A poda drástica da arborização urbana caminha exatamente na direção contrária do que uma cidade deveria fazer para se adaptar às mudanças climáticas
A fotografia abaixo, feita na esquina entre Riachuelo e Sete de Setembro em Campos dos Goytacazes, mostra uma prática que continua sendo tratada como corriqueira: a poda extremamente severa de árvores urbanas, com a retirada de grande parte de suas copas. O problema é que, em tempos de agravamento da crise climática, aquilo que já poderia ser considerado um manejo inadequado da arborização passa a representar também um sério equívoco de política urbana.
Árvores não são meros elementos decorativos das cidades. Suas copas produzem sombra, reduzem o aquecimento de calçadas, ruas e edificações e, por meio da evapotranspiração, contribuem para diminuir a temperatura do ambiente urbano. Além disso, ajudam na retenção da água das chuvas, na captura de carbono e de material particulado e oferecem abrigo e alimento para a fauna. Retirar drasticamente uma copa significa eliminar, justamente nos meses mais quentes, boa parte desses serviços ambientais.
A situação se torna ainda mais contraditória diante da perspectiva de um El Niño muito forte, que poderá contribuir para condições de calor particularmente severas no Brasil no final de 2026 e início de 2027. Para uma cidade quente como Campos dos Goytacazes, preparar-se para temperaturas extremas deveria significar aumentar a cobertura arbórea e preservar árvores adultas, principalmente nas áreas densamente urbanizadas, e não transformar árvores de grande porte em troncos praticamente desprovidos de copa.
Há ainda outro problema: podas excessivamente severas podem provocar estresse, favorecer doenças e produzir brotações estruturalmente frágeis, reduzindo a estabilidade e a longevidade das próprias árvores. Assim, uma intervenção muitas vezes justificada em nome da “segurança” pode, quando tecnicamente inadequada, produzir novos problemas no médio prazo.
A imagem que ilustra esta postagem é, portanto, mais do que o registro de algumas árvores podadas. Ela sintetiza uma contradição que precisa ser enfrentada em Campos: não existe política séria de adaptação ao calor extremo sem uma política igualmente séria de arborização urbana. Em plena emergência climática, retirar indiscriminadamente as copas das árvores significa desmontar uma das poucas infraestruturas naturais de resfriamento que a cidade já possui — e ainda por cima gratuitamente. Por isso, mais do que interromper a prática das podas drásticas, é necessário que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente comece a desenvolver um Plano Diretor Municipal de Arborização, capaz de estabelecer critérios técnicos para plantio, escolha de espécies, manejo, poda, substituição e ampliação da cobertura arbórea. Diante do agravamento da crise climática e da perspectiva de episódios cada vez mais intensos de calor, arborizar Campos deixou de ser uma questão meramente paisagística para se tornar uma política essencial de adaptação climática e de saúde pública.

Ilhas de calor na Grande São Paulo estão relacionadas à presença de edificações e menor número de áreas verdes 


