Em Jerusalém, um ataque aos enlutados durante serviço fúnebre de jornalista assassinada por forças israelenses

Dezenas de milhares no funeral do repórter Abu Akle. Forças israelenses atacaram os participantes

palestine killedProtesto em frente ao Hospital Francês em Jerusalém na sexta-feira com uma foto de Shirin Abu Akle

Por  Gerrit Hoekman para o JungeWelt

As imagens falam muito: na tarde de sexta-feira, a polícia israelense atacou o início do serviço fúnebre da conhecida repórter Shirin Abu Akle em Jerusalém. Forças armadas pesadas impediram brutalmente o povo de formar uma procissão fúnebre. A carroça que transportava o corpo seguiu sozinha para a Igreja Católica Romana na Cidade Velha de Jerusalém.

A jornalista da emissora de TV Al-Jazeera foi baleada na cabeça durante uma operação do exército israelense no campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia ocupada, na quarta-feira. A estação de TV acusou Israel de assassinato seletivo.

Assim que o caixão foi retirado do hospital francês em Jerusalém por volta das 13h, na presença de mais de 100 pessoas, as forças de ocupação israelenses provocaram os participantes do cortejo fúnebre. Bandeiras palestinas e cantos foram proibidos durante o funeral. A cerimônia obviamente não pretendia se tornar uma demonstração da resistência palestina. A população em Gaza ou na Cisjordânia não poderia participar de qualquer maneira. Muitos enlutados não obedeceram, e a polícia espancou os carregadores de caixão e os enlutados sem aviso prévio. O caixão quase caiu no chão. O canal em árabe da emissora Al-Jazeera transmitiu as imagens perturbadoras ao vivo em frente ao hospital francês.

“Infelizmente, sob o disfarce do funeral e explorando-o cinicamente, centenas de pessoas começaram a perturbar a ordem pública antes mesmo de começar”, disse a agência de notícias AFP citando um comunicado da polícia. “Quando o caixão estava prestes a ser retirado do hospital, pedras foram jogadas nos policiais na praça do hospital, obrigando-os a usar medidas de controle de distúrbios.”

No caminho da igreja para o cemitério, um interminável cortejo fúnebre de mais de 10.000 pessoas pôde acompanhar a jornalista em sua última caminhada. A polícia israelense não era mais vista. Apenas um helicóptero fez suas rondas sobre o cemitério.

Em Jenin, o dia do funeral começou com outro tiroteio que durou várias horas entre o exército israelense e os combatentes da resistência palestina. De acordo com a agência de notícias oficial palestina WAFA , os soldados destruíram um prédio com mísseis guiados. A casa pegou fogo. Vários membros da »Jihad Islâmica«, que tem uma forte base em Jenin, estariam escondidos lá. De acordo com o site de notícias palestino Maan , pelo menos 13 palestinos ficaram feridos, alguns com gravidade. Um está em estado crítico. O exército israelense relatou um policial israelense ferido.

De acordo com o jornal israelense Haaretz , os soldados israelenses também estavam em Jenin na manhã de sexta-feira para procurar vestígios do local onde o jornalista Abu Akle foi morto a tiros na quarta-feira.. Foi sugerido que um atirador palestino matou o repórter. “Jenin é um reduto terrorista”, disse um porta-voz do Exército no Twitter na sexta-feira. O primeiro-ministro Naftali Bennett afirmou na quarta-feira que os palestinos dispararam incontrolavelmente em todas as direções durante o tiroteio. O exército israelense postou um vídeo no Twitter naquele dia mostrando um combatente palestino atirando em um beco sem olhar em quem ele está atirando. Um homem grita em árabe: “Você encontrou um soldado! Ele está no chão!” Autoridades israelenses disseram que só poderia ser o jornalista porque o exército não sofreu baixas.

Na quinta-feira, a ONG israelense »B’Tselem« visitou o beco em Jenin onde o vídeo foi feito. Conclusão da visita ao local: a cena não pode ter nada a ver com a morte de Abu Akle. O local onde ela sangrou até a morte fica em uma rua a quase 300 metros de distância. Casas e paredes estão localizadas entre os dois lugares. O jornal norte-americano Washington Post entrevistou testemunhas do incidente. Todos afirmam que o grupo de jornalistas, que incluía Abu Akle, não estava nem perto do conflito armado. ‘Onde estávamos não havia nenhum lutador. Não nos colocamos na linha de fogo. O que quer que o exército israelense nos peça, faremos. Eles atiraram em nós diretamente e de propósito”, garantiu o jornalista Ali Al-Samudi ao jornalWashington Post .

Enquanto isso, a Autoridade Palestina se recusa a entregar o cartucho usado para atirar em Abu Akle para Israel. Aparentemente, ela desconfia da experiência israelense e teme a manipulação. “Todas as pistas, evidências e testemunhas confirmam seu assassinato pelas forças especiais israelenses”, disse o ministro palestino de Assuntos Civis, Hussein al-Sheikh, na quinta-feira. A autoridade de autonomia agora quer levar a morte de Abu Akle ao Tribunal Penal Internacional em Haia. como crime de guerra.


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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Palestinos convocam greve geral

No Oriente Médio, os ataques de Israel e do Hamas continuam. Os palestinos estão expandindo o conflito. Os EUA continuam a rejeitar um papel ativo de mediador.

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As crianças estão sendo levadas para um local seguro na Cidade de Gaza. © Anas Baba / AFP / Getty Images

No conflito entre Israel e o radical islâmico Hamas, os palestinos convocaram uma greve geral nacional na terça-feira. A mídia local informou que a intenção era protestar contra os ataques israelenses a Gaza, o deslocamento forçado de palestinos de Jerusalém e a violência dos colonos israelenses. Marchas de protesto são esperadas em todas as grandes cidades e nos postos de controle entre Israel e a Cisjordânia.

Enquanto isso, militantes israelenses e palestinos continuam seus ataques com severidade inalterada. Os caças israelenses voltaram a atacar alvos na Faixa de Gaza. Segundo os militares, as casas de nove comandantes de alto escalão da militante organização palestina Hamas e túneis de extremistas com extensão total de 15 quilômetros foram destruídos. Hasam Abu Harbid, líder do grupo militante Jihad Islâmica, também foi morto nos ataques.

Mais feridos em Ashdod – situação precária na Faixa de Gaza

Testemunhas falaram sobre os piores ataques desde o início da guerra, há uma semana. O prefeito de Gaza, Jahja Sarradsch, disse à estação de televisão Al-Jazeera que os ataques aéreos haviam causado estragos em estradas e outras infraestruturas. Combustível e peças sobressalentes se tornariam escassos na Faixa de Gaza. Um porta-voz da empresa local disse que o combustível para a usina que alimenta Gaza duraria dois ou três dias. As linhas destruídas não podem ser reparadas no momento por causa dos ataques israelenses.

Por outro lado, os ataques com foguetes de Gaza também continuaram. As milícias da Jihad Islâmica também relataram que novamente dispararam foguetes na direção de Tel Aviv. Em Israel, o alarme disparou, principalmente perto da Faixa de Gaza. Dez feridos tiveram que receber atendimento médico em Ashdod. Três deles ficaram feridos por vidros quebrados, disse o serviço de ambulância Magen David Adom.

De acordo com o exército israelense, um total de cerca de 3.200 foguetes foram disparados da Faixa de Gaza em direção a Israel desde a última segunda-feira, mais de um terço dos quais foram interceptados pelo sistema de defesa Iron Dome. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou em um discurso na televisão que a “campanha contra organizações terroristas” continuaria com força total.

EUA ainda apenas em um papel passivo

Os apelos internacionais para o fim da violência desapareceram até agora. Acima de tudo, o Egito está tentando intermediar um cessar-fogo. Um diplomata no Cairo disse que há duas questões principais: encerrar os ataques de ambos os lados e interromper as operações israelenses em Jerusalém, que contribuíram para o conflito. O governo dos Estados Unidos deve pressionar Israel para encerrar sua ofensiva.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, deixou claro que os EUA não se juntariam a essas iniciativas. Os EUA lutaram por si próprios no quadro da “diplomacia intensiva”. No entanto, “em última análise, cabe às próprias partes deixar claro que estão lutando por um cessar-fogo”, disse Blinken. Pela terceira vez, o governo dos Estados Unidos está bloqueando uma declaração conjunta do Conselho de Segurança da ONU sobre a escalada da violência.

O líder do Hamas, Ismail Haniya, que vive no exterior, disse ao jornal libanês Al-Akhbar que sua organização foi contatada pelas Nações Unidas, Rússia, Egito e Qatar como parte dos esforços para garantir um cessar-fogo. Mas nenhuma “solução será aceita que não corresponda às vítimas do povo palestino”.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pela revista Zeit [Aqui!].

Dualidade das máscaras desvela a natureza do governo Bolsonaro: no Brasil sem, em Israel com

Uma comitiva representando o governo do Brasil, composta por membros de ministérios e parlamentares saiu em direção a Israel com missão pouco clara. Entretanto, as imagens deixam claríssima a situação esdrúxula que o nosso país vive nesse momento.

brasil e israel

Como pode ser ver, enquanto no Brasil nenhum dos membros da comitiva portava uma máscara facial, ao chegar em Israel todos a portavam, obviamente sob demanda das autoridades israelenses que colocaram aquele país na condição de primeiro lugar em termos de vacinação contra a COVID-19 entre todas as nações do planeta.

Mas vexame mesmo passou o ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, Ernesto Araújo, que foi obrigado a colocar uma máscara ao se aproximar do chanceler israelense Gabi Ashkenazi, em Jerusalém, no momento das fotografias protocolares.

Por essas e outras é que o Brasil está nesse momento em completo descrédito internacional, e cada vez mais isolado em um momento crucial da nossa história. E, pior, os que não portam máscaras e incentivam outras a não usá-las em território brasileiro são os mesmos que mansamente fazem isso no exterior.

Finalmente, não é coincidência nenhuma que Israel já esteja próximo de debelar a pandemia da COVID-19, enquanto o Brasil acumula novos casos de infecção e empilha cadáveres em containers nas portas de seus hospitais colapsados.

Estudo do ‘mundo real’ em Israel mostra que a vacina contra o coronavírus da Pfizer é 94% eficaz

PFIZERUm profissional de saúde prepara uma dose da vacina contra o coronavírus Pfizer-BioNtech Covid-19 em uma clínica móvel em Israel. Foto: AFP

O estudo israelense, publicado no New England Journal of Medicine , também mostrou que há provavelmente um forte benefício protetor contra infecções, um elemento crucial para interromper a transmissão progressiva.

As curvas de incidência cumulativa (1 menos o risco de Kaplan-Meier) para os vários desfechos são mostradas, começando no dia da administração da primeira dose da vacina. As áreas sombreadas representam intervalos de confiança de 95%. O número em risco em cada momento e o número cumulativo de eventos também são mostrados para cada resultado

“Esta é a primeira evidência revisada por pares em grande escala da eficácia de uma vacina em condições do mundo real”, disse Ben Reis, pesquisador da Harvard Medical School e um dos autores do artigo.

Envolveu quase 600.000 pessoas que receberam as vacinas e um número igual que não as receberam, mas foram parecidas com suas contrapartes vacinadas por idade, sexo, geografia, médicos e outras características.

A eficácia contra o COVID-19 sintomático foi de 94 % sete ou mais dias após a segunda dose – muito próxima dos 95% alcançados durante os ensaios clínicos de Fase 3.

Na Inglaterra, pesquisadores disseram na quinta-feira que as pessoas que receberam duas doses da vacina Pfizer estão gerando fortes respostas de anticorpos à medida que a injeção é aplicada.

Uma pesquisa do Imperial College London mostrou que 87,9% das pessoas com mais de 80 anos testaram positivo para anticorpos após duas doses da vacina Pfizer-BioNTech, aumentando para 95,5 % para aqueles com menos de 60 anos e 100 por cento para aqueles com menos de 30

“Embora haja alguma queda na positividade com a idade, em todas as idades, obtemos uma resposta muito boa a duas doses da vacina”, disse Paul Elliott, presidente de Epidemiologia e Medicina de Saúde Pública do Imperial College London, a jornalistas.

Os níveis de anticorpos são apenas uma parte do quadro de imunidade, com vacinas também demonstrando gerar forte proteção de células T.

Quase 95% dos menores de 30 anos testaram positivo para anticorpos 21 dias após uma dose, mas isso diminuiu nos grupos mais velhos.

A pesquisa descobriu que 34,7% dos 80 anos ou mais geraram respostas de anticorpos a partir de uma dose da vacina Pfizer, mas o Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização (JCVI) da Grã-Bretanha encontrou anteriormente alta proteção da vacina Pfizer após uma dose, mesmo quando os níveis de anticorpos são mais baixos.

A Grã-Bretanha estendeu o intervalo entre as doses para 12 semanas, embora a Pfizer tenha alertado que só tem dados de eficácia clínica com um intervalo de três semanas entre as vacinas.

Mais de 154.000 participantes participaram do estudo de vigilância domiciliar do Imperial para anticorpos COVID-19, que monitora os níveis de anticorpos de infecções naturais e também entre os vacinados, entre 26 de janeiro e 8 de fevereiro.

A pesquisa também analisou a confiança nas vacinas e mostrou que era alta, com 92% tendo aceitado ou planejando aceitar uma oferta de vacina, embora a confiança fosse menor entre os negros, caindo para 72,5%.

Mais de 217 milhões de doses de vacinas foram administradas globalmente, embora a grande maioria tenha sido administrada em países de alta renda.

Há grandes esperanças de que as inoculações permitam que o mundo finalmente saia de uma pandemia que matou mais de 2,4 milhões, infectou 112 milhões e atingiu a economia global.

Mas especialistas em saúde advertiram que, a menos que o mundo inteiro tenha acesso às vacinas, a pandemia não terá fim.

Isso ocorreu quando Gana se tornou o primeiro país a receber injeções sob o esquema global Covax Facility, abrindo caminho para que as nações mais pobres alcancem as partes mais ricas do mundo. As 600 mil doses são da Oxford-AstraZeneca e serão administradas em várias cidades de Gana a partir de terça-feira.

Dados mais otimistas, entretanto, surgiram sobre a vacina de injeção única da Johnson & Johnson, que se mostrou altamente eficaz contra os casos graves de COVID-19, incluindo variantes mais recentes, em dados detalhados divulgados pelo regulador dos EUA. A vacina provavelmente será autorizada em breve, tornando-se a terceira disponível no país mais afetado.

A empresa americana de biotecnologia Moderna também anunciou que sua nova vacina candidata contra a COVID-19, voltada para a perigosa variante do coronavírus sul-africano, foi enviada a laboratórios governamentais para teste.

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Este artigo foi inicialmente escrito em inglês e publicado pelo “South China Morning Post”  [Aqui!].

Após vacinar em massa, Israel mostra queda de 94% nos casos sintomáticos de COVID-19 entre vacinados

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Israel está mostrando uma queda de 94% nos casos sintomáticos de  COVID-19 entre aqueles que receberam a vacina Pfizer e BioNTech. Dados de um novo estudo realizado pelo maior provedor de saúde de Israel e uma equipe da Universidade de Harvard também descobriram que aqueles que foram vacinados eram 92% menos prováveis para desenvolver doenças graves da doença. O estudo, que comparou 600.000 pessoas vacinadas com um grupo não vacinado do mesmo tamanho, também foi o primeiro de seu tipo a mostrar níveis tão altos de eficácia para indivíduos inoculados com 70 anos ou mais, devido ao escopo limitado de testes clínicos anteriores. 

O rápido lançamento da vacina em Israel, que viu cerca de 42% da população receber pelo menos uma injeção desde 20 de dezembro, coincidiu com uma queda acentuada em novos casos de COVID-19 e um afrouxamento gradual das restrições de bloqueio. A média de sete dias de novos casos caiu de mais de 8.000 em meados de janeiro para menos de 5.000 na segunda-feira. O governo espera abrir restaurantes, museus e viagens para as vizinhas Grécia e Chipre para as pessoas que foram vacinadas nas próximas semanas.

É importante notar que até ontem (15/02), Israel vacinou 76,25% da sua população contra 2,49% no Brasil que, inclusive, está sob risco de paralisar sua campanha de vacinação por causa da falta de vacinas.

Esta nota foi escrita originalmente e circulada em um boletim de síntese de notícias publicadas pelo Wall Street Journal

Finlândia rejeita 104.000 kg de laranjas de Israel após encontrar agrotóxico proibido na União Europeia

laranjas israel

Laranjas são vistas em uma banca de frutas em 1 de abril de 2020 [Mahmoud Ajjour / ApaImages]

Oficiais da alfândega finlandesa rejeitaram 104.000 kg de laranjas de Israel depois de descobrir vestígios de bromopropilato, um agrotóxico proibido pela União Europeia (UE).

As autoridades dizem que rejeitaram oito das 16 remessas de laranjas recebidas de Israel entre fevereiro e meados de abril devido à presença do bromopropilato.  O bromopropilato é usado para repelir carrapatos e ácaros em frutas cítricas e outras culturas e é proibido na UE desde 2011, porque não se pode provar que é seguro para ingestão por seres humanos.

Segundo o chefe da Divisão Aduaneira de Pesquisa Química em Alimentos, Suvi Ojanpera, esta é a primeira vez em “vários anos” que o bromopropilato foi encontrado em produtos examinados. “Sua presença nas laranjas israelenses este ano foi uma surpresa”, disse ela.

O primeiro lote de produtos entregues à Finlândia no início da nova safra é sempre cuidadosamente examinado, disse Jonna Neffing, chefe de segurança de produtos da alfândega finlandesa, em comunicado à imprensa na semana passada.

Agora, porque vestígios de agrotóxicos proibidos foram encontrados nas remessas iniciais, “nós … [continuamos] com os controles até o final da safra de laranja em Israel. Muito provavelmente também conduziremos controles intensificados durante a próxima safra”, acrescentou Neffing.

As autoridades finlandesas disseram que laranjas que estão aquém das normas da UE entram no mercado, com testes sendo realizados enquanto o produto é armazenado em armazéns importadores.

latuff boicoteBoicote a Israel – Cartum [Latuff / Flickr]

Finlândia e Israel historicamente mantêm relações econômicas estreitas, com os dois estados recebendo exportações do outro. Israel importa máquinas finlandesas, produtos de madeira e papel, enquanto a Finlândia recebe frutas, legumes e equipamentos de telecomunicações.

Nos últimos anos, no entanto, sentimentos anti-Israel aumentaram na Finlândia, com uma série de 15 ataques de vandalismo na embaixada de Israel em Helsinque entre janeiro de 2018 e julho de 2019.

Em fevereiro de 2019, um grupo de extrema-direita finlandês se manifestou do lado de fora da embaixada de Israel, enquanto em julho de 2019 a porta de vidro do prédio foi quebrada e imagens de Adolf Hitler e da suástica estavam penduradas na entrada da frente.  As autoridades israelenses exigiram ações, mas as autoridades finlandesas fizeram pouco, mas expressaram preocupação com os ataques.

Além disso, em janeiro deste ano, as forças israelenses detiveram a parlamentar finlandesa Anna Kontula por tentar atravessar a cerca que separa Israel da bloqueada Faixa de Gaza. O Ministério das Relações Exteriores de Israel emitiu uma declaração condenando fortemente a tentativa de travessia, mas a embaixada finlandesa em Tel Aviv se recusou a comentar.

Enquanto isso, o ministro das Relações Exteriores da Finlândia, Pekka Haavisto, que assumiu o cargo após as eleições nacionais em 2019, manifestou abertamente preocupação com a posição dos EUA com Israel.

Em uma entrevista à imprensa, Haavisto defendeu a diplomacia ambiental em Gaza e disse: “O primeiro princípio, é claro, é que não podemos aceitar a ampliação de assentamentos ilegais no território palestino”.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo “Middle East Monitor” [Aqui!].

Ao abandonar palestinos, Jair Bolsonaro coloca o Brasil numa realidade nova e mais perigosa

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Benjamin Netanyahu e Jair Bolsonaro se cumprimentam no Rio de Janeiro em dezembro do ano passado (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Já viajei por um pequeno número de países e nunca me senti sob nenhum tipo de risco especial apenas por ser brasileiro.  Também nunca me preocupei com possíveis atentados terroristas em solo brasileiro, especialmente aqueles organizados por segmentos extremistas do Islamismo.

Uma das razões para isso era a posição histórica da diplomacia brasileira de apoiar a causa palestina, mas sem se tornar adversária do Estado de Israel, o que evidenciou até hoje a correção da postura pragmática que perdurou até janeiro dentro do nosso ministério de Relações Exteriores.

Esse tempo de pragmatismo de resultados está sendo encerrado com a visita que será realizada pelo presidente Jair Bolsonaro a Israel onde quase certamente será anunciada a transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, no que será um aprofundamento do abraço dado nas ações da diplomacia estadunidense liderada por Donald Trump, Mike Pompeo e John Bolton.

Esse é um erro estratégico sob todos os pontos de vista, incluindo o político e o comercial, além do aumento do risco de atentados terroristas contra brasileiros dentro e fora de nosso território nacional. 

As consequências desse erro já serão sentidas pelo próprio presidente Jair Bolsonaro que está sendo aguardado em Israel por protestos organizados pela comunidade palestina. Como ele deverá ser mantido sob estrita proteção do governo de Israel, é bem provável que nem entenda o nó que está desatando.  Mas o Brasil e os brasileiros que não terão as benesses dessa proteção estarão entrando num mundo totalmente novo com as decisões sendo tomadas por Jair Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores.  

 

Jornal israelense Haaretz publica artigo intitulado “Hitler em Brasília” para explicar ameaças relacionadas à possível eleição de Bolsonaro

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O ex-candidato a vereador Marco Antônio Santos, vestido com adereços nazistas, e o presidenciável Jair Bolsonaro em 2015.

O segundo maior jornal publicado em Israel, o Haaretz, publicou ontem um artigo particularmente duro contra o candidato presidencial Jair Bolsonaro assinado pelo jornalista norte-americano Alexander Reid Ross intitulado “Hitler em Brasília: os evangélicos norte-americanos e a teoria política nazista por trás do presidente em espera do Brasil” [1] (ver imagem abaixo).

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Na chamada do artigo,  Ross que se misture “a geopolítica fascista, o ódio do pastor fundamentalista estadunidense Pat Robertson contra os gays, o nacionalismo de  Steve Bannon e os anúncios de Putin e você terá Jair Bolsonaro, que é nostálgico da ditadura apoiada pelos EUA que torturou e matou milhares de esquerdistas”. E Ross adianta que o problema é que Bolsonaro chegando ao poder.

Para quem desejar saber mais sobre o conteúdo deste artigo devastador para as pretensões de Jair Bolsonaro de ser aliado de Israel, o site UOL repercutiu o artigo de Ross onde estão apontadas as principais questões levantadas pelo autor do autor do livro “Contra o Crepúsculo Fascista” (sem tradução no Brasil)  [2]. 

E, convenhamos,  pode-se dizer o que se quiser dos jornais de Israel, inclusive o Haaretz. Mas de uma coisa eles supostamente são os maiores conhecedores da mídia mundial, qual seja, apontar para indivíduos que se alinham com as ideias de Adolf Hitler. Nesse sentido, o título do artigo deve ter chocado muitos em Israel que não podem nem ler o nome do responsável pelo Holocausto que consumiu a vida de mais de 6 milhões de judeus.  


[1] https://www.haaretz.com/world-news/.premium-hitler-in-brasilia-the-u-s-evangelicals-and-nazi-political-theory-behind-bolsonaro-1.6581924

[2] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2018/10/25/hitler-em-brasilia-jornal-israelense-publica-artigo-com-criticas-a-jair-bolsonaro.htm

O massacre palestino escancara o limite das políticas identitárias. E agora, Jean Wyllys?

Há alguns anos atrás escrevi na revista “Somos Assim” um artigo onde criticava as identidades múltiplas que nasceram na esteira do chamado pós-Modernismo por entender que a adoção das mesmas implicava numa fragmentação da luta contra os efeitos perversos do funcionamento do Capitalismo na solidariedade que deve existir entre os que não são detentores do capital. Para simplificar, a minha posição é de que apesar de existirem várias dimensões decorrentes do funcionamento do Capitalismo no coditiano dos seres humanos, a classe ainda é a melhor forma de entender a opressão imposta aos trabalhadores, independente de gênero, etnia, preferência sexual ou religião. 

Essa minha reflexão de alguns anos atrás me parece ainda mais coerente quando assistimos ao massacre que está sendo promovido por Israel contra o povo palestino sob os olhos cúmplices das potências capitalistas e sob o silêncio generoso até de parte dos que se dizem de esquerda. 

Quem acompanha minimamente, por exemplo, os embates que ocorrem dentro do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) deve lembrar da acirrada troca de farpas entre o deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ) e o ex-deputado Milton Temer por causa da viagem do parlamentar fluminense a Israel em janeiro de 2016 onde foi, segundo ele mesmo, “ministrar uma palestra na Universidade Hebraica de Jerusalém para debater  antissemitismo, racismo, homofobia e outras formas de ódio e preconceito e suas relações com a política contemporânea” [1].

jean willys

Quando criticado pela visita, Jean Wyllys e seus apoiadores utilizaram a escusa de que Israel respeita os direitos dos LGBTs, o que torna o país uma espécie de ilha democrática numa região onde tais direitos são negados pela maioria dos países.  Essa escusa obviamente foi objetada por ativistas pró-palestinos, sendo Milton Temer o que o fez de forma mais pública, que consideraram que ao se apoiar objetivamente o estado de Israel a partir do viés da identidade LGTB, Jean Willys estava se omitindo em relação ao tratamento dispensado por Israel ao povo palestino.

Os embates que ocorreram entre Jean Wyllys e Milton Temer e entre apoiadores dos dois foram uma verdadeira briga dentro de um lamaçal, sendo que ao veterano dirigente do PSOL sobraram as costumeiras acusações de anti-semitismo, o que é uma marca da reação contra aqueles que continuam apoiando a resistência nacional palestina contra um inimigo muito melhor armado e que não hesita em utilizar formas extremas de violência contra civis desarmados como o que está ocorrendo neste momento na cidade de Gaza.

Tive a curiosidade de visitar as páginas oficiais do deputado federal Jean Wyllys para ver se havia ali alguma menção ao assassinato de mais de 100 palestinos pelas forças armadas de Israel apenas nas últimas duas semanas, e a resposta foi não. O deputado parece estar neste momento mais preocupado com a sua reeleição do que qualquer outro assunto. Até aí nada demais, pois a imensa maioria dos ocupantes de cargos eletivos deve estar fazendo isso neste momento. 

Como Jean Wyllys optou por se expor ao ir a Israel, e ainda reagir de forma furiosa quando questionado sobre isso, ele não é qualquer um neste momento em que a mão pesada de Israel recai sobre idosos, crianças e até amputados que vivem numa condição de circunscritos num campo de concentração a céu aberto em Gaza.

O interessante é que ao  ao optar por ignorar o que está ocorrendo neste momento em Gaza, Jean Willys ajuda a demonstrar os limites objetivos que as lutas de natureza identitária possuem quando são usadas para ocultar outros conflitos mais agudos como é o caso do conflito israelense-palestino.

 E fica a minha curiosidade: o que teria Jean Wyllys a dizer sobre os acontecimentos em Gaza? É que a posição  pró-palestinos de Milton Temer continua sendo a mesma, tanto que ele está sendo processado por expressá-las sob o surrado argumento de que isso expressa anti-semitismo.


[1] https://www.huffpostbrasil.com/2016/01/08/chuva-de-criticas-a-jean-wyllys-por-viagem-a-israel-expoe-cenari_a_21692150/

Contra a solidariedade que precisamos, Jean Wyllys e a “esquerda” sionista

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Por Soraya Misleh
 
“Quando cidadãos em uma posição privilegiada formulam e desenham uma solução e a impõem a um povo colonizado e sob ocupação como a única solução viável e o ‘único passo construtivo restante’, isso não é solidariedade, mas sim outra forma de ocupação.” A afirmação é da palestina Budour Youssef Hassan em seu artigo intitulado “A falsa solidariedade da esquerda sionista”. O brilhante texto refere-se à realização de uma marcha em Jerusalém em 15 de julho de 2011 cujos slogans eram “luta compartilhada” e “solidariedade” contra a ocupação dos territórios palestinos – obviamente nenhuma menção ao direito legítimo de retorno dos milhares de refugiados às terras de onde vem sendo expulsos há mais de 67 anos ou sobre o racismo inclusive contra os palestinos que vivem onde hoje é Israel (criado em 1948, mediante limpeza étnica, a nakba – catástrofe palestina). 

 Para Budour Hassan, “uma marcha palestino-sionista não oferece uma oportunidade para se estabelecer um diálogo produtivo, mas dá aos sionistas uma chance de marginalizar vozes palestinas sobre como devem resistir e o que devem aceitar”. Ela acrescenta: “Assim, essas manifestações que ostensivamente exigem igualdade, na realidade, visam manter o privilégio dos israelenses.” Por conseguinte, condenam, enfatiza Budour Hassan, “os cidadãos palestinos em Israel à inferioridade perpétua e discriminação”. A ativista conclui: “A solidariedade não é medida por números; não é sobre quantas pessoas vieram a uma manifestação pró-Palestina. Trata-se de porque essas pessoas vieram. Lutar ao lado de cinquenta israelenses realmente comprometidos com a causa palestina é, portanto, muito mais importante e valioso do que marchar na sombra de milhares de israelenses que pensam que a Palestina é apenas a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.”

Convocada por sionistas “de esquerda”, a marcha contou com algumas poucas presenças palestinas – a maioria declarara, como aponta o artigo em questão, que via em sua participação a oportunidade de obter a tão negada visibilidade na tradicional imprensa internacional. Ou seja, mesmo conscientes de que havia diferenças fundamentais e vale acrescentar – irreconciliáveis –, decidiram aproveitar uma suposta oportunidade de se fazer ver e ouvir. A despeito da atitude compreensível diante do regime de apartheid imposto cotidianamente por Israel aos palestinos, certamente um equívoco, como identifica a ativista palestina: “Essas manifestações são dominadas por sionistas liberais, e as vozes palestinas, as quais supostamente querem se fazer ouvir, são inaudíveis em meio a um coro de cânticos em língua hebraica sobre a paz e coexistência.
 
Mesmo os slogans e os cartazes que foram levantados durante as manifestações foram decididos de antemão pelos organizadores israelenses, transformando os protestos em uma rotina entediante, dolorosamente previsível e elitista.” Em outra parte do artigo, ela revela o grande risco de que esses grupos sequestrem o crescente movimento popular de resistência sob o manto da solidariedade e da coexistência. E vai além: “A solidariedade não é nem um ato de caridade, nem um festival de discursos arrogantes e retórica vazia. É uma obrigação moral que deve ser realizada com todo o empenho, firme e incondicional. (…) As tentativas de explorar o sofrimento palestino para fins políticos e de transformar a causa palestina a partir de uma luta pelos direitos humanos, justiça, liberdade e igualdade em um desfile de independência e clichês falsos devem ser combatidas.”
 
A essa “solidariedade” é que tem feito coro o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), desde o início de sua viagem para participar de conferência na Universidade Hebraica de Jerusalém. Sua atitude lembra a de movimentos que seguem a lógica do que vem sendo chamado de feminismo colonial, fundamentado na falsa dicotomia Oriente-Ocidente para ditar regras de comportamentos às árabes e às muçulmanas e, portanto, em ideias que mantêm o colonialismo e servem ao imperialismo. Entre essas, as de que as ditas “ocidentais” seriam a civilização a ser levada àqueles povos atrasados. É esse pensamento que demonstra Jean Wyllys quando afirma que não poderia ir a algumas cidades palestinas ou a países árabes vizinhos porque, como homossexual, seria morto. Um discurso que destila o preconceito que ele diz combater e revela o desconhecimento que se nega a ter humildade em reconhecer.
 
“Pombas da paz”
Quando o deputado reproduz a ideia de um diálogo possível, em contraposição à campanha central de solidariedade ao povo palestino – um chamado amplo dessa sociedade feito em 2005 ao mundo –, ignora a realidade no terreno e a história. Com a autoridade de quem luta por justas causas democráticas, presta um desserviço à causa palestina. Confunde a fundamental solidariedade internacional, ao falar em “esquerda” sionista como possível interlocutora e trazer questionamentos à eficácia da campanha BDS.
 
Em primeiro lugar, é preciso entender de que interlocutor possível e esquerda Jean Wyllys fala. “Na gíria israelense local e no discurso político utilizado pelos meios de comunicação e pela comunidade acadêmica, o ‘campo da paz’ em Israel é a ‘esquerda’. Noutras partes do mundo, tal significaria necessariamente uma plataforma social-democrática ou socialista, ou pelo menos uma preocupação acentuada com os grupos social e economicamente desfavorecidos numa dada sociedade. O campo da paz em Israel tem se concentrado inteiramente nas manobras diplomáticas desde a guerra de 1973, um jogo que tem pouca relevância para um número crescente de grupos”, ensina o historiador israelense Ilan Pappe em “História da Palestina moderna”.
 
Em resenha sobre a publicação “Falsos profetas da paz”, de Tikva Honig-Parnass, o Ijan (Rede Internacional de Judeus Antissionistas) demonstra que historicamente a “esquerda” sionista esteve tão alinhada com o projeto de colonização da Palestina quanto a direita. “Como esse livro mostra, desde antes da fundação do Estado de Israel, a esquerda sionista falou demasiadas vezes a língua do universalismo, enquanto ajudava a criar e manter sistemas jurídicos, governos e o aparato militar que permitiram a colonização de terras palestinas.”
 
A raiz dessa esquerda está no chamado “sionismo trabalhista”, constituído ao início da colonização, em fins do século XIX e início do XX. Seus membros reivindicavam a aspiração de princípios socialistas e cultivaram, como informa o texto divulgado no site do Ijan, deliberadamente essa falsa ideia. Os diários dos trabalhistas à época demonstram seu intuito não declarado: assegurar a “transferência” dos habitantes nativos (árabes não judeus em sua maioria) para fora de suas terras e a imigração de judeus vindos da Europa para colonizar a Palestina – um eufemismo para limpeza étnica. “Em um de seus momentos mais francos, David Ben Gurion, principal liderança desse grupo e chefe do movimento operário sionista (que se tornaria primeiro-ministro de Israel em 1948), confessou em 1922 que ‘a única grande preocupação que domina nosso pensamento e atividade é a conquista da terra, através da imigração em massa (aliá). Todo o resto é apenas uma fraseologia’.” O artigo cita ainda outra observação de Honig-Parnass: “No 20º Congresso Sionista, em 1937, Ben Gurion defendeu a limpeza étnica da Palestina (…) para abrir caminho à criação de um estado judeu.”
 
Independentemente de se autodenominar de “esquerda”, de “centro” ou de “direita”, o sionismo visava a conquista da terra e do trabalho, que seria exclusivo a judeus. Para tanto, a central sindical israelense Histadrut – ainda existente e alicerce do estado colonial, proprietária de empresas que exploram palestinos – teve papel central, e seu fortalecimento é defendido por sionistas de “esquerda”. Em outras palavras, a diferença entre os trabalhistas e os revisionistas (como Netanyahu) é que os últimos eram – e continuam a ser – mais francos.
 
O único partido hoje que se autodenomina sionista de esquerda é o Meretz, criado nos anos 1990. Como ensina Ilan Pappe em “A história moderna da Palestina”, o novo grupo de “pombas pragmáticas” surgiu da fusão do “movimento de direitos civis de Shulamit Aloni, um partido liberal da linha dura chamado Shinui (‘mudança’) e o partido socialista Mapam”. O autor acrescenta: “Pragmatismo nesse caso significava uma veneração tipicamente israelita de segurança e dissuasão, não um juízo de valor sobre a paz como conceito preferido, nem simpatia pelo problema do outro lado no conflito, nem reconhecimento do seu próprio papel na criação do problema.”
 
A “esquerda” sionista apoiou a invasão de Israel ao Líbano em 2006 e ofensivas subsequentes em Gaza, à exceção da operação terrestre em 2014. Sua alegação é que não abrem mão do direito de “defesa” de Israel. É o que conta Honig-Parnass em artigo publicado no The Palestine Chronicle. Durante o massacre em Gaza há 1,5 ano, informa a autora, o Meretz recusou-se a participar de manifestação conjunta com árabes-palestinos contra a ofensiva e pelo fim do cerco a Gaza, porque questionava esse “direito”. Em seu artigo, Honig-Parnass cita declaração de uma liderança do Meretz, Haim Orom, a respeito: “Nossa posição é essencialmente diferente do denominador comum daqueles grupos que organizaram a manifestação: Meretz apoia a operação em Gaza. Esses grupos não aceitam o direito básico de autodefesa do Estado de Israel, o que nos apoiamos. A massiva maioria do partido votou pela operação e por uma resolução em oposição ao ato terrestre.”
 
Arvorando-se a favor da paz, a “esquerda” sionista tenta apagar ou justificar a nakba. Racionaliza a afirmação da natureza democrática de um estado judeu e defende a lógica de “separados, mas iguais”. Essa “solução”, de dois estados, tornou-se inviável diante da expansão contínua da colonização, cuja face mais agressiva são os assentamentos – os quais não só não cessaram durante os sucessivos governos trabalhistas (no poder inclusive em 1967, quando Israel ocupou o restante da Palestina), como foram impulsionados por eles. Parte da esquerda mundial defende essa solução, mas um número crescente tem percebido sua impossibilidade e reconhecido que é preciso lutar por um estado único, laico e democrático, com direitos iguais a todos que queiram viver em paz com os palestinos.
 
Hoje, pensar nessa proposta seria semelhante a legitimar o regime institucionalizado de apartheid, com um estado dividido em bantustões, sem qualquer autonomia, em menos de 20% do território histórico da Palestina. Se essa “solução” hoje está enterrada, como reconhecem especialistas no tema, desde sempre é injusta, por não contemplar a totalidade do povo palestino, mas somente os que residem na Cisjordânia e Gaza – a maioria não vive ali, mas fora de suas terras, e há ainda 1,5 milhão no que é hoje Israel, considerados cidadãos de segunda classe.
Negociações e Oslo
Defendidas e impulsionadas pela “esquerda” sionista, as inúmeras negociações fracassaram não à toa: em nenhuma, a pretensão era pôr fim à colonização de terras e assegurar justiça aos palestinos. Como escreve Waldo Mermelstein em seu artigo intitulado “Turnê de Jean Wyllys por Israel foi um desastre para a causa palestina”, a oferta generosa denominada Iniciativa de Genebra, de 2005, era de pouco mais do que “as já reduzidas propostas de Clinton e Ehud Barak em 2001. Retorno simbólico de poucos milhares de refugiados, manutenção das colônias com a permuta de territórios entre essas e as regiões em que os palestinos são majoritários nas fronteiras de 1948.”
 
Os acordos de Oslo firmados em 1993, mediante a rendição da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) a Israel, aprofundaram o apartheid e a ocupação. Segundo a jornalista Naomi Klein denuncia em seu livro “A doutrina do choque – a ascensão do capitalismo de desastre”, entre aquele ano e 2000, o número de colonos israelenses dobrou.
 
Como demonstra ela, Oslo foi um ponto de virada numa política que sempre teve na sua base a limpeza étnica dos palestinos. De 1948 até então, havia certa interdependência econômica, a qual foi interrompida. “Todos os dias, cerca de 150 mil palestinos deixavam suas casas em Gaza e na Cisjordânia para limpar as ruas e construir as estradas em Israel, ao mesmo tempo em que agricultores e comerciantes enchiam caminhões com produtos para vender em Israel e em outras partes do território”, aponta Klein na obra. Após os acordos de 1993, o estado judeu se fechou a essa mão de obra, que desafiava o projeto sionista de exclusão dessa população. Simultaneamente, Israel passou a se apresentar, nas palavras da jornalista, “como uma espécie de shopping center de tecnologias de segurança nacional”. Em seu livro, a autora afirma que, ao final de 2006, ano da invasão de Israel ao Líbano, a economia do estado sionista, baseada fortemente na exportação militar, expandiu-se vertiginosamente (8%), ao mesmo tempo em que se acentuou a desigualdade dentro da própria sociedade israelense e as taxas de pobreza nos territórios palestinos alcançaram índices alarmantes (70%).
 
Apartheid e a justeza do BDS
 
Diante de uma economia a solidificar o regime de apartheid, o contraponto veio sob a forma do chamado da sociedade civil palestina por BDS em 2005. Suas demandas são: o fim imediato da ocupação militar e colonização de terras árabes e a derrubada do muro de segregação, que vem sendo construído na Cisjordânia desde 2002 e divide terras, famílias e impede a livre circulação; a garantia de igualdade de direitos civis a todos os habitantes do território histórico da Palestina, independentemente de religião ou etnia; e o respeito ao direito de retorno dos refugiados palestinos às suas terras e propriedades.
 
Em diversas partes do globo a campanha de BDS tem se intensificado. Na Europa, governos como o da Noruega desinvestiram em contratos com empresas israelenses. Cidadãos comuns recusam-se a comprar produtos oriundos da potência ocupante, sindicatos e intelectuais têm se engajado nessa luta, bem como universidades têm cancelado convênios de cooperação com instituições que mantém e legitimam o regime de segregação. Netanyahu estimou a perda de bilhões de dólares com o BDS – e o Parlamento israelense aprovou uma lei que proíbe os residentes em Israel de endossá-lo e criminaliza o boicote. A eficácia da campanha tem levado sionistas a desqualificarem-na e considerá-la uma ameaça. A “esquerda” segue nessa direção. Amplamente utilizados por Jean Wyllys, argumentos como o de que o BDS visaria indivíduos e impediria o possível “diálogo” são uma forma de enfraquecer a principal ação de solidariedade internacional ao povo palestino.
 
O boicote acadêmico e cultural é outra linha de frente nessa luta. Entre seus adeptos estão a própria Naomi Klein e o cantor Roger Waters. Conforme escreve o ativista Omar Barghouti em “BDS – Boycott, divestment, sanctions, the global struggle for palestinian rights”, nesse sentido, o chamado palestino reivindica: cessar qualquer forma de cooperação acadêmica e cultural, colaboração ou projetos com instituições israelenses; suspender todas as formas de fundos e subsídios a essas e ‘desinvestir’ nelas; trabalhar para condenar as políticas de Israel e pressionar pela adoção de resoluções nesse sentido; apoiar instituições acadêmicas e culturais palestinas sem contrapartida em relação ao estado sionista.
 
Como afirmou Indra Habash em artigo de sua autoria sobre o tema, as instituições israelenses têm funcionado “como instrumento facilitador e normalizador da situação de ilegalidade das colônias israelenses, da construção do muro de separação e dos crimes cometidos contra os palestinos”. Além de se dar em uma das universidades que não foge à regra  e ainda tem parte de seu campus construído em território ocupado – como aponta carta da Frente em Defesa do Povo Palestino a Jean Wyllys (leia em http://goo.gl/ER08Uw) –, a conferência e a viagem de Jean Wyllys foram um exemplo dessa “normalização”, a partir do uso de causas democráticas justas para manter o projeto colonial.
 
De encontro a isso, a campanha por BDS a Israel é tarefa urgente e precisa ser elevada ao topo da lista da solidariedade internacional pela Palestina. À frente de seu tempo, diferentemente de Jean Wyllys, o educador Paulo Freire recusou convite para participar de conferência em universidade israelense sobre “diálogo”, por entender que, diante da ocupação, parte dos interlocutores não seria ouvida. A propostas de “diálogo” que ousem a paz dos cemitérios, essa é lição a ser aprendida.
Referências
BARGHOUTI, Omar. BDS – Boycott, divestment, sanctions, the global struggle for palestinian rights. Chicago IL, EUA. Haymarket Books, 2011.
HABASH, Indra, Apud MISLEH, S. Disponível em file:///C:/Users/Soraya/Downloads/Al%20Thawra%20marco%202012.pdf.Acesso em 13/1/2016.
HASSAN, Y. Budour. The sham solidarity of Israel’s Zionist left. Disponível em 
HONIG-PARNASS, Tikva. Zionist Left Support for Bloody Assaults on Gaza Signifies Its Erasure from Israel’s Political Map. Disponível em http://www.palestinechronicle.com/zionist-left-support-for-bloody-assaults-on-gaza-signifies-its-erasure-from-israels-political-map/. Acesso em 13/1/2016.
IJAN – International Jewish Anti-Zionist Network. Debunking the Myth of the Zionist Left. Disponível http://www.ijan.org/uncategorized/jadaliyya-debunking-the-myth-of-the-zionist-left/. Acesso em 13/1/2016.
IJAN & Labor for Palestine (US). Briefing: Labor Zionism and the Histadrut. Disponível em https://bdsmovement.net/files/2011/02/IJAN-LFP-Histadrut-briefing-illustrated.pdf. Acesso em 13/1/2016.
KLEIN, Naomi. A doutrina do choque – A ascensão do capitalismo de desastre. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2008.
MERMELSTEIN, Waldo. Turnê de Jean Wyllys por Israel foi um desastre para a causa palestina. Disponível em http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/42902/turne+de+jean+wyllys+por+israel+foi+um+desastre+para+a+causa+palestina.shtml. Acesso em 13/1/2016.
PAPPE, Ilan. História da Palestina moderna – uma terra, dois povos. Tradução: Ana Saldanha. Lisboa, Portugal. Editorial Caminho, 2004.
FONTE: http://carosamigos.com.br/index.php/artigos-e-debates/5838-contra-a-solidariedade-que-precisamos-jean-wyllys-e-a-esquerda-sionista