A previsão sombria de Philip Fearnside para a Amazônia em 2020

PHILIP FEARNSIDEEm entrevista à revista Science, o pesquisador do Inpa, Philip Fearnside, fez previsões sombrias para a Amazônia em 2020. 

O pesquisador de origem estadunidense Philip Fearnside trabalha no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) desde 1978 e ao longo de mais de quatro décadas de pesquisa contribuiu para um amplo e compreensivo entendimento das causas das mudanças do uso da terra e da cobertura vegetal nos biomas amazônicos. Dentre de sua formidável carreira acadêmica, Fearnside publicou quase 400 artigos científicos que demonstram seu conhecimento capilarizado sobre os processos e atores que estão transformando a maior floresta tropical no mundo numa mistura de pastagens, monoculturas para exportação e terras abandonadas por incapacidade de sustentarem sequer gramíneas.

Em uma entrevista realizada pelo jornalista Herton Escobar publicada no dia 22 de Novembro pela revista Science, do alto de sua posição de grande autoridade científica, Philip Fearnside nos informa que o ano de 2020 será um ano ainda pior para os biomas amazônicos, pois ele estima que os níveis de desmatamento se sobressairão aos desastrosos números acumulados para o primeiro ano de vigência do desmanche ambiental prometida em campanha eleitoral e realizado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Segundo Fearnside, as perspectivas para 2020 são sombrios já que os dados do PRODES para o próximo ano incluirão o desmatamento ocorrido desde agosto, que agora totaliza pelo menos 3929 km2, com base no sistema de monitoramento DETER.  Fearnside relacionou esse padrão de avanço do desmatamento ao fato de “que nada mudou no discurso da administração presidencial e o desmantelamento das instituições ambientais do país continua“. Além disso, Fearnside afirmou que as “várias estradas, barragens e outros projetos planejados na Amazônia levarão a mais desmatamentos“.

As previsões de Fearnside talvez tivessem ainda mais sombrio se, no momento da entrevista, ele soubesse do plano mirabolante do presidente Jair Bolsonaro de autorizar a exportação de toras madeiras retiradas da Amazônia. Essa predisposição de Bolsonaro é particularmente alarmante porque facilitará a comercialização de madeira extraída ilegalmente, especialmente em áreas de proteção ambiental e reservas indígenas.  Um detalhe nessa questão é que poucos países do mundo irão aceitar esse tipo de commodity dadas as fortes regulações existentes. O problema é que determinados países, um bom exemplo é a China se tornem grandes consumidores de madeira amazônica  “in natura“, pois possuem demanda aquecida em meio a padrões ambientais mais frouxos.

madeira ilegalMadeira apreendida pela Força-Tarefa Amazônia em operação feita em Ajuricaba (AM) Imagem: Divulgação 

Outro aspecto que Fearnside não teve oportunidade de apreciar é o fato de que a expansão privilegiada da fronteira do desmatamento são aquelas áreas onde processos de degradação como extração ilegal de madeira e incêndios florestais já “prepararam” grandes áreas para formas rápidas e mais baratas do corte raso da vegetação. E como a quantidade de áreas degradadas estão avançando tão rapidamente quanto as desmatadas, essa combinação poderá trazer números ainda mais expressivos de perda da floresta nativa na Amazônia.

O interessante é que o alarme soado por Fearnside está caindo em ouvidos mocos na mídia corporativa nacional.  Essa disposição de ignorar o alarme possivelmente se explica pelo alinhamento dos proprietários dos grandes veículos da mídia ao projeto de recolonização que o governo Bolsonaro está tentando impor ao Brasil.  Assim, ainda que existam notáveis exceções, a posição em relação ao desastre que está se desenvolvendo na Amazônia é de uma postura cúmplice de ignorar alarmes e manter a desinformação que está permitindo ao governo Bolsonaro desmantelar rapidamente os comandos de comando e controle que existiam até janeiro de 2019 e sepultar, sem direito a velório, as estruturas de governança ambiental estruturadas a partir da Conferência de Estocolmo de 1972.