estivessem cheias. Graças ao SARS-CoV-2, a divisão de produtos sem receita também teve um bom desempenho. A multinacional Leverkusen tinha apenas algumas pílulas coloridas para oferecer aqui, mas aparentemente isso era suficiente. “O aumento do foco na saúde e prevenção em conexão com a pandemia de COVID-19 levou a um aumento significativo da demanda, especialmente na categoria de suplementos nutricionais”, explicou o grupo. No entanto, a liderança espera poder se beneficiar  do coronavírus de uma maneira muito mais abrangente.

A corporação global está apostando nas vacinas de mRNA abrindo as portas para seus métodos de tratamento de engenharia genética, que até agora sofreram com problemas de aceitação. “Se tivéssemos feito uma pesquisa pública há dois anos e perguntado quem estava disposto a fazer terapia genética ou celular e injetá-la em seus corpos, provavelmente 95% das pessoas teriam dito não. Essa pandemia abriu os olhos de muitas pessoas para inovações de uma maneira que não era possível antes”, regozijou-se recentemente o chefe farmacêutico da Bayer, Stefan Oelrich, na “Cúpula Mundial da Saúde” em 24 de outubro de 2021.

A  Bayer também registrou receita adicional no segmento agrícola. Aqui registou um volume de negócios total de 20 mil milhões de euros. “No caso dos herbicidas, os aumentos de preços dos produtos que contêm glifosato tiveram um efeito particularmente positivo”, informa a empresa. O componente controverso dos chamados herbicidas compõe a maior parte dos 5,3 bilhões de euros que esses fundos arrecadaram no total. A escassez de oferta forçou os agricultores a gastar mais dinheiro no produto. Por um lado, o furacão Ida paralisou a produção nos locais de Luling e Soda Springs por cerca de seis semanas e, por outro lado, menos glifosato veio da China. Normas ambientais mais rígidas – além de tudo, o herbicida z. B. um verdadeiro assassino de abelhas – levou a um estrangulamento da produção.

A empresa ainda não encerrou o caso do glifosato seis anos após o primeiro processo. Segundo ele, ainda estão pendentes acordos com 31 mil vítimas.  A Bayer não apenas se recusa a compensar os afetados e remediar os danos ambientais, mas continua a bombear o agente tóxico e prejudicial ao clima no mercado mundial porque traz bilhões em lucros”, comentou a “Coordenação contra os Perigos da Bayer” no balanço anual.

A gigante do agro vê “evoluções encorajadoras” na disputa legal. Caso contrário, a gerência pensa que está tudo bem. “Progresso em nossas metas de sustentabilidade” anunciou o CEO Werner Baumann. De fato, as emissões de gases de efeito estufa caíram 11,5%, para 3,17 milhões de toneladas. Mas é provável que a paralisação de seis semanas na produção de glifosato tenha contribuído pelo menos tanto quanto o aumento da compra de eletricidade de fontes renováveis ​​de energia. Além disso, um maior uso de energia primária e a maior dependência do carvão arruínam o equilíbrio climático. A multinacional também poluiu o meio ambiente em outras áreas. Produziu mais esgoto, mais lixo tóxico, mais monóxido de carbono e mais fósforo. Mas os mercados financeiros não estão interessados ​​nesses números.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo JungeWelt [Aqui!].

O padrão de dupla moral das corporações dos agrotóxicos: produtos proibidos nos países sede são vendidos no Sul Global

Christian_Russau_Rede_Bayer_2019_1200x600Christian Russau, porta-voz da Articulação dos Acionistas Críticos da Alemanha se pronuncia na assembleia anual dos acionistas da Bayer para cobrar coerência entre os discursos e as práticas na produção e venda de agrotóxicos fabricados pela empresa

Ainda que seja inevitável apontar para a responsabilidade do governo Bolsonaro e de sua base aliada na aprovação do Pacote do Veneno, há uma força insidiosa que permanece fora dos holofotes e que tem responsabilidade direta na tentativa de por abaixo um sistema de monitoramento  que, apesar de todas as suas falhas, ainda servia como um elemento que contenção para a entrada de agrotóxicos tão perigosos que foram banidos (alguns há mais de duas décadas) nos países em que as empresas fabricantes têm suas sedes.

Falo aqui do poderoso lobby exercido no congresso nacional e nas estruturas de governo por multinacionais como Bayer/Monsanto, Basf, DowDupont e a ChemChina/Syngenta. É por meio desse lobby que parlamentares ligados ao latifúndio agro-exportador como o deputado Luiz Nishimori (PL/PR) são eleitos para irem participar sem intermediários dos esforços em prol das corporações multinacionais que depois lucram fortunas com a venda de agrotóxicos que estão banidos na Europa, Estados Unidos e China.

Esse padrão de exportar para o Sul Global aquilo que foi proibido nos países-sede já foi documentado pela organização não-governamental suíça Public Eye que publicou em 2019 um relatório sobre os lucros fabulosos auferidos no Brasil pela ChemChina/Syngenta com a venda de produtos altamente perigosos para a saúde humana e para o meio ambiente (ver exemplos de alguns desses agrotóxicos na imagem abaixo).

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A dupla moral da Bayer e da Basf: primeiro envenena, depois vende a cura

Mas não é só a ChemChina/Syngenta que tem a prática de empurrar para o Sul Global agrotóxicos que são sabidamente causadores de doenças graves. As multinacionais alemãs Bayer/Monsanto e Basf também seguem enviando para o Sul Global um conjunto de agrotóxicos que estão banidos na Alemanha. Mas quando pressionados a dar alguma explicação, o que se ouve é que a venda dos produtos dessas empresas está em acordo com as legislações nacionais, omitindo o fato de que atuam para, juntos com os seus extensos laços de lobby, enfraqueceram as legislações nacionais para seguirem vendendo produtos que foram banidos na Alemanha e, na maioria dos casos, em toda a União Europeia.

Um interlocutor deste blog notou ainda que há algo muito cînico com a forma pela qual empresas como a Bayer/Monsanto e a BASF agem, pois, por um lado, vendem venenos agrícolas proibidos por serem causadores de todo tipo de doenças e, por outro, vendem medicamentos que supostamente irão curar os adoecidos por seus agrotóxicos.

Apesar de concordar com a indignação do interlocutor, noto que há ainda algo mais contraditório no comportamento dessas gigantes do setor químico que é o fato de em suas assembleias de acionistas ser repetido à exaustão a cantilena de que estão tomando rumos comprometidos com os desígnios do desenvolvimento sustentável, reforçando que há compromisso com a adoção de modelos agrícolas que produzam alimentos saudáveis.  

A verdade é que não algo tão distante da verdade quanto os discursos de governança corporativa e ambiental dessas empresas. Felizmente, ao menos no caso da Alemanha há ação da chamada “Articulação dos Acionistas Críticos que vem agindo para expor as contradições entre discurso e prática das multinacionais alemãs no Sul Global, mas especialmente no Brasil.

Mas até para fortalecer ações como as realizadas pelos “Acionistas Críticos”, há que se reforçar as articulações já existentes aqui mesmo no Brasil, a começar pela Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida cujos esforços permanecem desconhecidos da maioria da população brasileira. Com isso o lobby pró agrotóxicos continua agindo livre, leve e solto.

Expor os lobistas é um caminho para forçar uma mudança de comportamento das corporações

Na minha opinião não existem soluções fáceis para combater o poderoso lobby das grandes fabricantes de venenos agrícolas, pois elas estão muito bem articuladas e escondidas em organizações de lobby como é o caso da CropLife cujo braço brasileira, a CropLife Brasiltem como seu atual presidente, o candidato a vice-presidente do Partido Novo nas eleições presidenciais de 2018, o cientista Christian Lohbauer.

Como essas organizações de lobby agem tanto por detrás das cortinas como em frente delas, um caminho para diminuir a força que elas têm no congresso nacional e em órgãos reguladores, começando pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), um primeiro passo tem que ser justamente falar da existência dessas estruturas de lobby, pois ao expô-las ficará mais difícil pressionar as corporações em seus países-sede, pois lá a sensibilidade à opinião pública é maior.

Por isso tudo é que reafirmo que uma das prioridades programáticas para as eleições gerais de 2022 terá de ser a cobrança pela mudança do padrão dominante de produção agrícola que está condenando o Brasil a se transformar em uma latrina química de substâncias químicas cujo poder de destruição já está fartamente documentado pela comunidade científica internacional.

Brasil, o “Paraíso dos Agrotóxicos”

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Por Christian Russau para

A disputa política e social pelos “venenos agrícolas”, “agrotóxicos” ou “agrotóxicos” vem à tona e é expressão da expansão desenfreada dos “agrotóxicos” no Brasil, enquanto o governo Bolsonaro está constantemente permitindo a liberação de novos produtos. Em 36 meses de mandato de Jair Bolsonaro, foram aprovados 1.558 novos venenos agrícolas. E duas corporações alemãs estão na vanguarda desse negócio.

Nomen est omen, mas também expressão de narrativas sociais que concorrem entre si na disputa midiática sobre a soberania interpretativa – e, consequentemente, também sobre as relações sociais de poder. Sempre houve tentativas de controlar os debates políticos criando novas palavras, desarmá-las e influenciá-las na direção desejada. Na Alemanha, após o surgimento de críticas e resistência à energia nuclear, a indústria de energia nuclear tentou substituir o termo “energia nuclear” pelo termo “força nuclear”. Já no caso do Brasil, para compensar o apoio perdido no debate social por meio de renovação e ofuscação conceitual, uma coalizão de políticos e grandes agricultores, juntamente com representantes da indústria, começou a desenvolver a mídia e narrativas sociais sobre agrotóxicos para influenciar a atitude em relação a ingredientes ativos simplesmente mudando as palavras.

A partir de 1988, ano da atual constituição, passou a se utilizar a palavra “agrotóxicos” em documentos públicos. Isto de deu por que a seção 4 do Capítulo 5 da Constituição Brasileira, que trata dos direitos e obrigações da comunicação pública, há uma menção explícita a “agrotóxicos”.  Já em 1989, na Lei nº 7.802/1989, a palavra agrotóxicos é explicitamente mencionada nas disposições básicas sobre produção, armazenamento, uso e descarte de venenos agrícolas. O pano de fundo foi que grande parte dos autores das leis da época tinham de fato consciência da periculosidade e toxicidade dos agrotóxicos e sabiam da importância da terminologia utilizada pelo estado para gerenciar a aprovação deste tipo de produto para garantir a segurança e saúde dos a população. Conscientizar as pessoas sobre o perigo de uma possível intoxicação apenas escolhendo o termo.

No Brasil, porém, essa medida de precaução parece valer para uma proporção cada vez maior e mais poderosa de políticos: a preocupação com os riscos criados pelo uso de agrotóxicos já não conta tanto quanto a produção de maiores volumes de produção e lucros. De acordo com o projeto de lei 6.299/2002 em tramitação nas câmaras do Congresso Nacional brasileiro, o termo agrotóxicos deve ser retirado dos documentos oficiais e substituído por “agroquímicos” . Mas até isso vai alguns parlamentares: interior não é o suficiente: Muitos deles da banca ruralista preferem a adoção dos termos “defensivo agrícola” ou “defensivo fitossanitário”, o que mais se aproxima do “produto fitofarmacêutico” que hoje é comum na Alemanha. “Se o agricultor sabe que o produto é tóxico, ou o utiliza com cuidado redobrado ou procura outra forma de controlar a praga, patógeno ou planta invasora”, disse Adilson D. Paschoal, do Departamento de Entomologia da Faculdade de Agricultura da USP. Paschoal considera perigoso substituir o termo “veneno” por termos mais inofensivos: “Trata-se de um retrocesso inadmissível e unilateral, que visa ocultar a verdadeira natureza destes produtos, nomeadamente a sua toxicidade”.

E o governo Bolsonaro avança incansavelmente para consolidar o protagonismo do Brasil no consumo de agrotóxicos, em linha com os interesses das corporações e do agronegócio implacável com fins lucrativos: as últimas pesquisas do professor Marcos Pedlowski da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes no Estado do Rio de Janeiro, um total de 1.558 novos Agrotóxicos foram aprovados pelo governo nos 36 meses do governo Bolsonaro até 31 de dezembro de 2021.

Para promover o boom de exportação de culturas de rendimento como soja, milho, algodão, café e suco de laranja concentrados, que são exportados principalmente para o exterior, o Brasil está usando agrotóxicos de forma abundante. Em função disso, em poucas décadas, o país tornou-se o campeão mundial no consumo de agrotóxicos. Desde que mais de um milhão de toneladas de agrotóxicos foram pulverizados nas áreas agrícolas brasileiras em 2010, o país ostenta o título inglório de maior consumidor mundial de venenos agrícolas. E quando Tereza Cristina, lobista declarada dos agrotóxicos, tornou-se Ministra da Agricultura. “Brasil – o paraíso dos agrotóxicos” foi a manchete do prestigiado portal Carta Capital em junho de 2019.

E isso tem consequências. “Desde o início dos anos 2000, são vendidas muitas sementes geneticamente modificadas que não morrem se você as pulverizar com glifosato em uma grande área, por exemplo. A agricultura industrial no Brasil é totalmente dependente de agrotóxicos”, afirma o ativista Alan Tygel da campanha brasileira contra toxinas agrícolas (“Campanha permanente contra os agrotóxicos e pela vida”). Um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso constatou que em 13 municípios (644.746 habitantes: interior segundo o último censo de 2015), nos quais soja, milho e algodão foram cultivados entre 1992 e 2014, houve 1.442 casos de estômago e esôfago – e câncer de pâncreas. Nos 13 municípios comparativos (219.801 habitantes: interior segundo o último censo de 2015), onde havia uso principalmente turístico em vez de uso agrícola), o número de casos de câncer foi de 53. Isso resulta em uma taxa de câncer de 223,65 por 100.000 habitantes em municípios usados ​​para agricultura: no interior, em municípios usados ​​principalmente para turismo, a taxa de câncer é 24,11 por 100.000 habitantes: dentro. Assim, em municípios onde os agrotóxicos são pulverizados avidamente, a taxa de câncer é estatisticamente maior por um fator de 8 . Além disso: No Brasil, milhares de cidadãos brasileiros são envenenados por toxinas agrícolas todos os anos. O número vem aumentando ano a ano: em 2007 foram 2.726 casos, em 2017 foram 7.200, um aumento de 164% .

Mas as regiões em que agrotóxicos não são usados para a agricultura também são afetadas por  veneos agrícolas. Por um lado, trata-se dos casos em que agrotóxicos pulverizados permanecem como resíduos nos alimentos consumidos. De acordo com os últimos dados disponíveis (2017/18) da Autoridade Nacional de Vigilância Sanitária ANVISA, 14 produtos agrícolas comuns (selecionados pela Anvisa: abacaxi, alface, alho, arroz, batata-doce, beterraba, cenoura, chuchu, goiaba, laranja, manga , pimentos, tomates e uvas) excederam os valores-limite admissíveis em 23% dos casos .

Outra área extremamente crítica é a da água potável. O Ministério da Saúde verifica de acordo com a regulamentação em vigor até agora 27 substâncias , algumas das quais podem causar sérios riscos à saúde em contato . Segundo a Anvisa, 16 dessas substâncias são “extremamente tóxicas” ou “altamente tóxicas”, enquanto onze estão associadas a doenças crônicas como câncer, malformações, distúrbios hormonais ou reprodutivos. O que chocou particularmente o público brasileiro em abril de 2019: em 2014, foram encontrados resíduos de agroquímicos na água potável em 75% dos testes. Em 2015 este valor subiu para 84%, em 2016 para 88% e em 2017 para 92%.

Quando questionados sobre a responsabilidade conjunta da Alemanha pela aplicação massiva de agrotóxicos no Brasil, o primeiro destinatário são os dois pesos pesados ​​do mercado mundial de venenos agrícolas:  duas empresas alemãs Bayer e Basf . O autor deste texto teve em 2016 um estudo dos ingredientes ativos oferecidos pela Bayer e Basf que são realizadas no Brasil. O objetivo do referido estudo era descobrir se e quais ingredientes ativos Bayer e Basf eram vendidos no Brasil que não são aprovados pela União Europeia (UE) de acordo com o Banco de Agrotóxicos  da organização . Esta investigação foi repetida três anos depois. O resultado foi que o número de agrotóxicos da Bayer e da Basf aumentou. Os ingredientes ativos vendidos no Brasil, mas não aprovados em nível da UE de acordo com o Banco de  Agrotóxicos  aumentaram de oito (2016) para 12 (2019) e no caso da Basf de nove (2016) para 13 (2019). Um novo estudo do Inkota, Misereor e da Fundação Rosa Luxemburgo para 2020 também mostrou dados idênticos para os ingredientes ativos vendidos pela Bayer e Basf no Brasil .

Desde que não seja proibida no Brasil, essas substâncias são vendidas lá por grupos como BASF e BAYER. A BAYER admitiu isso no final dos anos 1980. Em 1988, o então presidente do conselho, Hermann J. Strenger, disse: “Na verdade, por exemplo, não temos leis no Brasil como na República Federal da Alemanha”, acrescentou : “Mas estamos fazendo nossos investimentos no Brasil ou na Índia, nos EUA ou no Japão com as mesmas exigências que aqui.” Porém, mais de 30 anos depois, a BAYER ainda vende herbicidas, inseticidas e fungicidas no Brasil, assim como a BASF, que são proibidos na Europa.

E esse comportamento imprudente acaba afetando novamente nós consumidores na Alemanha. Em maio do ano passado, o Greenpeace testou frutas do Brasil para resíduos de toxinas agrícolas. O resultado: “Os testes de laboratório das 70 frutas revelam resíduos de um total de 35 diferentes substâncias ativas de pesticidas. Os níveis máximos legais foram excedidos um total de quatro vezes. As amostras analisadas consistem em casca e polpa. ”Um exemplo entre muitos: mais de 37% das limas importadas para a Alemanha no período de 2017-2020 vieram do Brasil, sendo quase 36.200 toneladas de limões. No passado, o agronegócio brasileiro sempre gostou de negar que resíduos de agrotóxicos poderiam ser encontrados em produtos cítricos. Em outras vezes era usado o argumento de que poderia haver resíduos na casca, que, no entanto, não são ingeridos. Resta agora saber se toda caipirinha em que os limites dos resíduos de agrotóxicos nos limões são respeitados,

E a política europeia? Continua a depender, por exemplo, do Acordo de Livre Comércio UE-MERCOSUL. E isso também tem algo a ver com a compra e venda de agrotóxicos. De qualquer forma, o Greenpeace adverte: “Se o planejado acordo UE-Mercosul for concluído, as tarifas sobre agrotóxicos cairão. Isso deve aumentar suas vendas e o comércio tóxico.” Como primeiro passo, espera-se que o acordo não se concretize, e como segundo passo que a coalizão “Semáforo” colocou nos acordos que gerou o novo governo alemão para a exportação de bens que são proibidos na Alemanha esteja seja cumprido. É claro que isso não afeta a questão da continuidade da produção dos mesmos princípios ativos no próprio Brasil, por exemplo, pelas filiais da Basf e da Bayer. É preciso um fim fundamental para o duplo padrão de lucro. E é necessária uma reviravolta agroecológica, no Brasil e na Alemanha, e em todos os lugares. Nesse sentido, há muito o que fazer.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pela Dachverband Kritische Aktionäre [Aqui!].

Brasil é principal destino de agrotóxico banido na Europa e ligado à morte de abelhas

  • Agrotóxico produzido pela Syngenta e que seria exportado pela Bélgica costuma ser aplicado em plantações de soja
  • MPF tenta barrar pulverização com neonicotinóides no Brasil
  • Morte de meio bilhão de abelhas no Brasil esteve relacionada à pesticida do grupo dos neonicotinóides
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Por Rute Pina, Agência Pública/Repórter Brasil

O Brasil é o destino de mais da metade dos registros de exportações da União Europeia de agrotóxicos proibidos na Europa e associados à morte de abelhas. São inseticidas à base de três neonicotinóides: tiametoxam, imidacloprido e clotianidina. Entre setembro e dezembro de 2020, mais de 3,8 mil toneladas dessas substâncias foram registradas para serem exportadas na Agência Europeia das Substâncias Químicas (ECHA) —  o Brasil era o destino de 2,2 mil toneladas, 58% do total.

Os dados inéditos, obtidos com exclusividade pela Agência Pública e a Repórter Brasil, são resultado de um levantamento da Public Eye, organização suíça, em parceria com a Unearthed, braço de jornalismo investigativo do Greenpeace. É a primeira vez que são revelados números sobre a quantidade dos pesticidas neonicotinoides enviados ao exterior por países europeus. As substâncias imidacloprido, clotianidina e tiametoxam foram banidas na União Europeia em 2018. Desde setembro de 2020, empresas de lá são obrigadas a notificar exportações de produtos com esses princípios ativos. As notificações são estimativas emitidas antes de o produto ser despachado. 

Os produtos registrados para serem enviados ao Brasil foram produzidos por duas empresas: Syngenta e Bayer. Ao todo, eles continham 318 toneladas das substâncias ativas proibidas. 

O principal deles foi o Engeo Pleno S, produzido pela Syngenta na Bélgica — a empresa registrou mais de 2,2 milhões de litros do produto para ser enviado para o Brasil. Ele é o mais vendido pela Syngenta no país e costuma ser utilizado principalmente por produtores de soja. O Engeo contém uma mistura do neonicotinóide tiametoxam e do inseticida lambda-cialotrina, também altamente tóxico para as abelhas.

Às organizações, a Syngenta respondeu que “seus produtos são seguros e efetivos quando usados dentro das recomendações” e que “a empresa atua sempre de acordo com a legislação e regulamentação local”. A Syngenta ainda afirmou que “atesta a segurança e a eficácia do tiametoxam” e que, “sem pesticidas, as perdas [na produção agrícola] seriam catastróficas”.

Já a Bayer respondeu que “apesar de aceitar a decisão da União Europeia de cessar a aprovação aos neonicotinoides, a empresa destaca que agências reguladoras por todo o mundo confirmaram o uso seguro desses produtos após revisões cuidadosas.”. A empresa, contudo, confirmou que “a pulverização deve ser estritamente evitada em plantações que atraiam abelhas durante a floração para evitar exposição desses insetos”.

Além do Brasil, outros 59 países estão na lista de destinos dos produtos proibidos na União Europeia. Os principais são a Rússia, Ucrânia, Argentina, Irã, África do Sul, Indonésia, Gana, Mali e Cingapura. Já a lista dos maiores exportadores é encabeçada pela Bélgica, França e Alemanha, seguidos por Espanha, Grécia, Reino Unido, Dinamarca, Áustria e Hungria.

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Morte de meio bilhão de abelhas no Brasil esteve relacionada à pesticida do grupo dos neonicotinóides. Imagem meramente ilustrativa/Instituto Biológico

Os neonicotinóides são quimicamente semelhantes à nicotina e matam insetos atacando seu sistema nervoso central. Eles foram introduzidos na década de 1990 e são os inseticidas mais usados ​​no mundo. Altamente solúveis em água, eles podem ser facilmente transportados para lagos, rios e lençóis freáticos, além de se acumularem no solo.

No Brasil, MPF tenta barrar pulverização com neonicotinóides

Os dados obtidos pela Unearthed e Public Eye foram publicados no momento em que a Comissão Europeia avalia pôr fim à fabricação dos produtos para exportação, um passo adiante após a proibição do uso das substâncias na Europa. 

Em resposta às organizações que realizaram a investigação, a Hungria e o Reino Unido afirmaram que o sistema atual é baseado no consentimento prévio dos países importadores. Bélgica, Dinamarca e França afirmaram apoiar uma proibição local de exportação. Na França, a proibição de exportação de pesticidas proibidos na União Europeia já foi imposta e entrará em vigor em 2022. Esta medida “deve ser adotada e implementada” na região, diz o governo francês, porque “não é aceitável expor o meio ambiente e a saúde em outros países” a estas substâncias. A Espanha também sinalizou proposta nesta direção. Já a Alemanha diz estar “ansiosa” por propostas concretas da Comissão Europeia sobre o tema. 

A Comissão Europeia assumiu o compromisso de acabar com esta prática em outubro de 2020, após um primeiro levantamento da Unearthed e Public Eye revelarem que fabricantes da UE despachavam milhares de toneladas de pesticidas proibidos para países pobres.

No Brasil, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou, em agosto deste ano, uma ação civil pública contra o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para que o órgão ambiental proíba a pulverização aérea de agrotóxicos com as três substâncias neonicotinóides exportadas pela Europa (imidacloprido, clotianidina e tiametoxam), além do pirazol.

O Ibama já havia proibido a pulverização aérea dessas substâncias em 2012. O órgão, no entanto, liberou provisoriamente a aplicação dos pesticidas em lavouras de algodão, arroz, cana-de-açúcar, soja e trigo até que fossem encerrados os processos de reavaliação dos efeitos sobre o meio ambiente — o que até hoje não ocorreu. 

O procurador da República Matheus Baraldi Magnani, autor da ação civil pública, considera o número de mortes de abelhas um caso “extremamente grave, subdimensionado e silencioso” e analisa que a omissão do Ibama consolidou, na prática, a autorização para o uso dos pesticidas. “Tal problema é diariamente agravado pela inconstitucional escolha do Poder Público em priorizar fortes setores econômicos em detrimento do meio ambiente”, argumentou Magnani no documento. “A pulverização aérea de neonicotinóides e pirazol é, numa analogia, uma assassina silenciosa para as abelhas, assim como o monóxido de carbono é para os humanos”, disse. 

Os pedidos do MPF restringem-se à aplicação dos produtos com uso de aviões. Caso a Justiça Federal acolha os requerimentos, ainda será permitida a pulverização terrestre. 

Meio bilhão de abelhas mortas em três meses

Em 2019, um levantamento da Pública e Repórter Brasil mostrou que mais de 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas em quatro estados brasileiros em apenas três meses, entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019. Foram 400 milhões no Rio Grande do Sul, 7 milhões em São Paulo, 50 milhões em Santa Catarina e 45 milhões em Mato Grosso do Sul, segundo estimativas de Associações de apicultura, secretarias de Agricultura e pesquisas realizadas por universidades.

Em Cruz Alta, município de 60 mil habitantes no Rio Grande do Sul, mais de 20% de todas as colmeias foram perdidas apenas entre o Natal de 2018 e o começo de fevereiro de 2019. Cerca de 100 milhões de abelhas apareceram mortas, segundo a Apicultores de Cruz Alta (Apicruz).

O principal causador das mortes das abelhas é o contato com agrotóxicos à base de neonicotinóides e de pirazol, proibido na Europa há mais de uma década. Um estudo de 2018 da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) demonstrou que 67% das mortes em coletas de abelhas analisadas em São Paulo — estado que representa 10% da produção nacional de mel — ocorreram devido ao uso incorreto dos inseticidas. 

As abelhas são as principais polinizadores da maioria dos ecossistemas do planeta e promovem a reprodução de diversas espécies de plantas. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana e produção animal, cerca de 60% dependem em certo grau da polinização deste inseto. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas.

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Sem abelhas, sem alimentos; insetos são responsáveis pela polinização e reprodução de diversas espécies de plantas. Imagem meramente ilustrativa/George Campos/USP

Cada espécie é mais propícia para polinização de determinadas culturas, explica Carmem Pires, pesquisadora da Embrapa e doutora em Ecologia de Insetos. O resultado é que, se as abelhas fossem extintas, deixaríamos de consumir frutas como a mangaba. Ou elas ficariam mais caras, já que o trabalho de polinização para produzi-la teria que ser feito manualmente pelo ser humano.

A estudiosa conta que até em lavouras que não são dependentes da ação direta dos polinizadores, a presença de abelhas aumenta a safra. “Na de soja, por exemplo, é identificado um aumento em 18% da produção. É importante destacar também o efeito em cadeia. As plantas precisam das abelhas para formar suas sementes e frutos, que são alimento de diversas aves, que por sua vez são a dieta alimentar de outros animais. A morte de abelhas afeta toda a cadeia alimentar.”

No Brasil, há mais de 300 espécies de abelhas nativas — entre elas Melipona scutellaris, Melipona quadrifasciata, Melipona fasciculata, Melipona rufiventris, Nannotrigona testaceicornis, Tetragonisca angustula. Em todo país, contando com as estrangeiras, há cerca de 1,6 mil espécies do inseto, segundo relatório do Ibama. Histórias como essa precisam ser conhecidas e debatidas pela sociedade. A gente investiga para que elas não fiquem escondidas por trás de interesses escusos. Se você acredita que o jornalismo de qualidade é necessário para um mundo mais justo, nos ajude nessa missão. Seja nosso Aliado

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Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto, e foi inicialmente publicada [Aqui!].

Tribunal de apelações rejeita oferta da Bayer para anular a perda do julgamento Roundup

Tribunal citou o “desrespeito imprudente” da Bayer/Monsanto pela segurança do consumidor

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Por Carey Gillam para o USRTK

A proprietária da Monsanto, a Bayer AG, perdeu outra decisão do tribunal de apelações no amplo litígio do US Roundup, continuando a lutar para encontrar uma saída sob o esmagamento de dezenas de milhares de reivindicações alegando que os herbicidas à base de glifosato da Monsanto causam câncer.

Em uma decisão proferida na segunda-feira, o 1º Distrito de Apelação no Tribunal de Apelação da Califórnia rejeitou a oferta da Monsanto para anular a perda do julgamento em um caso apresentado pelos demandantes marido e mulher, Alva e Alberta Pilliod.

“Descobrimos que evidências substanciais apóiam os veredictos do júri”, afirmou o tribunal. “A conduta da Monsanto evidenciou um desrespeito irresponsável pela saúde e segurança da multidão de consumidores desavisados ​​que manteve no escuro. Este não foi um incidente isolado; A conduta da Monsanto envolveu ações repetidas ao longo de um período de muitos anos motivadas pelo desejo de vendas e lucro. ”

O tribunal rejeitou especificamente o argumento de que a lei federal antecipa tais reivindicações, um argumento que a Bayer disse aos investidores que oferece um caminho potencial para sair do litígio. A Bayer disse que espera conseguir que a Suprema Corte dos EUA concorde com seu argumento de preempção.

Em maio de 2019, um júri concedeu aos Pilliods mais de US $ 2 bilhões em danos punitivos e compensatórios depois que os advogados do casal argumentaram que ambos desenvolveram linfoma não-Hodgkin causado por muitos anos de uso de produtos Roundup.

O juiz reduziu o valor da sentença para US$ 87 milhões.

Ao apelar da perda, a Monsanto argumentou não apenas que as alegações de Pilliod foram antecipadas pela lei federal, mas também que as conclusões do júri sobre causalidade eram falhas, o tribunal não deveria ter admitido certas evidências e que “o veredicto é produto de má conduta do advogado . ” A Monsanto também queria que as indenizações por danos fossem reduzidas ainda mais.

Tribunal bate dura na Bayer/Monsanto

Na decisão do tribunal de apelações, o tribunal não alterou a sentença e disse que a Monsanto não havia demonstrado que a lei federal previa reivindicações como as feitas pelos Pilliods. O tribunal também disse que havia evidências substanciais de que a Monsanto agiu com “desrespeito deliberado e consciente pela segurança dos outros”, apoiando a concessão de indenizações punitivas.

A evidência mostrou que a Monsanto “falhou em conduzir estudos adequados sobre o glifosato e o Roundup, impedindo assim, ou distorcendo a investigação científica sobre o glifosato e o Roundup”, disse o tribunal.

O tribunal também castigou a Monsanto por não apresentar com precisão “todas as evidências registradas” ao fazer seu recurso: “Mas, em vez de declarar de forma justa todas as evidências relevantes, a Monsanto fez uma apresentação desequilibrada que se baseia principalmente nas evidências a seu favor. Este tipo de apresentação pode funcionar para um júri, mas não funcionará para o Tribunal de Recurso. ”

O tribunal acrescentou: “O julgamento descrito no relatório de abertura da Monsanto tem pouca semelhança com o julgamento refletido no registro.”

“Resumindo, as evidências mostram a intransigente relutância da Monsanto em informar o público sobre os perigos cancerígenos de um produto que disponibilizou abundantemente em lojas de ferragens e jardinagem em todo o país”, disse o tribunal.

Outro julgamento está em andamento 

O julgamento de Pilliod foi o terceiro contra a Monsanto. No primeiro julgamento, um júri unânime concedeu ao demandante Dewayne Johnson US $ 289 milhões o autor do  segundo julgamento recebeu US $ 80 milhões.

O quarto julgamento começou na semana passada. Um júri de sete homens e cinco mulheres na segunda-feira estava ouvindo depoimentos no caso Donnetta Stephens v. Monsanto no Tribunal Superior do Condado de San Bernardino, na Califórnia. O cientista aposentado do governo dos Estados Unidos, Christopher Portier, que foi perito dos demandantes em julgamentos anteriores do Roundup, testemunhou longamente na segunda-feira, reiterando o testemunho anterior de que há evidências científicas claras mostrando que o glifosato e as formulações à base de glifosato, como o Roundup, podem causar câncer.

A Bayer, que comprou a Monsanto em 2018, resolveu vários outros casos que estavam programados para ir a julgamento nos últimos dois anos. E em 2020, a empresa disse que pagaria cerca de US $ 11 bilhões para resolver cerca de 100.000 reivindicações de câncer Roundup existentes. No final do mês passado, a Bayer disse que reservaria outros US $ 4,5 bilhões para a responsabilidade de litígios do Roundup.

A Bayer também anunciou recentemente que deixará de vender o Roundup e outros herbicidas feitos com o ingrediente ativo glifosato para consumidores residenciais norte-americanos até 2023. Mas a empresa continua a vender os produtos para uso por agricultores e aplicadores comerciais.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela US Right to Know (USRTK) [Aqui!  ].

Bayer confirma fim da venda de herbicidas à base de glifosato para o mercado de gramados e jardins dos EUA

A Bayer anunciou que não venderá mais herbicidas à base de glifosato para jardineiros dos EUA a partir de 2023, após a custosa batalha judicial sobre o câncer que causa o herbicida Roundup

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A Bayer Monsanto afirmou na quinta-feira que “a empresa e seus parceiros substituirão seus produtos à base de glifosato no mercado residencial de Lawn & Garden dos EUA por novas formulações que dependem de ingredientes ativos alternativos a partir de 2023, sujeito a uma revisão oportuna pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e contrapartes estaduais”

“Como a grande maioria das reivindicações no litígio vem de usuários do mercado de gramados e jardins, essa ação elimina amplamente a fonte primária de reivindicações futuras além de um período de latência assumido. Não haverá alteração na disponibilidade das formulações de glifosato da empresa nos mercados profissional e agrícola dos Estados Unidos ”, continuou a Bayer.

O Diretor de Projeto de Pulse e Detox Sustentável, Henry Rowlands, comentou sobre o anúncio da Bayer; “É uma grande vitória em uma pequena batalha pela remoção do glifosato do mercado de gramados e jardins, no entanto, isso é apenas parte de uma guerra muito maior. Devemos todos lembrar que isso não impedirá que o glifosato seja pulverizado em parques, escolas e em nossas plantações de alimentos em quantidades cada vez maiores nos Estados Unidos e no mundo. É hora de eliminar este produto químico globalmente e substituí-lo por alternativas seguras. ”

No anúncio da empresa na quinta-feira, a Bayer também revelou uma provisão extra de US $ 4,5 bilhões em adição ao seu acordo anterior de US$ 10,9 bilhões para quem sofre de linfoma não-Hodgkin, que é causado pelo uso de seu herbicida Roundup; “A Bayer também está preparada … para gerenciar reivindicações antecipadas, por meio de acordos e litígios, para, em última instância, encerrar este litígio. Para este segundo cenário, a empresa apresenta uma provisão adicional de um montante bruto de 4,5 bilhões de dólares americanos (3,8 bilhões de euros), ou seja, antes de impostos e com desconto no segundo trimestre de 2021, refletindo a exposição potencial da empresa a longo prazo. ”

“Além disso, a empresa se envolverá em discussões com a EPA sobre os rótulos Roundup ™ com o objetivo de fornecer mais informações aos usuários sobre a ciência como um elemento adicional para garantir decisões de compra e aplicação ainda mais informadas”, concluiu Bayer.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo Sustainable Pulse [Aqui!].

Estudo mostra que pesquisas usadas por corporações para aprovar agrotóxicos eram de baixa qualidade científica

As revelações vêm enquanto a Europa luta pela questão da renovação do Roundup,  herbicida produzido pela Bayer

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Um agricultor francês pulveriza o herbicida de glifosato ‘Roundup 720’ feito pela gigante agroquímica Monsanto, em Piace, noroeste da França, em um milharal perto de um parque eólico em 23 de abril de 2021. Fotografia: Jean-François Monier / AFP / Getty Images

Por Carey Gillam para o “The Guardian”

Uma nova análise de mais de 50 estudos científicos anteriormente secretos e apoiados por corporações está levantando questões preocupantes sobre uma história de dependência regulatória dessa pesquisa na avaliação da segurança de um químico amplamente usado para matar ervas daninhas conhecido como glifosato, o ingrediente chave do popular herbicida Roundup .

Em um relatório de 187 páginas divulgado na sexta-feira, pesquisadores do Instituto de Pesquisa do Câncer da Universidade Médica de Viena, na Áustria, disseram que uma revisão completa de 53 estudos de segurança submetidos a reguladores por grandes empresas químicas mostrou que a maioria não cumpre os padrões internacionais modernos para o rigor científico e carecem dos tipos de testes mais capazes de detectar os riscos de câncer.

“A qualidade desses estudos, não de todos, mas de muitos desses estudos é muito ruim. As autoridades de saúde aceitaram alguns desses estudos muito pobres como informativos e aceitáveis, o que não é justificado do ponto de vista científico ”, disse Siegfried Knasmueller, o principal autor da análise ao Guardian.

O glifosato é o herbicida mais amplamente usado no mundo e é particularmente popular entre os agricultores que cultivam alimentos comuns. Mas há um debate acalorado em muitos países sobre se os herbicidas de glifosato devem ou não continuar a ser usados ​​devido a preocupações de que possam causar câncer.

Os estudos corporativos em questão se concentram nas propriedades genotóxicas do glifosato – quer ele cause ou não danos ao DNA – e apóiam as garantias corporativas de que o produto químico é seguro quando usado conforme as instruções e não causa câncer. Eles foram encomendados e / ou conduzidos pela antigaMonsanto Co, que agora faz parte da Bayer AG, bem como Syngenta, Dow e outros envolvidos na fabricação e / ou venda de glifosato.

Embora alguns dos estudos datem de décadas atrás, eles fizeram parte de apresentações recentes aos reguladores na Europa e nos Estados Unidos, onde os reguladores concordaram com as empresas em concluir que não há risco de câncer com o glifosato. Autoridades europeias reafirmaram essa visão em um relatório de 11 mil páginas divulgado no mês passado.

A nova análise desafia essas garantias de segurança, descobrindo que grande parte da metodologia usada nos estudos da indústria está desatualizada e não está de acordo com os padrões internacionais de qualidade. Dos 53 estudos submetidos aos reguladores pelas empresas, apenas dois foram aceitáveis, de acordo com os atuais padrões científicos internacionalmente reconhecidos, disse Knasmueller.

Particularmente problemático, disse ele, foi o foco no teste de danos cromossômicos nos estágios iniciais dos glóbulos vermelhos da medula óssea em camundongos e ratos de laboratório. Esses testes detectam rotineiramente apenas 50-60% dos carcinógenos, de acordo com Knasmueller. “Muitos agentes cancerígenos não são detectados com este método”, disse ele.

Um tipo de teste conhecido como “ensaio do cometa” tem um valor muito maior para identificar carcinógenos porque pode quantificar e detectar danos ao DNA em células individuais em uma variedade de órgãos e é comumente usado para avaliar a genotoxicidade, de acordo com Knasmueller. Mas nenhum teste de ensaio do cometa foi incluído, de acordo com a análise.

“Não consigo entender por que as autoridades de saúde não pediram esses dados”, disse Knasmueller, que é especialista em toxicologia genética e, junto com seu trabalho no instituto de câncer, é editor-chefe de duas importantes revistas científicas, incluindo a Mutation Research – Toxicologia Genética e Mutagênese Ambiental.

Knasmueller foi convidado a revisar os estudos do grupo de defesa sem fins lucrativos SumOfUs, embora tenha dito que não foi pago pelo trabalho. No entanto, um co-autor da análise e também cientista do instituto de câncer, Armen Nersesyan, recebeu cerca de € 3.500 (US $ 4.146).

Se as observações de Knasmueller forem precisas, a nova descoberta de falhas nos estudos da indústria significa que as garantias regulatórias sobre a segurança do glifosato na Europa e nos Estados Unidos foram baseadas, pelo menos em parte, em ciência de má qualidade.

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A análise chega em um momento crítico, enquanto a Bayer está pedindo aos reguladores europeus que reautorizem o glifosato antes da expiração da aprovação no próximo ano. Fotografia: Josh Edelson / AFP / Getty Images

Linda Birnbaum, ex-diretora do Instituto Nacional de Ciências de Saúde Ambiental dos Estados Unidos, disse que há um problema contínuo que não é exclusivo do glifosato, com reguladores que realizam estudos da indústria “com a palavra da indústria”, enquanto ignoram bandeiras vermelhas levantadas em não pesquisar.

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) disse que não poderia comentar a análise, mas disse que todas as partes interessadas terão a oportunidade de apresentar comentários sobre o projeto de avaliação do glifosato. A agência não respondeu a uma pergunta sobre seu nível de confiança na validade dos estudos do setor.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) confirmou que nenhum teste de ensaio do cometa é necessário, mas disse que a agência “se esforça para usar estudos de alta qualidade” e “um amplo conjunto de dados” ao avaliar pesticidas. Além disso, a EPA “avalia de forma independente os estudos necessários para aceitação científica” que atendem às diretrizes internacionais e da agência, disse um porta-voz da EPA.

A análise chega em um momento crítico, pois a Bayer e um contingente de empresas que se autodenominam Grupo de Renovação de Glifosato (GRG) estão novamente pedindo aos reguladores europeus que reautorizem o glifosato antes da expiração da aprovação no próximo ano, e enquanto a indústria luta para preservar o uso do glifosato globalmente .

Proibições ou reduções no uso foram exigidas em vários países, incluindo o México, onde a proibição do glifosato entrará em vigor em 2024, e na França, onde o governo anunciou no ano passado incentivos financeiros para agricultores que parassem de usar o produto químico. Nos Estados Unidos, a cidade de Nova York proibiu recentemente o uso de glifosato em propriedades da cidade e outras cidades implementaram reduções ou proibições.

O GRG não respondeu a um pedido de comentário. Mas Bayer, um dos principais membros do GRG, disse que o pacote de estudos submetidos aos reguladores é “um dos mais extensos dossiês científicos já compilados para um ingrediente ativo de um pesticida”.

A Bayer disse que, para a revisão do registro atual, era “necessário” enviar os estudos de genotoxicidade mais antigos junto com os novos estudos de genotoxicidade corporativos. Além disso, as empresas submeteram aos reguladores “uma vasta revisão de milhares de publicações científicas publicadas sobre o glifosato”, disse um porta-voz da Bayer.

As preocupações com o glifosato aumentaram desde 2015, quando a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), parte da Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato como um provável carcinógeno humano com base em estudos científicos conduzidos por pesquisadores independentes. Ao contrário dos reguladores, a IARC baseou-se principalmente em um grande corpo de pesquisas publicadas e revisadas por pares, e não em estudos do setor em sua classificação.

A classificação da IARC levou um grupo de legisladores europeus em 2017 a exigir acesso a estudos do setor que haviam sido dados aos reguladores, mas não foram examinados pelo público. Os da Monsanto são carimbados como “sigilo da empresa”.

Uma decisão judicial de 2019 forçou a EFSA a fornecer acesso público, no entanto, abrindo caminho para escrutínio, como a análise de Knasmueller.

Não está claro se alguns ou todos os 53 estudos examinados na análise fazem parte do pacote que o GRG apresentou recentemente às autoridades europeias.

O glifosato só foi renovado por cinco anos na Europa em dezembro de 2017, depois que o Parlamento Europeu votou contra a renovação.

Várias interações questionáveis ​​entre a Monsanto e os reguladores vieram à tona nos últimos anos, incluindo o fato de que a EFSA rejeitou um estudo ligando o herbicida da empresa ao câncer após consulta com um funcionário da EPA dos EUA ligado à Monsanto. Documentos também demonstraram que um relatório da UE declarando que o glifosato é seguro foi em parte copiado e colado de um estudo da Monsanto.

E quando a EPA consultou um painel consultivo científico reunido em Washington DC em dezembro de 2016, os membros do painel reclamaram que os funcionários da EPA não estavam seguindo as diretrizes científicas adequadas para avaliar a pesquisa sobre os impactos do glifosato na saúde.

“Isso coloca mais uma vez um dedo na ferida: os reguladores nacionais não parecem prestar atenção ao olhar para a qualidade dos estudos da indústria”, disse Nina Holland, pesquisadora do grupo de vigilância Corporate Europe Observatory. “Isso é chocante, pois é seu trabalho proteger a saúde das pessoas e o meio ambiente, não servir aos interesses da indústria de agrotóxicos”.

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Este texto foi escrito inicialmente e publicado pelo “The Guardian” [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: governo Bolsonaro libera mais 93 agrotóxicos e chega a 1.265 liberações em 30 meses

Aumento das fabricantes chinesas e o uso de agrotóxicos altamente perigosos são marcas da tsunami de aprovações do governo Bolsonaro

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Em que pese a crise política, econômica e sanitária que o Brasil atravessa neste momento, o governo Bolsonaro continua com a tsunami de liberações de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo.   Em apenas dois atos publicados em maio e junho (Atos 26 e 29, respectivamente) foram liberados mais 93 agrotóxicos, o que implica em um “grande total” de 1.265 agrotóxicos liberados sob a batuta de Jair Bolsonaro e da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS). 

Essa verdadeira tsunami tóxica visa basicamente acelerar a compra de agrotóxicos por grandes latifundiários que estavam envolvidos com as monoculturas de exportação que incluem a soja, o milho, o algodão e a cana-de-açúcar. Em uma análise rápida dos 93 agrotóxicos aprovados é possível verificar que a maioria dos agrotóxicos liberados (seja para uso imediato por agricultores ou para fabricação de produtos pela indústria do veneno instalada no Brasil) é a persistência de produtos antigos (os chamados pós-patente) e a hegemonia de empresas chinesas em seu fornecimento.  Essas características estão certamente relacionadas a um aperto das regras de fabricação e uso em mercados mais exigentes, a começar pela União Europeia, e o envio desses produtos antigos para regiões cujos governos são mais dependentes das renda gerada pela exportação de commodities agrícolas, como é o caso do Brasil.

Produtos altamente venenosos classificados como pouco danosos à saúde humana e ao meio ambiente

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Outra característica que está presente na tsunami tóxica do governo Bolsonaro é a liberação de produtos banidos por terem sido identificados como altamente nocivos à saúde humana e ao meio ambiente, e ainda por cima com definições de risco baixo. Exemplos gritantes disso são os agrotóxicos Ametrina, Atrazina e o exterminador de abelhas Fipronil. Aliás, com os produtos liberados pelo Ato No. 26, o governo Bolsonaro liberou o incrível total de 34 produtos formulados ou técnicos contendo o Fipronil. Como esse produto é conhecido por causar o extermínio de polinizadores benignos como é o caso das abelhas, os riscos ambientais que estão sendo impostos ao meio ambiente são altíssimos apenas quando se considera o Fipronil.  Mas como o Fipronil não é o único exterminador de abelhas que está sendo liberado, que ninguém se surpreenda se em breve tivermos uma série falta de mel e quebra de safras de culturas que dependam de polinizadores para suas floradas.

O avanço da indústria chinesa no mercado de agrotóxicos brasileiros

Outra característica marcante dos Atos 26 e 29 é a confirmação de que o Brasil se tornou um mercado preferencial para a crescente indústria chinesa de agrotóxicos. No caso do Ato No. 29 que liberou 29 produtos, o predomínio de empresas chineses ficou mais do que evidente, já que estas são as fabricantes de 24 dos agrotóxicos liberados (82,7%). Mas outro fenômeno aparente é a instalação de subsidiárias das indústrias chinesas que estão dispensado os intermediários para obter a autorização para a venda de seus produtos no mercado brasileiro. Com a velocidade de liberação que está sendo propiciada pelo governo Bolsonaro, não será de se estranhar que a influência da indústria chinesa de venenos agrícolas comece em breve a colocar em xeque a hegemonia das gigantes europeias e estadunidenses como Basf, Bayer e DowDupont.

O Brasil como zona de sacrifício de agrotóxicos altamente perigosos

Ainda que não haja a devida cobertura jornalística, o Brasil está imerso em uma combinação perversa que mistura o avanço do desmatamento na Amazônia com o aumento da demanda por agrotóxicos naquela onde as condições climáticas aceleram o processo de regeneração primária e o aumento de populações de insetos e de doenças causadas por fungus e vírus. Em certo sentido, o avanço do desmatamento na Amazônia está sendo um forte vetor para o consumo de agrotóxicos, o que em face dos últimos dados de remoção total das áreas florestas amazônicas deverá aumentar exponencialmente a demanda por venenos agrícolas.

O problema é que ao contrário do prometido não está havendo nenhuma modernização dos agrotóxicos, o que nem interessa aos fabricantes desses produtos que ganham rios de dinheiro sem que tenham que efetivamente buscar qualquer tipo de inovação no seu portfólio de produtos, já que a demanda tende apenas a crescer.

No final o que estamos nos defrontando é a transformação do Brasil em uma zona de sacrifício capitalista, onde a geração de margens espremidas de lucros pelo latifúndio agro-exportador força o avanço da franja de desmatamento dentro da Amazônia com base em sistemas agrícolas altamente dependentes do consumo de agrotóxicos. 

Quem desejar as planilhas do Ato No. 26, basta clicar [Aqui!], e a do Ato No. 29 [Aqui! ]. Já os interessados em baixar a planilha contendo a descrição completa dos 1.265 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro desde janeiro de 2019, basta clicar [Aqui!].