Por Luiz Drude de Lacerda & Edmo Campos, Academia Brasileira de Ciências
Em meados da Década da Ciência Oceânica (2021-2030), a humanidade enfrenta um ponto crítico. O bem-estar das gerações futuras e a própria integridade do ecossistema terrestre dependem de decisões urgentes sobre como gerimos o Oceano. Atualmente, operamos perigosamente perto de limites que, se ultrapassados, podem comprometer seriamente a humanidade.
O Gigante que Regula a Vida
O Oceano cobre 63% da superfície global e é o grande regulador do clima e dos ciclos biogeoquímicos. Ele atua como um escudo contra o aquecimento global, absorvendo:
- 30% do CO2 emitido por atividades humanas.
- 90% do excesso de calor gerado por essas emissões.
No entanto, essa proteção tem um preço alto. O aumento da temperatura da água está alterando correntes marinhas, intensificando ondas de calor e provocando a perda de oxigênio e o aumento da acidez.
As Ameaças em Curso
- Correntes e Clima em Risco
Sensores instalados em grande profundidade indicam que a circulação de revolvimento meridional do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC, está enfraquecendo e corre o risco de sofrer uma mudança abrupta. Se atingir um “ponto de não retorno”, as consequências serão severas para o clima do planeta. Por exemplo, o Hemisfério Norte ficaria mais frio e o Sul mais quente, impactando drasticamente a biodiversidade marinha e terrestre, a agricultura, a saúde e a vida social nessas regiões.
- Ondas de Calor e Perda de Biodiversidade
Em decorrência da absorção do excesso de calor, o oceano está se aquecendo. Esse aquecimento oceânico já causa mortalidade em massa em ecossistemas e fazendas de aquacultura. Recifes de coral sofrem com o branqueamento, sendo substituídos por espécies oportunistas e perdendo sua abundância em áreas rasas, o que ameaça a segurança alimentar de 40% da população mundial que depende do mar.
- Desoxigenação e Acidificação
O excesso de nutrientes (eutrofização) e o aquecimento global estão criando zonas de baixo oxigênio. Isso altera a distribuição de grandes peixes, como atuns, e modifica toda a cadeia alimentar. Paralelamente, a acidificação — mais severa no Oceano Austral — impacta a base da rede alimentar, afetando a qualidade e quantidade de alimento disponível no mar.
4. O Legado da Poluição
A mudança climática está amplificando a escala da poluição local para o nível global. Poluentes persistentes, como mercúrio e microplásticos, estão se tornando mais reativos e biodisponíveis, aumentando os riscos de exposição para as populações humanas.
O Mar Profundo e a Nova Governança
O leito oceânico, abaixo de 200 metros, é vital para o sequestro de carbono e o ciclo de nutrientes. Embora fosse considerado “mar de ninguém”, a entrada em vigor do Tratado de Alto Mar (BBNJ) em janeiro deste ano marca um avanço na governança global. Contudo, atividades como mineração profunda e exploração de petróleo ainda carecem de avaliações ambientais rigorosas.
Conclusão
O Oceano não é apenas uma fonte de recursos, fármacos e energia; é a infraestrutura que mantém o planeta habitável. Compreender seu funcionamento dinâmico através de ciência transdisciplinar e ações multilaterais não é mais uma opção, mas uma necessidade urgente para estabelecer políticas públicas que garantam o nosso amanhã.

