De volta para o futuro: ciclos de commodities e a concorrência da soja africana no mercado chinês

sojaA commodity da vez. Foto: Pixabay.

Por André Albuquerque Sant’Anna e Carlos Eduardo Frickmann Young

Todo país tem seus mitos fundadores. No nosso caso, o mito da abundância de recursos naturais se confunde com a própria identidade nacional. Afinal, somos os “brasileiros” – aqueles que extraíram o pau-brasil até o limite de sua quase extinção na Mata Atlântica¹.

Somos também a terra do “se plantando, tudo dá”. Diante da crença em tanta benevolência divina, não é de se estranhar que na literatura nacional desponte como herói o preguiçoso Macunaíma. Como se a complementar a extensão de terras, não houvesse o sangue e suor dos escravos, indígenas nativos e africanos sequestrados.

Voltando a “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, o livro traz o lema “pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são”. Chama a atenção que Mario de Andrade, participante do movimento modernista, concordasse com a ideia de Brasil como celeiro. Afinal, bastaria nos livrar das saúvas para que nossa agricultura mostrasse toda sua pujança. Ora, esse diagnóstico não deve surpreender, uma vez que o escritor cresceu em São Paulo, no auge do café.

Àquela época, o Brasil – e, sobretudo, São Paulo – vivia um boom econômico com o café. No entanto, assim como já vivera com a borracha, o algodão e a cana, esse ciclo se esgotou. Como se não houvesse aprendizado, a cada ciclo, o país expandiu a produção agrícola utilizando mais terra, sem compromisso com inovações que aumentassem a produtividade. Deitados em berço esplêndido, agricultores aproveitavam o virtual monopólio na produção mundial para auferir renda.

No entanto, as leis da economia vigoram: se há lucro econômico excessivo, haverá entrada de concorrentes no mercado. Como ocorrido antes, com o declínio dos engenhos litorâneos pela concorrência das plantações de cana de açúcar no Caribe, e como sucedeu de forma concomitante à expansão do café, com os seringais do Sudeste Asiático interrompendo a “era de ouro” da borracha amazônica.

Isso tudo serve de algum aprendizado? Pelo visto, é como a lição difícil que o aluno prefere ignorar, torcendo para que não caia na prova. Mas a história sempre se repete, como tragédia, farsa ou mero enfado, e o problema sempre volta à tona.

Na última semana de outubro, uma notícia passou quase despercebida do noticiário econômico: a China fechou acordo para importar soja da Tanzânia. O Ministério da Economia se apressou para afirmar que a diversificação de compradores por parte da China não afetaria o Brasil. De fato, no curto prazo, as exportações de soja da Tanzânia não representam grande perigo para os produtores brasileiros. Mas, e no longo prazo? Uma análise adequada deve fugir da miopia de só olhar para apenas alguns poucos meses à frente.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) produz informações sobre aptidão do solo para produção de soja. O Mapa 1 é baseado nas informações da FAO e considera a produtividade potencial na produção de soja pela aptidão do solo com alto nível de insumos (mecanização, aplicação de fertilizantes e agrotóxicos). As áreas mais claras representam as regiões com produtividade potencial mais alta para o cultivo da soja, incluindo as regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil. Os principais países competidores do Brasil nesse mercado global também estão nessa condição: Estados Unidos e Argentina. Como no Brasil, esses países conjugam alta produtividade potencial, investimentos e grande extensão de terras.

Mapa 1 – Produtividade potencial de soja com mecanização e utilização de fertilizantes e agrotóxicos. Fonte: FAO-GAEZ.

Porém, outras partes do planeta também possuem elevado potencial, mas ainda não desenvolveram o cultivo. O Mapa 2 mostra as áreas com maior produção efetiva de soja, e fica evidente que a África é a principal parte do mundo com largas extensões de terra com alto potencial de produção, mas com baixo aproveitamento produtivo. E isso não passou despercebido pela China.

Mapa 2 – Produção efetiva de soja, em 2018. Fonte: Our World in Data.

Deve-se recordar que a China criou, em 2013, a iniciativa conhecida como Belt and Road, pela qual realiza investimentos em infraestrutura em diversos países do mundo, sobretudo na Ásia e África. Nesse sentido, deve-se compreender a recente demanda chinesa pela soja tanzaniana como um passo geopolítico com vistas a garantir o suprimento futuro de soja a partir da África, sem depender da produção sul-americana.

A crescente reticência do atual governo brasileiro em relação ao seu principal parceiro comercial possivelmente ratificou a motivação para a China diversificar seus fornecedores de matérias primas. Esse movimento não deve se restringir à soja, e tende a afetar outras commodities que hoje dinamizam a balança comercial brasileira.

Como em um filme de roteiro previsível, corremos o risco de rever o mesmo final dessa história: a concorrência de outros países derruba o preço das commodities, a atividade entra em estagnação, mas a vegetação nativa destruída nesse processo jamais se recupera. Alteram-se os protagonistas (borracha, café, soja), mas o final é sempre o mesmo: boom de crescimento associado à depleção de recursos naturais, com o mesmo triste fim de alta desigualdade.

Não custa lembrar, o agro é pop e o pop não poupa ninguém.

Nota

[1] Uma divertida discussão sobre as possíveis da origem do nome “Brasil”, incluindo a mítica ilha de Hy Brazil e a história da extração de pau-brasil, é apresentada por Eduardo Bueno em https://www.youtube.com/watch?v=XPnOYnxU7lw

Foto de destaque: Colheitadeira em plantação de soja. Crédito: Charles Echer/Pixabay.

Autores

*André Albuquerque Sant’Anna é Pesquisador do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento (CEDE/UFF ) e do Grupo de Economia do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (GEMA/UFRJ).

**Carlos Eduardo Frickmann Young é economista, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

fecho

Este texto foi originalmente pelo site ((o))eco [Aqui!].

Minério de ferro ganhou o prêmio: pior commodity do ano!

Com queda de 50%, minério de ferro é pior commodity do ano

O minério de ferro termina 2014 como a pior commodity do ano. O preço caiu 50%, para o menor patamar desde 2009. Ontem, a tonelada matéria-prima do aço valia US$ 67,90, praticamente metade dos US$ 134,20 no último dia de 2013. O preço médio de 2014, que está pouco abaixo de US$ 100 por tonelada, é 26% inferior ao valor médio de 2013.
FONTE: http://www.valor.com.br/empresas/3839516/com-queda-de-50-minerio-de-ferro-e-pior-commodity-do-ano

Minério de ferro com preço da tonelada em queda livre

Um dado que não está na notícia abaixo, mas que ajuda a entender a enrascada em que estão as mineradoras que tem o minério de ferro a sua principal commodity tem a ver com o custo de produção por tonelada, que gira em torno de US$ 33-35 por tonelada molhada. Se o preço de mercado cair ao nível previsto pelo Citi, a Anglo American, que já não anda nada bem das pernas, vai sofrer já que estará operando numa faixa mínima de lucro. É que a Anglo American perdeu bastante, mas bastante mesmo, com aquisição do mineroduto Minas-Rio e as minas da MM(X) em Conceição do Mato Dentro.

E com situação de queda livre do preço do minério de ferro também ficará sob risco a viabilidade do Porto do Açu se a Prumo Logística não conseguir mudar o perfil do empreendimento para o setor de óleo e gás. A ver!

Citi diz que preço pode cair a US$ 50

O mercado está ficando cada vez mais pessimista com os rumos do minério de ferro, commodity dependente da China, o grande consumidor mundial. Ontem a equipe global de commodities do Citi divulgou relatório em que reduziu de US$ 80 para US$ 65 por tonelada as previsões para os preços médios do minério de ferro em 2015 e 2016. O banco previu, inclusive, que, em alguns momentos, o preço poderá cair para a casa dos US$ 50 por tonelada. A projeção, se confirmada, terá efeitos negativos sobre Vale, Rio Tinto e BHP Billiton, as maiores mineradoras mundiais.

FONTE: http://www.valor.com.br/empresas/3775748/citi-diz-que-preco-pode-cair-us-50#ixzz3IqXA8hIS

Vale: outra mineradora em dificuldades por causa da queda de preços e da China

SÃO PAULO – A sessão de quinta-feira (29) na Bovespa ficou marcada pela forte queda de 4% das ações da Vale (VALE3 ; VALE5 ), que chegaram ao 6º pregão seguido de perdas – acumulando queda de 8% nesse período -, levando-as para o menor patamar desde junho. Uma das empresas com maior participação no Ibovespa vivencia um momento completamente diferente do índice, que superou recentemente os 61 mil pontos após 18 meses. Nesse cenário, fica a pergunta: o que acontece com a Vale naBovespa?

Enquanto as estatais Petrobras (PETR3 ; PETR4 ) e Eletrobras (ELET3 ; ELET6 ) disparam com as expectativas dos investidores por uma mudança de governo, já que se estão descontentes com a atual política intervencionista de Dilma, a mineradora amarga queda de 17% no ano, sendo 10% apenas neste mês. Segundo o analista da Ativa Corretora, Lenon Borges, o problema não está na empresa, mas no ambiente ao qual ela está exposta. 

Borges explica que é complicado afirmar que os investidores estão “trocando” a Vale por ativos mais expostos às ao noticiários eleitoral tentando buscar um retorno rápido de investimento. Embora ele argumente que não há como provar essa tese, ela mostra-se bem possível já que a Bolsa neste momento não está seguindo nenhum fundamento, apenas as especulações políticas – na prática: como o dinheiro não é infinito no mercado, os investidores posicionados em Vale estão se desfazendo dessa participação e migrando para as empresas mais expostas ao “rali eleitoral”.

ferro

“Nós acreditamos que mesmo com um ambiente pouco favorável, a Vale está mostrando uma boa gestão, mas o efeito da queda do preço do minério de ferro e sua exposição à China está afastando os investidores”, explica o analista. Nos últimos dias, a commodity renovou sua mínima em dois anos, mostrando perda de um terço de seu valor apenas neste ano. 

Para o bem ou para o mal, a Vale é exposta demais ao mercado de minério de ferro, sendo que aproximadamente 50% da receita da companhia se refere à este segmento, ou seja, é inevitável que com o preço baixo da commodity a empresa será muito prejudicada. “Porém, a companhia tem se mostrado muito segura e com movimentos assertivos, caso do aumento de exposição ao mercado japonês, em detrimento do chinês, para tentar compensar este cenário pior por lá”, destaca Borges.

Segundo ele, a visão da empresa em si ainda é muito positiva. “Ela tem se mostrado sólida em entregar resultados pelo menos em linha com o esperado, mesmo com as dificuldades do mercado”, diz Borges. Por outro lado, o analista ressalta que para o médio prazo, o preço do minério de ferro e o ambiente mais fraco na China devem pesar para os papéis, que ainda tem
espaço para quedas.

FONTE: http://www.infomoney.com.br/vale/noticia/3546303/dias-queda-horizonte-nebuloso-mercado-desistiu-das-acoes-vale

Assim caminha a ciência produto-orientada!

fifty-shades-of-fraud

Fraude em tese premiada

Acusado de falsificar dados e imagens, Nitin Aggarwal, pesquisador da área de cardiologia que estudou e trabalhou na Universidade de Wisconsin-Madison, entrou em acordo com o Escritório de Integridade Científica dos Estados Unidos e aceitou ter seu trabalho supervisionado pelos próximos três anos, além de se abster de participar de comitês de avaliação de agências de fomento norte-americanas pelo mesmo período. Aggarwal, que hoje trabalha numa empresa farmacêutica, admitiu ter manipulado imagens de testes western blot, falsificado dados estatísticos para dar lastro às imagens manipuladas e mentido sobre o número de ratos usados numa experiência – foi apenas um, e não quatro, como informou nos trabalhos. A fraude atingiu dois artigos, projetos de pesquisa submetidos a duas agências e até a tese apresentada ao Medical College of Wisconsin em 2008 que serviu como requisito para obter o Ph.D. e lhe rendeu um prêmio de US$ 1.000. Os artigos com imagens falsas não foram alvo de retratação, assim como o Ph.D. permanece válido. Um porta-voz do Medical College of Wisconsin informou que um comitê de investigação encontrou dados suspeitos, mas eles não comprometem as conclusões. Por conta do episódio, a instituição discute novas normas para revogação de títulos acadêmicos.