Ao transformar a inteligência artificial em tema central de seu pontificado, Papa Leão XIV expõe não apenas os riscos éticos da automação, mas também o avanço silencioso das corporações do Big Tech sobre o trabalho, os Estados nacionais e a própria democracia
O artigo publicado pelo jornal britânico The Guardian e assinado pelo jornalista Philip Pullella coloca em evidência um movimento político e moral relevante dentro da Igreja Católica: a tentativa do papa Papa Leão XIV de transformar a inteligência artificial em uma das questões centrais de seu pontificado. A encíclica Magnifica Humanitas, apresentada no Vaticano em 25 de maio de 2026, representa não apenas uma intervenção religiosa sobre tecnologia, mas também uma crítica contundente ao modo como o capitalismo digital vem reorganizando o trabalho, a guerra e as relações humanas no século XXI.
O aspecto mais importante do documento talvez seja o reconhecimento de que a inteligência artificial não é apenas uma inovação técnica, mas uma força capaz de redefinir o próprio significado do humano. Ao relacionar IA, automação e novas formas de escravidão digital, Leão XIV estabelece um paralelo direto entre a atual revolução tecnológica e a Revolução Industrial do século XIX, que motivou a encíclica Rerum Novarum, de Papa Leão XIII.
A crítica papal atinge um ponto frequentemente ocultado pelo discurso triunfalista do Vale do Silício: a inteligência artificial está sendo desenvolvida dentro de estruturas altamente concentradas de poder econômico, militar e informacional. Quando o papa denuncia a “cultura do poder” que impulsiona a corrida tecnológica e pede o “desarmamento” da IA, ele aponta para a crescente fusão entre Big Tech, sistemas de vigilância, indústria bélica e governos.
Hoje, empresas privadas controlam modelos algorítmicos capazes de influenciar eleições, moldar comportamentos, monitorar populações e substituir trabalhadores em larga escala. A promessa de “eficiência” frequentemente funciona como eufemismo para precarização do trabalho, concentração de renda e eliminação de direitos sociais.
Mas talvez seja necessário avançar ainda mais na crítica. A inteligência artificial não vem sendo apropriada apenas para ampliar mercados ou automatizar processos produtivos. As grandes corporações do Big Tech têm utilizado a IA para expandir seu controle sobre instituições de Estado, transformando governos em dependentes de plataformas privadas de armazenamento de dados, computação em nuvem e processamento algorítmico.
Empresas como Alphabet, Microsoft, Amazon, Meta e OpenAI já exercem funções quase paraestatais ao controlar infraestruturas essenciais utilizadas por universidades, sistemas de segurança pública, escolas e aparelhos administrativos nacionais.
Isso cria uma situação profundamente assimétrica: enquanto os Estados se tornam dependentes das plataformas privadas para operar funções básicas, as corporações acumulam volumes inéditos de dados, capacidade computacional e influência política. Surge, assim, uma espécie de soberania tecnológica privada, na qual decisões fundamentais passam a ser mediadas por sistemas opacos desenvolvidos segundo interesses empresariais e financeiros.
Nesse contexto, a IA se converte em instrumento central de ampliação das taxas de lucro dessas corporações. Quanto maior a automação, maior a redução de custos trabalhistas; quanto maior a coleta de dados, maior o poder de prever, induzir e monetizar comportamentos humanos. A consequência é o aprofundamento da concentração global de riqueza e poder em torno de um pequeno grupo de conglomerados sediados principalmente nos Estados Unidos.
Ao abordar a questão do trabalho, Leão XIV toca em uma ferida particularmente sensível. A automação baseada em IA ameaça não apenas empregos industriais repetitivos, mas também profissões intelectuais, administrativas e criativas. O discurso tecnocrático insiste que novas tecnologias sempre criam novos empregos, mas a velocidade da atual transformação sugere algo distinto: uma possível erosão estrutural da centralidade do trabalho humano na economia.
O papa também introduz uma dimensão ética raramente discutida no debate tecnológico contemporâneo: a relação entre inteligência artificial e dignidade humana. Em uma cultura dominada por métricas e algoritmos, seres humanos passam a ser tratados como unidades de desempenho ou simples conjuntos de dados. O risco não é apenas econômico, mas civilizacional. A lógica algorítmica reduz complexidades humanas a padrões calculáveis, enfraquecendo empatia, solidariedade e autonomia moral.
Outro elemento importante da encíclica é o reconhecimento histórico da cumplicidade da própria Igreja com sistemas de escravidão. Ao pedir desculpas pela demora da instituição em condenar a escravidão moderna, Leão XIV estabelece uma ponte entre antigas formas de exploração e novas formas de servidão digital associadas à economia de plataformas e ao trabalho invisível que sustenta os sistemas de IA.
Essa conexão é particularmente relevante porque a inteligência artificial depende de enormes cadeias globais de trabalho frequentemente ocultadas pela retórica da inovação. Por trás dos sistemas “inteligentes” existem mineradores de lítio, operários de semicondutores, moderadores de conteúdo precarizados e milhões de pessoas que alimentam algoritmos com seus dados pessoais sem remuneração adequada.
Nesse sentido, a preocupação expressa por Leão XIV ultrapassa o campo religioso e se insere em um debate central sobre democracia, soberania tecnológica e justiça social. A questão decisiva do século XXI talvez não seja apenas o avanço da inteligência artificial, mas quem controla essa tecnologia, a serviço de quais interesses e sob quais limites éticos e políticos.










