A bolha da inteligência artificial dá sinais de esgotamento e ameaça a economia global

Queda das ações de tecnologia nos Estados Unidos expõe os riscos de uma expansão baseada em investimentos bilionários, concentração de capital e expectativas de lucros que podem não se concretizar

A forte queda das ações de tecnologia na bolsa norte-americana Nasdaq, registrada na quinta-feira (5), acendeu um sinal de alerta sobre a sustentabilidade financeira da expansão da inteligência artificial (IA). Mais do que uma oscilação de Wall Street, o episódio expõe uma contradição: enquanto a IA oferece possibilidades extraordinárias para a ciência e a economia, seu desenvolvimento está cada vez mais subordinado às expectativas de lucros de um pequeno grupo de corporações.

Empresas como Nvidia, Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta vêm realizando investimentos bilionários em semicondutores, centros de dados e infraestrutura energética. A aposta é que a inteligência artificial produzirá ganhos de produtividade e receitas capazes de justificar essa corrida tecnológica. O problema é que o potencial de uma tecnologia não garante sua rentabilidade, e os investidores começam a questionar se os lucros futuros serão suficientes para compensar os recursos empregados.

A situação lembra a bolha das empresas de internet que estourou no início dos anos 2000. Naquela ocasião, inúmeras companhias desapareceram e investidores acumularam perdas gigantescas, mas a internet continuou avançando e transformou a economia mundial. Algo semelhante poderá ocorrer com a inteligência artificial. Uma eventual crise financeira não significará o fracasso da tecnologia, mas poderá provocar o cancelamento de projetos, a redução de investimentos e uma concentração ainda maior do setor nas mãos das corporações mais poderosas. Há, entretanto, um agravante. As grandes empresas de tecnologia adquiriram um peso extraordinário nos mercados financeiros e passaram a movimentar cadeias produtivas que envolvem energia, construção civil, semicondutores e telecomunicações. Uma crise prolongada nesse setor poderá ultrapassar Wall Street e atingir a economia real, com consequências sobre investimentos, empregos e comércio internacional. Em um cenário de crescente instabilidade geopolítica e elevado endividamento público e privado, os efeitos de uma retração dos investimentos em IA poderão ser ainda mais amplos.

Outro aspecto pouco discutido dessa expansão é que seus benefícios financeiros tendem a ficar concentrados, enquanto seus custos ambientais e sociais são distribuídos de forma muito mais ampla. Os gigantescos centros de dados exigem quantidades crescentes de eletricidade, água e infraestrutura. Nos Estados Unidos, sua expansão já provoca conflitos com comunidades preocupadas com o consumo de recursos naturais e os impactos sobre seus territórios. A possibilidade de maior fiscalização e regulamentação dessas instalações acrescenta incertezas aos planos das empresas e ajuda a explicar o nervosismo dos investidores.

Para países como o Brasil, os riscos são duplos. Uma crise financeira associada à inteligência artificial poderá provocar instabilidade cambial, retração dos investimentos internacionais e redução da demanda por commodities. Ao mesmo tempo, a concentração do desenvolvimento tecnológico em poucas corporações estrangeiras ameaça aprofundar a dependência econômica e científica brasileira. Sem investimentos públicos consistentes em pesquisa e infraestrutura digital, o país corre o risco de permanecer como simples consumidor de tecnologias cujos benefícios econômicos mais expressivos serão apropriados no exterior.

A queda da Nasdaq não significa que uma crise econômica global seja inevitável. Entretanto, revela os riscos de uma expansão tecnológica sustentada por expectativas de valorização financeira que podem estar desconectadas dos resultados econômicos efetivos. A inteligência artificial poderá transformar profundamente a ciência, a produção e os serviços públicos, mas seu desenvolvimento está sendo comandado principalmente por corporações interessadas em assegurar posições dominantes e lucros extraordinários.  A contradição central está justamente aí. Uma tecnologia com enorme potencial para atender necessidades coletivas está sendo desenvolvida sob uma lógica que privilegia a acumulação privada de riqueza. Se a corrida pela inteligência artificial terminar em uma crise financeira, seus custos poderão atingir trabalhadores, consumidores e governos que pouco participaram das decisões responsáveis por alimentar a atual euforia.

A história do capitalismo demonstra que grandes inovações tecnológicas frequentemente foram acompanhadas por ondas especulativas e crises financeiras. A inteligência artificial poderá seguir o mesmo caminho. A questão, portanto, não é saber se ela representa uma revolução tecnológica, mas por que uma inovação com tamanho potencial social deve permanecer subordinada aos interesses de poucas corporações e aos movimentos especulativos dos mercados financeiros.

A queda da Nasdaq pode ser apenas uma correção passageira. Mas também pode ser um primeiro aviso de que a bolha financeira construída em torno da inteligência artificial começa a encontrar seus limites. E, como já ocorreu em outras crises do capitalismo, existe o risco de que os lucros permaneçam privados enquanto os prejuízos sejam socializados.

Privatização da água: ameaça ou solução?

Para docente da Unifesp, distribuição da água pelo mundo ocorre de maneira irregular, mas a solução não passa pela privatização do recurso

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Nova commodity: a bolsa de valores norte-americana lançou o Nasdaq Velez Califórnia Water Index (Índice da Água) em 2020, colocando o insumo no mesmo patamar de recursos minerais fundamentais à economia mundial, como petróleo e carvão mineral (Foto: 13727445/Pixabay)

O assunto divide opiniões: a água pode ser tratada como uma mercadoria negociável na bolsa de valores, ou deve continuar na posição de recurso natural e bem público? A privatização da água sempre retorna ao debate público em épocas de escassez hídrica, pois sua oferta está diretamente associada à desigualdade social e à falta de manejo adequado. Mas a tendência começa a se desenhar no Brasil neste início de século.

Os defensores do controle dos sistemas de distribuição por entidades privadas baseiam-se no risco de escassez, a longo prazo, argumentando má administração estatal. Os contrários, por sua vez, afirmam que as empresas privadas estão preocupadas apenas com o lucro e ignoram os custos ambientais e sociais das práticas privadas envoltas no fornecimento de água.

A privatização da água se refere ao controle ou manutenção dos sistemas de distribuição por entidades privadas. Por exemplo, quando uma empresa trabalha em parceria com um município para construir e manter uma estação de tratamento de água ou instalação de esgoto. E essa prática, no Brasil, não é tão recente.

De acordo com o historiador Fábio Alexandre dos Santos, docente da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – campus Osasco, a comercialização da água no Brasil remonta ao século XIX, quando a água era vendida em domicílio nas principais cidades e capitais, com os aguadeiros. “Os serviços de distribuição começaram a ser estruturados, aqui e em outros países, acompanhando o aumento da população e das atividades urbanas e, paralelamente, das epidemias, especialmente nas grandes cidades”, explica.

O estado passa então a se movimentar para a implementação de políticas públicas de saneamento rural e urbano após 1940, atento ao absenteísmo nas empresas associado à disseminação de doenças.

A despeito de algumas ações públicas voltadas à implementação dos serviços de distribuição de água e de esgotamento sanitário nas principais capitais do Brasil, em especial no Rio de Janeiro e em São Paulo, foi somente a partir da década de 1930 que o Estado passa a se movimentar para a implementação de políticas públicas de saneamento rural e urbano, com a institucionalização de órgãos de planejamento e execução, a promulgação de regulamentação, a definição de fontes de financiamento.

Os serviços de saneamento, como conhecemos hoje, passaram a englobar a fundação de empresas e mecanismos de financiamento para o abastecimento de água, a exemplo da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), fundada em 1973.

Contudo, o crescimento populacional desordenado acirrou outro problema: a falta de planejamento sanitário. Com isso, mesmo em áreas de classe média urbana, o foco se concentrou no fornecimento de água e não na coleta e no tratamento de esgoto, caso do Plano Nacional de Saneamento (Planasa), de 1971. “Em número absolutos, em 2018 eram 35 milhões de brasileiros sem acesso à água potável e cerca de 100 milhões sem acesso à rede de coleta de esgoto, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento [SNIS]. Estes números, por si só, já demonstram o efeito multiplicador da problemática, com encadeamentos para a reprodução de outras formas de desigualdade, sejam elas regionais, de gênero ou de trabalho”, aponta o docente.

Santos percebe que o caráter da água, enquanto mercadoria, vem se modificando ao longo do tempo, assumindo o status de commodity, principalmente em função do discurso que coloca o Estado como ineficiente nessa administração. Não obstante, em 2020, o insumo foi ineditamente negociado pela Nasdaq pela primeira vez na história. Esta bolsa de valores norte-americana lançou o Nasdaq Velez Califórnia Water Index (Índice da Água), colocando-a no mesmo patamar de recursos minerais fundamentais à economia mundial, como petróleo e carvão mineral.

Para o docente, o maior risco desse novo patamar do insumo é o seu fornecimento não ser assegurado a todos. Nesse contexto, se sobressai a natureza intrínseca à iniciativa privada, que pode se abster de levar água encanada para regiões interioranas e periféricas, um compromisso normalmente assumido por agentes públicos – e passível de cobrança pela população.

Ameaça ainda mais esse cenário a ausência de mecanismos mais claros para regulação da comercialização da água. “Há uma série de caminhos ditos legais pelos quais os agentes privados conseguem acesso aos aportes públicos, principalmente as parcerias público-privadas (PPPs), sendo beneficiados com o compartilhamento dos riscos dos empreendimentos e das concessões”. Por esse motivo, Santos lembra da ocorrência de 2011, quando moradores da periferia de São Paulo fizeram um funcionário da Sabesp de refém, para advertir que essas relações conflituosas podem se acirrar.

O docente opta por uma linha de pensamento que defende a estatização (ou reestatização) de recursos dessa natureza. “É uma tendência global. Assim como tem ocorrido na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, o estado deveria assumir o papel de planejador, executor e financiador do fornecimento de água. É um serviço que envolve direitos fundamentais, que pode aceitar parcerias da iniciativa privada, mas deve ser coordenado pelo Estado, para que não tome a forma de mercadoria”, defende.

US$ 1.25 trilhão “evaporaram” nas bolsas americanas

A television screen on the floor of the New York Stock Exchange.

Enquanto as bolsas asiáticas e da oceania começam o dia 06 de Fevereiro com perdas muito pesadas, seguindo o derretimento das bolsas estadunidenses, a Bloomberg já calculou o valor que simplesmente evaporou do mercado de ações dos EUA nesta segunda-feira (05/2):  1.25 trilhão de dólares.

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Como a turbulência nas bolsas mundiais parece estar apenas começando, a consequência do que está acontecendo ainda é basicamente imprevisível. Mas uma coisa é certa: vem muita turbulência por aí.

 E como ficará agora o presidente estadunidense Donald Trump que andava alardeando que as bolsas estadunidenses estavam rufando por causa de suas políticas de isenção de impostos?