Estudo mostra como o peso dos microplásticos determina sua dispersão no mar

A estabilidade dos resíduos depositados no fundo do mar sofre alterações durante fenômenos climáticos extremos. Foto: Naja Bertolt Jensen / Unsplash

Cerca de 80% do plástico que entra no ambiente marinho vem de fontes terrestres. Quando esse material se fragmenta em partículas invisíveis a olho nu, a contenção se torna um desafio crônico, pois o microplástico consegue escapar até mesmo das estações de tratamento de esgoto convencionais. Para rastrear o destino exato dessa contaminação, pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveram um modelo computacional capaz de simular a rota do resíduo microscópico ao longo do litoral fluminense. Os resultados do estudo, publicados na Revista Brasileira de Recursos Hídricos no último dia 21, revelam que o peso da partícula é o fator decisivo para ditar quais regiões do oceano sofrerão maior impacto ambiental.

A ferramenta, que reúne dados de correntes oceânicas, marés, ventos e pontos de lançamento de efluentes, mostra que partículas leves flutuam e são transportadas pelas correntes de superfície impulsionadas pela força dos ventos. Essa dinâmica permite que o material viaje longas distâncias e alcance áreas oceânicas mais afastadas da costa, como as Ilhas Cagarras. Já as partículas de peso neutro se espalham junto à linha litorânea e acabam confinadas na circulação de baías fechadas, como a Baía de Sepetiba. Por sua vez, o plástico denso afunda e se deposita no leito marinho, principalmente nas áreas de deságue de efluentes e de drenagem urbana.

A estabilidade dos resíduos depositados no fundo do mar sofre alterações durante fenômenos climáticos extremos. A passagem de frentes frias e a ocorrência de ressacas fortes geram ondas que revolvem o leito marinho. Esse impacto mecânico levanta os microplásticos pesados de volta à coluna de água, reacendendo o ciclo de poluição e transportando o material para novas áreas do oceano através das correntes costeiras.

O acúmulo contínuo traz impactos à fauna local. Animais que habitam o leito marinho, como crustáceos, frequentemente ingerem o material particulado depositado na areia. Esse processo insere o microplástico de forma direta na base da cadeia alimentar do ecossistema costeiro.

Rodrigo Amado Garcia Silva, pesquisador da UFF e um dos autores do estudo, explica que a principal diferença dos microplásticos para outros poluentes é a sua persistência no ambiente e a presença até mesmo no esgoto tratado. “A liberação de microplástico no ambiente é um problema global que só agora ganha luz. Ou a tecnologia de tratamento evolui para captar esse material, ou a própria indústria precisará mudar a composição de produtos que liberam essas partículas diariamente, como roupas e cosméticos”, alerta o cientista.

Segundo a equipe, o impacto do plástico no ambiente aquático não se restringe apenas ao microplástico, e o poder público precisa bloquear a chegada dos resíduos de maior tamanho, como as garrafas e tampinhas, aos rios e praias. A contenção desses itens é mais facilitada que a do microplástico e, nesse sentido, a instalação de ecobarreiras, a expansão da coleta de resíduos e a aplicação da logística reversa formam a linha de frente de defesa para garantir que o material descartado não se transforme em microplásticos que contaminarão o ambiente.


Fonte: Agência Bori

Como o beabá de Christopherson desvela as causas do processo de erosão em curso no Porto do Açu

Por força das minhas tarefas docentes na disciplina de Geografia I do curso de Ciências Sociais coloquei as mãos nesta semana no livro “Geosystems: An introduction to Physical Geography” do geógrafo estadunidense Robert Christopherson. O livro é uma espécie de pedra filosofal para iniciantes dos estudos de geografia física, e é um deleite para quem, como eu, precisa dar aulas de geografia física para alunos de Ciências Sociais.

Pois bem, ao examinar o que eu precisa para dar a minha próxima, eis que ei dei de cara com a figura abaixo que ilustra como determinadas construções costeiras alteram a trânsito de sedimentos em sistemas praiais (isto é, molhes, esporões e quebra-mares)

estruturas costeiras

Pois bem, fica demonstrado que na presença de um jetty (em português, molhe), o que ocorre é deposição de areia na área mais próxima e erosão na área mais afastada.  Na figura em questão, eu circulei a entrada de um canal para enfatizar que do seu lado esquerda, o que está acontecendo é deposição, seguido de erosão mais ao sul do molhe.

Agora, vejamos a figura abaixo que representa o que se tem observado ao sul do Terminal 2 do Porto do Açu

canal principal

A minha pergunta básica para meus estudantes será a seguinte: com Christopherson em mãos, o que pode ser dito sobre a causa mais provável da acumulação ao lado do molhe e erosão na Praia do Açu? 

Eu só espero sinceramente que as respostas que eu ouvirei sejam melhores do que as de alguns especialistas contratados a peso de ouro tem dito nos últimos anos.

Especialistas japoneses alertaram em 2005 sobre problemas causados em áreas costeiras pela construção de portos. Parece até que falavam do Porto do Açu!

Durante a XIV Biennal Coastal Zone Conference que foi realizada em 2005 na cidade de Nova Orleans, a pesquisadora japonesa Masumi Serizawa então associada ao Coastal Enginneering Laboratory Co apresentou com outros quatro colegas,  o artigo intitulado “Erosão de praias causados pela dragagem de canais de navegação e desembocaduras de rios”, onde foram relatadas pesquisas realizadas  para avaliar os impactos da construção de 2.927 portos pesqueiros e 1084 portos de outras naturezas sobre a região costeira do Japão.

Pois bem, o mote deste artigo científico foi a ocorrência de processos de erosão e acumulação de sedimentos em função da construção de estruturas portuárias. Pois bem, o que mais me chamou a atenção neste artigo foi a figura abaixo:

figura 1

Agora,  me digam, essa figura não parece descrever muito bem o que anda acontecendo na área do Porto do Açu? Notem inclusive os detalhes da figura onde se mostra a ação das ondas, o transporte horizontal de sedimentos, e as áreas de acumulação e perda de material. Isto sem falar no trabalho interminável de dragar e despejar o material dragado no oceano e em terra.

E como afirmei acima, este artigo sintetiza quase 40 anos de pesquisas sobre o impacto da construção de portos na dinâmica de deposição e erosão de sedimentos! E  o que mais me chama a atenção é a concordância com o que estava previsto no Relatório de Impactos da Unidade de Construção Naval da OSX. Assim, diferente da vida em que se pode atribuir certos fatos ao imponderável, o que se tem é conhecimento acumulado ao longo de grandes períodos de tempo que tornam determinados processos facilmente determináveis, sem que se atribua apenas ao funcionamento da natureza. Aliás, pobre natureza, sempre tão vitimizada e normalmente a primeira a ser culpada