No país da carne, aos mais pobres restará comer coração (e olhe lá!)

CORAÇÃO DE BOI ACEBOLADO E BEM MACIO! - YouTubeA mensagem do governo Bolsonaro aos mais pobres pode ser traduzido como “se não tem picanha que comam coração”

A imagem abaixo mostra uma tabela com os preços praticados para diversos cortes de carne bovina em um supermercado típico do Brasil, e a realidade que emerge desses números é que, apesar de sermos os maiores exportadores de carne bovina desde 2004 e temos o maior rebanho comercial, a maioria dos brasileiros está fadada a comer coração, já que os demais cortes (incluindo os de miúdos como fígado e língua) se tornaram inatingíveis para eles.

tabela de carne

Uma das razões para os preços estratosféricos para o preço da carne bovina (que deverá arrastar junto o de outras carnes como porco e galinha) resulta da inexistência de qualquer medida de estabelecimento de um estoque doméstico que impedisse justamente a ocorrência desse caráter explosivo dos preços.

Ao mesmo tempo, há que se notar que boa parte da produção nacional está sendo destinada para a China cujo governo está tendo uma ação modelar no controle da pandemia da COVID-19, o que habilitou o gigante da economia global a retomar rapidamente os níveis de produção e consumo. Tudo isso representa o caminho contrário do que foi adotado pelo governo ultraneoliberal comandado pela dupla formada por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

Há que se salientar que a elevação da inflação em itens consumidos mais diretamente pelos segmentos mais pobres da população já vinha ocorrendo com outros itens, resultando no fato de que o aumento de preços para as famílias brasileiras mais pobres  tivesse sido mais de 10 vezes maior que a alta sentida pelas pessoas mais ricas de janeiro até setembro de 2020.  E é justamente esta parcela da população que está sendo mais fortemente afetada pelo agravamento do desemprego que já era alto antes, mas que aumentou ainda mais após a erupção da pandemia da COVID-19.

A situação que se abre no Brasil com essa combinação de alta inflacionária para os mais pobres e aumento do desemprego é geradora de uma situação potencialmente explosiva.  Essa situação deverá ser agravada ainda mais pela insistência do governo Bolsonaro em aprofundar sua agenda ultraneoliberal com a promoção de privatizações e ataques aos direitos sociais e trabalhistas. 

Ao seu modo, Jair Bolsonaro parece estar adaptando o famoso trágico bordão atribuído (erroneamente dizem os historiadores) à imperatriz francesa Maria Antonieta que teria dito- pouco antes da Revolução Francesa- que “se não tem pão que comam brioches”- para “se não tem picanha que comam coração”.  O resultado acontecido com Maria Antonieta a história já nos conta. Resta saber o que acontecerá com Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

E antes que eu me esqueça, ofereço uma reminiscência familiar. Sendo filho de um agricultor transformado em metalurgico, passei boa parte da minha infância e juventude tendo uma dieta que era turbinada com partes menos nobres do boi, incluindo fígado, rins e bucho. Ainda bem que minha mãe era uma mestra em transformar esses miúdos em deliciosas iguarias. O meu ponto aqui é que passadas seis décadas, com o Brasil tendo um plantel gigantesco de animais que são criados às custas de muita destruição ambiental, não há de nada de romântico ao que está sendo imposto aos pobres por um governo que não possui qualquer preocupação com o que está sendo colocado (na maioria das vezes isso é nada) de uma parcela significativa dos brasileiros.