Manguezais renascem e mostram que a natureza ainda resiste à destruição humana

Recuperação de florestas costeiras revela o enorme potencial de regeneração dos ecossistemas, mas também evidencia que sua sobrevivência depende de proteção permanente, políticas públicas e da contenção dos interesses econômicos que continuam ameaçando o litoral

Em um momento em que as notícias sobre a degradação ambiental parecem se suceder em ritmo acelerado, a recuperação de áreas de manguezais em diferentes regiões do planeta surge como um raro e importante sinal de esperança. Conforme mostra reportagem da BBC, ecossistemas que durante décadas foram destruídos pela expansão urbana, pela aquicultura intensiva, pela construção de portos e pela poluição começam a apresentar sinais concretos de regeneração quando recebem proteção adequada e esforços consistentes de restauração.

Essa recuperação vai muito além da volta das árvores. Os manguezais constituem alguns dos ecossistemas mais produtivos do planeta, funcionando como verdadeiros berçários para peixes, crustáceos e inúmeras espécies de aves. Além disso, desempenham um papel estratégico na proteção das zonas costeiras contra tempestades, reduzem processos erosivos e armazenam enormes quantidades de carbono em seus solos alagados, sendo considerados uma das mais eficientes soluções naturais para o enfrentamento das mudanças climáticas.

O aspecto mais interessante da recuperação observada é que ela demonstra a extraordinária capacidade de resiliência desses ecossistemas. Quando as pressões humanas diminuem, os processos ecológicos voltam a operar: sementes são dispersas pelas marés, a fauna retorna e a vegetação recompõe gradualmente a estrutura do ambiente. Em outras palavras, a natureza ainda possui uma impressionante capacidade de cura.

Entretanto, seria um erro interpretar essas histórias de sucesso como sinal de que a crise ambiental está sendo superada. A regeneração dos manguezais dependeu de políticas públicas, fiscalização ambiental, envolvimento das comunidades locais e investimentos contínuos em restauração ecológica. Onde continuam predominando interesses imobiliários, grandes obras de infraestrutura ou modelos predatórios de exploração costeira, os manguezais seguem desaparecendo em ritmo preocupante.

No Brasil, essa discussão é particularmente relevante. O país abriga uma das maiores extensões contínuas de manguezais do mundo, ecossistemas fundamentais para a pesca artesanal, para a segurança alimentar de milhares de famílias e para a manutenção da biodiversidade costeira. Ainda assim, esses ambientes permanecem sob intensa pressão de projetos portuários, expansão urbana, turismo desordenado e atividades industriais que frequentemente recebem licenciamento ambiental flexibilizado.

A recuperação relatada pela BBC deveria servir como inspiração, mas também como alerta. Os manguezais conseguem se regenerar, porém esse processo leva anos ou décadas e depende da manutenção das condições naturais que permitam sua sobrevivência. Destruir um manguezal continua sendo muito mais rápido e barato do que restaurá-lo.

Em um contexto de aceleração das mudanças climáticas e de aumento do nível do mar, proteger os manguezais não é apenas uma questão de conservação da natureza. Trata-se de uma estratégia de adaptação climática, de proteção das comunidades costeiras e de preservação de modos de vida tradicionais que dependem diretamente da saúde desses ecossistemas.

Os manguezais estão demonstrando que a recuperação é possível. Resta saber se a sociedade será capaz de aprender essa lição antes que a destruição avance mais rapidamente do que a capacidade de regeneração da própria natureza.

Como espécies introduzidas pela ação humana desequilibram ecossistemas

Estudo do Laboratório de Ecologia e Conservação do Departamento de Engenharia Ambiental da UFPR aponta que animais inseridos no ambiente por ação humana têm mais chances de sobreviver do que os nativos, podendo levar a catástrofes ecológicas

Como espécies introduzidas pela ação humana desequilibram ecossistemas Estudo do Laboratório de Ecologia e Conservação do Departamento de Engenharia Ambiental da UFPR aponta que animais inseridos no ambiente por ação humana têm mais chances de sobreviver do que os nativos, podendo levar a catástrofes ecológicas

Florestas destruídas por castores na Patagônia Argentina, em Tierra del Fuego. Foto: denisbin/Flickr

Por Lívia Inácio para o Ciência UFPR 

Em 1946, o governo argentino introduziu dez pares de castores canadenses na Tierra del Fuego, província no extremo sul do país. A ideia era fomentar a produção de casacos de pele, mas a população desses animais cresceu acima do esperado, o que levou à destruição de florestas inteiras. Situações assim, em que espécies introduzidas pela ação humana (as chamadas espécies exóticas invasoras) desequilibram ambientes sem preparo para recebê-las, são comuns no mundo todo. E um estudo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que analisou pesquisas sobre o tema, concluiu que as espécies colocadas no novo ecossistema são mais eficazes em consumir recursos em comparação às nativas, causando desequilíbrio a longo prazo.

Essa hipótese já vinha sendo debatida por diversos autores, mas, pela primeira vez, foi testada com base em evidências quantitativas globais. A metanálise de estudos experimentais comparativos entre espécies nativas e exóticas foi conduzida pela bióloga Larissa Faria, doutoranda do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR, orientada pelo professor Jean Vitule, do Departamento de Engenharia Ambiental.

O estudo, financiado pelo CNPq e Fulbright, contou ainda com a colaboração dos pesquisadores Jonathan Jeschke e James Dickey, associados à Freie Universität Berlin, da Alemanha; Ross Cuthbert e Jamie Dick, da Queen’s University Belfast, do Reino Unido; e Anthony Ricciardi, da McGill University, do Canadá.

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Para ser considerada invasora, uma espécie precisa estar aumentando sua população e causando algum impacto, explica Faria. Em alguns casos, a introdução delas é intencional para cultivo, pesca, caça esportiva ou ornamentação, mas há situações acidentais, como ocorre no vazamento de água de lastro de navios ou em escapes de cultivos. Em todas elas, existe interferência humana.

“As espécies invasoras representam risco pois são elementos novos em um ecossistema que evoluiu sem a presença delas. Isso causa um desequilíbrio ecológico, que pode ter impactos ambientais, sociais e econômicos”, diz a pesquisadora.

Faria exemplifica o fenômeno com a introdução da perca-do-Nilo no Lago Vitória, na África. O animal foi inserido para aumentar a produção pesqueira, mas, por ser um predador de grande porte, levou à devastação de diversas espécies nativas de peixes. Muitas foram extintas por serem vulneráveis a esse novo predador e não estarem preparadas para se defender dele.

Outro exemplo foi a introdução de javalis para corte de carne exótica no Brasil. Hoje, o animal está presente nos seis biomas brasileiros e em 2010 munícipios, causando impactos à saúde pública.

Domínio das espécies nativas é maior entre animais de água doce

O estudo da UFPR descobriu que as espécies nativas geralmente levam mais tempo para consumir suas presas e, consequentemente, consomem menos presas do que uma espécie exótica em um mesmo intervalo. Essa diferença na eficiência em consumir recursos pode explicar o impacto das espécies exóticas invasoras.

“O estudo mostra que as taxas máximas de consumo das espécies não nativas são, em média, 70% superiores do que as taxas das espécies análogas nativas”, diz o professor Vitule.

A pesquisa constatou também um desequilíbrio especialmente intenso entre moluscos, herbívoros e animais de água doce e há duas hipóteses para isso: a primeira tem a ver com o fato de que estudos com invertebrados e em ambientes de água doce são mais comuns porque podem ser realizados em pequenos aquários, sendo facilmente operacionalizados. Por isso, são necessários mais estudos em ecossistemas maiores, e com maior realismo, como em mesocosmos (sistemas experimentais projetados para simular um ecossistema sob condições controladas) e experimentos naturais.

Outra hipótese vem do fato de que ambientes aquáticos são isolados uns dos outros e, por isso, têm uma fauna específica que evoluiu adaptada às condições daquele local, com poucos mecanismos de defesa para lidar com ameaças externas.

“O que não sabemos ainda é se a superioridade das espécies exóticas pode ser explicada por algo intrínseco a elas ou se está mais relacionada a uma ingenuidade das presas que não conseguem escapar de maneira eficaz dos predadores até então desconhecidos”, diz Faria.

Ecólogos defendem maior fiscalização e divulgação do tema

Mas existe uma forma totalmente segura de inserir uma nova espécie em um ambiente? Segundo a pesquisadora, não. Isso porque é difícil prever os desdobramentos possíveis no novo local. Nesse sentido, ecólogos defendem a adaptação de espécies nativas para o cultivo intensivo em vez da inserção de novas espécies.

O problema é tão sério que o Brasil possui ao menos 85 instrumentos legais sobre esse tema na esfera federal, entre leis, decretos e instruções normativas, e legislações específicas de cada estado. Além disso, a introdução de espécies exóticas sem autorização é crime ambiental, de acordo com a Lei de Crimes Ambientais 9605/1998.

Apesar disso, especialistas pedem mais esforços em prol dessa pauta, como uma maior fiscalização e divulgação do tema. “Não adianta haver uma lei proibindo, se as pessoas não sabem o que é uma espécie exótica invasora e soltam o estoque excedente de tilápias do seu pesque-pague no riozinho mais próximo da sua propriedade, por exemplo”, diz Faria.

Nesse sentido, o estudo da UFPR pode contribuir com o desenvolvimento de novas políticas públicas e protocolos que previnam desastres ambientais decorrentes da introdução de espécies exóticas invasoras, segundo Vitule.

Os próximos passos envolvem aplicar ainda mais o método experimental comparativo para investigar os impactos de espécies exóticas invasoras, a influência das mudanças climáticas e múltiplas invasões nesses movimentos. Cientistas pretendem ainda aumentar a quantidade de estudos em diferentes tipos de habitat e com grupos taxonômicos variados, para trazer mais robustez às evidências obtidas.

“A metodologia que estudamos poderia ser aplicada em protocolos oficiais de avaliação de impacto de espécies exóticas invasoras no país, auxiliando na prevenção de novas introduções ou na erradicação rápida das espécies já introduzidas que forem avaliadas como mais problemáticas do ponto de vista do consumo de recursos”, diz Faria.

➕ Leia o artigo Non-native species have higher consumption rates than their native counterparts“, publicado no periódico Biological Reviews (aberto; em inglês)

➕ Leia o artigo “Biological invasions: a global assessment of geographic distributions, long-term trends, and data gaps“, também publicado na Biological Reviews (aberto; em inglês)

➕ Leia o capítulo “Invasive species policy in Brazil: a review and critical analysis, publicado no livro Environmental Conservation, da editora Cambridge University Press (fechado; em inglês)


Fonte: Ciência UFPR