Greenpeace registra imagens de focos ilegais na Amazônia

Com falta de fiscalização e inteligência no combate aos danos ambientais, Brasil pode registrar novos recordes de fogo na Amazônia neste ano

unnamed (12)Foto: © Foco de calor direto em floresta, próximo a área recém desmatada, com alerta Deter, em Alta Floresta (MT). Christian Braga / Greenpeace.

Manaus, 17 de julho de 2020 – Mesmo com a medida que proíbe queimadas em Mato Grosso a partir de 1 de julho, o Greenpeace registrou imagens de focos de incêndio na floresta amazônica no Estado em sobrevoo realizado na semana passada. Além das áreas completamente queimadas, o Greenpeace também registrou imagens de áreas sendo preparadas para a queima. Com 4.437 focos de incêndio até o dia 13 de julho, o Estado de Mato Grosso já conta com o maior número de queimadas na Amazônia brasileira este ano, representando 49,52% de todas as queimadas na região em 2020.

Acesse as imagens aqui

“Essas imagens e o aumento recorde do desmatamento este ano são o resultado da política antiambiental do governo para a Amazônia, que ainda tenta usar a crise provocada pela Covid-19 como uma cortina de fumaça para permitir ainda mais desmatamento, grilagem e garimpo na floresta. A única coisa que este governo está fazendo é colocando o clima e mais vidas em risco, especialmente as dos povos indígenas”, afirma Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Florestas do Greenpeace Brasil.

Em junho de 2020, 2.248 focos de incêndio foram registrados na Amazônia, um aumento de 19,57% comparado a junho de 2019 (1.800) e o maior número registrado para o mês desde 2007. Entre 1 e 13 de julho, 1.057 focos de incêndio foram registrados no bioma. Atualmente, todos os focos de incêndio na Amazônia são considerados ilegais devido a um decreto, publicado essa semana, proibindo queimadas entre julho e setembro.

“Incêndios não ocorrem de forma natural na Amazônia. O fogo é ateado por fazendeiros e grileiros para remover a floresta ou quando ela já está derrubada e seca pelo sol, visando aumentar as áreas de pastagem ou agrícola, especulação de terras e grilagem. A prática se tornou ainda mais comum com a falta de fiscalização e desmantelamento dos órgãos ambientais promovido por este governo, pois gera a sensação de certeza da impunidade. Hoje, os criminosos já esperam que o governo aprove leis e medidas que venham a conceder anistia da grilagem e desmatamento ilegal. Como se não bastasse a ameaça do novo coronavírus, com a temporada de fogo os povos indígenas estarão ainda mais vulneráveis, pois a fumaça e a fuligem das queimadas prejudicam ainda mais sua saúde”, explica Batista.

Mesmo com a ameaça de saída de investidores e os impactos resultantes na reputação e a economia do país, a resposta do governo tem sido teatral e ineficiente: com orçamento de R$ 60 milhões por mês, a Operação Verde Brasil 2, via Garantia da Lei e da Ordem (GLO), não tem diminuído o desmatamento. “As imagens da Amazônia em chamas em Mato Grosso são um claro exemplo de que a moratória do fogo, não funcionará se não estiver acompanhada de um trabalho eficiente de comando e controle, que Bolsonaro segue enfraquecendo. Afinal, criminoso não é conhecido por seguir a lei. Não podemos nos enganar com a propaganda do governo, pois ela não resultará em proteção à floresta e seus povos”, finaliza Rômulo.

O Ártico está pegando fogo: onda de calor siberiana alarma cientistas

artico em fogoEsta foto tirada na sexta-feira, 19 de junho de 2020 e fornecida pelo Serviço de Mudança Climática do ECMWF Copernicus mostra a temperatura da superfície da terra na região da Sibéria na Rússia. Uma temperatura recorde de 38 graus Celsius (100,4 graus Fahrenheit) foi registrada na cidade ártica de Verkhoyansk no sábado, 20 de junho, em uma onda de calor prolongada que assustou cientistas de todo o mundo. (Serviço de Mudança Climática do ECMWF Copernicus via AP)

Por Daria Litvinova e Seth Beronsteins para a Associated Press

MOSCOU (AP) – O Ártico está febril e em chamas – pelo menos partes dele. E isso preocupa os cientistas com o que isso significa para o resto do mundo.

O termômetro atingiu um recorde provável de 38 graus Celsius (100,4 graus Fahrenheit) na cidade russa de Verkhoyansk no Ártico no sábado, uma temperatura que seria uma febre para uma pessoa – mas essa é a Sibéria, conhecida por estar congelada. Organização Meteorológica Mundial disse na terça-feira que está olhando para verificar a leitura da temperatura, o que seria sem precedentes para a região ao norte do Círculo Polar Ártico.

“O Ártico está figurativamente e literalmente pegando fogo – está esquentando muito mais rápido do que pensávamos em resposta ao aumento dos níveis de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa na atmosfera, e esse aquecimento está levando a um rápido colapso e aumento de incêndios florestais” O reitor da escola ambiental da Universidade de Michigan, Jonathan Overpeck, um cientista climático, disse em um e-mail.

“O aquecimento recorde na Sibéria é um sinal de alerta de grandes proporções”, escreveu Overpeck.

Grande parte da Sibéria teve altas temperaturas este ano que foram além do tempo fora de época. De janeiro a maio, a temperatura média no centro-norte da Sibéria ficou cerca de 8 graus Celsius (14 graus Fahrenheit) acima da média, de acordo com a organização sem fins lucrativos Berkeley Earth.

“Isso é muito, muito mais quente do que nunca naquela região naquele período de tempo”, disse Zeke Hausfather, cientista climático da Terra de Berkeley.

A Sibéria está no Guinness Book of World Records por suas temperaturas extremas. É um local em que o termômetro oscilou 106 graus Celsius (190 graus Fahrenheit), de um mínimo de 68 graus Celsius (menos 90 Fahrenheit) para agora 38 graus Celsius (100,4 Fahrenheit).

Para os residentes da República Sakha no Ártico russo, uma onda de calor não é necessariamente uma coisa ruim. Vasilisa Ivanova passou todos os dias desta semana com sua família nadando e tomando banho de sol.

“Passamos o dia inteiro na margem do rio Lena”, disse Ivanova, que mora na vila de Zhigansk, a 430 quilômetros de onde o recorde de calor foi estabelecido. “Estamos vindo todos os dias desde segunda-feira.”

Mas, para os cientistas, “os alarmes devem tocar”, escreveu Overpeck.

Esse calor prolongado da Sibéria não é visto há milhares de anos “e é outro sinal de que o Ártico amplia o aquecimento global ainda mais do que pensávamos”, disse Overpeck.

As regiões árticas da Rússia estão entre as áreas de aquecimento mais rápido do mundo.

A temperatura na Terra nas últimas décadas tem aumentado, em média, 0,18 graus Celsius (quase um terço de um grau Fahrenheit) a cada 10 anos. Mas na Rússia aumenta 0,47 graus Celsius (0,85 graus Fahrenheit) – e no Ártico russo, 0,69 graus Celsius (1,24 graus Fahrenheit) a cada década, disse Andrei Kiselyov, o principal cientista do Observatório Geofísico Principal de Voeikov, com sede em Moscou.

“Nesse sentido, estamos à frente de todo o planeta”, disse Kiselyov.

O aumento da temperatura na Sibéria tem sido associado a incêndios florestais prolongados, que se tornam mais severos a cada ano e ao degelo do permafrost – um enorme problema porque edifícios e tubulações são construídos sobre eles. O degelo do permafrost também libera mais gás captador de calor e seca o solo, o que aumenta os incêndios, disse Vladimir Romanovsky, que estuda permafrost no Fairbanks da Universidade do Alasca.

“Nesse caso, é ainda mais grave, porque o inverno anterior era extraordinariamente quente”, disse Romanovsky. O permafrost derrete, o gelo derrete, o solo desaparece e, em seguida, pode desencadear um ciclo de feedback que piora o degelo do permafrost e “os invernos frios não conseguem detê-lo”, disse Romanovsky.

Um vazamento de óleo catastrófico de um tanque de armazenamento desmoronado no mês passado, perto da cidade ártica de Norilsk, foi parcialmente atribuído ao derretimento do permafrost. Em 2011, parte de um edifício residencial em Yakutsk, a maior cidade da República de Sakha, entrou em colapso devido ao degelo e à subsidência do solo.

Em agosto passado, mais de 4 milhões de hectares de florestas na Sibéria estavam em chamas, segundo o Greenpeace. Este ano os incêndios já começaram muito antes do início de julho, disse Vladimir Chuprov, diretor do departamento de projetos do Greenpeace na Rússia.

O clima quente persistentemente, especialmente se combinado com incêndios florestais, faz com que o permafrost derreta mais rapidamente, o que agrava o aquecimento global ao liberar grandes quantidades de metano, um potente gás de efeito estufa 28 vezes mais forte que o dióxido de carbono, disse Katey Walter Anthony, uma Universidade do Alasca Especialista em Fairbanks na liberação de metano do solo ártico congelado.

“O metano que sai dos locais de degelo do permafrost entra na atmosfera e circula pelo mundo”, disse ela. “O metano que se origina no Ártico não fica no Ártico. Tem ramificações globais. ”

E o que acontece no Ártico pode até deformar o clima nos Estados Unidos e na Europa.

No verão, o aquecimento incomum diminui a diferença de temperatura e pressão entre o Ártico e as latitudes mais baixas, onde mais pessoas vivem, disse Judah Cohen, especialista em clima de inverno da Atmospheric Environmental Research, empresa comercial nos arredores de Boston.

Isso parece enfraquecer e às vezes até paralisar a corrente de jato, o que significa que sistemas climáticos como aqueles que trazem calor ou chuva extremos podem ficar estacionados em locais por dias a fio, disse Cohen.

De acordo com meteorologistas da agência meteorológica russa Rosgidrome t, uma combinação de fatores – como um sistema de alta pressão com céu claro e sol muito alto, horas diurnas extremamente longas e noites quentes curtas – contribuiu para o aumento da temperatura na Sibéria.

“A superfície do solo esquenta intensamente. (…) As noites são muito quentes, o ar não tem tempo para esfriar e continua a esquentar por vários dias ”, disse Marina Makarova, meteorologista-chefe da Rosgidromet.

Makarova acrescentou que a temperatura em Verkhoyansk permanece incomumente alta de sexta a segunda-feira.

Os cientistas concordam que o aumento é indicativo de uma tendência muito maior ao aquecimento global.

“O ponto principal é que o clima está mudando e as temperaturas globais estão esquentando”, disse Freja Vamborg, cientista sênior do Serviço de Mudança Climática do Copernicus, no Reino Unido. “Estaremos quebrando recordes cada vez mais.”

“O que está claro é que o aquecimento do Ártico acrescenta combustível ao aquecimento de todo o planeta”, disse Waleed Abdalati, um ex-cientista chefe da NASA que agora está na Universidade do Colorado.

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Borenstein informou de Washington. Os autores da Associated Press Jim Heintz em Moscou, Frank Jordans em Berlim, Jamey Keaten em Genebra e Roman Kutukov em Yakutsk, Rússia, contribuíram para este relatório.

fecho

Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Associated Press [Aqui!].

Com o mundo distraído, a floresta amazônica continua queimando

O desmatamento na Amazônia brasileira atingiu um novo recorde nos quatro primeiros meses deste ano, com 1.202 quilômetros quadrados de floresta destruídos. Esse foi um aumento de 55% em relação ao mesmo período do ano passado, e o número mais alto nos primeiros quatro meses do ano desde o início dos registros.

fogoFumaça sobe de um incêndio em uma área da floresta amazônica perto de Porto Velho, Estado de Rondônia, Brasil. Fumaça sobe de um incêndio em uma área da floresta amazônica perto de Porto Velho, Rondônia, Brasil. Foto: Reuters

Agence France-Presse
Não recebeu muita atenção do mundo focado no coronavírus, mas o desmatamento aumentou na floresta amazônica este ano, aumentando o medo de uma repetição da devastação recorde do ano passado – ou pior.

O desmatamento na Amazônia brasileira atingiu um novo recorde nos quatro primeiros meses do ano, de acordo com dados divulgados sexta-feira pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que usa imagens de satélite para rastrear a destruição.

Um total de 1.202 Kmde floresta – uma área com mais de 20 vezes o tamanho de Manhattan – foi varrido na Amazônia brasileira de janeiro a abril, segundo ele. Esse foi um aumento de 55% em relação ao mesmo período do ano passado, e o valor mais alto nos quatro primeiros meses do ano desde que os registros mensais começaram em agosto de 2015.

bolso sctJair Bolsonaro, cético das mudança climática de extrema direita e presidente do Brasil. Foto: Reuters

Os números levantam novas questões sobre o quão bem o Brasil está protegendo sua parcela da maior floresta tropical do mundo sob o presidente Jair Bolsonaro, um cético de extrema direita que defende a abertura de terras protegidas para mineração e agricultura.

“Infelizmente, parece que o que podemos esperar para este ano são mais incêndios e desmatamento recorde”, disse Romulo Batista, ativista do Greenpeace.
No ano passado, no primeiro ano de Bolsonaro, o desmatamento subiu 85% na Amazônia brasileira, para 10.123 quilômetros quadrados de floresta.

Essa perda – quase do tamanho do Líbano – alimentou um alarme mundial sobre o futuro da floresta tropical, considerada vital para conter a mudança climática.

fogo 1O agricultor Hélio Lombardo dos Santos e um cachorro andam por uma área queimada da floresta amazônica, perto de Porto Velho, Rondônia, Brasil. Foto: AFP

A destruição foi causada por incêndios florestais registrados que ocorreram na Amazônia de maio a outubro, além de extração ilegal de madeira, mineração e agricultura em terras protegidas.

A tendência até agora em 2020 é ainda mais preocupante, uma vez que a alta temporada habitual para o desmatamento só começa no final de maio. “O início do ano não é o momento em que o desmatamento normalmente acontece, porque está chovendo e chovendo muito”, disse Erika Berenguer, ecologista das Universidades de Oxford e Lancaster.

“No passado, quando vemos o aumento do desmatamento no início do ano, é um indicador de que quando a estação do desmatamento começar … você também verá um aumento”.

Nesta semana, Bolsonaro  autorizou o exército a se instalar na Amazônia para combater incêndios e desmatamento a partir de 11 de maio. Ele também destacou o exército no ano passado, depois de enfrentar críticas internacionais contundentes por subestimar os incêndios.

Ambientalistas disseram que um plano melhor seria dar mais apoio ao programa de proteção ambiental do Brasil.

Sob Bolsonaro, a agência ambiental IBAMA enfrentou cortes de pessoal e orçamento. No mês passado, o governo demitiu o principal agente ambiental da agência, depois que ele autorizou uma operação contra mineradores ilegais que foi transmitida pela televisão.

caixõesTrabalhadores descarregam caixões de um navio no porto de Manaus, estado do Amazonas, para enterrar os mortos pela COVID-19. Foto: AFP

Outro problema com a estratégia militar do governo, disse Berenguer, é que ele se concentrou exclusivamente em incêndios. 

Isso ignora o fato de que os incêndios geralmente são causados ​​por fazendeiros e pecuaristas ilegais que arrasam árvores e depois as queimam, disse ela. Abordar apenas os incêndios “é como eu tomar paracetamol porque estou com dor de dente: vai reduzir a dor, mas se for uma cavidade, não vai curá-la”, disse ela.

Tragédias gêmeas

A pandemia de coronavírus só está complicando as coisas na região amazônica. O Brasil, que detém mais de 60% da Amazônia, é o epicentro da pandemia na América Latina, com quase 10.000 mortes até agora. O estado do Amazonas, amplamente coberto de florestas, foi um dos mais atingidos. Com apenas uma unidade de terapia intensiva, o estado foi dominado pelo surto. Há também temores dos efeitos potencialmente devastadores que o vírus poderia ter entre as comunidades indígenas, historicamente vulneráveis ​​a doenças externas.

Com atenção, recursos e vidas levados pelo coronavírus, o medo é que autoridades, ambientalistas e habitantes tenham menos capacidade de proteger a floresta.

O prefeito da capital do estado, Manaus, Arthur Virgilio, estabeleceu um elo entre as duas tragédias desta semana em um pedido de ajuda dos líderes mundiais. “Precisamos de pessoal médico, ventiladores, equipamentos de proteção, qualquer coisa que possa salvar a vida daqueles que protegem a floresta”, disse ele.

Não está claro se a pandemia terá impacto no desmatamento, mas o fato de terem ocorrido em conjunto no Brasil é motivo de preocupação.

“Existe uma rede de fatores conectados [impulsionando o desmatamento] e, no contexto do coronavírus, as coisas são ainda mais preocupantes”, disse a porta-voz do Greenpeace Brasil, Carolina Marçal.

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Este texto foi originalmente publicado em inglês pelo South China Morning Post [Aqui!].

Desmatamento em terras públicas da Amazônia explode e pode alimentar estação de fogo

Amazon BurntAumento de desmatamento em terras públicas deverá gerar uma estação de incêndios recorde.

Brasília, 22 de abril de 2020 – O desmatamento de 2020, somado ao que foi derrubado em 2019 e não queimou, pode alimentar uma nova estação intensa de fogo na Amazônia, especialmente em terras públicas que estão sob a guarda da União e dos Estados. Só no primeiro trimestre deste ano, 50% do desmatamento registrado pelo sistema Deter, do INPE, aconteceu nessas áreas.

O destaque fica por conta das florestas públicas ainda não destinadas, terras devolutas que são alvo de grilagem e que respondem por 15% da Amazônia. Entre janeiro e março, 33% da derrubada aconteceu nessa categoria fundiária nos três primeiros meses de 2020, mais do que em qualquer outra. No mesmo período de 2019, o índice era de 22%.

No geral, o desmatamento no primeiro trimestre deste ano foi 51% que o mesmo período do ano passado. “Quando a estação seca chegar à Amazônia, essas árvores derrubadas vão virar combustível para queimadas. Esse foi o ingrediente principal da temporada de fogo de 2019, uma história que pode se repetir em 2020 se nada for feito para impedir”, explica a pesquisadora Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Alencar é a principal autora de uma nota técnica que o instituto lança hoje, a terceira sobre queimadas na Amazônia. Neste documento, os autores reúnem as principais informações sobre a estação de fogo de 2019, que causou espanto em todo o planeta, e sinalizam os perigos à espreita.

O número de focos de calor registrados na região em 2019 foi 81% mais alto do que a média entre 2011 e 2018. A maior variação aconteceu nas florestas públicas não-destinadas: 37% a mais, outro importante indício de grilagem.

“Isso é roubo de patrimônio dos brasileiros, e deve ser resolvido com polícia”, diz o pesquisador Paulo Moutinho, do IPAM, um dos autores do estudo. “Essas áreas devem ser destinadas à conservação. São um importante ativo para a biodiversidade e para populações tradicionais sim, mas também para a economia brasileira, pois geram a chuva que alimenta plantações e hidrelétricas.”

Alimento para o fogo

A nota técnica ainda destaca que, no ano passado, a seca sozinha não explicou a alta das queimadas, a despeito do que sugeriu o governo federal na época, pois o volume médio de chuvas foi normal para o período. O elemento agudo foi o desmatamento crescente: os primeiros oito meses de 2019 apresentaram uma elevação de 92% da taxa em relação ao mesmo período de 2018, segundo dados do Deter. “A Amazônia é uma floresta úmida e não pega fogo naturalmente. O fogo ali tem dono, e ele se chama homem”, diz Alencar.

Já as ações de comando e controle contra as queimadas adotadas em agosto, especialmente dois decretos federais que proibiram o uso do fogo por dois meses e enviaram as Forças Armadas para a Amazônia, inibiram as queimadas. Tais ações controlaram o fósforo, mas não desligaram as motosserras. O desmatamento continuou crescendo nos quatro meses seguintes (2.758 Km2, segundo dados do Deter).

“A fiscalização do desmatamento na Amazônia é tão importante hoje quanto foi 20 anos atrás, quando o Brasil derrubava mais de 20.000 Km2 por ano de floresta. Não podemos chegar neste nível novamente”, afirma Moutinho. Os autores temem que, sem controle, a somatória das árvores no chão, se queimadas, encha novamente o ar de fumaça em 2020 – que, por sua vez, aumenta os casos de problemas respiratórios na população da Amazônia. Em tempos de COVID-19, são contornos de um cenário que ninguém deseja.

Leia a nota técnica: http://ipam.org.br/bibliotecas/amazonia-em-chamas-3-o-fogo-e-o-desmatamento-em-2019-e-o-que-vem-em-2020/

Atacar Leonardo DiCaprio foi mais um tiro pela culatra de Jair Bolsonaro

Leonardo-DiCaprio-GettyImages-1163710136Ao associar Leonardo DiCaprio aos fogos que devastaram partes da Amazônia, Jair Bolsonaro pode ter cometido um erro custoso à combalida economia brasileira

Não sei de quem foi a péssima ideia de associar o ator Leonardo DiCaprio aos incêndios que consumiram a floresta amazônica ao longo de 2019. Mas independente de quem teve a ideia, o rosto e a voz que apareceram dando maior ressonância a essa besteira foi a do presidente Jair Bolsonaro. Esse é mais um tiro pela culatra do governo Bolsonaro que deverá causar ainda mais prejuízo ao Brasil em 2020.

O fato que parece ter passado despercebido a quem idealizou o desastre ataque a Leonardo DiCaprio, além de astro de Hollywood, é que ele se tornou um personagem de alto impacto em questões relacionadas à formulação de políticas de investimento porque já ultrapassou faz muito tempo o status nada desprezível de ator bilionário.

Para quem não sabe,  ainda em 1998, pouco depois do sucesso de Titanic,  DiCaprio criou a The Leonardo DiCaprio Foundation, instituição dedicada a proteger o bem-estar de todos os habitantes da Terra, incluindo um projeto de proteção à regiões ecológicas ao redor do mundo. Além disso,  DiCaprio se envolveu com outros grupos como o Natural Resources Defense Council,  organização não governamental  que existe desde a década de 1970; a Global Green USA, que faz parte da Cruz Verde Internacional; a International Fund for Animal Welfare, e o Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal.

Em outras palavras, mexer com Leonardo DiCaprio e acusá-lo de ser, pelo menos, parcialmente responsável pelos incêndios devastadores que consumiram a Amazônia em 2019 é, no minimo, uma besteira tremenda. É que atacando DiCaprio, a chance maior é de que o ator saia ainda mais fortalecido, até em função de quem e do porquê dele estar sendo atacado.

Obviamente a imensa maioria dos grandes veículos da mídia de língua inglesa já deu amplo destaque ao ataque cometido contra DiCaprio, sendo que a maioria das reportagens tem enfatizado que esse é um ataque despropositado e sem que se tenha oferecida qualquer evidência que permitisse corroborar tamanho despautério.  Abaixo posto um vídeo com 10 das centenas de matérias que foram publicadas ao longo desta 6a. feira (29/11).

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A verdade é que o estrago causado pela tentativa de jogar nas costas de Leonardo DiCaprio a culpa pelos incêndios devastadores que ocorreram na Amazônia em 2019 só vai aparecer ao longo do próximo ano, já que este está literalmente chegando ao seu fim inglório.

A  minha hipótese é que o principal estrago virá de uma de debandada ainda maior de investidores, especialmente daquele grupo que vem se notabilizando por evitar investimentos em atividades degradadoras do meio ambiente e coloquem em risco a existência de povos tradicionais, os chamados socially conscious investors“, ou “investidores com consciência social”. 

E não esqueçamos que a resposta que DiCaprio der a esse ataque sem base real poderá aumentar ainda mais o estrago já causado na imagem brasileira no exterior. A ver!

 

 

Queimadas na Amazônia geram boicote de grandes marcas internacionais ao couro brasileiro

California wild fire near Yosemite

Em carta enviada ao ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, }Ricardo Salles,  o presidente do Centro de Indústria de Curtumes do Brasil (CICB), José Fernando Bello, informa que pelo menos 18 grandes marcas mundiais (Timberland,  Dickies,  Kipling,  Vans, Kodiak,  Terra,  Walls, Workrite,  Eagle Creek,  Eastpack, JanSport,  The North Face,  Napapijri,  Bulwark,  Altra,  Icebreaker,  Smartwoll,  Horace Small) suspenderam a compra de couro brasileiro “em função de notícias relacionando queimadas na região amazônica ao agronegócio do país”.  O presidente do CICB informa ainda que seria uma “informação devastadora” por atingir um setor que chega “a gerar US$ 2 bilhões em vendas ao mercado externo em um único ano“.

E pensar que o presidente Jair Bolsonaro chega a declarar que as questões relacionadas ao meio ambiente só importam “aos veganos que só comem vegetais“. O problema é que não apenas isso não é verdade, como muitos veganos entre os consumidores das marcas que estão suspendendo a compra de couro brasileiro por causa da devastação que as políticas anti-ambientais comandadas por ele e por Ricardo Salles tão eficazmente aplicaram em oito meses de governo.

Agora vamos ver como se vira Jair Bolsonaro em uma briga que não é com um presidente francês, mas com um ramo poderoso da indústria da moda e vestuário.  Aos consumidores dessas marcas resta agora ver de onde sairá o couro com que serão fabricados os produtos que eles tanto gostam. A ver!

Líderes da Finlândia estão preocupados com incêndios florestais na Amazônia e querem tomada de posição da União Europeia

O governo finlandês está monitorando de perto a situação. O primeiro-ministro Rinne espera que a UE atue hoje.

incendioLíderes finlandeses estão cada vez mais preocupados com os incêndios florestais da Amazônia  

Por Anne Orjala para a Yle

 A floresta amazônica está agora sendo queimada a uma taxa sem precedentes para o plantio de soja e a prática da pecuária .

O comissário da UE, Jyrki Katainen, disse ao Helsingin Sanomat na manhã de sexta-feira  que ele pretende descobrir ainda hoje o que a UE poderia fazer sobre os problemas que estão ocorrendo na floresta tropical do Brasil.

Mais tarde, Katainen disse à YLE que a Comissão já havia discutido a situação dos incêndios florestais no Brasil em sua reunião preparatória do G7 na sexta-feira.

Em contraste, a Comissão não realizará uma reunião de emergência no sábado, contrariamente ao que informou anteriormente o Helsingin Sanomat.

De acordo com a ministra do Ambiente, Krista Mikkonen (do Partido Verde), são necessárias outras medidas a nível da UE.

– É bom pensar amplamente sobre as diferentes maneiras pelas quais poderíamos exercer pressão sobre esta situação aguda, bem como os meios de política comercial e certamente meios diplomáticos. E também para pensar em conjunto a nível da UE, e é por isso que, naturalmente, que uma reunião conjunta da UE está sendo convocada, disse Mikkonen para a Yle.

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O primeiro-ministro Antti Rinne (sd.) Afirmou em um comunicado de imprensa que está preocupado com os incêndios florestais e descreve a situação como muito séria.

– Eles ameaçam todo o globo, não apenas o Brasil ou a América do Sul. A situação é muito séria em termos de clima e agora precisamos agir.

Rinne disse que esteve em contato com a Comissão Europeia na noite ontem (22/08) e espera que a UE tome medidas no dia de hoje

– Enquanto ocupar a Presidência da UE, a Finlândia envidará todos os esforços para combater as alterações climáticas e acompanhará a situação com especial cuidado.

O Brasil precisa fazer o máximo para pôr fim aos incêndios que são perigosos para a civilização como um todo, acrescenta Rinne.

Ele disse estar preocupado com a atual atitude do Brasil em relação às suas próprias florestas.

O presidente francês Emmanuel Macron , por exemplo, também expressou preocupação.

A ministra das Finanças, Mika Lintilä (Centro), propõe que a UE e a Finlândia examinem com urgência a possibilidade de proibir a importação de carne bovina brasileira.

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Políticos escrevem comentários fortes no Twitter

Por exemplo, a Ministra do Interior Maria Ohisalo (Green) escreveu no Twitter que a ambição da Finlândia na política climática também deve se estender à política externa.

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A Ministra da Educação Li Andersson (à esquerda) está em sintonia com Ohisalo.

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Petteri Orpo , líder da coalizão de oposição, também comentou no Twitter. Orpo exigiu que a UE condene “atos do Brasil”.

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Muitos outros políticos, por exemplo, pediram ações de política comercial para resolver a situação.

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Este artigo foi inicialmente publicado em finlandês pela rede estatal de TV da Finlândia Yle [Aqui!] .

 

A Amazônia em chamas nas lentes de Araquém Alcântara

O catarinense Araquém Alcântaraque é um dos principais fotógrafos, da atualidade acaba de divulgar em sua página oficial da rede social Facebook uma série de imagens de sua recente visita ao círculo de fogo em que as políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro estão transformando a Amazônia brasileira.

Estou tomando a liberdade de postar essa série de fotografias que mostram com riqueza de detalhes a destruição que está em curso neste momento na porção brasileira da bacia Amazônica. Disseminar essas imagens é uma das formas de desvelar o profundo crime ambiental que está sendo cometido contra os povos e a biodiversidade da Amazônia.

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Incêndios na Califórnia como vitrinas das mudanças climáticas

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O estado da Califórnia está sendo devorado neste momento por pelo menos três grandes incêndios, e pelo menos 22 milhões de pessoas estão sob alerta apenas na região sul do estado, que compreende a cidade de Los Angeles e sua região metropolitana.

O que está acontecendo é atribuído a uma combinação de uma seca prolongada que acelera os efeitos de ressecamento do material caído dentro de suas florestas e a intrusão de áreas urbanas para o interior de regiões onde elas são mais abundantes.

Um aspecto menos divulgado é que a atuação de fenômenos climáticos regionais tem servido como uma espécie de alimentador dos incêndios, na medida em que prevalecem ventos de até 80 km que funcionam como grandes ventiladores que terminam aumentando a capacidade de propagação e a intensidade das chamas [1]. 

Colocados juntos todos esses fatores demonstram a força das modificações que estão ocorrendo no clima da Terra, condição para a qual a maioria dos países ainda não está nem próxima do nível de preparação que a situação já está demandando para que se evitem grandes catástrofes como a que está ocorrendo na Califórnia, com pesadas perdas materiais e humanas.

Mas se a Califórnia parece distante demais para que se tenha a noção do tamanho da encrenca, imaginemos então o que acontecerá no comportamento climático do centro sul do Brasil se o ritmo de perda das florestas na Amazônia continuar no viés de alto com propensão a aumentar. É que a comunidade científica brasileira já produziu conhecimento suficiente para que saibamos que poderemos enfrentar um processo de ressecamento que colocará em risco o fornecimento de água nas principais regiões metropolitanas brasileiras [2]. O problema é que até agora predomina a postura de ignorar o óbvio.

Para piorar ainda teremos um governo comandando por pessoas que não apenas ignoram as evidências científicas, mas como também estão dispostas a adotar uma postura negacionista do que já está estabelecido de forma robusta pela ciência do clima. O resultado para o Brasil poderá ser, no mínimo, desastroso. Aliás, para quem se interessa pelo tema do negacionismo que ampara as refutações pseudo científicas sobre as mudanças climáticas em curso na Terra, sugiro a leitura do artigo intitulado “Learning from mistakes in climate research” de Benestad et colaboradores [3].

 


[1] https://www.theguardian.com/us-news/2018/nov/12/california-fires-latest-what-is-happening-climate-change-trump-response-explained

[2] https://jornal.usp.br/atualidades/cientistas-alertam-que-o-planeta-ainda-esta-longe-de-resolver-o-problema-do-aquecimento-global/

[3] https://link.springer.com/article/10.1007/s00704-015-1597-5

 

Depois de ter sua casa queimada em incêndio florestal, Neil Young critica Donald Trump por desafiar a ciência

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Má gestão das florestas não é a causa dos incêndios. Neil Young. Foto: Dan Steinberg / Rex/ Shutterstock

Por Laura Snapes [1]

Neil Young criticou Donald Trump por sua relutância em agir sobre as mudanças climáticas depois que incêndios na Califórnia destruíram a sua casa.

Em um tweet postado em 10 de novembro, o presidente dos Estados Unidos culpou a “má gestão das florestas” da Califórnia pelos danos causados pelos incêndios no norte e no sul da Califórnia. Trump sugeriu que o financiamento federal seria retirado se a situação não fosse corrigida.

Em um post em seu site, Young respondeu: “A Califórnia é vulnerável – não por causa do manejo florestal deficiente como a DT (nosso chamado presidente) nos faria pensar. Somos vulneráveis por causa das mudanças climáticas; os eventos climáticos extremos e nossa prolongada seca são parte disso. ”

No domingo, o chefe dos bombeiros de Los Angeles, Daryl Osby, disse ao “The Guardian” que as mudanças climáticas eram inegavelmente uma parte do motivo pelo qual os incêndios foram mais devastadores e destrutivos do que nos anos anteriores. Osby disse que as mudanças ambientais aumentaram a temporada de incêndios em todo a Califórnia, sobrecarregando os recursos. 

Trinta e uma pessoas morreram nos incêndios com mais de 200 pessoas desaparecidas, segundo os números mais recentes. A emergência agora equivale ao desastre de 1933 do Griffith Park, em Los Angeles, como o incêndio florestal mais letal da Califórnia já registrado. Young continuou: “Imagine um líder que desafia a ciência, dizendo que essas soluções não devem fazer parte de sua tomada de decisão em nosso nome. Imagine um líder que se importe mais com sua opção conveniente do que com as pessoas que lidera. Imagine um líder inadequado. Agora imagine um que seja adequado

Young está entre vários músicos conhecidos por terem sido afetados pelos incêndios florestais. O pianista de longa data de David Bowie, Mike Garson, twittou no sábado sobre a perda de sua casa e estúdio. Lady Gaga twittou que ela havia sido evacuada de sua residência. “Estou sentada aqui com muitos de vocês se perguntando se minha casa vai explodir em chamas.” 

Katy Perry e Rod Stewart também criticaram Trump por seus tweets. “Esta é uma resposta absolutamente sem coração”, twittou Perry. Stewart disse: “A Califórnia precisa de palavras de apoio e encorajamento, não ameaças ou acusações e acusações”.

Artigo publicado originalmente em inglês pelo jornal The Guardian [1]