O escândalo da Volswagen: Das Auto, tecnologia para contaminar sem deixar rastros

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Como a Volkswagen criou motores que simulam ser ecológicos em testes mas poluem, nas ruas, quarenta vezes mais. Suspeita: descoberta é ponta de iceberg; outras marcas praticaram fraudes iguais

Por Antonio Martins

No mundo mágico da publicidade, os automóveis são tão inofensivos e contemporâneos como era o tabaco, há quinze anos. Os motoristas deslizam por ruas e avenidas sempre vazias. Dirigir nas cidades é relaxante e aprazível. Os carros oferecem potência a seus condutores, mas os convertem, ao mesmo tempo, em defensores da natureza. Porque os motores, tecnologicamente muito avançados, adequam-se a todas as normas de proteção ambientais.

Há uma semana, mais um sustentáculo desta narrativa infantilizante está desmoronando.Descobriu-se que a Volkswagen, segunda maior empresa global em seu ramo, não emprega a tecnologia para aperfeiçoar seus produtos, mas para criar a ilusão de que são bons. Pelo menos onze milhões de motores da marca foram programados para simular, quando submetidos a testes, que emitem entre cinco e quarenta vezes menos poluentes que em condições de tráfego.

O artifício – uma espécie de malandragem high-tech, com sotaque alemão – permitiu até agora burlar as normas que deveriam inibir a emissão de um composto altamente nocivo, tanto para o equilíbrio climático quanto para a saúde humana. A Volkswagen – cujo presidente mundial acaba de renunciar, numa tentativa de encerrar o caso oferecendo ao público um bode expiatório – não está sozinha. Tudo indica que a indústria automobilística pratica, de modo generalizado, fraudes deste tipo.

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Publicidade do Passat Diesel enfatiza potência com supostas economia e correção ambiental

Os fatos começaram a vir à tona na sexta-feira, 18/9. A Agência de Proteção Ambiental (EPA, em inglês) norte-americana, anunciou ter descoberto que o motor EA189 a Diesel, utilizado em carros de passeio pela Volks, Audi e possivelmente outras das nove empresas do grupo1, estão equipados com um software que lhes permite, em condições de teste de poluição, emitir níveis abruptamente reduzidos de óxidos de nitrogênio.Este grupo de compostos gasosos destaca-se, entre as dezenas de contaminantes emitidos pelos motores a explosão, por contribuir de modo especialmente intenso para o aquecimento global, e por favorecer o surgimento de doenças respiratórias como asma, bronquite e mesmo enfizema.

A descoberta foi feita de modo involuntário, quase por acidente – o que reforça a hipótese de que fraudes semelhantes sejam comuns. Há meses, o pequeno braço norte-americano de uma OnG europeia que reivindica automóveis menos poluentes2, verificou que, nas estradas, os carros equipados com o EA189 emitiam entre cinco e quarenta vezes mais óxidos de nitrogênio que nos testes certificados pela EPA.Imaginando que se tratasse de uma falha ocasional nos motores testados, a OnG pediu que a EPA submetesse os propulsores a novos testes.

Surpresa: em condições de laboratório, os motores voltaram a aparentar emissões reduzidas. A disparidade extrema entre os resultados levou a uma investigação mais profunda. Ela constatou: o EA 189 é capaz de detectar que está sendo submetido a testes. Nestas condições, funciona em regime de baixa emissão.

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Já na estrada, volta ao padrão normal (veja no diagrama ao lado, produzido pela Reuters, em inglês). Mas é então, poluindo descontroladamente, que realiza o que a propaganda da Volkswagen promete: ser um motor Diesel econômico, porém potente, de alto torque, capaz de proporcionar velocidade e arrancadas. Viril, portanto. Nestas condições, é como se o EA189 resolvesse um dos grandes dramas da alma humana imersa no capitalismo: ele permite desejar potência sem limites, em meio a um planeta finito. Mas atenção: só no modo carochinha, de realidade virtual…

Será uma obsessão restrita à germânica Volkswagen? Tudo indica que não. O escândalo atual é, provavelmente, “a ponta de um iceberg”, diz o site Business Insider. Fraudes idênticas podem ocorrer também com motores a gasolina, completa The Guardian. As regras e checagens, supostamente “rigorosas”, que deveriam limitar os efeitos devastadores da indústria automobilística são frouxas. As norte-americanas, consideradas as mais severas do mundo, foram facilmente dribladas pelo software da Volkswagen. Na Europa, burlá-las é ainda mais fácil, conta Greg Archer, líder do thinktank britânico Transport and Environment, sobre veículos limpos. No Velho Continente, explica ele, os testes são feitos apenas em protótipos, antes de os carros serem produzidos em massa; e por empresas pagas pela própria indústria automobilística. Não surpreende que sempre aprovem os carros. Seria conveniente perguntar: e no Brasil?

A descoberta das fraudes da Volkswagen produziu um pequeno terremoto financeiro. O valor de mercado da empresa – considerada um pilar da economia alemã – reduziu-se em 1/3, em apenas quatro dias. Mas tudo indica, reconhece a própria revista Economist, pró-capitalista, que a maior parte das montadoras globais de automóveis promove manipulações idênticas às da VW.  Foi certamente esta consciência – e o medo de futuras revelações – que provocaram, ontem, desvalorizações expressivas nas ações da Renault (-4%), Peugeot (-2,5%), Nissan (-2,5%) e BMW (-1,5%).

Os amantes brasileiros da indústria automobilística podem, ainda assim, dormir despreocupados. Embora o escândalo tenha estourado há cinco dias e ocupe deste então muitas páginas, em dezenas de jornais em todo o mundo, nem Folha, Globo ou Estadão haviam dedicado uma linha ao tema até esta tarde – quando ele tornou-se obrigatório devido a renúncia de Martin Winterkorn, presidente da Volks. Agora, os três diários brasileiros mais vendidos, assim como as revistas e TVs aceitam sem críticas a versão segundo a qual tudo se passou de um erro pessoal de Winterkorn. Ao avaliar o volume de publicidade da indústria automobilística nestes meios, você certamente compreenderá as razõe$.

1Composto também por Porsche, Seat, Skoda, Bentley, Lamborghini e Bugatti.

2Conselho Internacional para Transporte Limpo (ICCT, em inglês)

FONTE: http://outraspalavras.net/blog/2015/09/23/volkswagen-a-tecnologia-como-forma-de-iludir/

Jeffrey Beall disseca o “article spinning”, uma técnica de plágio para o Século XXI

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Artigo Spinning: Um técnica de plágio para o Século 21

Por Jeffrey Beall

Esteja preparado para o “Article spinning!

Article spinning é uma técnica cada vez mais popular para a criação de artigos acadêmicos plagiados que os software de detecção de plágios nem sempre conseguem detectar. O “article spinning” envolve o uso de um software para copiar e reformular um acadêmico publicado para criar um novo artigo. A partir dessa técnica, termos e frases no artigo original são substituídas por sinônimos. Aqui está um exemplo.

O primeiro dos dois artigos abaixo é o original. O segundo duplica grande parte do conteúdo usando a técnica de “article spinning”, substituindo palavras e frases com palavras e frases sinônimos.

Zai, M. A. K. Y., Ansari, M. K., Quamar, J., Husain, M. A., & Iqbal, J. (2010). Stratospheric ozone in the perspectives of exploratory data analysis for Pakistan atmospheric regions. Journal of Basic and Applied Sciences, 6(1), 45-49.

Mian, K., Abbas, S. Z., Kazimi, M. R., Rasheed, F. U., Raza, A., & Iqbal, S. M. Z. (2015). Study heftiness in the astrophysical turbulence at Pakistan air space. European Academic Research, 2(12), 15697-15709.

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Exemplo de texto do artigo original

b) Para os dados normais, a média da amostra e a variância são os avaliadores imparciais sobre localização da distribuição subjacente. A maioria dos conjuntos de dados físicos não são distribuídos normalmente, mesmo depois de transformação, porque o pressuposto subjacente de uma distribuição normal é uma idealização matemática que nunca é cumprida exatamente na prática, porque grandes conjuntos de dados inevitavelmente contém valores atípicos.

Exemplo de texto do artigo que resultou do “spinning”

(c) Para os dados de Gauss, o exemplo desagradável e alteração são os avaliadores imparciais sobre a localização da distribuição de Gauss. Maiores círculos de informação corporais não são distribuídos de forma suave após alteração, uma vez que a suposição de uma distribuição de Gauss é um romantismo exato que não é sempre que encontrado precisamente na repetição desde grandes grupos de dados inevitavelmente cobrem valores atípicos [10].

Notem como os termos “média da amostra” foi convertida em “exemplo desagradável” e a frase “idealização matemática” foi alterado para “um romantismo exato”, e alteram o sentido em ambos os casos. Existem inúmeros outros casos de parágrafos do artigo sofreram spining e ; de fato; afigura-se que a maior parte do artigo que resultou do spinning é banal e  copiado.

Fui informado, mas não posso  confirmar que o segundo autor listado do artigo que passou pelo spinning, S. Zeeshan Abbas, obteve seu título de doutor na Universidade de Karachi, em grande parte por causa da publicação do artigo copiado no European Academic Research

European Academic Research: Euro-lixo.

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A European Academic Research, onde o artigo resultou do “spinning”  foi publicado, é uma revista de qualidade extremamente baixa, e está incluída na minha lista de revistas questionáveis. O seu co-editor-chefe é Ecaterina Patrascu, uma romena que eu relatei no ano passado quando ela e seus companheiros lançaram a ridícula revista “American Research Toughts“.

Acredito que a European Academic Research é apenas mais um dos modos de Patrascu de fazer dinheiro, e deste artigo lixo na revista é prova disso. Notem que European Academic Research, incluindo o artigo que passou por spinning e que foi descrito aqui, está indexada no Google Scholar, o maior índice mundial de indexação de lixo científico.

Além disso, o título do artigo que passou pelo “spinning”, “Estudo da importância da turbulência astrofísica no espaço aéreo do Paquistão” – é um completo disparate.

Outra complicação: o “The Journal of Basic and Applied Sciences”, onde o artigo original apareceu, é publicado por uma empresa chamada Lifescience Global, uma editora também incluída na minha lista de editoras e revistas predatórias. Na página “números anteriores” da revista, a maioria dos links para volumes e questões anteriores não funcionam adequadamente, e conduzem apenas a anúncios de publicidade, o que significa  que o  conteúdo anterior da revista está perdido, e muitos que pagaram para publicar ali foram roubados.  Aliás, acessei o artigo 2.010 discutido aqui através de uma cópia arquivada no portal “Research Gate“.

O spinning de artigos é usado principalmente como um instrumento de desonesto de Search Engine Optimization (SEO). Existem pacotes de software e sites que fazem o spinning gratuito  de artigos.  O seu uso como descrito aqui é uma readaquação da técnica e oferece aos pesquisadores uma forma de obter publicações acadêmicas sem ter que fazer qualquer tipo de trabalho real. 

FONTE: http://scholarlyoa.com/2015/09/22/article-spinning-a-plagiarism-technique-for-the-21st-century/#more-5968

À guisa de clarificação segue uma definição de “article spininning”: Article spinning consiste em escrever o mesmo artigo, com uma combinação de frases e/ou palavras diferentes, mas mantendo o mesmo sentido, de forma que cada um dos artigos seja conteúdo original (ou substancialmente original). 

Retratação em massa pela Springer mostra que grandes editoras cientificas não estão livres do “trash science”

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Um artigo assinado pela jornalista Sarah Kaplan do Washington Post nos dá conta que a Springer (uma das maiores editoras científicas do mundo) acaba de retratar 64 artigos científicos de 10 de seus periódicos por causa de uma série de fraudes cometidas por seus autores (Aqui!). A principal delas é a fabricação de falsas identidades e endereços eletrônicos de correspondência para então se afrontar o sistema de revisão de pares, até recentemente considerado um processo ilibado de avaliação da qualidade do que era publicado na ciência mundial.

A matéria relata ainda que segundo um blog que acompanha e documenta casos de artigos científicos retratados, o Retraction Watch (Aqui!), esse novo episódio de retratação coletiva de artigos faz com que o número de documentos retratados por grandes editoras científicas chegue a 230 apenas nos últimos três anos. E as razões para essas retratações envolvem vários tipos de fraudes; tais como plágio e falsas revisões por pares que envolvem até um comércio ilegal de venda de identidades falsas de revisores igualmente falsos.

Essa situação que até recentemente era rara deverá obrigar as grandes editoras a reverem suas próprias regras para avaliação de artigos, bem como as formas de recrutamento dos revisores que avaliam a qualidade científica do que pode ser ou não publicado.

É importante notar que esse escândalo envolvendo a Springer é uma demonstração de que a pressão que pesquisadores em todo o mundo enfrentam para publicar os resultados de suas pesquisas ou serem ostracizados científica e economicamente está causando um grave deslize ético que, em última instância, pode comprometer o futuro da ciência em nível mundial.

Comodificação da ciência como causa primária do “trash science”

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O artigo abaixo da autoria de Thomaz Wood Jr. foi publicado pela Revista Caros Amigos e relata a posição de dois pesquisadores holandeses sobre a transformação da produção científica em mais uma commodity. A relação que Willem Haffman e Hans Radder estabelecem entre o processo de transformação da ciência em mais uma commodity e a disseminação do que eu chamo de trash science é direta. É que espremidos por princípios de performance produtivista, os pesquisadores enveredam por caminhos onde abraçar o trash science é um passo mais do que natural.

Além da leitura do artigo abaixo, eu recomendo a leitura do livro editado por Hans Radder (lamentavelmente disponível apenas em inglês) que possui o sugestivo título de “The commodification of academic research: sicence and the modern university” (Aqui!).

A questão que emerge diante dessas reflexões se refere ao fato de que casos de fraude e produção de lixo científico que tanto assombram a ciência neste momento precisam ser colocados num contexto mais amplo. Se não, vai ficar parecendo que se tratam apenas de casos isolados de desvio de caráter, quando a coisa parece ter tomado características sistêmicas

Universidades ou fábricas?

Pesquisadores da Holanda criticam a introdução de práticas empresariais no ensino superior

Por Thomaz Wood Jr.
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A biblioteca da universidade de Radboud, em Nijmegen, na Holanda. O mundo corporativo chegou lá
Na edição de abril da revista científica Minerva, os pesquisadores Willem Halffman e Hans Radder publicaram texto contundente e provocativo. Sob o título “O Manifesto Acadêmico – Da universidade ocupada para a universidade pública”, os autores analisam criticamente a modernização do ensino superior holandês, frequentemente citado como exemplo de superação do anacrônico modelo torre de marfim. O tom é desinibido e panfletário, e conclama acadêmicos para uma ação transformadora.

Segundo Halffman e Radder, as universidades holandesas foram invadidas e ocupadas. O ocupante, no caso, não é uma força fardada ou milícia religiosa. Afinal, trata-se dos Países Baixos. Os autores referem-se a um verdadeiro lobo mau, o Lobo do Management. Segundo eles, o management é um regime obcecado com medições, controles, competição, eficiência e a ideia tortuosa de salvação econômica. Para expulsar a invasora e devolver as universidades aos cidadãos, os autores propõem que os próprios acadêmicos assumam o controle de seu destino e construam uma nova universidade pública, alinhada com o bem comum e com uma proposta de geração de conhecimento socialmente engajado.

Halffman e Radder advogam que o Lobo do Management invadiu a academia com um “exército mercenário de administradores profissionais, armados com planilhas, indicadores de desempenho e procedimentos de auditoria”. Seu inimigo são os acadêmicos, esses seres egocêntricos e autocentrados, pouco confiáveis, que precisam ser monitorados e controlados. As universidades foram conquistadas e colonizadas. Projetos de alta visibilidade e indicadores manipulados mostram para o público externo o sucesso do novo modelo. Entretanto, há uma sensação de revolta no ar: no “chão de fábrica”, o clima é tóxico e o moral é baixo.

O Lobo do Management cultua índices e rankings. Faz inventários de artigos publicados e comemora com champanhe cada posição galgada nas listas internacionais. A posição nas planilhas determina a sorte de pesquisadores e de departamentos. Vence a quantidade, pouco importa o conteúdo. Na batalha dos números, acadêmicos criam fábricas de artigos, assinam trabalhos uns dos outros, citam-se mutuamente e correm o mundo para promover seus textos. O que vale é a performance.

Enquanto isso, no mercado acadêmico, multiplicam-se os eventos e as revistas científicas. Sobram escritores e faltam leitores. Halffman e Radder argumentam que o fetiche dos indicadores está transformando a ciência, destruindo tudo que não é mensurável. Sob o ocupador, a massa de acadêmicos comporta-se como um rebanho de ovelhas, mantido sob vigilância e controle.

O novo mantra é a busca da eficiência. Em lugar de recursos, as universidades ganham gestores. Resultado: nos orçamentos, recursos migram de laboratórios para serviços de relações públicas, da pesquisa para a contratação de consultores de marketing. A nova universidade aparece em anúncios de página inteira nos jornais, mantém websites atraentes e garante uma presença constante nas mídias sociais. Seus professores e pesquisadores devem tornar-se celebridades nos jornais, na tevê e, claro, nas palestras TED.

Com as práticas empresariais, o Lobo do Management impõe uma nova cultura. A busca da excelência, que flagelou empresas nos anos 80 e 90, chega décadas depois à universidade. É preciso ser “de topo”, publicar artigos em um seleto grupo de periódicos, ter os coautores certos, conseguir proeminência nos círculos mais prestigiosos, ser um hábil captador de recursos e gerenciar uma dócil equipe de pesquisadores juniores. Para se manter na ribalta, os tais pesquisadores “de topo” terceirizam o ensino para doutorandos e coagem orientandos a lhes conceder coautorias.

A história holandesa repete-se em diferentes latitudes e longitudes. Muitas universidades públicas tropicais são antediluvianas. Elas continuam a seguir o anacrônico modelo da torre de marfim e lutam para preservar pequenos privilégios. São perdulárias, ineficientes e ineficazes. São autocentradas e ignoram o mundo ao redor. Porém, começam a sentir os efeitos do “choque de gestão” descrito por Halffman e Radder. E, assim, somam às suas antigas patologias, o autismo e o imobilismo, as mais novas: produtivismo, exibicionismo e comportamentos para inglês ver. Algumas ovelhas exauridas e irritadas balem aqui e acolá. Porém, faltam-lhes direção e união.

Quando o trash science é finalmente fisgado, título de mestre é cassado e artigo fraudado é retratado

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Tenho narrado neste blog os amplos efeitos da disseminação dos vícios da ciência predatória (trash science) nas universidades brasileiras. Mas um caso que me veio recentemente à atenção parece exemplar de como o problema é grave e pode ser encontrado nas nossas melhores e tradicionais instituições de ensino superior.

O caso em tela ocorreu no Programa de Pós-Graduação em Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa, onde o acadêmico Paulo Henrique Bittencourt Moreira teve seu título de Mestre em Ciências cassado por violação de direito autoral e de fraude acadêmica, como mostra a imagem abaixo.

titulo retiradoComo a cassação de um título acadêmico é coisa extremamente rara em qualquer lugar do mundo, me pus a procurar mais informações sobre o assunto, e me deparei com mais evidências deste incidente na base de artigos científicos Scielo, mais precisamente na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia (RBGG). Ali encontrei um pedido de retratação do artigo “Qualidade de vida de cuidadores de idosos vinculados ao Programa Saúde da Família – Teixeiras, MG (Quality of life of elderly caregivers of link to the Family Health Program – Teixeiras, MG)” de autoria do mesmo Paulo Henrique Bittencourt Moreira, O surpreendente é que o pedido de retratação do artigo (na prática cassação do trabalho) foi feito pela autora de um artigo que teria sido plagiado, a professora Márcia Regina Martins Alvarenga, uma das autoras do artigo plagiado, e que é docente da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.

retratado 1A denúncia da professora Márcia Alvarenga resultou em outra situação rara que foi a cassação do artigo que possuía três autores, incluindo a orientadora da dissertação de mestrado cassada pela Universidade Federal de Viçosa, a professora Simone Caldas Tavares Mafra.

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A retratação do artigo, obviamente combinado com a cassação do título de Mestre, resultou ainda numa ainda mais rara explicação pública da professora Simone Mafra sobre os “malfeitos” do seu orientando.

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Ao ler a resposta e as diferentes explicações da professora orientadora pelas quais a fraude e o plágio não foram detectados em tempo hábil (ver imagem acima), não me restou senão a curiosidade sobre quantos casos semelhantes de fraude e plágio não estão também passando despercebidos por defronte os olhos de outros docentes/orientadores. É que a imensa maioria dos que labutam hoje na pós-graduação brasileira se encontra hoje sob forte pressão para se adequar ao sistema de produtivismo científico imposto pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). E há que se frisar que essa pressão se estende a todos os pesquisadores interessados em obter financiamentos e prêmios por produtividade científica.

Uma coisa para mim é certa: ou se muda as formas de avaliar e premiar a produção acadêmica produzida no Brasil ou este caso será apenas uma pequena parte da ponta de um imenso iceberg de contaminação da ciência brasileira pelo que há de pior no trash science. A principal pergunta que fica aos gestores que comandam o CNPq e a CAPES é a seguinte: qualidade ou quantidade, o que vai ser?

Rede criminosa fatura R$ 140 milhões com bolsa-pesca

Por Leandro Nossa, Mikaella Campos e Patrik Camporez

Fotos: Fernando Madeira

REDE

Com as mãos calejadas e semblante sofrido, Agenor Carvalho, de 59 anos, sai de casa bem cedo, em Itaoca, distrito de Itapemirim, Sul do Estado, para garantir o sustento da família. Na garupa da bicicleta, leva linha e demais equipamentos necessários para exercer a atividade de pescador artesanal. Por muitos anos, o trabalhador se dedicou à captura de peixes e mexilhões sem depender de qualquer ajuda do governo. Há onze anos a situação mudou. Entre 2004 e 2013, foram destinados a ele mais de R$ 20 mil em seguro-defeso da lagosta, espécie que nunca pescou.

Pobre e com pouco estudo, esse homem é beneficiário e ao mesmo tempo vítima de uma rede criminosa que atua no Espírito Santo especializada em aliciar gente humilde e criar “pescadores fantasmas” para faturar uma fortuna com o benefício.

Em 10 anos, quase 20 mil pessoas foram atendidas pela bolsa-pescador no Espírito Santo, movimentando cerca de R$ 200 milhões. Órgãos federais que fiscalizam a atividade estimam que 70% dos recursos (R$ 140 milhões) foram para pagamentos indevidos. Criado em 25 de novembro de 2003 pelo governo federal, o seguro foi pensado como alternativa de renda ao pescador artesanal no período de reprodução de peixes, crustáceos e mariscos, época na qual a pesca e captura são proibidas. Só têm direito à assistência aqueles com dedicação exclusiva à pesca. No ano passado, em todo o país, o benefício consumiu mais de R$ 2 bilhões.

Em janeiro, A GAZETA iniciou uma investigação jornalística para identificar como a “cultura do seguro-defeso” se alastrou pelo Estado, fincando raízes da corrupção em diversas localidades. A partir de dados públicos, disponíveis no site da Transparência do governo federal, e por meio de técnicas de cruzamentos de dados, a reportagem encontrou, entre os beneficiários, autônomos, comerciantes, funcionários públicos e até bandidos condenados. Há ainda, de Norte a Sul do Estado, verdadeiros pescadores recebendo o auxílio, porém, de forma irregular, por não se enquadrarem no perfil do programa.

Estava na padaria quando uma pessoa me abordou e me chamou para fazer a carteira de pescador. Não tenho nem barco nem rede. Na minha vida só pesquei de vara de bambu X., DONA DE CASA

A reportagem foi a São Mateus, Serra, Conceição da Barra, Linhares, Itapemirim, Guarapari e Marataízes, cidades que estão na mira da Polícia Federal, para conversar com reais e falsos pescadores. A defraudação transformou-se numa fonte de renda na qual muitos querem tirar proveito. Envolve presidentes de colônias, despachantes de pescadores, políticos e funcionários públicos. Todos atuando como facilitares do esquema, segundo investigações.

“Estava na padaria quando uma pessoa me abordou e me chamou para fazer a carteira de pescador. O sujeito disse para eu levar os documentos no centro da cidade, pagar a anuidade da colônia e começar a receber o seguro. Não fiz isso porque nem barco ou rede eu tenho. Na minha vida só pesquei de vara de bambu. Foi uma sugestão para eu ganhar um dinheiro a mais. No meu bairro, têm pessoas que recebem sem ser pescadoras”, conta uma dona de casa de Linhares, que, por medo, não se identificou.

Agenor Carvalho, pescador vítima de fraudadores ligados à colônia

As concessões do auxílio funcionam, na maioria dos casos, como “rachid”, quando a colônia se apropria de parte dos vencimentos do pescador. Os fraudadores tomam conta dos documentos dos segurados – da identidade ao cartão bancário – fazendo saques e entregando uma parcela ao beneficiário, que muitas vezes é um laranja.

Depois de três anos recebendo o seguro da lagosta indevidamente, Agenor teve o benefício cortado e agora tenta ser atendido com o seguro de uma maneira correta. Ele explica que foi apresentado ao benefício por despachantes. “Eles ficaram com meus documentos, um rapaz de moto veio pegar. Iam dar entrada no meu seguro. Mas, quando eu recebia, cada um ‘comia’ um pouquinho do valor. Eles ficavam com umas parcelas e eu nunca recebia tudo”, desabafa o pescador que nunca soube como pedir sozinho o auxílio.

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Quando eu recebia. Cada um ‘comia’ um pouquinho do valor. Eles ficavam com umas parcelas. Eu nunca recebia tudo AGENOR CARVALHO

O benefício, até ano passado, era pago pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Em 2015, com as mudanças nos direitos trabalhistas e previdenciários, o auxílio-pescador, uma modalidade do seguro-desemprego, é coordenado pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS).

Agenor só teve de volta os documentos após a Operação Defeso, deflagrada pela Polícia Federal no Sul do Estado em novembro passado. Os golpistas podem ter arrecadado mais de R$ 28 milhões nas cidades de Marataízes, Guarapari e Itapemirim. A PF abriu outro inquérito para apurar as ramificações do sistema pelo Estado. O Ministério Público Federal apura crimes em Conceição da Barra e São Mateus.

“Não sei como funciona, sei que a gente tem o direito de receber. Aqui perto não tem como resolver isso, aí tem quem resolve para nós. A gente sabe que eles pegam nosso dinheiro e a gente se complica todo”, relata Agenor.

Pescador há 30 anos, morador de Conceição da Barra desabafa sobre farra do seguro: “Tem pedreiro, carpinteiro, comerciante e ‘madame’ recebendo como pescador”

Falsos pescadores vivem de benefício

Entre “necessitados” há comerciante, servidor e até traficante

Nas comunidades onde a pesca é tradição, a fraude contra o seguro-defeso está enraizada. A maior parte dos moradores conhece um vizinho, amigo ou algum “falso pescador” envolvido no golpe do benefício. “Tem pedreiro, carpinteiro, comerciante e ‘madame’ recebendo como pescador, pessoas que nunca colocaram o pé na água. É revoltante”, conta X., pescador há 30 anos. Ele mora em Conceição da Barra, cidade onde o Ministério Público Federal instaurou inquérito para verificar até servidores públicos entre os contemplados.

Tem pedreiro, carpinteiro, comerciante e ‘madame’ recebendo como pescador, pessoas que nunca colocaram o pé na água. É revoltante X., PESCADOR

Histórias semelhantes existem em Jacaraípe, na Serra. “Seguro-defeso é vantagem para quem não trabalha. Aqui temos famílias inteiras, que nunca pescaram, recebendo seguro. Aqui, na Praça Encontro das Águas, das 300 pessoas que ganham o benefício,  só 50 trabalham”, denuncia um pescador que atua há 15 anos na região.

Os relatos reforçam os números do escândalo. Sem burocracia, o requerimento do seguro-defeso é o chamariz para aqueles que estão atrás de dinheiro fácil. O benefício atingiu o ápice em 2012, quando 14.673 foram contemplados. O número é 400% maior que a quantidade de seguros liberados em 2004.

As fraudes do seguro-defeso fogem do controle das autoridades. Em meio aos segurados do bolsa-pescador, havia gente recebendo o benefício mesmo dentro da cadeia. A situação foi confirmada pela Polícia Federal e constatada pela reportagem, que encontrou na lista de beneficiários um homem preso e um outro condenado pela Justiça por envolvimento com tráfico.

Na lista de pescadores laranjas havia também o nome de 10 funcionários da prefeitura de Conceição da Barra. Um deles terá de devolver R$ 1,6 mil para a União. Esse servidor, do setor de telefonia, também carrega no currículo extensa ficha de processos por improbidade administrativa.

Joaquim Juvencio, ex-presidente de associação de pescadores de Nova Almeida, relata que fraude está disseminada pelo bairro

Agenciadores

Os “agenciadores” do bolsa-pesca – na maioria das vezes, líderes de colônias e despachantes –, encontram brechas no sistema do governo federal para incluir no pagamento qualquer pessoa em troca de parte do dinheiro recebido.

No período de proteção, o pescador não pode exercer outra atividade. Para compensar, o governo paga um salário mínimo pelo período de três a seis meses. A quantidade de parcelas depende da espécie caçada. Os seguros da lagosta e do guaiamum, por anos, foram  mais visados pelos criminosos por pagarem o maior número de cotas. Além dos pescadores fantasmas, muitos profissionais verdadeiros acabam requerendo o benefício mesmo sem respeitar o defeso.

“Muita gente não sabe nem o que é anzol”, afirma Joaquim Juvencio do Nascimento, de 57 anos. Morador de Nova Almeida, na Serra, ele pesca desde os oito anos e revela: “No bairro, não faltam ‘pescadores fantasmas’”. Ex-presidente da associação da categoria no bairro, Joaquim é processado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) por ter recebido indevidamente o seguro do guaiamum (caranguejo que não pode ser pescado). “Nunca soube dessa proibição até ser notificado”, justifica.

Em 2013 e 2014, após descobrir a “farra” do seguro, o MTE, em conjunto com outros órgãos federais, tomou uma série de medidas para reduzir o número de assistidos. Mais de 4 mil pessoas deixaram de  receber a bolsa, segundo o superintendente do MTE  no Estado, Alessandro Comper. “Uma economia de R$ 20 milhões em dois anos”, argumenta. Em 2015, a redução de beneficiários deve ser ainda maior. Com medo do pente-fino do governo federal, 5 mil pessoas, contempladas com o seguro no ano passado, “abandonaram” a profissão ao não atualizarem o cadastro de pescador. Soma-se a esse grupo de “ex-pescadores” fraudadores que ficaram anos recebendo o benefício até serem descobertos pelas autoridades. “É um seguro fácil de fraudar por ser complicado desmascarar os falsos pescadores. É um inquérito difícil de conduzir, pois os crimes extrapolam os limites territoriais”, explica o delegado da Polícia Federal Everton Oliveira Manso, responsável pelas investigações no Sul do Estado.

Maria da Graça Ultramar Cotta, de Marataízes, declarou-se pescadora para receber o seguro-defeso de caranguejo-uçá, guaiamum e peixes de água doce. Para a reportagem, ela admitiu que há dez anos trabalha no comércio. Pelas regras do governo, bolsa só pode ser paga a quem atua exclusivamente com a pesca.

FONTE: http://grandesreportagens.redegazeta.com.br/?p=1205

HSBC leaks: jornalista inglês explica porque pediu demissão do “Daily Telegraphy”

Por que eu me demiti do Telegraph

Por Peter Oborne

Resultado de imagem para PETER OSBORNE DAILY TELEGRAPH

A cobertura do HSBC no Telegraph britânico é fraudulenta com seus leitores. Se grandes jornais permitem que corporações influenciem seu conteúdo por medo de perder renda de propaganda, a própria democracia está em perigo

Eu tinha bastante consciência de estar me tornando parte de uma formidável tradição de comentários políticos. Eu passei minhas férias de verão, antes de assumir minhas tarefas como colunista, lendo os artigos do grande Peter Utley, editado por Charles Moore e Simon Heffer, dois outros mestres dessa arte.

Ninguém expressou tão bem como Utley a decência silenciosa e o pragmatismo do conservadorismo britânico. O Mail é rouco e populista, enquanto o Times se gaba de dançar conforme a música, como a voz da classe oficial. O Telegraph vinha de uma tradição diferente. É lido pela nação como um todo, não apenas pela City de Londres [centro financeiro e histórico da capital britânica] e Westminster [onde está o Parlamento] É confiante em seus próprios valores. Tem uma fama antiga sobre a precisão de suas notícias. Eu imagino seus leitores sendo trabalhadores. Pequenos empresários na luta, secretárias assediadas em embaixadas estrangeiras, professores de escola, militares, fazendeiros – pessoas decentes com participação no país.

Meu avô, tenente-coronel Tom Oborne, [condecorado com a] Ordem de Serviços Distintos [concedida a oficiais britânicos que tiveram méritos durante guerras], foi um leitor do Telegraph. Ele também era representante de sua paróquia e tinha um papel na Associação Conservadora de Petersfield. Ele tinha um aparador especial na mesa de café da manhã e lia o jornal cuidadosamente sobre seu ovo com bacon, dando atenção especial às manchetes. Eu sempre pensava no meu avô quando escrevia minhas colunas no Telegraph.

Agência Efe

Lista com nome de mais de 100 mil correntistas da filial suíça do banco HSBC foi divulgada por consórcio mundial de jornalistas

“Você não sabe do que está falando”

A circulação estava caindo quando eu entrei no jornal em setembro de 2010 e eu suspeito que isso deixou os donos em pânico. Ondas de demissões começaram e a administração deixou bem claro que acreditava que o futuro da imprensa britânica seria digital. Murdoch MacLennan, o presidente, me chamou para um almoço do Goring Hotel, perto do palácio de Buckingham, onde os executivos do Telegraph gostam de fazer negócios. Eu pedi que ele não diminuísse a importância do Telegraph, dizendo que ele ainda tinha uma circulação muito saudável de mais de meio milhão de cópias. Acrescentei que nossos leitores eram leais, que o jornal ainda era muito lucrativo e que os donos não tinham direito de destruí-lo.

As demissões continuaram. Pouco tempo depois eu encontrei o Sr. MacLennan por acaso no funeral de Margaret Thatcher e uma vez mais pedi que ele não subestimasse os leitores doTelegraph. Ele respondeu: “Você não sabe do que está falando”.

Os acontecimentos no Telegraph se tornaram cada vez mais desanimadores. Em janeiro de 2014, o editor, Tony Gallagher, foi demitido. Ele tinha sido um excelente editor, muito respeitado pelos funcionários. O Sr. Gallagher foi substituído por um americano chamado Jason Seiken, que assumiu uma posição chamada “Chefe de Conteúdo”. Nos 81 anos entre 1923 e 2004, oTelegraph tinha seis editores, todos eles figuras imponentes: Arthur Watson, Colin Coote, Maurice Green, Bill Deedes, Max Hastings and Charles Moore. Desde que os irmãos Barclay [Sir David Rowat Barclay e Sir Frederick Hugh Barclay, empresários bilionários conhecidos como os “Irmãos Barclay” (Barclay Brothers)] compraram o jornal, 11 anos atrás, houve cerca de mais seis, mas é difícil ter certeza já que com a chegada do Sr. Seiken o título de editor foi abolido, depois substituído por Chefe de Conteúdo (de segunda a sexta). Havia três editores (ou Chefes de Conteúdo) em 2014.

Nos últimos 12 meses, as coisas pioraram muito. A mesa internacional – magnífica sob a liderança de David Munk e David Wastell – foi dizimada. Como todos os repórteres sabem, nenhum jornal consegue operar sem subeditores hábeis. Metade deles foi demitida e o subeditor-chefe, Richard Oliver, foi embora.

Incongruências, impensáveis até muito recentemente, agora são comuns. Recentemente, os leitores foram introduzidos a alguém chamado Duque de Wessex. O príncipe Edward é o Conde de Wessex. Houve uma matéria de capa sobre a caça de veados. Era na verdade sobre perseguição de veados [“deer stalking” como é conhecida a atividade na Inglaterra], uma atividade completamente diferente. Obviamente, administração não se importa com distinções finas como essas. Mas os leitores sim, e o Telegraph costumava tomar bastante cuidado com essas coisas até muito recentemente.

A chegada do Sr. Seiken coincidiu com a chegada da cultura dos cliques. As histórias pareciam não ser mais julgadas por sua importância, exatidão ou interesse daqueles que compram o jornal. A medida mais importante parecia ser o número de visitas online. No dia 22 de setembro, o Telegraph online publicou uma história sobre uma mulher com três seios. Um executivo desesperado me disse que se sabia que essa história era falsa antes de ela ser publicada. Eu não tenho dúvidas de que foi publicada para gerar visitas online, no que deve ter sido bem-sucedida. Eu não estou dizendo que o tráfego na internet não é importante, mas no longo prazo, entretanto, tais episódios causam danos incalculáveis à reputação do jornal.

Aberto a negócios?

Com o colapso dos padrões veio uma consequência bastante terrível. Sempre foi axiomático na qualidade do jornalismo britânico que o departamento de publicidade e o editorial deveriam ser mantidos rigorosamente distantes. Há grande evidência de que, no Telegraph, essa distinção ruiu.

No final do ano passado, eu comecei a trabalhar em uma história sobre o gigante banco internacional HSBC. Muçulmanos conhecidos tinham recebido cartas do nada do HSBC informando que as suas contas tinham sido fechadas. Não se deu nenhuma razão, e ficou claro que não havia possibilidade de apelação. “É como cortarem sua água”, me disse uma vítima.

Quando enviei o texto para publicação no site do Telegraph, me disseram que não havia problema. Quando não foi publicado, eu fiz perguntas. Fui dispensado sem explicações, e depois me disseram que havia um problema legal. Quando eu perguntei no departamento legal, os advogados não estavam a par de nenhum problema. Quando eu insisti, um executivo me chamou de lado e me disse que “havia um probleminha” com o HSBC. Finalmente desisti, desesperado, e ofereci o artigo ao openDemocracy. Pode ser lido aqui.

Eu procurei a cobertura do jornal sobre o HSBC. Descobri que Harry Wilson, o correspondente admirável de bancos do Telegraph, tinha publicado uma história online sobre o HSBC baseada em um relatório feito por um analista de Hong Kong que dizia haver um “buraco negro” nas contas do HSBC. A história foi rapidamente removida do site do Telegraph, mesmo apesar de não haver problemas legais. Quando eu perguntei ao HSBC se o banco tinha reclamado do artigo de Wilson, ou tinha tido um papel na decisão de a matéria sair do ar, o banco não quis comentar. Os tweets do Sr. Wilson sobre a história podem ser encontrados aqui. A história em si, entretanto, não está mais disponível no site, como qualquer um que tentar seguir o link vai descobrir. O Sr. Wilson bravamente levantou essa questão publicamente na reunião de cúpula, quando Jason Seiken se apresentou aos funcionários. Ele saiu do jornal depois disso.

Então, no dia 4 de novembro de 2014, alguns jornais relataram um duro golpe nos lucros do HSBC, já que o banco teve de separar 1 bilhão de euros para compensar clientes e [sofreu]uma investigação sobre o aparelhamento do mercado de divisas. Essa história foi a capa de cidades do Times, Guardian e do Mail e foi a mais importante da página do Independent. Eu inspecionei a cobertura do Telegraph. Gerou, no total, cinco parágrafos na página 5 da seção de negócios.

A reportagem sobre o HSBC é parte de um problema maior. No dia 10 de maio do ano passado, o Telegraph publicou uma grande reportagem sobre o navio Queen Mary da [empresa] Cunard na página de notícias. Esse episódio pareceu para muitos como uma peça promocional para um anunciante em uma página normalmente dedicada a análises sérias de notícias. Eu novamente chequei e certamente os competidores do Telegraph não viram o navião da Cunard como uma grande notícia. A Cunard é um anunciante importante do Telegraph.

O comentário do jornal sobre os protestos do ano passado em Hong Kong foram bizarros. Esperaria-se que o Telegraph, dentre todos os jornais, tivesse um grande interesse e adotasse um posição forte. Mas (em forte contraste com o Times) não conseguiu encontrar nenhum destaque para o assunto.

No começo de dezembro, o Financial Times, Times e o Guardian escreveram manchetes poderosas sobre a recusa do governo chinês em permitir que um comitê de parlamentares britânicos entrasse em Hong Kong. O Telegraph se manteve calado. Poucos assuntos enfureceriam ou preocupariam os leitores do Telegraph mais que esse.

No dia 15 de setembro, o Telegraph publicou um comentário do embaixador chinês, logo antes  do suplemento lucrativo China Watch. A manchete do embaixador era, sem brincadeira, “Não vamos deixar que Hong Kong nos separe”. No dia 17 de setembro, havia 4 páginas de moda destacáveis no meio das notícias, que ganharam mais cobertura que o referendo escocês. A história de contabilidade falsa da [multinacional varejista britância] Tesco, no dia 23 de setembro, foi notícia somente na seção de negócios. Em comparação, foi a manchete, destaque das páginas de dentro e um editorial no Mail. Não que o Telegraph tenha feito pouca cobertura da Tesco. [Matérias como a] Tesco doando “10 milhões de libras pra luta contra o câncer”, “O jato de 35 milhões de libras da Tesco visto de dentro” e “Conheça o gato que morou na Tesco por 4 anos” foram todas consideradas de interesse jornalístico.

Há outros casos muito desconcertantes, muitos deles publicados [na revista crítica e satírica] Private Eye [que tem entre seus temas frequentes o jornalismo britânico], que tem sido uma grande fonte de informação para os jornalistas do Telegraph querendo entender o que está acontecendo em seu próprio jornal. Não houve como evitar a impressão de algo estava mal com o julgamento das notícias do Telegraph. Nesse ponto, eu escrevi uma longa carta pra Murdock MacLennan falando sobre as minhas preocupações em relação ao jornal e entregando minha demissão. Eu copiei essa carta para o presidente do Telegraph, Aidan Barclay.

Eu recebi uma resposta superficial do Sr. Barclay. Ele escreveu que esperava que eu pudesse resolver minhas diferenças com Murdoch MacLennan. Fui devidamente ver o CEO na metade de dezembro. Ele foi civil, me serviu chá e pediu que eu tirasse meu casaco.  Ele disse que eu era um escritor valorizado e disse que queria que eu ficasse.

Eu expressei todas as minhas preocupações sobre a direção do jornal. Disse que não estava saindo para entrar em outro jornal. Estava pedindo demissão por uma questão de consciência. O Sr. MacLennan concordou que a publicidade tinha permissão de afetar o editorial, mas sem remorso, dizendo que “não é tão mal assim” e acrescentando que havia um grande histórico desse tipo de coisa no Telegraph.

Desde então eu consultei Charles Moore, o último editor do Telegraph antes de os Barclays comprarem o jornal em 2004. O Sr. Moore confessou que as contas da Hollinger Inc., a holding que então comandava o Telegraph, não recebia o escrutínio que merecia. Mas nenhum jornal na história jamais deu um destaque desfavorável às contas de seus proprietários. Além disso, o Sr. Moore me disse que não houve influência da publicidade na cobertura de notícias do jornal.

Wikimedia Commons

[Capa do Daily Telegraph no dia 12 de maio de 2010, quando Cameron foi escolhido como primeiro-ministro]

Depois da minha reunião com o Sr. MacLennan, eu recebi uma carta do Telegraph dizendo que o jornal tinha aceitado minha demissão, mas aceitava minha oferta de trabalhar meus seis meses de aviso prévio. Entretanto, na metade de janeiro, me pediram para encontrar um executivo do Telegraph, dessa vez tomando chá no Goring Hotel. Ele me disse que a minha coluna semanal tinha sido descontinuada e que tinha acontecido uma “divisão de caminhos”.

Ele salientou, no entanto, que o Telegraph continuaria a honrar meu contrato até que ele terminasse, em maio. De minha parte eu disse que sairia quieto. Eu não tinha intenção de prejudicar o jornal. Com todos os seus problemas, ele continua a empregar um grande número de bons jornalistas. Eles têm hipotecas e famílias. Eles estão fazendo seu trabalho bem em todo tipo de circunstância. Eu me preparei mentalmente para a atraente perspectiva de vários meses de licença remunerada.

História, que história?

Assim ficamos quando, na segunda-feira passada, [o programa de TV] Panorama da BBC veiculou a história do HSBC e seu braço suíço, falando de um esquema de evasão de impostos em larga escala, enquanto o Guardian e o Consócio Internacional de Jornalistas Investigativos publicaram seus “arquivos do HSBC”. Todos os jornais perceberam rapidamente que esse era um acontecimento grande. O FT deu capa do assunto dois dias seguidos, enquanto o  Times e o Mail deram uma cobertura sólida para o caso de várias páginas.

Você precisaria de um microscópio para encontrar a cobertura do Telegraph: nada na segunda, seis pequenos parágrafos na parte baixa da página dois na terça, sete parágrafos lá no meio de seção de negócios na quarta. A reportagem do Telegraph só melhorou quando a história se transformou em alegações de que poderia haver questões relacionadas aos impostos de pessoas ligadas ao Partido Trabalhista.

Depois de muita agonia eu cheguei à conclusão que tenho o dever de tornar tudo isso público. Há duas razões poderosas. A primeira tem a ver com o futuro do Telegraph sob [o mando] dos Barclay Brothers.  Pode soar como uma coisa pomposa a se dizer, mas eu acredito que o jornal é uma parte significativa da arquitetura cívica britânica. É a voz pública mais importante do conservadorismo civilizado e incrédulo.

Os leitores do Telegraph são pessoas inteligentes, sensatas e bem-informadas. Eles compram o jornal porque eles sentem que podem confiar nele. Se prioridades do marketing são permitidas para determinar julgamentos editoriais, como os leitores podem continuar a sentir essa confiança? A recente cobertura do Telegraph chega a ser uma forma de fraude com seus leitores. Está colocando o que são os interesses de um grande banco internacional acima de seu dever de levar as notícias aos leitores do Telegraph. Só existe uma palavra para descrever essa situação: terrível. Imagine se a BBC – costumeiramente objeto de ataques do Telegraph – tivesse sido conduzida dessa forma. O Telegraph seria desprezível. Teria insistido que cabeças deveriam rolar, e com razão.

Isso me leva a um segundo e ainda mais importante ponto que carrega em si não apenas o futuro de um jornal, mas a vida pública como um todo. Uma imprensa livre é essencial para uma democracia saudável. Há um propósito no jornalismo, é não é só entreter.  Não deve ceder ao poder político, grandes corporações e homens ricos. Os jornais têm o que no final das contas é um dever constitucional de dizer a seus leitores a verdade.

Não é apenas o Telegraph que tem culpa aqui. Os últimos anos viram a ascensão de executivos sombrios que determinam quais verdades podem e quais verdades não podem ser repassadas por meio na mídia de massa. A criminalidade dos jornais de notícias internacionais durante os anos de grampos telefônicos [caso famoso que em que tabloides britânicos foram acusados de realizar escutas telefônicas ilegais] foi um exemplo particularmente grotesco desse fenômeno maligno por completo. Todos os grupos de jornais, com a magnífica exceção do Guardian, manteve a cultura de omertà sobre os grampos telefônicos, mesmo se (como o Telegraph) eles não tinham se envolvido no caso. Uma das consequências desse pacto de silêncio foi o indiciamento de Andy Coulson, que desde então está preso e agora enfrenta novas acusações de perjúrio, como diretor de comunicações na 10 Downing Street [endereço da sede do governo britânico].

Questões urgentes a serem respondidas

Semana passada, fiz outra descoberta. Três anos atrás, o time de investigações do Telegraph – o mesmo que fez a investigação incrível dos parlamentares – recebeu uma denúncia sobre contas do HSBC em Jersey. Essencialmente, essa investigação era semelhante à do Panorama sobre o braço suíço do HSBC. Depois de uma pesquisa de três meses, o Telegraph resolveu publicar. Seis artigos sobre esse tema podem ser encontrados online, [publicados] entre 8 e 15 de novembro de 2012, apesar de três não estarem disponíveis para serem vistos.

Depois disso, nenhuma nova reportagem surgiu. Os repórteres receberam ordens de destruir e-Mails, relatórios e documentos relacionados à investigação do HSBC. Eu agora soube que, em uma prática muito distante da normal, nesse ponto os advogados dos Barclay Brothers se envolveram de perto. Quando eu perguntei ao Telegraph por que os Barclay estavam envolvidos, [o jornal] se negou a responder.

Aquele foi o momento crucial. Desde o começo de 2013 em diante, históricas críticas ao HSBC seriam desencorajadas. O HSBC suspendeu seus anúncios no Telegraph. Sua conta, eu soube por uma pessoa de dentro extremamente bem-informada, era extremamente valiosa. O HSBC, como um ex-executivo do Telegraph me disse, é “o anunciante que você literalmente não pode bancar ofender”. O HSBC hoje se recusou a comentar quando eu perguntei se a decisão de parar de anunciar no Telegraph estava ligada de qualquer maneira à investigação do jornal sobre as contas de Jersey.

Ganhar de volta a conta de anúncios do HSBC se tornou uma prioridade urgente. Foi finalmente o que aconteceu, depois de aproximadamente 12 meses. Os executivos dizem que Murdoch McLennan estava determinado a não permitir nenhuma crítica contra o banco internacional. “Ele expressava preocupação sobre manchetes ou mesmo histórias menores”, diz um antigo jornalista do Telegraph; tudo o que mencionasse lavagem de dinheiro estava banido, mesmo quando o banco estava recebendo um aviso final das autoridades dos EUA. Essa interferência estava acontecendo em uma escala industrial.

“Uma operação editorial que é claramente influenciada por anúncios é um apaziguamento clássico. Quando uma empresa muito poderosa sabe que pode exercer influência, sabe que pode voltar e ameaçar você. Muda totalmente o relacionamento. Você sabe que mesmo se for forte, não será apoiado e será prejudicado”.

Quando enviei questões detalhadas para o Telegraph essa tarde sobre suas conexões com os anunciantes, o jornal deu a seguinte resposta: “Suas questões estão cheias de imprecisões e nós, portanto, não pretendemos respondê-las. Falando genericamente, como qualquer outro negócio, nós nunca comentados nossas relações comerciais individualmente, mas nossa política é absolutamente clara. Nosso objetivo é dar uma gama de soluções de anúncio aos nossos parceiros anunciantes, mas a distinção entre anúncio e nossa operação editorial premiada foi sempre fundamental para nosso negócio. Refutamos totalmente qualquer alegação contrária.”

As evidências sugerem o oposto, e as consequências da recente cobertura branda sobre o HSBC feita pelo Telegraph podem ter sido profundas. Se o setor de Impostos e Alfândega da sua Majestade tivesse sido mais enérgico em suas próprias investigações recentes sobre a sonegação de impostos, teria o Telegraph continuado a ter o HSBC em sua conta depois da investigação de 2012? Há grandes questões aqui. Elas vão até o coração da democracia e não podem mais ser ignoradas.

FONTE: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/39566/por+que+eu+me+demiti+do+telegraph.shtml