Entre oportunismo e ruptura: o centrão troca o governo Luiz Inácio Lula da Silva por uma aliança de confronto

A união entre o “centrão” e o bolsonarismo, em meio a derrotas do Executivo, sinaliza inflexões no padrão de governabilidade e projeta incertezas para o ciclo eleitoral de 2026

Os episódios recentes envolvendo o Senado Federal do Brasil e o Congresso Nacional do Brasil, particularmente no que se refere à rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à mobilização para a derrubada de vetos presidenciais ao chamado PL da Dosimetria oferecem um ponto de observação privilegiado para a análise das dinâmicas contemporâneas de governabilidade no Brasil. Mais do que eventos isolados, tais movimentos sugerem uma reconfiguração das coalizões legislativas, com implicações institucionais relevantes.

No centro dessa inflexão encontra-se o comportamento do chamado “centrão”, um agrupamento heterogêneo de partidos e lideranças cuja atuação historicamente se caracteriza pelo pragmatismo e pela adesão contingente ao Executivo. Durante o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, esse bloco foi incorporado à base governista mediante a distribuição de recursos políticos e administrativos. No entanto, a recente convergência entre setores do centrão e parlamentares associados ao bolsonarismo indica uma alteração qualitativa nesse padrão de alinhamento.

Essa aproximação não deve ser interpretada apenas como uma oscilação tática. Ela aponta para um deslocamento mais profundo na estrutura de incentivos que orienta o comportamento legislativo. Em contextos de presidencialismo de coalizão, como o brasileiro, a estabilidade institucional depende da capacidade do Executivo de coordenar maiorias por meio de barganhas previsíveis. Quando esse mecanismo se fragiliza, abre-se espaço para arranjos alternativos que podem prescindir — ou mesmo se contrapor — à liderança presidencial. 

A atuação de figuras como Davi Alcolumbre, nesse cenário, ilustra o fortalecimento de polos autônomos de poder no interior do Legislativo. A capacidade de influenciar ou mesmo bloquear decisões estratégicas do Executivo, como indicações ao STF, sugere uma redistribuição de poder que tensiona o equilíbrio entre os poderes. Ainda que formalmente prevista no desenho institucional, a rejeição de indicações presidenciais ao STF permanece um evento de baixa frequência histórica, o que amplifica seu significado político.

A convergência entre centrão e bolsonarismo, por sua vez, introduz um elemento adicional de complexidade. Trata-se da articulação entre um bloco tradicionalmente pragmático e uma corrente política marcada por forte componente ideológico e mobilização social. Essa combinação potencializa a capacidade de obstrução e redefine os termos da disputa legislativa, ao incorporar tanto recursos institucionais quanto capital político mobilizado fora do Congresso. As implicações desse rearranjo transcendem o plano legislativo imediato. Ao sinalizar dificuldades do Executivo em manter uma coalizão estável, esses movimentos afetam expectativas de atores políticos em diferentes níveis, incluindo governadores, prefeitos e candidatos em disputa nas eleições de outubro. A percepção de fragilidade governamental tende a incentivar estratégias de distanciamento ou alinhamento seletivo, enfraquecendo ainda mais a coesão da base aliada criada por Lula a partir da distribuição massiva de benesses. Do ponto de vista institucional, o risco que se delineia não é necessariamente o de uma ruptura abrupta, mas o de uma erosão incremental da governabilidade. A formação de maiorias ad hoc, desvinculadas de compromissos programáticos com o Executivo, pode levar a um padrão decisório mais volátil e menos previsível. Em situações-limite, esse tipo de dinâmica pode evoluir para impasses recorrentes entre os três poderes, configurando um ambiente de instabilidade institucional.

Finalmente, é importante situar esse processo no contexto mais amplo da polarização política brasileira, intensificada desde a tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. A aproximação entre centrão e bolsonarismo sugere que a clivagem ideológica não elimina, mas reconfigura, as lógicas pragmáticas de poder. O resultado é um arranjo híbrido, no qual interesses distributivos e agendas políticas mais radicalizadas passam a coexistir e, em certos momentos, a convergir. Nesse contexto, as eleições de outubro tendem a ser fortemente influenciadas não apenas por programas ou desempenho econômico, mas pela percepção de capacidade de governar. A reconfiguração em curso no Congresso, ao desafiar os mecanismos tradicionais de coordenação política, coloca em questão justamente esse atributo — com efeitos que podem se estender para além do ciclo eleitoral imediato.

Bolsonaro está se livrando de possíveis processos de impeachment, mas a conta será salgada

A eleição de seus aliados como presidentes do parlamento dá ao presidente Bolsonaro um impulso na corrida pela reeleição no próximo ano. Porém, a nova aliança com os partidos de centro-direita do Centrão não é grátis

bolso flagO presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, celebra cerimônia para abaixar a bandeira nacional do Brasil durante a noite, no Palácio da Alvorada, em meio ao surto da COVID-19, em Brasília, Brasil, em 15 de julho de 2020. REUTERS / Ueslei Marcelino

Por Thomas Spleen, Rio de Janeiro, para o  Neue Zürcher Zeitung

Quem quiser governar o Brasil deve, mais cedo ou mais tarde, aliar-se aos partidos do chamado Centrão, ou seja, os partidos de centro-direita. Politicamente, você sempre inclina a balança. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, sabe disso, porque nos trinta anos de sua carreira política foi membro de quase todos esses partidos em algum momento. O mais irônico é que ele jurou na campanha eleitoral de 2018 que a política do pós-xadrez típica do Centrão acabaria de uma vez por todas. Em vez disso, uma “nova política” começa com seu mandato, sem os partidos de centro-direita marcados pela corrupção.

Mas o mais tardar com a vitória dos dois deputados do Centrão Arthur Lira e Rodrigo Pacheco na eleição dos presidentes do Congresso na noite de segunda-feira, Bolsonaro finalmente voltou à rejeitada “velha política”. Ele já havia buscado e encontrado o apoio do Centrão nos últimos meses, quando foi duramente atingido devido à catastrófica corona política e ao envolvimento de seus filhos em diversos escândalos. Os votos deram-lhe uma minoria de bloqueio para evitar possíveis processos de impeachment.

64 pedidos de impeachment provavelmente irão desaparecer na gaveta

Isso só pode ser iniciado pelo presidente da Câmara dos Representantes. Este cargo está nas mãos do confidente do Bolsonaro, Arthur Lira, desde segunda-feira à noite. O advogado, cuja carreira política é orlada por denúncias de corrupção, provavelmente vai colocar na gaveta todas as 64 ações de impeachment contra o Bolsonaro que foram apresentadas até o momento. Ele também ajudará o presidente a finalmente aprovar sua agenda política no Congresso. Isso inclui leis mais flexíveis sobre a aquisição de armas e uma redução nas regulamentações ambientais. Rodrigo Pacheco também preside o Senado com um político do Centrão que enfrenta o Bolsonaro.

Mas o presidente brasileiro pagará caro por esse apoio. Nos últimos dias, ele teria cortejado os favores do Centrão com cargos importantes no governo e orçamentos extras generosos para os constituintes, conforme relatado por fontes internas. Para isso, ele agora terá de dispensar alguns de seus seguidores leais para abrir espaço para os novos amigos no gabinete. Sua promessa feita na eleição de 2018 de encher seu governo de especialistas e não de aliados foi quebrada para sempre.

A crescente influência dos novos aliados é devastadora para a  economia brasileira. Com a entrada do Centrão no governo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, pode ter que esquecer a liberalização da economia. Em vez de privatizar as empresas estatais não lucrativas, as posições mais lucrativas agora serão divididas entre os novos aliados. E nos discursos inaugurais dos dois novos presidentes do congresso na segunda-feira, dada a situação de pandemia ainda tensa, outra rodada de ajuda custosa contra a crise causada pelo coronavírus foi solicitada. O Brasil não pode pagar por isso.

Mas desde que a ajuda contra a crise causada pelo coronavírus expirou no final do ano, a popularidade do Bolsonaro diminuiu. Além disso, muitos cidadãos culpam o presidente pela falta de oxigênio para os pacientes da COVID-19 em algumas regiões e pelo lento início da vacinação. No meio da segunda onda corona, mais de mil brasileiros morrem todos os dias. Caso a luta contra a pandemia e, portanto, a recuperação econômica tenha sucesso, o “Centrão” pode servir de base para a reeleição de Bolsonaro no final de 2022. No entanto, os partidos do centro são muito sensíveis ao estado de espírito das pessoas. Se cair contra o Bolsonaro, os lados serão trocados durante a noite. A presidente de esquerda Dilma Rousseff teve recentemente essa experiência dolorosa. Ela foi destituída do cargo em 2016 pelo até então aliado Centrão.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo  Neue Zürcher Zeitung [Aqui!].