PC do B, um partido da sinceridade

Muito se fala que na política brasileira inexistem partidos e pessoas sinceras, e que tudo é só falsidade.  Felizmente, graças ao PC do B e sua pré-candidata presidencial, a deputada estadual  Manuela D´Ávila, podemos todos agora respirar aliviados e dizer que há sim sinceridade na política brasileira.

É que em entrevista ao jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO”,  Manuela D´Ávila disse com todas as letras que o mercado (leia-se as oligarquias tupiniquins e as corporações transcionais) não têm razão para se assustar com o PC do B [1].

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O mais curioso, e aí me parece que faltou a sinceridade ser completa,  Manuela D´Ávila afirmou que a razão para que não haja sobressaltos entre os capitalistas que reinam soltos no Brasil é que o PC do B é “um partido sério”.

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É que se fosse para ser totalmente sincera, Manuela D´Ávila deveria ter dito que o PC do B é um partido que há décadas sobrevive com alianças fisiológicas à direita e à esquerda, e que comunismo no PC do B só mesmo no nome.

Mas vá lá, pelo menos no atacado Manuela D´Ávila já foi brutalmente sincera, Então para quê nos prender em detalhes de varejo? Epa! Nem tão de varejo assim. 


[1] http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,nao-ha-razao-para-o-mercado-se-assustar-com-o-pcdob-diz-manuela-davila,70002078965

Lênin e a rota de fuga de petistas

Por Aldo Fornazieri

Embora muita gente de esquerda tenha dado um adeus a Lênin ele está e permanecerá entre os maiores taticistas e estrategistas da história política. Ele está também no seleto grupo dos grandes pensadores da ação política como atividade autônoma. Junto com Antônio Gramsci, ele foi um dos poucos líderes e teóricos marxistas que tinha a clareza de que a atividade política tem sua especificidade autonomia em relação ao econômico e ao social e, por isto, é portadora de poder e força constituintes do real ou de sua transformação. Neste sentido, os dois se ligam de forma inarredável ao pensamento de Maquiavel. Gramsci o faz de forma explícita teorizando sobre o legado maquiaveliano para a política moderna. Em Lênin, esta ligação aparece de forma autoevidente no conteúdo de seus textos. Não é preciso se considerar leninista – como não me considero – para reconhecer os méritos do líder da revolução russa. 

Muitos militantes do PT, no alto de sua arrogância, e mesmo se considerando portadores da verdade e sábios da política, deveriam estudar Lênin. Não resta dúvida de que o PT agrega militantes da melhor qualidade, que podem ser encontrados entre os militantes históricos do partido e nos combativos militantes dos movimentos sociais. Mas não restam dúvidas também de que parte dos militantes se degradou política e moralmente com a chegada do partido ao poder. Mais do que isto: existe hoje uma militância neopetista adesista e mal formada politicamente que se armou com os piores vícios do oportunismo para justificar os erros cometidos pelo partido e pelo governo.

Em que pese todas as evidências de que existem erros e corrupção no governo e no partido, os neopetistas adotam duas rotas de fuga para acobertar esses males ou, simplesmente, de forma esquizofrênica, negar a realidade. A primeira rota de fuga consiste na sustentação da tese de que todas as acusações não passam de uma conspiração comandada pela grande mídia – o chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG). Qualquer crítica dirigida ao partido ou ao governo, mesmo que ela venha de petistas ou de eleitores do partido, é desqualificada com  adjetivos e identificada como uma ação do PIG. Essa atitude corresponde a aquela dos militantes de extrema-direita, que demonizam o PT e o governo por uma rejeição irracional ao que eles representam. Ambas as atitudes são antidemocráticas e fascistizantes. Para esses militantes, a ação penal 470 (mensalão) é uma perseguição, o governo Dilma não errou na condução da economia, a Petrobras não foi dilapidada e assaltada por grupos corruptos etc.

A segunda rota de fuga consiste na justificação da corrupção, com a alegação de ela é realidade corrente, de que é preciso entrar no jogo para poder vencer eleições e governar, de que os outros partidos também são corruptos, mas são mais espertos e não se deixam pegar ou de que os programas sociais dos governos petistas compensam a corrupção. Os que adotam essa justificativa não viveram a construção do PT na oposição ou se esqueceram que o partido se fortaleceu criticando tudo isto e defendendo a ética na política.

No primeiro caso – colocar a culpa nos outros e fugir de suas próprias responsabilidades – tem-se aquela clássica falta de ética, pois, como alertava Weber, quem assim age não deixa revelar os verdadeiros interesses que defende. Ele sugere que se poderia tipificar como crime político a atribuição da culpabilidade aos outros e a fuga da responsabilidade própria. E note-se que essa conduta de setores petistas hoje sequer é feita em nome de uma ética das convicções, mas na ausência dela.

O segundo caso expressa uma capitulação oportunista à realidade estabelecida por um sistema corrupto e a todos os seus males. Aqui já não há nem convicções e nem causas, pois a corrupção é o puro reino da manipulação dos meios em nome de interesses pessoais ou grupais. Os neopetistas classificam como moralismo qualquer cobrança por moralidade, transparência e responsabilidade para com a coisa pública. Tal como no mundo antigo a corrupção era o maior dos males das repúblicas, ela o continua sendo nas democracias modernas.

Na verdade, o que falta ao PT como um todo e nos neopetistas em particular é o exercício da crítica e da autocrítica. E aqui é preciso retornar a Lênin. Embora ele adotasse as noções de crítica e autocrítica vinculadas a um critério de classe, na verdade, o conceito que esse par de termos expressa pode assumir uma dimensão universal e erigir-se e momento metodológico fundamental da atividade política. Crítica e autocrítica constituíam a essência da metodologia da ação partidária. A sua negação constituía o oportunismo político, assim definido pelo líder russo; “O oportunista não trai o seu partido, não lhe é infiel, não o abandona. Continua a servi-lo com sinceridade e zelo. O seu traço típico e característico é a maleabilidade instantânea do seu temperamento, a sua incapacidade para resistir à moda, a sua miopia política e falta de caráter. O oportunismo é o sacrifício dos interesses de longo prazo e essenciais do partido aos interesses momentâneos, transitórios e secundários”. Grosso modo é isso que se vê no PT quando aderiu a práticas políticas nefastas que já estavam postas antes de o partido chegar ao poder e que continuaram com o partido no poder, como evidencia o caso da Petrobras e outros casos.

Crítica e Autocrítica Como Método

Em relação à autocrítica como método permanente de retificação da ação do partido, Lênin foi categórico ao afirmar: “Ninguém poderá nos destruir, exceto os nossos próprios erros”. A partir disso passa a criticar a presunção dos partidos revolucionários que se recusam a perceber suas fraquezas, seus erros e deixam de ser transparentes. A dogmatização posterior que contaminou os partidos comunistas e a presunção de que eram portadores da verdade, foi fatal para a derrota do próprio comunismo. Se há um mérito que se possa reconhecer ao Partido Comunista Chinês é o de que não abandonou o método da autocrítica. Não é por acaso que o ex-ministro e dirigente partidário Bo Xilai foi condenado à morte por corrupção em 2013. Na semana passada mesmo, o diretor de uma empresa foi condenado à morte pelo mesmo motivo. Ou seja, o partido sabe fazer o ajuste com seus próprios erros e a autocrítica é um método aplicado no exercício geral do poder, valendo também para a condução econômica.

Para Lênin, a autocrítica, no sentido geral do termo, significava reconhecer abertamente os erros praticados, descobrir as causas que os geraram e buscar soluções e meios para corrigi-los. Assim, pode-se reconhecer na autocrítica um método inerente à estratégia da organização política, pois sem sua incorporação enquanto método permanente, a organização tende à crise interna e ao fracasso.

A crítica e a autocrítica eram entendidas por Lênin como dois momentos de um mesmo método. A crítica é necessária para que o partido seja uma organização capaz de compreender a realidade e, ao mesmo tempo, uma organização de combate. A autocrítica evita a derrota pelo erro, a presunção, o dogmatismo e a própria corrupção do partido. Para Lênin, a autocrítica era indispensável para a formação de quadros e dirigentes capacitados do partido, portadores de um caráter moral resoluto. Em termos específicos, a autocrítica é aquele ato em que o militante ou o partido, oficialmente, reconhece seus erros e suas culpas, de forma clara e pública. Dessa forma, o partido não pode ser monolítico. A sua unidade deve ser construída a partir dos seus conflitos internos, tendo por base os pontos de vista divergentes. Escamotear as divergências, negá-las, desqualificá-las é o caminho mais curto para acobertar os erros em nome de interesses escusos que, normalmente, são o combustível da corrosão moral e política do partido e de uma parcela de seus quadros e militantes.

Aldo Fornazieri – Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política.

FONTE: http://jornalggn.com.br/noticia/lenin-e-a-rota-de-fuga-de-petistas-por-aldo-fornazieri