Seis meses após assassinato de Marielle, Anistia Internacional cobra solução do crime

Falta de solução para o assassinato de Marielle é inadmissível e o caso não pode ficar impune, alerta Anistia Internacional seis meses após o crime

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– Mobilização em todo o mundo cobra Estado brasileiro por falhar na investigação adequada do assassinato de Marielle Franco
– É urgente a constituição de um grupo independente do Estado para o monitoramento das investigações
– Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público passa a atuar no caso

Seis meses se passaram desde que a defensora de direitos humanos e vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram brutalmente assassinados a tiros no bairro do Estácio, região central da cidade do Rio de Janeiro, no dia 14 de março deste ano. A cada dia que passa, aumenta a preocupação com a ausência de respostas sobre os autores, os mandantes e a motivação do assassinato de Marielle Franco.

“O assassinato de Marielle e Anderson completou seis meses. A falta de solução para o caso é inadmissível. A impunidade não pode estar no horizonte das autoridades. O Estado brasileiro, as autoridades federais e estaduais e as instituições do sistema de justiça criminal têm todos a responsabilidade de garantir que o assassinato de Marielle Franco seja devidamente investigado e que os verdadeiros responsáveis sejam identificados e levados à justiça”, disse Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil.

Desde a noite de 14 de março, a Anistia Internacional vem exigindo que os órgãos competentes garantam uma investigação imediata, rigorosa, independente e imparcial do crime. Um dia após a execução, foi publicada uma nota urgente e, em seguida, aberta uma ação de e-mails para pressionar as autoridades responsáveis. Em seis meses de mobilização, mais de 165 mil pessoas se manifestaram pela resolução do caso com assinaturas vindas do Brasil e de países como Argentina, Bélgica, Canadá, Coréia do Sul, Irlanda, Itália, Japão, Noruega, Peru, Portugal, Espanha e Suécia.

Nesses 6 meses, a Anistia Internacional organizou também ações em frente à Divisão de Homicídios da Polícia Civil, da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro e do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Só após a pressão sobre as autoridades que representantes da Anistia Internacional e familiares de Marielle foram recebidos pelo procurador-geral de Justiça do estado, Eduardo Gussem, e pelo secretário de estado de segurança, general Richard Nunes.

No fim de agosto, o Ministério Público anunciou a inclusão do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) no caso, demanda feita pela Anistia Internacional no marco dos três meses do crime. Uma nova equipe do órgão assumiu a investigação em setembro e espera-se, desta equipe, celeridade.

“O Ministério Público tem papel fundamental para garantir a competência e independência na apuração do caso. A entrada do GAECO é bem-vinda, mas é preciso envolver também o GAESP (Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública) na investigação e monitorar a atuação da Polícia Civil. Além disso, é urgente a constituição de um grupo totalmente independente do Estado para o monitoramento das investigações, que verifique se o devido processo legal está sendo seguido”, afirmou Werneck.

A Anistia Internacional vem chamando a atenção para a necessidade do estabelecimento de um mecanismo externo e independente de monitoramento das investigações, que seja formado por especialistas (tais como peritos, juristas, entre outros) que não tenham qualquer conflito de interesses em relação ao caso e que seja totalmente independente do aparato estatal. Este mecanismo deverá monitorar o andamento das investigações, o cumprimento das diligências e verificar se está havendo algum tipo de influência indevida ou negligência no processo. O secretário de segurança, Richard Nunes, se posicionou favoravelmente à iniciativa em reunião com familiares de Marielle e representantes da Anistia Internacional no dia 20 de agosto.

Assassinato pode ter tido a participação de agentes do Estado e das forças de segurança

Embora as investigações estejam sob sigilo, algumas informações veiculadas pela imprensa indicariam que o assassinato de Marielle Franco teria sido cuidadosamente planejado, um crime sofisticado, que teria contado com a participação de agentes do Estado e das forças de segurança.

Dois carros teriam sido usados no assassinato e teriam placas “clonadas”. Imagens de vídeo mostram um dos veículos aguardando a saída de Marielle de um evento em que era debatedora para seguir o carro da vereadora minutos antes do crime. No vídeo, é possível ver que o motorista usa em diversos momentos um aparelho pequeno que parece ser um celular. No entanto, o momento do crime não foi gravado porque algumas câmeras de segurança, parte do sistema que alimenta o Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) do Rio de Janeiro, que cobririam especificamente o local do assassinato, teriam sido desligadas às vésperas do crime.

Além disso, os disparos, cerca de 13, teriam sido feitos com os carros em movimento e quatro disparos teriam atingido com precisão a cabeça de Marielle. A munição utilizada seria de calibre 9mm, calibre de uso restrito no Brasil, e seriam do lote UZZ-18, um lote pertencente à Polícia Federal que teria sido desviado há alguns anos. Munição pertencente a este mesmo lote teria sido utilizada em uma chacina em São Paulo em agosto de 2015, que contou com a participação de policiais que seriam parte de um grupo de extermínio.

Embora inicialmente tenha sido divulgado que a arma utilizada seria uma pistola 9mm, veio à público a informação de que a arma utilizada seria uma submetralhadora HK-MP5, de origem alemã, que também é de uso restrito e não muito comum no Brasil. Cinco unidades de submetralhadoras deste mesmo modelo teriam desaparecido do arsenal da Polícia Civil, o que teria sido identificado em um recadastramento feito em 2011.

Ainda teriam ocorrido algumas negligências e procedimentos equivocados nas perícias necessárias: não teria sido feito raio-X dos corpos de Marielle Franco e Anderson Gomes possivelmente por falta de equipamento em estado de funcionamento; e o carro não teria sido armazenado de forma adequada, teria ficado num pátio exposto indevidamente.

Por fim, diversas supostas linhas de investigação também foram veiculadas pela imprensa ligando o assassinato de Marielle Franco a policiais militares do 41º Batalhão da Polícia Militar, a grupos de milícias atuantes na Zona Oeste, a vereadores da Câmara Municipal Rio de Janeiro e a deputados estaduais da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Nomes de supostos suspeitos e a existência de testemunhas delatoras também foram divulgadas pela imprensa.

“Estamos diante de um cenário muito preocupante. O assassinato da defensora de direitos humanos e vereadora Marielle Franco muito provavelmente contou com a participação de agentes do estado. O crime possivelmente tem por trás um grupo poderoso o suficiente para acreditar na garantia de impunidade a ponto de cometer tal execução em uma das cidades de maior visibilidade do mundo, durante o período de intervenção federal na segurança pública e em ano eleitoral”, disse Werneck.

Marielle Franco e a defesa de direitos humanos

Marielle Franco atuava há mais de dez anos defendendo os direitos humanos de jovens negros, de mulheres, de moradores de favelas, de pessoas LGBTI e denunciava as execuções extrajudiciais e outras violações de direitos cometidas por policiais e agentes do estado. Foi eleita vereadora e iniciou seu mandato em janeiro de 2017. Alguns dias após o decreto de intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, foi nomeada relatora da Comissão Representativa da Câmara de Vereadores criada para monitorar a intervenção federal.

“A cada dia que passa, o reconhecimento internacional do exemplo de vida de minha filha aumenta e é transformado em luta por justiça, em cobrança para o estado brasileiro. Marielle foi uma liderança em tudo que participou, sempre com o pensamento de ajudar o próximo, acreditando que a organização coletiva e solidária poderia transformar o mundo. Ao fazer pelo outro ela se sentia bem. Minha família não vai descansar enquanto não tiver uma resposta sobre a motivação deste crime”, disse Marinete da Silva, mãe de Marielle Franco.

O Brasil tem um preocupante histórico de alto número de homicídios de defensores de direitos humanos. A maioria dos casos não é investigada e nem responsabilizada e nos poucos casos que são levados à justiça são apenas os executores que vão à julgamento. Raramente os mandantes dos assassinatos são responsabilizados, o que perpetua a violência contra os que defendem direitos humanos no país.

“O homicídio de um defensor de direitos humanos é uma tentativa de gerar medo e silêncio, um ataque não apenas ao defensor assassinado, mas a um grupo social mais amplo. É uma mensagem para desmobilizar a luta por direitos e é um ataque aos direitos humanos como um todo. Assim, o Estado Brasileiro deve responder com firmeza e seriedade aos homicídios de defensores de direitos humanos para que este processo de silêncio e medo não se amplie e para romper com o ciclo de violência contra defensores de direitos humanos”, finalizou Werneck.

FONTE: Assessoria de Comunicação Anistia Internacional

E agora vamos falar de Marielle Franco?

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O atentado ao deputado federal Jair Bolsonaro foi esclarecido e o seu autor preso e enviado para um presídio federal de segurança máxima em menos de 24 horas. Parabéns à polícia e ao judiciário por tamanha eficiência.

Lamentavelmente a mesma eficiência não está sendo demonstrada no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco (do PSOL do Rio de Janeiro) e de seu motorista Anderson Gomes continua sem esclarecimento, mesmo tendo ocorrido no já longínquo dia 28 de março de 2018.  E contribui para isso o verdadeiro manto de silêncio que foi lançado sobre o caso por autoridades encarregadas de apurar o caso, bem como pela mídia corporativa.

Essa morosidade já torna a falta de identificação dos executores e mandantes anormal para casos semelhantes, em que pese existirem informações que ligam o assassinato de Marielle Franco à sua ação enquanto parlamentar e defensora de segmentos que são historicamente marginalizados e alvos constantes da ação violenta das forças do aparelho de estado.

Além disso, enquanto a natureza política do ataque sofrido por Jair Bolsonaro está restrita, pelo menos até o momento, ao ato individual, o assassinato de Marielle Franco está claramente ligado a uma ação de grupos que tinham seus interesses perturbados pela ação parlamentar que ela realizava.

Em função disso tudo é que causa estranheza que os mesmos setores que agiram de forma tão rápida no caso de Jair Bolsonaro estejam se mostrando tão lerdos no caso de Marielle Franco. Ou pensando bem, não há estranheza alguma.

Quem está protegendo os assassinos de Marielle?

Por Gustavo Gollo

Os 5 meses de demora nas investigações do assassinato de Marielle atestam que seus ilustríssimos assassinos têm padrinhos poderosíssimos, capazes tanto de dificultar as investigações, quanto de espargir grossas cortinas de fumaça através dos meios de comunicação para acobertá-los. As digníssimas criaturas, os assassinos, têm sido poupadas dos mais mínimos incômodos, enquanto constrangimentos e suspeitas têm sido lançados sobre bois de piranha que obviamente nada têm com o caso.

Articulações recentes, no entanto, sugerem que o controle dos meios de comunicação – nas mãos de padrinhos dos digníssimos assassinos –, não esteja sendo suficiente para barrar as investigações da polícia civil do Rio, ocasionando profundo mal-estar entre os poderosos cúmplices do assassinato.

O nervosismo causado pelos resultados contundentes já obtidos pela silenciosa polícia do Rio gerou, na semana passada, tentativas de desarticular as investigações tirando-as das mãos dos atuais investigadores.

Decorridos 5 meses do crime, a atitude aparentemente desvairada de trocar os responsáveis pelas investigações pode ser compreendida tendo-se em mente tratar-se de tentativa de encobrimento, tanto dos assassinos, quanto da enorme rede de cúmplices – plantados em altas esferas governamentais estaduais, federais e nos meios de comunicação – que lhes tem proporcionado cobertura e conforto durante tão largo tempo.

O endosso do ministério público estadual a essa tentativa oficial de abafamento do caso, assim como as fortes suspeitas – ocultadas pelos meios de comunicação – de que a execução de Marielle Franco tenha sido cometida por policiais, expõem as intensas dificuldades pelas quais os investigadores têm passado e explica a longa demora para a conclusão do caso, enquanto o titular da promotoria que acompanha o caso foi promovido apesar da ausência de resultados após tão longo período,

A movimentação direcionada à interrupção das atuais investigações, agora em fase final, sugerem que a polícia esteja, de fato, averiguando o crime – constatação surpreendente com respeito a ocorrências de natureza similar no Rio de Janeiro.

Com os olhos do mundo mantidos em expectativa sobre os desdobramentos do assassinato, e sob inusitada pressão internacional gerada pelo gigantesco estardalhaço causado pela execução covarde – reiterada por comunicados da ONU, do Papa e de autoridades governamentais do mundo inteiro –, espera-se uma solução do caso, revelando os assassinos e toda a vasta rede de cúmplices que tem garantido o total apoio aos ilustríssimos assassinos.

A bomba gigantesca evidenciará uma longa sucessão de crimes análogos realizados pela vasta quadrilha protegida pela poderosíssima rede de padrinhos, além de inúmeras ramificações com o crime organizado. A pressão internacional proporcionará oportunidade única para que tão vasta e poderosa rede criminosa seja desbaratada.

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Eu havia escrito o texto acima na semana passada. O sábado, no entanto trouxe uma enorme surpresa, prestes a causar, aparentemente, um entrave ainda mais drástico que os anteriores, às investigações.

Ao contrário do que vinha fazendo há 5 meses, quando suas notícias tinham como propósito apenas lançar cortinas de fumaça sobre o caso, com o intuito de confundir o público e encobrir os assassinos, O Globo publicou, no sábado, uma notícia bomba revelando a existência de um grupo conhecido como “Escritório do crime”, formado por policiais e ex-policiais — entre eles um major da ativa e um ex-oficial do Bope — altamente especializados em execuções por encomenda, sem deixar pistas.

Segundo O Globo, a polícia teria tomado conhecimento dessas pistas ao interrogar um integrante do grupo, que chega a cobrar R$ 1 milhão por assassinato, fazendo parecer que o de Marielle tenha sido uma pechincha: R$ 200 mil, embora a quadrilha tivesse pedido mais dinheiro depois da repercussão do caso. O jornal não revela a quem o pedido foi encaminhado.

A revelação bombástica prometia desdobramentos estrondosos, com um alarde retumbante de todos os meios de comunicação do país e do mundo! O estrepitoso silêncio que acompanhou a enigmática expectativa deixou no ar um intenso tom de suspense. Restava esperar a noite de domingo com a cobertura do Fantástico, esmiuçando escabrosas filigranas do hediondo antro de assassinos conhecido como escritório do crime: nada.

Ontem, segunda-feira, no entanto, o G1 repetiu secamente a notícia que, a se crer nas pesquisas do Google, nenhum meio de comunicação do Rio de Janeiro ousou repetir, tendo sido ecoada apenas por publicações menores de paragens distantes, sugerindo que o conluio organizado para acobertar os assassinos engloba toda a grande imprensa nacional, não só a do Rio.

Assim mesmo, no entanto, o fato foi suficiente para, segundo manchete de O Dia, causar uma revoada no ministério público, com a saída de 3 promotores do caso, que se somam a um outro que havia sido promovido quando nas comemorações do quinto mês sem nenhum resultado nas investigações. Hoje cedo esse fato era anunciado como “revoada”;mais tarde passou a ser  uma troca.

Os desdobramentos mais graves, no entanto, parecem estar ocorrendo na esfera federal. A revelação indiscreta do ‘Escritório do crime’ parece ter mobilizado todo o departamento jurídico da ‘Empresa do crime’, enquanto o departamento de comunicação da fabulosa empresa permanece empenhado em instituir silêncio esmagador.

Tudo indica que as mobilizações tenham como propósito impedir que os investigadores desvendem não só o ‘Escritório’, mas toda a ‘Empresa do crime’, com seus monumentais departamentos de imprensa e jurídico.

FONTE: https://jornalggn.com.br/fora-pauta/quem-esta-protegendo-os-assassinos-de-marielle-por-gustavo-gollo#.W325PZWd6Kk.facebook

O assassinato de Marielle Franco e a previsão do desembargador

Em artigo publicado no dia 23 de junho de 2018 no jornal “O DIA” quando se completava 101 dias do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ) , o desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, João Batista Damasceno, previu que o caso não seria solucionado por uma série de causas, mormente o controle “de facto” que é exercido sobre a sociedade por grupos que gravitam dentro do aparelho de estado [1].

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Agora que estamos chegando a quase 6 meses da operação que eliminou a promissora e corajosa vereadora Marielle Franco, a previsão do Desembargador Damasceno continua não apenas prevalecendo, como longe de ser negada.

Aí é que eu pergunto: a que forças interessa que esse crime bárbaro continue sem solução?


[1] https://odia.ig.com.br/opiniao/2018/06/5551628-joao-batista-damasceno-marielle-101-dias.html#foto=1

Anistia Internacional divulga vídeo sobre a vida de Marielle Franco gravado com sua família

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Há exatos quatro meses, a defensora de direitos humanos e vereadora Marielle Franco foi executada. Este assassinato brutal continua sem respostas.

“Essa dor não vai passar. Então, que levem o nome da Marielle cada vez mais alto”, Marinete da Silva, mãe de Marielle.

Exija uma resposta das autoridades! > bit.ly/QMmatouMarielle

Quatro meses depois da execução de Marielle Franco, Anistia Internacional afirma: “Credibilidade do sistema de Justiça Criminal está em cheque”

Diante da falta de solução do caso, é urgente o estabelecimento de um mecanismo externo e independente para monitorar a investigação

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Às vésperas de completar quatro meses da execução da defensora de direitos humanos e vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, assassinados no dia 14 de março de 2018, o caso permanece sem solução.

“Após quatro meses, a não resolução do assassinato de Marielle Franco demonstra ineficácia, incompetência e falta de vontade das instituições do Sistema de Justiça Criminal brasileiro em resolver o caso. É urgente o estabelecimento de um mecanismo externo e independente para monitorar essa investigação”, afirma Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional.

Desde o início das investigações diversas informações muito preocupantes foram veiculadas pela imprensa e permanecem sem qualquer tipo de esclarecimento: que a munição utilizada pertenceria a um lote que teria sido vendido à Polícia Federal; que a arma empregada seria uma submetralhadora de uso restrito das forças de segurança; que submetralhadoras do mesmo modelo da utilizada teriam desaparecido do arsenal da Polícia Civil; que câmeras de vídeo que cobrem o local exato onde aconteceu o assassinato teriam sido desligadas na véspera do crime. A dinâmica com o que a execução aconteceu e a precisão dos tiros sugerem a participação de pessoas com treinamento específico e qualificado.

A imprensa também divulgou que o interventor federal na segurança pública do Rio de Janeiro, general Walter Braga Netto, em reunião com o presidente Michel Temer e o ministro Raul Jungmann, em maio, teria acertado um pacto de silêncio sobre o caso. O objetivo seria preservar o trabalho da Divisão de Homicídios da Polícia Civil, responsável pela investigação. No entanto, esse silêncio após quatro meses sugere descompromisso das autoridades com a solução do caso.

“O sigilo e a confidencialidade, que tem como objetivo garantir a eficácia da investigação, não pode ser confundido com o silêncio das autoridades diante da obrigação de esclarecer corretamente a execução de Marielle. É fundamental não apenas identificar e responsabilizar os autores dos disparos, mas também os autores intelectuais dos homicídios, bem como a motivação do crime”, completou Jurema Werneck.

Eleita vereadora como a quinta mais votada do Rio de Janeiro em 2016, Marielle era conhecida por seu histórico de defesa dos direitos humanos, em especial de jovens negros de favelas e periferias, mulheres e pessoas LGBTI. O fato de uma defensora de direitos humanos com a expressão política e a visibilidade de Marielle ser assassinada sem uma resposta contundente do estado deixa outros defensores expostos a maior risco.

“A não solução do caso demonstra de forma inconteste a falta de compromisso do Estado brasileiro com seus defensores e defensoras de direitos humanos. Em vida, Marielle sempre se mobilizou por justiça e contra a violência do Estado. Pressionar pela resolução deste crime é manter viva sua luta por direitos, seu legado e sua memória”, concluiu Jurema Werneck.

Marielle Franco e sua atuação em defesa dos direitos humanos

Nascida e criada no complexo de favelas da Maré, na cidade do Rio de Janeiro, socióloga e mestre em Administração Pública, Marielle Franco começou sua mobilização por direitos humanos em 2000, após uma amiga ser atingida fatalmente em uma troca de tiros na Maré. A partir de 2007, passou a integrar a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, chegando a ser Coordenadora da Comissão.

Durante uma década, através da Comissão de Direitos Humanos, Marielle prestou auxílio a familiares de vítimas de homicídios e policiais vitimados e atuou em um leque de temas, como o direito à moradia adequada. Em 2016, se candidatou pela primeira vez e foi eleita a quinta vereadora mais votada no município do Rio de Janeiro com mais de 46 mil votos. Sua atuação na Câmara Municipal foi marcada pela defesa da população LGBTI, de jovens de favelas e periferias e mulheres, em especial de mulheres negras.

Pouco antes de seu assassinato, ela foi nomeada relatora da comissão criada na Câmara Municipal para monitorar a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. Seu posicionamento era contrário à intervenção e à política de confronto levada a cabo pelos agentes de segurança. Diversas vezes Marielle denunciou violações de direitos no plenário da Câmara e sua atuação era marcada pela proximidade com os movimentos sociais.

Atuação da Anistia Internacional

Desde a noite de 14 de março, a Anistia Internacional vem reiteradamente cobrando que as autoridades garantam uma investigação célere, imparcial, independente, rigorosa e adequada do assassinato de Marielle Franco, e reivindicando que as autoridades se comprometam publicamente com a resolução correta do caso.

Poucas horas após a execução, a Anistia Internacional publicou uma nota exigindo que os órgãos competentes garantissem uma investigação imediata e rigorosa. Alguns dias depois foi aberta uma mobilização online para pressionar diretamente as autoridades responsáveis. Em quatro meses, mais de 100 mil pessoas aderiram à mobilização online e se manifestaram pela resolução do caso, com assinaturas vindas de países como Argentina, Canadá, Itália, Peru, Portugal, Espanha e Suécia, além do Brasil.

A Anistia Internacional organizou também três ações presenciais de mobilização sobre o caso: na Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro, marcando um mês sem repostas, na Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, marcando o segundo mês, e no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, quando o assassinato completou três meses. Acesse a petição: http://anistia.org.br/entre-em-acao/email/acao-urgente-justica-para-marielle/

Serviço

Quando: Quinta-feira (12/07), das 9:00 às 11:00
Onde: Rua da Glória 344, 3º andar – Glória, Rio de Janeiro – RJ
Porta-vozes confirmadas: Renata Neder (Coordenadora de Pesquisa da Anistia Internacional Brasil) e Marinete da Silva (mãe de Marielle Franco)

Informações para imprensa: Renato Cosentino | renato.cosentino@anistia.org.br | + 55 21 99730-3617

A execução de Marielle Franco na capa do “Washington Post” revela as piores facetas da sociedade brasileira

Se ainda havia dúvidas sobre o alcance global alcançado pela execução da vereadora Marielle Franco, elas acabaram no dia de hoje com a publicação de uma matéria de capa pelo jornal estadunidense “Washington Post” que é um dos principais veículos da mídia mundial [1].

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A diferença essencial desta matéria em relação à muitas que li anteriormente é que a mesma toca no espinhoso assunto das inequalidades raciais que existem no Brasil, de uma forma que poucos jornalistas (e muito menos seus patrões) têm coragem ou disposição de abordar. E mais importante do que abordar o problema das chances desiguais a que os negros estão submetidos na sociedade brasileira, a matéria vai além e aborda a questão da extrema violência a que as populações pobres e majoritariamente negras das favelas estão submetidas pelo aparelho de estado brasileiro.

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Outro aspecto que me pareceu singular no tratamento dado pelos jornalistas do Washington Post foi a relevância dada não apenas à militância política de Marielle Franco, mas também ao fato de que ela era uma intelectual que estava num processo de evolução e que militava no tópico em que realizava suas pesquisas. Esse aspecto da execução de Marielle Franco tem sido negligenciado na cobertura, apesar de ser muito importante. É que a execução de Marielle não privou o PSOL apenas de uma ocupante de cargo eletivo, mas também e principalmente uma intelectual que atuava numa área extremamente sensível para o tipo de militância política no qual o partido claramente ainda engatinha.

É muito interessante notar que novamente é a mídia internacional que oferece matérias mais densas e completas sobre um fato ocorrido no Brasil, indo além do emocionalismo e a espetacularização que permeou boa parte da cobertura dada pelos veículos nacionais com o interesse claro de diminuir a contribuição política que Marielle Franco dava para o necessário debate em torno da violência estatal contra a maioria negra da população brasileira.

Finalmente, há que se reconhecer que com essa matéria a intervenção militar decretada pelo presidente “de facto” Michel Temer foi desnudada frente à opinião pública mundial, bem como as grossas diferenças de direitos vigentes no Brasil, e que atingem diretamente os segmentos mais pobres da nossa população.


[1] https://www.washingtonpost.com/world/the_americas/a-black-female-politician-was-gunned-down-in-rio-now-shes-a-global-symbol/2018/03/19/98483cba-291f-11e8-a227-fd2b009466bc_story.html?utm_term=.597897dc0e53