Quando a extrema-direita transforma denúncias em massa em instrumento de censura nas redes sociais

O bloqueio da conta oficial do Blog do Pedlowski no Instagram, após a publicação de um card crítico a Flávio Bolsonaro, expõe os riscos de transformar os mecanismos de segurança das big techs em instrumentos de silenciamento político

Aparentemente, para determinados setores da extrema-direita brasileira, a liberdade de expressão é um direito reservado àqueles que compartilham suas posições políticas. Quando alguém ousa questionar suas propostas e candidatos, a tão proclamada defesa dessa liberdade parece desaparecer. É o que sugere o episódio que estou enfrentando no Instagram, onde minha conta oficial (@marcospedlowski), com 5.128 publicações e 1.997 seguidores, encontra-se bloqueada pela Meta sob a justificativa de proteção contra uma possível invasão. Curiosamente, o bloqueio ocorreu após a publicação de um card crítico à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, que desencadeou uma onda de ataques de seus apoiadores.

O card reúne críticas às propostas econômicas e sociais associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro, abordando questões como o SUS, o Bolsa Família, a educação pública, o salário mínimo e os direitos trabalhistas. Seu conteúdo foi construído a partir de propostas programáticas e declarações públicas atribuídas ao candidato e a seus assessores. As consequências apontadas constituem interpretações políticas que podem e devem ser debatidas, não fatos já consumados. Discordar dessas interpretações é legítimo; tentar impedir sua circulação é outra coisa. Mais curioso ainda é ver acusações de fake news partindo de setores políticos cuja trajetória inclui episódios documentados de disseminação de desinformação. Parece que não basta disputar a hegemonia política: há quem também pretenda conquistar o monopólio das fake news e da autoridade para definir o que pode circular nas redes sociais.

Depois de sucessivas tentativas de recuperar minha conta pelos mecanismos oferecidos pela Meta, continuo preso a um circuito burocrático digital que não leva a lugar nenhum. A empresa afirma estar me protegendo, mas o resultado concreto é que estou impedido de acessar uma conta construída ao longo de anos. Embora ainda não disponha de provas técnicas de que os ataques tenham provocado diretamente o bloqueio, a sequência dos acontecimentos exige esclarecimentos. Afinal, a própria Meta já reconheceu a existência de operações coordenadas de denúncias em massa destinadas a retirar indevidamente conteúdos e contas de suas plataformas.

O problema é muito maior do que o bloqueio de uma conta. Se grupos políticos organizados conseguirem explorar os mecanismos automatizados das big techs para silenciar adversários, estaremos diante de uma modalidade particularmente eficiente de censura privatizada. Não será necessário fechar jornais, apreender computadores ou enviar policiais às redações. Bastará mobilizar militantes para acionar sistemas de denúncia e deixar que algoritmos opacos façam o restante. E tudo isso sob a conveniente justificativa de proteger os usuários.

A ironia é evidente. Setores da extrema-direita que apresentam qualquer tentativa de regulamentação das plataformas como um atentado à liberdade de expressão parecem não demonstrar o mesmo entusiasmo por essa liberdade quando seus adversários são atingidos. Essa contradição reforça a necessidade de impor regras transparentes às big techs, garantir mecanismos efetivos de contestação e impedir que empresas transnacionais exerçam tamanho poder sobre o debate público sem prestar contas à sociedade.

Por isso, exijo que a Meta esclareça as razões do bloqueio, informe se houve denúncias coordenadas ou tentativas efetivas de invasão e disponibilize um procedimento funcional para recuperar minha conta. Não reivindico privilégios, mas o direito de continuar exercendo minha liberdade de expressão, inclusive para criticar propostas políticas que considero prejudiciais à classe trabalhadora e aos direitos sociais.

Finalmente, fica uma pergunta: é essa a democracia que a extrema-direita pretende oferecer ao Brasil, na qual a discordância política é respondida com intimidação e tentativas de silenciamento? Se esse método se generalizar, especialmente com a complacência ou a incapacidade de reação das big techs, estaremos diante de uma ameaça concreta ao pluralismo político e à própria democracia.

Enquanto isso, continuarei publicando no Blog do Pedlowski. Afinal, bloquear uma conta pode dificultar a circulação das ideias, mas não elimina o pensamento crítico. E, para quem imagina que a democracia pode ser reduzida a um botão de denúncia, fica um lembrete: a liberdade de expressão não é propriedade privada da extrema-direita, e muito menos das big techs.

A prisão de Fernando Cerimedo, as granjas de bots e a caixa de Pandora da extrema direita

A prisão do estrategista argentino e a descoberta de uma suposta estrutura de manipulação digital na Bolívia expõem conexões transnacionais que podem alcançar a eleição brasileira de 2026

A prisão do consultor político argentino Fernando Cerimedo na Bolívia abriu uma verdadeira caixa de Pandora na extrema direita da América Latina e da Espanha, colocando sob os holofotes conexões políticas, empresariais e digitais que ultrapassam amplamente o episódio policial que desencadeou o caso. Cerimedo foi detido sob suspeita de envolvimento no ataque a tiros contra sua ex-companheira, Nadia Beller, atingida por três disparos; posteriormente, a Justiça boliviana determinou sua prisão preventiva enquanto o Ministério Público investiga uma possível tentativa de feminicídio.  Fernando Cerimedo nega participação no atentado e sua defesa contesta as acusações, razão pela qual é necessário separar os fatos já documentados daqueles que ainda dependem de comprovação judicial.

O problema é que Fernando Cerimedo está longe de ser apenas um publicitário envolvido em uma investigação criminal. Nos últimos anos, ele transitou pelo entorno de importantes personagens da nova extrema direita, participou da ascensão de Javier Milei na Argentina, trabalhou para Jair Bolsonaro e manteve relações políticas em outros países latino-americanos.  A rede de Cerimedo alcançou também a Espanha por meio de sua sociedade no La Derecha Diario com o empresário e comunicador espanhol Javier Negre. O caso começa, portanto, a expor uma estrutura política e comunicacional que atravessa fronteiras nacionais.

Para o Brasil existe um antecedente especialmente importante. Depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022, Cerimedo participou ativamente da disseminação de alegações falsas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas brasileiras. Sua atuação acabou investigada pela Polícia Federal no inquérito sobre a tentativa de golpe, embora posteriormente a Procuradoria-Geral da República não tenha apresentado denúncia contra ele. O episódio demonstra, de qualquer maneira, que Cerimedo não era um observador distante da crise política brasileira produzida após a vitória de Lula.

É nesse contexto que adquire especial importância aquilo que as autoridades bolivianas afirmam ter encontrado durante buscas em imóveis ligados a Cerimedo. Além de dezenas de milhares de dólares em espécie, investigadores relataram a existência de uma suposta “granja de bots”, enquanto a defesa de Cerimedo nega que essa estrutura existisse. A descoberta precisa ser investigada cuidadosamente, mas ganha relevância adicional porque Cerimedo construiu sua trajetória política justamente como especialista em comunicação digital e já falou publicamente sobre o uso de trolls, múltiplas contas e mecanismos destinados a influenciar a conversação política nas redes.

Se as investigações confirmarem que essa infraestrutura servia para favorecer campanhas ou políticos, estaremos diante de algo muito mais importante do que a atuação individual de um marqueteiro agressivo. Granjas de bots podem multiplicar mensagens, impulsionar artificialmente determinadas pautas, atacar adversários e interferir nos algoritmos das plataformas, criando a impressão de que uma posição política possui apoio social muito maior do que realmente tem. Uma granja de bots não fabrica apenas mensagens; ela pode fabricar a aparência de maioria.

E o Brasil de 2026?

É justamente nesse ponto que o caso Cerimedo interessa diretamente ao Brasil. Flávio Bolsonaro disputa a Presidência da República pelo PL, enquanto outros integrantes da família Bolsonaro participam das eleições de 2026. A proximidade anterior de Cerimedo com o bolsonarismo evidentemente não demonstra que essas candidaturas tenham participado de qualquer atividade ilegal. Entretanto, sua atuação na disseminação de desinformação sobre as urnas brasileiras em 2022 e sua experiência com operações digitais tornam inevitável perguntar se as estruturas agora investigadas na Bolívia chegaram a operar também no Brasil.

Caso as autoridades bolivianas comprovem que a suposta granja de bots fazia parte de uma estrutura destinada a favorecer políticos da extrema direita em diferentes países, algumas perguntas precisarão ser respondidas: quais campanhas foram beneficiadas, durante quanto tempo, quem financiava essas operações e em quais países elas funcionaram? No Brasil, essas respostas podem adquirir enorme importância em plena eleição presidencial de 2026, principalmente se surgirem evidências de operações dirigidas ao público brasileiro ou contatos recentes entre essa infraestrutura e pessoas vinculadas a campanhas eleitorais. Por enquanto, é importante ressaltar que não existe evidência pública que demonstre uma ligação operacional entre a suposta granja de bots encontrada na Bolívia e a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026. A proximidade política não substitui a prova. Mas o histórico de Fernando Cerimedo torna perfeitamente legítimo investigar até onde chegaram as estruturas digitais que ele construiu ou ajudou a operar e quem se beneficiou delas.

O caso revela ainda um problema maior. A extrema direita construiu nos últimos anos redes políticas, empresariais e comunicacionais que atravessam a América Latina e chegam à Espanha. Operadores digitais não precisam sequer estar no país cuja opinião pública pretendem influenciar; a infraestrutura tecnológica permite que contas administradas a milhares de quilômetros produzam artificialmente tendências, ampliem determinadas narrativas e ataquem adversários políticos. A trajetória de Cerimedo oferece um exemplo particularmente revelador desse novo tipo de operador político transnacional.

Se as investigações confirmarem a utilização coordenada de granjas de bots para esses fins, aquilo que muitas vezes aparece apresentado como simples “militância digital” assumirá contornos bem diferentes. Estaremos falando de dinheiro, tecnologia, profissionais especializados e estruturas organizadas capazes de simular apoio popular e interferir artificialmente naquilo que milhões de pessoas percebem como opinião pública. Por isso, a pergunta brasileira diante do caso Cerimedo não deveria se limitar ao que aconteceu na Bolívia. Em plena campanha presidencial de 2026, quando Flávio Bolsonaro representa uma das principais forças políticas em disputa, existe uma questão que merece ser investigada até o fim: até onde chegaram as máquinas digitais que Fernando Cerimedo ajudou a construir e quem, afinal, se beneficiou delas no Brasil?

De Copa do Mundo a uma extrema-direita que vai asfixiando um continente

Por Ismael Machado* 

De tempos em tempos meu organismo passa por uma situação singular. Ele adapta seus horários de forma a acompanhar eventos como Olímpiadas ou Copa do Mundo, de forma intensa, visceral. Gosto, sobretudo, dos jogos pequenos, mas que contêm uma enorme dramaticidade político-social-geográfica. Como as partidas de Cabo Verde, Curaçao, Nova Zelândia, Irã. Há possibilidades de os iranianos enfrentarem os Estados Unidos em outra fase da competição. Com o cenário de guerra entre as duas nações será mais que uma partida de futebol. Aliás, sou dos que defendem a tese de nunca ser apenas um jogo. Futebol é sempre algo além.

Já li textos afirmando que um sucesso de Messi e companhia ajudaria a conter a frustração do povo argentino com seu presidente, o tresloucado Milei. A conferir.

Fato é que, independentemente do que esteja ocorrendo em gramados mexicanos, estadunidenses e canadenses, o mapa político da América do Sul atravessa uma transformação significativa. Depois de quase duas décadas em que a chamada “onda rosa” levou ao poder governos de esquerda e centro-esquerda em grande parte do continente, observa-se hoje um cenário bastante diferente e preocupante a quem sempre almeja uma sociedade menos fratricida. Forças de direita e, em alguns tristes casos, de extrema direita, conquistaram espaço eleitoral e institucional em diversos países. A Argentina de Javier Milei talvez seja o exemplo mais emblemático dessa nova fase, mas não está sozinha. Equador, Paraguai e outros países da região também caminharam para governos mais conservadores ou liberais na economia, enquanto movimentos de extrema direita cresceram de forma expressiva em países onde ainda não chegaram ao poder.

Nesse contexto, o Brasil governado por Lula passou a ocupar uma posição singular. Não se trata exatamente de um isolamento diplomático, já que o país continua sendo a maior economia da América Latina e um ator relevante no sistema internacional, mas de uma relativa dissociação em relação à tendência predominante no continente. Em certo sentido, o Brasil tornou-se uma exceção em uma região que, pelo menos momentaneamente, parece ter deslocado seu centro de gravidade político para a direita. No meu pêndulo democrático, um país tender à direita, embora me avexe internamente, não é um problema insanável, pois faz parte do tabuleiro político. Já a ascensão da extrema-direita que não respeita a democracia em nenhum aspecto, me causa arrepios tremendos.

Essa situação contrasta fortemente com o início do século XXI. Entre os anos 2000 e o início da década de 2010, a América do Sul viveu um dos períodos de maior convergência política de sua história recente. Governos progressistas chegaram ao poder em praticamente todo o continente. Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Néstor Kirchner e depois Cristina Kirchner, além de Lula no Brasil. Embora houvesse diferenças importantes entre esses governos, existia uma percepção compartilhada de que a região deveria ampliar sua autonomia em relação aos Estados Unidos, fortalecer mecanismos de integração regional e utilizar o crescimento econômico para reduzir desigualdades históricas.

Foi nesse ambiente que surgiram iniciativas como a UNASUL, a ampliação do papel do Mercosul e a criação da CELAC. Havia um projeto político regional relativamente claro, o de aumentar a capacidade de negociação internacional da América do Sul atuando de maneira coordenada. Para quem não conhece, a CELAC é a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, um organismo de articulação política criado em 2010 e formalmente constituído em 2011. Ela reúne 33 países da América Latina e do Caribe, abrangendo praticamente todos os Estados independentes da região. Sua principal característica é que não inclui os Estados Unidos nem o Canadá, diferentemente da Organização dos Estados Americanos. Por isso, a CELAC foi concebida por muitos governos como um espaço em que os países latino-americanos e caribenhos poderiam discutir seus interesses de forma mais autônoma, sem a influência direta de Washington, o que eu sempre considerei uma iniciativa incrível.

A mudança que ocorreu posteriormente não pode ser explicada apenas por fatores ideológicos. Tentando ter um pouco a inteligência analítica de meu amigo Bruno Malheiro, penso que o fim do superciclo das commodities reduziu o crescimento econômico, limitando a capacidade dos governos de financiar políticas públicas expansivas. Ao mesmo tempo, escândalos de corrupção (inerentes a governos de todos os matizes ideológicos, à direita e à esquerda), aumento da violência urbana (um subproduto do neoliberalismo mais agudo), crises fiscais e o desgaste natural de grupos políticos que permaneceram muitos anos no poder abriram espaço para alternativas que prometiam ruptura com o sistema estabelecido.

A ascensão da direita e da extrema-direita contemporânea na América do Sul também está ligada a fenômenos globais. O crescimento das redes digitais, a crise de confiança nas instituições tradicionais (causadas por um bem elaborado plano dessa mesma extrema-direita de minar a democracia em todas as suas instâncias), o fortalecimento de discursos nacionalistas (xenófobos e racistas, inclusive) e a emergência de lideranças que se apresentam como antissistema reproduzem tendências observadas em outras partes do mundo. Em muitos aspectos, o que acontece hoje na região dialoga com fenômenos que levaram à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, ao crescimento de partidos nacionalistas na Europa e ao fortalecimento de lideranças conservadoras em diversas democracias.

Entretanto, reduzir o momento atual a uma simples vitória ideológica da direita seria uma simplificação excessiva. A América do Sul continua sendo uma das regiões mais desiguais do planeta, e grande parte do eleitorado alterna suas preferências de acordo com a percepção de desempenho econômico dos governos. A história política recente da região mostra que ondas ideológicas são frequentemente sucedidas por movimentos em sentido contrário. Foi assim após o ciclo neoliberal dos anos 1990, substituído pela ascensão da esquerda nos anos 2000. Pode ocorrer novamente nas próximas décadas. Espero que isso não demore tanto, pois o relógio da destruição avança a cada ciclo mais rapidamente. Pelo menos é a sensação que tenho.

Do ponto de vista geopolítico, a questão mais relevante talvez não seja quem governa cada país, mas a crescente dificuldade de construção de consensos regionais. A integração sul-americana nunca foi plenamente consolidada e, nos últimos anos, tornou-se ainda mais frágil. Mudanças de governo frequentemente levam à paralisação ou abandono de projetos iniciados por administrações anteriores. O resultado é uma região que possui enorme potencial econômico, energético, mineral e ambiental, mas que raramente consegue transformar esse potencial em influência política coletiva.

Essa fragilidade torna-se particularmente importante em um momento de reorganização da ordem mundial. A disputa estratégica entre Estados Unidos e China, a transição energética, a corrida por minerais críticos e o papel crescente da Amazônia no debate climático colocam a América do Sul no centro de questões decisivas para o século XXI. Paradoxalmente, a região possui recursos cada vez mais estratégicos e, ao mesmo tempo, encontra-se politicamente mais fragmentada. E cada vez menos industrializada, é bom lembrar, o que nos torna mais suscetível a um domínio de um governo autoritário como o de Donald Trump, que não tem pejo algum de assumir ser um colonialista branco com espírito de vilão de HQ. Aliás, quem viu a postagem sobre as frases que poderiam ser atribuídas a vilões de histórias em quadrinhos, mas que eram de nomes como Elon Musk, entre outros, percebeu o tamanho do buraco em que nos encontramos.

E volto à minha paixão primeva. Vejo que nesse cenário, o futebol e a Copa do Mundo assumem uma relevância que vai muito além do esporte. Desde o século XX, grandes competições esportivas funcionam como instrumentos de projeção internacional. Elas ajudam a construir imagens nacionais, fortalecer identidades coletivas e ampliar o chamado “soft power” dos Estados-países. Estamos inseridos em um mundo onde a influência de um país também é exercida pela cultura, pelo entretenimento e pela capacidade de atrair atenção global. Nisso, poucos eventos possuem o alcance simbólico de uma Copa do Mundo. E como essa Copa escancarou as entranhas disso de uma forma a demolir os últimos tijolinhos de uma possível inocência sobre esse esporte tão querido mundo afora.

Lá atrás, a América do Sul já havia compreendido isso. O futebol tornou-se uma das linguagens culturais mais poderosas do continente. Brasil, Argentina e Uruguai transformaram suas conquistas esportivas em elementos centrais de suas identidades nacionais e de sua projeção internacional. Não por acaso, o futebol frequentemente produz um reconhecimento global que muitas vezes supera a visibilidade alcançada por iniciativas diplomáticas ou econômicas.

Durante uma Copa do Mundo, bilhões de pessoas voltam seus olhos para os países participantes. As seleções nacionais tornam-se embaixadoras culturais, e suas histórias ajudam a moldar percepções internacionais. Isso é particularmente importante para países do Sul Global, que frequentemente enfrentam dificuldades para ocupar espaço no noticiário mundial fora de momentos de crise.

Há ainda uma dimensão política menos evidente. Em um mundo marcado por divisões ideológicas, o futebol continua sendo um dos raros elementos capazes de atravessar fronteiras políticas. Governos mudam, alianças se desfazem, projetos regionais entram em crise, mas a rivalidade e a admiração mútua entre as grandes seleções permanecem. O esporte funciona como uma espécie de patrimônio simbólico compartilhado da região. Ainda que eu olhe com certo nojo e desprezo para a organização política dessa Copa, a partir desse intragável presidente Gianni Infantino, me comovo com as reações como a de torcidas caboverdianas, emocionadas com o que sua seleção vem fazendo em campo, ou com a primeira vitória de Egito na competição. São os dois lados de uma mesma moeda em meu peito de apaixonado por esportes e mais ainda por futebol.

Por isso, penso que a coincidência entre uma América do Sul politicamente fragmentada e uma nova Copa do Mundo possui um significado interessante. Enquanto os governos seguem caminhos distintos e frequentemente conflitantes, o futebol continua oferecendo uma narrativa continental reconhecida globalmente. No instante em que a região encontra dificuldades para falar com uma só voz na política, ela ainda consegue ser identificada internacionalmente por sua enorme influência cultural e esportiva. É pouco? Não sei. Não tenho respostas adequadas a isso.

Mas avalio que o Brasil ocupa posição central nessa equação. Mesmo diante de um contexto regional menos favorável aos seus projetos diplomáticos, o país continua sendo a principal potência sul-americana em termos demográficos, econômicos, culturais e territoriais. E mesmo os que odeiam Lula deveriam reconhecer o quanto ele pensa política e diplomacia no que essas palavras tem de melhor. Sua capacidade de liderança, porém, depende cada vez menos da afinidade ideológica entre governos vizinhos e cada vez mais da habilidade de construir consensos pragmáticos em áreas estratégicas, como comércio, energia, infraestrutura, meio ambiente e segurança. Não é uma tarefa fácil, como diria a mestra Zélia Amador, quando há um nítido apequenamento do sentido fazer política e diplomacia ao redor.

A questão central para os próximos anos talvez seja justamente saber se a América do Sul continuará presa à lógica dos ciclos ideológicos que reorganizam periodicamente o continente ou se conseguirá construir instituições e projetos suficientemente sólidos para sobreviver às alternâncias políticas. A história recente sugere que a primeira hipótese ainda predomina. Mas os desafios globais do século XXI podem exigir algo diferente. O mundo está mudando de cara e os Estados Unidos, desesperados, já sabem disso melhor que ninguém. Pois nesse cenário marcado pela competição entre grandes potências, regiões capazes de atuar de forma coordenada tendem a ampliar sua influência. Regiões fragmentadas, por outro lado, correm o risco de assistir às transformações globais mais como objeto do que como sujeito da história. Quem está na extrema-direita, na verdade pouco se importa com isso, desde que um cenário racista, misógino, xenófobo, branco etc predomine.

Nesse sentido, penso que o aparente isolamento político que esteja cercando o Brasil não seja apenas uma questão eleitoral ou partidária. Pode estar revelando um problema mais amplo, qual seja a própria dificuldade histórica da América do Sul em transformar proximidade geográfica, identidade cultural e interesses comuns em um projeto geopolítico duradouro. Essa talvez seja a questão mais importante para o futuro do continente. O objetivo trumpista atual está dando certo. Eles sempre querem dividir para conquistar. E raras vezes fugimos dessa ratoeira com queijo envelhecido.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte:  Medium

Candidato socialista impõe forte derrota à extrema-direita nas eleições presidenciais em Portugal

António José Seguro added a new... - António José Seguro

O cargo de presidente é basicamente ceremonial, mas a estrondosa vitória do candidato do Partido Socialista (PS), o professor universitário António José Seguro, contra o representante do Chega, o deputado extremista André Ventura, é uma sinalização de que a propalada guinada para a extrema-direita não é tão inevitável quanto alguns querem nos fazer parecer.  Além disso, o fato de que Seguro superou em número de votos a eleição ocorrida em 1991 na qual se elegeu Mário Soares também do PS é outra prova de que havendo mensagem clara e postura firme, pode-se derrotar a extrema-direita sem que fazer alianças indefensáveis com a direita.

E há que se notar que as eleições ocorreram no dia de hoje em meio à fortes chuvas que estão abalando Portugal há quase duas semanas.  Com isso, se demonstra que mesmo em meio a eventos climáticos extremos, os portugueses decidiram ir às urnas e dar uma mensagem clara contra as propostas xenefóbicas e anti-democráticas da extrema-direira.

Que a vitória de Seguro seja uma lição para os que se consideram de esquerda no Brasil em meio aos preparativos para as eleições gerais que deverão eleger o próximo presidente brasileiro.

A prisão preventiva de Jair Bolsonaro e as celebrações não nos livrarão da extrema-direita

Advogados alegaram saúde fragilizada do ex-presidente para pedir, ao Supremo, a prisão humanitária -  (crédito: Sergio Lima/AFP)

Prisão preventiva para coibir risco de fuga pode ser temporária

Hoje é inevitável falar da prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas eu não vou cair na tendência de muita gente que, pela esquerda, celebra o encarceramento (tardio, convenhamos) daquele que nos liderou em meio a uma pandemia mortífera e contribui para que o Brasil fosse um dos países mais duramente atingidos pelo vírus SARS-COV-2.

E desse aspecto que eu quero falar. Como muitos já notaram, não é por isso que Bolsonaro está sendo encarcerado preventivamente, o que se revela um desses absurdos óbvios que cercam a existência de instituições democráticas mal formadas. Fosse este um país onde as instituições funcionassem, não apenas o ex-presidente estaria preso, mas seus ministros e até seu vice-presidente. 

É que o que aconteceu durante o período da pandemia foi o somatório não apenas do que pensava e ordenava Bolsonaro, mas teve a participação de muitas outras figuras que hoje estão ocupando cargos públicos, no congresso nacional e até no próprio governo Lula.

Assim, pensar que a prisão de Jair Bolsonaro representa algum ponto de viragem nas relações de classe no Brasil é um grande desserviço não apenas para os esforços em torno da defesa da classe trabalhadora e da juventude, mas, sobretudo, na necessária reparação que merecem as centenas de milhares de famílias que perderam membros por causa das ações negacionistas que contribuíram para a tragédia nacional durante a pandemia da COVID-19.

Tenho que notar ainda que sendo essa uma prisão preventiva e não uma em que a pena definida para que Jair Bolsonaro cumpra por causa da tentativa de um golpe de estado sangrento, eu não me surpreenderia que ele volte para casa em breve. Bons advogados e dinheiro para contratar tantos outros não faltam para Jair Bolsonaro e família.  Mas mais ainda, a base política sobre a qual ele chegou ao poder e ainda controla parte significativa do congresso nacional se mantém razoavelmente intacta.

Assim, as celebrações pela prisão de Jair Bolsonaro me parecem exageradas, especialmente se continuarmos com a crença que é o Supremo Tribunal Federal que nos salvará da extrema-direita. O que nos salvará é a mobilização autônoma da classe trabalhadora e da juventude, é preciso se lembre sempre.  Em outras palavras, as celebrações por essa prisão podem até ocorrer, mas terão pouco ou nenhum impacto nas disputas políticas que realmente importam.

Os “patriotas” da Avenida Paulista enlameam a si mesmos. Depois ainda reclamam do azar

Como alguém que viveu vários anos nos EUA e ainda tenho lá um grande número de amigos e parceiros acadêmicos, tenho as melhores lembranças do aprendizado que eu consegui. Primeiro no Laboratório Nacional de Oak Ridge, passando pela Virginia Tech, e finalizando na Fairfield University.  Pude aprender e conhecer um pouco das profundezas da sociedade estadunidense, e as parcerias e camaradagens que tive serão sempre parte das minhas melhores memórias.  E sim, pude conhecer o que há de melhor, sem esquecer que ali também existem problemas sociais gravíssimos.

Por isso, mesmo sendo uma pessoa de esquerda a maior parte da minha vida, não sou um inimigo dos habitantes daquele país. É que eu sei que aquela é uma sociedade mais complexa do que os estereótipos nos fazem crer.  Eu sei também por experiência pessoal que existem por lá incontáveis lutadores sociais e defensores das mesmas causas que eu abracei e que me fazem agir todos os dias.  Sim, e que por lá as pessoas são capazes de exibiri extrema gentileza, camaradagem e compromisso por dias melhores para todos no planeta.

Pois bem, deixando as coisas claras, eu só posso lamentar por termos brasileiros que conseguem passar a vergonha de estender uma bandeira dos EUA no dia em que celebramos a independência do Brasil. É daqueles vexames que só gente muito alienada e complexada pode ser deixar passar.  A vantagem é que esses falsos patriotas nos mostraram hoje que deles não se pode esperar qualquer tipo de coerência e entendimento da realidade. É que ao segurar a bandeira dos EUA para defender as medidas arbitrárias do governo Trump contra a nossa soberania nacional, essas figuras trágicas e patéticas se colocam na nossa história como traidores da mesma exata estirpe de Joaquim Silvério dos Reis.

A verdade é que de patriotas como esses, o Brasil não precisa, e desejo que a história os coloque no seu devido lugar.

Com Lula ruim, sem ele pior? A capitulação como ferramenta política nunca é boa conselheira

Li hoje um arrazoado feito por um dirigente do PSOL que conheci há mais de 40 anos  nos corredores do movimento estudantil da UFRJ que é um desses primores da capitulação política antecipada. Segundo esse dirigente, que não vou citar o nome porque a mensagem dele é mais importante do que o personagem, o PSOL deveria apoiar (provavelmente a reeleição do) presidente Lula porque segundo ele se “estamos mal com Lula, estaremos muito pior sem ele”.

Para não deixar dúvidas, esse dirigente coloca a culpa desse verdadeiro beco sem saída na classe trabalhadora que teria sido conquistada pelas ideias neoliberais e anti-estado que culminam no desprezo pela “carteira assinada”. Por isso, diz ele,  “no atual período político não existe esse espaço, pois “o que resta de classe trabalhadora orientada pela esquerda pode ser insuficiente para derrotar a extrema direita e é esta que se coloca como alternativa.” Alguma palavra sobre os erros políticos cometidos por Lula e as políticas pró-banqueiros do seu govenro?  Nenhuma.

Outro aspecto é a crítica feita aos setores do PSOL que rejeitam a tese do “mal com Lula, pior sem ele”. Para estes, resta a acusação de que estão em uma “campanha de desconstrução, tanto em relação ao governo como em relação às principais figuras públicas do PSOLque está na base do governo.” A questão aqui é que de uma forma bem explícita, a intenção é interditar o debate sobre a necessidade de uma nova orientação para a esquerda no Brasil, uma que rejeite o social neoliberalismo que é a marca registrada do terceiro mandato de Lula e seu governo de frente amplíssima com a burguesia.

O que me parece interessante é que não há qualquer menção ao processo eleitoral alemão, onde em condição de “pari passu” com o crescimento da extrema-direita, ocorreu um crescimento do “Die Linke”, partido de esquerda oriundo do antigo Partido Comunista da Alemanha Oriental, que desafiando os anúncios precoces de sua morte, teve uma votação que praticamente duplicou suas cadeiras no parlamento alemão. É que pela lógica desse dirigente do PSOL, o pessoal do “Die Linke” deveria ter se resignado com o destino apontado nas pesquisas eleitorais e aberto mão de sua campanha em nome da candidatura morimbunda de Olaf Scholz.

A verdade é que se continuarmos abraçando a concepção de que “mal com Lula, pior sem ele”, as chances da extrema-direita vencer as eleições gerais de 2026 com folga não são nada desprezíveis. E isso está se desenhando por causa das políticas de Lula que favorecem o sistema financeiro e punem a classe trabalhadora. Assim, em vez de ficarmos aceitando o mal menor, há que se começar a assumir a necessidade de termos candidaturas de esquerda e anti-neoliberais. Com isso, haveria a possibilidade de educar os segmentos da classe trabalhadora atualmente sob influência da extrema-direita, e de também empurrar Lula para a esquerda.

A guerra tarifária de Trump alcançará o Brasil e colocará desafios para o governo Lula e para a extrema-direita

Pressionados por um déficit comercial considerável e pela necessidade de reverter esse quadro desfavorável, o presidente Donald Trump anunciou que vai começar a aumentar as tarifas de importações dos principais parceiros comerciais dos EUA, incluindo o Brasil.  O tamanho da facada ainda não se sabe, mas isso deverá ser anunciado nos próximos dias.

A opção por aumentar o nível das tarefas cobradas por produtos importados é o tipo “faca de dois gumes”, pois para os EUA só funcionará se os países e blocos visados pela ira tarifária de Trump não tomarem medidas reciprocas. E como a maioria das economias nacionais não vive um grande momento, a simples ideia de que não haverá reciprocidade é pouco crível.

O fato do Brasil estar na mira de Donald Trump gerará consequências inevitáveis para o governo do presidente Lula, já que os EUA são o segundo parceiro comercial do nosso país. Mas há que se lembrar que a balança comercial brasileira, ao contrário do caso chinês, possui um déficit na relação com os EUA. Assim, se Trump exagerar no sal tarifário com o Brasil, Lula terá a possibilidade de exercer uma reciprocidade que poderá doer mais lá do que as tarifas estadunidenses doerão por aqui.

O problema com o governo Lula é se haverá disposição de enfrentar a diplomacia do canhão que Trump ameaça usar contra todos aqueles que contrariarem seus planos de reestabelecer a hegemonia econômica dos EUA, cada vez mais ameaçada pela ascensão chinesa.

Um problema a mais é que Trump espertamente aliviou a mão na hora de assinar as tarifas contra a China, pois o agronegócio dos EUA tem todo interesse em competir com o brasileiro por uma fatia maior das importações chinesas de produtos agrícolas.  Aí talvez a coragem de enfrentar Trump receba algum anabolizante, pois será uma situação do tipo “bola ou bulica”, dada a atual dependência da balança comercial brasileira da exportação de commodities agrícolas e minerais.

A extrema-direita e seus próprios problemas com a diplomacia das tarifas de Trump

Congressistas brasileiros se reuniram em hotel para assistir à cerimônia de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos | Divulgação - 20.jan.2025

Sem convites para o palco principal da posse de Trump, parlamentares da extrema-direita se reuniram em hotel para assistir à cerimônia de posse do presidente dos Estados Unidos

Se Trump pesar demais a mão contra o Brasil, a situação da extrema-direita brasileira também será de saia justa. É que praticando uma forma curiosa de nacionalismo adesista aos interesses dos EUA- lembremos aqui a ida de vários parlamentares do PL para celebrar a posse de Donald Trump (ainda que tenham ficado em locais de menor importância)-,  a extrema-direita agora terá de assistir ao terror tarifário que atingirá os principais financiadores de suas campanhas políticas. Será interessante ver como os Nikolas e Eduardos da vida vão explicar isso à base ruralista/evangélica que os sustenta. 

Uma das nuances dessa sinuca de bico é o fato de que o preço das commodities continua caindo em combinação com as perdas causadas por eventos climáticos extremos. Assim, sofrer a imposição de taxações salgadas poderá agravar a situação de várias empresas que sustentam o funcionamento do latifúndio agro-exportador que majoritariamente apoia políticos da extrema-direita. 

Assim, fiquemos prontos para ver como vai reagir a extrema-direita, já que não será possível culpar o governo Lula pela perda de competividade nos EUA, com a possibilidade de que ainda se tenha de brigar para manter ou ainda aumentar o acesso ao mercado chinês de commodities. 

Em suma, a extrema-direita tem pela frente um interessante desafio para seu modelo de nacionalismo adesista.

A montanha pariu um rato: como a extrema-direita tentou iludir os eleitores de Campos dos Goytacazes

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Por Douglas Barreto da Mata

A montanha

Um dos mais caros ensinamentos praticados pela extrema-direita é a distorção da realidade. O espancamento dos fatos até que estes se apresentem como uma versão favorável.  Nos últimos dias, como é de costume em campanhas eleitorais, o exército nazicampista (termo da lavra do meu amigo Gustavo Landim Soffiati), representado na candidatura da delegada, tentou, sem conseguir, apresentar um viés favorável dos números obtidos em uma pesquisa realizada pelo Jornal O Dia/Instituto Paraná Pesquisas.

Como comprovamos em várias publicações na plataforma Instagram (@douglasbarretodamata), o pessoal da KKK da planície usou um expediente maroto.  Em resumo, o instituto realizou as entrevistas por telefone, o que em si já traz um prejuízo das amostras e dos dados.

Neste caminho, a pesquisa revelou um dado inédito, 53% de indecisos, que deu à delegada um surpreendente índice de intenções de voto, no quesito votos válidos, que são, justamente, aqueles que descontam os indecisos, brancos e nulos.  Logo percebemos o “truque”, que é a ordem dos questionários, associada com a má vontade do eleitor entrevistado em atender telefonema, ainda mais na era digital, das mensagens por aplicativos.

Pois bem, se oferecida por último a pergunta no quesito espontâneo (o eleitor fala em quem votará, sem nenhuma indicação ou informação prévia do entrevistador), é certo que muitos dos entrevistados irão falar que “não sabem”, no desejo de encerrar logo a conversa telefônica.  Isso aumenta os indecisos, e claro, altera os números apurados.

Bem, dias depois, outro instituto, desta vez o Big Data, contratado pela Rede Record, fez outra sondagem, e surpresa (?):  o número de indecisos caiu para 30%.  Não digo aqui que o Jornal O Dia quisesse agradar o grupo político que patrocina a candidatura de oposição, já que esse grupo está instalado no Governo do Estado do RJ, um cliente poderoso.

Nada disso.  Acredito na seriedade do veículo e do seu contratado.  No entanto, não podemos desprezar que a discrepância entre os indecisos nos dois casos é relevante, a ponto de nos autorizar a conclusão de que métodos diferentes foram empregados, um mais preciso, neste caso o Big Data, e outro menos preciso, como o Instituto Paraná.

Outra coisa interessante, é que mesmo com essa ligeira diferença, que atendeu a uma demanda dos nazicampistas, os resultados de aprovação do prefeito, seus índices de intenções (63%), e enfim, rejeição (16%), não se alteraram tanto.

Insisto:  Se houvesse uma variação significativa de todos os demais resultados, poderíamos dizer que tal diferença seria fruto de metodologias diferentes, e claro, cada um escolhe a sua.  O que se viu não foi isso, e só em uma variável (a de indecisos) houve distorção.

Novamente, afirmamos que a discrepância de número de indecisos está na base do “aumento” de intenções de voto da delegada.

O rato

Vamos falar, agora, do quadro eleitoral atual, tendo como referência a pesquisa mais próxima da realidade, a do Instituto Big Data/Rede Record.

O prefeito Wladimir Garotinho parece sedimentado em um patamar bem elevado, que converge e reflete a aprovação da sua gestão (governo), e a diferença entre intenções dos votos válidos e aprovação de gestão ainda permitem um pouco de crescimento, a ser verificado nestes últimos 30  dias de campanha, ou não.

A TV tende a atingir uma faixa de eleitorado que usa pouco internet, mais pobre e mais do interior, menos escolarizada.  Justamente o eleitorado cativo da família Garotinho.  A rejeição do prefeito bate, quase que exatamente, com a soma dos eleitores que dizem preferir os candidatos adversários.

Guarde essa informação, vai ser útil ali adiante.

É uma rejeição que pode ser traduzida no sentimento anti garotista mais renhido, que não se move, e se dispõe a votar em qualquer um que se apresente como antagonista da família Garotinho.

Assim, é certo dizer que haveria um certo espaço para o PT dobrar, ou até mesmo passar dos dois dígitos, desbancando os nazicampistas do segundo lugar, se não insistisse em evitar este confronto com a extrema-direita, preferindo o ataque ao prefeito.

Para ser honesto, a recente polêmica do prefeito com o candidato petista sobre o IDEB conferiu ao petista um pouco de holofote, e lhe permitiu avançar, um pouco, sobre o eleitorado indeciso.  Sabemos que as intenções de Wladimir ficaram intactas, sendo óbvio que Jefferson Azevedo cresceu sobre os indecisos, já que não ganhou eleitores da delegada.

Esse expediente tem um limite, que não parece claro ao petista e sua coordenação, que animada por esse ligeiro, mas importante crescimento, imagina que manter as baterias sobre o prefeito trará mais eleitores.  O limite é a rejeição do prefeito, e alcançado esse teto, que, como já falamos acima, que já está bem próximo.  Este patamar consiste na soma das intenções dos adversários do prefeito face à rejeição. Além dele, o petista não avançará mais, nem ele, nem os demais.

Ao contrário, tendem a perder votos, já que atacar um prefeito e uma gestão bem avaliados é antipático, e mais ainda, interdita a nominata de vereadores, que passa a perder votos de eleitores híbridos (que votam em vereadores da oposição e no prefeito), o que esvazia mais a campanha do candidato majoritário.

A rejeição, na verdade, é a segunda colocada nas intenções de voto.

Nenhum dos adversários do prefeito conseguiu ter mais intenções que as suas rejeições, e é essa a barreira que os impede de avançar dentro dos votos do prefeito, como imaginam os coordenadores do PT.  Observar a série histórica das rejeições mostra que, exceto Wladimir, que, inclusive já é muito conhecido, todos os demais angariaram muito mais rejeições que intenções de votos, com o passar do tempo, na medida que se tornaram mais conhecidos.

Podemos dizer, no caso da delegada em destaque, e dos demais com menos variações, que quanto mais conhecidos se tornaram, mais rejeitados ficaram.

Deste modo, repito, cabe ao PT tentar canibalizar os votos da extrema-direita, por mais paradoxal que pareça, é uma possibilidade dentro da lógica dos anti garotistas, e ao mesmo tempo demarcar um campo/território, mostrando aos indecisos quem é o verdadeiro adversário do prefeito.  Se mantiver o ataque ao prefeito, o PT vai solidificar a polarização dele (prefeito) com os nazicampistas.

Qualquer dos dois cenários é bom para o prefeito, que do alto da sua enorme aprovação, e de suas intenções, pode escolher quem bater, ou melhor, quem ignorar.

Permitir isso é um revés trágico, ainda que o PT eleja um vereador, olhando a perspectiva de médio e longo prazos do partido na região.  É repetir erros passados, esperando resultados diferentes, como já cansamos de falar.