Os “Doze Sujos” e a geopolítica do veneno: como o sistema alimentar global normalizou a contaminação cotidiana

Novo relatório sobre resíduos de agrotóxicos revela mais do que um problema sanitário: expõe um modelo agrícola dependente de químicos, cadeias globais de exportação e a captura corporativa da alimentação 

Durante décadas, o capitalismo agrícola vendeu ao mundo a promessa de abundância. A chamada “revolução verde” transformou sementes em mercadorias patenteadas, fertilizantes em instrumentos de dependência econômica e agrotóxicos em condição estrutural da produção em larga escala. Agora, um novo relatório divulgado nos EUA reacende uma pergunta incômoda: o que exatamente estamos colocando no prato?

O levantamento anual conhecido como Dirty Dozen (“Doze Sujos”), produzido a partir de dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e divulgado pelo Environmental Working Group (EWG), identificou níveis elevados de resíduos de agrotóxicos em alimentos consumidos diariamente, mesmo após lavagem doméstica. Espinafre, morango e uva lideram a lista de produtos com maior contaminação química detectada em 2026. 

Mais de 54 mil amostras de frutas e legumes foram analisadas. O resultado impressiona não apenas pela escala, mas pela persistência dos contaminantes: 264 agrotóxicos diferentes foram encontrados nos alimentos avaliados. Em muitos casos, quatro ou mais substâncias químicas apareciam simultaneamente na mesma amostra.  

O dado mais perturbador talvez seja outro: os resíduos permaneceram presentes mesmo após processos de higienização semelhantes aos realizados em cozinhas domésticas. Isso significa que a contaminação não está apenas na superfície dos alimentos. Ela penetra o próprio sistema alimentar industrializado. A lista dos “Doze Sujos” inclui ainda nectarinas, pêssegos, cerejas, maçãs, amoras, peras, batatas e mirtilos. Muitos desses produtos possuem cascas finas ou elevada sensibilidade a fungos e insetos, o que leva ao uso intensivo de agrotóxicos durante o cultivo.  

Mas o debate não pode ser reduzido a uma simples recomendação individual de “lavar melhor os alimentos” ou “consumir orgânicos”. O que está em jogo é um modelo agrícola profundamente subordinado às grandes corporações químicas e ao imperativo da produtividade permanente.

Desde os anos 1990, a agricultura global passou por um processo radical de financeirização e concentração empresarial. Poucas multinacionais controlam sementes, agrotóxicos, fertilizantes e sistemas logísticos. Nesse arranjo, o agricultor torna-se dependente de pacotes tecnológicos completos — frequentemente incompatíveis com práticas agroecológicas ou sistemas biodiversos. O resultado é uma agricultura que produz commodities em escala planetária, mas também produz contaminação difusa, degradação ambiental e exposição química permanente.

Os impactos sobre a saúde humana já não pertencem apenas ao campo das hipóteses. Estudos anteriores relacionaram a exposição prolongada a agrotóxicos a problemas hormonais, infertilidade masculina, alterações neurológicas, cânceres e doenças cardiovasculares. Crianças e fetos aparecem entre os grupos mais vulneráveis. A própria American Academy of Pediatrics alerta para riscos como baixo peso ao nascer, dificuldades de aprendizagem e problemas de desenvolvimento cognitivo.  

O relatório também menciona a presença de PFAS — os chamados “químicos eternos” — substâncias extremamente persistentes no ambiente e associadas a múltiplos efeitos tóxicos.  

No Sul Global, entretanto, o problema ganha contornos ainda mais dramáticos. Países exportadores de commodities agrícolas frequentemente flexibilizam regulações ambientais para manter competitividade nos mercados internacionais. O Brasil tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos dessa dinâmica. Nos últimos anos, o nosso país ampliou autorizações para novos agrotóxicos e consolidou uma das maiores dependências químicas do planeta. Enquanto o agronegócio se apresenta como símbolo de modernização econômica, amplia-se silenciosamente a exposição populacional a substâncias potencialmente perigosas — especialmente entre trabalhadores rurais, populações periféricas e consumidores de baixa renda, que raramente têm acesso regular a alimentos orgânicos.

Nas redes sociais e fóruns online, cresce a percepção de que o atual modelo agroexportador produz riqueza concentrada, mas socializa riscos ambientais e sanitários. Em discussões públicas recentes, usuários brasileiros relacionam diretamente a expansão do agronegócio à intensificação do uso de agrotóxicos e à fragilidade dos mecanismos de controle estatal. 

Existe, portanto, uma dimensão política central nesse debate. O problema dos agrotóxicos não decorre apenas de “falhas” regulatórias. Ele nasce da lógica estrutural de um sistema alimentar organizado para maximizar produtividade, padronização e lucro corporativo, mesmo às custas da saúde coletiva e da integridade ecológica.

A retórica dominante insiste em apresentar os agrotóxicos como um “mal necessário” para alimentar o mundo. Contudo, essa narrativa omite que boa parte da produção agrícola global não se destina diretamente à alimentação humana, mas à exportação de commodities, produção de ração animal e cadeias industriais altamente concentradas.

Os “Doze Sujos” revelam, assim, algo maior que uma lista de alimentos contaminados. Eles expõem o paradoxo central da agricultura contemporânea: um sistema capaz de produzir abundância material sem garantir segurança alimentar real.

No centro desse modelo, a comida deixa de ser direito e transforma-se em plataforma de acumulação financeira. O alimento torna-se mercadoria química. E o consumidor, um sujeito permanentemente exposto a riscos invisíveis normalizados pela rotina.

Talvez a pergunta mais importante não seja quais frutas possuem mais agrotóxicos. A questão decisiva é por que aceitamos como inevitável um sistema alimentar baseado em contaminação crônica, dependência química e degradação ambiental em larga escala.

Dirty Dozen: Um coquetel de agrotóxicos contamina a mesa dos britânicos

A PAN UK está pedindo ao Governo Britânico que repense sua nova estratégia de redução de pesticidas, que agora cobre apenas culturas como grãos

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Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Milhões de compradores no Reino Unido adquirem alimentos básicos do dia a dia, incluindo pão, frutas, vegetais, toda semana, confiando que são seguros para consumo.

Mas análises e estudos recentes sugerem que muitos desses produtos contêm múltiplos resíduos de agrotóxicos cujos efeitos a longo prazo na saúde humana permanecem pouco compreendidos.

LEIA: O relatório Dirty Dozen.

De acordo com uma nova análise da Pesticide Action Network UK (PAN UK), três quartos das frutas e um quarto dos vegetais testados pelo governo britânico contêm um coquetel de agrotóxicos.

Produtos químicos

Os cientistas detectaram 123 agrotóxicos diferentes em apenas 17 tipos diferentes de produtos examinados. Entre eles estão substâncias químicas ligadas ao câncer, e outras conhecidas por desestabilizar os hormônios humanos, os sistemas que moldam a fertilidade e o desenvolvimento saudável.

As uvas surgiram como um dos alimentos mais contaminados, com uma única amostra contendo resíduos de 16 agrotóxicos diferentes.

Os consumidores frequentemente ouvem dizer que resíduos químicos permanecem “dentro dos limites seguros”. Os reguladores afirmam que permanecer abaixo dos níveis máximos de resíduos (MRLs) é considerado seguro.

As regras foram criadas em torno de produtos químicos isolados, assumindo que cada um provavelmente não causaria danos se aplicado corretamente – mesmo que raramente comamos apenas um.

Muitos cientistas e ativistas argumentam que esse sistema não leva em conta os efeitos combinados de múltiplos produtos químicos tóxicos consumidos ao longo dos anos, ou mesmo décadas.

Coquetel

Nick Mole, que liderou a análise para a PAN UK, alerta que esse ponto cego na regulamentação nos deixa perigosamente expostos.

“Os limites de segurança são definidos para um agrotóxico por vez, ignorando completamente o fato de que é muito comum a comida conter múltiplos produtos químicos.

“A verdade é que sabemos muito pouco sobre como esses produtos químicos interagem entre si, ou o que essa exposição a centenas de agrotóxicos diferentes está fazendo com nossa saúde a longo prazo.

“Sabemos que agrotóxicos podem se tornar mais tóxicos quando combinados, um fenômeno conhecido comoefeito coquetel.”

Ele concluiu: “Dado o quão alto é o risco, o governo deveria fazer tudo o que puder para eliminar agrotóxicos dos nossos alimentos.”

Toxina

Uma nova lista de ‘dúzia suja’ revela os produtos com maior probabilidade de conter múltiplos produtos químicos. Toranja vem primeiro, seguida pelas uvas e limas. Cada um deles aparece regularmente em promoções de supermercados celebrando frescor e bem-estar – mas por trás do marketing, a contaminação é generalizada.

A PAN UK analisou os resultados dos testes para descobrir quais Agrotóxicos Altamente Perigosos (HHPs) apareceram mais em nossas frutas e vegetais.

Estamos consumindo justamente os produtos químicos considerados perigosos demais para serem pulverizados aqui em nossas fazendas. 

Dois fungicidas lideraram a lista: imazalil e tiabendazol. Eles foram encontrados em cerca de 9% das amostras, principalmente em frutas como bananas, toranja e melões.

Eles são usados para impedir o crescimento de mofo durante o armazenamento e transporte, mas há sérias preocupações quanto à sua segurança. Ambos são suspeitos de prejudicar hormônios e podem até estar ligados ao câncer.

Até mesmo a comida da qual dependemos mais do que de qualquer outra, nosso pão diário, é afetada. Os testes do governo descobriram que quase todos os pães continham clormequat, uma toxina para o desenvolvimento que os cientistas alertam que pode prejudicar nossos bebês e crianças.

Fazendas

Mais de 25% das amostras de pão continha glifosato, o herbicida mais utilizado no Reino Unido, repetidamente associado a cânceres e outras doenças crônicas.

Quase 50% do pão testado continha vários produtos químicos. Até mesmo a torrada da nação se tornou fonte de exposição química.

Embora os órgãos reguladores argumentem que os níveis de exposição detectados no pão estão bem abaixo dos limiares considerados perigosos, a ausência de estudos abrangentes sobre toxicidade da mistura faz com que a incerteza permaneça.

A exposição crônica e de baixa dose ao longo de décadas, essencialmente uma vida inteira de consumo diário, não foi estudada a fundo.

Um detalhe particularmente preocupante está mais escondido nos dados: quase um terço dos pesticidas detectados não são aprovados para uso em fazendas britânicas.

Trading

Culturas cultivadas no exterior usando produtos químicos proibidos no Reino Unido ainda podem ser importadas e vendidas nas prateleiras britânicas. Os próprios órgãos consultivos do governo alertaram que isso prejudica injustamente os agricultores locais que trabalham sob regras mais rígidas e, pior ainda, expõe os consumidores a riscos que os reguladores já reconhecem serem grandes demais.

Estamos consumindo justamente os produtos químicos considerados perigosos demais para serem pulverizados aqui em nossas fazendas.

A Grã-Bretanha corre o risco de importar produtos contendo altos níveis de pesticidas, incluindo Agrotóxicos Altamente Perigosos (HHPs) já proibidos no país. Por exemplo, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, e metade deles são HHPs.

Ainda assim, o ministro britânico do comércio, Sir Chris Bryant, que se descreve como um “latinófilo apaixonado”, disse ao Politico que o acordo Reino Unido-Mercosul (bloco comercial sul-americano incluindo Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia) é uma escolha óbvia.

Bryant comentou: “Tive conversas muito positivas na Argentina e com o Brasil, mas ainda não tive conversas com o Uruguai e o Paraguai.”

Arável

A PAN UK está pedindo ao Governo Britânico que repense sua nova estratégia de redução de agrotóxicos, que agora cobre apenas culturas como grãos.

Argumenta que frutas e vegetais – os alimentos que nós e nossos filhos mais comemos, e onde os resíduos químicos costumam ser mais altos – devem ser incluídos se o plano quiser realmente proteger as pessoas e o meio ambiente.

A organização também está pedindo apoio para ajudar os agricultores a fazer a transição para métodos mais seguros e para eliminar e banir os HHPs conhecidos por prejudicar a saúde humana.

Mole enfatiza que o sistema atual não pode realisticamente nos proteger da exposição.

Ele disse: “Agrotóxicos aparecem em milhões de combinações diferentes e concentrações variadas em nossos alimentos, então é simplesmente impossível projetar um sistema sofisticado o suficiente para nos proteger desses coquetéis químicos. A única solução é reduzir significativamente nosso uso geral de pesticidas.

“Este ano, o governo introduziu uma meta para reduzir agrotóxicos no setor arável. Mas esses dados mais recentes dos testes revelam que – pelo bem da nossa saúde – precisamos urgentemente expandir a meta para abranger também frutas e vegetais.”

Radical

Isso não é uma preocupação ambiental distante; É uma questão de saúde pública que estamos em nossas agendas.

A maioria das famílias não tem o luxo de encher suas cestas com alternativas orgânicas. Os pais não deveriam precisar analisar planilhas de substâncias químicas ao fazer as compras semanais.

E os agricultores frequentemente dizem que não têm realmente escolha – o sistema os pressiona a usar produtos químicos, ao mesmo tempo em que dificulta que ganhem a vida de forma justa e se mantenham competitivos.

A comida deve nutrir, não prejudicar nosso corpo. Querer comida que não venha acompanhada de produtos químicos não deve ser visto como radical, é uma expectativa básica de que o que alimentamos nossas famílias não as prejudicará, e que as pessoas que cultivam também não corram risco.


Fonte: The Ecologist

Em Nova York para vender seu projeto de destruição, Ricardo Salles é surpreendido por manifestação em frente ao JP Morgan Chase

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O ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, esteve na última segunda-feira (09/03) na sede do banco JP Morgan Chase, em Nova York para se reunir com dirigentes da instituição financeira.

O que Salles não esperava é que ativistas sociais o esperavam na frente do prédio para denunciar as políticas anti-ambientais que o governo Bolsonaro está implantando sob pretexto do “desenvolvimento”, mas que estão levando à destruição do meio ambiente e das comunidades que subsistem e protegem as florestas,  tais como os indígenas e quilombolas (ver imagens abaixo).

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É sempre bom lembrar que o JP Morgan Chase é considerado uma das ‘Dirty Dozen‘, que é um grupo de empresas que mais impulsionam o desmatamento na floresta amazônica, de acordo com um relatório da Amazon Watch.

Participaram da manifestação, entre outras organizações:

APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
Coalizão pelo Clima
Comitê de Defesa da Democracia no Brasil, NY,
Reverendo Billy & The Stop Shopping Choir,
Extinction Rebellion NYC
Rise and Resist
Party for Socialism and Liberation – NY,
Seeding Sovereignty
Greenpeace Brasil
Amazon Watch
Rainforest Foundation