Dossiê é lançado para dar embasamento científico à disputa política sobre agrotóxicos na arena legislativa

monocultura

Foto: Chris Ensminger/Unsplash

Nesta terça-feira (06), foi lançado o “Dossiê Contra o pacote do Veneno e em Defesa da Vida“, no quarto e último encontro da Mobilização Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.  Este dossiê sintetiza um conjunto de estudos e análises técnico-científicas e é resultado de um processo de cooperação entre a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a  Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida,  Instituto Ibirapitanga, Patrícia Canto e pela FIOCRUZ.

dossie agrotóxicos

O dossiê relata as diversas manobras do Congresso Nacional nas tentativas de aprovar o “Pacote do Veneno” ou Projeto de Lei n.o 6.299/2002 e analisa e denuncia as propostas perversas do agronegócio e das indústrias agroquímicas e seus aliados no Executivo e Legislativo, no sentido de aumentarem ainda mais a venda e o uso de agrotóxicos, consequentemente, ampliando a intoxicação da vida (vegetal, animal e ambiental) no território brasileiro.

Mas o dossiê também apresenta alternativas para enfrentar o modelo agrícola hegemonico, mostrando práticas e trazendo propostas baseadas na produção agroecológica, de caráter coletivo, democrático, de
promoção da vida e produção de alimentos saudáveis. Estes itens estão contidos na Política Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos ou PNARA ou Projeto de Lei n.o 6.670/2016,  que são defendidos no Dossiê.

Quem desejar baixar o arquivo contendo este importante dossiê, basta clicar [Aqui!].

Demanda global por soja pressiona Pantanal, maior pantanal selvagem do Brasil

pantanal

  • A demanda global por soja viu a produção anual da safra no Brasil subir de 30 milhões de toneladas em 2000 para 125 milhões de toneladas hoje. A maior parte dos agroquímicos consumidos no Brasil é utilizada nesta cultura.
  • A cultura da soja também responde pela maior parte dos agroquímicos usados ​​no Brasil, e a atividade agrícola concentrada no estado de Mato Grosso agora está vendo esses produtos químicos serem lavados rio abaixo até o Pantanal.
  • Maior planície de inundação do planeta, o Pantanal é relativamente intocado pela agricultura, com apenas 0,01% de sua área ocupada por fazendas de soja.
  • Cientistas mostraram que os cursos de água que alimentam o Pantanal estão contaminados e assoreados, e que os peixes estão escasseando em alguns locais.
Por Fernanda Wenzel , Naira Hofmeister , Pedro Papini/ Traduzido para o inglês por Maya Johnson

O anzol que Lourenço Pereira Leite lança no rio Paraguai atrai cada vez menos pintados , cacharas e pacus com o passar dos dias. Essas espécies nativas de peixes sustentaram sua família por muitas gerações, mas nenhuma das habilidades que aprendeu pescando no Pantanal com seu pai e avô o ajudou a evitar as embalagens vazias de agrotóxicos que aparecem em suas armadilhas em vez de peixes. “Isso tem que vir de montante, porque não há grandes fazendas por aqui”, diz ele.

Sua observação resume a encruzilhada em que se encontra este bioma brasileiro: apenas 0,01% do vasto Pantanal selvagem foi transformado em fazendas de soja, mas a área úmida tornou-se um enorme depósito para os resíduos de agroquímicos que lavam das terras agrícolas ao norte do rio. planaltos do estado de Mato Grosso. A crescente demanda internacional por soja fez com que as fazendas invadissem áreas preservadas e empurrou os campos de soja para mais perto das nascentes que alimentam o Pantanal.

No ano passado, o bioma passou por uma queimada histórica que atingiu 30% da região e chamou muita atenção da imprensa internacional – a exemplo dos incêndios de 2019 na Amazônia – com foco na inércia do governo federal em proteger seu patrimônio natural. Mas, na realidade, a região está sofrendo em silêncio há muito mais tempo. Os poluentes viajam rio abaixo, ameaçando uma das poucas regiões naturais do Brasil ainda bem preservada da atividade humana.

Lourenço Leite pesca no município de Cáceres, no sudoeste de Mato Grosso, porta de entrada para o bioma reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial . A água que rege a vida do Pantanal passa pelo local onde ele lança seu fio. As chuvas que caem ao norte, na planície mato-grossense, fazem subir as nascentes dos rios Paraguai, Sepotuba e Cabaçal. Essa abundância de água desce para Cáceres, de onde forma a maior planície alagável do planeta , habitada por espécies raras e ameaçadas de extinção, como onças, tamanduás-bandeira e tatus gigantes.

Em condições naturais, essa água carregaria apenas a matéria orgânica que serve de alimento para os peixes e fertilizante para as plantas. Mas hoje também traz consigo os produtos químicos que vazam das fazendas de soja. Nos últimos 30 anos, a produção de soja do Brasil aumentou seis vezes, de 20 milhões de toneladas métricas por ano para 125 milhões de toneladas hoje, a maioria das quais é cultivada em Mato Grosso . O estado é o maior produtor de soja do Brasil, que por sua vez é o maior fornecedor mundial do grão .

“O Planalto Mato Grosso faz parte do Planalto Central”, diz Débora Calheiros, bióloga da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) do Ministério da Agricultura. A região é considerada o reservatório de água do Brasil por abrigar as nascentes das principais bacias hidrológicas do país. Além da Bacia do Alto Paraguai que forma o Pantanal, outras quatro grandes bacias têm origem aqui: a Amazônia, a São Francisco, a Paraná e a Araguaia / Tocantins, diz Calheiros, que também trabalha no Ministério Público Federal e tem se dedicado sua trajetória na compreensão do impacto do uso de agroquímicos no ecossistema da região.

“O Pantanal é uma espécie de buraco”, diz Nilza da Silva, pescadora de Cáceres. “Nós estamos aqui embaixo e eles plantam soja em cima. Quando as chuvas vêm, para onde flui a água? Descendo a ladeira até aqui.

“O centro de Cáceres fica na margem do rio”, acrescenta Nilza. “Ela costumava ser um buraco muito profundo pesca onde poderíamos até mesmo pegar jaú ” – o bagre dourada, uma das maiores espécies de peixes nativos do Brasil, que pode atingir comprimentos de 1,5 metros. “Hoje em dia, na estação seca, você pode atravessar o rio com água abaixo dos joelhos por causa de todo o lodo. E quase não há peixes ”, diz Nilza.

Um grupo de pesquisadores que monitoram o bem-estar do Pantanal concluiu que o assoreamento que ela descreve é ​​o resultado de um aumento de 200% dos depósitos de sedimentos no Pantanal nas últimas três décadas , número que cresceu junto com o crescimento da agricultura em altitudes mais elevadas.

A planície de inundação do Pantanal foi quase totalmente preservada do agronegócio. Apenas 16% de sua área é dedicada à atividade agropecuária, principalmente à pecuária. É uma imagem diferente das altas planícies, onde 60% da terra foi retomado pelo agronegócio e onde brasileiros maiores municípios produtores de soja, também líderes nacionais no uso de  agrotóxicos , estão localizados. As planícies também abrigam as nascentes dos rios que alimentam o Pantanal.

A soja não é nativa do Brasil e hoje é cultivada em fazendas de monocultura que requerem grandes volumes de inseticidas e herbicidas para manter as pragas afastadas. Por isso, embora represente 42% da área plantada no Brasil, a soja responde por mais de 60% do uso de agroquímicos no país – um coquetel de mais de 450 fórmulas químicas diferentes, a maioria considerada tóxica para o homem ou prejudicial à natureza, de acordo com a Agência Nacional de Saúde e o Ministério do Meio Ambiente.

Os olhos do mundo no Brasil

Das 125 milhões de toneladas de soja que o Brasil produziu em 2019-2020, apenas um terço ficou no país. A maior parte da produção é exportada para servir de ração para bovinos, aves e suínos , que por sua vez são abatidos para alimentar a crescente população do planeta.

A China é o maior cliente de soja do Brasil . As exportações também atingem toda a Europa, com volumes particularmente elevados na Holanda, Espanha e França.

A Noruega, principal doador do Fundo Amazônia que visa proteger a floresta tropical contra o ataque de ameaças como a agricultura, atualmente importa 328.000 toneladas de soja por ano, pelo menos 70% dos quais vêm do planalto de Mato Grosso. Também importa outras 278.000 toneladas na forma de proteína de soja, para usar em suas fazendas de salmão, de acordo com a Statistics Norway.

É uma pequena parcela da produção total do Brasil (cerca de 0,5%), mas representa 86,3% de toda a soja importada por um país que continua pressionando o Brasil a cuidar do meio ambiente por meio do Fundo Amazônia.

A Noruega também pressionou importadores e empresas a adotarem um método de certificação rigoroso para a soja brasileira que entra no país , incluindo uma lista de agrotóxicos proibidos . Ele exige que a origem do produto seja rastreada para evitar qualquer associação com o desmatamento e garantir que os grãos não venham de plantações geneticamente modificadas. Mas do ponto de vista social e ambiental, a soja convencional não difere muito da soja transgênica , pois ambas são cultivadas em extensas monoculturas com uso de agrotóxicos. A única exceção é o uso do herbicida glifosato, que, dependendo de como é aplicado, pode matar a soja convencional . Por esse motivo, ele é usado com menos frequência.

Segundo a plataforma da Trase , seis municípios são os principais fornecedores de soja integral para a Noruega: Sapezal, Diamantino, Nova Ubiratã, Campo Novo do Parecis, Campos de Júlio e Tangará da Serra. Essas cidades – que também exportam para China, Holanda, Turquia, Tailândia, Reino Unido, Arábia Saudita, México e Cuba – estão todas localizadas no planalto de Mato Grosso, região de grande importância ambiental.

Um rio envenenado na nascente

A 200 km, cerca de 120 milhas, a norte de onde Lourenço Leite vai pescar, é um local onde a água escorre do solo em pequenas nascentes cristalinas que formam sete lagos. Esta é a nascente do rio Paraguai . A partir daqui, a água flui por 2.600 km (1.600 mi), através da Bolívia e do Paraguai, antes de se derramar no mar da Argentina junto com o rio Paraná.

Ao longo do caminho, forma as curvas sinuosas que compõem as vistas panorâmicas muitas vezes associadas ao Pantanal brasileiro. Mas dos sete lagos originais, apenas três ainda retêm água, e um deles está perigosamente baixo. “Estão desaparecendo por causa da falta de vegetação e da quantidade de soja e pecuária nas proximidades”, diz Jacildo de Siqueira Pinho, biólogo da secretaria estadual de saúde. “Quem sobrevoa a região vê apenas monocultura. Eles removeram quase toda a vegetação ao redor dos lagos. ”

Foto 1 (canto superior esquerdo): Quatro dos sete lagos dentro da Área de Proteção Ambiental das Cabeceiras do Rio Paraguai secaram devido ao assoreamento; Foto 2 (canto superior direito): Pesquisadores da UFMT coletam amostras de água para verificação de contaminação por agroquímicos; Foto 3 (embaixo à esquerda): Apesar de seu uso proibido, os agroquímicos são usados ​​indiscriminadamente dentro da EPA; Foto 4 (embaixo, à direita): 40% da vegetação nativa da área de conservação foi substituída por soja, milho e pecuária. Todas as imagens de Jacildo de Siqueira Pinho.

O Código Florestal do Brasil torna obrigatória a conservação das matas ciliares no entorno dos mananciais. Isso significa que na nascente do rio Paraguai, uma área maior do que a capital da Noruega, Oslo, está ostensivamente sob proteção. Conhecida como Área de Proteção Ambiental da Nascente do Rio Paraguai (APA), abrange 77.743 hectares (192.107 acres) e abrange os municípios de Alto Paraguai e Diamantino. Este último é um dos seis principais exportadores de soja para a Noruega.

Todas as atividades que agridem o meio ambiente são proibidas pela EPA, principalmente aquelas que ameaçam os mananciais, e o uso indiscriminado de agroquímicos não é tolerado. Apesar disso, 40% da vegetação nativa dentro da EPA foi desmatada para fazendas de soja e milho e pastagem de gado.

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Entre os poderosos proprietários de terras da APA estão o grupo pecuarista argentino Telhar e Gilmar Mendes, um juiz do Supremo Tribunal Federal que já foi comparado por um colega a um chefe do crime organizado. O Ministério Público do Estado de Mato Grosso não tem conseguido processar com sucesso nenhum dos agentes agrícolas da região.

Os promotores ajuizaram 19 ações cíveis contra várias partes em provas que incluíam um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) mostrando vestígios de pelo menos 10 agroquímicos em amostras de água, sedimento de rio e até solo de dentro da APA da nascente do rio Paraguai. Mas não venceram em nenhuma das ações, nem conseguiram um acordo com os fazendeiros para reduzir a quantidade e a toxidade dos agrotóxicos que utilizam em suas lavouras. Em vez disso, foi o procurador da comarca de Diamantino, Daniel Zappia, que acabou sendo alvo de um processo administrativo do CNMP , a mando de um dos fazendeiros investigados: o ministro Mendes.

“Já provamos que os agroquímicos usados ​​nas cabeceiras chegam aos rios Pantanal e que todos os estuários do bioma estão contaminados”, diz o biólogo Calheiros, que liderou o estudo da UFMT que encontrou vestígios de agroquímicos na unidade de conservação.

Uma das toxinas encontradas pelos pesquisadores da UFMT é a atrazina, herbicida proibido na União Europeia desde 2004 e que nos anos 1990 levou ao fechamento dos sistemas de abastecimento de água na Itália após a identificação de altas concentrações do produto.

A atrazina em humanos causa irritações na pele, olhos e sistema respiratório. Esses mesmos sintomas vêm aumentando entre os moradores de Cáceres ao longo do baixo rio Paraguai, segundo Claudia de Pinho, coordenadora da Rede Cáceres de Comunidades Tradicionais do Pantanal. “Algumas comunidades reclamam muito de doenças de pele. Isso piorou ainda mais após a queima de 2020 ”, diz ela. Na APA da Fonte do Rio Paraguai, os incêndios florestais de 2020 afetaram 70% da área protegida.

“O desmatamento que ocorre em altitudes mais elevadas envia sedimentos pelos rios para a planície de sedimentos, que é o Pantanal”, diz Solange Ikeda, uma das fundadoras do Instituto Gaia , uma ONG de Cáceres que trabalha pela proteção do Pantanal. “Isso reduziu o nível da água e, aqui, alguns centímetros a menos de água já impacta a biodiversidade, que é controlada pelo pulso de inundação.”

No entanto, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso (SEMA) minimizou as conclusões do relatório da UFMT, dizendo que “não demonstrou que os limites legalmente estabelecidos foram ultrapassados” e que “a legislação não inclui limites para muitos dos [ produtos químicos] listados no relatório. ” Na verdade, o limite aceitável do Brasil para os níveis de glifosato na água é 5.000 vezes maior do que na Noruega e na União Europeia.

Impacto no fundo da bacia

O modo de vida dos moradores do Pantanal mudou com a qualidade da água: já se foi o tempo em que uma pessoa podia matar a sede simplesmente se inclinando na lateral de sua canoa. “Não podemos mais beber do rio porque nos dá diarreia e vômito. Hoje em dia, quando vou pescar, tenho que levar uma garrafa de água mineral ”, diz Lourenço Leite, o pescador de Cáceres. Mas, uma vez que os sintomas que ele descreve surgem tão comumente de casos de envenenamento agudo por agrotóxicos quanto de infecção por parasitas e bactérias que podem ser encontrados na água, é difícil atribuir a culpa.

Mas foi demonstrado que os agroquímicos fluem das planícies altas para a bacia inferior. Um estudo de 2014 verificou a presença de sete dessas substâncias na Bacia do Rio Cuiabá, que também abastece o Pantanal. Segundo os autores, “atos realizados na alta bacia podem impactar diretamente o Pantanal”. As evidências chamaram a atenção de cientistas do exterior, e agora uma equipe de pesquisadores do Brasil, Argentina e Reino Unido está trabalhando no assunto. Eles ainda não divulgaram suas descobertas.

Pescador tradicional do rio Paraguai no município de Poconé, MT. Imagem de André Dib.

Um estudo de 2008 , liderado por Débora Calheiros e três outros pesquisadores, mostrou a presença de quatro agrotóxicos, alguns deles usados ​​em fazendas de soja, em amostras de água do Pantanal. Como o cultivo da soja ainda é uma atividade nova no bioma, isso reforça a hipótese de contaminação da bacia hidrológica.

O agronegócio vem avançando nas fronteiras do Pantanal em um ritmo lento, mas constante . Em 1985, a atividade agropecuária ocupava cerca de 4% do bioma. Hoje, esse número é de 16%, principalmente a pecuária. A soja é responsável por 0,01% do uso da terra no Pantanal. Mas a pressão para abrir novas terras para a agricultura aumentou significativamente na última década porque a demanda excede a capacidade das fazendas existentes, embora a produtividade tenha aumentado desde os anos 1980.

“A soja começou a surgir no Pantanal há dez anos”, diz Clovis Vailant, do Instituto Gaia. “As fazendas já ocupam toda a planície da fronteira com o Paraguai e a Bolívia, de onde vem se espalhando de oeste para leste. O Pantanal está bem no caminho desse crescimento, é a última barreira. ”

A agricultura já chegou a Cáceres e a Poconé, a cerca de 180 km de distância. “Já estávamos sentindo o impacto da agricultura na bacia alta e agora há plantações de soja no Pantanal”, diz Claudia de Pinho, da Rede Cáceres. “Isso nos deixa ainda mais preocupados com a contaminação, porque ela está acontecendo ainda mais perto das comunidades tradicionais. Temos comunidades em Poconé que estão tendo dificuldade em manter suas hortas vivas. Os vegetais morrem porque o vento traz pesticidas das áreas circundantes e os impacta diretamente. ”

De acordo com as projeções dos cientistas , se o crescimento das fazendas continuar neste ritmo, o agronegócio terá substituído a vegetação nativa em uma área de 1,4 milhão de hectares (3,5 milhões de acre) da Bacia do Alto Paraguai até 2050, e a quantidade de agrotóxicos usados na região aumentará em 4,3 milhões de litros (1,1 milhão de galões) por ano – o equivalente a duas piscinas olímpicas cheias de agroquímicos tóxicos. O efeito de tudo isso em grandes altitudes não será grande: representaria um aumento de 7% sobre o volume de agroquímicos usados ​​hoje. Mas nas planícies do Pantanal, onde hoje há pouco uso de agrotóxicos, o aumento pode chegar a 50%.

Bando de andorinhas-do-mar (Phaetusa simplex) nas margens do rio Cuiabá no município de Poconé, Mato Grosso. A relação entre os recursos hídricos e a biodiversidade é muito importante no bioma Pantanal e a poluição da água devido aos agroquímicos pode resultar em um desequilíbrio geral. Imagem de André Dib.

Resíduos também chegam à Amazônia

Dos seis municípios brasileiros que mais exportam soja integral para a Noruega, quatro estão entre os maiores usuários de agroquímicos do Brasil . Segundo dados de 2015, estudo de Wanderley Pignati, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso que se tornou a autoridade brasileira em agroquímicos. Há evidências de defeitos de nascença em crianças, mostra o trabalho de Pignati. Ele também observa que as taxas de câncer em crianças da região são superiores à média nacional e as hospitalizações por intoxicações graves são frequentes.

Três outros estudos de 2016 e 2017 mostram que a contaminação por agroquímicos atingiu municípios que ficam na bacia do rio Juruena, que deságua no Tapajós, ele próprio afluente do rio mais poderoso de todos aqui: o Amazonas.

Nos municípios de Sapezal, Campo Novo do Parecis e Nova Ubiratã, os moradores estão consumindo água, peixes, frutas e verduras comprovadamente contaminados por toxinas das fazendas. Nem mesmo os poços artesianos que abastecem as escolas são seguros.

Como a complexa hidrografia da Amazônia é bastante extensa, o efeito das toxinas se dilui, e é difícil provar que elas chegam à floresta. Mas a bióloga Débora Calheiros afirma que a contaminação é real.

“Por ser crônica, a contaminação se espalha. O ingrediente ativo se decompõe após entrar no sistema de água, mas os compostos resultantes dessa decomposição são às vezes mais tóxicos do que o ingrediente ativo. Quem mais sofre são as pessoas que dependem dessa água e dos peixes ”, afirma.

Muita soja, mas comida insuficiente

Além de comprometer a qualidade da água de dois biomas fundamentalmente brasileiros, o sistema de produção de commodities em larga escala também representa uma ameaça à segurança alimentar das populações locais.

Um estudo de 2019 mostrou que os moradores dos municípios de Campo Novo do Parecis, Sapezal e Campos de Júlio obtêm alimentos em outros estados porque é quase impossível cultivar alimentos em uma região onde 98% das terras são dedicadas ao cultivo de culturas comerciais como soja e milho.

Não há espaço suficiente para cultivar frutas e vegetais, ou para criar galinhas e porcos, ou para criar vacas leiteiras. Quem tenta produzir alimentos nesses municípios sofre com a deriva de agroquímicos, fenômeno do vento que leva as toxinas para propriedades vizinhas.

Quase metade das fazendas nesses municípios tem mais de 1.000 hectares (2.500 acres) e são mantidas por apenas alguns proprietários, então o impacto de pulverizar as monoculturas com agroquímicos é grande. “As nuvens de veneno não chegam apenas ao seu alvo (plantas e pragas), mas atingem também os trabalhadores da fazenda e, indiretamente, o ar, o solo e a água, as pessoas que ali vivem, os animais e outras plantas do entorno”, afirma. para o estudo de 2019 .

Este se tornou um dos desafios do dia a dia para os pequenos agricultores agrupados sob a CEIBA, a Associação de Agricultores Familiares do Assentamento Caeté, em Diamantino – um dos principais municípios usuários de agrotóxicos no Brasil e um importante fornecedor de soja para a Noruega.

O CEIBA é formado por cerca de 15 famílias que buscam produzir alimentos com pouco ou nenhum agroquímico. Suas fazendas confinam com os campos de soja, o que exige um esforço extra para proteger os pomares e as hortas dos assentamentos. “Plantamos árvores ao longo das propriedades e do lado que tem soja plantamos mandioca”, diz o agricultor Ruseveth Marques Martins. Eles escolheram a mandioca porque suas folhas se erguem a mais de um metro (3 pés) do solo, formando uma barreira natural contra a deriva; a parte comestível da planta cresce no subsolo, protegida da contaminação do ar.

A deriva compromete a saúde de alunos de escolas próximas às fazendas de soja e mesmo de residentes em áreas urbanas desses municípios. A bióloga Lucimara Beserra identificou resíduos de agrotóxicos na água usada em quatro escolas de Campos de Júlio, Sapezal e Campo Novo do Parecis. “Quem mora aqui está acostumado a ver os aviões jogando veneno”, diz Mauro Flávio de Souza , professor de uma escola da zona rural de Campos de Júlio. “Você pode sentir o cheiro no ar. Se uma pessoa tem algum tipo de alergia a agroquímicos, ela tem que sair da cidade ”.

Pesquisa é tabu na terra dos agrotóxicos

Em 2017, o consumo brasileiro de agrotóxicos foi três vezes maior que a média mundial. Então, só em 2020, o governo do presidente Jair Bolsonaro aprovou o uso de outros 493 agrotóxicos – uma média de quase 10 por semana. Um relatório publicado este ano pelo Parlamento Europeu alerta que um terço dessas substâncias contém ingredientes ativos proibidos ou restritos para uso dentro da UE.

Mas os cientistas brasileiros não podem se mover tão rápido quanto os aviões que lançam os agroquímicos nos campos. “Precisamos de uma rede de laboratórios credenciados, validados e certificados no Brasil para estudar os resíduos de agroquímicos na água, na chuva, na terra, no ar, no sangue, na urina e no leite materno, assim como fazemos na alimentação ”, Afirma Wanderley Pignati, da Universidade Federal de Mato Grosso.

Foi apenas em 2015 que Mato Grosso, estado que mais utiliza agrotóxicos no Brasil, inaugurou seu primeiro laboratório para identificar resíduos de glifosato, o herbicida usado na cultura da soja e que é o mais vendido no Brasil .

Graças a uma parceria com o Ministério Público do Trabalho, o laboratório da universidade federal conseguiu adquirir novos equipamentos. Ainda está em fase de teste para uso devido a atrasos relacionados à pandemia.

Enquanto isso, a universidade conseguiu identificar a presença de 15 princípios ativos, uma fração dos 504 princípios ativos aprovados para uso no Brasil, segundo estudo da pesquisadora Larissa Bombardi .

Por enquanto, a logística de testar qualquer amostra da região para a presença de agrotóxicos significa que ela deve ser enviada à Fiocruz, instituto de pesquisas em saúde pública do Rio de Janeiro, ou percorrer mais de 2.000 quilômetros até Santa Maria Federal Universidade do Rio Grande do Sul. Mesmo assim, ambas as instituições têm capacidade limitada de detecção de glifosato, por exemplo.

O atual mal-estar econômico complica ainda mais as coisas. Os fundos estaduais e federais foram cortados em 80% nos últimos anos, enquanto as bolsas de pesquisa e pós-graduação foram cortadas pela metade. “Nossas instituições parceiras, como o Ministério Público, estão direcionando todos os seus recursos para o combate à pandemia”, diz Pignati.

Os obstáculos não são apenas técnicos e econômicos. Especialistas que pesquisam os efeitos do uso de agrotóxicos no Brasil podem receber ameaças de morte e até serem forçados a deixar o país. Foi o que aconteceu com Larissa Bombardi, autora de um dos estudos mais completos já produzidos sobre o tema.

Em carta aberta que enviou aos colegas da Universidade de São Paulo no dia 3 de março de 2021, Bombardi revelou que havia sido intimidada após a publicação de seu trabalho.

“Em junho de 2019, recebi recomendações de lideranças de movimentos sociais para que eu fizesse diversos rumos e variasse minha agenda para que minha rotina ficasse mais difícil de rastrear e para que eu ficasse mais protegido de possíveis ataques dos setores econômicos envolvidos no tema ao qual dediquei meu trabalho ”, escreveu ela.

Para a Bombardi, a gota d’água foi em agosto de 2020, quando agressores invadiram sua casa. Eles a trancaram no banheiro e levaram seu computador, onde ela salvou todos os seus dados de pesquisa. “[Um] parente perguntou-me se a agressão pode ter tido a ver com o meu trabalho. Todo mundo sabe que eu não salvo meus arquivos na nuvem. Sinceramente, essa hipótese nem passou pela minha cabeça no dia do ataque. E eu realmente não tenho ideia se isso estava relacionado ao meu trabalho. É possível que não tenha sido. Mas eu nunca saberei ”, disse Bombardi antes de deixar o Brasil para morar na Europa.

Imagem do banner: Vista aérea do Parque Nacional do Pantanal, no estado de Mato Grosso, e do rio Paraguai na divisa entre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com a Serra do Amolar ao fundo. Imagem de André Dib. 

Este relatório foi financiado pela Future in our hands e publicado pela primeira vez em português em ((o)) eco .

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Esta texto foi publicada em inglês pelo site Mongabay [Aqui!].

As estratégias de guerra da Syngenta para calar cientistas que investigavam os riscos causados por seus agrotóxicos

Entrevistamos dois cientistas que avisaram a multinacional sobre os perigos dos pesticidas Atrazina e Paraquate, líderes de venda

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Por Pedro Grigori, Agência Pública/Repórter Brasil

Quando um Tribunal dos Estados Unidos tornou públicos arquivos usados em processos da Syngenta, líder do mercado mundial de agrotóxicos, o público teve um vislumbre de até onde a multinacional vai para manter seus valiosos (e perigosos) produtos no mercado. E o que ela se presta a fazer: atacar a ciência e os cientistas.

“Aqueles que têm o privilégio de saber têm o dever de agir”, disse  parafraseando Albert Einstein o biólogo e professor da Universidade da Califórnia Tyrone Hayes, que foi alvo de uma campanha de perseguição da empresa, em entrevista à reportagem. 

“O problema é que a empresa era dirigida por comerciantes interessados ​​apenas no lucro. Se eles tivessem ouvido toxicologistas, não estariam nesta posição muito difícil tentando defender os erros cometidos no passado”, diz o cientista britânico Jon Heylings.

Agência Pública e Repórter Brasil tiveram acesso e-mails, documentos internos, anotações e atas de reuniões apresentadas no processo e conversaram  com Heylings e outro cientista  que protagonizaram disputas durante décadas com a empresa suíça, e explicam como a gigante dos pesticidas ignorou evidências científicas para continuar lucrando. 

Alertando sobre a Atrazina

Por mais de uma década, Tyrone Hayes, dizia estar sendo perseguido pela Syngenta, alegando que a multinacional ouvia suas ligações, monitorava suas palestras e trabalhava para desmoralizá-lo. Ninguém  acreditava nele.

 A história teve início em 1997. A Novartis Agribusiness, uma das empresas que mais tarde formariam a Syngenta, contratou o biólogo para fazer experimentos com o herbicida Atrazina. O produto é o principal agrotóxico utilizado nas plantações de milho dos Estados Unidos. É também o quinto agrotóxico mais vendido no Brasil, com 23,4 mil toneladas comercializadas em 2019, segundo o Ibama. 

O objetivo da pesquisa de Hayes era identificar os efeitos da Atrazina em anfíbios, área de expertise do cientista, que na época tinha 31 anos e mais de 20 artigos publicados sobre endocrinologia de anfíbios. Hayes descobriu que a Atrazina poderia retardar o desenvolvimento sexual de sapos. O resultado desagradou a Novartis, que o proibiu de publicar o estudo.

Com isso, Hayes decidiu deixar a empresa em novembro de 2000. Ele conseguiu um novo financiamento, concluiu o trabalho e publicou estudo revelando que a Atrazina cria sapos hermafroditas.

Em entrevista à reportagem, Hayes conta que desde os primeiros testes no laboratório era possível ver como a Atrazina atingia os espermatozoides dos sapos africanos com garra, anfíbio usado nos experimentos. “Mostrei os resultados para a EPA [Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos] porque achei que eles estariam interessados, já que é o produto número um em vendas. Mas eles disseram que não era um ‘efeito adverso’ que os forçaria a reavaliar aquele produto químico”, diz. 

Então Hayes decidiu ir mais fundo, agora trabalhando com outros cientistas para identificar o efeito do agrotóxico em humanos. Ao comparar a urina de homens de Columbia, nos Estados Unidos, que tiveram contato com Atrazina, o novo estudo  identificou baixa contagem de espermatozóides em um nível que traria dificuldades para a reprodução. “O nível de Atrazina na urina desses homens era a mesma que usávamos para castrar quimicamente os sapos do nosso experimento”, explica.

Em uma nova fase da pesquisa, mediram o nível do pesticida na urina de homens que trabalhavam em plantações na Califórnia aplicando atrazina . Os resíduos detectados foram 24 mil vezes maiores do que o dos homens de Columbia. “Um trabalhador desses poderia fazer xixi em um balde e diluir 24 mil vezes, e mesmo assim a Atrazina na sua urina poderia ser usada para castrar quimicamente girinos”, diz o cientista. 

Esse trabalho é o motivo da perseguição da Syngenta, segundo o biólogo. Na época, ele se sentiu distante de outros cientistas e sentia que a empresa tentava isolá-lo. Em 2010, a multinacional entrou com uma queixa de ética contra Tyrone Hayes  na Universidade da Califórnia, Berkeley. O motivo era a criação de um site contrário a Atrazina e e-mails de reclamações que o cientista enviou à empresa. A queixa de ética foi considerada sem mérito. 

A situação só mudou em 2013, quando uma reportagem do site Environmental Health News em parceria com a organização 100 Reporters revelou documentos internos detalhando uma campanha cara e agressiva contra cientistas, que incluía até a contratação de detetives e profissionais para traçar o perfil psicológico dos perseguidos. E o principal alvo era Tyrone Hayes.

Memorandos provavam que o departamento de comunicação da Syngenta havia criado um grupo de trabalho na empresa para falar sobre o cientista. O objetivo do grupo era “evitar que os dados de TH (Tyrone Hayes) fossem citados, mostrando que ele não era confiável”, segundo anotações do Departamento de Comunicação. No mesmo documento, a ex-chefe de comunicações da Syngenta,  Sherry Duvall Ford, listou estratégias contra o cientista, entre elas a “publicação de críticas de terceiros sobre sua ciência”, “refutações sistemáticas de todas as aparições do TH”, “tornar públicos e-mails” e até mesmo “investigar a esposa”. 

Ele relembra que a empresa sempre negou persegui-lo. “Mas veja os documentos, o primeiro objetivo do programa de ciência era ‘desacreditar Hayes”, reconta. 

Os documentos também mostram que a empresa encomendou um perfil psicológico do cientista, onde o classificaram como “esquizo-paranóico e narcisista”. 

Outro arquivo mostra que a Syngenta estudou comprar o termo “Tyrone Hayes” em sites de busca na internet, levando quem pesquisasse o nome do cientista a encontrar primeiro conteúdos  produzidos pela corporação.

Os documentos vieram a público durante um processo judicial que buscava forçar a Syngenta a pagar por filtros para limpar a Atrazina da água potável em seis estados norte-americanos. A ação coletiva foi encerrada em 2012, e apesar de não admitir a culpa pela contaminação, a Syngenta concordou em pagar US$ 105 milhões para custos de filtragem de mais de mil sistemas de água. 

E Tyrone Hayes  não era o único alvo. Em seu depoimento ao Tribunal do Condado de Madison em Illinois, Sherry Duvall Ford, ex-chefe de comunicações da Syngenta, leu um memorando enviado por e-mail no qual contava que a empresa contratou uma agência de detetives para investigar  membros de um Painel Consultivo Científico da EPA, que na época reavaliavam a Atrazina. 

Os documentos do tribunal revelaram ainda um banco de dados com 130 pessoas e organizações que a empresa pretendia pagar para apoiar a Atrazina. Segundo o documento, as pessoas da lista eram treinadas para defender o agrotóxico, e os pagamentos pelos serviços não seriam divulgados publicamente.

Duas décadas depois da publicação da primeira pesquisa sobre a Atrazina, Tyrone Hayes continua trabalhando em salas de aula, em laboratórios e dando palestras. Em abril, recebeu uma das maiores honrarias da carreira: foi eleito para a Academia de Artes e Ciências dos Estados Unidos, que homenageia artistas e cientistas que ajudaram a resolver os desafios mais urgentes do país. 

A Syngenta também recebeu recentemente uma das maiores honrarias da sua trajetória, quando passou a liderar o mercado mundial de agrotóxicos. De acordo com a FAO/ONU, o mercado mundial de agrotóxicos movimenta US$ 34,4 bilhões por ano, e a Syngenta é dona de um quarto dessa fatia. Desde 2017, quando a empresa foi comprada pela ChemChina por US$ 43 bilhões, o aglomerado estatal chinês tornou-se responsável por 24,3% do mercado mundial. Junto das empresas alemãs Bayer e Basf, e da estadunidense Corteva Agriscience, o chamado “Big 4” responde por 65,8% do mercado mundial. 

Cientista alertou sobre composição do Paraquate

O caso de Tyrone Hayes não foi o único em que a Syngenta teve problemas com um cientista que ela mesma contratou. Um pesquisador britânico veio a público este ano para denunciar uma irregularidade no principal produto da empresa, o Paraquate. 

O cientista britânico Jon Heylings trabalhou 22 anos na Syngenta e hoje é professor de toxicologia na Universidade de Keele, no Reino Unido. Na Syngenta, ele atuava no desenvolvimento de formulações mais seguras para o Paraquate, e está há mais de três décadas alertando a empresa sobre a ineficácia das medidas de segurança no produto. 

Jon chegou a criar para a Syngenta uma formulação mais segura para o Paraquate, que custava mais, e acabou removida do mercado logo após o lançamento no começo dos anos 2000.

Em entrevista à Agência Pública e a Repórter Brasil, Heylings garante que está apenas cumprindo o seu dever como cientista. “Fui trazido para a empresa em 1986  para liderar um projeto sobre formulações mais seguras. Foi por uma boa investigação científica onde  descobri que o emético adicionado aos produtos de paraquate tinham um nível ineficaz”, diz o cientista.

Vendido pela Syngenta pelo nome comercial de Gramoxone, o Paraquate é usado em diversas plantações, como algodão, cana-de-açúcar, milho, café e banana, desde a década de 1960. No Brasil, é o sétimo ingrediente ativo mais vendido, com mais de 16,3 mil toneladas comercializadas apenas em 2019, segundo o Ibama. 

Cerca de 10 anos depois da criação, o produto teve que passar por uma mudança na formulação devido à toxicidade aguda: um gole era suficiente para matar uma pessoa. 

A empresa então adicionou ao herbicida um emético, substância que causa vômito, para diminuir o risco de envenenamento. Com a promessa de maior segurança, o produto foi mantido no mercado. 

Acontece que, segundo Heylings, a concentração de emético recomendada por um estudo pago pela Syngenta em 1976 estava “provavelmente bem abaixo de uma dose efetiva no homem”. Ele sugeriu um aumento na concentração de emético para “reduzir o número de fatalidades atribuídas ao envenenamento por paraquate”. 

Jon informou a Syngenta que o estudo que definiu a concentração do químico teria sido manipulado e pressionou a empresa por uma revisão independente, o que nunca foi autorizado. Em 1991, quando a Syngenta estudava um novo nível de emético, Heylings insistiu mais uma vez. “Considero bem vinda a proposta de uma análise independente da situação para confirmar minhas descobertas”, diz o cientista em um e-mail enviado em 9 de abril de 1991. 

Os e-mails de Jon Heylings, assim como diversos outros documentos internos da Syngenta, foram publicados há dois meses pelos sites Unearthed e da PublicEye na série “Paraquate Papers”. Eles provaram que a empresa recebeu memorando internos com alertas do cientista desde os anos 1990, mas decidiu ignorá-los. 

Um documento interno da Syngenta  determinou que “nenhuma das formulações alternativas atualmente disponíveis oferecem uma solução economicamente aceitável para o problema do suicídio”. 

Em 2018, quando já trabalhava na Universidade de Keele,  Jon descobriu que a Syngenta cancelou o registro do Inteon, versão com mais emético do Paraquate, criado por ele nos anos 1990. “Eles nem me avisaram”, diz. 

Após isso, Jon fez diversas pesquisas sobre o Paraquate e descobriu que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU) seguia a mesma concentração emética determinada pela Syngenta para o Paraquate na década de 1970. Jon denunciou o erro a EPA e a FAO/ONU, mas não teve retorno.

Em março de 2020, uma equipe de advogados dos Estados Unidos entrou em contato com o cientista após ler os memorandos sobre o emético de 1991. O grupo estava levando a Syngenta aos tribunais em nome de agricultores que desenvolveram a doença de Parkinson após usar o Paraquate nas plantações. 

Stephen Tillery, principal advogado do processo, disse à Unearthed e a Public Eye que a “questão emética” era parte de seu caso porque demonstrava “até onde esta empresa irá para manter o Paraquate no mercado”. 

“O Paraquate estava prestes a ser banido na década de 1970 por causa do número de pessoas que morreram de forma agonizante por ingeri-lo. Ao alegar que o emético tornaria o uso do Paraquate mais seguro, eles conseguiram mantê-lo no mercado.”, disse o advogado ao site. 

Agora, a denúncia de Jon fará parte do processo, que será julgado no próximo mês. De acordo com a Syngenta, “o argumento de Heylings de que aumentar o nível de emético melhora a segurança do produto é excessivamente simplista; a realidade é complexa e a opinião médica e científica moderna não apóia o ponto de vista de Heylings”. Confira a íntegra da nota da multinacional ao site Unearthed. 

Jon Heylings afirma que a Syngenta segue desconsiderando suas denúncias. “Eles não têm interesse em tentar entender ou lidar com a questão emética porque sabem que estou certo”, conta o cientista. 

O paraquate acabou sendo banido no Brasil no ano passado, apesar do forte lobby da Syngenta, que liderou uma força-tarefa que tentava reverter a proibição. 

Até o banimento, o Gramoxone era vendido com a mesma concentração de emético que a Syngenta estipulou nos anos 70. 

E ela não evita que as pessoas se matem com o Paraquate.

No Brasil, pelo menos 138 pessoas morreram envenenadas por Paraquate na última década, de acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde. Número que pode ser muito maior, devido a subnotificação dos casos. 

Procurada pela Agência Pública e Repórter Brasil, a Syngenta Brasil não quis comentar os documentos divulgados e nem o processo de banimento do Paraquate do país.

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pela Agência Pública [Aqui!].

Vazamento em reservatório de mineradora de ouro sul africana contamina sistema hídrico em Santa Bárbara (MG)

Moradores de Santa Bárbara denunciam vazamento de rejeitos da AngloGold em rio.  Água do rio Conceição ficou com cheiro forte, que irritava o nariz de quem se aproximava, população afirma que não foi informada sobre qual material atingiu o leito

anglogold ashanti contamina

Rio Conceição, em Santa Bárbara, que costuma a ser translúcido estava opaco e cinzento, além de apresentar cheiro forte, provocando irritação nos olhos e nariz. Foto: Divulgação MAM
Por Felipe Castanheira para o jornal “O TEMPO”

Na manhã do dia 5 de maio os moradores das comunidades de Barra Feliz, São Bento e Brumal, em Santa Bárbara, na região central de Minas, perceberam que as águas do rio Conceição estavam com uma coloração e cheiro muito diferentes do habitual, no trecho seguinte a duas minas da AngloGold. No local a mineradora possui a planta industrial da mina de Córrego do Sítio, com dois pontos de extração de ouro.

A funcionária pública Roseni Aparecida Ambrosio, 42, mora próximo ao rio e foi chamada por moradores da região para presenciar o que estava acontecendo. “Quando cheguei vi que a água estava com uma coloração e densidade bem diferente do normal nesta parte do ano. As pessoas filmaram e tiraram fotos porque não era algo comum. Só de chegar perto os olhos e o nariz ficavam irritados com o cheiro da água”, relata.

Ela conta que as primeiras pessoas a denunciarem a situação perceberam a mudança no rio por volta das 7h, mas só na parte da tarde é que a empresa informou que havia tido um problema no local. “Não sabíamos do que se tratava e a empresa não dá transparência com as comunidades. Todo mundo estava preocupado porque não dava para saber se aquilo era perigoso ou não para a saúde das pessoas e para os animais e plantações. Muita gente depende do rio e ficou sem saber o que era aquilo”, relembra. 

A empresa reconheceu o vazamento em um documento enviado aos moradores, onde informava que o ponto já estava estancado e que não houve impacto direto na vegetação ou solo. Entretanto, o documento nada informa sobre a situação da água. 

A lentidão e a falta de clareza por parte da empresa incomoda os moradores. “Nosso medo é que aconteça algo que ameace nossas vidas e só depois vão soltar uma nota de pesar. Isso faz com que a gente pare de confiar neles”, afirma Roseni.

“A empresa simplesmente não diz o conteúdo do material, faz como se fosse um simples vazamento de água ou qualquer coisa. É uma grande falta de respeito, já que os resíduos que  ela produz são altamente contaminantes, cumulativos e perigosos”, conta a médica veterinária e produtora rural Sarah Helena Neves Xavier, 38. 

Sarah descreve que a empresa não oferece informações suficientes sobre os rejeitos que podem ter chegado ao rio. “O que se sabe é que na exploração se usa o cianeto e que a rocha de onde se extrai o ouro é rica em arsênio , que quando chove pode ocasionar drenagem ácida e só isso já é suficiente para contaminar a água, mas eles negam”. 

Luiz Paulo Siqueira, 31, é biólogo e coordenador do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e afirma que os danos causados pelo uso de metais pesados para o beneficiamento do ouro trazem grandes problemas para a cidade e região. “Existem várias pesquisas acadêmicas de diferentes universidades que mostram a alta concentração de metais tóxicos. Existe uma série de doenças registradas na região, que se dão devido a estes materiais. Existe muito desleixo da AngloGold e temos que cobrar para que ela pague pelo estrago causado nas comunidades e no meio ambiente. Lembrando que ela faturou mais de R$ 750 milhões com a exploração de ouro em Santa Bárbara só no ano passado”, afirma.

A AngloGold informou por meio de nota que o material que chegou ao rio faz parte de um efluente industrial da Planta da mina Córrego do Sítio e que o material não tem cianeto e é classificado como não-perigoso. A empresa também destacou que lamenta o ocorrido e reforça seu compromisso com o meio ambiente e a mineração sustentável”.

A reportagem entrou em contato com a Polícia Ambiental Militar, Ibama, Secretaria de Estado de Meio-Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), prefeitura de Santa Bárbara, Ministério Público e Núcleo de Emergência Ambiental de Minas Gerais (NEA), mas até o fechamento da matéria não teve retorno destes órgãos.

Nota da AngloGold Ashanti sobre as reclamações dos moradores

Está circulando nas redes sociais postagens com informações inverídicas sobre um possível vazamento em uma barragem da AngloGold Ashanti. Salientamos que todas as nossas barragens estão estáveis e não apresentam qualquer problema em suas estruturas.

No dia 5 de maio, comunicamos para as autoridades e para comunidade sobre o transbordo de parte de um efluente industrial da Planta da mina Córrego do Sítio, em Santa Bárbara (MG), que atingiu o Rio Conceição. Na mesma data, o vazamento foi estancado.

Assim, ao contrário do que algumas publicações nas redes sociais estão divulgando, este material não tem cianeto e é classificado como não-perigoso conforme as normas ambientais.

A Polícia Militar de Minas Gerais informou que foi ao local após tomar conhecimento do fato e “tomou todas as medidas cabíveis ao fato”, mas não descreveu quais foram as ações e medidas tomadas, nem o conteúdo da ocorrência registrada.

Os órgãos públicos responsáveis, como Núcleo de Emergência Ambiental (NEA) da Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM) e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Santa Bárbara, foram comunicados e acompanham nossa atuação no caso.

A AngloGold Ashanti lamenta o ocorrido e reforça seu compromisso com o meio ambiente e a mineração sustentável.

Governos são cúmplices dos agrotóxicos e suas violações de direitos

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Nocivo para a saúde e o ambiente, os agrotóxicos são praticamente isentos de impostos

Por Redação RBA

São Paulo – Governos de países da América Latina são coniventes com a expansão do uso de agrotóxicos e com violações ao direito humano à alimentação e nutrição adequadas. Esta é a principal conclusão do informe regional 2020 Agrotóxicos na América Latina: violações contra o direito à alimentação e à nutrição adequadas, lançado esta semana pela FIAN Brasil. Essa conivência se deve, basicamente, “à fidelidade ao modelo agroalimentar, econômico e político destrutivo, de pilhagem, e à sua suspeita cumplicidade com os interesses corporativos e comerciais que estão por trás da promoção desses tóxicos”, diz trecho do documento.

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Uma fidelidade, aliás, que envolve benefícios e estímulos aos fabricantes de insumos agrícolas venenosos. É o que acontece no Brasil, que sob o governo de Jair Bolsonaro já liberou 1.172 agrotóxicosem 845 dias de mandato. Em média 1,39 agrotóxico liberado por dia.

Fabricantes de agrotóxicos

Além disso, historicamente os governos brasileiros dão subsídios tributários ao setor. Enquanto a população tem uma pesada carga tributária, pagando impostos diretos e indiretos, essas empresas têm redução de 60% da alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) – redução esta que pode chegar à isenção total. Além disso, os agrotóxicos têm isenção completa do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e de contribuições como o PIS/Pasep.

“As mudanças nos regulamentos e na arquitetura institucional de nossos Estados, que foram adotadas para favorecer o aumento da demanda e o uso de agrotóxicos, são contrárias aos princípios dos direitos humanos. A falta de vontade política para reverter essas mudanças aumenta as violações de direitos e faz crescer o poder de influência e captura corporativa das empresas multinacionais e de outros atores políticos e econômicos que lucram com os agrotóxicos”, diz outro trecho do documento.

Engrenagem do agronegócio

Os agrotóxicos são engrenagens na máquina do agronegócio baseado no monocultivo em latifúndios que plantam basicamente soja, milho e algodão. Além de que essas substâncias contaminam os solos e as águas, causando intoxicações e doenças graves e letais, o latifúndio está associado à violência no campo.

É a disputa por terras que faz vítimas entre assentados, pequenos proprietários, povos indígenas e outras populações tradicionais. E que também avança sobre florestas, colocando em risco a manutenção da biodiversidade. E tudo isso sem produzir comida de verdade para a população.

A notícia boa, segundo o informe, é que no continente crescem as ações de resistência contra os agrotóxicos e o modelo que os sustenta. Uma luta que precisa de outros atores e de mais visibilidade. Até porque, reforça o texto, os danos e impactos decorrentes do uso de agrotóxicos não se limitam à nossa espécie, à nossa geração e nosso território.

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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Poeira tóxica de colheita de soja atinge comunidade quilombola em Poconé (MT)

Em desacordo com a legislação de pulverização terrestre, propriedades rurais mantêm aplicações de agrotóxicos sem distanciamento mínimo da comunidade. Organizações sociais fazem denúncia ao Ministério Público

quilombo

A comunidade quilombola Jejum, localizada no município pantaneiro de Poconé (MT), foi atingida por uma nuvem tóxica da lavoura próxima ao território no dia 23/3/2021. A apenas dez metros de distância, a máquina passava realizando a colheita da soja e levando ao ar uma camada densa de poeira. As pessoas da comunidade passaram mal com tosse, irritação na garganta e problemas respiratórios. Diante do ocorrido, organizações da sociedade civil protocolaram documento junto ao Ministério Público Federal e Estadual ontem, 29/3.

“Eles plantam soja aqui na beirada de casa. Na colheita sobe aquele poeirão que ninguém aguenta”, disse uma moradora que não se identificou por uma questão de segurança. Ela contou que desde o dia 21/3 estavam realizando a colheita da soja e que a poeira provocou muitos efeitos. “A garganta ficava ardendo, os olhos ficam até lacrimejando, a cabeça dói. Assim não dá certo, porque eles secam a soja com veneno e isso prejudica demais.” Algumas pessoas mencionaram também dificuldades para dormir, enfermidades no estômago e até questões relacionadas à saúde mental por conta dos agrotóxicos.

Além dos efeitos à saúde, outros aspectos da vida da comunidade vêm sendo impactados. “Há cinco anos mudou tudo quando essa soja veio para cá. Nem horta presta mais por aqui”, conta outra moradora da comunidade. Ela desistiu de trabalhar sua horta pela presença grande de lagartas e insetos, dificuldade de crescimento da banana, mal desenvolvimento do mamão e outros efeitos que não conseguia combater frente a lavoura no cultivo de mandioca, frutas e demais produtos. Na manhã de ontem, 29/3, os moradores relataram ainda a mortandade de peixes de tanques de piscicultura na comunidade, um possível indicativo de contaminação da água.

Por conta do ocorrido, em conjunto, a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE)*, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e a Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, com apoio da organização Terra de Direitos, realizaram denúncia junto ao Ministério Público Federal (MPF) em Mato Grosso, e ainda ao Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPE) e ao Fórum Estadual de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, coordenado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). 

Entre os argumentos, está o desrespeito à distância mínima de 90 metros para pulverização terrestre, conforme estabelecido na legislação (Decreto Estadual 1651/2013/MT). “Se colheu a soja, pulverizou antes dessecante. Já vínhamos denunciando o não cumprimento da lei no que diz respeito à distância mínima para a pulverização de agrotóxicos próximo a casas, estradas e fontes de água”, contou a representante da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, Fran Paula, da FASE. De acordo com ela, situações como essa são cada vez mais frequentes no Pantanal por conta do aumento de monoculturas na região. “Os agrotóxicos representam não só uma violação à saúde dessas famílias. São várias as violações. Entre elas, o direito humano a um ambiente saudável”, destaca.

Sobre a denúncia, Laura Ferreira da Silva, quilombola e representante da Conaq em Mato Grosso, enfatiza a necessidade de ação do poder público. “A gente precisa que o Estado, que o Ministério Público Federal e o estadual tomem atitude, porque isso não pode acontecer. Isso é inadmissível. São vidas quilombolas que estão ali e vidas quilombolas importam.”

No ofício, a comunidade quilombola Jejum requer providências dos Ministérios Públicos para que seus direitos sejam preservados e para que ações preventivas sejam colocadas em prática por conta da iminência de novos danos de colheita de soja na propriedade vizinha.

*A FASE é uma das organizações que compõem a rede do Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad).

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad) [Aqui!].

Estudo aponta excesso de manganês em peixes no estuário do rio Doce

docePesquisadores registram aumento de 880% no conteúdo desse elemento químico dissolvido em água em comparação a valores observados em 2015, dias após a chegada dos rejeitos provenientes da barragem de Fundão, em Mariana (foz do rio Doce semanas após o rompimento da barragem; foto: Arnau Aregio/Wikimedia Commons)

Agência FAPESP* – Integrantes do Grupo de Estudo e Pesquisa em Geoquímica de Solos do Departamento de Ciência do Solo (GEPGEoq) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) e do projeto Rede SoBEs Rio Doce – Rede de Solos e Bentos na Foz do Rio Doce vêm estudando os impactos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), no estuário do rio Doce.

O mais recente estudo realizado pelo grupo, em parceria com pesquisadores da University of California em Riverside (Estados Unidos), mostra que dois anos após a chegada dos rejeitos há uma liberação constante de manganês dos solos do estuário para a água.

“Os dados apontam para um aumento de 880% no conteúdo de manganês dissolvido em água em 2017 em comparação aos valores observados em 2015, dias após a chegada dos rejeitos”, afirma Hermano Queiroz, pesquisador da Esalq-USP que realizou sua tese de doutorado com bolsa da FAPESP, sob orientação do professor Tiago Osório Ferreira, do Departamento de Ciência do Solo. Segundo os pesquisadores, os valores encontrados em 2017 foram cinco vezes maiores do que o limite definido pelas diretrizes brasileiras de qualidade da água (Conselho Nacional do Meio Ambiente, 2005).

Consequentemente, altas concentrações de manganês tem sido observadas em duas espécies de peixes, o bagre amarelo (Cathoropus spixii) e o peixe-gato marinho (Genidens genidens), ambas comumente consumidas pela população local. Segundo os pesquisadores, tal fato representa um risco crônico para a saúde das comunidades ali presentes.

Os resultados evidenciaram concentrações de manganês duas vezes maiores nos peixes do rio Doce em comparação às de peixes de outros locais conhecidamente contaminados por manganês.

Esse elemento químico é abundante na natureza e por isso muitas vezes não é percebido como tóxico, mesmo quando encontrado em elevadas concentrações no solo e na água. De acordo com os pesquisadores, não existem valores limites de manganês para solos, apesar de as pesquisas apontarem efeitos tóxicos em plantas, animais e seres humanos. Concentrações elevadas estão associadas a doenças como o Alzheimer, além de outros distúrbios neurodegenerativos e do sistema nervoso central.

O estudo foi publicado na revista Environment International. Além da FAPESP, a pesquisa também contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santos, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além da colaboração de pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo, Universidade Federal Fluminense e da Universidade de Santiago de Compostela da Espanha.

O artigo Manganese: The overlooked contaminant in the world largest mine tailings dam collapse pode ser acessado em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S016041202032239X.

* Com informações da Divisão de Comunicação da Esalq-USP.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui!].

Observatório dos agrotóxicos: com mais 28 agrotóxicos aprovados, governo Bolsonaro alcança 278 liberações em 2020

 

chuva

O Diário Oficial da União publicou no dia de ontem (20/08) o Ato No. 48 de 2020 por meio do qual o Ministério da Agricultura, comandado pela “musa do veneno”, a ministra Tereza Cristina (DEM/MS), liberou mais 28 agrotóxicos, totalizando 278 apenas em 2020, chegando a 781 “novos produtos” liberados para comercialização no já abundante mercado de agrotóxicos do Brasil.

Analisando a origem dos países que sediam o fabricante primário de cada um dos produtos liberados, o Ato 48 trouxe uma novidade que é a dominância do Brasil, seguido pela China (ver gráfico abaixo).

Países fabricantes

Essa diferença em relação a todos os atos promulgados anteriormente pelo governo Bolsonaro foi o fato de que no Ato 48 consta a aprovação de 10 agrotóxicos de natureza biológica, área em que os fabricantes nacionais ocupam a primazia no mercado brasileira. Mas é interessante que apesar de todos esses agrotóxicos de base biológica, o Ato No. 48 ainda trouxe 8 agrotóxicos proibidos pela União Europeia, perfazendo 28,6% do total de produtos liberados, montante que é bastante próximo da costumeira taxa de aprovação de produtos proibidos na UE que é em média de 30%. (ver gráfico abaixo).

Um aspecto interessante é que os herbicidas continuam sendo o tipo mais comum de agrotóxico aprovado no Brasil. Mas o Ato 48 também trouxe uma forte concentração de nematicidas, todos de base biológica. Os nematóides vem se tornando uma das principais tipos de alvos do uso de agrotóxicos no Brasil, muito em função do tipo de agricultura baseado em grandes extensões de monoculturas (ver gráfico abaixo).

função agrotóxico

Um aspecto que a leitura do Ato No. 48 também propiciou foi notar que cada vez mais existem discrepâncias na hora de alocar o grau de toxicidade humana dos produtos aprovados, com vários sendo aprovados sem sequer serem classificados. Além disso, dada a modificação nos critérios de definição de risco para a saúde humana, as classificações de toxicidade ambiental apresentam níveis de maior risco. Tal parece decorrer dos critérios de classificação que foram modificados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária no ano passado, quando o risco de morte risco de morte passou a ser  único critério para classificar a toxicidade de um produto no Brasil.

Nessa toada de liberações de produtos altamente tóxicos, muitos deles proibidos pela União Europeia, e em meio à pandemia da COVID-19, o Brasil caminha firme para se tornar uma zona de sacrifício para onde as grandes fabricantes de venenos agrícolas enviam produtos que estão sendo “faseados” em outras partes do mundo. Simples lógica do lucro sobre a saúde humana e do meio ambiente.

Para quem desejar baixar a base com os agrotóxicos liberados pelo Ato No. 48, basta clicar  [Aqui!]. Já quem desejar baixar a base completa para todos os agrotóxicos liberados em 2020, basta clicar [Aqui! ].

Mistura de agrotóxicos na água continua sem controle, Fiocruz propõe regras mais rígidas

Brasil deveria seguir o padrão europeu para controle de agrotóxicos na água, sugere Fiocruz sobre novas regras do Ministério da Saúde. Fundação propõe número maior de substâncias a serem monitoradas, mais rigidez nos volumes permitidos e um sistema de alerta para a população

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Por Ana Aranha – Repórter Brasil/Agência Pública

Nem todo mundo sabe, mesmo porque esses dados são pouco divulgados, mas a água que sai da nossa torneira pode carregar diversos agrotóxicos. Eles são carregados pelas chuvas e pelos rios para as redes de abastecimento das grandes cidades. São crescentes os estudos sobre os impactos para a saúde humana, já que os agrotóxicos não são barrados pelos filtros caseiros e são poucos os tratamentos disponíveis para as empresas de abastecimento de água.

O que se pode fazer é controlar quais e em qual quantidade vamos bebê-los. As regras para isso estão atualmente abertas para serem discutidas dentro de consulta pública feita pelo Ministério da Saúde que vai até o dia 4 de junho. A proposta em debate, porém, ignora um dos mais novos fenômenos que afeta a nossa água: a mistura de diferentes agrotóxicos. 

“O risco no caso das misturas são as interações entre os componentes delas”, afirma Fábio Kummrow, professor de toxicologia na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Pode ocorrer efeito aditivo, quando se somam os efeitos de substâncias com o mesmo mecanismo de ação. Ou o sinérgico, quando o efeito final é maior que o esperado da soma – isso pode acontecer entre substâncias com ação diferente”. 

No Brasil não funciona, hoje, um procedimento de alerta para a detecção de agrotóxicos na água (Foto: Mrjn Photography/Unsplash)

Entre os agrotóxicos encontrados na água do Brasil, há aqueles classificados como “prováveis cancerígenos” pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e outros apontados pela União Europeia como causadores de disfunções endócrinas, como puberdade precoce e problemas reprodutivos.

Além de não fixar um parâmetro de controle para a mistura, a revisão das regras também deixou passar a chance de incluir no monitoramento dois dos agrotóxicos mais utilizados no Brasil: o paraquate e o imidacloprido. Devido à sua alta toxicidade e risco à saúde humana, o paraquate está com data marcada para ser proibido, em setembro deste ano. Já o imidacloprido, um dos inseticidas suspeitos pelas mortes das abelhas, foi o agrotóxico mais encontrado nos alimentos testados pela Anvisa entre 2017 e 2018. 

Para evitar que substâncias assim cheguem também à nossa água, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicou hoje documento recomendando mudanças para tornar esse controle mais rígido. “Consideramos a proposta do Ministério da Saúde um avanço em comparação à anterior, mas ela pode ser aprimorada”, afirma a pesquisadora em saúde pública Aline Gurgel, vice coordenadora do grupo de trabalho sobre agrotóxicos na Fiocruz.

“Não pode deixar que o problema fique evidente só na ponta, que é o tratamento final da água, tem que atuar na fonte da contaminação”, afirma Ana Cristina, que monitora os dados de vigilância da água na Fiocruz

As novas regras do Ministério da Saúde aumentam de 27 para 37 o número de substâncias a serem testadas. As concessionárias são obrigadas por lei a testar a água para checar a presença desses agrotóxicos a cada semestre. Embora o número tenha aumentado, a Fiocruz recomenda a inclusão de mais 35 substâncias, entre elas o paraquate e imidacloprido, que hoje não são testados na água. A fundação recomenda também uma redução geral nos valores máximos permitidos para o volume de cada agrotóxico na água. Além da criação de um mecanismo para controlar a mistura de diferentes substâncias.

As recomendações têm a União Europeia como referência. Partindo do princípio de que a água não deveria ter agrotóxicos, o bloco tem os parâmetros mais rígidos do mundo. Além de baixos limites individuais para o volume de cada ingrediente na água (máximo de 0,1 micrograma por litro), há também um limite máximo para a soma de diferentes substâncias (0,5 microgramas por litro). 

Aqui, como em muitos outros países, toleramos quantidades maiores. O mais criticado deles é o glifosato, com valor máximo permitido de 500 microgramas por litro – volume mil vezes mais permissivo do que o europeu pode beber. Isso acontece porque, enquanto a Europa passou a régua mais rígida possível, com um valor igualmente baixo para todas as substâncias, os nossos parâmetros são calculados individualmente para cada agrotóxico. Esse cálculo é feito a partir de testes em animais de laboratório que muitas vezes são realizados pelas empresas produtoras de agrotóxicos. O Brasil nunca teve tem um limite para a soma de diferentes agrotóxicos na água. 

“O ideal seria adotar o princípio da precaução, como a União Europeia, com o máximo de 0,5 microgramas por litro para a soma de todas as substâncias”, afirma Gurgel, vice coordenadora do grupo de trabalho dos agrotóxicos da Fiocruz. “Mas sabemos que esse não é o parâmetro usado pelo Brasil. Por isso sugerimos que se fixe um limite para a presença de diferentes substâncias na água, estabelecendo tanto uma concentração máxima, que é a soma dos níveis de todas as substâncias detectadas, quanto um limite no número de substâncias presentes em uma única amostra””.

“A União Europeia é o único exemplo de um valor único para a soma”, argumenta o engenheiro Rafael Bastos, especialista na área e coordenador do grupo de trabalho que reuniu dezenas de especialistas e representantes de diferentes setores para revisar a portaria do Ministério da Saúde. “Na Europa, o parâmetro para a água foi um instrumento de controle para o uso de agrotóxicos. Mas a luta para diminuir o uso de agrotóxicos na sociedade se dá em outro fóruns e não no seio de uma norma de potabilidade da água”.

Lentidão no controle, rapidez na liberação

O tema da mistura de substâncias na água chegou a ser debatido pelo grupo de especialistas que revisou as regras. Mas, segundo Bastos, não houve consenso sobre qual seria o melhor método para se fixar um parâmetro de controle. “Definir isso, neste momento, seria uma discussão açodada. Terminamos o processo abrindo esse tema como ordem do dia para a próxima revisão”.

Em tese, a cada cinco anos o grupo de especialistas atualiza as regras brasileiras sobre controle dos agrotóxicos na água. A ideia é que essas regras sejam revisadas à luz das novidades científicas e mudanças de mercado, como quais substâncias passaram a ser mais utilizadas. Na prática, porém, cada revisão tem levado cerca de dez anos para ser concluída. 

O ritmo lento é ainda mais preocupante agora que o governo de Jair Bolsonaro tem mostrado celeridade recorde na liberação de novos produtos. “A gente faz todo um processo para avançar de 27 para 37 agrotóxicos sendo testados na água, mas o Estado autoriza centenas de substâncias, não temos condições de acompanhar essa velocidade”, afirma Bastos. Apenas nessa semana foram 22 novos produtos liberados pela Anvisa, somando 625 aprovados sob Bolsonaro.

O necessário avanço sobre o controle das misturas de agrotóxicos na água, porém, também sofre devido à ainda incipiente produção científica no Brasil. “Antes de ter uma legislação, precisamos de mais estudos avaliando o efeito dessas misturas”, afirma Kummrow, da Unifesp. Ele defende que essas pesquisas sejam feitas no Brasil, com foco na interação entre as substâncias mais presentes na nossa água, conforme recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS). 

No documento que fixa as diretrizes internacionais para esse controle, a OMS recomenda a pesquisa específica sobre interação entre agrotóxicos encontrados na água de cada país. É o que já começou a fazer a agência de proteção ambiental americana com estudos para investigar a mistura da atrazina e da simazina. 

A Fiocruz cobra que uma nova regulação estabeleça ações obrigatórias para empresas de abastecimento de água e secretarias municipais e estaduais de saúde e de agricultura (Foto: Jed Owen/Unsplash)

Outra dificuldade são os gastos envolvidos em tirar do papel uma lei mais restritiva. “Ao adotar um padrão rígido, como o Europeu, isso vai exigir maior tecnologia para o tratamento, o que vai encarecer a água”, afirma Kummrow. “Isso pode levar a população a buscar outras alternativas, como poços, e acabar usando fontes ainda menos confiáveis”. 

O argumento é contestado por Gurgel, da Fiocruz, para quem as medidas necessárias para melhorar a qualidade da água devem ser vistas como um investimento fundamental na saúde. “São investimentos para a redução de doenças e agravos relacionados à exposição aos agrotóxicos. Esse investimento terá reflexos para agravos crônicos, que necessitam de tratamento de longo prazo e representam custos elevados para o sistema de saúde, que incluem a aquisição de medicamentos, ocupação de leitos, consultas com especialistas. Não há custo maior que a perda da saúde ou da vida”, conclui.

Ao contrário do que ocorre em outros países, no Brasil as empresas que produzem agrotóxicos não se envolvem com o monitoramento da água. O sistema é custeado apenas cofres públicos e pelas empresas de abastecimento.

Alertas para a população e responsáveis

No Brasil não funciona, hoje, um procedimento de alerta para a detecção de agrotóxicos na água. “As concessionárias não divulgam essas informações de forma clara para a população, nem mesmo quando são encontradas quantidades acima do valor máximo permitido”, alerta a química Ana Cristina Simões Rosa, da Fiocruz. 

O problema de informação é tão grave que, entre 2014 e 2017, mais da metade dos municípios sequer enviou os resultados dos testes realizados na água para o Sisagua, o sistema nacional que integra informações locais e é gerido pelo Ministério da Saúde. Outros lançaram as informações de modo errado, desrespeitando as orientações do ministério, que segue método padronizado, o mesmo usado por governos e universidades em todo o mundo. 

Detecções acima do valor máximo permitido entre 2014 e 2017

Fonte: Controle do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (SISAGUA) / Ministério da Saúde (2014-2017)

Este problema foi revelado pela publicação do mapa dos agrotóxicos na água, uma parceria da ONG Suíça Public Eye com a Repórter Brasil e a Agência Pública. O mapa divulgou, de forma inédita, os dados de detecção em todo o Brasil de acordo com as informações disponíveis no Sisagua. Em decorrência da publicação, foram tantos os questionamentos enviados pelas empresas de abastecimento que o Ministério da Saúde teve de convocar uma reunião para esclarecer a metodologia que deveria ser aplicada por todos. O encontro teve a presença de representantes das empresas de abastecimento, do Inmetro, dos laboratórios de saúde pública, das Secretarias de Saúde e da Anvisa. A Fiocruz recomenda que, na revisão da portaria da água, o Ministério da Saúde reforce os esclarecimentos que foram pauta da reunião.

A fundação também argumenta que os dados não podem ficar restritos ao debate entre técnicos. E sugere a criação de níveis de alertas simples e claros para comunicar os casos de detecção à população, assim como para acionar os órgãos responsáveis em tomar ações. 

O nível 1 e 2 seriam para quando se detecta a presença de agrotóxico na água, mesmo que abaixo do valor máximo permitido. Para a Fiocruz, esses casos não devem ser menosprezados, pois também são situações de “não conformidade”, já que “a concentração esperada para qualquer agrotóxico em água é zero”.

Já quando os níveis individuais ou da mistura estiverem acima do permitido, deveria soar o alerta máximo de emergência. 

Em todos esses cenários, além de divulgar a informação de modo claro, a fundação cobra que a nova regulação estabeleça ações obrigatórias a serem tomadas pelas empresas de abastecimento de água, assim como secretarias municipais e estaduais de saúde e de agricultura, coisa que não acontece hoje, conforme revelou matéria da Repórter Brasil e Agência Pública. A recomendação é que o sistema mobilize os órgãos responsáveis em lidar com o problema na ponta (com o tratamento da água e diminuição do abastecimento) e na sua origem (a fiscalização na aplicação de agrotóxicos nas plantações).

Ana Cristina Simões Rosa, que monitora os dados de vigilância da água em metade dos estados brasileiros pela Fiocruz, defende a importância de uma atuação responsável das pastas ligadas à saúde e agricultura nesse processo. “Não pode deixar que o problema fique evidente só na ponta, que é o tratamento final da água, tem que atuar na fonte da contaminação”, afirma. “Uma vez que a contaminação esteja ocorrendo, é necessário monitorar o máximo possível dos agrotóxicos utilizados no país, na água que todos nós consumimos”.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela “Repórter Brasil” [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: Governo Bolsonaro autoriza mais 22 agrotóxicos e o total em 2020 já chegou a 185

A enxurrada de aprovação de agrotóxicos segue firme fazendo a festa das multinacionais que produzem venenos agrícolas

Sempre menciono neste blog que quando se trata de aprovar agrotóxicos, o governo Bolsonaro (tendo a ministra Tereza Cristina à frente do time do veneno) é altamente eficiente. É que hoje, em plena pandemia e quando o Brasil já contabiliza mais de 12.000 mortos pela COVID-19, o Ministério da Agricultura publicou o Ato No. 31 de 4 de Maio de 2020 onde são liberados mais 22 produtos, vários deles proibidos na União Europeia. O total para 2020 agora é de 185 agrotóxicos, no que pode ser chamado “um museu de velhas novidades”, pois a maioria dos produtos liberados já estão liberados para venda no Brasil. Há ainda que se lembrar que agora o “grande total” do governo Bolsonaro chegou a 688 produtos em pouco mais de 16 meses de duração do mandato de Jair Bolsonaro.

A partir de análises rápidas, já pude identificar o padrão habitual de cerca de 30% de produtos proibidos na União Europeia, e uma predominância de empresas chinesas no fornecimento dos produtos aprovados nesta rodada (ver gráfico abaixo).

agrotoxicosl liberados ato 31

Uma pequena diferença é que as empresas chinesas são os produtores primários de “apenas”  40,9 % dos agrotóxicos liberados. Além disso, há que se notar a presença de produtos da Basf e da Du Pont. 

Também me parece importante notar que dos 6 agrotóxicos liberados que são proibidos na União Europeia, 4 são produzidos por diferentes empresas chinesas e 2 pela multinacional estadunidense DuPont em sua planta localizada na Espanha.

Quem desejar acessar a planilha com os dados do Ato No. 31, basta clicar Aqui! . Já para baixar a planilha completa de 2020, basta clicar Aqui!