Revelado: há em curso novo esforço de lobby para desregulamentar os OGM na União Europeia

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A maioria das contribuições (74%) para a revisão de regras na União Europeia vem de órgãos da agroindústria, que favorecem a desregulamentação de novas técnicas de edição de genoma (Foto: europarl.europa.eu)

Por Elena Sanchéz Nicolás para o EU Observer

A pressão política para desregulamentar a nova geração de organismos geneticamente modificados (OGM) tem aumentado na Uni;ão Europeia (EU) desde 2018, ano em que o Tribunal de Justiça Europeu decidiu que essas novas técnicas ainda se enquadram no quadro atual que trata de produtos de engenharia genética.

As novas tecnologias genéticas permitem acelerar o melhoramento de plantas, aumentando a produtividade e melhorando sua tolerância a doenças ou mudanças ambientais.

No entanto, dado que essas técnicas ainda não mostraram um histórico de segurança sustentado, elas não podem ser isentas das regras que se aplicam aos OGM, concluiu o tribunal superior da UE em 2018.

Em 2019, os Estados-Membros solicitaram à Comissão Europeia que preparasse um estudo abrangendo as incertezas jurídicas para novas técnicas genômicas e opções de política ao abrigo da legislação da UE.

Este documento, que deve ser publicado antes do final de abril, é baseado em consultas com os Estados membros e outras partes interessadas.

Entrada distorcida

No entanto, uma análise recente mostra que a maior parte das contribuições (74%) vem de órgãos da agroindústria, que favorecem a desregulamentação de novas técnicas de edição de genoma.

Além disso, a consulta incluiu o dobro de perguntas sobre os benefícios potenciais dos novos OGM do que sobre os riscos potenciais.

Enquanto isso, o executivo da UE evitou publicar respostas à consulta antes de sua publicação – o que gerou indignação por parte de grupos verdes.

“A Comissão Europeia prometeu uma estratégia de sistema alimentar sustentável com sua estratégia Farm to Fork, mas parece estar tentando deixar uma nova geração de safras geneticamente modificadas em nossos campos e pratos sem verificações de segurança e rotulagem”, disse Mute Schimpf da A ONG Friends of the Earth Europe, com sede em Bruxelas.

A legislação em vigor da UE impõe uma autorização pré-comercialização para que qualquer OGM seja colocado no mercado, após uma avaliação dos riscos que podem representar para a saúde humana e o meio ambiente. As regras também os sujeitam a obrigações de rastreabilidade, rotulagem e monitoramento.

No entanto, os lobistas têm tentado desregulamentar novas técnicas de OGM (também chamadas de edição de genes ou CRISPR), o que reduziria os padrões de avaliação de risco, monitoramento ou requisitos de rotulagem.

Uma nova investigaçãoda ONG Corporate Europe Observatory (CEO), publicada na segunda-feira (29 de março), descobriu como novas estratégias de lobby destinadas a desregulamentar técnicas genéticas modernas são conduzidas por vários institutos de pesquisa acadêmica e de biotecnologia com interesses corporativos – usando ‘clima- narrativas amigáveis.

Nina Holland, pesquisadora do CEO, advertiu: “Devemos ser extremamente cautelosos com as tentativas da indústria de biotecnologia de exagerar os produtos de edição de genoma como ‘verdes’ e ‘amigáveis ​​ao clima’.”

Por exemplo, a plataforma de lobby EU-SAGE , fundada pelo Flemish Biotech Institute (VIB), publicou recentemente uma carta de adesão pedindo uma mudança na diretiva de OGM da UE, alegando que foi assinada por “mais de 129 institutos de pesquisa”.

No entanto, de acordo com a análise do CEO, em muitos casos, são os pesquisadores de biotecnologia que assinam essas cartas – não o instituto que os emprega.

Em maio de 2020, uma universidade belga exigiu que a SAGE removesse seu logotipo da carta, dizendo que seu uso sem consentimento era “ilegal”.

Em sua carta, o grupo de lobby alertou que, se a UE aplicar uma legislação estrita a essas novas técnicas, “os agricultores europeus perderão uma nova geração de variedades de culturas mais resistentes e nutritivas que são urgentemente necessárias para responder aos resultados das mudanças climáticas” .

Greenwashing

Enquanto isso, a European Plant Science Organisation (EPSO), que representa acadêmicos e institutos de pesquisa, organizou uma série de reuniões com legisladores nacionais sobre a desregulamentação da edição de genes.

Os documentos mostram que os países que se mostraram abertos à desregulamentação de novos OGM foram convidados para essas reuniões.

Em janeiro, uma dezena de países foi convidada a se reunir com representantes do EPSO – a saber, Bélgica, Estônia, Finlândia, França, Alemanha, Holanda, Espanha, Suécia, Dinamarca, Itália, Lituânia e Portugal.

“O EPSO oferece-se para colaborar com os decisores políticos para desenvolver regulamentações adequadas e prontas para o futuro que contribuem para a segurança alimentar e nutricional e [o] usam todas as ferramentas disponíveis para reduzir o impacto ambiental da agricultura”, de acordo com um documento da organização”.

Outra reunião, marcada para maio, terá como foco o próximo estudo da comissão.

Enquanto isso, grupos verdes alertaram que os efeitos indesejados de novos OGMs são imprevisíveis.

“Embora essas novas técnicas sejam mais precisas, todo o processo ainda envolve muitos eventos aleatórios cujos resultados não podem ser previstos”, alertou Schimpf.

“Essa imprevisibilidade foi um dos principais argumentos para a regulamentação rígida originalmente introduzida para os OGMs e esse risco permanece com a [ir] nova geração”, acrescentou.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo EU Observer [Aqui! ].

Agronegócio faz pressão para manter no mercado brasileiro agrotóxico que é proibido na China e na União Europeia

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Lobby usa pesquisa não concluída para pressionar Anvisa sobre agrotóxico proibido

Produtores de soja e de agrotóxicos financiam pesquisas sobre o paraquate e tentam reverter a proibição antes mesmo de apresentar os resultados. Reportagem levantou intensa agenda de reuniões na Anvisa

Por Ana Aranha e Hélen Freitas – Repórter Brasil/Agência Pública

Na reta final para a proibição de um dos agrotóxicos mais letais do mundo, o paraquate, a indústria aumentou para a potência máxima o lobby em sua defesa no Brasil. Ele passa a ser banido em setembro deste ano, segundo resolução da Anvisa publicada em 2017 e ancorada em evidências de que a exposição ao produto pode gerar mutações genéticas e a doença de Parkinson. 

Agrotóxico largamente utilizado nas plantações de soja, basta um gole para tirar a vida. Foi criado pela Syngenta, empresa de origem suíça recentemente comprada por um grupo chinês, mas está banido em toda a União Europeia e na China, onde é produzido apenas para exportação.

A artilharia em defesa do produto é robusta. Desde sua proibição em 2017, foram mais de vinte reuniões na Anvisa com as maiores multinacionais do setor, como a Syngenta, e representantes dos maiores exportadores do Brasil, como a Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja). A agenda, compilada pela Repórter Brasil e Agência Pública, revela a coincidência entre as reuniões e algumas das principais decisões da agência reguladora. A frente financia pesquisas, ações na justiça, faz lobby nos ministérios e Congresso. 

Neste momento, os atores estão alinhados em torno de um argumento central: a proibição deve ser adiada até que novos estudos fiquem prontos. Estudos financiados pela indústria que fabrica e lucra com o paraquate.

Ligado a mutações genéticas e a doença de Parkinson, o paraquate será banido em setembro deste ano no Brasil, segundo resolução da Anvisa, publicada em 2017 (Foto: Alam Ramírez Zelaya)

“Você já foi para o Mato Grosso? Lá é o Brasil que deu certo, é impressionante a pujança do agro brasileiro”, afirma Angelo Trapé, responsável pela pesquisa paga pela Aprosoja. Professor aposentado da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, ele é transparente em relação ao seu entusiasmo pela segurança do paraquate. “O contato do trabalhador que faz a pulverização é nulo. É tudo mecanizado, trator fechado, vedado”. 

Os pesquisadores coletaram amostras de urina de trabalhadores antes, durante e três dias depois da aplicação do produto. “Vamos testar se o trabalhador da soja, aquele que usa tecnologia e proteção, tem algum resíduo de paraquate na urina. Se não tiver, como podemos explicar a decisão da Anvisa que vai proibir o produto?”, questiona o pesquisador. 

Trapé garante que o interesse do financiador não influenciará nos resultados da pesquisa, que está sendo conduzida em laboratório da Unicamp com o aval do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade. Questionado pela reportagem, o comitê informou que “em relação ao conflito de interesse, foi apresentada uma declaração do patrocinador atestando não haver conflito de interesses na execução desta pesquisa”.

O comitê de ética da universidade, porém, não dá aval para a metodologia da pesquisa como um todo, ele avalia apenas o risco envolvido na participação dos trabalhadores, afirma João Ernesto de Carvalho, diretor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp, onde fica o laboratório em que a pesquisa está sendo realizada. “É complicado quando o financiador tem interesse no resultado, você precisa controlar as condições em que o estudo é realizado, não é o caso dessa pesquisa”, questiona.

Produtores da soja defendem que a proibição do paraquate deve ser adiada até que novos estudos financiados por eles fiquem prontos (Foto: Pedro Biondi/Repórter Brasil)

O estudo também é criticado por testar apenas situações que seguem o protocolo ideal de segurança. “Não somos inocentes para acreditar que todos os produtores de soja têm tratores de cabine fechada, não é essa a realidade de todo o campo brasileiro”, afirma o procurador federal Marco Antônio Delfino de Almeida, que atua no Mato Grosso do Sul e teve acesso às informações preliminares sobre a pesquisa.

O procurador foi o responsável por detectar movimentação dentro da Anvisa em março deste ano, quando o pedido da indústria para adiar a proibição foi colocado em pauta em uma reunião da diretoria da agência. 

Ele conseguiu umliminar na justiça proibindo a Anvisa de fazer mudanças na data de proibição antes da conclusão das pesquisas. “Não podemos aceitar esse argumento do ‘aprova aí e depois eu apresento’. Não é assim que funciona”, afirma o procurador.

reunião aconteceu no dia 31 de março, mas apenas para discutir outros assuntos, já que a Anvisa estava impedida de deliberar sobre o banimento do paraquate.

Procurada pela reportagem e com dez dias para responder às questões enviadas, a Anvisa não retornou. Em nota técnica enviada à justiça sobre o caso, a agência argumentou que a sua resolução sobre a proibição deixara aberta a possibilidade de serem apresentadas novas evidências. E que a indústria manteve a agência sempre informada sobre os atrasos nas pesquisas. “Entende-se, pelo princípio da razoabilidade, que esta Agência deveria avaliar a concessão de prazo adicional solicitada”, conclui a nota (leia na íntegra).

Procurada pela reportagem, a Aprosoja, financiadora da pesquisa, afirmou que “não está se manifestando sobre o processo envolvendo a liberação do paraquate”. 

Atraso providencial

Anvisa começou a reavaliação do paraquate em 2008. Em 2015 o órgão promoveu uma consulta pública sobre a proibição, quando recebeu milhares de contribuições. Por que, então, os estudos não foram feitos antes?

Assim como os produtores de soja, as fabricantes de agrotóxicos também estão financiando uma nova pesquisa sobre o paraquate e ela também está atrasada. O estudo vai testar a sua capacidade de provocar mutação nos genes de ratos de laboratório no Covance Laboratory, na Inglaterra. Os resultados só devem ficar prontos depois de setembro, data da proibição no Brasil. 

Em ambos os casos, o atraso das pesquisas é usado como principal argumento para adiar a data do banimento.

Desde a resolução que anunciava a proibição do paraquate no Brasil, multinacionais e representantes dos maiores exportadores de soja se reuniram com a Anvisa (Foto: Cindy Cornett Seigle)

“Sim, houve um atraso, mas é preciso entender a sazonalidade da cultura da soja”, afirma Elaine Lopes Silva, vice-coordenadora da chamada “Força-Tarefa Paraquate”, grupo formado por 12 empresas fabricantes de agrotóxicos, entre elas as multinacionais Syngenta e a Adama. É essa força-tarefa que está financiando a pesquisa na Inglaterra.

Segundo Silva, a demora se deve às dificuldades em definir o formato que o estudo deveria ser feito, achar um laboratório capaz e conciliar a agenda da pesquisa com o tempo da safra da soja. “No primeiro momento em que vimos que esse atraso aconteceria, nós comunicamos e a Anvisa se mostrou bastante aberta”, afirma. “Ela se comprometeu a levar isso [adiamento] para discussão”.

A reportagem teve acesso a quatro pedidos oficiais feitos pela indústria para adiar o prazo de proibição. O mais ousado deles foi feito ainda em 2019, quando a força-tarefa tentou ganhar mais dois anos de vendas no Brasil. Em vez de setembro de 2020, eles solicitaram empurrar o prazo da proibição para novembro de 2022. 

Como o pedido não foi concedido, novas solicitações foram feitas para adiar para julho de 2021. Todas protocoladas na Anvisa antes de qualquer atraso provocado pela pandemia.

Indústria vai à Anvisa

Meses antes da reunião do dia 31 de março (quando a Anvisa pretendia deliberar sobre  adiar a proibição, mas foi impedida pela justiça), estava intensa a agenda de encontros com representantes da indústria e outros atores do processo. A reportagem detectou seis reuniões na agenda oficial dos diretores da agência sanitária com o tema específico do paraquate só em outubro e novembro de 2019. 

Apenas nestes dois meses, há quatro encontros na Anvisa com a Syngenta e sua força-tarefa, três deles para tratar do paraquate. 

Procurada pela reportagem, a Syngenta enviou nota afirmando que “reconhece a autonomia e seriedade da Anvisa para regular o uso dos defensivos agrícolas”. E que a sua força-tarefa “valoriza e apoia os esforços da Anvisa em conduzir uma avaliação abrangente, que sempre deve considerar a importância agronômica e econômica do paraquate para a agricultura brasileira, sem prejuízo da segurança e saúde dos agricultores e consumidores” (leia aqui a nota na íntegra).

Veja a íntegra do levantamento sobre a agenda da Anvisa.

A sequência de reuniões em outubro e novembro culmina com um encontro entre o diretor Renato Porto, então responsável pelas decisões sobre a proibição do agrotóxico, com a bancada ruralista e representante da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) no dia 5 de novembro. Na pauta, o paraquate.

O comitê de Ética da Unicamp deu seu aval à pesquisa pouco mais de um mês depois, no dia 11 de dezembro. Embora ele tenha autonomia da comissão nacional, a reportagem procurou a Conep para entender porque o seu coordenador geral se deslocou até a Anvisa para falar sobre o paraquate justamente neste período. A instituição afirmou apenas que “não aprovou protocolo de pesquisa envolvendo o paraquate” e não respondeu sobre o que foi discutido nas reuniões.

Segundo a nota técnica da Anvisa, a agência afirma que a “aprovação pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa” foi uma das dificuldades encontradas pela indústria que contribuíram para atrasar as pesquisas. “No caso da Conep, vale salientar que a própria Anvisa procurou auxiliar o processo, realizando interlocução com aquela Comissão, com vistas a esclarecer o propósito do estudo de biomonitoramento”, diz o documento, em referência direta à pesquisa conduzida na Unicamp.

Apesar do conflito de interesse, a associação de produtores de soja financia pesquisa para avaliar os riscos do produto na saúde do trabalhador (Foto: Pedro Biondi/Repórter Brasil)

Os encontros da indústria na agência voltaram a acontecer neste ano, com reuniões específicas sobre o paraquate com a Syngenta e a bancada ruralista em fevereiro e março. No final de março, a revisão do prazo de banimento entrou na pauta da reunião da diretoria colegiada da Anvisa, soando o alerta do Ministério Público Federal.

Depois que o MPF entrou na história, a agência teve de se manifestar dentro do processo. Os documentos enviados, aos quais a reportagem teve acesso, sugerem que a agência estava inclinada a ceder aos pedidos da indústria.

A Advocacia-Geral da União entrou no processo para defender o direito da Anvisa em debater o assunto. Mas acabou fazendo uma longa argumentação sobre o mérito, deixando claro uma posição favorável ao adiamento. O “efeito indesejado, gravíssimo e imediato” da proibição, lê-se na manifestação, “significará perda de competitividade internacional do produto brasileiro frente aos demais players do mercado de grãos” (leia o documento completo).

Lobby no Congresso

Depois que o MPF amarrou as mãos da Anvisa, o lobby parece ter tomado uma ação desesperada no Congresso. Na mesma semana no início de julho, um deputado e um senador da bancada ruralista entraram com projetos pedindo a total suspensão da resolução da Anvisa, o que teria o efeito de liberar o paraquate no país.

Por meio de Projetos de Decreto Legislativo com redação idêntica na Câmara e no Senado, afirmam que a decisão de banir o agrotóxico “fundamentou-se a partir de viés político e não de uma decisão científica”.

O avanço no Congresso também ocorreu em sintonia com a agenda de reuniões na Anvisa. Uma delas foi em 29 de junho, um dia antes do projeto ser protocolado na Câmara pelo deputado Luiz Nishimori (PL/PR). Uma semana depois, foi a vez do senador Luis Carlos Heinze (PP/RS)  propor um projeto de igual teor.

Depois de diversas reuniões na Anvisa, bancada ruralista lança projetos na Câmara e no Senado que propõe a liberação do paraquate (Foto: Câmara dos Deputados/Divulgação)

Em 8 de julho, mesmo dia em que representante da bancada ruralista se reunia com a Anvisa para tratar da “modernização do processo de reavaliação dos pesticidas pela Anvisa”, um grupo de deputados da bancada entrou com requerimento de urgência para votar o projeto de Nishimori, argumentando pelo “risco de desabastecimento e de graves impactos na economia do País”.

Economia vs. Vidas

Assim como ocorre com a pandemia, o debate sobre agrotóxicos cai na “polarização” vida versus economia. 

Segundo um experiente lobista do agronegócio, o seguinte argumento será martelado em defesa do paraquate nos próximos meses: “Num momento em que a economia está fragilizada, será uma irresponsabilidade tirar uma tecnologia fundamental para a produtividade da agricultura brasileira”. Alguns dos números divulgados pela bancada ruralista são aterrorizadores. Segundo estudos apresentados por eles, a proibição do paraquate eliminaria dois milhões de empregos, reduzindo R$ 25 bilhões em geração de renda e R$ 4,7 bilhões em arrecadação de impostos. 

Esses números estão superestimados na opinião do agrônomo e professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Antonio Alberto da Silva. Segundo ele, já existem agrotóxicos para substituir o paraquate sem inviabilizar a produção. “É um produto importante, mas não vai causar prejuízo tão grande. Há alternativas”.

Ele argumenta que há uma lista de opções com preços distintos e eficiência um pouco inferior. O principal é o Diquat, que pode ser encontrado no Rio Grande do Sul a R$ 32 por hectare, mesmo preço do paraquate no estado.

A informação é contestada pela vice-presidente da “força-tarefa” em defesa do paraquate. Segundo Elaine Silva, o produto só pode ser substituído por uma combinação de até três agrotóxicos diferentes, o que encarece o tratamento. Ela argumenta ainda que a nova mistura de substâncias pode ser pior para o trabalhador, pois ainda não se conhece os seus efeitos.

O maior diferencial do paraquate é combater plantas daninhas que já adquiriram resistência a outros agrotóxicos. Além de seu uso no processo chamado de “dessecagem”, quando o agrotóxico é usado para antecipar a colheita da soja e padronizar a maturação dos grãos.

Quando usado na dessecagem, o paraquate fica na vagem e, se não for respeitado o momento certo da aplicação, pode chegar ao grão que será consumido (Foto: Aqua.Mech)

Este é uso mais comum e o que oferece maior risco para a contaminação humana. Se não for respeitado o momento certo da aplicação, assim como o intervalo entre a aplicação e a colheita, o agrotóxico fica na vagem e pode deixar resíduos até no grão – que será consumido por homens e animais.

“Seguindo todas as recomendações técnicas, o produto não chega no grão, mas ele fica na vagem”, afirma o agrônomo Silva da UFV. “Durante a colheita, a poeira que sai libera o paraquate”. 

Os especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que os protocolos de segurança para uso da substância são complexos e de difícil execução. As roupas de proteção, extremamente quentes, são um dos exemplos de como algumas medidas são impraticáveis no centro-oeste do Brasil, afirma o procurador Leomar Daroncho, do Ministério Público do Trabalho em Goiás.

O paraquate tem a mais alta classificação toxicológica no país: extremamente tóxico. A ingestão ou inalação causa necrose nos rins e em artéria do pulmão e danos às células do fígado. Durante o debate para a sua proibição na Europa, o agrotóxico foi investigado durante 9 anos pelo Centro de Controle de Intoxicações em Marselha, na França. Os estudos investigaram 15 mortes, sendo que 10 ocorreram nas primeiras 48 horas após a ingestão. A rapidez se deve à falência de múltiplos órgãos, entre outras complicações. 

Mas os efeitos da intoxicação, na maioria dos casos, não são imediatos. São doenças que só vão se manifestar ao longo do tempo. Assim, a maioria dos trabalhadores não associa as consequências da contaminação ao produto, alerta o procurador do trabalho Daroncho. Por isso, ele diz, quase não existem casos de condenação de empresas por intoxicação. 

Estoque para uso ilegal?

Mesmo com a chegada da proibição do agrotóxico para setembro, os produtores rurais continuaram comprando o paraquate para uso na safra do ano que vem. Essa informação está na manifestação da AGU na ação movida pelo MPF. A advocacia afirma que os agricultores anteciparam as compras do paraquate devido à alta do dólar. Assim, a AGU argumenta pelo adiamento da proibição para evitar prejuízo: “os agricultores que já estão com produtos a base de paraquate nas fazendas para uso na próxima safra deverão trocar os produtos ou mesmo poderão perder os herbicidas, aumentando o custo de produção”.

O argumento soou estranho o agrônomo e professor da UFV. “Fizeram uma compra muito antecipada de um produto que há três anos já sabiam que ia sair do mercado a partir de setembro”, afirma Silva.

Sinal preocupante de que os produtores não pretendem parar de utilizá-lo mesmo depois da proibição é o aumento no volume de importação. Em 2017, quando a Anvisa decidiu pela proibição, eram 35 mil toneladas de paraquate entrando no Brasil. Depois da decisão, o volume de importação subiu para 50 mil em 2018 e 65 mil em 2019. Os dados são do Ministério da Economia, Indústria, Comércio Exterior e Serviços no portal Comex Stat. O aumento segue a tendência do mercado no Brasil.

Se o lobby vai surtir efeito e conseguir adiar ou até derrubar a proibição, a vice-coordenadora da “Força-Tarefa Paraquate” diz ainda não ter resposta. E brinca: “essa é a pergunta de um bilhão de dólares”.

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Esta reportagem foi produzida pela parceria entre a Repórter Brasil e a Agência Pública [Aqui!] e [Aqui!].

Lobistas da Monsanto ficharam ilegalmente personalidades francesas

Documentos que vimos mostram o uso de arquivos para identificar pró e anti-glifosato. Práticas que provavelmente são ilegais. Uma queixa foi arquivada.

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Vista da sede da Monsanto em St. Louis, EUA, maio de 2016. AFP / Michael B. Thomas

Por Gaël Lombart para o LeParisien

Compartilhar uma lista de pessoas, com seus detalhes de contato e opiniões, sem o seu consentimento, é ilegal. A FleishmanHillard, uma subsidiária de um dos maiores grupos de comunicação do mundo, supostamente usou essa prática em nome de um de seus clientes, a Monsanto, para fins de lobby, como revelado por L ‘ Olho das 20 horas da França 2, quinta-feira à noite.

Documentos Le Parisien viu mostrar que FleishmanHillard usou, no final de 2016, dois arquivos contendo 239 nomes no total, com raras exceções personalidades francesas – políticos, jornalistas ou representantes de organizações público ou privado – com comentários sobre sua posição sobre o glifosato ou sobre seu possível apoio à Monsanto.

Na época, o gigante de pesticidas está a desenvolver uma estratégia ofensiva para defender a sua imagem e a de sua substância herbicida classificados em março de 2015 “provavelmente cancerígeno pela Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (IARC), uma agência especializada das Organização Mundial da Saúde (OMS). Como o Le Monde revelou em janeiro de 2019, a Monsanto confiou à FleishmanHillard um programa chamado “Let Nothing Go” para monitorar e responder a comentários negativos na Internet, mas também para influenciar personalidades.

Identificados como “oponentes” ou “apoiadores”

Um dos arquivos da FleishmanHillard inclui 200 nomes, com informações de contato pessoal (endereços postais, e-mails, número de telefone …) e um em cada cinco sistemas de classificação. A credibilidade, influência e capacidade de apoio dos indivíduos mencionados pela Monsanto são avaliados em seis temas (agricultura, meio ambiente, nutrição, OGM, pesticidas e saúde).

Juntamente com 91 jornalistas, a categoria mais representada, há 28 executivos sindicais agrícolas, 25 políticos e 15 cientistas. Entre as pessoas-alvo, o atual ministro da Economia, Bruno Le Maire, então parlamentares dos Republicanos. Sete parlamentares verdes também estão em jogo, incluindo os deputados José Bové e Michèle Rivasi.

Em uma coluna de comentários, quatro de seus colegas, em Estrasburgo, estão carimbados como “pró-glifosato”. Uma posição refutou Philippe Juvin com o parisiense: “Concordo totalmente em ser pró-glifosato. “Chocado” com o processo, o deputado LR imagina que ele tem que ser comparado ao seu grupo, o Partido Popular Europeu (EPP), “que contou com um estudo da OMS e da FAO que o glifosato não era carcinogênico.”

Um pesquisador é descrito como o “principal adversário científico” do herbicida. Um jornalista é acusado de ser um “oponente” e outros sete recebem o título de “adversário forte” (“oponente forte”), enquanto um colunista de mídia é visto como “forte apoiadora”.

Metas prioritárias

Um segundo arquivo se concentra em 74 nomes, alguns faltando no primeiro documento. Metas prioritárias para a campanha da Monsanto, muitas das quais incluem políticos, jornalistas e representantes sindicais em sua maior parte. Um código de cores distingue “aliados”, “possíveis aliados a serem recrutados”, “partes interessadas para educar” e “partes interessadas a serem observadas”.

Um memorando da FleishmanHillard datado de 10 de janeiro de 2017 destaca a importância de atuar nesses “principais interessados” no contexto da renovação do glifosato na União Européia. Naquela época, os estados membros não conseguiram concordar, com a França pedindo uma nova autorização de curto prazo.

De acordo com este documento, as personalidades identificadas no arquivo “determinarão como as políticas tomarão sua decisão final para a votação do país na renovação”. No arquivo de código de cores, Xavier Bertrand, presidente da região de Hauts-de-France, é assim rotulado como “potencial aliado para recrutar”.

“Esses elementos envolvem apenas o autor do arquivo. Isto não reflecte a posição de Xavier Bertrand, que é que não podemos aceitar uma moratória sobre o glifosato que seja diferente entre os Estados-Membros, o que cria uma distorção da concorrência entre os agricultores “, reagimos na comitiva dos escolhidos, questionados por Le Parisien.

“Isolar” a voz dos ministros “anti-glifosato”

A categoria “Stakeholders to Monitored”, que é menos desenvolvida, inclui dois ministros, dois conselheiros ministeriais e um punhado de tomadores de decisão do governo que têm voz nas decisões sobre pesticidas. Os nomes de Ségolène Royal e Marisol Touraine, respectivamente na Transição Ecológica e Saúde, são acompanhados por esta menção lapidar: “Ela é anti-glifosato. O “objetivo” da campanha para eles é “isolar” sua “voz”.

“Vemos que a Monsanto era, na época, uma estratégia muito identificada para garantir que os opositores do glifosato fossem bem identificados e, tanto quanto possível, combatessem. O que me choca sem me surpreender é a existência de uma estratégia para impor um produto que sabemos ser perigoso para a saúde pública “, diz Marisol Touraine. O ex-ministro também deplora a presença “espantosa” nas listas de conselheiros ministeriais, cuja posição sobre os arquivos não deveria ser pública.

Entre os “aliados” em potencial e aqueles a serem “vigiados”, os “interessados ​​em educar” reúnem um atual ministro, um de seus antecessores, conselheiros do Elysée e Matignon, vários políticos e 16 jornalistas. Suspeitam-se de poder “balançar-se”, por outras palavras para poder convencer-se.

O memorando de 2017 lembra as boas perguntas para todos os “influenciadores”: “O que nossos alvos precisam? O que os motivará a apoiar a renovação (glifosato, Ed)? Mais surpreendente: a nota pede para aprender sobre os hobbies das pessoas-alvo, por exemplo, tênis ou golfe. Por que tal interesse por um hobby? O artigo sugere que a estratégia da FleishmanHillard é emergir no mundo imaginário de usos pouco conhecidos, mas potencialmente atraentes, do glifosato, em lugares como greens, herbicidas gananciosos.

Outra tendência desejada, sem dúvida, considerando a reputação controversa da Monsanto: “debates” devem “focar” na substância em questão, não na multinacional …

Por que é ilegal?

Nenhuma das pessoas que entrevistamos foi informada de sua presença nesses arquivos antes de vazarem. No entanto, mesmo antes da entrada em vigor do Regulamento Europeu de Proteção de Dados (GDPR) em 2018, a lei francesa é clara: as pessoas catalogadas devem dar consentimento e ter o direito de acesso e retificação aos seus registros, especialmente se o objetivo é detalhar suas opiniões pessoais.

“Se não tivermos o consentimento da pessoa, devemos ter um interesse legítimo em construir o arquivo e não acho que um arquivo apresentando pessoas como oponentes entre no padrão da CNIL”, Commission Nationale Informatique et Libertés, explica Étienne Papin, advogado da Corte de Paris.

“Seja um comentário textual que é neutro, difamatório ou prejudicial em seu conteúdo, é o mesmo sob a lei de 1978. O sistema de notação, seja números, letras, códigos de cores, está em auto-dados pessoais. É geralmente aplicado o mesmo tratamento jurídico a estes códigos que os textos “, sublinha este especialista em direito informático.

Ambos os arquivos foram escritos em inglês e um deles foi consultado em Paris e em Bruxelas, segundo a France 2. Contactado por Le Parisien, Sandrine Cormary, diretor executivo da FleishmanHillard France até janeiro de 2017, disse desconhecer a existência de tais documentos. “O fato de fazer listagens é algo bastante comum em nossa profissão. Mas todo o nosso grupo está obviamente em conformidade com a lei francesa de proteção de dados e com o RGPD “, disse a atual executiva da France Omnicom, a gigante global de relações públicas FleishmanHillard.

A Bayer, o grupo farmacêutico que se fundiu com a Monsanto em 2018, também diz que eles ignoram esses documentos. “Essas não são práticas atuais na Bayer”, disse uma porta-voz do grupo na França. Afirma que o contrato entre a Monsanto e a FleishmanHillard foi concluído no final de 2018. Desde então, a Bayer selecionou outra agência de comunicação, a Partners in Innovation, que inclui membros da FleishmanHillard.

Vários procedimentos em vista

Tendo conhecimento desses arquivos, o jornal Le Monde apresentou uma denúncia em 26 de abril com o promotor público da República em Paris, especialmente para a retenção de dados “revelando as visões políticas e filosóficas de uma pessoa sem o seu consentimento”.

Qualificado em uma lista como sendo um  “oponente forte”, o jornalista Stéphane Foucart, co-autor da denúncia, é apresentado em outro documento, como “um ativista mobilizado contra a renovação do glifosato”. Quatro outros jornalistas do jornal da tarde estão presentes nos arquivos.

O procedimento poderia ser emulado. Contactada, a associação Future Generations anunciou sua intenção de registrar uma queixa. No séquito de Xavier Bertrand, especifica que o presidente da Hauts-de-France “se reserva o direito de um possível processo quando ele puder acessar o conteúdo desses arquivos”. “Não surpreende estar entre as pessoas de quem a Monsanto não gosta”, disse a ex-ministra do Meio Ambiente, Corinne Lepage, “tomará as medidas necessárias” se considerar o processo ilegal.

Quanto ao parisiense-hoje na França, incluindo três jornalistas aparecem nas listas, ele já planejou para aproveitar o Cnil.

Quem encontramos nos arquivos?
95 jornalistas
39 políticos
30 representantes de sindicatos de agricultores
17 membros de ONGs
16 cientistas
11 membros de organizações públicas  e da administração pública
8 líderes de organizações da indústria
7 funcionários ministeriais ou do Elysee
5 membros do setor de distribuição
4 fazendeiros influentes no Twitter
7 pessoas de diversas origens

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Esta reportagem foi originalmente publicada em francês pelo LeParisien [Aqui!].