O asfalto contra a maré

O mangue como fonte de vida (Ismael Machado)

Por Ismael Machado para “Medium”

A Marcha dos Manguezais Amazônicos, realizada em Belém semana passada, foi apresentada como um ato em defesa do meio ambiente. É uma leitura confortável, mas insuficiente. O que caminhou entre o Cais do Porto e o Ver-o-Peso foi a contestação de uma forma de produzir território que, há décadas, orienta principalmente o nordeste paraense, mas que ainda continua quase invisível aos olhares menos atentos.

O cimento e o asfalto são nossos deuses. Não, não estou exagerando. Existe uma ideia persistente de desenvolvimento segundo a qual rios devem ser canalizados, áreas alagáveis precisam ser aterradas e manguezais representam um vazio econômico à espera de investimentos. Essa lógica não nasceu agora. Ela acompanha a urbanização da Amazônia desde o século XX e continua orientando decisões públicas e privadas em municípios costeiros como Bragança, Salinópolis, Curuçá, Marapanim, Vigia, São Caetano de Odivelas, Augusto Corrêa e Quatipuru, para ficar apenas nesses. Nenhum desses lugares existe apesar da água. Eles existem por causa dela. E não paramos um segundo sequer pensando nisso. Seja quando brincamos carnaval nos cobrindo de lama do mangue de Curuçá ou fazendo campeonatos de pesca em São Caetano de Odivelas.

A economia pesqueira, a circulação entre comunidades, os ciclos do extrativismo, a fertilidade dos estuários e até a configuração das cidades dependem de uma dinâmica que nunca foi estática. A costa amazônica não oferece terreno firme como condição permanente. Ela oferece movimento. A maré altera margens, redistribui sedimentos, redefine canais. O manguezal é parte desse mecanismo, não um acidente geográfico esperando correção ou um progresso urbano calcado em empreendimentos imobiliários para poucos. Recentemente fui a Outeiro, uma ilha que habita minhas memórias infantis e constatei essa questão de condomínios que privatizam a área costeira de forma implacável. Li recentemente que pretendem fazer algo assim nos Lençóis Maranhenses.

Insistimos em aplicar à região um modelo de urbanização concebido para territórios onde a água deve permanecer confinada. Quando essa lógica chega ao litoral amazônico, ela produz um paradoxo, pois tenta estabilizar um ambiente cuja principal característica é justamente a transformação contínua. Os efeitos aparecem rapidamente. Aterros interrompem a circulação das águas, loteamentos ocupam áreas naturalmente inundáveis, obras de contenção deslocam processos erosivos para outras localidades e bairros inteiros passam a depender de soluções de drenagem cada vez mais caras e menos eficientes. Depois, quando a maré invade ruas ou a chuva encontra caminhos bloqueados, o fenômeno recebe o nome de desastre natural. A única coisa natural aqui, porém, é a maré. E artificial é a expectativa de que ela respeite projetos elaborados sem considerar o funcionamento do território.

Essa insistência não decorre de desconhecimento técnico. Há décadas nossas principais universidades e centros de pesquisa descrevem o papel dos manguezais na proteção costeira, na estabilidade dos estuários, na manutenção da biodiversidade e no armazenamento de carbono. O problema, portanto, não é ausência de informação. É a escolha política sobre quais conhecimentos merecem orientar o planejamento urbano.

Essa escolha costuma privilegiar indicadores de curto prazo. Um aterro amplia a oferta de terrenos. Um condomínio eleva o valor imobiliário da vizinhança. Uma avenida construída sobre áreas úmidas produz a sensação imediata de progresso. Os custos, entretanto, não aparecem na mesma planilha. Eles surgem anos depois, distribuídos entre pescadores que perdem áreas de captura, comunidades que convivem com inundações mais frequentes e administrações municipais obrigadas a investir continuamente em obras para corrigir problemas que elas próprias ajudaram a criar.

No nordeste paraense, essa conta tende a se tornar ainda mais elevada. A elevação do nível do mar, as alterações no regime de chuvas e o aumento da intensidade de eventos extremos ampliam a importância dos manguezais como infraestrutura natural. Destruí-los significa reduzir justamente a capacidade de adaptação de uma região cuja relação com a água sempre definiu sua existência. E fico sempre a refletir o quanto a Amazônia urbana de águas e marés não cabe nos gabinetes de planejamento que tratam o ecossistema costeiro como mero espaço vazio à espera de concreto, onde o manguezal tratado como um estorvo geográfico que precisa ser drenado, aterrado e loteado.

Essa ânsia por transformar ‘lama’ em metro quadrado ignora a física mais básica do território. O solo do mangue é esponjoso, dinâmico e cumpre uma função estrutural de escoamento e amortecimento das marés. Quando o capital imobiliário avança sobre essas áreas com o aval de um zoneamento urbano míope, o resultado é a supressão de braços de rio e a impermeabilização forçada do solo.

O preço dessa conta não demora a chegar, mas nunca é pago pelos idealizadores dos loteamentos. Ele recai sobre as comunidades tradicionais que são escorraçadas de seus territórios ancestrais e sobre os bairros periféricos que submergem a cada temporal ou oscilação forte da maré. A especulação imobiliária em áreas de mangue vende uma falsa segurança que se desmancha na primeira chuva forte combinada com a lua cheia.

Não custa lembrar que o manguezal é a primeira e mais sólida linha de defesa contra eventos climáticos extremos, como a elevação do nível do mar e a intensificação das ressacas. Destruir o mangue é um contrassenso econômico e ecológico catastrófico. É cavar a própria ruína sob a justificativa de “desenvolvimento”. O problema é que acumulamos erros e erros e nunca aprendemos. E quando se fala de erros, não é uma prerrogativa paraense. É uma democrática distribuição de sandices na Amazônia inteira.


Fonte: Medium

Presença de diesel na água mata espécie de planta do mangue ainda na germinação, mostra experimento

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Propágulo de Avicennia germinans sendo coletado na árvore-mãe para o experimento

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As sondagens para a possível exploração de petróleo e gás na bacia do Pará-Maranhão e na foz do rio Amazonas têm se intensificado na última década, aumentando o risco de vazamentos de derivados do petróleo nestas regiões. Pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) testaram em laboratório os efeitos da presença do óleo diesel na germinação de plantas de mangue e concluíram que a Laguncularia racemosa, conhecida como mangue-branco, sofre intensos efeitos do contaminante. As conclusões estão publicadas na edição de 27 de outubro da revista “Acta Amazônica”.

Em experimento, os especialistas observaram que o contato com crescentes volumes de óleo diesel na água matou 80% dos propágulos da L. racemosa, que são estruturas que se desprendem de uma planta adulta e funcionam como sementes. A velocidade de germinação também diminuiu à medida que a quantidade do contaminante aumentou. Outra espécie estudada, a Avicennia germinans, não apresentou mortalidade significativa no mesmo contexto.

Os propágulos das duas espécies foram mergulhados em uma emulsificação do óleo em água de mangue com diferentes percentuais de óleo diesel e comparados com uma amostra de controle, sem o óleo. Após o tempo característico de germinação de cada espécie, foi verificada a taxa de propágulos germinados, indicador do impacto da contaminação.

Segundo Josélia Martins, primeira autora do artigo, o diferencial da pesquisa é mostrar o efeito da poluição por óleo diesel no processo de germinação dos propágulos enquanto estão imersos nas águas de estuário. “O conhecimento do que ocorre na fase de germinação dos propágulos é muito importante, pois é uma fase primordial. Sem ela, as demais não são possíveis.”

“O que nos surpreendeu foi a ausência de resposta significativa da espécie Avicennia germinans durante a germinação em contato com o óleo diesel nos volumes utilizados neste estudo, ao contrário do que ocorreu com a Laguncularia racemosa. Esse resultado denota maior resiliência da outra espécie”, comenta Martins.

Os pesquisadores apontam que o conhecimento de que uma ou mais espécies de mangue não consegue germinar adequadamente na presença de óleo emulsificado na água estuarina pode auxiliar na formulação de políticas públicas de conservação e restauração do manguezal, ecossistema importante para manter a qualidade da zona costeira para a população e animais. Os resultados também podem orientar profissionais em situações de desastres com derramamento de óleo. Neste caso, saber quais espécies são mais afetadas pode mudar a forma de atuação dos especialistas durante os esforços para a limpeza e conservação da área atingida.

O próximo passo do grupo de pesquisadores será plantar os propágulos das duas espécies que obtiveram sucesso na germinação enquanto mergulhados em água e óleo diesel e acompanhar o seu desenvolvimento. Com esse processo, eles vão poder observar os efeitos do óleo durante o crescimento das plantas. “Também queremos dar continuidade aos estudos com outros tipos de derivados de petróleo, como o óleo diesel marítimo e o óleo bunker”, conclui Martins.

 

DOI: https://doi.org/10.1590/1809-4392202202342