Tal como a Americanas, corporação indiana é acusada de usar esquema de fraude contábil e manipulação de ações

adani

Em 1937, um dirigível alemão movido a hidrogênio voando para Nova Jersey pegou fogo e caiu, matando 35 passageiros a bordo. Foi uma espécie de desastre causado pelo homem, pois cerca de 100 pessoas foram carregadas em um balão cheio do material mais inflamável do universo. O dirigível foi nomeado Hindenburg.

Oito décadas depois, em 2017, um graduado em gestão de negócios internacionais pela Universidade de Connecticut fundou uma empresa de “pesquisa financeira forense” para se especializar em detectar irregularidades e fraudes, ou o que chama de “desastres causados ​​pelo homem”, em empresas ao redor o globo e fazer apostas de mercado contra eles. O fundador Nathan (Nate) Anderson nomeou sua empresa Hindenburg Research em homenagem ao dirigível condenado.

Nesta semana, Hindenburg iniciou uma feroz tempestade de fogo que ameaça chamuscar o homem mais rico da Ásia, o magnata indiano Gautam Adani, que preside um império em expansão que agora se estende de portos e aeroportos a energia, cimento e data centers.

Na quarta-feira, divulgou um relatório alegando que o Adani Group havia “se envolvido em um esquema descarado de manipulação de ações e fraude contábil ao longo de décadas”. A divulgação provocou uma liquidação de US$ 51 bilhões em ações das empresas de seu grupo em dois pregões, empurrando-o quatro posições para baixo no índice mundial de bilionários.

Pior, veio antes de uma venda subsequente de ações de Rs 20.000 crore na Adani Enterprises. A venda de ações pode chegar a míseros 1% no dia da abertura, sexta-feira, quando as ações da Adani Enterprises caíram 18,5%, caindo abaixo do preço de oferta.

Desde então, o grupo Adani descartou o relatório como uma “combinação maliciosa de desinformação seletiva e alegações obsoletas, infundadas e desacreditadas”. Isso, no entanto, não impediu os investidores de venderem.

Na sexta-feira, as ações das empresas do Adani Group continuaram sua seqüência de perdas pelo segundo dia, com a Adani Enterprises caindo 18,5% e Adani Ports & SEZ 16%, levando o índice de referência mais amplo – o Sensex – para baixo em 874,16 pontos ou 1,45 por cento. cento.

O que as pesquisas da Hindenburg fazem

A Hindenburg se envolve em vendas a descoberto que envolvem a venda de ações emprestadas na esperança de comprá-las a um preço mais baixo posteriormente. Se os preços caírem de forma esperada, os vendedores a descoberto conseguem fazer  um grande lucro.

A Hindenburg, que investe capital próprio, faz essas apostas com base em sua pesquisa, que busca “desastres provocados pelo homem”, como irregularidades contábeis, má administração e transações não divulgadas com partes relacionadas.

Procura especialmente “irregularidades contabilísticas; atores mal-intencionados em funções de gerenciamento ou provedores de serviços importantes; transações não divulgadas com partes relacionadas; negócios ilegais/antiéticos ou práticas de relatórios financeiros; e questões regulatórias, de produtos ou financeiras não divulgadas” nas empresas.

“Embora usemos a análise fundamental para auxiliar nossa tomada de decisão de investimento, acreditamos que as pesquisas mais impactantes resultam da descoberta de informações difíceis de encontrar de fontes atípicas”, diz o site da empresa.

Os alvos anteriores de Hindenburg incluem Lordstown Motors Corp (EUA), Kandi (China), Nikola Motor Company (EUA), Clover Health (EUA) e Tecnoglass (Colômbia).

Os vendedores a descoberto, no entanto, não são admirados pela maioria. As empresas visadas pelos ativistas têm pressionado os reguladores a perseguir esses vendedores a descoberto, pois podem estar praticando algum tipo de negociação com informações privilegiadas. Os defensores, no entanto, dizem que a pesquisa na verdade revela fraudes e faz mais bem do que mal aos investidores.

As pessoas nos bastidores 

Não se sabe muito sobre a Hindenburg Research, exceto seu fundador Anderson, de 38 anos, que morou em Jerusalém, Israel, antes de retornar aos Estados Unidos, onde primeiro trabalhou como consultor em uma empresa de dados financeiros FactSet e depois trabalhou em corretoras de valores em Washington DC e Nova York.

Antes de fundar a Hindenburg, Anderson trabalhou com Harry Markopolos, que havia sinalizado o esquema Ponzi de Bernie Madoff, para investigar o Platinum Partners, um fundo de hedge que acabou sendo acusado de fraude no valor de US$ 1 bilhão.

Enquanto morava em Jerusalém, Anderson se ofereceu para um serviço de ambulância local.

Alvos anteriores

A Hindenburg é mais conhecida por sua aposta contra a fabricante de caminhões elétricos Nikola Corp em setembro de 2020 por suas “supostas mentiras e enganos” nos anos que antecederam sua proposta de parceria com a General Motors.

Entre dezenas de outras questões, desafiou um vídeo promocional que Nikola produziu mostrando seu caminhão elétrico em alta velocidade. Disse que isso nada mais era do que um caminhão descendo uma colina no deserto de Utah, uma alegação que a empresa mais tarde admitiu e seu fundador e presidente executivo Trevor Milton renunciou.

A Nikola, que concordou em 2021 em pagar US$ 125 milhões para resolver um caso com a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA, foi listada em junho de 2020 e sua avaliação atingiu US$ 34 bilhões no pico, mas agora vale US$ 1,34 bilhão.

O site da Hindenburg lista mais de uma dúzia de empresas onde ela sinalizou supostas irregularidades. Isso inclui a WINS Finance, que Hindenburg revelou não ter divulgado aos investidores americanos um congelamento de ativos de RMB 350 milhões imposto a uma de suas subsidiárias na China; a “empresa zumbi” China Metal Resources Utilization, que teve “100 por cento de desvantagem” e estava “sob graves dificuldades financeiras” com “numerosas irregularidades contábeis”; O acordo de teste Covid-19 “completamente falso” da SC Worx; “grandes transações não divulgadas com partes relacionadas, incluindo uma fusão de US$ 509 milhões” na HF Foods; “bilhões de dólares em passivos não divulgados fora do balanço” da Bloom Energy; e um relatório de denúncia à Securities and Exchange Commission (SEC) dos Estados Unidos “relacionado ao RD Legal,

Quase todo o trabalho de Hindenburg foi seguido por ações legais ou regulatórias, de acordo com seu site.

Vendas a descoberto

Para assumir uma posição vendida, os investidores vendem ações emprestadas na esperança de comprá-las de volta a um preço mais baixo mais tarde. Se os preços caírem de forma esperada, eles fazem uma matança. Se, em vez disso, o preço subir, eles terão de comprar ações para “cobrir” o que tomaram emprestado.

Os vendedores a descoberto, no entanto, não são admirados pela maioria. As empresas visadas pelos ativistas têm pressionado os reguladores a perseguir esses vendedores a descoberto, pois podem estar praticando algum tipo de negociação com informações privilegiadas. Os defensores, no entanto, dizem que a pesquisa realmente revela fraudes e faz mais bem do que mal aos investidores.  


compass black

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “The Print” [Aqui!].

A história não contada de Lemann: monopólio, abusos trabalhistas, dribles à lei eleitoral e agora fraude contábil nas Americanas

Dono de gigantes como Lojas Americanas, Ambev, Burger King e Submarino, Lemann acumula bilhões em dólares e denúncias trabalhistas

trio

Por Coletivo Pensar a História

Desde o falecimento do banqueiro Joseph Safra em dezembro de 2020, o empresário Jorge Paulo Lemann ocupa o posto de homem mais rico do Brasil. Lemann possui uma fortuna estimada em 23,8 bilhões de dólares – mais de 118 bilhões de reais. Ao lado dos seus dois principais sócios, Marcel Herrmann Telles e Beto Sicupira – terceiro e quinto mais ricos do Brasil -, Lemann comanda um dos maiores impérios do capitalismo global. O empresário é um dos coproprietários da AB InBev, a maior cervejaria do mundo, do conglomerado 3G Capital (que controla empresas como Lojas Americanas, Submarino, B2W Digital, Kraft Heinz e as redes Burger King, Popeyes e Tim Hortons) e do fundo GP Investments.

No site de sua “fundação filantrópica”, Lemann é descrito como um “self-made man” e um “herói da classe empresarial brasileira”. Existe, de fato, toda uma “hagiografia” corporativa devotada ao bilionário. Ele é considerado um dos ícones máximos da seita do empreendedorismo de palco e do nicho da autoajuda empresarial. A narrativa de Lemann como empreendedor que trabalhou duro, inovou e obteve excelência serve à dupla função de justificar fortunas obscenas e reforçar o mito da meritocracia. E, assim como ocorre com outros bilionários, Lemann também costuma ignorar os detalhes da história que contradizem a fábula do “self-made man“. A verdade é que Lemann já nasceu herdando uma das maiores empresas do Brasil. Ele, inclusive, descende de uma família de comerciantes europeus que se destacam economicamente há mais de 600 anos.

Oriunda da Suíça, a família Lemann atua no comércio de bens duráveis e na produção do laticínio do Vale do Emmental, desde a Alta Idade Média. No início do século XX, compelidos por uma crise econômica, três irmãos da família resolveram imigrar em busca de novos mercados. Um foi para os Estados Unidos, outro para a Argentina e Paul Lemann, pai de Jorge Paulo, para o Brasil. Aqui, Paul Lemann montou uma fábrica de sapatos e uma empresa produtora de laticínios, a Leco – abreviatura de “Lemann & Company”, que se tornaria uma das maiores empresas nacionais do setor. Por sua vez, a mãe de Lemann, Anna Yvette Truebner, é filha de um dos maiores exportadores de cacau do sul da Bahia.

Jorge Paulo Lemann cursou o ensino básico na Escola Americana do Rio de Janeiro, um dos colégios particulares mais exclusivos da então capital federal. Posteriormente, mudou-se para os Estados Unidos, onde estudou economia na Universidade de Harvard. Após se formar, mudou-se para a Suíça, país onde possui cidadania, e conseguiu uma indicação para trabalhar no Banco Credit Suisse, em Genebra. Entediado com as tarefas, pediu demissão após sete meses e passou alguns anos se dedicando a jogar tênis. De volta ao Brasil, Lemann adquiriu a Corretora Garantia, onde deu início à sua parceria com Marcel Telles e Beto Sicupira. Em 1976, durante o governo Geisel, o empresário obteve autorização do Banco Central para converter a corretora em uma instituição financeira, fundando o Banco Garantia. A empresa se tornaria um dos principais bancos de investimento do país, emulando o modelo de gestão do Banco Goldman Sachs.

Uma ode à exploração

Foi durante as duas décadas à frente do Banco Garantia que Lemann e seus sócios tiveram seus patrimônios multiplicados de forma exponencial. A gestão dos funcionários do banco já adiantava características comuns aos negócios de Lemann – salários abaixo da média do mercado, foco agressivo no cumprimento de metas ambiciosas, criação de ambientes corporativos insalubres e estímulo à produtividade por meio de pressão, assédio e humilhação. O Banco Garantia foi alvo de inúmeras ações por assédio moral, além de ter sido investigado pela Comissão de Valores Imobiliários (CVM) por irregularidades no mercado de capitais. O Banco Central multou a instituição pela prática de fraude cambial, operações irregulares e remessa ilegal de dinheiro para o exterior. A instituição também foi acusada de ter colaborado com o infame esquema de pirâmide financeira montado por Bernard Madoff.

Malgrado os escândalos, o banco prosperou enormemente. Com o capital acumulado pelo Banco Garantia, Lemann e seus sócios financiaram a compra de dezenas de empresas, dando início aos seus gigantescos conglomerados. Compraram as Lojas Americanas, em 1982, a Brahma, em 1989, e a Antarctica, em 1999. Em 2004, criaram a 3G Capital, passando a investir na aquisição de multinacionais, tais como as redes Burger King, Popeyes e Tim Hortons. Fundaram ainda a Innova Capital, voltada à criação de startups, e a Gera Venture, focada em educação.

Em 1999, independentemente das denúncias de desrespeito à legislação antitruste e ao princípio do direito de concorrência, o Conselho Administrativo de Defesa da Concorrência (CADE) autorizou Lemann a fundir as cervejarias Brahma e Antárctica, dando origem à Ambev, que passou a controlar 70% do mercado brasileiro de cerveja. Já em 2004, a Ambev se fundiu com a belga Interbrew, dando origem à AB InBev, maior cervejaria do mundo. Nas duas transações, a CVM voltou a identificar abuso de poder, negociações irregulares e uso de informação privilegiada para especular no mercado de ações. Lemann e os sócios pagaram multa de 18,6 milhões de reais à CVM para que os processos fossem encerrados.

As práticas empresariais abusivas, entretanto, se tornariam corriqueiras. Em 2004, a empresa foi multada em 229 milhões de reais por concorrência desleal, ao beneficiar comercialmente os pontos de venda que fechassem contratos de exclusividade ou que aceitassem diminuir a comercialização de produtos de concorrentes. Distribuidoras também acusam a empresa de tentar controlar o mercado, negociando preços menores com parceiros comerciais e forçando as companhias independentes à falência. Fora do Brasil, a AB InBev também está envolvida em inúmeros escândalos de corrupção e abuso do poder econômico. Na Índia, por exemplo, está sendo investigada por corrupção e pagamento de propina. Nos Estados Unidos, foi acusada de adulterar seus produtos. E na Argentina responde à acusação de sonegação de impostos.

Abusos trabalhistas

A AmBev também é acusada de praticar dumping social, eliminando direitos trabalhistas para diminuir seus custos de produção e tornar seus produtos mais competitivos. A empresa enfrenta uma enxurrada de processos por assédio moral e abusos de toda ordem. Funcionários que não cumprem metas são submetidos a constrangimentos, humilhações, xingamentos, discriminação e até mesmo agressões e castigos físicos. Os processos em que a empresa foi condenada incluem desde espancamento em “corredor polonês”, uso de fraldão e camisetas com frases ofensivas, xingamentos racistas e ameaças com arma de fogo, até o uso de filmes pornográficos e garotas de programa como “motivação” em reuniões corporativas.

Manipulação de registros de ponto, sonegação de pagamento de horas-extras e submeter os funcionários a jornadas desumanas também estão entre as acusações. Em um processo, ficou comprovado que empregados da AmBev eram obrigados a trabalhar por até 17 horas contínuas. Outras empresas de Lemann também costumam ser acusadas de abusos trabalhistas, sobretudo o Burger King. A rede é igualmente conhecida pelo hábito de pagar salários inversamente proporcionais às jornadas. Em 2020, o Burger King foi condenado a pagar multa de um milhão de reais por obrigar os seus empregados a cumprirem rotineiramente até 8 horas extras diárias e a trabalharem sem descanso semanal remunerado. A condenação foi confirmada em segunda instância.

Enquanto obriga seus funcionários a cumprirem jornadas de trabalho de até 17 horas por dia – consideradas desumanas já nos primórdios da Revolução Industrial -, Jorge Lemann tenta estabelecer a reputação de “filantropo”. Em 1991, o empresário criou a Fundação Estudar, uma ONG supostamente voltada a “incentivar a educação”. Sua atuação vem através da organização de cursos e palestras e da concessão de bolsas de estudo de graduação e pós-graduação. Em 2001, estabeleceu a Fundação Lemann voltada à “formação e lideranças” e ao apoio de “iniciativas úteis à resolução dos grandes desafios do país”. Além de lhe granjearem benefícios tributários e um verniz de “preocupação social” para atenuar as críticas às práticas nocivas de suas corporações, as ONGs de Lemann têm por função pressionar os governos a adotarem uma lógica empresarial no ensino público e a submeter as instituições do Estado aos interesse do capital financeiro. Tal estratégia está alinhada aos crescentes investimentos de Lemann no ensino privado, por intermédio da Gera Venture Capital e da holding Eleva Educação, e sinaliza interesses futuros na privatização dos sistemas públicos de ensino do Brasil.

Um filantropo mau

As fundações “filantrópicas” de Lemann operam como centros de formação de gestores para suas empresas e de fomento a lideranças e iniciativas alinhadas aos seus interesses econômicos e políticos. As fundações de Lemann financiaram, por exemplo, lideranças do MBL e do movimento Vem Pra Rua, além de outras organizações que ajudariam a insuflar os protestos antigovernamentais a partir de 2013 e a criar o ambiente de ruptura institucional que desembocou no golpe parlamentar de 2016. Uma reportagem da BBC Brasil comprovou que até mesmo o registro do site do movimento Vem Pra Rua havia sido adquirido pela Fundação Estudar.

As ONGs de Lemann também têm sido utilizadas para burlar a legislação eleitoral que proíbe o financiamento privado de campanhas. Por exemplo, infiltrando representantes alinhados aos seus interesses nos partidos políticos e nos órgãos de governo. Emulando iniciativas dos movimentos suprapartidários supostamente dedicados à “renovação da política”, tais como o RenovaBR, o Livres e o Movimento Acredito, o bilionário tem financiado a formação de seus próprios líderes. Uma vez eleitos ou empossados em cargos-chave, essas lideranças passam à defesa da agenda liberal e de medidas benéficas às grandes corporações, independentemente da orientação de suas legendas.

A “bancada Lemann”, eleita no pleito de 2018, inclui parlamentares do PDT, NOVO e do PSB, incluindo os deputados federais Tabata Amaral, Felipe Rigoni e Tiago Mitraud. Entre os deputados estaduais, estão Renan Ferreirinha e Daniel José. Todos estudaram em universidades como Harvard, Oxford e Yale, com subvenção da Fundação Lemann. E todos votaram em favor dos interesses do mercado nos projetos votados pelas atuais legislaturas.


compass black

Este texto foi inicialmente publicado pelo site “O Partisano” [Aqui!].

Fábricas de Papel: a indústria da fabricação de artigos científicos fraudulentos para venda de autorias

No campo da pesquisa, uma Paper Mill é uma “organização não oficial, potencialmente ilegal, com fins lucrativos que produz e vende autoria de manuscritos de pesquisa”

paper mill

Por Universo Aberto

A fabricação de artigos é o processo de enviar manuscritos acabados a um periódico por uma taxa em nome de pesquisadores para facilitar a publicação ou oferecer autoria em troca de dinheiro.

Em alguns casos, as Paper Mills contêm operações sofisticadas que vendem posições de autoria em pesquisas legítimas, mas em muitos outros casos os papéis contêm dados fraudulentos e podem ser plagiados ou não profissionais. Também pode incluir a fabricação de dados, levando à ciência lixo e às vezes retratações na literatura científica.

Pesquisadores são pressionados a publicar para avançar em suas carreiras “Publicar ou perecer”, razão pela qual alguns recorrem a essas práticas inaceitáveis. É um problema de ética e integridade da pesquisa que afeta a publicação acadêmica, uma desonestidade acadêmica que implica engano e autoria por contrato, mais especificamente ghostwriting acadêmico , ou seja, ghost writing, termo usado para descrever a pesquisa acadêmica escrita por alguém cujo nome não é reconhecido.

Em abril de 2022, o departamento de notícias da revista Science publicou um post identificando centenas de artigos acadêmicos publicados em que as posições de autoria haviam sido vendidas por meio de um site russo que permitia que pesquisadores pagassem por prestígio acadêmico, sem exigir contribuições legítimas à pesquisa. Durante o período de três anos analisado, foram identificados 419 artigos que correspondiam a manuscritos publicados posteriormente em diversos periódicos acadêmicos, com um viés significativo para publicações em periódicos predatórios . Embora os artigos fabricados tenham aparecido em vários periódicos, apenas o International Journal of Emerging Technologies in Learning(Kassel University Press) foram publicados cerca de 100 artigos, aparentemente coordenados por meio do envolvimento de editores de periódicos que organizaram edições especiais com espaço para coautores leiloados entre US$ 180 e US$ 5.000. Em outra rede coordenada, editores convidados do MDPI e editores acadêmicos assalariados coordenaram as vendas de autoria em quatro diferentes periódicos do MDPI, totalizando mais de 20 artigos. Além do conluio entre os editores e a International Publisher Ltd., muitos trabalhos de pesquisa legítimos também venderam autoria desconhecida de editores de periódicos, eventualmente sendo aceitos em periódicos publicados pela Elsevier, Oxford University Press, Springer Nature, Taylor & Francis, Wolters Kluwer e Wiley-Blackwell . A partir de 6 de abril de 2022,

Em 2022, a COPE e a STM realizaram um estudo com a Maverick Publishing Services, usando dados de editores, para entender a magnitude do problema da fábrica de papel. O estudo também entrevistou interessados: pesquisadores, editores e membros do Retraction Watch .

Todos os envolvidos acreditam que o problema das fábricas de artigos é uma ameaça real à integridade dos registros acadêmicos, e que um esforço coletivo é necessário porque está claro para os editores que eles não podem resolver esse problema sozinhos. É necessário um esforço conjunto de editores, financiadores e instituições de pesquisa.

O documento recomenda uma série de ações nesse sentido:

  • Um grande exercício de educação é necessário para garantir que os editores estejam cientes do problema da fabricação de artigos e que os editores/equipe de redação sejam treinados para identificar documentos falsos.
  • Investimento contínuo em ferramentas e sistemas para detectar itens suspeitos à medida que eles surgem.
  • Compromisso com instituições e financiadores de revisar os incentivos para que pesquisadores publiquem artigos válidos e não usem serviços que ofereçam publicação rápida, mas falsa.
  • Investigue os protocolos que podem ser implementados para impedir que as Fábricas de Papel atinjam seus objetivos.
  • Revise o processo de retração para levar em consideração as características exclusivas dos itens fabricados.
  • Investigue como garantir que os avisos de retirada se apliquem a todas as cópias de um artigo, como servidores de pré-impressão e repositórios de artigos.

compass black

Este texto escrito inicialmente em espanhol foi publicado pelo blog Universo Aberto [Aqui!].

O Fim do Twitter

A revolução a partir das bases continua, mas não estou mais no Twitter

wanted

Por Leonid Schneider para o “Forbetterscience”

Muitos de vocês notaram que minha conta no Twitter com 13.400 seguidores foi suspensa. Provavelmente permanentemente, mas não voltarei ao Twitter de qualquer maneira. Eu tentei, não deu certo e na verdade não estou descontente com isso.

A razão pela qual fui suspenso foi uma campanha contínua de nazistas franceses e outros fetichistas da cloroquina jorrando anti-semitismo, xenofobia, misoginia e ameaças de violência letal. Eles continuaram me denunciando por ridicularizar os crimes que eles e seus próprios ídolos cometem várias vezes ao dia no Twitter e na vida real, sem quaisquer sanções das autoridades francesas. Fui banido porque eles me relataram como uma Célula Terrorista de Um Judeu Neonazi.

O Twitter (como o Facebook, que parei de usar ativamente há muito tempo) é uma empresa global que só responde a seus investidores e clientes empresariais bilionários. Ele policia sua gama de produtos (ou seja, a comunidade humana do Twitter) pelo algoritmo com base em quantos relatórios recebe sobre produtos estragados. Isentos são, é claro, celebridades fascistas e charlatães, você deve se lembrar que as contas de Donald Trump e Steve Bannon só foram suspensas quando essas pessoas perigosas perderam completamente seu poder político e, portanto, seu apelo comercial. Ou você realmente acha que o Twitter teria suspendido a conta de Trump se sua tempestade fascista no Capitólio tivesse sucesso e os EUA se tornassem uma ditadura fascista?

Por causa dos ataques coordenados por nazistas franceses que questionaram o fato de eu ser um judeu rebelde, fui sancionado pelo Twitter várias vezes antes de minha conta ser permanentemente suspensa. Qual foi a última gota? Eu satirizei os ataques cruéis a cientistas que discutem a teoria de vazamento de laboratório da pandemia COVID-19. Cientistas que apenas apontam a falta de todas as evidências de origem zoonótica ou “arenque vermelho congelado”. Cientistas que meramente fazem referência à literatura revisada por pares sobre pesquisa de coronavírus de ganho de função em Wuhan e em outros lugares, documentos oficiais ou o desaparecimento bizarro deles, registros de vazamentos anteriores e violações de segurança, mentiras constantes do Partido Comunista Chinês e os relatos da mídia citando as mesmas pessoas que agora tentam agressivamente silenciar todos que sequer mencionam o vazamento de laboratório.

O Twitter era um vício doentio para mim de qualquer maneira, eu perdia muito tempo com isso, tempo que eu poderia ter usado de forma mais produtiva. A única coisa que sinto falta em estar no Twitter são as informações úteis que tenho descoberto ocasionalmente e os meios de comunicação com meus leitores. Isso não precisa acabar. Você pode compartilhar essas informações comigo, basta entrar em contato comigo por e-mail, através do meu telefone (WhatsApp e Signal), mensagem direta do Facebook ou LinkedIn, ou através do formulário de contato do meu site:

O Leonid Schneider restante no Twitter é falso (é você, Ajan? Ou você, Fred Frontiers?), E em breve poderá haver mais desses, agora que o verdadeiro foi banido. Curiosamente, uma vez relatei aquela falsa conta por se passar por mim usando minha foto e meus desenhos. O Twitter me fez enviar uma digitalização de minha identidade pessoal para provar que sou Leonid Schneider. Depois disso, o Twitter me informou que não havia nada de errado com aquela conta de falsificador tweetando conspirações COVID-19. Então agora eu realmente me tornei o falso Leonid Schneider, e esta é a mídia social para você. Agora estou ansioso para ser processado por contas falsas com minha identidade roubada.

Como você sabe, fui processado várias vezes, inclusive por causa de tweets. Então, novamente, talvez não seja uma perda tão grande estar fora do Twitter. Os processos judiciais são caros, se você pode me apoiar , você pode fazê-lo consultando o final da versão em inglês deste texto.

fecho

Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado no blog “Forbetterscience” [Aqui!].

TVs dos EUA interrompem transmissão de pronunciamento de Donald Trump por suas mentiras

donald trump

O vídeo abaixo mostra um momento extraordinário que decorreu da decisão de diversas emissores de TV dos EUA de interromper a transmissão de um pronunciamento do presidente Donald Trump por ele estar difundindo inverdades sobre a apuração das eleições presidenciais de 2020.

O momento é extraordinário não apenas porque Donald Trump é retirado do ar, mas porque logo após fazerem isso, as emissoras afirmam com todas as letras que isto ocorreu porque o presidente dos EUA estava mentindo.

Em minha opinião essa é uma diferença marcante na forma com que a mídia corporativa exerce o seu papel no Brasil e nos EUA. Aqui seria impensável que um presidente, mesmo que mentindo vergonhosamente, fosse retirado do ar, e menos ainda desmentido por emissoras de TV. O mais fácil por aqui estaria mais para que as mentiras de um dado presidente fosse não apenas televisionadas, mas também confirmadas.

Essa diferença de tratamento com os detentores do poder é um dos muitos aspectos que nos coloca em uma posição de total fragilidade nas relações políticas e econômicas com os EUA.  Aliás, falando em fragilidade, com a iminente vitória do candidato Joe Biden, a posição brasileira deverá piorar ainda mais. 

Finalmente, caso a vitória de Joe Biden seja confirmada, o dia não deverá ser mais dos felizes para a família Bolsonaro e para o chamado “setor ideológico” do gabinete ministerial do presidente Jair Bolsonaro. É que o candidato democrata disse em campanha que iria exigir uma mudança na condução da proteção das florestas da Amazônia, com ou sem a predisposição do Brasil. E aí, meus caros leitores, é que a porca torce o rabo.

O escândalo da Volswagen: Das Auto, tecnologia para contaminar sem deixar rastros

VIKK 1

Como a Volkswagen criou motores que simulam ser ecológicos em testes mas poluem, nas ruas, quarenta vezes mais. Suspeita: descoberta é ponta de iceberg; outras marcas praticaram fraudes iguais

Por Antonio Martins

No mundo mágico da publicidade, os automóveis são tão inofensivos e contemporâneos como era o tabaco, há quinze anos. Os motoristas deslizam por ruas e avenidas sempre vazias. Dirigir nas cidades é relaxante e aprazível. Os carros oferecem potência a seus condutores, mas os convertem, ao mesmo tempo, em defensores da natureza. Porque os motores, tecnologicamente muito avançados, adequam-se a todas as normas de proteção ambientais.

Há uma semana, mais um sustentáculo desta narrativa infantilizante está desmoronando.Descobriu-se que a Volkswagen, segunda maior empresa global em seu ramo, não emprega a tecnologia para aperfeiçoar seus produtos, mas para criar a ilusão de que são bons. Pelo menos onze milhões de motores da marca foram programados para simular, quando submetidos a testes, que emitem entre cinco e quarenta vezes menos poluentes que em condições de tráfego.

O artifício – uma espécie de malandragem high-tech, com sotaque alemão – permitiu até agora burlar as normas que deveriam inibir a emissão de um composto altamente nocivo, tanto para o equilíbrio climático quanto para a saúde humana. A Volkswagen – cujo presidente mundial acaba de renunciar, numa tentativa de encerrar o caso oferecendo ao público um bode expiatório – não está sozinha. Tudo indica que a indústria automobilística pratica, de modo generalizado, fraudes deste tipo.

VOLK2

Publicidade do Passat Diesel enfatiza potência com supostas economia e correção ambiental

Os fatos começaram a vir à tona na sexta-feira, 18/9. A Agência de Proteção Ambiental (EPA, em inglês) norte-americana, anunciou ter descoberto que o motor EA189 a Diesel, utilizado em carros de passeio pela Volks, Audi e possivelmente outras das nove empresas do grupo1, estão equipados com um software que lhes permite, em condições de teste de poluição, emitir níveis abruptamente reduzidos de óxidos de nitrogênio.Este grupo de compostos gasosos destaca-se, entre as dezenas de contaminantes emitidos pelos motores a explosão, por contribuir de modo especialmente intenso para o aquecimento global, e por favorecer o surgimento de doenças respiratórias como asma, bronquite e mesmo enfizema.

A descoberta foi feita de modo involuntário, quase por acidente – o que reforça a hipótese de que fraudes semelhantes sejam comuns. Há meses, o pequeno braço norte-americano de uma OnG europeia que reivindica automóveis menos poluentes2, verificou que, nas estradas, os carros equipados com o EA189 emitiam entre cinco e quarenta vezes mais óxidos de nitrogênio que nos testes certificados pela EPA.Imaginando que se tratasse de uma falha ocasional nos motores testados, a OnG pediu que a EPA submetesse os propulsores a novos testes.

Surpresa: em condições de laboratório, os motores voltaram a aparentar emissões reduzidas. A disparidade extrema entre os resultados levou a uma investigação mais profunda. Ela constatou: o EA 189 é capaz de detectar que está sendo submetido a testes. Nestas condições, funciona em regime de baixa emissão.

VOLK3

Já na estrada, volta ao padrão normal (veja no diagrama ao lado, produzido pela Reuters, em inglês). Mas é então, poluindo descontroladamente, que realiza o que a propaganda da Volkswagen promete: ser um motor Diesel econômico, porém potente, de alto torque, capaz de proporcionar velocidade e arrancadas. Viril, portanto. Nestas condições, é como se o EA189 resolvesse um dos grandes dramas da alma humana imersa no capitalismo: ele permite desejar potência sem limites, em meio a um planeta finito. Mas atenção: só no modo carochinha, de realidade virtual…

Será uma obsessão restrita à germânica Volkswagen? Tudo indica que não. O escândalo atual é, provavelmente, “a ponta de um iceberg”, diz o site Business Insider. Fraudes idênticas podem ocorrer também com motores a gasolina, completa The Guardian. As regras e checagens, supostamente “rigorosas”, que deveriam limitar os efeitos devastadores da indústria automobilística são frouxas. As norte-americanas, consideradas as mais severas do mundo, foram facilmente dribladas pelo software da Volkswagen. Na Europa, burlá-las é ainda mais fácil, conta Greg Archer, líder do thinktank britânico Transport and Environment, sobre veículos limpos. No Velho Continente, explica ele, os testes são feitos apenas em protótipos, antes de os carros serem produzidos em massa; e por empresas pagas pela própria indústria automobilística. Não surpreende que sempre aprovem os carros. Seria conveniente perguntar: e no Brasil?

A descoberta das fraudes da Volkswagen produziu um pequeno terremoto financeiro. O valor de mercado da empresa – considerada um pilar da economia alemã – reduziu-se em 1/3, em apenas quatro dias. Mas tudo indica, reconhece a própria revista Economist, pró-capitalista, que a maior parte das montadoras globais de automóveis promove manipulações idênticas às da VW.  Foi certamente esta consciência – e o medo de futuras revelações – que provocaram, ontem, desvalorizações expressivas nas ações da Renault (-4%), Peugeot (-2,5%), Nissan (-2,5%) e BMW (-1,5%).

Os amantes brasileiros da indústria automobilística podem, ainda assim, dormir despreocupados. Embora o escândalo tenha estourado há cinco dias e ocupe deste então muitas páginas, em dezenas de jornais em todo o mundo, nem Folha, Globo ou Estadão haviam dedicado uma linha ao tema até esta tarde – quando ele tornou-se obrigatório devido a renúncia de Martin Winterkorn, presidente da Volks. Agora, os três diários brasileiros mais vendidos, assim como as revistas e TVs aceitam sem críticas a versão segundo a qual tudo se passou de um erro pessoal de Winterkorn. Ao avaliar o volume de publicidade da indústria automobilística nestes meios, você certamente compreenderá as razõe$.

1Composto também por Porsche, Seat, Skoda, Bentley, Lamborghini e Bugatti.

2Conselho Internacional para Transporte Limpo (ICCT, em inglês)

FONTE: http://outraspalavras.net/blog/2015/09/23/volkswagen-a-tecnologia-como-forma-de-iludir/

Jeffrey Beall disseca o “article spinning”, uma técnica de plágio para o Século XXI

article-spinning

Artigo Spinning: Um técnica de plágio para o Século 21

Por Jeffrey Beall

Esteja preparado para o “Article spinning!

Article spinning é uma técnica cada vez mais popular para a criação de artigos acadêmicos plagiados que os software de detecção de plágios nem sempre conseguem detectar. O “article spinning” envolve o uso de um software para copiar e reformular um acadêmico publicado para criar um novo artigo. A partir dessa técnica, termos e frases no artigo original são substituídas por sinônimos. Aqui está um exemplo.

O primeiro dos dois artigos abaixo é o original. O segundo duplica grande parte do conteúdo usando a técnica de “article spinning”, substituindo palavras e frases com palavras e frases sinônimos.

Zai, M. A. K. Y., Ansari, M. K., Quamar, J., Husain, M. A., & Iqbal, J. (2010). Stratospheric ozone in the perspectives of exploratory data analysis for Pakistan atmospheric regions. Journal of Basic and Applied Sciences, 6(1), 45-49.

Mian, K., Abbas, S. Z., Kazimi, M. R., Rasheed, F. U., Raza, A., & Iqbal, S. M. Z. (2015). Study heftiness in the astrophysical turbulence at Pakistan air space. European Academic Research, 2(12), 15697-15709.

spun-1

spun-2

Exemplo de texto do artigo original

b) Para os dados normais, a média da amostra e a variância são os avaliadores imparciais sobre localização da distribuição subjacente. A maioria dos conjuntos de dados físicos não são distribuídos normalmente, mesmo depois de transformação, porque o pressuposto subjacente de uma distribuição normal é uma idealização matemática que nunca é cumprida exatamente na prática, porque grandes conjuntos de dados inevitavelmente contém valores atípicos.

Exemplo de texto do artigo que resultou do “spinning”

(c) Para os dados de Gauss, o exemplo desagradável e alteração são os avaliadores imparciais sobre a localização da distribuição de Gauss. Maiores círculos de informação corporais não são distribuídos de forma suave após alteração, uma vez que a suposição de uma distribuição de Gauss é um romantismo exato que não é sempre que encontrado precisamente na repetição desde grandes grupos de dados inevitavelmente cobrem valores atípicos [10].

Notem como os termos “média da amostra” foi convertida em “exemplo desagradável” e a frase “idealização matemática” foi alterado para “um romantismo exato”, e alteram o sentido em ambos os casos. Existem inúmeros outros casos de parágrafos do artigo sofreram spining e ; de fato; afigura-se que a maior parte do artigo que resultou do spinning é banal e  copiado.

Fui informado, mas não posso  confirmar que o segundo autor listado do artigo que passou pelo spinning, S. Zeeshan Abbas, obteve seu título de doutor na Universidade de Karachi, em grande parte por causa da publicação do artigo copiado no European Academic Research

European Academic Research: Euro-lixo.

european-academic-research

A European Academic Research, onde o artigo resultou do “spinning”  foi publicado, é uma revista de qualidade extremamente baixa, e está incluída na minha lista de revistas questionáveis. O seu co-editor-chefe é Ecaterina Patrascu, uma romena que eu relatei no ano passado quando ela e seus companheiros lançaram a ridícula revista “American Research Toughts“.

Acredito que a European Academic Research é apenas mais um dos modos de Patrascu de fazer dinheiro, e deste artigo lixo na revista é prova disso. Notem que European Academic Research, incluindo o artigo que passou por spinning e que foi descrito aqui, está indexada no Google Scholar, o maior índice mundial de indexação de lixo científico.

Além disso, o título do artigo que passou pelo “spinning”, “Estudo da importância da turbulência astrofísica no espaço aéreo do Paquistão” – é um completo disparate.

Outra complicação: o “The Journal of Basic and Applied Sciences”, onde o artigo original apareceu, é publicado por uma empresa chamada Lifescience Global, uma editora também incluída na minha lista de editoras e revistas predatórias. Na página “números anteriores” da revista, a maioria dos links para volumes e questões anteriores não funcionam adequadamente, e conduzem apenas a anúncios de publicidade, o que significa  que o  conteúdo anterior da revista está perdido, e muitos que pagaram para publicar ali foram roubados.  Aliás, acessei o artigo 2.010 discutido aqui através de uma cópia arquivada no portal “Research Gate“.

O spinning de artigos é usado principalmente como um instrumento de desonesto de Search Engine Optimization (SEO). Existem pacotes de software e sites que fazem o spinning gratuito  de artigos.  O seu uso como descrito aqui é uma readaquação da técnica e oferece aos pesquisadores uma forma de obter publicações acadêmicas sem ter que fazer qualquer tipo de trabalho real. 

FONTE: http://scholarlyoa.com/2015/09/22/article-spinning-a-plagiarism-technique-for-the-21st-century/#more-5968

À guisa de clarificação segue uma definição de “article spininning”: Article spinning consiste em escrever o mesmo artigo, com uma combinação de frases e/ou palavras diferentes, mas mantendo o mesmo sentido, de forma que cada um dos artigos seja conteúdo original (ou substancialmente original). 

Retratação em massa pela Springer mostra que grandes editoras cientificas não estão livres do “trash science”

Springer-logo-neu

Um artigo assinado pela jornalista Sarah Kaplan do Washington Post nos dá conta que a Springer (uma das maiores editoras científicas do mundo) acaba de retratar 64 artigos científicos de 10 de seus periódicos por causa de uma série de fraudes cometidas por seus autores (Aqui!). A principal delas é a fabricação de falsas identidades e endereços eletrônicos de correspondência para então se afrontar o sistema de revisão de pares, até recentemente considerado um processo ilibado de avaliação da qualidade do que era publicado na ciência mundial.

A matéria relata ainda que segundo um blog que acompanha e documenta casos de artigos científicos retratados, o Retraction Watch (Aqui!), esse novo episódio de retratação coletiva de artigos faz com que o número de documentos retratados por grandes editoras científicas chegue a 230 apenas nos últimos três anos. E as razões para essas retratações envolvem vários tipos de fraudes; tais como plágio e falsas revisões por pares que envolvem até um comércio ilegal de venda de identidades falsas de revisores igualmente falsos.

Essa situação que até recentemente era rara deverá obrigar as grandes editoras a reverem suas próprias regras para avaliação de artigos, bem como as formas de recrutamento dos revisores que avaliam a qualidade científica do que pode ser ou não publicado.

É importante notar que esse escândalo envolvendo a Springer é uma demonstração de que a pressão que pesquisadores em todo o mundo enfrentam para publicar os resultados de suas pesquisas ou serem ostracizados científica e economicamente está causando um grave deslize ético que, em última instância, pode comprometer o futuro da ciência em nível mundial.

Comodificação da ciência como causa primária do “trash science”

space1103rat_A

O artigo abaixo da autoria de Thomaz Wood Jr. foi publicado pela Revista Caros Amigos e relata a posição de dois pesquisadores holandeses sobre a transformação da produção científica em mais uma commodity. A relação que Willem Haffman e Hans Radder estabelecem entre o processo de transformação da ciência em mais uma commodity e a disseminação do que eu chamo de trash science é direta. É que espremidos por princípios de performance produtivista, os pesquisadores enveredam por caminhos onde abraçar o trash science é um passo mais do que natural.

Além da leitura do artigo abaixo, eu recomendo a leitura do livro editado por Hans Radder (lamentavelmente disponível apenas em inglês) que possui o sugestivo título de “The commodification of academic research: sicence and the modern university” (Aqui!).

A questão que emerge diante dessas reflexões se refere ao fato de que casos de fraude e produção de lixo científico que tanto assombram a ciência neste momento precisam ser colocados num contexto mais amplo. Se não, vai ficar parecendo que se tratam apenas de casos isolados de desvio de caráter, quando a coisa parece ter tomado características sistêmicas

Universidades ou fábricas?

Pesquisadores da Holanda criticam a introdução de práticas empresariais no ensino superior

Por Thomaz Wood Jr.
BIBLIO
A biblioteca da universidade de Radboud, em Nijmegen, na Holanda. O mundo corporativo chegou lá
Na edição de abril da revista científica Minerva, os pesquisadores Willem Halffman e Hans Radder publicaram texto contundente e provocativo. Sob o título “O Manifesto Acadêmico – Da universidade ocupada para a universidade pública”, os autores analisam criticamente a modernização do ensino superior holandês, frequentemente citado como exemplo de superação do anacrônico modelo torre de marfim. O tom é desinibido e panfletário, e conclama acadêmicos para uma ação transformadora.

Segundo Halffman e Radder, as universidades holandesas foram invadidas e ocupadas. O ocupante, no caso, não é uma força fardada ou milícia religiosa. Afinal, trata-se dos Países Baixos. Os autores referem-se a um verdadeiro lobo mau, o Lobo do Management. Segundo eles, o management é um regime obcecado com medições, controles, competição, eficiência e a ideia tortuosa de salvação econômica. Para expulsar a invasora e devolver as universidades aos cidadãos, os autores propõem que os próprios acadêmicos assumam o controle de seu destino e construam uma nova universidade pública, alinhada com o bem comum e com uma proposta de geração de conhecimento socialmente engajado.

Halffman e Radder advogam que o Lobo do Management invadiu a academia com um “exército mercenário de administradores profissionais, armados com planilhas, indicadores de desempenho e procedimentos de auditoria”. Seu inimigo são os acadêmicos, esses seres egocêntricos e autocentrados, pouco confiáveis, que precisam ser monitorados e controlados. As universidades foram conquistadas e colonizadas. Projetos de alta visibilidade e indicadores manipulados mostram para o público externo o sucesso do novo modelo. Entretanto, há uma sensação de revolta no ar: no “chão de fábrica”, o clima é tóxico e o moral é baixo.

O Lobo do Management cultua índices e rankings. Faz inventários de artigos publicados e comemora com champanhe cada posição galgada nas listas internacionais. A posição nas planilhas determina a sorte de pesquisadores e de departamentos. Vence a quantidade, pouco importa o conteúdo. Na batalha dos números, acadêmicos criam fábricas de artigos, assinam trabalhos uns dos outros, citam-se mutuamente e correm o mundo para promover seus textos. O que vale é a performance.

Enquanto isso, no mercado acadêmico, multiplicam-se os eventos e as revistas científicas. Sobram escritores e faltam leitores. Halffman e Radder argumentam que o fetiche dos indicadores está transformando a ciência, destruindo tudo que não é mensurável. Sob o ocupador, a massa de acadêmicos comporta-se como um rebanho de ovelhas, mantido sob vigilância e controle.

O novo mantra é a busca da eficiência. Em lugar de recursos, as universidades ganham gestores. Resultado: nos orçamentos, recursos migram de laboratórios para serviços de relações públicas, da pesquisa para a contratação de consultores de marketing. A nova universidade aparece em anúncios de página inteira nos jornais, mantém websites atraentes e garante uma presença constante nas mídias sociais. Seus professores e pesquisadores devem tornar-se celebridades nos jornais, na tevê e, claro, nas palestras TED.

Com as práticas empresariais, o Lobo do Management impõe uma nova cultura. A busca da excelência, que flagelou empresas nos anos 80 e 90, chega décadas depois à universidade. É preciso ser “de topo”, publicar artigos em um seleto grupo de periódicos, ter os coautores certos, conseguir proeminência nos círculos mais prestigiosos, ser um hábil captador de recursos e gerenciar uma dócil equipe de pesquisadores juniores. Para se manter na ribalta, os tais pesquisadores “de topo” terceirizam o ensino para doutorandos e coagem orientandos a lhes conceder coautorias.

A história holandesa repete-se em diferentes latitudes e longitudes. Muitas universidades públicas tropicais são antediluvianas. Elas continuam a seguir o anacrônico modelo da torre de marfim e lutam para preservar pequenos privilégios. São perdulárias, ineficientes e ineficazes. São autocentradas e ignoram o mundo ao redor. Porém, começam a sentir os efeitos do “choque de gestão” descrito por Halffman e Radder. E, assim, somam às suas antigas patologias, o autismo e o imobilismo, as mais novas: produtivismo, exibicionismo e comportamentos para inglês ver. Algumas ovelhas exauridas e irritadas balem aqui e acolá. Porém, faltam-lhes direção e união.

Quando o trash science é finalmente fisgado, título de mestre é cassado e artigo fraudado é retratado

Blog_Predatory_Publications

Tenho narrado neste blog os amplos efeitos da disseminação dos vícios da ciência predatória (trash science) nas universidades brasileiras. Mas um caso que me veio recentemente à atenção parece exemplar de como o problema é grave e pode ser encontrado nas nossas melhores e tradicionais instituições de ensino superior.

O caso em tela ocorreu no Programa de Pós-Graduação em Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa, onde o acadêmico Paulo Henrique Bittencourt Moreira teve seu título de Mestre em Ciências cassado por violação de direito autoral e de fraude acadêmica, como mostra a imagem abaixo.

titulo retiradoComo a cassação de um título acadêmico é coisa extremamente rara em qualquer lugar do mundo, me pus a procurar mais informações sobre o assunto, e me deparei com mais evidências deste incidente na base de artigos científicos Scielo, mais precisamente na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia (RBGG). Ali encontrei um pedido de retratação do artigo “Qualidade de vida de cuidadores de idosos vinculados ao Programa Saúde da Família – Teixeiras, MG (Quality of life of elderly caregivers of link to the Family Health Program – Teixeiras, MG)” de autoria do mesmo Paulo Henrique Bittencourt Moreira, O surpreendente é que o pedido de retratação do artigo (na prática cassação do trabalho) foi feito pela autora de um artigo que teria sido plagiado, a professora Márcia Regina Martins Alvarenga, uma das autoras do artigo plagiado, e que é docente da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.

retratado 1A denúncia da professora Márcia Alvarenga resultou em outra situação rara que foi a cassação do artigo que possuía três autores, incluindo a orientadora da dissertação de mestrado cassada pela Universidade Federal de Viçosa, a professora Simone Caldas Tavares Mafra.

retratado 2

A retratação do artigo, obviamente combinado com a cassação do título de Mestre, resultou ainda numa ainda mais rara explicação pública da professora Simone Mafra sobre os “malfeitos” do seu orientando.

retratado 0

Ao ler a resposta e as diferentes explicações da professora orientadora pelas quais a fraude e o plágio não foram detectados em tempo hábil (ver imagem acima), não me restou senão a curiosidade sobre quantos casos semelhantes de fraude e plágio não estão também passando despercebidos por defronte os olhos de outros docentes/orientadores. É que a imensa maioria dos que labutam hoje na pós-graduação brasileira se encontra hoje sob forte pressão para se adequar ao sistema de produtivismo científico imposto pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). E há que se frisar que essa pressão se estende a todos os pesquisadores interessados em obter financiamentos e prêmios por produtividade científica.

Uma coisa para mim é certa: ou se muda as formas de avaliar e premiar a produção acadêmica produzida no Brasil ou este caso será apenas uma pequena parte da ponta de um imenso iceberg de contaminação da ciência brasileira pelo que há de pior no trash science. A principal pergunta que fica aos gestores que comandam o CNPq e a CAPES é a seguinte: qualidade ou quantidade, o que vai ser?