Com 5.128 publicações e 1.997 seguidores, meu perfil está inacessível depois de uma onda de ataques contra uma postagem crítica a Flávio Bolsonaro. A alegada proteção contra invasões se transformou em um bloqueio sem solução
Não é novidade para os leitores do Blog do Pedlowski que minhas posições políticas e minhas análises sobre a realidade brasileira não são formuladas para agradar a todos, muito menos aos que consideram a crítica política uma espécie de ofensa pessoal. Afinal, um dos princípios que orientam minha atuação como professor universitário e editor deste blog é justamente o de que a liberdade de expressão precisa ser exercida, inclusive quando aquilo que se diz contraria interesses políticos e econômicos poderosos. Entretanto, o que estou enfrentando neste momento no Instagram levanta uma questão que ultrapassa minha situação pessoal e alcança um problema central da democracia contemporânea: quem controla o direito de expressão dos cidadãos quando boa parte do debate público está submetida aos algoritmos e aos procedimentos administrativos das chamadas big techs?
Minha conta oficial no Instagram, que já reúne 5.128 publicações e 1.997 seguidores, encontra-se efetivamente bloqueada pela Meta, empresa proprietária da plataforma. O bloqueio ocorreu após uma onda de ataques de eleitores bolsonaristas contra uma publicação que apresentava uma crítica contundente às possíveis consequências sociais e econômicas de um eventual governo de Flávio Bolsonaro. A imagem abordava questões como o financiamento do Sistema Único de Saúde, a continuidade do Bolsa Família, a educação pública, a política de valorização do salário mínimo e os direitos trabalhistas. Tratava-se, portanto, de uma manifestação política sobre temas de interesse público, ainda que expressa em linguagem dura e com conclusões das quais os apoiadores do candidato evidentemente podem discordar.
O mais curioso, para não dizer kafkiano, é que a Meta não informa que minha conta tenha sido bloqueada por violar suas regras de conteúdo. A mensagem apresentada pela plataforma afirma que o bloqueio foi realizado para me proteger de uma possível invasão. Em seguida, oferece alternativas de recuperação por e-mail ou WhatsApp, acompanhadas da advertência de que o contato escolhido substituirá as informações de acesso anteriormente cadastradas. O problema é que já percorri repetidas vezes esses procedimentos, sem conseguir recuperar minha conta. O resultado é um verdadeiro labirinto digital no qual o proprietário legítimo da conta continua do lado de fora, enquanto a empresa responsável pela plataforma insiste em oferecer caminhos que não conduzem a lugar algum.
Não disponho, neste momento, de elementos que permitam afirmar categoricamente que o bloqueio tenha sido provocado por denúncias coordenadas dos eleitores bolsonaristas que atacaram minha publicação. Essa é uma possibilidade que precisa ser esclarecida pela Meta, especialmente diante da proximidade temporal entre os acontecimentos. Também não há, na mensagem recebida, comprovação de que uma tentativa efetiva de invasão tenha ocorrido. O que posso afirmar, porque estou experimentando diretamente suas consequências, é que a conta permanece inacessível e que os mecanismos oferecidos pela empresa não estão resolvendo o problema.
Há uma ironia particularmente amarga nessa situação. Uma empresa que concentra enorme poder sobre a circulação de informações e opiniões políticas afirma estar protegendo minha conta, mas o efeito concreto dessa proteção é impedir que eu continue utilizando um espaço de comunicação construído ao longo de milhares de publicações. Se o objetivo de quem me atacou era reduzir a circulação das minhas críticas, o resultado atual certamente não lhes será desagradável. É o tipo de proteção que, levada às últimas consequências, termina produzindo um resultado muito semelhante ao pretendido por aqueles que desejam calar a voz protegida.
O problema não se restringe ao meu caso. Em junho de 2026, o Ministério Público Federal divulgou a abertura de uma apuração sobre o bloqueio de mais de uma centena de perfis ligados à comunidade LGBTQIA+ no Instagram. Entre os esclarecimentos solicitados à Meta estava justamente a possibilidade de que suspensões tivessem resultado de mecanismos automatizados ou de campanhas coordenadas de denúncias em massa. Evidentemente, não se trata de afirmar que os dois episódios possuem a mesma origem, mas de reconhecer que a opacidade dos procedimentos adotados pelas plataformas digitais constitui um problema suficientemente sério para despertar a atenção dos órgãos responsáveis pela defesa dos direitos fundamentais.
No meu caso, considero especialmente preocupante a possibilidade de que manifestações de hostilidade política sejam acompanhadas de mecanismos de restrição de acesso que o usuário não consegue compreender nem contestar de maneira efetiva. Não reivindico qualquer privilégio, tampouco pretendo que minhas opiniões sejam colocadas acima das regras legitimamente estabelecidas para o funcionamento das redes sociais. O que reivindico é algo muito mais elementar: o direito de saber por que minha conta foi bloqueada, de ter acesso a um procedimento efetivo de recuperação e de não ser privado arbitrariamente de um canal de comunicação em razão de minhas manifestações políticas.
Também é importante registrar que a liberdade de expressão não significa ausência de contraditório. Os eleitores de Flávio Bolsonaro possuem todo o direito de discordar das minhas análises, questionar meus argumentos e apresentar suas próprias interpretações sobre as propostas de seu candidato. O que não se pode aceitar como prática democrática são ataques destinados a intimidar adversários ou eventuais tentativas de utilizar mecanismos de denúncia para retirar suas manifestações de circulação. Discordar é parte da democracia. Procurar silenciar quem discorda é outra coisa.
A situação se torna ainda mais contraditória quando lembramos que as grandes empresas de tecnologia frequentemente apresentam suas plataformas como espaços privilegiados para a livre circulação de ideias. Entretanto, quando um usuário enfrenta um bloqueio e não consegue encontrar um procedimento funcional para contestá-lo, fica evidente a assimetria entre o poder dessas corporações e os direitos daqueles que produzem os conteúdos responsáveis por alimentar suas redes. São milhares de publicações, anos de trabalho e relações estabelecidas com leitores que podem ficar submetidos a decisões automatizadas cujos fundamentos permanecem desconhecidos.
Por isso, faço aqui uma denúncia pública do bloqueio da minha conta e dos ataques políticos que antecederam essa situação, exigindo que a Meta esclareça as razões concretas da restrição e ofereça um mecanismo efetivo para restabelecer meu acesso. Também considero indispensável que a empresa informe se houve denúncias em massa contra meu perfil, tentativas identificadas de acesso não autorizado ou qualquer outro evento que justifique a medida adotada. Essas informações são fundamentais para distinguir um procedimento legítimo de segurança de uma eventual utilização abusiva dos mecanismos de controle da plataforma.
Enquanto isso, o Blog do Pedlowski continuará publicando análises sobre a realidade política, econômica, social e ambiental brasileira. Minha trajetória de atuação acadêmica e de intervenção no debate público não começou com o Instagram e certamente não terminará por causa de um bloqueio imposto pela Meta. O que está em discussão, entretanto, não é apenas a continuidade das minhas publicações, mas a necessidade de impedir que o debate democrático fique subordinado a sistemas privados de controle que não oferecem transparência e mecanismos adequados de responsabilização.
Aos que confundem discordância política com o direito de silenciar seus adversários, deixo uma observação: a democracia não existe apenas para proteger as opiniões com as quais concordamos. E à Meta cabe explicar por que sua alegada proteção está impedindo justamente o exercício do direito que deveria preservar.
Afinal, se para proteger minha liberdade de expressão a solução é me impedir de exercê-la, talvez seja necessário perguntar quem, exatamente, está sendo protegido.
