Sem cumprir promessas, Bolsonaro se radicaliza

Para desviar a atenção de promessas quebradas, presidente radicaliza seu discurso. Regimes totalitários precisam de bodes expiatórios, e quem não esteja 100% em linha é atacado. Um momento perigoso.

bolso dwPara colunista, governo Bolsonaro está se tornando mais extremista em linguagem e métodos

Por Philipp Lichterbeck para a Deutsche Welle

O governo Jair Bolsonaro entrou no modo da radicalização. É o que sempre acontece nos regimes autoritários quando as suas promessas se revelam vazias e a desilusão se espalha. É um momento perigoso.

A maioria dos brasileiros que votou em Bolsonaro, em 2018, o fez por três razões: eles esperavam uma melhoria da situação econômica, o fim da corrupção endêmica e acreditavam que Bolsonaro podia acabar com o crime e a violência.

Naturalmente o extremista de direita também foi eleito por gente que apoia sua agenda social reacionária: fundamentalistas evangélicos, racistas, homófobos e fãs da ditadura. Mas, felizmente, só com eles não se ganha uma eleição no Brasil.

Muitos eleitores de Bolsonaro estão frustrados, agora. A pesquisa mais recente da Datafolha mostra que apenas 29% dos brasileiros ainda o apoiam, mas quase 40% o rejeitam. É a pior avaliação de um chefe de Estado brasileiro no primeiro mandato, desde FHC. Se as eleições fossem realizadas hoje, ele provavelmente não seria reeleito, tendo um adversário convincente.

Os dados falam por si. A economia brasileira não sai do lugar: seu ritmo de crescimento é fraco, sem perspectiva de melhora significativa dos níveis de produção, investimentos e emprego. Cerca de 12 milhões de brasileiros ainda estão desempregados, e o real está mais fraco do que nunca, a 4,15 dólares.

Isso deveria incentivar os turistas estrangeiros a visitarem o Brasil, mas, na verdade, o número de visitantes diminuiu 5%. O que a maioria das pessoas no exterior sabe sobre Bolsonaro é que ele odeia minorias, é um homem agressivo e quer desmatar a Floresta Amazônica. Isso tem um impacto nas decisões de viagem de muita gente e também nas decisões de investimento.

Bolsonaro queria combater a corrupção, mas, na realidade, enfraqueceu as investigações de corrupção. Há ministros corruptos em seu gabinete, e pelo menos um de seus filhos é suspeito de corrupção. E quanto ao crime? No Brasil de Bolsonaro, aumenta a violência contra mulheres, LGBT, povos indígenas, ativistas de direitos humanos e ambientalistas.

A violência policial contra os negros também está crescendo, o assassinato de Ágatha, de oito anos, no Rio de Janeiro, é um símbolo disso. No estado do Rio, o número de mortos por policiais aumentou 16% este ano. Acho difícil explicar isso no exterior. Então, sempre digo: o Brasil é um país violento há 500 anos. Ele nunca superou a escravatura e nunca lidou com a ditadura. E a consequência é um presidente que prega a violência.

Tampouco é de admirar que Bolsonaro tenha liberalizado a legislação sobre armas de fogo. Efeito: entre janeiro e agosto, 37,3 milhões de revólveres e pistolas já foram importados pelo Brasil, um novo recorde. Isso pode parecer normal para os brasileiros agora, porém, de fora, é escandaloso e amedrontador. Foi provado mais uma vez que mais armas levarão a mais violência.

Bolsonaro não está cumprindo suas promessas. Para desviar a atenção desse fato, o governo está radicalizando sua retórica. O discurso de Bolsonaro na ONU mostrou isso claramente e foi um bom exemplo do mundo paralelo e esquizofrênico em que vive o presidente da República.

Primeiro, ele agradeceu a Deus por sua vida. Depois, afirmou ter salvo a América do Sul do socialismo, voltou a acusar os europeus de colonialismo e insinuou que os incêndios na Amazônia eram uma fantasia dos meios de comunicação. Ele nada disse sobre as alterações climáticas, o tema atual e urgente que o mundo enfrenta.

Bolsonaro precisa de bodes expiatórios (como os “socialistas”). Ele também é muito eficiente em desviar a atenção pública dos problemas reais para temas marginais e até inexistentes. Essa é a marca distintiva de qualquer regime totalitário. No meio tempo, todos que não estão 100% em linha com Bolsonaro são tachados de “comunistas” – até os próprios apoiadores.

Ele e seus apoiadores atacam a mídia – apesar de ela ter sido fundamental no golpe contra a presidente Dilma, e para colocar o ex-presidente Lula atrás das grades. Atacam cientistas que não produzem os resultados desejados; estão reduzindo verbas para agências governamentais como o Ibama e a Funai e colocando seus agentes em risco. Eles também espionam jornalistas estrangeiros, como vivenciou recentemente um colega alemão na Bacia Amazônica.

O governo está se tornando cada vez mais extremista em sua linguagem e métodos. O ministro da Justiça, Sergio Moro, quer praticamente legalizar as execuções extrajudiciais pela polícia. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, convida garimpeiros ilegais do Pará para conversas no Planalto.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirma que a primeira-dama da França é “feia mesmo”. O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, outro reacionário na linha bolsonarista, praticamente afirmou que a vida de moradores de favela não vale nada, podem ser mortos pelos agentes estatais, sem consequências.

Os brasileiros devem sempre deixar claro para si mesmos por quem são governados e que nada disso é normal. Gustavo Bebianno, ex-ministro da Secretaria Geral da Presidência disse sobre Bolsonaro: “É uma pessoa louca, um perigo para o Brasil”. E acrescenta: “Ele puxou para perto de si uma entourage muito ruim, que o acompanhou durante alguns anos, pessoas muito incultas e agressivas”.

Bolsonaro voltará de Nova Iorque nesta semana. Infelizmente, o Brasil terá que lidar com esses demônios do passado por mais três anos, em vez de se voltar para o futuro.

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os  jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Agropecuária perde força e deixa de sustentar economia brasileira

agronegócioSoja e arroz foram os grandes responsáveis pela redução do PIB no setor. (Foto: FolhaPress)

O PIB (Produto Interno Bruto) da agropecuária voltou a cair. O recuo nos três primeiros meses deste ano, em relação a igual período de 2018, foi de 0,1%. Em relação ao trimestre imediatamente anterior, a queda foi de 0,5%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Está difícil para o PIB do setor dar sustentação à economia neste ano, como vinha ocorrendo em períodos anteriores. Neste primeiro trimestre, houve redução de produção e de produtividade de alguns dos principais produtos brasileiros.

Soja, arroz e milho, com grande participação nesse período do ano, somam 92% de toda a produção anual de grãos do país. Os dois primeiros foram os maiores responsáveis pela baixa do PIB do setor.

A carga negativa, porém, continuará no próximo trimestre. A queda na produção de soja foi de 4% nesta safra, mas a colheita se estendeu também para o segundo trimestre.

No fim de março, ainda restavam 20% dos 113 milhões de toneladas da oleaginosa para serem colhidos. Já a queda de 11% na produção do arroz ocorreu praticamente toda dentro do primeiro trimestre.

Desestimulados, os produtores reduziram a área de plantio do cereal no Rio Grande do Sul, principal produtor nacional.

O feijão também teve peso importante na queda do PIB neste início de ano. A primeira safra teve redução de 10%, escasseando a oferta da leguminosa e elevando os preços.

Neste segundo trimestre o cenário se inverteu e a segunda safra deverá ser maior do que a do ano passado. O feijão tem três colheitas no ano.

Pecuária

A queda do PIB do agronegócio só não foi maior por causa da boa participação da pecuária (bovinos, aves e suínos). Como já antecipou o IBGE, houve aumento de abates e produção maior de carnes neste ano.

A demanda externa está favorável, principalmente em razão dos problemas sanitários na China, grande importadora. O setor deverá continuar favorecendo o PIB.

A taxa do PIB da agropecuária sofrerá ainda os efeitos negativos da queda de 10% da produção de café neste e no próximo trimestre. O período será beneficiado, porém, pela boa evolução da safrinha de milho, que tem crescimento previsto de 18%, e pelo aumento das produções de trigo e de algodão.

A safra de verão de milho, ocorrida praticamente no primeiro trimestre, ficou estável em relação à de igual período anterior, sem grande participação na taxa do PIB.

Embora as exportações tenham cooperado, a agropecuária adicionou um valor menor de recursos na economia neste ano.

No primeiro trimestre foram R$ 90,3 bilhões, abaixo dos R$ 96,2 bilhões de janeiro a março de 2018. Já no primeiro trimestre do ano passado, o setor já havia adicionado um valor 3% inferior ao de 2017, o que mostra uma desaceleração das atividades.

Com isso, a participação da agropecuária no PIB total, que era de 5,7% em 2016, recuou para 5,1% em 2018, segundo o IBGE.

da FolhaPress

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Este conteúdo produzido pela FolhaPress foi recolhido pelo autor do blog do Yahoo Finanças [Aqui!].