Estudo aponta que retirada de árvores de alto valor comercial provoca abertura de clareiras e alterações no dossel da floresta
Por Mariana Lenz para “Primeira Página”
O corte seletivo de madeira, método de extração onde apenas árvores específicas e de alto valor comercial são removidas, é apontado como uma das principais causas de ‘distúrbio de dossel’ na Amazônia Legal. O dossel é a camada superior da floresta, formada pela continuidade das copas das árvores mais altas.
Essa atividade está concentrada: 83,5% do total ocorre em Mato Grosso e no Pará, e seis dos 10 municípios com maior exploração estão em Mato Grosso em 2024. Os dados são de um levantamento feito pelo MapBiomas, que identificou 9,7 milhões de hectares com indícios de corte seletivo entre os anos de 1988 e 2024.
Diferente do corte raso, ou desmatamento total, o objetivo do corte seletivo de madeira é retirar madeira sem destruir todo o ecossistema. Geralmente árvores de grande porte ou espécies maduras, são removidas, mantendo o restante da floresta em pé.
Quando a camada de dossel sofre alterações, seja por secas, ventos, incêndios, corte seletivo de madeira, efeito de borda ou outras perturbações, abre-se no local uma clareira, rompendo a continuidade original da floresta, que recebe o nome de distúrbio de dossel.
Segundo o MapBiomas, em 26 anos pelo menos 7% da cobertura de floresta na Amazônia Legal, ou 24,9 milhões de hectares, houve detecção de algum sinal de distúrbio de dossel por pelo menos um mês.
No ano de 2016, foi detectada a maior área mapeada desse distúrbio, com 4 milhões de hectares. Entre 2019 e 2024, a área afetada por esses distúrbios foi de 2,1 milhões de hectares.
Degradação da floresta
Pela primeira vez, os pesquisadores do MapBiomas calcularam a quantidade de fragmentos de vegetação nativa no Brasil: eles passaram de 2,7 milhões em 1986 para 7,1 milhões em 2023. O crescimento de 163% em 38 anos sugere que a vegetação nativa no Brasil está mais exposta à degradação.
Fragmentação é o processo pelo qual áreas originalmente contínuas de vegetação nativa são divididas em porções remanescentes cada vez menores e mais isoladas por conta do desmatamento, seja para fins de expansão agropecuária, de urbanização, de abertura de estradas ou outras finalidades.
Os efeitos negativos do desmatamento são ainda maiores quando as áreas remanescentes ficam muito fragmentadas.

“Cada vez que diminui o tamanho de um fragmento de vegetação nativa, mais problemas aparecem: aumenta o risco de extinções locais dessas espécies, diminui a chance de recolonização por indivíduos vindos de outros fragmentos vizinhos e maior é a proporção do efeito de borda. Em suma, esses fragmentos vão perdendo a diversidade de espécies”, detalha Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e coordenador do módulo de degradação do MapBiomas.
Biomas mais afetados
Segundo o levantamento, todos os biomas apresentaram aumento no número de fragmentos nas últimas quatro décadas (1986-2023). O Pantanal e a Amazônia foram os biomas com maior aumento da fragmentação, com 350% e 332%, respectivamente. Seguidos do Pampa com 285%, Cerrado com 172%, Caatinga com 90% e Mata Atlântica com 68%.
Mata Atlântica e Cerrado são os biomas com maior número absoluto de fragmentos de vegetação nativa com aproximadamente 2,7 milhões cada.
“Enquanto no Cerrado o aumento no número de fragmentos está associado ao avanço do desmatamento e à divisão de grandes remanescentes de vegetação nativa em áreas menores, na Mata Atlântica, parte desse aumento também pode ser explicada por um processo no sentido oposto ao desmatamento, ou seja, pelo surgimento de múltiplas áreas de recuperação da vegetação secundária”, pondera Natalia Crusco, coordenadora técnica da Mata Atlântica no MapBiomas.
Fonte: Primeira Página





Incêndio florestal na Amazônia. Adaman Roman.