Dos brioches aos restos de comida, Paulo Guedes incorpora Maria Antonieta

aroeira antonieta

Uma das frases mais famosas da História, mas que jamais teriam sido ditas, é aquela em que a imperatriz responde aos franceses que pediam pão que eles deveriam comer brioches. A frase que não teria sido dita é sempre apresentada como um exemplo de como a insensibilidade dos poderosos resulta em levantes populares.  Quase 200 anos depois da frase emergir, eis que no Brasil o dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes, resolveu incorporar a imperatriz francesa que terminou decapitada, e resolveu dizer que uma das saídas para matar a fome de milhões de brasileiros pobres seria aproveitar os restos de comida que sobram nos pratos da classe média (ver vídeo abaixo);

Paulo Guedes parte do princípio do esquecimento da situação real que a maioria dos brasileiros atravessa neste momento com a combinação dos efeitos devastadores da pandemia da COVID-19 com o avanço da inflação que apresenta valores recordes, sem que haja qualquer medida de reação efetiva por parte do governo Bolsonaro para reverter ambas as situações.

Mas Paulo Guedes aposta na nossa ignorância coletiva ao afirmar que os pratos dos europeus tem menos comida do que a dos brasileiros porque eles são mais educados do que nós.  A primeira coisa é que essa é uma mentira porque os europeus se alimentam muito bem, não tendo hoje em suas populações a mesma proporção de famélicos que o Brasil possui.  Outra coisa é que já é conhecimento corrente que boa parte da destruição ambiental que ocorre hoje no Brasil, e no sul global como um todo, se deve ao atendimento de demandas alimentares dos europeus. 

Não chega a ser nenhuma surpresa que Paulo Guedes tenha o tido de raciocínio elitista e eurocentrista que verbalizou em vídeo, mas que ele não esteja firmemente repudiado por movimentos sociais e partidos que se dizem de esquerda.  É que este comportamento além de não ser novo por parte de Paulo Guedes ocorre em um momento especialmente agudo da pandemia. Ao se deixar passar batido este tipo de fala, o que se faz é que as políticas que decorrem da postura que ela expressa. Com isso, a boiada vai passando com toda tranquilidade. 

Vídeo “agradece” Paulo Guedes de forma bem humorada

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Recentemente o ministro Paulo Guedes, comentou em uma live que as pessoas que o encontravam em supermercados aproveitavam a ocasião para agradecer para a sua gestão à frente do Ministério da Economia. Aproveitando a deixa, um grupo de “entusiastas pauloguedianos” resolveu lançar o vídeo abaixo para agradecer publicamente a situação dos preços nos supermercados brasileiros.

Espiral inflacionária de Bolsonaro e Guedes prejudica os mais pobres

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A inflação dos alimentos, que recai sobre os mais pobres, está explodindo no Brasil em 2020. De janeiro a dezembro, óleos e gorduras subiram 55,22%; cereais, 54,84%; legumes, 51,28%. Óleo de soja saltou 94,1%; tomates, 76,5%. Inflação dos alimentos já está em 15,7% desde o início do ano. Os números, com base no  IPCA do IBGE foram consolidados pelo NAPP Agrícola, da Fundação Perseu Abramo.

Os números são expressivos: óleo de soja, 94,1%; tomates, 76,5%; arroz, 69,5%; feijão fradinho, 60%; batata 55.9%. Por grupos alimentares, a inflação está acima de 50% em três deles: óleos e gorduras; cereais, leguminosas e oleaginosas; e tubérculos, raízes e legumes. Seguem-se os grupos de hortaliças e verduras (17,68%), frutas (17,49%), leites e derivados (15,62%) e carnes (13,9%).

Veja o quadro elaborado pelo NAPP Agrícola, da Fundação Perseu Abramo.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Brasil 247 [Aqui!].

Efeito Guedes/Bolsonaro: custo de vida dispara e Brasil vive período de inflação alta

O custo de vida disparou no Brasil sob o governo Bolsonaro. Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostra o país sob risco aumento da inflação

inflação

 Pesquisa do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) divulgada nesta segunda-feira (7), mostra que dispara o custo de vida no país, com reflexos negativos para o poder aquisitivo da população. Os preços de insumos que servem de base para a cadeia produtiva brasileira registram a maior alta desde o início do Plano Real. A pressão desse aumento é tal que está espalhando a inflação, antes concentrada no produtor, por vários setores da economia, chegando ao consumidor de forma cada vez mais intensa.

O levantamento indica que o preço das matérias-primas brutas, como soja, milho, carnes e minério de ferro, acumula alta de 68% nos 12 meses encerrados em outubro, aumento inédito desde o fim do período de hiperinflação, informa o jornalista Eduardo Cucolo na Folha de S.Paulo.

Esses aumentos tendem a chegar ao consumidor final, o que já se reflete reajustes elevados nos preços de muitos alimentos e bens industriais, como eletrodomésticos e eletrônicos.

Ao contrário de todo o debate feita pela mídia corporativa para pautar as eleições presidenciais de 2022 entre um suposto centro com a extrema-direita representada por Jair Bolsonaro, a situação no Brasil deverá levar a embates que não esperarão pelo calendário para serem resolvidos. É nessa perspectiva que a chamada esquerda institucional deveria se orientar para retomar o controle da narrativa que se encontra totalmente sob o controle daqueles que podem até tirar Jair Bolsonaro, mas vão querer manter as suas políticas desastrosas, a começar pela econômica.

No país da carne, aos mais pobres restará comer coração (e olhe lá!)

CORAÇÃO DE BOI ACEBOLADO E BEM MACIO! - YouTubeA mensagem do governo Bolsonaro aos mais pobres pode ser traduzido como “se não tem picanha que comam coração”

A imagem abaixo mostra uma tabela com os preços praticados para diversos cortes de carne bovina em um supermercado típico do Brasil, e a realidade que emerge desses números é que, apesar de sermos os maiores exportadores de carne bovina desde 2004 e temos o maior rebanho comercial, a maioria dos brasileiros está fadada a comer coração, já que os demais cortes (incluindo os de miúdos como fígado e língua) se tornaram inatingíveis para eles.

tabela de carne

Uma das razões para os preços estratosféricos para o preço da carne bovina (que deverá arrastar junto o de outras carnes como porco e galinha) resulta da inexistência de qualquer medida de estabelecimento de um estoque doméstico que impedisse justamente a ocorrência desse caráter explosivo dos preços.

Ao mesmo tempo, há que se notar que boa parte da produção nacional está sendo destinada para a China cujo governo está tendo uma ação modelar no controle da pandemia da COVID-19, o que habilitou o gigante da economia global a retomar rapidamente os níveis de produção e consumo. Tudo isso representa o caminho contrário do que foi adotado pelo governo ultraneoliberal comandado pela dupla formada por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

Há que se salientar que a elevação da inflação em itens consumidos mais diretamente pelos segmentos mais pobres da população já vinha ocorrendo com outros itens, resultando no fato de que o aumento de preços para as famílias brasileiras mais pobres  tivesse sido mais de 10 vezes maior que a alta sentida pelas pessoas mais ricas de janeiro até setembro de 2020.  E é justamente esta parcela da população que está sendo mais fortemente afetada pelo agravamento do desemprego que já era alto antes, mas que aumentou ainda mais após a erupção da pandemia da COVID-19.

A situação que se abre no Brasil com essa combinação de alta inflacionária para os mais pobres e aumento do desemprego é geradora de uma situação potencialmente explosiva.  Essa situação deverá ser agravada ainda mais pela insistência do governo Bolsonaro em aprofundar sua agenda ultraneoliberal com a promoção de privatizações e ataques aos direitos sociais e trabalhistas. 

Ao seu modo, Jair Bolsonaro parece estar adaptando o famoso trágico bordão atribuído (erroneamente dizem os historiadores) à imperatriz francesa Maria Antonieta que teria dito- pouco antes da Revolução Francesa- que “se não tem pão que comam brioches”- para “se não tem picanha que comam coração”.  O resultado acontecido com Maria Antonieta a história já nos conta. Resta saber o que acontecerá com Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

E antes que eu me esqueça, ofereço uma reminiscência familiar. Sendo filho de um agricultor transformado em metalurgico, passei boa parte da minha infância e juventude tendo uma dieta que era turbinada com partes menos nobres do boi, incluindo fígado, rins e bucho. Ainda bem que minha mãe era uma mestra em transformar esses miúdos em deliciosas iguarias. O meu ponto aqui é que passadas seis décadas, com o Brasil tendo um plantel gigantesco de animais que são criados às custas de muita destruição ambiental, não há de nada de romântico ao que está sendo imposto aos pobres por um governo que não possui qualquer preocupação com o que está sendo colocado (na maioria das vezes isso é nada) de uma parcela significativa dos brasileiros.