Os estudantes vão às ruas, enquanto os professores se recolhem aos laboratórios

A mobilização estudantil contra Flávio Bolsonaro expõe uma perigosa acomodação entre professores universitários que parecem acreditar que poderão sobreviver impunemente a mais quatro anos de ataques à universidade pública

A primeira semana do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras vem revelando um fenômeno político difícil de ignorar: a saída de multidões de estudantes de escolas e universidades públicas às ruas em defesa da candidatura de Lula. Essa mobilização vem se disseminando pelo território nacional, alcançando inclusive cidades que se transformaram em verdadeiros bastiões eleitorais da extrema-direita. Certamente, não tardarão a aparecer comentaristas da mídia corporativa e professores universitários dispostos a oferecer explicações para esse fenômeno, que aparentemente não foi antecipado nem pela campanha de Flávio Bolsonaro, tampouco pela de Lula. O fato é que, independentemente das interpretações que venham a surgir, estamos diante de uma manifestação de protagonismo político estudantil que parece ter surpreendido tanto os estrategistas eleitorais quanto aqueles que se acostumaram a enxergar a juventude como uma geração politicamente apática e submetida à influência das redes sociais.

Ao mesmo tempo, pelo menos a partir do meu ponto de observação, que é a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), essa onda de mobilização ainda não parece ter alcançado os professores universitários com a mesma intensidade. Essa disparidade produz uma ironia particularmente interessante: talvez os professores não sejam, afinal, os grandes doutrinadores ideológicos que a extrema-direita insiste em denunciar. Ao contrário, tudo indica que poderão acabar sendo empurrados para as ruas pelo ímpeto político demonstrado pelos próprios estudantes, subvertendo completamente a suposta relação entre doutrinadores e doutrinados. Nesse caso, os estudantes não estariam seguindo orientações políticas de seus professores, mas oferecendo a eles uma verdadeira aula prática de participação política.

Entretanto, a questão que me parece mais importante neste momento é compreender as razões dessa disparidade de mobilização no interior das universidades. Acredito que ela possa resultar de diferentes fatores, mas considero que um dos principais seja a percepção desigual dos riscos representados por uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. Os estudantes parecem já ter compreendido que estarão entre os principais perdedores de um governo comandado pela extrema-direita, especialmente diante das perspectivas de aprofundamento dos cortes orçamentários, da precarização das universidades públicas e da redução das oportunidades de formação e inserção profissional. Já uma parcela dos professores talvez esteja fazendo um cálculo diferente, baseado na percepção de que, afinal, atravessamos os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro e aparentemente sobrevivemos para contar a história. Essa experiência anterior poderia estar alimentando uma perigosa sensação de que, mesmo diante de um novo governo da família Bolsonaro, seria possível continuar trabalhando, pesquisando e ensinando como se estivéssemos diante de mais uma alternância convencional de poder.

Se essa hipótese estiver correta, considero que estamos diante de um cálculo político profundamente equivocado. Um eventual governo de Flávio Bolsonaro poderá representar uma versão ainda mais agressiva e organizada do projeto político colocado em prática por seu pai. Para compreender os riscos dessa possibilidade, basta observar o que vem acontecendo nos Estados Unidos sob o segundo mandato de Donald Trump, cuja administração tem aprofundado ataques aos já limitados direitos sociais existentes naquele país e promovido uma verdadeira perseguição aos imigrantes, inclusive aqueles que se encontram em situação migratória regular. As operações conduzidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) têm suscitado graves questionamentos sobre abusos de autoridade e desrespeito às garantias previstas na legislação estadunidense. A experiência norte-americana deveria servir de advertência para aqueles que imaginam que o retorno de forças políticas autoritárias ao governo significa simplesmente a repetição de experiências anteriores. Em determinadas circunstâncias, o segundo mandato pode ser justamente aquele em que os mecanismos de contenção institucional se mostram mais fragilizados e os ataques aos direitos sociais se tornam mais profundos.

No caso brasileiro, há ainda um elemento que deveria preocupar especialmente os professores universitários: a possibilidade de que um novo governo da família Bolsonaro disponha de condições políticas mais favoráveis para aprofundar o desmonte das universidades públicas, comprometendo não apenas seu financiamento, mas também sua autonomia institucional e sua capacidade de produzir conhecimento científico. Não se trata apenas de imaginar novos contingenciamentos orçamentários, mas de reconhecer que a combinação entre austeridade fiscal, hostilidade à ciência e desprezo pela educação pública pode produzir consequências muito mais duradouras do que aquelas experimentadas entre 2019 e 2022. Afinal, laboratórios de pesquisa não funcionam apenas com a dedicação individual de seus coordenadores, mas dependem de financiamento público, infraestrutura, bolsas de estudo, equipes técnicas e da formação contínua de novos pesquisadores. Quando esses elementos são comprometidos, não é apenas a produção científica que sofre: é a própria capacidade das universidades de cumprir suas funções sociais que passa a estar ameaçada.

Diante disso, minha expectativa é que a continuidade e o eventual crescimento das mobilizações estudantis contribuam para despertar aqueles professores que, embora reconheçam que a eleição de Lula representa um cenário muito menos danoso para a universidade pública brasileira, ainda não perceberam a necessidade de transformar essa preferência eleitoral em participação política efetiva. Não se trata de abandonar as atividades acadêmicas ou de subordinar a universidade a interesses partidários, mas de compreender que a defesa das condições institucionais necessárias ao ensino, à pesquisa e à extensão também exige posicionamento público diante de ameaças concretas. Afinal, a neutralidade aparente pode se transformar em uma forma bastante conveniente de acomodação política, especialmente quando se imagina que os efeitos de determinadas escolhas eleitorais recairão sempre sobre os outros.

Por isso, espero que os estudantes continuem oferecendo essa demonstração de protagonismo político e que sua disposição de ocupar as ruas acabe contagiando também os professores universitários. Caso contrário, muitos daqueles que hoje preferem permanecer confortavelmente recolhidos em seus laboratórios, acreditando que poderão atravessar mais quatro anos de bolsonarismo sem maiores consequências, poderão despertar para uma realidade bastante desagradável: a de descobrir que seus laboratórios foram inviabilizados, seus projetos interrompidos e suas condições de trabalho profundamente deterioradas. E talvez descubram, tarde demais, que a defesa da universidade pública não poderia ter sido deixada exclusivamente nas mãos dos estudantes.

Afinal, de pouco adiantará preservar uma suposta neutralidade política se, ao final dos próximos quatro anos, já não houver condições materiais para continuar fazendo ciência, ensinando e formando novos pesquisadores. Nesse cenário, a grande ironia será perceber que os estudantes compreenderam antes de muitos de seus professores algo bastante elementar: não há futuro para a universidade pública quando aqueles que dependem dela se recusam a defendê-la.

As ruas despertaram, os estudantes entraram em cena e o bolsonarismo já arreganha os dentes

Enquanto mobilizações estudantis desafiam o domínio dos algoritmos sobre a política, ameaças contra universidades revelam a dificuldade de setores bolsonaristas em conviver com a democracia

A repentina aparição de milhares de estudantes nas ruas brasileiras em defesa da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve estar surpreendendo os dois lados da disputa presidencial. Afinal, parece que finalmente temos uma campanha eleitoral que ganhou as vias públicas e começou a escapar dos grotões das redes sociais, onde o debate político tem sido crescentemente condicionado pelos algoritmos e pelos interesses econômicos das chamadas big techs. O que estamos assistindo pode representar uma inflexão importante no processo eleitoral, na medida em que a política deixa de ser exercida exclusivamente por meio de telas e mensagens eletrônicas e volta a ocupar um dos seus espaços históricos mais importantes: as ruas, as praças e os ambientes de convivência coletiva.

Duas coisas me chamam particularmente a atenção nesse processo. A primeira é uma pergunta que vale vários milhões de dólares: por que raios isso só aconteceu agora, e não ao longo do primeiro turno, que mais pareceu um velório da democracia brasileira do que uma disputa entre dois projetos aparentemente antagônicos de gestão do Estado brasileiro? A segunda se refere à rápida reação de setores do bolsonarismo, que já recorreram à manjada tática de ameaçar para constranger, inclusive mediante referências à violência física e à utilização de explosivos. Essa reação é especialmente preocupante porque sugere que determinados grupos continuam considerando a intimidação como um instrumento legítimo de intervenção política, especialmente quando percebem que estão perdendo o monopólio da mobilização e da ocupação dos espaços públicos.

A propósito dessa retomada das ruas, chamou-me a atenção uma coluna publicada por Josias de Souza no UOL, em 7 de outubro, sob o título “Na era do algoritmo, Lula ainda aposta em adesivos e panfletos”. O jornalista questiona a estratégia de comunicação da campanha de Lula, contrapondo a utilização de materiais tradicionais de propaganda eleitoral à crescente importância das plataformas digitais. Reconheço que os algoritmos possuem uma força extraordinária na formação das percepções e preferências eleitorais, mas discordo da ideia de que a eficácia de uma campanha possa ser medida prioritariamente pela quantidade de dinheiro despejada nos cofres das big techs. Os algoritmos se tornam particularmente decisivos quando a política abandona as ruas, as praças, os locais de trabalho e as universidades, deixando que a formação da opinião pública seja crescentemente monopolizada por empresas privadas cujos interesses nem sempre coincidem com os da democracia.

Aliás, talvez esteja justamente aí uma das lições mais importantes dessas mobilizações estudantis. Os algoritmos podem ampliar o alcance de mensagens, mas não substituem a experiência política construída no contato direto entre as pessoas. Um panfleto entregue durante uma conversa, uma assembleia estudantil ou uma manifestação de rua podem produzir algo que milhões de visualizações não necessariamente conseguem: o estabelecimento de vínculos sociais e políticos que não dependem da mediação de uma plataforma digital. Não se trata de defender o abandono das redes sociais, mas de compreender que a comunicação digital deve servir como instrumento de ampliação da mobilização popular, e não como substituta da organização coletiva. Talvez o verdadeiro atraso político não esteja em distribuir panfletos na era dos algoritmos, mas em imaginar que a democracia pode ser exercida exclusivamente por meio de curtidas, compartilhamentos e conteúdos patrocinados.

Mesmo na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), que não possui uma cultura estudantil marcada por disputas políticas particularmente virulentas, já tivemos relatos de ameaças de bombas e de morte atribuídas a um grupo que se identificou como “Campistas por Bolsonaro” (o campista aqui se relaciona ao fato de que o campus principal da Uenf está localizado na cidade de Campos dos Goytacazes). Como professor da Uenf há quase 30 anos, esse episódio me chamou particularmente a atenção, pois não imaginava que algo dessa gravidade pudesse ocorrer logo na primeira semana do segundo turno presidencial. Evidentemente, a autoria dessas ameaças precisa ser investigada, mas sua ocorrência já representa um fato suficientemente grave para exigir uma resposta institucional firme em defesa da segurança da comunidade universitária e da liberdade de manifestação.

O caso da Uenf é particularmente revelador das contradições históricas e políticas de seus próprios estudantes bolsonaristas. A universidade foi criada por Leonel Brizola, teve seu desenho institucional formulado por Darcy Ribeiro e a estrutura arquitetônica do seu principal campus projetada por Oscar Niemeyer. Estamos falando, portanto, de uma instituição cuja própria existência está profundamente associada a personagens históricos situados no campo oposto à tradição ideológica reivindicada pelo bolsonarismo. Se fosse para levar essa contradição às últimas consequências, um bolsonarista raiz deveria fugir da Uenf como o diabo foge da cruz. Entretanto, a universidade não apenas possui professores alinhados ao bolsonarismo, como também abriga estudantes que compartilham dessas posições, o que, por si só, não constitui qualquer problema. O problema começa quando a divergência política deixa de ser expressa por meio de argumentos e passa a assumir a forma de ameaças destinadas a impedir que outros integrantes da comunidade universitária exerçam seus direitos de manifestação.

De toda forma, penso que é muito melhor termos um ambiente politicamente contraditório e agitado no segundo turno do que aquilo que se viu na primeira rodada da eleição presidencial. Pelo menos agora começa a existir alguma possibilidade de discussão pública sobre as propostas dos candidatos e suas consequências concretas para a população brasileira. No caso das universidades públicas, esse debate é ainda mais necessário, pois estamos falando de instituições responsáveis pela parcela predominante da produção científica nacional e pela formação de profissionais e pesquisadores indispensáveis ao funcionamento do país. O futuro dessas instituições não pode ficar subordinado a slogans eleitorais ou a campanhas de desinformação. É preciso discutir financiamento, autonomia universitária, valorização dos servidores, políticas de permanência estudantil e o papel estratégico da ciência e da tecnologia na construção de um projeto nacional.

Entretanto, há um sinal de alerta que merece especial atenção e que foi reforçado pelo incêndio no prédio que abrigava a Diretoria de Inovação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O episódio, que deverá ser investigado com todo o rigor, ocorreu em um contexto de relatos de ameaças atribuídas a grupos bolsonaristas descontentes com manifestações favoráveis à candidatura de Lula naquela instituição. Até que as investigações sejam concluídas, não é possível afirmar que exista uma relação causal entre as ameaças e o incêndio. Entretanto, o ambiente de intimidação relatado justifica preocupação e exige esclarecimentos transparentes. É fundamental que as administrações universitárias, os órgãos de segurança pública e a Justiça Eleitoral atuem para assegurar que o segundo turno transcorra em um ambiente de liberdade e segurança, sem que ameaças sejam utilizadas para afastar estudantes e professores dos espaços de participação política.

Há, finalmente, uma dimensão especialmente promissora nesse despertar estudantil. Uma geração que participa diretamente de mobilizações políticas tem a oportunidade de experimentar algo que nenhuma plataforma digital consegue substituir integralmente: o encontro com pessoas reais, portadoras de opiniões, experiências e interesses distintos. É nas ruas, nas assembleias e nos debates presenciais que se aprende que a política não se resume a compartilhar conteúdos com aqueles que já concordam conosco. A experiência democrática exige ouvir argumentos contrários, defender posições publicamente e reconhecer que o conflito de ideias é legítimo, desde que não seja substituído pela violência. Por isso, espero que a movimentação estudantil não seja apenas um fenômeno passageiro, destinado a desaparecer assim que forem contabilizados os votos do segundo turno.

Se o primeiro turno pareceu um velório da democracia, talvez o segundo esteja oferecendo sinais de que ainda há disposição social para ressuscitar a política como atividade coletiva. Isso, por si só, já seria uma excelente notícia. Afinal, os algoritmos podem influenciar eleições, manipular percepções e até produzir resultados eleitorais surpreendentes, mas seu poder não é absoluto. Quando as pessoas recuperam as ruas e a disposição de conversar olho no olho, a política deixa de ser apenas uma mercadoria comercializada pelas big techs e volta a ser uma atividade exercida diretamente pelos cidadãos. E talvez seja justamente essa possibilidade de devolver a política às pessoas, e não aos algoritmos, que esteja provocando tanto desconforto entre aqueles que preferem uma sociedade silenciosa, intimidada e confinada às telas dos celulares.

Em dia de luta contra cortes do (des) governo Pezão, movimento estudantil lacra a UENF

Em um dia de luta contra o processo de asfixia financeira promovido pelo (des) governo Pezão, o movimento estudantil da UENF promoveu o fechamento de todas as entradas do campus Leonel Brizola na manhã desta 3a. feira (10/03). Os coordenadores do Diretório Central dos Estudantes que não estarão participando na parte da tarde na Comissão de Educação da ALERJ informaram que esta é a primeira atividade das várias que ocorrerão ao longo do dia. O objetivo dessas atividades é apoiar politicamente a delegação formada por membros dos três segmentos da comunidade universitária que hoje estarão na ALERJ.

Nunca é demais lembrar que a falta de liberação financeira por parte da Secretaria de Fazenda vem comprometendo o pagamento de todos os tipos de bolsas acadêmicas oferecidas pela UENF, com um número significativo de estudantes que está sem receber pagamentos referentes a janeiro e fevereiro de 2015. Como as bolsas são a única fonte de sustento destes estudantes, a situação deles é crítica a ponto de inviabilizar a sua permanência na universidade.

É bom que se saiba que até o acesso ao restaurante universitário está sendo inviável para muitos estudantes, pois os mesmos não possuem “dinheiro vivo” para pagar o custo das refeições. Essa situação só não é pior porque o restaurante está funcionando com verbas fornecidas pelo Ministério da Educação! 

Por outro lado, a falta de pagamentos de serviços essenciais como água, eletricidade e telefonia coloca em xeque o próprio funcionamento da UENF que, neste exato momento, está com todos os seus telefones cortados.

Em tempo: a coordenação do DCE/UENF acaba de informar em sua página no Facebook que a paralisação também ocorrerá na parte da tarde, Um dos motivos para essa extensão do protesto é que a empresa que opera o restaurante universitário decidiu aderir ao protesto por falta de pagamentos pelos prestados na UENF (Aqui!).

Abaixo imagens do fechamento do campus.

IMG_2749 IMG_2750 IMG_2751 IMG_2753 IMG_2754 IMG_2755