Termelétricas da privatização da Eletrobras agravam problemas socioambientais do Brasil, alerta IEMA

Se contratadas no leilão do dia 30, vão emitir 5,2 milhões de toneladas de carbono e gerar poluentes do ar, desmatamento e estresse hídrico no Norte e Nordeste

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As novas usinas termelétricas a serem contratadas no próximo leilão de reserva de capacidade de energia (LRCE-2022), do dia 30 de setembro, devem emitir 5,2 milhões de toneladas de tCO2e ao ano associadas à entrada de 2 gigawatts (GW) na matriz elétrica brasileira a partir do fim de 2026. Esse valor equivale a quase 30% de tudo o que foi emitido por usinas termelétricas de serviço público a gás natural no país em 2020. O alerta está disponível no novo Boletim Leilão de Energia Elétrica divulgado hoje, dia 28 de setembro, pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). 

Esse leilão é diferente dos demais. É o primeiro realizado para cumprir a Lei 14.182/2021 que prevê a contratação de usinas termelétricas para início de operação entre 2026 e 2030. Apesar de versar sobre a privatização da Eletrobras, a versão final do texto conta com os chamados “jabutis” (alusão ao ditado “jabuti não sobe em árvore”) uma vez que determina a admissão de pelo menos 50% da demanda de leilões por Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e um total de 8 GW por termelétricas a gás natural para além da abertura de capital da empresa estatal. 

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Com exceção de projetos específicos, como a construção das hidrelétricas de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, é a primeira vez em que as usinas devem ser contratadas em regiões pré-estabelecidas: até 1.000 MW na Região Norte, 300 MW no Maranhão e 700 MW no Piauí. Vale ressaltar que essas termelétricas serão ligadas em tempo integral, ao contrário do que fazia-se antigamente no Brasil, quando eram acionadas para poupar os reservatórios das hidrelétricas em tempos de crise hídrica ou em momentos de pico de demanda. A operação de termelétricas em tempo integral quebra essa regra e reduz o espaço de participação das demais fontes de energia. Lembrando que as energias renováveis, como solar e eólica, têm custo mais barato quando comparadas às termelétricas.

Além disso, esse leilão estipula um preço ainda maior comparado ao que foi contratado nos últimos realizados. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), 37 empreendimentos se cadastraram, totalizando 11.889 MW que devem cumprir a exigência de ter um custo variável unitário (CVU) inferior ou igual a R$ 450,00/MWh. O valor anterior era de R$ 400/MW. Outra condição para os projetos participantes é sua localização em regiões sem estrutura de gasodutos e terminais de Gás Natural Liquefeito (GNL), necessários para abastecer as termelétricas.

A expansão de gasodutos totaliza uma extensão de 7.476 km, quase duplicando a malha atual do país. Caso essa infraestrutura seja totalmente implantada, demandará quase R$ 57 bilhões do orçamento, com impacto direto na alteração dos usos do solo e aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) desses projetos. Acrescenta-se o risco de tornar a matriz elétrica mais dependente de um combustível importado, como é o caso do GNL, sujeito a variações de preço internacional e indexado ao dólar. As consequências dessa escolha já foram sentidas na conta de luz em 2021.

Com contratos de 15 anos, até 2042 o IEMA calcula que as usinas contratadas no LRCE devem emitir 77,6 milhões de toneladas de CO2e na atmosfera: 38,8 milhões pela Região Norte; 27,2 pelo Piauí; e 11,6 pelo Maranhão. Ao todo, devem ser contratados segundo a Lei 14.182/2021 2,5 GW na Região Norte, 2,5 GW na Região Centro-Oeste, 2 GW na Região Sudeste e 1 GW na Região Nordeste que emitirão até 2045 310 milhões de toneladas de CO2e.

Por conta da queima de combustíveis, usinas termelétricas emitem gases e partículas que, em elevadas concentrações na atmosfera, têm efeitos negativos comprovados na saúde humana e no meio ambiente. Entre eles, destacam-se o material particulado (MP), o monóxido de carbono (CO), os óxidos de nitrogênio (NOx) e os óxidos de enxofre (SOx). Alguns desses poluentes participam de reações na atmosfera, dando origem a poluentes secundários como o ozônio troposférico (O3). A degradação da qualidade do ar tem sido associada ao agravamento de doenças respiratórias, cardiovasculares e neurológicas, bem como diferentes tipos de câncer. Porém, em nenhuma das áreas habilitadas para a contratação das usinas há estações de monitoramento da qualidade do ar em operação e que disponibilize para a sociedade as concentrações de poluentes aferidas.

O investimento em térmicas que estarão em operação no sistema até pelo menos 2042, além de representar custos adicionais de gasodutos em relação a outras opções energéticas menos custosas para o atendimento dos maiores centros de carga do país, estarão sendo comprometidos em uma fonte energética que tornará mais distante a necessária descarbonização da matriz elétrica brasileira, na contramão do cenário global de transição energética. 

Por fim, outro fator importante e preocupante é a dificuldade em encontrar informações técnicas e de licenciamento sobre as unidades geradoras participantes de forma fácil e acessível. Até o dia 22 de setembro de 2022, data de finalização do boletim, foi impossível encontrar informações sobre o licenciamento de sete das 33 unidades geradoras habilitadas para o leilão. Mesmo para aquelas em que o processo de licenciamento foi encontrado e consta a emissão de algum documento, apenas estão disponíveis para download as Licenças Ambientais de 13 unidades e para apenas 5 delas foi possível o acesso ao Estudo de Impacto Ambiental (EIA) dos empreendimentos a serem construídos. “A ausência de informações mais detalhadas sobre as tecnologias empregadas nos empreendimentos, sua localização e uso de água, entre outros dados, torna a avaliação dos impactos ambientais desafiadora e incompleta tanto por parte do poder público quanto por parte da sociedade civil”, ressalta Raissa Gomes, pesquisadora do IEMA.

Sobre o Boletim Leilão de Energia

Essa é a quarta publicação realizada pela organização sobre os leilões de energia elétrica. O objetivo é analisar as implicações dos projetos concorrentes em relação aos seus atributos ambientais como emissão de gases de efeito estufa (GEE), poluentes locais, uso de água, conformidade com requisitos de licenciamento e atendimento ao sistema elétrico para alertar a população e o poder público sobre os possíveis problemas. 

O lucro acima de tudo. Sucesso de exportação do agronegócio causa carestia dos alimentos dentro do Brasil

Para o economista José Baccarin, produtor nacional não abre mão de obter, cobrando em reais, mesmos lucros que aufere ao comercializar em dólar. Disparada de gastos com alimentação é turbinada também por fatores externos, como a pandemia e a guerra na Europa. “Mas não basta achar que este é um problema que veio de fora, e contra o qual não se pode fazer nada. Pode-se sim, e deve-se”, defende

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Por Pablo Nogueira para o Jornal da UNESP

A vertiginosa subida nos preços dos alimentos, que vem ocorrendo desde o começo do ano, colocou de novo na pauta dos noticiários assuntos que já se acreditava superados no dia a dia do brasileiro, como inflação alta,   insegurança alimentar e escassez de determinados produtos. Para tornar o cenário mais complicado, essa subida ocorre em meio a uma série de crises e choques que varrem a economia nacional e mundial, incluindo a instabilidade causada pela guerra na Europa entre Rússia e Ucrânia, a desaceleração econômica gerada pela pandemia de covid-19, a subida, igualmente desmedida, no preço dos combustíveis etc. Não é de se admirar, então, que na hora de identificar as causas para a disparada nos preços da comida no mercado interno muitas autoridades estejam apontando o dedo para fora do Brasil.

Porém, como explica o engenheiro agrônomo e economista José Giacomo Baccarin, há outros fatores igualmente importantes atuando dentro do Brasil para inflacionar os preços. Desde 2019, Baccarin, que é professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, campus de Jaboticabal, está à frente de um projeto de pesquisa, com apoio do Ministério da Saúde, via CNPq, para acompanhar os efeitos da internacionalização da agricultura brasileira sobre os preços dos alimentos ao consumidor. Nesta entrevista ao Jornal da Unesp, ele explica de que forma a condição de grande exportador de alimentos do Brasil contribui para que os preços disparem. E aponta iniciativas que poderiam ser adotadas pelas autoridades políticas e econômicas, de forma a preservar a segurança alimentar no país.

Por que o preço dos alimentos no Brasil explodiu nos últimos meses?

José Baccarin: De fato, estamos passando por um momento muito grave. Não diria só no Brasil, no mercado mundial também. Os índices de preços da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no mês de março atingiram um patamar recorde, igualando-se a um patamar anterior lá de 1974, e inclusive superando um patamar recente muito alto também que foi de 2011.

Isso repercute muito fortemente no Brasil porque nosso país tem grande participação no mercado internacional. Somos exportadores de vários produtos, estamos envolvidos em várias cadeias produtivas. Em algumas, somos o principal exportador. Por isso o preço internacional acaba refletindo aqui.

Além disso, tivemos um problema muito sério nos últimos anos que foi a desvalorização da moeda nacional, especialmente em 2020. O real foi uma das moedas que mais perderam valor no mundo em 2020. E isso acirra a transmissão dos preços externos para o mercado interno, porque quanto mais desvalorizada estiver a moeda, mais reais os exportadores vão receber por venda em dólar e mais reais os importadores pagam nas compras em dólar. E, portanto, mais reais o consumidor interno acaba pagando pelos alimentos. Então, temos um problema sério no Brasil. Que está ligado à situação internacional, mas também à nossa política cambial, feita sem intervenção nenhuma e que deixou que esta desvalorização fosse repassada ao consumidor interno.

E temos que considerar o poder de compra. O preço está alto para quem é pobre ou muito pobre, para os ricos não. Os mais ricos gastam 5%, 10% da sua renda com alimentação. Entre os pobres o gasto é da ordem de 40%. Esse efeito tem um caráter social muito danoso, que atinge os mais pobres que passam a sofrer de mais insegurança alimentar. Estamos vendo no Brasil uma queda da renda da população, junto com aumento de desemprego, da informalidade no mercado de trabalho. A renda dos brasileiros vem caindo. Isso representa uma dupla pressão sobre a segurança alimentar: preços mais altos e renda em queda.

Isso acirra a transmissão dos preços externos para o mercado interno, porque quanto mais desvalorizada estiver a moeda, mais reais os exportadores vão receber por venda em dólar e mais reais os importadores pagam nas compras em dólar. E, portanto, mais reais o consumidor interno acaba pagando pelos alimentos.

José Baccarin

Há inflação alta em outros setores também, como no preço dos combustíveis. Qual a ligação entre esses fenômenos?

Baccarin: Em parte há sim uma conexão. O combustível, por exemplo, é um fator muito importante no transporte de alimentos no Brasil. Nossa matriz de transporte é muito baseada no caminhão, que usa o  diesel, um derivado do petróleo. Se pegarmos o período entre janeiro de 2020 e março de 2022, o índice de preços ao consumidor amplo no Brasil, o IPCA, subiu 18,7%. No ano passado ele subiu muito, 13%.  Enquanto o IPCA subiu 18,7%, o campo de alimentação e bebidas, que é um dos componentes do IPCA, subiu 29,2%.

E a alimentação no domicílio teve uma subida equivalente a quase o dobro do IPCA: 35,9%. O impacto do preço dos alimentos sobre o IPCA foi maior em 2020. Esse impacto diminuiu um pouco no ano passado mas foi alto ainda. No ano passado outros preços subiram também, especialmente pela pressão dos combustíveis. Isso gera mais um comprometimento da renda das pessoas., Por exemplo, o caso do gás de cozinha: além da comida, o combustível usado para preparar comida em casa fica mais caro. Então alimentação é afetada por outros preços, como o preço do petróleo ou o preço dos fertilizantes.

Mas eu diria que grande parte desse aumento que vemos se deve ao mercado mundial de alimentos, que passou por tantos acontecimentos recentes. Primeiro com a pandemia, e agora a guerra entre Rússia e Ucrânia. Tudo isso tem agravado a situação.

De que forma a pandemia e mais recentemente a guerra estão promovendo essa subida dos preços?

Baccarin: Vamos falar da pandemia. Ainda no começo, houve gente que disse o seguinte, e eu mesmo fui uma dessas pessoas: a pandemia vai produzir uma quebra de renda. As pessoas vão ter menos dinheiro, vão consumir menos. Logo não vai ocorrer pressão sobre o preço dos alimentos.

O que aconteceu é que os preços dos alimentos foram muito pressionados depois que a pandemia começou. Neste século, esses preços haviam atingido um pico em 2011, depois caíram um pouco. O índice da FAO mostra isso: até 2018 os preços vinham se mantendo em um patamar mais baixo, embora mais alto que no começo do século. A partir de 2020, os preços explodiram.

As explicações que temos para os efeitos da pandemia são preliminares ainda. Primeiro houve problemas de abastecimento. As cadeias de suprimentos quebraram, tivemos problemas de transporte devido às restrições de deslocamento entre países. Alguns países começaram a reter produção, seguraram suas exportações. E certos países importadores começaram a aumentar seus estoques de alimentos. Tudo isso gerou um abalo na cadeia de suprimentos. A oferta não cresceu tanto quanto deveria crescer.

E eu penso que aconteceu também outro efeito, que ainda não foi bem medido mas que no Brasil ficou evidente. Durante a pandemia, as pessoas sofreram restrições nas suas possibilidades para gastar dinheiro. Não puderam viajar e ainda ficaram mais em casa. Então, quem manteve a renda transferiu para a alimentação o dinheiro que gastava com outras despesas. Se você pegar os dados das vendas de supermercados em 2020 vai constatar que foram as maiores do século. Elas capturaram dinheiro que antes era gasto com a chamada alimentação fora de casa, em restaurantes. Nesse período os gastos com alimentação em casa cresceram35,9% e a alimentação em bares, restaurantes e lanchonetes cresceu 13,6% apenas. Quase um terço, ou seja, cresceu bem menos. E as pessoas transferiram gastos para a comida.

Isso provavelmente aconteceu em outros países também, essa transferência de outros gastos para gastos em supermercado, para comida. Pode parecer algo um pouco contraditório porque, durante a pandemia, houve crescimento do desemprego no mundo todo. Mas não dá para esquecer que o alimento é um bem essencial. Numa crise, as pessoas cortam outros gastos e tentam manter alimentação, esse é um padrão do consumo de alimentos. Nos tempos de bonança, a tendência é que se aumentem muito os demais tipos de gastos, e as despesas com alimentos cresçam pouco. Nas crises, cortam-se muitos os gastos nas outras áreas, mas os gastos com alimentos pouco diminuem.

Em relação à guerra da Rússia com a Ucrânia, o que temos? Existem hoje dois continentes exportadores de alimentos. As Américas, especialmente os Estados Unidos, Brasil e Argentina. E o outro é a Europa, embora exporte bem menos do que a América. E a Ásia e a África são basicamente continentes importadores.

E no contexto da Europa, Ucrânia e Rússia são exportadores de alimentos. No caso da Rússia isso é recente. Na primeira década do século a Rússia importava muitos produtos alimentícios do Brasil, assim como acontecia com a China. Só que a China continua a ser um grande importador, enquanto a Rússia parou, porque recuperou a sua produção agrícola e começou a produzir muito, assim como a Ucrânia. Ambos são países de grande extensão territorial, e a Ucrânia possui algumas das melhores terras para agricultura do mundo, com alta fertilidade. Eles são fornecedores de alimentos para outras nações da Europa.

Outra questão é a da produção de fertilizantes, pois esses dois países também desempenham um papel importante. O Brasil apresenta uma grande dependência da importação de fertilizantes, o que é um erro. Como é que um setor agrícola tão forte como o nosso pode apresentar uma dependência de 85% da importação do insumo básico para agricultura, que são os fertilizantes? No passado, essa dependência já foi bem menor. No meu modo de entender, a estratégia que o Brasil adotou para essa área foi equivocada.

Nós dependemos da importação de fertilizantes, e dois países que nos fornecem são Rússia e Ucrânia. A guerra afetou essa importação, e o preço do fertilizante ficou mais caro. Além disso, o preço do petróleo também encareceu, algo que costuma acontecer em momentos de crise, e ainda mais considerando-se que a Rússia é um grande produtor de petróleo também, e de gás. Ou seja, os preços da energia subiram também.

Então houve diminuição na exportação de alimentos, na exportação de fertilizantes e um aumento do preço de petróleo e do gás combustível. Tudo isso impactou os custos de produção dos alimentos, trazendo uma pressão adicional. O salto nos preços dos alimentos agora, de fevereiro para março de 2022,  foi impressionante, ficando entre 12% e 15%.

E somando-se à guerra surge um clima de instabilidade mundial. Os países começam a tomar atitudes defensivas, tais como reter produção. O Egito fez isso, reteve a exportação de alguns produtos, por exemplo. Tudo isso acaba gerando impactos, criando instabilidade e aumentando o preço dos alimentos.

Mas o Brasil é um dos principais exportadores de alimentos. Como é possível que o impacto aqui esteja sendo tão forte?

Baccarin: Acho que é justamente por isso. Eu digo aos meus alunos que o problema do preço dos alimentos no Brasil não se deve à falta de produção, mas sim ao fato de que o Brasil tem uma alta produção em muitas cadeias. Exportamos carnes, soja e derivados, açúcar, milho… De maneira geral, nós temos uma produção acima do consumo nacional. ‘Seria possível pensar, então, que isso é garantia de que sempre vai sobrar produto para o mercado interno.

Mas, se não for feita uma intervenção pelo poder público, os preços internos não se desvinculam dos preços internacionais.

Vamos imaginar um produtor brasileiro com uma tonelada de açúcar em estoque. Naquele momento, o preço no mercado internacional seria mil dólares a tonelada. Esse produtor vai cobrar, no mercado interno, o correspondente a mil dólares. Se o câmbio estiver quatro por um, ele vai cobrar R$ 4 mil. Se o câmbio se valorizar, e passar a cinco por um, ele vai cobrar R$ 5 mil. Então, o que ele receber lá fora, repassa aqui dentro. Se o preço lá fora subir, passar de mil dólares para mil e quinhentos dólares, o produtor vai repassar o aumento de preço lá fora aqui dentro.

Esse é o problema geral do consumidor brasileiro: nossa grande vinculação aos preços internacionais pelo lado das exportações. Segundo a racionalidade do empresário, não há por que vender aqui dentro mais barato do que vende lá fora.

Esse é o problema geral do consumidor brasileiro: nossa grande vinculação aos preços internacionais pelo lado das exportações. Segundo a racionalidade do empresário, não há por que vender aqui dentro mais barato do que vende lá fora.

José Baccarin

Existe outro grupo de produtos que são pouco expressivos no mercado internacional. Nós nem os exportamos muito, nem importamos muito. Entram aí o arroz, o feijão, as hortaliças… Nesses casos, pode acontecer uma insuficiência de produção em alguns anos. Estamos passando por isso agora.

O que mais chamou atenção neste começo de ano? Eu vi cenoura, tomate, com preço lá em cima…Isso não se deve ao mercado internacional, são deficiências na produção interna. Às vezes, a recuperação pode ocorrer até no mesmo ano. Daqui a pouco, chega o inverno, os produtores vão plantar mais tomates, mais cenouras, a oferta vai crescer e o preço vai cair.

Então, existe um grupo de produtos cujos preços estão mais vinculados às condições internas. Mas o mais geral, que vejo pelos números que eu analiso, é que o Brasil exporta muito, e o brasileiro não consegue se ver livre dos preços internacionais. Isso não é algo de todo ruim, tem um aspecto positivo.  É uma forma de obter renda, incentivar novos investimentos, fazer a agricultura crescer e tudo mais. Agora, num momento emergencial, quando vemos os preços irem lá para cima, não dá para entender por que o governo não intervém. Eu acho que temos que intervir nos momentos emergenciais.

O que poderia ser feito?

Baccarin: Existem mecanismos para isso, por exemplo, via imposto de exportação, ou via intervenção no câmbio, O Brasil tem reservas internacionais vigorosas hoje. US$ 350 bilhões. É possível valorizar a moeda nacional se ela se desvalorizar muito, como aconteceu em 2020. Ou criar um imposto sobre as exportações, para fazer com que parte do valor a ser recebido pelo produtor lá fora seja retido. Tudo isso está previsto na legislação brasileira. Não seria preciso criar uma lei nova. Nós temos as leis mas não as aplicamos desde a década de 1990.

Não podemos considerar que o agronegócio brasileiro seja um sucesso se ele contribui para aumentar a insegurança alimentar e nutricional do país. Somos de fato um grande exportador de alimentos e não atendemos a população brasileira? Isso está errado.

E os brasileiros estão cortando o consumo de proteínas e consumindo cada vez mais calorias vazias.  Cortam-se proteínas, carnes. A carne bovina foi campeã. Nesse processo de troca de produtos diminui a qualidade nutricional. Até porque os produtos ultraprocessados não subiram tanto quanto os produtos minimamente processados. Então os preços agem também contra a melhoria da qualidade nutricional da refeição.

Então não é falta de produção, é uma grande vinculação ao mercado internacional que é interessante ao longo do tempo mas nesses momentos nós devíamos ter um mecanismo público para impedir que esses aumentos lá fora sejam repassados para o mercado interno.  Algumas pessoas criticam, dizendo que isso implica adotar políticas econômicas que não são liberais. Bom, neste momento todos os países estão adotando políticas não liberais, certo? E o Brasil tem que pensar nos interesses da sua população.

Além disso, deve haver políticas para aumentar a demanda, fazendo com que a renda do brasileiro se recupere. Isso demora mais. O auxílio emergencial, que foi liberado a partir do segundo semestre de 2020, teve um impacto muito forte para o aumento do consumo. A população em situação de pobreza no Brasil caiu de vinte e sete milhões pra nove milhões num prazo de um ou dois meses. Então, há também que se pensar em ações mais contundentes pelo lado da transferência de renda e do aumento da demanda dos brasileiros e brasileiras.

E também controle de preço daqueles produtos que pressionam o custo de produção. O Brasil não tem que seguir o mercado internacional no preço do petróleo. O lucro da Petrobras vem do custo da gasolina e do diesel para o brasileiro. A lucratividade que a Petrobras teve agora em 2021 é recorde mas serviu pra quê? Para novos investimentos na Petrobras? Ou para beneficiar investidores em grande parte moradores dos Estados Unidos? Se controlarmos alguns preços no país, e eu diria que o diesel e a gasolina e o gás de cozinha são os mais importantes, também haveria diminuição de preços de alimentos.

Agora, depende de vontade política, evidentemente. Não me parece que, nesse momento no país, haja vontade de política de agir nessa direção. Mas acho que é nessa direção, e na recomposição da renda do brasileiro, que deveríamos estar trabalhando nesse momento. E não achar que o que está acontecendo é uma fatalidade, um problema que vem de fora, criado por russos e ucranianos, e contra o qual não se pode fazer nada. Sim, podemos fazer algo. E temos que fazer

E lá fora, será que o preço dos alimentos pode baixar novamente?

Baccarin: Vi um artigo recentemente dizendo que o patamar dos preços da alimentação não vai voltar ao que era antes. Eu não diria isso. Em 1974 aconteceu uma subida extrema do preço dos alimentos, como se fosse uma subida de montanha-russa, e depois os preços despencaram igual à descida na montanha-russa. Então não dá para afirmar que atingimos outro patamar nos preços. Entendo que há possibilidades de que o mundo possa voltar a registrar preços bem menores. Vamos tomar um pouco mais de cuidado com essas previsões tão alarmistas. Temos a ciência e a tecnologia para podermos voltar a equilibrar mais a produção com o necessário crescimento do consumo de alimentos pelos mais pobres. Para ocorrer, vai depender de preços melhores.

Imagem acima: Deposit Photos


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Este texto foi inicialmente publicado pelo Jornal da UNESP [Aqui!].

Em meio a blefes, Bolsonaro oferece carestia e fome como vitrines do seu (des) governo

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A estas alturas do campeonato é perceptível um certo cansaço da maioria dos brasileiros (incluindo a base de apoio do presidente Jair Bolsonaro) em relação aos seguidos blefes acerca de um suposto uso de um golpe de força para desmantelar o frágil tecido institucional que rege as relações sociais no Brasil. É que Bolsonaro já ameaçou um golpe militar e agora se abraça a uma conjunção de aliados que combina caminhoneiros (melhor dizendo donos de empresas de transporte), setores radicalizados das polícias militares e cantores sertanejos.  Com isso, Bolsonaro reconhece de forma prática a sua incompetência para sair da figura de presidente eleito para a de um ditador.

Mas se a parte do golpe já está manjada como blefe, a parte prática do governo Bolsonaro segue firme e forte sob o comando do dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes, aquele que no desenho animado “Pinky e o Cérebro” seria o segundo, deixando para o presidente Bolsonaro, o papel de ser o Pinky. Só falta em um alguma reunião ministerial, Bolsonaro (Pinky) perguntar a Paulo Guedes (Cérebro) :  o que você quer fazer esta noite?”, e ouvir a famosa resposta “A mesma coisa que fazemos todas as noites, Pinky… Tentar conquistar o mundo!”.

Trabalhadora será indenizada após ser comparada a 'Pink e Cérebro' pela  chefe - Economia - Estadão

Esquecendo um pouco o mundo da ficção, o que temos de prático no Brasil neste momento é o êxito completo das políticas de Paulo Guedes, e que está refletido na carestia e no rápido espalhamento dos bolsões de fome nas cidades brasileiras. Para isso, Paulo Guedes já até sugeriu que restos de comida sejam aproveitados para matar a fome dos mais pobres. Aliás, a recente sugestão de Guedes para que não fiquemos chorando sentados diante do anúncio de mais um aumento nas contas de luz, não passa de uma expressão da ideologia a la Caco Antibes que dá coesão ao projeto econômico que está sendo executado pelo governo Bolsonaro.

O problema é que na impossibilidade de qualquer mudança real na execução de um projeto exitoso, Jair Bolsonaro já identificou que a via eleitoral não será provavelmente aquela que o manterá no poder. Por isso, devemos esperar mais blefes, que deverão assumir tons ainda mais ameaçadores. Resta saber como reagirão não os frequentadores das motociatas e do cercadinho bolsonarista em Brasília, mas os milhões de brasileiros que foram desempregados pelas políticas “cerebrais” de Paulo Guedes, e que hoje convivem com a fome, a falta de moradia e o castigo continuado da pandemia da COVID-19.

Brasil é um dos cinco países em que os preços dos alimentos está causando preocupação

Um fornecimento seguro de nutrição acessível está emergindo novamente como um risco para governos e economias. Tiramos uma foto dos principais países

World food prices hit 18-month high | Dhaka Tribune

Por  Agnieszka de Sousa e  Jeremy Diamond para a Bloomberg

O mundo está correndo para vacinar para sair da pandemia do coronavírus, mas outro desafio já surgiu para alguns governos e economias mais vulneráveis.  Os preços globais dos alimentos estão nos mais altos em mais de seis anos , impulsionados por um salto no custo de tudo, da soja ao óleo de palma, devido à demanda da China, cadeias de abastecimento vulneráveis ​​e clima adverso.

Alguns bancos alertam que o mundo está caminhando para um “ superciclo” de commodities . A inflação está pressionando novamente os consumidores que sofrem com a recessão induzida pela pandemia e – em alguns lugares – com a queda das moedas.

Custos de Surgimento

A inflação de alimentos está afetando as nações de forma desigual.

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Desde o início do ano, protestos ocorreram no Sudão, enquanto a ansiedade em relação à obtenção de alimentos contribuiu para os conflitos no Líbano e na Tunísia, marco zero para os levantes da Primavera Árabe há uma década. Na Índia, os agricultores se revoltaram contra os esforços para baixar os preços. Rússia e Argentina restringiram os embarques de safras para suprimir os preços internos. Até mesmo países ricos como os Emirados Árabes Unidos estão considerando possíveis limites de preço para alguns alimentos.

“Esses aumentos de preços são desestabilizadores, não apenas porque induzem muitas dificuldades às comunidades e famílias, mas também porque há essa expectativa de que o governo fará algo a respeito”, disse Cullen Hendrix , bolsista sênior não residente do Peterson Institute for International Economics, um think tank com sede em Washington. “As implicações vão durar mais tempo e além da pandemia.”

Como sempre, o impacto é desproporcional. Nos países ocidentais ricos, pode ser apenas um caso de troca de marca de produto. Nas nações mais pobres, pode significar a diferença entre mandar uma criança para a escola ou sair para ganhar dinheiro.

No entanto, é nos maiores países de renda média que os efeitos podem repercutir mais no mundo. Eles são alguns dos lugares mais populosos do planeta e onde os custos dos alimentos representam uma parcela maior das cestas de preços ao consumidor. São também onde os governos estão sob maior pressão para agir.

Brasil: pressão populista

A maior economia da América Latina se destaca entre os mercados emergentes por ter o aumento mais rápido nos preços dos alimentos no ano passado em relação à inflação geral devido ao declínio sustentado da moeda, de acordo com Oxford Economics Ltd. 

Enquanto isso, a popularidade do presidente Jair Bolsonaro está caindo para níveis quase recordes e ele está tentando encontrar novas maneiras de apaziguar o eleitorado. Em 19 de fevereiro, ele destituiu abruptamente o chefe da estatal petrolífera após uma discussão sobre os preços dos combustíveis. Ele também tem pressionado por uma nova rodada de ajuda ao coronavírus para os pobres, depois que a distribuição de dinheiro terminou em dezembro.

Risco de agitação

Potencial dos países para se recuperar da Covid19 vs. risco de mobilização social.

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O problema é que o dinheiro serviu para elevar os preços dos alimentos, segundo Maria Andreia Lameiras , pesquisadora do Instituto de Pesquisas Econômicas (Ipea). O arroz cresceu 76% no ano passado, enquanto o leite e a carne bovina subiram mais de 20%. “O governo distribuiu dinheiro para a população com maiores gastos com alimentação”, disse Lameiras.

O custo de garantir uma nutrição vital ameaça aumentar a desigualdade em um país com a maior lacuna de renda da região, uma situação que só foi exacerbada pela pandemia. Mesmo que a ajuda retorne, o pagamento mensal seria menor e atingiria menos pessoas, limitando seu alcance para mitigar a pobreza extrema.

Rússia: Lição de História

Memórias de preços em alta e prateleiras vazias após o colapso da União Soviética ainda são vivas para muitos russos. Com sua popularidade mal tendo voltado do ponto mais baixo e protestos exigindo a libertação do líder da oposição preso Alexei Navalny, o presidente Vladimir Putin está desconfiado do impacto político dos custos dos alimentos.

Nas últimas semanas, o maior exportador de trigo do mundo impôs tarifas e cotas destinadas a conter as vendas no exterior e baixar os preços domésticos. Os maiores varejistas da Rússia também foram obrigados a congelar alguns preços dos alimentos, com batatas e cenouras aumentando em mais de um terço em relação ao ano passado.

Mas esses limites podem sair pela culatra e acabar alimentando a inflação geral. A Câmara de Auditoria, órgão fiscalizador do governo, estimou em janeiro que os preços gerais dos alimentos vão subir quando as restrições forem suspensas no final de março.

Mulher soviética em uma mercearia vaziaAs memórias das prateleiras vazias após o colapso da União Soviética ainda são vivas para muitos russos. Fotógrafo: Shepard Sherbell / Corbis SABA / Corbis / Getty Images

“A Rússia pode ver alguma mobilização política real em torno dos preços dos alimentos”, disse Hendrix. “Os governos autoritários tendem a ser um pouco mais permissivos com esses tipos de protestos de“ problema da mesa da cozinha ”do que com campanhas mais gerais contra a corrupção e o governo autoritário. Embora, como a Primavera Árabe demonstrou, o primeiro pode se tornar o último – às vezes muito rapidamente. ”

Nigéria: tempestade perfeita

Os preços dos alimentos na maior economia da África representam mais da metade do índice de inflação do país e subiram pelo ritmo mais rápido em mais de 12 anos em janeiro. Uma família nigeriana média gasta mais de 50% de seu orçamento com alimentos. Os custos estão se somando a uma tempestade perfeita de desafios à segurança alimentar que tem assombrado a Nigéria durante a pandemia.

Mercados de alimentos como pandemia expõem a insegurança alimentar da Nigéria

Os comerciantes descarregam sacos de laranjas de um caminhão de entrega no Orange Market em Mararaba, Nigéria. Fotógrafo: KC Nwakalor / Bloomberg

As reservas de moeda estrangeira necessárias para importar bens secaram após uma queda nos preços do petróleo. Gargalos de oferta e ataques aos agricultores  também pesaram sobre a oferta de produtos agrícolas. Também houve escassez de alimentos básicos, como arroz, depois que as autoridades restringiram as importações e fecharam as fronteiras terrestres por 16 meses. Eles reabriram em dezembro, mas isso fez pouco para aliviar a inflação.

Queixas relacionadas à comida desempenharam um papel na sustentação dos protestos #EndSARS no outono. O que primeiro começou como manifestações contra a brutalidade policial sob o presidente Muhammadu Buhari se transformou em pilhagem de armazéns que armazenavam coisas como macarrão, arroz e macarrão.

Turquia: Líder Irritado

Como o maior consumidor per capita de pão do mundo e seu maior exportador de farinha, a Turquia está particularmente exposta a uma alta nos mercados de commodities. Os preços dos alimentos subiram 18% em janeiro em relação ao ano anterior, com grandes saltos nos produtos básicos, dos grãos aos vegetais.

A Turquia vem lutando contra uma inflação de alimentos de dois dígitos há anos, mas as implicações políticas para o presidente Recep Tayyip Erdogan estão aumentando à medida que os custos dos alimentos atingem sua base de apoio central junto com a queda no valor da lira.

Economia turca enquanto a inflação pressiona o banco central a apertar a política

Os preços dos alimentos na Turquia subiram 18% em janeiro em relação ao ano anterior. Fotógrafo: Nicole Tung / Bloomberg

Erdogan ordenou uma investigação sobre o aumento dos preços dos alimentos. Ele disse que óleo, leguminosas, vegetais e frutas eram a “principal preocupação”. O Ministério do Comércio pode impor multas às empresas que vendem produtos alimentícios a preços elevados, alertou o presidente em janeiro. O problema é que as ameaças do governo e as penalidades financeiras em 2019 mal moveram a agulha.

Índia: ato de equilíbrio

Lar das terras mais aráveis ​​depois dos Estados Unidos, a Índia é o maior exportador mundial de arroz e o segundo maior produtor de trigo. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas não têm acesso a alimentos acessíveis e o país tem algumas das taxas mais altas de desnutrição infantil.

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Embora os custos dos alimentos básicos tenham subido mais lentamente nas últimas semanas, os alimentos continuam no centro das tensões políticas que têm dominado a Índia. Os protestos de agricultores aumentaram devido a uma ação do governo do primeiro-ministro Narendra Modi de liberalizar o mercado de safras. Os produtores estão preocupados que a nova lei baixe os preços.

Modi está promovendo reformas que muitos acreditam que visam, em última instância, cortar a conta de subsídios aos alimentos da Índia , a maior do mundo. O governo disse em janeiro que estava se tornando “incontrolável” grande. Cortes nos subsídios aos alimentos e combustíveis muitas vezes se traduzem em inquietação e as projeções não parecem boas nos próximos dois anos, de acordo com a Verisk Maplecroft . 

– Com a ajuda de Samuel Dodge, Cagan Koc, Tope Alake, Irina Reznik, Sophia Chalmer, Marisa Wanzeller, Tatiana Freitas, Pratik Parija, Simon Kennedy e Max De Haldevang

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela agência Bloomberg [Aqui!].

O levante dos “gilets jaunes” na França mostra o caminho adiante para o Brasil

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Nos últimos dias cenas de confrontos violentos entre policiais e os chamados “gilets jaunes” ou “coletes amarelos” nas ruas da França tem levantado muitas questões para aqueles que, no Brasil, veem as manifestações de 2013 como um ponto de partida para a tomada do poder pela extrema direita personificada por Jair Bolsonaro.

Esses chamados para a precaução em torno do apoio aos manifestantes franceses se dá, aparentemente, por um receio de que também na França as manifestações sejam capturadas pela extrema direita e eleger candidatos ligados à Frente Nacional de Marine Le Pen.

Bom, primeiro eu diria que é preciso que se examine os motivos que levaram os coletes amarelos às ruas francesas e a resposta é simples: as políticas e austeridade de Emmanuel Macron que fica mais evidente no ataque de seu governo aos direitos trabalhistas e na aposta da elevação dos preços de combustíveis como forma de alavancar a economia francesa.

A mobilização dos coletes amarelos não representa assim uma ressonância das políticas da Frente Nacional, mas uma negação delas.  Além disso, se existem infiltrados da extrema direita na manifestação, as ações da polícia francesa (como foi o caso do Brasil em 2013) é que tem iniciado os principais confrontos e atos de vandalismo.  A repressão policial visa claramente legitimar mais repressão para conter a revolta da população contra os ataques do governo Macron contra direitos que foram duramente conquistados.

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Agora, o risco que se tem na França é de se repetir a postura que se teve no Brasil de não apenas se negar o diálogo com os manifestantes, mas de se optar pela repressão policial que acabou sendo dirigida aos militantes de esquerda, abrindo espaço para que a extrema direita monopolizasse as manifestações.  

Esse cenário de “abrasileirisação” das manifestações francesas felizmente é ainda baixo, visto que há uma esquerda combativa na França que não está domesticada pelas políticas setoriais que paralisaram, e continuam paralisando, boa parte dos movimentos sociais e sindicatos.  É que se a França não tem apenas a Frente Nacional nas ruas, mas também a França Insubmissa que está se mobilizando para exigir a anulação das políticas de carestia dos combustíveis.  Se no Brasil, uma ação de massa da esquerda combativa tivesse ocorrido em 2013, é bem provável que não tivéssemos desembocado no cenário trágico de 2018.

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Mas mais do que se pensar no que não foi feito em 2013, o que o levante dos coletes amarelos franceses nos mostra é o caminho de que deveria ser seguido em 2019 pela esquerda que queira merecer esse rótulo no Brasil.  É que com Bolsonaro no poder não haverá mais espaço para meias soluções que resolvam apenas temporariamente o problema da ultra concentração da renda que o Brasil possui.  Por isso, como já vem ocorrendo com a adesão de sindicatos combativos ao movimento dos coletes amarelos, o caminho para a esquerda no Brasil é o das manifestações de rua. Ou é isso ou teremos uma regressão ao século XIX em termos de direitos sociais e trabalhistas.