O massacre palestino escancara o limite das políticas identitárias. E agora, Jean Wyllys?

Há alguns anos atrás escrevi na revista “Somos Assim” um artigo onde criticava as identidades múltiplas que nasceram na esteira do chamado pós-Modernismo por entender que a adoção das mesmas implicava numa fragmentação da luta contra os efeitos perversos do funcionamento do Capitalismo na solidariedade que deve existir entre os que não são detentores do capital. Para simplificar, a minha posição é de que apesar de existirem várias dimensões decorrentes do funcionamento do Capitalismo no coditiano dos seres humanos, a classe ainda é a melhor forma de entender a opressão imposta aos trabalhadores, independente de gênero, etnia, preferência sexual ou religião. 

Essa minha reflexão de alguns anos atrás me parece ainda mais coerente quando assistimos ao massacre que está sendo promovido por Israel contra o povo palestino sob os olhos cúmplices das potências capitalistas e sob o silêncio generoso até de parte dos que se dizem de esquerda. 

Quem acompanha minimamente, por exemplo, os embates que ocorrem dentro do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) deve lembrar da acirrada troca de farpas entre o deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ) e o ex-deputado Milton Temer por causa da viagem do parlamentar fluminense a Israel em janeiro de 2016 onde foi, segundo ele mesmo, “ministrar uma palestra na Universidade Hebraica de Jerusalém para debater  antissemitismo, racismo, homofobia e outras formas de ódio e preconceito e suas relações com a política contemporânea” [1].

jean willys

Quando criticado pela visita, Jean Wyllys e seus apoiadores utilizaram a escusa de que Israel respeita os direitos dos LGBTs, o que torna o país uma espécie de ilha democrática numa região onde tais direitos são negados pela maioria dos países.  Essa escusa obviamente foi objetada por ativistas pró-palestinos, sendo Milton Temer o que o fez de forma mais pública, que consideraram que ao se apoiar objetivamente o estado de Israel a partir do viés da identidade LGTB, Jean Willys estava se omitindo em relação ao tratamento dispensado por Israel ao povo palestino.

Os embates que ocorreram entre Jean Wyllys e Milton Temer e entre apoiadores dos dois foram uma verdadeira briga dentro de um lamaçal, sendo que ao veterano dirigente do PSOL sobraram as costumeiras acusações de anti-semitismo, o que é uma marca da reação contra aqueles que continuam apoiando a resistência nacional palestina contra um inimigo muito melhor armado e que não hesita em utilizar formas extremas de violência contra civis desarmados como o que está ocorrendo neste momento na cidade de Gaza.

Tive a curiosidade de visitar as páginas oficiais do deputado federal Jean Wyllys para ver se havia ali alguma menção ao assassinato de mais de 100 palestinos pelas forças armadas de Israel apenas nas últimas duas semanas, e a resposta foi não. O deputado parece estar neste momento mais preocupado com a sua reeleição do que qualquer outro assunto. Até aí nada demais, pois a imensa maioria dos ocupantes de cargos eletivos deve estar fazendo isso neste momento. 

Como Jean Wyllys optou por se expor ao ir a Israel, e ainda reagir de forma furiosa quando questionado sobre isso, ele não é qualquer um neste momento em que a mão pesada de Israel recai sobre idosos, crianças e até amputados que vivem numa condição de circunscritos num campo de concentração a céu aberto em Gaza.

O interessante é que ao  ao optar por ignorar o que está ocorrendo neste momento em Gaza, Jean Willys ajuda a demonstrar os limites objetivos que as lutas de natureza identitária possuem quando são usadas para ocultar outros conflitos mais agudos como é o caso do conflito israelense-palestino.

 E fica a minha curiosidade: o que teria Jean Wyllys a dizer sobre os acontecimentos em Gaza? É que a posição  pró-palestinos de Milton Temer continua sendo a mesma, tanto que ele está sendo processado por expressá-las sob o surrado argumento de que isso expressa anti-semitismo.


[1] https://www.huffpostbrasil.com/2016/01/08/chuva-de-criticas-a-jean-wyllys-por-viagem-a-israel-expoe-cenari_a_21692150/

Contra a solidariedade que precisamos, Jean Wyllys e a “esquerda” sionista

GazaAtacada
Por Soraya Misleh
 
“Quando cidadãos em uma posição privilegiada formulam e desenham uma solução e a impõem a um povo colonizado e sob ocupação como a única solução viável e o ‘único passo construtivo restante’, isso não é solidariedade, mas sim outra forma de ocupação.” A afirmação é da palestina Budour Youssef Hassan em seu artigo intitulado “A falsa solidariedade da esquerda sionista”. O brilhante texto refere-se à realização de uma marcha em Jerusalém em 15 de julho de 2011 cujos slogans eram “luta compartilhada” e “solidariedade” contra a ocupação dos territórios palestinos – obviamente nenhuma menção ao direito legítimo de retorno dos milhares de refugiados às terras de onde vem sendo expulsos há mais de 67 anos ou sobre o racismo inclusive contra os palestinos que vivem onde hoje é Israel (criado em 1948, mediante limpeza étnica, a nakba – catástrofe palestina). 

 Para Budour Hassan, “uma marcha palestino-sionista não oferece uma oportunidade para se estabelecer um diálogo produtivo, mas dá aos sionistas uma chance de marginalizar vozes palestinas sobre como devem resistir e o que devem aceitar”. Ela acrescenta: “Assim, essas manifestações que ostensivamente exigem igualdade, na realidade, visam manter o privilégio dos israelenses.” Por conseguinte, condenam, enfatiza Budour Hassan, “os cidadãos palestinos em Israel à inferioridade perpétua e discriminação”. A ativista conclui: “A solidariedade não é medida por números; não é sobre quantas pessoas vieram a uma manifestação pró-Palestina. Trata-se de porque essas pessoas vieram. Lutar ao lado de cinquenta israelenses realmente comprometidos com a causa palestina é, portanto, muito mais importante e valioso do que marchar na sombra de milhares de israelenses que pensam que a Palestina é apenas a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.”

Convocada por sionistas “de esquerda”, a marcha contou com algumas poucas presenças palestinas – a maioria declarara, como aponta o artigo em questão, que via em sua participação a oportunidade de obter a tão negada visibilidade na tradicional imprensa internacional. Ou seja, mesmo conscientes de que havia diferenças fundamentais e vale acrescentar – irreconciliáveis –, decidiram aproveitar uma suposta oportunidade de se fazer ver e ouvir. A despeito da atitude compreensível diante do regime de apartheid imposto cotidianamente por Israel aos palestinos, certamente um equívoco, como identifica a ativista palestina: “Essas manifestações são dominadas por sionistas liberais, e as vozes palestinas, as quais supostamente querem se fazer ouvir, são inaudíveis em meio a um coro de cânticos em língua hebraica sobre a paz e coexistência.
 
Mesmo os slogans e os cartazes que foram levantados durante as manifestações foram decididos de antemão pelos organizadores israelenses, transformando os protestos em uma rotina entediante, dolorosamente previsível e elitista.” Em outra parte do artigo, ela revela o grande risco de que esses grupos sequestrem o crescente movimento popular de resistência sob o manto da solidariedade e da coexistência. E vai além: “A solidariedade não é nem um ato de caridade, nem um festival de discursos arrogantes e retórica vazia. É uma obrigação moral que deve ser realizada com todo o empenho, firme e incondicional. (…) As tentativas de explorar o sofrimento palestino para fins políticos e de transformar a causa palestina a partir de uma luta pelos direitos humanos, justiça, liberdade e igualdade em um desfile de independência e clichês falsos devem ser combatidas.”
 
A essa “solidariedade” é que tem feito coro o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), desde o início de sua viagem para participar de conferência na Universidade Hebraica de Jerusalém. Sua atitude lembra a de movimentos que seguem a lógica do que vem sendo chamado de feminismo colonial, fundamentado na falsa dicotomia Oriente-Ocidente para ditar regras de comportamentos às árabes e às muçulmanas e, portanto, em ideias que mantêm o colonialismo e servem ao imperialismo. Entre essas, as de que as ditas “ocidentais” seriam a civilização a ser levada àqueles povos atrasados. É esse pensamento que demonstra Jean Wyllys quando afirma que não poderia ir a algumas cidades palestinas ou a países árabes vizinhos porque, como homossexual, seria morto. Um discurso que destila o preconceito que ele diz combater e revela o desconhecimento que se nega a ter humildade em reconhecer.
 
“Pombas da paz”
Quando o deputado reproduz a ideia de um diálogo possível, em contraposição à campanha central de solidariedade ao povo palestino – um chamado amplo dessa sociedade feito em 2005 ao mundo –, ignora a realidade no terreno e a história. Com a autoridade de quem luta por justas causas democráticas, presta um desserviço à causa palestina. Confunde a fundamental solidariedade internacional, ao falar em “esquerda” sionista como possível interlocutora e trazer questionamentos à eficácia da campanha BDS.
 
Em primeiro lugar, é preciso entender de que interlocutor possível e esquerda Jean Wyllys fala. “Na gíria israelense local e no discurso político utilizado pelos meios de comunicação e pela comunidade acadêmica, o ‘campo da paz’ em Israel é a ‘esquerda’. Noutras partes do mundo, tal significaria necessariamente uma plataforma social-democrática ou socialista, ou pelo menos uma preocupação acentuada com os grupos social e economicamente desfavorecidos numa dada sociedade. O campo da paz em Israel tem se concentrado inteiramente nas manobras diplomáticas desde a guerra de 1973, um jogo que tem pouca relevância para um número crescente de grupos”, ensina o historiador israelense Ilan Pappe em “História da Palestina moderna”.
 
Em resenha sobre a publicação “Falsos profetas da paz”, de Tikva Honig-Parnass, o Ijan (Rede Internacional de Judeus Antissionistas) demonstra que historicamente a “esquerda” sionista esteve tão alinhada com o projeto de colonização da Palestina quanto a direita. “Como esse livro mostra, desde antes da fundação do Estado de Israel, a esquerda sionista falou demasiadas vezes a língua do universalismo, enquanto ajudava a criar e manter sistemas jurídicos, governos e o aparato militar que permitiram a colonização de terras palestinas.”
 
A raiz dessa esquerda está no chamado “sionismo trabalhista”, constituído ao início da colonização, em fins do século XIX e início do XX. Seus membros reivindicavam a aspiração de princípios socialistas e cultivaram, como informa o texto divulgado no site do Ijan, deliberadamente essa falsa ideia. Os diários dos trabalhistas à época demonstram seu intuito não declarado: assegurar a “transferência” dos habitantes nativos (árabes não judeus em sua maioria) para fora de suas terras e a imigração de judeus vindos da Europa para colonizar a Palestina – um eufemismo para limpeza étnica. “Em um de seus momentos mais francos, David Ben Gurion, principal liderança desse grupo e chefe do movimento operário sionista (que se tornaria primeiro-ministro de Israel em 1948), confessou em 1922 que ‘a única grande preocupação que domina nosso pensamento e atividade é a conquista da terra, através da imigração em massa (aliá). Todo o resto é apenas uma fraseologia’.” O artigo cita ainda outra observação de Honig-Parnass: “No 20º Congresso Sionista, em 1937, Ben Gurion defendeu a limpeza étnica da Palestina (…) para abrir caminho à criação de um estado judeu.”
 
Independentemente de se autodenominar de “esquerda”, de “centro” ou de “direita”, o sionismo visava a conquista da terra e do trabalho, que seria exclusivo a judeus. Para tanto, a central sindical israelense Histadrut – ainda existente e alicerce do estado colonial, proprietária de empresas que exploram palestinos – teve papel central, e seu fortalecimento é defendido por sionistas de “esquerda”. Em outras palavras, a diferença entre os trabalhistas e os revisionistas (como Netanyahu) é que os últimos eram – e continuam a ser – mais francos.
 
O único partido hoje que se autodenomina sionista de esquerda é o Meretz, criado nos anos 1990. Como ensina Ilan Pappe em “A história moderna da Palestina”, o novo grupo de “pombas pragmáticas” surgiu da fusão do “movimento de direitos civis de Shulamit Aloni, um partido liberal da linha dura chamado Shinui (‘mudança’) e o partido socialista Mapam”. O autor acrescenta: “Pragmatismo nesse caso significava uma veneração tipicamente israelita de segurança e dissuasão, não um juízo de valor sobre a paz como conceito preferido, nem simpatia pelo problema do outro lado no conflito, nem reconhecimento do seu próprio papel na criação do problema.”
 
A “esquerda” sionista apoiou a invasão de Israel ao Líbano em 2006 e ofensivas subsequentes em Gaza, à exceção da operação terrestre em 2014. Sua alegação é que não abrem mão do direito de “defesa” de Israel. É o que conta Honig-Parnass em artigo publicado no The Palestine Chronicle. Durante o massacre em Gaza há 1,5 ano, informa a autora, o Meretz recusou-se a participar de manifestação conjunta com árabes-palestinos contra a ofensiva e pelo fim do cerco a Gaza, porque questionava esse “direito”. Em seu artigo, Honig-Parnass cita declaração de uma liderança do Meretz, Haim Orom, a respeito: “Nossa posição é essencialmente diferente do denominador comum daqueles grupos que organizaram a manifestação: Meretz apoia a operação em Gaza. Esses grupos não aceitam o direito básico de autodefesa do Estado de Israel, o que nos apoiamos. A massiva maioria do partido votou pela operação e por uma resolução em oposição ao ato terrestre.”
 
Arvorando-se a favor da paz, a “esquerda” sionista tenta apagar ou justificar a nakba. Racionaliza a afirmação da natureza democrática de um estado judeu e defende a lógica de “separados, mas iguais”. Essa “solução”, de dois estados, tornou-se inviável diante da expansão contínua da colonização, cuja face mais agressiva são os assentamentos – os quais não só não cessaram durante os sucessivos governos trabalhistas (no poder inclusive em 1967, quando Israel ocupou o restante da Palestina), como foram impulsionados por eles. Parte da esquerda mundial defende essa solução, mas um número crescente tem percebido sua impossibilidade e reconhecido que é preciso lutar por um estado único, laico e democrático, com direitos iguais a todos que queiram viver em paz com os palestinos.
 
Hoje, pensar nessa proposta seria semelhante a legitimar o regime institucionalizado de apartheid, com um estado dividido em bantustões, sem qualquer autonomia, em menos de 20% do território histórico da Palestina. Se essa “solução” hoje está enterrada, como reconhecem especialistas no tema, desde sempre é injusta, por não contemplar a totalidade do povo palestino, mas somente os que residem na Cisjordânia e Gaza – a maioria não vive ali, mas fora de suas terras, e há ainda 1,5 milhão no que é hoje Israel, considerados cidadãos de segunda classe.
Negociações e Oslo
Defendidas e impulsionadas pela “esquerda” sionista, as inúmeras negociações fracassaram não à toa: em nenhuma, a pretensão era pôr fim à colonização de terras e assegurar justiça aos palestinos. Como escreve Waldo Mermelstein em seu artigo intitulado “Turnê de Jean Wyllys por Israel foi um desastre para a causa palestina”, a oferta generosa denominada Iniciativa de Genebra, de 2005, era de pouco mais do que “as já reduzidas propostas de Clinton e Ehud Barak em 2001. Retorno simbólico de poucos milhares de refugiados, manutenção das colônias com a permuta de territórios entre essas e as regiões em que os palestinos são majoritários nas fronteiras de 1948.”
 
Os acordos de Oslo firmados em 1993, mediante a rendição da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) a Israel, aprofundaram o apartheid e a ocupação. Segundo a jornalista Naomi Klein denuncia em seu livro “A doutrina do choque – a ascensão do capitalismo de desastre”, entre aquele ano e 2000, o número de colonos israelenses dobrou.
 
Como demonstra ela, Oslo foi um ponto de virada numa política que sempre teve na sua base a limpeza étnica dos palestinos. De 1948 até então, havia certa interdependência econômica, a qual foi interrompida. “Todos os dias, cerca de 150 mil palestinos deixavam suas casas em Gaza e na Cisjordânia para limpar as ruas e construir as estradas em Israel, ao mesmo tempo em que agricultores e comerciantes enchiam caminhões com produtos para vender em Israel e em outras partes do território”, aponta Klein na obra. Após os acordos de 1993, o estado judeu se fechou a essa mão de obra, que desafiava o projeto sionista de exclusão dessa população. Simultaneamente, Israel passou a se apresentar, nas palavras da jornalista, “como uma espécie de shopping center de tecnologias de segurança nacional”. Em seu livro, a autora afirma que, ao final de 2006, ano da invasão de Israel ao Líbano, a economia do estado sionista, baseada fortemente na exportação militar, expandiu-se vertiginosamente (8%), ao mesmo tempo em que se acentuou a desigualdade dentro da própria sociedade israelense e as taxas de pobreza nos territórios palestinos alcançaram índices alarmantes (70%).
 
Apartheid e a justeza do BDS
 
Diante de uma economia a solidificar o regime de apartheid, o contraponto veio sob a forma do chamado da sociedade civil palestina por BDS em 2005. Suas demandas são: o fim imediato da ocupação militar e colonização de terras árabes e a derrubada do muro de segregação, que vem sendo construído na Cisjordânia desde 2002 e divide terras, famílias e impede a livre circulação; a garantia de igualdade de direitos civis a todos os habitantes do território histórico da Palestina, independentemente de religião ou etnia; e o respeito ao direito de retorno dos refugiados palestinos às suas terras e propriedades.
 
Em diversas partes do globo a campanha de BDS tem se intensificado. Na Europa, governos como o da Noruega desinvestiram em contratos com empresas israelenses. Cidadãos comuns recusam-se a comprar produtos oriundos da potência ocupante, sindicatos e intelectuais têm se engajado nessa luta, bem como universidades têm cancelado convênios de cooperação com instituições que mantém e legitimam o regime de segregação. Netanyahu estimou a perda de bilhões de dólares com o BDS – e o Parlamento israelense aprovou uma lei que proíbe os residentes em Israel de endossá-lo e criminaliza o boicote. A eficácia da campanha tem levado sionistas a desqualificarem-na e considerá-la uma ameaça. A “esquerda” segue nessa direção. Amplamente utilizados por Jean Wyllys, argumentos como o de que o BDS visaria indivíduos e impediria o possível “diálogo” são uma forma de enfraquecer a principal ação de solidariedade internacional ao povo palestino.
 
O boicote acadêmico e cultural é outra linha de frente nessa luta. Entre seus adeptos estão a própria Naomi Klein e o cantor Roger Waters. Conforme escreve o ativista Omar Barghouti em “BDS – Boycott, divestment, sanctions, the global struggle for palestinian rights”, nesse sentido, o chamado palestino reivindica: cessar qualquer forma de cooperação acadêmica e cultural, colaboração ou projetos com instituições israelenses; suspender todas as formas de fundos e subsídios a essas e ‘desinvestir’ nelas; trabalhar para condenar as políticas de Israel e pressionar pela adoção de resoluções nesse sentido; apoiar instituições acadêmicas e culturais palestinas sem contrapartida em relação ao estado sionista.
 
Como afirmou Indra Habash em artigo de sua autoria sobre o tema, as instituições israelenses têm funcionado “como instrumento facilitador e normalizador da situação de ilegalidade das colônias israelenses, da construção do muro de separação e dos crimes cometidos contra os palestinos”. Além de se dar em uma das universidades que não foge à regra  e ainda tem parte de seu campus construído em território ocupado – como aponta carta da Frente em Defesa do Povo Palestino a Jean Wyllys (leia em http://goo.gl/ER08Uw) –, a conferência e a viagem de Jean Wyllys foram um exemplo dessa “normalização”, a partir do uso de causas democráticas justas para manter o projeto colonial.
 
De encontro a isso, a campanha por BDS a Israel é tarefa urgente e precisa ser elevada ao topo da lista da solidariedade internacional pela Palestina. À frente de seu tempo, diferentemente de Jean Wyllys, o educador Paulo Freire recusou convite para participar de conferência em universidade israelense sobre “diálogo”, por entender que, diante da ocupação, parte dos interlocutores não seria ouvida. A propostas de “diálogo” que ousem a paz dos cemitérios, essa é lição a ser aprendida.
Referências
BARGHOUTI, Omar. BDS – Boycott, divestment, sanctions, the global struggle for palestinian rights. Chicago IL, EUA. Haymarket Books, 2011.
HABASH, Indra, Apud MISLEH, S. Disponível em file:///C:/Users/Soraya/Downloads/Al%20Thawra%20marco%202012.pdf.Acesso em 13/1/2016.
HASSAN, Y. Budour. The sham solidarity of Israel’s Zionist left. Disponível em 
HONIG-PARNASS, Tikva. Zionist Left Support for Bloody Assaults on Gaza Signifies Its Erasure from Israel’s Political Map. Disponível em http://www.palestinechronicle.com/zionist-left-support-for-bloody-assaults-on-gaza-signifies-its-erasure-from-israels-political-map/. Acesso em 13/1/2016.
IJAN – International Jewish Anti-Zionist Network. Debunking the Myth of the Zionist Left. Disponível http://www.ijan.org/uncategorized/jadaliyya-debunking-the-myth-of-the-zionist-left/. Acesso em 13/1/2016.
IJAN & Labor for Palestine (US). Briefing: Labor Zionism and the Histadrut. Disponível em https://bdsmovement.net/files/2011/02/IJAN-LFP-Histadrut-briefing-illustrated.pdf. Acesso em 13/1/2016.
KLEIN, Naomi. A doutrina do choque – A ascensão do capitalismo de desastre. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2008.
MERMELSTEIN, Waldo. Turnê de Jean Wyllys por Israel foi um desastre para a causa palestina. Disponível em http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/42902/turne+de+jean+wyllys+por+israel+foi+um+desastre+para+a+causa+palestina.shtml. Acesso em 13/1/2016.
PAPPE, Ilan. História da Palestina moderna – uma terra, dois povos. Tradução: Ana Saldanha. Lisboa, Portugal. Editorial Caminho, 2004.
FONTE: http://carosamigos.com.br/index.php/artigos-e-debates/5838-contra-a-solidariedade-que-precisamos-jean-wyllys-e-a-esquerda-sionista

O genocídio de Israel contra o povo palestino: uma discussão “honesta e responsável”

por João Telésforo*

GENOCIDIO

O Deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), em entrevista ao programa “Conexão Israel”, afirmou que seria “desonesto e irresponsável” chamar o Estado de Israel de genocida, por seus ataques criminosos contra o povo palestino.

Curiosamente, o partido de Jean foi um dos signatários de carta pública, em julho de 2014 (diante de mais uma série de ataques de Israel), na qual se afirmava que “o tom das ações israelenses tem sido de limpeza étnica, crimes de guerra e genocídio”. Quem terá razão?

O historiador israelense Ilan Pappé, Diretor do Centro Europeu de Estudos Palestinos na Universidade de Exeter (Inglaterra), considera, desde 2006, que o Estado de Israel comete genocídio na Faixa de Gaza, indo além das “clássicas” políticas israelenses de limpeza étnica contra os palestinos (remoção militarizada de um grupo étnico de determinados territórios).

Em novo texto de 2014, Pappé avalia que o genocídio segue em curso no “gueto” palestino de Gaza, de maneira incremental.

Michael Ratner, advogado, Presidente Emérito da renomada organização de direitos humanos Centro para Direitos Constitucionais (CCR), sediada em Nova Iorque, e Presidente do Centro Europeu para Direitos Humanos e Constitucionais, ex-Professor das Universidades de Yale e Columbia, concorda com a definição de Ilan Pappé, sobre “genocídio incremental” contra o povo palestino.

Em entrevista de 2014, refere-se aos “crimes de guerra” de Israel, ao “genocídio, crimes contra a humanidade, e apartheid”, e argumenta, citando Pappé, sobre os elementos jurídicos e fáticos que configuram esses crimes na situação.

Também há posições sólidas que não chegaram a resultados conclusivos sobre a existência de genocídio contra o povo palestino, embora tenham constatado outras gravíssimas violações ao direito internacional dos direitos humanos.

Richard Falk, professor emérito de Direito Internacional da Universidade de Princeton, afirmou, em relatório ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, durante seu mandato (2008-2014) como “relator especial da ONU para os direitos humanos nos territórios palestinos ocupados desde 1967”, que o Estado de Israel promove “colonialismo, apartheid e limpeza étnica” em suas ocupações na Palestina.

No que diz respeito à caracterização jurídica de genocídio, a posição de Falk é mais cautelosa, mas bastante longe de negá-lo como hipótese sem sentido, ou “desonesta e irresponsável”.

Em Setembro de 2014, Falk integrou sessão do Tribunal Russel (da sociedade civil) para analisar, do ponto de vista do Direito Internacional, a operação militar “Margem Protetora”, realizada por Israel na Faixa de Gaza em 2014, ao longo de 50 dias.

O júri, formado por indivíduos proeminentes de todo o mundo, destacados na defesa dos direitos humanos, e assessorado por uma equipe de juristas voluntários, analisou inclusive a acusação de genocídio, que ganhou muita força à época (acusação feita a Israel, inclusive, por 40 sobreviventes do holocausto nazista).

Em seu relato sobre as conclusões do Tribunal, Falk afirma que “o júri teve pouca dificuldade em concluir” sobre “uma série de crimes de guerra agravados pelo cometimento de crimes contra a humanidade, mais centralmente a imposição de um regime multifacetado de punição coletiva contra toda a população civil de Gaza, em violação flagrante e sustentada do Artigo 33 da Quarta Convenção de Genebra”. O júri também rechaçou a alegação de Israel de que a série de ataques teria caráter de “autodefesa”.

Sobre genocídio, adotando critérios jurídicos rigorosos (mais do que para qualificações políticas ou jornalísticas), o Tribunal Russel concluiu, após ouvir uma série de testemunhos (traduzo parte do relato de Falk):

“Houve consenso no júri que as evidências de genocídio eram suficientes para que fosse apropriado e responsável dar cuidadosa consideração à acusação de que o Estado de Israel cometeu o crime de genocídio durante a operação Margem Protetora.

Isso foi em si um reconhecimento de que havia uma atmosfera genocida em Israel na qual altos agentes do governo fizeram declarações apoiando a destruição, eliminação e subjugação dos palestinos de Gaza como um povo, e que essas declarações inflamatórias não foram repudiadas pelo governo Netanyahu nem submetidas à investigação criminal nem a quaisquer procedimentos legais.

Ademais, o bombardeio continuado de Gaza sob circunstâncias nas quais a população não tinha a oportunidade de sair da região ou procurar refúgio na Faixa de Gaza aumentaram a credibilidade à acusação de genocídio. O fato de que a ‘Margem Protetora” tenha sido a terceira operação militar de larga-escala e continuada contra essa população ilegalmente bloqueada, empobrecida e ameaçada também formou parte do contexto mais amplo de genocídio.

Ainda como pano de fundo, e talvez a consideração mais relevante de todas, Israel falhou em esgotar os meios diplomáticos antes de recorrer à força, como requerido pelo direito internacional e a Carta da ONU.

Israel teve a opção de levantar o bloqueio e explorar as opções de um acordo de longo prazo para existência pacífica, proposto pelo Hamas em inúmeras ocasiões nos anos recentes. Essas iniciativas foram desprezadas por Israel sob a alegação de que não negociariam com uma organização terrorista.

Apesar do peso incriminador desses fatores, houve dúvidas legais sobre a configuração do crime de genocídio. Os líderes políticos e militares de Israel nunca endossaram explicitamente a busca de objetivos genocidas, e pretensamente buscaram um cessar-fogo durante a campanha militar.

Não se constatou uma expressão oficial clara da intenção de cometer genocídio, como distinto da intensificação do regime de punição coletiva documentado de forma convincente. A presença de comportamento e linguagem genocidas, mesmo se usada em círculos governamentais, não é por si só suficiente para concluir que a operação Margem Protetora, apesar de sua escala e fúria, tenha chegado ao ponto de genocídio.

O júri concordou, no entanto, que cidadãos de Israel, inclusive agentes do governo, pareciam ser culpados em vários momentos do crime de Incitação ao Genocídio, previsto no Artigo 3(c) da Convenção de Genebra. (…) Em algum momento, o acúmulo de atos genocidas será razoavelmente entendido como suficiente para satisfazer o alto padrão probatório necessário para concluir que Israel cometeu genocídio”.

Ante a “atmosfera genocida”, a “incitação ao genocídio” e o conjunto de violações aos direitos humanos perpetradas por Israel contra o povo palestino, em especial os residentes de Gaza, o Tribunal Russel apelou à ONU e à comunidade internacional que ajam para prevenir qualquer comportamento adicional de Israel que possa configurar-se como genocídio.

Como se vê, há uma discussão jurídica séria sobre se os crimes de Israel chegaram ao ponto de constituir genocídio (sobre crimes contra a humanidade, colonialismo e limpeza étnica, há grau de consenso bem maior de que são praticados por Israel).

Existem diferentes avaliações respeitáveis sobre o assunto. Reduzir a acusação de genocídio contra o povo palestino a “desonesta e irresponsável” é que não tem qualquer consistência, e minimiza a necessidade (apontada pelo Tribunal Russel) de levar a sério que se trata no mínimo de um risco real, ante o qual é necessária a mobilização de toda a comunidade internacional.

A desqualificação da acusação de genocídio a Israel não condiz com a trajetória e a estatura política e intelectual de Jean Wyllys, parlamentar de enorme importância em múltiplas frentes de defesa dos direitos humanos.

Se iniciei este texto fazendo referência a ele, não é para “atacá-lo”, mas por reconhecer sua extraordinária influência, justamente conquistada, nas redes sociais e junto aos setores progressistas da sociedade brasileira, e a necessidade de oferecer um contraponto jurídico crítico fundamentado à sua afirmação pontual sobre o genocídio.

Afinal, como afirma Richard Falk em seu último livro, “Palestine: the Legitimacy of Hope”, “a luta palestina por autodeterminação tornou-se a questão moral internacional mais importante do nosso tempo”.

*João Telésforo é Mestrando em Direito, Estado e Constituição na Universidade de Brasília.

FONTE: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/jean-wyllys-diz-ser-desonesto-e-irresponsavel-falar-em-genocidio-em-gaza.html

The Intercept produz interessante artigo sobre ida de Jean Wyllys a Israel

 JEAN WYLLYS, UM HERÓI DA ESQUERDA BRASILEIRA, É DURAMENTE CRITICADO POR VIAGEM A ISRAEL E COMENTÁRIOS ANTI-PALESTINOS

Andrew Fishman
(This is a Portuguese translation. For the English version, click here.)
jean

O Deputado Federal Jean Willys (PSOL-RJ), conhecido por seu progressismo e sua liderança em movimentos de justiça social, está tentando se defender de várias críticas feitas por seus eleitores e apoiadores de esquerda devido a sua recente viagem a Israel. O congressista despertou a ira de boa parte da base do partido de esquerda PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), ao qual é filiado, após participar de uma conferência em uma universidade israelense intimamente ligada a violações de direitos humanos dos palestinos. Após as críticas, ele defendeu sua presença no evento com argumentos frequentemente usados por fervorosos defensores da política de ocupação israelense. O discurso inesperado de Wyllys é um grande exemplo da bem sucedida tática de explorar questões socio-liberais para gerar apoio da esquerda ao militarismo.

Em uma mensagem de vídeo postada na sexta-feira no Facebook, Paulo Sérgio Pinheiro, um renomado diplomata brasileiro que trabalhou na Comissão Nacional da Verdade sobre violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura militar brasileira e foi relator especial de direitos humanos da ONU em Myanmar (Birmânia), criticou duramente o deputado. “Lamentáveis e deploráveis as notas do Deputado Jean Wyllys sobre sua visita a Israel. Revelando uma crassa ignorância e desinformação sobre as políticas de direitos humanos praticadas atualmente por Israel”, falou. Esse sentimento reflete a reprovação de boa parte da esquerda, motivada tanto pela viagem quanto pelos comentários feitos posteriormente.

The Intercept questionou o Deputado Jean Wyllys repetidas vezes por meio de sua assessoria para obter informações para este artigo, porém nem o deputado nem sua equipe responderam a quaisquer dos questionamentos.

A polêmica visita de Wyllys a Israel e sua defesa das políticas israelenses ocorre em um momento especialmente tenso das relações bilaterais. O Governo Federal, também de esquerda, do Partido dos Trabalhadores, sob o comando da combatida Presidenta Dilma Rousseff, se recusou a aceitar a nomeação de Dani Dayan como embaixador de Israel no Brasil baseado no argumento de que ele é um polêmico defensor de assentamentos ilegais de Israel na Cisjordânia ocupada. Tanto na gestão de Dilma quanto na de Lula, o partido governista tem demonstrado apoio aos palestinos. O PSOL se posiciona como uma alternativa mais à esquerda à moderada esquerda do PT; portanto, o posicionamento de Wyllys é surpreendente.

Jean Wyllys tornou-se nacionalmente conhecido em 2005 como o primeiro vencedor abertamente gay do famoso programa de reality TV “Big Brother Brasil”. Um professor universitário de origem pobre, ele conquistou a audiência nacional com sua erudição e intelecto e converteu sua fama em passaporte para ser eleito o primeiro membro assumidamente gay do Congresso Nacional, em 2010. No ano passado, ele foi eleito o deputado mais popular pelo site Congresso em Foco e foi listado pela revista inglesa The Economist como uma das 50 figuras públicas mais importantes no quesito promoção da diversidade.

Ele angariou popularidade perante os jovens do PSOL, eleitorado de esquerda comprometido com a defesa inegociável de questões de justiça social: apresentando projetos de lei para a legalização da maconha, estatutos contra a discriminação, legalização plena do trabalho sexual e erradicação de vestígios institucionais da ditadura militar brasileira — todas essas propostas são abominadas pela direita evangélica em ascensão no país. Wyllys é o único político abertamente gay em um país majoritariamente católico e evangélico. Além disso esse carismático político de 39 anos é constantemente alvo de agressões verbais e ofensas  homofóbicas proferidas por pessoas como o Deputado Jair Bolsonaro, a quem The Intercept já definiu comoo político eleito mais misógino e execrável do mundo democrático”. Tudo isso consolidou a posição de Wyllys como uma figura de destaque da esquerda brasileira.

No entanto, na terça-feira, Wyllys chocou e despertou a ira de muitos de seus mais leais apoiadores. Ele postou uma foto sorridente de si mesmo para seus 871.626 seguidores no Facebook, posando em frente da Universidade Hebraica de Jerusalém. O comentário postado junto à foto: “Estou muito feliz e emocionado pela oportunidade de visitar, pela primeira vez, esta cidade cheia de história, terra santa para as três religiões do livro, onde se encontram tradições e costumes do Oriente e do Ocidente. Amanhã vou ministrar uma palestra na Universidade Hebraica de Jerusalém, a convite da mesma, junto ao professor James Green. Vamos debater sobre antissemitismo, racismo, homofobia e outras formas de ódio e preconceito e suas relações com a política contemporânea”. Até o momento, a foto já obteve mais de 24 mil likes e mais de 1.700 comentários.

O post causou grande e imediata comoção, com algumas demonstrações de apoio, porém muitos dos comentários em veemente oposição. Vários críticos expressaram choque e indignação que um líder do movimento progressista brasileiro romperia tão profundamente com o posicionamento oficial do seu partidoque defende o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra as ocupações ilegais de Israel na Palestina. Porém, Wyllys inflamou os ânimos ainda mais nos dias seguintes com uma série de declarações em defesa própria cujo conteúdo, até mesmo para ouvidos americanos, soa como pró-Israel.

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Foto: Jean Wylllys/Facebook

O ex-deputado Milton Temer, membro da liderança do PSOL, foi incisivamente crítico a Wyllys durante entrevista para The Intercept. “Essa visita me incomoda demais. Em Israel, a opressão ao povo palestino não é feita pela extrema direita. A verdade é que o governo israelense, eleito pelo povo, perpetra essa opressão. Somente uma pequena minoria de judeus israelenses está engajada na corajosa luta em defesa de um posicionamento humanitário para os palestinos. Me incomoda profundamente que um membro progressista do Congresso vá a Israel e afirme que Israel é um paraíso onde LGBTs recebem tratamento civilizado, enquanto Israel investe bilhões todos os anos em suas forças militares para oprimir os palestinos. Acho que Jean Wyllys cometeu um grande erro”.

Ele disse ainda: “Um congressista de esquerda deveria ir a Israel somente para denunciar (esse Estado) publicamente pela ocupação da Palestina. Esse político certamente não deveria ir a Israel para declarar que há algum tipo de conflito simétrico, a ser pacificado, entre as duas nações. Por esse motivo, ele cometeu um erro”.

QUE PIOROU A SITUAÇÃO foi a visita de Jean Wyllys à universidade que simboliza a ocupação israelense. Boa parte das instalações da Universidade Hebraica de Jerusalém foi construída em terras palestinas na Jerusalém Oriental. Essas terras foram expropriadas ilegalmente por Israel e, por esse motivo, o país sofreu recentemente um boicote importante. Uma carta assinada por 351 pesquisadores internacionais explica que “apesar de todas as universidades israelenses compactuarem plenamente com a ocupação, o colonialismo de assentamentos e o apartheid, a Universidade Hebraica de Jerusalém tem papel proeminente”. A carta destaca que “a universidade (Universidade Hebraica de Jerusalém) compactua com o tratamento desigual de palestinos, inclusive daqueles que são cidadãos de Israel”; “restringe a liberdade de expressão e de protesto de seus poucos estudantes palestinos”; e é afiliada à Universidade de Ariel na Cisjordânia ocupada, no entanto, nega o reconhecimento de credenciais acadêmicas à instituição palestina, a Universidade de Al Quds.

Em 2014, a Universidade Hebraica criou um fundo de bolsas acadêmicas destinado exclusivamente a estudantes que estavam servindo no ataque militar brutal em Gaza durante o qual 2.131 palestinos, em sua maioria civis, foram assassinados e mais de 100 mil, segundo dados da ONU, ficaram desabrigados. “A universidade está participando do esforço de guerra para demonstrar apoio aos seus alunos combatentes de modo a minimizar o fardo financeiro”, segundo uma carta oficial enviada a “amigos e ex-alunos”. Na época, Jean Wyllys apoiava as críticas da Presidenta Dilma Rousseff sobre o ataque a Gaza como um “uso desproporcional da força” e, meses depois, apoiou uma missão humanitária a Gaza.

A conferência desta semana, da qual Wyllys participou, é intitulada “Brasil e Israel: desafios sociais e culturais”. O evento ocorreu nos dias 5 e 6 de janeiro e foi patrocinado pela Universidade Hebraica de Jerusalém, pela Universidade Brown (EUA), pelo Ministério de Relações Exteriores do Brasil (MRE) e pela Confederação Israelita do Brasil, dentre outros. De acordo com uma descrição do evento, Brasil e Israel são dois países com complexa diversidade social, cultural, étnica e religiosa. Em ambos os países, o Estado e a sociedade civil têm se envolvido no combate a problemas relacionados à diversidade cultural, tolerância e inclusão. Programas e políticas têm sido desenvolvidos para superar a histórica marginalização de certos grupos, com níveis variados de sucesso, e, por vezes, a despeito das críticas de outros setores de seus respectivos países”.

Esse tipo de discurso morno e comparativo, cheio de argumentos progressistas e humanistas, é popular entre liberais defensores do descarado Estado não liberal de Israel. Observadores críticos identificam injustiças evidentes (digamos, na limpeza étnica de milhares de palestinos, na permanência do cerco à Gaza e na basilar essência israelense de colonização por assentamentos), um liberal sionista vê complexidade que demanda estudo e discurso em detrimento de culpar a todos indiscriminadamente: Sim, o Estado é governado por extremistas de direita, porém, nós – os sionistas liberais – somos pessoas boas, portanto vamos observar as pequenas diferenças.

Não obstante, há imperativos morais evidentes em jogo quanto à ocupação israelense da Palestina: durante décadas desse “diálogo” elogioso de si entre liberais, Israel desmantelou sistematicamente a sociedade civil palestina e ocupou suas terras ilegalmente, matando e encarcerando aqueles que se opuseram e fomentando radicalismo por todos os lados. A participação nessas conferências intermináveis funciona eficientemente como uma proteção liberal, evitando qualquer questionamento sério às duras verdades da situação palestina. Muitos, inclusive o próprio partido de Wyllys, o PSOL, apoiam um boicote a Israel.

Em uma carta aberta publicada na quarta-feira, a Frente em Defesa do Povo Palestino, um grupo brasileiro pró-Palestina, argumentou que “A tática de Israel de convidar personalidades e autoridades a participarem de palestras em suas instituições acadêmicas – cujo histórico de cumplicidade com a ocupação é amplamente comprovado – objetiva transmitir ao mundo a ideia de normalidade, enquanto mantém o apartheid, a colonização e ocupação de terras palestinas”. A carta expressa surpresa com relação à viagem de Wyllys; além disso, afirmou-se que o post do deputado no Facebook demonstra que “você não entendeu a história e a ocupação”.

Uma charge feita pelo cartunista brasileiro Vini Oliveira foi compartilhada por usuários de esquerda nas redes sociais e sintetiza o descontentamento de muitos. Nessa imagem, Wyllys, com a Estrela de David estampada em seus óculos, posa para uma selfie em frente a um jovem palestino estirado no chão em cima de uma poça de sangue. Em segundo plano, o sol sorridente, símbolo de seu partido PSOL, brilha à distância (The Intercept obteve permissão para divulgar a imagem).

Imagem: Vini Oliveira

À MEDIDA QUE ESSA POLÊMICA se desenvolveu nesta semana, a assessoria de imprensa de Jean Wyllys respondeu rápida e grosseiramente às críticas, tentando justificar a decisão do deputado de participar da conferência. Ao fazer isso, eles tanto acirraram os ânimos ao atacar quem fazia críticas, quanto ecoavam argumentos pró-Israel rasos e pouco sofisticados sobre terrorismo, antissemitismo e direitos civis. Por diversas vezes, Wyllys confundiu o Hamas, partido político democraticamente eleito que governa a Faixa de Gaza desde 2007, com a “ISIS ou outras facções criminosas” — uma retórica israelense padrão no governo de Netanyahu.

Wyllys também definiu o muro que separa Israel da Cisjordânia e que separa muitos fazendeiros palestinos de suas terras como sendo “construído por Israel para impedir os atentados terroristas”. Ele repete a justificativa israelense padrão que alguns críticos afirmam ser parte de uma política mais ampla de apropriação ilegal de terras e separações forçadas.

O congressista também invocou o antissemitismo várias vezes e o fez de tal maneira que deixaria Alan Dershowitz orgulhoso. Em um dos comentários, ele argumenta que muitos de seus detratores que se identificam como “antissionistas” estão usando esse rótulo para esconder suas reais motivações antissemitas. Ele explicou para seus seguidores a diversidade de fundamentos e opiniões entre sionistas, israelitas e judeus; argumentando que não se pode culpar todos os sionistas por todos os pecados de Israel (“complexidade”).

A discussão de Jean Wyllys é, dentre outras coisas, uma tentativa descarada de ser um laranja. O BDS não é um movimento contra todos os sionistas. Pelo contrário, o movimento combate a personificação moderna do sionismo, a supremacia étnico-religiosa do “Estado Judeu de Israel”, cuja subjugação militar palestina tem sido feita tanto pelas gestões israelenses “brandas” como pelas gestões mais à direita. As lágrimas de liberais sionistas cada vez mais marginalizados não melhoraram a rotina dos moradores da Faixa de Gaza.

Jean Wyllys foi criticado por perpetuar a tática israelense de “pinkwashing” (“lavar em rosa”), por meio da qual o governo Netanyahu destaca o discurso relativamente progressista do país concernente a direitos LGBT para obter apoio de liberais e indivíduos LGBTs para suas políticas de ocupação em geral, enquanto perpetra violações de direitos humanos fora do âmbito LGBT. Conforme Sarah Schulman argumentou em um artigo de opinião doNew York Times publicado em 2011, trata-se de “uma estratégia proposital para esconder a sistemática violação de direitos humanos dos palestinos por trás de uma imagem de modernidade personificada na vida gay israelense”. “Os direitos dos homossexuais tornaram-se, basicamente, ferramentas de relações públicas”, disse Aeyal Gross, um professor de direito na Universidade de Tel Aviv.

Essa abordagem pinkwashing tenta definir Israel como o único bastião de tolerância em meio a um mar de extremismo homofóbico islâmico; portanto, a noção de que Israel deveria receber apoio de todos aqueles que defendem direitos LGBT está implícita. Esqueça-se do resto: coisas pequenas como as longas décadas de brutal ocupação do povo palestino marcadas por bombardeios seguidos de demolições ocasionais de bairros inteiros. Esse método doutrinador prega que a única medida para avaliar a moral de um país ou, ao menos, o critério norteador para essa medida, deveria ser os direitos dos LGBTs.

Essa tática se assemelha às tentativas mais amplas dos neoconservadores americanos de, após os Ataques de 11 de setembro,   explorar posicionamentos liberais quanto a questões sociais para angariar apoio da esquerda para a agenda militarista neoconservadora. Essa tática era implementada ao, por exemplo, cinicamente apresentar a Guerra no Afeganistão como uma causa feminista ou afirmar que os desentendimentos com o Irã foram motivados por preocupações referentes aos direitos da população LGBT. Em novembro de 2001, a gestão Bush enviou Laura Bush para descrever a Guerra no Afeganistão como “uma luta por direitos e dignidade das mulheres” e — mesmo após 14 anos de conflitos que mataram um números incontável de mulheres afegãs – alguns grupos de mulheres continuam a apoiar aquela guerra tendo por base argumentos feministas.

Jean Wyllys rechaçou a acusação de que ele teria adotado pinkwashing. Segundo ele, trata-se de uma “teoria da conspiração” e “desrespeitoso a nós, LGBTs”. Ele continuou esse protesto apresentando uma demonstração perfeita do pinkwashing padrão:

Os direitos conquistados pelos LGBTs israelenses são uma luz numa região dominada pelo fundamentalismo, o totalitarismo, a misoginia e a homofobia, e eu parabenizo esse povo por seus avanços. […] E a solidariedade com os palestinos não deveria impedir a esquerda de denunciar a opressão que (por exemplo) os homossexuais sofrem nos países islâmicos, ou reconhecer as conquistas democráticas em Israel!

Conforme definido por Jay Michaelson na publicação Forward, além de a tática de pinkwashing ser doutrinação política calcada em uma falsa caricatura de todas as nações islâmicas da região (por exemplo, tanto Beirute quanto Istambul oferecem uma cena LGBT bem agitada), essa tática subestima as forças anti-LGBT ativas em Israel, “um país que pode ser pró-gay e contra direitos humanos”. É importante destacar que essas políticas sociais “progressistas” não beneficiam a comunidade LGBT palestina. “Sim, é difícil ser gay em Gaza – assim como é difícil ser gay em Meah Shearim. Porém, queers palestinos dirão a você que o regime de confisco de terras, assentamentos, paradas para identificação, cartões de identidade, restrição na construção de prédios e, é claro, o bombardeamento pesado das áreas civis são um fardo muito mais pesado”, Michaelson afirma.

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Captura de tela: Jean Wyllys/Facebook

Em uma interação que aparentemente foi apagada, quando um dos seguidores no Facebook perguntou, “Jean, quando você visitará a Faixa de Gaza?”, a conta de Jean Wyllys (sob os cuidados de sua equipe de comunicação) respondeu, “Talvez você não saiba que a [F]aixa de Gaza está atualmente sob o controle da organização terrorista Hamas. Não é, portanto, um lugar seguro para um homossexual assumido… mas, talvez você possa ir. Boa sorte!” Em um comentário posterior, ele disse que “de fato, eu também gostaria de ir a outros países do Oriente Médio, mas não posso, porque em muitos deles poderia ser enforcado ou preso por ser gay”.

É bem verdade que fundamentalistas islâmicos, assim como fundamentalistas judeus e cristão, não costumam ser aliados confiáveis e a homossexualidade é tecnicamente ilegal em Gaza e em muitos países islâmicos, porém a sugestão de que o Hamas seria tão tolo a ponto de machucar uma importante figura pública estrangeira simplesmente por ele ser gay é profundamente ingênuo ou extremamente dissimulado — ou ambas as opções. Essa afirmação é uma distorção infundada, caricatural, e alarmante do Hamas como uma gangue de terroristas irracionais, atrasados e sedentos por sangue – aliás, o Ministério das Relações Exteriores israelense publicou uma charge assim no ano passado, que foi removida após muitas críticas (ir para 0:28)

A discriminação por homofobia existe e é horrível, no entanto, esse tipo depinkwashing ignora o fato que se trata de uma preocupação global. Lembre-se: leis punitivas à sodomia foram vigentes nos Estados Unidos até 2003 e a luta por igualdade das pessoas LGBT ainda está longe de acabar. Cristãos evangélicos exigiam uma nova lei em Uganda punindo homossexualidade com pena de morte, ficaram satisfeitos com a prisão perpétua. A menos que o nosso deputado decida passear em Raqqa, Síria, hasteando a bandeira do arco íris, ele pessoalmente tem zero chance de ser enforcado por sua orientação sexual, porém ele não poderia ficar tão à vontade e aberto como no Rio de Janeiro.

NA QUINTA-FEIRA, um assistente do congressista Jean Wyllys disse a The Intercept que ele não havia visitado e que não pretendia visitar nem a Cisjordânia nem a Faixa de Gaza. Mas, algumas horas depois, naquela mesma noite, ele comunicou que visitaria “Belém e talvez Hebron” antes de ir para Tel Aviv. Temer disse que, inicialmente, Wyllys não havia planejado visitar a Palestina, porém a polêmica o forçou a fazê-lo.

Wyllys também disse ter se encontrado brevemente com apoiadores do BDS de um grupo identificado apenas como “FFIFP”, possivelmente em referência a FFIPP, um grupo internacional sem fins lucrativos que se denomina uma “rede educativa de direitos humanos Palestina/Israel”. O grupo sedia seminários internacionais de educação em Israel e na Palestina. Esse seminários incluem visitas a Tel Aviv. Yoav Elinevsky, o diretor executivo da FFIPP-USA, disse a The Intercept que cada filial nacional é independente, ele desconhece filiais da FFIPP que tenham condenado publicamente o BDS.

A despeito dessas concessões, Wyllys continuou a receber uma enxurrada de comentários raivosos.

  • “Realmente decepcionado com o Deputado Jean Wyllys. Visita Israel e não visita os territórios do Estado da Palestina ocupados por Israel. Fecha os olhos ao que acontece com o povo palestino e se preza a ecoar a propaganda do apartheid israelense. Caetano Veloso, ao menos, se retratou depois que visitou Israel e foi visitar a Palestina. Ele escreveu artigo declarando que nunca mais volta para Israel. Deputado, você acaba de ganhar o título de ‘Ex-defensor dos Direitos Humanos’. Que decepção!”, escreveu Emir Mourad, secretário geral da Federação Árabe Palestina do Brasil.
  • “Que mancada monumental! …. Admiro sua atuação como parlamentar, mas dessa vez eu fiquei extremamente decepcionado”, escreveu João Canobre.
  • “O cara finaliza um texto cheio de preconceitos e visões reducionistas das sociedades islâmicas afirmando seguir ‘com a cabeça aberta e sem preconceitos’. Coerência manda beijos. A visão do Oriente Médio apresentada aqui poderia muito bem ser a de um europeu do XIX.”, escreveu Rafaél Antônio Cruz.
  • “O apoio a Israel vai contra toda postura revolucionária, corajosa do Jean. Pesquisem um pouco e vejam o que realmente acontece com os palestinos”, escreveu Silvia Medeiros.

O BDS obteve força significativa no Brasil nos últimos tempos. Em 2014, o governador do Rio Grande do Sul cancelou um contrato importante com a empresa de segurança israelense Elbit Systems para desenvolver um centro de pesquisa aeroespacial (Segundo um porta-voz, “o apoio à causa palestina” por parte do governador em exercício naquela época não influenciou a decisão de cancelar as negociações com a Elbit).

Em julho de 2015, os lendários músicos brasileiros Caetano Veloso e Gilberto Gil se apresentaram em um show em Tel Aviv e participaram de um evento público com o ex-presidente israelense Shimon Peres, apesar de forte pressão pública para cancelamento da viagem, inclusive de alguns apoiadores do BDS como o Arcebispo Desmond Tutu e o co-fundador do Pink Floyd, Roger Waters. Após a viagem, Caetano Veloso escreveu um artigo de opinião para a Folha de São Paulo explicando o impacto emocional de visitar comunidades palestinas sob ocupação. “Todas as queixas dos participantes do BDS são fundamentadas”, ele escreveu, afirmando ainda que, “Gosto de Israel fisicamente…Mas acho que nunca mais voltarei lá”.

No Facebook, Wyllys declarou ser contra o BDS. “Sou contra boicotes voltados a qualquer povo. Acho um erro confundir o governo, o Estado e a população. O boicote destrói pontes e favorece os extremistas de ambos os lados”, ele escreveu, citando o fracassado bloqueio de Cuba como um exemplo e questionando retoricamente, “por que não há boicote contra a Síria?” Porém, enquanto bloqueios e sanções contra regimes autocráticos e semi-isolados, como Cuba e Iraque se mostraram ineficientes porque o sofrimento imposto à população não afeta a liderança, o oposto é verdadeiro em sociedades democráticas ou marginalmente democráticas, como Israel ou a África do Sul do Apartheid, nos quais (uma parte da) população pode votar em novos líderes que prometam mudar as políticas. Funciona melhor, principalmente, quando uma nação depende muito de ajuda externa e apoio diplomático, como Israel.

Como o líder antiapartheid e atual defensor do BDS, Desmond Tutu escreveu em 2010: “Na África do Sul, nós não teríamos alcançado nossa liberdade e nossa paz sem a ajuda das pessoas do mundo todo, que, por meios não violentos, tais como boicotes e desinvestimentos, estimularam seus governos e outros atores corporativos a minar as bases de apoio que o regime do Apartheid teve por décadas”.

A eficácia dos boicotes, desinvestimento e sanções é, talvez, a razão pela qual o Estado de Israel e seus apoiadores têm empregado esforços concentrados em combater o surgimento de quaisquer movimentos BDS ao redor do mundo e atingir aliados inesperados, como políticos latino-americanos de esquerda.

Políticos estrangeiros frequentemente visitam Israel e elogiam as “conquistas democráticas” do país baseados em afinidades ideológicas, um valor político percebido ou ambas as opções – principalmente para políticos dos Estados Unidos, um país para o qual apoiar Israel é imprescindível e apoiar movimentos BDS seria suicídio político.

No entanto, o caso de Jean Wyllys é especialmente confuso. O Brasil não tem um considerável lobby pró-Israel e seu apoio aos direitos dos palestinos é o discurso padrão. O trabalho louvável desempenhado por Wyllys no combate à discriminação, por justiça social e direitos humanos para todos simplesmente não se encaixa com sua nova defesa de Israel e de parte da retórica israelense mais nociva. Além disso, ele não obteria nenhuma vantagem política perceptível ao alienar sua base e contrariar seu partido em uma questão basilar de política externa.

Primeira foto: Deputado Jean Wyllys do PSOL palestra nesta semana na Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel.

Colaborou: Cecília Olliveira

FONTE: https://theintercept.com/2016/01/09/jean-wyllys-um-heroi-da-esquerda-brasileira-e-duramente-criticado-por-viagem-a-israel-e-comentarios-anti-palestinos/

Gaza: marcha em Londres mostra força da rejeição ao massacre

Enquanto as forças armadas israelenses continuam bombardeando a Faixa de Gaza, uma manifestação gigantesca ocorreu hoje em Londres, capital do Reino Unido para exigir o fim dos ataques e defender os direitos do povo palestino. Essas manifestações já estão obrigando a que diversas corporações se manifestem publicamente no sentido de manifestar seu distanciamento de Israel, o que pode ser uma antevisão de uma política mais ampla de distanciamento econômico e político.

As imagens abaixo demonstram claramente o alto grau de capilaridade dos protestos que hoje varrem o mundo contra a agressão perpetrado por Israel contra os palestinos.

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Gaza: Os Meninos Sem Rosto

Por Antonio Ateu

 Um corpo pequeno pode-se mostrar, mas a sua cara – a própria imagem da sua alma, sobretudo se não tem as feridas que causaram a morte do corpo – deve ser cruelmente esborratada por um borrão, e assim matamos o menino uma segunda vez. Por Robert Fisk.

A Al Jazeera mostrou a um pai palestiniano em prantos levando o seu bebé recém morto para um cemitério de Gaza. A maioria dos canais de televisão do Reino Unido destruíram o seu rosto com uma mancha cinzenta.

A Al Jazeera mostrou um pai palestiniano em prantos levando o seu bebé recém morto para um cemitério de Gaza. A maioria dos canais de televisão do Reino Unido destruíram o seu rosto com uma mancha cinzenta.

Morrer é uma coisa, que o convertam num borrão, é outra coisa. O borrão é a estranha “nuvem” mística que os produtores pusilânimes de televisão põem sobre a imagem de um rosto humano morto. A preocupação deles não é que os israelitas se queixem de que o rosto de um palestiniano morto demonstra a brutalidade israelita. Nem que o rosto de um israelita morto converterá em besta o palestiniano que o matou. Não. Estão preocupados com o Gabinete de Comunicações [do governo britânico]. Estão preocupados com as regras. Estão preocupados com o bom gosto – algo que estes tipos da TV conhecem bem –, porque têm medo de que alguém proteste se vir nas notícias um verdadeiro humano morto.

Em primeiro lugar, vamos deixar de lado todas as desculpas habituais. Sim, aceito que há uma pornografia do mórbido. Chega uma altura – apesar de, que eu saiba, isto nunca ter sido demonstrado –, em que a repetida imagem de talho humano pode levar outros a cometer atos de grande crueldade. E chega um ponto em que filmar um cadáver terrivelmente mutilado mostra – vamos usar a palavra, só uma vez – uma falta de respeito pelos mortos. Do mesmo modo que quando fechamos a tampa de um caixão, chega um ponto em que devemos baixar a câmara.

Mas não acho que seja por isso que se esborratam os rostos dos mortos. Acho que uma cultura rasteira e cobarde de evitar a morte na televisão está a tomar conta dos jovens insípidos que decidem o que devemos e não devemos ver da guerra, uma prática que tem contornos políticos muito graves.

Porque estamos agora a chegar a um ponto em que os meninos mortos de Gaza – esqueçamos as mulheres e os homens, por um momento – não têm rostos. Um corpo pequeno pode-se mostrar, mas a sua cara – a própria imagem da sua alma, sobretudo se não tem as feridas que causaram a morte do corpo – deve ser cruelmente esborratada por uma bolha científica, e assim matamos o menino uma segunda vez. Permitam-me que explique.

Quando estão vivos, os meninos podem ser filmados. Podem-se mostrar na televisão. Se estão feridos – desde que as lesões não sejam demasiado terríveis – permitem-nos ver o seu sofrimento. Nós como nações, não nos importamos muito, evidentemente. Daí a nossa recusa, por exemplo, de intervir no banho de sangue de Gaza. Podemos sentir piedade por eles – podemos chorar por eles – mas não os respeitamos. Se o fizéssemos, estaríamos indignados com as suas mortes. Mas quando estiverem mortos, devemos mostrar-lhes um respeito que nunca demonstrámos quando estavam vivos. Deve-se manter a privacidade do seu assassinato, protegendo os seus rostos.

Na semana passada, a Al Jazeera mostrou um pai palestiniano em prantos levando o seu bebé recém morto para um cemitério de Gaza. Tinha o cabelo negro e encaracolado e a cara de uma menina gentil, morta como se estivesse a dormir, a inocência feita carne, um anjo que – todos nós – tínhamos assassinado. Mas a maioria dos canais de televisão do Reino Unido – e a BBC ganhou experiência nesta censura – destruíram o seu rosto com uma mancha cinzenta. Os nossos professores de televisão permitiram-nos ver o seu cabelo encaracolado negro. Mas abaixo do cabelo estava esse asqueroso borrão. E à medida que a menina era transportada, o borrão movia-se com a sua cara. Era um insulto ao pai e à menina.

Não a tinha levado ele nos seus braços – em público, até o cemitério – para nos mostrar o grau da sua perda? Acaso não queria que víssemos a cara do anjo que acabava de morrer? É claro que queria. Mas os poltrões da televisão britânica – cobardes, com medo dos seus próprios chefes – decidiram que não se deve permitir a este pai mostrar a magnitude da sua perda. Tiveram que desfigurar a sua filha com essa mancha repugnante. Converteram uma menina numa boneca sem rosto.

Isto não tem nada a ver com o pedido oh-tão-moral do Gabinete de Comunicações de que o público nunca veja o “ponto da morte” – apesar de terem mostrado uma palestiniana de Gaza a morrer na sala de operações num documentário de televisão de 1992 e constantemente exibirem imagens de jornalistas de televisão em Bagdade a ser alvo de disparos mortais a partir de um helicóptero dos Estados Unidos. E não tem nada a ver com o “bom gosto”, seja o que for. Pessoalmente, acho que a visão das armas israelitas ou dos rockets do Hamas é de um mau gosto repugnante – são, no fim das contas, os dealers da morte, não é assim? –, mas não, a televisão absorve estas cenas terríveis. Devemos vê-las. Não há problema. As armas são boas. Os corpos são maus. Oh, que guerra encantadora.

Sei que muitos dos meus colegas de televisão estão furiosos por causa desta censura da morte. “Ridículo, absurdo e cada vez pior”, foi como o meu velho parceiro Alex Thomson, do Canal 4, reagiu quando lhe pedi para falar deste caso de autocensura da semana passada. Recordou como os telespectadores britânicos puderam ver o pessoal médico a recolher partes de corpos da estação de autocarros de Oxford Street em Belfast na Sexta-feira Sangrenta da Irlanda do Norte. Isto, é claro, sublinhou a maldade do IRA.

E historicamente, não temos qualquer acanhamento a respeito de mostrar os mortos. Documentários ainda exibem as escavadoras do exército britânico carregadas de milhares de cadáveres de judeus nus em fossas comuns no campo de concentração de Belsen em 1945. Estes últimos seis meses emitimos pela televisão milhares de imagens de soldados mortos – desfigurados, mutilados, apodrecendo – em documentários de grande alcance da guerra de 1914-18. Há um limite de tempo para a morte, como há a respeito dos crimes de guerra?

Jornalista do The Independent da Grã-Bretanha. Especial para o Página/12.

Tradução para castelhano de Celita Doyhambéhère.

FONTE: http://jornalggn.com.br/blog/antonio-ateu/gaza-os-meninos-sem-rosto

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net