A vaidade também aceita convites para a academia

Há golpes que prometem dinheiro fácil.  O investigado pelo jornalista Max Kozlov, em reportagem publicada pela Nature, oferece algo talvez ainda mais sedutor para quem vive no mundo acadêmico: distinção. Segundo a investigação, uma rede de organizações apresentadas como sociedades científicas prestigiosas vem atraindo pesquisadores de destaque por meio de práticas enganosas. A reportagem começa com o caso de Julia Hirschberg, que acreditou ter sido eleita para a European Academy of Engineering, instituição que se anuncia como uma das mais importantes de sua área.

O mecanismo é tão simples quanto constrangedor. Basta oferecer a um cientista a perspectiva de acrescentar mais uma honraria ao currículo. O nome da entidade soa respeitável, o convite parece exclusivo e a promessa de reconhecimento faz o resto. É preciso cobrar explicações de quem constrói essas fachadas de prestígio; também é preciso admitir que elas encontram terreno fértil numa academia cada vez mais obcecada por títulos, rankings e sinais exteriores de excelência.

Isso não significa culpar quem recebeu um convite enganoso. Significa perguntar por que uma eleição para uma entidade pouco conhecida pode ser recebida como consagração antes mesmo de se examinar quem a dirige, como escolhe seus membros e o que efetivamente faz. Quando a aparência de prestígio passa a valer tanto quanto o trabalho científico, alguém acaba descobrindo que há mercado para fabricar aparências.

A investigação da Nature merece atenção justamente por expor essa vulnerabilidade. A ciência depende de reconhecimento entre pares, mas esse reconhecimento perde o sentido quando pode ser encenado por organizações de fachada e incorporado, sem escrutínio, à vitrine dos currículos. No fim, a frase do Diabo interpretado por Al Pacino em Advogado do Diabo parece menos uma fala de cinema do que um diagnóstico da armadilha: “Vaidade, meu pecado favorito.”