Quando a Bolsa comemora, convém perguntar quem pagará a conta

A mídia corporativa noticiou nesta segunda-feira (5) com indisfarçável entusiasmo a reação do chamado “mercado” ao resultado do primeiro turno da eleição presidencial. E, de fato, os números foram espetaculares: o Ibovespa subiu 7,70%, ultrapassou os 206 mil pontos e estabeleceu novo recorde histórico, enquanto o dólar caiu mais de 4% e fechou praticamente em R$ 5,00. O volume negociado na B3 chegou a R$ 79,3 bilhões, cerca de três vezes o registrado em uma sessão normal. 

Não existe, entretanto, nada de politicamente neutro nessa euforia. A própria cobertura econômica associa a disparada dos ativos ao resultado eleitoral, no qual Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, e à expectativa de que uma eventual mudança de governo resulte em maior contenção dos gastos públicos, redução de impostos, privatizações e outras medidas consideradas favoráveis pelos investidores.  E aqui está a pergunta que deveria acompanhar todas as manchetes sobre a “felicidade do mercado”: felicidade para quem?

O programa apresentado por Flávio Bolsonaro propõe um novo teto de gastos, redução da estrutura ministerial e um amplo corte de despesas que sua própria campanha batizou de “tesouraço”. Integrantes de sua equipe econômica chegaram a mencionar um ajuste fiscal equivalente a 1,5% do PIB, embora permaneça pouco claro de onde sairia todo esse dinheiro. Durante a campanha também foram noticiadas discussões sobre alterações nas vinculações de recursos para saúde e educação e sobre mudanças na política de valorização dos benefícios previdenciários.

É precisamente aí que a comemoração dos operadores financeiros merece ser examinada com maior cuidado. Para quem possui ações, títulos e outros ativos financeiros, a expectativa de contenção fiscal pode significar valorização patrimonial e aumento da rentabilidade esperada. Para quem depende diretamente da escola pública, do SUS, das universidades federais, da Previdência e das demais políticas financiadas pelo Estado, entretanto, o significado concreto de um ajuste dependerá fundamentalmente de onde serão realizados os cortes.

É por isso que expressões aparentemente técnicas como “ajuste fiscal”, “controle das despesas”, “redução do tamanho do Estado” ou “melhora da percepção de risco” nunca deveriam aparecer desacompanhadas dessa pergunta elementar. Afinal, despesas públicas não são simplesmente números em uma planilha. Elas financiam hospitais, escolas, universidades, aposentadorias, fiscalização ambiental, ciência, infraestrutura e uma infinidade de serviços dos quais depende principalmente a parcela da população que não dispõe de recursos para comprá-los no mercado.

Também é necessário olhar para o outro lado do orçamento. Considerando juros, amortizações e rolagem da dívida, cerca de 44% do orçamento federal de 2026 estão associados ao serviço e ao refinanciamento da dívida pública. É importante esclarecer que esse percentual não representa integralmente dinheiro transferido aos credores, pois uma parcela expressiva corresponde à rolagem de títulos que vencem por meio da emissão de novos títulos. Ainda assim, a dimensão desses valores evidencia o peso extraordinário ocupado pela dívida pública e por seu financiamento nas contas da União. Assim, o que aconteceu nesta segunda-feira não demonstra que “o Brasil melhorou” algumas horas depois da abertura das urnas. Demonstra algo bem mais específico: os detentores de ativos financeiros reavaliaram rapidamente suas expectativas e passaram a atribuir maior valor aos ativos brasileiros diante do novo cenário eleitoral.

A reação também mostra que uma parcela relevante dos investidores recebeu favoravelmente o resultado do primeiro turno e as expectativas de mudança na orientação econômica a partir de 2027. Isso não significa que todos os investidores tenham a mesma preferência eleitoral, nem permite transformar o movimento da Bolsa numa espécie de plebiscito político. Mas revela quais expectativas econômicas foram inicialmente valorizadas pelos mercados.

Portanto, em vez de simplesmente celebrar que “a Bolsa bateu recorde” e “o dólar caiu”, talvez fosse mais esclarecedor perguntar quem espera ganhar com as políticas que produziram tamanha euforia e, principalmente, quem poderá pagar a conta caso o prometido “tesouraço” alcance os serviços públicos e as políticas sociais.  Porque Bolsa em alta é uma informação econômica. Transformá-la automaticamente em sinônimo de país melhor é uma escolha política.

Como Eike levantou R$ 12,3 bilhões na bolsa apenas com empresas promissoras

Ricardo Rochman, professor da FGV, mostra pistas de como o empresário teve senso de oportunidade e percebeu o momento certo de ir ao mercado

Marília Almeida – iG São Paulo 

Lembre-se do slogan Brasil, o País do futuro. Corte para a capa da revista inglesa The Economist com o Cristo Redentor decolando, e termine com um Produto Interno Bruto (PIB) de 5%, aliado a inflação zero em 2008.

É neste cenário, complementado por indícios do pré-sal, já anunciados pela Petrobras em 2006, que o País, estável e com o Plano Real completando uma década, aponta seu potencial de crescimento.Mas, para crescer, precisa melhorar sua infraestrutura.

Mas o governo tem atuação limitada, sem recursos suficientes para tocar grandes projetos. O professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo, resume: o Brasil precisava então de empreendedores. Então, surge Eike Batista. Questão de timing.

Filho de Eliezer Batista, ex-presidente da Vale por duas vezes, Eike havia criado a empresa canadense TVX Gold, com a qual adquiriu experiência em mineração e também acesso ao mercado de capitais.

Criou valor na empresa até que a vendeu por uma fração do que chegou a valer a Kinross em 2001. “Um fracasso ou parte do currículo?”, questiona Rochman.

Reuters

Eike Batista: cenário contribuiu para otimismo com relação ao grupo X

Receita de sucesso

Além do momento propício para captar no mercado, colocar o próprio pai e outros profissionais renomados em suas empresas, com bons salários, e mostrar que tinha experiência com investimentos são parte da receita para ter uma captação bem-sucedida, analisa Rochman.

Junte-se a isso a aplicação de boas práticas de governança corporativa, como criar conselhos de administração de respeito e evitar danos aos acionistas, as chamadas poison pills. “A gestão pode ser ruim, mas a governança das empresas sempre foi boa. Uma coisa é o discurso, outra é a prática.”

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“As empresas não criaram nenhum entrave para investidores que quiseram comprar uma fatia das empresas. Mais de 80% das empresas que lançam ações na bolsa têm proteções contra fusões e aquisições indesejadas”, diz o professor.

Para finalizar, é necessário atrair bancos de boa reputação e experiência de mercado para coordenar o lançamento de ações das empresas e, se possível, a inclua no principal índice da bolsa de valores 12 meses depois.

Desta forma, será possível criar uma demanda natural, já que todos os fundos que se baseiam no índice deverá comprar as ações das empresas participantes. “Isso fez com que, mesmo quando as ações despencaram, havia gente comprando.”

Eike, em evento da OSX, uma de suas empresas. Foto: Reuters/Ricardo Moraes
 O caminho da bolsa

O grupo EBX acabou optando pelo lançamento de ações no mercado porque não restavam muitas opções para empresas como as do grupo, pré-operacionais.

Em geral, empresas buscam levantar capital para investir por meio do lucro retido (caixa gerado pela empresa), dívida tradicional (debêntures) ou conversível (que pode ser transformada em ações), e somente depois lançar ações preferenciais e ordinárias na bolsa.

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Mas, além de não darem lucro, as empresas ainda não passavam por crivos para buscar a dívida tradicional (eram novas, não eram rentáveis, não havia histórico de capacidade de pagamento, garantias ou histórico de condições para pagamento em crises), apesar de fazerem parte de um conglomerado, que poderia “bancar” eventuais falta de pagamentos.

Além disso, Eike Batista surfou na onda de empresas que lançaram suas ações na bolsa. Em 2006 e 2007, foram, respectivamente, 24 e 64 novas empresas com ações na bolsa, respectivamente. Foi quando Eike lançou ações da MMX e MPX, respectivamente. Em 2008, veio a OGX e, em 2010, a OSX. Com as quatro, conseguiu levantar R$ 12,3 bilhões