Usina de Belo Monte eleva em até três vezes a emissão de gases de efeito estufa na região amazônica, sugere estudo

Pesquisadores mediram os fluxos de metano e dióxido de carbono em 23 pontos dos reservatórios da usina e no curso do rio Xingu antes e após o início das operações da hidrelétrica

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20210708_usinaO trabalho contribui para a obtenção de estimativas precisas das emissões de gases de efeito estufa pela matriz elétrica brasileira, que tem grandes usinas hidrelétricas como principal recurso energético – Foto: Usina Hidrelétrica de Belo Monte

Por Fabiana Mariz para o Jornal da USP

A implantação da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, aumentou em até três vezes as emissões de gases de efeito estufa (GEE) na região amazônica. As conclusões são de um estudo coordenado pela Instituto de Geociências (IGc) da USP, em parceria com a Universidade de Linköping, na Suécia, a Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e a Universidade Federal do Pará (UFPA).

Os pesquisadores chegaram a esse resultado depois de medirem os fluxos de metano (CH4) e dióxido de carbono (CO2) em 23 pontos dos reservatórios da usina e no curso do rio Xingu. As amostras foram coletadas durante as estações seca e cheia no primeiro e no segundo ano após a inundação dos reservatórios (2016 e 2017) e comparadas com as emissões de GEE antes da construção e implantação da usina (2012 e 2014).

O aumento das emissões de GEE, em especial o metano, é causado pela decomposição de matéria orgânica em áreas inundadas. Estudos anteriores mostraram que a desaceleração da água do rio, que ocorre em todos os tipos de reservatórios, induz à sedimentação de partículas que aumentam a quantidade de matéria orgânica disponível para degradação e alta ebulição. No estudo, os cientistas observaram que áreas rasas de inundação chegam a representar até 45% da liberação total de gases do sistema.

“A importância do nosso estudo está no fato de conseguirmos fazer medições antes e depois da implantação de Belo Monte e compará-las”, ressalta Dailson Bertassoli Júnior, geólogo e primeiro autor do estudo. “Quantificamos de forma detalhada as emissões de Belo Monte e podemos afirmar que a liberação de gases aumentou na região.”

Os cientistas também avaliaram o oxigênio dissolvido na água, a velocidade do vento, o pH da água e a temperatura local e na superfície da água, mas não encontraram grandes variações.

“A importância do nosso estudo está no fato de conseguirmos fazer medições antes e depois da implantação de Belo Monte e compará-las”, ressalta Dailson Bertassoli Júnior, geólogo e primeiro autor do estudo. “Quantificamos de forma detalhada as emissões de Belo Monte e podemos afirmar que a liberação de gases aumentou na região.”

“O trabalho contribui para a obtenção de estimativas precisas das emissões de gases de efeito estufa pela matriz elétrica brasileira, que tem grandes usinas hidrelétricas como principal recurso energético”, afirma André Oliveira Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências (IGc) da USP e orientador de Bertassoli. “Estimativas precisas e transparentes das emissões de gases de efeito estufa devem estar disponíveis à sociedade que utiliza a energia hidrelétrica”, diz.

(A) Bacia do rio Amazonas e a localização do Complexo da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. (B) Mapas de uso da terra representando áreas inundadas, o canal original do rio e amostras de sítios para avaliar pré e pós-represamento – Foto: Science Advances

Demanda global de energia

O complexo de Belo Monte no rio Xingu é a maior usina hidrelétrica da Amazônia. Foi instalado ao longo de um sistema de múltiplos canais rochosos, conhecidos como Volta Grande do Xingu. Tem uma das maiores capacidades de geração de eletricidade do mundo e foi construída usando a tecnologia chamada fio d’água (da sigla ROR – Run Of the River, em inglês), que se baseia no fluxo natural do rio e requer reservatórios menores do que projetos baseados em armazenamento, como a Itaipu Binacional. Por esse motivo, é considerada uma alternativa mais sustentável.

No entanto, como explica Sawakuchi ao Jornal da USP, usinas de grande porte a fio d’água possuem reservatórios de área considerável, o que não garante baixas emissões de GEE. “Os dois reservatórios de Belo Monte ocupam área superior a 500 quilômetros quadrados (km²) e inundaram áreas de florestas marginais, ilhas de floresta aluvial (inundação sazonal) e áreas já desmatadas, além de reduzirem a velocidade da água em trecho de aproximadamente 80 km do rio Xingu”, explica o  professor. “Mesmo com a retirada de grande parte da vegetação antes do alagamento, a matéria orgânica dos solos afogados é convertida em dióxido de carbono ou metano pela ação de micróbios.”

Sawakuchi diz, ainda, que por ser um rio de águas claras, também há grande produção de algas no rio Xingu. Ao morrerem, elas se depositam nas áreas de remanso dos reservatórios devido à redução da velocidade da água. “Isso também contribui para a produção de gases de efeito estufa.”

Outro dado que deve ser levado em consideração é a temperatura elevada das águas dos rios tropicais (cerca de 30 graus Celsius no rio Xingu) e a baixa concentração de oxigênio nas partes mais profundas ou de águas mais paradas, que induzem à ação dos micróbios produtores de metano – gás mais prejudicial que o dióxido de carbono. “Portanto, o fato de uma usina ser do tipo fio d’água não garante baixas emissões, pois há diversas outras variáveis envolvidas”, alerta o professor.

Para Bertassoli, o trabalho é importante pois dá uma ideia do impacto ambiental e social causado por uma usina desse porte. “Gases de efeito estufa são uma fração do problema. Para realizar um projeto como esse, precisamos entender os prós e os contras.”

Já Sawakuchi diz que aferir as emissões de gases de efeito estufa é importante para orientar decisões sobre planos de expansão da matriz elétrica brasileira. “Já há diversas usinas hidrelétricas de grande porte planejadas em rios da Amazônia.”

Um artigo com todos os detalhes da pesquisa foi publicado em junho na revista Science Advances.

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Este texto foi originalmente publicado pelo “Jornal da USP” [Aqui!].

Empresas brasileiras temem prejuízos financeiros por ‘antipolítica ambiental’ do governo Bolsonaro

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 Por Lucas Baldez

Especialista afirma que o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Cúpula do Clima não reflete a prática do governo e que o país precisará de ações efetivas para atrair a atenção de investidores internacionais.

A Cúpula do Clima, realizada na semana passada, trouxe ainda mais luz para o debate sobre políticas ambientais no Brasil. Mas mesmo antes do encontro internacional, organizado pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, empresários brasileiros já vinham pressionando o governo federal por medidas concretas na área ambiental.

A preocupação das empresas é que a falta de engajamento do país na preservação do meio ambiente e no combate ao aquecimento global gere também prejuízos econômicos. Isso porque o descompromisso do Brasil provocaria uma redução dos investimentos no país.

Na última quinta-feira (22), durante seu discurso na Cúpula do Clima,o presidente Jair Bolsonaro prometeu reduzir as emissões de gases de efeito estufa e zerar o desmatamento ilegal até 2030, além de fortalecer os órgãos ambientais e duplicar recursos para fiscalização.

Porém, no dia seguinte, na sexta-feira (23), ao sancionar o Orçamento de 2021, Bolsonaro cortou quase R$ 240 milhões em verbas destinadas ao Ministério do Meio Ambiente neste ano.

Segundo a especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, o governo passa um sinal de que apenas atenuou o discurso para o encontro e que, na prática, não pretende alterar sua postura em relação ao meio ambiente.

“Está bem caracterizada uma ‘antipolítica ambiental’. Acredito que as promessas são pouco críveis e que os eventuais financiadores externos já perceberam. Precisa de muito mais do que um discurso atenuado para convencer os outros países de que o Brasil vai realmente cumprir as promessas”, afirmou a pesquisadora em entrevista à Sputnik Brasil. Formada por 56 organizações da sociedade civil, a entidade foi fundada em 2002 com o objetivo de discutir as mudanças climáticas. 

Jair Bolsonaro, à esquerda, com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, após condecorá-lo com a Medalha de Mérito Rio Branco, o maior prêmio da diplomacia, em 22 de outubro, 2020.

Jair Bolsonaro, à esquerda, com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, após condecorá-lo com a Medalha de Mérito Rio Branco, o maior prêmio da diplomacia, em 22 de outubro, 2020. © AP PHOTO / ERALDO PERES

Um documento do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), enviado antes do encontro aos ministérios da Economia, Meio Ambiente, Agricultura e Relações Exteriores, diz que podem ser gerados US$ 17 bilhões (aproximadamente R$ 92,63 bilhões) até 2030 “a partir de negócios com base na natureza”.

Segundo a entidade, “o PIB do país também pode ter um crescimento vertiginoso com a implantação de práticas de baixo carbono, atingindo um ganho total acumulado de R$ 2,8 trilhões até 2030 em relação à trajetória atual”.

O texto conta com a assinatura de empresas como Bayer, Braskem, Bradesco, BRF, Ipiranga, Itaú, JBS, Lojas Renner, Marfrig, Natura, Shell, Siemens, Suzano e Votorantim.

Pelo Acordo de Paris, o país tem a meta de reduzir em 37% a emissão de gases de efeito estufa até 2025 e em 41% até 2030. O texto foi assinado pelo Brasil em 2015 e confirmado pelo governo em dezembro de 2020.

Mas a entidade deseja que o Brasil vá além da meta estipulada e contribua para um movimento de compromisso de emissão neutra até 2050.

Ou seja, a ideia é compensar as emissões que forem inevitáveis através de medidas ambientais que anulem os efeitos nocivos ao meio ambiente e à camada de ozônio.

A pressão ocorre após a notícia de que o desmatamento na Amazônia registrou o pior mês de março dos últimos dez anos.

Um levantamentodo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) mostrou que a área devastada triplicou em relação ao registrado no mesmo mês de 2020. Foram 810 km² desmatados da Amazônia Legal, área equivalente à cidade de Goiânia.

Pedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará

Pedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará. © AP PHOTO / LEO CORREA

Suely Araújo, do Observatório do Clima, afirma que o Brasil não está inserido no debate da reconstrução do mundo pós-pandemia quanto à questão ambiental. Para ela, o país “está sofrendo efeitos negativos do posicionamento do governo Bolsonaro em relação à política ambiental já há algum tempo”.

“O mundo está se preparando para um novo olhar sobre a relação com o meio ambiente. Tem um debate no plano internacional. E o Brasil está olhando para o retrovisor”, disse a especialista.

De acordo com a pesquisadora, poderá haver ainda consequências mais graves no plano internacional, como com relação à participação em tratados e acordos. Ela cita a dificuldade do país na formalização definitiva do tratado de livre comércio entre Mercosul e União Europeia e no ingresso à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

“Estamos perdendo mercado e vamos perder mais. Há um conjunto grande de efeitos negativos, decorrente da postura do presidente Bolsonaro”, afirmou.

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Este texto foi originalmente publicado pela Sputnik New [Aqui!].

Emissões de carbono vão disparar em 2021 pela segunda maior taxa da história

Emissões de carbono vão disparar em 2021 pela segunda maior taxa da história

EMISSÕES CHAMINÉSUma usina de carvão nos EUA, onde Joe Biden está considerando medidas para acelerar a mudança para a energia renovável. Fotografia: J David Ake / AP

Por Fiona Harvey correspondente de Meio Ambiente do “The Guardian”

As emissões de dióxido de carbono devem saltar este ano para o segundo maior aumento anual da história, à medida que as economias globais despejam dinheiro de estímulo em combustíveis fósseis na recuperação da recessão COVID-19.

O salto ficará atrás apenas da recuperação massiva de dez anos atrás, após a crise financeira, e colocará as esperanças climáticas fora de alcance, a menos que os governos ajam rapidamente, alertou a Agência Internacional de Energia .

O uso crescente de carvão, o combustível fóssil mais sujo, para eletricidade está causando o aumento das emissões, especialmente na Ásia, mas também nos Estados Unidos. A recuperação do carvão causa particular preocupação porque ocorre apesar da queda nos preços da energia renovável, que agora é mais barata do que o carvão.

Em declarações exclusivas ao Guardian, Fatih Birol, diretora executiva da IEA e uma das maiores autoridades mundiais em energia e clima, disse: “Isso é chocante e muito perturbador. Por um lado, os governos hoje estão dizendo que a mudança climática é sua prioridade. Mas, por outro lado, estamos vendo o segundo maior aumento de emissões da história. É realmente decepcionante. ”

O aumento das emissões este ano deve ser o segundo maior da história, perdendo apenas para a recuperação da crise financeira

emissões

As emissões precisam ser reduzidas em 45% nesta década, se o mundo quiser limitar o aquecimento global a 1,5 ° C (2,7 ° F), alertaram os cientistas. Isso significa que 2020 deve ser a década em que o mundo muda de rumo, antes que o nível de carbono na atmosfera aumente muito para evitar níveis perigosos de aquecimento. Mas a escala da atual recuperação das emissões da crise da COVID-19 significa que “nosso ponto de partida definitivamente não é bom”, disse Birol.

Birol comparou o atual aumento das emissões à crise financeira, quando as emissões aumentaram mais de 6% em 2010, depois que os países tentaram estimular suas economias por meio de energia de combustível fóssil barata. “Parece que voltamos a repetir os mesmos erros”, alertou. “Estou mais decepcionado desta vez do que em 2010.”

As emissões caíram um recorde de 7% globalmente no ano passado , devido aos bloqueios que se seguiram ao surto da Covid-19. Mas, no final do ano, eles já estavam se recuperando e a caminho de ultrapassar os níveis de 2019 em algumas áreas.

As projeções da IEA para 2021 mostram que as emissões provavelmente terminarão este ano ainda um pouco abaixo dos níveis de 2019, mas em um caminho ascendente. No próximo ano, pode haver aumentos ainda mais fortes com o retorno das viagens aéreas, acrescentou Birol. A aviação normalmente contribuiria com mais de 2% das emissões globais, mas esteve quase ausente no ano passado.

Ele pediu aos governos que apresentassem novas políticas climáticas com urgência e busquem uma recuperação ecológica da crise da Covid-19. “No ano passado, expressei minha esperança de que a recuperação econômica da COVID-19 seja verde e sustentável. Mas esses números indicam que essa recuperação hoje é tudo menos sustentável para o nosso clima ”, disse ele.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, está convocando uma cúpula sobre o clima esta semana , com a expectativa de participação de líderes de 40 países, na qual ele exortará os países a apresentarem compromissos firmes na redução das emissões nesta década. Birol disse que esta é uma oportunidade para os países mudarem de rumo e implementarem políticas para uma recuperação verde.

“Se os governos tomarem uma ação clara e iminente , com a quantidade de tecnologias de energia limpa e baratas que temos, podemos transformar essa decepção em alguns bons resultados”, disse ele.

A IEA é considerada o padrão ouro global para dados de energia e suas projeções para 2021 são baseadas em sondagens abrangentes de todo o mundo, incluindo dados de fontes de energia existentes e novas usinas programadas para entrar em operação. Os dados de energia do final do ano passado mostraram os combustíveis fósseis à frente dos níveis de 2019, e o aumento continuou na primeira parte deste ano.

Em seu Global Energy Review , publicado na terça-feira, a IEA descobriu que as emissões globais de carbono do uso de energia, que responde pela grande maioria das emissões de gases de efeito estufa, estavam em curso para aumentar em 1,5 bilhão de toneladas em 2021, após ter caído no ano passado. Isso representa um aumento de 5% para 33 bilhões de toneladas de dióxido de carbono no ano. Após mais de meia década de declínio, a demanda global por carvão deve crescer 4,5%, aproximando-se do pico de todos os tempos em 2014.

A China planeja construir dezenas de usinas termelétricas a carvão, apesar de prometer no ano passado atingir emissões líquidas zero até 2060. O plano econômico de cinco anos do país, estabelecido por Pequim no mês passado, continha poucos detalhes sobre a redução das emissões antes de 2030. No entanto , após uma visita surpresa a Xangai do enviado climático dos EUA, John Kerry, os EUA e a China prometeram cooperação nas emissões de gases de efeito estufa na próxima década.

O uso de carvão também está aumentando nos EUA, revertendo as quedas anuais desde 2013. Birol disse que isso foi o resultado dos altos preços do gás, que estão levando a uma mudança do gás para o carvão na geração de eletricidade. Donald Trump, como presidente, descartou as regulamentações estabelecidas por Barack Obama para restringir o uso de carvão nas usinas de energia . Biden está considerando outras medidas para acelerar a mudança para a energia renovável.

Nicholas Stern, economista do clima e presidente do instituto de pesquisa Grantham sobre mudança climática da London School of Economics, disse que os resultados da IEA “mostram que os países realmente devem agir com maior urgência para acelerar a transição para os caminhos de carbono zero ter uma chance de redução das emissões de acordo com o acordo de Paris. Esta é uma oportunidade crucial e histórica de reconstruir de forma diferente das formas poluentes do passado e, em particular, de se afastar muito mais rapidamente do carvão. Uma recuperação forte e sustentável virá de menos carvão, não mais. ”

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Floresta Amazônica: de salvador a fonte de perigos

A maior área de floresta tropical do mundo está causando o aquecimento global devido à exploração excessiva

floresta queimadaUma floresta tropical queimada não pode mais absorver dióxido de carbono. Foto: imagens imago / Photoshot / Balance

 Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

A Amazônia, a maior região de floresta tropical do mundo, se desenvolveu de um ecossistema que retarda o aquecimento global para um produtor líquido de gases e partículas prejudiciais ao clima. Este é o resultado de um estudo de uma equipa internacional que acaba de ser publicado na revista científica “Frontiers in Forests and Global Change”.

Em estudos anteriores comparáveis ​​que identificaram a Amazônia como sumidouro de carbono e como aliada contra as mudanças climáticas, apenas os dados do gás de efeito estufa dióxido de carbono (CO2) foram levados em consideração. Como resultado, a floresta tropical foi um dos maiores sumidouros de CO2 do mundo – esse é o nome dado aos reservatórios naturais que absorvem e armazenam carbono temporariamente. No novo estudo, os mais de 30 pesquisadores ambientais participantes dos EUA, Canadá, Grã-Bretanha, Colômbia, Peru, Suécia e Brasil também examinaram todas as outras emissões e efeitos da radiação que impulsionam o aquecimento global pela primeira vez. Apesar de algumas incertezas »chegamos à conclusão de que o aquecimento atual de gases de efeito estufa não-CO2, em particular metano e óxido nitroso, na bacia amazônica, em grande parte compensa e muito provavelmente excede a contribuição positiva para o clima por meio da absorção de CO2 atmosférico ”, escrevem os autores do estudo “Carbon and Beyond: The Biogeochemistry of Climate in a Rapidly Changing Amazon”. “Também descobrimos que a maioria das influências antropogênicas aumenta o potencial de radiação da bacia”.

Os pesquisadores destacam que, por um lado, a capacidade da região amazônica como armazenamento de carbono vem diminuindo gradativamente nas últimas décadas devido ao desmatamento. E isso está abrangendo cada vez mais países: “Historicamente, o arco do desmatamento brasileiro no sul e sudeste da Amazônia, impulsionado principalmente pela pecuária e plantações de soja, foi o epicentro do desmatamento na região”, segundo o estudo . Nos últimos anos, no entanto, outros estados amazônicos, como Peru e Bolívia, também sofreram extenso desmatamento. A criação de plantações de dendezeiros e garimpeiros são os principais responsáveis ​​pelo rápido desmatamento no Peru, enquanto a Amazônia boliviana é mais afetada pela produção de soja.

A derrubada e queimada e desmatamento para pastagens de gado e plantações de soja, mineração e construção de barragens não apenas reduzem o armazenamento de carbono, mas também aumentam as emissões de CO2 e de outros gases de efeito estufa, como metano, óxido nitroso, ozônio e que afetam o clima micropartículas como a fuligem.

A Amazônia sempre foi um dos grandes produtores naturais de óxido nitroso do mundo. É liberado por microrganismos da floresta tropical. No entanto, segundo os pesquisadores, as emissões aumentaram devido à drenagem de áreas úmidas e à compactação do solo causada pelo desmatamento. Outra fonte são as pastagens artificiais para gado, principalmente nos meses de chuva. Além disso, há emissões de óxido nitroso dos reservatórios das usinas hidrelétricas, que também são produtoras de CO2 e metano. “A inundação após a construção da barragem diminui o teor de oxigênio na água e aumenta a decomposição livre de oxigênio de substâncias orgânicas, o que significa que quantidades consideráveis ​​de metano são lançadas na atmosfera”, afirma o estudo. Este efeito é possivelmente dez vezes mais forte nos trópicos do que em reservatórios em latitudes temperadas. Mais de 190 barragens já represam os rios da bacia amazônica. Outras 246 barragens estão planejadas ou em construção. Estudos anteriores mostraram que as usinas hidrelétricas na Amazônia liberam mais gases de efeito estufa no longo prazo do que as usinas movidas a combustíveis fósseis com a mesma produção de eletricidade.

Outra causa do efeito estufa na Amazônia é o ozônio altamente reativo, que desempenha um papel importante na química da atmosfera e ali atua como um gás de efeito estufa. Segundo o estudo, seus precursores químicos aumentaram “com o aumento da combustão da biomassa, o desmatamento, a conversão da floresta em terras agrícolas e a rápida urbanização na região amazônica”.

Mesmo que muitas questões ainda não tenham sido completamente esclarecidas e os dados subjacentes ainda não tenham sido confirmados, o estudo deixa uma coisa clara: se a humanidade quer vencer a luta contra o aquecimento global, maior desenvolvimento da Amazônia com represas, corte raso, pastagens artificiais de gado, plantações de soja e dendê, construção de estradas e mineração, bem como exploração de petróleo, não tem como continuar.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo “Neues Deutschland” [Aqui!  ].

Concentração de CO2 cresce em níveis recordes mesmo com COVID-19

Boletim da Organização Meteorológica Internacional afirma que redução gerada por pandemia não achata curva de emissões

global emissionsCrédito: mikaelmiettinen/Flickr, CC BY 2.0

A desaceleração industrial devido à pandemia COVID-19 não reduziu os níveis recordes de gases de efeito estufa concentrados na atmosfera e que favorecem condições climáticas extremas, afirma a Organização Meteorológica Mundial (WMO). Em coletiva de imprensa realizada hoje (23/11) em Genebra, na Suíça, os meteorologistas explicaram que houve um surto de crescimento de emissões de dióxido de carbono (CO2) em 2019 e que a concentração continuou aumentando em 2020.

As informações estão no Boletim de Gases de Efeito Estufa da WMO, que descreve a abundância atmosférica dos principais gases de efeito estufa de longa duração: dióxido de carbono, metano e óxido nitroso. Segundo o documento, os bloqueios impostos pelos governos para frear a transmissão do novo coronavírus em 2020 ajudaram a reduzir as emissões de muitos poluentes e gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono. Apesar disso, o impacto nas concentrações de CO2 na atmosfera (que é o acúmulo das emissões passadas e atuais) não foi percebido – na verdade houve um aumento dentro das flutuações normais do ciclo de carbono.

Segundo a WMO, com o aumento das concentrações em 2019, a média anual global ultrapassou o limiar significativo de 410 partes por milhão. Desde 1990, houve um aumento de 45% na força total de radiativos – o efeito do aquecimento sobre o clima – pelos gases de efeito estufa de longa duração, sendo o CO2 responsável por 80% desse resultado.

“Ultrapassamos o limite global de 400 partes por milhão em 2015 e apenas quatro anos depois superamos 410 ppm”, alerta o secretário-geral da WMO, professor Petteri Taalas. “Essa taxa de aumento nunca foi vista na história de nossos registros. A queda nas emissões relacionada ao bloqueio é apenas um pequeno sinal sonoro no gráfico de longo prazo. Precisamos de um achatamento sustentado da curva.”

“O dióxido de carbono permanece na atmosfera por séculos e no oceano por ainda mais tempo”, explica Taalas. “A última vez que a Terra experimentou uma concentração comparável de CO2 foi há 3-5 milhões de anos, quando a temperatura era 2-3°C mais quente e o nível do mar era 10-20 metros mais alto do que agora. Mas não havia 7,7 bilhões de habitantes.”

O professor afirma que embora a pandemia isoladamente não solucione as mudanças climáticas, ela pode servir como uma plataforma para ações de transformação completa dos sistemas industriais, energéticos e de transporte. “As mudanças necessárias são economicamente acessíveis e tecnicamente possíveis. É memorável que um número crescente de países e empresas tenha se comprometido com a neutralidade de carbono. Não há tempo a perder.”

Redução pontual

Estimativas preliminares do Projeto Carbono Global afirmam que durante o período mais intenso de quarentena em decorrência da pandemia, as emissões diárias de CO2 podem ter sido reduzidas em até 17% globalmente, devido ao confinamento da população. Como a duração e a severidade das medidas de confinamento permanecem pouco claras, a previsão da redução total anual de emissões ao longo de 2020 é muito incerta. O Projeto Carbono Global divulgará sua atualização sobre as tendências globais de carbono em dezembro.

Os dados revelados pela WMO indicam até o momento uma redução na emissão anual entre 4,2% e 7,5% em 2020. Na escala global, uma redução de emissões neste patamar não fará com que o CO2 atmosférico diminua. De acordo com o Boletim, o CO2 continuará a subir, embora a um ritmo ligeiramente reduzido (0,08-0,23 ppm por ano mais baixo), dentro da variabilidade natural interanual de 1 ppm. Isto significa que, a curto prazo, o impacto dos confinamentos COVID-19 não pode ser distinguido da variabilidade natural.

Tanto o Projeto Carbono Global como o Boletim de Gases de Efeito Estufa da WMO são baseados em medições da iniciativa Observador Global da Atmosfera (Global Atmosphere Watch ), da WMO, que inclui estações de monitoramento atmosférico em regiões polares remotas, montanhas elevadas e ilhas tropicais.

Acúmulo de gases

O dióxido de carbono é o mais importante gás de efeito estufa de longa duração relacionado às atividades humanas. Ele fica na atmosfera entre 50-200 anos depois de emitido e estima-se que contribua com cerca de dois terços da força radiativa. Segundo a WMO, o nível médio anual global de CO2 era de cerca de 410,5 partes por milhão (ppm) em 2019, contra 407,9 partes ppm em 2018, tendo ultrapassado a marca de referência de 400 partes por milhão em 2015. O aumento de CO2 de 2018 a 2019 foi maior do que o observado de 2017 a 2018 e também maior do que a média da última década.

As emissões do desmatamento, da combustão de combustíveis fósseis e da produção de cimento, entre outras atividades e mudanças no uso do solo, empurraram o CO2 atmosférico de 2019 para 148% do nível pré-industrial de 278 ppm. Durante a última década, cerca de 44% do CO2 permaneceu na atmosfera, enquanto 23% foi absorvido pelo oceano e 29% pela terra, com 4% não atribuídos.

O metano, que permanece na atmosfera por menos de uma década, mas é mais potente que o CO2 para o efeito estufa, chegou a 260% dos níveis pré-industriais em 2019 – 1.877 partes por bilhão. O aumento nas concentrações de metano de 2018 a 2019 foi ligeiramente menor do que o observado de 2017 a 2018, mas ainda maior do que a média da última década. O metano contribui com cerca de 16% da força radiativa dos gases de efeito estufa, e aproximadamente 40% desse gás é emitido por fontes naturais (como zonas úmidas e cupins), e cerca de 60% vem de fontes antropogênicas (por exemplo, criação de gado, agricultura de arroz, exploração de combustíveis fósseis, aterros sanitários e queima de biomassa). 

O óxido nitroso, que é tanto um gás de efeito estufa quanto um produto químico que empobrece a camada de ozônio, atingiu 332,0 partes por bilhão em 2019, ou 123% acima dos níveis pré-industriais. O aumento de 2018 a 2019 também foi menor que o observado de 2017 a 2018 e praticamente igual à taxa média de crescimento nos últimos 10 anos.

Vários outros gases também são apresentados no Boletim da WMO, incluindo as substâncias que empobrecem a camada de ozônio e regulamentadas sob o protocolo de Montreal.

Atores envolvidos

A Organização Meteorológica Mundial é uma agência das Nações Unidas. O Global Atmosphere Watch da WMO coordena observações sistemáticas e análises de gases de efeito estufa e outros constituintes atmosféricos. Os dados de medição de gases de efeito estufa são arquivados e distribuídos pelo Centro Mundial de Dados de Gases de Efeito Estufa (WDCGG) na Agência Meteorológica do Japão, que comemora seu 30º aniversário em 2020.

Próximos estudos

Em 9 de dezembro será divulgado um relatório separado e complementar sobre as Lacunas de Emissões (Emissions Gap). Esse levantamento compara as emissões de gases de efeito estufa atuais e estimadas para o futuro com os níveis de emissão permitidos para que o mundo alcance as metas do Acordo de Paris. A diferença entre “onde provavelmente estamos” e “onde precisamos estar” é chamada de Lacuna de Emissões.

Entrevistas e informações adicionais

Para solicitar entrevistas e outras informações, entre em contato com a assessora de imprensa Clare Nullis. Email cnullis@wmo.int. Cell 41797091397

Aquecimento no Sudeste foi causado em grande parte por gases de efeito estufa, aponta estudo

temperaturaGrupo da USP constatou que aumento de 1,1 ºC na temperatura média da região entre 1955 e 2004 está relacionado principalmente com o crescimento da concentração de gases de efeito estufa resultante da ação humana (foto: Wikimedia Commons)

Por Elton Alisson  para a Agência FAPESP

A temperatura média no Sudeste do Brasil tem aumentado nas últimas décadas, fato que contribui para elevar a frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos, como inundações, secas e ondas de calor.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) tem afirmado há anos que, em escala global, o aumento da temperatura média observado nos últimos cem anos está relacionado com o crescimento das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera resultante de ações humanas. Já na escala regional, como é o caso da região Sudeste, ainda há muita incerteza em relação às causas. Segundo especialistas, fatores como urbanização e mudanças no uso da terra para agropecuária, por exemplo, também podem ter impactos significativos na temperatura local.

Agora, um grupo de pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e da Universidade de Edimburgo, do Reino Unido, conseguiu obter um indício contundente de que o aumento detectado de 1,1 ºC na temperatura da região entre 1955 e 2004 se deve, principalmente, ao efeito estufa.

Os resultados do estudo, apoiado pela FAPESP, foram publicados na revista Geophysical Research Letters.

O projeto integra o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

As conclusões se baseiam em observações climáticas da superfície e em 34 simulações da temperatura no Sudeste do Brasil nas últimas décadas, obtidas de modelos climáticos do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, Fase 5 (CMIPC5), usado pelo IPCC.

Esses dados foram submetidos a um método estatístico de detecção e atribuição de impacto de mudanças climáticas, proposto em 2017 por cientistas franceses e canadenses.

“Esse método de atribuição, aplicado no Sudeste, utiliza informações da resposta dos modelos climáticos a variações da temperatura por causas naturais, pelos aerossóis ou pelo efeito estufa separadamente”, disse à Agência FAPESP Humberto Ribeiro da Rocha, professor do IAG-USP e coordenador do projeto.

Uma vez detectada alguma variação de temperatura, é comparada a contribuição das diferentes causas, como as naturais, incluídas as incertezas envolvidas. Entre as causas naturais destacam-se a variabilidade da radiação solar que chega à Terra e os efeitos de atividades vulcânicas.

“Esses fenômenos naturais controlam os climas regionais. Além disso, todo o sistema climático está se reorganizando em razão do aquecimento global. O oceano é um grande exemplo, que eventualmente se aquece muito em episódios sobre determinadas regiões do planeta, o que afeta os climas regionais de forma diferente em um continente extenso como a América do Sul”, explicou Rocha.

O método de atribuição incorpora as incertezas estatísticas amostrais, a variabilidade interna dos modelos e as observações de superfície, para prover margem de confiança ao resultado.

Os resultados indicaram que o aumento das concentrações de gases de efeito estufa contribuíram substancialmente para o aumento de 1,1 ºC na temperatura da região detectada no período de 1955 a 2004.

Os cálculos foram feitos pelo meteorologista Rafael Cesário de Abreu durante seu doutorado no IAG-USP, em andamento, sob orientação de Rocha.

“Essa constatação corrobora a hipótese de que mudanças na temperatura estão em curso e controlando fortemente a escala regional do Sudeste, seguindo uma tendência global”, disse Rocha.

Falta de estudos regionais

De acordo com o pesquisador, outros estudos de detecção de aquecimento de longo prazo foram feitos no Brasil, mas não havia um resultado de atribuição em escala regional, como este do Sudeste, com resultados mais contundentes e que incorporassem incertezas e distinguissem causas diferentes. Além disso, há no mundo poucos estudos regionais de detecção e atribuição de causas de mudanças climáticas induzidas pelo efeito estufa antropogênico.

Os estudos anteriores foram feitos para sub-regiões na China, Canadá e Inglaterra, baseados em métodos estatísticos semelhantes ao utilizado no Sudeste.

Essa região do país é especialmente vulnerável às mudanças climáticas, uma vez que abriga mais de 40% da população brasileira e é responsável por 50% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, com uma ampla gama de atividades econômicas, ressaltam os autores do estudo.

“Em comum, esses estudos mostram que a indicação do IPCC de que a temperatura média global aumentou 0,85 ºC entre 1880 e 2012 não se aplica regionalmente e, principalmente, em estudos locais, como de cidades”, afirmou Rocha.

Em São Paulo, por exemplo, já se notou um aumento de temperatura de, aproximadamente, 3 ºC entre 1940 e 2010, e não se pode afirmar categoricamente se foi causado predominantemente pelo efeito estufa, ressalvou o pesquisador.

“Na área rural, há outros fatores que influenciam. O desmatamento de florestas e cerrados também pode explicar aumento de temperatura, mas confinado em efeitos de escala local, que, por sua vez, não são geralmente diagnosticados pelos modelos do CMIP5/IPCC”, afirmou.

O artigo Attribution of detected temperature trends in Southeast Brazil (DOI: 10.1029/2019GL083003), de R. C. de Abreu, S. F. B. Tett, A. Schurer e H. R. Rocha, pode ser lido na revista Geophysical Research Letters em agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1029/2019GL083003.

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Este texto foi originalmente publicado por  Agência FAPESP de acordo com a  licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original [Aqui!].

Por que o governo não divulga os dados de emissão de carbono

O Terceiro Inventário nacional, que dá os dados de 2005, deveria ser um produto técnico, mas virou refém de decisão política

 

 

Área desmatada no Mato Grosso para expansão do agronegócio. Estado foi o "campeão" em alertas de desmatamento e degradação. (© Paulo Pereira/Greenpeace)

Área desmatada no Mato Grosso para expansão do agronegócio. Estado foi o “campeão” em alertas de desmatamento e degradação. (© Paulo Pereira/Greenpeace)

 

Por TASSO AZEVEDO & MARINA PIATTO*

Daqui até o meio do ano, o país precisa publicar seu terceiro inventário de emissões de gases de efeito estufa, que dará a cifra oficial de nossas emissões até o ano de 2010 e também o número revisado de emissões do Brasil em 2005, ano do último levantamento do tipo disponível. Isso mesmo: a nossa conta oficial de emissões de carbono mais recente se refere a dez anos atrás.

O terceiro inventário foi finalizado ainda em 2014 e passou por consulta pública em janeiro de 2015. O documento aguarda publicação desde pelo menos agosto do ano passado.

Quem teve acesso à versão final conta que ele vai mostrar que as emissões em 2005 foram bem maiores do que sugeria o segundo inventário: saltaram de 2,2 bilhões para 2,7 bilhões de toneladas de gás carbônico equivalente (CO2e). Isso colocaria o Brasil na terceira posição entre os maiores emissores globais em 2005, atrás apenas da China e dos EUA.

A diferença, apesar de enorme, pode ser explicada por evolução na metodologia de medição das emissões e remoções de gases de efeito estufa, especialmente no que se refere a desmatamento e captura de carbono pelas florestas remanescentes.

Apesar de já contar com os dados não publicados, o governo anunciou em setembro a proposta de compromissos para o Acordo de Paris com base nos dados antigos. A meta de reduzir as emissões em 37% até 2025 e em 43% até 2030 com relação a 2005 foi calculada com base nos dados ultrapassados do segundo inventário, o que daria uma emissão de 1,2 bilhão de toneladas de CO2 em 2030.

Considerando os novos números, o governo fica com duas opções: ou revisa a meta em termos absolutos, que passaria a 1,5 bilhão de toneladas em 2030 — ou seja, nenhuma redução em relação às emissões atuais –, ou revisa a meta proporcional, que passaria a ser de 55% de corte até 2030 em relação a 2005 em vez de 43%. E este parece ser um dos motivos pelos quais a publicação do inventário, que deveria ser um produto eminentemente técnico, virou refém de uma decisão política.

Comunicar emissões de forma ágil, atualizada e com a melhor informação científica disponível traria diversos ganhos para o Brasil. O mais imediato seria a aplicação de políticas de controle de poluição: hoje nossos inventários são olhares no retrovisor, descolados do ritmo da economia. Saber como elas evoluem ano a ano é importante para aplicar regulações e incentivos, proteger a população e gerar emprego e renda.

Outro ganho diz respeito aos nossos compromissos internacionais. Hoje o Brasil está desobrigado de revelar ao mundo quanto emite anualmente. Com a entrada em vigor do Acordo de Paris, que exigirá um mecanismo global de transparência, isso deverá mudar. Todas as nações serão obrigadas a reportar emissões e, quanto mais cedo estiverem prontas para isso, melhor.

Um terceiro ganho diz respeito ao próprio acesso a mercados de carbono e ao cumprimento das metas nacionais de corte de emissões. Hoje, por exemplo, o país não reporta quanto emite todos os anos por degradação de solos em pastagens. Cálculos feitos pelo Imaflora a partir dos dados do SEEG, o Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, sugerem que as emissões do setor agrícola seriam 25% maiores caso esses dados fossem computados. No entanto, esse mesmo setor tem potencial de emissões negativas – ou seja, de sequestro de carbono – caso as metas propostas de recuperação de pastagens sejam cumpridas. Por não contabilizar o quanto emite, o país não pode receber os benefícios de reduções de emissões.

Além disso, monitorar o que acontece no seu quintal é uma tradição no Brasil. Na década de 1980, fomos os pioneiros em estimar o desmatamento em florestas tropicais usando satélites. Nos anos 2000, o sistema Deter, do Inpe, permitiu que esse monitoramento ocorresse em tempo real. Na mesma década, surgiu o SAD, sistema do Imazon que ampliou a transparência do monitoramento – e foi fundamental para defender a credibilidade do sistema do Inpe contra ataques em 2008. A expressiva queda do desmatamento na Amazônia na ultima década deve muito aos sistemas de monitoramento.

Os dados do terceiro inventário são fundamentais para atualizar e balizar os esforços de monitoramento de emissões no Brasil. Sem eles praticamente todas as políticas públicas para redução de emissões perdem eficácia.

Ajustar as contas do clima é crucial para ajustar as contas com o clima. Além de evitar situações embaraçosas para o país no futuro.

* Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Planeta, da revista Época.

Tasso Azevedo é engenheiro florestal e coordenador do SEEG (Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa) do Observatório do Clima
Marina Piatto é agrônoma e coordenadora da Iniciativa de Clima e Agrupecuária do Imaflora

FONTE: http://www.observatoriodoclima.eco.br/por-que-o-governo-nao-divulga-os-dados-de-emissao-de-carbono-2/