A prisão do estrategista argentino e a descoberta de uma suposta estrutura de manipulação digital na Bolívia expõem conexões transnacionais que podem alcançar a eleição brasileira de 2026
A prisão do consultor político argentino Fernando Cerimedo na Bolívia abriu uma verdadeira caixa de Pandora na extrema direita da América Latina e da Espanha, colocando sob os holofotes conexões políticas, empresariais e digitais que ultrapassam amplamente o episódio policial que desencadeou o caso. Cerimedo foi detido sob suspeita de envolvimento no ataque a tiros contra sua ex-companheira, Nadia Beller, atingida por três disparos; posteriormente, a Justiça boliviana determinou sua prisão preventiva enquanto o Ministério Público investiga uma possível tentativa de feminicídio. Fernando Cerimedo nega participação no atentado e sua defesa contesta as acusações, razão pela qual é necessário separar os fatos já documentados daqueles que ainda dependem de comprovação judicial.
O problema é que Fernando Cerimedo está longe de ser apenas um publicitário envolvido em uma investigação criminal. Nos últimos anos, ele transitou pelo entorno de importantes personagens da nova extrema direita, participou da ascensão de Javier Milei na Argentina, trabalhou para Jair Bolsonaro e manteve relações políticas em outros países latino-americanos. A rede de Cerimedo alcançou também a Espanha por meio de sua sociedade no La Derecha Diario com o empresário e comunicador espanhol Javier Negre. O caso começa, portanto, a expor uma estrutura política e comunicacional que atravessa fronteiras nacionais.
Para o Brasil existe um antecedente especialmente importante. Depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022, Cerimedo participou ativamente da disseminação de alegações falsas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas brasileiras. Sua atuação acabou investigada pela Polícia Federal no inquérito sobre a tentativa de golpe, embora posteriormente a Procuradoria-Geral da República não tenha apresentado denúncia contra ele. O episódio demonstra, de qualquer maneira, que Cerimedo não era um observador distante da crise política brasileira produzida após a vitória de Lula.
É nesse contexto que adquire especial importância aquilo que as autoridades bolivianas afirmam ter encontrado durante buscas em imóveis ligados a Cerimedo. Além de dezenas de milhares de dólares em espécie, investigadores relataram a existência de uma suposta “granja de bots”, enquanto a defesa de Cerimedo nega que essa estrutura existisse. A descoberta precisa ser investigada cuidadosamente, mas ganha relevância adicional porque Cerimedo construiu sua trajetória política justamente como especialista em comunicação digital e já falou publicamente sobre o uso de trolls, múltiplas contas e mecanismos destinados a influenciar a conversação política nas redes.
Se as investigações confirmarem que essa infraestrutura servia para favorecer campanhas ou políticos, estaremos diante de algo muito mais importante do que a atuação individual de um marqueteiro agressivo. Granjas de bots podem multiplicar mensagens, impulsionar artificialmente determinadas pautas, atacar adversários e interferir nos algoritmos das plataformas, criando a impressão de que uma posição política possui apoio social muito maior do que realmente tem. Uma granja de bots não fabrica apenas mensagens; ela pode fabricar a aparência de maioria.
E o Brasil de 2026?
É justamente nesse ponto que o caso Cerimedo interessa diretamente ao Brasil. Flávio Bolsonaro disputa a Presidência da República pelo PL, enquanto outros integrantes da família Bolsonaro participam das eleições de 2026. A proximidade anterior de Cerimedo com o bolsonarismo evidentemente não demonstra que essas candidaturas tenham participado de qualquer atividade ilegal. Entretanto, sua atuação na disseminação de desinformação sobre as urnas brasileiras em 2022 e sua experiência com operações digitais tornam inevitável perguntar se as estruturas agora investigadas na Bolívia chegaram a operar também no Brasil.
Caso as autoridades bolivianas comprovem que a suposta granja de bots fazia parte de uma estrutura destinada a favorecer políticos da extrema direita em diferentes países, algumas perguntas precisarão ser respondidas: quais campanhas foram beneficiadas, durante quanto tempo, quem financiava essas operações e em quais países elas funcionaram? No Brasil, essas respostas podem adquirir enorme importância em plena eleição presidencial de 2026, principalmente se surgirem evidências de operações dirigidas ao público brasileiro ou contatos recentes entre essa infraestrutura e pessoas vinculadas a campanhas eleitorais. Por enquanto, é importante ressaltar que não existe evidência pública que demonstre uma ligação operacional entre a suposta granja de bots encontrada na Bolívia e a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026. A proximidade política não substitui a prova. Mas o histórico de Fernando Cerimedo torna perfeitamente legítimo investigar até onde chegaram as estruturas digitais que ele construiu ou ajudou a operar e quem se beneficiou delas.
O caso revela ainda um problema maior. A extrema direita construiu nos últimos anos redes políticas, empresariais e comunicacionais que atravessam a América Latina e chegam à Espanha. Operadores digitais não precisam sequer estar no país cuja opinião pública pretendem influenciar; a infraestrutura tecnológica permite que contas administradas a milhares de quilômetros produzam artificialmente tendências, ampliem determinadas narrativas e ataquem adversários políticos. A trajetória de Cerimedo oferece um exemplo particularmente revelador desse novo tipo de operador político transnacional.
Se as investigações confirmarem a utilização coordenada de granjas de bots para esses fins, aquilo que muitas vezes aparece apresentado como simples “militância digital” assumirá contornos bem diferentes. Estaremos falando de dinheiro, tecnologia, profissionais especializados e estruturas organizadas capazes de simular apoio popular e interferir artificialmente naquilo que milhões de pessoas percebem como opinião pública. Por isso, a pergunta brasileira diante do caso Cerimedo não deveria se limitar ao que aconteceu na Bolívia. Em plena campanha presidencial de 2026, quando Flávio Bolsonaro representa uma das principais forças políticas em disputa, existe uma questão que merece ser investigada até o fim: até onde chegaram as máquinas digitais que Fernando Cerimedo ajudou a construir e quem, afinal, se beneficiou delas no Brasil?











