New Scientist informa seus leitores sobre os riscos trazidos por Bolsonaro para a Amazônia e seus povos

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A revista “New Scientist” (que é publicada no Reino Unido mas possui versões em diversos países) publicou ontem (07/11) uma matéria assinada pelos jornalistas Mary Menton e Felipe Milanez cujo nada elogioso título é “Brazil’s next president threatens the people and forests of the Amazon” (ou em bom português “O próximo presidente do Brasil ameaça os povos e as florestas da Amazônia” [1].

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Além de informar que o presidente eleito informou que irá extinguir o Ministério do Meio Ambiente e colocar suas tarefas no interior do Ministério da Agricultura (que agora sabemos será comandado pela deputada Tereza Cristina da Costa Dias (DEM/MS) que vem a ser a presidente da bancada ruralista e uma das artífices do chamado Pacote do Veneno que pretende escancarar ainda mais o Brasil ao mercado de agrotóxicos) [2]. Aliás, quem desejar ler uma excelente análise sobre a “Musa do Veneno”, pode acessar este link [3]

Menton e Milanez lembram ainda que o “The New York Times” já apontou que o presidente eleito, apesar de se reclamar como uma espécie de Trump tropical, está mais para uma combinação do presidente estadunidense com o filipino Rodrigo Duterte.

Entretanto, do ponto de vista dos problemas que deverão ocorrer na Amazônia com a implementação do relaxamento ainda maior da proteção dos ecossistemas amazônicas, a matéria traz a informação dada por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que as taxas de desmatamento deverão aumentar em torno de 268%, saltando dos atuais 6,9 mil km² (valores do ano passado) para 25,6 mil km² anuais [4].

Na prática o que esse artigo numa revista com um amplo público na Europa e na América do Norte é aumentar o senso de desqualificação do Brasil como um parceiro responsável nos esforços para conter a aceleração das mudanças climáticas.  Se o presidente eleito insistir não apenas na extinção do MMA, mas também na saída do Brasil do Acordo Climático de Paris, os custos econômicos e políticos serão tão grandes ou maiores do que os causados pelo anúncio de que a embaixada brasileira em Israel será transferida de Tel Aviv para Jerusalém. 


[1] https://www.newscientist.com/article/mg24032034-500-brazils-next-president-threatens-the-people-and-forests-of-the-amazon/

[2] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2018/11/07/bancada-ruralista-deputada-dem-tereza-cristina-ministerio-agricultura.htm

[3] https://www.huffpostbrasil.com/2018/11/07/bolsonaro-escolhe-tereza-cristina-a-musa-do-veneno-para-ministerio-da-agricultura_a_23582997/

[4] https://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/ambiente-se/cientistas-estimam-que-desmatamento-da-amazonia-pode-triplicar-em-cenario-bolsonaro/

O licenciamento ambiental flex e a expansão de monoculturas na Amazônia: uma mistura explosiva

Uma das ideias mais propagadas sobre o controle do desmatamento na Amazônia tem sido a de que se pode por mediações entre o Estado, organizações ambientalistas e o latifúndio agro-exportador é possível deter o avanço da perda florestal em áreas ainda coberta por vegetação primária.  Um dos exemplos desse argumento de que acordos setoriais seriam ferramentas viáveis para se chegar ao controle do desmatamento é a chamada “Moratória da Soja” (Aqui!).

Como conheço parte da Amazônia a partir de mais de duas décadas de trabalho de campo, sempre me coloquei na posição de que nada pode substituir a ação do Estado, seja como órgão fiscalizador ou como implementador de regras que coibam efetivamente o avanço sobre as áreas cobertas por florestas. 

Essa minha posição não é majoritária sequer dentro da comunidade científica que se tem ocupado de estudar os impactos do avanço de diversas monoculturas para o interior da Amazônia brasileira.  Aliás, se examinarmos a produção cientifica recente sobre esse assunto, encontraremos diversos artigos saudando a efetividade da Moratória da Soja na contenção da derrubada de florestas na Amazônia.

Pois bem, depois de vários anos de trabalho, eu e outros quatro colegas acabamos de ter publicado um artigo  intitulado “Spatiotemporal mapping of soybean plantations in Rondônia, Western Brazilian Amazon” na tradicional revista científica “Acta Amazonica” onde demonstramos que, pelo menos no caso do estado de Rondônia,  a monocultura de soja está ocupando áreas que previamente se encontravam cobertas por florestas nativas (Aqui!).

A tabela e a figura que vão abaixo mostram não apenas a magnitude da expansão da monocultura de soja entre 2000 e 2014, mas também sinaliza que Rondônia pode estar se tornando uma nova fronteira da soja, e potencialmente uma porta de entrada para os estados do Acre e do Amazonas.

Considero que os resultados que estamos apresentando neste artigo ajudam a entender a pressa da bancada ruralista em isentar os grandes latifúndios do processo de licenciamento ambiental. É que não apenas há pressa para incorporar novas áreas no ciclo de produção de monoculturas, como provavelmente em breve aparecerão outros trabalhos mostrando que a derrubada de florestas já ocorreu sem que fosse feito o devido licenciamento ambiental. Em outras palavras, é juntar a fome com a vontade de comer.

O problema é que se não houver uma rápida ação para impedir o esfacelamento do licenciamento ambiental, o que acabamos de demonstrar neste artigo será apenas uma previsão tímida do que poderá ocorrer na Amazônia em termos de derrubada de florestas nativas.

E, finalmente, a partir dos resultados que acabamos de publicar, espero novas e mais acuradas avaliações da “Moratória da Soja”. É que, pelo menos no caso de Rondônia, ela não funcionou como tem sido propagandeado por sojicultores, ambientalistas e por parte da comunidade científica.