O racismo integra a formação e desenvolvimento do Capitalismo a la brasileira, negar a sua existência também

joão albertoO assassinato de João Alberto Silveira Freitas por seguranças da rede Carrefour em Porto Alegre deixa mais uma vez nu o racismo estrutural que permeia as relações capitalistas no Brasil

Como muitos leitores já devem saber, morei alguns anos nos EUA e em regiões de estados onde as relações raciais são ainda muito tensas (i.e., Tennessee e Virginia).  Em minha convivência com colegas de universidades e instituições de pesquisa, um dos momentos de constrangimento certo era aquele em que eu recusava o cumprimento pelo fato do Brasil ser uma suposta democracia racial, terra do samba e do futebol. Para surpresa dos meus interlocutores que me dirigiam o cumprimento por ser brasileiro, eu retrucava dizendo que éramos tão ou mais racistas que os EUA.  O meu exemplo da existência  do elevador de serviço para onde deveriam se dirigir os trabalhadores domésticos ou prestadores de serviço como uma prova do racismo brasileiro deixava sempre as pessoas atônitas, pois esse tipo de elevador não existe por lá.

Aliás, falando no elevador de serviço (uma forma escondida de segregação), os incorporadores imobiliários portugueses tiveram que após mais de quatro décadas começar a reincluir este tipo de aparato nas plantas dos novos prédios, especialmente em Lisboa, após a enxurrada de brasileiros de classes abastadas chegarem por lá para comprar imóveis após o golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff em 2016.

Esse preâmbulo todo é para dizer que não há como deixar de reconhecer que a escravidão (primeiro indígena e depois negra) foi a base da criação do Brasil como país, e que o nosso modelo peculiar de desenvolvimento capitalista esteve sempre ligado ao uso do trabalho escravo. A forma pela qual transitamos da escravidão legal também teve vários traços singulares desse capitalismo escravocrata, a começar pela promulgação da Lei de Terras em 1850, a qual objetivamente impediu que indígenas e negros pudessem ter o direito a possuir títulos de terras, na medida em que essa lei determinou que só poderia ter título de terra quem pudesse pagar por ele. E naquele momento exato da história do Capitalismo brasileiro, isso serviu como uma senha para impedir que membros dos povos originários e os negros escravizados pudessem ter a propriedade da terra.

Desde a independência do Brasil, o desenvolvimento do Capitalismo “a la brasileira” nunca teve como prioridade superar as injustiças e desigualdades causadas por mais de 300 anos de escravidão.  Ainda que formalmente uma série de leis tenham sido criadas para alcançar mais equidade social (ou, na prática, uma menor iniquidade), avançamos muito pouco na reparação da herança do escravismo e, por isso, o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais e segregados do planeta.

Ser indígena ou negro no Brasil nunca foi fácil, pois o Estado  brasileiro sempre dedicou aos que não tem pele branca o uso da mão pesada para conter demandas e manter a insatisfação prisioneira em territórios guetizados, fossem eles reservas indígenas ou favelas.  

O estabelecimento do “Dia da Consciência Negra” pela Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011 é para mim mais um exemplo em que formalmente se avança para ficar no mesmo lugar. Ainda que seja correto lembrar e celebrar a contribuição dos negros na formação e no desenvolvimento do Brasil, o fato é que nem nesse dia os afrodescendentes podem usufruir de um dia de paz e tranquilidade. A prova maior disso foi o brutal assassinato a sangue frio de  João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, espancado e morto em uma unidade do supermercado Carrefour em Porto Alegre, e que está causando tanta comoção nos últimos dois dias.

Mas o assassinato de João Alberto é apenas mais um e não será o último, essa é a verdade. A certeza disso vem das declarações do presidente Jair Bolsonaro e do seu vice-presidente Hamilton Mourão que não só negam a existência de algo inegável que é o racismo no Brasil, mas também se dão ao trabalho de culpabilizar os que se revoltaram e protestaram contra mais essa morte de um trabalhador negro. De forma objetiva, querendo ou não, Bolsonaro e Mourão explicitam de forma crua e direta a lógica racista que naturaliza as mortes e aponta o dedo acusador contra quem se revolta.

Aos meus orientandos que se interessam pelas questões sobre a existência do brasileiro negro em uma sociedade tão racista como a nossa, eu sempre recomendo a leitura da obra de Florestan Fernandes “A integração do negro na sociedade de classes“.  É que com a leitura desse livro se pode compreender as raízes da persistente desigualdade e das agudeza do processo de exploração ao qual os negros brasileiros continuam sofrendo após a passagem da escravidão para o trabalho supostamente livre vigente em uma sociedade capitalista (o vídeo abaixo é bastante didático sobre o conteúdo dessa obra seminal de Florestan).

O fato é que não vejo como se alcançar qualquer nuance do que pode ser chamado de “democracia racial” enquanto perdurarem no Brasil as relações sociais, econômicas e políticas determinadas pela posição periférica do Brasil no sistema capitalista.  Se o Capitalismo já traz em si vírus fundamental da negação da democracia enquanto um elemento que possa ser pertinente a todas as classes sociais, como escreveu a marxista canadense Ellen Meiksins Wood em seu livro “Democracia contra capitalismo”, no Brasil essa negação é mais profunda e severa, já que nem os aspectos formais dos sistemas democráticos ocidentais foram efetivamente implantados.

O caminho de saída, como vem mostrando o marxista negro estadunidense Adolph Reed terá de ser pelo reconhecimento de que a luta anti-racista só poderá ter um desfecho positivo se for involucrada pelo elemento de classe. Entender essa condição inescapável certamente deveria merecer uma profunda reflexão dos partidos e movimentos sociais que se colocam na linha de frente das lutas anti-racistas no Brasil.

Quanto mais cedo nos antenarmos para essa indissociabilidade, melhor será, especialmente para aqueles milhões de brasileiros que acordam todos os dias com medo de serem o próximo João Alberto.

Finalmente, uma reminiscência pessoal. Graças ao meu amigo Edilberto Rocha Silveira, professor titular da Universidade Federal do Ceará, pude visitar uma senzala, hoje transformada no “Museu Senzala Negro Liberto“, no município de Redenção, que foi justamente o primeiro lugar no Brasil, cinco anos antes da promulgação da Lei Áurea, a libertar todos os seus escravos. Essa visita me fez ver as condições de horror e claustrofobia em que viviam os negros escravizados. Quem tiver dúvida do que se deu a escravidão negra no Brasil, sugiro uma visita a este museu.  Ah, sim, se seu sangue não ferver vendo as condições em que viviam os escravos, você provavelmente não sente nada pelos milhões de brasileiros a quem tudo é negado por descender deles. Por isso, sim, você é um racista a la brasileira.

Diário de Pandemia

democracia

Por Douglas da Mata

O mito ocidental da democracia (e sua impossibilidade de convívio com os sistemas capitalistas).

Boa parte de nossa ciência social, destacando a sociologia brasileira, e certamente parte considerável da latino-americana, padece de um erro conceitual que deriva diretamente da mentalidade colonizada.

Na verdade, esta submissão não é deletéria às nossas ciências e cientistas sociais, mas a constatação de um fato histórico, ou seja, assim como o capitalismo subordina as relações sociais dentre as classes sociais de uma nação, ele o faz quando se trata de sociedades localizadas em países de diferentes posições relativas, aquilo que Adam Smith chamou de divisão internacional (do trabalho).

Claro que devemos afastar o risco economicista que ronda tais análises, mas não é errado supor que parte do que a ciência social produz aqui repercute uma anterioridade científica como referência, seja para criar novos olhares sobre as teses produzidas no chamado “mundo anterior” (principalmente a Europa), seja para confirmar outras teses.

O capitalismo subordina seus atores, e com boa chance de acerto, subordina também as narrativas elaboradas por estes.

Neste sentido, a ciência social brasileira nunca questionou a existência da Democracia e sua convivência com o sistema capitalista que se hegemonizou a partir da Era Moderna.

No mínimo, sempre teve um grande receio de abordar com profundidade a possibilidade que a Democracia seja incompatível com o capitalismo.

Democracia aqui mal definida como um sistema de representação (direta e/ou indireta) que proporcione a supremacia de um projeto majoritário, sem aniquilação de minorias, fortalecimento de impessoalidade e isonomia (cada qual na medida de sua capacidade, responsabilidade, necessidade) na aplicação de recursos públicos e tributação, e que via de regra, dê chance para que as classes que se opõem no capitalismo se alternem no poder!

Certamente alguns sociólogos mais precipitados correrão a recitar o chavão: Democracia é um processo em construção!

Pois bem, mas para aceitar este sofisma temos que enxergar algum aspecto de progressividade, ou de avanço do empoderamento das classes subalternas.

A pergunta que se deve fazer, além dos parâmetros econométricos (IDH, PIB, longevidade, mortalidade infantil, etc) ou dos parâmetros institucionais formais (direito a voto, funcionamento das chamadas instituições, com imprensa e judiciário) é se, de fato, os “processos democráticos” permitiram alguma forma real de alternância de PODER.

Há pergunta anterior?

Sim, há:

É possível, dentro dos limites da ordem capitalista, que haja tal alternância?

Pensamos que não, e pensamos ainda que o chamado “processo democrático” nos trouxe a lugares bem distantes desta necessidade democrática de alternância, sem a qual, a etimologia da palavra democracia perde sentido ou utilidade.

Não me refiro aos dias atuais, onde esta distância parece óbvia, seja no chamado berço democrático (Europa, GBR), seja nos “campeões da democracia”, os EUA.

Falo de toda a história do capitalismo, que excetuando a rasa análise das agregações formais e econométricas que já citamos, sempre foi um vai e vem, de um passo a frente e vinte atrás, no quesito dos controles sociais dedicados a conservar as estruturas de subordinação!

Na verdade, toda a gama de “direitos” conquistada ao longo deste processo nunca teve sua permanência garantida, e “coincidentemente” (não é coincidência, mas causa e efeito recíproco), a cada volta da espiral de refluxo e fluxo da acumulação capitalista (agora pós capitalista, no rentismo) foi cassada parte considerável destas conquistas, trazendo as lutas para estágios anteriores aos que foram estabelecidos.

Enquanto isto, as estruturas de dominação nunca foram alteradas e/ou ameaçadas, ao contrário, a cada “direito” conquistado, criaram-se outros tantos freios ao avanço das sociedades, diluindo tais conquistas em uma equação de resultado (-1).

Por isto não nos espanta que os sistemas militares globais tenham estabelecido suas agendas como concorrentes a expansão rentista, monitorando e tutelando, direta ou indiretamente, os governos e entidades.

O medo da nossa ciência social de falar em alto e bom som que não existe e nem existirá democracia alguma em um sistema capitalista, é explicável.

Deriva do truque semiótico imposto pelos detentores do capital, imputando a pecha de autoritários a todos àqueles que desejam romper esta ordem pseudo-democrática.

Aproveitando o que nos diz Robert Kürz, este erro grave leva a outro, que é a construção de uma práxis “revolucionária” que só macaqueia e reproduz os erros de uma sociedade baseada nos mesmos pilares capitalistas, sem romper com esta ordem, sem oferecer a mesma dinâmica do consumo (prazerosa) e deixando apenas a parte autoritária das experiências planificadoras estatais, no chamado capitalismo planejado de estado, que tem seu maior expoente a China!

Só existirá Democracia ou processo democrático na luta anti-capital, e na extinção completa de suas formas de organização da sociedade.

Robert Kürz chama tudo isso de totalitarismo democrático, porque no capitalismo todas as escolhas já estão pré-determinadas, e o capital sempre sabe o resultado.

Algo como o alegado livre-arbítrio religioso, frente a um deus onisciente que sabe o que você escolherá!

É isso que a ciência social precisa dizer, e é isto que devemos ouvir:

Capitalismo e democracia são incompatíveis!

Consumo, logo existo. Mas qual é a surpresa, se esse é o maior fetiche capitalista?

mallClientes fazem fila para entrar da Gucci no shopping The Gallery , depois que um shopping foi aberto durante o surto  de COVID -19, em Houston, EUA, 1 de maio de 2020. / Reuters

As cenas de multidões acorrendo os shoppings centers que reabriram ontem em São Paulo são chocantes, ao menos para aqueles que entendem a gravidade da pandemia da COVID-19 que ronda todo o Brasil neste momento. Uma reação de muitos que estão podendo ou desejando se manter socialmente isolados enquanto os pobres acorrem os templos do consumismo às vésperas  e no do “Dia dos Namorados” é meio que jogar a toalha para o Brasil e os brasileiros, como se fossemos uma causa perdida, restando apenas o caminho do aeroporto para aqueles que puderem.

shoppingShopping Tatuapé teve fila com mais de 200 pessoas à espera da reabertura nesta quinta-feira, 11 de junho.

Mas alto lá! As cenas de shopping centers e cafés lotados foram comuns em países como França e Espanha, onde a pandemia da COVID-19 matou proporcionalmente muito mais do que deverá no Brasil, apesar dos gigantescos números brasileiros que hoje já somam mais de 40.000 mortos e quase 1 milhão de infectados (com subnotificação e tudo). Isto sem falar dos EUA, onde os shopping centers foram reabertos antes do Brasil.

E não nos esqueçamos que nos anos em que fomos governados pelo ex-presidente Lula, o acesso ao consumo para amplas camadas da população funcionou como uma espécie de pedra filosofal do Neodesenvolvimentismo.  Agora que os pobres sentiram o gostinho do consumo e das comodidades dos habitantes assépticos que os shoppings centers (onde o tempo é congelado pela falta proposital de relógios e a violência social é mantida do lado de fora), eu não me sinto em condição de julgá-los.

A questão mais profunda que aparece desde o centro até a periferia do Capitalismo é que o consumo, seja lá do que for, é o principal fetiche pela qual as sociedades são mantidas letárgicas, enquanto o planeta nos emite sinais de que esse modo de vida é insustentável. No Volume 1 do ” O Capital”, Karl Marx chamou esse processo de encantamento com o consumo de o “fetichismo da mercadoria“.

Por outro lado, a pandemia da COVID-19 é uma prova cabal de que o avanço desenfreado do consumo está criando as condições necessárias para o aparecimento de uma sucessão de vírus que são mortais para seres humanos e para os animais que eles colocaram no topo da sua cadeia alimentar, como os porcos e bois.

Como se libertar do fetiche do consumo é uma das questões mais transcendentais que a espécie humana enfrenta em mais de 2 milhões de anos de evolução enquanto espécie. As indicações vindas da Europa é que um modelo de decrescimento está em gestão, e isto afetará forçosamente a intensidade e o tipo de consumo a que determinadas sociedades vão se adequar. Se isso será suficiente para impedir a repetição de pandemias como a COVID-19 é uma questão que fica aberta.

Mas voltando ao Brasil, o mais resultado mais óbvio desse retorno ao consumo intenso em um momento em que a pandemia continua se alastrando como fogo em pasto seco será o aumento inevitável de infectados e mortos. E isso ficará claro daqui a duas semanas quando quem se infectar nessa corrida aos shoppings tiver completado o ciclo mortal da COVID-19.

E nos túmulos que tiverem lápide: morri por quiz consumir, sem medo do coronavírus. Lamentavelmente, para muitos restará apenas as covas coletivas.

Marketing acadêmico: Lançamento do livro “A `indústria´ dos fundos financeiros” na Livraria Travessa de Botafogo

Convite lançamento livro na Livraria Travessa Botadogo -1 Agosto 2019

Em tempos em que os fundos financeiros avançam sobre o controle de empresas em setores estratégicos no Brasil (petróleo, energia, infraestrutura e outros), esse tema merece ser ainda mais conhecido e aprofundado. 

O livro “A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo” é uma contribuição para este debate, sobre como os fundos de investimentos no Brasil e no mundo ampliaram (em especial depois da crise de 2008) a sua atuação e o seu controle sobre a produção material, enlaçado ao crescente rentismo neste mundo das finanças que nos cerca que é ainda muito pouco percebido. 

Aguardo aqueles que puderem comparecer!

O livro já está à venda pelo blog /email do autor, aqui no site da editora, aqui na própria livraria Travessa, aqui na Amazon e nas livrarias Noblesse e Leitura, em Campos dos Goytacazes, onde em breve teremos também um lançamento que será acompanhado de debates sobre a financeirização.

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Esta postagem apareceu originalmente no blog do Prof. Roberto Moraes [Aqui!].

Capitalismo está ‘sob séria ameaça’, alerta economista que previu crise global de 2008

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AFP. Raghuram Rajan destaca que os governos não podem mais ignorar a desigualdade social em suas políticas econômicas

O capitalismo está “sob uma séria ameaça” porque “parou de prover as massas”.

E, “quando isso acontece, as massas se rebelam contra o capitalismo”, adverte Raghuram Rajan, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em 2005, Rajan também alertou que a complexidade dos produtos financeiros havia ampliado o risco de um “colapso catastrófico”.

Na época, a elite financeira não levou em consideração suas preocupações. Mas, três anos depois, a crise econômica global provou que ele estava certo.

E agora Rajan, que também é ex-diretor do Banco Central da Índia, faz outro alerta.

“Acho que o capitalismo está sob grave ameaça porque não conseguiu atender às necessidades de muitos, e quando isso acontece, há muitas revoltas contra o capitalismo”, disse ao programa Today da BBC Radio 4.

“Acredito que isso pode acontecer mais cedo do que se imagina.”

Os defeitos do capitalismo

Rajan, que foi apontado como um possível sucessor do canadense Mark Carney à frente do Banco da Inglaterra, acaba de publicar o livro The Third Pillar: How Markets and the State Leave the Community Behind (“O Terceiro Pilar: Como os Mercados e o Estado Deixam a Comunidade Para Trás”, em tradução livre), em que adverte sobre as deficiências do capitalismo.

O economista enfatiza que os governos não podem mais ignorar a desigualdade social em suas políticas econômicas.

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GETTY. Em 2005, Rajam havia alertado sobre o ‘colapso catastrófico’ que acabou ocorrendo em 2008

No passado, era possível conseguir um emprego de classe média com uma “educação mediana”, exemplifica Rajan, que agora é professor da Universidade de Chicago, nos EUA.

Mas o panorama mudou na esteira da crise financeira global de 2008 e da adoção de medidas de austeridade.

“Agora, se você realmente quer ser bem sucedido, precisa de uma boa educação”, diz ele.

“E, infelizmente, as mesmas comunidades que são afetadas pela globalização do comércio e da informação tendem a ser as comunidades com escolas em más condições, onde há aumento da criminalidade, aumento das mazelas sociais e não é possível preparar seus membros para a economia global”, disse ele à BBC.

É por isso que Rajan acredita que o capitalismo está desmoronando: porque não oferece igualdade de oportunidades.

“Não está proporcionando oportunidades iguais e, de fato, as pessoas estão ficando em uma situação muito pior.”

O que não significa, no entanto, que o capitalismo não possa ser salvo, esclarece Rajan.

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SOPA IMAGES. Manifestantes protestam em Londres pelo fim das medidas de austeridade que acreditam afetar suas oportunidades econômicas

Na opinião dele, regimes autoritários surgem “quando todos os meios de produção são socializados”.

“O que você precisa é de um equilíbrio, você tem de melhorar as oportunidades.”

A democracia, enxerga ele, desempenha um papel importante nesse processo de renovação do capitalismo.

“É por isso que a democracia de livre mercado era um sistema equilibrado, mas precisamos recuperar esse equilíbrio novamente”, insiste.

Outras ameaças

De qualquer maneira, não é apenas o futuro do capitalismo no longo prazo que preocupa Rajan.

Um relatório da agência de avaliação de risco S&P Global Ratings indica que é possível haver outra crise de crédito global, devido ao aumento de 50% na dívida mundial desde a crise passada.

O informe explica que, desde 2008, a dívida dos governos cresceu em 77%, enquanto a dívida corporativa subiu em 51%.

Analistas argumentam, no entanto, que é improvável que a próxima recessão seja tão séria quanto a causada pelo terremoto financeiro de 2008.

Mas Rajan aconselha estar sempre alerta em relação à próxima crise, porque “essa é a única maneira de evitar que isso aconteça”.

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GETTY IMAGE.‘Há muito dinheiro fácil’, diz Rajan

Ele diz ainda que uma de suas preocupações é “a enorme quantidade de acomodação ou relaxamento monetário que ocorreu desde a crise global, e a quantidade de liquidez que se espalhou pelos mercados”.

Em outras palavras, taxas de juros muito baixas e muita impressão de dinheiro.

“É dinheiro fácil. E o que acontece quando você recebe dinheiro fácil é que fica mal acostumado”, diz ele.

“Há mais alavancagem [técnica usada para multiplicar a rentabilidade por meio do endividamento]. Endividamento que depende do dinheiro fácil para o refinanciamento. E, no final, isso acaba quando o dinheiro fácil acaba”, acrescenta.

O que permanece nesses casos, no entanto, é o endividamento, que ele considera a fonte das dificuldades do setor financeiro.

Por essa razão, o economista acredita que a próxima crise poderia ser causada pelas mesmas medidas que foram impostas para nos salvar da última.

“Chega um ponto em que temos de dizer: ‘Precisamos normalizar as coisas’. Porque se não normalizarmos, o sistema é redefinido para um estado em que se torna vulnerável a mudanças nas condições financeiras”, explicou.


Esta reportagem foi publicada originalmente pede rede britânica BBC [Aqui!]

Capitalismo, um sistema econômico que vai bem para 1% da Humanidade

Privilégio e o poder na economia geram extrema desigualdade e como isso pode ser interrompido

tondo

Favela de Tondo localizada em Manila, capital das Filipinas.

Às vesperas do início do Fórum Econômico de Davos na Suiça, a organização governamental OXFAM publicou na última 6a. feira (18/01) um documento mostrando que crise global de desigualdade está chegando a novos extremos.  Segundo o documento da OXFAM, os 1% das pessoas mais ricas  do mundo agora têm mais riqueza do que o resto do mundo combinado. Além disso, poder e privilégio estão sendo usados ​​para distorcer o sistema econômico para aumentar ainda mais a distância entre os mais ricos e os demais.

Segundo a OXFAM, uma rede global de paraísos fiscais permite que os indivíduos mais ricos escondam cerca de US$ 7,6 trilhões.

A OXFAM afirma que luta contra a pobreza não será vencida até que a crise da desigualdade seja combatida.

A OXFAM calculou ainda que:

• Em 2015, apenas 62 indivíduos detinham a mesma riqueza que 3,6 bilhões
de pessoas – a metade mais afetada pela pobreza da humanidade. Esse
número representa uma queda em relação aos 388 indivíduos que se
enquadravam nessa categoria há bem pouco tempo, em 2010.
• A riqueza das 62 pessoas mais ricas do mundo aumentou em 44% nos cinco
anos decorridos desde 2010 – o que representa um aumento de mais de
meio trilhão de dólares (US$ 542 bilhões) nessa riqueza, que saltou para
US$ 1,76 trilhão.
• Ao mesmo tempo, a riqueza da metade mais pobre caiu em pouco mais de
um trilhão de dólares no mesmo período – uma queda de 41%.
• Desde a virada do século, a metade da população mundial mais afetada pela
pobreza ficou com apenas 1% do aumento total da riqueza global, enquanto
metade desse aumento beneficiou a camada mais rica de 1% da população.
• O rendimento médio anual dos 10% da população mundial mais pobres no
mundo aumentou menos de US$ 3 em quase um quarto de século, e a 
renda diária deste segmento aumentou menos de um centavo a cada ano.

Enquanto isso, no Brasil que já possui uma das piores distribuições da riqueza do planeta, a fala é retirar o pouco de direitos que os mais pobres conseguiram arrancar depois de muita luta e sofrimento. Tudo isso para aumentar ainda mais a riqueza detida pela1% que se beneficia da forma de funcionar da sociedade capitalista.

Quem desejar saber mais sobre este estudo da OXFAM, basta clicar [Aqui!]

Encontro de ecossocialistas: é urgente colocar a classe no centro da luta anticapitalista

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Participei neste final de semana do “IV Encontros Internacionais Ecossocialistas. Alerta vermelho, alerta verde: dar forma à transformação ecossocialista” que ocorreu em Lisboa [1].  A reunião contou com militantes e intelectuais de diversas partes do mundo, e boa parte das discussões das quais participei giraram em torno da grave crise ecológica que hoje ameaça os ecossistemas planetários e a  própria sobrevivência da Humanidade.

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Nas diferentes mesas das quais fui ouvinte, um tema recorrente foi a necessidade urgente de que a luta anti capitalista se dê a partir do conceito de classe que seria segundo um dos palestrantes a única que seria capaz de fazer com que se restaure a unidade das classes oprimidas em torno de um projeto solidário de sociedade, o qual seja capaz de restabelecer o sentido de comunidade humana.

Este mesmo palestrante alertou para o fato de que se este projeto de reconstrução comunitária não for levado adiante pelos setores que se colocam contra  o Capitalismo, a ultra direita alastrará a sua visão de exclusão do diferente como forma de resolver as diversas formas em que a crise capitalista está se apresentando.

Um dos aspectos que considerei mais interessantes nos chamamentos para que a classe seja colocada à serviço da unificação das múltiplas lutas que hoje ocorrem contra as diferentes formas de opressão capitalista, foi o reconhecimento de que é necessário voltar a estudar os clássicos do Marxismo (incluindo o próprio Karl Marx, mas também Lênin e Rosa de Luxemburgo, dentre outros) no tocante aos processos de acumulação capitalista que foram solenemente abandonados pela esquerda nas últimas décadas. É que segundo outro palestrante, o Capitalismo financeirizado está cada vez mais necessitado de apropriar bens coletivos como as florestas e as águas para alimentar a forma particular de apropriação que esta fase capitalista requer. 

Por outro lado, também foram apresentadas ideias de que para a luta anticapitalista avance de forma positivo vai ser necessário estabelecer novas formas de colaboração entre sindicatos, movimentos de luta pelos direitos humanos e organizações ambientalistas.  Ao ver a experiência brasileira, vejo quão atrasados estamos na formação deste tipo de aliança em função da hegemonia de visões que fragmentam a luta no processo identitário.  No caso do Brasil, o primeiro desafio será convencer que é possível unificar todas as identidades dentro da classe. É que apesar de todos os recuos que tivemos, e que culminou na vitória de Jair Bolsonaro,  ainda não vejo nenhum balanço sério sobre o papel que a luta identitária, por mais justa que seja, cumpriu na fragmentação da classe trabalhadora e da juventude brasileira.


[1] https://alterecosoc.org/programme/

 

 

Soberba e ignorância ainda poderão nos transformar numa colônia chinesa

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O jornalista Alexander Busch faz hoje um interessante alerta  em sua coluna  “Tropiconomia, publicada pela Voz sobre os riscos do Brasil continuar numa espécie de voo cego na sua relação comercial com a China, país que hoje já controla setores estratégicos da economia brasileira [1].

china brasil

Segundo Busch, a China segue uma estratégia bem determinada onde suas empresas investem diretamente no que ele chama de “DNA industrial do Brasil“, o que implica em controlar as redes de energia,  rodovias,  ferrovias e, talvez, em breve também nas redes de telefonia, o que conferiria aos chineses uma grande vantagem  quando chegar a hora da digitalização e transmissão de dados no Brasil.  

Enquanto avança o Capitalismo a la China no Brasil, os brasileiros (principalmente aquelas multidões vestidas com a camisa da CBF, continuam ignorando tudo e qualquer coisa que se refere ao principal parceiro comercial brasileiro, enquanto que os chineses já estão sendo capazes de cantarolar até os funks mais populares nas favelas do Rio de Janeiro com sotaque imperceptível.

Busch adianta que tamanho descompasso entre conhecimento mútuo que deveria existir entre parceiros comerciais pode resultar no restabelecimento de relações de tipo colonial entre Brasil e a China, sabendo-se desde o princípio quem será a metrópole e quem será a colônia. 

Como estive na China em 2012 para participar de um congresso científico na cidade de Yantai, sei bem do que Alexander Busch, pois o que verifiquei no meu contato com os pesquisadores chineses é que são insuperáveis na busca de conhecimento acerca do resto do mundo, e não hesitam em buscar novas fronteiras de conhecimento para ampliar o que  consideram ser melhor para o seu peculiar modelo de desenvolvimento capitalista.

A imagem pode conter: 1 pessoa, atividades ao ar livre

O problema é que a estas alturas do campeonato, não há na burguesia brasileira ou, tampouco, na intelectualidade brasileira um mínimo de interesse em entender como funciona o Capitalismo chinês e quais os enormes riscos que o Brasil está correndo por sua disposição insuperável de se manter na completa ignorância sobre a China.  E tenho certeza que ainda pagaremos muito caro por essa soberba. Mas pior ficarão os pobres que ainda arcarão com o ônus maior de nossa dependência em relação aos humores da economia chinesa.


[1] http://www.dw.com/pt-br/o-brasil-n%C3%A3o-conhece-a-china-isso-%C3%A9-perigoso/a-43715399

No Brasil, a prova final de que a compatibilidade entre Capitalismo e democracia é uma falácia

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A ideia de que o Capitalismo é o lugar das realizações humanas, assumindo que as mesmas são sintetizadas pelo pleno acesso ao consumo de bens, mesmo os completamente desnecessários, vem sendo impulsionada com mais força após o colapso da União Soviética.  A disseminação dessa concepção ideológica de que o Capitalismo é o sistema que nos governará pelo resto da existência da eternidade é composta ainda com a inclusão de que ele nos oferece formas superiores da liberdade humana, a começar pela decisão de sermos essencialmente individualistas, mesmo em face das piores manifestações do eldorado capitalista sobre nossos semelhantes e, por extensão, sobre o nosso planeta.

O que raramente dito é que a democracia liberal de inspiração burguesa é meramente um artefato constituído para manter-se a impressão de que há efetivamente no Capitalismo válvulas de escape para a inerente acumulação desigual da riqueza em que o sistema está estruturado. Na prática, quaisquer avanços democráticos com efeitos distributivos sempre exigiram que houvesse processos de mobilização radicais por parte da classe trabalhadora.  Se deixada por si só, a burguesia não poderia ligar menos para os valores liberais que foram constituídos para garantir a hegemonia capitalista na Europa ainda no Século XVIII pelos pensadores iluministas, mais destacadamente os ingleses e franceses. 

Se olharmos para como o Capitalismo se constitui nas suas regiões periféricas, onde o Brasil está firmemente colocado pela forma particular pela qual o sistema se implantou por aqui, veremos que nem há por parte da burguesia brasileira maiores pruridos em impor um sistema avassalador no que tange à concentração da riqueza e a produção de desigualdades sociais.  E também aqui só ocorreram avanços quando as forças menos reacionárias pressentiram que tudo poderia vir abaixo se algumas concessões mínimas não fossem concedidas. Afora estes poucos momentos, a burguesia brasileira não tem qualquer tipo de pudor em aprofundar ainda mais a exploração da maioria dos brasileiros, garantindo para si a manutenção de vidas nababescas e desconectadas da realidade miserável em que vivem os trabalhadores.

Por isso tudo é que não é difícil entender como foi possível para um presidente tão claramente impopular como Michel Temer aplicar uma série de contrarreformas que apagam as poucas conquistas que foram arrancadas pela classe trabalhadora brasileira ao longo do Século XX. Temer consegue fazer isso porque possui a benção das oligarquias reacionárias que mandam no Brasil. 

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Essa é a verdade nua e crua.  O problema é que vê-la iria demandar que existissem partidos políticos e movimentos sociais que estivessem dispostos a não apenas de aceitá-la, mas também se dispor a mudá-la.  Lamentavelmente por mais grave que seja a atual conjuntura histórica a maioria dos que ocupam o espectro dito de esquerda ainda parecem sonhar com ganhos incrementais e não num ataque frontal contra as estruturas criadas pela burguesia brasileira manter tudo no seu devido lugar desde que as bases da economia nacional foram lançadas pelos conquistadores portugueses no Século XVI.  Assim, qualquer mudança que venha a ocorrer vai demandar que haja a superação da visão de que a maior parte da energia existente seja gasta em instituições sem qualquer chance de serem efetivamente democráticas.

Karl Marx, quem diria, já pode voltar

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