Dia da Amazônia: Como o desmatamento da maior floresta tropical do mundo interfere na saúde da população?

COVID-19 e outras doenças chegam até nós como consequência da degradação ambiental

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Crédito: Tomáš Dohnal (Pixabay)

O Dia da Amazônia é celebrado em 5 de setembro por ser a data de criação da província do Amazonas, por Dom Pedro II em 1850. A data busca chamar atenção para o bioma que é a maior floresta tropical do mundo, reforçando a necessidade de sua preservação e do uso sustentável das matérias primas que a floresta propicia. O assunto é de extrema importância, não só pela vida dos seres vivos que ali habitam, mas também para a saúde ambiental do planeta e do ser humano.

A degradação ambiental ocorre há anos, e cada vez mais vemos de perto como esse descaso com as florestas interfere diretamente na vida da população. Estudos científicos já atestaram que o desmatamento gera uma cadeia de acontecimentos complexos, criando meios para que diferentes patógenos mortais se espalhem entre os humanos. Doença de Lyme e a malária, por exemplo, surgiram a partir daí.

São 40 mil espécies de plantas, milhões de insetos e 400 mamíferos que estima-se ter na Amazônia, floresta que ocupa sete milhões de quilômetros quadrados e faz parte de nove países da América do Sul. O especialista em Gestão de Resíduos Sólidos e fundador da Oceano Resíduos, Rafael Zarvos, alerta a necessidade das pessoas entenderem que desmatamento e doenças estão relacionados.

“Infelizmente, somos a única espécie capaz de destruir e de ameaçar a nossa própria sobrevivência. A forma como a sociedade está transformando o meio ambiente e reduzindo os habitats naturais, faz com que animais silvestres e seres humanos se aproximem. Isso potencializa o risco de transmissão de variados patógenos da espécie deles para a nossa”, explica Zarvos.

Doenças como a zika, que somada a dengue e chikungunya contabilizaram um aumento de 248% do número de casos no ano de 2019, é exemplo de enfermidade que veio da cena rural para a urbana pelo avanço do desmatamento em áreas florestais. “A destruição da natureza coloca em risco a nossa própria existência. O coronavírus, por exemplo, responsável pela pandemia que vivemos, é fruto do contato de humanos com morcegos”, destaca Rafael.

Em relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), é possível ver que a cada quatro meses o ser humano tem uma infecção originária de problemas relacionados ao meio ambiente, e que 75% das doenças são de origem animal. O consumo de carne crua de animais silvestres, o desmatamento, as mudanças climáticas e o tráfico ilegal de animais silvestres são fatores que contribuem para facilitar o contágio de seres humanos por patógenos que vivem na natureza e nas espécies que ali habitam.

“Cientistas especulam que o vírus que desencadeará a próxima pandemia já está em circulação, é só uma questão de tempo até sermos atingidos. Isso prova que está mais do que na hora de prestarmos atenção no consumo de produtos, além de pequenos hábitos do dia a dia que podem ser cruciais para ajudar o meio ambiente e a nós mesmos”, finaliza o especialista.

Sobre a Oceano

A Oceano é uma empresa de gestão de resíduos e coleta inteligente, responsável pela correta destinação do lixo produzido no nosso dia a dia. Nossa gestão é focada, principalmente nos chamados micropoluentes, substâncias de uso comum em nosso dia a dia que constituem uma ameaça emergente à qualidade de águas, rios, lagos, reservatórios, mares e oceanos, uma vez que inexiste tecnologia para remoção destas substâncias provenientes de esgotos sanitários e hospitais, com coleta domiciliar e planos adequados para cada necessidade.

Novo PL do licenciamento ambiental incentiva o crime e a degradação

unnamedPaola Samora, geógrafa, diretora-presidente do IPESA

 Por Paola Samora, geógrafa, diretora-presidente do IPESA
Com o pretexto de modernizar as regras do licenciamento ambiental no Brasil, o Projeto de Lei (PL) 3.729/2004, caso aprovado, vai estimular a insegurança jurídica e destruir o que foi construído ao longo dos últimos anos pela Política Nacional de Meio Ambiente.

 

O texto-base do substitutivo apresentado pelo deputado Neri Geller (PP-MT), vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), foi aprovado por 300 votos contra 122 e encaminhado ao Senado em tempo recorde – apresentado no dia 10 de maio e aprovado já no dia 13 – sem a realização de audiências públicas.

 

Ao transferir a estados e municípios o poder de definir o processo de concessão de licenças, introduzir exceções à obrigatoriedade do licenciamento ou mesmo facilitar a sua obtenção, são muitas as chances de multiplicar os danos ambientais. Atividades industriais que desmatam e poluem, por exemplo, ficarão livres de interferência e regulação estatais.

 

Este é mais um indício de que o caminho escolhido pelo Governo Federal vai na contramão de países desenvolvidos, em que a preocupação em limitar os impactos das mudanças climáticas tem gerado medidas concretas e de forte teor regulatório em prol dos interesses coletivos e do compromisso com o meio ambiente e a humanidade.

 

Vale lembrar que se a proposta de legislação passar pelo Senado, acabará com o licenciamento em áreas indígenas ou territórios quilombolas, que ainda não tenham sido demarcados ou titulados. O problema aqui é que parte significativa das terras ocupadas por essas populações tradicionais ainda não passou por esse processo. Isso significa também que grandes projetos de infraestrutura terão aval para desmatar, poluir e exterminar comunidades que estejam nas suas rotas.

 

Aprovado na Câmara, o PL 3.729 representa o desmonte de um histórico de construção do arcabouço legal de proteção ambiental no Brasil e uma afronta à Constituição. Um dos itens mais contraditórios, para citar um exemplo, é a chamada Licença Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC), por meio do qual os responsáveis por empreendimentos de “baixo ou médio risco ambiental” declaram que cumprirão as leis ambientais. Essa modalidade autodeclarada, em que o poder público deixa de regular o impacto ambiental das atividades econômicas, notadamente, do agronegócio, responsável por 25% do total de emissão de gases de efeito estufa, impedirão que os gestores públicos organizem a ocupação do território sem riscos ambientais.

 

Outra ameaça é a desvalorização do papel dos órgãos responsáveis por Unidades de Conservação, como o ICMBio. Na nova lei rural, a manifestação desses órgãos passa a ser apenas consultiva, podendo ser ignorada pelo órgão licenciador.

 

Diante de tantos desastres ambientais vividos recentemente no país, como a quebra das barragens de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, a aprovação desse projeto irá representar novos episódios de acidentes socioambientais ao enfraquecer a segurança jurídica desse relevante instrumento de proteção ambiental.

 

Ao contrário do argumento de que o PL vai desburocratizar o processo e destravar a economia ao abrir mão desses controles, na realidade, vai prejudicar a atração de investimentos e deteriorar, ainda mais, a imagem do Brasil como pária ambiental.

 

Neste sentido, é preciso atentar para a falácia do negacionismo climático, que usa o argumento de que a preservação ambiental é inimiga do desenvolvimento econômico, ou mesmo a culpada pela escassez de empregos e alimentos, a fim de justificar que o licenciamento é uma burocracia desnecessária.

 

Será inevitável, e até esperada, a perda de postos de trabalho pela superação da indústria dos combustíveis fósseis. Mas ela pode ser compensada com a abertura de novos empregos ligados às fontes de energia limpa. E a transição para um modelo agrícola baseado na produção ecológica e orgânica, somada a medidas consistentes para evitar o desperdício de alimentos, podem minimizar os problemas decorrentes da insegurança alimentar no planeta.

 

Por fim, uma lei que não concilia os interesses de diferentes setores da sociedade e não atende ao primeiro objetivo da Lei da Política Nacional de Meio Ambiente, de 1981, que defende compatibilizar o desenvolvimento socioeconômico com a preservação do meio ambiente e do equilíbrio ecológico, é inconstitucional e ultrajante.

Como o desmatamento da maior floresta tropical do mundo interfere na saúde da população?

Covid-19 e outras doenças chegam até nós como consequência da degradação ambiental

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Quanto mais próximos os humanos estão dos animais, maiores são as oportunidades de contágio zoonótico, em que um patógeno salta do animal para o humano. Zoë van Dijk para NPR

A preservação do meio ambiente nunca esteve tão em voga quanto ultimamente, o assunto é de extrema importância, não só pela vida dos seres vivos que ali habitam, mas também para a saúde ambiental do planeta e do ser humano.

A degradação ambiental ocorre há anos, e cada vez mais vemos de perto como esse descaso com as florestas interfere diretamente na vida da população. Estudos científicos já atestaram que o desmatamento gera uma cadeia de acontecimentos complexos, criando meios para que diferentes patógenos mortais se espalhem entre os humanos. Doença de Lyme e a malária, por exemplo, surgiram a partir daí.

São 40 mil espécies de plantas, milhões de insetos e 400 mamíferos que estima-se ter na Amazônia, floresta que ocupa sete milhões de quilômetros quadrados e faz parte de nove países da América do Sul. O especialista em Gestão de Resíduos Sólidos e fundador da Oceano Resíduos, Rafael Zarvos, alerta a necessidade das pessoas entenderem que desmatamento e doenças estão relacionados.

“Infelizmente, somos a única espécie capaz de destruir e de ameaçar a nossa própria sobrevivência. A forma como a sociedade está transformando o meio ambiente e reduzindo os habitats naturais, faz com que animais silvestres e seres humanos se aproximem. Isso potencializa o risco de transmissão de variados patógenos da espécie deles para a nossa”, explica Zarvos. 

Doenças como a Zika, que somada a Dengue e Chikungunya contabilizaram um aumento de 248% do número de casos no ano de 2019, é exemplo de enfermidade que veio da cena rural para a urbana pelo avanço do desmatamento em áreas florestais. “A destruição da natureza coloca em risco a nossa própria existência. O coronavírus, por exemplo, responsável pela pandemia que vivemos, é fruto do contato de humanos com morcegos”, destaca Rafael.

Uma área queimada da floresta amazônica no estado do Pará, Brasil, em 2019. Um crescente conjunto de evidências mostra que a perda e fragmentação da floresta podem aumentar o risco de doenças infecciosas de origem animal, como o coronavírus. Leo Correa / AP

Em relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), é possível ver que a cada quatro meses o ser humano tem uma infecção originária de problemas relacionados ao meio ambiente, e que 75% das doenças são de origem animal. O consumo de carne crua de animais silvestres, o desmatamento, as mudanças climáticas e o tráfico ilegal de animais silvestres são fatores que contribuem para facilitar o contágio de seres humanos por patógenos que vivem na natureza e nas espécies que ali habitam.

“Cientistas especulam que o vírus que desencadeará a próxima pandemia já está em circulação, é só uma questão de tempo até sermos atingidos. Isso prova que está mais do que na hora de prestarmos atenção no consumo de produtos, além de pequenos hábitos do dia a dia que podem ser cruciais para ajudar o meio ambiente e a nós mesmos”, finaliza o especialista.

A perda da credibilidade do governo brasileiro frente aos dilemas internacionais e na degradação ambiental das florestas

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Por Junio Cesar dos Santos Carmo e  Gabriel Henrique Alves*

Com o pós Guerra Fria e a entrada no século XXI novas demandas tomaram espaço na agenda internacional, perdendo o caráter estrito voltado para segurança e armamento como definição de poder. Com o adjunto do acordo de Paris (2015), do Protocolo de Kyoto (1997), da Agenda 2030 e outras convenções que permeiam a temática da preservação ambiental, quanto a redução da emissão de gases, desenvolvimento sustentável, energias renováveis e etc; a pauta sobre meio ambiente tem adquirido relevante proporção nos debates internacionais. Entre 2019 e 2020, ocorreu um crescimento considerável nos incidentes que envolvem desastres ambientais, sobretudo no que tange às queimadas e a emissão de CO₂. Nesse sentido, o Brasil obteve palco em inúmeros canais de telecomunicações internacionais, vis a vis, a degradação ambiental na Amazônia e no momento atual com os incêndios no Pantanal. Tais notícias trouxeram novamente a discussão sobre a irresponsabilidade dos Estados latino-americanos na proteção do meio ambiente e a necessidade de um estatuto internacional para a “preservação da Amazônia”. A constituição do sistema anárquico internacional tem um impacto direto nas relações entre os países, nas quais em sua maioria (se não na sua totalidade) são moldadas por interesses ou aspirações que mantenham/aumentem o status quo desses atores no paronama global.

Entretanto, na habilidade de causar dano, estimar capacidades e o comportamento entre os Estados, os jogos de interesses se mostram claros na entrevista que o Presidente da França, Emmanuel Macron participou no dia 26 de agosto de 2019 ao abordar sobre as queimadas na Amazônia, uma vez que afirmou que “a nossa casa está queimando”. Nesta mesma linha de raciocínio sobre, o Presidente francês pontuou acerca da irresponsabilidade do Governo de Jair Bolsonaro ao ressurgir com o tema da “internacionalização da Amazônia”, uma vez que as medidas de contenção aos incêndios que vem devastando a região são ínfimas.

As aspirações de Macron são muito claras ao considerar às pressões populares quanto à sua inexequibilidade às propostas de governo nos resguardos de preservação ambiental. No entanto, o Presidente se contrapôs ao consentir uma redução de 50% sobre os impostos da licença para caça na França (algo praticado por cerca de 1,2 milhões de franceses). Outro aspecto estratégico se exemplificou no argumento de ser necessário a criação de um Estatuto Internacional para Amazônia; indicação que teve apoio de grande parte dos líderes da União Europeia e pelo próprio G-7, o que levou a interromper o acordo de livre comércio entre o MERCOSUL e a UE, tido como pretexto as queimadas e a urgência por uma tomada de decisão eficiente pelo Governo brasileiro (Gazeta do Povo, 2019). Esta interrupção permite que França tenha mais tempo para reorganizar sua situação frente ao acordo, visto que 1,7% do PIB é voltado para o setor agrícola e o sistema tarifário disposto na proposta teria impacto direto sobre a economia francesa tanto na importação quanto exportação (Aicep Portugal Global, 2018, p 5), assim como uma forma que Macron encontrou para melhorar sua imagem na mídia em relação às pautas ambientais. Portanto, mais uma vez o sul-global sofre com interferência por países com maior poder econômico e influência no sistema internacional.

O Presidente Donald Trump iniciou a saída dos EUA do acordo de Paris, quanto a redução da emissão de gases, sendo que o país que detém de 4% da poluição mundial e um dos líderes que apoiam fervorosamente a produção e consumo de combustíveis fósseis (The Guardian, 2020). Este advento, por maior que tenha tido certa repercussão internacional, os constrangimentos sob os norte-americanos não foram os mesmos quanto à questão da Amazônia. Ademais, a Austrália enfrentou uma das piores queimadas nos últimos anos, com mais de 10 milhões de hectares queimados e 28 mortos, devido ao evento chamado Dipolo do Oceano Índico que provocou uma seca intensa, pouca chuva e temperaturas perto dos 45oC (BBC, 2020). Mesmo que as queimadas tenham justificativas de cunho climático (“natural”) – o que o mesmo não ocorre na Amazônia por ser uma região muito úmida e sofrer com uma agressiva exploração ambiental – não existiu uma repercussão internacional que culpasse o Governo ou que evidenciasse uma necessidade de interferência igual na América Latina, sobretudo, porque interferir nas políticas australianas, estado-unidense bem como o status da Amazônia, intitularia-se como uma violação ao princípio de soberania previsto no artigo 3º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) dos países que ali estão estabelecidos.

Não obstante, ao fazer uma análise sobre imagem do Brasil no exterior, especialmente em relação ao Governo Bolsonaro, os noticiários intitulam o Presidente como um “líder vingativo” e que apresenta uma postura “irresponsável e perigosa”, um caráter que influi diretamente sob as pressões e os constrangimentos internacionais sofridos (BBC, 2020). Pontuações que atribuem fuga de investidores do país, perda de credibilidade internacional e a ameaça a própria diplomacia brasileira, principalmente em relação ao MERCOSUL com o re-alinhamento das política externa brasileira com a dos Estados Unidos.

Todavia, as ações negligentes e pouco efetivas para conter as queimadas e a degradação ambiental da Floresta Amazônica e na região Pantanal são um reflexo não só governamental, mas dos impactos industriais e dos fazendeiros, como gerados pela agricultura, pecuária e mineração. “A área desmatada no ano passado na maior floresta tropical do mundo – 60% da qual está no Brasil – foi estimada em 10 mil quilômetros quadrados, correspondente aproximadamente ao tamanho do Líbano” (DW, 2020). Na Amazônia, cerca de 80% do desmatamento é resultado de ações da pecuária, sendo que em uma escala nacional, a região norte abarcou 52,5% dos focos de queimadas de 2019, logo em seguida o cerrado com 30,1% e a Mata Atlântica 10,9%. As queimadas no Brasil cresceram cerca de 82% em relação a 2018 com mais de 71 mil focos, sendo o maior número registrado nos últimos 7 anos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Num panorama mundial, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), até 40% da população mundial sofrerá com a falta de água e até 2050 esse número subirá para 2/3. 

Nesta lógica, as alterações climáticas e o próprio aquecimento global são resultado direto do consumo desenfreado do ser humano, da produção em larga escala pelas indústrias, pela falta de responsabilidade dos líderes mundiais bem como a uma de consciência moral, que fomentará consequências exorbitantes no futuro com aumento das temperaturas, do nível do mar, perda de biomas e extinção de espécies e uma ação mais violenta da natureza como resposta. O cenário brasileiro vem sendo uma avalanche, com perda de fiabilidade, protagonismo nas Nações Unidas e principalmente no MERCOSUL. Atualmente, o Pantanal é a nova vítima, e de acordo com o New York Times os incêndios por fazendeiros acarretaram perda de 10% da áreas úmidas do país, sendo que as queimadas na maior planície alagada do planeta, resultaram em mais de 7 mil milhas, ou seja, 11 mil km de áreas degradadas de acordo com o estudo feito pela NASA (The New York Times, 2020, tradução pelo autor). Nesse sentido, não apenas o Brasil, mas a sociedade internacional como um todo precisa de fato tomar medidas que recuem esse processo destrutivo e que saiam apenas das negociações e ratificações de convenções e tratados para o plano prático e real, sem fazer um análise segregacionista e muito menos colonial, visto que a longo prazo os resultados podem ser irreversíveis.

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Junio Cesar dos Santos Carmo – Graduado em Geografia com Ênfase em Geoprocessamento pela Pontifícia Universidade Católica – MG, Engenharia de Agrimensura e Cartografia pela Faculdade de Engenharia de Minas Gerais, MBA em Gestão de Pessoas pela Faculdade Pitágoras, Mestrando em Engenharia de Processos e Sistemas pelo IETEC. Hoje é Coordenador de regularização fundiária do GVM Advogados.

Gabriel Henrique Alves – Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Lisboa no Instituto de Ciências Sociais e Políticas

Novos satélites e novas técnicas de detecção irão dificultar tentativas de “liberar geral” na Amazônia brasileira

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Um dos fatos tidos como mais importantes para os esforços para controlar o avanço das temperaturas, o controle das taxas de desmatamento nas florestas tropicais, vem recebendo instrumentos cada vez mais poderosos para que se possa avaliar a situação. Um exemplo disso são as novas gerações de satélites com níveis de resolução cada vez melhores que permitem a avaliação do impacto de atividades que, até recentemente, não eram corretamente detectadas.

É por isso que as declarações recentes do futuro ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, o advogado Ricardo Salles, de que nem todo o desmatamento novo é desnecessariamente ilegal podem ser facilmente verificadas de modo a serem suportadas ou negadas.  Não adianta, assim, tentar tampar o sol com a peneira porque os instrumentos para a verificação científica de determinadas declarações não só já existem, como estão evoluindo rapidamente.

De toda forma, é preciso ressalvar que os dados recentemente compilados pelo jornalista Maurício Tuffani (do site Direto da Ciência) sobre a evolução temporal do desmatamento na Amazônia brasileira são apenas parciais em termos da degradação dos biomas ali existentes (ver tabela abaixo mostrando que 19,9%  da floresta já foi removida na Amazônia), na medida em que medem apenas o percentual perdido com corte raso [1].

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Esse alerta é importante porque existem outras formas agudas de degradação, as quais podem servir como motores de desmatamento, incluindo a extração de madeira e as diferentes formas de garimpo (como os de ouro e diamante).  Além disso, algumas dessas formas de degradação estão induzindo a ocorrência de incêndios florestais, os quais servem para aumentar ainda mais o tamanho das áreas cuja vegetação perde a capacidade de oferecer serviços ambientais e de autossustentação [2[. 

Em outras palavras, o que já parece ruim quando se apresentam os dados de corte raso das florestas é ainda pior quando se considera que os processos de degradação florestal podem causar danos também severos, além de facilitar a ocorrência futura de novos eventos de remoção total da vegetação.

A boa notícia (se é que se pode chamar assim) é que as ferramentas para a detecção dos processos de degradação estão ficando cada vez mais robustos, e os dados estão sendo gerados com confiabilidade cada vez mais maior para toda a bacia Amazônica, como bem demonstrou o estudo recentemente liberado sobre o alcance da mineração ilegal de ouro  que mostrou a existência de uma verdadeira epidemia de garimpos clandestinos naquela região [3].

Alguém mais cético poderá se perguntar de que adianta termos esse aumento na capacidade na detecção dos diferentes processos de remoção e degradação das florestas amazônicas tendo um ministro como Ricardo Salles comandando o meio ambiente e um presidente eleito que faz questão de manter ignorante sobre o debate internacional em curso sobre o que fazer para conter as mudanças climáticas. A resposta aqui é simples: de nada adiantará os governantes brasileiros serem negacionistas, pois há hoje uma forte pressão para que não haja um retorno a um passado recente onde havia um aceite tático da aplicação de um paradigma que tratava as florestas amazônicas como uma mera fronteira de recursos inexplorados.

Assim, se o Brasil resolver se abster de suas responsabilidades de conservar as florestas da Amazônia é quase certo que decorrerão disso muitas consequências de cunho econômico, não sendo difícil prever a criação de barreiras aos produtos brasileiros saídos de áreas recentemente desmatadas. Aí veremos como se comportarão os que hoje se omitem frente ao avanço das propostas de “liberar geral” na Amazônia brasileira.


[1] http://www.diretodaciencia.com/2018/11/24/desmatamento-na-amazonia-cresce-138-floresta-ja-perdeu-199/

[2] Ver artigo por Matricardi et al (2013), Assessment of forest disturbances by selective logging and forest fires in the Brazilian Amazon using Landsat data , publicado pela revista International Journal of Remote Sensing, que pode ser acessado no link https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/01431161.2012.717182

[3] https://www.dw.com/pt-br/estudo-denuncia-epidemia-de-garimpos-na-amaz%C3%B4nia-brasileira/a-46664874

 

A dualidade da Blackfriday: consumo inútil para uns, vida degradada para outros

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A última 6a. feira foi marcada em quase todo o mundo pela corrida de milhões de seres humanos para lojas onde supostamente comprariam a preços supostamente menores uma série de bens para os quais não existe uma necessidade objetiva a não ser a de consumir.  Eu mesmo fui num centro de compras em Lisboa com a esperança de que o horário me pouparia das longas filas e de pessoas sequiosas por comprar todo tipo de quinquilharia. 

Ledo engano! As filas eram gigantescas e sai de lá com a impressão de que se não demonstrarmos melhor os efeitos dessa opção pelo consumo desenfreado, nossa espécie não terá outro caminho a não ser a extinção. E nesse processo ainda levaremos tantas outras que foram levadas a essa via pelo nosso modo consumista de viver.

Quem conseguiu ler este post até este ponto pode estar achando que estou exagerando e com a tentação de parar a leitura imediatamente.  Pois bem, eu reconheço que essa é uma conversa difícil de engolir e, por isso, substituo o texto pela imagem, com a expectativa de deixar meu ponto de vista mais claro.

 

O fato é que esse consumo perdulário tem um preço alto para boa parte da humanidade que acaba sendo obrigada a produzir coisas que nunca poderá consumir ou, sequer, terá a necessidade de fazer isso. 

Vivemos definitivamente uma era das necessidades criadas artificialmente para que uma parte extremamente minoritária da Humanidade viva em condições nababescas para que a imensa maioria viva vidas em completa degradação.

Resta saber quantas “Black Fridays” iremos sobreviver nesse ritmo de robots adoradores do consumo que nos leva a uma vida desigual e degradada, seja material e/ou socialmente.

O mito do desenvolvimento econômico, uma obra extraordinária e ainda desconhecida

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Em 1974 em pleno exílio que lhe fora pelo imposto pelo regime militar de 1964 o economista publicou o livro “O mito de desenvolvimento econômico”. Ali Furtado estabeleceu as bases para que fosse feita uma ampla crítica do modelo subalterno de crescimento econômico abraçado e aprofundado pelos militares. Entretanto, quase meio século depois, o livro de Celso Furtado não apenas continua basicamente desconhecido, mas como suas elaborações quase proféticas permanecem desconsideradas tanto pela direita quanto pela esquerda.

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Mas essencialmente o que fez Celso Furtado nesta obra? Ele fez o que a intelectualidade dos tempos de “Currículo Lattes” e “Fatores de Impacto” não faz por preguiça intelectual. Ele utilizou um método de análise que lhe capacitou não apenas a olhar para dentro das engrenagens do Capitalismo, mas com de lá retirou uma análise aprofundada dos porquês da impossibilidade do modelo de crescimento dos países centrais ser universalizado no que ele chamou de periferia.

Entretanto, Celso Furtado inovou ao analisar os custos ambientais e sociais que a imitação (o que ele chamou de mimetização) dos padrões de acumulação e consumo existentes no centro do Capitalismo traria em termos de degradação ambiental e aprofundamento da concentração da renda e, por consequência, da desigualdade social em países como o Brasil.

Essa junção entre degradação ambiental e concentração da renda é hoje um dos aspectos mais notáveis da expansão das corporações transnacionais na periferia do Capitalismo, bem como os efeitos deletérios da transposição dos padrões de consumo que claramente já estão levando ao esgotamento de elementos fundamentais para a sobrevivência da espécie humana, a começar pela água.

Lamentavelmente não temos hoje qualquer debate sério sobre a produção de um modelo econômico divergente da simples imitação do que é praticado pelos países centrais. A isso se soma a total rendição do governo “de facto” de Michel Temer à lógica rentista que aprofunda a subordinação da economia brasileira aos piores aspectos da divisão internacional do trabalho vigente.  E também no campo daqueles que se dizem de esquerda não há o oferecimento de uma alternativas, já que a maioria dos partidos que estão dentro desse campo ideológico (a começar pelo PT) estão fortemente aferroados ao aspectos mais retrógrados que decorrem do mito do desenvolvimento. 

De toda forma, como o conteúdo desta obra de Celso Furtado continua objetivamente atual, caberá aos que querer escapar das armadilhas do mito que se ponham a refletir sobre as saídas que poderão ser adotadas para que não canhamos ainda mais fundo no precipício.

Vaca latifundiária custa 22 vezes o que produz em degradação ambiental

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A matéria abaixo assinada pela jornalista Ana Lucia Azevedo e publicada pelo jornal O GLOBO é um daqueles grandes segredos mais do que conhecidos dos prejuízos ambientais e sociais causados pelo latifúndio agroexportador no Brasil.  Mas é raro que tenhamos esse tipo de informação disponível, mesmo que em matérias relativamente curtas e pouco aprofundadas.

Não obstante o número revelado é tão esclarecedor quanto assustador. É que o custo ambiental da pecuária extensiva praticada nos latifúndios é apenas uma das facetas do subsídio que a sociedade brasileira entrega aos latifundiários. Por cima, ainda temos que conviver com a violência, o trabalho escravo, e o controle político no congresso nacional.

Por essas e outras é que temos de levar a sério a necessidade de um modelo de agricultura que seja menos dependente das vacas latifundiárias. E as opções existem, mas enquanto tivermos a dublê de senadora e latifundiária, Káti Abreu, no Ministério da Agricultura, o mais provável é que continuaremos a arcar com esse custo absurdo, seja social ou ambiental.

Para cada R$ 1 milhão de receita com pecuária extensiva, R$ 22 milhões de impacto ambiental

Por Ana Lucia Azevedo, publicada por O Globo, 15-09-2015.

A latifundiária vaca brasileira traz custos ambientais que, se internalizados, tornariam a pecuária bovina inviável. Um estudo sobre os riscos de financiamento lista a criação de gado como um dos setores de maiores custos de capital natural, com impacto no desmatamento, na degradação do solo e na emissão de gases do efeito estufa — a flatulência bovina está entre as maiores fontes do mundo de metano, um potente gás-estufa.

Apresentado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e pela Agência Alemã para a Cooperação Internacional (GIZ), o relatório “Exposição do Setor Financeiro ao Risco do Capital Natural” analisou 45 setores, incluindo agropecuária, petróleo e gás, cimento, energia, aço, florestas e produtos químicos. Ele recomenda aos bancos e fundos de pensão novas formas de avaliar o risco de investimentos.

Segundo o relatório, para cada R$ 1 milhão de receita da pecuária bovina, são gerados R$ 22 milhões de impactos ambientais, principalmente em desmatamento e emissão de gases-estufa. A presidente do CEBDS, Marina Grossi, explica que a proposta do estudo é orientar bancos e outras fontes financiadoras na hora de conceder empréstimos. Ela lembra que a resolução 4.327 do Banco Central, de 2014, determina a responsabilidade pelo risco ambiental tanto por quem pratica quanto por quem financia.

Segundo Marina, a pecuária de fronteiras, que abre caminho no cerrado e na Amazônia, é a de maior risco:

— A vaca latifundiária consome mais água, degrada o solo por mais tempo. Existe tecnologia para mudar isso e tornar a pecuária mais competitiva.

UM ANO PARA RECUPERAR SOLO

O gado destrói o solo bem mais do que parece à primeira vista. Ele não apenas come o capim: pisoteia e arranca a camada fértil da terra. Alcança áreas vulneráveis, como as margens e nascentes de rios, além daquelas de encosta, sujeitas a uma maior erosão. Por isso, projetos de recuperação não são triviais. Precisam se adequar ao bioma, à legislação de cada estado, ao tipo de solo, relevo e clima.

— O solo degradado já perdeu muito de sua capacidade produtiva. Leva pelo menos um ano para recuperar uma área. E é preciso saber que tipo de uso será melhor. Se for uma área plana e capaz de repor a fertilidade, pode ser empregada na integração pecuária-lavoura. Já margens de rios e topos de morro se adaptam mais à regeneração da vegetação nativa — diz Édson Bolfe, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite.

Se a ideia for recuperar a área para a pastagem, é preciso levar em conta variáveis como a chamada safra do pasto e o manejo genético do gado. E tratar o pasto como qualquer outra cultura.

— Ao mesmo tempo em que você recupera, precisa colocar mais cabeças de gado por hectare. Há tecnologia para isso. Com isso, você aumenta os ganhos e evita desmatar novas áreas — observa Bolfe.

FONTE: http://oglobo.globo.com/economia/para-cada-1-milhao-de-receita-com-pecuaria-extensiva-22-milhoes-de-impacto-ambiental-17490481

Carajás: em meio à falsa polarização política, o saque das riquezas nacionais e a desvastação ambiental e da memória histórica continuam

Outra mina de ferro a céu aberto é esculpida na floresta tropical do Brasil

DOM PHILLIPS | THE WASHINGTON POST  

 BRAZIL-MINE

O projeto de mineração S11D no Brasil, deverá entrar em funcionamento no próximo ano.  

Serra Sul, Carajás, Brasil – A linha de caminhões e pick up jogam nuvens de poeira vermelha enquanto serpenteiam até a colina no final da estrada de terra. Do alto, a floresta tropical brasileira cobre a distância até onde os olhos podem alcançar.  Um vasto quadrilátero está sendo esculpido nas encosta por um exército de máquinas,formando uma cicatriz de terra vermelha nas colinas verdes.

 O S11D, como este projeto é conhecido sem a menor cerimônia, é uma mina de minério de ferro a céu aberto que está sendo escavada neste canto da Amazônia brasileira, no estado do Pará.  A gigante da mineração do Brasil, Vale, diz que a mina foi projetado para causar um mínimo impacto ambiental e  alcançar máxima rentabilidade. É para começar a operar no próximo ano, e em 2018 estará produzindo cerca de 100 milhões de toneladas anuais de do mais puro minério de ferro do mundo – uma força vital para a pálida economia  do Brasil.

Mas os ambientalistas argumentam que S11D poderá destruir os raros ecossistemas de cerrado  encontrados em duas lagoas acima das jazidas de minério de ferro. Dezenas de cavernas que potencialmente contém elementos de habitações antigas da Amazônia foram perdidas. Este grandioso projeto de 17 bilhões dólares projeto é emblemático, um dilema brasileiro muito contemporâneo: é possível o país desenvolver e utilizar seus ricos recursos naturais sem causar danos irreparáveis ao seu meio ambiente e sua história?

“Eu discordo totalmente quando alguém diz que não é possível desenvolver, mantendo preservação e sustentabilidade”, disse Jamil Sebe, diretor de projetos ferrosos da Vale para o norte do Brasil, que está no comando da mina. Sebe disse trabalha há um quarto de seus 44 anos no projeto, que emprega técnicas inovadoras de mineração e de engenharia importadas do Canadá e da Austrália para reduzir os impactos e os custos.

“Este é o ano para colocar tudo junto”, disse ele.

O S11D está a apenas 30 km ao sul de maior mina de minério de ferro do mundo, também executado pela Vale na mesma Floresta Nacional de Carajás. As atividades da empresa aqui, que incluem cobre, manganês e ouro, podem afetar 3 %dos 1.591 km2 do parque nacional, tão rico em natureza como ela é em minerais.

 “A Vale quer garimpar tudo. Vai depender dos órgãos ambientais do governo brasileiro para proteger esta área ” disse Frederico Martins, analista ambiental No Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e gerente da Floresta Nacional de Carajás. “Há um monte de minério de ferro lá.”

 A controvérsia gira em torno duas lagoas situadas a leste de construção atual, mas em cima da jazida de minério de ferro. As agências governamentais negociaram uma zona de exclusão de 546 jardas em torno deles, como proteção – mas isto pode não ser suficiente.

Levou três horas para dirigir em estradas de terra traiçoeiras que cruzam a floresta para chegar a maior, a Lagoa da Guitarra. No caminho, um javali fugiu correndo pela pista, e a o 4 × 4 avançou em torno de uma imensa serpente, e o guia florestal José de Costa parou sob um ninho de gavião-real do tamanho de uma banheira, enquanto a cabeça da ave balançava sobre a sua borda.

A área da Lagoa  da Guitarra é um mundo a parte da densa floresta emaranhada  que existe em torno dele – um ecossistema distinto definido como sendo uma “savana metálica” de rochas escuras e matagal.  Gafanhotos verdes descansavam no sol, enquanto jacarés e tartarugas vagavam através do lago. Mais de 40 espécies de plantas – entre eles Ipomoea marabaensis, com uma flor lilás – são encontradas somente aqui nas savanas de Carajás, com o seu ambiente formado pelas próprias rochas, ricas em minério de ferro, que põem em perigo a sua sobrevivência.

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A sujeira vermelha cobre o chão perto da mina da Vale em Carajás. É a maior mina de minério de ferro no mundo, 13 de abril de 2015. Bonnie Jo Mount / The Washington Post

À distância, o zumbido das escavadeiras era audível. No ano passado, os estudantes universitários locais formaram um “SOS” em rochas na beira do lago para protestar contra os danos que dizem o Lago Guitarra sofrerá uma vez a mineração e as explosões diárias envolvidas comecem.

“Se ele sobrevive, ele vai perder todo o seu contexto”, disse da Costa, que participou. “Você não vai ter toda esta vida.”

A Vale está discutindo a redução da zona de exclusão com o órgão ambiental do governo brasileiro. Martins disse que qualquer redução seria “comprometer a existência do lago”.

O minério de ferro foi encontrado pela primeira vez em Carajás em 1967 por um geólogo manganês prospecção Brasileira para US Steel. Em 1985, a produção começou na Serra Norte, agora a maior mina de minério de ferro do mundo. A cidade de 180.000, Parauapebas, cresceu nas proximidades. A Vale e seus contratados empregam 46.000 pessoas no Pará.

O capitalismo de Estado e proteção ambiental andam de mãos dadas aqui. Em 1998, a reserva da Floresta Nacional de Carajás foi criada tanto para isolar a área da mina de posseiros como protegê-la do desmatamento que devastou tanto  este canto sul da Amazônia.

“Se não fosse para a mineração, isso poderia ter sido pior”, disse Martins. O acesso é controlado pela Vale e pelo Instituto Chico Mendes.

A mina de Serra Norte é um enorme complexo industrial de poços, correias transportadoras e unidades de processamento que estão afundados profundamente na floresta. Tudo é escuro, vermelho oxidado: o metal e a terra. Em uma manhã recente, o gerente de operações da mina Evandro Euzébio estava num mirante com vista para a mais antiga da mina. Centenas de metros abaixo dele, caminhões gigantes se arrastavam até as estradas de terra, cada um transportando até 400 das 120 milhões de toneladas de minério de Vale produz há cada ano.

“É o melhor minério de ferro do mundo”, disse Euzébio.

O minério é transportado cerca de 900 km por uma linha férrea até o porto de São Luís, no Maranhão. De lá, os navios de carga levam o produto para a China, que importa metade do que a Vale produz a cada ano. A linha ferroviária está sendo duplicada para lidar com a produção da S11D. Os preços do minério de ferro foram reduzidos pela metade para cerca de US $ 55 por tonelada ao longo do último ano, mas a Vale insistiu que o projeto ainda era viável.

“Ninguém rasga dinheiro”, disse o diretor Vale do Norte ferroso, Paulo Horta.

A construção da S11D, com a expansão do porto e  da linha de trem, emprega 30.000 trabalhadores. Quando a mina estiver funcionando, 2600 vão trabalhar lá, com 7.000 no setor de serviços relacionados. Umanova cidade, Canaã dos Carajás, cresceu nas proximidades.

Em vez de os caminhões usados  na Serra Norte, a cinco quilômetros, correias transportadoras vão levantar o minério para fora dos boxes para processar em empresas situadas fora da área da floresta. As plantas industriais são feitas de módulos, encaixadas como peças de Lego, uma técnica adotada a partir do exemplo da indústria petrolífera, que exige menos trabalhadores no local. Empresas de engenharia alemãs, canadenses e australianas projetaram a maior parte equipamento, mas a maioria foi fabricada na China.  O Brasil possui as matérias-primas, mas não fabrica as máquinas.

A linha do S11D sozinha possui  mais de cinco quilômetros de comprimento.

“É a maior emenda, a maior reserva de que a Vale tem. No futuro, será uma plataforma de crescimento para a empresa “, disse Sebe.

Mas também vai consumir uma parte do passado do Brasil. Arqueólogos dizem que cavernas da região contem pistas para habitações de populações amazônicas que eram desconhecidas até os anos 1980.

Evidências dessas cavernas sugere, que povos nômades viviam na Amazônia até 9.000 anos atrás, cultivando mandioca e açaí.

“Eles conseguiram cultivar a floresta sem derrubá-la”, disse Marcos Magalhães, um arqueólogo do Museu Emílio Goeldi na capital do estado do Pará, Belém, que estudou cavernas na área. “A Amazônia foi o Jardim do Éden.”

Em uma das cavernas acima do lago, cacos de cerâmica estavam espalhados no chão. A partir de fotos, Magalhães disse que estes provavelmente são datados de outra ocupação por grupos indígenas nômades cerca de 500 anos atrás, antes da colonização do Brasil pelos portugueses. A caverna será pesquisada este ano e não está marcada para ser destruição.

Mas de 187 cavernas existentes em Serra Sul, 40 vão sofrer “impacto irreversível”, disse Leanardo Neves, gerente de meio ambiente e sustentabilidade Vale.  Magalhães e sua equipe pesquisaram e removeram artefatos de cinco delas antes que fossem destruídas.

A Vale planeja compensar cada caverna destruída com a proteção de duas cavernas em uma área semelhante, na vizinha Serra da Bocaina. A equipe de Magalhães ainda não estudou nenhuma caverna naquela área, mas eles já encontraram vestígios de uma mina pré-histórica perto de Serra Sul, onde rochas foram escavadas para a determinação de grau de pigmentação. “A história da região”, disse ele. “sempre foi mineração.”

FONTE: http://www.washingtonpost.com/world/the_americas/another-huge-and-open-iron-mine-is-carved-out-of-brazils-rain-forest/2015/04/13/cc1ce49a-cd75-11e4-8730-4f473416e759_story.html

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