20% de desmatamento é só um dos problemas na Amazônia. Talvez seja o menor

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A recente polêmica envolvendo as críticas do presidente Jair Bolsonaro sobre os dados gerados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento (também conhecido como corte raso) na Amazônia brasileira tem servido para obscurecer o fato de que existem outros mecanismos de alteração da qualidade e da quantidade da cobertura vegetal.

E o interessante é que dois destes mecanismos já são bem estudados pela comunidade científica brasileira e internacional em função dos graves prejuízos que também causam sobre a biodiversidade e os serviços ambientais associados à floresta em sua condição primária. Falo aqui da degradação e da fragmentação florestal cujos agentes responsáveis são basicamente os mesmos do desmatamento, mas variam em termos de intensidade e do foco espacial.

Mas o essencial é que degradação está muitas vezes associada à entrada de diferentes atores dentro de áreas florestais para a retirada de madeira e de minérios.  O processo de degradação pode resultar tanto em mudanças drásticas da cobertura vegetal como também em alterações que rapidamente são assimiladas pela vegetação a partir de um processo de sucessão florestal.  Nesse caso a ação de madeireiros e garimpeiros são as mais notáveis, ainda que em áreas dominadas pela agricultura familiar possa ocorrer a retirada paulatina de madeira ao longo até de várias décadas, sem que se perceba grandes mudanças nas leituras espectrais da cobertura vegetal da área afetada em função da baixa intensidade das alterações promovidas.

A fragmentação é outro processo que se soma ao desmatamento e à degradação para promover a descaracterização das áreas afetadas, promover o chamado “efeito de borda“, e acelerar as mudanças nos serviços ambientais a partir da facilitação de diversos processos, incluindo os incêndios florestais.

fogo amazoniaIncêndio florestal na Amazônia. Adaman Roman.

O fato é que todo o foco colocado pelo presidente Bolsonaro e seus ministros anti-ciência (Marcos Pontes) e anti-ambiente (Ricardo Salles e Tereza Cristina) nos dados de corte raso é um típico jogo de cena, pois, com isso, se evita uma discussão mais ampla da devastação que está em curso tanto na Amazônia como no Cerrado.  A verdade é que os ditos 20% de desmatamento total na bacia Amazônica representam uma fração minoritária das áreas que já não são possíveis de ser consideradas como “naturais”.

Uma dificuldade nos estudos relacionados às mudanças no uso e cobertura da terra na Amazônia tem sido justamente calcular a área total afetada pelos diferentes processos aqui citados (i.e., desmatamento, degradação e fragmentação).  Apesar de existirem estudos pontuais, ainda não se produziu um cálculo que possa expressar a ação conjunta de todos eles no conjunto da bacia Amazônica. Felizmente, existem estudos em preparação que irão nos trazer números globais sobre a ação combinada destes processos.

E é certo que quando os cálculos combinados se tornarem públicos, a pressão sobre o governo Bolsonaro deixará o atual debate sobre o desmatamento raso como algo que ele é, uma tentativa de desviar a atenção mundial da destruição que está em curso na Amazônia, da qual o governo Bolsonaro é um dos seus principais artífices.  A ver!

Fragmentação e seus efeitos sobre os ecossistemas florestais

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De tempos em tempos ouvimos a versão idílica de que o processo de desmatamento está controlado nas florestas brasileiras. Esse é um engano perigoso, pois como vivenciamos recentemente uma crise hídrica cujas uma das variáveis causais é justamente a remoção da cobertura florestal. Agora um estudo liderado pelo pesquisador norte-americano Nick Haddad da North Carolina State University traz luz sobre o processo de fragmentação florestal que é um dos mecanismos que ajudam a criar essa ilusão, visto que normalmente as pessoas tendem a identificar a remoção total das florestas como o único problema realmente grave nesse processo (Aqui!). 

Haddas e um grupo de colaboradores acaba de publicar na Science Advances um artigo intitulado “Habitat fragmentation and its lasting impact on Earth’s ecosystems”  que mostra como o processo de fragmentação empobrece e ameaça a sustentabilidade de ecossistemas inteiros.  Nesse artigo é inclusive abordado com algum detalhe os problemas de fragmentação que estão ocorrendo na Amazônia e no que ainda resta do bioma da Mata Atlântica. Quem tiver interesse de ler o trabalho, bastar ciclar (Aqui!).

Não custa nada lembrar que após a aprovação do lamentável Código Florestal, as taxas de desmatamento, sem qualquer surpresa, voltaram a crescer em todos os biomas florestais brasileiros. Para completa alegria de Kátia Abreu, ministra da Agricultura de Dilma Rousseff, e seus colegas latifundiários.