As nuvens negras que circundam Bolsonaro mostradas no The New York Times: leia artigo na íntegra

‘Uma empresa familiar:’ investigação sobre corrupção ameaça Jair Bolsonaro

Os brasileiros estão fazendo uma pergunta que pode ameaçar o futuro político do presidente Jair Bolsonaro: por que sua esposa e filho receberam pagamentos de um homem sob investigação por corrupção?

mj 1O presidente Jair Bolsonaro do Brasil e sua esposa, Michelle. Entre 2015 e 2019, um confidente de família e ex-assessor canalizou fundos para a Sra. Bolsonaro e o filho do Sr. Bolsonaro, Flávio, em transações que eles não conseguem explicar. Adriano Machado / Reuters

De Ernesto Londoño, Manuela Andreoni e Letícia Casado

RIO DE JANEIRO – O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, estava visitando uma catedral na capital nos últimos dias quando um repórter fez uma pergunta: Presidente, por que sua esposa recebeu US $ 16.000 de um ex-assessor sob investigação por corrupção?

A resposta foi agressiva, mesmo para um presidente conhecido por expressar sua raiva a jornalistas e críticos.

“O que eu gostaria de fazer”, disse Bolsonaro ao repórter, “é quebrar sua boca”.

Em seus dois anos de mandato, quando Bolsonaro e seu círculo íntimo , incluindo seus filhos, foram envolvidos em um número crescente de investigações criminais e legislativas, ele atacou repórteres, investigadores e até mesmo membros de seu próprio gabinete que ousaram ir contra ele.

Mas o caso envolvendo o ex-assessor e confidente da família – que gira em torno do potencial roubo de salários do setor público – abalou os nervos de Bolsonaro ao colocar sua esposa e seu filho mais velho no centro de uma investigação de corrupção que se transformou em uma das suas maiores responsabilidades pessoais e políticas.

mj 2Fabrício Queiroz, centro, assessor de um dos filhos de Bolsonaro, foi preso. Ele está enfrentando acusações de desvio de fundos públicos para a família do presidente. Sebastião Moreira / EPA, via Shutterstock

O conjunto crescente de investigações sobre o presidente e sua família está testando a independência e a força do sistema de justiça em uma das maiores democracias do mundo, com a maior economia do hemisfério sul. Há poucos anos, o judiciário brasileiro ganhou elogios globais por derrubar funcionários poderosos e titãs empresariais em uma cruzada anticorrupção que derrubou o establishment político.

Agora Bolsonarocuja surpreendente ascensão da periferia da política de extrema direita à presidência foi em grande parte impulsionada por uma promessa de erradicar a corrupção e o crime, é acusado de minar o estado de direito, à medida que os escândalos se aproximam cada vez mais da presidência Palácio.

Especialistas afirmam que as evidências que surgiram até agora no caso do ex-assessor Fabrício Queiroz sugerem que a família Bolsonaro participava de um esquema conhecido como rachadinha , comum nos escalões inferiores da política brasileira. Envolve desviar o dinheiro do contribuinte mantendo empregados fantasmas na folha de pagamento ou contratando pessoas que concordam em devolver uma parte de seu salário ao patrão.

“A suspeita é que se tratava de uma empresa familiar que durou muitos anos e movimentou muito dinheiro”, disse Bruno Brandão, diretor executivo da Transparência Internacional no Brasil, sobre o esquema de suborno envolvendo o ex-assessor. “Essas suposições são muito sérias, corroboradas por evidências sólidas, em uma investigação que se baseia em transações financeiras altamente irregulares.”

Em ações judiciais e vazamentos para a imprensa, as autoridades exprimiram a suspeita de que, a partir de 2007, Queiroz ajudou o filho mais velho do presidente, Flávio Bolsonaro, a roubar fundos públicos embolsando parte dos salários de pessoas de sua folha de pagamento quando ele era um representante do estado. Flávio Bolsonaro foi eleito Senado em 2018.

mj 3Flávio Bolsonaro, filho do presidente, está no centro de um crescente escândalo que envolve também a esposa do presidente. Eraldo Peres / Associated Press

Entre 2011 e 2016, Queiroz canalizou milhares de dólares para a esposa do presidente, Michelle Bolsonaro, em transações que nenhum deles consegue explicar. Os promotores também acreditam que os depósitos feitos ao filho do presidente podem estar ligados ao esquema.

Com base em um vasto dossiê de registros financeiros, os investigadores estão tentando determinar se o fluxo de caixa irregular em uma loja de chocolates que Flávio Bolsonaro comprou em 2015, e uma série de compras de imóveis que ele fez em dinheiro, equivalem à lavagem de dinheiro.

Separadamente, um jornal brasileiro descobriu que uma das filhas de Queiroz, Nathália Queiroz, estava na folha de pagamento do ex-gabinete do presidente no Congresso em Brasília entre 2016 e 2018, embora trabalhasse como personal trainer no Rio de Janeiro na época .

Registros bancários obtidos por promotores mostram que a Sra. Queiroz fez pagamentos mensais a seu pai que totalizaram dezenas de milhares de dólares entre 2017 e 2018.

O gabinete do presidente se recusou a comentar o caso em nome de Bolsonaro e sua esposa. Michelle Bolsonaro conheceu o marido em 2006, enquanto trabalhava como secretária no Congresso. Depois que os dois começaram a namorar, ela se juntou à equipe legislativa dele, uma mudança que triplicou seu salário.

Paulo Emílio Catta Preta, advogado que representa o Sr. Queiroz, disse que as transações envolvendo a família Bolsonaro “não têm absolutamente nada a ver com suposta apropriação indébita de fundos”. O advogado de Flávio Bolsonaro não respondeu a um pedido de entrevistas.

Em uma entrevista recente, o vice-presidente Hamilton Mourão defendeu o histórico do governo sobre corrupção, observando que ele não se envolveu nos esquemas de propina multimilionários descobertos durante governos anteriores. Ele lamentou o vazamento para a imprensa de tantas informações sobre a investigação de Queiroz, argumentando que há um esforço em curso para “fabricar uma narrativa para a opinião pública”.

mj 4Bolsonaro e seu círculo íntimo estão envolvidos em um número crescente de investigações criminais e legislativas. Adriano Machado / Reuters

A investigação começou a tomar forma logo após a vitória eleitoral decisiva de Bolsonaro em outubro de 2018. Ele derrotou um partido de esquerda cuja enorme popularidade desmoronou quando seus líderes foram acusados ​​de esquemas de propina envolvendo grandes contratos governamentais e negócios transnacionais.

Logo após a eleição, promotores do Rio de Janeiro notaram que a atividade bancária do Sr. Queiroz em 2016 e 2017, enquanto ele estava na folha de pagamento de Flávio Bolsonaro, era incompatível com seus rendimentos declarados.

Desde então, outras investigações legislativas e criminais colocaram a família Bolsonaro na defensiva.

Outro dos filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, está sendo investigado por acusações semelhantes de desvio de fundos públicos durante seu período como vereador no Rio de Janeiro e em conexão com um caso sobre campanhas de desinformação travadas online. Um terceiro filho, Eduardo Bolsonaro , também está envolvido no caso de desinformação.

Como as investigações criminais e legislativas envolveram pessoas próximas ao presidente, seu governo liderou ou apoiou esforços que enfraqueceram os promotores anticorrupção. Eles incluíram tornar mais difícil para os investigadores obterem registros bancários para construir processos criminais. Uma nova lei sujeita os promotores a punições, incluindo multas e acusações criminais por má conduta.

Essas ações contribuíram para a saída dramática do membro mais popular do gabinete de Bolsonaro, Sergio Moro , que em abril acusou o presidente de tentar substituir o chefe da Polícia Federal para proteger amigos e parentes de investigações criminais.

A Suprema Corte está investigando se a conduta do presidente constituiu obstrução da justiça.

Os acontecimentos em torno da saída do Sr. Moro, um ex-juiz federal que se tornou a figura mais emblemática na cruzada anticorrupção que começou em 2014, são amplamente vistos como um abandono de fato da promessa do presidente de combater a corrupção. Um projeto de lei com amplas reformas anticorrupção defendidas por Moro foi abandonado.

mj 5O ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, renunciou em abril, acusando o presidente de tentar proteger amigos e parentes do escrutínio. Eraldo Peres/ Associated Press

“Nossa percepção é de que os criminosos de colarinho branco estão comemorando”, disse Melina Flores, procuradora federal que trabalhou em casos de corrupção de alto nível em Brasília, a capital.

Os investigadores estão lutando para progredir. A luta contra a corrupção, que antes gerou protestos em massa, perdeu ressonância à medida que o Brasil enfrenta o segundo maior número de mortes por coronavírus no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e o colapso econômico que se seguiu.

A mudança no enfoque nacional permitiu a restauração de um sistema tácito em que juízes e políticos poderosos protegem os interesses uns dos outros, disse Carlos Fernando dos Santos Lima, ex-promotor que trabalhou em investigações politicamente explosivas.

“É um retorno à velha prática política de ser protegido por manobras judiciais”, disse ele. “No Brasil temos uma república dos intocáveis ​​e uma república para o resto da população.”

Contra esse pano de fundo, os promotores do caso encontraram maneiras de manter a investigação sob os olhos do público – mesmo quando Queiroz procurou permanecer fora de vista e a família Bolsonaro minimizou sua importância.

Em junho, investigadores munidos de um mandado de prisão contra Queiroz o encontraram em uma residência em São Paulo que pertence a um dos advogados de Bolsonaro, Frederick Wassef.

A prisão, que dominou as primeiras páginas e noticiários por dias, foi seguida por vazamentos para a imprensa de que Queiroz havia enviado a Michelle Bolsonaro muito mais dinheiro do que os investigadores haviam divulgado inicialmente. Isso questionou o relato do presidente de que um único pagamento divulgado em 2018 foi feito para quitar uma dívida.

Depois que Bolsonaro atacou o repórter do jornal O Globo no domingo, milhares de brasileiros que criticam o presidente recorreram às redes sociais para fazer eco à sua pergunta: “Presidente, por que sua esposa recebeu US $ 16.000 de Fabrício Queiroz?”

As apostas são altas para a primeira-dama. Ao contrário do marido e de Flávio Bolsonaro, ela não é uma autoridade eleita, o que a priva das proteções judiciais de que desfrutam.

O quão politicamente prejudicial o caso será para Bolsonaro no longo prazo não está claro, dizem os analistas. Apesar de sua abordagem descuidada da pandemia do coronavírus, que contribuiu para a morte de mais de 118.000 brasileiros, o presidente ampliou ligeiramente sua base de apoio ao dar ajuda emergencial a milhões de brasileiros.

“A maioria dos brasileiros está pensando muito mais em sobrevivência do que em questões políticas”, disse Mauro Paulino, diretor da empresa de pesquisas Datafolha. “Quando a sobrevivência é sua principal preocupação, a corrupção se torna uma questão secundária.”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The New York Times [Aqui!].

Pastor Everaldo, que batizou Jair Bolsonaro no Rio de Jordão, é preso por participação em esquema de corrupção

pastor everaldoAo lado de Jair Bolsonaro, o Pastor Everaldo, presidente do PSC,    responsável pelo batismo do agora presidente nas águas do Rio Jordão, foi preso hoje por suposta participação em esquema de corrupção na Saúde do Rio de Janeiro

A prisão do Pastor Everaldo, presidente ad eternum do Partido Social Cristão (PSC), por causa de supostas relações com esquemas de corrupção na área da Saúde no estado do Rio de Janeiro traz um elemento complicador para a face “anticorrupção” do presidente Jair Bolsonaro.

É que, para quem não se lembra, foi o Pastor Everaldo que realizou o batismo do então deputado federal Jair Bolsonaro nas águas do Rio Jordão em Israel em maio de 2016, cerimônia na qual também estavam presentes o senador Flávio Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro, ambos agora membros do partido do prefeito Marcelo Crivella, o Republicanos (que muitos dizem não ser mais do que um braço partidário da Igreja Universal do Rio de Deus) (cerimônia esta mostrada na sequência de imagens abaixo).

batismo bolsonaro

Assim, ainda que haja celebração no Palácio do Planalto pelo afastamento do governador Wilson Witzel pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), o presidente Jair Bolsonaro tem sua capa de paladino anti-corrupção rasgada mais um pouco pelo envolvimento do pastor que o batizou em esquema que causou graves danos aos cofres estaduais do Rio de Janeiro, e tudo isso em meio a uma pandemia letal como é a da COVID-19.

Por outro lado, a interminável crise política em que está afundada a segunda economia da federação brasileira parece estar apenas em mais um momento de aprofundamento. 

Bannon, pai intelectual de Trump e Bolsonaro, é preso por fraudar campanha de doações para construção do muro na fronteira com o México

O esforço online de arrecadação de fundos arrecadou US $ 25 milhões, disseram as autoridades.

bannonCrédito: Calla Kessler / The New York Times

De Alan Feuer e 

Stephen K. Bannon, ex-conselheiro do presidente Trump, foi acusado na quinta-feira em Nova York de fraude por seu papel em um esquema relacionado a “We Build the Wall”, um esforço online de arrecadação de fundos que arrecadou mais de US $ 25 milhões para o presidente muito elogiado plano para erguer uma barreira na fronteira mexicana, disseram as autoridades.

Bannon e três outros réus “fraudaram centenas de milhares de doadores, capitalizando seu interesse em financiar um muro de fronteira para levantar milhões de dólares, sob o falso pretexto de que todo esse dinheiro seria gasto na construção”, Audrey Strauss, a procurador dos Estados Unidos em exercício em Manhattan, disse em comunicado na quinta-feira.

Bannon foi preso na quinta-feira em uma acusação de duas acusações não selada no Tribunal Federal do Distrito em Manhattan. Ele deve comparecer perante um juiz magistrado dos EUA em Nova York no final do dia.

De acordo com as autoridades federais, Bannon, amplamente considerado o arquiteto da campanha presidencial de Trump em 2016, arquitetou o complô para fraudar os doadores para a campanha de construção do muro com três outros homens: Brian Kolfage, 38, um veterano da Força Aérea de Praia de Miramar, Flórida; Andrew Badolato, 56, um financista de Sarasota, Flórida; e Timothy Shea, 49, de Castle Rock, Colorado.

Como fundador da “We Build the Wall”, o Sr. Kolfage prometeu a seus doadores que “não aceitaria um centavo em salário ou compensação” e que todo o dinheiro que arrecadasse seria usado “na execução de nossa missão e propósito ”, Disseram os promotores.

Mas essas promessas eram falsas, disseram os promotores. Em vez disso, eles disseram, Kolfage secretamente recebeu mais de US $ 350.000 em doações para seu uso pessoal. Bannon, por meio de uma organização sem fins lucrativos não identificada, recebeu mais de US $ 1 milhão de “Nós Construímos o Muro”, disseram os promotores, alguns dos quais ele usou para pagar centenas de milhares de dólares em despesas pessoais.

Para ocultar o fluxo ilícito de dinheiro, disseram os promotores, os quatro homens encaminharam os pagamentos da “We Build the Wall” não apenas por meio do grupo sem fins lucrativos de Bannon, mas também por meio de uma empresa de fachada controlada por Shea.

Os promotores sugeriram que eles estavam de posse de uma mensagem de texto na qual Kolfage diz a Badolato que o esquema de pagamento é “confidencial” e deve ser mantido com base na “necessidade de saber”.

Um porta-voz da Casa Branca não quis comentar as acusações. 

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Alan Feuer cobre tribunais e justiça criminal para a mesa do Metro. Ele escreveu sobre mafiosos, prisões, má conduta policial, condenações injustas, corrupção governamental e El Chapo, o chefe do cartel de drogas de Sinaloa preso. Ele ingressou no The Times em 1999.@Alanfeuer

William K. Rashbaum é redator sênior da seção Metro, onde cobre corrupção política e municipal, tribunais, terrorismo e tópicos mais amplos de aplicação da lei. Ele fez parte da equipe que recebeu o Prêmio Pulitzer de 2009 pelas notícias de última hora.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The New York Times [Aqui! ].

Extrema-direita austríaca pega com a boca na botija da corrupção que dizia combater

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No centro da foto, o líder do partido de extrema-direita “Partido da Liberdade”, Heinz-Christian Strache renuncia ao cargo de vice-premiê da Áustria após ser pego em caso de corrupção.

O combate à corrupção é um daqueles argumentos que embalam o discurso de todo político de extrema-direita que se preze. Isso é verdade no Brasil ou na Áustria, país que hoje é governado por uma coalizão ultra-conservadora que combina partidos de direita e de extrema-direita.

E é da Áustria que vem um exemplo primoroso de como a captura do discurso anti-corrupção pela extrema-direita é apenas um biombo que é utilizado para angariar setores que estejam legitimamente insatisfeitos com a situação econômica e, claro, com as evidências de corrupção política.

O caso envolvendo o agora ex-vice-chanceler federal austríaco Heinz-Christian Strache que renunciou ao cargo, como consequência das revelações de prevaricação eleitoral por dois veículos de imprensa alemães, onde atraído para um resort em Ibiza, o líder de extrema-direita tacitamente aceitou ofertas de suborno de uma suposta representante de um oligarca russo interessado em comprar um jornal de ampla circulação na Áustria, o Kronen Zeitung.

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A erupção desse escândalo ocorre às vésperas das eleições para o parlamento europeu e pode causar um deslocamento importante na composição futura da delegação austríaca, fato que confirmado poderá alterar o arranjo de forças em um momento particularmente importante da história do bloco.

O fato é que as revelações das tratativas que envolviam algo em torno de R$ 1,2 bilhão tiram das mãos da extrema-direita o suposto véu de santidade de anticorrupção  que seus partidos dizem carregar.  O que não deixa de ser uma lição importante para eleitores em todo o mundo que, como no Brasil, possam estar se deixando levar na conversa por esse tipo de discurso que não resiste à primeira oferta de vantagens indevidas.

Em Portugal, Sérgio Moro ataca ex-primeiro ministro que o rotula de “ativista político disfarçado de juiz”

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Sérgio Moro atacou ex-primeiro ministro português José Sócrates e acabou ouvindo o que não queria.

O ex-juiz federal e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, foi a Portugal participar de um evento e acabou envolvido numa forte polêmica com o ex-primeiro ministro José Sócrates que criticou a presença dele em terras portuguesas por sua suposta imparcialidade no julgamento do ex-presidente Lula. José Sócrates afirmou ainda que Sérgio Moro um “ativista político disfarçado de juiz”.

Como está acostumado a bater e não ser rebatido, Sérgio Moro resolveu bater firme no ex-primeiro ministro português  (que responde por 31 acusações em um caso de corrupção) que não debatia “com criminosos pela televisão“.

O problema é que José Sócrates sequer foi ainda levado a julgamento pelas acusações, e aproveitou a deixa para aprofundar o seu ataque a Sérgio Moro afirmando que “há no entanto, em todo este episódio, um mérito: as palavras produzidas confirmam o que já se sabia do personagem- como juiz, indigno; como político, medíocre; como pessoa, lamentável”.

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Mas a coisa ficou pior ainda porque parte da imprensa portuguesa resolveu, com claro desgosto, comprar a briga de José Sócrates e partiu para cima de Sérgio Moro, lembrando que “Portugal é um estado de direito”, e que “chamar “criminoso” a um cidadão que não foi julgado nem condenado é um abuso” que revelaria “a verdadeira natureza de Sérgio Moro“.

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E qual seria a verdadeira natureza de Sérgio Moro. Segundo o articulista do “Público”,  Manuel Carvalho, essa natureza seria a de “um juiz-político (ou um político-juiz) que nem num país que o recebe mostra perceber o que é o respeito diplomático. E, já agora, o que é um Estado de direito pleno“.

Essa descompostura em Sérgio Moro só deverá piorar a péssima imagem que o governo Bolsonaro desfruta na mídia e no meio político português, pois a querela tomou ares de incidente diplomático. Mas em se tratando de membros do governo Bolsonaro, este não será nem o primeiro ou último.

A tardia prisão do (des) governador Pezão não alterará em nada a crítica situação do Rio de Janeiro

A mídia corporativa está dando hoje com algum alarde a prisão do (des) governador Luiz Fernando Pezão em mais uma das fases da face fluminense da Operação Lava Jato (1, 2, 3 e 4 ).

pezao preso

Longe de sentir algum tipo de conforto, essa prisão combina dois aspectos básicos, os quais não são nem um pouco animadores em relação ao futuro do estado do Rio de Janeiro. A primeira é que essa prisão é tardia, pois todas as evidências existentes já deveriam ter colocado Luiz Fernando Pezão para fazer companhia à Sérgio Cabral faz  algum tempo. O  segundo elemento é que essa prisão é coberta pelo manto da inutilidade. É que os motivos alegados para prender Pezão são como dizem os gringos que a família Bolsonaro tanto adora,  um “bowl of peanuts” (em bom português “uma tigela de amendoins”. 

Trocado em miúdos, os motivos expostos para prender Pezão deixam de fora a escandalosa farra fiscal que drenou bilhões de reais do tesouro fluminense na forma de isenções fiscais, e também a ainda obscura “Operação Delaware” com a qual se entregou outros tantos bilhões   de reais pertencentes ao RioPrevidência . Também há ainda a rumorosa privatização da CEDAE que foi aprovada a toque de caixa pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a pedido de Luiz Fernando Pezão.

Há ainda que se lembrar que a despeito da montanha de acusações que pesavam sobre os ombros de Luiz Fernando Pezão,  a ele foi permitido assinar o conjunto   de medidas que ficou conhecido pela alcunha de “Regime de Recuperação Fiscal” (RRF). Essas medidas estão na raiz do colapso dos serviços públicos e na incapacidade de futuros governos estaduais de oferecerem saídas para a crise que engole o Rio de Janeiro, aprofundando com ela a situação de caos social que beira o que Emile Durkheim chamou de “anomia”.

Além disso, há que se enfatizar que no Rio de Janeiro a ênfase nas prisões de políticos tem deixado convenientemente de lado a apuração do envolvimento de outros segmentos que igualmente se locupletaram com a lambança promovida por Sérgio Cabral e seu séquito de plutocratas.  Nesse sentido, a prisão de Luiz Fernando Pezão cumpre ainda o papel de distrair a população do fato básico que não foi apenas no executivo e no legislativo que houve uma penetração do modus operandi que drenou bilhões de reais de dinheiro público para as mãos de indivíduos e empresas.

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Há ainda que se ver o que acontecerá com o comando do governo do Rio de Janeiro com a prisão de Luiz Fernando Pezão. Há meses não se ouve falar de Francisco Dornelles e é sabido que aos 83 anos, o vice governador não anda nada bem de saúde, com pouquíssima capacidade de gerenciar uma equipe que tem problemas monstruosos para tocar até que finalmente a cortina se feche para o grupo que hoje ocupa o Palácio Guanabara.

Assim, que ninguém se iluda com a capacidade do futuro governador de retirar rapidamente o Rio de Janeiro do atoleiro. É que com a manutenção do RRF, Wilson Witzel entrará e sairá do governo estadual completamente manietado e sem qualquer autonomia para mudar estrategicamente a situação do Rio de Janeiro. Quando muito ele poderá cumprir a sua disposição de aumentar a repressão nas comunidades pobres com armamentos sofisticados comprados em Israel.

Finalmente, há que se superar o processo de ilusão com a capacidade da chamada Operação Lava Jato de resolver o problema da corrupção no Brasil. As questões deixadas abertas por essa rumorosa operação jurídico policial mostram que se está, quando muito, tocando na superfície de um elemento que possui caráter sistêmico, pois deixa de fora vários peixes graúdos.  Portanto, e aqui “I rest my case”, essa prisão tem muito mais espuma do que chopp. E a caravana tenderá a seguir o seu caminho, deixando o Rio de Janeiro imerso em sua crise colossal.


[1] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2018/11/29/governador-do-rio-de-janeiro-luiz-fernando-pezao-e-preso-diz-tv.htm

[2] https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2018/11/5597586-pezao-e-preso.html

[3] https://oglobo.globo.com/rio/lava-jato-prende-pezao-em-nova-operacao-contra-corrupcao-no-governo-do-rio-23267396

[4] https://extra.globo.com/noticias/rio/lava-jato-manda-prender-pezao-em-nova-operacao-contra-corrupcao-no-governo-do-rio-23267397.html

(Des) governador Pezão assina decreto anticorrupção: suprema ironia ou certeza de impunidade?

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Uma notícia publicada pelo jornal Folha da Manhã deveria merecer receber o Prêmio Pulitzer pela manchete mais irônica do século XXI. A mesma diz com suprema capacidade síntese “Pezão publica lei anticorrupção no Rio de Janeiro” [1].  

pezao anticorrupção

Vamos lá, será que sou o único a ver a suprema ironia na promulgação desse decreto que visa punir empresas envolvidas em atos de corrupção que firam a economia e a administração pública? 

É que sendo Pezão o herdeiro natural de um governador (no caso o hoje desgraçado Sérgio Cabral Filho) que está preso por ter cometido os mais graves crimes contra o tesouro estadual de que se tem notícia, ver a agora o (des) governador assinar um decreto anticorrupção é algo que 1) coloca o tal descrédito em imediata suspeição e 2) mostra que a luta contra a corrupção é uma daqueles agendas que servem a qualquer propósito, inclusive a de limpar a barra de quem é pego na necessidade de oferecer sérias explicações sobre o que fez ao longa da última década.

Finalmente, há que se ressaltar que a própria matéria da Folha da Manhã nota a contradição entre o (des) governador Pezão ter assinado um decreto anticorrupção enquanto é  citado em delações da Lava Jato,  e é investigado em auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE).  Tudo isso por suspeita, sim isso mesmo, de envolvimento em atos de corrupção.

E antes que eu me esqueça: julho está passando e nem notícias do pagamento da metade do 13o. salário de 2018 dos servidores públicos estaduais. Será que milhares de servidores vão ter o mesmo tipo de tratamento que tiveram nos últimos anos por parte do (des) governador Pezão? 


[1] http://www.folha1.com.br/_conteudo/2018/07/politica/1236654-pezao-publica-lei-anticorrupcao-no-rio-de-janeiro.html

Corrupção, o tigre de papel que enfeitiça a classe média

O Brasil e especialmente o estado do Rio de Janeiro vivem assombrados por múltiplos casos de corrupção e pela percepção de que o problema vem aumentando.  Essa percepção tem servido para a implantação de um ambiente de caças às bruxas, onde até agora apenas o judiciário está livre das perseguições e denúncias.

Mas será que a corrupção sozinha explica os problemas que enfrentamos? A primeira coisa é que o mote do combate à percepção tem servido para a derrubada de governos eleitos em diferentes partes do planeta, especialmente naquilo que se convenciona chamar de periferia do Capitalismo. 

Entretanto, se formos levar em conta o ranking produzido pela organização não-governamental “Transparência Internacional” [1], o Brasil não é um dos piores exemplos de corrupção, estando basicamente numa faixa média, sendo colocado na posição de 79a., num ranking que inclui 176 países (ver imagem abaixo).

corrupção

Ainda que se fale pouco, na América do Sul, por exemplo, apenas dois países (Uruguai e Chile) estão em condições melhores do que o Brasil. E se esse olhar for expandido, o Brasil está em condições melhores do que a maioria dos países Africanos e asiáticos.

Desta forma, por que a mídia corporativa brasileira prefere insistir num processo de demonização do sistema partidário sem fazer a devida análise do fato, por exemplo, que o Brasil possui índices estáveis neste quesito. E, mais que a saída da presidente Dilma Rousseff o nível de corrupção aumentou e não diminuiu como demandavam os participantes das hoje sumidas “manifestações contra a corrupção”.

A explicação para esse enigma está sendo dada pela agenda regressiva que o governo “de facto” de Michel Temer vem impondo nos direitos sociais e na desnacionalização da economia brasileira que sendo ocupada por empresas oriundas de países onde os níveis de corrupção são similares ou até piores aos que vivenciamos no Brasil, como é o caso da China.

Outra observação é que se a corrupção é um elemento sistêmico dentro da economia mundial, não vão ser operações localizadas e com resultados seletivos que vão diminuir o grau de corrupção experimentado no Brasil. Os países mais bem colocadas nesse ranking possuem não apenas legislações fortes, mas essencialmente lograram graus de desenvolvimento econômico e social que tornam mais difícil o envolvimento de seus cidadãos e empresas na oferta de vantagens indevidas, especialmente quando se trata da coisa pública. Se isso for omitido, o combate à corrupção será um belo tigre de papel que determinadas frações das classes dominantes acenam sempre que precisam reordenar as relações de poder dentro do estado.


[1] https://www.transparency.org/

Crise na Alerj, silêncio sepulcral na planície dos Goytacazes

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A profunda crise desencadeada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) com a prisão dos principais mandarins do PMDB (pela ordem Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi) tem um novo capítulo na tarde desta 6a. feira com a realização de uma sessão que poderá mantê-los fazendo companhia ao ex (des) governador Sergio Cabral na cadeia de Benfica ou retorná-los para seus gabinetes.

Curiosamente essa críse sem precedentes na história da Alerj vem recebendo um cobertura para lá de minimalista por parte da mídia corporativa campista. A explicação para tamanho silêncio sinceramente não tenho, mas tenho desconfianças. Uma delas é que três dos mais aguerridos defensores do (des) governo Pezão têm sua base eleitoral nas regiões Norte e Noroeste Fluminense. No caso de dois deles, Geraldo Pudim e João Peixoto, o principal reduto eleitoral é o município de Campos dos Goytacazes. Aliás, dos quatro deputados que podem ser colocados como sendo originários do Norte e Noroeste Fluminense, apenas o deputado Bruno Dauaire (PR) pode ser colocado como sendo parte da minoria oposicionista dentro da Alerj.

Felizmente o jornal “EXTRA” disponibilizou em sua capa desta 6a. feira uma espécie de carta de controle da votação que deverá desconsiderar a decisão do TRF2 e suspender as prisões de Picciani, Melo e Albertassi. Disponibilizo a mesma com uma marcação dos quatro deputados do Norte e Noroeste Fluminense. Vamos ver como votam eles. Mas arrisco a dizer que muito provavelmente apenas Bruno Dauaire deverá votar pela manutenção da decisão de prender e afastar de seus mandatos os mandarins da Alerj.

capa extra

Já sobre o silêncio sepulcral que caracteriza o comportamento da maioria da mídia corporativa no município de Campos dos Goytacazes é possível que sejamos brevemente contemplados que com alguma bomba envolvendo o ex-governador Anthony Garotinho. É que ele continua sendo o principal instrumento de diversionismo quando se trata de não falar das raízes da grave crise que ocorre neste momento no Rio de Janeiro.

De minha parte, convido aos leitores a que se informem sobre como votaram os quatro deputados ligados ao Norte e Noroeste Fluminense para ver o meu placar de 3 votos a favor dos mandarins do PMDB se confirmará ou não. A ver!

Rio de propinas: Sérgio Cabral finalmente apontou seu dedo acusador para Pezão

pezao dedo

Demorou, mas o momento finalmente chegou. Ontem em depoimento ao juiz Marcelo Bretas da 7a. Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, o ex (des) governador Sérgio Cabral lembrou ao ser questionado sobre a cobrança propinas nas obras públicas realizadas no seu (des) governo que o então secretário estadual de obras era o atual (des) governador, o seu protégée político Luiz Fernando Pezão [Aqui!].

cabral pezão propina

Embora a informação de que Luiz Fernando Pezão era o secretário estadual de Obras quando alguns dos casos mais cabeludos de superfaturamento de obras ocorreram esteja disponível até no Wikipedia [Aqui!], até o momento o atual (des) governador estava passando basicamente impune pelo rio de lama que varreu o executivo fluminense após a prisão de Sérgio Cabral e vários de seus (des) secretários.

No more” diria o gringo. É que apesar de Pezão já ter mandado dizer que não comentará as confissões de Sérgio Cabral, o gato foi colocado para fora do saco, como diriam os mais antigos. Este desdobramento cria embaraços não apenas para Pezão, mas para membros do legislativo e do judiciário que já deveriam ter, de alguma forma, se movido para apurar o possível envolvimento do (des) governador Pezão nas tratativas nada republicanas que ocorreram quando ele ocupava o duplo papel de vice  (des) governador e secretário estadual de obras. 

Por outro lado, usando um termo que marcava as tratativas feitas entre empresários corruptores e políticos corruptos, o fogo que cerca Pezão neste momento ainda tem muito oxigênio para queimar. Talvez isto explique o sorriso nervoso que aparece na face do ainda (des) governador em certas ocasiões. É que ele deve saber que cedo ou tarde (aliás, já tardou) explicações terão que ser oferecidas, e que elas terão que ser melhores do que aquelas que Sérgio Cabral achou que teria que prestar para se livrar de muitos anos de cadeia.