Glifosato: da contaminação ambiental ao risco das superbactérias

Pesquisa publicada na Frontiers in Microbiology mostra que bactérias resistentes a múltiplos antibióticos também apresentam elevada resistência ao herbicida mais utilizado no mundo, ampliando as preocupações sobre os impactos ambientais e sanitários do atual modelo agrícola

Um novo estudo publicado na revista Frontiers in Microbiology acrescenta uma dimensão particularmente preocupante ao já extenso debate sobre os riscos associados ao glifosato. A pesquisa, conduzida por Camila A. Knecht e colaboradores, encontrou evidências de que bactérias hospitalares altamente resistentes a antibióticos também apresentam elevada resistência ao glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo. A divulgação dos resultados pela ScienceDaily amplia o alcance de uma descoberta que merece atenção não apenas da comunidade científica, mas também das autoridades responsáveis pelas políticas de saúde pública e agricultura.

O estudo analisou mais de uma centena de cepas bacterianas provenientes de hospitais, áreas agrícolas e ambientes naturais na região do Delta do Paraná, na Argentina. Os resultados revelaram um padrão inquietante: bactérias resistentes a múltiplos antibióticos também suportavam concentrações elevadas de glifosato e de formulações comerciais baseadas nesse herbicida. Os autores sugerem que a utilização intensiva do glifosato em sistemas agrícolas pode favorecer a seleção e a permanência dessas bactérias no ambiente, criando uma ponte ecológica entre hospitais e áreas rurais.

A hipótese apresentada pelos pesquisadores é particularmente relevante porque desloca parte do debate sobre resistência antimicrobiana para além do uso indiscriminado de antibióticos. Se confirmada por novos estudos, ela indica que herbicidas largamente empregados na agricultura também podem contribuir para selecionar microrganismos capazes de sobreviver aos principais antibióticos utilizados na medicina.

Embora o trabalho não demonstre que o glifosato seja a única causa da disseminação dessas bactérias, ele reforça a necessidade de compreender a resistência antimicrobiana como um fenômeno ambiental complexo, envolvendo múltiplos fatores de seleção. Nesse contexto, agricultura, saúde pública e qualidade ambiental deixam de ser temas separados e passam a integrar um mesmo sistema.

Na realidade brasileira, essa discussão adquire importância ainda maior. O Brasil figura entre os maiores consumidores mundiais de glifosato, impulsionado pela expansão das monoculturas de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. Em um cenário caracterizado pela aplicação contínua de grandes volumes desse herbicida, torna-se legítimo perguntar quais são os efeitos cumulativos dessa exposição sobre os microrganismos presentes nos solos, nos corpos d’água e até mesmo nos sistemas de abastecimento.

Esse novo estudo também dialoga com uma literatura científica que vem crescendo rapidamente. Em 2023, uma pesquisa publicada igualmente na Frontiers in Microbiology demonstrou que trabalhadores expostos ocupacionalmente a diferentes classes de agrotóxicos apresentavam alterações significativas na diversidade e na composição da microbiota intestinal. Os autores identificaram redução da diversidade bacteriana e modificações em dezenas de espécies microbianas associadas à exposição prolongada a fungicidas, inseticidas e outros pesticidas. Em outras palavras, os agrotóxicos não afetam apenas os organismos-alvo das lavouras: eles também alteram comunidades microbianas fundamentais para a saúde humana.

Essas descobertas convergem para uma conclusão cada vez mais difícil de ignorar: os processos regulatórios utilizados para autorizar pesticidas continuam avaliando predominantemente sua toxicidade direta sobre organismos superiores, mas ainda dedicam pouca atenção aos impactos ecológicos sobre comunidades microbianas. Trata-se de uma lacuna importante, pois o microbioma humano e ambiental desempenha funções essenciais para a imunidade, o metabolismo, a fertilidade dos solos e o equilíbrio dos ecossistemas.

Os próprios autores do estudo mais recente defendem que os processos de registro de pesticidas passem a incorporar testes que avaliem seu potencial de favorecer a seleção conjunta de resistência a antibióticos. É uma proposta coerente com o conceito de “Saúde Única” (One Health), segundo o qual saúde humana, saúde animal e saúde ambiental são dimensões inseparáveis.

Enquanto o agronegócio insiste em apresentar o glifosato apenas como uma ferramenta indispensável para elevar a produtividade agrícola, a ciência continua revelando efeitos indiretos que extrapolam em muito o controle de plantas daninhas. Se herbicidas também contribuem para fortalecer superbactérias resistentes aos antibióticos, estamos diante de um problema que ultrapassa os limites das lavouras e alcança diretamente hospitais, sistemas de saúde e toda a sociedade.

A Bayer está no banco dos réus. Quem julga a Revolução Verde?

A denúncia relatada por Ana Carolina Bortoleto revela que, por trás de uma corporação específica, existe um modelo agrícola inteiro baseado na socialização dos danos ambientais e sanitários e na privatização dos lucros

O artigo Denúncia contra Bayer expõe falhas globais na responsabilização por agrotóxicos”, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil e assinado por Jaqueline Pereira de Andrade e Daisy Carolina Tavares Ribeiro, oferece uma oportunidade valiosa para refletirmos sobre um problema que vai muito além de uma única empresa. O caso envolvendo a Bayer não deve ser interpretado como uma tentativa de exonerar a multinacional alemã de suas responsabilidades. Ao contrário, ele evidencia tanto o papel desempenhado pelas grandes corporações químicas na consolidação da agricultura dependente de agrotóxicos quanto os limites dos mecanismos institucionais atualmente existentes para controlá-las e responsabilizá-las pelos danos que seus produtos podem causar.

A Bayer ocupa hoje uma posição central no mercado global de insumos agrícolas, especialmente após a aquisição da Monsanto, em 2018. Com essa operação, herdou não apenas ativos estratégicos, mas também uma extensa lista de controvérsias relacionadas ao glifosato e a outros produtos amplamente utilizados na agricultura industrial. A permanência de disputas judiciais em diferentes países demonstra que as dúvidas sobre os impactos sanitários e ambientais desses produtos continuam longe de serem resolvidas. Mais do que isso, revela como a produção do conhecimento científico nessa área ocorre em um ambiente permeado por conflitos de interesse, pressões econômicas e disputas políticas.

Entretanto, limitar a discussão à Bayer seria insuficiente. O verdadeiro problema está no modelo agrícola construído a partir da Revolução Verde. Ao longo das últimas décadas, a produção agrícola passou a depender de um pacote tecnológico baseado na mecanização intensiva, em sementes padronizadas, fertilizantes sintéticos e uso crescente de agrotóxicos. Esse modelo permitiu elevar a produtividade de diversas culturas, mas também gerou uma dependência estrutural de substâncias químicas cujos efeitos cumulativos sobre a saúde humana e os ecossistemas continuam sendo progressivamente revelados pela literatura científica.

É justamente nesse ponto que o caso relatado por Ana Carolina Bortoleto ganha relevância. Mesmo quando surgem evidências científicas consistentes, denúncias bem fundamentadas e mobilização social, os mecanismos de responsabilização frequentemente se mostram lentos, fragmentados e insuficientes diante do poder econômico das corporações transnacionais. Não por acaso, as disputas envolvendo agrotóxicos costumam se arrastar por décadas, enquanto os produtos seguem sendo comercializados e utilizados em larga escala.

O problema torna-se ainda mais complexo porque os impactos dos agrotóxicos raramente se manifestam de forma imediata ou facilmente rastreável. Casos de câncer, distúrbios neurológicos, alterações endócrinas, contaminação de recursos hídricos e perda de biodiversidade costumam resultar de exposições prolongadas e múltiplas. Essa característica favorece estratégias empresariais voltadas a semear dúvidas, contestar evidências e postergar medidas regulatórias, reproduzindo um padrão já observado anteriormente nas indústrias do tabaco, do amianto e dos combustíveis fósseis.

A consequência é que os sistemas de regulação acabam operando em permanente desvantagem. Enquanto as corporações dispõem de recursos financeiros praticamente ilimitados para influenciar pesquisas, contratar especialistas, financiar lobby e sustentar longas batalhas judiciais, os órgãos públicos frequentemente enfrentam restrições orçamentárias, limitações técnicas e pressões políticas. O resultado é um quadro em que a velocidade da expansão dos mercados de agrotóxicos supera em muito a capacidade dos Estados de avaliar, monitorar e controlar seus impactos.

Por isso, o caso da Bayer deve ser entendido como a expressão de uma crise mais profunda. O que está em questão não é apenas a conduta de uma empresa específica, mas a fragilidade dos instrumentos públicos destinados a proteger a saúde coletiva e o meio ambiente diante de um modelo agrícola que continua socializando seus custos e privatizando seus lucros. Enquanto essa assimetria persistir, denúncias como a relatada pelo Le Monde Diplomatique Brasil continuarão surgindo, revelando não apenas os problemas de uma corporação, mas os limites de um sistema regulatório incapaz de acompanhar a escala e a complexidade dos riscos produzidos pela agricultura química contemporânea.

Quando a ciência é terceirizada pelas corporações: o caso do glifosato e a fabricação da dúvida

Por que a integridade científica importa para a saúde pública e ambiental

Uma das estratégias mais eficientes para manter produtos perigosos no mercado não é necessariamente financiar campanhas publicitárias ou fazer lobby junto a governos. Muitas vezes, basta produzir uma aparência de consenso científico. É exatamente isso que volta ao centro do debate internacional após as novas revelações divulgadas pelo Retraction Watch, um dos mais respeitados observatórios mundiais sobre integridade científica.

A publicação noticia que dois artigos críticos sobre a segurança do glifosato, publicados na revista Critical Reviews in Toxicology, passaram a ser investigados por suspeitas de terem sido produzidos sob forte influência da Monsanto (atualmente Bayer), empresa que desenvolveu o Roundup. A investigação ocorre poucos meses depois da retratação formal de um influente artigo de 2000 que sustentava que o herbicida não oferecia riscos à saúde humana, mas que acabou sendo associado a práticas de ghostwriting e a conflitos de interesse não declarados.

O problema vai muito além de um simples caso de má conduta acadêmica. Trata-se da existência de uma verdadeira infraestrutura científica privada, composta por pesquisadores, consultores e especialistas contratados para produzir artigos que reforcem a narrativa de segurança desejada pelas corporações. São cientistas que emprestam seu prestígio acadêmico para construir uma realidade conveniente aos interesses econômicos das empresas, frequentemente ocultando a participação direta dos patrocinadores.

Essa estratégia é especialmente eficaz porque transforma propaganda corporativa em aparente conhecimento científico. Um artigo publicado em uma revista especializada passa a ser citado por outros pesquisadores, utilizado por agências reguladoras, incorporado em pareceres técnicos e reproduzido pela imprensa como se representasse uma avaliação independente. Décadas depois, mesmo quando surgem evidências de manipulação, os efeitos já estão profundamente enraizados na literatura científica e nas políticas públicas.

No caso do glifosato, essa situação é particularmente grave. O herbicida é um dos produtos químicos mais utilizados na agricultura mundial, sendo aplicado em milhões de hectares todos os anos. Qualquer distorção deliberada sobre seus riscos potenciais significa ampliar a exposição de trabalhadores rurais, comunidades vizinhas, consumidores, organismos aquáticos, polinizadores e ecossistemas inteiros.

Não se trata de afirmar que todo cientista que realiza pesquisas financiadas pela indústria seja desonesto. A colaboração entre universidades e empresas pode produzir avanços importantes quando existe transparência, independência metodológica e divulgação completa dos conflitos de interesse. O problema começa quando corporações escrevem artigos, selecionam resultados, ocultam sua participação e utilizam pesquisadores como fachada para conferir legitimidade a conclusões previamente definidas.

A história do tabaco, do amianto, dos combustíveis fósseis e agora dos agrotóxicos mostra um padrão recorrente: fabricar dúvida para atrasar regulações, minimizar riscos e preservar mercados altamente lucrativos. A ciência deixa de ser um instrumento de busca da verdade para se transformar em ferramenta de gestão de riscos financeiros.

Por isso, as novas investigações destacadas pelo Retraction Watch merecem atenção muito além da comunidade acadêmica. Elas revelam que a disputa sobre os agrotóxicos não acontece apenas nas lavouras ou nos tribunais, mas também dentro das revistas científicas, dos processos de revisão por pares e das instituições responsáveis por produzir conhecimento.

Defender a integridade da ciência significa defender a saúde pública, a biodiversidade e o direito da sociedade de tomar decisões baseadas em evidências independentes. Quando cientistas passam a atuar como consultores ocultos das corporações, não é apenas um artigo que perde credibilidade: é todo o sistema de produção do conhecimento que fica contaminado.

Pesquisadores pedem ação urgente em relação ao glifosato, citando fortes ligações com o câncer

simpósio gli

Por Carey Gillam para “The New Lede” 

Reguladores dos EUA e da Europa devem tomar medidas urgentes para regulamentar mais rigorosamente o glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo, à luz de fortes evidências científicas de que o pesticida pode causar câncer e outros problemas de saúde, afirmou um grupo de cientistas internacionais na sexta-feira.

Os cientistas, que se reuniram em um “simpósio sobre glifosato” em Seattle, nos dias 25 e 26 de março, para examinar uma série de pesquisas realizadas na última década, concluíram que as evidências que demonstram que os herbicidas à base de glifosato podem prejudicar a saúde humana “são agora tão fortes que nenhum atraso adicional na regulamentação do glifosato pode ser justificado”.

O grupo confirmou descobertas anteriores que relacionam a exposição ao linfoma não Hodgkin e alertou que impactos nocivos à saúde estão sendo encontrados em níveis de exposição consistentes com os padrões de uso atuais.

“As agências devem agir sem mais demora para limitar o seu uso, ou eliminá-los se legalmente exigido, para proteger a saúde pública”, disseram os cientistas em comunicado

Entre os cientistas participantes, estavam especialistas ligados a diversas universidades dos EUA, aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças e ao Instituto Nacional do Câncer, bem como especialistas da Europa e do Canadá.

Especialistas se reuniram em Seattle em março de 2026 para avaliar as evidências científicas sobre os impactos do glifosato na saúde.

As conclusões completas do grupo, que incluiu especialistas em epidemiologia, toxicologia, câncer e avaliação de riscos, serão detalhadas em um artigo revisado por pares que o grupo espera publicar ainda este ano.

O glifosato é amplamente utilizado por agricultores, paisagistas e outros, tendo sido introduzido há 50 anos pela Monsanto e comercializado como uma forma excepcionalmente segura de eliminar ervas daninhas.

Mas, ao longo dos anos, aumentaram as evidências que ligam o glifosato a uma série de danos à saúde e ao meio ambiente.

O trabalho apresentado no simpósio de Seattle ocorre pouco mais de uma década depois de a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) da Organização Mundial da Saúde ter realizado uma extensa revisão da literatura científica sobre o glifosato antes de 2015, determinando que o produto químico era “provavelmente” cancerígeno para os seres humanos.

A revisão de pesquisas científicas mais recentes realizada em Seattle confirma e reforça essa classificação, afirmaram os cientistas presentes no simpósio. Muitos agora estão convencidos de que não há mais espaço para dúvidas sobre a carcinogenicidade do glifosato.

“É evidente que as evidências mudaram e se fortaleceram desde 2015”, disse Christopher Portier , ex-cientista do governo dos EUA e professor adjunto da Universidade Emory, que participou do simpósio de Seattle e também da revisão do glifosato realizada pela IARC em 2015.

Especialistas presentes no simpósio sobre glifosato em Seattle analisaram uma série de dados relacionados aos potenciais impactos na saúde.

Além disso, os cientistas afirmaram que existem evidências, provenientes de estudos em humanos e/ou animais, de que o glifosato e os herbicidas à base de glifosato aumentam o risco de diversos problemas de saúde, incluindo doenças renais e hepáticas. As pesquisas também mostram impactos nos sistemas reprodutivo, endócrino, neurológico e em outros sistemas metabólicos. Crianças, bebês e fetos são os mais suscetíveis, disseram os cientistas.

Os cientistas se concentraram em pesquisas realizadas desde 2016, incluindo a revisão de dados sobre como e onde as pessoas são expostas, estatísticas sobre a presença generalizada de glifosato na poeira doméstica em certas áreas agrícolas e a prevalência de glifosato em amostras de urina.

Os cientistas alertaram ainda que outros pesticidas também não estão sendo adequadamente avaliados e regulamentados, e que os processos de aprovação em todo o mundo devem ser “fundamentalmente revistos” para proteger a saúde humana. Eles afirmaram que medidas preventivas para reduzir a exposição humana devem ser implementadas sem demora enquanto as pesquisas continuam.

O glifosato não é a única substância química em que os órgãos reguladores não estão seguindo e agindo com base em evidências científicas de danos, embora seja um exemplo crucial, de acordo com os cientistas presentes no simpósio.

“Existe um enorme contraste, um conflito, entre o consenso científico e a perspectiva regulatória”, disse Lianne Sheppard, organizadora do simpósio e professora de ciências da saúde pública na Universidade de Washington. “Este [glifosato] é o exemplo mais flagrante disso.”

Os cientistas propõem uma reformulação do sistema regulatório, exigindo dados científicos de laboratórios e organizações independentes, livres de conflitos de interesse, com os custos dessa pesquisa sendo arcados pela indústria de pesticidas. As agências reguladoras devem basear suas decisões de aprovação de pesticidas em dados imparciais sobre os efeitos na saúde, em vez de dependerem fortemente de dados não publicados apresentados pelas empresas que buscam aprovação para seus produtos, afirmaram os cientistas. Para os pesticidas já comercializados, as agências reguladoras “devem monitorar de perto o uso, os dados de exposição e os efeitos nocivos, especialmente para grupos suscetíveis e altamente expostos”, concluíram os cientistas.

Em última análise, o grupo concluiu que o uso de pesticidas deve ser reduzido de forma geral e “eliminado na medida do possível”.

“Isto é imprescindível para a saúde dos seres humanos, dos ecossistemas e das gerações futuras”, afirmou o grupo em comunicado.

Tracey Woodruff, professora da Universidade de Stanford, participou do simpósio.

“É difícil fazer o governo mudar, principalmente porque a indústria gasta muito dinheiro fazendo lobby no Congresso para garantir que as leis favoreçam seu ponto de vista”, disse Tracey Woodruff, professora da Universidade Stanford e ex-cientista sênior do Escritório de Políticas da EPA, que participou do simpósio.

“As pessoas estão realmente revoltadas porque estão ficando mais doentes, suas famílias estão ficando mais doentes e estão sendo expostas a produtos químicos tóxicos. Há um consenso geral de que as pessoas não querem ser expostas a produtos químicos tóxicos.”

A Bayer, com sede na Alemanha, que comprou a Monsanto em 2018 e herdou a marca Roundup, à base de glifosato, e outros herbicidas também à base de glifosato, está atualmente envolvida em processos judiciais nos Estados Unidos movidos por dezenas de milhares de pessoas que alegam que a exposição aos herbicidas à base de glifosato da empresa causou o desenvolvimento de linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer no sangue.

A Bayer afirma que seus produtos à base de glifosato são seguros e não causam câncer ou outros problemas de saúde, mas diversos estudos de pesquisa contestam essa posição.

Um  estudo de 2022,  por exemplo, descobriu que o glifosato pode ter efeitos neurotóxicos em doses inferiores aos níveis considerados seguros pelas agências reguladoras. E  um estudo de 2023  associou a exposição infantil ao glifosato à inflamação do fígado e a distúrbios metabólicos.

No mês passado, uma  revisão de 15 anos de estudos publicados  confirmou que a exposição humana a herbicidas à base de glifosato tem sido associada a inúmeros efeitos adversos à saúde, que incluem não apenas câncer, problemas hepáticos e metabólicos, mas também efeitos nos sistemas reprodutivo e endócrino, além de disrupção do microbioma, entre outros.

A Bayer está tentando resolver o litígio e está buscando um recurso perante a Suprema Corte dos EUA, o que poderia limitar futuros processos judiciais.

Nem a Bayer nem a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) se pronunciaram de imediato sobre a declaração emitida no simpósio de Seattle.


Fonte: The New Lede

Indignação em centro científico europeu após demissão de diretor devido a estudo sobre glifosato

Dr. Daniele Mandrioli served as director of the Ramazinni Institute’s Cesare Maltoni Cancer Research Center from 2020 until his recent termination 

Por Carey Gillam para “The New Lede”

O Dr. Daniele Mandrioli ingressou  no Instituto Ramazzini  em Bolonha, Itália, em 2012 e dirige o Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto desde 2020. O centro de pesquisa realiza estudos toxicológicos em uma variedade de substâncias ambientais para determinar sua carcinogenicidade e outras possíveis implicações para a saúde.

O trabalho do instituto tem sido usado para fundamentar a tomada de decisões regulatórias e a elaboração de políticas sobre diversos produtos químicos, incluindo cloreto de vinila, benzeno e formaldeído, e o grupo  afirma colaborar com o Programa Nacional de Toxicologia dos EUA, bem como com o Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental dos EUA. Em seu site, o instituto destaca   50 ANOS DE PESQUISA INDEPENDENTE” e lista a Organização Mundial da Saúde como parceira.

Saiba mais sobre o Estudo Global do Glifosato aqui .

Mas a demissão de Mandrioli e a suspeita de que esteja ligada ao seu trabalho com o glifosato agitaram os círculos científicos.

Em uma  carta de 21 de janeiro endereçada  à presidente do Instituto Ramazzini, Loretta Masotti, o Dr. Philip Landrigan, epidemiologista ambiental e pediatra americano que lidera o programa de saúde pública global do Boston College e também preside o Comitê Consultivo Científico Internacional do Instituto Ramazzini, descreveu Mandrioli como um “cientista excepcional” e reclamou que o comitê não havia sido consultado sobre a demissão. A decisão parece ter sido motivada por pressão da indústria, alega a carta.

“O Dr. Mandrioli… tem sido alvo de ataques virulentos por parte da indústria química porque as descobertas da pesquisa independente do Instituto custaram dinheiro a essas empresas e prejudicaram seus resultados financeiros”, escreveu Landrigan. “Os ataques ao Dr. Mandrioli aumentaram de intensidade nos últimos meses, desde a publicação dos resultados do Estudo Global sobre o Glifosato, que constatou que o glifosato causa aumentos dose-dependentes no câncer em múltiplos locais anatômicos em animais de laboratório, principalmente aumentos na leucemia.”

“Estamos profundamente preocupados com o fato de sua decisão poder sinalizar o fim da independência da pesquisa do Instituto Ramazzini”, afirma a carta.

Questionada sobre as preocupações, Masotti afirmou que “a relação com o Dr. Mandrioli foi encerrada de comum acordo” e não por pressão da indústria química. Ela disse que os estudos sobre o glifosato continuarão.

“Nossos valores de pesquisa independente nunca foram questionados. O Centro de Pesquisa do Câncer do Instituto Ramazzini é um centro de excelência reconhecido internacionalmente, renomado por suas inúmeras e excepcionais contribuições para a pesquisa ambiental, e reconhecido por sua integridade e independência científica”, disse Masotti.

Sob a liderança de Mandrioli, o centro de pesquisa tem se concentrado recentemente no estudo dos múltiplos impactos potenciais do glifosato na saúde. O glifosato é o herbicida mais utilizado no mundo. Ele é conhecido como o principal ingrediente dos produtos Roundup, popularizados pela Monsanto, empresa agora pertencente ao conglomerado alemão Bayer.

Ao longo dos anos, muitos estudos científicos associaram o glifosato e o Roundup ao câncer, e a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer da Organização Mundial da Saúde  classificou o agrotóxico  como provavelmente cancerígeno para humanos em 2015.

Quase 200 mil pessoas processaram a Monsanto e a Bayer nos EUA, alegando que seus cânceres foram causados ​​pela exposição a herbicidas à base de glifosato.

Mas a Monsanto e, posteriormente, a Bayer,  sustentam que não há nenhuma base científica válida  que ligue o glifosato ao câncer e têm combatido veementemente cientistas e outros que contestam essa posição, incluindo aqueles da Organização Mundial da Saúde.

No verão passado, Mandrioli e o centro de pesquisa  publicaram os resultados  de um estudo de dois anos que,  segundo Mandrioli, apresentou  “evidências científicas sólidas e independentes da carcinogenicidade do glifosato e de herbicidas à base de glifosato”. O estudo constatou, entre outras coisas, que os coadjuvantes em produtos herbicidas à base de glifosato podem aumentar a carcinogenicidade do glifosato, particularmente no caso da leucemia.

A pesquisa fez parte de um “Estudo Global sobre Glifosato” que envolveu cientistas do Boston College, da George Mason University, do King’s College London, da Icahn School of Medicine no Mount Sinai, do Centro Científico de Mônaco, da Universidade de Bolonha, do Instituto de Biologia Agrícola e Biotecnologia do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, do Instituto Nacional de Saúde da Itália e do Comitê Nacional de Segurança Alimentar do Ministério da Saúde da Itália.

Em 2022, o grupo  publicou  resultados anteriores que mostravam efeitos adversos do glifosato em doses atualmente consideradas seguras.

A Bayer respondeu acusando o Instituto Ramazzini de ter “um longo histórico de fazer alegações enganosas sobre a segurança de vários produtos”. A empresa não respondeu a um pedido de comentário sobre a demissão de Mandrioli.

Mandrioli afirmou em entrevista que foi alvo de “uma quantidade incrível de ataques” por causa do estudo sobre o glifosato.

“Infelizmente, minha experiência é semelhante à que muitos cientistas independentes estão passando”, disse ele.

O centro de pesquisa está atualmente finalizando quatro novos manuscritos sobre testes de pesticidas. Não está claro quando eles serão publicados.

Membros do  Collegium Ramazzini,  uma academia científica composta por médicos e cientistas de 45 países,  afirmaram em comunicado  que o processo de demissão de Mandrioli foi “pouco transparente” e “secreto”, sem oferecer qualquer explicação racional além de dizer que fazia parte de uma “reorganização”.

O grupo afirmou que o estudo de 2025 sobre o glifosato foi “o maior estudo toxicológico internacional já realizado sobre o glifosato e herbicidas à base de glifosato” e que “os ataques e campanhas difamatórias” contra Mandrioli “aumentaram drasticamente” após a divulgação do estudo de 2025.

Os ataques visavam “minar sua credibilidade e a credibilidade das conclusões da pesquisa independente de sua equipe sobre a toxicidade de produtos químicos perigosos”, escreveu o grupo.

Francesco Forastiere , cientista do Conselho Nacional de Pesquisa em Palermo, Itália, e professor visitante do Imperial College de Londres, afirmou que a demissão “carecia de justificativa e foi abrupta”.

“Não houve transparência alguma na operação”, disse Forastiere, que faz parte de um conselho consultivo do Instituto. “Estou estarrecido.”


Fonte: The New Lede

Monsanto, a ghoswritter: Artigo atestando segurança do glifosato é despublicado 8 anos depois, após revelação de que empresa redigiu artigos em nome de terceiros

Por Retraction Watch 

Um artigo de revisão que concluía que o herbicida Roundup “não representa um risco para a saúde humana” foi retratado oito anos depois de documentos divulgados em um processo judicial revelarem que funcionários da Monsanto, empresa que desenvolveu o herbicida, escreveram o artigo, mas não foram citados como coautores. 

A segurança do glifosato, o ingrediente ativo do Roundup, é alvo de intenso debate e está atualmente sob revisão na Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), que faz parte da Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou em 2015 que o glifosato é “possivelmente cancerígeno”. 

O artigo, agora retirado de circulação, foi publicado na revista Regulatory Toxicology and Pharmacology , da editora Elsevier, em 2000. Gary Williams, então patologista no New York Medical College em Valhalla, Robert Kroes , toxicologista na Universidade de Utrecht, na Holanda, e Ian C. Munro , toxicologista na Cantox Health Sciences International em Ontário, Canadá, constavam como autores. O artigo foi citado 614 vezes, segundo o Web of Science da Clarivate. 

Três artigos sobre glifosato, nos quais Williams era um dos autores, receberam manifestações de preocupação e extensas correções em 2018 porque os autores não divulgaram completamente seus vínculos com a Monsanto ou o envolvimento da empresa nos artigos. 

Em 2017, documentos internos da Monsanto , incluindo e-mails entre funcionários discutindo publicações científicas sobre a segurança do glifosato, foram divulgados no decorrer de um processo judicial que alegava que a exposição ao glifosato causava o desenvolvimento de linfoma não Hodgkin em algumas pessoas. Em um dos e-mails, um funcionário da Monsanto propôs “reduzir os custos” na produção de um artigo científico com cientistas externos, “nós escreveríamos o artigo e eles apenas editariam e assinariam, por assim dizer. Lembre-se de que foi assim que lidamos com o caso Williams Kroes & Munro, 2000.” (O e-mail está na página 203 do documento cujo link está aqui e acima.)

Apesar da revelação de autoria fantasma por parte de funcionários da empresa, o artigo continuou sendo citado em pesquisas e documentos de políticas públicas sem qualquer crítica, bem como em artigos da Wikipédia, segundo acadêmicos que analisaram seu impacto. Os pesquisadores, Alexander Kaurov, da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, e Naomi Oreskes, historiadora da ciência da Universidade Harvard, em Cambridge, Massachusetts, publicaram suas descobertas em setembro em outro periódico da Elsevier, o Environmental Science & Policy . Eles também escreveram aos editores do Regulatory Toxicology and Pharmacology para solicitar formalmente a retratação do artigo, conforme descreveram em editoriais publicados na Science e na Undark . 

O pedido deles “foi, na verdade, a primeira vez que uma reclamação chegou diretamente à minha mesa”, disse Martin van den Berg, coeditor-chefe da revista, ao Retraction Watch. O artigo foi publicado muito antes de ele assumir o cargo, disse van den Berg, toxicologista da Universidade de Utrecht, na Holanda, e “simplesmente não chegou ao meu conhecimento” até o artigo de Kaurov e Oreskes. A retratação “poderia ter sido feita já em 2017, mas é claramente um caso de duas fontes de informação paralelas que não se conectaram antes”, afirmou. 

Kaurov e Oreskes escreveram aos editores em 25 de julho, contou-nos Kaurov. A reação dos editores “foi exemplar e profissional”, disse Kaurov. Eles responderam prontamente, afirmou, e conduziram a investigação em um mês, o que ele considerou “um prazo razoável”. 

O comunicado , com mais de mil palavras, foi publicado online em novembro. Nele, van den Berg detalhou “diversas questões críticas que comprometem a integridade acadêmica deste artigo e suas conclusões”. A maioria das preocupações estava relacionada ao que van den Berg descreveu como “as aparentes contribuições de funcionários da Monsanto como coautores deste artigo”, sem o devido reconhecimento como tal. Ele também criticou a dependência dos autores em estudos não publicados da Monsanto para chegar à conclusão de que a exposição ao glifosato não causa câncer, embora existam outros estudos sobre o assunto.

“As preocupações aqui especificadas tornam necessária esta retratação para preservar a integridade científica da revista”, escreveu van den Berg. 

Van den Berg entrou em contato com Williams, o único autor ainda vivo, mas não obteve resposta, segundo o comunicado. Williams, agora professor emérito do New York Medical College, não respondeu ao nosso pedido de comentário. Uma investigação institucional não encontrou “nenhuma evidência” de que Williams tenha violado uma política contra a autoria de artigos escritos por terceiros, informou a faculdade à revista Science em 2017. Kroes faleceu em 2006 e Munro em 2011. 

Um porta-voz da Bayer, que comprou a Monsanto, divulgou uma declaração afirmando que a empresa “acredita que o envolvimento da Monsanto foi devidamente citado nos agradecimentos, que declaram claramente: ‘agradecemos aos toxicologistas e outros cientistas da Monsanto que deram contribuições significativas para o desenvolvimento das avaliações de exposição e por meio de muitas outras discussões’, e ainda identificam vários ‘funcionários-chave da Monsanto que forneceram suporte científico'”.

“O consenso entre os órgãos reguladores de todo o mundo que realizaram suas próprias avaliações independentes com base no conjunto de evidências é que o glifosato pode ser usado com segurança conforme as instruções e não é cancerígeno”, afirmou a empresa em comunicado. 

O artigo escrito por um autor fantasma estava entre os 0,1% dos artigos mais citados sobre glifosato, descobriram Kaurov e Oreskes em sua análise. Retratar o artigo “não apagaria vinte e cinco anos de influência”, concluíram eles, “mas enviaria uma mensagem clara e há muito esperada de que a autoria fraudulenta é inaceitável e que o registro acadêmico será protegido — não importa quão antigo, citado ou lucrativo seja o periódico”.


Fonte: Retraction Watch

Citando “sérias preocupações éticas”, revista científica despublica estudo crucial sobre a segurança do Roundup da Bayer/Monsanto

Journal retracts two papers evaluating ADHD interventions | The  Transmitter: Neuroscience News and Perspectives

Por Carey Gillam para “The New Lede” 

A revista Regulatory Toxicology and Pharmacology despublicou formalmente um abrangente artigo científico publicado no ano 2000, que se tornou uma defesa fundamental para a alegação da Monsanto de que o herbicida Roundup e seu ingrediente ativo, o glifosato, não causam câncer.

O editor-chefe da revista, Prof. Martin van den Berg, Ph.D., afirmou em uma nota que acompanhava a retratação que tomou essa medida devido a  sérias preocupações éticas com relação à independência e responsabilidade dos autores deste artigo e à integridade acadêmica dos estudos de carcinogenicidade apresentados”.

O estudo, intitulado “ Avaliação de Segurança e Análise de Riscos do Herbicida Roundup e seu Ingrediente Ativo, Glifosato, para Humanos”, concluiu que os herbicidas à base de glifosato da Monsanto não representam riscos à saúde humana – nenhum risco de câncer, nenhum risco reprodutivo, nenhum efeito adverso no desenvolvimento do sistema endócrino em pessoas ou animais. Órgãos reguladores de todo o mundo citaram o estudo como prova da segurança dos herbicidas à base de glifosato, incluindo a Agência de Proteção Ambiental (EPA) nessa avaliação.  

Os autores listados no artigo eram três cientistas que não trabalhavam para a Monsanto – Gary Williams, Robert Kroes e Ian Munro – e o artigo foi divulgado pela empresa como uma defesa contra evidências científicas conflitantes que ligavam o Roundup ao câncer. O fato de ter sido escrito por cientistas de fora da empresa, pesquisadores aparentemente independentes, conferiu-lhe maior credibilidade.

Mas, na última década, documentos internos da empresa que vieram à tona em processos judiciais movidos por vítimas de câncer revelaram que o artigo era, na verdade, produto de três anos do que um funcionário da empresa chamou de “trabalho árduo” de vários cientistas da Monsanto, que ajudaram a elaborar o artigo como parte de uma estratégia que a Monsanto denominou “Liberdade de Operação” (FTO, na sigla em inglês).

Os arquivos corporativos mostram que os executivos da empresa comemoraram o trabalho quando o artigo foi publicado. Em um desses e-mails, enviado após a publicação do artigo de Williams em abril de 2000, Lisa Drake, funcionária do setor de relações governamentais da Monsanto, descreveu o impacto que o trabalho de desenvolvimento de artigos de pesquisa “independentes” teve sobre vários cientistas da Monsanto.

“A publicação, por especialistas independentes, da avaliação científica mais exaustiva e detalhada já escrita sobre o glifosato… deveu-se à perseverança, ao trabalho árduo e à dedicação do seguinte grupo de pessoas”, escreveu Drake. Ela então listou sete funcionários da Monsanto. O grupo foi aplaudido por “seu trabalho árduo ao longo de três anos de coleta de dados, redação, revisão e construção de relacionamento com os autores dos artigos”.

Drake enfatizou ainda mais por que o artigo de Williams era tão significativo para os planos de negócios da Monsanto: “Esta publicação sobre a saúde humana relacionada ao herbicida Roundup e sua publicação complementar sobre ecotoxicidade e destino ambiental serão, sem dúvida, consideradas a referência definitiva sobre a segurança do Roundup e do glifosato”, escreveu ela no e-mail datado de 25 de maio de 2000. “Nosso plano agora é utilizá-lo tanto na defesa do Roundup e das culturas Roundup Ready em todo o mundo quanto em nossa capacidade de nos diferenciarmos competitivamente dos genéricos.”

Em um e-mail separado, um executivo da empresa perguntou se camisas polo com o logotipo da Roundup poderiam ser dadas a oito pessoas que trabalharam nos artigos de pesquisa como um “símbolo de reconhecimento por um trabalho bem feito”.

Hugh Grant, da Monsanto, que na época era um executivo sênior a caminho de ser nomeado CEO e presidente do conselho, também elogiou o trabalho, escrevendo em um e-mail: “Este é um trabalho muito bom, parabéns à equipe. Por favor, mantenham-me informado à medida que vocês elaboram as informações de relações públicas para acompanhar o projeto.”

Em 2015, o cientista da Monsanto, William Heydens, sugeriu que ele e seus colegas “escrevessem em nome de terceiros” outro artigo científico. A Monsanto poderia pagar cientistas externos para “editar e assinar” o trabalho que ele e outros fariam, escreveu Heydens em um e-mail. “Lembrem-se de que foi assim que lidamos com o caso de Williams Kroes e Munro em 2000.”

Os e-mails foram destacados em julgamentos com júri nos quais vítimas de câncer ganharam bilhões de dólares em indenizações da Monsanto, empresa que foi comprada pela Bayer AG em 2018.

Ao explicar a decisão de retratação, van den Berg escreveu:

“Foram levantadas preocupações quanto à autoria deste artigo, à validade das conclusões da pesquisa no contexto da deturpação das contribuições dos autores e do patrocinador do estudo, bem como a potenciais conflitos de interesse dos autores.” Ele observou que as conclusões do artigo sobre a carcinogenicidade do glifosato baseavam-se exclusivamente em estudos não publicados da Monsanto, ignorando outras pesquisas externas já publicadas.

Van den Berg não respondeu ao pedido de comentário. A EPA também não.

Questionada sobre a retratação, a Bayer afirmou em comunicado que o envolvimento da Monsanto foi devidamente mencionado na seção de agradecimentos do artigo em questão, incluindo uma declaração que se referia a “funcionários-chave da Monsanto que forneceram apoio científico”. A empresa disse que a grande maioria dos milhares de estudos publicados sobre o glifosato não contou com a participação da Monsanto. 

“O consenso entre os órgãos reguladores de todo o mundo que realizaram suas próprias avaliações independentes com base no conjunto de evidências é que o glifosato pode ser usado com segurança conforme as instruções e não é cancerígeno”, afirmou a empresa.

Brent Wisner, um dos principais advogados no processo Roundup e figura-chave para a divulgação dos documentos internos ao público, afirmou que a retratação “já deveria ter acontecido há muito tempo”.

Wisner afirmou que o estudo de Williams, Kroes e Munro era o “exemplo por excelência de como empresas como a Monsanto podem minar fundamentalmente o processo de revisão por pares através da escrita fantasma, da seleção tendenciosa de estudos não publicados e de interpretações tendenciosas”.

“Diante de evidências incontestáveis ​​sobre como este estudo foi fabricado e usado por mais de duas décadas para proteger as vendas de glifosato, o editor-chefe… fez a coisa certa”, disse Wisner. “Embora o dano causado ao discurso científico — e às pessoas prejudicadas pelo glifosato — seja irreparável, isso ajuda a renovar um pouco a confiança no processo de revisão por pares, que, de outra forma, estaria falho e do qual as corporações se aproveitam há décadas. Este estudo fraudulento, escrito por um ghostwriter, finalmente recebeu o destino que merecia. Esperamos que, agora, as revistas científicas sejam mais vigilantes na proteção da imparcialidade da ciência, da qual tantas pessoas dependem.”


Fonte: The New Lede

Glifosato e Câncer: Um Caso Clássico de “Fabricação de Dúvidas”

Uma lata de herbicida glifosato, na casa de um fazendeiro em Ouzouer-sous-Bellegarde (Loiret), em 2017. 

Por  Stéphane Foucart para o Le Monde 

A recente publicação de um estudo que indica um risco aumentado de vários tumores em ratos de laboratório expostos ao glifosato gerou inúmeros comentários nas redes sociais e na imprensa, com o objetivo de minimizar ou denegrir essa pesquisa.

Esses resultados, publicados em 10 de junho na revista Environmental Health, apenas confirmam as conclusões da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), que estimou em 2015 que os estudos disponíveis na época forneciam “evidências suficientes” da carcinogenicidade do glifosato em animais.

Os ataques a este estudo, liderados pelo Instituto Ramazzini em Bolonha, Itália, oferecem um exemplo exemplar da manipulação da “fabricação de dúvidas”, uma retórica que visa minar a confiança nos resultados científicos, frequentemente usada para atrasar ou combater decisões regulatórias.

“O periódico é desconhecido, então o estudo é falho.”

Eric Billy, pesquisador de imuno-oncologia, foi um dos maiores críticos do estudo do Instituto Ramazzini (que, na verdade, foi um estudo internacional com autores de todo o mundo, não apenas do Instituto Ramazzini), que ele considerou “falho”. Em uma série de mensagens publicadas em 14 de junho em suas contas X e Bluesky, que receberam inúmeros retuítes, este funcionário da empresa farmacêutica Novartis primeiro acusou seus autores de terem “escolhido um periódico mais brando para evitar críticas”, explicando que ele esperava ler este artigo nos periódicos “Nature, Science ou Cell”, que ele acredita serem de maior qualidade.

Por que é irrelevante

A Environmental Health, publicada pelo grupo SpringerNature, é, na verdade, uma das revistas mais influentes em sua área. Sua taxa de citação a coloca em 32º lugar entre 687 revistas indexadas que abrangem as áreas de saúde pública, saúde ambiental ou saúde ocupacional, de acordo com o ranking de 2024 da editora científica Elsevier. Revistas de prestígio como Nature ou Science geralmente não publicam testes como o realizado pelo Instituto Ramazzini.

“Vários estudos de toxicidade confiáveis e de alta qualidade, como o que você compartilha conosco, são publicados em periódicos especializados”, explica Meagan Phelan, porta-voz das publicações da Science. “Embora sejam elementos essenciais da avaliação de substâncias, esses testes não são considerados avanços conceituais e, como tal, a Science geralmente não os publica.”

“Animais expostos vivem tanto quanto os outros”

O estudo de Ramazzini não revelou nenhuma diferença significativa na mortalidade entre ratos expostos ao glifosato e ratos de controle não expostos. Este ponto foi destacado pelo Sr. Billy para colocar as conclusões do estudo em perspectiva. E acertou em cheio: foi posteriormente relatado no Le Figaro, que o considerou a “primeira lição” deste trabalho.

Por que é mais complicado

O fato de o estudo não ter revelado diferenças significativas nas taxas de sobrevivência entre os dois grupos não foi apresentado pelos pesquisadores de Ramazzini como um resultado em si. Seu protocolo foi, na verdade, projetado para detectar o potencial carcinogênico de um produto, não seu efeito na sobrevivência dos animais: todos eles foram sacrificados dois terços de suas vidas, com 104 semanas de idade. Agora, é fácil entender que, se fumantes humanos fossem comparados a não fumantes, as diferenças de mortalidade seriam pequenas se todos os indivíduos fossem eutanasiados aos 50 anos.

Na realidade, a ausência de diferença na mortalidade entre grupos de animais ao longo do teste é principalmente uma garantia da qualidade do estudo, por razões estatísticas. Um animal que morre prematuramente terá sido exposto por menos tempo à substância testada, e a probabilidade de desenvolvimento de tumores em seu grupo será, portanto, reduzida. Seu peso estatístico na análise será, portanto, diferente. Uma alta taxa de sobrevivência em cada grupo, tanto tratado quanto controle, garante a “manutenção do poder estatístico” do experimento, de acordo com os guias de boas práticas em toxicologia (mantidos pela OCDE).

“A linhagem de roedor escolhida não é apropriada.”

Vários comentaristas também criticaram a escolha da chamada linhagem de ratos “Sprague-Dawley” pelos pesquisadores do Instituto Ramazzini. Eric Billy argumenta que o uso desse tipo de rato “já foi fortemente criticado pela comunidade científica devido à frequência anormalmente alta de lesões tumorais espontâneas em comparação com outras linhagens de roedores”, lembrando que essa linhagem foi usada por Gilles-Eric Séralini em seu famoso e controverso estudo sobre OGM.

Por que está incorreto

Na realidade, as altas taxas de tumores espontâneos observadas na cepa “Sprague-Dawley” afetam apenas certos locais (tumores da glândula mamária, hipófise, etc., encontrados em taxas comparáveis nos grupos tratado e controle). Além disso, os pesquisadores têm à disposição uma vasta literatura para levar em consideração as características específicas dessa cepa.

A cepa “Sprague-Dawley” não só não é problemática em si, como também é a mais amplamente utilizada. Em 2024, pesquisadores mostraram que mais de 55% dos 263 estudos de carcinogenicidade de ingredientes ativos conduzidos nos últimos anos em ratos utilizaram essa cepa. A carcinogenicidade do Ruxolitinibe, um fármaco comercializado pela Novartis, foi, por exemplo, testada nessa cepa. Quanto ao estudo do Dr. Séralini (publicado em 2012, antes de ser retratado e republicado), a escolha da cepa não estava, por si só, entre as críticas feitas. Conforme resumido por especialistas da IARC em 2015, foi todo o protocolo implementado que foi criticado.

“As doses testadas são irrealistas”

Assim como várias outras vozes críticas, Eric Billy se surpreende com as altas doses de glifosato às quais os ratos foram expostos no estudo do Instituto Ramazzini, afirmando que “mesmo a menor dose testada excede em muito a exposição humana [dietética] real” e que “as outras duas doses são, portanto, cem e mil vezes maiores do que essa exposição humana”. O mesmo argumento e o mesmo número são usados em Le Figaro.

Por que é irrelevante

Este argumento é frequentemente levantado para questionar a relevância dos resultados de estudos com animais. No entanto, milhões de humanos expostos por décadas não podem ser comparados a cem ratos expostos por 24 meses. O objetivo desses testes é caracterizar o potencial carcinogênico das substâncias, não avaliar os riscos enfrentados pela população em níveis reais de exposição (às vezes muito superiores à exposição alimentar, para pessoas que vivem perto de fazendas, trabalhadores rurais, etc.).

De fato, o glifosato já foi associado a um risco aumentado de certos linfomas em agricultores em quatro meta-análises e um estudo combinado — os mais altos níveis de evidência em epidemiologia. Estudos em animais nos permitem interpretar esses resultados, sugerindo que essas associações são indicativas de um nexo causal. E mesmo que demos crédito ao argumento da “dose muito alta”, a objeção permanece infundada.

O estudo Ramazzini de fato examinou os efeitos do glifosato em doses consideravelmente menores do que todos os estudos semelhantes anteriores. Nos sete estudos selecionados pelas autoridades europeias durante sua última avaliação da molécula herbicida, as doses mais baixas testadas foram de 12 a 420 vezes maiores do que no estudo Ramazzini, e as exposições mais altas foram de 10 a 33 vezes maiores.

“A via de exposição não é adequada.”

No estudo de Ramazzini, os animais foram expostos ao glifosato através da água potável, não da comida. O Sr. Billy sustenta que isso é inadequado, argumentando que os humanos têm maior probabilidade de serem expostos através da comida.

Por que é irrelevante

Entre os estudos com glifosato em animais submetidos às autoridades sanitárias ou avaliados pelo IARC, nenhum foi considerado inadmissível por ter optado por uma via de exposição semelhante. Além disso, a água potável é considerada aceitável para avaliar “alimentos ou produtos químicos ambientais, incluindo pesticidas”, assim como a dieta, de acordo com o Guia de Boas Práticas nº 451 da OCDE.

Essa falsa controvérsia é um argumento clássico. Em 1953, o primeiro trabalho do Instituto Sloan Kettering sobre o potencial carcinogênico do tabaco envolveu a observação do desenvolvimento de tumores na pele raspada de roedores após a aplicação de extratos de alcatrão de cigarro. A American Tobacco Company criticou o uso, pelos cientistas, de uma “alta concentração de extratos de fumaça — totalmente diferente da fumaça que uma pessoa inala de um cigarro”, afirmando que “todos os cientistas concordam que não há relação conhecida entre câncer de pele em camundongos e câncer de pulmão em humanos”.

Assim como os pesquisadores de Ramazzini, os do Instituto Sloan Kettering não buscavam imitar exatamente a exposição humana ao agente testado (ninguém espalha alcatrão de cigarro no próprio corpo), mas testar seu potencial cancerígeno.

“O número de animais é insuficiente”

Em seu tópico crítico, Eric Billy faz um cálculo estimando que, para alcançar maior robustez estatística, os pesquisadores de Ramazzini deveriam ter usado pelo menos três vezes mais ratos, ou 160 a 220 indivíduos por grupo.

Por que isto está incorreto

Tais requisitos são fantasiosos. Nenhum estudo de toxicidade crônica ou carcinogenicidade do glifosato realizado em ratos jamais incluiu tantos animais. Todos os estudos semelhantes aos de Ramazzini incluíram cerca de 50 ratos por grupo. E por um bom motivo: este é o limite recomendado pelo documento de orientação da OCDE.

“Neste caso, é completamente ridículo exigir mais animais por grupo”, afirma o bioestatístico americano Christopher Portier, ex-diretor do Programa Nacional de Toxicologia dos EUA, cujo trabalho é uma autoridade no assunto. Segundo este especialista, testemunha especializada dos autores em vários julgamentos em andamento nos Estados Unidos, os pesquisadores de Ramazzini “conseguiram demonstrar uma tendência estatisticamente significativa de aumento de certos tumores nos animais tratados, embora houvesse apenas 50 por grupo. Por que o experimento seria repetido com mais animais para obter maior poder estatístico?”

Na realidade, é quando um efeito estatisticamente significativo não é encontrado que se pode argumentar que o número de animais é muito pequeno e que pode ser útil aumentar o poder estatístico. “A única desvantagem de ter 50 ratos por grupo, em vez de 160 ou 220, é ‘perder’ um efeito, certamente não ver um efeito que não existe”, conclui o Sr. Portier.

Este artigo se beneficiou de discussões com pesquisadores do Instituto Ramazzini e de revisão crítica por três pesquisadores (INRAE e INSERM) envolvidos em trabalhos de toxicologia envolvendo estudos em animais.

O que é a “fabricação da dúvida”?

Como os historiadores científicos Naomi Oreskes (Universidade de Harvard) e Erik Conway (NASA) mostraram em um livro histórico (Merchants of Doubt, 2012), a “fabricação da dúvida” foi desenvolvida na década de 1950 pelas empresas de tabaco para negar ou relativizar os efeitos dos cigarros.

Essa retórica vira a ciência contra si mesma, distorcendo as ferramentas intelectuais que estão no cerne das abordagens dos cientistas (dúvida metódica, exigências de rigor, desconfiança em afirmações percebidas como espetaculares, etc.). Portanto, é muito eficaz contra membros das comunidades científica e médica que não trabalham diretamente com os temas em questão, bem como contra públicos apegados à racionalidade e à defesa de valores científicos, ou mesmo jornalistas que às vezes repetem esses argumentos circulantes sem pensar duas vezes.

Uma técnica de propaganda altamente eficaz, a “fabricação de dúvidas” às vezes exige longas explicações para ser desmascarada, especialmente porque às vezes mistura críticas legítimas com outras baseadas em inverdades, interpretações errôneas ou simplesmente considerações errôneas. Constitui uma caixa de ferramentas constantemente utilizada há décadas por diversos setores industriais que desejam proteger suas atividades de qualquer regulamentação sanitária ou ambiental.


Fonte: Le Monde

Novo estudo reforça evidências de que o Glifosato pode causar câncer

Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Um novo estudo de longo prazo com animais sobre o herbicida amplamente utilizado glifosato encontrou novas evidências de que o herbicida, introduzido pela Monsanto na década de 1970, causa vários tipos de câncer e pode fazê-lo em doses consideradas seguras pelos reguladores.

Os resultados do estudo de dois anos, publicado em 10 de junho na revista Environmental Health, contribuem para o debate global em andamento sobre a segurança do agrotóxico, comumente usado por agricultores para matar ervas daninhas em campos e pastagens. O produto químico também é amplamente utilizado no controle de ervas daninhas em campos de golfe, parques e playgrounds, e no manejo florestal.

“Nosso estudo fornece evidências científicas sólidas e independentes da carcinogenicidade do glifosato e de herbicidas à base de glifosato”, afirmou Daniele Mandrioli, diretor do Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto Ramazzini, na Itália. Mandrioli é o pesquisador principal do estudo.

Pesando a ciência

A Bayer, sediada na Alemanha, que comprou a Monsanto em 2018 e herdou a marca Roundup à base de glifosato e outros herbicidas à base de glifosato, está atualmente envolvida em um litígio nos Estados Unidos movido por dezenas de milhares de pessoas que alegam que a exposição aos herbicidas à base de glifosato da empresa fez com que desenvolvessem linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer no sangue.

Um julgamento está em andamento no Missouri, não muito longe da antiga sede da Monsanto. A empresa já pagou bilhões de dólares em acordos e indenizações, e o novo estudo surge no momento em que a Bayer alerta que, se não conseguir pôr fim ao litígio, poderá encerrar suas operações de glifosato nos EUA e, possivelmente, levar seus negócios da Monsanto à falência.

Assim como a Monsanto sempre fez, a Bayer sustenta que seus herbicidas à base de glifosato não são cancerígenos e diz que o peso da pesquisa científica respalda essa posição.

Mas muitos estudos encontraram conexões com o câncer e, em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial da Saúde classificou o glifosato como um provável carcinógeno humano.

Outros estudos encontraram uma série de efeitos nocivos da exposição ao glifosato. Um estudo de 2022, por exemplo, descobriu que o glifosato pode ter efeitos neurotóxicos em doses inferiores aos níveis considerados seguros pelas agências reguladoras. E um estudo de 2023 relacionou a exposição infantil ao glifosato à inflamação hepática e a distúrbios metabólicos.

No mês passado, uma revisão de 15 anos de estudos publicados confirmou que a exposição humana aos herbicidas de glifosato foi associada a vários resultados adversos à saúde, que incluem não apenas câncer, problemas hepáticos e metabólicos, mas também efeitos no sistema reprodutivo e endócrino e perturbação do microbioma, entre outros.

Nem a Bayer nem a organização da indústria agroquímica CropLife America responderam a um pedido de comentário.

Dosagem de água potável

No novo estudo realizado na Itália, os pesquisadores analisaram os impactos do glifosato isoladamente, bem como os impactos de dois tipos de formulações comerciais à base de glifosato, usadas na Europa e nos Estados Unidos. Eles administraram os herbicidas a ratos via água potável, desde a vida pré-natal, nas doses de 0,5, 5 e 50 mg/kg de peso corporal por dia, durante dois anos, e os compararam a grupos de controle que não receberam as doses do agrotóxico. Mais de 1.000 ratos participaram do estudo.

A ingestão diária aceitável de glifosato pela União Europeia é de 0,5 mg/kg de peso corporal/dia, e o “nível de efeito adverso não observado” (NOAEL) da UE é de 50 mg/kg de peso corporal/dia. Nos três grupos tratados, observou-se aumento na incidência de tumores benignos e malignos em múltiplos tecidos, em comparação com ratos de um grupo controle que não recebeu nenhum  agrotóxico. Os pesquisadores afirmaram que os resultados do estudo indicam que os herbicidas à base de glifosato podem causar uma série de cânceres, incluindo leucemia.

“Nossos resultados indicam que, embora o glifosato sozinho seja capaz de causar uma série de tumores benignos e malignos, os coformulantes [de herbicidas à base de glifosato] podem aumentar a carcinogenicidade do glifosato, particularmente no caso de leucemia”, afirma o estudo.

A maioria dos tumores que se desenvolveram é considerada rara em ratos Sprague Dawley, o tipo utilizado no estudo, disseram os cientistas. Eles observaram que cerca de 40% das mortes por leucemia observadas nos grupos tratados ocorreram no início da vida dos animais, embora um aumento nas mortes precoces também tenha sido observado em conexão com outros tipos de tumores. Estudos de longo prazo em ratos são comumente usados ​​para prever se uma substância é cancerígena para humanos. Ligações com amianto, benzeno e muitas outras substâncias ao câncer foram detectadas pela primeira vez em estudos com roedores.

A pesquisa faz parte de um “Estudo Global de Glifosato” liderado pelo Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto Ramazzini na Itália e envolve cientistas do Boston College, da George Mason University, do King’s College London, da Icahn School of Medicine no Mount Sinai, do Centro Científico de Mônaco, da Universidade de Bolonha, do Instituto de Biologia Agrícola e Biotecnologia do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, do Instituto Nacional de Saúde da Itália e do Comitê Nacional de Segurança Alimentar do Ministério da Saúde da Itália.

Em 2022, o grupo publicou  descobertas anteriores mostrando efeitos adversos do glifosato em doses atualmente consideradas seguras.

“As descobertas deste estudo cuidadosamente conduzido, e especialmente a observação de que a exposição pré-natal de ratos bebês ao glifosato durante a gravidez aumenta a incidência e a mortalidade por leucemia precoce, são um poderoso lembrete da grande vulnerabilidade de bebês humanos a produtos químicos tóxicos”, disse Philip Landrigan, que participou do estudo e dirige o Programa de Saúde Pública Global e o Bem Comum no Boston College, em um comunicado.


Fonte: The New Lede

Perfilamento de oponentes da indústria de agrotóxicos foi interrompida nos EUA após a prática da empresa ser exposta

Por Carey Gillam, Margot Gibbs e Elena Debre para o “the Nee Lede”

Uma empresa norte-americana que estava secretamente traçando perfis de centenas de defensores da alimentação e da saúde ambiental em um portal privado interrompeu as operações devido à reação generalizada após suas ações terem sido expostas pelo The New Lede em colaboração com o Lighthouse Reports e outros parceiros de mídia.

A empresa de St. Louis(Missouri), v-Fluence, está fechando o serviço, que ela chamou de “wiki de stakeholders”, que apresentava detalhes pessoais sobre mais de 500 defensores ambientais, cientistas, políticos e outros vistos como oponentes de pesticidas e culturas geneticamente modificadas (GM). Entre os visados ​​estava Robert F. Kennedy Jr., a escolha controversa do presidente Trump para Secretário de Saúde e Serviços Humanos. 

Os perfis frequentemente forneciam informações depreciativas sobre os oponentes do setor e incluíam endereços residenciais, números de telefone e detalhes sobre membros da família, incluindo crianças.

Os perfis foram fornecidos a membros de um portal da web somente para convidados, onde a v-Fluence também ofereceu uma variedade de outras informações para sua lista de mais de 1.000 membros. A associação incluía funcionários de agências regulatórias e políticas dos EUA, executivos das maiores empresas agroquímicas do mundo e seus lobistas, acadêmicos e outros. 

O perfil foi parte de um esforço para minimizar os perigos dos agrotóxicos, desacreditar oponentes e minar a formulação de políticas internacionais, de acordo com registros judiciais, e-mails e outros documentos obtidos pela redação sem fins lucrativos Lighthouse Reports. A Lighthouse colaborou com The New Lede, The Guardian , Le Monde, Africa Uncensored, Australian Broadcasting Corporation e outros parceiros de mídia internacionais na publicação da investigação em setembro de 2024.

As notícias sobre o perfil e o portal privado geraram indignação e ameaças de litígio por parte de algumas das pessoas e organizações perfiladas.

O professor pesquisador de Londres Michael Antoniou, que foi perfilado no portal com informações depreciativas sobre sua vida pessoal e de membros da família, disse temer que as ações para remover os perfis possam ser “muito pouco e tarde demais”.

“Aqueles de nós que foram perfilados ainda não sabem quem acessou as informações e como elas foram usadas”, ele disse. “Isso nos atrapalhou em nossas carreiras ou fechou portas que de outra forma poderiam estar abertas para nós? O fato de que a V-Fluence e as indústrias que ela atende recorreram a esses métodos desonestos mostra que eles não conseguiram vencer no nível da ciência.”

A V-Fluence não apenas eliminou o perfil, mas também fez “cortes significativos de pessoal” na esteira da exposição pública, de acordo com  Jay Byrne, o ex-executivo de relações públicas da Monsanto que fundou e lidera a v-Fluence. Byrne culpou as dificuldades da empresa pelos “custos crescentes do assédio contínuo de litigantes e ativistas à nossa equipe, parceiros e clientes com ameaças e falsas representações…” 

Ele disse que os artigos publicados sobre o perfil da empresa e o portal privado eram parte de uma “campanha de difamação” baseada em “representações falsas e enganosas” que “não eram apoiadas por nenhum fato ou evidência”.

Para piorar os problemas da empresa, vários patrocinadores corporativos e organizações do setor cancelaram contratos com a v-Fluence, de acordo com uma publicação para profissionais da agricultura.  

“Reunião de informações”

Desde seu lançamento em 2001, a v-Fluence tem trabalhado com os maiores fabricantes de agrotóxicos do mundo e fornecido serviços autodescritos que incluem “coleta de informações”, “mineração de dados proprietários” e “comunicações de risco”.  

Um cliente de mais de 20 anos é a Syngenta, uma empresa estatal chinesa que está sendo processada por milhares de pessoas nos EUA e Canadá que alegam que desenvolveram a doença cerebral incurável Parkinson por usar os herbicidas paraquat da Syngenta. O primeiro teste nos EUA está programado para começar em março. Vários outros estão programados para os meses seguintes.

Byrne e v-Fluence são nomeados como co-réus em um dos casos contra a Syngenta. Eles são acusados ​​de ajudar a Syngenta a suprimir informações sobre os riscos de que o paraquat da empresa poderia causar a doença de Parkinson e de ajudar a “neutralizar” seus críticos. (A Syngenta nega que haja uma ligação causal comprovada entre o paraquat e o Parkinson.) Byrne contesta as alegações no processo. 

A v-Fluence, que também tinha a antiga Monsanto Co. como cliente , garantiu algum financiamento do governo dos EUA como parte de um contrato com uma terceira parte. Registros de gastos públicos mostram que a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) contratou uma organização não governamental separada que gerencia uma iniciativa governamental para promover culturas GM em nações africanas e asiáticas.

Essa organização, o Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar (IFPRI), pagou à v-Fluence um pouco mais de US$ 400.000, aproximadamente entre 2013 e 2019, por serviços que incluíam o enfrentamento de críticas às “abordagens agrícolas modernas” na África e na Ásia.

O “portal de rede social privada” criado pela v-Fluence era parte do contrato e deveria fornecer, entre outras coisas, “suporte tático” para esforços de ganhar aceitação para as culturas GM . A empresa chamou a plataforma de “Bonus Eventus”, nomeada em homenagem ao deus romano da agricultura  cujo nome se traduz como “bom resultado”.

Um contrato separado assinado pelo Departamento de Agricultura dos EUA nos últimos meses do primeiro mandato do presidente Donald Trump também forneceu aos funcionários do governo acesso ao portal, incluindo os “documentos de histórico das partes interessadas” sobre cientistas e ativistas que a v-Fluence diz ter removido. 

O perfil de Kennedy o descreveu como “um litigante ativista antivacinas, anti-OGM e antipesticidas que defende várias alegações de conspiração em matéria de saúde e meio ambiente”.

Questões legais

Após as operações se tornarem públicas em artigos do The New Lede, do The Guardian e de parceiros de mídia, a v-Fluence contratou um escritório de advocacia para conduzir uma revisão independente sobre se o perfil pode ou não ter violado o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR) da União Europeia. O regulamento tem como objetivo proteger o direito de um indivíduo sobre a coleta e o uso de seus dados pessoais.

A análise descobriu que a v-Fluence “não estava sujeita ao GDPR”, mas recomendou que a v-Fluence lidasse com “dados pessoais da UE consistentes com os requisitos do GDPR no caso de o Regulamento ser considerado aplicável”, disse a empresa em uma declaração . Uma das recomendações foi remover os perfis, reconheceu a empresa.  

A v-Fluence continuará a “oferecer pesquisas às partes interessadas com diretrizes atualizadas para evitar futuras interpretações errôneas do nosso produto de trabalho”, de acordo com a declaração da empresa.

Wendy Wagner, professora de direito na Universidade do Texas com experiência na regulamentação de substâncias tóxicas, disse que parecia haver poucos motivos para manter esse banco de dados, além de ser usado para assediar oponentes.

“Estou bastante familiarizado com o assédio corporativo de cientistas que produzem pesquisas indesejadas, e às vezes isso inclui desenterrar informações pessoais sobre o cientista para fazer seu trabalho parecer menos confiável”, disse Wagner. “Mas não encontrei o uso de bancos de dados maiores que rastreiam detalhes pessoais de vários críticos de uma corporação (incluindo cientistas e jornalistas independentes). É difícil ver a relevância de detalhes pessoais sem o uso como assédio.”

(As jornalistas do Lighthouse Margot Gibbs e Elena DeBre foram coautoras deste artigo.) 

(Este artigo foi publicado em parceria com o The Guardian.)


Fonte: The New Lede