Capitalismo, um sistema econômico que vai bem para 1% da Humanidade

Privilégio e o poder na economia geram extrema desigualdade e como isso pode ser interrompido

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Favela de Tondo localizada em Manila, capital das Filipinas.

Às vesperas do início do Fórum Econômico de Davos na Suiça, a organização governamental OXFAM publicou na última 6a. feira (18/01) um documento mostrando que crise global de desigualdade está chegando a novos extremos.  Segundo o documento da OXFAM, os 1% das pessoas mais ricas  do mundo agora têm mais riqueza do que o resto do mundo combinado. Além disso, poder e privilégio estão sendo usados ​​para distorcer o sistema econômico para aumentar ainda mais a distância entre os mais ricos e os demais.

Segundo a OXFAM, uma rede global de paraísos fiscais permite que os indivíduos mais ricos escondam cerca de US$ 7,6 trilhões.

A OXFAM afirma que luta contra a pobreza não será vencida até que a crise da desigualdade seja combatida.

A OXFAM calculou ainda que:

• Em 2015, apenas 62 indivíduos detinham a mesma riqueza que 3,6 bilhões
de pessoas – a metade mais afetada pela pobreza da humanidade. Esse
número representa uma queda em relação aos 388 indivíduos que se
enquadravam nessa categoria há bem pouco tempo, em 2010.
• A riqueza das 62 pessoas mais ricas do mundo aumentou em 44% nos cinco
anos decorridos desde 2010 – o que representa um aumento de mais de
meio trilhão de dólares (US$ 542 bilhões) nessa riqueza, que saltou para
US$ 1,76 trilhão.
• Ao mesmo tempo, a riqueza da metade mais pobre caiu em pouco mais de
um trilhão de dólares no mesmo período – uma queda de 41%.
• Desde a virada do século, a metade da população mundial mais afetada pela
pobreza ficou com apenas 1% do aumento total da riqueza global, enquanto
metade desse aumento beneficiou a camada mais rica de 1% da população.
• O rendimento médio anual dos 10% da população mundial mais pobres no
mundo aumentou menos de US$ 3 em quase um quarto de século, e a 
renda diária deste segmento aumentou menos de um centavo a cada ano.

Enquanto isso, no Brasil que já possui uma das piores distribuições da riqueza do planeta, a fala é retirar o pouco de direitos que os mais pobres conseguiram arrancar depois de muita luta e sofrimento. Tudo isso para aumentar ainda mais a riqueza detida pela1% que se beneficia da forma de funcionar da sociedade capitalista.

Quem desejar saber mais sobre este estudo da OXFAM, basta clicar [Aqui!]

Encontro de ecossocialistas: é urgente colocar a classe no centro da luta anticapitalista

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Participei neste final de semana do “IV Encontros Internacionais Ecossocialistas. Alerta vermelho, alerta verde: dar forma à transformação ecossocialista” que ocorreu em Lisboa [1].  A reunião contou com militantes e intelectuais de diversas partes do mundo, e boa parte das discussões das quais participei giraram em torno da grave crise ecológica que hoje ameaça os ecossistemas planetários e a  própria sobrevivência da Humanidade.

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Nas diferentes mesas das quais fui ouvinte, um tema recorrente foi a necessidade urgente de que a luta anti capitalista se dê a partir do conceito de classe que seria segundo um dos palestrantes a única que seria capaz de fazer com que se restaure a unidade das classes oprimidas em torno de um projeto solidário de sociedade, o qual seja capaz de restabelecer o sentido de comunidade humana.

Este mesmo palestrante alertou para o fato de que se este projeto de reconstrução comunitária não for levado adiante pelos setores que se colocam contra  o Capitalismo, a ultra direita alastrará a sua visão de exclusão do diferente como forma de resolver as diversas formas em que a crise capitalista está se apresentando.

Um dos aspectos que considerei mais interessantes nos chamamentos para que a classe seja colocada à serviço da unificação das múltiplas lutas que hoje ocorrem contra as diferentes formas de opressão capitalista, foi o reconhecimento de que é necessário voltar a estudar os clássicos do Marxismo (incluindo o próprio Karl Marx, mas também Lênin e Rosa de Luxemburgo, dentre outros) no tocante aos processos de acumulação capitalista que foram solenemente abandonados pela esquerda nas últimas décadas. É que segundo outro palestrante, o Capitalismo financeirizado está cada vez mais necessitado de apropriar bens coletivos como as florestas e as águas para alimentar a forma particular de apropriação que esta fase capitalista requer. 

Por outro lado, também foram apresentadas ideias de que para a luta anticapitalista avance de forma positivo vai ser necessário estabelecer novas formas de colaboração entre sindicatos, movimentos de luta pelos direitos humanos e organizações ambientalistas.  Ao ver a experiência brasileira, vejo quão atrasados estamos na formação deste tipo de aliança em função da hegemonia de visões que fragmentam a luta no processo identitário.  No caso do Brasil, o primeiro desafio será convencer que é possível unificar todas as identidades dentro da classe. É que apesar de todos os recuos que tivemos, e que culminou na vitória de Jair Bolsonaro,  ainda não vejo nenhum balanço sério sobre o papel que a luta identitária, por mais justa que seja, cumpriu na fragmentação da classe trabalhadora e da juventude brasileira.


[1] https://alterecosoc.org/programme/

 

 

Soberba e ignorância ainda poderão nos transformar numa colônia chinesa

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O jornalista Alexander Busch faz hoje um interessante alerta  em sua coluna  “Tropiconomia, publicada pela Voz sobre os riscos do Brasil continuar numa espécie de voo cego na sua relação comercial com a China, país que hoje já controla setores estratégicos da economia brasileira [1].

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Segundo Busch, a China segue uma estratégia bem determinada onde suas empresas investem diretamente no que ele chama de “DNA industrial do Brasil“, o que implica em controlar as redes de energia,  rodovias,  ferrovias e, talvez, em breve também nas redes de telefonia, o que conferiria aos chineses uma grande vantagem  quando chegar a hora da digitalização e transmissão de dados no Brasil.  

Enquanto avança o Capitalismo a la China no Brasil, os brasileiros (principalmente aquelas multidões vestidas com a camisa da CBF, continuam ignorando tudo e qualquer coisa que se refere ao principal parceiro comercial brasileiro, enquanto que os chineses já estão sendo capazes de cantarolar até os funks mais populares nas favelas do Rio de Janeiro com sotaque imperceptível.

Busch adianta que tamanho descompasso entre conhecimento mútuo que deveria existir entre parceiros comerciais pode resultar no restabelecimento de relações de tipo colonial entre Brasil e a China, sabendo-se desde o princípio quem será a metrópole e quem será a colônia. 

Como estive na China em 2012 para participar de um congresso científico na cidade de Yantai, sei bem do que Alexander Busch, pois o que verifiquei no meu contato com os pesquisadores chineses é que são insuperáveis na busca de conhecimento acerca do resto do mundo, e não hesitam em buscar novas fronteiras de conhecimento para ampliar o que  consideram ser melhor para o seu peculiar modelo de desenvolvimento capitalista.

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O problema é que a estas alturas do campeonato, não há na burguesia brasileira ou, tampouco, na intelectualidade brasileira um mínimo de interesse em entender como funciona o Capitalismo chinês e quais os enormes riscos que o Brasil está correndo por sua disposição insuperável de se manter na completa ignorância sobre a China.  E tenho certeza que ainda pagaremos muito caro por essa soberba. Mas pior ficarão os pobres que ainda arcarão com o ônus maior de nossa dependência em relação aos humores da economia chinesa.


[1] http://www.dw.com/pt-br/o-brasil-n%C3%A3o-conhece-a-china-isso-%C3%A9-perigoso/a-43715399

No Brasil, a prova final de que a compatibilidade entre Capitalismo e democracia é uma falácia

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A ideia de que o Capitalismo é o lugar das realizações humanas, assumindo que as mesmas são sintetizadas pelo pleno acesso ao consumo de bens, mesmo os completamente desnecessários, vem sendo impulsionada com mais força após o colapso da União Soviética.  A disseminação dessa concepção ideológica de que o Capitalismo é o sistema que nos governará pelo resto da existência da eternidade é composta ainda com a inclusão de que ele nos oferece formas superiores da liberdade humana, a começar pela decisão de sermos essencialmente individualistas, mesmo em face das piores manifestações do eldorado capitalista sobre nossos semelhantes e, por extensão, sobre o nosso planeta.

O que raramente dito é que a democracia liberal de inspiração burguesa é meramente um artefato constituído para manter-se a impressão de que há efetivamente no Capitalismo válvulas de escape para a inerente acumulação desigual da riqueza em que o sistema está estruturado. Na prática, quaisquer avanços democráticos com efeitos distributivos sempre exigiram que houvesse processos de mobilização radicais por parte da classe trabalhadora.  Se deixada por si só, a burguesia não poderia ligar menos para os valores liberais que foram constituídos para garantir a hegemonia capitalista na Europa ainda no Século XVIII pelos pensadores iluministas, mais destacadamente os ingleses e franceses. 

Se olharmos para como o Capitalismo se constitui nas suas regiões periféricas, onde o Brasil está firmemente colocado pela forma particular pela qual o sistema se implantou por aqui, veremos que nem há por parte da burguesia brasileira maiores pruridos em impor um sistema avassalador no que tange à concentração da riqueza e a produção de desigualdades sociais.  E também aqui só ocorreram avanços quando as forças menos reacionárias pressentiram que tudo poderia vir abaixo se algumas concessões mínimas não fossem concedidas. Afora estes poucos momentos, a burguesia brasileira não tem qualquer tipo de pudor em aprofundar ainda mais a exploração da maioria dos brasileiros, garantindo para si a manutenção de vidas nababescas e desconectadas da realidade miserável em que vivem os trabalhadores.

Por isso tudo é que não é difícil entender como foi possível para um presidente tão claramente impopular como Michel Temer aplicar uma série de contrarreformas que apagam as poucas conquistas que foram arrancadas pela classe trabalhadora brasileira ao longo do Século XX. Temer consegue fazer isso porque possui a benção das oligarquias reacionárias que mandam no Brasil. 

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Essa é a verdade nua e crua.  O problema é que vê-la iria demandar que existissem partidos políticos e movimentos sociais que estivessem dispostos a não apenas de aceitá-la, mas também se dispor a mudá-la.  Lamentavelmente por mais grave que seja a atual conjuntura histórica a maioria dos que ocupam o espectro dito de esquerda ainda parecem sonhar com ganhos incrementais e não num ataque frontal contra as estruturas criadas pela burguesia brasileira manter tudo no seu devido lugar desde que as bases da economia nacional foram lançadas pelos conquistadores portugueses no Século XVI.  Assim, qualquer mudança que venha a ocorrer vai demandar que haja a superação da visão de que a maior parte da energia existente seja gasta em instituições sem qualquer chance de serem efetivamente democráticas.

Karl Marx, quem diria, já pode voltar

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O Estado é o comitê executivo da burguesia, por que tanta surpresa com as “doações” da Odebrecht?

A ideia de que “o Estado é o comitê executivo da burguesia” foi incluída por Karl Marx em 1848 na obra Manifesto do Partido Comunista.  De lá para cá, o que se viu foi uma progressiva erosão de quaisquer possibilidades de demonstrar que Marx havia exagerado em seu vaticínio.

As razões para que o Estado seja uma espécie de clube privado da burguesia já foram arroladas por diferentes autores desde a publicação do Manifesto. Mas uma análise das razões pelas quais o sistema capitalista tornou-se cada vez mais um antítese das aspirações democráticas que foram lançadas pelos pensadores contratualistas é apresentada no livro “Democracia contra Capitalismo” da falecida pensadora marxista canadense Ellen Meskins Wood (Aqui!).

Faço essa preâmbulo apenas para estranhar que ainda haja tanta surpresa com as revelações feitas pelos donos e diretores da empreiteira Odebrecht sobre o financiamento de campanhas eleitorais e eventuais compras de favores do congresso nacional.  É que essa é uma velha novidade, e que já estava estampada nas prestações de contas que vieram a público após a adoção de mecanismos minimalistas de prestações de contas de campanhas eleitorais pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Além disso, há que se lembrar que todos esses mecanismos de aquisição da boa vontade e serviços de partidos eleitorais por parte das corporações privadas não são algo restrito ao parlamento nacional. Se olharmos a atual condição da democracia estadunidense veremos que a eleição de Donald Trump é uma excelente síntese do tipo de controle que o dinheiro acabou tendo nas eleições presidenciais da principal potência militar e econômica mundial. Afinal, ele supostamente financiou e venceu as eleições das quais participou. E rapidamente encheu os ministérios com indivíduos com forte relação com as corporações privadas, a começar pelo secretário de Estado, Rex Tillerson, que foi o Chief Executive Officer (CEO) da ExxonMobil entre 2006 e 2016.

No caso do Brasil há ainda que se ressaltar que o regime militar de 1964 instalou mecanismos bastante precisos de compra de votos no parlamento fantoche que os generais instalaram após a derrubada do governo constitucional de João Goulart. Como no processo de transição conservadora que foi operado em 1985 esses mecanismos não foram dissolvidos é quase natural que ainda vivamos sob a influência de um parlamento que olha mais para os interesses das corporações privados do que para as necessidades da maioria da população brasileira.  

Assim, não há nada de surpreendente no que vem sendo revelado pela mídia corporativa que, aliás, exacerba os defeitos e desvios dos partidos políticos também para desviar a atenção de seus próprios malfeitos. Afinal de contas, quem é inocente a ponto de achar que todo o falso moralismo que está aparecendo nos telejornais tem algum tipo de relação de práticas ilibadas por parte dos proprietários dos canais que os transmitem?

A “nova esquerda” e o complexo de avestruz frente à velha luta de classes

Podem me chamar de ortodoxo ou de qualquer outro adjetivo assemelhado, mas juro que não aguento mais esse papo de “nova esquerda” ou “novas esquerdas” como uma indicação de uma direção a ser adotada pela classe trabalhadora  e pela juventude para enfrentar a opressão e a violência gerada pela crise sistêmica em que o Capitalismo está enfiado.

É que a imensa maioria desses “novos esquerdistas” é formada por sujeitos que perderam a perspectiva de que o Capitalismo poderá superado enquanto forma de organizar a presença humana na Terra.  É esta ausência de perspectiva revolucionária (adotando aqui o sentido descrito por Karl Marx na Ideologia Alemã) que transforma todo essa conversa de novas formas de organização pela esquerda em mero reconhecimento tácito de uma suposta durabilidade “ad eternum” do Capitalismo.

A verdade é que se olharmos o que está ocorrendo na França neste exato momento poderemos notar que é pela mão dos sindicatos e das organizações políticas que recusam o ajuste neoliberal que está se dando uma gigantesca lição de como se enfrentar os planos de miséria e regressão de direitos sociais engendrados pelo Partido Socialista de François Hollande. 

O fato é que toda essa conversa de “nova esquerda” procura embaçar a necessidade da construção de uma organização mundial para alavancar as lutas da classe trabalhadora, esteja ela onde estiver. Ao isolar o problema que os trabalhadores enfrentam para avançar a sua luta ao dilema do novo contra o velho, o que se faz na prática é impedir que a necessária unidade seja forjada no processo de enfrentamento que já está ocorrendo no plano prático.

Por isso, é que essas “novas esquerdas” possuem um caráter intrinsecamente reacionário e conservador, apesar do palavrório supostamente modernizante.  O que essa “nova esquerda” adoraria é que todos os que resistem ao Capitalismo internalizem o mesmo complexo de avestruz em que seus ideólogos estão metidos. Por isso mesmo é que devemos ignorar esses chamados por um suposto novo que já nasceu decrépito. E que venha a luta de classes!