Pesquisa da UFSCar aponta que peixes invasores estão reconfigurando ecossistemas aquáticos globais

Estudo de pós-doutorado analisou comunidades de peixes em 402 lagos de regiões tropicais, subtropicais e temperadas

(Foto: Magnific)

Espécies invasoras estão alterando profundamente a estrutura de comunidades aquáticas ao redor do mundo, modificando a proporção entre peixes de diferentes tamanhos e reduzindo a biomassa de espécies nativas, sobretudo as menores e juvenis. É o que aponta um estudo desenvolvido na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no âmbito de um pós-doutorado financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).  

A pesquisa analisou 667 comunidades de peixes em 402 lagos distribuídos por regiões tropicais, subtropicais e temperadas do mundo e identificou que os impactos das invasões biológicas variam conforme a temperatura dos ambientes e o nível trófico das espécies invasoras.

A base de dados foi construída a partir de levantamentos em estudos já existentes e do contato com especialistas e grupos de pesquisa nacionais e internacionais. Ao todo, foram compiladas informações sobre o tamanho e peso corporal de quase 637 mil peixes.

“A diferença entre o número de comunidades e o de lagos ocorre porque alguns lagos puderam ser amostrados em diferentes anos. Assim, cada amostragem representa uma comunidade distinta, ou seja, um retrato da estrutura da comunidade, com organismos nativos coexistindo com espécies invasoras em um momento específico. Essa dependência entre amostras do mesmo lago foi posteriormente considerada nas análises estatísticas”, contextualiza Barbbara da Silva Rocha, pesquisadora de pós-doutorado vinculada ao Departamento de Ciências Ambientais (DCAm) da UFSCar, sob supervisão de Victor Saito, docente do DCAm.

Segundo Rocha, para garantir comparabilidade entre os ecossistemas, foram selecionados apenas trabalhos que utilizaram métodos semelhantes de coleta. “Variáveis ambientais, como profundidade, área, temperatura e concentração de nutrientes no lago, também foram incorporadas às análises”, explica a pesquisadora.

O estudo identificou que comunidades submetidas a maior pressão de invasão apresentam uma estrutura de tamanho mais “plana”. Na prática, isso significa que a diferença entre a quantidade de peixes pequenos e grandes diminui. 

“Em ecossistemas saudáveis, normalmente há muitos peixes pequenos e poucos peixes grandes. O que observamos é que as espécies invasoras alteram esse padrão, aumentando proporcionalmente a abundância de peixes grandes ou reduzindo a de peixes nativos menores. Com isso, o número de indivíduos passa a diminuir de forma menos pronunciada à medida que o tamanho dos peixes aumenta, resultando em uma configuração mais ‘plana’ da estrutura de tamanho da comunidade”, detalha Rocha.

Ecologicamente, esse resultado é importante porque o tamanho corporal dos peixes está diretamente relacionado ao funcionamento desses ecossistemas. “Mudanças na distribuição dos tamanhos dos peixes na comunidade podem alterar a intensidade das relações tróficas, a transferência de energia no ambiente e, consequentemente, a estabilidade das comunidades aquáticas”.

A pesquisadora observou que todas as espécies invasoras avaliadas causam impactos negativos sobre as comunidades nativas, mas de maneiras distintas. “Em geral, as invasões tornam a estrutura de tamanho das comunidades mais ‘plana’ e reduzem a biomassa das espécies nativas. No entanto, a intensidade desses efeitos varia conforme o tipo de invasor e a temperatura do ambiente”, relata.

Nos lagos mais quentes, o impacto dos peixes predadores (piscívoros) sobre a estrutura das comunidades foi mais intenso. Já em ambientes frios e menos produtivos, invasores de níveis mais baixos da cadeia alimentar – como herbívoros (que se alimentam de plantas aquáticas), onívoros (que se alimentam principalmente de ambos plantas e pequenos invertebrados) e detritívoros (que consomem matéria orgânica em decomposição) – provocaram reduções mais severas na biomassa das espécies nativas, principalmente por competirem pelos recursos disponíveis.

Segundo Rocha, o aumento da temperatura acelera o metabolismo dos peixes predadores invasores, elevando sua necessidade de alimento e intensificando a pressão sobre as espécies nativas menores. “Como os pequenos peixes nativos são alvos mais abundantes e fáceis de capturar, a pressão de predação se concentra desproporcionalmente sobre eles”, descreve.

Nos ambientes mais frios, por outro lado, o problema parece estar menos relacionado à predação e mais à competição. Como a disponibilidade de recursos na base da cadeia alimentar tende a ser menor, espécies invasoras herbívoras, onívoras e detritívoras conseguem superar os peixes nativos na disputa por alimento, reduzindo significativamente sua biomassa. 

Esse conjunto de impactos afeta principalmente os peixes menores e os indivíduos juvenis das espécies nativas, criando o que os pesquisadores descrevem como uma possível “zona de exclusão ecológica” para essas classes de tamanho. Segundo Rocha, o processo pode interromper a renovação natural das populações ao impedir que indivíduos jovens alcancem a fase reprodutiva, além de ameaçar espécies endêmicas. 

“A perda desses peixes menores pode afetar diretamente a qualidade da água, além de comprometer estoques pesqueiros importantes para a alimentação e subsistência humana”, aponta a pesquisadora.

Para os autores, os dados reforçam a necessidade de estratégias de conservação e manejo que considerem simultaneamente o contexto climático e o papel ecológico das espécies invasoras. 

“Os resultados mostram que estratégias de monitoramento e controle precisam levar em conta tanto as características do ambiente quanto o tipo de invasor presente. Compreender essa interação permite direcionar esforços de conservação de forma mais eficiente e antecipar riscos à biodiversidade antes que os impactos se tornem irreversíveis”, finaliza Rocha. 

O estudo deu origem ao artigo intitulado “Invasive fishes interact with temperature to reshape community size structure across climatic zones“, publicado na revista Global Change Biology, em colaboração com pesquisadores de instituições do Brasil, Espanha, Canadá, Reino Unido e França. O acesso pode ser feito em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1111/gcb.70884, onde também estão disponíveis informações completas sobre os demais autores.

Brilhante, mas mortal – não jogue peixinhos dourados nos rios

Peixes dourados indesejados representam uma ameaça tripla para espécies nativas nas vias navegáveis ​​​​do Reino Unido, revela estudo

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Peixinho dourado em um tanque. As criaturas podem parecer inocentes, mas podem causar estragos na natureza no Reino Unido. Fotografia: Abedin Taherkenareh/EPA

Por Fiona Harvey, editora de Meio Ambiente, para o “The Guardian”

Se aquele peixinho dourado está começando a perder o brilho, pense duas vezes antes de jogá-lo no rio ou no canal – as criaturas podem parecer inocentes, mas seu apetite voraz, tolerância ao frio e hábitos em comparação com as espécies nativas podem ser catastróficos para fauna local.

Novas pesquisas mostram que os peixes dourados consomem muito mais do que peixes comparáveis ​​nas águas do Reino Unido, comem mais do que outros peixes invasores e também estão muito mais dispostos a enfrentar agressivamente outras espécies concorrentes.

Isso significa que os peixes dourados representam uma ameaça tripla, de acordo com o Dr. James Dickey, da Queen’s University Belfast, o principal autor do estudo.

“Eles não apenas estão prontamente disponíveis, mas combinam apetites insaciáveis ​​com comportamento ousado”, disse ele. “Embora os climas do norte da Europa sejam muitas vezes uma barreira para espécies não nativas que sobrevivem na natureza, sabe-se que os peixes dourados são tolerantes a essas condições e podem representar uma ameaça real à biodiversidade nativa em rios e lagos, consumindo os recursos que outras espécies dependem.”

O estudo não foi capaz de avaliar se mais peixes dourados estavam sendo soltos na natureza por donos de animais que compraram novos peixes durante o bloqueio, mas relatos anedóticos sugeriram que esse poderia ser o caso.

“Embora nossa pesquisa não tenha se concentrado em saber se esse problema piorou desde o bloqueio, há razões para acreditar que esse é, ou pelo menos será, o caso”, disse Dickey.

“Houve notícias recentes sobre bagres amazônicos liberados sendo encontrados em Glasgow , que podem estar ligados. Também pode ser que haja um desfasamento de tempo, e pode ser só este verão, quando a normalidade voltar e, por exemplo, as pessoas querem viajar [e deixar os seus animais de estimação para trás], que comecemos a ver os efeitos. ”

O estudo, publicado na revista NeoBiota na quarta-feira , examinou as duas espécies de peixes mais comercializadas na Irlanda do Norte: o peixinho dourado, que é uma espécie invasora em todo o mundo, e o peixinho da montanha branca, que ainda não estabeleceu grande parte de uma invasão. ponto de apoio. Ambas as espécies são membros da família das carpas e são nativas do leste da Ásia.

Os pesquisadores estabeleceram um novo método para avaliar e comparar os impactos de ambas as espécies, analisando a disponibilidade, as taxas de alimentação e o comportamento. Por esses padrões, o peixinho dourado superou em muito o peixinho de nuvem branca e demonstrou ser capaz de causar estragos nas populações de vida selvagem nativa em lagoas, rios e córregos do Reino Unido.

Peixes dourados atacam girinos e outros peixes pequenos quando soltos nas vias navegáveis ​​do Reino Unido, perturbando os ecossistemas naturais.

Nos EUA, descobriu-se que os peixinhos dourados crescem até mais de 30 cm (1 pé) de comprimento em algumas vias navegáveis, devido à sua capacidade de adaptação.

Muitos donos de animais de estimação sentem que estão agindo de forma humana ao soltar seus peixinhos dourados na natureza , mas Dickey alertou que isso é destrutivo .

Outra forma de limitar os danos, de acordo com o estudo, seria as lojas de animais estocar mais espécies alternativas que não representam um risco tão invasivo .

“Peixes dourados são de alto risco”, disse Dickey. “Limitar a disponibilidade de espécies potencialmente impactantes, como peixinhos dourados, juntamente com uma melhor educação dos donos de animais de estimação é uma solução para evitar que invasores prejudiciais se estabeleçam no futuro.”

Jogar um peixe indesejado no vaso sanitário também é proibido, de acordo com Dickey. Mas ele disse que algumas lojas de animais aceitam peixes de volta, embora geralmente não com reembolso, e existem sites como o Preloved.co.uk , onde eles podem ser doados ou trocados.


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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].