O sonso: um novo tipo social no cenário político?

*Por Luciane Soares 

Neste último ano, militando pelo direito dos servidores públicos do Rio de Janeiro, tenho me deparado com um tipo social que passo a descrever neste texto. Como pesquisadora, tenho recolhido rico material para pensar os tipos “exóticos” que aparecem na cena política nacional. Muito tem se falado do recrudescimento do fascismo no posicionamento de parte da sociedade civil que foi ás ruas vestida de verde e amarelo protestar contra corrupção.

Embora não se ouçam mais panelas, há um ativismo intenso nas redes sociais. Ataques de ódio como o sofrido pela filósofa Judith Butler no ano passado, em sua vinda ao Brasil, tornam-se a tônica das manifestações públicas de grupos minoritários. Sim, afirmo que estes grupos (que se orientam por certo espectro de direita, sem dominar um léxico propriamente liberal), não possuem solidez para além do uso das redes sociais e de pontuais intervenções de ódio tendo como foco pautas de gênero, orientação sexual e partidária (neste caso o ódio ao Partido dos Trabalhadores aparece como um elemento que unifica atores sociais muito distintos entre si). A descrição destes grupos e de suas manifestações foi foco de vários textos ao longo do ano passado. Não são o meu principal objeto aqui, embora dedique à eles um parágrafo.

Foi Theodor Adorno um dois mais criativos pensadores a ocupar-se de tipos semelhantes aos que têm desfilado nas ruas e mídias brasileiras dos anos recentes. No Pós-Guerra, Adorno dedicou-se a compreender como pessoas vivendo dentro de um sistema pretensamente democrático, demonstravam predisposição a aceitar autoridade ao mesmo tempo em que exibiam traços individualistas e independentes. Esta personalidade dominada por um “fascismo potencial” era reconhecível pelo ódio expresso em relação ao outro. Fosse ele um exilado ou qualquer tipo que ameaçasse uma certa forma instituída de repetição da vida. O “mais do mesmo” que no cotidiano produz a sensação de integração tão fundamental à perpetuação desta sociedade tal qual a encontramos ao nascer. Encontramos este “fascismo potencial” na defesa de candidatos cujo único capital agregador utilizado é a exibição constante de discursos de ódio. Cuja única forma de comunicação é o clamor pelo emprego da violência (e da tortura) como resolução para o Brasil. O fato é que a produção de ajustamento à forma como nos inserimos no capitalismo não pode se dar sem um grau de adesão mais ou menos explicito ao potencial fascista. A questão é como nos posicionamos neste cenário.

A impotência diante deste sistema torna-se terreno fértil ao tipo de comportamento pesquisado por Adorno. Há uma cena no filme Concorrência Desleal de Ettore Scola que nos ajuda na compreensão do conceito. Acompanhamos o cotidiano de uma família de comerciantes católicos na Itália de 1938. Em determinada cena, vemos apenas um par de botas pretas, ricamente lustradas ocuparem lugar na sala. O filho havia se integrado ao fascismo e exibia orgulhoso seu novo posto e como desdobramento, sua nova identidade. E o fazia de forma arrogante e intimidadora. Agora, não mais “um qualquer”, faria parte do exército capaz de dotar sua fraca personalidade de um brilho novo e aterrador. Este personagem representa um tipo bastante comum de cidadão ativo nas redes sociais e nas ruas.

Há algumas semanas tenho observado mais de perto um fenômeno que se não é novo, ganha cores mais vivas após os desdobramentos do golpe em curso no Brasil que culminaram com impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016. A velocidade da retirada de direitos em curso no país e a resposta coletiva à estes ataques nos apresenta um novo ator político: o sonso. Mas em que ele difere do potencialmente fascista descrito por Adorno? A resposta não é fácil e este é um exercício reflexivo. Mas tentarei apresentar os primeiros contornos deixando ao leitor, espaços abertos. Opto por este termo “sonso” para dialogar com uma percepção popular muito empregada nas interações. Existem expressões que são em si, qualificações insuperáveis e que não podem ser substituídas sem prejuízo para o leitor. São ricas em acúmulo de experiência compartilhada. Quem não sabe do que tratamos quando dizemos que “fulana é sonsa”, “lá vem o sonso “, expressões que remetem à alguém que dissimula suas verdadeiras intenções.

Um dos traços mais visíveis do que chamarei de “o sonso político” é sua recusa a tomar posição sobre ideologias. Busca desqualificar todos aqueles que se apresentam assim, como equivocados ou radicais. O humanismo do sonso político é abstrato o suficiente para aliar-se em campanhas de defesa dos animais desde que elas não esbarrem na crítica a indústria de cosméticos. Também demonstra sérios problemas com a história, operando com uma seletividade que freqüentemente omite a participação de seu grupo político em tomadas de decisões. Podem ser greves (as quais não adere) ou eleições, em seu discurso “tudo é a mesma coisa e nada faz diferença”. Assim ele exibe um certo prazer com a imutabilidade dos grupos que ocupam o poder político e culpa uma entidade etérea, “o povo” por todas as mazelas sociais. Ou ao contrário, atrela a ação coletiva a algum ganho concreto para seu grupo, fazendo passar por decisão da maioria o que foi acordado entre cinco ou seis honoráveis “camaradas”.

O sonso político é um animal profundamente ecológico. Temendo qualquer tipo de confronto, emite suas opiniões de forma vaga e sempre pelo caminho da conciliação. Mas se estiver em maioria, em uma mesa de bar, pode tornar-se exuberante em opiniões que exaltam a meritocracia e é claro, sempre que possível, sua própria biografia ou a de seu partido ou familiares. Acredita que seu maior trunfo quando em um espaço de ação política é conciliar. Não sendo a coragem uma de suas virtudes, o sonso político pode facilmente desmentir o dito, votar contra o defendido, acusar o oponente de autoritário.

O sonso político, assim como todo sonso que nós conhecemos é um mestre. Ao parecer um matuto desinformado nos leva a crer que poderá ouvir nossos argumentos. É enganoso pensar que isto ocorre porque ele não tem uma posição ou que é apenas um indeciso. Nada disto Ao contrário do potencial fascista que berra, explode, ofende, o sonso tem voz calma, as vezes, até débil. Preza por demonstrações de afeto em relação a qualquer um que exiba poder e não trata com desprezo os que considera menores. Sabe que sua capacidade de circular em qualquer espaço, faz dele um tipo agradável.

Quando ocupa o lugar de orador o sonso expressa toda a largueza de sua personalidade escorregadia. Declara seu amor ao bem comum, sua abertura ao diálogo e sua disposição a reavaliar erros cometidos. É aplaudido de pé como estadista brilhante. Como político ideal. O sonso político não encaminha nenhuma luta além daquele que favorece seu cargo ou seu bolso. Uma vez que iguala as duas coisas, esta distinção não tem grande importância.

O problema de nossas organizações no mundo real ou virtual, dos sindicatos aos partidos, não é o tipo conservador, o reacionário, o fascista … tampouco os chamados “radicais de esquerda”. De forma silenciosa, estrategicamente posta em nosso cotidiano departamental, de militância ou mesmo de lazer, está o sonso. Um tipo impermeável à qualquer clamor por republicanismo. Um tipo orgulhoso, não de sua ignorância, mas da percepção de que sua multiplicação (um exército de sonsos) está no horizonte político de forma decisiva.

 
 *Luciane Soares da Silva é Ribeiro e presidente da ADUENF. Tem estudado racismo, favela e cultura urbana. Temas de seu interesse e sobre os quais desenvolve pesquisas.
FONTE: http://revistavirus.com.br/o-sonso-um-novo-tipo-social-no-cenario-politico/