Que o lamento pelo Museu Nacional se transforme em cuidado com a Casa de Cultura Villa Maria

Por Simonne Teixeira*– João Pessoa, setembro de 2018.

Domingo à noite entrei numa espécie de torpor, numa atmosfera nublada, da qual ainda não consegui sair completamente. As imagens do Museu Nacional ardendo em chamas abrasou meus olhos e chorei. O Museu Nacional é (porque ainda não assimilei seu desaparecimento) uma referencia na minha formação: estágio e pesquisas; colegas professores, antes estudantes. Partilhei as angustias cotidianas de saber e reconhecer o valor material e imaterial desde que seria o maior e mais importante patrimônio cultural e cientifico da nação, ao mesmo tempo que via o deterioro do edifício e das coleções, apesar dos esforços ciosos dos professores, estudantes e alunos para garantir sua integridade. Uma luta sem trégua, resistência persistente daqueles que zelavam pelo patrimônio de todos.

Na noite de domingo recebi inúmeras mensagens de amigos, alunos e ex-alunos chocados  diante daquelas imagens. Não sei se buscavam consolo ou queriam me consolar. Em realidade, estávamos todos nos sentido atacados por alguma coisa que não eram apenas aquele fogo que levava consigo parte da historia do mundo. Muitos vinham me lembrar das aulas, dos debates e discussões que tivemos ao longo destes 22 anos em que sou professora na Universidade Estadual do Fluminense (Uenf). Era para me sentir orgulhosa. Me sentia envergonhada.

Olhando aquelas imagens na TV não podia deixar de pensar nos riscos que nossas instituições centenárias estão expostas pelo descaso e pela falta de investimento. Não seria a primeira vez que tive sobressaltos com a possibilidade ver a Casa de Cultural Villa Maria da Uenf Darcy Ribeiro, ardendo em chamas. Mas naquele momento elas assumiam uma concretude dolorosa, cheguei a ver nas ruínas do Museu Nacional as da Villa Maria.

O dia-a-dia como gestora da Casa de Cultura Villa Maria exige uma espécie de cegueira consciente aos inúmeros problemas que enfrentamos devido à falta de recursos para uma restauração adequada ou mesmo para acudir aos pequenos reparos. Depois de dois anos e nove meses como gestora na Casa, vamos nos acostumando a ver os buracos no teto; as peças dos mosaicos do piso soltas, assim como os tacos de madeira; as infiltrações e as paredes manchadas; aos arbustos que brotam no telhado, assim como os problemas estruturais no telhado do anexo construído mais recentemente, sem os cuidados e os materiais de qualidade; dentre tantos outros. A lista é grande e os recursos inexistem. Nossa resistência tem sido, apesar dos problemas, dar vida à Casa, conhecer os problemas e buscar soluções que permitam o desenvolvimento das atividades fins.

Que bom seria neste ano em comemoramos o seu centenário, termos os recursos, para garantir que a Villa Maria possa comemorar o seu bicentenário, e outros tantos centenários! O espectro do incêndio do Museu Nacional deveria se configurar como alerta a todos nós, gestores da universidade, do município, do estado e dos órgãos de cultura. É preciso um esforço consciente e poderoso, com apoio da sociedade civil no sentido de tratar a cultura e a ciência como um elemento fundamental em nossa existência. O que podem tirar nós para que deixemos de ser nós mesmos? A resposta é curta: nossa memória. A memória deve ser como um farol, iluminando nosso passado para sabermos quem somos e podermos construir o nosso futuro, ou quem queremos ser. Defender nosso patrimônio, é defender nossa memória, é construir o futuro.

Desejo à Villa Maria um futuro longevo (milenar, se acaso não estou exagerando), reafirmando a importância cultural e científica da UENF no norte fluminense, resguardando a memória local. Que sua presença no Quadrilátero Histórico, seja para nós, sempre um inspiração à generosidade, a mesma que Maria de Queiróz, a Finazinha, teve como sua cidade e com sua gente. Desejo que o único fogo seja o de nossos corações, ardendo em júbilo por sermos capazes de garantir às futuras gerações nosso legado cultural, científico, cultural.

*Simonne Teixeira é professora associada do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico, bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e diretora da Casa de Cultura Villa Maria.

Em Campos existem outros patrimônios históricos prontos para arder. Vamos esperar pelas chamas para nos mexer?

Ainda sinto uma indignação incontível com as cenas do incêndio que exterminou uma das maiores coleções arqueológicas do mundo na Quinta da Boa Vista. Mas como morador da cidade de Campos dos Goytacazes, sinto-me ainda mais incomodado quando vejo outros patrimônios históricos abandonados à mercê da própria sorte pelos governantes e pelo setor privado.

Falo aqui do  Solar Maria Queirós de Oliveira que abriga a Casa de Cultura Villa da Maria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e do prédio do Mercado Municipal de Campos dos Goytacazes.   O solar completa este ano 100 anos e o prédio do mercado foi inagurado há 97 anos.

Ambos monumentos são monumentos históricos e sofrem com o caso dos (des) governos de Luiz Fernando Pezão e Rafael Diniz, principalmente no que se refere a elementos mínimos de manutenção.  

A situação da Casa de Cultura Villa Maria só não é pior porque sua diretora, a historiadora Simonne Teixeira, realiza um trabalho hercúleo onde precisa tirar leite de pedra todos os dias em meio à completa ausência de recursos financeiros.  Mas é sabido que o solar doado por Maria Queirós de Oliveira encontra-se em condições lamentáveis em termos de sua infraestrutura elétrica e de telhado. E é preciso dizer que, como no caso do Museu Nacional, a Casa de Cultura possui um projeto preparado à espera da liberação de recursos por parte do (des) governo Pezão.

Mas a Casa de Cultura da Uenf e o Mercado Municipal não são os únicos patrimônios arquitetônicos que estão expostos ao mesmo tipo de destino que foi reservado ao Museu Nacional. O jornalista Vitor Menezes lembrou em sua página no Facebook o caso do Solar dos Ayrizes que está completamente abandonado.  Ele também mostra preocupação com a situação do  Solar do Colégio dos Jesuítas que abriga o Arquivo Público Municipal de Campos dos Goytacazes.

Assim, para que não tenhamos que chorar pela perda desses patrimônios, há que se mobilizar para pressionar Pezão e Rafael Diniz que saiam de sua indiferença olímpica e liberem os recursos necessários para não tenhamos outros incêndios que realizem aqui o mesmo de desastre que acaba de acontecer no Museu Nacional.